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Cartografia dos quintais: presença rudimentar na cidade

Trabalho final de Graduação do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade


Federal de São João del-Rei

Rafael Teixeira Vidal


Orientadora: Flávia Nacif da Costa
Resumo

Este texto motivado pelo trabalho “Cartografias dos quintais”, que reconhece
dos rastros de tempos anteriores dentro deixados espaço urbano, investiga uma lógica
híbrida rural/urbana que constrói o urbano com processos subjetivos depositados no
espaço. À partir disso, abre-se um caminho para repensar as relações rurais/ urbanas
para além das diferenças e dicotomias espaciais e do meio.

Para tanto, o trabalho se apóia nas figuras dos quintais como exemplo desses
espaços de um tempo rural inserido na malha da cidade atual, investigando suas redes
de relações, suas potências de construções espaciais mais subjetivas com o espaço -
remetendo à um tempo e espaço da transitoriedade, numa experiência de
desestabilização entre tais territórios. Essa experiência, acredita-se despertar uma
potência de ampliação dos recursos compositivos do espaço - de ativação à uma
condição corporal mais sensível ao urbano e, também tangendo a construção de
experiências mais presentes aos componentes formadores do espaço. Sobretudo, uma
ponte de revisão da relação campo-cidade e o lugar do Arquiteto e Urbanista na
construção da experiência estética na cidade.
Introdução

“A História humana não se desenrola apenas nos


campos de batalha e nos gabinetes presidenciais. Ela se
desenrola também nos quintais entre plantas e galinhas,
nas ruas de subúrbios, nas casas de jogos, nos
prostíbulos, nos colégios, nas usinas, nos namoros de
esquinas. Disso eu quis fazer a minha poesia. Dessa
matéria humilde e humilhada, dessa vida obscura e
injustiçada, porque o canto não pode ser uma traição à
vida, e só é justo cantar se o nosso canto arrasta as
pessoas e as coisas que não têm voz”.

Ferreira Gullar

A intensificação das relações campo/cidade culminou no Brasil da década de  


1950 à partir do forte processo de modernização dos “50 anos em 5” do governo de
Juscelino Kubitschek, remodelando a formação urbana, as relações de dependência e
complementariedade econômica e espacial entre o rural e o urbano1 e, também as
noções de trabalho, de sociedade e a própria cultura brasileira. As mudanças nesssa
relação teve papel estruturante nas políticas de desenvolvimento e afirmação do Brasil
moderno uma vez que contribuiu para fortalecer Brasil urbanizado e "industrializado"
à partir do oposto a se apontar: o lado arcaico, rural – a fim de cristalizar enunciadas
autenticidades brasileiras para a massa de imigrantes do campo que as capitais
recebiam.

A formação da cidade e seus modos de vida foram marcados portanto pela


incorporação da relação rural/urbana na malha urbana, seja em espaços de bordas e
fronteiriços onde é possível perceber presenças rurais ou, nos hábitos urbanos do
cotidiano como a domestificação de ruralidades (hortas, gaiolas e plantas) dentro da
vida privada da cidade. Dessa forma, sujeitos que traziam heranças rurais para a
cidade e que agora se formavam com novos hábitos da vida urbana e se tornavam
testemunhas de uma fusão entre o rural e o urbano aglutinados numa só
subjetividade2.

O modo como o sujeito lida com seu meio, determina não só suas relações
interpessoais, como também a maneira como ele desenvolve sua subjetividade e a
deposita no espaço. Este trabalho portanto, toma dois viéses principais: um de
                                                                                                               
1
 Para  um  histórico  acerca  das  relações  campo  e  cidade  ver:    MONTE-­‐MÓR,  R.L.  O  que  o  
Urbano,  no  Mundo  Contemporâneo.  jul./dez.  2006.  Revista  Paranaense  de  Desenvolvimento,  
2
 Subjetividade  é  o  íntimo  do  ser  humano  composto  por  emoções,  sentimentos  e  
representações.  Da  psicanálise,  é  um  perfil  formado  por  modos  de  ser  no  mundo  -­‐  de  agir,  
de  pensar,  de  gostar  -­‐  que  se  forma  interiormente,  com  os  significados  que  se  dá,  e  
exteriormente,  com  as  representações  do  mundo.  Esse  perfil  é  constantemente  mutável  
numa  lógica  não-­‐linear,  passando  por  diversas  construções  de  ideias,  afetos  e  universos  –  
uma  constante  mistura  de  significados  e  representações  (ROLNIK,  2006).  Este  termo  revela-­‐
se  importante  para  o  presente  trabalho  pois  é  a  subjetividade  construída  que  permeia  as  
relações  dos  sujeitos  com  os  espaços,  objetos  e  tempo.  
aproximar-se empiricamente de espaços com rastros de ruralidades na cidade, como
cartografou-se quintais e ao que eles produzem de experiência espacial, hábitos de
seus usufruidores e produtos na cidade à partir de apropriações muito específicas no
espaço urbano.

A fim de atualizar entendimentos acerca das experiências rurais/urbanas, este


trabalho aproxima de ações, práticas e hábitos rurais dentro da cidade como outros
modos de habitar o espaço urbano – chamou-se aqui de processos subjetivos na
cidade. As reminescências espacias por sua vez, foram chamadas de rastros, a fim de
evidenciar a presença de movimentos e marcas subjetivas extraordinárias às práticas
urbanas hegemônicas e racionais. Dessa forma, os rastros como objeto de estudo e
processo de construção da pesquisa, colocou este trabalho numa posição entre o rural
imaterial na cidade (com hábitos e saberes) e, as implicações espaciais dessas
ruralidades dentro da cidade. Nessa condição entre abordagens espaciais e discussão
acerca da experiência espacial vista da relação rural/urbana o trabalho, ora dá para a
arquitetura indicações espaciais evidentes acerca da relação investigada e, ora
visualiza eventos tão extraordinários aos sentidos da arquitetura e do urbanismo que
parecem escapolir as fronteiras dessa disciplina.

O deslocamento dos usufruidores entre quintais, ruralidades e urbanidades,


funciona aqui como dispositivo de ativação de acesso à esse tipo de experiência
urbana tão específica (processos subjetivos, como foi chamado) e entende-se como
uma potência criativa no espaço urbano por abrir uma outra zona de experiência com
a cidade.

A teoria do entre de Guatelli serviu como referência metodológica e prática


estruturante nesse trabalho que empenhou-se a construir novas abordagens para a
arquitetura e o urbanismo a partir dessas implicações espaciais de lógicas múltiplas e
heterogêneas presentes na cidade – de perceber o rural e o urbano não mais como
antagonismos mas como partes formadoras de uma só condição sócio-espacial. Viu-se
portanto, que pensar o rural/urbano na atualidade é mais do que nunca aproximar-se
de uma condição híbrida movente entre esses universos e das identificações que os
usufruidores carregam com esses dois meios. Essa condição, além de ser já presente e
evidente em alguns espaços urbanos, é também um caminho futuro possível para
pensar e construir as relações rurais/urbanas, ou seja: cada vez mais mescladas,
próximas e de fronteiras borradas. Discute-se portanto, à partir desse interim, a
quelidade das experiências espaciais possíveis para essa lógica rural/urbana e, o local
de atuação do arquiteto e urbanista face à essas realidades híbridas na cidade, tanto se
tratando de contato aos cidadãos que buscam um meio de se reestruturarem como
sujeito e também de terem mais qualidade de vida à partir dessas suas atividades
criadoras no espaço.

O livro-texto “Cartografia dos quintais: presença rudimentar na cidade” faz


referência ao livro “Cartografias dos Quintais”. O segundo cristaliza
diagramaticamente experiências rurais em território urbanas, a fim de compilar como
produto de Trabalho Final de Graduação cartografias dessas relações híbridas
rurais/urbanas na cidade; ao passo que o primeiro tece discussões buscando, assim,
habitantes e espaços que são testemunhas dessa relação rural/urbano, que estabelecem
valores (trocas interpessoais), sistemas de objetos (construtivo e organizacional),
modos de vida e que constróem o cotidiano da cidade/campo e seus espaços – enfim,
as imagens que revelam a cultura mesclada entre o rural e o urbano e as
representações (sociais e espaciais) possíveis desta relação e a investigação em torno
de uma visão de produção de espaço que contemple a fronteira movediça entre estes
dois universos, e definem o território de atuação do Arquiteto e Urbanista.

I – Processo - Na cidade, sigam os rastros

Com o poder de mutação da cidade por suas periferias que se estendem a tal
ponto que seus limites possam ficar incompreensíveis, a cidade que avança, incorpora
em si diversos espaços, habitantes e naturezas; diferentes urbanidades mescladas
umas às outras – todas envoltas por um certo poder da cidade em tomar para si e
pasteurizar o que ela encontra. A cidade, como um organismo vivo se enche de
movimento, trazendo para si uma complexidade vital, fator esse.

Tal constatação remonta a crítica de Jacobs (1961) acerca da tradição francesa


do planejamento urbano na Cidade Jardim de Howards (1850) e aos postulados
receosos ao movimento diverso, heterogêneo e artificial da cidade pois, para a autora,
pensar o espaço urbano é: tomar partido dessas múltiplas forças de avanço da cidade
e, qualquer tentativa de regrá-la ou moldá-la com projetos e “a grande praga da
monotonia” (JACOBS, 1961, p.34) é afirmar a possibilidade de morte e declínio da
vida do espaço urbano.

Na década de 1960 teóricos do urbanismo como, Kevin Lynch e Jane Jacobs


postularam acerca dos movimentos heterogeneous da cidade, evidenciando a micro-
ecala 3 no espaço urbano (usufruidores, apropriações expontâneas e referenciais
populares), como motores e construtores da cidade e seus lugares. Dessa forma, a
cidade foi avaliada à partir do olhar do pedestre, elencando usos mistos e modos
urbanos à partir de algumas experiências do usuário, como circulação e equipamentos
públicos imediatos aos entornos das moradias, que atribuíssem força e movimento
heterogêneo à vida urbana.

