Você está na página 1de 85

Faculdade de Direito – Universidade Nova de Lisboa

Ano letivo 2016/2017

3º ano- 2º semestre

Teoria do Processo

Professor Jorge Morais Carvalho

Catarina Tiago

Raquel Domingues
1. ENQUADRAMENTO TEÓRICO....................................................................................................................... 5

1.1. Conceito de processo ..................................................................................................................................................... 5

1.2. Direito substantivo e direito adjetivo ............................................................................................................................ 5

1.3. Tipos de direito processual ............................................................................................................................................ 6

2. MEIOS DE RESOLUÇÃO DE LITÍGIOS ............................................................................................................. 6

2.1. A negociação .................................................................................................................................................................. 7

2.2. A mediação .................................................................................................................................................................... 9


2.2.1. A convenção de mediação .......................................................................................................................................... 11
2.2.2. Mediabilidade ............................................................................................................................................................. 11
2.2.3. Homologação e executoriedade do acordo obtido em mediação .............................................................................. 12

2.3. A arbitragem ................................................................................................................................................................ 13


2.3.1. A convenção arbitral ................................................................................................................................................... 14
2.3.2. Arbitrabilidade ............................................................................................................................................................ 15
2.3.3. O processo arbitral ...................................................................................................................................................... 16
2.3.4. Impugnação da decisão arbitral .................................................................................................................................. 16

2.4. Os tribunais estaduais .................................................................................................................................................. 16

3. ESPÉCIES DE AÇÕES ................................................................................................................................... 19

3.1. Ações declarativas ....................................................................................................................................................... 19

3.2. As ações executivas ..................................................................................................................................................... 20

3.3. Processos especiais ...................................................................................................................................................... 21

4. A JURISDIÇÃO VOLUNTÁRIA....................................................................................................................... 22

5. OS JULGADOS DE PAZ ................................................................................................................................ 23

5.1. Princípios caracterizadores dos Julgados de Paz .......................................................................................................... 24

5.2. Competência ................................................................................................................................................................ 25

6. A INJUNÇÃO............................................................................................................................................... 26

7. OS INCIDENTES PROCESSUAIS ................................................................................................................... 28

7.1. A intervenção de terceiros ........................................................................................................................................... 31

7.2. A oposição ................................................................................................................................................................... 31

8. PROCEDIMENTOS CAUTELARES ................................................................................................................. 32

8.1. Espécies de procedimentos cautelares ......................................................................................................................... 33


8.1.1. Regime do procedimento cautelar comum ................................................................................................................ 34

Página 2 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
8.2. A inversão do contencioso ........................................................................................................................................... 34

9. TRAMITAÇÃO DO PROCESSO ..................................................................................................................... 35

10. SISTEMAS DE RECURSO .......................................................................................................................... 37

10.1. Recursos no processo civil............................................................................................................................................ 37


10.1.1. Admissibilidade do recurso ordinário ......................................................................................................................... 37
10.1.2. Renúncia ao recurso .................................................................................................................................................... 38
10.1.3. Recurso independente e subordinado ........................................................................................................................ 38
10.1.4. Modo de interposição do recurso ............................................................................................................................... 38
10.1.5. Despacho do juiz ......................................................................................................................................................... 38
10.1.6. Modo de subida .......................................................................................................................................................... 39
10.1.7. Recursos ordinários: o recurso de apelação ............................................................................................................... 39
10.1.8. Recursos ordinários: o recurso de revista ................................................................................................................... 39

10.2. Recursos extraordinários ............................................................................................................................................. 39


10.2.1. O recurso para uniformização de jurisprudência ........................................................................................................ 39
10.2.2. Recursos extraordinários: o recurso de revisão .......................................................................................................... 41

10.3. Recurso para o Tribunal Constitucional ........................................................................................................................ 41

11. DISTINÇÃO ENTRE REGRAS E PRINCÍPIOS (DOUTOR MICAEL TEIXEIRA) .................................................. 42

12. A RESPONSABILIDADE CIVIL DO ESTADO PELO MAU FUNCIONAMENTO DA ADMINISTRAÇÃO DA


JUSTIÇA (PROFESSOR DOUTOR RICARDO PEDRO) ............................................................................................. 45

13. PRINCÍPIOS DO DIREITO PROCESSUAL CIVIL ........................................................................................... 47

13.1. O principio da tutela jurisdicional efetiva .................................................................................................................... 47


13.1.1. O patrocínio judiciário ................................................................................................................................................. 48
13.1.1.1 O patrocínio judiciário obrigatório ............................................................................................................................. 49
13.1.1.2. O mandato judicial .................................................................................................................................................... 50
13.1.1.3. A nomeação oficiosa ................................................................................................................................................. 51
13.1.2. Acesso ao Direito e aos Tribunais ............................................................................................................................... 52
13.1.2.1. A proteção jurídica ............................................................................................................................................. 53
13.1.3. Custas processuais ...................................................................................................................................................... 55
13.1.4. A arbitragem necessária.............................................................................................................................................. 56
13.1.5. Negócios jurídicos processuais ................................................................................................................................... 57
13.1.5.1. Pactos privativo e atributivo de jurisdição ......................................................................................................... 57
13.1.5.2. Cláusulas contratuais gerais ............................................................................................................................... 58

13.2. O principio da eficiência processual (Joana Campos Carvalho)..................................................................................... 58


13.2.1. Principio da economia processual............................................................................................................................... 59
13.2.2. Princípio da razoabilidade dos prazos ......................................................................................................................... 59
13.2.3. Principio da orientação para a autocomposição do litígio .......................................................................................... 60
13.2.3.1.A conciliação judicial .................................................................................................................................................. 60

13.3. O principio da gestão processual ................................................................................................................................. 62


13.3.1. Evolução histórica ....................................................................................................................................................... 62
13.3.2. O CPC de 2013 ............................................................................................................................................................. 63
13.3.3. Recorribilidade e gestão processual ........................................................................................................................... 65

13.4. O principio do dispositivo ............................................................................................................................................ 66


Página 3 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
13.4.1. A instância ................................................................................................................................................................... 67
13.4.2. Petição inicial .............................................................................................................................................................. 68
13.4.2.1. Causa de pedir .................................................................................................................................................... 68
13.4.3.2. Pedido ....................................................................................................................................................................... 69
13.4.3.3. Ineptidão da petição inicial ....................................................................................................................................... 69

13.5. O principio do inquisitório ........................................................................................................................................... 70

13.6. Principio da cooperação............................................................................................................................................... 70


13.6.1. Deveres de cooperação decorrentes do principio da cooperação ............................................................................. 70
13.6.1.1. Dever de esclarecimento .................................................................................................................................... 71
13.6.1.2. Dever de lealdade............................................................................................................................................... 71
13.6.1.3. Dever de proteção .............................................................................................................................................. 72
13.6.2. Alcance do principio da cooperação ........................................................................................................................... 72
13.6.3. Consequências do incumprimento ............................................................................................................................. 73
16.6.4. Cooperação e imparcialidade do juiz................................................................................................................................ 73
16.6.5. Cooperação e caracterização do modelo processual atual .............................................................................................. 73

16.7. Principio da igualdade ..................................................................................................................................................... 74

13.7. Principio do contraditório ............................................................................................................................................ 74

13.8. O principio da persuasão racional (e outros princípios e regras relativos à prova) ....................................................... 76
13.8.1. Introdução à atividade probatória .............................................................................................................................. 76
13.8.2. Apreciação da prova pelo julgador ............................................................................................................................. 77
13.8.3. Imediação na apreciação da prova ............................................................................................................................. 78
13.8.4. Medida da prova ......................................................................................................................................................... 79
13.8.5. Ónus da prova ............................................................................................................................................................. 80
13.8.6. Restrições à persuasão racional .................................................................................................................................. 82
13.8.7. Limites à apreciação probatória: a prova ilícita .......................................................................................................... 83

13.9. Principio da transparência do processo e das decisões ................................................................................................ 83


13.9.1. Princípio da publicidade .............................................................................................................................................. 83
13.9.2. Princípio da fundamentação das decisões .................................................................................................................. 85

Página 4 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
1. Enquadramento teórico

1.1. Conceito de processo

O que é um processo?

Um processo consiste numa organização sequencial de acontecimentos com vista a um objetivo, neste caso o da
resolução de um litígio.

Pode tratar-se de uma sequência de atos jurídicos ou naturais: qualquer processo é uma sequência de atos, alguns
deles podem ser factos jurídicos.

Procedimento administrativo ≠ Processo administrativo

Fora dos tribunais Por meio dos tribunais

Que atos são estes?

Atos processuais ≠ Factos com impacto processual

Por exemplo, proposta a ação, o réu contestou. O autor da ação mata a outra parte, isto é um ato processual? Faz
parte do processo? Não. Tem implicações no processo mas é um ato exterior ao processo. Trata-se de um facto tido
em conta no processo e que necessariamente trará origem a outro processo, não consistindo num ato desse mesmo
processo.
Neste caso, o juiz pode praticar um ato processual, dando conhecimento ao processo de tal facto e isso sim, será
um ato processual. O ato processual é então trazer esse facto para o âmbito do processo ou pelas partes, ou pelo juiz
(se de conhecimento oficioso).

Regra geral, o processo civil inicia-se com a propositura da ação (petição inicial), terminando com a decisão. O
processo pode não terminar com a decisão proferida pelo juiz se houver, por exemplo, recurso. Pode ainda, acabar
não com a decisão, mas com acordo ou desistência.

Quando algo escapa à tramitação do processo  incidentes processuais

1.2. Direito substantivo e direito adjetivo

 Direito substantivo material: conjunto de regras e princípios que regulam as relações jurídicas entre as
pessoas. Daqui resulta um conjunto de situações jurídicas ativas e passivas (direitos, deveres, ónus…)

 Direito adjetivo: complexo normativo que regula os trâmites processuais com vista à aplicação do direito
material. São, portanto, as regras que regulam o processo.

Página 5 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
Common Law ≠ Sistema Romano-germânica

Há sobreposição do Se tenho um direito,


direito adjetivo. Tem vai, necessariamente,
que se ter um processo existir um processo
adequado à pretensão para o efetivar.

Direito de ação  Norma material e não processual

Direito do réu a contestar no prazo de 25 dias  Norma simultaneamente processual (prazo) e material (direito)

Quando no âmbito do processo nasce um direito na esfera jurídica da pessoa, trata-se de direito material.
Quando o direito tem um prazo para ser exercido a nível de um processo, trata-se de direito adjetivo.

1.3. Tipos de direito processual

Um processo pode ser administrativo, civil, penal, constitucional… sendo a sequência dos atos que se reportam a
cada área do direito distinta. Qual é, então o critério para fazer a distinção entre eles?
Exemplo: A mata B. Podemos não estar, necessariamente, no âmbito de um processo penal. Podemos ter um processo
civil para pedir indemnização. Podemos também ter um processo administrativo se estiver em causa um Hospital.
 A distinção é feita com base nas normas materiais aplicadas no processo.

Processo constitucional: Lei orgânica do TC


Processo administrativo: CPTA e Código de processo tributário administrativo
Processo civil: CPC
Processo penal: CPP
Processo tributário: não tem muitas especificidades face ao administrativo, é essencialmente o processo de execução
Processo de trabalho: Código de Processo do Trabalho

É de sublinhar a natureza subsidiária do CPCivil. Nenhum dos elencos de normas é fechado, tirando o de processo civil.
Deste modo, em todos os restantes há remissão explícita ou implícita para o CPCivil. Todos os aspetos omissos que
não sejam compatíveis serão então preenchidos de acordo com o CPC.

2. Meios de resolução de litígios


Os meios de resolução alternativa de litígios designam-se como o conjunto de procedimentos de resolução de
conflitos alternativos aos meios judiciais. A definição é propositadamente vaga, na medida em que não existe uma
tipologia fechada.

Esta definição não é suficiente para abarcar a conciliação judicial, uma vez que esta é conduzida por um juiz no
âmbito de um processo judicial, não se tratando de um meio de resolução de litígios não judicial. Apesar disto, este
método funda-se no consenso, afastando-se da forma clássica de resolver os problemas em tribunal.
Assim, ainda que decorra em ambiente judicial, faz sentido considerar a conciliação ao lado dos outros métodos de
resolução de litígios, por se tratar de uma resposta alternativa ainda que em ambiente judicial.

Página 6 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
Os meios de resolução de litígios podem ser:
 Voluntários ou obrigatórios: Voluntários são os casos em que depende unicamente da vontade das partes
aderir ou não a um mecanismo alternativo. No entanto, podemos encontrar meios obrigatórios, como a
arbitragem necessária imposta por lei.
 Adjudicatórios ou consensuais: Adjudicatórios são os meios que atribuem o poder de decisão a um terceiro,
como a arbitragem. Consensuais são os meios que visam a solução através da obtenção do acordo,
permanecendo nas partes, a capacidade de decisão do litígio.
 Centrado nos interesses ou nos direitos: A ótica dos direitos é a tradicional. Baseia-se na discussão dos
argumentos legais de cada parte. É o que surge na arbitragem. A ótica dos interesses tem como ponto de vista
os interesses das partes, individualmente considerados, desconsiderando o que o Direito determina sobre o
seu caso. Procura, então, a pacificação de um conflito em detrimento da solução juridicamente correta.

Vão ser estudados quatro meios de resolução de litígios, sendo que só os primeiros três são alternativos:
 Negociação
 Mediação
 Arbitragem
 Tribunais Estaduais

Nota: o poder, isto é, a capacidade de coagir alguém a fazer algo que voluntariamente não faria, também é visto por
alguma doutrina como forma de resolução de conflitos, quando exista uma relação de dependência entre as partes. A
lógica é que “ou fazes o que quer ou não trabalho/negoceio/vivo mais contigo”.

Existem ainda alguns meios híbridos entre jurisdição e mediação, arbitragem e conciliação, formas adjudicatórias
e formas consensuais. São o caso do mini julgamento, da avaliação neutral, da decisão não vinculativa e do painel de
resolução de conflitos. Estes são meios desconhecidos em Portugal que não têm, sequer uma construção teórica
definitiva.

2.1. A negociação

A negociação consiste num processo de resolução de litígios em que as partes discutem diretamente o seu
problema e, se essa discussão for bem-sucedida, levará à celebração de um acordo que extinguirá o conflito.
A negociação pode contar com a presença de defensores das partes (advogados ou solicitadores) ou de peritos,
mas estes “vestem” o interesse e a pretensão da parte que os nomeia.

Existem várias coisas importantes a considerar na negociação:


 Importância da cooperação
 Necessidade de cooperação dos dois lados
 Limites de uma negociação baseada na competição
 Não tentar prejudicar o outro
 Separar a razão da emoção
 Perceber o que o outro está a pensar
 Importância da ética na negociação
 Escolher bem a forma de negociar
 Perceber que as rondas nunca acabam

Competição ≠ Cooperação

Melhorar o seu Melhorar o


resultado resultado global

Página 7 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
Objetivos da negociação:
 Contacto pontual entre as partes – benefícios a curto prazo
 Contacto permanente – benefícios no curto, médio e longo prazo

A postura deve ser diferente consoante o benefício que se procura. Deve ser-se mais competitivo se o contacto for
pontual para resolver o problema a curto prazo; sendo a postura no longo prazo menos competitiva

Curto prazo Médio prazo

Estratégia Competitiva X
na
negociação Cooperativa X

Elementos da negociação: deve existir inicialmente uma fase de preparação e informação, dentro da qual se deve
preparar a reação face às propostas da outra parte e tentar prever aquilo em que se pode conceder, tendo em conta:
 Conteúdo: o acordo deve ser satisfatório, por salvaguardar os interesses das partes e apto a cumprir pelas
partes. Pode acontecer que chego a uma situação em que o acordo é ótimo para mim e péssimo para a outra
parte: este contrato pode não ser bom, pode não ser apto a ser cumprido, pode não permitir a manutenção
da relação das partes para o futuro…
 Processo: deve haver uma atitude coerente com a atitude que se quer ter com as outras partes. É fundamental
uma boa comunicação já que só se consegue saber os interesses da outra parte se se conseguir comunicar
devidamente com ela. Uma boa negociação prepara também para futuras negociações: pode estar-se num
litigio e pensar que poderão surgir outros litígios e outros momentos em que será preciso negociar.
 Pessoas: as pessoas devem ser movidas por uma motivação para o cumprimento. Devem ter-se em conta os
sentimentos e perceções das partes e todas as pessoas que possam influenciar a negociação ou o período
posterior à mesma. Pode existir um acordo fantástico em que o consumidor chega a um acordo com o
vendedor: chega a casa e a mulher não concorda com o acordo (a mulher influencia o negócio). Não se trata
apenas da legitimidade para chegar a acordo, existem outras pessoas que podem influenciar o acordo e o
cumprimento.

Distinguem-se interesses de posições:


 Interesses: os interesse podem ser compatíveis apesar de as posições serem incompatíveis. Os interesses são
muito mais vastos e variados, podendo não ter nada a ver com as posições que as pessoas adotam.
 Posições: direitos são posições. Se temos uma situação jurídica temos uma posição. As posições são a parte
visível do litigio, mas a parte mais pequena.
Exemplo: dois cozinheiros querem uma laranja e dizem que têm direito a ela: um porque a comprou, outro porque a
adquiriu por usucapião. As posições são incompatíveis. Porém, um quer o sumo da laranja e o outro a raspa: os
interesses são compatíveis.

Conceitos fundamentais:
 Legitimidade: é preciso que quem está a negociar tenha legitimidade para chegar a acordo;
 Interesses
 Credibilidade
 Preparação

Página 8 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
2.2. A mediação

 A mediação é regida pela Lei n.º 29/2013, de 19 de abril

 Esta conceção de mediação é sucedânea da Diretiva 2008/52/CE do Parlamento Europeu

De acordo com o artigo 2º, mediação consiste na “forma de resolução alternativa de litígios, realizada por entidades
públicas ou privadas através do qual duas ou mais partes em litígio procuram voluntariamente alcançar um acordo
com assistência de um mediador de conflitos.

A mediação é um negócio assistido por um terceiro –


o mediador. Este é um terceiro que tem de ser imparcial  Existência de um acordo prévio
em relação às partes. para resolver o litígio através de
Assim, não vai ser ele a tomar a decisão, mas sim as mediação
partes (artigo 4º); é nas donas do litígio que reside a
solução adequada e justa do problema. O mediador  Numa mediação o resultado será o
apenas as coloca em contacto, ajudando-as a conciliar os acordo ou o não acordo, sendo que
seus interesses. o que se procura é o acordo;

O mediador, de acordo com o artigo 2º é “um terceiro, imparcial e independente, desprovido de poderes de
imposição aos mediados, que os auxilia na tentativa de construção de um acordo final sobre o objeto do litígio.
 “imparcialidade” - surge no sentido jurídico, da objetividade e do profissionalismo, já que faz parte da
condição Humana ser parcial. Pretende-se que se tome o menor partido possível poo uma das partes.
 “independência” - significa não ter relação com nenhuma das partes.
 “desprovido de poderes de imposição” – ao contrário de um árbitro ou de um juiz, o mediador não pode
impor um acordo (artigo 26º/b). O mediador auxilia e assiste, não dirige nem impõe. A sua função é
simplesmente a de ajudar as partes primeira a restabelecer a comunicação e, segundo, a encontrar a solução
adequada.

Nos casos em que as partes consigam negociar por si só a mediação é inútil. Aqui, a negociação será a melhor
solução.

Qual é, então, a intervenção que o mediador pode, ou não, ter? Existem dois modelos:
 Mediação facilitadora: centra o trabalho do mediador na reabertura das pessoas ao diálogo;
 Mediação interventiva: pressupõe uma postura mais ativa do mediador, não se limitando a trazer as partes
ao diálogo, mas agindo também ao nível do mérito da questão;

O modelo português dominante é o modelo de uma mediação facilitadora com uma muito menor intervenção do
mediador. Vigora a ideia de folha em branco: o mediador deve ir para a mediação sem qualquer conhecimento sobre
as partes, colocando-as em comunicação.
Há quem defenda que se houver uma mediação ou intervenção de um terceiro mais interventiva já não vamos ter
mediação. O professor discorda desta consequência, podendo haver uma mediação mais interventiva, ainda que as
suas fronteiras tenham de ser bem definidas. O mediador não pode insistir com as partes para aceitar determinado
acordo, mas pode, na sequência da mediação, fazer uma ou outra sugestão, contando que não se perca o
empowerment.
O que se procura na mediação não é que as partes aceitem uma solução, mas que cheguem a uma solução. Assim,
a maior intervenção do mediador tem de ser feita com muita cautela para que não se chegue a uma solução exterior,
por intervenção do mediador. Este tem que, simplesmente, introduzir sugestões que ajudem as partes a chegar a um
acordo que parta da sua iniciativa.
Página 9 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
Empowerment - é um termo chave na mediação que significa domínio do processo pelas partes. No âmbito de uma
mediação as partes têm de sentir que o processo é delas e que elas é que decidem se querem ou não chegar a acordo,
cabendo-lhes a responsabilidade pelas decisões que tomam. As pessoas têm, então:
 Domínio do processo: podem sair quando quiserem, nada as obrigado a chegar a acordo;
 Domínio do conteúdo: não é possível qualquer solução do litígio que nelas não tenha origem.

Pacificação social – O fim da mediação é a pacificação social, isto é, tem como objetivo sanar o problema,
restabelecendo a paz social entre os litigantes. Este fim sobrepõe-se inteiramente à questão do direito. Não importa
saber quem tem razão, mas antes procurar resolver os problemas subjacentes ao aparecimento do litígio. Trata-se,
portanto de um método de resolução de litígios assente nos interesses e não nos direitos.

Princípios da mediação:
 Voluntariedade: a mediação é voluntária, não podendo as partes ser obrigadas a participar de tal meio de
resolução.
 Igualdade: é muito difícil uma mediação em que haja um desequilíbrio entre as partes. Ou se cria uma
igualdade através de técnicas de mediação (presença de advogados na mediação, por exemplo), ou se deve
terminar a mediação por não estarem reunidas as condições para esta ser bem-sucedida.
 Confidencialidade: a mediação é confidencial porque se pretende que as partes revelem os seus interesses,
isto é, informações que não estejam disponíveis fora daquele circulo. Deste modo, o mediador não pode
revelar o que se passou na mediação, nem pode ser chamado como testemunha em processo judicial
posterior. A confidencialidade é um dos princípios da mediação, consagrado no artigo 5º, LM.
A questão da prova assume aqui especial relevância: se o arguido confessar na mediação, mas nãos e conseguir
o acordo e o processo seguir, não pode utilizar-se essa confissão como meio de prova. Não pode, sequer,
saber-se que ela existiu.
As exceções à confidencialidade são três:
o Se as partes decidirem em contrário;
o Razões imperiosas de ordem pública, em especial para assegurar o interesse de criança ou evitar que
seja lesada a integridade física ou psíquica de uma pessoa;
o Situações em que a divulgação de conteúdo do acordo obtido por via de mediação seja necessária
para efeitos da sua aplicação ou execução;

Para que haja mediação, ambas as partes têm de recorrer à mesma.


Assim, os teóricos puristas da mediação vão dizer que não existe mediação obrigatória, as partes têm de a querer.
Em alguns países, como Itália, o que ainda se aceita é uma situação de pré-mediação obrigatória. Isto significa que
é obrigatório que as partes vão a uma sessão de pré-mediação. Na qual há um mediador que explica o processo, o que
é a mediação… no final, as partes decidem se querem ou não participar no processo. O que acontece é exigir que a
partes conheçam a mediação antes de a recusar.

Na prática, existem duas formas de vinculação à mediação:


 Via legal (a lei obriga à mediação em tais situações)
 Via contratual

A mediação em Portugal opera a três níveis:


 Ligada a sistemas públicos de mediação: Em Portugal, a mediação é essencialmente ligada a sistemas públicos
de mediação. Isto é, há uma direção geral que coordena os sistemas públicos de mediação: familiar, laboral,
penal. Em direito penal, a mediação pode ser dificultada por ser entre arguido e ofendido, só sendo possível
em determinados crimes.
 Ligada aos julgados de paz: Antes de recorrer ao juiz de paz há uma fase de mediação que é facultativa. É
muito comum haver mediações dos julgados de paz que na prática não funcionam tão bem como deveriam.

Página 10 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
 Mediação privada: É pouco utilizada em Portugal, existindo poucas regras a este respeito. Existem as regras
gerais da lei da mediação que se aplicam a todos os tipos de mediação e por isso também à mediação privada.

2.2.1. A convenção de mediação

As partes podem celebra ruma convenção de mediação, isto é, no âmbito da sua autonomia privada, podem
acordar, no âmbito de um litígio ou previamente à sua existência, o recurso à mediação. Esta convenção tanto pode
estar sozinha, como acompanhar uma convenção de arbitragem. Neste caso, o litigio será resolvido em primeiro lugar
pela mediação e, se esta não for bem-sucedida, por arbitragem.
Se existir uma convenção de mediação (artigo 12º/1) e uma das partes impugnar a questão em tribunal, ignorando
a convenção de mediação, considera-se que a parte que impugnou já não pretende a mediação. Neste caso não deve
ser obrigada a participar na mediação, podendo eventualmente, haver responsabilidade por incumprimento da
cláusula de mediação.
Se, porém, o réu invocar a existência da convenção de mediação, a instância é suspensa, e o processo é remetido
para a mediação (artigo 12º/4). Caso não exista esta invocação, o processo decorre normalmente em tribunal,
considerando-se que há acordo tácito das partes quanto a já não se pretender mediação. A instância fica suspensa até
ao acordo/não acordo ou à desistência. Existindo acordo, há homologação, não existindo, o processo deixa de estar
suspenso e prossegue dentro da normalidade.
Isto serve essencialmente para atrasar o processo. Se uma parte propôs a ação é porque não está interessada na
mediação. O réu só invoca então a mediação para tentar ganhar tempo, já que, não querendo a outra parte a
mediação, esta não se poderá verificar.

No lugar paralelo da arbitragem, a consequência é a da absolvição na instância, conforme estipula o artigo 5º, LAV,
mas as realidades são diversas pro duas razões:
1. Em arbitragem o litigio fica definitivamente resolvido pela sentença arbitral, pelo que não faz sentido manter
pendente o judicial; enquanto na mediação é possível que não haja acordo, e se tenha de retomar a via judicial.
2. Na mediação, mesmo quando haja acordo, este tem que ser homologado pelo tribunal conforme impõe o
artigo 45º, LM. Ou seja, independentemente do resultado do processo de mediação, é sempre necessária uma
intervenção do tribunal onde a ação se iniciou, pelo que a solução da suspensão da instância é boa.

A lei estabelece vários requisitos de validade para a convenção de mediação:


 Requisitos formais: a lei exige forma escrita, de acordo com o artigo 12º/2, LM.
 Requisitos materiais: litígios que podem ser objeto de mediação em conformidade com o artigo 11º, LM.
Não cumpridos estes requisitos, é estatuída anulidade da convenção de mediação.

2.2.2. Mediabilidade

A mediabilidade relaciona-se com os tipos de litígios que são mediáveis (artigo 11º), nomeadamente:
 Litígios em matéria civil e comercial que respeitem a interesses contratuais;
 Litígios em matéria civil e comercial, que não envolvam interesses de natureza patrimonial, desde que as
partes possam celebrar transação sobre o direito controvertido;
As partes não podem, de acordo com o artigo 1249º do CC chegar a acordo sobre os direitos de que lhes não é
permitido dispor, nem sobre questões respeitantes a negócios jurídicos ilícitos – critério da disponibilidade da
situação jurídica.

Sempre que estiver em causa um interesse pecuniário ou


económico, a mediação é admissível. Inclui, portanto, todas as
pretensões que se expressem em quantia pecuniária.

Página 11 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
2.2.3. Homologação e executoriedade do acordo obtido em mediação

O acordo a que as partes chegam é, em princípio, um contato do qual resultam direitos e obrigações para as partes.
De acordo com o artigo 14º/1, as partes podem requerer a homologação do acordo. A homologação do acordo
serve para que se possa executar o acordo, podendo prescindir-se de uma ação declarativa. Não se pode simplesmente
executar o acordo de imediato (sem a homologação) porque o valor do contrato não seria então reforçado nem
conferiria grande segurança às partes. A homologação acrescenta o caráter executivo ao acordo – passa a ser
executável.

Querendo as partes ver o acordo homologado, devem pedi-lo a um tribunal competente em razão da matéria.
O pedido tem de ser subscrito pelas duas partes, conforme estabelece o artigo 14º/2, LM, eliminando qualquer
dúvida sobre a natureza deste instrumento: serve para conferir força executória especial ao acordo ou uma força
executória reforçada.
A lei não estabelece qualquer prazo para este pedido, pelo que ele pode ser feito a qualquer momento.

O acordo obtido em edição em processo pendente é obrigatoriamente sujeito a homologação judicial, pelo artigo 45º,
LM que remete para o artigo 14º, LM. Isto quer dizer que o direito obriga à homologação mesmo contra vontade das
partes, nos casos em que haja processo pendente em tribunal.

Isto é de certa forma contraditório com as restritas exigências de confidencialidade previstas no artigo 5º, LM. Se é
verdade que aí se estipula como exceção ao dever de sigilo a divulgação do acordo, sós e admite precisamente
quando tal seja necessário para a sua aplicação ou execução. Ora, na mediação em processo pendente, tal
confidencialidade é sempre quebrada por via da homologação obrigatória, independentemente de ser condição
necessária de execução.

Ora, a transformação do acordo em título executivo pode surgir de diversas formas:


 A homologação, que transforma o conteúdo do acordo em sentença;
 Sem homologação, se preencher os requisitos do artigo 9º, LM;

Têm força executiva sem necessidade de homologação judicial, o acordo de mediação previsto no artigo 9º,
nomeadamente aquele que, cumulativamente:
 Diga respeito a litígio que possa ser objeto de mediação e para o qual a lei não exija mediação judicial;
 Em que as partes tenham capacidade para a sua celebração;
 Obtido por via de mediação realizada nos termos legalmente previstos;
 Cujo conteúdo não viole a ordem pública e
 Em que tenha participado mediador de conflitos inscrito na lista de mediadores de conflitos organizada pelo
Ministério da Justiça.

Daqui retiram-se dois tipos de acordos:


 Acordo em que não tenha participado um mediador reconhecido pelo ministério da justiça – não tem força
executiva se não for homologado;
 Acordo em que tenha participado um mediador certificado – tem força executiva sem homologação;

Em conformidade com o artigo 14º/3, não vão ser homologados os acordos que violem a ordem pública.
Do ponto de vista do professor, esta regra é problemática porque não deve ser este o único critério para a não
homologação. E se as partes violarem uma norma imperativa sem pôr em causa a ordem pública? Segundo este artigo
o acordo deve ser homologado.
O professor acha que não, porque o contrato não seria válido por ser contrário à lei se tivesse sido criado fora da
mediação. Não se pode considerar que apenas por ter havido mediação pode passar a existir um contrato ilícito. Deve,
Página 12 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
então, fazer-se uma interpretação cautelosa desta norma, alargando os fundamentos de recusa de homologação aos
casos em que há contrariedade à lei.

Nota: é importante não esquecer que há outras formas de conferir força executiva ao acordo e que não exigem
nenhum destes requisitos: a celebração através de documento autêntico ou autenticado; a subscrição, quando
aplicável, de um título de crédito.

2.3. A arbitragem

 A arbitragem é regida pela Lei n.º 63/2011, de 14 de dezembro

A arbitragem é o meio de resolução alternativa dos litígios que consiste num modo de resolução jurisdicional de
conflitos em que a decisão, com base na vontade das partes, é confiada a terceiros.
Este é um meio de resolução de litígios adjudicatório, uma vez que a decisão cabe a terceiro(s). Esta decisão é
vinculativa para as partes.

A doutrina atual defende que a arbitragem voluntária está a meio caminho entre o julgamento de autoridade
judicial e o contrato livremente consentido pelas partes.
A prova deste caráter misto é a eficácia executiva da decisão arbitral (elemento público), por um lado, e a limitação
da competência do tribunal arbitral, por outro, à convenção de arbitragem.
 A arbitragem voluntária é contratual na sua origem, privada na sua natureza e jurisdicional na sua função.

Nota: Os tribunais arbitrais são considerados tribunais pelo artigo 209º, CRP.

Os poderes dos árbitros têm:


 Fonte contratual
 Fonte jurisdicional

Os poderes que são conferidos aos árbitros resultam de um contrato (convenção de arbitragem). As partes por
acordo, conferem a um ou mais árbitros poderes para decidirem o seu litígio.

