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PRÓLOGO

Estava quieto demais. Era sufocante. Quase tudo na pequena sala era branco, ela
notou mais uma vez. Como se fosse um daqueles consultórios médicos para onde sua
babá lhe levava de tempos em tempos. Bem, aquilo não deixava de ser um consultório
médico também. Mas o que mais incomodava Angelique era a mulher em pé à sua frente.
Seus cabelos lisos tingidos de vermelho, os olhos verde-acinzentados que a encaravam,
as mãos, com as unhas pintadas de um azul turquesa que começara a descascar, ora
alisando o guarda-pó branco, ora apertando os óculos quadrados contra o rosto. A doutora
Soièlle conseguia ser terna e assustadora ao mesmo tempo. Apoiada em sua mesa,
esperava por uma resposta que a menina não iria lhe dar – ou melhor, já estava se
cansando de tentar. O que realmente aconteceu naquele dia?
Angelique levantou-se e saiu correndo em disparada. A rápida sensação do vento
em seu vestido, dançando consigo, correndo consigo, carregando-a até a sua liberdade,
sobrepunha-se à atenção que deveria prestar à voz da doutora que chamava pelo seu nome.
Permitiu-se até fechar os olhos por um momento, tão bem que conhecia o caminho.
Desceu as escadas de madeira em pulos, já sendo tomada pela luz que o vão de entrada
deixava entrar. O último trecho do caminho foi acompanhado por batidas rápidas contra
o seu peito, pela inesperada corrida, mas também pela ansiedade para voltar para o seu
oásis. Era o que tinha de mais adequado, pelo menos.
A menina quase despencou na grama do lado de fora, atraindo a atenção
momentânea de um ou outro que estava por perto. O tapete verde a acolhia junto do brilho
do sol, que atravessava suas pálpebras e dava luz às imagens em sua mente. Os cachos
castanhos espalhavam-se à sua volta, e Angelique esticou então os braços, absorvendo
tudo que aquele pedacinho de natureza lhe oferecia. Mas não demorou muito até que
aquelas memórias voltassem. Sempre vinham em momentos de paz – nos seus escapes ao
jardim, nas incertas caminhadas ao longo dos corredores, em seus sonhos à noite – o que
lhe parecia estranho, considerando no que aquele evento havia resultado. Talvez seu
cérebro estivesse tentando lhe dizer algo com isso. Afinal, lembrar-se daquilo não trazia
o medo que provavelmente deveria.
***
De repente, Angelique era uma inocente criança novamente; fora levada a alguns
meses antes e estava no jardim da sua casa. A amiga estava lá também. Sentada à sua
frente na grama, penteando a boneca de cabelos um pouco mais claros que os seus.
Lembrava-se como que em câmera lenta da sequência de imagens que seguia. Emilie
olhou para o lado e então ficou paralisada por alguns segundos, e aí encarou a amiga com
suas írises de esmeralda. "Angie, você está vendo aquilo?", disse a menina, em seguida
apontando para onde olhara.
Era uma luz de cor laranja, tão intensa e bela que o instinto de Angelique foi olhar
para o lado oposto para checar se algum dos adultos havia reparado nela também,
retornando a atenção após reparar que os pais e seus amigos estavam distraídos com a
festa. O brilho se escondia atrás de um dos vários arbustos cúbicos que se enfileiravam
na frente da casa, e, quase que automaticamente, as duas meninas se levantaram,
abandonando os brinquedos no chão. Andavam em direção ao objeto desconhecido como
se estivessem hipnotizadas, tomadas pela curiosidade que sempre esteve presente naquela
amizade.
Ao pararem os pés sobre o chão, foram tomadas por uma sensação como quando
se depara com uma estonteante surpresa, daquelas que fazem o coração pular algumas
batidas. O que estava diante das duas meninas era uma esfera flutuante. Não havia nada
a segurando, e ela mal se mexia. Mas não era simplesmente da cor do fogo. Era feita
daquilo. Os pares de olhos azuis e verdes enxergavam, claramente, uma chama que fluía
e dançava livremente, abraçando uma luz em seu centro. Angelique só desprendeu a
atenção do objeto quando viu a mão de Emilie se levantar em direção a ele.
“Não faça isso!” suspirou, quase que desesperadamente, talvez pelo medo do
desconhecido – apesar de que o que gritava dentro de si era a vontade de saber o que era,
de fato, aquela esfera. Emilie só teve tempo de olhar para a amiga, e então as duas
sentiram um forte vento, que as fez involuntariamente fechar os olhos. Era uma sensação
boa, como um assertivo abraço, mas que não as privava da liberdade que o vento traz
consigo. Uma calma e angelical voz sussurrou o nome da amiga: Emilie Crespelle.
Angelique não pôde evitar abrir os olhos com um leve sorriso no rosto. Ao assimilar
novamente a imagem à sua volta, porém, reparou que a esfera havia sumido – e Emilie
também.
