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UNIJUI-UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO


GRANDE DO SUL
DHE: DEPARTAMENTO DE HUMANIDADE E EDUCAÇÃO
CURSO DE PEDAGOGIA

PAULA APARECIDA SANTI

ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO NOS ANOS INICIAIS DO


ENSINO FUNDAMENTAL

Ijuí,
2014
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PAULA APARECIDA SANTI

ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO NOS ANOS INICIAIS DO


ENSINO FUNDAMENTAL

Monografia apresentada ao Curso de Pedagogia da


Universidade Regional do Noroeste do Estado do
Rio Grande do Sul- Unijuí, na área de concentração
da Alfabetização e Letramento nas Séries Iniciais do
Ensino Fundamental.

Orientadora: Professora Iselda Sausen Feil

Ijuí,
2014
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PAULA APARECIDA SANTI

ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO NOS ANOS INICIAIS DO


ENSINO FUNDAMENTAL

Monografia apresentada junto ao Curso de Pedagogia da Universidade Regional do


Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul- Unijuí, na área de concentração da
Alfabetização e Letramento nas Séries Iniciais do Ensino Fundamental.

Banca Examinadora:

PROFESSORA: ISELDA SAUSEN FEIL (Mestre)

Orientadora

PROFESSORA: LÍDIA INÊS ALLEBRANDT

Parecerista

Ijuí, dezembro de 2014


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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ........................................................................................................................ 5

1 ALFABETIZAR LETRANDO OU UM NOVO ENTENDIMENTO DA


ALFABETIZAÇÃO? ............................................................................................................... 7
1.1 O que é alfabetização? .................................................................................................... 7
1.2 Como “entra” a questão do Letramento neste contexto? ......................................... 10

2 POLÍTICAS PÚBLICAS QUE DESAFIAM UM NOVO OLHAR SOBRE A


ALFABETIZAÇÃO ............................................................................................................... 14
2.1 Ensino Fundamental de Nove Anos ............................................................................ 14
2.2 PNAIC- Pacto Nacional da Alfabetização na Idade Certa ....................................... 17

3 REALIDADE IDEALIZADA E REALIDADE VIVIDA ................................................ 22

CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................................. 29

REFERÊNCIAS ..................................................................................................................... 34
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INTRODUÇÃO

Socializo neste espaço, a Monografia realizada como resultado do TCC - Trabalho de


Conclusão do Curso de Pedagogia da UNIJUI, na qual enfatizo os diferentes entendimentos
de alfabetização e letramento e os possíveis impactos. Além disso, trago como estes dois
conhecimentos são abordados nas propostas oficiais, destacando o Ensino Fundamental de
Nove Anos e o Pacto Nacional da Alfabetização na Idade Certa, para finalmente apontar uma
proposta.

As razões da escolha deste tema foi a minha identificação pelo mesmo e a necessidade
de aprofundamento como futura educadora, por entender que alfabetização e letramento serão
conhecimentos importantes na minha profissão, seja como docente ou gestora de Escola da
Educação Básica. Busquei a partir de então, compreender melhor este processo de ensino com
a ajuda de artigos, autores, os quais me possibilitaram uma maior compreensão à respeito do
assunto, fortalecida também, pela trajetória de uma pesquisa de campo num espaço
alfabetizador.

O leitor encontrará neste documento questões que evidenciam a importância do


alfabetizar e letrar em sala de aula, os caminhos que o alfabetizador necessita percorrer para
que possa encontrar resultados positivos na busca, diante de formações e estudos mais
aprofundados, pois a pesquisa apontou a complexidade deste processo e a necessidade de
formação continuada.

Por fim, descrevo no decorrer desta busca, as leituras e observações organizadas em


cada capítulo. No primeiro capítulo, trago as diferentes abordagens de alfabetização e
letramento, apresentando a ideia e a trajetória de alguns autores sobre o tema.

No segundo capítulo abordo sobre alguns entendimentos quanto aos objetivos das
novas políticas públicas de alfabetização, em especial a implantação do Ensino Fundamental
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de 9 anos, e as implicações das mesmas no processo de alfabetização nos anos iniciais. Além
disso, discorro sobre o PNAIC- Pacto Nacional da Alfabetização na Idade Certa,
considerando que tem orientado a formação continuada dos professores dos anos iniciais,
primeiro a terceiro ano, discutindo a concepção de alfabetização e letramento, bem como,
propondo práticas inovadoras para esse processo.

No terceiro capítulo, apresento minhas vivências e observações realizadas em uma


Escola, com uma turma de primeiro ano, e os diálogos com a professora alfabetizadora sobre
o seu método e com a coordenadora pedagógica.
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1 ALFABETIZAR LETRANDO OU UM NOVO ENTENDIMENTO DA


ALFABETIZAÇÃO?

1.1 O que é alfabetização?

Saber ler e escrever possibilita o sujeito do seu próprio conhecimento, pois


sabendo ler, ele se torna capaz de atuar sobre o acervo de conhecimento
acumulado pela humanidade através da escrita e, desse modo, produzir, ele
também, um conhecimento (Barbosa, 2013, p.19)

Como afirma Barbosa (2013), as práticas pedagógicas são culturais, históricas e


evoluem em função das necessidades sociais emergentes e do acervo de conhecimento
disponível, acervo esse que permite a elaboração de uma nova teoria, capaz de justificar a
nova prática necessária. Assim também aconteceu e acontecerá com a alfabetização. Seu
entendimento sofreu transformações significativas ao longo do tempo, implicando em novas
pesquisas, metodologias e redimensionamentos.

No caso da alfabetização mais especificamente, o ano de 1789 representa o marco


fundamental da associação duradoura entre a alfabetização e a escola, embora apenas 1990
esta associação realmente se efetivasse. Foi neste ano, durante a “Conferência Mundial sobre
Educação para Todos”, que a alfabetização passa a ser entendida como um instrumento eficaz
de aprendizagem da leitura e escrita, ou em outras palavras, passa-se a entender, de que a
alfabetização comporta a aprendizagem coletiva e simultânea da leitura e da escrita. É a partir
deste período que surgem movimentos de defesa de uma alfabetização mais abrangente e que
superasse a mecanização deste ensino. Que a alfabetização, desde o início ensinasse
simultaneamente à aquisição dos mecanismos básicos da leitura e da escrita, “o
desenvolvimento da comunicação e expressão com ênfase no processo de produção e
utilização de textos” (Krammer, 1986, p.19)

A defesa por uma concepção mais abrangente de alfabetização se justificava, pelo fato
de ter o domínio da leitura e da escrita e permitir a inserção do aprendiz no mundo da
informação, o acesso aos conhecimentos históricos e socialmente produzidos e à possibilidade
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de criar outras condições diferenciadas para a produção de novos conhecimentos. Como


afirma Krammer (1986, A.):

Saber ler e escrever significa dispor do veículo fundamental de acesso aos


conhecimentos da língua nacional, da Matemática, das Ciências, da História,
da Geografia e significa ainda, possuir o instrumento de expressão e
compreensão da realidade física e social.

Soares (1985, p 21), citada por Krammer (1986, p.17), igualmente apontava um
conceito de alfabetização o qual teria que ser:

Suficientemente amplo para incluir a abordagem mecânica do ler/escrever, o


enfoque da língua escrita como meio de expressão/compreensão, com
especificidade e autonomia em relação à língua oral, e ainda, os
determinantes sociais das funções e fins da aprendizagem da língua escrita.