Dois mundos de arbitragem em Portugal:


 Litígios de pequeno valor, particularmente de consumo (1 árbitro);
 Litígios de grande valor, particularmente comerciais ou relativos a grandes obras ou operações financeiras e
com grane incidência em relações internacionais (comercial – 3 árbitros, cada parte escolhe 1 arbitro e os dois
escolhidos pelas partes escolhem um 3º que é, em regra, presidente);

Vantagens da arbitragem:
 A arbitragem sobre casos de pequeno valor relaciona-se com os custos diminutos para as partes, que muitas
vezes nem existem. O Estado tem também interesse na arbitragem já que, por se tratarem de litígios de baixo
valor, se não existisse a arbitragem, estes casos nunca iriam sequer a tribunal. Assim, há uma maior proteção
da posição do consumidor.
 A arbitragem sobre casos de grande valor: a celeridade, a confidencialidade, a escolha dos árbitros, a escolha
das regras processuais… a escolha dos árbitros pode ser importante porque as partes podem escolher
consoante a competência da pessoa. A arbitragem nestes casos não é necessariamente mais barata, mas pode
ser mais eficiente.

Nota: Se existirem duas partes de países distintos, se não se recorrer à arbitragem tem de se recorrer aos tribunais
judiciais, mas de que país? Cada parte terá interesse que o litigio seja resolvido no seu país. Assim, a arbitragem oferece
também uma solução a este problema.

Página 13 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
Arbitragem voluntária e necessária
Há casos que têm, obrigatoriamente, de ser resolvidos pela arbitragem:
 Serviços públicos essenciais (artigo 15º/2, leis dos serviços públicos essenciais): A arbitragem é imposta a
pelo menos uma das partes. A lei acaba por ficcionar a declaração do profissional que não emite a declaração
de querer recorrer à arbitragem, mas fica vinculado pela escolha do consumidor. Está-se a meio caminho da
arbitragem voluntária e necessária.
 Questões relacionadas com as patentes dos medicamentos genéricos: estas questões têm prevista
arbitragem necessária: as partes não podem recorrer a tribunal para recorrer a estes conflitos, têm de recorrer
obrigatoriamente a um tribunal arbitral. Entendeu-se, então, que era melhor haver tribunais arbitrais
especializados nessa matéria.
 Código do trabalho: também prevê algumas situações.
 Casos de expropriação
 Litígios de natureza administrativa no desporto

Existem duas espécies de arbitragem: a arbitragem ad hoc e arbitragem institucionalizada. A arbitragem será ad
hoc ou institucionalizada consoante a vontade das partes.
 Arbitragem institucionalizada: A arbitragem institucionalizada decorre num centro de arbitragem com caráter
de permanência. Tem como vantagens o suporto administrativo e técnico-normativo da entidade do centro
de arbitragem.
 Arbitragem ad hoc: a arbitragem ad hoc ocorre fora de uma câmara arbitral, fora de um centro de arbitragem.
O tribunal é aqui constituído específica e unicamente para um determinado litígio. Antes da execução da
convenção de arbitragem o tribunal não existe e após o proferimento da decisão arbitral, extingue-se.

2.3.1. A convenção arbitral

A convenção arbitral é o acordo das partes em submeter a arbitragem um litígio atual ou eventual. Tem natureza
contratual, na medida em que é um negócio jurídico bilateral.
É a convenção arbitral que determina a jurisdição do tribunal arbitral, isto é, o tribunal arbitral só tem competência
quando o litigio que lhe é submetido está integrado na convenção de arbitragem. Se houver decisão sobre matéria
não incluída na convenção, essa decisão é anulável, por ser proferida por tribunal incompetente (artigo 46º/3,a iii,
LAV).
A convenção arbitral gera um direito potestativo de constituição do tribunal arbitral e a consequente falta de
jurisdição dos tribunais comuns. Para além disto, a decisão arbitral faz caso julgado e tem força executória.

Pode assumir duas formas:


 Cláusula compromissória: existe uma cláusula inserida num contrato pelo qual as partes se comprometem a
resolver qualquer litígio por via arbitral;
 Compromisso arbitral: já existe um litígio, e perante esse as partes decidem resolvê-lo pela via arbitral;
Apesar disto, a convenção arbitral pode ser celebrada na pendência de ação judicial, implicando, nos termos do
artigo 280º CPC, extinção da ação.

É muito mais difícil que as partes cheguem a acordo quanto à forma como vão resolver o litigio se já existir um
litigio. Assim são muito mais comuns as cláusulas compromissórias do que o compromisso arbitral.

Efeito negativo da convenção de arbitragem (artigo 5º, LAV): se for proposta uma ação num tribunal judicial havendo
convenção de arbitragem, se o reu contestar, mas não vier dizer que há uma convenção de arbitragem e que por isso
esse é que é o tribunal competente, esta é uma “revogação tácita da convenção tácita para esse litigio”, mas não para
todos os efeitos.

Página 14 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
Há a exceção de preterição do tribunal arbitral. É uma exceção que determina a absolvição do réu da instância: o
processo termina, mas pode voltar a fazer-se o pedido num tribunal arbitral. Acontece quando uma das partes alega
a convenção de arbitragem.
Se a convenção for nula, o que o tribunal judicial deve fazer é avaliar se é ou não competente. Se houver um litigo e a
questão não for evidente quem vai ter de resolver é o tribunal arbitral. O tribunal judicial absolve da instância, o
arbitral vê ou não se é competente e depois poderá ou não voltar a propor-se a ação no tribunal judicial.
Conclusão: Se uma das partes alegar a existência da convenção, vai-se para tribunal arbitral, se não invocar, segue no
tribunal judicial. Só o reu o poderá fazer porque a outra parte já negou, a partida a arbitragem quando colocou a
questão no tribunal judicial.

2.3.2. Arbitrabilidade

Arbitrabilidade objetiva - que litígios podem ser alvo de arbitragem (artigo 1º/1, LAV);
 Artigo 1º/1, LAV: pode ser submetido a convenção de arbitragem qualquer litígio respeitante a interesses de
natureza patrimonial desde que não esteja submetido aos tribunais estaduais por lei;
 Artigo 1º/2, LAV: é válida convenção de arbitragem relativa a litígios que não envolvam interesses de natureza
patrimonial, desde que as partes possam celebrar transação sobre o direito;
 Artigo 1º/5, LAV: o Estado e as outras pessoas coletivas de direito público podem celebrar convenções de
arbitragem se a lei o permitir e em relação aos litígios em que a lei o permite;

O critério de arbitrabilidade objetiva utilizado em Portugal é o critério da patrimonialidade, de acordo com o qual
um litigio é arbitrável se envolver qualquer tipo de interesse económico, não sendo relevante se a relação subjacente
é comercial ou privada, civil ou administrativa, de direito nacional ou de direito internacional.
Este é o critério menos seguro para as partes, na medida em que comporta o risco de estas não poderem executar
a sentença arbitral fora do país onde foi proferida. Se o país do reconhecimento não for tão liberal em matéria de
arbitrabilidade quanto o do lugar da arbitragem, poderá não ser possível o reconhecimento e posterior execução da
decisão.
Por outro lado, o critério da disponibilidade continua a ser utilizado enquanto segundo critério de arbitrabilidade,
na medida em que, nos termos do artigo 1º/2, LAV, é ainda admissível convenção de arbitragem relativamente a
direitos não patrimoniais que sejam transacionáveis.
No que diz respeito ao direito do trabalho, este é mesmo o único critério aplicável (artigo 4º/4, Lei da aprovação
da LAV), o que quer dizer que litígios de direito do trabalho só são arbitráveis se forem disponíveis.

A consequência do desrespeito dos preceitos do artigo 1º e do artigo 2º da LAV sobre a os requisitos de convenção
de arbitragem e a sua revogação é a nulidade, de acordo com o artigo 3º.

O prazo para proferir a decisão na arbitragem é de 12 meses, mas prorrogável.

Arbitrabilidade subjetiva - possibilidade de entidade públicas serem partes em processo arbitral (artigo 1º/5, LAV); a
participação é admissível em duas situações:
 Autorização por lei especial;
 Litígios respeitantes a relações de direito privado,

O que é excluído pelo artigo 1º/1, LAV são os conflitos cuja jurisdição competente é a pública, por lei especial a
prever expressamente.
A arbitragem administrativa é regulada nos artigos 180º e ss. do CPTA: a arbitragem no domínio administrativo
está em evolução porque muitos particulares que se relacionam com a administração também pretendem resolver os
seus litígios com base na arbitragem.
 A arbitragem prevista para a administração tem uma regra de aplicação subsidiária sobre as regras da
arbitragem voluntária (artigo 181º CPTA);

Página 15 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
 É necessário despacho do membro do governo competente na matéria para termos uma convenção de
arbitragem (artigo 184º/1, CPTA);

2.3.3. O processo arbitral

Artigo 30º, LAV:


 nº1: o processo arbitral deve respeitar os princípios fundamentais. Não apenas os elencados, mas todos os
princípios fundamentais do processo civil, administrativo, etc. A ideia é a de que não é necessário cumprir as
regras do CPC, que é importante é que os princípios fundamentais do processo sejam respeitados.
 nº2: as partes podem acordar sobre as regras de processo a observar na arbitragem até à aceitação do
primeiro árbitro, desde que os princípios fundamentais sejam respeitados. Podem fazê-lo desde logo na
cláusula compromissória, também pela remissão para as regras de um centro de arbitragem.
 nº3: não havendo escolha das partes, o tribunal arbitral conduz a arbitragem da forma que considerar
adequada. E então os árbitros podem decidir aplicar as regras do CPC? Sim, mas só se o disserem. Se não o
disserem, não se aplicam estas regras na arbitragem, nem subsidiariamente (artigo 30º/3, LAV). Neste caso,
é aconselhável a elaboração das regras num momento inicial, na primeira reunião dos árbitros ou dos árbitros
com as partes, já que dificilmente se poderá prosseguir o processo sem essas regras. Apesar de nesta situação
a competência ser atribuída aos árbitros, é recomendável que se procure a colaboração e acordo das partes
nesta matéria, a fim de evitar posterior invocação de vícios geradores de anulabilidade da sentença arbitral.

Os árbitros não podem impor às partes regras processuais com que estas não concordem. O assento tónico nas
regras processuais é a flexibilidade. É suposto que se procure o melhor conjunto de regras processuais para o que se
antecipa que venha a ser aquele conflito, tendo em conta também os advogados que representam as partes e a sua
prática habitual. Esta escolha adequada de regras assume aliás um imperativo ético dos árbitros.

2.3.4. Impugnação da decisão arbitral

 Recurso (artigo 39º/4, da LAV): Só é suscetível de recurso caso as partes o tenham previso expressamente na
convenção de arbitragem. Assim, a regra geral é a de que não existe recurso. Se as partes estabeleceram que
queria resolver o litigio por via arbitral, a existência de recurso levaria a que fosse sempre possível num
segundo momento, que a decisão acabasse por ser tomada por um tribunal da relação no recurso.

 Ação de anulação (artigo 46º da LAV): O recurso só acontece se as partes o tiverem convencionado. Pelo
contrário, a ação de anulação existe sempre. A ação de anulação não pode ser afastada pelas partes, é
necessária. Não tem de existir obrigatoriamente, mas se existir um elemento para a anulação do processo,
esta não se pode afastar. A anulação de uma sentença arbitral pode ser gerada por uma anomalia, por
exemplo.
No nº3 são tratados os casos em que pode ser o tribunal estadual a anular a sentença arbitral. Este não pode
avaliar o mérito, isto é, se a decisão foi bem ou mal tomada, mas sim a existência de anomalias no processo.

Oposição à execução: uma decisão arbitral constitui título executivo. No processo executivo há uma forma de invocar
anomalias que possa ter surgido com o título que é a oposição à execução: “certo, há um título, mas eu vou opor-me
a execução porque este título tem anomalias”.

2.4. Os tribunais estaduais

Os tribunais são, nos termos do artigo 202º/1, CRP, “órgãos de soberania com competência para administrar a
justiça em nome do povo”.

Página 16 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
Têm como objetivo a defesa dos direitos e interesses legalmente protegidos dos cidadãos, reprimir a violação da
legalidade democrática e dirimir os conflitos de interesse públicos e privados (artigo 202º/2, CRP).
O artigo 202º/3, CRP confere, ainda, aos tribunais o direito de coadjuvação das outras autoridades.

Nos artigos 209º - 214, CRP encontramos algumas regras sobre os tribunais, nomeadamente:
 Tribunal constitucional
 Tribunais administrativos e fiscais
 Tribunais judiciais
 Tribunais de contas
 Tribunais marítimos (integrados nos judiciais), tribunais arbitrais e julgados de paz

Características da organização judiciária:

 Pluralidade de jurisdições: existem várias jurisdições distintas, nomeadamente a judicial e a


administrativa/fiscal. A distinção entre jurisdições é característica da família de direitos romano-germânicos.
Na Common law não existe distinção vincada entre tribunais judiciais e tribunais administrativos.

 Repartição de competências jurisdicionais: dentro de cada jurisdição existem parcelas de competência, ou


seja, não é qualquer tribunal que é competente, é o que couber parcela de competência* dentro daquela
jurisdição. Para definir que casos cabem a cada jurisdição existem critérios específicos.

*competência – um tribunal é competente se tiver poderes jurisdicionais para resolver um determinado litígio. A
competência é a medida de jurisdição atribuída a cada um dos tribunais integrado numa certa jurisdição.
Por exemplo, se tenho um litigio de família, não posso ir ao tribunal penal resolvê-lo.

Critério residual: se não se souber qual é o tribunal competente, o litigio cabe ao tribunal judicial. “Os tribunais
judiciais são os tribunais comuns em matéria cível e criminal e exercem jurisdição em todas as áreas não atribuídas a
outras ordens judiciais” (artigo 211º/1, CRP)

O sistema judiciário é regido pela Lei da Organização do Sistema Judiciário (Lei 62/2013, de 26 de agosto, alterada
pela Lei nº40-A/2016 de 22 de dezembro)

Tribunais administrativos e fiscais Tribunais judiciais

Página 17 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
Na hierarquia dos tribunais judiciais, os tribunais de primeira instância desdobram-se em:
 Tribunais de Comarca: desde o inicio de 2017 desdobram-se em juízos que se designam pela competência e
pelo nome do município em que estão instalados. Estes podem ser de:
o Competência especializada*
o Competência genérica
o Proximidade
 Tribunais de competência territorial alargada: propriedade intelectual; concorrência, regulação e supervisão;
marítimo; execução das penas (4); central de instrução criminal

*Nos juízos de competência especializada, não quer dizer que tenhamos este desdobramento em todas as comarcas,
mas normalmente existem estes desdobram-se da seguinte forma:
 Central Cível (superior a 50mil €)
 Local Cível (inferior a 50mil €)
 Central criminal (crimes mais graves)
 Local criminal (crimes intermédios)
 Local de pequena criminalidade (crimes menos graves)
 Instrução criminal
 Família e menores
 Trabalho
 Comércio
 Execução
Podem ser criados juízos de competência especializada mista, e pode também proceder-se à agregação de juízos.

Quanto aos tribunais da relação, existem cinco no território nacional: Lisboa, Évora, Coimbra, Porto e Guimarães.

Estes juízos têm como limites da competência:

 Ordem jurídica interna: competência reparte-se pelos tribunais judicias segundo:


o a matéria
o o valor
o a hierarquia
o o território: artigos 80º e 81, CPC - regras gerais, que sós e aplicam se não estivermos perante os casos
dos artigos 70º e ss. - normas especiais.

 Competência internacional: competência internacional dos tribunais é fixada pela lei do processo; é preciso
verificar se os tribunais portugueses são competentes de acordo com os artigos 59º, 62º e 63º, e qual o pedaço
da ordem interna é competente para o dado caso em função da matéria, do valor, da hierarquia e do território.
As situações descritas no artigo 63º são aquelas em que Portugal é exclusivamente competente:
o Matéria de execuções sobre imóveis situados no território português;
o Matéria de validade da constituição ou dissolução de sociedades ou outras PC com sede em Portugal;
o Matéria de validade de inscrições em registos públicos conservados em Portugal;
o Matéria de insolvência ou de revitalização de pessoas domiciliadas em Portugal ou de PC com sede
em Portugal;

Competência em função do território:


 Tribunais da relação e de primeira instância: competência na área das respetivas circunscrições. São exceção
os tribunais de competência territorial alargada.
 Supremo tribunal de justiça: competência em todo o território nacional.

Página 18 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
3. Espécies de ações
Existem, de acordo com o artigo 10º, CPC dois tipos de ações:
 Ações declarativas
 Ações executivas

Em bom rigor, a declaração executiva tem partes declarativas, do mesmo modo, em ações declarativas também
há partes executivas,
Considera-se existirem também ações mistas que têm uma parte declarativa e outra executiva, sem que uma
sobressaia.

De acordo com o artigo 546º existem duas formas de processo – comum ou especial.
O processo especial aplica-se aos casos expressamente designados na lei. Já o processo comum aplica-se a todos
os casos a que não corresponde processo especial.
Os dois tipos de processo figuram para todos os três tipos de ações. Assim, tanto uma ação declarativa, como uma
ação executiva, com uma ação mista, podem ter adstritas um processo comum ou especial.

3.1. Ações declarativas

Existem três tipos de ações declarativas (artigo 10º/3, CPC):


 Simples apreciação – tem por fim obter a declaração de existência ou inexistência de um direito ou de um
facto. É pedido pelo autor que se declare uma determinada situação jurídica ativa, um direito passivo do réu
ou de terceiros.
 Condenação – tem por fim exigir a prestação de uma coisa ou de um facto, pressupondo ou prevendo a
violação de um direito. O tribunal condena o réu ou o autor a alguma coisa.
 Constitutivas - tem por fim autorizar uma mudança na ordem jurídica existente. Há a criação, modificação ou
extinção de algo.

Exemplos: avaliem-se os diferentes pedidos:


 Declaração de nulidade de um contrato por falta de forma: Não é constitutiva porque não modifica uma
situação pré-existente já que a situação já era nula. O pedido é de simples apreciação. Apreciação pode ser
positiva ou negativa. Aqui é negativa porque se quer provar a inexistência de um direito.
 Anulação de um contrato com base em erro: É uma ação constitutiva.
 Indemnização no valor de 15mil€: É uma ação de condenação.
 Prescrição do direito: Temos que analisar o regime da prescrição para verificar se a prescrição já existe ou
não. É uma ação de simples apreciação.
 Restituição da posse de uma coisa de que se é proprietário: É uma ação de condenação a restituir o bem.
 Aquisição de propriedade por usucapião: se se poder invocar a usucapião extrajudicialmente, o que o tribunal
vai fazer é verificar se existem os pressupostos e então aí teremos uma ação de simples apreciação; se a
usucapião tiver de ser invocada judicialmente então estaremos perante uma ação constitutiva. Na opinião do
professor a usucapião é extrajudicial e então será uma ação de simples apreciação.

Como visto anteriormente, a ação declarativa pode, quanto à forma, seguir o processo comum ou o processo
especial.

Processo comum (artigos 552º e ss.): O processo comum segue uma forma única. Apesar de existir uma forma única,
o juiz deve gerir o processo da forma que achar melhor. A possibilidade de gestão processual por parte do juiz, permite-
lhe adaptar as regras de processo que estão previstas no CPC. Isto quer dizer que, apesar de as regras serem sempre
as mesmas, existe alguma flexibilidade que pode ser utilizada me função do processo em concreto.

Página 19 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
O artigo 597º é uma regra geral que prevê que nas ações de valor mais baixo (valor não superior a metade da
alçada da Relação) haja uma simplificação processual.

Processo especial (artigo 549º): de acordo com o qual, os processos especiais se regulam por:
 Disposições que lhes são próprias
 Disposições gerais e comuns do CPC
 Disposições do processo comum

3.2. As ações executivas

Dizem-se ações executivas aquelas em que o credor requer as providências adequadas à realização coativa de uma
obrigação que lhe é devida.
Toda a execução tem por base um título, pelo qual se determinam o fim e os limites da ação executiva.
A execução tem como finalidade a realização coativa de uma prestação devida, que pode consistir:
 no pagamento de quantia certa;
 na entrega de coisa certa;
 na prestação de um facto, quer positivo, quer negativo;

Espécies de títulos executivos – artigo 703º, CPC:


 Sentenças condenatórias: pode ser judicial ou arbitral. As sentenças condenatórias remetem para ações de
condenação que serão, então, ações de título executivo.
 Documentos exarados ou autenticados, por notário ou por outras entidades ou profissionais com competência
para tal, que importam constituição ou reconhecimento de qualquer obrigação.
 Títulos de crédito, ainda que meros quirógrafos(prescritos), desde que, neste caso, os factos constitutivos da
relação subjacente que constem do próprio documento ou sejam alegados no requerimento executivo.
 Documentos a que, por disposição especial, seja atribuída força executiva (exemplo: ata da reunião de
condomínio).
Nota: os títulos executivos não têm todos o mesmo valor; um pode ser mais forte de que o outro. Os fundamentos
pelos quais se pode atacar um título são diferentes do outro.

Como visto anteriormente, a ação executiva pode, quanto à forma, seguir o processo comum ou o processo
especial.

Processo comum (artigo 550º): pode ser ordinário ou sumário


 Pagamento de quantia certa
o Processo ordinário;
o Processo sumário;
 Pagamento para a entrega de coisa certa e prestação de facto
o Forma única;

Processo especial (artigo 551º):


 Aplicação subsidiária das disposições do processo de declaração que sejam compatíveis com a natureza da
ação executiva;
 Aos processos especiais são aplicáveis subsidiariamente as disposições do processo ordinário;
 As disposições relativas à execução para pagamento de coisa certa são aplicáveis subsidiariamente às
execuções com outro fim;
 À execução sumária aplicam-se subsidiariamente as disposições do processo ordinário;

Página 20 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
Casos práticos

1. Imagine que não há disposição que regule um determinado aspeto de um processo executivo especial. A
que conjunto de disposições se deve sucessivamente recorrer?

Disposições do processo ordinário (551º/4). Se não conseguirmos com estas regras, aplicam-se as disposições do
processo de declaração (551º/1). Dentro do processo de declaração recorremos primeiro às regras gerais (546º/6).

2. Imagine que não há disposição que regule um determinado aspeto de um processo sumário. A que conjunto
de disposições se deve sucessivamente recorrer?

Disposições do processo ordinário (551º/3). Se não houver regra do processo ordinário aplicam-se as regras do
processo declarativo (551º/1).

3.3. Processos especiais

Como visto anteriormente, os processos especiais aplicam-se apenas aos casos expressamente designados na lei.
A lei pode ser o CPC, mas também outros diplomas. Fora destes casos, é aplicável o processo comum.

Existem formas especiais de:


 Ação declarativa
 Ação executiva
 Ação mista

Processos especiais previstos no CPC:


 Processo de tutela da personalidade (artigo 878º e ss., CPC): processo especial para tutelar a personalidade
composto por apenas três normas. Assim, grande parte deste processo especial vai ser encontrado nas regras
que regulam o processo comum. Não temos assim tantas especificidades na regulação deste processo. O
objetivo é que o processo destas matérias seja facilitado.
 Processo de prestação de caução (artigos 906º e ss., CPC): processo especial para a prestação de caução. Este
processo envolve algumas especificidades executivas (artigo 912º).
 Processo de separação e divórcio sem o consentimento do outro cônjuge (artigo 931º e 932º): o aspeto
essencial que distingue este processo do processo comum é a tentativa de conciliação que é uma fase que
decorre também no processo comum. Aqui tenta-se enfatizar essa conciliação.

Processos especiais previstos noutros diplomas:

 Processo especial para cumprimento de obrigações pecuniárias emergentes de contratos (DL 269/98): este
diploma vem regular a injunção que é um procedimento extrajudicial não sendo, portanto, um processo
propriamente dito. Está pensado para os litígios de massa e para ser um processo rápido para os casos em que
os litígios não são um caso complexo. No diploma preambular temos uma série de normas relevantes para o
regime aprovado em anexo.

 Processo de insolvência e de recuperação de empresas (CIRE – DL 53/2004): O CIRE determina como


insolvente o devedor “que se encontre impossibilitado de cumprir as suas obrigações vencidas (artigo 1º/3,
CIRE). A insolvência caracteriza-se, então, como a impossibilidade de cumprimento da generalidade das
obrigações vencidas de uma pessoa singular ou coletiva, podendo esta situação ser atual ou iminente.
Este processo (contencioso) especial tem em vista duas finalidades alternativas: a satisfação dos direitos dos
credores pela forma que for contemplada no plano de insolvência; e a liquidação do património de um

Página 21 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
devedor insolvente e a repartição do respetivo produto resultante da venda dos bens da massa insolvente,
por todos os credores que reclamem os seus créditos.
A legitimidade para o inicio deste processo recai sobre o devedor, sobre o credor, sobre o responsável legal
pelas dívidas do insolvente ou sobre o Ministério Público em casos muito raros.
Tem seis características:
o Caráter de urgência: os prazos e recursos correm mesmo em férias judiciais e têm precedência
sobre o serviço ordinário do tribunal;
o Prazos muito curtos: geralmente cinco dias;
o Existência de indicação de todos os meios de prova em todas as peças apresentadas no processo
o Consagração do principio do inquisitório: a decisão do juiz pode ser fundada em factos não alegados
pelas partes (artigo 11º, CIRE);
o Especificidade dos recursos: São apenas admissíveis para o tribunal da relação, salvo havendo
oposição de julgados (artigo 14º, CIRE);
o Obrigação de publicação de sentenças e despachos

 Processo de inventário (Lei nº29/2009): Tem como finalidade distribuir segundo certas regras legais um dado
património, por determinadas pessoas, pondo termo à comunhão hereditária, ou simplesmente servindo de
base à eventual liquidação da herança. Pode também destinar-se à partilha de bens entre ex-cônjuges. O novo
regime jurídico do processo de inventário confere maior celeridade ao processo de inventário e permite uma
maior eficácia da justiça.
Este processo importa uma desjudicialização, já que se retirou a competência dos tribunais para a respetiva
tramitação e se a transferiu para os cartórios notariais.
O NRJPI manteve a opção manifestada na Lei 29/2009 de retirar os processos de inventário da esfera de
competência dos tribunais, mas limitou esta transferência para os notários. Para além de excluir a
competência dos serviços de registo, esta nova lei não estabelece qualquer controlo jurisdicional, atribuindo-
se ao juiz apenas legitimidade para homologar a decisão e partilha.

 Processo de despejo (artigo 14º do NRAU – Lei 6/2006): Por despejo entende-se o “desalojamento forçado
dos prédios que ocupam os arrendatários e ação tendente a tal fim. A ação de despejo consiste na ação judicial
destinada a fazer cessar o contrato de arrendamento nos casos em que a lei imponha o recurso à via judicial,
seguindo a forma de processo declarativo comum. Compreende a via judicial e a vi extrajudicial.
Com a entrada em vigor da lei nº31/2012, o âmbito de aplicação da ação de despejo foi consideravelmente
diminuído. Está, agora, adstrito aos casos de incumprimento de contrato previstos no artigo 1083º/2, CC, por
remissão do artigo 1084º/1, CC.
Tratando-se de uma ação de natureza declarativa, a ação de despejo tem como resultado uma sentença que
decreta a cessação do contrato de arrendamento e a exigência de desocupação do imóvel e a entrega do
mesmo ao senhorio (artigos 1081º e 1087º, CC). Sendo julgada procedente, a ação declarativa confere
também ao senhorio um titulo executivo através do qual é possível obter um titulo de despejo através do
procedimento especial de despejo (PED), visando efetivar a cessação do contrato quando o arrendatário não
desocupe o locado na data prevista/fixada (artigo 15º, NRAU). É esta a via extrajudicial.

4. A jurisdição voluntária
A jurisdição consiste na atividade exercida pelos juízes, destinada à revelação e aplicação do direito num caso
concreto, solucionando os conflitos que lhe são presentes para apreciação ou julgamento, com o intuito de determinar
quais os direitos de cada um dos litigantes.
Não é fácil delimitar de forma clara a jurisdição contenciosa e a jurisdição voluntária. Adotou-se, então, um sistema
taxativo em que a própria lei classifica em que situações existe jurisdição voluntária. Não obstante a enumeração
taxativa dos processos de jurisdição voluntária, esta não é suficiente. O Código de Processo Civil vem estabelecer para
esta jurisdição um regime processual com certos princípios e regras processuais específicas.

Página 22 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
A jurisdição voluntária é “uma das formas de exercício da atividade jurisdicional, na qual o órgão que a exerce,
fazendo uso da iniciativa probatória que considere necessária e com recurso a critérios de conveniência e de
oportunidade, tutela interesses privados, com vista à constituição, formação, eficácia, validade ou extinção de uma
relação ou situação jurídica ou, em determinados casos e perante circunstâncias supervenientes que o justifiquem,
alterar essa relação ou situação jurídica”. Nestes processos não há um conflito, simplesmente há questões que
precisam de ser reguladas.
Ser voluntária não tem o significado comum do termo. A jurisdição voluntária é obrigatória para os casos previstos
na lei. Os processos de jurisdição voluntária são processos especiais como por exemplo os dos artigos 989º e ss., CPC
e outros previstos em legislação avulsa. Têm, então, princípios diferentes, nomeadamente, as seguintes
características:
 Prevalência do principio inquisitório (artigo 986º/2)
 Predomínio da conveniência e da oportunidade sobre a legalidade estrita (artigo 987º)
 Modificabilidade das resoluções baseadas em circunstâncias supervenientes (artigo 988º)
 Inadmissibilidade de recurso para o STJ das resoluções proferidas segundo critérios de conveniência e de
oportunidade (artigo 988º/2)

5. Os julgados de paz
Os julgados de paz são difíceis de enquadrar dentro da organização processual. Ainda assim, estes são tribunais do
Estado reconhecidos pelo artigo 209º/2, CRP, com um regime próprio da Lei 78/2001 (alterada pela Lei 54/2013).
Os julgados de paz não cobrem todo o território nacional, o que que dizer que não existem julgados de paz em
todos os Municípios. Na realidade, não existem julgados de paz na maioria dos municípios, o que quer dizer que há
uma melhor oferta de justiça nuns locais, do que noutros.
Estes tribunais pretendem permitir a participação cívica dos interessados e estimular a justa composição dos litígios
por acordo das partes.

O processo dos Julgados de Paz é a sua vantagem, uma vez que lhe são retirados mutos formalismos. O ser retirado
o formalismo depende muito do juiz de paz. Podemos ter juízes que transformam os eu tribunal num tribunal formal.
Ainda assim, o principio é a existência do processo simplificado:
 Não há citação edital (artigo 43º/3, LPJ)
 Desformalização total do requerimento inicial e da contestação (artigo 47º/1, LPJ)
 Efeitos das faltas: relaciona-se com o principio da proximidade. Se o demandante não aparecer considera-se
que desistiu. Se o demandado não apareceu, consideram-se verificados todos os factos alegados pelo
demandante (artigo 58º, LPJ)

Será que os julgados de paz têm competência exclusiva ou alternativa em relação aos tribunais?

A questão da competência dos Julgados de Paz em razão da matéria, relativamente aos tribunais judiciais de 1ª
instância sempre foi controversa e geradora de opiniões contrárias.
 Há que considere que desde que o artigo 9º, LJP preveja a competência dos Julgados de Paz sobre essa
matéria, o autor da ação é obrigado a requerer a ação junto do Julgado de Paz competente;
 Há quem considere a competência dos Julgados de Paz alternativa em relação aos tribunais judiciais;

A grande dificuldade em chegar a um consenso prende-se com dois aspetos:


 Não existir uma norma legal que expressamente indique a competência dos Julgado de Paz em relação aos
tribunais de 1ª instância;
 Dificuldade em inserir os Julgados de Paz em qualquer um dos sistemas de resolução de litígios-alternativos
ou judiciais;

Página 23 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
O Supremo Tribunal de Justiça manifestou-se quanto a esse assunto declarando que “No atual quadro jurídico, a
competência material dos julgados de paz para apreciar e decidir as ações previstas no artigo 9º/1, Lei nº 78/2001, de
13 de julho, é alternativa relativamente aos tribunais judiciais de competência territorial competente”, o que quer
dizer que iniciando ação numa destas ordens de tribunais, a mesma já não poderá ser iniciada na outra ordem de
tribunal. Para esta decisão, o tribunal apresenta vários argumentos:
 A norma constitucional refere em números diferentes os tribunais judiciais e os julgados e paz, o que revela
que os dois órgãos se encontram em setores distintos do sistema;
 A possibilidade de recurso para os tribunais de 1ª instância (artigo 69º, LJP), o que mostra que estes tribunais
não estão ao mesmo nível, denotando hierarquia;

Apesar da existência deste acórdão, houve, posteriormente, decisões em contrário, o que quer dizer que a
jurisprudência não ficou realmente uniformizada.
Na doutrina existe uma maior tendência a considerar a competência como exclusiva, tendo, inclusive havido votos
de vencido no acórdão a favor da competência exclusiva. O próprio professor Jorge Morais Carvalho acha que o que
faz mais sentido é que a competência seja exclusiva.