***
Abrindo subitamente os olhos, pôs fim às lembranças. Encarava agora o céu
turquesa com seus olhos daquela mesma cor, certificando-se de que o vento daquele
momento não trazia uma sensação nem um pouco confortante como a daquele dia. Num
impulso, levantou a cabeça e sentou-se, sendo imediatamente tomada pela visão à sua
frente: o largo e alto prédio, de um cinza-escuro como a lápide de um cemitério; as
cortinas brancas – que não ofereciam leveza alguma à aparência – nas infinitas janelas
com grades pretas; e as letras garrafais num bronze enferrujado: HOSPITAL
PSIQUIÁTRICO GARNIER.
Deitando-se novamente para admirar o azul acima de si, Angelique permitiu-se
sorrir diante da percepção que o que enxergava ali era pura liberdade. Os pássaros e
borboletas viajavam por aquele cenário como se não houvesse uma preocupação no
mundo, sendo embalados pelo sol ou pela lua, de um lado para o outro, rápido ou devagar,
baixo ou alto, sem nunca parar. Ela sabia que um dia seria livre novamente. Sabia também
que não estava louca e não havia inventado tudo aquilo. Só não fazia ideia de que o que
aconteceu naquele dia e o que aquilo representava iria mudar a sua vida para sempre.
CAPÍTULO 1
DE VOLTA

Sete anos depois

O céu estava pintado do seu tom mais escuro quando Angelique pulou em sua
cama, acordando agitada. Não sabia dizer exatamente o porquê de estar suando frio, e não
se esforçou muito para descobrir durante o minuto que passou encarando a parede à sua
frente. As imagens que seu cérebro havia trazido de volta alguns minutos antes ousaram
voltar, pouco a pouco. Angelique levantou-se e foi até o banheiro, jogando água fria
contra o rosto e deixando a mesma escorrer sozinha. Fazia tempo que não sonhava com
isso, pensou enquanto encarava sua reflexão no espelho. Ao andar de volta em direção à
cama, desviou o olhar, e viu no porta-retratos a sua foto com Emilie, tirada naquele dia.
As duas estavam alegres em seus vestidos, em tons parecidos de azul, segurando
firmemente suas bonecas. A trança em seu cabelo era quase igual à que usava naquele
momento. Angelique balançou a cabeça e voltou a deitar, caindo no sono pouco tempo
depois.
O sol lhe acariciou o rosto no dia seguinte, na linda manhã de sábado. Angelique
se remexeu de um lado para o outro, e só se levantou quase uma hora depois. Quando já
tinha lavado o rosto e colocado o primeiro vestido que avistou no guarda-roupa, um azul
de bolinhas brancas, ela preparou o café e sentou-se no parapeito da janela junto de um
pacote de bolachas. Feixes de luz entravam por todas as janelas, deixando o pequeno
espaço ainda mais belo e aconchegante. Ela gostava de seu novo apartamento – afinal,
podia tomar café da manhã contemplando nada menos que a Torre Eiffel –, mas tudo o
que ela queria era fugir dali e ir para um lugar totalmente diferente. E se ela tivesse o
tanto de espírito aventureiro que lhe faltava, poderia até ter aproveitado as férias de verão
para visitar alguma cidade desconhecida.
– Champs de Mars há de ser o bastante – suspirou. Num pulo para ficar de pé,
Angelique deixou a xícara suja na pia da cozinha, pegou o livro que descansava na mesa
da sala, calçou as sandálias do dia anterior, trancou a porta e pôs as chaves no bolso do
vestido, fazendo uma longa caminhada até o parque que ficava antes da Torre.
O típico sol parisiense, claro e aconchegante, iluminou o já bem conhecido
caminho a pé. Angelique decidiu então dar uma volta pela amada cidade. Passou por
ruelas que já conhecia bem, avenidas que eram de conhecimento até de quem morava
muito longe e nunca havia estado ali, livrarias, lojas de parafernálias, mercados... Acabou
vendo-se até em uma loja de decoração, tão sem rumo que estava. Comeu alguma coisa
qualquer e seguiu para um de seus lugares preferidos.
Ela fez como de costume e tirou as sandálias assim que pisou na grama, deixando
que a mesma lhe coçasse os pés. Achou um canto e se sentou, abandonando os calçados
ao seu lado e abrindo o livro. Antes de começá-lo, olhou em volta e absorveu a linda
imagem que Champs de Mars proporcionava naquele dia.
Angelique havia pego na biblioteca da universidade um livro intitulado Lista
Alfabética das Divindades Gregas, para passar o tempo mais do que por qualquer outro
motivo. Não que ela não se interessasse por mitologia – este era um assunto recorrente
em suas leituras, e tal interesse começou logo depois do sumiço de Emilie. Ela então
começou a ler a página aleatória em que havia aberto o livro.
