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Cautelas a serem adotadas na realização de

transação extrajudicial

A transação extrajudicial em sede trabalhista deve ser antecedida de cautelas para que
não seja declarada ineficaz, especialmente se ocorrer durante a vigência do contrato de
trabalho, tendo em vista a natureza alimentar do crédito trabalhista.

A transação extrajudicial tem como requisitos indispensáveis a existência de relação


controvertida (res dubia) e reciprocidade de concessões.

Se não houver dúvida quanto ao direito perseguido, o trabalhador não estará


transacionando, mas apenas renunciando parte do seu direito.

Somente o acordo, a conciliação, perante o Juiz do Trabalho poderá concretizar-se em


casos em que não existem quaisquer discussões sobre o direito pretendido pelo
trabalhador.

A reciprocidade exigida não é dosimétrica, mas deve compor-se em limite de


razoabilidade. Segundo Francisco Antônio de Oliveira, Desembargador aposentado do
Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo “Transacionar é transigir reciprocamente,
ainda que as concessões não se equivalham dosimetricamente. Concessão significa
sacrifício patrimonial de ambas as partes” (Francisco Antônio de Oliveira in Transação.
Decisório Trabalhista 077 de dezembro de 2000, p. 9).

Muito embora essas concessões não precisem ser iguais de parte a parte, é certo que no
âmbito trabalhista, há que se ter muita cautela para que uma transação, que teve o
prestígio da vontade das partes, não venha a ser anulada ou não venha a ser
desconstituída em sede jurisdicional, sob o argumento de que as concessões não se
equivalem ou que a transação foi prejudicial à parte inconformada (especialmente se esta
for o trabalhador), conforme ensina Francisco Antônio de Oliveira:

“Há que se ter muita cautela para que uma transação que teve o prestígio da
vontade das partes não venha a ser anulada ou não venha a ser desconstituída em
sede jurisdicional, sobre o argumento de que as concessões não se equivalem ou
que a transação foi prejudicial à parte inconformada” (Francisco Antônio de Oliveira
in Transação. Decisório Trabalhista 077 de dezembro de 2000, p. 9).

No Brasil, apenas o acordo celebrado perante o Juiz do Trabalho e devidamente


homologado, torna indiscutível a matéria, ainda que o valor pago seja muito menor do que
o trabalhador tem direito. Já o acordo extrajudicial, mesmo com a intervenção do sindicato
como assistente-anuente, pode ser rediscutido na Justiça do Trabalho.

A transação extrajudicial será válida, desde que não seja lesiva aos empregados ou
atentatória a preceitos de ordem pública. Isto porque existe um complicador expresso no
art. 468 da CLT: "Nos contratos individuais de trabalho só é lícita a alteração das
respectivas condições por mútuo consentimento, e, ainda assim, desde que não resultem,
direta ou indiretamente, prejuízos ao empregado, sob pena de nulidade da cláusula
infringente desta garantia”.

Por outro lado, a transação, como ato jurídico a exteriorizar o acordo de vontade das
partes, somente vincula as partes contratantes, não se insinuando perante terceiros. Isso
significa que se na transação constar que a empresa está pagando indenização, para
evitar a incidência de tributação, quando na verdade está pagando horas extras e reflexos,
sobre os quais recaem encargos, essa declaração não valerá perante o INSS e nem o
Fisco.

A transação pode recair não só sobre direitos individuais de cada trabalhador, mas
também sobre direitos individuais homogêneos da categoria profissional.

Embora tratando de direitos duvidosos, as partes devem ser claras na formulação do


documento que traduz a transação, para evitar dar margem à interpretação que
desconsidere a vontade inicial, qual seja, a de prevenir litígio.
Por fim, cumpre destacar que a Justiça do Trabalho nega eficácia liberatória geral e
irrestrita ao acordo extrajudicial, quer àquele firmado de forma individual, quer àquele
firmado no bojo de um Programa de Incentivo à Demissão Voluntária, ainda que
entabulado por meio de norma coletiva.

Corroborando esse entendimento está o seguinte julgado oriundo do Tribunal Superior do


Trabalho:

“ACORDO EXTRAJUDICIAL. INEXISTÊNCIA DE EFICÁCIA LIBERATÓRIA GERAL


E IRRESTRITA. IMPOSSIBILIDADE DE RENÚNCIA PRÉVIA E GENÉRICA A
TODOS OS EVENTUAIS DIREITOS TRABALHISTAS. A negociação dos direitos do
trabalhador assegurados pelo ordenamento jurídico trabalhista encontra limite nas
disposições dos artigos 9º e 444 da CLT, não se traduzindo, assim, em direito
patrimonial de caráter privado passível de ser objeto de transação, segundo a
expressividade da norma civil do artigo 841 do Código Civil de 2002 e do artigo
1.035 do Código Civil de 1916. O princípio da irrenunciabilidade dos direitos
trabalhistas continua sendo uma das notas fundamentais e específicas do Direito do
Trabalho. A renúncia aos direitos trabalhistas após a cessação do contrato de
trabalho mantém-se, em princípio, vedada, uma vez que seu caráter alimentar não
desaparece com o fim da subordinação direta do empregado a seu empregador, e o
recebimento das verbas rescisórias constitui, na maioria das vezes, a garantia de
subsistência do trabalhador até a obtenção de novo emprego. Por isso mesmo,
aliás, os parágrafos 1º e 2º do artigo 477 da CLT estabeleceram que os recibos de
quitação de rescisão do contrato de trabalho só serão válidos quando feitos com a
assistência sindical ou do Ministério do Trabalho e apenas em relação às parcelas
então efetivamente pagas pelo empregador, de forma discriminada. Assim, a
cláusula do termo de acordo firmado extrajudicialmente, que, em troca do
pagamento de "indenização", estabelece a renúncia prévia e genérica do
trabalhador a todos os outros direitos trabalhistas eventualmente existentes, fere a
letra e o espírito desses preceitos legais imperativos e é absolutamente inválida, por
força do artigo 9º da mesma Consolidação Laboral, e do artigo 51 da Lei n 8.078/90
(Código de Defesa do Consumidor, aqui subsidiariamente aplicável, nos termos do
parágrafo único do artigo 8º da CLT). Nesse sentido, a propósito, da impossibilidade
de atribuição de eficácia liberatória geral e irrestrita de acordo extrajudicial, tem-se
orientado a jurisprudência desta Corte, conforme se percebe da Orientação
Jurisprudencial nº 270 da SBDI-1, editada para os casos de transação extrajudicial
firmada no bojo de Programa de Incentivo à Demissão Voluntária. Registra-se que,
se esta Corte nega a eficácia liberatória geral e irrestrita a acordo extrajudicial
firmado no bojo de Programa de Incentivo à Demissão Voluntária, ainda que
entabulado por meio de norma coletiva, com muito mais razão não se pode atribuir
essa eficácia no caso dos autos, em que o acordo foi firmado de forma individual.
Impõe-se, portanto, o conhecimento e provimento do recurso para, afastando o
efeito liberatório geral e irrestrito do acordo extrajudicial, determinar o retorno dos
autos ao Tribunal Regional de origem, a fim de que prossiga no julgamento dos
recursos ordinários das partes, como entender de direito, ficando sobrestada a
análise dos demais temas da revista. Recurso de revista conhecido e provido.

Processo: RR - 38900-36.2003.5.17.0006 Data de Julgamento: 08/06/2011, Relator


Ministro: José Roberto Freire Pimenta, 2ª Turma, Data de Publicação: DEJT 17/06/2011)