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______________________________________________________________
M256 5.ed. Mar de histórias : antologia do conto mundial : do romantismo ao realismo : volume 4 / Aurélio Buarque de Holanda
Ferreira e Paulo Rónai (tradução e organização).
- 5.ed. - Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 2013.
(Mar de histórias ; 4)

Apêndice
Inclui bibliografia
ISBN 978-85-209-3758-7

1. Antologias (Conto). I. Ferreira, Aurélio Buarque de


Holanda, 1910-1989. II. Rónai, Paulo, 1907-1992. III. Série.

12-6127. CDD: 808.83


CDU: 82-3(082)
038495
SUMÁRIO

Prefácio

MAR DE HISTÓRIAS
Do romantismo ao realismo

Alfred de Musset
Mimi Pinson (Perfil de Grisete)

Álvares de Azevedo
Solfieri

Gottfried Keller
Espelho, o gatinho

William Wilkie Collins


Uma cama terrivelmente esquisita

Bjørnstjerne Bjørnson
O ninho das águias

Multatuli
A história do cavouqueiro japonês
Providência
Começou assim

Charles Baudelaire
Morte heroica

Rebelo da Silva
Última corrida de touros em Salvaterra
Bret Harte
A sorte do Acampamento Uivante

Conrad Busken-Huet
Gitje
José Antonio Campos
Os três corvos

Gustavo Adolfo Bécquer


O Miserere

Alphonse Daudet
Os velhos
As empadas

Barbey D’Aurevilly
O mais belo amor de d. João

Jens Peter Jacobsen


Um tiro no nevoeiro

Gustave Flaubert
Uma alma simples

Jan Neruda
“Hastrman”
O vampiro

Guy de Maupassant
Dois amigos
As joias
A felicidade

APÊNDICES
Bibliografia de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira
Bibliografia de Paulo Rónai
Autores e obras presentes em Mar de histórias
Notas
PREFÁCIO

Neste livro, nada menos do que 12 países são alcançados, muitos deles pela primeira vez. Na
Europa, revelam-se como produtores de contos a Suíça alemã, a Noruega, a Holanda e a
Tcheco-Eslováquia.1 Conquanto nem todos possuidores de costa marítima, são todos atingidos
por essa corrente de imaginação brotada do fundo dos tempos. Recolhemos histórias oriundas
de grandes áreas culturais, como a França, a Itália, a Espanha, a Alemanha, a Grã-Bretanha e
os Estados Unidos, até a América do Sul; mais precisamente, o Brasil e, a título de exemplo, o
Equador.
Os contos deste livro vão de 1845 a 1885, período em que o romantismo é substituído pelo
realismo em seus países de origem e atinge pleno desenvolvimento de suas variantes nos
demais. Difícil traçar linhas demarcatórias. Em um mesmo contista podem coexistir as
tendências romântica e realista, como se vê nos dois contos do tcheco Jan Neruda. Por outro
lado, para aquilatar as diferenças possíveis entre os representantes da escola realista, basta
comparar Flaubert, Daudet e Maupassant, tão diversos, embora compatriotas e
contemporâneos.
Tão fortes são as características individuais, que se costuma falar de conto
maupassantiano, tchekhoviano, machadiano, protótipos que dão origem a verdadeiras famílias.
A partir do romantismo e, mais ainda, do Realismo, o conto, além de objeto de mero
divertimento, alimenta-se doutras intenções. Tal como os contistas da Idade Média, além de
agradar, se propunham educar pela moralidade extraível de suas composições, assim os
modernos, na maioria, além de divertir, procuram também documentar a sociedade, o
ambiente, os costumes no meio dos quais vivem e escrevem. Uma antologia moderna de
contos torna-se, pois, de certa maneira, o espelho dos países de origem. Graças a essa
tendência a leitura de contos pode também ser considerada, e estimulada, como meio de
conhecimento.

15 de fevereiro de 1980.
Aurélio Buarque de Holanda Ferreira
Paulo Rónai
Mar de histórias
Do romantismo ao realismo
ALFRED DE MUSSET

“Alfred de Musset não teve biografia” — escreve Êmile Faguet. — “Nada lhe aconteceu a não
ser o que acontece a todos.”2 Nem por isso deixaremos de anotar alguns dados que podem
interessar ao leitor.
Descendente de uma família de literatos (o pai era biógrafo de Rousseau; o irmão mais
velho, Paul, romancista), distinguiu-se Musset (1810-1857) pela precocidade do talento.
Estudou no Colégio Luís, o Grande, depois na Faculdade de Direito de Paris, mas abandonou
o estudo da Jurisprudência, assim como o da Medicina, começado pouco tempo depois.
As poesias de seus Contos de Espanha e de Itália, publicados aos 19 anos, conquistaram-
lhe fama. Nelas se mostra Musset um romântico apaixonado do pitoresco, e que trata a seu
gosto as regras de poética, mesclando revolucionariamente gêneros e formas.
Assim conta Gautier o aparecimento triunfal do jovem poeta nos salões: “Com a sua
cabeleira loura, dir-se-ia o próprio Febo-Apolo; o medalhão de David mostra-o quase com os
traços de um Deus.”3
Musset lançou-se com extraordinário ardor na vida boêmia. O drama do libertino que se
destrói a si mesmo e aos que o amam, que no meio das orgias conserva uma desesperada
sede de pureza, assunto várias vezes por ele retomado (no poema dramático O cálice e os
lábios, no drama histórico Lorenzaccio, no romance autobiográfico Confissões de um filho do
século), é a experiência do próprio poeta.
No verão de 1833 conheceu George Sand, por quem se apaixonou. Em dezembro partiram
os dois de Paris. Em 29 de março de 1834 voltava Musset de Veneza sozinho, com a
lembrança de uma funda decepção. Esse romance de amor, comentado em todos os salões,
foi contado, anos depois, morto já o poeta, pela própria George Sand, em Ela e Ele, por Paul
de Musset, em Ele e Ela, e por Louise Colet, em Ele.
Os cinco anos seguintes representam o período mais fecundo da vida de Musset: suas
poesias, seus provérbios (peças leves em um ato), suas novelas mais célebres, datam quase
todos dessa fase. Em 1838 é nomeado bibliotecário do Ministério do Interior. O emprego,
porém, não lhe regulariza a vida; ao contrário, fornece-lhe meios de tornar à devassidão.
Escreve cada vez menos. Como, porém, suas peças, compostas vários anos antes, principiam
a ser representadas em 1847, o seu nome não desaparece do cartaz. Em 1848, após a
Revolução, perde o posto (provavelmente por intrigas da vingativa George Sand). Seis anos
após é nomeado bibliotecário do ministério da Educação. Em 1857, depois de prolongada
moléstia cardíaca, morre, com estas palavras: “Dormir, afinal vou dormir.”
Durante toda a sua vida foi Musset uma criança grande — apaixonado, tirânico, egoísta,
bastante irresponsável —, e com tudo isso, ou por isso mesmo, uma personalidade
encantadora, que impressionava fortemente a quantos o conheciam. Bem característico o
episódio contado por seu irmão a respeito de certa viagem que Musset fez de Paris ao Havre
para rever, decorridos muitos anos, uma família amiga. Chegando ao seu destino, começa a
inquietar-se, a indagar de si mesmo se o novo encontro, depois de tão demorada ausência,
não o deixará desiludido; já diante da casa dos amigos, resolve não entrar, para não estragar
reminiscências preciosas, e apressa-se em retornar a Paris.4
A poesia de Musset, que se costuma comparar à de Heine, é quase toda ela uma análise
sutil do amor e da saudade, vazada em formas leves; nela sobressai a série de elegias As
Noites. Entre as suas peças, finas, espirituosas, notam-se: Não se deve jurar por nada, Com
o amor não se brinca, e A roca de Barberina, em que o autor levou à cena a história da
virtuosa castelã, contada primeiro por Bandello.5
Além disso, é autor de contos que se distinguem pelo mesmo estilo vivo, simples, coloquial,
característico do seu teatro e de seus poemas. O enredo e a narrativa obedecem aos voos da
fantasia do poeta. Comparando o talento de Musset contista ao de Mérimée, dá Sainte-Beuve
uma definição particularmente feliz da arte de ambos: “Não procurem no sr. Mérimée essas
transições e esses matizes fugitivos que seduzem nas novelas do sr. de Musset. Nunca ele
procede assim: foge a essas análises do coração feitas em nome do que conta; nunca se lhe
observam essas pequenas coplas sonhadoras ou melancólicas. Quando faz comparações,
elas são oportunas; são necessárias. Ele vai ao fato, põe tudo em ação: a palavra cinge cada
situação, cada caráter. Sua narrativa é nítida, elegante, viva, incisiva. Os próprios diálogos de
suas personagens não têm uma palavra inútil, e na ação ele fixa, previamente, os trechos em
que cada uma delas deve passar. O sr. de Musset, em geral, não sabe senão o começo e os
primeiros passos; deixa-se conduzir por seus apaixonados, e estes por ele, e todos juntos, por
se terem saído tantas vezes bem, comprazem-se em contar com o que lhes dirão as moitas
do caminho.”6
Quase todas as novelas de Musset são um tanto longas, pela ausência de plano e
construção. As melhores de todas são aquelas em que relata episódios tragicômicos da vida
boêmia dos estudantes parisienses, que tão bem conhecia. Em “Frederico e Bernerette” narra
a história dos amores duma costureirinha e dum estudante. Para não estragar a brilhante
carreira de seu amigo, Bernerette, uma prima, aliás mais viva e simpática, da Dama das
Camélias, faz-lhe crer que o atraiçoa; depois, abandonada por Frederico, morre de desgosto.
Outra novela da série é essa deliciosa “Mimi Pinson”, admirável exemplo da definição que
deu Musset da sua arte, referindo-se aos seus imitadores: “Imprudentes, eles ignoram quanto
se deve possuir de bom senso para se ousar não ter o senso comum.’’7
MIMI PINSON (PERFIL DE GRISETE)8
I
Entre os estudantes que no ano passado cursavam a Escola de Medicina havia um rapaz
chamado Eugênio Aubert. Era moço de boa família, e tinha uns 19 anos. Seus pais viviam na
província e davam-lhe uma pensão modesta, mas que lhe bastava. Levava uma vida tranquila,
e passava por ter caráter muito meigo. Os camaradas o estimavam; em qualquer
circunstância, encontravam-no sempre bom e prestativo, mãos largas e coração aberto. O
único defeito que lhe censuravam era um singular pendor para a fantasia e a solidão, e uma
reserva tão excessiva na linguagem e nas mínimas ações que lhe valeu o apelido de Mocinha,
apelido, aliás, de que ele mesmo ria, e ao qual os amigos não ligavam nenhuma ideia que o
pudesse ofender, sabendo-o tão valente como outro qualquer em caso de necessidade; mas
não havia dúvida que seu procedimento justificava um pouco semelhante alcunha, sobretudo
pelo modo como contrastava com os hábitos de seus companheiros. Desde que se tratava de
trabalhar, era ele o primeiro a pôr mãos à obra; mas, se era para gozar a vida, ir a um jantar
no Moulin de Beurre, ou a uma contradança na Chaumière,9 a Mocinha balançava a cabeça e
tornava ao seu quartinho bem arrumado. Coisa quase monstruosa para os estudantes: além de
Eugênio não ter amantes, embora sua idade e aparência lhe pudessem granjear boas
conquistas, nunca ninguém o vira fazer galanteios ao balcão de uma grisete, uso imemorial no
Bairro Latino. As belezas que povoam o monte de Santa Genoveva e compartem os amores
das escolas inspiravam-lhe uma como repugnância que ia quase à aversão. Considerava-as
como gente duma espécie à parte, perigosa, ingrata e depravada, nascida para semear por
toda parte o mal e a desgraça em troca de alguns prazeres. — “Livrem-se de tais mulheres”
— dizia ele. — “são bonecas de ferro em brasa.” E infelizmente achava inúmeros exemplos
para justificar o ódio que elas lhe inspiravam. As desavenças, as perturbações, por vezes até a
ruína, que advêm dessas ligações passageiras, cuja aparência dá a ideia de felicidade, podiam
citar-se com muita facilidade, no ano anterior como agora, e provavelmente como no ano
vindouro.
É escusado dizer que os amigos de Eugênio ralhavam com ele sem cessar, pela sua moral
e seus escrúpulos.
— Que pretendes? — perguntava-lhe com frequência um de seus camaradas, chamado
Marcelo, que fazia profissão de gozador da vida. — Que é que prova um erro, ou um acidente
acontecido uma vez por acaso?
— Que é necessário a gente se abster — respondia Eugênio — a fim de que não aconteça
outra vez.
— Falso raciocínio — replicava Marcelo —; argumento de capuchinho de baralho, que cai
se o companheiro tropeça. Que razão tens para te inquietares? Um dentre nós perdeu ao jogo;
é razão para fazer-se monge? Um já não tem um soldo, o outro bebe água fresca; será que
por isso Elisa perde o apetite? Quem tem a culpa se o vizinho leva o seu relógio ao monte de
socorro para quebrar um braço em Montmorency?10 Nem por isso a vizinha há de ficar maneta.
Tu te bates pela Rosália, levas uma estocada; ela te volta as costas, nada mais simples: seu
porte é por isso menos esbelto? Desses pequenos inconvenientes está cheia a vida, e eles
são menos raros do que pensas. Vê num domingo, quando faz bom tempo, quantos bons
pares de amigos pelos cafés, em passeios e nas tavernas de campo! Olha-me esses grandes
ônibus bem gordos, bem abarrotados de grisetes, que vão ao Ranelagh11 ou à
Belleville.12 Conta o que sai, só num dia de festa, do bairro de São Jacques; os batalhões de
modistas, os exércitos de lingères,13 as nuvens de vendedoras de fumo; toda essa gente se
diverte, toda essa gente tem seus amores, toda essa gente vai lançar-se aos arredores de
Paris, sob os caramanchões dos campos, como revoadas de pardais. Se chove, vão ao
melodrama chupar laranjas e chorar; pois, em verdade, comem muito e choram também com
muito gosto: prova de bom caráter. Mas que mal fazem essas pobres moças que coseram,
alinhavaram, pospontaram e remendaram toda a semana, pregando e praticando, no domingo,
o esquecimento dos males e o amor do próximo? E que de melhor pode fazer um bom homem
de bem que, por sua vez, acaba de passar oito dias dissecando coisas pouco agradáveis,
senão limpar a vista contemplando um rosto fresco, uma perna esbelta, e a bela natureza?
— Sepulcros caiados! — dizia Eugênio,
— Digo e sustento — continuava Marcelo — que se pode e deve fazer o elogio das
grisetes, e que o uso moderado delas é conveniente. Em primeiro lugar, são virtuosas, pois
levam o dia a fazer as vestes mais indispensáveis ao pudor e à modéstia; em segundo, são
delicadas, pois não há lojista de lingerie, ou outra, que não recomende às suas caixeirinhas
tratarem a todos com polidez; em terceiro lugar, são muito cuidadosas e muito asseadas, visto
que têm incessantemente entre as mãos roupa branca, e tecidos que elas não podem
estragar, sob pena de serem menos bem-pagas; em quarto lugar, são sinceras, porque
bebem ratafia; em quinto lugar, são econômicas e frugais, porque têm de se esforçar muito
para ganhar trinta soldos, e, se há ocasiões em que se mostrem glutonas e perdulárias, nunca
é com os seus próprios cobres; afinal, são muito alegres, porque o trabalho que as ocupa é,
comumente, para matar de tédio, e elas se mexem como peixe na água logo que a obra está
concluída. Outra vantagem que elas oferecem é que não nos dão o menor aborrecimento:
passam a vida delas pregadas numa cadeira da qual não se podem afastar, e por conseguinte
lhes é impossível correr atrás dos amantes como as damas da boa sociedade. Além disso,
não são tagarelas, pois têm por obrigação contar os pontos da costura. Não fazem grande
despesa com calçados, porque andam pouco, nem com o vestuário, porque é raro que lhes
deem crédito. Se as acusam de inconstância, não é porque elas leiam maus romances nem
por maldade natural; isso resulta do grande número de pessoas diferentes que passam diante
das suas lojas; por outro lado, elas provam cabalmente ser capazes de paixões verdadeiras,
tantas são, dentre elas, as que se atiram todos os dias ao Sena, ou de janela abaixo, ou que
se asfixiam nos seus domicílios. Apresentam, sem dúvida, o inconveniente de terem quase
sempre fome e sede, precisamente por causa de sua grande temperança; mas é sabido que
se contentam, como refeição, com um copo de cerveja e um charuto: qualidade preciosa que
bem raro se encontra no matrimônio. Em suma, eu sustento que elas são boas, amáveis, fiéis
e desinteressadas, e que é lamentável que às vezes acabem no hospital.
Ordinariamente era no café que Marcelo falava assim, quando estava com a cabeça um
tanto esquentada; então, enchia o copo de seu amigo, e tentava fazê-lo beber à saúde da srta.
Pinson, lingère, que era sua vizinha; mas Eugênio tomava o chapéu, e, enquanto Marcelo
continuava a perorar diante dos seus camaradas, ele discretamente se esquivava.

II
A srta. Pinson não era bem o que se chama uma linda mulher. Há muita diferença entre uma
linda mulher e uma linda grisete. Se uma linda mulher, reconhecida como tal, e assim tratada
em língua parisiense, ousasse pôr um bonezinho, um vestido de guingão e um avental de seda,
seria levada, é certo, a parecer uma linda grisete. Mas, se uma grisete se enfeita com um
chapéu, uma pelerine de veludo e um vestido de Palmyre,14 não é, absolutamente, forçada a
ser uma linda mulher; muito pelo contrário, é provável que adquira o ar de um cabide, e, tendo-
o, estará no seu direito. A diferença consiste, pois, nas condições em que vivem esses dois
seres, e sobretudo nesse pedaço de papelão enrolado, recoberto de pano e chamado chapéu,
que as mulheres julgaram conveniente aplicar de cada lado da cabeça, mais ou menos como
os antolhos dos cavalos. (Cumpre notar, porém, que os antolhos impedem os cavalos de
olharem dum lado e do outro, e que o pedaço de papelão não impede absolutamente nada.)
Seja como for, um bonezinho autoriza um nariz arrebitado, o qual, por sua vez, exige uma boca
bem-rasgada, à qual são necessários belos dentes e, como moldura, um rosto redondo. Um
rosto redondo pede olhos brilhantes; o melhor é que eles sejam tão negros quanto possível, e
as sobrancelhas em proporção. Os cabelos são ad libitum,15 dado que os olhos negros com
tudo se arranjam. Um conjunto assim, como se vê, está longe da beleza propriamente dita. É o
que se chama uma fisionomia diferente, fisionomia clássica de grisete, que talvez fosse feia
sob o pedaço de papelão, mas que o boné torna por vezes encantadora, e mais linda que a
beleza. Era assim a srta. Pinson.
Marcelo metera na cabeça que Eugênio devia fazer a corte a essa rapariga; por quê? Nada
sei a esse respeito, senão que ele era, o próprio Marcelo, o adorador da srta. Zélia, amiga
íntima da srta. Pinson. Parecia-lhe natural e cômodo arranjar assim as coisas a seu gosto e
fazer amigavelmente o amor. Tais cálculos não são raros, e dão certo na maioria dos casos,
pois a ocasião, desde que o mundo existe, é a mais forte de todas as tentações. Quem pode
dizer os acontecimentos felizes ou desgraçados, os amores, as querelas, as alegrias ou
desesperos que nascem de duas portas vizinhas, de uma escada secreta, de um corredor, de
uma vidraça quebrada de janela?
Entretanto, certos temperamentos se recusam a estes jogos de azar. Querem eles
conquistar seus prazeres e não ganhá-los na loteria, e não se sentem dispostos a amar pelo
simples fato de se acharem numa diligência ao lado de uma linda mulher. Era assim Eugênio, e
Marcelo o sabia; por isso concebera desde muito um projeto bem simples, que julgava
maravilhoso e sobretudo infalível para vencer a resistência de seu companheiro.
Resolvera oferecer uma ceia, e nada lhe pareceu melhor do que escolher como pretexto o
dia do santo de seu nome.16 Mandou vir dúzias de garrafas de cerveja, um farto pedaço de
vitela fria com salada, uma enorme torta e uma garrafa de champanha. Convidou primeiro dois
estudantes dentre os seus amigos, depois fez saber à srta. Zélia que à noite havia festa em
sua casa, e pediu-lhe que trouxesse a srta. Pinson. Elas nem pensaram em faltar. Marcelo era
tido, com justa razão, como um dos fidalgos do Bairro Latino, dessas pessoas a quem nada se
recusa; e, mal acabavam de soar as sete da noite, bateram as duas grisetes à porta do
estudante, a srta. Zélia de vestido curto, borzeguins cinzentos e boné de flores, e a srta.
Pinson, mais modesta, trajando um vestido preto que não a abandonava e, segundo diziam, lhe
dava como um leve ar espanhol, do qual se mostrava ela muito ciosa. Ambas ignoravam, é
bem de ver, os secretos intuitos do seu anfitrião.
Não cometera Marcelo o desazo de convidar de antemão Eugênio; poderia contar com uma
recusa. Só depois de as moças tomarem lugar à mesa, e de esvaziado o primeiro copo, foi
que ele pediu licença para se ausentar alguns instantes a fim de ir à procura de um conviva, e
dirigiu-se à residência de Eugênio; encontrou-o, como de costume, a trabalhar, rodeado de
seus livros. Após algumas palavras sem importância, começou a fazer-lhe muito brandamente
as habituais censuras — que ele se fatigava em excesso, que era um erro não ter nenhuma
distração —, e em seguida lhe propôs darem um giro. Eugênio, realmente um pouco fatigado,
pois estudara o dia inteiro, aceitou; saíram juntos os dois jovens, e não foi difícil a Marcelo,
após algumas voltas ao Luxemburgo, induzir o amigo a entrar em sua casa.
As duas grisetes, sozinhas, e provavelmente aborrecidas de esperar, tinham começado por
ficar à vontade; haviam tirado os xales e os bonés, e dançavam, cantando, uma contradança,
não sem fazerem honra às provisões, de quando em quando, a título de experiência. Com os
olhos já brilhantes e o rosto animado, detiveram-se alegres e um pouco sufocadas quando
Eugênio as saudou com um ar ao mesmo tempo de surpresa e timidez. Em virtude dos hábitos
solitários do estudante, elas mal o conheciam; por isso o esquadrinharam dos pés à cabeça
com essa curiosidade intrépida que é o privilégio de tal casta; feito o quê, voltaram à canção e
à dança, como se de nada se tratasse. Meio desconcertado, o recém-vindo já ia recuando,
pensando porventura em retirar-se, quando Marcelo, depois de dar duas voltas à fechadura,
atirou ruidosamente a chave sobre a mesa.
— Ainda ninguém! — exclamou. — Que fazem então os nossos amigos? Mas não importa,
o selvagem nos pertence. Minhas senhoras, apresento-lhes o mais virtuoso mancebo da
França e de Navarra, que de muito deseja ter a honra de conhecê-las, e que é,
particularmente, grande admirador da srta. Pinson.
Parou de novo a contradança; a srta. Pinson fez uma leve saudação e pôs de novo o boné.
— Eugênio! — exclamou Marcelo — hoje é o dia do santo do meu nome; estas duas damas
quiseram vir celebrá-lo conosco. Trouxe-te quase a pulso, é bem verdade; mas espero que
ficarás de bom grado, a nosso pedido comum. São cerca de oito horas; temos tempo de
fumar um cachimbo enquanto vem o apetite.
Assim falando, lançou um olhar significativo à srta. Pinson, que, compreendendo-o no
mesmo instante, se inclinou segunda vez a sorrir e disse a Eugênio em voz doce:
— Sim, senhor, nós lhe pedimos que fique.
Nesse momento, os dois estudantes que Marcelo convidara bateram à porta. Eugênio viu
que não havia meio de recuar sem grande desaire e, resignando-se, tomou assento entre os
demais.

III
Longa e ruidosa foi a ceia. Os cavalheiros, tendo começado por encher o quarto de uma
nuvem de fumaça, bebiam à larga para se refrigerarem. As damas faziam os gastos da
conversação, e alegravam a companhia com histórias mais ou menos picantes, à custa de
seus amigos e conhecidos, e aventuras mais ou menos verossímeis, tiradas dos fundos de
lojas. Se a matéria carecia de verossimilhança, pelo menos não era estéril. A crer no que
diziam, dois escreventes de cartório haviam ganhado vinte mil francos jogando nos fundos
espanhóis, e os tinham comido em seis semanas com duas luveiras. O filho de um dos mais
ricos banqueiros de Paris propusera a uma célebre lingère um camarote na ópera e uma casa
de campo, que ela recusara, preferindo cuidar de seus pais e continuar fiel a um caixeiro de
Aux Deux Magots.17 Certo figurão, cujo nome não se podia dizer, e que era forçado, pela sua
alta situação, a envolver-se no maior mistério, vinha incógnito visitar uma bordadeira da
passagem da Ponte Nova, a qual de repente fora raptada por ordem superior, metida à meia-
noite numa mala-posta, com uma pasta cheia de notas de banco, e enviada aos Estados
Unidos etc.
— Basta — disse Marcelo —, já sabemos disso. Zélia está improvisando, e, quanto à srta.
Mimi (assim era chamada a srta. Pinson entre os íntimos), suas informações são imperfeitas.
Os tais escreventes de cartório ganharam foi uma entorse, girando sobre as sarjetas; o tal
banqueiro ofereceu uma laranja, e a bordadeira se acha tão pouco nos Estados Unidos que é
visível todos os dias, do meio-dia às quatro, no Hospital da Caridade, onde se hospedou em
consequência da falta de comestíveis.
Eugênio estava sentado junto da srta. Pinson. À última palavra de Marcelo, pronunciada
com inteira indiferença, cuidou notar que ela empalidecia. Quase no mesmo instante, porém,
ela se levantou, acendeu um cigarro, e gritou com ar deliberado:
— Silêncio, vocês também! Peço a palavra. Já que o sr. Marcelo não acredita nas fábulas,
vou contar uma história verdadeira, et quorum pars magna fui.18
— Fala o latim? — perguntou Eugênio.
— Como está vendo — respondeu a srta. Pinson. — Essa sentença me vem de meu tio,
que serviu sob o grande Napoleão e nunca deixou de pronunciá-la antes de narrar uma batalha.
Se ignora o que significam essas palavras, poderá sabê-lo sem pagar. Querem dizer: “Dou-lhe
minha palavra de honra.” Saibam pois que, na semana passada, eu tinha ido, com duas
amigas, Blanchette e Rougette, ao Teatro Odeon...
— Um momento; vou cortar a torta — disse Marcelo.
— Corte, mas escute — continuou a srta. Pinson. — Eu tinha ido com Blanchette e
Rougette ao Odeon, assistir a uma tragédia. Rougette, como sabe, acaba de perder a avó, de
quem herdou quatrocentos francos. Tínhamos tomado uma frisa; achavam-se na plateia três
estudantes; avistaram-nos e, a pretexto de que estávamos sozinhas, nos convidaram a cear.
— Assim, sem mais nem menos? — indagou Marcelo. — Muito galante, na verdade! E
vocês recusaram, naturalmente...
— Não, senhor — disse a srta. Pinson. — Aceitamos, e, no entreato, sem esperar o fim da
peça, lá nos fomos ao Viot.19
— Com os seus cavalheiros?
— Com os nossos cavalheiros. O garçom começou, já se vê, por nos dizer que não havia
nada mais; mas não nos íamos deter ante essa impertinência. Ordenamos que fossem à
cidade procurar o que porventura faltasse. Rougette pegou da pena e encomendou um festim
de núpcias: camarões, uma omelete com açúcar, filhoses, mexilhões, ovos nevados, tudo
quanto há no mundo das panelas. Para dizer a verdade, nossos jovens desconhecidos não
faziam boa cara.
— Acredito! — disse Marcelo.
— Não tivemos mãos a medir. Trazido o que pedimos, começamos a nos fazer de finas.
Não achávamos nada bom, tudo nos aborrecia. Mal um prato era começado, nós o
devolvíamos para pedir outro. — “Garçom, leve isto — não há quem tolere. Onde foi buscar
semelhantes horrores?” Os nossos desconhecidos desejaram comer, mas não lhes foi
permitido. Em resumo, ceamos como jantava Sancho, e a cólera nos levou até a quebrar
alguns utensílios.
— Belo procedimento! E como pagar?
— Eis aí precisamente a pergunta que os três desconhecidos fizeram a si mesmos. Pela
conversa que tiveram em voz baixa, parece que um deles tinha seis francos, o outro
infinitamente menos, e o terceiro não tinha mais do que o seu relógio, que tirou generosamente
da algibeira. Em tal situação, os três infelizes se apresentaram à gerência, com o fim de obter
uma moratória qualquer. Que pensa que lhes responderam?
— Penso — replicou Marcelo — que ficaram com vocês em penhor, e que os levaram às
grades.
— Errou — disse a srta. Pinson. — Antes de subir ao reservado, Rougette tomara suas
providências, e estava tudo pago de antemão. Imagina o lance teatral nesta resposta de Viot:
— “Senhores, tudo está pago!” Nossos desconhecidos nos fitaram como jamais três cães
fitaram três bispos, com uma deplorável estupefação misturada de um puro enternecimento.
No entanto, nós, fingindo não dar atenção a isso, descemos e mandamos vir um fiacre. —
“Cara marquesa — disse-me Rougette —, é preciso reconduzir a casa estes senhores!” —
“Com muito gosto, cara condessa” — respondi. Os pobres apaixonados já não sabiam que
dizer. Imaginem como estavam atrapalhados! Resistiam à nossa polidez, não queriam que os
reconduzissem, recusavam dar o endereço... Não tenho dúvida: estavam convencidos de que
tratavam com mulheres da alta-roda, eles que moravam na rua do Gato Que Pesca!...
Os dois estudantes, amigos de Marcelo, que, até então, não tinham feito outra coisa senão
fumar e beber em silêncio, não pareciam muito satisfeitos com essa história. Ficaram de rosto
enfarruscado; talvez soubessem tanto quanto a srta. Pinson acerca daquela infeliz ceia, pois
lhe lançaram um olhar inquieto quando Marcelo lhe disse a rir:
— Dê o nome aos bois, srta. Mimi. Desde que o caso é da semana passada, já não há
inconveniente.
— Nunca, senhores —, objetou a grisete. — Pode-se zombar de um homem, mas
prejudicar-lhe a carreira, isso nunca.
— Tem razão — concordou Eugênio —, e age nisto mais prudentemente talvez do que
pensa. De todos esses rapazes que povoam as escolas, não há quase um só que não tenha
atrás de si algum erro ou alguma loucura, e no entanto é deles que sai todos os dias o que a
França tem de mais distinto e mais respeitável: médicos, magistrados...
— Sim — prosseguiu Marcelo —, é a verdade. Há pares de França em embrião que jantam
no Flicoteaux20 e nem sempre têm com que pagar as despesas. Mas — acrescentou piscando
o olho — não tornou mais a ver os seus desconhecidos?
— Que juízo faz de nós? — retorquiu a srta. Pinson com ar sério e quase ofendido. —
Conhece Blanchette e Rougette? e supõe que eu mesma...
— Bem — disse Marcelo —, não se zangue. — Mas veja lá, enfim, que bela loucura. Três
levianas que não tinham talvez com que jantar no dia seguinte, e que atiram o dinheiro janela
fora só pelo prazer de mistificar três pobres-diabos que estão nas últimas!
— Para que nos convidaram a cear? — respondeu a srta. Pinson.

IV
Com a torta apareceu, em sua glória, a garrafa de champanha — única — que devia compor a
sobremesa. Com o vinho veio a ideia de canção.
— Estou vendo — disse Marcelo —, estou vendo, como diz Cervantes, que Zélia tosse; é
sinal de que deseja cantar. 21 Mas, se os cavalheiros concordam, como sou eu o festejado,
peço à srta. Mimi que, caso não esteja rouca da sua anedota, nos honre com uma copla.
Eugênio — continuou —, sê um pouco galante, toca a tua taça na de tua vizinha, e pede-lhe
em meu nome uma copla.
Eugênio corou e obedeceu. Assim como de bom grado fizera a srta. Pinson para induzi-lo a
ficar, assim ele se inclinou e disse timidamente:
— Sim, senhorita, nós lhe pedimos que cante.
Ao mesmo tempo levantou a taça e tocou-a na da grisete. Do ligeiro choque saiu um som
claro e argentino. A srta. Pinson apanhou essa nota no ar, e com uma voz pura e fresca
prolongou-a por muito tempo em cadência.
— Pois não! — disse ela — estou de acordo, desde que a minha taça me dê o lá. Mas que
desejam que eu cante? Não sou beata, podem estar certos, mas também não sei coplas de
corpo de guarda. Não acanalho a minha memória!
— Decerto — disse Marcelo — Mimi é a virtude em pessoa; vá para diante, as opiniões
são livres.
— Pois bem — prosseguiu a srta. Pinson —, vou cantar, à vontade, coplas que fizeram a
meu respeito.
— Atenção! Quem é o autor?
— Minhas camaradas da loja. Trata-se de poesia feita à agulha; portanto, reclamo
indulgência.
— Há um estribilho na sua canção?
— Ora que pergunta! Decerto que há!
— Neste caso — disse Marcelo —, tomemos nossas facas, e, ao estribilho, batamos sobre
a mesa, mas procuremos não sair do compasso. Zélia pode abster-se, se quiser.
— Por que razão, grosseiro moço? — perguntou Zélia, encolerizada.
— Eu sei por quê — respondeu Marcelo. — Mas, se deseja tomar parte, tome, bata com a
rolha, que isso terá menos inconveniente para os nossos ouvidos e as suas brancas mãos.
Marcelo dispusera em círculo as taças e os pratos, e sentara-se ao centro da mesa, com a
sua faca na mão. Os dois estudantes da ceia de Rougette, um pouco reanimados, tiraram o
fornilho dos seus cachimbos para bater com o tubo de madeira; Eugênio devaneava, Zélia
mostrava-se amuada. A srta. Pinson agarrou um prato e fez sinal de que pretendia quebrá-lo,
ao que Marcelo respondeu com um gesto de assentimento, de modo que a cantora, havendo
tomado os pedaços para com eles fazer castanholas, principiou assim as coplas que suas
companheiras haviam composto, depois de se ter escusado, de antemão, do que elas podiam
conter de extremamente lisonjeiro para a sua inspiradora:

Mimi Pinson é uma lourinha,


Todos sabem quem ela é
Tem só um vestido, a pobrezinha
   — Taralalá! —,
   Só! e um boné
O grão-turco é mais abastado;
Quis torná-la prudente, assim,
   O Deus amado
Não poderá ser penhorado
O vestidinho de Mimi

Mimi Pinson traz uma rosa


Branca no peito, noite e dia;
Aberta ali, a flor ditosa
   — Taralalá! —
   É a alegria.
Se a reanima farta ceia,
Tira a canção, que brinca e ri,
   Da taça cheia,
E às vezes pende e balanceia
O bonezinho de Mimi.

Ela tem olhos e mãos prestes


Os estudantes (que aflição!)
Esgarçam as mangas das vestes
   — Taralalá! —
   No seu balcão
Porém Mimi, bonacheirona,
Dá-lhes melhor lição, ali,
   Que as da Sorbona.
Não machuque, ó gente foliona,
O vestidinho de Mimi.

Pode Mimi ficar sozinha,


Pode, se a Deus isto aprouver:
Sempre terá sua agulha e a linha
   — Taralalá! —
   Para viver
Belo rapaz. Não lhe interessa;
Cumpre ser belo e honesto, sim,
Pra que a mereça,
Pois não está longe da cabeça
O bonezinho de Mimi

Se com flores de laranjeira


O amor a intenta coroar,
Bem sabe ela de que maneira
   — Taralalá! —
   O compensar
Não é — toda a gente o imagina —
Manto arminhado e com rubi,
   Que olhos fascina
É o estojo de uma perla fina,
O vestidinho de Mimi
Que republicanismo encerra
Aquela sua alma de rainha!
Aos três dias 22 fez ela a guerra
   — Taralalá! —
   De casaquinha.
Por lhe faltar uma alabarda,
Com seu furador eu a vi
Montar a guarda.
Feliz quem puser sua cocarda
No bonezinho de Mimi!

As facas e os cachimbos, as próprias cadeiras, tinham feito sua algazarra, como de razão,
ao fim de cada estrofe. As taças dançavam sobre a mesa, e as garrafas, meio cheias,
balançavam-se alegremente, dando-se pequenos encontrões.
— E são suas boas amigas — disse Marcelo — que lhe fizeram essa canção? Há nisso o
dedo de algum tintureiro; está muito afetado. Fale-me dessas boas árias onde as coisas são
ditas pelos seus nomes!
E entoou em voz forte:
Nanette ainda não tinha 15 anos...

— Basta, basta —, interrompeu a srta. Pinson. — É melhor dançarmos; valsemos um


pouco. Não existe aqui nenhum músico?
— Eu tenho o que você precisa — respondeu Marcelo —, tenho uma guitarra; mas —
continuou despendurando o instrumento — minha guitarra não tem o que precisa; ela está
calva de três das suas cordas.
— Mas aí está um piano — disse Zélia. — Marcelo vai-nos fazer dançar.
Marcelo lançou à amante um olhar tão furioso como se a acusasse de um crime. Sem
dúvida sabia tocar o suficiente para uma contradança; mas para ele, como para tantos outros,
era uma espécie de tortura a que se submetia um tanto a contragosto. Zélia, traindo-o,
vingava-se da rolha.
— Está louca? — disse Marcelo. — Sabe muito bem que esse piano está aí só por honra
da firma, e só você é quem o arranha, sabe Deus como. Quem foi que lhe disse que eu sei
fazer dançar? Sei apenas A Marselhesa, que toco com um dedo só. Se você se dirigisse a
Eugênio, era outra coisa; este, sim, é um rapaz que entende do riscado! Mas eu não quero
incomodá-lo a tal ponto, Deus me livre. Dos que estão aqui, só você é bastante indiscreta para
fazer semelhantes coisas sem mais nem menos.
Pela terceira vez Eugênio corou, e preparou-se para fazer o que lhe pediam de modo tão
político e tão sinuoso. Sentou-se ao piano, e organizou-se uma quadrilha.
A dança durou quase tanto quanto a ceia. Após a contradança veio uma valsa; após a
valsa, o galope, pois ainda se galopa no Bairro Latino. Aquelas damas sobretudo eram
infatigáveis, e cabriolavam e gargalhavam de acordar toda a vizinhança. Duplamente fatigado
pelo ruído e pela vigília, em pouco Eugênio descaiu, passando a tocar maquinalmente, numa
espécie de sonolência, como os postilhões que dormem a cavalo. As dançarinas passavam e
repassavam diante dele como fantasmas num sonho; e, como não há nada mais naturalmente
triste do que um homem que vê os outros rirem, a melancolia, à qual Eugênio era propenso,
não tardou a apoderar-se dele. — “Triste alegria” — pensava —, “miseráveis prazeres!
instantes que parecem roubados à desgraça! E quem sabe qual das cinco pessoas que tão
alegres saltam diante de mim está certa, como dizia Marcelo, de ter com que jantar amanhã?”
Enquanto fazia esta reflexão, a srta. Pinson passou junto dele; Eugênio acreditou vê-la, no
meio dos galopes, tomar a furto um pedaço de torta que ficara sobre a mesa e discretamente
metê-lo no bolso.

V
Amanhecia quando o grupo se dispersou. Antes de voltar para casa, Eugênio caminhou algum
tempo pelas ruas a fim de respirar o ar fresco da manhã. Continuando sempre as suas tristes
reflexões, repetia baixinho, sem querer, a canção da grisete:
Tem só um vestido, a pobrezinha,
Só! e um boné.

— “Será possível?” — perguntava a si mesmo. — “Pode a miséria chegar a tal ponto,


mostrar-se de modo tão franco e escarnecer de si própria? Pode alguém rir de lhe faltar o
pão?”
O pedaço de torta subtraído não era um sinal duvidoso. Eugênio não podia deixar de sorrir,
e ao mesmo tempo de encher-se de piedade. — “No entanto” — pensava ainda —, “ela tirou
torta, não foi pão; pode ser que tenha sido por gulodice. Quem sabe? é talvez o filho de uma
vizinha a quem ela quer levar um bolo, talvez uma porteira linguaruda que contaria que ela
passou a noite fora, um Cérbero que é preciso apaziguar.”23
Não reparando por onde andava, Eugênio se emaranhara à toa nesse dédalo de ruelas que
há por detrás da encruzilhada de Buey, nas quais só a custo passa uma carruagem. No
momento em que ia retroceder, uma mulher, envolta num mau penteador, cabeça descoberta,
cabelos em desalinho, pálida e desfigurada, saiu duma velha casa. Parecia tão abatida que
mal podia caminhar; os joelhos dobravam-se-lhe; apoiava-se às paredes, e dava a impressão
de querer dirigir-se a uma porta vizinha, onde havia uma caixa de correio, para nela depositar
um bilhete que trazia na mão. Surpreendido e perturbado, Eugênio aproximou-se dela e
perguntou-lhe aonde ia, o que procurava e se podia auxiliá-la. Ao mesmo tempo estendeu o
braço para sustê-la, pois ela estava prestes a cair sobre o frade de pedra. Porém a mulher,
sem lhe dar resposta, recuou com uma espécie de temor e de orgulho. Depôs o bilhete no
frade de pedra, apontou com o dedo a caixa, e, parecendo reunir todas as forças:
— Ali — foi tudo quanto disse.
Depois, continuando a arrastar-se agarrada às paredes, retornou a casa. Debalde Eugênio
tentou obrigá-la a tomar seu braço, procurou fazer-lhe novas perguntas. Ela entrou lentamente
na aleia sombria e estreita de onde saíra.
Eugênio apanhara a carta; deu alguns passos para depositá-la na caixa, mas logo se
deteve. Aquele singular encontro havia-o perturbado de tal maneira, e ele sentia-se tocado de
uma espécie de horror mesclado de compaixão tão viva, que, sem refletir, quebrou o lacre
quase sem querer. Afigurava-se-lhe odioso e impossível não tentar, fosse por que meio fosse,
desvendar semelhante mistério. Evidentemente aquela mulher estava à morte; era doença ou
fome? De qualquer maneira, devia ser miséria. Eugênio abriu a carta; lia-se no endereço: “Ao
sr. barão de ***”, e o conteúdo era o seguinte:
“Leia esta carta, senhor, e, por piedade, não deixe de atender à minha súplica. v. exa.
pode-me salvar. Creia no que lhe digo, salve-me, e terá feito uma boa ação, que lhe trará
felicidade. Acabo de padecer uma cruel moléstia, que me tirou o pouco de força e de coragem
que eu tinha. No mês de agosto volto à loja; meus objetos estão presos na casa onde morei
por último, e tenho quase certeza de que antes de sábado me acharei sem nenhum abrigo.
Tenho tanto medo de morrer de fome que esta manhã formulara a resolução de lançar-me ao
rio, pois não tomei nada nas últimas 24 horas. Quando me lembrei de v. exa., veio-me ao
coração um pouco de esperança. Não é verdade que não me enganei? Senhor, suplico-lhe de
joelhos, o pouco que v. exa. faça por mim permitir-me-á respirar durante mais alguns dias.
Tenho medo de morrer, e, depois, não tenho mais que 23 anos! Com um pequeno auxílio,
talvez consiga chegar ao primeiro do mês. Se eu soubesse palavras para excitar-lhe a
compaixão, lhas diria, porém nada me ocorre. Só posso é chorar da minha impotência, pois, é
o meu grande receio, v. exa. fará com minha carta o que se faz quando se recebem muitas e
muitas da mesma espécie: rasgá-la-á sem pensar numa pobre mulher que conta as horas e os
minutos na esperança de que v. exa. há de pensar que seria muito cruel deixá-la assim na
incerteza. Não será a ideia de dar um luís, coisa tão insignificante para v. exa., que o deterá,
disso estou convencida; também creio que nada lhe é mais fácil que dobrar sua esmola num
envelope, e pôr no sobrescrito: “À srta. Bertin, rua da Espora.” Desde que trabalho nas lojas
mudei de nome: o meu verdadeiro é o de minha mãe. Ao sair de casa, entregue isto a um
mensageiro. Esperarei quarta e quinta-feira, e rogarei fervorosamente a Deus que o torne
humano.
“Ocorre-me que v. exa. não há de crer em tanta miséria; mas, se me visse, ficaria
convencido.
“Rougette.”

Se Eugênio antes se comovera ao ler estas linhas, seu espanto redobrou, como é fácil
imaginar, quando viu a assinatura. Era, então, aquela mesma rapariga que gastara loucamente
o seu dinheiro em patuscadas e imaginara aquela ceia ridícula contada pela srta. Pinson, era a
ela que a desgraça reduzia a tal sofrimento e a tal humilhação! Tanta imprevidência e loucura
afigurava-se a Eugênio um sonho inacreditável. Mas não havia que duvidar, ali estava a
assinatura; e a srta. Pinson, no decorrer da noitada, pronunciara também o nome de guerra de
sua amiga Rougette, que se tornara srta. Bertin. Como era possível encontrar-se ela de todo
abandonada, sem arrimo, sem pão, quase sem abrigo? Que faziam suas amigas da véspera,
enquanto ela expirava talvez em alguma água-furtada daquela casa? E que casa seria essa
onde se podia morrer assim?
O momento não era para conjeturas; havia coisa mais urgente: ir em socorro da fome.
Eugênio começou entrando num restaurante que acabava de abrir as portas e comprando o
que ali pôde encontrar. Em seguida, encaminhou-se, acompanhado do garçom, à morada de
Rougette; mas sentia-se embaraçado em se apresentar assim inesperadamente. O ar de
altivez que vira na pobre moça fazia-o recear, se não uma recusa, pelo menos um movimento
de vaidade ferida; como confessar-lhe que lera sua carta?
Ao chegar à porta:
— Conhece — perguntou ao garçom — uma jovem que mora nesta casa, de nome srta.
Bertin?
— Oh! como não, senhor! — respondeu o garçom. — Somos nós que costumamos levar-
lhe comida. Mas, se o senhor pretende ir lá, não deve ser hoje. Agora ela está no campo.
— Quem lhe disse isto? — perguntou Eugênio.
— Ora esta, senhor! Foi a porteira. A srta. Rougette gosta de jantar bem, mas não gosta
muito de pagar. O que ela encomenda de preferência são camarões; mas, para ver o seu
dinheiro, não é só uma vez que se tem de vir aqui! De modo que nós sabemos, no bairro,
quando ela está ou quando não está...
— Ela voltou — prosseguiu Eugênio. — Suba aos seus aposentos, deixe-lhe o que vai
levando, e, se ela lhe deve alguma coisa, nada lhe peça hoje. Deixe isso comigo, e eu voltarei.
Se ela perguntar quem lhe manda isto, responda-lhe que é o barão de ***.
A estas palavras, Eugênio se foi. A caminho, consertou como pôde o sinete da carta, e
meteu-a na caixa. — “Afinal de contas, Rougette não recusará; e, se ela achar que a resposta
ao seu bilhete foi um pouco rápida, pedirá explicações ao seu barão.”

VI
Tal como as grisetes, os estudantes nem todos os dias são ricos. Eugênio compreendia muito
bem que, para dar um ar de verossimilhança à pequena fábula que o garçom deveria narrar,
seria necessário juntar à sua remessa o luís que Rougette pedia; mas aí é que estava a
dificuldade. Não são precisamente os luíses a moeda corrente da rua de São Tiago. Por outro
lado, Eugênio acabara de empenhar-se a fim de pagar ao restaurante e, por infelicidade, sua
gaveta não estava nesse momento mais bem-provida que sua algibeira. Por isso, tomou sem
demora o caminho da Praça do Panteão. Naquele tempo morava ainda nessa praça o famoso
barbeiro que abriu bancarrota e se arruinou arruinando os outros. Ali, ao fundo da loja, onde se
fazia às ocultas a grande e a pequena usura, todos os dias vinha o estudante pobre e leviano,
apaixonado talvez, tomar emprestadas com juros algumas moedas despendidas alegremente
durante a noite e caramente pagas no dia seguinte. Ali entrava a furto a grisete, de cabeça
baixa e olhar envergonhado, que vinha alugar para um passeio no campo um chapéu sovado,
um xale tingido várias vezes, uma camisa comprada no monte de socorro. Ali, mancebos de
boa família, necessitando de 25 luíses, assinavam letras de câmbio de dois ou três mil
francos. Menores comiam suas fortunas antecipadamente; estroinas arruinavam a família, e
não raro perdiam o futuro. Desde a cortesã titular, a quem um bracelete vira a cabeça, até o
pedante necessitado que cobiça um alfarrábio ou um prato de lentilhas, tudo ia lá como às
fontes de Pactolo,24 e o usurário barbeiro, orgulhoso da sua clientela e das suas façanhas a
ponto de se vangloriar delas, mantinha a prisão de Clichy25 à espera de que ele próprio fosse
lá.
Tal era a triste fonte a que Eugênio ia recorrer, embora com repugnância, para servir a
Rougette, ou pelo menos ficar em condições de fazê-lo; pois não lhe parecia fora de dúvida
que o pedido feito ao barão produzisse o desejado efeito. Para dizer a verdade, era, da parte
de um estudante, muita caridade empenhar-se de tal modo por uma desconhecida; mas
Eugênio acreditava em Deus: todas as boas ações lhe pareciam necessárias.
Ao entrar na casa do barbeiro, a primeira cara que ele viu foi a de seu amigo Marcelo,
sentado ante um toucador, com um guardanapo no pescoço e fingindo estar sendo barbeado.
O pobre moço tinha ido talvez procurar meios com que pagar a ceia da véspera; parecia muito
preocupado, e franzia o cenho com ar pouco satisfeito, enquanto o cabeleireiro, fingindo, por
seu lado, passar-lhe nos cabelos um ferro inteiramente frio, lhe falava a meia-voz com seu
acento gascão. Diante de outro toucador, num pequeno gabinete, se mantinha sentado,
também ornado com um guardanapo, um desconhecido muito inquieto, olhando sem cessar de
um lado para outro, e pela porta entreaberta dos fundos da loja percebia-se, numa velha
psichê, a silhueta algum tanto magra de uma rapariga que, ajudada pela mulher do
cabeleireiro, experimentava um vestido de quadrados escoceses.
— Que vens fazer aqui a esta hora? — exclamou Marcelo, cuja fisionomia readquiriu a
habitual expressão de bom humor, desde que reconheceu o amigo.
Eugênio sentou-se ao pé do toucador, e explicou em poucas palavras o encontro que tivera
e o intento que o trazia ali.
— Por minha fé, és muito ingênuo — disse Marcelo. — Por que te metes nisso, se há no
caso um barão? Viste uma jovem interessante que sentia necessidade de alimentar-se;
pagaste-lhe um frango frio, isto é digno de ti; não há que dizer. Não exiges da parte dela
nenhum reconhecimento, agrada-te o incógnito; é heroico. Mas ir além, isso é cavalheirismo.
Empenhar o relógio ou a assinatura por uma lingère protegida de um barão, e que não se tem
a honra de frequentar — não há notícia de se ter praticado semelhante coisa, a não ser na
Biblioteca Azul.26
— Podes zombar — respondeu Eugênio. — Sei que há neste mundo muitos desgraçados a
quem não posso socorrer. Os que não conheço, lastimo-os: mas, se vejo um deles, tenho de
ajudá-lo. Por mais que eu faça, é-me impossível ficar indiferente em face da dor. Minha
caridade não vai ao ponto de procurar os pobres, não tenho recursos para tanto; porém,
quando os encontro, dou-lhes esmola.
— Neste caso — continuou Marcelo —, tens muito que fazer; não faltam pobres neste país.
— Que importa! — disse Eugênio, ainda comovido com o espetáculo que acabava de
testemunhar. — Achas preferível que a gente deixe morrer as pessoas e prossiga tranquilo o
seu caminho? Aquela infeliz é uma estouvada, uma louca, tudo quanto quiseres; talvez não
mereça a compaixão que inspira; mas essa compaixão, eu a sinto. Achas preferível agir como
as suas boas amigas, que se preocupam tão pouco com ela como se já não existisse, e que
ontem a ajudavam a se arruinar? De quem pode ela obter auxílio? De um estranho, que
acenderá o charuto com a sua carta, ou da srta. Pinson, por acaso, que ceia na cidade e
dança com todo o prazer, enquanto sua companheira morre de fome? Confesso-te, meu caro
Marcelo, com toda a sinceridade, que tudo isso me horroriza. Aquela pequena doidivanas de
ontem à noite, com sua canção e suas graçolas, rindo e chalrando em tua casa, no mesmo
instante em que a outra, a heroína de seu conto, expira numa água-furtada, me dá nojo.
Viverem assim como amigas, quase como irmãs, dias e semanas, frequentarem os teatros, os
bailes, os cafés, e no dia seguinte não saberem se uma está morta e a outra viva, é pior que a
indiferença dos egoístas, é a insensibilidade do bruto. Tua srta. Pinson é um monstro, e tuas
grisetes, a quem louvas, esses hábitos impudicos, essas amizades sem alma, não sei de nada
tão desprezível.
O barbeiro, que durante essa conversa estivera a escutar em silêncio, continuando a passar
o ferro frio sobre a cabeça de Marcelo, sorriu com ar malicioso quando Eugênio se calou.
Sendo por natureza ora tagarela como uma pega, ou antes, como cabeleireiro que era, quando
se tratava de maledicências, ora taciturno e lacônico feito um espartano, desde que os
negócios estavam em jogo, adotara ele o prudente costume de sempre deixar falar primeiro os
fregueses, antes de meter sua colher na conversação. Todavia, a indignação que Eugênio
manifestava em termos tão violentos fê-lo romper o silêncio.
— O senhor é severo, cavalheiro — disse ele rindo, com seu acento gascão. — Tenho a
honra de ser cabeleireiro da srta. Mimi, e creio que é uma excelente pessoa.
— Sim — confirmou Eugênio —, excelente, na realidade, se se trata de beber e de fumar.
— É possível — replicou o barbeiro. — Não digo que não. As moças gostam de rir, de
cantar, de fumar; mas há entre elas algumas que têm coração.
— Aonde pretende chegar, tio Cadédis? — perguntou Marcelo. — Deixe-se de tanta
diplomacia; fale claro.
— Quero dizer — retrucou o barbeiro apontando para o fundo da loja — que ali, pendurado
a um prego, há um vestidinho de seda preta que os cavalheiros decerto conhecem, se
conhecem a proprietária, pois ela não possui um guarda-roupa muito complicado. A srta. Mimi
enviou-me aquele vestido agora pela manhã, bem cedinho; e presumo que, se não correu em
auxílio da pequena Rougette, é que ela mesma não está nadando em ouro.
— Curioso! — disse Marcelo, levantando-se e entrando no fundo da loja, sem consideração
à pobre mulher dos quadrados escoceses. — Então a canção de Mimi mentiu? Pois se ela põe
o vestido no prego! Mas com que diabo fará ela agora as suas visitas? Então não sai hoje?
Eugênio acompanhara o seu amigo.
Não os enganava o barbeiro: a um canto empoeirado, no meio de outros fatos de toda
espécie, estava humilde e tristemente pendurado o único vestido da srta. Pinson.
— É aquele mesmo — disse Marcelo. — Reconheço aquele vestido por tê-lo visto novo em
folha há 18 meses. É o chambre, a amazona e o uniforme de gala da srta. Mimi. Deve ter na
manga esquerda uma pequena mancha de champanha, do tamanho de uma moeda de cinco
soldos. E quanto emprestou por ele, tio Cadédis? Penso que o vestido não foi vendido, e que,
se está neste boudoir, é como garantia.
— Emprestei quatro francos — respondeu o barbeiro. — E afianço-lhe, senhor, que foi pura
caridade. A outra qualquer eu não teria adiantado mais do que quarenta soldos; pois a peça
está infinitamente surrada, vê-se o mundo através dela, é uma lanterna mágica. Mas eu sei
que a srta. Mimi me pagará; ela tem crédito para quatro francos.
— Pobre Mimi! — continuou Marcelo. — Eu apostaria já e já o meu boné em que ela só
tomou emprestada esta pequena soma para mandá-la a Rougette.
— Ou para pagar alguma dívida premente — disse Eugênio.
— Não — disse Marcelo —, eu conheço Mimi; julgo-a incapaz de se despojar em benefício
de um credor.
— Não digo que não — confirmou o barbeiro. — Eu conheci a srta. Pinson em situação
melhor do que a atual; tinha ela então numerosas dívidas. Iam todos os dias a sua casa para
tomar o que ela possuía, e, deveras, acabaram ficando com todos os seus móveis, menos a
cama, pois os cavalheiros bem sabem que não se toma a cama de um devedor. Ora, a srta.
Pinson tinha nesse tempo quatro vestidos muito decentes. Vestia todos os quatro um sobre o
outro, e deitava-se com eles para que não os levassem; por isso eu ficaria surpreendido se
hoje, que ela não tem mais do que um vestido, fosse empenhá-lo para pagar a alguém.
— Pobre Mimi! — repetiu Marcelo. — Mas, na realidade, como é que ela se arranja? Será
que enganou os seus amigos? que tem um vestido desconhecido? Quem sabe se ela não está
doente por haver abusado da torta? Se está de cama, em verdade não tem para quê se vestir.
Não importa, tio Cadédis, este vestido me dá pena, com as mangas pendentes como se
estivesse pedindo perdão; aí está: tire-me quatro francos das 35 libras27 que acaba de me
adiantar, e enrole-me este vestido num guardanapo, que eu o levarei à menina. Então, Eugênio
— prosseguiu —, que diz a isso a tua caridade cristã?
— Que tens razão — respondeu Eugênio — de falar e proceder assim, mas que eu talvez
não esteja errado; faço uma aposta, se quiseres.
— Está feito — disse Marcelo —, apostemos um charuto, como os membros do Jóquei-
Clube. Pensando bem, não tens mais que fazer aqui. Tenho 31 francos, somos ricos. Desta
caminhada vamos a casa da srta. Pinson: tenho curiosidade de vê-la.
Sobraçou o vestido, e os dois saíram da loja.

VII
— A moça está na missa — respondeu a porteira aos dois estudantes, quando eles chegaram
a casa da srta. Pinson.
— Na missa! — exclamou Eugênio surpreso.
— Na missa! — repetiu Marcelo. — É impossível, ela não saiu. Deixe-nos entrar; somos
velhos amigos.
— Garanto-lhe, senhor — respondeu a porteira —, que ela saiu para a missa, há uns três
quartos de hora.
— E a que igreja foi?
— A São Sulpício, como de costume; vai lá todas as manhãs, sem falta.
— Sim, sim, eu sei que ela faz preces a Deus; mas parece-me estranho que tenha saído
hoje.
— Lá vem ela voltando, senhor; está dobrando a rua; não a vê?
Com efeito, a srta. Pinson, saindo da igreja, voltava a casa. Mal a avistou, Marcelo correu
em sua direção, impaciente de ver-lhe de perto o vestido, um saiote de chita escura, meio
oculto sob uma cortina de sarja verde de que fizera, mal e mal, um xale. Dessa vestimenta
singular, mas que, apesar de tudo, não chamava a atenção, graças à cor sombria, saía a
cabeça coberta com o bonezinho branco e os pequeninos pés calçados de borzeguins. Com
tanta arte e precaução se envolvera na sua cortina que esta semelhava, na verdade, um velho
xale, e quase não se lhe via o debrum. Numa palavra, ainda em semelhantes trajes Mimi
Pinson encontrava meio de agradar, e de provar, mais uma vez neste mundo, que uma linda
mulher é sempre linda.
— Que tal? — disse ela aos dois mancebos afastando algum tanto a cortina e deixando ver
o fino talhe comprimido no espartilho. — É um vestido íntimo, matinal, que Palmyre acaba de
me trazer.
— Está encantadora — disse Marcelo. — Por minha fé eu juro que jamais acreditaria que
se pudesse ter tão boa aparência com o xale de uma janela.
— Deveras? — perguntou a srta. Pinson. — Mas eu estou um tanto parecida com uma
trouxa.
— Trouxa de rosas — replicou Marcelo. — Agora quase sinto arrependimento de lhe haver
trazido o seu vestido.
— O meu vestido? Onde foi que o encontrou?
— Onde ele estava — evidentemente.
— Então o tirou do cativeiro?
— Ora, meu Deus! Está claro, paguei o seu resgate. Vai-me querer mal por esta audácia?
— Não! Contanto que me possa vingar. Estou muito contente de rever o meu vestido; que,
para dizer-lhe a verdade, já faz muito tempo que vivemos juntos, os dois, e insensivelmente
fiquei presa a ele.
Enquanto assim falava, a srta. Pinson subia, lépida, os cinco andares que conduziam ao seu
quartinho, onde os dois amigos entraram com ela.
— Mas acontece — tornou Marcelo — que eu só lhe posso entregar o vestido com uma
condição.
— Irra! — disse a grisete. — Que tolice! Condições? Não quero saber de tal coisa.
— É que eu fiz uma aposta — declarou Marcelo. — Você nos deve dizer com franqueza por
que pôs o vestido no prego.
— Deixe-me primeiro vesti-lo — respondeu a srta. Pinson. — Depois lhe direi as minhas
razões. Mas devo preveni-los que, se não querem transformar o meu armário ou a biqueira em
antecâmara, então devem, enquanto eu me vou vestir, velar o rosto, como Agamêmnon.28
— Não seja por isso — disse Marcelo. — Somos mais honestos do que se pensa, e eu
nem sequer arriscarei um olho.
— Esperem — continuou a srta. Pinson. — Eu tenho toda a confiança, mas a sabedoria das
nações nos diz que mais valem duas precauções do que uma só.
Com isto se desembaraçou de sua cortina e estendeu-a delicadamente sobre a cabeça dos
dois amigos, tornando-os completamente cegos:
— Não digam nada; é um momentinho só.
— Tome cuidado — advertiu Marcelo. — Se na cortina há algum buraco, eu não respondo
por nada. Empenhamos a nossa palavra, não lhe basta; portanto, ela está livre.
— Felizmente o meu vestido também o está — disse a srta. Pinson —, e o meu busto
também — acrescentou a rir e atirando ao chão a cortina. — Pobre vestidinho! parece-me que
é novinho em folha. Tenho um prazer em sentir-me dentro dele!
— E o segredo? Não o diz agora? Vamos, seja sincera, nós não somos linguarudos. Como
e por que razão uma jovem da sua qualidade, prudente, metódica, virtuosa e modesta, foi
assim, de uma só vez, pendurar num prego todo o seu guarda-roupa?
— Por quê?... por quê?... — respondeu a srta. Pinson, com ar de hesitação.
Depois, tomou os dois rapazes cada um por um braço e disse-lhes, empurrando-os em
direção à porta:
— Venham comigo, e verão.
Como Marcelo esperava, ela os conduziu à rua da Espora.

VIII
Marcelo ganhara a aposta. Os quatro francos e o pedaço de torta da srta. Pinson estavam
sobre a mesa de Rougette, com os restos do frango de Eugênio.
A pobre doente ia um pouco melhor, mas ainda estava de cama; e, conquanto fosse grande
o seu reconhecimento ao benfeitor desconhecido, mandou dizer aos dois cavalheiros, por sua
amiga, que lhes pedia desculpas, mas o seu estado não lhe permitia recebê-los.
— Como a reconheço bem nesse gesto! — disse Marcelo. — Mesmo que estivesse a
morrer sobre uma esteira em sua água-furtada, ela ainda mostraria diante do seu pote de
água um ar de duquesa.
Embora a custo, tiveram os dois amigos de voltar a casa como tinham vindo, não sem rir
consigo mesmos dessa altivez e dessa discrição tão estranhamente aninhadas em uma água-
furtada.
Depois de terem ido à Escola de Medicina assistir às aulas do dia, jantaram juntos, e ao
cair da tarde deram um passeio pelo Bulevar dos Italianos. Lá, fumando o charuto que ganhara
de manhã:
— Diante de tudo isso — disse Marcelo —, não és forçado a convir que no fundo eu tenho
razão de gostar dessas pobres criaturas, e até de estimá-las? Consideremos sensatamente
as coisas de um ponto de vista filosófico. Essa pequena Mimi, a quem tanto caluniaste, não
pratica, despojando-se do seu vestido, uma obra mais louvável, mais meritória, ouso até dizer
mais cristã, do que o bom rei Roberto deixando um pobre cortar-lhe a franja do manto?29 O
bom rei Roberto, por um lado, possuía, é claro, uma porção de mantos; por outro, achava-se
à mesa, diz a história, quando um mendigo se aproximou dele, arrastando-se de quatro pés, e
cortou à tesoura a franja de ouro do hábito de seu rei. A senhora rainha não gostou da coisa, e
o digno monarca, é verdade, generosamente perdoou ao cortador de franjas; mas é que
decerto ele jantara bem. Veja agora a distância entre ele e Mimi! Mimi, quando soube do
infortúnio de Rougette, sem dúvida alguma estava em jejum. Pode ficar seguro de que o
pedaço de torta que ela levou de lá de casa se destinava, no começo, a fazer parte de sua
própria refeição. Ora, que faz ela? Em vez de almoçar, vai à missa, e ainda nisto se mostra
pelo menos igual ao rei Roberto, que era muito piedoso, admito, mas perdia o tempo a cantar
no coro, enquanto os normandos faziam o diabo a quatro. O rei Roberto entrega sua franja e,
afinal de contas, fica-lhe o manto. Mimi, essa manda o seu vestido inteirinho ao tio Cadédis,
ação incomparável, visto que Mimi é mulher, jovem, bonita, coquete e pobre; e note bem que
ela precisa do vestido para ir, como de costume, à loja, ganhar o pão de cada dia. Portanto,
ela não só se priva do pedaço de torta que ia comer, mas ainda fica sujeita, por gosto, a não
jantar. Além disso, observemos que o tio Cadédis está muito longe de ser um mendigo e de
arrastar-se de quatro pés sob a mesa. O rei Roberto, renunciando à sua franja, não faz
grande sacrifício, pois a encontra já cortada, e não se sabe se estava cortada de través ou
não, e em condições de ser outra vez cosida; ao passo que Mimi, por sua própria iniciativa,
bem longe de esperar que lhe roubem o vestido, com suas próprias mãos arranca do pobre
corpo essa veste, mais preciosa, mais útil que a lentejoula de todos os passamaneiros de
Paris. Sai vestida numa cortina; mas podes estar certo de que ela não iria assim a outro lugar
senão à igreja. Preferiria que lhe cortassem um braço a deixar-se ver assim mal-amanhada no
Luxemburgo ou nas Tulherias; porém ousa mostrar-se a Deus, porque é a hora em que faz a
sua oração de todos os dias. Acredita-me, Eugênio, só nisso de atravessar com a sua cortina
a Praça de São Miguel, a rua de Tournon e a rua do Leãozinho, onde ela conhece toda a
gente, há mais coragem, mais humildade e mais religião verdadeira que em todos os hinos do
bom rei Roberto, de quem, no entanto, toda a gente fala, desde o grande Bossuet30 até o
chato Anquetil,31 ao passo que Mimi morrerá desconhecida no seu quinto andar, entre um jarro
de flores e um debrum.
— Tanto melhor para ela — disse Eugênio.
Marcelo prosseguiu:
— Se eu agora quisesse continuar as minhas comparações, poderia fazer-te um paralelo
entre Múcio Cévola32 e Rougette. Com efeito: pensas que é mais difícil a um romano da época
de Tarquínio manter o braço, durante cinco minutos, sobre um braseiro aceso, do que a uma
grisete contemporânea passar 24 horas sem comer? Nenhum dos dois gritou, mas vê lá por
que razões. Múcio está no meio de um campo, em presença de um rei etrusco que ele tentou
assassinar; errou o golpe de maneira lastimável, e acha-se nas mãos dos gendarmes. Que
imagina então? Uma bravata. Para que o admirem antes de enforcá-lo, chamusca o punho
sobre um tição (pois nada prova que o braseiro estivesse bem quente, nem que o punho
estivesse reduzido a cinzas). A essa altura, o digno Porsena, estupefato da fanfarronada,
perdoa-lhe e manda-o para casa. Sou capaz de apostar que o dito Porsena, capaz de tal
perdão, tinha uma boa aparência, e que Cévola suspeitava que, sacrificando o braço, salvaria
a cabeça. Rougette, pelo contrário, suporta paciente o mais horrível e o mais lento dos
suplícios, o da fome; ninguém a observa. Está sozinha no fundo de uma trapeira, e lá não tem
para admirá-la nem Porsena, isto é, o barão, nem os romanos, isto é, os vizinhos, nem os
etruscos, isto é, os credores, nem sequer o braseiro, pois o seu fogareiro está apagado. Ora,
por que razão ela sofre sem se queixar? Antes de tudo, por vaidade, é certo, porém Múcio
está no mesmo caso; depois, por grandeza de alma, e nisto reside a sua glória; pois, se ela
permanece muda trancada no seu quarto, é precisamente para que seus amigos não saibam
que ela está à morte, para que não se comovam ante sua coragem, para que sua camarada
Pinson, que ela sabe ser boa e em extremo devotada, não se veja obrigada a lhe dar, como o
fez, o seu vestido e a sua torta. No lugar de Rougette, Múcio teria aparentado morrer em
silêncio, mas seria numa encruzilhada ou a porta do Flicoteaux. Seu taciturno e sublime orgulho
seria um modo delicado de pedir à assistência um copo de vinho ou uma côdea de pão.
Rougette, é verdade que pediu um luís ao barão, que eu insisto em comparar a Porsena. Mas
não vês que, como tudo indica, o barão deve a Rougette algumas obrigações pessoais? É
coisa que salta aos olhos do indivíduo menos clarividente. Pode acontecer, como, aliás,
avisadamente notaste, que o barão esteja no campo; sendo assim, Rougette está perdida. E
não penses poder-me responder a isto com a vã objeção que se opõe a todas as boas ações
das mulheres, a saber, que elas não sabem o que fazem, e correm para o perigo como os
gatos nas biqueiras. Rougette sabe o que é a morte; já a viu de perto na ponte de Iena, pois
uma vez se atirou ao rio. Perguntei-lhe se havia sofrido; disse-me que não, que não sentira
nada, salvo no momento em que a tinham apanhado, porque os barqueiros a puxavam pelas
pernas, e, ao que ela dizia, lhe tinham raspado a cabeça na borda do bote.
— Basta! — disse Eugênio. — Poupa-me aos teus medonhos gracejos. Responde-me a
sério: acreditas que tão horríveis provas, tantas vezes repetidas, sempre ameaçadoras,
possam enfim dar algum resultado? Essas pobres criaturas, entregues a si mesmas, sem
arrimo, sem conselhos, são bastante sensatas para ter experiência? Há um demônio, preso a
elas, que as impele para todo o sempre à desgraça e à loucura, ou, a despeito de tantas
extravagâncias, podem elas reencontrar o caminho do bem? Aí tens uma que fez preces a
Deus, dizes tu; vai à igreja, cumpre os seus deveres, vive honestamente do seu trabalho; suas
companheiras parecem estimá-la... e até vocês, seus malandros, vocês mesmos não a tratam
com a sua leviandade habitual. Outra passa, sem interrupção, do estouvamento à miséria, da
prodigalidade aos horrores da fome. Certo, ela deve recordar-se por muito tempo das lições
cruéis que recebe. Acreditas que, com sábias advertências, uma vida regrada, um pouco de
auxílio, seja possível fazer de tais mulheres seres razoáveis? Se assim é, dize-me; apresenta-
se-nos uma ocasião. Vamos agora mesmo à pobre Rougette; sem dúvida ela ainda está muito
doente, e sua amiga lhe vela à cabeceira. Não me desanimes, deixa-me agir. Quero tentar
reconduzi-las ao bom caminho, falar-lhes uma linguagem sincera; não lhes quero fazer sermão
nem censuras. Quero aproximar-me do leito, tomar-lhes a mão, e dizer-lhes...
Nesse momento os dois amigos passavam em frente do Café Tortoni. 33 À claridade dos
lustres desenhava-se a silhueta de duas moças, que tomavam gelados ao pé de uma janela.
Uma delas agitou o lenço, e a outra soltou uma gargalhada.
— Esta é boa! — disse Marcelo. — Se lhes queres falar, não é preciso irmos tão longe,
pois ali estão elas. Deus me perdoe! Reconheço Mimi pelo seu vestido, e Rougette pelo
penacho branco, sempre atrás das guloseimas. Parece que o sr. barão fez as coisas a
contento.

IX
— E não te espanta uma loucura destas? — perguntou Eugênio.
— Espanta-me, realmente — disse Marcelo —, mas, eu te peço, quando falares mal das
grisetes, abre uma exceção para a pequena Pinson. Ela nos contou uma história à ceia,
empenhou o seu vestido por quatro francos, fez para si um xale com uma cortina; e quem diz o
que sabe, dá o que tem e faz o que pode não está obrigado a nada mais.
ÁLVARES DE AZEVEDO

Nas “Ideias íntimas”, fragmento de um poema obra-prima, Manuel Antônio Álvares de Azevedo
(São Paulo, 1831 — Rio de Janeiro, 1852), pouco depois de lamentar-se, no seu leito insone:

Oh! ter vinte anos sem gozar de leve


A ventura de uma alma de donzela!
E sem na vida ter sentido nunca
Na suave atração de um róseo corpo
Meus olhos turvos se fechar de gozo!

descreve:

Junto do leito meus poetas dormem


— O Dante, a Bíblia, Shakespeare e Byron —
Na mesa confundidos.

Sua breve existência decorreu toda, a bem dizer, entre aspirações de amor (carnal e
platônico), talvez sempre irrealizadas, e a paixão real e acicatante da leitura, do saber.
Certamente haverá dormido mais em companhia dos livros que das mulheres.
Dos seis aos nove anos de idade, limitado progresso fez no estudo. Causara-lhe fortíssimo
abalo a morte de uma irmã, pela altura de 1835, em Niterói (os pais haviam mudado para o
Rio de Janeiro dois anos antes); e, naquela cidade, “os primeiros professores”, — conta-nos
R. Magalhães Júnior — “diante daquele meninozinho imerso em cismas profundas, incapaz de
concentrar-se fosse no que fosse, passaram-lhe um diploma de estúpido”.34 No entanto,
vencida a crise, opera-se algo milagroso: a criança desatenta e vaga lança-se com avidez aos
livros, ao estudo aturado, e adianta-se espantosamente.
Em 1840 os pais transferem-no daquela casa de ensino, onde imperava a palmatória, para
o Colégio Stoll. Tamanho é o progresso que não tarda o pequeno a superar os mais
sabedores e mais velhos. Alguma coisa semelhante ao famoso “estalo de Vieira”, como já se
observou. Dele chega a dizer o dr. Stoll que “reúne a maior inocência de costumes à mais
vasta capacidade intelectual que encontrei na América numa criança de sua idade”.
Depois, no Colégio d. Pedro II, onde veio a bacharelar-se aos 16 anos, de pronto sua
inteligência e cultura o notabilizaram. Foi assim, servindo ao natural talento com apaixonada
aplicação aos livros, que alcançou, desde os primeiros tempos, o maior aproveitamento não só
nas matérias do curso, mas nas letras, na literatura, a nacional e as estrangeiras, que todas
praticamente dominou.
Admirado e querido, em estado de glória, morre aos 21 anos incompletos, pronunciando as
palavras recolhidas pela tradição: — “Que fatalidade, meu pai!”
Essa glória crescerá com o tempo. Porque Álvares de Azevedo, convêm dizer, morreu
inédito: conheciam-se-lhe poemas e prosas poucos e soltos. Um ano após o falecimento,
“aquela quase criança morta” — é Homero Pires quem o diz — “surpreenderia os
contemporâneos com uma obra viva e original, que até hoje relemos com emoção.”35 É a Lira
dos vinte anos.
Correm dois anos mais, e estreia-se o prosador: “agudo e fino autor de teatro”; “um
narrador prodigioso de contos fantásticos e terríveis”; um crítico e ensaísta muito fino para
anos tão verdes.
Homero Pires proclama não existir em nossas letras “exemplo de naufrágio de tão
completa, vasta e brilhante esperança malograda como essa”. Claro, não caberia tentarmos
acompanhar com demora esse rapaz pelos caminhos vários do seu espírito. Ressalte-se o
poeta lírico, sentimental ou ferido pela dúvida byroniana, tocado pelo gosto da meditação, que
ainda hoje comparece em todas as antologias, e talvez ainda figure em álbuns, por esse Brasil
afora, sobretudo com o “Se eu morresse amanhã!” e “Lembrança de morrer”, ou com o soneto
“Pálida à luz da lâmpada velada”, talvez o mais belo dos que produziu o nosso maior sonetista
romântico; ou, ainda, com a musa ironicamente trocista de peças como “Spleen e Charutos” e
“Namoro a cavalo”. Mas não se esqueça o teatrólogo de Macário, nem o contista de Noite na
taverna.
Da Noite na taverna (por onde “perpassam.... como por um cinematógrafo macabro todos
os excessos e todos os crimes: são incestos, defloramentos, adultérios. Há blasfêmias e
gritos. Há assassínios, degolamentos. Aparece a necrofilia. Envenenamentos. Suicídios.
Infanticídios. Nem sequer lhe falta a antropofagia”36), basta lembrar a influência que exerceram
estes contos fantásticos, tão marcados por Byron e Hoffmann37, influência provada não só pelo
interesse dos leitores, mas também pela quantidade de obras inspiradas por ela. Homero
Pires arrola uma dezena, “dentre os contos e romances” inspirados pela obra famosa, conjunto
de cinco narrativas que têm como personagens-narradores Solfieri, Bertram, Gennaro,
Claudius Hermann e Johann, todos tomados a Byron, com exceção do terceiro, que emana de
Victor Hugo. Mário de Andrade considera a última dessas histórias “admirável de urdidura
romântica”.38
Transcrevemos abaixo o “Solfieri”, lembrado, um de nós, o que primeiro assina esta
antologia, daquelas palavras da introdução39 do livro, que tantos e tantos ainda hoje têm de
cor: “Silêncio, moços! Acabai com essas cantilenas horríveis! Não vedes que as mulheres
dormem ébrias, macilentas como defuntos?”
Agrada-nos inaugurar com os exageros desse menino de vinte anos, “homem de gênio”,
como lhe chamou (com exagero?) Agripino Grieco, 40 a presença das letras brasileiras neste
Mar de histórias.