"Hermíone: A filha de Helena de Tróia e de Menelau, rei de Esparta. Estava
prometida a Orestes, rei de Micenas, mas passada a guerra de Tróia, Hermíone acabou
se casando com Neoptólemo, filho do herói grego Aquiles. Orestes então matou
Neoptólemo, tornando-se o segundo marido de Hermíone." Na página da direita, havia
uma figura da bela deusa, com os cachos presos em tranças. Após observá-la
minuciosamente, ela virou a página para ver o próximo nome.
"Hespérides: Filhas de Nix, a noite, e Érebo, a escuridão. Com o auxílio de um
dragão, vigiavam uma árvore com galhos e folhas de ouro, que dava maçãs também de
ouro." Várias mulheres de vestidos longos repousavam ao redor de uma árvore, o que não
interessou muito Angelique, e então ela passeou novamente pelas páginas até encontrar
algo bem mais interessante.
"Héstia: Filha de Cronos e Réia, era uma das doze divindades olímpicas. É a
personificação grega do fogo sagrado, da pira doméstica e da cidade. A deusa era
cortejada por deuses como Poseidon e Apolo, porém havia jurado manter sua virgindade
perante Zeus, que lhe deu a honra de ser venerada em todos os lares e ser incluída em
todos os sacrifícios." Na página ao lado, uma linda mulher de cabelos ruivos e um longo
vestido branco envolvia em suas mãos uma chama acesa, o que imediatamente levou a
mente de Angelique de volta àquela esfera que ela vira quando criança. Era um fogo que
parecia inabalável, que poderia voar para sempre e nunca se apagar. Com certeza – e não
só pelo fato de que ela levou sua amiga embora – aquela esfera era algo muito poderoso.
Após os meros minutos que ela passou lendo a história impressa, Angelique
percebeu que seu cérebro estava preferindo reviver a sua própria naquele momento. Por
que minha vida é tão cheia de... Fatos? Eu só tenho dezenove anos, deveria ser uma
página em branco, não um livro pesado e sombrio. E lá foi sua mente, reviver todos
aqueles fatos.
Daquele dia, o dia em que Emilie sumiu, ela se lembrava perfeitamente.
Lembrava-se do abraço que deu na amiga, das risadas das duas e delas brincando com
suas bonecas. Lembrava-se delas correndo atrás daquela luz completamente
desconhecida, por pura diversão e curiosidade. Lembrava-se da última imagem de Emilie,
rindo e balançando os cabelos loiros enquanto olhava para a luz, antes de seus olhos
fecharem calmamente e tudo ali literalmente virar fumaça. Lembrava-se dela correndo e
explicando para a mãe o que havia acontecido, todos prestando atenção nela e achando
que era brincadeira, a preocupação dos adultos quando realmente não achavam mais a
menina, a chegada da polícia, e a mãe de Emilie em prantos.
Outra coisa que ela certamente nunca iria esquecer foi o que aconteceu dois meses
depois – seus pais a mandaram para um hospital psiquiátrico. Ela, naturalmente, havia
lhes contado a verdade sobre o que aconteceu com Emilie, e continuou insistindo em sua
versão da história, fazendo desenhos para tentar convencê-los. E eles não viram outra
solução senão declará-la louca. Nessa altura, sua babá Madeleine já havia sido despedida,
por não estar presente quando Emilie sumiu. Angelique chorava todos os dias de saudades
de Madeleine e Emilie, que eram as duas pessoas com quem ela passava mais tempo.
Foram os piores anos da vida dela. Não que os que seguiram tenham sido de todo
o bom, mas ficar presa junto a pessoas que juravam ser um corvo preso num corpo
humano e crianças que só conversavam com suas mãos em zumbidos, quando ela sabia
que não havia nada errado com si mesma, era desesperador, angustiante, deprimente. Ela
passava a maioria de seus dias no jardim do hospital, apreciando o sol. Imaginando como
poderia estar aproveitando ele se estivesse fora dali. Nas sessões com a médica que a
tratou, ela foi logo diagnosticada como uma pobre criança que havia criado em sua mente
uma fantasia para mascarar o fato de que a melhor amiga havia desaparecido. Mas ela
não queria desistir de sua versão da história. Ela tinha visto Emilie desaparecer diante de
seus olhos. Ela viu a amiga virar fumaça. E sim, doutora Soièlle, a esfera flutuante era
feita de fogo. Mas Angelique percebeu que se quisesse sair dali, ia ter de fingir concordar
com a teoria dos outros de que ela havia imaginado aquilo tudo. Foi preciso muito tempo
e esforço para que ela fosse declarada sã novamente, e mesmo assim, ela já tinha quinze
anos quando isso aconteceu.