Estaria Magda Soares já se referindo ao letramento? Outros autores poderiam ser aqui
citados, mas o que queremos salientar que neste contexto, a alfabetização é entendida como o
processo de inserção da criança ao mundo cultural, ao conhecimento social diante de uma
perspectiva de ensino que possa possibilitar a esta criança, o entendimento, o domínio e o uso
da leitura e escrita no mundo ao qual se insere. E, que nesta nova perspectiva, implica
mudança no que se refere ao ensino da leitura e da escrita.

A criança para se alfabetizar terá que interagir com outras pessoas, ter contato com
muitos textos de diferentes gêneros disponíveis na sociedade e, principalmente, produzir seus
próprios textos. Na medida em que a alfabetização recebe novos entendimentos e novas
dimensões, principalmente quando é compreendida como um conhecimento importante para a
sociedade e, também para a inserção da criança nesta sociedade, vai exigindo uma escola mais
comprometida com este entendimento, o que implica em práticas adequadas e de profissionais
preparados/engajados para dar conta desta aprendizagem.

Os educadores cientes de que o acesso ao mundo da escrita é em grande parte


responsabilidade da escola, têm clareza sobre a necessidade de entender a alfabetização como
um conhecimento complexo, pois, à eles cabe trabalhar as múltiplas possibilidades de uso
da leitura e escrita na sociedade. Neste sentido, há um movimento (embora outros o
questionem) de que as práticas de alfabetização devam ser orientadas de um modo que se
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promova a alfabetização juntamente com a perspectiva do letramento, assim como, entre


outros pesquisadores, Soares (2001), defende o uso desse exercício.

[...] implica habilidades várias, tais como: capacidade de ler ou escrever para
atingir diferentes objetivos para informar ou informar-se, para interagir com
os outros, para imergir no imaginário, no estético, para ampliar
conhecimentos, para seduzir ou induzir, para divertir-se, para orientar-se,
para apoio á memória, para catarse...: habilidades de interpretar e produzir
diferentes tipos e gêneros de textos, habilidades de orientar-se pelos
protocolos de leitura que marcam o texto ou de lançar mão desses
protocolos, ao escrever: atitudes de inserção efetiva no mundo da escrita,
tendo interesse e informações e conhecimentos, escrevendo ou lendo de
forma diferenciada, segundo as circunstancias, os objetivos, o interlocutor
[...]. (SOARES, 2001, p. 92)

Analisando o conceito de alfabetização, agora já articulado ao letramento- é


importante analisar também, as contribuições de Paulo Freire, pioneiro em dar à alfabetização
um caráter político, havendo a necessidade da mesma considerar a compreensão de mundo
das relações políticas, econômicas e sociais, pois se aprende a ler e a escrever para poder
participar nesta e desta sociedade como sujeito de direitos. Então, para Freire, trabalhar a
alfabetização em uma perspectiva do letramento (embora nunca tenha se referido a esta
terminologia) é uma opção política.

Embora os debates sobre esta visão de alfabetização já estejam bastante evidenciados,


pelo menos na teoria, ainda há profissionais que não buscam conhecer a realidade cultural dos
sujeitos em ação, e continuam ao reducionismo de que alfabetizar é somente trabalhar com o
código alfabético, marginalizando com isso a criança como sujeito protagonista e coautora
deste processo de aprender a ler e escrever.

A alfabetização, nesta nova perspectiva já não é mais tarefa exclusiva de único


professor, mas é compromisso de toda a escola e também da própria sociedade. Atualmente o
desafio é de que todos, em parceria, trabalhem juntos, produzindo didáticas de alfabetização
que realmente ensinem e não permitam a criança ou o jovem sair da escola sem este
conhecimento tão necessário para sua integração no mundo comandado pela linguagem.

Com a implantação do Ensino Fundamental dos nove anos, os profissionais muitas


vezes perguntam se criança com idade de 6 anos já deve partir por este processo da
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alfabetização. Este questionamento se dá, geralmente pelos pesquisadores da infância que se


preocupam com o aceleramento da própria infância. No entanto, observando várias escolas, e
lendo outros autores, é possível perceber que o processo de alfabetização/letramento já ocorre
desta idade na Educação Infantil. Iniciar aos seis ou sete anos, não é problema, o problema
está nas metodologias que estão adequadas ao modo da criança aprender. Os professores
precisam com a experiência profissional e as formações continuadas, proporcionar um ensino
de qualidade na busca de uma alfabetização esperada, desenvolvendo diferentes metodologias
que instiguem a criança a desvelar/ se apropriar das diferentes linguagens.

Nos dias de hoje, nos perguntamos muito, qual a educação, aprendizagem que
devemos trabalhar para o desenvolvimento da criança? Como devemos alfabetizar? São
perguntas que o profissional junto com a escola, precisa responder e materializar estas
respostas na construção de um currículo pautado nestes sujeitos, na elaboração de propostas
metodológicas, buscando, questionando, para fluir no processo de ensino-aprendizagem.

A alfabetização precisa estar centrada na compreensão e comunicação, levando em


conta o processo, modo de aprendizagem das crianças e de cada criança, pois como afirma
Demo (2007, p.70): “A questão fundamental é de aprendizagem a partir das crianças. Assim
a leitura não pode ser ensinada para as crianças. A responsabilidade do professor não é a de
ensinar as crianças a ler, mas a de tornar a aprendizagem possível.”

Independentemente do projeto que esteja sendo desenvolvido na escola, é importante


que haja uma abertura para o professor e a criança desencadearem a alfabetização
propriamente dita, desde que tenha sentido para a criança, pois isso é um cuidado profissional,
ocorrendo segundo Pérez e Garcia:

De forma democrática, reflexiva e participativa que atribua ou transfira


gradativamente para o aluno, a responsabilidade da construção do
conhecimento, que ofereça aos alunos a possibilidade real de participar
ativamente de sua própria aprendizagem, negociando, chegando a consensos
e escutando suas propostas de atividades e projetos a serem realizados. (...) a
criação subjetiva e a independência intelectual que abrem as portas para a
transformação individual e coletiva. (1997,p.25)

1.2 Como “entra” a questão do Letramento neste contexto?


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Ensinar a ler e escrever não significa fornecer uma técnica, mas um modo
cultural de se comportar. Sabe ler a pessoa que gosta de ler, não a pessoa que
ler corretamente em um exame. Sabe ler a pessoa que linguagem escrita de
modo correto, não o que, quando vai prestar o serviço militar, sabe escrever
diante do oficial: “Sou um cidadão italiano”, como se fazia na Itália para
demonstrar que se estava alfabetizado (Francesco Tonucci, 1985)

Letramento, segundo defensores do mesmo, como Soares (1999) e Kleimam (2007),


principalmente, refere-se à apropriação da leitura e da escrita para uso social, trazendo
consequências (políticas, sociais, econômicas, culturais...) para indivíduos e grupos que se
apropriam da escrita, fazendo com que esta se torne parte de suas vidas como meio de
expressão e comunicação. O sujeito torna-se usuário da leitura e da escrita na vida social.
Neste sentido, letrado é alguém que se apropriou suficientemente da escrita e da leitura a
ponto de usá-las com desenvoltura, com propriedade, para dar conta das situações sociais e
profissionais.

Se considerarmos a realidade da sociedade contemporânea fica claro que apenas


dominar mecanicamente a leitura e a escrita não é suficiente, em razão disso surgem estes
movimentos defendendo a necessidade de associar ao processo da alfabetização, o letramento
na perspectiva de fazer deste processo a aprendizagem de conhecimentos socialmente
necessários. No que se refere ao tempo escolar dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental,
período decisivo para o processo da alfabetização, o letramento teria que ser entendido muito
mais como uma forma de ampliação do próprio entendimento da alfabetização ou como modo
de complementar este processo.