SOLFIERI

“...Yet one kiss on your pale clay


And those lips once so warm — my heart! my heart!”
Byron, Cain.41

Sabeis-lo.42 Roma é a cidade do fanatismo e da perdição: na alcova do sacerdote dorme a


gosto a amásia, no leito da vendida se pendura o crucifixo lívido. É um requintar de gozo
blasfemo que mescla o sacrilégio à convulsão do amor, o beijo lascivo à embriaguez da
crença!
Era em Roma. Uma noite a lua ia bela como vai ela no verão por aquele céu morno, o
fresco das águas se exalava como um suspiro do leito do Tibre. A noite ia bela. — Eu
passeava a sós pela ponte de... As luzes se apagaram uma por uma nos palácios, as ruas se
faziam ermas, e a lua de sonolenta se escondia no leito de nuvens. Uma sombra de mulher
apareceu numa janela solitária e escura. Era uma forma branca. — A face daquela mulher era
como de uma estátua pálida à lua. Pelas faces dela, como gotas de uma taça caída, rolavam
fios de lágrimas.
Eu me encostei à aresta de um palácio. — A visão desapareceu no escuro da janela, e daí
um canto se derramava. Não era só uma voz melodiosa: havia naquele cantar um como choro
de frenesi, um como gemer de insânia: aquela voz era sombria como a do vento à noite nos
cemitérios cantando a nênia das flores murchas da morte.
Depois o canto calou-se. A mulher apareceu na porta. Parecia espreitar se havia alguém
nas ruas. Não viu a ninguém — saiu. Eu segui-a.
A noite ia cada vez mais alta: a lua sumira-se no céu, e a chuva caía às gotas pesadas:
apenas eu sentia nas faces caírem-me grossas lágrimas de água, como sobre um túmulo
prantos de órfão.
Andamos longo tempo pelo labirinto das ruas: enfim ela parou: estávamos num campo.
Aqui, ali, além eram cruzes que se erguiam de entre o ervaçal. Ela ajoelhou-se. Parecia
soluçar: em torno dela passavam as aves da noite.
Não sei se adormeci: sei apenas que quando amanheceu achei-me a sós no cemitério.
Contudo a criatura pálida não fora uma ilusão — as urzes, as cicutas do campo-santo estavam
quebradas junto a uma cruz.
O frio da noite, aquele sono dormido à chuva, causaram-me uma febre. No meu delírio
passava e repassava aquela brancura de mulher, gemiam aqueles soluços, e todo aquele
devaneio se perdia num canto suavíssimo...
Um ano depois voltei a Roma. Nos beijos das mulheres nada me saciava: no sono da
saciedade me vinha aquela visão...
Uma noite, e após uma orgia, eu deixara dormida no leito dela a condessa Bárbara. Dei um
último olhar àquela forma nua e adormecida com a febre nas faces e a lascívia nos lábios
úmidos, gemendo ainda nos sonhos como na agonia voluptuosa do amor. — Saí. — Não sei se
a noite era límpida ou negra — sei apenas que a cabeça me escaldava de embriaguez. As
taças tinham ficado vazias na mesa: nos lábios daquela criatura eu bebera até a última gota o
vinho do deleite...
Quando dei acordo de mim estava num lugar escuro: as estrelas passavam seus raios
brancos entre as vidraças de um templo. As luzes de quatro círios batiam num caixão
entreaberto. Abri-o: era o de uma moça. Aquele branco da mortalha, as grinaldas da morte na
fronte dela, naquela tez lívida e embaçada, o vidrento dos olhos mal-apertados... Era uma
defunta!... e aqueles traços todos me lembraram uma ideia perdida... — Era o anjo do
cemitério? Cerrei as portas da igreja, que, ignoro por quê, eu achara abertas. Tomei o cadáver
nos meus braços para fora do caixão. Pesava como chumbo.
Sabeis a história de Maria Stuart degolada e do algoz, “do cadáver sem cabeça e do
homem sem coração” como a conta Brantôme?43 — Foi uma ideia singular a que eu tive.
Tomei-a no colo. Preguei-lhe mil beijos nos lábios. Ela era bela assim: rasguei-lhe o sudário,
despi-lhe o véu e a capela como o noivo as despe à noiva. Era uma forma puríssima. Meus
sonhos nunca me tinham evocado uma estátua tão perfeita. Era mesmo uma estátua: tão
branca era ela. A luz dos tocheiros dava-lhe aquela palidez de âmbar que lustra os mármores
antigos. O gozo foi fervoroso — cevei em perdição aquela vigília. A madrugada passava já
froixa nas janelas. Àquele calor de meu peito, à febre de meus lábios, à convulsão de meu
amor, a donzela pálida parecia reanimar-se. Súbito abriu os olhos empanados. — Luz sombria
alumiou-os como a de uma estrela entre névoa, — apertou-me em seus braços — um suspiro
ondeou-lhe nos beiços azulados... Não era já a morte — era um desmaio. No aperto daquele
abraço havia contudo alguma coisa de horrível. O leito de lájea onde eu passara uma hora de
embriaguez me resfriava. Pude a custo soltar-me daquele aperto do peito dela... Nesse
instante ela acordou...
Nunca ouvistes falar da catalepsia? É um pesadelo horrível aquele que gira ao acordado
que emparedam num sepulcro; sonho gelado em que sentem-se os membros tolhidos, e as
faces banhadas de lágrimas alheias sem poder revelar a vida!
A moça revivia a pouco e pouco. Ao acordar desmaiara. Embucei-me na capa e tomei-a
nos braços coberta com seu sudário como uma criança. Ao aproximar-me da porta topei num
corpo; abaixei-me — olhei: era algum coveiro do cemitério da igreja que aí dormira de ébrio,
esquecido de fechar a porta...
Saí. — Ao passar a praça encontrei uma patrulha.
— Que levas aí?
A noite era muito alta — talvez me cressem um ladrão.
— É minha mulher que vai desmaiada...
— Uma mulher!... Mas essa roupa branca e longa? Serás acaso roubador de cadáveres?
Um guarda aproximou-se. Tocou-lhe a fronte — era fria.
— É uma defunta...
Cheguei meus lábios aos dela. Senti um bafejo morno. — Era a vida ainda.
— Vede — disse eu.
O guarda chegou-lhe os lábios: os beiços ásperos roçaram pelos da moça. Se eu sentisse
o estalar de um beijo... o punhal já estava nu em minhas mãos frias...
— Boa noite, moço: podes seguir — disse ele.
Caminhei. — Estava cansado. Custava a carregar o meu fardo: e eu sentia que a moça ia
despertar. Temeroso de que ouvissem-na gritar e acudissem-me, corri com mais esforço...
Quando eu passei a porta ela acordou. O primeiro som que lhe saiu da boca foi um grito de
medo.
Mal eu fechara a porta, bateram nela. Era um bando de libertinos meus companheiros que
voltavam da orgia. Reclamaram que abrisse.
Fechei a moça no meu quarto — e abri.
Meia hora depois eu os deixava na sala bebendo ainda.
A turvação da embriaguez fez que não notassem minha ausência.
Quando entrei no quarto da moça vi-a erguida. Ria de um rir convulso como a insânia, e frio
como a folha de uma espada. Trespassava de dor o ouvi-la.
Dois dias e duas noites levou ela de febre assim... Não houve sanar-lhe aquele delírio, nem
o rir do frenesi. — Morreu depois de duas noites e dois dias de delírio.
À noite saí — fui ter com um estatuário que trabalhava perfeitamente em cera — e paguei-
lhe uma estátua dessa virgem.
Quando o escultor saiu, levantei os tijolos de mármore do meu quarto, e com as mãos cavei
aí um túmulo. — Tomei-a então pela última vez nos braços, apertei-a a meu peito muda e fria,
beijei-a e cobri-a adormecida do sono eterno com o lençol de seu leito. — Fechei-a no seu
túmulo e estendi meu leito sobre ele.
Um ano — noite a noite — dormi sobre as lajes que a cobriam... Um dia o estatuário me
trouxe a sua obra. — Paguei-lha e paguei o segredo...
— Não te lembras, Bertram, de uma forma branca de mulher que entreviste pelo véu do
meu cortinado? Não te lembras que eu te respondi que era uma virgem que dormia?
— E quem era essa mulher, Solfieri?
— Quem era? Seu nome? Quem se importa com uma palavra quando sente que o vinho
queima assaz os lábios? Quem pergunta o nome da prostituta com quem dormia e que sentiu
morrer a seus beijos, quando nem há dele mister por escrever-lho na lousa?
Solfieri encheu uma taça. — Bebeu-a. — Ia erguer-se da mesa quando um dos convivas
tomou-o pelo braço.
— Solfieri, não é um conto isso tudo?
— Pelo inferno que não! Por meu pai que era conde e bandido, por minha mãe que era a
bela Messalina das ruas — pela perdição que não! Desde que eu próprio calquei aquela
mulher com meus pés na sua cova de terra — eu vo-lo juro — guardei-lhe como amuleto a
capela de defunta. Eis-la.44
Abriu a camisa, e viram-lhe ao pescoço uma grinalda de flores mirradas.
— Vedes-la?45 Murcha e seca como o crânio dela!
GOTTFRIED KELLER

A vida pacata do “Shakespeare da novela” — como num famoso soneto 46 o poeta Paul Heyse
apelidou, com algum exagero, a Gottfried Keller (1819-1890) — bem simboliza a tranquila
existência da Suíça, o seu pequeno país, em meio aos cataclismos europeus. Após o malogro
de suas tentativas de pintor paisagista, e de uma fase de poesias românticas, encontrou Keller
seu verdadeiro caminho graças à influência do filósofo Ludwig Feuerbach, a cujos cursos
assistia em Heidelberg, e que o desviou para o realismo. Nessa velha cidade universitária e em
Berlim passou os anos mais decisivos: lá é que encontrou a sua fórmula, uma espécie de
“realismo poético”.47 Lá escreveu seu primeiro romance, o autobiográfico Henrique, o Verde, e
o primeiro grupo de contos da Gente de Seldvila. Volvendo à Suíça, torna-se funcionário e
chega a ser primeiro-escrevente estadual, cargo que ocupou durante 15 anos. Aposentado,
acrescenta algumas obras à sua produção já rica; nessa ainda se distingue, além de várias
coletâneas de contos e uma de poesias, o romance Martim Salander.
Numa dessas coletâneas, Sete lendas, Keller ressuscita, com arte paciente, algumas das
mais belas histórias da Idade Média, como a lenda de “A virgem e a freira”: a linda freira
Beatriz foge um dia do convento, desposa um cavaleiro, tem dele oito filhos; muitos anos
depois, desiludida, torna ao convento, onde nem tinham dado pela sua longa ausência, pois
durante todo esse tempo a Virgem Maria a substituíra. Outra coleção, a das Novelas de
Zurique, já foi concebida com intenção nitidamente antirromântica: nela se contam as histórias
de tipos “originais”, que acabam todos mal, para tirar a um jovem sonhador o desejo de
“originalidade”.
A meio caminho entre realismo e romantismo está Gente de Seldvila, cujas novelas se
referem aos habitantes de uma cidadezinha imaginária da Suíça (o nome significa “Cidade
feliz”), na qual o autor quis condensar as qualidades e os defeitos de seu povo. É uma
cidadezinha indolente e feliz, escondida entre as altas montanhas, afastada do mundo; não
progride e nunca chegará a ser nada; seus moradores ou envelhecem após uma vida vazia e
beata, ou de repente se atiram às aventuras mais extravagantes.
Entre as peças mais famosas dessa obra devem-se mencionar “O Romeu e a Julieta da
aldeia”, história de dois amantes camponeses, compelidos, pela oposição das famílias à sua
união, a suicidarem-se juntos, após um dia venturoso; a “História dos três honestos
penteeiros”, na qual aparecem três consumados gatunos que, conservando sempre as
aparências da legalidade, arruínam o patrão e benfeitor; e “Espelho, o gatinho”, menos
fortemente ligado ao ambiente de Seldvila, deliciosa fantasia influenciada decerto pelas obras
de Hoffmann,48 mas onde a mistura tão característica de romantismo e realismo, de humor e
gosto do pitoresco, identifica o autor desde a primeira página.49

ESPELHO, O GATINHO
Quando um seldvilense faz um mau negócio ou se deixa burlar, diz-se em Seldvila: —
“Comprou a banha ao gato!” Este provérbio, embora conhecido em várias regiões, em
nenhuma outra se ouve com maior frequência, o que talvez se explique por existir na cidade de
Seldvila uma antiga lenda sobre a sua origem e significação.
Há centenas de anos — reza a lenda — morava em Seldvila uma senhora de idade,
sozinha, em companhia apenas de um belo gatinho cinzento-escuro, que vivia com ela num
sábio contentamento, sem fazer o menor mal a quem o deixava em paz.
Tinha uma única paixão, a caça, mas satisfazia-a com prudência e medida, sem tirar
vaidade da circunstância de essa paixão, além de servir a um fim útil, também agradar à sua
dona. Tampouco se deixava levar a uma crueldade excessiva: restringia-se a matar os ratinhos
mais indiscretos e impertinentes, que se atreviam a pôr o pé em determinado raio à volta da
casa; a estes, porém, destruía com apreciável destreza. Raro lhe acontecia perseguir além do
âmbito em apreço algum camundongo particularmente manhoso que o encolerizava. Em tal
caso, pedia, mui cortês, aos senhores vizinhos, autorização para caçar um pouquinho em suas
casas, o que lhe permitiam de bom grado, pois não mexia nos potes de leite, nem saltava
sobre os presuntos porventura dependurados nas paredes, mas cuidava de seus quefazeres
com silenciosa atenção e, cumprida a tarefa, retirava-se convenientemente com o ratinho na
boca. Não era nada esquivo ou malcriado; pelo contrário: em vez de fugir das pessoas
razoáveis, dava-lhes confiança. Com elas, consentia sempre numa boa brincadeira e até
deixava que lhe puxassem um pouco as orelhas, sem as arranhar nunca. Não queria, porém,
saber de familiaridades com certa espécie de gente tonta, cuja estupidez atribuía a falta de
maturidade e a aridez de alma: evitava-os de longe ou, quando o molestavam com sua
grosseria sem graça, dava-lhes um golpe certeiro na mão.
Espelho — era este o nome do gatinho, em razão do pelo liso e brilhante — levava, assim,
uma vida agradável, alegre e contemplativa, num honesto e despretensioso bem-estar. Não
trepava com excessiva frequência no ombro de sua boa senhora para lhe tirar do garfo os
bocados de carne; fazia-o apenas quando via que ela gostava do gracejo. Durante o dia, raras
vezes dormia deitado na almofada quentinha atrás da estufa; para não se deixar amolecer,
preferia descansar em cima da estreita balaustrada ou no algeroz, entregando-se a
considerações filosóficas ou à contemplação do mundo. Essa vida tranquila não era
interrompida a não ser por uns oito dias, na primavera, quando as violetas floresciam, e por
outros tantos no outono, quando o suave calor do verão das velhas50 macaqueava a estação
das violetas. Então Espelho seguia os seus próprios caminhos, vadiava com amoroso
entusiasmo sobre os telhados mais longínquos e entoava os mais lindos cantos. Como
verdadeiro d. João, afrontava dia e noite as aventuras mais perigosas, e, se porventura
aparecia em casa, tinha uma aparência tão desgrenhada e devassa que a sua plácida senhora
não podia deixar de exclamar: — “Ora, Espelho! não tens vergonha de levar semelhante vida?”
Mas, se alguém não tinha a menor vergonha, era justamente Espelho. Pessoa de princípios,
bem sabia o que podia permitir a si mesmo para assegurar à sua existência uma variedade
benéfica. Por isso contentava-se de restabelecer a lisura do seu manto e a inocente alegria do
seu aspecto, passando sem a menor emoção a pata úmida sobre o focinho, como se nada
houvera acontecido.
De súbito, porém, essa vida equilibrada teve um triste fim. Quando o gatinho estava na flor
da idade, morreu-lhe de improviso a patroa, enfraquecida pela velhice, deixando-o sem dono,
sozinho como um órfão. Foi o primeiro infortúnio que o golpeou. Com os acentos de verdadeira
dor de quem procura duvidar, ainda, do motivo real de sua tristeza, acompanhou o cadáver até
à rua e passou desorientado o resto do dia, vagueando pela casa e nos arredores. Afinal sua
boa natureza, seu juízo e sua filosofia o acalmaram, e o fizeram conformar-se com o
irreparável. Resolveu demonstrar a sua grata afeição à casa da defunta senhora oferecendo
os seus serviços aos alegres herdeiros, dispondo-se a prodigalizar-lhes conselhos e a manter-
lhes a casa limpa de ratos, como também a fazer-lhes certa comunicação importante, que
aqueles insensatos decerto não teriam desprezado se não fossem gente privada de bom
senso. Porém eles nem deixavam Espelho abrir a boca. Mal o gatinho aparecia,
arremessavam-lhe à cabeça as chinelas ou o belo supedâneo da morta. Entretanto brigaram
oito dias, acabaram intentando processar uns aos outros, e à espera da sentença fecharam a
casa, que assim se tornou deserta.
Coitado do gatinho! Ficou abandonado e triste na escada de pedra à entrada, sem que
ninguém lhe viesse abrir a porta. Só à noite é que, através de caminhos tortuosos, conseguiu
penetrar debaixo do telhado. A princípio mantinha-se ali durante grande parte do dia,
procurando afogar no sono as suas saudades. Mas bem depressa a fome o fez voltar,
forçando-o a aparecer à luz do sol entre os homens, para ficar ao alcance da mão e aguardar
um bocadinho de comida. Quanto mais raro se fazia o bocadinho, tanto mais desconfiado se
tornava o bom Espelho. Nessa desconfiança desfaziam-se-lhe todas as qualidades morais, de
forma que dali a pouco não mais se parecia consigo mesmo. Realizava numerosas excursões,
partindo da sua soleira e esgueirando-se na rua, tímido, esquivo, para depois retornar com
alguma comida insossa, para a qual outrora nem teria volvido os olhos, ou até sem coisa
alguma. Emagrecia a olhos vistos, mostrava-se cada vez mais esguedelhado, glutão,
rastejante e covarde. Fora-se-lhe a coragem, a bela dignidade de gatarrão, o bom senso e a
filosofia. Quando ouvia a voz dos meninos de volta da escola, tratava de ocultar-se em algum
cantinho secreto, observava de soslaio se algum deles não atirava ao chão uma côdea, e
procurava notar bem o lugar. Se ao longe aparecia um mastim qualquer, fugia aos pulos — ele
que outrora enfrentara os perigos com serenidade e mais de uma vez contivera os cachorros
mais barulhentos. No entanto, ao aproximar-se algum homem grosseiro e tonto, um daqueles
que dantes tão sabiamente evitara, o pobre gatinho ficava sentado, embora o que ainda
guardava de suas experiências com a humanidade bastasse para identificar o tratante; mas a
necessidade o forçava a iludir-se e a esperar que o patife excepcionalmente lhe fizesse festa e
lhe oferecesse um pedacinho de pão. Mesmo quando, em vez da esperada comida, recebia
golpes e beliscões no rabo, não arranhava: apenas se encolhia a um canto, com o olhar
implorando piedade à mão que o golpeara ou beliscara, e que, mais de uma vez, cheirava a
salsichas ou a arenques.
Certo dia, nessa fase de decadência, o nobre e sábio Espelho, sentado numa pedra, muito
emagrecido e com ar macambúzio, piscava o olho ao sol. Passou por ali o feiticeiro municipal,
Mestre Pineis, viu o gatinho e parou diante dele. À espera de algo de bom, embora
conhecesse bem o sinistro personagem, Espelhinho ficou sentado em atitude humilde e
aguardou o que Mestre Pineis ia dizer ou fazer. Mas perdeu a esperança logo às primeiras
palavras que o feiticeiro lhe dirigiu:
— Então, gatinho, queres que eu te compre a banha?
Espelho pensou que Mestre Pineis estivesse troçando dele por causa da sua magreza.
Contudo, respondeu com um sorriso modesto, não querendo fazer inimigos:
— Ah, Mestre Pineis, v. sa. gosta de brincar!
— De maneira nenhuma — replicou este. — Estou falando sério. Preciso muito de banha de
gato para coisas de feitiçaria, mas a banha deve ser cedida por um senhor bichano
espontaneamente e mediante contrato, sem o quê não terá efeito. Parece-me que, se um
bravo gato já teve oportunidade de fechar um bom negócio, és tu. Empenha-te em me servir.
Hei de te cevar com salsichinhas e codornas assadas até ficares redondo feito uma bola. No
telhado da minha casa, bem alto — aqui para nós: o telhado mais delicioso para um gato,
cheio de cantos e recantos curiosos —, cresce uma relva excelente, verde como a esmeralda,
cujas hastes, compridas e finas, balançam ao vento, convidando-te a arrancar-lhes as tenras
pontas e a mastigá-las, se porventura com as tuas fartas comezainas apanhares uma leve
indigestão. Assim gozarás sempre da melhor saúde e me poderás um dia fornecer uma banha
forte e eficaz.
Fitando as orelhas, Espelho escutava a proposta, e vinha-lhe água à boca. Como, porém,
ao seu enfraquecido entendimento a coisa ainda não parecia bem clara, observou:
— Está tudo certo, Mestre Pineis, contanto que eu saiba como poderei receber e gozar a
recompensa que for combinada, depois de lhe entregar a minha vida para que v. sa. possa
utilizar a minha banha.
— Receber a recompensa? — objetou o feiticeiro, admirado. — Mas a recompensa são
justamente os manjares suntuosos e fartos com que eu te engordarei! É claro como água!
Porém não quero, de modo nenhum, forçar-te!
E fez menção de ir-se embora. Mas Espelho disse-lhe com ansiosa pressa:
— V. sa. deve, pelo menos, conceder-me um prazo razoável, depois de atingido o maior
grau de gordura e redondeza, para que eu não me veja forçado a desaparecer logo que
chegue esse momento agradável e — ai de mim! — fatídico.
— Está certo! — replicou Mestre Pineis com aparente generosidade. — Tens licença para
desfrutar a tua agradável situação até a próxima lua cheia, mas nem um minuto mais. A coisa
não poderá ser protelada até o minguante, pois isto exerceria uma influência diminuidora sobre
a minha legítima posse.
O gatinho apressou-se em concordar e assinou um contrato, que o feiticeiro já trazia
prontinho, na sua letrinha fina, última reminiscência dos bons tempos idos.
— Já podes vir almoçar em minha casa, gato! — disse o bruxo. — Come-se ao meio-dia
em ponto!
— O prazer será todo meu — respondeu Espelho.
E às onze em ponto estava em casa de Mestre Pineis.
Ali, durante vários meses, levou uma vida bem aprazível. Nada mais tinha para fazer senão
comer as delicadas iguarias que lhe eram servidas, contemplar, quando quisesse, as bruxarias
do feiticeiro, e dar uns passeios pelo telhado. Esse telhado parecia um enorme e negro
“arranha-céu” ou “chapéu de três bicos”, nomes que se dão aos grandes chapéus dos
camponeses suábios; e, assim como um chapéu daqueles sombreia um cérebro cheio de
astúcias e petas, assim o telhado cobria uma casa ampla, escura e angulosa, cheia de feitiços
e malefícios. Mestre Pineis era um sabichão, o tipo do homem dos sete ofícios. Fazia de
curandeiro, exterminava percevejos, extraía dentes e emprestava dinheiro a juros; era tutor de
todas as órfãs e viúvas, ocupava seus lazeres em aparar penas, a tostão a dúzia, e fabricava
uma bela tinta preta; vendia gengibre e pimenta, graxa para carros, e ratafia, pregos para
sapato, e colchetes; consertava o relógio da torre, organizava todos os anos o calendário com
predições sobre a temperatura, regras de agricultura e o homenzinho das sangrias; fazia dez
mil coisas legítimas à luz do dia e mediante remuneração módica, e algumas ilegítimas na
escuridão, para seu prazer; por vezes, às coisas legítimas, antes de soltá-las, acrescentava
depressa um rabinho de irregularidade, não maior que o rabo das rãzinhas recém-nascidas —
apenas para terem graça. Também fazia chuva em tempos difíceis, por meio de sua arte
vigiava as bruxas e, quando estavam maduras, fazia-as queimar; por sua vez, apenas
praticava a bruxaria como experiência científica e para uso doméstico; assim também, as leis
do município, que ele redigia e passava a limpo, experimentava-as secretamente e torcia-as
para lhes apreciar a durabilidade. Como os seldvilenses sempre necessitassem de um cidadão
que lhes fizesse todos os atos um pouco repugnantes, grandes e pequenos, Mestre Pineis foi
nomeado feiticeiro municipal, e exercia a profissão, com infatigável zelo e habilidade, a todas
as horas do dia. Assim, sua casa estava cheia, da adega ao telhado, de todas as coisas
imagináveis, e Espelho divertia-se muito a examinar e cheirar tudo.
No começo, porém, só prestava atenção à comida. Engolia com avidez tudo quanto Mestre
Pineis lhe oferecia, e, mal terminada uma refeição, esperava impaciente a outra. Acabou
sobrecarregando o estômago, e teve de ir ao telhado comer as pontas das ervas verdes a fim
de livrar-se de todo mal-estar. Observando essa voracidade, julgava o feiticeiro, com alegria,
que o gatinho ia engordar depressa: quanto mais gastasse para tal fim, tanto maior seria a
economia realizada no conjunto. Construiu, pois, em seu quarto, para Espelho, uma verdadeira
paisagem, erguendo um pequeno pinheiral, colocando montões de pedras cobertas de musgo
e até cavando uma lagoinha. Nas árvores dispunha cotovias, abelharucos, tentilhões e pardais
assados e bem cheirosos, sempre de acordo com a estação, de modo que nunca faltasse ao
gato o que lambiscar. Dentro dos pequenos montes escondia em buracos artificiais uns ratões
esplêndidos, cuidadosamente cevados com farinha de trigo, e em seguida estripados,
lardeados e assados. Estavam alguns desses ratos ao alcance da mão de Espelho, ao passo
que outros, para se lhe intensificar o prazer, ficavam escondidos no fundo e presos a outros
tantos fios que o gatinho devia puxar com cautela quando se quisesse entregar à alegria de
uma caça simulada. O tanque do lago, Pineis enchia-o todos os dias de leite fresco para o
gato matar a sede no doce líquido, e, sabendo que nem sempre os felinos desdenham o
pescado, soltava nele uns gobiões fritos.
Levando vida tão magnífica, fazendo o que lhe aprouvesse, comendo e bebendo quando lhe
agradasse, Espelho não podia deixar de ter uma aparência cada vez mais robusta. Seu pelo
tornava-se de novo liso e brilhante, seus olhos fuzilavam de contentamento. Como, por outro
lado, as forças intelectuais lhe retornassem na mesma proporção, adotava melhores hábitos. A
voracidade feroz aplacara-se, e, graças à triste experiência que tivera, mostrava-se mais
prudente que antes. Moderava o apetite, não comia além do necessário, e voltava a entregar-
se a reflexões profundas e sábias, e a relembrar as coisas.
Certa vez pegou numa árvore um belo tordo, e, ao dissecá-lo, com ar pensativo, encontrou
o pequeno estômago, redondo como uma bola, cheio de comida fresca, ainda não digerida.
Ervas verdes, bem-enroladinhas, grãos brancos e pretos, e uma baga vermelha e luzidia, lá
estavam, tão bem juntos e comprimidos como se aquilo fosse uma mochila preparada por boa
mãe para a viagem de seu filho. Mastigando devagar o pássaro, o gato segurava nas garras o
estomagozinho tão zelosamente recheado, e suas meditações de filósofo levaram-no a
compadecer-se do bichinho, ao qual o destino cruel impedira até digerir o alimento engolido
com tanta serenidade. — “Coitadinho do bicho!” — disse lá com os seus botões. — “De quê
lhe serviu ter-se alimentado com tanto zelo e acerto que este saquinho chega a parecer um
trabalho feito à mão? Foi esta baga vermelha que o atraiu da livre floresta ao laço do
passarinheiro. Mas ele pelo menos pensava agir bem e prolongar a existência com tais
comidas, enquanto eu acabo de comer este mesmo passarinho sabendo bem que com isso
abreviei a data da minha própria morte! Pode alguém assinar um contrato mais miserável e
covarde do que o meu: prolongar a vida um bocadinho só, para depois perdê-la? Uma morte
rápida e consentida — não seria preferível para um gato resoluto? Porém naquele momento eu
não sabia pensar; e agora, que de novo o sei, não vejo diante dos olhos outro fim senão o
deste tordo: logo que eu estiver bastante redondo, terei de me despedir da vida unicamente
por estar bastante redondo. Belo motivo para a morte de um gato de peso e medida, ansioso
de viver e apto às mais altas meditações! Ah! se eu pudesse livrar-me deste laço!”
Abismava-se em fundas reflexões sobre os meios de escapar, mas, como a hora do perigo
ainda não tinha chegado, não conseguia encontrar saída. No entanto, pessoa razoável que era,
pôs-se a exercer a virtude da temperança, o que é sempre a melhor escola e o passatempo
mais útil para quem está à espera de uma solução. Desdenhou a almofada branca que Mestre
Pineis lhe arranjara para que sobre ela descansasse e engordasse, e voltou a escolher para o
seu repouso cornijas e outros lugares elevados e perigosos. Menosprezou, também, os
pássaros assados e os ratos lardeados; agora, de preferência apanhava nos telhados, seu
habitual campo de caça, um simples pardal vivo, ou no celeiro um ratinho ágil. Nessa tarefa
dava mostras de grande presteza e muita manha, e a presa assim apanhada não somente lhe
agradava mais do que as caças assadas da tapada artificial de Mestre Pineis, mas também o
engordava menos. Sua agilidade e coragem, assim como a sua volta à prática das virtudes e à
filosofia, impossibilitavam, igualmente, uma engorda rápida. Destarte o gatinho, apesar do
aspecto sadio e brilhante, estacionava em certo grau de corpulência, coisa que o feiticeiro
estranhava e desaprovava ao mesmo tempo, pois o volume do gato estava longe do que ele
se propusera ao iniciar a generosa alimentação. De fato, Pineis sonhara com um bichão
redondo feito uma bola e bem pesado, que só a custo se erguesse da almofada e fosse um
bloco de banha.
Nisto precisamente consistia o erro de Sua Feitiçaria: com toda a sua esperteza, não sabia
que um burro, ainda que cevado, continua sempre um burro, tal como uma raposa, não
obstante a alimentação, nunca deixa de ser uma raposa; isto é, que cada animal engorda
segundo as leis da sua própria espécie. Verificando que o seu hóspede se mantinha sempre no
mesmo estado de esbelteza, bem-nutrido e robusto, mas flexível, sem mostrar a menor
tendência para engordar, chamou-o à parte uma noite e disse-lhe em tom áspero:
— Que é isso, Espelho? Por que não comes os ótimos pratos que te preparei com tanta
arte e cuidado? Por que já não apanhas nas árvores passarinhos assados, nem procuras nos
buracos os ratinhos apetitosos, nem pescas no tanque? Por que não cuidas de ti? Por que já
não dormes sobre a almofada? Por que te esgotas em vão? Por que não me crias barriga?
— Ora essa, Mestre Pineis! — respondeu Espelho. — Porque assim me sinto melhor.
Então não posso passar este curto prazo como mais me agradar?
— É boa! — gritou Mestre Pineis. — Deves viver de jeito que engordes o mais depressa!
Bem vejo quais são as tuas intenções! Queres-me burlar, para que te deixe vadiar nesse
estado intermediário até o fim dos tempos. Mas estás muito enganado, meu caro! Tua
obrigação é beber, comer e cuidar de ti para ficares gordo! Acaba, pois, quanto antes, com
essa temperança pérfida e anticontratual, senão teremos uma conversinha!
Espelho interrompeu o seu pacato rom-rom para adquirir compostura, e replicou:
— Nenhuma cláusula do contrato me obriga a renunciar à temperança e a um modo de viver
saudável. Se v. sa. supôs que sou um indolente, disso não tenho culpa. V. sa., que faz cada
dia mil coisas certas, deixe esta ser a milésima primeira, e não mexa no que está em ordem;
pois sabe muito bem que a minha banha só pode aproveitar-lhe se obtida por meios legais.
— Vejam só que tagarela! — berrou Pineis, furioso. — Queres então ensinar-me? Deixa
ver, vagabundo, quanto engordaste. Talvez se possa acabar contigo desde já!
Com estas palavras pegou no ventre de Espelho, mas o gato, que não gostava de cócegas,
arranhou-lhe a mão. Depois de examinar atento a ferida, Mestre Pineis continuou:
— Então as coisas chegaram a este ponto, sua fera? Bem: por força do contrato, declaro-
te suficientemente gordo. Dou-me por satisfeito com o resultado e hei de me aproveitar dele.
Daqui a cinco dias será lua cheia; goza a vida até lá, como foi estipulado, mas nem um minuto
mais!
Assim falando, voltou-lhe as costas e deixou-o entregue aos seus pensamentos, desta vez
graves e sombrios. Estaria tão perto a hora de um bom gatinho entregar a pele? Não lhe
serviria de nada toda a sabedoria? Subiu entre soluços ao telhado, cujos remates se
recortavam, negros, no céu magnífico da noite outonal. A lua se levantava sobre a cidade
lançando o seu clarão às telhas musgosas, uma canção encantadora penetrou nos ouvidos de
Espelho, e uma gata da cor da neve passou, em todo o seu brilho, num dos telhados vizinhos.
Nesse instante o gato esqueceu as perspectivas de morte em que vivia, e respondeu com o
seu mais belo canto de macho ao hino da bela. Pôs-se a acompanhá-la, e poucos momentos
depois estava empenhado em ardente batalha com três de seus parceiros. Afugentou-os com
valentia, para depois cortejar a dama com fervorosa devoção. Dias e noites passou em
companhia dela, sem pensar em Mestre Pineis e sem lhe aparecer em casa. Cantava como
um rouxinol nas belas noites de luar, andava à caça nos telhados e quintais empós da branca
namorada, e mais de uma vez, nos veementes jogos de amor ou nas lutas com os rivais, do
alto das casas rolava na rua, mas levantava-se com ímpeto, sacudia o pelo e retornava à
selvagem caça de seus amores. Horas silenciosas e barulhentas, sentimentos ternos e
combates furiosos, diálogos amenos e divertidas trocas de pensamentos, intrigas e doçuras do
amor e do ciúme, carícias e brigas, o poder da felicidade e os sofrimentos da desgraça não
deixaram o gato enamorado dar conta de si, e, quando o disco da lua se tornou cheio, achava-
se ele tão abatido por todas essas emoções e paixões que tinha um ar mais mísero, magro e
decaído que nunca. Nesse momento Mestre Pineis o chamou de uma das torrinhas do telhado:
— Olá, Espelho, Espelhinho! Onde estás? Vem cá, volta a casa um momento!
Espelho despediu-se da alva amante, que seguiu seu caminho com um miado satisfeito e
seco, e orgulhosamente foi-se entregar ao seu algoz. Este desceu à cozinha, amassando com
ruído o contrato e chamando:
— Vem, Espelhinho, vem!
O gato o acompanhou e sentou-se diante dele com altivez no meio da cozinha, magro e
esfarrapado como estava. Ao ver o prejuízo sofrido, o bruxo pulou como um possesso e
bradou furioso:
— Que vejo? Maroto, sem-vergonha, tratante, que fizeste?
Fora de si, pegou de uma vassoura para dar no gato, mas Espelho arqueou o escuro
dorso, eriçou os pelos num crepitar de faíscas, fitou as orelhas e encarou o velho com tanta
raiva que este retrocedeu três passos, cheio de espanto. Começou a recear a presença de um
feiticeiro mais poderoso do que ele que se divertisse em ludibriá-lo, e perguntou-lhe com voz
incerta e desanimada:
— Será que o prezado sr. Espelho é do ofício? Será que algum distinto feiticeiro tenha
resolvido disfarçar-se sob as suas feições? Do contrário, como consegue graduar à vontade a
sua corpulência, sendo ora nem magro nem gordo, ora descarnado como um esqueleto, para
escapar à morte?
Espelho tranquilizou-se e respondeu, honesto:
— Não, senhor, não sou feiticeiro! Foi unicamente o doce poder da paixão que me reduziu a
semelhante estado, consumindo, para minha alegria, toda a minha banha. Mas, se v. sa. quiser
recomeçar o negócio, desta vez estou às suas ordens e não me desaferro mais dele. É só v.
sa. me dar uma bela salsicha, que estou com uma fome!...
Porém Mestre Pineis, enraivecido, agarrou Espelho pelo pescoço, encerrou-o na gaiola,
que estava sempre vazia, vociferando:
— Veremos se o doce poder da paixão é capaz de tirar-te daqui, se ele é mais forte do que
o poder da feitiçaria e os meus direitos contratuais. Agora, o negócio é outro: passarinho,
come e morre!
Com estas palavras o deixou e principiou a assar uma salsicha comprida, tão cheirosa que
ele mesmo não pôde fugir à tentação de lamber-lhe as duas pontas antes de passá-la através
das grades da gaiola. Espelho devorou a salsicha de cabo a rabo, limpou o bigode e o pelo
com a língua, e disse:
— Palavra de honra: grande coisa é o amor! Agora mesmo livrou-me dos laços. Mas é
tempo de descansarmos um pouco e criarmos juízo outra vez, por meio de uma vida
contemplativa e da boa comida. Tudo tem seu tempo! Ontem, um pouco de paixão; amanhã,
calma e repouso: tanto uma coisa como a outra têm o seu encanto. Afinal de contas esta
prisão não é tão ruim como parece, e há de inspirar uma ideia saudável.
Desta vez, porém, Mestre Pineis concentrou-se e pôs toda a sua arte em preparar
diariamente as iguarias mais gostosas numa variedade tão admirável que a elas o prisioneiro
não soube resistir. Cumpre dizer que os estoques que o feiticeiro tinha de banha felina
espontânea e legalmente concedida tornavam-se cada vez mais reduzidos e ameaçavam
esgotar-se por inteiro. Ora, sem esse indispensável ingrediente o bruxo era um homem ao
mar. Infelizmente, ao mesmo tempo que nutria o corpo do gatinho, não podia o distinto mago
deixar de nutrir-lhe também o espírito: fato deveras lamentável e que mostra a imperfeição da
sua arte.
Quando, por fim, teve a impressão de que Espelho, dentro da gaiola, estaria bastante
gordo, pegou a preparar, sob os olhos atentos do gato, todo o vasilhame necessário, e
acendeu um fogo claro para extrair enfim, pelo cozimento, a banha tão impacientemente
esperada. Depois de fechar cauteloso a porta da cozinha e de amolar uma enorme faca, abriu
a prisão, retirou Espelhinho e disse-lhe com muita alegria:
— Vamos, gato de Deus! Por enquanto te cortaremos a cabeça, e depois tiraremos a tua
pele! Que barrete quentinho me dará essa pele! Como sou ingênuo em não ter pensado nisso
antes! Ou devo pelar-te primeiro e cortar-te a cabeça depois?
— Não, senhor — disse o gato com humildade. — Se não o aborrece, é melhor principiar
pela cabeça.
— Tens razão, diabinho. Não te atormentaria à toa. Justiça é justiça!
— Que palavra admirável! — exclamou Espelho soluçando com amargura. — Se eu a
tivesse posto em prática, morreria agora sem remorsos. A morte não me faz medo; acolho-a
com prazer até, pois que a vida só me oferece temores, ânsias, miséria, e, volta e meia, uma
tempestade de paixão devoradora, pior ainda que os calafrios do medo. Mas a lembrança de
uma grave injustiça me torna amargo neste momento um fim desejado.
— Que lembrança? Que injustiça? — perguntou, curioso, Mestre Pineis.
— Para quê recordar isso agora? — soluçou Espelho. — O que está feito, está feito, e de
nada vale o arrependimento.
— Estás vendo, malandro, que grande criminoso és? — exclamou o feiticeiro. — Vês como
mereceste a morte? Mas que diabo fizeste, ainda? Será que me furtaste, alienaste ou
estragaste alguma coisa? Será que me fizeste, ó Satanás, algum mal que eu nem calculo,
suponho ou imagino? Belo negócio, este! Por felicidade te apanhei ainda em tempo. Confessa-
te agora mesmo, senão te esfolo vivo! Como é: falas ou não falas?
— Não, senhor — disse Espelho —, não é por causa de v. sa. que sinto remorsos. Trata-se
dos dez mil ducados de ouro de minha falecida senhora... mas para quê falar nisso!... Na
verdade... olhando para v. sa., agora, penso que talvez ainda não seja tarde... v. sa. é um
homem belo e forte, na flor da idade. Vejamos, sr. Pineis, v. sa. nunca teve o desejo de um
casamento honrado e vantajoso?... Mas estou dizendo loucuras. Como poderia ocorrer uma
ideia tão frívola a um homem habilidoso e inteligente como v. sa.! Um mestre feiticeiro,
empenhado em atividades tão proveitosas, pensar em mulherezinhas tolas... Mas, refletindo
bem, até a pior de todas elas tem algo que possa ser útil a um homem, lá isso é um fato. E
então quando presta, uma esposinha não é de desprezar: branca de corpo, cuidadosa, modos
insinuantes, coração fiel, econômica no governo da casa — mas pródiga de carinhos para o
marido, de poucas palavras, ajuizada nas ações... Beija o maridinho, afaga-lhe a barba,
estreita-o nos braços, coça-lhe a pele atrás da orelha... enfim, faz mil coisas que não são para
rejeitar. Fica-lhe perto ou a respeitosa distância, conforme a vontade dele, não o incomoda
quando ele anda a seus negócios, espalha seus louvores dentro e fora de casa, elogiando tudo
quanto é dele, não deixando que o censurem nunca... Porém o que há de mais gracioso é o
admirável conjunto de sua tenra compleição, à qual a natureza deu uma configuração tão
diversa da nossa que é uma fonte perpétua de maravilhas num matrimônio feliz e, no fim de
contas, encerra a feitiçaria mais requintada... Mas estou aqui parolando a dois passos da
morte, feito um louco! Como poderia um homem sábio preocupar-se com tais futilidades?
Perdoe, Mestre Pineis, e corte-me a cabeça!
Pineis exclamou com ímpeto:
— Acaba com essa tagarelice, e dize-me: onde é que se encontra uma mulher assim, e
como sabes que ela tem dez mil ducados de ouro?
— Dez mil ducados? — perguntou Espelho.
— Mas não foste tu quem falou nisso há pouco? — gritou o feiticeiro, impaciente.
— Ah! isso é outra conversa. Os ducados estão enterrados num certo lugar.
— A quem pertencem, então?
— A ninguém. E é justamente isso que me dá remorsos, pois era da minha obrigação dar-
lhes um destino. Na realidade, pertencem a quem desposar uma mulher como aquela que
acabo de descrever. Mas como seria possível reunir nesta cidade sem Deus estas três coisas:
dez mil ducados de ouro, uma mulher branca, linda e boa, e um homem direito e sábio?
Pensando bem, a minha culpa nem foi tão grande, pois a tarefa era difícil demais para um
pobre gatinho.
— Escuta, Espelho — gritou Mestre Pineis: — se desta vez não ficares dentro do assunto e
não o explicares com ordem e método, eu te cortarei por enquanto o rabo e as duas orelhas!
Vamos, começa!
— Quem manda é v. sa. — disse Espelho.
E, sentando-se à vontade sobre as patas traseiras, acrescentou:
— Pois bem: vou contar a história, embora estas delongas só façam aumentar o meu
sofrimento.
O bruxo pôs o facão entre si e o gato, e sentou-se curioso em cima dum barril para ouvir a
história.
— Bem sabe, Mestre Pineis, que a gentil pessoa que foi minha senhora morreu solteira
depois de ter feito largamente o bem, sem espalhafato e sem prejudicar a quem quer que
fosse. Nem sempre, porém, sua vida fora tão silenciosa, e, embora nunca houvesse tido má
índole, em outro tempo dera causa a muita dor e muito mal. Na sua mocidade tinha sido a
donzela mais bonita de toda a região, e o que havia nas redondezas de senhores moços e
peraltas impertinentes apaixonava-se por ela e pedia-lhe a mão. Na verdade, ela desejava
casar com um homem belo, sensato e virtuoso. Havia muito que escolher, pois pretendentes
naturais da terra e forasteiros não cessavam de a disputar e mais de uma vez se bateram
para obter a preferência. Procuravam-na pretendentes atrevidos e medrosos, pérfidos e fiéis,
ricos e pobres, comerciantes com negócios firmes e honestos, cavalheiros que viviam de
rendas. Tinha cada qual as suas vantagens: um loquaz, outro calado; este alegre e gentil,
aquele um pouco simples, mas parecendo ter intimamente mais do que o outro; numa palavra,
a donzela contava com a maior abundância de candidatos que uma jovem casadoura pode
desejar. Mas, além de sua beleza, era ela possuidora também de respeitável fortuna, e foi
esta a causa por que jamais conseguiu escolher um marido. Com efeito, governava seus bens
com muita prudência e juízo, e atribuía-lhes grande importância. Como, porém, o homem
sempre julga os seus semelhantes de acordo com as suas próprias tendências, cada vez que
um candidato estimável se apresentava e conseguia não lhe desagradar, a donzela imaginava
que ele só a teria procurado por causa da sua fortuna. Se se tratava de pretendente rico,
acreditava que não a pediria se ela também não o fosse; se era homem sem meios,
suspeitava que só tinha em vista as suas riquezas. Assim, a pobre moça, como tivesse em tão
alto conceito a riqueza terrena, não alcançava distinguir nos pretendentes o amor aos seus
bens do amor a ela mesma; e, ainda que este fosse manifesto, não podia perdoar o primeiro.
Mais de uma vez, já estava quase noiva e sentia o coração bater-lhe com mais força, e de
repente, por um indício qualquer, parecia-lhe estar sendo traída e que não cobiçavam senão
os seus ducados: logo punha fim ao romance e retirava-se magoada, mas inexorável. Àqueles
que não lhe desagradavam, submetia-os a mil provas, de forma que se precisava de real
habilidade para não cair na armadilha. Afinal, já ninguém podia aproximar-se dela com um
mínimo de esperança a não ser um homem deveras esperto e dissimulado. Era um motivo a
mais para tornar a escolha ainda mais difícil, pois homens dessa espécie, por mais astutos
que sejam, acabam despertando no coração de uma donzela a mais penosa inquietação e
incerteza. O prin-cipal estratagema da nossa bela para experimentar os pretendentes consistia
em pôr-lhes à prova o desinteresse, induzindo-os continuamente a grandes despesas, ricos
presentes e atos de beneficência. Mas era em vão que eles tentavam tudo: nunca lhe
acertavam com o gosto. Quando se mostravam liberais e prontos a sacrifícios, oferecendo-lhe
festas brilhantes, presentes suntuosos ou importâncias consideráveis destinadas aos pobres,
ela descobria logo que faziam tudo isso apenas para pegar o salmão com a isca, ou, como
também se diz, para jogar uma salsicha à cata de uma tira de toucinho. Apressava-se então
em distribuir os presentes, em entregar a conventos ou obras pias o dinheiro que lhe
confiavam, em dar de comer aos pobres, e despedia sem misericórdia os competidores
iludidos. Outros, que se mostravam reservados ou até mesquinhos, não tinham melhor sorte;
pelo contrário, ela julgava-os com maior severidade, descobrindo-lhes no procedimento
grosseira falta de consideração, ou egoísmo brutal.
“Assim, a moça, que procurava um coração puro e todo devotado a ela, terminou cercada
de pretendentes dissimulados, manhosos e interesseiros, que a desorientaram e lhe
amargaram a vida. Certo dia, num acesso de mau humor e desalento, expulsou toda a corte
de noivos, fechou a casa e foi-se para Milão, onde morava uma sua tia. Ao atravessar o São
Gotardo, cavalgando um burrinho, sentia a alma tão sombria e lúgubre como os blocos de
pedra rude que se erguiam ameaçadores sobre o abismo, e foi tentada a precipitar-se da
Ponte do Diabo nas águas furiosas do Reuss. As duas criadas que a acompanhavam (duas
moças que eu mesmo conheci, mas que já morreram há muito tempo), e o guia, só a duras
penas conseguiram tranquilizá-la e dissuadi-la do funesto propósito.
“Triste e lívida, chegou por fim à bela terra da Itália. Por mais que fosse azul o céu, seus
pensamentos melancólicos não se queriam aclarar. Mas, alguns dias depois de estar com a
tia, uma nova música ressoou inesperada e em sua alma brotou uma primavera que até então
ignorara. Com efeito, apareceu em casa da tia um jovem patrício, que lhe agradou desde o
primeiro momento; pode-se até dizer que pela primeira vez a nossa amiga se apaixonou. Era
um bonito rapaz, de boa educação e maneiras fidalgas, nem pobre nem rico; possuía ao todo
uns dez mil ducados de ouro, que herdara dos pais. Havendo concluído o seu aprendizado de
comércio, tencionava com esse capital abrir uma loja de sedas em Milão. Intrépido e de ideias
claras, tinha boa estrela, como tantas vezes acontece a homens ingênuos e inocentes; pois
inocente também era o jovem e, embora muito instruído, mostrava a candura de um menino.
Demais, apesar de comerciante e homem de caráter cândido — qualidades que, já por si, só
bem raro se encontram numa só pessoa —, tinha o porte firme e cavalheiresco, e ostentava a
espada com um destemor digno do soldado mais aguerrido. Tudo isso, aliado à fresca e juvenil
beleza do moço, venceu de tal maneira o coração da rapariga que lhe custava dominar um
impulso de viva simpatia. A alegria tinha-lhe voltado, e os momentos de tristeza que ainda lhe
restassem eram apenas indícios das oscilações da esperança e do desalento amoroso,
sentimentos sem dúvida mais nobres e agradáveis que o penoso embaraço que dantes
experimentara, quando buscava escolher um entre os seus pretendentes. Agora, sua única
preocupação resumia-se em agradar ao belo e bom rapaz. Dominada pela primeira vez por
uma paixão verdadeira, mostrava-se humilde e acanhada, a despeito de sua própria beleza.
“Por sua parte, o jovem mercador nunca vira mulher tão linda ou, pelo menos, nunca se
aproximara tanto nem fora tão gentilmente acolhido por nenhuma assim. E, como a donzela,
além de bonita, fosse boa e de fino trato, não é de estranhar que o moço, de coração leal e
inexperiente, se enamorasse também, com toda a impetuosidade e franqueza que o
caracterizavam. No entanto, ninguém teria descoberto esse amor se ele, em sua ingenuidade,
não se houvesse sentido estimulado pela afabilidade da moça. Não obstante certa hesitação, e
como ele próprio ignorasse a arte de fingir, acabou convencendo-se de que aquilo não podia
ser outra coisa senão uma resposta ao seu amor. Conteve-se, porém, algumas semanas,
imaginando que lograria esconder os seus sentimentos; mas via-se de longe que estava
desesperadamente apaixonado, e bastava que ele chegasse perto da donzela, ou apenas lhe
ouvisse o nome, para a gente adivinhar por quem. E não ficou muito tempo como simples
namorado: começou a amar de verdade, com toda a veemência da sua juventude, de sorte
que a donzela se tornou para ele o supremo bem, e dela fez depender toda a sua salvação.
“À moça isto muito agradou, pois em todas as palavras e ações do namorado descobria um
sentido que até então jamais conhecera. Comoveu-se a fundo, e a comoção transformou-se
em paixão não menos forte. Estava afastada qualquer ideia de escolha. Toda a gente viu o que
se passava, a história foi abertamente comentada e deu lugar a pilhérias. A donzela não cabia
em si de contente, e, enquanto o coração quase lhe estourava de tímida esperança, fez que o
romance se complicasse e enredasse um pouquinho, para saboreá-lo melhor. Em sua
confusão, o jovem deixava-se arrastar a atos deliciosamente infantis, que lisonjeavam a amada
mais que outra qualquer coisa. Ele, todavia, em sua honesta retidão, não aguentava mais;
todos faziam alusões, brincavam, e a sua paixão ameaçava transformar-se em comédia; mas
a bem-amada parecia-lhe demasiado boa e sagrada para representar um papel cômico, e,
desse modo, uma situação que agradava imenso à namorada enchia o namorado de
perplexidade e incerteza. Depois, não seria ofendê-la e enganá-la estar tão apaixonado pela
sua pessoa e pensar nela incessantemente, sem que ela o soubesse? Não, isso não era coisa
que se fizesse, nem digna dele.
“Um dia, o mancebo, sensivelmente preocupado, procurou-a e confessou-lhe em poucas
palavras o seu amor, para nunca mais o repetir se acaso não tivesse de ser feliz. Não podia
conceber que uma donzela tão linda e prendada deixasse de comunicar-lhe a sua verdadeira
opinião, respondendo-lhe, logo na primeira oportunidade, com um sim ou com um
não irrevogável. A sua sensibilidade não era menor que o seu amor; tinha um caráter ao
mesmo tempo áspero e infantil, orgulhoso e ingênuo. Com ele era sim ou não, vida ou morte,
sem tergiversações nem evasivas.
“No momento em que escutava a declaração aguardada com tanta impaciência, a moça foi
assaltada pela sua antiga desconfiança. Ocorreu-lhe que o namorado era um mercador que,
afinal de contas, talvez apenas lhe ambicionasse a riqueza para ampliar o seu negócio. Vá que
estivesse um pouco enamorado dela; mas isto, em face de sua beleza, não constituía nenhum
mérito, e era até revoltante, pois ela assim não passava de um acréscimo não desprezível ao
lado de sua riqueza. Por isso, em vez de lhe confessar o seu próprio amor e acolhê-lo
amistosa, como pretendia fazer, inventou ali mesmo novo ardil, para experimentar-lhe a
dedicação. Assumindo uma expressão séria, meio triste, comunicou ao jovem que já era noiva
de um seu conterrâneo a quem amava profundamente. Até quisera, já por várias vezes,
comunicar-lhe o fato, pois o tinha em conta de verdadeiro amigo, como o rapaz bem podia
julgar pelo procedimento dela, e confiava nele como num irmão. Mas os gracejos todos que se
faziam na sociedade haviam-na impedido de ter com ele uma conversação confidencial; agora
que ele lhe revelara de surpresa seu coração leal e nobre, não lhe podia agradecer melhor a
sua inclinação do que confiando-se a ele com a mesma franqueza. Ela devia pertencer ao
homem que escolhera, e nunca lhe seria possível dar a outro a sua afeição, isso estava escrito
em sua alma com letras de fogo; seu noivo, por melhor que a conhecesse, não imaginava a
profundeza desse afeto. No entanto a infelicidade os perseguia. O noivo era um mercador,
mas pobre como um ratinho; por isso haviam resolvido que ele abriria um negócio com o
dinheiro da noiva. Estava em andamento o negócio, tudo corria bem, e as bodas deviam
celebrar-se por aqueles dias; mas, por inesperado contratempo, foram-lhe arrestados todos
os seus bens, e talvez estivessem perdidos para sempre. Ora, o pobre noivo tinha de fazer
dentro em pouco os seus primeiros pagamentos aos comerciantes de Milão e Veneza; disso
dependiam seu crédito, sua prosperidade e sua honra, sem falar da união de ambos e da sua
própria felicidade. Viera a toda a pressa a Milão, onde tinha parentes abastados, em busca de
algum meio de salvar-se; porém chegara em má hora, nada tinha conseguido. Aproximava-se o
dia fatal; se ela não pudesse auxiliar o bem-amado, morreria de tristeza. Tratava-se do melhor
e mais gentil dos homens, que sem dúvida se tornaria um grande comerciante, se o
ajudassem; para ela só havia uma felicidade neste mundo: ser esposa dele.
“O belo e bom candidato empalideceu muito antes do fim dessa história, e escutou-a pálido
como a cera. Não deixou, porém, escapar a menor queixa, nem falou mais de si ou do seu
amor. Limitou-se a perguntar, com um ar triste, a quanto montavam as obrigações do noivo a
um tempo feliz e infeliz. — “A dez mil ducados de ouro” — respondeu ela com ar mais triste
ainda. O jovem mercador ergueu-se e, não obstante sua própria tristeza, exortou a donzela a
ter ânimo, pois devia encontrar-se alguma solução. E se afastou sem se atrever a levantar os
olhos para ela, envergonhadíssimo de haver pretendido o amor de uma criatura que tão fiel e
apaixonadamente amava a outro homem. O pobrezinho acreditava em cada palavra da história
como no próprio Evangelho. Foi procurar sem demora os comerciantes seus amigos e,
mediante pedidos e o sacrifício de certa importância, conseguiu suspender as encomendas
que lhe seriam entregues dentro em breve e deveriam ser pagas justamente com os dez mil
ducados que tinha para servir de base a toda a sua atividade futura. Ainda não se tinham
passado seis horas, e já voltava a ter com a moça para lhe oferecer toda a sua riqueza,
pedindo-lhe quisesse aceitar, pelo amor de Deus, aquele auxílio.
“Com os olhos brilhantes de surpresa e o coração estuando como uma forja, perguntou a
donzela ao visitante como arranjara todo aquele dinheiro. O moço respondeu que o pedira
emprestado sob palavra e que, visto o bom andamento de seus negócios, esperava poder
pagá-lo sem dificuldade. Era evidente a mentira, e ela compreendia bem que o namorado dava
pela felicidade dela toda a sua fortuna e todas as suas esperanças. Entretanto, fingiu crer na
explicação e desmanchou-se em manifestações de alegria, dando a entender, em sua
crueldade, que eram devidas ao prazer de salvar o seu eleito e casar-se com ele. Buscava
palavras para exprimir a sua gratidão... mas teve de repente uma ideia e declarou não lhe ser
possível aceitar o generoso oferecimento a não ser com uma condição: devia o rapaz fazer um
juramento de honra de que assistiria às suas núpcias como padrinho e o melhor amigo de seu
futuro esposo, e o amigo, protetor e conselheiro mais fiel dela mesma.
“O jovem pediu-lhe, corando, que renunciasse a tal condição, mas debalde alegou todos os
motivos possíveis para dissuadi-la, debalde explicou que seus negócios não lhe permitiriam por
enquanto regressar à Suíça, e que uma excursão daquelas poderia prejudicá-lo seriamente.
Teimosa, persistiu a donzela em seu intento e até lhe devolveu o dinheiro, uma vez que ele não
queria concordar com a exigência dela. Assim, o moço acabou prometendo, mas teve de dar a
palavra e jurar pela honra e salvação de sua alma: no dia e na hora determinados por ela,
devia estar sem falta em Seldvila. Firmada essa condição, a donzela aceitou o sacrifício e com
evidente alegria mandou levar o tesouro ao seu quarto, onde o guardou com as próprias mãos,
metendo a chave no seio.
“Com isso terminou a sua estada em Milão e voltou à Suíça pelo São Gotardo, tão feliz
agora quanto fora infeliz ao atravessá-lo pela primeira vez. Na Ponte do Diabo, onde havia sido
tentada a precipitar-se no abismo, dessa vez ria como louca, e com uma risada sonora atirou
ao Reuss um ramo de romãzeira que trazia ao peito. Numa palavra, a sua alegria não tinha
limites e a viagem era a mais feliz de quantas já se fizeram.
“De volta, abriu e arejou a casa do telhado ao chão, enfeitando-a como se aguardasse um
príncipe. Quanto ao saco com os dez mil ducados de ouro, ela o pôs à cabeceira da cama e,
encostando a cabeça nesse duro monte, dormiu tão bem como quem descansa sobre uma
almofada de penas macias. Esperava com a mais viva impaciência o dia combinado, em que o
bem-amado não podia faltar; pois o sabia incapaz de deixar de cumprir uma simples
promessa, quanto mais um juramento solene, ainda que lhe custasse a vida.
“Chegou o dia, e o bem-amado não apareceu; e passaram muitos dias e muitas semanas
sem que ele desse notícias de si. A donzela tremia, e foi tomada de uma ânsia horrível.
Mandou uma carta após outra para Milão, mas ninguém lhe sabia dizer que fim levara o jovem
mercador. Afinal soube, por acaso, que ele, aproveitando uma fazenda de damasco vermelho
que adquirira antes de se tornar mercador, mandara fazer uma rica farda e fora alistar-se
entre os suíços que combatiam na guerra de Milão a soldo do rei Francisco, de França. Após
a batalha de Pavia, em que tantos suíços perderam a vida, encontraram-no em um montão de
espanhóis mortos, lacerado de feridas mortais, com a farda rasgada de alto a baixo. Antes de
perder os sentidos, conseguiu confiar a um seldvilense que jazia perto dele, mas em estado
menos deplorável, o seguinte recado, implorando-lhe transmiti-lo se porventura escapasse:

“Gentilíssima donzela! Embora vos tivesse jurado, por minha honra, minha fé cristã e minha
salvação, assistir às vossas núpcias, não me foi possível visitar-vos outra vez nem ver outro
homem gozar da mais alta felicidade que poderia haver para mim neste mundo. Só depois da
vossa partida é que me capacitei dessa impossibilidade; dantes nem suspeitara quanto era
penoso e duro o amor que me inspiráveis; do contrário me haveria defendido melhor contra
ele. Mas, visto que assim é, preferi perder minha honra neste mundo e minha felicidade no
outro, e incorrer em eterna danação como perjuro, a comparecer outra vez ante vós com o
peito a arder de um fogo mais inapagável que o do Inferno e que mal me deixará sentir este.
Não rezeis por mim, bela dama, pois sem vós não quero nem posso ser feliz nem neste nem
no outro mundo. Deus vos salve, e sede feliz!”

“Assim, na batalha que fez dizer ao rei Francisco: — ‘Tudo está perdido, menos a honra!’ —, o
infeliz amante perdeu tudo: a esperança, a honra, a vida e a felicidade eterna, menos o amor
que o consumia. O seldvilense escapou com vida e, depois de se haver restabelecido um
pouco, já fora de perigo, tomou fielmente nota das palavras do companheiro morto, para não
as esquecer, voltou à sua cidade, fez-se anunciar em casa da moça e leu-lhe a mensagem
com o mesmo ar rígido e marcial que tivera ao ler as ordens ao pelotão que comandava. A
desgraçada arrancou os cabelos, rasgou as vestes, e pegou a soluçar e a gritar com tanta
veemência que foi ouvida na rua e os transeuntes acudiram. Feita uma louca, arrastou os dez
mil ducados, espalhou-os no chão, atirou-se sobre eles e beijou as moedas rutilantes. Fora de
si, procurou em seguida recolher os ducados que rolavam e, reunindo-os num monte, abraçou-
o com desespero, como se o amado perdido estivesse escondido nele. Dia e noite ficava
deitada sobre o tesouro, sem comer nem beber, acariciando e beijando continuamente o metal
frio. Uma noite, afinal, ergueu-se de súbito, em rápidas idas e voltas levou o tesouro ao jardim
e, com lágrimas amargas, arremessou-o num poço profundo, amaldiçoando, de antemão, a
quem dele se apoderasse.”
Quando Espelho chegou a este ponto da sua história, Mestre Pineis interrompeu-o:
— Essa bela importância ainda estará no poço?
— Onde haveria de estar? — respondeu o gatinho. — Só eu posso fazê-la vir à tona, e até
hoje não o fiz.
— É verdade! — disse o feiticeiro — já me ia esquecendo que tens um papel na história.
Sabes contar, malandro! Quase me deste vontade de procurar uma mulherzinha que tivesse
uma inclinação dessas por mim. Naturalmente deveria ser muito bonita... Mas dize, enfim, o
que é que a tua história tem que ver contigo e comigo.
— A moça levou anos para se tranquilizar, depois de terríveis sofrimentos, tornando-se aos
poucos a solteirona silenciosa e velha que era quando eu a conheci. Posso me gabar de lhe
haver sido o consolo único e o fiel confidente da sua vida solitária até à sua morte resignada.
Mas, ao ver que esta se aproximava, evocou mais uma vez o tempo longínquo da sua
mocidade e da sua beleza, mais uma vez reviveu, com a alma apaziguada, as doces emoções
e os amargos sofrimentos daquela época, e levou sete dias e sete noites a chorar a perda do
amor do jovem querido, a quem nunca pudera gozar por causa da sua própria desconfiança.
Assim, seus velhos olhos perderam a luz pouco antes da morte. Nos seus últimos dias
arrependeu-se da praga relativa ao tesouro e encarregou-me dele, com as seguintes palavras:
— “Agora revogo as minhas disposições e dou-te plenos poderes, meu caro Espelhinho, para
cumprires a minha vontade. Procura encontrar uma mulher bela, mas pobre, a quem faltem
pretendentes por motivo da sua pobreza. Se depois encontrares também um homem
inteligente, justo e belo, provido razoavelmente de meios e pronto a desposar a bonita donzela
sem se preocupar com o dote, faze que esse fidalgo se obrigue, por solene juramento, a
mostrar-se tão fiel, imutável e dedicado a ela como o foi a mim o meu infeliz bem-amado, e a
satisfazer-lhe a vontade durante a vida inteira. Se conseguires isso, dá à mulher, como dote,
os dez mil ducados que estão no fundo do poço, para que, no dia das núpcias, possa com eles
surpreender o esposo.” Foram estas as palavras da minha falecida ama. Entretanto, por causa
das minhas próprias vicissitudes, deixei de cuidar do negócio, e agora estou com receio de
que, lá no seu túmulo, a coitadinha se inquiete, o que poderia ter para mim consequências
pouco agradáveis.
Pineis observou Espelho com desconfiança e disse:
— Poderias então, ó gatinho, dar uma pequena prova do que acabas de contar, mostrando-
me o tesouro?
— A qualquer hora! — replicou Espelho — mas v. sa. precisa saber, sr. Feiticeiro
Municipal, que não pode pescar o tesouro assim do pé para a mão. Sem dúvida, torceria o
pescoço. O poço não deixa de ter o seu perigo, isto eu sei por certos indícios, que, porém,
não lhe posso revelar.
— Quem falou em apanhar o tesouro? — disse Mestre Pineis com certa inquietação. —
Basta que me conduzas até lá e me mostres onde ele se acha. Prefiro, aliás, conduzir-te eu
mesmo pela corda, a fim de que não me escapes.
— Como v. sa. quiser! — respondeu Espelho.
E acrescentou:
— Traga então mais uma corda, bem comprida, e uma lanterna furta-fogo que v. sa. possa
descer ao poço, pois ele é fundo e escuro.
O feiticeiro seguiu o conselho e conduziu o ágil gatinho ao quintal da finada. Galgaram o
muro, um ao lado do outro, e Espelho indicou ao bruxo o caminho do poço antigo, escondido
dentro do matagal espesso e bravio. Mestre Pineis fez descer ali a lanterna, acompanhando-a
com olhar ávido, sem largar por um instante o gatinho atado a outra corda. Com efeito, viu,
sob a água verde, um reluzir de ouro, e exclamou:
— É verdade mesmo, palavra de honra! Espelhinho, és um bichão!
Continuou olhando o poço e perguntou:
— Mas serão realmente dez mil?
— Lá isso não posso garantir — respondeu o gato. — Nunca estive lá embaixo, e portanto
não os contei. É bem possível que a minha senhora tenha perdido alguns no caminho, ao trazer
para cá o tesouro, pois estava muito exaltada.
— Dúzia mais ou dúzia menos, pouco importa! — declarou Mestre Pineis.
E sentou-se no bocal do poço. Espelho trepou ao lado do feiticeiro e sentou-se também,
lambendo a patinha.
— Ora, aqui está o tesouro — continuou o feiticeiro, coçando a orelha. — O homem,
também está aqui... Mas onde encontrar a bonita donzela?
— Que donzela? — perguntou o gato.
— Bem, aquela que ganhasse este tesouro como dote a fim de me surpreender com ele no
dia das núpcias, e que, ao mesmo tempo, possuísse todas as virtudes de que me falaste.
— Hum! — disse Espelho. — A coisa não é assim tão simples como parece. O tesouro, de
fato, está aqui, como v. sa. vê; a bela mulher, para dizer-lhe a verdade, já eu a encontrei. O
que falta é o homem que a despose nas difíceis condições que lhe expus. Hoje em dia a maior
beleza tem de ser dourada como as nozes de Natal; e, quanto mais vazias se tornam as
cabeças dos homens, tanto mais eles se empenham em encher o vazio com o dinheiro da
mulher, para poderem, em seguida, passar o tempo a seu gosto. Veja os mandriões como
examinam um cavalo com ar importante, como escolhem uma peça de veludo de seda, com
que alvoroço encomendam uma boa besta e o arcabuzeiro não lhes sai mais de casa. —
“Agora é o meu vinho que devo envasilhar, são os meus tonéis que tenho de limpar; minhas
árvores devem ser podadas, meu telhado coberto. Tenho de mandar minha mulher a uma
estação de águas; está doente e custa-me um dinheirão. Tenho de mandar partir os meus
toros de madeira, de mandar cobrar o dinheiro que emprestei. Vendi o meu casal de galgos e
troquei os meus dois perdigueiros; arranjei uma bela mesa de carvalho, dei por ela a minha
arca de nogueira. Acabo de podar as minhas faveiras, de semear a minha alface, de despedir
o meu jardineiro, de vender o meu feno...” É sempre assim: o meu, o meu... da manhã à noite.
Há até quem diga: — “Tenho a minha lavadeira na semana que vem; tenho de arejar as minhas
camas; devo admitir uma criada, arranjar um açougueiro, que o que tenho agora não presta;
arranjei por acaso uma esplêndida forma de fritar, desfiz-me da minha caixa de rapé de
canela, prateada, que já não me servia.” Tudo isso, naturalmente, é a mulher quem faz, mas
os nossos molengões só no enumerar todas essas providências passam todo o tempo que
Deus dá, sem, na realidade, levantar uma palha. Quando, depois, o tempo se gasta e esses
senhores têm de se mexer um pouco, talvez digam: “nossas vacas, nossos porcos”, mas...
Nisto o feiticeiro puxou o gato pela corda com tal força que o bichinho soltou um miado, e
disse:
— Chega, tagarela! Responde agora mesmo e sem rodeios: qual é a mulher que
conheces?
É que a enumeração de todas as comodidades e instalações ligadas a um dote fizera mais
de uma vez vir água à boca do intratável feiticeiro. Espelho respondeu, fingindo surpresa:
— Então v. sa. quer tentar a coisa de verdade, Mestre Pineis?
— Ora se quero! Quem haveria de tentá-la? Anda, responde: onde está a mulher de quem
falaste?
— Para v. sa. procurá-la e requestá-la?
— É lógico.
— Pois então, Mestre Pineis, saiba que o negócio não se fará senão por meu intermédio. É
comigo que v. sa. deve falar, se quiser dinheiro e mulher! — disse Espelho com fria
indiferença.
E, umedecendo as patas dianteiras, alisou as orelhas. O feiticeiro pôs-se a refletir e, depois
de soltar alguns suspiros:
— Ou muito me engano, ou deseja anular o nosso contrato e salvar a cabeça.
— Não o acha natural?
— Depois, no fim, és bem capaz de me enganar, de me fazer uma trapaça.
— É bem possível! — respondeu Espelho.
— Ouve lá: não me enganes, hem? — gritou Pineis em tom imperativo.
— Muito bem: não o enganarei! — replicou o gato.
— Ai de ti, se o fizeres!
— Ai de mim!
— Não me atormentes, meu caro Espelhinho — disse Pineis quase chorando.
Ao quê Espelho respondeu, desta vez com toda a seriedade:
— Homem admirável é v. sa., Mestre Pineis! Está-me segurando por uma corda, e aperta-a
que nem posso mais respirar! Há mais de duas horas — que digo? Mais de seis meses — faz
pender sobre a minha cabeça a espada da morte, e agora diz: — “Não me atormentes, meu
caro Espelhinho!” Permita-me que lhe diga em poucas palavras: só posso estar contente em
cumprir um dever carinhoso para com a lembrança da minha ama e arranjar para a pessoa em
apreço um marido conveniente; ora, tenho a impressão de que v. sa. possui todos os
requisitos. Não é coisa fácil colocar bem uma mulher, embora alguns pensem o contrário, e
repito mais uma vez: estou muito contente em ver v. sa. pronto a desposar a minha protegida.
Mas tudo tem seu preço. Antes de pronunciar mais uma palavra ou de dar mais um passo,
quero recobrar a minha liberdade e ver assegurada a minha vida. Ou largue esta corda e
ponha o contrato aqui no bocal do poço, ou corte-me a cabeça! Vamos: uma coisa ou outra!
— Mas que doidivanas! Que extravagante! — replicou o feiticeiro. — És um verdadeiro
espirra-canivetes. As coisas não se fazem assim do pé para a mão. A gente tem de ver o
negócio de perto e, se for necessário, fazer novo contrato!
Espelho não deu resposta e ficou imóvel um, dois, três minutos. O feiticeiro olhava-o,
indeciso; depois, com um suspiro, puxou da carteira, retirou o documento, releu-o, e, hesitante,
colocou-o diante de Espelho. No mesmo instante o gato agarrou o papel e o engoliu. Por um
triz não se engasgou — e todavia pareceu-lhe o melhor alimento que já provara em toda a
vida. Aquilo, sim, que lhe seria de bom proveito, que o tornaria redondo e alegre. Terminada a
agradável refeição, cumprimentou cortesmente o bruxo e disse:
— V. S. ouvirá falar de mim, sem dúvida alguma, Mestre Pineis, e nem a mulher nem o
dinheiro lhe poderão escapar. Por sua parte, prepare-se para se apaixonar de verdade, a fim
de poder prometer e dar a indispensável dedicação absoluta a sua mulher, pois eu já a
considero sua. Por enquanto, agradeço-lhe a casa e a comida, e tenho a honra de
cumprimentá-lo.
Dizendo, Espelho foi-se embora, alegrando-se com a estupidez do feiticeiro, que pensava
enganar a todo o mundo e se enganava a si mesmo, pois ia desposar a noiva esperada não
por amor à beleza, desinteressadamente, e sim com perfeito conhecimento da existência de
um dote de dez mil ducados. Entretanto já tinha em vista uma mulher que imaginava unir a
Mestre Pineis em troca dos tordos, dos ratinhos assados e das salsichas.
Em frente à morada de Mestre Pineis havia uma casa com a fachada sempre bem
caiadinha e as janelas resplandecentes de tão limpas. As cortinas simples estavam sempre
alvas feito a neve e como que engomadas naquele dia, não mais alvas, porém, do que o hábito
e os lenços que cobriam o corpo, a cabeça e o pescoço da moradora, uma velha beguina. O
toucado freirático, que lhe descia ao colo, parecia feito de papel branco, dando-nos até
vontade de escrever-lhe em cima, tarefa que o colo decerto não impediria, pois era chato e
duro que nem uma prancha. Agudas eram as orlas e bainhas do seu vestido branco, assim
como o longo nariz e o queixo da beguina, sem falar de sua língua e de seu olhar maligno. No
entanto, usava pouco a língua e pouco empregava os olhos, pois não gostava de dissipações e
fazia tudo no momento exato, com a maior prudência. Ia à igreja três vezes ao dia. Por onde
passava, em suas frescas vestes brancas, que rangiam a cada passo, e com o seu nariz
branco e pontiagudo, os meninos desatavam a correr, e até os adultos preferiam esconder-se
atrás da porta quando ainda havia tempo. Por sua austera devoção e sua vida solitária gozava,
contudo, de grande renome e, entre os eclesiásticos, de verdadeira autoridade; mas até os
padres preferiam comunicar-se com ela por escrito em vez de oralmente, e, cada vez que se
confessava, o sacerdote saía do confessionário gotejante de suor como se viesse de um
forno. Assim vivia a velha beguina, que não entendia brincadeiras e a quem todos deixavam em
paz; não procurava a companhia de ninguém — os outros que andassem atrás de seus
negócios, contanto que lhe deixassem livre o caminho. Apenas ao seu vizinho Mestre Pineis
parecia votar um ódio particular: logo que o avistava à janela, lançava-lhe um olhar venenoso e
cerrava as cortinas. O feiticeiro temia-a como ao fogo e não se atrevia a troçar dela senão às
escondidas, em sua casa, atrás de janelas e portas bem-fechadinhas.
Tão alva e clara se mostrava a casa da beguina do lado da rua quão preta e fumarenta,
sinistra e esquisita aparecia do lado de dentro, onde aliás quase ninguém podia vê-la, afora os
pássaros do céu e os gatos dos telhados, pois estava como que enxertada num ângulo
formado por duas grandes paredes mestras desprovidas de janelas. Desse lado se viam
pendurados no algeroz velhos saiotes rasgados, cestas, sacos para ervas; no telhado
cresciam espinheiros e moitas ao lado de uma enorme chaminé fuliginosa que se erguia no ar,
ameaçante. Por essa chaminé saía mais de uma vez, pelas noites escuras, uma bruxa
montada numa vassoura. Era jovem, bela, e nua em pelo como Deus criou as mulheres e como
o Diabo gosta de vê-las. Ao sair da chaminé, farejava o ar fresco da noite com um narizinho
fino, sorria com os lábios de cereja, e, enquanto erguia voo, o corpo lhe brilhava numa luz
branca e seus longos cabelos, pretos como as penas do corvo, flutuavam-lhe atrás como um
estandarte noturno.
O gatinho liberto dirigiu-se de pronto àquela morada e, levando entre os dentes um rato
gordo que acabara de pegar, foi ter com uma velha coruja sentada num buraco da chaminé.
— Boa noite, d. Coruja. Sempre alerta, hem? — cumprimentou.
— É preciso, seu Espelho, é preciso. Faz tempo que o senhor não dá um ar de sua graça!
— Tive as minhas razões. Aliás, explicarei tudo mais tarde. Por enquanto, trago-lhe aqui um
ratinho, o melhor que é possível encontrar nesta estação; pode servir-se. A senhora mestra já
saiu?
— Ainda não. Só sairá de manhãzinha, por uma hora ou menos. Mas agradeço-lhe muito o
belo ratinho. O senhor é sempre o delicado Espelho! Por mim, tenho aqui num canto um pobre
pardal que passou muito perto de mim; sirva-se, se quiser. Como passou todo este tempo?
— De maneira incrível — respondeu Espelho. — Quase que me esganaram. Escute lá!
E, enquanto os dois acabavam de jantar à vontade, o gato contou à coruja atenta tudo o
que lhe sucedera e como se livrara das unhas de Mestre Pineis. Concluída a história, disse a
coruja:
— Está de parabéns. Depois de tantas aventuras, ei-lo de novo senhor do seu nariz, e pode
ir aonde bem quiser e entender.
— A história ainda não terminou — disse Espelho. — O homem deve ganhar sua mulher e
seus ducados.
— Que loucura! O senhor quer prestar serviço a esse tratante que por um triz não lhe deu
cabo da pele?
— Não é bem assim — respondeu o bichano. — Pelo contrato ele tinha esse direito. Se
posso pagar-lhe na mesma moeda, por que não o fazer? Isto, aliás, não significa,
absolutamente, que lhe queira prestar um serviço. Aquela história toda foi inventada por mim,
de cabo a rabo. A minha defunta senhora, que Deus haja, era uma pessoa simples, que nunca
em sua vida amou nem esteve rodeada de pretendentes. O tal tesouro, por outro lado, é um
dinheiro mal-adquirido que lhe coube por herança e que ela se apressou em jogar ao poço
para que não lhe desse má sorte. — “Maldito seja quem o retirar e gastar” — tais foram suas
palavras. Por aí vê a senhora que não se trata exatamente de fazer o bem.
— Assim a coisa muda de figura! Mas onde quer o senhor encontrar a mulher que satisfaça
as condições?
— Nessa mesma chaminé! Vim justamente para isso, para dizer à senhora uma palavra
razoável. Não preferiria livrar-se afinal dos laços dessa bruxa? Veja se acha um meio de nos
apoderarmos dela a fim de casá-la com o velho celerado.
— Seu Espelho, basta o senhor aparecer para esclarecer as ideias da gente.
— Eu bem sabia que a senhora é inteligente. Fiz a minha parte, agora é a vez de a senhora
entrar com o seu jogo. Se me ajudar com os seus esforços, a coisa não pode falhar.
— Já que tudo vai indo tão bem, não tenho muito que pensar; meu projeto está feito já há
tempo.
— Como poderemos pegá-la?
— Com uma rede de apanhar galinholas novinha em folha, tecida de fios de cânhamo forte
por um rapaz de vinte anos, filho de caçador, e que nunca tenha visto mulher. Deve ter sido
molhada pelo orvalho de três noites sem ter pegado nem uma galinhola, e isto por causa de
três boas ações. Só uma rede assim é bastante forte para capturar a bruxa.
— Agora quero que me diga onde a encontrará, pois sei que a senhora não é pessoa de
palavras ocas.
— Já existe, como se houvesse sido feita especialmente para nós. Numa floresta não longe
daqui está sentado um rapaz de vinte anos, filho de um caçador, que nunca viu mulher, pois
nasceu cego. Pela mesma razão não serve para nenhum trabalho, senão para tecer redes. Há
poucos dias acabou justamente uma, muito boa, para apanhar galinholas. Quando, porém, o
velho caçador ia armá-la pela primeira vez, apareceu uma mulher e quis seduzi-lo; mas era tão
feia que o velho fugiu, cheio de espanto, e deixou a rede no chão. Assim, o orvalho da noite
molhou-a sem que nenhuma galinhola ficasse presa nela, e o motivo de tudo isso foi uma boa
ação. Quando ia armá-la outra vez, no dia seguinte, viu passar diante de si um cavaleiro que
trazia na garupa uma pesada mala. Por um buraco da mala caía no chão, de vez em quando,
um ducado de ouro. Vendo isto, o caçador deixou a rede cair de novo e correu a toda a pressa
atrás do cavaleiro, a apanhar os ducados e recolhê-los no chapéu. De repente o cavaleiro
voltou-se e com uma cara de raiva levantou a lança para o velho. Este se curvou, atemorizado,
estendeu-lhe o chapéu, dizendo: “v. exa. perdeu muitos ducados por aí: aqui estão todos eles,
apanhei-os com cuidado.” Era mais uma boa ação; achar coisa alheia e honestamente devolvê-
la é até uma das melhores e das mais raras. Nesse ínterim o caçador se afastara tanto da
rede que teve de deixá-la no chão pela segunda vez e voltar para casa pelo caminho mais
curto. Enfim, no terceiro dia, isto é, ontem, a caminho do lugar onde tinha deixado a rede,
encontrou uma bela comadre que ele traz pelo beiço e a quem já fez presente de mais de um
lebracho. Esse encontro o levou a esquecer de todo as galinholas; só de manhã foi que se
lembrou delas para dizer: — “Desta vez deixei viver as galinholas; afinal de contas, a gente
deve ter pena dos bichos também!” Essas três boas ações deram-lhe, aliás, a impressão de
que era bom demais para este mundo, e de manhãzinha foi para um convento. De modo que a
rede ainda está na floresta, sem ter prestado serviço: é só ir buscá-la.
— Pois vá buscá-la imediatamente — disse Espelho —, que ela nos prestará um bom
serviço.
— Pois não! Vou agora mesmo — respondeu a coruja. — Enquanto isto, o senhor fique de
guarda perto deste buraco, e, se a bruxa gritar pela chaminé perguntando se o ar está limpo,
responda-lhe imitando a minha voz: — “Não está, não; ainda não está fedendo na escola de
esgrima.”
O gato pôs-se à espreita, enquanto a coruja levantou voo, e por sobre a cidade se dirigiu à
floresta. Ao cabo de algum tempo, reapareceu com a rede, perguntando:
— Ela já chamou?
— Ainda não! — respondeu Espelho.
Então os dois estenderam a rede sobre a chaminé e sentaram-se ao lado, num discreto
silêncio. A noite estava escura, soprava um zéfiro leve, e no céu tremeluziam algumas estrelas.
— O senhor verá — cochichou a coruja — como ela sabe esgueirar-se bem através da
chaminé sem sujar os ombros alvos.
— Nunca a vi de tão perto — respondeu Espelho, baixinho. — Tomara que a gente não lhe
caia nas garras!
Súbito a bruxa perguntou, lá de baixo:
— Está limpo o ar?
— Limpíssimo — respondeu a coruja. — Na escola de esgrima está fedendo que é uma
beleza!
No mesmo instante a bruxa saiu da chaminé e foi colhida na rede, que o gato e a coruja
apertaram e amarraram rapidamente.
— Segure! — disse Espelho.
— Amarre bem! — disse a coruja.
Sem soltar um ai, a bruxa debatia-se com frenesi, estrebuchando como um peixe na rede.
Mas tudo isso de nada lhe serviu, pois a rede mostrou para que prestava. Como o cabo da
sua vassoura saísse por uma das malhas, Espelho quis tirá-lo de mansinho, porém levou um
piparote que quase o estendeu sem sentidos e lhe fez compreender que uma leoa, ainda que
presa, não deixa de ser perigosa. Afinal a bruxa acalmou-se e indagou:
— Que quereis então de mim, bichos admiráveis?
— Quero que me liberteis de vossos serviços e me façais voltar à minha liberdade! —
declarou a coruja.
— É só isso? — disse a bruxa. — Tanto barulho por uma ninharia dessas? Pois estás livre,
abre a rede.
— Alto lá! — disse Espelho, que continuava a esfregar o nariz. — Deveis comprometer-vos
a desposar Mestre Pineis, feiticeiro municipal, da maneira que nós indicarmos, e a nunca o
abandonar!
Então a bruxa começou a estrebuchar de novo e a espirrar como todos os diabos, e a
coruja disse:
— Não quer mesmo, não!
Mas o gato voltou-se para a bruxa:
— Se não ficardes em paz e não vos obrigardes a fazer o que vos pedimos, penduraremos
a rede com o seu conteúdo lá na cabeça de dragão da biqueira, do lado da rua, e amanhã
todos saberão que sois uma bruxa. Dizei, portanto: preferis ser queimada sob a vigilância de
Mestre Pineis, ou queimá-lo a ele mesmo, desposando-o?
— Explica então como desejas fazer a coisa — disse a bruxa com um suspiro.
O gato explicou-lhe direitinho tudo o que dela esperavam, e ela respondeu:
— Enfim, tudo isto é suportável, já que não há outro jeito!
E submeteu-se, fazendo os juramentos mais fortes que possam ligar uma bruxa. Então os
animais abriram a rede e soltaram a prisioneira. Ela montou logo na sua vassoura em
companhia da coruja, que se pôs no cabo, e de Espelho, sentado no molho de giesta. Voaram
sem demora ao poço, aonde a bruxa desceu para buscar o tesouro.
Na manhã do dia seguinte Espelho apareceu em casa do feiticeiro e comunicou-lhe que
podia avistar-se com a pessoa escolhida e requestá-la. Esta, no entanto, havia empobrecido
de tal modo que nesse momento estava sentada sozinha, rejeitada e abandonada de todos, ao
pé de uma árvore perto da casa, chorando amargamente. Mestre Pineis vestiu, sem tardar, o
seu surrado gibão de veludo amarelo que só usava em ocasiões solenes, cobriu-se com a sua
carapuça melhor, e cingiu a espada. Assim enfeitado, saiu em companhia do gato, levando na
mão uma velha luva verde, um frasquinho que outrora continha algum bálsamo e guardava
ainda um restinho de cheiro, e um cravo de papel. Em frente à porta encontrou, efetivamente,
uma mulher chorando ao pé de um salgueiro. Era de uma beleza nunca vista, mas vestia uma
roupa tão esfarrapada que, a despeito de todos os seus esforços para cobrir-se, pedaços de
sua carne branca apareciam sempre por uma ou outra fenda. Pineis escancarou os olhos e,
tomado de violenta comoção, mal pôde balbuciar o seu pedido. Então a bela enxugou as
lágrimas, estendeu-lhe a mão num sorriso meigo, agradeceu-lhe a generosidade numa celeste
voz de sino e jurou-lhe fidelidade eterna.
Nesse instante Mestre Pineis sentiu-se dominado pelo mais veemente dos ciúmes e
resolveu nunca mais exibir sua rica noiva a olhos humanos. Fez celebrar o casamento por um
eremita muito idoso e organizou o banquete nupcial dentro de casa, sem outros hóspedes além
de Espelho e da coruja, que o primeiro pedira licença para convidar. Os dez mil ducados
estavam na mesa, numa terrina, e Mestre Pineis revolvia-os de vez em quando com a mão,
para depois voltar a contemplar a bela mulher, esplêndida no seu vestido de veludo azul, os
cabelos presos por uma rede de ouro, o alvo pescoço cingido por um colar de pérolas. Queria
beijá-la a todo instante, porém ela sabia contê-lo com um riso ao mesmo tempo casto e
sedutor, jurando que não se deixaria beijar em presença de testemunhas, nem antes do cair da
noite. Isto não fez senão aumentar a paixão e a felicidade do feiticeiro. Espelho, por seu lado,
temperava a refeição com ditos galantes, aos quais a bela senhora retrucava com palavras as
mais chistosas e lisonjeiras, de modo que Mestre Pineis não cabia em si de contente.
Ao escurecer, a coruja e o gato despediram-se, discretos. O bruxo acompanhou-os com
uma lanterna até à porta de casa, multiplicando seus agradecimentos a Espelho, a quem
qualificava de pessoa eminente e prestimosa. Porém quando voltou à sala só encontrou à
mesa a sua vizinha, a velha beguina, que o esquadrinhava com olhar hostil. Pineis, espantado,
deixou cair a lanterna e encostou-se à parede, tremendo. A língua pendia-lhe da boca, e o seu
rosto adquiriu num instante a angulosidade e a lividez do rosto da beguina. Esta se levantou,
aproximou-se do marido e fê-lo retroceder até o quarto nupcial, onde, com artes infernais, o
submeteu a certas torturas que nenhum mortal jamais experimentara. Assim, Pineis ficou
indissoluvelmente ligado à velha, e na cidade a curiosa notícia era objeto de comentários
maliciosos: — “Vejam só! As águas mortas são profundas. Quem havia de dizer que a piedosa
beguina e o sr. Feiticeiro Municipal acabariam casando? Combinam bem, sem dúvida. É um
casal de todo o respeito, embora pouco agradável.”
Daí em diante, porém, Mestre Pineis levou uma vida miserável. A esposa dentro em pouco
se apoderou de todos os seus segredos e dominou-o de todo. Não tinha o menor descanso,
nem a menor liberdade; fazia feitiços da manhã à noite, por ordem da mulher. Espelho, quando
lhe passava à porta, nunca deixava de perguntar-lhe, em tom amistoso: — “Então, Mestre
Pineis, sempre trabalhando?”
Desde então, diz-se em Seldvila: — “Comprou a banha ao gato” —, sobretudo quando
alguém arranja uma mulher desagradável e rabugenta.
WILLIAM WILKIE COLLINS