Dos quinze aos dezessete anos, Angelique estudou em casa. Seus pais
concordavam que estudar em casa, com professores rígidos, era a melhor maneira de
colocá-la "de volta nos trilhos". Às vezes, parecia que a única coisa com a qual eles
realmente se importavam era que o nome da família não ficasse sujo por causa do que
aconteceu com sua filha. Angelique tinha poucos amigos, que eram na verdade os
vizinhos cujas mães, amigas de Elisa Dubois, praticamente obrigavam a brincar com a
menina. Se alguém investia em brincar sinceramente com ela, ela agia indiferentemente,
mas se ela tentava dar uma chance aos "amigos", logo eles estavam rindo e a chamando
de louca. Então ela passava a maior parte do seu tempo em casa, desenhando ou dançando
em seu quarto. Depois que voltou para casa, ela viu os Crespelle poucas vezes. A mãe de
Emilie vestia-se quase sempre de preto, lamentando pela filha que, após meses e meses
de investigação e procura, foi declarada morta. Seis anos após a suposta morte, a mãe de
Emilie deu à luz a um menino. Angelique ficou feliz por eles, apesar de continuar sem
alguém para substituir a amiga.
Quando a menina fez dezoito anos, foi como se sua mãe tivesse tido uma epifania,
percebendo que a menina era somente um ser humano, que precisava sair, socializar,
conviver, e ter a oportunidade de ser sã. Presentearam a filha com um apartamento perto
da universidade na qual ela conseguiu entrar, e lá ela foi. E lá ela estava.
Amigos ela tinha – não era mais "a menina louca do Sixième" –, mas ela sempre
sentiu que eram amizades um tanto superficiais. Talvez ela estivesse errada, só não estava
acostumada a ter amigos verdadeiros que não a julgavam. Mas ela tinha ali em sua frente
um sincero tipo de amizade que não pedia nada em troca. Nos livros ela confiava até mais,
e preferia como companhia. Eles sempre estavam lá por ela, independente do tempo ou
circunstância, e estavam sendo particularmente bem-vindos naquela época de intenso
cansaço. O curso de Dança estava exigindo mais de si do que ela imaginava, e apesar de
amar estudar, ela pensava seriamente em sair por aí com uma mochila nas costas e ir para
um canto qualquer bem longe dali, aonde ela realmente poderia ser uma página em
branco.
Tentou voltar à leitura, mas já havia perdido a concentração de vez, e então passou
a observar as pessoas passeando. Casais andando de mãos dadas, crianças correndo,
famílias com bichos de estimação, vendedores ambulantes e, como sempre, muitos
turistas. Ela adorava ver as expressões de quem via a torre pela primeira vez. Os olhos
brilhavam, a pessoa não parava de sorrir, e ficava cada vez mais atônita à medida que se
aproximava. Às vezes ela não continha o riso diante do tamanho encanto que presenciava.
Seus olhos então repousaram à sua esquerda, mais especificamente entre duas das
grandes árvores quadradas que formavam uma parede de folhas ao redor do Champs de
Mars. Ela desconfiava o que era aquilo que estava vendo, mas não queria admitir. Olhou
em volta e viu que ninguém mais a havia percebido. Esfregou os olhos e custou acreditar
naquilo, mas se levantou, calçou as sandálias e seguiu a luz.
– Isto só pode ser uma brincadeira – suspirou, olhando para a luz, que começou a
se afastar. E Angelique, é claro, foi atrás dela.
A esfera de luz era azul desta vez, e parecia ser feita de água. Era linda. Tão linda
que era quase impossível resistir tocar nela. Mas Angelique se conteve, até porque foi
assim que Emilie desapareceu – ou assim ela achava. Ela já estava do outro lado do
parque, num canto onde quase ninguém passava, e a luz passou a se aproximar. Aconteceu
exatamente do mesmo jeito que ela se lembrava. A esfera parou de se afastar e começou
a subir lentamente. Angelique encarava maravilhada aquela coisa que ela queria, agora
mais do que nunca, saber de onde vinha.
A esfera se abaixou e ficou bem perto dela, como um animal que se aproxima
quando se sente seguro o bastante. Angelique confirmou que a luz azul era, de fato,
envolvida por uma película d’água que tomava um formato esférico, mesmo estando livre
no ar. E foi aí que aconteceu. De dentro dela veio a voz, parecida com a que ela tinha
ouvido quando criança, e sussurrou: Angelique Dubois. Ela sentiu seus olhos se fecharem
involuntariamente, e então um vento ainda mais forte do que o da outra vez passou por
seu corpo, e quando ela abriu os olhos novamente, estava num grande espaço
desconhecido.
CAPÍTULO 2
AQUA
Seus olhos passeavam desesperados pelo ambiente. Estava em uma mansão. Tinha
sete andares, cada um com inúmeras portas e um deque em frente a elas, sendo que de
todos podia se ver o térreo, onde ela estava. Ela olhou em frente, à sua direita, e viu uma
menina se materializando diante de seus olhos. Que sonho mais estranho. Angelique
olhou então à sua volta, no ambiente da mesma madeira escura dos andares de cima, ainda
muito em choque para fazer qualquer coisa, e viu que algumas pessoas a observavam sem
reação. Todos tinham olhos estonteantemente azuis. Não eram simplesmente de tal cor,
mas como se reluzissem um brilho de safira. Aí, um menino simplesmente apareceu do
seu lado esquerdo, junto da esfera.
