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Livre-Arbítrio e Responsabilidade Humana: Uma Defesa do Caráter

Justo e Amável de Deus1


Leandro de Lima Bezerra2

https://www.editorareflexao.com.br/livre-arbitrio-e-responsabilidade-humana-uma-defesa-do-carater-justo-e-amavel-de-
deus/b/29

"Não há mérito nem culpa moral em qualquer homem que não possa evitar nem concorrer para aquilo
que faz. Não importa que a explicação para o seu comportamento esteja dentro ou fora dele, que se
expresse de acordo com causas físicas correntes ou supostamente "mentais", ou que as causas sejam
próximas ou remotas". Richard Taylor

"Os céus e a terra tomo hoje por testemunhas contra vós, de que te tenho proposto a vida e a morte, a
bênção e a maldição; escolhe pois a vida, para que vivas, tu e a tua descendência". Deuteronômio 30.
15-19.

INTRODUÇÃO

Defenderei neste artigo que a noção calvinista de liberdade humana anula a responsabilidade moral e
deturpa o caráter justo e amável de Deus. Se assim for, teremos muitas razões para rejeitar o
calvinismo. Ademais, as consequências práticas dessa teologia são gravíssimas. Deus não faz uma
oferta de salvação genuína para todos os homens, possui duas vontades com respeito aos condenados
e não sente verdadeira compaixão pelos perdidos. O determinismo causal divino tornaria sem sentido
a nossa preocupação com a evangelização e com a vida de oração e santidade. Além do mais, teríamos
um quadro dantesco da ética bíblica, pois, se as nossas ações não estão sob o nosso controle, todas as
advertências e apelos de Deus para que o homem se arrependa dos seus pecados e se converta seriam,
na melhor das hipóteses, um espetáculo de falsidade – o que seria uma conclusão teologicamente
absurda.

Por outro lado, uma noção relevante de livre-arbítrio - liberdade libertária - parece ser absolutamente
coerente e verdadeira, além de ser necessária para uma noção adequada de responsabilidade moral,
podendo, consequentemente, livrar Deus da acusação de ser o autor do mal. Conjuntamente com
outras noções teológicas frutíferas, como o conhecimento médio de Deus, teremos uma forte e
promissora concepção de providência divina. As consequências práticas de uma teologia libertariana
são amplamente frutíferas. O homem é visto um agente real que é causa primeira das suas ações, que
concorre de forma relevante com aquilo que faz e tem um controle especial sobre as suas ações, além
de ter uma capacidade categórica de agir diferentemente e deliberar sobre o que fazer. Essa descrição
parece corresponder plenamente ao tipo de homem que Deus criou e a bíblia revela.

1. NOÇÕES FILOSÓFICAS PRÉVIAS:

É absolutamente inegável que o ser humano possui a intuição básica de livre-arbítrio. Sem que haja
uma boa razão para negarmos que essa intuição reflete uma realidade, somos plenamente justificados

1Este artigo foi ministrado na Conferência de Teologia Armínio-Wesleyana em Recife, dia 20/08/2016.
2 Coopera como auxiliar oficial na Igreja Evangélica Assembleia de Deus convenção Abreu e Lima – PE. Bacharel em
Filosofia (UNICAP), Bacharelando em Teologia (UMESP) e Mestrando em Filosofia (UFPE).
em acreditar que somos realmente livres. Entendemos ainda que se os seres humanos deliberam com
vistas a tomarem decisões, é porque pressupõem concorrem de alguma forma relevante com aquilo
que fazem e creem justificadamente que são livres.

A Bíblia Sagrada também é clara quando descreve os seres humanos como criaturas intelectuais e
moralmente responsáveis pelas suas ações. No entanto, algumas grandes questões filosóficas a esse
respeito devem ser encaradas, a saber: será que somos livres em algum sentido relevante? Qual a
natureza da liberdade que possuímos? Somos nós verdadeiros agentes? Nossas ações são meros
resultados de eventos anteriores que acontecem numa imensa cadeia causal inevitável ou são o
resultado do exercício dos nossos poderes causais de desejar fazer algo? Mas, ainda que, com efeito,
tais questões filosóficas sejam decididas, resta-nos saber se, do ponto de vista teológico, Deus, por ser
soberano, deve ser necessariamente o único agente verdadeiro e, consequentemente, responsável por
tudo.

a) O Determinismo:

Deterministas físicos explicam que a ocorrência de um evento X é uma consequência inevitável das
causas que o antecedem, em conjunto com as leis da natureza. Serão chamados deterministas
“radicais” se concordarem que o determinismo é incompatível com o livre-arbítrio. Se considerarmos
bem o determinismo físico, somente um curso futuro de eventos pode ocorrer. Isso implica que as
nossas “escolhas” e “deliberações” são em si mesmas determinadas. Não existem reais ações ou
escolhas humanas, pois todos os eventos são o resultado de eventos anteriores que recebem e
repassam de maneira totalmente passiva o movimento a outro membro numa cadeia causal
inquebrantável. Ora, sendo o determinismo parte de uma descrição verdadeira do mundo, temos,
então, que cada elo da cadeia não possui nenhum controle. Dadas às condições prévias, as nossas
ações não poderiam ser diferentes de como são. Não há possibilidade real para qualquer ocorrência
contrária. Assim, sendo o determinismo verdadeiro, será verdadeiro para todos os eventos do
passado, presente e futuro; o determinismo não faz concessão ao tempo.

b) Fatalismo e Determinismo:

Perguntam-se os filósofos se existe alguma distinção entre determinismo e fatalismo. A resposta é sim.
Resta-nos saber em que consiste tal distinção e se essa se baseia em algum aspecto relevante. O
determinismo físico, como conceituei, pressupõe o princípio de causalidade universal: todas as coisas
são causalmente determinadas. Quanto ao fatalismo, há uma negação do princípio de causalidade
universal. Por exemplo, o futuro será necessariamente como será sem que seja afetado por qualquer
evento de maneira causal. Já para o determinismo físico, se as causas tivessem sido diferentes, os
resultados seriam igualmente diferentes. Se para o fatalismo o que ocorre é totalmente independe das
condições anteriores, para o determinismo, quando fazemos algo, isso deve ter consequências causais,
ou seja, há condições anteriores em face das quais nenhuma coisa poderia ser senão aquilo que é.
Assim, o que fazemos é causado por acontecimentos anteriores. Quanto ao fatalismo, há
acontecimentos causalmente inertes, ou seja, se está “destinado” a ocorrer X, faça eu o que fizer, X
ocorre. Essa me parece ser única distinção essencial.

A fim de que o cerne da questão seja considerado, conquanto já identificamos a distinção, resta-nos
saber agora se tal distinção é de alguma forma relevante no que concerne às nossas ações que são
ditas livres. Ao que me parece, não! O fatalismo restringe a liberdade humana tanto quanto o
determinismo “rígido”, todavia, advogando uma restrição a liberdade humana totalmente ininteligível.
De acordo com o fatalismo, um evento X poderia está fadado a acontecer e, contudo, ser um evento
indeterminado (sem causa). Lembre-se que o determinismo não faz concessão ao tempo, nem
tampouco as ações humanas. Assim, para o determinista, tal como para o fatalista, nenhum evento
está sob o nosso poder, ou seja, "nada pode jamais acontecer, exceto o que, de fato acontece 3". Assim, o

3 TAYLOR, Richard. Metafísica. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1969. p. 81.


determinista, se for honesto, deve concordar com o fatalista que "o que uma pessoa realmente faz
coincide com o que uma pessoa possivelmente poderia fazer4".

Os deterministas moderados, como veremos, tentam escapar dessa acusação afirmando que nós
poderíamos agir de outras maneiras [se] os estados íntimos que determinam as nossas ações tivessem
sido outros. Mas, veremos que tal argumento, na medida em que apela retoricamente ao condicional,
não passa de uma fraude que pretende suprimir o problema.

Para sermos honestos, devemos reconhecer que calvinistas não são fatalistas, pois entendem que este
estado de coisas é assim em virtude da soberania e da providência de Deus que faz tudo acontecer.
Assim, diferentemente de fatalistas, que negam o princípio de causalidade universal, calvinistas são
deterministas causais (teológicos), distinguindo-se, portanto, também dos deterministas físicos, pois
acham que tudo é causado (por Deus). O que ocorre não ocorre a despeito dos meios, pois Deus é
aquele que determina tanto os fins como os meios para esses fins. Apesar de calvinistas não serem
fatalistas ou deterministas físicos, sabemos agora que tanto no determinismo como no fatalismo se
admite - ou, pelo menos, deve ser admitido - que aquilo que uma pessoa faz coincide com aquilo que
ela poderia fazer.

O rigor conceptual nos obriga a fazer essas distinções entre fatalismo e determinismo, no entanto, as
consequências reais são as mesmas - aliás, se for admito que Deus determina causalmente todos os
eventos do universo, os problemas se avolumam drasticamente. Enquanto os fatalistas pagãos
defendem que este estado de coisas é assim “pelo fato de alguma força impessoal querer assim” e os
deterministas físicos que este estado de coisas é assim "dadas às condições naturais prévias", os
calvinistas dizem que este estado de coisas é assim "porque Deus decretou fosse assim".

Como podemos ver, fatalistas pagãos, deterministas físicos e calvinistas (deterministas teológicos)
podem, um ao lado do outro, cantar que nada jamais pode acontecer, exceto aquilo que de fato
acontece. O fatalismo e o determinismo (seja ele físico ou teológico) coincidem em um ponto
[fundamental]: que não existe nenhuma capacidade categórica ou nenhuma possibilidade real para a
ocorrência de resultados alternativos. Nada podemos fazer além daquilo que de fato fazemos. Não nos
resta nenhuma outra alternativa. Nenhuma pessoa é um agente verdadeiro que está sob o controle das
suas escolhas e ações. Admitir tal coisa, como veremos, é um ataque frontal no cristianismo.

Calvinistas, baseados em uma noção bastante original de soberania e providência divinas, entendem
que Deus é a causa de tudo o que acontece no mundo (DETERMINISMO DIVINO OU TEOLÓGICO), isto
é, Ele decretou o que vai acontecer, e é assim que Ele sabe o que vai acontecer. Calvinistas defendem
que a soberania de Deus significa que há uma restrição causal para tudo que ocorre no mundo. De
resto, não acrescentarei nada sobre essas noções.

2. COMPATIBILISMO E INCOMPATIBILISMO

Como cremos, temos a intuição básica de livre-arbítrio, e nenhuma boa razão há para rejeitarmos que
essa intuição reflita uma realidade. Os deterministas "radicais" são assim chamados por acreditarem
que não há uma simples aparência de incompatibilidade entre o determinismo e a liberdade, existe,
para eles, um choque real. Se o determinismo é verdadeiro, então não há ações livres. Eles admitem
que se o determinismo for verdadeiro, logo não há ações livres. Deterministas "radicais" podem
admitir a nossa intuição de livre-arbítrio, mas acreditam que isso não passa de uma mera ilusão 5.

