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Curso de Treimento em

Matemática Olímpica
Compilação Omegaleph dos Materiais dos
Cursos dos Polos de Treinamento Olímpico
POTI-IMPA
Teoria dos Números
Álgebra
Combinatória
Geometria
25 de Dezembro de 2013
Polos Olímpicos de Treinamento
Curso de Teoria dos Números - Nível 2 Aula 1
Samuel Barbosa Feitosa

Divisibilidade I

Teorema 1. (Algoritmo da Divisão) Para quaisquer inteiros positivos a e b, existe um único


par (q, r) de inteiros não negativos tais que b = aq + r e r < a. Os números q e r são
chamados de quociente e resto, respectivamente, da divisão de b por a.
Exemplo 2. Encontre um número natural N que, ao ser dividido por 10, deixa resto 9, ao
ser dividido por 9 deixa resto 8, e ao ser dividido por 8 deixa resto 7.
O que acontece ao somarmos 1 ao nosso número? Ele passa a deixar resto 0 na divisão por
10, 9 e 8. Assim, um possı́vel valor para N é 10 · 9 · 8 − 1.
Exemplo 3. a) Verifique que an − 1 = (a − 1)(an−1 + an−2 + . . . + a + 1)

b) Calcule o resto da divisão de 42012 por 3.

Para o item a), usando a distributividade e efetuando os devidos cancelamentos no lado


direito, podemos escrever:

an + an−1 + . . . + a2 + a − an−1 − an−2 − . . . − a − 1 = an − 1.

Para o item b), veja que 3 = 4−1 e assim é natural substituir os valores dados na expressão
do primeiro item:
42012 − 1 = 3(42011 + . . . + 4 + 1).
Isso significa que q = (42011 + . . . + 4 + 1) e que r = 1.
Observação 4. O teorema anterior admite um enunciado mais geral: Para quaisquer intei-
ros a e b, com a 6= 0, existe um único par de inteiros (q, r) tais que b = aq + r, 0 ≤ r < |a|.
Por exemplo, o resto da divisão de −7 por −3 é 2 e o quociente é 3.
Iremos agora estudar propriedades a respeito das operações com restos.
Teorema 5. (Teorema dos Restos) Se b1 e b2 deixam restos r1 e r2 na divisão por a,respectivamente,
então:
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b1 + b2 deixa o mesmo resto que r1 + r2 na divisão por a


b1 b2 deixa o mesmo resto que r1 r2 na divisão por a.

Demonstração. Por hipótese, existem q1 , q2 e q tais que: b1 = aq1 + r1 , b2 = aq2 + r2 e


r1 + r2 = aq + r, logo:
b1 + b2 = a(q1 + q2 + q) + r.
Como 0 < r < |a|, b1 + b2 deixa resto r quando dividido por a. A demonstração para o
produto é deixada ao cargo do leitor.

Observação 6. Em alguns casos, é preferı́vel que o professor faça uma demonstração do


resultado anterior para a = 3 ou a = 5 apenas com o intuito de deixar os alunos mais
confortáveis a respeito do resultado. É preferı́vel que mais tempo seja gasto resolvendo
exemplos e problemas. Na seção de congruências, os alunos terão um contato mais apro-
priado com o enunciado anterior.

Exemplo 7. Qual o resto que o número 1002 · 1003 · 1004 deixa quando dividido por 7?

Como 1002 deixa resto 1 por 7, o número acima deixa o mesmo resto que 1 · 2 · 3 = 6 por 7.

Exemplo 8. Qual o resto que o número 45000 deixa quando dividido por 3?

Como 4 deixa resto 1 por 3, 45000 deixa o mesmo resto que 1| · 1 ·{z. . . · 1} = 1 por 3.
5000

Exemplo 9. Qual o resto que o número 22k+1 deixa quando dividido por 3?

Note que 20 deixa resto 1 por 3, 21 deixa resto 2 por 3, 22 deixa resto 1 por 3, 23 deixa
resto 2 por 3, 24 deixa resto 1 por 3. Precebeu alguma coisa? Como 100 é par, o resto
deverá ser 1. Como 22 deixa resto 1, então 22k = 2| 2 · 22 {z
· . . . · 2}2 deixa o mesmo resto que
k
1| · 1 ·{z. . . · 1} = 1 e 22k+1 = 22k · 2 deixa o mesmo resto que 1 · 2 = 2 por 3.
k

Exemplo 10. Qual o resto de n3 + 2n na divisão por 3?

Se o resto de n por 3 é r, o resto de n3 + 2n é o mesmo de r3 + 2r. Para r = 0, esse


resto seria 0. Para r = 1, seria o mesmo resto de 3 que é 0. Finalmente, para r = 2, o
resto seria o mesmo de 8 + 4 = 12 que também é 0. Assim, não importa qual o resto de n
por 3, o número n3 + 2n sempre deixará resto 0. Uma ideia importante nessa solução foi
dividı́-la em casos. Também poderı́amos ter resolvido esse exemplo apelando para alguma
fatoração:

n3 + 2n = n3 − n + 3n = n(n2 − 1) + 3n = n(n − 1)(n + 1) + 3n.

Como n − 1, n e n + 1 são consecutivos, um deles é múltiplo de 3. Assim, o último termo da


igualdade anterior é a soma de dois múltiplos de 3 e consequentemente o resto procurado
é 0.

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Observação 11. Fatorações podem ser muito úteis para encontrarmos os valores explı́citos
de q e r.

Exemplo 12. Prove que, para cada n natural,

(n + 1)(n + 2) . . . (2n)

é divisı́vel por 2n .

Veja que
1 · 2 · · · 2n
(n + 1)(n + 2) . . . (2n) = .
1 · 2···n
Para cada número natural k no produto escrito no denominador, temos uma aparição de
2k no produto escrito no numerador. Basta efetuarmos os cancelamentos obtendo:

(n + 1)(n + 2) . . . (2n) = 2n · 1 · 3 · · · (2n − 1).

Exemplo 13. (Olimpı́ada de Leningrado 1991) Cada um dos naturais a, b, c e d é divisı́vel


por ab − cd, que também é um número natural. Prove que ab − cd = 1.

Se chamarmos p = ab − cd, teremos a = px, b = py, c = pz e d = pt onde x, y, z e t são


inteiros. Assim, p = p2 (xy − zt). Consequentemente 1 = p(xy − zt) e concluı́mos que p = 1,
pois p é natural.

Exemplo 14. A soma digital D(n) de um inteiro positivo n é definida recursivamente como
segue: 
n se 1 ≤ n ≤ 9,
D(n) =
D(a0 + a1 + . . . + am ) se n > 9,
onde a0 , a1 , . . . , am são todos os dı́gitos da expressão decimal de n na base 10, i.e.,

n = am 10m + am−1 10m−1 + . . . + a1 10 + a0

Por exemplo, D(989) = D(26) = D(8) = 8. Prove que: D((1234)n) = D(n), para n =
1, 2, 3 . . .

Como 10n − 1n = (10 − 1)(10n−1 + 10n−2 + . . . + 1), podemos concluir que 10n sempre deixa
resto 1 na divisão por 9. Assim, n = am 10m + am−1 10m−1 + . . . + a1 10 + a0 , deixa o mesmo
resto que am + am−1 + . . . + a0 na divisão por 9. Desse modo, D(n) nada mais é do que
o resto na divisão por 9 do número n. Como 1234 deixa resto 1 por 9, o número (1234)n
deixa o mesmo resto que 1 · n por 9, ou seja, D((1234)n) = D(n).

Observação 15. O exemplo anterior contém o critério de divisibilidade por 9, i.e., n deixa
o mesmo resto que D(n) na divisão por 9. O critério de divisibilidade por 3 é análogo pois
10n também sempre deixa resto 1 por 3.

Exemplo 16. Encontre todos os pares de inteiros positivos a e b tais que 79 = ab + 2a + 3b.

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Fatoremos a expressão anterior. Somando 6 aos dois lados da equação, obtemos:

85 = 6 + ab + 2a + 3b
= (3 + a)(2 + b)

Assim, (3 + a) e (2 + b) são divisores positivos de 85 maiores que 1. Os únicos divisores


positivos de 85 são 1, 5, 19, 85. Logo, os possı́veis pares de valores para (3 + a, 2 + b) são
(5, 19) ou (19, 5) que produzem as soluções (a, b) = (2, 17) e (16, 3).
2n − 2 22 −1 − 2
n

Problema 17. (Olimpı́ada Russa) Prove que se é um inteiro, então


n 2n − 1
também é um inteiro.
2n − 2
Se k = , então
n
22 −1 − 2 2(22 −2 − 1)
n n

=
2n − 1 2n − 1
 nk 
2 −1
= 2
2n − 1
!
(2n − 1)(2n(k−1) + 2n(k−2) + . . . + 2n + 1)
= 2
2n − 1
= 2(2n(k−1) + 2n(k−2) + . . . + 2n + 1),

é um número inteiro.

Problemas Propostos

Problema 18. Encontre os inteiros que, na divisão por 7, deixam um quociente igual ao
resto.

Problema 19. Determinar os números que divididos por 17 dão um resto igual ao quadrado
do quociente correspondente.

Problema 20. (OCM 1985) Encontre o quociente da divisão de a128 − b128 por

(a64 + b64 )(a32 + b32 )(a16 + b16 )(a8 + b8 )(a4 + b4 )(a2 + b2 )(a + b)

Problema 21. (OCM 1994) Seja A = 777 . . . 77 um número onde o dı́gito ”7”aparece 1001
vezes. Determinar o quociente e o resto da divisão de A por 1001.

Problema 22. Encontre um inteiro que deixa resto 4 na divisão por 5 e resto 7 na divisão
por 13

Problema 23. Encontre o menor inteiro que, dividido por 29 deixa resto 5, e dividido por
31 dá resto 28.

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Problema 24. Prove que, para todo inteiro positivo n o número n5 − 5n3 + 4n é divisı́vel
por 120.

Problema 25. (Fatorações Importantes)

a) Seja S = 1 + z + z 2 + z 3 + . . . + z n−1 . Veja que S + z n = 1 + zS então S(z − 1) = z n − 1.


Conclua que, para quaisquer x e y vale:

xn − y n = (x − y)(xn−1 + xn−2 y + xn−3 y 2 + . . . + x2 y n−3 + xy n−2 + y n−1 )

b) Mostre que se n é ı́mpar vale:

xn + y n = (x + y)(xn−1 − xn−2 y + xn−3 y 2 − . . . + x2 y n−3 − xy n−2 + y n−1 )

Problema 26. Prove que, o número 199 + 299 + 399 + 499 + 599 é múltiplo de 5.

Problema 27. Mostre que o número 1n + 8n − 3n − 6n é multiplo de 10 para todo natural


n.

Problema 28. Encontre o resto da divisão 3710 − 1 por 11.

Problema 29. Prove que 22225555 + 55552222 é divisı́vel por 7.

Problema 30. Encontre o último dı́gito do número 19891989 .

Problema 31. Mostre que se n divide a então 2n − 1 divide 2a − 1.

Problema 32. (Cone Sul 1996) Provar que o número

1995 · 19971996 − 1996 · 19971995 + 1


19962
é um inteiro.

Problema 33. Mostre que para n ı́mpar, n divide 1n + 2n + . . . + (n − 1)n

Problema 34. Existe um natural n tal que nn + (n + 1)n é divisı́vel por 2011?

Problema 35. Quantos números inteiros positivos n existem tais que n + 3 divide n2 + 7?

Problema 36. Encontre o número de inteiros n tais que

1. 1000 < n < 8000.

2. nn+1 + (n + 1)n é divisı́vel por 3.

Problema 37. Sejam m e n naturais tais que mn + 1 é múltiplo de 24, mostre que m + n
também é múltiplo de 24.

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Problema 38. (Irlanda 1997) Encontre todos os pares de inteiros (x, y) tais que 1+1996x+
1998y = xy.

Dicas e Soluções

18. Os números são {0, 8, 16, 24, . . . , 8 · 7}.

18. Escreva n = 17q + q 2 e note que 0 ≤ q 2 < 17. Assim, q = 0, 1, 2, 3, 4.

19. Use a diferença de quadrados sucessivas vezes para obter (a − b) como quociente.
7(101001 −1) 10999 +1 101001 −1
21. O número do problema é igual a 9 . Além disso, 103 +1
é inteiro e 103 +1
=
10999 +1 100
100 · 103 +1
− 103 +1
.

22. Os números que satisfazem essa propriedade são os números da forma 65k + 59.

24. Basta mostrar que n5 − 5n3 + 4n é múltiplo de 3, 8 e 5. Na divisão por 5, temos


quatro restos possı́veis: {0, 1, 2, 3, 4}. Assim, o número n5 − 5n3 + 4n possui o mesmo
resto na divisão por 5 que um dos cinco números: {05 − 5 · 03 + 40, 15 − 5 · 13 + 4, 25 −
5 · 23 + 8, 35 − 5 · 33 + 12, 45 − 5 · 43 + 16}. Como todos esses números são múltiplos
de 5, segue que n5 − 5n3 + 4n é múltiplo de 5 para todo n inteiro. O procedimento
com 3 e 8 é semelhante.

25. Para o item a), troque z por xy . Para o item b), substitua y por −y no item anterior.

26. Pelo problema anterior, como 99 é ı́mpar temos: 199 + 499 = (1 + 4)(198 + 197 · 4 +
. . . + 1 · 497 + 498 ). Daı́, segue que 199 + 499 é múltiplo de 5. Analogamente podemos
mostrar que 299 + 399 é múltiplo de 5.

27. O número em questão é mútiplo de 2 pois é a soma de dois ı́mpares e dois pares.
Para ver que também é múltiplo de 5, basta notar que 5 divide 1n − 6n e 8n − 3n .
Isso pode ser facilmente mostrado usando a fatoração do exercı́cio 25.

31. Se a = nk, temos (2n − 1)(2n(k−1) + 2n(k−2) + . . . + 2n + 1) = 2nk − 1.

32. Veja que 1995·19971996 −1996·19971995 +1 = 1995·(19971996 −1)−1996·(19971995 −1).


Pela fatoração de xn − y n ,

1996 · (19971995 − 1)
= (19971994 + 19971993 + . . . + 1),
19962
é inteiro. Além disso, pela mesma fatoração,
 
1995 · (19971996 − 1) 19971995 − 1 19971994 − 1 1997 − 1 1996
= 1995· + + . . . + + ,
19962 1996 1996 1996 1996

é uma soma de números inteiros.

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33. Como n é impar,

(n − i)n + in = ((n − i) + i)((n − i)n−1 − (n − i)n−2 i + . . . − (n − i)in−2 + in−1 ).

34. Faça n = 1005 e use a fatoração de xn + y n .

37. Fatore a expressão como:

(x − 1998)(y − 1996) = xy − 1998y − 1996x + 1998 · 1996 = 19972 .

Os divisores de 19972 são {±1, ±1997, ±19972 }. Resolvendo os sistemas correspon-


dentes à essas possibilidades, temos: (x, y) = (1999, 19972 + 1996), (1997, −19972 +
1996), (3995, 3993), (1, −1), (19972 + 1998, 1997), (−19972 + 1998, 1995).

Referências
[1] F. E. Brochero Martinez, C. G. Moreira, N. C. Saldanha, E. Tengan - Teoria dos
Números um passeio com primos e outros números familiares pelo mundo inteiro,
Projeto Euclides, IMPA, 2010.

[2] E. Carneiro, O. Campos and F. Paiva, Olimpı́adas Cearenses de Matemática 1981-2005


(Nı́veis Júnior e Senior), Ed. Realce, 2005.

[3] S. B. Feitosa, B. Holanda, Y. Lima and C. T. Magalhães, Treinamento Cone Sul 2008.
Fortaleza, Ed. Realce, 2010.

[4] D. Fomin, A. Kirichenko, Leningrad Mathematical Olympiads 1987-1991, MathPro


Press, Westford, MA, 1994.

[5] D. Fomin, S. Genkin and I. Itenberg, Mathematical Circles, Mathematical Words, Vol.
7, American Mathematical Society, Boston, MA, 1966.

[6] I. Niven, H. S. Zuckerman, and H. L. Montgomery, An Introduction to the Theory of


Numbers.
Polos Olímpicos de Treinamento
Curso de Teoria dos Números - Nível 2 Aula 2
Prof. Samuel Feitosa

Divisibilidade II

Definição 1. Dados dois inteiros a e b, com a 6= 0, dizemos que a divide b ou que a é


um divisor de b ou ainda que b é um múltiplo de a e escrevemos a | b se o r obtido pelo
algoritmo de divisão aplicado à a e b é 0, ou seja, se b = aq para algum inteiro q.

Lema 2. Sejam a, b, c, d inteiros. Temos

i) (”d divide”) Se d | a e d | b, então d | ax + by para quaisquer x e y inteiros.

ii) (”Limitação”) Se d | a, então a = 0 ou |d| ≤ |a|.

iii) (Transitividade) Se a | b e b | c, então a | c.

Em particular, segue da propriedade i) que d | a + b e d | a − b.

Exemplo 3. (Olimpı́ada de Maio 2006) Encontre todos os naturais a e b tais que a|b + 1 e
b|a + 1.

Pela propriedade da Limitação, temos a ≤ b + 1 e b ≤ a + 1. Daı́, a − 1 ≤ b ≤ a + 1.


Vejamos os casos:

(i) a = b. Como a|b + 1 e a | b(pois b = a) temos que a | [(b + 1) − b] = 1. Assim, a = 1


Nesse caso, só temos a solução (a, b) = (1, 1)

(ii) a = b + 1. Como b|a + 1 e b|a − 1(pois b = a − 1) temos que b|[(a + 1) − (a − 1)] = 2.


Assim, b = 1 ou b = 2 e nesse caso, só temos as soluções (3, 2) e (2, 1).

(iii) a = b − 1. Esse caso é análogo ao anterior e as soluções para (a, b) são (1, 2) e (2, 3).

Exemplo 4. (Critério de Divisibilidade por 7) Existem alguns métodos práticos para deci-
dirmos se um número é múltiplo de outro. Certamente o leitor já deve ter se deparado com
algum critério de divisibilidade. Existe um critério por 7 bastante popular: Para saber se
um inteiro é multiplo de 7, basta apagar seu último dı́gito, multiplicá-lo por 2 e o subtrair
do número que restou. Se o resultado é múltiplo de 7, então o número original também é
múltiplo de 7.
POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel 2 - Aula 1 - Samuel Feitosa

Podemos aplicar esse algoritmo sucessivas vezes até que o resultado obtido seja facil-
mente verificável como um múltiplo de 7. Por exemplo, para o número 561421 podemos
escrever:

56142 − 2 = 56140
5614 − 0 = 5614
561 − 8 = 553
55 − 6 = 49

Como 49 é múltiplo de 7, nosso número original também é. Por que esse processo funciona?
Se o nosso número original está escrito na forma 10a + b, então o número obtido após a
operação descrita é a − 2b. Basta mostrarmos que se 7 | a − 2b, então 7 | 10a + b. Se
7 | a − 2b, pela propriedade (i) do lema, concluı́mos que 7 | 10a − 20b. Como 7 | 21b,
também temos que 7 | [(10a − 20b) + 21b] = 10a + b.
Exemplo 5. Mostre que se 7 | 3a + 2b então 7 | 4a − 2b.
Veja que 7 | 7a e 7 | 3a + 2b, então 7 | [7a − (3a + 2b)] = 4a − 2b. Na prática, o que
fizemos foi multiplicar o número 3a + 2b por algum inteiro para posteriormente subtraı́mos
um múltiplo de 7 conveniente e obtermos o número 4a − 2b. Existem outras formas de
fazermos isso. Observe os números 3 · 0, 3 · 1, 3 · 2, 3 · 3, 3 · 4, 3 · 5, 3 · 6. O número 3 · 6 deixa
o mesmo resto que 4 por 7, pois 3 · 6 = 7 · 2 + 4. Como 7|3a + 2b podemos concluir que
7|(18a + 12b) e consequentemente 7 | [18a + 12b − 14a)] = 4a + 12b. Mas 7 | 14b, então
7 | [4a + 12b − 14b] = 4a − 2b.
Para o proximo exemplo, o leitor precisará lembrar dos critérios de divisibilidade por 9
e 3 vistos na aula passada.
Exemplo 6. Usando os dı́gitos 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, construı́mos vários números de sete dı́gitos
distintos. Existem dois deles, distintos, tais que um divide o outro?
Não. Suponha, por absurdo, que m < n sejam dois desses números, com m | n. Claramente
m | n − m e 9 | n − m, pois n e m possuem a mesma soma dos dı́gitos e consequentemente
possuem o mesmo resto na divisão por 9. Por outro lado, sabemos a soma dos dı́gitos de
m: 1 + 2 + · · · + 7 = 3 · 9 + 1. Daı́, m não possui fator 9 e podemos garantir que 9m | n − m.
Mas então 9m ≤ n − m ⇒ 10m ≤ n ⇒ n tem pelo menos oito dı́gitos, uma contradição.

Exemplo 7. (Leningrado 1989) Seja A um número natural maior que 1, e seja B √um
número natural que é um divisor de A2 + 1. Prove que se B − A > 0, então B − A > A.
Seja B − A = q. Assim, A + q | A2 + 1. Como (A − q)(A + q) = A2 − q 2 é divisı́vel por
A + q, podemos concluir que A + q | [(A2 + 1) − (A2 − q 2 )] = q 2 + 1. Pela propriedade de
limitação, A + q ≤ q 2 + 1. Nessa desigualdade, não podemos
√ ter q = 1 pois A > 1. Usando
2 2
então que q > 1, temos A ≤ q − q + 1 < q , ou seja, A < q.
Problema 8. (AIME 1986) Qual é o maior inteiro n para o qual n3 + 100 é divisı́vel por
n + 10?

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POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel 2 - Aula 1 - Samuel Feitosa

Para achar explicitamente o quociente de n3 + 100 por n + 10 podemos fazer uso de alguma
fatoração. Utilizaremos a soma dos cubos n3 + 103 = (n + 10)(n2 − 10n + 100). Como,

n3 + 100 = (n + 10)(n2 − 10n + 100) − 900,

podemos concluir que o número 900 deve ser múltiplo de n + 10. O maior inteiro n para o
qual n + 10 divide 900 é 890. Veja que se n = 890, o quociente da divisão de n3 + 100 por
n + 10 é n2 − 10n + 100 − 1 = 8902 − 10 · 890 + 99.

Exemplo 9. (Extraı́do de [1]) Encontre todos os inteiros positivos n tais que 2n2 + 1 |
n3 + 9n − 17.

Utilizando o “2n2 + 1 divide” para reduzir o grau de n3 + 9n − 17, temos que


(
2n2 + 1 | n3 + 9n − 17
2n2 + 1 | 2n2 + 1
=⇒ 2n2 + 1 | (n3 + 9n − 17) · 2 + (2n2 + 1) · (−n)
⇐⇒ 2n2 + 1 | 17n − 34

Como o grau de 17n − 34 é menor do que o de 2n2 + 1, podemos utilizar a “limitação”


para obter uma lista finita de candidatos a n. Temos 17n − 34 = 0 ⇐⇒ n = 2 ou
|2n2 + 1| ≤ |17n − 34| ⇐⇒ n = 1, 4 ou 5. Destes candidatos, apenas n = 2 e n = 5 são
soluções.

Exemplo 10. (Leningrado 1990) Sejam a e b números naturais tais que b2 + ba + 1 divide
a2 + ab + 1. Prove que a = b.

Pela propriedade de limitação, b2 +ba+1 ≤ a2 +ab+1 e daı́ b ≤ a. Além disso, b2 +ab+1 >
a − b. A igualdade b(a2 + ab + 1) − a(b2 + ba + 1) = b − a implica que a − b é divisı́vel por
b2 + ba + 1. Se a − b 6= 0, então b2 + ab + 1 ≤ a − b. Mas isso é um absurdo, logo a − b = 0.

Problemas Propostos

Problema 11. Mostre que se 3 | a + 7b então 3 | a + b.

Problema 12. Mostre que se 7 | a + 3b então | 13a + 11b

Problema 13. Mostre que se 19 | 3x + 7y então 19 | 43x + 75y

Problema 14. Mostre que se 17 | 3a + 2b então 17 | 10a + b

Problema 15. Encontre todos os inteiros positivos n tais que n + 2009 divide n2 + 2009 e
n + 2010 divide n2 + 2010.

Problema 16. Seja n > 1 e k um inteiro positivo qualquer. Prove que (n − 1)2 |(nk − 1) se,
e somente se , (n − 1)|k.

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POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel 2 - Aula 1 - Samuel Feitosa

Problema 17. (OBM 2005) Prove que a soma 1k + 2k + . . . + nk , onde n é um inteiro e k


é ı́mpar, é divisı́vel por 1 + 2 + . . . + n.

Problema 18. O número de seis dı́gitos X = abcdef satisfaz a propriedade de que abc−def
é divisı́vel por 7. Prove que X também é divisı́vel por 7.

Problema 19. (Bielorússia 1996) Inteiros m e n, satisfazem a igualdade


4mn
(m − n)2 = .
m+n−1
a) Prove que m + n é um quadrado perfeito.

b) Encontre todos os pares (m, n) satisfazendo a equação acima.

Problema 20. (Olimpı́ada de Leningrado) Os números naturais a,b e c têm a propriedade


que a3 é divisı́vel por b, b3 é divisı́vel por c e c3 é divisı́vel por a. Prove que (a + b + c)13 é
divisı́vel por abc.

Problema 21. (OBM 2000) É possı́vel encontrar duas potências de 2, distintas e com o
mesmo número de algarismos, tais que uma possa ser obtida através de uma reordenação
dos dı́gitos da outra? (Dica: Lembre-se do critério de divisibilidade por 9)

Problema 22. (IMO 1998) Determine todos os pares de inteiros positivos (x, y) tais que
xy 2 + y + 7 divide x2 y + x + y.

Dicas e Soluções

11. Como 3 | 6b, segue que 3 | [(a + 7b) − 6b] = a + b.

12. Como 7 | a + 3b, segue que 7 | 13a + 39b = (13a + 11b) + 28b. Mas 7 | 28b, portanto
7 | [(13a + 11b) + 28b − 28b] = 13a + 11b.

13. Como 19 | 3x + 7y, segue que 19 | 27(3x + 7y) = (43x + 75y) + (38x + 114y). Mas
19 | 19(2x + 6y), portanto 19 | [(43x + 75y) + (38x + 114y) − 19(2x + 6y)] = 43x + 75y.

14. Como 17 | 3a + 2b, segue que 17 | 27a + 18b = (10a + b) + 17(a + b).

16. Veja que

nk − 1 nk−1 − 1 nk−2 − 1
 
n−1 k
= + + ... + + .
(n − 1)2 n−1 n−1 n−1 n−1
l
Como os números nn−1 −1
sempre são inteiros, o número do lado esquerdo da equação
k
será inteiro se, e somente se, o número n−1 for inteiro.

4
POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel 2 - Aula 1 - Samuel Feitosa

17. Comece dividindo o problema quando em dois casos: n é par ou n é ı́mpar. Sabemos
que 1 + 2 + . . . + n = n(n+1)
2 . Para n ı́mpar, basta mostrar que o número em questão
é divisı́vel por n e n+1
2 . O próximo passo é lembrar do problema 33 da aula 1. Pela
fatoração de x + y , temos que i + (n − i)k é divisı́vel por n. Faça outros tipos de
n n k

pares para mostrar a divisibilidade por n2 . O caso quando n é par é análogo.

18. Veja que X = 103 · abc + def = 1001abc − (abc − def ). Como 1001 é multiplo de 7,
concluı́mos que X é a soma de dois múltiplos de 7.

19. Somando 4mn em ambos os lados, obtemos:


4mn
(m + n)2 = + 4mn
m+n−1
4mn(m + n)
= ⇒
m+n−1
4mn
(m + n) =
m+n−1
= (m − n)2 .

Assim, m + n é o quadrado de um inteiro. Se m − n = t, então m + n = t2 e


2 2
(m, n) = ( t 2+t , t 2−t ). É fácil verificar que para qualquer t inteiro esse par é solução
do problema.

20. Analise a expansão pelo binômio de Newton.

21. Não. Suponha, por absurdo, que existam duas potências de 2, 2m < 2n , satisfazendo
o enunciado. Como 2n é um múltiplo de 2m , podemos ter: 2n = 2·2m , 4·2m , 8·2m , . . ..
n
Além disso, como ambos possuem a mesma quantidade de dı́gitos, temos 1 < 22m <
10. Assim, as únicas possibilidade são 2n = 2 · 2m , 4 · 2m , 8 · 2m . Pelo critério de
divisibilidade por 9, como 2m e 2n possuem os mesmos dı́gitos, podemos concluir
que 2n − 2m é um múltiplo de 9. Entretanto, nenhuma das possibilidade anteriores
satisfaz essa condição e chegamos em um absurdo.

22. Começaremos usando a ideia do exemplo 10. A igualdade y(x2 y + x + y) − x(xy 2 +


y + 7) = y 2 − 7x implica que y 2 − 7x é divisı́vel por xy 2 + y + 7. Se y 2 − 7x ≥ 0,
como y 2 − 7x < xy 2 + y + 7, segue que y 2 − 7x = 0. Assim, (x, y) = (7t2 , 7t) para
algum t ∈ N. É fácil checar que esses pares são realmente soluções. Se y 2 − 7x < 0,
então 7x − y 2 > 0 é divisı́vel por xy 2 + y + 7. Daı́, xy 2 + y + 7 ≤ 7x − y 2 < 7x, que
nos permite concluir que y ≤ 2. Para y = 1, temos x + 8 | 7x − 1 e consequentemente
x + 8 | 7(x + 8) − (7x − 1) = 57. Então as únicas possibilidades são x = 11 e x = 49,
cujos pares correspondentes são (11, 1), (49, 1). Para y = 2, temos 4x + 9 | 7x − 4
e consequentemente 7(4x + 9) − 4(7x − 4) = 79 é divisı́vel por 4x + 9. Nesse caso,
não obtemos nenhuma solução nova. Todas as soluções para (x, y) são: (7t2 , 7t)(t ∈
N), (11, 1) e (49, 1).

5
Referências
[1] F. E. Brochero Martinez, C. G. Moreira, N. C. Saldanha, E. Tengan - Teoria dos
Números um passeio com primos e outros números familiares pelo mundo inteiro,
Projeto Euclides, IMPA, 2010.

[2] E. Carneiro, O. Campos and F. Paiva, Olimpı́adas Cearenses de Matemática 1981-2005


(Nı́veis Júnior e Senior), Ed. Realce, 2005.

[3] S. B. Feitosa, B. Holanda, Y. Lima and C. T. Magalhães, Treinamento Cone Sul 2008.
Fortaleza, Ed. Realce, 2010.

[4] D. Fomin, A. Kirichenko, Leningrad Mathematical Olympiads 1987-1991, MathPro


Press, Westford, MA, 1994.

[5] D. Fomin, S. Genkin and I. Itenberg, Mathematical Circles, Mathematical Words, Vol.
7, American Mathematical Society, Boston, MA, 1966.

[6] I. Niven, H. S. Zuckerman, and H. L. Montgomery, An Introduction to the Theory of


Numbers.
Polos Olímpicos de Treinamento
Curso de Teoria dos Números - Nível 2 Aula 3
Prof. Samuel Feitosa

O Algoritmo de Euclides

Exemplo 1. Seja S um conjunto infinito de inteiros não negativos com a seguinte propri-
edade: dados dois quaisquer de seus elementos, o valor absoluto da diferença entre eles
também pertence a S. Se d é o menor elemento positivo de S, prove que S consiste de
todos os múltiplos de d.

Considere um elemento m qualquer de S. Pelo algoritmo da divisão, m = qd + r com


0 ≤ r < d. Como todos os números m − d, m − 2d, m − 3d, . . . , m − qd = r pertencem
a S e d é o menor elemento positivo de tal conjunto, devemos ter obrigatoriamente que
r = 0. Sendo assim, podemos concluir que todos os elementos de S são múltiplos de d.
Resta mostrarmos que todos os múltiplos de d estão em S. Seja kd um múltiplo positivo
qualquer de d. Como S é infinito, existe um inteiro m ∈ S tal que m = qd > kd. Assim
todos os números m − d, m − 2d, . . . , m − (q − k)d = kd estão em S.

Definição 2. Um inteiro a é um divisor comum de b e c se a | b e a | c. Se b e c não são


ambos nulos, denotaremos por mdc(b, c) o máximo divisor comum de b e c.

Como um inteiro não nulo possui apenas um número finito de divisores, se b e c são ambos
não nulos, o número mdc(b, c) sempre existe, isto é, sempre está bem definido.

Lema 3. (Euclides) Se x 6= 0, mdc(x, y) = mdc(x, x + y)

Demonstração. Seja d um divisor comum de x e y. Então d | x + y e consequentemente d


também á um divisor comum de x e x + y. Reciprocamente, se f é um divisor comum de
x + y e x, f também divide (x + y) − y = x e assim f é um divisor comum de x e y. Como
os conjuntos de divisores comuns dos dois pares de números mencionados são os mesmos,
o maior divisor comum também é o mesmo.

Então podemos calcular:

mdc(123, 164) = mdc(123, 41) = mdc(41, 123) = mdc(41, 82) = mdc(41, 41) = 41.
POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel 2 - Aula 3 - Samuel Feitosa

Exemplo 4. Três máquinas I, R, S imprimem pares de inteiros positivos em tickets. Para


a entrada (x, y), as máquinas I, R, S imprimem respectivamente (x − y, y), (x + y, y), (y, x).
Iniciando com o par (1, 2) podemos alcançar

a) (819, 357)?

b) (19, 79)?

Para o item a), calculemos inicialmente mdc(819, 357):

mdc(819, 357) = mdc(462, 357) = mdc(105, 357) = mdc(105, 252) = . . . = mdc(21, 21) = 21.

Pelo Lema de Euclides, o mdc entre os dois números em um ticket nunca muda. Como
mdc(1, 2) = 1 6= 21 = mdc(819, 357), não podemos alcançar o par do item a).

Para o item b), indiquemos com → uma operação de alguma das máquinas. Veja que:
R S R R R S R R R
(2, 1) → (3, 1) → (1, 3) → (4, 3) → . . . → (19, 3) → (3, 19) → (22, 19) → (41, 19) →
R
(60, 19) → (79, 19).

Observação 5. Procurar invariantes sempre é uma boa estratégia para comparar confi-
gurações diferentes envolvidas no problema. Confira o problema proposto 31.

Definição 6. Dizemos que dois inteiros p e q são primos entre si ou relativamente primos
se mdc(p, q) = 1. Dizemos ainda que a fração pq é irredutı́vel se p e q são relativamente
primos.
21n + 4
Exemplo 7. (IMO 1959) Prove que é irredutı́vel para todo número natural n.
14n + 3
Pelo lema de Euclides, mdc(21n+4, 14n+3) = mdc(7n+4, 14n+3) = mdc(7n+1, 7n+2) =
mdc(7n + 1, 1) = 1.

O seguinte lema será provado na próxima aula.

Lema 8. (Propriedades do MDC) Seja mdc(a, b) = d, então:

i) Se k =
6 0, mdc(ka, kb) = kd.
 
a b
ii) mdc , = 1.
d d
iii) Se mdc(a, c) = 1, então mdc(a, bc) = d.

Exemplo 9. (Olimpı́ada Inglesa) Se x e y são inteiros tais que 2xy divide x2 + y 2 − x, prove
que x é um quadrado perfeito

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POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel 2 - Aula 3 - Samuel Feitosa

Se d = mdc(x, y), então x = da e y = db, com mdc(a, b) = 1. Do enunciado, temos:

2abd2 | d2 a2 + d2 b2 − da ⇒
d2 | d2 a2 + d2 b2 − da ⇒
d2 | −da ⇒
d | a.

Logo, a = dc, para algum c. Como x | y 2 , obtemos d2 c | d2 b2 , ou seja, c|b2 e mdc(c, b2 ) = c.


Usando que mdc(a, b) = 1 e que todo divisor comum de b e c também é um divisor comum
de a e b, podemos concluir que mdc(c, b) = 1. Usando o item iii) do lema anterior,
mdc(c, b2 ) = 1. Assim, c = 1 e x = d2 c = d2 .

Exemplo 10. No planeta X, existem apenas dois tipos de notas de dinheiro: $5 e $78. É
possı́vel pagarmos exatamente $7 por alguma mercadoria? E se as notas fossem de $ 3 e $
78?

Veja que 2 × 78 − 31 × 5 = 1 e consequentemente 14 × 78 − 217 × 5 = 7. Basta darmos


14 notas de de $ 78 para recebermos 217 notas de $ 5 como troco na compra de nossa
mercadoria. Usando as notas de $3 e $78 não é possı́vel pois o dinheiro pago e recebido
como troco por algo sempre é múltiplo de 3 e 7 não é múltiplo de 3.

Queremos estudar a versão mais geral desse exemplo. Quais são os valores que podemos
pagar usando notas de $a e $b? Em particular, estaremos interessados em conhecer qual o
menor valor que pode ser pago. Para responder essa pergunta, precisaremos do algoritmo
de Euclides:

Teorema 11. (O Algoritmo de Euclides) Para os inteiros b e c > 0, aplique sucessivamente


o algoritmo da divisão para obter a série de equações:

b = cq1 + r1 , 0 < r1 < c,


c = r1 q 2 + r2 , 0 < r2 < r1 ,
r1 = r2 q 3 + r3 , 0 < r3 < r2 ,
..
.
rj−2 = rj−1 qj + rj , 0 < rj < rj−1 ,
rj−1 = rj qj+1

A sequência de restos não pode diminuir indefinidamente pois 0 ≤ ri < ri−1 e existe apenas
um número finito de naturais menores que c. Assim, para algum j, obteremos rj+1 = 0.
O maior divisor comum de b e c será rj , ou seja, o último resto não nulo da sequência de
divisões acima.

Demonstração. Pelo Lema de Euclides,

mdc(x + qy, y) = mdc(x + (q − 1)y, y) = mdc(x + (q − 2)y, y) = . . . = mdc(x, y).

3
POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel 2 - Aula 3 - Samuel Feitosa

Então,
mdc(b, c) = mdc(c, r1 ) = mdc(r1 , r2 ) = . . . = mdc(rj−1 , rj ) = rj .

Exemplo 12. Calcule mdc(42823, 6409).


Pelo Algoritmo de Euclides,

42823 = 6 × 6409 + 4369


6409 = 1 × 4369 + 2040
4369 = 2 × 2040 + 289
2040 = 7 × 289 + 17
289 = 17 × 17.

Portanto, mdc(42823, 6409) = 17.

Podemos extrair mais informações do Algoritmo de Euclides. Para isso, iremos organizar
as equações do exemplo acima de outra forma.

Essencialmente, a equação mdc(x+qy, y) = mdc(x, y) nos diz que podemos subtrair q vezes
um número de outro sem alterar o máximo divisor comum do par em questão. Realizando
esse procedimento sucessivas vezes, subtraindo o número menor do maior, podemos obter
pares com números cada vez menores até que chegarmos em um par do tipo (d, d). Como o
máximo divisor comum foi preservado ao longo dessas operações, d será o máximo divisor
comum procurado. Iremos repetir o exemplo anterior registrando em cada operação quantas
vezes um número é subtraido do outro. Isso será feito através de dois pares de números
auxiliares:

(42823, 6409) | (1, 0)(0, 1)


(4369, 6409) | (1, −6)(0, 1)
(4369, 2040) | (1, −6)(−1, 7)
(289, 2040) | (3, −20)(−1, 7)
(289, 17) | (3, −20)(−22, 147)
(17, 17) | (355, −2372)(−22, 147)

Da primeira linha para a segunda, como subtraı́mos 6 vezes o número 6409 de 42823,
subtraı́mos 6 vezes o par (0, 1) de (1, 0), obtendo: (1, 0) − 6(0, 1) = (1, −6). Se em uma
dada linha, temos:
(x, x + qy)) | (a, b)(c, d);
então, a próxima linha deverá ser:

(x, y) | (a, b)(c − aq, d − bq);

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POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel 2 - Aula 3 - Samuel Feitosa

porque representará a operação de subtrairmos q vezes o primeiro número do segundo. Veja


que o par (a, b) foi subtraido de (c, d) exatamente q vezes. Os números escritos nos últimos
dois pares representam os coeficientes dos números originais para cada número do primeiro
par. Por exemplo, analisando a linha:

(289, 2040) | (3, −20)(−1, 7);

obtemos que:

289 = 3 × 42823 − 20 × 6409,


2040 = −1 × 42823 + 7 × 6409.

Em cada linha, essa propriedade é mantida pois a mesma subtração que é realizada no
primeiro par também é realizada entre os dois últimos pares. Analisando o último par,
podemos escrever 17 como combinação de 42823 e 6409 de duas formas diferentes:

17 = −22 × 42823 + 147 × 6409,


17 = 355 × 42823 + −2372 × 6409,

Assim, se no planeta X tivéssemos apenas notas de $42823 e $6409, poderı́amos comprar


algo que custasse exatamente $17.

Como conclusão da discussão anterior e do algoritmo de Euclides, podemos concluir que:

Teorema 13. (Bachet-Bèzout) Se d = mdc(a, b), então existem inteiros x e y tais que
ax + by = d.

De fato, a discussão anterior também nos mostra um algoritmo para encontrarmos x e y.


Voltando à discussão sobre o planeta X, podemos concluir em virtude do teorema anterior
que qualquer valor múltiplo de d poderá ser pago usando apenas as notas de $a e $b.
Como todo valor pago, necessariamente é um múltiplo do máximo divisor comum de a e
b, descobrimos que o conjunto que procurávamos consiste precisamente do conjunto dos
múltiplos de d.

Observação 14. (Para professores) A prova mais comum apresentada para o teorema an-
terior baseia-se na análise do conjunto de todas as combinações lineares entre a e b e quase
sempre se preocupa apenas com mostrar a existência de x e y. Acreditamos que o algoritmo
para encontrar x e y facilite o entendimento do teorema para os alunos mais jovens. Entre-
tanto, frequentemente utilizemos apenas a parte da existência descrita no enunciado. Além
disso, preferimos discutir um exemplo numérico ao invés de formalizarmos uma prova e
sugerimos que o professor faça o mesmo com mais exemplos em aula.

Exemplo 15. (Olimı́ada Russa 1995) A sequência a1 , a2 , ... de naturais satisfaz mdc(ai , aj ) =
mdc(i, j) para todo i 6= j Prove que ai = i para todo i.

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POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel 2 - Aula 3 - Samuel Feitosa

Para qualquer inteiro n, mdc(a2n , an ) = mdc(2n, n) = n, consequentemente n | an . Seja


d um divisor qualquer de an diferente de n, então d | mdc(ad , an ). De mdc(ad , an ) =
mdc(d, n), podemos concluir que d | n. Sendo assim, todos os divisores de an que são
diferentes de n são divisores de n. Como já sabemos que an = nk, para algum k, não
podemos ter k > 1 pois nk não divide n e assim concluı́mos que an = n.

Exemplo 16. Mostre que mdc(2120 − 1, 2100 − 1) = 220 − 1.

Pelo lema de Euclides,

mdc(2120 − 1, 2100 − 1) = mdc(2120 − 1 − 220 (2100 − 1), 2100 − 1),


= mdc(220 − 1, 2100 − 1),
= mdc(220 − 1, 2100 − 1 − 280 (220 − 1)),
= mdc(220 − 1, 280 − 1),
= mdc(220 − 1, 280 − 1 − 260 (220 − 1)),
= mdc(220 − 1, 260 − 1),
= mdc(220 − 1, 260 − 1 − 240 (220 − 1)),
= mdc(220 − 1, 240 − 1),
= mdc(220 − 1, 240 − 1 − 220 (220 − 1)),
= mdc(220 − 1, 220 − 1) = 220 − 1.

Exemplo 17. (Olimpı́ada Russa 1964) Sejam x, y inteiros para os quais a fração

x2 + y 2
a=
xy
é inteira. Ache todos os possı́veis valores de a.

A primeira estratégia é cancelar os fatores comuns com o objetivo de reduzir o problema


ao caso em que x e y são primos entre si. Seja d = mdc(x, y), com

x = d · x0
, mdc(x0 , y0 ) = 1,
y = d · y0

então
x2 + y 2 x 0 2 + y0 2
a= = ·
xy x 0 y0
Nessa condição, como x0 divide y02 e y0 divide x20 , cada um deles é igual a 1, donde

12 + 12
a= = 2.
1·1

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POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel 2 - Aula 3 - Samuel Feitosa

Definição 18. Os inteiros a1 , a2 , . . . , an , todos diferentes de zero, possuem múltiplo comum


b se ai |b para i = 1, 2, . . . , n(note que a1 a2 . . . an é um múltiplo comum). O menor múltiplo
comum positivo para tal conjunto de inteiros é chamado de mı́nimo múltiplo comum e será
denotado por mmc(a1 , a2 , . . . , an ).
Proposição 19. Se a e b são não nulos, então: mmc(a, b) · mdc(a, b) = |ab|.
(A prova desta proposição também será deixada para a próxima seção)
Exemplo 20. (Olimpı́ada Russa 1995) Sejam m e n interios positivos tais que:
mmc(m, n) + mdc(m, n) = m + n.
Prove que um deles é divisı́vel pelo o outro.
Se d = mdc(m, n), então podemos escrever m = da e n = db. Pela proposição anterior,
d2 ab
mmc(m, n) = = dab.
d
Temos:
mmc(m, n) + mdc(m, n) − m − n = 0 ⇒
dab + d − da − db = 0 ⇒
ab + 1 − a − b = 0 ⇒
(a − 1)(b − 1) = 0.
Portanto, ou a = 1 e m | n ou então b = 1 e n | m.
Exemplo 21. (Torneio das Cidades 1998) Prove que, para quaisquer inteiros positivos a e
b, a equação mmc(a, a + 5) = mmc(b, b + 5) implica que a = b.
Para o item a), como (a + 5) − a = 5, temos mdc(a, a + 5) é igual a 1 ou 5. O mesmo vale
para mdc(b, b + 5). Pela proposição anterior, temos:

a(a + 5)
mmc(a, a + 5) = ,
mdc(a, a + 5)
b(b + 5)
mmc(b, b + 5) = .
mdc(b, b + 5)

Suponha que mdc(a, a + 5) = 5 e mdc(b, b + 5) = 1, então a(a + 5) = 5b(b + 5). Consequen-


temente, a é múltiplo de 5 e a(a + 5) é múltiplo de 25. Isso implica que b(b + 5) também é
múltiplo de 5 e que mdc(b, b + 5) > 1. Uma contradição. Analogamente, não podemos ter
mdc(a, a + 5) = 1 e mdc(b, b + 5) = 5. Sendo assim, mdc(a, a + 5) = mdc(b, b + 5) e:
a(a + 5) − b(b + 5) = 0 ⇒
(a − b)(a + b + 5) = 0.
Como a + b + 5 > 0, concluı́mos que a = b.

7
POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel 2 - Aula 3 - Samuel Feitosa

Exemplo 22. Uma máquina f executa operações sobre o conjunto de todos os pares de
inteiros positivos. Para cada par de inteiros positivos, ela fornece um inteiro dado pelas
regras:
f (x, x) = x, f (x, y) = f (y, x), (x + y)f (x, y) = yf (x, x + y).
Determine f (2012, 2012! + 1).

Claramente mmc(x, x) = x e mmc(x, y) = mmc(y, x). Usando a proposição anterior e o


lema de Euclides temos:
xy x(x + y)
(x + y)mmc(x, y) = (x + y) =y· = y · mmc(x, x + y)
mdc(x, y) mdc(x, x + y)

Temos então uma forte suspeita de que f = mmc. Seja S o conjunto de todos os pa-
res de inteiros positivos (x, y) tais que f (x, y) 6= mmc(x, y), e seja (m, n) o par em S
com a soma m + n minima. Note que todo par da forma (n, n) não está em S pois
f (n, n) = n = mmc(n, n). Assim, devemos ter m 6= n. Suponha sem perda de generalidade
que n > m. Portanto:

nf (m, n − m) = [m + (n − m)]f (m, n − m) ⇒


= (n − m)f (m, m + (n − m)) ⇒
n−m
f (m, n − m) = · f (m, n)
n

Como o par (m, m − n) não está em S, dado que a soma de seus elementos é menor que
m + n, temos:

f (m, n − m) = mmc(m, n − m) ⇒
n−m
· f (m, n) = (n − m)mmc(m, m + (n − m)) ⇒
n
f (m, n) = mmc(m, n)

Uma contradição. Desse modo, S deve ser um conjunto vazio e f (x, y) = mmc(x, y)
para todos os pares de inteiros positivos. Como 2012 | 2012!, mdc(2012, 2012! + 1) = 1 e
consequentemente mmc(2012, 2012! + 1) = 2012(2012! + 1).

Problemas Propostos

Problema 23. Calcule:

a) mdc(n, n2 + n + 1).

b) mdc(3 × 2012, 2 × 2012 + 1).

8
POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel 2 - Aula 3 - Samuel Feitosa

240 + 1 8
 
c) mdc ,2 + 1 .
28 + 1
Problema 24. Encontre mdc(2n + 13, n + 7)
12n+1
Problema 25. Prove que a fração 30n+2 é irredutı́vel.
a+b
Problema 26. Sejam a, b, c, d inteiros não nulos tais que ad − bc = 1. Prove que c+d é uma
fração irredutı́vel.
Problema 27. Mostre que mdc(am − 1, an − 1) = amdc(m,n) − 1.
Problema 28. Mostre que se mdc(a, b) = 1, então:

mdc(a + b, a2 − ab + b2 ) = 1 ou 3

Problema 29. Dado que mdc(a, 4) = 2, mdc(b, 4) = 2, prove que:

mdc(a + b, 4) = 4.

Problema 30. Prove que, para todo natural n,

mdc(n! + 1, (n + 1)! + 1) = 1.

Problema 31. No exemplo 4, determine todos os pares que podem ser obtidos começando-se
com o par (1, 2).
Problema 32. Qual o máximo divisor comum do conjunto de números:

{16n + 10n − 1, n = 1, 2, 3 . . .}?


a
Problema 33. A sequência Fn de Farey é a sequência de todos as frações irredutı́veis
b
com 0 ≤ a ≤ b ≤ n arranjados em ordem crescente.
F1 = {0/1, 1/1}
F2 = {0/1, 1/2, 1/1}
F3 = {0/1, 1/3, 1/2, 2/3, 1/1}
F4 = {0/1, 1/4, 1/3, 1/2, 2/3, 3/4, 1/1}
F5 = {0/1, 1/5, 1/4, 1/3, 2/5, 1/2, 3/5, 2/3, 3/4, 4/5, 1/1}
F6 = {0/1, 1/6, 1/5, 1/4, 1/3, 2/5, 1/2, 3/5, 2/3, 3/4, 4/5, 5/6, 1/1}

Claramente, toda fração ab < 1 com mdc(a, b) = 1, está em algum Fn . Mostre que se m/n
e m′ /n′ são frações consecutivas em Fn temos |mn′ − nm′ | = 1.
Problema 34. (Resvista Quantum - Jornal Kvant) Todas as frações irredutı́veis cujos de-
nominadores não excedem 99 são escritas em ordem crescente da esquerda para a direita:
1 1 a 5 c
, ,..., , , ,...
99 98 b 8 d
a c 5
Quais são as frações e em cada lado de ?
b d 8

9
POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel 2 - Aula 3 - Samuel Feitosa

1 1 1
Problema 35. (OBM) Para cada inteiro positivo n > 1, prove que 1 + 2 + 3 +...+ n não
é inteiro.
1 1
Problema 36. Determine todas as soluções em inteiros positivos para a + b = 1c .

Problema 37. Inteiros positivos a e b, relativamente primos, são escolhidos de modo que
a+b
seja também um inteiro positivo. Prove que pelo menos um dos números ab + 1 e
a−b
4ab + 1 é um quadrado perfeito.

Problema 38. (IMO 1979) Sejam p, q números naturais primos entre si tais que:
p 1 1 1 1
= 1 − + − ... − + .
q 2 3 1318 1319
Prove que p é divisı́vel por 1979.

Respostas, Dicas e Soluções

23. (a)

mdc(n, n2 + n + 1) = mdc(n, n2 + n + 1 − n(n + 1)),


= mdc(n, 1),
= 1.

(b)

mdc(3 × 2012, 2 × 2012 + 1) = mdc(3 × 2012 − (2 × 2012 + 1), 2 × 2012 + 1),


= mdc(2012 − 1, 2 × 2012 + 1),
= mdc(2012 − 1, 2 × 2012 + 1 − 2(2012 − 1)),
= mdc(2012 − 1, 3),
= mdc(2012 − 1 − 3 × 670, 3),
= mdc(2, 3) = 1.

Outra opção seria observar que o mdc procurado deve dividir o número 3(2 ×
2012 + 1) − 2(3 × 2012) = 3 e que 2 × 2012 + 1 não é múltiplo de 3.
(c)

240 + 1 8
 
32 24 16 8 8

mdc , 2 + 1 = mdc 2 + 2 + 2 + 2 + 1, 2 + 1 ,
28 + 1
= mdc (232 − 1) + (224 + 1) + (216 − 1) + (28 + 1) + 1, 28 + 1 ,


= mdc(1, 28 + 1) = 1.

10
POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel 2 - Aula 3 - Samuel Feitosa

24.

mdc(2n + 13, n + 7) = mdc(2n + 13 − 2(n + 7), n + 7),


= mdc(2n + 13 − 2(n + 7), n + 7),
= mdc(−1, n + 7) = 1

25.

mdc(12n + 1, 30n + 2) = mdc(12n + 1, 30n + 2 − 2(12n + 1)),


= mdc(12n + 1, 6n),
= mdc(12n + 1 − 2(6n), 6n),
= mdc(1, 6n) = 1

26. Seja f = mdc(a + b, c + d). Então f | d(a + b) − b(c + d) = 1 e consequentemente


f = 1.
27. Veja que

mdc(am − 1, an − 1) = mdc(am−n − 1 + (an − 1)am−n , an − 1)


= mdc(am−n − 1, an − 1)

O resultado segue aplicando o Algoritmo de Euclides aos expoentes.


28. Seja f = mdc(a + b, a2 − ab + b2 ). Então f | (a + b)2 − (a2 − ab + b2 ) = 3ab. Se
mdc(f, a) > 0, devemos ter mdc(f, b) > 0 pois f | a + b. O mesmo argumento vale
para mdc(f, b) > 0. Assim, mdc(f, a) = mdc(f, b) = 1. Portanto, f | 3.
30. Pelo lema de Euclides,

mdc(n! + 1, (n + 1)! + 1) = mdc(n! + 1, (n + 1)! + 1 − (n + 1)(n! + 1))


= mdc(n! + 1, −n)
= mdc(n! + 1 − n[(n − 1)!], −n) = 1

34. Sejam l = mmc{1, 2, . . . , n} e ai = l/i. A soma considerada é


a1 + a2 + . . . + an
.
l
Queremos analisar o expoente do fator 2 no numerador e no denominador. Seja k tal
que 2k ≤ n < 2k+1 . Então 2k ||l e ai é par para todo i 6= 2k . Como a2k é ı́mpar, segue
que o numerador é ı́mpar enquanto que o denominador é par. Consequentemente a
fração anterior não representa um inteiro.

11
36. Sejam d = mdc(a, b), a = dx, b = dy. Consequentemente mdc(x, y) = 1 e podemos
escrever a equação como:

1 1 1
+ = ⇒
a b c
bc + ac = ab
dyc + dxc = d2 xy
c(x + y) = dxy

Como mdc(xy, x + y) = 1 pois mdc(x, y) = 1, devemos ter xy | c e consequentemente


c = xyk. Assim, d = k(x + y). O conjunto solução é formado pelas triplas (a, b, c)
onde (a, b, c) = (kx(x + y), ky(x + y), xyk) com mdc(x, y) = 1 e x, y e k inteiros
positivos.

38. Use a identidade de Catalão:

1 1 1 1 1 1 1
1− + − + ... − = + + ... +
2 3 4 2n n+1 n+2 2n
1 1
Em seguida, agrupe os termos da forma + e analise o numerador da
n + i 2n − i + 1
fração obtida.

Referências
[1] S. B. Feitosa, B. Holanda, Y. Lima and C. T. Magalhães, Treinamento Cone Sul 2008.
Fortaleza, Ed. Realce, 2010.

[2] D. Fomin, A. Kirichenko, Leningrad Mathematical Olympiads 1987-1991, MathPro


Press, Westford, MA, 1994.

[3] D. Fomin, S. Genkin and I. Itenberg, Mathematical Circles, Mathematical Words, Vol.
7, American Mathematical Society, Boston, MA, 1966.

[4] I. Niven, H. S. Zuckerman, and H. L. Montgomery, An Introduction to the Theory of


Numbers.
Polos Olímpicos de Treinamento
Curso de Teoria dos Números - Nível 2 Aula 4
Prof. Samuel Feitosa

Números Primos, MDC e MMC.

Definição 1. Um inteiro p > 1 é chamado número primo se não possui um divisor d


satisfazendo 1 < d < p. Se um inteiro a > 1 não é primo, ele é chamado de número
composto. Um inteiro m é chamado de composto se |m| não é primo.

O próximo teorema nos diz que os primos são as ”peças”fundamentais dos números inteiros:

Teorema 2. Todo inteiro n, maior que 1, pode ser expresso como o produto de número
primo.

Demonstração. Se o inteiro n é um primo, então ele mesmo é o produto de um único fa-


tor primo. Se o inteiro n não é primo, existe uma decomposição do tipo: n = n1 n2 com
1 < n1 < n e 1 < n2 < n. Repetindo o argumento para n1 e n2 , podemos escrever n como
o produto de primos ou podemos obter parcelas menores escrevendo n como um produto
de naturais. Como não existe uma sucessão infinita de naturais cada vez menores, após um
número finito de operações desse tipo, poderemos escrever n como um produto de números
primos.

Quantos números primos existem?

Teorema 3. (Euclides) Existem infinitos números primos.

Demonstração. Suponha, por absurdo, que exita apenas uma quantidade finita de primos:
p1 , p2 , . . . , pn . Considere o número X = p1 p1 . . . pn + 1. Pelo teorema anterior, esse número
deve ser o produto de alguns elementos do conjunto de todos os números primos. Entre-
tanto, nenhum dos primos pi divide X.
Exemplo 4. Existe um bloco de 1000 inteiros consecutivos não contendo nenhum primo?
Sim. Um exemplo é o conjunto 1001! + 2, 1001! + 3, . . . , 1001! + 1001. Veja i | 1001! + i para
todo i = 2, 3, . . . , 1001.
POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel 2 - Aula 4 - Samuel Feitosa

Exemplo 5. (Torneio das Cidades) Existe um bloco de 1000 inteiros consecutivos contendo
apenas um primo?
Para cada bloco de 1000 números consecutivos, contemos sua quantidade de números pri-
mos. Por exemplo, no bloco 1, 2, 3, . . . , 1000, temos 168 números primos (mas só usaremos
o fato de que existem mais de dois primos nesse bloco). Comparando os blocos consecuti-
vos k + 1, k + 2, . . . , k + 1000 e k + 2, k + 3, . . . , k + 1001, ou o número de números primos
aumenta em uma unidade, ou fica constante ou diminui em uma unidade. Analisando to-
dos os blocos consecutivos desde 1, 2, . . . , 1000 até 1001! + 2, 1001! + 3, . . . , 1001! + 1001,
o número de números primos deve ser igual à 1 em algum deles. Para ver isso, usare-
mos um argumento de continuidade discreta: Começando com o número 168 e realizando
alterações de no máximo uma unidade na quantidade de primos em cada bloco, para che-
garmos no número 0, necessariamente deveremos passar pelo número 1 em algum momento.

Relembremos um importante resultado da aula passada:


Teorema 6. (Bachet- Bèzout) Se d = mdc(a, b), então existem inteiros x e y tais que
ax + by = d.
Proposição 7. Sejam a, b e c inteiros positivos com a | bc e mdc(a, b) = 1. Então, a | c.

Demonstração. Pelo teorema anterior, existem x e y inteiros tais que ax + by = 1. Assim,


acx + bcy = c. Como a | acx e a | bcy, podemos concluir que a | c.

Em particular, se p é um número primo e p | ab, então p | a ou p | b. Podemos usar esse


fato para garantir a unicidade em nosso primeiro teorema, obtendo o importante:
Teorema 8. (Teorema Fundamental da Aritmética) A fatoração de qualquer inteiro n > 1,
em fatores primos, é única a menos da ordem dos fatores.
Exemplo 9. (Rússia 1995) É possı́vel colocarmos 1995 números naturais ao redor de um
cı́rculo de modo que para quaisquer dois números vizinhos a razão entre o maior e o menor
seja um número primo?
Não, é impossı́vel. Suponha, por absurdo, que isso seja possı́vel e denotemos por
a
a0 , a1 , . . . , a1995 = a0 tais inteiros. Então, para k = 1, . . . , 1995, k−1
ak é primo ou o in-
verso de um primo. Suponha que a primeira situação ocorra m vezes e a segunda ocorra
1995 − m vezes entre esses quocientes. Como o produto de todos os números da forma
ak−1
ak , para k = 1, . . . , 1995 é igual à 1, podemos concluir que o produto de m primos deve
ser igual ao produto de 1995 − m primos. Em virtude da fatoração única, m = 1995 − m.
Um absurdo pois 1995 é ı́mpar.
Proposição 10. Se as fatorações em primos de n e m são:

n = pα1 1 pα2 2 . . . pαk k ,


m = pβ1 1 pβ2 2 . . . pβk k .

2
POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel 2 - Aula 4 - Samuel Feitosa

Então, mdc(m, n) = pγ11 pγ22 . . . pγkk e mmc(m, n) = pθ11 pθ22 . . . pθkk , onde γi é o menor dentre
{αi , βi } e θi é o maior dentre {αi , βi }.
Proposição 11. Se a e b são inteiros positivos, mostre que mmc(a, b)mdc(a, b) = ab.

Demonstração. Basta usar a proposição anterior e observar que:

max{x, y} + min{x, y} = x + y.

Exemplo 12. (Torneio das Cidades 1998) É possı́vel que mmc(a, b) = mmc(a + c, b + c)
para alguma conjunto {a, b, c} de inteiros positivos?
Não. Suponha que a + c e b + c possuem algum divisor primo p. Como p | mmc(a + c, b + c),
caso existam tais inteiros, devemos ter que p | mmc(a, b). Assim, usando que pelo menos
um dentre a e b é divisı́vel por p podemos concluir que c também é divisı́vel por p. Então,
podemos cancelar o fator p:
   
a b mmc(a, b) mmc(a + c, b + c) a+c b+c
mmc , = = = mmc , .
p p p p p p

Efetuando alguns cancelamentos, podemos supor então que a+c e b+c não possuem fatores
primos em comum. Obtivemos um absurdo pois:

mmc(a + c, b + c) = (a + c)(b + c) > ab ≥ mmc(a, b).

Exemplo 13. (OCM 2005) Determinar os inteiros n > 2 que são divisı́veis por todos os
primos menores que n.
Como mdc(n, n − 1) = 1, se n − 1 possui algum fator primo, ele não dividirá n. Assim,
n − 1 < 2. Consequentemente não existe tal inteiro.
Exemplo 14. Mostre que n4 + n2 + 1 é composto para n >1.
Veja que n4 + n2 + 1 = n4 + 2n2 + 1 − n2 = (n2 + 1)2 − n2 = (n2 + n + 1)(n2 − n + 1).
Para n > 1, n2 − n + 1 = n(n − 1) + 1 > 1 e assim n4 + n2 + 1 é o produto de dois inteiros
maiores que 1.
Exemplo 15. Mostre que n4 + 4n é composto para todo n > 1.
Se n é par, certamente o número em questão é divisı́vel por 4. Para o caso em que n é
impar, iremos usar a fatoração:

a4 + 4b4 = a4 + 4a2 b2 + 4b4 − 4a2 b2 = (a2 + 2b2 ) − 4b2 b2 = (a2 − 2ab + 2b2 )(a2 + 2ab + 2b2 ).

Para n da forma 4k + 1, faça a = n e b = 4k . Para n da forma 4k + 3, faça a = n e


b = 22k+1 .
Exemplo 16. Se 2n + 1 é um primo ı́mpar para algum inteiro positivo n, prove que n é uma
potência de 2.

3
POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel 2 - Aula 4 - Samuel Feitosa

Já vimos que an − 1 = (a − 1)(an−1 + an−2 + . . . + 1). Se n é impar,

(−a)n − 1 = (−a − 1)((−a)n−1 + (−a)n−2 + . . . + 1) ⇒


an + 1 = (a + 1)(an−1 − an−2 + . . . − a + 1)

Sendo assim, se n possuı́sse algum divisor primo ı́mpar p com n = pb, poderı́amos escrever:
2n + 1 = (a + 1)(an−1 − an−2 + . . . − a + 1), onde a = 2b . Como an−1 − an−2 + . . . − a + 1 > 1,
o número 2n + 1 não seria primo.
Exemplo 17. Dados que p, p + 10 e p + 14 são números primos, encontre p.
Vamos analisar os possı́veis restos na divisão por 3 de p. Se p deixa resto 1, então p + 14
é um múltiplo de 3 maior que 3 e consequentemente não poderá ser um número primo. Se
o resto é 2, então p + 10 é um múltiplo de 3 maior que 3 e também não poderá ser um
número primo. Assim, o resto de p por 3 é 0 e consequentemente p = 3.
n
Exemplo 18. (Áustria-Polônia) Dados naturais n e a > 3 ı́mpar, mostre que a2 − 1 tem
pelo menos n + 1 divisores primos distintos.
Usando a fatoração da diferença de quadrados, temos que:
k k−1 k−2
a2 − 1 = (a2 + 1)(a2 + 1) . . . (a + 1)(a − 1).
m k
Assim, a2 + 1 | a2 − 1 se k > m. Como a é impar, podemos concluir que:
k m k m m
mdc(a2 + 1, a2 + 1) = mdc(a2 − 1 + 2, a2 + 1) = mdc(2, a2 + 1) = 2.

Sendo assim, na fatoração:


n n−1 n−2
a2 − 1 (a2 + 1) (a2 + 1) (a + 1) (a − 1)
n
= ... ,
2 2 2 2 2
temos o produto de pelo menos n inteiros primos entre si e consequentemente seus fatores
2i
primos são distintos. Para cada termo (a 2+1) , temos um fator primo pi+1 diferente de 2.
n
Daı́, a2 − 1 possui pelo menos n + 1 fatores primos distintos, a saber, {2, p1 , p2 , . . . , pn }.
Exemplo 19. (Rioplatense 1999) Sejam p1 , p2 , . . . , pk primos distintos. Considere todos os
inteiros positivos que utilizam apenas esses primos (não necessariamente todos) em sua
fatoração em números primos, formando assim uma seqüência infinita

a1 < a2 < · · · < an < · · · .

Demonstre que, para cada natural c, existe um natural n tal que

an+1 − an > c.

4
POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel 2 - Aula 4 - Samuel Feitosa

Suponha, por absurdo, que exista c > 0 tal que an+1 − an ≤ c, ∀ n ∈ N. Isso significa que
as diferenças entre os termos consecutivos de (an )n≥1 pertencem ao conjunto {1, 2, . . . , c},
logo são finitas. Sejam d1 , d2 , . . . , dr essas diferenças. Seja αi o maior expoente de pi que
aparece na fatoração de todos os dj .

Considere então o número M = pα1 1 +1 pα2 2 +1 · · · pαk k +1 . É claro que M pertence à seqüência,
ou seja, M = an , para algum n. Vejamos quem será an+1 . Por hipótese, existe i tal que
an+1 − an = di . Como an+1 > an , existe um primo pj que divide an+1 com expoente maior
ou igual a αj + 1. Caso contrário,

an < an+1 < pα1 1 +1 pα2 2 +1 · · · pαk k +1 = an ,


α +1 α +1
absurdo. Daı́, pj j |an ⇒ pj j |di , novamente um absurdo, pela maximalidade de αj .

Logo, o conjunto de todas as diferenças não pode ser finito e, portanto, dado qualquer
c > 0, existe um natural n tal que an+1 − an > c.

Problemas Propostos

Problema 20. Dado que p, 2p + 1 e 4p2 + 1 são números primos, encontre p.


Problema 21. Dado o par de primos p e 8p2 + 1, encontre p.
Problema 22. Dado o par de primos p e p2 + 2, prove que p3 + 2 também é um número
primo.
Problema 23. Dado que p, 4p2 + 1 e 6p2 + 1 são números primos, encontre p.
n
Problema 24. Os números de Fermat são os números da forma 22 + 1. Prove que o
conjunto dos divisores primos dos termos da seqüência de Fermat é infinito.
Problema 25. Mostre que todo inteiro n pode ser escrito de maneira única na forma n = ab,
onde a é um inteiro livre de quadrado e b é um quadrado perfeito. Um inteiro é dito livre
de quadrado se não é divisı́vel por nenhum quadrado perfeito maior que 1.
Problema 26. Prove que todo primo maior que 3 é da forma 6k+1 ou 6k+5.
Problema 27. Prove que todo inteiro da forma 3k+2 tem um fator primo da mesma forma.
Problema 28. Prove que existem infinitos primos da forma 4k+3 e 6k +5.

Problema 29. Prove que se n é composto, então possui um fator primo p ≤ n.
Problema 30. (OBM 1998) São dados 15 números naturais maiores que 1 e menores que
1998 tais que dois quaisquer são primos entre si. Mostre que pelo menos um desses 15
números é primo.
Problema 31. Mostre que n|(n-1)! para todo número composto n.

5
POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel 2 - Aula 4 - Samuel Feitosa

Problema 32. Suponha que n >1. Mostre que a soma dos inteiros dos inteiros positivos
não excedendo n divide o produto dos inteiros positivos não excedendo n se, e somente se,
n é composto.
Exemplo 33. (Rússia 1995) Encontre todos os primos p para os quais p2 + 11 tenha exata-
mente seis divisores distintos, incluindo 1 e p2 + 11.
Problema 34. (Irlanda 2002 ) Encontre todas as soluções inteiras positivas de p(p + 3) +
q(q + 3) = n(n + 3), onde p, q são primos.
Exemplo 35. Prove que qualquer quadrado perfeito positivo tem mais divisores que deixam
resto 1 na divisão por 3 do que divisores que deixam resto 2 na divisão por 3.

Dicas e Soluções

19. Analisemos o resto de p na divisão por 3. Se p deixar resto 1, o número 2p + 1 será


divisı́vel por 3. Se p deixar resto 2, o número 4p + 1 será divisı́vel por 3. Em ambos
os casos, 2p + 1, 4p + 1 > 3 e obtemos assim um absurdo.

20. Analisemos o resto de p na divisão por 3. Se p deixa resto 1 ou 2, p2 deixa resto 1


e consequentemente 8p2 + 1 deixa resto 0 por 3 mas certamente é maior que 3. Um
absurdo, logo p = 3.

21. Analisemos o resto na divisão por 3. Se p não é múltiplo de 3, p2 + 2 é divisı́vel por


3 e maior que 3. Um absurdo, logo p = 3 e p3 + 2 = 29.

22. Analise os restos na divisão por 5.

23. Iremos usar a fatoração do exemplo 17:


n n−1 n−2
22 − 1 = (22 + 1)(22 + 1) . . . (2 + 1)(2 − 1).

Assim, se k > m,
k m k m m
mdc(22 + 1, 22 + 1) = mdc(22 − 1 + 2, 22 + 1) = mdc(2, 22 + 1) = 1,

produzindo que quaisquer dois números de Fermat distintos são primos entre si e isso
necessariamente implica que o conjunto de seus divisores primos é infinito.

24. Analise os restos na divisão por 2 e 3.

27. Tente imitar a prova de Euclides para a existência de infinitos primos.

29. Se n é composto, podemos escrever n = ab com 1 < a ≤ b ≤<. Assim, a2 ≤ n e



a ≤ n. Para terminar, basta considerar qualquer divisor primo de a.

30. Dado 1 < n < 1998, se ele não for primo, usando o exercı́cio anterior, ele tem que
ter um fator primo menor que 1998, ou seja, um fator primo menor que 45. Como só
existem 14 primos menores que 45, e são 15 números, um deles será primo.

6
31. Escreva n = ab e analise as aparições de a e b no produto (n − 1) · (n − 2) . . . 2 · 1.

33. Se p 6= 3, 3 | p2 + 11. Analogamente, se p 6= 2, 4 | p2 + 11. Assim, exceto nes-


ses dois casos, 12 | p2 + 11 e podemos encontrar mais que 6 divisores distintos:
{1, 2, 3, 4, 6, 12, p2 + 11}. Agora, teste p = 2 e p = 3 para verificar que p = 3 é a única
solução.

34. Seja
n = 3γ · pα1 1 · · · pαnn · q1β1 · · · qm
βm

a decomposição de n em fatores primos, onde cada pi deixa resto 1 por 3 e cada qj


deixa resto 2 por 3. Então

n2 = 32γ · p12α1 · · · pn2αn · q12β1 · · · qm


2βm
.

Um divisor de n2 deixa resto 1 por 3 se e somente se possuir uma quantidade par de


primos qj , contados com repetição. Mais especificamente, se e somente se a soma dos
expoentes de q1 , . . . , qm for par. Assim, a quantidade de divisores dessa forma é igual
a
 
1
D1 = (2α1 + 1) · · · (2αn + 1) (2β1 + 1)(2β2 + 1) · · · (2βm + 1) + 1 .
2
Enquanto para se obter um divisor que deixe resto 2 por 3, precisamos de uma
quantidade ı́mpar de fatores primos da forma 3k+2. Assim, a quantidade de divisores
dessa forma é:
 
1
D2 := (2α1 + 1)(2α2 + 1) · · · (2αn + 1) (2β1 + 1)(2β2 + 1) · · · (2βm + 1) .
2
Daı́, segue facilmente que D1 > D2 .

Referências
[1] E. Carneiro, O. Campos and F. Paiva, Olimpı́adas Cearenses de Matemática 1981-2005
(Nı́veis Júnior e Senior), Ed. Realce, 2005.

[2] S. B. Feitosa, B. Holanda, Y. Lima and C. T. Magalhães, Treinamento Cone Sul 2008.
Fortaleza, Ed. Realce, 2010.

[3] D. Fomin, A. Kirichenko, Leningrad Mathematical Olympiads 1987-1991, MathPro


Press, Westford, MA, 1994.

[4] D. Fomin, S. Genkin and I. Itenberg, Mathematical Circles, Mathematical Words, Vol.
7, American Mathematical Society, Boston, MA, 1966.

[5] I. Niven, H. S. Zuckerman, and H. L. Montgomery, An Introduction to the Theory of


Numbers.
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Curso de Teoria dos Números - Nível 2 Aula 6
Prof. Samuel Feitosa

Congruências I

Definição 1. Dizemos que os inteiros a e b são congrentes módulo m se eles deixam o


mesmo resto quando divididos por m. Denotaremos isso por a ≡ b (mod m).
Por exemplo, 7 ≡ 2 (mod 5), 9 ≡ 3 (mod 6), 37 ≡ 7 (mod 10) mas 5 6≡ 3 (mod 4). Veja
que a ≡ b (mod m) se, e somente se, m | a − b.
Teorema 2. Se a ≡ b (mod m) e c ≡ d (mod m), então:

i) a + c ≡ b + d (mod m)

ii) a − c ≡ b − d (mod m)

iii) ka ≡ kb (mod m) ∀k ∈ Z

iv) ac ≡ bd (mod m)

v) ak ≡ bk (mod m) ∀k ∈ N

vi) Se mdc(k, m) = d, então ka ≡ kb (mod m) ⇔ a ≡ b (mod m/d)

Demonstração. Sejam q1 e q2 tais que:

a − b = q1 m
c − d = q2 m

Então, (a + c) − (b + d) = (q1 + q2 )m. Logo, a + c e b + d deixam o mesmo resto por m e


consequentemente a + c ≡ b + d (mod m). Usando que a − b (mod a)k − bk e que m | a − b,
concluı́mos que m (mod a)k − bk . Os demais itens serão deixados para o leitor.

Em termos práticos, podemos realizar quase todas as operações elementares envolvendo


igualdade de inteiros. Uma das diferenças cruciais é a operação de divisão como mostra o
último item do teorema anterior.
POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel 2 - Aula 5 - Samuel Feitosa

Exemplo 3. Calcule o resto de 4100 por 3.


Como 4 ≡ 1 (mod 3), temos 4100 ≡ 1100 = 1 (mod 3).
Exemplo 4. Calcule o resto de 4100 por 5.
Como 4 ≡ −1 (mod 5), temos 4100 ≡ (−1)100 = 1 (mod 5).
Exemplo 5. Calcule o resto de 4100 por 7.
Você deve ter percebido que encontrar relações do tipo a ≡ ±1 (mod m) podem simplificar
bastante o cálculo de ak (mod m). Procuremos alguma relação como essa para 4 e 7. Veja
que:
40 ≡ 1 (mod 7), 41 ≡ 4 (mod 7), 42 ≡ 2 (mod 7), 43 ≡ 1 (mod 7).
Assim,
499 = (43 )33 ≡ 133 = 1 (mod 7).
Como 43 ≡ 1 (mod 7), os restos das potências de 4 na divisão por 7 se repetem periodica-
mente de 3 em 3 pois 43k+r ≡ 43k · 4r ≡ 4r (mod 7).
Exemplo 6. Qual o resto de 3636 + 4141 na divisão por 77?
Inicialmente devemos perceber que existe uma relação entre os números do problema: 36 +
41 = 77. Assim:

−36 ≡ 41 (mod 77),


(−36)41 ≡ 4141 (mod 77),
36 5 36
36 (1 − 36 ) ≡ 36 + 4141 (mod 77).

Nosso próximo passo é encontrar o resto de 365 na divisão por 77. Como 36 ≡ 1 (mod 7),
365 ≡ 1 (mod 7). Além disso, 36 ≡ 3 (mod 1)1 produzindo 365 ≡ 35 ≡ 1 (mod 1)1.
Como mdc(7, 11) = 1 e ambos dividem 365 − 1, podemos concluir que 77 | 365 − 1. Logo,
3636 + 4141 deixa resto 0 na divisão por 77.
Exemplo 7. Prove que p2 − 1 é divisı́vel por 24 se p é um primo maior que 3.
Se p é um primo maior que 3, p ≡ ±1 (mod 3) e p ≡ 1 (mod 2). Daı́, p2 ≡ 1 (mod 3).
Além disso, se p = 2k + 1, segue que p2 = 4k(k + 1) + 1 ≡ 1 (mod 8) pois k(k + 1) é par.
Como mdc(8, 3) = 1 e ambos dividem p2 − 1, segue que 24 | p2 − 1.
Exemplo 8. (OCM-2001) Achar o menor natural n tal que 2001 é a soma dos quadrados
de n inteiros
Podemos concluir da solução do problema anterior que todo todo inteiro ı́mpar ao quadrado
deixa resto 1 por 8. Usemos isso para estimar o valor de n. Sejam x1 , x2 , . . . , xn inteiros
ı́mpares tais que:
x21 + x22 + . . . x2n = 2001.

2
POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel 2 - Aula 5 - Samuel Feitosa

Analisando a congruência módulo 8, obtemos:

x21 + x22 + . . . x2n = 2001 (mod 8)


1 + 1 + ... + 1 ≡ 1 (mod 8)
n ≡ 1 (mod 8)

Como 2001 não é quadrado perfeito, não podemos ter n = 1. O próximo candidado para
n seria 1 + 8 = 9. Se exibirmos um exemplo para n = 9, teremos achado o valor mı́nimo.
Veja que:
2001 = 432 + 112 + 52 + 12 + 12 + 12 + 12 + 12 + 12 .
Exemplo 9. (IMO) Seja s(n) a soma dos dı́gitos de n. Se N = 44444444 , A = s(N ) e
B = s(A). Quanto vale s(B)?
Pelo critério de divisibilidade por 9, N ≡ A ≡ B (mod 9). Inicialmente calculemos o
resto de N por 9. Como 4444 ≡ 16 ≡ 7 (mod 9), precisamos encontrar 74444 (mod 9).
Seguindo os métodos dos primeiros exemplos, seria interessante encontrarmos um inteiro r
tal que 7r ≡ ±1 (mod 9). O menor inteiro positivo com essa propriedade é r = 3. Como
4444 = 1481 · 3 + 1, temos:

74444 ≡ 71481·3+1 ≡ (73 )1481 · 7 ≡ 7 (mod 9).

Nosso próximo passo é estimar o valor de s(B). Como N = 44444444 < 105·4444 , A =
s(N ) ≤ 5 · 4444 · 9 = 199980. Além disso, B = s(A) ≤ 1 + 9 · 5 = 46 e s(B) ≤ 12. O único
inteiro menor ou igual a 12 com resto 7 por 9 é o próprio 7, daı́ s(B) = 7.
Exemplo 10. Prove que 11n+2 + 122n+1 é divisı́vel por 133 para qualquer natural n.
Duas relações que podemos extrair dos números envolvidos são: 144−11 = 133 e 133−12 =
121. Assim:

144 ≡ 11 (mod 133),


122 ≡ 11 (mod 133),
122n ≡ 11n (mod 133),
2n+1 n
12 ≡ 11 · 12 (mod 133),
122n+1
≡ 11 · (−121) + 133 · 11n
n
(mod 133),
2n+1 n+2
12 ≡ −11 (mod 133).

Exemplo 11. Prove que n5 + 4n é divisı́vel por 5 para todo inteiro n


Inicialmente note que n5 + 4n = n(n4 + 4). Se n ≡ 0 (mod 5), não há o que fazer. Se
n ≡ ±1 (mod 5), n4 +4 ≡ 1+4 = 0 (mod 5). Finalmente, se n ≡ ±2 (mod 5), n2 ≡ 4 ≡ −1
(mod 5) e consequentemente n4 + 4 ≡ 1 + 4 = 0 (mod 5).
Exemplo 12. Seja n > 6 um inteiro positivo tal que n − 1 e n + 1 são primos. Mostre que
n2 (n2 + 16) é divisı́vel por 720. A recı́proca é verdadeira?