Aspetos importantes dos julgados de paz:


 Uma decisão de um JP é recorrível para o tribunal de 1ª instância independentemente do seu valor (artigo
62º/1, LJP);
 Aplicação subsidiária do CPC (artigo 63º, LJP) no que não seja incompatível com a presente lei e no respeito
pelos princípios dos julgados de paz;

No Julgado de paz pode decidir-se:


 Por mediação: se a mediação falhar o processo passa para o juiz de paz se for da competência do julgado. A
mediação não está sujeita às regras de competência territorial.
 Pelo juiz de paz

5.1. Princípios caracterizadores dos Julgados de Paz

Os Julgados de paz distinguem-se dos tribunais comuns devido à sua teleologia e forma de atuação, sendo um meio
pessoalizado de Justiça que procura sempre o acordo das partes para eliminar os conflitos, os quais se caracterizam
por terem diminuto valor económico, mas relevante valor social.
Deste modo, é possível distinguir alguns princípios caracterizadores dos Julgados de Paz (artigo 2º, LJP):
 Principio da participação cívica: os JP procuram aproximar as pessoas da justiça. Deste modo, não precisam,
por exemplo, de um mandatário (advogado) e mesmo que o tenham, têm sempre um momento em que se
dirigem pessoalmente ao juiz.
 Estímulo ao acordo: procura-se o acordo das partes, de modo a eliminar os conflitos entre as mesmas;
 Simplicidade: este principio é também aplicado nos tribunais judiciais, porem, procura-se que seja levado ao
limite nos Julgados de paz, eliminando tudo o que seja mero ritual.
 Adequação: este principio tem também paralelismo nos tribunais judiciais, manifestando a adequação dos
atos às especificidades da causa.
 Informalidade: o processo é despido de formalismos, libertando a justiça do rito. Isto manifesta-se, por
exemplo, na não utilização de togas, de os julgamentos serem feitos à roda de uma mesa em que se encontram
sentados todos os intervenientes…;
 Oralidade: procura-se a participação das partes. Porém, isto pode tornar-se numa desvantagem se as pessoas
que participam não souberem do que estão a falar, o que dificultará o processo. Inclusive, se uma parte souber
mais do que a outra, passa a haver uma desvantagem
 Economia processual: este é também um principio que se verifica nos tribunais judiciais, mas que é levado ao
extremo nos Julgados de Paz. Deste modo, todos os atos que não têm conteúdo útil são reduzidos ao mínimo
indispensável,

Página 24 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
Além destes princípios, os Julgados de Paz devem, ainda, respeitar os princípios gerais consagrados na prática
processual portuguesa: o acesso ao Direito e à tutela jurisdicional efetiva, a equidade processual, a legalidade, o
princípio do inquisitório e do contraditório, entre outros.

Torna-se, então, possível, contrapor os princípios orientadores do processo nos Julgados de Paz, com o processo
Civil dos Tribunais judiciais:

Julgados de Paz Tribunais judiciais


Participação Não participação
Consensualidade Não consensualidade
Acessibilidade Não acessibilidade
Proximidade Distanciamento
Equidade Legalidade
Celeridade/oportunidade Morosidade
Simplicidade Burocracia/tecnicidade
Informalidade Formalidade
Absoluta economia processual Economia processual
Pacificação como fim imediato Pacificação como fim imediato
Oralidade Escrita

5.2. Competência

A competência dos Julgados de paz divide-se em competência em razão do valor, competência em razão da matéria
e competência em razão do território

Competência em razão do valor

De acordo com o artigo 8º, LPJ, os JP têm competência para questões cujo valor não exceda os 15000€.

Competência em razão da matéria

O artigo 9º prevê o leque de matérias da competência destes tribunais, sendo possível agrupá-los em dois grandes
grupos:
 Matéria cível (nº1): matérias no âmbito dos direitos reais e direito das obrigações;
 Matéria criminal (nº2): inclui pedidos de indemnização cível pelos crimes aí previstos, desde que não haja sido
apresentada participação criminal ou após a desistência da mesma.

É possível depreender que os Julgados de Paz versam sobre litígios que opõem pessoas singulares em disputas de
proximidade.

Competência em razão do território

A competência dos Julgados de paz em razão do território encontra-se estipulada no artigo 11º e ss. da LPJ. Estes
referem:
 Ações referentes a direitos reais ou pessoais de gozo sobre imóveis e as ações de divisão de coisa comum –
Julgado de paz da situação dos bens (artigo 11º/1);
 Ações relativas ao cumprimento e incumprimento contratual – podem ser propostas, à escolha do credor,
no julgado de paz do lugar em que a obrigação deveria ser cumprida ou no julgado de paz do domicilio do
demandado (artigo 12º/1). Porém, se a ação se destinar a efetivar a responsabilidade civil baseada em facto
Página 25 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
ilícito ou fundada no risco, o julgado de paz competente é o correspondente ao lugar onde o facto ocorreu
(artigo 12º/2).
 Regra geral: domicilio do demandado (artigo 13º), salvo se o demandado não tiver residência habitual ou for
incerto ou ausente. Neste caso, é demandado no julgado de paz do domicilio do demandante (artigo 13º/2).
 Ações em que o demandado é uma pessoa coletiva: julgado de paz da sede da administração principal ou na
sede da sucursal, agência filiar, delegação ou representação, conforme a ação seja dirigida contra aquela ou
contra estas (artigo 14º).

Nos termos do artigo 4º da LJP, os Julgados de Paz podem ser concelhios ou agrupamentos de concelhos. Cada um
deles só tem capacidade para conhecer litígios que se processem no âmbito da sua competência, não só em razão do
valore da matéria, mas também do território. Assim, cada juiz de paz só se pode pronunciar, regra geral, sobre litígios
decorridos no âmbito da sua circunscrição territorial.

6. A injunção
A injunção é regulada pelo Decreto-Lei 220-A/2008. Este DL comporta duas matérias:
 Ação especial para o cumprimento de obrigações pecuniárias (AECOP) que se reportam aos litígios de massa;
 A injunção: “É aprovado o regime dos procedimentos destinados a exigir o cumprimento de obrigações
pecuniárias emergentes de contratos de valor não superior a (euro) 15 000, publicado em anexo, que faz parte
integrante do presente diploma.” (artigo 1º, diploma preambular)

No que toca à primeira parte:


 Litígios de massa: litígios em que estamos perante uma empresa com um número muito grande de clientes e
que regularmente têm de pagar um preço; estes litígios caracterizam-se por se tratarem de obrigações
pecuniárias que resultam de contratos entre as partes.
 Petição e contestação simplificadas (artigo 1º)
 São litígios com valor muito baixo.
 Tramitação subsequente simplificada (artigos 4º e 5º)
 Convenção de domicilio (artigo 1º-A): se houver um domicilio convencionada no contrato que emerge a
dívida, esse domicilio será o domicilio relevante para aquele processo. Se a pessoa for citada nesse domicilio,
considera-se citada mesmo que já lá não viva.
 “Se o réu, citado pessoalmente, não contestar, o juiz, com valor de decisão condenatória, limitar-se-á a
conferir força executiva à petição, a não ser que ocorram, de forma evidente, exceções dilatórias ou que o
pedido seja manifestamente improcedente” (artigo 2º)

No que toca à segunda parte:

A injunção consiste na “providência que tem por fim conferir força executiva a requerimento destinado a exigir o
cumprimento das obrigações” pecuniárias emergentes de contrato cujo valor não exceda o valor da alda da Relação
ou “das obrigações emergentes de transações comerciais abrangidas pelo DL nº 32/2003 de 17 de fevereiro (Artigo
7º).
Trata-se de uma providência cujo objetivo é permitir ao credor de uma prestação pecuniária de montante não
muito elevado obter um título executivo para o seu cumprimento coercivo, de modo rápido e simplificado.
Pretende-se, então, a obtenção pelo credor, de forma célere e simplificada, de um título executivo.
A finalidade do legislador foi, portanto, a de descongestionar os tribunais, procurando dar resposta a uma “situação
de rutura (…) originada, essencialmente, pelo crescimento explosivo da procura dos tribunais pelas empresas, que,
como litigantes frequentes, demandam, em regra, cidadãos consumidores, que não pagam atempadamente bens e
serviços” – litigância de massa.

Página 26 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
Âmbito de aplicação:
É possível utilizar a injunção em dois casos:
 Casos que cabem na aplicação do artigo 1º do diploma preambular: “obrigações pecuniárias emergentes de
contratos de valor não superior a 15000€”;
 Obrigações emergentes de transações comerciais (artigo 3ºB do DL 62/2013;

“Qualquer transação entre empresas ou entre empresas e entidades públicas, qualquer que seja a respetiva
natureza, forma ou designação, que dê origem ao fornecimento de mercadorias ou À prestação de serviços
contra uma remuneração” (artigo 3ºB, DL 32/2003)

Muitas vezes existe a ideia de que a injunção é apenas para litígios de pequeno valor, mas isso não é verdade. A
injunção também se aplica a casos de grandes valores.

A injunção não é um processo judicial e não jurisdicional porque não há intervenção de um juiz ou de um tribunal.
Existe, simplesmente, um balcão nacional de injunções que consiste num órgão administrativo. Isto faz da injunção
um procedimento parajudicial.
A natureza administrativa do procedimento em questão traduz-se, fundamentalmente, no facto de este se
desenvolver junto da secretaria judicial competente, apenas se transmutando em Ação Declarativa Especial (Ação
Declarativa Especial para Cumprimento de Obrigações Pecuniárias Emergentes de Contratos, também regulada no
regime Anexo), em regra, nas situações em que haja oposição do requerido ou, caos o requerente o indique
expressamente, frustração da notificação (artigos 16º/ e 17º/1). Assim sendo, atribui-se ao secretário judicial a
competência para proceder à notificação do requerido e, na ausência de oposição da fórmula executória, formando-
se, desta forma, um título executivo judicial impróprio.
Dá entrada o procedimento de injunção e se o requerimento for aceite ocorre a notificação do requerido para
uma de duas coisas (artigo 12º/1):
 Pagar;
 Deduzir oposição à pretensão;

“Se depois de notificado o requerido não deduzir oposição, o próprio requerimento de injunção
é carimbado eletronicamente a dizer que o documento tem força executiva, passando o
documento a constituir força executiva” (artigo 14º/1)

A chave de sucesso da injunção é o requerido não dizer nada. Se existisse oposição em todos os processos, todos
passariam para a AECOP e a injunção não serviria para nada. A injunção serve para limpar 95% dos casos em que não
há resposta.

Notificação (artigos 12º e 23º)


 Conteúdo: o requerido é informado de que a ausência da oposição tem como consequência a aposição da
forma executória ao requerimento de injunção.
 Forma: notificação por via postal registada à qual se segue a notificação por via postal simples com exclusão
da notificação por contacto pessoal ou editais.

Consequências da natureza de título executivo e fundamentos de oposição à execução


*Trabalho da Maria

Há uma diferença entre a oposição à pretensão e a oposição à execução.


A oposição à execução presume que a injunção já terminou. Deste modo, a oposição à execução já vai ocorrer num
processo judicial por parte do executado de acordo com diversos fundamentos. Consiste num ato processual através
do qual o executado reage contra a pretensão executiva.

Página 27 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
Artigo 729º, CPC: Fundamentos de oposição à execução baseada em sentença
Fundando-se a execução em sentença, a oposição só pode ter algum dos fundamentos seguintes:
a) Inexistência ou inexequibilidade do título;
b) Falsidade do processo ou do traslado ou infidelidade deste, quando uma ou outra influa nos termos da
execução;
c) Falta de qualquer pressuposto processual de que dependa a regularidade da instância executiva, sem prejuízo
do seu suprimento;
d) Falta ou nulidade da citação para a ação declarativa quando o réu não tenha intervindo no processo;
e) Incerteza, inexigibilidade ou iliquidez da obrigação exequenda, não supridas na fase introdutória da execução;
f) Caso julgado anterior à sentença que se executa;
g) Qualquer facto extintivo ou modificativo da obrigação, desde que seja posterior ao encerramento da discussão
no processo de declaração e se prove por documento; a prescrição do direito ou da obrigação pode ser provada
por qualquer meio;
h) Contracrédito sobre o exequente, com vista a obter a compensação de créditos;
i) Tratando-se de sentença homologatória de confissão ou transação, qualquer causa de nulidade ou
anulabilidade desses atos.

Artigo 730º, CPC: Fundamentos de oposição à execução baseada noutro título


São fundamentos de oposição à execução baseada em sentença arbitral não apenas os previstos no artigo anterior
mas também aqueles em que pode basear-se a anulação judicial da mesma decisão, sem prejuízo do disposto nos n.os
1 e 2 do artigo 48.º da Lei da Arbitragem Voluntária.

Artigo 731º, CPC: Fundamentos de execução baseados noutro título


Não se baseando a execução em sentença ou em requerimento de injunção ao qual tenha sido aposta fórmula
executória, além dos fundamentos de oposição especificados no artigo 729.º, na parte em que sejam aplicáveis,
podem ser alegados quaisquer outros que possam ser invocados como defesa no processo de declaração.

Artigo 857º, CPC: Fundamentos de oposição à execução baseada em requerimento de injunção


1 - Se a execução se fundar em requerimento de injunção ao qual tenha sido aposta fórmula executória, apenas podem
ser alegados os fundamentos de embargos previstos no artigo 729.º, com as devidas adaptações, sem prejuízo do
disposto nos números seguintes.
2 - Verificando-se justo impedimento à dedução de oposição ao requerimento de injunção, tempestivamente
declarado perante a secretaria de injunção, nos termos previstos no artigo 140.º, podem ainda ser alegados os
fundamentos previstos no artigo 731.º; nesse caso, o juiz receberá os embargos, se julgar verificado o impedimento e
tempestiva a sua declaração.
3 - Independentemente de justo impedimento, o executado é ainda admitido a deduzir oposição à execução com
fundamento:
a) Em questão de conhecimento oficioso que determine a improcedência, total ou parcial, do requerimento de
injunção;
b) Na ocorrência, de forma evidente, no procedimento de injunção de exceções dilatórias de conhecimento
oficioso.

7. Os incidentes processuais
Um incidente processual é uma ocorrência estranha ao curso normal do processo, dando lugar a uma tramitação
própria, dentro do processo.
Os incidentes não são espécies de processos, fazem, sim, parte de um processo e têm algumas especificidades.
Normalmente, um incidente atrasa consideravelmente um processo, já que é preciso resolver essa questão para
que o processo prossiga.

Página 28 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
Os incidentes processuais têm caráter acessório em relação ao processo principal, tendo como consequência que
se não houver processo principal, o incidente cai. Assim, se, por exemplo, a meio de um processo com um incidente o
autor desiste pondo fim ao processo principal, o incidente deixa de fazer sentido e cai.

As regras gerais acerca dos incidentes processuais encontram-se nos artigos 292º - 295º do CPC. Estas denotam
um processo simplificado para os incidentes processuais, de modo a que estes não produzam tanto transtorno ao
processo principal.

Artigo 292º
Regra geral

Em quaisquer incidentes inseridos na tramitação de uma causa observa-se, na falta de regulamentação especial, o que
vai disposto neste capítulo.

Artigo 293º
Indicação das provas e oposição

1. No requerimento em que se suscite o incidente e na oposição que lhe for deduzida, devem as partes oferecer o rol
de testemunhas e requerer os outros meios de prova.
2. A oposição é deduzida no prazo de 10 dias.
3. A falta de oposição no prazo legal determina, quanto à matéria do incidente, a produção do efeito cominatório que
vigore na causa em que o incidente se insere.

Artigo 294º
Limite número de testemunhas e registo dos depoimentos

1. A parte não pode produzir mais de cinco testemunhas.


2. Os depoimentos prestados antecipadamente ou por carta são gravados nos termos do artigo 422º.

Artigo 295º
Alegações orais e decisão

Finda a produção da prova, pode cada um dos advogados fazer uma breve alegação oral, sendo imediatamente
proferida decisão por escrito, aplicando-se, com as necessárias adaptações, o disposto no artigo 607º.

Existem também regras especiais ara cada incidente previstas na lei. Sós e não houver regra especial é que
aplicamos a regra geral – subsidiariedade da parte geral.

Exemplos de incidentes:

 Verificação do valor da causa (artigos 296º e ss.): relaciona-se com o facto de a toda a causa dever ser
atribuído um valor certo, expresso em moeda legal, que represente a utilidade económica do pedido. A
verificação do valor varia consoante o tipo de ação:
o Ação para o condenamento de uma quantia em dinheiro: é esse o valor da causa;
o Ação com vários pedidos: soma dos valores de todos os pedidos;
o Ações de despejo: valor da renda de dois anos e meio, mais o valor das rendas em divida ou o valor
da indemnização pedida;
o Ações sobre o estado das pessoas: equivalente ao valor da alçada do tribunal mais 0,01€;
o Procedimentos cautelares: valor da causa a que respeitam, salvo se o incidente tiver realmente valor
diverso do da causa;

Página 29 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
o Valor dos incidentes: Se a parte que deduzir o incidente não indicar o respetivo valor, considera-se
este o valor dado à causa; pode, porém, a parte contrária, a parte contrária impugnar o valor com
fundamento em que o incidente tem valor diverso do da causa.

 Suspeição do juiz (artigo 119º e ss.): A situações em que há fundamento para exigência de suspeição do juiz
encontram-se elencadas no artigo 120º, CPC. Estas causas assentam, sobretudo, em dois grupos: na relação
dos juízes com as partes e na relação dos juízes com os objetos em lide. O prazo de suspeição do juiz é de 10
dias a contar da ocorrência dos factos mencionados no artigo 121º/1 (artigo 149º). O artigo 121º/2 prevê a
possibilidade de a parte poder denunciar ao juiz a causa de suspeição antes de ele intervir no processo judicial,
e, nesse caso, declarar a suspensão dos respetivos termos até decorrer o prazo da dedução da suspeição, que
é contado desde a data de notificação daquele despacho. Temos ainda o artigo 121º/3 que se aplica aos casos
em que mo motivo de suspeição é superveniente à interveniência do juiz no facto.
(ver também artigos 122º, 123º e 124º)

 Habilitação (artigos 351º e ss.): Quando na pendência de uma ação, falece uma das partes, devem os seus
sucessores ou alguns deles promover naquela um incidente, designado por habilitação, a fim de nela poderem
substituir o falecido. A habilitação também pode ser promovida pela parte sobreviva. Consoante quem a
requerer, a habilitação é promovida contra a parte sobreviva,7e3 ou contra os sucessores do falecido, sendo-
o sempre contra estes, desde que não sejam requerentes.

 Liquidação (artigos 358º e ss.): “Antes de começar a discussão da causa, o autor deduz, sendo possível, o
incidente de liquidação, para tornar líquido o pedido genérico, quando este se refira a uma universalidade ou
às consequências de um facto ilícito”.

 Procedimento cautelar (artigo 364º/1): Procedimento judicial instaurado como preliminar a uma ação ou, na
pendência desta como seu incidente, destinado a prevenir ou afastar o perigo resultante da demora a que
está sujeito o processo principal. Através de uma indagação rápida e sumária, o juiz assegura-se de
plausibilidade da existência do direito do requerente e emite uma decisão de caráter provisório, destinada a
produzir efeitos até ao momento em que se forme a decisão definitiva. Exceto se for decretada a inversão do
contencioso, o procedimento cautelar é dependência de uma causa que tenha por fundamento o direito
acautelado e pode ser instaurado como preliminar ou como incidente de ação declarativa ou executiva.

 Falsidade de documento (artigo 450º): Um documento autêntico é falso quando o facto que nele deduz ter
sido presenciado pela autoridade ou oficial público, na realidade nunca ocorreu, ou quando atesta que foi
praticado pela entidade responsável um facto que na verdade não foi. Se a arguição da falsidade de
documento tiver lugar em:
o Ação executiva, em processo especial cuja tramitação inviabilize o julgamento conjunto ou em
processo pendente de recurso: a instrução e o julgamento fazem-se nos termos gerais estabelecidos
para os incidentes da instância;
o Ação executiva: nem o requerente, nem o exequente nem outro credor pode ser pago, na pendência
do incidente, sem prestar caução;
o Processo pendente de recurso: são suspensos os termos deste e, admitida a arguição, o processo
baixa à 1ª instância para instrução e julgamento;

Existem incidentes exclusivos na ação executiva. Nomeadamente:


 Dispensa de citação prévia (artigo 727º): O exequente pode requerer que a penhora seja efetuada sem a
citação prévia do executado, desde que alegue factos que justifiquem o receio de perda da garantia
patrimonial do seu crédito e ofereça de imediato os meios de prova.

 Oposição à execução (artigos 728º e ss.): o executado pode opor-se à execução por embargos no prazo de 20
dias a contar da citação. Temos os fundamentos de oposição descritos nos artigos 729º, 730º e 731º,
Página 30 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
consoante estes se oponham À execução baseada em sentença, em decisão arbitral ou noutro título,
respetivamente.

 Comunicabilidade da dívida (artigo 741º)

 Oposição à penhora (artigos 784º e ss.): sendo penhorados bens pertencentes ao executado este pode opor-
se mediante algum dos fundamentos previstos no artigo 784º/1. Quando a oposição se funde na existência
de patrimónios separados, deve o executado indicar logo os bens, integrados nos eu património autónomo
que responde pela dívida exequenda, que tenha em seu poder e estejam sujeitos à penhora.

7.1. A intervenção de terceiros

A intervenção de terceiros é a forma de incidente mais comum, em especial na ação declarativa, que se encontra
nos artigos 311º e ss. Esta expressão designa genericamente os incidentes processuais destinados a fazer intervir no
processo terceiros alheios à relação processual, mas que têm nela um interesse direto ou indireto, paralelo ao
interesse do autor ou do réu.
Temos, então, dois tipos de intervenção.

Intervenção principal (Artigos 311º - 320º) - este incidente da instância caracteriza-se pela intervenção de um terceiro
para aí fazer valer um direito próprio, paralelo ao do autor ou do réu.
 Intervenção espontânea: quando o terceiro dirige um requerimento ao tribunal no sentido de participar no
litigio. “Estando pendente causa entre duas ou mais pessoas, pode nela intervir como parte principal aquele
que, em relação ao seu objeto, tiver um interesse igual ao do autor ou do réu, nos termos dos artigos 32º, 33º
e 34º.” A parte pode aqui intervir por mera adesão (adesão aos articulados da parte com quem se associa) ou
mediante articulado próprio (só admissível até ao termo da fase de articulados)
 Intervenção provocada: quando o terceiro é chamado por uma das partes. O chamamento pode tanto ser
realizado pelo autor, como pelo réu, este último apenas nos casos específicos do artigo 316º/3.

Intervenção acessória (Artigos 321º - 332º): “O reu que tenha ação de regresso contra terceiro para ser indemnizado
do prejuízo que lhe cause a perda da demanda, pode chamá-lo a intervir como auxiliar na defesa, sempre que terceiro
careça de legitimidade para intervir como parte principal.”
 Intervenção provocada
 Intervenção acessória do Ministério Público: Sempre que nos termos da respetiva lei Orgânica, o MP deva
intervir acessoriamente na causa, é-lhe oficiosamente notificada a pendência da ação, logo que a instância se
considere iniciada” (artigo 325º/1).
 Assistência: “Estando pendente uma causa entre duas ou mais pessoas, pode intervir nela como assistente,
para auxiliar qualquer das partes, quem tiver interesse jurídico em que a decisão do pleito seja favorável a
essa parte. Para que haja interesse jurídico, capaz de legitimar a intervenção, basta que o assistente seja titular
de uma relação jurídica cuja consciência prática ou económica dependa da pretensão do assistido” (artigo
326).

7.2. A oposição

A oposição é um incidente que consiste na intervenção de um terceiro numa ação pendente entre duas ou mais
pessoas, para aí fazer valer um direito próprio, incompatível com aquele que invoca o autor na ação. Enquanto na
intervenção de terceiro há um interesse direto ou indireto, aqui há um interesse contrário.

Página 31 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
A oposição pode ser:
 Espontânea (artigos 333º - 337º): A oposição espontânea consiste na intervenção espontânea numa causa de
um terceiro como oponente, por meio de petição, para fazer valer contra as partes em direito próprio, total
ou parcialmente incompatível com a pretensão deduzida pelo autor ou pelo reconvinte.
 Provocada (artigos 338º - 341º): “quando esteja disposto a satisfazer a prestação que lhe é exigida mas tenha
conhecimento de que um terceiro se arroga ou pode arrogar-se de direito incompatível com o do autor, pode
o réu, dentro do prazo para contestar, requerer que o terceiro seja citado para deduzir, querendo, a sua
pretensão, desde que aquele demandado proceda simultaneamente à consignação em depósito da quantia
da coisa (artigo 338º)”
 Mediante embargos de terceiro (342º - 350º): “Se a penhora, ou qualquer ato judicialmente ordenado de
apreensão ou entrega de bens, ofender a posse ou qualquer direito incompatível com a realização ou o âmbito
da diligência, de que seja titular quem não é parte na causa, pode o lesado fazê-lo valer, deduzindo embargos
de terceiro” (artigo 342º).

8. Procedimentos cautelares
As providências cautelares são as medidas que podem ser tomadas na sequência de um procedimento cautelar.
O procedimento cautelar é o processo judicial instaurado como preliminar a uma ação, ou na pendência desta
como seu incidente, destinado a prevenir ou a afastar o perigo resultante da demora a que está sujeito o processo
principal. Através de uma indagação rápida e sumária, o juiz assegura-se da plausibilidade da existência do direito do
requerente e emite uma decisão de caráter provisório, destinada a produzir efeitos até ao momento em que se forma
a decisão definitiva.
As providências não decidem em definitivo um determinado litígio, apenas salvaguardam as situações jurídicas que
as partes tenham, nomeadamente os seus direitos, impedindo que durante a pendência da ação, a situação de facto
se altere.

Artigo 2º/2: “A todo o direito, exceto quando a lei determine o contrário, corresponde a ação adequada a fazê-lo
reconhecer em juízo, a prevenir ou reparar a violação dele e a realizá-lo coercivamente, bem como os procedimentos
necessários para acautelar o efeito útil da ação”.

Providência cautelar

Função do procedimento:
 Função instrumental: a providência cautelar é instrumental relativamente à decisão do conflito principal;
 Não visa a composição definitiva do litígio;

O procedimento cautelar existe sempre na dependência de uma ação e corre por apenso a ela. Existem três formas
de as providências ficarem sem efeito:
 Se a ação não for proposta nos trinta dias subsequentes à data em que o requerente foi notificado da decisão
que ordenou as providências requeridas;
 Se a ação principal estiver parada mais de 30 dias por negligência do requerente;
 Se a ação for julgada improcedente;

Pressupostos da providência cautelar:


 Periculum in mora: a urgência, o perigo do atraso na decisão definitiva (artigo 362º/1);
 Fumu boni iuris: basta verificar uma probabilidade séria da existência do direito do requerente para decretara
providência cautelar (artigo 368º/1);

Página 32 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
As medidas provisórias podem ser antecipatórias ou conservatórias:
 Conservatórias: destinam-se a conservar a situação jurídica ou direito que é objeto da ação até à decisão.
Visam acautelar o efeito útil da ação principal, assegurando a permanência da situação existente quando se
despoletou o litígio ou aquando da verificação de periculum in mora. Visam manter um direito intocado,
manter o status quo.
 Antecipatórias: destinam-se a concederão requerente os efeitos práticos que resultariam da procedência da
ação. Visam a antecipação da realização do direito que, previsivelmente, será reconhecido na ação principal.
Visam antecipar a situação que previsivelmente decorará da decisão da ação principal, alterando o status quo.

8.1. Espécies de procedimentos cautelares

Existem essencialmente dois tipos de providências cautelares: os procedimentos cautelares especificados (artigos
377º e ss.), especificados do CRC; e os procedimentos cautelares comuns (artigos 362º e ss).

As providências especificadas são:


 Restituição provisória da posse (377º e ss. e 1279º);
 Alimentos provisórios (384º e ss., 2004º, 2007º, CC);
 Arresto (391 e ss. CPC e 601º, 619º CC);
 Arbitramento de reparação provisória (388º e ss.);
 Embargo de obra nova (397º e ss.);
 Suspensão de deliberações sociais (380º e ss.);
 Arrolamento, que pode ser comum (403º e ss.) ou especial (409º).

 São conservatórias: a suspensão das deliberações sociais, o arresto, o embargo de obra nova e o arrolamento.
 São antecipatórias: a restituição provisória da posse, os alimentos provisórios e o arbitramento de reparação
provisória.
 As providências cautelares não especificadas, reguladas nos artigos 362º e seguintes do CPC podem ser também
antecipatórias ou conservatórias, dependendo da sua finalidade.

A restituição provisória da posse permite ao possuidor ser restituído provisoriamente à sua posse nas situações
em que se verifique um esbulho violento. Para o efeito, o possuidor tem de alegar a posse, o esbulho e a violência. No
caso de não se apurar que o desapossamento foi obtido por meio de esbulho com violência, poderá ser decretada a
providência cautelar comum que permita ao requerente obter a restituição provisória da coisa esbulhada. A
providência cautelar pode ser exercida não só pelo possuidor em nome próprio, mas por alguns possuidores em nome
alheio como o parceiro pensador, o locatário, o comodatário e o depositário. Os pressupostos para o ordenamento da
restituição (378º) são a alegação e prova da qualidade de possuidor do requerente; e a alegação e prova do
comportamento de esbulho com violência por parte do requerido.

A prestação de alimentos provisórios é estabelecida em função do estritamente necessário para o sustento,


habitação e vestuário do requerente, com o prudente arbítrio do julgador. Porém, não é impeditivo que este acordo
possa ser fixado pelas partes. Para que esta providência seja aceite pelo tribunal são precisos dois requisitos: a
possibilidade de o requerente ser titular de um direito a alimentos; e o requerente carecer, a título provisório de
alimentos por não ter condições em aguardar pelos alimentos definitivos. Os alimentos serão prestados na medida da
necessidade do requerente e da medida de prestar do prestador.

O arresto consiste numa apreensão judicial de bens, requerida por um credor, cujo valor seja suficiente para
assegurar a satisfação do crédito em dívida pelo requerido. Visa, portanto, conservar as garantias patrimoniais dos
credores. O arresto torna ineficazes os atos de disposição dos bens sobre que incide, e confere ao credor prioridade
no pagamento da obrigação, em relação a outros possíveis credores, através da venda dos bens arrestados. Para que
possa haver arresto têm de verificar-se dois requisitos: a probabilidade de existência de um crédito; e o justo receio
de perda da garantia patrimonial do crédito. O arresto é decretado sem audiência do devedor, só sendo este ouvido
Página 33 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
depois da notificação da concretização do arresto. Decretado o arresto, os bens arrestados são entregues a um
depositário que os guarda e administra em nome do Estado. Assim, o devedor perde os poderes de disposição sobre
os bens, de forma a que não coloque em causa a garantia patrimonial do seu credor.

8.1.1. Regime do procedimento cautelar comum

O procedimento cautelar comum é “a forma processual indicada para requerer o deferimento da providência
cautelar mais adequada à situação concreta, sempre que a lei não tenha previsto um procedimento especificado para
a mesma”, o que quer dizer que este regime apenas será aplicado quando não se verifique a existência de um
procedimento nominado específico para o efeito pretendido (artigo 362º/3, CPC).

O procedimento cautelar comum possui uma estrutura simplificada que combinada com a sua natureza urgente
(artigo 363º/1 e 2) propicia um processo célere, de moco a acautelar o direito em questão.

Em regra, o tribunal ouve o requerido antes e decretar a providência, pelo que este será citado para deduzir
oposição à pretensão do requerente. O juiz poderá, no entanto, dispensar o contraditório prévio (artigo 366º), com o
fundamento de um risco sério para o fim ou eficácia desta providência. Nesses casos, o requerido apenas poderá opor-
se à mesma após o trânsito em julgado da decisão, através da oposição à decisão ou recurso do despacho que a
decretou (artigo 372º).

 O regime previsto para este procedimento é aplicado subsidiariamente aos procedimentos nominados (artigo
376º/1).

8.2. A inversão do contencioso

A figura da inversão do contencioso foi introduzida pela lei 41/2013 no artigo 369º, CPC.
Através da figura da inversão do Contencioso, a providência cautelar transforma-se na verdadeira decisão definitiva
do litígio, excecionando-se assim, as regras da instrumentalidade e a provisoriedade. Para isso, é preciso demonstrar
que a ação principal seria desnecessária, cabendo sempre ao juiz prever qual o resultado que seria obtido na ação
principal para verificar se a medida se pode consolidar numa resolução definitiva do litígio.

A decisão de decretar a inversão do contencioso depende de requerimento da parte interessada e tem de ser feito
até ao encerramento da audiência final (artigo 369º/1 e 2) mediante os seguintes pressupostos:
a) Os factos auferidos durante o procedimento permitem ao juiz formar a convicção segura acerca de existência
do direito em questão;
b) A natureza da providência e adequada à realização da composição definitiva do litigio, isto é, a providência é
antecipatória e não conservatória;
Nesta situação, o requerente fica dispensado do ónus de propositura da ação principal.

O requerido é notificado para impugnar a existência do direito acautelado no prazo de 30 dias subsequentes à
notificação, sob pena de a providência se consolidar como composição definitiva do litígio (artigo 371º/1).
O mesmo acontece quando a ação é proposta e o processo fica parado por mais d e30 dias por negligência do
requerente, ou quando o réu é absolvido da instância (371º/2).
Se o requerido propuser a ação e esta for procedente, a providência cautelar caduca depois de a decisão transitar
me julgado (artigo 371º/3).