Com Edgar Allan Poe 51 nos Estados Unidos da América e Émile Gaboriau na França, William
Wilkie Collins (1824-1889) é um dos criadores de um gênero que, no seu desenvolvimento
ulterior, deveria afastar-se cada vez mais da literatura propriamente dita, chegando a adquirir
verdadeira autonomia e leis próprias. O gênero policial, que Poe iniciou no conto e seus
adeptos continuaram no romance, constitui, em nossos dias, um divertimento intelectual quase
de todo desligado da arte, com a predominância que nele adquiriram elementos de caráter
extraliterário, quase matemático, como a solução de problemas lógico-policiais, devendo-se
encontrar o criminoso mediante certo número de dados.
Nas mãos dos primeiros mestres, tal cisão ainda não é visível, e suas obras merecem
figurar nas histórias gerais da literatura. Nestas Wilkie Collins ainda hoje ocupa lugar honroso.
Empregado de uma grande firma vendedora de chá, depois estudante de Direito e advogado,
cedo abandonou a carreira jurídica para se consagrar por inteiro às letras. Sua primeira obra é
uma biografia do pai, o pintor William Collins, com quem visitou, quando jovem, a Itália. Obteve
extraordinário êxito com A mulher de branco. A técnica desse romance policial, tantas vezes
imitado, foi-lhe sugerida por uma audiência de tribunal onde cada testemunha, em seu
depoimento, aclarava uma fase de uma história misteriosa, cuja solução vinha
automaticamente oferecer-se ao espírito dos ouvintes atentos.
Outros romances do mesmo gênero lhe atraíram, durante um quarto de século, crescente
popularidade. Os dotes peculiares do autor — a capacidade de criar atmosferas, de excitar o
interesse, de conduzir o enredo, e até certo pendor para o melodrama — eram, à justa, os que
o gênero exigia. Alguns críticos tacharam de inverossímeis as narrativas de Collins; porém,
segundo Dorothy L. Sayers,52 quase todas elas têm base em casos reais. No conto seguinte,
que não é bem um conto policial, mas sim um espécime da variedade thriller (conto
empolgante e horrífico), aparecem todas essas qualidades, e mais um espirituoso humorismo
que tempera agradavelmente o ambiente de terror, e, sobretudo, um estilo vivo, fluido,
movimentado, que faz de Wilkie Collins, se não um grande, pelo menos um ótimo escritor.53

UMA CAMA TERRIVELMENTE ESQUISITA


Pouco depois de terminada a minha educação num colégio, encontrava-me eu em Paris com
um amigo inglês. Éramos ambos jovens então, e levávamos, devo confessá-lo, na deliciosa
cidade onde residíamos, uma vida bem desregrada. Certa noite perambulávamos pelas
vizinhanças do Palais Royal,54 não sabendo que distração devíamos escolher. O meu amigo
propôs uma visita ao Frascati,55 mas a sugestão não me agradou. Conhecia o Frascati de cor,
como dizem os franceses; tinha já perdido e ganho ali uma porção de moedas de cinco
francos, antes por divertimento que por outro motivo, e agora a coisa já não me divertia: eu
estava inteiramente farto da dignidade cadavérica dessa anomalia social que é uma batota
respeitável.
— Pelo amor de Deus — disse ao meu amigo —, vamos a algum lugar em que possamos
ver um joguinho genuíno, canalha, mesquinho, sem esse disfarce de ouropel. Troquemos esse
elegante Frascati por uma casa em que não se importem de deixar entrar gente de paletó roto
ou até sem paletó de espécie nenhuma.
— Muito bem — disse o meu amigo —, não nos é preciso sair do Palais Royal para
encontrar a companhia que você procura. Eis o lugar justamente diante de nós, um lugar,
segundo todas as informações, tão canalha como você pode desejar.
Num minuto estávamos à porta, e entramos.
Depois de havermos subido por uma escada, entregues ao porteiro nosso chapéu e nossa
bengala, fomos admitidos no principal salão de jogo. Não havia muita gente ali; mas os
circunstantes, que nos examinavam à nossa chegada, embora pouco numerosos, eram outros
tantos tipos lamentavelmente característicos de suas respectivas classes.
Viéramos para ver canalhas, e aquela gente era algo pior. Em toda canalhice há um lado
cômico, mais ou menos apreciável — mas ali não havia senão tragédia, uma tragédia muda e
estranha. O silêncio da sala era horrível. O jovem magro, macilento, de longos cabelos, cujos
olhos encovados seguiam ferozes o movimento das cartas, não falava nunca; o jogador gordo,
de faces flácidas e cheias de espinhas, que marcava com perseverança num cartão quantas
vezes vencia o vermelho e quantas vezes o negro, nunca falava; o velho sujo, de rosto
enrugado, olhos de abutre e sobretudo cerzido, que acabara de perder o seu último sou56 e
ainda assistia desesperadamente ao jogo sem nele poder tomar parte, não falava nunca. Até a
voz do crupiê ressoava como se estivesse estranhamente embotada e engrossada pela
atmosfera da sala. Entráramos ali para rir, mas o espetáculo que tínhamos ante os olhos era
algo de fazer chorar. Para escapar à depressão que ia tomando conta do meu espírito, dentro
em pouco eu achava necessário recorrer a um estimulante qualquer. Infelizmente recorri ao
estimulante mais próximo de mim, pois me dirigi à mesa e pus-me a jogar. Por maior
infelicidade, como os acontecimentos o mostrarão, ganhei: ganhei prodigiosamente,
incrivelmente, de maneira tal que os jogadores habituais das mesas vieram rodear-me e,
observando com olhos famintos e supersticiosos as minhas paradas, cochicharam uns aos
outros que o inglês ia rebentar a banca.
O jogo era rouge et noir. Tinha-o jogado em todas as cidades da Europa, sem no entanto
me preocupar com o estudo da Teoria das Probabilidades, essa pedra filosofal de todos os
jogadores. Aliás, no sentido estrito da palavra, eu nunca tinha sido um jogador. Meu espírito
estava livre da paixão corrosiva do jogo. O jogo para mim era um mero passatempo. Jamais a
ele recorrera por necessidade, porque jamais soubera o que fosse precisar de dinheiro. Nunca
o praticara com intensidade bastante para perder mais do que podia ou ganhar além de uma
importância que eu pudesse friamente embolsar sem que o meu orçamento fosse alterado pela
sorte. Em poucas palavras, até então eu frequentara as casas de jogo — como frequentara os
bailes e as óperas — porque elas me divertiam e porque não tinha nada melhor que fazer nos
meus lazeres.
Agora, porém, era bem diferente — pois, pela primeira vez em minha vida, senti o que era
em verdade a paixão do jogo. O meu bom êxito a princípio me desnorteou, e depois, no
sentido mais literal da palavra, intoxicou-me. Por incrível que pareça, eu não perdia senão
quando tentava estimar as probabilidades e jogava segundo um cálculo prévio; quando deixava
tudo por conta da sorte e apostava sem o menor cuidado ou reflexão, podia estar certo de
ganhar — ganhar a despeito de toda a reconhecida probabilidade a favor da banca. No
começo, alguns dos presentes arriscavam o seu dinheiro com bastante segurança no meu
naipe; mas não tardou que eu aumentasse as paradas até chegar a importância que eles não
se atreviam a arriscar. Um a um, foram abandonando a partida e passando a acompanhar o
meu jogo com a respiração suspensa.
Eu continuava a aumentar as paradas e a ganhar invariavelmente. Na sala, a excitação
chegou ao cúmulo. Cortava o silêncio um coro de pragas e exclamações, murmuradas em
diversos idiomas, cada vez que era rodado o ouro, através da mesa, para o meu lado — e até
o imperturbável crupiê atirou o seu rodo ao chão, num acesso de fúria (francesa) e de espanto
à vista do meu bom êxito. Uma única pessoa conservava o domínio de si mesma: era o meu
amigo. Aproximou-se de mim e, cochichando em inglês, pediu-me que me retirasse,
contentando-me com o que ganhara até então. Devo reconhecer que repetiu suas advertências
e pedidos mais de uma vez, e só me deixou quando eu — na embriaguez tônica do jogo —
repeli o seu conselho em termos que não lhe permitiram dirigir-se novamente a mim durante
aquela noite.
Pouco depois de ele ter saído, gritou-me atrás uma voz rouca:
— Permita-me, caro senhor, pôr em seu devido lugar estes dois napoleões que o senhor
deixou cair. Que sorte admirável, senhor! Dou-lhe a minha palavra de velho soldado que,
apesar da minha longa experiência neste terreno, nunca vi sorte como a sua! Nunca! Continue,
senhor — sacré mille bombes!57 Continue, não desanime! Rebente a banca!
Voltei-me, e vi, abanando a cabeça e sorrindo-me com uma cortesia inveterada, um homem
alto, de sobrecasaca ornada de alamares e sutaches.
Se estivesse no meu juízo perfeito, devia tê-lo considerado um espécime bem suspeito de
velho soldado. Tinha os olhos raiados de sangue, à flor do rosto, o bigode sarnento e o nariz
quebrado. Sua voz traía uma entonação de quartel da pior espécie, e possuía o par de mãos
mais sujas que já vi em minha vida, mesmo na França. Mas estas particularidades pessoais
não exerceram sobre mim nenhuma impressão repelente. Na excitação insensata, na temerária
vitória do momento, estava pronto a fraternizar com qualquer pessoa que me estimulasse a
jogar. Aceitei a pitada de rapé que o velho soldado me oferecia, dei-lhe uma palmada nas
costas e jurei que ele era o camarada mais decente do mundo, a mais gloriosa relíquia do
Grande Exército que eu já encontrara.
— Continue — gritou o meu amigo marcial, dando estalos com os dedos de tão
entusiasmado —, continue a ganhar! Rebente a banca, mille tonnerres!58 Meu galante
camarada inglês, rebente a banca!
E eu continuei, e joguei com tanta sorte que um quarto de hora depois o crupiê anunciava:
— Meus senhores, a banca interrompe o seu funcionamento por esta noite.
Todas as notas e todo o ouro da banca estavam agora num montão diante de mim; todo o
capital flutuante da casa de jogo aguardava que eu o despejasse nos meus bolsos!
— Amarre o dinheiro no lenço, ilustre senhor — disse o velho soldado, quando eu afundei
as mãos ferozmente no meu monte de ouro. — Amarre-o como nós outros, do Grande
Exército, costumávamos amarrar o jantar; pois o seu ganho é pesado demais para qualquer
bolso de calça que já se tenha feito neste mundo. Assim... é isso mesmo... amontoe nele tudo,
as notas e o resto! Crédié!59 Que sorte!... Alto! Eis outro napoleão no chão! Ah, sacré petit
polisson de napoléon!60 Mas te encontrei, afinal! Muito bem, senhor... agora, com sua licença,
dois nós duplos, bem apertados, de cada lado, e o dinheiro está a salvo. Apalpe-o! Apalpe-o,
meu feliz amigo! É tão duro e redondo como uma bala de canhão... À bas!61 Se eles pelo
menos nos tivessem atirado balas assim em Austerlitz... nom d’une pipe!62 Se tivessem! E
agora, na minha condição de antigo granadeiro, de ex-herói do Exército francês, que me resta
fazer? Que me resta? — pergunto eu. Apenas isto: convidar o meu prezado amigo inglês a
beber comigo uma garrafa de champanha e, antes de partirmos, fazer um brinde à deusa
Fortuna com taças espumantes!
— Excelente ex-herói! Sociável ex-granadeiro! Sem dúvida — champanha! Palmas ao velho
soldado! Hip, hurra! Palmas ainda para a deusa Fortuna! Hip, hip, hurra!
— Bravo, amigo inglês! Viva o inglês amável e gentil em cujas veias circula o sangue vivo da
França! Outra taça? À bas! — a garrafa está vazia! Não se importe! Vive le vin!63 Eu, o velho
soldado, ordeno outra garrafa e meia libra de bombons!
— Não, não, ex-herói; nunca, ex-granadeiro! A outra foi sua; esta é minha. Olhe aqui!
Brinde! Ao Exército francês! ao grande Napoleão! aos presentes! ao crupiê! à esposa e aos
filhos do honesto crupiê — se é que os tem! às senhoras em geral! ao mundo inteiro!
Nesse ínterim esvaziou-se a segunda garrafa de champanha. Tive a impressão de haver
bebido fogo líquido; meu cérebro estava em chamas. Nenhum excesso de vinho produzira
jamais em mim efeito parecido. Era isso devido ao fato de o estimulante agir sobre o meu
sistema nervoso num momento em que eu estava muitíssimo excitado? Achava-se o meu
estômago em condições particularmente desordenadas? Ou seria que o champanha era
assombrosamente forte?
— Ex-herói do Exército francês! — gritei num excesso de louca hilaridade. — Estou em
chamas! E o senhor? Foi o senhor que me incendiou! Está ouvindo, meu herói de
Austerlitz?64 Mande vir uma terceira garrafa de champanha para apagar a chama!
O velho soldado abanava a cabeça, virava os olhos de tal modo que já me dispunha a vê-
los saltar das órbitas, e, encostando o indicador sujo em uma das narinas do nariz quebrado,
atirou com solenidade:
— Café!
E em seguida correu para uma peça interna.
A palavra pronunciada pelo excêntrico veterano como que exerceu efeito mágico sobre o
resto do grupo. De comum acordo todos se levantaram para sair. Provavelmente esperavam
aproveitar a minha intoxicação; mas, vendo que o meu novo amigo se mostrava benevolamente
inclinado a impedir-me de me embriagar de todo, abandonaram agora toda a esperança de se
divertir à custa do meu ganho. Fosse qual fosse o motivo, o certo é que se foram embora
todos de uma vez. Quando o velho soldado voltou e sentou-se à mesa diante de mim, já não
havia ninguém na sala. Eu podia ver o crupiê numa espécie de vestíbulo contíguo, a cear
sozinho. O silêncio era mais profundo que nunca.
Operara-se repentina mudança na atitude do ex-herói. Assumiu um ar portentosamente
solene e, ao tornar a falar-me, o seu discurso já não era ornamentado de pragas, nem
reforçado de estalos de dedos, nem animado de apóstrofes e exclamações.
Escute, caro senhor — disse-me num tom de misteriosa confidência —, escute o conselho
de um velho soldado. Fui falar com a dona da casa (uma mulher encantadora que tem o gênio
da arte culinária) para fazer-lhe entender a necessidade de nos preparar um café
especialmente forte e bom. O senhor deve beber este café para livrar-se da graciosa
exaltação em que se encontra, antes de pensar em ir para casa... o senhor deve bebê-lo, meu
bom e amável amigo! Com todo o dinheiro que vai levar, tem consigo mesmo o dever sagrado
de ficar com o juízo alerta. Vários cavalheiros que estavam aqui esta noite sabem que o
senhor ganhou uma importância enorme. São todos eles, em certo ponto de vista, pessoas
dignas e excelentes, mas são mortais, caro senhor, e têm as suas amáveis fraquezas! Devo
dizer mais? Não, o senhor me compreendeu! Ora, o que deve fazer é isto: ao sentir-se melhor,
chame um cabriolé, levante as janelas todas depois de entrar, e peça ao cocheiro que o leve
para casa só através de ruas largas e bem iluminadas. Faça isto, e o senhor e seu dinheiro
serão salvos. Faça isto, e amanhã agradecerá a um velho soldado o ter-lhe dado um conselho
honesto.
Mal o ex-herói acabou a sua oração, num tom dos mais lacrimosos, chegou o café, logo
despejado em duas xícaras. O meu amigo, atento, me estendeu uma delas, inclinando-se.
Abrasado de sede, bebi-o de um gole. Um instante depois, tive um acesso de atordoamento e
me senti mais intoxicado que nunca. A sala remoinhava com fúria em torno de mim; o velho
soldado parecia subir e descer regularmente aos meus olhos como o êmbolo de uma máquina
a vapor. Eu estava meio surdo, com um zumbir violento nos ouvidos, e via-me assaltado por
uma sensação de absoluto desnorteamento, de extrema debilidade, de idiotice. Levantei-me
da cadeira, agarrando-me à mesa para manter o equilíbrio, e balbuciei a custo que me sentia
terrivelmente mal, tão mal que não sabia como ir para casa.
— Meu caro amigo — respondeu o velho soldado, cuja voz também parecia subir e descer
como um êmbolo —, meu caro amigo, seria loucura ir para casa no seu estado; decerto
perderia o dinheiro; pode ser roubado e assassinado com a maior facilidade. Eu vou dormir
aqui; durma aqui também... O pessoal faz a cama às mil maravilhas. Alugue uma; durma, curta
o efeito do vinho, e volte para casa amanhã, em paz e segurança, com o que ganhou — sim,
amanhã, em plena luz do dia.
Restavam-me apenas duas ideias na cabeça: a primeira, que não devia largar o meu lenço
cheio de dinheiro; a segunda, que me devia deitar quanto antes, fosse onde fosse, e entregar-
me a um sono reparador. Assim, aceitei o oferecimento da cama, e, tomando o braço que o
velho soldado me estendia, acompanhei-o, carregando na mão livre o meu dinheiro.
Precedidos do crupiê, passamos por vários corredores e um lanço de escadas até chegar ao
quarto de dormir que eu devia ocupar. O ex-herói me sacudiu a mão calorosamente, propôs
que eu tomasse lanche com ele no dia seguinte e, acompanhado do crupiê, deixou-me sozinho.
Corri ao lavatório; bebi um pouco da água que havia no jarro, despejei o resto na pia, e nela
mergulhei o rosto; depois, sentei-me numa cadeira, procurando reassumir o domínio de mim
mesmo. Em poucos minutos já me sentia melhor. A mudança, para os meus pulmões, da fétida
atmosfera da sala de jogos pelo ar frio do apartamento que eu agora ocupava; a mudança,
quase igualmente saudável para os meus olhos, da deslumbrante iluminação a gás do “salão”
pela baça e calma luz bruxuleante da vela, aumentaram de maneira admirável os milagrosos
efeitos da água fria. Cessou a vertigem, e voltei a pensar um pouco, como um ser racional. O
meu primeiro pensamento foi que era perigoso passar a noite toda na casa de jogos; o
segundo, que era ainda bem mais arriscado sair depois de fechada a batota e ir para casa
sozinho de noite, atravessando Paris com uma grande importância nos bolsos. No decurso de
minhas viagens tinha dormido em lugares piores do que aquele; portanto, resolvi fechar,
aferrolhar e barricadar a minha porta, e esperar o que desse e viesse até à madrugada.
Garanti-me contra qualquer intrusão: olhei para baixo da cama e para dentro do armário;
experimentei a fechadura da janela; e, satisfeito com as precauções tomadas, arranquei a
roupa de cima, coloquei a vela, de luz muito baça, em cima da lareira, sobre uma camada fofa
de cinza, e fui-me deitar, pondo o lenço milionário debaixo do travesseiro.
Entretanto, senti logo que não só não poderia dormir, mas nem sequer conseguiria fechar
os olhos. Estava inteiramente acordado, com febre alta. Tremiam-me todos os nervos do
corpo, cada um dos meus sentidos parecia aguçado de modo sobrenatural. Tossia e rolava, e
experimentava toda espécie de posições, procurava com insistência os cantos frios da cama, e
nada disso adiantava. Ora atirava os braços por cima do cobertor, ora os punha debaixo dele,
ora estendia as pernas com violência até a extremidade do leito, ora as encolhia, aproximando-
as o mais possível do queixo; ora sacudia o travesseiro amarrotado, virava-o para o lado frio,
achatava-o e colocava-o devagar nas costas, ora dobrava-o ferozmente, punha-o numa das
extremidades, encostava-o na tábua da cama e tentava ficar sentado. Todos os esforços eram
vãos; gemia de tão agoniado e sentia que não podia deixar de passar a noite em claro.
Que fazer? Não tinha um livro que lesse. E, no entanto, sentia que, se não encontrasse
algum processo para divertir o espírito, estaria sujeito a imaginar toda espécie de horrores e
afligir o cérebro com os pressentimentos de todos os perigos possíveis e impossíveis; em
suma, a passar a noite sofrendo todas as variedades concebíveis de terror nervoso.
Apoiei-me num dos cotovelos e olhei à volta do quarto — que um doce luar, derramando-se
direto pela janela, iluminava — para ver se continha algum quadro ou ornamento que eu
pudesse ao menos distinguir. Enquanto meus olhos iam de uma parede para outra, veio-me à
lembrança o delicioso livrinho de De Maistre, Voyage autour de Ma Chambre. 65 Resolvi imitar
o autor francês, e julguei ocupação bastante divertida para aliviar o tédio da minha insônia
fazer mentalmente o inventário de todos os móveis que via, e seguir até às suas fontes a
multidão de associações que uma simples cadeira, uma mesa, um lavatório podem
ocasionalmente suscitar.
No caótico estado nervoso de meu espírito, achei, porém, muito mais fácil proceder ao
inventário do que fazer reflexões, e abandonei dentro em pouco toda a esperança de seguir a
trilha fantasiosa de De Maistre, ou simplesmente de pensar fosse o que fosse. Pus-me a olhar
para os diversos móveis do quarto, sem fazer outra coisa.
Havia, antes de tudo, a cama onde eu estava deitado: uma cama de colunas, o que eu
menos esperava encontrar em Paris! — Sim, um autêntico e tosco leito inglês de quatro
colunas, com o habitual dossel forrado de chita, a habitual sanefa orlada de franjas, as
habituais cortinas, insalubres e sufocantes, que me lembrava ter empurrado mecanicamente
para as colunas ao entrar na sala sem que houvesse examinado particularmente a cama. Havia
também um lavatório de mármore, donde a água, que eu na minha pressa entornara,
continuava a gotejar, cada vez mais lenta, sobre o chão de tijolos. Havia duas cadeiras
pequenas com o meu paletó, o meu colete e as minhas calças jogados em cima delas. Depois,
uma grande cadeira de braços coberta de fustão branco sujo com a minha gravata e o
colarinho atirados sobre o espaldar. Depois, uma cômoda, a que faltavam duas maçanetas de
bronze, e um vistoso tinteiro de porcelana, quebrado, posto sobre a cômoda como ornamento.
Depois, o toucador, ornado de um espelho muito pequeno e de uma almofada para alfinetes
muito grande. Depois, a janela — uma janela insolitamente ampla. Depois, um velho quadro
escuro, que a tênue luz da vela mal me permitia ver. Era o retrato de um sujeito de alto chapéu
espanhol, coroado de um penacho de plumas altaneiras. Um rufião moreno, sinistro, o qual,
sombreando os olhos com as mãos, olhava para cima — sem dúvida para alguma grande
forca onde ia ser enforcado. Aliás, parecia merecê-la de sobra.
Essa pintura me forçou, de certo modo, a mim também, a olhar para cima — para o dossel
do leito. Era um objeto escuro e sem interesse, e eu voltei a observar o quadro. Contei as
penas do chapéu do homem (eram em relevo): três brancas e duas verdes. Considerei a copa
do chapéu, de forma cônica, à feição daqueles de que se supõe que Guy Fawkes66 gostava.
Perguntava a mim mesmo para onde olhava ele. Não podia ser para as estrelas; um gatuno
daqueles não era astrônomo nem astrólogo. Só podia ser para uma forca alta, e agora ele ia
mesmo ser enforcado. Será que o executor ficará com o chapéu cônico e o penacho? Voltei a
contar as penas: três brancas e duas verdes.
Enquanto me ocupava nessa distração muito intelectual e proveitosa, meus pensamentos
começaram insensivelmente a vaguear. O luar que iluminava o quarto lembrava-me certa noite
de luar lá na Inglaterra, a noite após um piquenique num vale gaulês. Cada incidente da volta,
realizada através de aprazível cenário que o luar tornava ainda mais fascinante, reviveu-me na
memória, embora durante anos nunca tivesse pensado no piquenique. Se houvesse tentado
evocá-la, decerto nada ou quase nada teria lembrado daquela cena já muito longínqua. De
todas as admiráveis faculdades que nos ajudam a dizermo-nos imortais, qual melhor exprime
essa sublime verdade do que a memória? Ali estava eu, numa casa estranha e das mais
suspeitas, em situação de incerteza e até de perigo, que excluía a possibilidade de uma
aplicação fria da memória; contudo, lembrei-me, sem querer, de lugares, pessoas, conversas,
e de uma multidão de pequenas circunstâncias que eu supunha esquecidas para sempre e que
por certo não me seria possível evocar, se o quisesse, mesmo nas condições mais favoráveis.
E qual a causa que produzira num abrir e fechar de olhos todo esse efeito estranho,
complicado, misterioso? Apenas uns raios de luar que alumiavam a janela do meu quarto de
dormir.
Ainda pensava no piquenique — em nossa alegria durante a volta, numa senhora
sentimental que fazia questão de citar Childe Harold,67 porque era noite de luar. Estava
absorto nestas cenas e diversões do passado, quando num instante o fio de que pendiam
minhas lembranças se rompeu: minha atenção voltou-se de pronto para as coisas presentes
com vivacidade bem maior, e vi-me outra vez, não sei por que motivo nem com que fim, a olhar
fixo para o quadro.
A olhar o quê?
Deus do Céu! o homem tinha puxado o chapéu sobre os olhos! Oh, não! O chapéu tinha
desaparecido! Onde estava a copa cônica? Onde as penas — três brancas e duas verdes? Já
não se acham ali! No lugar do chapéu e das penas, que objeto escuro lhe tapa agora a fronte,
os olhos, a mão que os sombreava?
A cama estaria mexendo-se?
Virei-me de costas e olhei para cima. Estaria louco? bêbedo? dormia? era outra vertigem?
ou o dossel da cama estaria mesmo descendo... afundando lentamente, regularmente,
silenciosamente, horrivelmente, descendo direito em toda a sua extensão e toda a sua
largura... direito sobre mim, que me encontrava deitado debaixo?
O sangue como que parou nas minhas veias. Um frio mortal e paralisador se apoderava de
mim, enquanto eu virava a cabeça no travesseiro e, conservando os olhos fixos no homem da
pintura, resolvia experimentar se o dossel estava, na realidade, mexendo-se ou não.
Um olhar naquela direção era o bastante. O contorno grosseiro, negro, imundo, da sanefa,
acima de mim, com cerca de uma polegada a mais estaria paralelo à cintura do homem. Eu
continuava a olhar com a respiração suspensa. E ininterruptamente e devagar — muito
devagar — muito devagar — vi a figura, e a linha do caixilho abaixo da figura, desaparecerem,
enquanto a sanefa baixava diante delas.
Constitucionalmente sou tudo quanto quiserem, menos tímido. Mais de uma vez me
encontrara já em perigo de vida e não perdera o domínio dos nervos nem por um instante;
mas, quando em meu espírito se formou a convicção de que o dossel estava mesmo
descendo, firme e continuamente baixando sobre mim, olhei para cima tremendo de medo,
desamparado, tomado de pânico, sob aquela abjeta máquina de assassinar que avançava
mais e mais para me sufocar deitado na cama.
Olhava para cima sem um movimento, sem uma palavra, sem respirar. A vela, consumida,
apagou-se de todo, mas o luar continuava a iluminar o quarto. Sem parar e sem fazer ruído, o
dossel baixava, e um terror pânico parecia manter-me ligado cada vez com mais força ao
colchão em que eu jazia — o dossel vinha para baixo, mais e mais, até que o cheiro de pó do
seu forro me penetrou as narinas.
No momento último, o instinto de conservação arrancou-me daquele estado hipnótico, e,
afinal, mexi-me. Apenas me restava espaço para rolar da cama para um dos lados. Ao cair,
sem barulho, no chão, a extremidade do sobrecéu assassino tocou-me ainda um dos ombros.
Sem tomar fôlego, sem ao menos enxugar o suor frio do rosto, pronto me soergui, de
joelhos, para observar o dossel. Estava literalmente enfeitiçado por ele. Se ouvisse um rumor
de passos atrás de mim, não seria capaz de voltar-me; se, por milagre, me fosse oferecido um
meio de escapar, não poderia fazer um movimento para utilizá-lo. Naquele instante, toda a
minha vida se achava concentrada nos olhos.
Sim, descia, o dossel inteiro, com as franjas em redor, vinha abaixo, abaixo, sobre a cama,
e tão perto que agora não restava espaço para eu meter um dedo entre ele e a cama.
Precipitei-me sobre os lados e descobri que aquilo que, visto de baixo, me parecia o leve
sobrecéu comum de um leito de colunas, era em verdade um colchão espesso e largo, cuja
substância estava escondida pela sanefa e pelas franjas. Olhei para cima, e vi as quatro
colunas levantadas numa nudez repugnante. No meio do dossel havia um enorme parafuso de
madeira que evidentemente o fizera descer por uma abertura do teto, justo como descem as
prensas comuns sobre a substância destinada a compressão. O horrível aparelho se
movimentava sem fazer o mínimo rumor. Não houve um rangido quando ele desceu; e agora
não vinha o menor ruído do quarto de cima. Em meio a um pavoroso silêncio de morte eu via à
minha frente — no século XIX e na civilizada capital da França! — uma clandestina máquina de
assassinar por sufocamento, como deve ter havido nos piores dias da Inquisição, nas tabernas
longínquas dos montes Harz, nos tribunais misteriosos da Vestfália. Fitava-a sem conseguir
fazer um movimento. Conquanto ainda mal pudesse respirar, comecei a recuperar a
capacidade de reflexão e num momento descobri, em todo o seu horror, a monstruosa
conspiração tramada contra mim.
Tinha sido misturada uma droga na minha xícara de café, uma droga muito forte. Eu só não
morrera sufocado porque tomara uma dose excessiva de algum narcótico. Como me irritava e
me afligia com o acesso de febre que ao fim de contas me preservou a vida mantendo-me
acordado! Com que descuido me confiei aos dois miseráveis que me conduziram àquela sala,
deliberados, ante a perspectiva do dinheiro que eu ganhara, a me assassinar durante o sono,
graças à mais segura e mais horrível trama para em segredo realizar a minha destruição!
Quantos homens que ganharam como eu dormiram, como eu me propusera dormir, naquela
cama, e nunca mais foram vistos! Esta simples lembrança me fez estremecer.
Não tardou muito, porém, que todos os meus pensamentos ficassem em suspenso mais
uma vez quando vi o dossel assassino movimentar-se novamente. Depois de haver
permanecido sobre a cama uns dez minutos, pelo menos segundo o meu cálculo, começou a
levantar-se. Os velhacos que, lá de cima, o faziam funcionar, supunham, é claro, que o seu
desígnio estava consumado. Lento e silencioso como descera, o horrível sobrecéu agora subia
em direção ao seu lugar anterior. Ao chegar às extremidades superiores das quatro colunas,
alcançou também o teto. Não se via nem a cavidade nem o parafuso; a cama voltou a ser na
aparência uma cama comum, o dossel um dossel comum, até aos olhos mais suspeitosos.
Agora, pela primeira vez, pude mover-me de novo, levantar-me, vestir a roupa de cima e
ver como podia escapar. Se eu revelasse, pelo mínimo ruído, que a tentativa de sufocação
havia falhado, podia estar certo de ser morto. Teria já feito algum barulho? Escutava atento,
olhando para a porta.
Não! Nada de passos no corredor... nenhum som de passo, leve ou pesado, no quarto de
cima... por toda parte, silêncio absoluto. Além de fechar e aferrolhar a porta, eu pusera atrás
dela uma velha caixa de madeira que tinha achado sob a cama. Remover a caixa (o sangue
esfriava-me nas veias quando eu imaginava o possível conteúdo dela) sem fazer rumor parecia
impossível; de mais a mais, tentar escapar pela casa, trancada para a noite, era loucura. Só
me restava uma única esperança: a janela. Aproximei-me dela nas pontas dos pés.
O meu quarto de dormir era no primeiro andar, acima de um entresol,68 e dava para a rua
de trás. Levantei a mão para abrir a janela, sabendo que dessa operação pendia, por um fio, a
minha oportunidade de salvação. Numa Casa de Assassinatos a fiscalização é cuidadosa.
Bastava que uma parte do caixilho chiasse, que os gonzos rangessem, e eu estava perdido!
Deve ter-me custado cinco minutos, a julgar pelo tempo — cinco horas, a julgar pela
perplexidade —, o abrir aquela janela. Consegui fazê-lo em silêncio — executando a operação
com toda a habilidade de um profissional do roubo — e olhei para a rua. Saltar dali seria morte
quase certa. Logo depois, observei as paredes de cada lado. À esquerda descia um grosso
cano de água que passava perto do rebordo exterior da janela. No momento em que avistei o
cano, sabia que estava salvo. Voltei a respirar livremente — pela primeira vez depois que vira
o dossel mover-se sobre mim.
Muitas pessoas podiam achar difícil e até perigoso o caminho que eu descobrira para
escapar; a mim, porém, a perspectiva de resvalar ao longo do cano até à rua não sugeriu a
menor ideia de perigo. Graças à contínua prática da ginástica, eu conservava a habilidade de
trepar que tinha no tempo de estudante. Assim, sabia que minha cabeça, minhas mãos e meus
pés me ajudariam fielmente em todas as subidas e descidas. Já tinha posto um pé no peitoril
da janela, quando me lembrei do lenço cheio de dinheiro que ficara debaixo do travesseiro.
Bem poderia deixá-lo ali; mas um desejo de vingança me fez resolver que os miseráveis da
batota perdessem a sua presa junto com a sua vítima. Assim, voltei à cama e com a minha
gravata amarrei nas costas o pesado lenço.
Mal acabara de apertá-lo e de fixá-lo numa posição confortável, cuidei ouvir um ruído de
respiração fora da porta. Uma sensação fria de horror me percorreu. Escutei. Não! Silêncio
mortal no corredor — eu ouvira apenas o ar da noite soprando brandamente no quarto. No
momento seguinte estava na janela; mais um momento, e já me agarrava firme com as mãos e
os joelhos ao cano de água.
Resvalei na rua fácil e tranquilamente, como previa, e logo me dirigi, com a maior pressa, a
um posto de polícia que eu sabia existir ali bem perto. Um “subcomissário” e vários policiais
escolhidos estavam precisamente, ao que parece, examinando um plano para descobrir o
autor de um assassinato misterioso que toda Paris comentava naqueles dias. Quando comecei
a minha história, com uma precipitação ofegante e em péssimo francês, pude notar que o
subcomissário me supunha um inglês bêbedo que vinha de assaltar alguém. Mas dentro em
breve, à medida que eu prosseguia, modificou a sua opinião, e, antes mesmo de eu concluir,
empurrou todos os seus papéis para dentro de uma gaveta, pôs o chapéu, oferecendo-me
outro (pois eu estava descoberto), mandou vir um grupo de soldados, ordenou a seus
auxiliares especializados que preparassem toda espécie de instrumentos para forçar portas e
arrancar ladrilhos, e pegou-me pelo braço, da maneira mais amável e familiar possível, para
que os acompanhasse à tal casa. Arriscar-me-ia a dizer que o subcomissário, quando em
criança o levaram pela primeira vez ao teatro, não tivera metade do prazer que experimentava
agora na expectativa do serviço que o esperava na casa de jogo!
Agora percorríamos as ruas. O subcomissário fez-me novas perguntas, e ao mesmo tempo
me felicitava, enquanto avançávamos à testa do nosso formidável posse comitatus.69 Logo que
chegamos, foram postadas sentinelas na frente e atrás da casa; vibraram-se formidáveis
pancadas contra a porta; numa das janelas apareceu uma luz; eu, como me haviam
aconselhado, escondera-me atrás dos policiais; seguiram-se outras pancadas e o grito de: —
“Abram em nome da lei!.”
A essa intimação terrível, ferrolhos e fechaduras cederam a uma invisível mão, e um
instante depois o subcomissário achava-se no corredor, encarando um garçom seminu e de
uma palidez cadavérica. Travou-se entre os dois este breve diálogo:
— Queremos ver o inglês que está dormindo aqui!
— Há horas que se foi.
— Não é verdade. O amigo dele foi-se embora, mas ele ficou aqui. Mostre-nos o seu
quarto de dormir!
— Juro-lhe, sr. subcomissário, ele não está mais aqui! Ele...
— Juro-lhe, sr. garçom, que ele está. Ele dormiu aqui, não achou a cama de vocês
confortável e veio queixar-se a nós. Aqui está ele entre os meus homens, e aqui estou eu para
ver quantas pulgas há em tal cama. Renaudin! [chamou um dos seus subordinados, apontando
o garçom] agarre este homem e ate-lhe as mãos atrás das costas. Nós outros, meus
senhores, vamos subir as escadas!
Todos os homens e todas as mulheres que se achavam na casa foram presos, a começar
pelo “velho soldado”. Em seguida identifiquei a cama em que tinha dormido, e subi ao quarto
de cima.
Ali não se encontrou, em parte alguma, nenhum objeto fora do comum. O subcomissário
correu os olhos em redor, ordenou a todos que se calassem, bateu com o pé duas vezes no
chão, pediu uma vela, examinou atento o ponto onde batera com o pé e mandou que
retirassem cautelosamente o soalho, o que foi feito num instante. Trouxeram lâmpadas, e
avistamos uma profunda cavidade provida de vigas entre o soalho daquele quarto e o teto do
quarto de baixo. Dentro da cavidade via-se, colocada perpendicularmente, uma espécie de
caixa de ferro bastante lubrificada, no interior da qual apareceu o parafuso que comunicava
com o dossel, embaixo. As extremidades do parafuso tinham sido untadas pouco antes; as
alavancas estavam revestidas de feltro; toda a parte superior de uma prensa pesada —
construída com habilidade infernal de tal sorte que correspondesse à parte inferior e, quando
desapertada, ocupasse o menor espaço possível — foi então descoberta e, desfeita,
espalhada no chão. Após alguma dificuldade o subcomissário conseguiu recompor todo o
mecanismo e, deixando seus homens em cima para o fazerem funcionar, desceu comigo ao
quarto de dormir. O dossel sufocador foi então baixando, mas não tão silenciosamente como
eu o vira baixar. Quando fiz esta observação ao subcomissário, a sua resposta, embora
simples, teve uma significação terrível.
— Os meus homens — disse ele — estão fazendo funcionar o dossel pela primeira vez; os
homens cujo dinheiro o senhor ganhou tinham mais prática.
Deixamos a casa sob a guarda de dois policiais apenas, visto como todos os habitantes
haviam sido detidos e levados à prisão. Depois de haver tomado o meu procès-verbal70 em
seu gabinete, o subcomissário voltou comigo para o meu hotel a fim de ver o meu passaporte.
— Acha o senhor — perguntei-lhe ao entregar o documento — que algumas pessoas foram
realmente sufocadas naquela cama, como eles tentaram sufocar-me a mim?
— Eu vi estendidos no necrotério — respondeu o subcomissário — dúzias de homens
afogados, em cujas carteiras foram encontradas cartas onde afirmavam que se tinham
suicidado atirando-se ao Sena por terem perdido tudo na mesa do jogo. Posso eu saber
quantos desses homens entraram na mesma batota onde o senhor entrou? ganharam como o
senhor ganhou? ocuparam a cama que o senhor ocupou? dormiram nela? foram esmagados
nela? e foram em segredo atirados ao rio com uma carta de explicações escrita pelos
assassinos e colocada na carteira das vítimas? Ninguém pode dizer quantas pessoas, se
muitas ou poucas, sofreram o destino ao qual o senhor escapou. Essa gente da batota
conseguiu esconder o segredo do mecanismo do dossel até à própria polícia. Os mortos
também conservaram o segredo. Boa noite, ou antes, bom dia, sr. Faulkner! Volte ao meu
gabinete às nove horas; até lá, passe bem!
O resto da minha história conta-se num instante. Fui interrogado e reinterrogado; a casa de
jogos foi revistada com todo o rigor, dos alicerces ao teto; os detidos foram interrogados
separadamente, e dois dos menos culpados fizeram confissões. Vim a saber que o velho
soldado era o dono da batota; a justiça elucidou que ele tinha sido expulso do Exército havia
muitos anos como vagabundo; que desde então cometera uma série de velhacarias; que
possuía objetos roubados identificados pelos donos; que o crupiê, outro cúmplice, e a mulher
que havia preparado a minha xícara de café, estavam cientes do segredo do dossel. Surgiu
alguma dúvida sobre se o pessoal do serviço da casa sabia alguma coisa a respeito da
máquina de sufocar, e eles se beneficiaram com essa dúvida, tendo sido considerados apenas
ladrões e vagabundos. Quanto ao velho soldado e seus dois principais esbirros, mandaram-
nos para as galés; a mulher que misturara droga ao meu café foi condenada a não sei mais
quantos anos de prisão; os empregados regulares da casa de jogo foram considerados
“suspeitos” e postos sob “vigilância”; e eu, durante uma semana inteira (o que é muito tempo),
fui o leão principal da sociedade parisiense. Minha aventura foi dramatizada por três ilustres
autores teatrais, mas não chegou a ser representada, por haver a censura proibido a
introdução em cena de uma cópia exata do leito da casa de jogo.
A minha aventura produziu um resultado bom, que qualquer censura teria aprovado: curou-
me para sempre do desejo de tentar o rouge et noir como distração. A visão de um pano
verde com maços de cartas e montes de dinheiro ficará sempre associada, no meu espírito, à
de um dossel que desce para me sufocar dentro do silêncio e da escuridão da noite.71
BJØRNSTJERNE BJØRNSON

“Em toda a região não havia outro menino que soubesse inventar mentiras melhor do que o
filho mais velho do pastor. Naturalmente também gostava muito de leitura, e os camponeses o
ouviam ler com agrado. Quando era coisa que lhes aprazia de modo especial, o menino por
sua conta acrescentava algo que, segundo pensava, havia de deliciá-los. De preferência
contava histórias de homens fortes ou de amores de desfecho mortal.”72
Esse filho de pastor era Bjørnstjerne Bjørnson (1832-1910). O pai pregava em Kvikne,
paroquiazinha pobre entre as montanhas da Noruega, quase sempre coberta de neve e
algumas vezes visitada por ursos. Era de lá que Bjørnson trazia as suas histórias, que dentro
em pouco divertiriam e comoveriam não apenas os trabalhadores da paróquia paterna, mas
todo o público norueguês. Encantado, este acompanhava o jovem escritor à sua aldeia natal,
onde ele lhe mostrava Blakken, o cavalo corajoso que matara um urso; Thrond, o menino-
prodígio que aprende a tocar violino e a compor sinfonias sozinho no fundo da floresta nevada,
e perde o talento quando o levam à cidade, ao meio da multidão; o marinheiro Botolf, que salva
do afogamento uma linda moça, mas depois a força, com o seu ciúme, a atirar-se às ondas
outra vez. Entre esses contos havia também três novelas maiores, Arne, Synnøve
Solbakken e A filha dos pescadores, idílios rústicos narrados em tom fabuloso, cheios de
sentimento e poesia, entremeados de canções, e que lembravam as antigas sagas. No
julgamento da história literária, são essas obras de estreia as melhores de Bjørnson; suas
obras ulteriores seriam de poesia menos pura, por constituírem as armas de que se utilizava
esse grande batalhador nas infindáveis lutas de sua vida. “O ninho das águias” pertence à
primeira coletânea de contos.73 Os leitores saberão apreciar a vigorosa sobriedade dessa
pequena narrativa de intuito simbólico.
Desde os bancos da Universidade de Cristiânia, de que ambos foram estudantes ao mesmo
tempo, a existência dos dois maiores escritores da Noruega, Bjørnson e Ibsen, acha-se ligada
de maneira estranha. No início de sua carreira, foi Ibsen diretor do teatro de Bergen, cargo em
que lhe sucedeu Bjørnson. Este, escritor consagrado desde 1857 pelo bom êxito dos contos a
que aludimos acima, por sua vez precedeu Ibsen no caminho do drama burguês com sua peça
A falência, representada em 1875. Desde então, com frequência os dois rivais usam o palco
para darem a réplica um ao outro, e Ibsen até encarna Bjørnson em uma de suas
personagens, o dr. Stockmann, de O inimigo do povo.
Em sua movimentada existência, Bjørnson foi também diretor do teatro de Cristiânia, dirigiu
o jornal Aftenbladet, escreveu numerosos romances, dramas e comédias. É autor de poesias
consideradas as mais belas da literatura norueguesa, entre elas o hino nacional. Personalidade
das mais combativas e das mais combatidas, desencadeou e liderou inúmeras campanhas, ora
pelas universidades populares, ora pelo sistema parlamentar, pela liberdade da Islândia ou das
nações oprimidas da Europa Central, contra a monarquia e contra a religião, a favor da
unidade alemã e de Dreyfus, do darwinismo e do positivismo; antes de mais nada, contra a
união da Noruega com a Suécia e pela independência de seu país, objetivo só alcançado
pacificamente em 1905, em parte graças ao seu apostolado. Dois anos antes já obtivera
Bjørnson o Prêmio Nobel.

O NINHO DAS ÁGUIAS

Endregaardene era o nome dum pequeno povoado, isolado num vale cingido de altas
montanhas rochosas. Era plano e fértil o vale, mas cortado por larga torrente, que vinha da
serra, atrás. A torrente perdia-se num lago que chegava até o povoado, e descortinava uma
vista, ao longe.
O homem que primeiro chegou ao vale, para o habitar, viera subindo o lago a remo;
chamava-se Endre, e dele descendiam os habitantes do povoado. Havia quem dissesse que
ele fugira para lá por causa de um crime de morte, e por essa razão é que sua descendência
era tão escura; outros, porém, atribuíam isto às montanhas, que, mesmo em pleno verão,
trancavam o vale ao sol às cinco horas da tarde.
Da povoação se divisava, lá em cima, pendente da extremidade duma saliência do rochedo,
um ninho de águias. Toda a gente podia ver quando a fêmea ali pousava, mas ninguém podia
chegar até lá. O macho pairava alto acima do vale, e atirava-se ora sobre um cordeiro, ora
sobre um cabritinho; uma vez até apanhou uma criança e levou-a consigo. Assim, não podia
haver segurança no povoado enquanto as águias tivessem o seu ninho no rochedo. Corria
entre o povo a lenda de que dois irmãos, em tempos longínquos, tinham ido até o alto e
derrubado o ninho; porém nos tempos mais próximos não havia ninguém com bastante
coragem para isso.
Quando duas pessoas se encontravam, em Endregaardene, falavam acerca do ninho das
águias e olhavam para cima. Sabiam quando as águias haviam voltado naquele ano, aonde
tinham descido para o assalto, e quem fora o último a tentar subir ali. Desde a infância,
exercitavam-se os jovens em galgar rochedos e árvores, lutar e vencer, para mais tarde
tentarem subir e derrubar o ninho, como tinham feito, em tempos idos, aqueles dois irmãos.
Na época de que tratamos, o melhor rapaz de Endregaardene chamava-se Lejf e não
pertencia à principal família da terra. Tinha cabelos cacheados e olhos pequenos, era ágil em
todos os esportes e gostava das mulheres. Desde criança costumava dizer que algum dia
havia de alcançar o ninho das águias; mas os velhos achavam que não deveria falar a esse
respeito com tanta arrogância.
Isto o excitava, e, sem ter chegado ainda ao melhor da sua idade, trepou ao rochedo. Era
uma límpida manhã de domingo, começo de verão; os filhotes deviam ter saído do ninho pouco
antes. Grande multidão reuniu-se ao pé da rocha para assistir à escalada; os velhos
aconselhavam-no a desistir, e os jovens o incitavam à audaciosa aventura. Ele, porém, só
atendia aos seus próprios desejos; esperou que a fêmea deixasse o ninho, deu um grande
salto e pendurou-se no galho de uma árvore muito acima da terra. A árvore brotava duma
fenda da montanha, e o rapaz começou a subida seguindo essa fenda. Desprendiam-se
pedrinhas sob seus pés, terra e cascalho rolavam, mas, fora isso, tudo era silêncio; só a
torrente, lá no fundo, continuava o seu murmúrio ininterrupto. Daí a pouco, a rocha foi-se
tornando cada vez mais empinada, e ele ficou preso só por uma das mãos; procurava lugar
com o pé para firmar-se, e não enxergava nada. Muitas pessoas, sobretudo as mulheres,
volviam o rosto para o outro lado e diziam que, tivesse ele pai e mãe, não haveria feito
semelhante coisa. No entanto, o rapaz ainda achou um ponto de apoio, tateou novamente, ora
com a mão, ora com o pé, escapuliu, escorregou, mas conseguiu agarrar-se outra vez. Os que
estavam ao pé da montanha podiam ouvir a respiração uns dos outros. Então, levantou-se uma
jovem muito nova e esbelta, que estivera sentada sozinha numa pedra. Diziam que era sua
prometida desde criança, embora ele não fosse do povo dela. Ergueu os braços e gritou:
— Lejf! Lejf! por que fazes isto?
Voltaram-se para ela todos os circunstantes. Seu pai, que estava perto, olhou-a com
severidade; porém ela não o reconheceu.
— Desce, Lejf! — gritou a menina. — Gosto de ti, e nada tens que fazer aí em cima!
Viu-se que ele hesitou, por alguns momentos; mas logo continuou a subir. Tinha firmeza nas
mãos e nos pés, e, assim, durante algum tempo correu tudo bem. Mas sobreveio o cansaço, e
começou a parar de quando em quando. Uma pequena pedra veio rolando como um presságio
mau, e todos os presentes a acompanharam com o olhar até à base do rochedo. Alguns já não
suportavam, e foram-se embora. A moça permanecia em pé, sozinha, sobre a pedra, torcendo
as mãos e olhando para o alto. Lejf tateou de novo com uma das mãos, mas debalde; ela o
percebeu muito bem. Lançou para cima a outra mão — também inutilmente.
— Lejf! — gritou a menina.
E o grito reboou nas montanhas, e todos os demais a acompanharam.
— Escorregou! — gritaram todos.
E homens e mulheres estendiam instintivamente as mãos para ele. Escorregava, trazendo
consigo areia, pedras, terra, e escorregava cada vez mais veloz. A multidão voltou-se para o
outro lado; ouviram em seguida uma coisa como que a arranhar o rochedo e logo depois cair,
feito uma grande massa de terra úmida.
Quando tornaram a olhar, ele jazia ali, dilacerado e irreconhecível. Sobre a pedra, a moça,
inerte. Seu pai seguiu, levando-a nos braços.
Os jovens, que haviam incitado Lejf a subir, nem tinham coragem de o pegar e ajudar a
carregá-lo. Nenhum deles o podia fitar. Então os velhos tiveram de entrar em ação. Ao meter
mãos à obra, disse o mais velho:
— Isto não está direito.
Mas acrescentou, olhando para cima:
— Ainda bem que alguma coisa esteja tão alto que nem toda a gente a possa alcançar!
MULTATULI

Em maio de 1860 saiu em Amsterdã um livro com este nome estranho: Max Havelaar ou As
ações de café da sociedade comercial neerlandesa, cujo autor adotava o expressivo
pseudônimo de Multatuli74 (1820-1887). Nos meios intelectuais e políticos da Holanda, a obra
— em que o autor anônimo revelara os abusos da dominação holandesa na Índia Ocidental e a
cumplicidade do governo da Holanda no terrível regime de opressão infligido aos pobres
indígenas de fava pelos seus próprios chefes — explodiu como uma bomba, pois quase
ninguém tivera ideia das condições deploráveis em que vivia o povo das colônias daquele país.
Na realidade, o escritor contara a sua própria história: Max Havelaar, o presidente substituto
do distrito de Lebak, em Java, funcionário consciencioso que procura pôr fim aos abusos,
protegendo os indígenas contra os chefes, e que, em vez de encontrar apoio junto ao governo
central, acaba sendo destituído, era o próprio Eduard Douwes Dekker. Ao escrever o seu livro
revolucionário, encontrava-se na miséria mais triste, a ponto de pedir por empréstimo a tinta
de que precisava.
Com o Max Havelaar, tornou-se Multatuli famoso de um dia para outro. Na pobre literatura
da rica Holanda a irrupção de um talento tão original, de tão grande e áspera força, marcou
época. Ao cabo de contas, o resultado do livro evidenciou-se mais no lado estético do que no
político, pois as condições de Java em nada mudaram. Dekker não foi reabilitado e passou o
resto da vida a trabalhar duro como escritor e jornalista. Seus ataques ao regime colonial
neerlandês e à hipocrisia, à avidez e à pasmaceira intelectual da burguesia neerlandesa
suscitaram numerosos inimigos em seu próprio país a esse d. Quixote moderno, que passou
parte da vida exilado, na Alemanha; só depois de morto foi ele proclamado o maior escritor
holandês.75
Espírito de extrema independência, Multatuli criou os seus gêneros. Em Max Havelaar junta
ao romance o panfleto político; ao mesmo tempo inclui no volume narrativas independentes —
como a patética história de Saidja, o pobre camponês de Java, reduzido à miséria pelos
chefes indígenas e esmagado pelo governo central quando tenta protestar — e até poemas.
Por outro lado, em Ideias se encontram, entre os axiomas do que se poderia chamar uma
filosofia do desespero, estranhos espécimes da parábola e do apólogo,76 duas das mais
antigas formas do conto. Afinal, em Estudos sobre milhões, o inquieto Multatuli, que durante
os anos difíceis de seu exílio na Alemanha se fizera frequentador assíduo das casas de jogo,
dá uma mistura do artigo de jornal, do estudo psicológico, do conto e, até, do sistema de
ganhar na roleta. Caracterizam-se todas essas produções por um forte hálito de poesia e uma
violência quase profética, unidos à constante preocupação dos problemas da coletividade, e
revelam um espírito em luta perpétua contra as injustiças sociais e contra as religiões
estabelecidas e as crenças enraizadas.77

A HISTORIA DO CAVOUQUEIRO JAPONÊS

Era uma vez um homem que extraía pedras da rocha. Seu trabalho era muito pesado e ele
trabalhava muito, mas a diária era pequena e ele não estava satisfeito.
Ele suspirou porque o seu trabalho era pesado, e exclamou:
— Oh, pudesse eu ser rico para descansar num baleh-baleh78 com klambu79 de seda
vermelha!
E do céu veio um anjo e disse:
— Seja feita a tua vontade.
E ele estava rico. E descansava num baleh-baleh, e o klambu era de seda vermelha.
E o rei do país passou por ele num carro, precedido de cavaleiros. E atrás do carro iam
também cavaleiros, e acima da cabeça do rei erguiam o pajong80 dourado.
E, como visse isto, o homem rico sentiu-se contrariado por não haver um pajong de ouro
acima da sua própria cabeça, e não ficou satisfeito.
Suspirou e exclamou:
— Pudesse eu ser um rei!
E do céu veio um anjo e disse:
— Seja feita a tua vontade.
E ele era rei. E diante do seu carro iam muitos cavaleiros, outros havia atrás do carro, e
acima de sua cabeça erguiam o pajong dourado.
E o sol lançou raios ardentes e queimou o solo, de maneira que as pastagens secaram.
E o rei queixou-se de que o sol lhe crestava o rosto e tinha poder sobre ele, e não ficou
satisfeito.
E suspirou e exclamou:
— Pudesse eu ser o sol!
E do céu veio um anjo e disse:
— Seja feita a tua vontade.
E ele era o sol. E lançou os seus raios de alto a baixo, à direita e à esquerda, e por toda
parte em redor.
E queimou as pastagens do solo e o rosto dos príncipes que havia na Terra.
E uma nuvem se interpôs entre ele e a Terra, e os raios do sol recuaram diante dela.
E ele enfadou-se porque houvera resistência ao seu poder, e queixou-se de que a nuvem
lhe levava vantagem. E não ficou satisfeito.
Ele quis ser a nuvem, que era tão poderosa.
E do céu veio um anjo e disse:
— Seja feita a tua vontade.
E ele tornou-se uma nuvem, e colocou-se entre a Terra e o sol, e tapou o sol de forma que
a erva ficou verde.
E a nuvem caiu em grandes gotas sobre o solo e fez os rios encherem-se e as
banjirs81 carregarem os rebanhos.
E ele assolou os campos com muita água.
E caiu em cima de uma rocha, que não cedeu. E derramou-se em grandes ondas, mas a
rocha não cedia.
E ele enfadou-se porque a rocha não queria ceder e a força de suas ondas fora vã. E não
ficou satisfeito.
Exclamou:
— Esta rocha obteve poder sobre mim. Pudesse eu ser esta rocha!
E do céu veio um anjo e disse:
— Seja feita a tua vontade.
E ele tornou-se rocha, e não se mexia quando o sol brilhava nem quando chovia.
E veio um homem, de picareta, cinzel pontiagudo e martelo pesado, que extraía pedras da
rocha.
E a rocha disse:
— Será possível que este homem tenha poder sobre mim e do meu seio extraia pedras?
E não ficou satisfeito.
Exclamou:
— Sou mais fraco do que ele... Pudesse eu ser este homem!
E do céu veio um anjo e disse:
— Seja feita a tua vontade.
E ele era um cavouqueiro. E extraía pedras da rocha com duro esforço, e trabalhava muito
por uma diária pequena, e estava satisfeito...

PROVIDÊNCIA

No alto de uma torre encontrava-se uma mãe com o filho. A criança caiu-lhe dos braços.
No mesmo instante, caiu outro objeto qualquer. Tinha o mesmo volume da criança. O
mesmo peso da criança. A atração da terra, a resistência do ar... tudo quanto influía no objeto
e na criança era igual.
Mas a criança vivia, e tinha mãe, que arrancava os cabelos de tão desesperada.
O outro objeto não interessava a ninguém.
— Deus, ó Deus, meu filho, meu filhinho querido! — gritou a mãe. — Ó Deus, protege o
meu filho!
Ninguém rezava pelo outro objeto.
E os dois corpos se precipitavam lado a lado, com velocidade igual.
E a Natureza — isto aconteceu antes de Newton;82 ela, porém, sabia exatamente como
mandar cair —, a Natureza seguia o seu caminho. Calculou com toda a calma os quadrados...
providenciou mais resistência embaixo, onde o ar é menos rarefeito... deduziu o excedente da
velocidade...
A mãe gritou mais uma vez:
— Ó Deus, ó meu filho!
A criança atingiu o solo, despedaçou-se. A mãe, que rezara em vão, morreu. O pai do
pequeno enlouqueceu...
Mas o saco de cortiça, ou o presunto, ou fosse o que fosse, que caiu da torre
simultaneamente com a criança, continuou um saco de cortiça ou um presunto, tal e qual, como
se nada houvesse acontecido.
E, no entanto, não se tinha rezado por essa cortiça.
Será “bom” assim? Sem dúvida alguma! A menor divergência, o menor desvio causaria
desgraça bem maior que a morte de uma criança.
Não conto esta história para censurar a Natureza, mas para fazer saltar aos olhos que não
adianta rezar; o que se deve é segurar bem o filho quando se está no alto de uma torre.
De fato, se agirmos assim — pois a Natureza cuida disso também —, a criança não cairá.
Nisto ela é tão digna de confiança como na aplicação das leis de Newton, quer dizer, de suas
próprias leis, de que Newton descobriu uma pequena parte depois que elas desde tempos
imemoriais tinham funcionado com perfeição.

COMEÇOU ASSIM

Sempre houve mais ovelhas do que lobos. O motivo é simples: cada lobo necessita de muitas
ovelhas para poder levar uma vida conforme a sua posição social.
Eis por que também na Europa sempre houve mais homens do povo que cavaleiros.
Quero contar uma história sobre um desses cavaleiros.
Tinha ele uma espada comprida, e mordia-a quando estava com fome, como agora os
escritores mordem a caneta.
Esfomeado, rangendo os dentes, ficava sentado à margem da estrada, a queixar-se da
depravação dos costumes.
Estes, contudo, ainda não estavam tão depravados assim, pois — vejam só! — apareceu
um ancião com uma trouxa.
— Que estás carregando?
— Ameixas, passas e velas de sebo, nobre senhor.
O cavaleiro matou o ancião, deu às passas destino igual ao das ameixas, e, quanto às
velas de sebo, pesou-as, pois ouvira de um deputado que eram esses os princípios da
economia nacional.
E voltou a morder a espada, a ranger os dentes e a queixar-se dos costumes. Sem razão,
porém, pois ali tinham chegado ameixas, passas e velas de sebo. Havia também, perto dele,
algumas pessoas, que dessa vez o cavaleiro não chacinou de todo, pois calculara ser melhor
reduzi-las a seu serviço. Espancou-as, pois, apenas o necessário para penetrá-las do
sentimento da gratidão por não haverem sido chacinadas de todo e forçá-las a auxiliá-lo a
construir uma casa de paredes espessas e torres altas.
Acabado o quê, sentou-se na soleira da porta, mordeu a espada, rangeu os dentes e
entrou a queixar-se, como dantes.
Mas dessa vez tinha razão de queixa. As pessoas que vendiam ameixas, passas e velas de
sebo viam de longe a sua casa e escolhiam outro caminho. Não que houvessem posto em
dúvida o direito que tinha o cavaleiro de forçá-las a servi-lo e de tirar-lhes as mercadorias; mas
preferiam não experimentá-lo.
Encontraram um atalho onde outro cavaleiro lhes tirava apenas metade das suas
mercadorias e as deixava passar além sem lhes fazer outro mal, primeiro porque já tinha
bastante gente, e segundo porque compreendera que uma pessoa chacinada não tornaria a
passar pelo caminho trazendo ameixas, passas e velas de sebo. Aliás — pensava ele (e nisto
consistia o princípio fundamental do sistema econômico desse outro cavaleiro) —, “não se
devia impedir o comércio”.
Parece, porém, que o primeiro cavaleiro, que entretanto continuara a morder a espada, a
ranger os dentes e a queixar-se da depravação dos costumes, por sua vez arrancou da
espada outro princípio fundamental. Limitou-se a mandar um dos seus adeptos percorrer a
estrada até o trecho onde os mercadores enfiavam pelo atalho, falar com eles polidamente e
garantir-lhes tratamento condigno. Deixar-lhes-ia a vida e uma passa a mais do que deixava o
outro cavaleiro. Além disso, as velas de sebo seriam pesadas, o que era da maior importância
para as ciências econômicas. Por fim, o cavaleiro mandou prometer que daria às ameixas
destino igual ao das passas, a fim de “não impedir o comércio”.
O procedimento desse cavaleiro era realmente modelar. Podia matar os mercadores, e
limitava-se a espancá-los. Tinha o poder de taxar as velas, e contentava-se de pesá-las. Era-
lhe facultado despachar passas e ameixas separadamente, e despachava-as juntas.
O homem morreu. Sua espada está enferrujada, sua casa em ruínas. Mas o seu fantasma
ainda aparece na Haia...
CHARLES BAUDELAIRE

Charles Baudelaire (1821-1867) perdeu o pai aos seis anos de idade, e a mãe casou-se com
um militar, homem de gênio desabrido, com quem nunca ele se pôde entender bem, e que
decidiu a esposa a separar-se do filho. A separação estendeu-se por mais de 15 anos, e
marcou-lhe fundo a sensibilidade, já de si estranhamente mórbida. Metido num internato,
sentiu-se tomado de tédio crescente, que buscava minorar em contínuas leituras. Como
fossem achados em sua gaveta versos onde falava de uma amante encontrada num canto de
rua, o padrasto, aceso em escândalo, delibera-se a evitar que o “monstro” desonre a família,
fazendo-o embarcar, de surpresa, para as Índias. Baudelaire se revolta em meio da viagem, e
retorna a Paris, a cidade natal, onde exige a sua parte da herança paterna e passa a viver a
seu jeito e gosto.
Em 1857 lançou As flores do mal, volume de poesias que anunciava desde muitos anos. O
livro, cuja impressão durou cinco meses, por se preocupar ardentemente o poeta com a
perfeição tipográfica, foi julgado ofensivo à moral pública, envolvendo o autor — tal como
acontecera a Flaubert83 e aos irmãos Goncourts — em um processo judicial ridículo e
estúpido. Processo que lhe fechou, em 1861, as portas da Academia Francesa.
Esse choque, reunido a vários outros e aos tormentos de uma saúde frágil, contribuiu para
lhe agravar a inquietante situação. Duras dificuldades materiais, que o traziam
permanentemente às voltas com inexoráveis credores e oficiais de justiça, obrigam-no, por fim,
a escolher entre o suicídio e o exílio. Optando pelo exílio, parte para Bruxelas, em 1864. De
cinco conferências que ali deveria pronunciar, só chegou a realizar três — sobre Delacroix,
Théophile Gautier e Os paraísos artificiais (um de seus livros). Constituíram redondo
insucesso: literário e financeiro.
Malogrando-se não apenas este, mas outros meios de que esperava a regularização das
suas finanças, viu-se em pouco o poeta sem recursos para pagar o hotel, e até para cortar os
cabelos. Teve de empenhar o relógio, ele, habituado a consultar os ponteiros a cada instante,
enquanto trabalhava. Fazia frio, e faltava lume na lareira. Insônias terríveis. E a doença
minando-o, sem que ele pudesse medicar-se. Contudo, não descansa: corrige provas de um
livro, publica Os destroços, coletânea de versos.
A cidade irrita-o, exaspera-o. Só as igrejas lhe suscitam admiração. Embora, porém, seus
amigos de Paris o concitassem vivamente a regressar, falando-lhe de um grupo de escritores
jovens ansiosos de elegê-lo chefe e oráculo, firma-se Baudelaire no propósito de só retornar à
França “gloriosamente”, e depois de haver cumprido certos deveres, isto é, “livros por terminar
e livros por vender”, o que lhe permitiria em sua terra, por alguns meses, a tranquilidade. Mais
algum tempo de exílio, pois, como penitência.
Em março de 1866, visitava ele, pela segunda vez, em companhia de dois amigos, a igreja
de Saint-Loup, “maravilha sinistra e galante”, “obra-prima das obras-primas jesuíticas”
(palavras suas), quando, no momento em que admirava um pormenor de ornamentação, de
repente cambaleia e cai. Levanta-se. Porém no dia seguinte volta a Bruxelas ardendo em
febre. Dias depois um médico lhe diagnosticava hemiplegia, com afasia e agrafia
consequentes. Piorando, é reconduzido a Paris, onde morreu, “depois de prolongada agonia,
clarividente”.
Além dos livros já citados — o primeiro dos quais o situa como um precursor, obra tão
importante que, no julgamento de Paul Valéry, “nem Verlaine, nem Mallarmé, nem Rimbaud,
teriam sido o que foram sem a leitura que fizeram, na idade decisiva, de As flores do mal” — e
de numerosas traduções de Edgar Allan Poe, 84 devem-se a Baudelaire: Diários íntimos; os
volumes de ensaios de arte e literatura Curiosidades estéticas e A arte romântica (foi um
crítico de arte agudo e de gosto certeiro); e os Pequenos poemas em prosa.
A última dessas obras, póstuma, apareceu em 1869, com o título de Petits Poèmes en
Prose. Muito depois principiou a ser lançada, também, com outro nome: Le Spleen de Paris.
Mais de dez anos levou na elaboração de tais poemas em prosa (“Voltava a eles
incessantemente, sempre desbastando, riscando, emendando”) — gênero de que, na opinião
mais generalizada, são ele e o seu antecessor Aloysius Bertrand os criadores, e que veio a ter
muitos outros cultores ilustres, como, na própria França, Rimbaud, e Oscar Wilde85 na
Inglaterra, e Turguêniev86 na Rússia, e ao qual também se dedicou, em nosso país, Raul
Pompeia, com as suas Canções sem metro.
Entre Baudelaire e os diretores dos jornais em que apareciam esses trabalhos havia
desentendimentos, quer pela demora e irregularidade na publicação, quer pela sua lentidão no
devolver as provas, “sobrecarregadas de custosas correções”, quer pelos cochilos da revisão.
“A omissão ou o deslocamento de uma vírgula produzia-lhe raivas inexprimíveis.” Em
compensação, a crítica soube de pronto ver a alta qualidade dos poemas. O aparecimento
dos vinte primeiros, em 1861, foi saudado por Théodore de Banville como verdadeiro
acontecimento literário. Neles exaltou Sainte-Beuve — tão incompreensivo em relação a As
flores do mal — a viveza do colorido, chamando “joias” a algumas peças, entre elas “O velho
saltimbanco” e “As viúvas”. Nem faltou quem, erradamente, os colocasse acima de As flores
do mal.
Nessas produções mesclam-se o desencanto, o ceticismo, a revolta, a amargura mais
pungente, o mais desenfreado satanismo (ver, p. ex., “O bobo”, “Cada um com sua quimera”,
“As viúvas”, “O velho saltimbanco”, “Os olhos dos pobres”, “A corda’”, “O galante atirador”, “A
senhorita Bisturi”), com um ardente lirismo erótico (“Um hemisfério numa cabeleira”), por vezes
impregnado da mais fluida atmosfera de sonho (“O convite à viagem”), ou com uma ternura
que não exclui, porém, a nota final de áspero desencanto (“A bela Doroteia”). E em quase
todos palpita a originalidade da visão poética, ressalta o poder transfigurador das imagens e
metáforas, o cintilar de uma fantasia inquieta, aqui e ali delirante, que, tomando como ponto de
partida a realidade humana, fina e desenganadamente observada, a deforma e supera numa
como caricatura em que o exagero do real visto e sentido pelo poeta nos fizesse melhor sentir
e ver o real do que o próprio retrato servilmente fiel ao modelo.
Várias destas composições podem incluir-se no gênero conto, e alguns de primeira ordem,
como o escolhido para este volume. Da mesma qualidade são, ainda, entre outros: “A moeda
falsa”, “O jogador generoso”, “A corda”, “Retratos de amantes” e esse particularmente
satânico “A senhorita Bisturi”.87

MORTE HEROICA

Fanciullo era um bufão admirável, e quase um dos amigos do Príncipe. Mas, para os cômicos
de profissão, as coisas sérias têm atrações fatais, e, conquanto possa parecer estranho que
as ideias de pátria e liberdade se apoderem despoticamente do cérebro de um histrião, certo
dia Fanciullo entrou numa conspiração tramada por alguns fidalgos descontentes.
Há em toda parte pessoas de bem para denunciarem ao poder esses indivíduos de humor
atrabiliário que pretendem depor os príncipes e operar, sem consultá-la, a desorganização de
uma sociedade. Os tais senhores foram presos junto com Fanciullo, e destinados à morte
certa.
Sinto-me inclinado a crer que o Príncipe quase se aborreceu por encontrar entre os
rebeldes o seu comediante favorito. O Príncipe não era nem melhor nem pior do que outro
qualquer; mas uma sensibilidade excessiva tornava-o, em muitos casos, mais despótico e mais
cruel que todos os seus iguais. Amante apaixonado das belas-artes, aliás excelente
conhecedor da matéria, era ele positivamente insaciável de volúpias. Indiferente aos homens e
à moral, verdadeiro artista, não conhecia inimigo perigoso a não ser o Tédio, e os
extraordinários esforços que fazia para evitar ou vencer esse tirano do mundo lhe haveriam
sem dúvida granjeado, da parte de um historiador severo, o epíteto de “monstro”, se se
pudesse, nos seus domínios, escrever fosse o que fosse que não tendesse apenas ao prazer,
ou à surpresa, uma das mais delicadas formas do prazer. A grande desgraça desse Príncipe
foi que ele não teve nunca um teatro bastante amplo para o seu gênio. Há jovens Neros que
sufocam em limites demasiado estreitos, e de cujo nome e boa vontade jamais terão
conhecimento os séculos vindouros. A esse, dera-lhe a imprevidente Providência faculdades
maiores que os seus Estados.
De repente correu o boato de que o soberano estava disposto a conceder perdão a todos
os conjurados; e a origem de tal boato foi o anúncio de um grande espetáculo em que Fanciullo
devia representar um dos seus principais, dos seus melhores papéis, e ao qual assistiriam,
segundo se contava, os próprios fidalgos condenados; sinal evidente, acrescentavam os
espíritos superficiais, da generosa índole do Príncipe ofendido.
De homem tão instintiva e voluntariamente excêntrico tudo era lícito esperar, até a virtude,
até a clemência, sobretudo se ele chegara a conceber a esperança de nelas encontrar
prazeres imprevistos. Mas para aqueles que, tal como eu, haviam logrado penetrar mais longe
nas profundezas daquela alma curiosa e doentia, era mil vezes mais provável que o Príncipe
quisesse ajuizar o valor dos talentos cênicos de um homem condenado à morte. Queria
aproveitar a ocasião para fazer uma experiência psicológica de interesse capital, e verificar até
que ponto as faculdades habituais dum artista podiam ser alteradas ou modificadas pela
situação extraordinária em que ele se encontrava; demais, quem sabe se não existia em sua
alma uma intenção mais ou menos contida de clemência? É um ponto que nunca se pôde
esclarecer.
Afinal, chegado o grande dia, aquela pequena corte exibiu todas as suas pompas, e seria
difícil imaginar, sem o ter visto, tudo quanto a classe privilegiada de um Estado modesto, de
limitados recursos, pode ostentar de esplendores para uma autêntica solenidade. Aquela era
duplamente autêntica: pela magia do luxo estadeado e pelo interesse moral e misterioso que
se lhe prendia.
D. Fanciullo excelia particularmente nos papéis mudos ou pouco carregados de palavras,
que não raro são os principais nesses dramas de magia, cujo objetivo é representar
simbolicamente o mistério da vida. Entrou em cena lépido, com absoluto desembaraço, o que
influiu para fortalecer no nobre público a ideia de doçura e de perdão.
Quando se diz de um comediante: — “Eis aí um bom comediante” —, usa-se uma fórmula
da qual se deduz que sob a personagem se deixa adivinhar também o comediante, isto é, a
arte, o esforço, a vontade. Ora, se chegasse um comediante a ser, em relação à personagem
que lhe cumpre encarnar, o que as melhores estátuas da Antiguidade, miraculosamente
animadas, vivas, ambulantes, videntes, seriam em relação à ideia geral e confusa de beleza,
isso constituiria, decerto, um caso singular e inteiramente inesperado. Fanciullo foi, naquela
noite, uma perfeita idealização, que não se poderia deixar de supor viva, possível, real. O
bufão ia e vinha, e ria, e chorava, e contorcia-se, com uma indestrutível auréola a cingir-lhe a
fronte, auréola invisível para todos, mas visível para mim, e na qual se mesclavam, em
desconcertante amálgama, os esplendores da Arte e a glória do Martírio. Não sei por que
graça especial, Fanciullo introduzia o sobrenatural e o divino até nas mais extravagantes
bufonarias. Minha pena treme, e sobem-me aos olhos lágrimas de uma comoção permanente,
enquanto vos procuro descrever aquela inesquecível noite. Fanciullo provava-me, de modo
peremptório, irrefutável, que a embriaguez da Arte é mais apropriada que outra qualquer para
velar os terrores do abismo; que o gênio pode representar a comédia à beira do túmulo com
uma alegria que lhe impede ver o túmulo — perdido, como está, num paraíso que afasta
qualquer ideia de sepultura a destruição.
Todo aquele público, tão embotado e frívolo, de pronto experimentou o domínio onipotente
do artista. Ninguém pensou em morte, em luto, em suplícios. Cada um se entregou,
despreocupado, às copiosas volúpias que oferece a contemplação duma obra-prima de arte
viva. As explosões de alegria e de admiração estremeceram reiteradamente as abóbadas do
edifício com a energia de um trovão ininterrupto. Até o Príncipe, embriagado, juntou seus
aplausos aos de sua corte.
Contudo, a um olhar clarividente essa embriaguez não era sem contraste. Sentia-se ele
vencido no seu poder de déspota? humilhado na sua arte de aterrorizar os corações e
entorpercer os espíritos? frustrado nas suas esperanças e ludibriado nas suas previsões?
Estas conjeturas, não exatamente justificadas, mas não de todo injustificáveis, atravessaram-
me o espírito enquanto eu contemplava o semblante do Príncipe, onde uma nova palidez se
sobrepunha incessantemente à palidez habitual, como a neve se sobrepõe à neve. Seus lábios
cerravam-se cada vez mais, e seus olhos se iluminavam de um fogo íntimo, semelhante ao do
ciúme e do ódio, até quando ele aplaudia às claras os talentos do velho amigo, o estranho
bufão, que com tamanha perícia bufoneava a morte. Em dado instante, vi Sua Alteza inclinar-
se para um pequeno pajem, que lhe ficava atrás, e falar-lhe ao ouvido. A fisionomia maliciosa
do lindo menino iluminou-se de um sorriso; em seguida ele deixou, veloz, o camarote
principesco, como para se desempenhar de missão urgente.
Alguns minutos após, um assobio agudo, prolongado, interrompeu Fanciullo num dos seus
melhores momentos, e dilacerou a um só tempo os ouvidos e os corações. E do ponto da sala
de onde irrompera essa inesperada reprovação um menino se precipitava num corredor com
risos abafados.
Fanciullo, abalado, desperto do seu sonho, primeiro fechou os olhos, reabriu-os depois,
quase no mesmo instante, desmesuradamente dilatados, logo após abriu a boca, como para
um respirar convulsivo, claudicou um pouco para diante, um pouco para trás, e por fim caiu em
cheio, morto, sobre o tablado.
Teria na realidade o assobio, rápido como um gládio, frustrado a ação do carrasco? Teria o
Príncipe adivinhado toda a homicida eficácia de sua astúcia? É lícito pô-lo em dúvida. Terá ele
lamentado o seu querido e inimitável Fanciullo? É doce e legítimo acreditá-lo.
Os fidalgos delinquentes haviam gozado pela última vez o espetáculo da comédia. Na
mesma noite foram riscados da vida.
Desde então, vários truões, justamente apreciados em diferentes países, têm vindo
representar perante a corte de ***; nenhum deles, porém, chegou sequer a lembrar os
maravilhosos talentos de Fanciullo, nem conseguiu alcançar o mesmo favor.
REBELO DA SILVA

As palavras com que, a propósito do prof. Silva Ramos,88 Manuel Bandeira se refere à “Última
corrida de touros em Salvaterra”, de Luís Augusto Rebelo da Silva (1822-1871), em discurso
pronunciado na Academia Brasileira de Letras, em 1953, testemunham o excepcional prestígio
do conto desse mestre, na sua pátria, do romance histórico, gênero em que é “o mais imediato
e mais bem-sucedido continuador de Herculano”, e “cuja mocidade de d. João V conta entre os
grandes êxitos literários do século XIX português”.89
“Ainda hoje” — escreve Bandeira — “recordo com saudade a maravilhosa lição que foi a
leitura que fez da ‘Última corrida real90 de touros em Salvaterra’: não só tenho bem presente na
memória o quadro objetivo da sala de aula, a atitude dos colegas, a figura subitamente
remoçada do mestre, a voz com todas as suas inflexões mais peculiares, como também todas
as imagens interiores evocadas pelo surto eloquente da leitura: o garbo e esplendor da ilustre
Casa de Marialva ficou para sempre dentro de mim como um painel brilhante. Na verdade em
um ponto da minha consciência quedou armado um redondel definitivo para essa última corrida
de touros em Salvaterra, a qual nunca deixou de ser uma das festas preferidas da minha
imaginação. A tal ponto”, — Bandeira acrescenta — “que longe de ser a última, passou a ser a
eterna corrida de touros, eterna e única, pois foi a primeira que vi — porque positivamente a vi!
— e me fez achar insípidas, mesquinhas, bregamente plebeias as verdadeiras touradas a que
assisti depois com os olhos do corpo e não com os da imaginação excitada pelo gosto literário
do mestre.”91
E esse conto, célebre no Brasil, presente em numerosas antologias (inclusive numa de que
é coautor o primeiro dos que assinam esta obra), em Portugal também alcançou, mal
apareceu, “a popularidade que ainda hoje conserva, pela arte com que é representado um
episódio trágico e comovente do reinado de d. José (1750-1777)”.92
Como se acaba de ver, o conto de Rebelo da Silva baseia-se num episódio vivido; é,
fundamentalmente, uma história real, contada com os ornatos da brilhante fantasia do autor,
com a graça e força do estilo, a vivacidade da dialogação, e a intensidade no desencadear e
levar a cabo a tragédia. São lendas as três peças restantes: “A torre de Caim”, “A camisa do
noivado” e “O castelo de Almourol” (incompleta).
Já sabemos o que pensam Antônio José Saraiva e Oscar Lopes a respeito do romance A
mocidade de d. João V. Outros romances rebelianos, menos significativos, são: Rausso por
Homizio (obra dos vinte anos), Ódio velho não cansa, Lágrimas e tesouros. Deixou
incompleta uma História de Portugal nos séculos XVII e XVIII, em cinco volumes.
Amigo e discípulo de Herculano, Rebelo da Silva dedicou-se, como se vê, à história
romanceada e à História propriamente dita. Consagrou-se tanto à vida literária quanto à
política, e numa e na outra alcançou êxito. Grande orador, foi deputado em diversas
legislaturas. Aubrey Bell, lamentando que Rebelo haja escrito demais, acha que seu trabalho
foi melhorando com o tempo, e o autor chegaria a realizar alguma obra-prima se não houvesse
morrido ainda cedo. Pode-se dizer, porém, que uma obra-prima pequena, mas obra-prima a
todas as luzes, Rebelo da Silva deixou: “Última corrida de touros em Salvaterra”.93