4MORELAND, J. P; CRAIG, William. Filosofia e Cosmovisão Cristã. São Paulo: Vida Nova, 2005. p. 349.
5Não entrarei aqui nos debates epistemológicos sobre a justificação da nossa crença básica de que somos livres, essa será
apenas admitida.
No geral, tanto na tradição filosófica como na tradição teológica, a rejeição da liberdade humana
sempre pareceu ser algo meio herético. Deterministas radicais nunca foram vistos com bons olhos,
nem pelos filósofos nem pelos teólogos. Todavia, abandonar pura e simplesmente o determinismo
também não foi algo fácil, sobretudo para os calvinistas. Surge daí tentativas de se sustentar, sem
incoerência, esta proposição: o determinismo é verdadeiro e somos livres. Diante de tal dilema, temos
várias alternativas:

a) O Incompatibilismo:

Acerca do problema do livre-arbítrio, o incompatibilismo limita-se a uma afirmação condicional: se o


determinismo é verdadeiro, então não somos livres. O incompatibilismo não assume, de per si, nem
que o determinismo é verdadeiro, nem que o livre-arbítrio é verdadeiro, assume apenas que há
incompatibilidade entre as proposições [determinismo-D e Livre-arbítrio-L). Temos que: ou D é
verdadeira e L falsa; ou D é falsa e L verdadeira; ou ambas (D e L) são falsas.

a) D é verdadeira e L falsa: chama-se determinismo "radical".

b) D é falsa e L verdadeira: chama-se libertarianismo (não deve ser confundido com nenhuma
ideologia econômica).

c) ambas (D e L) são falsas: é compatível, em certo sentido, com o fatalismo.

b) Compatibilismo:

Para o compatibilismo, o determinismo não exclui a possibilidade de sermos livres, isto é, a liberdade
corretamente compreendida é compatível com o determinismo. Nossas ações, determinadas
adequadamente pelos nossos desejos e vontades, é uma descrição adequada de como somos livres.
Não deve passar despercebido que os compatibilistas não são menos deterministas do que os
deterministas "radicais" - por isso a minha insistência em colocar sempre as aspas no termo "radical" -
mas, ao contrário dos "radicais", tentam, por meio de ressignificação de conceitos, encontrar alguma
condição na qual seja ao menos coerente dizer que somos livres apesar de determinados. Assim,
preocupando-se com a coerência, compatibilistas são obrigados a ressignificar o que significa agir de
maneira livre. Assim, no final das contas, compatibilistas querem dizer - claro, de maneira mais
sofisticada - que somos livres quando não somos livres. Dizer assim seria incorrerem em contradição
explícita, o que ninguém desejaria. Então, na tentativa de escaparem da contradição e, ainda assim,
admitirem que somos livres e responsáveis por nossas ações, acabaram rejeitando qualquer sentido
relevante ao conceito de liberdade. Ou seja, os compatibilistas querem uma licença intelectual para
continuar usando o termo liberdade mesmo admitindo o determinismo6.

c) Uma palavra sobre a consistência:

Cumpre aqui esclarecer que, no coração da questão compatibilista, observamos uma persistente busca
pela consistência. Contudo, o que vem a ser consistência? Pode-se dizer, grosso modo, que um
conjunto de no mínimo duas frases é consistente quando existe pelo menos uma condição na qual
ambas as frases são verdadeiras, isto é, quando a verdade de uma delas não exclui a verdade da outra.
Em um conjunto inconsistente, se uma proposição for verdadeira, a outra será falsa. O que muitos não
percebem é que nem sempre a condição na qual ambas as frases são consistentes corresponde àquela
que de fato nos encontramos. Devemos ter em mente que a consistência ou inconsistência ocorre
numa relação entre proposições, não entre estados de coisas. P. ex., uma teoria pode ser perfeitamente
consistente, sem que haja qualquer contradição entre os seus postulados e axiomas e ainda ser falsa.

6 Jerry Walls e Joseph R. Dongell mostram no seu livro [Por que Não Sou Calvinista. São Paulo: Editora Reflexão, 2014. Cap.
5: O Calvinismo e a Consistência] como os calvinistas compatibilistas continuam usando de forma ampla o termo
"liberdade" em sua teologia e, o que é pior, ainda pressupondo uma noção de liberdade libertária.
O compatibilista que apresenta, depois de muito malabarismo semântico, uma condição na qual
ambas as proposições (D e L) podem ser afirmadas sem que haja inconsistência, se esquece que isso
não é suficiente nem relevante para a resolução do problema. A grande questão é se as proposições
são de fato verdadeiras. Argumentarei que a condição fornecida pelo compatibilista na qual a
liberdade não é incompatível com o determinismo torna trivial a nossa noção de liberdade. Em outras
palavras, “Liberdade compatibilista não é liberdade absolutamente 7”. Ou seja, para conseguirem uma
condição na qual o determinismo seja consistente com a liberdade, os calvinistas devem enfraquecer
muito ou o conceito de deternimismo ou o de liberdade – obviamente que eles preferem enfraquecer o
conceito de liberdade. Assim, vemos que os calvinistas costumam usar palavras tradicionais dando-
lhes um novo sentido mais profundo, implicitamente negando aquilo que é essencial ao verdadeiro
sentido da palavra.

3. LIBERDADE COMPATIBILISTA E LIBERDADE LIBERTÁRIA

a) Liberdade compatibilista:

O que significa agir livremente? Segundo a visão compatibilista, o comportamento deve ser chamado
voluntário quando decorre de causas interiores, na ausência de obstáculos e coações externas ou
internas. Quando um agente age de acordo com seus estados internos - desejos, crenças, vontade
superior e sentimentos - na ausência de obstáculos, impedimentos e coações que o impeçam de atingir
os fins pretendidos, então dizem que agiu livremente. Assim, o comportamento humano é o resultado
de condições antecedentes que, sendo atualizadas, nenhum outro comportamento seria possível8.

Os compatibilistas podem admitir tranquilamente que um ato livre é aquele no qual se pode agir de
maneira diferente de como se age. Contudo, esse "poder de agir" de maneira diferente não passa de
uma mera [capacidade hipotética], isto é, o compatibilista acredita que poderia ter agido
diferentemente [se] os seus estados íntimos que determinaram a sua ação fossem diferentes. Esses
estados íntimos representam, como já afirmamos, um estado psicológico em que o sujeito porta uma
determinada crença, ou desejo de fazer algo, ou sentimentos fortes, etc. Fazer diferentemente é, em
certo sentido, possível, mas, apenas na condição hipotética do sujeito ter desejado fazer
diferentemente.

Compatibilistas também assumem que a pessoa realmente precisa estar no controle de suas ações
para que possa realizar um ato livre - os filósofos chamam isso de condição de controle. No entanto,
como vimos, compatibilistas acreditam que o determinismo é verdadeiro. O determinismo pressupõe
o princípio de causalidade universal: todas as coisas são causalmente determinadas. Logo, agir de tal
maneira que a ação esteja sobre o controle do agente – essa é uma definição sem a qual a palavra
“agir” seria trivial – é agir quando [causado] de maneira adequada pelas condições prévias inerentes
ao próprio agente. Eles defendem que as razões que temos para agir são sempre produtoras de
estados de coisas no agente. As nossas razões pessoais que nós temos para agir são como causas
eficientes que produzem algum efeito. Nossos estados internos causam nossas ações, mas as razões
provocaram os desejos que, por sua vez, provocaram a ação.

Desde que o determinismo admite a verdade do princípio de causalidade universal, os eventos que
ocorrem no universo são como elos numa cadeia de eventos. Um exemplo mental é o de uma grande
fileira de dominós, todos passivos e caindo um após o outro. A queda de um dominó terá como
consequência inevitável o desencadeamento radical de outro evento, a queda do próximo dominó, e
assim sucessivamente. A relação que envolve os membros numa cadeia causal universal é uma relação

7 MILTON, Evan. A Incompatibilidade do Compatibilismo. Disponível em <http://deusamouomundo.com/calvinismo/a-


incompatibilidade-do-compatibilismo/>. Tradução de Walson Sales.
8 Para uma abordagem filosófica mais detalhada da noção de liberdade compatibilista, ver em: (KANE, Robert. A

Contemporary Introduction to Free Will. Nova Iorque: Oxford University Press, 2005. pp. 12–22).
entre eventos. Sendo assim, do ponto de vista ontológico, o compatibilismo é absolutamente
compatível com a noção de que agentes são como coisas-propriedades9, isto é, uma série de eventos
numa cadeia causal.

Antes de proceder com a refutação da noção de liberdade compatibilista - e farei isso dentro do
quadro teológico mais amplo - procederei com a definição e caracterização de liberdade libertária.

b) Liberdade libertária:

A expressão “liberdade libertária”, a primeira vista, parece soar redundante, e realmente é. Se não
fosse a nuvem de confusão criada pelos compatibilistas não precisaríamos falar em uma liberdade
“libertária”, o termo "liberdade" continuaria sendo usado no seu sentido comum. Mas, infelizmente, os
compatibilistas cometem aquilo que os filósofos chamam de desvio injustificado do uso padrão das
palavras, o que nos obriga a enfatizar o termo “liberdade” com o complemento “libertária”.

O libertarianismo é uma espécie de incompatibilismo, pois admite que a liberdade é incompatível com
o determinismo, mas, diferente do determinismo “rígido”, não acredita na verdade do determinismo,
mas do livre-arbítrio. A noção fundamental ao livre-arbítrio, dito de forma simples, é que o agente não
é causado a agir por causas outras que não ele próprio. Se formos agentes, concorremos de alguma
forma relevante com aquilo que fazemos. O agente é o causador real das suas ações. Passarei agora a
apresentar os desdobramentos.

O que é ser um agente? Em primeiro lugar, um agente precisa ser uma pessoa. Ora, a nossa identidade
pessoal corresponde ao “eu” que, na tradição filosófica clássica, corresponde à alma, que é possuidora
das experiências. A mente [ou alma] não pode ser identificada com nenhuma parte do cérebro, muito
menos com qualquer experiência mental. Ela deve ser capaz de continuar existindo após a morte do
corpo. O “eu” é uma substância, isto é, aquilo que pode logicamente existir independentemente de
qualquer outra substância. Ou seja, aquilo que pode existir por si mesma sem o suporte de outra
substância10. Quando penso no “eu” (relacionado a mim) reconheço basicamente que sou o sujeito de
uma multiplicidade de experiências, crenças e vontades, consequentemente, continuo sendo distinto
de cada uma das minhas experiências, como afirma Swinburne: “Sou essencialmente minha alma, cuja
identidade é irredutível a qualquer outra coisa 11”. Swinburne entende que uma substância não é uma
coleção ou feixe de propriedades sem as quais nada mais restaria, mas aquilo que pode existe por si.
Em segundo lugar, um agente é aquele de onde partem as ações, isto é, aquele que é a fonte absoluta
das suas ações. O agente é aquele que concorre de forma relevante com aquilo que faz, isto é, aquele
que tem um controle especial sobre as suas ações, sendo o primeiro motor da sua ação. Assim, sendo o
agente o originador das suas ações, mantendo sobre elas uma relação de “senhor”, podemos entender
que ele é responsável moralmente por elas.

