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Universidade Federal do ABC

BASES EPISTEMOLÓGICAS DA CIÊNCIA


MODERNA
BC-0004

Quais os limites do método indutivo?

Profa. Dra. Luciana Zaterka

Marcos Kenji Kuribayashi 11002416

Data: 27/10/2017

3º Quadrimestre de 2017
INTRODUÇÃO
A humanidade sempre buscou a compreensão para os acontecimentos do mundo.
A necessidade de encarar os problemas relacionados à existência da vida e de saber
como as coisas acontecem foi continuamente aumentando. Dessa maneira, houve o
surgimento das primeiras tentativas de explicar as questões da vida como, por exemplo,
os gregos, que com sua Mitologia, criaram vários Deuses pra explicação de fenômenos
da natureza. Na Idade Média o predomínio da religião tentou também explicar por meio
de teorias religiosas baseadas na bíblia, muitos desses fenômenos naturais e cotidianos.
Com o passar do tempo esses modelos compreender mundo foram sendo
questionados. A busca por um mundo baseado na razão foi crescendo. É nesse momento
que surgem os primeiros esboços do que conhecemos hoje como ciência. Foi quando o
homem buscou explicações racionais para fatos e fenômenos. Um importante exemplo
disso ocorreu quando questionou-se a teoria Geocentrista até então aceita como verdade
e propôs se um novo modelo Heliocentrista na qual o Sol está no centro do Universo.
O que conhecemos hoje como ciência é fortemente marcado pelo chamado
método científico. Uma importante referência acerca das primeiras investigações sobre
o método científico é Francis Bacon (1561-1626), que em sua obra "Novum Organum"
(1620), descreve o método científico. Podemos resumir o método científico, em linhas
gerais como segue: primeiro são feitas observações e anotações de extensos catálogos
sobre o fenômeno estudado. Essa etapa é proposta por Bacon. A seguir podemos usar o
método indutivo, segundo o qual tentamos descrever de um modo geral as observações
feitas. Essas leis obtidas pela indução devem ser exaustivamente repetidas sob as
mesmas condições iniciais a fim de confirmar a teoria proposta. O processo inverso da
indução é o método da dedução, segundo o qual extraímos proposições particulares de
uma lei geral, assumida como verdadeira.
Como se vê, a ciência passou por inúmeras fases ao longo da história da
humanidade e para cada fase, dessa história, pode se dizer que houve um modo de
“pensar ciência” dependendo do contexto, ambiente e cultura históricos. As descobertas
feitas por essas diferentes maneiras de se pensar ao longo dos séculos tiveram forte
impacto no mundo. A ciência vem não só para explicar fenômenos naturais, mas para
melhorar o modo de vida da humanidade.
DESENVOLVIMENTO
O conhecimento científico é comumente aceito como todo conhecimento
verdadeiro que pode ser provado e que não gera dúvidas. Nesse conceito, a ciência é
algo confiável, pois, ela se baseia em observações e experimentos que resultam em
teorias científicas que explicam algum fenômeno e além disso ela é objetiva, já que é
livre de opiniões pessoais ou especulações subjetivas.
Tal concepção foi ganhando força durante o século XVII como consequência da
Revolução Científica, ganhando cada vez mais adeptos até se tornar um senso comum.
Nesse período, cientistas como Galileu e Newton lançaram mão de diversos
experimentos a fim de estudar o mundo e comprovar suas teorias. O filósofo Francis
Bacon, deu valor à atitude científica afirmando em suas obras que a compreensão da
natureza deveria originar-se consultando a própria natureza e não os escritos antigos de
Aristóteles ou a Bíblia ou até mesmo ideias impostas e pré-concebidas. Sendo assim, a
experiência passou a ser cada vez mais a verdadeira fonte de conhecimento.
Chalmers define essa noção popular da ciência e, que para ele é completamente
equivocada, como Indutivismo Ingênuo. O indutivista ingênuo acredita fielmente que a
observação é o início da ciência. Sendo assim, qualquer afirmação em relação ao mundo
ou parte dele pode ser explicada através dos sentidos e percepções de um observador
sem preconceitos e com órgãos sensitivos normais e inalterados.
Essas afirmações podem ser divididas em dois tipos: afirmações singulares e
afirmações universais. As afirmações singulares, também denominadas de proposições
de observação relacionam-se a algum evento ou estado de coisas num local específico
em certo tempo específico e são resultado de observações realizadas num lugar e tempo
bem definidos. Já as afirmações universais são mais generalizantes, ou seja, dizem
respeito a todos as ocorrências de um tipo específico em todos os lugares e tempos.
Para os indutivistas ingênuos, as afirmações universais constituem o
conhecimento científico e derivam-se das afirmações singulares. Para tanto, somente é
legítimo generalizar certas proposições de observação e assim propor uma lei mais
universal se as seguintes condições forem satisfeitas:
1) o número de proposições de observação que permite a generalização deve ser grande;
2) as observações devem se repetir sob uma ampla variedade de condições;
3) nenhuma proposição de observação deve conflitar com a lei universal derivada;
Todo esse processo é chamado de Indução e ele basicamente expande o
particular para o todo, para o universal. Para isso, não se deve tirar conclusões
apressadas e por isso a condição (1) é necessária. Mas para que a legitimação da
generalização ocorra é preciso ocorrer a condição (2), ou seja, as observações devem ser
feitas em uma ampla variedade de condições bem como, não se pode haver nenhuma
observação distinta que vai de encontro com a generalização e por isso a condição (3) é
essencial. O indutivista ingênuo acredita que a base do conhecimento científico advém
da Indução que pode ser descrita assim: “Se um grande número de As foi observado sob
uma ampla variedade de condições, e se todos esses As observados possuíam sem
exceção a propriedade B, então todos os As têm a propriedade B”.
Com o processo de indução, os cientistas formulam leis e teorias universais que
então são utilizados e aplicados a uma variação de casos com o intuito de explicá-los e
prevê-los. Esse tipo de raciocínio que deriva de explicações de leis universais é
chamado de raciocínio dedutivo e é baseado na lógica. A dedução lógica tem como
característica principal afirmar que uma conclusão sempre será verdadeira se as
premissas forem igualmente verdadeiras.
Porém, a lógica e a dedução não são capazes de determinar a veracidade das
afirmações factuais, ou seja, ambas não são capazes de afirmar se uma premissa é ou
não é verdadeira. Sendo assim, seguindo o raciocínio dedutivo não é possível afirmar
que as conclusões sempre serão válidas já que podem ser baseadas em premissas falsas.
Para contornar esse problema, o indutivista ingênuo lança mão da experiência.
Para ele, o raciocínio dedutivo dependerá da veracidade dos dados conferidos pela
Indução, que por sua vez baseia-se na observação de um grande número de
experimentos. Além disso, também é necessário um conjunto de condições iniciais que
descrevem os detalhes do cenário sob investigação para aí sim, poder tirar
generalizações, conclusões, explicações e previsões dos fenômenos. Portanto,
pensamento indutivista ingênuo sintetiza a maneira geral de todas as explicações e
previsões científicas como:
1) Leis e teorias
2) Condições inicias
3) Previsões e explicações
Com o intuito de justificar o raciocínio indutivo, o indutivista ingênuo utiliza-se
da lógica ou da experiência. Contudo, para Chalmers, diferentemente dos argumentos
dedutivos, os indutivos não são logicamente válidos, ou seja, não podem ser
caracterizados por premissas verdadeiras. Nesse sentido, é perfeitamente possível que a
conclusão de um argumento indutivo seja falsa sem que suas premissas o sejam. Sendo
assim, a Indução não pode ser justificada meramente por bases lógicas.
A tentativa de justificar o princípio indutivo através da experiência se dá pela
afirmação de que a indução funciona num grande número de observações. No entanto,
essa justificativa também não pode ser aceita, pois, como demosntrou David Hume em
meados do século XVIII, o argumento para justificar a Indução utiliza-se do próprio
raciocínio indutivo, que por sua vez, não apresenta justificativa. Portanto, o argumento é
circular e assim sendo, não pode-se usar a indução para justificar a própria indução. Tal
dificuldade tem sido conhecida como “o problema da indução”.
Outro problema que o principio da indução apresenta é a vagueza e a dubiedade
da necessidade de um “grande número” de observações feitas sob uma “ampla
variedade” de condições. Nem sempre é necessário e adequado um grande número de
observações para que se tire alguma conclusão válida, bem como esse “grande número”
é relativo, pois afinal, qual seria uma quantidade mínima para que fosse considerado um
“grande número”? Sendo assim, a condição “grande número” necessita de ser melhor
detalhada. Além disso, a necessidade de uma “ampla variedade” de circunstâncias
contrapõe-se com a questão de necessidade de avaliar quais as variações são
significativas e quais são superficias.
À medida que uma determinada regularidade no comportamento de certo
fenômeno é verdadeiro não necessariamente garante que essa regularidade se manterá.
Por isso, as generalizações derivadas de induções não podem ser perfeitamente
verdadeiras embora possam ser provavelmente verdadeiras. Consequentemente, o
conhecimento científico não pode ser visto como conhecimento comprovado, e sim
provável. Sendo assim, pode-se determinar uma versão probabilística do principio de
indução: “Se um grande número de As foi observado sob uma ampla variedade de
condições, e se todos esses As observados, sem exceção, possuíam a propriedade B,
então todos os As provavelmente possuem a propriedade B”. Entretanto, essa versão