Estes traços projetuais elencados como modos de pensar e fazer a cidade


foram perpetuados nas vastas investigações acerca do espaço urbano e, todos
possivelmente fomentando propostas de soluções programadas, pautadas na herança
da arquitetura e do urbanismo sobre espaço-função, forma-função e programa-uso,
para os “problemas” da cidade. Mediante à essa situação de produção de sentidos face
aos movimentos incontroláveis e heterogenêneos da cidade, falou-se sobretudo no
Brasil do caos urbano para traduzir os vastos obstáculos para tratar as cidades e a
ineficiência dos pensamentos do planejamento urbano.

A força de urbanização no Brasil, por sua vez, possui um caráter extensivo4 e


                                                                                                               
3
 À  partir  do  conceito  de  subjetividade  como  ações  depositadas  no  espaço  urbano,  o  
conceito  de  micro/macro  e  local/global  é  redefinido  aqui  como:  a  qualidade  do  impacto  e  
potência  que  os  processos  subjetivos  têm  em  se  expadirem  por  meio  de  se  articularem  com  
outras  redes,  contextos  e  de  se  espalharem  no  espaço  urbano  –  não  mais  entendidos  como  
delimitações  geográficas.  
4
Extensivo   (MONTE-­‐MÓR,   1994)para   no   sentido   dos   processos   urbano-­‐industriais   se  
estenderem  sobre  espaços  regionais  “contribuindo  para  tornar  cada  vez  mais  embaçadas  as  
heterogêneo, também movimentado por aquela vitalidade da cidade em avançar em
realidades locais à partir de um centro. No entanto, nesse caso, o processo de
urbanização toma ainda mais complexidade, entendendo que é comumente marcado
por ações desmedidas e de baixa qualidade de pensamento e planejamento das
realidades urbanas, resultando numa cidade marcada por espaços regionais e,
anteriores às manobras e concepções urbanísticas, desenvolvendo assim, uma pele da
cidade cheia de traços e expressões dessas localidades - ainda que, como lembra
Sant’Anna (2001), as intenções sejam de deixar a pele da cidade como uma “pele
feita” para a maquiagem, limpa, alva e lisa.

As cidades brasileiras, longe de resultarem em conjuntos controlados, limpos e


regidos por concepções programáticas, lembram do caos, oposto ao ideal de
organização do urbanismo. Há, portanto, na formação da sociedade urbana brasileira,
com seus processos de urbanização desmedidos, marcas e vestígios de tempos,
espaços e apropriações desprogramadas e distintas ao movimento extensivo e aos
modos preescritos da vida urbana.

Desse entendimento, o presente trabalho trará dessas imprevisibilidades no


espaço urbano: de lugares e apropriações do corpo dos usufruidores como eventos
extraordinários às prescrições da Arquitetura e do Urbanismo e, acredita-se, que dão
movimento, novas programações aos espaços rígidos e, sobretudo abrem-se como
ferramenta para (re)pensar pressupostos da Arquitetura e o Urbanismo.

Esses movimentos dentro da malha urbana marcam a instabilidade e


indefinição do espaço urbano, colocando esse meio como o espaço do cruzamento de
hábitos, da eventualidade e do devir5 . Tomando partido disso, Igor Guatelli em
“Arquitetura dos entre-lugares”, com base na teoria pós-estruturalista de Gilles
Deleuze (1925-1995) e Jacques Derrida (1930-2004), constrói teoricamente a noção
do entre espaço:

poderia ser entendido como uma condição, incialmente,


de emancipação em relação a um texto pré-estabelecido, a
uma sintaxe reguladora de formas e funções ou a um
encadeamento “lógico” dos espaços segundo parâmetros
funcionalistas pré-estabelecidos, para em seguida, tornar-
se inspiração, inspiração capaz de traduzir-se em atividade
“libertadora”, em liberdade de escolha, pois lida com uma
ruptura com o enunciado e o previamente anunciado para
aquele espaço. (GUATELLI, 2011.p.31).

O entre de Guatelli (2011), é um aviso de envento de ruptura e resistência aos


modos urbano reguladores, também uma força/conceito de pensar modos de fazer
arquitetura e urbanismo a fim de que essa anuncie novas posturas além daquelas
pautadas em rígidas dicotomias geradoras de formas programáticas, ou mesmo, de

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                           
distinções   entre   campo   e   cidade”   (MONTE-­‐MÓR,   2010.p.   13).   Em   Urbanização   Extensiva   e  
economia   dos   setores   populares.In.:   ArteCidade   –   PUC-­‐SP.   Disponível   em:  
<http://www4.pucsp.br/artecidade/mg_es/textos/urbanizacao.pdf>  
5
 Para  Zourabichvili  (2004)  devir  é  um  estado  de  instabilidade,  de  um  evento  em  potência  
sempre  em  movimento.  Algo  a  tornar-­‐se  à  transformer-­‐se  por  eventos  no  espaço.  
métodos de reconhecimento urbano que visualize relações além das obejtuais, mas de
forças e tensões presentes no espaço que agenciam6 a experiência corpo/espaço.

Por isso, o entre movimenta o processo dessa pesquisa e, por anunciarem


eventos outros na cidade focou-se metodologicamente em reconhecimentos de rastros
do espaço urbano, como “espaços residuais aparentemente sem uso das cidades, as
sobras, estariam sempre abertos ao constante processo de apropriações diversas, (...).
(GUATELLI, 2012. p. 10)”.

LINK  –  P.06  do  “Cartografia  dos  quintais”  


GLOSSÁRIO  –  TERRITÓRIO/  RURAL/URBANO/CORPO  

Os rastros como processo é tratar os devires urbanos tão paradigmáticos para


a Arquitetura e o Urbanismo, pois, são heranças de universos passados e entre
anúncios de futuros possíveis - podendo chamá-los de reminescências desses
ambientes resistentes às manobras urbanas. Eles marcam os limites que discussão em
Arquitetura e Urbanismo pautada na relação sujeito-objeto se esgota face aos eventos
múltiplos da experiência urbana – adiante, o texto tratará mais atentamente sobre este
aspecto, correlacionando os rastros com a ideia de processos subjetivos no espaço. O
que importa aqui, é que os rastros como processo pelos seus aspectos de entre
espaços, superam a forma como ponto máximo de pesquisa e abrem um campo
potente de pensar para os atributos do espaço e reconhecimento da múltiplas lógicas
espaciais.

Por fim, concordando com Jane Jacobs (1961), existe um poder de expansão e
homogeinização da cidade através do pensamento urbano. No entanto, nas situações
urbanas, mesmo as mais racionais, existem eventos de apropriação expontâneas dos
usufruidores e espaços residuais da cidade que pode ser visto pelos rastros de
apropriações - além dos movimentos programados como os bares, restaurantes nas
calçadas e pedestres, que a autora aponta como “vigilante” e “vivo” do urbano – pois,
os rastros desses eventos são a instabilidade e indefinição do espaço urbano que
surgem expontâneamente como superação e crítica aos modelos elencados e racionais
de tratar formas e desenhos Arquitetônicos e Urbanos.

Ver-se-à que os rastros além de escapulirem aos programas do urbansimo, ou


seja, desprogramados, são também, (re)programadores dessa cidade atual uma vez
que suas apropriações marcam eventos no espaço que abrem possibilidades de
repensar a vida urbana e suas práticas. Esses tipos de rastros na cidade podem ser
sinais de afastamento e esquecimentos desses locais anteriores à urbanização, como
espaços de naturezas ou espaços rurais, quase apagando-os da área urbana ou, marcas
de apropriações (des)programadoras dos espaços.

                                                                                                               
6  Para  Zourabichvili  (2004:9)  agenciamentos,  termo  da  teoria  de  Gilles  Deleuze,  traduz  as  

multiplicidades  e  misturas  das  tensões  de  contato  de  um  movimento  com  os  elementos  da  
experiência  de  feitura,  também  heterogêneos.  Dessa  forma,  são  aqui  entendidas  como  
linhas  de  fuga  para  realidades  outras  que  (des)territorializam  ou  seja,  das  inúmeras  
interpelações  que  a  experiência  urbana  anuncia.  
Nesse trabalho, focou-se em rastros de ruralidade na cidade à fim de
desenvolver uma atualização das noções e atribuições do Urbanismo e da Arquitetura
acerca da relação campo/cidade, tentando não reduzir a simples dialéticas, se não o
contrário: do arquiteto e do urbanista de trabalhar com possibilidades de naturezas e
ruralidades da cidade atual.
LINK – P.41 do “Cartografia dos quintais”

GLOSSÁRIO – INTERTEXTUALIDADES/SABIÁ/RASTRO/SUBJETIVIDADE/  
MEMÓRIA/ESQUECIMENTO

É preciso apagar os rastros no jardim. Se ao plantar uma


árvore, o jardineiro não ocultar os rastros deixados pelo seu
movimento, sua planta vira presa fácil para formigas. As
acáceas por exemplo, são presas procuradas pelas formigas
cortadeiras.

Pelo caminho até a cova da acácea deixado pelo jardineiro,


pelas pegadas, pelos vestígios de terra deixados para trás e pelo
capim mais baixo causado pelo movimento até a cova, as
formigas cortadeiras seguindo esses rastros chegam até a
árvore e ao encontrá-la, cortam todas suas folhas, destroem-a,
dessecam-a, transformam-a em outra coisa.

Ao plantar, bagunce os rastros, deixe vários vestígios de


folhagens secas com sentidos para vários caminhos – sem
sentido. Bagunce o entorno e esconda o pé da acácea. Livro de
“Cartografias dos quintais”.

II   - Partido – Amácio Mazzaropi e rastros rurais na cidade: uma condição


híbrida rural/urbana

Abre-se nesse ponto uma possibilidade de estabelecer uma relação mais


atualizada acerca do rural e urbano comumente tidos numa relação dicotômica e
continuum:
De uma maneira geral, as definições elaboradas sobre cidade
podem ser relacionadas a duas grandes abordagens: a dicotômica e
a de continuum. Na primeira, o campo é pensado como meio social
distinto que se opõe à cidade. Ou seja, a ênfase recai sobre as
diferenças existentes entre estes espaços. Na segunda, defende-se
que o avanço do processo de urbanização é responsável por
mudanças significativas na sociedade em geral, atingindo também
o espaço rural e aproximando-o da realidade urbana. (MARQUES,
2002, p. 7).

