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J v^ ° sH™ ° sRIrAZÃO

Jorn Rus€fi

t o l > , .. „ « , i< ~ .

Primeira Dama: Então, senhora, contaremos Wstorms.


Rainha: As histórias serão tristesou alegres.
Primeira Dama: A vontade, senhora.
Rainha: Então, nem alegres, nem tristes, rapariga .

0 que é a narrativa histórica? A m aioria dos h isto riad o res se


sentirá entediada quando ouvir esta pergunta. E les p ro vavelm en te p e n ­
sarão: “deixe esta questão para o povo dos departam en to s de L ite ra ­
tura e de Filosofia”. Mas, na verdade, esta questão tem u m im p a c to
sobre os fundamentos do seu próprio trabalho e coloca a F ilo so fia e
a Linguística numa posição muito mais próxim a do que a h a b itu a l em
relação aos estudos históricos.

RÜSEN, Jõrn. Historical namtion: foundation, types, reason. In: Studies


mmetahistory. Pretória: Human Sciences Research Council, 1993. p. 3-14. Tradução
para oportuguês por Marcelo Fronza. Há também uma tradução feita por Márcio E.
cmçalves Assim, quando necessário, as traduções foram cotejadas. Os conceitos de
p L Z Í "™ ?" traduzidos por “narrativa” e “narrativa histórica”
tomoem“A constitiT ttaduçaoPata 0 P^tuguês das obras de Jõrn Rüsen, tais
Teo* da H s t d t i a T r r ™ Sentld0 WstÓrico” In: RÜSEN, J. R histórico:
Ml* q ra s fe ü n B ,20m ~ 4 ^ W ! EsK™ R“ “ de

w S h k 3’ SCene 4’ V' 9S<5q' UtUÍZOU-se>

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Riisen

r-Nvden White, com elaborada sagacidade, esforç0ü_Se


y historiadores desse fato qU1mdo tratou “o trabaiho^
convencer os - m n jfesB m ente é", isto e, -um a estrutura Vetba|
tónco com narrativo em prosa”. Mas desde o momento Cm
forma
e elede “licitou
um ,--curso dos
o discurso dos historiadores
historiadores como “em gera,- ^ 01
como “cmg
. ___ „U--------------------
q E m e n te linguístico em sua natureza , chocou a Maioria
maiotia dd<
e’ espe dores Sendam-se relegados à desconfortável e ambígua vi2i.
historiado • £ jvados de sua duramente conquistada dfc
“ a X c o m o acadêmicos de uma disciplina altamente racionalizada e
metodologicamente comprovada. No entanto, vale a pena entrar „cs,a
” L D0édca O didático termo “poética deve ser entendido no sen-
ddo original d a / e « « , que significa simplesmente fazer ou produzir
algo Na verdade, nenhum historiador pode negar o fato de que existe
uma atividade criadora da mente humana funcionando no processo do
pensamento e do reconhecimento h istóricos. A narrativa é a manei­
ra como esta atividade é produzida e “H is t ó r ia - mais precisamente,
uma história - é o produto dela.
Não entrarei na discussão epistemológica sobre a complexi­
dade da estrutura narrativa do conhecimento h istó rico 3. Em vez disso,
quero chamar a atenção para os fundamentos narrativos da consciência
histórica, citando um quase imperceptível argumento. Apesar do pre­
conceito vigente contra situar a poesia nos fundamentos d os estudos
históricos, gostaria de citar um breve diálogo entre o rei Henrique IV e
seu nobre conselheiro Warwick:

Europe. b 2 m f ' ‘A b Z túsoncM


imagimmon in ntaereemh c
, N B“ J' esta obra foi publicada como WHITE, H.
Paulo: Ed»;p, “ d° S&Ul0 T«d.: José Laurèncio de Mello. São

M. fio w i, w G Ó víV A f c V V í a ^ 1%S- BAUMGARTNER, H.


^ANKERSMT, R A *****" ***«■
W n T T 1983' a n k ERSMIT p - , J tbe Hi s UnanS lín gu a »
< * » * &
« » «B », 19«5- baumgar ™ ^ 198C- PANTO, A. a
JA'ca narrativa: uma da raZ™histórica, p M‘ Continuidade e História.
^KERSMíT, F. (o r ) * scmântica da lingua 1972- ANKERSMIT, F.
H ^ andThe°ry, 25, wÍ1^ hyCendo e conSo^n Wsto^ores. Haia, 1983.
” Vntrenji* i 98(_j d° fistória: o debate anglo-saxão.
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^ u ensin o cie História