ÚLTIMA CORRIDA DE TOUROS EM SALVATERRA

O senhor d. José, primeiro do nome, era em Salvaterra um rei em férias. A verdade é que os
maldizentes notavam, em segredo, que Sua Majestade em Lisboa estava sempre ao torno e o
marquês de Pombal no trono. O prolóquio fundava-se na habilidade mecânica do monarca
como torneiro, e no caráter dominador do marquês como ministro.
Vicejavam os campos em plena primavera. A amendoeira cobria-se de flores, os bosques
enfolhavam-se, as veigas vestiam-se e matizavam-se, e a brisa doudejava indiscreta
arregaçando o lenço à donzela que passava, ou roubando um beijo à rosa perfumada. Tudo
eram alegrias e cânticos... os rouxinóis nas moutas, o coração nos amores, e a natureza nos
sorrisos ao sol esplêndido que a dourava.
Uma tourada real chamara a corte a Salvaterra. Os fidalgos respiravam nestas ocasiões
menos oprimidos. Não os assombrava tão de perto a privança do ministro. Os touros eram
bravos, os cavaleiros destros, o anfiteatro pomposo, e o cortejo das damas adorável. O
prazer ria na boca de todos. Por cúmulo de venturas o marquês de Pombal ficara em Lisboa,
retido pelo conflito com o embaixador de Espanha.
Contava-se em segredo nos recantos do palácio o diálogo travado entre o enviado
castelhano e o secretário de Estado português, louvando-o uns em alta voz, para os ecos
daquelas paredes repetirem o elogio, crucificando-o outros sem piedade, para saciarem os
ódios. As devotas e os fidalgos puritanos eram pelo espanhol, e pediam a Deus que os
rebates da guerra próxima despenhassem o plebeu nobilitado. Os magistrados e os homens
de capa e volta94 defendiam o marquês e respondiam com meios sorrisos às fogosas
jaculatórias dos zelosos do trono e do altar. O marquês de Pombal tinha-se negado com
firmeza às concessões exigidas imperiosamente pelo governo castelhano.
— Muito bem, atalhou o embaixador, um exército de sessenta mil homens entrará em
Portugal e fará...
— O quê? perguntara o marquês sorrindo-se com a tremenda luneta assestada e no tom
mais indiferente.
— Fará entender a razão e a justiça de el-rei, meu amo, a Sua Majestade e a Vossa
Excelência! redarguiu meia oitava acima o espanhol, supondo o ministro fulminado.
Sebastião José de Carvalho franziu as sobrancelhas, carregou a viseira, e cravando a vista
e a luneta no diplomata, retorquiu-lhe friamente:
— Sessenta mil homens muita gente é para casa tão pequena, mas, querendo Deus, el-rei,
meu amo e meu senhor, sempre há de achar aonde possa hospedá-la. Mais pequena era
Aljubarrota e lá couberam os que d. João de Castela trouxe. Vossa Excelência pode responder
isto ao seu governo.
E, levantando-se para despedir o embaixador, acrescentou:
— Bem sabe Vossa Excelência que pode tanto cada um em sua casa, que mesmo depois
de morto são precisos quatro homens para o tirarem!
O embaixador saiu jurando por Dios y la Virgen Santísima e o marquês preparou-se para a
guerra. O caso é, como dizia o nosso Zeferino na Sobrinha do marquês,95 que Sebastião José
de Carvalho foi um grande ministro e que fez muito pela nação. Hoje há menos quem responda
assim à letra às ameaças dos estrangeiros. Berra-se muito, dorme-se a sono solto ao som
dos hinos patrióticos, e depois salva o castelo de madrugada e está salva a pátria!
O marquês de Pombal prezava as artes e protegia e animava as classes médias. Esse
pouco, que o reino progrediu, deveu-se a ele. Se a indústria nunca acabou de sair da infância a
culpa quase toda foi dos maus governos que sucederam ao seu, e também do povo que não
quis trabalhar deveras... Mas vamos aos touros reais. Desses é que o ministro não gostava
nada. Queria-os ao arado e não à farpa, e parecia-lhe melhor que os toureadores, sendo
fidalgos, servissem o Estado com a pena ou com a espada, e, sendo mecânicos,96 que
lavrassem, tecessem e ganhassem honradamente a vida, enriquecendo-se a si e à nação.
Mas el-rei d. José, cedendo em tudo ao marquês, quanto aos toiros não admitia reflexões.
Nisto era rei a valer e Bragança legítimo. Os fidalgos sabiam-o e por isso desfrutavam doces
prazeres — a satisfação do gosto nacional, e a contradição da vontade do ministro.
Desatendê-la sem perigo e pela mão do soberano era para eles um deleite e um triunfo.
Nestas funções não vigorava a severidade das últimas pragmáticas. Outro motivo de júbilo.
Quem queria podia arruinar-se em luxuosos vestidos, enfeites e toucados. As bordaduras e os
recamos de oiro, os veludos e sedas de fora, talhados à francesa, resplandeciam constelados
de pérolas e diamantes. Por cima dos ricos trajos e das mais vistosas cores desenrolavam-se
os anéis ondeados das empoadas cabeleiras. As damas ostentavam as graças de seus
donaires e tufados, e emoldurando o belo oval dos rostos nos penteados caprichosos sorriam-
se para os gentis campeadores, e seus olhos cheios de luz e de promessas estimulavam até
os tímidos.
Correram-se as cortinas da tribuna real. Rompem as músicas. Chegou el-rei, e logo depois
entra pelos camarotes o vistoso cortejo, e vê-se ondear um oceano de cabeças e de plumas.
Na praça ressoam brava alegria as trombetas, as charamelas e os timbales. Aparecem os
cavaleiros, fidalgos distintos todos, com o conto das lanças nos estribos e os brasões
bordados no veludo das gualdrapas97 dos cavalos. As plumas dos chapéus debruçam-se em
matizados cocares, e as espadas em bainhas lavradas pendem de soberbos talins. Os
capinhas98 e forcados99 vestem com garbo à castelhana antiga. No semblante de todos brilha o
ardor e o entusiasmo.
O conde dos Arcos, entre os cavaleiros, era quem dava mais na vista. O seu trajo, cortado
à moda da corte de Luís XV, de veludo preto, fazia realçar a elegância do corpo. Na gola da
capa e no corpete sobressaíam as finas rendas da gravata e dos punhos. Nos joelhos as ligas
bordadas deixavam escapar com artifício os tufos de cambraieta alvíssima. O conde não
excedia a estatura ordinária, mas, esbelto e proporcionado, todos os seus movimentos eram
graciosos. As faces eram talvez pálidas demais, porém animadas de grande expressão, e o
fulgor das pupilas negras fuzilava tão vivo e por vezes tão recobrado, que se tornava
irresistível. Filho do marquês de Marialva, e discípulo querido de seu pai, do melhor cavaleiro
de Portugal, e talvez da Europa, a cavalo, a nobreza e a naturalidade do seu porte enlevavam
os olhos. Ele e o corcel, como que ajustados em uma só peça, realizavam a imagem do
centauro antigo.
A bizarria com que percorreu a praça, domando sem esforço o fogoso corcel, arrancou
prolongados e repetidos aplausos. Na terceira volta, obrigando o cavalo quase a ajoelhar-se
diante de um camarote, fez que uma dama escondesse torvada no lenço as rosas vivíssimas
do rosto, que decerto descobririam o melindroso segredo da sua alma, se em momentos
rápidos como o faiscar do relâmpago pudesse alguém adivinhar o que só dois sabiam.
El-rei, quando o mancebo o cumprimentou pela última vez, sorriu-se, e disse voltando-se:
— Por que virá o conde de luto à festa?
Principiou o combate.
Não é propósito nosso descrevermos uma corrida de touros. Todos têm assistido a elas e
sabem de memória o que o espetáculo oferece de notável. Diremos só que a raça dos bois
era apurada, e que os touros se corriam desembolados, à espanhola. Nada diminuía, portanto,
as probabilidades do perigo e a poesia da luta.
Tinham-se picado alguns bois. Abriu-se de novo a porta do curro, e um touro preto investiu
com a praça. Era um verdadeiro boi de circo. Armas compridas e reviradas nas pontas, pernas
delgadas e nervosas, indício de grande ligeireza, e movimentos rápidos e bruscos, sinal de
força prodigiosa. Apenas tocara o centro da praça, estacou como deslumbrado, sacudiu a
fronte e escarvando a terra impaciente, soltou um mugido feroz no meio do silêncio, que
sucedera às palmas e gritos dos espectadores. Dentro em pouco os capinhas, salvando a pulo
as trincheiras, fugiam à velocidade espantosa do animal, e dois ou três cavalos expirantes
denunciavam a sua fúria.
Nenhum dos cavaleiros se atreveu a sair contra ele. Fez-se uma pausa. O touro pisava a
arena ameaçador e parecia desafiar em vão um contendor. De repente viu-se o conde dos
Arcos firme na sela provocar o ímpeto da fera e a hástea flexível do rojão ranger e estalar,
embebendo o ferro no pescoço musculoso do boi. Um rugido tremendo, uma aclamação
imensa do anfiteatro inteiro, e as vozes triunfais das trombetas e charamelas encerraram esta
sorte brilhante. Quando o nobre mancebo passou a galope por baixo do camarote, diante do
qual pouco antes fizera ajoelhar o cavalo, a mão alva e breve de uma dama deixou cair uma
rosa, e o conde, curvando-se com donaire sobre os arções, apanhou a flor do chão sem
afrouxar a carreira, levou-a aos lábios, e meteu-a no peito. Investindo depois com o touro,
tornado imóvel com a raiva concentrada, rodeou-o estreitando em volta dele os círculos até
chegar quase a pôr-lhe a mão na anca.
O mancebo desprezava o perigo e pago até da morte pelos sorrisos, que seus olhos
furtavam de longe, levou o arrojo a arrepiar a testa do touro com a ponta da lança. Precipitou-
se então o animal com fúria cega e irresistível. O cavalo baqueou trespassado e o cavaleiro,
ferido na perna, não pôde levantar-se. Voltando sobre ele o boi enraivecido arremessou-o aos
ares, esperou-lhe a queda nas armas, e não se arredou senão quando, assentando-lhe as
patas sobre o peito, conheceu que o seu inimigo era um cadáver.
Este doloroso lance ocorreu com a velocidade do raio. Estava já consumada a tragédia e
não havia expirado ainda o eco dos últimos aplausos.
De repente um silêncio em que se conglobavam milhares de agonias, emudeceu o circo.
Rei, vassalos e damas, meio corpo fora dos camarotes, fitavam a praça sem respirar e
erguiam logo depois a vista ao céu como para seguir a alma, que para lá voava envolta em
sangue.
Quando o mancebo, dobado no ar, exalava a vida antes de tocar o chão, um gemido agudo,
composto de soluços e choro, caiu sobre o cadáver como uma lágrima de fogo. Uma dama
desmaiada nos braços de outras senhoras soltara aquele grito estridente, derradeiro ai do
coração ao rebentar no peito.
El-rei d. José, com as mãos no rosto, parecia petrificado.
A corte desta vez acompanhava-o sinceramente na sua dor.
Mas o drama ainda não tinha concluído. Quem sabe?! O terror e a piedade iam cortar de
novas mágoas o peito a todos.
O marquês de Marialva assistira a tudo do seu lugar. Revendo-se na gentileza do filho, seus
olhos seguiam-lhe os movimentos brilhando radiosos a cada sorte feliz. Logo que entrou o
touro preto carregou-se de uma nuvem o semblante do ancião. Quando o conde dos Arcos
saiu a farpeá-lo, as feições do pai contraíram-se e a sua vista não se despregou mais da
arriscada luta.
De repente o velho soltou um grito sufocado e cobriu os olhos, apertando depois as mãos
na cabeça. Os seus receios haviam-se realizado. Cavalo e cavaleiro rolavam na arena, e a
esperança pendia de um fio tênue! Cortou-lho rapidamente a morte, e o marquês, perdido o
filho, luz da sua alma e ufania de suas cãs, não proferiu uma palavra, não derramou uma
lágrima; mas os joelhos fugiam-lhe trêmulos, e a elevada estatura inclinou-se vergando ao
peso da mágoa excruciante.
Volveu, porém, em si decorridos momentos. A lívida palidez do rosto tingiu-se de
vermelhidão febril subitamente. Os cabelos desgrenhados e hirtos revolveram-se-lhe na fronte
inundada de suor frio como as sedas da juba de um leão irritado. Nos olhos amortecidos
faiscou instantâneo, mas terrível, o sombrio clarão de uma cólera, em que todas as ânsias
insofridas da vingança se acumulavam.
Em um ímpeto a presença reassumiu as proporções majestosas e erectas como se lhe
corresse nas veias o sangue do mancebo que perdera. Levando por ato instintivo a mão ao
lado, para arrancar da espada, meneou tristemente a cabeça. A sua boa espada, cingira-a ele
próprio ao filho neste dia que se convertera para a sua casa em dia de eterno luto!
Sem querer ouvir nada, desceu os degraus do anfiteatro, seguro e resoluto como se as
neves de setenta anos lhe não branqueassem a cabeça.
— Sua Majestade ordena ao marquês de Marialva que aguarde as suas ordens! disse um
camarista detendo-o pelo braço.
O velho fidalgo estremeceu como se acordasse sobressaltado, e cravou no interlocutor os
olhos desvairados, em que reluzia o fulgor concentrado dum pensamento imutável. Desviando
depois a mão, que o suspendia, baixou mais dois degraus.
— Sua Majestade entende que este dia foi já bastante desgraçado e não quer perder nele
dois vassalos... O marquês desobedece às ordens de el-rei?!...
— El-rei manda nos vivos e eu vou morrer! atalhou o ancião em voz áspera, mas sumida.
Aquele é o corpo de meu filho! e apontava para o cadáver. Está ali! Sua Majestade pode tudo
menos desarmar o braço do pai, menos desonrar os cabelos brancos do criado que o serve há
tantos anos. Deixe-me passar, e diga isto.
D. José vira o marquês levantar-se e percebera a sua resolução. Amava no estribeiro-mor
as virtudes e a lealdade nunca desmentidas. Sabia que da sua boca não ouvira senão a
verdade, e a ideia de o perder assim era-lhe insuportável. Apenas lhe constou que ele não
acedia à sua vontade, fez-se branco, cerrou os dentes convulso, e, debruçado para fora da
tribuna, aguardou em ansioso silêncio o desfecho da catástrofe.
A esse tempo já o marquês pisava a praça, firme e intrépido como os antigos romanos
diante da morte. Dentro do peito o seu coração chorava, mas os olhos áridos queimavam as
lágrimas quando subiam a rebentar por eles. Primeiro do que tudo queria a vingança.
Por impulso instantâneo, todo o ajuntamento se pôs de pé. Os semblantes consternados e
os olhos arrasados de água exprimiam aquela dolorosa contensão100 do espírito, em que um
sentido parece concentrar todos.
Deixai-o ir ao velho fidalgo! A mágoa, que o traspassa, não tem igual. O fogo, que lhe
presta vida e forças, é a desesperação. Deixai-o ir, e de joelhos! Saudai a majestade do
infortúnio!
O pai angustiado ajoelhou junto do corpo do filho e pousou-lhe um ósculo na fronte.
Desabrochou-lhe depois o talim e cingiu-o, levantou-lhe do chão a espada e correu-lhe a vista
pelo fio e pela ponta de dois gumes. Passou depois a capa no braço e cobriu-se. Decorridos
instantes estava no meio da praça e devorava o touro com a vista chamejante, provocando-o
para o combate.
Cortado de comoções tão cruéis, não lhe tremia o braço, e os pés arraigavam-se na arena
como se um poder oculto e superior lhos tivesse ligado repentinamente à terra.
Fez-se no circo um silêncio gélido, tremendo e tão profundo, que poderiam ouvir-se até as
pulsações do coração do marquês se naquela alma de bronze o coração valesse mais do que
a vontade.
O touro arremete contra ele... Uma e muitas vezes o investe cego e irado, mas a destreza
do marquês esquiva sempre a pancada.
Os ilhais da fera arfam de fadiga, a espuma franja-lhe a boca, as pernas vergam e
resvalam, e os olhos amortecem de cansaço. O ancião zomba da sua fúria. Calculando as
distâncias, frustra-lhe todos os golpes sem recuar um passo.
O combate demora-se.
A vida dos espectadores resume-se nos olhos.
Nenhum ousa desviar a vista de cima da praça.
A imensidade da catástrofe imobiliza todos.
De súbito solta el-rei um grito e recolhe-se para dentro da tribuna. O velho aparava a peito
descoberto a marrada do touro, e quase todos ajoelharam para rezarem por alma do último
marquês de Marialva.
A aflitiva pausa apenas durou momentos. Por entre as névoas, de que a pupila trêmula se
embaciava, viu-se o homem crescer para a fera, a espada fuzilar nos ares e logo após sumir-
se até aos copos entre a nuca do animal. Um bramido, que atroou o circo, e o baque do corpo
agigantado na arena, encerraram o extremo ato do funesto drama.
Clamores uníssonos saudaram a vitória. O marquês, que tinha dobrado o joelho, com a
força do golpe levantava-se mais branco do que um cadáver. Sem fazer caso dos que o
rodeavam, tornou a abraçar-se com o corpo do filho, banhando-o de lágrimas e cobrindo-o de
beijos.
O touro ergueu-se, e, cambaleando com a sezão da morte, veio apalpar o sítio aonde
queria expirar. Ajuntou ali os membros e deixou-se cair sem vida ao lado do cavalo do conde
dos Arcos.
Nesse momento os espectadores olhando para a tribuna real estremeceram. El-rei, de pé e
muito pálido, tinha junto de si o marquês de Pombal, coberto de pó e com sinais de ter viajado
depressa.
Sebastião José de Carvalho voltava de propósito as costas à praça falando com o
monarca. Punia assim a barbaridade do circo.
— Temos guerra com a Espanha, senhor. É inevitável. Vossa Majestade não pode
consentir que os touros lhe matem o tempo e os vassalos. Se continuássemos neste
caminho... cedo iria Portugal à vela.
— Foi a última corrida, marquês. A morte do conde dos Arcos acabou os touros reais
enquanto eu reinar.
— Assim o espero da sabedoria de Vossa Majestade. Não há tanta gente nos seus reinos,
que possa dar-se um homem por um touro. El-rei consente que vá em seu nome consolar o
marquês de Marialva?
— Vá! É pai. Sabe o que há de dizer-lhe...
— O mesmo que ele me diria a mim, se Henrique estivesse como está o conde.
El-rei saiu da tribuna, e o marquês de Pombal, entrando na praça em toda a majestade de
sua elevada estatura, levantou nos braços o velho fidalgo, dizendo-lhe com voz meiga e triste:
— Senhor marquês! Os portugueses como Vossa Excelência são para darem exemplos de
grandeza d’alma e não para os receberem. Tinha um filho e Deus levou-lho. Altos juízos seus!
A Espanha declara-nos a guerra, e el-rei, meu amo e meu senhor, precisa do conselho e da
espada de Vossa Excelência.
E travando-lhe da mão, levou-o quase nos braços até o meterem na carruagem.
D. José I cumpriu a palavra dada ao seu ministro. No seu reinado nunca mais se picaram
touros reais em Salvaterra.
BRET HARTE

Francis Bret Harte (1836-1902), nativo de Albany, no Estado de Nova Iorque, de origem judia
por parte do pai, um professor, abandonou a cidade natal aos 16 anos e, atraído pelo ouro,
como tantos outros moços, viajou para a Califórnia. Ali experimentou várias profissões, entre
as quais, naturalmente, a de mineiro. Depois de vários malogros, acabou empregando-se
como tipógrafo no Golden Era, de São Francisco, e foi nesse jornal que publicou seus
primeiros esboços acerca da vida californiana. Em 1868 já é diretor do Overland Monthly,
onde sairão seus contos mais famosos. Cônsul dos Estados Unidos primeiro em Crefeld, na
Alemanha, e depois em Glasgow, na Inglaterra, deixou em 1885 o serviço diplomático,
continuando a morar neste país até à morte, exclusivamente entregue a trabalhos literários.
A repercussão extraordinária alcançada pelos seus contos vem de ter sido ele o primeiro
em retratar a vida heroica e primitiva, livre e licenciosa dos aventureiros que afluíam à
Califórnia, onde não tardou a surgir uma sociedade rica, agitada, viva e extremamente
heterogênea. As criaturas que pinta, com poucos traços vigorosos, são, em geral, seres
primários, instintivos, apaixonados.
Na época, censurou-se ao contista não haver recuado ante a pintura do amoralismo do
ambiente.101 Hoje, no entanto, sentimos que seus heróis — esses aventureiros, galés,
jogadores, valentões — e suas heroínas — prostitutas de baixa espécie —, embora
apresentados com seus vícios e taras, são romanticamente idealizados. Mostram-se todos
capazes, em determinados momentos, não só de ações honestas, mas até de rasgos de
heroísmo e abnegação. Assim, o protagonista do conto “O amigo de Tennessee” perdoa ao
companheiro o haver-lhe seduzido a esposa, e mantém-se fiel a ele até na vergonha e no
crime, em nome da amizade. O mesmo sentimento inspira Hamlin, o jogador profissional que
foge diante da mulher que ia raptar, quando o marido, Brown de Calaveras — que dá o nome
à história —, o escolhe para confidente de suas desilusões.
As qualidades de Harte aparecem quase concentradas no conto seguinte, um dos mais
famosos, e que nos revela um romântico de métodos realistas, dotado de grande capacidade
de observação e dum humor bem pessoal, e interessado no espetáculo do nascimento de um
mundo novo, que descreve com ativa simpatia, em narrativas construídas com muita arte.
Harte escreveu também romances e poesias, mas foi nos seus contos que logrou reviver
com maior força a atmosfera do faroeste, tão procurada pelo leitor europeu depois dos
romances de Fenimore Cooper.102

A SORTE DO ACAMPAMENTO UIVANTE

Houve grande alvoroço no Acampamento Uivante. Não pode ter sido um combate, pois isto em
1850 não era coisa bastante extraordinária para fazer acorrer toda a colônia. Não só as
escavações e as concessões foram abandonadas, mas até a mercearia de Tuttle despejou os
seus jogadores, os quais, convém lembrar, continuaram calmamente o jogo no dia em que
French Pete e Kanata Joe se entremataram a tiros na sala de frente, acima do bar. Toda a
colônia estava reunida diante de uma cabana tosca à margem exterior do terreno desbravado.
Nas conversações, em tom baixo, o nome de uma mulher voltava com frequência; nome
bastante familiar no campo, o de “Cherokee Sal”.
Dizer dela o menos possível talvez seja o melhor. Era uma mulher ordinária e, como é de
imaginar, muito pecaminosa. Nesse momento, porém, era a única mulher do Acampamento
Uivante, e encontrava-se num doloroso transe, em que justamente mais precisava da
assistência do seu próprio sexo. Dissoluta, abandonada e incorrigível, estava sofrendo agora
um martírio já bem difícil de suportar, mesmo para a mulher que se acha rodeada de outras,
compreensivas, e terrível para ela na sua solitude. A maldição original caiu sobre ela nesse
isolamento primitivo que deve haver tornado tão medonho o castigo da primeira transgressão.
Talvez fizesse parte da expiação de seus pecados o encontrar, no momento em que mais
precisaria da ternura e dos cuidados intuitivos de seu sexo, apenas as caras meio
desdenhosas dos companheiros masculinos. Contudo, alguns dos espectadores pareciam
tocados pelos sofrimentos da mulher. Sandy Tipton opinava que “aquilo não era sopa”, e na
contemplação das condições de Sal chegou a esquecer, um instante, que tinha no seu jogo,
precisamente, um ás e dois valetes.
Deve-se ponderar, também, que a situação era nova. Mortes não eram absolutamente
raras no Acampamento Uivante, mas um nascimento era coisa inédita. Várias pessoas já
tinham sido despedidas do acampamento de maneira terminante e definitiva, sem possibilidade
de voltar; mas ser alguém introduzido ali ab initio,103 isso era a primeira vez que sucedia. Daí a
excitação.
Um cidadão preeminente, conhecido pela alcunha de “Kentuck”, dirigiu-se a um dos homens
que ali estavam a devanear:
— Olá, Stumpy! Entre e veja o que pode fazer. Você tem experiência dessas coisas.
Talvez a escolha fosse, de fato, acertada. Em outras regiões, Stumpy fora a cabeça
putativa de duas famílias; era, até, à falta de cumprimento de certas exigências legais
naqueles lugares que o Acampamento Uivante — uma cidade-asilo — devia a sua presença. A
multidão aprovou a escolha, e Stumpy, prudente, inclinou-se ante a maioria. A porta fechou-se
sobre o improvisado cirurgião e parteiro, e o Acampamento Uivante sentou-se à porta,
fumando cachimbo e aguardando o acontecimento.
Na reunião havia uns cem homens. Um ou dois deles estavam fugindo da justiça, alguns
eram criminosos, e todos temerários. Fisicamente, porém, não apresentavam nenhum indício
de sua vida anterior e de seu caráter. O maior velhaco dentre eles tinha um rosto rafaelesco,
com louros cabelos abundantes; Oakhurts, um jogador, tinha o ar melancólico e
intelectualmente abstrato de Hamlet; o mais frio e mais corajoso, mal chegava a cinco pés de
altura, tinha uma voz suave e maneiras tímidas e embaraçadas. O termo “grosseiro”, aplicado
a eles, era antes uma distinção que uma definição. Talvez quanto a pormenores sem
importância, como dedos, orelhas e olhos, o Acampamento apresentasse certa deficiência;
porém essas leves falhas em nada prejudicavam a força do conjunto. O mais forte dos homens
tinha apenas três dedos na mão direita; ao melhor atirador faltava um olho.
Tal era o aspecto físico dos homens espalhados à volta da cabana. Estava o Acampamento
situado num vale triangular entre duas colinas e um rio. A única saída era uma picada íngreme
no cume de um morro em frente à cabana, e que nesse instante se achava iluminada pela lua
que ia subindo. A mulher sofredora podia vê-la da tosca tarimba onde jazia, vê-la serpeando
como um fio de prata até se perder lá em cima, entre as estrelas.
Um fogo de galhos secos de pinho aumentava a sociabilidade dos presentes. Aos poucos ia
voltando a leveza natural do Acampamento Uivante. Propuseram-se e aceitaram-se apostas no
tocante ao resultado. Apostavam-se três contra cinco que “Sal toparia a parada”, e até que a
criança sobreviveria; houve apostas acessórias quanto ao sexo e à compleição do esperado
forasteiro. No auge da acalorada disputa ressoou uma exclamação entre os que estavam mais
perto da porta, e todo o Acampamento apurou o ouvido. Entre o balouçar e o gemido dos
pinheiros, o sussurro do rio e a crepitação do fogo, ergueu-se, agudo e queixoso, um grito, um
grito como nunca antes se ouvira no Acampamento. Os pinheiros cessaram de gemer, o rio de
sussurrar e o fogo de crepitar. Tinha-se a impressão de que a própria Natureza havia parado e
ficado à escuta.
O Acampamento levantou-se como um só homem. Alguém propôs que se fizesse explodir
um barril de pólvora, mas em consideração ao estado da mãe prevaleceram conselhos mais
prudentes e apenas foram descarregados alguns revólveres. Com efeito, talvez em razão da
cirurgia primitiva do Acampamento, ou por outro motivo qualquer, Cherokee Sal piorava
rapidamente. Não se passou uma hora, e já ela palmilhava o íngreme caminho que conduzia às
estrelas, deixando para sempre o Acampamento Uivante com seus crimes e suas vergonhas.
Não creio que esta notícia desse aos presentes grande preocupação, além das conjeturas
sobre o destino da criança.
— Será que ele vai viver? — perguntaram a Stumpy.
A resposta era ambígua. O único outro ser vivo do sexo e da condição maternal de
Cherokee que se encontrava na colônia era uma burra. Houve certa dúvida quanto à
conveniência da medida; de qualquer maneira, a experiência foi tentada. Era menos
problemático do que o antigo sistema de Rômulo e Remo, e, aparentemente, não menos
eficaz.
Completados esses pormenores, que exigiram mais uma hora, abriu-se a porta, e o magote
ansioso de homens, que já se transformara numa fila, começou a desfilar um por um. Ao lado
da baixa tarimba ou prancha em que os contornos da mãe se desenhavam fortemente sob os
cobertores, havia uma mesa de pinho. Via-se nesta uma caixa de velas, onde jazia, enfaixado
em flanelas de um vermelho vivo, o recém-chegado do Acampamento Uivante. Ao pé da caixa
de velas tinham colocado um chapéu, cuja utilidade foi logo explicada:
— Os senhores — disse Stumpy com uma curiosa mistura de autoridade e de
complacência ex officio104 — tenham a bondade de entrar pela porta da frente, dar a volta à
mesa e sair pela porta de trás. Os cavalheiros que quiserem contribuir com alguma coisa para
o órfão têm aqui este chapéu à disposição.
O primeiro homem entrou com o chapéu na cabeça; mas, ao olhar em torno de si,
descobriu-se, dando assim, inconscientemente, um exemplo aos outros. Em tais comunidades
as boas ações, como as ruins, são contagiosas. À medida que a procissão avançava, ouviam-
se comentários, ou antes, algumas críticas dirigidas a Stumpy na sua qualidade de
empresário:
— Então é ele?
— Xi! Que pedacinho de gente!
— Ainda nem tem cor, o bicho.
— Não é maior do que uma pistola.
As contribuições não eram menos características: uma caixa de rapé, de prata; um dobrão;
um revólver de marinheiro, de cabo prateado; uma amostra de ouro; um belíssimo lenço de
mulher, bordado (presente de Oakhurst, o jogador); um broche de peito com brilhantes; um
anel de brilhantes (sugerido pelo broche e com esta observação do doador: “Vi o broche, e
passo à frente dele com dois diamantes mais.”);105 uma funda; uma bíblia (doador não
identificado); uma espora de ouro; uma colher de chá, de prata (cujas iniciais, infelizmente, não
concordavam com as do doador); uma tesoura de cirurgião; uma lanceta; uma nota de cinco
libras do Banco da Inglaterra; e mais de duzentos dólares em moedas miúdas de ouro e prata.
Durante essas operações Stumpy mantinha silêncio tão impassível quanto a morta à sua
esquerda, e uma gravidade tão imperscrutável como o recém-nascido à sua direita. Um único
incidente rompeu a monotonia da curiosa cerimônia. Quando Kentuck se inclinava, com certa
curiosidade, sobre a caixa de velas, a criança virou-se e, num espasmo de dor, pegou o dedo
que a apalpava, segurando-o por um momento. Kentuck olhou-a tonto e embaraçado, e algo
parecido com o que se chama rubor apareceu-lhe nas faces batidas pelas tempestades.
— Pestinha danada! — exclamou desvencilhando o dedo com mais ternura e cuidado,
talvez, do que seria lícito esperar dele.
Ao sair da cabana, mantinha o dedo separado dos outros, e examinou-o com espanto. Este
exame provocou a mesma original observação a respeito do pequeno. Kentuck parecia repeti-
la com prazer.
— Ele buliu com o meu dedo — disse a Tipton, de dedo em riste. — Pestinha danada!
Eram quatro horas quando o Acampamento conseguiu dormir. Ficou acesa uma luz na
cabana onde se mantinham os vigias, pois nessa noite Stumpy não se deitou. Nem Kentuck,
aliás. Este fez abundantes libações e relatou com viva satisfação a sua experiência,
terminando invariavelmente por aquela característica xingação ao recém-chegado. Pensava
que essas palavras o punham a salvo de qualquer imputação injusta de sentimentalismo, pois
tinha as fraquezas do sexo mais nobre. Quando todos os outros foram dormir, desceu até o rio
e entrou a assoviar, meditativo. Em seguida, deu um passeio ao longo do vale até além da
cabana, assoviando sempre, numa demonstração de indiferença. Chegando a uma grande
sequoia, parou e tornou atrás, ultrapassando a cabana pela segunda vez. Andado meio
caminho em direção à margem do rio, parou de novo, voltou e bateu à porta da cabana. Quem
abriu foi Stumpy.
— Como vão as coisas por aí? — perguntou, olhando, por trás de Stumpy, para a caixa de
velas.
— Tudo bem — respondeu Stumpy.
— Nada de novo?
— Nada.
Houve uma pausa — uma pausa embaraçosa —, enquanto Stumpy continuava segurando a
porta. Então Kentuck recorreu ao seu dedo, armando-o em riste contra Stumpy:
— Buliu com ele, — pestinha danada!
E retirou-se.
No dia seguinte Cherokee Sal teve a rude sepultura que o Acampamento Uivante podia dar.
Confiado o seu corpo à encosta da colina, houve uma reunião solene do Acampamento para
discutir o que se devia fazer da criança. A resolução de adotá-la foi unânime e entusiástica.
Imediatamente, porém, se levantou acalorada disputa acerca da maneira e da possibilidade de
satisfazer as exigências que tal decisão envolvia. Era de notar que na discussão não apareceu
nenhuma das alusões injuriosas que, segundo a praxe, acompanhavam os debates do
Acampamento Uivante. Tipton sugeriu que mandassem a criança para Cão Vermelho,
localidade situada a umas quarenta milhas, onde se podiam obter cuidados femininos. Mas a
infeliz proposta encontrou oposição feroz e unânime. Era evidente que nenhum projeto que
implicasse a partida daquela nova aquisição seria tomado em conta.
— Aliás — disse Tom Ryder —, esses camaradas de Cão Vermelho são capazes de trocar
o pequeno e nos impingir outro depois.
A descrença na honestidade dos outros acampamentos dominava no Acampamento Uivante
como em qualquer outra colônia.
A introdução de uma ama fêmea encontrou também objeções. Alguém lembrou que
nenhuma mulher decente podia ser levada a aceitar o Acampamento Uivante para seu lar, e o
orador insistiu em que “da outra laia eles não queriam nenhuma”. Essa alusão pouco amistosa
à falecida mãe, por áspera que pareça, era o primeiro vislumbre da decência, o primeiro
sintoma da regeneração do Acampamento. Stumpy não falou. Talvez experimentasse certo
escrúpulo em interferir na escolha de um possível sucessor no seu ofício. Ao ser interrogado,
afirmou, no entanto, sem hesitação, que ele e Jinny — a mamífera já lembrada — se
encarregariam de criar o menino. Houve algo original, independente e heroico nesse plano, que
agradou ao Acampamento. Stumpy veio a ser contratado, e mandaram um mensageiro a
Sacramento buscar certos artigos.
— Olha — disse o tesoureiro entregando-lhe um saco de ouro em pó —, compra o que há
de melhor: fitas, já sabes, e filigranas e folhos. Ao Diabo a despesa!
Por estranho que seja, a criança medrou. Talvez o clima saudável do montanhoso
acampamento a compensasse de outras deficiências. O órfão viu-se acolhido em seu largo
seio. Naquela atmosfera rara das colinas da Sierra — aquele ar penetrante e balsâmico,
aquele etéreo cordial, tônico e hilariante ao mesmo tempo — terá ele encontrado o alimento de
que precisava, ou uma química sutil que transformava o leite da burra em cal e fósforo.
Stumpy inclinava-se a atribuir o resultado a este último, e mais à criação cuidadosa.
— Eu e a burra — costumava dizer — éramos pai e mãe para ele. Você — acrescentava,
dirigindo-se à trouxa impotente diante dele — nunca deverá fazer pouco de nós.
Quando o menino tinha um mês de idade, viu-se que era preciso dar-lhe um nome.
Geralmente o designavam como “O garoto”, “O menino de Stumpy”, “O coiote” (por alusão às
suas capacidades vocais), e até, segundo o apelido afetuoso de Kentuck, como “A pestinha
danada”. Todos esses nomes, porém, pareciam vagos e insatisfatórios, e foram aos poucos
omitidos por influência doutro nome. Os jogadores e os aventureiros são em geral
supersticiosos, e um dia Oakhurst declarou que o bebê trouxera “a sorte” para o
Acampamento Uivante. Era verdade que nos últimos tempos o negócio deles prosperava.
Assim, foi aceito o nome de Luck,106 precedido de Tommy por assim parecer mais
conveniente. Nenhuma alusão se fazia à mãe; o pai era desconhecido.
— É melhor — disse o filósofo Oakhurst — deitar de novo as cartas. Deem-lhe o nome de
Luck, e ele estará bem-encaminhado.
Fixaram o dia do batismo. O leitor, que já fez uma ideia da temerária irreverência que
imperava no Acampamento Uivante, poderá imaginar o que devia ser esta cerimônia. O mestre
de cerimônias era um certo Boston, gracejador notório, e a solenidade parecia prometer um
divertimento dos melhores. Aquele engenhoso satírico levou dois dias a preparar uma paródia
do ofício divino com sublinhadas alusões locais. O coro foi treinado convenientemente, e Sandy
Tipton devia servir de padrinho. Quando, porém, depois de a procissão haver chegado ao
pequeno bosque, a criança foi posta num simulacro de altar, Stumpy surgiu perante a multidão
em expectativa.
— Não é que eu goste de estragar uma brincadeira, rapazes — disse o homenzinho,
encarando os outros com firmeza —, mas, cá para mim, este negócio aqui não anda muito
certo. Levar o pirralho na flauta quando ele ainda não entende nada disso é um brinquedo de
mau gosto. E, se vocês pensam arranjar um padrinho para ele, quero ver se tem aqui quem
tenha mais direito a isso do que eu.
A estas palavras de Stumpy sucedeu um silêncio. A bem de todos os humoristas, cumpre
dizer que o primeiro que lhe reconheceu a justiça foi o trocista cuja brincadeira ele acabara de
abafar.
— Bem — acrescentou Stumpy, aproveitando, sem perda de tempo, a sua vantagem —, a
gente veio aqui para um batizado, e vamos resolver logo a coisa. Eu te proclamo Thomas
Luck, de acordo com as leis dos Estados Unidos e do Estado da Califórnia, assim Deus me
ajude.
Foi a primeira vez que no Acampamento se pronunciou o nome da divindade de maneira tão
profana. Talvez a forma do batismo tenha sido mais cômica, ainda, do que a imaginada pelo
trocista; mas — coisa estranha — ninguém o percebeu e ninguém riu. Tommy foi batizado tão
a sério como se o fosse sob um teto cristão, e chorou e foi consolado de modo não menos
ortodoxo.
Assim teve começo a obra da regeneração no Acampamento Uivante. Quase sem se notar,
operou-se na colônia uma transformação. A cabana destinada a Tommy Luck, ou ao Luck,
como era mais comumente chamado, foi a primeira a mostrar sinais de melhoramento.
Mantinham-na limpa e caiada a primor; assoalharam-na e forraram-lhe as paredes de papel. O
berço de pau-rosa, carregado de oitenta milhas de distância por uma mula — na expressão de
Stumpy, “abafava todo o resto da mobília”. Assim, a reabilitação da cabana tornou-se uma
necessidade. Os homens que costumavam ir encher o tempo na casa de Stumpy para “ver
como ia o Luck” pareciam apreciar a mudança. Para se defender, o estabelecimento
concorrente, o botequim de Tuttle, mexeu-se também, e importou um tapete e espelhos.
Destes resultaram hábitos mais severos de limpeza pessoal no Acampamento Uivante.
Impunha Stumpy uma espécie de quarentena aos que aspiravam à honra e privilégio de
segurar o Luck. Era uma cruel mortificação para Kentuck — o qual, no abandono de uma
natureza generosa e com os hábitos da vida de fronteira, entrara a considerar qualquer
vestimenta uma segunda epiderme, semelhante à da cobra, que não devia sair do corpo senão
na época da muda — renunciar ao seu privilégio por motivos de prudência. Tal era, no entanto,
a sutil influência da novidade, que ele terminou aparecendo todas as tardes de camisa limpa e
com o rosto ainda brilhante da ablução. Nenhum preceito de higiene moral e social foi
descurado. Supunha-se que Tommy devia passar a vida inteira em luta contínua pelo repouso;
portanto, não devia ser incomodado por nenhum barulho. Os berros e a gritaria que
granjearam ao Acampamento o seu infeliz nome não mais foram permitidos dentro do alcance
dos ouvidos de Stumpy. Os homens conversavam cochichando ou fumavam com uma
gravidade de índios. A profanidade foi tacitamente banida daquele sagrado recinto, e em todo
o Acampamento cessou o emprego de interjeições populares como “sorte danada!” e “ao
Diabo a sorte!”, por trazerem um novo conteúdo pessoal. A música vocal não foi proibida,
desde que lhe imputassem propriedade calmante, tranquilizadora; e uma canção cantada por
Man-o’-War Tack, marinheiro inglês das colônias australianas de Sua Majestade, chegou a
popularizar-se como acalanto. Era uma lúgubre história dos feitos “da Aretusa, 74”, em tom
menor abafado, terminando por uma queda prolongada no estribilho de cada estrofe: “No bo-o-
ordo da Aretusa”. Belo espetáculo ver Jack a segurar o Luck, embalando-o de um lado para
outro como num movimento de navio e cantarolando sua canção naval. Fosse pelo embalar de
Jack ou pela longura da canção — noventa estrofes, cantadas todas, muito de propósito, de
cabo a rabo —, o acalanto alcançava, em geral, o fim desejado. Nesses instantes os homens
se deitavam sob as árvores, no suave crepúsculo, fumando cachimbo e bebendo ao ritmo da
canção. Tinham uma vaga ideia de que aquilo era a felicidade pastoril.
— Este negócio assim — dizia o londrino Simmons, apoiado em um dos cotovelos,
meditativo — é do outro mundo.
Aquilo lhe recordava Greenwich.
Nos longos dias de verão costumavam carregar o Luck ao vale, de onde se retirava a
provisão de ouro do Acampamento Uivante. Ali, num cobertor estendido sobre ramos de
pinheiro, ele jazia, enquanto os homens trabalhavam nos fossos. Por fim, adornaram-lhe o
caramanchão, como puderam, de flores e galhos cheirosos, e sempre havia alguém para lhe
trazer um ramo de madressilvas, umas azáleas, ou as flores coloridas de Las Mariposas.107 De
repente os homens perceberam que aquelas ninharias que ao longo de tanto tempo haviam
descuidadamente esmagado sob os pés tinham significação e beleza. Uma escama de mica
brilhante, um fragmento de quartzo variegado, um seixo reluzente do leito do riacho, tornaram-
se bonitos a olhos assim esclarecidos e aguçados, e foram invariavelmente guardados para o
Luck. Era digno de admiração ver quantos tesouros se escondiam nas florestas e nas
encostas, tesouros que iam “servir para o Luck”. Cercado de brinquedos como nenhuma outra
criança, exceto as do reino das fadas, é de crer que Tommy estava contente. Parecia gozar
de uma felicidade serena, conquanto na sua expressão houvesse, inalterável, uma gravidade
infantil, nos seus olhos uma luz contemplativa que, de vez em quando, perturbava a Stumpy. O
menino era sempre tratável e manso, e lembram que uma vez, tendo trepado em seu
“curral” — uma sebe de galhos de pinheiro enxadrezados que lhe rodeavam a cama —, caiu do
outro lado, de cabeça, na terra mole, e assim permaneceu, com as sarapintadas perninhas
para o ar, por uns cinco minutos, com firme gravidade, e depois se deixou desvencilhar sem
um murmúrio. Hesito em relatar outras provas de sua sagacidade, pois infelizmente se fundam
no testemunho de amigos parciais. A algumas delas nem falta um matiz de superstição.
— Eu estive agora mesmo perto da sebe — referiu um dia o velho Kentuck num estado de
excitação ofegante —, e o Diabo me leve se ele não estava conversando com um gaio sentado
no seu regaço. Ali estavam os dois, sim senhores, tão à vontade e tão amigos como ninguém,
a tagarelar que nem dois querubins.
Seja como for, estivesse ele trepando aos galhos de pinho ou preguiçosamente deitado de
costas a piscar para as folhas, lá em cima os passarinhos cantavam, os esquilos tagarelavam,
as flores desabrochavam para ele. A natureza era sua ama e sua companheira de brinquedos.
Para ele mandava deslizar entre as folhas os dardos de ouro do sol, fazendo-os cair ao
alcance das suas mãozinhas; mandava brisas errantes visitarem-no com o bálsamo de louro e
de gomas resinosas; mandava as grandes sequoias sonolentas acenarem-lhe com
familiaridade, as abelhas zumbirem, as gralhas grasnarem num acompanhamento acalentador.
Era o verão de ouro do Acampamento Uivante. Bom tempo, e a sorte estava com eles. As
concessões produziam uma renda enorme. O acampamento se mantinha cioso de seus
privilégios e olhava suspeitoso para os forasteiros. Não incentivavam absolutamente a
imigração, e, para aperfeiçoar o isolamento da colônia, os colonos garantiram para si,
mediante preempção,108 segundo as exigências da lei, as terras do outro lado da muralha de
montanhas que cingia o vale. Isto e uma reputação de extrema habilidade no manejo dos
revólveres mantinham inviolada a reserva do Acampamento Uivante. O estafeta, sua única
ligação com o resto do mundo, contava de quando em quando histórias maravilhosas a
respeito dele.
— Lá no Uivante tem uma rua que passa a perna em todas as ruas de Cão Vermelho —
dizia o correio. — Eles plantaram trepadeiras e flores em redor das casas, e lavam-se duas
vezes por dia. Mas eles são bem duros com os forasteiros e veneram um meninozinho índio.
A prosperidade do acampamento trouxe o desejo de novas melhoras. Propôs-se a
construção de um hotel na primavera seguinte e o convite a uma ou duas famílias decentes
para ali residirem, por causa do Luck, a quem uma companhia feminina devia de ser
proveitosa. Tal concessão ao sexo frágil custava a esses homens que lhe consideravam com
ceticismo feroz as virtudes e a utilidade geral — um sacrifício explicável unicamente pela
afeição que Tommy lhes inspirava. Alguns, no entanto, mantinham-se intransigentes. Mas a
resolução não podia ser levada a cabo antes de três meses, e a minoria cedeu humildemente,
na esperança de que algo aconteceria para lhe impedir a realização. Foi o que sucedeu.
O inverno de 1851 será lembrado por muito tempo na região das colinas da Sierra.
Espessas camadas de neve cobriram as sierras, e cada riacho da montanha se transformou
num rio, e cada rio num lago. Todas as gargantas e barrancos se tornaram ruidosas cataratas,
que desciam as encostas arrastando árvores gigantescas e espalhando-lhes os pedaços pela
planície. Cão Vermelho foi inundada duas vezes, e os do Acampamento Uivante tiveram aviso.
— Foi a água que botou ouro nos barrancos — disse Stumpy. — Uma vez já esteve aqui, e
voltará outra vez.
E nessa mesma noite o North Fork de repente transbordou e inundou o vale triangular do
Acampamento Uivante.
Na confusão da água impetuosa, das árvores que estalavam, das vigas crepitantes, em
meio à escuridão que parecia correr com a água e borrar todo o belo vale, pouco se podia
fazer para reunir as partes dispersas do Acampamento. Ao raiar do dia, a cabana de Stumpy,
a mais próxima do rio, tinha ido embora. Mais longe, no barranco, foi encontrado o corpo de
seu pobre dono; mas o orgulho, a esperança, a alegria do Acampamento Uivante, Luck, tinha
desaparecido. Voltavam todos para suas casas de coração triste, quando um grito vindo da
margem do rio os fez olhar para trás.
Era uma canoa de socorro. Disseram que a uma distância de duas milhas abaixo tinham
recolhido um homem e uma criança, exaustos. Alguém os conhecia? Pertenciam ao
Acampamento?
Bastava um olhar para fazê-los reconhecer Kentuck, cruelmente ferido e esmagado no
fundo da canoa, a segurar sempre Luck nos braços. Ao inclinarem-se sobre o estranho par,
viram que a criança estava fria e seu pulso deixara de bater.
— Está morta — disse um deles.
Kentuck abriu os olhos.
— Morta? — repetiu com voz fraca.
— Sim, meu velho, e você também está morrendo.
Um sorriso iluminou os olhos do agonizante.
— Morrendo! — repetiu. — Ele é que está me levando consigo. Diga aos rapazes que
agora o Luck vai ficar comigo.
E o homem forte, agarrando-se à frágil criança como dizem que os afogados se agarram a
uma palha, partiu pelo rio sombrio que corre eterno para o ignoto mar.
CONRAD BUSKEN-HUET

Já vimos como o explosivo aparecimento desse niilista desesperado que foi Multatuli109 agitou
o marasmo da literatura holandesa, profundamente convencional e moralizadora. Menos
violenta, porém não menos intensa, foi a ação exercida pela revista De Blauwe Beiil (“O
carrasco azul”), depois De Gids (“O guia”), nome com que varou o século XIX, penetrando o
século XX. Os colaboradores dessa publicação combativa, agrupados em torno do autodidata
E. J. Potgieter, exigiam e promoviam, ao mesmo tempo, uma renovação cultural. Um deles era
Conrad Busken-Huet (1826-1886), que fez nome sobretudo como crítico fino e acerbo, e levou
a efeito uma revisão radical de todos os valores culturais do passado holandês. Em suas
Fantasias e críticas literárias reuniu ensaios acerca das letras europeias. Foi também
estudioso sagaz da história da civilização nacional, em País de Rembrandt e País de
Rubens.110
Sufocado pelo ambiente anti-intelectual de sua pátria, exilou-se nas Índias Holandesas a foi
morrer em Paris.
Não temos dados a respeito da produção desse autor no campo da ficção. Dele só
conhecemos o conto seguinte, encontrado, ao acaso de nossas leituras, num dos vinte
volumes da coletânea Os mil melhores contos do mundo.111 Acolhemo-lo no Mar de
histórias pelo seu realismo minucioso e comedido, vazado num estilo que evita vigilante toda
ênfase e recorda, pela pureza de seus traços, os inesquecíveis retratos dos pintores
holandeses Johannes Vermeer e Jan Delft.

GITJE

Se alguém nos tivesse perguntado então (falo do nosso tempo de crianças, de jovens) como
era Brigitta van der Pias, teríamos respondido: — “De quem está falando? Não temos a honra
de conhecer tal senhora.” Se a réplica fosse: — “Como! vocês não conhecem Brigitta van der
Pias, a costureira de seus pais há tantos anos?” —, teríamos respondido com a exclamação:
— “Ah, está falando de Gitje, a nossa costureira? Nós a conhecemos até demais! Dê-nos um
pedaço de papel e uma tesoura, e vamos fazer-lhe o retrato dela imediatamente. Mas como
havíamos de adivinhar que Brigitta van der Pias e a nossa Gitje eram a mesma pessoa?”
Podem estar certos de que nunca a ouvimos chamar por outro nome senão o de Gitje. O
futuro patrão ou a futura patroa começam desde crianças a mostrar uma indiferença
aristocrática, certamente de bom-tom, pela sorte e circunstâncias dos criados. Porém filhos de
gente pobre também têm sentimentos aristocráticos. Nós, que éramos filhos de gente
abastada, nunca pensamos, sequer, que Gitje podia ser a abreviação de Brigitta, nem que a
nossa costureira podia permitir-se o luxo de ter um nome de família. No entanto, pode-se dizer
que van der Pias soa bastante modesto e simples.
Três ou quatro vezes por semana vinha Gitje praticar o seu ofício em casa de nossos pais.
Uma de suas ocupações regulares consistia em remendar nossas blusas listradas de azul e
branco, em cujas mangas conseguíamos rasgar buracos tão formidáveis. Outras vezes, ela
engomava lá em cima, no quarto das crianças, cujas janelas davam para o jardim, e onde havia
também uma calandra e uma prensa para roupas. Depois de colocar os ferros sobre o fogo, e
ver se tudo estava em ordem, ela puxava a tábua de engomar da parede em que estava
apoiada, e firmava-a, segundo o costume, como uma ponte, com uma das extremidades
colocada na mesa de cavalete e a outra no espaldar de uma cadeira. Assim, ficando no meio,
tinha Gitje espaço bastante para movimentar os braços e colocar suas coisas no lugar. A
tábua estava enfaixada num cobertor de lã meio chamuscado, e lembrava uma velhinha magra
vestida de um colete de flanela. Nada mais divertido que observar Gitje quando engomava os
vestidos de baile de nossas irmãs. Após umedecer o vestido e enrolá-lo demoradamente, ela o
apanhava e, levantando de um lado a tábua de engomar, largava-o sobre ela. Depois, pegava
do ferro de engomar, da marmita em brasa à sua esquerda, mantinha-o por um instante
juntinho à face para verificar se estava quente como ela o queria, esfregava-o de leve num
pano posto para esse fim à sua direita, e aí começava a verdadeira operação. O vestido de
baile, dantes uma massa flácida, suja, informe, adquiria, a cada passada do ferro, crespidão e
forma. Minhas irmãs não ficavam nada satisfeitas se, indo a um baile, tivessem os seus
vestidos passados por outra pessoa que não Gitje.
Uma vez por mês o cenário do trabalho de Gitje era embaixo, na sala de almoço. Isto
acontecia quando a roupa vinha de volta a casa. Nossa família era muito grande, e tinha muita
roupa para lavar. Tentemos descrever a arrumação de um montão volumoso de roupas. A
ajuda de Gitje era indispensável. Ela descia da esfera menos sagrada do quarto de crianças e
encerrava-se com nossa mãe na sala de almoço, “o santíssimo”. Nada mais fascinante do que
espiar Mamãe e Gitje estirarem os numerosos lençóis e toalhas de mesa. Elas procediam com
extraordinário cuidado; oh!, não apenas com cuidado, mas também com energia e entusiasmo.
Postava-se uma à testa, outra ao pé da grande, comprida mesa. Os lençóis ainda não
estirados jaziam à esquerda, em pilhas que iam diminuindo, enquanto os já estirados, à direita,
noutras pilhas que iam crescendo. No meio jazia a sua vítima do momento, de várias jardas de
comprido e de uma palidez mortal, enquanto elas a beliscavam. Cotovelos apertados aos
flancos, o pé direito à frente, a parte superior do corpo jogada para trás, as duas mulheres,
patroa e serva, iam estirando, estirando tão depressa quanto podiam — imagens da
simplicidade e do cumprimento do dever numa cena de vida caseira holandesa. Para nós
outros, que assistíamos passivamente, mas ainda assim com vivo interesse, a questão das
questões era saber se Gitje ia puxar Mamãe para sobre a mesa ou se esta ia ser mais rápida
e puxaria a outra para perto dela. Ia Mamãe deixar cair o lençol? ou Gitje ia abrir os dedos e
num gesto preventivo, oriundo de um princípio de autodefesa permissível, pregar uma peça a
Mamãe? ou ia, então, o lençol rasgar-se no meio, ficando Mamãe com uma das metades na
mão e Gitje com a outra, caso lamentável em que esta bateria com a cabeça na cornija da
lareira e aquela no revestimento, ficando ambas feridas?
Entretanto as duas ágeis mulheres continuavam firmes a sua tarefa, emulando uma com a
outra em perseverança. A pilha da direita só fazia crescer, e antes da hora do jantar a da
esquerda havia desaparecido.
Com o princípio do outono vinha a conservação de verduras e frutas. Deus do Céu!
Quantas coisas eram trazidas então para dentro de casa com a assistência de Gitje! Nós
outros, crianças, que gostávamos de ajudar um tempinho na calandragem, quando necessário,
costumávamos também, com a supervisão de Gitje, debulhar uma porção de feijões,
especialmente dos pequenos, de tipo francês. Mais tarde, quando já se nos podia confiar uma
faca sem maior perigo, ajudávamos também a debulhar os feijões maiores, que, como sabem,
são de trato bem mais difícil. Ao mesmo tempo víamos Gitje atirar um sem-número de
repolhos brancos em um barril depois de os haver cortado em pedacinhos. Em seguida,
comprimia-os com um pilão de pau e, no fim, cobria-os de algumas pedras pesadas colocadas
numa prancha, quase tão grande como a largura do barril; isto para provocar a fermentação
do conteúdo do barril, em contradição com o provérbio holandês: “O que está no barril não
fermenta.”
O que está no barril não azeda. É o que se diz; e seria feio solapar a esperançosa
confiança no futuro que esse provérbio encarna. Gitje também o repetia cada vez que pensava
em Leendert van Kuyk, o que sucedia de vez em quando. Perguntam por quê? Pois bem, aqui
principia outra história. Ele era, e fora por longos anos, o namorado dela. No tempo de que
falamos, as bodas de prata do noivado dos dois já ficavam bem atrás. — “Incrível!” — vão
exclamar. Se não acreditam, não sou eu que lhes posso dar fé. Podemos-lhe afirmar, contudo,
como fato bem-estabelecido e confirmado, que Brigitta van der Pias fora 27 anos a fio a
namorada de Leendert van Kuyk. E depois? Depois, Leendert van Kuyk morreu de cólera, na
idade de 55 anos.
De profissão era ele fabricante de apetrechos de pesca. Costumávamos comprar varas e
linhas de pescar, anzóis e boias em quantidade na lojinha dele; e às vezes, por mais pobre que
fosse, dava-nos presentes, para agradar a Gitje. Na época, nós realmente não sabíamos que
vida modesta levava ele. Pelo contrário, até o julgávamos abastado. Não tinha ele na lojinha
um invejável estoque de apetrechos de pesca? Só de ver suas varas e redes, suas moscas e
besouros artificiais, não ficávamos de água na boca? Não imaginávamos nada mais precioso
de que as suas caixas de vermes, de estanho pintado, usadas a tiracolo, como as caixas de
cartuchos dos oficiais de cavalaria. Ainda, porém, que suspeitássemos as modestas condições
de Leendert, nem por isso deixaríamos de aceitar-lhe os presentes. As crianças não são
apenas arrogantes, são também gulosas. Já viram como, após a morte de uma irmãzinha ou
de um irmãozinho, elas imediatamente se apoderam dos brinquedos do pequenino morto —
bonecas de cabelo verdadeiro e de olhos móveis, lanternas mágicas, carapetas — e os
dividem, disputando o direito da propriedade? Logo se vê que são adultos em botão: nelas já
existe uma natureza de lobo. A primeira vez que elas têm de repartir uma herança real, é de
ver com quanta cobiça se atiram a ela, a não ser que entrementes hajam aprendido a
comportar-se conforme as exigências da sociedade.
Leendert e Gitje não formavam propriamente um bonito par, mas tampouco eram
repugnantes. Pertenciam à classe de pessoas dignas e agradáveis em cujas feições ninguém
presta atenção depois de haver passado dois dias em companhia delas. A bondade e a
lealdade fundamentais de seu caráter irradiavam-se do rosto de ambos. Nos feriados de
verão, bem cedinho, Leendert vinha-nos buscar para a pesca, e então a sua gentileza não
conhecia limites. Acordava-nos tocando a campainha, e aguardava com paciência, ao portão,
que nos aprontássemos; carregava as nossas barricas, mostrava-nos os lugares onde íamos
ter as melhores chances, dava-nos as suas próprias massas e vermes, e nos presenteava
com a melhor parte do que ele mesmo pescava. Era um pescador e tanto. Não pensem que
um qualquer pode ser pescador. Especialmente pescar de vara exige instinto e prática. As
histórias que ele nos contava de suas façanhas e sua boa sorte — de inumeráveis percas112 de
três libras que ele apanhara uma após outra numa vala; de enguias que tivera de rachar até o
rabo para reaver o seu anzol; de lúcios que nadavam com a vara; de tencas113 feridas que
choram como nenés recém-nascidos; de enormes enguias que ele pelara um dia de manhã e
que lhe morderam o dedo na noite seguinte — essas histórias, nelas todas acreditávamos
como tínhamos acreditado nas Mil e uma noites.114 Duas coisas especialmente aprendêramos
com ele. A primeira, como fixar o novo anzol na linha e cobri-lo com uma lâmina de estanho,
fazendo-o pender retinho, e não o deixar sumir-se do flutuador — condição indispensável que
por si só permite ao pescador saber com certeza se o peixe mordeu a isca, e em que medida.
A segunda lição que devíamos ao fiel namorado de Gitje era esta: quando o peixe realmente
morde a isca e o pescador está pronto a levantar a vara, fazê-lo sempre empurrando, e nunca
puxando. Neste segundo caso, se o peixe miúdo não mordeu bem, vai-se embora com a nossa
isca na boca e deixa-nos, quando muito, um pedaço sangrento da guelra. No primeiro caso,
obrigamos o bichinho a debater-se e nesse meio tempo introduzimos o anzol com força mortal
através da substância córnea dos beiços abertos.
Quanto à aparência de Gitje na sua primavera, quando ia nos 23 anos e jurava fidelidade ao
seu Leendert, poderia este descrevê-la melhor que nós se a grande pescadora morte não o
tivesse levado. Na época de que tratamos, toda a beleza feminina a abandonara. Tinha então
cinquenta anos, muito alta, com aparência fraca e delicada; padecia muito de catarros e
reumatismos, e carregava sempre uma caixa de rapé, de prata, que continha rapé ordinário e
uma fava de cheiro. Agora que estamos mais velhos e inteligentes, não nos parecem ridículas
essas tantas peculiaridades. Ao contrário, parece-nos que temos o direito de fazer da
namorada de Leendert, com seus cinquenta anos e sua fava de cheiro no bolso, a heroína de
uma noveleta. Todavia, enquanto criança, sem jamais haver refletido nos rudimentos de nossa
arte, ríamos do seu noivado tediosamente longo e das suas queixas de solteirona. Porque as
crianças não são apenas arrogantes e gulosas; são também cruéis. Elas gostam de rir das
desgraças que não entendem. Nós, porém, não cometemos essa crueldade — não por
bondade natural, mas porque a verdadeira natureza das relações entre Leendert e a costureira
não nos eram conhecidas até o enterro daquele, e porque nunca tínhamos perguntado a nós
mesmos por que razão aquele homem nos tratava com gentileza tão manifesta.
As primeiras notícias da morte de Leendert e do seu longo noivado com Gitje decerto não
nos fizeram rir, mas tampouco nos deixaram a impressão que o triste acontecimento merecia.
O que mostra que, se nos houvessem avisado antes, nós teríamos, sem dúvida, feito muitas
brincadeiras a respeito de Gitje e do seu amante. Ouvimos de Mamãe a notícia, em resposta
à nossa pergunta sobre o motivo por que, certa manhã, Gitje não viera.
— Por que razão Gitje não veio hoje?
— Leendert morreu, e está sendo queimado neste momento.
JOSÉ ANTONIO CAMPOS

Natural de Guaiaquil, Equador (1805-1884), costumava José Antonio Campos assinar os livros,
e escritos avulsos, com o pseudônimo de Jack the Ripper, que veio a fazê-lo famoso na
América Latina.
Costumista de fino humor, sabe pintar com maliciosa graça e agilidade cenas e tipos
representativos do pitoresco de seu país.
Ainda hoje há escritores equatorianos que o têm por mestre.
“Escreveu” — informa Angel F. Rojas — “um romance intranscendente”, publicado como
folhetim. “Pouco a pouco teve a boa sorte de dar com o veio de que extrairia o melhor de sua
abundante produção: o nosso homem do campo. É, de certo modo, o criador de um gênero
que alcançou incrível popularidade: o conto satírico, ...com um desenlace em forma de
moralidade política.”115
Publicou (entre outros livros) Raios catódicos e fogos-fátuos, O galo encantado e Coisas
da minha terra.
É o primeiro contista hispano-americano que figura em Mar de histórias.
Para a nossa tradução serviu de texto a Antologia de Cuentistas Hispanoamericanos,
selección, prólogo, biografias y notas críticas por José Sanz y Diaz, Madrid, M. Aguilar, editor.

OS TRÊS CORVOS
— Meu general!
— Coronel!
— Sinto-me no dever de comunicar-lhe a ocorrência de coisas muito estranhas no
acampamento.
— Diga, coronel.
— Sabe-se, de maneira positiva, que um dos nossos soldados sentiu ligeira indisposição;
daí a pouco aumentou o seu mal-estar; mais tarde experimentou uma terrível ânsia no
estômago, e acabou vomitando três corvos vivos.
— Vomitou o quê?
— Três corvos, meu general.
— Puxa!
— Não lhe parece, meu general, que é um caso muito estranho?
— Estranho, realmente!
— E que pensa a respeito?
— Coronel, não sei o que pensar! Vou agora mesmo comunicar o fato ao ministério. São
mesmo...
— Três corvos, meu general.
— Há de haver algum equívoco!
— Não, meu general; são três corvos.
— O coronel os viu?
— Não, meu general; mas são três corvos.
— Bem, admito, embora não o possa explicar; quem lhe deu a informação?
— O comandante Epaminondas.
— Mande-o vir aqui imediatamente, enquanto eu transmito a notícia.
— Neste mesmo instante, meu general.
— Comandante Epaminondas!
— Pronto, meu general!
— Que história é essa dos três corvos que um dos nossos soldados doentes vomitou?
— Três corvos?
— Sim, comandante.
— Eu sei de dois, nada mais, meu general; não de três...
— Bem, dois ou três, pouco importa. A questão é averiguar se realmente neste caso
figuram corvos de verdade.
— Lá isso, figuram, meu general.
— Dois corvos?
— Sim, meu general.
— E como foi isso?
— Ora, a coisa mais simples, meu general. O soldado Pantaleão deixou lá no seu povoado
uma noiva que, segundo se diz, é de fechar o comércio. Que olhos, meu general! Parecem
duas estrelas! Que boca! Olhar travesso, sorriso brincalhão, talhe flexível, seios altos e uma
covinha deliciosa em cada face...
— Comandante!
— Pronto, meu general!
— Seja breve e omita todos os pormenores inúteis.
— Às ordens, meu general!
— E os corvos, afinal de contas?
— Bem: o rapaz estava triste com a dolorosa ausência daquela de quem falei, e não queria
provar o rancho, nem provar nada, até que caiu doente do estômago e deu para vomitar,
vomitar... Num desses vômitos — zás! — dois corvos.
— Você teve ocasião de vê-los?
— Não, meu general; estou contando como me contaram.
— E quem lhe deu a notícia?

— O capitão Aristófanes.
— Está bem. Diga-lhe que venha aqui quanto antes.
— Agora mesmo, meu general!
— Capitão Aristófanes!
— Pronto, meu general!
— Quantos corvos vomitou o soldado Pantaleão?
— Um, meu general.
— Acabo de saber que são dois, e antes me haviam dito que foram três.
— Não, meu general, foi apenas um, felizmente; no entanto, salvo a respeitável opinião do
meu chefe, parece-me que basta um para se considerar o caso como um fenômeno inaudito...
— Também penso assim, capitão.
— Um corvo, meu general, nada tem de extraordinário, se o considerarmos do ponto de
vista zoológico. Que é o corvo? Não o confundamos com o corvo europeu, meu general, que é
o corvus corax de Lineu. A espécie que conhecemos aqui pertence à numerosa família das
aves de rapina, diurnas, e eu tenho para mim que se trata do verdadeiro e legítimo
Sarcoramphus, pois apresenta as respectivas carúnculas em torno da base do bico, no que se
diferencia do vultur papa, do catartus e até do próprio californianus. Diferem, todavia, as
abalizadas opiniões dos zoólogos quanto...
— Capitão!
— Pronto, meu general!
— Estamos na aula de história natural?
— Não, meu general.
— Então, vamos à essência do caso. Que diz sobre o corvo que o soldado Pantaleão
vomitou?
— É verdade, meu general.
— Você o viu?
— Ver, eu não vi, meu general, mas soube pelo tenente Pitágoras, que foi testemunha do
fato.
— Está bem. Quero falar sem demora com o tenente Pitágoras.
— Pois não, meu general!

— Tenente Pitágoras!
— Pronto, meu general!
— Que sabe a respeito do corvo?...
— O caso é raro, na verdade, meu general; mas tem sido muito exagerado.
— Como assim?
— Não se trata de um corvo inteiro, mas de parte de um corvo, nada mais. O que o doente
vomitou foi uma asa de corvo, meu general. Eu, como é natural, fiquei muito surpreendido e
apressei-me em comunicar o fato ao capitão Aristófanes; mas parece que ele não ouviu a
palavra asa e acreditou que era um corvo inteiro; por sua vez, levou a notícia ao meu
comandante Epaminondas, que entendeu que eram dois corvos e passou o boato ao coronel
Anaximandro, que supôs que eram três.
— Mas... e essa asa ou o que quer que seja?
— Eu não a vi, meu general; quem a viu foi o sargento Esopo. A ele é que se deve a
notícia.
— Com mil diabos! Mande vir aqui agora mesmo o sargento Esopo!
— Virá neste momento, meu general!

— Sargento Esopo!
— Pronto, meu general.
— Que é que tem o soldado Pantaleão?
— Está doente, meu general.
— Mas que tem ele?
— Está lançando.
— Desde quando?
— Desde esta noite.
— A que hora vomitou a asa do corvo que dizem?
— Não vomitou asa nenhuma, meu general.
— Então, pedaço de asno, como é que você foi dizer que o soldado Pantaleão tinha
vomitado uma asa de corvo?
— Com sua licença, meu general: eu desde pequeno que sei um versinho que diz assim:

Eu tenho uma namorada


De olhos pretos como a noite
E a cabeleira tão preta
Que nem as asas do corvo.

Eu tenho uma namorada...

— Basta, seu idiota!


— Bem, meu general, o que se deu foi o seguinte: quando eu vi que o meu companheiro
estava vomitando uma coisa escura, me lembrei do versinho e disse que ele tinha vomitado
preto que nem a asa do corvo.
— Oh, diacho!
— Foi só isso, meu general, e daí veio o boato.
— Suma-se daqui, seu animal!
E o bravo chefe, batendo com a mão na fronte, disse:
— Esta é boa! Creio que pus, na minha informação, cinco ou seis corvos, como
acontecimento extraordinário de campanha.
GUSTAVO ADOLFO BÉCQUER

Filho de um pintor, irmão de outro, Gustavo Adolfo Bécquer (1836-1870), descendente de uma
família Becker, de Flandres, que se estabeleceu na Espanha em fins do século XVI, viu-se
órfão de pai aos cinco anos e antes dos dez perdeu a mãe. Foi recolhido pela madrinha, de
boa situação financeira, sem filhos nem parentes, que lhe teria deixado bens se a tudo não
houvesse ele renunciado, indo para Madri com 18 anos incompletos, desejoso de glória e de
fortuna. Desenhava admiravelmente; e, conseguindo-lhe um amigo, pela altura de 1857,
modesto cargo público, não tardou a perdê-lo, pois o chefe um dia o encontrou a debuxar
personagens de Shakespeare.
Tinha extraordinário gosto não só pelas letras, mas por todas as belas-artes.
Fugindo à política, buscou viver apenas das suas produções literárias, o que não alcançou.
Teve de entregar-se a outros trabalhos, entre eles traduções de romances insípidos; e chegou
a fazer, anonimamente, para ganhar uma bagatela, pinturas a fresco, em lugar do artista
contratado para essa tarefa.
Parte considerável dos seus escritos foram compostos apressadamente, para jornais, a fim
de atender a necessidades imediatas. Era costume seu desenhar com a pena o que devia
descrever ou o que lhe constituía objeto de inspiração. Até nas suas cartas fazia, com
frequência, desenhos e caricaturas daquilo que via ou narrava.
Morreu muito pobre, e quase desconhecido; toda a sua glória, pode-se dizer, é póstuma.
Como poeta, é famoso e popular pelas suas Rimas. “Não o consideraram grande poeta os
seus contemporâneos” — escreve Azorin. 116 — “Os grandes poetas eram amplificadores,
oratórios, eloquentes, pomposos. Bécquer escrevia pouco; o que escrevia — numa época de
transbordante grandiloquência — parecia coisa frágil, linda, miúda, artificiosa. O poeta há de
ter sentido essa condição de inferioridade em que o punha o julgamento dos meios literários do
seu país. Por que não escrevia grandes, extensos, robustos, vibrantes poemas?... E, contudo,
este poeta triste, desconhecido, ignorado; este poeta ensimesmado, nervoso, sensitivo,
modesto; este poeta que escreve curtas poesias, que se diriam feitas de nada, penetrou mais
fundo no sentimento que os robustos fabricantes de odes e contribuiu mais do que eles para
afinar a sensibilidade. Fazendo-o, Bécquer trabalhou, como o maior poeta, em favor dos ideais
humanos. O ideal humano — a justiça, o progresso — é só uma questão de sensibilidade.”
Deve também a sua fama, em boa parte, às Lendas, em que versa temas tipicamente
românticos. Um deles é a volubilidade da mulher e os perigos decorrentes: dois fidalgos rivais,
indo resolver, em duelo, a quem deverá caber a luva — e a mão — da mulher amada, detêm-
se, impressionados com o repetido apagar-se de uma lamparina que, acesa ao pé de uma
imagem de Cristo, deveria alumiar o cenário da luta; voltando, reconciliados, à residência da
dama, surpreendem, a pular-lhe da janela do quarto, um terceiro cavalheiro (“O cristo da
caveira”). Tal como nesse conto, não faltam, em outras narrativas, fenômenos sobrenaturais:
um rapaz rouba a axorca da Virgem do altar, mas logo, numa espantosa alucinação, sente-se
rodeado de todas as estátuas dos santos da igreja, e enlouquece (“A axorca de ouro”); um
poeta sonhador toma a lua errante entre os cumes pela silhueta de uma mulher, e termina
também endoidecendo (“O luar”). Não raro, por um artifício tão habitual nos românticos,
reproduz Bécquer histórias fantásticas que lhe teriam referido; assim é no conto seguinte, ou
em “A cova da moura”, onde relata o fim trágico de um cavaleiro cristão e da amante
mourisca. Bem românticos, igualmente, os devaneios como “As folhas secas”, em que se faz
intérprete da conversa de duas folhas caídas.117

O MISERERE

Visitando, faz alguns meses, a famosa abadia de Fitero, e dando-me a revolver alguns volumes
da sua abandonada biblioteca, descobri num de seus escaninhos dois ou três cadernos de
música bem antigos, cobertos de poeira e já meio roídos pelos ratos.
Era um Miserere.
Eu não sei música; mas tenho-lhe tanto amor que, mesmo sem a conhecer, tomo às vezes
a partitura de uma ópera e passo horas esquecidas a folheá-la, olhando os grupos de notas
mais ou menos apinhadas, as linhas, os semicírculos, os triângulos e as espécies de etcéteras
a que dão o nome de claves; e tudo isto sem compreender patavina nem tirar o mínimo
proveito.
Fiel à minha mania, repassei os cadernos, e a primeira coisa que me chamou a atenção foi
que, embora na última página se lesse esta palavra latina tão vulgar em todas as obras, finis,
o certo é que o Miserere não estava terminado, pois a música não ia além do décimo
versículo.
Foi isto sem dúvida que me chamou a atenção antes de tudo; mas, apenas me detive, um
pouco, no exame das folhas de música, intrigou-me ainda mais o observar que, em vez dessas
palavras italianas que em todas se põem, como maestoso, allegro, ritardando, piú vivo, a
piacere, havia umas linhas escritas com letra muito miúda e em alemão, algumas das quais
serviam para indicar coisas tão difíceis de fazer como esta: “Rangem... rangem os ossos, e de
suas medulas há de parecer que saem os alaridos; ou esta outra: A corda uiva sem desafinar,
o metal atroa sem ensurdecer; por isso, tudo soa, e nada se confunde, e tudo é a humanidade
que soluça e geme”; ou a mais original de todas, certamente, recomendada ao pé do último
versículo: “As notas são ossos cobertos de carne; lume inextinguível, os céus e sua
harmonia... força!... força e doçura.”
— Sabeis o que é isto? — perguntei a um velhinho que me acompanhava, ao acabar de
traduzir por alto essas linhas, que pareciam escritas por um louco.
Então o velho me contou a lenda que vou referir-vos.

I
Há muitos anos, em certa noite chuvosa e escura, à porta claustral desta abadia chegou um
romeiro, e pediu um pouco de lume para enxugar as vestes, um pedaço de pão para saciar a
fome, e uma pousada qualquer onde esperasse a manhã para com a luz do sol prosseguir seu
caminho.
O irmão a quem se fez esse pedido pôs a sua modesta colação, o seu pobre leito e a sua
lareira acesa à disposição do caminhante, a quem perguntou, depois que ele se refizera do
cansaço, qual o objetivo de sua romagem e o ponto a que se dirigia.
— Sou músico — respondeu o interpelado. — Nasci muito longe daqui, e em minha pátria
gozei, algum tempo, de grande renome. Em moço, fiz da minha arte uma poderosa arma de
sedução e com ela ateei paixões que me arrastaram ao crime. Velho, quero aplicar ao bem as
faculdades que usei para o mal, redimindo-me pela mesma via que me levou à condenação.
Como as enigmáticas palavras do desconhecido não se afigurassem de todo claras ao
irmão leigo, em quem já principiava a despontar a curiosidade, e instigado por esta
continuasse com as perguntas, assim prosseguiu o seu interlocutor:
— Eu chorava no íntimo da alma o delito que havia cometido; mas, ao tentar pedir a Deus
misericórdia, não achava palavras condignas para exprimir o meu arrependimento, quando um
dia, por acaso, meus olhos se fixaram num livro santo. Abri-o, e numa de suas páginas se me
deparou um prodigioso grito de contrição verdadeira, um salmo de Davi, aquele que principia
— Miserere mei, Domine!118 Desde o instante em que li as suas estrofes, o meu único
pensamento foi descobrir uma forma musical tão magnífica, tão sublime, que bastasse para
encerrar o grandioso hino de dor do Rei Profeta. Ainda não a descobri; porém, se alcançar
exprimir o que sinto no meu coração, o que ouço confusamente na minha cabeça, estou certo
de que farei um Miserere tal e tão maravilhoso que outro semelhante não tenham escutado
ouvidos humanos, tal e tão dilacerante que, ouvindo-lhe o primeiro acorde, os arcanjos dirão
comigo, os olhos cheios de lágrimas, e dirigindo-se ao Senhor: — “Misericórdia!” —, e o
Senhor a terá de sua pobre criatura.
Ao chegar a este ponto da sua narração, calou-se o romeiro por um instante; depois,
exalando um suspiro, retomou o fio do discurso. O irmão leigo, alguns empregados da abadia
e dois ou três pastores da granja dos frades, que formavam círculo em torno do monge,
escutavam-no em profundo silêncio.
— Depois — continuou —, depois de percorrer toda a Alemanha, toda a Itália, e a maior
parte deste país clássico para a música religiosa, ainda não ouvi um Miserere em que me
possa inspirar, nem um, nem um sequer, — e ouvi tantos que posso dizer ter ouvido todos.
— Todos? — perguntou então, interrompendo-o, um dos rabadães. — Aposto que não
ouvistes o Miserere da montanha.
— O Miserere da montanha! — exclamou o músico, com ar de estranheza. — Que
Miserere é esse?
— Não disse? — murmurou o camponês.
E logo prosseguiu com misterioso acento:
— Esse Miserere, que só ouvem, por acaso, os que andam, como eu, dia e noite atrás do
gado por entre matagais e penhascos, é uma longa história, uma história muito antiga; mas tão
verdadeira quanto parece incrível.
“Na parte mais fragosa dessas cordilheiras que separam do horizonte o vale, no fundo do
qual se encontra a abadia, houve há muitos anos — que digo? muitos anos! há muitos séculos
— um mosteiro famoso, edificado, provavelmente, por um senhor, à sua custa, com os bens
que deveria legar ao filho, a quem deserdou ao morrer, como castigo de suas maldades.
“Até aí, tudo muito bem; mas aconteceu que este filho, que, como adiante se verá, há de
ter sido levado do Diabo, se não era o Diabo em pessoa, sabedor de que os seus bens se
achavam em poder dos religiosos e o seu castelo se tinha transformado em igreja, reuniu uns
tantos bandoleiros, camaradas seus na vida de perdição a que se entregara ao deixar a casa
dos pais, e uma noite de Quinta-Feira Santa, em que os monges se achavam no coro, no
momento exato em que iam começar ou tinham começado o Miserere, atearam fogo ao
convento, saquearam a igreja, e, matando a torto e a direito, dizem que não deixaram frade
com vida.
“Depois dessa atrocidade, seguiram os bandidos, e com eles o seu instigador, não se sabe
para onde, para as profundas talvez.
“As chamas reduziram o convento a escombros; da igreja ainda restam de pé as ruínas
sobre o côncavo rochedo, donde brota a cascata que, após espedaçar-se de fraga em fraga,
forma o riacho que vem banhar os muros desta abadia.”
— Mas... — interrompeu impaciente o músico — e o Miserere?
— Esperaí — respondeu muito descansadamente o rabadão —, tudo irá por partes.
Dito o quê, assim continuou a sua história:
— A gente dos arredores indignou-se com o crime; de pais a filhos e de filhos a netos foi
narrado com horror nas longas noites de vigília; mas o que mantém mais viva a lembrança dele
é que todos os anos, na noite em que se consumou, se veem brilhar luzes através das janelas
quebradas da igreja; ouve-se uma espécie de música estranha e uns cantos lúgubres e
aterradores trazidos a intervalos nas rajadas do vento.
“São os monges, que, mortos talvez sem se haverem preparado para comparecer no
Tribunal de Deus limpos de toda a culpa, vêm ainda do Purgatório impetrar-Lhe a misericórdia
cantando o Miserere.”
Os circunstantes se entreolharam com mostras de incredulidade; só o romeiro, que parecia
vivamente preocupado com a narração da história, perguntou ansioso ao que a referira:
— E dizeis que esse prodígio ainda se repete?
— Dentro de três horas começará sem falta, porque precisamente esta noite é a de Quinta-
Feira Santa, e acabam de dar as oito no relógio da abadia.
— A que distância fica o mosteiro?
— A menos de légua e meia... Mas, que é isto? Aonde ides com uma noite destas? Deus
vos desamparou! — exclamaram todos ao ver que o romeiro, erguendo-se do seu banco e
tomando o bordão, abandonava a lareira para dirigir-se à porta.
— Aonde vou? Vou ouvir essa maravilhosa música, ouvir o grande, o verdadeiro Miserere, o
Miserere dos que tornam ao mundo depois de mortos e sabem o que é morrer em pecado.
E, isto dizendo, desapareceu da vista do espantado leigo e dos não menos atônitos
pastores.
O vento zunia e fazia ranger as portas, como se mão poderosa lutasse para arrancá-las
dos gonzos; caía a chuva em bátegas, açoitando os vidros das janelas, e de vez em quando a
luz de um relâmpago iluminava por um instante todo o horizonte que delas se desvendava.
Passado o primeiro momento de estupefação, exclamou o leigo:
— Está louco!
— Está louco! — repetiram os pastores.
E espertaram novamente o fogo, e agruparam-se à volta da lareira.