Tal aproximação sugerida é entendida como algo que supera divisões e


setorizações entre esses universos reduzidas a dicotomias entre o que está dentro e o
que está fora, ou do perímetro urbano ou do rural, e parte para entendimentos no
sentido da experiência do usufruidor, evitando inventar questões do tipo sobre o que é
rural ou o que é urbano, mas de tratar intertextualidades entre essas realidades que,
supõem-se, unirem-se integrando e uma condição híbrida que discorre-se adiante.

Retomando as noções sobre o rural e urbano no Brasil, viu-se que a fim de


lançar a ideia de país em desenvolvimento à essa massa de novos habitantes do
urbano, é possível visualizar em Amácio Mazzaropi o que se aponta aqui como a
aglutinação desses dois universos rurais e urbanos, num só sujeito presente no espaço
da cidade – ou, como um sujeito é atravessado por identificações de dois universos
formadores de sua condição e experiência espacial. O seu personagem Jeca Tatu traz
códigos que comunicavam noções de universo rural e de urbano que atingiram muitas
platéias, contribuindo para consolidar a “visão de um passado brasileiro” superado e
oposto aos caminhos de um país moderno (BRAGANÇA, 2009).

O caipira Jeca Tatu, febre na década de 1950, traz em si cruzamentos dos


territórios rurais e urbanos pelos quais passou e, no decorrer dos 33 filmes7 percebe-se
como o personagem, cada vez mais em contato com a cidade, deixa de acessar suas
subjetividades, identificações e memórias rurais, chegando ao ponto de se mudar para
a metrópole paulista.

Tomado dessa forma, por hábitos e padrões urbanos ele é acometido a uma
possível incapacidade de acessar as nuances de uma subjetividade rural, devido aos
rompimentos de mudanças territoriais8 e de rupturas com símbolos importantes para a
construção desse sujeito - o que pode evidenciar um poder da cidade de sobrepor uma
homogeinização às características híbridas e diversas. Nesse sentido, as imagens e
discursos que chegavam aos espectadores da época, é da ordem de um campo
deformado e em processo de superação social rumo à urbanização. Essa figuração
atribuída ao campo exclui possibilidades evidentes de contato e relação com as
referências rurais e de poder à essa condição diversa e mesclada das experiências no
espaço.

A indústria cultural lida com homogeneizações, estereótipos e


padronizações, e o caipira de Mazzaropi, ainda que traduzisse todo
imaginário ligado à cultura rústica do interior paulista, também
adotava mecanismos de pasteurização. (BRAGANÇA, 2009,
p.110)

Possivelmente, essa condição reverbera numa produção espacial dissonante


das diversas nuances e sensibilidades corpóreas desse sujeito que, por sua vez, usufrui
numa experiência empobrecida do espaço urbano   –   onde prevalece forças de
homogeneização de uma cidade caminhante à sociedade urbana 9 (LEFÉBVRE,
1999).

Do processo de produção da sociedade urbana é possível diagnosticar que da


atualidade a experiência e produção da cidade não tangem as dimensões heterogêneas
e imateriais que compõe o espaço, como: as multiplicidades das experiências e dos
seus múltiplos cruzamentos. Se não o contrário, testemunha-se a produção de cidades
                                                                                                               
7
 Nessa  época  a  editora  Vera  Cruz,  à  qual  Mazzaropi  pertencia,  lança  33  filmes  (de  1952  a  
1980),  marcando  várias  gerações;  com  o  gênero  “Comédia”  acessava-­‐se  ainda  com  mais  
potência  os  espectadores.  Para  as  produções  e  ficha  técnica  dos  filmes  ver  série:  “Mazzaropi  
-­‐  o  Adorável  Caipira  –  Coleção  DVD’s,  Focus  Filmes”.    
8
 É  definido  aqui  como  um  espaço  simbólico  carregado  de  referência  identitária,  ou  seja,  o  
espaço  que  carregamos  na  nossa  memória  e  depositamos  as  nossas  referências.  Deleuze  e  
Guattari  (1995)  ainda  falam  do  território  como  espaço  "expressivo",  aquele  de  que  
"necessitamos  espiritualmente  para  nossa  identidade  e  que,  à  partir  dele,  desenvolvemos  
um  fator  de  resistência  e  força  -­‐  uma  capacidade  de  poder”(ZOURABICHVILI,  2004.p.24).  
9
Para   o   conceito   de   sociedade   urbana   e   suas   implicações   sócio-­‐espaciais,   ver:   LEFÉBVRE,  
Henri.  “A  Revolução  Urbana”.  Belo  Horizonte:  Editora  UFMG,  1999.  
como capital financero, afastadas das dimensões culturais e corporais de seus
usufruidores - caminhando em direção à um urbano limpo e homogêneo.

Se o Jeca Tatu, aqui tratado como revelação dessa relação rural e urbana por
ser um dos representantes mais difundidos da cultura caipira no Brasil, é visto na
atualidade como algo cômico e superado, onde então vivem as memórias ativas do
universo rural?

Fala-se de uma aproximação das reminiscências e rastros rurais na cidade não


a fim de um retorno à outro tempo, mas sobretudo para complexificar os
entendimentos sobre os cruzamentos urbanos, como lugar de uma condição de
diversas forças mesclando-se, e, se tratando de uma relação rural/urbana, carece
reconhecer (forma, hábitos e forças) no urbano a outra parte formadora, a rural.

É possível reconhecer na personagem Jeca Tatu parte sedimentação do sujeito


moderno brasileiro como essa figura apática, cômica e destacada das múltiplas
referências subjetivas e, dele como um produto de um tempo de reformulações das
identidades nacionais - como eram comunicadas e expandidas para outras construções
do tempo, como a cidade. Se o sujeito não habita e nem é habitado por referencias
rurais, produz-se espaços urbanos frios e dissonantes das nuances do seu usufruidor.

Dessa forma, partindo da discussão de Costa (2007) sobre o processo de


negação do corpo pela arquitetura na condição contemporânea, é possível traçar um
paralelo entre a experiência do Jeca Tatu, que vindo da zona rural se muda para a
cidade, com a atual condição do corpo dessensibilizado devido à essa nova paisagem
tecnológica e urbana, sobre a qual habita. Da imagem do Jeca Tatu até o meio no qual
foi divulgado, o cinema, eles marcaram o auge do advento e das mudanças
tecnológicas que pautaram novos ritmos de tempo e espaço que a evolução urbana e
tecnológica no Brasil enfrentou, sem deixar de atingir e interferir até na sensibilidade
e indentificações do corpo.

Falar de movimentos extraordinários no espaço urbano é ir de encontro a


diagnósticos espaciais que desconsideram a sensibilidade e capacidade do corpo em
sedimentar suas nuances no espaço, sem cair no raciocínio arquitetônico, que
normalmente negligencia as dimensões múltiplas da relação corpo e espaço,
entendendo como fundamento usar esse corpo como referencial teórico e projetual
para pensar a arquitetura e o urbanismo (COSTA, 2007).

É possível ver na experiência do Jeca Tatu a disperção da relação desse com


suas subjetividades rurais, caminhante à situação urbana que desconsidera as
sensibilidades do corpo. Voltando à discussão de Guatelli (2011) sobre o poder de
pensar uma arquitetura como suporte e meio de dispertar no usuário forças criadoras
no espaço, caminha-se para a noção de o corpo além de ser fonte de múltiplas
experiências de espaço mas, também, potência criadora de espaço e, dessa forma
sedimenta e molda espaços com suas referências – evidentemente que fala-se aqui do
corpo como produtor de espaço nao aqueles escultóricos e formais, mas de pequenas e
sutis (de)formações na racionalidade espacial. Onde no espaço urbano o sujeito
usufruidor de referênciais atravessados pelos dois universos (rural/urbano) consegue
sedimentar na cidade as identificações rurais?
Voltando aos rastros que denotam uma presença e relação espacial e subjetiva
rural/urbana, investigação desse trabalho, viu-se que nos meados do século XX o
processo de urbanização das cidades francesas produziu espaços percebidos por
Lefébvre (1969) como as "ilhas de ruralidade" na cidade, pelas permanências de
rastros da vida rural, mal adaptados e transfigurados, na cidade industrial e que
denotavam uma presença corporificada por usufruidores que moldavam os espaços
urbanos com materiais, referências e hábitos que não encontravam somente em
equipamentos urbanos anteparos para suas experiências, mas sobrepunham essa outra
layer de movimento na cidade.

No Brasil, tais “ilhas de ruralidade” podem ser ora mais evidentes, variando
com a densidade e costumes do urbano em questão. Acredita-se que as ruralidades nas
cidades brasileiras estão presentes como espaços e mesmo hábitos e que são
perpetuadas por uma sociedade com fundamentos rurais mas também, podem ser
vestígios rurais deixados pelo urbanismo extensivo e desmedido que discutiu-se
posteriormente, de um agente de planejamento desmedido que deixa nós na cidade
como espaços de diversas urbanidades em si. Como não só rurais/urbanos, mas
também entre áreas verdes isoladas na cidade e entre áreas construídas, entre bordas
da cidade onde não se andençou ou mesmo em praças e centros que marcam traços de
apropriações expontâneas face à racionalização da urbanização ao movimento vivo da
cidade.

Se há no corpo da cidade brasileira essas marcas e sujeitos como Jeca Tatu,


áreas paradigmáticas e movimentos subjetivos com referências rurais face às noções
conceituais e espaciais da Arquitetura e Urbanismo, elenca-se um momento propício
para perceber não somente a expressão de avanço do urbano, como também para
parar e olhar atentamente suas marcas e outras realidades formadoras do tecido
urbano com suas realidades mescladas: espaços na pele da cidade, portanto,
urbanidades híbridas, sejam rurais-urbanas, naturais-urbanas ou outras, tal hibridez
designa força de resistência de identidades e subjetividades aos movimentos artificiais
urbanos.