Segundo a visão libertariana, o agente possui uma capacidade categórica de agir ou querer agir12. Um
agente possui capacidade categórica quando ao fazer X, poderia não ter feito X (ou desejado fazer) ou
poderia ter feito Y (ou desejado fazer), nas mesmas condições. Isso implica uma capacidade dual: o
agente pode ou não exercer seus poderes de fazer (ou querer fazer) X. A capacidade de se abster de
fazer algo deve ser real. Por fim, quando o agente age, age como causa primeira, em virtude de razões.
O agente age verdadeiramente se é a fonte das suas ações, não simplesmente servindo como causa
instrumental, recebendo e repassando passivamente o movimento causal. As razões, que servem
como causas finais, envolvem o processo natural da deliberação.

9 Para uma introdução clara e objetiva sobre as noções ontológicas, ver em (MORELAND, J. P; CRAIG, William. Filosofia e
Cosmovisão Cristã. São Paulo: Vida Nova, 2005. pp.276-284).
10 Alguns filósofos, a fim de distinguirem substância de propriedade, definem substância como aquilo que pode ter

propriedades, mas não pode ser propriedade de coisa alguma.


11 SWINBURNE, Richard. Uma Defesa do Dualismo de Substância. Revista Princípios, Natal, v.15, n.23, jan./jun. 2008, p. 313.
12 É preciso distinguir a noção de liberdade da vontade, que, como cremos, é necessária à noção de responsabilidade moral,

da noção de liberdade da ação. Alguém pode ter a sua liberdade de ação restringida por muitos fatores, como, por exemplo,
fatores naturais - seria fisicamente impossível eu sair voando - mas isso não implica a negação do livre-arbítrio.
Falando em deliberação, outra importante observação é que a deliberação pressupõe a liberdade
libertária. Uma prova disso é que não podemos jamais deliberar pelos outros, apenas por nós mesmos.
A deliberação pressupõe que algo está sob a nossa decisão. Uma tese importante do determinismo é
que esse não faz concessão ao tempo: não há possibilidade real para uma ocorrência contrária. Ora,
ninguém delibera sobre o passado, pois entende que esse é inalterável, mas sim sobre o futuro. Mas, se
o determinismo for verdade, o futuro é tão inalterável quanto o passado. O compatibilista, por assumir
o determinismo, tem uma crença que anula a racionalidade da sua deliberação sobre o futuro. O
libertário, diferentemente, pode racionalmente deliberar sobre o que deve ou não fazer. Se eu delibero
é porque sei que concorro de alguma forma relevante com a minha ação e que as alternativas são
verdadeiramente reais. Se as minhas ações não estão sob o meu controle e as alternativas não são
reais, é só sentar e esperar, ou, como Taylor, que é fatalista, afirma: “Se estou sentado, não posso
deliberar a respeito de estar sentado. Apenas posso deliberar a respeito de continuar ou não sentado –
e isso já diz respeito a um ato futuro”13. O compatibilista se encontra em meio a um dilema.

4. LIVRE-ARBÍTRIO E RESPONSABILIDADE

A partir deste momento entrarei no âmbito mais amplo da discussão, trabalhando os conceitos
desenvolvidos até aqui com certos problemas teológicos. Na bíblia, devemos admitir, não
encontramos elaborada nenhuma teoria sobre a nossa responsabilidade moral, isso, no entanto, não é
um grande problema, pois é inegável que alguma noção de responsabilidade moral é pressuposta na
Escritura. Aliás, como acredito, a realidade da escolha humana e a nossa responsabilização por ela
perante Deus deve causar-nos um santo temor. Precisamos avançar para alcançarmos a noção que
seja mais coerente com o nosso melhor conhecimento da realidade e de Deus, sem contradizer a
Bíblia.

A opção pelo “mistério”, adotada por calvinistas como J. I. Packer e Edwin H. Palmer, deve ser
rejeitada. Deve ser rejeitada por dois motivos: por ser uma forma velada de permanecer defendendo
contradições e porque existem explicações teológicas disponíveis para o problema, por exemplo, o
libertarianismo ou o compatibilismo. Também não devemos falar aqui em “contradição aparente”,
“paradoxo”, “antinomia”, etc. Esses termos, na boca de calvinistas, ganham, à semelhança do termo
"liberdade", novo significado. Na verdade, uma contradição aparente não existe! Uma relação entre
proposições ou é consistente ou não, simples assim. Também não há de se falar em “paradoxo”, ou
“antinomia”, termos igualmente usados de maneira arbitrária. Temos um paradoxo quando a verdade
de uma proposição implica a sua não verdade e a sua não verdade implica a sua verdade. Calvinistas
optam pelo embuste do desvio injustificado do uso padrão das palavras.

O calvinista R. K. McGregor-Wright acredita que ninguém jamais demonstrou que o livre-arbítrio é


necessário para a responsabilidade moral14. Outro calvinista famoso, John Frame, em um artigo
absolutamente confuso, foi mais além, acredita que a noção de que a liberdade libertária é necessária
para a responsabilidade moral é “carente de força moral”15. Mas, será isso verdade? O primeiro erro
dos teólogos reformados é pensar que precisamos apresentar um versículo bíblico que contenha ipsis
litteris a seguinte proposição: “A liberdade libertária é necessária para a responsabilidade moral”.
Mas, quem disse que precisamos de tal versículo? Aliás, se formos seguir esse critério, não
encontraremos igualmente a proposição: “A liberdade compatibilista é necessária para a
responsabilidade moral”. O problema é que só poderemos saber qual é a melhor teoria, aquela que
melhor se adéqua ao nosso conhecimento da Bíblia, depois de formularmos as hipóteses, guiados
sempre pela nossa luz natural e auxiliados pelo Espírito Santo. Defenderei que as consequências de

13TAYLOR, Richard. Metafísica. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1969. p. 60.


14R. K. McGregor-Wright. Soberania Banida. São Paulo: Cultura Cristã, 1996, p.60.
15FRAME, John. Livre-Arbítrio e Responsabilidade. Disponível em
<http://www.monergismo.com/livre_arbitrio/livre_responsabilidade_frame.htm>.
admitirmos a liberdade libertária são frutíferas, enquanto que as consequências de abraçarmos o
compatibilismo calvinista são terríveis.

Segundo a visão libertária da liberdade, o homem é um agente real que é a causa primeira das suas
ações, concorre de forma relevante com aquilo que faz, tem um controle especial sobre as suas ações,
tem uma capacidade categórica de agir diferentemente e delibera sobre o que fazer. Essa descrição
parece corresponder plenamente ao tipo de homem que Deus criou e a bíblia revela. Pela Bíblia,
sabemos irrefragavelmente que:

1. Pessoas são chamadas a obedecer, se arrepender e crer em Deus.


2. Deus exorta seu povo a uma vida de piedade.
3. Deus emite ordens e mandamentos morais para seu povo.
4. Ao pecarem e se rebelarem contra Deus, as pessoas são duramente punidas por Ele.
5. Haverá graus diferentes de punição.
6. Deus submete seus escolhidos a duros testes e provas visando o seu aperfeiçoamento moral.
7. Deus louva e galardoa aqueles lhe obedecem.
8. Deus censura e castiga aqueles que lhe desobedecem.
9. Deus faz propostas de caminhos alternativos ao seu povo, apontando as consequências da
escolha.
10. Deus se compadece da humanidade e deseja verdadeiramente a sua conversão.
11. As orações geram resultados perante o Senhor.
12. Deus se relaciona sinceramente com o seu povo.

A descrição bíblica da natureza do relacionamento entre Deus e a humanidade só pode fazer sentido
se o homem for significativamente livre. A proposição que defendemos é: A liberdade libertária é
necessária para a responsabilidade moral. Alvin Plantinga afirma que “[...] uma ação é moralmente
significativa, para uma pessoa, se fosse incorreto para ela a realização da ação, mas correto que
evitasse realizá-la, ou vice-versa"16. A definição de Plantinga é plenamente compatível com
Deuteronômio 30. 15-19. A capacidade para a realização de uma ação exige a existência de um agente
que seja causa primeira da sua ação, do contrário, o "agente" não seria o realizador da ação. Plantinga
continua, dizendo "[...] diremos que uma pessoa é significativamente livre, numa dada ocasião, se for
então livre com respeito a uma ação moralmente significativa 17". A liberdade com respeito a uma ação
moralmente significativa torna o agente responsável pela sua ação. A partir dessas duas definições,
que admitimos corretas, Plantinga conclui, dizendo: "Mal moral [...] É o mal que resulta da atividade
humana livre"18. Tão logo entendidos os significados das palavras, notamos como a nossa proposta
parece ser infinitamente mais plausível do que qualquer explicação compatibilista. O que Plantinga
está defendendo implica que a negação do livre arbítrio libertário resulta na anulação do bem moral e
do mal moral.

5. RESPONSABILIDADE MORAL: UM DILEMA AO COMPATIBILISMO CALVINISTA

a) Compatibilismo e soberania divina:

16 PLANTINGA, Alvin. Deus, a Liberdade e o Mal. Tradução de Desidério Murcho. São Paulo: Vida Nova, 2012. p. 46.
17 Idem.
18 Idem.
Assim como Jerry Walls e Joseph Dongell identificaram em "Por que não sou calvinista”, a Confissão de
Westmister parece em alguns momentos usar uma linguagem claramente libertária 19, apesar de, no
geral, o documento pretender ser de cunho compatibilista. A Confissão de Westmister, como é
costume da teologia calvinista, confere grande destaque a soberania de Deus, entendida segundo a
definição calvinista de determinismo divino, inclusive sobre aqueles que foram destinados à vida ou
tormento eterno. Deus, pela sua onipotência, "determinando-os para aquilo que é bom", faz com que
seus eleitos, apesar de determinados, "venham mui livremente, sendo feitos para isso dispostos por
Sua Graça" (Artigo 10). Ser feito "disposto", de maneira clara e objetiva, é uma forma compatibilista de
explicar como alguém agiu por determinação divina. Calvinistas, no entanto, dirão que isso não se
trata de coação divina, uma vez que Deus não atrai os seus eleitos a despeito da vontade deles. Deus,
que é perfeitamente Sábio e Todo-Poderoso, simplesmente muda internamente o coração e a mente
dos eleitos, de tal maneira que eles venham "mui livremente", isto é, voluntariamente. Sproul, que é
compatibilista, usa o exemplo do endurecimento de Faraó para exemplificar como nós podemos ser os
culpados por nossas ações, apesar de Deus determinar tudo. Sproul defende que a dureza do coração
de Faraó foi formada por uma longa série de eventos e escolhas anteriores dele 20. Mas, infelizmente,
Sproul omite um dado muito importante na sua “equação”, pois, se nós examinarmos o quadro geral,
não cumpre parar a explicação em Faraó, pois tudo, inclusive as escolhas, pensamentos e crenças do
faraó foram determinados por Deus.

