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01/04/2018 J.R.

Guzzo: Errando para pior - Instituto Millenium


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J.R. GUZZO: ERRANDO PARA PIOR


J.R. Guzzo (https://www.institutomillenium.org.br/author/jrguzzo/)
 Artigos (https://www.institutomillenium.org.br/categoria/artigos/) e Mais Recentes (https://www.institutomillenium.org.br/categoria/recentes/) e Politica (https://www.institutomillenium.org.br/categoria/general-politica/)  24/03/2018

O Brasil de hoje não é uma democracia; provavelmente nunca foi. É verdade que nos últimos trinta anos a “sociedade
brasileira”, essa espécie de espírito santo que ninguém entende direito o que é, mas parece a responsável por tudo o que
acontece no país, tem brincado de imitar Estados Unidos, Europa e outros cantos virtuosos do mundo. A tentativa é copiar
os sistemas de governo que existem ali — nos quais as decisões públicas estão sujeitas à igualdade entre os cidadãos, às
suas liberdades e à aplicação da mesma lei para todos. Os “brasileiros responsáveis”, assim, ngem que existem aqui
“instituições” — uma Constituição com 250 artigos, três poderes separados e independentes uns dos outros, “Corte
Suprema”, direitos civis, “agências reguladoras”, Ministério Público e as demais peças do cenário que compõe uma
democracia. Mas no presente momento nem a imitação temos mais — pelo jeito, os que mandam no Brasil desistiram de
continuar com o seu teatro e agora não existe nem a democracia de verdade, que nunca tivemos, nem a democracia
falsi cada que diziam existir.

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Como pode haver democracia num país em que onze indivíduos que jamais receberam um único voto governam 200
milhões de pessoas? Os ministros do Supremo Tribunal Federal, entre outras manifestações de onipotência, deram a si
próprios o poder de estabelecer que um cidadão, por ser do seu agrado político, tem direitos maiores e diferentes que os
demais. Fica pior quando se considera que sete desses onze foram nomeados, pelo resto da vida, por uma presidente da
República deposta por 70% dos votos do Congresso Nacional e por um presidente hoje condenado a mais de doze anos de
cadeia. Mais: seus nomes foram aprovados pelo Senado Federal do Brasil, uma das mais notórias tocas de ladrões
existentes no planeta. Querem piorar ainda um outro tanto? Pois não: o próximo presidente do STF será um ministro que foi
reprovado duas vezes seguidas no concurso público para juiz de direito. Quando teve de prestar uma prova destinada a
medir seus conhecimentos de direito, o homem foi considerado incapaz de assinar uma sentença de despejo; daqui a mais
um tempo vai presidir o mais alto tribunal de Justiça do Brasil. Outro ministro não vê problema nenhum em julgar causas
patrocinadas por um escritório de advocacia no qual trabalha a própria mulher. Todos, de uma forma ou de outra, ignoram o
que está escrito na Constituição; as leis que valem, para eles, são as leis que acham corretas. Democracia?

Democracia certamente não é. A população não percebe isso direito — e a maioria, provavelmente, não ligaria muita coisa
se percebesse. Vale o que parece, e não o que é — o que importa é a “percepção”, como se diz. Como escreveu Dostoievski,
a melhor maneira de evitar que um presidiário fuja da prisão é convencê-lo de que ele não está preso. No Brasil as pessoas
estão mais ou menos convencidas de que existe uma situação democrática por aqui; há muitos defeitos de funcionamento,
claro, mas temos um sistema judiciário em funcionamento, o Congresso está aberto e há eleições a cada dois anos, a
próxima delas daqui a sete meses. Os analistas políticos garantem que o regime democrático brasileiro “está
amadurecendo”. Quanto mais eleições, melhor, porque é votando que “o povo aprende”. A solução para as deformações da
democracia é “mais democracia”. O eleitorado “sempre acerta”. E por aí segue essa conversa, com explicação em cima de
explicação, bobagem em cima de bobagem, enquanto a vida real vai cando cada vez pior.

Não ocorre a ninguém, entre os mestres, comunicadores e in uencers que nos ensinam diariamente o que devemos pensar
sobre os fatos políticos, que um fruto que está amadurecendo há trinta anos não pode resultar em nada que preste. Como
poderia, depois de tanto tempo? A cada eleição, ao contrário da lenda, os eleitos cam piores. Esse Congresso que está aí,
no qual quase metade dos deputados e senadores tem algum tipo de problema com a Justiça, é o resultado das últimas
eleições nacionais. De onde saiu a ideia de que as coisas vão melhorando à medida que as eleições se sucedem? Do Poder
Executivo, então, é melhor não falar nada. Da última vez que o povo soberano foi votar, em 2014, elegeu ninguém menos
que Dilma Rousseff e Michel Temer, de uma vez só, para a Presidência da República. Está na cara, para quem não quer
complicar as coisas, que o “povo” não aprendeu nada dos anos 80 para cá. Está na cara que o povo, ao contrário da fantasia
intelectual, não apenas erra na hora de escolher; erra cada vez para pior.