Desse ponto de partida, constata-se que nos caminhos da formação da cidade


no Brasil face às relações entre rural e urbana, houve certo esvaziamento nas noções
de que o espaço urbano é formado por hábitos diversificados e híbridos, à partir dessa
aglutinação de dois universos em um só: híbrido rural/urbano – carecendo então, um
olhar atento às partes formadoras desses universos meclados e, assumir que portanto,
uma produção de espaço e experiência na cidade que entendam e coloquem em valor
as diversas identificações e memórias a fim de uma possível atualização da
experiência urbana atual, esvaziada e impessoal (COSTA, 2007), concordando que há
um sujeito com identificações no universo rural e no urbano.

Desvelar tais espacialidades da cidade contemporânea e, suas experiências


torna-se também ponto central do trabalho “Cartografia dos quintais”, apontando as
frestas e brechas em que se encontram essas reminiscências para mostrar que ainda se
carrega rastros do universo agrário nas memórias e símbolos da vida na cidade-
campo. Suas reminiscências resistem: não nas noções de cultura erudita e políticas,
mas, sobretudo, no “fundo” das práticas, espaços e eventos da cidade atual e em
vestígios de espaços anteriores à urbanização.
Os rastros por si, evidenciando uma presença anunciante de outras possíveis
condiçoes e eventos, marcam um espaço híbrido entre e um espaço existente e um
enunciado – abrindo para traços potenciais no espaço, num jogo com as múltiplas
circunstâncias espaciais – leva a investigar quais são os rastros do campo, as
ruralidades, que trazemos em nossas memórias, espaços e práticas urbanas diárias e
que se mesclam com os hábitos urbanos e, como a arquitetura pode manipular, sem
prescrever e definer formas, desses movimentos para produzir experiência na cidade
com poder de evidenciar os lados integrantes dessa condiçao híbrida?

III – Produto - Os quintais como rastros:

“Quintais, essas pequenas porções particulares


onde são transplantadas paisagens, naturezas
domesticadas, conformam uma parte que fica entre nossos
desejos de aproximação com uma paisagem e a estratégia
alimentar de plantar e comer.” (CORTEZÃO, 2010. p.
260).

Responder à questão anterior, tarefa difícil, nos leva a uma quase


desintegralizaçao dos domínios da arquitetura ou, melhor dizendo, parece poder ser
respondida fora dos limites dessa disciplina devido ao caráter dos componentes dessa
questão. Hábitos e memórias nos levam a acontecimentos casuais e fenômenos que
parece não ser captado pelas ferramentas da Arquitetura e do Urbanismo. De fato a
questão proposta atravessa e comunica com outras disciplinas mas, por serem eventos
que tocam a discussão de espaço vale-se trata-la no curso de Arquitetura e Urbanismo
a fim de que enuncie produções acadêmicas que visualize suas influêncis sociais e
espaciais na sociedade.

Propõe-se nessa parte do texto respondê-la sob a perspectiva espacial a fim de


melhor comunicar as questões envolvidas, para voltar-se posteriormente, aos
processos subjetivos que envolvem esses espaços. À partir desse entendimento das
múltiplas logicas, entende-se uma atuação em arquitetura mais próxima às
complexidades de relações do espaço, do corpo e das múltiplas forças do urbano –
como um pensar que já se estimule por parte das realidades formadoras do espaço.

Veremos que o trabalho de design que assume essas relação de evento no


espaço e forma urbana, extraordinários às previsões racionais da arquitetura e do
urbanismo, trata portanto de um trinômio de atuação: da influência e reverberação de
um evento na cidade sobre os outros, da resultante dessas experiências e, por fim, do
“processo de (des)articulação das parte, que parecem ter um grau de definição, (...)”
(GUATELLI, 2012. p.23).

LINK  –  P.O6,  P.64  do  “Cartografia  dos  quintais”  


GLOSSÁRIO  –  RASTRO/  LEMBRANÇA/QUINTAL/MEIO/LOTE  VAGO  

Experimentando atentamente a cidade por suas ruas ora, revelam-se os


quintais como anúncios de interiores que compõem parte da vida urbana. Eles estão
resguardados pelas construções – e entre elas, existem como organismos internos às
casas. Afirmando-se como espaços contrutores da cidade e sua ambiência urbana, o
estudo sobre os quintais toca as trocas entre interior e exterior – do que transborda
para o urbano das privacidades desses lugares internos.
O estudo que se desenrola analisa esse elemento urbano, o quintal, como
representante de relações rurais na cidade à partir das redes de inter-relações corpo e
meio que existem entre as partes constituintes desse espaço - podem traduzir novas
potencialidades espaciais dentro da cidade à partir do que eles anunciam como relação
dentro do urbano e do usufruidor com o meio. Muitas vezes negligenciados ou
colocados à parte do pensamento urbano, carece pensar essa presença até hoje
marcante no cenário urbano e no modo de vida local.

Os quintais, espaços externos à casa mas interiores à vida urbana, são tomados
como ilustradores desses produtos de uma urbanização que deixa no corpo da cidade
rastros de ambientes anteriores. Vistos num primeiro momento, são lugares formados
por forte memória natural e antrópica, assim marcados por faunas e floras ali latentes,
juntamente com traços de movimentação humana como hortas e fragmentos de
materiais – fomando um meio mesclado e híbrido de relações dentro do espaço
urbano com elementos variados constituintes desse espaços que comunicam e
interrelacionam na cidade atual a fim da construção de uma experiência urbana
próxima às referências formadoras do espaço.

Os quintais e seus traços históricos

No período colonial o meio rural sob o poder da oligarquia agrária brasileira,


era destinado às produções de monoculturas do café e cana-de-açúcar resultando
numa estrutura “semifeudal – uma minoria de brancos e brancarões dominando
patriarcais, polígamos (...), escravos, lavradores, agregados e vassalos” (FREYRE,
2003. p. 33). Paralelo a esse sistema, havia, em outra escala, as relações dentro da
casa grande, local que abrigava e fomentava toda a estrutura sócio-econômica e
habitava nessa unidade escravos, lavradores e os senhores das terras.

Em “Casa grande e Senzala” Gilberto Freyre ensaia sobre a contribuição da


sociedade agrária, do índio e do português para a formação da sociedade brasileira,
servindo como suporte para entender fundamentos espaciais e comportamentais que
essa cultura traz para as noções de espaço e habitar no Brasil. Em se tratando dos
movimentos agrários e suas influencias, o que esse trabalho investiga, a Casa Grande
foi o centro de coesão da sociedade brasileira onde traduzia todo o sistema
econômico, social, político, religioso e sexual no Brasil e, sobre a qual Freyre (2003)
disserta dos desdobramentos sócio-culturais que reverberavam no brasim a partir da
casa grande e suas espacialidades e que ela contribuia para um “antagonismo
equilibrado” das partes socialmente distintas que compunham aquele espaço10.

O que o quintal da casa-grande, normalmente situado num espaço entre o


casarão e a senzala, realizava como equilíbrio dinâmico agrário e espacial e, o que
possivelmente esse espaço influencia nas noções brasileiras de habitar?

                                                                                                               
10
 Equilíbrio  dos  Antagonismo  é  a  tese  defendida  por  Freyre  em  Casa-­‐grande  &  Senzala  no  
qual  entendia  esse  sistema  de  espaço  que  continha  senhor  de  engenho  e  escravo  num  só  
espaço,  como  a  garantia  garantia  da  unidade  e  da  força  da  sociedade  brasileira  na  época.  
Para  ele,  entender  as  condições  políticas  e  sócio-­‐econômicas  do  brasil  seria  reotmar  à  
investigações  acerca  dessa  estrutura.  Para  o  desenvolvimento  posterior  à  tese  de  Casa-­‐
grande  &  Senzala  ver:  FREYRE,  G.Sobrados  &  Mucambos.  16a  edição,  São  Paulo;  2006.  
 
No período colonial, os quintais suportavam toda a dinâmica interna da casa,
desde criação dos alimentos com as privadas criações de animais e as pequenas
plantações. Os quintais também eram locais onde habitavam a mão-de-obra da casa
grande e por onde passavam os escravos para exercer suas atividades e irem à
caminho da senzala. O quintal nessa época era o meio de interrelação entre casa
grande e senzala, interação essa que acontecia de variadas formas.

A dinâmica que se processava entre as relações da Casa Grande e da Senzala


Freyre (2003), ou seja, muitas delas nos quintais, agiam de forma a equilibrar os
antagonismos da sociedade e era exatamente neste equilíbrio que se pautava a coesão
da sociedade. O equilíbrio antagonista de Freyre (2003) visto à paritir dos quintais
marcam a produçao de símbolos e códigos de partilha entre senhores e escravos e,
como influenciavam na qualidade de vida dos senhores fazendeiros e seus escravos –
por exemplo, as festividades como casamentos ou, celebrações de boas colheitas
aconteciam nos quintais e em momentos que os diferentes estratos sociais se
interpenetravam. O autor, segue sua tese defendendo que a sociedade brasileira existiu
de forma coesa e equilibrada graças à estrutura da Casa Grande e, por isso o autor vê
na tradição caminho de retomar valores perdidos com o advento da modernindade no
Brasil.

O descobrimento do ouro e o início da urbanização no brasil os quintais não


perderam a força e se transformaram em talz em casas urbarnas, os sobrados. Muitas
dessas construções pertenciam a senhores de terras que tinham casas de passeio
urbano ou, já se arriscavam à uma vida urbana confundindo nessa época os
patriarcardos da cidade com o do campo Freyre (2003). Alguns sobrados, pelas
produtividade dos seus quintais, gozavam de autonomia econômica possuindo em
suas dependêcias, chiqueiro, cocheira, horta, pomar, viveiro e pequenos abatedouros.