Aqueles que não virão a Cristo, conforme Calvino explicou, não virão porque “[...] aqueles a quem Deus
pretere os reprova; não por outra causa, mas porque os quer excluir da herança para a qual
predestina a seus filhos”. (Institutas: 3. 23, 1). Sendo assim, não adianta recorrer à natureza depravada
dos homens para tentar explicar a questão da condenação eterna dos ímpios, pois, conforme Olson
afirma: "[...] de acordo com o calvinismo rígido, Deus quer o pecado, o mal e que o sofrimento inocente
aconteçam ainda que, como alguns calvinistas tal como John Piper diz, que isso machuque a Deus. E
ele quer que estas coisas aconteçam de maneira causal: ele as torna certas" 21. Apesar de Deus,
segundo a visão compatibilista, ter condições de determinar que absolutamente todos os homens
aceitem a Cristo “livremente” e sejam salvos, Ele prefere destinar multidões ao inferno para
manifestar neles a sua ira e ser mais glorificado. No calvinismo, a condenação da maioria das criaturas
ao inferno parece ser algo necessário. Essa, verdadeiramente, não pode ser uma descrição do Deus da
Bíblia.

Quando o calvinismo ensina que o homem é livre apenas para "agir" segundo os seus desejos, que,
após a Queda, são totalmente depravados, evita o fato inquietante de que o "agente", por causa do
determinismo, não pode querer fazer diferentemente do que realmente faz. Assim, à primeira vista, o
homem só pode agir de acordo com a sua natureza totalmente depravada, mas, logo em seguida,
somos informados que o homem, até quando peca, age de acordo com a vontade soberana e diretiva
de Deus. Assim, devemos considerar que o compatibilismo calvinista é, no máximo, uma forma mais
sofisticada de negar que o homem é significativamente livre.

A doutrina calvinista da providência divina, por conseguinte, não abre quaisquer espaços para a
liberdade humana. Em um nível mais profundo, entendemos que, se a liberdade for definida em
termos libertários, calvinistas são declaradamente incompatibilistas. Segundo Feinberg, "Calvinistas
por serem incompatibilistas, devem rejeitar totalmente a liberdade ou aceitar o compatibilismo"22. O
calvinista famoso, Arthur W. Pink, declarou: "[...] afirmar que ele [o ser humano] é um agente livre é
negar que ele é totalmente depravado"23. Por essa razão, Calvinistas acusam arminianos e outros

19 A confissão de Westmister afirma que a ação do Espírito Santo é eficaz sobre o eleito, que é totalmente passivo, [até que]
"sendo despertado e renovado pelo Espírito Santo, ele então seja capaz de responder a esse chamado, e abraçar a graça
oferecida e presente nele [...]" (Artigo 10.2). Todavia, como Jerry Walls e Joseph Dongel notaram, capacitar alguém para
agir é absolutamente diferente de determinar sua ação.
20 Cf. SPROUL, R.C. Eleitos de Deus. São Paulo: Cultura Cristã, 2002. pp.104-108.
21 OLSON, Roger. Contra o Calvinismo. Tradução Wellington Mariano. São Paulo: Editora Reflexão, 2013. p. 138.
22 FEINBERG, John S. God, Freedom and Evil in Calvinist Thinking. Em The Grace of the Will. Ed. Thomas R. Schreiner e Bruce

A. Ware. Grand Rapids, MI, EUA: Baker, 1995, 2:465.


23 PINK, Arthur W. The Sovereignty of God. Grand Rapids, MI: Baker Book House, 1984. p. 138.
cristãos, sobretudo molinistas, de negarem a soberania divina. Para eles, acreditar no livre-arbítrio
implicaria na rejeição tanto da soberania divina como da doutrina da depravação total. Todavia,
veremos que isso é falso.

Antes de tudo, observemos como os calvinistas e o próprio Calvino entenderam a doutrina da


providência divina. Segundo o calvinismo, Deus predetermina absolutamente tudo. Mesmo no tocante
ao mal moral, Deus é Aquele que move causalmente a vontade das pessoas. Assim, apesar das nossas
ações não estarem sob o nosso controle em nenhum sentido relevante, continuamos sendo os únicos
responsáveis por elas. Parece claro que, apesar da relutância reformada, tal doutrina anula
necessariamente a responsabilidade humana e mancha o caráter santo, justo e amável de Deus. Dentre
tantas citações constrangedoras que poderíamos aqui fazer do próprio Calvino, observemos as mais
chocantes:

Por isso, pois, ele é tido por onipotente, não porque de fato possa agir, contudo às vezes cesse e permaneça inativo;
ou, por um impulso geral de continuidade ao curso da natureza que prefixou, mas porque, governando céu e terra
por sua providência, a tudo regula de tal modo que nada ocorra senão por sua determinação. Institutas,1.16.3.

E a este ponto se estende a força da divina providência, não somente que sucedam as eventuações das coisas como
haja previsto ser conveniente, mas também que ao mesmo se incline a vontade dos homens [...] somos compelidos a
sujeitar o próprio arbítrio ao impulso especial de Deus. Institutas,2.4.6.

Imaginemos, por exemplo, um mercador que, havendo entrado em uma zona de mata com um grupo de homens de
confiança, imprudentemente se desgarre dos companheiros, em seu próprio divagar seja levado a um covil de
salteadores, caia nas mãos dos ladrões, tenha o pescoço cortado. Sua morte fora não meramente antevista pelo olho
de Deus, mas, além disso, é estabelecida por seu decreto. Institutas,1.16.9.

Acertadamente, assim define Agostinho a matéria em certo lugar: ‘Que os maus pequem, isso eles fazem por
natureza; porém que ao pecarem, ou façam isto ou aquilo, isso provém do poder de Deus, que divide as trevas
conforme lhe apraz.’ Institutas,2.4.4.

Portanto, o homem cai porque assim o ordenou a providência de Deus. Institutas, 3.23.8.

[...] não há nada mais absurdo do que alguma coisa acontecer sem que Deus o ordene. Institutas,1.16.8.

Diante dessas citações fica claro que: 1. Calvino negou que o homem fosse um verdadeiro agente; 2.
Calvino afirmou que Deus prefixou o curso completo da natureza; 3. Calvino defendeu que Deus move
a vontade dos homens pelo seu decreto e determinação, inclusive a própria vontade pecaminosa; 4. A
providência de Deus ordenou a Queda de Adão; 5. Não há nada aleatório, pois Deus ordena tudo 24.

Os calvinistas posteriores mudaram apenas a retórica, mas a essência da doutrina continuou a mesma:
determinismo teológico. Jonathan Edwards, do famoso sermão "Pecadores nas mãos de um Deus irado",
foi talvez aquele que afirmou mais rigidamente a noção de providência divina. Para Edwards, Deus
atua sobre a volição humana de maneira determinante e diretiva. Outros calvinistas famosos, como
Sproul, Helm e Piper, apesar de não gostarem do rótulo de "deterministas", não defendem nada mais
brando do que aquilo que foi ensinado por Calvino, Zuínglio ou Edwards, são apenas mais sofisticados.
Sproul, numa célebre e conhecida passagem, descreve a providência de Deus da seguinte maneira: "O
movimento de cada molécula, as ações de cada planta, o cair de cada estrela, as escolhas de cada
criatura volitiva, todos estes estão sujeitos à sua vontade soberana. Não há moléculas indisciplinadas
correndo soltas no universo fora do controle do Criador. Se tal molécula existisse, ela poderia ser a
mosca crítica do azeite eterno25".

24 Ulrico Zuínglio, por exemplo, uma vez que tinha certo treino filosófico, definiu a doutrina da providência divina em
termos bastante claros. Para ele, Deus sozinho é a única causa sobre tudo. Cf. OLSON, Roger. Contra o Calvinismo. Tradução
de Wellington Carvalho Mariano. São Paulo: Editora Reflexão, 2013. p. 114.
25 SPROUL, R.C. O que é Teologia Reformada? São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 121.
É intrigante ver como, apesar de Sproul sustentar uma noção tão rígida da providência divina, vez por
outra acusa seus colegas supralapsarianos de sustentarem uma visão absurda e que não condiz com a
justiça e o amor de Deus. Não obstante, o seu infralapsarianismo é tão determinista quanto o
supralapsarianismo dos seus colegas. Sproul está tentando esconder as coisas. Apesar de ser
compatibilista, defende na sua obra "Eleitos de Deus" que Adão possuía livre-arbítrio e que pecou pela
permissão de Deus26. Mas, como já afirmamos reiteradas vezes, o compatibilista é necessariamente
um determinista! Aliás, compatibilistas são incompatibilistas em relação ao conceito de liberdade
libertária justamente por entenderem que a soberania de Deus não permite. Deus é soberano e nós
não temos liberdade libertária, ou nós temos liberdade libertária e Deus não é soberano. Calvinistas
optam pela verdade de que Deus é soberano, logo não temos liberdade libertária. Sproul só tenta
esconder o óbvio.

Outra afirmação clara e honesta da doutrina calvinista da providência divina vem de Paul Helm,
segundo ele: "Pois, de acordo com a visão isenta de risco, Deus controla todos os eventos e também dá
mandamentos morais que são desobedecidos em alguns dos muitos eventos que ele controla. Por
exemplo, ele ordena que homens e mulheres amem seu próximo enquanto ao mesmo tempo controla
ações que são maliciosas e odiosas 27". O filósofo calvinista, John Feinberg, reconhece que “Deus
decreta todas as coisas, inclusive os meios e os fins28". Poderíamos, todavia, citar muitos outros textos
de calvinistas famosos, como Arthur W. Pink, Edwin Palmer, John Gill, Boettner, John Piper, John
MacArthur, William Shedd, Francis Turretin, Herman Bavinck, etc., todos eles mostram uma coisa em
comum: o determinismo teológico. Nossas ações são livres no mero sentido trivial de que são
determinadas de alguma maneira "adequada" por Deus.

b) O problema dos fantoches humanos:

O último passo antes de avaliar se a ética bíblica calvinista é razoável será analisar algumas das
consequências da noção de liberdade compatibilista. De acordo com o compatibilismo, o
comportamento humano é o resultado de condições antecedentes que, sendo atualizas, nenhum outro
comportamento seria possível. O compatibilista enfatiza o pressuposto de que as ações livres são
aquelas em que o "agente" é isento de coação e "age" de acordo com os seus próprios desejos, crenças
e valores. No entanto, não se pode evitar a pergunta: serão esses estados internos eles próprios
causados? A resposta é sim. Por serem deterministas, só resta aos compatibilistas uma mera condição
hipotética de o sujeito ter desejado fazer diferentemente. Se, numa condição hipotética, as coisas
poderiam ter sido diferentes, por outro lado, num sentido relevante, nada pode jamais acontecer
exceto o que de fato acontece.