II
Após uma ou duas horas de caminhada, o misterioso personagem a quem na abadia tacharam
de louco, subindo o riacho que lhe indicara o rabadão da história, chegou ao ponto em que se
erguiam negras e imponentes as ruínas do mosteiro.
Cessara a chuva, as nuvens flutuavam em bandos escuros, por entre cujos farrapos às
vezes deslizava um furtivo raio de luz pálida e indecisa; e o vento, ao fustigar as fortes
pilastras e estender-se pelos claustros desertos, dir-se-ia soltar gemidos. Todavia, nada
sobrenatural, nada estranho vinha tocar a imaginação. Àquele que dormira mais de uma noite
sem outro amparo a não ser as ruínas de uma torre abandonada ou um castelo solitário,
àquele que em sua longa peregrinação arrastara centenas de tormentas, todos esses rumores
lhe eram familiares.
As gotas de água que se filtravam por entre as fendas dos arcos partidos e caíam sobre as
lousas com um rumor cadenciado, como o de pêndulo de um relógio; os gritos do corujão, que
grasnava refugiado sob a auréola de pedra de uma imagem, ainda de pé no vão de um muro;
o ruído dos reptis, que, despertos do seu letargo pela tempestade, punham as disformes
cabeças fora dos buracos onde dormiam, ou se arrastavam por entre os saramagos e sarçais
que medravam ao pé do altar, entre as junturas das lápides sepulcrais que formavam o
pavimento da igreja, todos esses estranhos e misteriosos murmúrios do campo, da solidão e
da noite chegavam nítidos aos ouvidos do romeiro, que, sentado na mutilada estátua de uma
sepultura, aguardava ansioso a hora em que deveria realizar-se o prodígio.
O tempo foi passando, passando, e nada se percebeu; aqueles mil confusos rumores
continuavam a soar e a combinar-se de mil maneiras diversas, porém sempre as mesmas.
— “Se ele me enganou!” — pensou o músico.
Naquele instante, porém, ouviu-se um ruído novo, um ruído inexplicável em semelhante
lugar, como o que produz um relógio alguns segundos antes de bater, ruído de rodas que
giram, de cordas que se distendem, de maquinaria que se agita surdamente e se dispõe a
fazer uso de sua misteriosa vitalidade mecânica, e soou uma badalada... duas... três... até
onze.
No desmoronado templo não havia sino nem relógio, nem torre sequer.
Ainda não tinha morrido, enfraquecendo de eco em eco, a última badalada, escutava-se
ainda a tremer no ar a sua vibração, quando os baldaquinos de granito que cobriam as
esculturas, as galerias de mármore dos altares, os silhares das ogivas, os rendilhados
parapeitos do coro, os festões de trevos das cornijas, as negras pilastras das paredes, o
pavimento, as abóbadas, a igreja inteira entrou a iluminar-se espontaneamente, sem que se
visse tocha, círio ou lâmpada que derramasse aquela insólita claridade.
Dir-se-ia um esqueleto de cujos ossos amarelos se desprendesse esse gás fosfórico que
brilha e fumega na escuridão como uma luz azulada, inquieta e medrosa.
Tudo pareceu animar-se, mas com esse movimento galvânico que à morte imprime
contrações que parodiam a vida, movimento instantâneo ainda mais horrível que a inércia do
cadáver que ele agita com a sua ignorada força. As pedras juntaram-se às pedras; a ara,
cujos despedaçados fragmentos se viam, antes, desordenadamente esparsos, levantou-se
intata, como se o artífice acabasse de dar-lhe o seu último golpe de cinzel; e de par com a ara
se levantaram as derribadas capelas, os capitéis partidos e as destroçadas e imensas séries
de arcos, que, entrecruzando-se e entrelaçando-se caprichosamente, formaram com as suas
colunas um labirinto de pórfiro.
Reedificado o templo, começou-se a ouvir um acorde longínquo, que poderia confundir-se
com o zunir do vento, mas era um conjunto de vozes distantes e graves, que parecia sair do
seio da Terra e a pouco e pouco ir-se elevando, fazendo-se cada vez mais perceptível.
O ousado peregrino principiava a ter medo; mas com o seu medo lutava ainda o seu
fanatismo por tudo quanto era anormal e maravilhoso, e, animado por ele, deixou o túmulo
sobre o qual repousava, inclinou-se à beira do abismo, por entre cujas rochas saltava a
torrente, despenhando-se com um troar incessante e espantoso, e os cabelos se lhe
arrepiaram de horror.
Mal envoltos nos farrapos de seus hábitos, enterrados na cabeça os capuzes, entre cujas
dobras contrastavam com as descarnadas mandíbulas e os brancos dentes as escuras
cavidades dos olhos de suas caveiras, viu os esqueletos dos monges, que tinham sido
arrojados do peitoril da igreja àquele precipício, saírem do fundo das águas e, agarrando-se
com os longos dedos das suas mãos de osso às giestas das penhas, subirem por elas até
alcançarem a borda, recitando com voz baixa e sepulcral, mas com dilacerante expressão de
dor, o primeiro versículo do salmo de Davi:

Miserere mei, Domine,


secundum magnam misericordiam tuam!119
Ao chegarem os monges ao peristilo do templo, ordenaram-se em duas filas, e, penetrando
nele, foram ajoelhar-se no coro, onde com voz mais alta e solene continuaram a entoar os
versículos do salmo. A música soava ao compasso de suas vozes; aquela música era o rumor
distante do trovão, que, esvanecido o temporal, se afastava murmurando; era o zunir do vento,
que gemia na concavidade do monte; era o monótono ruído da cascata a cair sobre as rochas,
e a gota de água que se filtrava, e o grito do corujão escondido, e o rastejar dos reptis
inquietos. Tudo isso era a música, e alguma coisa mais, que lembrava o eco de um órgão que
acompanhasse os versículos do grandioso hino de contrição do rei Salmista, com notas e
acordes tão grandiosos como suas palavras terríveis.
Continuou a cerimônia; o músico, absorto e estarrecido, julgava estar fora do mundo real,
viver nessa região fantástica do sonho em que todas as coisas revestem formas estranhas e
fenomenais.
Um abalo tremendo veio tirá-lo daquele estupor que lhe embargava todas as faculdades do
espírito. Seus nervos saltaram ao impulso de emoção fortíssima; bateram-lhe os dentes,
agitando-se com irreprimível tremor; e o frio penetrou até a medula dos ossos.
Naquele instante os monges pronunciavam estas formidáveis palavras do Miserere:

In iniquitatibus conceptus sum;


et in peccatis concepit me mater mea.120

Ao ressoar este versículo e dilatarem-se os ecos retumbando de abóbada em abóbada,


levantou-se um alarido tremendo, que recordava um grito de dor arrancado à humanidade
inteira pela consciência de suas maldades; um grito horroroso, formado de todos os lamentos
do infortúnio, de todos os ululos da desesperação, de todas as blasfêmias da impiedade;
concerto monstruoso, digno intérprete dos que vivem no pecado e foram concebidos na
iniquidade.
O canto prosseguiu, ora tristíssimo e profundo, ora semelhante a um raio de sol que rompe
a nuvem escura de uma tempestade, fazendo suceder a um relâmpago de terror outro
relâmpago de júbilo, até que, por efeito de repentina transformação, a igreja resplandeceu
banhada em luz celeste; as ossadas dos monges vestiram-se de suas carnes; uma luminosa
auréola brilhou em volta de suas frontes; rompeu-se a cúpula; e viu-se através dela o céu,
como um oceano de fogo aberto ao olhar dos justos.
Os serafins, os arcanjos, os anjos e as hierarquias acompanhavam com um hino de glória
este versículo, que subia ao trono do Senhor como uma tromba-d’água harmônica, como
gigantesca espiral de sonoro incenso:

Auditu meo dabis gaudium et laetitiam,


et exultabunt ossa humiliata.121
Nisto, a claridade ofuscante cegou os olhos do romeiro, suas fontes latejaram com
violência, os ouvidos zumbiram, e ele tombou no chão sem sentidos, e nada mais ouviu.

III
No dia seguinte, os pacatos monges da abadia de Fitero, a quem o irmão leigo dera notícia da
estranha visita da noite anterior, viram entrar por suas portas, pálido e como fora de si, o
desconhecido romeiro.
— Ouvistes, afinal, o Miserere? — perguntou o leigo com uma ponta de ironia, lançando a
furto um olhar de inteligência aos superiores.
— Ouvi, sim —, respondeu o músico.
— E qual a vossa impressão?
— Vou escrevê-lo. Dai-me abrigo em vossa casa — prosseguiu dirigindo-se ao abade —,
abrigo e pão por alguns meses, e deixar-vos-ei uma obra de arte imortal, um Miserere que
apague as minhas culpas aos olhos de Deus, eternize a minha memória, e com ela eternize a
desta abadia.
Curiosos, os monges aconselharam o abade a atender ao pedido; o abade, por compaixão,
embora o julgasse um louco, terminou atendendo, e o músico, instalado no mosteiro, pôs mãos
à obra.
Noite e dia trabalhava, num afã incessante. Em meio à tarefa, detinha-se, e parecia escutar
algo que soava em sua imaginação, e dilatavam-se-lhe as pupilas, saltava no assento e
exclamava: — “Isto mesmo! Assim, assim, não há dúvida... assim!” E continuava escrevendo
notas com uma rapidez febril, que mais de uma vez suscitou admiração aos que o observavam
sem ser vistos.
Escreveu os primeiros versículos, e os seguintes, até à metade do salmo; mas, ao chegar
ao último, que ouvira na montanha, foi-lhe impossível prosseguir.
Escreveu um, dois, cem, duzentos rascunhos: tudo inútil. Sua música não se parecia àquela
já anotada, e o sono fugiu-lhe das pálpebras, e a febre se lhe apoderou da cabeça, e
enlouqueceu, e morreu, por fim, sem poder terminar o Miserere, que, como coisa estranha, os
frades guardaram por sua morte, e ainda hoje se conserva no arquivo da abadia.

Quando o velhinho acabou de contar-me esta história, não pude deixar de volver novamente
os olhos para o empoeirado e antigo manuscrito do Miserere, que ainda jazia aberto sobre
uma das mesas.

In peccatis concepit me mater mea.

Eram estas as palavras da página que eu tinha diante dos olhos, e que pareciam
escarnecer-me com as suas notas, suas claves e suas garatujas ininteligíveis para os leigos
em música.
Para haver podido lê-las teria dado um mundo.
Quem sabe se não serão uma loucura?
ALPHONSE DAUDET

Alphonse Daudet (1840-1897), cultor de grande número de gêneros, granjeou no último quartel
do século passado popularidade enorme, retumbante, universal, com alguns romances que
chamaram a atenção do público para suas obras publicadas anteriormente quase sem
repercussão, entre elas muitos contos delicados. Por uma dessas reviravoltas não raras na
história literária, após a morte do escritor esses contos passaram a ser os esteios mais
seguros da sua fama, dando-lhe uma auréola de clássico para adolescentes.
Filho de um fabricante de tecidos e comerciante de sedas, Daudet levou a infância em
Nimes, sua cidade natal. A falência do pai forçou a família a mudar-se para Lião e a passar da
vida folgada e alegre do Languedoc a uma miséria maldisfarçada. Teve Alphonse de
interromper os estudos aos dezesseis anos e empregar-se como inspetor de alunos no colégio
de Alès, ofício ingrato, em que falhou completamente. Desesperado, refugiou-se em Paris
junto a Ernest, seu irmão mais velho, que com ele compartiu a indigência de seu quarto de
estudante e viria a descrever, em Eu e meu irmão, esta fase da vida de ambos.
Lá nasceram os versos do primeiro volume impresso de Daudet, As namoradas. Por sorte
caíram nas mãos da imperatriz Eugênia, que se tornou protetora do jovem poeta. Nomeado
secretário particular do duque de Morny, presidente do Senado, o poeta, jovem, belo,
encantador e livre de preocupações materiais, entrega-se à alegre vida de boêmio,
escrevendo contos, crônicas, artigos leves, espirituosos, admiráveis de graça e
espontaneidade. Mas O pequeno coisa, romance semiautobiográfico onde relata a malograda
experiência de Alès, as Cartas do meu moinho, algumas peças aceitas e representadas no
Odeom, e o romance alegre de Tartarin de Tarascon , tipo engraçado de meridional, farpeado
com malícia e simpatia, — embora apreciados por alguns colegas de ofício, não conseguiram
impô-lo à admiração do público. Com seus amigos Flaubert,122 Zola, Edmond de Concourt e
Turguêniev,123 formava ele, então, na confraria dos autores vaiados, tristes e orgulhosos, a um
tempo, com a pouca repercussão de seus livros.
A guerra franco-prussiana transformou de chofre o amável boêmio. A proximidade da
morte, tantas vezes enfrentada pelo voluntário, e as amargas lições da derrota, levaram-no a
severo julgamento de suas obras já publicadas ou escritas. Querendo pôr fim ao que lhe
parecia a sua fase frívola, penetrado da certeza de seu talento, mas também da sua
responsabilidade, resolve estudar a sociedade e representá-la à maneira de Balzac.124 Após
os Contos da segunda-feira lança uma série de romances ligados pelo subtítulo “Costumes
parisienses”, como Fromont moço e Risler velho, O nababo, Safo, O imortal, que o situam na
primeira fila da nova escola naturalista e lhe trazem de vez inesperado êxito. Ao lado dos
romances parisienses, devem-se-lhe assinalar os livros meridionais: a famosa trilogia de
Tartarin, e Numa Roumestan, outro retrato de um tipo semelhante, este sem exageros nem
intenção cômica.
Feliz no casamento — desposara a escritora Julie Aliais, de quem teve uma filha e dois
filhos, Léon e Lucien Daudet, futuros escritores —, abastado graças aos seus livros, e
independente (após a morte do duque de Morny nunca mais aceitou qualquer emprego),
mimado pelo público, pelos confrades, pela crítica, não pôde o escritor gozar impunemente
tantas venturas por muito tempo. Uma ataxia incurável tornou-lhe incessantemente cruéis os 15
últimos anos de existência. Sabendo-se condenado, Daudet trabalhou todo esse tempo com
extrema coragem; lúcido até o fim, encontrou energias na literatura, e, cada vez mais cercado
pela moléstia, viveu a vida de suas personagens de ficção.
De suas coletâneas de contos a mais conhecida é Cartas do meu moinho, delicioso livro
em que ainda hoje o mundo aprende o francês, e onde se misturam crônicas, reminiscências,
paisagens, retratos, baladas em prosa, fantasias, sem nenhum plano aparente e, no entanto,
formando um conjunto admiravelmente homogêneo em virtude dum estilo fluido, despretensioso
e perfeito. Entre as peças do volume há também contos, alguns dos quais obras-primas, como
“O segredo de mestre Cornille”, “A mula do papa”, “As três missas rezadas”, e sobretudo o
inesquecível “O elixir do padre Gaucher”, que só não reproduzimos por constar de todas as
antologias e estar presente em todas as memórias. A originalidade do livro — que representa
uma ligação entre os félibriges, ressuscitadores da língua provençal, e a literatura francesa —
consiste sobretudo no tom e no estilo: parte dos assuntos o autor tomou emprestados a
cantadores populares e a almanaques da Provença, valendo-se também da colaboração do
seu amigo Paul Arène.125
Além de “Os velhos”, pertencente a esse livro, damos uma amostra da outra coletânea, um
tanto menos conhecida, os Contos da segunda-feira, ulteriores à guerra de 1870, cuja
lembrança está presente em quase todos eles. Aí vemos um Daudet bem mudado.
Repentinamente amadurecido, um pouco envergonhado das cambalhotas da sua fantasia, ei-lo
a registrar com honestidade de testemunha episódios a que assistiu naqueles dias
movimentados. Mas o seu temperamento leva-o para os aspectos pouco percebidos do
drama, o grotesco e o cômico, os conflitos e, ainda mais, as acomodações do trágico e do
quotidiano, buscando evitar o enternecimento barato e a patriotice fácil, sem contudo cair no
excesso de uma secura afetada e distante. Assim nasceram estas páginas tão leves e
discretas, marcadas por uma qualidade inimitável, que muitos em vão procuraram definir.
Talvez convenha chamá-la, com Zola,126 “o próprio dom da vida”.127
OS VELHOS

— Uma carta, tio Azan?


— Sim, senhor... vem de Paris.
Vir de Paris a carta era motivo de orgulho para esse bom tio Azan... Para mim, não.
Alguma coisa me dizia que aquela parisiense da rua Jean-Jacques, caindo sobre a minha mesa
tão de repente e tão cedinho, ia-me fazer perder o dia inteiro. Eu não estava enganado, vejam
bem:

É necessário que me preste um serviço, amigo meu. Você vai fechar o seu moinho por um
dia, e ir sem demora a Eyguières... Eyguières é uma grande aldeia a três ou quatro léguas de
sua casa — um passeio. Ao chegar, você se dirija ao Convento das Órfãs. A primeira casa
depois do convento é uma casa baixa, de persianas cinzentas, com um jardinzinho nos fundos.
Entre sem bater — a porta está sempre aberta —, e, quando entrar, grite a plenos pulmões:
— “Bom dia, minha gente! Eu sou o amigo do Maurício...” Verá, então, dois pequenos velhos,
ah, mas velhos, velhos, arquivelhos, do fundo de suas amplas poltronas estenderem-lhe os
braços, e você os abraçará por mim, de todo o coração, como se eles fossem gente sua.
Depois vocês conversarão; eles lhe falarão de mim, só de mim; contarão mil loucuras, que
você deverá escutar sem rir... Você não ria, hem? São meus avós, duas criaturas para quem
eu sou a própria vida, e que há dez anos não me veem... Dez anos — é muito tempo! Mas,
que quer você! A mim, Paris me prende; a eles, a idade avançada... Tão velhinhos são eles
que, se me viessem ver, se rebentariam no meio do caminho... Felizmente você aí está, meu
caro moleiro,128 e, abraçando-o, os pobres velhos acreditarão estar abraçando-me um pouco a
mim mesmo... Eu tenho falado tantas vezes de nós e da nossa boa amizade que...

Diabos levem a amizade! Precisamente naquela manhã fazia um tempo excelente, porém nada
bom para andar pelas estradas: muito mistral129 e muito sol, um verdadeiro dia de Provença.
Quando a maldita carta chegou, já eu tinha escolhido o meu cagnard130 entre duas rochas, e
sonhava ficar ali o dia todo, como um lagarto, a beber luz, ouvindo cantar os pinheiros... Afinal,
que fazer? Fechei o moinho praguejando, pus a chave debaixo da gateira. Peguei a bengala, o
cachimbo, e pé na estrada.
Seriam duas horas quando cheguei a Eyguières. Estava deserto o lugarejo, toda a gente
nos campos. Nos olmos da alameda, brancos de pó, as cigarras cantavam como em pleno
Crau.131 Bem na praça da subprefeitura, via-se um burro refestelando-se ao sol, um bando de
pombos sobre a fonte da igreja, mas ninguém para indicar-me o orfanato. Por sorte me
apareceu de súbito uma velha fada, acocorada e fiando no canto da sua porta; eu disse-lhe o
que estava procurando, e, como a fada era muito poderosa, só fez levantar a roca: logo o
Convento das Órfãs se ergueu diante de mim, como por magia... Era um casarão mal-
encarado e negro, todo ancho de mostrar acima de sua portada ogival uma velha cruz de
arenito vermelho com um pouco de latim em derredor. Ao lado desta casa vi outra mais
pequena. Persianas cinzentas, o jardim atrás... Reconheci-a de pronto, e entrei sem bater.
Não me sairá dos olhos, enquanto eu viva, aquele longo corredor calmo e fresco, a muralha
pintada de róseo, o jardinzinho que tremia, ao fundo, através dum estore claro, e, em todas as
almofadas das portas, flores e violinos fanados. Parecia-me que eu chegava à residência de
algum bailio132 do tempo de Sedai-ne...133 No fim do corredor, à esquerda, ouvia-se, por uma
porta entreaberta, o tiquetaquear de um grande relógio e uma voz de menina, porém menina
na escola, que lia parando a cada sílaba: EN... TÃO... SAN... T’I... RI... NEU... GRI... TOU...
EU... SOU... O... TRI... GO... DO... SE... NHOR... É... PRE... CI... SO... QUE... EU... SE...
JA... MO... Í... DO... PE... LOS... DEN... TES... DES... TES... A... NI... MAIS... Pé ante pé,
aproximei-me da porta e olhei...
Na calma e na penumbra dum quartinho, um bom velho de bochechas rosadas, coberto de
rugas até à ponta dos dedos, dormia no fundo de uma poltrona, boca aberta, as mãos nos
joelhos. A seus pés, uma menina vestida de azul — grande pelerine e pequena touca, o traje
das órfãs — lia a Vida de santo Irineu134 em um livro maior do que ela. Aquela miraculosa
leitura agira sobre a casa inteira. Dormia o velho na sua poltrona, as moscas no teto, os
canários na gaiola, lá na janela. O grande relógio roncava, tique-taque, tique-taque. Acordada,
no quarto inteiro, só havia uma longa faixa de luz que caía, reta e branca, entre as persianas
fechadas, cheia de centelhas vivas e de valsas microscópicas... Em meio à modorra geral, a
pequena continuava a ler com ar compenetrado: LO... GO... DOIS... LE... ÕES... SE... PRE...
CI... PI... TA... RAM... SO... BRE... E... LE... E... O... DE... VO... RA... RAM... Foi nesse
instante que entrei... Os leões de Santo Irineu precipitando-se no quarto não haveriam
produzido maior espanto do que eu. Verdadeiro lance teatral! A pequena grita, o calhamaço
cai, os canários e as moscas despertam, o relógio soa, o velho se sobressalta,
espantadíssimo, e eu mesmo, um tanto confuso, paro na soleira, berrando:
— Bom dia, minha gente! Eu sou o amigo do Maurício.
Oh! então, era de ver o pobre velho, era de vê-lo vir em direção a mim com os braços
estendidos e abraçar-me, apertar-me as mãos, correr às tontas pelo quarto, a dizer:
— Meu Deus! Meu Deus!...
Todas as rugas de seu rosto riam. Estava rubro. Gaguejava:
— Ah, meu senhor... Ah, meu senhor...
Depois, dirigia-se ao fundo da casa, chamando:
— Mamette!
Uma porta que se abre, um trotar de camundongo no corredor... era Mamette. Nada tão
alegre quanto essa velhinha com o seu laço de fita, o seu vestido à carmelita, e o seu lenço
bordado que ela trazia na mão para me homenagear, à moda antiga... Coisa enternecedora!
Os dois se pareciam. Com uma volta e laços de fita amarelos, ele poderia também chamar-se
Mamette. Só havia uma diferença: a verdadeira devia ter chorado muito durante a vida, e era
ainda mais encarquilhada que a outra. Como a outra, também, tinha ela ao pé de si uma
menina do orfanato, pequenina guarda de pelerine azul, que não a deixava nunca; e é
impossível imaginar coisa mais tocante do que ver aqueles velhos protegidos por aquelas
órfãs.
Ao entrar, Mamette começara fazendo-me uma larga reverência, porém o velho com uma
palavra cortou-lhe a reverência em duas:
— É o amigo do Maurício...
E ei-la que treme, e chora, e perde o lenço, e enrubesce, enrubesce toda, fica ainda mais
rubra do que ele... Oh, aqueles velhos! não têm nas veias mais que uma gota de sangue, e à
menor emoção ela salta-lhes ao rosto...
— Depressa, depressa, uma cadeira! — disse a velha à sua pequena.
— Abra as janelas — grita o velho à sua.
E cada um, pegando-me por uma das mãos, levou-me, a saltitar, até à janela, que
escancararam para melhor me verem. Aproximam as poltronas, aboleto-me entre os dois
numa cadeira dobrável, com as pequenas azuis atrás de nós, e começa o interrogatório:
— Como vai ele? Que é que ele faz? Por que não vem? Será que ele está contente?...
E mais isto! e mais aquilo! Isso durante horas a fio.
Eu, por mim, respondia o melhor que me era possível a todas as perguntas, dando a
respeito do meu amigo todas as particularidades que sabia, inventando cinicamente as que não
sabia, evitando sobretudo confessar que não observara nunca se as suas janelas fechavam
bem ou qual a cor do papel do quarto dele.
— O papel do quarto dele!... É azul, minha senhora, azul-claro, com grinaldas...
— É verdade? — perguntava com enternecimento a pobre velha.
E, voltando-se para o marido:
— É um menino tão bonzinho!
— Oh! sem dúvida, é um menino tão bonzinho! — retomava o outro com entusiasmo.
E, todo o tempo em que eu falava, eram entre eles acenos de cabeça, risinhos finos,
piscadelas de olhos, ares entendidos, ou então outra vez o velho que se avizinhava para me
dizer:
— Fale mais alto... Ela é meio surda.
E ela, a seu turno:
— Um pouco mais alto, eu lhe peço!... Ele não ouve muito bem...

Então eu levantava a voz; e os dois me agradeciam com um sorriso; e nesses sorrisos


murchos que pendiam para mim, buscando até o fundo de meus olhos a imagem do Maurício,
eu me sentia comovido de reencontrar essa imagem, vaga, velada, quase impalpável, como se
visse o meu amigo sorrir-me muito longe, em um nevoeiro.
Súbito o velho se ergueu na sua poltrona:
— Mas eu estou-me lembrando, Mamette... talvez ele não tenha almoçado!
E Mamette, assombrada, com os braços para o céu:
— Não almoçou!... Santo Deus!
Eu supunha que ainda se tratava do Maurício; e ia responder que aquele bom menino nunca
esperava além do meio-dia para sentar-se à mesa. Mas, não: era exatamente de mim que
falavam; e era de ver a confusão quando eu confessei que ainda estava em jejum.
— O talher, depressa, meninas azuis! A mesa no meio do quarto, a toalha dos domingos,
os pratos de flores. E deixem de rir tanto, por favor! E despachemo-nos...
Quero crer que elas se despachavam. Foi o tempo de quebrar três pratos, e estava servido
o jantar.
— Um bom lanchezinho! — me dizia Mamette conduzindo-me à mesa. — Apenas, você
ficará sozinho. Quanto a nós, já comemos esta manhã.
Pobres velhos! a qualquer hora em que a gente os apanhe, eles sempre comeram pela
manhã.
O bom lanche de Mamette eram dois dedos de leite, tâmaras e uma barquette, algo como
um leve pastel; o bastante para alimentá-la, e aos seus canários, durante pelo menos oito
dias... E dizer que só eu consegui triunfar de todas essas provisões!
Mas que indignação em volta da mesa! Como as pequenas azuis cochichavam empurrando-
se com o cotovelo, e lá longe, no fundo de sua gaiola, como os canários tinham o ar de dizer
com os seus botões: — “Oh! este senhor come o pastel todo!”
Comi-o todo, é verdade, e quase sem dar por isso, ocupado que estava em olhar ao meu
redor naquele quarto claro e tranquilo onde boiava um vago odor de coisas antigas... Havia,
sobretudo, duas caminhas de que eu não conseguia afastar os olhos. Essas caminhas, quase
dois berços, eu as imaginava pela manhã, de manhãzinha, quando eles ainda se acham
enterrados sob as suas amplas cortinas de franjas. Soam as três horas. É a hora em que
todos os velhos despertam:
— Está dormindo, Mamette?
— Não, meu querido.
— Não é verdade que o Maurício é um bom menino?
— Oh! claro, é um bom menino.
E desta sorte imaginava eu toda uma conversa, apenas por haver visto aquelas duas
caminhas de velhos, armadas uma ao lado da outra...
Entretanto um drama terrível se desenrolava na outra extremidade do quarto, diante do
armário. Tinha-se de atingir, lá em cima, na última prateleira, certo frasco de cerejas
conservadas em aguardente, que esperava Maurício havia dez anos, e que desejavam abrir
para mim. A despeito das súplicas de Mamette, o velho insistia em ir em pessoa buscar as
cerejas; e, trepado numa cadeira, com vivo espanto da mulher, tentou chegar ao alto...
Imaginem o quadro — o velho a tremer e a içar-se, as meninas azuis agarradas à sua cadeira,
Mamette atrás dele, ofegante, braços estendidos, e sobre tudo isso um leve perfume de
bergamota135 que se exala do armário aberto e das grandes pilhas de roupa de baixo parda...
Era encantador.
Por fim, ao cabo de muitos esforços, conseguiu tirar do armário aquele famoso frasco, e
com ele um velho timbale de prata todo amassado, o timbale de Maurício quando pequeno.
Encheram-no de cerejas até às bordas; Maurício gostava tanto delas! E, sem parar de me
servir, o velho dizia-me ao ouvido com um tom de gulodice:
— Bem feliz é o senhor, de poder comê-las!... Foi minha mulher quem as fez... O senhor vai
provar algo de bom.
Ai! sua mulher as fizera, porém se esquecera de açucará-las. Que querem vocês! a gente
quando envelhece fica distraído. Estavam atrozes as suas cerejas, minha pobre Mamette...
Mas isso não me impediu de comê-las até o fim, sem pestanejar.

Terminada a refeição, levantei-me para me despedir dos meus hospedeiros. Bem que eles
desejariam conservar-me um pouco mais para falarem do bom menino; mas o dia baixava, o
moinho ficava longe, eu tinha de ir embora.
O velho se levantara ao mesmo tempo que eu:
— Mamette, o meu casaco!... Quero levar o nosso hóspede até à praça.
Sem sombra de dúvida, Mamette, no fundo, achava que já estava um pouco fresco para ele
me levar até à praça; porém não deixou transparecer nada. Apenas, enquanto ela o ajudava a
enfiar as mangas do casaco, um belo casaco cor de tabaco da Espanha com botões de nácar,
eu ouvia a querida criatura dizer-lhe docemente:
— Tu não vais chegar muito tarde, não é?
E ele, com certo ar malicioso:
— Eh! eh! Eu sei lá... talvez.
E eles se fitavam rindo, e as pequenas azuis riam de vê-los rir, e os canários, no seu canto,
riam também, a seu modo... Cá entre nós, eu penso que o cheiro das cerejas os tinha
embriagado um pouco a todos.
...Caía a noite quando saímos, o avô e eu. A pequena azul nos acompanhava de longe para
trazê-lo de volta; ele, porém, não a via, e mostrava-se muito cheio de si de caminhar pelo meu
braço, feito um homem. Mamette, radiante, via tudo do limiar de sua porta, e, olhando-nos,
tinha lindos acenos de cabeça, que pareciam dizer: — “Apesar de tudo, meu pobre homem!...
ele ainda caminha.”

AS EMPADAS

I
Naquela manhã — um domingo — o pasteleiro Sureau, da rua Turenne, chamou o seu
empregadinho e disse-lhe:
— Estão aí as empadas do sr. Bonnicar... vá levá-las e volte já... Parece que os
versalheses136 entraram em Paris.
O menino, que nada entendia de política, colocou as empadas quentinhas na sua torteira, a
torteira num guardanapo branco, e, equilibrando tudo sobre o gorro, partiu a galope para a ilha
de São Luís, onde morava o sr. Bonnicar. A manhã estava magnífica, com um desses grandes
sóis de maio que enchem as casas de frutas de molhos de lilases e de cerejas em ramalhetes.
À despeito da fuzilaria distante e dos apelos dos clarins nas esquinas, todo aquele velho bairro
do Marais conservava a sua fisionomia plácida. Havia domingo no ar, rodas de crianças no
fundo dos pátios, moças feitas jogando pela em frente às casas; e aquela silhuetinha branca, a
trotar no meio da calçada deserta, exalando um bom cheiro de massa quente, acabava de
emprestar a essa manhã de batalha algo de ingênuo e endomingado. Toda a animação do
bairro parecia ter-se derramado na rua de Rivoli. Arrastavam canhões, trabalhavam nas
barricadas; grupos aqui e ali, guardas nacionais numa lufa-lufa. Todavia, o garoto não se
desorientou. Esses meninos se acham tão habituados a caminhar entre as multidões e a
vozeria da rua! É nos dias de festa e de balbúrdia, no aperto dos dias de ano-bom, dos
domingos gordos, que mais eles se veem obrigados a correr; por isso as revoluções não lhes
causam grande espanto.
Dava gosto, em verdade, ver o barretinho branco insinuar-se entre os quepes e as
baionetas, evitando os choques, balançado graciosamente, ora muito depressa, ora com uma
lentidão forçada, em que ainda se percebia o vivo desejo de correr. Que lhe importava, a ele,
a batalha? O essencial era chegar a casa dos Bonnicars ao bater do meio-dia e abiscoitar
sem perda de tempo a modesta gorjeta que o aguardava na mesinha da sala de espera.
De súbito, operou-se na multidão um arranco terrível, e pupilos da República desfilaram a
marche-marche, cantando. Eram rapazinhos de 12 a 15 anos, enfarpelados de
chassepots,137 de cintos vermelhos, de grandes botas, tão orgulhosos de se acharem
fantasiados de soldados como quando correm, nas terças-feiras gordas, com bonés de papel
e um farrapo de sombrinha de um róseo grotesco, na lama do bulevar. Desta vez, entre os
empurrões, o pequeno pasteleiro só a muito custo manteve o equilíbrio; porém ele e a sua
torteira haviam dado tantos escorregões sobre o gelo, jogado tantas partidas de amarelinha
em pleno passeio, que as empadas, agora, apenas rasparam um susto.
Infelizmente aquela animação, aqueles cantos, aqueles cintos vermelhos, a admiração, a
curiosidade, despertaram no menino o desejo de caminhar um pouco em tão boa companhia;
e, ultrapassando, sem dar por isso, o Hôtel de Ville138 e as pontes da ilha de São Luís, viu-se
levado não sei aonde, na poeira e no vento dessa corrida louca.

II
Havia 25 anos, pelo menos, que os Bonnicars tinham por hábito comer empadas aos
domingos. Ao meio-dia em ponto, quando toda a família — pequenos e grandes — estava
reunida no salão, um toque de campainha, vivo e alegre, fazia dizer a todos:
— Ah! chegou o pasteleiro.
Então, com um grande arrastar de cadeiras, um ruge-ruge de endomingamento, uma
expansão de crianças risonhas ante a mesa posta, todos aqueles burgueses felizes se
instalavam ao redor das empadas simetricamente empilhadas no fogareiro de prata.
Nesse dia a campainha permaneceu muda. Escandalizado, o sr. Bonnicar olhava para o seu
relógio, velho relógio encimado de uma garça empalhada, e que nunca jamais se adiantara
nem atrasara. Os meninos bocejavam ao pé das vidraças, espreitando a esquina que o
pequeno habitualmente dobrava. As conversas esmoreciam; e a fome, que o meio-dia acende
com seus 12 golpes consecutivos, fazia a sala de jantar muito ampla, muito triste, apesar da
antiga prataria reluzente sobre a toalha adamascada e dos guardanapos dobrados, à volta, em
pequenos cones rígidos e brancos.
Já diversas vezes a velha criada viera falar ao ouvido de seu amo... o assado
chamuscado... as ervilhas cozidas demais... Porém o sr. Bonnicar se obstinava em não sentar-
se à mesa sem as suas empadas; e, indignado com Sureau, resolveu ir, em pessoa, saber o
motivo de tão inaudita demora. Ao sair, brandindo a bengala, muito encolerizado, alguns
vizinhos o advertiram:
— Cuidado, sr. Bonnicar... dizem que os versalheses entraram em Paris.
Nada quis ouvir, nada, nem sequer a fuzilaria que vinha de Neuilly à flor da água, nem
sequer o canhão de alarma do Hôtel de Ville sacudindo todas as vidraças do bairro.
— Oh! esse Sureau... esse Sureau...
E, na sua excitada pressa, falava sozinho, via-se já bem longe, no meio da pastelaria,
batendo as lajes com a bengala, fazendo tremer os vidros da vitrina e os pratos de babás. A
barricada da Ponte Luís Filipe partiu-lhe a cólera em dois pedaços. Encontravam-se ali alguns
federados139 de catadura feroz, estirados ao sol sobre o chão desempedrado.
— Aonde vai, cidadão?
O cidadão se explicou; mas a história das empadas pareceu suspeita, tanto mais quanto o
sr. Bonnicar ostentava o seu belo redingote dos domingos, lunetas de ouro, todo o garbo de
um velho reacionário.
— É um espião — disseram os federados. — Devemos mandá-lo a Rigault.
Nisto, quatro homens de boa vontade, que não faziam questão de permanecer na
barricada, empurraram a coronhadas o pobre homem enfurecido.
Não sei que caminho tomaram; o certo é que, cerca de meia hora depois, estavam todos
colhidos pela linha inimiga e iam reunir-se a uma longa coluna de prisioneiros prestes a
marchar para Versalhes. O sr. Bonnicar protestava cada vez mais, erguia a bengala, contava a
sua história pela centésima vez. Por infelicidade sua, essa invenção de empadas parecia tão
absurda, tão inacreditável em meio àquela grande agitação, que os oficiais riam a valer:
— Esta é boa, esta é boa, meu velho... Você se explicará em Versalhes.
E através dos Campos Elísios, ainda muito brancos da fumaça dos disparos, a coluna
abalou entre filas de caçadores.

III
Marchavam os prisioneiros cinco a cinco, em fileiras apressadas e compactas. Para impedir a
dispersão do grupo, obrigaram-nos a dar os braços uns aos outros; e o longo rebanho
humano, calcando a poeira da estrada, fazia como que o ruído de uma forte chuva de
tempestade.
Ao mísero Bonnicar aquilo parecia um mau sonho. Suando, ofegante, desvairado de medo e
cansaço, arrastava-se na retaguarda entre duas velhas bruxas que cheiravam a petróleo e
aguardente; e, à força de lhe ouvir estas palavras — “pasteleiro”, “empadas” —, que voltavam
a cada instante em suas imprecações, toda a gente, em derredor, pensava que o homem
houvesse enlouquecido.
O fato é que o infeliz já não sabia onde tinha a cabeça. Nas subidas, nas descidas, quando
as filas se faziam algo menos densas, não é que ele imaginava divisar, lá longe, na poeira que
enchia os clams, as vestes alvas e o gorro do empregadinho de Sureau? E isso dez vezes!
Esse pequeno relâmpago branco passava-lhe ante os olhos como para escarnecê-lo e
desaparecia no meio da onda de uniformes, de blusas, de andrajos.
Por fim, ao cair da tarde, chegaram a Versalhes; e, ao ver aquele velho burguês de lunetas,
desalinhado, empoeirado, desnorteado, a multidão foi unânime em descobrir-lhe na fisionomia
o ar de um facínora. Diziam: — “É Félix Pyat...140 Não! é Delescluze.141”
Só à custa de grandes esforços puderam os caçadores da escolta conduzi-lo, são e salvo,
ao pátio da Orangerie. Somente lá o pobre rebanho conseguiu dispersar-se, estender-se no
chão, cobrar alento. Uns dormiam, outros praguejavam, outros tossiam, outros choravam;
Bonnicar, esse não dormia, não chorava. Sentado ao pé de uma escadaria, a cabeça entre as
mãos, quase morto de fome, de vergonha, de cansaço, revia mentalmente esse dia
desgraçado, a saída de casa, os comensais inquietos, a mesa posta até o anoitecer e que
devia ainda esperá-lo, e depois a humilhação, as injúrias, as coronhadas, tudo isso por causa
de um pasteleiro impontual.
— Sr. Bonnicar, aqui estão as suas empadinhas!... — gritou de repente uma voz, perto
dele.
E o bom do homem, levantando a cabeça, ficou atônito ao ver o garoto da pastelaria de
Sureau, que se fizera pilhar com os pupilos da República, descobrir e apresentar-lhe a torteira
escondida sob o seu avental branco. Foi assim que, apesar do motim e da prisão, o sr.
Bonnicar, nesse domingo como nos outros, comeu as suas empadas.
BARBEY D’AUREVILLY

Jules-Amédée Barbey d’Aurevilly (1808-1889), que escolhera o emblema too late, considerava-
se um retardatário. Descendente de nobre família normanda, fidalgo altivo e impertinente,
espirituoso e brutal, seria sob Luís XIV um cortesão malicioso; sob o Diretório, um chefe de
chouans, rebeldes monarquistas; sob o Império, um dos jovens generais de Napoleão.
Nasceu tarde, porém, na aldeia antiga e triste de Saint-Sauveur-le-Vicomte. Recusado
quatro vezes pela Escola Militar, estudou em Valognes, Paris e Caen, formando-se em Direito.
Uma paixão, desaprovada pelos seus, por uma prima casada, e um desentendimento com o
pai, motivado pela herança de um tio, fizeram-no romper com a família e tornar a Paris.
Lá se consagraria definitivamente ao jornalismo e às letras, frequentando os salões do
faubourg Saint-Germain, levando vida alegre de boêmio e farrista. A estreia literária foi-lhe
mais difícil que a social: não encontrou editoras para as suas primeiras obras e levou muitos
anos para impor-se na imprensa. Seu talento amadureceu devagar; só depois dos quarenta
anos publicou obras de real valor.
Até 1846, d’Aurevilly era republicano, ateu, voltairiano; chegou a desviar da religião seu
amigo Maurice de Guérin, o autor de Centauro. De repente faz-se católico militante, intolerante
e feroz, mais ortodoxo que o Papa; panfletário violento, exorta à guerra civil e exibe saudades
da Inquisição. Essa mudança rápida não tem explicação satisfatória. Durante largo tempo,
tentaram atribuí-la à influência do padre Léon d’Au-Revilly, irmão do escritor; mas os dois, de
relações cortadas, só voltaram a encontrar-se em 1847, após a “conversão”. Essa palavra é,
aliás, inexata, pois d’Aurevilly, “cristão de cabeça, continua pagão de coração e de hábitos”.142
Talvez o seu último biógrafo, Jean Canu, tenha razão ao lembrar que a Igreja é um refúgio
dos ambiciosos desiludidos. Assim como assim, é essa nova atitude que marca em definitivo a
figura de d’Aurevilly: polemista, crítico, político independente, combateria com violência suas
ideias de ontem. Legitimista até o golpe de Estado de Napoleão III, adere a este na esperança
de ver concretizados os seus sonhos de absolutismo.
A obra de Barbey d’Aurevilly compõe-se de romances históricos e regionais, como A
feiticeira, O cavaleiro des Touches , O padre casado, notáveis pela descrição de paixões
fortes e sentimentos monstruosos, e ainda mais pela evocação da paisagem normanda. Sob o
título As obras e os homens, 26 volumes reúnem-lhe os artigos de crítico impressionista,
espirituoso e apaixonado, famoso pelo injusto furor com que atacava Hugo e Flaubert,143 mas
também pela clarividência com que descobriu Baudelaire e Taine quando principiantes.
Por volta dos cinquenta anos, d’Aurevilly, então no apogeu de sua carreira, viu-se em
vésperas de casar com a baronesa de Bouglon, o “Anjo branco” que lhe fez mudar os hábitos
de boêmio e procurou comunicar-lhe algo de seu misticismo. Depois de longo noivado, o
casamento acabou não se realizando. Há quem atribua ao malogro dessa esperança a
publicação, em 1874, de As diabólicas — o mais importante de todos os livros de d’Aurevilly
—, cujos seis contos terríveis talvez ele não tivesse publicado em volume se houvesse casado
com o “Anjo branco”. O título designa as seis heroínas, que um patologista, mesmo então,
teria qualificado de neuropatas sexuais, mas que o autor, influenciado pelo satanismo literário
da época e pelo seu próprio catolicismo apaixonado, que implicava a crença no Diabo, preferia
considerar como endemoninhadas. A mais famosa das seis novelas, “A cortina carmesim”,
história impressionante dum caso de ninfomania, escandalizou quase tanto quanto “A felicidade
no crime”, cujos protagonistas, um esposo uxoricida e a amante, gozam ventura perfeita.
Afirmando que esse caso, como todos os demais contados no volume, era “infelizmente
verdadeiro”, Barbey d’Aurevilly absteve-se de modificar o desenlace num sentido mais “moral”.
Apenas tomou a precaução de expor, no prefácio, que “os pintores poderosos podem pintar
tudo, e sua pintura é sempre bastante moral quando é trágica e comunica o horror das coisas
que representa”. Ainda assim, a polícia apreendeu a edição, e, não fora a intervenção de
Gambetta, o escritor teria de enfrentar os tribunais.
Armand le Corbeiller, em livro medíocre sobre As diabólicas, busca explicar a
compatibilidade do sensualismo e do catolicismo em d’Aurevilly, lembrando que os oradores
sagrados usavam muitas vezes cores ainda mais fortes e que as artes figurativas da Igreja
faziam largo emprego de pormenores sensuais.144 Albert Thibaudet lembra, a esse propósito,
uma definição do próprio Barbey d’Aurevilly, segundo a qual o catolicismo é a antiga sacada de
ferro donde se pode melhor cuspir sobre a plebe. “Desde que a gente se mantenha a distância
respeitosa, é um belo espetáculo” — acrescenta com espírito o eminente crítico.145 O certo é
que d’Aurevilly foi seguido por todo um grupo de romancistas cristãos, que se deliciam em
representações particularmente realistas dos pecados mais horrorosos — de Léon Bioy146 a
Mauriac e Bernanos.
Nas demais novelas do volume encontramos explorações ainda mais excessivas do horrível:
ora vemos marido e mulher a esbofetearem-se com o coração do filho morto, ora uma
condessa desnaturada a ornar-se de flores brotadas numa caixa de seu salão, a qual esconde
o cadáver de um filho adulterino. A despeito da inverossimilhança dos enredos e da
monstruosidade dos caracteres, elas prendem até o leitor mais exigente, pela arte da
narração, em que excele Barbey d’Aurevilly. Sem compartir sua admiração romântica ao
desmedido e violento (esse católico admitia o próprio ateísmo, contanto que fosse forte e
absoluto), o leitor não pode resistir ao ritmo das histórias, contadas com nervosa vivacidade,
forte senso do pitoresco e dosagem perfeita das emoções, e encaminhadas gradativamente
para um desenlace ao mesmo tempo inesperado e terrível.
Discípulo dos melhores de Balzac,147 “de quem gostaria de devorar a obra inteira para dela
se impregnar inteiramente”,148 o autor de As diabólicas, com toda a sua originalidade, não
deixa de apresentar muitos indícios da influência do mestre. Numa das novelas, as
considerações iniciais sobre “o romance, história dos costumes”, bem como acerca do trágico
encerrado nos “crimes civilizados”, ainda pouco explorados na literatura, desenvolvem teorias
caras a Balzac. Numa das situações (na qual de Tressignies, vendo a sua “parceira” fitar um
retrato de homem no momento do êxtase amoroso, julga “posar em lugar de outro”), há
reminiscência evidente duma cena de A menina dos olhos de ouro, narrativa das mais
ousadas de Balzac.
No prefácio, prometia Barbey d’Aurevilly uma segunda coletânea de “Diabólicas”, se o
público gostasse da primeira, e outra, de “Celestes”, “se encontrasse um azul bastante puro”.
Ambos os projetos, porém, ficaram irrealizados.149

O MAIS BELO AMOR DE D. JOÃO

O melhor regalo do Diabo é a inocência.


(A.)

I
— Então ainda vive, esse velho libertino?
— Por Deus!150 Se vive! — e por determinação de Deus, minha senhora —, acrescentei
corrigindo-me, por me lembrar de que ela era devota da paróquia de Santa Clotilde, a paróquia
dos duques! — O rei é morto! Viva o rei! — diziam no tempo da monarquia, antes que ela
fosse quebrada, essa velha porcelana de Sevres. D. João, esse, a despeito de todas as
democracias, é um monarca que ninguém quebrará.
— Com efeito, o Diabo é imortal! — declarou ela, como uma razão que a si mesma desse.
— Ele até...
— Quem?... o Diabo?...
— Não. D. João... ceou, há três dias, e meio tocado... Adivinhe onde...
— Na sua horrorosa Casa de Ouro, certamente...
— Que ideia, minha senhora! D. João já não a frequenta... Lá não há nenhum petisco à
altura dele. O sr. d. João sempre foi um tanto como aquele célebre monge Arnaldo de Brescia,
que, segundo rezam as crônicas, só vivia do sangue das almas. E com isto que ele gosta de
rosar o seu champanha, e há muito que não se encontra isto no cabaré das mulheres fáceis!
— O senhor verá — replicou ela com ironia — que ele há de ter ceado no convento dos
Beneditinos, com as tais damas...
— Da Adoração Perpétua, sim, minha senhora! Pois a adoração que o diabo desse homem
inspirou uma vez dá-me a impressão de durar sempre.
— Para um católico, eu acho-o profanador — disse ela lentamente, mas um pouco irritada
—, e rogo-lhe que me poupe as minúcias das ceias das suas malandras, se é um modo
inventado pelo senhor de me dar notícias delas falar-me, esta noite, de d. João.
— Não estou inventando nada, minha senhora. As malandras desse jantar, se realmente
são malandras, não são as minhas... infelizmente...
— Basta, senhor!
— Permita-me ser modesto. Eram...
— As mille e trè?...151 — perguntou ela, curiosa, mudando de opinião, quase amável de
novo.
— Oh! Nem todas, minha senhora... Uma dúzia apenas. Já é, como vê, razoavelmente
honesto...
— E desonesto, também — acrescentou ela.
— Aliás, a senhora sabe tão bem quanto eu que não cabe muita gente no boudoir da
condessa de Chiffrevas. Conseguiram fazer lá grandes coisas; mas é muito pequenino o
boudoir...
— Como? — exclamou, espantada. — Foi então no boudoir que eles cearam?...
— Sim, senhora, foi no boudoir. E por que não? Ceia-se muito bem num campo de batalha.
Queriam dar uma ceia extraordinária ao sr. d. João, e era mais digno dele oferecê-la no teatro
de sua glória, lá onde as recordações florescem em vez das laranjeiras. Linda ideia, terna e
melancólica! Não era o baile das vítimas; era a ceia delas.
— E d. João? — perguntou ela, como pergunta Orgon: — “E Tartufo?” — na comédia.
— D. João gostou muito da ideia e ceou muito bem,

“...Ele, sozinho, diante delas!”

na pessoa de alguém que a senhora conhece... e que não é outro senão o conde Júlio-
Amadeu-Heitor de Ravila de Ravilès.
— Ele? É bem, na realidade, d. João... — disse ela.
E, posto já lhe houvesse passado a idade do sonho, àquela devota encarniçada, começou a
sonhar com o conde Júlio-Amadeu-Heitor — com esse homem da raça d. João — dessa
antiga e eterna raça d. João, a quem Deus não deu o mundo, mas permitiu ao Diabo que lho
desse.

II
O que eu acabava de dizer à velha marquesa Guy de Ruy era a pura verdade. Fazia apenas
três dias que uma dúzia de mulheres do virtuoso faubourg Saint-Germain (estejam elas
tranquilas: não lhes direi os nomes!), as quais, todas as 12, segundo as velhas fidalgas
mexeriqueiras, tinham sido do último bem (velha expressão encantadora) com o conde de
Ravila de Ravilès, estavam possuídas da singular ideia de lhe oferecer uma ceia — em que
seria ele o único homem — para festejar... o quê? — não o diziam. Era ousada tal ceia;
porém as mulheres, individualmente covardes, em grupo são audaciosas. Talvez nenhuma das
promotoras desta ceia ousasse oferecê-la em sua casa, a dois, ao conde Júlio-Amadeu-
Heitor; juntas, porém, apoiando-se uma nas outras, não haviam receado fazer a cadeia da
dorna de Mesmer152 em volta desse homem magnético e comprometedor, o conde de Ravila
de Ravilès...
— Que nome!
— Um nome providencial, minha senhora...
O conde de Ravila de Ravilès, que, diga-se de passagem, obedecera sempre à senha
deste nome imperioso, era verdadeiramente a encarnação de todos os sedutores, de quem se
fala nos romances e na história, e a marquesa Guy de Ruy — uma velha insatisfeita, de olhos
azuis, frios e cortantes, menos frios, contudo, que o seu coração, e menos cortantes que o seu
espírito —, ela mesma convinha que, nesta época, em que a questão das mulheres perde
cada dia em importância, se havia alguém que pudesse recordar d. João, decerto devia ser
ele! Infelizmente, era d. João no quinto ato. O príncipe de Ligne não podia fazer entrar na sua
espiritual cabeça que Alcibíades houvesse tido jamais cinquenta anos. Ora, ainda por esse
lado, o conde de Ravila continuaria sempre Alcibíades. Como d’Orsay, esse dândi talhado no
bronze de Miguel Ângelo, e que foi belo até o seu último instante, tivera Ravila essa beleza
peculiar à raça d. João — misteriosa raça que não procede de pai a filho, como as outras,
mas que aparece aqui e ali, a certas distâncias, nas famílias humanas.
Era a verdadeira beleza — a beleza insolente, alegre, imperial, joanesca enfim; a palavra
diz tudo e dispensa descrição; e — fizera ele pacto com o Diabo? — tinha-a sempre...
Apenas, Deus não perdia no negócio; as garras de tigre da vida entravam a riscar aquela
fronte divina, coroada das rosas de tantos lábios, e em suas largas fontes ímpias apontavam
os primeiros cabelos brancos, que anunciam a próxima invasão dos bárbaros e o fim do
Império... Aliás, trazia-os com a impassibilidade do orgulho superexcitado pelo poder; mas as
mulheres que o tinham amado miravam-nos às vezes com melancolia. Olhavam naquela fronte
— quem sabe? — que horas eram para elas... Para elas como para ele — ai! — era a hora da
terrível ceia com o frio comendador de mármore branco,153 após a qual não resta senão o
Inferno — o inferno da velhice, enquanto não vem o outro! E eis por que, talvez, antes de
compartir com ele essa amarga e suprema ceia, elas pensaram em lhe oferecer a delas, e
desta fizeram uma obra-prima.
Sim, obra-prima de bom gosto, de delicadeza, de luxo patrício, de requinte, de lindas
ideias; a mais encantadora, a mais deliciosa, a mais apetitosa, a mais capitosa, e sobretudo a
mais original das ceias. Original! Imaginem! É ordinariamente a alegria, a ânsia de diversão,
que dá de cear; aqui, porém, era a saudade, era o pesar, era quase o desespero, mas
desespero bem-posto, oculto sob sorrisos e risos, e que queria mais essa festa ou essa
loucura derradeira, mais essa escapadela para a mocidade ressurgida por uma hora, mais
essa embriaguez, para que aquilo terminasse para sempre!...
As anfitrioas dessa incrível ceia, tão pouco dentro dos acanhados costumes da sociedade a
que pertenciam, certo experimentaram com ela o que Sardanapalo sentiu em sua fogueira,
quando nela amontoou, para morrerem com ele, suas amantes, seus escravos, seus cavalos,
suas joias, todas as opulências de sua vida.154 Também elas amontoaram nessa abrasante
ceia todas as opulências da sua. Levaram para ela quanto tinham de beleza, de espírito, de
recursos, de adornos, de poder, para os despejarem de uma só vez naquele supremo
flamejar.
O homem diante de quem elas se envolveram e se enrouparam nessa última chama era
mais, a seus olhos, do que toda a Ásia aos de Sardanapalo.
Procuraram agradar-lhe como jamais nenhumas outras mulheres a nenhum outro homem,
como jamais nenhumas outras mulheres a um salão repleto; e tal coquetismo, elas o
abrasaram com esse ciúme que se oculta na sociedade, e que lhes não era necessário ocultar,
pois sabiam que aquele homem fora de cada uma delas, e a vergonha repartida deixa de ser
vergonha. Porfiavam todas por ver quem mais fundamente gravaria o próprio epitáfio no
coração dele.
Ele, por sua vez, teve, nessa noite, a volúpia saciada, soberana, desenvolta, degustadora,
do confessor de monjas e do sultão. Sentado como um rei — como o senhor — no centro da
mesa, diante da condessa de Chiffrevas, naquele boudoir cor de flor de pessegueiro ou de...
pecado (nunca se soube ao certo a ortografia da cor daquele boudoir155), o conde de Ravila
abarcava com os olhos, de um azul de inferno, que tantas pobres criaturas haviam tomado
pelo azul do céu, esse radioso círculo de 12 mulheres, vestidas com gênio, e que, àquela
mesa, carregada de cristais, de velas acesas e de flores, ostentavam, desde o vermelho vivo
da rosa aberta ao ouro amortecido do cacho de uvas ambarino, todos os matizes da
maturidade.
Não se viam ali dessas juventudes de um verde tenro, dessas mocinhas execradas por
Byron,156 que cheiram a torta e que, pelo porte, ainda são frutos imaturos, mas somente
verões esplêndidos e saborosos, fartos outonos, desabrochos e plenitudes, seios
deslumbrantes a bater sua majestosa maré-cheia na margem descoberta dos corpetes e sob
os camafeus da espádua nua, braços bem-torneados, mas sobretudo braços poderosos,
desses bíceps de sabinas que lutaram com os romanos, e que seriam capazes de se
entrelaçar, para detê-la, nos raios da roda do carro da vida.
Falei de ideias. Uma das mais encantadoras daquela ceia fora fazê-la servir por criadas, a
fim de que não dissessem que algo teria quebrado a harmonia duma festa em que as mulheres
eram as únicas rainhas, pois que elas lhe faziam as honras... Assim, pôde o senhor d. João —
ramo de Ravila — banhar os seus fulvos olhares num mar de carnes luminosas e vivas como
Rubens157 as põe nas suas gordas e robustas pinturas, mas pôde também mergulhar o seu
orgulho no éter mais ou menos límpido, mais ou menos turvo, de todos aqueles corações. É
que no fundo, e a despeito de quanto poderia impedir de o crer, é d. João um rude
espiritualista! É-o como o próprio Demônio, que ama as almas ainda mais do que os corpos, e
que faz, até, aquele comércio de preferência ao outro, o negreiro infernal!
Espirituosas, nobres, do tom mais faubourg Saint-Germain,158 mas nessa noite ousadas
como pajens da casa real quando havia casa real e pajens, mostraram-se elas de uma
cintilação de espírito, de um movimento, de uma verve e de um brio159 incomparáveis.
Sentiram-se, então, superiores a tudo o que tinham sido em suas mais belas noitadas.
Gozaram, nessa noite, de um poder ignoto, que se desprendia do íntimo delas mesmas e que
até então não haviam nunca pressentido.
A felicidade de tal descoberta, a sensação das forças da vida triplicadas, e, mais, as
influências físicas, tão decisivas nos seres nervosos, o esplendor das luzes, o penetrante odor
de todas aquelas flores que desfaleciam na atmosfera aquecida por aqueles belos corpos de
eflúvios para elas muito fortes, o aguilhão dos vinhos provocantes, a ideia daquela ceia que
tinha justamente o mérito picante do pecado que a napolitana pedia ao seu sorvete para o
achar delicioso, o pensamento inebriante da cumplicidade nesse pequeno crime de uma ceia
arriscada, sim! mas que não resvalou vulgarmente no jantar regência,160 que se manteve como
ceia faubourg Saint-Germain e século XIX, e em que todos aqueles adoráveis corpetes, sob
os quais batiam corações que tinham visto o fogo e ainda se compraziam em atiçá-lo, nem um
alfinete caiu, — todas essas coisas, enfim, agindo a um tempo, retesaram a misteriosa harpa
que todas aquelas maravilhosas organizações traziam em si, tão fortemente quanto ela podia
ser retesada sem se quebrar; e elas chegaram a oitavas sublimes, a inexprimíveis diapasões...
Deve ter sido curioso, não é? Esta página inaudita de suas Memórias, escrevê-la-á Ravila um
dia?... É uma pergunta, mas só ele pode escrevê-la... Como disse à marquesa Guy de Ruy, eu
não estava naquela ceia, e, se dela vou narrar algumas particularidades e a história com que
termina, é que as ouvi do próprio Ravila, que, fiel à indiscrição tradicional característica da
raça d. João, se deu ao trabalho, certa noite, de mas contar.

III
Era tarde, pois, — isto é, cedo! Amanhecia. De encontro ao teto e em certa parte das cortinas
de seda rósea do boudoir, hermeticamente fechadas, via-se apontar e arredondar-se uma
gota de opala, como um olho crescente, o curioso olho do dia que espreitasse por ali o que se
fazia naquele boudoir inflamado. Principiava a languidez a ganhar as cavaleiras dessa Távola
Redonda, essas ceadoras, tão animadas um momento antes. É bem conhecido esse momento
de todas as ceias em que a fadiga da emoção e da noite passada como que se projeta sobre
todas as coisas, sobre os penteados que se desmoronam, as faces avermelhadas ou
empalidecidas que se abrasam, os olhares exaustos nos olhos encovados que pesam, e até
sobre as luzes alargadas e rasteiras das mil velas dos candelabros, esses ramilhetes de fogo
de hastes esculpidas em bronze e ouro.
A conversação geral, muito tempo animada, partida de pela em que cada um desferira o
seu golpe de raqueta, estava fragmentada, esmigalhada, e nada mais se ouvia distintamente
no ruído harmonioso de todas aquelas vozes, de timbres aristocráticos, que se misturavam e
chalreavam como os pássaros, ao amanhecer, na orla de um bosque... quando uma delas —
uma voz de falsete! —, imperiosa e quase impertinente, como deve ser a voz de uma duquesa,
disse de súbito, por cima de todas as outras, ao conde de Ravila, estas palavras, que eram
por certo a continuação e conclusão de uma conversa, em voz baixa, entre os dois, a qual
nenhuma daquelas mulheres, que falavam cada uma com a sua vizinha, havia entendido:
— O senhor, que passa por ser o d. João dos dias de hoje, nos poderia contar a história da
conquista que mais lisonjeou o seu orgulho de homem amado, e que considera, à luz do atual
momento, o mais belo amor de sua vida?...
E a pergunta, tanto quanto a voz que falava, cortou nitidamente o ruído de todas aquelas
conversações dispersas e ocasionou repentino silêncio.
Era a voz da duquesa de ***. — Não levantarei sua máscara de arteriscos; mas talvez o
leitor a reconheça, quando eu lhe disser que é a loura mais pálida de tez e de cabelos, e os
olhos mais negros sob seus longos supercílios de âmbar, de todo o faubourg Saint-Germain.
— Estava sentada, como um justo à mão direita de Deus, à direita do conde de Ravila, o deus
daquela festa, que não reduzia então os seus inimigos a servirem-lhe de degraus; delicada e
ideal como um arabesco e como uma fada, no seu vestido de veludo verde com reflexos
prateados, cuja longa cauda se torcia em redor da sua cadeira e figurava sofrivelmente a
cauda de serpe pela qual terminava a encantadora garupa de Melusina.161
— Eis aí uma ideia! — disse a condessa de Chiffrevas, como para aprovar, em sua
condição de dona de casa, o desejo e a proposta da duquesa. — Sim, o amor de todos os
amores, inspirados ou sentidos, que mais lhe agradasse recomeçar, se fosse possível.
— Oh! eu gostaria de recomeçá-los todos! — Ravila exclamou com a insaciabilidade de
imperador romano que têm por vezes esses imensos embotados.
E ergueu seu copo de champanha, que não era a taça estúpida e pagã pela qual o
substituíram, mas o copo elegante e esguio de nossos antepassados, que é o verdadeiro copo
de champanha — aquele que se chama uma flûte, em virtude talvez das celestes melodias que
não raro nos verte no coração! — Em seguida estreitou com uma mirada circular todas
aquelas mulheres que formavam em torno da mesa uma tão magnífica cintura.
— E no entanto — acrescentou repondo diante de si o seu copo com melancolia pasmosa
em semelhante Nabucodonosor,162 que ainda não comia erva a não ser as saladas de estragão
do Café Inglês —, e, no entanto, a verdade é que, entre todos os sentimentos da vida, há
um que sempre resplandece na lembrança mais vivamente que os outros, à medida que a vida
caminha, e pelo qual a gente daria todos!
— O diamante do escrínio — disse, sonhadora, a condessa de Chiffrevas, que porventura
olhava as facetas do seu.
— ...E da lenda de minha terra — continuou, por sua vez, a princesa Jable... que é de ao
pé dos montes Urais — esse famoso e fabuloso diamante, que, róseo a princípio, depois se
torna preto, mais brilhante ainda quando preto do que quando róseo.
Pronunciou estas palavras com o estranho encanto que lhe é peculiar, a essa boêmia!, pois
é uma boêmia, desposada por amor pelo mais belo príncipe da emigração polaca, e cujo ar é
tão princesa como se houvera nascido sob as cortinas dos Jagellons.
Foi uma explosão!
— Sim — disseram todas. — Conte-nos lá isso, conde! — acrescentaram
apaixonadamente, já suplicantes, com os frêmitos da curiosidade até nos bucles, na nuca;
juntando-se ombro contra ombro; umas com a face na mão, o cotovelo fincado na mesa;
outras derreadas no espaldar das cadeiras, o leque desdobrado sobre a boca; todas
fuzilando-o com seus olhares espertos e inquiridores.
— Se fazem questão absoluta... — disse o conde, com a displicência de quem sabe que a
expectativa espicaça o desejo.
— Absoluta! — exclamou a duquesa fitando — como um déspota turco fitaria o gume de
seu sabre — o gume de ouro da sua faca de sobremesa.
— Pois ouçam lá — rematou ele, sempre displicente.
Elas desfaziam-se em atenção, olhando-o. Bebiam-no e comiam-no com os olhos. Qualquer
história de amor interessa às mulheres; mas, quem sabe? talvez o atrativo desta fosse, para
cada uma, o pensamento de que a história que ele ia contar podia ser a dela... Sabiam-no tão
cavalheiro e de tão boa sociedade que poderiam estar certas de que ele pouparia os nomes e
adensaria, quando fosse preciso, os pormenores demasiado transparentes; e esta ideia, esta
certeza, fazia-as ainda mais desejar a história. Mais do que o desejo, tinham a esperança
dela.
Sua vaidade encontrava rivais nessa reminiscência evocada como a mais bela
reminiscência da vida de um homem, que as devia ter tão belas e tão numerosas! O velho
sultão ia mais uma vez atirar o lenço... que mão alguma apanharia, mas que aquela a quem
fosse atirado sentiria cair-lhe silenciosamente no coração...
Ora eis aqui, apesar do que elas supunham, o pequeno e inesperado trovão que ele fez
passar sobre todas aquelas frontes ouvintes:

IV
— Ouvi muitas vezes a moralistas — grandes experimentadores da vida — disse o conde de
Ravila — que o maior de todos os nossos amores não é nem o primeiro nem o último, como o
creem muitos; é o segundo. Mas, em coisas de amor, tudo é verdadeiro e tudo é falso, e,
aliás, não terá sido este o meu caso... O que me pedem, minhas senhoras, e o que eu tenho
para lhes contar esta noite, remonta ao mais belo instante da minha mocidade. Eu já não era
precisamente o que se chama um rapaz, mas era moço, e, como dizia um velho tio meu,
cavaleiro da Ordem da Malta, para designar essa época da vida, “terminara as minhas
caravanas”. Em plena força, portanto, achava-me também em plena relação, como tão
lindamente se diz na Itália, com uma dama que as senhoras todas conhecem e que todas
admiraram...
Aqui, o olhar que lançaram ao mesmo tempo, cada uma às demais, essas mulheres que
sorviam as palavras daquela velha serpente, foi algo que é necessário ter visto, pois é
inexprimível.
— Aquela mulher, realmente — continuou Ravila —, era tudo quanto é possível imaginar de
mais distinto, em todos os sentidos que se podem dar a esta palavra. Jovem, rica, de um
nome soberbo, bela, espirituosa, grande inteligência de artista, e natural apesar de tudo, como
se é na boa roda, quando se é... Demais, não tinha, naquele meio, outra pretensão a não ser a
de me agradar e devotar-se; a não ser mostrar-se-me a mais terna das amantes e a melhor
das amigas.
Eu não era, acredito, o primeiro homem a quem ela houvesse amado... Ela já amara
alguém, e não era o seu marido; mas virtuosamente, platonicamente, utopicamente, desse
amor que exercita o coração mais do que o enche; que lhe prepara as forças para outro amor
que deve sempre seguir-se-lhe dentro em pouco; desse amor de experiência, enfim,
semelhante à missa seca que dizem os padres recém-ordenados para se exercitarem a dizer,
sem se enganarem, a verdadeira missa, a missa consagrada... Quando eu apareci em sua
vida, ela estava ainda na missa seca. Eu é que fui a verdadeira missa, e ela então a disse com
todas as cerimônias do ato e suntuosamente, como um cardeal.
A esta palavra, a mais linda ronda de sorrisos girou sobre aquelas 12 deliciosas bocas
atentas, como uma ondulação circular sobre a límpida superfície de um lago... Foi rápido, mas
deslumbrante!
— Era positivamente um ser à parte! — prosseguiu o conde. — Raramente vi maior
bondade verdadeira, maior piedade, mais sentimentos excelentes, até na paixão, que, como
sabem, nem sempre é boa... Nunca vi menos artimanha, menos falso pudor e coquetismo,
duas coisas, essas, tantas vezes enredadas nas mulheres, tal uma meada na qual houvessem
passado as unhas do gato... Não havia gato, nesta... Ela era o que esses fazedores de livros,
que nos envenenam com as suas maneiras de falar, chamariam uma natureza primitiva,
adornada pela civilização; mas da civilização tinha apenas os luxos encantadores, e nem uma
sequer das pequenas corrupções que nos parecem ainda mais encantadoras que os luxos...
— Era morena? — interrompeu a duquesa, à queima-roupa, impaciente com tanta
metafísica.
— Ah! A senhora está longe de adivinhar! — disse Ravila delicadamente. — Sim, era
morena, morena de cabelos, que iam até o preto mais azeviche, o mais espelho de ébano que
eu já possa ter visto reluzir sobre a voluptuosa convexidade luzidia de uma cabeça de mulher,
porém era loura de tez — e é pela tez e não pelos cabelos que se deve julgar se uma mulher é
morena ou loura —, acrescentou o grande observador, que não estudara as mulheres só para
retratá-las. — Era uma loura de cabelos negros...
Todas as cabeças louras da mesa que não o eram senão de cabelos fizeram um
movimento imperceptível. Evidentemente para elas o interesse da história já decrescia.
— Tinha os cabelos da Noite — continuou Ravila —, mas sobre o rosto da Aurora —, pois o
seu rosto resplandecia dessa frescura vermelho-desmaiada, ofuscante e rara, que a tudo
resistira naquela vida noturna de Paris que ela vivia desde anos, e que tantas rosas queima na
chama dos seus candelabros. Dir-se-ia que as suas se tivessem apenas abrasado, de tal
maneira nas suas faces e nos seus lábios o carmim era quase luminoso! Aliás, o seu duplo
brilho se harmonizava bem com o rubi que ela habitualmente trazia na fronte, pois, naquele
tempo, usavam-se penteados en ferronière,163 o que lhe fazia no rosto, com os seus dois olhos
incendiários cuja chama impedia ver a cor, um como triângulo de rubis! Esguia, mas robusta,
majestosa até, talhada para ser a mulher de um coronel de couraceiros — seu marido, nesse
tempo, não era comandante de esquadrão senão na cavalaria ligeira —, ela possuía, por mais
que fosse uma grande dama, a saúde de uma camponesa que bebe sol pela pele, e tinha
também o ardor deste sol bebido, tanto na alma como nas veias — sim, presente e sempre
pronto... Mas aí é que principiava a estranheza! Aquele ente poderoso e ingênuo, aquela
natureza purpurina e pura como o sangue que lhe orvalhava as belas faces e lhe roseava os
braços, era... acreditam? inábil nas carícias...
Neste ponto alguns olhos se baixaram, mas levantaram-se, maliciosos...
— Inábil nas carícias como era imprudente na vida — prosseguiu Ravila, sem ir além desse
esclarecimento. — Era necessário que o homem a quem amava lhe ensinasse,
incessantemente, duas coisas que ela, afinal, nunca aprendeu... a não se perder em face de
uma sociedade sempre armada e sempre implacável, e a praticar na intimidade a grande arte
do amor, que impede a morte dele. Ela, em verdade, tinha o amor; mas a arte do amor, essa
lhe faltava... O contrário de tantas mulheres que dele só têm a arte! Ora, para compreender e
aplicar a política de O príncipe, cumpre já ser Borgia. Borgia precede Maquiavel.164 Um é o
poeta; o outro, o crítico. Ela não era, absolutamente, Borgia. Era uma mulher de bem,
amorosa, ingênua, não obstante a sua colossal beleza, como uma dessas mocinhas pintadas
acima das portas que, estando com sede, quer apanhar na mão água da fonte e, a ofegar,
deixa tudo cair-lhe por entre os dedos, e fica perturbada...
Era quase lindo, aliás, o contraste dessa perturbação e desazo com essa grande mulher
apaixonada, que, vista na sociedade, enganaria tantos observadores — que tinha tudo do
amor, até a felicidade, mas que não tinha o poder de o retribuir como lho davam. Apenas, eu
não era então bastante contemplador para me contentar com esse belo de artista, e eis aqui,
precisamente, a razão por que, certos dias, se tornava inquieta, ciumenta e violenta — tudo o
que se é quando se ama, ela amava! — Porém ciúme, inquietação, violência, tudo isso morria
na bondade inesgotável do seu coração, ao primeiro mal que ela queria ou julgava fazer,
desazada na ofensa como na carícia! Leoa, de uma espécie desconhecida, que imaginava ter
garras e, quando queria estendê-las, não as achava nunca em suas magníficas patas de
veludo. Era com veludo que ela arranhava!
— Aonde é que ele pretende chegar? — disse a condessa de Chiffrevas à sua vizinha. —
Porque, na verdade, não pode ser este o mais belo amor de d. João!
Nenhuma daquelas complicadas podia crer em tal simplicidade!
— Vivíamos, pois — disse Ravila —, numa intimidade em que por vezes havia tormentas,
mas nunca dilaceramentos, e essa intimidade não era, nesta cidade provinciana que se chama
Paris, mistério para ninguém... A marquesa... ela era marquesa...
Havia à mesa três mulheres com esse título, e também morenas de cabelos. Mas não
pestanejaram. Estavam fartas de saber que não era delas que ele falava... O único veludo que
teriam, as três, estava sobre o lábio superior de uma delas — lábio voluptuosamente velado e,
que, no momento, eu lhes juro, exprimia bastante desdém.
— E marquesa três vezes, como os paxás podem ser paxás de três caudas! — continuou
Ravila, que ia ficando de veia. — A marquesa era dessas mulheres que nada sabem ocultar e,
ainda quando o quisessem, não poderiam fazê-lo. Até sua filha, menina de 13 anos, apesar de
inocente percebia bem claro o sentimento que eu inspirava a sua mãe. Não sei qual foi o poeta
que perguntou o que pensam de nós as filhas cujas mães amamos. Pergunta profunda! que
não raro eu fiz a mim mesmo quando surpreendia o olhar de espião, negro e ameaçador, de
tocaia sobre mim, do fundo dos grandes olhos sombrios da mocinha. Essa pequena, de uma
reserva arisca, que as mais das vezes, à minha chegada, se retirava da sala, e se mantinha o
mais longe possível de mim quando lá era obrigada a permanecer, tinha à minha pessoa um
horror quase convulsivo... que ela buscava ocultar em si, mas que, mais forte que ela, a traía...
Revelava-se este horror em pormenores imperceptíveis, mas dos quais nem um me escapava.
A marquesa, posto não fosse nenhuma observadora, dizia-me continuamente: — É preciso
cuidado, querido. Eu penso que minha filha tem ciúme de você...
Eu tinha muito mais cuidado que ela.
Nem que a menina fosse o Diabo em figura de gente eu a desafiaria a conhecer o meu
jogo... Mas o jogo de sua mãe era transparente. Tudo se via no espelho purpúreo daquele
rosto, tantas vezes transtornado! Ante a espécie de ódio da filha, era-me impossível deixar de
pensar que ela surpreendera o segredo da mãe, em alguma emoção expressa, em algum olhar
muito inundado, involuntariamente, de ternura. Era, se isto lhes interessa, uma criança débil,
inteiramente indigna do molde esplêndido de que saíra, feia, como o confessava a própria
mãe, que por isso a amava mais; um pequeno topázio queimado... que lhes direi? uma espécie
de maqueta de bronze, porém com olhos pretos... Uma magia! E quem, depois...
Deteve-se após esse relâmpago... como se quisesse extingui-lo e já houvesse dito
demais... Nas fisionomias o interesse tornara-se geral, perceptível, tenso, e a condessa
chegara a dizer por entre os seus belos dentes a palavra da impaciência esclarecida:
— Enfim!