3
POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel 2 - Aula 5 - Samuel Feitosa

Veja que n é da forma 6k, pois n − 1 e n + 1 são primos maiores que 3, portanto da forma
6k − 1 e 6k + 1, respectivamente. Logo,

n2 (n2 + 16) = 144(9k 4 + 4k 2 ).

Resta provar que 9k 4 + 4k 2 é um múltiplo de 5. Vamos analisar a igualdade acima módulo


5.

i) Se k ≡ 0, 2 ou 3 (mod 5), temos 9k 4 + 4k 2 ≡ 0 (mod 5);

ii) Se k ≡ 1 (mod 5) ⇒ n ≡ 1 (mod 5), temos n − 1 ≡ 0 (mod 5), um absurdo;

iii) Se k ≡ 4 (mod 5) ⇒ n ≡ 4 (mod 5), temos n+1 ≡ 0 (mod 5), novamente um absurdo.

Isso conclui a demonstração. A recı́proca não é verdadeira. Basta tomar, por exemplo,
n = 90.

Problemas Propostos

Problema 13. Determine o resto de 220 − 1 na divisão por 41.


Problema 14. Qual o resto de 12000 + 22000 + . . . + 20002000 na divisão por 7?
Problema 15. Qual o resto na divisão de 270 + 370 por 13?
Problema 16. Qual o resto de 3200 por 100?
Problema 17. (Estônia 2000) Determine todos os possı́veis restos da divisão do quadrado
de um número primo com o 120 por 120.
Problema 18. Qual o último dı́gito de 777777 ?
Exemplo 19. Prove que 22225555 + 55552222 é divisı́vel por 7.
Problema 20. Prove que o número n3 + 2n é divisı́vel por 3 para todo natural n.
Problema 21. Prove que n2 + 1 não é divisı́vel por 3 para nenhum n inteiro.
Problema 22. Prove que n3 + 2 não é divisı́vel por 9 para nenhum n inteiro.
Problema 23. Prove que p2 − q 2 é divisı́vel por 24 se p e q são primos maiores que 3.
Problema 24. Prove que se 2n + 1 e 3n + 1 são ambos quadrados perfeitos, então n é
divisı́vel por 40.
Problema 25. Se n é ı́mpar, prove que 7|22n+1 + 3n+2 .
Problema 26. Seja d(n) a soma dos dı́gitos de n. Suponha que n + d(n) + d(d(n)) = 1995.
Quais os possı́veis restos da divisão de n por 9?
Problema 27. Prove que não existem inteiros positivos x1 , x2 , . . . , x14 tais que:

x41 + x42 + . . . + x414 = 1599.

4
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Problema 28. Escreva uma única congruência que é equivalente ao par de congruências
x ≡ 1 (mod 4) e x ≡ 2 (mod 3).
Problema 29. Prove que 2015 − 1 é divisı́vel por 11 · 31 · 61
Problema 30. (Alemanha 1997) Determine todos os primos p para os quais o sistema
p + 1 = 2x2
p2 + 1 = 2y 2
tem uma solução nos inteiros x, y.
Problema 31. Mostre que se n divide um número de Fibonacci então ele dividirá uma
infinidade.
Dicas e Soluções

13. Veja que


25 = 32 ≡ −9 (mod 41) ⇒
210 ≡ 81 ≡ −1 (mod 42) ⇒
220 ≡ 1 (mod 41).
Assim, o resto procurado é zero.
14. Como i2000 ≡ (i + 7k)2000 (mod 7), podemos simplificar o problema calculando pri-
meiramente o valor de:
12000 + 22000 + 32000 + 42000 + 52000 + 62000 + 72000 (mod 7).
Outra observação importante que simplificará o cálculo é perceber que 23 ≡ 1 (mod 7).
Assim,
23k ≡ 1 (mod 7), 23k+1 ≡ 2 (mod 7), e 23k+2 ≡ 4 (mod 7).
Usando isso e o fato de que 2000 é par, temos:
12000 + 22000 + 32000 + 42000 + 52000 + 62000 + 72000 ≡
12000 + 22000 + (−4)2000 + 42000 + (−2)2000 + (−1)2000 + 02000 ≡
≡ 1+4+2+2+4+1+0
≡ 0 (mod 7).
Dentre os primeiros 2000 naturais consecutivos, podemos formar 285 grupos de 7
números consecutivos cuja soma é múltipla de 7, em virtude da soma anterior. Os
cinco números restantes possuem como resto na divisão por 7 o número:
19962000 + 19972000 + 19982000 + 19992000 + 20002000 ≡ 1 + 4 + 2 + 2 + 4
≡ 6 (mod 7).
Assim, o resto da soma na divisão por 7 é 6.

5
POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel 2 - Aula 5 - Samuel Feitosa

15. Inicialmente é interessante buscarmos alguma relação entre os números envolvidos no


problema. Como 13 = 4 + 9, podemos escrever:
9 ≡ −4 (mod 13) ⇒
35
9 ≡ (−4)35 (mod 13) ⇒
70 70
3 +2 ≡ 0 (mod 13).

17. Use a fatoração 120 = 3 · 5 · 23 e analise a congruência módulo 3, 5 e 8 separadamente.


18. Se n não é múltiplo de 3, sabemos que n2 ≡ 1 (mod 3). Assim n2 + 2 ≡ 0 (mod 3).
Se n é múltiplo de 3, n ≡ 0 (mod 3). Em qualquer caso, n(n2 + 2) ≡ 0 (mod 3).
19. Basta repetir a análise do problema anterior
20. Podemos montar uma tabela de congruências na divisão por 9:
n 0 1 2 3 4 5 6 7 8
n3 0 1 8 0 1 8 0 1 8

Como nenhum cubo perfeito diexa resto 7 na divisão por 9, n3 + 2 6≡ 0 (mod 9).
23. Proceda como no exemplo 7.
25.
22n+1 + 3n+2 ≡ 4n · 2 + 3n · 9
≡ (−3)n · 2 + 3n · 2
≡ 0 (mod 7).

26. Seja r o resto na divisão por 9 de n. Pelo critério de divisibilidade por 9, temos:
n + d(n) + d(d(n)) ≡ 3r ≡ 1995 (mod 9).

Assim, r ≡ 2 (mod 3) (Pela propriedade vi do teorema 2). Além disso,


n ≤ 1995 ⇒
d(n) ≤ 27 = d(1989) ⇒
d(d(n)) ≤ 10 = d(19).

Consequentemente, n ≥ 1995 − d(n) − d(d(n)) ≥ 1958. Basta procurarmos nos


conjunto {1958, 1959, . . . , 1995} os inteiros que deixam resto 2 por 3 e que satisfazem
a equação do problema. Nesse conjunto, apena o inteiro 1967 cumpre essas condições.
27. Estudando a congruência módulo 16, podemos mostrar que x4 ≡ 0 ou 1 (mod 1)6.
Assim, a soma
x41 + x42 + . . . + x414
é congruente a um dos números do conjunto {0, 1, . . . , 14} m odulo 16 enquanto que
1599 ≡ 15 (mod 16). Um absurdo.

6
28. x ≡ 5 (mod 12).

30. Suponha sem perda de generalidade que x, y ≥ 0. Como p + 1 é par, p 6= 2. Além


disso,
2x2 ≡ 1 ≡ 2y 2 (mod p)
e consequentente, usando que p é ı́mpar, x ≡ ±y (mod p). Como x < y < p, temos

p2 + 1 = 2(p − x)2 = 2p2 − 4px + p + 1,

de modo que p = 4x − 1, 2x2 = 4x. Podemos concluir que x é 0 ou 2 e que a única


possibilidade para p é p = 7.

31. Em virtude da fórmula recursiva da sequência de Fibonacci, é possı́vel mostrarmos


que os restos de seus termos na divisão por qualquer número formam uma sequência
periódica.

Referências
[1] E. Carneiro, O. Campos and F. Paiva, Olimpı́adas Cearenses de Matemática 1981-2005
(Nı́veis Júnior e Senior), Ed. Realce, 2005.

[2] S. B. Feitosa, B. Holanda, Y. Lima and C. T. Magalhães, Treinamento Cone Sul 2008.
Fortaleza, Ed. Realce, 2010.

[3] D. Fomin, A. Kirichenko, Leningrad Mathematical Olympiads 1987-1991, MathPro


Press, Westford, MA, 1994.

[4] D. Fomin, S. Genkin and I. Itenberg, Mathematical Circles, Mathematical Words, Vol.
7, American Mathematical Society, Boston, MA, 1966.

[5] I. Niven, H. S. Zuckerman, and H. L. Montgomery, An Introduction to the Theory of


Numbers.
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Prof. Samuel Feitosa

Congruências II

Na aula de hoje, aprenderemos um dos teoremas mais importantes do curso: o ”pe-


queno”teorema de Fermat. Começaremos relembrando um resultado da aula passada:
Lema 1. Se ka ≡ kb (mod m) e mdc(m, k) = 1, então a ≡ b (mod m).
Demonstração. Como m | k(a − b) e mdc(m, k) = 1, segue que m | a − b.
Teorema 2. (Teorema de Fermat) Seja p um primo. Se p não divide a então
ap−1 ≡ 1 (mod p).
Além disso, para todo inteiro a, ap ≡ a (mod p)
Demonstração. Considere o conjunto de inteiros B = {a, 2a, 3a, . . . , (p − 1)a} onde a é um
inteiro satisfazendo mdc(a, p) = 1. Nenhum deles é divisı́vel por p e quaisquer dois deles
são incongruentes módulo p, em virtude do lema anterior. Assim, o conjunto dos restos
dos elementos de B coincide com o conjunto dos restos não nulos na divisão por p, a saber,
{1, 2, 3, . . . , p − 1}. Portanto,
a · 2a · 3a . . . (p − 1)a ≡ 1 · 2 · 3 · . . . (p − 1) (mod p),
p−1
a (p − 1)! ≡ (p − 1)! (mod p).

Podemos cancelar o termo (p − 1)! em ambos os lados pois mdc((p − 1)!, p) = 1, concluindo
assim a demonstração do teorema.
n5 n3 7n
Exemplo 3. Prove que + + é um inteiro para todo inteiro n.
5 3 15
n5 n3 7n 3n5 + 5n3 + 7n
Primeiramente note que + + = . Como mdc(3, 5) = 1, basta
5 3 15 15
mostrarmos que o numerador é mútiplo de 3 e 5. Pelo teorema de Fermat:
3n5 + 5n3 + 7n ≡ 5n3 + 7n ≡ 5n + 7n = 12n ≡ 0 (mod 3),
3n5 + 5n3 + 7n ≡ 3n5 + 7n ≡ 3n + 7n = 10n ≡ 0 (mod 5).
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Problema 4. Mostre que n7 ≡ n (mod 42), ∀n ∈ N


Pelo teorema de Fermat,
n7 ≡ n (mod 7)
7
n ≡ (n ) · n ≡ n2 · n = n3 ≡ n
3 2
(mod 3)
7
n ≡ (n ) · n ≡ n · n = (n ) ≡ n2 ≡ n
2 3 3 2 2
(mod 2)

Como 2, 3 e 7 são primos entre si, n7 ≡ n (mod 2 · 3 · 7 = 42).


Exemplo 5. (Bulgária 95) Encontre o número de inteiros n > 1 para os quais o número
a25 − a é divisı́vel por n para cada inteiro a.
Se n satisfaz o enunciado, p2 (p primo) não pode dividı́-lo, pois p25 − p não é divisı́vel
por p2 . Assim, n é múltiplo de primos diferentes. Os fatores primos de n são fatores de
225 − 2 = 2 · 32 · 5 · 7 · 13 · 17 · 241. Entretanto, n não é divisı́vel por 17 e 241 pois 325 ≡ −3
(mod 17) e 325 ≡ 32 (mod 241). Seguindo o exemplo anterior, podemos usar o teorema de
Fermat para mostrar que a25 ≡ a (mod p) para p ∈ {2, 3, 5, 7, 13}. Portanto, n deve ser
igual a um dos divisores de 2 · 3 · 5 · 7 · 13 diferente de 1. A quantidade de tais divisores é
25 − 1 = 31.
Exemplo 6. Prove que para cada primo p, a diferença
111 . . . 11222 . . . 22333 . . . 33 . . . 888 . . . 88999 . . . 99 − 123456789
(onde cada digito está escrito exatamente p vezes) é múltiplo de p.
Uma boa maneira de associar os números do problema com o teorema de Fermat é perceber
que:
10p − 1
111 . . . 11 = .
| {z } 9
p uns

Assim, podemos escrever o número S = 111 . . . 11222 . . . 22333 . . . 33 . . . 888 . . . 88999 . . . 99


como:
10p − 1 10p − 1 10p − 1
S = · 108p + 2 · · 107p + . . . 9 ·
9 9 9
9S = (10p − 1) · 108p + 2 · (10p − 1) · 107p + . . . 9 · (10p − 1)

Para p = 2 ou p = 3, o resultado do enunciado segue dos critérios de divisibilidade por 2 e


3. Podemos então nos concentrar no caso p > 3. Nesse caso, é suficiente mostrarmos que
9(S − 123456789) é divisı́vel por p pois mdc(p, 9) = 1. Pelo teorema de Fermat:

9S = (10p − 1) · 108p + 2 · (10p − 1) · 107p + . . . 9 · (10p − 1)


≡ (10 − 1) · 108 + 2 · (10 − 1) · 107 + . . . 9 + ·(10 − 1) (mod p)
≡ 9 · 123456789 (mod p).

2
POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel 2 - Aula 5 - Samuel Feitosa

Exemplo 7. Dado um primo p, prove que existem infinitos naturais n tais que p divide
2n − n.
Se p = 2, n pode ser qualquer número par. Suponha que p > 2. Considere (p − 1)2k , pelo
teorema de Fermat temos:
2k 2k−1 2k−1
2(p−1) ≡ (2p−1 )(p−1) ≡ 1(p−1) = 1 ≡ (p − 1)2k (mod p).
Assim, para qualquer k, n = (p − 1)2k satisfaz o problema.
Lema 8. Se mdc(a, m) = 1 então existe um inteiro x tal que
ax ≡ 1 (mod m).
Tal x é único módulo m. Se mdc(a, m) > 1 então não existe tal x.

Demonstração. Pelo teorema de Bachet-Bézout, existem inteiros x e y tais que ax+my = 1.


Analisando essa congruência módulo m, obtemos ax ≡ 1 (mod m). Se y é outro inteiro
que satisfaz a congruência, temos ax ≡ ay (mod m). Pelo primeiro lema, x ≡ y (mod m).
Se d = mdc(a, m) > 1, não podemos ter d | m e m | ax − 1 pois d ∤ ax − 1.
Teorema 9. (Teorema de Wilson) Se p é primo, então
(p − 1)! ≡ −1 (mod p)
Demonstração. Em virtude do lema anterior, para cada a ∈ {2, 3, . . . , p − 2}, existe um
resto x ∈ {0, 1, 2, . . . , p − 1} tal que ax ≡ 1 (mod p). Se x = 1 ou x = p − 1, terı́amos a = 1
ou p − 1. Além disso, não podemos ter a = x pois os únicos restos que satisfazem a2 ≡ 1
(mod p) são 1 e p − 1 (Veja o problema 20). Com isso, podemos agrupar os números de
{2, 3, . . . , p − 2} em pares onde o produto deixa resto 1 por p, o que nos permite concluir
que o produto de todos eles também deixa resto 1 por p. Logo,
(p − 1)! ≡ 1 · (p − 1) ≡ −1 (mod p).
Exemplo 10. (Estônia 2000) Prove que não é possı́vel dividir qualquer conjunto de 18
inteiros consecutivos em dois conjuntos disjuntos A e B tais que o produtos dos elementos
de A seja igual ao produto dos elementos de B.
Suponha, por absurdo, que existam tais conjuntos. Considere o primo p = 19. Como o
produtos dos elementos de A é igual ao produtos dos elementos de B, se um dos conjuntos
contém um múltiplo de 19, o outro necessariamente também conterá. Como entre 18
inteiros consecutivos não existem dois múltiplos de 19, nenhum dos conjuntos do problema
contém tais números. Seja x o resto na divisão por 19 dos produtos dos elementos de A.
Calculemos então o resto na divisão por 19 do produto de todos os 18 inteiros consecutivos:
x · x ≡ n(n + 1)(n + 2)(n + 3) . . . (n + 17)
≡ 1 · 2 · 3 . . . · 18
≡ −1 (mod 19)(Pelo teorema de Wilson).
Como x2 ≡ −1 (mod 19), x18 ≡ (−1)9 ≡ 1 (mod 1)9. Isso contraria o teorema de Fermat
e obtemos um absurdo.

3
POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel 2 - Aula 5 - Samuel Feitosa

Definição 11. Um conjunto S é chamado de sistema completo de resı́duos módulo n, de-


notado abreviadamente por scr, se para cada 0 ≤ i ≤ n − 1, existe um elemento de s ∈ S
tal que i ≡ s (mod n). Para qualquer a, o conjunto {a, a + 1, a + 2, . . . , a + (n − 1)} é um
exemplo de scr.
Exemplo 12. Se mdc(m, s) = 1, mostre que {t, t + s, t + 2s, . . . t + (m − 1)s} é um scr.
Pelo primeiro lema, se t + is ≡ t + js (mod m), temos is ≡ js (mod m) e i ≡ j (mod m).
Como i, j ∈ {0, 1, . . . , m − 1}, i = j. Isso nos diz que temos m inteiros que deixam restos
distintos na divisão por m. Como existem exatamente m restos na divisão por m, o conjunto
é um scr.
Exemplo 13. Seja m um inteiro positivo par. Suponha que {a1 , a1 , . . . , am } e {b1 , b2 , . . . , bm }
são dois sistemas completos de resı́duso módulo m. Prove que

S = {a1 + b1 , a2 + b2 , . . . , am + bm }

não é um sistema completo de resı́duos.


Suponha que S seja um scr, então:

1 + 2 + . . . + m ≡ (a1 + b1 ) + (a2 + b2 ) + . . . + (an + bn ) (mod m)


≡ (a1 + a2 + . . . + an ) + (b1 + b2 + . . . + bn )
≡ 2(1 + 2 + . . . + n)
≡ 2(1 + 2 + . . . + m)

m(m + 1) m+1
Isso implica que m | , ou seja, é inteiro. Um absurdo pois m é par.
2 2
Exemplo 14. (Polônia 1997) Prove que a sequência an definida por a1 = 1 e

an = an−1 + a n 
2
contém infinitos termos divisı́veis por 7.
Uma maneira natural para mostrarmos que existem infinitos inteiros múltiplos de 7 na
sequência é verificar que o aparecimento de um múltiplo de 7 acarreta o aparecimento de
outro múltiplo na sequência com um ı́ndice maior. Suponha que ak é múltiplo de 7. Seja
a2k−1 = s. Então:

a2k−1 = s
a2k = s + ak ≡ s (mod 7)
a2k+1 = a2k + ak ≡ s (mod 7)

4
POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel 2 - Aula 5 - Samuel Feitosa

Ou seja, o aparecimento de um inteiro múltiplo de 7 implica no aparecimento de 3 inteiros


com o mesmo resto por 7. Exploremos essa ideia mais uma vez.

a4k−3 = t
a4k−2 ≡ t + a2k−1 ≡ t + s (mod 7)
a4k−1 ≡ t + s + a2k−1 ≡ t + 2s (mod 7)
a4k ≡ t + 2s + a2k ≡ t + 3s (mod 7)
a4k+1 ≡ t + 3s + a2k ≡ t + 4s (mod 7)
a4k+2 ≡ t + 4s + a2k+1 ≡ t + 5s (mod 7)
a4k+3 ≡ t + 5s + a2k+2 ≡ t + 6s (mod 7)

Se s é múltiplo de 7, já teremos conseguido outro múltiplo de 7 na sequência. Em caso


contrário, o conjunto {t, t + s, t + 2s, . . . , t + 6s} é um scr e conterá um múltiplo de 7.
Exemplo 15. Sejam x, y inteiros. Prove que 3x2 + 4y 2 e 4x2 + 3y 2 não podem ser ambos
quadrados perfeitos.

Comecemos com um lema bastante útil:


Lema 16. Seja p um número primo da forma 4k + 3. Então

p | m2 + n2 ⇐⇒ p | m e p | n.

Façamos inicialmente a primeira implicação. Se p ∤ m, então mp−1 ≡ 1 (mod p), e daı́


temos as equivalências módulo p

n2 ≡ −m2
⇒ (nmp−2 )2 ≡ −(mp−1 )2
≡ −1
p−1
p−2
⇒ (nm ) p−1 ≡ (−1) 2
≡ (−1)2k+1
≡ −1,

o que contraria o teorema de Fermat. Assim, p | m e p | n.

A recı́proca é óbvia. Voltando ao problema, suponha que existam w, z inteiros positivos


tais que

3x2 + 4y 2 = w2 e
2 2 2
4x + 3y = z .

Então 7x2 + 7y 2 = w2 + z 2 (∗). Afirmamos que a equação (∗) não possui solução. Para isso,
seja S o conjunto formado pelas soluções inteiras (x, y, w, z) de (∗), e tome (a, b, c, d) ∈ S

5
POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel 2 - Aula 5 - Samuel Feitosa

com c2 + d2 mı́nimo. Pelo lema, temos que 7|c e 7|d, e daı́ c = 7c′ e d = 7d′ . Mas então
a2 + b2 = 7c′2 + 7d′2 ⇒ (c′ , d′ , a, b) ∈ S, com

a2 + b2 < 7(a2 + b2 ) = c2 + d2 ,

o que contraria a minimalidade de (a, b, c, d).

Problemas Propostos

Problema 17. Prove que se p é primo então

a p ≡ bp (mod p) ⇒ ap ≡ bp (mod p2 )

Problema 18. Encontre os restos da divisões de:

a) 3003000 − 1 por 1001

b) 7120 − 1 por 143

Problema 19. Encontre o resto de 111


| {z. . . 11} por p, onde p é um primo maior que 5.
p−1 uns

Problema 20. Prove que se n é ı́mpar, então n5 ≡ n (mod 240).


Problema 21. Sejam p e q primos distintos. Mostre que

i) (a + b)p ≡ ap + bp (mod p)

ii) pq + q p ≡ p + q (mod pq)


 q 
p + pq
iii) é par se p, q 6= 2.
pq

Problema 22. Mostre que se p é primo e a2 ≡ b2 (mod p), então a ≡ ±b (mod p).
Problema 23. Encontre os últimos três dı́gitos de 79999
Problema 24. Prove que 2015 − 1 é divisı́vel por 11 · 31 · 61
Problema 25. Sejam {a1 , a2 , ..., a101 } e {b1 , b2 , ..., b101 } sistemas completos de resı́duos
módulo 101. Pode {a1 b1 , a2 b2 , ..., a101 b101 } ser um sistema completo de resı́duos módulo
101?
Problema 26. (Balcânica 2003) Existe um conjunto B de 4004 inteiros positivos tal que,
para cada subconjunto A de B com 2003 elementos, a soma dos elementos em A não é
divisı́vel por 2003?
Problema 27. Para um inteiro ı́mpar n > 1, seja S o conjunto de inteiros x,1 ≤ x ≤ n,
tal que ambos x e x + 1 são relativamente primos com n. Mostre que o produto de todos
os elementos de S deixa resto 1 na divisão por n.

6
POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel 2 - Aula 5 - Samuel Feitosa

Problema 28. Sejam n um inteiro positivo maior que 1 e p um primo positivo tal que n
divide p − 1 e p divide n3 − 1. Mostre que 4p − 3 é um quadrado perfeito.

Dicas e Soluções

17. Pelo teorema de Fermat, a ≡ ap ≡ bp ≡ b (mod p). Assim,

ap−1 + ap−2 b + . . . + abp−2 + bp−1 ≡ ap−1 + ap−1 + . . . + ap−1


≡ pap−1
≡ 0 (mod p)

Como a − b ≡ 0 (mod p), temos:

ap − bp = (a − b)(ap−1 + ap−2 b + . . . + abp−2 + bp−1 ) ≡ 0 (mod p2 )

19. Veja que:


999 . . . 99
111 . . . 11} =
| {z 9
p−1 uns
10p−1 − 1
=
9
Pelo teorema de Fermat, o numerador 10p−1 − 1 é divisı́vel por p visto que p 6= 5.
p−1
Além disso, usando que p 6= 2 e 3, segue que 10 9 −1 também é múltiplo de p.

20. Proceda como no exemplo 20.

21. i)Pelo teorema de Fermat:

(a + b)p ≡ a + b
≡ a p + bp (mod p).

ii) Pelo teorema de Fermat,

pq + q p ≡ 0 + q ≡ p + q (mod p)
q p
p +q ≡ p+0≡p+q (mod q)

22. Veja que (a − b)(a + b) ≡ 0 (mod p) e assim a − b ≡ 0 (mod p) ou a + b ≡ 0 (mod p).

25. Suponha, por abusurdo, que seja possı́vel. Sejam ai e bj tais que ai ≡ bj ≡ 0
(mod 101). Se i 6= j, o conjunto {a1 b1 , a2 b2 , ..., a101 b101 } teria dois inteiros com resto

7
POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel 2 - Aula 5 - Samuel Feitosa

0 na divisão por p e não poderia ser um scr. Suponha sem perda de generalidade que
i = j = 101, então:

100! ≡ (a1 b1 )(a2 b2 ) . . . (a100 b100 )


≡ (a1 a2 . . . a100 )(b1 b2 . . . b100 )
≡ (100!)(100!)
≡ (100!)2 (mod 101)

Assim, 100! ≡ 1 (mod 101). Isso contradiz o teorema de Wilson.

26. Sim. Um exemplo de tal conjunto é a união de um conjunto de 2002 inteiros positivos
que deixem resto 0 com outro conjunto composto por 2002 inteiros que deixem resto
1 por 2003.

8
Polos Olímpicos de Treinamento
Curso de Teoria dos Números - Nível 2 Aula 7
Prof. Samuel Feitosa

Aula de Revisão e Aprofundamento

Observação 1. É recomendável que o professor instigue seus alunos a pensarem nos pro-
blemas abaixo antes de resolvê-los na aula.
N2 + 7
Exemplo 2. (ASHME 1990) Para quantos inteiros N entre 1 e 1990 a fração não
N +4
é irredutı́vel?

Seja d = (N + 4, N 2 + 7). Um boa estratégia é procurar um múltiplo de N + 4 próximo de


N 2 + 7 pois assim conseguiremos estimar d. Usando a diferença de quadrados, d | N 2 − 16 e
consequentemente d | N 2 +7−(N 2 −16) = 23. Como 23 é primo, a fração não será irredutı́vel
apenas quando d = 23. Para isso acontecer, basta que 23 | N +4 pois N 2 +7 = N 2 −16+23.
O maior múltiplo de 23 menor que 1990 é 1978 = 23 · 86 e 1990 + 4 < 23 · 87. Sendo assim,
a quantidade de inteiros procurada é 86.

Exemplo 3. Dados os primos p e q satisfazendo:

q | p2 + 1 e p | q 2 − 1.

Prove que o número p + q + 1 é composto.

Como p | q 2 − 1 = (q + 1)(q − 1), temos que p | q + 1 ou p | q − 1. No primeiro caso, p + q + 1


é um múltiplo de p. No segundo caso, podemos escrever q − 1 = pk para algum natural k.
Usando que q | p2 + 1, concluı́mos que q | p2 + 1 − (pk + 1) = p(p − k). Como p e q não
podem ser primos iguais, q | p − k. Temos três casos a considerar:

1. p > k. Então:

p − k ≥ kp + 1,
(p + 1)(1 − k) ≥ 2
2. p < k. Então:
k − p ≥ kp + 1,
(k + 1)(1 − p) ≥ 2

3. p = k e q = p2 +1. Como o único primo par é 2, segue que p = 2, q = 5 e p+q +1 = 8.

Os dois primeiros casos conduzem a um absurdo. Logo, ou p + q + 1 é múltiplo de p ou é


igual à 8.
Exemplo 4. (AIME 1985) Os números da sequência
101, 104, 109, 116, . . .
são da forma an = 100 + n2 , onde n = 1, 2, 3, . . . Para cada n, seja dn o máximo divisor
comum de an e an+1 . Encontre o valor máximo de dn quando n varia sobre todo o conjunto
dos inteiros positivos.
Uma boa estratégia é buscar alguma fatoração que nos permita identificar fatores comuns
entre os termos da sequência. Um termo genérico da sequência possui a forma an =
k + n2 . Sendo assim, a2k = k(4k + 1),a2k+1 = (k + 1)(4k + 1) e consequentemente
mdc(a2k , a2k+1 ) = 4k + 1. Nosso próximo passo será mostrar que realmente esse é o valor
máximo. Considere dois termos genéricos a = an = k + n2 , b = an+1 = k + (n + 1)2 e seja
d = mdc(a, b). Usando que d | b − a = 2n + 1, obtemos d | (2n + 1)(b − a) = 4n2 − 1. Como
d | 4a = 4n2 + 4k, segue que d | 4n2 + 4k − (4n2 − 1) = 4k + 1. Assim, 4k + 1 é realmente
o maior valor possı́vel entre os termos da sequência dn .
Exemplo 5. Prove que para qualquer inteiro n > 1, o número n5 + n4 + 1 não é um número
primo.
Considere a fatoração:
n5 + n4 + 1 = n5 + n4 + n3 − n3 − n2 − n + n2 + n + 1
= n3 (n2 + n + 1) − n(n2 + n + 1) + (n2 + n + 1)
= (n2 + n + 1)(n3 − n + 1)
Como n > 1, n3 − n + 1 > 1 e obtemos assim o produto de dois inteiros maiores que 1.
Exemplo 6. (Olimpı́ada Grega) Encontre todos os inteiros n para os quais −54 + 55 + 5n é
um quadrado perfeito.
Como −54 + 55 = 2500, queremos encontrar m e n tais que:
5n = m2 − 2500 = (m − 50)(m + 50).
Isto implica que m + 50 = 5j e m − 50 = 5i , com i < j. Assim,
100 = 5i (5j−i − 1).
Usando a fatoração em primos de 100, encontramos que i = 2 e j −i = 1. Portanto, m = 75
e n = 5.

2
Exemplo 7. (Irlanda) Sejam p um número primo, a e n e inteiros positivos. Prove que se

2p + 3p = an ,

então n = 1.

Se p = 2, claramente a = 13 e n = 1. Se p > 2, p é ı́mpar e 5 | 2p + 3p . Consequentemente


5 divide a. Se fosse n > 1, 25 | an e terı́amos:
an
0 ≡
5
2p + 3p

5
= 2p−1 − 2p−2 · 3 + . . . + 2 · −3p−2 + 3p−1
≡ 2p−1 + 2p−1 + . . . + 2p−1
≡ p2p−1 (mod 5)

A única possı́bilidade é termos p = 5. Entretanto, 25 + 35 não é uma potência perfeita não


trivial. Logo, n = 1.

Exemplo 8. Um inteiro n > 1 tem a seguinte propriedade: para todo divisor positivo d de
n, d + 1 é um divisor de n + 1. Prove que n é primo.
n
Seja p o menor fator primo de n e seja d = . Então,
p
np + p p(n + 1) n+1
= =
n+p p(d + 1) d+1
é um número inteiro. Como n + p também divide p(n + p), podemos concluir que n + p |
(np + p2 ) − (np + p) = p2 − p. Em particular,

n + p ≤ p2 − p
n ≤ p2 − 2p
n ≤ p2 − 2p + 1 = (p − 1)2
n < p2
d < p.

Em virtude da minimalidade de p, d não possui fatores primos e consequentemente n = p.

Exemplo 9. (Olimpı́ada Russa) Mostre que qualquer natural pode ser escrito como a dife-
rença de dois números naturais tendo o mesmo número de fatores primos.

Se n é par, podemos escrevê-lo como 2n − n e é fácil verificar que 2n e n possuem o


mesmo número de fatores primos. Seja d o menor primo ı́mpar que não divide n. Escreva
n = dn − (d − 1)n. O termo dn contém exatamente um primo a mais que n. Pela escolha
de d, todos os outros fatores primos diferentes 2 do número d − 1 são divisores de n e assim
(d − 1)n também contém extamente um primo a mais que n, a saber, o primo 2.

3
Exemplo 10. Os números naturais a e b são tais que
a+1 b+1
+
b a

é um número inteiro. Mostre que o máximo divisor comun de a e b não é maior que a + b.

Seja d = mdc(a, b), com a = md e b = nd. Então:

md + 1 nd + 1 m2 d + m + n2 d + n
+ =
nd md mnd
é um inteiro. Em particular, d | m2 d + m + n2 d + n e consequentemente d | m + n. Daı́,

d ≤ m+n
√ √
d ≤ m+n
p
d ≤ d(m + n)

= a+b

Exemplo 11. Encontre todos os conjuntos A ⊆ N de pelo menos dois elementos tais que
x+y
x, y ∈ A =⇒ ∈ A.
mdc(x, y)

Vamos dividir o problema em dois casos: Primeiro caso: Se 1 6∈ A.

Mostremos que nesse caso devemos ter A = {2, 3, . . .}. Façamos isso seguindo as seguintes
afirmações:

1. 2 ∈ A.
Para ver isso, basta tomar dois elementos iguais.

2. Existe elemento ı́mpar em A.

Suponha, por absurdo, que não existe elemento ı́mpar em A. Seja 2k o menor elemento
de par de A maior que 2. Logo,
2k + 2
k+1= ∈ A.
mdc(2k, 2)

Como k + 1 < 2k, k + 1 é ı́mpar. Absurdo! Note que todos os ı́mpares maiores que
k + 1 pertencem a A. Para tal, basta escolhermos 2 e k + 1 para obtermos k + 3 e
aplicar isso sucessivamente.

3. 3 ∈ A.

4
Tome 2l − 1 > 2k + 1. Assim,
(2l − 1)(2k + 1) + (2k + 1)
(2l − 1)(2k + 1), (2k + 1) ∈ A ⇒ = 2l ∈ A;
2k + 1
2l − 1 + 2l + 1
2l − 1, 2l + 1 ∈ A ⇒ = 4l ∈ A;
mdc(2l − 1, 2l + 1)
4l + 2l
2l, 4l ∈ A ⇒ =3∈A
mdc(4l, 2l)
Isso mostra que todos os ı́mpares maiores ou iguais a 3 estão presentes. Para isso,
basta tomar cada ı́mpar e o 2.

4. Todos os números pares estão em A.


Para isso, tome 2k − 1 e (2k − 1)2 :

(2k − 1)2 + (2k − 1)


= 2k ∈ A,
2k − 1
para todo o k ≥ 2.
Segundo caso: Se 1 ∈ A.

Nesse caso, afirmamos que A = N. Veja que:


1+1
1∈A ⇒ =2∈A
1
x+1
x∈A ⇒ =x+1∈A
mdc(1, x)
Sendo assim, repetindo esse processo, seguirá por indução que A = N.
Exemplo 12. (Olimpı́ada Matemática Argentina) Sejam p1 , p2 , . . . , pn números primos.
Bruno deve escolher n + 1 inteiros positivos que utilizem apenas estes primos em sua de-
composição. Bernardo deve escolher alguns desses números de modo que o produto deles
seja um quadrado perfeito. Determine se é possı́vel, para algum n, que Bruno escolha seus
n + 1 números de maneira que Bernardo não consiga cumprir seu objetivo.
Vamos mostrar que Bernardo sempre consegue cumprir seu objetivo. Para decidirmos se
um número natural é quadrado perfeito, basta analisarmos a paridade dos expoentes de seus
fatores primos. Para cada número pm 1 m2 mn
1 p2 . . . pn escolhido por Bruno, associe a n-upla de
zeros e uns, (r1 , r2 , . . . , rn ), onde cada ri é o resto na divisão por 2 de mi . A multiplicação
de dois inteiros se traduz na soma módulo 2 de tais uplas, i.e., a n-upla associada ao
produto pm 1 m2 m n l1 l2 ln
1 p2 . . . pn · p1 p2 . . . pn é igual à (r1 + q1 (mod 2), r2 + q2 (mod 2), . . . , rn + qn
(mod 2)) onde ri e qi são os restos na divisão por 2 de mi e li , respectivamente. Nosso
problema pergunta se é possivel Bernardo encontrar algumas uplas que somadas deem a
upla (0, 0, 0, . . . , 0). Como temos n + 1 uplas, podemos formar 2n+1 − 1 > 2n somas de
subconjuntos não vazios de uplas. Cada soma corresponde a uma nova upla, como existem

5
apenas 2n tipos de uplas distintas, alguma delas se repetirá dentre as somas (pelo princı́pio
da casa dos pombos). Suponha que para dois conjuntos de uplas A e B tenhamos a mesma
upla associada como soma, então a soma dos elementos de A e B que não pertencem à
A ∩ B corresponde à upla (0, 0, . . . , 0).

Problemas Propostos

Problema 13. Sejam p > 2 um primo ı́mpar e n um inteiro positivo. Prove que p divide

1p + 2p + . . . + (p − 1)p .
n n n

Problema 14. (Olimpı́ada Romena) Sejam a, b, c, d inteiros não nulos com a 6= c e tais que

a a2 + b2
= 2 .
c c + b2

Prove que a2 + b2 + c2 não pode ser um número primo.

Problema 15. Encontre todos os n tais que n! é um quadrado perfeito.

Problema 16. (Hungria) O produto de alguns primos é dez vezes maior que a sua soma.
Quais são esses primos?(não necessariamnete distintos).

Problema 17. Qual o máximo divisor comum entre dois números de Fibonacci consecuti-
vos?
Observação: Os números de Fibonacci são os números da sequência definida por F1 = F2 =
1 e Fn+1 = Fn + Fn−1 .

Problema 18. Mostre que a soma de dois primos consecutivos nunca é o dobro de um
primo.

Problema 19. (Israel) Se Sn é a soma dos n primeiros números primos, prove que há ao
menos um quadrado perfeito entre Sn e Sn+1

Problema 20. (Olimpı́ada Balcânica) Prove que, para todo natural dado n, existe um na-
tural m > n tal que a representação decimal de 5m é obtida da representação decimal de
5n pelo acréscimo de algarismos à esquerda de 5n .

Problema 21. (Inglaterra 1995)

a) Encontre o primeiro inteiro positivo cujo quadrado termina em três quatros.

b) Encontre todos os inteiros positivos cujo quadrado termina em três quatros.

c) Mostre que nenhum quadrado perfeito termina em quatro quatros.

6
Exemplo 22. (Olimpı́ada Indiana) Seja n um inteiro positivo tal que n é um divisor da
soma
1 + (1n−1 + 2n−1 + . . . + (n − 1)n−1 ).
Prove que n não é divisı́vel por qualquer quadrado maior que 1.

Problema 23. Seja S um conjunto de primos tal que a, b ∈ S (a e b não precisam ser
distintos) implicam ab + 4 ∈ S. Mostre que S tem que ser vazio

Dicas e Soluções

1. Em breve!

7
Polos Olímpicos de Treinamento
Curso de Teoria dos Números - Nível 2 Aula 8
Prof. Samuel Feitosa

Equações Diofantinas I

Exemplo 1. Em Gugulândia, o jogo de basquete é jogado com regras diferentes. Existem


apenas dois tipo de pontuações para as cestas: 5 e 11 pontos. É possı́vel um time fazer 39
pontos em uma partida?

Sejam x e y os números de cestas de 5 e 11 pontos, respectivamente. O problema se resume


em descobrirmos se existem inteiros não negativos x e y tais que 5x + 11y = 39. Ao invés
de testarmos os valores de x e y, somemos 11 + 5 em ambos os lados da equação:

5(x + 1) + 11(y + 1) = 55.

Como 5 | 55 e 5 | 5(x + 1), segue que 5 | 11(y + 1) e, com mais razão, 5 | y + 1 pois
mdc(5, 11) = 1. Do mesmo modo, 11 | x + 1. Assim,

55 = 5(x + 1) + 11(y + 1) ≥ 5 · 11 + 11 · 5 = 110,

pois x + 1, y + 1 ≥ 1. Obtemos uma contradição.

Exemplo 2. Qual o menor inteiro positivo m para o qual todo número maior que m pode
ser obtido como pontuação no jogo de basquete mencionado anteriormente?

Como já sabemos que 39 não é possı́vel, é natural começarmos procurando os números
maiores que 39 que não podem ser pontuações. Veja que:

40 = 5 · 8 + 11 · 0
41 = 5 · 6 + 11 · 1
42 = 5 · 4 + 11 · 2
43 = 5 · 2 + 11 · 3
44 = 5 · 0 + 11 · 4
Ao somarmos 5 a cada uma dessas representações, obteremos representações para os próximos
5 números. Repetindo esse argumento, poderemos escrever qualquer número maior que 39
na forma 5x + 11y com x e y inteiros não negativos. Concluı́mos assim que m = 39. Po-
derı́amos mostrar que todo número maior que 44 é da forma 5x + 11y com x e y inteiros
não negativos de outro modo. Se n > 44, considere o conjunto:

n − 11 · 0, n − 11 · 1, n − 11 · 2, n − 11 · 3, n − 11 · 4.

Como mdc(11, 5) = 1, o conjunto anterior é um sistema completo de restos módulo 5 e


consequentemente existe y ∈ {0, 1, 2, 3, 4} tal que

n − 11 · y = 5x

Como n > 44, segue que x > 0.

Exemplo 3. Quais e quantos são os inteiros positivos n que não podem ser obtidos como
pontuação nesse jogo de basquete?

Precisaremos relembrar um teorema da aula 03:

Teorema 4. (Bachet-Bèzout) Se d = mdc(a, b), então existem inteiros x e y tais que

ax + by = d.

A primeira observação que fazemos é que uma vez encontrados inteiros x e y, qualquer
múltiplo de d pode ser representado como uma combinação linear de a e b:

a(kx) + b(ky) = kd.

Isso é particularmente interessante quando mdc(a, b) = 1, onde obtemos que qualquer in-
teiro é uma combinação linear de a e b. Veja que isso não entra em conflito com os exemplos
anteriores pois os inteiros x e y mencionados no teorema podem ser negativos.

A próxima propopsição conterá o que procuramos:

Proposição 5. Todo inteiro positivo k pode ser escrito(de modo único) de uma e, somente
uma, das seguintes formas:

11y − 5x, ou 11y + 5x, com 0 ≤ y < 5 e x ≤ 0

Pelo teorema de Bachet-Bèzout, existem m e n tais que 5m + 11n = 1. Sejam q e r o


quociente e resto da divisão de kn por 5, i.e., kn = 5q + r, 0 ≤ r < 5. Assim,

k = 5(km) + 11(kn)
= 5(km) + 11(5q + r)
= 5(km + 11q) + 11r.

2
Basta fazer x = km + 11q e r = y.

Para ver a unicidade, suponha que 11m ± 5n = 11a ± 5b com 0 ≤ m, a < 5. Então
11(m − a) = 5(±b ± n). Usando que mdc(11, 5) = 1, segue que 5 | m − a. A única opção
é termos m = a pois o conjunto {0, 1, 2, 3, 4} é um scr. Consequentemente ±5n = ±5b e
n = b.

Sendo assim, os elementos do conjunto


B(5, 11) = {11y − 5x ∈ Z∗+ ; 0 ≤ y < 5 e x > 0}
constituem o conjunto das pontuações que não podem ser obtidas. Seus elementos são:

y = 1 ⇒ 11y − 5x = 1, 6
y = 2 ⇒ 11y − 5x = 2, 7, 12, 17
y = 3 ⇒ 11y − 5x = 3, 8, 13, 18, 23, 28
y = 4 ⇒ 11y − 5x = 4, 9, 14, 19, 24, 29, 34, 39
A quantidade de tais inteiros é
(5 − 1) (11 − 1)
20 = · .
2 2
Vale o resultado geral:
Proposição 6. Dados os inteiros positivos a e b com mdc(a, b) = 1, existem exatamente
(a − 1) (b − 1)
·
2 2
números inteiros não negativos que não são da forma ax + by com x, y ≥ 0.
Provaremos tal resultado em uma aula futura fazendo o uso da função parte inteira.
Exemplo 7. Suponha agora que as pontuações das cestas do basquete de Gugulândia tenham
mudado para a e b pontos com 0 < a < b. Sabendo que existem exatamente 35 valores
impossı́veis de pontuações e que um desses valores é 58, encontre a e b.
Perceba que devemos ter mdc(a, b) = 1 pois caso contrário qualquer valor que não fosse
múltiplo de mdc(a, b) não seria uma pontuação possı́vel e sabemos que existe apenas um
número finito de tais valores. Em virtude da proposição anterior, (a−1)(b−1) = 2·35 = 70.
Analisemos os possı́veis pares de divisores de 70 tendo em mente que a < b:
(a − 1)(b − 1) = 1 · 70 ⇒ (a, b) = (2, 71)
(a − 1)(b − 1) = 2 · 35 ⇒ (a, b) = (3, 36)
(a − 1)(b − 1) = 5 · 14 ⇒ (a, b) = (6, 15)
(a − 1)(b − 1) = 7 · 10 ⇒ (a, b) = (8, 11)

3
Não podemos ter (a, b) = (2, 71) pois 58 = 2 · 29. Excluindo os outros dois casos em que
mdc(a, b) 6= 1, temos a = 8 e b = 11.

A equação ax + by = c é um exemplo de uma equanção diofantina, i.e., uma equação


em que buscamos valores inteiros para as variáveis. Tais equações recebem esse nome em
homenagem ao matemático grego Diofanto.

Exemplo 8. Determine todas as soluções inteiras da equação 2x + 3y = 5.

Por paridade, 3y é ı́mpar, donde y = 2k + 1 para algum inteiro k. Daı́,

5 − 3(2k + 1)
x= = 1 − 3k,
2
e consequentemente todas as soluções da equação são da forma (x, y) = (1 − 3k, 2k + 1).

Exemplo 9. Determine todas as soluções inteiras da equação 5x + 3y = 7.

Analisando agora módulo 3, 5x ≡ 7 ≡ 1 (mod 3). Essa condição impõe restrições sobre o
resto de x na divisão por 3. Dentre os possı́veis restos na divisão por 3, a saber {0, 1, 2}, o
único que satisfaz tal congruência é o resto 2. Sendo assim, x é da forma 3k + 2 e

7 − 5(3k + 2)
y= = −1 − 5k,
3
consequentemente, todas as soluções da equação são da forma (x, y) = (3k + 2, −1 − 5k).

Notemos que para a solução da congruência x = 2, obtemos a solução (x, y) = (2, 1) da


equação. Baseado nesses exemplos, é natural imaginarmos que conhecendo uma solução da
congruência consigamos descrever todas as outras.

Teorema 10. A equação ax + by = c, onde a, b, c são inteiros, tem uma solução em inteiros
(x, y) se, e somente se, d = mdc(a, b) divide c. Nesse caso, se (x0 , y0 ) é uma solução, então
os pares  
bk ak
(xk , yk ) = x0 + , y0 − , k∈Z
d d
são todas as soluções inteiras da equação.

Dada a discussão anterior, resta apenas encontrarmos a forma das soluções. Se (x, y) é
outra solução, podemos escrever:

ax + by = ax0 + by0
a(x − x0 ) = b(y0 − y)
a b
(x − x0 ) = (y0 − y)
d d
Como mdc(a/d, b/d) = 1, temos b/d | x − x0 e assim podemos escrever x = x0 + bk/d.
Substituindo na equação original obtemos y = y0 − ak/d.

4
Exemplo 11. Encontre todas as soluções inteiras da equação 21x + 48y = 6
O sitema é equivalente à 7x + 16y = 2. Uma solução é (x, y) = (−2, 1). Pelo teorema
anterior, todas as soluções são da forma:

(xk , yk ) = (−2 + 16k, 1 − 7k).

Exemplo 12. Resolva nos inteiros a equação 2x + 3y + 5z = 11


Podemos transformar esse problema isolando qualquer uma das variáveis no problema que
já sabemos resolver. Por exemplo, podemos resolver 2x + 3y = 11 − 5z. Supondo z fixo,
podemos encontrar a solução particular (x, y) = (4 − z, 1 − z). Assim, todas as soluções
são da forma:
(x, y) = (4 − z + 3k, 1 − z − 2k),
ou seja, as soluções da equação original são da forma (x, y, z) = (4 − z + 3k, 1 − z − 2k, z)
com k e z inteiros.

Vamos estudar agora alguns outros exemplos de equações diofantinas não lineares:
Exemplo 13. Prove que a equação 2n + 1 = q 3 não admite soluções (n, q) em inteiros
positivos.
É facil ver que a equação não admite soluções se n = 1, 2, 3. Assim, podemos supor que
n > 3. Fatorando, temos:
(q − 1)(q 2 + q + 1) = 2n ,
e consequentemente q = 2 ou q = 2k + 1, para algum k ∈ N. Claramente, q = 2 não produz
solução. Então q = 2k + 1 e q 3 − 1 = 8k 3 + 12k 2 + 6k é uma potência de 2, maior ou igual
a 16. Entretanto:
8k 3 + 12k 2 + 6k = 2k(4k 2 + 6k + 3),
não é uma potência de 2, pois 4k 2 + 6k + 3 é ı́mpar. Assim, a equação 2n + 1 = q 3 não
admite soluções inteiras positivas.

xz − 2yt = 3
Exemplo 14. (URSS 1991) Encontre todas as soluções inteiras do sistema
xt + yz = 1.
Uma boa estratégia será aplicar alguma manipulação algébrica, como somar as equações,
multiplicá-las, somar um fator de correção, entre outras para obtermos alguma fatoração
envolvendo esses números. Nesse problema, vamos elevar ambas as equações ao quadrado.
 2 2
x z − 4xyzt + 4y 2 t2 = 9
x2 t2 + 2xytz + y 2 z 2 = 1.

Multiplicando a segunda por dois e somando com a primeira, temos:

x2 (z 2 + 2t2 ) + 2y 2 (z 2 + 2t2 ) = 11
(x2 + 2y 2 )(z 2 + 2t2 ) = 11.

5
Como cada uma das parcelas acima é um inteiro não-negativo, temos dois casos:
 2
x + 2y 2 = 11
⇒ (x, y, z, t) = (±3, ±1, ±1, 0).
z 2 + 2t2 = 1
ou
x2 2y 2

+ = 1
⇒ (x, y, z, t) = (±1, 0, ±3, ±1).
z2 + 2t2 = 11
Logo, as únicas soluções possı́veis são as quádruplas (±1, 0, ±3, ±1) e (±3, ±1, ±1, 0).

Problemas Propostos

Problema 15. Encontre todas as soluções de 999x − 49y = 5000.

Problema 16. Encontre todos os inteiros x e y tais que 147x + 258y = 369.

Problema 17. Encontre todas as soluções inteiras de 2x + 3y + 4z = 5.

Problema 18. Encontre todas as soluções inteiras do sistema de equações:

20x + 44y + 50z = 10


17x + 13y + 11z = 19.

Problema 19. (Torneio das Cidades 1997) Sejam a,b inteiros positivos tais que a2 + b2 é
divisı́vel por ab. Mostre que a = b.

Problema 20. Encontre uma condição necessária e suficiente para que

x + b1 y + c 1 z = d 1 e x + b2 y + c 2 z = d 2

tenham pelo menos uma solução simultanea em inteiros x, y, z, assumindo que os coefici-
entes são inteiros com b1 6= b2 .

Problema 21. (AMC 1989) Seja n um inteiro positivo. Se a equação 2x + 2y + n = 28 tem


28 soluções em inteiros positivos x, y e z, determine os possı́veis valores de n.

6
Polos Olímpicos de Treinamento
Curso de Teoria dos Números - Nível 2 Aula 9
Prof. Samuel Feitosa

O Teorema de Euler

Nesta aula, obteremos uma generalização do teorema de Fermat.


Definição 1. Dado n ∈ N, denotaremos o número de naturais menores ou iguais a n e
relativamente primos com n por φ(n).
Segue imediatamente da definição de φ(n) que φ(1) = 1, φ(2) = 1, φ(3) = 2, φ(5) = 4 e
φ(6) = 2. Se p é primo, φ(p) = p − 1.
Lema 2. Se p é um número primo e k um número natural, então:

φ(pk ) = pk−1 (p − 1).

Os únicos números do conjunto {1, 2, . . . , pk } que não são relativamente primos com pk são
pk
aqueles que são divisı́veis por p. A quantidade de tais números é = pk−1 . Sendo assim,
p
φ(pk ) = pk − pk−1 = pk−1 (p − 1).

Nosso próximo objetivo será encontrar uma fórmula para calcular explicitamente φ(m) em
função da fatoração em primos de m. Precisaremos relembrar um exemplo estudado na
aula 6:
Lema 3. Sejam m um número natural, l um número natural relativamente primo com m
e r um inteiro arbitrário. Então, o conjunto:

r, l + r, 2l + r, . . . , (m − 1)l + r;

é um sistema completo de restos módulo m.


Suponha, por absurdo, que existem dois inteiros i e j com 0 ≤ i < j < m e para os quais
tenhamos r + il ≡ r + jl (mod m). Assim, (j − i)l ≡ 0 (mod m). Como l é relativamente
primo com m, devemos ter j − i ≡ 0 (mod m). Obtemos um absurdo pois 0 < j − i < m.
Consequentemente, temos um conjunto de m inteiros todos incongruentes módulo m e,
portanto, tal conjunto é um sistema completo de restos.
POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel 2 - Aula 9 - Samuel Feitosa

Teorema 4. Se l e m são números naturais primos entre si, então:

φ(ml) = φ(m)φ(l).

Demonstração. Como φ(1) = 1, o teorema anterior é valido quando m = 1 ou n = 1.


Suponha então que m, l > 1. Façamos uma contagem dupla. Primeiramente, usando a
definição, φ(mn) é o número de inteiros da tabela abaixo que são relativamente primos
com ml.
1, 2, ..., r, ..., l,
1 + l, l + 2, ..., l + r, ..., 2l,
21 + l, 2l + 2, ..., 2l + r, ..., 3l,
..., ..., ..., ..., ..., ...,
(m − 1)1 + l, (m − 1)l + 2, ..., (m − 1)l + r, ..., ml,
Seja r ≤ m um número natural qualquer. Considerando a r-ésima coluna da tabela, se
mdc(r, l) > 1, nenhum de seus elementos é relativamente primo com l. Então, se buscamos
os elementos que não possuem nenhum fator em comum com ml, devemos nos ater às
colunas com mdc(r, l) = 1. O número de tais colunas é φ(l). Considerando agora a r-ésima
coluna e supondo que mdc(r, l) = 1, em virtude do lema anterior, sabemos que os restos de
seus elementos na divisão por m formam exatamente o conjunto {0, 1, . . . , m} e dentre eles
existem exatamente φ(m) números relativamente primos com m. Sendo assim, podemos
contar os números relativamente primos com ml atráves do número de colunas ”boas”e do
número de ”bons”elementos em cada uma delas, obtendo: φ(m)φ(l).
Corolário 5. Se n = pα1 1 pα2 2 . . . pαk k é a fatoração em primos de n, então:
    
1 1 1
φ(n) = n 1 − 1− ... 1 −
p1 p2 pk

De fato, pelo teorema anterior,

φ(n) = φ(pα1 1 pα2 2 . . . pαk k )


= φ(pα1 1 )φ(pα2 2 ) . . . φ(pαk k )
= p1α1 −1 (p1 − 1)pα2 2 −1 (p2 − 1) . . . pαk k −1 (pk − 1)
= p1α1 −1 p2α2 −1 . . . pαk k −1 (p1 − 1)(p2 − 1) . . . (pk − 1)
    
1 1 1
= n 1− 1− ... 1 −
p1 p2 pk

Exemplo 6. Mostre que qualquer n ≥ 7 pode ser escrito na forma a + b, com a e b naturais
primos entre si, ambos maiores que 1.
Podemos escrever b = n − a e nosso objetivo é encontrar a com 1 < a < n − 1 tal que
mdc(a, n − a) = 1. Para isso, basta que mdc(a, n) = 1. Pelo corolário anterior,

φ(n) = pα1 1 −1 pα2 2 −1 . . . pαk k −1 (p1 − 1)(p2 − 1) . . . (pk − 1)

2
POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel 2 - Aula 9 - Samuel Feitosa

Se a expressão anterior é igual à 2, necessariamente devemos ter αi = 1 e pi = 2 ou 3 para


todo i. Sendo assim, n ≤ 6. Logo, φ(n) > 2 e existe pelo menos outro número natural
diferente de 1 e n − 1 que é relativamente primo com n.

Exemplo 7. Prove que existem infinitos inteiros positivos n tais que


n
φ(n) = .
3
Basta tomar n = 2 · 3m , onde m é um inteiro positivo. Então:
n
φ(n) = φ(2 · 3m ) = φ(2)φ(3m ) = 2 · 3m−1 = .
3
Exemplo 8. Se n é um inteiro positivo composto, então

φ(n) ≤ n − n

Se n = pα1 1 pα2 2 . . . pαk k , usando que n é composto, podemos garantir que existe um fator

primo pi tal que pi ≤ n. Assim,
    
1 1 1
φ(n) = n 1 − 1− ... 1 −
p1 p2 pk
 
1
≤ n 1−
pi
 
1
≤ n 1− √
n

= n− n

Teorema 9. (Teorema de Euler) Se mdc(a, m) = 1, então

aφ(m) ≡ 1 (mod m)

Demonstração. A prova deste teorema será muito similar à prova do teorema de Fermat.
Sejam r1 , r2 , . . . , rφ(m) os restos em {0, 1, 2, . . . , m − 1} que são relativamente primos com
m. Considere o conjunto {ar1 , ar2 , . . . , arφ(m) }. Se dois de seus membros deixam o mesmo
resto por m, digamos:
ari ≡ arj (mod m);
temos ri ≡ rj (mod m) pois mdc(a, m) = 1. Claramente isso é uma contradição. Além
disso, mdc(ari , m) = mdc(m, ri ) = 1. Analisando os restos na divisão por m dos membros
desse novo conjunto, podemos concluir que tal conjunto coincide com o conjunto dos restos
iniciais. Assim,

r1 · r2 · . . . · rφ(m) ≡ ar1 · ar2 · . . . · arφ(m)


≡ aφ(m) r1 · r2 . . . · rφ(m)

Como mdc(r1 · r2 · . . . · rφ(m) , m) = 1, podemos cancelar esse termo em ambos os membros


da congruência anterior obtendo assim o teorema de Euler.

3
POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel 2 - Aula 9 - Samuel Feitosa

Exemplo 10. Encontre os últimos três dı́gitos de 79999


Como φ(1000) = 400, usando o Teorema de Euler, obtemos:

710000 = (7400 )25


≡ 1 (mod 1000)

Note que 7 · 143 = 1001 ≡ 1 (mod 1000). Assim,

79999 ≡ 79999 · 7 · 143


≡ 710000 · 143
≡ 143 (mod 1000)

Logo, 79999 termina em 143.


Exemplo 11. (Putnam 1972) Prove que não existe um inteiro n > 1 tal que n|2n − 1.
Se existem tais inteiros positivos, denotemos por m o menor deles. Claramente m é ı́mpar,
pelo teorema de Euler, podemos garantir que:

m | 2φ(m) − 1.

Seja d = mdc(m, φ(m)). Pelo problema 27 da aula 3, temos 2d −1 = mdc(2m −1, 2φ(m) −1).
Como m | mdc(2m − 1, 2φ(m) − 1), d > 1. Além disso, d ≤ φ(m) < m e d | 2d − 1. Isso é
um absurdo pois m é o menor inteiro maior que 1 com tal propriedade.
Exemplo 12. (Olimpı́ada de Matemática Argentina) Demostre que para cada número na-
tural n, existe uma potência de 2 cuja expansão decimal tem entre seus últimos n dı́gitos
2n
(da direita) mais de dı́gitos que são iguais a 0.
3
Se 2k tiver um resto muito pequeno módulo 10n , poderemos garantir que existirão muitos ze-
ros consecutivos entre seus últimos dı́gitos. Para obtermos a equação 2k ≡ r (mod 10n ) com
r pequeno, é interessante começarmos analisando 2k (mod 5n ) uma vez que mdc(2, 5n ) = 1.
Façamos isso. Pelo teorema de Euler, temos:

2φ(n) ≡ 1 (mod 5n ) ⇒
2φ(n)+n ≡ 2n (mod 10n ).
n
Como 2n = 8n/3 < 10n/3 , podemos concluir que 2n possui menos que dı́gitos e, conse-
3
n 2n
quentemente, entre os últimos n dı́gitos de 2φ(n)+n existem pelo menos n − = dı́gitos
3 3
consecutivos iguais à zero.
Exemplo 13. (IMO 1971) Prove que a sequência 2n − 3(n > 1) contém uma subsequência
de números primos entre si dois a dois.

4
POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel 2 - Aula 9 - Samuel Feitosa

Uma boa estratégia é construir uma sequência recursivamente. Suponha que já tenhamos
escolhido os termos a1 , a2 , . . . , ak na sequência de modo que mdc(ai , aj ) = 1. Como pode-
remos escolher o próximo termo ak+1 da forma 2n − 3? Claramente mdc(2, ai ) = 1. Desde
que φ(ai ) | n, poderemos usar o teorema de Euler para obter:

2n − 3 ≡ 1 − 3
6≡ 0 (mod ai )

Sendo assim, pelo teorema 4, basta escolhermos:

n = φ(a1 · a2 · . . . · ak ) = φ(a1 )φ(a2 ) . . . φ(ak );

que naturalmente será um múltiplo de cada φ(ai ). Logo, podemos definir

ak+1 = 2φ(a1 ·a2 ·...·ak ) − 3

e assim temos uma sequência de termos infita satisfazendo as condições do enunciado.

Problemas Propostos

Problema 14. Encontre todos os números naturais n para os quais φ(n) não é divisı́vel por
4.
Problema 15. Prove que se p > 2 e 2p + 1 são ambos números primos, então para n = 4p
vale que
φ(n + 2) = φ(n) + 2.
Problema 16. Encontre todas as soluções nos números naturais da equação φ(n) = φ(2n).
Problema 17. Encontre todas as soluções nos números naturais da equação φ(2n) = φ(3n).
Problema 18. Se n possui k fatores primos distintos, prove que 2k | φ(n).
Problema 19. Prove que para qualquer número natural k, existe pelo menos um número
natural n tal que
φ(n + k) = φ(n).
Dica: Considere o menor divisor primo p que não é um divisor de k e estude o número
n = (p − 1)k.
Problema 20. Mostre que se a e b são inteiros primos entre si, então existem inteiros m e
n tais que am + bn ≡ 1 (mod ab).
Problema 21. (Alemanha) Se n é um número natural tal que 4n + 2n + 1 é primo, prove
que n é potência de 3.

5
Problema 22. (USAMO 1991) Mostre que para qualquer inteiro fixo n ≥ 1, a sequência
2 22
2, 22 , 22 , 22 , . . . (mod n);

é eventualmente constante, isto é, a partir de um certo termo da sequência todos os restos
obtidos na divisão por n serão iguais.

Dica: Tente considerar os casos em que n é par ou n é ı́mpar em separado e use indução.
Problema 23. Encontre os últimos 8 dı́gitos da expansão binária de 271986
Problema 24. Mostre que, para qualquer inteiro positivo n com n 6= 2 e n 6= 6 temos:

φ(n) ≥ n.

Referências
[1] F. E. Brochero Martinez, C. G. Moreira, N. C. Saldanha, E. Tengan - Teoria dos
Números ? um passeio com primos e outros números familiares pelo mundo inteiro,
Projeto Euclides, IMPA, 2010.

[2] E. Carneiro, O. Campos and F. Paiva, Olimpı́adas Cearenses de Matemática 1981-2005


(Nı́veis Júnior e Senior), Ed. Realce, 2005.

[3] S. B. Feitosa, B. Holanda, Y. Lima and C. T. Magalhães, Treinamento Cone Sul 2008.
Fortaleza, Ed. Realce, 2010.

[4] D. Fomin, A. Kirichenko, Leningrad Mathematical Olympiads 1987-1991, MathPro


Press, Westford, MA, 1994.

[5] D. Fomin, S. Genkin and I. Itenberg, Mathematical Circles, Mathematical Words, Vol.
7, American Mathematical Society, Boston, MA, 1966.

[6] I. Niven, H. S. Zuckerman, and H. L. Montgomery, An Introduction to the Theory of


Numbers.
Polos Olímpicos de Treinamento
Curso de Teoria dos Números - Nível 2 Aula 10
Prof. Samuel Feitosa

Divisores

Suponha que n = pα1 1 pα2 2 . . . pαk k é a fatoração em primos do inteiro n. Todos os divisores
de n são da forma m = pβ1 1 pβ2 2 . . . pβk k , onde 0 ≤ βi ≤ αi . Cada um desses números, aparece
exatamente uma vez no produto:

(1 + p1 + p21 + . . . + pα1 1 )(1 + p2 + p22 + . . . + pα2 2 ) . . . (1 + pn + p2n + . . . + pkαk ),

quando o mesmo é expandido usando a distributividade. Como existem αi + 1 termos em


cada parênteses, O número de termos dessa expansão é:

(α1 + 1)(α2 + 1) . . . (αk + 1).

Além disso, sabemos que:

pαi i +1 − 1
1 + pi + p2i + . . . + pαi i = .
pi − 1
Sendo assim, podemos concluir que:

Teorema 1. Se n = pα1 1 pα2 2 . . . pαk k é a fatoração em primos de n, então:

a) O número de divisores de n, denotado por d(n), é: (α1 + 1)(α2 + 1) . . . (αn + 1).

b) A soma dos divisores de n, denotada por σ(n), é:

(1 + p1 + p21 + . . . + pα1 1 )(1 + p2 + p22 + . . . + pα2 2 ) . . . (1 + pn + p2n + . . . + pαnn )

ou, de forma mais sucinta,


! !
pα1 1 +1 − 1 pα2 2 +1 − 1 pnαn +1 − 1
 
...
p1 − 1 p2 − 1 pn − 1
POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel 2 - Aula 10 - Samuel Feitosa

n
Observação 2. (Pareamento de divisores) Se d é um divisor de n, então também é um
d
divisor de n.
n √
Portanto, pelo menos um dentre {d, } é um divisor de n menor ou igual a n.
d
Exemplo 3. Determine o número de divisores positivos de 20088 que são menores que
20084 .
O número de divisores de 20088 = 224 · 2518 é 225. Como n é um quadrado
√ perfeito e em
virtude da observação anterior, 112 desses divisores são menores que 20088 = 20084 e 112
são maiores.
Exemplo 4. Encontre a soma dos inversos dos divisores postivos de 496.
Sejam d1 , d2 , . . . , dn os divisores de 496 e K a soma de seus inversos. Usando a observação
496 496 496
anterior, o conjunto { + +. . .+ } coincide com o conjunto {dn + dn−1 + . . . + d1 }
d1 d2 dn
e daı́:

1 1 1
+ + ... + = K⇒
d1 d2 dn
496 496 496
+ + ... + = 496K ⇒
d1 d2 dn
dn + dn−1 + . . . + d1 = 496K ⇒
25 − 1 312 − 1
· = 496K ⇒
2 − 1 31 − 1
960
= K.
496
60
Portanto, k = .
31
Exemplo 5. Um número natural n possui exatamente dois divisores e n + 1 possui exata-
mente 3 divisores. Encontre o número de divisores de n + 2.
Se n possui exatamente dois divisores, então n = p é um número primo. Se n + 1 possui
um número ı́mpar de divisores, então n + 1 = x2 é um quadrado perfeito, para algum x
inteiro positivo. Logo, x2 − 1 = (x − 1)(x + 1) = p. Como p é primo, a única possibilidade
é x − 1 = 1 e consequentemente n = 3. O número de divisores de n + 2 = 5 é 2.

Exemplo 6. Encontre todos os inteiros n que possuem exatamente n divisores positivos.

Para n ser inteiro, n deve ser um quadrado perfeito e assim podemos escrever:
2αk
n = p12α1 p2α 2
2 . . . pk .

A condição do problema é equivalente à:

pα1 1 pα2 2 . . . pαk k = (2α1 + 1)(2α2 + 1) . . . (2αk + 1).

2
POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel 2 - Aula 10 - Samuel Feitosa

Analisando o lado direito, podemos concluir que cada pi é ı́mpar e consequentemente

pαi i ≥ 3αi ≥ 2αi + 1.

Como devemos ter a igualdade, p1 = 3 e 3α1 = 2α1 + 1. Se α1 > 1, vale a desigualdade


estrita(veja o problema 13). Logo, a única solução é n = 9.

Exemplo 7. (Suiça 2011) Encontre todos os inteiros positivos n para o qual n3 é o produto
de todos os divores de n

Claramente n = 1 é solução. Suponha que n > 1 e sejam d1 < d2 < . . . < dk os divisores
de n. Pela observação 2, podemos agrupar os divisores em pares cujo produto é n, assim:

n6 = (d1 d2 . . . dk )(d1 d2 . . . dk )
= (d1 dk )(d2 dk−1 ) . . . (dk d1 )
= nd(n)

Consequentemente, 6 = d(n) e n = p5 ou n = pq 2 com p e q primos distintos. Fica a cargo


do leitor verificar que essas soluções satisfazem o enunciado.

Exemplo 8. (Irlanda 1995) Para cada inteiro positivo n tal que n = p1 p2 p3 p4 , onde p1 , p2 ,
p3 e p4 são primos distintos, sejam:

d1 = 1 < d2 < d3 < . . . < d16 = n,

os 16 inteiros positivos que dividem n. Prove que se n < 1995, então d9 − d8 6= 22.

Suponha que n < 1995 e d9 − d8 = 22. Note inicialmente que d8 não pode ser par pois n
seria divisı́vel por 4 contradizendo o fato de que n possui quatro fatores primos distintos.
Consequentemente d8 , d9 e n são ı́mpares. Também temos a fatoração: 35 · 57 = 1995 =
3 · 5 · 7 · 19. Então, usando a observação 2, d8 d9 = n. Se d8 ≥ 35 terı́amos d9 < d8 para
manter n < 1995 e isso seria um absurdo. Logo, d8 < 35. Os divisores d1 , d2 , . . . , d8 são
produtos de primos ı́mpares distintos. Como 3 · 5 · 7 > 35, nenhum dentre d1 , d2 , . . . , d8
é grande o suficiente para possuir três fatores primos distintos. Como n possui somente
quatro fatores primos distintos, quatro desses di ’s devem ser o produto de dois primos
ı́mpares. Os menores números que são o produto de dois primos são:

15, 21, 33, 35, . . .

e consequentemente devemos ter d8 ≥ 35, uma contradição.

Exemplo 9. Prove que não existe inteiro positivo n tal que σ(n) = nk para algum inteiro
positivo k.

Afirmamos que n = 1 é a única solução. Suponha que n > 1 seja solução e sejam

d1 = 1 < d2 < . . . < dk = n,

3
POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel 2 - Aula 10 - Samuel Feitosa

os divisores de n. Então
n(n + 1)
σ(n) = d1 + d2 + . . . + dk < 1 + 2 + . . . + n = < n2 .
2
Além disso,
n < n + 1 ≤ d1 + d2 + . . . + dk = σ(n).
Daı́,
n < nk < n2 ,
e obtemos um absurdo.
Exemplo 10. (Olimpı́ada de Leningrado 1989) Duas pessoas jogam um jogo. O número 2
está inicialmente escrito no quadro. Cada jogador, na sua vez, muda o número atual N
no quadro negro pelo número N + d, onde d é um divisor de N com d < N . O jogador que
escrever um número maior que 19891988 perde o jogo. Qual deles irá vencer se ambos os
jogadores são perfeitos.
Nesse problema, basta determinarmos apenas aquele que possui a estratégia vencedora.
Note que o inı́cio do jogo é estritamente determinado: 2 → 3 → 4. Suponha que o segundo
jogador vence o jogo. Após o movimento 4 → 5 do primeiro jogador, o segundo só pode
jogar 5 → 6. Isto significa que 6 é uma posição vencedora. Entretanto, o primeiro jogador
pode obter a posição 6 jogando 4 → 6, uma contradição. Logo, o primeiro jogador possui
a estratégia vencendora.
Exemplo 11. (Olimpı́ada de Leningrado) Duas pilhas de palitos sobre uma mesa contém
100 e 252 palitos, respectivamente. Dois jogadores jogam o seguinte jogo: Cada jogador em
sua vez pode remover alguns palitos de uma das pilhas de modo que o número de palitos
retirados seja um divisor do número de palitos da outra pilha. O jogador que fizer o último
movimento vence. Qual dos dois jogadores irá vencer se ambos são perfeitos?
O primeiro jogador perde. Em cada momento do jogo, podemos registrar o expoente
da maior potência de 2 que divide os números de palitos em cada pilha. Por exemplo,
no inı́cio os números são (2, 2). A estratégia do segundo jogador é manter esse números
sempre iguais. Suponha que, em um dado momento, as pilhas possuem 2m · a e 2m · b
palitos com a e b ı́mpares. O par registrado será (m, m). Vejamos o que acontece quando
retiramos um divisor d da segunda pilha do número de palitos da primeira. Se 2m é a
maior potência de 2 que divide d, então 2m+1 dividirá o número de palitos da primeira
pilha e consequentemente o par registrado terá números diferentes. Se 2k , com k < m,
é a maior potência de 2 que divide d, então 2k será a maior potência de 2 que divide o
número de palitos da primeira pilha e novamente o par registrado terá números diferentes.
Assim, sempre que um jogador receber um par registrado com números iguais, ele irá passar
um par registrado com números diferentes para o outro jogador. Suponha agora que, na
sua vez, as pilhas possuem 2m · a e 2n · b palitos, com m < n e a ≡ b ≡ 1 (mod 2).
Basta o jogador retirar 2m palitos da segunda pilha para passar um par registrado com
números iguais a (m, m). Como inicialmente as pilhas possuem números registrados iguais,
o segundo jogador pode sempre manter essa propriedade e consequentemente o único que
pode passar uma pilha com zero palitos pela primeira vez é o primeiro jogador.

4
REFERÊNCIAS
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Problemas Propostos

Problema 12. Mostre que se k é um inteiro positivo então 3k ≥ 2k +1 e vale a desigualdade


estrita quando k > 1.
Problema 13. (Rússia 2001) Encontre todos os n tais que quaisquer divisores primos dis-
tintos a e b de n o número a + b − 1 também é um divisor de n
Problema 14. O número 332 − 1 tem exatamente dois divisores que são maiores que 75 e
menores que 85. Qual o produto desses dois divisores?
Problema 15. (Irã 2012) Sejam a e b inteiros positivos de modo que o número de divisores
positivos de a,b, ab é 3,4 e 8, respectivamente. Encontre o número de divisores positivos
de b2 .
Problema 16. (Olimpı́ada de São Petesburgo) Enconte todos os inteiros positivos n tais
que 3n−1 + 5n−1 divide 3n + 5n .
Problema 17. Sejam 1 = d1 < d2 < .... < dk = n o conjunto de todos os divisores de um
inteiro positivo n. Determine todos os n tais que:
d26 + d27 − 1 = n.
Problema 18. Um divisor d > 0 de um inteiro positivo n é dito ser um divisor unitário
n
se mdc(d, ) = 1. Suponha que n é um inteiro positivo tal que a soma de seus divisores
d
unitários é 2n. Prove que n não pode ser ı́mpar.

Referências
[1] F. E. Brochero Martinez, C. G. Moreira, N. C. Saldanha, E. Tengan - Teoria dos
Números ? um passeio com primos e outros números familiares pelo mundo inteiro,
Projeto Euclides, IMPA, 2010.
[2] E. Carneiro, O. Campos and F. Paiva, Olimpı́adas Cearenses de Matemática 1981-2005
(Nı́veis Júnior e Senior), Ed. Realce, 2005.
[3] S. B. Feitosa, B. Holanda, Y. Lima and C. T. Magalhães, Treinamento Cone Sul 2008.
Fortaleza, Ed. Realce, 2010.
[4] D. Fomin, A. Kirichenko, Leningrad Mathematical Olympiads 1987-1991, MathPro
Press, Westford, MA, 1994.
[5] D. Fomin, S. Genkin and I. Itenberg, Mathematical Circles, Mathematical Words, Vol.
7, American Mathematical Society, Boston, MA, 1966.
[6] I. Niven, H. S. Zuckerman, and H. L. Montgomery, An Introduction to the Theory of
Numbers.

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Polos Olímpicos de Treinamento
Curso de Teoria dos Números - Nível 2 Aula 11
Prof. Samuel Feitosa

O Teorema Chinês dos Restos

Iremos estudar um antigo teorema descoberto pelos chineses no inı́cio século XIII. Come-
cemos recordando um lema da aula 06:

Lema 1. Se mdc(a, m) = 1, então existe um inteiro x tal que:

ax ≡ 1 (mod m).

Tal inteiro é único módulo m. Se mdc(a, m) > 1, não existe x satisfazendo tal equação.

Demonstração. Pelo teorema de Bachet-Bézout, existem inteiros x e y tais que ax+my = 1.


Analisando essa congruência módulo m, obtemos ax ≡ 1 (mod m). Se y é outro inteiro
que satisfaz a mesma congruência, temos ax ≡ ay (mod m). Pelo primeiro lema, x ≡ y
(mod m). Se d = mdc(a, m) > 1, não podemos ter d | m e m | ax − 1 pois d ∤ ax − 1.
Exemplo 2. Encontre x inteiro tal que:

x ≡ 1 (mod 11);
x ≡ 2 (mod 7).

A primeira congruência nos diz que x = 11k + 1 para algum k ∈ Z. Sejam q e r o quociente
e o resto da divisão de k por 7, respectivamente. Assim, k = 7q + r e x = 77q + 11r + 1.
Para x satisfazer a segunda congruência, devemos encontrar r ∈ {0, 1, 2, 3, 4, 5, 6} tal que
11r + 1 ≡ 2 (mod 7), ou seja, 4r ≡ 1 (mod 7). Como o inverso de 4 (mod 7) é 2, obtemos
r = 2 e x = 77q + 23. Veja que para qualquer q inteiro, tal x é solução do sistema de
congruências.
Exemplo 3. Encontre x inteiro tal que:

x ≡ 1 (mod 11)
x ≡ 2 (mod 7)
x ≡ 4 (mod 5)
POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel 2 - Aula 11 - Samuel Feitosa

Pelo exemplo anterior, para x satisfazer as duas primeiras equações, devemos ter
x = 77q +23. Dividindo q por 5, obtemos q = 5l+s com 0 ≤ s < 5. Daı́, x = 385l+77s+23.
Para satisfazer a última congruência, devemos ter 77s + 23 ≡ 4 (mod 5), ou seja, 2s ≡ 1
(mod 5). Como 3 é o inverso de 2 (mod 5), s = 3 e consequentemente x = 385l + 254.

Perceba que nos dois exemplos anteriores, o problema foi reduzido à encontrarmos o inverso
de um inteiro. No último exemplo, a solução geral possui a forma: x = 11·7·5l+231+22+1.
Essencialmente, o trabalho de encontrar esses inversos foi possı́vel pois os inteiros 5, 7 e 11
são primos entre si dois a dois.

Veremos agora um mecanismo levemente diferente para resolver tais sistemas equações.
Teorema 4. (Teorema Chinês dos Restos) Sejam m1 , m2 , . . . , mr , inteiros positivos
primos entre si, dois a dois, e sejam a1 , a2 , . . . , ar ; r inteiros quaisquer. Então, o sistema
de conguências:

x ≡ a1 (mod m1 )
x ≡ a2 (mod m2 )
..
.
x ≡ ar (mod mr )

admite uma solução x. Além disso, as soluções são únicas módulo m = m1 m2 . . . mr .


m
Demonstração. Escrevendo m = m1 m2 . . . mr , vemos que é um inteiro e
  m j
m
mdc , mj = 1. Então, pelo lema inicial, para cada j, existe um inteiro bj tal que
 mj  
m m
bj ≡ 1 (mod mj ). Claramente bj ≡ 0 (mod mi ) para i 6= j. Definamos
mj mj
m m m
x0 = b1 a1 + b2 a 2 + . . . + br a r
m1 m2 mr
m
Consideremos x0 módulo mi : x0 ≡ bj aj ≡ ai (mod mi ). Logo, x0 é uma solução do
mi
nosso sistema. Se x0 e x1 também o são, podemos escrever x0 ≡ x1 (mod mi ) para cada i.
Como mdc(mi , mj ) = 1, para i 6= j, pbtemos x0 ≡ x1 (mod m).
Observação 5. Se cada uma das equações do sistema anterior fosse do tipo
bi x ≡ ai (mod m)i , com mdc(bi , m) = 1, ainda poderı́amos usá-lo. Bastaria reescrever
bi x ≡ ai (mod m)i como x ≡ bi ai (mod m)i , onde bi é o inverso de bi (mod m)i .
Exemplo 6. Encontre o menor inteiro positivo x tal que x ≡ 5 (mod 7), x ≡ 7 (mod 11) e
x ≡ 3 (mod 13).
Usando o teorema anterior com m1 = 5, m2 = 7, m3 = 11, a1 = 5, a2 = 7 e a3 = 3 podemos
achar x ≡ 887 (mod 1001) = 7.11.13. Como a solução é única módulo m, isso significa
que, dentre os números 1, 2, · · · , 1001 a menor solução positiva é 887.

2
POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel 2 - Aula 11 - Samuel Feitosa

Exemplo 7. (OBM 2009) Sejam m e n dois inteiros positivos primos entre si. O Teorema
Chinês dos Restos afirma que, dados inteiros i e j com 0 ≤ i < m e o ≤ j < n, existe
exatamente um inteiro a, com 0 ≤ a < mn, tal que o resto da divisão de a por m é igual
a i e o resto da divisão de a por n é igual a j. Por exemplo, para m = 3 e n = 7, temos
que 19 é o único número que deixa restos 1 e 5 quando dividido por 3 e 7, respectivamente.
Assim, na tabela a seguir, cada número de 0 a 20 aparecerá exatamente uma vez.