Se os meus comportamentos estiverem corretamente de acordo com meus estados internos -


portanto, classificados como comportamentos “livres” - mas esses estados internos forem causados,
temos um grave problema. O filósofo Richard Taylor oferece um ótimo exemplo:

[...] podemos supor que um engenhoso fisiologista é capaz de induzir em mim qualquer volição que lhe agrade,
premindo simplesmente vários botões de um instrumento ao qual, suponhamos, estou ligado por numerosos fios.
Todas as volições que tenho, nessa situação, portanto, são precisamente aquelas que o instrumento me transmite.
Premindo o botão, o fisiologista suscita em mim a volição de erguer a mão; e a minha mão, estando desimpedida,
levanta-se em resposta a essa volição. Premindo outro, suscita em mim a volição de dar um pontapé, e o meu pé,
estando desimpedido, dá um pontapé em resposta a essa volição. Podemos supor até que o fisiologista coloca um
fuzil em minhas mãos, aponta-o para algum transeunte e depois, premindo o botão apropriado, suscita em mim a
volição de apertar o dedo no gatilho, após o que o transeunte cai morto com um tiro29.

26 Cf. SPROUL, R.C. Eleitos de Deus. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2002. p. 71.
27 HELM, Paul. A Providência de Deus. São Paulo: Cultura Cristã, 2007. p. 19.
28 FEINBERG, John Samuel. Predestinação e Livre-Arbítrio: Quatro Perspectivas sobre a Soberania de Deus e a Liberdade

Humana. Editora Mundo Cristão: 1989, p. 57.


29 TAYLOR, Richard. Metafísica. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1969. p. 69.
O exemplo do Taylor é um escândalo para os compatibilistas! O engenhoso fisiologista, no calvinismo,
representa o próprio Deus. Se o calvinista compatibilista descreve o homem como um agente que age
livremente, apesar de causado, necessariamente o pobre homem induzido pelo engenhoso fisiologista
será igualmente livre. Todas as condições exigidas pelo compatibilismo são satisfeitas no exemplo de
Taylor, mas, apesar disso, é difícil ver como pode haver um agente livre e responsável. Taylor conclui,
dizendo:

Dificilmente se poderá considerar a descrição de um agente livre e respoonsável. É a perfeita descrição de um


fantoche. Para fazer de um homem um fantoche não é forçoso constranger os movimentos de seus membros, à
semelhança das marionetes. O meio mais sutil, porém não menos eficaz, de transformar um homem num fantoche
seria obter o completo domínio de seus estados íntimos e assegurarmo-nos, como a teoria do determinismo
moderado assegura, de que o seu corpo se moverá de acordo com esses estados30.

Não importa quem o fisiologista possa representar, o “agente” é causado e jamais escolhe
verdadeiramente nada. O podre homem que mata o transeunte com tiros de fuzil, sendo, para isso,
induzido pelo fisiologista, jamais pode ser tido como um agente verdadeiramente responsável por sua
ação. Mas, para o compatibilismo, uma vez que foi ele quem apertou com as suas próprias mãos o
gatilho, agindo de acordo com seus estados internos, livre de coação, então foi responsável. Como
podemos ver, a noção de responsabilidade no compatibilismo calvinista faz uma zombaria de Deus.

No calvinismo, Deus preordena e torna certo todo o mal que existe sem precisar, para isso, ligar com
fios qualquer homem. Deus faz tudo pela sua providência. Olson afirma muito bem que: “Muitos
críticos do calvinismo, talvez a maioria, ficam extremamente pasmados com o determinismo divino
calvinista. Há muitas razões, mas a primeira e mais importante é que ele faz com que Deus seja
moralmente impuro, se não repugnante”31. Milton, pasmado com tal construção teológica, declarou:
“Teologicamente, a perda do livre arbítrio tem um impacto devastador de como vemos Deus. Se Deus
determina as ações de cada pessoa, como Ele puniria justamente alguém por fazer o que Ele mesmo os
determinou fazer? Isso seria como uma mãe espancar seu filho por obedecer! A perda do livre arbítrio
reduziria Deus a um mestre das marionetes mau, que queima pessoas por toda a eternidade por fazer
as coisas que Ele os fez fazer” 32. A pior parte de tudo isso é que, como consequência inevitável, Deus se
torna o único responsável pelo mal. William Lane Craig concorda que o determinismo universal divino
anula a agência humana e implica "monoagência".

Desde que nossas escolhas não estão sob nosso controle, mas são causadas por Deus, os seres humanos não podem
afirmar serem agentes reais. Eles são meros instrumentos por meio dos quais Deus age para produzir algum efeito,
como um homem usando um pau para mover uma pedra. Claro, causas secundárias retém todas as suas
propriedades e poderes como causas intermediárias, como os teólogos reformados nos lembram, exatamente como
um pedaço de pau retém suas propriedades e poderes que o tornam útil para os propósitos daquele que o utiliza
[...] em um mundo determinista existe apenas um agente: Deus. Eu suspeito que desde que [o calvinista] crê que
existe realmente uma única causa primária na realidade, ele, por fim, concordaria que existe um agente na realidade.
Esta conclusão não apenas vai de encontro ao nosso conhecimento de nós mesmos como agentes, mas também deixa
inexplicável o motivo de Deus nos tratar como agentes, nos mantendo responsáveis pelo que Ele nos levou a fazer e
nos usou para fazer33.

A consequência inevitável de Deus ser efetivamente o único agente é que Ele se torna o autor do
pecado.

[...] a visão determinista sustenta que mesmo o movimento da vontade humana é causada por Deus. Deus move as
pessoas a escolher o mal e elas não podem fazer o contrário. Deus determina suas escolhas e os faz agir o mal. Se é
mal fazer outras pessoas errar, então, nesta visão, Deus não é apenas a causa do pecado e do mal, Ele se torna o

30 Idem.
31 OLSON, Roger. Contra o Calvinismo. Tradução de Wellington Carvalho Mariano. São Paulo: Editora Reflexão, 2013. p. 135.
32 MILTON, Evan. A Incompatibilidade do Compatibilismo. Disponível em <http://deusamouomundo.com/calvinismo/a-

incompatibilidade-do-compatibilismo/>. Tradução de Walson Sales.


33 GRUNDY, Stanley M. (ed.); JOWERS, Dennis W. (ed.). Four Views on Divine Providence. Grand Rapids, Michigan:

Zondervan, 2011. Traduzido, adaptado e organizado por Walson Sales. Disponível em <http://www.cacp.org.br/uma-
critica-ao-determinismo-calvinista/>.
próprio mal, o que é absurdo. Pela mesma razão, toda responsabilidade humana pelo pecado foi removida, pois
nossas escolhas não estão realmente sob o nosso controle: Deus nos causa a fazê-las. Não podemos ser responsáveis
por nossas ações, pois nada que pensamos ou fazemos está sob nosso controle. A resposta calvinista? “A mecânica
de como Deus pode ser a causa eficiente do pecado sem, na verdade, cometê-lo e assim ser o culpado pelo pecado é
inescrutável”34.

c) Outros problemas teológicos sérios com essa visão:

1. Deus possui duas vontades conflituosas. Tendo em vista que calvinistas admitem o
determinismo divino, são apanhados em sérios problemas teológicos, entre os quais o de explicar
como um Deus que é, por definição, Todo-amoroso e Santo, pode exortar e ordenar o seu povo a não
pecarem quando já estão determinados causalmente a isso. Por exemplo, Deus ordena que Adão não
peque, mas já dantes havia decretado sua queda e, mesmo não estando sob o poder de Adão escolher
entre pecar e não pecar, ao pecar é punido gravemente por Deus. Feinberg explica as duas vontades
de Deus da seguinte maneira:

É preciso que se faça a distinção entre a perfeita vontade de Deus e aquilo que se denomina, com frequência,
vontade permissiva de Deus. A primeira diz respeito àquelas partes do decreto que estão de acordo com os desejos
de Deus e as melhores coisas que Ele almeja para nós. A vontade permissiva de Deus refere-se àquelas coisas que,
embora integrando o decreto, são contrárias aos desejos de Deus e às melhores coisas que Ele almeja para nós 35.

Na descrição de Feinberg, Deus deseja "coisas melhores para nós" enquanto decreta a nossa queda e
os nossos pecados.

2. Deus não ama nem deseja a salvação de todas as pessoas.

Parece chocante que um Deus Todo-amoroso, que a Bíblia chega a dizer que é amor (1Jo 4.8), possa
não amar a todos. Segundo o calvinismo, Deus possui um "amor especial" pelos seus eleitos, um amor
salvífico. Deus "ama" os demais homens apenas no sentido de dar-lhes a vida, saúde e bens materiais.
O bem maior, que é a salvação, não lhes está disponível. Este quadro dantesco é assim, pois, dado o
determinismo divino, não há sentido em se falar de permissão divina. Deus positivamente deseja e
torna certa a condenação de multidões que poderia levar “livremente” à salvação, de acordo com a
visão compatibilista de liberdade. Realmente, dentro de um quadro tão trágico, é impossível falar de
um relacionamento amoroso verdadeiro entre Deus e os não-eleitos. Ademais, é absolutamente
estranho que Deus não ame os 'réprobos', que são os seus inimigos, e ainda nos ordene a amarmos os
nossos inimigos (Mt 5.44). Norman Geisler escreve que: “Um Deus que ama parcialmente é menos que
um Deus supremamente bom. A idéia que os calvinistas extremados fazem de ‘Deus’ não é o Bem
supremo, ela não representa Deus de forma alguma. O Deus da Bíblia é infinitamente amoroso, isto é,
todo-benevolente. Ele deseja o bem de toda a criação (At 14.17; 17.25) e a salvação de todas as almas
(Ez 18.23,30-32; Os 11.1-5,8,9; Jo 3.16; lTm 2.4; 2Pe 3.9)" 36. Recomendamos a leitura completa do
livro de Dave Hunt, "Que Amor é Este? A Falsa Representação de Deus no Calvinismo", para uma crítica
exaustiva do falso amor de Deus no calvinismo.

