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CRIADO-NÃO-TÃO-MUDO

“Reparação”, Ian McEwan


Companhia das Letras, 2002

Jogo de Cena (Brasil, 2007). Dir.: Eduardo Coutinho

Violência Gratuita (Funny Games, Áustria, 1997). Dir.: Michael Haneke

Cópia Fiel (Copie conforme, França, 2010). Dir.: Abbas Kiarostami

O cineasta austríaco/alemão/francês Michael Haneke certa vez disse “O cinema é


mentira 24 quadros por segundo”, uma óbvia inversão da citação de Godard “O cinema é a
verdade 24 quadros por segundo”, mas que, ao invés de contradizê-la, parece mais pretender
somar-se a ela. O conteúdo desta afirmação é explicitamente percutido na filmografia do
diretor, que não economiza em manipular seu público somente para, no momento seguinte,
encontrar maneiras de subverter sua expectativa. Em ​Violência Gratuita​, particularmente,
acompanhamos uma história típica hollywoodiana, que não importa de fato, a serviço de uma
narrativa que busca confrontar o espectador com o próprio fascínio pela violência, e, em seu
desfecho, com a reação e a aceitação do destino de seus personagens.
Esse diálogo entre verdade e mentira, realidade e ficção, original e cópia, e
principalmente a relevância ou não da constatação destas diferenças, está em diversas obras
de artistas que, cada um a sua maneira, questiona o espectador/consumidor de arte acerca de
seus julgamentos sobre uma obra. Tematicamente distante do filme austríaco, mas com
semelhanças nesse jogo de percepção, há o romance do escritor inglês Ian McEwan,
Reparação​, publicado em 2001, em que uma sucessão de equívocos leva uma jovem a
praticamente destruir a vida de um rapaz, e depois percebendo a gravidade de suas ações,
esta empreende a reparação do título. O que diferencia este romance de outros tradicionais é a
forma como lida com seu universo fictício, usando seus personagens para exibir a confusão de
perspectivas a que estamos sujeitos e culminando num último capítulo que surpreende e
questiona ao revelar a natureza de sua narrativa. (E que, de certa forma, rima com o mal falado
final de ​A.I. - Inteligência Artificial​).
Já o documentário ​Jogo de Cena​, de Eduardo Coutinho, é instigante desde sua
premissa: mulheres que deram depoimentos de suas vidas e atrizes que interpretaram estes
depoimentos têm suas cenas combinadas numa montagem intercalada, confundindo o
espectador e criando um exercício narrativo fascinante não apenas em função de sua estrutura,
mas também por seu discurso, que defende que a constatação da irrealidade da cena (e da
arte de modo geral) não deve interferir na percepção desta, já que todos, mesmos os
depoimentos reais, têm, em tela, efeito ficcional. Isso se evidencia em um momento em que
uma das mulheres volta para completar seu depoimento, argumentando querer passar uma
impressão diferente. Isto é, no fundo, mesmo as não-atrizes estão ali interpretando versões de
si mesmas.
Por fim, a história criada pelo iraniano Abbas Kiarostami para ​Cópia Fiel combina a
discussão de seus personagens acerca do valor da cópia na arte - um defendendo que a
criação artística reside mais no gesto criador que no objeto criado, o outro enfatizando que
importa mais o senso de quem desfruta a obra - com uma mutação narrativa que pretende
justamente experimentar o que seus personagens discorrem. Para discutir com mais detalhes
este filme e as outras obras citadas haveria que se fazer revelações importantes sobre suas
tramas. Registre-se, por enquanto, serem material estimulante de reflexão sobre arte.