0 1 2 3 4 5 6
0 A B
1 C D
2 E F

Qual a soma dos números das casas com as letras A, B, C, D, E e F ?


Usando o teorema chinês dos restos, podemos encontrar A = 15, B = 12, C = 10, D =
13, E = 8 e F = 11. Assim, A + B + C + D + E + F = 69.
Exemplo 8. (Estônia 2000) Determine todos os restos possı́veis da divisão do quadrado de
um número primo com 120 por 120.
Seja n tal que mdc(n, 120) = 1. Como 120 = 3 · 5 · 8, temos que n 6≡ 0 (mod 3), (mod 5)
(mod 2). Daı́, n2 ≡ 1 (mod 3), n2 ≡ 1 (mod 8) e n2 ≡ 1 ou 4 (mod 5). Sendo assim, n2
satisfaz o sistema:

x ≡ 1 (mod 3)
x ≡ 1 (mod 8)
x ≡ ±1 (mod 5)

cujas soluções são x ≡ 1 (mod 120) e x ≡ 49 (mod 120).

Aconselhamos ao leitor a resolução de alguns exemplos numéricos até adquirir prática com o
algoritmo usado para encontrar x0 . Provamos, no teorema passado, que todas as soluções
daquele sistema de congruências são os termos de uma P.A de razão m. Geralmente
usaremos aquele teorema apenas para garantir que um sistema de congruências admite
uma solução. Os próximos exemplos podem deixar isso mais claro.
Exemplo 9. Para cada número natural n, existe uma sequência arbitrariamente longa de
números natu rais consecutivos, cada um deles sendo divisı́vel por uma s-ésima potência
de um número natural maior que 1.

Demonstração. Dado m ∈ N, considere o conjunto {p1 , p2 , . . . , pm } de primos distintos.


Como mdc(psi , psj ) = 1, então pelo teorema 3, existe x tal que x ≡ −i (mod psi ) para
i = 1, 2, . . . m. Cada um dos números do conjunto {x + 1, x + 2, . . . , x + m} é divisı́vel por
um número da forma psi .

3
POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel 2 - Aula 11 - Samuel Feitosa

Exemplo 10. (USAMO 1986)

(a) Existem 14 inteiros positivos consecutivos tais que, cada um é divisı́vel por um ou
mais primos p do intervalo 2 ≤ p ≤ 11?

(b) Existem 21 inteiros positivos consecutivos tais que, cada um é divisı́vel por um ou
mais primos p do intervalo 2 ≤ p ≤ 13?

Demonstração. (a) Não. Suponha que existam tais inteiros. Da nossa lista de 14 inteiros
consecutivos, 7 são números pares. Vamos observar os ı́mpares: a, a + 2, a + 4, a + 6, a +
8, a + 10 e a + 12. Podemos ter no máximo três deles divisı́veis por 3, dois por 5, um por
7 e um por 11. Veja que 3 + 2 + 1 + 1 = 7. Pelo Princı́pio da Casa dos Pombos, cada um
desses ı́mpares é divisı́vel por exatamente um primo do conjunto {3, 5, 7, 11}. Além disso,
note que os múltiplos de 3 só podem ser {a, a + 6, a + 12}. Dois dos números restantes em
(a + 2, a + 4, a + 8, e a + 10) são divisı́veis por 5. Mas isso é impossı́vel. (b) Sim. Como
os números {210, 11, 13} são primos entre si, dois a dois, pelo teorema 3 existe um inteiro
positivo n > 10 tal que:
n ≡ 0( mod 210 = 2 · 3 · 5 · 7·)
n ≡ 1( mod 11)
n ≡ −1( mod 13)
Veja que o conjunto {n − 10, n − 9, . . . , n + 9, n + 10} satisfaz as condições do item (b).
Exemplo 11. Sejam a e b inteiros positivos tais que, para qualquer n natural, an +n | bn +n.
Prove que a = b.
Seja p um primo maior que a e b. Então mdc(p, a) = mdc(p, b) = 1. Como mdc(p, p−1) = 1,
existe um inteiro positivo n tal que n ≡ 1 (mod p − 1) e n ≡ −a (mod p). Pelo teorema de
Fermat, an + n ≡ 0 (mod ) e bn + n ≡ b − a (mod p). Assim, p | |b − a|. Como |b − a| < p,
segue que |b − a| = 0 e a = b.
Exemplo 12. (Olimpı́ada Nórdica 1998)

(a) Para quais inteiros positivos n existe um sequência x1 , x2 , . . . , xn contendo cada um


dos inteiros 1, 2, . . . , n exatamente uma vez, e tal que k divide x1 + x2 + · · · + xk para
k = 1, 2, · · · , n?

(b) Existe uma sequência infinita x1 , x2 , . . . contendo todo inteiro positivo exatamente
uma vez, e tal que para cada inteiro positivo k, k divide x1 + x2 + · · · + xk ?

a) Suponha que n é um inteiro que satisfaz o enunciado. Naturalmente n divide a soma:

n(n + 1)
x1 + x2 + . . . xn = .
2
n+1 n+1
Daı́, é um inteiro e n deve ser ı́mpar. Seja m = . Usando que
2 2
(n − 1) | x1 + x2 + . . . xn−1 = mn − xn ,

4
POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel 2 - Aula 11 - Samuel Feitosa

temos xn ≡ m (mod n − 1) se n ≥ 3 e, consequentemente, xn = m. Repetindo a mesma


análise para n − 2 no lugar de n − 1, obtemos xn−1 = m para n ≥ 5. Como não podem
existir dois termos iguais, temos um absurdo. Analisando os casos quando n ≤ 4, encon-
tramos n = 1 e n = 3 como únicas soluções.

b) Iremos construir a sequência indutivamente. Suponha que já tenhamos definido os termos
x1 , x2 , . . . , xn satisfazendo a condição k | x1 + x2 . . . xk para todo k ≤ n. Seja m o menor in-
teiro positivo que ainda não apareceu na sequência. Pelo Teorema Chinês dos Restos, existe
x tal que x ≡ −(x1 +x2 +. . .+xn ) (mod n+1) e x ≡ −(x1 +x2 +. . .+xn )−m (mod n+2).
Escolha l, inteiro positivo, tal que l > x1 , x2 , . . . , xn , m e l ≡ x (mod (n+1)(n+2)). Defina
xn+1 = l e xn+2 = m. Veja que a condição k | x1 + x2 . . . xk agora é verdadeira para todo
k ≤ n + 2. Para o inı́cio, basta definir x1 = 1.
Exemplo 13. (Olimpı́ada de São Petesburgo 1990) Dado um polinômio F (x) com coefi-
cientes inteiros, tal que, para cada inteiro n, o valor de F (n) é divisı́vel por pelo menos
um dos inteiros a1 , a2 , · · · , am . Prove que podemos encontrar um ı́ndice k tal que F (n) é
divisı́vel por ak para cada inteiro positivo n.

Demonstração. Suponha que não exista tal ı́ndice. Para cada ı́ndice k (k = 1, 2, . . . , m),
existe um inteiro xk tal que F (xk ) não é divisı́vel por ak . Assim, existem números
dk = pαk k (onde pk são números primos), tais que dk divide ak mas não divide F (xk ). Se
existem potências do mesmo primo entre esses números, podemos apagar aquelas repeti-
das deixando apenas uma que tem expoente mı́nimo. Caso F (x) não seja divisı́vel por
uma potência apagada, não será pela potência que tem expoente mı́nimo. Essas deleções
garatem que nossa nova coleção d1 , d2 , . . . , dj de potências de primos contenham apenas
inteiros primos entre si, dois a dois. Pelo teorema chinês dos restos, exite um inteiro N
tal que N ≡ xk (mod d)k , para k ∈ {1, 2, . . . , j}. Suponhamos que dk | F (N ). Sabemos
que x − y | F (x) − F (y) e consequentemente N − xk | F (N ) − F (xk ). Como dk | N − xk ,
devemos ter dk | F (xk ). Uma contradição! Logo, F (N ) não é divisı́vel por nenhum dk e
isso contradiz a hipótese sobre os ai .

Problemas Propostos

Problema 14. Encontre o menor inteiro positivo (com a exceção de x = 1) que satisfaça o
seguinte sistema de congruências:

x ≡ 1 (mod 3)
x ≡ 1 (mod 5)
x ≡ 1 (mod 7)

5
POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel 2 - Aula 11 - Samuel Feitosa

Problema 15. Encontre todas as soluções do sistema:

x ≡ 2 (mod 3)
x ≡ 3 (mod 5)
x ≡ 5 (mod 2)

Problema 16. Encontre todos os inteiros que deixam restos 1, 2 e 3 quando divididos por
3, 4 e 5, respectivamente.
Problema 17. Encontre todas as soluções do sistema:

3x ≡ 1 (mod 4)
2x ≡ 1 (mod 3)
4x ≡ 5 (mod 7)

Problema 18. Encontre todas as soluções das congruências:

a) 20x ≡ 4 (mod 30).

b) 20x ≡ 30 (mod 4).

c) 353x ≡ 254 (mod 400).

Problema 19. Se a é escolhido ao acaso no conjunto {1, 2, 3, . . . , 14} e b é escolhido ao


acaso no conjunto {1, 2, . . . , 15}, qual a probabilidade de que a equação ax ≡ b (mod 15)
possua pelo menos uma solução?
Problema 20. Sejam a e b inteiros tais que mdc(a, b) = 1 e c > 0. Prove que existe um
inteiro x tal que mdc(a + bx, c) = 1.
Problema 21. Existem n inteiros consecutivos tal que cada um contém um fator primo
repetido k vezes?
Problema 22. Seja n um número natural arbitrário. Prove que existe um par de naturais
(a, b) tais que mdc(a + r, b + s) > 1 ∀ r, s = 1, 2, . . . , n.
Problema 23. Um ponto (x, y) ∈ Z 2 é legal se mdc(x, y) = 1. Prove ou disprove: Dado
um inteiro positivo n, existe um ponto (a, b) ∈ Z 2 cuja distância a todo ponto legal e pelo
menos n?
Problema 24. Sejam mo , m1 , ..., mr inteiros positivos que são primos entre si, dois a dois.
Mostre que existem r+1 inteiros consecutivos s, s+1, ..., s+r tal que mi divide s+i para i =
0, 1, ..., r.
Problema 25. (Romênia 1995) Seja f : N−{0, 1} → N definida por f (n) = mmc[1, 2, ..., n].
Prove que para todo n ≥ 2, existem n números consecutivos para os quais f é constante.

6
Problema 26. (OBM 2005) Dados os inteiros positivos a, c e o inteiro b, prove que existe
um inteiro positivo x tal que ax + x ≡ b (mod c).
Problema 27. (Cone Sul 2003) Demonstrar que existe uma sequência de inteiros positivos
x1 , x2 , . . . que satisfaz as duas condições seguintes:

(a) contém exatamente uma vez cada um dos inteiros positivos,

(b) a soma parcial x1 + x2 + . . . xn é divisı́vel por nn .

Problema 28. (República Tcheca e Eslovaca 1997) Mostre que existe uma sequência cres-
cente {an }∞
n=1 de números naturais tais que para k ≥ 0 , a sequência {an + k} contém um
número finito de primos.
Problema 29. Considere o inteiro c ≥ 1 e a sequência definida por a1 = c e ai+1 = cai .
Mostre que esta sequência se torna eventualmente constante quando a reduzimos módulo n
para algum inteiro positivo n (isto significa que am ≡ aj (mod n) se m ≥ j).
Problema 30. (Coréia 1999) Encontre todos os inteiros n tais que 2n − 1 é um múltiplo de
2n − 1
3e é um divisor de 4m2 + 1 para algum inteiro m.
3
Problema 31. (OBM 2006) Prove que, para todo inteiro n ≤ 2, o número de matrizes
quadradas 2 × 2 com entradas inteiras e pertencentes ao conjunto {0, 1, 2, . . . , n − 1} que
têm determinante da forma kn + 1 para algum k inteiro é dado por
 
Y 1
1− 2 .
p
p primo
p|n

Problema 32. Encontre todos os subconjuntos S ⊂ Z+ tais que todas as somas de uma
quantidade finita de elementos de S(com possı́veis repetições de elementos) são números
compostos.
Problema 33. Existe algum natural n para o qual existem n − 1 progressões aritméticas
com razões 2, 3, . . . , n tais que qualquer natural está em pelo menos uma das progressões?
Problema 34. Seja P (X) um polinômio com coeficientes inteiros e k é um inteior qualquer.
Prove que existe um inteiro m tal que P (m) tem pelo menos k fatores primos distintos.

Acompanhe as dicussões dos problemas propostos no fórum do POTI:


www.poti.impa.br/forum/
Referências
[1] F. E. Brochero Martinez, C. G. Moreira, N. C. Saldanha, E. Tengan - Teoria dos
Números ? um passeio com primos e outros números familiares pelo mundo inteiro,
Projeto Euclides, IMPA, 2010.

[2] E. Carneiro, O. Campos and F. Paiva, Olimpı́adas Cearenses de Matemática 1981-2005


(Nı́veis Júnior e Senior), Ed. Realce, 2005.

[3] S. B. Feitosa, B. Holanda, Y. Lima and C. T. Magalhães, Treinamento Cone Sul 2008.
Fortaleza, Ed. Realce, 2010.

[4] D. Fomin, A. Kirichenko, Leningrad Mathematical Olympiads 1987-1991, MathPro


Press, Westford, MA, 1994.

[5] D. Fomin, S. Genkin and I. Itenberg, Mathematical Circles, Mathematical Words, Vol.
7, American Mathematical Society, Boston, MA, 1966.

[6] I. Niven, H. S. Zuckerman, and H. L. Montgomery, An Introduction to the Theory of


Numbers.
Polos Olímpicos de Treinamento
Curso de Teoria dos Números - Nível 2 Aula 12
Prof. Samuel Feitosa

Equações Diofantinas II

Continuaremos nosso estudo das equações diofantinas abordando agora algumas equações
quadráticas. Começaremos peloo clássico problema das ternas pitagóricas.

Desejamos encontrar todas as soluções (x, y, z) da equação:

x2 + y 2 = z 2 ,
x y z 
em inteiros positivos. Seja d = mdc(x, y). Como d2 | z 2 , segue que d | z e que , ,
d d d
também é solução. Além disso, podemos concluir que:

mdc(x/d, y/d) = mdc(x/d, z/d) = mdc(y/d, z/d) = 1.

Uma terna que é solução e possui a propriedade de que quaisquer dois de seus termos
são primos entre si, será chamada de solução primitiva. Assim, toda solução (x, y, z) é da
forma (dx1 , dy1 , dz1 ) onde (x1 , y1 , z1 ) é uma solução primitiva. Para cumprimirmos nosso
objetivo, bastará nos concentrarmos em encontrar todas as soluções primitivas. Analisando
a equação módulo 4 e lembrando que todo quadrado perfeito pode deixar apenas os restos 0
ou 1, concluı́mos que exatamente um dentre x e y é par. Suponha sem perda de generalidade
que y seja par. Fatorando a equação, obtemos:
z+x z−x  y 2
· =
2 2 2

Como mdc((z + x)/2, (z − x)/2) = 1, concluı́mos que (z + x)/2 e (z − x)/2 devem ser ambos
quadrados perfeitos, i.e., existem inteiros positivos r e s, com r > s e mdc(r, s) = 1, tais que
(z + x)/2 = r 2 e (z − x)/2 = s2 (veja o primeiro problema proposto). Consequentemente,
x = r 2 − s2 , y = 2rs e z = r 2 + s2 . Reciprocamente, se (x, y, z) = (r 2 − s2 , 2rs, r 2 + s2 ),
temos:

x2 + y 2 = (r 2 − s2 )2 + (2rs)2 = (r 2 + s2 )2 = z 2 .

O próximo teorema resume nossa discussão original:


POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel 2 - Aula 12 - Samuel Feitosa

Teorema 1. Todas as soluções primitivas de x2 +y 2 = z 2 com y par são da forma x = r 2 −s2 ,


y = 2rs e z = r 2 + s2 , onde r e s são inteiros de paridade oposta com r > s > 0 e
mdc(r, s) = 1.

Exemplo 2. Encontre todas as ternas pitagóricas (a, b, c) tais que a + b + c = 1000.

Seja k = mdc(a, b, c) e suponha sem perda de generalidade que b/k é par. Pelo teorema
anterior, (a, b, c) = (k(x2 − y 2 ), k(2xy), k(x2 + y 2 )), onde x > y, mdc(x, y) = 1 e pelo menos
um dentre x e y par. Assim, (x2 − y 2 ) + 2xy + (x2 + y 2 ) = 2x(x + y) é um divisor de 1000.
Com mais razão, x(x + y) | 500. Usando que mdc(x, x + y) = 1 e a fatoração em primos de
500, podemos concluir que um deles é uma potência de 5 e o outro uma potência de 2. Veja
que x não pode ser uma potência de 5 pois nesse caso y deveria ser ı́mpar para garantir
que x + y seja uma potência de 2. Assim, x | 500 e x = 2k , produzindo como possibilidades
x = 1, 2 ou 4. Analisando cada um desses casos e levando em conta que y < x, é fácil
encontrar que x = 4 e y = 1 são as únicas opções possı́veis. Nesse caso, x = 15, y = 8 e
z = 17. Consequentemente, (a, b, c) = (20 · 15, 20 · 8, 20 · 17).

Exemplo 3. Mostre que se a, b e c são inteiros positivos tais que a2 + b2 = c2 , então


(ab)4 + (bc)4 + (ca)4 é um quadrado perfeito.

Veja que:

(ab)4 + (bc)4 + (ca)4 = (a2 b2 + b4 )2 + (a2 b2 )2 + (a2 b2 + a4 )2 = (a4 + a2 b2 + b4 )2 .

Exemplo 4. Encontre todas as soluções de x2 + 2y 2 = z 2 em inteiros positivos com


mdc(x, y, z) = 1.

Como 2y 2 ≡ 0 (mod 2), devemos ter x ≡ z (mod 2). Além disso, se fosse x ≡ z ≡ 0
(mod 2) terı́amos 4 | z 2 − x2 = 2y 2 e consequentemente 2 | y, contradizendo a hipóstese
mdc(x, y, z) = 1. Fatorando a expressão, temos:

2y 2 = (z − x)(z + x).

Como mdc(x, z) = 1 e ambos são ı́mpares; mdc(z − x, z + x) = 2 e apenas um deles é


côngruo à 2 (mod 4). Temos dois casos a considerar: 1) z + x ≡ 0 (mod 4) e z − x ≡ 2
(mod 4). Nesse caso, y 2 = (z − x)/2 · (z + x) com mdc((z − x)/2, (z + x)) = 1. Daı́,
existem inteiros positivos r e s tais que (z − x)/2 = r 2 e (z + x)/2 = s2 , produzindo a
solução (x, y, z) = ((s2 − 2r 2 )/2, rs, (2r 2 + s2 )/2) com mdc(r, s) = 1 e s ≡ 0 (mod 2). Um
raciocı́nio análogo para o caso z + x ≡ 2 (mod 4) e z − x ≡ 0 (mod 4) produz (x, y, z) =
((2s2 − r 2 )/2, rs, (r 2 + 2s2 )/2) com mdc(r, s) = 1 e r ≡ 0 (mod 2).

Problema 5. (USAMO 1976) Encontre todas as soluções naturais da equação

a2 + b2 + c2 = a2 b2 .

A equação pode ser reescrita como:

c2 = (a2 − 1)(b2 − 1) − 1.

2
POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel 2 - Aula 12 - Samuel Feitosa

Se pelo menos um dentre a ou b é ı́mpar, teremos c2 ≡ 3 (mod 4). Como os quadrados


perfeitos só podem deixar resto 0 ou 1 (mod 4), temos um absurdo. Portanto, a, b e
consequentemente c são números pares. Seja k o maior inteiro tal que 2k divida esses três
números. Assim, a = 2x , b = 2k y, c = 2k z onde pelo menos um dentre x, y e z ı́mpar.
Assim,
x2 + y 2 + z 2 = 22r x2 y 2 .
Como r > 0, x2 + y 2 + z 2 ≡ 0 (mod 4). Entretanto, isso não é possı́vel se um dentre os
x, y, z é ı́mpar pois a soma só poderia ser congruente à 1, 2, 3 (mod 4).
Exemplo 6. (Extraı́do de [1]) Determine todas as ternas (a, b, c) de inteiros positivos tais
que a2 = 2b + c4 .
Como a2 = 2b + c4 ⇐⇒ (a − c2 )(a + c2 ) = 2b , pelo Teorema Fundamental da Aritmética
existem dois naturais m > n tais que m + n = b, a − c2 = 2n e a + c2 = 2m . Subtraindo as
duas últimas equações, obtemos que 2c2 = 2m − 2n , assim c2 = 2n−1 (2m−n − 1). Como 2n−1
e 2m−n − 1 são primos entre si e o seu produto é um quadrado perfeito (i.e. os expoentes
das potências de primos distintos são pares), novamente pelo Teorema Fundamental da
Aritmética 2n−1 e 2m−n − 1 devem ser ambos quadrados perfeitos, logo n − 1 é par e
2m−n −1 = (2k−1)2 para algum inteiro positivo k. Como 2m−n = (2k−1)2 +1 = 4k(k−1)+2
é divisı́vel por 2 mas não por 4, temos m − n = 1. Assim, fazendo n − 1 = 2t, temos que
todas as soluções são da forma (a, b, c) = (3 · 22t , 4t + 3, 2t ) com t ∈ N e é fácil verificar que
todos os números desta forma são soluções.
O próximo exemplo ilustrará o método da descida de Fermat que faz uso do princı́pio
da boa ordenação: todo subconjunto não vazio de inteiros positivos possui um elemento
mı́nimo.
Exemplo 7. Determine todas as soluções da equação x4 + y 4 = z 2 em inteiros positivos
com mdc(x, y) = 1.
Como (x2 )2 + (y 2 )2 = z 2 e mdc(x2 , y 2 ) = 1, podemos usar o primeiro teorema para concluir
que existem u e v tais que x2 = u2 − v 2 , y 2 = 2uv, z = u2 + v 2 , u > v > 0 e mdc(u, v) = 1
(Estamos assumindo sem perda de generalidade que x é ı́mpar). Se u é par, então v será
ı́mpar e teremos x2 ≡ 3 (mod 4). Como isso é um absurdo, u deve ser ı́mpar e v deve ser
par. Sendo assim, (y/2)2 = u · v/2 com mdc(u, v/2) = 1. Devemos ter u = r 2 , v/2 = s2 ,
com mdc(r, s) = 1, r, s > 0, r ı́mpar e y = 2rs. Além disso, como x2 + v 2 = u2 , obtemos
x2 + 4s2 = r 4 . Como mdc(r, 2s) = 1, novamente pelo primeiro teorema, existem m e n tais
que x = m2 − n2 , 2s2 = 2mn e r 2 = m2 + n2 com mdc(m, n) = 1 e m > n > 0. Como
mn = s2 , podemos escrever m = f 2 e n = g2 com f, g > 0 e mdc(f, g) = 1. Portanto,
r 2 = f 4 + g4 . Note que dada a solução em inteiros positivos (x, y, z), obtivemos outra
solução (f, g, r), também nos inteiros positivos, com 0 < r < z. Isso nos diz que existe
uma infinidade decrescente de possı́veis valores para o inteiro positivo z e naturalmente
obtemos uma contradição do princı́pio da boa ordenação. Sendo assim, a equação anterior
não possui solução nos inteiros positivos.
Observação 8. Outra maneira de formalizar o argumento anterior é escolher dentre as
ternas nos inteiros positivos que são soluções, aquela com z mı́nimo. A nova terna (f, g, r)
caracterizaria um absurdo.

3
POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel 2 - Aula 12 - Samuel Feitosa

Exemplo 9. Prove que para todo inteiro n > 2, existem inteiros positivos p e q tais que
n 2 + q 2 = p2 .

Fatorando a expressão, obtemos n2 = (p − q)(p + q). Se n é ı́mpar, podemos encontrar p e


q tais que p + q = n2 e p − q = 1, bastando para isso resolver o sistema originado, obtendo
2 2
(n, q, p) = (n, n 2−1 , n 2+1 ). Se n é par, podemos fazer algo semelhante e encontrar p e q tais
2 2
que p + q = n2 /2 e p − q = 2, cuja solução é (n, q, p) = (n, n4 − 1, n4 + 1).

Exemplo 10. (Extraı́do de [3]) Prove que a equação

x2 + y 2 + z 2 + w2 = 2xyzw (1)

não possui soluções inteiras positivas.

Por contradição, suponha que (1) possua pelo menos uma solução não-trivial, digamos
(x0 , y0 , z0 , w0 ). Se x0 , y0 , z0 , w0 forem todos ı́mpares, o lado esquerdo é um múltiplo de 4
e o lado direito não. Se apenas um ou três deles forem pares, o lado esquerdo é ı́mpar e o
direito é par. Se dois deles forem pares e dois forem ı́mpares, o lado direito é um múltiplo
de quatro e o esquerdo não. Desse modo, x0 , y0 , z0 , w0 são todos pares, ou seja, x0 = 2x1 ,
y0 = 2y1 , z0 = 2z1 e w0 = 2w1 . Substituindo em (1) e dividindo por quatro, concluı́mos
que x1 , y1 , z1 , w1 satisfazem a igualdade

x21 + y12 + z12 + w12 = 8x1 y1 z1 w1 .

Com uma análise de paridades análoga à acima, obtemos x1 = 2x2 , y1 = 2y2 , z1 = 2z2 e
w1 = 2w2 , e daı́
x22 + y22 + z22 + w22 = 32x2 y2 z2 w2 .
Procedendo dessa maneira, x0 , y0 , z0 , w0 devem ser todos múltiplos de 2n , qualquer que seja
n ≥ 1. Então x0 = y0 = z0 = w0 = 0, absurdo.

Exemplo 11. (Extraı́do de [3]) Encontre todas as quadrúplas (x, y, z, k) de números inteiros,
com x, y, z > 0 e k ≥ 0, tais que

x6 + y 6 + z 6 = 4826 · 7k .

Vamos mostrar o seguinte fato:

(x, y, z, k) é solução, com k ≥ 1 ⇐⇒ (x/7, y/7, z/7, k − 6) é solução,


e nesse caso k ≥ 6.

(=⇒) Temos x6 + y 6 + z 6 ≡ 0 (mod 7). Como x6 , y 6 , z 6 ≡ 0 ou 1 (mod 7), devemos ter


x, y, z múltiplos de 7. Daı́, 76 |4826 · 7k ⇒ 76 |7k ⇒ k ≥ 6. Ademais, vale a igualdade
 x 6  y 6  z 6
+ + = 4826 · 7k−6 ,
7 7 7

4
ou seja, (x/7, y/7, z/7, k − 6) também é solução.
(⇐=) Claro.
O fato acima garante que podemos ir subtraindo 6 de k e retirando um fator 7 de x, y,
z enquanto k ≥ 1, até que o expoente de 7 no lado direito da igualdade seja 0. Em outras
palavras, existe n ≥ 0 tal que k = 6n, com x = 7n · x0 , y = 7n · y0 , z = 7n · z0 , e

x0 6 + y0 6 + z0 6 = 4826.

A equação acima só tem a solução (1, 3, 4) e suas permutações. Assim, as soluções da
equação original são (7n , 3 · 7n , 4 · 7n , 6n), n ≥ 0, e suas permutações nas três primeiras
coordenadas.

Problemas Propostos

Problema 12. Mostre que se a · b = x2 e mdc(a, b) = 1 então existem r e s tais que a = r 2


e b = s2 .
1 1 1
Problema 13. Prove que todas as soluções positivas da equação 2 + 2 = 2 com
x y z
mdc(x, y, z) = 1 são dadas por

(x, y, z) = (r 4 − s4 , 2rs(r 2 + s2 ), rs(r 2 − s2 ))

ou
(x, y, z) = (2rs(r 2 + s2 ), r 4 − s4 , rs(r 2 − s2 )),
onde r > s > 0, mdc(r, s) = 1 e r e s de paridades opostas.
Problema 14. Encontre todos os pares de racionais (x, y) tais que x2 + y 2 = 1.
Problema 15. Resolva simultaneamente em inteiros positivos:

a2 + b2 = c2
a2 + c2 = d2

onde a, b, c e d são inteiros positivos relativamente primos entre si dois dois.


Problema 16. (Torneio das Cidades 1997) Prove que a equação

x2 + y 2 − z 2 = 1997

tem infinitas soluções inteiras (x, y, z).


Problema 17. Encontre todas as soluções inteiras de x2 + y 2 + z 2 = t2 .
Problema 18. Encontre todas as soluções de 5m2 + n2 = 52011
Problema 19. Encontre todas as soluções em números naturais m e n da equação:

m2 = 1 + 2 + . . . + n.
Referências
[1] F. E. Brochero Martinez, C. G. Moreira, N. C. Saldanha, E. Tengan - Teoria dos
Números: um passeio com primos e outros números familiares pelo mundo inteiro,
Projeto Euclides, IMPA, 2010.

[2] E. Carneiro, O. Campos and F. Paiva, Olimpı́adas Cearenses de Matemática 1981-2005


(Nı́veis Júnior e Senior), Ed. Realce, 2005.

[3] S. B. Feitosa, B. Holanda, Y. Lima and C. T. Magalhães, Treinamento Cone Sul 2008.
Fortaleza, Ed. Realce, 2010.

[4] D. Fomin, A. Kirichenko, Leningrad Mathematical Olympiads 1987-1991, MathPro


Press, Westford, MA, 1994.

[5] D. Fomin, S. Genkin and I. Itenberg, Mathematical Circles, Mathematical Words, Vol.
7, American Mathematical Society, Boston, MA, 1966.

[6] I. Niven, H. S. Zuckerman, and H. L. Montgomery, An Introduction to the Theory of


Numbers.
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Prof. Samuel Feitosa

Resı́duos Quadráticos

Definição 1. Para todos a tais que mdc(a, m) = 1, a é chamado resı́duo quadrático módulo
m se a congruência x2 ≡ a (mod m) tem solução. Se ela não tem solução, então a é
chamado de resı́duo não quadrático módulo m.

Exemplo 2. Seja n um inteiro. Prove que se 2 + 2 28n2 + 1 é um inteiro, então é um
quadrado perfeito.
√ √
Se 2+2 28n2 + 1 é inteiro, o número 28n2 + 1 é um racional e consequentemente devemos
ter que 28n2 + 1 é o quadrado de um inteiro ı́mpar, digamos:

28n2 + 1 = (2k + 1)2 ⇒


28n2 + 1 = 4k 2 + 4k + 1 ⇒
7n2 = k(k + 1)

Devemos considerar dois casos: 7 | k ou 7 | k+1. Além disso, lembremo-nos do seguinte fato:

Se mdc(a, b) = 1, e a · b = n2 então existem inteiros x e y tais que a = x2 e y = b2 .

Como mdc(k, k + 1) = 1, temos os dois casos para analisar:


Primeiro caso:
= x2

k
(k + 1)/7 = y 2
Assim, 1 = (k + 1) − k = 7y 2 − x2 . Analisando essa equação módulo 7, temos x2 ≡ −1
(mod 7). Entretanto, analisando os quadrados dos restos da divisão por 7, podemos notar
que −1 não é um resı́duo quadrático e consequentemente temos um absurdo.

Segundo caso:

k/7 = x2


k + 1 = y2
POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel 2 - Aula 18 - Samuel Feitosa


Daı́, 2 + 2 28n2 + 1 = 2 + 2(2k + 1) = 4(k + 1) = (2y)2 e isso conclui o problema.

Em geral, se p é um primo da forma 4k + 3, −1 nunca é resı́duo quadrático. Para ver isso,


suponha que existe x tal que:

x2 ≡ −1 (mod p) ⇒
(x2 )(p−1)/2 ≡ (−1)(p−1)/2 (mod p) ⇒
p−1
x ≡ −1 (mod p).

Isso contradiz o teorema de Fermat.


 
a
Definição 3. Se p denota um primo ı́mpar, então o sı́mbolo de Legendre é definido
p
por 1 se a é um resı́duo quadrático, −1 se a não é um resı́duo quadrático módulo p, e 0 se
p|a.
Teorema 4. Se p é um primo ı́mpar. Então
 
a p−1
a) ≡ a 2 (mod p)
p
    
a b ab
b) =
p p p
   
a b
c) a ≡ b (mod p) implica que =
p p
 2  2   
a a b b
d) Se mdc(a, p) = 1 então =1e =
p p p
   
1 −1 p−1
e) = 1, = (−1) 2
p p
Provemos inicialmente o item a) quando mdc(a, p) = 1. Em virtude do teorema de Fermat,
perceba que se mdc(a, p) = 1 então:

p | ap−1 − 1 = (ap−1/2 + 1)(ap−1/2 − 1).


 
a
Daı́, ap−1/2 ≡ ±1 (mod p). Suponha que = 1, então existe x tal que
p

x2 ≡ a (mod p) ⇒
p−1 p−1
(x2 ) 2 ≡ a 2 ⇒
p−1
xp−1 ≡ a 2

p−1
Pelo teorema
 de Fermat, a última congruência nos diz que a 2 ≡ 1 (mod p). Suponha
a
agora que = −1, ou seja, que não existe x tal que x2 ≡ a (mod p). Assim, podemos
p

2
POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel 2 - Aula 18 - Samuel Feitosa

separar os números do conjunto {1, 2, . . . , p − 1} em pares (i, j) onde ij ≡ a (mod p) e


i 6= j. Daı́, o produto de todos esses pares é

1 · 2 · 3 · . . . · (p − 1) ≡ a · a · . . . · a (mod p)
p−1
≡ a 2 (mod p)
 
p−1 a
Usando o teorema de Wilson, concluı́mos que a 2 ≡ −1 (mod p). Se p | a, ≡0≡
p
p−1
a 2 (mod p). Os demais itens seguem de a).
Exemplo 5. Suponha que p é um primo ı́mpar. Seja n o menor não-resı́duo quadrático

positivo módulo p. Prove que n < 1 + p.
Seja m o maior inteiro positivo tal que mn > p, ou seja, (m − 1)n < p < mn. Assim,
0 < mn − p < n e consequentemente:
 
mn − p
1 =
p
 
mn
=
p
   
m m
= ·
p p
 
m
= −
p
Daı́, m ≥ n e
(n − 1)2 < n(n − 1)
≤ n(m − 1)
< p.

Portanto, n − 1 < p.
Teorema 6. (Lema de Thue) Sejam m um número natural e a um inteiro primo com m,
então existem inteiros x e y tais que:

1. 0 < |x|, |y| < m;
2. ax ≡ y (mod m).

Demonstração. Considere o conjunto {au − v|u, v ∈ Z, 0 ≤ u, v ≤ ⌊ p⌋}. Como existem

⌈ p⌉2 > p tais pares (u, v), existirão (u1 , v1 ) 6= (u2 , v2 ) tais que
au1 − v1 ≡ au2 − v2 (mod p)
Sejam x = v1 − v2 e y = u1 − u2 . Claramente ii) está satisfeito. Por construção, x, y não
podem ser ambos nulos e, caso um deles seja, o outro também o será. Logo i) também é
verdade.

3
POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel 2 - Aula 18 - Samuel Feitosa

Proposição 7. Sejam D ∈ Z e m ∈ N inteiros relativamente primos tais que −D é um


resı́duo quadrático módulo m. Então existem inteiros k, x, y ∈ Z com 0 < k ≤ D e

0 < |x|, |y| < p tais que:

x2 + Dy 2 = kp

Demonstração. Seja a tal que a2 ≡ −D (mod p) e x, y como no teorema anterior com


m = p. Então, por um lado:

0 < x2 + Dy 2 < (1 + D)p

e por outro lado,

x2 + Dy 2 ≡ (a2 + D)y 2 ≡ 0 (mod p)


 
−3
Exemplo 8. Seja p > 3 um primo ı́mpar tal que = 1, existem x e y tais que
p
x2 + 3y 2 = p.

Pelo teorema anteiror, Exitem x, y, k tais que x2 + 3y 2 = pk com |x|, |y| ≤ p. Assim,
x2 + 3y 2 < 4p. Temos tres casos a considerar:
Primeiro caso: x2 + 3y 2 = 3p. Devemos ter x2 ≡ 0 (mod 3) e x = 3x0 . Daı́, 3x20 + y 2 = p.

Segundo caso: x2 + 3y 2 = 2p. Como 2p é par, devemos ter x e y ambos ı́mpares ou ambos
pares. Em qualquer caso, x2 + 3y 2 será múltiplo de 4 e consequentemente 2 | p. Isso é um
absurdo.

Terceiro caso: x2 + 3y 2 = p. Não há o que fazer nesse caso.


Teorema 9. (Lema de Gauss ) Seja p um primo ı́mpar e a um inteiro tal que mdc(a, p) = 1,
a(p − 1)
Considere os inteiros a, 2a, . . . , e seus restos módulo p. Se n denota o número
2 
a
desses restos que excedem p2 então = (−1)n
p
Demonstração. Sejam r1 , r2 , . . . rn os resı́duos que excedem p/2 e sejam s1 , s2 , . . . , sk os
resı́duos restantes. Naturalmente todos esses restos são distintos e nenhum deles é nulo.
Considere agora os números da forma p − ri e perceba que 0 < p − ri < p/2. Se tivéssemos
p − ri ≡ sj (mod p) para algum par (i, j), também terı́amos ri + sj ≡ 0 (mod p) e por con-
a(p − 1)
seguinte p dividiria a soma de dois números do conjunto {a, 2a, . . . , }. Entretanto,
2
isso é um absurdo porque a soma de quaisquer dois número desse conjunto é da forma ak
com 0 < k < p e a não é divisı́vel por p. Logo, os números da forma p − rj são todos
distintos dos números da forma si e todos eles pertencem ao conjunto {1, 2, . . . (p − 1)/2}.

4
POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel 2 - Aula 18 - Samuel Feitosa

Como n + k = (p − 1)/2, podemos concluir que:


p−1
(p − r1 )(p − r2 ) . . . (p − rn )s1 s2 . . . sk = 1 · 2 · . . . · ⇒
2
p−1
(−r1 )(−r2 ) . . . (−rn )s1 s2 . . . sk ≡ 1 · 2 · ... · (mod p) ⇒
2
p−1
(−1)n r1 r2 . . . rn s1 s2 . . . sk ≡ 1 · 2 · ... · (mod p) ⇒
2
p−1 p−1
(−1)n a · 2a · . . . · a ≡ 1 · 2... (mod p) ⇒
2 2
(−1)n a(p−1)/2 ≡ 1 (mod p) ⇒
(−1)n ≡ a(p−1)/2 (mod p).

Pelo critério de Euler, o resultado segue.


 
a
Teorema 10. Se p é um primo ı́mpar e mdc(a, 2p) = 1, então = (−1)t onde t =
p
p−1
2    
X ja 2 p2 −1
e = (−1) 8 .
p p
j=1

a(p − 1)
Demonstração. Consideraremos novamente o conjunto {a, 2a, . . . , } e usaremos a
2
mesma notação do teorema anterior. Quando o inteiro ja é dividido por p, obtemos como
quociente o número ⌊ja/p⌋. Assim, podemos escrever:

(p−1)/2 (p−1)/2 n k
X X X X
ja = p⌊ja/p⌋ + rj + sj
j=1 j=1 j=1 j=1

e
(p−1)/2 n n k
X X X X
j = (p − ri ) + sj + sj
j=1 i=1 j=1 j=1
n
X k
X
= np − rj + sj
j=1 j=1

Substituindo na equação anterior, obtemos:


 
(p−1)/2 (p−1)/2 n
X X X
(a − 1) j = p  ⌊ja/p⌋ − n + 2
 rj
j=1 j=1 j=1

Como
(p−1)/2
X p2 − 1
j= ,
8
j=1

5
POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel 2 - Aula 18 - Samuel Feitosa

temos:
(p−1)/2
p2 − 1 X
(a − 1) ≡ ⌊ja/p⌋ − n (mod 2)
8
j=1

(p−1)/2
X
Se a é ı́mpar, n ≡ ⌊ja/p⌋ (mod 2). Se a = 2, isto implica que n ≡ (p2 −1)/8 (mod 2)
j=1
pois ⌊2j/p⌋ = 0 para 1 ≤ j ≤ (p − 1)/2. O resultado decorre do teorema anterior.
2n − 1
Exemplo 11. Encontre todos os inteiros positivos n tais que 2n −1 é divisı́vel por 3 e
3
tem um múltiplo da forma 4m2 + 1 para algum natural m.

Teorema 12. (Lei da reciprocidade quadrática) Se p e q são primos ı́mpares distintos, então
  
p q p−1 q−1
= (−1) 2 · 2
q p

Demonstração. Seja S o conjunto de todos os pares de inteiros (x, y) satisfazendo 1 ≤ x ≤


(p − 1)/2, 1 ≤ y ≤ (q − 1)/2. O conjunto S possui (p − 1)(q − 1)/4. Suponha que exista
um par (x, y) tal que qx = py. Como mdc(p, q) = 1, segue que q | y e p | x. Entretanto,
nos internvalos mencionados não existem tais múltilplos. Separemos então esse conjunto
em dois outros mutuamente exclusivos:

S1 = {(x, y)|qx > py}


S2 = {(x, y)|qx < py}

b b
S1 b b b b

b b b b b
S2 b

b b b b b b

b b b b b b

(p−1)/2 (q−1)/2
X X
Os números de pares em S1 e S2 são ⌊qx/p⌋ e ⌊py/q⌋. Fazendo a contagem
x=1 y=1
total de pares, temos:
(p−1)/2 (q−1)/2
X X p−1 q−1
⌊qx/p⌋ + ⌊py/q⌋ = ·
2 2
x=1 y=1

e, em virtude do teorema anterior, obtemos:


  
p q p−1 q−1
= (−1) 2 · 2
q p

6
POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel 2 - Aula 18 - Samuel Feitosa

x2 − 2
Exemplo 13. Mostre que nunca é um inteiro quando x e y são inteiros.
2y 2 + 3
Exemplo 14. Seja q = 4n + 1 onde n é um inteiro positivo. Prove que q é um primo se, e
q−1
somente se, 3 2 ≡ −1 (mod q)
Se q é um primo, então q ≡ 2 (mod 3) e pela lei da reciprocidade quadrática temos:

1 = (−1)(q−1)/2·1
  
3 q
=
q 3
 
3
= (−1)
q

Em virtude dessa equação e do critério de Euler, temos:


 
3
−1 =
q
q−1
≡ 3 2 (mod q)
q−1
Reciprocamente, se 3 2 ≡ −1 (mod q), então ordq 3 = 4n . Como ordq 3 | ϕ(q), teremos
ϕ(q) = q − 1, ou seja, q é primo.

Problemas Propostos

Problema 15. Prove que se p é um primo maior que 3 então a soma dos resı́duos quadráticos
módulo p é divisı́vel por p.
Problema 16. Mostre que se a é um resı́duo quadrático módulo m, e ab ≡ 1 (mod m),
então b é também um resı́duo quadrático. Prove que o produto dos resı́duos quadráticos
módulo p é congruente a +1 ou −1 módulo p.
Problema 17. Prove que se p é um primo da forma 4k + 3, e se m é o número de resı́duos
quadráticos menores que p2 , então:
1 · 3 · 5 · . . . · (p − 2) ≡ (−1)m+k+1 (mod p)
2 · 4 · 6 · . . . · (p − 1) ≡ (−1)m+k (mod p)
Problema 18. Seja q = 4n + 1 onde n é um inteiro positivo. Prove que q é um primo se,
q−1
e somente se, 3 2 ≡ −1 (mod q)
Problema 19. Os inteiros positivos a e b são tais que os números 15a + 16b e 16a − 15b
são ambos quadrados de inteiros positivos. Qual é o menor valor possı́vel que pode ter o
menor desses números?

7
POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel 2 - Aula 18 - Samuel Feitosa

Problema 20. (Olimpı́ada Búlgara) Sejam m e n números naturais tais que

(m + 3)n + 1
A=
3m
é um inteiro. Prove que A é ı́mpar.
Problema 21.
2p
− 2 é divisı́vel por p2 .

a) Prove que para qualquer primo p, o número p

b) Mostre que se p é um primo e 0 ≤ m < n < p então


 
np + m
≡ (−1)m+n+1 p (mod p2 )
mp + n

2p−1
− 1 é divisı́vel por p3 .

c) Prove que para qualquer primo p > 3, o número p−1

Problema 22. Caracterize todos os inteiros que podem ser expressos na forma:
a) a2 + ab + b2

b) a2 + 2b2
Problema 23. Se n é um inteiro tal que 7n é da forma a2 + 3b2 , prove que n também é
dessa forma.
Problema 24. Encontre todos os inteiros positivos n para os quais existe um inteiro m tal
que m2 + 9 é um múltiplo de 2n − 1.
Problema 25. Mostre que dado qualquer primo p, existem inteiros x, y, z, w satisfazendo
x2 + y 2 + z 2 − wp = 0 e 0 < w < p
Problema 26. Mostre que p é um divisor de ambos os números da forma m2 + 1, n2 + 2,
se e somente se é um divisor de algum número da forma k 4 + 1.
Problema 27. Seja A o conjunto de todos os inteiros da forma a2 + 2b2 , onde a e b são
inteiros e b 6= 0. Mostre que p é um número primo e p2 ∈ A, então p ∈ A.
Problema 28. Seja p um primo da forma 4k + 1. Mostre que:
p−1 
2k 2 k2
  
X p−1
−2 = .
p p 2
k=1

Problema 29. Mostre que se x não é divisı́vel por 3, então 4x2 + 3 tem pelo menos um
fator primo da forma 12n + 7. Mostre que existem infinitos primos dessa forma.
Problema 30. Suponha que φ(5m − 1) = 5n − 1 com m, n números naturais. Prove que
mdc(m, n) > 1
Problema 31. (Coréia 2001) Seja f : Z → Z. Dado um primo ı́mpar p, encontre todas as
funções f : Z → Z satisfazendo as seguintes condições:

8
REFERÊNCIAS
POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel 2 - Aula 18 - Samuel Feitosa

1. Se m ≡ n (mod p) com m, n ∈ Z, então f (m) = f (n)

2. f (mn) = f (m)f (n) para quaisquer m, n ∈ Z.

Problema 32. Para a congruência z 2 ≡ D (mod 2a ), onde D é ı́mpar e a é um natural, ser


solúvel, é necesário e suficiente que D seja da forma 2k + 1, 4k + 1 ou 8k + 1 de pendendo
de a = 1, a = 2 ou a > 2.
Problema 33. (OBM 2007) Para quantos numeros inteiros c, −2007 ≤ c ≤ 2007 , existe
um inteiro x tal que x2 + c e múltiplo de 22007 ?
Problema 34. (Teorema de Wolstenhome) Se p ≥ 5 é um primo, mostre que o numerador
da fração
1 1 1
+ + ... +
1 2 p−1
é múltiplo de p2 .


2p
Problema 35. Se p é um primo maior que 3 e q = , prove que
3
     
p p p
+ + ...
1 2 q

é divisı́vel por p2 .
(Dica: Use a identidade de Catalão e o teorema de Wolstenhome)

Referências
[1] E. Carneiro, O. Campos and F. Paiva, Olimpı́adas Cearenses de Matemática 1981-2005
(Nı́veis Júnior e Senior), Ed. Realce, 2005.

[2] S. B. Feitosa, B. Holanda, Y. Lima and C. T. Magalhães, Treinamento Cone Sul 2008.
Fortaleza, Ed. Realce, 2010.

[3] D. Fomin, A. Kirichenko, Leningrad Mathematical Olympiads 1987-1991, MathPro


Press, Westford, MA, 1994.

[4] D. Fomin, S. Genkin and I. Itenberg, Mathematical Circles, Mathematical Words, Vol.
7, American Mathematical Society, Boston, MA, 1966.

[5] I. Niven, H. S. Zuckerman, and H. L. Montgomery, An Introduction to the Theory of


Numbers.

9
Polos Olímpicos de Treinamento
Curso de Teoria dos Números - Nível 3 Aula 3
Carlos Gustavo Moreira

MDC, MMC, Algoritmo de Euclides e o Teorema de


Bachet-Bézout

1 mdc, mmc e Algoritmo de Euclides


Dados dois números inteiros a e b com a 6= 0 ou b 6= 0, a cada um deles
pode-se associar seu conjunto de divisores positivos, Da e Db respectivamente,
e a intersecção de tais conjuntos Da ∩ Db é finita (pela “limitação”) e não vazia
(já que 1 pertence à intersecção). Por ser finito, Da ∩ Db possui elemento
máximo, que é chamado de máximo divisor comum (mdc) dos números a e b.
Denotamos este número por mdc(a, b) (alguns autores usam a notação (a, b)).
Para a = b = 0 convencionamos mdc(0, 0) = 0. Quando mdc(a, b) = 1 dizemos
que a e b são primos entre si.
Por outro lado, se denotamos por Mn o conjunto dos múltiplos positivos de
n, dados dois números inteiros a e b com a 6= 0 e b 6= 0, então a intersecção
Ma ∩Mb é não vazia (já que |ab| está na intersecção). Como os naturais são bem
ordenados, Ma ∩ Mb possui elemento mı́nimo. Tal número é chamado mı́nimo
múltiplo comum (mmc) de a e b e o denotaremos por mmc(a, b) (alguns autores
escrevem [a, b]).
Para calcularmos o mdc e o mmc de maneira eficiente, vamos descrever
o chamado algoritmo de Euclides ou algoritmo das divisões sucessivas. Pri-
meiramente, vamos relembrar o conceito de divisão euclidiana, ou divisão com
resto, que é uma das quatro operações que toda criança aprende na escola. Sua
formulação precisa é: dados a, b ∈ Z com b 6= 0, existem q, r ∈ Z com

a = bq + r e 0 ≤ r < |b|.

Tais q e r estão unicamente determinados pelas duas condições acima (veja o


argumento a seguir) e são chamados o quociente e resto da divisão de a por b.
O resto r é também denotado por a mod b.
Para x ∈ R, definimos o piso ou parte inteira ⌊x⌋ de x como sendo o único
k ∈ Z tal que k ≤ x < k + 1; definimos o√teto ⌈x⌉ de
√ x como o único k ∈ Z tal
que k − 1 < x ≤ k. Por exemplo, temos ⌊ 2⌋ = 1, ⌈ 2⌉ = 2, ⌊10⌋ = ⌈10⌉ = 10,
POT 2012 - Teoria dos Números - 1Nı́vel
MDC,3 -MMC
AulaE3 ALGORITMO DE EUCLIDES
- Carlos Gustavo Moreira

⌊−π⌋ = −4 e ⌈−π⌉ = −3. Podemos agora mostrar a existência de q e r


satisfazendo as duas condições acima: basta tomar
(
⌊a/b⌋ se b > 0
q= e r = a − bq em ambos os casos
⌈a/b⌉ se b < 0

e é fácil verificar que 0 ≤ r < |b| a partir das definições das funções piso e teto.
Por outro lado, se a = bq1 + r1 = bq2 + r2 com 0 ≤ r1 , r2 < |b|, então temos que
r2 − r1 = b(q1 − q2 ) é um múltiplo de b com |r2 − r1 | < |b|, portanto r2 − r1 = 0
e assim q1 = q2 também, o que prova a unicidade.
Podemos agora descrever o algoritmo de Euclides para calcular o mdc, que
se baseia na seguinte simples observação:
Lema 1 (Euclides). Se a = bq + r, então mdc(a, b) = mdc(b, r).
Demonstração. Basta mostrar que Da ∩ Db = Db ∩ Dr , já que se estes conjuntos
forem iguais em particular os seus máximos também serão iguais. Se d ∈ Da ∩Db
temos d | a e d | b, logo d | a − bq ⇐⇒ d | r e portanto d ∈ Db ∩ Dr . Da mesma
forma, se d ∈ Db ∩ Dr temos d | b e d | r, logo d | bq + r ⇐⇒ d | a e assim
d ∈ Da ∩ Db .

O algoritmo de Euclides consiste na aplicação reiterada do lema acima onde


q e r são o quociente e o resto na divisão de a por b (note que o lema vale
mesmo sem a condição 0 ≤ r < |b|). Como os restos formam uma sequência
estritamente decrescente, o algoritmo eventualmente para quando atingimos o
resto 0.
Exemplo 2. Calcule mdc(1001, 109).
Solução: Realizando as divisões sucessivas, temos

1001 = 109 · 9 + 20
109 = 20 · 5 + 9
20 = 9 · 2 + 2
9=2·4+1
2=1·2+0

Assim, temos mdc(1001, 109) = mdc(109, 20) = mdc(20, 9) = mdc(9, 2) =


mdc(2, 1) = mdc(1, 0) = 1.

Exemplo 3. Sejam m 6= n dois números naturais. Demonstrar que


(
2m 2n 1 se a é par,
mdc(a + 1, a + 1) =
2 se a é ı́mpar.

Solução: Suponha sem perda de generalidade que m > n e observe a fato-


ração

a2 − 1 = (a2 + 1)(a2 + 1)(a2 + 1) . . . (a2 + 1)(a2 − 1)


m m−1 m−2 m−3 n n

2
POT 2012 - Teoria dos Números - 1Nı́vel
MDC,3 -MMC
AulaE3 ALGORITMO DE EUCLIDES
- Carlos Gustavo Moreira

Logo a2 + 1 = (a2 + 1) · q + 2 com q ∈ Z e assim


m n

mdc(a2 + 1, a2 + 1) = mdc(a2 + 1, 2)
m n n

que é igual a 2 se a2 + 1 for par, isto é, se a for ı́mpar, e é igual a 1 caso
n

contrário.

Além de servir de ferramenta computacional para o cálculo do mdc, a divisão


euclidiana tem consequências teóricas importantes. O próximo teorema mostra
que é sempre possı́vel escrever o mdc de dois números como combinação linear
destes (com coeficientes inteiros).

Teorema 4 (Bachet-Bézout). Sejam a, b ∈ Z. Então existem x, y ∈ Z com

ax + by = mdc(a, b).

Portanto se c ∈ Z é tal que c | a e c | b então c | mdc(a, b).

Demonstração. O caso a = b = 0 é trivial (temos x = y = 0). Nos outros casos,


considere o conjunto de todas as combinações Z-lineares de a e b:
def
I(a, b) = {ax + by : x, y ∈ Z}

Seja d = ax0 + by0 o menor elemento positivo de I(a, b) (há pelo menos um
elemento positivo, verifique!). Afirmamos que d divide todos os elementos de
I(a, b). De fato, dado m = ax + by ∈ I(a, b), sejam q, r ∈ Z o quociente e o
resto na divisão euclidiana de m por d, de modo que m = dq + r e 0 ≤ r < d.
Temos
r = m − dq = a(x − qx0 ) + b(y − qy0 ) ∈ I(a, b).
Mas como r < d e d é o menor elemento positivo de I(a, b), segue que r = 0 e
portanto d | m.
Em particular, como a, b ∈ I(a, b) temos que d | a e d | b, logo d ≤ mdc(a, b).
Note ainda que se c | a e c | b, então c | ax0 + by0 ⇐⇒ c | d. Tomando
c = mdc(a, b) temos que mdc(a, b) | d o que, juntamente com a desigualdade
d ≤ mdc(a, b), mostra que d = mdc(a, b).

Corolário 5. Sejam a, b, c ∈ Z. A equação

ax + by = c

admite solução inteira em x e y se, e somente se, mdc(a, b) | c.

Demonstração. Se a equação admite solução inteira, então mdc(a, b) divide o


lado esquerdo, logo deve dividir o direito também. Reciprocamente, se mdc(a, b) |
c, digamos c = k · mdc(a, b) com k ∈ Z, pelo teorema acima existem inteiros
x0 e y0 tais que ax0 + by0 = mdc(a, b) e multiplicando tudo por k obtemos que
x = kx0 e y = ky0 são soluções da equação dada.

Temos uma outra importante consequência do teorema anterior:

3
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Proposição 6. Se mdc(a, b) = 1 e a | bc, então a | c.

Demonstração. Como mdc(a, b) = 1, existem x, y ∈ Z tais que ax + by = 1 =⇒


a · cx + (bc) · y = c. Do fato de a dividir cada termo do lado esquerdo, temos
que a | c.

Lembramos que um natural p > 1 é chamado primo se os únicos divisores


positivos de p são 1 e p e um natural n > 1 é chamado composto se admite outros
divisores além de 1 e n. Observemos que 1 não é nem primo nem composto.
Claramente, se p é primo e p ∤ a temos mdc(p, a) = 1. Usando a proposição
anterior e indução temos o seguinte resultado:

Corolário 7. Seja p um número primo e sejam a1 , . . . am ∈ Z. Se p | a1 · · · am ,


então p | ai para algum i, 1 ≤ i ≤ m.

O próximo lema resume algumas propriedades úteis do mdc:

Lema 8. Temos

1. Se p é primo, então mdc(a, p) é 1 ou p.

2. Se k é um inteiro, então mdc(a, b) = mdc(a − kb, b).

3. Se a | c, então mdc(a, b) | mdc(c, b).

4. Se mdc(a, b) = 1, então mdc(ac, b) = mdc(c, b).

Demonstração. O primeiro item é claro e o segundo é apenas uma reformulação


do lema 1. Para provar o terceiro item, observe que mdc(a, b) | a e a | c implicam
que mdc(a, b) | c. Como também temos mdc(a, b) | b, concluı́mos que mdc(a, b) |
mdc(b, c) por Bachet-Bézout. Finalmente, para mostrar o último item, note
primeiro que mdc(c, b) | mdc(ac, b) pois mdc(c, b) divide simultaneamente ac e
b. Reciprocamente, para mostrar que mdc(ac, b) | mdc(c, b), podemos escrever
ax + by = 1 com x, y ∈ Z por Bachet-Bézout. Assim, mdc(ac, b) divide ac · x +
b · cy = c e também divide b, logo divide mdc(c, b).

Vejamos como podemos usar as propriedades acima para solucionar o se-


guinte

Exemplo 9. Sejam an = 100 + n2 e dn = mdc(an , an+1 ). Calcular dn para todo


n.

Solução: Aplicando a propriedade 2 temos que

dn = mdc(100 + n2 , 100 + (n + 1)2 ) = mdc(100 + n2 , 2n + 1).

Como 2n + 1 é ı́mpar, mdc(4, 2n + 1) = 1 e pelas propriedades 4 e 2 temos que

dn = mdc(400 + 4n2 , 2n + 1)
= mdc(400 + 4n2 − (2n + 1)(2n − 1), 2n + 1)
= mdc(401, 2n + 1).

4
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Como 401 é primo, então mdc(401, 2n + 1) = 401 se 2n + 1 = 401k (com


k = 2r + 1 inteiro ı́mpar) e mdc(401, 2n + 1) = 1 caso contrário, ou seja,
(
401 se n = 401r + 200 com r ∈ Z
dn =
1 caso contrário.

A próxima proposição conecta o mdc e o mmc de dois inteiros e pode ser


utilizada, juntamente com o algoritmo de Euclides, para o cálculo eficiente do
mmc.
Proposição 10. Sejam a e b dois números naturais, então

mdc(a, b) · mmc(a, b) = a · b.

Demonstração. Escreva d = mdc(a, b) e a = a1 d e b = b1 d onde a1 , b1 ∈ Z são


tais que mdc(a1 , b1 ) = 1. Temos mmc(a, b) = al para algum l ∈ Z; além disso,
b | mmc(a, b) ⇐⇒ b1 d | a1 dl ⇐⇒ b1 | a1 l. Como mdc(a1 , b1 ) = 1, isto implica
que b1 | l pela proposição 6. Pela definição de mı́nimo múltiplo comum, temos
que l deve ser o mı́nimo número divisı́vel por b1 , assim concluı́mos que l = b1 e
portanto mmc(a, b) = b1 a. Logo mdc(a, b) · mmc(a, b) = d · b1 a = a · b.

A demonstração que demos do teorema de Bachet-Bézout não mostra como


efetivamente encontrar uma solução de ax + by = mdc(a, b). Porém, isto pode
ser feito utilizando-se o algoritmo de Euclides, como mostra o exemplo a seguir.
De fato, este exemplo pode servir como ponto de partida para uma segunda
demonstração do teorema de Bachet-Bézout (veja os exercı́cios).
Exemplo 11. Encontre todos os x, y ∈ Z tais que

1001x + 109y = mdc(1001, 109).

Solução: Fazemos as divisões sucessivas para o cálculo de

mdc(1001, 109) = 1

utilizando o algoritmo de Euclides (veja o exemplo 2). Em seguida, isolamos os


restos:

20 = 1001 − 109 · 9
9 = 109 − 20 · 5
2 = 20 − 9 · 2
1 = 9 − 2 ·4

Note que a última divisão permite expressar o mdc 1 como combinação linear
de 9 e 2:
9 · 1 − 2 · 4 = 1.

5
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Mas da penúltima divisão, temos que 2 = 20 − 9 · 2, logo substituindo esta


expressão na combinação linear acima, temos

9 − ( 20 − 9 · 2) · 4 = 1 ⇐⇒ 9 · 9 − 20 · 4 = 1

e agora expressamos 1 como combinação linear de 20 e 9. Repetindo este


procedimento, eventualmente expressaremos 1 como combinação linear de 1001
e 109. Tomamos o cuidado de lembrar quais são os “coeficientes” a e b nas
equações ax + by = mdc(a, b) durante as simplificações. Continuando, obtemos

1 = ( 109 − 20 · 5) · 9 − 20 · 4 = 109 · 9 − 20 · 49
1 = 109 · 9 − ( 1001 − 109 · 9) · 49 = 1001 · (−49) + 109 · 450

Logo uma solução da equação 1001x + 109y = 1 é (x0 , y0 ) = (−49, 450). Para
encontrar as demais, escrevemos o lado direito desta equação utilizando a solu-
ção particular que acabamos de encontrar:

1001x + 109y = 1001x0 + 109y0 ⇐⇒ 1001(x − x0 ) = −109(y − y0 ).

Como mdc(1001, 109) = 1 temos pela proposição 6 que 1001 divide y − y0 , ou


seja, y − y0 = 1001t para algum t ∈ Z e, portanto, x − x0 = −109t. Assim,
as soluções da equação dada são todos os pontos da reta 1001x + 109y = 1 da
forma

(x, y) = (x0 − 109t, y0 + 1001t) = (−49, 450) + (−109, 1001) · t

com t ∈ Z.

Em geral, o raciocı́nio do exemplo acima mostra que se mdc(a, b) = 1 e


(x0 , y0 ) é uma solução da equação ax + by = c, então todas as soluções inteiras
são dadas por x = x0 − bk e y = y0 + ak com k ∈ Z.

Exemplo 12. Sejam a, b inteiros positivos com mdc(a, b) = 1. Mostre que para
todo c ∈ Z com c > ab − a − b, a equação ax + by = c admite soluções inteiras
com x, y ≥ 0.

Solução: Seja (x0 , y0 ) uma solução inteira (que existe pelo teorema de Bachet-
Bézout). Devemos mostrar a existência de um inteiro k tal que

x = x0 − bk > −1 e y = y0 + ak > −1,

ou seja,
y0 + 1 x0 + 1
− <k< .
a b
Mas isto segue do fato de o intervalo (− y0a+1 , x0b+1 ) ter tamanho maior do que
1:
x0 + 1  y0 + 1  ax0 + by0 + a + b c+a+b
− − = = > 1.
b a ab ab

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Problemas Propostos

Problema 13. Mostre que

(a) 215 − 1 e 210 + 1 são primos entre si.

(b) 232 + 1 e 24 + 1 são primos entre si.

Problema 14 (IMO1992). Encontrar todos os inteiros a, b, c com 1 < a < b < c


tais que (a − 1)(b − 1)(c − 1) é divisor de abc − 1.

Problema 15. Mostre que, se n > 1, então


n
X 1 1 1
= 1 + + ··· +
k 2 n
k=1

não é um número inteiro.

Problema 16 (OBM1997). Sejam c ∈ Q, f (x) = x2 + c. Definimos

f 0 (x) = x, f n+1 (x) = f (f n (x)), ∀n ∈ N.

Dizemos que x ∈ R é pré-periódico se {f n (x), n ∈ N} é finito. Mostre que


{x ∈ Q| x é pré-periódico} é finito.

Problema 17. Demonstrar que se mdc(a, 2n+1 ) = 2n e mdc(b, 2n+1 ) = 2n ,


então mdc(a + b, 2n+1 ) = 2n+1 .

Problema 18. Demonstrar que se a, b, c, d, m e n são inteiros tais que ad−bc =


1 e mn 6= 0, então

mdc(am + bn, cm + dn) = mdc(m, n).

Problema 19. Seja Fn o n-ésimo termo da sequência de Fibonacci.

(a) Encontrar dois números inteiros a e b tais que 233a + 144b = 1 (observe
que 233 e 144 são termos consecutivos da sequência de Fibonacci).

(b) Mostre que mdc(Fn , Fn+1 ) = 1 para todo n ≥ 0.

(c) Determine xn e yn tais que Fn · xn + Fn+1 · yn = 1.

Problema 20. Sejam a e b dois inteiros positivos e d seu máximo divisor comum.
Demonstrar que existem dois inteiros positivos x e y tais que ax − by = d.

Problema 21. Definimos a sequência de frações de Farey de ordem n como o


conjunto de frações reduzidas ab tais que 0 ≤ ab ≤ 1, 1 ≤ b ≤ n. Por exemplo a
sequência de Farey de ordem 3 é 10 , 13 , 12 , 32 , 11 .

(a) Demonstrar que se ab e dc são dois termos consecutivos de uma sequência


de Farey, então cb − ad = 1.

7
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(b) Demonstrar que se ab11 , ab22 , ab33 são três termos consecutivos de uma sequência
de Farey, então ab22 = ab11 +a
+b3 .
3

Problema 22. Utilize indução em min{a, b} e o algoritmo de Euclides para


mostrar que ax + by = mdc(a, b) admite solução com x, y ∈ Z, obtendo uma
nova demonstração do teorema de Bachet-Bézout.

Problema 23. Sejam a e b números inteiros positivos. Considere o conjunto

C = {ax + by | x, y ∈ N}

Lembre-se de que já mostramos no exemplo 12 que todo número maior que
ab − a − b pertence a C.
(a) Demonstre que o número ab − a − b não pertence a C.

(b) Achar a quantidade de números inteiros positivos que não pertencem a C.

Problema 24 (IMO1984). Dados os inteiros positivos a, b e c, dois a dois primos


entre si, demonstrar que 2abc − ab − bc − ca é o maior número inteiro que não
pode expressar-se na forma xbc + yca + zab com x, y e z inteiros não negativos.

Problema 25 (IMO1977). Sejam a, b inteiros positivos. Quando dividimos a2 +


b2 por a + b, o quociente é q e o resto é r. Encontrar todos os a, b tais que
q 2 + r = 1977.

Problema 26. Demonstrar que mdc(2a − 1, 2b − 1) = 2mdc(a,b) − 1 para todo


a, b ∈ N.

Problema 27. Encontrar todas as funções f : N∗ × N∗ −→ Z satisfazendo


simultaneamente as seguintes propriedades

(i) f (a, a) = a.

(ii) f (a, b) = f (b, a).


a
(iii) Se a > b, então f (a, b) = a−b f (a − b, b).

Dicas e Soluções

14. Mostrar primeiro que a ≤ 4 e considerar os possı́veis casos.

15. Considere a maior potência de 2 que é menor ou igual a n.

16. Mostre que, dado c racional, existe M > 0 tal que, se |x| > M , então
|f (x)| > |x|, e existe um inteiro positivo s tal que, se x é um racional cujo
denominador, em sua representação reduzida, é q > s, então o denomi-
nador de f (x) (em sua representação reduzida) é estritamente maior que
q.

18. Observe que d(am+bn)−b(cm+dn) = m e −c(am+bn)+a(cm+dn) = n.

8
21. Vamos provar que os dois itens valem para todo inteiro positivo n, por
indução. Isto é facilmente verificável para n = 1 e n = 2. Considere
u
agora a sequência de frações de Farey de ordem n + 1, e seja n+1 uma
fração irredutı́vel em (0, 1). Seus dois vizinhos nessa sequência de Farey
u
têm denominadores menor que n + 1 (as distâncias de n+1 às frações mais
1
próximas de denominador n são menores que n , e são múltiplos inteiros
1 1
de n(n+1) , donde são menores ou iguais a n+1 ). Sejam ab e dc esses dois
vizinhos, com ab < n+1 u
< dc . Temos n+1
u
− ab = b(n+1)
v
e dc − n+1u w
= d(n+1) ,
v w c a 1
para certos inteiros positivos v e w, donde b(n+1) + d(n+1) = d − b = bd
(por hipótese de indução, pois ab e dc são vizinhos na sequência de Farey
de ordem n), ou seja n + 1 = vd + wb ≥ b + d. Como ab < a+c c a
b+d < d , e b e d
c
u u
são os vizinhos de n+1 , segue que n+1 = a+c
b+d . Temos (a + c)b − a(b + d) =
cb − ad = 1 e c(b + d) − (a + c)d = cb − ad = 1, e as duas afirmações
seguem por indução.

24. Se 2abc − ab − bc − ca = xbc + yca + zab com x, y e z inteiros positivos,


a divide (x + 1)bc, donde x ≥ a − 1; analogamente, y ≥ b − 1 e z ≥ c − 1,
donde xbc + yca + zab ≥ 3abc − ab − bc − ca > 2abc − ab − bc − ca.
Seja agora k > 2abc − ab − bc − ca inteiro. Então, como 1 = mdc(bc, a) =
mdc(bc, mdc(ca, ab)), k se escreve como ubc+vca+wab, para certos u, v, w
inteiros. Como ubc + vca + wab = (u − ta)bc + (v − sb)ca + (w + (t + s)c)ab,
para quaisquer t, s inteiros, podemos supor sem perda de generalidade que
0 ≤ u ≤ a − 1 e 0 ≤ v ≤ b − 1. Assim, ubc + vca ≤ (a − 1)bc + (b − 1)ac =
2abc − bc − ca, donde wab = k − (ubc + vca) ≥ k − (2abc − bc − ca) > −ab,
e logo w ≥ 0.

26. Pelo algoritmo de Euclides aplicado aos expoentes, basta mostrar que
mdc(2bq+r − 1, 2b − 1) = mdc(2b − 1, 2r − 1). Mas isto segue novamente
do lema de Euclides, pois 2bq+r − 1 = 2r (2bq − 1) + 2r − 1 e 2bq − 1 =
(2b − 1)(2b(q−1) + 2b(q−2) + · · · + 2b + 1) é um múltiplo de 2b − 1.

27. Prove por indução em a + b que f (a, b) = mmc(a, b) para quaisquer a, b ∈


N∗ .

Referências
[1] F. E. Brochero Martinez, C. G. Moreira, N. C. Saldanha, E. Tengan -
Teoria dos Números - um passeio com primos e outros números familiares
pelo mundo inteiro, Projeto Euclides, IMPA, 2010.
Polos Olímpicos de Treinamento
Curso de Teoria dos Números - Nível 3 Aula 8
Carlos Gustavo Moreira

Equações lineares módulo n e o teorema chinês dos


restos

1 Equações Lineares Módulo m


Se mdc(a, m) = 1, como a é invertı́vel módulo m, a equação

ax ≡ b (mod m),

tem solução única módulo m, dada por x ≡ aϕ(m)−1 b (mod m) (utilizando o


teorema de Euler-Fermat para encontrar o inverso de a ∈ Z/(m)). Assim, todas
as soluções da equação acima são da forma x = aϕ(m)−1 b + km onde k ∈ Z. No
caso geral, se mdc(a, m) = d > 1 temos que

ax ≡ b (mod m) =⇒ ax ≡ b (mod d) ⇐⇒ b ≡ 0 (mod d).

Logo uma condição necessária para que a congruência linear ax ≡ b (mod m)


tenha solução é que d | b. Esta condição é também suficiente, já que escrevendo
a = da′ , b = db′ e m = dm′ , temos que

ax ≡ b (mod m) ⇐⇒ a′ x ≡ b′ (mod m′ ).

Como mdc(a′ , m′ ) = 1, há uma única solução (a′ )ϕ(m )−1 b′ módulo m′ , isto é,

há d soluções distintas módulo m, a saber x ≡ (a′ )ϕ(m )−1 b′ + km′ (mod m)
com 0 ≤ k < d. Note ainda que como resolver ax ≡ b (mod m) é equivalente
a resolver a equação diofantina linear ax + my = b, poderı́amos também ter
utilizado o teorema de Bachet-Bézout e o algoritmo de Euclides para encontrar
as soluções desta congruência linear como no exemplo ??. Resumimos esta
discussão na seguinte

Proposição 1. A congruência linear

ax ≡ b (mod m)

admite solução se, e somente se, mdc(a, m) | b. Neste caso, há exatamente
mdc(a, m) soluções distintas módulo m.
1 - EQUA
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- Carlos MoreiraM
MÓDULO
Gustavo

Agora queremos encontrar condições para que um sistema de congruências


lineares tenha solução. O seguinte teorema nos garante a existência de tais
soluções.

Teorema 2 (Teorema Chinês dos Restos). Se b1 , b2 , . . . , bk são inteiros quaisquer


e a1 , a2 , . . . , ak são primos relativos dois a dois, o sistema de equações

x ≡ b1 (mod a1 )
x ≡ b2 (mod a2 )
..
.
x ≡ bk (mod ak )

admite solução, que é única módulo A = a1 a2 . . . ak .

Demonstração. Daremos duas provas do teorema chinês dos restos. Para a


primeira, consideremos os números Mi = aAi . Como mdc(ai , Mi ) = 1, logo
existe Xi tal que Mi Xi ≡ 1 (mod ai ). Note que se j 6= i então Mj é múltiplo
de ai e portanto Mj Xj ≡ 0 (mod ai ). Assim, temos que

x0 = M1 X1 b1 + M2 X2 b2 + · · · + Mk Xk bk

é solução do sistema de equações, pois x0 ≡ Mi Xi bi ≡ bi (mod ai ). Além disso,


se x1 é outra solução, então x0 ≡ x1 (mod ai ) ⇐⇒ ai | x0 − x1 para todo ai ,
e como os ai ’s são dois a dois primos, temos que A | x0 − x1 ⇐⇒ x0 ≡ x1
(mod A), mostrando a unicidade módulo A.
Para a segunda prova, considere o mapa natural

f : Z/(A) → Z/(a1 ) × Z/(a2 ) × · · · × Z/(ak )


b mod A 7→ (b mod a1 , b mod a2 , . . . , b mod ak ).

Note que este mapa está bem definido, isto é, o valor de f (b mod A) independe
da escolha do representante da classe de b mod A, pois quaisquer dois represen-
tantes diferem de um múltiplo de A, que tem imagem (0 mod a1 , . . . , 0 mod ak )
no produto Z/(a1 ) × · · · × Z/(ak ). Observemos agora que o teorema chinês dos
restos é equivalente a mostrar que f é uma bijeção: o fato de f ser sobrejetor cor-
responde à existência da solução do sistema, enquanto que o fato de f ser injetor
corresponde à unicidade módulo A. Como o domı́nio e o contradomı́nio de f têm
mesmo tamanho (ambos têm A elementos), para mostrar que f é uma bijeção
basta mostrarmos que f é injetora. Suponha que f (b1 mod A) = f (b2 mod A),
então b1 ≡ b2 (mod ai ) para todo i, e como na primeira demonstração temos
que isto implica b1 ≡ b2 (mod A), o que encerra a prova.

Observação 3. Como mdc(b, a1 a2 ...ak ) = 1 ⇐⇒ mdc(b, aj ) = 1, ∀j ≤ k, a


bijeção f definida na segunda prova do teorema anterior satisfaz f ((Z/(A))× ) =
(Z/(a1 ))× × (Z/(a2 ))× × · · · × (Z/(ak ))× .
Em particular, isso nos dá uma nova prova de que
ϕ(a1 a2 ...ak ) = ϕ(a1 )ϕ(a2 )...ϕ(ak ) sempre que mdc(ai , aj ) = 1, ∀i 6= j.

2
1 - EQUA
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MÓDULO
Gustavo

Por exemplo, para k = 2, a1 = 3 e a2 = 5, temos a seguinte tabela, que


mostra, para cada i e j com 0 ≤ i < 3 e 0 ≤ j < 5, a única solução x com
0 ≤ x < 3 · 5 = 15 tal que x ≡ i (mod 3) e x ≡ j (mod 5):

0 mod 5 1 mod 5 2 mod 5 3 mod 5 4 mod 5


0 mod 3 0 6 12 3 9
1 mod 3 10 1 7 13 4
2 mod 3 5 11 2 8 14
Vejamos algumas aplicações.

Exemplo 4. Um inteiro é livre de quadrados se ele não é divisı́vel pelo quadrado


de nenhum número inteiro maior do que 1. Demonstrar que existem intervalos
arbitrariamente grandes de inteiros consecutivos, nenhum dos quais é livre de
quadrados.

Solução: Seja n um número natural qualquer. Sejam p1 , . . . , pn primos dis-


tintos. O teorema chinês dos restos nos garante que o sistema

x ≡ −1 (mod p21 )
x ≡ −2 (mod p22 )
..
.
x ≡ −n (mod p2n )

tem solução. Se x0 é uma solução positiva do sistema, então cada um dos


números x0 + 1, x0 + 2, . . . , x0 + n é divisı́vel pelo quadrado de um inteiro maior
do que 1, logo nenhum deles é livre de quadrados.

Exemplo 5. Seja P (x) um polinômio não constante com coeficientes inteiros.


Demonstrar que para todo inteiro n, existe um inteiro i tal que

P (i), P (i + 1), P (i + 2), . . . , P (i + n)

são números compostos.

Solução: Demonstraremos primeiro o seguinte

Lema 6. Seja P (x) um polinômio não constante com coeficientes inteiros. Para
todo par de inteiros k, i, tem-se que P (i) | P (k P (i) + i).

Demonstração. Dado que (kP (i) + i)n ≡ in (mod P (i)) para todo n inteiro não
negativo, é fácil ver que P (kP (i) + i) ≡ P (i) ≡ 0 (mod P (i)).

Suponhamos por contradição que a sequência P (i), P (i+1), . . . ,


P (i+n) contém um número primo para cada i. Então a sequência {P (i)}i≥1 as-
sume infinitos valores primos. Consideremos os n+1 primos distintos P (i0 ), P (i1 ), . . . , P (in ).

3
1 - EQUA
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- Carlos MoreiraM
MÓDULO
Gustavo

Pelo teorema chinês dos restos segue que existem infinitas soluções x do sistema
de equações
x ≡ i0 (mod P (i0 ))
x ≡ i1 − 1 (mod P (i1 ))
x ≡ i2 − 2 (mod P (i2 ))
..
.
x ≡ in − n (mod P (in ))
onde, se x0 é uma solução, então x = x0 + k(P (i0 ) · · · P (in )) também é solução
para todo k ≥ 0. Assim, pelo lema anterior, podemos dizer que P (x), P (x +
1), . . . , P (x + n) são números compostos quando k é suficientemente grande,
múltiplos respectivamente de P (i0 ), P (i1 ), . . . , P (in ).

Exemplo 7. Uma potência não trivial é um número da forma mk , onde m, k são


inteiros maiores do que ou iguais a 2. Dado n ∈ N, prove que existe um conjunto
P
A ⊂ N com n elementos tal que para todo subconjunto B ⊂ A não vazio, x
x∈B
é uma potência não trivial. Em outras palavras, se A = {x1 , x2 , . . . , xn } então
todas as somas x1 , x2 , . . . , xn , x1 +x2 , x1 +x3 , . . . , xn−1 +xn , . . . , x1 +x2 +· · ·+xn
são potências não triviais.
Solução: Vamos provar a existência de um tal conjunto por indução em n.
Para n = 1, A = {4} é solução e, para n = 2, A = {9, 16} é solução. Suponha
PA = {x1k,B. . . , xn } é um conjunto com n elementos e para todo B ⊂ A,
agora que
B 6= ∅, x = mB . Vamos mostrar que existe c ∈ N tal que o conjunto à =
x∈B
{cx1 , cx2 , . . . , cxn , c} satisfaz o enunciado. Seja λ = mmc{kB | B ⊂ A, B 6= ∅},
o mı́nimo múltiplo comum de todos os expoentes kB . Para cada B ⊂ A, B 6= ∅,
associamos um número primo pB > λ, de forma que B1 6= B2 implica pB1 6= pB2 .
Pelo teorema chinês dos restos existe um natural rB com
rB ≡ 0 (mod pX ) para todo subconjunto X ⊂ A, X 6= B
λ · rB ≡ −1 (mod pB ).
(λ é invertı́vel módulo pB ). Tomemos
Y
c= (1 + mkXX )λrX
X⊂A
X6=∅

e vamos mostrar que à = {cx1 , cx2 , . . . , cxn , c} continua a satisfazer as condi-


ções do enunciado.
Dado B ′ ⊂ {cx1 , cx2 , . . . , cxn }, temos que B ′ = {cx | x ∈ B} para algum
B ⊂ A. Como P c é uma potência λ-ésima, c também é uma potência kB -ésima,
kB
portanto, x∈B ′ x = cm B será uma potência kB -ésima para todo B ′ 6= ∅.
Além disso, para subconjuntos de à da forma B ′ ∪ {c}, temos
X  Y 
x = c · (1 + mkBB ) = (1 + mkXX )λrX (1 + mkBB )λrB +1 ,
x∈B ′ ∪{c} X⊂A
X6=∅,B

4
1 - EQUA
POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel 3 Aula Ç
3 ÕES LINEARES
- Carlos MoreiraM
MÓDULO
Gustavo

que é uma potência pB -ésima, pois λrB + 1 e rX (X 6= B) são múltiplos de


pB .