Rei 11enrique: Se pudéssemos, Ó Deus, ler o livro do destino


1', ver;» revolução dos tempos...
...e a fortuna se ri,
H as mudanças enchem a taça da transformação
Com licores diversos! O, se isso fosse visto,
O mais feliz dos jovens, vendo o seu progresso através de
Quais perigos passados, quais cruzes carregadas,
Fecharia o livro, descansaria e morrería...
Warwick: Há uma história na vida de todos os homens,
Revelando a natureza dos tempos decorridos;
Rei Henrique. São essas coisas, então, necessidades?
Então, e amos enfrentá-las como necessidades 4

A partir deste pequeno, porém, profundo diálogo, podem os


aprender o que é a narrativa histórica: é um sistema de operações m en­
tais que define o campo da consciência histórica. A qui o tempo é visto
cumo uma ameaça à normalidade das relações humanas, lançando-as
para o abismo das incertezas. A experiência mais radical do tempo é
a morte. A história é uma resposta a este desafio: é uma interpretação
da expericncia ameaçadora do tempo. Ela supera a incerteza ao com
preender um padrão significativo no curso do tempo, um padrão quê
responde as esperanças e às intenções humanas. Este padrão dá um
sentido a histona. A narrativa é, portanto, o processo de Constituição
de sentido da experiência do tempo. constituição

forma: c o r n a m J S * ^ SObre a " v a desta


A narrativa é'um processo d e ^ l ^ T T ° COnhecImento histórico5,
da experiência temporal tecida d e T ’ õ ° U pr° duzij: um a tran' «

Rüse„ a y y s m SB, William. Kim Henry IV Acr 7 c ,


Marcelo P ? peqUen0 ^ v o c o na referenda a' i 2’ $ T' 45‘56' A qui
á a Patdr da critica de teatro í 7 2 ’ t í ' ™ adaP ^ por
T'ai' BaQ'0 « ,Cena *' Waüim>Shakespeare « r ^ nz°D ’ « «fere na verdade

^ “n : t r ™ adon- tm m Z Í H ■fT : mmrive


ÜV0 ' *■’* « “ »*> histórica * 1^ “ '0 'a:

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Kv
y'ár
Jorn Riiscn

trama capaz dc lal orientação, c “nina hisiórin" |\|


àameaça da morte, a narrativa transcendí' .... r ■ l' ll'Z !■(.(
num horizonte mais amplo de ocorrências tenm(), ' . >:tli(.|!,(r
lista é uma das verdades essenciais dos contos de -U m - S'Wi,i<:M ivJ
Scheherazade sabe que narrar c superar a morte a . ' h"“
dc “desmottaiizaçào” da vida humana*. ’ ' " il" ',llivíl é um "
Mas a resposta shakespeariana à pergunta “ ’ "
rauva histórica?” c tão ambígua quanto a própria ‘S J V '"”a "»r-
suficiente sobre a narrativa para a entendermos com ° " la-'">s „
fundamental das profundezas da consciência históri " T " 0|’(:l'lçãc,
que nem toda a narrativa é histórica, ela diz mujto ‘ "" Um* * *
diferença. E isso é, muito frequentemente, o caso n a . S,>bl'c
filosofia da História, quando se dá ênfase aos proé 7 * ' ‘SCUSs5° ^
vos da historiografia. ‘ 1 üc<xllmemox narra|h
Por isso, precisamos da ajuda dc mais
para complementar Shakespeare. O argumento ttá, u' “" T 08 tcúric“
renctação entre as narrativas factuais e ficcionais A1 ^ • >#*•
geralmente definida por tratar apenas dos fatós 'e J o Z ? ^ é
diferenciação é muito problemática e em 'ic ■ " lc9°es. Essa
convincente porque o mais impomme s e n ü d õ d “7 ™“ ’ * P° UC0
alem da distinção entre ficção e fato. Na verdade é\ Í T * “ *
ganoso - e isso surge por meio . ’ abbol«amente en-
suprimido positivismo-chamar de ( 7 7 ° ™ aCOtdo com ° «culto e
nfo fot um fato no sentido do's d a d o 'c o n c m ^ ^

nas três qualidades L ^ L t ^ ^ a T Wstótica sc situa


b nres c em sua relaçao sistemática7:

“ ^ 7 m ° t a settt n l 7 c r uX n t ó ' ' ' f Et2Ãhl“ als Enttôt™. Notizcn


hforscbung. Ein Sywp 0si0„ SnuteL I E n M cn - In: UMMERT, E. (Ed.).
R0^ 611' Notas sobre a narrat^atídir ^ ^ P>3l9' 334* I^OTZ., V. Narre L o
• (Ed.). A pesquisa uarmtiva \Jm simt) .aCaplaUca instrumental. 1972. In: LÁMMERT,
, . 7Pata obter mm m W/JP0S'°- Stuttgart, 1988. p. 319-3341.
Frankfi°rÍSCheS Erziihlens. In^RÜSEN detalhadatver RÜSEN,J. DievieiTypen
RÜSEnV t I99° ' P' 153'230' [RÜSEN"I n ""dSi"": Stn,tc&™historisehen Dtrnkm.
p. 153-2301 mp° CSÍgnif,Cado- Es/ra/éeiasdà * Üp° S d° narradva his,ól'ica' In:
’• £ ‘ ‘"Wwntüção histórica. Frnnkfutt/M., 1990,

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jiM.i.uiscnLM»l«iRin o d c I.fist(.)ria

p l'nu narrativa histórica está lidada ao ambiente da memória


1 Ia mobiliza a experiência do tempo passado, a qual está
gravada nos arquivos da memória, de modo que a experiên­
cia do tempo presente se torna compreensível e a expectati-
xa do tempo tnmro, possível.
2) tn ia narrativa histórica organiza a unidade interna destas
três dimensões do tempo por meio de um conceito de con­
tinuidade. Esse conceito ajusta a experiência real do tempo
às intenções e às expectativas humanas. Ao fazer isso faz a
experiência do passado se tornar relevante para a vida pre­
sente e influenciar a configuração do futuro.
3) Uma narrativa histórica serve para estabelecer a identidade
de seus autores e ouvintes. Essa função determina se um
conceito de continuidade é plausível ou nào. Este conceito
de continuidade deve ser capaz de convencer os ouvintes de
suas próprias permanência e estabilidade na mudança tem­
poral de seu mundo e de si mesmos.
Por estas três qualidades, a narrativa histórica possibilita a
orientação da vida prática no tempo - uma orientação sem a qual tor­
na se impossível para os seres humanos encontrar o seu caminho.
Alê agora forneci apenas um esboço aproximado do amplo e
múltiplo campo da narrativa histórica. Primeiro, é necessário estabele­
cer um modelo teórico geral da estrutura, processo e função de uma
narrativa histórica antes de considerar as variedades da historiografia.
Somente com esse modelo podemos distinguir adequadamente a histo­
riografia de outras formas de compreensão de nossa própria e de todas
as outras culturas.
Mas a prova do pudim está em comê-lo e, por isso, a prova
êa descrição abstrata está na compreensão dos fenômenos concretos.
Portanto, uma pergunta é inevitável: como podemos desenvolver a
compreensão dos fundamentos narrativos do conhecimento históri-
C,) na copíliÇào das múltiplas manifestações da historiografia? Parafra-
• do Karl Marx: como podemos ascender do abstrato para o concre-
• odemos lazer isso através da tipologia.
I - assim chegamos ao segundo momento deste capítulo, no qual
eu gostaria d<* f • r ’ y
• • ce rornecer um esboço de uma tipologia geral da narrativa

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r Jõrii Rüsen

histórica, que deve revelar o amplo e múltiplo campo da H s to rio g ^


Nesta tipologia tento enfatizai a especificlda e ístouca da constituição
de sentido da experiência do tempo por meto da narrativa. Com esta
intenção, que é semelhante à de Johann Gustav Droysen e Friedrich
Nietzsche, a tipologia que se segue difere substancialmente daqUela
proposta por Hayden White, a qual interpreta a historiografia enquanto
Literatura e não reconhece, de forma alguma, a sua especificidade.
Assim, o ponto do qual eu inicio é a função da narrativa his­
tórica. Como já mencionei, a narrativa histórica tem a função geral de
orientar a vida prática no tempo, mobilizando a memória da experiência
temporal, por meio do desenvolvimento de um conceito de continui­
dade e pela estabilização da identidade. Esta função geral pode ser rea­
lizada de quatro modos diferentes, de acordo com as quatro condições
necessárias que devem ser preenchidas para que a vida humana possa
continuar em seu curso no tempo: afirmação, negação, regularidade
transformação. Por isso posso ver quatro diferentes tipos funcionais de
narrativa histórica com suas correspondentes formas de historiografia