O requerido pode:
 Opor-se à inversão do contencioso conjuntamente com a impugnação da providência decretada, se se tratar
de um procedimento sem contraditório prévio (artigo 369º);
 Impugnar a decisão que tenha invertido o contencioso através de duas formas (artigo 372º/2):

Página 34 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
o Recorrer, nos termos gerais do despacho que a decretou, quando entenda que, face aos elementos
apurados, ela não devia ter sido deferida;
o Deduzir oposição, quando pretenda alegar factos ou produzir meios de prova não tidos em conta pelo
tribunal e que possam afastar os fundamentos da providência ou determinem a sua redução,
aplicando-se com as adaptações necessárias os artigos 367º e 368º.

9. Tramitação do processo
A tramitação processual de que vamos falar aplica-se a todos os tipos de processo declarativo.
A tramitação tem, em qualquer processo declarativo, traços comuns. As variações que existem a estes traços
comuns vão no sentido de simplificar ou adequar as regras ao tipo de litígio.

O processo tem quatro fases:


1. Alegar – petição inicial em que se alegam determinados factos e que se pretende aplicar uma determinada
consequência a esses factos. Há também a contestação (alegação feita pela parte contrária). Em princípio, a
prova documental é logo introduzida nesta fase.
2. Organizar – momento em que se seleciona os factos (ver sobre que factos as partes estão ou não de acordo).
É também o momento em que se procede à calendarização do processo, sobre que testemunhas se vão
chamar ao processo, etc. Ainda nesta fase, o juiz dá como provados determinados factos e decide quais são
os factos controvertidos e sobre os quais é preciso produzir prova.
3. Provar – esta fase está essencialmente pensada para a prova testemunhal e pericial. Nesta fase da prova
também ocorrem as alegações finais (incluindo alegações de facto e alegações de direito).
4. Decidir.

No modelo de Common law, a fase decisiva do processo é a fase da prova. No modelo português, a fase mais
relevante é a fase de alegação, isto porque existe o princípio da preclusão, que determina que todos os factos que não
forem incluídos na fase inicial do processo não podem ser invocados numa fase mais avançada do processo. No direito
de Common law não é necessário alegar os factos todos numa fase inicial.

Principais traços do modelo português:


 Excessiva rigidez;
 Ónus da preclusão da alegação dos factos;
 Desconfiança entre (e em relação aos) operadores judiciários, em particular os juízes.

Fase dos articulados


Na fase dos articulados, temos a petição inicial, em que que ocorre a apresentação do litígio ao tribunal. Seguem-
se as alegações e, por fim, a citação (que possibilita que a contraparte saiba que foi proposta uma ação contra si) –
artigos 552º e seguintes do CPC.
Alegações no CPC atual temos duas: petição inicial (artigos 552º e seguintes) e contestação (artigos 569º e
seguintes), nomeadamente quando haja reconvenção (artigos 583º e seguintes). Após a contestação temos a
reconvenção e após a reconvenção temos a réplica.

Fase da organização do processo


Na fase da organização do processo (artigos 590º e seguintes), há logo uma decisão imediata do que for possível.
Em segundo lugar, há uma delimitação do âmbito do processo e ainda a preparação da produção de prova. Depois o
juiz pode proferir um despacho pré-saneador (art. 595º) ou convocar uma audiência prévia como tentativa de
conciliação (artigos 591º e 594º).
De acordo com a alínea c) do nº2 do artigo 590º, o juiz pode decidir logo no despacho pré-saneador se tiver todos
os elementos necessários à decisão

Página 35 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
O juiz não profere o despacho saneador sem convocar as partes, sem audiência previa. Na perspetiva do professor
Jorge Morais Carvalho pode não haver audiência prévia, mas se não a fizer o juiz tem de informar as partes, dando
oportunidade a estas de se pronunciarem sobre isso. As partes podem alegar facto de direito.
Proferido despacho saneador, o juiz profere despacho a enunciar os temas da prova (art. 596º, nº1). Os temas da
prova correspondem aos factos controvertidos (os factos em relação aos quais as partes não estão de acordo) e o juiz
elenca quais os temas em relação aos quais é necessário fazer prova.

Fase da instrução e discussão


Na fase da instrução e discussão temos a produção de prova (audiência final ou antes da audiência final) e a
discussão da matéria de facto e de direito (agora em simultâneo, na audiência final).

Sentença
A sentença portuguesa (art. 607º CPC) tem normalmente a seguinte estrutura: um relatório (história do processo),
a fundamentação (de facto e de direito) e por fim a decisão. Num recurso, a estrutura é próxima desta, mas não nos
podemos esquecer que o objeto é a decisão da instância anterior e, por isso, pode não conter tudo o que aconteceu
na primeira instância.
O poder jurisdicional dos juízes extingue-se (art. 613º CPC) a partir do momento em que é proferida a sentença. A
partir deste momento o juiz já não pode decidir neste sentido. No entanto, no artigo 613º, nº2, CPC, temos as exceções
à extinção dos poderes jurisdicionais do juiz: essas exceções verificam-se quando é necessário retificar erros materiais
da sentença ou quando é necessário suprimir nulidades ou reformar a sentença.

Retificação de erros materiais na sentença


Os erros materiais estão previstos no art. 614º. São eles:
 Omissão do nome das partes - quando o juiz se esquece de identificar o autor ou o réu ou ambos, violando
assim o disposto no artigo 607º, nº2;
 Omissão quanto a custas – quando o juiz não de pronuncia sobre a responsabilidade dos litigantes pelas custas,
violando assim o disposto no art. 527º.
 Omissão de algum dos elementos previstos no artigo 607º, nº6;
 Erros de escrita ou de cálculo – identificam-se com os referidos no art. 249º CC a respeito do negocio jurídico.
 Inexatidões devidas a outra omissão ou manifesto lapso.

Os erros materiais ou inexatidões contidos na sentença são os que se reportam à expressão material de vontade
do juiz desde que o erro seja evidenciado pelo contexto da decisão (nº1 do art. 614º ; e artigos 607º/6; idêntica solução
para o acórdão do tribunal da Relação - artigo 666º, nº1 e 2; e, para o acórdão do Supremo Tribunal de Justiça - artigo
685º).
Se a sentença enfermar de algum erro material ou inexatidão, poderão as partes interessadas requerer a
retificação (art. 614º, nº1, parte final). A sentença será corrigida, a requerimento das partes ou oficiosamente, por
iniciativa do juiz, por simples despacho. Havendo recurso, a retificação pode ser requerida pelas partes ou
oficiosamente decidida, até ao momento da subida do recurso para o tribunal superior (614º, nº2).
Se a retificação apenas for suscitada perante o tribunal superior, será decidida por este (614º, nºs 1 e 2).
Não havendo recurso, a retificação pode ter lugar a todo o tempo (614º, nº3).

O erro material não se confunde com um erro de julgamento:

«O erro material dá-se quando o juiz escreveu coisa diversa do que queria escrever, quando o teor da sentença ou
despacho não coincide com o que o juiz tinha em mente exarar, quando, em suma, a vontade declarada diverge da
vontade real. O juiz queria escrever “absolvo” e por lapso, inconsideração, distração, escreveu precisamente o
contrario: condeno. O erro de julgamento é uma espécie completamente diferente. O juiz disse o que queria dizer, mas
decidiu mal, decidiu contra lei expressa ou contra os factos apurados. Está errado o julgamento. Ainda que o juiz, logo
a seguir, se convença de que errou, não pode socorrer-se do art. 614º para emendar o erro». (ALBERTO DOS REIS)
Página 36 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
Suprimento da nulidade da sentença
Os vícios que poderão afetar a validade da sentença e determinar a sua nulidade encontram-se no art. 615º CPC.
No artigo 617º encontramos a descrição do processamento subsequente à nulidade ou à reforma da sentença.

Efeitos da sentença
O principal efeito da sentença é o caso julgado (arts. 619º e seguintes CPC). A ação transita em julgado quando se
torna definitiva e isso ocorre quando a decisão se torna insuscetível de recurso ordinário (art. 628º).

10. Sistemas de recurso


O recurso é o principal meio de impugnação de uma decisão jurisdicional, que fará com que essa decisão seja
reapreciada por um tribunal de categoria hierarquicamente superior.

No nosso sistema de recurso, há normalmente um duplo grau de jurisdição, sendo que em matéria penal este duplo
grau de jurisdição corresponde a uma garantia (art. 32º, CRP).

10.1. Recursos no processo civil

Os recursos no processo civil podem ser ordinários ou extraordinários (art. 627º). Os recursos ordinários são a
apelação e a revista. Os recursos extraordinários são o recurso para uniformização de jurisprudência e revisão.

10.1.1. Admissibilidade do recurso ordinário

A admissibilidade do recurso ordinário está dependente da verificação de dois requisitos cumulativos (art. 629º): a
causa tem de ter valor1 superior à alçada do tribunal de que se recorre e a decisão impugnada tem de ser desfavorável
ao recorrente em valor superior a metade da alçada do tribunal de que se recorre. Porém, em alguns casos é sempre
admitido recurso ordinário (art. 629º, nºs 2 e 3).

De acordo com o art. 44º, nº1 da Lei da Organização do Sistema Judiciário os valores de alçada em vigor são os
seguintes: 5000€ para os tribunais de primeira instância e 30.000€ para os tribunais da Relação.

Hipóteses práticas:

1- O valor da ação (por exemplo, pedido de indemnização) é 4.500€. O tribunal de primeira instância condena o
réu ao pagamento de uma indemnização no valor de 200€. O autor pode recorrer para um tribunal da Relação?
Qual é o valor da sucumbência do autor? E a sucumbência do réu?

R: Não é recorrível, nos termos do artigo 629º/1.

O valor da sucumbência é 4500€. O valor da sucumbência permitir-lhe ia recorrer. No entanto, os requisitos são
cumulativos, e uma vez que o valor da ação não permitia, não seria possível recorrer.

O valor da sucumbência do réu é 200€. Portanto, o réu tampouco poderia recorrer por tanto o valor da ação, como o
valor da sucumbência, não o permitirem.

2- O valor da ação é de 12.500€. E o tribunal de primeira instância condena o réu ao pagamento de uma
indemnização no valor de 8.000€. O autor pode recorrer para um tribunal da Relação?

R: O valor da ação é superior ao valor da alçada do tribunal de primeira instância. O valor da sucumbência do autor é
4.500€. Estes valores são superiores aos valores necessários, portanto, o autor pode recorrer ao tribunal da relação.

O réu também poderia recorrer dado que o valor da ação é o mesmo e o valor da sucumbência do réu é 8.000€.

1
O valor da ação é normalmente o valor indicado pelo autor quando inicia o processo.
Página 37 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
3- O valor da ação é 40.000€ e o tribunal da Relação condena o réu ao pagamento de uma indemnização no valor
de 30.000€. o autor pode recorrer para o Supremo Tribunal de Justiça?

R: Não, porque o valor da ação está preenchido (valor da alçada é 30.000€ no Tribunal de Relação), no entanto, o valor
de sucumbência de 10.000€ é inferior ao valor da alçada do tribunal a que se recorre, portanto, não poderia recorrer.

No entanto, o réu poderia recorrer para o Supremo Tribunal de Justiça.

10.1.2. Renúncia ao recurso

A renúncia ao recurso pode ser feita nos termos do artigo 632º.

Em primeiro lugar, é preciso ver se a renúncia é lícita.


A renúncia antecipada (anterior à decisão) só é válida de provier de ambas as partes (632º, nº1).
A aceitação da decisão implica a perda do direito de recorrer (632º, nº2). A aceitação da decisão, do ponto de vista
jurídico, é uma declaração negocial. Pode ser expressa ou tácita (632º, nº3). Por exemplo, o pagamento sem reservas
implica uma aceitação tácita da decisão e a renuncia ao direito de recorrer. Deduz-se do pagamento a intenção de não
recorrer, daí que se deva considerar que é tácita a aceitação da decisão.

10.1.3. Recurso independente e subordinado

Ficando ambas as partes vencidas, verificados os requisitos da admissibilidade do recurso, podem recorrer as duas
(art. 633º, nº1).

A parte que pretende recorrer pode fazê-lo através de um recurso independente, ou seja, independente do recurso
da outra parte. Ou pode interpor um recurso subordinado, que é um recurso subordinado ao outro recurso.
A principal consequência do recurso subordinado é que se esse recurso caduca se o primeiro recurso ficar sem
efeito, por alguma razão.

O nº5 do artigo 633º está relacionado com os requisitos para poder recorrer.
Se o réu recorrer, o autor pode interpor um recurso subordinado da decisão, apesar de não ter sucumbência. Se o
réu desistir do recurso, o recurso do autor caduca. Portanto, a sucumbência não impede a propositura de um recurso
subordinado, desde que estejam verificados os pressupostos para recorrer ao recurso independente.
Se uma parte pode recorrer é porque o valora da ação o permite. Portanto, nunca é possível que uma das partes
recorra porque cumpre o requisito do valor da ação e a outra não possa recorrer porque não tem preenchido o
requisito do valor da ação, vez que o valor da ação é igual para as duas partes. O valor da sucumbência é que pode
não ser o mesmo.

10.1.4. Modo de interposição do recurso

O requerimento é dirigido ao tribunal que proferiu a decisão recorrida (637º, nº1). O recurso contém
obrigatoriamente a alegação (639º e 640º). No momento em que se dirige ao tribunal é necessário incluir logo as
alegações.
O prazo geral é de 30 dias a contar a partir da notificação da decisão. Mas pode ser reduzido para 15 dias em caso
de processo urgente (artigo 638º, nº1).

10.1.5. Despacho do juiz

Segue-se despacho do juiz sobre o requerimento (641º). O juiz aprecia o requerimento com vista ao recurso.
Se não for admitido o recurso, pode o recorrente reclamar para o tribunal que seria competente para conhecer do
recurso num prazo de 10 dias (art. 643º, nº1).

Página 38 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
Ainda assim, o juiz que recebeu o requerimento de recurso pode evitar o recurso, sanando as nulidades ou
reformando a sentença. Ou seja, pode até não se justificar o recurso porque o juiz pode sanar os problemas que
encontre na sentença.

10.1.6. Modo de subida

Existem duas vias pelas quais o recurso pode subir para o tribunal hierarquicamente superior:
 Subida nos próprios autos (artigos 645º/1 e 675º/1): isto significa subir no próprio processo. Ou seja, todo o
processo é remetido para o tribunal superior e o objeto do recurso vai integrar aquela ação.
 Subida em separado (artigos 645º/2 e 675º/2): de certa forma, o recurso torna-se independente da ação
principal, tendo autonomia suficiente para subir separado.

Podemos ter a subir em separado tudo o que não esteja incluído no artigo 645º/1.
Por exemplo, uma decisão que ordene uma providência cautelar, não está prevista no nº1 do art. 645º. Assim, irá
subir em separado. Subir em separado significa que o réu, aquele contra quem foi decretada uma providência cautelar,
pode, de imediato, recorrer daquela decisão na qual foi cautelado.

10.1.7. Recursos ordinários: o recurso de apelação

É um recurso para um tribunal da Relação e está regulado nos artigos 644º a 670º.

O artigo 647º oferece duas hipóteses:


 Efeito suspensivo (art. 647º, nº2): suspende os efeitos da decisão. Pode haver um interesse muito maior em
interpor o recurso porque, entretanto, não tenho que cumprir dado que ficam suspensos os efeitos da decisão.
 Efeito meramente devolutivo (art. 647º, nº1): esta é a regra geral. A decisão produz os seus efeitos. Só se vier
ser alterada depois pela Relação é que altera os seus efeitos. Enquanto a Relação não decide, aquela decisão
pode produzir logo os seus efeitos. A regra é a de que o recurso para o tribunal da Relação tem efeito
devolutivo, não suspende os efeitos da decisão. Torna-se exigível o valor a que o réu seja condenado

10.1.8. Recursos ordinários: o recurso de revista

Recurso para o supremo tribunal de justiça que incide apenas sobre matéria de direito (artigo 674º).
Se o tribunal de 1ª instância tomar uma decisão e a Relação decidir no mesmo sentido, em princípio, não há recurso
para o STJ porque os dois tribunais anteriores decidiram no mesmo sentido (princípio da dupla conforme – art. 671º,
nº3).
Tem de tratar-se de uma questão com uma relevância jurídica tal que justifique a intervenção do Supremo Tribunal
de Justiça. O acórdão da Relação tem de estar em contradição com o outro acórdão da 1º instância. Porém, se houver
um acórdão de uniformização de jurisprudência congruente com a decisão da Relação, não há necessidade de recorrer
ao Supremo.
Sobre o recurso de revista temos um sistema de substituição (por oposição ao sistema de cassação). Isto significa
que o STJ substitui integralmente a decisão da instância inferior.
O supremo tribunal de justiça profere uma decisão definitiva (682º, nº1).

10.2. Recursos extraordinários

10.2.1. O recurso para uniformização de jurisprudência

Existem diversos requisitos para interpor um recurso para Uniformização de Jurisprudência, entre eles quando
existe contradição entre o acórdão recorrido e o acórdão fundamento sobre a mesma questão de direito (que deverá
Página 39 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
ser essencial para o resultado num e noutro acórdão) e ambos proferidos pelo STJ. Estes acórdãos têm
necessariamente de ser do Supremo, não sendo possível o recurso extraordinário de acórdãos de tribunais da Relação
ou da decisão singular e liminar do relator (art. 656º do CPC). O acórdão fundamento poderá tanto ter sido proferido
por 3 juízes no âmbito da revista normal ou excecional como ainda um acórdão de uniformização de Jurisprudência
desrespeitado pelo STJ.
Outro requisito é o trânsito em julgado de qualquer dos acórdãos, presumindo-se o trânsito em julgado do acórdão
fundamento (Artigo 688º, nº2 CPC).
Impede a admissão de recurso extraordinário o facto de o acórdão recorrido ter adotado Jurisprudência
anteriormente uniformizada pelo Supremo ou o facto do acórdão recorrido ser ele mesmo um acórdão uniformizador
(artigo 688º, nº3 CPC).

Em principio, apenas a parte vencida tem legitimidade para interpor recurso, ficando afastada a possibilidade de
recurso a outros sujeitos processuais concretamente prejudicados pela decisão (631º, nº2, CPC). Contudo, o artigo
691º CPC confere ao MP legitimidade extraordinária nos casos em que este não atua como representante das partes,
com o único objetivo de obter a uniformização da Jurisprudência sem efeitos no caso concreto (a intervenção do MP
já está contida no regime da revista ampliada). Como bem constata Abrantes Geraldes, a lei exige, quanto aos demais
recursos, uma situação de sucumbência cujo valor seja superior a metade da alçada do tribunal de que se recorre, no
entanto logo se percebe que o Supremo, do qual provem o acórdão, não tem alçada. Assim, o recurso extraordinário
para Uniformização de Jurisprudência é sempre possível, independentemente do valor da sucumbência desde que
verificados os requisitos supra referidos.

O recurso terá efeito meramente devolutivo (693ºCPC), o que significa que a interposição do recurso não tem
efeito suspensivo quanto à execução da decisão recorrida. Assim, embora se encontre pendente um recurso, a decisão
recorrida pode ser sempre objeto de uma execução. Embora neste caso o exequente ou qualquer credor não possam
ser pagos sem prévia prestação de caução (694º CPC).

O prazo para interpor este recurso é de 30 dias contados do trânsito em julgado do acórdão recorrido, sendo que
o recorrido terá 30 dias para responder à alegação do recorrente, contados a partir da notificação (689º CPC). No
entanto, não será possível o requerimento de interposição se estiver pendente alguma reclamação relacionada com
arguição de nulidades ou reforma (684º e 616º CPC) ou se estiver dependente do resultado do recurso interposto em
matéria de constitucionalidade.
O requerimento da interposição precisa de ser anexado no processo e deve conter todos os elementos de
contradição entre os dois acórdãos, além de ser preciso juntar uma cópia do Acórdão anteriormente proferido pelo
STJ (com o qual o acórdão recorrido se encontra em contradição), como bem salienta o artigo 690º CPC.

O novo acórdão substituirá para todos os efeitos o acórdão recorrido (podendo ter natureza confirmativa ou
substitutiva do acórdão de uniformização que anteriormente tenha sido publicado e que concretamente foi
desacatado; ou inovatória se a contradição se revelava entre acórdãos proferidos no âmbito do julgamento normal do
recurso de revista).
Confirmado o acórdão recorrido estabilizar-se-á definitivamente tal decisão (o acórdão Uniformizador terá de ser
publicado na 1ª série do “Diário da República” (687º, nº5)). No entanto jamais se poderão alterar as situações jurídicas
constituídas ao abrigo do acórdão recorrido nem se repercutirá nas sentenças/acórdãos anteriormente proferidos.
Porém, se estiverem pendentes recursos de tais decisões deve-se suspender a sua tramitação à espera do resultado
do recurso extraordinário.

Em suma, o recurso para Uniformização de Jurisprudência visa essencialmente criar uma maior segurança jurídica,
aspeto fulcral em qualquer Estado de Direito democrático. Apesar da Jurisprudência em Portugal não proferir decisões
vinculativas para tribunais inferiores, tendo apenas valor no caso Sub Judice, é inegável que os acórdãos
uniformizadores de Jurisprudência têm um efeito altamente persuasivo, uma vez que, mesmo que os tribunais
inferiores profiram decisões opostas às dos Supremo, ao ser permitido o recurso, a uniformização da Jurisprudência
irá inevitavelmente surgir. Estes acórdãos permitem aos particulares defenderem-se de decisões contraditórias em
Página 40 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
matéria de direito e asseguram uma maior previsibilidade decisória que, não obstante as minudências de cada caso
concreto, visam assegurar a mesma aplicação e interpretação da norma jurídica.

10.2.2. Recursos extraordinários: o recurso de revisão

Em situações excecionais a sentença transitada pode ser objeto de revisão (artigos 696º e seguintes). É a estas
exceções que se aplica o recurso de revisão.

10.3. Recurso para o Tribunal Constitucional

Os recursos interpostos para o Tribunal Constitucional correspondem à chamada fiscalização concreta de


constitucionalidade, sendo a norma em causa avaliada em concreto no âmbito de um processo.

O nosso sistema de fiscalização de constitucionalidade é misto, sendo difuso na questão em apreço. A Constituição
atribui a todos os tribunais, no artigo 204º, competência para julgar questões de inconstitucionalidade suscitadas a
propósito de casos concretos, sendo ainda possível interpor recurso para o Tribunal Constitucional, caso se encontrem
verificados os respetivos pressupostos. Não existe recurso direto pelas partes para o Tribunal Constitucional, sendo
que este intervém apenas a título incidental, apreciando as decisões de outros tribunais acerca de matérias
constitucionais.

A Lei Orgânica do Tribunal Constitucional (Lei nº 28/82, de 15 de Novembro) regula os recursos mencionados no
subcapítulo II, da Secção III, complementando o disposto no artigo 280º da CRP.
O artigo 69º da Lei Orgânica do Tribunal Constitucional determina a aplicação subsidiária, em segunda linha, das
normas do Código do Processo Civil, em particular as relativas ao recurso de apelação, independentemente da
natureza do processo-base.

As decisões das quais é possível recorrer para o Tribunal Constitucional encontram-se especificadas no artigo 280º
da Constituição, sendo complementadas pelo artigo 70º da LTC. O objeto do recurso é sempre a decisão do juiz a quo
de aplicar ou não a norma cuja constitucionalidade ou ilegalidade foi questionada (artigo 280º, nº 6, da CRP e artigo
71º da LTC), sendo que o juiz deve conhecer ex officio (independentemente de impugnação pelas partes) a
inconstitucionalidade ou ilegalidade de uma norma, não a aplicando. O objeto do litígio do processo-base fica fora do
âmbito do recurso para o Tribunal Constitucional.

As várias possibilidades de recurso previstas podem agrupar-se em: decisões positivas (não é aplicada a norma, por
se considerar inconstitucional ou ilegal), decisões negativas (a inconstitucionalidade ou ilegalidade é suscitada pelas
partes, mas o juiz aplica a norma) e não acatamento de anterior decisão do Tribunal Constitucional.
É ainda relevante mencionar que há casos em que o recurso para o Tribunal Constitucional é obrigatório para o
Ministério Público (artigo 280º, nº 3, da CRP e artigo 72º, nº 3, da LTC), sendo o recurso pelas partes sempre
facultativo, tendo sempre de estar previsto nas normas anteriormente mencionadas (artigo 72º, nº 1, alínea b) e nº
2 da LTC).
É também importante fazer a distinção entre os casos de fiscalização da constitucionalidade, da legalidade
(referente a leis de valor reforçado) e da conformidade com normas convencionais internacionais.

Para que possa haver o referido recurso, a questão da inconstitucionalidade tem de ter sido suscitada durante o
processo, tendo o juiz possibilidade de sobre ela decidir, caso contrário não é admitido o recurso para o Tribunal
Constitucional. De acordo com o artigo 70º, nº 2, da LTC, no caso de decisões negativas, apenas é possível recorrer ao
Tribunal Constitucional depois de se terem esgotado todas as possibilidades de recurso ordinário.
O Tribunal Constitucional tem reiterado a necessidade deste recurso ser instrumental, ou seja, só será útil o recurso
nos casos em que a eventual decisão pela não constitucionalidade ou pela ilegalidade da norma se irá projetar na
decisão do litígio do tribunal a quo.

Página 41 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
O direito a este recurso é irrenunciável (artigo 73º da LTC), não sendo admitida a sua renúncia antecipada, sendo,
no entanto, sempre possível a desistência. Há uma clara distinção no que à extensão do recurso diz respeito, consoante
os seus autores. Desta forma, quando interposto pelo Ministério Público aproveita a todos aqueles que tiverem
legitimidade para o interpor, sendo que quando é interposto por um interessado pode aproveitar aos restantes (artigo
74º da LTC). Não pode haver adesão a um recurso para o Tribunal Constitucional (artigo 74º, nº 4, da LTC).

O prazo para interpor este recurso é de 10 dias contados da notificação da decisão, podendo o prazo ser
interrompido (artigo 75º da LTC). A interposição deste recurso interrompe a contagem dos prazos para outros recursos
que possam porventura caber da decisão recorrida. A sua interposição é feita através de requerimento (artigo 75º-A
da LTC).
A decisão sobre a admissibilidade do recurso é da competência do tribunal a quo, não vinculando o Tribunal
Constitucional, sendo, no entanto, possível efetuar uma reclamação (artigos 76º e 77º da LTC). O Tribunal
Constitucional também não se encontra vinculado à indicação feita pelo recorrente na interposição, das normas que
considera terem sido violadas, estando, contudo, vinculado às normas cuja inconstitucionalidade ou ilegalidade foram
invocadas, estando assim os poderes de cognição do Tribunal limitados pelo pedido apenas em parte (artigo 79º-C da
LTC).

Regra geral os recursos para o Tribunal Constitucional têm efeito suspensivo, sobre o andamento do processo-base
e a eficácia da decisão recorrida, sendo, no entanto, previstas, algumas exceções (artigo 78º da LTC).

A decisão do Tribunal pode ser uma decisão sumária proferida pelo relator após exame liminar do recurso, quando
a questão for simples de decidir ou o recurso for manifestamente infundado (artigo 78º-A da LTC).
A decisão do Tribunal faz caso julgado no processo apenas quanto à questão suscitada. Se for dado provimento ao
recurso, os autos baixam ao tribunal a quo para que este reforme a sua decisão (artigo 80º da LTC). O Tribunal
Constitucional não pode substituir a decisão recorrida, podendo apenas revogá-la total ou parcialmente, visto a
questão da inconstitucionalidade ou ilegalidade ser incidental.
O Tribunal pode ainda proferir decisões interpretativas, devendo a norma ser aplicada pelo juiz a quo de acordo
com a interpretação dada por aquele Tribunal. A decisão não produz efeitos fora do processo em que é proferida.
Assim, uma norma julgada inconstitucional ou ilegal pode continuar a ser aplicada, sendo que após este ter sido o
entendimento do Tribunal Constitucional em três casos diferentes, face à mesma norma, inicia-se um processo de
fiscalização abstrata, por iniciativa de qualquer um dos juízes do Tribunal Constitucional ou pelo Ministério Público
(artigo 82º da LTC).

Nestes recursos é obrigatória a constituição de advogado (artigo 83º da LTC), o que é compreensível tendo em
conta todo o processo, e a necessidade de um aprofundado conhecimento do sistema jurídico e da Constituição.
Uma crítica apontada a este sistema de recurso para o Tribunal Constitucional, no âmbito de um processo, é o facto
de nestes casos o Tribunal Constitucional funcionar como uma 4ª instância, sendo o último recurso dos recursos da
parte vencida. Contudo, apesar de se reconhecer que isto possa de facto suceder com bastante frequência, este facto
não é assim tão significativo, por haver uma análise do recurso prévia à sua avaliação e decisão pelo Tribunal
Constitucional, feita pelo tribunal recorrido e pelo relator, o que funciona como uma espécie de “triagem” destes
casos.

11. Distinção entre Regras e Princípios (Doutor Micael Teixeira)

O CPC é repleto de regras, porém, os princípios assumiram grande importância com a renovação de 2013, o que
torna a situação paradoxal: temos uma enormidade de regras e uma grande importância dada aos princípios. Dá a
ideia que o próprio legislador reconhece que um código com tantas regras não é favorável.
Assim, surge a importância da distinção entre regras e princípios. Para este efeito, surgiram vários critérios.

Página 42 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
Critério do caráter hipotético-condicional:
 Regras seriam prescrições que seguem uma estrutura hipotético-condicional, do género, “Se X, então, Y”.
 Princípios não são prescrições diretamente aplicáveis aos casos concretos, mas antes critérios orientadores
da interpretação das regras e da integração de lacunas.
Críticas:
o Se o critério é a estrutura “Se X, então Y”, na realidade isso não pode ser bem assim. A mesma estrutura
também pode ser utilizada para descrever princípios.
o O mesmo enunciado legal pode ser interpretado como contendo uma regra ou como contendo um
principio.
o O enunciado legal não é determinante para a qualificação do preceito como regra ou princípio

Critério do modo final da aplicação:


 Regras Se o critério é a estrutura “Se X, então Y”, na realidade isso não pode ser bem assim. A mesma estrutura
também pode ser utilizada para descrever princípios. O mesmo enunciado legal pode ser interpretado como
contendo uma regra ou como contendo um principio. O enunciado legal não é determinante para a
qualificação do preceito como regra ou princípio.
 Princípios são prescrições aplicadas de modo relativo/contingente, no sentido em que mesmo que o caso se
localize no âmbito de aplicação de certo principio, tal não implica necessariamente que as consequências
jurídicas associadas a esse principio se apliquem, tal dependerá da ponderação que será necessário efetuar
para saber se, no caso em análise, outro principio igualmente aplicável deverá prevalecer no caso concreto;
modo de aplicação gradual pois o estado de coisas que o principio promove pode ser mais ou menos atingido.
Críticas:
o Não é correto afirmar que se se verifica a previsão de uma norma então isso implica que se aplique a
estatuição. Se uma regra determina que uma empresa, se usarem apenas materiais de fabrico de origem
nacional pagam menos impostos. A empresa usou sempre materiais nacionais e só houve uma cadeira
em que usou material importado. Nesse caso seria melhor utilizar a interpretação teleológica, o sentido
da norma era promover a economia nacional, e esta não foi prejudicada pro uma cadeira. De modo que
não se verifica a previsão, mas se deve aplicar a estatuição. Também pode acontecer que não se verifique
a previsão, mas se aplique a estatuição.
o Não é correto afirmar que o seu modo de aplicação é gradual. Isto porque, no caso das regras estamos a
comparar o caso concreto com o caso previsto na norma; no caso dos princípios estamos a comparar o
comportamento do caso concreto, mas com o estado de coisas ou a finalidade prevista no principio.
Conclusão: Quanto ao modo de aplicação as regras e dos princípios, as diferenças que vimos não são assim tão
adequadas. O grau de abstração com que se descreve o comportamento é sempre alto, no caso das regras é
tendencialmente menor. Esta é a diferença relevante.

Critério do conflito normativo (Ronald Dworkin e Robert Alexy)


O critério baseia-se uma forma de resolver casos que põem em conflito princípios e regras.
 Conflito entre regras: Este conflito seria possível ser aferido em abstrato.
 Conflito entre princípios: conflito aferido através da ponderação.
Críticas:
o A consideração e que o conflito entre regras ocorre em abstrato e de que implica que uma das regras seja
considerada inválida é uma contingência, mas não uma necessidade.
o A decisão entre aplicar uma regra ou aplicar uma exceção pode implicar um processo de ponderação de
motivos semelhante à ponderação dos princípios.
o Não é verdade que no caso de conflito entre regras, se uma se aplica e outra não, a que não se aplica não
serve para nada.
o Para chegar à decisão e um caso, no caso de colisão e princípios, tem sempre de se aplicar um e outro
não.