É sabido de que a formação do leitor ou do escritor se inicia desde o seu processo de


sua inserção no mundo comandado pela linguagem e, mais especificamente no período que
estes conhecimentos, leitura e escrita, são objetos centrais da prática educativa, ou seja, nos
três primeiros anos do Ensino Fundamental, quando o ensino é direcionado intencionalmente
para estas aprendizagens. Os defensores da inclusão do conceito de letramento advertem que
não é a aquisição do sistema da escrita em si que desenvolve o intelecto, mas o seu uso na
multiplicidade de funções. A escrita afeta a maneira de pensar nos processos de leitura, na
interpretação, na discussão e na produção de textos.

O letramento é debate internacional e surgiu a partir das reflexões em torno do


analfabetismo, quando se observou que embora as crianças saíssem da escola alfabetizadas,
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esta aprendizagem não lhes dava condições de inserir-se de forma efetiva na sociedade. Surge
o letramento para dar continuidade ao processo que a criança já vinha construindo antes do
ingresso da escola, pois vivia numa sociedade letrada e já interagia com várias linguagens
disponíveis na sociedade e, também por conviver e interagir com pessoas que já lidavam com
estas linguagens e suprir as faltas ou lacunas do processo de alfabetização.

Assim o letramento é o resultado de uma pesquisa sobre a situação do analfabetismo,


vendo a necessidade de buscar uma aprendizagem mais efetiva, sólida e necessária aos
tempos atuais. Em razão disso, a intenção não era o de substituir a alfabetização. Segundo
Soares apud Carvalho (2005): no Brasil, os conceitos de alfabetização e letramento se
mesclam, se sobrepõem e frequentemente se confundem: Isso não é bom, pois os processos de
alfabetizar e letrar, são específicos. Alfabetizar é ensinar o código alfabético, letrar é
familiarizar o aprendiz com os diversos usos sociais da leitura e da escrita (2003, p.5).

A autora (1998, p.20), ao explicar o surgimento da palavra letramento no vocabulário


dos educadores brasileiro:

Só recentemente passamos a enfrentar essa nova realidade social em que não


basta apenas saber ler e escrever, é preciso saber fazer uso do ler e do
escrever, saber responder às exigências de leitura e de escrita que a
sociedade faz continuamente.

O letramento, para Kleimam (2007), tem como o objetivo a reflexão de ensino e da


aprendizagem considerando os aspectos sociais da língua escrita. Assumir o letramento,
segundo a autora, no espaço escolar é adotar o processo de alfabetização no processo social da
escrita, em detrimento a uma concepção tradicional que considere a aprendizagem de leitura e
produção textual, a um percurso de habilidades de aprendizagens individuais. Atividades que
envolvem letramento, não se diferenciam das demais atividades de vida social, ou seja, são
sempre atividades coletivas, cooperativas, envolvendo vários participantes e diferentes
saberes. Ainda segundo a autora, letramento não é alfabetização, e sim um trabalho onde se
estabelece as relações entre os fonemas, grafemas, um processo de estruturas linguísticas, é
prazer, lazer, ler em lugares diferenciados, não só na escola, mas em exercícios de
aprendizagem. Letramento é obter informações através de leituras de diferentes gêneros
textuais, buscando da informação, buscar a leitura para seguir certas instruções, usar a escrita
para se orientar no mundo, descobrir a si mesmo pela leitura e pela escrita. Por fim,
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letramento é o estado ou condição de quem não apenas sabe ler e escrever, mas cultiva e
exerce as práticas sociais que usam a escrita.

Embora o debate sobre o letramento esteja avançando, ainda há autores que defendem
que esta preocupação com o letramento é de certo modo exagerada. Assim Demo (2007, p.
29), rebate este posicionamento reforçando o conceito de alfabetização de Paulo Freire e
afirma que este movimento de continuidade e processo que os defensores do letramento
fazem, também ocorre na alfabetização:

Desde que se entenda a alfabetização como processo de ler o mundo, o que


exige domínio do código, mas na condição de simples instrumento formal. O
que importa é a habilidade de dar conta da realidade circundante pela via da
interpretação e intervenção questionadoras, reconstrutivas.

Tomamos apenas dois autores para analisar a complexidade deste processo e defender
que, nós professores e professoras, precisamos compreender estes debates e tomar decisões....

Hoje no Brasil se busca muito nas escolas reduzir os índices de reprovações do que os
do analfabetismo e isso mascara a realidade. A sociedade precisa dar mais atenção à formação
de cidadãos que saibam ler e escrever de tal maneira que possam apropriar-se destas práticas
sociais no seu cotidiano. É neste sentido que letramento se torna importante no processo de
aprendizagem, não apenas na leitura e da escrita, mas também nas áreas do conhecimento que
compõem o currículo escolar.

E o que dizem as políticas públicas de Educação para a Alfabetização?


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2 POLÍTICAS PÚBLICAS QUE DESAFIAM UM NOVO OLHAR SOBRE A


ALFABETIZAÇÃO

2.1 Ensino Fundamental de Nove Anos

[...] assegurar a todas as crianças um tempo mais longo de convívio escolar


com maiores oportunidades de aprendizagem (BRASIL, 2006a)

A promulgação da Lei Federal 11.274 de 06 de fevereiro do ano de 2006, tornou


obrigatória a oferta de “Nove Anos de Ensino Fundamental” para todas as escolas do País,
tendo entre seus objetivos a melhoria deste nível de escolaridade, considerando a posição
indesejável que o Brasil ocupava na classificação organizada pelo Programa Internacional de
Avaliação Escolar (PISA).

A implantação do Ensino Fundamental de nove Anos (EF9), não apenas tornou


obrigatória a oferta, como tornou obrigatório o ingresso de todas as crianças desta idade. Com
esta duração ampliada, o EF9 passou a colher uma parcela da população brasileira que não
conseguiam vagas nas redes públicas de ensino na educação infantil e não teriam condições
de arcar com os custos de uma educação privada. Segundo os órgãos oficiais (textos
disponibilizados no site do MEC), principalmente o livro Orientações para a inclusão da
criança de seis anos de idade + 1 ano é fundamental (Brasil, 2006ª), ora denominado
Documento 1, com esta nova política se estaria corrigindo uma distorção/injustiça, incluindo
todas as crianças de seis anos na escola.

Esta implantação, a qual além de expandir o tempo de duração de escolarização,


antecipa a entrada da criança na escola regular, o que gerou muitos questionamentos por parte
de pesquisadores da infância e produziu impactos no cotidiano das escolas e na vida das
famílias dos filhos em idade escolar. Em relação aos responsáveis pela sua efetivação como:
professores e, gestores, principalmente, mobilizações foram e continuam ocorrendo, pois
reconfigurações, mudanças se fizeram e fazem necessárias, desde a adequação de espaços
físicos, garantia de materialidade adequada, adaptação dos instrumentos de registro, das
normatizações, mas, sobretudo nas propostas pedagógicas. Para melhor orientar a
compreensão da proposta e responder às inúmeras indagações dos professores, o MEC,
através da Secretaria de Educação Básica, elaborou o documento 2, no qual apresenta em
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síntese, respostas às inquietações dos professores, contemplando aspectos legais, pedagógicos


e, de infraestrutura, entre outros.