Vale notar que possivelmente os quintais, nessa época de produção


latifundiária no Brasil representaram a garantia de uma alimentação e nutrição diversa
e mais saudável. Com as privadas colheitas e criações nos interiores da casa eles
garantiam a família além do que seus latifundios podiam fornecer. Eles foram
provavelmente na cidade e na casa grande, um caminho para a produção de comida e
nutrição variada que era possível no quintal, uma vez que esses locais heterogêneos
em espécies de frutos, animais e hortaliças, eram o oposto do que os fazendeiros da
época investiam como produção agrária: os grandes latifúndios de monoculturas,
sobretudo na época, o café e a cana de açúcar. Carece nesse ponto, um estudo acerca
da nutrição da época e o que a comida produzida nos quintais forneciam de partilha e
qualidade de vida entre senhores e escravos.

Para o presente trabalho seguimos nas noções espaciais dos quintais e o que
possivelmente contribuiram para habitar cidade e vida privada no Brasil e como eles
reverberam na atualidade.

A evolução dos espaços entre rural/urbano na cidade pode ser percebida no


interesse dos pintores modernistas brasileiros como Arthur Timótheo da Costa11, que
                                                                                                               
11
 Arthur  Timótheio  da  Costa  (1882-­‐1922)  foi  artista  crescido  no  Rio  de  Janeiro-­‐RJ  que  
trabalhava  na  Casa  da  Moeda  na  época,  realizando  ofícios  de  desenho  e  pintura.  Teve  seu  
representou os quintais das casas, as domesticidades e criações traz registros de
momentos de contemplação desses espaços banais e cotidianos. Perceber a vida
cotidiana que se formava na época marca o interesse desses artistas com os quintais
uma vez que, desse ponto de vista, esses espaços permitem os hábitos mais simples,
rudimentares, humanos e privados da vida cotidiana caracterizando-os como espaços
muito possíveis. Por serem pequenas naturezas no espaço urbano, os quintais
compunham também um ideal de natureza para a época e do Novo Mundo desvelado:
exuberante e inesgotável. Essa grandiosidade, impressionava os pintores que
retrataram momentos cotidianos de contato com essas especificidades dos vilarejos.

Com o advento da modernidade, acredita-se que os quintais se trasformaram


gradativamente em varandas, vistas, pequenas cozinhas, jardins-terraços, jardineiras e,
em último grau, como áreas públicas no espaço urbano, marcando rompimentos e
transformações com espaços externos da casa na evolução do espaço privado da casa
no Brasil (VERÍSSIMO, 1999). No entando, os variados usos que os quintais
enquanto espaço permitiam aos seus usufruidores, sao ainda percebidos em algumas
cidades e, sobretudo naquelas de pequeno12, e médio porte por habitantes mais idosos
evidenciando a excepcionalidade dos quintais lembrarem ao usuário acontecimentos e
experiências as quais passaram, que afirma a permanência desses espaços na
memória.

É possível afirmar que a experiência cotidiana com os quintais, os aspectos


culturais e espaciais brasileiros estão exemplarmente contidios nos registros de
artistas como Arthur Timótheo, como vem investigando o Projeto Del Rei13 – locais
cheios de heranças, com poder de fazer lembrar e de marcar sensações nos sujeitos
que os habitam, vendo rastros de suas identificações.

O trabalho de Freyre (2003) nos faz pensar equivalências da relação casa-


grande/senzala na atualidade. Poderíamos falar de cidade formal/infornal,
mansão/favela, por exemplo? Apesar das nuances devido à passagem do tempo
colonial ao atual, existe ainda a relação de subordinação e espaços que traduzem tal
discurso – de desigualdade. O interesse por tratar na Arquitetura e Urbanismo um
espaço entre como os quintais leva a pensar e tentar colocar o arquiteto face à espaços
que tragam novos textos para a cidade à partir do que há entre os “opostos” a fim de
que comecem a inscrever no tecido urbano algum ponto de equilíbrio, ainda que esses
pontos ora se fortaleçam ora, se desfaçam. Mesmo nos mais restritos quintais, como
uma única janela servindo de exterioridade ao espaço interno é possível ver marcas
desses traços humanos como criações de pássaros nas janelas dos quartos, flores
dependuradas e respostas às inadaptações das formas de morar como se "existe ainda
um Brasil original, que perpetua sua cultura, grande demais para sucumbir diante das
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                           
trabalho  como  artista  divulgado,  resultando  na  entrada  para  a  Escola  Nacional  de  Belas  
Artes  do  Rio  de  Janeiro.  Ver  figura  em  “Cartografias  dos  quintais”  página  10  e  biografia  do  
artista  em:  <http://museuafrobrasil.org.br/pesquisa/indice-­‐biografico/lista-­‐de-­‐
biografias/2014/12/02/arthur-­‐timotheo-­‐da-­‐costa>  Acesso  em:  Agosto  de  2015.  
12
 Definida  baseado  no  senso  do  Ministério  das  Cidades  de  à  partir  de  500.000  habitantes  
para  cidades  de  médio  porte  e  de  1.000.000  para  cidades  de  grande  porte.    
13
Projeto   Del   Rei   coordenado   por   Gedley   Belchior   Braga   pesquisa   e   levanta   de   obras   de  
artistas   brasileiros   do   século   XIX   e   XX   com   relevância   para   História   e   Arte   brasileira   antes   da  
Semana  de  Arte  1992.    
imposições externas e capaz de nos oferecer subsídios suficientes para sua plena
compreensão" (VERÍSSIMO, 1999, p. 29).

Quintal na atualidade, o traço político do Celina Viegas – São João del


Rei

A intensificação da vida urbana na época pós-colonial movimenta a cidade de


São del-Rei, expandindo-a pelas forças do capital do ouro e vontades políticas
vigentes naquele momento de modernizer a cidade. Fruto disso, e, considerando a
afirmação de Maldos (2000, p. 03) a cidade deixa em sua malha urbana grandes
loteamentos com profundos terrenos cheios de massas verdes, alguns “inclusive com
saída para rua de trás”.

Movida por essas forças naturais e antrópicas, a malha urbana de São João del
Rei se forma de maneira muito particular quando se analisa a heterogeneidade dos
espaços: marcados pelos contrastes e limites entre casa próximas às betas, as
ocupações urbanas fechando parcelas de pequenas fazendas, ou mesmo as áreas de
preservaçao das duas serras (Lenheiros e São José) que circundam a cidade.
Particularidades poucas vezes, consideradas em estudos do planejamento urbano e,
nas leis patrimoniais federais que apegam "miudezas" patrimoniais como maçanetas e
portais.

LINK – P.18, P.64, P.72 do “Cartografia dos quintais”

GLOSSÁRIO – QUINTAL/PROCESSO/NATUREZAS
DOMESTICADAS/COMIDA/TÉCNICAS/SUBJETIVDADE  

Relata-se nessa parte do texto experiência de trabalho no quintal Celina


Viegas, localizada nos fundos do terreno da creche Celina Viegas em São João del
Rei-MG. Tais experiências retroalimentaram essa pesquisa e seus registros
construiram o livro “Cartografia dos quintais”, no qual encontra-se técnicas, saberes
subjetivos e receitas que são depositados no espaço pelos seus usufruidores, a fim de
cristalizar esses processos subjetivos que discutiremos à diante e como formas de
lidar com espaços, trocas de laços e movimentos o espaço urbano. Vislumbrando
enfim, a formação de um material que levante parte dessas relações no espaço e
contribua para a Arquitetura e Urbanismo trabalharem e se comunicarem com esses
saberes e condicionantes do espaço.

O olhar da arquitetura e urbanismo ao quintal público tomou um caráter de dar


força e empoderamento à esses processos sutis, pessoais e sensíveis com o espaço
urbano. Como dar força ainda maior à um espaço de apropriação expontânea?

A pesquisa, segue diversas pessoas com seus processos de gerenciamento dos


seus quintais. Aqui, expondo duas, tem-se: Dona Eliana, que cuida da horta urbana no
quintal da escola primária Celina Viegas em São João del-Rei; e Vô Juquinha,
responsável por uma rede de três quintais também em São João del Rei, Minas Gerais.
Como a pesquisa foca nos formas desses usufruidores apropriarem com o espaço e
suas produções – a micro-escala da ação na construção de dinâmicas urbanas mais
complexas -, o contato com D. Eliana e Vô Juquinha foi construído em próxima
relação com cada um deles, num sistema de cooperação em suas rotina, a fim de
ganhar intimidade com tal forma extraordinária de lidar com o espaço.

O impacto que Dona Eliana e Vô Juquinha conseguem realizar em suas vidas


e vizinhança é aqui como uma outra dimensão de processos e ações dentro do espaço
– esses processos subjetivos de desenhar relações extraordinárias ao desenho urbano
ou cartográfico racional.
LINK – P.24, P.72 do “Cartografia dos quintais”

GLOSSÁRIO – PROCESSO SUBJETIVO/CARTOGRAFIAS/ECOLOGIAS


SUBJETIVAS/SUBJETIVIDADES/  

O impacto do trabalho de D.Eliana atualmente corresponde e atinge centenas


de pessoas, à partir do quintal no qual ela trabalha com mais sete agricultores urbanos,
além da colaboração de volutários trabalhando em associação há cinco anos com
resultados significantes dentro da cidade – todos distribuindo alimento orgnânico e
fresco para duas escolas primárias. Por essa razão, dona Eliana foi nomeada
conselheira popular do Conselho Municipal de Segurança Alimentar, local no qual ela
articula e defende politicamente seus processos subjetivos e sua forma de apropriar da
cidade através da sua visão de comida orgânica e slow food, agricultura urbana e
agroecologia à partir da pequena parcela de seu quintal – isso prova como os
processos subjetivos que discutiremos adiantes pode cruzar múltiplas instâncias de
poder à partir de articulações possíveis.

Vô Juquinha, por sua vez, gera impacto quantativamente menor mas, o que
torna sua aproximação do espaço urbano importante como processo subjetivo se trata
da sua habilidade de apropriar de espaços e lotes vagos na cidade, negociando com
donos desses locais nos arredores de sua vizinhança. Curiosamente, ele nao tem um
quintal em sua própria casa mas à medida que ele vê um espaço vago na sua
vizinhança, ele negocia com o dono o uso para plantio e produção de comida à partir
desse pedaço de terra, retribuindo posteriormente com presentes de. Durante esse ano
de pesquisa, ele pôde produzir à todo tempo base alimentar mais diversa à toda sua
família e, como “sempre sobra algo” ele compartilha e troca sua produção com
vizinhos – à partir desse lógica, ele desenha uma rede de relações afetivas,
econômicas e de nutrição dentro do espaço urbano.