3. Deus não faz uma oferta bona fide de salvação.

A bíblia deixa claro que Deus, através do Evangelho, chama todos os homens para se arrependerem e
crerem em Jesus para serem salvos, e esse convite é sincero. Alguns calvinistas, por não terem como
negar o ensino claro das Escrituras, introduziram a estranha noção de que Deus faz uma mera oferta
de salvação exterior a todos os homens, eleitos e não-eleitos, e que essa oferta é sincera, mas, ao

34 Idem.
35 FEINBERG, John Samuel. Predestinação e Livre-Arbítrio: Quatro Perspectivas sobre a Soberania de Deus e a Liberdade
Humana. Editora Mundo Cristão: 1989, p. 59-60.
36 GEISLER, Norman. Eleitos, Mas Livres: Uma Perspectiva Equilibrada entre a Eleição Divina e o Livre-Arbítrio. Editora Vida:

2001, p. 158.
mesmo tempo, não deseja de forma alguma que os não-eleitos cheguem à fé. No entanto, se Deus não
apenas não deseja a salvação dos não-eleitos, mas também deseja e torna certa sua condenação, então
a oferta de salvação não pode ser bona fide. Deus faz uma oferta insincera de salvação ao não-eleito.
Isso é uma blasfêmia! William Lane Craig declarou que:

“A chamada ao arrependimento e salvação na visão calvinista é insincera. Trata-se de um fingimento, pois mesmo
que Deus envie um chamado universal, ele mesmo não deseja que todos respondam a este chamado e não dá a sua
graça salvadora às pessoas para habilitá-las a responderem a este chamado37”.

4. Deus usa de engano com o seu povo.

A descrição compatibilista de liberdade equivale, segundo Taylor, ao “comportamento” de um


fantoche. Logo, a “relação” entre Deus e a humanidade, nessa condição, não pode ser uma relação
verdadeira. Um véu de engano cobre as nossas cabeças. Temos um quadro dantesco da realidade, no
qual Deus cria criaturas sem livre-arbítrio e se “relaciona” com elas como se essas fossem livres para
lhe amar ou para lhe odiar. Tal conclusão, onde Deus finge estar em relacionamento sincero e real com
a humanidade é demasiadamente grave! Primeiro, a Bíblia parece ser clara quanto ao fato de que boa
parte das ações humanas são significativamente livres e que são de alguma forma valiosas para Deus,
isto é, muitas vezes a forma como Deus agirá depende de como o homem age (Dt 30.15-19; Ez 5.9; Jz
2.12; 1Sm 28.18; Jn 3.10; Jr 13.15-17; 1Co 10.11-15; Rm 10.9;1Jo 3.22). Obviamente que qualquer boa
teologia deve admitir que, em questões relacionadas à salvação, precisamos da atuação da Graça
divina. Segundo, o mundo tornar-se-ia um espetáculo vão e vazio. As palavras vigorosas de Craig
descrevem de maneira clarividente tal problema:

“Não existem agentes livres em rebelião contra Deus, a quem Deus procura ganhar pelo Seu amor e ninguém que
responde livremente a este amor e que dá livremente seu amor e adoração a Deus em retorno. Todo espetáculo é
uma charada cujo único ator real é o próprio Deus. Longe de glorificar a Deus, a visão calvinista, estou convencido,
denigre a Deus por o envolver em uma grande farsa. É profundamente insultante a Deus pensar que Ele criaria seres
que são, em cada aspecto, causalmente determinados por Ele e então os trata como se eles fossem agentes livres, os
punindo pelas ações erradas que Ele os levou a praticar e os amando como se eles fossem agentes respondendo
livremente. Deus seria como uma criança que arranja seus soldados de brinquedo e os move em seu mundo de
brincadeiras, simulando que eles são pessoas reais cujo cada movimento, não é, de fato, seu (mas deles mesmos) e
fingindo que eles merecem elogios ou críticas38”.

O calvinismo, na tentativa de exaltar a soberania de Deus, anula a agência humana e deturpa a


natureza santa, justa e amável de Deus. Tal visão, consequentemente, está longe de glorificar a Deus.

6. LIBERDADE LIBERTÁRIA E A SOBERANIA DE DEUS EXALTADA

Se as ações que um agente pratica são o resultado inexorável de condições antecedentes que estão
completamente fora do seu controle, isto é, se as suas ações escapam ao seu controle, então não lhe
pode ser atribuído qualquer responsabilidade moral por essas ações, que, na verdade, não são suas. Se
não cabe tão somente ao agente decidir entre querer praticar ou não uma ação, a atribuição de
responsabilidade ao “agente” não tem sentido. O louvor e a censura se tornam parte do roteiro de uma
grande ilusão.

Os calvinistas pensam que a fim de defenderem uma noção forte da soberania divina é preciso negar a
real agência das criaturas. Como veremos, além de ser absolutamente possível defender uma forte
noção da soberania divina juntamente com a noção de liberdade libertária, a existência de criaturas

37CRAIG, William Lane. Doutrina da Salvação – Parte 3 – Arminianismo. Disponível em:


<https://www.youtube.com/watch?v=uPC_dBQdVHU>.
38 GRUNDY, Stanley M. (ed.); JOWERS, Dennis W. (ed.). Four Views on Divine Providence. Grand Rapids, Michigan:

Zondervan, 2011. Traduzido, adaptado e organizado por Walson Sales. Disponível em <http://www.cacp.org.br/uma-
critica- ao-determinismo-calvinista/>.
significativamente livres glorifica muito mais a soberania de Deus. Como temos visto, a perspectiva
calvinista defende uma noção de providência divina em termos de predeterminação. Se optarmos pela
teologia calvinista, teremos uma péssima descrição do caráter de Deus, além de sermos obrigados a
amenizar a seriedade do relato bíblico acerca da liberdade e da responsabilidade moral das criaturas.

Uma segunda opção, chamada Teísmo Aberto, parece igualmente insatisfatória. De acordo com essa
visão, Deus possui um conhecimento inferencial do que vai acontecer com base em causas presentes.
Defensores do Teísmo Aberto não negam que Deus seja onisciente. Eles enfatizam que o conceito de
onisciência envolve apenas aquilo que é logicamente possível de se conhecer. Os Teístas Abertos
argumentam que uma afirmação é verdadeira se, e somente se, ela corresponde ao que existe, e falsa,
se, e somente se, ela não corresponde ao que existe. Dado que o futuro não existe, não há nenhuma
realidade à qual as afirmações do tempo futuro correspondam ou não. Dessa forma, concluem que a
afirmações de tempo futuro não são verdadeiras nem falsas. Nem mesmo Deus, na sua onisciência,
saberia a verdade dessas afirmações, pois não existe qualquer verdade disponível para se conhecer.
Deus é onisciente, pois conhece toda a verdade disponível para se conhecer, contudo não é presciente.
No entanto, o Teísmo Aberto se engana em, pelo menos, dois pontos: 1. As Escrituras defendem
inequivocamente que Deus conhece de antemão as ações futuras livres dos indivíduos; 2. Os Teístas
Abertos fazem uma aplicação equivocada da definição de verdade como correspondência 39. Os
Teólogos da abertura até admitem que Deus possa ter pré-conhecimento exaustivo e infalível do
futuro, mas apenas se atualizasse um mundo possível em que Ele determinasse todas as coisas
(calvinismo). Porém, em tal mundo não haveria criaturas com liberdade libertária. Uma vez que
somos no mundo atual livres no sentido libertário, Deus não tem presciência. Nada mais direi sobre o
Teísmo Aberto.

Uma terceira opção, também problemática, é o que chamaremos defesa da presciência simples. O
defensor da presciência simples é obrigado a defender que Deus possui um fraco governo
providencial sobre o mundo. Uma vez que Deus está sem conhecimento hipotético, não pode saber
logicamente antes do decreto criativo como o mundo seria. Deus, após o decreto criativo, se vê com o
simples conhecimento do futuro, sem qualquer planejamento logicamente anterior desse futuro.

Uma forma didática de vermos o limite explanatório dos argumentos a favor da presciência simples é,
de forma preliminar, entendermos a noção de prioridade lógica dos eventos. Olhando do ponto do
vista cronológico, a presciência de Deus é anterior aos eventos futuros, porém, do ponto de vista
lógico, temos que os eventos futuros são logicamente anteriores à presciência divina. Assim, temos
que certos eventos ocorrem, em seguida afirmações sobre estes estados de coisas são verdadeiros ou
falsos e, por fim, Deus conhece somente e todas aquelas afirmações que são verdadeiras. É preciso
também destacar que, ponto de vista técnico, saber de antemão não é ter presciência simples. Uma vez
que Deus conhece de forma inata apenas e todas as afirmações verdadeiras, o que inclui as afirmações
verdadeiras do tempo futuro, Deus tem presciência num sentido não-técnico, pois se sabe de maneira
inata, do ponto de vista temporal, sabe tudo o que sabe simultaneamente e desde sempre, isto é, sabe
de antemão. Por exemplo, adiantando um dos termos, o conhecimento hipotético também é um
conhecimento em que Deus “sabia de antemão”, mas distingue-se da presciência simples uma vez que
é um conhecimento sobre o que “iria acontecer se”, não sobre o que irá acontecer. Ou seja, em um
sentido técnico, a presciência simples “surge” logicamente após o decreto criativo.

Defensores da presciência simples acreditam que, logicamente antes do decreto criativo, Deus possui
apenas conhecimento natural/inato de todas as possibilidades. O conteúdo de tal conhecimento é
essencial para Deus. Assim, logicamente após o decreto criativo, Deus tem conhecimento do mundo
atual que Ele criou, o que inclui sua presciência de tudo o que acontecerá – presciência simples. Se o
futuro for tomado em termos daquilo que efetivamente será, Deus só pode ter esse conhecimento em
virtude da sua decisão livre de criar o mundo. Presciência simples é isto: conhecimento daquilo que

39William Lane Craig refuta os argumentos do Teísmo Aberto de maneira brilhante em O Único Deus Sábio: A
Compatibilidade entre a Presciência Divina e a Liberdade. Tradução de Walson Sales. Maceió: Editora Sal Cultural, 2016.
Cap. 2 e 4).
efetivamente será. O conteúdo de tal conhecimento não é essencial para Deus, uma vez que poderia
ter criado um mundo diferente.

Da presciência de Deus de uma ação livre, somos apenas autorizados a inferir que essa ação irá
ocorrer. A ação não pode acontecer em virtude da mera presciência divina, pois a presciência simples
é apenas constatativa. A vontade livre de Deus deve entrar na equação. Pelo conhecimento natural,
Deus conhece todos os mundos possíveis e, logicamente após o decreto criativo, Deus tem presciência
do que efetivamente será. Mas, sem um conhecimento hipotético do que “seria”, Deus não pode ter
nenhum planejamento providencial desse futuro.

Ao rejeitarem o conhecimento hipotético de Deus, defensores da presciência simples rejeitam que


Deus, para conhecer afirmações do tempo futuro, se baseia em afirmações logicamente anteriores.
Para eles, Deus simplesmente adquiriu o seu conhecimento do futuro por prever o que será. Surgem,
consequentemente, dificuldades para explicar, por exemplo, a doutrina bíblica da eleição.

