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A Psicologia do Amor

Élison Santos

INTRODUÇÃO À PSICOLOGIA DO AMOR

“O amor é um ato que caracteriza a existência


humana no que ela tem de humano; por

outras palavras, um ato existencial.”

Viktor Emil Frankl

RESUMO

O conceito de amor encontra vários significados para diferentes autores e culturas.


Contudo, o ser humano em suas diferenças se une também em uma vivência
comum: a própria capacidade de amar. A visão frankliana do amor oferece uma
concepção mais profunda, uma vez que lhe reconhece o caráter espiritual e abrange
a percepção dos valores na vida de quem ama e é amado. A partir da visão de
Frankl, pode-se encontrar ainda mais valor na concepção do amor para a vida
humana, ampliando a reflexão do amor Eros para o amor Philia e encontrando no
amor o caminho para a cura psicológica de almas.

Palavras-chave: Sentido do amor, relacionamento, espiritual, família, sociedade,


logoterapia, psicologia do amor, philia, cura psicológica de almas.

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INTRODUÇÃO

Importar-se com o outro, sentir-se chamado a realizar algo pelo outro, amar.
Que papel o amor pode exercer na cura de uma doença psíquica, na mudança de
comportamento, na superação de limites?
Pode-se dizer que o amor é a maior força que um ser humano é capaz de
experimentar? E se isso é verdade e através dele as pessoas se mobilizam mais do
que o fariam com sua ausência, então o amor é a mola propulsora do
desenvolvimento humano? Por que não? O que é o amor?
Este trabalho busca destacar as contribuições de Viktor Emil Frankl para o
aprofundamento da compreensão sobre o sentido do amor para a existência
humana e ampliar a reflexão sobre o poder do amor na cura de transtornos
psíquicos.
Max Scheler(1960) chegará a dizer que a essência do ser humano é o amor.
Quando uma pessoa ajuda alguém, ela se sente realizada e a pessoa ajudada
sente-se no dever de retribuir a ajuda, pois ser ajudado não a realiza tanto quanto
poder ajudar. Compreendendo a ajuda como uma expressão do amor, poder-se-ia
dizer que o homem tem em si a necessidade de ser amado, mas, em última
instância, a necessidade de amar? Não há realização plena na vida humana senão
através do amor?
Sigmund Freud afirmava que a busca primordial do ser humano é por prazer,
Adler afirmava que essa busca é pelo poder, Viktor Frankl defendia a visão de que a
busca primordial e vital do ser humano é por sentido. Frankl também afirmava que a
forma mais sublime de sentido da vida é encontrada por meio da vivência do amor,
quando se tem a quem amar.
Este trabalho convida a refletir sobre o sentido do amor, buscando afirmar
que em última instância, o que o ser humano busca é, de fato, o sentido da vida que
se manifesta de forma sublime na possibilidade de amar. É amando que se pode
experimentar o auge do prazer, do poder e do sentido da vida.
O conceito de amor encontra vários significados nos dias atuais, tanto no
conhecimento popular, quanto para diferentes autores das relações humanas. A
visão frankliana sobre o sentido do amor oferece uma perspectiva ontológica de

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promoção da reflexão a respeito do amor e, através do sentido do amor, um


caminho possível de rehumanização das relações.
Observa-se, através da experiência clínica e da análise das relações sociais,
uma confusão a respeito das diferentes visões sobre o sentido do amor, resultando
em um enfraquecimento dos vínculos sociais.
O advento de uma super valorização da estética, da sexualização infanto-
juvenil, do individualismo, do imediatismo, e da necessidade de rapidez na produção
para responder a demanda de acumulo de capital promovem um enfraquecimento
dos vínculos e a desumanização das relações, assim como o aumento da incidência
de transtornos psicológicos e o vazio existencial.
Faz-se necessário um estudo mais aprofundando sobre o sentido do amor na
pós- modernidade a fim de oferecer uma visão mais clara sobre seu significado ao
homem atual.
O objetivo deste trabalho é destacar a visão frankliana sobre o sentido do
amor em meio às diferentes visões a respeito do amor nos dias atuais, como
resposta aos anseios existenciais do homem de todas as épocas.
Os estudos presentes ao longo deste trabalho deram-se através da análise da
literatura de Frankl e outros autores da atualidade, bem como a análise de dados
através da internet e outros meios de pesquisa e relatos de casos clínicos.

O SENTIDO DO AMOR EM FRANKL

O amor pode ser compreendido de diversas formas, já na antiguidade os


gregos tinhamdiferentes termos para definir as expressões do amor:
O amor philos, do grego Philia, significa um amor virtuoso desapaixonado. Era
um conceito desenvolvido por Aristóteles. Inclui a lealdade aos amigos, à família, e à
comunidade, e requer a virtude, a igualdade e a familiaridade. Nos textos antigos, a
philia denota um tipo de amor global, usado como amor entre a família, entre
amigos, um desejo ou a apreciação de uma atividade, bem como entre amantes.
Esta é a única outra palavra usada nos textos antigos do Novo Testamento além de
ágape.

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Segundo Epicuro (300 a.c.):

A necessidade de não ser agredido determina um contrato que


instaura uma segurança calculada; isto é o direito, que rege a não-
agressão recíproca entre pessoas, que, precisamente, não são
amigas. A amizade é outra coisa completamente diferente: ela não é
contratada, sendo mais essencial do que o cálculo. Ela também
proporciona segurança, naturalmente, e bem maior do que aquela
que é proporcionada pelo pacto social. Entre amigos, a noção do
justo não tem mais lugar; não por irrupção da injustiça, é claro, mas
pela superação do cálculo sobre o qual se fundam os contratos. A
amizade está além do acordo contratado. Ela é uma lei do ser-sábio.
Ela implica que cada um encontre nela o desabrochar de sua própria
sabedoria, na companhia de vários indivíduos, iguais, tornados
homogêneos por uma felicidade comum.

O amor ágape, também do grego, significa o amor, o amor de Deus. Nos


textos bíblicos é usado por Jesus quando diz:

Amai (ágape) ao senhor vosso Deus com todo vosso coração e com
toda vossa alma e com toda vossa mente’. Este é o primeiro e maior
de todos os mandamentos. E o segundo é: ‘Amai (ágape) vosso
próximo como a vós mesmos. Toda a lei e os Profetas residem nestes
dois mandamentos (Mt 22, 37- 41).

Também no Sermão da Montanha:

Ouvistes dizer: amarás (ágape) teu irmão e odiarás teu inimigo’, mas
eu vos digo: amai (ágape) vossos inimigos, fazei o bem aos que vos
odeiam, e orai por aqueles que vos perseguem e maltratam, pois
deste modo sereis filhos de vosso Pai nos céus, aquele que faz com
que o sol se levante o mau e sobre o bom, e faz chover sobre o justo
e sobre o injusto. Se amais apenas aqueles que vos amam, que
recompensa tereis?

O amor Eros. Eros é o deus grego do amor, belo e irresistível a ponto de


desconsiderar o bom senso. É o amor apaixonado, com desejo e atração sensual.
Para Platão, Eros significa também a capacidade de reconhecer a beleza da alma e
de recordar a pessoa amada, mesmo que esteja ausente, daí a expressão "amor
platônico".