Os educadores e pesquisadores contrários à antecipação do ingresso da criança de seis


anos na escola regular questionavam a estrutura, organização e o ensino do Ensino
Fundamental, as quais não estariam adequadas para acolher crianças desta idade, que seu
ingresso aceleraria a infância e que lugar de criança de seis anos seria na Educação Infantil.
Além disso, destacam a questão da formação do professor.

Por outro lado, havia outros educadores também de renome que defenderam e
apoiaram a implantação, considerando EF9, mais que uma determinação legal, mas como a
efetivação de um direito, especialmente aquelas crianças que não tiveram acesso as
instituições educacionais. Junto à defesa, no entanto, também argumentavam da necessidade
de um trabalho de qualidade no interior da escola, propiciando a aprendizagem, havendo
respeito na especificidade da infância em todos seus aspectos, exigindo também dos órgãos da
escola a manutenção da estrutura física, pedagógica e financeira. Afirmavam que esta seria a
oportunidade de ressignificar o currículo e os espaços/tempos pedagógicos, como por
exemplo, trazer uma aproximação entre a Educação infantil e os Anos Iniciais, sugerindo
inclusive que para a reestruturação curricular dos Anos Iniciais considerassem elementos das
Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Infantil, principalmente no que se refere ao
entendimento da criança e suas necessidades, assim como suas possibilidades e metodologias.

Nos documentos referentes ao EF9 elaborado pelo MEC está explicitado que o
ingresso dessas crianças no Ensino Fundamental não pode constituir-se numa medida
meramente administrativa. Precisa-se de muita atenção no decorrer do processo de
desenvolvimento e aprendizagem, possibilitando conhecimento e respeito as suas
características etárias, sociais, psicológicas e cognitivas.

Ao ler todos os documentos, principalmente o Documento 1 para sua implantação é


perceptível o tempo todo, que a centralidade está na aprendizagem e que esta está pautada na
concepção da criança como sujeito de direito, produto de uma cultura e ao mesmo tempo
produtora. Destacam: a infância como eixo primordial para a compreensão da proposta; a
brincadeira na reestruturação curricular (não apenas para os primeiros anos, mas para todo o
ensino fundamental); a importância das diversas expressões para o desenvolvimento da
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criança; a acolhida da criança na escola, as áreas do conhecimento articuladas entre si, a


importância da relação das crianças com o mundo da leitura e da escrita e, uma avaliação
emancipatória tendo a aprendizagem como referência. Além disso, destaca a importância do
planejamento e oferece alguns subsídios para a organização do ensino.

Igualmente, nestes documentos estão explicitadas as condições para esta implantação,


que os espaços educativos teriam que ser reorganizados e que a organização curricular teria
que ser reconfigurada e que uma ampla formação continuada dos docentes teria que ser
instaurada. Em decorrência disso, por parte do governo também haveria um maior
compromisso para a implantação no que se refere a recursos didáticos, financeiros, entre
outros.

É importante ressaltar que a entrada da criança com seis anos no ensino fundamental
implica numa busca mais avançada na aprendizagem, onde professores junto da escola
necessitam percorrer barreiras, caminhos positivos a serem alcançados na área da
alfabetização, principalmente o fato de que a alfabetização do aluno deverá acontecer nos três
primeiros anos do ensino fundamental. “A avaliação, constituída como um momento
necessário de construção de conhecimentos, assumirá forma processual, gradual, cumulativa
e diagnóstica, sendo redimensionadora da ação pedagógica” (BRASIL, 2008). No entanto,
conversando com professores e observando o processo de alfabetização em algumas escolas,
observa-se um trabalho ainda bastante fragmentado e descontinuado, um descontentamento
quanto ao processo de implantação, principalmente pelo fato de vir “de cima para baixo, sem
a participação dos professores nos debates”. Gestores denunciam a falta de infraestrutura. O
fato é que neste ano de 2014, a maioria das escolas já concluíram um ciclo de formação e
poucos falam dos impactos sobre a aprendizagem das crianças, pois, como escreve Schneider
e Durli, 2009, p. 200):

[...] obviamente, a obrigatoriedade legal não assegura que todas as crianças


em idade escolar tenham acesso à educação e possam concluir o ciclo
obrigatório. De igual forma, o aumento da escolarização obrigatória não se
traduz, necessariamente, em melhoria de qualidade do ensino.

Por outro lado, A UNESCO: OREALC (2001) defende a ampliação da escolaridade


obrigatória, pode sim melhorar o nível de aprendizagem. O EF9 teve além de outros
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interesses, a melhoria da aprendizagem das crianças por várias razões, a realidade escolar
ainda está muito distante daquilo que está proposto, entre as causas que poderíamos apontar
foi a forma de sua implantação, principalmente pela falta de sensibilização e mobilização dos
professores. Atualmente o Governo vem fazendo grandes investimentos na formação
continuada dos professores, entre estes destacamos o Pacto Nacional de Alfabetização na
Idade Certa – PNAIC, o qual poderá contribuir para que todas as crianças brasileiras não só
antecipem seu ingresso ao ensino fundamental, mas que este tempo realmente traga resultados
mais positivos.

2.2 PNAIC- Pacto Nacional da Alfabetização na Idade Certa

O Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa (PNAIC) é um compromisso


formal assumido pelos Governos Federal, do Distrito Federal, dos Estados e Municípios de
assegurar que todas as crianças estejam alfabetizadas até os oito anos de idade, ao final do 3º
ano do ensino fundamental. Observa-se diante deste processo de formação que:

Aos oito anos de idade, as crianças necessitam ter a compreensão do


funcionamento do sistema de escrita; o domínio das correspondências
grafofônicas, mesmo que dominem poucas convenções ortográficas
irregulares e poucas regularidades que exijam conhecimentos morfológicos
mais complexos; a fluência de leitura e o domínio de estratégias de
compreensão e de produção de textos escritos. (PNAIC,
mec.pacto.mec.gov.br)

Segundo as ações do Pacto, este oferece além da formação continuada aos


profissionais da área da alfabetização, recursos didáticos através de materiais que possam dar
auxílio no processo de ensino e aprendizagem, buscando a avaliação sistemática dos mesmos
através das atividades e construção dos alunos.

Entretanto, esta proposta de ensino-aprendizagem vinda do Pacto, busca caminhos


onde os profissionais na área da educação possam se inserir mais em um ensino de qualidade,
proporcionando aos educandos um aprendizado de grandes conquistas e caminhos a serem
seguidas.
Com ênfase ao tema Alfabetização e Letramento nos Anos Iniciais, destaco alguns
volumes onde se apresenta esta proposta de ensino no Pacto Nacional da Alfabetização na
Idade Certa, seguindo: Alfabetização para todos: Diferentes percursos, direitos iguais;
Organização do planejamento e da rotina na área da Alfabetização e Letramento; Currículo na
18

Alfabetização: concepções e princípios; Currículo, consolidação e monitoramento do processo


de ensino e de aprendizagem.

Realizando algumas leituras e pesquisas, pude observar a importância deste trabalho


que vem sendo desenvolvido, pois em seus volumes, destacam-se grandes barreiras, conquista
e caminhos que devemos conhecer, contribuir e nos dedicarmos na busca de uma educação de
qualidade, reconhecendo a importância do saber e a garantia de direito a educação para todos.

O Pacto mostra todas as etapas e seus segmentos, partindo de um currículo de


qualidade e processos avaliativos na escola regular e também na busca de caminhos à uma
educação inclusiva.

É importante ressaltarmos, que a educação é um dos caminhos do exercício da


cidadania e que se faz necessário respeitar os direitos de aprendizagem de todas as crianças,
principalmente daquelas que apresentam necessidades educacionais especiais.