TIPOLOGIA DA NARRATIVA HISTÓRICA

memória de continuidade sentido do


como identidade pela
tempo
origens permanência afirmação
Narrativa constituindo os dos modos de de determinados ganho de tempo
tradicionalpresentes modos vida originalmente padrões culturais de no sentidoda
devida constituídos ' autocompreensão eternidade
casos validade das generalização
demonstrando regras de experiências ganho de tempo
Narrativa abrangendo do tempo no sentidoda
exemplar aplicações de
regras gerais de temporalmente transformando-as extensão
conduta diferentes sistemas emregras de espacial
devida conduta
desvios negação ganhode tempo
Narrativa problematizando alteração
crítica das idéias de de determinados no sentidodeser
os presentes padrões de umobjetode
modos devida continuidade dadas
identidade julgamento
transformações desenvolvimento mediação
Narrativa demodos de emque os modos
da permanência e ganhode tempo
genética vida alheios para de
fim
vida mudama
de estabelecer da mudança para no sentidoda
modos mais umprocesso de temporalidade
apropriados a sua permanência
autodefinição

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|nrn Rüsen c o Ensino dc História

(instaria dc ilustrar os tipos dc exemplos extraídos do campo


p história das mulheres. I m assunto que hoje concentra a discussão
u«hreos fundamentos dos estudos históricos^.
(I) Toda forma de vida humana é, necessariamente, organizada
p,,r tradições. Irias não podem ser negadas totalmente, caso contrário
pessoas perderíam o chão sob seus pés. O primeiro tipo de narrativa
(eva isso em conta. A narrativa tradicional articula as tradições como
condições necessárias para os seres humanos encontrarem seu cam i­
nho. As narrativas tradicionais no campo da história das m ulheres são
muito raras, mas os monumentos são uma torma tradicional de cons­
tituição dc sentido histónco da experiência do tempo. Encontrei um
bom exemplo em Grahamstown (África do Sul), na rua principal, indo
da Universidade dc Rhodes até a catedral. Aqui há um m onum ento
qut é dedicado às mulheres pioneiras e possui uma inscrição, com o
se segue, que representa o significado histórico tal como fazem as nar­
rativas tradicionais:

Mantenha sua memória verde c doce


Irias alisaram os espinhos com os pés sangrando.

P.ir:i colocar da maneira generalizante da teoria: as narrativas


tradicionais lembram as origens constituintes dos sistem as de vida do
presente. Irias constróem a continuidade como um a perm anência da
constituição onginana dos sistemas de vida e form am a identidade p ela
•i imiaçao dos dados - ou mais precisam ente, pré-dados - padrões cul-
's aUt0C° mpreenSÍa ° Utros exemplos são: histórias que con-
, a ° ngem e a genealogia das regras a fim de legitimar a sua
* * ** -ligiosas, as históriaTde sua C -
jubileus (emBostoen 30 P” ° CaS,â° d° S Cemenári° S e outros
tradicional S1. „ ■ ,1 ’ V * * P° de atC m esm o “n ia r em um a narrativa
conto um üifi,l v ° » Tf ~ C am inh° da ^ e td z d e - pintado
Em tüchs essas h~ °-

lvLít!*£ ‘iMK -J - (Ed)-


riurFankfurt/,M | Q88| ' ’' ' ^ SEN' ^ * ° r&h A
H
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•”
em

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Jó rn R * en . . .
• sós não são su h aen tes como torma ae
0 Tradiçõe-' Por em seu conteúdo em pírica
orientação P ^ f ^ L e heterogêneas e e w m uma integra-
lé m ^ d a! S e° ou princípios. Estas regras e ponopjos sao
cão por * “ » de « e m uma vasca gam a de dcversas
abstratos porque sao em , portanto, uma telaçao com esta
csperiêndas do tempo^ eXque carregam est
AVersídade. Trata-se d ^ o j princípios abstratos, contando his-
Cão. Elas concretizam a * destas regras e princípios em casos
tórias que demonstram ‘ exemplos sobre a história das mulhe-
específicos. Utilizan o o periodo dos estudos sobre as
J pode-se oihar para.nas e m m n U e ^ ^ _
mulheres. Para demo .}u, tónas que contavam muiro sobre
lheres, as historiador. P ^ Z p ^ l a eficiência das mulheres
as realizações, as capa ^ Q efejto de fazer com que muitas
i X e s t o p ^ t e s e s L o b r a s de arte, artesanato ciência, religião,
" X g e m , a economia e a polírica fossem « h » do esqueonrento.
Para colocar do modo generalizante da teona no%amente, as
narrativas exemplares lembram os casos que demonstram a aphcaçao
de regras gerais de conduta; elas impõem a continuidade como a va­
lidade supratemporal das normas que abrangem os sistemas de vida
temporalmente diferentes; e formam uma identidade ao generalizar as
experiências do tempo para as regras de conduta. Outros exemplos
deste tipo de narrativa histórica são as histórias que apresentam mo­
delos de virtudes ou vícios. Nos jornais sempre podemos encontrar
alusões a acontecimentos históricos. E essas alusões seguem a lógica
da narrativa exemplar. Um exemplo é o seguinte fragmento de ardgo
no Cape Times de 17 de fevereiro de 1987:

Diremos: “Nós não sabíamos?”


