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CULTURA POLÍTICA E LEITURAS DO PASSADO

No texto em questão, a autora faz a crítica à intensa utilização do binômio colônia de


exploração e colônia de povoamento para a explicação do atraso dos países da América
Latina. Para desenvolver tal crítica, são apresentados dois autores e suas explicações
que reforçam esta visão dicotômica, os quais são Caio Prado Jr e Celso Furtado. Nesse
caso, o objetivo do texto não é desenvolver as perspectivas desses autores, mas sim
mostrar como que a explicação desses autores ainda esta tão forte na sociedade
brasileira.

Nessa perspectiva, um fator que explica esse fato é que as obras desses dois autores
foram bastantes difundidas e serviram como base de estudo para um melhor
entendimento da América e do Brasil, um forte exemplo é o famoso livro ‘’ Formação
do Brasil contemporâneo’’ de Caio Prado Jr e a ‘’ Formação econômica do Brasil’’ de
Celso Furtado, nas quais foram essenciais para a disseminação de termos que
reforçavam a perspectiva do binômio colônia de exploração e colonia de povoamento.
Para a autora, ‘’ tal explicação de base estrutural e econômica’’ é reducionista e
generalizante.

Um outro aspecto é o problema do constante exercício da comparação, o qual está de


acordo com as visões dos autores citados acima e, com isso, fortalece o binômio em
questão no imaginário brasileiro criando, assim, modelos que não fazem parte da
realidade especifica do Brasil, comparações que criam pressupostos nos quais os
recursos positivo são banalizados e exaltam características que vão além da realidade
brasileira. Fortalecendo, dessa forma, uma noção de posição de subordinação e
inferioridade em relação ao ‘’centro’’ que nesse caso são os EUA e a Europa.

Somado a isso, é destacado a força do discurso colonizador de tais ‘’centros’’ de poder e


do saber, o qual é visto como modelo para outras civilizações. Com isso, é possível
observar um estado de subordinação e passividade. Ressalta-se, nesse caso, a afirmação
de Pratt, em que contesta a visão dita acima, ‘’ o processo não deve ser visto como
binário, mas sim compreendido através das trocas, apropriações e transculturações que
se estabeleceram nas zonas colonizadas.’’

Como solução para superação desta visão dicotômica e simplista, é apresentado a


necessidade de mudança da escrita da história, fato que está relacionado à
descolonização do conhecimento. Ressalta-se, nesse caso, a concepção de História de
Chakrabarty, em que a História é vista como transnacional. Assim, temos Histórias, no
plural e um forte movimento de influencia mútua entre as diversas civilizações.

INDEPENDENCIA DOS EUA

Para começar, é importante destaca que nos primeiros momentos os EUA não visavam a
independência. Apenas depois de diversas medidas tomadas pela metrópole que
ameaçavam a autonomia e enfraqueciam a economia dos colonos é que começou a
insatisfação com a política inglesa e o conseqüente nascimento do desejo de
independência.

Nessa perspectiva, vale ressaltar que a Inglaterra estava enfraquecia economicamente e


abarrotada de dívidas tendo como uma grande causa a guerra dos setes anos com a
França. Com isso, foram impostas diversas exigências aos Eua cujo objetivo era acabar
com o contrabando, regulamentar o comércio e arrecadar mais renda para a metrópole
e, assim, melhorar a economia inglesa. Dentre as medidas tomadas pode-se destacar o
aumento de impostos e a introdução de diferentes leis, como a Lei do Açucar, Lei de
navegação e a Lei da moneda. Como conseqüência disso, a economia americana entrou
em crise, tanto pelos fatos citados acima quanto pelo fato de que os americanos
dependiam dos créditos ingleses. Não menos importante, é bom destacar que os
americanos estavam insatisfeitos com a política metropolitana pela falta de
representação no parlamento. Assim, é possível destacar a inevitabilidade do
nascimento de resistências às imposições britânicas e um maior impulso ao desejo de
separação.

Nesse contexto, a união das colonias contra as medidas ‘’tiranas’’ da metrópole e a


aliança das diversas camadas da sociedade ( a elite, ‘’classe média’’ e povo) e a luta das
elites locais para controlar o poder das assembléias provinciais em detrimento dos
governadores ingleses fomentou a formação de uma identidade e promoveu um grande
passo para a independência. Outros fatores importantes para o sucesso da
independência foram a distância geográfica, que dificultou o controle dos britânicos
sobre suas colonias e a ajuda dos franceses e a conseqüente penetração dos ideais
iluministas nas treze colônias. A frança, nesse caso, ajudou tanto no âmbito militar
quanto no campo das ideias. Um exemplo que pode exemplificar isso são algumas
características da declaração da independência, as quais possuem visivelmente a
influencia do contrato social de Jhon Locke que, apesar de ser britânico, foi
fundamental para os ideais iluministas surgidos na frança.