Página 43 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
A posição adotada quanto às regras e princípios é a de Humberto Ávila. De acordo com o autor:

 Regras são as normas que regulam diretamente certo comportamento, descrevendo-o como impositivo,
permissivo ou proibitivo ou atribuindo-lhe certos efeitos jurídicos e indiretamente visam, através dessa
regulação, contribuir para a realização de determinada finalidade.

 Princípios são normas que apresentam uma estrutura inversa: impõem diretamente a finalidade que deve ser
promovida, da qual decorre, indiretamente, o comportamento que deve ser regulado para que aquela,
tendencialmente, se realize.

Os princípios também são normas suscetíveis de, na ausência das regras, regular comportamentos, fazendo-o
apenas de forma diferente das regras e não sendo necessário que alguma regra intermedeie essa regulação.
Sempre que um principio regule algum comportamento sem que uma regra esteja envolvida, o principio estará a
exercer a função integrativa, segundo a qual apesar de não existir qualquer regra aplicável, a finalidade prosseguida
pelo principio impõe uma regulação do caso orientada à realização dessa finalidade.

Os princípios têm cinco funções:


 Função integrativa: se não tivermos uma regra que assegure certa finalidade, devemos pressupor que o
principio se aplica a esse caso de forma a prescrever o comportamento necessário para tal.
 Função definitória: os principio mais específicos ajudam a delimitar o conteúdo dos princípios mais
abrangentes axiologicamente superiores aos primeiros.
 Função interpretativa: o principio mais abrangente serve como referencia interpretativa das regras que visam
prosseguir a finalidade que é consagrada por esse principio.
 Função bloqueadora: no caso de existir uma regra que impede a realização de uma finalidade, devemos
afastá-la e aplicar diretamente o principio de modo a assegurar a finalidade/bem jurídico.
 Função rearticuladora: os sobreprincípios permitem uma compreensão integrada dos subprincípios e das
regras que os concretizam.

As regras são critérios de decisão que apresentam enormes vantagens. Permitem:


 Determinar com maior certeza qual a regulação legal aplicável a determinado caso – previsibilidade;
 Determinar a maior objetividade envolvida na aplicação das regras, o que reduz a discricionariedade do
julgador, evitando que a decisão do caso seja influenciada por preferências pessoais do julgador;
 Fomentar a uniformidade dos casos - igualdade;

Como as regras preveem a situação que regulam, apresentam uma maior rigidez do que os princípios. São, por isso,
mais suscetíveis de regular um caso de forma inadequada dado que nem sempre terão em conta todas as suas
características relevantes.
Por outro lado, os princípios, porque determinam a regulação dos casos em função do prosseguimento de certa
finalidade e não da enumeração da característica dos mesmos, apresentam vantagens, nomeadamente conferir ao
julgador maior liberdade na determinação da regulação aplicável ao caso. Em contrapartida, apresentam as
desvantagens opostas às vantagens das regras: imprevisibilidade, subjetividade e desigualdade.

A regulação da realidade pelo direito não pode prescindir adequadamente da utilização conjunta de regras e de
princípios, pois as vantagens e desvantagens de ambos os critérios são complementares.
A utilização exclusiva de princípios originaria um regime legal demasiado imprevisível, potencialmente
desigualitário e sujeito à arbitrariedade.
A utilização exclusiva de regras redundaria num regime demasiado rígido e potencialmente injusto.

O atual regime de processo civil é dominado por regras, talvez até em demasia. Existem regras (em exagero) que
parecem ter subjacente a ideia de querer regular tudo, muitas vezes consagrando complexidade processuais sem
justificação razoável”.
Página 44 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
Exemplos:
 Artigo 652º, CPC: o legislador regula as funções do relator com tal minúcia que especifica que ele deve
“ordenar as diligências que considere necessárias” e “julgar os incidentes suscitados”.
 Artigo 973º, CPC: seria realmente necessária uma norma que imponha que o tribunal recolha à sala se
conferências e que aí decida não apenas parte, mas toda a questão?
 Artigo 346º, CPC: a desconstrução do processo de apreciação probatória é desnecessária, sendo muito mais
claro e simples assumir que o julgador, considerando todos os meios de prova apresentados forma a sua
convicção, não o fazendo faseadamente.

A superabundância de regras pode justificar-se pelo contexto histórico de criação do CPC (1939) nos períodos em
que vigorava a tendência de centralização do poder.
Apesar das alterações, apenas a reforma de 2013 começou a alterar esta realidade: apesar de não se alterar muito
no que toca às regras, os princípios ganharam maior importância.
Isto é relevante na medida em que face ao excesso de regras, se torna importante compreender o significado dos
princípios, já que estes são as finalidades pelas quais nos devemos orientar.
A própria abundância de regras acaba por implicar que se dê maior prevalência aos princípios pela circunstância
prática que uma lei tão exaustiva como o CPC levou já alguns operadores judiciários começaram a defender uma
interpretação de acordo com a qual se exclui a admissibilidade de qualquer regime processual que não esteja
expressamente previsto nas regras do CPC, sem que se considere sequer a resolução do problema pelos princípios. A
ideia é que “se uma lei tão completa como o CPC não prevê certa solução, ela não deve ser admitida”.

12. A responsabilidade civil do Estado pelo mau funcionamento da administração


da Justiça (Professor Doutor Ricardo Pedro)
O processo civil inclui vários intervenientes que podem casuar danos. Neste caso, coloca-se a questão de saber
quem é o responsável.
Antes de 2008, apenas existia um diploma que estava pensado para a responsabilidade civil na administração. Em
2008, com a entrada em vigor da Lei 67/2007 de 31 de dezembro, passa-se de uma lógica de irresponsabilidade, para
uma lógica de responsabilidade. Esta lei vem regular a responsabilidade civil do Estado e das demais entidades
públicas.
Esta lei regula o funcionamento do Estado em todas as suas três funções: administrativa, legislativa e jurisdicional,
sendo que a que nos vais interessar é a função jurisdicional e dentro dessa, o capítulo III.
Para além deste capítulo, é também importante o artigo 22º, CRP de acordo com o qual o estado é civilmente
responsável pelos danos causados no âmbito do exercício das suas funções, pelos seus funcionários. Este artigo cobre
todas as funções
Releva, ainda o artigo 483º, não por ter aplicação neste caso, mas por nos permitir compreender quais os fatores
que importam para que haja responsabilidade civil:
 Ilicitude
Partiu-se, então, destes requisitos e adaptou-se cada um eles a cada função do
 Culpa
Estado. Deste modo, há uma configuração na função administrativa, diferente da
 Dano
configuração jurisdicional e diferente da função legislativa
 Nexo de causalidade

A função jurisdicional é aquela levada a cabo pelo juiz (e apenas pelo juiz) com força de caso julgado e apenas
quando ele aplica ao direito os factos tidos como comprovados.
Dentro do tribunal existe ainda uma outra função que não a jurisdicional (já que esta só pode ser levada a cabo
pelo juiz) aplicada aos atores que intervêm também na ação de um tribunal à parte do juiz. O juiz não exerce também,
apenas uma função jurisdicional, exerce outro tipo de funções. Deste modo, quando o juiz funciona fora da função
jurisdicional, pode ser responsabilizado fora desse quadro, e dentro do quadro da administração da justiça.

Página 45 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
Pelo exercício da função jurisdicional pode haver responsabilidade civil pelo erro judiciário (artigo 13º), excluindo-
se as exceções previstas na lei. O erro judicial é a violação manifestamente grosseira de normas constitucionais ou
legais – erro de direito, da violação dos pressupostos ou da concretização dos pressupostos da matéria de facto – erro
de facto.
No artigo 13º/2, é-nos dito que só existe responsabilidade por erro judiciário se antes da ação de responsabilidade
civil houver uma ação que revogue a decisão errada. Porém, há matérias que não são objeto de recurso, não havendo
possibilidade de haver uma ação de responsabilidade.
Ainda que depois do recurso haja erro, pode haver responsabilidade civil do Estado. A jurisprudência, criou uma
definição tão restrita de erro judiciário que acabam por haver muitos casos de erro, mas que poucos são procedentes.
Isto quer dizer que a responsabilidade por administração da justiça ganha mais peso do que propriamente a
responsabilidade jurisdicional.
Exemplos de casos:
 Imagine-se que um agente da execução bate à porta do 1ºA para fazer uma penhora, mas em vez de penhorar
A, penhorou B. a família quando chegou a casa não tinha nada. Quem é que indemniza isto? (penhora do
indevido)
 Imagine-se agora que um agente de execução tem em causa a penhora de 3mil€. O agente penhorou um casal
de idosos e penhorar todo o recheio da casa. Todo o transtorno deve ou não ser indemnizável? (penhora do
indevido)
 Outro caso foi um queixoso, perante a prática de um crime, fez uma queixa ao MP que o notificou sempre
como arguido em vez de queixoso. O Estado deve ser ou não responsável? (notificação errada)
 Imagine-se que um processo demora 20 anos. O Estado deve ou não ser responsável? (violação de prazo
razoável)
Nota: Portugal já foi notificado inúmeras vezes pelo Tribunal dos Direitos Humanos por violação de prazo razoável.

Artigo 12º: o Estado é civilmente responsável pelos danos juridicamente responsáveis no âmbito da justiça, sendo
aplicável o regime da responsabilidade civil pela administração da justiça. Diz-se então que a função de administração
da justiça deve ter um tratamento parecido com a função administrativa. Este pressuposto surge na lógica de que o
bem jurídico em causa na administração da justiça é a tutela de direitos.
Este artigo deve ser reinterpretado no sentido dos requisitos próprios da administração da justiça. Nomeadamente:
 Mal funcionamento: sucedâneo que agrupa a ilicitude e a culpa, que existe quando se viola a tutela de direitos.
 Dano: segue o regime do direito das obrigações, mas com duas nuances. relevam os danos em massa. Imagine-
se que um hacker invade um tribunal criminal e publica todos os processos. Na administração da justiça, os
danos em massa trazem o problema de que normalmente afetam os direitos fundamentais. No tratamento
destes casos, o juiz tem de ter uma cautela adicional pare verificar se há afetação destes direitos ou não.
 Nexo de causalidade: Teoria da causalidade adequada (563º). Releva a teoria de perda de oportunidade
processual. Esta teoria tem a ver com o seguinte: imagine-se que está a decorrer um processo crime que
demora, demora, e chega ao fim e não há decisão, violando o dever de decisão por prescrição do processo.

Artigo 14º: não trata propriamente da responsabilidade civil da administração da justiça, trata apenas da
responsabilidade civil de alguns sujeitos, nomeadamente dos magistrados. O artigo diz-nos então em que medida os
magistrados são responsabilizados. Não é só o Estado responsabilizado, também os atores judiciais o são. Não pode
haver ação de responsabilidade direta contra os juízes. Tem de haver uma ação de responsabilidade contra o Estado,
e depois o Estado respondendo, ou não, dá regresso à responsabilidade perante o juiz – ação de regresso.

Artigo 9º/4, LAV: aos árbitros aplica-se o regime aplicado aos juízes, ou seja, o artigo 13º/1 da lei 67/2007. Há então
uma analogia. Deve a responsabilidade ser diferente consoante a arbitragem seja necessária ou voluntária? A doutrina
diverge. Na opinião do orador não há distinção.

Página 46 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
13. Princípios do direito processual civil

13.1. O principio da tutela jurisdicional efetiva

Existem princípios relevantes em todos os processos e contextos e outros que são apenas relevantes no processo
específico.
O principio da tutela jurisdicional é um principio fundamental relacionado com o direito de acesso aos tribunais e
que tem dignidade constitucional.

Artigo 20º, CRP


Acesso ao direito e tutela jurisdicional efetiva
1. A todos é assegurado o acesso ao direito e aos tribunais para defesa dos seus direitos e interesses legalmente
protegidos, não podendo a justiça ser denegada por insuficiência de meios económicos.
2. Todos têm direito, nos termos da lei, à informação e consulta jurídicas, ao patrocínio judiciário e a fazer-se
acompanhar por advogado perante qualquer autoridade.
3. A lei define e assegura a adequada proteção do segredo de justiça.
4. Todos têm direito a que uma causa em que intervenham seja objeto de decisão em prazo razoável e mediante
processo equitativo.
5. Para defesa dos direitos, liberdades e garantias pessoais, a lei assegura aos cidadãos procedimentos judiciais
caracterizados pela celeridade e prioridade, de modo a obter tutela efetiva e em tempo útil contra ameaças
ou violações desses direitos.

Relevam também:

Artigo 10º, DUDH


Toda a pessoa tem direito, em plena igualdade, a que a sua causa seja equitativa e publicamente julgada por um
tribunal independente e imparcial que decida dos seus direitos e obrigações ou das razões de qualquer acusação em
matéria penal que contra ela seja deduzida.

Artigo 6º/1, Convenção Europeia dos Direitos do Homem


Qualquer pessoa tem direito a que a sua causa seja examinada, equitativa e publicamente, num prazo razoável por
um tribunal independente e imparcial, estabelecido pela lei, o qual decidirá, quer sobre a determinação dos seus
direitos e obrigações de carácter civil, quer sobre o fundamento de qualquer acusação em matéria penal dirigida
contra ela. O julgamento deve ser público, mas o acesso à sala de audiências pode ser proibido à imprensa ou ao
público durante a totalidade ou parte do processo, quando a bem da moralidade, da ordem pública ou da segurança
nacional numa sociedade democrática, quando os interesses de menores ou a proteção da vida privada das partes no
processo o exigirem, ou, na medida julgada estritamente necessária pelo tribunal, quando, em circunstâncias
especiais, a publicidade pudesse ser prejudicial para os interesses da justiça.

Artigo 2º, CPC


Garantia de acesso aos tribunais
1. A proteção jurídica através dos tribunais implica o direito de obter, em prazo razoável, uma decisão judicial
que aprecie, com força de caso julgado, a pretensão regularmente deduzida em juízo, bem como a
possibilidade de a fazer executar.
2. A todo o direito, exceto quando a lei determine o contrário, corresponde a ação adequada a fazê-lo reconhecer
em juízo, a prevenir ou reparar a violação dele e a realizá-lo coercivamente, bem como os procedimentos
necessários para acautelar o efeito útil da ação.

Página 47 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
Artigo 52º/3, CRP
Direito de petição e direito de ação popular
É conferido a todos, pessoalmente ou através de associações de defesa dos interesses em causa, o direito de ação
popular nos casos e termos previstos na lei, incluindo o direito de requerer para o lesado ou lesados a
correspondente indemnização, nomeadamente para:
a) Promover a prevenção, a cessação ou a perseguição judicial das infrações contra a saúde pública, os direitos
dos consumidores, a qualidade de vida, a preservação do ambiente e do património cultural.
b) Assegurar a defesa dos bens do Estado, das regiões autónomas e das autarquias locais.

O direito de ação popular relaciona-se com as situações que não afetam apenas uma pessoa.
O direito de participação procedimental e de ação popular está estabelecido na Lei nº 83/95 de 31 de agosto.

Artigo 31º, CPC


Ações para tutela de interesses difusos
Têm legitimidade para propor e intervir nas ações e procedimentos cautelares destinados, designadamente, à
defesa da saúde pública, do ambiente, da qualidade de vida, do património cultural e do domínio público, bem como
à proteção do consumo de bens e serviços, qualquer cidadão no gozo dos seus direitos civis e políticos, as associações
e fundações defensoras dos interesses em causa, as autarquias locais e o Ministério Público, nos termos previstos na
lei.

Interesses individuais generalizados Tratam-se de interesses coletivos (comunidade organizada) e difusos (grupo
de pessoas não organizadas).

“Nos processos de ação popular, o autor representa por iniciativa própria, com dispensa de mandato ou
autorização expressa, todos os demais titulares dos direitos ou interesses causa que não tenham exercido o direito de
autoexclusão previsto no artigo seguinte, com as consequências constantes da presente lei” (artigo 14º, LAP)

“(…) os efeitos das sentenças transitadas em julgado proferidas no âmbito de processo que tenham por objeto a
defesa de interesses individuais homogéneos abrangem os titulares dos direitos ou interesses que não tiverem
exercido o direito de se autoexcluírem da representação” (art. 19.º/1 da LAP).

13.1.1. O patrocínio judiciário

O patrocínio judiciário é mencionado no artigo 20º/2, CRP, quando esta diz que “todos têm direito […] ao
patrocínio judiciário”. Esta instituto está regulado nos artigos 40º - 52º, CPC.

O patrocínio judiciário consiste na representação e assistência técnica das partes por profissionais de foro que
conduzem técnico-juridicamente o processo, mediante a prática de ato processuais adequados e respeitando as regras
legais. Os profissionais a quem são conferidos poderes de representação são os advogados (artigo 12º, Lei da
organização do sistema judiciário) e os solicitadores (artigo 15º, LOSJ).

O patrocínio judiciário e a representação forense procuram garantir aos cidadãos a assistência necessária e adequada
para recorrerem aos tribunais, efetivando os princípios da tutela jurisdicional e da igualdade das partes, visto que ao
serem representados por profissionais está assegurado um mínimo de igualdade de armas entre elas.

O patrocínio judiciário deve ser exercido com isenção e independência, no caso dos advogados, para garantir o
exercício livre e independente de mandato que lhes seja confiado.
A lei assegura certas imunidades como o direito à proteção do segredo profissional, o direito ao livre exercício do
patrocínio e ao não sancionamento pela prática de atos conformes ao estatuto da profissão, estando o mandato
sujeito à tutela disciplinar exclusiva da Ordem dos Advogados, sem prejuízo da responsabilidade profissional.
Página 48 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
13.1.1.1 O patrocínio judiciário obrigatório

Em determinadas ações o patrocínio judiciário é obrigatório, impondo a lei a constituição de advogado (artigos 40º
e 58º, CPC). Esta obrigatoriedade prende-se com razões:
 Técnicas: os interesses das partes são melhor acautelados por profissionais que dispõem e conhecimentos
técnico-jurídicos;
 Psicológicas: apenas profissionais conseguem atuar com a serenidade desinteressada necessária para ajuizar
objetivamente as situações e os direitos e deveres das partes;
 Natureza pública: a adequada e competente condução processual das ações contribui para a boa
administração da justiça;
Nos casos em que a constituição de advogado não é obrigatória, podem as partes pleitear por si próprias ou ser
representadas por advogados estagiários ou solicitadores (artigo 42º, CPC).

O artigo 40º/1, CPC elenca os casos em que é obrigatória a constituição de advogado:


a) Causas de competência de tribunais com alçada em que seja admissível recurso ordinário;
b) Nas causas em que seja sempre admissível recurso, independentemente do valor;
c) Nos recursos superiores e nas causas propostas nos tribunais superiores;

O artigo 58º, CPC elenca os casos de processo executivo em que é obrigatória a constituição de advogado:
 Execuções de valor superior à alçada da Relação e nas de alor igual ou inferior a esta quantia, mas superior à
alçada de1ª instância, quando tenha lugar algum procedimento que siga os termos do processo declarativo.
Ou seja, execuções superiores a 30mil€, valor superior à alçada da Relação, ou superiores a 5mil€ superior à
alçada do Tribunal de 1ª instância, se os procedimentos da execução seguirem os termos do processo
declarativo.

Nos Julgados de Paz pelo artigo 38º/2 da Lei 78/2001 a assistência é obrigatória quando:
 A parte seja analfabeta, desconhecedora da língua portuguesa ou, por qualquer outro motivo, se encontrar
numa posição de manifesta inferioridade, devendo neste caso o juiz de paz apreciar a necessidade de
assistência segundo o seu prudente juízo

Nos processos administrativos é obrigatória a constituição de mandatário (artigo 11º/1, CPTA) nos termos previstos
no CPC.

Em processo penal, a constituição de advogado opera o seu caráter obrigacional por força do artigo 64º, CPP e no caso
dos assistentes pelo artigo 70º, CPP:
 Artigo 64º/1: é obrigatória a assistência do defensor:
a) Nos interrogatórios de arguido detido ou preso;
b) Nosinterrogatórios feitos por autoridade judiciária;
c) No debate instrutório e na audiência;
d) Em qualquer ato processual, à exceção da constituição de arguido, sempre que o arguido for cego, mudo,
surdo, analfabeto, desconhecedor da língua portuguesa, menor de 21 anos, ou se suscitar a questão da
sua inimputabilidade u da sua imputabilidade diminuída;
e) Nos recursos ordinários ou extraordinários;
f) Nos casos a que se referem os artigos 271º e 294º;
g) Na audiência de julgamento realizada na ausência do arguido;
h) Nos demais casos que a lei determinar;
 Artigo 70º/1: Os assistentes são sempre representados por advogado.

Nos processos tributários pelo artigo 6º, CPPT é obrigatória a constituição de advogado:
 Nas causas judiciais cujo valor exceda o dobro da alçada do tribunal tributário de 1ª instância;
 Nos processos da competência do Tribunal Central administrativo e do Supremo Tribunal Administrativo;
Página 49 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
As entidades de RAL devem também assegurar que as partes não têm de recorrer a um advogado, podendo fazer-se
acompanhar ou representar por terceiros em qualquer fase do procedimento (artigo 10º/2, Lei 144/2015)

Sendo obrigatória a constituição, o juiz, oficiosamente, ou a requerimento da parte contraria, notifica a parte
contrária para constituir advogado. Se a parte não o fizer, dependendo do caso:
 O réu é absolvido da instância;
 Não tem seguimento o recurso;
 Fica sem efeito a defesa;

13.1.1.2. O mandato judicial

Os advogados, advogados estagiários e solicitadores só podem representar as partes se tiverem sido investidos no
poder de o fazer. Tem que lhes ser atribuído um mandato judicial (artigo 43º) que pode ser conferido de várias formas:
 Procuração forense: Nomeação do mandatário pela parte representada;
 Nomeação oficiosa do mandatário por outra entidade (Ordem dos Advogados ou juiz – artigo 51º);
 Em casos de emergência, a título de gestão e negócios (artigo 49º);
Contrato pelo qual o advogado
(mandatário) representa a parte
(mandante)

Focando a procuração forense, esta consiste no ato unilateral pelo qual o mandante (cliente) confere ao
mandatário (advogado ou profissional) poderes de representação, designados poderes forenses. Desta forma, deve
distinguir-se:
 Procuração: meio pelo qual alguém atribuía outrem, voluntariamente, poderes representativos para certos
atos específicos;
 Representação forense da procuração;
 Representação extrajudicial;

O mandato, tal como é definido no artigo 1157º CC é o contrato pelo qual se confere poderes de representação
ao mandatário para a prática de um ou mais atos jurídicos, no caso do mandato com representação, em que é
outorgada procuração, o mandatário pode praticar atos jurídicos em nome do representado.
Deve constituir a forma de documento público ou particular (artigo 43º, Código de Notariado e da legislação
especial) ou de “declaração verbal da parte no auto de qualquer diligência que se pratique no processo”. A sua eficácia
vai depois depender da aceitação – expressa ou tácita - do mandatário.

O mandato conferido no âmbito do patrocínio judiciário é um mandato especial, designado mandato forense que
envolve a atribuição de poderes específicos ao mandatário para representar o mandante em todos os atos e termos
de um processo principal e respetivos incidentes. Ou seja, é um mandato assente na atribuição de um poder geral
para pleitear em juízo.
A procuração forense é o instrumento deste mandato, deve conter a declaração de que o respetivo outorgante
dá poderes forenses para agir em juízo, o que não inclui poderes de representação extrajudicial.

Entre os poderes conferidos ao mandatário releva o direito de substabelecer: documento pelo qual o advogado
transfere para outro os poderes forenses que recebeu do cliente para outro advogado, de modo a que o exercício do
patrocínio judiciário não fique em risco, caso o advogado não possa comparecer em tribunal.
O substabelecimento pode ser feito:
 Com reserva de poderes: o primeiro advogado mantém os seus poderes e há uma pluralidade de mandatários;
 Sem reserva de poderes: o primeiro advogado substitui-se totalmente, restando apenas um mandatário;

Página 50 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
Quando a procuração lhes permita fazê-lo, podem os mandatários (artigo 45º):
 Confessar a ação Quando o mandatário pratica um destes atos sem ter poderes para
 Transigir sobre o seu objeto tal, ou através de um mandato irregular, o ato será nulo e a sentença
 Desistir do pedido ou da instância homologatória será notificada pessoalmente ao mandante (291º/3).

Se este não responder, o ato será ratificado e a nulidade


suprida. Se declarar que não ratifica, então este não produzirá
efeitos em relação a si.

A falta de constituição e advogado não deve ser confundida com a situação e falta de procuração (artigo 48º/1),
na qual está presente um advogado, mas este age sem a devida procuração. Neste caso, o juiz fixa um prazo certo
para que ele a apresente.

O mandatário tem alguns deveres expostos no artigo85º da Lei 15/2005. O advogado está obrigado a:
 Defender direitos, liberdades e garantias;
 Pugnar pela boa aplicação das leis;
 Pugnar pela rápida administração da justiça e pelo aperfeiçoamento da cultura e instituições jurídicas;

Quando o mandatário agir de má-fé e tiver responsabilidade pessoal e direta nesses atos, manda o artigo 545º do
CPC dar conhecimento do facto à Ordem dos Advogados.

O termo do mandato judicial está previsto no artigo 47º, CPC. Este pode terminar através de:
 Revogação
 Renuncia

Os efeitos da revogação e da renuncia produzem-se a partir da notificação.


Nos casos em que seja obrigatória a constituição e advogado, se a parte, depois de notificada da renuncia, não
constituir novo mandatário no prazo de 20 dias:
 Suspende-se a instância (se a falta for do autor exequente);
 O processo segue os seus termos (se a falta for do reu, do executado ou do requerido);
 Extingue-se o procedimento ou o incidente inserido na tramitação ou de qualquer ação (se a falta for do
requerente, oponente ou embargante;

Vicissitudes: Falta, insuficiência e irregularidade do mandato (artigo 48º CPC):


 “A falta de procuração e a sua insuficiência ou irregularidade podem, em qualquer altura, ser arguidas pela
parte contrária e suscitadas oficiosamente pelo tribunal.
Se a situação não for regularizada, fica sem efeito tudo o que tiver sido praticado pelo mandatário.

13.1.1.3. A nomeação oficiosa

Este sistema de proteção jurídica encontra-se regulado na Lei 34/2004de 29 de julho que compreende o apoio
judiciário, a consulta jurídica e a informação jurídica. Aplicação não só à nomeação de advogado, mas também à
nomeação de solicitador.

O apoio judiciário e a nomeação de um patrono é conferido a quem demonstre insuficiência económica e não
encontre na circunscrição judicial em questão quem aceite voluntariamente o seu patrocínio (artigo 51º/1, CPC).

Página 51 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
Em direito à proteção jurídica (artigo 7º):
 Cidadãos portugueses e da UE;
 Estrangeiros e apátridas com título de residência válido num Estado da UE;
 Pessoas com domicilio ou residência habitual num Estado da UE;
 Pessoas sem fim lucrativo;

A nomeação de um advogado ou solicitador pode ser requerida à Ordem dos Advogados, pelos tribunais,
secretarias ou serviços do MP, órgãos da policia criminal ou pelo cidadão em questão, junto dos Serviços de SS, através
do modelo oficial a entregar em qualquer serviço de atendimento público desta entidade, juntamente com as provas
alegadas de insuficiência económica.
O prazo para decisão é de 30 dias, sendo o silencia equivalente a deferimento tácito do pedido (artigo 25º).
No caso de insuficiência económica em que o cidadão já tenha instaurado a ação e pago as custas iniciais, deverá
formular de imediato o seu pedido de apoio judiciário, pedindo com ele a nomeação de um patrono. Este
requerimento suspende os prazos que estiverem em curso, que serão retomados quando o advogado nomeado for
notificado ou quando o indeferimento do pedido for notificado ao requerente.
A lei prevê o fim do apoio judiciário, na sua totalidade ou em alguma das suas modalidades, se o requerente ou o
seu agregado familiar adquirirem meios suficientes para a sua dispensa (artigo 13º). Neste processo, tem o
beneficiário o direito a ser ouvido.

A lei determina que a nomeação do Patrono cabe à Ordem dos Advogados, que o faz através de um método
escolhido por si, dentro de uma lista onde os advogados e solicitadores interessados se inscrevem livremente. Os
patronos, aquando da candidatura deverão indicar a sua área de circunscrição em que pretendem atuar e a
modalidade de prestação de serviços que pretendem exercer.
Se o mesmo facto der causa a diversos processos, o sistema assegurará que, preferencialmente, será nomeado o
mesmo patrono para todos eles (artigo 3º).
Da mesma forma que o requerente pode pedir substituição do patrono (artigo 32º), também o patrono pode pedir
escusa (artigo 34º). O pedido de escusa é apreciado pela ordem e decidido no prazo de 15 dias.

13.1.2. Acesso ao Direito e aos Tribunais

O regime especifico do acesso ao Direito e aos Tribunais serve para garantir que as partes conseguem aceder ao
direito para garantia do principio da tutela jurisdicional.

Este regime encontra-se na Lei 34/2004 de 29 de julho, alterada pela Lei 47/2007, de 28 de agosto.

Artigo 1º, Lei 34/2004


1. O sistema de acesso ao direito e aos tribunais destina-se a assegurar que a ninguém seja dificultado ou
impedido, em razão da sua condição social ou cultural, ou por insuficiência de meios económicos, o
conhecimento, o exercício ou a defesa dos seus direitos.

Concretização do princípio da tutela jurisdicional

Uma distinção relevante a fazer é entre Informação jurídica e Proteção jurídica.

O direito à informação jurídica, enunciado no artigo 20º/2, CRP é fundamentalmente instrumental ao acesso à
justiça. Isto porque o conhecimento e o exercício dos direitos é uma das condições para que a “todos seja assegurado
o acesso ao direito e aos tribunais para defesa dos seus direitos e aos tribunais para defesa dos seus direitos e
interesses legalmente protegidos, não podendo a justiça ser denegada ou por insuficiência de meios económicos”.

Página 52 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
A proteção jurídica é um direito das pessoas singulares e coletivas sem fins lucrativos, que não tenham condições
económicas de acederem ao direito e aos tribunais.
A proteção jurídica inclui:
 Consulta jurídica: constitui uma das modalidades da proteção jurídica e pode compreender a realização de
diligência extrajudiciais ou comportar mecanismos informais de mediação e conciliação, conforme constar dos
gabinetes de consulta jurídica, regulamento cuja aprovação compete ao Ministério da Justiça. É relevante para
esclarecimento técnico sobre o direito aplicável a questões ou casos concretos nos quais avultem interesses
pessoais legítimos ou direitos próprios lesados ou ameaçados de lesão (artigo 14º, Lei 34/2004). Não se aplica
às pessoas coletivas sem fins lucrativos, que apenas têm proteção na modalidade de apoio judiciário.
 Apoio judiciário: O apoio judiciário aplica-se em todos os tribunais, qualquer que seja a forma do processo,
nos processos de contraordenações e em algumas estruturas de resolução alternativa de litígios.

Tem direito à proteção jurídica as pessoas mencionadas no artigo 7º da Lei 34/2004 (ver 13.1.1.3, a nomeação
oficiosa).

13.1.2.1. A proteção jurídica

Não dispondo de natureza gratuita o serviço público de administração de Justiça, verifica-se a existência de
encargos económicos inerentes ao processo para as partes, que podem impedir ou restringir, total ou parcialmente,
o acesso ao direito e aos tribunais, representando uma efetiva privação a este acesso constitucionalmente garantido
por insuficiência de meios económicos.

A concessão de proteção jurídica baseia-se na apreciação da situação de insuficiência económica do requerente,


efetuada de acordo com critérios objetivos previstos no artigo 8º, Lei 34/2004, que visa restringir a disparidade de
resultados a que se assistia na apreciação dos requerimentos apresentados, garantindo que este benefício é concedido
a todos os que deste efetivamente carecem e na medida da respetiva necessidade.

O conceito de insuficiência económica para efeitos de obtenção da proteção jurídica traduz-se na apreciação do
rendimento, património e despesa permanente do agregado familiar do requerente da proteção jurídica e na
verificação da inexistência por parte deste de condições objetivas para suportar integral e pontualmente os custos
inerentes a um processo, cujos critérios objetivos de apreciação constam do artigo 8º-A e cujo modo de prova se
encontra expressamente determinado no artigo 8º-B. O critério primordial de aferição da insuficiência económica do
requerente é, então, o rendimento (global) do respetivo agregado familiar.

A insuficiência económica das pessoas singulares é aferida de acordo com os critérios do artigo 8º-A/1

O valor do rendimento relevante para efeitos de proteção jurídica corresponderá ao valor do rendimento líquido
do agregado familiar (obtido após a dedução do imposto sobre o rendimento e das contribuições para a SS), acrescido
do montante da renda financeira implícita calculada com base nos ativos patrimoniais do agregado familiar, e
deduzidos os encargos com as necessidades básicas e com a habitação do agregado familiar.
Em suma, o rendimento relevante para efeitos de proteção jurídica é o montante que resulta da diferença entre o
valor do rendimento líquido completo do agregado familiar e o valor da dedução relevante para efeitos de produção
jurídica e calcula-se nos termos previstos no anexo à referida lei.