Problemas Propostos

Problema 8. Resolver as equações lineares

(a) 7x ≡ 12 (mod 127)

(b) 12x ≡ 5 (mod 122)

(c) 40x ≡ 64 (mod 256)

Problema 9. Resolver o sistema de congruências lineares

x≡ 0 (mod 7)
x≡ 1 (mod 12)
x ≡ −5 (mod 17)

Problema 10. Determine um valor de s tal que 1024s ≡ 1 (mod 2011) e calcule
o resto da divisão de 22000 por 2011.

Problema 11. Um inteiro positivo n é chamado de auto-replicante se os últimos


dı́gitos de n2 formam o número n. Por exemplo, 25 é auto-replicante pois
252 = 625. Determine todos os números auto-replicantes com exatamente 4
dı́gitos.

Problema 12. Sejam a, n ∈ N>0 e considere a sequência (xk ) definida por


x1 = a, xk+1 = axk para todo k ∈ N. Demonstrar que existe N ∈ N tal que
xk+1 ≡ xk (mod n) para todo k ≥ N .

Problema 13. Demonstrar que o sistema de equações

x ≡ b1 (mod a1 )
x ≡ b2 (mod a2 )
..
.
x ≡ bk (mod ak )

tem solução se, e só se, para todo i e j, mdc(ai , aj ) | (bi − bj ). (No caso
particular em que mdc(ai , aj ) = 1, o problema se reduz ao teorema chinês dos
restos).

Problema 14. Demonstrar que, para k e n números naturais, é possı́vel en-


contrar k números consecutivos, cada um dos quais tem ao menos n divisores
primos diferentes.

5
Problema 15. Demonstrar que se a, b e c são três inteiros diferentes, então
existem infinitos valores de n para os quais a + n, b + n e c + n são primos
relativos.

Problema 16. Demonstrar que para todo inteiro positivo m e todo número par
2k, este último pode ser escrito como a diferença de dois inteiros positivos, cada
um dos quais é primo relativo com m.

Problema 17. Demonstrar que existem progressões aritméticas de comprimento


arbitrário formadas por inteiros positivos tais que cada termo é a potência de
um inteiro positivo com expoente maior do que 1.

Dicas e Soluções

Em breve

Referências
[1] F. E. Brochero Martinez, C. G. Moreira, N. C. Saldanha, E. Tengan -
Teoria dos Números - um passeio com primos e outros números familiares
pelo mundo inteiro, Projeto Euclides, IMPA, 2010.
Polos Olímpicos de Treinamento
Curso de Teoria dos Números - Nível 3 Aula 9
Carlos Gustavo Moreira

Congruências de grau 2 e reciprocidade quadrática

1 Congruências de Grau 2
Seja p > 2 um número primo e a, b, c ∈ Z com a não divisı́vel por p. Resolver
a equação quadrática
ax2 + bx + c ≡ 0 (mod p)
é o mesmo que resolver (completando quadrados)
(2ax + b)2 ≡ b2 − 4ac (mod p)
(note que 2 e a são invertı́veis módulo p). Assim, estamos interessados em
encontrar critérios de existência de soluções da equação
X2 ≡ d (mod p).
Se a equação acima admite solução (i.e. se d é um “quadrado perfeito” em
Z/pZ) então dizemos que d é um resı́duo ou resto quadrático módulo p. Há
exatamente (p + 1)/2 resı́duos quadráticos módulo p, a saber
p−1 2
 
2 2 2 2
0 ,1 ,2 ,3 ,..., mod p
2
já que todo inteiro x é congruente a ±i mod p para algum i tal que 0 ≤ i ≤
(p − 1)/2, de modo que x2 é congruente a um dos números da lista acima. Note
que módulo p estes números são todos distintos: de fato, temos que
i2 ≡ j 2 (mod p) =⇒ p | (i − j)(i + j)
⇐⇒ p | i − j ou p | i + j
⇐⇒ i ≡ ±j (mod p)
Mas como 0 ≤ i, j ≤ (p − 1)/2 =⇒ 0 < i + j ≤ p − 1 ou i = j = 0, temos que
a única possibilidade é i ≡ j (mod p).
Embora saibamos a lista completa dos resı́duos quadráticos, na prática pode
ser difı́cil reconhecer se um número é ou não resı́duo quadrático. Por exemplo,
você sabe dizer se 2 é resı́duo quadrático módulo 1019? Veremos a seguir o
teorema da reciprocidade quadrática, que permite responder estas questões de
maneira bastante eficiente.
1 3CONGRU
POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel 3 - Aula - CarlosÊNCIAS DEMoreira
Gustavo GRAU 2

1.1 Resı́duos Quadráticos e Sı́mbolo de Legendre


Seja p > 2 um número primo e a um inteiro qualquer. Para simplificar
cálculos e notações definiremos o chamado sı́mbolo de Legendre:

  
a  1 se p ∤ a e a é um resı́duo quadrático módulo p
= 0 se p | a
p 
−1 caso contrário

Proposição 1 (Critério de Euler). Seja p > 2 um primo e a um inteiro qualquer.


Então  
a
≡ a(p−1)/2 (mod p).
p
Demonstração. Para a ≡ 0 (mod p) o resultado é claro, de modo que podemos
supor p ∤ a. Pelo teorema de Fermat temos que ap−1 ≡ 1 (mod p), donde
p−1 p−1 p−1 p−1
(a 2 − 1)(a 2 + 1) ≡ 0 (mod p) ⇐⇒ p | a 2 − 1 ou p | a 2 +1
p−1
⇐⇒ a 2 ≡ ±1 (mod p).
p−1
Assim, devemos mostrar que a 2 ≡ 1 (mod p) se, e só se, a é um resı́duo
quadrático módulo p.
Se a é um resı́duo quadrático, digamos a ≡ i2 (mod p), novamente pelo
teorema de Fermat temos que
p−1
a 2 ≡ ip−1 ≡ 1 (mod p).

Assim, os resı́duos quadráticos 12 , 22 , . . . , ( p−1 2


2 ) módulo p são raı́zes do polinô-
p−1
mio f (x) = x 2 − 1 em Z/(p)[x]. Mas Z/(p) é corpo, logo f (x) pode ter no
máximo deg f = (p − 1)/2 raı́zes em Z/(p). Isto mostra que as raı́zes de f (x)
são exatamente os resı́duos quadráticos não congruentes a zero módulo p e que,
p−1
portanto, a 2 ≡ 1 (mod p) se, e só se, a é um resı́duo quadrático módulo
p.

Corolário 2. O sı́mbolo de Legendre possui as seguintes propriedades:

1. se a ≡ b (mod p) então ap = pb .
 

a2

2. p = 1 se p ∤ a.
p−1
−1

3. p = (−1) 2 , ou seja, −1 é resı́duo quadrático módulo p se, e só se,
p ≡ 1 (mod 4).

4. ab a b
  
p = p p .

Demonstração. Os itens 1 e 2 são imediatos a partir da definição e 3 segue do


p−1 p−1
critério de Euler: −1 (mod p) =⇒ −1
 
p ≡ (−1) p = (−1) já que p > 2
2 2

2
1 3CONGRU
POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel 3 - Aula - CarlosÊNCIAS DEMoreira
Gustavo GRAU 2

e ambos os lados da congruência são iguais a ±1. Da mesma forma, aplicando


o critério de Euler temos que
    
ab p−1 p−1 p−1 a b
≡ (ab) 2 ≡ a 2 b 2 ≡ (mod p),
p p p

o que mostra que ab a b


  
p = p p , pois novamente ambos os lados da congruência
são iguais a ±1.

Exemplo 3. Mostre que o polinômio f (x) = x4 − 10x2 + 1 é irredutı́vel em Z[x],


mas é redutı́vel módulo p para todo primo p.

Solução: Vejamos que f (x) é irredutı́vel em Z[x]. Observe inicialmente que


as raı́zes de f (x) são todas irracionais: se p, q ∈ Z são tais que mdc(p, q) = 1
e f (p/q) = 0 ⇐⇒ p4 − 10p2 q 2 + q 4 = 0, temos da última igualdade que
q | p4 =⇒ q = ±1 e p | q 4 =⇒ p = ±1 já que p e q são primos √ entre√ si, logo
p/q = ±1, nenhuma das quais é raiz de f (x) (cujos zeros são ± 2 ± 3).
Logo se f (x) for redutı́vel ele é o produto de dois polinômios de grau 2, que
podemos supor mônicos. Como o produto dos coeficientes independentes destes
dois fatores deve ser igual ao coeficiente independente de f (x), que é 1, temos
apenas duas possibilidades:

f (x) = (x2 + ax + 1)(x2 + bx + 1) ou


2 2
f (x) = (x + ax − 1)(x + bx − 1)

com a, b ∈ Z. Em ambos os casos, temos a + b = 0 (coeficiente de x3 ). Logo, no


primeiro caso, comparando o coeficiente de x2 temos ab + 2 = −10 ⇐⇒ a2 =
12, o que é impossı́vel. O segundo caso é análogo.
Agora, para p = 2 e p = 3 temos

f (x) ≡ (x + 1)4 (mod 2) e f (x) ≡ (x2 + 1)2 (mod 3).

Agora se p > 3 é um primo, temos que ou p2 = 1, ou p3 = 1 ou p6 = 1 já que


  
2 3 6 2
  
p p = p . No primeiro caso, se a ≡ 2 (mod p) temos

f (x) ≡ (x2 + 2ax − 1)(x2 − 2ax − 1) (mod p).

Já no segundo caso, se b2 ≡ 3 (mod p) temos

f (x) ≡ (x2 + 2bx + 1)(x2 − 2bx + 1) (mod p).

Finalmente, no último caso, se c2 ≡ 6 (mod p) temos

f (x) ≡ (x2 + 2c − 5)(x2 − 2c − 5) (mod p).

Isto mostra que f (x) é redutı́vel módulo p para todo primo p.

3
1 3CONGRU
POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel 3 - Aula - CarlosÊNCIAS DEMoreira
Gustavo GRAU 2

1.2 Lei de Reciprocidade Quadrática


O critério de Euler já nos fornece uma maneira de identificar resı́duos qua-
dráticos. Entretanto, vamos provar um resultado muito mais forte, que é a
famosa
Teorema 4 (Reciprocidade Quadrática).
1. Sejam p e q primos ı́mpares distintos. Então
  
p q p−1 q−1
= (−1) 2 · 2 .
q p

2. Seja p um primo ı́mpar. Então


  (
2 p2 −1 1 se p ≡ ±1 (mod 8)
= (−1) 8 =
p −1 se p ≡ ±3 (mod 8).

Antes de apresentar a prova, vejamos algumas aplicações.


Exemplo 5. Determinar se −90 é resı́duo quadrático módulo 1019 ou não.
Solução:
     2  
−90 −1 2 3 5
=
1019 1019 1019 1019 1019
 
1019
= (−1) · (−1) · 1 ·
5
   2
4 2
= = = 1.
5 5
Ou seja, −90 é resı́duo quadrático módulo 1019.

Exemplo 6. Seja p um número primo. Mostre que


1. se p é da forma 4n + 1 então p | nn − 1.
2. se p é da forma 4n − 1 então p | nn + (−1)n+1 · 2n.
Solução: No primeiro item, 4n ≡ −1 (mod p), donde elevando a n obtemos
(4n)n = 22n nn ≡ (−1)n (mod p).
Por outro lado, pelo critério de Euler e pela reciprocidade quadrática temos
p−1 p2 −1
22n = 2 2 ≡ (−1) 8 ≡ (−1)n(2n+1) ≡ (−1)n (mod p).
Portanto nn ≡ 1 (mod p), como querı́amos demonstrar.
No segundo item, temos 4n ≡ 1 (mod p) e assim
(4n)n = 22n nn ≡ 1 (mod p),
p−1 p2 −1
mas 22n−1 = 2 2 ≡ (−1) 8 = (−1)n(2n−1) (mod p), donde 22n ≡ 2 · (−1)n
(mod p). Concluı́mos que 2nn ≡ (−1)n (mod p) e multiplicando por 2n e uti-
lizando 4n ≡ 1 (mod p) obtemos nn ≡ 2n · (−1)n (mod p), como desejado.

4
1 3CONGRU
POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel 3 - Aula - CarlosÊNCIAS DEMoreira
Gustavo GRAU 2

O primeiro passo da demonstração da lei de reciprocidade quadrática é o


seguinte
Lema 7 (Gauß). Sejam p > 2 um número primo e a um inteiro positivo primo
relativo com p. Seja s o número de elementos do conjunto
a, 2a, 3a, . . . , p−1

2 ·a

tais que seu resto módulo p é maior do que p−1


2 . Então
 
a
= (−1)s .
p
Demonstração. A ideia é imitar a prova do teorema de Euler-Fermat. Como
o conjunto {±1, ±2, . . . , ± p−1 2 } é um sistema completo de invertı́veis módulo
p−1
p, para cada j = 1, 2, . . . , 2 podemos escrever a · j ≡ ǫj mj (mod p) com
ǫj ∈ {−1, 1} e mj ∈ {1, 2, . . . , p−1 2 }. Temos que se i 6= j então mi 6= mj donde
{m1 , m2 , . . . , m p−1 } = {1, 2, . . . , p−1
2 }. De fato, se mi = mj temos a · i ≡ a · j
2
(mod p) ou a · i ≡ −a · j (mod p); como a é invertı́vel módulo p e 0 < i, j ≤
(p − 1)/2, temos que a primeira possibilidade implica i = j e a segunda é
impossı́vel. Assim, multiplicando as congruências a·j ≡ ǫj mj (mod p), obtemos
(a · 1)(a · 2) · · · (a · p−1
2 ) ≡ ǫ1 ǫ2 · · · ǫ p−1 m1 m2 · · · m p−1 (mod p)
2 2
p−1
 p−1  p − 1
a 2 ! ≡ ǫ1 ǫ2 · · · ǫ p−1 ! (mod p)
2  2 2
a
⇐⇒ ≡ ǫ1 ǫ2 . . . ǫ p−1 (mod p),
p 2

donde ( ap ) = ǫ1 ǫ2 . . . ǫ p−1 , pois ambos os lados pertencem a {−1, 1}. Assim,


2
( ap ) = (−1)s já s é o número de elementos j de {1, 2, . . . , p−1
2 } tais que ǫj =
−1.

O lema de Gauß já nos permite provar a fórmula para p2 . Se p ≡ 1 (mod 4),


digamos p = 4k + 1, temos p−1 p−1


2 = 2k. Como 1 ≤ 2j ≤ 2 para j ≤ k e
p−1
2 < 2j ≤ p − 1 para k + 1 ≤ j ≤ 2k, temos
  (
2 k 1, se p ≡ 1 (mod 8),
= (−1) =
p −1, se p ≡ 5 (mod 8).

Se p ≡ 3 (mod 4), digamos p = 4k + 3, temos p−1 2 = 2k + 1. Para 1 ≤ j ≤ k


temos 1 ≤ 2j ≤ p−1
2 e para k + 1 ≤ j ≤ 2k + 1 temos p−1
2 < 2j ≤ p − 1, donde
  (
2 k+1 −1, se p ≡ 3 (mod 8),
= (−1) =
p 1, se p ≡ 7 (mod 8).
Agora, para provar o item 1 da lei de reciprocidade quadrática, vamos
mostrar que
p−1 q−1 X  ip  X  iq 
· = + (∗)
2 2 q−1
q p−1
p
1≤i≤ 2
1≤i≤ 2

5
1 3CONGRU
POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel 3 - Aula - CarlosÊNCIAS DEMoreira
Gustavo GRAU 2

e que
j k j k
ip iq
   
p q
P P
q−1 q p−1 p
= (−1) 1≤i≤ 2
e = (−1) 1≤i≤ 2
. (∗∗)
q p
A fórmula (∗) é apenas uma contagem: o lado esquerdo é o número de
pontos com ambas as coordenadas inteiras no interior do retângulo de vértices
(0, 0), (p/2, 0), (0, q/2) e (p/2, q/2).

x y = pq x
(0, q/2)

s
nto
po
k
j pi
q
X
1
q− s
i≤
2
nto
1≤ po
k
j qi
p
X
1
p−
2
i≤
1≤
y
(p/2, 0)

Por outro lado, o primeiro somatório do lado direito conta o número de tais
pontos que estão acima da diagonal x = pq y do retângulo, enquanto o segundo
somatório conta o número de tais pontos abaixo desta diagonal (note que como
p e q são primos, não há pontos com ambas as coordenadas inteiras na diagonal).
Por exemplo, no primeiro somatório cada termo ip
 
q representa a quantidade
p
de pontos na reta y = i acima da diagonal x = q y.
Finalmente, para mostrar (∗∗), basta checar que 1≤i≤ p−1 iqp ≡ s (mod 2),
P  
2
onde s é como no lema de Gaußaplicado para a = q. Seja ri o resto da divisão
de iq por p, de modo que iq = iqp p + ri . Somando e utilizando a notação da


demonstração do lema de Gauß, obtemos


X X  iq  X X
q i=p + mi + (p − mi ).
p−1 p−1
p
1≤i≤ 1≤i≤ ri <p/2 ri >p/2
2 2

Como p e q são ı́mpares, módulo 2 temos


X X  iq  X X
i≡ + mi + (1 + mi ) (mod 2),
p−1 p−1
p
1≤i≤ 1≤i≤ ri <p/2 ri >p/2
2 2

e como {m1 , m2 , . . . , m p−1 } = {1, 2, . . . , p−1


2 }, concluı́mos assim que
2

X X  iq  X X
i≡ + i+ 1 (mod 2)
p−1 p−1
p p−1
1≤i≤ 1≤i≤ 1≤i≤ ri >p/2
2 2 2
 
X iq
⇐⇒ ≡s (mod 2)
p
1≤i≤ p−1
2

6
1 3CONGRU
POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel 3 - Aula - CarlosÊNCIAS DEMoreira
Gustavo GRAU 2

o que encerra a prova.

Observação 8. O sı́mbolo de Legendre ap pode ser estendido para o sı́mbolo de




Jacobi na , que

αestádefinido
α
para
α a inteiro arbitrário e n inteiro positivo ı́mpar
por na = pa1 1 pa2 2 . . . pak k se n = pα1 1 pα2 2 . . . pαk k é a fatoração prima de
n (onde os paj são dados pelo sı́mbolo de Legendre usual); temos a1 = 1 para
 

todo inteiro a. Não é difı́cil provar as seguintes propriedades do sı́mbolo de


Jacobi, que podem ser usadas para calcular rapidamente sı́mbolos de Legendre
(e de Jacobi):

1. Se a ≡ b (mod n) então na = nb .
 

2. na = 0 se mdc(a, n) 6= 1 e na ∈ {−1, 1} se mdc(a, n) = 1.


 

a2
3. ab a b
   
n = n n ; em particular, n ∈ {0, 1}.
a a a a
   
4. mn = m n ; em particular, n 2 ∈ {0, 1}.
m−1 n−1
m · 2 n
 
5. Se m e n são positivos e ı́mpares, então n = (−1) 2
m .
n−1
−1

6. n = (−1) 2 .
n2 −1
2

7. n = (−1) 8 .

Os três últimos fatos, que generalizam a lei de reciprocidade quadrática, podem


ser provados usando a multiplicatividade em a e em n do sı́mbolo de Jacobi na
e a lei de reciprocidade quadrática para o sı́mbolo de Legendre.
a

Como para o sı́mbolo de Legendre, se n = −1, a não é resı́duo quadrático
módulo n, mas (diferentemente do que acontece para o sı́mbolo de Legendre) é
possı́vel que na sejaigual a 0 ou a 1 sem que a seja resı́duoquadrático módulo
2
= 23 52 = (−1) · (−1) = 1 e 15 3
= 33 35 = 0 · (−1) = 0,
 
n. Por exemplo, 15
mas 2 e 3 não são resı́duos quadráticos módulo 15.

Problemas Propostos

44 −60 2010
  
Problema 9. Calcular 103 , 1019 e 1019 .

Problema 10. Determine todas as soluções de x10 ≡ 1 (mod 49).

Problema 11. Sejam p um primo ı́mpar e c um inteiro que não é múltiplo de


p. Prove que
p−1  
X a(a + c)
= −1.
p
a=0

Problema 12. Existem inteiros m e n tais que

5m2 − 6mn + 7n2 = 1985 ?

7
Problema 13. Demonstrar que a congruência 6x2 + 5x + 1 ≡ 0 (mod m) tem
solução para todo valor natural de m.
Problema 14. Demonstrar que existem infinitos primos da forma 3k+1 e 3k−1.
Problema 15. Demonstrar que se mdc(a, b) = 1 o número a2 + b2 não pode ter
fatores primos da forma 4k − 1 e se além disso mdc(a, 3) = 1 então o número
a2 + 3b2 não pode ter fatores ı́mpares da forma 3k − 1. Que podemos dizer sobre
os fatores primos de a2 + pb2 onde p é um primo?
Problema 16. Demonstrar que, para p = 1093,
p−1
2 2 ≡ −1 (mod p2 ).
n
Problema 17. a) (Euler) Seja Fn = 22 + 1 o n-ésimo número de Fermat.
Prove que todo fator primo de Fn é da forma k·2n+1 + 1.
b) (Lucas) Prove que, se n ≥ 2, então todo fator primo de Fn é da forma
k·2n+2 + 1.
5
c) Mostre que 22 + 1 é composto.
Problema 18 (IMO1996). Sejam a, b inteiros positivos tais que 15a + 16b e
16a − 15b sejam quadrados perfeitos. Encontrar o menor valor que pode tomar
o menor destes quadrados.
Problema 19. Seja p um número primo ı́mpar. Mostrar que o menor não resto

quadrático positivo de p é menor que p + 1.
Problema 20. Sejam M um número inteiro e p um número primo maior do

que 25. Mostrar que a sequência M, M + 1, · · · , M + 3⌊ p⌋ − 1 contém um resto
não quadrático módulo p.
Problema 21 (Putnam 1991). Seja p um primo ı́mpar. Quantos elementos tem
o conjunto
{x2 | x ∈ Z/pZ} ∩ {y 2 + 1 | y ∈ Z/pZ}?
[Putnam 1991] Seja p um primo ı́mpar. Quantos elementos tem o conjunto

{x2 | x ∈ Z/pZ} ∩ {y 2 + 1 | y ∈ Z/pZ}?

Problema 22 (IMO2008). Prove que existe um número infinito de √inteiros po-


sitivos n tais que n2 + 1 tem um divisor primo maior do que 2n + 2n.

Dicas e Soluções

Em breve.

Referências
[1] F. E. Brochero Martinez, C. G. Moreira, N. C. Saldanha, E. Tengan -
Teoria dos Números - um passeio com primos e outros números familiares
pelo mundo inteiro, Projeto Euclides, IMPA, 2010.
Polos Olímpicos de Treinamento
Curso de Teoria dos Números - Nível 3 Aula 10
Carlos Gustavo Moreira

Congruências de Grau Superior

1 Congruências de Grau Superior


Dado um polinômio f (x) ∈ Z[x] e um número natural n, vamos estudar
condições para que a congruência

f (x) ≡ 0 (mod n)

tenha solução. O primeiro resultado diz que basta considerar o caso em que
n = pk é a potência de um primo p.

Proposição 1. Suponhamos que n = pk11 · · · pkl l onde os pj são primos distintos.


Temos uma equivalência

k1
f (x) ≡ 0 (mod p1 )


..
f (x) ≡ 0 (mod n) ⇐⇒ .

f (x) ≡ 0 (mod pkl )

l

de modo que f (x) ≡ 0 (mod n) admite solução se, e somente se, f (x) ≡ 0
k
(mod pj j ) tem solução para cada j.
k
Demonstração. Como as potências pj j são coprimas duas a duas, temos que
k
n divide um inteiro M se, e só se, pj j | M para cada j, o que demonstra a
equivalência. Assim, a existência de solução para f (x) ≡ 0 (mod n) implica a
existência de solução para o sistema acima. Reciprocamente, se cada f (x) ≡ 0
k k
(mod pj j ) tem uma solução x ≡ aj (mod pj j ), pelo teorema chinês dos restos
k
existe a tal que a ≡ aj (mod pj j ) para todo j, de modo que f (a) ≡ f (aj ) ≡
k
0 (mod pj j ) para todo j e logo f (a) ≡ 0 (mod n) pela equivalência acima.
Note em particular que o número de soluções distintas módulo n de f (x) ≡ 0
k
(mod n) é igual ao produto do número de soluções módulo pj j de f (x) ≡ 0
k
(mod pj j ).
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Moreira

A próxima proposição indica como, a partir de uma solução de f (x) ≡ 0


(mod pk0 ), obter soluções para f (x) ≡ 0 (mod pk ) para todo k ≥ k0 . Para isso,
precisamos da noção
Pn de derivada de um polinômio: se p(x) = an xn +an−1 xn−1 +
j
· · ·+a1 x+a0 = j=0 aj x , definimos sua derivada p′ (x) como sendo o polinômio
p′ (x) = nan xn−1 + (n − 1)an−1 xn−2 + · · · + a1 = nj=1 jaj xj−1 . Note que, se
P
p(x) ∈ Z[x], então p′ (x) ∈ Z[x].

Proposição 2 (Lema de Hensel). Seja f (x) ∈ Z[x] um polinômio, p um número


primo. Seja a ∈ Z tal que f (a) ≡ 0 (mod pk0 ) e cuja maior potência pl0 de p
com pl0 | f ′ (a) satisfaz 0 ≤ 2l0 < k0 . Então existe uma sequência de inteiros
(ak )k≥k0 com

ak0 = a, ak+1 ≡ ak (mod pk−l0 ) e


f (ak ) ≡ 0 (mod pk ) para todo k ≥ k0 .

Em particular, se existe um inteiro a tal que f (a) ≡ 0 (mod p) mas f ′ (a) 6≡ 0


(mod p) então f (x) ≡ 0 (mod pk ) admite solução para todo k ∈ N.

Demonstração. Construı́mos a sequência indutivamente. Seja k ≥ k0 e suponha


por indução que pk | f (ak ), ou seja, f (ak ) = rk pk para um certo rk ∈ Z e
pl0 | f ′ (ak ) mas pl0 +1 ∤ f ′ (ak ), ou seja, f ′ (ak ) = sk pl0 onde p ∤ sk . Estamos
procurando um número da forma ak+1 = ak + tk pk−l0 , com tk ∈ Z, que satisfaz
pk+1 | f (ak+1 ), pl0 | f ′ (ak+1 ) mas pl0 +1 ∤ f ′ (ak+1 ).
Para cada r ∈ N, temos
k  
X r r−j j(k−l0 )
(ak + tk pk−l0 )r = ark + tk rakr−1 pk−l0 + a p ≡
j k
j=2

≡ ark + tk rakr−1 pk−l0 (mod pk+1 ),


pois a hipótese 0 ≤ 2l0 < k0 implica 2(k − l0 ) ≥ k + 1. Se f (x) = nr=0 cr xr ,
P
multiplicando a congruência acima por cr e somando, de r = 0 até n, obtemos
n
X n
X
f (ak+1 ) = f (ak + tk pk−l0 ) = cr ark + tk rakr−1 pk−l0 =
r=0 r=0
k−l0 k k

= f (ak ) + tk f (ak )p = rk p + s k tk p (mod pk+1 ).
Logo para que pk+1 | f (ak+1 ) devemos encontrar tk tal que rk + sk tk ≡ 0
(mod p), o que é possı́vel pois sk é invertı́vel módulo p. Finalmente, temos que

f ′ (ak+1 ) ≡ f ′ (ak ) = sk pl0 (mod pk−l0 )


(
f ′ (ak+1 ) ≡ 0 (mod pl0 )
=⇒
f ′ (ak+1 ) 6≡ 0 (mod pl0 +1 )

o que completa a indução.

2
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Observemos que a condição sobre a derivada de f no lema de Hensel é


necessária. Para isto, consideremos f (x) = xm + 3 com m ≥ 2, a = 0 e
p = 3. Assim, temos que f (0) = 3 ≡ 0 (mod 3), mas f ′ (0) = 0 é divisı́vel
por potências arbitrariamente grandes de 3, logo f (x) não satisfaz a segunda
hipótese da proposição. E de fato, se b ∈ Z e f (b) = bm + 3 ≡ 0 (mod 3) então
b ≡ 0 (mod 3), donde bm ≡ 0 (mod 9) e f (b) = bm + 3 ≡ 3 (mod 9), o que
mostra que nenhuma raiz módulo 3 “levanta” para uma raiz módulo 9.
Agora vamos nos concentrar em equações módulo p. Para o próximo resul-
tado, necessitamos de um
Lema 3. Seja p um primo. Então
(
0 se (p − 1) ∤ k,
1k + 2k + · · · + (p − 1)k mod p =
p−1 se (p − 1) | k.

Demonstração. Se (p−1) | k, temos que cada termo da soma acima é congruente


a 1 módulo p e o resultado segue. Suponha agora que (p − 1) ∤ k e seja g uma
raiz primitiva módulo p. Temos portanto

1k + 2k + · · · + (p − 1)k ≡ 1 + g k + g 2k + · · · + g (p−2)k (mod p)

Sendo S = 1 + g k + g 2k + · · · + g (p−2)k , multiplicando por g k e observando que


g (p−1)k ≡ 1 (mod p) temos

g k S ≡ g k + g 2k + · · · + g (p−1)k (mod p)
k k
⇐⇒ g S ≡ S (mod p) ⇐⇒ (g − 1)S ≡ 0 (mod p)

Como g é uma raiz primitiva e (p − 1) ∤ k temos que g k − 1 6≡ 0 (mod p), ou


seja, g k − 1 é invertı́vel módulo p e portanto S ≡ 0 (mod p), o que encerra a
prova.

Teorema 4 (Chevalley-Warning). Seja p um primo e sejam

f1 (x1 , . . . , xn ), . . . , fk (x1 , . . . , xn ) ∈ Z[x1 , . . . , xn ]

polinômios em n variáveis com coeficientes inteiros P tais que


fi (0, . . . , 0) ≡ 0 (mod p) para todo i≤k. Suponha que deg(fi )<n. En-
1≤i≤k
tão a quantidade de “pontos” em

A = {(x1 , . . . , xn ) ∈ (Z/pZ)n | fi (x1 , . . . , xn ) = 0 ∀i = 1, . . . , k}

é um múltiplo de p. Em particular, existem pontos (x1 , . . . , xn ) 6=


(0, . . . , 0) em (Z/pZ)n tais que fi (x1 , . . . , xn ) = 0 para todo i.
Demonstração. Usaremos o lema anterior para determinar |A| mod p. Para isso,
notemos que pelo teorema de Euler-Fermat fj (x1 , . . . , xn ) 6≡ 0 (mod p) ⇐⇒
fj (x1 , . . . , xn )p−1 ≡ 1 (mod p). Definamos
Y
1 − fj (x1 , . . . , xn )p−1 .

g(x1 , . . . , xn ) =
1≤j≤k

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Observemos que g(x1 , . . . , xn ) ≡ 0 (mod p) se, e somente se, existe j tal que
fj (x1 , . . . , xn ) 6≡ 0 (mod p). Por outro lado, se fj (x1 , . . . , xn ) ≡ 0 (mod p) para
todo j então g(x1 , . . . , xn ) ≡ 1 (mod p), portanto
X
g(x1 , . . . , xn ) ≡ |A| (mod p).
(x1 ,...,xn )∈(Z/pZ)n
P
Notemos agora que deg(g) ≤ 1≤j≤k (p − 1) deg(fj ) < (p − 1)n. Portanto
i1 i2 i
P
cada monômio cx1 x2 · · · xn de g é tal que 1≤j≤n ij < (p − 1)n, donde pelo
n

Princı́pio da Casa dos Pombos


P sempre existe algum r com 0 ≤ ir < p − 1.
Assim, pelo lema anterior, xr ∈Z/pZ xirr ≡ 0 (mod p) donde

cxi11 xi22 · · · xinn ≡ c xi11 xi22 · · ·


X X X X
xinn
(x1 ,...,xn )∈(Z/pZ)n x1 ∈Z/pZ x2 ∈Z/pZ xn ∈Z/pZ

≡ 0 (mod p)
P
Isso mostra que (x1 ,...,xn )∈(Z/pZ)n g(x1 , . . . , xn ) ≡ 0 (mod p) e, portanto, |A| é
múltiplo de p. Como (0, 0, . . . , 0) ∈ A, há pelo menos p − 1 outros pontos nesse
conjunto, o que prova o teorema.

Como aplicação, provemos o seguinte resultado, devido a Erdős, Ginzburg


e Ziv.
Proposição 5. Seja n um inteiro positivo. Dados inteiros
x1 , . . . , x2n−1 existem 1 ≤ i1 < i2 < · · · < in ≤ 2n−1 tais que xi1 +xi2 +· · ·+xin
é divisı́vel por n.
Demonstração. Mostremos primeiro que se o resultado vale para m e para n
então vale para mn. Sejam x1 , x2 , . . . , x2mn−1 ∈ Z. Por hipótese temos que,
para cada subconjunto A de {1, 2, . . . , 2mn − 1} com P2n − 1 elementos, existe
um subconjunto B ⊂ A com n elementos tal que i∈B xi é divisı́vel por n.
Assim, construı́mos Bj indutivamente para todo 1 ≤ j ≤ 2m − 1, seguindo os
seguintes passos
S
• Escolhemos um subconjunto Aj de {1, 2, . . . , 2mn − 1} \ Bk com 2n − 1
k<j
elementos.
P
• De Aj escolhemos um subconjunto Bj com n elementos tal que i∈Bj xi
é divisı́vel por n.
Observemos que se j ≤ 2m − 1 então
[
{1, 2, . . . , 2mn − 1} \ Bj = 2mn − 1 − (j − 1)n

k<j

≥ 2mn − 1 − (2m − 2)n = 2n − 1,

oPque garante a construção até j = 2m − 1. Definamos agora os inteiros yj =


1
n i∈Bj xi para 1 ≤ j ≤ 2m − 1. De novo por hipótese, existe um subconjunto

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P
de ı́ndices C ⊂ {1, . . . , 2m − 1} com m elementos tal que j∈C yj é divisı́vel
por m e portanto XX X
xi = n yj
j∈C i∈Bj j∈C

é uma soma com |C||Bj | = mn somandos que é divisı́vel por mn.


Assim, basta provar a proposição para n primo. Para isso, consideremos os
polinômios

f1 (x1 , . . . , x2n−1 ) = x1n−1 + x2n−1 + · · · + x2n−1


n−1
e
f2 (x1 , . . . , x2n−1 ) = a1 x1n−1 + a2 x2n−1 n−1
+ · · · + a2n−1 x2n−1

onde a1 , . . . , a2n−1 são os inteiros dados. A soma dos graus de f1 e f2 é 2(n−1) <
2n − 1. Pelo teorema de Chevalley-Warning, existem x1 , . . . , x2n−1 ∈ Z/(n) não
todos nulos com

f1 (x1 , . . . , x2n−1 ) ≡ f2 (x1 , . . . , x2n−1 ) ≡ 0 (mod n).

Como xn−1 ≡ 1 (mod n) para todo x ∈ (Z/(n))× , f1 (x1 , . . . , x2n−1 ) ≡ 0


(mod n) implica que existem exatamente n valores i ≤ 2n − 1 com xi 6≡ 0
(mod n). Sejam 1 ≤ i1 < i2 < · · · < in ≤ 2n − 1 tais valores de i, como
xin−1
s
≡ 1 (mod n) para todo s ≤ n temos que

a1 x1n−1 + a2 x2n−1 + · · · + a2n−1 x2n−1


n−1
≡ a i1 + a i2 + · · · + a in (mod n),

pois xj ≡ 0 (mod n) se j 6= is para todo s ≤ n. Assim, ai1 + ai2 + · · · + ain é


divisı́vel por n, o que prova o resultado.

Problemas Propostos

Problema 6 (OBM2007). Para quantos inteiros c, −2007 ≤ c ≤ 2007, existe


um inteiro x tal que x2 + c é múltiplo de 22007 ?
Problema 7. Seja p um primo e seja n tal que pk ∤ n. Demonstrar: se a
equação y n ≡ a (mod pk ) tem solução com mdc(y, p) = 1, então para todo
m > k a equação y n ≡ a (mod pm ) possui solução.
Problema 8. Seja f (x) ∈ Z[x] um polinômio, p um número primo, a um inteiro
tal que f (a) ≡ 0 (mod p) mas f ′ (a) 6≡ 0 (mod p) e k um inteiro positivo.
Prove que, se ak é um inteiro tal que ak ≡ a (mod p) e f (ak ) ≡ 0 (mod pk ),
então, tomando b tal que b ≡ ak − f (ak ) · f ′ (ak )−1 (mod p2k ), então f (b) ≡ 0
(mod p2k ).
Problema 9. Seja p um primo ı́mpar, a um inteiro e n um inteiro positivo.
Sejam α e β inteiros não negativos, com α > 0. Prove:

(a) Se pβ e pα são as maiores potências de p que dividem n e a − 1 respecti-


vamente então pα+β é a maior potência de p que divide an − 1 (atenção, p
deve dividir a − 1 pois α > 0! Mas note que p não precisa dividir n)

5
(b) Se n é ı́mpar e pβ e pα são as maiores potências de p que dividem n e
a + 1 respectivamente então pα+β é a maior potência de p que divide an + 1
(mesma ressalva do item (i)).
Problema 10. Sejam a um inteiro e n um inteiro positivo. Sejam α e β inteiros
não negativos, com α, β > 0. Prove:
(a) Se n é ı́mpar e 2α é a maior potência de 2 que divide a − 1 então 2α é
também a maior potência de 2 que divide an − 1.
(b) Se a ≡ 1 (mod 4) e 2β e 2α são as maiores potências de 2 que dividem n e
a − 1 respectivamente então 2α+β é a maior potência de 2 que divide an − 1.
(c) Se a ≡ 3 (mod 4) e 2β e 2α são as maiores potências de 2 que dividem n e
a + 1 respectivamente então 2α+β é a maior potência de 2 que divide an − 1.
(d) Se n é ı́mpar e 2α é a maior potência de 2 que divide a + 1 então 2α é
também a maior potência de 2 que divide an + 1.
Problema 11. Encontre todos os inteiros não negativos x e y tais que
7y − 2 · 3x = 1
Problema 12. Seja p um número primo e n, k e a = pt a1 números naturais
tais que mdc(p, a1 ) = 1. Prove: a congruência xn ≡ a (mod pk ) tem solução
se, e só se, k ≤ t ou
pk−1 (p−1)
mdc(n,pk−1 (p−1))
k > t, n|t e a1 ≡ 1 (mod pk−t ).
Problema 13 (Irlanda 1997). Seja A um subconjunto de {1, 2, . . . 2n − 1} com n
elementos. Prove que A contém uma potência de 2 ou dois elementos distintos
cuja soma é uma potência de 2.
Problema 14 (Romênia 1996). Determinar o maior inteiro positivo n com a se-
guinte propriedade: existem inteiros não negativos x1 , . . . , xn tais que, para toda
sequência ǫ1 , ǫ2 , . . . , ǫn de elementos de {−1, 0, 1}, não todos zero, o número
ǫ1 x1 + ǫ2 x2 + · · · + ǫ n xn
não é divisı́vel por n3 .
Problema 15 (Erdős). Mostrar que todo número inteiro positivo pode ser ex-
presso como soma de números da forma 2a 3b de modo que nenhum termo é
divisı́vel por outro.
Problema 16 (Romênia 1998). Mostrar que para todo n ≥ 2 existe um sub-

conjunto S de {1, 2, . . . , n} com no máximo 2⌊ n⌋ + 1 elementos tal que todo
número natural menor do que n pode ser representado como diferença de dois
elementos de S.
Dicas e Soluções

Em breve.
Referências
[1] F. E. Brochero Martinez, C. G. Moreira, N. C. Saldanha, E. Tengan -
Teoria dos Números - um passeio com primos e outros números familiares
pelo mundo inteiro, Projeto Euclides, IMPA, 2010.
Polos Olímpicos de Treinamento
Curso de Teoria dos Números - Nível 3 Aula 11
Carlos Gustavo Moreira

Equações Diofantinas Quadráticas

1 Ternas Pitagóricas
As triplas de números inteiros positivos (a, b, c) que satisfazem a equação

a 2 + b2 = c 2

são denominadas triplas ou ternas pitagóricas, já que correspondem aos com-
primentos dos lados de um triângulo retângulo de lados inteiros pelo teorema
de Pitágoras.
Vamos encontrar todas as ternas pitagóricas (a, b, c). Podemos supor que
a, b, c são primos relativos dois a dois, pois se houver um primo p tal que p |
mdc(a, b), por exemplo, então p | a2 + b2 = c2 =⇒ p | c, logo ( ap , pb , pc ) também
é tripla pitagórica. Uma tripla pitagórica cujos termos são primos relativos dois
a dois se denomina tripla pitagórica primitiva.
Daqui a e b não podem ser pares ao mesmo tempo, portanto podemos supor
sem perda de generalidade que a é ı́mpar. Além disso, como (2k + 1)2 = 4k 2 +
4k + 1 ≡ 1 (mod 4) e (2k)2 ≡ 0 (mod 4), quadrados perfeitos são congruentes
ou a 0 ou a 1 módulo 4. Portanto b não pode ser ı́mpar pois caso contrário
c2 ≡ a2 + b2 ≡ 2 (mod 4), um absurdo. Resumindo, temos que b é par e c é
ı́mpar. Por outro lado,

b2 = c2 − a2 = (c − a)(c + a).

Temos mdc(c−a, c+a) = mdc(2c, c+a) = 2 pois mdc(a, c) = 1 =⇒ mdc(c, c+


a) = 1 e c + a é par. Logo c+a c−a
2 e 2 são coprimos e seu produto é um quadrado
perfeito. Pelo teorema Fundamental da Aritmética, cada um destes fatores deve
ser o quadrado de um número natural. Assim,
c+a c−a
= m2 , = n2 , b = 2mn,
2 2
com mdc(m, n) = 1. Escrevendo a, b, c em termos de m e n, obtemos portanto
POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel 3 - Aula 3 -1Carlos
TERNAS PITAG
Gustavo ÓRICAS
Moreira

Proposição 1. As ternas pitagóricas primitivas (a, b, c) são da forma

a = m2 − n2 , b = 2mn, c = m2 + n2

com mdc(m, n) = 1 e m + n ı́mpar.

A condição de m + n ser ı́mpar garante a primitividade da tripla: como


mdc(m, n) = 1 temos mdc(m2 , m2 + n2 ) = 1 e portanto mdc(a, c) = mdc(m2 −
n2 , m2 + n2 ) = mdc(2m2 , m2 + n2 ) = mdc(2, m2 + n2 ), que é igual a 1 se, e
só se, m2 + n2 é ı́mpar, isto é, se m e n têm paridades distintas. Todas as
demais triplas pitagóricas podem ser obtidas a partir de uma tripla pitagórica
primitiva, multiplicando seus termos por uma constante.
Como uma aplicação do resultado anterior, consideremos o seguinte

Exemplo 2. Encontrar todas as triplas de inteiros positivos (a, b, c) tais que a2 ,


b2 e c2 estão em progressão aritmética.

Solução: O problema se reduz a encontrar todas as triplas (a, b, c) tais que

a2 + c2 = 2b2

e, como no caso das ternas pitagóricas, basta considerar o caso em que a, b, c


são dois a dois primos entre si. Temos que a e c têm igual paridade (logo são
ı́mpares pois mdc(a, c) = 1 por hipótese) e portanto existem inteiros r e s tais
que c = r + s e a = r − s (é só fazer r = c+a c−a
2 e s = 2 ). Substituindo temos
que
a2 + c2 = (r − s)2 + (r + s)2 = 2(r2 + s2 ) = 2b2 .
Logo (r, s, b) é uma tripla pitagórica, que é primitiva pois qualquer divisor
comum de r e s é um divisor comum de a e c. Portanto existem inteiros m e n
tais que r = m2 − n2 , s = 2mn e b = m2 + n2 (ou r = 2mn e s = m2 − n2 , que
fornecerá uma outra solução simétrica). Conclui-se que

a = m2 − n2 − 2mn, b = m2 + n2 , c = m2 − n2 + 2mn,

e é fácil verificar que tal tripla cumpre o pedido.

As soluções inteiras primitivas da equação x2 + y 2 = z 2 estão claramente


em bijeção, via (x, y, z) 7→ (x/z, y/z), com as soluções racionais da equação
x2 + y 2 = 1. Estas, por sua vez, podem ser facilmente obtidas através do
seguinte método geométrico:

Teorema 3. Os pontos racionais (x, y) (isto é, com ambas as coordenadas x, y ∈


Q) da circunferência de equação x2 + y 2 = 1 são todos os pontos da forma
 2 
t − 1 2t
(x, y) = (1, 0) e (x, y) = 2 , com t ∈ Q.
t + 1 t2 + 1

Demonstração. Considere a reta passando pelos pontos (1, 0) e (0, t) com t ∈ Q,


ou seja, a reta de equação y = −t(x − 1). Esta reta intercepta a circunferência
2 −1
em dois pontos: (1, 0) e ( tt2 +1 , t22t+1 ).

2
POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel 3 - Aula 3 -2 Carlos
SOMAGustavo
DE QUADRADOS
Moreira

2
Agora observe que (0, t) 7→ ( tt2 −1 , 2t ) estabelece uma bijeção entre os
+1 t2 +1
pontos racionais do eixo y e os pontos racionais P da circunferência x2 + y 2 = 1,
2 −1
menos o ponto (1, 0). De fato, é claro que se t ∈ Q então ( tt2 +1 , t22t+1 ) é um ponto
racional da circunferência. Reciprocamente, dado um ponto racional P 6= (1, 0)
da circunferência, temos que a reta que une P a (1, 0) admite uma equação com
coeficientes racionais, logo intercepta o eixo y em um ponto (0, t) com t ∈ Q.
Isto completa a demonstração.

Assim, substituindo t = m n com m, n ∈ Z e mdc(m, n) = 1, obtemos


m2 −n2
as soluções racionais ( m2 +n2 , m2mn
2 +n2 ), que correspondem às ternas pitagóricas
2 2 2
(m − n , 2mn, m + n ). 2

2 Soma de Quadrados
Vamos provar um resultado devido a Legendre que fornece um critério para
determinar quando uma equação do tipo ax2 + by 2 + cz 2 = 0 tem solução não
nula e que dá uma generalização natural das triplas pitagóricas.

Teorema 4 (Legendre). Sejam a, b, c inteiros livres de quadrados, primos entre


si, dois a dois, e não todos do mesmo sinal. A equação ax2 + by 2 + cz 2 = 0
tem solução (x, y, z) 6= (0, 0, 0) com x, y e z inteiros se, e somente se, −bc é
quadrado módulo a, −ac é quadrado módulo b e −ab é quadrado módulo c.

Demonstração. Vamos primeiro mostrar a necessidade. Basta ver pela simetria


da equação que −bc é quadrado módulo a. De fato, podemos supor que x, y
e z são primos relativos dois a dois, pois se d | mdc(x, y) então d2 divide cz 2 ,
mas c é livre de quadrados, portanto d | z. Agora como by 2 + cz 2 ≡ 0 (mod a)
segue que b2 y 2 ≡ −bcz 2 (mod a). Note que z deve ser primo com a, pois se p
é primo tal que p | a e p | z, teremos que p | by 2 , mas mdc(a, b) = 1, segue que
p | y o que contradiz o fato de y e z serem primos entre si. Assim, z é invertı́vel
módulo a, e logo (byz −1 )2 ≡ −bc (mod a).
Provemos agora a suficiência. Podemos supor, sem perda de generalidade,
que a < 0, b < 0 e c > 0. Por hipótese, existe u ∈ Z tal que u2 ≡ −bc (mod a).
Assim, módulo a, temos que

ax2 + by 2 + cz 2 ≡ by 2 + cz 2 ≡ b−1 ((by)2 + bcz 2 )


≡ b−1 ((by)2 − u2 z 2 ) ≡ b−1 (by − uz)(by + uz)
≡ (y − b−1 uz)(by + uz)
≡ L1 (x, y, z)M1 (x, y, z)

onde L1 (x, y, z) = d1 x+e1 y+f1 z, M1 (x, y, z) = g1 x+h1 y+i1 z, com d1 = g1 = 0,


e1 = 1, f1 = −b−1 u, h1 = b e i1 = u. Do mesmo modo,

ax2 + by 2 + cz 2 ≡ L2 (x, y, z)M2 (x, y, z) (mod b)

e
ax2 + by 2 + cz 2 ≡ L3 (x, y, z)M3 (x, y, z) (mod c),

3
POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel 3 - Aula 3 -2 Carlos
SOMAGustavo
DE QUADRADOS
Moreira

onde Lk (x, y, z) = dk x+ek y +fk z, Mk (x, y, z) = gk x+hk y +ik z, k = 2, 3. Como


a, b e c são primos entre si dois a dois, podemos pelo teorema chinês dos restos
encontrar duas formas lineares L(x, y, z) = dx+ey+f z, M (x, y, z) = gx+hy+iz
tais que L ≡ L1 (mod a), L ≡ L2 (mod b) e L ≡ L3 (mod c), e M ≡ M1
(mod a), M ≡ M2 (mod b) e M ≡ M3 (mod c) (basta resolver o sistema de
congruências coeficiente a coeficiente). Logo
ax2 + by 2 + cz 2 ≡ L(x, y, z)M (x, y, z) (mod abc).
3
p
Consideremos agora
p p todas a triplas p (x, y, z) ∈ Zp com 0 ≤ x p ≤ |bc|, 0 ≤ y ≤
|ac| e 0 ≤ z ≤ |ab|. Temos (⌊ |bc|⌋ + 1)(⌊ |ac|⌋ + 1)(⌊ |ab|⌋ + 1) > abc
de tais triplas, donde pelo Princı́pio da Casa dos Pombos existem duas triplas
distintas dentre elas, (x1 , y1 , z1 ) e (x2 , y2 , z2 ), com L(x1 , y1 , z1 ) ≡ L(x2 , y2 , z2 )
(mod abc) ⇐⇒ L(x1 − x2 , y1 − y2 , z1 − z2 ) ≡ 0 (mod abc), donde, fazendo
x̃ = x1 − x2 , ỹ = y1 − y2 e z̃ = z1 − z2 , temos
ax̃2 + bỹ 2 + cz̃ 2 ≡ L(x̃, ỹ, z̃)M (x̃, ỹ, z̃) ≡ 0 (mod abc).
p p p
Note que (x̃, ỹ, z̃) 6= (0, 0, 0), |x̃| < |bc|, |ỹ| < |ac| e |z̃| < |ab| (de fato,
como a, b, c são dois a dois coprimos e livre de quadrados, não pode ocorrer a
igualdade). Como a, b < 0 e c > 0 temos que
−2abc = a|bc| + b|ac| < ax̃2 + bỹ 2 ≤ ax̃2 + bỹ 2 + cz̃ 2 ≤ cz̃ 2 < |ab|c = abc.
Como abc | ax̃2 + bỹ 2 + cz̃ 2 , devemos então ter ax̃2 + bỹ 2 + cz̃ 2 = 0, o que resolve
o problema, ou ax̃2 + bỹ 2 + cz̃ 2 = −abc, mas, nesse caso, temos
0 = (ax̃2 + bỹ 2 + cz̃ 2 + abc)(z̃ 2 + ab)
= a(x̃z̃ + bỹ)2 + b(ỹz̃ − ax̃)2 + c(z̃ 2 + ab)2 ,
o que nos dá a solução (x̃z̃ + bỹ, ỹz̃ − ax̃, z̃ 2 + ab) com z̃ 2 + ab 6= 0.

O teorema de Legendre permite determinar quando uma curva algébrica


plana de grau 2, Ax2 + Bxy + Cy 2 + Dx + Ey + F = 0 com A, B, C, D, E ∈ Q,
B
possui algum ponto racional (x, y) ∈ Q2 . De fato, fazendo x̃ = x+ 2A y (podemos
supor que A 6= 0, se não fazemos uma mudança de coordenadas como y = ỹ+x),
a curva fica da forma Ãx̃2 + C̃ ỹ 2 + D̃x̃ + Ẽ ỹ + F̃ = 0, e, fazendo x = x̃ + 2D̃Ã e
y = ỹ + 2ẼC̃ , a curva fica da forma Ax2 + Cy 2 + F = 0. Multiplicando pelo mmc
dos denominadores dos coeficientes, podemos supor que A, C e F são inteiros,
e, escrevendo A = k 2 Â, C = l2 Ĉ e F = m2 F̂ , com Â, Ĉ e F̂ livre de quadrados,
k
obtemos fazendo x̂ = m x e ŷ = ml y a expressão Âx̂2 + Ĉ ŷ 2 + F̂ = 0. Assim
p r
fazendo x̂ = q e ŷ = q , obtemos a equação

Âp2 + Ĉr2 + F̂ q 2 = 0.
Podemos supor mdc(Â, Ĉ, F̂ ) = 1 (se não dividimos por mdc(Â, Ĉ, F̂ )) e que
mdc(p, r, q) = 1. Além disso, se mdc(Â, Ĉ) = d devemos ter d | F̂ q 2 , e logo d | q
(pois d é livre de quadrados), donde q = dq ′ , e obtemos a equação

 2 Ĉ 2 2
p + r + (F̂ d)q ′ = 0
d d

4
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 Ĉ
com d , d , F̂ d livres de quadrados e
 Ĉ ÂĈ F̂
F̂ d = < |ÂĈ F̂ | se d > 1.

d d d

Após algumas reduções deste tipo, obtemos uma equação equivalente como nas
hipóteses do teorema de Legendre, que pode então ser usado para decidir a
existência de um ponto racional na curva. Note que a hipótese sobre a, b, c não
terem o mesmo sinal no teorema de Legendre equivale à existência de pontos
reais não triviais na curva.
Se há algum ponto racional (x0 , y0 ) numa tal curva, então há infinitos. Isto
pode ser visto a partir do exemplo a seguir, que ilustra o método geométrico
que permite encontrar todos os pontos racionais explicitamente.
Exemplo 5. Encontre todos os pontos racionais da elipse
x2 y2
+ = 1.
5/2 5/3

Solução: É fácil encontrar um destes pontos racionais, digamos


(x, y) = (1, 1). Para encontrar os demais, começamos traçando uma reta r
de coeficientes racionais paralela à reta tangente à elipse no ponto P0 = (1, 1).

2x
Derivando a equação da elipse em relação à x, obtemos 5/2 + 2yy
5/3 = 0 e assim
y ′ = −2/3 para (x, y) = (1, 1). Portanto podemos tomar (por exemplo) a reta
r de equação y = − 23 x − 2. Agora, para um ponto P 6= P0 da elipse, seja s a
reta que liga P a P0 = (1, 1); como esta reta não é paralela a r, temos que r e
s determinam um ponto Q, como na figura a seguir.
s

P0

Vamos mostrar que a associação P 7→ Q define uma bijeção entre os pontos


racionais da elipse, excetuando o ponto P0 , e os pontos racionais da reta r.
Em primeiro lugar, se P é um ponto racional da elipse então a equação da
reta s, que liga dois pontos racionais P e P0 , possui coeficientes racionais. Logo
Q será um ponto racional, sendo a intersecção de duas retas r e s cujas equações
têm coeficientes racionais.

5
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Reciprocamente, suponha que Q = (a, b) é um ponto racional de r. Então a


equação da reta s, determinada pelos pontos racionais P0 e Q, terá coeficientes
b−1
racionais: y − 1 = a−1 · (x − 1). Como a equação da elipse também tem
coeficientes racionais, a intersecção P 6= P0 de s com a elipse será um ponto
racional, já que isolando y na equação de s e substituindo na equação da elipse
obtemos uma equação quadrática com coeficientes racionais
2 2 3 b−1 2
x + 1+ · (x − 1) − 1 = 0.
5 5 a−1
Sabemos que a abscissa x = 1 de P0 é uma das raı́zes, logo a outra raiz (que é
a abscissa de P ) é racional também pelas relações de Girard. Como P pertence
à reta s cuja equação tem coeficientes racionais, a ordenada de P também será
racional, ou seja, P será um ponto racional.
Após algumas contas, obtemos a seguinte fórmula para P em função de
Q = (a, b):
 10a2 + 90a + 21 10a2 − 20a − 111 
P = , .
10a2 + 24a + 87 10a2 + 24a + 87
Assim, os pontos racionais P da elipse são obtidos fazendo a percorrer todos os
racionais a ∈ Q juntamente com a = ∞, i.e., o limite para a → ∞ na expressão
acima, que fornece o ponto inicial P0 = (1, 1), que corresponde ao “ponto no
infinito” de r, intersecção de r com a reta s tangente à elipse no ponto P0 (no
plano projetivo, é claro!).

2.1 Soma de Dois Quadrados


Nesta seção, caracterizamos os números que são somas de dois quadrados.

Teorema 6. Os únicos números que podem se expressar como soma de dois


quadrados são os da forma n = 2s d2 l onde s é um natural e l é um número
livre de quadrados tais que seus fatores primos são da forma 4k + 1.

Começamos observando que se p é um primo da forma 4k + 3 que divide n =


a2 +b2 , então p | a e p | b. De fato, se isto não ocorresse, b seria invertı́vel módulo
p, logo de a2 ≡ −b2 (mod  p) terı́amos que −1 é resı́duo quadrático módulo p, o
que é absurdo pois −1 = (−1) (p−1)/2 = −1 já que p ≡ 3 (mod 4). Logo p2 | n
p
e repetindo o processo com pn2 = ( ap )2 + ( pb )2 no lugar de n, concluı́mos que todo
primo da forma 4k + 3 aparece com expoente par na fatoração canônica de n.
Assim, apenas os números da forma descrita no teorema podem ser soma de
dois quadrados.
Agora todo natural n pode se expressar como n = k 2 m onde k e m são
inteiros positivos e m é livre de quadrados, donde se m pode se escrever como
soma de dois quadrados m = a2 + b2 então o mesmo ocorre para n = (ak)2 +
(bk)2 . Além disso, se temos dois números que são soma de dois quadrados,
digamos m = a2 + b2 e n = c2 + d2 , então a seguinte identidade de números

6
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complexos

mn = (a2 + b2 )(c2 + d2 ) = |a + bi|2 · |c + di|2


= |(a + bi)(c + di)|2 = |(ac − bd) + (ad + bc)i|2
= (ac − bd)2 + (ad + bc)2

mostra que seu produto também será soma de dois quadrados. Assim, para
mostrar que todo n da forma descrita no teorema é soma de dois quadrados,
basta mostrar que 2 e todo primo da forma 4k + 1 são somas de dois quadrados.
Se p = 2 temos que 2 = 12 + 12 é soma de dois quadrados. Para o outro caso,
precisamos do seguinte

Lema 7 (Lema de Thue). Se m > 1 é um número natural e a é um inteiro


primo relativo com m então existem números naturais x e y não nulos menores

do que ou iguais a m e tais que algum dos números ax ± y é divisı́vel por m.
√ √
Demonstração. Seja q = ⌊ m⌋, então q + 1 > m e portanto (q + 1)2 > m.
Consideremos todos os (q + 1)2 números da forma ax − y onde x e y tomam
os valores 0, 1, . . . , q. Como só existem m restos ao se dividir um número por
m, pelo Princı́pio da Casa dos Pombos dois dos números anteriores, digamos
ax1 − y1 e ax2 − y2 , são congruentes módulo m. Portanto a diferença a(x1 −
x2 ) − (y1 − y2 ) é divisı́vel por m. Temos
√ √
0 ≤ xi , yi ≤ m =⇒ |x1 − x2 |, |y1 − y2 | ≤ m.

Se x1 − x2 = 0 então y1 − y2 será divisı́vel por m, o que implica y1 = y2 , mas


os pares (x1 , y1 ) e (x2 , y2 ) são diferentes, uma contradição. De igual forma,
se y1 − y2 = 0 então a(x1 − x2 ) será divisı́vel por m, mas a e m são primos
relativos, logo m | x1 −x2 e assim x1 = x2 , outra contradição. Logo x = |x1 −x2 |
e y = |y1 − y2 | satisfazem as condições do enunciado.

Retomando o nosso problema inicial, se p é um número primo da forma


4k + 1, então −1 (p−1)/2 = 1, logo existe a tal que p | a2 + 1. Aplicando
p = (−1) √
o lema anterior, existem inteiros 0 < x, y < p tais que algum dos números
ax ± y é divisı́vel por p, portanto o número (ax + y)(ax − y) = a2 x2 − y 2 é
divisı́vel por p. Daqui

x2 + y 2 = x2 + a2 x2 − a2 x2 + y 2 = x2 (a2 + 1) − (a2 x2 − y 2 )

é divisı́vel por p, mas como 0 < x, y < p então 0 < x2 + y 2 < 2p, portanto
p = x2 + y 2 . Isto encerra a prova do teorema.
O método anterior pode ser aplicado para obter outras representações de
números primos.
 
Exemplo 8. Sejam d ∈ {1, 2, 3, 7} e p é primo ı́mpar tal que −d
p = 1, então
existem e, f ∈ N tais que p = e2 + df 2 .

7
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Solução: Seja a ∈ N tal que a2 ≡ −d (mod p). Pelo lema de Thue, existem
inteiros x, y tais que (x + ay)(x − ay) ≡ 0 (mod p) ⇐⇒ p | x2 + dy 2 e
0 < x2 + dy 2 < (d + 1)p. Assim, temos

x2 + dy 2 = kp com k ∈ {1, 2, · · · , d}.

Observemos que se k = d, x é múltiplo de d e fazendo x = dz temos que


dz 2 + y 2 = p. Assim podemos desconsiderar este caso e se d = 1 ou d = 2 o
problema está resolvido. Consideremos agora os outros valores de d:

1. Se d = 3 então x2 + 3y 2 = p ou 2p. No caso x2 + 3y 2 = 2p temos


que x e y têm a mesma paridade, assim se x, y são pares temos que
4 | x2 + 3y 2 = 2p, que é contraditório, e no caso em que x, y ı́mpares
temos que x2 ≡ y 2 ≡ 1 (mod 8), portanto 2p = x2 + 3y 2 ≡ 4 (mod 8),
que também é contraditório. Assim concluı́mos que x2 + 3y 2 = p.

2. Se d = 7 então x2 + 7y 2 = ip com i ∈ {1, 2, 3, 4, 5, 6}. No caso que


x, y são ı́mpares, como x2 ≡ y 2 ≡ 1 (mod 8), temos que x2 + 7y 2 ≡ 0
(mod 8), o que é contraditório, e no caso em que x, y são pares, dividimos
toda a expressão por 4, logo podemos supor que i é ı́mpar. Assim resta
considerar os casos em que i = 3 ou 5. Mas −7 não é resto quadrático
módulo 3 nem 5, portanto x2 + 7y 2 = p.

Problemas Propostos

Problema 9. Encontrar todos os triângulos ABC tais que ∠A = 2∠B e seus


lados a, b e c são inteiros.

Problema 10. Se no problema anterior fixamos b = n, quantos triângulos sa-


tisfazem as condições acima?

Problema 11. Dado um número inteiro n, de quantos triângulos retângulos com


lados inteiros é n o comprimento de um cateto?

Problema 12. Dado um número inteiro n, de quantos triângulos retângulos com


lados inteiros é n o comprimento da hipotenusa?

Problema 13. Demonstrar que a equação x2 + y 2 = 3z 2 não tem soluções


inteiras positivas.

Problema 14. Encontrar todas as soluções inteiras da equação x2 + y 2 = 5z 2 .

Problema 15. Encontrar infinitas triplas primitivas de números (a, b, c) tais


que a3 , b3 e c3 estão em progressão aritmética.

Problema 16. Encontrar infinitas triplas primitivas de números (a, b, c) tais


que a4 , b4 e c4 estão em progressão aritmética.

8
Problema 17. Demonstrar que todas as soluções inteiras de x2 + y 2 + z 2 = t2
são dadas por

x = d(m2 − n2 − p2 + q 2 )
y = d(2mn − 2pq)
z = d(2mp + 2nq)
t = d(m2 + n2 + p2 + q 2 ).

Problema 18 (APMO2002). Encontrar todos os pares m, n de inteiros positivos


tais que m2 − n divide m + n2 e n2 − m divide m2 + n.

Problema 19 (APMO1999). Encontrar todos os pares m, n de inteiros tais que


m2 + 4n e n2 + 4m são ambos quadrados perfeitos.

Problema 20 (AusPol1994). Encontrar todas as soluções inteiras de

(a + b)(b + c)(c + a)
+ (a + b + c)3 = 1 − abc.
2
Problema 21 (IMO1982). Demonstre que se n é um inteiro positivo tal que a
equação
x3 − 3xy 2 + y 3 = n
tem uma solução com x, y inteiros, então ela tem ao menos três soluções intei-
ras. Mostre que esta equação não possui soluções inteiras para n = 2891.

Problema 22 (OIbM2001). Seja n um inteiro positivo. Demonstrar que o nú-


mero de soluções inteiras (x, y) da equação

x2 − xy + y 2 = n

é finito e múltiplo de 6.

Dicas e Soluções

Em breve.

Referências
[1] F. E. Brochero Martinez, C. G. Moreira, N. C. Saldanha, E. Tengan -
Teoria dos Números - um passeio com primos e outros números familiares
pelo mundo inteiro, Projeto Euclides, IMPA, 2010.
Polos Olímpicos de Treinamento
Curso de Teoria dos Números - Nível 3 Aula 12
Carlos Gustavo Moreira

Descenso infinito de Fermat

1 Descenso Infinito de Fermat


Dada uma equação
f (x1 , . . . , xn ) = 0,
o método do descenso infinito (quando aplicável) permite mostrar que esta
equação não possui soluções inteiras positivas ou, sob certas condições, até
mesmo encontrar todas as suas soluções inteiras. Se o conjunto de soluções de
f
A = {(x1 , . . . , xn ) ∈ Zn | f (x1 , . . . , xn ) = 0}
é diferente de vazio, então gostarı́amos de considerar a solução “mı́nima” em
certo sentido. Em outras palavras, queremos construir uma função φ : A → N
e considerar a solução (x1 , . . . , xn ) ∈ A com φ(x1 , . . . , xn ) mı́nimo. O descenso
consiste em obter, a partir desta solução mı́nima, uma ainda menor, o que nos
conduz claramente a uma contradição, provando que A é de fato vazio.
Para ilustrar este método consideremos o seguinte

Exemplo 1 (Fermat). Demonstrar que a equação x4 + y 4 = z 2 não possui solu-


ções inteiras positivas.

Solução: Suponhamos que x4 + y 4 = z 2 possui uma solução inteira com


x, y, z > 0. Logo existe uma solução (a, b, c) na qual c é mı́nimo. Em particular,
temos que a e b são primos entre si, pois se d = mdc(a, b) > 1 poderı́amos
substituir (a, b, c) por ( ad , db , dc2 ) e obter uma solução com c menor. De (a2 )2 +
(b2 )2 = c2 temos portanto que (a2 , b2 , c) é uma tripla pitagórica primitiva e
assim existem inteiros positivos m e n primos relativos tais que

a2 = m2 − n2 , b2 = 2mn e c = m2 + n2 .

Temos da primeira equação que (a, n, m) é uma tripla pitagórica primitiva e


portanto m é ı́mpar. Assim, de b2 = 2mn concluı́mos que b, e portanto n, é
par. Observando ainda que b2 = (2n)m é um quadrado perfeito e mdc(2n, m) =
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DESCENSO INFINITO
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1, concluı́mos que tanto 2n como m são quadrados perfeitos, donde podemos


encontrar inteiros positivos s e t tais que

2n = 4s2 e m = t2 .

Por outra parte, dado que a2 + n2 = m2 , então existirão inteiros positivos i e


j, primos entre si, tais que

a = i2 − j 2 , n = 2ij e m = i2 + j 2 .

Portanto s2 = n2 = ij, logo i e j serão quadrados perfeitos, digamos i = u2 e


j = v2.
Logo temos que m = i2 + j 2 , i = u2 , j = v 2 e m = t2 , assim

t2 = u 4 + v 4 ,

isto é, (u, v, t) é outra solução da equação original. Porém

t ≤ t2 = m ≤ m2 < m2 + n2 = c

e t 6= 0 porque m é diferente de 0. Isto contradiz a minimalidade de c, o que


conclui a demonstração.

Observemos além disso que, uma vez que esta equação não possui soluções
inteiras positivas, então a equação x4 + y 4 = z 4 e, mais geralmente x4n + y 4n =
z 4n , não possuem soluções inteiras positivas.

Exemplo 2 (IMO1981). Encontrar todas as soluções inteiras positivas da equa-


ção
m2 − mn − n2 = ±1.

Solução: Note que m2 = n2 + mn ± 1 ≥ n2 =⇒ m ≥ n, com igualdade se,


e só se, (m, n) = (1, 1), que é claramente uma solução. Agora seja (m, n) uma
solução com m > n. Demonstremos que (n, m − n) também é solução. Para
isto observemos que

n2 − n(m − n) − (m − n)2 = n2 − nm + n2 − m2 + 2mn − n2


= n2 + nm − m2
= −(m2 − nm − n2 ) = ∓1,

Assim, se temos uma solução (m, n), podemos encontrar uma cadeia descen-
dente de soluções, e este processo parará quando atingirmos uma solução (a, b)
com a = b, ou seja, a solução (1, 1). Invertendo o processo, encontraremos por-
tanto todas as soluções, isto é, se (m, n) é solução então (m + n, m) é solução.
Portanto todas as soluções positivas são

(1, 1), (2, 1), (3, 2), . . . , (Fn+1 , Fn ), . . .

onde Fn representa o n-ésimo termo da sequência de Fibonacci.

2
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Exemplo 3 (IMO2003). Determine todos os pares de inteiros positivos (a, b)


para os quais
a2
2ab2 − b3 + 1
é um inteiro positivo.

Solução: Seja (a, b) uma solução inteira positiva. Logo 2ab2 − b3 + 1 ≥ 1,


e portanto a ≥ 2b . No caso a = 2b , é claro que obtemos uma solução. Para
qualquer outra solução, a > 2b e nesse caso a2 ≥ 2ab2 − b3 + 1 = b2 (2a − b) + 1 >
b2 =⇒ a > b.
a2
Agora se 2ab2 −b 3 +1 = k ∈ N, então a é raiz do polinômio com coeficientes
inteiros
x2 − 2kb2 x + k(b3 − 1) = 0.
3
Mas este polinômio possui outra solução inteira a1 = 2kb2 − a = k(b a−1) ≥ 0,
assim (a1 , b) também é solução do problema se b > 1. Supondo que a é a maior
raiz, de a ≥ a1 teremos que a ≥ kb2 e assim

k(b3 − 1) k(b3 − 1)
a1 = ≤ < b.
a kb2
2 4
Desta forma, ou b = 1 ou a1 = 2b e neste último caso k = b4 e a = b2 − 2b .
Portanto as soluções do problema são (a, b) = (l, 2l), (2l, 1) ou (8l4 − l, 2l), com
l ∈ N.

1.1 Equação de Markov


A equação de Markov é a equação diofantina em inteiros positivos

x2 + y 2 + z 2 = 3xyz.

É óbvio que (1, 1, 1) e (1, 1, 2) são soluções da equação. Além disso, como a
equação é simétrica, podemos considerar, sem perda de generalidade, somente
as soluções com as coordenadas x ≤ y ≤ z ordenadas de forma não decrescente.
Assim suponhamos que (x, y, z) é uma solução com x ≤ y ≤ z com z > 1.
O polinômio quadrático

T 2 − 3xyT + (x2 + y 2 ) = 0
2 2
possui duas soluções, e uma dela é z, assim a outra é z ′ = 3xy − z = x +y z ∈
Z \ {0}. Vejamos que se y > 1 então z ′ < y, e assim (z ′ , x, y) é também solução
(menor) da equação de Markov. Para isto, suponhamos por contradição que
x2 +y 2
z = z ′ ≥ y, isto é, yz ≤ x2 + y 2 ≤ 2y 2 , em particular z ≤ 2y. Segue que

5y 2 ≥ y 2 + z 2 = 3xyz − x2 = x(3yz − x) ≥ xy(3z − 1),

e portanto 5y ≥ x(3z − 1). Observemos que se x ≥ 2, então 5y ≥ 2(3z − 1) ≥ 5z


e portanto x = y = z = 2, que não é solução, o que é contraditório. Logo x = 1

3
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2
e 1+y
y ≥ z, assim y1 + y ≥ z ≥ y. Portanto ou temos y1 + y = z, e neste caso
y = 1 e z = 2, o que contradiz y > 1, ou y = z e substituindo na equação
original temos que 1 + y 2 + y 2 = 3y 2 , o que implica que z = y = 1, o que
contradiz o fato de z > 1.
Do fato anterior, temos que dada uma solução da equação de Markov (x, y, z)
com z ≥ 2 é sempre possı́vel encontrar uma solução menor (z ′ , x, y) e este
processo somente para quando chegamos à solução (1, 1, 1), isto é, estamos
gerando uma árvore de soluções da seguinte forma:

(1, 1, 1)

(1, 1, 2)

(1, 2, 5)

(1, 5, 13) (2, 5, 29)

(1, 13, 34) (5, 13, 194) (2, 29, 169) (5, 29, 433)

Um importante problema em aberto relacionado com a equação de Markov


é o problema da unicidade, proposto por Frobenius há cerca de 100 anos em [3]
(veja também [1]): para quaisquer inteiros positivos x1 , x2 , y1 , y2 , z com x1 ≤
y1 ≤ z e x2 ≤ y2 ≤ z tais que (x1 , y1 , z) e (x2 , y2 , z) são soluções da equação de
Markov temos necessariamente (x1 , y1 ) = (x2 , y2 ) ?
Se o problema da unicidade admitir uma solução afirmativa, para cada t
real, sua pré-imagem k −1 (t) pela função k definida na seção 3.4 consistirá de
uma única classe de GL2 (Z)-equivalência (veja o exercı́cio 3.10).

1.2 Último Teorema de Fermat


Um dos mais famosos problemas na história da Matemática e talvez um
dos que mais inspirou o desenvolvimento de novas teorias é o chamado último
teorema de Fermat.
Pierre de Fermat, que tinha o costume de fazer anotações nas margens de
sua cópia do livro de Diofanto, enunciou o teorema que afirma ser impossı́vel
encontrar inteiros positivos x, y, z tais que

xn + y n = z n (∗)

quando n é um inteiro maior do que 2: “encontrei uma demonstração verda-


deiramente maravilhosa para isto, mas a margem é demasiado pequena para
contê-la”.
Para mostrar a inexistência de soluções de (∗), basta considerar os expoentes
primos. Muitos casos particulares foram mostrados ao longo da história, os
quais se dividem em dois tipos: o primeiro, quando p ∤ xyz, e o segundo, mais
difı́cil, quando p | xyz. De fato, Sophie Germain provou o primeiro caso para

4
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Gustavo FERMAT

todo primo p tal que 2p+1 também é primo. Legendre provou o teorema para p
primo quando 4p+1, 8p+1, 10p+1, 14p+1 ou 16p+1 é primo; com isto, provou
o último teorema de Fermat para todo p < 100. Em 1849, Kummer obteve uma
prova para todos os chamados primos regulares. Em 1909 Wieferich provou
que se a equação de Fermat tem solução para p, então 2p−1 ≡ 1 (mod p2 ); tais
primos são chamados primos de Wieferich. Mirimanoff e Vandiver provaram
respectivamente que p deve satisfazer 3p−1 ≡ 1 (mod p2 ) e 5p−1 ≡ 1 (mod p2 ),
e Frobenius provou este mesmo resultado para 11 e 17 no lugar de 3 e 5.
A demonstração do último teorema de Fermat somente foi obtida depois
de mais de trezentos anos após sua formulação. Tal demonstração, devida a
Andrew Wiles e Richard Taylor ([6] e [5]), insere-se no contexto mais geral da
chamada conjectura de Taniyama-Shimura-Weil sobre curvas elı́pticas, que im-
plica a solução do último teorema de Fermat, como conjecturado por G. Frey em
1985 e provado por K. Ribet em 1986. Esta demonstração envolve ideias bas-
tante avançadas e está muito longe do escopo deste livro. Para uma introdução
às técnicas utilizadas na prova, veja [2].
Para dar uma ideia da dificuldade deste problema, vejamos uma prova ba-
seada na de Leonhard Euler para o caso n = 3. A demonstração original dada
por Euler para o caso n = 3 é incompleta já que supõe a fatoração única em
irredutı́veis para extensões de Z. Começamos com um

Lema 4. Todas as soluções de s3 = a2 + 3b2 em inteiros positivos tais que


mdc(a, b) = 1 e s é ı́mpar são dadas por

s = m2 + 3n2 , a = m3 − 9mn2 , b = 3m2 n − 3n3 ,

com m + n ı́mpar e mdc(m, 3n) = 1.

Demonstração. É fácil verificar que tais números fornecem uma solução da


equação e, além disso,

mdc(a, b) = mdc(m(m2 − 9n2 ), 3n(m2 − n2 ))


= mdc(m2 − 9n2 , m2 − n2 ) = mdc(8n2 , m2 − n2 ) = 1.

Reciprocamente, suponhamos que (a, b, s) é solução da equação. Seja p um


número primo tal que p | s. Note que, como mdc(a, b) = 1 e s é ı́mpar, p ∤ a,
p ∤ b e p > 3. Então a2 ≡ −3b2 (mod p) e como b é invertı́vel módulo p temos
   
−3 p
= 1 ⇐⇒ = 1 ⇐⇒ p ≡ 1 (mod 6)
p 3

pela lei de reciprocidade quadrática. Sabemos que existem inteiros m1 e n1


tais que p = m21 + 3n21 , e teremos que p3 = c2 + 3d2 onde c = m31 − 9m1 n21 e
d = 3m21 n1 − 3n31 . Note que mdc(p, m1 ) = mdc(p, n1 ) = 1 e p > 3 e portanto
mdc(p, c) = mdc(p, d) = 1, como na demonstração acima de que mdc(a, b) = 1.
Procederemos por indução sobre o número de divisores primos de s. Se s = 1
o resultado é evidente. O caso em que s tem um divisor primo é exatamente o
resultado anterior. Agora, suponhamos que o resultado valha para todo s que

5
POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel 31 - Aula
DESCENSO INFINITO
3 - Carlos DE Moreira
Gustavo FERMAT

tenha k fatores primos (não necessariamente distintos). Se s tem k + 1 fatores


primos, digamos s = pt com p primo (p > 3), observemos que

t3 p6 = s3 p3 = (a2 + 3b2 )(c2 + 3d2 ) = (ac ± 3bd)2 + 3(ad ∓ bc)2 .

Além disso como

(ad + bc)(ad − bc) = (ad)2 − (bc)2 = d2 (a2 + 3b2 ) − b2 (c2 + 3d2 )


= p3 (t3 d2 − b2 ),

então p3 | (ad + bc)(ad − bc). Se p divide os dois fatores, teremos que p | ad e


p | bc. Lembre que mdc(p, c) = mdc(p, d) = 1, o que implica que p | a e p | b,
o que contradiz a hipótese mdc(a, b) = 1. Assim, p3 divide exatamente um dos
fatores, e tomando adequadamente os sinais teremos que
ac ± 3bd ad ∓ bc
u= , v=
p3 p3

são inteiros tais que t3 = u2 + 3v 2 . Como t tem k fatores primos segue por
hipótese de indução que

t = m22 + 3n22 , u = m32 − 9m2 n22 , v = 3m22 n2 − 3n32 .

Agora, dado que a = uc + 3vd e b = ±(ud − vc), substituindo t, u, v, c e d


em termos de mi e ni (i = 1, 2) em s, a e b e fazendo m = m1 m2 + 3n1 n2 ,
n = m1 n2 − m2 n1 , obteremos o que querı́amos demonstrar.

O método utilizado por Euler para demonstrar o caso n = 3 é basicamente


o método de descenso infinito.

Proposição 5. A equação diofantina x3 + y 3 = z 3 não possui soluções inteiras


com xyz 6= 0.

Demonstração. Suponhamos que a equação x3 + y 3 = z 3 possui uma solução


com x, y, z > 0 e escolhemos está solução de tal forma que xyz seja mı́nimo.
Como qualquer fator comum de dois destes números é também fator do terceiro,
podemos afirmar que x, y, z são primos relativos dois a dois. Em particular um
de tais números será par.
Note que x = y é impossı́vel pois caso contrário 2x3 = z 3 e o expoente da
maior potência de 2 do lado direito seria múltiplo de 3, enquanto que do lado
esquerdo não. Assim, sem perda de generalidade, podemos assumir que x > y.
Suponha primeiro que x e y são ı́mpares e z par, podemos escrever x = p + q
e y = p − q com p > 0 e q > 0 primos relativos (pois x e y são primos relativos)
e de diferente paridade, assim

x3 + y 3 = (x + y)(x2 − xy + y 2 )
= 2p((p + q)2 − (p + q)(p − q) + (p − q)2 )
= 2p(p2 + 3q 2 ).