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Há também a visão biológica a respeito do amor. Para Kenrick (1990) o amor é


um conjunto de decisões tendenciosas que evoluiu para servir a interesses
genéticos. Estas predisposições influenciam a atenção das pessoas, sua memória e
tomada de decisões. Por exemplo, quando se interage com um estranho o
comportamento altruísta é menos comum que quando se interage com parentes
com quem se partilha os genes.
Mas, de que se trata o amor que está na essência do ser humano?
Não é o amor romântico, nem tampouco o amor fanático que se tem pelas
ideologias, não é o amor nostálgico das canções sertanejas, nem o amor possessivo
dos jovens casais, ainda que todos estes possam ser considerados como fragmentos
ou sinais do amor.
Poder-se-ia dizer, a princípio, que o amor é uma capacidade essencialmente
humana que tem seu núcleo na pessoa espiritual.

O amor é um fenômeno humano no sentido exato da palavra. É um


fenômeno especificamente humano, quer dizer: não se pode reduzir,
sem mais, a um fenômeno sub-humano, nem de um fenômeno sub-
humano se pode deduzir. Enquanto ‘fenômeno originário’ que, como
tal, é impossível reduzir a alguma coisa que ‘a rigor’ esteja por trás
dele, - o amor é um ato que caracteriza a existência humana no que
ela tem de humano; por outras palavras, um ato existencial. Mais
ainda: é o ato co-existencial por excelência. (Viktor Frankl, 1946)

Viktor Frankl, no desenvolvimento dos conceitos da logoterapia, apresenta o


conceito de auto-transcendência como a essência da existência, assegura que a
existência não é apenas intencional, mas também transcendente, o ser humano está
direcionado a algo além de si mesmo, tem uma capacidade de alcançar além de si,
especialmente ao outro, no amor e no serviço.

A essência da existência humana, diria eu, radica na sua


autotranscendência. Ser homem significa, de per si e sempre, dirigir-
se a ordenar-se a algo ou a alguém: entregar-se o homem a uma obra
a que se dedica, a um homem a quem ama, ou a Deus a quem serve.
(Viktor Frankl, 1960)

Nessa visão de Frankl, pode-se fundamentar a existência da pessoa espiritual


que é capaz de autotranscendência e de viver o amor.

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O amor pode ser mais compreendido à medida que se aceita a constituição da


estrutura humana que não se limita ao bio-psíquico, mas se estende ao espiritual.

Esta autotranscendência quebra os quadros de todas as imagens do


homem que, no sentido de algum monadologismo, representem o
homem como um ser que não atinge o sentido e os valores, para
além de si mesmo, orientando-se, assim, para o mundo,
interessando-se exclusivamente por si mesmo, como se lhe
importasse a conservação ou o restabelecimento da homeostase. O
monadologismo ignora que, como demonstraram Von Bertalanfey,
Goldstein, Allport e Charlotte Buhler, o princípio da homeostase não
vale geralmente na biologia, e muito menos na psicologia. (Viktor
Frankl, 1960)

Dessa forma, Frankl traça uma diferença entre a visão mecanicista de


diferentes abordagens da psicologia e a visão existencial da logoterapia. Uma vez
que o ser humano busca a homeostase, ele não está aberto ao outro e, portanto
não é capaz de amar. Sua realização, por outro lado, está na autotranscendência, na
possibilidade de ir além de si, ao encontro do outro, atingindo o sentido e os
valores, orientando-se para o mundo, para as pessoas, amando.
A vida humana é dependente, não é como um bezerro que nasce e já aprende
a andar, o ser humano é totalmente dependente. Se não há alguém que se dedique
a cuidar de um recém-nascido, em pouquíssimo tempo este morrerá. O ser humano
não é uma ilha. Ainda que algumas pessoas desejem se dedicar a uma vida de
eremita distante da convivência com outras pessoas, ainda assim sua vida só terá
sentido por saber que há pessoas por quem poderá oferecer orações e sacrifícios. O
ser humano precisa do outro para sobreviver e para viver. E ainda mais, para
desenvolver.
Viktor Frankl utiliza o termo monantropismo para definir o "saber em torno
da unidade da humanidade, uma unidade que ultrapassa todas as diversidades, quer
as da cor da pele, quer as da cor dos partidos". A defesa de Frankl da unidade da
humanidade pode também servir de fundamento para a definição de amor que
envolve a ligação que o ser humano é capaz de estabelecer com outras pessoas,
mesmo que não sejam da mesma família ou com quem se estabeleça uma relação
de amor para construir uma família. Frankl repetidas vezes defende o tema da
responsabilidade para com os outros.

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O conceito de amor philia, que para os gregos significava o amor fraternal,


serve para fundamentar a ideia de que essa unidade defendida por Frankl e essa
responsabilidade a qual todo ser humano é chamado a ter pelo outro é de fato o
amor. Este amor, contudo, não é um determinismo biológico como afirma Kenrick,
mas um amor presente no núcleo espiritual da pessoa, ou seja, está totalmente
submetido à vontade e à liberdade. Amar é de fato um ato de liberdade. Quem ama
não apenas tem consciência de que faz parte de uma unidade com as outras
pessoas, mas também de que o bem de todos também depende dele e esta é
também sua responsabilidade. Amando, o ser humano encontra o sentido para a
vida, exercita a liberdade, a responsabilidade e encontra a felicidade.
Se para Freud o amor era concebido apenas como um epifenômeno, para Frankl
(1946) o amor "é um fenômeno originário da existência humana e não precisamente
um mero epifenômeno, quer no sentido das chamadas tendências inibidas, quer no
sentido da sublimação".
Freud dizia que "onde está o Id, tornar-me-ei Ego”. Frankl, por outro lado, vê
na capacidade do ser humano de amar um pressuposto para a sublimação e não um
resultado da sublimação. Desta forma, só o Ego que tende para o Tu pode integrar o
Id verdadeiro e próprio.
A frase de Santo Agostinho também pode encontrar sentido nas afirmações
de Frankl, ao dizer: "Ame e faça o que quiser". Ao amar, o Ego está diretamente
voltado para o Tu, desta forma a vivência do Id torna-se totalmente possível, aceita
e compatível com as exigências da vida.
O suprassentido concebido na teoria frankliana como um sentido que está
acima da realidade humana, tal qual o mundo inferior dos animais é superado pelo
mundo dos seres humanos, fundamenta-se no amor. "A entrada na dimensão supra-
humana, efetivada na fé, funda-se no amor", afirmou Frankl (1946).
O amor e a fé parecem estar unidos na teoria frankliana. Em ambos os casos Frankl
afirma que sua vivência faz o homem mais forte.
Em uma crítica a concepção de Freud sobre os processos de ajustamento, Charlotte
Buhler (1893-1974) afirma que "’no seu impulso para o equilíbrio, quem se ajusta
toma a realidade negativamente’, ao passo que ‘quem cria coloca o seu produto e
obra numa realidade concebida positivamente’".

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Frankl, tomando esta passagem de Buhler, amplia a crítica ao princípio do


prazer como sendo uma tendência a manter ou restabelecer o mais baixo nível de
tensão possível.
A visão freudiana de determinismo nas atitudes humanas interpretando-as
como uma constante busca pelo prazer a favor do princípio da homeostase não
apenas não contempla no homem sua possibilidade de amar e sua característica
espiritual como as nega e estabelece uma visão equivocada da vida humana que nos
últimos tempos têm servido como fundamento de políticas públicas e sistemas de
vivências sociais.