A prova da insuficiência económica incumbe ao requerente, nos termos do artigo 342º/1, sendo que o requerente
da proteção jurídica deve demonstrar a sua insuficiência económica para suportar os custos de um processo pelos
meios legalmente previstos.

Página 53 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
Artigo 8ºA/6: possibilidade de aferição da insuficiência económica apenas considerando os rendimentos auferidos
pelo próprio requerente da proteção jurídica. Isto de modo a regular determinadas situações, em que atender ao
rendimento do agregado familiar representaria, para os cidadãos requerentes da proteção jurídica, uma efetiva
restrição no acesso ao direito e aos tribunais, em violação do direito constitucionalmente garantido.

Artigo 8ºA/7: Um conjunto de situações em que a apreciação da insuficiência económica deve ser realizada atendendo
unicamente ao respetivo rendimento individual, mediante solicitação do requerente, designadamente as situações
em que o requerente da proteção jurídica litiga contra um ou mais membros da sua família, por exemplo, no âmbito
de ações de divórcio litigioso.

Visando atenuar a objetividade inerente ao critério de insuficiência económica previsto para as pessoas singulares
introduziu-se um mecanismo de apreciação dos pedidos de proteção jurídica, que permite ao dirigente máximo dos
serviços de segurança social competente para a decisão sobre a concessão do benefício decidir, com fundamentação
especial, de forma diversa da que resultaria da aplicação estrita dos critérios previstos no referido diploma, se esta
aplicação determinar no caso concreto, uma manifesta denegação do acesso ao direito e aos tribunais.

O apoio judiciário compreende várias modalidades (artigo 16º/, Lei 34/2004):


 Dispensa de taxa de justiça e demais encargos com o processo;
 Nomeação e pagamento da compensação de patrono;
 Pagamento da compensação de defensor oficioso;
 Pagamento faseado de taxa de justiça e demais encargos com o processo;
 Nomeação e pagamento faseado da compensação de patrono;
 Pagamento faseado da compensação de defensor oficioso;
 Atribuição de agente da execução;

As modalidades de concessão de apoio judiciário são mais profundas ou menos, o que variará em primeiro lugar
consoante o requerente seja ou não pessoa coletiva,

Sendo pessoa coletiva:


 O apoio judicial não compreenderá as modalidades de pagamento faseado (das alíneas d) à f)) – artigo 16º/6
 Não podem entidades com fins lucrativos recorrer ao apoio judiciário uma vez que se entende que estas
devem integrar na sua atividade económica os custos do acesso ao tribunal, sem apoio público.

Sendo pessoa singular a escolha da modalidade variará consoante o grau de carência económica e o processo a
que se destine.

Artigo 16º/2: o pagamento o valor das prestações da modalidade das alíneas d) a f) do número 1, ou seja, os
pagamentos faseados, dependerão do rendimento relevante para efeitos de proteção jurídica.

Artigo 16º/3 e 4: Se as prestações não forem exigidas até os quatro anos seguintes desde o trânsito em julgado da
decisão final da causa deixam de o poder ser. Este prazo conta-se desde o trânsito em julgado da última decisão final,
no caso de haver pluralidade de causas relativas ao mesmo requerente ou a elementos do seu agregado familiar. O
legislador incluiu estes prazos como forma de limitar temporalmente a exigibilidade das prestações.

Do Artigo 18º resultam várias ideias:


 O pedido pode ser efetuado por qualquer das partes no processo, em qualquer estado da causa (para a propor
ou com ela seguir), num modelo oficial, junto da Segurança Social, por telecópia, por via postal ou transmissão
eletrónica.
 Deverá ser requerido antes da primeira intervenção processual, exceto no caso em que a situação de
insuficiência económica seja superveniente, caso em que deverá sê-lo antes da primeira intervenção após o

Página 54 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
conhecimento da situação de insuficiência económica – aqui, suspender-se-á o prazo para pagamento da taxa
de justiça e demais encargos até a decisão definitiva do pedido de apoio judiciário.
 O apoio judiciário manter-se-á sempre: quer para efeitos de recurso, quer nos processos que sigam por apenso
àquele a que a concessão se verificar, assim como na declaração de incompetência do tribunal e em execuções
fundadas em sentença proferida em processo em que essa concessão se tenha verificado. A lei prevê o fim do
apoio no caso em de o requerente ou o seu agregado familiar adquirirem meios suficientes para a dispensa
de apoio.
 É conveniente precisar que a efetiva aplicação do direito só é possível quando se verifica igualdade no acesso
à justiça entre os cidadãos. Assim, creio que o apoio judiciário é uma importante vertente do acesso ao direito.
Consiste no mecanismo direcionado à promoção dessa mesma igualdade que leva à justiça que o direito exige.

Têm legitimidade para requerer a proteção judiciária (artigo 19º):


 O interessado na sua conceção
 O Ministério Público em representação do interessado;
 Advogado, advogado estagiário ou solicitador em representação do interessado;

Qualquer uma destas entidades tem de demonstrara incapacidade económica do interessado.

O requerente deverá, ainda, apresentar todos os documentos necessários à concessão de apoio judiciário, tendo duas
alternativas (artigo 22º):
 Entregar pessoalmente os documentos necessários;
 Enviar o requerimento por correio para qualquer serviço de atendimento ao público da SS;

A decisão compete ao dirigente máximo dos serviços de SS da área de residência ou sede do requerente, devendo
ser tomada num prazo de 30 dias (artigo 25º). Se não houver audiência prévia dos interessados, o prazo fica suspenso
até ao final do prazo dado ao requerente para se pronunciar.
Caso decida não conceder o apoio judiciário, antes de tomada a decisão final, o requerente tem de ser ouvido. A
este propósito são dados 10 dias ao requerente para se pronunciar por escrito. Não havendo resposta tempestiva, a
decisão torna-se definitiva. Caso o pedido de apoio judiciário seja indeferido, há a obrigação do pagamento das custas
devidas.
Esta decisão não é suscetível de recurso, mas pode ser impugnada judicialmente.

A impugnação judicial (artigo 27º) pode ser intentada diretamente pelo interessado, devendo este entrega-la,
sob forma escrita, no serviço de segurança social que apreciou o pedido de proteção jurídica, no prazo de 15 dias, após
o conhecimento da decisão.
O serviço de segurança social dispõe de 10 dias para revogar a decisão sobre o pedido de proteção jurídica ou, no
caso de decidir mantê-la, enviar a cópia autenticada do processo administrativo ao tribunal competente.

É competente para conhecer e decidir a impugnação o tribunal da comarca em que está sedeado o serviço de
segurança social que apreciou o pedido de proteção jurídica ou, caso o pedido tenha sido formulado na pendência da
ação, o tribunal em que esta se encontra pendente (artigo 28º).

13.1.3. Custas processuais

As custas judiciais (artigo 3º/1 do RCP e artigo 529º, CPC) correspondem ao total da taxa de justiça, mais os
encargos e as custas de parte. São assim, “o conjunto de despesa exigível por lei, resultante da mobilização do sistema
judiciário para resolução de determinado conflito, e inerente à condução do respetivo processo”

O regime atual das custas dispõe-se por vários diplomas. Nos termos do artigo 3º do RCP (Lei 34/2008), estas
incluem três tipos de despesas:

Página 55 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
Algumas das despesas a que o acesso a tribunais dá lugar são, por exemplo:
 Custas processuais:
o Taxa de justiça: montante devido pelo impulso processual do interessado. Correspondem ao valor
medido em UC (Unidade de Conta Processual2) (artigo 5ºe ss., RCP e 530º, CPC);
o Encargo: despesas que se vão produzindo ao longo do processo resultantes da condução do mesmo,
requeridas pelas partes ou ordenadas pelo tribunal (artigo 20º, RCP e 532º, CPC);
o Custas de parte: despesas realizadas nas ações, nos incidentes, nos procedimentos cautelares ou
outros e nos recursos, devida à parte que, com ganho de causa, os implementou ou lhes deduziu
oposição. São pagas, regra geral, pela parte vencida (artigo 26º/2, RCP). O artigo 533º, CPC declara
quatro despesas que integram as custas de parte:
 Taxas de justiça
 Encargos efetivamente suportados pela parte
 Remunerações pagas ao agente de execução
 Honorários do mandatário
 Forma de garantir o pagamento das custas: taxas de justiça inicial e subsequente, que representam
adantamentos por conta da taxa de justiça final (custas de parte);
 Constituição de patrono advogado

As custas são aplicadas a todos os processos (artigos 1º e 2º), considerando-se como processo autónomo cada
ação, execução, incidente, procedimento cautelar ou recurso, corram ou não por apenso, desde que o mesmo possa
dar origem a tributação própria.
Existem, porém, algumas exceções previstas no artigo 4º que isentam algumas pessoas em determinadas
circunstâncias. É, por exemplo, o caso do Ministério Público, ou dos menores ou respetivos representantes legais, nos
recursos de decisões relativas à aplicação, alteração ou cessação de medidas tutelares, aplicadas em processos de
jurisdição de menores.
As isenções dividem-se em isenções subjetivas (nº1) e isenções objetivas ou processuais (nº2), isto é, as que estão
ligadas a um tipo de processo em causa.

O não pagamento de custas tem como consequências:


 Recusa da petição inicial pela secretaria (artigos 558º e 560º/f, CPC)
 Não pagamento pelo réu, após insistência no mesmo, resulta no desentranhamento da contestação e o réu é
retirado do processo (artigo 570º/6, CPC)

13.1.4. A arbitragem necessária

Uma questão relevante no acesso aos tribunais consiste em saber se os mecanismos de arbitragem necessário
põem em causa esse principio do acesso aos tribunais. O próprio estado poderia impor a resolução de litígios por via
arbitral o que restringe o acesso aos tribunais judiciais. mas será que insto é conforme com o artigo 20º da CRP?
Esta questão foi recentemente testada a propósito do tribunal arbitral do desporto, tendo surgido um acórdão
acerca dessa mesma questão (acórdão 781/2013).
A particularidade do TAD é ter matérias de arbitragem necessária. As primeiras leis que tentaram isolar o TAD das
outras estruturas judiciais forma declaradas inconstitucionais. O tribunal constitucional acabou por estabelecer que
só se houver recurso é que há possibilidade de estabelecer um regime de arbitragem necessária.
Nos casos do TAD, basta uma parte querer arbitragem para haver arbitragem. Isto gera um problema: estamos a
impor a arbitragem muitas vezes sem possibilidade de recurso.

2
A unidade de conta é atualizada anualmente de acordo com o valor do Indexante dos Apoios Sociais (IAS). Aquando do início
de um processo, o valor que se deve considerar é precisamente aquele que estiver em vigor no momento em que o processo é
iniciado, não interessando o momento em que a taxa tem de ser paga. No entanto, no caso de um incidente, por exemplo, ser
deduzido em ano diferente, a taxa de justiça para essa ação já será a que corresponde à UC daquele ano. Ainda mais importa
referir que cada ação, execução, procedimento, incidente ou recurso têm uma tributação própria.
Página 56 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
No consumo, existe um direito potestativo do consumidor á arbitragem. O prestador do serviço não tem liberdade
de não ver aquele litigio resolvido por via arbitral. E como em alguns casos não há recurso, a ver o litigio
definitivamente resolvido por via arbitral.

Em que casos pode haver recurso? Se as partes convencionaram. Mas e se não houver convenção em concreto,
quais serão as regras a aplicar? As do centro de arbitragem.

13.1.5. Negócios jurídicos processuais

Os negócios jurídicos processuais, ainda que processuais, são atos de liberdade, que permitem às partes limitar o
seu acesso ao direito.

13.1.5.1. Pactos privativo e atributivo de jurisdição

Os artigos 94º e 95º regulam a modificação da competência por convenção das partes. Em ambos os casos, a
competência, que normalmente seria atribuída a um dado tribunal para dirimir determinado litigio, poderá ser
modificado por acordo das partes.
Se a convenção tiver por fim alterar a jurisdição competente para dirimir um litigio determinado, ou os litígios
eventualmente decorrentes de certa relação jurídica, estamos perante um pacto de jurisdição que pode ser atributivo
ou privativo (artigo 94º).

Pacto privativo  retira-se a competência a um ou a vários tribunais portugueses, atribuindo-a em exclusivo a um ou


a vários tribunais estrangeiros;

Pacto atributivo  resulta a atribuição da competência exclusiva ou alternativa, a um ou a vários tribunais


portugueses.

O artigo 94º/1, CPC atribui às partes a possibilidade de convencionaram qual a jurisdição competente para decidir
um litigio (atual ou eventual) desde que este decorra se uma relação jurídica conexa com mais do que uma ordem
jurídica.
A “designação convencional pode envolver a atribuição de competência exclusiva ou meramente alternativa com
a dos tribunais portugueses quando esta não exista, presumindo-se que seja exclusiva em caso de dúvida (artigo
94º/2).

A eleição do onde se exerce a jurisdição é preciso reunir os seguintes requisitos de validade (artigo 94º/3):
 Litigio sobre direitos disponíveis;
 Aceitação pela lei do tribunal designado – competência exclusivas;
 Interesse sério de ambas as partes, ou se apenas de uma, quando não seja inconveniente para a outra parte;
 Não pode violar a competência exclusiva dos tribunais portugueses;
 Tem de haver sempre acordo escrito ou confirmação pro escrito, bem como menção da jurisdição
competente;

Quanto ao acordo escrito ou confirmação por escrito, o artigo 94º/4 vem esclarecer: “qualquer meio de comunicação
que fique prova escrita”. Este meio de comunicação pode conter diretamente o acordo ou pode dele constar cláusula
que remeta para documento onde esteja vertido o acordo.

Artigo 95º/1: veda às partes a disponibilidade de afastarem as regras de competência em razão da:
 Matéria
 hierarquia
 valor da causa

Página 57 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
Permite, no entanto, que as partes, por convenção expressa, afastem a aplicação das regras de competência em razão
de território, salvo os casos a que se refere o artigo 104º, casos em que a incompetência relativa é de conhecimento
oficioso.

Artigo 95º/3: equipara a obrigatoriedade e respetiva força vinculativa, da convenção de competência de certo foro à
própria determinação de competência derivada da lei.

Existem, no essencial, quatro requisitos para que o acordo seja válido:


1. Deve respeitar a forma do contrato, fonte da obrigação, contanto que seja reduzido a escrito (artigo 95º/2
com remissão para o artigo 94º/4);
2. Deve designar as questões a que se refere ou especificar o facto jurídico suscetível de as originar (artigo 95º/2
e 95º/4);
3. Deve indicar o tribunal português concretamente competente (artigo 95º/2);
4. Não pode versar sobre os casos previstos no artigo 104º/1 (95º/1, parte final);

Regulamento nº1215/2012 de 12 de dezembro: aplicável em todos os Estados-Membros da UE com o objetivo de


facilitar a justiça, prevendo especialmente normas relativas à competência dos tribunais e ao reconhecimento da
execução, rápidos e simples, e decisões em matéria civil e comercial proferidas nos Estados-Membros,
independentemente da natureza da jurisdição (artigo 1º).
Este regulamento determina os órgãos jurisdicionais dos vários estados-Membros que são competentes para decidir
sobre um litigio em matéria civil e comercial sempre que exista um elemento internacional.
Estabelece ainda que as decisões proferidas num Estado-Membro são reconhecidas nos outros Estados-Membros sem
necessidade de qualquer outra formalidade especial. Ou seja, uma decisão proferida num Estado-Membro que seja
executória nesse país é igualmente executória noutro estado-Membro, sem necessidade de uma declaração de
executoriedade.

13.1.5.2. Cláusulas contratuais gerais

Em traços gerais, tem-se entendido que não é possível alguém se vincular a arbitragem por via de uma cláusula
contratual geral. Ou seja, se a vinculação resultar de uma CCG, considera-se que a parte não teve oportunidade de
discutir e que por isso não houve uma verdadeira decisão e recorrer a arbitragem.

“São em absoluto proibidas, designadamente, as cláusulas contratuais gerais que (…) excluam ou limitem de
antemão a possibilidade de requerer tutela judicial para situações litigiosas que surjam entre os contratantes ou
prevejam modalidades de arbitragem que não assegurem as garantias de procedimento estabelecidas na lei” (Artigo
21º-H, DL 446º/85).

13.2. O principio da eficiência processual (Joana Campos Carvalho)

Este é o princípio segundo o qual o processo deve atingir a sua finalidade com o mínimo de gastos possíveis (tempo
e dinheiro).
O principio da eficiência processual convive com todos os outros princípios do processo civil. Quando dizemos que
o processo deve ser levado a cabo com o mínimo de recursos possíveis temos de ter em conta que este principio tem
como limite todos os outros princípios. Não podemos ter uma situação em que para cumprir este principio, ponhamos
em causa outros princípios.
Por exemplo, o juiz não pode tomar uma decisão que permite resolver muito rapidamente o litigio se essa decisão
violar o principio do contraditório.

Página 58 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
Este principio subdivide-se em quatro outros princípios, dos quais relevam os três primeiros:
 Principio da economia processual
 Principio da razoabilidade dos prazos
 Principio para a autocomposição do litígio
 Principio da adequação procedimental

13.2.1. Principio da economia processual

Este princípio tem duas vertentes: a economia de processos e a economia de atos.

Economia de processos: cada litígio deve ser resolvido através do menor numero de processos possível. Este principio
impõe que o numero de ações propostas para resolver o mesmo litigo seja o menor possível. Sempre que possamos
resolver o mesmo litigio por três ações, duas ou uma, devemos preferir a solução que abarque o menos numero de
ações.

A este propósito, o CPC inclui vários institutos que têm como finalidade garantir que o mesmo litígio é resolvido
através do menor número de ações possível. Relevam:
 Litisconsórcio voluntário: permite que as ações sejam propostas por vários autores ou contra vários réus,
evitando a multiplicação de ações quando o conflito envolve mais do que duas partes (Artigo 32º, CPC).
 Coligação: permite que duas ações que podiam existir em separado sejam juntas num mesmo processo (artigo
36º, CPC)
 Conjugação de pedidos numa mesma ação:
o Pedidos alternativos (artigo 553º)
o Pedidos subsidiários (artigo 554º)
o Cumulação de pedidos (artigo 555º)
 Reconvenção: Permite que o réu aproveite a mesma ação para formular ele próprio pedidos contra o autor
(artigo 583º);

Existem, também institutos que permitem salvar a ação, economizando processos:


 Incidentes de intervenção de terceiros que permitem chamar pessoas que são importantes para a ação depois
de esta já ter começado e de já haver uma ou mais peças processuais;
 Convite ao suprimento das exceções dilatórias (artigo 590º/2,a, CPC);

Estes institutos são apenas exemplos deste principio da economia de processos. Contudo, como qualquer principio,
o principio da economia de processos deve orientar a atuação, designadamente do juiz, em todos os momentos.
Portanto, num caso em que o juiz tenha de tomar uma opção entre uma solução que permite economia de processos,
assim o deverá fazer.

Economia de atos: dentro de cada processo deve haver o menor número de atos possível, devendo cada ato ser o
mais simples possível. Podemos encontrar exemplos desta vertente:
 Artigo 130º: “não é licito realizar no processo atos inúteis”;
 Artigo 131º/1: “os atos processuais têm a forma que, nos termos mais simples, melhor corresponda ao fim
que visam atingir”;

O conteúdo deste principio sobrepõe-se em grande medida ao principio da adequação procedimental.

13.2.2. Princípio da razoabilidade dos prazos

Fala-se aqui de economia temporal. Daqui resulta que o processo deve ter a menor duração possível e nunca uma
duração superior à que é considerada razoável.
Página 59 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
Este principio é tão importante que tem assento constitucional no artigo 20º/4 da CRP.
De nada serve propor uma ação para conseguir um fim e apenas conseguir uma decisão quando o problema se
esgotava num período de tempo muito inferior. Uma decisão só é útil se for tomada enquanto o problema ainda existe.
Justifica-se então, com forma de proteger o acesso ao direito, que a constituição preveja que os processos têm de ter
uma duração razoável.
Não há, efetivamente, acesso ao direito se eu propor hoje uma ação e só tiver uma solução daqui a 20 anos. O
problema não foi resolvido pelo que não houve realmente acesso ao direito.

Este principio deve ser uma preocupação do juiz, mas sobretudo uma preocupação do Estado, já que o juiz não
controla grande parte dos fatores que influenciam a duração do processo.

Nota: As durações médias dos processos têm sido bastante longas nos últimos anos (37 meses nos processos cíveis,
desde 2013).

Tendo assento constitucional, este principio é um direito fundamental. Se temos o direito, o Estado tem o dever,
pelo que se houver incumprimento pode exigir-se da parte do Estado de uma indemnização: responsabilidade civil do
Estado.
Este principio tem também acolhimento no artigo 6º da CEDH: “qualquer pessoa tem direito a que a sua causa seja
examinada, equitativa num prazo razoável”.

13.2.3. Principio da orientação para a autocomposição do litígio

Este principio determina que sempre que possível, o litigo deve ser resolvido pelas próprias partes. Isto é, a decisão
para determinado conflito deve ser, em primeira linha, das partes e só se isso não for possível, do juiz.
Os casos em que as partes resolvem o seu próprio conflito têm duas vantagens:
 Poupança de recursos;
 Solução à medida daquele caso concreto e não fruto da aplicação de uma norma geral (que não têm em conta
todas as circunstâncias de um caso);

Incentivos à resolução pela mediação:


 Artigo 273º/1, CPC: em qualquer estado da causa, e sempre que o entenda conveniente, o juiz pode
determinar a remessa do processo para mediação, suspendendo a instância, salvo quando alguma das partes
expressamente se opuser a tal remessa.
 Artigo 13º/2, LM: se suspendem os prazos de caducidade e prescrição dos direitos enquanto estiver a decorrer
um processo de mediação. Se eu tiver um direito prestes a prescrever, eu não preciso de propor uma ação
judicial para impedir que o direito prescreva, pode recorrer-se à mediação, durante a qual o prazo vai
suspender.
 Artigo 533º/4, CPC: o autor que, podendo recorrer a estruturas de resolução alternativa de litígios, opte pelo
recurso ao processo judicial, suporta as suas custas de parte, independentemente do resultado da ação.

13.2.3.1.A conciliação judicial

A conciliação judicial é um meio de resolução de litígios pelo qual o terceiro ajuda as partes a chegar a uma solução
para o seu litigio. A diferença para com a mediação é que na conciliação, o terceiro tem posterior poder de decisão:
 Juiz
 Arbitro
 Empregador num processo judicial

Página 60 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
O poder de decisão posterior afeta duas das principais características da mediação:
 Confidencialidade: é essencial para que haja confiança e, muitas vezes, numa passagem das posições aos
interesses; a parte nunca vai admitir nada que possa comprometer o futuro sucesso da ação;
 Empowerment: não há plenos poderes das partes

Não temos no Ordenamento Jurídico regime para a conciliação. Apenas existe regime para a conciliação judicial
(artigo 594º do CPC).

Quando a causa couber no âmbito dos poderes de disposição das partes, pode ter lugar, em qualquer estado do
processo, tentativa de conciliação,“Em
desde que as partes
qualquer estadoconjuntamente
do processo” o requeiram ou o juiz a considere
oportuna, mas as partes não podem ser convocadas exclusivamente para esse fim mais do que uma vez”
A tentativa de conciliação pode ter lugar em qualquer estado do processo

Qualquer estado do processo:


 Pode ser uma das finalidades da audiência prévia (artigo 591º/1, a)
 Pode ser realizada na audiência final (artigo 604º/1)
 Pode ser realizada em qualquer momento do processo

Podendo ocorrer em qualquer momento do processo é obrigatória em algum momento?


Não, apesar de o artigo 604º estabelecer que o juiz procura conciliar as partes. Este artigo tem de ser conjugado
com o artigo 594º - “quando o juiz considerar oportuno”.

Este entendimento está em linha com os princípios do atual processo civil, designadamente com o principio da
gestão processual.
É também o único entendimento que se adequa à natureza de conciliação (apenas é útil nalguns casos, não deve
ser encarada como um obstáculo processual a passar rapidamente).

 Há um caso em que a conciliação é obrigatória: sempre que as partes o requeiram conjuntamente.

O papel do juiz na tentativa de conciliação aufere-se de acordo com o artigo 594º/3. De acordo com este artigo, a
tentativa de conciliação é presidida pelo juiz, devendo este empenhar-se ativamente na obtenção da solução de
equidade mais adequada aos termos do litigio.
A principal pergunta que se coloca é saber se o juiz pode/deve controlar o conteúdo do que ali é discutido. A
conclusão é que na conciliação o juiz controla o processo e, em parte, o resultado e as partes controlam o conteúdo.

Resultado da conciliação:
 Desistência do pedido: o autor pode entender que quer desistir do pedido;
 Desistência da instância: o autor não abdica do seu direito, mas abdica do processo naquele momento, o que
não quer dizer que não possa propor nova ação no futuro;
 Confissão: o réu confessa que o autor tem razão;
 Transação: as partes alcançam o acordo;
 Sem sucesso;

Página 61 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
No caso de uma conciliação com sucesso, o juiz controla o resultado através da homologação (artigo 290º).
O juiz não tem de confirmar se aquele acordo a que se chegou trouxe a mesma solução que o direito traria para
aquele caso, ou se a solução é sequer justa. O juiz não se deve deixar contaminar pelo seu conhecimento jurídico,
procurando vetar o acordo por qualquer motivo.
O juiz apenas controla a validade daquela declaração/contrato:
 Capacidade
 Legitimidade
 Objeto (artigo 280º) – impossível, contrário à lei ou á ordem pública

O juiz controla se as partes poderiam celebrar aquele contrato fora do processo. Não se seria aquela a solução
que o direito tem para o caso, nem se uma das partes cedeu mais do que outra.

Alguns motivos de insucesso da conciliação podem ser:


 Falta de preparação dos juízes
 Mentalidades
 Falta de tempo

Esta é uma fase que pode, nalguns casos, e se bem conduzida, pode ser muito útil para a prossecução do objetivo
do processo civil – resolver o litígio entre as partes.
Enquanto instituto pode, ainda, contribuir para a melhoria da qualidade da justiça.

13.3. O principio da gestão processual


Artigo 6º, CPC.

1. Cumpre ao juiz, sem prejuízo do ónus de impulso especialmente imposto pela lei às partes, dirigir ativamente o
processo e providenciar pelo seu andamento célere, promovendo oficiosamente as diligências necessárias ao
normal prosseguimento da ação, recusando o que for impertinente ou meramente dilatório e, ouvidas as partes,
adotando mecanismos de simplificação e agilização processual que garantam a justa composição do litígio em prazo
razoável.
2. O juiz providencia oficiosamente pelo suprimento da falta de pressupostos processuais suscetíveis de sanação,
determinando a realização dos atos necessários à regularização da instância ou, quando a sanação dependa de ato
que deva ser praticado pelas partes, convidando estas a praticá-lo.

13.3.1. Evolução histórica

Antes do CPC de 2013, tínhamos o CPC de 1939 onde tínhamos dois pontos essenciais:
 Principio do dispositivo: o andamento do processo dependia do impulso das partes e não dependia do juiz;
isto queria dizer que eram as partes que tinham a responsabilidade de propor a ação.
 Principio da legalidade das formas: o juiz não podia alterar as regras de tramitação do processo nem o
conteúdo ou a forma dos atos processuais. Aquilo que era dado ao juiz era um guião que o juiz tinha,
basicamente, que seguir. O que se pretendia era assegurar a certeza e a previsibilidade do processo.

Depois disto, houve uma grande reforma processual em 95/96 que levou a que alguns destes princípios fossem
alterados.

No principio do dispositivo:
 Manteve-se a necessidade de impulso inicial correspondente à propositura da ação;
 Uma vez proposta a ação, cabe ao juiz providenciar pelo andamento do processo, salvo quando a lei exija um
impulso das partes (artigo 256º/1);

Página 62 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
No principio da legalidade das formas processuais:
 A legalidade das formas manteve-se como regra
 Adequação formal (artigo 265ºA): o juiz pode introduzir variações no esquema legal se este for desadequado
às particularidades. Enquanto no CPC de 39 era sempre necessário convocar uma audiência na fase intermédia
do processo, ao abrigo da adequação formal essa audiência deixou de ser obrigatória (pode ser dispensada se
as partes já discutiram tudo o que havia a discutir).

Ainda na reforma de 95/96:


 Alterou-se também a orientação para a decisão de mérito, na qual se passou a exigir uma intervenção ativa
do juiz na sanação da falta de pressupostos processuais sanáveis (artigo 265º/2).
 A economia processual (artigo 137º e 37º/2) passou a concretizar-se em dois subprincípios (economia dos
atos dentro do próprio processo e economia de processos numa perspetiva de concentrar no mesmo processo
a apreciação de tantas questões quanto fosse possível).

Procedeu-se desta forma até 2006, altura em que surgiu um processo experimental que assentava em dois aspetos
essenciais:
 O juiz assume um papel determinante na direção do processo;
 A instrumentalidade do processo civil face ao direito substantivo conduz à mitigação do formalismo
processual. O processo serve para atingir um fim: a ideia é que não é o fim que tem de se adaptar ao
instrumento, é o instrumento que tem de se adaptar ao fim, daí que se preveja a mitigação do formalismo,
quando esse formalismo possa prejudicar o fim visado.

Quadripartição pela qual se optou no regime processual civil experimental:


 Adaptação da tramitação às necessidades da causa;
 Adequação da forma e do conteúdo dos aspetos processuais;
 Eficiência dos processos;
 Agilização traduzida por alguns instrumentos;

13.3.2. O CPC de 2013

Chegando ao CPC de 2013, se olharmos para o artigo 6º verificamos que o principio da gestão processual é um
principio fundamental do processo civil. Isto resulta não apenas dos trabalhos preparatórios, da sua inserção
sistemática, mas sobretudo do papel que a gestão processual desempenhou ao longo de toda a reforma.

A gestão processual tem quatro vertentes:


 Ónus de impulsos subsequente: cabe ao juiz, sem prejuízo do ónus de impulso subsequente, dirigir
ativamente o processo providenciando oficiosamente as diligencias necessária ao decorrer da ação. Não pode
o processo, salvo nos casos previstos na lei, ficar parado por ausência de impulso. É verdade que há desvios
em relação a esta regra, mas a regra geral não deixa de ter importância por isso. O importante é que se tenta
ao máximo que o processo não fique parado.
 Eficiência processual: “recusando o que for impertinente ou meramente dilatório”. A referência à eficiência
abrange os atos das partes e os atos do juiz.
 Simplificação e agilização do processo: “adotando mecanismos de simplificação e agilização processual que
garantam a justa composição do litigio em prazo razoável”.
 Sanação da falta de pressupostos processuais sanáveis

A gestão processual é um macroprincipio que agrupa uma série de outros aspetos e de outros princípios.
Podemos concordar ou discordar quanto á inclusão de alguns destes princípios dentro da gestão processual, mas esta
congrega uma série de ideias fundamentais.

Página 63 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
A direção ativa do processo caracteriza a nova roupagem da gestão processual. Se, no CPC1939, o que se exigia do
juiz era uma abordagem passiva – “andamento regular e célere do processo” -, no CPC2013, aquilo que se exige é uma
abordagem proactiva que dirija ativamente e providencie pelo seu andamento célere – “dirigir ativamente o processo
e providenciar pelo seu andamento célere”.
Por exemplo, se uma das partes falecer, no âmbito do código anterior, o juiz teria de notificar a parte contrária
para que juntasse aos atos uma certidão. Hoje em dia, o próprio juiz providencia ele próprio a certidão através dos
registos. Se pode ele próprio atuar, não há motivo para esperar pelas partes.

Dentro da agilização e da simplificação há duas posições:


 Estas têm um significado autónomo (Paulo Faria, Ana Luísa Loureiro);
 Tradução do poder de adequação Formal (Lebre de Freitas);

Esta vertente de gestão processual não se diferencia das outras pela sua natureza vinculada. A agilização e
simplificação do processo podem alargar ou encurtar o guião processual. Reconduz-se, no essencial, à adequação
formal.