Assumindo que essas relações podem tocar vastas questões acerca do espaço
urbano expande-se aqui o conceito de rural/urbano, enquanto meios opostos por
condições espaciais e de organização de elementos para uma noção de meios
interligados por redes de saberes; espaços e trocas interpessoais indicando também
uma necessidade de urbanismo e arquitetura que tratem e envolvam os eventos no
espaço urbano, as experiências resultantes deles e, às quais articulações eles levam – à
medida que essa rede cresce, ela se torna uma ferramenta para pensar políticas
urbanas efetivamente integradas com a apropriação das pessoas e com os diversos
espaços da cidade.

Buscou-se durante esse viés prático mostrar como o arquiteto e urbanista pode
transbordar essas forças reminescentes e de resistência no espaço, elaborando além de
atividades de jardineiro, projetos arquitetônicos e planos de gestão como formas de
dar mais vida a esse quintal. Movimentando esse quintal e empoderando-o, articulou-
se também, juntamente a Secretaria de Agricultura da cidade, idas a encontros sobre
saúde alimentar e prevenção de doenças com hortaliças orgânicas como a 6ª
Conferência Estadual de Segurança Alimentar e Nutricional Sustentável de Minas
Gerais, organizada pelo Conselho Estadual de Segurança Alimentar (CONSEA-MG).
Nesse ponto, é possível prever um efeito de transbordamento das redes de relações
interpessoais e afetivas com esse quintal, expandindo-o, dando-o outra escala além
daquela inicial: o quintal passa de micro a ter impactos em macro escala.

Com tudo isso, na continuação do trabalho espera-se receber ainda no ano de


2016, os subsídios do programa DAP-Urbana descrito anteriormente e de apoio a
organizações produtoras de orgânicos dentro do espaço urbano, pois com esse
programa será possível expandir o quintal e fornecer alimento para outra escola além
da Creche Celina Viegas.
LINK – P.06, P.18, P.24, P.40, P.64, P.72 do “Cartografia dos quintais”

GLOSSÁRIO – ECOLOGIA/ECOLOGIAS SUBJETIVAS/LEMBRANÇA/COMIDA/

 
Espera-se também que este trabalho contribua a compreender e ir de encontro
ao que há de mais complexo nessas situações de nós e rastros do urbanismo
brasileiro. Se em alguns outros países, com suas hortas urbanas, high line parks e
promenades plantées há uma força de envolvimento social com as questões desses
espaços e, incorporação à cidade, a situação do agricultor urbano ou rural e dos
habitantes desses locais no Brasil é grave: condenada à marginalização e
ridicularização, lançando-os à desigualdade social. O agricultor, o jardineiro, o
rudimentar e seus espaços de criação são banidos e colocados à parte e, uma vez nesse
estado, eles não produzem vida para seu meio e não há poder para habitar a cidade.

Importante notar que essas trocas subjetivas – aqui exposta as ruralizadas


como plantações e criações no urbano - marcam e desenham impactos além do
planejado e cartografado pela racionalidade do Planejamento Urbano. À medida que
esses processos subjetivos acontecem no espaço, relações são desenvolvidas e, por
consequência, uma rede de afetos se abre para novas articulações dentro do espaço
urbano com políticas públicas, manobras urbanas e planejamentos.

Nesse caso, o papel do arquiteto residiria na tentativa de promover


uma interação-articulação entre o definido e o não definido, o
desenho e o não-desenho, as macro-organizações e setorizações
espaciais e o engendramento de microssistemas programáticos,
(...). (GUATELLI, 2012. p.33)

Voltando à discussao exposta por Guatelli, esse trato com o urbano que se
investiga aqui chega nos processos subjetivos como forma de trabalhar a relação dos
eventos expontâneos com o espaço – à fim de pensar para a escola de Arquitetura e
Urbanismo uma atuação além da racionalidade excessiva da disciplina. É necessario
encarar como eventos dentro da cidade, dessas apropriaçoes como espaços já
produzidos, que acontecem autonomamente no urbano e, que faz com que o
arquiteto/urbanista/designer atue coagindo com esses eventos – o trabalho aqui
presente faz uso desses eventos para dicutirmos por fim uma experiência possivel à
partir desses processos.
Dos quintais, traços subjetivos – experiência espacial rudimentar
(de)formadora da cidade

Tomar partido desses sistemas de rastros de subjetividades no espaço gera


uma experiência do sensível aos componentes mais variados que formam o espaço,
variando e reprogramando a fruição prevista no desenho arquitetônico. O que se
investiga aqui é a força de resistência dessa experiência, reminescências e rastros de
forças que promovem outras frequências e lógicas espaço-temporal, levando a
processos mais subjetivas de experiências e visualização do corpo no espaço.

No sentido de pensar os movimentos subjetivos do ambiente, aqui entendidos


como marcas, rastros e atividades expontâneas no espaço, Gilles Clément e seu jardim
em movimento (jardin en mouviment), referência fundamental para arquitetura e
urbanismo, vai tratar desses movimentos no espaço como rizomas, devires e rastros
(des)territorializantes do meio.

O jardinier para tanto, tem a função de buscar o movimento caótico,


fragmentário, cheio de rastros e linhas do seu jardim, não interrompê-los, nem mesmo
criá-los, mas de gerir o movimento - guiando-o com o seu desejo e sua experiência e
saberes acumulados nesse espaço. É portanto uma figura que capta a dinâmica
movente do espaço e se coloca como gerenciador dela, direcionando-a, modificando e
enfim, intervindo no espaço. Nessa tentativa, “o jardineiro interpreta no cotidiano as
invenções da vida, é um mágico”14. Tal caráter cotidiano do trabalho do jardinier trata
a noção da experiência diária, impulsiva, fragmentária e, como complementa Clément
(2011, p.19): “...antes de qualquer fato ele se ocupa do que vive. Carga esta singular,
que foge da capacidade de todos os atores do espaço público: arquitetos, os
urbanistas, os artistas, os diversos organizadores e, claro, os paisagistas”.15

Pois tal experiência insulada e próxima do que vive é muito cara para a
Arquitetura e o Urbanismo, sempre atentos à vida nos espaços, e, ela demonstra que
há uma presença co-produtora à atuaçao do planejador urbano no espaço urbano. No
entanto, há na figura do jardinier, uma diferença fundamental aos movimentos
subjetivos com o espaço; pois ele, ao guiar o movimento ecológico do jardim
interrompe um aprofundamento corpóreo-espacial e constrói um outro fluxo de
sentido e direcionamento do movimento do jardim, dessa forma mais matemática.
Essa sua última ação, denota um sujeito mais racional e menos entregue ao jardim; o
contrário de se ocupar com a intensidade da entrega e à simples continuidade da vida
do jardim, se sentindo como parte integrante desse espaço e percebendo as alterações
que aquele espaço traz ao seu corpo.

O jardinier em sua figura, lembra um desafio para a arquitetura e o urbanismo


acerca do quanto intervir ou, quanto apenas gerir, ou como preservar o movimento? E
sobre esse intervir como uma preservação do movimento heterogêneo e vivo do
espaço?
LINK – P.09, P.40, P.41 do “Cartografia dos quintais”
                                                                                                               
14
‘’…le  jardinier  interpréte  au  quotidien  les  inventions  de  la  vie,  c’est  un  magicien.’’(2011,  p.  
GLOSSÁRIO – SABIÁ/TÉCNICAS/PROCESSO SUBJETIVO/VIGÍLIA/RUDIMENTAR/
19.Tradução  do  autor).  
15
 ‘’…   avant   tout   il   s’occupe   du   Sabiá
vivant.  
atentoCette  
aoscharge   singulière  
ruídos graves comole   démarque  
trovões de  atous  
se coloca cantarles  
acteurs   de   l’espace   public  :   les   architectes,   les   urbanistes,   les   artistes,   les   aménageurs   divers  
anunciando chuvas quentes de Setembro. Aquele que cantava
et,  bien  sûr,  les  paysagistes.’’(2011,   nopquintal próximodo  
.19.  Tradução   à aescola,
utor)   parou imediatamente a melodia
quando percebeu que o som grave vinha dos tambores e
maracanãs ensaiando o desfile de 7 de Setembro. Livro de
“Cartografias dos quintais”. São João del Rei-MG, 31/08/2015.

 
Ora, se é que é possível preservar o movimento em arquitetura e urbanismo,
isso não pode ser justificativa para congelá-lo uma vez que o movimento do espaço e
suas experiências são, em si, mutantes. A fim de conseguir perceber o corpo que se
move e produz espaços Costa (2007) sugere uma “desorientação possível a partir de
tal fragmentação de lógicas e sentidos espaço-temporais” (ibid.p.81) - colocando a
arquitetura num outro campo de trabalho não somente tectônico e racional, mas atento
às imaterialidades e ressignificações de lógicas cambiantes e transformadoras do
ambiente.

Enquanto o jardinier se ocupa em gerir os movimentos do espaço em


redirecionamentos à outras direções, as forças de processos subjetivos de habitantes
como D.Eliana inscreve no espaço apropriações subjetivas em lacunas, espaços de
brecha ou mesmo quintais com práticas muito específicas e muito entregues às
condicionantes do ambiente. Os sujeitos que gerem quintais apropriam do espaço
urbano com hábitos como semeaduras, plantios, trocas de saberes na cidade e mesmo
caça de animais, criando, à partir desses processos subjetivos, diversas redes de
relações e lógicas espaço-temporais.

É para a arquitetura e o urbanismo, mais ainda, uma questão de olhar


ativamente para espaços que representem enquanto esse ser que necessita de
atividades específicas ou essas atividades subjetivas e, remontando o que Lefébvre
(1969, p. 105) defendia sobre processos que não se satisfazem em modos acelerados
de vida, mas que se tratam de “uma atividade criadora, de obra (e não apenas de
produtos e bens consumíveis), necessidades de informação, de simbolismo, de
imaginário, de atividades lúdicas” que acredita-se que como compila do livro
“Cartografia dos quintais” técnicas e saberes subjetivos que muitas vezes
negligenciados, são depositados de subjetividade no espaço, de necessidades de
criação e por isso de formação de espaço.