Baseado na concepção de alfabetização, o Pacto em parceria com alguns pedagogos


mostram a importância de compreendermos que a escrita alfabética não é um código, o qual
se aprenderia a partir de atividades repetitivas e memorizadas, e que passa ser um sistema de
notação, que seria alfabético.

Acredito que com o Pacto da Alfabetização houve um maior crescimento profissional


e educacional, pois as formações, os caminhos e formas diferenciadas de serem trabalhados
com as crianças das séries iniciais, os conteúdos, as atividades propostas, trouxeram mais
crescimento, um ensino na área da alfabetização com mais ludicidade, onde se envolve todas
as áreas do saber de maneira prazerosa, educativa. A leitura e escrita, juntamente com
diferentes jogos e atividades matemáticas inserem a criança numa sociedade letrada de
grandes conquistas e objetivos a serem alcançados pelos profissionais.
Percebe-se em muitas escolas, nas turmas de alfabetização que os professores em sua
grande maioria apresenta dificuldades no auxílio de seus alunos, onde não conseguem
contemplar todas as necessidades, precisando dar mais atenção aos que precisam mais e
deixando o restante sem suporte, e muitas vezes realizando atividades que não possibilitem a
participação de crianças que não possuem determinados conhecimentos.
19

É de fundamental importância, que no início da vida escolar do aluno ao ingressar nas


séries Iniciais do Ensino Fundamental, o professor alfabetizador registre como o mesmo agia
e o que era capaz de fazer no início do ano, e também o “agora” no final desta etapa. Como
citam Albuquerque e Cruz (2009, p.11) em uma pesquisa sobre prática docente na área da
alfabetização:

As crianças iniciam o ano letivo com diferentes conhecimentos e


aprendizagens, é papel do professor diagnosticar o que as crianças sabem ou
não sabem sobre o que ele pretende ensinar. Mesmo quando chegam ao final
do ano sem dominar os conhecimentos que o professor buscou ensinar, as
crianças tem agregado saberes, é preciso identificar não apenas o que elas
não aprenderam, mas também o que elas aprenderam, e valorizar suas
conquistas; o diagnóstico sobre o que as crianças sabem ou não sabem deve
servir para o planejamento das estratégias didáticas e não para a exclusão das
mesmas.

Cabe ressaltar que muitas crianças chegam á escola tendo pouca informação da escrita,
mas isso não significa que as mesmas não estão familiarizadas aos métodos de ensino-
aprendizagem. O professor em casos assim, necessita investigar e partir para uma busca de
caminhos que possibilitem o ensino desejado da criança identificando o seu aprendizado, a
sua cultura de vida, para que possa a partir de então desconstruir barreiras e construir
caminhos nesta busca de um ensino de qualidade, apresentando avanços por parte das
crianças, e também a garantia da escola que seus direitos de aprendizagens sejam atendidos.

Sabemos que a função da escola se amplia à medida que o direito a educação se alarga.
Ao considerarmos a educação como um direito, é preciso pensar na inclusão como princípio
de organização do currículo, considerando a necessidade vinda dos estudantes onde tenham
acesso aos conhecimentos e avanços nas suas aprendizagens.

Entretanto, o currículo no ciclo da alfabetização se fundamenta como uma proposta de


reorganização temporal e espacial demasiada ao ensino, buscando novas formas de conceber o
percurso de aprendizagens das crianças.

O processo de alfabetização é permeado mediante a sua natureza complexa e também


pelos fatores políticos, sociais, econômicos e culturais. As crianças precisam ser protagonistas
e, ainda a partir do seu aprendizado na área da alfabetização para que elas possam agir para a
transformação de suas próprias vidas. Segundo Ferreiro e Teberosky (1979, p.14):
20

Para se alfabetizar, a criança precisa perceber que o que a escrita alfabética


nota no papel são os sons das partes orais das palavras e que o faz
considerando segmentos sonoros menores que a sílaba. No processo de
construção desse conhecimento, as autoras apontaram que os sujeitos passam
por diferentes fases que vão desde uma hipótese pré-silábica de escrita na
qual o aprendiz não faz correspondência entre os segmentos orais e escritos
das palavras, até a fase alfabética, quando percebe que as palavras são
compostas de unidades sonoras como as silabas e fonemas.

Porém, todos estes processos referentes à construção da escrita alfabética envolvem


aprendizagens onde todos os percursos de ensino devem ser apropriados pelas crianças,
havendo atividades diversificadas, atendendo os diferentes níveis de conhecimentos e
havendo bons resultados nos conhecimentos construídos.

No entanto, para que as crianças produzam textos com autonomia, é preciso que as
mesmas compreendam o funcionamento do sistema de escrita e atingir o processo alfabético
da escrita não significa que esteja alfabetizado. Diante desta escrita com autonomia, necessita
que as correspondências som-grafia sejam consolidadas, e este processo envolve questões
demasiadas da natureza ortográfica. A criança para atingir a hipótese alfabética, necessita de
domínio diante das correspondências grafofônicas, identificando quais letras representam
determinado fonema.

Para finalizar este percurso do Pacto referente ao processo de alfabetização e


letramento, acrescento que para haver uma organização no trabalho pedagógico, é necessário
acima de tudo um processo de reorganização na sala de aula, e também no processo de
ensino-aprendizagem.
Para que ocorra organização nas rotinas diárias, necessita-se pensar nos objetivos que
estão sendo propostos diante da alfabetização e das definições das ações, procedimentos e
técnicas, que atinjam certos objetivos e não estabelecer conjuntos de uma prática rotineira.

Soares (2003) coloca que a sala de aula de alfabetização deve ter o duplo objetivo: um
primeiro consiste em ajudar a criança por meio da reflexão “sobre as características dos
diferentes textos que circulam ao seu redor, sobre seus estilos, usos e finalidades” e um
segundo, implica em ajudá-las a se apropriar do sistema de escrita, para que tenha autonomia
para interagir por meio da escrita.
21

Contudo, para compreender e entender melhor este processo de ensino, irei me


fundamentar em uma pesquisa empírica numa turma de alfabetização, analisando o espaço
sala de aula e também realizando uma entrevista com a professora alfabetizadora e a
coordenadora da instituição, buscando maior informação neste percurso de alfabetização e
letramento e ampliação do ensino de 9 anos.
22

3 REALIDADE IDEALIZADA E REALIDADE VIVIDA

Diante da pesquisa empírica realizada na E.E.E.M no Município de Santo Augusto,


pude ter a oportunidade de observar um espaço alfabetizador e também realizar uma
entrevista com a professora da turma e a coordenadora da instituição, quando as mesmas
relataram alguns tópicos fundamentais no processo de alfabetização e letramento e no
percurso do ensino de 9 anos.

Referente ao espaço sala de aula, percebo o quanto é alfabetizador, sendo que no


mesmo se apresentam cartazes do alfabeto, numerais, calendário com os dias da semana,
identificação de cada parte da daquele ambiente, murais com imagens, escritas, cantinho da
leitura com painel e livrinhos, enfim, tudo o que uma turma de alfabetização necessita no seu
processo de ensino, dando pra perceber o quanto as crianças se identificam neste cenário em
sala de aula, demostrando espontaneidade.