6
POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel 31 - Aula
DESCENSO INFINITO
3 - Carlos DE Moreira
Gustavo FERMAT

Portanto 2p(p2 + 3q 2 ) é um cubo perfeito. De igual forma, no caso em que z é


ı́mpar e x ou y é par, podemos supor sem perda de generalidade que y é ı́mpar,
e substituindo z = q + p e y = q − p obteremos
x3 = z 3 − y 3 = 2p((p + q)2 + (p + q)(q − p) + (q − p)2 )
= 2p(p2 + 3q 2 ).
Como p2 + 3q 2 é ı́mpar e 2p(p2 + 3q 2 ) é um cubo perfeito temos que p será
par. Calculando o máximo comum divisor entre p e p2 + 3q 3 , obtemos
mdc(p, p2 + 3q 2 ) = mdc(p, 3q 2 ) = mdc(p, 3).
Portanto há dois casos: mdc(p, 3) = 1 e mdc(p, 3) = 3.
No primeiro, existem naturais a e b tais que a3 = 2p e b3 = p2 + 3q 2 . Neste
caso sabemos, pelo lema 4, que existem inteiros m e n de diferente paridade e
primos relativos tais que
b = m2 + 3n2 , p = m3 − 9mn2 , q = 3m2 n − 3n3 .
Logo a3 = 2m(m − 3n)(m + 3n). Observemos que os números 2m, m − 3n e
m + 3n são primos relativos, logo existem inteiros e, f e g tais que 2m = e3 ,
m − 3n = f 3 e m + 3n = g 3 . Em particular, teremos que f 3 + g 3 = e3 . Como
ef g = a3 = 2p ≤ x + y < xyz,
teremos uma solução menor, o que contradiz a escolha de x, y, z.
No caso em que 3 | p, então p = 3r com mdc(r, q) = 1, logo z 3 = 18r(3r2 +q 2 )
ou x3 = 18r(3r2 +q 2 ) e portanto existem inteiros positivos a e b tais que 18r = a3
e 3r2 + q 2 = b3 . De novo, existiriam inteiros m e n tais que
b = m2 + 3n2 , q = m3 − 9mn2 , r = 3m2 n − 3n3 .
Daqui segue que a3 = 27(2n)(m − n)(m + n). De igual forma teremos que os
números 2n, m − n e m + n são primos relativos, portanto existem inteiros
positivos e, f e g tais que
2n = e3 , m − n = f 3, m + n = g3.
Segue que e3 + f 3 = g 3 , que também contradiz a minimalidade da solução
(x, y, z).
Exemplo 6. Demonstrar que a equação x2 +432 = y 3 não tem soluções racionais
diferentes de (±36, 12).
Solução: Suponhamos que a equação possui uma solução (a, b) com b 6= 12.
a
Como a e b são racionais, então 36 = nk 6= ±1 e 12
b
= m
n 6= 1 com k, m, n ∈ Z.
Seja u = n + k 6= 0, v = n − k 6= 0 e w = 2m. Como
u3 + v 3 − w3 = 2n3 + 6nk 2 − 8m3
an bn
ek= 36 , m = 12 , substituindo temos
n 3 a 2 n 3 b3 n3
u3 + v 3 − w3 = 2n3 + − = (432 + a2 − b3 ) = 0.
63 63 216
o que gera uma solução não trivial da equação x3 + y 3 = z 3 , um absurdo.

7
Problemas Propostos

Problema 7. Demonstrar que não existe um triângulo retângulo com lados in-
teiros tal que sua área seja um quadrado perfeito.

Problema 8. Encontrar todos os pares (n, m) de números inteiros tais que


n | m2 + 1 e m | n2 + 1.

Problema 9 (IMO1987). Seja n um inteiro maior p ou igual a 2. Mostre que se


k 2 + k + n é primo para todo k tal que 0 ≤ k ≤ n3 , então k 2 + k + n é primo
para todo k tal que 0 ≤ k ≤ n − 2.

Problema 10 (IMO1988). Dados inteiros a e b tais que o número ab + 1 divide


a2 + b2 , demonstrar que
a 2 + b2
ab + 1
é um quadrado perfeito.

Problema 11 (IMO2007). Prove que se a e b são inteiros positivos tais que


4ab − 1 | (4a2 − 1)2 então a = b.

Problema 12. Demonstrar que a equação 3x2 + 1 = y 3 não tem soluções raci-
onais diferentes de x = ±1 e y = 1.

Problema 13. Demonstrar que a equação x3 + y 3 + z 3 = 1 possui infinitas


soluções inteiras.

Problema 14. Demonstrar que a equação x3 + y 3 + z 3 = n com n = 9k ± 4 não


possui soluções inteiras.

Problema 15. Demonstrar que a equação x3 + y 3 + z 3 = t3 possui infinitas


soluções inteiras positivas primitivas (i.e., com mdc(x, y, z, t) = 1).

Problema 16. Demonstrar que a equação x3 + y 3 = 2z 3 não possui soluções


inteiras positivas não triviais (i.e. além das com x = y = z).

Dicas e Soluções

Em breve.

Referências
[1] J. W. S. Cassels, An introduction to Diophantine approximation, Cam-
bridge Tracts in Mathematics and Mathematical Physics 45, Hafner Pu-
blishing Co. (1972)

[2] G. Cornell, J. H. Silverman e G. Stevens, Modular Forms and Fermat’s


Last Theorem, Springer-Verlag (2009).
[3] G. Frobenius, Über die Markoffschen Zahlen, Preuss. Akad. Wiss. Sitzung-
berichte (1913), 458–487; disponı́vel também em G. Frobenius, Gesammelte
Abhandlungen, vol. 3, Springer (1968), 598–627.

[4] F. E. Brochero Martinez, C. G. Moreira, N. C. Saldanha, E. Tengan -


Teoria dos Números - um passeio com primos e outros números familiares
pelo mundo inteiro, Projeto Euclides, IMPA, 2010.

[5] R. Taylor e A. Wiles, Ring-theoretic properties of certain Hecke algebras,


Ann. of Math. (2) 141 (1995), no. 3, 553–572.

[6] A. Wiles, Modular elliptic curves and Fermat’s last theorem, Ann. of Math.
(2) 141 (1995), no. 3, 443–551.
Polos Olímpicos de Treinamento
Curso de Teoria dos Números - Nível 3 Aula 13
Carlos Gustavo Moreira

Frações Contı́nuas e aproximações de números reais


por racionais

A teoria de frações contı́nuas é um dos mais belos assuntos da Matemática


elementar, sendo ainda hoje tema de pesquisa.
Nas inclusões N ⊂ Z ⊂ Q ⊂ R, a passagem de Q para R é sem dúvida
a mais complicada conceitualmente e a representação de um número real está
diretamente ligada à própria noção de número real.
De fato, o conceito de número natural é quase um conceito primitivo. Já um
número inteiro é um número natural com um sinal que pode ser + ou −, e um
número racional é a razão entre um número inteiro e um natural não nulo. Por
outro lado, dizer o que é um número real é tarefa bem mais complicada, mas há
coisas que podemos dizer sobre eles. Uma propriedade essencial de R é que todo
número real pode ser bem aproximado por números racionais. Efetivamente,
dado x ∈ R, existe k = ⌊x⌋ ∈ Z tal que 0 ≤ x − k < 1. Podemos escrever a
representação decimal de
x − k = 0, a1 a2 . . . an . . . , ai ∈ {0, 1, . . . , 9},
o que significa que se rn = an + 10 · an−1 + 100 · an−2 + · · · + 10n−1 · a1 , então
rn rn +1 rn
10n ≤ x − k < 10n , e portanto k + 10 n é uma boa aproximação racional de x,

no sentido de que o erro x − k + 10nn é menor do que 101n , que é um número


r


bem pequeno se n for grande. A representação decimal de um número real


fornece pois uma sequência de aproximações por racionais cujos denominadores
são potências de 10.
Dado qualquer x ∈ R e q natural não nulo existe p ∈ Z tal que pq ≤ x <

p+1 p 1 p+1 1
(basta tomar p = ⌊qx⌋), e portanto x − < e x − q ≤ q . Em

q q q
particular há aproximações de x por racionais com denominador q com erro
menor do que 1q . A representação decimal de x equivale a dar essas aproximações
para os denominadores q que são potências de 10, e tem méritos como sua
praticidade para efetuar cálculos que a fazem a mais popular das representações
dos números reais. Por outro lado, envolve a escolha arbitrária da base 10, e
oculta frequentemente aproximações racionais de x muito mais eficientes do que
as que exibe. Por exemplo,

π − 22 < 1 < π − 314 e π − 355 < 1 3141592

< π−

7 700 100 113 3000000 1000000
POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel 3 - Aula 3 - Carlos Gustavo Moreira

mostram que 22 355


7 e 113 são melhores aproximações de π que aproximações deci-
mais com denominadores muito maiores, e de fato são aproximações muito mais
espetaculares do que se podia esperar.
O objetivo desta seção é apresentar uma outra maneira de representar núme-
ros reais, a representação por frações contı́nuas, que sempre fornece aproxima-
ções racionais surpreendentemente boas, e de fato fornece todas as aproximações
excepcionalmente boas, além de ser natural e conceitualmente simples.
Definimos recursivamente

α0 = x, an = ⌊αn ⌋
1
e, se αn ∈
/ Z, αn+1 = para todo n ∈ N.
αn − a n
Se, para algum n, αn = an temos

def 1
x = α0 = [a0 ; a1 , a2 , . . . , an ] = a0 + .
1
a1 +
a2 + . .
. 1
+
an
Se não denotamos

def 1
x = [a0 ; a1 , a2 , . . . ] = a0 + .
1
a1 +
a2 + . .
.
O sentido dessa última notação ficará claro mais tarde. A representação acima
se chama representação por frações contı́nuas de x.

A figura dá uma interpretação geométrica para a representação de um nú-


mero por frações contı́nuas. Enchemos um retângulo 1 × x com quadrados de
forma “gulosa”, isto é, sempre colocando o maior quadrado possı́vel dentro do

2
POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel 3 - Aula 3 - Carlos Gustavo Moreira

espaço ainda livre. Os coeficientes a0 , a1 , a2 , . . . indicam o número de quadrados


de cada tamanho. Na figura, se os lados do retangulo são c < d então
d/c = [1; 2, 2, 1, ...]
pois temos a0 = 1 quadrado grande, a1 = 2 quadrados menores, a2 = 2 qua-
drados ainda menores, a3 = 1 quadrados ainda ainda menores, e um número
grande não desenhado de quadrados ainda ainda ainda menores (a4 é grande).
Deixamos a verificação de que esta descrição geométrica corresponde à descrição
algébrica acima a cargo do leitor.
Note que, se a representação por frações contı́nuas de x for finita então x é
claramente racional.
Reciprocamente, se x ∈ Q, sua representação será finita, e seus coeficientes
an vêm do algoritmo de Euclides: se x = p/q (com q > 0) temos
p = a 0 q + r1 0 ≤ r1 < q
q = a 1 r1 + r2 0 ≤ r2 < r1
r1 = a 2 r2 + r3 0 ≤ r3 < r2
.. ..
. .
rn−1 = an rn

Temos então
1 1
x = p/q = a0 + r1 /q = a0 + = a0 +
a1 + r2 /r1 1
a1 +
a2 + r3 /r2
1
= · · · = a0 + = [a0 ; a1 , a2 , . . . , an ].
1
a1 +
a2 + . .
. 1
+
an
Isso já é uma vantagem da representação por frações contı́nuas (além de não
depender de escolhas artificiais de base), pois o reconhecimento de racionais é
mais simples que na representação decimal.
Seja x = [a0 ; a1 , a2 , . . . ]. Sejam pn ∈ Z, qn ∈ N>0 primos entre si tais que
pn
qn = [a0 ; a1 , a2 , . . . , an ], n ≥ 0. Esta fração pqnn é chamada de n-ésima reduzida
ou convergente da fração contı́nua de x. O seguinte resultado será fundamental
no que seguirá.
Proposição 1. Dada uma sequência (finita ou infinita) t0 , t1 , t2 , · · · ∈ R tal que
tk > 0, para todo k ≥ 1, definimos sequências (xm ) e (ym ) por
x0 = t0 , y0 = 1, x1 = t0 t1 + 1, y1 = t1 , xm+2 = tm+2 xm+1 + xm , ym+2 =
tm+2 ym+1 + ym , para todo m ≥ 0. Temos então
1 xn
[t0 ; t1 , t2 , . . . , tn ] = t0 + = , ∀n ≥ 0.
1 yn
t1 +
t2 + . .
. 1
+
tn

3
POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel 3 - Aula 3 - Carlos Gustavo Moreira

Além disso, xn+1 yn − xn yn+1 = (−1)n , para todo n ≥ 0.

Demonstração. A prova será por indução em n. Para n = 0 temos [t0 ] = t0 =


t0 /1 = x0 /y0 . Para n = 1, temos [t0 ; t1 ] = t0 + 1/t1 = t0 tt11+1 = x1 /y1 e, para
n = 2, temos
1 t2 t0 t1 t2 + t0 + t2
[t0 ; t1 , t2 ] = t0 + = t0 + =
t1 + 1/t2 t1 t2 + 1 t1 t2 + 1

t2 (t0 t1 + 1) + t0 t2 x 1 + x 0 x2
= = = .
t2 t1 + 1 t 2 y1 + y 0 y2
Suponha que a afirmação seja válida para n. Para n + 1 em lugar de n temos
1
[t0 ; t1 , t2 , . . . , tn , tn+1 ] = [t0 ; t1 , t2 , . . . , tn + ]
tn+1
1

tn + tn+1 xn−1 + xn−2
= 1

tn + tn+1 yn−1 + yn−2
tn+1 (tn xn−1 + xn−2 ) + xn−1
=
tn+1 (tn yn−1 + yn−2 ) + yn−1
tn+1 xn + xn−1 xn+1
= = ·
tn+1 yn + yn−1 yn+1

Vamos agora mostrar, por indução, a segunda afirmação. Temos

x1 y0 − x0 y1 = (t0 t1 + 1) − t0 t1 = 1 = (−1)0

e, se xn+1 yn − xn yn+1 = (−1)n para algum valor de n, então

xn+2 yn+1 − xn+1 yn+2 = (tn+2 xn+1 + xn )yn+1 − (tn+2 yn+1 + yn )xn+1
= −(xn+1 yn − xn yn+1 ) = −(−1)n = (−1)n+1 .

Nos próximos resultados, x = [a0 ; a1 , a2 , a3 , . . . ] será um número real, e


( pqnn )n∈N , pqnn
= [a0 ; a1 , a2 , . . . , an ] será a sequência de reduzidas da fração contı́-
nua de x.

Corolário 2. As sequências (pn ) e (qn ) satisfazem as recorrências

pn+2 = an+2 pn+1 + pn e qn+2 = an+2 qn+1 + qn

para todo n ≥ 0, com p0 = a0 , p1 = a0 a1 + 1, q0 = 1 e q1 = a1 . Além disso,

pn+1 qn − pn qn+1 = (−1)n

para todo n ≥ 0.

4
POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel 3 - Aula 3 - Carlos Gustavo Moreira

Demonstração. As sequências (pn ) e (qn ) definidas pelas recorrências acima


satisfazem, pela proposição anterior, as igualdades
pn
= [a0 ; a1 , a2 , . . . , an ] e pn+1 qn − pn qn+1 = (−1)n , ∀n ≥ 0.
qn
Como pn+1 qn − pn qn+1 = (−1)n , para todo n ∈ N, temos que os pn , qn dados
pelas recorrências acima são primos entre si. Além disso, também segue da
recorrência que qn > 0, ∀n ≥ 0. Esses fatos implicam que ( pqnn )n∈N é a sequência
de reduzidas da fração contı́nua de x.

Corolário 3. Temos, para todo n ∈ N,


αn pn−1 + pn−2 pn−2 − qn−2 x
x= e αn =
αn qn−1 + qn−2 qn−1 x − pn−1
Demonstração. A primeira igualdade segue da proposição anterior pois x =
[a0 ; a1 , a2 , . . . , an−1 , αn ] e a segunda é consequência direta da primeira.

Proposição 4. Temos
pn (−1)n
x− =
qn (αn+1 + βn+1 )qn2
onde
qn−1
βn+1 = = [0; an , an−1 , an−2 , . . . , a1 ].
qn
Em particular,

1 pn 1 1
2
< x − =

2
< .
(an+1 + 2)qn qn (αn+1 + βn+1 )qn an+1 qn2
Demonstração. Pelo corolário anterior temos
pn αn+1 pn + pn−1 pn pn−1 qn − pn qn−1
x− = − =
qn αn+1 qn + qn−1 qn (αn+1 qn + qn−1 )qn
−(pn qn−1 − pn−1 qn ) −(−1)n−1
= =
(αn+1 qn + qn−1 )qn (αn+1 qn + qn−1 )qn
(−1)n (−1)n (−1)n
= = = .
(αn+1 qn + qn−1 )qn (αn+1 + qn−1 /qn )qn2 (αn+1 + βn+1 )qn2
Em particular,
x − pn = 1

,
qn (αn+1 + βn+1 )qn2
e, como ⌊αn+1 ⌋ = an+1 e 0 < βn+1 < 1, segue que an+1 < αn+1 + βn+1 <
an+1 + 2, o que implica a última afirmação.
A expansão de βn+1 como fração contı́nua segue de
qn−1 qn−1 qn−1 1
= =⇒ =
qn an qn−1 + qn−2 qn an + qqn−2
n−1

aplicado recursivamente.

5
POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel 3 - Aula 3 - Carlos Gustavo Moreira

Observação 5. Como limn→∞ qn = +∞ (pois (qn ) é estritamente crescente),


segue desta proposição que
pn
lim = x,
n→∞ qn

o que permite recuperar x a partir de a0 , a1 , a2 , . . . , e dá sentido à


igualdade x = [a0 ; a1 , a2 , . . . ] quando a fração contı́nua de x é infinita (i.e.,
quando x é irracional).

Observação 6. A proposição anterior implica que, para todo α irracional, a


desigualdade |α − p/q| < 1/q 2 tem infinitas soluções racionais p/q. Este fato é
conhecido como o Teorema de Dirichlet.
É interessante notar que, se α = r/s ∈ Q, a desigualdade |α − p/q| < 1/q 2
tem apenas um número finito de soluções racionais p/q. De fato, |r/s − p/q| <
1/q 2 equivale a |qr − ps| < s/q, o que implica que q ≤ s.

A seguinte proposição mostra que os convergentes pares formam uma sequên-


cia crescente, e que os convergentes ı́mpares formam uma sequência decrescente.
Além disso todos os convergentes ı́mpares são maiores do que todos os conver-
gentes pares.

Proposição 7. Para todo k ≥ 0, temos


p2k p2k+2 p2k+3 p2k+1
≤ ≤x≤ ≤ .
q2k q2k+2 q2k+3 q2k+1

Demonstração. O resultado segue dos seguintes fatos gerais. Para todo n ≥ 0,


temos que
pn+2 pn an+2 pn+1 + pn pn
− = −
qn+2 qn an+2 qn+1 + qn qn
an+2 (pn+1 qn − pn qn+1 ) (−1)n an+2
= =
qn (an+2 qn+1 + qn ) qn+2 qn

é positivo para n par e negativon


para n ı́mpar. Além disso, para todo n ≥ 0,
temos que x − pqnn = (αn+1 q(−1)
n +qn−1 )qn
é positivo para n par e negativo para n
ı́mpar.

É possı́vel provar (usando o chamado princı́pio dos intervalos encaixados)


que, dados inteiros a0 , a1 , a2 , . . . , com ak > 0, ∀k ≥ 1, existe um único número
real α (que é irracional) cuja representação por frações contı́nuas é [a0 ; a1 , a2 , . . . ].

Exemplo 8. Temos

• π = [3; 7, 15, 1, 292, 1, 1, 1, 2, 1, 3, 1, 14, 2, 1, . . . ], portanto


p0 p1 22 p2 333 p3 355
= 3, = , = , = ...
q0 q1 7 q2 106 q3 113

• e = [2; 1, 2, 1, 1, 4, 1, 1, 6, 1, 1, 8, . . . , 1, 1, 2n, . . . ]

6
1 3
POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel REDUZIDAS E BOASGustavo
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Moreira


• 2 = [1; 2, 2, 2, . . . ] pois
√ 1 1 1
2=1+ √ =1+ =1+ = ···
2+1 1 1
2+ √ 2+
2+1 1
2+ √
2+1

1+ 5
• 2 = [1; 1, 1, 1, . . . ] pois

1+ 5 1 1
=1+ √ =1+ = ···
2 1+ 5 1
2 1+ √
1+ 5
2

√ √
1+ 5
Isto prova em particular que 2e são irracionais, pois suas frações con-
2 √ √
tı́nuas são infinitas. Daı́ segue também que 2 − 1 = [0; 2, 2, 2 . . . ] e 5−1 2 =
[0; 1, 1, 1, . . . ] são pontos fixos da transformação de Gauss g.

1 Reduzidas e Boas Aproximações


Teorema 9. Temos, para todo n ∈ N,

p n
x − ≤
1 1
< 2
qn qn qn+1 qn
Além disso,

x − pn < 1 x − pn+1 < 1 .

ou 2
qn 2qn2 qn+1 2qn+1
pn
Demonstração. O número x sempre pertence ao segmento de extremos qn e
pn+1
qn+1 cujo comprimento é

pn+1 pn (−1)n

1 x − pn ≤
1 1
qn+1 − qn = qn qn+1 = qn qn+1 =⇒ < 2·

qn qn qn+1 qn
Além disso, se

x − ≥ 1
p n p n+1 ≥ 1 ,

e x −
2
qn 2qn2 qn+1 2qn+1

então

1 p n p n+1 ≥ 1 + 1

= x − + x − 2 =⇒ qn+1 = qn ,
qn qn+1 qn qn+1 2qn2 2qn+1

absurdo.

Observação 10. De fato x − pqnn < 1 1



qn qn+1 < 2.
an+1 qn
Quanto maior for an+1
melhor será a aproximação pqnn de x.

7
1 3
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Teorema 11 (Hurwitz, Markov). Para todo α irracional e todo inteiro n ≥ 1,


temos
α − p < √ 1

q 5q 2
para pelo menos um racional
 
p pn−1 pn pn+1
∈ , , .
q qn−1 qn qn+1
Em particular, a desigualdade acima tem infinitas soluções racionais p/q.
Demonstração. Suponha que o teorema seja√falso. Então, pela proposição
√ 4,
existe α√irracional, n ≥ 1 com αn + βn ≤ 5, αn+1 + βn+1 ≤ 5 e αn+2 +
βn+2 ≤ 5. Devemos portanto ter an+1 = an+2 = 1 já que claramente ak ≤ 2
para k = n, n + 1,√ n + 2 e se algum ak = 2 com k = n + 1, n + 2, terı́amos
ak + βk ≥ 2 + 31 > 5, absurdo.
Sejam x = 1/αn+2 e y = βn+1 . As desigualdades acima se traduzem em
1 1 √ √ 1 1 √
+ ≤ 5, 1+x+y ≤ 5 e + ≤ 5.
1+x y x 1+y
Temos
√ √
1+x+y ≤ 5 =⇒ 1 + x ≤ 5−y

1 1 1 1 5
=⇒ + ≥√ + = √
1+x y 5−y y y( 5 − y)
√ √
5−1
e portanto y( 5 − y) ≥ 1 =⇒ y ≥ 2 . Por outro lado temos
√ 1 1 1 1
x≤ 5 − 1 − y =⇒ + ≥√ +
x 1+y 5−1−y 1+y

5
= √
(1 + y)( 5 − 1 − y)
√ √
5−1
e portanto (1 + y)( 5 − 1 − y) ≥ 1 =⇒ y ≤ 2 , e portanto devemos ter

5−1 qn−1
y= 2 , o que é absurdo pois y = βn+1 = qn ∈ Q.

Observação 12. Em particular provamos que α − pq < √5q 1



2 tem infinitas
p

soluções racionais q , para todo α irracional. O número 5 é o maior com essa
propriedade. De fato, se

1+ 5 p 1
ε > 0, α = e α− < √ ,
2 q ( 5 + ε)q 2
temos
1 + √5 

1
q − p < √

2 ( 5 + ε)q
1−√5 p
1 + √5  1 − √5 
 
2 − q
=⇒ q − p q − p < √ ,

2 2 5+ε

8
2 BOAS
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3 - Carlos SÃO REDUZIDAS
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ou seja,
1 + √5 p √  √

|p2 − pq − q 2 | < − − 5 ( 5 + ε).

2 q

1+ 5 p
Se q é grande, 1/q 2 é pequeno, e 2 − q é muito próximo de 0, donde o lado

5
direito da desigualdade é muito próximo de √5+ε < 1, absurdo, pois |p2 − pq −
q 2 | ≥ 1, de fato se p2 − pq − q 2 = 0 terı́amos
 2    √ √ 
p p p 1+ 5 1− 5
− − 1 = 0 =⇒ ∈ , ,
q q q 2 2
p
o que é absurdo, pois q ∈ Q.

p
Outra maneira de ver que, para todo ε > 0, 1+2 5 − < √ 1 tem ape-

q ( 5+ε)q 2
nas um número finito de soluções pq ∈ Q é observar que as melhores aproxima-

1+ 5 pn
ções racionais de 2 são as reduzidas qn de sua fração contı́nua [1; 1, 1, 1, . . . ]

(ver próxima seção), para as quais temos 1+2 5 − pqnn = (αn+1 +β 1
2 , com

n+1 )qn
αn+1 + βn+1 se aproximando cada vez mais de
√ √
1+ 5 5−1 √
[1; 1, 1, 1, . . . ] + [0; 1, 1, 1, . . . ] = + = 5.
2 2

2 Boas Aproximações são Reduzidas


O próximo teorema (e seu corolário 15) caracteriza as reduzidas em termos
do erro reduzido da aproximação de x por p/q, o qual é, por definição, |qx−p|, a
razão entre |x−p/q| e o erro máximo da aproximação por falta com denominador
q, que é 1/q.
Teorema 13. Para todo p, q ∈ Z, com 0 < q < qn+1 temos

|qn x − pn | ≤ |qx − p|.

Além disso, se 0 < q < qn a desigualdade acima é estrita.


Demonstração. Como mdc(pn , qn ) = 1, temos que se pq = pqnn então p = kpn
e q = kqn para algum inteiro k 6= 0 e neste caso o resultado é claro. Assim,
podemos supor que pq 6= pqnn de modo que

p pn
− ≥ 1 > 1
q qn qqn qn qn+1
pn+1
já que q < qn+1 . Assim, pq está fora do intervalo de extremos pn
qn e qn+1 e
portanto  
x − p ≥ min p − pn , p − pn+1 ≥ 1

q q qn q qn+1 qqn+1
o que implica
1
|qx − p| ≥ ≥ |qn x − pn |.
qn+1

9
2 BOAS
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Além disso, a igualdade só pode ocorrer se x = pqn+1 n+1


, donde an+1 ≥ 2, e
qn+1 > 2qn , pois numa fração contı́nua finita, como no algoritmo de Euclides,
o último coeficiente an é sempre maior que 1. Nesse caso, se q < qn , teremos

x − p ≥ p − pn − pn+1 − pn

q q qn qn+1 qn
1 1 qn+1 − q 1
≥ − = >
qqn qn qn+1 qqn qn+1 qqn+1

o que implica
1
|qx − p| > ≥ |qn x − pn |.
qn+1

Corolário 14. Para todo q < qn ,



x − pn < x − p

qn q
p p′
Corolário 15. Se |qx − p| < |q ′ x − p′ |, para todo p′ e q ′ ≤ q tais que q 6= q′ ,
então p/q é uma reduzida da fração contı́nua de x.

Demonstração. Tome n tal que qn ≤ q < qn+1 . Pelo teorema, |qn x − pn | ≤


|qx − p|, e portanto p/q = pn /qn .

Teorema 16. Se x − pq < 2q12 então pq é uma reduzida da fração contı́nua de


x.

Demonstração. Seja n tal que qn ≤ q < qn+1 . Suponha que pq 6= pqnn . Como
na demonstração do teorema anterior, x − pq ≥ qqn+1
1
e assim pq está fora do

intervalo de extremos pqnn e pqn+1


n+1
. Temos duas possibilidades:

(a) Se q ≥ qn+1 p 1 1

2 então x − q ≥ qqn+1 ≥ 2q 2 , absurdo.

qn+1
(b) Se q < 2 ,


x − p pn p pn+1 pn
≥ − − −
q qn q qn+1 qn
1 1 qn+1 − q
≥ − =
qqn qn qn+1 qqn qn+1
1 1
> ≥ 2
2qqn 2q
o que também é um absurdo.

10
POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel3 3 FRAÇÕES
- Aula 3 - CONT
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Gustavo ÓDICAS
Moreira

3 Frações Contı́nuas Periódicas


Nesta seção provaremos que os números reais com fração contı́nua periódica
são exatamente as raı́zes de equações do segundo grau com coeficientes inteiros.
Lembramos que na representação de x por fração contı́nua, an , αn são defi-
nidos por recursão por
1
α0 = x, an = ⌊αn ⌋, αn+1 =
αn − a n
e temos
pn−2 − qn−2 x
αn = , ∀n ∈ N.
qn−1 x − pn−1
Isso dá uma prova explı́cita do fato de que se a fração contı́nua de x é
periódica, então x é raiz de uma equação do segundo grau com coeficientes
inteiros. De fato, se αn+k = αn , n ∈ N, k ∈ N>0 segue que
pn−2 − qn−2 x pn+k−2 − qn+k−2 x
= ,
qn−1 x − pn−1 qn+k−1 x − pn+k−1

então Ax2 + Bx + C = 0, onde

A = qn−1 qn+k−2 − qn−2 qn+k−1


B = pn+k−1 qn−2 + pn−2 qn+k−1 − pn+k−2 qn−1 − pn−1 qn+k−2
C = pn−1 pn+k−2 − pn−2 pn+k−1 .

Note que o coeficiente de x2 é não-nulo, pois qqn−1 n−2


é uma fração irredutı́vel
qn+k−1
de denominador qn−2 , pois pn−1 qn−2 − pn−2 qn−1 = (−1)n , e qn+k−2 é uma
qn−1 qn+k−1
fração irredutı́vel de denominador qn+k−2 > qn−2 , donde qn−2 6= qn+k−2 , logo
qn−1 qn+k−2 − qn−2 qn+k−1 6= 0.
Vamos provar agora um resultado devido a Lagrange segundo o qual se x

é uma irracionalidade quadrática, isto é, se x é um irracional do tipo r + s,
r, s ∈ Q, s > 0, então a fração contı́nua de x é periódica, i.e., existem n ∈ N
e k ∈ N>0 com αn+k = αn . Neste √ caso, existem a, b, c inteiros tais que
n−1 αn +pn−2
ax2 +bx+c = 0, com b2 −4ac > 0 e b2 − 4ac irracional. Como x = pqn−1 αn +qn−2 ,
temos

ax2 + bx + c = 0
pn−1 αn + pn−2 2
   
pn−1 αn + pn−2
=⇒ a +b +c=0
qn−1 αn + qn−2 qn−1 αn + qn−2
=⇒ An αn2 + Bn αn + Cn = 0,

onde

An = ap2n−1 + bpn−1 qn−1 + cqn−1


2

Bn = 2apn−1 pn−2 + b(pn−1 qn−2 + pn−2 qn−1 ) + 2cqn−1 qn−2


Cn = ap2n−2 + bpn−2 qn−2 + cqn−2
2
.

11
POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel3 3 FRAÇÕES
- Aula 3 - CONT
CarlosÍNUAS PERI
Gustavo ÓDICAS
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Note que Cn = An−1 . Vamos provar que existe M > 0 tal que 0 < |An | ≤ M
para todo n ∈ N, e portanto 0 < |Cn | ≤ M , ∀n ∈ N:
  
2 2 2 pn−1 pn−1
An = apn−1 + bpn−1 qn−1 + cqn−1 = aqn−1 x − x̄ − ,
qn−1 qn−1

onde x e x̄ são as raı́zes de aX 2 + bX + c = 0, mas



x − pn−1 < 1 ≤ 1 =⇒ |An | = aqn−1 2 x − pn−1 x̄ − pn−1

qn−1 2
qn−1 qn−1 qn−1
 
pn−1
≤ a |x̄ − x| + x −
qn−1
def
≤ M = a(|x̄ − x| + 1).

Notemos agora que, para qualquer n ∈ N,

Bn2 − 4An Cn = (pn−1 qn−2 − pn−2 qn−1 )2 (b2 − 4ac) = b2 − 4ac.

Portanto

Bn2 ≤ 4An Cn + b2 − 4ac ≤ 4M 2 + b2 − 4ac


def
p
=⇒ Bn ≤ M ′ = 4M 2 + b2 − 4ac.

Provamos assim que An , Bn e Cn estão uniformemente limitados, donde


há apenas um número finito de possı́veis equações An X 2 + Bn X + Cn = 0, e
portanto de possı́veis valores de αn . Assim, necessariamente αn+k = αn para
alguma escolha de n ∈ N, k ∈ N>0 .

Problemas Propostos


Problema 17. Determine a fração contı́nua de 7. Mostre que ela é periódica
a partir de um certo ponto, e determine o perı́odo.

Problema 18. Escreva na forma r ± s, com r, s ∈ Q, s ≥ 0, os números reais
cujas representações em frações contı́nuas são as seguintes:
(a) [0; 3, 6, 3, 6, 3, 6, . . . ].

(b) [0; k, k, k, . . . ], onde k é um inteiro positivo dado.

(c) [0; 1, 1, 2, 2, 1, 1, 2, 2, 1, 1, 2, 2, . . . ].
Problema 19. (a) Sabendo que 3, 14 < x < 3, 15, determine o maior natural n
e inteiros a0 , a1 , . . . , an para os quais é possı́vel garantir que a representação
em frações contı́nuas de x começa por [a0 ; a1 , . . . , an ].

(b) Sabendo que 3, 141592 < x < 3, 141593, determine o maior natural n e
inteiros a0 , a1 , . . . , an para os quais é possı́vel garantir que a representação
em frações contı́nuas de x começa por [a0 ; a1 , . . . , an ].

12
POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel3 3 FRAÇÕES
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CarlosÍNUAS PERI
Gustavo ÓDICAS
Moreira

(c) Sabendo que 3, 1415926 < x < 3, 1415927, determine o maior natural n e
inteiros a0 , a1 , . . . , an para os quais é possı́vel garantir que a representação
em frações contı́nuas de x começa por [a0 ; a1 , . . . , an ].
Problema
√ 20. (a) Determine as primeiros 6 reduzidas da fração continua de
5.
√ √
(b) Definimos a sequência an = n 5 − ⌊n 5⌋. Determine os valores de n ≤
2011 tais que an seja respectivamente máximo e mı́nimo.
Problema 21. Demonstre que, para todo inteiro positivo a, temos as seguintes
expansões em frações contı́nuas periódicas:

(a) a2 + 1 = [a, 2a].

(b) a2 − 1 = [a − 1, 1, 2a − 2].

(c) a2 − 2 = [a − 1, 1, a − 2, 1, 2a − 2].

(d) a2 − a = [a − 1, 2, 2a − 2].
√ √
Problema 22. Encontre as frações contı́nuas de a2 + 4 e a2 − 4.
Problema 23. Sejam a0 , a1 , . . . , an inteiros com ak > 0, ∀k ≥ 1,
e seja (pk /qk )k≥0 a sequência de reduzidas da fração contı́nua
[a0 ; a1 , a2 , . . . , an ].
(a) Prove que o conjunto dos números reais cuja representação por frações con-
tı́nuas começa com a0 , a1 , . . . , an é o intervalo
 
pn
I(a0 , a1 , . . . , an ) = ∪ {[a0 , a1 , . . . , an , α], α > 1}
q
hn 
 pn , pn +pn−1 se n é par
q q +q
=  pn +pn n−1 p
i
n n−1
qn +qn−1 , qn se n é ı́mpar.
 n

(b) Prove que a função G : (1, +∞) → I(a0 , a1 , . . . , an ) dada por G(α) =
[a0 ; a1 , a2 , . . . , an , α] é monótona, sendo crescente para n ı́mpar e decres-
cente para n par.
Problema 24. Seja α=[a0 ; a1 , a2 , . . . ]∈R. Prove que, se qn ≤q<qn+1 , mdc(p, q)=1
e p/q 6= pn /qn então |α − p/q| ≤ |α − pn /qn | se, e somente se, pq = pqn+1 −rpn
n+1 −rqn
,
onde r ∈ N é tal que 0 < r < an+1 /2 ou (r = an+1 /2 e αn+2 βn+1 ≥ 1).
Problema 25. Seja α=[a0 ; a1 , a2 , . . . ]∈R. Prove que, se qn ≤q<qn+1 , mdc(p, q)=1
p
e p/q 6= pn /qn então |α − p/q| < 1/q 2 se, e somente se, (an+1 ≥ 2, =
q
pn+1 − pn +pn−1
e an+1 − 2 + βn+1 < αn+2 ) ou ( pq = pqnn +q e (αn+1 − 2)βn+1 < 1).
qn+1 − qn n−1

Problema
√ 26. Prove que, para quaisquer inteiros p, q com q > 0, temos
p 1
2 − > 2 . Determine todos os pares de inteiros (p, q) com q > 0 tais que

√ q 3q
p 1
2 − < 3.

q q

13
Problema 27. Prove que, para qualquer α ∈ R \ Q, e quaisquer s, t ∈ R com
s < t, existem inteiros m, n com n > 0 tais que s < nα + m < t.

Problema 28. Seja


pn 1
=
qn 12
1+
32
2+
52
2+
.. (2n − 3)2
.2+
2
a n-ésima convergente da fração contı́nua
1
12
1+
32
2+
52
2+
72
2+
..
.
pn 1 1 1 1
Demonstre que = 1 − + − + · · · + (−1)n−1 .
qn 3 5 7 2n − 1
Problema 29. Dizemos que dois números irracionais α e β são GL2 (Z)-equiva-
aα + b
lentes se existem inteiros a, b, c, d com |ad − bc| = 1 tais que β = .
cα + d
Mostre que, se as frações contı́nuas de α e β são α = [a0 ; a1 , a2 , . . . ] e β =
[b0 ; b1 , b2 , . . . ] então α e β são GL2 (Z)-equivalentes se, e somente se, existem
r ∈ Z e n0 ∈ N tais que bn = an+r , ∀n ≥ n0 .

Dicas e Soluções

Em breve.

Referências
[1] F. E. Brochero Martinez, C. G. Moreira, N. C. Saldanha, E. Tengan -
Teoria dos Números - um passeio com primos e outros números familiares
pelo mundo inteiro, Projeto Euclides, IMPA, 2010.
Polos Olímpicos de Treinamento
Curso de Teoria dos Números - Nível 3 Aula 14
Carlos Gustavo Moreira

A equação de Pell

1 Equação de Pell
Seja A um inteiro positivo. Estamos interessados na equação x2 − Ay 2 = 1,
com x e y inteiros. Se A é um quadrado perfeito, digamos A = k 2 , temos que
x2 − Ay 2 = (x − ky)(x + ky) = 1 admite apenas as soluções triviais y = 0,
x = ±1, pois terı́amos x − ky = x + ky = ±1. √ O caso interessante é quando
A não é um quadrado perfeito, e portanto A é um irracional (de fato, se
√ 2
A = pq , com mdc(p, q) = 1 e q > 1, terı́amos A = pq2 o que é um absurdo, pois
mdc(p, q) = 1 =⇒ mdc(p2 , q 2 ) = 1, donde p2 /q 2 não pode ser inteiro). Nesse
caso, a equação x2 − Ay 2 = 1 é conhecida como uma equação de Pell .
As soluções da equação de Pell correspondem a pontos inteiros sobre uma
hipérbole. Por exemplo, para a hipérbole x2 − 2y 2 = 1: o ponto (3, 2) é um
exemplo de ponto inteiro sobre a hipérbole pois 32 − 2 · 22 = 1 mas o ponto
(7, 5) está próximo à hipérbole mas não pertence a ela pois 72 − 2 · 52 = −1 6= 1.
Como veremos, o próximo ponto de coordenadas inteiras positivas sobre esta
hipérbole é (17, 12).
Outro ponto de vista é o de que estamos procurando pontos de uma hi-
pérbole sobre um reticulado. A mesma equação de Pell acma corresponde à
hipérbole
√ é u2 − v 2 = 1 e ao reticulado que consiste nos pontos da forma
(a, b 2), a e b inteiros. As duas figuras correspondentes só diferem por uma
transformação linear.
É fácil ver que se a equação tem alguma solução (x1 , y1 ) então possui infi-
nitas. Mais geralmente, se x21 − Ay12 = ±1, temos
√ √
(x1 − Ay1 )n (x1 + Ay1 )n = (x21 − Ay12 )n = (±1)n .
Fazendo a substituição
√ √ n  
X n n−i √ i i
xn + Ayn = (x1 + Ay1 )n = x ( A) y1
i 1
i=0

onde
n
⌊2⌋   ⌊ n−1
2
⌋ 
X n n−2i i 2i X n
xn = x A y1 e yn = xn−2i−1 Ai y12i+1
2i 1 2i + 1 1
i=0 i=0
1 EQUA
POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel 3 - Aula 3 - Carlos ÇÃO DE
Gustavo PELL
Moreira

obtemos x2n − Ayn2 = (±1)n para todo n ∈ N.


De maneira mais ou menos equivalente, podemos dizer que se (x1 , y1 ) é
solução então a transformação linear
 √ 
x√1 y1 A
y1 A x1

preserva tanto a hipérbole


√ u2 − v 2 = 1 quanto o reticulado que consiste nos
pontos da forma (a, b A).
Vejamos agora que a equação de Pell sempre possui solução.

Teorema 1. A equação x2 − Ay 2 = 1, com A diferente de um quadrado√ perfeito,


possui solução não trivial em inteiros positivos, i.e., com x + y A > 1.

Demonstração. Considere o conjunto D = {x + y A | x, y ∈ Q}. Definimos a
norma como sendo a função

N: D →Q

x + y A 7→ x2 − Ay 2 ,

Temos que N é uma função multiplicativa, isto é,


√ √  √ √
N (x + y A)(u + v A) = N (x + y A)N (u + v A) ∀x, y, u, v ∈ Q.

De fato,
√ √  √
N (x + y A)(u + v A) = N ((xu + Ayv) + (xv + yu) A)
= (xu + Ayv)2 − A(xv + yu)2
= x2 u2 + A2 y 2 v 2 − A(x2 v 2 + y 2 u2 )
= (x2 − Ay 2 )(u2 − Av 2 ).
√ √
Como A é irracional, a desigualdade | A − pq | < 1
q2
tem infinitas soluções

racionais p/q. Note que se | A − pq | < q12 então
√ p p √ p √
|p2 − Aq 2 | = q 2 A − + A < + A

q q q
√ √ p √
≤ 2 A + A − ≤ 2 A + 1.

q

Considerando infinitos pares de inteiros positivos (pn , qn ) com | A − pqnn | < q12 ,
√ n
teremos sempre |p2n − Aqn2 | < 2 A + 1, portanto temos um número finito de
possibilidades para o valor (inteiro) de p2n − Aqn2 . Consequentemente, existe um
inteiro k 6= 0 tal que p2n −Aqn2 = k para infinitos valores de n. Obtemos portanto
duas sequências crescentes de pares de inteiros positivos (ur ), (vr ), r ∈ N tais
que u2r − Avr2 = k para todo r.
Como há apenas |k|2 possibilidades para os pares (ur mod k, vr mod k), exis-
tem inteiros a e b e infinitos valores de r tais que ur ≡ a (mod k) e vr ≡ b

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(mod k). Tomamos então r < s com as propriedades acima. Seja


√ √ √
√ us + v s A (us + vs A)(ur − vr A)
x+y A= √ =
ur + v r A u2r − Avr2
ur v s − us v r √
 
us ur − Avs vr
= + A.
k k

Temos us ur − Avs vr ≡ u2r − Avr2 = k ≡ 0 (mod k) e ur vs − us vr ≡ ab − ab = 0


(mod k) e portanto x = us ur −Av s vr
e y = ur vs −u s vr
são inteiros. Por outro
√ √ k √ k √ √
y A)(ur + vr A) = us√
lado, (x + √ + vs A, donde N√ (x + y A)N (ur + vr A) =
N√(us + vs A). Como N (ur + vr A) = N (us + vs A) √ = k, segue que
√ N (x +
2 2
y A) = x − Ay √= 1. Além disso, como s > r, us + vs A > ur + vr A, donde

x + y A = uus +v s √A
+v A
> 1.
r r

Dentre
√ todas as soluções (x, y) ∈ N2 da equação de Pell x2 − y 2 A = 1 com
x+y A√ > 1, existe uma solução mı́nima ou fundamental, i.e., com x e portanto
y e x+y A mı́nimos. Denote por (x1 , y1 ) esta√solução mı́nima. √ Se, como antes,
definimos (xn , yn ) ∈ N2 pela relação xn + yn A = (x1 + y1 A)n , temos que
(xn , yn ), n ≥ 1, são todas as soluções inteiras positivas da equação de Pell: de
fato, já vimos√que (xn , yn ) são soluções, e se (x′ , y ′ ) é uma outra solução, então
como x1 + y1 A > 1 existe n ≥ 1 tal que
√ √ √
(x1 + y1 A)n ≤ x′ + y ′ A < (x1 + y1 A)n+1 .
√ √
Multiplicando por xn − yn A = (x1 + y1 A)−n > 0, obtemos
√ √ √
1 ≤ (x′ + y ′ A)(xn − yn A) = (x′ xn − y ′ yn A) + (y ′ xn − x′ yn ) A

< x1 + y1 A.
√ √  √ √
Como N (x′ + y ′ A)(xn − yn A) = N (x′ + y ′ A)N (xn − yn A) = 1, temos
que (x′ xn − y ′ yn A, y ′ xn − x′ yn ) também é uma solução da equação de Pell,
menor que a solução mı́nima. Temos que x′ xn − y ′ yn A ≥ 0, pois caso contrário

x′ xn − y ′ yn A < 0 ⇐⇒ xy′ xynn < A, porém
 x 2
n 1 xn √
x2n − yn2 A = 1 =⇒ =A+ 2
> A =⇒ > A
yn yn yn
′ √ x′ xn
e analogamente xy′ > A, o que contradiz y ′ yn < A. Da mesma forma, y ′ xn −
x′ yn ≥ 0 pois caso contrário

xn x′ 1  x 2  x ′ 2
n 1
< ′ =⇒ A + 2 = < = A + ′2
yn y yn yn y′ y
=⇒ y ′ < yn =⇒ x′ < xn
√ √ √
o que contradiz o fato de xn + yn A = (x1 + y1 A)n ≤ x′ + y ′ A. Resumindo,
temos que (x′ xn −y ′ yn A, y ′ xn −x′ yn ) ∈ N2 é uma solução menor do que√a solução
mı́nima, logo x′ xn − y ′ yn A = 1 e y ′ xn − x′ yn = 0, ou seja, (x′ + y ′ A)(x1 −

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√ √ √
y1 A)−n = 1 ⇐⇒ x′ + y ′ A = xn + yn A, donde (x′ , y ′ ) = (xn , yn ), como
querı́amos.
Assim, as soluções com x e y inteiros positivos
√ podem ser √
enumeradas por
(xn , yn ), n ≥ 0 de modo que, para todo n, xn +yn A = (x1 +y1 A)n e portanto
√ √
(x1 + y1 A)n + (x1 − y1 A)n
xn = e
√ n 2 √ n
(x1 + y1 A) − (x1 − y1 A)
yn = √ .
2 A
Observe que as sequências (xn ) e (yn ) acima satisfazem a recorrência un+2 =
2x1 un+1 − un , ∀n ≥ 1.
A conjectura de Catalan afirma que as únicas potências perfeitas consecu-
tivas são 8 e 9 e foi resolvida completamente em 2003 por Mihăilescu. Vejamos
uma aplicação da equação de Pell em um caso particular.
Teorema 2 (Ko Chao). Seja p um número primo com p ≥ 5, então a equação
x2 − y p = 1
não possui solução com x e y inteiros não nulos.
Demonstração. Suponhamos por contradição que a equação possui solução in-
teira não nula e sem perda de generalidade podemos supor x > 0 e y > 0.
No caso em que x é par e y é ı́mpar, fazendo y p = x2 − 1 = (x − 1)(x + 1),
como mdc(x + 1, x − 1) = 1, segue que x − 1 e x + 1 são potências p-ésimas, ou
seja, existem inteiros s e t tais que x − 1 = sp e x + 1 = tp =⇒ tp − sp = 2 com
s, t ∈ Z e p ≥ 5. Com isto a única solução é t = 1 e s = −1, mas isso implica
que x = 0, o que foi descartado nas hipóteses.
Agora, no caso em que x é ı́mpar e y é par, temos que x + 1 e x − 1 são pares
e mdc(x + 1, x − 1) = 2. Daqui podemos dividir o problema em dois subcasos:
no caso em que x−1 2 seja ı́mpar, existem inteiros w e z tais que
x−1 x+1
= wp , = 2p−2 z p e y = 2wz com mdc(w, 2z) = 1.
2 2
Assim
x+1
wp = − 1 = 2p−2 z p − 1 ≥ (2p−2 − 1)z p ,
2
isto é,  w p
≥ 2p−2 − 1 > 1,
z
portanto w > z.
Por outro lado
x − 1 2 x2 + 6x + 9 − 8(x + 1) x+3 2
   
2p
w = = = − (2z)p .
2 4 2
Assim obtemos a equação (w2 )p + (2z)p = ( x+3 2
2 ) . Como

(w2 )p + (2z)p
= (w2 )p−1 − (w2 )p−2 (2z) + (w2 )p−3 (2z)2 − · · · + (2z)p−1
w2 + 2z
≡ p(w2 )p−1 (mod w2 + 2z)

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e mdc(w, 2z) = 1 temos

(w2 )p + (2z)p
 
2
mdc w + 2z, = mdc(w2 + 2z, p(w2 )p−1 ) | p,
w2 + 2z

logo se p ∤ x+3 2
2 temos que w + 2z é um quadrado. Mas w < w + 2z <
2 2

w2 + 2w < (w + 1)2 assim w2 + 2z não pode ser um quadrado, logo p | x+3 2 e


além disso do fato que p > 3 segue que p ∤ x. De forma similar no caso que
x+1 p x−1 p−2 z p , usando a equação (w 2 )p −(2z)p = ( x−3 )2 , concluı́mos
2 =w e 2 =2 2
analogamente que p | x−3 2 e portanto p ∤ x.
Voltando
 à equação
 original temos que x2 = y p + 1p . Como p ∤ x e
p p−1
mdc y + 1, yy+1 +1
| p temos que y + 1 = s2 . Logo (s, 1) e (x, y 2 ) são so-
luções da equação de Pell
u2 − yv 2 = 1.
Observe que (s, 1) é uma solução fundamental pela minimalidade da segunda
coordenada, donde existe um natural m ∈ N tal que
p−1 √ √
x+y 2 y = (s + y)m .

Desenvolvendo a anterior identidade obtemos


   
m m−2 m m−4 2
x = sm + s y+ s y + ···
2 4
   
p−1
m−1 m m−3 m m−5 2
y 2 = ms + s y+ s y + ···
3 5

Desta segunda equação temos que y divide o termo msm−1 , ou seja, msm−1 ≡ 0
(mod y). Como y é par e s é ı́mpar segue que m é par. Novamente usando
a segunda equação, como s em cada somando à direita está elevado a uma
p−1
potência ı́mpar, temos que s | y 2 . Mas y + 1 = s2 , assim y ≡ −1 (mod s) e
elevando a p−12 obtemos
p−1 p−1
0≡y 2 ≡ (−1) 2 (mod s),

mas isto implica que s = 1 e neste caso y = 0. Portanto a única solução de


x2 = y p + 1 é x = ±1 e y = 0.

1.1 Solução Inicial da Equação de Pell


Na prova da existência de soluções da equação de Pell, não mostramos um
procedimento para encontrar explicitamente uma solução, que é o que faremos
nesta seção.
Para determinar√uma solução
√ da equação x2 − Ay 2 = 1, vamos considerar a
fração contı́nua de A + ⌊ A⌋ = [a0 ; a1 , a2 , . . .]. Vamos mostrar que existem
duas sequências de inteiros positivos bi e ci de modo que

A + ci
= [ai ; ai+1 , ai+2 . . .] (∗)
bi

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para todo i ≥ 0. Começamos definindo b0 = 1 e c0 = ⌊ A⌋. Em geral, definimos
recursivamente ci+1 = ai bi − ci e bi+1 = (A − c2i+1 )/bi .
Mostremos inicialmente por indução que bi e ci são inteiros com bi 6= 0 e
tais que bi | A − c2i para todo i. Isto é claramente verdade para i = 0. Por
hipótese de indução, temos que bi e ci são inteiros, logo ci+1 = ai bi − ci também
será inteiro e A − c2i+1 6= 0 já que A não é quadrado perfeito. Além disso,

A − c2i+1 = A − (ai bi − ci )2 = A − c2i − bi (a2i bi − 2ai ci )

será múltiplo de bi já que bi | A − c2i por hipótese de indução. Assim bi+1 =
(A − c2i+1 )/bi será um inteiro não nulo tal que bi+1 | A − c2i+1 .
Desta forma, temos
√ √
A + ci A − ci+1 bi+1 1
= ai + = ai + √ = ai + √ .
bi bi A + ci+1 A + ci+1
bi+1

de modo que (∗) será válida para todo i. Falta apenas provar que bi e √ ci são
positivos. Para isto, vamos provar por√indução que bi > 0 e 0 < ci < A, o
que é verdadeiro para i = 0 pois c0 = ⌊ A⌋ e A não é quadrado perfeito. Além
disso, pela definição de ai temos

A + ci
ai < = [ai ; ai+1 , ai+2 . . .] < ai + 1
bi

donde obtemos ai bi < A+ci < ai bi +bi (já que bi > 0 por hipótese de indução)
e portanto

ci+1 = ai bi − ci < A < ai bi − ci + bi = ci+1 + bi

e assim ci+1 < A, o que implica bi+1 = (A − c2i+1 )/bi > 0 também. Agora
√ √
suponha por √ absurdo que ci+1 ≤ 0. Neste caso terı́amos bi > A − ci+1 ≥ A,
mas como A > ci por hipótese de indução, terı́amos bi > ci , donde ci+1 =
ai bi −ci ≥ bi −ci > 0, o que é uma contradição. Portanto ci+1 > 0, completando
a indução. √
Como 0 < ci < A e bi | A − c2i , temos que as sequências {ci } e {bi } só
assumem um número finito de valores. Além disso, como bi = (A − c2i+1 )/bi+1
e ci = ai bi − ci+1 podemos recuperar os valores de bi e ci a partir dos de
b√i+1 e c√i+1 . Portanto estas duas sequências, assim como a fração contı́nua
A + ⌊ A⌋ = [a0 ; a1 , a2 , . . .], são periódicas puras, digamos de perı́odo k. Em
particular bk = 1 e ck = a0 . √
Note que como a0 = 2⌊ A⌋, temos que a expansão em fração contı́nua

de A é [a0 /2; a1 , a2 , . . .]. Logo, para i ≥ 1, denotando por pi /qi a i-ésima
convergente desta fração contı́nua, temos

A+ci+1
√ bi+1 pi + pi−1
A= √ ,
A+ci+1
bi+1 qi + qi−1

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e portanto
√ √ √
Aqi + ci+1 Aqi + Abi+1 qi−1 = Api + ci+1 pi + bi+1 pi−1 .

Separando parte racional da parte irracional obtemos as equações

Aqi = ci+1 pi + bi+1 pi−1 e pi = ci+1 qi + bi+1 qi−1 .

Isolando ci+1 nas equações anteriores e igualando obtemos

Aqi − bi+1 pi−1 pi − bi+1 qi−1


=
pi qi
2 2
⇐⇒ Aqi − bi+1 pi−1 qi = pi − bi+1 qi−1 pi
⇐⇒ p2i − Aqi2 = bi+1 (pi qi−1 − pi−1 qi )
⇐⇒ p2i − Aqi2 = (−1)i+1 bi+1

donde obtemos uma solução da equação x2 − Ay 2 = (−1)i+1 bi+1 . Se k é o


perı́odo teremos que bk = 1 e portanto a equação x2 − Ay 2 = −1 tem solução se
k é ı́mpar, enquanto que x2 −Ay 2 = 1 sempre tem solução (tomando i+1 = 2k).
Por exemplo, se queremos encontrar uma solução da equação x2 − 21y 2 = 1,
como
√ p6 55
4 + 21 = [8; 1, 1, 2, 1, 1] e = ,
q6 12
(a barra denota o perı́odo) temos que 552 − 21 × 122 = 3025 − 3024 = 1.

1.2 A Equação x2 − Ay 2 = −1
Suponha, como sempre, que A não é quadrado perfeito. Na seção anterior
mostramos que a equação de Pell sempre possui solução. Em contrapartida, a
equação x2 − Ay 2 = −1 nem sempre possui solução, de fato se p é um divisor
primo de A temos que x2 − Ay 2 ≡ x2 ≡ −1 (mod p), assim uma condição
necessária para a existência de solução é que todo divisor primo de A seja 2 ou da
forma 4k + 1. Porém, esta condição ainda não é suficiente. O seguinte teorema
dá uma relação entre as soluções fundamentais da equações x2 − Ay 2 = 1 e
x2 − Ay 2 = −1.

Teorema √ 3. Suponha que a equação x2 − Ay 2 = −1


√ admita solução inteira e
seja a + b A sua solução fundamental. Seja c + d A a solução fundamental
da equação x2 − Ay 2 = 1. Então
√ √ c−1
(a + b A)2 = c + d A, a2 = .
2

Demonstração. Observemos que (a+b A)2 é solução da equação x2 −Ay 2 = 1.
Suponhamos por contradição que não é a solução fundamental, isto é suponha-
mos que √ √
(a + b A)2 > c + d A > 1

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√ √ √
Como (a + √ b A)(a − b A) = −1 < 0 temos que 1 > −a + b A > 0, de
fato −a + b A é a maior solução positiva que tem
√ x negativo e y positivo.
Multiplicando a desigualdade anterior por −a + b A, obtemos
√ √ √ √
(a + b A) > (c + d A)(−a + b A) = (−ac + bdA) + (cb − ad) A

> −a + b A > 0.

Temos que (−ac + bdA, cb − ad) é solução de x2 − Ay 2 = −1. Observemos


que −ac + bdA, cb − ad não podem ser simultaneamente positivos, porque isto
contradiz a escolha da solução fundamental.
√ Também não podemos ter que
−ac + bdA < 0, cb − ad > 0 porque −a + b A é a maior solução positiva com
x negativo e y positivo. Por último, no caso −ac + bdA > 0, cb − ad < 0,
isto é, bdA > ac, ad > cb, multiplicando a primeira desigualdade por d e a
segunda por c obtemos bd2 A > acd > c2 b, assim 0 >√b(c2 − Ad2 ) √ = b, o que
também é contraditório. Assim concluı́mos que (a + b A)2 = c + d A. Como
a2 −Ab2 = −1, somando as igualdades temos c−1 = 2a2 logo a2 = (c−1)/2.

Vejamos agora que a condição sobre os fatores primos de A não é suficiente


para garantir a existência de solução. Por exemplo, x2 − 34y 2 = −1 não possui

solução inteira. De fato, a solução fundamental de x2 − 34y 2 = 1 é 35 + 6 34,
mas 35−12 = 17 não é quadrado, logo, pelo teorema anterior, x2 − 34y 2 = −1
não possui soluções.
No caso em que A é um primo da forma 4k + 1, a equação x2 − Ay 2 = −1
sempre possui solução. Mais geralmente, temos o seguinte resultado, devido a
Dirichlet.

Proposição 4 (Dirichlet). Seja A produto de no máximo três primos distintos


da forma 4k +1 tais que pq = −1 para todo p 6= q divisores primos de A. Então
a equação x2 − Ay 2 = −1 possui solução.

Demonstração. Seja x0 + Ay0 a solução fundamental de x2 − Ay 2 = 1. Como

1 = x20 − Ay02 ≡ x20 − y02 (mod 4),

então x0 é ı́mpar e y0 é par. Além disso, do fato de que (x0 − 1)(x0 + 1) = Ay02
e x0 + 1 e x0 − 1 só tem fator comum 2, segue que existem inteiros s e t primos
relativos e inteiros a, b com A = ab tais que

y0 = 2st, x0 − 1 = 2as2 e x0 + 1 = 2bt2

e assim as2 −bt2 = −1. Basta portanto mostrar que a = 1 (de modo que b = A).
Para isto, observemos que a 6= A porque caso contrário b = 1 e (t, s) seria uma
solução menor do que a solução mı́nima (x0 , y0 ) de x2 − Ay 2 = 1. Por outro
lado, se 1 < a < A temos dois possı́veis casos:

1. a é primo, neste caso tomamos


 um divisor primo p de b e temos que
2 −a
as ≡ −1 (mod p). Logo p = 1, mas p é da forma 4k + 1 e portanto
isto implica ap = 1, o que contradiz a hipótese do teorema.


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2. a é produto de dois primos e b é primo, neste


 caso se p é um divisor primo
2 b
de a temos que bt ≡ 1 (mod p), assim p = 1, o que de novo contradiz
a hipótese do teorema.

O resultado anterior foi generalizado por Richaud, Tano e outros. O seguinte


teorema contém essencialmente todos estes resultados.
Teorema 5 (Nagell-Trotter). Sejam p1 , . . . , pn números primos congruentes a 1
módulo 4 e A = p1p2 . . . pn . Suponha que não existam ı́ndices diferentes i, j, k
p
tais que ppji = pkj = 1. Então x2 − Ay 2 = −1 possui solução.
Demonstração. Ver [3] ou [2].

1.3 Soluções da Equação x2 − Ay 2 = c


Novamente assumimos que A não é quadrado perfeito. Seja (x1 , y1 ) ∈
(N>0 )2 a solução mı́nima de x2 − Ay 2 = 1. Dado c ∈ Z não nulo, se existe
alguma solução 2 2 (x, y) ∈ N2 , então existem infinitas: de
√ de x − Ay √ = c com √
fato, se u + v A = (x + y A)(x1 + y1 A)n com n ∈ Z, então u2 − Av 2 = c.
Por outro lado, nem sempre existe uma tal solução. Uma condição necessária
para a existência de soluções é a seguinte: se p é um divisor primo de A, temos
x2 ≡ c (mod p), assim para que exista solução c deve ser resı́duo quadrático
módulo p para todo divisor primo p de A. Infelizmente esta condição não é
suficiente, por exemplo a equação x2 − 7y 2 = 11 não possui solução já que
olhando módulo 4
x2 + y 2 ≡ x2 − 7y 2 = 11 ≡ −1 (mod 4),
o que é impossı́vel. Entretanto 11 4
 
7 = 7 = 1.
A seguinte proposição ajuda a reduzir o trabalho necessário para decidir se
x − Ay 2 = c tem alguma solução (x, y) ∈ N2 .
2

Proposição 6. Seja α = x1 + y1 A > 1 onde (x1 , y1 ) é a solução mı́nima de
x2 − Ay 2 = 1. Dado c ∈ Z não nulo, √ sepexistem x, y ∈ N com x2 − Ay 2 = c,
então existem u, v ∈ N compu + v A ≤ α|c| 2 2
p e u − Av = c (em particular,
para esta solução 0 ≤ u ≤ α|c| e 0 ≤ v ≤ α|c|/A).
√ √
Demonstração. Se γ = r + s A com r, s ∈ Q definimos γ̂ = r − s A, temos
então N (γ) = N (γ̂) 2 2
√ = γ · γ̂ = r − As . 2
Seja β = x + y A > 0 com N (β) = x − Ay 2 = c. Então N (β k
p· α ) = c para
todo
p k ∈ Z. Em particular podemos escolher um k ∈ Z tal que |c| < β · αk ≤
que p |c| < β · α ≤ α|c| definimos γ = β · αk e no caso que
k
p p
α
p |c|. No caso
α|c| < β · αk ≤ α |c|, podemos definir γ = α · |c|/(β · αk ) = pǫβ̂α1−k onde
c
p
ǫ = |c| ∈ {1, −1}, assim N (γ) = N (β) = N (β̂) = c e |c| ≤ γ < α|c|. Logo,
p p
sem perda de generalidade, podemos
√ supor que |c| ≤ γ ≤ α|c|.
Assim temos que γ = u+v A com u, v ∈ Z, assim ainda precisamos verificar
que u, v são naturais, mas
√ √
c = N (γ) = u2 − Av 2 = (u + v A)(u − v A).

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Temos então
√ |c| |c| p √
|u − v A| = √ ≤ p = |c| ≤ u + v A.
u+v A |c|
√ √ √
Temos√assim u − v A ≤ u + v A, donde v ≥ 0 e simultaneamente −u + v A ≤
u + v A, e logo u ≥ 0.

1.4 Soluções da Equação mx2 − ny 2 = ±1


Suponha que mn não seja quadrado perfeito. Vejamos que se mx20 − ny02 =
±1 possui uma solução (x0 , y0 ) então possui infinitas soluções. Temos
√ √ √ √
( mx0 + ny0 )( mx0 − ny0 ) = ±1.

Como mn não é um quadrado perfeito, a equação de Pell X 2 − mnY 2 = 1


possui infinitas soluções; se (z, w) é uma delas, temos
√ √
(z + mnw)(z − mnw) = 1.

Multiplicando estas duas equações obtemos


√ √ √ √ √ √
( mx0 + ny0 )(z + mnw)(z − mnw)( mx0 − ny0 ) = ±1,

que é equivalente a
√ √
( m(zx0 + ny0 w) + n(y0 z + mx0 w))
√ √
× ( m(zx0 + ny0 w) − n(y0 z + mx0 w)) = ±1

portanto x′ = zx0 + ny0 w e y ′ = y0 z + mx0 w geram uma nova solução da


equação mx2 − ny 2 = ±1.
Reciprocamente, para toda solução (a, b) de mx2 − ny 2 = ±1,
√ √ √ √
1 = (ma2 − nb2 )2 = ( ma + nb)2 ( ma − nb)2
√ √
= (ma2 + nb2 + 2 mnab)(ma2 + nb2 − 2 mnab)
= (2ma2 ∓ 1)2 − mn(2ab)2 .

Assim (2ma2 ∓ 1, 2ab) é solução da equação x2 − mny 2 = 1. Por outra parte,


fixando A = mn, o seguinte resultado mostra que nem para todo valor de m e
n a equação mx2 − ny 2 = 1 possui solução.

Teorema 7. Seja A ∈ Z livre de quadrados. Então existe um único par de


inteiros positivos (m, n), com A = mn, tal que uma das equações mx2 −ny 2 = 1
ou mx2 − ny 2 = 2 possui solução. No primeiro caso, (m, n) 6= (1, A).

Demonstração. Seja (x1 , y1 ) solução fundamental de x2 − Ay 2 = 1, assim (x1 −


1)(x1 + 1) = x21 − 1 = Ay12 . Observemos que mdc(x1 − 1, x1 + 1) = mdc(x1 −
1, 2) = d, onde d = 1 ou d = 2. Segue que x1d−1 e x1d+1 são primos relativos, e
d2 | Ay12 . Mas A é livre de quadrados, donde concluı́mos que d | y1 .

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Definamos m = mdc( x1d+1 , A) e n = mdc( x1d+1 , A), e assim m e n cumprem


que A = mn e
x 1 + 1 x 1 + 1  y1  2
= ,
dm dn d
logo existem s, t primos relativos tais que y1 = dst e
x1 + 1 x1 − 1
= ms2 e = nt2 ,
d d
donde subtraindo as equações obtemos d2 = ms2 −nt2 , o que garante a existência
de m e n. Além disso, no caso que d = 2, o par (m, n) é diferente de (1, A) já
que t < y1 e (x1 , y1 ) é a solução fundamental.
Por outra parte, suponhamos que existam (m′ , n′ ) e (a, b) tais que A = m′ n′
e m′ a2 − n′ b2 = e com e = 1 ou e = 2.
No caso e = 1, o par (2m′ a2 − 1, 2ab) é solução de x2 − Ay 2 = 1, isto é,
√ √ √ √
( m′ a + n′ b)2 = (2ma2 − 1) + 2ab A = (x1 + y1 A)k
√ √ √
para algum inteiro k ∈ N. Se k é par, vemos que m′ a + n′ b = xk/2 + yk/2 A
assim a única possibilidade é m′ = 1 e n′ = A (verifique!). No caso k ı́mpar, do
fato que
(k−1)/2  
k
xk−2j Aj y12j ≡ xk1 (mod A)
X
xk =
2j 1
j=0

temos que
x + 1   xk + 1  x + 1 
1 k
m = mdc , A mdc 1 , A = mdc ,A

2 2 2
= mdc(a2 m′ , A) = m′

e
x − 1   xk − 1  x − 1 
1 k
n = mdc , A mdc 1 , A = mdc ,A

2 2 2
= mdc(b2 n′ , A) = n′ ,

onde as últimas igualdades seguem do fato de que m′ (a2 m′ ) − Ab2 = m′ e


Aa2 − n′ (n′ b2 ) = n′ . Mas A = mn | m′ n′ = A logo m = m′ e n = n′ .
No caso e = 2 o argumento é análogo, já que (m′ a2 − 1, ab) é solução de
x2 − Ay 2 = 1.

Corolário 8. A equação mx2 − ny 2 = ±1 possui uma solução se, e só se, dada
a solução fundamental (x1 , y1 ) de x2 − mny 2 = 1, o sistema de equações

2mx2 ∓ 1 = x1
2xy = y1

tem solução inteira.

11
1 EQUA
POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel 3 - Aula 3 - Carlos ÇÃO DE
Gustavo PELL
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Exemplo 9 (OIbM1987). Demonstrar que existe uma infinidade de pares (x, y)


de números naturais tais que

2x2 − 3x − 3y 2 − y + 1 = 0.

Solução: Completando quadrados e fatorando temos que a equação original


é equivalente a
3(4x − 3)2 − 2(6y + 1)2 = 1.
Substituindo z = 4x − 3 e w = 6y + 1, o problema inicial se transforma em
encontrar infinitas soluções da equação

3z 2 − 2w2 = 1 com z ≡ 1 (mod 4) e w ≡ 1 (mod 6).

Para isto, consideremos a equação de Pell auxiliar s2 − 6t2 = 1, que possui


solução mı́nima (5, 2), assim todas as soluções positivas são dadas por
√ √ √ √
sn + 6tn = (5 + 2 6)n = (5 + 2 6)(sn−1 + 6tn−1 ),

ou seja,
sn = 5sn−1 + 12tn−1 e tn = 2sn−1 + 5tn−1 .
A partir de uma solução de s2 − 6t2 = 1 obtemos uma solução de 3z 2 − 2w2 = 1
da seguinte forma
√ √ √ √ √
3zn + 2wn = ( 3 + 2)(sn + 6tn ),

ou seja,
zn = sn + 2tn e wn = sn + 3tn .
Assim, só nos falta mostrar que existem infinitos pares (zn , wn ) tais que zn ≡ 1
(mod 4) e wn ≡ 1 (mod 6). Vamos provar por indução que para todo n par

sn ≡ 1 (mod 12) e tn ≡ 0 (mod 2)

donde concluiremos que, para todo n par,

zn ≡ 1 (mod 4) e wn ≡ 1 (mod 6)

Temos que s2 = 49 e t2 = 20 cumprem as condições pedidas. Agora se n ≥ 2 é


par temos, por hipótese de indução,

sn+2 ≡ 5sn+1 ≡ 52 sn ≡ sn (mod 12)


2
tn+2 ≡ 5tn+1 ≡ 5 tn ≡ tn (mod 2)

o que encerra a prova.

12
Problemas Propostos


Problema 10. Demonstrar que ⌊(1 + 3)2n−1 ⌋ é divisı́vel por 2n .

Problema 11. Encontrar todos os triângulos retângulos com lados inteiros tais
que a diferença entre os catetos é 1.

Problema 12. Demonstrar que a equação 7x2 − 13y 2 = 1 não tem soluções
inteiras.

Problema 13. Seja p um primo. Demonstrar que a equação x(x+1) = p2 y(y+1)


não tem soluções inteiras positivas. A equação pode ter soluções inteiras?

Problema 14. Demonstrar que 2x2 − 219y 2 = −1 não tem soluções inteiras,
mas 2x2 − 219y 2 ≡ −1 (mod m) tem soluções para todo inteiro positivo m.
Sugestão: Considere a “nova solução” x1 = |293x − 3066y|, y1 = −28x +
293y.

Problema 15. (OBM2010) Encontre todos os pares (a, b) de inteiros positivos


tais que
3a = 2b2 + 1.

Dicas e Soluções

Em breve.

Referências
[1] F. E. Brochero Martinez, C. G. Moreira, N. C. Saldanha, E. Tengan -
Teoria dos Números - um passeio com primos e outros números familiares
pelo mundo inteiro, Projeto Euclides, IMPA, 2010.

[2] T. Nagell, On a special class of Diophantine equation of the second degree,


Ark. Mat. 3 (1954), 51–65.

[3] H. F. Trotter, On the norms of units in quadratic fields, Proc. Amer Math.
Soc. 22 (1969), 198–201.
Polos Olímpicos de Treinamento
Curso de Teoria dos Números - Nível 3 Aula 15
Carlos Gustavo Moreira

Funções multiplicativas e a função de Möbius

1 Funções Multiplicativas
Uma função f definida sobre N>0 é dita multiplicativa se dados dois números
naturais a e b tais que mdc(a, b) = 1 então f (ab) = f (a)f (b), e totalmente
multiplicativa se f (ab) = f (a)f (b) para todo a e b. Vejamos algumas funções
multiplicativas importantes.

Proposição 1. Seja n um número inteiro positivo e k um real qualquer. As


funções
def
X
σk (n) = dk e ϕ(n) = função ϕ de Euler
d|n

são multiplicativas. Em particular, as funções


def
d(n) = σ0 (n) = número de divisores de n
def
σ(n) = σ1 (n) = soma dos divisores de n

são multiplicativas.

Demonstração. Sabemos que ϕ é multiplicativa. Por outro lado, se n = pα1 1 pα2 2 . . . pαmm
é a fatoração canônica de n em primos então temos uma fórmula explı́cita
(α1 +1)k (α +1)k
p1 −1 pm m −1
σk (n) = k
· . . . · k
,
p1 − 1 pm − 1

donde é fácil provar que σk é multiplicativa.

Uma função totalmente multiplicativa f fica completamente determinada


por seus valores nos números primos. Impondo algumas restrições adicionais,
temos o seguinte resultado

Teorema 2. Seja f : N>0 → R>0 uma função totalmente multiplicativa e mo-


nótona, então existe α ∈ R tal que f (n) = nα .
1 FUN
POT 2012 - Teoria dos Números - Nı́vel 3 - Aula ÇÕES MULTIPLICATIVAS
3 - Carlos Gustavo Moreira

Demonstração. Trocando f por 1/f , podemos supor sem perda de generalidade


que f é estritamente crescente, e definamos α = log2 f (2). Vejamos que f (n) =
nα . Para isto observemos que, aplicando f , para todo m ∈ N>0 temos

2⌊m log2 n⌋ ≤ nm < 2⌊m log2 n⌋+1


=⇒ 2α⌊m log2 n⌋ ≤ (f (n))m < 2α(⌊m log2 n⌋+1)

Assim,
α⌊m log2 n⌋ α(⌊m log2 n⌋+1)
2 m ≤ f (n) < 2 m para todo m ∈ N>0 .
Mas
α⌊m log2 n⌋ α(⌊m log2 n⌋ + 1)
lim = lim = α log2 n,
m→∞ m m→∞ m
donde concluı́mos que f (n) = 2α log2 n = nα .

Para uma extensão desse resultado para funções multiplicativas veja o exer-
cı́cio 30

Exemplo 3. Encontrar condições necessárias e suficientes sobre m e n para que


nϕ(m) = mϕ(n).

Solução: Se nϕ(m) = mϕ(n) então


Y  1 Y  1
nϕ(m) = mn 1− = mn 1− = mϕ(n).
p|m
p q|n
q
p primo q primo

Daı́ temos que n e m devem ter os mesmos divisores primos; caso contrário,
consideremos {pi } e {qj } os fatores primos de n e m respectivamente que não
são comuns aos dois números, então
Y Y Y Y
(pi − 1) qj = (qj − 1) pi .

Mas, como pi ∤ qj e qj ∤ pi para todos os fatores primos, concluı́mos que


Y Y Y Y
pi (pi − 1) e qj (qj − 1),

o que é impossı́vel. Agora, se n e m tem os mesmos fatores primos prova-se


diretamente da fórmula acima que nϕ(m) = mϕ(n).

O seguinte teorema nos mostra uma forma de construir funções multiplica-


tivas.

Teorema 4. Se f é uma função multiplicativa então a função


X
F (n) = f (d)
d|n

é também multiplicativa.

2
1 FUN
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Demonstração. Sejam a e b inteiros tais que mdc(a, b) = 1 então


X X X
F (ab) = f (d) = f (d1 d2 ) = f (d1 )f (d2 )
d|ab d1 |a,d2 |b d1 |a,d2 |b
XX X X
= f (d1 )f (d2 ) = f (d1 ) f (d2 )
d1 |a d2 |b d1 |a d2 |b

= F (a)F (b).

Segue que F também é multiplicativa.

Com o resultado anterior obtemos outro método para demonstrar que σk (n)
é multiplicativa, já que f (n) = nk é claramente uma função multiplicativa.
Exemplo 5. Demonstrar que ϕ(n)d(n) ≥ n.
Solução: Se α ≥ β ≥ 0 então para qualquer primo p temos ϕ(pα ) ≥ ϕ(pβ ),
logo como ϕ é multiplicativa temos que ϕ(n) ≥ ϕ(d) para todo divisor d de n.
Então temos X X
ϕ(n)d(n) = ϕ(n) ≥ ϕ(d) = n,
d|n d|n

como querı́amos demonstrar. Note que a igualdade só se obtém quando n = 1


ou n = 2.

Exemplo 6. Encontrar todos os inteiros n para os quais ϕ(n) = d(n).


Solução: Se p ≥ 3 é um primo, temos que

ϕ(pα ) = (p − 1)pα−1 ≥ 2(1 + 2)α−1 ≥ 2 1 + 2(α − 1) ≥ α + 1 = d(pα ),




onde a igualdade só se dá quando p = 3 e α = 1. Portanto, pela multiplicativi-


dade das funções ϕ(n) e d(n), os únicos ı́mpares que satisfazem ϕ(n) = d(n) são
n = 1 e n = 3. Por outro lado, se α > 3 temos ϕ(2α ) = 2α−1 > α + 1 = d(2α );
para α = 3 obtemos as soluções n = 1 · 8 = 8 e n = 3 · 8 = 24.
Assim, só nos falta resolver os casos ϕ(2n) = d(2n) ⇐⇒ ϕ(n) = 2d(n) e
ϕ(4n) = d(4n) ⇐⇒ 2ϕ(n) = 3d(n) onde n é ı́mpar. Temos ϕ(5) = 4 = 2d(5),
ϕ(15) = 8 = 2d(15) e ϕ(9) = 6 = 2d(9), donde 2 · 5 = 10, 2 · 9 = 18 e 2 · 15 = 30
também são soluções da equação inicial. Demonstremos agora que não existem
mais soluções. Se n = pα é potência de um primo ı́mpar p então para p = 3 e
α ≥ 3, ou para para p = 5 e α ≥ 2, ou para p ≥ 7, temos como acima que
3
ϕ(n) = pα−1 (p − 1) > 2α + 2 = 2d(n) > d(n).
2
Por outro lado, já sabemos que ϕ(n) ≥ d(n) para todo n ı́mpar. Assim, da
multiplicatividade das funções ϕ(n) e d(n), obtemos que se n é divisı́vel por 33 ,
52 ou por algum primo p ≥ 7, então ϕ(n) > 2d(n) > 32 d(n) e analisando os
casos restantes obtemos apenas as soluções apresentadas anteriormente.
Em conclusão, as únicas soluções de ϕ(n) = d(n) são 1, 3, 8, 10, 18, 24,
30.

3
2 FUN-ÇNı́vel
POT 2012 - Teoria dos Números ÃO DE3 M
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O seguinte teorema relaciona a função d(n) com a função ⌊x⌋.

Teorema 7. Seja n um inteiro positivo, então


2n n  
X X 2n
d(k) − = n.
k
k=1 k=1

Demonstração. Seja
X  2i 
def
f (i) = .
k
1≤k≤i

Observemos que para i, k > 1


    (
2i 2i − 2 1 se k | 2i ou k | 2i − 1
− =
k k 0 caso contrário.

Portanto para i ≥ 2 temos


X  2i   2i − 2   2i − 2 
f (i) − f (i − 1) = ⌊2i⌋−⌊2i − 2⌋+ − +
k k i
2≤k≤i
= 2 + (d(2i) − 2) + (d(2i − 1) − 2) + 1
= d(2i) + d(2i − 1) − 1,

donde
2n
X n
X 
d(k) = d(2) + d(1) + f (i) − f (i − 1) + 1
k=1 i=2
= 3 + f (n) − f (1) + n − 1
= f (n) + n

que era o que querı́amos demonstrar.

2 Função de Möbius e Fórmula de Inversão


Definimos a função de Möbius µ : N>0 → Z por

1
 se n = 1
µ(n) = 0 se a2 | n para algum a > 1

(−1)k se n é produto de k primos distintos.

Facilmente se comprova que a função de Möbius é multiplicativa. Além disso

Lema 8. Para todo inteiro positivo n temos


(
X 1 se n = 1
µ(d) =
d|n
0 se n > 1.

4
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Demonstração. No caso n = 1 não temos nada para provar. Como a função


pelo teorema 4, basta mostra o lema para n = pk
P
d|n µ(d) é multiplicativa
onde p é um número primo. De fato,

X k
X
µ(d) = µ(pj ) = 1 − 1 = 0
d|pk j=0

como querı́amos demonstrar.

Teorema 9 (Fórmula de inversão


P de Möbius). Seja f (n) uma função sobre os
inteiros positivos e F (n) = d|n f (d), então para todo n inteiro positivo,
X n
f (n) = µ(d)F .
d
d|n

Demonstração. Vejamos que


X n X X
µ(d)F = µ(d) f (d1 )
d n
d|n d|n d1 | d
XX
= µ(d)f (d1 )
d|n d1 | n
d
XX
= µ(d)f (d1 )
d1 |n d| dn
1
X X
= f (d1 ) µ(d) = f (n)µ(1) = f (n),
d1 |n d| dn
1

como querı́amos demonstrar.