Scheler define o amor como um movimento espiritual em direção ao


mais alto valor da pessoa amada, um ato espiritual em que esse valor
- a que ele chama a “salvação” do homem - é captado. Não anda
longe disso o que diz Spranger: o amor, para este autor, reconhece as
possibilidades de valor do ser amado. É o que Hattingberg exprime
por outras palavras: o amor vê o homem tal como Deus o ‘pensou’.
(Viktor Frankl, 1946)

No trecho acima, Viktor Frankl(1946) nos permite entrar em contato com três
diferentes autores. A definição de Max Scheler (1874-1928) nos possibilita
compreender que o amor é um movimento. O amor não é algo estagnado no
homem, mas como tudo que caracteriza a vida, o amor é um movimento, e não está
dirigido para qualquer lugar ou para qualquer objetivo, como que ao acaso, ele
move-se para o alto, dirigido ao “alto valor” da pessoa amada, Scheler também fala
de um movimento que não é material, mas sim espiritual. Utilizando a ontologia
dimensional de Frankl que afirma que o núcleo da pessoa é espiritual, podemos
pensar que este movimento do qual fala Scheler tem suas raízes no núcleo da
pessoa, em sua própria essência. Desta forma, podemos afirmar que para poder
captar o alto valor da outra pessoa é preciso que primeiramente eu capte este alto
valor em mim mesmo.
Spranger (1882-1963) e Hattingberg(1879-1944) parecem seguir a mesma
linha de pensamento. O amor reconhece as possibilidades de valor, o amor vê a
pessoa tal como Deus a pensou. E é justamente esta imaterialidade do amor que o
torna ilógico se analisado pelo viés das ciências exatas, por exemplo, ou até mesmo
pode ser incompreendido e reconhecido como nocivo se analisado pelo viés das
ciências humanas. São incontáveis os casos de amor onde o sofrimento esteve

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profundamente presente e para os que analisaram tais casos a resposta seria muito
simples, negar o amor. Não seria talvez este um dos pontos em que muitas
abordagens psicológicas se apoiam para orientar as pessoas a deixarem o ser amado
quando enfrentadas com possibilidades de sofrimento? Contudo, se abrimos mão
do amor que temos pela outra pessoa, abrimos mão do movimento espiritual que é
capaz de “salvar” o homem, mas não porque abre mão da possibilidade de receber
amor, mas porque abre mão da possibilidade que tem de amar!

O amor, diríamos, faz-nos contemplar a imagem de valor de um ser


humano. Assim, leva a cabo uma realização francamente metafísica.
Com efeito, a imagem de valor de que nos apercebemos na execução
do ato espiritual do amor, em cada caso, é essencialmente a
“imagem” de algo invisível, irreal e não realizado. No ato espiritual do
amor, portanto, não captamos apenas o que a pessoa “é” no seu
“caráter de algo único” e na sua irrepetibilidade, isto é, a ‘haecceitas’
da terminologia escolástica; mas também e simultaneamente o que
ela pode vir a ser, precisamente nesse seu ‘caráter de algo único’ e
irrepetível, ou seja, a ‘enteléquia’. (Viktor Frankl, 1946)

Dizem que o amor é cego, mas com fundamentos de Scheler, Harttingberg,


Spranger e Viktor Frankl e muitos outros, pode-se afirmar sem medo que o amor
enxerga mais longe e sua visão não tem limites. A visão frankliana também vai em
linha oposta a visão mecanicista tão fortemente presente na sociedade pós
moderna em que o homem é visto e valorizado por sua capacidade de trabalho e
produção, tal visão fundamenta as ideologias abortistas e a eugenia, o preconceito
racial e de gênero tão amplamente disseminado no seio da sociedade também
caracterizam o campo infértil do amor.
No trabalho clínico é possível perceber o quanto as pessoas enfrentam
problemas existenciais muito devido a uma visão equivocada da vida. É inegável que
a sociedade vive em um momento histórico em que o princípio do prazer parece
nortear as relações humanas, dessa forma, nega-se o essencial espiritual e por este
exato motivo nega-se o próprio amor. Uma vez que o amor é uma característica
humana originária em seu núcleo espiritual, uma vez negando-a a pessoa tende a
uma vivência superficial fundamentada apenas em seus aspectos materiais, a dizer o
campo psíquico e biológico.
Constatar o avanço dos transtornos de ansiedade e a depressão, o surgimento
e crescimento de novas doenças como a própria vigorexia é constatar que a

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sociedade moderna mais que nunca necessita de luz para compreender as


exigências da vida, compreender que a vivência da autotranscedência no campo
espiritual e o amor são, em suma, a solução para suas mais profundas angústias.

A busca exagerada de uma situação afetiva positiva é muito difundida


hoje. Vivemos na era da ‘compulsão da felicidade’, isto é, onde se
tenta de toda maneira manipular artificialmente os sentimentos, seja
colocando narcisisticamente o próprio corpo no centro de toda
atividade criativa, para por assim dizer explorá-lo como fonte de
prazer permanente, seja interferindo diretamente nos sentimentos,
exacerbando-os por meio de substâncias químicas levadas ao
organismo para modificar o estado de suas imagens psíquicas, ou
por fim deixando-se seduzir por promessas ideológicas ou sectárias
de felicidade de toda espécie, que prometem tranquilidade,
iluminação e, não em último lugar, a entrada numa nova era,
contanto que a pessoa se comprometa com a ‘nova religiosidade’
oferecida. Viktor Frankl compara este esforço mais ou menos inútil a
um bumerangue que volta para quem o atirou e o abate, mas só
quando deixa de acertar o alvo; analogamente, a busca obstinada do
prazer e da felicidade também só se manifesta onde se deixou de
lado o verdadeiro objetivo da existência humana, onde alguém
fracassou em realizar o sentido de sua vida. (Elisabeth Lukas, 1989)

O sentido da existência humana se funde em um caráter de algo único e na


irrepetibilidade da pessoa. Contudo, é apenas na vivência comunitária, ou seja, na
vivência com o outro, que o ser humano consegue perceber o valor de sua
irrepetibilidade e o caráter de algo único. Ao falar do amor Eros, Frankl explica que o
amor é como uma vivência da vida de outro ser humano em todo seu caráter de
algo único e irrepetível.
O ser humano é orientado para a comunidade. Ante esta afirmação pode-se
dizer que se há um determinismo, se há uma condição sinequanon à qual não se
pode negar é que a vida humana é dependente da comunidade e também orientada
para esta. Só há duas formas de se viver, negando o valor desta comunidade,
orientando a vida para a vivência egoísta, buscando competir com o outro e
percebendo o outro comunidade como um inimigo e assim construindo uma vida de
profunda angústia, uma vez que não é possível vencer e livrar-se de vez deste outro,
ou vivendo no amor, aceitando esta condição humana, construindo, criando,
assumindo seu papel e posição no tecido social, na comunidade.