Logicamente antes da decisão divina de criar um mundo, Deus não sabe como criaturas livres agiriam
se fossem criadas. Após a decisão de criar um mundo, momento no qual Deus possui presciência do
futuro, o que Deus sabe vem como uma total surpresa. Sem o conhecimento hipotético (ou médio)
Deus não pode garantir quem serão os seus eleitos. Na verdade, não existiria nenhuma razão para
falarmos em eleição se não há verdadeira escolha. Na melhor das hipóteses se trata de uma loteria
celestial. Teólogos dessa vertente explicam que: “Deus incondicionalmente desejou que a salvação
fosse recebida sob condição da fé. Consequentemente, com base em sua presciência da livre-escolha
de aceitar Cristo, Deus escolhe (elege) salvá-los”40. Assim, o que Deus sabe logicamente após a sua
decisão livre de criar um mundo vem como uma total surpresa. Parece que Deus é informado após o
decreto criativo sobre quem são os seus “eleitos”, isso é realmente absurdo.

Uma alternativa às abordagens da doutrina da providência divina que temos visto até aqui é aquela
que parte noção de conhecimento médio (ou hipotético), pensamento conhecido como Molinismo 41.
Roger Olson afirma que “Deus conhece os corações das pessoas e pode prever que, dadas certas
circunstâncias previstas, eles farão coisas pecaminosas. Deus não precisa manipular as coisas; ele
pode simplesmente prevê-las de maneira infalível42”. A explicação de Olson é uma tentativa quase
bem sucedida de defender uma noção forte da providência de Deus, sem anular a liberdade humana.
No entanto, ela se sai apenas como tentativa quase bem sucedida, pois Olson continua pensando que
pode dar conta de tudo apenas com a presidência simples. Olson, no entanto, talvez
inconscientemente, chega bem perto da noção de conhecimento médio. Ele fala em certas
circunstâncias previstas por Deus nas quais as pessoas, se estivessem nessas circunstâncias,
cometeriam livremente certos pecados. Na equação do Olson, Deus se sai como um vidente infalível.
Nada é dito sobre a decisão livre de Deus de criar um mundo, nem sobre como antes do decreto
criativo, apenas com o conhecimento natural, Deus poderia ter qualquer planejamento providencial.

Craig explica que Deus, pelo seu conhecimento hipotético, conhece exatamente sob quais
circunstâncias Pedro aceitaria livremente e conhece sob quais circunstâncias Pedro rejeitaria
livremente a graça de Deus. Através da sua vontade criativa, Deus cria estados de coisas nos quais
Pedro [livremente] nega a Jesus. Assim, pelo seu conhecimento médio e sua decisão livre de criar um
mundo, Deus pode organizar providencialmente o mundo. Como cristãos, devemos adotar um sistema
teológico-filosófico que, atribuindo liberdade-libertária às criaturas humanas, não faça de Deus um
mero espectador da História, ou um ser que meramente olha para o futuro e descobre como as coisas
serão.

40 GEISLER, Norman. Eleitos, Mas Livres: Uma Perspectiva Equilibrada entre a Eleição Divina e o Livre-Arbítrio. Tradução
Heber Carlos de Campos. São Paulo: Editora Vida, 2005. p. 57.
41 É chamado Molinismo o sistema de teologia e filosofia criado pelo jesuíta espanhol Luis de Molina (1535-1600).
42 OLSON, Roger. Contra o Calvinismo. Tradução de Wellington Carvalho Mariano. São Paulo: Editora Reflexão, 2013. p. 132.
Mas, afinal de contas, o que é o conhecimento médio? O conhecimento médio é o conhecimento de
Deus do que cada possível criatura livre faria [não fará] em qualquer conjunto possível de
circunstâncias. O conhecimento médio é um conhecimento de afirmações hipotéticas sobre o que uma
pessoa teria feito livremente sob diferentes circunstâncias. É chamado de médio, pois fica logicamente
entre o conhecimento natural (o conhecimento de Deus de todos os mundos possíveis) e o livre (o
conhecimento de Deus do mundo atual). O conhecimento médio é como o conhecimento natural, pois
é logicamente anterior à decisão da vontade divina de criar um mundo. William Craig nos diz que "o
conhecimento de Deus de Pedro a esse respeito [sobre o que ele escolheria livremente] não é
presciência simples. Pois talvez Deus decidirá não colocar Pedro sob tais circunstâncias, ou mesmo
não criá-lo absolutamente"43. Por outro lado, o conhecimento médio é, de certa forma, também como o
conhecimento livre, pois seu conteúdo não é essencial para Deus, uma vez que as criaturas poderiam
escolher diferentemente.

Os contrafactuais de liberdade das criaturas são verdadeiros ou falsos independentemente da vontade


de Deus. Há uma antecedência lógica do conhecimento médio sobre a decisão livre de Deus de criar
um mundo. As proposições (especificamente as afirmações hipotéticas sobre ações livres) são
verdadeiras ou falsas em virtude de [como os agentes decidiriam fazer nas circunstâncias].
Formalizando, ficaria desta forma: se P fosse colocado em c, então, executaria livremente a ação x. Isso
é verdade se, e somente se P faria livremente a ação x se P fosse colocado em c. O conteúdo de tal
conhecimento existe ou é real na mente de Deus. Assim, no mundo possível em que o antecedente “se”
de uma afirmação hipotética sobre ações livres for verdade com o consequente “então”, se Deus opta
por criar esse mundo não pode tonar a contrafactual falsa. Baseado no argumento de William Craig, o
estudioso Kirk MacGregor oferece uma excelente explicação de como Deus pode conhecer essas
verdades contrafactuais da liberdade das criaturas de maneira inata.

O conhecimento de Deus é auto-contido e deve ser construído sobre a analogia de um conhecimento mental das
ideias inatas. Assim, Molina afirmou concernente ao Conhecimento Médio que “Deus não adquire nenhum
conhecimento das coisas, mas antes conhece e compreende todas as coisas que Ele conhece em Sua própria
essência” [Molina, Foreknowledge, 4.14.15.52.19; ênfase no original]. Então, o conhecimento de Deus é discernido
completamente de dentro do intelecto de Deus e não por algo fora de si mesmo [Craig, Divine Foreknowledge and
Human Freedom, 240; Craig, “Midle Knowledge View”, 133]. Como um ser onisciente, Deus possui essencialmente o
atributo de conhecer todas as verdades; existem verdades contrafactuais; portanto, Deus conhece todas as verdade
contrafactuais. Craig mostrou que se pode empregar este fato sobre a onisciência para construir um argumento
filosófico que, se bem sucedido, prova que Deus tem Conhecimento Médio. O argumento, em uma forma modificada,
se desenvolve assim:

1. Se existem verdades contrafatuais sobre as ações libertárias das criaturas (conhecidas como "contrafactuais de
liberdade das criaturas") e verdades contrafactuais sobre os processos estocásticos [probabilísticos] (que podemos
chamar de contrafactuais das aleatoriedades naturais), logo, o Deus onisciente conhece essas verdades.

2. Existem verdades contrafactuais sobre as ações libertárias das criaturas e processos estocásticos
[probabilísticos].

3. Se Deus conhece as verdades contrafactuais sobre as ações libertárias das criaturas e processos estocásticos,
então, ou Deus as conhece logicamente anterior ao decreto criativo divino ou somente logicamente posterior ao
decreto criativo divino.

4. Verdades contrafactuais sobre as ações libertárias das criaturas e processos estocásticos não podem ser
conhecidos somente logicamente posterior ao decreto criativo divino.

5. Portanto, Deus conhece as verdades contrafactuais sobre as ações libertárias das criaturas e os processos
estocásticos (a partir das premissas 1 e 2).

6. Portanto, Deus conhece as verdades contrafactuais sobre as ações libertárias das criaturas e os processos
estocásticos ou logicamente anterior ao decreto criativo divino ou apenas logicamente posterior ao decreto criativo
divino (a partir das premissas 3 e 5).

CRAIG, William Lane. O Único Deus Sábio: A Compatibilidade entre a Presciência Divina e a Liberdade. Tradução de
43

Walson Sales. Maceió: Editora Sal Cultural, 2016. p. 124.


7. Portanto, Deus conhece as verdades contrafactuais sobre as ações libertárias das criaturas e os processos
estocásticos logicamente anterior ao decreto criativo divino (a partir das premissas 4 e 6), que é o montante e a
substância do conhecimento médio [Craig, "Midle Knowledge View," 136-37]”44.

MacGregor mostra que existe um modelo conceptualista promissor que explica como é possível que
Deus conheça de antemão os eventos futuros livres, em especial as afirmações hipotéticas sobre as
ações livres das criaturas em várias circunstâncias. O molinismo nega veementemente que Deus
adquiriu ou aprendeu seu conhecimento por meio de percepção imediata ou inferência causal, na
verdade Deus jamais adquiriu conhecimento, pois sempre conheceu eternamente um suprimento
inato de apenas e todas as afirmações verdadeiras. Faz parte da natureza essencial de Deus ter esse
conhecimento de maneira inata uma vez que ele é onisciente. Seria altamente estranho um cristão
ortodoxo negar que Deus pudesse conhecer com antecedência as decisões livres das criaturas sob
quaisquer circunstâncias concebíveis. Não há nenhum argumento promissor que prove que as
afirmações sobre como as criaturas agiriam em determinadas circunstâncias não possuem valor de
verdade. Logo, Deus deve também conhecê-las.

É imperativo também observar que a noção de conhecimento médio junto à noção de vontade criativa
de Deus é capaz de explicar como Deus pode ter presciência simples, pois há uma anterioridade lógica
do conhecimento médio e da vontade criativa sobre a presciência divina. Assim, o conhecimento de
Deus das afirmações de tempo futuro está baseado em afirmações logicamente anteriores que ele
conhece, e, à semelhança das afirmações simples de tempo futuro, as afirmações hipotéticas são
verdadeiras no momento em que as realidades descritas por elas são ainda inexistentes, exceto como
idéias na mente de Deus. No entanto, o opositor do conhecimento médio pode aqui levantar a questão
de como Deus pode conhecer as verdades contrafactuais sobre as ações libertárias das criaturas e os
processos estocásticos logicamente anterior ao decreto criativo divino. A resposta é que mesmo não
existindo nenhum mundo real no momento em que as afirmações hipotéticas são verdadeiras, Craig
explica que “os estados de coisas que foram expressos por verdades hipotéticas, concernentes as
decisões livres, pelos seres humanos são, de fato, já reais neste segundo momento” 45. Assim, antes
mesmo da efetivação do mundo real, a realidade expressa por verdades hipotéticas sobre as decisões
livres das criaturas são tão reais que não está sob o poder de Deus criar um mundo que envolva uma
falsa contrafactual. Assim, o conteúdo do conhecimento não é essencial para Deus, por uma simples
razão: CONTRAFACTUAIS VERDADEIROS SÃO (CONTINGENCIALMENTE) VERDADEIROS. Craig
conclui explicando como Deus pode ter providência sobre um mundo de criaturas livres.