V
— No começo de minha ligação com sua mãe — prosseguiu o conde de Ravila — eu tivera
com aquela menina todas as carinhosas familiaridades que se têm com todas as crianças...
Levava-lhe pacotes de confeitos. Chamava-lhe “bruxinha”, e de vez em quando, conversando
com a mãe, entretinha-me em alisar-lhe o bandó sobre a fonte — um bandó de cabelos
doentes, negros, com reflexos de isca —, mas a “bruxinha”, cuja grande boca tinha um lindo
sorriso para toda a gente, recolhia, retraía o seu sorriso para mim, franzia asperamente o
sobrolho, e, à força de se crispar, transformava-se de “bruxinha” em verdadeira máscara
rugosa de cariátide humilhada, que parecia, quando a minha mão lhe passava pela fronte,
suportar o peso de uma cimalha.
Assim, reencontrando sempre no mesmo lugar esse mau humor, que parecia hostilidade, eu
acabara deixando de lado aquela sensitiva, cor de maravilha, que se retraía tão violentamente
ao contato da menor carícia... e até já nem lhe falava!
— Ela sente que você a rouba — dizia-me a marquesa. — O instinto lhe diz que você lhe
toma um pouco do amor de sua mãe.
E algumas vezes acrescentava, equidosa: — Essa pequena é a minha consciência, seu
ciúme, o meu remorso.
Certo dia, querendo a marquesa interpelá-la a respeito da grande distância que ela
guardava de mim, não obtivera mais do que as respostas esfarrapadas, obstinadas, estúpidas,
que se têm de extrair, com um saca-rolhas de interrogações repetidas, de todas as crianças
que nada querem dizer... — Não há nada... não sei — e, vendo a dureza daquele pequeno
bronze, deixara de fazer-lhe perguntas e, de cansada, se afastara...
Esqueci-me de lhes dizer que essa estranha menina era muito devota, de uma devoção
sombria, espanhola, idade-média, supersticiosa. Torcia em volta do seu frágil corpo todas as
espécies de escapulários, e aplicava sobre o peito, liso como o dorso da mão, e em volta do
pescoço bistrado, montes de cruzes, de Virgens Marias, e de Espíritos Santos! — Infelizmente
você é um ímpio — me dizia a marquesa. — Talvez um dia, em conversa, a tenha
escandalizado. Por favor, preste atenção a tudo quanto diz em presença dela. Não agrave as
minhas faltas aos olhos da menina, para com quem eu já me sinto tão culpada! Depois, como o
procedimento da filha não mudava, não se modificava: — Você terminará odiando-a —
acrescentava a marquesa, inquieta —, e eu não poderei querer mal a você. Enganava-se: eu
era apenas indiferente àquela pequena mal-humorada, quando ela não me impacientava.
Pusera entre ela e mim a polidez que há entre adultos, e entre adultos que não se estimam.
Tratava-a cerimoniosamente, chamando-lhe com ênfase — “senhorita” —, e ela dava-me em
troca um “senhor” glacial. Não queria fazer, em minha presença, nada que pudesse, não digo
valorizá-la, mas nem sequer pô-la fora de si mesma... Nunca sua mãe conseguiu decidi-la a
mostrar-me um dos seus desenhos, nem a tocar diante de mim uma ária de piano. Quando eu
a surpreendia a tocar, estudando com muito ardor e atenção, ela parava de repente,
levantava-se do banco e não tocava mais...
Só uma vez, como sua mãe o exigisse (havia visitas), ela se pôs ante o instrumento com um
desses ares de vítima que, posso garantir-lhes, nada tinha de meigo, e começou não sei que
partitura com dedos abominavelmente contrafeitos. Eu estava de pé junto à lareira, e olhava-a
de soslaio. A menina tinha as costas voltadas para o meu lado, e ante ela não havia espelho
que lhe permitisse ver que eu a olhava... De repente, as suas costas (ela mantinha-se
habitualmente curvada, e com frequência a mãe lhe dizia: — Se ficas sempre assim, acabarás
arranjando uma doença do peito), as suas costas se endireitaram, qual se eu lhe houvesse
quebrado a espinha dorsal com o meu olhar como com uma bala; e, abaixando violentamente a
tampa do piano, que fez, ao cair, um rumor medonho, escapou-se do salão... Saíram a
procurá-la; mas, nessa noite, não alcançaram fazê-la voltar.
Ora, parece que os homens mais presumidos nunca o são bastante, pois o procedimento
dessa tenebrosa menina, que tão pouco me interessava, não me deu que pensar acerca do
sentimento que ela nutria a meu respeito. Nem a mim nem a sua mãe. Sua mãe, que tinha
ciúmes de todas as mulheres do seu salão, não se mostrou mais ciumenta do que eu
presumido em relação à menina, que terminou revelando-se em um desses fatos que a
marquesa, que na intimidade era a própria expansão, ainda pálida do terror que
experimentara, e rindo às gargalhadas de o haver sentido, teve a imprudência de me contar.
Ele sublinhara, com uma inflexão de voz, a palavra imprudência, como o teria feito o mais hábil
dos atores e como quem sabia que todo o interesse da sua história se prendia ao fio dessa
palavra!
Mas isso parecia bastar, pois aqueles 12 belos semblantes de mulheres se haviam
reinflamado de um sentimento tão forte como os semblantes dos querubins perante o trono de
Deus. Será que nas mulheres o sentimento de curiosidade não é tão intenso quanto o
sentimento de adoração nos anjos?... Ravila olhou para todos aqueles semblantes de
querubins que não terminavam nos ombros, e, achando-os preparados, sem dúvida, para o
que tinha que lhes dizer, continuou depressa e não mais se deteve:
— Sim, a marquesa ria às gargalhadas, só de pensar naquilo! — disse-me algum tempo
depois, ao narrar-me o caso: mas nem sempre ela rira! — Imagine — contou-me [procurarei
recordar-lhe as próprias palavras] — que eu estava sentada onde estamos agora. (Era um
desses canapés para duas pessoas a que se dava o nome de conversadeira, o móvel mais
sabiamente inventado para a gente arrufar-se e reconciliar-se sem mudar de lugar.) — Mas,
felizmente! você não se achava onde agora se acha, quando me anunciaram... adivinhe quem...
não seria capaz de adivinhar... O sr. Cura de Saint-Germain-des-Prés. Conhece-o? Não! Você
nunca vai à missa, o que é muito mau. Como poderia, então, conhecer esse pobre velho cura,
que é um santo e não põe os pés em casa de nenhuma das suas paroquianas, a menos que
se trate de uma coleta em benefício dos seus pobres ou para a sua igreja? No primeiro
instante eu julguei que era a isso que ele vinha.
Tempos atrás mandara ele minha filha fazer a primeira comunhão, e ela, que comungava
frequentemente, tomara-o por seu confessor. Por esse motivo, desde aí muitas vezes eu o
chamara para jantar, mas em vão. Quando ele entrou, estava perturbado em extremo, e eu li
em seus traços, de ordinário tão tranquilos, um embaraço tão mal dissimulado e tão grande
que me foi impossível levá-lo unicamente à conta da timidez, e não pude deixar de lhe dizer
antes de tudo: — Ah, meu Deus, que é que há, sr. Cura? — O que há, minha senhora —
respondeu ele — é que a senhora está em presença do homem mais embaraçado deste
mundo. Há mais de cinquenta anos que estou no Santo Ministério, e nunca me vi incumbido de
missão mais delicada, e que eu compreendesse menos, do que a que tenho de desempenhar
junto à senhora...
E sentou-se, pediu-me que mandasse fechar a porta por todo o tempo de nossa conversa.
Hás de compreender bem que todas essas solenidades me espantaram um pouco. Ele o
notou. — Não se espante assim, minha senhora —, prosseguiu. — Precisa de sangue-frio para
me escutar e para fazer-me compreender, a mim, a coisa inaudita de que se trata, e que, na
realidade, eu não posso admitir... A senhorita sua filha, da parte de quem eu venho aqui, é —
sabe-o a senhora tanto quanto eu — um anjo de pureza e de piedade. Conheço-lhe a alma.
Tenho-a nas minhas mãos desde os seus sete anos de idade, e estou persuadido de que ela
se engana... à força de inocência, talvez... Mas a verdade é que, esta manhã, veio declarar-
me em confissão que estava não o acreditará, senhora, nem eu tampouco, mas é preciso dizer
a palavra... — grávida!
Dei um grito...
— Eu dei outro, também, no meu confessionário, esta manhã — continuou o cura —, ante
essa declaração feita por ela com todos os sinais do desespero mais sincero e mais horrível!
Conheço a fundo a menina. Ela ignora tudo da vida e do pecado... De todas as moças que eu
confesso, é ela, sem dúvida, aquela por quem eu mais responderia perante Deus. Eis tudo
quanto lhe posso dizer! Nós outros, padres, somos os cirurgiões das almas, e cumpre-nos
partejá-las das vergonhas que elas dissimulam, com mãos que não as firam nem as manchem.
Assim, com todas as precauções possíveis, eu interroguei-a, apertei-a com perguntas, àquela
menina desesperada, mas que, uma vez contado o caso, confessada a falta, a que ela chama
um crime e sua maldição eterna, pois se julga amaldiçoada — pobre menina! —, nada mais me
respondeu e encerrou-se obstinadamente num silêncio que não quebrou senão para me rogar
que viesse ter com a senhora, e lhe contasse o seu crime — pois é indispensável que mamãe
o saiba — disse —, e eu nunca terei forças para lho confessar!
Eu ouvia o cura de Saint-Germain-des-Prés. Você bem pode imaginar com que mescla de
estupefação e ansiedade! Como ele, e ainda mais do que ele, eu acreditava estar certa da
inocência de minha filha; porém as inocentes caem muitas vezes, mesmo por inocência... E o
que ela dissera ao confessor não era impossível... Eu não acreditava nisso... Não queria
acreditar; e, no entanto, não era impossível!... Tinha ela apenas 13 anos, mas era uma mulher,
e essa precocidade mesma me espantara... uma febre, um transporte de curiosidade
apoderou-se de mim. — Quero e vou saber de tudo! — disse ao bom do padre, estupefato
diante de mim, tão embaraçado que, ouvindo-me, desfazia o debrum do chapéu. — Deixe-me,
sr. Cura. Ela não falaria ante v. revma. Mas estou certa que me dirá tudo... que lhe arrancarei
tudo, e então compreenderemos o que agora é incompreensível! E o padre foi-se embora —
e, apenas partiu, subi ao quarto de minha filha, pois não tinha paciência de mandar chamá-la e
de esperá-la.
Encontrei-a diante do crucifixo do seu leito, não ajoelhada, mas prosternada, pálida como
uma defunta, com os olhos enxutos, mas muito vermelhos, como olhos que choraram muito.
Tomei-a nos braços, sentei-a a meu lado, depois nos joelhos, e disse-lhe que não podia crer
no que acabava de contar-me o seu confessor.
Ela, porém, interrompeu-me para me afiançar, com extrema aflição na voz e na fisionomia,
que era verdade o que dissera, e foi então que, cada vez mais inquieta e espantada, lhe
perguntei o nome daquele que...
Não cheguei ao fim... Ah! foi o momento terrível Ela escondeu a cabeça e o rosto no meu
ombro... mas eu via a tonalidade de fogo do seu pescoço, por detrás, e a sentia estremecer.
O silêncio que ela opusera ao seu confessor, a mim também o opôs. Era um muro.
— Deve ser alguém muito abaixo de ti, para que tenhas tanta vergonha... — disse-lhe eu,
buscando revoltá-la para fazê-la falar, pois a sabia orgulhosa.
Era, porém, sempre o mesmo silêncio, o mesmo afundar da cabeça no meu ombro. Durou
isso um tempo que me pareceu infinito, quando de súbito ela me disse, sem levantar-se: —
Jura que me perdoa, mamãe?
Jurei tudo o que ela quis, arriscando-me a ser cem vezes perjura; pouco se me dava disso!
Impacientava-me. Fervia... Dir-se-ia que a fronte ia estalar-me e deixar sair o cérebro...
— Pois bem! Foi o sr. de Ravila — disse ela em voz baixa; e permaneceu como estava nos
meus braços.
Ah! O efeito desse nome, Amadeu! Eu recebia de um só golpe, em pleno coração, o
castigo do grande crime da minha vida! Você é, em matéria de mulheres, um homem tão
terrível, você me fez temer tais rivalidades, que o horrível “por que não?” dito a propósito do
homem que se ama e de quem se duvida, levantou-se em mim... O que eu sentia, tive a força
de ocultá-lo àquela cruel menina, que adivinhara talvez o amor de sua mãe.
— O sr. de Ravila! — disse eu, com uma voz que parecia dizer tudo. — Mas se tu nunca
lhe falas! — Tu o evitas — ia eu acrescentar, pois a cólera começava; sentia-a chegar... Então
vocês são ambos hipócritas? — Mas contive-me... Não era preciso que eu soubesse as
particularidades, uma por uma, dessa horrível sedução?... E pedi-lhas com uma doçura que eu
imaginei custar-me a vida, quando ela me tirou desse embaraço, desse suplício, dizendo-me
ingenuamente:
— Mamãe, era de tarde. Ele estava na grande poltrona que se acha ao canto da chaminé,
diante da conversadeira. Lá ficou durante muito tempo; depois levantou-se, e eu tive a
desgraça de sentar-me perto dele na poltrona que ele deixara. Oh, mamãe!... Foi como se eu
tivesse caído no fogo. Queria levantar-me, mas não pude... faltou-me coragem! e eu senti...
veja lá, mamãe... que o que eu tinha... era um filho!
A marquesa tinha rido — disse Ravila — quando a menina lhe contara essa história; mas
nenhuma das 12 mulheres que se achavam em torno da mesa pensou em rir — tampouco
Ravila.
— E eis aí, minhas senhoras (acreditem se quiserem) — acrescentou à guisa de conclusão
—, o mais belo amor que já inspirei na minha vida!
Calou-se, e as damas também. Estavam pensativas... Tê-lo-iam compreendido?
José, quando escravo em casa da sra. Putifar, era tão belo, segundo o Alcorão, que, ao
fitá-lo, as senhoras a quem servia à mesa, de tão absortas, cortavam o dedo. Mas já não
estamos no tempo de José, e as nossas preocupações à sobremesa são menos fortes.
— Que grande tola com todo o seu espírito, essa sua marquesa, para lhe haver dito
semelhante coisa! — exclamou a duquesa, que se permitiu ser cínica, mas não cortou
absolutamente nada com a faca de ouro que tinha sempre na mão.
A condessa de Chiffrevas mirava atenta o fundo de um copo de vinho do Reno, de cristal
esmeraldino, misterioso como o seu pensamento.
— E a bruxinha? — perguntou.
— Oh! Ela morrera, muito jovem e casada na província, quando sua mãe me contou essa
história — respondeu Ravila.
— Se não fosse isto!... — disse a duquesa, cismativa.
JENS PETER JACOBSEN

Pouco tempo depois de haver o ensaísta Georg Brandes iniciado em Copenhague uma série
de conferências acerca das principais tendências da literatura europeia no século XIX, as quais
produziram extraordinária agitação no meio intelectual dinamarquês, apareceu em 1872, com o
conto “Mogens”, o novo clássico que a Dinamarca ia dar à Europa depois do comediógrafo
Holberg, depois do feiticeiro Andersen. 165 O autor, Jens Peter Jacobsen (1847-1885), formado
pela Universidade em Botânica, tradutor e divulgador de Darwin, e também conhecido por
alguns como poeta, impôs-se de chofre à admiração dos leitores mais exigentes e foi
considerado desde logo como o chefe de uma verdadeira revolução artística. Ao contrário de
todas as outras, essa revolução se caracterizava pelo combate ao ruído, às cores berrantes,
às palavras sonoras, ao discurso em voz alta, e vinha entronizar uma arte discreta, velada, de
meios-tons, que transvazava numa expressão aparentemente simples os mais complexos e
mais patéticos dramas da sensibilidade, da sensualidade, do instinto, da dúvida.
Depois de “Mogens” publicou Jacobsen duas narrativas mais longas: Maria Grubbe,
romance histórico, onde, em torno de uma cortesã apaixonada e desenfreada, se desdobra um
quadro infinitamente rico em cores e matizes da época pomposa conhecida pelo nome de
barroco, e Niels Lyhne, romance biográfico de um conquistador abúlico, que se deixa levar ao
sabor do destino. A crítica, admirando embora a abundância de cenas e pormenores
magistrais nesses dois livros, recusa-lhes certa amplidão épica e lembra que a arte de
miniaturista e a observação microscópica de Jacobsen se prestavam mais ao conto.
Nesse gênero, também, o autor pouco produziu. “Mogens” é a história de outro moço de
temperamento passivo a quem a perda da noiva leva à decadência e um novo amor resgata.
“A peste em Bérgamo”, descrição de uma alucinatória cena medieval, representa um tipo novo
de conto estático, quase unicamente pictural. É a arte do pastelista que se admira na
enigmática fantasia “Aqui deviam estar rosas”, nos contrastes de luz e sombra de “Dois
mundos” e de “Estrangeiros”. No mais famoso de todos esses contos, “A senhora Foenss”,
acompanhamos a análise minuciosa das mais sutis ondulações do sentimento no caso da mãe
que para contrair segundas núpcias deve sacrificar o amor dos filhos.
Enquanto essa meia dúzia de obras, exaustivamente buriladas, granjeava ao autor a
celebridade em seu país e no estrangeiro, ele, tuberculoso, percorria as cidades da Itália em
busca da saúde que lhe fugia e, esgotado antes do tempo, voltava à sua cidadezinha natal,
para morrer com apenas 38 anos.
“Um tiro no nevoeiro” é um dos grandes contos de Jacobsen, característico de toda a sua
arte. Resistindo ao desejo de mostrar ao leitor linha por linha a extrema finura da notação
psicológica (com o quê se perderia o encanto da surpresa), queremos, contudo, indicar-lhe um
desses fenômenos estranhos cujo segredo pertence a poucos escritores, realmente grandes.
Veja-se com quantas palavras focaliza Jacobsen a personalidade de Ágata: fará uma
observação a respeito de suas mãos, vistas pelos olhos do apaixonado, e outra, muito indireta,
sobre o seu caráter; no diálogo, ela quase não dirá nada; e, contudo, essa figura de mulher é
viva como poucas outras criações literárias.
Fornece, aliás, este conto ótima ilustração de um reparo particularmente justo de Oto Maria
Carpeaux (na sua magistral análise das “nuanças de Jacobsen”166): o escritor narra com
extraordinária brevidade os acontecimentos exteriores e detém-se longamente na análise da
repercussão íntima deles. Vejam-se o tiro, a morte de Ágata, a prisão de Klausen e toda a
vida de Henning, acontecimentos essenciais e, no entanto, apenas sugeridos. Por outro lado,
os processos psíquicos vêm sempre acompanhados de aspectos da natureza — e nisto se
revelam os estudos e a orientação primitiva de Jacobsen: à paisagem interior das personagens
corresponde sempre a paisagem exterior de...
De Deus, não. As personagens de Jacobsen evolvem num vácuo metafísico. Perpetrada a
vingança, Henning se desnorteia; alcançou o fim almejado e percebe de repente que a sua vida
ficou sem sentido. Tampouco o leitor se sente satisfeito com o castigo de Henning. Após a
leitura desta história, que lhe deixa na boca, por assim dizer, um gosto de cinza, vem-lhe o
desejo de perguntar, com o personagem: “Que haveria amanhã, e depois de amanhã, sim, que
haveria?”167

UM TIRO NO NEVOEIRO

O quartinho verde, em Stavnede, era evidentemente destinado a servir de passagem para as


outras peças. De qualquer modo, as cadeiras de espaldar baixo, alinhadas ao longo do
revestimento cor de pérola, não convidavam a maior demora. No meio da parede havia uma
galhadura de veado, disposta em troféu, encimando um espaço claro cuja forma revelava
nitidamente que fora ocupado outrora por um espelho oval. Uma das pontas sustentava um
chapéu de palha de senhora, de abas largas, com longas fitas verde-mar. No canto esquerdo
notava-se uma espingarda e um copo de leite anêmico; no outro, um feixe de varas de pesca,
com um par de luvas atado a um dos cordões. No meio do quarto se via uma mesinha redonda
de pé dourado; sobre a chapa de mármore preto jazia um grande ramo de samambaias.
Descia a tarde. A luz do Sol entrava por uma das vidraças de cima, numa grande faixa de
ouro, e caía sobre as samambaias. Umas eram de um verde viçoso, a maioria delas murchas,
embora não ressequidas nem encarquilhadas; mantinham a sua forma, porém a cor verde
cedera a uma infinidade de matizes amarelos e pardos, do amarelo-claro mais tenro ao pardo-
escuro mais forte.
Sentado à janela, um rapaz de seus 25 anos contemplava as cores alegres. A porta da
peça lateral achava-se escancarada, e uma jovem esbelta tocava o piano que se via lá dentro,
ao pé da janela aberta; tão baixo era o peitoril que ela podia avistar o relvado, e o caminho,
onde um moço, em elegante trajo de montaria, se ocupava em adestrar um cavalo branco. O
cavaleiro era o noivo dela, chamava-se Niels Bryde; ela, a moça da casa. O cavalo branco era
dela, e o rapaz sentado na antecâmara era um primo, filho do irmão de seu pai, o proprietário
Lind, de Begtrup, que morrera pobre e endividado, e a respeito de quem, enquanto vivo, nunca
se dissera uma palavra boa, que ele, aliás, não mereceria. Seu filho Henning fora levado para
Stavnede por Lind, que o mandou educar à sua custa, mas só até certo ponto, pois, apesar de
Henning ter aptidões e muita vontade de estudar, tirou-o do ginásio logo após a primeira
comunhão e fê-lo voltar a Stavnede para aprender agricultura. Conquanto fosse ele agora uma
espécie de administrador da fazenda, faltava-lhe a verdadeira autoridade, porque o velho Lind
não se podia abster de intrometer-se em tudo.
Era muito desagradável a situação de Henning. A fazenda estava em más condições, e
nada se podia fazer para melhorá-la, porque faltava o capital. Nem se podia pensar em mantê-
la ao nível das propriedades vizinhas, e ainda menos no da época. Tudo tinha de continuar
como dantes, sabia Deus durante quanto tempo: devia-se obter o máximo gastando o mínimo
possível. Nos maus anos chegava a ser preciso vender uma ou outra terra para se ter algum
dinheiro em mão.
Era, pois, empreendimento dos mais tristes para um moço empregar naquilo seu tempo e
suas energias; de mais a mais, o velho Lind era homem violento e pouco tratável, e, por haver
prestado a Henning os benefícios mencionados, pensava não lhe dever nenhuma consideração.
Quando se encolerizava, não tinha escrúpulos em lembrar-lhe que ele, ao vir para sua
companhia, era um menino faminto, e nos momentos de furor chegava a fazer alusões tão
verdadeiras quanto impiedosas às atividades do falecido pai do moço.
Um tio solteirão, que vivia em Schleswig e tinha um importante comércio de madeiras,
várias vezes tentara chamar Henning para junto de si, e o jovem teria já desde muito
renunciado a viver em Stavnede, não fora a sua grande paixão pela filha de Lind, paixão que
lhe fazia julgar impossível a vida em qualquer lugar sem vê-la. Entretanto esse amor não era
feliz. Ágata dava-se bem com ele, os dois haviam brincado juntos na meninice e até já depois
de grandes; quando, porém, certo dia, mais ou menos um ano atrás, ele se lhe declarou, ela
mostrou-se a um tempo surpreendida e irritada, e respondeu-lhe que aquilo lhe parecia uma
brincadeira de mau gosto; esperava que ele nunca mais aludisse a tal coisa, não a levando a
pensar que se tratava de uma ideia fixa, de uma mania.
Com efeito, o tratamento aviltante a que ela o via incessantemente exposto, e que ele
admitia, sem dúvida, em consideração do amor que lhe votava, acabara de o degradar
realmente aos olhos dela, de tal forma que Ágata o julgava pertencente a uma classe inferior à
sua, não em importância social ou riqueza, mas em sensibilidade e sentimento de honra.
Pouco tempo depois veio o noivado com Bryde.
Quanto não sofreu Henning nos três meses passados desde então! No entanto, ficou; não
podia renunciar à ideia de obtê-la, aguardava algum acontecimento, ou melhor, imaginava
sucessos extraordinários que desfariam o noivado, sem esperar, contudo, que suas fantasias
se transformassem em realidades; delas precisava apenas como pretexto para ficar.
— Ágata! — gritou de fora o cavaleiro, detendo o cavalo em frente à janela aberta — tu
nem nos olhas, e estamos fazendo maravilhas!
Ela voltou-se para a janela, acenou com a cabeça e disse-lhe, sem deixar de tocar:
— Ora, estou acompanhando vocês; por pouco não deram um tombo lá perto da moita de
viburno.
E correu os dedos pelo teclado, num contraponto.
— Agora, anda, pula! — acrescentou.
E passou a uma galopada ruidosa. Mas, como o cavaleiro não se mexesse, perguntou:
— Então?
— Dize-me, pretendes passar a manhã toda ao piano?
— Pretendo.
— Hum... Neste caso, talvez a gente procure... sim, com efeito, poderíamos ir até
Hagestedgaard e estar de volta para o jantar.
— Sem dúvida, se se apressarem. Até logo, meu pigarço gordo; até logo, Niels!
Então ele partiu, ela fechou a janela e continuou a tocar, mas parou pouco tempo depois;
era bem mais divertido tocar enquanto ele cavalgava ali perto e se impacientava.
Henning continuava sentado e seguia o cavaleiro com o olhar. Como odiava aquele homem!
Se não fosse ele... Eles não combinavam bem; tomara que houvesse uma leve desavença
para cada um mostrar ao outro o que era na realidade...
Ágata entrou no quarto verde, cantarolando o motivo do noturno que acabava de tocar;
aproximou-se da mesinha e pôs-se a arranjar o ramalhete de samambaias. A luz do Sol caía-
lhe sobre as mãos, grandes e brancas, admiravelmente modeladas. Henning vivia sempre
encantado com aquelas mãos bonitas, e nesse dia ela trajava um vestido de mangas amplas,
de jeito que se viam os braços roliços até o cotovelo; eram tão viçosas aquelas mãos com a
sua redonda maciez, a sua brancura deslumbrante e os contornos vigorosos! depois, aquele
jogo variado e fino dos músculos, aqueles movimentos suaves... e sobretudo aquele gesto
ondulante, o mais querido de todos, com que usava acariciar os cabelos... Quantas vezes não
sofrera ao vê-las saltar e lutar sobre o teclado estúpido, para o qual não tinham sido feitas!
Elas deviam repousar silenciosas no regaço de um vestido de seda preta, ornadas de grandes
anéis, como as mulheres nuas de um harém.
Enquanto compunha, com vagar, o ramalhete, havia no seu rosto um ar de felicidade
indiferente que irritava Henning. Por que tinha de ser tão clara e fácil a vida para ela, que lhe
roubara até a menor parcela de luz? E se a sacudisse daquela serenidade clara, se lhe
atirasse no caminho uma leve sombra? Ela arremessara ao chão o seu amor, e pisara-o, como
se fosse uma coisa sem vida e não uma alma humana que se contorcia e revolvia, naquele
amor, cheia de desejo, sedenta de felicidade...
— Em pouco tempo ele poderá estar em Borreby — disse.
E olhou pela janela.
— Não, ele foi para Hagestedgaard — replicou Ágata.
— É certo, mas Borreby não fica muito fora do caminho.
— Como, se não é no caminho dele?
— No caminho propriamente não é... mas será que ele ainda vai lá com frequência?
— Aonde?
— A Borreby, naturalmente, à casa do guarda-florestal.
— Não sei. Mas por que iria lá?
— Talvez seja apenas um boato... sabes, ele tem aquela filha bonita.
— E daí?
— Ora, meu Deus! Afinal de contas, nem todos os homens são monges.
— Estão dizendo isto?
— Isto ou aquilo... sempre se diz alguma coisa de todo o mundo; o certo é que ele poderia
ser um pouco mais prudente.
— Mas que é que dizem? Que é que dizem?
— Bem, falam em encontros e... o resto!
— Estás mentindo, Henning! Ninguém diz isso, tudo isso foste tu que inventaste.
— Por que me interrogas então? Aliás, que prazer poderia eu sentir em andar espalhando a
sorte que ele tem com as moças de Borreby?
Ela depôs o ramo na mesa e aproximou-se dele:
— Nunca teria pensado que és tão abjeto, Henning!
— Está certo, querida, compreendo perfeitamente a tua revolta; deve na verdade
aborrecer-te que ele não seja capaz de se dominar — pelo menos agora!
— Que vergonha, Henning! O que estás fazendo é baixo e indigno, mas eu não acredito nas
tuas mentiras.
— Também eu não estou dizendo — continuou ele desviando os olhos — que os tenha visto
a se beijarem.
Ágata inclinou-se e, desdenhosa, deu-lhe uma bofetada.
Ele ficou branco feito um cadáver e fitou-a com um olhar que era, pela metade, o de um
cão doente, e só pela outra metade o de um homem magoado. Ágata escondeu o rosto nas
mãos e encaminhou-se em direção à porta aberta. Ali parou um instante, olhou-o por cima dos
ombros e, fria e calma:
— Henning, quero apenas dizer-te que não estou arrependida do que fiz.
E saiu.
Henning ficou atordoado. Depois, vacilante, subiu ao seu quarto e se atirou ao leito. Tinha
nojo de si mesmo. Tudo estava acabado. O melhor que podia fazer era meter uma bala na
cabeça. Viver? Esgueirar-se pela vida fora, de olhos vesgos, como um cão pisado? Não!
Esbofeteando-o, ela o marcara com um ferrete de escravo; e tinha razão, pois outra coisa não
se podia fazer diante de tamanha velhacaria. Como a tinha amado! Ardentemente, com
loucura, não como um homem, mas como um cachorro, sempre a seus pés, na poeira, como
em face dum ídolo. Certa vez, estavam num jardim, ela gravou o nome numa árvore, o vento
brincava com os seus cabelos, ele beijou às escondidas uma das madeixas que esvoaçavam e
sentiu-se feliz durante alguns dias. Não, o seu amor nunca tivera coragem viril ou esperança
alegre; em tudo ele fora um escravo: no seu amor, na sua esperança, no seu ódio. Por que
não quisera ela crer no que ele contava, preferindo confiar cegamente em Niels? Ele nunca lhe
mentira; havia sido essa a primeira ação vil que praticara em sua vida, e ela o percebera de
pronto! Isso acontecia porque ela nunca o supusera capaz senão de atos baixos e vulgares.
Ela jamais o compreendera; no entanto, era por causa dela que suportara a vida parada e
humilhante de Stavnede, onde a ideia de que se tratava de um presente lhe estragava o gosto
de cada bocado de pão. Esta ideia bastava para enlouquecê-lo. Como se odiava a si mesmo
pela sua tola paciência, pela sua esperança humilde! Era capaz de matá-la pelo que fizera
dele, e ia vingar-se; ela havia de pagar-lhe os longos anos de aviltamento, os milhares de
horas atormentadoras. Vingança pela perda da estima de si mesmo, vingança do seu amor
servil e da bofetada.
Assim se ia embalando agora em sonhos de revolta, como pouco antes em sonhos de
amor, e não se matou nem deixou a casa.

Certa manhã, dois ou três dias após o incidente, estava Henning no quintal com espingarda e
bolsa de caçador. Nessa altura apareceu Niels Bryde a cavalo, igualmente aparelhado para a
caça. Conquanto se estimassem agora muito pouco, cumprimentaram-se afavelmente e
mostraram-se particularmente encantados da feliz coincidência que lhes permitia fazerem
juntos a excursão. Depois, remaram juntos até Roenne, ilha bastante grande, baixa e plana,
coberta de urzes, na embocadura do fiorde. Durante o outono era frequentada por focas, que
se reviravam nos baixos bancos de areia ligados à praia ou dormiam nas grandes pedras
chatas espalhadas ali. Eram elas o objeto da caça. Chegando ao lugar, separaram-se os dois
e partiram, cada um pelo seu caminho, ao longo da praia. O dia, cinzento e enevoado, atraíra
muitas focas, e cada um dos caçadores ouvia, a curtos espaços, os tiros do outro. Aos poucos
a névoa aumentava, e por volta do meio-dia cobria tão densa o fiorde e a ilha que era
impossível distinguir pedras e focas a vinte passos de distância.
Henning sentou-se na praia e fitou o nevoeiro. Tudo estava em silêncio; apenas, de tempo a
tempo, o leve sussurro da água e o assobio angustioso de uma perdiz emergiam da nudez
pesada e opressiva.
Sentia-se cansado de todos aqueles pensamentos, cansado de esperar, cansado de odiar,
doente de sonhar. Ficar sentado ali, silencioso, com um olhar sonolento, imaginar o mundo
como coisa muito afastada, coisa passada para sempre, ficar ali calado e deixar correrem as
horas, uma após outra, era a paz, era quase a felicidade. De repente, ressoou pelo nevoeiro
uma canção, alegre, exultante:

Conduzo, em maio, a virgem formosa


— Vestido em lírio botão de rosa.
Músicos, tocai!
Ria para nós o verde na floresta,
De lindas flores se adorne o prado,
Resplandeça a lua pela noite em festa,
O Sol delire em vivo bailado,
Minha sorte aos ares o cuco anuncie,
Louvando-me, o lugre, de alegre, assobie,
E em casa as mágoas deixem-se estar!

Era a voz clara de Niels Bryde. Henning levantou-se de um pulo; o ódio golpeou-o como um
relâmpago, seus olhos ardiam, soltou uma risada rouca, e encostou a espingarda à face.
— E em casa as mágoas deixem-se estar! — ressoou mais uma vez.
Apontou na direção da voz, dentro do nevoeiro, as últimas palavras apagaram-se no
estampido — depois, tudo se fez silencioso como dantes.
Henning teve de se apoiar na espingarda fumegante e conteve a respiração para espreitar.
Não, graças a Deus! Era apenas o sussurro da água e o grito longínquo de gaivotas
afugentadas. Sim! De dentro vinha um soluço. Atirou-se ao chão, escondeu o rosto nas urzes e
tapou os ouvidos. Via bem claro o rosto deformado, as convulsões espasmódicas dos
membros e o sangue vermelho que corria, irreprimível, do peito, aos borbotões, propelido por
cada pulsar do coração, caindo nas pardas moitas das urzes, gotejando pelos ramos e pelos
troncos, infiltrando-se entre as raízes negras.
Ergueu a cabeça e espiou: o soluço continuava, mas ele não tinha coragem de chegar até
lá, não, não! Estraçalhava as urzes com os dentes, revolvia com as mãos a terra frouxa, como
se procurasse um esconderijo, rolava no chão feito um louco, mas aquilo, dentro do nevoeiro,
ainda não tinha acabado, ele ainda ouvia aquilo lamentar-se.
Por fim, acabou. Henning manteve-se deitado por algum tempo mais; depois, de gatinhas,
entrou pelo nevoeiro adentro. Levou tempo até que pudesse distinguir qualquer coisa; afinal o
encontrou ao pé de um oiteirinho. Estava morto como uma pedra; o tiro acertara-lhe em cheio
o coração.
Henning tomou o cadáver nos braços e carregou-o através da ilha para a canoa em que
tinham vindo; depois, travou dos remos e remou para terra. Desde o momento em que avistou
o cadáver, cessou-lhe a emoção, substituída por uma tristeza surda e silenciosa. Pensava na
fragilidade da vida, e em como devia, chegando a casa, preparar-lhe o espírito, poupando-a.
Uma vez em terra firme, dirigiu-se a casa de um camponês para arranjar um veículo. O
homem perguntou-lhe como se dera o desastre. O relato formou-se nos lábios de Henning
quase automaticamente: na parte ocidental da ilha, Bryde trepara a um oiteirinho com a
espingarda na mão; o gatilho, decerto meio levantado, devia ter-se prendido em alguma coisa,
e o tiro saiu. Pela detonação, ele, Henning, tinha verificado que deviam estar perto, e chamara
Bryde; não obtendo resposta, inquietou-se e, prosseguindo no rumo do estampido, encontrou-
o deitado ao pé do oiteirinho, porém já sem vida.
Contava tudo calmamente, num tom surdo e doloroso, e não tinha, contando-o, o menor
sentimento de culpa; mas, quando o cadáver foi posto no carro e afundou na palha, a cabeça
caiu de lado e deu uma pancada fraca na carroçaria, Henning esteve a ponto de perder os
sentidos, e experimentou dores no coração enquanto o carro com o cadáver passava por
Borup e Hagestedgaard.
Depois de haver entregue o cadáver, sua primeira ideia foi fugir, e só a extremo custo pôde
dominar-se e ficar até o fim do enterro. Durante a espera, uma inquietação febril, como que
vinda de fora, apoderou-se dele, e um desnorteio terrível lhe avassalou os pensamentos,
impedindo-os de se apegarem a algo fixo, impelindo-os sem parar de um assunto para outro.
Esse andar à roda, esse contínuo remoinho que não podia deter, por um triz não o
enlouqueceu; e, ao ver-se sozinho, começava a cantarolar mentalmente ou de viva voz alguma
melodia, marcando o ritmo com o pé, para dessa maneira agrilhoar os pensamentos e evitar
que eles o arrastassem também na sua ronda sinistra, exaustiva.
Por fim, realizou-se o enterro.
No dia seguinte, estava Henning a caminho da casa do tio, o comerciante de madeiras, para
pedir-lhe que o empregasse na sua empresa. Encontrou-o com o espírito muito abatido.
Falecera-lhe um mês atrás a velha governanta, e havia poucos dias tivera de despedir o
gerente por causa de um desfalque. Assim, o sobrinho chegava em boa hora. Pôs-se a
trabalhar na empresa com afinco, e ao cabo de um ano assumia-lhe a direção.
Quatro anos decorridos, operaram-se algumas mudanças. Morreu o comerciante de
madeiras, deixando Henning como seu herdeiro universal. O velho Lind, de Stavnede, também
foi ter com os seus antepassados, mas deixou a fazenda tão sobrecarregada de dívidas que
se fez preciso vendê-la, e, apuradas as contas, Ágata quase ficou sem nada. O novo
proprietário de Stavnede é Henning, que abandonou o comércio de madeiras e voltou à
agricultura. Em Hagestedgaard, um certo Klausen sucedeu a Niels Bryde. Em breve deverá
casar-se com Ágata, que reside agora em casa do pastor. É ainda mais bonita do que antes.
Não é o caso de Henning. Este, pelo seu aspecto ninguém diz que a sorte o favoreceu. Parece
quase velho, tem as feições ásperas, o andar cansado, o porte meio curvo, fala pouco e muito
baixo, seus olhos ganharam uma estranha luz seca, e o olhar se tornou inquieto e feroz.
Quando pensa estar sozinho, fala consigo mesmo e gesticula, o que faz supor aos vizinhos que
ele bebe.
Mas enganam-se. Dia e noite, a qualquer momento, nunca está livre da lembrança do
assassinato de Niels Bryde. Sua inteligência e suas aptidões murcharam nessa ânsia de todas
as horas, pois, quando tal pensamento lhe vem, o que lhe traz não é arrependimento nem uma
aflição sombria, mas um horror chamejante e vivo, um delírio horrível em que o olhar se turva
de modo que tudo se mexe — fluindo, gotejando, borbulhando — e tudo muda de cor, dando-
lhe ora uma palidez cadavérica, ora uma coloração vermelho-escura como o sangue. E em
todas essas correntes dir-se-ia haver uma atração, como se se alimentassem das veias, como
se aspirassem as finas fibras dos nervos, e o peito arqueja em ânsia indizível, porém nenhum
grito salvador, nenhum soluço de alívio alcança abrir caminho pelos lábios exangues.
São tais sensações uma consequência do pensamento; eis por que Henning o teme, eis por
que o seu olhar é inquieto e o seu andar tão cansado. O medo o enfraqueceu, e o que lhe
resta de forças vive do seu ódio. Sim, ele odeia Ágata, odeia-a por que a sua alma se perdeu
pelo amor que ela lhe infundiu, porque a sua felicidade e a sua paz foram por ela destruídas;
mas odeia-a, antes de tudo, porque nada ela suspeita de todo aquele mundo de sofrimento e
miséria que ela mesma criou; e, quando ele agora fala, de si para si, com gestos
ameaçadores, é na vingança que ele pensa, são projetos de vingança que ele incuba. Nada
disso, contudo, deixa transparecer. Nas suas relações com Ágata, ele é a própria amabilidade:
deu-lhe o dote, serviu-lhe de padrinho; e a amabilidade não arrefeceu nem sequer depois do
casamento: ajudou e aconselhou Klausen de todas as maneiras, e os dois empreenderam
juntos vários grandes negócios de especulação, que deram ótimo resultado. Henning parou aí,
mas Klausen desejou continuar e Henning prometeu auxiliá-lo com os seus conselhos, o que
realmente fez. Emprestou-lhe importâncias consideráveis, e Klausen passou de especulação a
especulação. Em umas perdeu, noutras ganhou, mas, quanto mais especulava, tanto mais se
entusiasmava. Por fim, um empreendimento de grande vulto devia enriquecê-lo. O negócio
exigia grandes investimentos, e Henning ajudou sem cessar; restava fazer o último pagamento,
quando ele se retraiu. A Klausen as perspectivas pareciam as mais brilhantes; se, porém, se
retirasse agora do negócio, ficaria arruinado e não poderia pagar. Resolveu então assinar
algumas letras de câmbio com o nome de Henning; ninguém suspeitaria nada, e o ganho viria
em pouco.
O empreendimento malogrou-se. Klausen estava à beira da ruína. Aproximava-se o
vencimento das letras, cumpria tentar os últimos recursos; mandou, pois, Ágata a Stavnede.
Henning surpreendeu-se ao vê-la, pois não havia muito que ela dera à luz, e o tempo era
áspero e chuvoso. Conduziu-a ao quarto verde, onde ela lhe contou o insucesso da
especulação e o caso das letras.
Henning sacudiu a cabeça e disse, calmo e tranquilo, que decerto ela entendera mal as
palavras do marido, pois não se punha o nome de outras pessoas nas letras de câmbio; era
um crime, simplesmente um crime, que a lei punia com prisão.
Não, não, ela não entendera mal as palavras do marido; ela sabia que era um crime, e por
isso mesmo é que Henning devia socorrê-los; bastava que ele não levantasse objeção à
assinatura, e tudo se arranjaria.
Sim, mas neste caso ele devia pagar as letras, o que não podia fazer; já investira tanto
dinheiro no empreendimento de Klausen que se achava agora empenhado além das próprias
forças. Não podia.
Ágata pôs-se a chorar, a implorar.
Ora, ela devia considerar as imensas perdas que ele acabara de sofrer por culpa de
Klausen. Quando ela lhe contara que o empreendimento falira, tivera ele a impressão de
receber uma bofetada, tão surpreso e perplexo ficara. Ao empregar esta palavra, lembrava-se
duma bofetada que ela lhe dera um dia; seria que ela se lembrava ainda? Não! Pois fora certo
dia em que ele queria mexer com ela dizendo que Bryde... era mesmo verdade que já não se
lembrava? Sim, dera-lhe uma bofetada, num acesso gentil de irritação, ali, no rosto.
Pois sim, mas havia um meio de ele ajudar?
Acontecera ali, naquele mesmo quarto. Eram outros tempos, tempos notáveis aqueles.
Parecia-lhe até haver-lhe feito certo dia uma declaração, sim, tinha a impressão disto.
Fizessem de conta que ela o tivesse aceitado... mas que tolice falar de tais casos, pois Bryde,
esse, sim, que era um belo homem, mas depois teve aquele triste fim — um rapaz tão bonito!
Sem dúvida, porém não haveria mesmo uma saída, uma saída qualquer?
Ela não devia dar importância a essa história de letras; era uma coisa que Klausen lhe
impingira para experimentar se ele, Henning, não podia auxiliá-lo mais um pouco; apenas uma
esperteza; Klausen era muito esperto, muito ladino, sim, ladino como poucos.
Não, era realmente assim como ela dizia. Se voltasse com uma resposta negativa, Klausen
teria de fugir para a América; quando ela partira de casa, o carro que o devia conduzir à
estação de Voer já estava pronto.
Nunca ele esperara aquilo de Klausen. Era a mais reles patifaria! Causar um embaraço a
quem o tinha ajudado tantas vezes! Devia ser um homem mau. Que coisa revoltante! Sem falar
da desonra que atraía sobre a esposa e o filho inocente. Ela ia ver o que diriam deles. Pobre
Ágata! Pobre Ágata!
Ela jogou-se-lhe aos pés, rogando:
— Henning, Henning, tem piedade de nós!
— Não, mil vezes não; meu nome deve ficar sem mancha. Não ajudo a um criminoso.
Então ela se foi.
Henning sentou-se e escreveu à polícia de Voer solicitando-lhe a prisão de Klausen por
falsificação de firma, caso aparecesse na estação. Um correio a cavalo seguiu com a carta.
À noite soube que Klausen partira; na manhã seguinte, que fora detido em Voer.
Ágata, mal chegou a casa, teve de se deitar. Enfraquecida como estava pela recente
enfermidade, não pôde suportar o esforço e as emoções violentas. A notícia da prisão de
Klausen abateu-a de todo. A moléstia assumiu caráter agudo, febril, e três dias depois
chegava a Stavnede a notícia de sua morte.
Na véspera do enterro, Henning foi a Hagestedgaard. Era um dia escuro e nevoento, as
folhas caíam em massas espessas, havia no ar um cheiro acre de terra.
Conduziram-no à câmara-ardente. As janelas achavam-se cobertas de pano branco; à
cabeceira da morta, ardiam algumas velas. O ar pesava com o perfume das numerosas
coroas e o cheiro de verniz do caixão.
Henning teve uma impressão quase solene ao vê-la na veste mortuária fantasticamente
branca. Tinham-lhe colocado no rosto um lenço branco; não o levantou. As mãos estavam
cruzadas sobre o peito, calçadas de luvas brancas de algodão. Tomou uma das mãos, retirou-
lhe a luva e pô-la dentro da camisa. Depois, observou a mão curiosamente, dobrou-lhe os
dedos e neles soprou como para aquecê-los. Durante muito tempo conservou a mão dela na
sua. Crescia a escuridão no quarto, lá fora o nevoeiro se adensava. Então se inclinou sobre o
rosto dela e balbuciou:
— Adeus, Ágata! Quero-lhe dizer uma coisa antes de nos separarmos: não estou
arrependido do que fiz.
Nisto deixou cair a mão e saiu.
Ao chegar à porta, mal pôde ver o celeiro, tão espessa era a névoa. Perlongando a praia,
dirigiu-se para casa. Agora ele estava vingado — e depois? Que haveria amanhã, e depois de
amanhã, sim, que haveria? O silêncio era enorme, apenas vinha da água um leve sussurro,
mas ele não podia ouvir o próprio coração; ainda batia, mas tão cansado, tão cansado... Que
foi? Dir-se-ia um tiro! Mais um! Sacudiu a cabeça, sorriu e resmungou:
— Não, não foram dois; apenas um!
Estava tão fatigado! mas descansar... não tinha descanso para descansar. Deteve-se um
instante e olhou em redor: o nevoeiro formava uma parede à volta dele, nevoeiro em cima,
nevoeiro em torno, areia debaixo; suas pegadas traçavam no chão uma linha reta que
penetrava até o meio do círculo de nevoeiro, não além. Avançou mais um pouco; não, elas não
conseguiam chegar além do meio; atrás dele, porém, lá por onde viera, havia círculos cheios
de suas pegadas. Estava tão fatigado! Era por causa da areia que impedia o passo... cada
passo lhe custara parte das suas forças, sim, eram outros tantos túmulos de suas forças
gastas... e do outro lado a areia estava intata e lisa, e aguardava... Um calafrio o percorreu:
alguém caminha sobre o meu túmulo... alguém pisa no meu trilho, há um como frufru de vestes
de mulher atrás de mim, no nevoeiro, há algo branco dentro do nevoeiro branco. Recomeçou a
caminhar, apressando o passo. Tremiam-lhe as pernas, tudo se escureceu ante seus olhos,
mas tinha de avançar, através do nevoeiro, porque, lá dentro, aquilo perseguia-o sem tréguas.
Aproximava-se cada vez mais, iam-lhe rareando as forças, cambaleava, estranhos relâmpagos
rasgavam-se ante o seu olhar, sons estridentes, agudos, retiniam-lhe aos ouvidos, um suor frio
molhava-lhe a testa, os lábios se abriam com espanto; caiu na areia. E aquilo vinha vindo de
dentro do nevoeiro, disforme e todavia reconhecível, rodeando-o, pesada e vagarosamente.
Tentou levantar-se, mas uns dedos gelados agarraram-lhe a garganta...
No dia seguinte, quando o enterro de Ágata devia sair, o cortejo esperou muito, mas
ninguém veio de Stavnede para acompanhá-la.
GUSTAVE FLAUBERT

A vida de Gustave Flaubert (1821-1880) é descrita, quanto aos seus traços fundamentais, em
A educação sentimental, romance estranho em que nada acontece, “a longa relação de uma
vida inteira sem que as personagens tomem, por assim dizer, parte ativa na ação” 168 O herói,
Frederico Moreau, é um moço pobre da província a quem uma herança imprevista salva da
miséria, mas que aproveita a fortuna apenas para assistir passivo ao escoamento dos anos,
mantendo-se constantemente à margem, numa contemplação estéril. O seu único amor,
platônico e irreal, apaga-se pelo atrito inclemente do tempo, como toda a sua existência.
Eis aí resumida a vida do próprio Flaubert, menos, é claro, a literatura. Deixando-lhe o pai,
médico de Ruão, uma herança que lhe permitiu não adotar profissão alguma, soube ele conter,
graças a uma disciplina rigorosa, suas veleidades de inércia, e realizar uma obra literária das
mais importantes. O esquema biográfico resume-se em poucos traços: existência de recluso
em Croisset, duas viagens ao Oriente, parte dos últimos anos passada em Paris sempre em
contato com escritores amigos — Daudet,169 os Goncourts, Zola, Turguêniev170 e
Maupassant;171 o amor de Louise Colet, com todas as características de uma ligação efêmera;
o amor à sra. Schlésinger, com todo o fervor de uma paixão insatisfeita e eterna. Suas
proclamações de insensibilidade, indiferença e cinismo, suas cóleras e indignações
tempestuosas encobriam um grande coração de filho e amigo; era “um bom gigante”, na
expressão dos que o conheciam de perto.
Sua vida, exteriormente tão simples, difere de outras vidas de escritores sobretudo em
razão do predomínio que nela teve a arte acima de tudo mais. “Desde o dia, por assim dizer,
em que empunhou uma pena, Flaubert foi um homem para quem só a literatura existe.”172 Seu
desprezo à burguesia, à rotina, à vida pública, à sociedade em geral, seu desespero em
relação à humanidade, são compensados por uma fé comovedora e algo ingênua na literatura,
pelo árduo e incessante esforço para alcançar uma perfeição irrealizável, pelos longos dias
gastos na redação de uma página. Lia-a, repetia-a em voz alta, escandia-a, desbastava-a,
ampliava-a, refazia-a, como se a própria salvação ou a sorte da humanidade dependesse da
colocação dum advérbio ou da escolha dum verbo.
Essas convicções, expressas sobretudo na Correspondência, sob a forma de bravatas e
paradoxos, levaram Flaubert a exagerações teóricas, cuja insustentabilidade é fácil
demonstrar, mas que em nada lhe diminuem o valor da obra. Para muitos, Madame Bovary,
história de um casal provinciano insignificante e infeliz, é o maior romance do século XIX;
outros flaubertianos preferem-lhe A educação sentimental. Alguns, requintados, dão a primazia
a Bouvard e Pécuchet, romance inacabado da estupidez humana, cujos heróis, dois imbecis,
revoltaram toda a crítica da época. A elaboração e documentação dessas histórias
contemporâneas, intencionalmente monótonas e de poucas tonalidades, não foram menos
custosas que as de A tentação de santo Antônio, revalorização estilística, pictural e musical de
um tema lendário, ou do romance “histórico” Salammbô, em que Flaubert revive a imagem
exótica, monstruosa e colorida da antiga Cartago.
Segundo a opinião quase unânime dos críticos, a grandeza de Flaubert reside no seu estilo.
Ainda que não se lhe aceitem as teorias, admiram-se-lhe as obras, pois “era um desses
bravos capitães que não sabem raciocinar sobre a guerra, mas ganham as batalhas”.173 Num
estudo de extraordinário interesse, o maior escritor moderno da França — o qual também
sacrificou a vida às letras — chegou ao extremo de afirmar que Flaubert, “pelo emprego
inteiramente novo e pessoal que fez do passado definido, do passado indefinido, do particípio
presente, de certos pronomes, e de certas preposições, renovou quase tanto a nossa visão
das coisas como Kant com suas Categorias, as teorias do Conhecimento e da realidade do
mundo exterior”.174
Há, entre os críticos e estudiosos de Flaubert, quem julgue sua obra-prima o último livro que
publicou, Três contos. Dois deles, “Herodíade” e “A lenda de são Julião, o hospitaleiro”, são
afrescos multicores, da família de A Tentação e Salammbô, ao passo que em “Uma alma
simples” volve o autor a representar uma dessas existências apagadas e silenciosas que mais
o atraíam: “é simplesmente a narrativa de uma vida obscura, a de uma pobre moça do campo,
devota, porém mística, devotada sem exaltação e branda como o pão fresco. Ela ama
sucessivamente um homem, os filhos da patroa, um sobrinho, um ancião de quem cuida, e por
fim o seu papagaio; quando este morre, manda empalhá-lo, e, ao morrer, por sua vez,
confunde-o com o Espírito Santo. Isso não é nada irônico, como você o supõe” — escreve ele
a sua amiga sr. a Roger des Genettes 175—, “mas, pelo contrário, muito sério e muito triste.
Quero enternecer, fazer chorar as almas sensíveis, sendo eu próprio uma delas.”
A matéria-prima da história, o autor colheu-a na sua própria infância. Felicidade existiu: era
a ama de Flaubert criança; a sra. Aubain era sua tia; Paulo, o próprio Flaubert; Virgínia, a sua
irmã Carolina, morta muito jovem.
Apesar de tratar-se de um caso vivido, nem por isso o escritor renunciou a seus métodos
de documentação, exaustivos e, alguma vez, ingênuos. Pediu livros a vários amigos para se
documentar acerca de uma série de assuntos, alguns dos quais seriam tratados
acessoriamente, em poucas linhas: assim, foi consultar obras sobre as procissões e sobre as
pneumonias; leu missais; fez uma viagem a Pont-l’Êvêque e Honfleur para “tomar um banho de
recordações”, outra a Ruão para estudar no museu local uns papagaios empalhados.
Conseguiu que lhe emprestassem um deles. “Há um mês” — escreve à correspondente já
citada — “tenho sobre a mesa um papagaio empalhado a fim de ‘pintar’ conforme à natureza.
Sua presença começa a cansar-me. Não importa! guardo-o para encher a alma de
papagaio.”176
O conto foi escrito para satisfazer um pedido da romancista George Sand, que procurara
convencer o mestre da insensibilidade em literatura de que o escritor, sem decair de sua
dignidade, podia comunicar algum reconforto ao leitor. 177 Mas, quando Flaubert, ao cabo de
cinco meses de trabalho contínuo, terminou o conto, sua amiga já não existia. Decerto George
Sand teria gostado dessa obra-prima, que, sem moralidade expressa, sem lições de bondade
nem ditirambos românticos, irradia, embora realizada pelo mais consciente dos artistas, a
pureza ingênua de uma página da Legenda áurea178 ou de um vitral da Idade Média.

UMA ALMA SIMPLES


I
Durante meio século, as burguesas de Pont-l’Évêque invejaram à sra. Aubain a sua criada
Felicidade.
Por cem francos ao ano, cozinhava e arrumava a casa, cosia, lavava, engomava; sabia
enfrear um cavalo, engordar as criações, bater manteiga, e permaneceu fiel à sua ama — que
não era, entretanto, pessoa agradável.
Esta desposara um belo moço pobre, que morrera no começo do ano de 1809, deixando-
lhe dois filhos muito novos e uma porção de dívidas. Vendeu, então, os imóveis, exceto a
quinta de Toucques e a de Geffosses, cujas rendas iam, quando muito, a 5 mil francos, e
deixou sua casa de Saint-Melaine, mudando-se para outra menos dispendiosa, que pertencera
a seus avós, situada atrás do mercado.
A casa, revestida de ardósias, ficava entre uma travessa e uma viela confinante com o rio.
Havia no interior dela diferenças de nível que faziam tropeçar. Um vestíbulo estreito separava
a cozinha da sala onde a sra. Aubain passava o dia inteiro, sentada à janela, numa poltrona de
palhinha. Junto aos lambris, pintados de branco, alinhavam-se oito cadeiras de mogno. Sob um
barômetro, um velho piano suportava uma pilha piramidal de caixas e cartões. Duas poltronas
estofadas flanqueavam a lareira de mármore amarelo, estilo Luís XV. Ao centro, o relógio
representava um templo de Vesta — e todo o aposento cheirava de leve a mofo, pois o soalho
ficava em plano inferior ao do jardim.
No primeiro andar encontrava-se, antes de tudo, o quarto da “patroa”, muito grande,
forrado com um papel de flores pálidas, e no qual se via o retrato do “patrão” em traje de
janota. Comunicava-se com um quarto menor, onde havia duas caminhas de crianças, sem
colchões. Em seguida, o salão, sempre fechado e cheio de móveis cobertos com um pano.
Depois, um corredor dava para um gabinete de estudo; livros e papelada guarneciam as
prateleiras duma biblioteca, que rodeava, pelos seus três lados, uma vasta secretária de
madeira preta. As duas almofadas em relevo desapareciam sob desenhos a bico de pena,
guaches representando paisagens, e gravuras de Audran, 179 lembranças de melhores dias e
de um luxo esvaecido. No segundo andar, uma claraboia alumiava o quarto de Felicidade,
dando vista para os campos.
Ela se levantava logo ao amanhecer, a fim de não perder a missa, e trabalhava sem
descanso até à noite; depois, terminado o jantar, as louças em ordem e a porta bem-fechada,
escondia a acha de lenha sob as cinzas e adormecia ao pé da lareira, com o rosário na mão.
Ninguém se mostrava mais obstinado no regatear. Quanto ao asseio, o lustre das suas
caçarolas desesperava as outras criadas. Poupada, ela comia lentamente, e com o dedo
juntava, na mesa, as migalhas do pão — um pão de 12 libras, expressamente cozido para ela,
e que durava vinte dias.
Em todas as estações do ano trazia um lenço de chita preso às costas por um alfinete, uma
carapuça a ocultar-lhe os cabelos, meias cinzentas, um saiote vermelho, e por cima da
camisola um avental com babadouro, como as enfermeiras de hospitais.
Tinha o rosto magro e a voz aguda. Aos 25 anos, davam-lhe quarenta. Dos cinquenta em
diante já não denotava nenhuma idade; — e, sempre silenciosa, o talhe desempenado e os
gestos medidos, lembrava uma mulher de madeira, que funcionasse automaticamente.

II
Tivera, como outra qualquer, a sua história de amor.
O pai, pedreiro, morrera por haver caído de um andaime. Depois morreu-lhe a mãe, as
irmãs se dispersaram, um fazendeiro a recolheu e ocupou-a, ainda pequenina, em guardar as
vacas no campo. Tiritava sob os trapos, bebia, de bruços, a água dos pântanos, era
espancada sem mais nem menos, e terminou sendo expulsa por causa de um furto de trinta
soldos que não praticara. Passou a trabalhar noutra fazenda, onde tomava conta do galinheiro,
e, como agradava aos patrões, os seus camaradas tomaram-lhe ciúme.
Certa noite de agosto (tinha 18 anos, então), eles a arrastaram à festa de Colleville. Sentiu-
se logo atordoada, estupefata com a algazarra dos músicos ambulantes, as luzes nas árvores,
o variegado dos trajes, as rendas, as cruzes de ouro, aquela massa humana a saltar ao
mesmo tempo. Mantinha-se discretamente retraída, quando um rapaz de aparência abastada,
que fumava o seu cachimbo, com os cotovelos sobre o varal de uma carroça, veio convidá-la a
dançar. Ofereceu-lhe sidra, café, torta, um lenço de pescoço, e, imaginando que ela lhe
adivinhava as intenções, prontificou-se a levá-la para casa. À beira de um aveal, derribou-a
brutalmente. Felicidade teve medo e pôs-se a gritar. Ele afastou-se.
Outra noite, na estrada de Beaumont, ela quis ultrapassar um grande carro de feno que
avançava lento, e, roçando-lhe as rodas, reconheceu Teodoro.
O rapaz aproximou-se dela com ar tranquilo, dizendo-lhe que devia perdoar, pois aquilo “era
da bebida”.
Felicidade não soube que responder, e sentia desejo de fugir.
Então ele falou das colheitas e das pessoas gradas da comuna, pois seu pai deixara
Colleville pela quinta dos Écots, de modo que agora eles eram vizinhos.
— Ah! — disse Felicidade.
Ele acrescentou que desejavam casá-lo. Mas não tinha pressa, e esperava encontrar uma
companheira a seu gosto. A moça baixou a cabeça. Então Teodoro lhe perguntou se ela
pensava em casamento. Ela replicou, sorrindo, que não ficava bem zombar.
— Não, eu lhe juro!
E com o braço lhe cingiu o busto; afrouxaram a marcha. Brando era o vento, as estrelas
brilhavam, a enorme carrada de feno oscilava diante deles; e os quatro cavalos, arrastando os
passos, levantavam poeira. Depois, por si mesmos, dobraram à direita. Ele abraçou-a mais
uma vez. Ela desapareceu na sombra.
Na semana seguinte, Teodoro obteve encontros com ela.
Encontravam-se no fundo dos quintais, atrás de um muro, sob uma árvore isolada. Ela não
tinha a inocência das mocinhas — os animais haviam-na instruído; — mas a razão e o instinto
da honra impediram-lhe cair. Essa resistência exasperou o amor de Teodoro, a tal ponto que,
para satisfazê-lo (ou ingenuamente, talvez), prometeu desposá-la: Felicidade hesitava em dar-
lhe crédito. Ele fez grandes juramentos.
Dentro em pouco, o rapaz confessou-lhe uma coisa desagradável: seus pais, no ano
anterior, tinham pago a outro para prestar o serviço militar em vez dele; mas de um dia para
outro poderiam chamá-lo, e a ideia de ser soldado aterrorizava-o. Essa covardia foi para
Felicidade uma prova de ternura; e a sua redobrou. Ela escapava-se de noite, e, chegada ao
lugar da entrevista, Teodoro torturava-a com suas inquietações e suas insistências.
Enfim, ele anunciou que iria pessoalmente à Prefeitura pedir informações, e as traria no
próximo domingo, entre 11 horas e meia-noite.
Chegado o momento, Felicidade apressou-se em ir ter com o namorado. Em vez dele,
encontrou um dos amigos.
Disse-lhe este que ela não o veria mais. Para livrar-se da conscrição, Teodoro desposara
uma velha muito rica, a sra. Lehoussais, de Toucques.
Foi uma dor descomedida. Atirou-se ao chão, gritou, chamou por Deus, e gemeu sozinha no
campo até o nascer do Sol. Depois retornou à fazenda, declarou sua intenção de a deixar; e
no fim do mês, feitas as contas, meteu toda a sua pequena bagagem num lenço e dirigiu-se a
Pont-l’Évêque.
Em frente da estalagem, interrogou uma burguesa de capelina de viúva, que precisamente
andava à procura de cozinheira. A moça não sabia grande coisa, mas parecia ter boa vontade
e tão poucas exigências que a sra. Aubain terminou dizendo:
— Está bem, eu aceito-a!
Quinze minutos depois, Felicidade achava-se instalada em casa da sra. Aubain.
A princípio viveu numa espécie de tremor, provocado pelo “jeito da casa” e pela lembrança
do “patrão”, que pairava sobre todas as coisas! Paulo e Virgínia, um de sete anos, o outro
apenas de quatro, pareciam-lhe feitos de matéria preciosa; ela carregava-os às costas como
um cavalo, e a senhora proibiu-a de beijá-los a cada momento, o que a mortificou. Contudo,
sentia-se feliz. A doçura do ambiente dissipara-lhe a tristeza.
Todas as quintas-feiras vinham pessoas amigas jogar uma partida de bóston. Felicidade
preparava de antemão as cartas e os aquecedores de pés. Chegavam às oito horas em ponto
e retiravam-se antes de baterem as 11.
Cada segunda-feira, pela manhã, o ferro-velho que morava sob a aleia expunha no chão a
sua sucata. Depois a cidade enchia-se de um zumbido de vozes, em que se misturavam
relinchos de cavalos, balidos de cordeiros, grunhidos de porcos, ao ruído seco das carroças
na rua. Aí pelo meio-dia, quando mais animado ia o comércio, via-se aparecer na soleira um
velho camponês de alto porte, com o boné para trás, o nariz curvo: era Robelin, o rendeiro de
Geffosses. Pouco depois — era Liébard, o rendeiro de Toucques, pequeno, rubicundo, obeso,
metido numa jaqueta cinzenta e com perneiras de couro armadas de esporões.
Ambos ofereciam à proprietária galinhas ou queijos. Invariavelmente Felicidade frustrava-
lhes as astúcias; e eles iam embora cheios de consideração a ela.
De tempos a tempos, a sra. Aubain recebia a visita do marquês de Gremanville, um de
seus tios, que, arruinado pela crápula, vivia em Falaise no último pedaço de suas terras.
Sempre se apresentava na hora do almoço, com um horroroso cão-d’água, cujas patas
sujavam todos os móveis. A despeito dos seus esforços para dar a impressão de fidalgo, a
ponto de levantar o chapéu toda vez que dizia: — “O defunto meu pai” —, ele, arrastado pelo
hábito, bebia goles sobre goles, e proferia inconveniências. Felicidade empurrava-o para fora
polidamente: — “Por hoje chega, sr. de Gremanville! Até outra vista!” E fechava a porta.
Abria-a com prazer ao sr. Bourais, antigo solicitador. Sua gravata branca e sua calvície, os
bofes da sua camisa, o seu amplo redingote pardo, a sua maneira de tomar rapé
arredondando o braço, toda a sua pessoa produzia-lhe essa inquietação em que nos lança o
espetáculo dos homens extraordinários.
Como ele administrava as propriedades da “patroa”, encerrava-se com ela horas a fio no
gabinete do “patrão”, e estava sempre com receio de comprometer-se, respeitava
infinitamente a magistratura, tinha fumaças de latinista.
Para instruir as crianças de maneira agradável, presenteou-as com uma geografia ilustrada.
As gravuras representavam diferentes cenas do Universo, antropófagos toucados de plumas,
um macaco arrebatando uma mocinha, beduínos no deserto, uma baleia ao ser arpoada etc.
Paulo explicou essas gravuras a Felicidade. Foi esta, aliás, toda a sua educação literária.
A das crianças era ministrada por Guyot, um pobre-diabo empregado na Prefeitura, famoso
pela sua letra bonita, e que afiava o canivete na botina.
Quando fazia bom tempo, iam cedinho à quinta de Geffosses.
O pátio é em declive, a casa no meio; e o mar, ao longe, parece uma mancha cinzenta.
Felicidade tirava do cesto fatias de carne fria, e almoçavam num compartimento contíguo à
queijeira. Era o que restava de uma residência de verão, agora extinta. O papel das paredes,
em farrapos, tremia às correntes de ar. A sra. Aubain baixava a cabeça, acabrunhada pelas
recordações; as crianças já não ousavam abrir a boca. “Vão brincar!” — dizia-lhes a mãe; e
elas desapareciam.
Paulo subia ao celeiro, apanhava passarinhos, atirava pedras ao pântano para vê-las
ricochetear, ou batia com um pau nas bojudas pipas, que ressoavam como tambores.
Virgínia dava de comer aos coelhos, precipitava-se para colher centáureas azuis, e a
rapidez das suas pernas descobria-lhe as calcinhas bordadas.
Uma tarde de outono, voltaram pelas pastagens.
A lua, em crescente, iluminava uma parte do céu, e o nevoeiro flutuava como uma gaze
sobre as sinuosidades do Toucques. Estendidos na relva, os bois olhavam placidamente para
aqueles transeuntes. Na terceira pastagem, alguns se ergueram e rodearam-nas.
— Não tenham medo! — disse Felicidade.
E, murmurando uma espécie de lamento, acariciou o espinhaço do que se achava mais
perto; ele deu meia volta, os outros o imitaram. Mas, depois de atravessarem o pastio
seguinte, levantou-se um mugido formidável. Era um touro, que o nevoeiro ocultava. Avançou
para as duas mulheres. A sra. Aubain ia correr.
— Não! não! mais devagar!
No entanto, picavam elas o passo, e ouviam, atrás, um sopro sonoro que se aproximava.
Os cascos do animal batiam, feito martelos, na relva do prado; agora ele galopava! Felicidade
voltou-se, e começou a arrancar com ambas as mãos pedaços de terra, que lhe atirava aos
olhos. O touro baixava o focinho, sacudia os chifres e tremia de furor, mugindo horrivelmente.
Nos confins da pastagem, com os seus dois pequenos, a sra. Aubain, desvairada, tentava
transpor a rampa. Felicidade recuava sempre diante do touro, lançando continuamente torrões
que o cegavam, e gritando:
— Apressem-se! Apressem-se!
A sra. Aubain desceu o fosso, deu a mão a Virgínia, depois a Paulo, caiu diversas vezes
buscando escalar o talude, o que veio a conseguir à força de coragem.
O touro acuara Felicidade de encontro a uma cerca; a baba esguichava-lhe na cara; um
segundo mais, e ele a estripava. Ela mal teve tempo de se esgueirar entre duas estacas, e o
enorme animal, cheio de surpresa, deteve-se.
Durante anos e anos esse acontecimento foi assunto de conversa em Pont-l’Évêque.
Felicidade não se orgulhava disso; nem imaginava, sequer, que houvesse feito nada de
heroico.
Sua ocupação exclusiva era Virgínia; pois, em consequência do medo, adveio-lhe uma
afecção nervosa, e o dr. Poupart receitou os banhos de mar de Trouville.
Naquele tempo não eram eles frequentados. A sra. Aubain tomou informações, consultou
Bourais, fez preparativos como para longa viagem.
Sua bagagem seguiu na véspera, na carroça de Liébard. No outro dia trouxe ele dois
cavalos, um dos quais tinha um silhão, munido de um espaldar de veludo; e na garupa do
segundo uma capa enrolada formava uma espécie de assento. A sra. Aubain montou-o, por
detrás. Felicidade encarregou-se de Virgínia, e Paulo escarranchou-se no burro do sr.
Lechaptois, emprestado sob a condição de se ter com ele todo o cuidado.
A estrada era tão má que os seus oito quilômetros exigiram duas horas. Os cavalos
enterravam-se na lama até as ranilhas, e faziam, para sair, súbitos movimentos de ancas, ou
tropeçavam nos sulcos deixados pelas rodas dos carros; outras vezes, tinham de pular. Em
certos trechos, a égua de Liébard empacava. Ele esperava paciente que ela recomeçasse a
marchar; e falava das pessoas cujas propriedades margeavam a estrada, acrescentando à
história delas reflexões morais. Assim, no centro de Toucques, como passassem sob janelas
orladas de capuchinhas, disse ele, encolhendo os ombros: “Aí está uma sra. Lehoussais, que,
em vez de tomar um rapaz...” Felicidade não ouviu o resto; os cavalos trotavam, o burro
galopava; meteram-se todos por um atalho, uma cancela rodou, apareceram dois moços, e
eles apearam diante do esterco, precisamente na soleira da porta.
A velha Liébard, dando pela sua ama, prodigalizou-lhe demonstrações de alegria. Serviu-lhe
um almoço em que havia lombo de vaca, tripas, chouriço, um fricassê de frango, sidra
espumante, uma torta de compotas, ameixas com aguardente, tudo acompanhado de
amabilidades à senhora, que parecia melhor, à menina, que se tornara “magnífica”, ao sr.
Paulo, extraordinariamente “forçudo”, sem esquecer os seus avós defuntos, que os Liébards
haviam conhecido, pois se achavam ao serviço da família desde várias gerações. A quinta
possuía, como eles, um caráter de ancianidade. As vigotas do teto estavam carunchosas, as
paredes negras de fumaça, os vidros da janela cinzentos de poeira. Um aparador de carvalho
suportava toda espécie de utensílios: jarros, pratos, escudelas de estanho, armadilhas para
lobo, tesouras para tosquia dos carneiros; uma seringa enorme fez rir os meninos. Não havia,
nos três pátios, árvores que não tivessem cogumelos na base, ou nos ramos um tufo de visco.
O vento deitara abaixo várias delas. Tinham rebrotado pelo meio; e todas vergavam sob a
quantidade das maçãs. Os telhados de palha, iguais a veludo pardo, e de espessura desigual,
resistiam às mais fortes borrascas. Entretanto a cocheira caía em ruínas. A sra. Aubain disse
que tomaria providências, e mandou arrear os animais.
Levaram ainda cerca de meia hora antes de atingir Trouville. A pequena caravana apeou-se
para passar as Êcores; era uma falésia que avançava sobre embarcações; e três minutos
depois, na extremidade do cais, entraram no pátio do Cordeiro de Ouro, em casa da tia David.
Desde os primeiros dias, Virgínia sentiu-se menos fraca, efeito da mudança de ares e da
ação dos banhos. Tomava-os de camisa, à falta de trajo adequado, e sua criada tornava a
vesti-la na cabana de um guarda da alfândega que servia aos banhistas.
Pela tarde, iam com o burro até além das Rochas Negras, do lado de Hennequeville. O
atalho, a princípio, subia entre terrenos cavados em forma de vale como o gramado de um
parque, e ia ter a um planalto onde se alternavam pastagens e campos em lavra. À beira da
estrada, na confusão dos espinheiros, erguiam-se azevinhos; a espaços, uma grande árvore
morta fazia, com os seus ramos, zigue-zagues no ar azul.
Quase sempre repousavam num prado, à esquerda do qual ficava Deauville, o Havre à
direita, e em frente o pleno mar. Este brilhava ao sol, liso como um espelho, tão manso que
mal se lhe ouvia o murmurar; pipilavam pardais escondidos, e a abóbada imensa do céu
recobria tudo. A sra. Aubain, sentada, trabalhava nas suas costuras; ao lado dela, Virgínia
trançava juncos; Felicidade sachava flores de alfazema; Paulo, que se entediava, queria voltar.
Outras vezes, atravessavam o Toucques de bote e iam à procura de conchas. A maré baixa
deixava a descoberto ouriços-do-mar, águas-vivas, medusas; e os pequenos corriam para
apanhar flocos de espuma trazidos pelo vento. As ondas adormecidas, caindo sobre a areia,
desenrolavam-se ao longo da praia, que se estendia a perder de vista, mas do lado da terra
tinha por limite as dunas que a separavam do Marais, vasto prado em forma de hipódromo.
Quando eles vinham por lá, Trouville, ao fundo, no declive do oiteiro, avultava a cada passo, e
com todas as suas casas desiguais parecia desabrochar numa desordem alegre.
Nos dias de muito calor, não saíam do quarto. A ofuscante claridade lá de fora punha listras
de luz entre as lâminas das persianas. Nenhum ruído na aldeia. Embaixo, na calçada, ninguém.
Esse espraiado silêncio aumentava a tranquilidade das coisas. Ao longe, os martelos dos
calafates chocavam-se de encontro às quilhas, e uma brisa pesada trazia o odor do alcatrão.
O principal divertimento era a volta das barcas. Mal ultrapassavam as balizas, entravam a
bordejar. As velas desciam até os dois terços dos mastros; e, com a mezena inflada como um
balão, avançavam, deslizavam no marulhar das vagas, até o meio do porto, onde a âncora
caía de repente. Depois a embarcação atracava. Os marujos atiravam por cima da bordagem
peixes palpitantes; uma fila de carros esperava-os, e mulheres de boné de algodão
precipitavam-se para tomar os cestos e abraçar os seus homens.
Certo dia, uma delas se aproximou de Felicidade, que pouco depois entrou em seu quarto,
muito alegre. Reencontrara uma irmã; e Anastácia Barette, mulher de Leroux, apareceu com
uma criança de peito ao colo, segurando pela mão direita outro pequeno, e à esquerda um
grumetezinho com as mãos nos quadris e a boina caída sobre a orelha.
Ao cabo de um quarto de hora, a sra. Aubain despediu-a.
Viam-nos sempre nas imediações da cozinha, ou quando saíam a passeio. O marido não
aparecia.
Felicidade tomou-se de afeição por eles. Comprou-lhes um cobertor, camisas, um fogão;
evidentemente a exploravam. Essa fraqueza irritava a sra. Aubain, a quem, aliás, não
agradavam as familiaridades do rapazinho — pois ele tuteava seu filho; — e, como Virgínia
tossia e a estação já não estava boa, regressou a Pont-l’Évêque.
O sr. Bourais orientou-a quanto à escolha de um colégio. O de Caen passava por ser o
melhor. Paulo foi mandado para lá; e despediu-se corajosamente, satisfeito de ir viver em uma
casa onde teria camaradas.
A sra. Aubain resignou-se ao afastamento do filho, visto que era indispensável. Pouco a
pouco, Virgínia foi esquecendo-o. Felicidade sentia saudades da sua algazarra. Uma
ocupação, porém, veio distraí-la: desde o Natal, todos os dias levava a menina às aulas de
catecismo.

III
Depois de fazer, à porta, uma genuflexão, ela avançava sob a alta nave entre a dupla fila das
cadeiras, abria o banco da sra. Aubain, sentava-se, e passeava os olhos em redor.
Os rapazes à direita, as moças à esquerda, enchiam os assentos do coro; o cura mantinha-
se em pé ao lado do leitoril;180 sobre um vitral da abside, o Espírito Santo dominava a Virgem;
outro mostrava-a de joelhos ante o Menino-Jesus, e, atrás do tabernáculo, um grupo, de
madeira, representava S. Miguel abatendo o dragão.
O padre começou por fazer um resumo da História Sagrada. Felicidade tinha a impressão
de ver o Paraíso, o dilúvio, a torre de Babel, cidades em chamas, povos que morriam, ídolos
tombados; e desse deslumbramento lhe ficou o respeito do Altíssimo e o temor de sua cólera.
Depois, chorou escutando a Paixão. Por que o tinham crucificado, a ele que amava as
crianças, alimentava as multidões, curava os cegos, e bondosamente quisera nascer entre os
pobres, no estrume de uma manjedoura? As sementeiras, as messes, os lagares, todas essas
coisas familiares de que fala o Evangelho, encontravam-se na sua vida; a passagem de Deus
santificara-as; e ela amou com maior ternura os cordeiros por amor do Cordeiro, as pombas
por causa do Espírito Santo.
Era-lhe difícil imaginar a pessoa deste; pois ele não era somente pássaro, mas também um
lume, e por vezes um sopro. É talvez a sua luz que esvoaça pela noite à margem dos
pântanos, o seu hálito que impele as nuvens, a sua voz que torna os sinos harmoniosos; e ela
deixava-se estar numa adoração, gozando a frescura das paredes e a tranquilidade da igreja.
Quanto aos dogmas, nada compreendia deles, nem sequer tratou de compreender. O cura
discorria, os meninos recitavam, ela acabava adormecendo; e de repente despertava, quando
eles, indo-se embora, faziam ressoar os tamancos sobre as lajes.
Assim, à força de ouvi-lo, é que ela aprendeu o catecismo, pois, quando nova, sua
educação religiosa fora descurada; imitou, desde então, todas as práticas de Virgínia: jejuava
como esta, confessava-se como esta. No dia do Corpo de Deus, fizeram juntas um altar.
A primeira comunhão atormentava-a antecipadamente. Andou numa roda-viva por causa
dos sapatos, do rosário, do livro, das luvas. Com que tremor ajudou a mãe de Virgínia a vestir-
se!
Durante a missa inteira, sentiu-se tomada de angústia. O sr. Bourais ocultava-lhe um lado
do coro; mas, bem à frente, o rebanho das virgens que traziam coroas brancas sobre os véus
descidos formava como um campo de neve; e de longe ela reconhecia a querida menina pelo
pescoço delicado e postura recolhida. Soou a campainha. As cabeças curvaram-se; reinou
silêncio. Aos sons do órgão, os chantres e a multidão entoaram o Agnus Dei; em seguida,
principiou o desfile dos rapazes; e, depois deles, as moças se levantaram. Passo a passo, de
mãos postas, dirigiam-se para o altar todo iluminado, ajoelhavam no primeiro degrau, recebiam
sucessivamente a hóstia, e na mesma ordem tornavam aos seus genuflexórios. Ao chegar a
vez de Virgínia, Felicidade inclinou-se para vê-la, e, com a imaginação que nasce das ternuras
verdadeiras, afigurou-se-lhe ser ela mesma aquela criança; seu rosto se tornava o de
Felicidade, seu vestido a vestia, seu coração batia no peito dela; no momento de abrir a boca,
cerrando as pálpebras, quase desmaiou.
No outro dia, bem cedo, Felicidade apresentou-se na sacristia, para que o sr. Cura lhe
desse a comunhão. Recebeu-a devotamente, mas não gozou as mesmas delícias.
A sra. Aubain queria fazer da filha uma criatura perfeita; e, não podendo Guyot ensinar-lhe
nem Inglês nem Música, resolveu interná-la nas Ursulinas de Honfleur.
Nenhuma objeção fez a pequena. Felicidade suspirava, julgando a senhora insensível.
Depois, considerou que talvez ela tivesse razão. Estas coisas ultrapassavam a sua
competência.
Certo dia, afinal, um velho carro parou à porta, e dele desceu uma religiosa que vinha
buscar a menina. Felicidade pôs as bagagens no tejadilho do carro, fez recomendações ao
cocheiro, e meteu no cofre seis vidros de doces e uma dúzia de peras, com um ramo de
violetas.
No primeiro instante, Virgínia teve uma forte crise de soluço; abraçava a mãe, que,
beijando-lhe a fronte, repetia: — “Vamos! coragem! coragem!” Levantaram o estribo, o veículo
partiu.
Então a sra. Aubain desmaiou; e à noite todos os seus amigos, o casal Lormeau, a sra.
Lechaptois, as srtas. Rochefeuilles, o sr. Houppeville, e Bourais, apresentaram-se para
consolá-la.
A princípio, foi-lhe muito dolorosa a falta da filha. Mas três vezes por semana recebia uma
carta, nos outros dias lhe escrevia, passeava no jardim, lia um pouco, e assim enchia o vazio
das horas.
Pela manhã, habitualmente, Felicidade entrava no quarto de Virgínia, e olhava as paredes.
Entediava-se de já não ter de lhe pentear os cabelos, atar-lhe as botinas, aconchegá-la na
cama — e de já não ver continuamente o seu gracioso rosto, não segurá-la pela mão quando
saíam juntas. Para entreter os seus ócios, procurou fazer renda. Os dedos, muito pesados,
quebravam os fios; não tinha jeito para coisa alguma, perdera o sono, estava, segundo ela
mesma dizia, “minada”.
A fim de “matar o tempo”, pediu licença para receber seu sobrinho Vítor.
Todos os domingos, após a missa, chegava ele, com as faces rosadas, o peito nu, e
trescalando ao odor do campo que atravessara. Imediatamente ela punha-lhe a mesa.
Almoçavam frente a frente; e, comendo ela mesma o mínimo possível, para poupar despesas,
abarrotava-o de comida a tal ponto que ele terminava adormecendo. Ao primeiro toque das
trindades, despertava-o, escovava-lhe as calças, dava-lhe o nó da gravata, e encaminhava-se
à igreja, apoiada no seu braço com um orgulho maternal.
Os pais do moço encarregavam-no de extrair-lhe alguma coisa — um pacote de açúcar
bruto, sabão, aguardente, às vezes até dinheiro. Ele trazia suas roupas para a tia remendá-
las; e ela aceitava essa tarefa, feliz por haver um motivo que o forçava a voltar.
No mês de agosto, seu pai o levou à cabotagem.
Era o tempo das férias. A chegada dos meninos consolou-a. Porém Paulo tornava-se
caprichoso, e Virgínia já não estava em idade de ser tratada por tu, o que punha entre as duas
um constrangimento, uma barreira.
Vítor foi sucessivamente a Morlaix, a Dunquerque e a Brighton; ao regressar de cada
viagem, oferecia-lhe um presente: a primeira vez, um cofrezinho feito de conchas; a segunda,
uma xícara para café; a terceira, um grande boneco de pão de mel. Ia-se tornando bonito, era
bem-proporcionado, um começo de bigode, bons olhos francos, um chapeuzinho de couro
caído para trás, como um piloto. Divertia-a contando-lhe histórias mescladas de termos
marítimos.
Uma segunda-feira, 14 de julho de 1819 (ela não esqueceu a data), Vítor anunciou que
estava engajado para longo curso, e dois dias depois, pelo paquete de Honfleur, alcançaria a
sua goleta, que devia levantar ferro do Havre proximamente. Ficaria ausente dois anos, talvez.
A perspectiva de tal afastamento consternou Felicidade; e, para dizer-lhe o último adeus, na
noite de quarta-feira, após o jantar da ama, calçou galochas e devorou as quatro léguas que
separam Pont-l’Évêque de Honfleur.
Ao chegar diante do Calvário, em vez de tomar à esquerda, tomou à direita, perdeu-se nos
estaleiros, refez a caminhada; algumas pessoas a quem se dirigiu aconselharam-na a se
apressar. Ela contornou a doca cheia de navios, chocando-se de encontro às amarras; depois
o terreno baixou, entrecruzaram-se luzes, e ela teve a impressão de haver enlouquecido,
avistando cavalos no céu.
À beira do cais, outros relinchavam, aterrorizados com o mar. Uma talha que os levantava
depunha-os num bote, onde se acotovelavam viajantes entre as barricas de sidra, os cestos de
queijo, os sacos de sementes; ouviam-se cantar galinhas, o capitão praguejava; e um grumete
permanecia com o cotovelo apoiado no turco, indiferente a tudo isso. Felicidade, que não o
tinha reconhecido, gritava: — “Vítor!”; ele ergueu a cabeça; ela ia-se atirando, quando, de
súbito, retiraram a escada.
O paquete, que mulheres sirgavam a cantar, saiu do porto. Seu esqueleto estalava, as
vagas pesadas fustigavam-lhe a proa. A vela virara, não se viu mais ninguém; — e, sobre o
mar prateado pela lua, fazia uma negra mancha que ia empalidecendo cada vez mais,
avançou, desapareceu.
Passando junto ao Calvário, Felicidade quis recomendar a Deus o que ela possuía de mais
caro; e orou demoradamente, de pé, a face banhada em lágrimas, os olhos para as nuvens. A
cidade dormia, empregados aduaneiros passeavam; e, sem cessar, caía água pelos buracos
da comporta, com um ruído de torrente. Soaram duas horas.
O locutório não se abriria antes do amanhecer. Sem dúvida alguma, um atraso aborreceria
a senhora; e, apesar do seu desejo de abraçar a outra criança, ela voltou de lá. Quando ia
entrando em Pont-l’Évêque, as criadas da estalagem despertavam.
Ia, pois, o pobre garoto rolar meses a fio sobre as ondas! Suas viagens anteriores não a
tinham aterrado. Da Inglaterra e da Bretanha a gente voltava; mas a América, as Colônias, as
Ilhas, isso estava perdido em uma região incerta, no outro extremo do mundo.
Desde então, Felicidade pensou exclusivamente no sobrinho. Nos dias de sol, atormentava-
se com a sede; se havia tempestade, temia que o raio o abatesse. Ouvindo o vento que
rosnava na chaminé e levava as ardósias, ela via-o batido por essa mesma tormenta, no cimo
de um mastro despedaçado, o corpo inteiro para trás, sob um lençol de espuma; ou então —
lembrança da geografia com estampas — ele era comido pelos selvagens, apanhado numa
floresta por macacos, finava-se ao longo de uma praia deserta. E nunca ela falava de suas
inquietações.
A sra. Aubain tinha as suas com relação à filha.
As boas irmãs achavam que ela era afetuosa, mas de saúde frágil. A menor emoção a
enervava. Teve de abandonar o piano.
Sua mãe exigia do convento uma correspondência regular. Certa manhã em que o carteiro
não viera, ela se impacientou; e pôs-se a caminhar na sala, de sua poltrona para a janela. Era
verdadeiramente esquisito! Quatro dias sem notícias!
Para consolá-la com o seu caso, Felicidade lhe disse:
— Pois eu, minha senhora, há seis meses que não recebo nenhuma!...
— De quem?...
A criada replicou, tímida:
— Mas... do meu sobrinho!
— Ah! O seu sobrinho!
E, encolhendo os ombros, a sra. Aubain continuou seu passeio, como se dissesse: — “Eu
nem pensava nele!... Afinal, pouco me importa ele! um grumete, um pobre-diabo, essa é
boa!... Ao passo que minha filha!... Vejam só!...”
Conquanto habituada à aspereza, Felicidade ficou indignada com a ama; depois, esqueceu.
Parecia-lhe muito natural alguém desnortear-se por causa da menina.
As duas crianças tinham importância igual; um liame de seu coração as unia, e o destino
delas devia ser o mesmo.
O farmacêutico informou-a de que o navio de Vítor chegara a Havana. Lera a notícia num
jornal.
Por causa dos charutos, Havana, para ela, era uma terra onde não se faz outra coisa senão
fumar, e Vítor circulava entre negros numa nuvem de tabaco. Seria possível “em caso de
necessidade” voltar de lá por terra? A que distância ficava de Pont-l’Évêque? Para sabê-lo,
perguntou-o ao sr. Bourais.
Este apanhou o seu atlas e entrou a dar-lhe explicações acerca de longitudes; e tinha um
belo sorriso pedante em face da estupefação de Felicidade. Por fim, com a sua lapiseira,
indicou, nos recortes de uma mancha oval, um ponto negro, imperceptível, acrescentando: —
“Aqui.” Ela se inclinou sobre a carta; aquela rede de linhas coloridas fatigava-lhe a vista, sem
nada lhe ensinar; e, como Bourais a convidasse a dizer o que a embaraçava, ela rogou que lhe
mostrasse a casa onde morava Vítor. Bourais levantou os braços, espirrou, riu a bandeiras
despregadas; semelhante candura excitava-lhe a alegria; e Felicidade não compreendia a
razão disso — ela que talvez esperava até ver o retrato do sobrinho, tão limitada era a sua
inteligência!
Quinze dias após, Liébard, à hora das compras como de costume, entrou na cozinha, e
entregou-lhe uma carta de seu cunhado. Como nenhum dos dois soubesse ler, ela recorreu a
sua ama.
A sra. Aubain, que contava as malhas de um tricô, abriu a carta, estremeceu, e, em voz
baixa, com um olhar profundo:
— É uma desgraça... que lhe anunciam. Seu sobrinho...
Ele morrera. Nada mais dizia a carta.
Felicidade caiu numa cadeira, apoiando a cabeça no tabique, e fechou as pálpebras, que de
repente se fizeram róseas. Depois, com a fronte baixa, as mãos pendentes, o olhar fixo,
repetia, de espaço a espaço:
— Pobre pequeno! Pobre pequeno!
Liébard fitava-a, suspirando. A sra. Aubain tremia um pouco.
Propôs-lhe ir ver a irmã, em Trouville.
Felicidade respondeu, com um gesto, que ela não precisava disso.
Houve um silêncio. O bom do Liébard julgou conveniente retirar-se.
Disse ela, então:
— Para eles isso não tem importância!
Pendeu-lhe a cabeça outra vez; e maquinalmente ela erguia, de quando em quando, as
longas agulhas sobre a mesa de trabalho.
No pátio passaram mulheres conduzindo uma padiola com roupa branca, que gotejava.
Ao vê-las, através da vidraça, lembrou-se da sua barreia; tendo-a escorrido na véspera,
devia lavá-la nesse dia; e saiu do aposento.
Sua tábua de bater roupa e seu barril estavam à margem do Toucques. Atirou sobre a
rampa um monte de camisas, arregaçou as mangas, tomou o seu batedouro; e as fortes
pancadas que dava eram ouvidas nos outros jardins ao lado. Estavam desertos os prados, o
vento agitava o rio; ao fundo, grandes ervas se debruçavam sobre ele, como cabeleiras de
cadáveres flutuando. Ela continha a sua dor, até à noite mostrou-se muito animosa; mas, no
seu quarto, entregou-se à mágoa, de bruços sobre o colchão, com o rosto no travesseiro e os
punhos de encontro às fontes.
Muito depois, soube, pelo próprio capitão de Vítor, os pormenores de sua morte. Tinham-
no sangrado em excesso no hospital, por causa da febre amarela. Quatro médicos o
seguravam ao mesmo tempo. Ele morrera imediatamente, e o chefe dissera: — “Bem, mais
um!”
Seus pais o haviam tratado sempre com crueldade. Ela preferiu não os tornar a ver; e eles
não tomaram nenhuma iniciativa neste sentido, por esquecimento, ou por insensibilidade de
miseráveis.
Virgínia definhava.
Ânsias, tosse, febre contínua, marmorizações nas maçãs do rosto revelavam alguma
afecção profunda. O dr. Poupart aconselhara uma estada na Provença. A isto se decidiu a sra.
Aubain, e de pronto faria a filha voltar a casa, não fosse o clima de Pont-l’Évêque.
Contratou um alugador de carros para levá-la ao convento todas as terças-feiras. Há no
jardim um terraço de onde se descobre o Sena. Virgínia passeava lá pelo braço dela, sobre as
folhas de pâmpano caídas. Por vezes o Sol, atravessando as nuvens, fazia-a piscar, enquanto
olhava as velas ao longe e todo o horizonte, e, em seguida, o castelo de Tancarville até os
faróis do Havre. Depois, repousavam sob o caramanchão. Sua mãe conseguira um barrilete de
excelente vinho de Málaga; e, rindo à ideia de ficar tocada, bebia dois dedos, não mais.
Voltaram-lhe as forças. O outono escoou-se mansamente. Felicidade tranquilizava a sra.
Aubain. Mas, uma tarde em que ela fora aos arredores tratar de algum assunto, encontrou o
cabriolé do dr. Poupart; e ele estava no vestíbulo. A sra. Aubain atava o chapéu.
— Dê-me o meu aquecedor de pés, a minha bolsa, as minhas luvas; mais depressa!
Virgínia estava com pneumonia; talvez não houvesse esperança.
— Ainda não se sabe! — disse o médico.
E os dois subiram ao carro, sob flocos de neve que turbilhonavam. Ia baixando a noite.
Fazia muito frio.
Felicidade precipitou-se para a igreja, a fim de acender uma vela. Correu, depois, atrás do
cabriolé, que alcançou dentro de uma hora, saltou ligeiro por trás, onde se mantinha agarrada
às franjas, quando lhe acudiu uma reflexão: — “O pátio não estava fechado! E se entrassem
ladrões?” E desceu.
No dia seguinte, logo ao amanhecer, apresentou-se em casa do médico. Voltara ele para
casa e regressara ao campo. Felicidade permaneceu na estalagem, acreditando que
desconhecidos lhe trouxessem uma carta. Por fim, ao raiar do dia, tomou a diligência de
Lisieux.
Estava o convento situado ao fundo de uma ruela íngreme. A meio caminho, ouviu sons
estranhos, um dobre de morte. — “É por outros” — pensou; e puxou a aldraba com violência.
Minutos após, houve um arrastar de chinelos, a porta se entreabriu, e apareceu uma
religiosa.
Com ar compungido, a boa irmã disse que “ela acabava de expirar”. Ao mesmo tempo o
dobre de São Leonardo aumentava.
Felicidade chegou ao segundo andar.
Da soleira do quarto, avistou Virgínia estendida de costas, as mãos juntas, a boca aberta, e
a cabeça para trás sob uma cruz negra que se inclinava para ela, entre as cortinas imóveis,
menos pálidas que o seu semblante. Ao pé do leito, a que estava abraçada, a sra. Aubain
soltava soluços de agonia. A superiora achava-se de pé, à direita. Postos em cima da
cômoda, três castiçais faziam manchas vermelhas, e o nevoeiro branquejava as janelas.
Algumas religiosas levaram a sra. Aubain.
Duas noites a fio, Felicidade não deixou a morta. Repetia as mesmas preces, deitava água
benta nos lençóis, tornava a sentar-se, e contemplava-a. Ao cabo da primeira vigília, notou que
o rosto amarelecera, os lábios se haviam tornado azuis, o nariz se afilava, os olhos se iam
encovando. Beijou-os diversas vezes; e não teria sentido imenso espanto se Virgínia os
houvesse reaberto; para almas assim o sobrenatural é o que há de mais simples. Vestiu-a,
envolveu-a na sua mortalha, desceu-a no seu ataúde, pôs-lhe uma coroa, estendeu-lhe os
cabelos. Eram louros, e extraordinariamente longos para a idade da menina. Felicidade cortou
uma farta mecha, introduzindo a metade no seio, disposta a nunca mais despojar-se dela.
O corpo foi conduzido a Pont-l’Évêque, segundo a vontade da sra. Aubain, que
acompanhava o coche fúnebre, num carro fechado.
Terminada a missa, foram precisos ainda três quartos de hora para atingir o cemitério.
Paulo caminhava à frente, a soluçar. O sr. Bourais vinha atrás, depois as pessoas mais
importantes, as mulheres, cobertas de mantilhas pretas, e Felicidade. Ela pensava no
sobrinho, e, não tendo podido prestar-lhe essas homenagens, agravava-se-lhe a tristeza, como
se o houvesse enterrado junto com a menina.
Não teve limites o desespero da sra. Aubain.
A princípio revoltou-se contra Deus, achando-o injusto por lhe haver tirado sua filha — ela
que nunca praticara o mal e cuja consciência era tão pura! Mas, não! Deveria tê-la levado ao
Sul. Outros médicos a teriam salvo. Acusava-se, queria ir juntar-se à filha, gritava desesperada
nos seus sonhos. Um destes, sobretudo, a obsediava. Seu marido, vestido de marinheiro,
regressava de longa viagem e dizia-lhe, entre lágrimas, que recebera ordem de levar Virgínia.
Então eles se combinavam para descobrir algures um esconderijo.
Certo dia, voltou ela do jardim transtornada. Naquele mesmo instante (e mostrava o lugar) o
pai e a filha haviam-lhe aparecido, um depois do outro, e não faziam nada; olhavam-na.
Durante meses permaneceu no quarto, inerte. Felicidade ralhava com ela brandamente;
devia viver, para seu filho, e para a outra, em lembrança “dela”.
— Ela? — volvia a sra. Aubain, como despertando. — Ah! Sim! Sim!... Você não o
esquece.
Alusão ao cemitério, que lhe haviam escrupulosamente proibido.
Felicidade ia lá todos os dias.
Às quatro horas em ponto ela renteava as casas, subia a encosta, abria a cancela, e
chegava à sepultura de Virgínia. Era uma coluneta de mármore róseo, com uma laje na parte
inferior, e rodeada de correntes que encerravam um jardinzinho. As platibandas desapareciam
sob uma cobertura de flores. Regava-lhes as folhas, renovava a areia, punha-se de joelhos
para lavrar melhor a terra. Quando a sra. Aubain pôde ir ao cemitério, experimentou um alívio,
uma espécie de consolação.
Correram anos, todos iguais e sem outros episódios a não ser a repetição das grandes
festas: a Páscoa, a Assunção, o dia de Todos os Santos. Acontecimentos domésticos faziam
uma data, que, com o tempo, se tomava como ponto de referência. Assim, em 1825 dois
vidraceiros caiaram o vestíbulo; em 1827, parte do teto, caindo no pátio, por um triz não matou
um homem. No verão de 1828, coube à sra. Aubain oferecer o pão bento; por essa altura,
Bourais ausentou-se de maneira misteriosa; e as antigas relações pouco a pouco
desapareceram: Guyot, Liébard, a sra. Lechaptois, Robelin, o tio Gremanville, paralítico desde
muito.
Certa noite o condutor da malaposta anunciou em Pont-l’Évêque a Revolução de Julho.
Poucos dias após, foi nomeado novo subprefeito: o barão de Larsonnière, ex-cônsul na
América, e que tinha em casa, além da mulher, a cunhada com três filhas, já bem crescidas.
Eram vistas sobre a relva do jardim, vestidas de blusas flutuantes; possuíam um negro e um
papagaio. A sra. Aubain foi visitada por eles, e não deixou de retribuir a visita. Mal apareciam
ao longe, Felicidade apressava-se em preveni-la. Só uma coisa, porém, chegava a comovê-la:
as cartas do filho.
Absorvido nos botequins, ele não podia seguir nenhuma carreira. A mãe pagava-lhe as
dívidas; ele contraía novas; e os suspiros que a sra. Aubain soltava, fazendo o seu tricô ao pé
da janela, iam até Felicidade, que girava o seu fuso na cozinha.
Passeavam juntas ao longo da latada; e conversavam sempre de Virgínia, se tal ou tal
coisa lhe agradaria, o que provavelmente diria ela em tal ou qual situação.
Num armariozinho no quarto de duas camas achavam-se todos os pequenos objetos da
menina. A sra. Aubain abstinha-se ao máximo de examiná-los. Um dia de verão, ela cedeu; e
do móvel voaram borboletas.
Os vestidos de Virgínia estavam alinhados sob uma tábua onde havia três bonecas, arcos,
uma mobília, uma bacia de seu uso. Retiraram igualmente as anáguas, as meias, os lenços, e
os estenderam nos leitos, antes de tornar a dobrá-los. O Sol alumiava essas pobres coisas,
punha-lhes à mostra as manchas, e as pregas formadas pelos movimentos do corpo. O ar era
quente e azul, um melro pipilava, tudo parecia viver numa doçura profunda. Encontraram um
chapeuzinho de pelúcia, castanho, de longos pelos; mas estava todo comido de traça.
Felicidade reclamou-o para si. As mulheres se entreolharam, e seus olhos encheram-se de
lágrimas; enfim, a patroa abriu os braços, e a criada atirou-se neles; e estreitaram-se,
fartando sua dor em um beijo que as nivelava.
Pela primeira vez isto se dava na existência daquelas duas criaturas: a sra. Aubain não era
de natureza expansiva. Felicidade ficou-lhe reconhecida como por benefício, e desde então lhe
quis com um devotamento irracional e uma veneração religiosa.
Cresceu a bondade do seu coração.
Ao ouvir na rua os tambores de um regimento em marcha, punha-se à porta com uma bilha
de sidra, e dava de beber aos soldados. Cuidou dos coléricos. Protegia os polacos;181 e houve
até um deles que a queria desposar. Indispuseram-se, porém, porque certa vez, de volta da
igreja, aonde fora rezar as trindades, encontrou-o na sua cozinha, onde ele se introduzira e
temperara um guisado que comia tranquilamente.
Depois dos polacos, foi a vez do tio Colmiche, um velho que passava por ter feito horrores
em 93. Morava à beira do rio, nos escombros de um chiqueiro. Os garotos olhavam-no pelas
fendas da parede e atiravam-lhe seixos, que lhe caíam no catre, onde ele jazia, continuamente
sacudido por um catarro, cabelos muito compridos, pálpebras inflamadas, e no braço um
tumor maior que a sua cabeça. Ela conseguiu-lhe roupa branca, tratou de limpar-lhe o quarto,
pensava em instalá-lo perto do forno, sem que ele molestasse a senhora. Quando o cancro
rebentou, ela pensou-o todos os dias; às vezes levava-lhe torta, punha-o ao sol sobre uma
meda de palha, e o pobre do velho, babando e tremendo, agradecia-lhe com a sua voz
apagada, temia perdê-la, estendia os braços quando a via afastar-se. Morreu; ela mandou
dizer missa pelo repouso de sua alma.
Naquele dia, sobreveio-lhe uma grande felicidade: à hora do jantar, chegou o negro da sra.
Larsonnière, conduzindo o papagaio na gaiola, com o poleiro, a corrente e o cadeado. Um
bilhete da baronesa participava à sra. Aubain que, tendo sido seu esposo nomeado para uma
prefeitura, partiam nessa noite, e ela pedia-lhe aceitasse aquele bicho como lembrança, e em
testemunho dos seus respeitos.
Desde muito ocupava ele a imaginação de Felicidade, pois vinha da América, palavra que
lhe fazia lembrar Vítor, de sorte que ela costumava perguntar pela ave ao negro. Uma vez até
dissera: — “A minha ama é que gostaria muito de ter aquele papagaio!”
O negro transmitira estas palavras à patroa, que, não podendo levar a ave consigo, dela se
desfazia por esse modo.

