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A Chuva Vermelha em Kerala (religião, biologia,

natureza e engenho)

«...e polvilharam-nas salpicando aos campos-mãe férteis as


sementes divinas do trigo e da cevada que fecundando-os os abençoou
com o oiro da imortalidade e do deus sol, dando pão e cerveja aos filhos
dos filhos e aos filhos dos netos...»

Se se dissesse que este pequeno texto corresponderia a um


excerto dalguma escritura arcaica religiosa ou de culto, a sua
veracidade passaria despercebida tão contemporânea continua a
ser a sua relevância de conteúdo à sobrevivência da espécie
humana, não continuasse a mesma intrinsecamente dependente
da assimilação de nutrientes e gravitando sob a maior fonte de
energia – o nosso Sol. Mas é fictício o trecho, as aspas serviram
apenas para realçar a ilusão.

Nutrição e reprodução são dois pontos tangentes numa espiral do ciclo


da vida, tomados por formas culturais e religiosas desde o presente aos
recônditos cognitivos ou inconscientes da forma antepassada em
processo de hominização. As grandes pedras de formas fálicas; os falos-
menir afincados nas terras de simbologia feminina, as deusas terra
mãe, fertilizavam os campos assegurando que as colheitas fossem
abundantes, erigiam-se aos céus como marcos de virilidade força e
protecção à reprodução das castas;

As flores "amor-dos-homens" (dente de leão) quando já secas são fonte


de jogos infantis: ...e o teu pai é careca ou não é careca? A criança de
acordo com os seus desígnios brincando num jogo feito estafeta,
assopra artificialmente as sementes que aparentam no conjunto uma
cabeleira branca perfeitamente esférica.
À medida que as sementes se dispersam pelo ar a cabeleira vai ficando
rala. Quais pára-quedas fecundadores, planam à vontade das condições
atmosféricas encontrando ou não poiso para a sua estafeta genética;

Tal como os Tumbleweeds do deserto, uma semente envolta num


mecanismo todo o terreno que percorre centenas de quilómetros
impulsionado pelo vento na quimera em encontrar terra fértil. Sem vida
e aparentemente subjugado pelo caos e pelas intempéries… até ao
niquinho de terra húmida;

Os cocos, sementes do mar navegadoras de absurdas léguas marinhas,


estrategas das correntes, naus biológicas à procura de porto… cascas
de noz no meio do gigante atlântico, colonizadores de ilhas e baías,
refresco do agente Homem que o dispersa por terra adentro, por rotas
comerciais transforma-se num produto, pela amplitude geográfica dos
interiores doutras culturas a quem seja apresentado.
Cápsulas que dispersam vida, psicológica, cultural ou orgânica.

Porque não os foguetões analogias do mesmo sintoma? Um artificial


engenho representativo duma ejaculação humana colectiva, como as
formigas para os abismos do espaço colonos do novo milénio,
atravessando esse éter negro de luz de infinitas distâncias, como as
sementes: a flor do pai careca chega ao novo mundo ou fica a meio
caminho? Quer-se voar, para onde, para quê?

O Adamastor faz caretas e grunhe indecifráveis, mas o futuro incorpora


a potência do presente e responsabiliza-se pelo passado. Já se voou não
se voou? E navegar já se navegou? A roda, já foi inventada? Tudo já.

Filosofias em astrobiologia têm vindo a ganhar terreno saindo da


margem do ridículo. Panspermia com etimologia em semente, é uma
delas: a ideia base define que a vida possa ser transportada dalguma
forma através do cosmos em veículos, como os cometas, os meteoritos.

Em analogia à semente de pai careca, ao coco ou ao tumbleweed, estas


naves biológicas poderão percorrer absurdos percursos espaciais
fazendo transbordo e resistindo pelo universo fora, chegando mesmo a
alojar-se num qualquer planeta fértil ou meio propício, germinando e
desenvolvendo-se naquilo a que chamamos biologia complexa.

Descenderemos efectivamente das poeiras cósmicas? A terra antes de


ser planeta já pertencia ao espaço…

A vida não será tão mais comum no espaço do que a imagináramos?

Ver formas de dispersão de sementes


Dispersão de formas biológicas

Panspermia - conceito
Meteorito ALH844001 – polémica em torno (vida fossilizada transportada de Marte)
Kerala Red Rain – controvérsia sobre (a origem do conteúdo da chuva)

A Chuva Vermelha em Kerala / Intergalactic Spores of Life


1 Junho 2006 (original) / 28 Julho 2008

versão em inglês: Intergalactic Spores of Life (2008)


autor: José Pedro Gomes
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