Tais processos com o espaço traz alguns desafios para a Arquitetura e o


Urbanismo: essas redes construídas por movimentos muito específicos na cidade são
construções no espaço; ainda que não obejtificadas ou materializadas, elas trazem o
desafio de construir novos pensamentos para além da rigidez do planejamento urbano
e dos entendimentos de apropriação de espaço. Há nessas contruções uma apropriação
e resigninação às incertezas da cidade e formas de produzir espaço e usufruição.

Trata-se de um corpo usufruidor numa experiência alternativa à organização


espacial vigente, desvelando apropriações, corporeidades, sensações e modos de vida
– uma possibilidade de renovações do corpo, espaço e dos métodos de trabalhar com
o espaço. São pequenos eventos e lapsos que permitem tais experiências de rearranjo
dos sentidos como momentos de abertura para rearranjo das atividades corporais e
espaciais.
LINK – P.41, P.42, P.43 do “Cartografia dos quintais”

GLOSSÁRIO – QUIETUDE/LEMBRANÇA/ESQUECIMENTO/RESPIRAÇÃO

“Era no quintal que eu parava respirava o cigarro


contemplando o vazio da mente e por um instante observar a
mim e minha respiração sem pensar e apegar a nada. Ela, por
sua vez fazia isso na sua janela.” Livro de “Cartografias dos
quintais”. Rio Pomba-MG, 16/08/2015.

 
Ao decidir tratar espaços reminescentes na cidade e mapear as vivências dos
locais que fomentaram a pesquisa, constata-se que os quintais são intrínsecos ao
contexto da vida urbana, de uma vida social e contrutores de experiência no espaço.
Esse corpo que habita os entre espaços e os quintais e, sedimenta na cidade alguns de
seus processos subjetivos produzindo (des)significações traz para a discussão da
experiência espacial, traços já percebidos por Guateli como “emancipaçao dos sentido
pressupostos como da concentraçao de possibilidades, jamais conduzindo a um
encerramento” (GUATELLI, 2012.p.59), ou seja, de uma necessidade que o próprio
autor fala de não finalizar a discussão do espaço em dualidades cheias de sentido e
simplificadora das dinâmicas complexas do espaço.

Ainda o mesmo autor, desenvolve à partir da teoria de Derrida que uma pausa
na produção de sentido e sim, da necessidade de nos “livrarmos de certas coisas como
condição para um enrriquecimento da consciência e, consequentemente da própria
coisa” (ibid. p. 60) – que entende-se aqui como o trabalho em design que não trata de
produzir razões e discursos cheios de sentido à partir dos eventos urbanos mas, que
sobretudo de articular e colocar em jogo os fenômenos presentes ao espaço ou
melhor, que perceba as potências de criação dos eventos e lógicas preexistentes no
espaço.

À medida que o trabalho “Cartografia dos quintais” mapeia o impacto desses


processos subjetivos com o espaço na produção dos quintais e seus entornos, pode-se
analizar que as marcas desenhadas por essas trocas específicas com o espaço – de
trocas de saberes, afetos e alimentos – embaça alguns conceitos e sentidos
preestabelecidos de público/privado, dentro/fora, natural/artificial e sujeito/alteridade,
aumentando a complexidade das micro-influências no desenvolvimento do desenho
urbano. Entende-se que há essa experiência subjetiva com o espaço e que ela cria
formas urbanas variadas e além das representadas na Arquitetura e o Urbanismo. No
entanto, resta a pergunta a cerca do que move esses processos? O que eles
representam enquanto esperiência estética do espaço? Poderiamos falar de uma
experiência especial específica desses processos?

V – Transbordamentos dos quintais

Experiência espacial - produção de presença no espaço

Tomando partido da citação de Guatelli sobre a produção de sentido e, para


trabalhar os processos subjetivos como construtores de espaço é importante tocar na
produção de presença, uma vez que trata da própria presença no espaço como
experiência produtora de relações e sensações no espaço. Gumbrecht (2010) disserta a
produção de presença como uma forma de criação que atravessa as produções de
sentido, à partir de questões “do que é?” e “para o que serve?”, para uma experiência
do mundo mais corporal e especial, na qual o estado de vigília (para o aqui e agora)
abra caminhos de comunicar entre corpo e espaço – caminhos subjetivos, menos
cartesianos, de construção dessa relação.

Nesse sentido, a produção de presença vista nesse trabalho, trata da relação


dos efeitos de uma experiência estética enquanto vivência do espaço – como aquelas
relatadas no caminho da pesquisa – e, pelo seu caráter de apropriação do vivido ela
toca um corpo presente entendido como:
Tipologicamente falando, a dimensão do sentido é predominante
nos mundos cartesianos, em mundos para os quais a consciência
(ou seja, o conhecimento das alternativas) constitui o cerne da
autorreferência humana. E não desejamos precisamente a presença,
não é o nosso desejo de tangibilidade tão intenso, por ser nosso
ambiente cotidiano tão quase insuperavelmente centrado na
consciência [realidade virtual, cérebro-software/mlm]? Em vez de
termos de pensar sempre e sem parar no que mais pode haver, às
vezes parecemos ligados num nível da nossa existência que, pura e
simplesmente, quer as coisas do mundo perto da nossa pele (2010,
p.134-5).

Dessa forma a presença é a evidência da proximidade das coisas e da sensação


desse contato como produtor de relações – e, é a proposta conceitual do autor para
tentar ultrapassar a dicotomia racional sujeito-objeto, reativando uma relação
corpo/corpos, discussão cara a esse trabalho que toma grande motivação à partir de
processos subjetivos tão presentes no espaço.

Miranda (2015) vê a produção de presença como caminho além daqueles que


a contemporaneidade entende e “cultura ocidental marcou como apropriadas para a
produção de experiência estética foram surpreendentemente pequenos e rígidos a
presença é ferramenta essencial para a sensibilização às relaçoes corpo e ambiente.

Vive-se num mundo de processos cotidianos desarticulados com as dimensões


corpóreas e, onde   a   presença   real   é   mediadas por tecnologias onipresentes.
Relembrando Costa (2007) sobre a negação do corpo pela arquitetura na atualidade e
a criaçao de outras experiências à partir das realidades tecnológicas, a experiência
enquanto produção de presença pode servir como reativação do corpo (do usuário e
do arquiteto) aos momentos de intensidade corpórea do cotidiano – numa posição
ativa e nao mais efêmera e descontraída no espaço (COSTA, 2007).  

Para design em Arquitetura e Urbanismo, com produção racional e esvaziada,


entender o corpo como partido e se lançar para a experiência da presença é estar
sensível à multiplicidade de elementos e estímulos do espaço, recebendo-os e,
percebendo-os aos que apontam como produção para arquiteturas, objetivando uma
exploração de formas de produzir experiências mais envolvidas com processos
subjetivos no espaço.

LINK – P.18, P.41, P.64

GLOSSÁRIO – PRESENÇA/RUDIMENTAR/ECOLOGIAS/COMIDA/QUIETUDE/

Numa dada plantação de pimentas, com seus arbustos


carregados de pequenas e vermelhos frutos, o corpo que as
colhe entra como uma postura rígida, certeira e presente na
imensidão daquela colheita. São semanas, ou mesmo meses, de
presença naquele espaço. O corpo quieto e imerso que executa
todos os dias o mesmo movimento de colher, é presente e
entregue ali, perdido na imersão daquela ação exaustiva de
colher quilogramas do ardido fruto, um ato de incorporação
dessa feitura. Entrega que coloca o sujeito num estado de
concentração e imersão no espaço, de experiência do “estar
ali”, incorporando as demandas daquele lugar cheio de
movimentos naturais e desconhecidos. O que há para fazer,
quando se entra nesse espaço, é deixar-se e, perder tempo para
apreciar os sentidos atentos ao corpo naquele ambiente e como
esse se deforma com as imposições da colheita, do movimento
e da crescente facilidade do se entregar. Livro de “Cartografias
dos quintais”. Rio Pomba-MG, 11/05/2015.
 
Visto que a experiência da presença causa momentos de sensibilidade ao
ambiente e ao corpo e, que intensificam o “funcionamento de algumas de nossas
faculdades gerais, cognitivas, emocionais e talvez físicas” (GUMBRECHT, 2010. p.
127) ela convida a uma aproximação do espaço urbano não como uma capacidade de
ler, de interpretá-los ou criar sentido a partir do espaço, mas de olhar para além do
que pode ser lido - é sentir o que está ali, lançando o corpo àquelas rugosidades e
marcas de diferentes tempos.  

A produção dessa experiência presente sempre aparecerá em tensão com a


produção de sentido; não de pode falar de uma só capacidade de produzir presença.
Entende-se como uma experiência entre estar presente e ausente, numa mutação, face
à impossível conquista de um estatuto da presença na atualidade.

O além-do-ser que provém daquilo que parece não mais estar lá,
seja como presença quase ausente (desativada), “invisível”, ou
como movimento de contaminação suplementar - e consequente
superação daquilo que parece ser da “natureza” ou próprio de algo
– do objeto e/ou territorial, a hibridização. (GUATELLI,
2012.p.65)

É o grau de entrega à experiência que está em jogo que, em outras palavras, é


a dimensão de potência do “estar ali”, do se entregar e, sobretudo, do explorar “a
amplificação das características e das impressões que já existem por nós”
(GUMBRECHT, 2007.p.45) – ampliar a percepção ao invés de produzir sentido à
partir do percebido como ativador processos de design em arquitetura e urbanismo,
trazem o início da noção de trato dos devires no espaço à partir da sugestão de Guatlli
(2012) de atravessar e articular com outros eventos e contextos.
LINK – P.18, P.41, P.64

GLOSSÁRIO – PRESENÇA/RUDIMENTAR/TÉCNICAS/ECOLOGIAS

Veja por favor se essa terra está numa temperatura boa para
plantio de hortaliças, em 26°C? Não sabe sem termômetro? É
só enterrar o dedo no solo e com muita atenção sentir a
diferença dos 0,5° ou do 1°C para o corpo. Se a terra queimar
seu dedo ela não está boa, se resfriá-lo pode plantar. Livro de
“Cartografias dos quintais”. São João del-Rei, 25/08/2015.