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Frankl(1946) afirma que no amor "o ser amado é captado como um ser
irrepetível no seu ser-aí (Dasein), e único no seu ser-assim (So-sein). Um Tu acolhido
num outro “Eu”. Para Frankl o ser amado vem a ser para a pessoa que o ama alguém
insubstituível, "ninguém, fazendo as vezes dele, sem que por isso ou para isso tenha
que fazer seja o que for".
A ligação entre o amor e o espiritual também se afirma na teoria frankliana
uma vez que este afirma que a pessoa amada não tem mérito por ter sido
reconhecida como um bem, pois isto não depende de si, mas é graça.
Amar também traz para quem ama uma nova concepção dos valores, traz
uma "maior altura no que diz respeito à ressonância humana em face da plenitude
dos valores". Viktor Frankl (1946)
Frankl(1946) amplia sua explicação a respeito do ser amado e do ser que ama,
o amor:

abre-lhe o espírito ao mundo, na sua plenitude de valores, a toda a


gama dos valores. Assim, o amante, ao entregar-se ao Tu,
experimenta um enriquecimento interior que transcende esse Tu: o
cosmos inteiro torna-se para ele mais vasto e mais profundo no seu
valor; resplandece nos raios de luz daqueles valores que só o
enamorado sabe ver, pois, afinal, não faz cegos o amor, mas sim
videntes - dando aguda visão para os valores. Por fim, ao lado da
graça de ser amado e do feitiço do amar, um terceiro momento surge
ainda no amor: o seu milagre; porque, precisamente através do
amor, e dando um rodeio pelo biológico, consuma-se o que é de
algum modo inconcebível: uma pessoa nova entra na vida, cheia, ela
também, daquele mistério do caráter de algo único e irrepetível da
existência - e um filho é isso! (Viktor Frankl, 1946)

Cada ser humano é único, irrepetível, singular. Cada ser humano tem sua
única impressão digital, seu único DNA e, o mais importante, sua única essência, sua
identidade espiritual. Única história, únicas experiências, único e singular ponto de
vista. Ainda que dois gêmeos nasçam e sejam criados e educados da mesma forma,
ainda assim o beijo da mãe, o cheiro do leite, as cores da roupa e todo o ambiente
que os cerca serão lidos e experimentados de forma diferente.
Sendo, portanto, único, diferente e irrepetível, cada ser humano tem então
uma missão específica. Ainda que seja a missão de ser pai, o será de forma diferente
dos outros, se sua missão for ser um empresário o será de forma diferente, um

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presidente, uma mãe, uma bailarina, sempre, sempre, será único e diferente. A
missão não estará diretamente ligada à profissão ou à função social, mas sim ao
significado que esta pessoa traz ao mundo, ao sentido que sua vida representa para
a história da humanidade. Ao trazer à memória a imagem de pessoas que faleceram,
não são lembradas simplesmente pela função que exerceram na sociedade. Quando
grandes personalidades da história são lembradas, é destacado o sentido que elas
deram à sociedade em seu tempo.
Não se pode negar que quando as pessoas vivem no ápice de suas
potencialidades, ou no ápice de sua missão, realizam mudanças no mundo, não de
forma estratégica como que realizando obras, mas de forma existencial, ou seja,
pelo que representam para as outras pessoas.
O que se pode destacar das pessoas que deixaram sua marca na história da
humanidade é também a capacidade que tiveram de destacar aspectos
essencialmente humanos em momentos da história em que tais aspectos se viam
ameaçados.
O que dizer, por exemplo, da figura do jovem Francisco de Assis, que vivia em
uma sociedade marcada por guerras e por legalismos que denegriam a dignidade
humana, um ambiente profundamente desumanizado, onde a própria imagem de
Deus era distorcida. Francisco não fez mais que dar espaço à sua humanidade,
buscou nas escrituras e em sua fé o sentido mais profundo da existência humana,
buscou viver o extremo do amor.
Testemunhar que milhares de jovens do mundo inteiro acorreram a Assis para
segui-lo é perceber o quanto aquela sociedade estava sedenta por uma solução mais
humana, ou seja, em suma, o amor.
O que dizer de Madre Teresa de Calcutá, uma simples mulher que só se
interessava por amar, dar aos mais miseráveis entre os miseráveis da Índia, um
consolo, um cuidado, o amor? Perceber que ela recebeu o Nobel da paz e foi
aclamada nos principais meios de comunicação de nossos tempos é constatar que
nossa sociedade também é sedenta de humanização, de atitudes que nos
convençam de que a vida é mais, de que há espaço para a essência humana, ou seja,
há espaço para o amor.
Quantos milhões de mães e pais que muitas vezes renunciam a projetos
pessoais por amor aos filhos, para lhes dar um futuro melhor, estarem mais
próximos, serem mais atenciosos às suas necessidades.

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O que dizer também dos incontáveis heróis da II Guerra Mundial, homens e


mulheres que arriscaram a vida para salvar outros da morte e quantos entregaram a
própria vida para salvar aos outros ou por não concordarem com aqueles atos
desumanos.
O amor é tão forte que todo o ser o expressa. O olhar, a voz, os gestos, até a
própria intuição. A pessoa quando se abre ao amor, quando ama é a mais pura
imagem da verdadeira vida plena, da mais sublime autorrealização. Quando se vê
uma mãe que aceitou com bom grado e com amor sua gravidez, a vê como a
imagem do amor, uma mãe que ama, ama em sua plenitude, conhece o filho
profundamente, é capaz de detalhar seu comportamento, sentimentos e até seus
pensamentos. O amor materno é o alimento que um ser humano precisa para viver
dignamente a plenitude de uma vida humana.
Há quem diga que o amor materno é instintivo, talvez a necessidade de cuidar
e proteger de fato o seja, para a proteção da espécie, mas o amor é algo que vai
além, uma criança que foi bem cuidada e teve sempre de tudo na vida, mas não teve
amor é bem diferente de uma criança que nas mesmas condições teve amor, ou
mesmo do que as crianças que, ainda sem muitas condições materiais, tiveram
amor. O amor é condição para um bom desenvolvimento psíquico do ser humano. A
necessidade de amor da pessoa vai muito além do que poderia nos explicar a
psicanálise com as fases do desenvolvimento e o complexo de Édipo. Vai além da
busca pelo prazer, é uma necessidade essencial que parte da própria matriz do ser
humano.
Ainda que se possa reafirmar a necessidade do ser humano em receber amor
é no ato de amar que a pessoa se realiza, ainda que não tenha sido amada a pessoa
recebe o apelo a auto-transcendência e sempre poderá encontrar o sentido do amor
em qualquer fase de seu desenvolvimento. Cabe também, neste caso, salientar a
importância da Ontologia Dimensional de Viktor Frankl que permite a compreensão
da pessoa em sua totalidade bio-psico-espiritual, de modo que os condicionamentos
que afetam o psíquico ou o biológico não minam jamais o espiritual onde localiza-se,
a dizer, o amor.

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O AMOR NA ATUALIDADE E O PENSAMENTO FRANKLIANO

Uma vez que o valor do amor no desenvolvimento bio-psico-espiritual da


pessoa parece ser inquestionável entre os diferentes autores das ciências humanas,
faz-se determinantemente necessário uma compreensão aprofundada sobre o que é
o amor de fato.
Desde os tempos de Platão (428–328 a.c.) e Aristóteles (384-322 a.c.) e até
mesmo antes destes, a busca pela compreensão do amor é uma constante. Nos
tempos atuais a literatura científica a respeito do amor, não obstante a grande
busca pelo sentido do amor, ainda é limitada e muito do que se escreve sobre o
tema está mais relacionado aos aspectos biológicos, tais como os efeitos
neurológicos na manifestação do amor, os impulsos e instintos para a preservação
da espécie e a ligação que se faz do amor como consequência da necessidade
sexual.