Dialogando com algumas crianças da turma, perguntei qual das atividades oferecidas
pela professora elas mais gostavam, onde as mesmas responderam ser o momento do cantinho
da leitura com contação de histórias, atividades em folhinhas xerocadas, joguinhos variados,
momentos lúdicos. Pude observar como as crianças se identificam e se preocupam em querer
aprender, buscando sempre questionar diante da professora o que sabem ou ainda não
conseguiram compreender. A alfabetizadora é bastante tranquila, tendo todo um cuidado
especial no ensinar, e sabendo identificar as crianças que apresentam um processo mais
rápido, assim como os mais lentos.

Percebi que a maioria das crianças já se encontram no nível alfabético, reconhecendo


as letras, identificando as sílabas e sabendo ler. São poucos os que ainda não se identificam
neste processo, no entanto, a professora acredita que até o fim do ano letivo todos estarão
alfabetizados.

Recorrente ao questionário feito com a alfabetizadora, foquei-me nas seguintes


questões: Como você alfabetiza? Quais as principais dificuldades, principais materiais?
Participa do Pacto? Em que este processo de formação está contribuindo na organização de
23

suas aulas? O que considera ser uma criança alfabetizada? O que faz quando isso não ocorre?
Que sugestões me daria se eu precisasse iniciar este processo de alfabetização?

Seguindo com as respostas dadas pela alfabetizadora, a mesma relatou que cabe ao
professor oferecer a todos os alunos que tiveram ou não o primeiro acesso escolar, que é a
Educação Infantil, as mesmas oportunidades de aprendizagem. Disse ainda que tem como
ponto de partida o contato com a leitura e a escrita para tornar o ambiente alfabetizador, sendo
que a sala de aula deve ser o espaço onde se sintam bem, que tenham materiais concretos para
que toquem e sintam, com ilustrações visíveis expostas pela sala, onde possam identificar e
reconhecer o processo de alfabetização. A criança deve ser constantemente motivada a ler, e
para que ela não perca esse interesse, é preciso variar as estratégias, apresentando a leitura das
letras de diferentes formas para que a mesma aprenda e memorize.

Destacou também, que em sua trajetória na experiência ao trabalhar com uma turma de
1º ano, percebeu que o que facilita bastante a aprendizagem foi partir da ideia de que todas as
letras possuem um som, e fazendo o uso do método fônico, vai apresentando cada letra do
alfabeto, dando um significado oportuno que parte da espontaneidade natural dos alunos,
fazendo uso de cartazes, desenhos no quadro, livros de história, recortes coloridos de livros e
revistas, sala de informática e demais atividades oportunas para cada letra trabalhada.

A mesma colocou também em sua fala, que o maior desafio para nós educadores e
formadores de cidadãos é fazer com que nossos alunos adquiram hábitos sólidos de leitura e
raciocínio. Entretanto, a realidade nos mostra alguns pais com interesse de que seu filho
“aprenda”, porém, na maioria das vezes não promovem um tempo para a dedicação e
acompanhamento dos primeiros anos de escolaridade de seu filho, ressaltando dessa forma,
um maior comprometimento por parte dos pais na educação de seus filhos, quesito no qual o
incentivo e a participação dos pais é fundamental. A família assim como a escola deve criar
um ambiente convidativo, para formar hábitos de estudo na criança. A atenção, o carinho e o
interesse fortalecerá a criança na autoestima e consequentemente o rendimento escolar.
Dentre os principais materiais, faz uso do Manual da Consciência Fonêmica, alfabeto móvel,
jogos didáticos, e muitos outros.

A alfabetizadora participa efetivamente do Pacto e considera que está sendo muito


proveitoso. Diz que é a oportunidade que nós professores temos de estudar, ler, trocar
24

experiências, dar e ouvir sugestões, compactuar ideias e principalmente confeccionar


materiais que contribuam para nossa prática em sala de aula e tornem o ambiente mais
criativo.

A preocupação com a aprendizagem e o domínio da leitura e da escrita, por parte dos


profissionais, está cada vez mais presente no cotidiano escolar e na sociedade como um todo.
Ir além da aquisição do código escrito é indispensável. É necessário fazer o uso da leitura e da
escrita no cotidiano escolar, para que o aluno o possa usufruir com competência desses
saberes no seu dia-a-dia.

A alfabetização se concretiza no transcorrer das séries iniciais num processo de


superação da codificação e decodificação, resultando no processo de alfabetizar letrado, isto é,
que a criança tenha a compreensão de ler e interpretar, onde se desenvolve e se identifica com
diferentes tipos de símbolos escritos que acontecem em nossa sociedade, “leitura de mundo”.
Mas é importante destacar que cada professor de acordo com sua realidade, tem um “olhar”
próprio sobre o processo de alfabetização e sua forma de abordagem de atividades propostas
aos alunos no decorrer de suas ações na sala de aula.

O fato de a criança não conseguir se alfabetizar no 1º ano de escolaridade é um ponto


de discussão bastante relevante, levando em consideração que inserir todas as crianças de seis
anos em um ambiente alfabetizador foi um dos principais objetivos da aprovação do Ensino
fundamental de nove anos em 2006. Apesar de a medida tentar suprir os índices de
analfabetismo, ou tentar atingir crianças que nunca tiveram contato com o mundo letrado
antes do 1º ano. A mesma considera que a questão da maturação para o caminho da
alfabetização é essencial e de que a tarefa da alfabetização não deve ser apenas dos
professores do 1º ano e sim de todas as séries iniciais.

Diante das dificuldades que enfrenta, procura perceber os principais sintomas das
crianças, solicita o comparecimento dos pais, sendo que a partir da conversa, das providências
e acompanhamento dos mesmos, vai analisando os resultados em sala de aula. Dependendo do
caso é solicitado o auxílio do apoio pedagógico da escola e realizado novos
encaminhamentos. Segundo a professora, é importante salientar que nesses casos o
profissional também deve ter um olhar diferenciado, e que é possível perceber que cada
indivíduo aprende de forma diferente e única, não sendo possível generalizar os
25

ensinamentos, mas sim, é necessário que se faça a tentativa e que seja criado um método
diferente.

Ao questionar alguma sugestão, deixa bem claro que, como professora deve lançar sob
os alunos um olhar especial de observação e atenção e que sempre deve ter consigo a
sensação de que diante de eventuais dificuldades, há sempre algo a ser feito para ajudar esses
alunos a superarem seus obstáculos e possam vir apresentar qualquer diferença de ritmo ou de
comportamento.

“É necessário repensar as práticas pedagógicas mediante os resultados que vamos


observando, sejam eles positivos ou não, e principalmente para aqueles que não atinjam o
mesmo patamar de aprendizagem” diz a mesma, é preciso ter muito entusiasmo para o
processo de alfabetização, gostar do que se faz, observar as necessidades das crianças e
enxergá-las como sujeitos do seu conhecimento e que, portanto, para cada uma é preciso
acima de tudo respeitar o seu tempo, trocar o método se for necessário e tentar sempre fazer o
melhor. O importante é sentir-se realizada com o resultado de nossas ações.

Acredito que a professora alfabetizadora deixou bem claro suas ideias, mostrando um
pouco de sua experiência e o que pensa diante deste processo de alfabetização e letramento,
assim como a mudança do Ensino Fundamental de nove anos.

Dando sequência a esta pesquisa, conversei com a coordenadora da instituição, com o


objetivo de entender como a escola se organizou com a mudança dos nove anos; se houve
alguma preparação para esta implantação e que movimentos aconteceram.