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01/04/2018 J.R. Guzzo: Errando para pior - Instituto Millenium
Para car em apenas um caso de depravação política epidêmica, tipo dengue ou zika, é só olhar durante um minuto quem a
população do Rio de Janeiro, em eleições livres e populares, escolheu para governar seu estado e sua cidade nos últimos
trinta anos. Eis a lista: Leonel Brizola, Anthony Garotinho, a mulher de Anthony Garotinho, Benedita da Silva, Sérgio Cabral
(possivelmente o maior ladrão da história da humanidade), Eduardo Paes e, não contente com tudo isso, um indivíduo que
se faz chamar de “Pezão”. Assim mesmo: “Pezão”, sem nome nem sobrenome, como jogador de futebol do Olaria de
tempos passados. Que território do planeta conseguiria sobreviver à passagem de um bando desses pelo governo e pela
tesouraria pública? É óbvio que tais opções, repetidas ao longo de trinta anos, têm consequências práticas. O Rio de Janeiro
de hoje, com sua tragédia permanente, é o resultado direto de uma democracia que faliu de ponta a ponta. Em vez de
garantir direitos, liberdades e ordem, gera apenas governos criminosos e destruidores — acabou, en m, na entrega da
segunda maior cidade do Brasil a assassinos, assaltantes e tra cantes de droga. São eles que mandam na população. A lei
brasileira não vale no Rio.

Não pode existir democracia sem a expectativa, por parte das pessoas, de que a lei vai ser aplicada — pois só assim seus
direitos poderão ser exercidos. Como falar de democracia num país com mais de 60 000 homicídios por ano, dos quais
menos de 5% são investigados e punidos? Mais de 60 000 assassinatos num ano são uma agressão tão clara à
democracia quanto um des le de tanques de guerra para tomar o palácio do governo; aqui são considerados um “problema
social” pelos democratas-progressistas. (A solução sugerida pela oposição, e levada a sério por gente de grande intelecto, é
acabar com a PM; acham que sem polícia o crime vai diminuir.) A verdade é que o atual regime brasileiro não consegue dar
ao cidadão nem sequer o direito à própria vida — um mínimo dos mínimos, em qualquer país do mundo. Não se asseguram
os direitos de propriedade, de ir e vir, de integridade física. Não se assegura coisa nenhuma — só a punição para quem o
Estado acha que está lhe devendo 1 centavo de imposto, ou deixando de cumprir algum item nos milhões de leis que uma
burocracia tirânica e irresponsável multiplica como ratazanas. “Constituição Cidadã”? Só a ideia já é uma piada.

Não dá para falar em democracia no Brasil, além do mais, quando se veri ca que tantas das nossas leis mais importantes e
sagradas se destinam a estabelecer diferenças entre os cidadãos. Ou seja: os que mandam no país passam a vida criando
leis, regras e mandamentos que anulam cada vez mais o princípio universal de que “todos são iguais perante a lei”. Aqui
não: todos são o cialmente desiguais. Isso é resultado da prática de criar “direitos” para todos que nunca foram para todos
— ao contrário, são para poucos e não são direitos, e sim privilégios. Essa trapaça vem desde a Constituinte, e nunca mais
parou. Aprovam-se como “direitos populares” vantagens abertamente dirigidas a grupos organizados, que têm proteção
política e podem pressionar o Congresso. Depois, quando ca evidente que esses benefícios precisam ser revistos para não
arruinar o bolso da população em geral, que tem de pagar em impostos cada centavo da conta, cai o mundo: “Estão
querendo tirar os direitos do povo”. Que “povo”? Povo coisa nenhuma. É justamente o contrário. O brasileiro comum se
aposenta com cerca de 1 200 reais por mês, em média, não importando qual tenha sido o seu último salário. O funcionário
público, por lei, se aposenta com o salário integral; hoje, na média, o valor está em 7 500 mensais. Os peixes graúdos levam
de 50 000 mensais para cima. São cidadãos desiguais e com direitos diferentes.

É uma perfeita palhaçada, também, falar em igualdade quando existem no Brasil aberrações como o “foro privilegiado” ou a
“imunidade parlamentar”. Os “constitucionalistas” falam em independência de poderes, garantias para a liberdade política,
segurança para a democracia etc. Não é nada disso. É pura safadeza en ada na Constituição por escroques, de caso
pensado, para proteger a si próprios do Código Penal. Essa mentira não protege só os políticos. Estende-se também a
juízes, procuradores e ministros dos tribunais de Justiça: ao contrário de todos os demais brasileiros, eles podem cometer
crimes de qualquer tipo, da corrupção ao homicídio, sem ser julgados perante a lei. O pior que pode lhes acontecer é serem
aposentados — com salário integral. Naturalmente, todos dizem que não é bem assim, pois teoricamente, pelo que está
escrito, eles têm de prestar contas dos seus atos; alguns, inclusive, estão sujeitos a impeachment, imaginem só. O que dá
para dizer a respeito é que teoricamente o homem também pode ir à Lua. Só que não vai.

Não existe democracia quando os governos são escolhidos por um eleitorado que tem um dos piores níveis de educação
do mundo — em grande parte é um povo incapaz de entender direito o que lê, as operações simples da matemática, ou as
noções básicas do mundo em que vive. O que pode sair de bom disso aí? O cidadão precisa passar num exame para guiar
uma motocicleta ou trabalhar num caixa de supermercado. Para tirar o título de eleitor, com o qual elege o presidente da
República, não precisa de nada. Pode, aliás, ser analfabeto. Eis aí o Brasil como ele é. Em vez de garantirem as reais
liberdades políticas do brasileiro fazendo com que ele aprenda a ler, escrever e contar, nossos criadores de direitos
resolvem a diferença entre instruídos e ignorantes dando o voto ao analfabeto. Mais: tornam o voto obrigatório e garantem,
assim, que no dia da eleição compareçam todos os habitantes dos seus currais, cujos votos compram com a doação de
dentaduras e com anúncios de felicidade instantânea na televisão — pagos, por sinal, com o seu dinheiro.

Não existe nenhuma democracia no mundo que seja assim.

 Fonte “Veja”, 23/03/2018


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José Roberto Guzzo é do Conselho Editoral da Abril e colunista das revistas "Exame" e "Veja".

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