Em logoterapia, o amor não se interpreta como um epifenômeno dos


impulsos e instintos sexuais no sentido do que se denomina
sublimação. O amor é um fenômeno tão primário como possa ser o
sexo. Normalmente o sexo é uma forma de expressar o amor. O sexo
se justifica, inclusive se santifica, enquanto é um veículo do amor,
mas só enquanto este existe. Deste modo, o amor não se entende
como um mero efeito secundário do sexo, mas o sexo se vê como
meio para expressar a experiência desse espírito de fusão total e
definitivo que se chama amor. (Viktor Frankl, 1946)
Maslow afirma em uma ocasião: ‘as pessoas incapazes de amar não
experimentam no sexo a mesma classe de emoção que as pessoas
que são capazes de amar’. Por isso... em interesse do maior gozo
possível, deveríamos aspirar a esgotar o potencial humano que é
inerente à sexualidade, a saber, a possibilidade de encarnaro amor,
que é a relação mais íntima e mais pessoal que há entre pessoas.
(Viktor Frankl, 1956)

O livro The Psychology of Love (1988) reuniu investigações de diversos


autores sobre grande parte das teorias do amor presentes na psicologia até então,
em 2006 Robert J. Sternberg reuniu novos avanços nas pesquisas sobre as teorias do
amor e coordenou a publicação de The new psychology of love, que teve seus
estudos divididos em quatro partes principais, as teorias biológicas, as taxonomias,

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teorias implícitas e teorias culturais. Nestes livros é possível encontrar uma gama de
importantes contribuições para a psicologia na compreensão do amor, contudo, é
também possível notar a ausência de referências da visão existencialista do ser
humano, de modo que as obras que fundamentam apenas na visão comportamental
e social do ser humano não poderiam se autodenominar, ao menos não com
completude, uma psicologia especificamente do amor. A tendência de se ver a vida
humana de forma mecanicista, ou seja, determinada pelos aspectos biológicos e
comportamentais além de estar largamente disseminada no meio médico parece
tomar também as ciências psicológicas.
Ainda que a psicologia comportamental tenha seu espaço para a
compreensão do comportamento humano e também a psicologia social que estuda
as diferentes manifestações da pessoa nos diferentes meios em que se encontra,
todo estudo que visa compreender o ser humano que prescinda de sua natureza
espiritual e desconsidera como possível fator motivador das ações humanas sua
capacidade de autotranscendência e busca por sentido tende a resultados
equivocados.
Uma verdadeira psicologia do amor deveria, antes que mais nada,
fundamentar-se em uma visão completa do ser humano que também há de ser
complexa. As três escolas vienenses de psiquiatria muito contribuíram para os
avanços desta visão e é em Frankl que se é possível encontrar aquilo que ele mesmo
chamou de uma Ontologia Dimensional.

É sabido que a arte foi definida como unidade na pluralidade. Bem,


eu quero definir o homem como unidade apesar da multiplicidade.
Pois existe uma unidade antropológica apesar das diferenças
ontológicas, apesar das diferenças entre vários modos de existência.
A característica da existência humana é a coexistência entre a
unidade antropológica e as diferenças ontológicas, entre o modo de
ser humano único e as variadas maneiras de ser das quais participa,
em poucas palavras a existência humana é unitas multiplex, para
falar com as palavras de São Tomás de Aquino...ordine geométrico
demostratnque opera analogias geométricas. Trata-se de uma
ontologia dimensional. (Viktor Frankl, 1969)

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Frankl explica que na ontologia dimensional uma mesma coisa projetada


desde sua própria dimensão a outras distintas inferiores, se desenha de maneira
que as figuras se contradizem e distintas coisas projetadas desde sua dimensão a
uma mesma dimensão que seja inferior, se desenham de tal maneira que são
polivalentes, não são contraditórias entre elas.

Como podemos aplicar isto ao homem? Bem, desta forma, o homem


se encontra reduzido em sua dimensão especificamente humana e
projetado ao plano da biologia e da psicologia, se reflete de uma
maneira que resulta contraditória. Pois a projeção sobre o plano
biológico resulta em fenômenos somáticos, enquanto que a projeção
no plano psicológico resulta em fenômenos psíquicos. (Viktor Frankl,
1969).

É muito comum na prática clínica observar pacientes que passaram por


psicólogos ou psiquiatras e obtiveram diferentes diagnósticos. É perceptível a
tendência que muitos psiquiatras têm de projetar o problema da pessoa em um
plano biológico, de modo que fatalmente encontrará diferentes sintomas que lhe
resultarão em distintos transtornos psíquicos a serem medicados. Seria apenas um
simples problema de ponto de vista não fosse os resultados catastróficos que um
longo tratamento a base de psicofármacos focados em causas equivocadas trazem
para o paciente.
A tendência aos psicologismos também é verdadeira, uma vez que muitos
psicólogos tendem a desconsiderar os aspectos biológicos e a oferecer explicações
psicológicas para todos os sintomas como resultado de tenderem ao equívoco
explicado por Frankl em sua ontologia dimensional quando projetam o problema da
pessoa em um plano psíquico.
Contudo, o maior equívoco a que se pode incorrer e devido à formação que os
psicólogos recebem tão profundamente fundamentada na visão biologicista da vida
humana é prescindir da capacidade que a pessoa possui de autotranscendência, de
encontrar sentido para a vida sob qualquer circunstância, de ser livre e responsável
sob qualquer circunstância, até mesmo diante da mais severa doença física ou
psíquica. “O reducionismo, com sua tendência a congelar e coisificar o homem e a
despersonalizá-lo, colabora com o vazio existencial. Soa como um exagero, mas não
o é”. (Viktor Frankl, 1972)

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Não considerar a capacidade humana de autotranscendência implica em uma


dificuldade de se compreender a capacidade de amar e a importância que o amor
tem para o desenvolvimento humano.
John Bowlby (1982) fala dos efeitos perniciosos da privação de cuidados maternos
sobre o desenvolvimento da personalidade. Lorenz (1935) havia publicado estudos
em que verificava que em algumas espécies de aves, durante os primeiros dias de
vida, desenvolvem- se fortes vínculos com uma figura materna, sem nenhuma
referência à alimentação e simplesmente através da exposição do filhote à figura em
questão, com a qual se familiarizou.
O ponto fundamental da teoria de John Bowlby (1982) é que
...existe uma forte relação causal entre as experiências de um
indivíduo com seus pais e sua capacidade posterior para estabelecer
vínculos afetivos, e que certas variações comuns dessa capacidade,
manifestando-se em problemas conjugais e em dificuldades com os
filhos, assim como nos sintomas neuróticos e distúrbios de
personalidade, podem ser atribuídas a certas variações comuns no
modo como os pais desempenham seus papéis. (Bowlby, 1982)

Os estudos de Bowlby nos permitem reafirmar a importância dos vínculos


afetivos, a dizer a vivência do amor, desde a mais tenra idade do ser humano. A
necessidade do amor se faz tão determinante como previamente expressado que
quando se faz ausente traz consequências catastróficas para a pessoa, desde a
dificuldade em estabelecer vínculos saudáveis e profícuos no futuro, como também
a possibilidade de vivência de sintomas neuróticos e outros problemas de ordem
psíquica.
O ser humano nasceu dependente do outro, segue dependente e amadurece
dependente, ainda que o tipo de dependência mude à medida que se amadurece,
ou seja, o ser humano passa da realidade de totalmente dependente de receber
amor, quando recém nascido para a realidade onde é totalmente dependente de ter
alguém para amar. O processo do amar vai se dando ao longo da vida e quanto mais
independente do outro no sentido de receber amor, mais dependente de ter
alguém para amar a pessoa se torna, pois mais próximo da plenitude da vivência de
sua essência se aproxima. Dar amor é o ápice da auto realização, quem é capaz de
amar atinge o mais alto grau da felicidade, satisfação, sentido na vida.