IV
Chamava-se Lulu. Seu corpo era verde, a ponta das asas cor-de-rosa, a testa azul, e a
garganta dourada.
Tinha, porém, a importuna mania de morder o poleiro, arrancava as penas, espalhava as
suas sujidades, derramava a água da sua banheira; a sra. Aubain, aborrecida, deu-o para
sempre a Felicidade.
Ela pôs-se a instruí-lo; e não tardou que o papagaio repetisse: — “Que rapaz simpático!
Criado, patrão! Ave, Maria!”
Estava colocado ao pé da porta, e várias pessoas se espantavam de ele não atender por
Jacquot, pois todos os papagaios se chamam Jacquot. Comparavam-no a um bobo, a um
palerma. Outras tantas punhaladas para Felicidade! Estranha teimosia a de Lulu: emudecia
logo que olhavam para ele!
Entretanto procurava companhia; pois aos domingos, enquanto as srtas. Rochefeuilles, e o
sr. Houppeville e novos frequentadores da casa — Onfroy, o boticário, o sr. Varin e o capitão
Mathieu —, jogavam sua partida de cartas, ele fustigava as vidraças com as asas e debatia-se
tão furiosamente que era impossível alguém entender-se.
Muito divertida lhe parecia, decerto, a cara de Bourais. Mal o avistava, punha-se a rir, a rir
às gargalhadas. Os estridores de sua voz saltavam ao pátio, o eco reproduzia-os, os vizinhos
chegavam à janela, riam-se também; e, para não ser visto pelo papagaio, o sr. Bourais cosia-
se à parede, dissimulando o seu perfil com o chapéu, alcançava o rio, entrava pela porta do
jardim; e os olhares que lançava ao bicho não eram nada ternos.
Certa vez, tendo ousado enfiar a cabeça no cesto do empregado do açougue, Lulu
recebera dele um piparote; e desde então procurava sempre dar-lhe uma bicada através da
camisa. Fabu ameaçava torcer-lhe o pescoço, posto não fosse cruel, como o poderiam fazer
crer a tatuagem dos seus braços e as suas vastas suíças. Ao contrário: tinha certo fraco pelo
papagaio, a ponto de querer, por brincadeira, ensinar-lhe palavrões. Horrorizada com esses
modos, Felicidade pôs o bicho na cozinha. Foi-lhe tirada a corrente, e ele circulava pela casa.
Ao descer a escada, apoiava nos degraus a curva do bico, erguia a pata direita, em
seguida a esquerda; e ela receava que semelhante ginástica lhe causasse tonturas. O
papagaio adoeceu, já não podia falar nem comer. Sob a sua língua havia uma crosta, como a
que têm por vezes as galinhas. Felicidade o curou, arrancando-lhe essa película com as unhas.
Um dia o sr. Paulo, imprudentemente, soprou-lhe nas narinas a fumaça de um charuto; outra
vez, como a sra. Lormeau o provocasse com a ponta da sombrinha, ele abocanhou-lhe a
virola; enfim, perdeu-se.
Ela pusera-o na relva para tomar fresca, e ausentou-se por um instante; quando voltou,
nem sombra de papagaio! A princípio, andou procurando-o nas moitas, à margem do rio e nos
telhados, sem atenção à patroa, que lhe gritava: — “Cuidado! Você está louca?” Depois,
correu todos os jardins de Pont-l’Évêque; e detinha os transeuntes: — “Será que o senhor viu,
por acaso, o meu papagaio?” Àqueles que não conheciam o animal ela o descrevia. Súbito,
cuidou distinguir por trás dos moinhos, na parte inferior da encosta, uma coisa verde a volitar.
Mas, no alto da encosta, nada! Um bufarinheiro lhe afirmou tê-lo encontrado pouco antes, em
Saint-Melaine, na venda da tia Simon. Correu para lá. Ninguém sabia o que ela queria dizer.
Tornou a casa, afinal, exausta, com os chinelos em farrapos, a morte na alma; e, sentada no
meio do banco, ao pé da ama, contava todas as suas diligências, quando um leve peso lhe
caiu no ombro: Lulu! Que diabo fizera ele? Talvez houvesse andado pelos arredores!
Custou-lhe refazer-se do abalo, ou melhor, nunca mais se refez.
Em consequência de um resfriado adveio-lhe uma angina; pouco depois, dor de ouvidos.
Decorridos três anos, estava surda; e falava muito alto, até na igreja. Embora os seus
pecados pudessem, sem desaire para ela nem desvantagem para a sociedade, propagar-se a
todos os cantos da diocese, o sr. Cura julgou conveniente não ouvi-la mais em confissão a não
ser na sacristia.
Zumbidos ilusórios vinham rematar-lhe a perturbação. Muitas vezes a ama dizia-lhe: —
“Santo Deus! como você está idiota!” — e ela retorquia: — “Sim, senhora” —, procurando algo
em torno de si.
O limitado círculo de suas ideias restringiu-se ainda mais, e o carrilhão, o mugido dos bois,
para ela já não existiam. Todos os seres funcionavam com o silêncio dos fantasmas. Agora, só
um rumor lhe chegava aos ouvidos: a voz do papagaio.
Como para a distrair, ele reproduzia o tique-taque da máquina de assar carne, o agudo
pregão de um peixeiro, o serrote do marceneiro em frente; e, ouvindo os toques da
campainha, imitava a sra. Aubain: — “Felicidade! estão tocando! estão tocando!”
Travavam diálogos, ele declamando à saciedade as três frases do seu repertório e ela
respondendo-lhe com palavras não menos desconexas, mas em que se lhe abria o coração.
No seu isolamento, Lulu era-lhe quase um filho, um namorado. Trepava-lhe aos dedos,
mordiscava-lhe os lábios, agarrava-se-lhe ao fichu; e, como Felicidade inclinava a fronte
agitando a cabeça à feição das amas, as grandes asas da touca e as asas da ave
estremeciam juntas.
Quando se amontoavam nuvens e o trovão ribombava, ele soltava gritos, lembrando-se
talvez das chuvadas de suas florestas natais. O jorrar da água excitava-lhe o delírio;
esvoaçava desvairado, subia ao teto, derribava tudo, e, pela janela, ia chapinhar no jardim;
mas dentro em pouco voltava para cima dos cães da lareira e, saltitando para secar as penas,
exibia ora a cauda, ora o bico.
No terrível inverno de 1837, certa manhã em que ela o pusera diante da lareira, por causa
do frio, encontrou-o morto, no meio da gaiola, com a cabeça para baixo e as unhas nos
arames. Fora vítima — quem sabe? — de uma congestão. Felicidade pensou num
envenenamento por meio de salsa; e, a despeito da ausência de quaisquer provas, suas
suspeitas recaíram sobre Fabu.
Chorou tanto que a patroa lhe disse:
— Pois bem, manda-o empalhar!
Aconselhou-se com o farmacêutico, que sempre mostrara gostar do papagaio.
Ele escreveu para o Havre. Um certo Fellacher encarregou-se da tarefa. Como, porém, às
vezes a diligência extraviava as encomendas, resolveu levá-lo pessoalmente a Honfleur.
À beira do caminho sucediam-se as macieiras desfolhadas. Os fossos estavam cobertos de
gelo. Ladravam cães à volta das quintas; e, com as mãos sob o mantelete, os tamanquinhos
pretos e o cesto, andava célere, pelo meio da estrada.
Atravessou a floresta, transpôs o Haut-Chêne, chegou a Saint-Gatien.
Atrás dela, numa nuvem de pó, uma mala-posta, à desfilada, precipitava-se de ladeira
abaixo como uma tromba. Vendo aquela mulher, que se mantinha indiferente, o boleeiro
ergueu-se acima da capota, e o postilhão gritava também, enquanto os quatro cavalos, que ele
não podia deter, aceleravam a marcha; os dois primeiros iam-na roçando; com um puxão das
rédeas, ele atirou-os para um lado da estrada, mas furioso reergueu os braços, e a toda a
força, com o seu grande chicote, vibrou-lhe do ventre à nuca um tal golpe que ela caiu de
costas.
Quando Felicidade voltou a si, o seu primeiro gesto foi abrir o cesto. Felizmente nada
acontecera a Lulu. Sentiu arder-lhe a face direita; levando as mãos ao rosto, notou-as
vermelhas. O sangue corria.
Sentou-se num monte de seixos, tamponou a cara com o lenço, comeu uma côdea de pão,
que precatadamente pusera no cesto, e consolava-se da ferida mirando o papagaio.
Chegando ao cimo de Ecquemauville, divisou as luzes de Hon-fleur, que cintilavam na noite
como um bando de estrelas; mais além, ostentava-se o mar confusamente. Então uma
fraqueza deteve-lhe os passos; e a miséria da sua infância, a desilusão do primeiro amor, a
partida do sobrinho, a morte de Virgínia, como ondas de maré, reapareceram ao mesmo
tempo e, subindo-lhe à garganta, sufocavam-na.
Depois, quis falar ao comandante do navio; e, sem dizer o que enviava, fez-lhe
recomendações.
Fellacher ficou por muito tempo com o papagaio. Prometia-o sempre para a semana
seguinte; ao cabo de seis meses, anunciou a partida de uma caixa; e não se falou mais nisso.
Era de crer que Lulu nunca mais voltaria. — “Devem tê-lo roubado!” — pensava ela.
Enfim ele chegou, — e esplêndido, direito sobre um ramo de árvore, aparafusado em um
pedestal de mogno, com uma pata no ar, a cabeça oblíqua, e mordendo uma noz, que, por
amor do grandioso, o empalhador dourara.
Felicidade guardou-o no seu quarto.
Esse lugar, onde ela admitia pouca gente, tinha, ao mesmo tempo, o aspecto de uma
capela e de um bazar, tantos eram os objetos religiosos e coisas heteróclitas que encerrava.
Um grande armário tornava difícil abrir a porta. Diante da janela que se projetava sobre o
jardim, havia uma claraboia voltada para o pátio; ao pé da cama de lona, uma mesa suportava
um jarro de água, dois pentes, e um cubo de sabão azul num prato esbeiçado. Viam-se nas
paredes: rosários, medalhas, vários registros da Virgem Maria, uma pia de água benta feita de
coco; sobre a cômoda, coberta de um pano como um altar, o cofrezinho de conchas que Vítor
lhe oferecera; depois, um regador e um balão, cadernos de caligrafia, a geografia em
estampas, um par de botinas; e no prego do espelho, preso pelas suas fitas, o chapeuzinho de
pelúcia! A tal ponto levava Felicidade essa espécie de respeito que conservava um dos
redingotes do sr. Aubain. Todas as velharias desdenhadas pela sra. Aubain, ela apanhava-as
para o seu quarto. Assim, tinha flores artificiais à beira da cômoda e o retrato do conde de
Artois no vão da trapeira.
No meio de uma prancheta, Lulu foi acomodado em uma saliência da lareira. Todas as
manhãs, ao despertar, Felicidade o avistava à claridade da aurora, e recordava então os dias
idos, e insignificantes ações até em suas mínimas circunstâncias, sem dor, cheia de
tranquilidade.
Não se comunicando com ninguém, vivia num torpor de sonâmbula. As procissões do Corpo
de Deus a reanimavam. Ia a casa das vizinhas à procura de archotes e capachos, a fim de
ornamentar o altar que erigiam na rua.
Na igreja, contemplava sempre o Espírito Santo, e notou que ele tinha algo do papagaio.
Mais evidente ainda lhe pareceu tal semelhança numa imagem de Épinal182 que representava o
batismo de Nosso Senhor. Com as suas asas de púrpura e o seu corpo de esmeralda, era, em
verdade, o retrato de Lulu.
Tendo-o comprado, pendurou-o no lugar do conde de Artois — de sorte que, do mesmo
lance de olhos, os via aos dois. Associaram-se eles na sua mente, achando-se o papagaio
santificado graças a essa relação com o Espírito Santo, que se tornava mais vivo a seus olhos
e inteligível. O Pai, para se manifestar, não pudera escolher uma pomba, visto que esses
animais não têm voz, mas um dos antepassados de Lulu. E Felicidade orava com os olhos fitos
na imagem, porém de vez em quando se voltava um pouco para a ave.
Veio-lhe o desejo de ser filha de Maria. Dissuadiu-a disto a sra. Aubain.
Surgiu um acontecimento importante: o casamento de Paulo.
Depois de ter sido a princípio escrevente de cartório, e de haver trabalhado no comércio,
na Alfândega, na Recebedoria, e até de ter iniciado diligências para entrar no serviço de águas
e matas, aos 36 anos, de repente, por uma inspiração celeste, descobrira o seu caminho: o
registro de imóveis! e mostrara tão consideráveis aptidões para isso que um verificador lhe
oferecera a filha, prometendo-lhe protegê-lo.
Paulo, feito homem sério, levou-a à casa de sua mãe.
A moça difamou os costumes de Pont-l’Évêque, fez-se de princesa, ofendeu Felicidade.
Quando saiu, a sra. Aubain sentiu um alívio.
Na semana seguinte, tiveram notícia da morte do sr. Bourais, na baixa Bretanha, numa
estalagem. Confirmou-se o rumor de suicídio; levantaram-se dúvidas a respeito da probidade
do homem. A sra. Aubain examinou-lhe as contas, e não tardou a conhecer a ladainha das
suas vilezas: desvio de pagamentos atrasados, vendas de madeiras às escondidas, recibos
falsos etc. De mais a mais, tinha um filho natural e “relações com uma pessoa de Dozulé”.
Essas torpezas afligiram-na em extremo. No mês de março de 1853, manifestou-se-lhe
uma dor no peito; sua língua parecia coberta de fumaça, as sanguessugas não lhe acalmaram
a opressão; e à nona noite ela expirou, precisamente com a idade de 72 anos.
Supunham-na menos velha, em virtude dos seus cabelos castanho-escuros, cujos bandós
lhe emolduravam o rosto lívido picado de bexigas. Poucos amigos a lamentaram, pois havia
nos seus modos uma soberba que afastava.
Felicidade chorou-a como não se choram as amas. Que a patroa tivesse morrido antes
dela, isso lhe transtornava as ideias, afigurava-se-lhe contrário à ordem das coisas,
inadmissível e monstruoso.
Dez dias após (o tempo de acudirem de Besançon), chegaram os herdeiros. A nora
escarafunchou as gavetas, escolheu alguns móveis, vendeu os outros, e depois o casal voltou
ao Registro de Imóveis.
Lá se tinham ido a poltrona da senhora, o seu velador, o seu braseiro, as oito cadeiras! O
lugar das gravuras desenhava-se em quadrados amarelos no meio dos tabiques! Haviam
levado as duas camazinhas, com seus colchões, e no armário nada mais se via de todos os
objetos de Virgínia! Felicidade subiu os andares, ébria de tristeza.
No dia seguinte havia na porta um cartaz; o boticário gritou-lhe ao ouvido que a casa estava
à venda.
Ela cambaleou, e foi obrigada a sentar-se.
O que a afligia acima de tudo era deixar o seu quarto — tão cômodo para o pobre Lulu.
Envolvendo-o num olhar de angústia, implorava o Espírito Santo, e contraiu o hábito idolátrico
de rezar as suas orações ajoelhada ante o papagaio. Por vezes, o sol, entrando pela trapeira,
incidia-lhe sobre o olho de vidro, e dele fazia brotar um grande raio de luz que a punha em
êxtase.
Legara-lhe a patroa uma renda de 380 francos. O jardim abastecia-a de legumes. Quanto à
roupa, tinha com que vestir-se até o fim de seus dias, e poupava a luz deitando-se ao pôr do
sol.
Quase não saía, a fim de evitar a loja do ferro-velho, onde se achavam expostos alguns dos
antigos móveis.
Desde quando desmaiara, puxava por uma perna; e, como lhe minguassem as forças, a tia
Simon, arruinada na mercearia, vinha todas as manhãs rachar-lhe a lenha e dar à bomba para
obter-lhe água.
Enfraqueceu-se-lhe a vista. Já não se abriam as persianas. Volveram muitos anos. E não
se alugava a casa, nem se vendia.
Temendo ser despedida, Felicidade não pedia nenhum conserto. As ripas do teto
apodreciam; durante todo um inverno seu travesseiro se molhou. Após a Páscoa, cuspiu
sangue.
Então a tia Simon recorreu a um médico. Felicidade quis saber o que tinha. Mas, porque a
surdez não lhe permitisse ouvir, só percebeu uma palavra: “pneumonia”. A palavra era-lhe
conhecida, e ela disse baixinho: — “Ah! como a patroa” —, achando natural acompanhar sua
ama.
Aproximava-se o momento da procissão e dos altares.
O primeiro ficava sempre ao pé da encosta, o segundo diante do correio, o terceiro para o
meio da rua. Houve rivalidades quanto ao primeiro; e os paroquianos terminaram escolhendo o
pátio da sra. Aubain.
As ânsias e a febre aumentavam. Felicidade afligia-se de nada fazer para o altar. Se ao
menos pudesse pôr ali alguma coisa! E pensou no papagaio. Não ficava bem, objetaram as
vizinnas. Porém o cura o permitiu; ela sentiu-se tão feliz com isso que lhe rogou aceitar,
quando ela morresse, Lulu, a sua única riqueza.
Da terça-feira ao sábado, véspera do Corpo de Deus, tossiu com maior frequência. À noite,
seu rosto estava congestionado, os lábios colavam-se às gengivas, vieram vômitos; e no outro
dia, de manhãzinha, sentindo-se muito mal, mandou chamar um padre.
Três pobres mulheres rodeavam-na durante a extrema-unção. Depois ela declarou que
precisava de falar com Fabu.
Ele chegou em vestes domingueiras, contrafeito naquela atmosfera lúgubre.
— Perdoe-me — disse ela esforçando-se por estender o braço —, eu pensava que era
você quem o tinha matado!
Que significava semelhante falatório? Tê-lo julgado capaz de matar, um homem como ele!
Indignava-se, ia fazer barulho.
— Ela já não sabe o que diz, você bem está vendo!
De espaço a espaço Felicidade falava a sombras. As mulheres afastaram-se. A tia Simon
foi almoçar.
Pouco depois, tomou Lulu e, aproximando-o de Felicidade:
— Vamos! Diga-lhe adeus!
Conquanto não fosse um cadáver, os vermes o devoravam; tinha uma das asas quebrada,
a estopa saía-lhe do ventre. Mas, agora cega, ela beijou-lhe a testa, e conservava-o junto à
face. A tia Simon retomou-o, para colocá-lo no altar.

V
As pastagens exalavam o odor do verão; zumbiam moscas; o sol incendiava o rio, aquecia as
ardósias. A tia Simon, que retornara ao quarto, dormia serenamente.
Toques de sino despertaram-na; os fiéis saíam das vésperas. Cessou o delírio de
Felicidade. Pensando na procissão, ela a via, como se a acompanhasse.
Todas as crianças das escolas, os chantres e os bombeiros caminhavam nas calçadas,
enquanto, no meio da rua, avançavam em primeiro lugar: o suíço armado da sua alabarda, o
sacristão com uma grande cruz, o mestre-escola vigiando os garotos, a religiosa preocupada
com suas meninas; três das mais graciosas, frisadas que nem anjos, atiravam para o ar
pétalas de rosas; o diácono, de braços abertos, moderava a música; e dois turibulários
voltavam-se a cada passo para o Santíssimo Sacramento, conduzido pelo sr. Cura, em sua
bela casula, sob um pálio de veludo cor de papoula sustentado por quatro fabricários.183 Uma
onda humana acotovelava-se atrás, entre as toalhas que revestiam a parede das casas; e
chegaram ao pé da encosta.
Um suor frio molhava as fontes de Felicidade. A tia Simon enxugava-a com um lenço,
dizendo consigo mesma que um dia teria também de passar por aquilo.
O murmúrio da multidão cresceu, fez-se muito forte por um momento, foi-se distanciando.
Uma fuzilaria sacudiu as vidraças. Eram os postilhões que saudavam a custódia. Felicidade
rolou as pupilas e disse, o menos baixo que pôde:
— Ele ficou bem? — atormentada com o papagaio.
Entrou em agonia. Um estertor, cada vez mais precipitado, soerguia-lhe as costas. Aos
cantos da boca vinham-lhe golfadas de espuma, e todo o seu corpo estremecia.
Dentro em pouco distinguiu-se o ressoar dos oficlides,184 as vozes claras dos meninos, a
voz profunda dos homens. A espaços, tudo se calava, e o bater dos passos, amortecido por
flores, fazia o rumor de um rebanho sobre a relva.
O clero apareceu no pátio. A tia Simon trepou a uma cadeira para atingir a claraboia, e
assim dominava o altar.
Grinaldas verdes pendiam sobre ele, ornado de um falbalá de renda da Inglaterra. Havia no
centro uma pequena moldura com relíquias, duas laranjeiras nos ângulos, e, ao longo, archotes
de prata e vasos de porcelana, donde se elevavam girassóis, lírios, peônias, dedaleiras,
molhos de hortênsias. Esse amontoado de cores brilhantes descia de revés, do primeiro andar
ao tapete, prolongando-se no calçamento; e coisas raras atraíam os olhos. Um açucareiro de
prata dourada tinha uma coroa de violetas, pingentes de pedras de Alençon brilhavam sobre o
musgo, dois biombos chineses mostravam suas paisagens. Oculto sob rosas, Lulu apenas
deixava ver a fronte azul, igual a uma placa de lazulita. Os fabriqueiros, os chantres,185 os
meninos enfileiraram-se nos três lados do pátio. O padre subiu com lentidão os degraus e
depôs sobre a renda o seu grande ostensório de ouro, que resplandecia. Todos se
ajoelharam. Fez-se grande silêncio. E os turíbulos, balançados com toda a força, deslizavam
nas suas correntinhas.
Um vapor azul-claro subiu ao quarto de Felicidade. Ela avançou as narinas, sorvendo-o com
uma sensualidade mística; depois, cerrou as pálpebras. Seus lábios sorriam. Os movimentos
do coração afrouxaram um por um, cada vez mais vagos, mais doces, como uma fonte se
esgota, como um eco desaparece; e, ao exalar o último suspiro, cuidou ela ver, nos céus
entreabertos, um papagaio gigantesco, pairando-lhe acima da cabeça.
JAN NERUDA

Ao inserirmos pela primeira vez nesta antologia a obra de um autor tcheco, parece-nos
conveniente lembrar que os tchecos são um povo de língua eslava, estabelecidos na Boêmia
desde o século V. Governados longo período pelos seus próprios reis, no século XVI
perderam a independência e até 1918 foram súditos da Monarquia Austro-Húngara, que tudo
fez para desnacionalizá-los. No fim da Primeira Guerra Mundial, a Boêmia, acrescida da
Eslováquia, da Morávia, da Rutênia e de parte da Silésia, veio a formar a República Tcheco-
Eslovaca, com predominância do elemento tcheco.186
Na acidentada história desse povo, a língua e a literatura nacionais foram armas da
resistência e fatores da ressurreição. O idioma tcheco, ameaçado ora pelo latim, ora pelo
alemão, estava na iminência de se extinguir no século XVIII, quando os esforços de
Dobrovsky, fundador da eslavística, secundados pelos de um grupo de historiadores,
folcloristas e poetas, lhe deram novo vigor. Na segunda parte do século passado a literatura
tcheca, já ilustrada havia trezentos anos pelas obras do grande educador Comenius, entrou em
fase de poderoso desenvolvimento. Nesse ressurgir desempenhou Jan Neruda (1834-1891)
papel importante.
Filho de pais pobres, nasceu em Praga, onde, como quase todos os seus contemporâneos,
teve de frequentar escolas alemãs. Simultaneamente estudava a língua materna em um curso
particular, mantido por intelectuais patriotas, até que aos 16 anos de sua idade conseguiu
transferir-se para o único ginásio tcheco, centro de ambições literárias e nacionalistas.
Continuou os estudos na Faculdade de Filosofia, frequentando aulas de História, Filologia e
Literatura. Em 1856 fez-se jornalista, e ao cabo de algum tempo estava assinando o folhetim
mais lido do país, no Národni Listy, o órgão mais conceituado da imprensa tcheca. Suas
crônicas e artigos de crítica, suas polêmicas e sua atuação política faziam-no ser tido por um
líder da nação, ao passo que a obra do contista e poeta só foi devidamente apreciada após a
sua morte. Reflexo de sua fama no estrangeiro é o fato de o poeta chileno Neftalí Ricardo
Reyes haver adotado, em homenagem a ele, o pseudônimo de Pablo Neruda. Escreveu
também várias peças de teatro e fez numerosas traduções. Tendo perdido a noiva,
permaneceu solteiro, e até o fim da vida se consagrou de todo à causa nacional.
Naquela época estava já desperta a consciência de nacionalidade, mas toda a atividade
intelectual tcheca se desenrolava numa atmosfera provinciana; Neruda trouxe-lhe uma nota
nitidamente europeia. Era a encarnação das tendências típicas da sua pátria: alheio às
especulações filosóficas, com forte senso da realidade, atento aos pormenores, dotado de um
liberalismo comedido.
Dos seus volumes de versos, merecem lembrados os Cantos cósmicos e Melodias da
ressurreição. Entre as coletâneas de narrativas breves, a mais famosa é Contos de Malá
Strana187 (nome do antigo bairro de Praga onde nasceu o escritor), na qual nos traça com
realismo, humor, e ironia, uma série de perfis de gente miúda. A vida de todas essas
personagens decorre monótona, sem episódios extraordinários nem paixões violentas; consiste
a habilidade do escritor, precisamente, em descobrir o pitoresco, a aventura, um frêmito
nestas existências apagadas. Ele nos faz compreender os srs. Rysanek e Schlegl, inimigos
mortais durante anos, sentados à mesma mesa de café sem trocarem uma palavra; a sra.
Ruská, pessoa de coração excelente, que comparece a todos os enterros para falar mal do
defunto; a “Avó dos milhões” (velha pedinte que desejava às pessoas generosas um milhão de
vezes o que lhe davam), a qual arruina um colega, o mendigo oficial do bairro, fazendo-o
passar por milionário e pai de duas damas elegantes. Já em outro volume, Gente diversa, o
autor nos conduz a ambientes exóticos, apresentando-nos um novo tom, um novo clima
psicológico. Exemplo desta segunda maneira é o segundo conto traduzido,188 no qual
transparecem as recordações que deixou a Neruda o triste fim da noiva, vítima da tuberculose.

“HASTRMAN”189

Andava pelas ruas de chapéu na mão, por mais frio que fizesse ou por mais que ardesse o
Sol. Até foi visto, por vezes, protegendo a cabeça com a sua cartola chata, porém de abas
largas, como uma sombrinha. O cabelo grisalho, trazia-o penteado formando uma risca lisa
pegada ao crânio e que rematava, detrás, num rabicho tão apertado e amarrado que nem
sequer se movia: um dos últimos rabichos de Praga, quando ali já não existiam senão dois ou
três. Seu fraque, verde, com botões dourados, tinha um corpo muito curto, mas, em
compensação, umas abas muito longas, que batiam a cada passo nas delgadas panturrilhas
do sr. Rybar, quando ele passeava o seu corpinho delgado por aquelas ruas de Deus. Cobria
o peito com um colete branco, e as calças, pretas, chegavam só até pouco abaixo dos joelhos,
onde brilhavam duas fivelas de prata, seguidas de duas meias alvas de neve, que terminavam
em outras duas fivelas de prata e em dois sapatos muito grandes. Não sei se alguma vez
estes sapatos foram renovados, mas posso garantir que sempre davam a impressão de que
para fabricá-los se utilizara o couro mais rachado da capota do carro mais velho de Praga.
O rosto seco, pontiagudo, do sr. Rybar, estava invariavelmente iluminado por um sorriso.
Ao andar pela rua, sua pessoa oferecia um aspecto bem curioso: a cada vinte passos,
detinha-se e olhava à direita e à esquerda. Era como se os seus pensamentos não estivessem
dentro dele, mas o acompanhassem, com o devido respeito, a um ou dois passos de distância,
e o fossem divertindo com alegres relatos que obrigavam o sr. Rybar a rir-se de quando em
quando, e faziam que nele se fixassem os trocistas. Se saudava alguém, não somente
levantava o indicador da mão direita, mas assobiava de leve. E, sempre que o sr. Rybar
começava a falar, ouvia-se também esse leve assobio, acompanhado, em geral, de um “D’jo
que tinha sentido afirmativo.
O sr. Rybar vivia na “Hlubocá cesta”, perto do Petrin. Já estava chegando a casa; mas para
ele era o mesmo, pois o sr. Rybar, ainda que estivesse ante a porta, mal percebia que um
forasteiro ia em direção ao Hradcany, 190 caminhava sempre atrás dele, e quando este chegava
acima, à larga praça, e admirava a beleza de nossa “Praga dourada”, aproximava-se, erguia o
indicador e assobiava: — “D’jo! o mar! Por que não vivermos à beira-mar?” Depois,
acompanhava os forasteiros ao castelo, e, quando estes tornavam a espantar-se, na capela
de São Venceslau, ao ver as paredes, coalhadas de pedras preciosas da Boêmia, tornava a
assobiar e exclamava: — “Acredite! Em nossa terra os pastores atiram pedras ao gado, e a
pedra, algumas vezes, vale muito mais que o rebanho inteiro.” E não dizia mais nada.
Pelo seu nome,191 pelo seu fraque verde e pela sua exclamação constante — “O mar!” —,
apelidamo-lo de Hastrman. O apelido, porém, nada encerrava de depreciativo: muito ao
contrário, pois nós o respeitávamos deveras, tanto os velhos quanto os moços. Era o sr.
Rybar juiz aposentado, de uma localidade perto de Turnov. 192 Em Praga vivia com uma jovem,
sua parenta próxima, casada com um modesto funcionário, de quem tinha já dois ou três filhos.
Afirmava-se que o sr. Rybar era imensamente rico, não tanto de dinheiro, mas sobretudo de
pedras preciosas. Dizia o povo que havia na casa dele um armário negro e altíssimo dentro do
qual só se viam caixas pretas, de pouca altura e forma retangular, com o interior dividido em
quadrados, forrados de papel branco, e que em cada quadrado resplandecia sobre um
imaculado algodão uma brilhante pedra preciosa. Pessoas havia que afirmavam tê-lo visto. E
acrescentavam que tudo fora encontrado e colecionado na montanha Kozák.193 Entre nós, os
meninos, comentávamos que, quando em casa dos Sajvels — assim eram chamados os
parentes do sr. Rybar — se esfregava o chão, o pulverizavam não com areia branca, mas com
açúcar refinado. Aos sábados — dia de limpeza — invejávamos sempre extraordinariamente
os filhos dos Sajvels. Certa vez estive sentado na balaustrada que há por cima do fosso que
se abre detrás da porta de Bruska,194 ao pé da casa do sr. Rybar. Ali também costumava este
sentar-se quando fazia bom tempo; refestelava-se na grama, e assim permanecia durante uma
hora, fumando o seu cachimbo. Nesse dia passaram casualmente por aquele lugar dois
estudantes da Universidade. Um deles pôs-se a rir e disse: — “Aquele ali está fumando o forro
da saia-balão da mãe.” Desde então considerei que alguém fumar o forro da saia-balão da
mãe era um prazer que só podiam desfrutar as pessoas de grande fortuna.
Assim passeava Hastrman — mas não o chamemos assim! Já não somos crianças! —,
ainda que só pelas fortificações de Bruska. Se topava com algum cônego que também
houvesse estendido seus passeios até àqueles sítios, parava e trocava algumas frases
afáveis. De quando em quando (eu gostava de escutar o que ele conversava com gente
grande), ouvia-o falar com dois cônegos sentados em um banco. Lembro-me de que um dia
ele se achava de pé. Falavam da França e pronunciavam a palavra “liberdade”; tudo, coisa
extraordinária. Súbito, o sr. Rybar levantou o índice e assobiou:
— D’jo! Eu sou partidário de Rossenau! Rossenau disse: “A liberdade é como os alimentos
saborosos e como os vinhos fortes, com os quais as naturezas a eles acostumadas se
alimentam e fortalecem, enquanto que se embriagam, se deixam vencer e aniquilar as
naturezas débeis.”
Depois cumprimentou com a cartola, e lá se foi.
E o mais alto e mais gordo dos cônegos disse:
— Quem será esse Rossenau a quem tanto se refere?
O mais baixo, porém gordo também, respondeu:
— Algum escritor; provavelmente, algum escritor.
Eu, não obstante, guardei na mente aquela frase como a essência de toda a sabedoria. De
Rossenau e do sr. Rybar tive opinião igualmente elevada. Quando, depois, quase já homem,
cheguei a ler quase toda espécie de livros, descobri que o sr. Rybar citava com inteira
exatidão, com a única diferença de que aquela frase não era de Rossenau, mas de um tal
Rousseau. Provavelmente a travessa casualidade fizera que o sr. Rybar tropeçasse com
algum erro de imprensa apressadamente cometido.
Isso, porém, nada lhe tirou do meu respeito. Um homem bom, incompreensivelmente bom!
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Seriam mais ou menos três horas da tarde de um formoso dia de agosto. Quem quer que
fosse, acaso, pela Rua de Ostruha, parava; os que estavam à porta de suas casas avisaram
apressados aos de dentro, e das lojas e das casas saía gente. Que é que chamaria a atenção
de todos? Pois, simplesmente, o sr. Rybar, que descia a rua.
— Com certeza vai a alguma parte ostentar as riquezas — disse o sr. Herzi, o dono do
botequim Os Dois Astros.
— Ah! — respondeu o sr. Vitous, o vendeiro da esquina. — Deve estar muito apressado.
Vai vender!
Sinto ter de confessar que o sr. Vitous não gozava de excessivo respeito entre os seus
vizinhos. Contavam que uma vez estivera às portas da falência, e até hoje um verdadeiro filho
de Malá Strana olha o comerciante que foi uma vez à falência com um olhar totalmente diverso
daquele com que olha os outros.
Mas o sr. Rybar seguiu tranquilo o seu caminho, um pouco mais depressa que de outras
vezes. Debaixo do braço esquerdo conduzia uma daquelas caixas negras, quadrangulares, das
quais se falava tanto. Apertava-a fortemente ao corpo, de sorte que o chapéu, que levava na
mão, como de costume, parecia colado à perna. Na direita se erguia uma bengala de cana da
índia com castão de marfim; sinal de que o sr. Rybar ia visitar alguém, pois que noutras
ocasiões não usava bengala. Quando as pessoas o saudavam, levantava a bengala e
assobiava muito mais forte que de outras vezes.
Saiu da Rua Ostruha, atravessou a Praça de São Nicolau, e entrou na casa chamada
Zamberecká. Ali vivia, no segundo andar, o catedrático, o sr. Muehlwenzel, matemático e
naturalista, homem de cultura excepcional para aqueles tempos. Durou muito a visita.
Era o professor pessoa bem-humorada. Descansara e dormira a sesta, depois do almoço.
Seu cabelo embranquecido, que coroava a fronte lisa, estava em desordem. Os olhos azuis e
inteligentes, que tinham sempre uma expressão afável, brilhavam. Ardiam-lhe as bochechas,
algo vermelhas. Além disso, aquela cara bondosa mostrava-se um pouco desfigurada por
fundos sulcos, consequência de uma varíola, que davam ao professor motivo para uma pilhéria
que não variava nunca. — “Assim é o mundo — costumava dizer — se uma jovem sorri e tem
no rosto uma covinha, dizem que ela é uma beleza; eu, quando me rio, tenho cem covinhas, e
só dizem que eu sou feio.”
O professor convidou o sr. Rybar a sentar-se no sofá e perguntou-lhe:
— Em que posso servi-lo?
O sr. Rybar depôs a caixa sobre a mesa, levantou-lhe a tampa, e deixou a descoberto
brilhantes pedras de todas as cores.
— Eu só queria saber o que valem, aproximadamente — balbuciou.
Nada mais disse, e esperou a resposta apoiando o queixo no castão da bengala.
O professor deitou um olhar às pedras. Depois, retirou uma escura, sopesou-a na mão e
olhou-a a contraluz:
— Isto é uma moldavita.
— Como?
— Uma moldavita.
— D’jo! Moldavita! — assobiou o sr. Rybar.
E o rosto evidenciou que ouvira tal palavra pela primeira vez na vida.
— Esta pedra — continuou o professor — nos viria a calhar para a nossa coleção da
Academia. Já são bastante raras: poderia o senhor vender-nos este exemplar?
— Poderíamos estudar o caso... Quanto valerá, mais ou menos?
— Poderíamos dar por ela três florins. Está bem?
— Três florins! — assobiou muito baixinho o sr. Rybar.
O queixo levantou-se e tornou a cair sobre o punho da bengala.
— E as outras? — perguntou, um instante depois.
E as palavras se lhe engasgavam na garganta.
— Calcedônias, jaspes, ametistas, topázios... Tudo isto não vale nada.
Pouco depois estava o sr. Rybar de volta à esquina da Rua de Ostruha. Caminhava a
passos lentos. Pela vez primeira os vizinhos o viam de chapéu. A larga aba quase lhe tapava o
rosto. Sua bengala arrastava-se pelo chão e soava nos paralelepípedos. Não fitou ninguém,
nem sequer assobiou uma única vez. Tampouco olhou para trás. Era evidente que nenhum de
seus pensamentos o seguia: todos estavam dentro dele, no seu âmago.
Naquele dia não saiu de casa; nem esteve no castelo nem detrás da Bruska. E fazia um dia
verdadeiramente bonito.

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Era quase meia-noite. O céu tinha uma cor azul semelhante à da manhã, a lua brilhava em todo
o seu maravilhoso esplendor; cintilavam as estrelas como chispas brancas. O Petrin achava-se
coberto de uma neblina argêntea; um véu, como tecido de prata, se estendia sobre toda
Praga.
A luz alegre penetrava também no quarto do velho. As duas janelas encontravam-se
abertas de par em par, e ante uma delas se via o sr. Rybar, de pé. Estava ali como uma
estátua, rígido. Ao longe se ouvia o murmúrio da água nas represas do rio Moldávia; um som
poderoso e prolongado, que rompia o silêncio da noite. Ouvi-lo-ia o ancião?
De súbito um estremecimento lhe abalou todo o corpo. — “O mar! Por que é que o mar não
está aqui?” — exclamou em voz baixa e com os lábios trêmulos.
Talvez o atormentasse a mesma angústia que às ondas do mar agitado.
— Eh! — disse depois.
E voltou-se. Jaziam pelo chão as caixas abertas, e o seu olhar nelas tropeçou. Ergueu
devagar a que estava mais perto, e despejou as pedras na mão:
— São seixos!
E atirou-as pela janela.
Ouviu-se como se chocaram, embaixo, com uns cristais. O sr. Rybar nem sequer se
lembrava de que embaixo, no jardim, havia uma estufa para as plantas.
— Que é isso, titio? — soou uma voz agradável de homem, que partia, sem dúvida, da
janela contígua.
Involuntariamente o sr. Rybar retrocedeu um passo.
Abriu-se a porta do quarto, e entrou o sr. Sajvel. Talvez a noite maravilhosa o houvesse
retido à janela. Talvez houvesse percebido a agitação inusitada do velho tio e ouvido, de seu
quarto, o ruído prolongado. Talvez, também, alguns dos suspiros do velho tivessem escapado
pela janela.
— Titio, o senhor não vai atirar todas estas pedras bonitas pela janela, não é?
O velho estremeceu. Murmurou em seguida, olhando fixo o Petrin:
— Não valem nada... São seixos!...
— Eu já sei que não valem muito; nem era preciso que ninguém me dissesse. Mas, sem
dúvida, têm o seu valor para o senhor e para nós. O senhor colecionou-as com muito trabalho.
Deixe-as, titio, eu lhe peço. Serão todas para meus filhos. Nelas estudarão, e o senhor lhes
explicará o mérito delas...
— Vocês pensavam que eu era rico — murmurou o velho com voz rouca e fazendo grande
esforço —, e a verdade...
— Querido tio — disse então o sr. Sajvel com voz firme, mas ao mesmo tempo suave,
tomando o velho pela mão —, então não somos ricos tendo o senhor? Sem o senhor, meus
filhos não teriam um avô, e minha mulher se encontraria sem pai, e o senhor bem sabe que
somos felizes em sua companhia e que a consideramos uma bênção nesta casa.
De repente o velho aproximou-se da janela. A boca tremia-lhe, e perto dos olhos sentia uma
pressão inexplicável. Olhou para fora, e não viu nada determinado. Tudo cintilava como um
diamante derretido, tudo se agitava como se tivesse ondas: ondas que até aos olhos
chegassem!... O mar!... O mar!...

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Não continuo contando. Para que contar mais?

O VAMPIRO

O vaporzinho de excursões trouxera-nos de Constantinopla até a ilha de Prinkipo, onde


desembarcamos. Não éramos muitos: uma família polaca — pai, mãe, a filha, o noivo desta —
e nós dois — meu amigo e eu. E (quase me ia esquecendo) já em Constantinopla, na ponte de
madeira que atravessa o Corno de Ouro, juntara-se ao nosso grupo um grego, ainda moço,
pintor, decerto, a julgar pela pasta de papelão que sobraçava. Longos cabelos pretos em
cachos caíam-lhe até os ombros, a face era pálida, os olhos pretos cravados no fundo das
órbitas. No primeiro momento, interessou-me, sobretudo pela sua obsequiosidade em dar-nos
informações acerca dos lugares. Porém falava demais, e deixei-o de lado.
A família polaca, no entanto, era muito agradável: os pais, gente simples e boa; o noivo, um
rapaz elegante, de modos polidos e francos. Vinham a Prinkipo passar os meses de verão, por
causa da filha meio adoentada. A linda moça, muito pálida, ou estava em convalescença, ou
sofria de moléstia grave. Apoiava-se ao noivo, sentava-se amiúde, e volta e meia uma
tossezinha seca lhe entrecortava os cochichos com ele. Sempre que tossia, seu companheiro
parava gentilmente e olhava para ela, compassivo. Ela respondia ao olhar, como se quisesse
dizer: — “Isto não é nada, estou bem!” Acreditava na saúde e na felicidade.
A conselho do grego, que se separou de nós logo no cais, a família alugou um apartamento
no hotelzinho do alto. Era francês o hoteleiro, e a casa toda arranjada à moda francesa,
confortável e bonita.
Almoçamos juntos, e, quando o calor do meio-dia arrefeceu, fomos até o cume, ao bosque
dos pinheiros, tomar fresca e admirar a vista. Mal encontramos lugar conveniente para
descanso, reapareceu o grego. Cumprimentou de leve, olhou em redor e sentou-se a poucos
passos de nós. Abriu a pasta e pôs-se a desenhar.
— Creio que se sentou assim, encostado nas rochas, de propósito, para não podermos ver
o que desenha — observei.
— Não precisamos ver — disse o jovem polonês. — Temos muito que olhar à nossa frente.
E pouco depois acrescentou:
— Parece que nos está incluindo no cenário. Mas isso não tem importância.
Tínhamos, de fato, muito que ver. Não há no mundo lugar mais belo e mais feliz que
Prinkipo. Irene, a mártir política no tempo de Carlos Magno, viveu ali um mês em exílio. Se me
fosse dado passar aqui um só mês de minha vida, essa lembrança me faria feliz para o resto
dos meus dias. Esse único dia que ali passei já me é inesquecível.
O ar era transparente como um brilhante, tão doce, tão delicioso, que a alma inteira se
deixava embalar por ele. À direita, do outro lado do mar, erguiam-se as pardas montanhas da
Ásia; à esquerda, ao longe, azulejava a escarpada costa da Europa. Pertinho, destacava-se
Chalki, uma das nove ilhas do arquipélago do Príncipe, com os seus bosques de ciprestes, que
se levantam como um sonho triste para o azul do céu, coroada por um grande edifício — o
asilo de alienados.
A água do mar de Mármara, levemente encrespada pelo vento, resplandecia em todas as
cores, como uma opala preciosa. Lá longe, ele era alvo como leite; para cá, róseo, entre duas
ilhas cor de laranja dourada; e a nossos pés, de um verde azulado de safira, diáfano. Sua
beleza não era perturbada por nenhum navio grande: apenas dois pequenos barcos de
bandeira inglesa deslizavam junto à costa — um deles, uma lanchinha a vapor, não maior que
uma guarita; o outro, com uns 12 remadores. Dir-se-ia gotejar dos remos prata líquida, cada
vez que os erguiam em cadência. Delfins, bem pouco ariscos, brincavam entre os barcos,
saltando livremente em semicírculos acima da água. A espaços, enormes águias se elevavam
pelo céu azul, num voo sereno entre os dois continentes.
Toda a encosta, abaixo, vestia-se de roseiras em flor, cujo perfume embalsamava os ares.
Abafada pela distância, vinha até nós a música do pequeno café à beira-mar.
Estávamos empolgados. Ficamos em silêncio, mergulhados por inteiro na contemplação
desse quadro paradisíaco. Deitada no gramado, a jovem polonesa tinha a cabeça reclinada no
peito do noivo. O seu rostinho oval, pálido e delicado, chegara a corar um pouco, e de súbito
os olhos azuis encheram-se de lágrimas. O noivo compreendeu, inclinou-se sobre ela e com
seus beijos lhe foi secando as lágrimas uma a uma. A mãe também se pôs a chorar — e até
eu: senti-me presa de sentimentos estranhos.
— Aqui o corpo e a alma devem sarar — disse baixinho a moça. — Que lugar maravilhoso!
— Sabe Deus que não tenho inimigos, mas, se os tivesse, aqui eu lhes perdoaria! — disse
o pai com a voz trêmula de emoção.
Fez-se de novo silêncio. Tudo era lindo, e de inefável doçura. Cada qual sentia em si um
infinito de felicidade, que desejaria repartir com o mundo inteiro. Tínhamos todos a mesma
sensação, e por isso nenhum de nós perturbou os outros. Quase nem reparamos que o grego,
após cerca de uma hora de trabalho, se levantara, fechara a pasta de desenho e, saudando-
nos ligeiramente, partira. Nós ficamos.
Horas depois, quando ao longe tudo já principiava a adquirir esse tom de lilás escuro e
encantador que só se vê nas regiões meridionais, a mãe lembrou que era o momento de
voltarmos. Levantamo-nos e descemos devagarinho até o hotel, a passo despreocupado e
flexível, como crianças contentes.
Sentamo-nos na bonita varanda à frente do hotel. Mal nos sentáramos, ouvimos, vinda lá de
baixo, uma discussão com injúrias. Era o nosso grego a brigar com o hoteleiro, o que nos
divertia.
Mas o divertimento foi curto.
— Se eu não tivesse outros hóspedes... — resmungava o hoteleiro, subindo a escada da
varanda.
— Por favor — perguntou o jovem polaco, quando ele ia chegando perto da nossa mesa —,
quem é este senhor, como se chama?
— Oh! só Deus sabe o nome desse sujeito — rosnou o hoteleiro, lançando para baixo um
olhar de raiva. — Nós só o chamamos de Vampiro.
— É pintor, não?
— Bela arte, a sua: só pinta cadáveres! Assim que alguém morre em Constantinopla, ou
aqui pelos arredores, já ele está com o retrato do defunto pronto, no mesmo dia. O malandro
já desenha de antemão — e nunca se engana, esse abutre!
A senhora polonesa deu um grito de susto: a filha caíra-lhe nos braços, desmaiada e
branca de cera.
Já o noivo se despencara escada abaixo e com uma das mãos apanhara o grego pelo
peito, enquanto com a outra tentara arrebatar-lhe a pasta de desenho.
Corremos, depressa, atrás dele. Já os dois homens rolavam na areia.
A pasta caíra aberta e as folhas se espalharam. Via-se numa delas, desenhada a lápis, a
cabeça da jovem polonesa — de olhos fechados e, na fronte, uma grinalda de mirto.
GUY DE MAUPASSANT

Enquanto o criador do romance moderno, Balzac,195 morria em Paris, no castelo de Miromesnil


nascia o renovador do conto, Guy de Maupassant (1850-1893).
Filho de pais abastados, Maupassant concluiu os estudos secundários em Ruão. Entrando,
pouco depois, na carreira das armas, tomou parte na desastrosa guerra franco-alemã e
assistiu à debandada do exército francês. O desmoronamento do Segundo Império coincidiu
com a ruína de seus pais, aliás desavindos e separados havia tempo; o desiludido ex-
combatente julgou-se feliz em conseguir um lugar de amanuense no Ministério da Marinha. Não
tardou em sentir-se desambientado naquele meio burocrático, pois desde cedo nutria
pretensões literárias; para fugir ao tédio e ao desalento, cada fim de semana ia remar num
barquinho sobre o Sena e o Marne. Essas três experiências — a guerra, a vida burocrática, a
alegria dos desportistas boêmios em contato com o rio — viriam a fornecer assuntos para
grande número de seus contos.
Teve o jovem escritor a sorte de encontrar um guia como talvez nenhum de seus
predecessores. Flaubert,196 amigo íntimo da família de sua mãe, aconselhava-o desde os
primeiros passos na literatura, apontando-lhe defeitos, impedindo-o de dar à publicidade
produções imaturas, inculcando-lhe alto senso de responsabilidade artística e o amor ao
trabalho. Submetia o rapaz a uma rígida disciplina de estilo: mandava-o, por exemplo, passear
no campo, observar uma árvore até que ela se lhe afigurasse diversa de todas as demais e,
de volta, descrever em cem linhas o que vira. Foi esse mestre incomparável, que o aproximou
de jornais e editores, quem primeiro o saudou calorosamente, quando, em 1880, na coletânea
As Noites de Medan, organizada por alguns discípulos de Zola, Maupassant publicou sua
primeira grande novela, “Bola de sebo”, a qual o celebrizou de um dia para outro. Com a
fecundidade do talento que encontrou o seu caminho e sente receptividade aos seus trabalhos,
Maupassant escreveu em dez anos uns trezentos contos, além de seis romances, um volume
de versos, três de impressões de viagens, e algumas peças, sem falar em outras obras menos
importantes. O êxito sem precedentes de seus contos e romances trouxe-lhe inesperada fama
e riqueza. Desligou-se do Ministério da Instrução Pública, para onde fora transferido, mobiliou
seu apartamento de Paris com luxo nababesco, comprou uma casa de campo no
Mediterrâneo, adquiriu um iate, passou a frequentar os salões da aristocracia, teve grande
número de vitórias amorosas — quando, de repente, a insidiosa doença que desde anos o
minava se declarou em toda a força. Dores atrozes, tentativa de suicídio, a loucura, a paralisia
progressiva, 18 meses de vida meramente vegetativa num manicômio: eis o triste fim dessa
existência deslumbrante, invejada por tantos contemporâneos.
Maupassant morreu antes de completar 43 anos de idade.
Nascera para ser escritor, e escritor naturalista. “Talento robusto antes que fino, sem
necessidade de expansão simpática, sem inquietude intelectual, não tinha nem afeições nem
ideias que o levassem a deformar a realidade; seu coração não reclamava uma ilusão, seu
espírito não procurava demonstrações.”197 Com intuição genial, percebe, em anedotas ouvidas
por acaso, cenas mal-entrevistas, casos contados, o germe de outros tantos contos. Observa
a realidade com a funda atenção que lhe ensinou Flaubert, mas do que observou destaca
apenas o essencial e conta-o com sobriedade enxuta e patética, sem comentários, desvios ou
conclusões, com a insensibilidade de uma testemunha imparcial.
Nem todos consideram tal insensibilidade uma virtude. “Maupassant sabe pouco, lê pouco,
compreende pouco” — escreve um de seus biógrafos, que por sua vez não parece tê-lo
compreendido muito —, “não tem o dote da poesia, e impôs-se uma máscara impassível —
motivos que o impedem de alargar o seu estilo, de criar novas e misericordiosas comunicações
entre ele e o público, de um lado, e ele e a beleza, do outro”.198
Porém existe uma poesia involuntária, e talvez seja esta a mais autêntica. “Se alguém entre
os poetas modernos merece por excelência o nome de poeta ingênuo, parece-me que é o
ultraparisiense, livre, malicioso, zombeteiro, sarcástico novelista Guy de Maupassant. Ingênuo
e inocente à sua maneira, por isento de qualquer suspeita do que se chama espiritualismo e
racionalismo humano, fé na verdade, pureza da vontade, austeridade do dever, concepção
religiosa da vida, lutas morais e contrastes intelectuais, através de que tais ideais se elaboram
e se mantêm.”199
Assim continua a discussão em torno de Maupassant como se fora vivo. Por haver sido
homem de apetites brutais, de sensualidade preponderante, e alheio a preocupações éticas e
metafísicas, e também por haver proclamado, um pouco por bravata, escrever para ganhar
muito dinheiro, e não ligar nenhuma importância à literatura, muitos críticos, sobretudo anglo-
saxônicos, ainda hoje lhe recusam a qualidade de gentleman, e menosprezam-lhe a obra. “A
sua extraordinária técnica e habilidade o tornam o virtual inventor do conto comercial, mas não
possuía as qualidades morais e intelectuais de um grande escritor.” 200 Entretanto, outros
autores não hesitam em colocá-lo entre os maiores. “Seus contos, vistos em conjunto,
constituem uma suma épica do século XIX, como A comédia humana, de Balzac. Como esta,
os contos de Maupassant contêm mais do que a mera representação realística da vida
moderna: mergulham até às raízes da existência humana.”201
Posto não desconheçamos as limitações do gênio de Maupassant, vemos nele um dos
maiores cultores do conto. Ninguém possuiu tão nítida intuição das características do gênero,
e tem razão Albert Thibaudet 202 ao apontar que nunca fez um romance com assunto de conto.
Em consequência do ritmo rápido de sua produção, encontram-se-lhe nos volumes contos
insignificantes ou não plenamente realizados, situações e assuntos repetidos, narrativas
excessivamente arranjadas para um naturalista — mas, com tudo isso, a sua obra contém
dúzias de contos esplêndidos, espécimes eternos do gênero, que se revelam melhores a cada
releitura, e entre os quais é dificílimo operar uma seleção.
Entre outros, W. Somerset Maugham, discípulo dos mais notáveis do contista, procurou dar
uma definição da fórmula maupassantiana do conto.203 O núcleo deste é, em geral, uma
anedota. Com o estritamente necessário de palavras o autor suscita um ambiente, caracteriza
as personagens. Arquitetando bem a história, dosando o interesse, desperta no leitor a avidez
de saber o desfecho, e o faz, satisfeita a curiosidade, voltar (em pensamento pelo menos) a
admirar os pormenores, sempre admiráveis, do desenvolvimento. Apesar de proclamar-se
realista, Maupassant não copia a vida; arranja-a, dramatiza-a, sem que o leitor, sob o golpe da
emoção, dê por isso.
Mais adiante, ao falar em Tchekov, referir-nos-emos à oposição que se costuma
estabelecer entre a fórmula maupassantiana e a tchekoviana do conto.204 H. E. Bates, teórico
e cultivador moderno do gênero, lembrou-se de enumerar os pontos em que as duas se
parecem: a profunda curiosidade dos autores, sua economia de meios, a simplicidade do
vocabulário, a variedade dos tons e das atmosferas, a indiferença dos contistas à moral
aceita, a impersonalidade da narração.205
As histórias de Maupassant podem-se dividir em grupos, conforme o ambiente em que se
desenvolvem. Já lembramos os contos “de guerra”, “burocráticos” e “aquáticos”.
Acrescentaremos as cenas da vida dos camponeses normandos, em parte cômicas ou
grotescas; as narrativas de caça e pesca, com excelentes evocações da natureza; as histórias
“gaulesas”, em que se mostra sucessor ora do cínico e alegre Boccaccio,206 ora do
apaixonado e trágico Stendhal.207 Surpreender-nos-ia, na obra desse desesperado incréu, o
vultoso número de histórias fantásticas e sobrenaturais, os casos de alucinação, loucura e
sadismo, se ignorássemos a terrível herança familiar que o levou à demência. Devemos, por
fim, mencionar um fato estranho, observado pelo crítico René Dumesnil:208 a décima parte dos
contos, entre eles alguns dos melhores (“O sr. Parent”, “O campo das oliveiras” , “A inútil
beleza”), e um dos seis romances (Pedro e João), focalizam o doloroso problema do filho
adulterino abandonado pelo pai, “fruto de breves abraços e que — remorso ou consolação —
sobrevive”, problema vasculhado de todas as maneiras, quase sempre encarado sob o
aspecto trágico. Supõe esse erudito que tal obsessão deve prender-se a algum fato até agora
desconhecido da biografia de Maupassant, algum episódio pungente da sua tempestuosa vida
passional.
O mais recente dos biógrafos de Maupassant, Michael G. Lerner, 209 registra (embora sem
lhes dar crédito) duas das suposições mais divulgadas. Segundo uma delas, teria tido o
escritor com uma de suas numerosas amantes, Joséphine Litrelmann, três filhos, que deixou
de legitimar e de criar; conforme outra, seria ele próprio filho ilegítimo — de Flaubert —, o que
explicaria o interesse extraordinário que por ele tomou o grande romancista, facilitando-lhe a
carreira quanto pôde.210

DOIS AMIGOS

Paris estava bloqueada, faminta e arquejante. Tornavam-se muito raros os pardais nos
telhados, e os esgotos despovoavam-se. Comia-se o que se encontrava.
Passeando tristemente, por uma clara manhã de janeiro, ao longo do bulevar exterior, com
as mãos nos bolsos da calça e o ventre vazio, de repente o sr. Morissot, relojoeiro de
profissão e chineleiro nas horas vagas, parou ante um colega, em quem reconheceu um amigo.
Era o sr. Sauvage, um conhecimento travado à beira da água.
Todos os domingos, antes da guerra, Morissot partia ao amanhecer, levando em uma das
mãos uma vara de bambu e às costas uma caixa de folha-de-flandres. Tomava o trem de
Argenteuil, descia em Colombes, e depois caminhava a pé em direção à ilha Marante. Mal
chegava a esse lugar de seus sonhos, punha-se a pescar; pescava até à noite.
Todos os domingos encontrava ali um homenzinho atarracado e jovial, o sr. Sauvage,
merceeiro estabelecido na rua de Nossa Senhora de Loreto, outro pescador fanático. Não raro
passavam os dois a metade do dia lado a lado, com a linha na mão e os pés oscilando acima
da corrente; e tomaram-se de amizade.
Em certos dias não trocavam uma palavra. Algumas vezes conversavam; mas entendiam-se
admiravelmente sem dizer nada, pois tinham gostos semelhantes e sensações idênticas.
Na primavera, de manhã, pelas dez horas, quando o Sol rejuvenescido fazia flutuar sobre o
rio tranquilo essa pequena barrela que corre com a água, e derramava no dorso dos dois
obstinados pescadores um bom calor de estação recente, por vezes Morissot dizia ao seu
vizinho: — “Que doçura, hem?” — e o sr. Sauvage respondia: — “Não conheço nada melhor.”
E isto lhes bastava para se compreenderem e se estimarem.
No outono, ao fim do dia, quando o céu, ensanguentado pelo poente, lançava na água
imagens de nuvens escarlates, pupurejava o rio inteiro, inflamava o horizonte, tornava rubras
como o fogo e dourava, entre os dois amigos, as árvores já tostadas, trementes de um frêmito
de inverno, o sr. Sauvage fitava Morissot, a sorrir, e exclamava: — “Que espetáculo!” E
Morissot, maravilhado, respondia, sempre com os olhos no seu flutuador: — “Isto é melhor do
que o bulevar, hem?”
Mal se reconheceram, apertaram-se as mãos com energia, muito comovidos de se
reencontrarem em circunstâncias tão diversas. O sr. Sauvage, dando um suspiro, murmurou:
— Acontece cada uma!
Morissot, muito triste, gemeu:
— E que tempo! Hoje é o primeiro dia bonito do ano.
Com efeito, o céu estava inteiramente azul e repleto de luz.
Puseram-se a caminhar um ao lado do outro, meditativos e tristes. Morissot prosseguiu:
— E a pesca, hem? Que boa lembrança!
O sr. Sauvage perguntou:
— Quando voltaremos a ela?
Entraram num pequeno café e tomaram juntos um absinto; depois, voltaram a passear
pelas calçadas.
Súbito, Morissot se deteve:
— Mais um verde, não?
O sr. Sauvage concordou:
— Às suas ordens.
E entraram noutra casa de bebidas.
Ao saírem, achavam-se muito atordoados, transtornados como pessoas em jejum cujo
ventre está cheio de álcool. O tempo era doce. Uma brisa acariciante fazia-lhes cócegas no
rosto.
O sr. Sauvage, a quem o ar tépido acabava de embebedar, parou:
— E se a gente fosse lá?
— Lá, onde?
— À pesca.
— Mas onde?
— Ora essa! Em nossa ilha. Os postos avançados franceses ficam perto de Colombes. Eu
conheço o coronel Dumoulin; hão de nos deixar passar facilmente.
Morissot estremeceu de desejo:
— Muito bem. De acordo.
E separaram-se para apanhar os seus instrumentos.
Uma hora depois, caminhavam juntos no meio da estrada. Alcançaram, afinal, a casa de
campo ocupada pelo coronel. Este sorriu do pedido dos dois homens, e anuiu à fantasia deles.
Prosseguiram seu caminho, munidos de passaporte.
Não tardou que transpusessem os postos avançados, atravessassem Colombes
abandonada, e se vissem à margem dos pequenos vinhais que descem para o Sena. Eram
cerca de 11 horas.
Em frente, a aldeia de Argenteuil parecia morta. As eminências do Orgemont e do Sannois
dominavam toda a região. A grande planície que vai até Nanterre estava deserta,
completamente deserta, com suas cerejeiras nuas e suas terras cinzentas.
O sr. Sauvage, apontando os cimos com o dedo, murmurou:
— Os prussianos estão lá no alto!
E uma inquietação paralisava os dois amigos em face daquele ermo.
Os prussianos! Nunca eles tinham avistado nenhum, mas sentiam-nos ali desde meses
atrás, ao redor de Paris, arruinando a França, pilhando, chacinando, esfomeando, invisíveis e
todo-poderosos. E uma espécie de supersticioso terror somava-se ao ódio que tinham a esse
povo desconhecido e vitorioso.
— E se encontrássemos alguns deles, hem? — disse Morissot, balbuciante.
O sr. Sauvage respondeu, deixando transparecer, a despeito das circunstâncias, esse
gosto parisiense do gracejo:
— A gente lhes oferecia uma fritada.
Porém hesitavam em expor-se ao campo, intimidados pelo silêncio de todo o horizonte.
Por fim, o sr. Sauvage decidiu-se:
— Vamos, a caminho! Mas com cautela.
E desceram a um vinhedo, curvados em dois, de rastos, valendo-se de moitas para se
resguardarem, olhar inquieto, ouvido atento.
Faltava atravessar uma faixa de terra nua para ganharem a margem do rio. Puseram-se a
correr; e, apenas atingiram a ribanceira, agacharam-se entre os caniços secos.
Morissot colou o rosto ao chão para escutar se andava gente pelos arredores. Não ouviu
nada. Estavam sozinhos, inteiramente sozinhos.
Serenaram-se e começaram a pescar.
Diante deles, a abandonada ilha Marante ocultava-se à ribanceira oposta. A casinha do
restaurante achava-se fechada, parecia desamparada desde anos.
O sr. Sauvage pescou a primeira cavala. Morissot apanhou a segunda, e de momento a
momento levantavam as linhas com um bichinho prateado a saltitar na extremidade do fio:
verdadeira pesca milagrosa.
Introduziram delicadamente os peixes numa rede de malhas muito apertadas, mergulhada a
seus pés. E uma alegria deliciosa os penetrava, essa alegria que nos domina ao reentrarmos
no gozo de um prazer amado de que fomos privados por muito tempo.
O bom Sol destilava-lhes o seu calor entre as espáduas; já não ouviam nada, já não
pensavam em nada; ignoravam o resto do mundo: pescavam.
De repente, porém, um ruído surdo, que parecia vir de sob a terra, fez tremer o solo. O
canhão voltava a troar.
Morissot volveu a cabeça, e avistou acima da ribanceira, além, à esquerda, o grande perfil
do Mont-Valérien, que trazia na fronte um penacho branco, um vapor do pó que acabava de
cuspir.
E logo um segundo jacto de fumaça partiu do cimo da fortaleza; e alguns instantes depois
ribombou nova detonação.
Seguiram-se outras, e a cada instante a montanha golfava a sua exalação de morte,
soprava os seus vapores leitosos, que se erguiam com lentidão no céu calmo, formavam acima
dela uma nuvem.
O sr. Sauvage ergueu os ombros:
— Lá continuam eles.
Morissot, que via, com ânsia, submergir-se pouco a pouco a pluma do seu flutuador, foi
subitamente assaltado de uma cólera de homem plácido contra aqueles endemoninhados que
se batiam assim, e resmungou:
— É preciso ser estúpido para matar desse jeito!
— São piores que animais — observou o sr. Sauvage.
E Morissot, que acabava de pegar uma mugem:
— E dizer-se que será sempre assim, enquanto houver governos!
O sr. Sauvage o deteve:
— A República não teria declarado guerra...
Morissot interrompeu-o:
— Com os reis, temos a guerra fora de portas; com a República, temos a guerra dentro de
casa.
E pegaram tranquilamente a discutir, ferindo os problemas políticos com uma razão sadia
de homens mansos e limitados, acordes quanto a este ponto: nunca se teria liberdade. E o
Mont-Valérien troava sem repouso, demolindo a balaços de artilharia casas francesas,
triturando vidas, arrasando seres, aniquilando muitos sonhos, muitas esperadas alegrias,
muitas felicidades prometidas, abrindo em corações de esposas, em corações de mães, além,
noutras terras, sofrimentos que não mais teriam fim.
— É a vida — declarou o sr. Sauvage.
— Diga antes que é a morte — replicou Morissot a rir.
Mas estremeceram de espanto, sentindo claramente que alguém acabava de caminhar,
atrás deles; e volvendo os olhos, avistaram às suas costas, em pé, quatro homens, quatro
homenzarrões armados e barbudos, vestidos de libré como lacaios, e com bonés chatos,
mantendo-os em frente na extremidade dos seus fuzis.
As duas linhas escaparam-se-lhes das mãos e começaram a descer o rio.
Em alguns segundos foram eles agarrados, presos, arrebatados, metidos numa barca e
transportados à ilha.
E atrás da casa que tinham julgado abandonada avistaram uns vinte soldados alemães.
Uma espécie de gigante peludo, que fumava, a cavalo numa cadeira, um grande cachimbo
de porcelana, perguntou-lhes, em excelente francês:
— Então, senhores, fizeram boa pesca?
Aí, um soldado depôs aos pés do oficial a rede cheia de peixes, que tivera o cuidado de
trazer. O prussiano sorriu:
— Ah! ah! pelo que vejo, a coisa não ia mal. Mas o caso é outro. Escutem-me e não se
perturbem. Para mim os senhores são dois espiões mandados para me espreitarem. Eu os
prendo e fuzilo. Os senhores fingiam pescar para melhor dissimularem os seus propósitos.
Caíram em minhas mãos, tanto pior para os senhores; é a guerra. Mas, como saíram pelos
postos avançados, têm decerto uma palavra de ordem para entrar. Digam-me essa palavra de
ordem, e eu lhes perdoarei.
Lívidos, um ao lado do outro, com as mãos agitadas por leve tremor nervoso, os dois
amigos mantinham-se calados.
O oficial continuou:
— Ninguém o saberá nunca, os senhores voltarão calmamente. O segredo desaparecerá
com os senhores. Se recusarem, morrerão, e imediatamente. Escolham.
Eles permaneceram imóveis, sem abrir a boca.
O prussiano, sempre calmo, prosseguiu, apontando para o rio:
— Imaginem que em cinco minutos estarão no fundo daquela água. Em cinco minutos! Os
senhores têm parentes, não?
O Mont-Valérien não cessava de atroar.
Os dois pescadores continuavam em pé, e silenciosos. O alemão deu ordens na sua língua.
A seguir, mudou de lugar a cadeira, para não ficar muito perto dos prisioneiros; e 12 homens
se vieram colocar a vinte passos, de fuzil ao pé.
O oficial prosseguiu:
— Dou-lhes um minuto, nem dois segundos mais.
Depois, ergueu-se de supetão, aproximou-se dos dois franceses, segurou Morissot pelo
braço, arrastou-o para mais longe, disse-lhe em voz baixa:
— Depressa, a palavra de ordem? Seu companheiro não saberá de coisa alguma; eu darei
a impressão de ter ficado compadecido.
Morissot não respondeu nada.
Então o prussiano arrebatou o sr. Sauvage e propôs-lhe a mesma coisa.
O sr. Sauvage não respondeu.
Ficaram de novo os dois lado a lado.
E o oficial entrou a dar voz de comando. Os soldados ergueram as armas.
Então o olhar de Morissot caiu, por acaso, sobre a rede cheia de cavalas, que ficara na
grama, a alguns passos dele.
Um raio de sol fazia brilhar o monte de peixes, que ainda se agitavam. Sentiu invadi-lo um
desfalecimento. Apesar dos seus esforços, os olhos se lhe encheram de lágrimas. Balbuciou:
— Adeus, sr. Sauvage.
O sr. Sauvage respondeu:
— Adeus, sr. Morissot.
Apertaram-se as mãos, abalados da cabeça aos pés por invencíveis tremores.
O oficial gritou:
— Fogo!
Os 12 tiros foram como um só.
O sr. Sauvage caiu em cheio sobre o nariz. Morissot, mais alto, oscilou, girou e desabou
em cima do companheiro, com o rosto para o céu, enquanto de sua túnica, crivada no peito, se
escapavam borbotões de sangue.
O alemão deu novas ordens.
Seus homens se dispersaram, e voltaram depois com cordas e pedras, que ataram aos pés
dos dois mortos; em seguida, levaram-nos à ribanceira.
O Mont-Valérien não parava de ribombar, toucado, agora, de uma montanha de fumaça.
Dois soldados seguraram Morissot pela cabeça e pelas pernas; dois outros pegaram o sr.
Sauvage de modo idêntico. Os corpos, balançados com força por um instante, foram atirados
ao longe, descreveram uma curva, depois mergulharam no rio, a prumo, arrastados pelas
cordas.
A água esguichou, borbulhou, estremeceu, acalmou-se por fim, enquanto pequeninas vagas
vinham até às margens.
Flutuava um pouco de sangue.
O oficial, sempre sereno, disse a meia-voz:
— Agora é a vez dos peixes.
E tornou para casa.
De repente avistou na grama a rede com as cavalas. Apanhou-a, examinou-a, sorriu, gritou:
— Wilhelm!
Acorreu um soldado de avental branco. E o prussiano, atirando-lhe a pesca dos dois
fuzilados, ordenou:
— Trate de me fritar quanto antes estes bichinhos, enquanto ainda estão vivos. Será uma
delícia.
E voltou a fumar o seu cachimbo.