Dessa forma, temos como propulsores da independência as políticas impostas da


Inglaterra sobre sua colônia, o seu entrave ao crescimento da economia norte americana,
a falta de representação no parlamento, a conseqüente insatisfação americana pelos
fatores citados acima, a ajuda dos franceses no âmbito das ideias e no militarismo e a
distância geográfica. Além disso, caráter reacionário e conservador dessa emancipação é
latente, uma vez que os colonos foram contra as mudanças políticas e econômicas que
estavam ocorrendo nos seus territórios.

DECLARAÇÃO DE INDEPENDENCIA DOS EUA

Primeiramente, vale afirmar que as visões relacionadas à declaração da independência


variaram ao decorrer do tempo. No começo, ao longo da guerra da independência, a
declaração pode ser vista com um caráter internacional, feita para o outro, ou seja, os
europeus. Depois, com as treze colonias já emancipadas, a declaração foi dotada de um
simbolismo nacional.
Os EUA, como todo país, passou pelos problemas da formação de seu próprio Estado e
de sua soberania. Assim, necessitavam de um reconhecimento da independência e
assistência de outras potencias para poder entrar nas políticas internacionais como um
Estado soberano. A declaração, nesse caso, foi um documento que serviu para exprimir
seu descontentamento com a política britânica, com o objetivo de ganhar o
reconhecimento externo e possibilitar seu ingresso nas relações diplomáticas e
financeiras com outras potências. Nesse caso, a declaração da independência foi um
importante documento que ajudou a entrada de mais um Estado soberano nas relações
internacionais. Com a guerra de 1812 e a ameaça de perda da soberania norte americana
para os ingleses, a declaração foi dotada de um simbolismo nacional, cuja motivação era
fomentar sentimentos patrióticos aos cidadãos para a defesa de seu próprio país. Vale
dizer que a declaração foi vista como puramente americana que serviu de exemplo às
outras nações. Um aspecto interessante é a contradição que a declaração portava em
algumas passagens, como a menção à liberdade e à igualdade e a permanência da
escravidão. Nesse caso, podemos perceber o rixa entre a lei natural e a lei positiva, e as
dificuldades advindas dos ideais destas duas leis para a formação de um Estado.

Nesse caso, pode-se perceber que a declaração possuiu diferentes representações ao


decorrer do tempo. De documento internacional para nacional, serviu como exemplo e
influenciou diversos países, sobretudo os da América. Dentre tais, pode-se citar um
exemplo claro: o Haiti.

INDEPENDENCIA DO HAITI

Percebe-se que o autor possui a preocupação em descrever o processo de independência


e o declínio do regime escravista na ilha de São Domingos. Para começar, vale dizer
que a Ilha de São domingos passava por fortes transformações no século XVIII, as
ideias vindas da França, fomentadas pela revolução francesa e o medo da invasão
espanhola e britânica criaram um ambiente propício às tensões sociais na colônia
francesa. Destaca-se ainda que o regime de plantation imperava na colônia e as
reivindicações dos escravos para estabelecer um limite para o tempo de trabalho eram
cada vez mais freqüentes. Com esses fatores, pode-se perceber que as revoltas podiam
explodir a qualquer momento.

Nessa perspectiva, vale destacar que as tensões sociais proporcionavam diversas


guerras, em que um dos principais impulsionadores eram as ideias francesas. Uma das
vantagens que os escravos tinham era um senso prévio de organização e preparação
militar fortalecidas pelo regime de plantation e pelas experiências militares adquiridas
nas guerras da África. Tal vantagem foi fundamental para o sucesso dos rebeldes. Além
disso, como um fator que impulsionou o sucesso dos negros, foi a criação de uma
narrativa para fortalecer o levante, a fim de ganhar apoio para a população negra. Cita-
se também que os problemas internos da frança enfraqueceu o poder da metrópole sobre
a ilha de são domingos, ainda mais quando a França entrou no período do Diretório, o
qual era propício ao avanço republicano. Com tudo isso, é possível perceber a mudança
progressiva do regime de plantation para uma economia de subsistência, em que muitos
habitantes estavam preocupados apenas com seu sustento, e o nascimento de uma elite
negra e escrava.

A independência do Haiti foi o primeiro exemplo de independência cuja liderança e


exército eram negros e escravos. Fez surgir, nesse caso, um fantasma para as outras
colonias, em que o medo por uma revolução como a do Haiti estimulou as outras elites a
se organizarem e conter as tensões sociais latentes.

INDEPENDENCIA DA AMÉRICA LATINA

Benedict Anderson

É possível afirmar que o autor tem como preocupação o debate de uma realidade extra-
européia, cujo principal assunto é o nacionalismo e a libertação nacional das Américas.
No caso em questão, pode-se perceber uma elite criolla como pioneira no sentimento
nacional.