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Frankl fala também de uma capacidade de amar que pode ser apreendida
através de uma educação, ou seja, ainda que esteja claro que a capacidade de amar
está presente na essência espiritual do ser humano é necessário que a pessoa
aprenda a viver esta capacidade, principalmente no que diz respeito à entrega de si
mesma ao outro. O amor, sendo vivido como uma doação, permite que a pessoa se
fortaleça, deixe a posição de vítima diante das diferentes situações da vida e
encontre mais facilmente o sentido para sua existência.
Cabe tomar o conceito de amor concupiscente que se distingue do amor
benevolente. O ápice da vivência humana de experiência do amor concupiscente dá
ao ser humano o sentido de auto-realização, mas há um grau ainda maior de
vivência do amor que seria a vivência do que se pode chamar de amor benevolente
que se dá através da vivência da espiritualidade, ou seja, a possibilidade que o ser
humano tem de relacionar-se com Deus e unir sua capacidade humana de amar com
a capacidade de tornar-se um instrumento divino e experimentar a plenitude do
amor que é o amor de Deus e, neste caso, sendo portador deste amor para com os
outros.
A respeito desta realidade há uma larga documentação de relatos de pessoas
que vivenciaram tais experiências em diversas culturas, como por exemplo, o
testemunho de pessoas que foram consideradas santas e que deixaram
documentadas suas experiências de sentirem de tal forma o amor de Deus a ponto
de entregarem suas próprias vidas por amor ao outro, um amor sem interesse, de
extrema doação. Talvez a melhor explicação para o amor benevolente seja o
exemplo cristão, aquele que é capaz de dar a vida por seus amigos.
A percepção de que sua vida é capaz de salvar outra vida ou dar sentido a
outra vida é certamente a maior de todas as vivências que o ser humano pode
experimentar, e isto é o amor. A mãe que, sabendo que poderá perder sua vida se
deixar levar a cabo a gravidez, decide dar à luz seu filho, mesmo sabendo que ela
poderá morrer, está cumulada de amor, encontrou o maior sentido de sua vida,
sabe que está fazendo o que é certo mesmo que o mundo tente lhe convencer do
contrário, entrega sua vida pelo simples fato de que ama. Ou um homem que se
lança na frente de uma bala para salvar a vida de um amigo. A vivência do amor é o
que dá sentido à vida.

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Tomando como o exemplo o relato de Viktor Frankl para exemplificar a busca


do homem por sentido, quando relata o momento em que uma senhora queria tirar
sua própria vida no campo de concentração e ele pergunta se não teria algum
motivo pelo qual ela pudesse conservar a vida e, ao final, ela acaba decidindo não
cometer suicídio porque tinha uma sobrinha que havia prometido esperá-la em
outro país. Certamente, Frankl consegue ilustrar a falta de sentido que esta mulher
estava vivendo a ponto de encontrar-se no fatalismo do suicídio e ela encontrou o
sentido para não entregar-se à morte, e este sentido foi o amor por sua sobrinha.
Viktor Frankl fala da imago do pai, ou seja, a imagem que se tem da figura
paterna que também se relega a imagem de Deus.
Cada pessoa humana tem em si uma percepção filial, um sentido inconsciente
de pertença a uma família maior que sua própria família de sangue. A percepção
filial é uma constatação inconsciente da pertença à uma raça que se caracteriza
principalmente por sua interdependência entre seus membros. Um ser humano não
fica naturalmente apático ao sofrimento de outro ser humano, se por ventura o faz
é porque está, de alguma forma, insano psíquica ou espiritualmente, pois a negação
do sofrimento alheio seria à priori um mecanismo de defesa.
Se a pessoa aceita a possibilidade de ser parte de uma família humana, que
ultrapassa as conexões parentais é possível então aceitar a possibilidade de que há
uma origem para esta família, ou seja, um Deus criador de tudo. E, por que
necessariamente um Deus Criador de tudo? Simplesmente porque não faria sentido
um ser inferior criar algo superior ou porque não faria sentido o surgimento de um
ser inteligente de algo que não possua inteligência, muito menos um ser espiritual
de algo que não possua espírito. Assumir que o ser humano é um ser inteligente,
superior aos outros seres vivos da terra e que também é um ser espiritual, é abrir-se
à possibilidade da aceitação de um Deus criador. Ainda que não se possa, no campo
material, em uma visão mecanicista, provar sua existência. Mas, é exatamente a
visão mecanicista que nos impede de perceber a própria essência do ser humano, a
dizer, seu núcleo espiritual onde se encontra sua capacidade de amar.

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Não preciso que ninguém me chame a atenção para a


condicionalidade do homem; em último termo, sou especialista com
duas especialidades, neurologia e psiquiatria, e como tal conheço a
condicionalidade biopsicológica do homem; mas não só sou médico
em duas especialidades, sou também sobrevivente de quatro campos
de concentração, e por isto conheço também a liberdade do homem,
que é capaz de evadir com seu esforço todos seus condicionamentos
e de opor-se às mais rigorosas e duras condições e circunstâncias, e
de aplicar todo seu peso contra elas, graças ao que eu denomino a
capacidade de espírito para fazer resistência. (Viktor Frankl, 1946).

John Izzo (2008), autor do livro (Cinco Segredos Que Você Precisa Descobrir
Antes De Morrer) descobriu em sua pesquisa com pessoas próximas da morte que
status e poder não são itens que causarão saudade quando olharem para trás, mas
são as pessoas que ajudaram a crescer que darão a elas a sensação de satisfação.
Pois é justamente a lembrança de vivências de amor que nos garantem a
autorrealização.
Quando se perde uma pessoa, pode-se lembrar dela pelas coisas que fez, mas
é apenas apreciada e se sente saudades dela se foi uma pessoa que viveu o amor de
alguma forma. Que transmitiu algo de bom, um sentimento de respeito pela vida,
um amor pela vida, pelos outros, que deixou um legado de admiração entre os
homens. Quando, pelo contrário, tudo que se construiu durante a vida foram
pseudo-amores, quando se morre, os únicos frutos deixados são pseudo-amores
que, invariavelmente causarão brigas e disputas por heranças materiais, deste
morto dificilmente alguém sentirá saudades.
Uma visão de ser humano que prescinda da essência espiritual do amor tende
ao niilismo, ao fatalismo da vida. Não apenas deixa de se encontrar o sentido da
vida, mas também é uma experiência de morte, um vir a não ser ao invés de um vir
a ser. O carpe diem da sociedade moderna é um grito por sentido, por amor. Uma
vez que busca aproveitar-se ao máximo todas as oportunidades de pseudo-amores
que a vida pode oferecer, a pessoa não tem tempo para encontrar-se consigo
mesma, não há tempo para cultivar sua espiritualidade, para ter um encontro
verdadeiro com outras pessoas.
Hoje, parece que as estruturas capitalistas, que valorizam o bem material
mais que a dignidade da pessoa humana, são mais valorizadas que os vínculos
afetivos, especialmente os vínculos familiares. Uma empresa não aceita que seu

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funcionário seja irresponsável com o trabalho que assumiu e para o qual foi
contratado; muitas pessoas dão a vida e são capazes de enormes sacrifícios para
manterem o emprego e o salário que recebem para não serem despedidos. Mas
quando se fala em fazer sacrifícios pelas responsabilidades que assumiu como pai,
mãe, esposo ou esposa, o discurso já é diferente. Fala-se muito bem das grandes
empresas que pagam bom salário para seus funcionários, e o casamento ainda é
visto por muitos como uma prisão.
Se o individualismo é a solução para a vida como defendia, por exemplo,
Adam Smith (1776), precursor da Revolução Industrial, então o capitalismo
selvagem é aceitável e a própria afirmação de Maquiavel (1513) de que os fins
justificam os meios, também. Tal ponto de vista revela uma visão mecanicista da
vida, ou seja, o homem como um mecanismo condicionado, dependente de suas
designações genéticas e sociais, um homem que não é livre.