No CPC de 2013, a gestão processual apresenta-se coma seguinte quadripartição:


 Impulso subsequente
 Oficiosidade Quatro vertentes que caracterizam o macroprincipio
 Adequação formal da gestão processual
 Eficiência processual

A adequação formal está prevista no artigo 547º e tem três vertentes:


o A adequação da tramitação às especificidades da causa;
o A adaptação da forma e conteúdo dos atos processuais;
o O equilíbrio entre a legalidade e a liberdade das formas processuais;

O juiz segue a forma legal podendo afastá-la quando:


o Desadequada ao caso concreto;
o Apesar de adequada, exista outra forma ainda mais adequada ao caso;

Exemplos: tramitação processual


o Inquirição de testemunhas na audiência prévia;
o Alteração da ordem de produção da prova na audiência final;
o Réplica fora dos casos previstos na lei;
Forma e conteúdo dos atos processuais
o Substituição do depoimento oral por depoimento escrito;
o Sentença oral;

A gestão processual tem como finalidades:


 A prevalência da decisão de mérito sobre a decisão formal; este aspeto representa o principio da oficiosidade
– o juiz deve providenciar pela sanação da falta de pressupostos processuais quando estes são sanáveis, ou
sanando ele próprio, ou convidado a parte a sanar.
 A obtenção de decisão em prazo razoável;
 Salvaguardar a instrumentalidade das regras processuais face ao direito substantivo;

Página 64 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
13.3.3. Recorribilidade e gestão processual

A regra geral¸ é a da recorribilidade das decisões judiciais. Apesar disto, existem limites na recorribilidade, como
limites em razão do valor, por exemplo.
Um outro limite são os despachos proferidos no uso de um poder discricionário (artigo 630º/1). Estes são
irrecorríveis porque envolvem juízos de oportunidade.
Exemplo: inspeção judicial (artigo 490º/1) – “sempre que o julgue conveniente” remete-nos para um juízo de
oportunidade.

 A discricionariedade não se confunde com a arbitrariedade.

Os poderes discricionários também têm limites. Deste modo, são recorríveis:


 Quando não se verifiquem os respetivos pressupostos (“uso legal do poder discricionário”);
 Quando há uma violação dos princípios do processo equitativo (artigo 20º/4, CRP). O processo equitativo é
um limite a qualquer processo judicial. O artigo 630º/2 tem uma enumeração de alguns princípios do processo
equitativo, mas não de todos. Apesar de o nº1 não fazer referência a este principio, existindo uma cláusula na
CRP, esta prevalece sobre regras processuais.

Controlo pelo Tribunal de Recurso


Poder discricionário Poder vinculado
Controlo de legalidade sem entrar no mérito; E controlo de legalidade envolve a análise do mérito;
Em caso de ilegalidade: juízo cassatório Em caso de ilegalidade: juízo substitutivo

Antes do CPC de 2013 não existia regra especial, pelo que a conclusão dependia da qualificação do despacho
(vinculado ou discricionário). A doutrina encontrava-se dividida.
Com a reforma de 2013 passou a haver uma oscilação entre a irrecorribilidade (2011) e a recorribilidade (2013).
Temos hoje uma solução intermédia no artigo 630º/2: A regra consiste na irrecorribilidade dos despachos de
adequação formal, mas estes despachos tornam-se recorríveis quando coloquem em causa a igualdade, o
contraditório, a aquisição de factos ou o direito à prova.

Daqui surgem varias questões:

1. Poder vinculado ou discricionário?

 A gestão processual compreende poderes vinculados e discricionários, o que implica que esta seja um instituo
heterogéneo (Paulo Ramos de Faria/ Ana Luísa Loureiro)
 Os despachos de adequação formal são proferidos ao abrigo de um poder discricionário (Miguel Teixeira de Sousa)

O objetivo dos conceitos indeterminados não é conferir poderes discricionários ao juiz, mas apelar a uma
ponderação técnica e objetiva face ao caso concreto.

Artigos 6º e 547º: cabe ao juiz determinar o ato a praticar (discricionariedade criativa). Noutros casos, a lei limita o
conteúdo da gestão processual (tentativa de conciliação – artigo 594º).

Conclusão:
 Quando se verifiquem os pressupostos dos artigos 6º e 547º , o juiz deve gerir o processo – poder de exercício
vinculado.
 Os artigos 6º/1 e 547º atribuem ampla liberdade ao juiz na conformação do conteúdo do despacho de gestão
processual – discricionariedade de decisão.

Página 65 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
A recorribilidade limitada não decorre, pois, da discricionariedade. Isto com os fundamentos da:
 Efetividade no exercício dos poderes de adequação formal;
 Maior proximidade do juiz de 1ª instância em relação ao processo;

2. Âmbito de aplicação do artigo 630º/2

O artigo 630º/2 só abrange, literalmente, os despachos de adequação formal.

Interpretação extensiva: a solução da recorribilidade limitada justifica-se da mesma forma para as restantes vertentes
da gestão processual.

3. Recorribilidade limitada e processo equitativo

O artigo 630º/2 só admite o recurso dos despachos de gestão processual quando estes contendam com:
 Igualdade
 Contradição
 Aquisição processual de factos
 Direito à prova

Processo equitativo (artigo 20º/4, CRP)


 Prazos razoáveis;
 Direito à prova;
 Fundamentação;
 Contraditório;
 Publicidade;
 Igualdade;
 Transparência;
 Justa composição do litígio;

Numa interpretação conforme à Constituição: os despachos de gestão processual serão recorríveis sempre que esteja
em causa um principio do processo equitativo.

Gestão processual  fundamento e limite no processo equitativo

Controlo pelo Tribunal de Recurso


Despacho de gestão processual Omissão de gestão processual
(poder vinculado)
Controlo limitado à violação do processo equitativo; O juiz tem o dever de gerir o processo
Em caso de ilegalidade: juízo cassatório A omissão conduz a nulidade processual*

*mesmo nos casos de omissões deve seguir-se a regra do artigo 630º/2 e só quando está em causa a violação do
processo equitativo é que é recorrível.
No final, o que se controla é a violação do processo equitativo (artigo 630º/2).

13.4. O principio do dispositivo

No século XIX, o juiz desempenhava o papel de mero “árbitro” num jogo protagonizado pelas partes. Nos dias de
hoje, o juiz deixa de se reduzir a este papel, e passam a ser-lhe atribuídos mais poderes, pautando-se o direito
processual civil pela cooperação entre o tribunal e as partes.

Página 66 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
Conforme o artigo 3º do CPC, o tribunal só poderá resolver um conflito de interesses quando essa resolução tenha
sido solicitada por uma das partes e a outra tenha sido chamada a deduzir oposição. É à parte interessada que cabe
solicitar a tutela pretendida para o caso concreto.

De acordo com o principio dispositivo as partes dispõem do processo, sendo a função do juiz controlar a
observância das normas processuais e, por último, proferir a decisão acerca do conflito de interesses que determinou
a propositura da ação.

13.4.1. A instância

Nos termos do artigo 3º/1, CPC, o impulso processual inicial é exclusivo do autor. Após a propositura da ação,
momento em que se constitui a instância (artigo 259º/1), cabe ao juiz providencia pelo andamento do processo.

A instância consiste na elação jurídica entre o autor e o tribunal. Com a citação (artigo 259º/2), o ato de propositura
passa a produzir efeitos em relação ao réu e a relação jurídica torna-se triangular: partes e o tribunal.

Na pendência da causa, as partes podem acordar a suspensão da instância, desde que por períodos que,
combinados, não excedam os 3 meses (artigo 274º/4).
Au autor, é também dada a possibilidade de desistência da instância, que consiste na declaração expressa de querer
renunciar à ação proposta, sem simultaneamente renunciar aos direitos que através dela quis fazer valore (artigo
285º/2)

A lei admite que as partes disponham das situações jurídicas que são objeto de pretensão, de forma unilateral ou
bilateral, por termo do processo ou fora deste (artigo 289º/1).
Os negócios jurídicos de autocomposição do litigio, sendo de natureza substantiva (na medida em que as partes
atuam diretamente sobre as situações jurídicas que são objeto da pretensão com um claro efeito negocial), tratam-se
de atos de autonomia privada, e devem ser excluídos do âmbito do dispositivo.

Ao propor a ação o autor:


 Formula o pedido
 Disponibiliza a providência requerida Conformação do objeto do processo
 Afirma uma situação jurídica ou um efeito querido
 Fundamenta a causa do pedido

No entanto, este objeto inicial pode:


 Ser ampliado pela dedução do pedido do réu contra o autor – reconvenção (artigo 266º)
 Ser alterado ou ampliado por acordo das partes em qualquer momento do processo, em 1ª ou 2ª instância
(artigo 264º)
 Ser reduzido ou ampliado até ao encerramento da discussão em 1ª instância por qualquer umadas partes –
desistência parcial (artigo 283º)

Na petição inicial, o autor identifica também o réu (artigo 552º/1, a), podendo ainda a ocorrer a intervenção
superveniente de terceiro. Não pode, nunca, ser o juiz a chamar, por sua iniciativa, o terceiro a intervir.

 É exclusiva das partes a conformação, tanto objetiva, como subjetiva.

Quanto à matéria de facto, é também às partes que cabe alegar os factos (artigo 141º) principais da causa, não
podendo nunca o juiz substituir-se a uma das partes na produção de factos, pode sim convidá-las a suprir insuficiências
ou imprecisões na matéria de facto exposta nos articulados.

Página 67 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
Está aqui presente a ideia do monopólio das partes na alegação dos factos principais da causa. Cada uma das
partes tem como que um ónus de alegação dos factos que lhe são favoráveis.
Existem exceções a este monopólio, nomeadamente factos de conhecimento oficiosos como o facto notório e o
facto que o tribunal conhece no exercício das suas funções (artigo 412º) e simulação do litigio (Artigo 612º).
Facto notório será aquele que é cognoscível pela generalidade das pessoas de determinada esfera social, que deve
abranger o juiz e as partes.
Os factos instrumentais, não carecendo de alegação, são oficiosamente considerados como meio de atingir a prova
(direta ou indireta) dos factos principais (artigo 5º/2, a CPC).
Podendo dizer-se que as partes têm o poder de disposição dos factos que introduzem no processo, nada impede
o acordo das partes sobre a realidade dos factos da causa até ao encerramento da discussão em 1ª instância, momento
em que cessa a possibilidade de exercício de faculdades processuais relativas á alegação e prova dos factos.

13.4.2. Petição inicial

É na fase dos articulados que são definidos os termos da ação. Segundo o artigo 147º/1 “os articulados são as
pelas em que as partes expõem os fundamentos da ação, e da defesa, e formulam os pedidos correspondentes”.
A petição inicial é o articulado em que o autor propõe a ação, formulando a tutela jurisdicional pretendida,
juntamente com os respetivos fundamentos de facto e de direto. Em regra, o juiz só pode ter em conta os factos
essenciais alegados pelas partes, adquirindo a petição inicial, uma importância basilar em todos o processo.
O artigo 522º elenca uma série de requisitos relativos à petição inicial, relevando essencialmente dois:
 A exposição dos factos essenciais que constituem a causa de pedir e as razões de direito que servem de
fundamento à ação (alínea d)
 A formulação do pedido (alínea e) Facto jurídico de que depende a pretensão
do autor, e o pedido traduz-se no efeito
jurídico pretendido pelo autor, como
forma de tutela do seu interesse

13.4.2.1. Causa de pedir

A parte da petição inicial em que o autor expõe os factos e as razões de direito que servem de fundamento à ação
apelida-se narração. Esta nem sempre se deve circunscrever aos factos considerados essenciais, podendo expandir-
se, nomeadamente, quando a causa de pedir seja complexa. Nestes casos, devem alegar-se os factos de natureza
complementar e instrumental, que permitam atingir a prova dos factos principais.

Em relação à causa de pedir, encontramos um monopólio das partes, uma vez que se considera que elas, melhor
do que ninguém, conhecem os factos relevantes no âmbito das suas relações jurídicas, de forma a construir o material
fático da causa. E presume-se, ainda, que tudo aquilo que alegam é verdadeiro, uma vez que não têm o direito de
mentir.
Assim, conforme o artigo 5º/1 CPC, recai sobre as partes o ónus de alegação dos ‘factos essenciais que constituem
a causa de pedir e aqueles em que se baseiam as exceções invocadas’.
O artigo 581º/4 CPC indica-nos que ´há identidade de causa de pedir quando a pretensão deduzida nas duas ações
procede do mesmo facto jurídico’. Em jeito de exemplificação, esclarece que nas ações reais a causa de pedir é o facto
jurídico de que deriva o direito real’ e que ‘nas ações constitutivas e de anulação é o facto concreto, ou a nulidade
específica, que se invoca para obter o efeito pretendido’.
Acrescento que nas ações de responsabilidade civil extracontratual encontramos uma causa de pedir complexa,
uma vez que envolve a situação de facto de onde emerge o direito à indemnização, tendo ainda de ser alegada a
matéria de facto relacionada com o evento, a ilicitude, a culpa, os danos e o nexo de causalidade entre o evento e os
danos.

Página 68 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
13.4.3.2. Pedido

A parte da petição inicial em que o autor formula a tutela jurídica que pretende obter, o mesmo que dizer, o pedido,
é a conclusão. O pedido surge, assim, como o resultado da soma da narração dos factos e do seu enquadramento no
sistema legal, sendo ‘determinado formalmente pela providência requerida, e materialmente pela afirmação de uma
situação jurídica, de um efeito querido ou de um facto jurídico’. Devido ao estatuído no artigo 609º/1 CPC, a
formulação do pedido constitui um forte limite à sentença da ação proposta, uma vez que, o juiz não pode condenar
em quantidade superior, ou em objeto diferente do que se pedir, sob pena de nulidade da sentença, artigo 615º/1, e)
CPC.

Existem diferentes formas de pedido, sendo importante distinguir, ainda que abreviadamente, cada uma delas:
 Os pedidos alternativos, previstos no artigo 553º CPC, são permitidos em relação a direitos que por sua
natureza, ou origem, sejam alternativos, ou que se possam resolver em alternativa. Quando a escolha, nas
obrigações alternativas, couber ao autor, o pedido por ele formulado deve ser fixo porque, caso contrário,
presumir‐se‐á que o mesmo renunciou ao direito de escolher.
 Os pedidos subsidiários, previstos no artigo 554º CPC, são aqueles que são apresentados ao tribunal com o
objetivo de só serem considerados no caso de improcedência do pedido anterior. Estes pedidos têm lugar,
regra geral, quando o autor tem dúvidas acerca do êxito da sua pretensão, de forma a evitar o risco de ver
precludido o seu direito, com improcedência da ação.
 A cumulação de pedidos, prevista no artigo 555º CPC, acontece quando o autor deduz contra o mesmo réu,
num só processo, vários pedidos compatíveis, caso não se verifiquem circunstâncias que impeçam a coligação.
 Os pedidos genéricos, previstos no artigo 556º CPC, podem ser formulados em três situações diferentes:
‘quando o objeto imediato da ação seja uma universalidade, de facto ou de direito’, quando não seja possível
determinar, de modo definitivo, as consequências do facto ilícito’ e ‘quando a fixação do quantitativo esteja
dependente da prestação de contas ou de outro ato que deva ser praticado pelo réu’.
 Quanto aos pedidos de prestações vincendas, previstos no artigo 557º CPC, é importante esclarecer que são
permitidos, porque, nº1, quando estamos perante prestações periódicas, em que o devedor deixa de pagar, o
pedido pode compreender tanto as prestações vencidas, como as que se vencerem enquanto subsistir a
obrigação, pretendendo‐se evitar que o autor tenha de propor sucessivas ações declarativas contra o réu. Ou
pode pedir‐se a condenação em prestações futuras, nos casos elencados no nº2.

13.4.3.3. Ineptidão da petição inicial

A ineptidão é um vício próprio da petição inicial (artigo 186º CPC) em que tudo se passa no âmbito do pedido e da
causa de pedir: a falta ou ininteligibilidade de algum deles, a contradição entre ambos e a sua cumulação indevida.
Pretende-se, através desta figura, evitar que o tribunal seja colocado na situação de impossibilidade de julgar
corretamente a causa, considerando‐se nulo o processo em que for inepta a petição inicial.
 A falta ou ininteligibilidade do pedido ou da causa de pedir concretiza‐se na falta da indicação dos parâmetros
que hão de limitar a atividade do juiz, no seguimento do artigo 609º CPC, conforme anteriormente referido.
A ineptidão verifica‐se tanto nos casos em que é totalmente omitido o pedido, como nos casos em que o
pedido é formulado em termos ininteligíveis, que impeçam saber qual a tutela jurídica pretendida, por via da
ação. O mesmo se pode dizer em relação à causa de pedir, uma vez que da sua falta, ou ininteligibilidade,
resulta não se saber qual o facto, ou ato jurídico, em que o autor fundamentou o seu pedido. Nos casos em
que o pedido, ou a causa de pedir, estão redigidos de forma incorreta, o autor deve ser convidado a suprir as
imprecisões, artigo 590/º3 CPC.
 A contradição entre o pedido e a causa de pedir resulta, igualmente, em ineptidão, uma vez que a petição
inicial tem de corresponder a um raciocínio lógico, entre as razões de direito e os fundamentos de facto. A
contradição acontece, por exemplo, quando é invocada a nulidade do contrato pelo autor que, mesmo assim,
pede a condenação no pagamento de importância devida por força do mesmo contrato.
 A cumulação de causas de pedir ou pedidos incompatíveis também determina a ineptidão da petição inicial,
mesmo sendo conferida ao autor a possibilidade de formular diversos pedidos contra o mesmo réu, como
Página 69 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
visto anteriormente. Devem considerar-se incompatíveis os pedidos que mutuamente se excluem e os que
assentam em causas de pedir inconciliáveis. Tendo o autor formulado dois pedidos incompatíveis, não há
possibilidade de saber qual é, verdadeiramente, a sua pretensão.

13.5. O principio do inquisitório

O principio do inquisitório releva pelas suas implicações em matéria probatória.


Este principio traduz-se no dever do juiz de realizar ou ordenar oficiosamente as diligências necessárias ao
apuramento da verdade (artigo 411º, CPC). Contrapõe-se ao princípio da controvérsia: na instrução do processo, ao
juiz cabe a iniciativa e às partes do dever de colaborar.
Não obstante, a possibilidade de iniciativa no campo da instrução, acentuada pela revisão de 95/96, cada uma das
partes tem o ónus da prova dos factos cujo efeito lhe é favorável, paralelamente ao ónus da sua alegação. Só em
principio estes dois ónus assentam nas mesmas regras, deixando tal de acontecer quando se dá a inversão do ónus da
prova, que não dispensa nunca o ónus de alegação.

13.6. Principio da cooperação

Na teoria do negócio jurídico existe um dever principal (prestação) e existem deveres anexos e de proteção.

Os deveres anexos visam assegurar o cumprimento da prestação de forma a que o credor possa retirar dela o
benefício esperado: visa assegurar-se o cumprimento de acordo com a finalidade que subjaz à prestação; os deveres
de proteção visam evitar a produção de danos e, portanto, visam também o cumprimento de acordo com tal
finalidade. A fonte destes deveres anexos e de proteção é a boa-fé (primazia da materialidade subjacente).

Os deveres anexos e de proteção implicam a cooperação entre as partes, nomeadamente impondo-lhes deveres
de esclarecimento, de lealdade (deveres anexos) e de proteção.

A distinção entre dever principal e deveres anexos e de proteção pode, com vantagem, ser transplantada para o
direito processual. Também no âmbito processual é possível identificar um “dever”, um objetivo principal, que é a
“justa composição do litígio”, bem como deveres anexos (e de proteção) relativamente ao principal mas essenciais
para assegurar a realização daquele; neste âmbito os deveres anexos e de proteção são aqueles que decorrem do
principio processual da cooperação. Porquê? Porque ao procurar-se atingir qualquer objetivo através do cumprimento
de determinadas regras (algo que ocorre tanto nos negócios jurídicos como no processo) é possível perverter o
cumprimento de regras de modo a que o objetivo não seja cumprido.

13.6.1. Deveres de cooperação decorrentes do principio da cooperação

O princípio da cooperação engloba os seguintes deveres:

 Dever de esclarecimento;
 Dever de lealdade;
 Dever de proteção.

Note-se que cada regra que veremos é simultaneamente a decorrência de mais do que um destes deveres (pois
todos eles estão ligados em função da sua origem comum, que é a boa-fé), mas é possível identificar uma dimensão
essencial, um dever que é principalmente assegurado em cada regra, ainda que sem excluir os demais.

Página 70 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
13.6.1.1. Dever de esclarecimento

O dever de esclarecimento é um dever do juiz. O juiz deve então:

 Procurar esclarecer (alertar) as partes relativamente a quaisquer aspetos de facto ou de direito que, no seu
entendimento, elas não conheçam e devam passar a conhecer, para que se possam pronunciar (vertente
ativa);
 Esclarecer-se junto das partes relativamente a quaisquer questões de facto ou de direito alegadas pelas partes
de forma obscura ou incompreensível (vertente passiva).

Como podemos ver, o dever de esclarecimento divide-se numa vertente ativa e numa vertente passiva.

Dentro da vertente ativa, temos as seguintes ações:

 Convite dirigido ao suprimento de pressupostos processuais (artigos 590º, nº2, al. a) + 6º, nº2);
 Convite dirigido ao suprimento de irregularidades e à clarificação ou concretização das peças processuais
(artigos 7º, nº2 + 590º, nº2, al. b), nºs 3 e 4 + 639º, nº3);
i) Suprimento de irregularidades dos articulados (590º, nº3);
ii) Suprimento das insuficiências ou imprecisões na exposição ou concretização da matéria de facto
alegada (590º, nº4);
iii) Suprimento de irregularidades, insuficiências ou imprecisões no âmbito das conclusões do recurso
(639º, nº3);
 Convite dirigido à correção do enquadramento jurídico do caso, diferente do discutido pelas partes (art. 3º,
nº3 – princípio do contraditório).

Por outro lado, a vertente passiva traduz-se essencialmente no dever do juiz de questionar as partes de modo a
tornar claro ao juiz qual o sentido que a parte pretende atribuir a certa alegação de facto ou de direito ou a um pedido
(art. 7º, nº2).

Um exemplo jurisprudencial relativo à necessidade de formular um convite dirigido à correção do enquadramento


jurídico do Tribunal da Relação de Coimbra de 13/11/2012 (AVELINO GONÇALVES): «Estaremos perante uma decisão
surpresa quando ela comporte uma solução jurídica que as partes não tinham obrigação de prever, quando não fosse
exigível que a parte interessada a houvesse perspetivado no processo, tomando oportunamente posição sobre ela ou,
no mínimo e concedendo, quando a decisão coloca a discussão jurídica num módulo ou plano diferente daquele em
que a parte o havia feito».

13.6.1.2. Dever de lealdade

O dever de lealdade é um dever essencialmente dirigido às partes e a terceiros, mas indiretamente também ao
juiz. Visa assegurar que os sujeitos processuais:

 Não adotem um comportamento que impeça ou onere desnecessariamente o correto apuramento da verdade
e/ou do direito aplicável (vertente negativa);
 Adotem um comportamento que promova ativamente o correto apuramento da verdade e/ou do direito
aplicável (vertente positiva).

A vertente negativa traduz-se na proibição da chamada litigância de má-fé, que ocorre se a parte, com dolo ou
negligencia:

 “Tiver deduzido pretensão ou oposição cuja falta de fundamento não devia ignorar” (art. 542º, nº2, al. a);
 “Tiver alterado a verdade dos factos ou omitido factos relevantes para a decisão da causa” (542º, nº2, al. b);
 “Tiver feito do processo ou dos meios processuais um uso manifestamente reprovável, com o fim de conseguir
um objetivo ilegal, impedir a descoberta da verdade, entorpecer a ação de justiça ou protelar, sem
fundamento sério, o transito em julgado da decisão (542º, nº2, al. d).

Página 71 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
A vertente positiva traduz-se, por um lado, num dever genérico de todas as pessoas (as partes também,
naturalmente) de colaborarem com a descoberta da verdade “respondendo ao que lhes for perguntado, submetendo-
se às inspeções necessárias, facultando o que for requisitado e praticando os atos que forem determinados” (417º,
nº1). Encontramos concretizações particulares deste dever genérico nos artigos 482º, nº1 (exame de reconhecimento
de letra) e 490º, nº1 (inspeção judicial).

Por outro lado, a vertente positiva engloba obrigações específicas para as partes de colaborarem ativamente na
descoberta da verdade. Exemplos: art. 429º a 431º (documentos em poder da parte contrária); art. 452º, nº1
(comparência para depoimento de parte); art. 7º, nº3 (comparência para prestar esclarecimentos ao juiz).

13.6.1.3. Dever de proteção

O dever de proteção, à semelhança do dever de esclarecimento, é um dever do juiz. O juiz deve então:

 Promover ativamente a descoberta da verdade, não se limitando à iniciativa probatória das partes (vertente
inquisitorial). Traduz-se no poder-dever de o juiz requerer oficiosamente a produção de prova, sempre que
achar necessário. Exemplos: art. 411º (dever genérico de inquisitoriedade; art. 436º, nº1 (documentos); art.
452º, nº1 (prova por confissão das partes; art. 466º, nº2 (prova por declarações de parte); art. 467º, nº1; art.
468º, nº1, al. a) + 487º, nº2 (prova pericial); art. 490º, nº1 (inspeção judicial); art. 501º + 516º, nº4 + 526º,
nº1 (prova testemunhal).
 Auxiliar as partes no que toca ao exercício dos seus direitos, faculdades, deveres e ónus processuais (vertente
assistencial) – art. 7º, nº4.

O dever de esclarecimento traduz-se em regras que têm simultaneamente por finalidade assegurar o dever de
proteção. Todas as regras que visam o dever de esclarecimento visam também o dever de proteção (na vertente
assistencial), mas nem todas as regras que visam o dever de proteção (nomeadamente na vertente inquisitorial) visam
o dever de esclarecimento.

13.6.2. Alcance do principio da cooperação

O principio da cooperação, enquanto princípio jurídico, não se limita a enquadrar soluções já previstas nas regras
legais, podendo ser fonte de soluções não previstas na lei (função integrativa) e pode mesmo justificar a não aplicação
de soluções previstas na lei (função bloqueadora).

Exemplos:
 Função integrativa do princípio da cooperação:
i) Convite dirigido à correção do enquadramento jurídico do caso, diferente do discutido pelas partes –
dever de esclarecimento (vertente ativa) e de proteção (vertente assistencial);
 Função bloqueadora do princípio da cooperação:
i) O art. 637º, nº2, prescreve a recusa imediata das alegações de recurso caso não sejam acompanhadas
do acórdão fundamento, o que é incompatível com o princípio da cooperação (dever de
esclarecimento, na vertente ativa + dever de proteção, na vertente assistencial), impondo-se a
emissão de convite à junção da cópia antes da rejeição;
ii) A apresentação de documentos em língua estrangeira que as partes e o tribunal não compreendam
pode implicar que o juiz ordene a presentação de tradução parcial, apenas das partes relevantes, caso
seja patente que só estas interessam ao caso (art. 134º, nº1, que parece exigir a tradução total) –
evidencia-se o dever de proteção na vertente assistencial (está também em causa a função integrativa
do princípio da economia processual).

Página 72 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
13.6.3. O incumprimento

Quais as consequências do incumprimento de alguma das regras decorrentes do princípio da cooperação?

 Se quem incumprir for uma parte, deverá ser condenada em multa (542º, nº2, al. c);
 Se a irregularidade influir no exame ou decisão em causa, gera-se uma nulidade processual3 (195º, nº1);
 Por vezes, a lei prevê consequências específicas: exemplo: art. 417.º, n.º2 (apreciação livre da recusa para
efeitos probatórios e, caso a recusa implique a impossibilidade da prova, inversão do ónus da prova – 344.º,
n.º2 do CC).

16.6.4. Cooperação e imparcialidade do juiz

O princípio da cooperação, nomeadamente o dever de esclarecimento na vertente ativa e o dever de proteção na


vertente assistencial, pode por em causa a imparcialidade do juiz relativamente à parte a quem é dirigida a assistência
do juiz?

O critério que devemos utilizar para determinar se o juiz foi imparcial no exercício destes seus deveres é o seguinte:

 Se o aspeto sobre o qual incide a assistência do juiz às partes (nomeadamente o convite) for suscitado por
algum elemento, implícito ou explícito, que as partes mencionaram, então não há violação do dever de
imparcialidade; o juiz estará apenas a auxiliar as partes. Exemplo: o autor fundamenta o seu pedido em
incumprimento contratual, mas os factos que alega indiciam a existência de enriquecimento sem causa e o
juiz convida as partes a discutirem esta possibilidade.

 Se o aspeto sobre o qual incide a assistência do juiz às partes (nomeadamente o convite) for completamente
novo, a que as partes não aludiram de todo, então o juiz não estará a ser imparcial; o juiz estará a tomar
partido por uma das partes. Exemplo: o réu não alude à figura do abuso de direito nem alega quaisquer factos
do qual este possa resultar e o juiz convida as partes a discutirem esta questão e alegar os eventuais factos
respetivos.

16.6.5. Cooperação e caracterização do modelo processual atual

Os dois modelos processuais típicos são o adversarial (predomínio da liberdade e autonomia das partes e respetiva
responsabilização) e o inquisitorial (predomínio dos poderes do juiz).

O atual regime processual civil é orientado por interesses, por um lado, de natureza privada (princípio do
dispositivo) e, por outro, de natureza pública (cooperação e economia processual);

Assim, o regime processual civil segue um modelo intermédio mais equilibrado e justo: o modelo cooperativo.
Neste modelo as partes devem ter o controlo sobre a configuração do processo (interesses privados - dispositivo) mas
devem encontrar nos tribunais as condições reais para conseguir que essas pretensões sejam asseguradas (interesses
públicos - cooperação e economia processual).

3
Problema: as nulidades têm, em regra, que ser arguidas pelo interessado no prazo de 10 dias desde o momento em que, depois
de cometida a nulidade, a parte interveio em algum ato no processo (arts. 199.º, n.º1 e 149.º, n.º1), mas a violação de muitas (não
todas) das regras decorrentes do princípio da cooperação só é “descoberta” aquando da sentença. O Professor Teixeira de Sousa
avança uma solução: considerar que tal nulidade está “consumida” pela nulidade da sentença por “excesso de pronúncia” (art.
615.º, n.º1, al. d) e n.º4).
Página 73 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
16.7. Principio da igualdade

O princípio da igualdade das partes ou “igualdade de armas” corresponde ao princípio constitucional da igualdade
no plano processual e é um princípio fundamental do processo civil.

Existem duas conceções sobre a igualdade processual:

 Igualdade formal: identidade de meios, cominações e sanções processuais. Exemplos: mesmo prazo para a
prática de atos processuais (art. 588º, nº3) e regras idênticas para a apresentação de meios de prova (arts.
552º, nº2 + 572º, al. d);
 Igualdade substancial: além da igualdade formal, envolve a correção de assimetrias extraprocessuais.
Exemplos: convite ao aperfeiçoamento dos articulados (art. 590º, nº1) e redução ou carência de multa em
caso de carência económica (art. 139º, nº8).

A doutrina maioritária considera que a igualdade consagrada é uma igualdade meramente formal, pois rejeita a
intervenção assistencialista do juiz com base na neutralidade e equidistância do julgador, afirmando a existência de
outros mecanismos (como o apoio judiciário) que visam salvaguardar a igualdade substancial.

Deve-se entender que a igualdade substancial existe, mas só nos casos previstos na lei. O orador não considera,
então, a igualdade substancial um principio. É de exigir uma norma expressa que exija essa intervenção assistencialista.
O artigo 4º deve ser interpretado no sentido de igualdade formal. A concretização do instituto de igualdade substancial
é dada por exemplos de igualdade formal e não de assistencialidade.

O juiz pode verificar que há uma desigualdade técnica muito grande e promover a igualdade convidando a parte
a colocar-se ao mesmo nível que a outra parte. É o caso de, por exemplo, uma parte ser representada por advogado
e outra não.

A igualdade formal impõe, contudo, um tratamento diferenciado para situações distintas, no pressuposto de que
é diferente a posição das partes no processo. Por isso, o autor pode escolher o momento para propor a ação. Por sua
vez o réu dispõe de um prazo para contestar, eventualmente prorrogável (art. 569º). Réu e autor estão em posições
diferentes no processo.

Exemplos que levantaram duvidas quanto à igualdade formal:


 Posição do MP: em algumas situações, o MP pode assumir um papel muito importante de representação das
partes. O problema surgiu antes da reforma de 95/96 porque as partes representadas pelo MP tinham um
estatuto processual próprio. O TC foi chamado a pronunciar-se sobre isto e decidiu que não havia ofensa ao
principio constitucional com base na organização interna do MP e com base na circunstancia de esta situação
não ser livremente escolhida pela parte, ao contrário do que normalmente acontece (a parte seleciona o
próprio advogado). Atualmente, estas regras foram eliminadas, na sequencia da reforma.
 Declarações de parte: estas declarações são um meio de prova caracterizado pela prestação de declarações
da parte a seu pedido (o autor pede para ser ouvido, artigo 466º). Se uma das partes pede para ser ouvida na
declaração final, mas a outra parte não está presente nessa audiência, quis juris? Se olharmos para a máxima
da igualdade, temos que uma das partes, ao não estar presente se colocou numa situação de desigualdade:
foi a parte que optou (estratégia processual) por se colocar numa situação de não poder prestar declarações
de parte na audiência final. Não ofende o princípio da igualdade proceder com a audiência e admitir o
depoimento de quem o solicitou. Nestas situações o juiz pode atuar de duas formas:
i) Prosseguir com a audiência e admitir o depoimento da parte;
ii) Interromper a audiência para que a outra parte também tenha a possibilidade de depor.