Exemplo 10. Uma pulseira é formada por pedras coloridas, de mesmo tama-
nho, pregadas em volta de um cı́rculo de modo a ficarem igualmente espaçadas.
Duas pulseiras são consideradas iguais se, e só se, suas configurações de pedras
coincidem por uma rotação. Se há pedras disponı́veis de k ≥ 1 cores distintas,
mostre que o número de pulseiras diferentes possı́veis com n pedras é dado pela
expressão
1X
ϕ(d) · k n/d .
n
d|n

Solução: No que segue o número k de cores de pedras estará sempre fixo. A


cada pulseira podemos associar um perı́odo, que é definido como o menor divisor
positivo d de n tal que a sequência das n pedras da pulseira é obtida a partir
de uma sequência de d pedras repetida n/d vezes. Se o problema fosse contar
pulseiras fixas, sem indentificar pulseiras que coincidem por uma rotação, a
resposta seria claramente k n . Ao considerarmos as n rotações de uma pulseira
de perı́odo d, obtemos d pulseiras fixas distintas (i.e., distintas como pulseiras
fixas, mas iguais a menos de rotação). Dizemos que uma pulseira com n pedras
é primitiva se seu perı́odo é n. Se denotarmos por g(n) o número de pulseiras

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POT 2012 - Teoria dos Números ÃO DE3 M
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primitivas com n pedras, temos que, para cada divisor d de n, o número de


pulseiras com n pedras e perı́odo d é g(d) (se o perı́odo é d, podemos tomar
d pedras consecutivas e unir as pontas criando uma pulseira com d pedras,
que será primitiva), e elas dãoPorigem a d.g(d) pulseiras fixas. Assim, temos,
para todo inteiro positivo n, d|n d.g(d) = k n , donde, pelo teorema anterior,
n.g(n) = d|n µ(d)k n/d .
P
O número de pulseiras que queremos contar, como no enunciado, é
X X1X
g(d) = µ(s)k d/s .
d
d|n d|n s|d

Fazendo t = d/s na última expressão, temos d = st, e d | n equivale a s | n/t.


Assim, podemos escrever a última expressão como
XX 1 X k t X µ(s)
µ(s)k t = ,
st t s
t|n s|n/t t|n s|n/t

t kt
que, pelo exemplo anterior, é igual a t|n kt · nt ϕ(n/t) = t|n
P P
n · ϕ(n/t), que,
por sua vez (fazendo r = n/t), é igual a n1 r|n ϕ(r) · k n/r .
P

Agora, observemos que para todo número natural m, f e F definidas como


antes,
Xm Xm X m
X X
F (n) = f (d) = f (d)
n=1 n=1 d|n d=1 d|n
1≤n≤m
m
Como f (d) é somado d vezes, então
m
X m
X jmk
F (n) = f (d) .
d
n=1 d=1

No caso particular em que f (n) = ϕ(n) temos que F (n) = n e assim


m
m(m + 1) X jmk
= ϕ(n) .
2 n
n=1

Se f (n) = µ(n), então F (n) = 0 se n > 1 e F (1) = 1 pelo lema 8, portanto


m
X jmk
1= µ(n) .
n
n=1

A igualdade anterior nos permite resolver o seguinte

Exemplo 11. Demonstrar que, para todo inteiro m > 1,


m
X µ(k)
< 1.

k


k=1

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Solução: Como −1 < µ(k) m


  m m m
k − k < 1 e k − k = 0 quando k = 1, m,
então m m

X jmk X µ(k)
µ(k) −m <m−1

k k


k=1 k=1
Usando a identidade acima provada temos que
m

X µ(k)
1 − m < m − 1,

k
k=1
P
µ(k)
logo m m k < m e simplificando m obtemos o que querı́amos demons-

k=1
trar. É conhecido (Mangoldt 1897) que se m tende para infinito, então a soma
anterior converge para 0.

Teorema 12 (Segunda fórmula de inversão de Möbius). Sejam f, g funções reais


com domı́nio (0, +∞) tais que

X x
g(x) = f
k
k=1

para todo x, então



X x
f (x) = µ(k)g .
k
k=1

Demonstração. Observemos que



X ∞
X  x  X∞ X  x
f (x) = µ(k) f = µ(k) f = f (x),
kr m
k=1 r=1 m=1 k|m

como querı́amos demonstrar.

A seguinte é uma das formulações da famosa hipótese de Riemann, um dos


problemas em aberto mais importantes da Matemática. O Clay Mathematics
Institute oferece um prêmio de 1 milhão de dólares para a a primeira demonstra-
ção da Hipótese de Riemann (ver a página web http://www.claymath.org/millennium/).
Conjectura: [Hipótese de Riemann]
Se α > 1/2, então
n
1 X
lim α µ(m) = 0.
n→∞ n
m=1

Podemos reenunciar esta conjectura assim: seja f : (0, +∞) → R definida


por (
f (t) = 0 se t < 1
P∞
k=1 f (t/k) = 1 se t ≥ 1.

Então, para todo α > 1/2,


f (t)
lim = 0.
t→∞ tα

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POT 2012 - Teoria dos Números ÃO DE3 M
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De fato, pela segunda fórmula de inversão de Möbius, temos


⌊t⌋
X
f (t) = µ(m).
m=1

Problemas Propostos

Problema 13. Encontrar todos os inteiros positivos n tais que

n = d26 + d27 − 1,

onde 1 = d1 < d2 < · · · < dk = n são todos os divisores positivos do número n.

Problema 14. Seja r o número de fatores primos diferentes de n, demonstrar


que X
|µ(d)| = 2r .
d|n

Problema 15. Seja n um inteiro positivo que não é primo e tal que ϕ(n) | n − 1.
Demonstrar que n possui ao menos quatro fatores primos distintos.

Problema 16. Dados dois números reais α e β tais que 0 ≤ α < β ≤ 1,


demonstrar que existe um número natural m tal que

ϕ(m)
α< < β.
m
Problema 17. Seja m um inteiro positivo. Dizemos que um inteiro m ≥ 1 é
“superabundante” se

σ(m) σ(k)
∀k ∈ {1, 2, . . . , m − 1} > .
m k
Demonstrar que existe um número infinito de números superabundantes.

Problema 18. Demonstrar que d(n) < 2 n.

Problema 19. Demonstrar que

σ(n) √
≥ n.
d(n)

Problema 20. Encontrar todos os valores de n para os quais ϕ(n) | n.

Problema 21. Dois números a e b são amigáveis se σ(a) = b e σ(b) = a.


Por exemplo 1184 e 1210 são amigáveis (verificar!). Encontrar outra dupla de
números amigáveis.

Problema 22. Demonstrar que m | σ(mn − 1) para todo n se, e só se, m = 2,
3, 4, 6, 8, 12 ou 24.

8
2 FUN-ÇNı́vel
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Problema 23. Demonstrar que

σ(n!) 1 1
> 1 + + ··· + .
n! 2 n
Problema 24. Demonstrar que existem infinitos números naturais n para os
quais σ(x) = n não tem solução.

Problema 25. Demonstrar que para todo m > 1


m
X µ(k) 2
< .

k 3


k=1

Problema 26 (IMO1998). Para cada inteiro positivo n, d(n) denota o número


de divisores de n. Determine todos os inteiros positivos k tais que d(n2 ) = kd(n)
para algum n.

Problema 27. Se n é composto, mostre que ϕ(n) ≤ n − n.

Problema 28. Determinar todos os números inteiros positivos n tais que


n = d(n)2 .

Problema 29. Mostrar que ϕ(n) + σ(n) ≥ 2n para todo inteiro positivo n.

Problema 30. Seja f : N+ → R+ uma função multiplicativa e crescente.

(a) Prove que, para todo inteiro M > 1 e todo inteiro positivo n,

f (M n+1 − 1) ≥ f (M n − 1)f (M ) e f (M n+1 + 1) ≤ f (M n + 1)f (M ).

Conclua que p
lim n
f (M n ) = f (M ).
n→∞

(b) Utilize o item anterior para M potência de primo para concluir que f (pk ) =
f (p)k para todo primo p.

(c) Conclua que f é totalmente multiplicativa, e portanto existe α > 0 tal que
f (n) = nα para todo inteiro positivo n.

Problema 31. Dadas duas funções f, g : N>0 → C, definimos o produto de


Dirichlet (ou convolução de Dirichlet) f ∗ g : N>0 → C de f e g por
n
def
X X
f ∗ g(n) = f (d)g = f (d1 )g(d2 ).
d
d|n d1 d2 =n

P f (n) P g(n)
(a) Prove que, se s ∈ R (ou s ∈ C) e as séries ns e ns convergem
n≥1 n≥1
absolutamente então
X f (n) X g(n) X f ∗ g(n)
· = .
ns ns ns
n≥1 n≥1 n≥1

9
(b) Prove que, para quaisquer funções f, g, h : N>0 → C, temos f ∗ g = g ∗ f
e f ∗ (g ∗ h) = (f ∗ g) ∗ h (isto é, o produto de Dirichlet (é comutativo e
1 se n = 1
associativo), e que a função I : N>0 → C dada por I(n) = é
0 se n > 1
o elemento neutro do produto ∗, i.e., I ∗ f = f ∗ I = f , ∀f : N>0 → C.

(c) Prove que se f e g são multiplicativas então f ∗ g é multiplicativa.

(d) Prove que, se f : N>0 → C é tal que f (1) 6= 0, então existe uma única
função f (−1) : N>0 → C tal que f ∗ f (−1) = f (−1) ∗ f = I, a qual é dada
recursivamente por f (−1) (1) = 1/f (1) e, para n > 1,
1 X n
f (−1) (n) = − f f (−1) (d).
f (1) d
d|n,d<n

(e) Prove que, se f é multiplicativa, então a função f (−1) definida no item


anterior também é multiplicativa.

Dicas e Soluções

Em breve

Referências
[1] F. E. Brochero Martinez, C. G. Moreira, N. C. Saldanha, E. Tengan -
Teoria dos Números - um passeio com primos e outros números familiares
pelo mundo inteiro, Projeto Euclides, IMPA, 2010.
Polos Olímpicos de Treinamento
Curso de Álgebra - Nível 2 Aula 1
Prof. Marcelo Mendes

Produtos Notáveis

Vários problemas de Álgebra para alunos do Ensino Fundamental utilizam Produtos


Notáveis, que são identidades clássicas envolvendo multiplicação de expressões.

Vejamos alguns exemplos para diversos produtos notáveis que auxiliarão na formação
de ideias para problemas futuros mais difı́ceis.

1 Quadrado da soma ou da diferença de dois números


(a + b)2 = a2 + 2ab + b2
(a − b)2 = a2 − 2ab + b2
b2 +b
Problema 1. (OCM) Prove que não existem inteiros positivos a e b tais que a2 +a
= 4.

Solução. Suponha que


 existam tais inteiros positivos a e b. A equação dada é equivalente
a b + b = 4 a + a = 4a + 4a. Isso lembra o quadrado de 2a + 1, que é 4a2 + 4a + 1.
2 2 2

Assim, seria bom somarmos 1 a cada lado, para obtermos

b2 + b + 1 = 4a2 + 4a + 1.

Por outro lado,


b2 < b2 + b + 1 < b2 + 2b + 1 = (b + 1)2
pois b é um inteiro positivo. Como b2 e (b + 1)2 são quadrados consecutivos, isso mostra
que não seria possı́vel b2 + b + 1 ser o quadrado de um inteiro.

No próximo exemplo, vamos utilizar um fato útil de pensar que um número com todos
os dı́gitos 1s, como 11...1, pode ser escrito na forma 99...99 . Se o número possuir apenas o
dı́gito 4, por exemplo, como 44...4, então o escrevemos na forma 4 × 99...9 9 . A vantagem
dessas alterações é saber que 99...9 = 10n −1 (verifique esse fato para quantidades pequenas
| {z }
n
de 9s).
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 1 - Prof. Marcelo Mendes

r
Problema 2. Seja n > 1 um número inteiro. Prove que o número 11...1 | {z } não é
| {z } 44...4
n 2n
racional.


Solução. Mostrar que 11...144...4 não é racional é equivalente a provar que 11...144...4
não é um quadrado perfeito. Ou seja, este problema tenta mostrar que não há outros
quadrados perfeitos com o formato do número 144.

Podemos escrever
10n − 1 102n − 1
11...144...4 = 11...1 × 102n + 44...4 = × 102n + 4 ×
9 9
10n − 1  10n − 1
= 102n + 4 (10n + 1) = (10n + 2)2 .
9 9
Agora, é suficiente mostrarmos que 10n − 1 nunca pode ser quadrado perfeito se n > 1.
Isso é verdade pelo fato de 10n − 1 deixar resto 3 na divisão por 4 e não existir quadrado
perfeito nessa situação.

Problema 3. (i) Se n é um inteiro positivo tal que 2n + 1 é um quadrado perfeito, mostre


que n + 1 é a soma de dois quadrados perfeitos sucessivos.
(ii) Se 3n + 1 é um quadrado perfeito, mostre que n + 1 é a soma de três quadrados.

Problema 4. Suponha que um número inteiro n seja a soma de dois números triangulares,
2 2
ou seja, n = a 2+a + b 2+b . Mostre que 4n+1 pode ser escrito como a soma de dois quadrados
em termos de a e b.

1 1
Problema 5. Seja x ∈ R tal que x + = 5. Calcule x2 + 2 .
x x
Problema 6. (EUA) O número 121b , escrito na base inteira b, é o quadrado de um inteiro
para quais valores de b?

Problema
√ 7. Seja D = a2 + b2 + c2 , sendo a e b inteiros consecutivos e c = ab. Mostre que
D é sempre um inteiro ı́mpar.

 2
2
Problema 8. (EUA) Determine a soma dos dı́gitos na base 10 de 104n +8 + 1 , sendo n
um inteiro positivo.

Problema 9. Mostre que a soma dos quadrados de dois números ı́mpares consecutivos é
um número par não múltiplo de 4.

2
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 1 - Prof. Marcelo Mendes

Problema 10. (IME) Mostre que os números 49, 4489, 444889, 44448889, ..., obtidos colocando-
se 48 no meio do número anterior, são quadrados de números inteiros.

Problema 11. Se x12 + 2x6 (1 − 2y 2 ) + 1 = 0 e x ∈ R− , então mostre que y < 1.

Problema 12. Ache todos os inteiros positivos x, y tais que y 2 − x(x + 1)(x + 2)(x + 3) = 1.

Problema 13. Determine todas as triplas de números reais (x, y, z) que são solução da
equação 4x4 − x2 4y 4 + 4z 4 − 1 − 2xyz + y 8 + 2y 4 z 4 + y 2 z 2 + z 8 = 0.

Problema 14. (OCM) Determine todos os valores reais de x, y e z satisfazendo a igualdade

3x2 + y 2 + z 2 = 2xy + 2xz.

Problema 15. (OCM) Determine todos os pares de inteiros (x, y) que satisfazem a equação
x2 + x + 1995 = y 2 + y.

Problema 16. (EUA) Encontre x2 + y 2 se x, y ∈ Z e xy + x + y = 71, x2 y + xy 2 = 880.

2 Diferença de quadrados
a2 − b2 = (a + b)(a − b)

Problema 17. Quantos pares de números inteiros positivos m e n satisfazem a equação


m2 − n2 = 2011?

Solução. Suponha que existam inteiros positivos m e n tais que m2 − n2 = 2011. Daı́,
(m + n)(m − n) = 2011. Como 2011 é primo e m + n > m − n, pois n > 0, segue que
m + n = 2011 e m − n = 1 e, portanto, m = 1006 e n = 1005.

Problema 18. Prove que existe exatamente um número natural n tal que 28 + 211 + 2n é
um quadrado perfeito.

Solução. Vamos buscar soluções para a equação 28 + 211 + 2n = k2 , k ∈ Z. Ela é


equivalente a 28 1 + 23 + 2n = k2 ou 2n = k2 − 482 = (k + 48)(k − 48). Assim, k + 48 = 2a
e k − 48 = 2b , sendo n = a + b. Subtraindo essas equações, obtemos 96 = 2a − 2b e,
portanto, 25 · 3 = 2b 2a−b − 1 . Em cada membro dessa igualdade, temos a fatoração em
parte par e parte ı́mpar. Igualando, obtemos b = 5 e a = 7. Portanto, a única solução é
n = a + b = 7 + 5 = 12.
   
Problema 19. Determine o valor do produto 1 − 212 1 − 312 ... 1 − 912 1 − 1012 .

3
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Problema 20. (EUA) Simplifique a expressão


√ √ √ √ √ √ √ √ √ √ √ √
( 5 + 6 + 7)( 5 + 6 − 7)( 5 − 6 + 7)(− 5 + 6 + 7).
√ √
Problema 21. (OCM/ITA) Qual é o menor inteior positivo n tal que n − n − 1 < 0, 01.

Problema 22. Quantos pares de números inteiros m e n satisfazem a equação m2 − n2 =


2014?

Problema 23. Seja a 6= 1 um número real. Simplifique a expressão


     
1 1 1 1
1+ 1+ 2 1 + 4 ... 1 + 2100 .
a a a a
Problema 24. Racionalize a expressão
1

64

32

16
√ √ √ .
(1 + 2)(1 + 2)(1 + 2)(1 + 8 2)(1 + 4 2)(1 + 2 2)

Problema 25. (OCM) Encontre o quociente da divisão de a128 − b128 por

(a64 + b64 )(a32 + b32 )(a16 + b16 )(a8 + b8 )(a4 + b4 )(a2 + b2 )(a + b).

Problema 26. A expressão 2n + 1 é o quadrado de um inteiro para exatamente quantos


números naturais n?

Problema 27. Determine todas as soluções inteiras da equação 32x − 52y = 104.

Problema 28. (EUA) Se x + x2 − 1 + x−√1x2 −1 = 20, então determine o valor de
p 1
x2 + x4 − 1 + √ .
x2 + x4 − 1
Problema 29. Um quadrado é cortado em 49 quadrados menores. Todos esses quadrados
têm as medidas de seus lados, em centı́metros, expressas por números inteiros positivos.
Há exatamente 48 quadrados com área igual a 1cm2 . Determine o número de resultados
possı́veis para expressar, em cm2 , a medida da área do quadrado original.

Problema 30. Seja


p p um número primo ı́mpar dado. Quantos valores de k inteiro positivo
existem tais que k2 − pk é também um inteiro positivo?

Problema 31. (EUA) Existe um único par de inteiros positivos x e y satisfazendo a equação
x2 + 84x + 2008 = y 2 . Determine o valor de x + y.

(104 + 324)(224 + 324)(344 + 324)(464 + 324)(584 + 324)


Problema 32. (EUA) Calcule .
(44 + 324)(164 + 324)(284 + 324)(404 + 324)(524 + 324)

4
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3 Produtos notáveis envolvendo cubos


Soma de dois cubos: a3 + b3 = (a + b)(a2 − ab + b2 )

Diferença de dois cubos: a3 − b3 = (a − b)(a2 + ab + b2 )

Cubo da soma de dois números: (a + b)3 = a3 + 3a2 b + 3ab2 + b3

= a3 + b3 + 3ab(a + b)

Cubo da diferença de dois números: (a − b)3 = a3 − 3a2 b + 3ab2 − b3

= a3 − b3 − 3ab(a − b)

Problema 33. (Eslovênia) Sejam a, b ∈ R tais que a3 − 3a2 + 5a = 1 e b3 − 3b2 + 5b = 5.


Calcule o valor de a + b.

Solução. As expressões nessas equações lembram os cubos das diferenças de a e 1 e b e 1,


respectivamente. Assim, podemos reescrevê-las como

(a − 1)3 + 2(a − 1) = −2,

(b − 1)3 + 2(b − 1) = 2.
Somando-as, obtemos
 
(a + b − 2) (a − 1)2 − (a − 1)(b − 1) + (b − 1)2 + 2 = 0.

Agora, observe que


(a − 1)2 − (a − 1)(b − 1) + (b − 1)2 + 2
(b − 1)2 3(b − 1)2
= (a − 1)2 − (a − 1)(b − 1) + + +2
4 4
 2
b−1 3(b − 1)2
= a−1− + + 2 > 0.
2 4
Assim, a + b = 2.

Problema 34. Prove que se a + b + c = 0, então a3 + b3 + c3 = 3abc.

Solução. Se a + b = −c, então (a + b)3 = (−c)3 , ou seja,

a3 + b3 + 3ab(a + b) = −c3 ⇔ a3 + b3 + 3ab(−c) = −c3 .

Logo, a3 + b3 + c3 = 3abc.

Problema 35. (Putnam)


√ Sejam x, y, z números reais distintos dois a dois. Prove que
√ √
3
x − y + 3 y − z + 3 z − x 6= 0.
√ √
Problema 36. Determine o número de soluções reais distintas da equação 3 x+ 3 7 − x = 3.

5
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 1 - Prof. Marcelo Mendes

√ √
Problema 37. (EUA/OCM) Mostre que se x é um número satisfazendo 3 x + 9− 3 x − 9 =
3, então 75 < x2 < 85.
s r s r
3 125 3 125
Problema 38. (IME 1991) Mostre que 3 + 9 + − −3 + 9 + é um número
27 27
racional.

Problema 39. (EUA) Se x e y são números inteiros tais que x3 +y 3 +(x+y)3 +30xy = 2000,
determine o valor de x + y.
(23 − 1)(33 − 1) . . . (1003 − 1) 3367
Problema 40. (Leningrado) Prove que 3 3 3
= .
(2 + 1)(3 + 1) . . . (100 + 1) 5050

4 Outros produtos notáveis


ab − a − b + 1 = (a − 1)(b − 1)
ab + a + b + 1 = (a + 1)(b + 1)

Problema 41. Determine o número de pares ordenados (m, n) de números inteiros positivos
4
que são soluções da equação m + n2 = 1.

4
Solução. A equação m + n2 = 1 é equivalente a mn − 2m − 4n + 8 = 8 ⇔ (m − 4)(n − 2) = 8,
seguindo os modelos propostos nesta seção.
As possibilidades são m − 4 = 1, n − 2 = 8; m − 4 = 2, n − 2 = 4; m − 4 = 4, n − 2 =
2; m − 4 = 8, n − 2 = 1, ou seja, os pares ordenados (m, n) são (5, 10); (6, 6); (8, 4); (12, 3).

Problema 42. Determine todos os números inteiros tais que a soma e o produto são iguais.

Problema 43. (IME) Sejam x1 e x2 as raı́zes da equação x2 + (m − 15)x + m = 0. Sabendo


que x1 e x2 são números inteiros, determine o conjunto dos possı́veis valores de m.

6
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 1 - Prof. Marcelo Mendes

Problemas da OBM

x2 y2
Problema 44. (OBM 1a fase/2002) Se xy = 2 e x2 + y 2 = 5, então y2
+ x2
+ 2 vale:

5 25 5 1
a) 2 b) 4 c) 4 d) 2 e) 1
Problema 45. (OBM 3a fase/2003) Mostre que x2 + 4y 2 − 4xy + 2x − 4y + 2 > 0 quaisquer
que sejam os reais x e y.
Problema 46. (OBM 2a fase/2005)
a) Fatore a expressão x2 − 9xy + 8y 2 .
b) Determine todos os pares de inteiros (x; y) tais que 9xy − x2 − 8y 2 = 2005.
Problema
q 47.q(OBM 1a fase/2005) Os inteiros positivos x e y satisfazem a equação
√ √
x + 12 y − x − 21 y = 1. Qual das alternativas apresenta um possı́vel valor de y?

a) 5 b) 6 c) 7 d) 8 e) 9
Problema 48. (OBM 3a fase/2006) Encontre todos os pares ordenados (x; y) de inteiros
tais que x3 − y 3 = 3(x2 − y 2 ).
Problema 49. (OBM 2a fase/2006) Sejam a e b números reais distintos tais que a2 = 6b+5ab
e b2 = 6a + 5ab.
a) Determine o valor de a + b.
b) Determine o valor de ab.
Problema 50. (OBM 2a fase/2008) Sejam x e y números reais positivos satisfazendo as
equações x2 + y 2 = 1 e x4 + y 4 = 17 1
18 . Calcule o valor de xy .
Problema 51. (OBM 1a fase/2010) Quantos são os pares (x, y) de inteiros positivos tais
que x2 − y 2 = 22010 ?

a) 1000 b) 1001 c) 1002 d) 1003 e) 1004


Problema 52. (OBM 3a fase/2010) Sejam a, b e c reais tais que a 6= b e a2 (b + c) =
b2 (c + a) = 2010. Calcule c2 (a + b).
Problema 53. (OBM 1a fase/2011) Qual é o valor da expressão 201120112 + 201120032 −
16 × 20112007?
a) 2 × 201120072
b) 2 × 201120032
c) 2 × 20112007
d) 2 × 20112003
e) 2 × 201120112

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POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 1 - Prof. Marcelo Mendes

Dicas

3. Observe que 2n + 1 é o quadrado de um inteiro ı́mpar e que 3n + 1 é o quadrado de


um número não múltiplo de 3.

6. Números na base b só utilizam dı́gitos 0, 1, ..., b − 1.


10n+1 −1 10n −1
| {z } 88...8
10. Escreva 44...4 | {z } 9 = 4 · 9 +8· 9 + 9.
n+1 n

12. Agrupe x com x + 3 e x + 1 com x + 2.

13. Comece separando o −1 de dentro dos parênteses (escrevendo x4 depois). Em seguida,


agrupe y 8 , z 8 e 2y 4 z 4 .

14. Se uma soma de quadrados de números reais é 0, então todos os números são iguais
a 0.

15. Veja a resolução do problema 1.

16. Fatore e faça substituições de variáveis x + y = s e xy = p.


√ √ √
21. Multiplique
√ a inequação membro a membro por n + n − 1. Você obterá n +
n − 1 > 100, cuja menor solução é 2500.

23. Multiplique e divida tudo por 1 − a1 .

27. Primeiramente, descarte os casos em que os números são negativos. Depois, use que
soma e diferença de dois números inteiros têm a mesma paridade. Por fim, lembre-se
que o produto de dois números negativos é positivo.

30. Escreva k2 −pk = n2 e complete o trinômio quadrado perfeito que começa com k2 −pk,
2
somando e subtraindo p4 .

31. Complete o trinômio quadrado perfeito que começa com x2 + 84x.

32. Fatore a expressão x4 + 324 = x4 + 182 . A dica é somar e subtrair 2 · x2 · 18.

39. Passe 2000 para o lado esquerdo da equação e fatore fazendo aparecer o fator x + y.

8
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 1 - Prof. Marcelo Mendes

Respostas

5. 23
6. b > 2
8. 4
12. y = x2 + 3x + 1
13. (t2 , t, t) ou (−t2 , t, −t), t ∈ R
14. x = y = z = 0
15. Não existe par (x, y)
16. 146
11
19. 20

20. 104
21. 2501
22. 0
101
1−a−2
23. 1−a−1

64
24. 2−1
25. a64 − b64
26. 1
27. x = 3, y = 2
28. 51, 005
29. 2
30. 1 (para cada primo ı́mpar p)
31. 80
32. 373
36. 2
39. 10
42. (0, 0), (2, 2)
43. 0, 7, 9, 25, 27, 34

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Polos Olímpicos de Treinamento
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Prof. Marcelo Mendes

Equações e Sistemas de Equações

Neste 2o texto de Álgebra, veremos diversos exemplos de equações e sistemas de equações


em nı́vel de problemas olı́mpicos do ensino fundamental.

Eles, possivelmente, servirão posteriormente de ideia para problemas mais difı́ceis.

1 Equações
Nossos três primeiros exemplos são de equações em que as soluções utilizam produtos
notáveis, como aplicação do último assunto.

Problema 1. (EUA) Determine o número de soluções inteiras da equação 22x − 32y = 55.

Solução. Inicialmente, observe que o lado esquerdo da equação é a diferença dos quadrados
de 2x e 3y e, portanto, (2x + 3y ) (2x − 3y ) = 55. Veja que x e y são positivos (prove isso!),
além de (2x + 3y ) e (2x − 3y ). Assim, as únicas possibilidades são

2x + 3y = 55 2x + 3y = 11
 
e .
2x − 3y = 1 2x − 3y = 5

Apenas o segundo sistema possui solução, que é (x, y) = (3, 1).

Problema 2. Quantas soluções inteiras possui a equação x2 − 4xy + 6y 2 − 2x − 20y = 29?

Solução. Os dois primeiros termos do lado esquerdo dão a pista do começo pois lembram
o quadrado de x − 2y. Assim, vamos reescrever a equação da seguinte forma

x2 − 4xy + 4y 2 − 2x + 4y + 1 + 2y 2 − 24y + 72 = 102

⇔ (x − 2y)2 − 2(x − 2y) + 1 + 2(y 2 − 12y + 36) = 102


⇔ (x − 2y − 1)2 + 2(y − 6)2 = 102.
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 2 - Prof. Marcelo Mendes

Assim, x − 2y − 1 é par e não maior que 10. Testanto x − 2y − 1 = 0, ±2, ±4, ±6, ±8, ±10,
obtemos (y − 6)2 = 51, 49, 43, 33, 19, 1. Logo, as únicas soluções vêm de x − 2y − 1 = ±2 e
y − 6 = ±7 ou x − 2y − 1 = ±10 e y − 6 = ±1. As soluções, portanto, são

(29, 13); (25, 13); (1, −1); (−3, −1); (25, 7); (5, 7); (21, 5); (1, 5).

Problema 3. (Romênia/2006) Encontre todos os números reais a e b satisfazendo

2(a2 + 1)(b2 + 1) = (a + 1)(b + 1)(ab + 1).

Solução. Utilizando produtos notáveis, a equação dada fica equivalente a

2 a2 b2 + a2 + b2 + 1 = (ab + a + b + 1) (ab + 1)


⇔ 2a2 b2 + 2a2 + 2b2 + 2 = a2 b2 + a2 b + ab2 + +2ab + a + b + 1


⇔ a2 b2 − b + 2 − a b2 + 2b + 1 + 2b2 − b + 1 = 0,
 

que pode ser considerada uma equação do 2o grau em a cujo discriminante (∆) é

∆ = (b + 1)4 − 4 b2 − b + 2 2b2 − b + 1
 

= −7b4 + 16b3 − 18b2 + 16b − 7.


Esse polinômio possui duas caracterı́sticas interessantes. A primeira, que nós não uti-
lizaremos, é que ele é um polinômio recı́proco de 4o grau e de 1a espécie, pois a leitura
de seus coeficientes da esquerda para direita coincide com a leitura feita da direita para a
esquerda. A segunda é que b = 1 é uma raiz já que o valor 1 zera o ∆. Isso nos leva a
escrever
∆ = −7b4 + 7b3 + 9b3 − 9b2 − 9b2 + 9b + 7b − 7
= (b − 1) −7b3 + 9b2 − 9b + 7 .


Novamente, o segundo fator desse último produto é um polinômio recı́proco de 3o grau,


mas de 2a espécie, já que as leituras dos coeficientes nos dois sentidos são simétricas. Além
disso, b = 1 é novamente uma raiz e, escrevendo −7b3 +9b2 −9b+7 = (b−1) −7b2 + 2b − 7 ,


obtemos
∆ = (b − 1)2 −7b2 + 2b − 7 .


O discriminante de −7b2 + 2b − 7 é negativo e, portanto, −7b2 + 2b − 7 < 0, ∀b. Como


(b − 1)2 ≥ 0, ∀b, segue que ∆ ≤ 0, ∀b. Para a ∈ R, devemos ter ∆ = 0 e, portanto, b = 1 e
a = 1, que é a única solução.

Problema 4. (Croácia) Encontre todas as soluções inteiras da equação


√ √ √
4x + y + 4 xy − 28 x − 14 y + 48 = 0.

Problema 5. Mostre que x2 − y 2 = a3 sempre tem solução inteira (x, y), dado que a ∈ Z.

2
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 2 - Prof. Marcelo Mendes

Problema 6. Prove que se os coeficientes de uma equação quadrática ax2 + bx + c são


inteiros ı́mpares, então as raı́zes da equação não podem ser números racionais.
 √  p 
Problema 7. Se x e y são reais tais que x + x2 + 1 y + y 2 + 1 = 1, prove que
x + y = 0.

Problema 8. Para quais números reais a, b, c (a 6= 0, b 6= 0, c 6= 0, a + b + c 6= 0) vale a


1 1 1 1
igualdade + + = .
a b c a+b+c

Problema 9. Sejam a, b, c, d inteiros distintos tais que a equação


(x − a)(x − b)(x − c)(x − d) − 4 = 0
possui uma raiz inteira r. Mostre que 4r = a + b + c + d.

4 4 2
Problema 10. (EUA) Se 1 − + 2 = 0, determine o valor de .
x x x

Problema 11. (EUA) Se ab 6= 0 e |a| =


6 |b|, quantos valores distintos de x satisfazem a
x−a x−b b a
equação + = + ?
b a x−a x−b

2 Sistemas de equações
Vamos iniciar com um problema da 1a fase do nı́vel 2 da XXI OBM.
Problema 12. (OBM) Rafael tem 23 da idade de Roberto e é 2 anos mais jovem que Rei-
naldo. A idade de Roberto representa 34 da idade de Reinaldo. Determine a soma em anos
das idades dos três.

Solução. Sejam a, o, e as idades de Rafael, Roberto e Reinaldo, respectivamente. Assim,


a = 32 o, a = e − 2 e o = 43 e. Daı́, a = 23 · 34 e = e − 2, o que dá e = 18. Portanto, a = 16,
o = 24 e a + o + e = 58.
Problema 13. (EUA - Adaptado) Determine todas as triplas ordenadas distintas (x, y, z)
de números inteiros satisfazendo o sistema de equações

 x + 2y + 4z = 12
xy + 4yz + 2zx = 22 .
xyz = 6


 x + 2y + 4z = 12
Solução. Podemos reescrever o sistema como x · 2y + 2y · 4z + x · 4z = 44 .
2y · 4z = 48

3
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 2 - Prof. Marcelo Mendes

Fazendo x = x′ , 2y = y ′ e 4z = z ′ , chegamos a
 ′
x + y′ + z′ = 12
′ ′
xy + yz + xz ′ ′ ′ ′ = 44 .
x′ y ′ z ′ = 48

Assim, x′ , y ′ , z ′ são raı́zes da equação t3 − 12t2 + 44t − 48 = 0 (verifique!), que possui 2


como raiz. Daı́, podemos reescrevê-la como

t3 − 2t2 − 10t2 + 20t + 24t − 48 = 0

⇔ (t − 2) t2 − 10t + 24 = 0


⇔ (t − 2)(t − 4)(t − 6) = 0,
que gera as soluções 2, 4, 6. Assim, 4z = 4 e z = 1. Além disso, x = 2 e y = 3 ou x = 6 e
y = 1.
Problema 14. (URSS) Encontre todas as soluções inteiras (x, y, z, t) do sistema

xz − 2yt = 3
.
xt + yz = 1

Solução. Nas duas equações, aparecem as 4 letras exatamente uma vez. Assim, pode-
mos elevá-las ao quadrado e somar o resultado da primeira com o dobro do da segunda,
eliminando o produto xyzt

(xz)2 + 2(xt)2 + 4(yt)2 + 2(yz)2 = 11

⇔ x2 z 2 + 2t2 + 2y 2 z 2 + 2t2 = 11
 

⇔ x2 + 2y 2 z 2 + 2t2 = 11.
 
 2
x + 2y 2 = 1
 2
x + 2y 2 = 11
Temos as seguintes possibilidade ou .
z 2 + 2t2 = 11 z 2 + 2t2 = 1
No primeiro, temos x2 = 1, y 2 = 0 e z 2 = 9, t2 = 1. No segundo, x2 = 9, y 2 = 1
e z2 = 1, t2 = 0. Substituindo nas equações iniciais, obtemos as soluções (x, y, z, t) =
(1, 0, 3, 1), (−1, 0, −3, −1), (3, 1, 1, 0), (−3, −1, −1, 0).

Problema 15. (Bielorrússia) Determine todas as soluções reais do sistema (n ≥ 2):


1
x1 + x2 + ... + xn−1 =

 xn
1

 x + x + ... + x
 2 3 n = x1
.. .. .


 . = .
1
xn + x1 + ... + xn−2 =

xn−1

Solução. Inicialmente, observe que x1 + x2 + ... + xn = xk + x1k (∗), ∀k ∈ {1, 2, ..., n} e que
todos os xk são não-nulos. Tomando duas equações quaisquer, obtemos xi + x1i = xj + x1j ,

4
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 2 - Prof. Marcelo Mendes

1
cujas soluções são xi = xj ou xi = xj .

Supondo a segunda possibilidade e substituindo na equação do sistema original em que


o lado direito é x1j , chegamos a x1 + ... + x̂i + ... + x̂j + ... + xn = 0 (a notação x̂i significa
que xi foi suprimido da soma), o que é impossı́vel já que (*) garante que os xk são todos
positivos ou todos negativos.

Assim, só nos resta a opção em que todos os xk são iguais, digamos a α. Substi-
1
tuindo em qualquer uma das equações, obtemos (n − 1)α = α1 , ou seja, xk = √n−1 , ∀k ou
1
xk = − √n−1 , ∀k.

Problema 16. Resolva o sistema de equações



x + y + z = 2
x2 − y 2 − z 2 = 2 .
x − 3y 2 + z = 0

Problema 17. (IMTS) O conjunto S é formado por 5 inteiros. Se os elementos de S são so-
mados aos pares, obtemos 1967, 1972, 1973, 1974, 1975, 1980, 1983, 1984, 1989, 1991. Quais
são os elementos de S?

Problema 18. (EUA) Resolva o sitema de equações




 2x1 + x2 + x3 + x4 + x5 = 6
 x1 + 2x2 + x3 + x4 + x5 = 12


x1 + x2 + 2x3 + x4 + x5 = 24 .
x + x2 + x3 + 2x4 + x5 = 48

 1



x1 + x2 + x3 + x4 + 2x5 = 96
Problema 19. Mostre que o sistema
 1
 x+ x = y
1
y+y = z
z + z1 = x

não possui soluções reais (x, y, z).


Problema 20. Mostre que a única solução do sistema


 x1 + x2 + x3 = 0
x2 + x3 + x4 = 0




 x3 + x4 + x5 = 0


.. .

 . = .. .
x98 + x99 + x100 = 0




x + x100 + x1 = 0

 99



x100 + x1 + x2 = 0

5
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é x1 = x2 = ... = x99 = x100 = 0.

Problema 21. (EUA) Quatro inteiros positivos a, b, c, d têm produto igual a 8! e satisfazem

ab + a + b = 524
bc + b + c = 146
cd + c + d = 104

Quanto vale a − d?

Problema 22. (EUA) Quantas triplas ordenadas (x, y, z) de inteiros satisfazem o sistema
de equações abaixo?
 2
 x − 3xy + 2y 2 − z 2 = 31
−x 2 + 6yz + 2z 2 = 44
 2
x + xy + 8z 2 = 100

Problema 23. (Iberoamericana) Ache todas a triplas de números reais (x, y, z) tais que

 x + y − z = −1
x 2 − y2 + z2 = 1
 3
−x + y 3 + z 3 = −1
Problema 24. (Romênia) Os números reais não nulos x, y, z, t verificam as seguintes equações

x + y + z = t
1 1 1 1
+ y + z =
 x3 t
x + y 3 + z 3 = 10003

Determine o valor da soma x + y + z + t.

Problema 25. (OCM) Determine a + b + c + d, se



6a + 2b = 3840
6c + 3d = 4410 .
a + 3b + 2d = 3080

Problema 26. (OBM/IME) Sejam a, b, c e k números reais diferentes de zero satisfazendo


a b c
as relações k = b+c = c+a = a+b . Qual é o número de possı́veis valores que k pode assumir?

Problema 27. (OBM) Determine o número de soluções inteiras e positivas do sistema

= c2

a + b
a + b + c = 30

Problema 28. (OBM) As letras O, B, M representam números inteiros. Se O × B × M =


240, O × B + M = 46 e O + B × M = 64, quanto vale O + B + M ?

6
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Problema 29. (OBM) Sejam a, b, c números reais positivos tais que a(b+c) = 152, b(c+a) =
162 e c(a + b) = 170. Determine o valor de abc.

Problema 30. (OBM) Quantos pares ordenados (x, y) de números reais satisfazem a equação
2
x − y 2 + (x − y − 2)2 = 0.

Problema 31. (OBM) Os inteiros 0 < x < y < z < w < t são tais que w = z(x + y) e
t = w(y + z). Sendo w = 9, determine o valor de t.
1 1
Problema 32. (EUA) Se x e y são números reais não-nulos tais que x = 1 + e y = 1+ ,
y x
então y é igual a:

a) x − 1

b) 1 − x

c) 1 + x

d) −x

e) x

7
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 2 - Prof. Marcelo Mendes

Dicas
4. Fatore o lado esquerdo da equação. Comece escrevendo a soma dos 3 primeiros termos
como o quadrado da soma de dois termos.

5. Observe que o problema não pede todas as soluções dessa equação. Assim, fatore o
lado esquerdo e faça x + y = a2 e x − y = a.

6. Use a definição: se x ∈ Q, então existem p, q ∈ Z, q 6= 0 tais que x = pq . Se for


necessário, acrescente que x e y são primos entre si. Com essa última observação, as
paridades de p e q só não podem ser ambas pares. Utilize o fato de que 0 é par para
chegar a contradições em todos os casos.

7. Passe o primeiro fator para o lado direito e racionalize (ou então, racionalize mesmo
na equação inicial). Depois, faça o mesmo com o segundo fator.

8. Para ’equilibrar’ a equação, passe 1c para o lado direito. Em seguida, reduza a um


denominador comum em cada lado. Analise, em seguida, as possibilidades de os
números serem ou não iguais a 0.

9. Use a definição: se r é raiz da equação em x, então substituindo x pelo valor r


a equação fica verdadeira. Depois, escreva 4 como produto de 4 números inteiros
distintos.

16. Combine as equações 1 e 3.

18. Some todas as equações, que nos dará a soma de todas os xi s. Depois, subtraia cada
uma desse resultado.

19. Some todas as equações.

20. Subtraia as equações aos pares.

21. Some 1 a cada membro de cada equação e use a fatoração xy+x+y+1 = (x+1)(y+1).

22. Some todas as equações e perceba soma de quadrados.

23. Subtraia as equações aos pares.

24. Veja o problema 8.

26. Escreva a = k(b + c), b = k(c + a), c = k(a + b) e some todas as equações em seguida.

28. Multiplique a segunda equação por M e a terceira por O.

29. Some todas as equações.

30. Se a soma dos quadrados de dois números reais é 0, então os dois números são iguais
a 0.

8
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 2 - Prof. Marcelo Mendes

Respostas
4. (0, 36), (1, 16), (4, 4), (9, 0), (0, 64), (1, 36), (4, 16), (9, 4), (16, 0)
8. a = −b ou b = −c ou c = −a
9. 1
10. 3
19 2 1

16. (2, −1, 1), 12 , 3 , − 4
17. S = {983, 984, 989, 991, 1000}
18. (x1 , x2 , x3 , x4 , x5 ) = (−25, −19, −7, 17, 65)
21. 10
22. 0
23. (−1, −1, −1), (1, −1, 1)
24. 2000
25. 1985
1

26. 2 2 ; −1
27. 24
28. 20
29. 720
30. 2
31. 45
32. e

9
Polos Olímpicos de Treinamento
Curso de Álgebra - Nível 2 Aula 3
Prof. Marcelo Mendes

Sequências

Uma sequência nada mais é do que um conjunto de números ordenados. Assim, pode-
mos estabelecer um primeiro termo (a1 ), um segundo termo (a2 ), ... e o termo geral de
uma sequência é escrito na forma an . Os problemas costumam informar qual é o valor de
alguns termos e uma lei de formação para os demais termos. Se necessário, faremos uso de
termos, que na sequência, são anteriores aos termos dados ou posteriores (que será mais
raro).

Algumas vezes, essa lei de formação será implı́cita, ou seja, não poderemos calcular os
termos diretamente a partir da posição que eles ocupam na sequência. Por exemplo, se
cada termo é a soma dos dois termos imediatamente anteriores e os primeiro e segundo
termos são iguais a 1. Possivelmente, precisaremos de uma lei explı́cita, que calcula um
termo da sequência apenas a partir da posição que ele ocupa.

No parágrafo anterior, a sequência em questão é a famosa Sequência de Fibonacci. Na


próxima aula, vamos aprender como encontrar seu termo geral.

1 Sequências simples
Problema 1. Mostre que a sequência definida por an = n2 + n + 2 para n ≥ 1, então na
sequência a1 , a2 , a3 , ... contém an quadrado perfeito, mas apenas em quantidade finita.

Solução. Inicialmente, veja que a1 = 4, que é quadrado perfeito. Mas para n > 1, ocorre

n2 < n2 + n + 2 < n2 + 2n + 1,
ou seja, an está situado entre 2 quadrados perfeitos consecutivos e, portanto, não pode ser
um quadrado.

Problema 2. Uma sequência {an } é definida por a1 = 2 e, para n ≥ 2, an é o maior divisor


primo de a1 · a2 · ... · an−1 + 1. Mostre que an nunca é igual a 5.
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 3 - Prof. Marcelo Mendes

Solução. O máximo divisor primo de a1 +1 = 3 é a2 = 3. Logo, se n > 2, a1 ·a2 ·...·an−1 +1


não possui fatores 2 nem 3, ou seja, se an = 5, então a1 · a2 · ... · an−1 + 1 = 5k ou
a1 · a2 · ... · an−1 = 5k − 1, que é múltiplo de 4, uma contradição pois o único fator par do
membro esquerdo dessa última equação é a1 = 2.

Problema 3. (OBM) Considere a sequência oscilante:

1, 2, 3, 4, 5, 4, 3, 2, 1, 2, 3, 4, 5, 4, 3, 2, 1, 2, 3, 4, ...

Determine o 2003o termo desta sequência.

Solução. Uma parte da sequência, com 8 algarismos, se repete: 1, 2, 3, 4, 5, 4, 3, 2. Di-


vidindo 2003 por 8, obtemos 3 como resto, e deste modo, o 2003o termo corresponde ao
terceiro elemento da parte da sequência que se repete, isto é, 3.

Problema 4. (OBM-Adaptado) A sequência de algarismos 1, 2, 3, 4, 0, 9, 6, 9, 4, 8, 7, ... é


construı́da da seguinte maneira: cada elemento, a partir do quinto, é igual ao último
algarismo da soma dos quatro anteriores. Os algarismos 2, 0, 0, 4, juntos e nesta ordem,
aparecem na sequência?

Problema 5. Calcule a soma 1 − 2 + 3 − 4 + . . . − 98 + 99 − 100.

2 Somas Telescópicas
Vamos entender o que é uma soma telescópica através do nosso primeiro exemplo.

2F (n) + 1
Problema 6. (EUA) Se F (n + 1) = para n = 1, 2, ..., e F (1) = 2, então deter-
2
mine o valor de F (101).

Solução. Podemos reescrever a equação que define os termos dessa sequência recursiva-
mente (isto é, em função de termos anteriores) da seguinte forma:
1
F (n + 1) − F (n) = .
2
Assim, podemos escrever essas equações variando n de 100 a 1:
1
F (101) − F (100) =
2
1
F (100) − F (99) =
2
:
1
F (3) − F (2) =
2

2
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 3 - Prof. Marcelo Mendes

1
F (2) − F (1) =
2
Somando telescopicamente todas essas equações, obtemos F (101) − F (1) = 50, ou seja,
F (101) = 52 pois F (1) = 2.

Sequências como essa que acabamos de ver em que a diferença entre os valores dos
termos consecutivos é constante são chamadas de Progressão Aritmética (P.A.).
Acho que deu pra entender o que é uma soma telescópica: são somas em que os termos
intermediários são cancelados e, no final, só restam o primeiro e o último.

Pode até mesmo ser interessante escrever coisas do tipo

1 − n = (1 − 2) + (2 − 3) + ... + [(n − 1) − n] .
Vejamos agora mais um exemplo.

Problema 7. Encontre o valor da soma


1 1 1 1
S= + + + ... + .
1×2 2×3 3×4 999 × 1000
Solução. Essa é uma aplicação clássica para somas telescópicas. Observe que os denomi-
1
nadores são produtos de números consecutivos. Com o auxı́lio da identidade =
k × (k + 1)
1 1
− , concluı́mos que
k k+1
1 1 1 1 1 1 1 1 1 999
S= − + − + − + ... + − ⇒S =1− = .
1 2 2 3 3 4 999 1000 1000 1000
1 1 1 1
Problema 8. (EUA) Encontre a soma + + + ... + .
1×3 3×5 5×7 255 × 257

1 1 1 1
Problema 9. (OBM) Encontre a soma + + + ... + .
1 × 4 4 × 7 7 × 10 2998 × 3001

Problema 10. (Hungria) Prove que para todos os inteiros positivos n,


1 1 1 1 1 1
+ + ... + = + + ... + .
1·2 3·4 (2n − 1) · 2n n+1 n+2 2n

Solução. Veja
1 1 1 1 1 1 1 1
+ + ... + = 1 − + − + ... + −
1·2 3·4 (2n − 1) · 2n 2 3 4 2n − 1 2n
 
1 1 1 1 1 1 1 1
= 1 + + + + ... + + −2 + + ... +
2 3 4 2n − 1 2n 2 4 2n

3
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 3 - Prof. Marcelo Mendes

 
1 1 1 1 1 1 1
=1+ + + + ... + + − 1 + + ... +
2 3 4 2n − 1 2n 2 n
1 1 1
= + + ... + .
n+1 n+2 2n
Observe que, apesar de muito semelhante aos problemas anteriores, este não utiliza
soma telescópica.

Problema 11. O pagamento de um certo pintor aumenta de acordo com o dias em que
ele trabalha. No primeiro dia ele recebeu 1 real. no segundo dia ele recebeu o que ti-
nha ganho no primeiro dia mais 2 reais. No terceiro dia ele recebeu o que tinha recebido
no segundo dia mais 3 reais. Desse modo, quanto o marceneiro irá receber no centésimo dia?

Solução. Seja Ln o valor pago no n-ésimo dia. O problema no diz que Ln+1 = Ln + (n + 1).
Vamos escrever várias equações seguidas:
Ln+1 = Ln + (n + 1)
Ln = Ln−1 + n
Ln−1 = Ln−2 + (n − 1)
...
L2 = L1 + 2

Somando tudo, obtemos um cancelamento de vários termos (soma telescópica), so-


brando:
(n + 1)(n + 2)
Ln+1 = (n + 1) + n + (n − 1) + . . . + 2 + 1 = .
2
1 1 1
Problema 12. Prove que S = √ √ +√ √ +. . .+ √ √ é um número inteiro.
1+ 2 2+ 3 99 + 100
Solução. A dica é racionalização dos denominadores:
√ √ √
1 1 1− 2 √ 
√ √ =√ √ ·√ √ =− 1− 2 .
1+ 2 1+ 2 1− 2
Repetindo o procedimento para as demais parcelas, chegamos a:
√ √ √ √ √ √ √ √
−S = 1 − 2 + 2 − 3 + ... + 99 − 100 = 1 − 100 = −99
⇔ S = 99,
que é um número inteiro.

Problema 13. Determine o valor da expressão


1√
 √ + √ 1 √ + √ 1 √ +...+ √ 1√
2002 2002 2002 2002 1+ 2 2+ 3 3+ 4 99+ 100
E= + + + ... + .
2·6 6 · 10 10 · 14 1998 · 2002

4
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 3 - Prof. Marcelo Mendes

Problema 14. (EUA) A Sequência de Fibonacci 1, 1, 2, 3, 5, 8, 13, 21, ... começa com dois
1s e cada termo seguinte é a soma de seus dois antecessores. Qual dos dez dı́gitos (do sis-
tema de numeração decimal) é o último a aparecer na posição das unidades na seqüência
de Fibonacci?

Problema 15. (OBM) Determine o máximo divisor comum de todos os termos da sequência
cujos termos são definidos por an = n3 − n.

Problema 16. (EUA) Considere uma sequência un definida por u1 = 5 e a relação

un+1 − un = 3 + 4(n − 1), n = 1, 2, 3, ...

Se un é expresso como um polinômio em n, determine a soma algébrica de seus coeficientes.

Solução. Podemos escrever

un − un−1 = 3 + 4(n − 2)
un−1 − un−2 = 3 + 4(n − 3)
:
u2 − u1 = 3 + 4 · 1
Somando todas essas equações, obtemos

un − u1 = 3(n − 1) + 4 (1 + 2 + ... + (n − 2)) = 3(n − 1) + 2(n − 1)(n − 2)

⇒ un = 2n2 − 3n + 6,
cuja soma dos coeficientes é 5.

Problema 17. (Estônia) Prove a desigualdade

22 + 1 32 + 1 20102 + 1 1
2010 < 2
+ 2
+ ... + 2
< 2010 .
2 −1 3 −1 2010 − 1 2

n
X 1
Problema 18. Calcule a soma √ √ .
k=1
(k + 1) k + k k + 1

5
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 3 - Prof. Marcelo Mendes

an
Problema 19. Considere a seqüência definida por a1 = 1 e an+1 = 1+n·an . Calcule a2012 .

Solução. Começaremos com um artifı́cio algébrico bastante útil que é observar que, na
fórmula de an+1 , a fração do membro direito pode ser melhor desenvolvida se for invertida,
porque poderemos desmembrar o resultado. De fato, temos
1 1 + n · an 1
= = +n
an+1 an an
1 1
⇔ − = n.
an+1 an
Assim, obtemos uma chamada equação de diferença. Variando o valor de n de forma
decrescente de 2010 a 1, chegaremos a
1 1
a2011 − a2010 = 2010
1 1
a2011 − a2010 = 2009
.. ..
. = .
1 1
a3 − a2 = 2
1 1
a2 − a1 = 1

Somando essas 2010 equações membro a membro, obtemos


1 1 2010 · 2011
− = 1 + 2 + ... + 2009 + 2010 = = 2021055
a2011 a1 2

1
⇔ = 2021056.
a2011
1
Portanto, a2011 = 2021056 .

6
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 3 - Prof. Marcelo Mendes

3 Produtos Telescópicos
A ideia é semelhante a das somas telescópicas, mas o cancelamento ocorre pelo produto
e não por soma.

Problema 20. No ano 1 Papai Noel viajou sozinho para entregar seus presentes na noite
de Natal. No ano seguinte, ele percebeu que precisava de um ajundante e contratou um
Matesito (tı́pico habitante do Pólo Norte). A cada ano, ele sempre precisava dobrar a quan-
tidade de Matesitos e contratava mais Matesitos para guiar as renas. Quantos Matesitos
Papai Noel vai precisar contratar no ano de 2012?

Solução. Seja Ln o número de Matesitos em cada ano. O problema no diz que Ln+1 =
2Ln + 1. Somando 1 aos dois lados obtemos Ln+1 + 1 = 2(Ln + 1). Vamos escrever várias
equações seguidas:

Ln+1 + 1 = 2(Ln + 1)
Ln + 1 = 2(Ln−1 + 1)
Ln−1 + 1 = 2(Ln−2 + 1)
...
L2 + 1 = 2(L1 + 1)

Multiplicando tudo, obtemos um cancelamento de vários termos (produto telescópico),


sobrando:
2 . . . × 2} = 2n+1 ⇒ Ln+1 = 2n+1 − 1.
Ln+1 + 1 = |2 × 2 ×{z
n+1vezes

Em particular, L2012 = 22012 − 1.

Problema 21. Uma sequência é definida por a1 = 2 e an = 3an−1 + 1. Determine a soma


a1 + a2 + . . . + an .

Problema 22. Considere 2


p a sequência recorrente definida por a1 = 14 e an+1 = an − 2.
2
Prove que o número 3 (an − 4) é divisı́vel por 4, ∀n ∈ Z, n ≥ 1.
q 
Solução. Primeiro, veja que 3 a21 − 4 = 24. Observe que

an+1 − 2 = a2n − 4 = (an + 2)(an − 2).

Reduzindo os ı́ndices, obtemos também

an − 2 = (an−1 + 2)(an−1 − 2)
:
a3 − 2 = (a2 + 2)(a2 − 2)
a2 − 2 = (a1 + 2)(a1 − 2)

7
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 3 - Prof. Marcelo Mendes

Multiplicando todas essas equações telescopicamente, obtemos

an+1 − 2 = (an + 2)(an−1 + 2)...(a1 + 2)(a1 − 2)


⇔ a2n − 4 = a2n−1 · a2n−2 · ... · 16 · 12

⇔ 3 a2n − 4 = a2n−1 · a2n−2 · ... · 16 · 36.
p
⇔ 3 (a2n − 4) = an−1 · an−2 · ... · 4 · 6,
que é múltiplo de 4.

Problema 23. Sejam r1 = 3 e rn = rn−1 2 − 2, ∀n ≥ 2. Se sn = rn − 2 para n ≥ 1, prove que


sj tem, no mı́nimo, 2 · 3j−2 divisores positivos, j ≥ 2.

Problema 24. (EUA) Defina uma sequência de números reais a1 , a2 , a3 , ... por a1 = 1 e
a3n+1 = 99a3n , ∀n ≥ 1. Determine o valor de a100 .

    
104 + 324 224 + 324 344 + 324 464 + 324 584 + 324
Problema 25. Calcule o valor de .
(44 + 324) (164 + 324) (284 + 324) (404 + 324) (524 + 324)
8 12 16 4n + 4 2008
Problema 26. Qual é o valor do produto · · · ... · · ... · ?
4 8 12 4n 2004

8
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 3 - Prof. Marcelo Mendes

Dicas

5. Agrupe os números aos pares.


 
1 1 1 1
8. Use = − .
k · (k + 2) 2 k k+2
9. Pense numa ideia semelhante à sugestão do problema 8.

13. Use mais uma vez uma ideia parecida com a do problema 8 e veja o problema 12.

14. Calcule os primeiros termos até chegar à resposta.


n2 + 1 1 1
17. Use =1+ − .
(n − 1)(n + 1) n−1 n+1
√ √
18. Fatore o denominador pondo k k + 1 em evidência.
√ Depois,
√ racionalize o denomi-
nador multiplicando numerador e denominador por k + 1 − k e surgirá uma soma
telescópica.

21. Subtraindo as equações an = 3an−1 + 1 e an−1 = 3an−2 + 1, obtemos an − an−1 =


3 (an−1 − an−2 ). Depois, multiplique várias dessas equações seguidas (produto te-
lescópico).

23. Veja problema 21.

24. Multiplique várias dessas equações seguidas (produto telescópico).


2  
25. Use a4 +182 = a4 +2a2 ·18+182 −36a2 = a2 + 18 −(6a)2 = a2 + 6a + 18 a2 − 6a + 18 .

9
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 3 - Prof. Marcelo Mendes

Respostas

4. Não

5. −50
128
8. 257
1000
9. 3001

13. 2002 99

14. 6

15. 6

n+1−1
18. √
n+1

5·3n −2n−5
21. 4

24. 9933

25. 373

26. 502

10
Polos Olímpicos de Treinamento
Curso de Álgebra - Nível 2 Aula 4
Prof. Marcelo Mendes

Recorrências - Parte I

Na aula anterior, vimos alguns exemplos de sequências. Em alguns deles, os termos são
dados em função de termos anteriores, ou seja, eles recorrem a valores de termos anteriores.
Por isso, essas sequências são chamadas de recorrências.

Talvez os exemplos mais clássicos de sequências recorrentes sejam as progressões aritmética


e geométrica, que veremos neste texto.

1 Progressões Aritméticas
O problema 6 da aula anterior é um exemplo de P.A. Por definição, uma P.A. é uma
sequência em que a diferença entre os termos consecutivos é constante. Daı́, se (a, b, c) é
uma P.A., então b − a = c − b, ou então, 2b = a + c, isto é, b = a+c
2 , ou seja, cada termo de
uma P.A. é a média aritmética dos termos adjacentes. Essa propriedade, portanto, justifica
o nome desse tipo de sequência.

Sendo d o valor da diferença constante (tradicionalmente chamada de razão), temos a


seguinte lei de formação para os termos de uma P.A. {an }

an = an−1 + d.
Mas veja que essa é uma fórmula implı́cita, recorrente, que necessita de valores anteriores
para se achar o valor de um determinado termo. Somando telescopicamente várias dessas
equações

an = an−1 + d
an−1 = an−2 + d
:
a3 = a2 + d
a2 = a1 + d
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 4 - Prof. Marcelo Mendes

chegamos a
an = a1 + (n − 1)d,
que é a fórmula clássica para o termo geral de uma P.A. Todavia, pode ser mais interessante
em determinados problemas a fórmula

an = am + (n − m)d ⇔ an − am = (n − m)d,
que, ao invés de depender do valor do termo a1 , calcula an a partir de qualquer outro termo
am , podendo este, inclusive, ser posterior.

Essa fórmula nos permite concluir que a1 + an = a2 + an−1 = a3 + an−2 = .... Daı́,
somando as duas equações a seguir

S = a1 + a2 + ... + an−1 + an
S = an + an−1 + ... + a2 + a1
chegamos a

(a1 + an ) n
S= .
2
Problema 1. (EUA) Os quatro primeiros termos de uma P.A. são a, x, b, 2x. Determine o
a
valor da razão .
b
a+b 2b a 1
Solução. Temos 2x = a + b e 2b = x + 2x. Assim, = e, portanto, = .
2 3 b 3

Problema 2. (IME) Determine a relação que deve existir entre os números m, n, p, q para
que se verifique a seguinte igualdade entre os termos de uma mesma progressão aritmética
não-constante:
am + an = ap + aq .

Problema 3. Encontre o valor de a2 + a4 + a6 + ... + a98 se a1 , a2 , a3 , ... é uma P.A. de razão


1 e a1 + a2 + a3 + ... + a98 = 137.

Solução. Podemos escrever a1 +a2 +...+a97 +a98 = 137 como (a2 − 1)+a2 +...+(a98 − 1)+
a98 = 137. Daı́, 2 (a2 + a4 + a6 + ... + a98 ) − 49 = 137 e, portanto, a2 + a4 + a6 + ... + a98 =
137 + 49
= 93.
2

Problema 4. (EUA) Seja a1 , a2 , ..., ak uma progressão aritmética finita com a4 + a7 + a10 =
17 e a4 + a5 + a6 + ... + a12 + a13 + a14 = 77. Se ak = 13, determine o valor de k.

Problema 5. Calcule a soma dos 1000 primeiros múltiplos positivos de 7.

2
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 4 - Prof. Marcelo Mendes

Problema 6. Um jardineiro tem que regar 60 roseiras plantadas ao longo de uma vereda
retilı́nea e distando 1m uma da outra. Ele enche seu regador, a 15m da primeira roseira, e,
a cada viagem, rega 3 roseiras. Começando e terminando na fonte, qual é o percurso total
que ele terá que caminhar até regar todas as roseiras?

Problema 7. Observe a disposição, abaixo, da seqüência dos números naturais ı́mpares.

1a linha 1
2a linha 3, 5
3a linha 7, 9, 11
4a linha 13, 15, 17, 19
5a linha 21, 23, 25, 27, 29
: : :

Determine o quarto termo da vigésima linha.

Problema 8. (Espanha) Encontre uma P.A. tal que a soma de seus n primeiros termos seja
igual a n2 para qualquer valor de n.

Solução. Veja que


Sn = a1 + a2 + ... + an = n2 .
Com n = 1, obtemos S1 = a1 = 1 e, com n = 2, S2 = a1 + a2 = 4. Logo, a2 = 3. Assim,
a razão da P.A. é a2 − a1 = 3 − 1 = 2. Portanto, a P.A. procurada é 1, 3, 5, 7, ...

Problema 9. (IME) O quadrado de qualquer número par 2n pode ser expresso como a soma
de n termos, em progressão aritmética. Determine o primeiro termo e a razão da progressão.

Problema 10. (ITA) Provar que se uma P.A. é tal que a soma dos seus n primeiros termos
é igual a n + 1 vezes a metade do n-ésimo termo, então r = a1 .

Solução. Pelo enunciado, temos

an (a1 + an ) n an
Sn = (n + 1) ⇔ = (n + 1) ⇔ a1 · n = an
2 2 2

⇔ a1 · n = a1 + (n − 1)r ⇔ a1 (n − 1) = (n − 1)r, ∀n.


Portanto, a1 = r.
Sm m2
Problema 11. Numa P.A., tem-se = 2 , sendo Sm e Sn as somas dos m primeiros
Sn n
termos e dos primeiros n termos, respectivamente, com m 6= n. Prove que a razão da P.A.
é o dobro do primeiro termo.

3
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 4 - Prof. Marcelo Mendes

Problema 12. Se numa P.A. a soma dos m primeiros termos é igual à soma dos n primeiros
termos, m 6= n, mostre que a soma dos m + n primeiros termos é igual a zero.

√ √ √
Problema 13. (OCM) Mostre que 2, 3, 5 não podem ser termos de uma mesma pro-
gressão aritmética.

Problema 14. Cada uma das progressões aritméticas a seguir tem 80 termos: (an ) =
(9, 13, ...) e (bn ) = (10, 13, ...). Quantos números são, ao mesmo tempo, termos das duas
progressões?

Problema 15. Numa P.A., temos ap = q e aq = p, com p 6= q. Determine a1 e ap+q .

Problema 16. (EUA) Se a soma dos 10 primeiros termos e a soma dos 100 primeiros ter-
mos de uma progressão aritmética são 100 e 10, respectivamente, determine a soma dos
110 primeiros termos.

Solução. Vamos escrever os dados do problema da seguinte forma

(a1 + ... + a10 ) + (a11 + ... + a20 ) + ... + (a91 + ... + a100 ) = 10
(a1 + ... + a10 ) + (a1 + ... + a10 ) + ... + (a1 + ... + a10 ) = 100 · 10
Subtraindo termo a termo, obtemos

0 · 10 + 10r · 10 + ... + 90r · 10 = −900

1
⇒ 100r(1 + ... + 9) = −900 ⇒ r = − .
5
Portanto

a1 + ... + a110 = (a1 + ... + a100 ) + (a101 + ... + a110 )

= 10 + [(a1 + 100r) + ... + (a10 + 100r)]

= 10 + (a1 + ... + a10 ) + 1000r = 10 + 100 − 200 = −90.

Problema 17. (EUA) Em uma P.A., a soma dos 50 primeiros termos é 200 e a soma dos
50 próximos é 2700. Determine a razão e o primeiro termo dessa seqüência.

4
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 4 - Prof. Marcelo Mendes

Problema 18. (EUA) A soma dos n primeiros termos de uma P.A. é 153 e a razão é 2. Se
o primeiro termo é um inteiro e n > 1, determine o número de valores possı́veis de n.

(a1 + an ) n
Solução. Como = 153, temos [a1 + (n − 1)] n = 153. Como a1 + (n − 1) e n
2
são inteiros positivos, eles são divisores positivos de 153. Mas 153 = 32 × 17 e, portanto,
153 possui 6 divisores positivos, sendo 5 deles maiores que 1.

Problema 19. (EUA) A soma dos n primeiros termos de uma P.A. é x e a soma dos n
seguintes é y. Calcular a razão.

Problema 20. A sequência 1, 2, 1, 2, 2, 1, 2, 2, 2, 1, 2, 2, 2, 2, 1, 2, ... consiste de 1s separados


por blocos de 2s, com n 2s no n-ésimo bloco. Determine a soma dos 1234 primeiros termos
dessa seqüência.

2006
Problema 21. Mostre que 20082007 é um termo da P.A. infinita (6, 13, 20, 27, ...).

Problema 22. (EUA) Os três primeiros termos de uma progressão aritmética são 2x −
3, 5x − 11 e 3x + 1, respectivamente. O n-ésimo termo da sequência é 2009. Quel é o valor
de n?

Problema 23. (EUA) Os quatro primeiros termos de uma progressão aritmética são p, 9, 3p−
q e 3p + q. Qual é o 2010o termo dessa sequência?

2 Progressão Geométrica
Semelhante ao que escrevemos para P.A., por definição, uma P.G. é uma sequência em
que cada novo termo, a partir do segundo, é o produto do termo anterior por uma cons-
tante. Daı́, se (a, b, c) é uma P.G., então b2 = ac.

Sendo q o valor da razão constante, temos a seguinte lei de formação para os termos de
uma P.G. {an }

an = an−1 · q.
Mas veja que essa também é uma fórmula implı́cita, recorrente, que necessita de valores
anteriores para se achar o valor de um determinado termo. Multiplicando telescopicamente
várias dessas equações

5
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 4 - Prof. Marcelo Mendes

an = an−1 · q
an−1 = an−2 · q
:
a3 = a2 · q
a2 = a1 · q
chegamos a
an = a1 · q n−1 ,
que é a fórmula clássica para o termo geral de uma P.G.

A fórmula da soma dos n primeiros termos é

qn − 1
S n = a1 · ,
q−1
se q 6= 1 e Sn = a1 · n, se q = 1, e a fórmula do produto dos n primeiros termos pode ser
apresentada de 2 maneiras
n(n−1)
Pn = an1 · q 2

ou

Pn2 = (a1 · an )n .

Problema 24. (EUA) Suponha que x, y, z estejam em P.G. de razão r e x 6= y. Se x, 2y, 3z


estão em P.A., determine o valor de r.

Solução. Temos y = x · r e z = x · r 2 pela P.G. Pela P.A., segue que 4y = x + 3z. Logo,
4xq = x + 3xq 2 . Se x = 0, então y = 0 = x, o que não pode ocorrer. Daı́, 3q 2 − 4q + 1 = 0,
cujas soluções são q = 1 e q = 13 . Como q = 1 implica x = y, concluı́mos que q = 31 .

Problema 25. Se (a, b, c) formam, nesta ordem, uma P.A. e uma P.G. simultaneamente,
mostre que a = b = c.
 2
a+c a+c
Solução. Por ser P.A., temos b = (*) e, por ser P.G., b2 = ac. Logo, = ac,
2 2
ou seja, (a − c)2 = 0. Assim, a = c e, por (*), a = b = c.

Problema 26. (OCM) Determine a soma dos n primeiros termos da sequência:


 
1, (1 + 2), 1 + 2 + 22 , 1 + 2 + 22 + 23 , ..., 1 + 2 + 22 + 23 + ... + 2k−1 .
 

6
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 4 - Prof. Marcelo Mendes

Problema 27. 6. Mostre que não existe P.G. de três termos distintos tal que, ao somarmos
um mesmo número real não-nulo a todos os seus termos, a nova sequência seja também
uma P.G.

Problema 28. (EUA) Numa P.G. de 2n termos, a soma dos termos de ordem par é P e a
soma dos termos de ordem ı́mpar é I. Calcule o 1o termo e a razão.

Solução. De a2 + ... + a2n = P , segue que q · (a1 + ... + a2n−1 ) = P ou q · I = P . Logo,


n
P q2 − 1 q 2n+1 − q (P − I)I 2n
q = . Além disso, P = a2 · = a1 · . Logo, a1 = 2n .
I q−1 q−1 P − I 2n

Problema 29. Prove que, quando os lados de um triângulo estão em P.G., o mesmo ocorre
para as alturas.

a a 2 + b2
Problema 30. Sejam a, b, c números reais não-nulos, com a 6= c, tais que = 2 .
c c + b2
Prove que a, b e c formam uma P.G.

Problema 31. (EUA) O 5o e o 8o termos de uma progressão geométrica de números reais


são 7! e 8!, respectivamente. Qual é o 1o termo?

2 Recorrências Lineares de Ordem 2 - Parte I


Por fim, vamos estudar apenas as recorrências em que a equação caracterı́stica possui
raiz real dupla. Mas o que é uma equação caracterı́stica? Vejamos.

Considere a recorrência linear de ordem 2 (isto é, só depende dos 2 termos imediata-
mente anteriores)

an = pan−1 + qan−2 .
A equação caracterı́stica dessa recorrência é a equação quadrática formada repetindo
os mesmos coeficientes da recorrência, ou seja,

x2 = px + q ⇔ x2 − px − q = 0.
Mas como surge essa equação? A resposta será dada no texto da aula seguinte. Por
enquanto, acredite.

Como exemplo, considere uma recorrência definida por a1 = 1, a2 = 3 e, para n ≥ 3,


an = 2an−1 − an−2 . A equação caracterı́stica associada é x2 − 2x + 1 = 0, que possui duas
raı́zes iguais a 1. Entrementes, uma olhadinha mais cuidadosa mostra que a recorrência
em questão é de uma P.A. pois

7
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 4 - Prof. Marcelo Mendes

an = 2an−1 − an−2 ⇔ an − an−1 = an−1 − an−2 .


Portanto, acabamos de ver que uma P.A. está associada a uma equação caracterı́stica
com raiz dupla 1.

Agora, vejamos outro exemplo, uma recorrência em que a1 = 6, a2 = 27 e, para n ≥ 3,


an = 6an−1 − 9an−2 (*). A equação caracterı́stica associada é x2 − 6x + 9 = 0, cujas
raı́zes são iguais a 3. A saı́da agora é criar uma nova sequência {bn } dada por an = 3n bn .
Substituindo em (*), chegamos a bn = 2bn−1 − bn−2 , o que mostra que {bn } é uma P.A.!
Assim, sendo bn = A + Bn (o termo geral de uma P.A. é uma função polinomial do 1o grau
em função de n ou uma função constante no caso em que a P.A. é constante), obtemos

an = 3n (A + Bn).
Para acharmos A e B, fazemos n assumir os valores 1 e 2:

6 = a1 = 3(A + B)
27 = a2 = 9(A + 2B)
cujas soluções são A = B = 1 e, portanto,

an = 3n (n + 1).

Problema 32. Resolva a recorrência a1 = 4, a2 = 20 e, para n ≥ 3, an = 4an−1 − 4an−2 .

Problema 33. Resolva a recorrência a1 = 8, a2 = 96 e, para n ≥ 3, an = 8an−1 − 16an−2 .

Problema 34. Considere a sequência (an ) dada por a1 = 1, a2 = 3 e an = 10an−1 − 25an−2 ,


para n > 2. Determine o valor de k, dado por an = kn bn tal que a sequência (bn ) seja uma
P.A.

Problema 35. (IME) Considere a sequência {vn }, n = 0, 1, 2, ... definida a partir de seus
dois primeiros termos v0 e v1 e pela fórmula geral vn = 6vn−1 −9vn−2 , para n ≥ 2. Define-se
uma nova sequência {un }, n = 0, 1, 2, ... pela fórmula vn = 3n un .
a) Calcule un − un−1 em função de u0 e u1 .
b) Calcule un e vn em função de n, v1 e v0 .
1
c) Identifique a natureza das sequências {vn } e {un } quando v1 = 1 e v0 = .
3

8
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 4 - Prof. Marcelo Mendes

Dicas

2. Use ai − aj = (i − j)r, sendo r a razão.

9. Veja o problema 8.
√ √ √
13. Suponha, sem perda de generalidade que 2, 3, 5 sejam o primeiro, o m-ésimo e
o n-ésimo termos, respectivamente. Use a fórmula do termo geral √ em √am e an , isole a
razão
√ em cada uma e iguale essas expressões. Depois, utilize que 2, 3 e, em geral,
k, em que k é um número natural não quadrado perfeito, são números irracionais.

14. O primeiro termo em comum é 13 e a razão dos termos em comum é mmc(4, 3) = 12,
já que 3 e 4 são as razões iniciais.

15. Use ai − aj = (i − j)r, sendo r a razão.

17. Veja a solução do problema 16 ou use a fórmula da soma (que dará mais trabalho).

19. Veja a sugestão do problema 17.

21. Os termos da P.A. em questão são da forma 7k + 6 ou 7k − 1. Assim, basta achar o


2006
resto de 20082007 na divisão por 7.

26. Calcule cada uma das somas parciais separadas por vı́rgulas no enunciado e, em
seguida, calcule a soma dos resultados. Nas duas etapas, use a fórmula da soma da
P.G.
bh
29. Use que a área de um triângulo é .
2

9
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 4 - Prof. Marcelo Mendes

Respostas

2. m + n = p + q

4. 18

5. 3503500

6. 1820

7. 387

9. a1 = 4 e r = 8

14. 20

15. a1 = q + p − 1, ap+q = 0

17. r = 1 e a1 = −20, 5
y−x
19.
n2
20. 2419

22. 502

23. 8041

26. 2n+1 − n − 2

31. 315

32. 2n (3n − 1)

33. 4n (4n − 2)

34. 5

35. a) u1 − u0 ; b) un = nv3 1 + (1 − n)v0 e vn = 3n−1 nv1 + 3n (1 − n)v0 ; c) un = 13 , sequência


constante e vn = 3n−1 , progressão geométrica

10
Polos Olímpicos de Treinamento
Curso de Álgebra - Nível 2 Aula 5
Prof. Marcelo Mendes

Recorrências - Parte II

Na aula 3, falamos de uma sequência famosa, a Sequência de Fibonacci, cuja definição é


a seguinte: F1 = F2 = 1 e, para n ≥ 3, Fn = Fn−1 + Fn−2 . Essa fórmula é uma recorrência
linear de ordem 2. Um de nossos objetivos neste 5o texto é mostrar que a fórmula explı́cita
para seus termos é
√ !n √ !n
1 1+ 5 1 1− 5
Fn = √ −√ .
5 2 5 2

Surpreendente, não é mesmo? Imaginar que, substituindo n por 1, 2, 3, √ 4, 5, 6, ... na


fórmula acima, acharemos exatamente os termos 1, 1, 2, 3, 5, 8, ..., e nenhum 5 sobra, é
realmente muito belo.

Em geral, nesta aula, trataremos equações de recorrência lineares que dependem so-
mente dos dois termos anteriores. Inicialmente, vamos estudar o caso em que as raı́zes da
equação caracterı́stica (que definiremos no texto) são distintas.

1 Um Exemplo para Organizar as Ideias


Vamos resolver a recorrência a1 = 1, a2 = 3 e, para n ≥ 3,

an = 3an−1 − 2an−2 .
Podemos escrever an − an−1 = 2 (an−1 − an−2 ) e, em seguida, multiplicar telescopica-
mente várias delas

an − an−1 = 2 (an−1 − an−2 )


an−1 − an−2 = 2 (an−2 − an−3 )
:
a3 − a2 = 2 (a2 − a1 )
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 5 - Prof. Marcelo Mendes

obtendo an − an−1 = 2n−2 (a2 − a1 ) = 2n−1 .

Agora, somamos telescopicamente várias dessa última equação

an − an−1 = 2n−1
an−1 − an−2 = 2n−2
:
a2 − a1 = 2
e chegamos a an − a1 = 2 + ... + 2n−2 + 2n−1 , ou seja, an = 2n − 1.

Observe que, na primeira passagem, para transformar an = 3an−1 − 2an−2 em an −


an−1 = 2 (an−1 − an−2 ), ’pedimos emprestado’ an−1 para o membro esquerdo. Essa operação
gerou proporção entre os coeficientes dos termos dos dois membros (antes e depois da igual-
dade), permitiu colocar o fator de proporção 2 em evidência e a diferença que surgiu entre
parênteses no membro direito ficou com o mesmo padrão da diferença no membro esquerdo,
mas com ı́ndices reduzidos. Essa será nossa ideia para encontrar o termo geral da

2 Sequência de Fibonacci
Como já definimos anteriormente, seus termos são dados por F1 = F2 = 1 e, para
n ≥ 3, Fn = Fn−1 + Fn−2 . Na verdade, os cálculos ficam mais interessantes escrevendo
Fn+1 = Fn +Fn−1 . Seria difı́cil ’pedir emprestado’ uma quantidade inteira desta vez pois há
somente Fn no membro direito. Assim, vamos chamar de λ a quantidade que será passada
para o membro esquerdo, ou seja,

Fn+1 − λFn = (1 − λ)Fn + Fn−1 .


Para repetirmos a ideia bem sucedida do primeiro exemplo, o valor de λ deve cumprir
a relação de proporção

1 1−λ
= ,
−λ 1
ou seja,

λ2 − λ − 1 = 0,
a qual chamaremos de equação caracterı́stica da sequência de Fibonacci. Observe desde
já que os coeficientes dessa equação são os mesmos da recorrência que define a sequência.
Sendo λ1 e λ2 as raı́zes, aqui será mais relevante saber que λ1 + λ2 = 1 e λ1 · λ2 = −1 (mas
veja que ambas são reais e distintas) do que escrever seus valores pela fórmula de Baskara.

Agora, substituindo λ por λ1 , obtemos

Fn+1 − λ1 Fn = (1 − λ1 )Fn + Fn−1 ,

2
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 5 - Prof. Marcelo Mendes

ou seja,
Fn+1 − λ1 Fn = λ2 (Fn − λ1 Fn−1 ) .
Assim, deixamos a equação pronta para escrevê-la várias vezes e fazer o produto te-
lescópico

Fn+1 − λ1 Fn = λ2 (Fn − λ1 Fn−1 )


Fn − λ1 Fn−1 = λ2 (Fn−1 − λ1 Fn−2 )
:
F3 − λ1 F2 = λ2 (F2 − λ1 F1 ) ,
cujo resultado será

Fn+1 − λ1 Fn = λ2n−1 (F2 − λ1 F1 ) = λ2n−1 (1 − λ1 ) = λn2 .


Analogamente, substituindo λ por λ2 , temos

Fn+1 − λ2 Fn = λn1 .
A diferença entre esses 2 últimos resultados gera

(λ1 − λ2 ) Fn = λn1 − λn2


e, portanto,

λn1 − λn2
Fn =
λ1 − λ2
lembrando que λ1 6= λ2 . Substituindo os valores de λ1 e λ2 , chegamos ao resultado desejado
√ !n √ !n
1 1+ 5 1 1− 5
Fn = √ −√ .
5 2 5 2

Mas há um pequeno problema. Esse método é bastante trabalhoso. A boa notı́cia é que
podemos deixá-lo como uma quase demonstração e realizar, na prática, os seguintes passos:

1o passo: Escreva a equação caracterı́stica.

Basta copiar os mesmos coeficientes da equação de recorrência. Em seguida, calcule as


raı́zes dessa equação.

2o passo: Escreva o termo geral da recorrência.

O termo geral é dado por Fn = Aλn1 + Bλn1 (essa fórmula pode ser encontrada refazendo
os cálculos para a recorrência mais geralmente, ou seja, com a equação xn = axn−1 +bxn−2 ).

3
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As constantes A e B são dadas pelos valores dos termos iniciais. É interessante, para re-
duzir as contas, calcular o termo de ordem ’0’, que, no caso da sequência de Fibonacci, é
F0 = 0.