AS JOIAS

Tendo encontrado aquela moça numa festa, em casa do seu subchefe de seção, o sr. Lantin
sentiu o amor envolvê-lo feito uma rede.
Era filha de um coletor de província, que morrera havia alguns anos. Viera depois morar em
Paris em companhia da mãe, que frequentava algumas famílias burguesas do seu bairro na
esperança de casar a menina. Eram pobres e honrados, quietos e afáveis. A moça parecia o
tipo acabado da mulher de bem, a quem o jovem morigerado sonha confiar a vida. Havia na
sua beleza modesta a graça de um pudor angélico, e o imperceptível sorriso que lhe pairava
sempre nos lábios parecia um reflexo do seu coração.
Era louvada por toda a gente; todos aqueles que a conheciam levavam o tempo a repetir:
— “Feliz o que se ligar a esta. Não se poderia encontrar melhor.”
O sr. Lantin, então primeiro-amanuense do Ministério do Interior, com vencimentos anuais
de três mil e quinhentos francos, pediu-a em casamento e a desposou.
Foi inverossimilmente feliz na escolha. Ela dirigia-lhe a casa com uma economia tão hábil
que o casal parecia viver no luxo. Não havia atenções, delicadezas, mimalhices que ela não
tivesse com o marido; e tão grande era a sedução de sua pessoa que, seis anos depois de se
haverem encontrado, ele a amava ainda mais do que nos primeiros dias.
Somente duas paixões lhe censurava ele: a do teatro e a das joias falsas.
Suas amigas (ela conhecia algumas mulheres de modestos funcionários) estavam sempre a
lhe arranjar camarotes para as peças em voga, e até para as primeiras representações; e ela
arrastava o marido, a gosto ou a contragosto, para essas diversões, que o fatigavam
horrorosamente após o seu dia de trabalho. Assim, ele pediu-lhe consentisse em ir ao
espetáculo com alguma senhora de suas relações, que a traria de volta. Não foi sem longa
relutância que ela cedeu, não lhe parecendo muito certa essa maneira de agir. Decidiu-se,
afinal, por complacência, com o quê o tornou infinitamente grato.
Ora, esse gosto do teatro não tardou a despertar-lhe a necessidade de se enfeitar. Suas
vestes, é verdade, continuavam a ser muito simples, sempre de bom gosto, porém modestas;
e sua doce graça, sua graça irresistível, humilde e sorridente, parecia adquirir novo sabor com
a simplicidade dos vestidos; ela, no entanto, contraiu o hábito de pendurar nas orelhas dois
grossos seixos do Reno que simulavam diamantes, e usava colares de pérolas falsas,
braceletes de pechisbeque, pentes ornados de variegadas miçangas imitantes a pedras finas.
O marido, a quem chocava um pouco essa paixão da lentejoula, repetia de vez em quando:
— Minha querida, quando a gente não tem meios de adquirir joias verdadeiras, adorna-se
apenas com a sua beleza e a sua graça: são estas, ainda, as joias mais raras.
Ela, porém, sorria docemente e repetia:
— Que quer você? Isso me agrada. É o meu vício. Bem sei que você tem razão; mas
ninguém muda a sua natureza. Eu, por mim, veneraria as joias!
E fazia rolar entre os dedos os colares de pérolas, especialmente as facetas dos cristais
lapidados, repetindo:
— Mas olhe como é bem-feito! Dá para se jurar que é verdadeiro.
Ele sorria:
— Você tem gostos de cigana.
Às vezes, pela noite, quando se achavam face a face ao canto da lareira, ela trazia para a
mesa onde tomavam o chá a caixa de marroquim em que guardava a “pacotilha”, como lhe
chamava o sr. Lantin; e punha-se a examinar aquelas joias imitadas com uma atenção ardente,
como se saboreasse um gozo secreto e profundo; e teimava em cingir com um colar o
pescoço do marido, para rir depois gostosamente, exclamando:
— Como você está engraçado!
E atirava-se-lhe aos braços, beijando-o perdidamente.
Certa noite de inverno, ela voltou da Ópera tremendo de frio. No dia seguinte começou a
tossir. Oito dias depois, morria de uma congestão pulmonar.
Lantin esteve a ponto de ir com ela para o túmulo. Tão terrível foi o seu desespero que
dentro de um mês ficou de cabelos brancos. Chorava da manhã à noite, com a alma
dilacerada por um sofrimento intolerável, perseguido pela lembrança, pelo sorriso, pela voz,
por todo o encanto da morta.
O tempo não lhe aplacou a mágoa. Não raro, durante as horas da repartição, quando os
colegas vinham conversar um pouco sobre os acontecimentos do dia, de súbito viam
intumescer-se-lhe as faces, o nariz enrugar-se, os olhos encherem-se de água; fazia uma
careta medonha e se punha a soluçar.
Conservara intato o quarto da companheira, onde se encerrava todos os dias para pensar
nela; e todos os móveis, e até as suas vestes, permaneciam nos mesmos lugares onde se
encontravam no último dia.
Entretanto a vida se lhe fazia dura. Seus vencimentos, que, nas mãos da esposa, chegavam
para todas as necessidades da casa, agora se tornavam insuficientes para ele só. E
perguntava a si mesmo, atônito, como era que ela soubera arranjar-se para fazer-lhe beber
sempre vinhos excelentes e comer iguarias finas, que ele já não podia adquirir com os seus
modestos recursos.
Contraiu algumas dívidas e correu atrás do dinheiro como as pessoas que vivem de
expedientes. Enfim, certa manhã, como não lhe restasse um soldo, uma semana inteira antes
do fim do mês, pensou em vender alguma coisa; e logo lhe ocorreu desfazer-se da “pacotilha”
de sua mulher, pois guardara no íntimo da alma uma espécie de rancor contra aqueles
engana-vistas que o irritavam outrora. Bastava-lhe vê-los, cada dia, para que se lhe
estragasse um pouco a lembrança da criatura amada.
Remexeu por muito tempo no monte de pechisbeques que ela deixara, pois até os últimos
dias de vida os comprara com obstinação, trazendo quase cada noite um objeto novo, e
decidiu-se pelo grande colar que ela parecia preferir, e que bem poderia valer, pensava ele,
seis ou oito francos, pois era verdadeiramente muito bem-trabalhado para coisa falsa.
Meteu-o no bolso e dirigiu-se ao ministério, ao longo dos bulevares, em busca de uma
joalheria que lhe inspirasse confiança.
Vendo uma delas, por fim, entrou, um pouco envergonhado de ostentar assim a sua miséria
e procurar vender uma coisa de tão pequeno valor.
— Senhor — disse ao comerciante —, gostaria de saber quanto acha que vale isto.
O homem recebeu o objeto, examinou-o, virou-o, sopesou-o, tomou de uma lente, chamou o
caixeiro, fez-lhe observações em voz baixa, repôs o colar sobre o balcão, e olhou-o de longe
para melhor apreciar o efeito.
Molestado com tantas cerimônias, o sr. Lantin ia abrindo a boca para declarar: — “Oh! bem
sei que isso não vale nada” —, quando o joalheiro pronunciou:
— Cavalheiro, isto vale de 12 a 15 mil francos; mas eu só poderia comprá-lo se o
cavalheiro me desse a conhecer exatamente a procedência da joia.
O viúvo escancarou os olhos e permaneceu boquiaberto, sem compreender. Balbuciou,
afinal:
— O senhor acha?... Tem certeza?
O outro não lhe entendeu bem o espanto, e, secamente:
— Então o senhor pode ver se alguém lhe dá mais. Para mim, o colar vale, no máximo, 15
mil francos. Se não achar melhor oferta, pode voltar.
O sr. Lantin, inteiramente estupidificado, retomou o colar e partiu, cedendo a uma confusa
necessidade de se achar sozinho e de refletir.
Desde, porém, que se encontrou na rua, sentiu-se tomado de uma vontade de rir, e pensou:
— “Que imbecil! oh! que imbecil! Se eu o tivesse pegado na palavra! Eis aí um negociante de
joias que não sabe distinguir o falso do verdadeiro!”
E entrou na casa de outro comerciante no começo da rua da Paz. Logo que avistou a joia, o
joalheiro exclamou:
— Ah! conheço bem este colar; foi comprado aqui.
Muito perturbado, o sr. Lantin perguntou:
— Quanto vale?
— Eu o vendi por 25 mil francos. Estou pronto a readquiri-lo por 18 mil, desde que o senhor
me indique, para obedecer às prescrições legais, de que maneira ele chegou às suas mãos.
Desta vez o sr. Lantin sentou-se, paralisado de espanto:
— Mas... mas, examine-o com todo o cuidado, cavalheiro; até agora eu julgava que ele
era... falso.
O joalheiro replicou:
— O senhor quer-me dizer o seu nome?
— Pois não! Chamo-me Lantin, trabalho no Ministério do Interior, moro na rua dos Mártires,
n. 16.
O negociante abriu os seus registros, examinou-os, e disse:
— Com efeito, este colar foi mandado à residência da sra. Lantin, na rua dos Mártires, n.
16, a 20 de julho de 1876.
E os dois homens fitaram-se nos olhos, o funcionário tomado de surpresa, o joalheiro
farejando um ladrão.
— Quer-me deixar este objeto — perguntou o comerciante — por 24 horas apenas,
mediante recibo?
O sr. Lantin balbuciou:
— Mas está claro! Sem a menor dúvida.
E saiu, dobrando o papel, que meteu no bolso.
Atravessou a rua, subiu de novo, notou que errara o caminho, tornou a descer às Tulherias,
transpôs o Sena, reconheceu novamente o seu engano, voltou aos Campos Elísios, num
aturdimento absoluto. Esforçava-se para raciocinar, para compreender. Sua mulher não
poderia ter comprado um objeto de semelhante valor. — “Decerto que não.” — “Mas então era
um presente! Um presente! Um presente de quem? Por quê?”
Parara, e conservava-se de pé no meio da avenida. A dúvida horrível o tocou. “Ela?” —
“Mas então todos os demais objetos eram presentes.” Teve a impressão de que a terra
tremia; de que uma árvore, diante dele, vinha ao chão; estendeu os braços e caiu sem
sentidos.
Tornou a si numa farmácia, aonde os transeuntes o haviam levado. Fez-se reconduzir a
casa, e trancou-se.
Chorou desesperado até à noite, mordendo um lenço para não gritar. Depois, deitou-se,
prostrado de cansaço, e dormiu um sono pesado.
Um raio de sol o despertou, e levantou-se para ir ao ministério. Era duro trabalhar após
semelhante abalo. Então refletiu que podia escusar-se junto ao chefe; e escreveu-lhe.
Lembrou-se de que devia voltar à casa do joalheiro; e corou de vergonha. Passou muito tempo
a refletir. Não, não podia deixar o colar nas mãos daquele homem; vestiu-se, e saiu.
Fazia bom tempo, o céu azul se estendia sobre a cidade, que parecia sorrir. Ociosos
andavam sem rumo, com as mãos nos bolsos.
Vendo-os passar, disse Lantin com os seus botões: — “Como se é feliz quando se tem
dinheiro! Com dinheiro a gente pode mandar ao Diabo as aflições, pode ir aonde quer, viajar,
distrair-se! Ah! se eu fosse rico!”
Notou que estava com fome: não comia desde a antevéspera. Mas tinha a algibeira vazia, e
tornou a lembrar-se do colar.
Dezoito mil francos! Dezoito mil francos! Era uma importância respeitável!
Ganhou a rua da Paz e pegou a passear de um lado para outro na calçada, diante da
joalheria. Dezoito mil francos! Vinte vezes esteve a pique de entrar; mas a vergonha sempre o
detinha.
Tinha fome, porém, muita fome, e nem um soldo. Repentinamente se decidiu, atravessou a
rua correndo para não ter tempo de refletir, e lançou-se na joalheria.
Mal o avistou, o comerciante precipitou-se, ofereceu-lhe uma cadeira com uma polidez
risonha. Aproximaram-se até os caixeiros, que olhavam para Lantin de esguelha, com sorrisos
nos olhos e nos lábios.
O joalheiro declarou:
— Já estou informado, cavalheiro, e, se o cavalheiro se acha com as mesmas disposições,
estou pronto a lhe pagar a soma que lhe propus.
O funcionário balbuciou:
— Mas como não!
O outro tirou de uma gaveta 18 grandes cédulas, contou-as, entregou-as a Lantin, que
assinou um pequeno recibo e, com a mão trêmula, meteu o dinheiro no bolso.
Quando ia a sair, voltou-se para o negociante, que sorria sempre, e, baixando os olhos:
— Eu tenho... eu tenho outras joias... que me vieram... da mesma herança. Será que lhe
conviria também comprá-las?
O negociante inclinou-se:
— Mas como não, cavalheiro!
Um dos caixeiros saiu para rir à vontade; outro assoava-se com força.
Impassível, ruborizado e grave, Lantin anunciou:
— Vou trazê-las.
E tomou um fiacre para ir buscar as joias.
Quando, uma hora depois, voltou à joalheria, ainda não almoçara. Puseram-se a examinar
os objetos, peça a peça, avaliando cada um deles. Quase todos tinham sido vendidos pela
casa.
Agora, Lantin discutia as avaliações, zangava-se, exigia que lhe mostrassem os livros de
venda, e falava cada vez mais alto, à medida que se elevava a soma.
Os grandes brincos de brilhantes valem vinte mil francos, os braceletes 35 mil, os broches,
anéis e medalhões 16 mil, um adereço de esmeralda e de safira 14 mil, um solitário pendente
de uma cadeia de ouro em forma de colar, quarenta mil, atingindo o conjunto a importância de
cento e 96 mil francos.
O comerciante declarou com uma bonomia zombeteira:
— Isto era de uma pessoa que empregava todas as suas economias em joias.
E Lantin, gravemente:
— É um modo como outro qualquer de colocar o dinheiro.
E saiu, após haver decidido com o comprador que no dia seguinte se procederia a uma
segunda avaliação.
Ao ver-se na rua, olhou para a coluna Vendôme com desejo de galgá-la, como se fosse um
pau de sebo. Sentia-se bastante leve para brincar de eixo-badeixo sobre a estátua do
Imperador, empoleirada lá em cima no céu.
Foi almoçar no Voisin e bebeu vinho de vinte francos a garrafa.
Depois, tomou um fiacre e deu uma volta ao Bosque. Olhava para as carruagens com certo
desprezo, mordido pelo desejo de gritar aos passantes: — “Eu também sou rico! Eu tenho
duzentos mil francos!”
Veio-lhe de novo à lembrança o ministério. Fez-se conduzir até lá, entrou resoluto no
gabinete do chefe e anunciou:
— Venho pedir-lhe a minha demissão. Recebi uma herança de trezentos mil francos.
Foi apertar a mão dos antigos colegas e confiou-lhes os seus projetos de vida nova; depois,
jantou no Café Inglês.
Achando-se ao lado de um cavalheiro que lhe pareceu distinto, não pôde resistir à tentação
de lhe confiar, com certa ostentação, que acabava de herdar quatrocentos mil francos.
Pela primeira vez na vida não se entediou no teatro, e passou a noite em companhia de
mulheres.
Seis meses após, tornou a casar-se. A segunda mulher era muito honesta, mas de gênio
difícil. Fê-lo sofrer muito.

A FELICIDADE

Era a hora do chá, antes do acender das luzes. A cidade dominava o mar; o Sol desaparecido
deixara o céu todo róseo de sua passagem, salpicado de uma poeira dourada; e o
Mediterrâneo, sem uma ruga, sem um frêmito, liso, reluzente ainda sob o dia moribundo,
parecia uma placa de metal polida e desmedida.
Ao longe, à direita, as montanhas denteadas recortavam seu negro perfil sobre a
desbotada púrpura do poente.
Falava-se de amor, discutia-se este velho assunto, rediziam-se coisas já ditas inúmeras
vezes. A doce melancolia do crepúsculo dava alento às palavras, fazia flutuar nas almas um
enternecimento, e esta palavra — “amor” —, que voltava sempre, ora pronunciada por uma
voz forte de homem, ora dita por uma voz de mulher, de timbre suave, parecia encher o
pequeno salão, e nele adejar como um pássaro, pairar como um espírito.
Pode-se amar anos a fio?
— Sim — pretendiam uns.
— Não — afirmavam outros.
Distinguiam-se os casos, estabeleciam-se as diferenças, citavam-se exemplos; e todos,
homens e mulheres, cheios de nascentes lembranças perturbadoras, que não podiam citar e
que lhes afloravam aos lábios, pareciam comovidos, falavam desta coisa trivial e soberana, a
união terna e misteriosa de dois seres, com uma emoção profunda e um interesse ardente.
Mas de súbito alguém, tendo os olhos fixos na distância, exclamou:
— Oh! Olhem para ali, que é aquilo?
Sobre o mar, ao fundo do horizonte, surgia uma enorme e confusa massa cinzenta.
As mulheres tinham-se erguido e olhavam, sem compreender, aquela coisa surpreendente,
que nunca tinham visto.
Disse alguém:
— É a Córsega! Só é visível assim duas ou três vezes por ano, em certas condições
atmosféricas excepcionais, quando o ar, de uma limpidez perfeita, não mais a esconde com
estas brumas que velam sempre as distâncias.
Distinguiam-se vagamente as cristas dos montes, acreditava-se reconhecer a neve dos
cumes. E todos estavam surpresos, perturbados, quase aterrorizados com essa inopinada
aparição de um mundo, com esse fantasma saído do mar. Talvez houvessem tido essas visões
estranhas aqueles que, como Colombo, partiram por oceanos inexplorados.
Então um senhor idoso, que ainda não falara, disse:
— Ouçam: conheci nesta ilha, que se ergue ante nós, como para ela própria responder ao
que dizíamos e evocar-me uma singular lembrança, conheci um admirável exemplo de amor
constante, de amor inverossimilmente feliz. Ei-lo.
“Fiz, há cinco anos, uma viagem à Córsega. Esta ilha selvagem é mais desconhecida e mais
afastada de nós do que a América, apesar de a vermos algumas vezes das costas da França,
como hoje.
“Imaginem um mundo ainda no caos, uma tempestade de montanhas separadas por
estreitas ravinas onde rolam torrentes; nem uma planície, só imensas vagas de granito e
gigantescas ondulações de terra coberta de mato ou de altas florestas de castanheiros e
pinheiros. É um solo virgem, inculto, deserto, ainda que de vez em quando se perceba uma
aldeia, semelhante a um montão de rochedos no cume de um monte. Nenhuma cultura,
nenhuma indústria, nenhuma arte. Nunca se encontra um pedaço de madeira trabalhada, uma
ponta de pedra esculpida, jamais a lembrança do gosto pueril ou apurado dos ancestrais às
coisas graciosas e belas. É bem isto o que mais nos choca nesta imponente e dura região: a
indiferença hereditária a essa procura das formas sedutoras que se chama arte.
“A Itália, onde cada palácio, cheio de obras-primas, é, já por si, uma obra-prima, onde o
mármore, a madeira, o bronze, o ferro, os metais e as pedras atestam o gênio do homem,
onde os menores objetos antigos espalhados pelas velhas casas revelam essa divina
preocupação com a graça, é para todos nós a pátria sagrada que se ama porque nos mostra
e nos prova o esforço, a grandeza, o poder e a vitória da inteligência criadora.
“E, em frente dela, a Córsega selvagem continua tal como em seus primeiros dias. O
homem vive, ali, em sua casa grosseira, indiferente a tudo quanto não diga respeito à sua
própria existência ou às suas brigas de família. E continua com os defeitos e as qualidades
das raças incultas — violento, rancoroso, inconscientemente sanguinário, mas também
hospitaleiro, generoso, dedicado, ingênuo, abrindo a porta aos que passam e dando sua fiel
amizade em troca do menor sinal de simpatia.
“Ora, havia um mês que eu errava por essa ilha magnífica, com a sensação de estar no fim
do mundo. Nada de albergues, de tabernas, nem de estradas. Chega-se, por caminhos de
mulas, àqueles sítios pendurados no flanco das montanhas, dominando abismos tortuosos, de
onde se ouve subir, à noite, o ruído contínuo, a voz surda e profunda da torrente. Bate-se à
porta das casas. Pede-se abrigo por uma noite e alimento até o dia seguinte. E assentamo-
nos à humilde mesa, e dormimos sob o humilde telhado; e apertamos, pela manhã, a mão
estendida do hospedeiro, depois de ele nos haver conduzido até os limites da aldeia.
“Ora, uma tarde, após dez horas de marcha, cheguei a uma casinhola solitária ao fundo de
um estreito vale que ia lançar-se no mar, uma légua mais longe. As duas íngremes encostas
da montanha, cobertas de mato, de rochedos a pique e de grandes árvores, encerravam como
duas sombrias muralhas aquela ravina lamentavelmente triste.
“Em volta da cabana, algumas vinhas, um jardinzinho e, mais afastados, alguns grandes
castanheiros — o mínimo necessário à vida, em suma, uma fortuna para essa região pobre.
“A mulher que me recebeu era velha, e, por exceção, austera e limpa. O homem, sentado
numa cadeira de palha, levantou-se para me saudar, e sentou-se depois sem uma palavra.
Sua companheira disse-me:
“— Desculpe-o; está surdo. Tem 82 anos.
“Falava o francês da França. Fiquei surpreendido.
“Perguntei-lhe:
“— A senhora não é da Córsega?
“Ela respondeu:
“— Não; somos continentais. Mas há cinquenta anos que vivemos aqui.
“Assaltou-me uma sensação de angústia e de medo, ao pensar nesses cinquenta anos
decorridos naquele buraco sombrio, tão longe das cidades onde vivem os homens. Entrou um
velho pastor, e pusemo-nos a comer o único prato do jantar, uma sopa espessa onde haviam
cozido de mistura batatas, toicinho e couve.
“Terminada a curta refeição, fui sentar-me à porta, o coração apertado pela melancolia da
paisagem noturna, oprimido por aquela angústia que por vezes domina os viajantes em certas
tardes sombrias, em certos lugares desolados. Parece que tudo está prestes a acabar, a
existência e o Universo. Nota-se de chofre a horrível miséria da vida, o isolamento de todos, a
mesquinhez de tudo e a negra solidão do coração que se acalenta e se engana a si mesmo
com sonhos até a morte.
“A velha veio ter comigo, e, torturada pela curiosidade que vive sempre até no fundo das
almas mais resignadas, perguntou:
“— Então o senhor vem da França?
“— Sim, viajo por prazer.
“— O senhor será de Paris?
“— Não, sou de Nanci.
“Pareceu-me agitada por uma extraordinária emoção. Como o vi, ou melhor, o senti, disto
nada sei.
Repetiu, com voz lenta:
“— O senhor é de Nanci!
“O homem apareceu à porta, impassível como todos os surdos.
“Ela prosseguiu:
“— Não importa. Ele não ouve.
E ao cabo de alguns segundos:
“— Então o senhor conhece alguém em Nanci?
“— Naturalmente, quase todo o mundo.
“— A família de Sainte-Allaize?
“— Sim, muito bem; eram amigos de meu pai.
“— Como se chama o senhor?
“Disse o meu nome. Ela me olhou fixo, e depois, nessa voz baixa que as lembranças
despertam:
“— Sim, sim, lembro-me bem. E os Brisemares, que fim levaram?
“— Morreram todos.
“— Ah! E os Sirmonts, o senhor os conheceu?
“— Sim, o último é general.
“Então ela falou, fremente de emoção, de angústia, de não sei que sentimento confuso,
poderoso e sagrado, de não sei que necessidade de confessar, de tudo dizer, de falar
daquelas coisas que até então guardara no fundo da alma, daquelas pessoas cujo nome lhe
transtornava o espírito:
“— Sim, Henrique de Sirmont. Eu sei. É meu irmão.
“E eu levantei os olhos para ela, assombrado. E a lembrança voltou-me de repente.
“O caso tinha provocado, outrora, grande escândalo na nobre Lorena. Uma jovem, bela e
rica, Susana de Sirmont, fora raptada por um suboficial dos hussardos do regimento
comandado por seu pai.
“Era um belo rapaz, filho de camponeses, mas que trajava com aprumo o dólmão azul, esse
soldado que tinha seduzido a filha de seu coronel. Ela o vira, atentara nele, amara-o, ao ver
desfilar o regimento, sem dúvida. Mas como lhe falara, como puderam ver-se, ouvir-se? Como
havia ela ousado fazer-lhe compreender que o amava? Isso ninguém o soube jamais.
“Não tinham adivinhado nem pressentido nada. Uma noite, depois que o soldado dera baixa,
desapareceu com ela. Procuraram-nos, sem os encontrar. Nunca tiveram notícias dos dois, e
a consideravam morta.
“E eu a encontrava assim, naquele valezinho sinistro.
“Então continuei:
“— Sim, bem me lembro. É a srta. Susana.
“Ela fez que sim com a cabeça. As lágrimas caíam-lhe dos olhos. E, mostrando-me com um
olhar o velho, imóvel na soleira de seu casebre, disse-me:
“— É ele.
“E compreendi que ela ainda o amava, que ainda o via com olhos enamorados.
“Perguntei-lhe:
“— A senhora foi feliz, ao menos?
“Ela respondeu, com uma voz que vinha do coração:
“— Oh! sim, muito feliz. Ele me fez muito feliz. Nunca me arrependi de nada.
“Eu a contemplava, triste, surpreso, maravilhado com o poder do amor! Aquela jovem rica
seguira aquele homem, um camponês. Transformara-se ela própria numa camponesa.
Acostumara-se à vida dele, sem encantos, sem luxo, sem nenhuma espécie de delicadeza;
adaptara-se aos seus hábitos simples. E ainda o amava. Tornara-se uma mulher rústica, de
touca e saias de algodão. Comia num prato de barro, sobre uma mesa de pau, sentada numa
cadeira de palha, um caldo de couves e batatas com toicinho. Dormia numa enxerga ao lado
dele.
“Nunca pensara senão nele! Não lastimara a falta dos adereços, nem dos estofos, nem das
elegâncias, nem da maciez das poltronas, nem da perfumada tepidez dos quartos envoltos em
tapeçarias, nem da doçura dos colchões de pena onde os corpos mergulham para o repouso.
Nunca necessitara de nada a não ser ele; desde que ele estivesse ao lado dela, ela não
desejava nada mais.
“Renunciara à vida, tão jovem, e ao mundo, e àqueles que a tinham criado e amado. E
viera, sozinha com ele, para aquele barranco selvagem. E ele fora tudo para ela, tudo o que se
deseja, tudo com que se sonha, tudo aquilo que se espera sem cessar, tudo aquilo que se
espera sem fim. Ele enchera-lhe de felicidade a existência, do começo ao fim.
“Ela não poderia ter sido mais feliz.
“E a noite inteira, ouvindo o rouco respirar do velho soldado estendido em seu catre, ao
lado daquela que o havia acompanhado a tão longe, pensava nessa estranha e simples
aventura, nessa felicidade tão completa, feita de tão pouco.
“E parti ao nascer do Sol, depois de apertar a mão dos dois velhos esposos.”

Calou-se o narrador. Uma das mulheres disse:


— Tanto faz. Ela tinha um ideal muito fácil, necessidades muito primárias e exigências muito
simples. Só podia ser uma tola.
Outra, em voz lenta:
— Que importa! Foi feliz.
E lá ao longe, no fundo do horizonte, a Córsega mergulhava na noite, entrava lenta no mar,
apagava sua grande sombra que surgira como para ela própria contar a história de dois
humildes amantes que sua costa abrigava.
APÊNDICES
BIBLIOGRAFIA DE AURÉLIO BUARQUE DE HOLANDA
FERREIRA (OU AURÉLIO BUARQUE DE HOLANDA)

LIVROS

Dois mundos (contos). (Prêmio Afonso Arinos, da Academia Brasileira de Letras.) Rio de
Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1942. (V. O chapéu de meu pai.)
Mar de histórias: antologia do conto mundial. (Em colaboração com Paulo Rónai.) Rio de
Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1945. vol. I; 1951: vol. II; 1958: vol. III; 1963: vol. IV.
Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1989. vol. V; 1989: vol. VI; 1990: vol. VII; 1989: vol.
VIII; 1991: vol. IX; 1989: vol. X; 1999: vol. I, vol. II, vol. III, vol. IV, vol. V, vol. VI, vol. VII, vol.
VIII, vol. IX, vol. X (4a ed.).
Contos gauchescos e lendas do Sul, de Simões Lopes Neto. (Edição crítica, com amplo
estudo sobre a linguagem e o estilo do autor e variantes, notas e glossário.) Porto Alegre:
Editora Globo, 1949.
O romance brasileiro (de 1752 a 1930). (Colaboração, notas, revisão e um estudo sobre
Teixeira e Sousa.) Rio de Janeiro: Edições O Cruzeiro, 1952.
Apresentação de Vitorino Nemésio (plaquete). Lisboa, 1953.
Roteiro literário do Brasil e de Portugal: antologia da língua portuguesa. (Em colaboração
com Álvaro Lins.) Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1956.
Território lírico (ensaios). Rio de Janeiro: Edições O Cruzeiro, 1958.
Enriqueça o seu vocabulário. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1984. (Em 4a ed.,
revista e ampliada.)
Discurso de posse na Academia. Rio de Janeiro: Edições O Cruzeiro, 1964.
Vocabulário ortográfico brasileiro. Rio de Janeiro: Editorial Bruguera, 1969.
Discursos de posse e de recepção (na Academia Brasileira, recebendo marques Rebelo).
(Separata.) Rio de Janeiro, 1972.
Discursos de posse e de recepção (na Academia Brasileira, recebendo Ciro dos Anjos).
(Separata.) Rio de Janeiro, 1972.
O chapéu de meu pai. (3a ed., revista e reduzida, de Dois mundos.) Brasília: Editora
Brasília, 1974.
Novo dicionário Aurélio da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira,
1986. (Em 2a ed., revista e ampliada, em 36a reimpressão, 1997.)
Minidicionário Aurélio da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1977.
(2a ed., 1990.)
Dicionário Aurélio básico da língua portuguesa (publicado anteriormente com o título de
Médio dicionário Aurélio). Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1980. (6a ed., 1991.)
Seleta em prosa e verso. (Organização, estudo e notas do prof. Paulo Rónai.) Rio de
Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1979.
Dicionário Aurélio escolar da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira,
1988.
Dicionário Aurélio infantil da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira,
1996. (1a ed., em 4a reimpressão.)
Microdicionário Aurélio. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1992.

TRADUÇÓES

Os gazéis, de Hafiz. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1944.


O jardim das rosas, de Saadi. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1944.
As pombas dos minaretes, de Franz Toussaint. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio
Editora, 1945.
Vinho, vida e amor, de Hafiz e Saadi. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1946.
Poemas de amor, de Amaru. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1949.
Pequenos poemas em prosa, de Charles Baudelaire. Rio de Janeiro: Editora Nova
Fronteira, 1976. (Em 4a ed., revista.)
Meu coração desnudado, de Charles Baudelaire. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira,
1981.
O caminho da perdição, de Upton Sinclair (em colaboração com Olívia Krähenbühl). Rio de
Janeiro: Edições O Cruzeiro, 1943.
Amor e psique, de Lúcio Apuleio (em colaboração com Paulo Rónai). Rio de Janeiro:
Editora Civilização Brasileira, 1956.
Sete lendas, de Gottfried Keller (em colaboração com Paulo Rónai). Rio de Janeiro: Editora
Civilização Brasileira, 1956.
Servidão e grandeza militares, de Alfred de Vigny (em colaboração com Paulo Rónai). Rio
de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1960. (Em 3a ed.)
Grandes vozes líricas hispano-americanas (seleção e tradução). Rio de Janeiro: Editora
Nova Fronteira, 1990.
BIBLIOGRAFIA DE PAULO RÓNAI

LIVROS (COM EXCEÇÃO DOS DIDÁTICOS)

Mar de histórias: antologia do conto mundial. V. a bibliografia de Aurélio Buarque de


Holanda Ferreira.
Balzac e a comédia humana (ensaios). (Prêmio Sílvio Romero da Academia Brasileira de
Letras.) Porto Alegre: Livraria do Globo, 1947; 2 a ed., revista e ampliada: 1957. (Coleção
Tucano).
Escola de tradutores (ensaios). Rio de Janeiro: “Cadernos de Cultura”. Ministério da
Educação, 1952; 2a ed., ampliada: Rio de Janeiro: Livraria São José, 1956; 4a ed., revista e
ampliada: Rio de Janeiro: Educom, 1976; 5a ed., revista e ampliada; Rio de Janeiro: Nova
Fronteira, 1987; 6a ed., revista e ampliada: 1989.
Um romance de Balzac: a pele de Onagro (tese de concurso). Rio de Janeiro: Editora A
Noite, 1952.
Roteiro do conto húngaro (seleção, tradução e notas). Rio de Janeiro: “Cadernos de
Cultura”, Ministério da Educação e Cultura, 1954.
Como aprendi o português, e outras aventuras (ensaios). Rio de Janeiro: Instituto Nacional
do Livro, 1956; 2a ed., revista: Rio de Janeiro: Editora Artenova, 1975.
Antologia do conto húngaro (seleção, tradução, introdução e notas). (Revisão de Aurélio
Buarque de Holanda Ferreira, prefácio de João Guimarães Rosa.) Rio de Janeiro: Editora
Civilização Brasileira, 1957; 2a ed.: 1958; 3a ed.: Editora Artenova, 1975; 4 a ed.: Topbooks,
1998.
Encontros com o Brasil (ensaios). Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1958.
Contos húngaros (seleção, tradução, apresentação e notas biográficas). Rio de Janeiro:
Biblioteca Universal Popular, 1964.
Homens contra Babel (ensaios). Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1964. Tradução alemã:
Der Kampf gegen Babel oder das Abenteuer der Universalsprachen. München: Ehrenwirth,
1969. Tradução japonesa: Babelu e no chosen. Tokio: Yamamoto Shoten, 1973.
A vida de Balzac. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, 1967.
Introdução a Balzac. Rio de Janeiro: Colégio Pedro II, 1967.
Guia prático da tradução francesa. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1967; 2a ed.,
revista e ampliada: Rio de Janeiro: Educom, 1975; 3a ed., revista e ampliada: Rio de Janeiro:
Editora Nova Fronteira, 1983.
Babel & antibabel (ensaios). São Paulo: Perspectiva, 1970. (Coleção Debates).
A tradução vivida (ensaios). Rio de Janeiro: Educom, 1976; 2a ed., revista e ampliada: Rio
de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1981; 3a ed.: 1990.
Dicionário francês-português (com o vocabulário francês vivo). Rio de Janeiro: Editora
Nova Fronteira, 1979.
Não perca o seu latim: coletânea de palavras e frases latinas frequentemente citadas —
provérbios, ditados, máximas, lemas, divisas, inscrições, locuções —, traduzidas, explicadas
e abonadas, e seguidas de uma sucinta gramática latina. (Em colaboração com Aurélio
Buarque de Holanda Ferreira.) Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1980; 2a ed., revista e
ampliada: 1980; 3a ed., revista e ampliada: 1984; 8a ed.: 1996.
Latin és Mosoly (“Latim e sorriso.” Seleção de ensaios extraídos dos volumes Como
aprendi o português, Encontros com o Brasil e Escola de tradutores, em tradução húngara.)
Budapest: Europa Könyvkiado, 1980.
O teatro de Molière. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1981.
Dicionário universal Nova Fronteira de citações. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira,
1985; 2a ed., revista e ampliada: 1985; 4a ed.: 1991.
Dicionário francês-português, português-francês. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira,
1989.
Pois é. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1990.

TRADUÇÕES

O romance das vitaminas, de Estêvão Fazekas. São Paulo: Companhia Editora Nacional,
1942.
Mémoires d’un sergent de la milice, de Manuel Antônio de Almeida. Rio de Janeiro:
Atlântica Editora, 1944.
Os meninos da rua Paulo, de Ferenc Molnár. (Revisão de Aurélio Buarque de Holanda.)
São Paulo: Edição Saraiva, 1952. Numerosas reedições pelas Edições de Ouro, Rio de
Janeiro.
Cartas a um jovem poeta, de Rainer Maria Rilke. Porto Alegre: Editora Globo, 1953.
Uma noite estranha, de Alexandre Török. (Revisão de Aurélio Buarque de Holanda.) Rio de
Janeiro: Ministério da Educação, 1957.
Amor e psique, Lúcio Apuleio. V. a bibliografia de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira.
Sete lendas, de Gottfried Keller. V. a bibliografia de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira.
Servidão e grandeza militares, de Alfred de Vigny. V. a bibliografia de Aurélio Buarque de
Holanda Ferreira.
A tradução científica e técnica, de Jean Maillot. Brasília: Editora Universidade de Brasília,
1975.
A tragédia do homem, de Imre Madách. (Em colaboração com Geir Campos.) Ilustrações
do conde Mihály Zichy. Rio de Janeiro: Salamandra/Núcleo Editorial da Uerj, 1980, 1a e 2a eds.

ORGANIZAÇÃO DE EDIÇÃO

A comédia humana, de Balzac, vols. I-XVII (organização, introdução, notas). Porto Alegre:
Editora Globo, 1945-1955. Reedição pela Editora Artenova S.A., Rio de Janeiro, em 1976, de
Eugênia Grandet e A mulher de trinta anos.
Coleção dos Prêmios Nobel de Literatura, vols. I-LXIV. Rio de Janeiro: editoras Delta e
Opera Mundi, 1964-1974.
Obras de Viana Moog. Rio de Janeiro: Editora Delta, 1966. 10 vols.
Biblioteca do estudioso. São Paulo: Editora Lisa, 1969-1973. 8 vols.
Biografias literárias, de R. Magalhães Jr. São Paulo: Editora Lisa, 1971. 10 vols.
Coleção Brasil Moço. (Seletas de autores brasileiros contemporâneos. Direção geral e
organização dos volumes referentes a João Guimarães Rosa, Menotti del Picchia e Aurélio
Buarque de Holanda Ferreira.) Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, de 1971 em
diante. 25 vols.
AUTORES E OBRAS PRESENTES
EM MAR DE HISTÓRIAS

HISTÓRIAS ANÔNIMAS

A história de Rampsinitos (contos egípcio), vol. 1


A história de Sansão (Velho Testamento), vol. 1
A história de Xahriyar e de Xah-Zeman (Mil e uma Noites), vol. 1
A mulher forte/A conversa dos espíritos (Talmude), vol. 1
A parábola dos trabalhadores/A parábola do semeador (Novo Testamento), vol. 1
Aqui se conta de um fidalgo que o imperador mandou enforcar/De um sábio grego que era
retido em prisão; como julgou de um corcel (Novellino), vol. 1
A rata transformada em menina (Calila e Dimna), vol. 1
História da donzela de pau e de seus adoradores (O Livro do Papagaio), vol. 2
O homem de meia-idade/Face-de-Espelho (lendas do budismo chinês), vol. 1
O primeiro impulso (conto persa), vol. 5
O rei que perdeu o corpo por haver pronunciado palavras imprudentes (Pantchatantra), vol. 1

AUTOR/HISTÓRIA

AKUTAGAWA, Ryonosuke. Num bosque, vol. 9


ALARCÓN, Pedro Antonio de. A buena-dicha, vol. 3
ALLAIS, Alphonse. Um caso que parece pouco banal, vol. 6
ALMEIDA, Fialho de. O filho, vol. 6
ALPHONSI, Petrus (Disciplina Clerical). Da cadelinha lacrimejante/Da serpente de ouro, vol. 1
ANDERSEN, Hans Christian. A sombra, vol. 3
ANDERSON, Sherwood. A força de Deus, vol. 10
ANDREIEV, Leonid. O grande slam, vol. 8
ANGOULÊME, marquerite d’ (Heptameron). A rainha de Nápoles vingou-se do mal que lhe
fazia o Rei Afonso, seu marido, com um gentil-homem de cuja mulher ele era amante; e
durou essa amizade toda a vida, sem que dela jamais o rei tivesse nenhuma suspeita, vol. 2
APULEIO. Amor e psique, vol. 1
ARÈNE, Paul. O meu amigo Naz, vol. 6
ARINOS, Afonso. Assombramento, vol. 7
ARTSIBACHEV, Mikail. O toro de madeira, vol. 9
ASSIS, Machado de. O empréstimo/O espelho/Singular ocorrência/Entre santos, vol. 5
ASSIS, São Francisco de (I Fioretti). De como Frei Genebro cortou uma perna a um porco,
somente para dá-la a um enfermo, vol. 1
AVERTCHENKO, Arkadi. O crime da atriz Mariskin, bol. 9
AYALA, Ramón Pérez de. Pai e filho, vol. 9
AZEVEDO, Álvares de. Solfieri, vol. 4
AZEVEDO, Artur. Plebiscito, vol. 6

BALZAC, Honoré de. Estudo de mulher, vol. 3


BANDELLO, Matteo (Novelas). A admirável peça pregada por uma fidalga a dois barões do
reino de Hungria, vol.2
BANG, Hermann. Irene Holm, vol. 5
BARBEY D’AUREVILLY. O mais belo amor de d. João, vol. 4
BARRETT, Rafael. A mãe/A carteira, vol. 8
BAUDELAIRE, Charles. Morte heroica, vol. 4
BÉCQUER, Gustavo Adolfo. O miserere, vol. 4
BENNETT, Arnold. O assassinato do mandarim, vol. 8
BERNARDES, Padre Manuel (Nova Floresta). Lenda dos bailarins, vol. 2
BJØRNSON, Bjørnstjerne. O ninho das águias, vol. 4
BLAUMANIS, Rudolfs. Na sombra da morte, vol. 7
BLOY, Léon. A tisana, vol. 6
BOCCACCIO, Giovanni (Decameron). Por meio do conto dos três anéis o judeu Melquisedec
afasta um grande perigo que Saladino lhe havia preparado/A pretexto de confissão, e de
puríssima consciência, uma dama enamorada de um jovem induz ingênuo frade, sem que
este o perceba, a ajudá-la na realização completa de seus desejos/Com um banquete de
galinhas e algumas palavras graciosas a marquesa de Montferrato reprime insensato amor
do rei de França, vol. 1
BONTEMPELLI, Massimo. O colecionador, vol. 9
BRACCIOLINI, Poggio (Facécias). Como um defunto, levado vivo ao túmulo, se pôs a falar e
provocou o riso, vol. 1
BRATESCU-VOINESTI, Ion Alexandru. Nicolauzinho mentira, vol. 10
BUSKEN-HUET, Conrad. Gitje, vol. 4
BUYSSE, Cyriel. O sr. Jocquier e a sua namorada, vol. 5

CAMPOS, José Antonio. Os três corvos, vol. 4


ČANKAR. Ivan. A “Dessétitsa”, vol. 8
ČAPEK, Karel. A demonstração do prof. Rouss/O Imperador Diocleciano, vol. 10
ČAPEK, Karel e Josef. A ilha, vol. 10
CERVANTES SAAVEDRA, Miguel de (Novelas exemplares). Rinconete e Cortadillo, vol. 2
CHESTERTON, G.K. O homem na galeria, vol. 9
CLARÍN. Conto futuro, vol. 6
COELHO NETO. Os pombos, vol. 8
COLETTE. A parada/A mão, vol. 9
COLL, Pedro Emilio. O dente quebrado, vol. 10
COLLINS, William Wilkie. Uma cama terrivelmente esquisita, vol. 4
CONRAD, Joseph. Por causa dos dólares, vol. 9
COUPERUS, Louis. O binóculo, vol. 10
COURTELINE, Georges. O cavalheiro que achou um relógio, vol. 6

D’ANNUNZIO, Gabriele. O fim da Cândia, vol. 5


DARÍO, Rubén. As perdas de João Bom/O pesadelo de Honório, vol. 7
DAUDET, Alphonse. Os velhos/As empadas, vol. 4
DEFOE, Daniel (História Política do Diabo). O Diabo e o relojoeiro, vol. 2
DELEDDA, Grazia. Um homem e uma mulher, vol. 10
DICKENS, Charles. Horácio Sparkins, vol. 3
DOSTOIÉVSKI, Fiodor. Uma árvore de Natal e um casamento, vol. 3
DOYLE, Arthur Conan. O amanuense de corretor, vol. 6
DRACHMANN, Holger. A história de um lava-praias, vol. 7
DUHAMEL, Georges. A dama de verde, vol. 9
DURAN-REYNALDS, Eudald. Os adiantos, vol. 9

EPHTALIOTES, Argyres. O fantasma, vol. 7


ESOPO (das Fábulas). A raposa/A doninha/O macaco e o delfim/Os lobos e os cordeiros/O
lobo e grou/O lenhador e Hermes, vol. 1

FICALHO, Conde de. A caçada do malhadeiro, vol. 5


FIRENZUOLA, Agnolo (Novelas). De dois amigos, um se apaixona por uma viúva, que lhe
rouba o que ele tem e depois o repele; o qual, ajudado pelo amigo, reconquista e
benevolência dela; e, enquanto ela folga com um novo amante, ele a ambos mata; e,
condenado à morte, é libertado por intermédio do amigo, vol. 2
FLAUBERT, Gustave. Uma alma simples, vol. 4
FOGAZZARO, Antonio. Eden Anto, vol. 5
FRANCE, Anatole. Putois, vol. 8

GALLEGOS, Rómulo. O crepúsculo do Diabo, vol. 10


GALSWORTHY, John. A criança do pesadelo, vol. 9
GARCÍA CALDERÓN, Ventura. O alfinete/A múmia, vol. 10
GOGOL, Nicolai. Diário de um louco, vol. 3
GORKI, Maxim. O cã e seu filho/Vinte e seis e uma, vol. 6

HALLSTRÖM, Per. Amor, vol. 7


HARDY, Thomas. O hussardo melancólico da Legião Alemã, vol. 6
HARTE, Bret. A sorte do acampamento uivante, vol. 4
HAWTHORNE, Nathaniel. Davi Swan, vol. 3
HEARN, Lafcadio. Yuki-Onna/Diplomacia, vol. 8
HEBEL, Johann Peter (O cofrezinho de joias do amigo de casa Renano). Encontro
inesperado, vol. 2
HENRY, O. O quarto mobiliado, vol. 8
HERCULANO, Alexandre. A dama pé-de-cabra, vol. 3
HERNÁNDEZ CATÁ, Afonso. A galeguinha, vol. 10
HERÓDOTO (das Histórias). O anel de Polícrates, vol. 1
HEYSE, Paul. A imperatriz de Spinetta, vol. 5
HOFFMANN, E.T.A. Haimatocare, vol. 3
HUCH, Ricarda. O cantor, vol. 8
HUXLEY, Aldous. Freitas ao almoço, vol. 10

IRVING, Washington. Rip van Winkle, vol. 2

JACOB, Max. Conselhos de uma mãe à sua filha, vol. 10


JACOBSEN, Jens Peter. Um tiro no nevoeiro, vol. 4
JAMES, Henry. Brooksmith, vol. 6
JAMMES, Francis. O paraíso, vol. 8
JENSEN, Johannes V. Na paz do Natal, vol. 8
JEROME, Jerome K. Um homem distraído, vol. 6
JÓKAI, Mór. Divertimento forçado, vol. 5
JOYCE, James. Compensações, vol. 9
JUAN MANUEL, Don (O conde Lucanor). Do que aconteceu a um rei com os trapaceiros que
fizeram o estofo, vol. 1
KAFKA, Franz. Perante a justiça/Mensagem imperial/Um faquir, vol. 10
KELLER, Gottfried. Espelho, o Gatinho, vol. 4
KIPLING, Rudyard. O homem que quis ser rei, vol. 6
KLEIST, Heinrich von. O terremoto do Chile, vol. 2
KOROLENKO, Vladimir. O sonho de Makar, vol. 5
KOSZTOLÁNYI, Dezsö. Auréola cinzenta, vol. 10

LAGERLÖF, Selma. O ninho das alvéolas/Os dois irmãos, vol. 6


LARBAUD, Valery. O trinchante, vol. 9
LARDNER, Ring. Jantar, vol. 10
LAWRENCE, D.H. A passagem, por favor, vol. 10
LEACOCK, Stephen. O destino terrível de Melpomenus Jones/A vingança do prestidigitador,
vol. 8
LEMAÎTRE, Jules. Muito tarde, vol. 8
LIMA BARRETO, Afonso Henriques. O homem que sabia javanês, vol. 10
LIRA, Carmen. O bobo das adivinhas, vol. 10
L’ISLE ADAM, Villiers de. A tortura da esperança, vol. 5
LOPES NETO, Simões João. Trezentas onças, vol. 8
LUCIANO (Diálogos). Diálogo de Hermes e Apolo/Diálogo de Trifena e Cármides, vol. 1
LU-HSIN. A aldeia de meus ancestrais, vol. 9

MACHIAVELLI, Niccolo (Maquiavel). Belfagor, Novela agradabilíssima, vol. 2


MAISTRE, Xavier de. O leproso da cidade de Aosta, vol. 2
MANSFIELD, Katherine. A vida de tia Parker/Feuille d’album, vol. 10
MAUPASSANT, Guy de. Dois amigos/As joias/A felicidade, vol. 4
MELANDER, Otto (Joco-Seria). A mulher e o cachorro, vol. 2
MÉRIMÉE, Prosper. A Vênus de Ille, vol. 3
MIKSZÁTH, Kálmán. A mosca verde e o esquilo amarelo, vol. 7
MOLNÁR, Ferenc. Conto de ninar, vol. 8
MONTEIRO LOBATO, José Bento. O comprador de fazendas, vol. 10
MONTENEGRO, Ernesto. Por uma dúzia de ovos cozidos, vol. 8
MORIER, James. A cabeça cozida, vol. 3
MULTATULI. A história do cavouqueiro japonês/Providência/Começou assim, vol. 4
MUSSET, Alfred de. Mimi Pinsom, vol. 4

NARAYANA (Hitopadexa). O mofino brâmane e a escudela de farinha/ O rato e o eremita, vol.


1
NERUDA, Jan. Hastrman/O vampiro, vol. 4
NERVAL, Gérard de. A mão encantada, vol. 3
NIEDZWIECKI, Zygmunt. O dote, vol. 8

PALMA, Ricardo. A camisa de Margarida, vol. 5


PANZINI, Alfredo. O rato de biblioteca, vol. 10
PARDO BAZÁN, Emilia. Oito nozes, vol. 7
PEREZ, Jizchok Leib. Neilo no inferno, vol. 7
PERIERS, Bonaventure des (Novas recreações ou colóquios alegres). Do mancebo que fez
valer o belo latim que seu cura lhe havia ensinado, vol. 2
PERRAULT, Charles (Histórias de Mamãe Gansa). O Barba-Azul, vol. 2
PETRÔNIO (Satiricon). A matrona de Éfeso, vol. 1
PIRANDELLO, Luigi. A tragédia de uma personagem/No hotel morreu um fulano, vol. 9
POE, Edgar Allan. O homem da multidão/A carta furtada, vol. 3
PRUS, Boleslaw. O realejo, vol. 7
PUCHKIN, Alexandre. O tiro, vol. 3
PU-SUNG-LING. A ilha do mandarim Tseng/Choei-yun, vol. 2

QUEIRÓS, Eça de. José Matias, vol. 5


QUEVEDO Y VILLEGAS, Francisco Gómez de (Os sonhos). O alguazil endemoninhado, vol. 2
RIBEIRO, João. São Boemundo, vol. 10
RILKE, Rainer Maria. O mendigo e a donzela orgulhosa, vol. 7
RIVA PALACIO, Vicente. As mulas de sua excelência, vol. 7

SAADI (Gulistan). Amor, vol. 1


SACCHETTI, Franco (Trecentonovelle). Um cego de Orvieto, a quem não faltam os olhos do
espírito, sendo-lhe roubados cem florins, tanto faz com o engenho que aquele que lhos tirou
repõe de onde lhos levou, vol. 1
SADE, marquês de. Fingimento feliz, vol. 2
SAKI. A porta aberta/O contador de histórias, vol. 9
SCHNITZLER, Arthur. O tenente Gustl, vol. 8
SCHWOB, Marcel. Lucrécio, poeta, vol. 7
SHIGA, Naoya. A morte da mulher do atirador de facas, vol. 8
SILLANPÄÄ, Frans Eemil. Os hóspedes de são João, vol. 10
SILVA, Rebelo da. Última corrida de touros em Salvaterra, vol. 4
SILVEIRA, Valdomiro. Camunhengue, vol. 9
SÖDERBERG, Hjalmar. A capa de peles, vol. 7
SOMADEVA (Kathâsaritsâgara). Eu quero o ladrão, vol. 1
SOREL, Charles (A casa dos jogos). História daquele que se fez mudo para obedecer à sua
dama e afinal a desposou, vol. 2
STENDHAL. O cofre e o fantasma, vol. 3
STRAPAROLA, Gianfrancesco (Noites divertidas). Dom Pompório, monge, é denunciado ao
abade pela sua exagerada gula; e criticando o abade com uma fábula, livra-se da censura,
vol. 2
STRINDBERG, August. O império milenar, vol. 8
SUDERMANN, Hermann. A viagem a Tilsit, vol. 9

TAGORE, Rabindranath. O homem de Cabul, vol. 9


TCHEKOV, Anton. Cronologia viva/Angústia/O marido, vol. 5
TOLSTÓI, Lev. Os três anciãos/Depois do bailes, vol. 5
TRANCOSO, Gonçalo Fernandes (Contos e histórias de proveito e exemplo). Do que
acontece a quem quebranta os mandamentos de seu pai, e o proveito que vem de dar
esmola, e o dano que sucede aos ingratos. Trata de um velho e seu filho/Que, ainda que
nos vejamos em grandes estados, não nos ensoberbeçamos; antes tenhamos os olhos
onde nascemos para merecer depois a vir a ser grandes senhores, como aconteceu a esta
marquesa de que é o conto seguinte, vol. 2
TURGUÊNIEV, Ivan. Mumu, vol. 3
TWAIN, Mark. O homem que corrompeu Hadleyburg, vol. 7

UNAMUNO, Miguel de. O semelhante, vol. 9


VALERA, Juan. Quem não te conhecer que te compre/O cozinheiro do arcebispo, vol. 7
VERGA, Giovanni. A loba, vol. 5
VIANA, Javier de. A carta da suicida, vol. 8
VOLTAIRE. Mêmnon ou a sabedoria humana, vol. 2
VORAGINE, Jacobus a. A lenda de são Barlaão e são Josafá/A lenda de são Julião, o
Hospitaleiro, vol. 1

WILDE, Oscar. A esfinge sem segredo/O príncipe feliz/O fautor do bem, vol. 5

ZEROMSKI, Stefan. Mau-olhado, vol. 10


ZWEIG, Stefan. Um episódio do lago de Genebra, vol. 9
EDITORAS RESPONSÁVEIS
Janaina Senna
Maria Cristina Antonio Jeronimo

PRODUÇÃO
Adriana Torres
Ana Carla Sousa

PRODUÇÃO EDITORIAL
Victor Almeida

REVISÃO
Letícia Barroso
Thaís Paiva
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DIAGRAMAÇÃO
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MÍDIAS DIGITAIS
Letícia Lira
Mariana Mello e Souza
Aniele Xavier
Stephanie Santos
1 Este prefácio é de 1980, sendo anterior, portanto, à divisão do país. (N. do E.)
2 FAGUET, Émile.Dix-neuvième Siècle. Paris: Boivin, s.d., p. 257.
3 GAUTIER, Théophile.Souvenirs Romantiques. Paris: Garnier, 1939, p. 272.
4 MUSSET, Paul de. Biographie d’Alfred de Musset. Paris: Lemerre, s.d., p. 319.
5 Sobre Bandello, v.Mar de histórias, vol. 2.
6 Sainte-Beuve, Les Grands Écrivains Français. Études classées et annotées par Maurice Alîem. XIXe Siècle, Les Poètes. Paris: Garnier,
1929, vol. II, p. 307. — Acerca de Mérimée, v. aindaMar de histórias,vol. 3.
7 Texto de que nos servimos: Oeuvres Complètes d’Alfred de Musset, nouvelle édition. Revista, prefaciada e anotada por Edmond Biré — vol.
VI, Contes. Paris: Librairie Garnier Frères, s.d.
8 O dicionário de Littré define deste modo a palavra grisette: “Moça de condição modesta, coquete e galante, assim chamada porque outrora
as moças de condição modesta usavam grisette, isto é, um vestido de fazenda cinzenta (grise) de pouco valor.”
9 AChaumière era um baile público do bulevar Montparnasse, frequentado por estudantes e costureirinhas.
10 Montmorency: lugarejo perto de Paris, passeio dominical preferido dos parisienses.
11 O Ranelagh era um dos bailes públicos mais antigos de Paris, no Bosque de Bolonha, onde também se davam concertos.
12 O bairro de Belleville era na época de Musset um lugar de divertimentos populares, com bares ao ar livre, cafés com jardins etc.
13 Lingère:moça que trabalha com lingerie(roupa de baixo).
14 Palmyre:famosa costureira da época.
15 Ad libitum(latim):à vontade.
16 Na França, como em outros países da Europa, além do aniversário de nascimento, muitos costumam festejar também o dia do santo de seu
nome.
17 Aux Deux Magots: loja de novidades, na rua de Bussy.
18 Et quorum pars magna fui (latim): trecho da Eneida, de Virgílio, livro II, v. 6, cuja tradução exata é: “na qual tomei notável parte”.
19 Viot: havia dois restaurantes deste nome perto do Odeon: um na rua do Senhor Príncipe, outro na rua de la Harpe.
20 Flicoteaux: restaurante barato na praça da Sorbona, frequentado por estudantes; descrito também por Balzac nas Ilusões Perdidas. —
Sobre Balzac, v. Mar de histórias, vol. 2.
21 Alusãoa uma passagem do conto “Rinconete e Cortadillo”, de Cervantes; v. Mar de histórias, vol. 2.
22 Os três dias são os da revolução de julho de 1830.
23 Segundo Virgílio(Eneida, livro VI, v. 420), quem quer passar pela porta do Inferno tem de atirar um bolo soporífero ao cão Cérbero, que a
guarda.
24 Pactolo:rio da Lígia, em cujas águas, segundo a mitologia, se encontravam palhetas de ouro.
25 A prisão de Clichyera destinada aos devedores relapsos.
26 Biblioteca Azul:coleção de livros populares, principalmente adaptações de romances de cavalaria da idade média, fundada no século XVII em
Troyes, e continuada depois em Paris.
27 Libra:franco.
28 Agamêmnoncobriu o rosto aguardando que sua filha Ifigênia fosse sacrificada. Mimi deve de conhecer esta cena pela representação ou pela
leitura de Ifigênia, de Racine.
29 Conta-se este episódio a respeito de Roberto II, o Piedoso, rei da França.
30 Bossuet:Jacques-Bénigne Bossuet (1627-1704), bispo de Meaux, famoso orador sacro.
31 Anquetil:o abade Louis-Pierre Anquetil (1723-1806), autor de uma volumosa História da França.
32 O caso de Múcio Cévola, que obteve este cognome — scaevola, em latim, significava “canhoto” — após a façanha aqui relatada, é contado,
entre outros historiadores, por Tito Lívio.
33 Tortoni:famoso café, no Bulevar dos Italianos.
34 MAGALHÃES JÚNIOR, R.Poesia e vida de Álvares de Azevedo. São Paulo: Lisa, 1971, p.13.
35 PIRES, Homero. In: Obras completas de Álvares de Azevedo. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1otomo, p. XI. Essa edição serviu de
texto para o conto adiante reproduzido.
36 HADDAD, J.A.Álvares de Azevedo, a maçonaria e a dança.Conselho Estadual de Cultura de São Paulo, 1960, pág. 95.
37 MAGALHÃES JÚNIOR, R. op. cit., pág. 114: “Ele é decididamente um autor hoffmannesco. Ou, melhor, mais hoffmannesco que o próprio
Hoffmann, em cujas obras há por vezes um ou outro traço de lirismo, uma nota humorística, (...) nem tudo nela consistindo em
manifestações de sonambulismo, (...) aparições arrepiantes, (...) crimes monstruosos, (...) duelos nas trevas e gritos de terror. Em Noite na
taverna, ao acumular (...) tantos episódios dessa natureza, (...) Álvares de Azevedo tornou ainda mais flagrante a inverossimilhança dessas
peripécias.” E acrescenta Magalhães que, no entanto, ele subjuga os leitores, sobretudo jovens, com a sua prosa, ainda que esta se
ressinta dos excessos verbais e cacoetes próprios do romantismo. — Acerca de Hoffmann, v. Mar de histórias, vol. 3.
38 ANDRADE, M.O Aleijadinho e Álvares de Azevedo. Rio de Janeiro: R.A., 1935, p. 118.
39 Essa introdução é batizada, bem à romântica, “Uma noite do século”.
40 Evolução da poesia brasileira. Rio de Janeiro: Ariel, 1932, pág. 36.
41 Tradução destes versos de Byron: “Mais um beijo no teu pálido corpo/ E em teus lábios outrora tão quentes — meu amor! meu amor!”.
42 Sabeis-lo: o normal seria sabei-lo (“vós o sabeis”).
43 Brantôme: Pierre de Bourdeille, Senhor de Brantôme (1540-1614), memorialista francês, autor de, entre outras obras, Vies des Damés
Illustres, des Dames Galantes.
44 Eis-la: o normal seria ei-la.
45 Vedes-la: o normal seria vede-la.
46 Incluído em Gottfried Keller’s Werk e, 5aparte: Die Leute von Seldwyla, v. I, edição organizada por M. Zollinger. Berlim: Deutsches
Verlagshaus Bong & Co., s.d.
47 ANGELLOZ, J. F. La Littérature Allemande.Paris: Les Presses Universitaires, 1942.
48 Acerca de Hoffmann, v.Mar de histórias, vol. 3.
49 Utilizou-se para a tradução deste conto a edição já citada.
50 Verão das velhas: assim se chamam, na Europa Central, os primeiros dias do outono, ainda bem quentes.
51 A respeito de Poe, v. Mar de histórias, vol. 3.
52 Na introdução deGreat Short Stories of Detective, Mystery and Horror. First Series. Londres: Victor Gollancz Ltd., 1928.
53 Tiramos este conto, publicado primeiro no volumeAfter Dark (1856), da coletâneaShort Stories of the Nineteenth Century, seleção e
introdução de J. G. Tyfe, M. A., Blakie & Son Limited, London and Glasgow.
54 Palais Royal: famoso edifício de Paris, ainda existente, construído em 1629 por Lemercier. No século XIX suas galerias cobertas eram um
passeio muito procurado pelo mundo elegante, mas abrigavam, também, vários prostíbulos e casas de tavolagem.
55 Frascati: célebre café parisiense.
56 Sou(francês): soldo, moeda francesa correspondente a um vigésimo do franco.
57 Sacré mille bombes!:Com seiscentos diabos! Esta exclamação, bem como outras que se encontram adiante, está em francês, no texto.
58 Mille tonnerres!: com mil raios!
59 Crédié! (sacré Dieu!): Deus danado!
60 Sacré petit polisson de napoléon!:malandrinho danado de napoleão!
61 À bas!:morra!
62 Nom d’une pipe!:literalmente, “nome de um cachimbo!”. Eufemismo, por nom de Dieu!
63 Vive le vin!:viva o vinho!
64 Austerlitz:localidade da Morávia onde Napoleão alcançou a sua vitória mais brilhante contra os russos e austríacos, a 2 de dezembro de
1805.
65 Voyage autour de Ma Chambre:“Viagem ao redor do meu quarto”. Acerca deste livro e do seu autor, v. Mar de histórias, vol. 2.
66 Guy Fawkes: conspirador inglês (1570-1606).
67 Childe Harold, ouPeregrinação de Childe Harold:poema romântico de Byron, poeta inglês (1788-1824).
68 Entresol:sobreloja. (Em francês, no texto.)
69 Posse comitatus (latim medieval): literalmente, o poder do condado; figuradamente, os cidadãos convidados a prestar auxílio à autoridade
pública na execução de uma medida que há de encontrar resistência.
70 Procès-verbal:depoimento. (Em francês, no texto.)
71 Para mostrar que vários pormenores deste conto, por mais fantásticos que pareçam, são devidos a rigorosa observação da realidade,
parece-nos oportuno citar o testemunho de um contemporâneo, um trecho das Mémoires d’un Bourgeois de Paris,do dr. Véron, publicadas
em 1853-1856 (edição nova. Paris: Guy le Prat, 1945, vol. I, págs. 98-9), no capítulo intitulado “As casas de jogo em Paris”:
“Cada casa de jogo tinha o seu comandante. Encontravam-se nelas o comandante-venerável, de cabelos brancos, e o comandante de
bigodes em croque e duelista... Este último, padrinho obrigatório de todos os duelos, usava o fraque abotoado. Tinha a palavra breve;
achava-se natural que ele nunca dobrasse o guardanapo nem pagasse o jantar, e que derramasse no seu café, sob forma de glória, razoável
número de copos de cachaça. Ninguém punha em dúvida que, durante os Cem Dias, fora proposto para obter a cruz. Todos os amantes
felizes o tomavam por confidente e lhe abriam um crédito que durava até que a ligação se rompia, para depois alcançar algarismos mais
elevados com o início de nova ligação.”
72 Do conto “O caçador de ursos”, em BJØRNSON, B. Kleine Erzählungen.Aus dem Norwegischen von H. Denhardt. Leipzig: Ph. Reclam jun.,
s.d., pág. 81.
73 Devemos a tradução ao nosso amigo Guttorm Hanssen, que se utilizou do texto seguinte: BJØRNSON, B. Fortaellinger, Fjerde Udgave,
Fõrste Del. Kjobenhavn: Glydendalske Boghandels Forlag, 1893.
74 Multatuli:do latim multa tuli,“sofri muito”.
75 Encontramos os dados biográficos de Multatuli no ensaio introdutório à antologia em alemão que de suas obras organizou Wilhelm Spohr,
sob o título de: Multatuli: Auswahl aus seinen Werk en.Minden: J. C. C. Bruns’ Verlag, 1899.
76 Acerca da parábola e do apólogo, v. Mar de histórias, vol. 1.
77 O primeiro conto foi tirado da versão alemã de Max Havelaar, por Wilhelm Spohr, mesma editora, s.d.; os demais, da antologia já citada,
cujo texto, porém, foi conferido com o de outra versão alemã, incluído em Ideen und Sk izzen von Multatuli, seleção e tradução de Karl
Mischke (Halle: Verlag Otto Hendel, s.d.). — O assunto do primeiro dos contos está presente noutros autores, e, com a forma de soneto
(“Círculo vicioso”), no brasileiro Machado de Assis.
78 Baleh-baleh:tarimba de bambu.
79 Klambu:cortina.
80 Pajong:guarda-sol.
81 Banjir:torrente.
82 Newton: Isaac Newton (1642-1727), célebre matemático, físico e astrônomo inglês, que descobriu a lei da gravidade.
83 A respeito de Flaubert, v. p. 264.
84 Sobre Edgar Allan Poe, v. Mar de histórias,vol. 3.
85 Sobre Oscar Wilde, v. Mar de histórias,vol. 5.
86 A respeito de Turguêniev, v. Mar de histórias, vol. 3.
87 Texto que usamos: Baudelaire. Oeuvres.Texte établi et annoté par Y.-G. Le Dantec — Bibliothèque de la Pléiade. V. 1. Paris: N.R.F., 1935.
O conto escolhido figura em Pequenos poemas em prosa. Tradução de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira. Rio de Janeiro: Record, 2008.
88 Silva Ramos: José Júlio da Silva Ramos (1853-1930), nascido no Recife, e hoje muito esquecido. Um dos fundadores da Academia Brasileira
de Letras, e filólogo culto e extremamente lúcido. Do professor dizem muito bem, pouco adiante, as palavras de Manuel Bandeira.
89 SARAIVA, A. J.; LOPES, O. História da literatura portuguesa.6. ed. Corrigida e atualizada. Porto: Porto Editora e Empresa Lit. Fluminense,
Ltda., s.d., p. 771.
90 Esta palavra não pertence ao título.
91 Poesia e Prosa. v. 2. Prosa. Rio de Janeiro: D.F. Editora José Aguilar, Ltda., 1958, p. 1.167-8.
92 BELL, A.A literatura portuguesa. Tradução do inglês por Agostinho de Campos e J. G. de Barros. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1931,
p. 397-8.
93 Texto de que nos servimos: SILVA, R.Contos e lendas. Lisboa: Livraria Editora de Matos Moreira e Companhia, 1873.
94 Os homens de capa e volta: os clérigos, os sacerdotes. (Volta: tira branca, de linho ou de algodão [já em desuso], na parte superior da gola
das vestes dos padres e dos lentes e alunos universitários.)
95 A Sobrinha do marquês:comédia de Almeida Garrett.
96 Mecânico: homem de origem ou condição plebeia.
97 Gualdrapa: cobertura de besta, feita de tecido ou de couro, sobre a qual se põe a sela ou a albarda; xairel.
98 Capinha: toureiro que provoca o touro com capa, que o capeia.
99 Forcado (ou moço do forcado): cada um dos homens que, nas corridas de touros, se acham munidos de um forcado, isto é, de uma haste
de pau terminada em duas ou três pontas agudas, desse mesmo pau ou de ferro.
100Contensão: esforço ou tensão considerável.
101Cf. o prefácio do tradutor francês em Récits Californiens,por Bret Harte, traduzido do inglês por Th. Bentzon. Paris: Calmann-Lévi, 1884.
102Edição utilizada para a nossa tradução: HARTE, B. The Luck of Roaring Camp and Other Sk etches. Boston: Houghton Mufflin Company,
coleção The Riverside Library, s.d.
103Ab initio(latim): desde o começo.
104Ex officio (latim): decorrente do cargo.
105Passo à frente dele com dois diamantes mais: no texto há um trocadilho intraduzível, pois a palavra inglesa diamondsignifica, ao mesmo
tempo, ‘diamante, brilhante’, e ‘ouros’ (naipe do jogo de cartas).
106Luck (inglês): sorte, boa sorte.
107Las Mariposas: nome de um distrito.
108Preempção: compra antecipada.
109Acerca de Multatuli, v. p. 129.
110Fr. Closset, Esquisse des Littératures de Langue Néerlandaise. Bruxelles: Marcel Didier, s.d.
111NICOLL, W. R. et alii. The Masterpiece Library of Short Stories. The Thousand Best Complete Tales of all Times and all Countries . London:
The Educational Book Company Ltd., s.d.
112Perca: peixe de água doce, muito saboroso.
113Tenca: outro peixe de água doce.
114Sobre asMil e uma noites,v. Mar de histórias, vol. 1.
115ROJAS, A. F. La Novela Ecuatoriana.México-Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 1948, p. 141.
116AZORIN. Al margen de los Clásicos.Buenos Aires: Editorial Losada, S.A., 1942, p. 161-2.
117Texto que utilizamos: BÉCQUER, G.A.Obras completas. Buenos Aires: Joaquin Gil Editor, 1944.
118Miserere mei, Domine! (latim): Compadece-te de mim, Senhor!
119Latim. Trad.:Compadece-te de mim, Senhor, conforme a tua grande misericórdia!
120Latim. Trad.:Fui concebido na iniquidade; e minha mãe me concebeu no pecado.
121Latim. Trad.:‘Darás ao meu ouvido gáudio e alegria, e exultarão meus ossos humilhados.’
122Acerca de Flaubert, v. p. 264.
123Acerca de Turguêniev, v. Mar de histórias,vol. 3.
124Acerca de Balzac, v. Mar de históriasvol. 3.
125DAUDET, A. QuaranteAns de Paris.Genève: La Palatine, 1945, p. 197. — A respeito de Paul Arène, v. Mar de histórias, vol. 6.
126Ap.MARGUERITTE, P.; MARGUERITTE, V.; GEFFROY, G. et alii. A. Daudet, 1840-1897. Paris: Larousse, s.d., p. 86.
127Textos de que nos servimos: para a tradução do primeiro dos contos: DAUDET, A. Lettres de Mon Moulin. Paris: Nelson, s.d.; e para a do
segundo; DAUDET, A. Contes du Lundi. Paris: Nelson, s.d.
128Moleiro:tratamento dado ao autor por viver num moinho que ele transformara em residência. Daí o título do livroCartas do meu moinho.
129Mistral: vento violento que sopra do Norte, no sul da França.
130Cagnard:abrigo (palavra provençal).
131Crau:vasta planície, parcialmente estéril, da Provença.
132Bailio (ou balio): magistrado que exercia a justiça em nome do rei.
133Sedaine: poeta dramático francês do século XVIII.
134Santo Irineu: bispo de Lião, martirizado no princípio do século III.
135Bergamota: espécie de pera sumarenta.
136Os versalheses:tropas enviadas de Versalhes pelo governo para reprimir o motim da Comuna de Paris, em 1871.
137Chassepot:espingarda de agulha inventada por Chassepot e usada pelo exército francês de 1866 a 1874.
138O Hôtel de Ville: a Prefeitura.
139Federados: nome dado aos soldados da Comuna.
140Félix Pyat (1810-1889): político revolucionário, um dos chefes da Comuna; condenado à morte em 1871, refugiou-se na Inglaterra.
141Delescluze (1809-1871): outro chefe da Comuna; mandou fuzilar os reféns e morreu nas barricadas.
142CANU, J. Barbey d’Aurevilly. Paris: Robert Laffont, 1945, p. 204.
143Acerca de Flaubert, v. p. 264.
144CORBEILLER, A.Les Diaboliques de Barbey d’Aurevilly. Paris: Edgar Malfère, 1939, Coleção ‘Les Grands Événements Littéraires’, p. 60.
145THIBAUDET, A. Histoire de la Littérature Française (de 1789 à nos jours). Rio de Janeiro: Americ-Edit., s.d., vol. II, p. 113.
146Acerca de Léon Bloy,v.Mar de histórias, v. 6.
147Acerca de Balzac, v. Mar de histórias, vol. 3.
148Armand le Corbeiller,op. cit., p. 70.
149Edição utilizada: Oeuvres de Barbey d’Aurevilly. Les Diaboliques — Les six premières.Paris: Alphonse Lemerre, s.d.
150Por Deus!,em francês, par Dieu!: expressão irreverente, razão por que ajunta a personagem: “e por determinação de Deus, minha senhora
—, acrescentei corrigindo-me”.
151Palavras de Leporello na óperaDom João, de Mozart.
152A cadeia da dorna de Mesmer. Friedrich-Anton Mesmer, médico alemão (1733-1815), tentou uma sistematização dos fenômenos hipnóticos,
fundada na hipótese da existência de um agente universal, ou fluído magnético, que se podia acumular e transmitir, e graças ao qual se
curavam as moléstias nervosas e, indistintamente, as outras doenças. Para isto ele recorria a apalpações e passes no hipocôndrio e na
região ovariana. Chegando ao máximo a sua fama, já não lhe era possível magnetizar os doentes de um em um, e então inventou a célebre
dorna em torno da qual dez a quinze pacientes, de mãos presas, formavam cadeia, à espera da cura de seus males. A doutrina de Mesmer
— o mesmerismo ou magnetismo animal — teve extraordinária voga, até que foi definitivamente desacreditada por numerosos “discípulos” e
condenada por uma comissão de cientistas.
153O frio comendador de mármore branco:segundo a lenda, d. João, o famoso sedutor, acaba levado ao Inferno pela estátua do comendador a
quem matara em duelo depois de lhe desonrar a filha.
154Segundo a lenda, Sardanapalo, rei da Assíria (século VII a.C.) — cujos últimos anos de reinado se assinalaram por uma vida de luxo, volúpia
e indolência —, deu à sua vida este fim para escapar aos medos, que o assediavam em Babilônia. Na realidade, porém, o episódio refere-se
ao irmão de Sardanapalo, Shamash-Shum-Ukim, governador da Babilônia, o qual, revoltado contra o rei e na iminência de ser aprisionado
pelos assírios, preferiu matar-se, fazendo desaparecer consigo tudo quanto no mundo lhe era mais caro.
155No texto há um trocadilho, intraduzível, donde vem a observação quanto à ortografia: é que, em francês, pessegueiro épêcher
epecadoépéchê.
156Byron:George Gordon, Lord Byron (1788-1824), figura exponencial do romantismo inglês, autor de A peregrinação de Childe Harold, Manfrede
Don Juan.
157Rubens:Peter Paul Rubens (1577-1640), grande pintor flamengo.
158Ofaubourg Saint-Germain era, nesse tempo, o bairro aristocrático por excelência de Paris.
159Brio (italiano): vivacidade, calor, animação. (Usado particularmente em música.)
160Jantar regência: à maneira dos da Regência, período correspondente à minoridade de Luís XV (1715-1723) e notável pela dissolução dos
costumes.
161Melusina: conforme a lenda, era uma fada, esposa de Raimundino, conde de Lusignan. Todos os sábados, transformavam-se-lhe as pernas
em cauda de serpente. Tendo seu marido descoberto essa particularidade, que ela desejava manter em segredo, Melusina fugiu; mas,
sempre que pairava alguma desgraça sobre um membro da família de Lusignan, ela aparecia na torre do castelo do conde, soltando gritos
estridentes.
162Nabucodonosor:Nabucodonosor II, rei da Babilônia (605-562 a.C.), conquistador de Jerusalém, cujo templo destruiu, reduzindo ao cativeiro
toda a população. A crer na tradição judaica, enlouqueceu, juleando-se metamorfoseado em boi. Morreu um ano depois de voltar à razão.
163En ferronière(francês). Ferronièreé um ornato feminino — diadema de metal precioso que cinge os cabelos, fechado na fonte por um camafeu
ou pedra preciosa. O nome vem do célebre retrato de mulher La Belle Ferronière(A Bela Ferrageira), de Leonardo da Vinci.
164A respeito de Maquiavel e de sua obra O príncipe, v.Mar de histórias, vol. 2. — Borgia (Cesare Borgia — 1475-1507), filho do papa Alexandre
VI, é célebre pela dissolução e crueldade. Sua vida e sua administração na Toscana inspiraram a figura do Príncipe de Maquiavel.
165Acerca de Andersen, v. Mar de histórias, vol. 3.
166Em A cinza do purgatório. Rio de Janeiro: 1944, Casa do Estudante do Brasil, p. 104-14.
167Na impossibilidade de obter o original dinamarquês, vertemos este conto de duas traduções alemãs e uma italiana, cuidadosamente
cotejadas: Sechs Novellenvon J. P. Jacobsen, Autorisierte Übersetzung aus dem Dänischen von M. von Borch, Leipzig, s.d., Philipp Reclam
jun.; Erzählungenvon Jens Peter Jacobsen, Übertragung von Mathilde Mann, Leipzig, Insel Verlag, s.d.; e La Signora Fönss, di J. P.
Jacobsen, cura di Bruno Maffi, Milano, 1943.
168Proust, M. A propos du Style de Flaubert. In: Chroniques. Paris: Gallimard, 1927, p. 199.
169Acerca de Daudet, v. p. 201.
170Acerca de Turguêniev, v. Mar de histórias, vol. 3.
171Acerca de Maupassant, v. p. 318.
172THIBAUDET, A.Gustave Flaubert. Paris: Plon, s.d., p. 72.
173FRANCE, A. La Vie Littéraire. 3asérie. Paris: Calmann-Lévy, 1925, p. 308.
174Marcel Proust, op. cit., p 193.
175Correspondance. Paris: Louis Conard, 1930, septième série, p. 307. Carta de 19 de junho de 1876.
176Ib., carta de fim de julho.
177René Dumesnil, nas notas do vol. II de Oeuvres de Flaubert. Paris: Ed. de la Plêiade, Gallimard, 1936, p. 531 e segs.
178Acerca da Legenda áurea, v. Mar de histórias, vol. 1.
179Audran: nome de uma família francesa que deu vários gravadores no-táveis, dos quais o mais famoso é Gérard Audran (1640-1703).
180Leitoril:estante de coro; atril.
181Após a tomada de Varsóvia, grande número de polacos de todas as classes se haviam refugiado na França. Muitos deles encontraram asilo
na Normandia, nas quintas, onde passaram a trabalhar. Desde criança Flaubert se impressionara vivamente com a desgraça desses
exilados, um dos quais era seu professor de Música, a quem estimava muito.
182Épinal:cidade francesa famosa por sua produção de estampas populares coloridas.
183Fabricário(ou fabriqueiro): encarregado da fábrica de uma igreja. (Aqui, fábrica é o rendimento aplicado ao culto de uma igreja.)
184Oficlide: instrumento de sopro, com bocal, chaves e tubo cônico dobrado sobre si mesmo.
185Chantre: funcionário eclesiástico que dirige o coro.
186Em 1993, após a queda do comunismo, o país dividiu-se em dois: República Tcheca e Eslováquia. (N. do E.)
187A esta obra pertence o primeiro dos contos seguintes. Texto de que nos servimos: Jan Neruda, Cuentos de la Malá Strana, traduzidos do
tcheco por W. F. Reimer, Buenos Aires, Editora Espasa-Calpe Argentina S.A., 1948. — Malá Strana(‘lado pequeno’) é uma parte de Praga à
margem esquerda do rio Vltava.
188Texto que usamos: Velilé Dilo Jana Nerudy,Vecné Prameny, Rebec, 1941. Devemos a tradução ao casal amigo Otto e Gerta Heilig.
189“Hastrman”: “espírito das águas”, espécie de bicho-papão invocado para assustar as crianças a fim de que não se vão banhar em rios e
lagos, e, sobretudo, para evitar desgraças.(Nota do tradutor da edição de que nos servimos.)
190Hradcany:grupo de palácios reais que, vistos da Malá Strana, dominam o panorama de Praga.
191Seu nome,Rybar, significa “pescador”, segundo nota do tradutor da edição por nós utilizada.
192Turnov:cidade ao nordeste da Boêmia.
193Kozák:montanha de Turnov.
194Bruska:colina nos arredores de Praga.
195Acerca de Balzac, v. Mar de histórias,vol. 3.
196Acerca de Flaubert, v. p. 264.
197Lanson e Tuffrau. Histoire de la Litérature Française. Paris: Hachette, 1952, p. 1090.
198MORAND, P. Vie de Guy de Maupassant. Paris: Flammarion, 1942, p. 134.
199CROCE, B.Poesia e non Poesia. 4. ed. Bari: Gius. Laterza, 1946, p. 301.
200STEINBERG, S. H. Cassell’s Encyclopedia of Literature. London: Cassell, 1953, vol. II, p. 1.129.
201LAATHS, E. Geschichte der Weltliteratur. Munchen: Droemersche Verlagsanstalt, 1953, p. 618-9.
202THIBAUDET, A. Histoire de la Litérature Française. Rio: Americ-Edit., s.d., vol. II, p. 107.
203MAUGHAM, W. S. Tellers of Tales. New York: Doran and Company Inc., 1939, p. XVIII.
204No vol. 5 deMar de histórias.
205BATES, H. E. The Modern Short Story. London: Thomas Nelson & Sons Ltd., 1942, p. 72 e segs.
206A respeito deste escritor, v. Mar de histórias, vol. 1.
207Acerca de Stendhal, v. Mar de histórias, vol. 3.
208DUMESNIL, R. Guy de Maupassant. Paris: Armand Colin, 1933, p. 179.
209LERNER, M. G.Maupassant. London: George Allen and Unvin, Ltd., 1975.
210Utilizamos os textos seguintes: para o conto “Dois Amigos”, Mademoiselle Fifi. Paris: Librairie Paul Ollendorff, s.d.; para “As joias”, Clair de
Lune. Paris: Librairie Paul Ollendorff, s.d.; e para “Felicidade”, Boule de Suif. Paris: Ernest Flammarion Éditeur, s.d.