13.7. Principio do contraditório

O princípio do contraditório visa conferir às partes a possibilidade de influenciar a decisão e é indissociável do


direito de defesa nas dimensões de conhecimento do processo e de audição prévia.

Página 74 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
O modo de comunicar o processo ao requerido (conhecimento do processo) pode ser feito de duas formas:
 Citação (ação declarativa e ação executiva);
 Notificação (procedimento de injunção). Nesta vertente de conhecimento do processo verifica-se um conflito
entre duas vertentes do processo equitativo: o direito de defesa e a obtenção de decisão em prazo razoável.

A forma da notificação está prevista no artigo 12º do DL 269/98 sob a forma de:
 Notificação postal registada para a morada indicada pelo requerente;
 Notificação postal simples para as moradas constantes de bases de dados oficiais.

Quanto ao conteúdo da notificação, esta deve conter, entre outros elementos, o prazo de oposição e deve
descrever as consequências da falta de oposição.

A oposição à execução é dos meios de defesa que o executado dispõe na ação executiva. A lei, no artigo 857º
estabelece uma equiparação entre os meios de defesa na execução de sentença e de requerimento de injunção com
fórmula executória. A questão que se coloca é que para além de não estarmos perante um caso em que existe
apreciação jurisdicional, a forma de notificação é completamente distinta da citação.

As questões que se colocavam eram essencialmente duas:

 Será a notificação postal simples um meio idóneo para assegurar a cognoscibilidade do requerimento?
 Será que a notificação não deveria aludir expressamente aos meios de defesa na ação executiva? A única coisa
a que se aludia no artigo 12º era ao prazo de oposição e às consequências da falta de oposição. Portanto, a
notificação não anunciava todas as suas consequências. Por isso o TC declarou inconstitucional o art. 857º por
violação do direito de defesa.

A segunda vertente do direito de defesa é a audiência prévia do réu. De acordo com o artigo 3º/2 só
excecionalmente se pode saltara a audiência prévia. A regra geral é a audição do réu. Os fundamentos são:

 Assegurar o exercício do contraditório em condições de igualdade com o autor;


 Permitir uma prova e uma decisão mais esclarecida a mais informada por parte do próprio juiz. Assim permite-
se-lhe ter em conta todos os aspetos que as partes trouxerem ao processo. Há a criação de um quadro mais
completo.

A audiência prévia pode ser dispensada me algumas situações. Essa dispensa depende sempre de previsão legal
expressa (“casos excecionais previstos na lei”). O contraditório é diferido e não suprimido (ocorre depois da decisão).

Exemplos:
 No procedimento cautelar comum (artigo 306º/1) a audiência prévia do requerido é a regra. Porém, pode ser
dispensada para assegurar o fim ou a eficácia da providência ou caso a citação pessoal não seja viável;
 No caso de restituição provisória da posse e arresto (artigos 378º e 393º, nº1) dispensa-se automaticamente
a audiência prévia, pois presume-se que a audiência representaria um risco sério para o resultado.
 Na ação executiva na forma sumária a regra é a de que o executado não é citado antes da penhora (art. 855º,
nº3), sendo o contraditório diferido para depois da penhora (art. 856º, nº1), garantindo assim uma maior
segurança dos títulos executivos abrangidos por esta forma processual.

O contraditório pode ser avaliado numa tripla dimensão:

 Razões de facto: aqui o contraditório deve ser exercido por escrito na petição inicial e na contestação em que
a parte deve, para além do pedido, indicar quais os factos subjacentes a esse pedido. Desde 2013 a resposta
às exceções é por regra oral e tem lugar em audiência. Isto implica que na primeira fase do processo há uma
petição inicial, há uma contestação por parte do réu4 por escrito (552º e 272º). O resto terá a forma oral e sob
a forma de audiência (603º). O fundamento é a simplificação do processo (redução da fase inicial) e

4
O réu pode defender-se por impugnação (alegando que os factos não são verdadeiros) ou por exceção (não contrariando a
veracidade dos factos, mas alegando, por exemplo, que o contrato é nulo, que o prazo prescreveu, etc.).
Página 75 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
prevalência da oralidade. Apesar disto, o juiz pode admitir articulados escritos adicionais ao abrigo da gestão
processual.
 Razões de Direito: por regra as alegações de direito são escritas e devem constar da petição inicial e da
contestação (552º e 572º). Na audiência final processa-se oralmente (604º, nº3, al. e). As alegações de direito
correspondem a um ónus das partes;
 Prova.

Para analisar convenientemente o princípio do contraditório é preciso ter em conta outros princípios processuais,
como o dispositivo, a oralidade e o conhecimento oficioso do direito.

Contraditório e jura novit cura (principio do conhecimento oficioso de direito) – artigo 5º/3: o juiz não está sujeito
às alegações das partes no que toca à indagação, interpretação e alegação na matéria de direito. Este principio tem
como limites:
 Principio dispositivo;
 Conhecimento da questão dependente da sua invocação pelas partes (casos de prescrição e anulabilidade):
ainda que conste do processo o facto pelo qual decorre a prescrição ou de anulabilidade, o juiz não o pode
fazer sem que a parte o tenha invocado.

Um dos princípios mais importantes quando se fala no jura novit cura é a proibição de decisões surpresa. Exemplo:
o juiz entende que o contrato é de depósito e não de comodato como assumido pelas partes. Quid juris? O juiz deve
promover o contraditório (artigo 3º/3).

Duas conceções quanto à proibição das decisões surpresa:


 Conceção ampla: O contraditório impõe-se sempre que o juiz considere outra qualificação jurídica ou a
aplicação de regra jurídica distinta.
 Conceção restrita: o contraditório impõe-se caso a alteração não seja previsível de acordo com critério de
razoabilidade. Para além de isto gerar uma controvérsia em torno da questão de saber se a alteração era ou
não previsível, vai contra a ideia de cooperação entre as partes e o juiz, que vai contra o principio do
contraditório.

O juiz deve promover o contraditório se considerar alterar a qualificação jurídica.

13.8. O principio da persuasão racional (e outros princípios e regras relativos à prova)

13.8.1. Introdução à atividade probatória

O processo civil visa a resolução adjudicatória do litígio. A determinação dos contornos do litígio pressupõe que se
afiram os factos que lhe deram origem; esses factos são necessariamente, factos passados.

A atividade probatória consiste na identificação e análise dos vestígios que os factos passados deixaram no mundo
para deles inferir uma conclusão acerca da sua ocorrência ou não ocorrência.

Os meios pelos quais se analisam esses vestígios chamam-se meios de prova:


 Prova testemunhal;
 Prova pericial ou prova por inspeção;
 Vestígio intencional - registo da ocorrência ou não ocorrência nalgum suporte durável: prova por documentos.

No estudo da atividade probatória iremos tentar compreender a resposta a estas perguntas:


 Como se processa este raciocínio que nos permite passar da análise dos meios de prova para a conclusão da
ocorrência ou não ocorrência de um facto?
 Como avaliar os meios de prova da melhor maneira?
 A que tipo de conclusão podemos chegar com esta análise dos meios de prova? Podemos ter a certeza de que
o facto aconteceu ou não aconteceu?
 O que fazer se não se conseguir chegar a qualquer conclusão?
Página 76 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
 A lei pode dizer-nos como construir essa conclusão?
 Quais os limites na análise dos meios de prova?

13.8.2. Apreciação da prova pelo julgador

Breve excurso histórico relativo à evolução da atividade probatória:


 Idade média e centralização do poder político: menos poder dos juízes;
 Tradução desta realidade na atividade probatória: a prova tarifada;
 Revoluções liberais e movimento de “democratização”;
 Tradução desta realidade na atividade probatória: julgamento por júri e apreciação da prova totalmente livre;
 Posteriormente, chegou-se à conclusão de que esta forma de avaliar levava a situações absurdas e assim se
chegou ao atual modelo de apreciação probatória, mais equilibrado: a persuasão racional.

Atualmente o modelo da persuasão racional tem uma consagração expressa na lei: “Na fundamentação da
sentença, o juiz declara quais os factos que julga provados e quais os que julga não provados, analisando criticamente
as provas, indicando as ilações tiradas dos factos instrumentais e especificando os demais fundamentos que foram
decisivos para a sua convicção; o juiz toma ainda em consideração os factos que estão admitidos por acordo, provados
por documentos ou por confissão reduzida a escrito, compatibilizando toda a matéria de facto adquirida e extraindo
dos factos apurados as presunções impostas pela lei ou por regras de experiência” (art. 607º, nº4).

Vamos partir da análise deste artigo para compreender o processo de apreciação da prova pelo julgador,
nomeadamente pela análise da expressão “extraindo dos factos apurados as presunções impostas (...) por regras de
experiência”, pois nela se contém o essencial para compreender aquele processo.

Todo o processo de apreciação da prova assenta na lógica da presunção. Qual a estrutura de uma presunção? Se
se prova o facto-base da presunção, então assume-se que ocorreu o facto presumido, exceto se se provar que não
ocorreu o facto presumido, independentemente de se provar o facto-base da presunção (presunção ilidível).

Nas presunções previstas na lei, esta estabelece quais são os factos-base e os factos presumidos;

Nas presunções que ocorrem no âmbito da apreciação dos meios de prova (presunções judiciais), os factos-base
são os factos instrumentais e os factos presumidos são os factos principais.

Dentro da categoria dos factos instrumentais podemos distinguir os factos probatórios e os acessórios:
 Factos probatórios: são os factos diretamente revelados pelos meios de prova;
 Factos acessórios: são os factos que atestam a verosimilhança da ocorrência dos factos essenciais.

Exemplo:
 Facto principal: A entregou X a B (necessário para verificar o cumprimento do contrato);
 Facto probatório: o facto de que uma testemunha refere ter visto A entregar X a B;
 Factos acessórios: o facto de que a testemunha está próxima do acontecimento (por ex. provado por uma
fotografia), o facto de que o depoimento foi coerente.

Conclusão: o que os meios de prova nos relevam diretamente não são os factos essenciais/principais mas antes e
apenas os factos instrumentais; só indiretamente, por meio de uma inferência, é que podemos concluir pela
ocorrência, ou não, dos factos principais; Logo, toda a prova é indireta.

Com que critério podemos afirmar que os factos instrumentais, em particular os probatórios, indiciam a ocorrência
dos factos principais? Esse critério consiste nas máximas de experiência: estas são conhecimentos da experiência de
vida, da lógica, da regularidade ou normalidade dos acontecimentos que permitem afirmar que se certos factos
ocorreram (factos-base), então é provável que outros tenham ocorrido também (factos presumidos);

Página 77 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
Exemplos (Luís Pires de Sousa, Prova por presunção no direito civil):

1- Coerência do discurso, em si e em confronto com outros, indicia a sua veracidade;


2- Quanto maior for a improbabilidade dos factos probandos (eventuais factos presumidos), em abstrato, maior
será a necessidade de os factos-base indiciarem fortemente a sua ocorrência para que se possa concluir por
ela;
3- A prova do habitual modo de proceder de alguém indicia a improbabilidade de um ato incoerente com esse
modo de proceder;
4- A falta de necessidade para a prática de um ato indicia a existência de vícios no consentimento para a prática
desse ato.
5- A prova da destruição de um documento por quem poderia ser prejudicado pela prova dos factos que esse
documento poderia demonstrar indicia a ocorrência desses factos;
6- O facto de um condutor percorrer todos os dias o mesmo percurso indicia que ele conhecia bem os locais mais
perigosos do mesmo;
7- A colaboração de alguém nalguma obra ou ato indicia o consentimento na sua realização;
8- Se alguém que está em cadeira de rodas dá o seu cartão bancário e respetivo código a certa pessoa e esta
alega que lhe fez uma doação avultada, tal indicia falta de consentimento na mesma, pois para fazer uma
doação avultada existem meios mais adequados.

O recurso, devidamente justificado e explicitado (607.º-4), às regras da experiência é o que garante a correta
apreciação da prova e é nisso que se concretiza o traço distintivo do modelo probatório da persuasão racional (o
princípio caracteriza o modelo probatório atual), que visa contribuir para a objetividade na apreciação da prova e
garante a possibilidade prática de recurso sobre decisões de facto.

13.8.3. Imediação na apreciação da prova

A apreciação da prova segundo as regras da experiência procura assegurar uma decisão sobre a matéria de facto
que se aproxime o mais possível da realidade (além de ter também o objetivo de explicitar e permitir o recurso –
sindicabilidade – desta decisão);

Contudo, a apreciação da prova segundo as regras da experiência não é a única forma de contribuir para aquele
objetivo. Outra forma de contribuir para ele é procurar que o julgador esteja na melhor posição possível para apreciar
os meios de prova, ou seja, o mais próximo possível deles para os analisar de forma o mais completa e precisa possível.
Nisso consiste o princípio da imediação na apreciação da prova.

O princípio da imediação na apreciação da prova traduz-se nas seguintes regras:

 Produção de prova e discussão de facto (e de direito) perante o mesmo juiz que irá decidir acerca da ocorrência
dos factos (art. 605.º);
 Realização dos atos de produção de prova, discussão de facto (e de direito) e julgamento num curto intervalo
temporal entre eles, tendo lugar, os dois primeiros, na audiência final (art. 604.º-3 e 4), que deve ser contínua
(art. 606.º), e o terceiro no prazo de 30 dias desde o encerramento de tal audiência (art. 607.º-1);
 Regras que podem ser unificadas na ideia de que os meios de prova que possam ser apresentados sob a forma
de depoimento oral o sejam realmente, perante o julgador (cfr., por exemplo, os arts 452.º-1, 466.º-2, 2.ª
parte, 486.º-1 e 526.º, n.º1). Especialmente relevante a este respeito é a regra constante do art. 461.º-2,
respeitante à prova por confissão mas aplicável ex vi arts. 466.º-2, 2.ª parte e 516.º-7 à prova por declarações
de parte e à prova testemunhal respetivamente, que determina a proibição de o depoente levar o depoimento
escrito e se limitar a lê-lo.

Há a necessidade de compatibilizar este princípio com outros, como a economia processual ou mesmo com a
necessidade de análise de maior quantidade de provas.

Página 78 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
13.8.4. Medida da prova

Vimos que a atividade probatória consiste na análise dos vestígios que os factos passados deixaram no mundo para
poder aferir da sua ocorrência ou não ocorrência, num raciocínio de estrutura presuntiva. Assim sendo, este raciocínio
baseado em indícios ou vestígios nunca pode levar a uma conclusão absolutamente certa, mas apenas a uma conclusão
provável. Pode acontecer que essa conclusão seja altamente provável, quando os indícios são muito fortes, ou pouco
provável, quando os indícios são fracos. Por isso, terá sentido graduar a probabilidade com que podemos afirmar a
conclusão: a essa graduação chamamos de medida da prova, mas também são usadas as expressões “graus de prova”
e “standard de prova”; esta graduação, como veremos, vai ajudar no próprio processo de apreciação da prova.

Prova para lá de toda


a dúvida razoável

0% 50% 75% 90% 100%

Prova clara e convincente


Provada a não ocorrência

Provada preponderante

Ponto de ignorância

Dadas as várias medidas da prova, qual deve ser a medida que deve estar atingida para que se possa decidir com
base na ocorrência de certo facto? Com que critério devemos decidir qual é a medida aplicável? O critério é a diferença
entre a gravidade de uma decisão condenatória (factos principais considerados provados) e de uma decisão
absolutória (factos principais não considerados provados) se assumirmos que houve erro na apreciação da prova
(“erro judicial”), pois não podemos excluir essa hipótese. Quanto maior for essa diferença, maior deve ser a medida
da prova para assim se minimizar a probabilidade de erro judicial.

Daquele critério resulta que:


 No âmbito do direito penal a medida da prova deve ser a mais exigente (prova para lá de toda a dúvida
razoável) pois, neste âmbito, “condenar erradamente” é muito mais grave do que “absolver” erradamente:

0% 50% 90% 100%

In dúbio pro reo Provada a


Provada a não ocorrência ocorrência

Ponto de ignorância: Página 79 de 85


Catarina Tiago e Raquel Domingues presunção de inocência
 Se uma decisão condenatória for igualmente grave quando comparada com a decisão absolutória
correspondente, então não há razão para exigir uma elevada medida de prova; é o que ocorre na maioria das
matérias de direito privado. Neste caso, a medida da prova mais apropriada será a prova preponderante, que
implica uma igual exigência probatória quer para a prova dos factos em causa (condenação) quer para a prova
de que esses factos não ocorreram (absolvição):

0% 50% 100%

Provada a não ocorrência Provada a ocorrência

Ponto de ignorância

 No entanto, existem alguns casos que, embora se reportem ao âmbito do direito privado, exigem que a prova
dos factos seja feita segundo uma medida da prova mais exigente, nomeadamente a prova clara e
convincente. Exemplos: processos de jurisdição voluntária; processos em que se discuta a titularidade de
direitos de propriedade industrial. A justificação para esta maior exigência reside no facto de neles estarem
em causa interesses de terceiros que implicam que uma decisão favorável ou desfavorável ao autor tenham
gravidades distintas:

0% 50% 75% 100%

Provada a ocorrência
Provada a não ocorrência

Ponto de ignorância

13.8.5. Ónus da prova

Vimos que o juiz ao começar a apreciar as provas, encontra-se no ponto de ignorância. Mas como deve o juiz decidir
(proibição de non liquet) se, mesmo após a apreciação das provas, continuar no ponto de ignorância?

É neste âmbito, e apenas neste âmbito, que é relevante o ónus da prova, enquanto critério de decisão na dúvida
sobre a ocorrência de um facto. O ónus da prova funciona da seguinte forma: na dúvida deve decidir-se como se
tivesse ocorrido a versão factual (positiva ou negativa) desfavorável à parte que suporta o ónus da prova.

Assim, o problema fundamental para compreender o funcionamento deste critério de decisão é o de determinar a
distribuição do ónus da prova, ou seja, o problema de saber qual das partes deve suportar o OP de que versão factual.

Página 80 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
O critério legal de distribuição do ónus da prova (e da alegação) consta do art. 342º do CC:

 Cabe ao autor o ónus da prova dos factos constitutivos do direito do autor;


 Cabe ao réu o ónus da prova dos factos impeditivos, modificativos e extintivos do direito do autor.

Os factos constitutivos, impeditivos, modificativos e extintivos formam o conjunto dos factos principais/essenciais.

Este é o critério regra, de origem alemã (teoria das normas de Leo Rosenberg), usado em vários ordenamentos de
civil law: segundo este critério a qualificação dos factos depende da forma como as normas estão escritas, ou seja, da
forma como as normas, na sua literalidade, apresentam os factos como constitutivos ou impeditivos.

Exemplo do funcionamento da teoria das normas - artg. 509.º, n.º1 do C.C.: “Aquele que tiver a direcção efectiva
de instalação destinada à condução ou entrega da energia eléctrica ou do gás (...) responde pelo prejuízo que derive
da condução ou entrega da electricidade ou do gás (...) excepto se ao tempo do acidente esta estiver de acordo com
as regras técnicas em vigor (...)”. Nesta norma encontramos:

 Elementos literais que, em regra, prenunciam a indicação de factos constitutivos: “aquele que”, “sempre que”,
“desde que”, “apenas se”, e outras de significado equivalente;
 Elementos literais que, em regra, prenunciam a indicação de fatos impeditivos: «a não ser que», «isto não vale
se», «exceto se», «salvo se», «este preceito não se aplica quando», e outras de significado equivalente.

No entanto, a aplicação do critério da teoria das normas apresenta vários problemas:

1- Primeiro porque a identificação de que factos são constitutivos, impeditivos, modificativos ou extintivos:
 Nem sempre é praticável – critérios de decisão sem base textual fixa, sem que estejam consagrados em regras
com previsão e estatuição definidas (exs.: abuso de direito, garantia bancária autónoma e cláusulas gerais);
 Nem sempre é coerente – o mesmo facto pode ser considerado como constitutivo ou como impeditivo (ex.:
os factos que consubstanciam a nulidade de um contrato (ex.: falta de forma) podem ser impeditivos numa
ação em que se peça o cumprimento do contrato e podem ser constitutivos numa ação em que se peça a
declaração de nulidade).

Uma possível solução pode consistir em procurar na compreensão dos vários institutos do direito material a solução
para a correta qualificação dos factos como constitutivos ou como impeditivos; porém, o direito material não tem em
conta os problemas relativos à prova, que são os que interessam a propósito do OP.

2- Depois porque aquele critério é completamente formal, não visa atingir qualquer finalidade materialmente
valiosa ou justa, pois não é possível encontrar, na forma como as normas estão redigidas ou no direito
material, qualquer preocupação relativa à distribuição do OP – este é o problema essencial.

Exemplo - artg. 509.º, n.º1 do C.C.:

“Aquele que tiver a direção efectiva de instalação destinada à condução ou entrega da energia eléctrica ou do gás (...)
responde pelo prejuízo que derive da condução ou entrega da electricidade ou do gás (...) exceto se ao tempo do
acidente esta estiver de acordo com as regras técnicas em vigor (...)”

Mudando a redação da norma, “transformamos” um facto impeditivo num facto constitutivo:

“Aquele que tiver a direcção efectiva de instalação destinada à condução ou entrega da energia eléctrica ou do gás e
que esteja, ao tempo do acidente, em desconformidade com as regras técnicas em vigor, responde pelo prejuízo que
derive da condução ou entrega da electricidade ou do gás”.

Um critério alternativo à teoria das normas para a distribuição do OP consiste na distribuição dinâmica do OP. O
conceito, numa primeira abordagem, refere-se à possibilidade de o juiz atribuir o ónus da prova à parte com maior
facilidade relativa de provar a versão dos factos que a favorece.

Página 81 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
Quanto ao modo de aplicação da distribuição dinâmica do OP: como identificar qual a parte que apresenta maior
facilidade probatória? Existem alguns critérios que a indiciam:

 A proximidade e o controlo dos factos;


 Os conhecimentos técnicos e o exercício de uma atividade enquanto profissional;
 O acesso aos meios de prova.

A verificação destes critérios não implica que a parte onerada apresente efetivamente maior facilidade probatória.

O juiz deve ouvir as partes antes de decidir (na audiência prévia).

Exemplo da aplicação da distribuição dinâmica do OP:

1. Prova de que o devedor e o terceiro (não) agiram de má fé, nos casos de impugnação pauliana de ato oneroso
- Art. 612.º do CC: “O ato oneroso só está sujeito à impugnação pauliana se o devedor e o terceiro tiverem
agido de má fé”. Vejamos como a solução será diferente:
 Se aplicarmos a teoria das normas: a má fé é apresentada como um facto constitutivo do direito à impugnação
pauliana – é o interessado na impugnação que tem o ónus de provar a má fé do devedor e do terceiro.
 Se aplicarmos a distribuição dinâmica: o devedor (e o terceiro) tem o controlo do facto: praticou o ato que se
visa impugnar – ele tem o ónus de provar que não agiu de má fé.

2. Prova de que a intervenção médica (não) foi efetuada de acordo com as boas práticas médicas em casos de
negligência médica (responsabilidade contratual; obrigação de meios).
 Teoria das normas: art. 798.º do CC: “o devedor que falta culposamente ao cumprimento da obrigação torna-
se responsável pelo prejuízo que causa ao credor” – o incumprimento apresenta-se como facto constitutivo,
logo o paciente suporta o ónus da prova de que a intervenção não respeitou as boas práticas;
 Distribuição dinâmica: o médico tem o controlo do facto que se visa provar; o médico praticou esse facto
enquanto profissional – o médico suporta o ónus da prova de que a intervenção respeitou as boas práticas.

As vantagens da distribuição dinâmica (valores que ela promove) são:

 A procura pela verdade material (maior probabilidade de se provarem os factos e de, na dúvida sobre a sua
ocorrência, a decisão corresponder à verdade);
 Igualdade entre as partes (uma tem mais facilidade em provar mas a outra não suporta o ónus da prova);
 Economia processual.

Limitações da distribuição dinâmica:

 Implica a existência e a identificabilidade de um desequilibro nas capacidades probatórias das partes, o que
nem sempre se verifica.

13.8.6. Restrições à persuasão racional

A atividade probatória encontra-se genericamente regulada pelo modelo da persuasão racional, avaliando-se as
provas de acordo com as regras da experiência relevantes no caso concreto, sendo estas determinadas e aplicadas
pelo julgador.

Contudo, existem ainda alguns casos em que se podem ter em conta na decisão do processo factos que não foram
provados segundo o modelo da persuasão racional.

A primeira situação em que tal acontece corresponde a alguns casos de prova tarifada (também chamada prova
legal, pois o seu valor probatório está previsto na lei) que ainda subsistem na legislação atual.

Trata-se de casos em que a lei estabelece previamente quais os “factos presumidos” que se devem considerar
provados se se verificarem certos “factos-base”, também estes previstos na lei; nalguns desses casos a lei admite prova

Página 82 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
em contrário (prova plena) e noutros não (prova pleníssima); a sua justificação é ainda as regras da experiência, mas
determinadas pelo legislador. Exemplos:

 Admissão por acordo (prova pleníssima), art. 574.º, n.º2 - justificada pela regra de experiência de que se duas
partes em litígio estão de acordo sobre a ocorrência de um facto, ele corresponderá à verdade;
 Documentos autênticos e documentos particulares com assinatura reconhecida (prova plena), arts. 371.º,
372.º e 375.º e 376.º do CC – justificada pela autoridade pública reconhecida à entidade documentadora ou
que reconhece as assinaturas;
 Todos os casos de presunções legais ilidíveis (prova plena) – justificada pelas regras da experiência.

O outro caso em que se podem ter em conta na decisão do processo factos que não foram provados segundo o
modelo da persuasão racional é o dos chamados factos notórios (412.º, n.º1). Os factos notórios são os factos do
conhecimento geral, cuja ocorrência seja indiscutível. O facto de serem do conhecimento geral não significa
necessariamente que sejam do conhecimento de toda a gente: podem ser apenas do conhecimento de certo grupo
de pessoas (por exemplo, os habitantes de certa localidade), desde que esse grupo inclua as partes e o juiz. Exemplos:
a distância entre duas localidades, a ocorrência de um evento meteorológico fora do comum (cheias, trovoada forte),
etc.

13.8.7. Limites à apreciação probatória: a prova ilícita

A apreciação da prova segundo o modelo da persuasão racional tem limites, dado que os valores que este visa
proteger não podem justificar a apreciação de meios de prova obtidos de forma ilícita (ex.: apresentação de
documentos furtados, testemunha ameaçada para depor em certo sentido, apresentação de um vídeo que viole a
intimidade da vida privada);

Trata-se de uma matéria muito estudada no âmbito do processo penal, onde o CPP a regula expressamente (arts.
125.º e 126.º do CPP), tal como a CRP (art. 32.º, n.º8);

No processo civil não há regras diretamente aplicáveis que regulem esta questão, pelo que se considera ser
aplicável, por analogia, o regime do art. 32.º, nº8 da CRP à obtenção de provas no processo civil (Isabel Alexandre,
Provas Ilícitas em Processo Civil): “São nulas todas as provas obtidas mediante tortura, coação, ofensa da integridade
física ou moral da pessoa, abusiva intromissão na vida privada, no domicílio, na correspondência ou nas
telecomunicações.”

13.9. Principio da transparência do processo e das decisões

Este princípio tem como subprincípios:


 Princípio da publicidade
 Princípio da fundamentação das decisões

13.9.1. Princípio da publicidade

O principio da publicidade inclui:


 Publicidade da audiência
 Acesso ao processo
 Publicidade das decisões finais

Página 83 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
Publicidade da audiência

“As audiências dos tribunais são públicas, salvo quando o próprio tribunal decidir o contrário, em despacho
fundamentado, para salvaguarda de dignidade das pessoas e da moral pública ou para garantir o seu normal
funcionamento” - Art. 206º, CRP.

“Qualquer pessoa tem direito a que a sua causa seja examinada, equitativa e publicamente […] O julgamento deve
ser público, mas o acesso à sala de audiências pode ser proibido à imprensa ou ao publico durante a totalidade ou
parte do processo, quando a bem da moralidade, da ordem publica ou da segurança nacional numa sociedade
democrática, quando os interesses de menores ou a proteção da vida privada das partes no processo o exigirem, ou,
na medida julgada estritamente necessária pelo tribunal, quando, em circunstâncias especiais, a publicidade pudesse
ser prejudicial para os interesses da justiça” - Art. 6º, nº1 da Convenção Europeia dos Direitos do Homem.

Este princípio é fundamental porque:

1. Permite o controlo social da decisão do tribunal e do processo que conduziu a essa decisão, evitando decisões
arbitrárias ou injustas;
2. Assegura a transparência da justiça em geral e de cada julgamento em particular, permitindo reforçar a
legitimidade democrática de que se revestem as decisões judiciais;
3. Contribui para a salvaguarda do princípio da imparcialidade;
4. Releva para o cabal conhecimento do direito pela sociedade;
5. Assegura a certeza e a uniformidade jurídicas;
6. É importante no avanço da ciência do direito.

“A audiência [final] é pública, salvo quando o juiz decidir o contrário, em despacho fundamentado, para
salvaguarda da dignidade das pessoas e da moral pública, ou para garantir o seu normal funcionamento” – Art. 606º,
nº1, CPC.

Os jornalistas podem assistir e filmar ou gravar em ficheiro áudio.

O princípio da publicidade da audiência tem de ser articulado com o direito à imagem, consagrado no art. 79º,
nº2, CC, onde se afirma que “não é necessário o consentimento da pessoa retratada quando […] a reprodução da
imagem vier enquadrada na de lugares públicos, ou na de factos de interesse público ou que hajam decorrido
publicamente”.

Acesso ao processo

“O processo civil é público, salvas as restrições previstas na lei” – Art. 163º, nº1, CPC.

“A publicidade do processo implica o direito de exame e consulta dos autos na secretaria e de obtenção de copias ou
certidões de quaisquer peças nele incorporadas, pelas partes, por qualquer pessoa capaz de exercer o mandato judicial
ou por quem nisso revel interesse atendível” – Art. 163º, nº2, CPC.

No entanto, existem limitações à publicidade do processo:

“O acesso aos autos é limitado nos casos em que a divulgação do seu conteúdo possa causar dano à dignidade das
pessoas, à intimidade da vida privada ou familiar ou à moral pública, ou pôr em causa a eficácia da decisão de proferir”
– Art. 164º, nº1, CPC.

O nº2 do art. 164º CPC concretiza a cláusula geral do nº1, indicando alguns casos em que o acesso é sempre
limitado.

Publicidade das decisões finais

Segundo a jurisprudência do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, esta reveste carácter absoluto.

Considera-se suficiente o depósito da sentença que fique acessível ao público, não sendo necessária a sua leitura
pública.
Página 84 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues
Para a publicidade das decisões finais é importante a publicação na internet (em Portugal, www.dgsi.pt), revelando-
se adequada a não divulgação de dados pessoais das partes e outros envolvidos, com vista a garantir o equilíbrio dos
interesses em questão, tendo em conta a proteção da intimidade da vida privada e familiar (art. 26º, CRP).

No que diz respeito à arbitragem, de acordo com o art. 30º, nº5 da LAV: “Os árbitros, as partes e, se for o caso, as
entidades que promovam, com carácter institucionalizado, a realização de arbitragens voluntárias, têm o dever de
guardar sigilo sobre todas as informações que obtenham e documentos de que tomem conhecimento através do
processo arbitral, sem prejuízo do direito de as partes tornarem públicos os atos processuais necessários à defesa dos
seus direitos e do dever de comunicação ou revelação de atos do processo às autoridades competentes, que seja
imposto por lei”. No entanto, tal “não impede a publicação de sentenças e outras decisões do tribunal arbitral,
expurgadas de elementos de identificação das partes, salvo se qualquer destas a isso se opuser” (art. 30º, nº6 da LAV).

13.9.2. Princípio da fundamentação das decisões

“As decisões dos tribunais que não sejam de mero expediente são fundamentadas na forma prevista na lei” – Art.
205º, nº1, CRP.

O princípio da fundamentação das decisões encontra o seu fundamento na proteção das partes contra o arbítrio
do juiz e no sentido do controlo da decisão (incluindo, quando admitido, o recurso, enquanto meio de pôr em causa a
decisão junto de um tribunal hierarquicamente superior). Contribui também para o prestigio da oferta de justiça,
escrutinada pelo público e pela opinião pública, legitimando o poder judicial.

Quando aos tribunais do Estado:

 O princípio da fundamentação é um princípio transversal, que assume um papel mais significativo em alguns
processos (penal, administrativo, por exemplo);
 A sentença proferida nos julgados de paz deve conter apenas “uma sucinta fundamentação” – Art. 60º, nº1,
al. c) da LJP.
 No regime da AECOP a sentença deve ser “sucintamente fundamentada” – art. 4º, nº7.

Normas do CPC que se relacionam com este princípio: art. 154º + 567º, nº3.

Quando à arbitragem:

 “A sentença deve ser fundamentada, salvo se as partes tiverem dispensado tal exigência […]” – art. 42º, nº3
da LAV. Pergunta: será este preceito conforme à CRP?

Página 85 de 85
Catarina Tiago e Raquel Domingues