Vejamos como seria, então, a resolução na prática para encontrar o termo geral da
sequência de Fibonacci.

Passo 1. Equação caracterı́stica.


√ √
1+ 5 1− 5
De Fn −Fn−1 −Fn−2 = 0, obtemos λ2 −λ−1 = 0, cujas raı́zes são λ1 = 2 e λ2 = 2 .

Passo 2. Termos geral.

Fn = Aλn1 + Bλn1 . Com os valores 0 e 1 para n, obtemos

0=A+B
1 = Aλ1 + Bλ2
cuja solução é A = −B = √1 .
5

Portanto,
√ !n √ !n
1 1+ 5 1 1− 5
Fn = √ −√ .
5 2 5 2

Problema 1. Um garoto tem n reais. Todo dia, ele realiza exatamente uma das seguintes
compras: um bolo que custa R$ 1, 00, um sorvete que custa R$ 2, 00 ou um pastel que
também custa R$ 2, 00. De quantas maneiras o menino pode gastar seu dinheiro?

Solução. Seja an o número de maneiras de ele gastar os n reais.

Assim, para gastar os últimos reais, ou ele gasta n − 1 reais primeiramente e compra
um bolo no final, ou ele gasta n − 2 reais inicialmente e, em seguida, compra um sorvete
ou um pastel. Portanto, podemos escrever

an = an−1 + 2an−2 ,
com a1 = 1 (só dá pra comprar 1 bolo) e a2 = 3 (comprando 2 bolos ou 1 sorvete ou 1
pastel).

Agora, vamos resolver.

i) Equação caracterı́stica: λ2 − λ − 2 = 0, cujas raı́zes são 2 e −1.

4
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ii) Termos geral: an = A · 2n + B · (−1)n . Podemos calcular a0 , que não faz sentido para
o gasto do dinheiro, mas existe na sequência associada: a2 = a1 + 2a0 ⇒ a0 = 1. Agora,
para n = 0 e n = 1

A+B =1
2A − B = 1,
2
cuja solução é A = 3 e B = 13 . Assim

2n+1 + (−1)n
an = .
3
Problema 2. Determine o termo geral da sequência definida pela recorrência a1 = 1, a2 = 4
e an = 4an−1 − 3an−1 para n ≥ 3.

Problema 3. Determine o termo


√ geral da sequência definida recorrentemente por a0 = 0,
a1 = 3 e, para n ≥ 3, an = 5an−1 + an−1 .

Problema 4. Considere um retângulo 1 × n, que deve ser preenchido por dois tipos de
retângulos menores 1 × 1 e 1 × 2. De quantas maneiras se pode fazer isso?

Problema 5. (OPM) Uma escada tem n degraus. Para subi-la, em cada passo, pode-se
subir um ou dois degraus de cada vez. De quantos modos diferentes pode-se subir a escada?

Problema 6. Uma sequência de números ak é definida por a0 = 0 e ak+1 = 3ak + 1, k ≥ 0.


Prove que a155 é divisı́vel por 11.

Solução. Inicialmente, veja que essa recorrência não depende dos dois termos anteriores.
A parcela 1 no membro da direita, na verdade, não é bem-vinda. Assim, de

ak+1 = 3ak + 1
ak = 3ak−1 + 1
3n − 1
obtemos ak+1 − 4ak + 3ak−1 = 0. O termo geral dessa recorrência é an = (a de-
2
monstração deixamos para o leitor).

3155 − 1
Logo, a155 = . Para finalizar, deixo como sugestão que 35 − 1 = 242 = 11 × 22.
2

21 3
Problema 7. Seja {an } uma sequência tal que a1 = e 2an − 3an−1 = n+1 , n ≥ 2.
16 2
Encontre o valor de a2 e a lei de recorrência de cada termo em função dos dois termos
imediatamente anteriores.

5
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 5 - Prof. Marcelo Mendes

3 Recorrências e Equações do 2o Grau


Como exemplo para organizar as ideias, vamos supor que α seja uma raiz da equação
x2 + x − 1 = 0. Assim

α2 = −α + 1.
Daı́,

α3 = −α2 + α = 2α − 1
α4 = 2α2 − α = −3α + 2
α5 = −3α2 + 2α = 5α − 3.
Será que existe um padrão entre os coeficientes que aparecem no lado direito de cada
potência de α? Sim, existe! Na próxima aula, que será sobre indução finita, estaremos
aptos a provar que

αn = (−1)n−1 Fn α + (−1)n Fn−1 ,


sendo {Fn } a sequência de Fibonacci.

Problema 8. Se α e β são as raı́zes da equação ax2 + bx + c = 0 e Sn = αn + β n , n ∈ N,


então mostre que aSn+1 + bSn + cSn−1 = 0.

Solução. Como α e β são as raı́zes de ax2 + bx + c = 0, então

aα2 + bα + c = 0
aβ 2 + bβ + c = 0.
Daı́, multiplicando por αn−1 e β n−1 , respectivamente, temos

aαn+1 + bαn + cαn−1 = 0


aβ n+1 + bβ n + cβ n−1 = 0.
Somando, obtemos

a αn+1 + β n+1 + b (αn + β n ) + c αn−1 + β n−1 = 0


 

ou seja,

aSn+1 + bSn + cSn−1 = 0.

Problema 9. Seja α a maior raiz de x2 + x − 1 = 0. Determine o valor de α5 − 5α.

6
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αn − β n
Problema 10. Sejam α e β as raı́zes de x2 + x − 1 = 0. Sendo an = , n = 1, 2, 3, ....
α−β
Determine os dois primeiros termos a1 e a2 dessa sequência e a lei de recorrência de cada
termo em função dos dois termos imediatamente anteriores.

7
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Dicas

2. Use a equação caracterı́stica e encontre o termo geral seguindo o exemplo e a questão


1.

3. Use a equação caracterı́stica e encontre o termo geral seguindo o exemplo e a questão


1.

4. Para finalizar, ou ele completa com um quadradinho 1 × 1 o retângulo 1 × (n − 1),


que pode ser preenchido de an−1 maneiras, ou ele completa com um retângulo 1 × 2
o retângulo 1 × (n − 2), que pode ser preenchido de an−2 maneiras.

5. Para finalizar, ou ele sobe um degrau a partir do degrau n − 1, que pode ser alcançado
de an−1 maneiras, ou ele sobe dois degraus a partir do degrau n − 2, que pode ser
alcançado de an−2 maneiras.
3
7. Multiplique a equação de recorrência por 2 e subtraia de 2an−1 − 3an−2 = n , que é
2
a equação dada substituindo n por n − 1.

10. Se a equação caracterı́stica é x2 + x − 1 = 0, então a equação de recorrência é


an = −an−1 + an−2 .

Respostas

3n − 1
2. an =
2
√ !n √ !n
5+3 5−3
3. an = −
2 2

4. Sendo an o número de maneiras, a1 = 1, a2 = 2, an = an−1 + an−2

5. Sendo an o número de maneiras, a1 = 1, a2 = 2, an = an−1 + an−2


69
7. a2 = 32 e 4an − 8an−1 + 3an−2

9. −3

10. a1 = 1 e a2 = −1; an = −an−1 + an−2

8
Polos Olímpicos de Treinamento
Curso de Álgebra - Nível 2 Aula 6
Prof. Marcelo Mendes

Indução - Parte I

O verbo induzir significa gerar. Nesta aula, começaremos a ver o assunto Indução Ma-
temática (ou Indução Finita ou Princı́pio da Indução Finita), que é um método de prova
envolvendo números inteiros que aproveita o trabalho feito na demonstração de casos an-
teriores para se provar o fato para um inteiro maior.

Como assim? Vejamos um exemplo.

1 Um Exemplo para Organizar as Ideias


Considere mais uma vez a sequência de Fibonacci definida por F1 = F2 = 1 e, para
n ≥ 3, Fn = Fn−1 +Fn−2 , ou seja, seus primeiros termos são 1, 1, 2, 3, 5, 8, 13, 21, 34, 55, 89, ...

Vamos mostrar a seguinte identidade

F1 + F2 + ... + Fn = Fn+2 − 1.
Começamos verificando para valores pequenos de n:

i. n = 1 : F1 = F3 − 1 ⇔ 1 = 2 − 1

ii. n = 2 : F1 + F2 = F4 − 1 ⇔ 1 + 1 = 3 − 1

iii. n = 3 : F1 + F2 + F3 = F5 − 1 ⇔ 1 + 1 + 2 = 5 − 1

Mas o que o método da indução procura fazer é realizar a prova a partir de casos an-
teriores. Vamos fazer isso com as identidades acima.

Começando com
F1 = F3 − 1,
somamos F2 a cada membro da equação e obtemos

F1 + F2 = F2 + F3 − 1 = F4 − 1.
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Observe que primeiro obtemos o lado esquerdo desejado e, só depois, organizamos o
lado direito. Prosseguindo, partimos de

F1 + F2 = F4 − 1,

somamos F3 a cada membro e chegamos a

F1 + F2 + F3 = F3 + F4 − 1 = F5 − 1,

ou seja, repetimos a mesma operação anterior. Isso pode ser feito de maneira geral, supondo
que já tenhamos chegado a

F1 + F2 + ... + Fk = Fk+2 − 1.

Em seguida, somamos Fk+1 a cada membro da equação e concluı́mos que

F1 + F2 + ... + Fk + Fk+1 = Fk+1 + Fk+2 − 1 = Fk+3 − 1.

Portanto, não precisamos fazer as operações uma por uma. Podemos descrever um
método que sirva para todas elas, desde que tenhamos um caso inicial para servir de ’ponta
pé inicial’. Esse método é o que chamamos de indução.

Observe que esse processo nos permite, inclusive, supor os resultado para outros mo-
mentos distintos do passo imediatamente anterior. Quando isso é necessário, costuma-se
chamar de indução forte.

Problema 1. Mostre que 2n > n2 , ∀n > 4.

Solução. Vejamos um caso inicial. Para n = 5, de fato, 25 > 52 . Se duplicamos ambos os


lados, obtemos 26 > 2 · 52 > 62 . Agora, vamos mostrar como essa passagem de um número
para o seguinte é geral.

Suponha que seja verdade para k > 4, ou seja, 2k > k2 . Daı́, duplicamos ambos os
lados

2k+1 > 2k2 ,


e ficará faltando apenas mostrar que

2k2 ≥ (k + 1)2
o que é equivalente a (k − 1)2 ≥ 2, o que é certamente verdade.

Problema 2. Prove que 3n ≥ n3 para todo n inteiro positivo.

2
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 6 - Prof. Marcelo Mendes

Problema 3. Prove a desigualdade de Bernoulli: para todo número real x > −1 e todo
número natural n, ocorre

(1 + x)n ≥ 1 + nx.
Solução. Nesse problema, temos duas letras (x e n). Como indução é um método para
números inteiros, a variação só poderá ser do valor de n.

No caso inicial, quando n = 1, temos (1 + x)1 ≥ 1 + x · 1, que é verdade.

Em seguida, suponha que a desigualdade seja verdadeira para n = k, isto é, (1 + x)k ≥
1 + kx. Depois, multiplicamos cada lado por 1 + x (que é positivo pois x > −1) e chegamos
a

(1 + x)k+1 ≥ (1 + kx)(1 + x).


Agora, veja que (1 + kx)(1 + x) = 1 + (k + 1)x + kx2 ≥ 1 + (k + 1)x pois kx2 ≥ 0.
Portanto,

(1 + x)k+1 ≥ 1 + (k + 1)x.
Problema 4. Se x e y são números reais quaisquer, então |x + y| ≤ |x| + |y| (desigualdade
triangular). Usando esse fato, prove que se x1 , x2 , ..., xn são números reais quaisquer, então

|x1 + x2 + ... + xn | ≤ |x1 | + |x2 | + ... + |xn |.


Problema 5. Prove que uma soma arbitrária de n ≥ 8 centavos pode ser paga com moedas
de 3 e 5 centavos (tendo essas moedas em quantidade suficiente).

Solução. Como 8 = 3+ 5, então a operação é possı́vel para 8. Suponha que m ≥ 8 centavos


possam ser pagos. Então, será necessário provar que m + 1 centavos podem ser pagos dessa
maneira.
Se a soma de m centavos foi paga com o uso de moedas de 5 centavos, então substitua
uma moeda de 5 centavos por duas de 3 centavos e a quantia final será m + 1 centavos.
Caso contrário, a soma de m centavos foi paga somente com moedas de 3 centavos e,
como m ≥ 8, há ao menos três moedas de 3 centavos. Troque então três moedas de 3 centa-
vos por duas de 5 centavos e novamente a quantia final de m+1 centavos desejada foi obtida.

Problema 6. Seja F1 = F2 = 1 e Fn+2 = Fn+1 + Fn , para n ≥ 1, a sequência de Fibonacci.


Prove que quaisquer dois termos consecutivos dessa sequência são sempre primos entre si,
ou seja, mdc(Fk , Fk+1 ) = 1, ∀k ∈ N.
Problema 7. Seja F1 = F2 = 1 e Fn = Fn−1 + Fn−2 , n ≥ 3, a sequência de Fibonacci.
Mostre que F3n é par.
Problema 8. Seja F1 = F2 = 1 e Fn = Fn−1 + Fn−2 , n ≥ 3, a sequência de Fibonacci.
Mostre que F5n é múltiplo de 5.

3
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 6 - Prof. Marcelo Mendes

Problema 9. SejaF1= F2 = 1 e Fn = Fn−1 + Fn−2 , n ≥ 3, a sequência de Fibonacci.


7 n
Mostre que Fn < .
4
Problema 10. A sequência (ai ) é definida por a1 = 0, a2 = 1, an+2 = 3an+1 −2an . Encontre
uma fórmula explı́cita para o n-ésimo termo dessa sequência.

Solução. Vamos calcular alguns termos iniciais na busca de algum padrão para a fórmula
explı́cita, aquela que depende apenas de n e não mais de outros termos.

a3 = 3a2 − 2a1 = 3 · 1 − 2 · 0 = 3,
a4 = 3a3 − 2a2 = 3 · 3 − 2 · 1 = 7,
a5 = 3a4 − 2a3 = 3 · 7 − 2 · 3 = 15,
a6 = 3a5 − 2a4 = 3 · 15 − 2 · 7 = 31.
O que os números 0, 1, 3, 7, 15, 31 têm de especial? Uma olhadinha cuidadosa nos faz
perceber que todos eles são potências de 2, menos 1. Mais especificamente

a3 = 3 = 22 − 1,
a4 = 7 = 23 − 1,
a5 = 15 = 24 − 1,
a6 = 31 = 25 − 1.
Portanto, nossa conjectura (sinônimo formal para ’chute’) será que an = 2n−1 − 1. So-
mente agora (após a conjectura feita) aplicaremos a ideia de indução, que só conseguirá
provar a fórmula caso ela seja verdadeira (caso fosse falsa, o processo de indução encontra-
ria um obstáculo intranspassável em algum momento).

Os casos iniciais já estão escritos e validam a conjectura. Em seguida, vamos supor
que tenhamos a fórmula válida para todo n ≤ k (indução forte). Em particular, estamos
supondo para k − 1 e k

ak−1 = 2k−2 − 1
ak = 2k−1 − 1.
Daı́,    
ak+1 = 3ak − 2ak−1 = 3 2k−1 − 1 − 2 2k−2 − 1

⇔ ak+1 = 2k − 1.
1
Problema 11. Sabe-se que a + é um inteiro. Prove que todos os números da forma
a
n 1
a + n , n = 2, 3, ..., também são inteiros.
a

4
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 6 - Prof. Marcelo Mendes

Problema 12. Sejam a e b números reais distintos. Demonstrar por indução a proposição

(a − b)| (an − bn ) , ∀n ∈ N.
Problema 13. A sequência a1 , a2 , ..., an , ... de números é tal que a1 = 3, a2 = 5 e an+1 =
3an − 2an−1 , para n > 2. Prove que an = 2n + 1, ∀n ∈ N.
Problema 14. Mostre, por indução, que 2 + 4 + ... + 2n = 2n+1 − 2, ∀n ∈ N.
Problema 15. Considere a sequência definida recorrentemente por an+1 = 3an + 4, ∀n ∈ N.
Supondo a0 = 0:
a) Calcule a1 , a2 , a3 , a4 .
b) Conjecture uma fórmula para an e prove-a por indução.

Problema 16. Considere a sequência definida por a1 = 0, a2 = 3, an = 5an−1 −4an−2 , n ≥ 3.


Determine a maior potência de 2 que divide a2012 + 1.

Problema 17. Considere a sequência {an } definida por an = 32n − 1, n ∈ N.

a) Para cada n ∈ N, mostre que an+1 = an + 8 · 32n .


b) Demonstre, por indução sobre n, que an é divisı́vel por 8, para todo n ∈ N.
Problema 18. Sendo n um número inteiro positivo qualquer, demonstrar que a expressão
32n+2 − 2n+1 é divisı́vel por 7.
Problema 19. Mostre que
1 1 1 1 1 1 1
1− + − ... + − = + + ... + ,
2 3 2n − 1 2n n+1 n+2 2n
∀n ∈ N.
Problema 20. Prove que

1 · 1 + 1 · 2 · 2 + 1 · 2 · 3 · 3 + ... + 1 · 2 · ... · (n − 1) · n · n = 1 · 2 · ... · n · (n + 1) − 1,

∀n ≥ 2 natural.
Problema 21. a) Verifique que a soma dos inversos de 2, 3 e 6 é 1.
b) Prove que ∀p natural, p ≥ 3, existem p naturais 2 a 2 distintos n1 , n2 , ..., np tais que
1 1 1
+ + ... + = 1.
n1 n2 np

Problema 22. Mostre que o número de diagonais de um polı́gono convexo de n lados é


n(n − 3)
dn = .
2

5
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 6 - Prof. Marcelo Mendes

Dicas

2. Veja a solução da questão 1.

6. Suponha que dois números de Fibonacci consecutivos possuam um fator primo em


comum e conclua que todos os números de Fibonacci teriam esse fator.
    
n 1 n−1 1 1 n−2 1
11. Use a identidade a + n = a + n−1 a+ − a + n−2 .
a a a a

12. Use a identidade (an − bn ) = an−1 − bn−1 (a + b) − ab an−2 − bn−2 .


 

16. Resolva a equação de recorrência.

18. Use os fatos 32n+2 − 2n+1 = 9n+1 − 2n+1 , 9 = 7 + 2 e (a + b)k = M a + bk , em que


M a representa ’um múltiplo de a’. Ou, então, chame an+1 = 9n+1 − 2n+1 e use que
an+1 − 2an = 7 · 9n , repetindo a ideia proposta no problema 17.

21. Para o item b, suponha que a igualdade seja verdadeira para k números, divida a
1
equação por 2 e some a ambos os lados da nova identidade.
2
22. Observe que as diagonais de um polı́gono A1 A2 ...An+1 são todas as diagonais de
A1 A2 ...An , além do lado A1 An e das diagonais que partem de An+1 .

Respostas

15. a) a1 = 4, a2 = 16, a3 = 52, a4 = 212. b) Conjectura: an = 2 · 3n − 2.

16. 4022.

6
Polos Olímpicos de Treinamento
Curso de Álgebra - Nível 2 Aula 7
Prof. Marcelo Mendes

Indução - Parte II

Vamos iniciar esta aula com a resolução de alguns problemas propostos na aula anterior.

1 Resolução de Problemas da Última Aula

Problema 1. a) Verifique que a soma dos inversos de 2, 3 e 6 é 1.


b) Prove que ∀p natural, p ≥ 3, existem p naturais 2 a 2 distintos n1 , n2 , ..., np tais que
1 1 1
+ + ... + = 1.
n1 n2 np
Solução. O primeiro item é imediato
1 1 1 3+2+1
+ + = = 1.
2 3 6 6
A partir dessa soma, seguindo a dica dada na aula passada, obtemos
1 1 1 1
+ + =
4 6 12 2
1 1 1 1
⇒+ + + =1
2 4 6 12
1
simplesmente dividindo por 2 e somando a cada lado em seguida.
2
Agora vamos repetir a argumentação para o passo indutivo.

Suponhamos que já tenhamos k números naturais 2 ≤ n1 < n2 < ... < nk tais que
1 1 1
+ + ... + = 1.
n1 n2 nk
Daı́
1 1 1 1
+ + ... + =
2n1 2n2 2nk 2
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 7 - Prof. Marcelo Mendes

1 1 1 1
+⇒ + + ... + = 1,
2 2n1 2n2 2nk
que é a soma dos inversos de k + 1 números naturais distintos pois 2 < 4 ≤ 2n1 < 2n2 <
... < 2nk .
1 1
Problema 2. Sabe-se que a+ é um inteiro. Prove que todos os números da forma an + n ,
a a
n = 2, 3, ..., também são inteiros.
Solução. Vejamos os casos iniciais para perceber como o padrão novamente é mantido para
o passo indutivo. Para n = 2,
  
2 1 1 1
a + 2 = a+ a+ −2
a a a
1 2
    
1 1
que é claramente inteiro. A multiplicação a + a+ no lugar de a + é para
a a a
preparar melhor para o passo indutivo. Para n = 3,
    
3 1 2 1 1 1
a + 3 = a + 2 a+ − a+
a a a a
que também é inteiro. Pronto, agora estamos bem preparados para o passo indutivo, basta
1
repetir o argumento para os casos pequenos. Suponha que an + n seja inteiro para todo
a
k 1 k−1 1
k ≤ n (indução forte). Em particular, a + k e a + k−1 são inteiros. Logo
a a
    
k+1 1 k 1 1 k−1 1
a + k+1 = a + k a+ − a + k−1
a a a a
também é inteiro.

Problema 3. Prove que

1 · 1 + 1 · 2 · 2 + 1 · 2 · 3 · 3 + ... + 1 · 2 · ... · (n − 1) · n · n = 1 · 2 · ... · n · (n + 1) − 1,

∀n ≥ 2 natural.
Solução. Observe que podemos reescrever a soma da seguinte forma

1! · 1 + 2! · 2 + 3! · 3 + ... + n! · n = (n + 1)! − 1,
sendo k! = 1 · 2 · ... · k o fatorial do número inteiro não-negativo k (0! = 1).

i) Para n = 1, 1! · 1 = 2! − 1.

ii) Suponha que a identidade seja verdadeira para n = k, ou seja,

1! · 1 + 2! · 2 + 3! · 3 + ... + k! · k = (k + 1)! − 1.

2
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 7 - Prof. Marcelo Mendes

iii) Agora vejamos para n = k + 1. Vamos somar (k + 1)! · (k + 1) a ambos os membros da


suposta identidade do item ii):

1! · 1 + 2! · 2 + 3! · 3 + ... + k! · k + (k + 1)! · (k + 1)
= (k + 1)! + (k + 1)! · (k + 1) − 1 = (k + 1)! · (k + 2) − 1 = (k + 2)! − 1.

2 Mais Problemas

Problema 4. (China) Há pelo menos quatro barras de chocolate em n(n ≥ 4) caixas.
Camila pode, por vez, escolher 2 caixas, pegar uma barra de cada uma dessas caixas e
colocá-las em uma terceira caixa. Determine se sempre é possı́vel por todas as barras em
uma mesma caixa.
Solução. Vejamos o caso inicial com 4 barras. As possibilidades iniciais de quantidades
nas caixas são

1, 1, 1, 1, 0, 0, ...
1, 1, 2, 0, 0, 0, ...
1, 3, 0, 0, 0, 0, ...
2, 2, 0, 0, 0, 0, ...
4, 0, 0, 0, 0, 0, ...
Se ocorrer o caso na 1a linha, então pegamos as barras nas caixas 3 e 4 e as passamos
para a 5a caixa. Assim, chegamos no caso da 2a linha (não faz diferença se o 2 aparece na
3a ou na 5a posição).

Se ocorrer o caso da 2a linha, só precisamos deslocar as barras das caixas 1 e 2 para a
3a caixa e o objetivo está feito.

Se ocorrer o caso da 3a linha, tomamos uma barra de cada caixa e as colocamos em


uma outra caixa, gerando a configuração da 4a linha.

Se ocorrer o caso da 4a linha, tomamos uma barra de cada caixa e as colocamos em


uma outra caixa, obtendo o caso da 2a linha, que já mostrado como se finaliza.

Finalmente, se ocorrer o caso da 5a linha, não há nada a fazer pois todas as barras já
estão na mesma caixa.

Agora, vamos supor que seja possı́vel deslocar k barras, dispostas de maneira aleatória
nas n caixas, para uma única caixa.

3
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 7 - Prof. Marcelo Mendes

Numa configuração com k +1 barras, separamos uma delas e realizamos o procedimento


indutivo com as demais k barras. Ficamos, assim, com

k, 1, 0, 0, 0, 0, ...
Podemos deslocar todas as barras para uma única caixa a partir dos seguintes movi-
mentos:

k, 1, 0, 0, ... → k − 1, 0, 2, 0, ...

k − 2, 2, 1, 0, ... → k − 3, 2, 0, 2, ...

k − 1, 1, 0, 1, ... → k + 1, 0, 0, 0, ...
e a indução foi finalizada.

Problema 5. Determine, com prova, se é possı́vel arranjar os números 1, 2, 3, ..., 1000 em


uma fila de tal forma que a média de qualquer par de números distintos não esteja localizada
entre esses dois números.
Solução. Vamos provar um resultado mais geral para os números 1, 2, 3, ..., 2n .

i) Vejamos alguns casos iniciais.


Se n = 1, os números são 1 e 2 e não há nada a fazer.
Se n = 2, podemos dispor os números na ordem 1, 3; 2, 4.
Para n = 3, dispomos os números na ordem 2, 6, 4, 8; 1, 5, 3, 7. Essa ordenação
foi obtida a partir do caso n = 2 separando os pares dos ı́mpares da seguinte forma:
duplicamos os números do caso n = 2 e obtemos 2, 6, 4, 8. Se o resultado era válido
para n = 2, então duplicando permanece valendo. Em seguida, subtraı́mos 1 de cada
um desses pares, obtendo 1, 5, 3, 7, que também possui a propriedade desejada. Além
disso, tomando um número par e um número ı́mpar, claramente a média não aparece
no conjunto.

ii) Suponha que seja possı́vel arranjar os números 1, 2, ..., 2k na forma

a1 , a2 , ..., a2k

com a propriedade desejada.

iii) Para 2k+1 , a ideia é a mesma mostrada para se passar de 4 para 8. Separamos os pares
e os ı́mpares de 1 a 2k+1 da seguinte forma

2a1 , 2a2 , ..., 2a2k ; 2a1 − 1, 2a2 − 1, ..., 2a2k − 1.

4
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 7 - Prof. Marcelo Mendes

Mostrado que o resultado é válido para potências de 2, temos que é verdadeiro, em


particular, para 1024. Após chegar à configuração válida para 1024, é só apagar os números
1001 até 1024.

Problema 6. Prove por indução que

n4
13 + 23 + ... + n3 > ,
4
∀n ∈ N.

Problema 7. Se A é um conjunto finito com n elementos, mostre que A possui 2n subcon-


juntos.

Problema 8. Prove que dentre quaisquer 2m + 1 inteiros distintos, cujos valores absolutos
não excedem 2m − 1, é possı́vel encontrar 3 deles cuja soma é igual a 0.
Solução. Provemos o resultado por indução. Para m = 1, nossos números serão {−1, 0, 1}
e sua soma é zero. Suponha que o resultado seja verdadeiro para m = k − 1, k ≥ 2.

Considere um conjunto arbitrário A formado por 2k + 1 números cujos valores absolu-


tos não excedem 2k − 1. Se dentre eles houver 2k − 1 números cujos valores absolutos não
excedem 2k − 3, o resultado é verdadeiro pela hipótese de indução.

Caso contrário, sem perda de generalidade, podemos considerar que A contém os


números 2k − 1, 2k − 2, −2k + 1(−2k + 1 está) ou 2k − 1, 2k − 2, −2k + 2(−2k + 1 não
está e os demais estão). Primeiro, considere os seguintes 2k − 2 pares de números, supondo
2k − 1 e −2k + 1 no conjunto:
(1, 2k − 2)
(2, 2k − 3)
(3, 2k − 4)
:
(k, k − 1)
e
(−1, −2k + 2)
(−2, −2k + 3)
:
(−k + 1, −k)
Se 0 está dentre os números escolhidos, então juntamente com 2k − 1 ou −2k + 1
terı́amos um tripla com soma zero. Senão, terı́amos 2k − 1 inteiros de A distribuı́dos dentre
os números desses 2k − 2 pares e dois deles estariam no mesmo par, que juntamente com
2k − 1 ou −2k + 1 formariam um tripla com soma zero.

5
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 7 - Prof. Marcelo Mendes

Agora, considere que −2k + 1 e os 2k − 4 pares

(1, 2k − 3)

(2, 2k − 4)
(3, 2k − 5)
:
(k − 2, k)
e
(−2, −2k + 3)
:
(−k + 1, −k)
Se 0 ou 1 estiver é trivial. Senão, já escolhemos 3 números (0, 1, −2k + 1). Assim
terı́amos que escolher ainda 2k − 3 números dentre os 2k − 4 pares, e terı́amos dois deles
no mesmo par.

Problema 9. Prove que a sequência

22 − 3, 23 − 3, ..., 2n − 3, ...
contém um número infinito de inteiros tais que cada dois deles sejam relativamente primos.

Solução. Provemos por indução.

Suponha que já tenhamos k números a1 = 2n1 − 3, a2 = 2n2 − 3, ..., ak = 2nk − 3, que
sejam primos entre si.

Construamos agora ak+1 relativamente primo com os k demais. Seja N = a1 a2 ...ak .


Pelo Princı́pio da Casa dos Pombos, dentre os N +1 números 20 , 21 , ..., 2N haverá dois deles,
digamos 2r e 2s (r > s), com o mesmo resto na divisão por N . Assim, 2r − 2s = 2s (2r−s − 1)
é divisı́vel por N , assim como 2r−s − 1, pois N é ı́mpar (já que é produto de primos). Por-
tanto, ak+1 = 2r−s − 3 é relativamente primo com N e, consequentemente, com cada um
dos a1 , a2 , ..., ak .

Problema 10. Três inteiros foram escritos em um quadro-negro. Então um deles foi apa-
gado e a soma dos outros dois, menos 1, foi escrito em seu lugar. Esse procedimento foi
repetido várias vezes até que os números 17, 1983, 1989 aparecessem eventualmente. É
possı́vel que os números iniciais fossem 2, 2, 2?

6
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 7 - Prof. Marcelo Mendes

Problema 11. Uma quantidade finita de cartões é colocada em duas torres, com mais
cartões na torre esquerda que na direita. Cada cartão tem um ou mais nomes distintos
escrito nele. Além disso, diferentes cartões podem compartilhar alguns nomes. Para cada
nome, definimos uma ação pelo movimento de todo cartão que tem esse mesmo nome es-
crito nele para a torre oposta. Prove que é sempre possı́vel finalizar com mais cartões na
torre da direita através de várias ações para diferentes nomes.

Problema 12. Sejam F1 = F2 = 1 e, para n ≥ 3, Fn = Fn−1 + Fn−2 os números de Fibo-


nacci. Prove o Teorema de Zeckendorff: todo número natural pode ser escrito de maneira
única como soma de números de Fibonacci com ı́ndices maiores que 1 e não consecutivos.

7
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 7 - Prof. Marcelo Mendes

Dicas

7. Use que, ao acrescentarmos um novo elemento a um conjunto já existente, os sub-


conjuntos do conjunto inicial permanecem e todos elementos, unidos com o novo
elemento, formam os novos subconjuntos.

10. Tente mostrar que há sempre 2 números pares em cada tripla.

11. Indução sobre a quantidade de nomes.

8
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 7 - Prof. Marcelo Mendes

Respostas

10. Sempre há a presença de no mı́nimo 2 números pares. Como no inı́cio temos 3
números pares, em seguida teremos 2 pares e um ı́mpar; e dois pares e um ı́mpar e
dois pares e um ı́mpar ... Pode-se provar por indução que em qualquer passo teremos
sempre 2 números pares e um ı́mpar. Mas a tripla (17, 1983, 1989) só tem números
ı́mpares e nunca poderá ser obtida de (2, 2, 2).

11. Vamos utilizar indução sobre a quantidade de nomes.


i. n = 1 é trivial.
ii. Sejam a1 , a2 , ..., an os n primeiros nomes e a, o nome n + 1.
iii. Para n + 1, há 2 casos, sendo aE e aD as quantidades de cartões com apenas o
nome a nas pilhas esquerdas e direita, respectivamente.

1o caso: aE ≤ aD .
Realize as operações com os nomes a1 , a2 , ..., an .

2o caso: aE > aD .
Realize a troca apenas com os cartões em que está escrito apenas o nome a e repita
as operações do 1o caso.

12. F2 = 1. Se Fk é o maior número de Fibonacci menor que ou igual a n, devemos ter


n − Fk < Fk−1 pois, caso contrário, n − Fk ≥ Fk−1 e, portanto, n ≥ Fk + Fk−1 = Fk+1 ,
absurdo. Assim, é só escrever n = Fk + (n − Fk ) e utilizar hipótese de indução para
n − Fk .

9
Polos Olímpicos de Treinamento
Curso de Álgebra - Nível 2 Aula 8
Prof. Marcelo Mendes

Desigualdades - Parte I

1 Fatos Elementares

i) Nenhum quadrado de número real é negativo.

ii) Desigualdade de Cauchy (Médias Aritmética e Geométrica)


Se a1 , a2 , ..., an são números reais positivos, então

a1 + a2 + ... + an √
≥ n a1 a2 ...an ,
n
com igualdade ocorrendo se, e somente se, a1 = a2 = ... = an .

Para mostrar essa última desigualdade, vamos utilizar um tipo diferente de indução
(que não serve para qualquer problema).

a1 + a2 √ √ √ 2
1. Se n = 2, então ≥ a1 a2 pois a1 − a2 ≥ 0.
2
2. Para n = 4, então utilizando o caso já mostrado para 2 números, temos

a1 +a2
+ a3 +a
r
a1 + a2 + a3 + a4 2 2
4
a1 + a2 a3 + a4
= ≥ ·
4 2 2 2
√ √ √
q
≥ a1 a2 · a3 a4 = 4 a1 a2 a3 a4 ,

quaisquer que sejam a1 , a2 , a3 , a4 reais positivos.


a1 + a2 + a3
3. Assim, podemos escolher a4 = , obter
3
a1 + a2 + a3 + a1 +a32 +a3
r
a1 + a2 + a3
≥ 4 a1 a2 a3
4 3
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 8 - Prof. Marcelo Mendes

 4
a1 + a2 + a3 a1 + a2 + a3
⇔ ≥ a1 a2 a3
3 3

a1 + a2 + a3 √
⇔ ≥ 3 a1 a2 a3 ,
3
e concluir que o resultado também é verdadeiro para n = 3.

A demonstração segue copiando as ideias acima. Já temos os casos iniciais. Em seguida,
supondo o resultado verdadeiro para k, obtemos o resultado para 2k e para k − 1 repetindo
os procedimentos realizados nos itens 2 e 3 acima. Assim, provamos a desigualdade para
qualquer quantidade natural maior que ou igual a 2 de números reais positivos.

2 Problemas

Problema 1. Determine o valor máximo da função f (x) = x(1 − x), sendo x ∈ (0; 1).

Solução. Essa é uma função quadrática. Poderı́amos encontrar o seu valor máximo através
da ordenada do vértice da parábola (desde que a abscissa do vértice esteja em (0; 1), o que,
de fato, é verdade).

Mas se resolvermos utilizando a Desigualdade de Cauchy, poderemos aplicar a ideia


para funções de grau maior que 2:

x + (1 − x) p
≥ x(1 − x)
2
1
⇒ x(1 − x) ≤ ,
4
com igualdade ocorrendo se, e somente se, x = 1−x, ou seja, x = 12 . Assim, o valor máximo
de f é 14 .

Observação. Existe uma diferença entre descobrir que f (x) ≤ 41 e concluir que 41 é seu
valor máximo. Por exemplo, podemos afirmar que sen x ≤ 3, porém o valor máximo de
sen x é 1, pois a igualdade em sen x ≤ 3 não ocorre.

Problema 2. Determine o valor máximo da função f (x) = x3 (1 − x), sendo x ∈ (0; 1).

Solução. Uma ideia possı́vel seria aplicar a Desigualdade de Cauchy com os números reais
positivos x3 e 1 − x:

x3 + (1 − x) p 3
≥ x (1 − x).
2

2
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 8 - Prof. Marcelo Mendes

Apesar de verdadeiro, esse fato não nos dá um valor (não poder ser variável) máximo
para f .

Outra tentativa seria com x, x, x, 1 − x, todos positivos:

x + x + x + (1 − x) p
≥ 4 x3 (1 − x),
4
ou seja,
 4
3 2x + 1
x (1 − x) ≤
4
e, novamente, não achamos um valor máximo. Todavia, chegamos bem perto. Basta
substituir 1 − x por 3(1 − x):

x + x + x + 3(1 − x) p
≥ 4 x3 3(1 − x),
4
e daı́
 4
3
x3 3(1 − x) ≤
4
27
⇔ x3 (1 − x) ≤ .
81
3 27
Como a igualdade ocorre com x = 3(1 − x) ⇔ x = , o valor máximo de f é .
4 81

Problema 3. Determine o valor máximo da função f (x) = x(1 − x)3 , sendo x ∈ (0; 1).

Problema 4. (Treinamento Cone Sul) Sejam a e b números reais positivos tais que a+b = 1.
4
Prove que ab2 ≤ .
27
Problema 5. Sejam A, B, C os vértices de um triângulo inscrito em um cı́rculo unitário (ou
seja, cujo raio mede 1) e seja P um ponto no perı́metro do triângulo. Mostre que
32
PA · PB · PC ≤ .
27
Problema 6. Dados números positivos arbitrários a, b, c, prove que ao menos uma das
seguintes desigualdades é falsa:
1 1 1
a(1 − b) > , b(1 − c) > , c(1 − a) > .
4 4 4

3
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 8 - Prof. Marcelo Mendes

Problema 7. (IMO) Sendo K, L, M pontos sobre os lados BC, CA, AB do ∆ABC, mostre
1
que a área de ao menos um dos triângulos AM L, BKM, CLK é menor que ou igual da
4
área do triângulo ABC.

Solução. Sendo k, l, m ∈ [0; 1], podemos escrever

BK = ka, KC = (1 − k)a
CL = lb, LA = (1 − l)b
AM = mc, M B = (1 − m)c.
Assim,
1
[AM L] = mc · (1 − l)b · sen∠A
2
⇒ [AM L] = m(1 − l) · [ABC].
Analogamente,

[BKM ] = k(1 − m) · [ABC],


[CLK] = l(1 − k) · [ABC].
1
Supondo que as três áreas em questão sejam maiores que da área de ABC, o resultado
4
segue pelo problema 6.

Problema 8. (Treinamento Cone Sul) Sejam ha , hb , hc as alturas do ∆ABC. Prove que


∆ABC é equilátero ⇔ ahb + bhc + cha é igual a 6 vezes a área do ∆ABC.

Problema 9. (Treinamento Cone Sul) Seja P um polı́gono convexo com 2012 lados e com
todos os ângulos internos iguais. Sejam l1 , l2 , ..., l2012 os comprimentos dos lados consecu-
tivos. Prove que se
l1 l2 l2011 l2012
+ + ... + + = 2012,
l2 l3 l2012 l1
então P é um polı́gono regular.

Problema 10. Mostre que, se x, y, z são números reais positivos, então


1 1 1
(1 + xy) + (1 + yz) + (1 + zx) ≥ 6.
x y z
Problema 11. Prove a desigualdade entre as médias geométrica e harmônica para 2 números
a e b reais positivos, ou seja,
√ 2
ab ≥ 1 .
a + 1b

4
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 8 - Prof. Marcelo Mendes

Problema 12. Prove a desigualdade entre as médias quadrática e aritmética para 2 números
reais positivos.

Solução. Devemos mostrar que


r
a 2 + b2 a+b
≥ ,
2 2
que é equivalente a (a − b)2 ≥ 0.

Problema 13. Prove que se a, b, c são as medidas dos lados de um triângulo e a2 + b2 = kc2 ,
1
então k > .
2
Problema 14. a) Prove que se a, b são inteiros positivos com a 6= −b, então
1 1 4
+ ≥ .
a b a+b

b) Em uma lousa, escrevemos n números. É permitido apagar qualquer par deles a e b,


a+b
escrevendo no lugar. Repetindo tal procedimento n − 1 vezes, obtemos o número
4
2012
k. Se os n números iniciais eram 2012, prove que k ≥ .
n
Problema 15. Seja x um número real e m, um natural. Prove que

x(x + 1)(x + 2)...(x + m − 1) 1 1 1


≥ x1+ 2 + 3 +...+ m .
m(m − 1)(m − 2)...1

5
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 8 - Prof. Marcelo Mendes

Dicas

3. Repita a ideia da solução do problema 2.


4. Repita a ideia da solução do problema 2.
5. Repita a ideia da solução do problema 2. Use também potência do ponto P e que,
supondo P sobre o lado BC, a corda contendo P A tem medida menor que ou igual
à medida 2 do diâmentro.
6. Suponha a possibilidade de ocorrerem as 3 desigualdades e multiplique-as.
8. Use a Desigualdade de Cauchy com ahb , bhc , cha .
l1 l2 l2011 l2012
9. Use a Desigualdade de Cauchy com , , ..., , .
l2 l3 l2012 l1
13. Use o problema 12 e a desigualdade triangular.
14. Compare a soma dos inversos dos números antes e depois de cada substituição de
números.
x+2 x+1+1
15. Escreva, por exemplo, = e aplique a Desigualdade de Cauchy. Faça
3 3
o mesmo para os demais fatores do numerador e do denominador aos pares.

Respostas

13. Pelo enunciado, pelo problema 12 e pela desigualdade triangular, temos


2
kc2 a 2 + b2

a+b  c 2
= ≥ >
2 2 2 2
1
⇒k> .
2
1 1 4
14. a) + ≥ ⇔ (a + b)2 ≥ 4ab ⇔ (a − b)2 ≥ 0.
a b a+b
b) Por a), segue que a soma dos inversos dos números envolvidos nunca aumenta.
Assim, comparando o inı́cio e o final dos procedimentos, temos

1 1 1
+ ... + ≥
2012 2012 k
1 1
⇔n· ≥
2012 k
2012
⇔k≥ .
n

6
Polos Olímpicos de Treinamento
Curso de Álgebra - Nível 2 Aula 9
Prof. Marcelo Mendes

Desigualdades - Parte II

1 A Desigualdade de Cauchy-Schwarz
Sejam a1 , a2 , ..., an , b1 , b2 , ..., bn números reais. Então:

a21 + a22 + ... + a2n b21 + b22 + ... + b2n ≥ (a1 b1 + a2 b2 + ... + an bn )2 .
 

Perceba o padrão que há na aplicação desta desigualdade: multiplicamos os termos de


mesma ordem de cada soma do lado esquerdo e, em seguida, extraı́mos a raiz quadrada;
o resultado é colocado na posição correspondente no somatório do lado direito, que será
elevado ao quadrado.

Vejamos agora alguns exemplos antes de apresentarmos a demonstração da desigual-


dade.

Exemplo 1 Prove a desigualdade entre as médias quadrática e aritmética para n números


reais positivos.
Solução. O caso particular para n = 2 dessa desigualdade apareceu na aula anterior e a
solução apresentada apenas utilizou o fato de um quadrado de número real ser não-negativo.
Vejamos agora a solução para uma quantidade qualquer.

Por Cauchy-Schwarz, temos

a21 + a22 + ... + a2n 12 + 12 + ... + 12 ≥ (a1 + a2 + ... + an )2


 

r
a21 + a22 + ... + a2n a1 + a2 + ... + an
⇔ ≥ ,
n n
como desejávamos (a expressão no lado esquerdo é a média quadrática dos n números
a1 , a2 , ..., an ).
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 9 - Prof. Marcelo Mendes

Exemplo 2 Sejam a, b, c números reais positivos. Prove que

a2 + b2 + c2 ≥ ab + bc + ca.
Solução. Por Cauchy-Schwarz:

a2 + b2 + c2 b2 + c2 + a2 ≥ (ab + bc + ca)2 .
 

Extraindo a raiz quadrada, temos o resultado.

Demonstração (da Desigualdade de Cauchy-Schwarz)


n
X
Considere a função f (x) = (ak x − bk )2 . Desenvolvendo, teremos uma função do 2o grau
k=1
em x:
n
X n
X n
X
f (x) = x2 a2k − 2x ak bk + b2k ,
k=1 k=1 k=1
cujo descriminante é dado por

n
!2 n
! n
!
X X X
∆=4 a k bk −4 a2k b2k .
k=1 k=1 k=1

Como f é uma soma de quadrados, f (x) ≥ 0, ∀x ∈ R. Daı́, ∆ ≤ 0 e segue o resultado.

Já a igualdade ocorre quando ∆ = 0. Nesse caso, f possui uma raiz (dupla) x0 . Isso
implica que
n
X
(ak x0 − bk )2 = 0.
k=1
Nessa soma, todos os números envolvidos são reais e, portanto, seus quadrados são
não-negativos. Assim, ak x0 − bk = 0, ∀k, o que indica que, para a igualdade, ak e bk são
proporcionais para todo k.

2 Problemas

Problema 1. Seja c o comprimento √da hipotenusa de um triângulo retângulo cujos catetos


medem a e b. Prove que a + b ≤ c 2.
Solução. Do primeiro exemplo, com n = 2, temos
2
a 2 + b2

a+b
≥ .
2 2
Daı́
c2 (a + b)2 √
≥ ⇔ a + b ≤ c 2.
2 4

2
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Problema 2. Sendo a, b, c números reais positivos, mostre que


 
1 1 1 9
2 + + ≥ .
a+b b+c c+a a+b+c

Problema 3. Sejam x1 , x2 , ..., xn números reais positivos e y1 , y2 , ..., yn uma permutação


dos xi , 1 ≤ i ≤ n. Prove a desigualdade

x21 x22 x2
+ + ... + n ≥ x1 + x2 + ... + xn .
y1 y2 yn
Solução. Pela desigualdade de Cauchy-Schwarz, segue
 2
x1 x22 x2n

+ + ... + (y1 + y2 + ... + yn ) ≥ (x1 + x2 + ... + xn )2 .
y1 y2 yn
O resultado segue do fato de x1 + x2 + ... + xn = y1 + y2 + ... + yn pois os yi são os xi
em alguma ordem.

Problema 4. (Baltic-Way) Prove que para quaisquer reais positivos x1 , x2 , ..., xn , y1 , y2 , ..., yn
ocorre
n
X 1 4n2
≥ n .
xi y i X 2
k=1 (xi + yi )
k=1

Solução. Por Cauchy-Schwarz, garantimos que

n n n
!2
X 1 X X xi + y i
(xi + yi )2 ≥ √ .
xi y i xi y i
k=1 k=1 k=1

Pela desigualdade entre as médias aritmética e geométrica, obtemos


xi + y i
√ ≥ 2.
xi y i
Assim,

n n n
!2
X 1 X X
(xi + yi )2 ≥ 2 = (2n)2 = 4n2 .
xi y i
k=1 k=1 k=1

3
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 9 - Prof. Marcelo Mendes

Problema 5. Se a, b, c são números positivos, prove que

a2 b + b2 c + c2 a a2 c + b2 a + c2 b ≥ 9a2 b2 c2 .
 

Obs: Resolva esse problema de duas maneiras, utilizando a desigualdade entre as médias
aritmética e geométrica e através da desigualdade de Cauchy-Schwarz.
n
X
Problema 6. Sejam a1 , a2 , ..., an , b1 , b2 , ..., bn números reais positivos tais que ak =
k=1
n n n
X X a2k 1X
bk . Mostre que ≥ ak .
ak + bk 2
k=1 k=1 k=1

Problema 7. Se a1 , a2 , ..., an , b1 , b2 , ..., bn são 2n números reais positivos, mostre que ou


a1 a2 an
+ + ... + ≥n
b1 b2 bn
ou

b1 b2 bn
+ + ... + ≥ n.
a1 a2 an

Problema 8. Sejam a, b, c os lados de um triângulo. Mostre que


a b c 3
+ + ≥ .
b+c c+a a+b 2
Solução. Somando 1 a cada fração do lado esquerdo, obtemos
a+b+c a+b+c a+b+c 9
+ + ≥ .
b+c c+a a+b 2
Para mostrar essa última desigualdade, vamos utilizar a desigualdade de Cauchy-Schwarz

  h
a+b+c a+b+c a+b+c i2
[(b + c) + (c + a) + (a + b)] + + ≥ 3 a+b+c
b+c c+a a+b
 
a+b+c a+b+c a+b+c
[2(a + b + c)] + + ≥ 9(a + b + c),
b+c c+a a+b
de onde segue o resultado.

bc ca ab
Problema 9. Se a > 0, b > 0, c > 0, então prove que + + ≥ a + b + c.
a b c

4
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 9 - Prof. Marcelo Mendes

a3 b3 c3
Problema 10. (Romênia) Prove que + + ≥ a + b + c, quaisquer que sejam a, b, c
bc ca ab
reais positivos.

Problema 11. Sejam a, b, c, d números reais positivos. Mostre que


1 1 4 16 64
+ + + ≥ .
a b c d a+b+c+d
Solução. Pela desigualdade de Cauchy-Schwarz, obtemos
 
1 1 4 16
(a + b + c + d) + + + ≥ (1 + 1 + 2 + 4)2 = 64,
a b c d
de onde segue o resultado.

5
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 9 - Prof. Marcelo Mendes

Dicas

2. Passe a + b + c para a esquerda e escreva 2(a + b + c) = (a + b) + (b + c) + (c + a).

5. Faça a primeira solução através da desigualdade entre as médias aritmética e geométrica


aplicada a cada soma em parênteses do lado esquerdo. A segunda pode ser ob-
tida através da desigualdade de Cauchy-Schwarz reescrevendo a2 c + b2 a + c2 b como
c2 b + a2 c + b2 a.
n n
X a2k X
6. Multiplique por (ak + bk ), aplique a desigualdade de Cauchy-Schwarz
ak + bk
k=1 k=1
X n n
X
e lembre-se de que (ak + bk ) = 2 ak .
k=1 k=1

a1 a2 an b1 b2 bn
7. Suponha + + ... + < n ou + + ... + < n e aplique a desigualdade
b1 b2 bn a1 a2 an
de Cauchy-Schwarz com as somas nos lados esquerdos dessas duas desigualdades.
Conclua, assim, um absurdo.
r 2
bc bc
9. Escreva = (repita o mesmo para as demais parcelas do lado esquerdo) e
a a
utilize o exemplo 2.

10. Repita a ideia do problema 9.

6
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 9 - Prof. Marcelo Mendes

Soluções

2. Por Cauchy-Schwarz
 
1 1 1
((a + b) + (b + c) + (c + a)) + + ≥ (1 + 1 + 1)2 = 9.
a+b b+c c+a

5. 1a Solução. Pela desigualdade entre as médias aritmética e geométrica, temos

a2 b + b2 c + c2 a √
3
≥ a2 b · b2 c · c2 a
3
⇔ a2 b + b2 c + c2 a ≥ 3abc.

Analogamente,
a2 c + b2 a + c2 b ≥ 3abc.

Multiplicando essas duas desigualdades, segue o resultado.

2a Solução. Por Cauchy-Schwarz, obtemos

a2 b + b2 c + c2 a c2 b + a2 c + b2 a ≥ (abc + abc + abc)2 = 9a2 b2 c2 .


 

6. Por Cauchy-Schwarz, obtemos


n n n
!2
X a2k X X
(ak + bk ) ≥ ak
ak + bk
k=1 k=1 k=1

n n n
!2
X a2k X X
⇔ ·2 ak ≥ ak
a k + bk
k=1 k=1 k=1

n n
X a2k 1X
⇔ ≥ ak .
ak + bk 2
k=1 k=1

a1 a2 an b1 b2 bn
7. Supondo + + ... + < n ou + + ... + < n. Pela desigualdade de
b1 b2 bn a1 a2 an
Cauchy-Schwarz e pela última hipótese, temos
  
2 a1 a2 an b1 b2 bn
n ≤ + + ... + + + ... + < n2 ,
b1 b2 bn a1 a2 an

7
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 9 - Prof. Marcelo Mendes

um absurdo. Logo, ao menos uma das desigualdades


a1 a2 an
+ + ... + ≥ n,
b1 b2 bn
b1 b2 bn
+ + ... + ≥n
a1 a2 an
é verdadeira.

9. Utilizando o resultado do exemplo 2, obtemos


r 2 r 2 r 2 r r r r r r
bc ca ab bc ca ca ab ab bc
+ + ≥ + + = c + a + b.
a b c a b b c c a

8
Polos Olímpicos de Treinamento
Curso de Álgebra - Nível 2 Aula 10
Prof. Marcelo Mendes

Problemas Envolvendo Máximos e Mı́nimos

Vamos iniciar esta aula aplicando desigualdades aprendidas nas últimas duas aulas fo-
cando mais em exemplos envolvendo máximos e mı́nimos de funções.

Problema 1. Determine o valor máximo da função f (x) = x(1 − x)3 , sendo x ∈ (0; 1).
Solução. A ideia da solução desse problema já foi aprendida na aula 8. Vamos rever
como resolvê-lo e, mais uma vez, chamar a atenção para a diferença existente entre obter
f (x) ≤ k e garantir que k é o valor máximo de f .

Através da desigualdade entre as médias aritmética e geométrica, já que x e 1 − x são


positivos, obtemos

3x + (1 − x) + (1 − x) + (1 − x) p
≥ 4 3x(1 − x)3
4
 4
3
⇔ ≥ 3x(1 − x)3
4
27
⇔ x(1 − x)3 ≤ .
256
27
Nesse momento, a expectativa óbvia é de que deva, de fato, ser o valor máximo de
256
f , mas ainda precisamos garantir esse fato.

E como conseguiremos essa garantia? Da mesma forma que procedemos na aula 8.


27
Mostrar que o máximo de f é é equivalente a achar um valor de x ∈ (0; 1) que dê a
256
igualdade na desigualdade, e isso ocorre (graças à condição de igualdade em MA ≥ MG)
1
quando 3x = 1 − x ⇔ x = , que é um valor no intervalo (0; 1).
4
27
Portanto, realmente é o valor máximo de f .
256
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 10 - Prof. Marcelo Mendes

Problema 2. Determine o valor máximo da função f (x) = x4 (2 − x), sendo x ∈ (0; 2).

Problema 3. Seja a um número real positivo dado. Determine o valor de x ∈ [0; a] que
maximiza o valor de f (x) = x5 (a − x).
2
Problema 4. Seja x > 0, x ∈ R. Determine o valor mı́nimo de x2 + .
x
Problema 5. (EUA) Considere a equação 3x2 − 4x + k = 0 com raı́zes reais. Determine o
valor de k para o qual o produto das raı́zes da equação seja máximo.

Problema 6. Se x, y, z são reais e satisfazem x + y + z = 5 e yz + zx + xy = 3, prove que


13
−1 ≤ z ≤ e determine o valor mı́nimo de z.
3
Solução. De (x + y + z)2 = x2 + y 2 + z 2 + 2(xy + yz + zx), obtemos x2 + y 2 + z 2 = 19.
Assim, por Caychy-Schwarz, chegamos a

(x2 + y 2 )(1 + 1) ≥ (x + y)2 ⇔ 19 − z 2 · 2 ≥ (5 − z)2




⇔ 38 − 2z 2 ≥ 25 − 10z + z 2
⇔ 3z 2 − 10z − 13 ≤ 0,
13
cuja solução é −1 ≤ z ≤ . O valor mı́nimo de z, de fato, é -1, quando x = y = 3.
3
Problema 7. Seja k uma constante real positiva. Dentre todos os triângulos tendo base a
e altura relativa a essa base h, sendo a + h = k, determine aquele(s) cuja área é máxima.

Problema 8. Sejam A, B, C os vértices de um triângulo inscrito em um cı́rculo unitário (ou


seja, cujo raio mede 1) e seja P um ponto no perı́metro do triângulo. Mostre que
32
PA · PB · PC ≤ .
27
Solução. Nesse problema, não foi pedido o valor máximo de P A · P B · P C. Mesmo assim,
32
vamos mostrar que P A·P B ·P C ≤ e, em seguida, examinar se a igualdade pode ocorrer,
27
32
ou seja, se o valor máximo de P A · P B · P C é .
27

2
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 10 - Prof. Marcelo Mendes

B P C

Pela potência do ponto P em relação a (ABC) (ABC entre parênteses representa o a


circunferência que passa pelos pontos A, B e C), temos

P B · P C = P A · P X.
Daı́, utilizando a desigualdade entre as médias aritmética e geométrica, obtemos
 3
2 P A + P A + 2P X
2P A · P B · P C = P A · 2P X ≤
3

2AX 3
   3
4
= ≤
3 3
32
⇒ PA · PB · PC ≤ ,
27
utilizando que AX é uma corda e, portanto, tem medida menor que ou igual à medida do
diâmetro, que é 2.

Já conseguimos chegar ao resultado pedido no enunciado. Agora, vamos verificar se é


32
possı́vel obtermos o valor máximo .
27
Essa igualdade ocorre se, e somente se, P está sobre o diâmetro que passa por A e
4
P A = 2P X = , que depende do triângulo ABC inicial. Portanto, nem sempre a igual-
3
dade ocorre.

3
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 10 - Prof. Marcelo Mendes

Problema 9. Sejam a e b números reais positivos. Ache o valor máximo da função real e
de variável real
x
y= 2 .
ax + b
Solução. Podemos escrever a equação acima da seguinte forma

ayx2 − x + by = 0,
cujo discriminante é

∆ = 1 − 4aby.
1
Como x ∈ R, temos ∆ ≥ 0, ou seja, y ≤ .
4ab
1
Assim, é o nosso candidato a valor máximo da função. Para esse valor ser atingido,
4ab
devemos ter ∆ = 0 e, portanto
1
x= = 2b.
2ay
Pense também em uma solução começando com MA ≥ MG entre ax2 e b.

Problema 10. Seja P um ponto no interior de um triângulo A1 A2 A3 e P1 , P2 , P3 , os pés


das perpendiculares de P a A2 A3 , A3 A1 , A1 A2 . Localize o ponto P tal que

A1 A2 A2 A3 A3 A1
+ + .
P P3 P P1 P P2
seja mı́nimo.
Solução. Vamos pensar um pouquinho. As frações envolvidas nessa soma relacionam ba-
ses e alturas (pense sempre que distâncias lembram alturas e que alturas lembram área)
dos triângulos A2 P A3 , A3 P A1 , A1 P A2 e, portanto, nos fazem pensar nas áreas desses
triângulos, e a área do triângulo A1 A2 A3 será a soma dessas áreas.

Pela desigualdade de Cauchy-Schwarz, temos


 
A1 A2 A2 A3 A3 A1
+ + (A1 A2 · P P3 + A2 A3 · P P1 + A3 A1 · P P2 )
P P3 P P1 P P2

≥ (A1 A2 + A2 A3 + A3 A1 )2 .
Como
A1 A2 · P P3 + A2 A3 · P P1 + A3 A1 · P P2 = 2S
e
A1 A2 + A2 A3 + A3 A1 = p,
sendo S a área e p o perı́metro do triângulo A1 A2 A3 , chegamos a

4
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 10 - Prof. Marcelo Mendes

A1 A2 A2 A3 A3 A1 p2
+ + ≥ .
P P3 P P1 P P2 2S
A1 A2 A2 A3 A3 A1 p2
Portanto, o candidato a valor mı́nimo de + + é .
P P3 P P1 P P2 2S
Esse valor mı́nimo será atingido se a igualdade ocorrer na desigualdade. A igualdade
na desigualdade de Cauchy-Schwarz ocorre com a proporção entre as respectivas parcelas
das somas envolvidas, ou seja,

A1 A2 A2 A3 A3 A1
P P3 P P1 P P2
= =
A1 A2 · P P3 A2 A3 · P P1 A3 A1 · P P2

⇔ P P1 = P P2 = P P3 ,
de onde segue que o valor mı́nimo é atingido e é quando P é o incentro do triângulo A1 A2 A3 .

5
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 10 - Prof. Marcelo Mendes

Dicas

2. Repita as ideias da solução do problema 1.

3. Repita as ideias da solução do problema 1.

4. Repita as ideias da solução do problema 1.


4 k 4
5. Denote por x1 e x2 as raı́zes. Assim, x1 + x2 = e x1 x2 = . Escreva x2 = − x1
3 3 3
e repita as ideias da solução do problema 1.

7. Use h = k − a e repita as ideias da solução do problema 1.

6
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 10 - Prof. Marcelo Mendes

Soluções

2. Por MA ≥ MG, temos

x + x + x + x + 4(2 − x) p
≥ 5 4x4 (2 − x)
5
 5
4 1 8 49
⇒ x (2 − x) ≤ · = 5.
4 5 5

3. Por MA ≥ MG, temos

x + x + x + x + x + 5(a − x) p
≥ 6 5x5 (a − x)
6
 6
1 5a  a 6
⇒ x5 (a − x) ≤ · = 55 .
5 6 6

7. Por MA ≥ MG, temos

a + (k − a) p
≥ a(k − a)
2

a(k − a) k2
⇒ ≤ ,
2 8
k k
com igualdade se, e somente se, a = k −a, ou seja, a = . Nesse caso, h = também,
2 2
o que determina os triângulos com área máxima.

7
Polos Olímpicos de Treinamento
Curso de Álgebra - Nível 2 Aula 11
Prof. Marcelo Mendes

Funções Definidas Implicitamente - Parte I

Talvez a experiência de alguns de vocês diga que as soluções de uma equação devam
ser necessariamente números. Mas isso não é verdade. Em matemática, podemos ter, por
exemplo, matrizes ou funções como soluções para equações matriciais ou funcionais, res-
pectivamente.

Nesta aula, vamos aprender resolver algumas equações funcionais, que têm funções como
soluções e, por isso, dizemos que essas funções foram definidas implicitamente (implı́cito
significa escondido).

Problema 1. Determine todas as funções f : Z+ → Z+ tais que f (1) = c e

f (x + y) = f (x) + f (y), ∀x, y ∈ Z+ .

Solução. Nesse problema, a equação funcional é f (x + y) = f (x) + f (y). Precisamos


resolvê-la.

Observe que o problema nos permite utilizarmos quaisquer valores inteiros não-negativos
para x e y. Assim, vamos iniciar com x = y = 0:

f (0 + 0) = f (0) + f (0) ⇒ f (0) = 0.


Agora, façamos a escolha de deixar x variável e y = 1:

f (x + 1) = f (x) + f (1) = f (x) + c.


Acabamos de gerar uma equação de diferença, tipo explorado na aula de somas te-
lescópicas. Vamos escrever várias dessas equações, variando n ≥ 2:

f (n) = f (n − 1) + c
f (n − 1) = f (n − 2) + c
:
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 11 - Prof. Marcelo Mendes

f (2) = f (1) + c
e somá-las, obtendo

f (n) = cn.
Assim, a (única) solução é f (x) = cx, sendo c = f (1). (Poderı́amos, também, ter aplicado
a fórmula do termo geral da P.A.)

Problema 2. Seja f : R → R uma função tal que f (0) = 1 e, para quaisquer x, y ∈ R,

f (xy + 1) = f (x)f (y) − f (y) − x + 2.

Determine o valor de f(2012).

Problema 3. Seja f : R∗+ → R uma função satisfazendo a equação funcional

f (a) + f (b) = f (ab), ∀a, b ∈ R∗+ .

Mostre que:

a) f (1) = 0.

b) f (an ) = n · f (a), ∀a ∈ R∗+ , ∀n ∈ N.


 
1
c) f = −f (a), ∀a ∈ R∗+ .
a
Solução.

a) Com a = b = 1, obtemos f (1) + f (1) = f (1 · 1), ou seja, f (1) = 0.

b) Observe que a equação funcional dada nos dá permição para operar apenas com 2
números (a e b). Podemos mostrar, utilizando indução, que também será possı́vel operar
com qualquer quantidade finita (no mı́nimo 2) de números. Supondo ser possı́vel para
k números, ou seja, que

f (a1 ) + ... + f (ak ) = f (a1 · ... · ak ) ,

podemos garantir que

f (a1 ) + ... + f (ak ) + f (ak+1 ) = f (a1 · ... · ak ) + f (ak+1 ) = f (a1 · ... · ak · ak+1 ) .

Assim, podemos escrever

f (an ) = f (a ... · a}) = f (a) + ... + f (a) = n · f (a).


| · {z | {z }
n n

2
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 11 - Prof. Marcelo Mendes

     
1 1 1
c) f (a) + f =f a· = f (1) = 0, ou seja, f = −f (a).
a a a

Problema 4. Seja f : Z → Z uma função satisfazendo

f (n2 ) = f (n + m)f (n − m) + m2 , ∀m, n ∈ Z.

Determine o conjunto de todos os possı́veis valores de f (0).


Problema 5. Seja f uma função com duas propriedades:
i. f (x + y) = x + f (y), ∀x, y ∈ R;

ii. f (0) = 2.
Determine o valor de f (2012).
f (x)
Problema 6. (EUA) Seja f uma função satisfazendo f (xy) = para todos os números
y
reais positivos x e y. Se f (500) = 3, qual é o valor de f (600)?
1 + f (x)
Problema 7. Para todos os inteiros x, a função f satisfaz f (x+1) = . Se f (1) = 2,
1 − f (x)
calcule f (2012).

Solução. Com:
1+3
x = 1, obtemos f (2) = = −2;
1−3
1−2 1
x = 2, obtemos f (3) = =− ;
1+2 3
1
1− 3 1
x = 3, obtemos f (4) = 1 = ;
1+ 3
2
1
1+ 2
x = 4, obtemos f (5) = 1 = 3.
1− 2

Como o valor 3 apareceu novamente e a regra que calcula cada novo valor é sempre a
1 1
mesma, os valores vão sempre se repetir de 4 em 4 na sequência 3, −2, − , . Por 2012 ser
3 2
1
múltiplo de 4, segue que f (2012) = f (4) = .
2
Problema 8. Determine todas as funções f : R → R satisfazendo

f (x)f (y) − f (xy) = x + y, ∀x, y.

Solução. Atribuindo o valor 0 a x e a y, temos (f (0))2 − f (0) = 0. Assim, f (0) = 0 ou


f (0) = 1.

3
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 11 - Prof. Marcelo Mendes

Suponha f (0) = 0 e atribua 0 apenas à variável y. Daı́, f (x) · 0 − 0 = x, ∀x ∈ R,


absurdo. Portanto, f (0) = 1.

Fazendo y = 0, obtemos f (x)f (0) − f (0) = x + 0, ou seja, f (x) = x + 1, que é a única


solução. (Substitua essa solução na equação funcional para verificar a igualdade!)

Problema 9. Considere uma função f definida no conjunto dos números naturais tal que

f (n + 2) = 3 + f (n), ∀n ∈ N, f (0) = 10, f (1) = 5.


p
Qual o valor de f (81) − f (70)?

Problema 10. Seja f : Q∗+ → Q∗+ uma função tal que

f (x)
f (xf (y)) = , ∀x, y ∈ Q∗+ .
y
1
Mostre que f (f (x)) = , ∀x ∈ Q∗+ .
x
Solução. Temos

f (y) 1
y · f (xf (y)) = f (x) ⇒ f (f (x)) = f (y · f (xf (y))) = = .
xf (y) x

Problema 11. A função f é definida para todos os pares ordenados (x, y) de inteiros posi-
tivos e tem as seguintes propriedades:

i. f (x, x) = x,

ii. f (x, y) = f (y, x),

iii. (x + y)f (x, y) = yf (x, x + y).

Qual é o valor de f (22, 55)?

Solução. De iii, obtemos

55f (22, 33) = 33f (22, 55)


33f (22, 11) = 11f (22, 33)
22f (11, 11) = 11f (11, 22),
utilizando ii no lado direito da última equação. Multiplicando-as, obtemos:

55 · 33 · 22f (11, 11) = 33 · 11 · 11f (22, 55)


⇒ f (22, 55) = 110.

4
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 11 - Prof. Marcelo Mendes

Problema 12. A função f , definida sobre o conjunto de todos os pares ordenados de inteiros
positivos, satisfaz as seguintes propriedades:
i. f (x, x) = x;
ii. f (x, y) = f (y, x);
iii. (x + y)f (x, y) = yf (x, x + y).
Calcule f (14, 52).
Problema 13. Se
f (n + 1) = (−1)n+1 · n − 2f (n)
para os inteiros n ≥ 1 e f (1) = f (2013), determine valor da soma

f (1) + f (2) + f (3) + ... + f (2012).


Problema 14. Determine todas as funções f : Z+ → Z+ , injetoras, satisfazendo
f (m + f (n)) = f (f (m)) + f (n), ∀m, n ∈ Z+ .
Solução. Atribuindo o valor 0 às variáveis m e n, temos

f (f (0)) = f (f (0)) + f (0) ⇒ f (0) = 0.


Agora, atribuindo o valor 0 apenas à variável n, obtemos

f (m) = f (f (m)).
Como f é injetora, segue que f (m) = m, ∀m. (Se f é uma função injetora, então
f (x) = f (y) implica x = y.)
Problema 15. Considere a equação funcional
f (xy) = f (x) + f (y), ∀x, y ∈ Dom(f ).
Mostre que se 0 ∈ Dom(f ), então existe uma única solução para a equação dada.
Problema 16. Seja f : N → N uma função estritamente crescente (isto é, x < y ⇒ f (x) <
f (y)) tal que f (2) = 2 e f (mn) = f (m)f (n) para todo par de inteiros positivos m e n
primos entre si. Determine o valor de f (3).

Solução. Inicialmente, observe que o problema não permite escrever f (4) = f (2)f (2) = 4,
pois o máximo divisor comum entre 2 e 2 não é 1.
i. 2 e 5 são primos entre si: f (10) = f (2)f (5) = 2f (5).
ii. 2 e 9 são primos entre si: f (18) = f (2)f (9) = 2f (9).
iii. 3 e 5 são primos entre si: f (15) = f (3)f (5).
iv. f é estritamente crescente: f (9) < f (10), f (15) < f (18) e f (3) > f (2) = 2.
Logo, 4f (5) = 2f (10) > 2f (9) = f (18) > f (15) = f (3)f (5) e, portanto, f (3) < 4.
Assim, 2 < f (3) < 4, ou seja, f (3) = 3.

5
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 11 - Prof. Marcelo Mendes

Dicas

2. Calcule f (1). Depois faça y = 1.

4. Faça m = n = 0. Em seguida, faça m = n = 2.

5. Faça x = 1, y = 0. Depois faça y = 1 e deixe x variável.

6. Faça x = 100 e y = 5.

9. Calcule as imagens de números pares e ı́mpares separadamente.

12. Repita a solução do problema 11.

13. Faça n = 1, 2, ..., 2011.

15. Faça y = 0.

6
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 11 - Prof. Marcelo Mendes

Respostas e Soluções

2. Com x = y = 0, obtemos f (1) = 2. Com y = 1, segue

f (x + 1) = f (x)f (1) − f (1) − x + 2 = 2f (x) − x.

Com x = 1 e x = 2, obtemos, respectivamente:

f (2) = 2 · 2 − 1 = 3,
f (3) = 2 · 3 − 2 = 4.

Vamos mostrar por indução que f (x) = x + 1, ∀x ∈ Z+ . Os casos iniciais já foram
verificados. Além disso, f (x+1) = 2(x+1)−x = x+2. Em particular, f (2012) = 2013.

4. Inicialmente, com m = n = 0 temos f (0) = (f (0))2 ⇒ f (0) = 0 ou f (0) = 1. Por


outro lado, com m = n = 2 obtemos f (4) = f (4)f (0) + 4, que mostra que f (0) = 1.

5. Com x = 1, y = 0, achamos f (1) = f (1 + 0) = 1 + f (0) = 3. Em seguida, escolhemos


apenas y = 1, obtemos f (x + 1) = x + f (1) = x + 3, que é uma P.A. se x ∈ Z+ .
Assim, f (2012) = f (0) + 2012 · 3 = 6038.
f (100) f (100) 5
6. f (500) = ⇒ f (100) = 15. Logo, f (600) = = .
5 6 2
9. Somando

f (2) = 3 + f (0)
:
f (70) = 3 + f (68)

obtemos f (70) = 3 · 35 + 10 = 115. E pela soma de

f (3) = 3 + f (1)
:
f (81) = 3 + f (79)
p √
obtemos f (81) = 3 · 40 + 5 = 125. Logo, f (81) − f (70) = 10.

12. 364.

7
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 11 - Prof. Marcelo Mendes

13. Com n = 1, 2, ..., 2012, temos:

f (2) = 1 − 2f (1)
f (3) = −2 − 2f (2)
:
f (2013) = −2012 − 2f (2012).

Sendo f (1) = f (2013) e S = f (1) + ... + f (2012), obtemos:

1006
S = (1 − 2) + ... + (2011 − 2012) − 2S ⇒ S = − .
3
15. Com y = 0, obtemos f (x) = 0, ∀x.

8
Polos Olímpicos de Treinamento
Curso de Álgebra - Nível 2 Aula 12
Prof. Marcelo Mendes

Funções Definidas Implicitamente - Parte II

Nesta segunda aula sobre funções definidas implicitamente, aprofundaremos alguns


exercı́cios vistos na aula anterior e veremos exemplos envolvendo funções compostas, ou
seja, funções de outras funções.

Iniciaremos resolvendo o problema 1 da aula anterior mas, agora, com domı́nio racional.

Problema 1. Determine todas as funções f : Q → Q tais que f (1) = c e

f (x + y) = f (x) + f (y), ∀x, y ∈ Q.

Solução. Já vimos na aula anterior que f (x) = cx quando x é inteiro não-negativo.

Agora, suponha x inteiro negativo. Fazendo y receber o valor contrário de x (assim,


y = −x > 0), obtemos

0 = f (0) = f (x) + f (−x)(∗)


⇒ f (x) = −f (−x) = −(c(−x)) = cx,
e o resultado também é válido para inteiros negativos.

Suponha, agora, x inteiro positivo. Podemos escrever


 
     
1 1 1 1 1
f (1) = f  + ... +  = f + ... + f = xf
x
| {z x} x x x
| {z }
x x
 
1 1
f =c· ,
x x
lembrando que no problema 3 da aula anterior já mostramos por indução para uma equação
funcional semelhante que podemos aplicar a regra, dada no problema para 2 números, para
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 12 - Prof. Marcelo Mendes

 
1 1
qualquer quantidade finita de números. Por (*), segue que f = c · , ∀x ∈ Z∗ .
x x
p
Seja agora x racional não-nulo, isto é, x = , com p e q inteiros, sendo p > 0. Temos
q
 
  1
p  1
f (x) = f = f  + ... + 
q q q
| {z }
p
     
1 1 1 1
=f + ... + f = pf = p · c · = cx,
q q q q
| {z }
p
finalizando a solução.
Problema 2. Determine todas as funções f : Q → Q tais que f (1) = a e
f (x + y) = f (x) · f (y), ∀x, y ∈ Q.
Problema 3. Determine todas as funções f : R → R satisfazendo
f (x) + f (2x + y) + 5xy = f (3x − y) + 2x2 + 1, ∀x, y ∈ R.
Solução. Fazendo x = 2y, obtemos 2x + y = 3x − y e

5x2 x2
f (x) += 2x2 + 1 ⇒ f (x) = 1 − .
2 2
Problema 4. Seja f : R → R uma função satisfazendo a equação funcional

f (x − y)2 = (f (x))2 − 2x · f (y) + y 2 .
Determine todos os possı́veis valores de f (0).
Problema 5. (ITA) Sejam f, g : R → R funções tais que g(x) = 1 − x e
f (x) + 2f (2 − x) = (x − 1)3 , ∀x ∈ R.
Determine f (g(x)).

Solução. A equação funcional em questão possui uma composição de funções em f (2 − x).


Sendo h(x) = 2 − x, temos f (2 − x) = f (h(x)). Essa função h é a chave do problema.
Reescreva a equação substituindo x por h(x) = 2 − x, ou seja, x ← 2 − x (lê-se: x recebe
2 − x):

f (2 − x) + 2f (x) = (1 − x)3 .
Dessa e da equação dada, obtemos f (x) = (1 − x)3 e, portanto,

f (g(x)) = (1 − (1 − x))3 = x3 .
Obs: h(h(x)) = 2 − h(x) = x. Por isso são suficientes apenas 2 equações para encontrarmos
f (x).

2
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 12 - Prof. Marcelo Mendes

 
 1 
Problema 6. Se 2f x2 + 3f = x2 − 1, determine f x2 .
x2

Problema 7. Se f (x) + 2f (1 − x) = x2 + 2, ∀x ∈ R, determine f (x).


 
1
Problema 8. Determine f sabendo que f (x) + f = x, x 6= 1.
1−x
1
Solução. Novamente, a chave do problema está em fazer x ← . Nesse caso, temos
1−x
1 1 x−1
← = . Assim:
1−x 1 x
1−
1−x    
1 x 1
f +f = .
1−x x−1 1−x
Mas diferentemente dos problemas mais simples, envolvendo funções mais simples, não
podemos combinar apenas essa última equação com a equação dada porque ainda não ob-
tivemos outro f (x).
1 x−1
Assim, vamos novamente promover a substituição x ← , que nos dá ←x
1−x x
(verifique!). Logo:
 
x x−1
f + f (x) = .
x−1 x
Combinando as equações, obtemos
1 x−1
2f (x) = x − +
1−x x

x3 − x + 1
⇒ f (x) = .
2x(x − 1)
1 x−1
Obs: h(x) = ⇒ h(h(x)) = e h(h(h(x))) = x. Por isso são necessárias 3
1−x x
equações para encontrarmos f (x).

Problema 9. Determine a função f : R → R satisfazendo à equação funcional

x2 f (x) + f (1 − x) = 2x − x4 .
 
1−x
Problema 10. (Ibero) Ache todas as f tais que (f (x))2 ·f = 64x, para todo x
1+x
distinto de 0, 1 e -1.

Problema 11. (EUA) A função  fnão está definida para x = 0, mas para todos os valores de
1
x não-nulos temos f (x) + 2f = 3x. Determine as soluções da equação f (x) = f (−x).
x

3
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 12 - Prof. Marcelo Mendes

Problema 12. Seja f uma função cujo domı́nio é o conjunto de todos os números reais. Se
 
x + 2011
f (x) + 2f = 4033 − x
x−1

para todo x 6= 1, encontre o valor de f (2013).


 
x−3
Problema 13. Encontre todas as funções f : R − {−1, 1} → R satisfazendo f +
  x+1
x+3
f = x, ∀x 6= ±1.
x−1
Solução. Faça x ← −x:
   
−x − 3 −x + 3
f +f = −x
−x + 1 −x − 1
   
x+3 x−3
⇔f +f = −x, ∀x 6= ±1.
x−1 x+1
Portanto, x = −x, ∀x 6= ±1, absurdo. Logo, não existe função f cumprindo a equação
funcional dada.

Problema 14. Determine todas


 as funções f reais, de variável real positiva, satisfazendo a
2002
condição f (x) + 2f = 3x.
x
Problema 15. Determine todas as funções f : R → R tais que 2f (x) + f (1 − x) = 1 + x.

4
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 12 - Prof. Marcelo Mendes

Dicas

2. Repita os procedimentos do problema 1.

4. Faça x = y = 0.
1
6. Faça x ← .
x
7. Faça x ← 1 − x.

9. Faça x ← 1 − x.
1−x
10. Faça x ← .
1+x
1
11. Faça x ← .
x
x + 2011
12. Faça x ← .
x−1
2002
14. Faça x ← .
x
15. Faça x ← 1 − x.

5
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 12 - Prof. Marcelo Mendes

Respostas e Soluções

2. f (x) = ax .

4. f (0) = 0 ou f (0) = 1.
 
1 − x2 3 + 2x2
6. f (x) = .
5x2
(x − 2)2
7. f (x) =
3
9. Fazendo x ← 1 − x e combinando com a equação dada, chegamos a f (x) = 1 − x2 .
r
2
3 x (1 + x)
10. f (x) = 4 .
1−x
1
11. Fazendo x ← e combinando o resultado com a equação inicial, obtemos f (x) =
x
2 √
− x. Assim, as soluções de f (x) = f (−x) são ± 2.
x
12. 2014.
2002 4004
14. Fazendo x ← e combinando com a equação inicial, obtemos f (x) = − x.
x x
15. f (x) = x.

6
Polos Olímpicos de Treinamento
Curso de Álgebra - Nível 2 Aula 13
Prof. Marcelo Mendes

Revisão - Parte I

Como o tı́tulo indica, faremos uma breve revisão de temas já abordados em nosso trei-
namento, a fim de consolidar conceitos e ideias importantes para a fase final da OBM.

Iniciaremos resolvendo os problemas das OBMs passadas, propostos na 1a aula sobre


produtos notáveis, mas não resolvidos.

Ao final, estão propostos mais alguns problemas semelhantes aos tratados até agora.

x2 y2
Problema 1. (OBM 1a fase/2002) Se xy = 2 e x2 + y 2 = 5, então + + 2 vale:
y2 x2
5
a)
2
25
b)
4
5
c)
4
1
d)
2
e) 1

x2 y2 x4 + y 4 + 2x2 y 2 (x2 + y 2 )2 25
Solução. Veja que 2
+ 2
+ 2 = 2 2
= 2 2
= . Letra B.
y x x y x y 4

Problema 2. (OBM 3a fase/2003) Mostre que x2 + 4y 2 − 4xy + 2x − 4y + 2 > 0 quaisquer


que sejam os reais x e y.

Solução. Procurando agrupar os termos para obter uma fatoração, podemos escrever

x2 + 4y 2 − 4xy + 2x − 4y + 2 = x2 − 4xy + 4y 2 + 2(x − 2y) + 2


POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 13 - Prof. Marcelo Mendes

= (x − 2y)2 + 2(x − 2y) + 1 + 1 = [(x − 2y) + 1]2 + 1 ≥ 1 > 0,


pois [(x − 2y) + 1]2 é não-negativo já que é o quadrado de um número real.