CURA PSICOLÓGICA DE ALMAS

Que o falar com o outro alivia e descarrega a consciência, é um fato


bem conhecido. A pena comunicada é já uma pena compartilhada. O
que pretendia ser a psicoterapia, especialmente a psicanálise? Uma
confissão secular. O que pretendia ser a logoterapia, especialmente a
análise existencial? Uma ‘cura médica’ de almas. (Viktor Frankl, 1946)

Já em 1927, Viktor Frankl havia acunhado a expressão “Cura Médica de


Almas”, tendo sido publicada apenas em 1946 em sua obra ArztlicheSeelsorge
(Pastoral Médica ou Cura Médica de Almas). Seu objetivo era humanizar o
atendimento médico e “trabalhar profilaticamente diminuindo os riscos de danos
iatrogênicos e a incidência de fatores sociogênicos, seu ideal era também o de urgir
a aproximação, por parte do terapeuta, ao homem que sofre, o homo patiens, mas
não ao seu sofrimento em si mesmo mas a sua humanidade, na Cura Médica de
Almas” (Ancizar Toro, 2007).
É sabido que ainda no início do século XX a psicologia era uma tarefa
desenvolvida por médicos diferentemente de hoje que a psicologia é reconhecida
como uma profissão e os que a ela se dedicam não são necessariamente médicos,
mas psicólogos. Se para a época de Frankl, fazia-se necessário uma mobilização da
medicina para uma aproximação mais humana ao homem que sofre, nos dias atuais
do século XXI faz-se ainda mais necessário a mobilização de todos os profissionais da

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saúde para esta mesma classe de aproximação ao homem que sofre. O termo
“humanização” ou “atendimento humanizado” nunca foi tão utilizado nos hospitais
e locais de atendimento à saúde, muito embora parta de princípios ainda altamente
discutíveis ou seguramente equivocados na compreensão do que é uma verdadeira
humanização.
Contudo, há que se afirmar que inclusive nas enfermidades
infecciosas a situação da imunidade depende da situação do efeito e
a situação do efeito depende em última instância da motivação,
especialmente da orientação de sentido. Precisamente esta
circunstância adquire importância na medida em que o homem de
hoje padece, por regra geral, de um sentimento de carência de
sentido. Apesar do bem estar material, surge hoje em dia uma
frustração existencial e o que importa é ir ao seu encontro também
terapeuticamente. Isto, entretanto, não é possível enquanto
continuamos psicologizando a medicina, pois a própria psicologia é
interpretada e praticada em grande medida de forma mecanicista.
Certamente ambas – a medicina e a psicologia – precisam de uma
rehumanização. (Viktor Frankl, 1987)

Por que a expressão Cura Psicológica de Almas? Justamente porque os


profissionais que hoje se dedicam ao tratamento psicológico são reconhecidamente
psicólogos, ainda que aí permaneçam também os psiquiatras que são médicos, mas
também porque é possível falar-se de uma psicologia do amor que tem suas bases
no desenvolvimento do pensamento frankliano e de tantos outros que contribuíram
para o desenvolvimento da psicologia no último século.

PSICOLOGIA DO AMOR

O próprio Viktor Frankl reconhece que o amor encontra, como expressão da


essência humana, o lugar possível de prevenção e também cura para os distúrbios
psíquicos.
A prevenção de distúrbios neurótico-sexuais baseia-se numa educação na
capacidade de amar e na capacidade de entrega de si mesmo. Por isso,
também tem plena validade no campo dos distúrbios sexuais e da
respectiva terapia a frase de Paracelso: ‘O amor é a base da medicina’.
Viktor Frankl.

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O amor movimenta de tal forma a existência humana que é capaz de


reestruturar toda uma vida.
A força mobilizadora do amor foi observada em um caso clínico: uma mulher
de 56 anos que havia entrado em um processo depressivo profundo há alguns anos.
Sua vida havia perdido o sentido e passava as noites em claro sem sair de casa,
esperando que algo lhe salvasse ou que a morte lhe visitasse. Uma amiga lhe
encaminhou para uma ajuda psicológica. M trazia consigo uma longa história de
sofrimentos, conquistas, sonhos, frustrações e realizações, mas nestes últimos anos
tudo que via pela frente eram seus erros, suas culpas, suas penas. Encarcerada em
sua própria casa e por vontade própria, havia se afastado dos filhos, e de toda a
sociedade. Seus bens haviam sido bloqueados por conta de um divórcio litigioso do
segundo casamento e seus filhos do primeiro casamento lhe culpavam por ter se
separado de seu primeiro marido. A pena por não ter dinheiro lhe trazia uma grande
humilhação social, ainda que não tivesse culpa sobre isso, pois os bens requeridos
pelo segundo marido fazia parte da herança que seu primeiro marido lhe havia
deixado. Mas, nada era tão penoso para ela do que a sensação de que, lá no fundo,
sentia-se em débito com sua própria consciência. M também trazia a repressão de
seu próprio pai, ele não aceitou o seu primeiro divórcio, ainda que ela tivesse um
relacionamento sofrido e que não lhe fazia sentido continuar, pois presenciava a
violência física e psíquica que seu marido trazia para ela e para seus filhos.
As sessões seguiram-se com todas as técnicas consideradas cabíveis para seu
tratamento psicológico. Foi quando se iniciou por parte do psicoterapeuta um
exercício que buscava apelar para sua consciência, mas não apenas para sua
consciência, apelar para a mais alta capacidade que ela possui: a capacidade de
amar. O psicólogo perguntou-lhe qual havia sido a última vez que vira uma de suas
filhas, ela se referia a esta filha como problemática, e que por várias razões não se
falavam. Perguntou-lhe sobre todos seus filhos, sobre os momentos bons e ruins
que viveram juntos. Percebeu-se que M havia aceitado a revolta dos filhos contra
ela e a culpa que lhe imputavam por ter sido responsável pelos sofrimentos de
todos por causa da separação com seu primeiro marido; M tentava defender-se
sempre das acusações, mas não era sua culpa ou sua defesa que a fazia sofrer, mas
seu esquecimento de que seu lugar de mãe era inalienável, insubstituível. Foi lhe
perguntado o que ela poderia fazer para ajudar seus filhos hoje, ainda que já
estivessem adultos, enfrentavam problemas com bebidas, drogas, dificuldades nos

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relacionamentos e no trabalho. M começou a perceber que ela era e sempre seria a


mãe daqueles jovens adultos, percebeu que poderia seguir cumprindo seu papel. Já
na sessão seguinte, sua postura depressiva deu lugar a uma nova mulher, alguém
que sabia que tinha o direito de amar e continuar amando seus filhos e também o
direito de reconstruir uma vida amorosa com um novo companheiro. Foi a curva
para cima, para o alto, para o alto valor da pessoa, como diria Max Scheler, para o
encontro com sua capacidade espiritual de reconhecer o valor do outro, mas
principalmente de reconhecer o valor de si mesma, o valor da capacidade de amar.
As sessões se seguiram e depois de alguns meses já estava de alta, com um novo
namorado, e com muitas notícias boas para espalhar para os vizinhos, os amigos, os
parentes, seus pais e especialmente seus filhos e netos.
O amor mudou completamente a estrutura da vida de M. Certamente que foi
necessário uma busca pelo sentido da vida, uma busca por ajuda, mas a psicologia
só pode fazer ao paciente que a procura o favor de reorganizar o psíquico e muitas
vezes, em parceria com a psiquiatria, em reestruturar o biológico, uma vez cumprido
seu papel, permite a pessoa ter acesso a sua mais profunda identidade, seu ser
espiritual capaz de grandes realizações, capaz de amar.
Se todos os psicólogos compreenderem que a força do amor é capaz de curar
as mais profundas doenças psíquicas que assolam a sociedade pós-moderna,
levantar-se-á mais uma cortina do espetáculo da vida. O psicólogo, assim como o
médico clínico geral e todos aqueles que são procurados para o cuidado com a
pessoa, tem em si também a capacidade de realizar o movimento espiritual para o
mais alto valor da pessoa e é neste sentido que o amor também se configura como o
elemento mais importante em um processo de humanização no atendimento à
saúde.