Entretanto, a mesma destacou que em 2005 foi promulgada a primeira lei específica do
Ensino fundamental de nove anos, a lei 11.114/05, que altera o art. 6º da LDB, tornando
obrigatória a matrícula da criança aos seis anos de idade no Ensino fundamental. Enquanto
esta lei modifica a idade de ingresso neste nível de ensino, a lei 11.274/06 trata da duração do
Ensino Fundamental, ampliando-o para nove anos, com matrícula obrigatória aos seis anos.
Diante das determinações legais a escola passou a reorganizar o Ensino Fundamental, não
apenas o primeiro ano, mas toda a estrutura dos nove anos de ensino: planejamento de vagas,
número de salas de aula, adequação dos espaços físicos, recursos humanos, adequação do
26

material didático, atualização do Projeto Pedagógico e Regimento Escolar. Paralelo a esta


reorganização, em 2007, a escola implantou o Ensino Fundamental de nove anos.

Mais que cumprir uma determinação legal, o Ensino Fundamental de nove anos, onde
a criança ingressa um ano mais cedo, teve-se a preocupação de garantir a aprendizagem da
criança, respeitando a especificidade da infância nos aspectos físico, social, psicológico,
intelectual e cognitivo. No documento Ensino Fundamental de nove anos: orientações para a
inclusão da criança de seis anos de idade, elaborado pelo MEC, afirma-se que:

O ingresso destas crianças no Ensino Fundamental não pode constituir-se


numa medida meramente administrativa. É preciso atenção ao processo de
desenvolvimento e aprendizagem delas, o que implica conhecimento e
respeito às suas características etárias, sociais, psicológicas e cognitivas.
(MEC/SEB, 2007, p.6)

Nessa perspectiva as professoras alfabetizadoras procuram garantir que a ludicidade,


eixo integrador na Educação Infantil, continue também no Ensino Fundamental. Disse
também, que a criança aos seis anos de idade se expressa através do movimento, da oralidade,
do desenho e da escrita, porém, esse fazer pedagógico foi um desafio, pois não houve
formação específica para os professores encarregados dessa nova turma de seis anos, não era
apenas encaixar as crianças de seis anos no Ensino Fundamental, mas o que fariam no espaço
escolar se não era mais Educação Infantil e nem primeiro ano do Ensino Fundamental.

Segundo a coordenadora, o Ensino Fundamental de nove anos na instituição se


completa no ano que vem em 2015, pois no momento tem até o 8º ano. Mas o que percebe, é
que a criança tem um tempo maior com mais oportunidades para a alfabetização, já há a
clareza, principalmente por parte das famílias que ao final do primeiro ano, este não finda
seus objetivos, mas que há uma continuidade no processo da alfabetização.

Porém, ao meu ver como futura pedagoga, acredito que a maioria das escolas públicas
estão realmente preocupadas com este processo de ensino e ampliação dos nove anos, que
através da pesquisa empírica, ampliou a minha compreensão referente a este processo de
ensino na área da alfabetização e letramento, e que tanto a alfabetizadora, quanto a
coordenadora foram claras e objetivas em suas respostas.
27

Considerando as leituras e a observação nos anos iniciais de minha experiência na


alfabetização, chego à conclusão de que é possível alfabetizar letrando, desde que
consideremos os sujeitos da aprendizagem como sujeitos de direitos e deveres, identificando-
os no mundo da sociedade letrada.

A partir do que foi relatado até o presente momento, creio que o processo de
alfabetização nos anos iniciais busca um comprometimento maior diante da escola e dos
profissionais alfabetizadores.

Alfabetizar uma criança não é nada fácil, precisa-se de todo um método especial, que
contribua o aprendizado de modo gradativo e sólido, sabendo respeitar o processo do mesma
no seu desenvolvimento, integrar a criança de forma que se sinta à vontade, confiante no que
está sendo proposto e desenvolvido.
Diante das ideias destacadas nos capítulos anteriores, percebo que o caminho de um
ensino gratificante vem através dos recursos didáticos ofertados pela instituição e das
formações continuadas para os profissionais de ensino, pois todo o professor precisa se
especializar, buscar cada vez mais conhecimentos, para que a partir de então seu ensino se
torne prazeroso, e proveitoso.

Com a ampliação do ensino de nove anos, os compromissos das escolas aumentaram,


pois houve mudanças no currículo, a proposta pedagógica necessariamente precisou ser
alterada, reconhecendo a obrigatoriedade da matrícula das crianças com seis anos de idade e o
comprometimento maior na educação vinda tanto dos pais, como das escolas num todo.

Referente a pesquisa empírica, pude apreender que a alfabetizadora, como também a


coordenadora, estão cientes desta mudança de ensino, propondo o melhor para a escola e
também para as crianças nesta inseridos.

Sempre tive dúvidas neste processo de ensino na área da alfabetização e letramento,


me perguntando muitas vezes: Como é feito, qual a melhor maneira para se alfabetizar uma
criança? Que caminhos uma professora busca? Como as escolas se adaptaram ao ensino dos
nove anos?
28

E foi dessa maneira, através das leituras, da pesquisa feita, que pude compreender este
ensino, me identificando mais e sabendo quais os caminhos propostos para se alfabetizar,
como o professor deve dar início, reconhecer o aprendizado do aluno, e ver mais de perto a
forma de como a escola esta buscando melhorias para o ensino dos nove anos.

Para finalizar, venho ainda salientar que a cartilha não traz o ensino desejado, pois
nesta já se encontra o pronto, desconsidera o mais importante princípio das crianças, que
devemos trabalhar a ludicidade, a construção, deixando que a mesma faça grandes
descobertas, usando seu mundo imaginário e identificando de forma prazerosa o mundo da
leitura e escrita. Constatei ainda, através da observação na turma de alfabetização, que a
professora considera todos estes fatores, fazendo e construindo o melhor com seus alunos
29

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Não seria o caso de alfabetizar letrando ou letrar alfabetizando?

Tendo que concordar com Soares (1985, p. 21), quando ela destaca a necessidade de
uma teoria que apresente um conceito de alfabetização,

Suficientemente amplo para incluir a abordagem mecânica do ler/escrever, o


enfoque da língua escrita como um meio de expressão/compreensão, com
especificidade e autonomia em relação à língua oral e, ainda, os
determinantes sociais das funções e fins da aprendizagem da língua escrita
(KRAMMER,1986, p.17).

A afirmação evidencia a defesa de uma alfabetização ampliada, apontando para o


letramento, pois na verdade, segundo a autora, alfabetização e letramento se complementam, e
apenas com a articulação entre ambos os conhecimentos, é que o sujeito poderá inserir-se na
sociedade que é comandada pela linguagem. A alfabetização é um elemento fundamental,
necessário para se inserir na sociedade letrada, desde que, simultaneamente, seja trabalhada a
função social desta aprendizagem, desenvolvendo práticas/experiências de leitura e escrita em
situações concretas e significativas. Daí que os defensores do letramento lançam
questionamentos sobre a impossibilidade de formar um leitor sem que junto se trabalhe
questões mais abrangentes sobre as funções sociais destes conhecimentos.

Soares é enfática na distinção entre alfabetização e letramento. Para ela, alfabetizar


lembra ensinar o código alfabético e letramento como familiarizar o aprendiz com os diversos
usos sociais da leitura e da escrita. (Carvalho, 2005, p. 66) afirma que letrado é aquele que se
apropriou suficientemente da escrita e da leitura a ponto de usá-las com desenvoltura, com
propriedade, para dar conta das situações sociais e profissionais. Diante dessa afirmação, com
certeza, a autora não está se referindo ao processo inicial da alfabetização.
30

Como já afirmei anteriormente, Paulo Freire, já defendia, antes de surgir a polêmica


do letramento, uma alfabetização que supere o desenvolvimento das competências individuais
no uso da escrita, afirmando que ser alfabetizado deveria significar ser capaz de usar a leitura
e a escrita como um meio de tornar-se consciente da realidade, usar a leitura e a escrita como
um meio de tornar-se consciente da realidade e transformá-la... E isso num processo
dialógico. Não seria essa uma antecipação ao conceito de letramento?