– Isso fecha o grupo quinze – Uma bela mulher alta e de cabelos morenos, que
praticamente surgiu das sombras, disse em alto e bom tom. Ela tinha um rosto gracioso e
usava um vestido azul-escuro que ia até a altura dos joelhos – Queiram, por favor, me
acompanhar – Ela indicou uma porta atrás de si e as pessoas começaram a segui-la,
incertas.
Angelique olhou para trás e percebeu que ainda mais pessoas estavam ali. Dez,
contando com ela, e todos aparentavam ter mais ou menos a sua idade. Eles começaram
a andar e chegaram numa sala com chão de madeira escura e paredes brancas. O canto
tinha alguns degraus onde ficavam cadeiras estofadas. A mulher tomou o centro vazio da
sala, após indicar para que sentassem.
– Boa tarde. Meu nome é Belle Leifsson, sou uma dos líderes de Aqua – Ela sorriu,
tentando acalmar os jovens inquietos – Em primeiro lugar, quero que se acalmem, pois
vou explicar tudo. Vocês devem saber que não foram sequestrados, não estão sonhando,
e não estão loucos – Alguns se permitiram rir depois dessa afirmação, mas para Angelique
foi um alívio saber que ela não estava insana "de novo".
Belle tinha uma voz incrivelmente calma, que combinava com seu corpo esguio e
os cachos macios. Os olhos eram tão azuis que quase não pareciam reais. Ela, de fato,
quase não parecia real. A mulher olhou para a porta, ainda aberta, e fez gestos circulares
com as mãos, pronunciando em voz baixa algumas palavras que não foram entendidas
por mais ninguém. Aí, a esfera de água, já conhecida por Angelique, entrou flutuando e
parou em frente à líder.
– Esta é Anfitrite. Vocês já a viram antes, não é? – sugeriu a mulher, e todos
concordam com a cabeça – Anfitrite é o nome da deusa grega da água. E este foi o nome
dado a ela justamente por isso. Porque ela reúne vocês... Os deuses da água.
– O quê? – O menino sentado ao lado de Angelique verbalizou o susto de todos.
– Vocês já repararam na pequena mancha azulada que têm atrás do pescoço? –
Belle perguntou. Todos já tinham reparado, mas a maioria levou a mão para trás das
cabeças, por instinto – Essa manchinha redonda azul-claro, todos vocês têm.
– E quem seríamos todos nós? – Angelique levantou a cabeça e perguntou.
– Vocês foram escolhidos, Angelique – ela se aproximou com um sorriso e
segurou sua mão, sorrindo com seus lábios grossos – Para formarem a sociedade Aqua,
que significa água em latim.
– Como sabe meu nome? – Angelique balbuciou, fazendo Belle rir.
– Isso fica pra mais tarde – Belle se afastou e tomou uma expressão séria – Agora,
para a parte importante: vocês vão passar por um treinamento com os deuses veteranos,
e poderão ir para casa na maioria dos finais de semana.
– Nós... Não temos opção? – uma menina sentada na outra ponta perguntou
timidamente.
– Na verdade não, querida. Vocês precisam aprender a controlar seus poderes e
usá-los para o bem. Mas não se preocupem, vão gostar daqui.
Um homem bateu à porta e sorriu para Belle. Ele aparentava ter mais de sessenta
anos, era alto e tinha cabelos brancos. Os olhos eram tão intensamente azuis quanto os de
Belle, e dos outros que Angelique havia visto.
– Ah, sim – a líder sorriu de volta e virou para os estudantes – Este é o Sr. Garvey.
Ele vai levar vocês para buscar seus uniformes e pegar a programação – ela sorriu e
gesticulou para que todos se levantassem.
– Por favor, me chamem de Darius – disse o senhor enquanto guiava a fila, já fora
da sala.
Adentraram outra porta, onde pacotes plásticos transparentes aguardavam em
cima de uma mesa. Havia também alguns móveis que não pareciam estar sendo usados,
e um espelho na parede lateral.
– Cada um de vocês vai pegar um pacote desses, o que tiver o seu nome. Abaixo
dos seus nomes está um número, que é o quarto de vocês. Alguém tem alguma dúvida?
– Eu – a garota que havia feito uma pergunta a Belle agora levantava a mão
vagarosamente – Por que todos aqui fora eu tem olhos tão azuis?
Angelique franziu a testa, ao que Darius sorria e se preparava para formar a
resposta. Todos? Angelique também não tinha olhos daquele jeito! Ou tinha? Achou tudo
aquilo ainda mais estranho quando olhou para a menina e viu que ela tinha, de fato, as íris
de pedras preciosas que quase cegavam.
– Você tem sim, querida. Só não viu ainda – Darius puxou a menina pelo braço e
a conduziu à frente do grande espelho. Então, Angelique e os outros que estavam na sala
não puderam evitar seguirem-nos também, e todos se surpreenderam ao confirmarem que
seus próprios olhos estavam como os dos outros. – Todos vocês– todos nós, na verdade,
temos olhos assim porque somos deuses da água. E eles ficam assim sempre que Anfitrite
está por perto. Isso serve para identificar os habitantes de Aqua.