Vale dizer que os movimentos nacionalistas da América latina vieram juntos com uma
revolução cultural, na qual a explicação relacionada ao forte controle da Espanha, às
ideias liberais do iluminismo na metade do século XVIII e à forte circulação de ideias e
noticias – principalmente vindas das treze colonias e da revolução francesa – são
insuficientes para abordar tal fenômeno, apesar de criarem um ambiente propício às
tensões sociais e ajudarem no sentimento nacional. Nesse sentido, para o autor, os
movimentos nacionalistas da América latina vão além dos fatores econômicos e das
ideias iluministas, tais movimentos ganham força a partir de uma nova consciência
formada a partir dos funcionários peregrinos e impressões locais.

O absolutismo e suas redes de relações garantiram uma intercambialidade de


documentos e de pessoas que faziam parte dessas teias de relações nas colonias. Vale
dizer que as colonias espanholas possuíam grandes extensões de terras e por isso tinham
partes em que suas formas de fazer política e de se organizarem eram diferentes uma
das outras. Tais funcionários peregrinos, nesse caso, eram homens que circulavam pelas
colonias e matinham conversas e relações com outros homens, os quais expressavam
seu descontentamento com a exclusão dos mesmos para os cargos administrativos com
mais benefícios. Esta exclusão pode ser explicada pelo medo racista de mistura de raças
e por ameaçar a soberania metropolitana com a doação de maior poder aos criollos.
Assim, um sentimento de diferença e uma identidade nacional foi nascendo entre os
hispano-americanos, cujo principal propulsor foi o choque entre homens com diferentes
características e atribuições.

A imprensa foi outro aspecto que impulsionou o movimento nacionalista. Foi possível,
através das experiências compartilhadas das notícias da administração colonial e dos
mercados por jornais que utilizavam linguagens que variavam dependendo da localidade
e ditavam termos que fomentavam o sentimento de pertença a um grupo como ‘’patria’’
ou ‘’nação’’– a lingua não tinha variações com a mesma intensidade da Europa, na
América tinha variações do Espanhol apenas –, a criação de ‘’ comunidades imaginadas
‘’ e, com isso, o fomento do sentimento nacionalista.

Jhon Lynch

Para começar, é importante destacar que a emancipação não fazia parte do discurso
inicial dos criollos, assim como da elite norte americana. A ideia de independência se
formou gradativamente, a partir das medidas tomadas das metrópoles sobre suas
colonias.

No caso da Espanha, a necessidade de independência nasceu a partir das medidas


modernizantes tomadas pela mesma e importa às suas colonias. Vale dizer que os
criollos tinham uma liberdade nos locais com a compra de cargos e com barganhas
informais, mas tal autonomia e a economia dos mesmos foram enfraquecidas e
ameaçadas pelo reforço da administração nos moldes da ilustração e pelo aumento dos
impostos. A proibição da produção de manufaturas e o envio de quase todo lucro da
mineração para a metrópole é um exemplo que demonstrava o caráter parasita da
metrópole. Nesse caso, pode-se perceber uma maior centralização sobre as colonias,
fato que não agradou as elites locais.

Além disso, como fator que fortaleceu o nacionalismo e, com isso, a independência, foi
a expulsão dos jesuítas, o confisco e vendas de suas terras. Tal fato foi visto como um
ato de despotismo e ameaça aos americanos. Ademais, suscitou a criação de uma
‘’literatura nacional’’ que portava elementos patrióticos e a insatisfação com os atos
metropolitanos. Os jesuítas, nesse caso, foram importante para o fortalecimento dessa
literatura.

Somado a isso, pode-se destacar que o sentimento de diferença entre criollos e


peninsulares e a conseqüente rixa entre ambos também fomentaram o nacionalismo e a
independência. Mas o autor afirma que é preciso ter cuidado com tal visão, na medida
em que existiam diversas relações entre a elite local e os peninsulares e não uma divisão
explítica. Entretanto, é preciso admitir que o sentimento de pertença a um grupo existia
e, com isso, o nacionalismo também. Nesse aspecto, temos a importância da linguagem
para a formação das mentalidades e a utilização de termos como ‘’pátria’’ e ‘’nação’’

É importante destacar o fato de que, ao mesmo tempo que a metrópole tentou se


fortalecer com suas reformas, se enfraqueceu e criou uma via de mão dupla. Para
exemplificar para citar o caso dos exércitos locais. Os mesmos exércitos fortalecidos
pela metrópole para proteger a soberania da mesma foram utilizados para a proteção dos
territórios americanos na ausência da Espanha diante da invasão inglesa e a conseqüente
criação de uma identidade e sentimento nacional. Outro aspecto que impulsionou a
independência foi o enfraquecimento da Espanha com as guerras que travavam contra a
invasão napoleônica e a sua ausência no controle de suas colonias. Dessa forma, os
colonos sentiram o prazer do poder político proporcionado pela defesa de seus
territórios por seus próprios exércitos. Como aponta o autor ‘’ a fraqueza da Espanha
introduziu os criollos na política’’.

Por último, é importante destacar a necessidade de organização dos criollos para o


preenchimento do vazio de poder fomentada pelo fantasma do Haiti, no qual produziu
um medo nas elites criollas de revoluções na medida em que a tensão social estava a
todo vapor com o choque de pessoas de diferentes grupos sociais.