O recente discurso no Parlamento feito pelo ministro das
Finanças... onde admitiu que ele mesmo... não sabia o que
estava acontecendo nos guetos (distritos) negros é motivo
para preocupação.
Nós todos sabemos que o povo alemão não foi informado
° re as terríveis condições nos guetos e campos de
P neiros de guerra ou do horror dos campos de

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....... „ mipofUi' \mt» w i l o i w

.... . (l|,lí, «do* no conluio sul Hi"ano,


„„.................... |hli,| ,lo .lie, <«»•'

.......
. .. imoim *& "" . „ , 1» cKpctwiiciíi temporal »\m<

...!.
CÍal (3) O 1erccifí; i’P; ^ rejrra^
,„ J U * ‘fecr ' T ' ,Z (Ijdiiíc de < * k !’« * * * *
íi- r ;* :,::; s r * « * •— >“ rí“ i!fc * •
Z xça Paril noV,OS píf '°,™|heres este tipo de narrativa é abundante.
Na h,f >m histórias relacionadas ao sofrimento das m ulheres
Bem sei que sao as • patriarcal. Por meio dessas historias, as
„a longa historia d c d o m i n ç p ^ & dog padrões trad.c.o-

“ t s s r . — — *— p”
outras alternativas. _ naffativas críticas nos lembram dos
EW tCrm° ^ 2 m átÍas as presentes condições de vida; elas

S5a====? - S
drões de autocompteensao: e a identidade da obsttnaçao.
Outros exemplos deste tipo são as obras históricas que segue
o lema de Voltaire: “Quando se ler História, a única obrigaçao de uma
mente saudável é refutá-la”9. As narrativas críticas são anti histórias,
histórias convocam a experiência temporal perante o tribunal da men
humana: o ganho de tempo no sentido de ser um objeto de julgamento

Oeuvres completes de Voltaire, v.ll, p. 427. EcL Moland. [Obras comp


Vhche, v. 11, p. 427. Ed. Moland].

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/ • v \l ■k . v

Jõrn Rüsen ///// /


■ / / / (* t i ;

(4) Mas a narrativa crítica nao e a ultima palavra da consciência


histórica. Sua dinâmica de negaçao nao e suficiente, pois só substitui t/ / / VS
um modelo pelo outro. O padrão que encontra uma transformação >////<
significativa e importante em si mesma ainda está faltando. Este padrão
define o quarto tipo: o da narrativa genética. '"
W
■ f0 ti/ .\i
/\
t j . / ,\C‘
Histórias deste tipo fornecem uma direção para a mudança
temporal do homem e do mundo, para a qual os ouvintes devem, con­ :/ / / /
sequentemente, ajustar suas vidas a fim de lidar com as desafiadoras
alterações do tempo.
Na história das mulheres, as histórias deste tipo de narrativa V //
superam a alternativa entre afirmação ou negação, entre aceitação ou t i/ .t i tf
recusa das tradições dadas e dos princípios da feminilidade. Elas subs / /iti- /‘ •, \
tituem a antítese abstrata enfatizando um elemento de mudança estru
í / / "
tural e dinâmico usando o “gênero” como uma categoria histórica É
este elemento de desenvolvimento estrutural que media a antecipação
f/
t o r .v
das alternativas em relação às experiências, conquistadas até agora das
transformações da condição feminina e das relações de gênero.
Na forma de conceitos teóricos: as narrativas genéticas lem­
bram as transformações que levam dos modos de vida alheios para
modos mais apropriados. Elas apresentam a continuidade de desenvol­
vimento^ na qual a alteração dos modos de vida é necessária para a sua
permanência. E formam a identidade pela mediação entre permanência # osl'J
e mudança em direção a um processo de autodefinição (em alemão isto
é chamado de b i l d m g - “formação”). Histórias desse tipo representam ilVIJ
as forças da mudança como fatores de estabilidade, as quais evitam a
ameaça de se perder no movimento tem poral da subjetividade humana 'mk tm
interpretando-o como uma chance de conquistar a si mesmo. Estas
zkm\
s onas organizam a autocompreensão hum ana com o um processo
ííltKO’
da dinarmca temporal: ganho de tempo no sentido da tem poralidade.
tto tinos d e ta Se? 0t' e P‘: r2untar ° que é ganho ao discernir esses qua-
que nos d t eX1SenCla\ reSP° nder a eSta antes
-re sp o n d e ™ 5 ^ entre e le f Cada tipo
%
2 Í 1 Çâ° neCeSSárk’ a Su al deve satisfeita se a
%
s « » “ “ Z Z Z " " “ » » ■ ”•
Nj
dos, embora cacta i a i Um a° 0utro’ m as estão intim am ente liga-
Cada Um deles sei* l a m e n t e distinto dos o u tr o , A com-