O amor, diríamos, faz-nos contemplar a imagem de valor de um ser


humano. Assim, leva a cabo uma realização francamente metafísica.
Com efeito, a imagem de valor de que nos apercebemos na execução
do ato espiritual do amor, em cada caso, é essencialmente a
“imagem” de algo invisível, irreal e não realizado. No ato espiritual do
amor, portanto, não captamos apenas o que a pessoa “é” no seu
“caráter de algo único” e na sua irrepetibilidade, isto é, a ‘haecceitas’
da terminologia escolástica; mas também e simultaneamente o que
ela pode vir a ser, precisamente nesse seu ‘caráter de algo único’ e
irrepetível, ou seja, a ‘enteléquia’. (Viktor Frankl, 1946)

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Dizem que o amor é cego, mas com fundamentos de Scheler, Harttinberg,


Spranger e Viktor Frankl e muitos outros, é possível afirmar sem medo que o amor
enxerga mais longe e sua visão não tem limites.
No dia 16 de outubro de 2004, depois de longos nove meses de espera
expectante, um pai assistiu ao parto em que sua esposa dava à luz seu primeiro
filho, João Pedro. Relata que a lembrança mais marcante deste dia tão importante
foi quando o médico trouxe envolto em lençóis o seu filho, o “meu” filho, afirmava,
e virando-o para ele, disse: “está tudo bem, não é lindo?”. O pai ficou totalmente
sem palavras, pasmo, estupefato! Naquele momento, aquele pequenino ser
humano, totalmente dependente, havia sido confiado aos seus cuidados e aos
cuidados da sua esposa. Não podia sorrir, não podia dizer nada, não podia abraçar,
não podia lhes oferecer nada além de seu choro e movimentos. O que esperar de
alguém nestas condições? A resposta é simples, tudo! Tudo, tudo, tudo!
Se um pai e uma mãe, ao receberem de presente da vida um filho, tiverem
consciência de que podem, e não apenas podem, mas devem esperar tudo desta
vida, certamente oferecerão a ele o necessário para que cresça da melhor forma
que lhe for possível.
Em outro caso clínico, um paciente de 9 anos sofria de enurese, para sua
idade certamente era algo vergonhoso, além de tudo dormia com a mãe, o que logo
com o início da terapia foi resolvido com as devidas atitudes da mãe, que até então
não via problema algum. Este menino era filho de um relacionamento rápido entre
dois namorados. Sua mãe o assumiu e o criou juntamente com os avós, enquanto
que o pai aparecia de vez em quando e gerava muitas expectativas no jovem garoto.
Durante o processo terapêutico foi pedido que seu pai viesse ao consultório para
que fosse entrevistado pelo psicólogo e este pudesse ouvir sobre como se sentia a
respeito de seu filho. Entre outras coisas, uma frase marcou muito ao psicólogo. Seu
pai disse, referindo-se às dificuldades do filho: “nunca vi em V. um campeão, nunca
achei que ele fosse ser alguém na vida!”. Em um primeiro instante o psicólogo
pensou de que forma um pai poderia referir-se a um filho de apenas 9 anos daquela
forma. Foi também quando percebeu mais uma esfera do problema de seu
paciente, a total falta de expectativa de seu próprio pai em relação a ele, e se nada
se espera, de fato, nada se ama. Se o amor é esta força propulsora que percebe no
outro todo o seu “vir a ser”, se não se é capaz de reconhecer a altura do valor do
outro, de fato, não se está amando.

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São muitos os pais e mães que preferem não esperar, que preferem não ter
expectativa, que preferem não amar. A sociedade pós-moderna ensina que a
frustração é o maior sofrimento da vida e que para evita-la é preciso não esperar
nada. Viver o presente em um enlouquecido e obcecado carpe diem tornou-se a
solução de vida para muitas pessoas, contudo, é justamente por temer a frustração
que a vida perde o sentido, por esquivar-se da possibilidade de esperar que se deixa
de movimentar-se espiritualmente, mantém-se em um cativeiro existencial seu
espírito, sua essência, negando-lhe até as possibilidades de alimentar- se no
encontro com os outros, no envolvimento com os familiares, com os amigos, com as
pessoas que lhe cercam. O homem do século XXI fecha suas janelas de casa, do
carro, do MSN, do Facebook, suas janelas da alma! Esta realidade é tão assustadora,
mas ao mesmo tempo tão presente que não será difícil encontrar alguém que,
perguntado sobre a causa de suas angústias, não diga em algum momento que
tenha medo. Medo do futuro, medo do mundo, medo das pessoas. Quanto mais
medo experimentado em relação aos outros, mais provável que a capacidade de
amar não está sendo acessada, pois se o espírito que é a força propulsora da vida
não pode mover-se, não há psíquico e biológico que se sustente para dar conta de
todos os desafios que o mundo propõe.

CONCLUSÃO

O sentido do amor na teoria de Viktor Frankl tem um lugar de destaque, o


caráter espiritual e a percepção de que a vivência do amor responde de forma
sublime à busca da pessoa por sentido são fundamentos para afirmação de que o
ser humano busca o amor.
Também a constatação de que muitas das angústias sofridas pela sociedade
pós- moderna são provenientes de distorções na vivência dos vínculos afetivos já
presentes desde a infância, constatações presentes nas teorias de Bowlby, Souza e
Ramires, são bases para a afirmação de que a vida humana é orientada para a
comunidade e que é na busca pelo amor e realização da vivência do mesmo que o
ser humano é capaz de encontrar o sentido para a própria vida e consequentemente
a autorrealização ou felicidade.
A visão de Viktor Frankl é uma resposta para a sociedade pós-moderna tão
mergulhada nos conceitos de valor aparentes e superficiais. Constatar o aumento da

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depressão e dos transtornos de ansiedade é perceber o quanto a humanidade do


século XXI precisa encontrar o sentido para a vida e ainda mais o caminho para a
vivência do amor.
Este trabalho também permite concluir o quanto as ciências humanas ainda
nos dias atuais seguem mergulhadas em uma visão mecanicista do ser humano, o
que contribui para produções científicas reducionistas que geram consequências
nocivas aos avanços da medicina e da psicologia.
Uma humanização da medicina e da psicologia também continua sendo
necessária nos dias atuais.
O amor revela-se como uma força capaz de mobilizar a pessoa em qualquer
circunstância em que se encontra, é possível, uma vez compreendido, mobilizar
inclusive para a cura de transtornos psíquicos. Conclui-se também que há uma vasta
possibilidade de estudos ainda a serem realizados no intuito de comprovar a força
curadora do amor. Uma verdadeira psicologia do amor pode surgir à medida que se
avança na compreensão do ser humano em sua natureza bio-psico-espiritual e se
busca a humanização da psicologia em todos seus níveis de atuação e pesquisa.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Paulo: Ed. Martinsfontes, 2006.

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