Uma vez que Deus sabe o que qualquer criatura livre faria em qualquer situação, Ele pode, através de criação de
situações apropriadas, fazer com que essas criaturas alcancem seus fins e propósitos e que eles os façam livremente.
Quando se considera que estas situações são em aí mesmas os resultados das decisões livres anteriores das
criaturas, decisões livres que Deus teve que trazer, a pessoa começa a ver essa providência sobre um mundo de
criaturas livres só poderia ser obra da onisciência46.

Outro ponto importante é explicar em que consiste a relação entre um Deus soberano e bom com o
pecado e o mal no mundo. Segundo o Molinismo, Deus não decretou a Queda nem o mal –
distinguindo-se aqui radicalmente do pensamento calvinista - e as criaturas são legitimamente livres e
Deus continua sendo absolutamente soberano. Thomas P. Flint enfatiza a soberania de Deus na
condução sábia da História visando a realização dos seus propósitos: “Devido o seu conhecimento das
contrafactuais de liberdade, Deus poderia adequar cada ação relativa às suas criaturas livres para que
Deus alcance cada meta desejada, colocando essas criaturas em situações em que Deus vê que eles
agirão livremente, de tal forma a realizar esses fins” 47. Além de Deus poder, através do seu

44 MACGREGOR, Kirk R. Luis de Molina: The Life and Theology of the Founder of Midle Knowledge. Grand Rapids, Michigan:
Zondervan, 2015, p.97-98.
45 CRAIG, William Lane. O Único Deus Sábio: A Compatibilidade entre a Presciência Divina e a Liberdade. Tradução de

Walson Sales. Maceió: Editora Sal Cultural, 2016. p. 136.


46 Ibdem, pp. 128-129.
47 TALIAFERRO, Charles; DRAPER, Paul; QUINN, Phillip L. (Ed). The Blackwell Companion To Philosophy: A Companion to

Philosophy of Religion. Second Edition. West Sussex, UK: Willey-Blackwell, 2010, pp. 329-336. Tradução: Walson Sales.
Disponível em <http://deusamouomundo.com/determinismo/providencia/>.
conhecimento médio, ter um planejamento providencial da história e através de uma decisão livre
efetivar um desses mundos conhecíveis por Ele, uma terceira noção deve ser introduzida, a de
concorrência simultânea. Deus, pela sua providência, deve manter a ordenação das coisas visando seus
fins. Para que as criaturas possam agir como Deus sabia pelo seu conhecimento médio que agiriam,
Ele coopera com a causa secundária para produzir o efeito, isto é, Deus coopera com a decisão da
pessoa, agindo para produzir o efeito, mas não age na vontade da pessoa para movê-la. As criaturas
livres exercem um poder real de escolha e Deus coopera com a sua decisão ao fazer acontecer os
efeitos que elas desejam. MacGregor explica de forma brilhante como para Molina Deus pode
conservar a nossa existência e poderes causais em cada instante sem determinar tudo o que ocorre.
Vejamos com atenção esta longa citação:

Durante o primeiro e segundo semestre do terceiro ano (1556-57), Molina leu a Física de Aristóteles e foi
influenciado por sua teoria de causalidade. De acordo com Aristóteles, existem quatro tipos de causas: causa
material, a que explica de que algo é feito; causa formal, explica a forma ou o padrão que uma entidade segue para se
tornar essa entidade; causa eficiente, explica a fonte real da mudança; e causa final, explica o propósito pretendido
da mudança. Com respeito à causa eficiente, Molina subdividiu esta noção em causalidade primária, causalidade
particular (direta) e causalidade geral (universal ou indireta). Molina defendeu que Deus é causa primária de tudo o
que ocorre; nas palavras de Alfred Freddoso, Deus “criou os elementos originais do universo ex nihilo [do nada] e
nenhuma criatura pode existir ou possui poder causal em nenhum intervalo de tempo a menos que Deus conserve
esse poder causal e seu poder de ser em cada instante neste intervalo.” [Freddoso, “Introduction”, 16]. Contudo, isto
não significa que Deus determina tudo o que ocorre ou é moralmente responsável por tudo. Molina sustentou que
Deus é a causa direta ou particular quando Deus determina algo (pelo que Ele seria moralmente responsável) por
produzir um efeito por si mesmo, desde que o poder causal de Deus em si mesmo controle a natureza específica
desse efeito [Molina, Concordia, 2.14.13.25.]. Mas Molina insistiu que as criaturas possuem poder causal autêntico
também e são, portanto, particulares e ainda causas secundárias. Contudo, para as criaturas exercitarem seu poder
causal, Deus deve cooperar simultaneamente e indiretamente com eles para produzir o efeito pretendido. Quando
Deus coopera dessa maneira com as criaturas, Deus age como uma causa geral do efeito, e Molina chamou de ação
simultânea e indireta de Deus sua concorrência (Concursus generalis) [Ibid., 2.14.13.26.1.]. O termo geral indica que
a natureza específica do efeito (ou seja, o bem ou o mal) não é, de forma alguma, atribuível à contribuição causal de
Deus, apesar de essa contribuição ser necessária a fim de que qualquer efeito seja produzido. Antes, a maldade ou a
bondade do efeito é devido apenas às criaturas, que são a causa particular desse efeito. Para ilustrar, Molina
observou que o sol contribui causalmente aos atos de pecado do homem ao prover calor e luz na terra, sem os quais
os humanos não podem fazer nada. Por isso o sol não é moralmente responsável pelo pecado humano. Obviamente,
no entanto, o sol não é moralmente responsável pelo pecado humano, pois nenhuma de suas contribuições causais
determinaram a produção das ações pecaminosas. Os seres humanos escolheram livremente a capacitação causal do
sol com respeito às ações pecaminosas e são, portanto, os únicos responsáveis pelo pecado [Ibid., 2.14.13.26.12.].
Exatamente da mesma forma, Molina asseverou, as criaturas usam a capacitação causal da concorrência geral de
Deus com respeito às ações pecaminosas, apesar de que Deus não deseje absolutamente que a sua concorrência
geral seja usada da maneira que é usada. Assim, como o sol, Deus é a causa geral do pecado humano (e tudo o mais
que os humanos fazem), mas sem determinar ou ser moralmente responsável por eles. Como Freddoso colocou
muito bem, para Molina “Deus é a paradigmática causa indeterminista” [Freddoso, “Introduction”, 19]. Ligada
intimamente ao entendimento de Molina da causalidade divina estava sua análise da distinção de Aristóteles entre
potencialidade e realidade. Molina argumentou que para essência individual, Deus conhece desde a eternidade, se e
quando cada uma de suas potencialidades seriam efetivadas, ou por si mesmo ou por algum agente externo, sob
qualquer circunstância [Molina, Commentaria,12.1.2.]48

Como MacGregor explicou muito bem, no Molinismo existe uma importante distinção entre intenções
absolutas e intenções condicionais de Deus em relação às criaturas. Neste mundo, é plano
providencial de Deus permitir que o pecado aconteça. Contudo, não é a intenção absoluta de Deus que
o homem peque. Porém, Deus permite o pecado pelo seu desejo imenso de permitir a liberdade de
suas criaturas. Jamais foi intenção absoluta de Deus que qualquer criatura pecasse, mas, se permite
que o pecado ocorra, é porque existem bens maiores que, para ocorrerem, exigem a possibilidade real
da ocorrência de alguns males. As criaturas possuem poder causal autêntico e para que possam
exercitar seus poderes causais, é necessário que Deus possa cooperar simultaneamente e
indiretamente com eles para produzir o efeito pretendido. A natureza específica do efeito é
responsabilidade apenas da causa secundária, pois a concorrência de Deus é neutra. Conforme
Freddoso declarou “Deus é a paradigmática causa indeterminista”.

48MACGREGOR, Kirk R. Luis de Molina: The Life and Theology of The Founder of Middle Knowledge. Grand Rapids, Michigan:
Zondervan, p. 53-55.
Existem estados de coisas completos e bons (mundos possíveis) - o nosso mundo provavelmente é um
exemplo - que incluem a real possibilidade da existência de males, pois, em algumas circunstâncias, as
criaturas pecarão livremente, e não está dentro do poder de Deus determinar quais decisões as
criaturas tomariam livremente sob várias circunstâncias, isso porque Deus não determina quais
contrafactuais de liberdade das criaturas são verdadeiros ou falsos. Deus sabe que, caso ele tivesse
realizado certos estados de coisas, outros estados de coisas contingenciais resultariam. Deus, que é
onisciente, sabe, e somente ele sabe o equilíbrio que há em cada mundo possível entre a quantidade
de bem e a quantidade de mal. Cito duas autoridades:

Thomas P. Flint

[...] certos males podem ocorrer não tanto porque Deus preferiu que eles ocorram, mas porque Deus viu que não
havia nenhuma maneira de evitá-los sem roubar as criaturas de sua liberdade49.

Alvin Plantinga

Um mundo com criaturas que sejam significativamente livres (e que livremente executem mais ações boas do que
más) é mais valioso, se não houver complicações de outros fatores, do que um mundo sem quaisquer criaturas
livres. Ora, Deus pode criar criaturas livres, mas não pode causar ou determinar que façam apenas o que é correto.
Afinal, se o fizer, então elas não são afinal significativamente livres; não fazem livremente o que é correto. Para criar
criaturas com capacidade para o bem moral, portanto, Deus tem de criar criaturas com capacidade para o bem
moral, e não pode dar a essas criaturas a liberdade de executar o mal e, ao mesmo tempo, impedi-las de executá-lo. E
aconteceu, infelizmente, que algumas criaturas livres erraram, contudo, não depõe contra a onipotência de Deus
nem contra a sua bondade; pois ele só poderia ter impedido a ocorrência do mal moral removendo a possibilidade
do bem moral50.

A noção de intenções absolutas e condicionais de Deus no Molinismo em nada se assemelha a idéia


absurda de duas vontades conflituosas em Deus. No Molinismo, Deus conserva a liberdade do agente,
concorrendo de forma simultânea com a causa secundária e permitindo o pecado e o mal em nome de
boas razões pertencentes a Deus, entre as quais a de criar criaturas com capacidade para o bem moral
e com a capacidade de relacionamento sincero com Ele. No Calvinismo, Deus decreta aquilo mesmo
que ordena que não façamos. É um Deus que, além de ser o autor e responsável pelo mal, está em
conflito consigo mesmo.

Concluo que além da liberdade libertária ser compatível com a soberania de Deus, é uma noção
verdadeiramente bíblica, apoiada pelas demais evidências e glorifica e exalta a grandeza e os atributos
de Deus. Como cristãos bíblicos, devemos admitir que: Deus soberanamente arranjou
providencialmente tudo o que acontece por meio do seu desejo ou permissão - direta ou
indiretamente - preservando, contudo, a liberdade-libertária das criaturas.

49Idem.
50PLANTINGA, Alvin. Deus a Liberdade e o Mal. Tradução Desidério Murcho. São Paulo: Vida Nova, 2012. p.47.[Ênfases do
autor].