probabilística do princípio de indução não supera o “problema da indução”, posto que
ainda se trate de uma afirmação universal. Além disso, como saber o nível de
probabilidade que uma lei ou teoria tem quando submetidas à luz da evidência?
Chalmers aponta três possíveis respostas ao problema da indução: a primeira,
demonstrada por Hume, é a cética que diz que a indução não pode ser justificada por
apelo à lógica ou à experiência e consequentemente, a ciência não pode ser justificada
racionalmente; a segunda diz respeito ao enfraquecimento da exigência indutivista de
que todo conhecimento não lógico deve ser derivado da experiência, e apelar à
obviedade; a terceira envolve a negação de que a ciência se baseia em indução
Chalmers então propõe uma crítica às suposições do indutivista ingênuo em
relação ao status e papel da observação. A primeira suposição refere-se à crença de que
a ciência começa com a observação; a segunda afirma que a observação produz uma
base segura. A observação, em geral, remete ao sentido da visão e seu processamento
ocorre quando informações penetram os olhos do observador, na forma de raios de luz,
formando imagens sobre suas retinas. O indutivista pressupõe, então, duas coisas: a
primeira é que, no ato da visão, um observador humano terá acesso mais ou menos
direto a algumas propriedades do mundo externo; a segunda é que quando dois
observadores veem o mesmo objeto ou cena, do mesmo lugar, verão a mesma coisa.
Entretanto, Chalmers aponta para a possibilidade de experiências visuais que não
resultam das imagens sobre a retina. Trata-se de mudanças da perspectiva da observação
em relação a um mesmo objeto observado. Nesse sentido, a experiência visual de um
observador depende de sua perspectiva, experiências passadas, conhecimentos e
expectativas. Chalmers propõe a existência de um único mundo físico que seja
independente dos observadores, e o fato de que estes nem sempre veem a mesma coisa,
quando diante de um mesmo objeto, constitui a sua crítica à posição indutivista.
Ainda que todos os observadores vivam uma única experiência, ainda assim
existem proposições de observação que pretendem ser justificadas pelas experiências
sensitivas e que são precedidas por algum tipo de teoria. Nesse caso, tanto a teoria
quanto as proposições estão sujeitas a falhas. A afirmação de que as teorias precedem a
observação e o experimento além de servir-lhes como orientação embora verdadeira,
contraria a tese indutivista.
O indutivista ingênuo acredita ser possível obter a base do conhecimento
científico a partir de observações realizadas por um observador sem preconceitos e
imparcial. A observação e o experimento tendem a orientá-lo pela teoria, pois sempre
visam testar ou lançar luz sobre determinada teoria, de modo que as observações só
devem ser consideradas relevantes e registradas quando se conformam com tal teoria.
No entanto, tais teorias podem apresentar falhas na medida em que são sempre
incompletas. Mesmo assim, essa tese mostra a dependência que a observação tem das
teorias.
CONCLUSÃO
Para o indutivista ingênuo, a ciência tem início com as observações e percepções
que fornecem uma sustentação na qual o conhecimento científico é produzido. Esse
conhecimento é obtido a partir de proposições de observação que por sua vez são
derivados pelo principio de indução. Todo esse processo é denominado de método
indutivo.
O ponto de vista da indução pode ser descrita dessa maneira: “Se um grande
número de As foi observado sob uma ampla variedade de condições, e se todos esses As
observados possuíam sem exceção a propriedade B, então todos os As possuem a
propriedade B”. De uma perspectiva lógica, argumentos desse tipo não se sustentam,
pois a veracidade da premissa não implica veracidade da conclusão, ou seja, é possível
que seja construída uma proposição falsa a partir de premissas verdadeiras.
O princípio da indução sempre funciona Isso significa que um argumento
indutivo é utilizado para justificar o princípio da indução, o que é uma inaceitável
circularidade. A dificuldade associada à justificação do princípio é chamada de “o
problema da indução. Há outras dificuldades, por exemplo, o que deve se considerar
como um “grande número” de observações? Como lidar com a “ampla variedade de
circunstâncias”?
O método indutivo também propõe que a base do conhecimento cientifico é
fornecida por um observador sem preconceitos e imparcial. No entanto, essa afirmação
é absurda. Chalmers diz que todas as proposições de observação derivam de alguma
teoria precedente, sendo assim é falso afirmar que a ciência começa pela observação.
Além disso, as teorias precedentes das proposições de afirmação estão sujeitas a falhas e
portanto, as conclusões resultantes também estarão.

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS
- CHALMERS, A.F. O que é ciência afinal?; tradução de Raul Fiker. São Paulo, Editora
Brasiliense, 1993.