Identificar? Pra quê? Por acaso tem alguém que sabe da existência dessa
sociedade bizarra fora os que compõem ela? As dúvidas fervilhavam na cabeça de
Angelique, mas não havia quem pudesse saciar tão alto número de perguntas naquele
momento. No entanto, algo dentro dela parecia a impedir de se desesperar. Era quase
como se aquilo fosse normal, talvez até um pouco... familiar..
Darius levou todos, pelas escadas, para o segundo andar. Ele abriu primeiro um
quarto para os meninos e os fez entrarem, deixando os outros no corredor enquanto
passava algumas informações. Então, destrancou o quarto 211, e gesticulou para que as
novas habitantes dele adentrassem. Cada uma automaticamente sentou-se em uma das
camas do quarto, e Darius ficou próximo à porta.
– Podem abrir seus pacotes agora para verem o conteúdo. Vocês irão encontrar
roupas variadas para todas as estações. Este é o uniforme de vocês, que vocês já deverão
colocar. Na sua cama tem um pijama e alguns itens de higiene pessoal. E estas telas na
parede mostram a programação de hoje. Qualquer dúvida, vocês podem descer e procurar
por alguém, mas se atenham aos horários! E enquanto isso, podem aproveitar pra se
conhecerem melhor – Darius sorriu e fechou a porta atrás de si.
Angelique estava sentada na cama que havia escolhido, que ficava do lado oposto
da porta e embaixo da janela. As outras duas camas estavam nas paredes laterais, e a
parede da porta tinha uma grande cômoda branca com várias gavetas. No centro do grande
quarto, uma mesa redonda de madeira reunia três cadeiras à sua volta. As meninas
sorriram umas às outras, desconfortáveis, e após alguns segundos, a que estava na cama
à esquerda de Angelique, aquela que havia perguntado a Darius sobre os olhos, se
pronunciou depois de uma risadinha baixa:
– Então, vamos nos apresentar né? Eu sou Katherine Panchal, mas por favor, me
chamem de Katie – ela sorriu e jogou pra trás seus longos cachos castanho-claros. Usava
um longo vestido azul florido e sandálias marrons. Angelique gostou dela.
– Johanna Waltham – A menina sentada à frente de Katie levantou a mão com um
sorriso tímido, massageando com as mãos os estufados cachos um tanto mais negros que
sua pele. Ela vestia uma blusa branca toda rasgada e com palavras aleatórias em preto,
um shorts preto e de tênis vermelhos.
– Eu sou Angelique Dubois – Angelique levantou a cabeça e sorriu.
– Que nome lindo! – Johanna sorriu em resposta – Você deve ser francesa, não é?
– Sim – ela sorriu novamente – E vocês, de onde são?
– Eu sou da Índia, moro em Mumbai – Katie respondeu enquanto passeava os
olhos pelo quarto.
– E eu sou do norte da Inglaterra – Johanna sorriu.
As três então passaram a falar um pouco mais sobre si mesmas, como se aquele
fosse o primeiro dia de aula numa escola nova, em que você simplesmente começa a
conversar com que está à sua volta porque é isso que todo mundo faz. Katie estava
estudando História – queria ser professora –, e Johanna pretendia ser assistente social. A
conversa fora um tanto superficial, já que nenhuma chegou ao assunto do que estava
acontecendo no momento – até porque não sabiam a resposta. Contudo, havia um certo
conforto em conversar uma com a outra. Era como se as três meninas sentissem que aquilo
parecia certo, e que elas poderiam ser grandes amigas, mesmo ainda sabendo tão pouco.
Depois, elas conferiram a programação da noite nas telas implantadas na parede.
"17:00 – Aula de inauguração para os alunos do 1º andar
17:30 – Aula de inauguração para os alunos do 2º andar
18:00 – Aula de inauguração para os alunos do 3º andar
18:30 – Aula de inauguração para os alunos do 4º andar
19:00 – Aula de inauguração para os alunos do 5º andar
20:00 – Jantar
P.S: Todas as aulas acontecerão na Sala 1, no sétimo andar, e o jantar no
refeitório, no térreo"
– Então faltam vinte minutos para nossa aula – Katie declarou depois de Johanna
ter lido em voz alta o itinerário.
Ao vestirem o novo uniforme, Angelique e Katie escolheram a saia de prega azul-
escuro, enquanto Johanna vestiu os shorts da mesma cor. A camiseta azul-claro trazia no
canto esquerdo um símbolo no mesmo tom das saias. Eram três linhas grossas que partiam
do mesmo centro e iam uma para cima, uma para a esquerda e a outra para a direita, sendo
que todas se curvavam e formavam um pequeno espiral em suas pontas. Embaixo vinha
a frase "benedicat aquas", a qual nenhuma das meninas soube traduzir.