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Jórn Rüsen e o Ensino de História

concxào é muito grande para explicá-la aqui na íntegra.


P l ^ ^ ^ ü i a m resumir cm dois pontos principais: (1) Todos os
..'ntíu1 IlU' ? , 0 sau
Ban encontrados cm todos os textos históricos,7 um
' lamentos v-j
T1,ur° -'sariamente o outro. (2) Ha uma progressão natural do
implica necei"exemplar e do exemplar à narrativa genética. A narrativa
tr.uli^011^ a<^Jnl0 q catalisador necessário dessa transformação. ,
crtticíl se^N compreender o conjunto das relações entre estes tipos
^^ binar a qualidade do envolvimento com a transformação.
tcmos de coi ^ ^ , uma confusão ou bagunça qualquer, mas uma
0 reSUtíl Uromente ordenada. A lógica do que pode ser chamado
vmra sistemattcamcui 0 , . 1 . ..
tcxtl , . através desta estrutura, a tipologia nos permite analisar
de ^ eU^ j etas da historiografia em um quadro conceituai mais cla-
°^rílS C Max Weber demonstrou, é a forma sistemática, abstrata e
ro. C°m° conceitual da teoria que faz as dpologias se tornarem
^ ° r°~ara
' ra aa .pesquisa
penuisa<empírica. E é ,sobre
. ressa utilidade ou
pesqu i , , função~ da
ia da narrativa histórica que desejo fazer algumas observações.
Úteli Pvda
üp° ogia^ ^ e mais simples uso da tipologia é a classificação de
históricas. Assim, podemos caracterizar a Greek Culture (Cultura
, de lacob burckhardt ou Histoty o j the Hnited States (A historia
f CEstados Unidos) de George Banckroft como uma narrativa tradi-
°nal a Histoty 0f F/orence (História de Florença) de Maquiavel como
C1°em 'lar os Essais sur les Moeurs et 1’Esprit des Nations (Ensaio sobre
osTstumes e o Espírito das nações) de Voltaire como crítica, e a
Komn Histoty (História romana) de Theodor Mommsen como gené­
tica Mas tal classificação não nos leva muito longe. Somente quando
levamos em conta a relação interna enüre os tipos é que eles podem
revelar muito mais sobre os trabalhos históricos. Em cada obra histó­
rica é a composição desses quatro elementos narrativos que constituiu
a sua peculiaridade. A tipologia permite esclarecer esta peculiaridade:
ela fornece os meios conceituais para discernir os diferentes elementos
da narrativa histórica e reconstruir sua composição como um todo.
Assim, podemos identificar exatamente uma narrativa histórica em re
lação àquelas qualidades que cumprem uma função especificamente
histórica. Para dar um pequeno exemplo: na historiografia do histori
cismo 0 tipo genético prevalece. Retornando para a primeira obra de
Ranke, uma das suas mais representativas, nas Geschichten der romanisch