 
Importa é que o quintal ou outras possibilidades de espaços, remontam uma
experiência mais próxima ao corpo numa relação nada apática ao espaço, se não, um
estado de intensa atenção ao que os sentidos aguçados percebem do ambiente em
diferentes instâncias de percepção - não mais pautada na lógica da dialética
sujeito/objeto, mas de dar nome e atribuir valor a uma relação que nos fazem sentir
vivos, sensíveis e presentes com espaço .

Dessa forma, é muito importante operar o trabalho em design que opere com
eventos e estruturas do espaço de potência associativa e capacidade de se hibridizar
com outros sistemas, como a potência dos rastros. Num exercício de espaço,
concordando com Guatelli (2012) de ser com (ibid.p72) que produza arquiteturas que
toque o sujeito à experiência de se auto-revelar no mundo, de constatar e
experimentar a proximidade com as coisas do mundo. E, sobretudo como fazer
arquitetônico, de articular espaço com experiência e às redes presentes, é um caminho
de reativação da sensação corpórea e da dimensão espacial da existência.

Comida – representação/tradução dos processos subjetivos no espaço

O processo em design que assume a noçao de evento no espaço urbano, como


viu-se, é constituído pela realação do trinômio: influência de um evento como
(re)configurador do espaço, com o resultado desses fenômenos ou à experiência que
eles geram às pessoas e, por fim, às possíveis (des)articulações desses aos outros
devires do espaço.

Dentre os eventos no espaço que os quintais geram trata-se aqui da utilizaçao


dessas parcelas como produçao de comida para subsistência ou ocupação vivencial
que atribuem a presença de algumas práticas agrárias dentro do espaço urbano,
retomando aquela discussao rural/urbano anteriormente destaca. Nesse ponto do texto,
no entanto, tratar-se à da comida no espaço urbano como tradutora de desejos,
movimentos e apropriaçoes pessoais no espaço urbano.

Historicamente, sabe-se que à medida que cidades cresciam e a comunidade


aumentava a ocupaçao de território, dificultava e intensificava as articulaçoes pessoais
para obter comida e sobreviver uma vez que a competiçao e demanda sobrepunham à
oferta (JACOBS, 1972). Dessa forma, novas divisoes de trabalho e soluções deviam
ser encontradas.

Ainda Jacobs (1972, p.26) fala da agricultura como uma lógica e produto
urbano transportados para o campo e como saída à essas demandas crescentes de
comida e sobrevivência – atraindo para as bordas da cidade, locais mais próximos às
práticas agrárias, alguns povoados e habitações. A agricultura como um produto da
cidade também contribuiu para a evolução das técnicas de sobrevivência e produção
de alimento, resultando até em possibilidade de tartar a produçaão da comida no
espaço urbano, como investiga a agroecologia urbana.

No caso do brasil, a agricultura de susbstência no espaço urbano encontrou


caminho fértil. E nesse contexto, o papel dos quintais sao fundamentais como adverte
os relatórios anuais da ONU pelo órgão - Food and Agriculture Organization of the
United Nations – FAO16.

E neste processo, à medida que cada cidade se formava é possível perceber


uma relaçao daquele lugar com a comida – à medida que se forma as redes de trajeto,
as ordens viárias e as atividades predominantes no espaço urbano, é possível perceber
a influência disso na comida disponível ali e, reciprocamente, o contrario. Essas são
direções para outros estudos. No entanto, à partir dos movimentos contemporâneos
urbanos acerca da comida como slowfood, food design17 e comida de verdade e, a

                                                                                                               
16
 Disponível  em  https://www.fao.org.br/download/PA20142015CB.pdf  .  Acesso  em  Agosto  
2015.  
17
 A  participação  do  trabalho  The  quintais  network,  em  parceria  com  Thiago  Ferreira  na  I  
European  Conference  on  Understanding  Food  Design  lança  como  o  planejamento  urbano  e  
Arquitetura  entende  comida  como  ferramenta  de  planejamento  urbano  para  trabalhar  
evidente relaçao desse trabalho com essas questões, discorre-se nesse momento sobre
um desses transbordamentos à partir dos quintais.
LINK – P.40, P.72, P.82

GLOSSÁRIO – RASTRO/ECOLOGIA/COMIDA/RECEITA/SUBJETIVIDADE

A água do terreno vem da parte alta da nascente de uma mina


dos arredores. Lá fizemos alguns mini-córregos, rasgos que
seguem os rastros das linhas de escoamento natural d’água.
Eles resultaram numa irrigação que serpentea todo terreno e
leva o curso d'agua até a sua parte mais baixa.

Entre as curvas irregulares que os mini-córregos formam,


colocamos os canteiros das diferentes espécies que
naturalmente ficam rodeados por água. Essa irrigação pelo
rastro do ambiente gerou um frescor muito grande no terreno e
um fluxo enorme de nutrientes para o solo.

Deu tão certo que está nascendo quiabo e amendoim fora de


suas épocas”. Livro de “Cartografias dos quintais”. Rio Pomba-
MG, 08/08/2015.
 

Em Às fazendas cidadãos, Imbert (2014) convida à um tipo de êxodo urbano


em direção ao campo como uma saída às crises alimentares, espaciais e sociais
presentes urbanismo-industrial. Acredita-se aqui que não é nesse movimento uni-
direcional de colonizar o outro que é possível construir um meio sócio-ambiental
produtivo e vivo; mas sobretudo de pensar saídas espaciais que deêm espaço para a
natureza e o homem sedimentarem seus movimentos no espaço, um expandindo no
outro, como se construíssemos quintais à essas espécies para se colocarem presentes e
vivos.

A agricultura como produto urbano como, lançado por Jane Jacobs, não pode
justificar à péssima qualidade de distribuiçao e nutritiva dos alimentos – se o urbano
influencia na produçao agricula com suas tecnologias de produçao, hoje viu-se que
nao funciona para além de alimentos ricos em agrotóxico e de produçao com grande
imapcto ambiental. Dessa forma, pensar os meios de produçao (nao so de estocagem)
de comida no urbano reverte lógicas como a do campo, cria novos paradigmas e
abrem para novas perspectivas como a de uma comida mais saudável:

O encontro dessas experiências individuais em espaços coletivos


são uma via de politização das práticas agrículas urbanas, pois são
mediações entre o nível micro – ligado a aspectos da vida cotidiana
– e o nívem macro – ligado às grandes questões urbanas – e fazem
pensar que outras transformações são possíveis, em outras escalas,
em outros âmbitos da vida. O contato com a agro-biodiversidade
cultivada na cidade provoca a pensar, por exemplo, sobre a origem,
a distribuição e o modo de preparo do alimento que estamos
consumindo hoje; e a imaginar quais seriam as transformações nos
espaços rurais e urbanos se, no lugar das monoculturas, do
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                           
políticas  públicas  mais  próximas  e  integradas  ao  corpo,  meio  e  produção  de  comida  na  
cidade.  
transporte de alimentos por longas distâncias, das instalações da
indústria alimentícia e das grandes redes de supermercado, fosse
incentivada a produção local, os mercados locais e o prepare
artesanal dos alimentos. (ALMEIDA, 2013. p. 42).

O que esse trabalho propôs, de mapear redes de subjetividade no espaço, toca


um fato relevante para essa discussão: o caso de pratos típicos que dependem de uma
rede de afetos, pessoas e infra-estruturas espaciais muito específicos para ser
realizado, como o complexo caso da pamonha. Evidencia-se aí um exemplo de
comida que linka de uma só vez a noção de evento expontâneo, desenho de relações e
espacial. Entender design à partir da comida, é ir além dos processos
predimensionados para tal disciplina, tocando a produção de comida e as trocas e
reverberações que ela provoca no meio. Por isso em “Cartografias dos quintais onde
mapeia-se possíveis ecologias subjetivas, anotou-se algumas receitas rurais/urbanas e
dicas de produção.

Sua cidade, seu campo, sua comida; adverte-se. Em espaços urbanos cada vez
mais impessoais e sem a dimensão corpórea, não se surpreende em perceber no
urbano certa amnésia, da capacidade do nosso corpo em sentir, construir, plantar,
consumir o que deseja, ser dono da sua própria comida, fazê-la e estabelecendo outras
maneiras de estar no espaço. De fato essa é a porte de um complexo problema. No
entanto, uma cidade híbrida rural/urbano, heterogênea nos seus desnhos de natureza e
urbanidade, é uma possível garantia de uma nutrição mais completa e diversa -
necessário um novo ambiente com mais estímulos sensíveis, com mais texturas, com
mais naturezas e vida. Lembram também que com esse corpo é possível resistir à
decadência de modos improdutivos de vida que esgotam o meio, os recursos e as
experiências múltiplas.

Lefébvre (1969), por sua vez, atesta que só é possível uma reconcialiação com
a natureza a partir de um movimento de ressignificação do campo e de tomada de
práticas agrárias. E, por isso, acredita-se que dentre os vários movimentos urbanos
possíveis, pensar a comida ou, food design abre um caminho para pensar a produçao
de espaço à partir desses meios pessoais de moldar e apropriar do espaço à partir da
comida. Ela evidencia potencialidades de uso, produção apropriação de espaço além
da cidade e o poder de impactar em ações na escala do corpo.

No Brasil, e como na maior parte do mundo, assiste-se à produção massiva de


comida e do crescimento exponencial agrobussines em direçao às florestas e à nossa
mesa com produtos cheios de fertilizantes. Face a esse contexto, os quintais mostram
uma das formas potentes com a qual comida pode ser produzida em integração com
pessoas, corpo, experiência e subjetividade, em tempos lentos e possíveis, mas sendo
capaz de redesenhar valores e mesmo o espaço urbano.
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