Perto das cinco e meia, houve uma movimentação em massa dos alunos do
segundo para o sétimo andar, e todos logo se sentaram após adentrarem as portas da sala
um. Darius estava lá de novo, recepcionando os alunos graciosamente. A sala era grande
e funda, com exatas sessenta cadeiras, acomodando todos os alunos do segundo andar. À
frente, uma mesa e cadeira esperavam ainda vazias, junto de uma tela para projeção.
De repente, um homem de cabelos loiro-claros e ralos, os olhos obviamente azuis
(apesar de que brilhavam ainda mais que os dos outros), entrou e tomou seu lugar, ficando
em pé em frente à mesa.
– Boa tarde a todos – ele sorriu gentilmente, e todos responderam em uníssono –
Eu sou Sebastian Leifsson, o outro líder de Aqua.
Alguns cochichos e expressões impressionadas se manifestaram, enquanto o
homem esperava pacientemente, reclinando sobre a mesa. Usava uma camiseta azul-
escuro com o mesmo símbolo que o do uniforme dos estudantes, só que em branco, uma
calça jeans e tênis brancos.
– Para que fique bem claro, eu seria como o diretor, caso esta fosse uma escola
convencional. Mas não fiquem com medo – ele riu, conseguindo com que o grupo se
descontraísse. – Vocês já conheceram minha esposa, Belle Leifsson. Sempre que tiverem
dúvidas, podem procurar a mim, a ela, a Darius ou qualquer um dos monitores.
– Mas se forem problemas amorosos, por favor, não venham pra mim – Darius,
que agora estava sentado numa cadeira no canto, suplicou com a testa franzida, fazendo
Sebastian e os alunos rirem.
– Bem, nós preparamos algumas coisas para mostrar para vocês, mas antes eu
quero ter certeza de que estão calmos. Sei que é difícil se acostumar com tudo isso; é todo
um universo novo. Mas saibam que vocês nasceram para isso. Para proteger a água e
ajudar o mundo com isso. Pense que vocês todos estarão fazendo uma diferença, para o
bem.
As palavras reconfortaram os alunos, apesar de eles ainda não se sentirem
completamente situados. Era engraçado; tudo estava acontecendo muito rápido, mas
também havia um intenso sentimento de paz dominando todos ali – aquela sensação que
Anfitrite despertou permanecia no ambiente. Sebastian pegou um controle que repousava
sobre a mesa e apertou um botão, mostrando na tela a primeira imagem. Ela trazia a foto
de quatro homens e quatro mulheres, incluindo o próprio Sebastian e sua esposa Belle,
com palavras que Angelique não entendeu escritas em cima e nomes embaixo.
– Bom, na verdade, Aqua não é a única sociedade desse universo; ela é uma de
quatro. A Aqua, claro, é liderada por mim e por Belle; Ignis por Vincenzo e Lorena
Delfavero; Aer por Antoni e Maria Buch, e Terra por Killian e Alamea Pearce. Nós nos
denominamos os Herdeiros da Natureza, e vocês não são a primeira geração. Houve
muitas poucas crianças antes, e nós oito fomos escolhidos líderes. Vocês saberão um
pouco mais sobre isto tudo na aula de História.
Sebastian limpou a garganta e mostrou a próxima imagem, o desenho da planta de
um ambiente.
– Agora vou localizar vocês na mansão Aqua, pelo menos nos locais mais
importantes por agora. Este é o térreo, por aonde vocês chegaram. Aqui é o refeitório –
continuou, apontando para a porta mais larga do térreo – E nos cantos ficam os banheiros.
Esta sala ao fundo é onde Anfitrite fica, ao lado da biblioteca, e para fora temos o jardim.
Fora isso, algumas salas que vocês irão descobrir ao longo do tempo. Do segundo ao
quinto andar, temos os quartos dos alunos. Temos no total trezentos cidadãos de Aqua,
sendo que as outras sociedades têm o mesmo número. Os que estão aqui há mais tempo
se tornaram funcionários. Portanto, todas as pessoas que virem, sejam cozinheiros,
monitores, professores... Todos são cidadãos de Aqua.
– Amanhã, no domingo, vocês poderão ir para casa para pegar seus pertences mais
importantes – Sebastian pausou para dar espaço às comemorações – Iremos acompanhá-
los e contar tudo aos seus responsáveis. Na segunda-feira, as aulas teóricas se iniciarão.
E, na próxima semana, viajaremos para conhecer os nossos colegas das outras sociedades.
A cada dia vocês receberão a programação de aulas. Alguém tem alguma dúvida?
Diante do silêncio, Sebastian desligou a tela atrás de si.
– Senhor Leifsson, os medalhões – Darius soltou baixinho.
– Ah, sim, os medalhões! Cada um de vocês receberá um medalhão como este
aqui – Sebastian tirou debaixo de sua camisa um medalhão redondo e prateado – Não dá
pra ver daí, mas ele possui uma imagem de Anfitrite, a deusa grega da água. Atrás, tem
os dizeres "benedicat aquas", que significa "abençoe nossas águas". É isso, nos vemos no
jantar! Sintam-se livres para circular pela mansão, ou irem para o térreo conhecerem seus
colegas dos outros andares.