O importante é perceber que alfabetizar e letrar são processos distintos, porém,


interligados. Como afirma Magda Soares (2003), é possível alfabetizar letrando, isso é,
podemos ensinar as crianças a ler, conhecer os sons que as letras representam e ao mesmo
tempo se inserir ao método científico da alfabetização diante da escrita necessária ao processo
de ensino.

Como argumenta Emília Ferreiro (2011), é a criança que constrói a escrita e que a
escrita, como toda representação, baseia-se em uma construção mental que cria suas próprias
regras, enfatizando a necessidade de conhecimentos para aqueles que pretendem organizar e
sistematizar um trabalho pedagógico que leve em consideração o desenvolvimento cognitivo
do aluno e a língua escrita.

Acredito diante desta ideia, que o profissional por mais conhecimento que possua,
necessite cada vez mais de formações para que possa realizar este processo de alfabetização
de forma cada vez mais prazerosa, gratificante, com metodologias que busquem um ensino e a
construção do saber de forma profunda, pois o alfabetizador, precisa se especializar, tornar a
criança ao mundo da sociedade letrada de uma forma que esta consiga interagir e
compreender o lugar onde está inserido, os caminhos alcançados. Dorneles citando Deleuze:

Penso no processo de alfabetização como uma dinâmica que se dá numa


cartografia traçada por muitos mapas, os quais apontam muitos caminhos a
serem alcançados e perseguidos. Caminhos de muitas mãos. Mãos que se
cruzam entre adultos e crianças e que tem o faz de conta como cor ao fundo.
É nesta expectativa de encontrar os caminhos que entendo a criança como
devir. Devir que é sempre um processo, nem começo, meio ou final de
viagem – é um eterno processo de tornar-se, na ética de afirmações da vida.
(DORNELES APUD DELEUZE, 2010)
31

Perfeito, pois a alfabetização não tem fim, a criança por mais que já domine a leitura e
escrita, sempre estará num processo de buscas, barreiras a serem enfrentadas e alcançadas no
caminho da alfabetização e letramento na sociedade onde está inserida.

Para que os sujeitos alfabetizados produzam cada vez mais conhecimentos,


necessitam-se certas condições e estratégias constituidoras, pois nossas aprendizagens são
produto daquilo que colocamos em relação e que faz parte do nosso cotidiano.

Acredito ainda, que o profissional da área de alfabetização ao realizar o processo de


leitura e escrita, deva identificar a realidade vivida de cada criança, seus hábitos, costumes,
conhecer o seu processo familiar, buscando então a criticidade de uma aprendizagem que
proporcione o verdadeiro sentido do saber, pois muitas vezes a criança não costuma ter o
hábito da leitura no âmbito familiar e ao se deparar com o ensino escolar, acaba acarretando
esta dificuldade de ensino proposto pela professora, não conseguindo se identificar na
alfabetização e letramento.

Para que o aluno aprenda escrever, precisa primeiro de tudo ser alfabetizado,
entretanto, destaco mais uma vez, que alfabetização e letramento se articulam, pois
necessitamos sim criar o método de alfabetizar letrando, ou letrar alfabetizando, fazendo com
que a criança no momento da leitura, ao começar conhecer, identificar as letras, formando a
palavras, consiga de seu jeito já ir buscando o sentido do método de alfabetização que a
professora está propondo, pois muitas vezes, só o fato de estar vendo as imagens de um livro,
a criança já está criando a sua própria leitura de mundo, sendo alfabetizada, se identificando
em uma cultura letrada em diferentes contextos sociais.

Em síntese afirmo que para alfabetizar letrando, concordando com Durante (2003),
faz-se necessário romper com o modelo de escola: escola não é lugar de fazer cópias e contas,
ler o livro didático e aprender as letras. É necessário que o sujeito aprenda a expor suas
opiniões, ouvir opiniões de outros, a ouvir contos, escrever, mesmo que não seja de modo
convencional, ler mesmo que seja um título de um texto, ler problemas e resolvê-los,
manusear um jornal, ler notícias, comentá-las... Aprender a ler e escrever e junto aprender
coisas novas de um jeito diferente.
Contudo, pensando nas instituições formadoras de profissionais do ensino,
acreditamos que o processo de ensino da alfabetização na busca de alfabetizadores de
32

crianças, poderá nos proporcionar uma alfabetização mais desejada, novas perspectivas. A
criança precisa superar o seu desenvolvimento de competências individuais, passando a
compreender e reconhecer que ser alfabetizado é capaz de tornar a leitura e escrita no
cotidiano como um meio de conhecer, interagir na realidade, tornando-se praticamente
defensor deste processo.

Foi a partir das classes dominantes, do século XX a XXI que surgiram escolas
públicas com maior exigência no ser alfabetizado, saber a ler e escrever. Desde o fim do
século XIX se amplia esta busca de aprovação da criança e adolescente a serem alfabetizados,
havendo melhorias no processo de alfabetização.

Porém, a criança aprende mais ainda, adquire o gosto do aprender, quando encontra
adultos que lhe transmitem e lhe mostrem o mundo de uma forma lúdica e desafiadora,
desenvolvendo na mesma várias expectativas de ensino diante de uma leitura e brincadeiras
que possam possibilitar a alfabetização num processo mais degustante, fazendo a criança
imaginar, querer cada vez mais. Feil (2004, p. 44):

É importante que os textos das crianças possam servir de subsidio para novas
descobertas, novas situações de aprendizagens e novas construções. Saber
ler, nesta visão, é ir além da interpretação literal, sabendo relacionar o lido
com experiências vividas, ouvidas, presenciadas e/ou ainda, com outras
leituras. Saber ler é saber recriar o lido em outras atividades, sejam de escrita
(é registro, é memória), de jogo lúdico e cênico, de artes plásticas, de fixão
de letras, sílabas, ortografia, etc..

Entretanto, para dar fim a esta reflexão, acredito que quando nos referimos a “textos”,
podemos até nos questionar a uma palavra, pois através de palavras diferentes, a criança
poderá descrever e criar várias ideias, identificando enunciados e compreendendo do seu jeito
o que está querendo descrever. Porém, a presença de um adulto em sua fase de aprendizado é
essencial, para que possam transmitir à criança um mundo de diferentes formas para seu
processo de alfabetização.

Deixo ainda como sugestão, que todo o profissional de ensino, não pode deixar de se
aperfeiçoar, criar caminhos que possibilitem a riqueza no ensino-aprendizagem. O professor
alfabetizador, precisa acima de tudo ter amor pela profissão, paciência, domínio, pois a
33

criança só aprende quando percebe que o profissional está disposto, lhe ensinando
simultaneamente com amor.

O mestre é um caminho para seu aprendiz chegar à sabedoria. O aluno tem


de superar o professor. O verdadeiro mestre se orgulha de ter sido um degrau
na vida do aprendiz que venceu na vida. Ensinar é um gesto de generosidade,
humanidade e humildade. É oferecer alimento saboroso, nutritivo e digerível
àqueles que querem saber mais porque ensinar é um gesto de amor...
(http://www.tiba.com.br/)
34

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