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Jõrn Rüsen

• , Vtíkerm 1494 bis (154Histórias dos povos


.genmmschen ^ m ) (1824), o olho típologicamente sofis_
' g T ? H e !o e i t o disso, encontra claramente formas exemplares que
““ ; - 0 suficientemente integradas no sentido predominantemente
Z L o do livro. Isto é ainda mais surpreendente, pois, como bem
sabemos, no seu prefacio, Ranke escreveu a famosa recusa à história
exemplar disse que não queria julgar o passado; sua historia so queria
mostrar como ele realmente aconteceu {"envillbloggeigm, m es ágentlich
gemsen’). Ao detectar essa qualidade do primeiro livro de Ranke, a ti­
pologia abre um novo modo de compreendê-lo.
Assim como podemos caracterizar a peculiaridade de u n ij úni­
ca obra histórica utilizando conceitos da narrativa histórica em geral,
entào também podemos aplicar a tipologia para a análise comparativa.
Ela nos oferece os critérios de comparação, tendo em vista a profunda
estrutura da narrativa histórica, e também nos oferece um processo de
diferenciação quanto à qualidade especificamente histórica dos traba­
lhos comparados. Além disso, podemos empregar a tipologia para abrir
novas perspectivas históricas em relação à historiografia.
As perspectivas históricas são extraídas das principais idéias
de mudança temporal: à luz de tais idéias as mudanças temporais ga­
nham a qualidade do desenvolvimento histórico10. No que diz respeito
à historiografia, as principais idéias de seu desenvolvimento podem ser
extraídas das tendências internas dos tipos de narrativa histórica. Os
tipos podem ser organizados segundo uma determinada ordem lógica.
Cada narrativa genética tem formas e funções exemplares e tradicio­
nais da narrativa histórica como precondições; igualmente cada narra­
tiva exemplar possui narrativas tradicionais. A narrativa tradicional é,
em si, original. A narrativa crítica é definida como a negação dos outros
três tipos. .
Se, agora, déssemos um sentido temporal a essa ordem lógica,
alcançaríamos um marco conceituai para o desenvolvimento históri-

10 A lógica desta Perspectiva teórica é descrita em RÜSEN, J. Kekonstruktion


' gungenheit. Grundpige emer Hislorik II: Die Frinsçipien der histomchen Forscbung.
ottogen, 1986. No Brasil esta obra foi publicada em RÜSEN, J. Reconstrução do

S G A S ? 05 prindpios da pesquisa “ a- TraA: Asta'Rose

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Rüscn c o Rn sino cic i iisiorid

icatnente, a historiografia pode ser vista a


Histori
' nduz as narrativas tradicionais para as
^ rq«e
c o ^ ^ n c i a g :tal p ac0‘
r a as genéticas; as narrativas críticas
p e as exeWpl f de chamar esta tendência, nas palavras do
< adotas- Gosta» j ou “hipotética” Por isso, nao
caÍ o , de um* hlS.t° ; . um significado metafísico, mas sim a
“ ‘V Í cional da experiência histórica. Portanto as
de uma ordem ra temporal da historiografia da
Maneias não se sePara uma esfera autônoma de Gcistesgeschckte
i ^ ^ s u a c o n c e p ç ã o serve como um espelho o qua
/fjistória inteíectmd)^ ^ temporal é respondido por
mós® da narrativa histórica. _
udança esttutUL‘ dinâmicas internas na relação en-
A concepção
■ s node ser utilizada para periodizar a história da his-
tre os quatro UP° P os ttês tipos marcam os tres principais

toriografia. Nesta peíl
pe ^ histórica r\ \-nir\ci
,...__desde Híis culturas
0 início das culturas
passos na evolução pré.industriais, chegando às sociedades
pté-neolídcas ate as culturas p

m0detnM „ evolução a aceitação e o significado do próprio tempo


formam No primeiro período, o curso do tempo se tornou
se transformam, i P q que em nossa cultura pode
preso na etermd d ^ aPVoltaire, essa eternidade adquiriu a
de princípios supratemporais válidos, e, no curso do tempo,
ampliou-se para uma multidão de experiências; e, no terceiro peno ,
Jfcomeçou na segunda metade do século XVIII, o tempo e tem-
poralizado: a autocompreensão humana não é mais vista como um
rejeição em relação à variedade e à mudança, mas, ao contrario, e e
finida por esta mudança e por esta variedade. A esfera da expenencia
histórica real se torna infinita11.

11 Peter ReilI iluminou a parte alemã deste começo: The German Enlightenmnt
andtheRise of Historicism. Berkeley, 1975. Cf. BLANK, H. W.; RÜSEN, J. (Ed.). ^
Aufklàrung yiirn Historismus. Xum Stnicturwandel des historischen Denkens. Paderborn, ^^
(Historisch-polidsche Diskurse, v. 1). [0 lluminismo alemão e a ascensão do histonasmo.
Berkeley, 1975. Cf. BLANK, H. W.; RÜSEN, J. (Org.). Do lluminismo ao histonasmo.
Era uma mudança estrutural do pensamento histórico. Paderborn,1984. (Discurso histórico
epolítico, v. 1)].