Os alunos saíram em fila, cada um recebendo de Darius um medalhão retirado do
grande pote de vidro quando passavam pela porta. As três meninas do 211 logo se
juntaram novamente e tomaram as escadas. Angelique desatentou-se das conversas para
observar todos os alunos em seus uniformes. Ela se sentiu como no primeiro dia de aula
novamente, deslocada e sem saber por que estava ali. Por que ela estava ali, de fato?
Esperava descobrir tudo sobre Aqua o mais cedo possível.
Já no térreo, as meninas andavam pelo salão principal, observando os que abriam
e fechavam portas, curiosos, enquanto conversavam com os novos amigos. De repente,
Katie parou, chocada, olhando em frente.
– Johnnie? – ela levantou a voz – Johnnie! – Ela falou ainda mais alto e correu,
fazendo o menino que conversava com um outro virar-se para ela também em choque.
Ela fechou a distância e praticamente pulou no menino para abraçá-lo, enquanto o olhar
dele era tão abismado quanto o dela.
– O que você está fazendo aqui? – ele terminou o abraço e pôs as mãos nos ombros
que Katie, enquanto Angelique e Johanna se aproximavam.
– Aquela luz, a... Anfitrite, ela me trouxe!
– Ela me trouxe também! – Katie riu involuntariamente com a resposta do menino
e virou-se, ainda um pouco abalada.
– Meninas, este é meu irmão Johnnie, Johnnie, estas são Angelique e Johanna –
Katie sorriu.
– Prazer em conhecê-las, meninas – Johnnie sorriu e deu um beijo na bochecha de
cada uma – Ainda não acredito nisso! – ele passou a mão nos cabelos castanhos.
– Eu também não! Isto é ótimo! – Katie abraçou novamente o irmão mais velho.
Jonathan apresentou um de seus colegas de quarto para as meninas, e os cinco
ficaram conversando por um tempo, a maioria dele sobre o que diabos estavam fazendo
ali. Na hora do jantar, todos foram para o refeitório. Era uma grande sala, com paredes de
pedra cinza-claro e longas cortinas brancas. Seis mesas de madeira se enfileiravam, cada
uma destinada aos integrantes de um andar. Angelique notou que a primeira estava cheia
de pessoas com uniformes azul-escuro, e concluiu que deviam ser os funcionários do
sexto andar.
As mesas já estavam cheias de comida, as quais os alunos praticamente atacaram
após algumas palavras de boas vindas de Sebastian e Belle. Por um bom tempo só se
ouviu o barulho de talheres e conversas baixas, enquanto todos se deliciavam com o
jantar. Depois que todos acabaram, Sebastian tomou a frente do salão junto de três
homens e duas mulheres, todos vestidos de azul-escuro.
– Boa noite a todos. Gostaria que conhecessem seus novos monitores. Eles vão
tirar suas dúvidas e ajudá-los a treinar o que aprenderem por aqui – Sebastian sorriu e foi
para a mesa do primeiro andar com um dos homens.
– Deus do céu, que homem lindo – Johanna agarrou o braço de Angelique
enquanto Sebastian se aproximava com outro monitor, e ela riu em resposta.
– Pessoal, este é seu monitor, William Godfrey – Sebastian pronunciou e virou-se
para o homem – William, converse um pouco com eles e depois vá para a outra ponta.
– Sim senhor – William sorriu e Sebastian continuou, e então ele se sentou na
ponta da mesa. Ele tinha os cabelos levemente longos, de um castanho escuro, era alto e
tinha um corpo forte. Sorriu gentilmente para a parte da mesa que estava olhando para ele
e soltou seu sotaque britânico – Por favor, me chamem de Will. Nós vamos passar muito
tempo juntos, principalmente nesta semana, até vocês se acostumarem. Vocês querem...
me perguntar alguma coisa?
– Ah, eu quero! – Johanna sorriu animada – O Sr. Leifsson disse que existem
outras três sociedades. Eu queria saber se elas funcionam da mesma maneira... Digo...
Também têm pessoas da nossa idade? E elas vão para as mansões do mesmo jeito?
– Ah, sim, tudo funciona da mesma maneira. Eles também têm suas próprias
esferas, com nomes das deusas deles. A da Ignis, por exemplo, é a Héstia. É uma esfera
reluzente, parece feita de fogo.
– Tipo... Um fogo flutuante? – Katie indagou.
– Sim... É difícil explicar, ela tem que ser vista. É muito legal.
Por um momento, todos ficaram em silêncio, tentando imaginar como era a tal
esfera. William então notou que dentre as expressões confusas na tentativa de criar a
imagem em suas mentes, uma delas se mostrava num choque quase desesperador.
Angelique pensou até ter perdido o ar por alguns segundos depois de ouvir a descrição de
Will sobre a esfera de fogo. Ela conhecia a Héstia, e acabara de entender o que aquilo
tudo significava.
Emilie estava viva.

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