Problema 3. (OBM 2a fase/2005)

a) Fatore a expressão x2 − 9xy + 8y 2 .

b) Determine todos os pares de inteiros (x; y) tais que 9xy − x2 − 8y 2 = 2005.

Solução.

a) x2 − 9xy + 8y 2 = x2 − xy − 8xy + 8y 2 = x(x − y) − 8y(x − y) = (x − y)(x − 8y).

b) Pelo item a, podemos escrever

(x − y)(8y − x) = 2005 = 5 · 401,

e 401 é primo. Agora vejamos as possibilidades:



x−y = 5
i. ⇒ x = 63, y = 58.
8y − x = 401

x−y = −5
ii. ⇒ x = −63, y = −58.
8y − x = −401

x−y = 401
iii. ⇒ x = 459, y = 58.
8y − x = 5

x−y = −401
iv. ⇒ x = −459, y = −58,
8y − x = −5

que são todos os casos.

Problema 4. (OBM 1a fase/2005) Os inteiros positivos x e y satisfazem a equação


r r
1√ 1√
x+ y− x− y = 1.
2 2
Qual das alternativas apresenta um possı́vel valor de y?

a) 5

b) 6

c) 7

d) 8

e) 9

2
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 13 - Prof. Marcelo Mendes

√ √
q q
Solução. Talvez fiquem interessantes as substituições x + 21 y = A e x − 12 y = B.

2 2 √ √ y+1
Assim, temos A − B = 1 e A − B = y, que implica A + B = y. Daı́, A = e,
2
portanto:

1√ y+2 y+1 y + 1 1√
x+ y= = + y
2 4 4 2
⇒ y = 4x − 1.
Dentre as opções, a única que deixa resto ’-1’ na divisão por 4 é 7. Letra C.

Problema 5. (OBM 3a fase/2006) Encontre todos os pares ordenados (x; y) de inteiros tais
que x3 − y 3 = 3(x2 − y 2 ).

Solução. Fatorando, obtemos (x − y)(x2 + xy + y 2 ) = 3(x − y)(x + y).

Assim, temos solução quando x = y, x ∈ R.

Se x 6= y, então x2 +xy +y 2 = 3(x+y) ⇔ x2 +x(y −3)+y 2 −3y = 0, cujo discriminante é


∆ = −3y 2 + 6y + 9. Para que as raı́zes sejam reais, devemos ter ∆ ≥ 0, ou seja, −1 ≤ y ≤ 3.
Testando, apenas y = 1 não gera ∆ quadrado perfeito. Os demais valores dão as seguintes
soluções:

y = −1, ∆ = 0, x = 2;
y = 0, ∆ = 9, x = 0; x = 6;
y = 2, ∆ = 9, x = 2; x = −1;
y = 3, ∆ = 0, x = 0.
S
Resposta: {(2, 0); (0, 0); (6, 0); (2, 2); (2, −1); (3, 0)} {(x, x), x ∈ R}.

Problema 6. (OBM 2a fase/2006) Sejam a e b números reais distintos tais que a2 = 6b+5ab
e b2 = 6a + 5ab.

a) Determine o valor de a + b.

b) Determine o valor de ab.

Solução.

a) Subtraindo as equações membro a membro, obtemos a2 − b2 = 6(b − a). Como a e b são


distintos, chegamos a a + b = 6.

b) Agora, somando as equações membro a membro, temos a2 + b2 = 6(a + b) + 10ab ⇔


(a + b)2 = 6(a + b) + 12ab, o que dá ab = 0.

3
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 13 - Prof. Marcelo Mendes

Problema 7. (OBM 2a fase/2008) Sejam x e y números reais positivos satisfazendo as


equações x2 + y 2 = 1 e x4 + y 4 = 17 1
18 . Calcule o valor de xy .

Solução. De x2 + y 2 = 1, obtemos
17 1 1
x4 + y 4 + 2x2 y 2 = 1 ⇔ 2x2 y 2 = 1 −
= ⇔ x2 y 2 = .
18 18 36
1 1
Como x e y são positivos, segue que xy = e = 6.
6 xy

Problema 8. (OBM 1a fase/2010) Quantos são os pares (x, y) de inteiros positivos tais que
x2 − y 2 = 22010 ?

a) 1000

b) 1001

c) 1002

d) 1003

e) 1004

Solução. Temos (x + y)(x − y) = 22010 . Como x + y > 0, então x − y > 0. Além disso,
x + y > x − y (pois y > 0) e x + y deve ter a mesma paridade de x − y.

Assim, as possibilidades são

x + y = 22009 , 22008 , ... , 21006



,
x−y = 2 , 22 , ... , 21004
que geram 1004 pares ordenados. Letra E.

Problema 9. (OBM 3a fase/2010) Sejam a, b e c reais tais que a 6= b e a2 (b+c) = b2 (c+a) =


2010. Calcule c2 (a + b).

Solução. De a2 (b + c) = b2 (c + a) = 2010, obtemos

a2 b − b2 a + a2 c − b2 c = 0
⇔ ab(a − b) + c(a + b)(a − b) = 0
⇔ (a − b)(ab + bc + ca) = 0.
Como a 6= b, concluı́mos que ab + bc + ca = 0.
Agora, vamos fazer o mesmo com b2 (c + a) = 2010 e c2 (a + b) = k. Subtraindo obtemos

b2 c − c2 b + b2 a − c2 a = 2010 − k

4
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 13 - Prof. Marcelo Mendes

⇔ bc(b − c) + a(b + c)(b − c) = 2010 − k


⇔ (b − c)(ab + bc + ca) = 2010 − k.
Mas ab + bc + ca = 0. Assim, k = 2010.

Problema 10. (OBM 1a fase/2011) Qual é o valor da expressão 201120112 + 201120032 −


16 × 20112007?
a) 2 × 201120072
b) 2 × 201120032

c) 2 × 20112007

d) 2 × 20112003
e) 2 × 201120112
Solução. Para simplificar os cálculos, vamos escrever a = 20112007. Assim, a expressão
desejada será

(a + 4)2 + (a − 4)2 − 16a = 2(a2 − 8a + 16) = 2(a − 4)2 = 2 × 201120072 .


Letra A.

Problema 11. (IMO-Adaptado) Sejam k, m, n números naturais. Defina cs = s(s + 1).

a) Fatore cj − ck , sendo j ∈ N.
c1 · c2 · ... · cn
b) Mostre que (cm+1 − ck )(cm+2 − ck )...(cm+n − ck ) é divisı́vel por .
n+1
Problema 12. Determine todos os valores de x para os quais (1999x − 99)3 = (1234x −
56)3 + (765x − 43)3 .

Problema 13. Simplifique a expressão

22 − 1 32 − 1 42 − 1 20122 − 1
S= × × × ... × .
22 32 42 20122

p
3
√ p
3

Problema 14. Mostre que 20 + 14 2 + 20 − 14 2 = 4.

Problema 15. Determine todas as soluções inteiras da equação

2(x + y) = xy + 7.

5
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 13 - Prof. Marcelo Mendes

Dicas

11. Use o fato de que o produto de n inteiros consecutivos é divisı́vel por n!.

12. Resolva a equação (a + b)3 = a3 + b3 .

13. Fatore os numeradores, que são diferenças de quadrados.

14. Eleve ao cubo a expressão no lado esquerdo.

15. Encontre k tal que xy − 2x − 2y + k possa ser fatorado.

Respostas

99 43 56
12. , , .
1999 65 1234
2013
13. .
4024
15. {(x, y) = (3, −1), (1, 5), (5, 1), (−1, 3)}.

6
Polos Olímpicos de Treinamento
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Revisão - Parte II

Continuando nossa breve revisão de temas já abordados, propomos mais problemas de
equações e sistemas de equações.

Problema 1. Se x ∈ R e 4y 2 + 4xy + x + 6 = 0, determine:


a) o conjunto de todos os valores de x para os quais y ∈ R;

b) y em função dos valores de x encontrados no item anterior.


4

4
Problema 2. Encontre todas as soluções reais da equação 13 + x + 4 − x = 3.

r
x2 + 3 3
r
x
Problema 3. Determine o conjunto solução da equação − = , x ∈ R.
x x2 +3 2

Problema 4. Sejam x, y, z números reais tais que


1 y 2
= = .
xy z−x+1 z+1
Prove que um desses números é a média aritmética dos outros dois.
Problema 5. Prove que a equação

an + 2012 · bn = cn+1

tem infinitas soluções naturais a, b, c para todo inteiro positivo n.

Problema 6. (OBM) Mostre que a equação

x3 + 1990y 3 = z 4

possui infinitas soluções inteiras com x > 0, y > 0, z > 0.


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Problema 7. Determine o conjunto solução da equação x = ⌊1 − x⌋, onde ⌊a⌋ representa a


parte inteira de a.

 p 2
 px − y = z − 1
Problema 8. Quantas soluções reais possui o sistema y2 − z = x − 1 ?
 √ 2
z −x = y−1

Problema 9. (Banco IMO) Encontre todas as triplas de inteiros positivos x, y, z satisfazendo


1 1 1 4
+ + = .
x y z 5
4 1 1 1 3
Solução. Suponha, sem perda de generalidade, que x ≤ y ≤ z. Daı́, = + + ≤ ,
5 x y z x
1 4
ou seja, x ≤ 3. Também < ⇒ x ≥ 2. Assim, precisamos analisar os casos x = 2 e
x 5
x = 3.

i) x = 2:
1 1 4 1 3 10z
+ = − = ⇒y=
y z 5 2 10 3z − 10

30z 30z − 100 + 100 100


⇒ 3y = = = 10 + .
3z − 10 3z − 10 3z − 10

Como 3y ∈ Z, segue que (3z − 10) 100 (essa notação significa 3z − 10 divide 100) e
3z − 10 > 0. Assim, temos as possibilidades

3z − 10 = 1, 2, 4, 5, 10, 20, 25, 50, 100.

Mas z ∈ Z. Logo, restam

3z − 10 = 2, 5, 20, 50
⇒ z = 4, 5, 10, 20
⇒ y = 20, 10, 5, 4,

que geram as soluções (2, 4, 20), (2, 5, 10), (2, 10, 5), (2, 20, 4).

ii) x = 3:
1 1 4 1 7 15z
+ = − = ⇒y=
y z 5 3 15 7z − 15

105z 105z − 225 + 225 225


⇒ 7y = = = 15 + .
7z − 15 7z − 15 7z − 15

2
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Como 7y ∈ Z, segue que (7z − 15) 225 e 7z − 15 > 0. Assim, temos as possibilidades

7z − 15 = 1, 3, 5, 15, 45, 75, 225,


7z = 16, 18, 20, 30, 60, 90, 240,

que não produzem solução inteira.

Assim, as únicas soluções são (2, 4, 20), (2, 5, 10), (2, 10, 5), (2, 20, 4).

Comentário. Existe um problema muito parecido com esse, proposto no livro das Olimpı́adas
Brasileiras de Matemática - 1a à 8a , que possui o seguinte enunciado:

Mostre que o número de soluções x, y, z de inteiros positivos da equação


1 1 1 1
+ + =
x y z 1983
é finito.

Tente resolvê-lo a partir das ideias do problema 9!

Problema 10. Determine todas as soluções em números reais x, y, z, w do sistema de


equações 
 x + y + z = w
1 1 1 1 .
+ + =
x y z w

Problema 11. (Romênia) Os números reais não-nulos x, y, z, t verificam as seguintes igual-


dades 

 x + y + z = t
 1 1 1 1
+ + = .
 x y z t
 x3 + y 3 + z 3 =

10003
Determine o valor da soma x + y + z + t.

Problema 12. Seja n um dado inteiro positivo. Quantas soluções existem em pares orde-
nados (x, y) de inteiros positivos para a equação
xy
= n?
x+y

Solução. Primeiro reescrevemos a equação como

xy − nx − ny + n2 = n2 ⇔ (x − n)(y − n) = n2 .

3
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Portanto, a cada divisor positivo de n2 corresponde um valor de x − n e uma solução.


Os divisores negativos sempre geram x ou y não-positivo.

Sendo n = pa11 · pa22 · ... · pakk , temos n2 = p2a 2a2 2ak


1 · p2 · ... · pk , que possui
1

(2a1 + 1)(2a2 + 1)...(2ak + 1)

divisores positivos, que é a quantidade de soluções da equação inicial.

Problema 13. Determine todos os pares ordenados (m, n) de números inteiros positivos
4 2
que são soluções da equação + = 1.
m n

Problema 14. Os três números distintos a, b, c verificam as igualdades


 3
 a + pa + q = 0
b3 + pb + q = 0 .
 3
c + pc + q = 0
Prove que a + b + c = 0.

Problema 15. (Czech and Slovak) Encontre todos os pares de inteiros a, b tais que a soma
a + b seja uma raiz da equação x2 + ax + b = 0.

4
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Dicas

1. Calcule o ∆ da equação com variável em y e resolva a inequação ∆ ≥ 0.

2. Eleve ao cubo a equação membro a membro.


r
x2 + 3
3. Use a substituição = a.
x
1 y 1 2
4. Combine os resultados das equações = e = .
xy z − x + 1 xy z+1
5. Comece procurando soluções em que a = b.

5. Repita a ideia do problema 5.

7. Observe que, se a equação possui solução, então x ∈ Z.

8. Eleve as equações ao quadrado e lembre que raı́zes quadradas são não-negativas.


1
10. Passe z e para o lado direito da respectiva equação, equilibrando a quantidade de
z
termos em cada membro das equações.

11. Mesma dica do problema 10.

13. Tome como base as ideias da questão 10.

14. Subtraia as equações 2 a 2.

15. Substitua a + b na equação, calcule ∆ e iguale-o a um quadrado perfeito.

5
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Soluções e Respostas


−x ± x2 − x − 6
1. a) (−∞, −2] ∪ [3, +∞); b) y = .
2
2. 3 e -12.

3. Não há solução real.


1 y 1 2
4. = ⇒ xy 2 = z − x + 1 e = ⇒ z + 1 = 2xy.
xy z−x+1 xy z+1

Daı́, xy 2 + x = 2xy ⇒ x(y − 1)2 = 0. Como x 6= 0, então y = 1. Portanto,


z+y
z + y = z + 1 = 2x ⇔ x = .
2

5. Entenda inicialmente que o problema não exige que se encontre todas as soluções,
mas apenas (pode não parecer a palavra mais adequada, mas pode ser ela sim!) que
existem infinitas soluções.

Comecemos buscando soluções em que a = b. A equação se tornaria 2013an = cn+1 .


Nesse caso, a = c = 2013 é solução, porém ainda não as conseguimos em quantidade
infinita.

Mas isso, agora, é fácil. Escolha a = b = 2013kn+1 e c = 2013kn . Variando k sobre


N, geramos as infinitas soluções pedidas.

7. Suponha que a equação possua solução. O lado direito da equação é um número


1
inteiro. Assim, x ∈ Z e, portanto, x = 1 − x, o que dá x = , que não é um número
2
inteiro, absurdo. Ou seja, não há solução para a equação.

8. Naturalmente, vamos elevar ao quadrado as 3 equações envolvidas. Somando os re-


sultados, obtemos x + y + z = 3.

Por outro lado, a partir da primeira equação, obtemos z ≥ 1. Analogamente, x ≥ 1


e y ≥ 1 das demais equações, que geram x + y + z ≥ 3.

Portanto, as igualdades devem ocorrer e a única solução é x = y = z = 1.

10. As soluções são x = −y, y = −z ou z = −x.

11. 2000.

6
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4 2
13. + = 1 ⇔ (m−4)(n−2) = 8. As soluções inteiras positivas vêm de m−4 = 1, 2, 4, 8
m n
e n − 2 = 8, 4, 2, 1, respectivamente, ou seja, (m, n) = (5, 10), (6, 6), (8, 4), (12, 3).

14. Subtraindo as 2 primeiras equações membro a membro, temos

(a − b)(a2 + ab + b2 + q) = 0.

Como a 6= b, obtemos a2 + ab + b2 + q = 0. Analogamente, b2 + bc + c2 + q = 0.


Combinando esses 2 resultados (pela subtração), chegamos a (a − c)(a + b + c) = 0.
Mas a 6= c. Portanto, a + b + c = 0.

15. Se a + b é raiz, então

(a + b)2 + a(a + b) + b = 0 ⇒ 2a2 + 3ab + b2 + b = 0,

cujo discriminante é

∆ = b2 − 8b = (b − 4)2 − 16,
que deve ser um quadrado perfeito, digamos k2 , k ∈ Z+ , pois a ∈ Z, ou seja,

(b − 4)2 − k2 = 16 ⇔ (b − 4 + k)(b − 4 − k) = 16.

Lembrando que soma e diferença dos mesmos números inteiros têm a mesma paridade
e que b − 4 + k ≥ b − 4 − k pois assumimos, sem perda de generalidade, que k ≥ 0,
temos as seguintes possibilidades:

b − 4 + k = 4, 8, −2, −4
,
b − 4 − k = 4, 2, −8, −4
que produzem as soluções (a, b) = (−6, 8), (−6, 9), (0, −1), (0, 0).

7
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A Ideia de Continuidade

Quando dizemos que um processo funciona de forma contı́nua, estamos dizendo que ele
ocorre sem interrupção.

Da mesmo forma, em matemática, o conceito de continuidade em funções, por exemplo,


significa que seu gráfico não tem interrupção. Os primeiros exemplos de funções contı́nuas
são os polinômios, que são somas de parcelas do tipo ak xk , sendo k um número inteiro
não-negativo, ou seja, funções do tipo

P (x) = an xn + an−1 xn−1 + ... + a1 x + a0 , an 6= 0,


sendo que, no ensino fundamental, sempre são estudadas as funções polinomiais de 1o e 2o
graus, cujos gráficos são, respectivamente, retas e parábolas, ambos sem interrupção, isto
é, contı́nuos, daı́ essas funções serem ditas contı́nuas.

A formalização do conceito de continuidade envolve noções de Cálculo - limite, espe-


cificamente - mas já é possı́vel fazer muito sem formalidades. Por outro lado, precisamos
assumir detalhes que não provaremos aqui nessas aulas. Por exemplo, a soma (e a diferença,
portanto) e o produto de funções contı́nuas também são funções contı́nuas.

Às vezes, também, podemos considerar uma função contı́nua apenas em um determi-
1
nado intervalo. Por exemplo, a função f (x) = possui uma descontinuidade em x = 0,
x
mas é contı́nua para reais positivos.

Vejamos alguns exemplos.

Problema 1. Mostre que a equação x3 − 5x + 2 = 0 possui uma raiz real positiva.

Solução. O lado esquerdo dessa equação é um polinômio, digamos P (x), ou seja, podemos
escrever P (x) = x3 − 5x + 2.
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Agora, veja que P (0) = 2 > 0 e P (1) = −2 < 0. Como o gráfico de P é contı́nuo, pois
é um polinômio, ele une os pontos (0,2) e (1, -2) e, necessariamente, intercepta o eixo x
entre 0 e 1, isto é, P possui uma raiz real entre 0 e 1.

Problema 2. Prove que a equação x5 + 8x4 − 3x2 − 4x − 2 = 0 possui ao menos duas raı́zes
reais negativas e uma positiva.

Problema 3. Seja h : R → R uma função polinomial. Sabe-se que

h(−1) = 4, h(0) = 0, h(1) = 8.

Definimos g por g(x) = h(x) − 2. Mostre que a equação g(x) = 0 admite pelo menos 2
soluções distintas.

Problema 4. A equação
n4 − 2n3 + 3n2 + n − 33 = 0
possui solução real positiva?

Problema 5. De uma função g contı́nua em R, sabe-se que:

i. 1 é raiz de g;

ii. g(3) > 0.

g(3)
Prove que a equação g(x) = tem, pelo menos, uma solução no intervalo ]1; 3[.
2

Problema 6. Prove que o gráfico de f (x) = x3 −3x2 +1 intersecta o gráfico de g(x) = 2x−2
em pelo menos um ponto do intervalo ]0, 1[.

Problema 7. (Paulista) Demonstre que, no conjunto dos números reais, a equação

(x − b)(x − c) + (x − a)(x − c) + (x − a)(x − b) = 0

sempre tem solução, quaisquer que sejam os números reais a, b, c dados.

Solução. Seja

P (x) = (x − b)(x − c) + (x − a)(x − c) + (x − a)(x − b).

Inicialmente, observe que se a = b ou b = c ou c = a, então P possui uma raiz (a, b ou c).

2
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Caso a, b, c sejam distintos 2 a 2, podemos supor, sem perda de generalidade (devido à


simetria da equação), a < b < c.

Assim, temos

P (a) = (a − b)(a − c) > 0,


P (b) = (b − a)(b − c) < 0,
P (c) = (c − a)(c − b) > 0,
que garantem uma raiz entre a e b e outra entre b e c.

Obs: Esta é uma solução envolvendo o conceito de continuidade dos polinômios. Tente
resolvê-la calculando o ∆ da equação do 2o grau.

Problema 8. (IME) Considere a, b, c ∈ R tais que a < b < c. Prove que a equação abaixo
possui exatamente duas raı́zes x1 e x2 que satisfazem a condição a < x1 < b < x2 < c.
1 1 1
+ + = 0.
x−a x−b x−c
Problema 9. Seja f uma função quadrática (função polinomial do 2o grau) tal que a equação
f (x) = x não tem soluções. Prove que a equação f (f (x)) = x também não tem soluções.

Solução. Primeiramente, veja que a condição de f (x) = x, que é uma equação do 2o grau,
não possuir raı́zes poderia nos levar a pensar em usar seu discriminante ∆. Porém, seria
complicado aplicar tal resultado na equação f (f (x)) = x, que é do 4o grau.

Pensemos, então, com nossos argumentos de continuidade, já que f é contı́nua pois seu
gráfico (uma parábola) não possui interrupção. Para simplificar um pouco nossa solução,
vamos criar a função g(x) = f (x) − x, que também é contı́nua utilizando um resultado
(que não iremos provar) que garante que soma de funções contı́nuas também é uma função
contı́nua.

Assim, a condição do problema que garante que f (x) = x não possui solução é equiva-
lente a dizer que g não possui raiz real, ou seja, seu gráfico está todo acima do eixo x ou
todo abaixo, devido à continuidade.

Sem perda de generalidade (o outro caso é análogo), vamos supor que o gráfico de g
esteja todo acima do eixo x, isto é, g(x) > 0, ∀x ∈ R. Portanto, f (x) > x, ∀x ∈ R.

Da mesma forma, também temos f (f (x)) > f (x), ∀x ∈ R.

3
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 15 - Prof. Marcelo Mendes

Finalmente, combinando esses 2 resultados, concluı́mos que f (f (x)) > x, ∀x ∈ R (ou


f (f (x)) < x, ∀x ∈ R), garantindo que f (f (x)) = x não possui solução real.

Obs. A função em questão poderia ser qualquer função contı́nua.

Problema 10. Seja f uma função contı́nua para todo x real tal que a equação f (x) = x
não possui solução. Prove que f (f...f (x)...) = x também não possui solução, ∀n ∈ N.
| {z }
n
Problema 11. A função f : R → R é contı́nua e
f (x) · f (f (x)) = 1, ∀x ∈ R.
Sendo f (2004) = 2003, determine f (1999).
1
Solução. Vários alunos iniciam esse problema substituindo f (x) por y, obtêm f (y) = e,
y
1
portanto, f (1999) = , que é a resposta correta.
1999
1
Mas como explicar que f (2004) não é e, sim, 2003?
2004
A resposta está no fato de nem todo número (y, no caso) poder ser escrito como f (x).
Isso só é verdade se y está no conjunto imagem da função. Por exemplo, 2003 é imagem de
1 1
2004 e isso é suficiente para garantir que f (2003) = e, portanto, também está
  2003 2003
1
no conjunto imagem e f = 2003.
2003
Sendo assim, nosso objetivo é conseguir mostrar que 1999 está no conjunto
imagem dessa

1
função. No parágrafo anterior, vimos que o gráfico de f passa pelos pontos 2003,
  2003
1
e , 2003 . A continuidade de f garante que seu gráfico percorrerá pontos com or-
2003
1
denadas (coordenadas y) desde até 2003, ou seja, vai passar por um com ordenada
2003
1
1999, o que significa dizer que 1999 está no conjunto imagem de f . Logo, f (1999) = .
1999
Obs: Para uma melhor compreensão, faça um esboço no plano cartesiano dos dados encon-
trados nessa solução.

Problema 12. A função f : R → R é contı́nua e


f (x) · f (f (x)) = 1, ∀x ∈ R.
Se f (2011) = 2010, mostre que 2012 não pertence ao conjunto imagem de f , ou seja, não
existe x real tal que f (x) = 2012.

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Problema 13. Sejam f, g : R → R funções contı́nuas tais que f (a) < g(a) e f (b) > g(b).
Mostre que existe c ∈ (a, b) tal que f (c) = g(c).

Solução. Vamos criar a função h(x) = f (x) − g(x), também contı́nua. Pelo problema,

h(a) = f (a) − g(a) < 0,

h(b) = f (b) − g(b) > 0.


A continuidade de h garante que existe c ∈ (a, b) tal que h(c) = 0, ou seja, f (c) = g(c).

Problema 14. Seja f : [a, b] → [a, b] uma função contı́nua (pois é a diferença entre funções
contı́nuas). Prove que f tem um ponto fixo, isto é, existe c ∈ [a, b] tal que f (c) = c.
(Sugestão: considere a função g(x) = f (x) − x.)

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Dicas

2. Sendo P (x) = x5 + 8x4 − 3x2 − 4x − 2, calcule P (0), P (−1). Mostre que P assume
apenas valores negativos quando x diminui suficientemente. Depois, calcule P (1).

3. Calcule g(−1), g(0), g(1).

4. Sendo P (n) = n4 − 2n3 + 3n2 + n − 33, calcule P (0), P (1), P (2), P (3).

5. Escreva f (x) = 2g(x) − g(3). Calcule f (1) e f (3).

6. Escreva h(x) = f (x) − g(x) e calcule h(0) e h(1).

8. Veja solução do problema 7.

10. Veja solução do problema 9.

12. Veja solução do problema 11.

14. Veja solução do problema 13.

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POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 15 - Prof. Marcelo Mendes

Soluções

2. Sendo P (x) = x5 + 8x4 − 3x2 − 4x − 2, então P (0) = −2 e P (−1) = 6. Assim, já


existe uma raiz negativa no intervalo (−1, 0). Quem controla o sinal de P quando
x caminha para −∞ é o termo x5 , que é negativo nesse caso. Daı́, partindo de um
valor positivo P (−1) = 6, o gráfico, quando x caminha para −∞, cortará novamente
o eixo x gerando uma nova raiz negativa. Além disso, P (1) = 0, ou seja, 1 é uma raiz
positiva.

3. g(−1) = h(−1) − 2 = 2, g(0) = h(0) − 2 = −2, g(1) = h(1) − 2 = 6, ou seja, existe


uma raiz no intervalo (−1, 0) e outra no intervalo (0, 1).

4. P (2) = −19, P (3) = 24 e continuidade garantem que existe uma raiz no intervalo
(2, 3).

5. Sendo f (x) = 2g(x) − g(3), temos f (1) = 2g(1) − g(3) = −g(3) < 0 e f (3) =
2g(3) − g(3) = g(3) > 0, ou seja, existe uma raiz no intervalo (1, 3).

6. Seja h(x) = f (x) − g(x) = x3 − 3x2 − 2x + 3. Como h(0) = 3 e h(1) = −1 e h


é contı́nua, segue que h possui uma raiz em (0, 1), isto é, os gráficos de f e g se
intersectam em pelo menos um ponto desse intervalo.
 
1 1
12. Pela solução do problema 11, temos que f (2010) = ef = 2010, ou seja,
2010 2010
2010 está no conjunto imagem de f . Se 2012 também estivesse, então a continuidade
1
de f garantiria que 2011 também estaria e, portanto, f (2011) = , absurdo.
2011
14. Se f (a) = a ou f (b) = b, então não há nada a fazer. Caso contrário, temos f (a) > a
e f (b) < b. O resultado segue análogo ao encontrado na solução do problema 13
criando a função h(x) = f (x) − x.

7
Polos Olímpicos de Treinamento
Curso de Álgebra - Nível 2 Aula 16
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Números Complexos - Parte I

Introdução e Forma Algébrica



São as expressões da forma a + bi, em que a e b são números reais e i = −1 (i é a
primeira letra da palavra imaginário, sinônimo de número complexo) ou i2 = −1. Dizemos
que z = a + bi é forma algébrica do número complexo z.

Os números complexos da forma a + 0i são chamados números reais. Assim, R ⊂ C.

Os números complexos da forma 0 + bi são chamados números imaginários puros. Em


particular, 0 + 1i = i é chamado de unidade imaginária.

Interpretação Geométrica dos Números Complexos

Im

z = a + bi
bi
|z|

R
a

A figura acima mostra um número complexo no plano, que chamaremos de plano com-
plexo. Nele, o eixo horizontal contém números reais e o eixo vertical, números imaginários
puros. A distância de z à origem é o módulo de z (assim como acontece com os números
reais) e representamos da maneira usual, ou seja, |z|. Observe que existe uma associação
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 16 - Prof. Marcelo Mendes

entre a notação cartesiana de um ponto (x, y) e a notação complexa do número x + yi.

Operações
1. Igualdade: a + bi = c + di ⇔ a = c e b = d. (Observação: Não há comparação dos tipos
>, <, ≥, ≤)

2. Soma: a + bi + c + di = (a + c) + (b + d)i.

3. Produto: (a + bi)(c + di) = (ac − bd) + (ad + bc)i.


a + bi ac + bd bc − ad
4. Quociente: = 2 +i· 2 .
c + di c + d2 c + d2

5. Módulo: |z| = a2 + b2 .

Potências do i
As potências de i são periódicas. De fato, i1 = i i2 = −1, i3 = −i, i4 = 1, i5 = i,
i6 = −1, ... A repetição ocorre a cada 4 potências (o perı́odo da repetição é 4.) Também é
comum precisar calcular potências de 1+i ou 1−i. É só usar que (1±i)2 = 1±2i−1 = ±2i.

O Conjugado e suas Propriedades


Im

z = a + bi
bi
|z|

R
a

|z|
−bi
z = a − bi

O conjugado z número complexo z = a + bi é, por definição, o número complexo


z = a − bi. Vejamos algumas propriedades úteis.

1. O conjugado do número complexo z é z e, por isso, z e z são mutuamente conjugados.

2
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2. |z| = |z|, pois cada lado da igualdade é a 2 + b2 .

3. z = z ⇔ z ∈ R, já que a + bi = a − bi implica b = 0. Esse fato deve ser usado quando o


objetivo for provar que um determinado número é real.

4. z = −z ⇔ z é um número imaginário puro, pois a + bi = −(a − bi) implica a = 0.


Esse fato deve ser usado quando o objetivo for provar que um determinado número é
imaginário puro.

5. |z|2 = z · z, pois z · z = (a + bi)(a − bi) = a2 + b2 . ESSA É UMA PROPRIEDADES


MAIS ÚTEIS, pois consegue eliminar o módulo dos cálculos, algo bom mesmo que os
números envolvidos sejam reais.

6. A soma ((a + bi) + (a − bi) = 2a) e o produto (visto no item anterior) de números
mutuamente conjugados é um número real.

7. z1 + z2 = z1 + z2 . De fato, z1 + z2 = (a1 + ib1 ) + (a2 + ib2 ) = (a1 + a2 ) + i(b1 + b2 ) =


(a1 + a2 ) − i(b1 + b2 ) = (a1 − ib1 ) + (a2 − ib2 ) = z1 + z2 (Esse fato já foi uma questão
proposta pelo IME).

8. z1 · z2 = z1 · z2 .
 
z1 z1
9. = .
z2 z2

Tente verificar esses dois últimos itens fazendo z1 = a + bi e z2 = c + di. Vejamos agora
alguns exemplos.

Problema 1. Calcule i2011 , i2012 , i2013 .

Problema 2. Calcule o valor de i8n+3 + i4n+1 .

Problema 3. Calcule (1 + i)2011 , (1 − i)2012 , (1 + i)2013 .

Problema 4. Encontre todas as raı́zes da equação z 3 = 1.

Solução. A equação pode ser reescrita como

z 3 − 1 = 0 ⇔ (z − 1)(z 2 + z + 1) = 0.
A primeira raiz z = 1 vem de z − 1 = 0. As demais vêm de√z 2 + z + 1 =√0, cujo
−1 ± −3 −1 ± i 3
discriminante é ∆ = −3. Logo, essas últimas duas raı́zes são = .
2 2

3
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Problema 5. Encontre as raı́zes das equações

a) z 3 = 8;

b) z 4 = 81.

Problema 6. Encontre números reais x, y, u, v satisfazendo

z = x + i, w = 3 + iy,

z + w = u − i, zw = 14 + iv.

Problema 7. Seja z = a + bi, em que a, b ∈ R. Encontre condições sobre a e b para que:


a) z 3 seja real;

b) z 3 seja imaginário puro.

Solução. Veja:

z = a + bi ⇒ z 3 = (a + bi)3 = a3 + 3a2 bi + 3a(bi)2 + (bi)3

⇒ z 3 = (a3 − 3ab2 ) + i(3a2 b − b3 ).

a) z 3 é real se, e somente se, sua √


parte imaginária é nula, ou seja, 3a2 b − b3 = 0, o que
ocorre quando b = 0 ou b = ±a 3.

b) z 3 é imaginário puro se, e somente √


se, sua parte real é nula, ou seja, a3 − 3ab2 = 0, o
que ocorre quando a = 0 ou a = ±b 3.

Problema 8. Para z ∈ C, prove que


1
|z| = 1 ⇔ z = .
z
Problema 9. Prove que |1 + iz| = |1 − iz| se, e somente se, z é um número real.

Solução. Sabendo que |z|2 = z · z, temos

|1 + iz| = |1 − iz| ⇔ |1 + iz|2 = |1 − iz|2


⇔ (1 + iz)(1 + iz) = (1 − iz)(1 − iz)
⇔ (1 + iz)(1 − iz) = (1 − iz)(1 + iz)
⇔ 1 + iz − iz + |z|2 = 1 − iz + iz + |z|2
⇔ iz = iz ⇔ z = z,
que é a condição necessária e suficiente para z ser real.

4
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Problema 10. Sejam a e b números reais. Se a + bi 6= 0, determine a forma algébrica do


1
número .
a + bi
Solução. A ideia de tornar o denominador real é sempre utilizar o conjugado, parecido
com o que fazemos quando queremos racionalizar um denominador irracional:

1 a − bi a − bi a −b
= = 2 2
= 2 2
+i· 2 ,
a + bi (a + bi)(a − bi) a +b a +b a + b2
que é a forma algébrica desejada.

1
Problema 11. (ITA) Seja z = a + bi um número complexo. Se z + é um número real,
z
então mostre que b = 0 ou |z| = 1.

Problema 12. (ITA) Se z1 e z2 são números complexos e z1 + z2 e z1 · z2 são ambos reais,


então mostre que z1 e z2 são ambos reais ou z1 = z.

5
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Dicas

5. Veja a solução da questão 3.

6. Use que a igualdade entre números complexos, ou seja,a + bi = c + di ⇔ a = c e


b = d, se a, b, c, d são reais.

8. Use |z|2 = z · z.

11. Use o problema 10.

12. Escreva z1 e z2 em suas formas algébricas, ou seja, z1 = a + bi e z2 + c + di, sendo


a, b, c, d números reais.

6
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Respostas e Soluções

1. −i, 1, i.

2. 0.

3. (1 + i)2011 = (1 + i)2010 (1 + i) = (2i)1005 (1 + i) = 21005 i1004 i(1 + i) = 21005 (i − 1).


(1 − i)2012 = (−2i)1006 = (−2)1006 i1004 i2 = −21006 .
(1 + i)2013 = (1 + i)2011 (1 + i)2 = 21005 (i − 1)2i = −21006 (1 + i).

1. a) 2, 1 ± 3.
b) ±3, ±3i.

6. x = 4, y = −2, u = 7 e v = −5.

8. Sabendo que |z|2 = z · z, temos

1
|z| = 1 ⇔ |z|2 = 1 ⇔ zz = 1 ⇔ z = .
z
1 a −b b b(a2 + b2 − 1)
11. z + = a + bi + 2 + i · será real se b − = = 0,
z a + b√2 a 2 + b2 a2 + b2 a 2 + b2
ou seja, b = 0 ou |z| = a2 + b2 = 1.

12. Escrevendo z1 = a + bi e z2 + c + di, temos z1 + z2 = (a + c) + i(b + d) e z1 · z2 =


(ac − bd) + i(ad + bc). Como esses números são reais, devemos ter:

1. b + d = 0 ⇔ b = −d;
2. ad + bc = 0 ⇔ ad = −bc.

Se d = 0, então b = 0. Daı́, z1 e z2 são reais. Se d 6= 0, então podemos fazer


o cancelamento na equação do item 1 e achar a = c. Isso mostra que z1 e z2 são
conjugados complexos.

7
Polos Olímpicos de Treinamento
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Números Complexos - Parte II

Vamos finalizar nosso estudo dos números complexos apresentando a forma de escrevê-
los com o auxı́lio da Trigonometria, que dará suporte a mais teoria posterior, e mais
exercı́cios.

Forma Trigonométrica

Im

z = a + bi
bi
|z|

θ
R
a

a b
A figura acima nos permite escrever cosθ = e senθ = . Assim, temos
|z| |z|
z = a + ib = |z|cosθ + i|z|senθ,
ou seja,

z = |z|(cosθ + isenθ).
O ângulo θ é chamado de argumento do número complexo z e o denotamos por arg z.
Completando as propriedades do conjugado, temos arg z = 360o − arg z.

Problema 1. Escreva os seguintes números na forma trigonométrica.


POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 17 - Prof. Marcelo Mendes

a) 2.

b) 3i.

c) 1 + i.

d) 1 + i 3.

Solução.

a) 2 = 2(cos0 + isen0).

b) 3i = 3(cos90o + isen90o ).
√ √ !
√ 2 2 √
c) 1 + i = 2 +i = 2(cos45o + isen45o ).
2 2
√ !
√ 1 3
d) 1 + i 3 = 2 +i = 2(cos60o + isen60o ).
2 2

Para ilustrar o item c) dessa questão, observe a figura a seguir.


Im

z = 1+i
i

| 2|

45o
R
1

Após localizar o número 1 + i no plano complexo, visualizamos um quadrado √ de lado


o
1. Assi, fica mais fácil enxergar que o argumento de z é 45 e que o módulo é 2.

Problema 2. Determine o polinômio de menor grau e com coeficientes reais que possui um

número complexo com módulo 1 e argumento como raiz.
3

Problema 3. Sejam x = a + b, y = aω + bω 2 , z = aω 2 + bω, onde ω 2 + ω + 1 = 0. Calcule


x + y + z e expresse x3 + y 3 + z 3 em termos de a e b.

2
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 17 - Prof. Marcelo Mendes

Problema 4. (EUA) O número complexo z satisfaz z + |z| = 2 + 8i. Calcule |z|2 .

Solução. Supondo z = a + bi, a equação fica


p
a + bi + a2 + b2 = 2 + 8i.
A igualdade entre números complexos√nos garante que b = 8 (comparando as partes
imaginárias dos lados da equação) e a + a2 + b2 = 2 (comparando as partes reais dos
lados da equação), ou seja,
p
a2 + b2 = 2 − a ≥ 0 ⇒ a = −15.

Portanto, z = −15 + 8i é a única solução e |z|2 = 152 + 82 = 289.

Problema 5. (IME) Dois números complexos z1 e z2 , não-nulos, são tais que |z1 + z2 | =
z2
|z1 − z2 |. Mostre que é imaginário puro.
z1

Problema 6. (IME) Sendo a, b e c números naturais em progressão aritmética e z um


número complexo de módulo unitário, determine um valor para cada um dos números
a, b, c e z de forma que eles satisfaçam a igualdade
1 1 1
a
+ b + c = z9.
z z z
Problema 7. (ITA) Determine todos os números complexos z, que são raı́zes da equação
|z| − z = 1 + 2i, sendo i a unidade imaginária.

Problema 8. (ITA) Considerando z e w números complexos arbitrários e u = z · w + z · w,


mostre que o conjugado de u é igual ao dobro da parte real do número z · w.

Problema 9. (ITA) Determine o valor da expressão |1 − z|2 + |1 + z|2 , sendo z um número


complexo unitário.

Problema 10. (ITA)


√ Determine o produto dos números complexos z = x + yi que têm
módulo igual a 2 e tais que y = 2x − 1.

Solução. |z|2 = 2 ⇒ x2 + (2x − 1)2 = 2 ⇒ 5x2 − 4x − 1 = 0, cujas raı́zes são x = 1 e


1
x=− .
5
1 7 6 8
Assim, os números são 1 + i e − − i, cujo produto é − i.
5 5 5 5

3
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Problema 11. (ITA) Mostre que, resolvendo a equação z 2 = 2 + z no conjunto dos números
complexos, todas as raı́zes são números inteiros.

Problema 12. (ITA) Sejam x e y números reais, com x 6= 0, satisfazendo (x+iy)2 = (x+y)i.
Mostre que x é uma raiz da equação x3 + 3x2 + 2x − 6 = 0.

Solução. (x + iy)2 = (x + y)i ⇒ x2 + 2xyi − y 2 = (x + y)i. Pela igualdade entre números


complexos, temos x2 − y 2 = 0, o que dá x = y ou x = −y.

Se x = −y, então x + y = 0 e 2xy = 0, absurdo pois x 6= 0.

Logo, x = y e 2xy = x + y equivale a x2 = x. Assim, x = 1, que é uma raiz da equação


dada.

Problema 13. Resolva a equação (z + i)2 + (z − i)2 = 2.


√ !93
2
Problema 14. (ITA) Escreva as formas algébrica e trigonométrica da potência .
1+i

4
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Dicas


1 3
2. Esse número é z = cos120o + isen120o =− +i .
2 2
3. Mostre que ω 3 = 1 e use esse resultado.

5. Use |z|2 = z · z.

6. Tome z = i, que tem módulo unitário e encontre valores para a, b e c.

7. Escreva z = a + bi, com a e b reais.

8. Use z · w = z · w e escreva zw = a + bi, com a e b reais.

9. Use |w|2 = w · w.

11. Escreva z = a + bi, com a e b reais.

14. Use (1 + i)2 = 2i.

5
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Respostas e Soluções

2. P (z) = z 2 + z + 1.

3. x + y + z = a(1 + ω + ω 2 ) + b(1 + ω + ω 2 ) = 0. Assim, x3 + y 3 + z 3 = 3xyz = 3(a3 + b3 )


pois
xyz = (a + b)(aω + bω 2 )(aω 2 + bω)
= (a + b)(a2 + b2 + ab(ω 4 + ω 2 )
= (a + b)(a2 + b2 − ab) = a3 + b3 ,
visto que ω 4 = ω pois ω 3 − 1 = (ω − 1)(ω 2 + ω + 1) = 0.
Outra forma de calcular x3 + y 3 + z 3 é elevar ao cubo as expressões de x, y, z e,
depois, somar os resultados.

5. |z1 + z2 | = |z1 − z2 | ⇔ |z1 + z2 |2 = |z1 − z2 |2 ⇔ (z1 + z2 )(z1 + z2 ) = (z1 − z2 )(z1 − z2 )


(z1 + z2 )(z1 + z2 ) = (z1 − z2 )(z1 − z2 ) ⇔ z1 z1 + z1 z2 + z2 z1 + z2 z2 = z1 z1 − z1 z2 −
z2 z1 + z2 z2 ⇔ z1 z2 + z2 z1 = 0 ⇔

6. Tomando z = i, que tem módulo 1, uma possı́vel solução é a = 2, b = 3 e c = 4


(P.A.), como pedido no enunciado (não foi pedido encontrar todas as soluções).

7. Fazendo z = a + bi, temos a2 + b2 − a − bi = 1 + 2i. A igualdade entre números
complexos nos dá b = −2 e
p 3
a2 + 4 = a + 1 ⇒ a = .
2
3
Logo, z = − 2i é a única solução.
2
8. u = u. Se zw = a + bi, então u = 2a.

9. |1 − z|2 + |1 + z|2 = (1 − z)(1 − z) + (1 + z)(1 + z) = 2 + 2|z|2 = 4.

11. Fazendo z = a + bi, temos a2 + b2 = 2 + a − bi. A igualdade entre números complexos


garante que b = 0 e que a2 = 2 + a, cujas raı́zes são 2 e -1.

13. z = ± 2.
√ 93 √ 92 √ √
14. 2 = 2 2 = 246 2.
(1 + i)93 = (1 + i)92 (1 + i) = (2i)46 (1 + i) = −246 (1 + i)
√ !93 √ √ √ √
2 2 2(1 − i) 2 2
Assim, =− =− =− + i = cos315o + isen315o .
1+i 1+i (1 + i)(1 − i) 2 2

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Relações de Girard - Parte I

Ao estudar as equações (polinomiais) do 2o grau, você deve ter aprendido que é possı́vel
calcular a soma e o produto das raı́zes, mesmo sem conhecê-las. Vamos recordar essas
fórmulas.

Sejam x1 e x2 as raı́zes da equação ax2 + bx + c = 0. Assim, podemos escrever

ax2 + bx + c = a(x − x1 )(x − x2 )

⇒ ax2 + bx + c = ax2 − a(x1 + x2 )x + ax1 x2 .


Igualando os coeficientes de termos de mesmo grau, obtemos b = −a(x1 + x2 ) e c =
ax1 x2 , ou seja,

b
x1 + x2 = − ,
a
c
x1 x2 = .
a
Agora, não pense mais em soma e produto das raı́zes e, sim, que são somas das raı́zes
separadamente e, depois, aos pares. Para um conjunto de 3 raı́zes, por exemplo, a soma
delas separadamente seria x1 + x2 + x3 e, aos pares, x1 x2 + x2 x3 + x3 x1 . Além disso, ainda
haveria a soma delas de 3 em 3: x1 x2 x3 , que, nesse caso, coincide com o produto.

Com essas expressões e repetindo os cálculos acima para uma equação ax3 +bx2 +cx+d =
0, cujas raı́zes são x1 , x2 e x3 , obtemos

b
x1 + x2 + x3 = − ,
a
c
x1 x2 + x2 x3 + x3 x1 = ,
a
d
x1 x2 x3 = − .
a
E isso pode ser extendido para equações polinomiais de qualquer grau, sempre dividindo
pelo primeiro coeficiente, que é sempre diferente de zero, e fazendo alternância de sinais.
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 18 - Prof. Marcelo Mendes

Tais resultados são conhecidos como Relações de Girard (Albert Girard (1590 - 1639)).

Por exemplo, se a equação for 2x4 + 3x2 + 8x + 1 = 0, então

x1 + x2 + x3 + x4 = 0,
3
x1 x2 + x1 x3 + x1 x4 + x2 x3 + x2 x4 + x3 x4 = ,
2
8
x1 x2 x3 + x1 x2 x4 + x1 x3 x4 + x2 x3 x4 = − = −4,
2
1
x1 x2 x3 x4 = .
2
o
Problema 1. Determine uma equação do 3 grau cujas raı́zes sejam 1, 2 e 3.

Solução. O resultado é imediato escrevendo

(x − 1)(x − 2)(x − 3) = 0 ⇔ x3 − 6x2 + 11x − 6 = 0.


Mas também podemos criar os coeficientes da equação através das Relações de Girard.
Sendo x3 − ax2 + bx − c = 0 uma equação (pois podemos multiplicá-la por qualquer valor
não-nulo sem que suas raı́zes sejam alteradas) procurada (os sinais nos coeficientes estão
alternados pelo padrão das Relações de Girard). Assim:

a = 1 + 2 + 3 = 6,
b = 1 · 2 + 2 · 3 + 3 · 1 = 11,
c = 1 · 2 · 3 = 6,
obtendo assim a equação x3 − 6x2 + 11x − 6 = 0.
Problema 2. Resolva a equação polinomial x3 + 4x2 + x − 6 = 0 sabendo que uma de suas
raı́zes é 1.

Solução. Sejam 1, r, s as raı́zes dessa equação. Assim, por Girard, temos:

1 + r + s = −4,
1 · r · s = 6,
ou seja,
r + s = −5,
rs = 6,
donde r = −2 e s = −3.
Problema 3. (EUA) Para quantos inteiros positivos n entre 1 e 100 é possı́vel fatorar
x2 + x − n como produto de dois fatores lineares com coeficientes inteiros?

2
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Problema 4. (ITA) Se a, b, c são as raı́zes da equação x3 − 2x3 + x − 4 = 0, determine o


1 1 1
valor de + + .
a b c

Problema 5. (ITA) As raı́zes da equação x4 + qx3 + rx2 + sx + t = 0, com q, r, s, t ∈ Q∗+ ,


são L, M, N, P . Determine o valor de
L M N P
+ + + .
MNP LN P LM P LM N
Problema 6. (IME) Sejam x1 e x2 as raı́zes da equação x2 + (m − 15)x + m = 0. Sabendo
que x1 e x2 são números inteiros, determine o conjunto de valores possı́veis para m.

Problema 7. Os três números distintos a, b, c verificam as igualdades


 3
 a + pa + q = 0
b3 + pb + q = 0 .
 3
c + pc + q = 0

Prove que a + b + c = 0.

Solução. As relações dadas significam que a, b e c são as raı́zes da equação polinomial do


3o grau x3 + px + q = 0, que, por Girard, tem soma das raı́zes igual a 0, isto é, a + b + c = 0.

Problema 8. Sejam m, n, k ∈ Q as raı́zes de t3 + at + b. Prove que as raı́zes de mt2 + nt + k


também são racionais.

Solução. Observe que não existe o termo do 2o grau em t3 + at + b. Assim, por Girard,
temos que m + n + k = 0. Ora, mas isso mostra que 1 é uma raiz de mt2 + nt + k.
k
Novamente, Girard, através do produto das raı́zes, nos dá que a outra raiz é , que
m
é racional por ser quociente de racionais. Isso mostra que as 2 raı́zes de mt2 + nt + k são
racionais.

Problema 9. (ITA) As raı́zes da equação de coeficientes reais x3 + ax2 + bx + c = 0 são


inteiros positivos consecutivos. A soma dos quadrados dessas raı́zes é igual a 14. Determine
o valor de a2 + b2 + c2 .

Problema 10. Determine o valor da soma a + b para que as raı́zes do polinômio

4x4 − 20x3 + ax2 − 25x + b


1
estejam em progressão aritmética de razão .
2

3
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1 3
Solução. Sejam r, r + , r + 1, r + as raı́zes da equação. Daı́,
2 2
1 3 −20 1
r+r+ +r+1+r+ =− =5⇒r= ,
2 2 4 2
1 3
ou seja, as raı́zes são , 1, e 2. Por Girard, temos:
2 2
a 1 1 3 1 1 3 35
= ·1+ · + ·2+1· +1·2+ ·2 = ⇒ a = 35,
4 2 2 2 2 2 2 4
b 1 3 6
= · 1 · · 2 = ⇒ b = 6.
4 2 2 4
Portanto, a + b = 41.

4
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Dicas

3. Chame as raı́zes de a e b. Em seguida, utilize Relações de Girard.

4. Reduza a soma das frações a um denominador comum (o que se chama comumente


de ’tirar o mı́nimo’. Mas nem sempre o mmc é o produto, além de só ser definido
para naturais). Em seguida, use Girard.

5. Reduza a soma das frações a um denominador comum. Em seguida, use Girard.

6. Além das Relações de Girard, é interessante conseguir utilizar a identidade

xy + x + y + 1 = (x + 1)(y + 1).

9. Denote as raı́zes por n − 1, n, n + 1. Em seguida, use a dica do enunciado e Girard.

5
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Respostas e Soluções

3. Ao expressarmos x2 + x − n como produto de dois fatores lineares com coeficientes


inteiros, os fatores serão (x − a) e (x − b), com a e b inteiros. Por Girard, temos

a + b = −1,
ab = −n.
Assim, precisamos encontrar n tal que a(a + 1) = n, 1 < n < 100. As possibilidades
são a = 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, que dão, respectivamente, n = 2, 6, 12, 20, 30, 42, 56, 72, 90.
Portanto, o resultado é possı́vel para 9 valores de n.

4. Por Girard, temos que ab + bc + ca = 1 e abc = 4. Logo,

1 1 1 ab + bc + ca 1
+ + = = .
a b c abc 4
5. Manipulando a equação e utilizando as Relações de Girard, temos

L M N P L2 + M 2 + N 2 + P 2
+ + + =
MNP LN P LM P LM N LM N P
(L + M + N + P )2 − 2(LM + LN + LP + M N + M P + N P )
=
LM N P
q 2 − 2r
= .
t
6. As Relações de Girard nos dão x1 + x2 = 15 − m e x1 x2 = m. Portanto, soluções
(x1 , x2 ) e (x2 , x1 ) dão o mesmo resultado (valor de m) e

x1 x2 + x1 + x2 + 1 = 16 ⇔ (x1 + 1)(x2 + 1) = 16.

Daı́, temos as possibilidades



x1 + 1 = 1, 2, 4, −4, −2, −1
x2 + 1 = 16, 8, 4, −4, −8, −16


x1 = 0, 1, 3, −5, −3, −2
⇒ ,
x2 = 15, 7, 3, −5, −9, −17

que dão os seguintes possı́veis valores para m = x1 x2 : 0, 7, 9, 25, 27, 34.

6
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9. Sejam n − 1, n e n + 1 as raı́zes dessa equação. Assim,

(n − 1)2 + n2 + (n + 1)2 = 14 ⇔ 3n2 + 2 = 14 ⇔ n = 2.

Pelas Relações de Girard, temos

1 + 2 + 3 = −a ⇒ a = −6,
1 · 2 + 2 · 3 + 3 · 1 = b ⇒ 11,
1 · 2 · 3 = −c ⇒ c = −6.

Logo,
a2 + b2 + c2 = 62 + 122 + 62 = 36 + 121 + 36 = 193.

7
Polos Olímpicos de Treinamento
Curso de Álgebra - Nível 2 Aula 19
Prof. Marcelo Mendes

Relações de Girard - Parte II

Vamos continuar vendo mais exemplos das Relações de Girard. Veremos também um
resultado novo que relaciona esse assunto com números complexos.

Problema 1. (ITA) Seja k ∈ R tal que a equação 2x3 + 7x2 + 4x + k = 0 possua uma
raiz dupla e inteira x1 e uma raiz x2 (ou seja, as raı́zes são x1 , x1 e x2 ), distinta de x1 .
Determine o valor de (k + x1 )x2 .

Solução. Vamos utilizar as Relações de Girard para soma e soma aos pares:
7
x1 + x1 + x2 = 2x1 + x2 = − ,
2
4
x1 x1 + x1 x2 + x1 x2 = x21 + 2x1 x2 = = 2.
2
Eliminando x2 , obtemos:

3x21 + 7x1 + 2 = 0,
3
cuja raiz inteira é x1 = −1. Assim, x2 = − e, portanto,
2
3 k
x1 x1 x2 = − = − ⇒ k = 3.
2 2

Problema 2. Mostrar que f (x) = x3 +x2 −10x+8 é divisı́vel por (x−1) mas não é divisı́vel
por (x − 1)2 .

Solução. Veja que f (1) = 1+ 1− 10+ 8 = 0, o que mostra que f (x) possui um fator (x− 1).

Agora, suponha que f (x) seja divisı́vel por (x − 1)2 . Isto significaria que f possui 1
como raiz dupla. Suponha, então, que as raı́zes sejam 1, 1 e r. Por Girard, temos
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 19 - Prof. Marcelo Mendes

1 + 1 + r = −1 ⇒ r = −3,
1 · 1 · r = −8 ⇒ r = −8,
um absurdo. Logo, f não é divisı́vel por (x − 1)2 .

Problema 3. Verifique se a equação x3 − 3x + 8 = 0 tem raı́zes iguais.

Problema 4. Determinar m para que a equação x3 − 7x + m = 0 tenha uma raiz igual ao


dobro de uma outra.

Problema 5. (IME) Seja

p(x) = x5 + bx4 + cx3 + dx2 + ex + f

um polinômio com coeficientes inteiros. Sabe-se que as cinco raı́zes de p(x) são números
inteiros positivos, sendo quatro deles pares e um ı́mpar. Determine o número de coeficientes
pares de p(x).

Problema 6. (OCM) Considere todas as retas que encontram o gráfico da função

f (x) = 2x4 + 7x3 + 3x − 5

em quatro pontos distintos, digamos (x1 , y1 ), (x2 , y2 ), (x3 , y3 ), (x4 , y4 ). Mostre que o valor
x1 + x2 + x3 + x4
de é independente da reta e ache esse valor.
4
Solução. Seja y = ax + b a equação de uma dessas retas que cortam o gráfico de f em 4
pontos distintos. Queremos resolver a equação f (x) = y, ou seja:

2x4 + 7x3 + 3x − 5 = ax + b ⇔ 2x4 + 7x3 + (3 − a)x − b − 5 = 0.


7
Por Girard, x1 + x2 + x3 + x4 = − e, portanto,
2
x1 + x2 + x3 + x4 7
=− ,
4 8
que independe da reta pois não varia com os valores de a ou b. A chave dessa ideia funcio-
nar é que os coeficientes de f que dão a soma (os dois primeiros) não foram afetados por
a ou b.

Problema 7. (IME) Determine o valor da soma das raı́zes da equação


3 1
y 2 + 5y + 2y 2 + 8 = 0.

2
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 19 - Prof. Marcelo Mendes

Problema 8. São dados a, b, c ∈ R. Sabe-se que

a + b + c > 0,

bc + ca + ab > 0,
abc > 0.
Prove que a > 0, b > 0, c > 0.

Solução. Seja x3 − Ax2 + Bx − C = 0 a equação cuja raı́zes são a, b, c. Por Girard, temos

A = a + b + c ⇒ A > 0,
B = ab + bc + ca ⇒ B > 0,
C = abc ⇒ C > 0.
Suponha que a > 0, b > 0, c > 0 não ocorra, ou seja, existe uma raiz r ≤ 0. Mas

r 3 − |{z}
|{z} Ar 2 + |{z}
Br − |{z}
C
≤0 ≥0 ≤0 >0

seria negativo, contrariando o fato de r ser raiz. Portanto, a > 0, b > 0, c > 0.

Problema 9. Suponha que t3 + pt + q = 0 tenha uma raiz não real a + bi, sendo a, b, p, q
todos reais e q 6= 0. Mostre que aq > 0.

Solução. Vamos iniciar com o seguinte

Teorema (das Raı́zes Complexas). Se uma equação polinomial com coeficientes reais
possui uma raiz complexa z = a + bi (b =
6 0), então z = a − bi também é uma raiz dessa
equação.

Demonstração. Uma equação polinomial é da forma

an xn + an−1 xn−1 + ... + a1 x + a0 = 0.(∗)


Se z é uma raiz dessa equação, significa que

an z n + an−1 z n−1 + ... + a1 z + a0 = 0.


A igualdade acima garante que também vale a igualdade entre os conjugados. Utilizando
as propriedades vistas a respeito dos números complexos, temos

an z n + an−1 z n−1 + ... + a1 z + a0 = 0

⇒ an z n + an−1 z n−1 + ... + a1 z + a0 = 0

3
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 19 - Prof. Marcelo Mendes

⇒ an z n + an−1 z n−1 + ... + a1 z + a0 = 0

⇒ an z n + an−1 z n−1 + ... + a1 z + a0 = 0,


onde a condição de os coeficientes serem reais foi usada pois o conjugado de um número
real é esse próprio número. A última equação garante que z também é raiz de (*).

Voltando ao problema, temos as condições do teorema acima, uma vez que 1, 0, p, q


são reais. Logo, a − bi também é uma raiz. Seja r a terceira raiz. Por Girard, temos soma
0, ou seja

a + bi + a − bi + r = 0,
que mostra que r = −2a é a terceira raiz. Agora, pelo produto

(a + bi)(a − bi)(−2a) = −q ⇔ 2a(a2 + b2 ) = q,


temos que a e q têm o mesmo sinal. Além disso, q 6= 0 ⇒ a 6= 0. Portanto, aq > 0.

Problema 10. (OCM) Mostre que 1 é a única raiz real da equação x3 + x2 = 2.

Problema 11. (ITA) A equação 4x3 − 3x2 + 4x − 3 = 0 admite i (unidade imaginária) como
raiz. Determine as demais raı́zes.

4
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 19 - Prof. Marcelo Mendes

Dicas

3. Use Girard para analisar os casos:


i) as 3 raı́zes são iguais.
ii) as raı́zes são r, r, s (r 6= s).

4. Denote as raı́zes por a, 2a, b e utilize Girard.

5. Utilize Girard para analisar a paridade das raı́zes.


1
7. Faça a substituição y 2 = x e use Girard. Tenha cuidado a soma pedida é em relação
à variável y.

10. Denote as raı́zes diferentes de 1 por a + bi e a − bi (o Teorema das Raı́zes Complexas


garante que as últimas 2 raı́zes, de fato, são números complexos conjugados). Depois,
use Girard.

11. Use o Teorema das Raı́zes Complexas para obter que −i também é raiz. Depois, use
Girard.

5
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 19 - Prof. Marcelo Mendes

Respostas e Soluções

3. Se suposermos que há 3 raı́zes iguais, então, pela fórmula de Girard para a soma,
obterı́amos 0 como raiz, um absurdo.

Assim, só nos resta analisar o caso em que as raı́zes são r, r e s. Por Girard, terı́amos:

2r + s = 0 ⇒ s = −2r,
r s = −8 ⇒ −2r 3 = −8 ⇒ r 3 = 4.
2

Para concluirmos o absurdo desta parte, podemos utilizar que, se r é uma raiz, então
r 3 − 3r + 8 = 0 ⇒ 3r = 8, que contradiz a igualdade r 3 = 4.

4. Sejam a, 2a, b as raı́zes. Por Girard, temos

a + 2a + b = 0 ⇒ 3a + b = 0,
a · 2a + a · b + 2a · b = −3 ⇒ 2a2 + 3ab = −3.
Eliminando b, temos a = ±1. Assim:

i) a = 1 ⇒ b = −3. Logo, m = 6.
ii) a = −1 ⇒ b = 3. Logo, m = −6.

5. Sejam p1 , p2 , p3 , p4 as 4 raı́zes pares e i a raı́z ı́mpar. Por Girard, −b é a soma de


quatro número pares e um ı́mpar, ou seja, b é ı́mpar; os demais coeficientes serão
somas de produtos em que pelo menos um fator é pk (k = 1, 2, 3 ou 4) e, portanto,
são todos pares. Logo, p possui 4 coeficientes pares.

1
7. Vamos começar com a substituição y 2 = x. A equação se torna

x3 + 5x2 + 2x + 8 = 0.
Todavia, devemos ficar atentos que não nos interessa o valor de x1 + x2 + x3 , uma
vez que a letra x não é a incógnita inicial.
Nosso objetivo é calcular
y1 + y2 + y3 = x21 + x22 + x23 ,
ou seja,

(x1 + x2 + x3 )2 − 2(x1 x2 + x2 x3 + x3 x1 ) = (−5)2 − 2(2) = 21.

6
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 2 - Aula 19 - Prof. Marcelo Mendes

10. Inicialmente, veja que 1 é raiz de x3 + x2 = 2, pois 13 + 12 = 2, e que essa equação


pode ser reescrita como x3 + x2 − 2 = 0.

Suponha que, além da raiz 1, essa equação possua uma raiz complexa e não-real a+bi.
Como temos a condição do teorema visto no problema 20 (que é termos coeficientes
reais), a − bi também deve ser uma raiz. Por Girard, temos

1 + a + bi + a − bi = −1 ⇒ a = −1,
1 · (a + bi) · (a − bi) = 2 ⇒ 1 + b2 = 2 ⇒ b = ±1.

Temos, assim, raı́zes 1, −1 ± i, que verificam a relação de Girard restante

1(−1 + i) + 1(−1 − i) + (−1 + i)(−1 − i) = 0.

Assim, 1 é, de fato, a única raiz real.

11. Observe, inicialmente, que todos os coeficientes dessa equação são reais. Pelo teo-
rema visto no problema 20, podemos concluir que −i (que é o conjugado do número
complexo i) também é raiz da equação dada.

Por Girard, sendo r a terceira raiz, então


3 3
i + (−i) + r = ⇒r= .
4 4

Outra maneira, talvez até mais natural de se resolver esse problema, é através de
fatoração:

4x3 − 3x2 + 4x − 3 = 0
⇔ x2 (4x − 3) + (4x − 3) = 0
⇔ (4x − 3)(x2 + 1) = 0,
3
cujas raı́zes são, de fato, , i e −i.
4

7
Polos Olímpicos de Treinamento
Curso de Álgebra - Nível 3 Aula 1
Prof. Antonio Caminha

Desigualdades 1

Nesta aula, aprenderemos e exercitaremos a desigualdade entre as médias aritmética e


geométrica e a desigualdade de Cauchy, bem como alguns corolários seus. Para saber mais
sobre o conteúdo desta aula, sugerimos as seções 7.1 a 7.3 de [1], 2.3 e 2.4 de [3] e a seção
5.5 de [4].
A observação básica para o estudo sistemático de desigualdades é o fato do quadrado
de todo número real ser não negativo, sendo igual a zero se e só se o número em questão for
também igual a zero. Portanto, para x, y ∈ R temos (|x| − |y|)2 ≥ 0, ocorrendo a igualdade
se e só se |x| = |y|. Desenvolvendo a expressão entre parênteses, concluı́mos que
x2 + y 2
≥ |xy|, (1)
2
ocorrendo a igualdade se e só se |x|
√= |y|. Assim, partindo de dois números reais positivos

a e b e fazendo x = a ≥ 0 e y = b ≥ 0, segue da desigualdade acima que
a+b √
≥ ab, (2)
2
√ √
ocorrendo a igualdade se e só se a = b, i.e., se e só se a = b.
Exemplo 1. Para x, y, z reais positivos, temos
x2 + y 2 + z 2 ≥ xy + xz + yz, (3)
ocorrendo a igualdade se, e somente se, x = y = z.
Prova. Para obter a desigualdade do enunciado, basta somar membro a membro as desi-
gualdades parciais (obtidas a partir de (2))
x2 + y 2 x2 + z 2 y2 + z2
≥ xy, ≥ xz, ≥ yz.
2 2 2
Se x = y = z, então a desigualdade do enunciado é claramente uma igualdade. Reci-
2 2
procamente, se ao menos uma das desigualdades acima for estrita, digamos x +y 2 > xy,
então, após somarmos as mesmas membro a membro, obteremos
x2 + y 2 + z 2 > xy + xz + yz.
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 3 - Aula 01 - Prof. Antonio Caminha

A desigualdade (2) é um caso particular da desigualdade entre as médias aritmética


e geométrica. A fim de enunciar e provar tal generalização precisamos, inicialmente, da
seguinte

Definição 2. Para n > 1 números reais positivos a1 , a2 , . . . , an , definimos sua:


a1 +a2 +···+an
(a) Média aritmética como o número n .

(b) Média geométrica como o número n a1 a2 . . . an .

No contexto da definição acima, o que fizemos em (2) foi mostrar que a média aritmética
de dois reais positivos é sempre maior ou igual que sua média geométrica, ocorrendo a
igualdade somente se os dois números forem iguais. Estabelecemos o caso geral no resultado
a seguir, sendo (4) conhecida como a desigualdade entre as médias.

Teorema 3. Dados n > 1 reais positivos a1 , a2 , . . . , an , temos


a1 + a2 + · · · + an √
≥ n a1 a2 · · · an , (4)
n
ocorrendo a igualdade se e só se a1 = a2 = · · · = an .

Para entender a dinâmica da prova do teorema acima, analisemos separadamente os


casos n = 3 e n = 4, começando√ comc+do caso
√ n = 4. Para tanto, dados reais positivos
a+b
a, b, c, d, já sabemos que 2 ≥ ab e 2 ≥ cd. Daı́,
√ √
a+b
+ c+d √ √ √
q
a+b+c+d 2 2 ab + cd 4
= ≥ ≥ ab cd = abcd.
4 2 2
a+b+c+d

4

3
Mostramos, acima, que 4 ≥ abcd. Escrevendo tal desigualdade com abc no
lugar de d, obtemos

a+b+c+ 3
abc
q
4 √
3

4

3
≥ abc abc = d3 d = d = abc.
4
√ √ √
Segue, daı́, a desigualdade a + b + c + 3 abc ≥ 4 3 abc, ou, o que é o mesmo, a+b+c
3 ≥ 3 abc.
Conforme veremos a seguir, a prova da versão geral da desigualdade entre as médias é
uma adaptação dos argumentos utilizados para os dois casos acima.

Prova do Teorema 3. Inicialmente, provemos por indução que a desigualdade desejada


é verdadeira sempre que n for uma potência de 2, ocorrendo a igualdade se e só se a1 =
a2 = · · · = an . Para tanto, temos de verificar o caso inicial n = 2 (o que já foi feito ao longo
da discussão que estabeleceu (2)), formular a hipótese de indução (para n = 2j , digamos)
e executar o passo de indução (deduzir o caso n = 2j+1 a partir do caso n = 2j ). Mas
desde que 2j+1 = 2 · 2j , basta supormos que a desigualdade seja verdadeira para quaisquer
k reais positivos, com igualdade se e só se os k números forem todos iguais, e deduzir a
partir daı́ que ela também será verdadeira para quaisquer 2k reais positivos, com igualdade

2
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 3 - Aula 01 - Prof. Antonio Caminha

novamente se e só se todos os números forem iguais. Para estabelecer esse fato, considere
os 2k reais positivos a1 , a2 , . . . , a2k . Então:
 
2k k k
1 X 1 1 X 1 X 1 √ √ 
aj = aj + ak+j  ≥ k
a1 . . . ak + k ak+1 . . . a2k
2k 2 k k 2
j=1 j=1 j=1
q√
√ √
≥ k
a1 . . . ak k ak+1 . . . a2k = 2k a1 . . . ak ak+1 . . . a2k .

Para haver igualdade, devemos ter igualdade em todas as passagens. Então, deve ser
a1 + · · · + a k √ ak+1 + · · · + a2k √
= k a1 . . . ak , = k ak+1 . . . a2k
k k
e √ √
k a1 . . . ak + k ak+1 . . . a2k q√

= k
a1 . . . ak k ak+1 . . . a2k .
2
Para as duas primeiras igualdades, devemos ter por hipótese que a1 = · · · = ak e ak+1 =
√ √
· · · = a2k . Por fim, a última igualdade ocorre se e só se k a1 . . . ak = k ak+1 . . . a2k , e esta
condição, juntamente com as duas anteriores, implica que devemos ter a1 = · · · = ak =
ak+1 = · · · = a2k . É também evidente que, se os números forem todos iguais, então a
igualdade ocorre (verifique!). Logo, por indução temos (4) verdadeira, com a condição para
a igualdade dada no enunciado, sempre que n for uma potência de 2.
Provemos agora, por indução forte, que a desigualdade é verdadeira em geral, ocorrendo
a igualdade se e só se os números forem todos iguais. Para tanto, seja n > 1 natural e
a1 , a2 , . . . , an reais positivos dados. Tome k ∈ N tal que 2k > n. Aplicando a desigualdade
entre as médias aos n números a1 , a2 , . . . , an , juntamente com 2k − n cópias do número

a = n a1 a2 . . . an (totalizando n + (2k − n) = 2k números), obtemos

a1 + · · · + an + a + · · · + a
q
2k 2k 2k
p p
≥ a . . . a · a 2k −n = a n a2k −n = a2k = a.
1 n
2k
A partir daı́, obtemos a1 + a2 + · · · + an + (2k − n)a ≥ 2k a ou, ainda,
a1 + a2 + · · · + an √
≥ a = n a1 a2 . . . an .
n
Para haver igualdade, segue da primeira parte que a1 = a2 = · · · = an = a = · · · = a.
Em particular, todos os números a1 , a2 , . . . , an devem ser iguais. Finalmente, é fácil ver
que se esses números forem todos iguais, então haverá igualdade.

Exemplo 4. Para n > 1 reais positivos a1 , a2 , . . . , an , temos


 
1 1 1
(a1 + a2 + · · · + an ) + + ··· + ≥ n2 , (5)
a1 a2 an

ocorrendo a igualdade se e só se a1 = a2 = · · · = an .

3
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 3 - Aula 01 - Prof. Antonio Caminha

Prova. Aplicando duas vezes a desigualdade entre as médias, temos


   r 
1 1 1 √ n 1 1 1
(a1 + a2 + · · · + an ) + + ··· + ≥ (n a1 a2 · · · an ) n
n
· ··· = n2 .
a1 a2 an a1 a2 an

Para haver a igualdade, devemos ter a1 + a2 + · · · + an = n n a1 a2 · · · an , donde a1 = a2 =
· · · = an . Reciprocamente, é imediato verificar que se todos os números forem iguais, então
teremos igualdade em (5).

Exemplo 5 (Ásia-Pacı́fico). Se a, b e c são reais positivos, prove que


   
 a b  c a+b+c
1+ 1+ 1+ ≥2 1+ √ 3
.
b c a abc
Prova. Desenvolvendo o primeiro membro, obtemos
 
 a b  c a+c b+c a+b
1+ 1+ 1+ =2+ + + ,
b c a b a c
donde basta mostrarmos que
a+c b+c a+b 2(a + b + c)
+ + ≥ √3
.
b a c abc
Denotando por S o primeiro membro da expressão acima, segue da desigualdade entre
as médias e de (5) que
 
1 1 1
S = (a + b + c) + + −3
a b c
   
2 1 1 1 1 1 1 1
= (a + b + c) + + + (a + b + c) + + −3
3 a b c 3 a b c
 
2 3 1
≥ (a + b + c) 3 √ + ·9−3
3 abc 3
2(a + b + c)
= √3
.
abc

Voltando a (1), suponha dados números reais a1 , a2 , a3 e b1 , b2 , b3 , tais que a21 +a22 +a23 =
1 e b21 + b22 + b23 = 1. Temos

a21 + b21 ≥ |a1 b1 |, a22 + b22 ≥ |a2 b2 |, a23 + b23 ≥ |a3 b3 |, (6)

ocorrendo a igualdade se e só se |a1 | = |b1 |, |a2 | = |b2 |, |a3 | = |b3 |. Somando membro a
membro as desigualdades acima, obtemos

(a21 + a22 + a23 ) + (b21 + b22 + b23 ) = (a21 + b21 ) + (a22 + b22 ) + (a23 + b23 )
≥ 2(|a1 b1 | + |a2 b2 | + |a3 b3 |)
≥ 2|a1 b1 + a2 b2 + a3 b3 |,

4
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 3 - Aula 01 - Prof. Antonio Caminha

onde, na última desigualdade, aplicamos a desigualdade triangular para três números (cf.
Problema 1).
Portanto, provamos acima que, se a21 + a22 + a23 = 1 e b21 + b22 + b23 = 1, então

|a1 b1 + a2 b2 + a3 b3 | ≤ 1. (7)

A igualdade ocorre se e só se tivermos igualdade tanto nas desigualdades em (6) quanto
na desigualdade triangular utilizada, i.e., se e só se |a1 | = |b1 |, |a2 | = |b2 | e |a3 | = |b3 | e,
além disso, a1 b1 , a2 b2 , a3 b3 ≥ 0 ou a1 b1 , a2 b2 , a3 b3 ≤ 0. Mas é imediato verificar que tais
condições são equivalentes a a1 = b1 , a2 = b2 e a3 = b3 .
Considere, agora, números reais a1 , a2 , a3 e b1 , b2 , b3 quaisquer, exceto pelo fato de que
pelo menos um pdos números a1 , a2 , ap 3 e pelo menos um dos números b1 , b2 , b3 são não nulos.
Fazendo c = a1 + a2 + a3 e d = b21 + b22 + b23 , temos c, d > 0; portanto, se xi = aci e
2 2 2
a2 +a2 +a2
yi = bdi , para 1 ≤ i ≤ 3, temos x21 +x22 +x23 = 1 c22 3 = 1 e, analogamente, y12 +y22 +y32 = 1.
Segue, pois, de (7) que
|x1 y1 + x2 y2 + x3 y3 | ≤ 1,
com igualdade se e só se xi = yi para 1 ≤ i ≤ 3.
Substituindo as definições de xi e yi na desigualdade acima, concluı́mos ser ela equiva-
lente à desigualdade
q q
|a1 b1 + a2 b2 + a3 b3 | ≤ cd = a21 + a22 + a23 b21 + b22 + b23 .

Ademais, há igualdade se e só se ai = dc · bi para 1 ≤ i ≤ 3.


A discussão acima estabeleceu, para n = 3, a desigualdade do teorema a seguir, conhe-
cida como a desigualdade de Cauchy.

Teorema 6 (Cauchy). Sejam n > 1 inteiro e a1 , a2 , . . . , an , b1 , b2 , . . . , bn números reais


dados. Então v v
n u n u n 2
X uX uX
a b ≤ 2
aj · t bj , (8)
j j
t

j=1 j=1 j=1

ocorrendo a igualdade se e só se os ai e os bi forem respectivamente proporcionais, i.e., se


e só se existir um real não nulo λ tal que a1 = λb1 , a2 = λb2 , an = λbn .

Prova. Se todos os ai ou todos os bi forem iguais a zero, nada há a fazer. Senão, a fim de
estabelecer (8), basta seguir os passos do caso particular n = 3 discutido acima, tomando
o cuidado de, no momento oportuno, utilizar o caso geral da desigualdade triangular.

Os dois exemplos a seguir ilustram a utilização da desigualdade de Cauchy.

Exemplo 7 (Romênia). Sejam x1 , x2 , . . ., xn+1 reais positivos tais que x1 + x2 + · · · + xn =


xn+1 . Prove que
p p p
x1 (xn+1 − x1 ) + · · · + xn (xn+1 − xn ) ≤ xn+1 (xn+1 − x1 ) + · · · + xn+1 (xn+1 − xn ).

5
POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 3 - Aula 01 - Prof. Antonio Caminha

Prova. Para 1 ≤ j ≤ n seja yj = xn+1 − xj . Pela desigualdade de Cauchy, temos


√ √ √ √
x1 y 1 + · · · + xn y n ≤ x1 + · · · + xn y 1 + · · · + y n
√ p
= xn+1 (xn+1 − x1 ) + · · · + (xn+1 − xn ).

Exemplo 8. Dados números reais a1 , . . . , an e b1 , . . . , bn , temos


v v v
u n u n 2 uX
uX uX u n
t (aj + bj ) ≤ t 2 aj + t b2j , (9)
j=1 j=1 j=1

ocorrendo a igualdade se e só se a1 , . . . , an e b1 , . . . , bn forem positivamente proporcionais,


i.e., se e só se existir um real positivo λ, tal que ai = λbi para 1 ≤ i ≤ n.
Prova. Façamos a prova para n = 3, sendo o caso geral inteiramente análogo. Uma vez
que ambos os membros de (9) são reais não negativos, basta mostrar que o quadrado do
primeiro membro é menor ou igual que o quadrado do segundo membro, i.e., que
q q 2
2 2 2 2 2 2 2 2 2
(a1 + b1 ) + (a2 + b2 ) + (a3 + b3 ) ≤ a1 + a2 + a3 + b1 + b2 + b3 .

Desenvolvendo todos os quadrados (ai +bi )2 , segue que o quadrado do primeiro membro
é igual a
(a21 + 2a1 b1 + b21 ) + (a22 + 2a2 b2 + b22 ) + (a23 + 2a3 b3 + b23 ).
Analogamente, o quadrado do segundo membro é igual a
q q
2 2 2
(a1 + a2 + a3 ) + 2 a1 + a2 + a3 b21 + b22 + b23 + (b21 + b22 + b23 ).
2 2 2

Mas, como em ambas as expressões temos a parcela (a21 + a22 + a23 ) + (b21 + b22 + b23 ), a
desigualdade do enunciado é equivalente a
q q
2(a1 b1 + a2 b2 + a3 b3 ) ≤ 2 a21 + a22 + a23 b21 + b22 + b23 ,

a qual é, precisamente, a desigualdade de Cauchy.


A dedução das condições para a igualdade fica a cargo do leitor.

Problemas
1. * Dados números reais não nulos x1 , x2 , . . . xn , prove a desigualdade triangular:

|x1 + x2 + · · · + xn | ≤ |x1 | + |x2 | + · · · + |xn |,

ocorrendo a igualdade se e só se x1 , x2 , . . . , xn tiverem um mesmo sinal.

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POT 2012 - Álgebra - Nı́vel 3 - Aula 01 - Prof. Antonio Caminha

2. (OBM). Sejam a, b, c reais positivos dados. Prove que


p
(a + b)(a + c) ≥ 2 abc(a + b + c).

3. Dispomos de uma folha de cartolina de 2m por 3m e queremos construir com a mesma


uma caixa aberta com o maior volume possı́vel. Quais devem ser as dimensões da
caixa? Justifique sua resposta.

4. (Estados Unidos). Prove que, para todos a, b, c reais positivos, tem-se


1 1 1 1
+ + ≤ .
a3 + b3 + abc b3 + c3 + abc c3 + a3 + abc abc

Para os dois problemas a seguir precisamos de um pouco de geometria Euclidiana


plana. Mais precisamente (cf. Figura 1), sendo a = BC, b = AC e c = AB os
comprimentos dos lados de um triângulo ABC, existem x, y, z > 0 tais que a = y + z,
b = x + z e c = x + y: basta tomar x, y e z como sendo iguais aos comprimentos
dos segmentos determinados sobre os lados de ABC pelos pontos de tangência com
os mesmos do cı́rculo inscrito em ABC (para uma prova de tais afirmações, veja o
Capı́tulo 3 de [2]). No contexto de desigualdades envolvendo os lados a, b e c de
um triângulo, a substituição dos mesmos respectivamente por y + z, x + z e x + y é
conhecida como a transformação de Ravi.

y B y

x z
I