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: . "
Jôrn Rüsen
m .• '
Mas a tipologia nos fornece não só uma periodização gera] <ja
história do pensamento histórico; ela também fornece periodizações
especiais dentro de épocas particulares. Como eu já disse, os quatro
tipos estão sempre presentes em textos históricos; um é dominante, 0s
outros secundários. A forma dominante estabelece uma época geral- a
relação entre as secundárias, e entre elas e as dominantes, pode defini
os subperíodos.
Essas considerações teóricas podem levar às estruturas concei
tuais de pesquisa empírica e interpretação. A época do Iluminismo tar
dio, por exemplo, pode ser tipologicamente descrita como uma mudança
da estrutura exemplar para a narrativa genética como forma dominante
na estrutura profunda da narrativa histórica. Reinhart Koselleck descre
veu essa mudança como uma dissolução do topos vitae
no início do movimento em direção à história moderna12. Seria válido
procurar uma mudança análoga da narrativa tradicional para a exemplar
como uma forma fundadora do pensamento histórico. Suponho que
essa mudança ocorreu durante o despertar das civilizações antigas
Existe um outro uso da tipologia que quero apenas apontar
sem enfrenta-lo detalhadamente. E ainda muito hipotético. Pouco sa

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im Horizont n e u z b ir A R' H'S,ma Magistravitae. Über die A„flx


Smantik m é M i l r t -eWegtet Ges<*ichte. I„: Auflosung des Topos
KOSELLECK r sZetten.Frantóut, 1979 No R ~ i------ Zur
moderna H,Storia Viu S o í] * “ ?. publicado em

\K mfotratúma, dJeane'ra: Contraponto/Ed PUr ™ r“ Ç“ 2 semânnca dos


,J«. p. 29-94 IRÜS^ T *W- J*«*»«r A l 2006’ P- 41-e0-Cf. RÜSEN,
frankfurt/M., l993.p 29 f [ onh«rafo,s do bistoriL o Frankfúrt/M.,
P 4J’94'1- * “ Estudos soltura científica alemã,
106
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é a função da formulação da identidade humana pela mob açao

13RÜSENJ. Historiscbe Vemunft. Grundspge einerHistorik 1: Die Grundlagen der


Gtscbicbtsuissenscbaft, 85 sqq. Gõttingen, 1983. No Brasil, esta obra foi publicada como
RÜSEN.J. Ra^ào histórica: Teoria da História I: os fundamentos da ciência histórica.
Ttad"Este^o Rezende Martins. Brasília: UnB, 2001, p. 99.

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fi)tc, , d* memória histórica; ou, para dizer brevemente, da orientação
th , kh iium ana no curso do tempo. Se os historiadores profissionais
reconhecessem essa função como uma função de seu próprio trabalho,
talvez o seu ele fornecesse um pouco mais de racionalidade para a vida
praticía.
Enfatizar este aspecto da historiografia é um dos objetivos
principais da teoria da história em geral e da tipologia da narrativa his­
tórica em particular14. Mas não é tarefa do teórico prescrever a histo­
riografia. Ele ou ela só podem tentar elucidar a estrutura da narrativa
histórica e discutir os seus aspectos de racionalização e de argumenta­
ção. Então, por fim, gostaria de levantar uma questão sobre a repre­
sentação historiográfica da continuidade. Como já foi dito, a continui­
dade é a ideia principal da ligação histórica da experiência do passado
com a expectativa do futuro, realizando, assim, a unidade do tempo.
Os historiadores têm apresentado esta ideia de modos diferentes. Nos
bons e velhos tempos da então chamada historiografia narrativa, eles
apresentaram-na como o fluxo de eventos visto por um quase-divino
autor onisciente. Nos tempos modernos da história estrutural e social,
os historiadores frequentemente apresentaram sua ideia de continui­
dade na forma de uma teoria (teoria da modernização, por exemplo).
Isto significa um progresso na racionalização, pois em tais formas os
conceitos de continuidade são questões para debate; todavia, o leitor
está exposto a um processo já completo de constituição do sentido da
experiência temporal.
Posso imaginar um novo avanço na racionalização. Isso pode
acontecer se os historiadores apresentarem a história para os leitores
de tal forma que, ao lê-la, estes teriam que criar uma ideia do sentido
das decisões ligada à continuidade de si, usando sua própria razão. En­
tão, a historiografia ganharia uma forma que se situaria nas vizinhanças
da literatura moderna. J

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selr-awareness of Historical Studies. History and Theorv 26 iqq? v - «. r
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originalmente
UEPG, 2006. cm ’ n- A p. ^7-16,
^ 2006
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