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UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESPÍRITO SANTO

CENTRO DE CIÊNCIAS JURÍDICAS E ECONÔMICAS


DEPARTAMENTO DE ECONOMIA
PET – PROGRAMA EDUCAÇÃO TUTORIAL

APOSTILA PILOTO DO MINICURSO DE POLÍTICA ECONÔMICA:


“DO ECONOMÊS PARA O PORTUGUÊS”

Autores

Amiris de Paula Serdeira


Ana Paula Melo da Silva
Bruna Zigoni
Davy Frederico Souza
Deyvid Alberto Hehr
Edinara Oza Dias
Eduardo Borchardt
Letícia de Souza Milhomem
Luiz Otávio Stefanelli
Maria Eduarda Erlacher de Figueiredo
Rafael Alves de Albuquerque Tavares
Rafael Venturini Trindade

VITÓRIA - ES
Junho de 2011
2

APRESENTAÇÃO

O Programa de Educação Tutorial (PET) de Economia da Universidade Federal do


Espírito Santo (UFES) surgiu em 1992, por iniciativa de seu atual professor tutor que
vinha de experiência similar em outra instituição. O grupo é formado normalmente por
doze bolsistas além do tutor e sua função é contribuir para a melhoria do Ensino, da
Pesquisa e da Extensão da Universidade.

O presente trabalho tem por finalidade fundamentar o Minicurso de Política Econômica:


“Do Economês para o Português”, elaborado e apresentado pelos integrantes do PET,
como parte das atividades que o grupo realiza continuadamente.

O texto pretende esclarecer alguns conceitos básicos de Política Econômica a um


público não familiarizado com a Ciência Econômica, procurando desmistificá-los,
transpondo-os para uma linguagem fácil e acessível. Além disso, esperamos oferecer
aos leitores a capacidade de se posicionar criticamente em relação ao modo como os
temas econômicos são normalmente tratados e difundidos pelos meios de
comunicação.
3

ÍNDICE

BLOCO I (PRIMEIRO DIA)

1. INTRODUÇÃO ............................................................................................................ 4
2. NÍVEL DE ATIVIDADE E EMPREGO ....................................................................... 10
2.1 INTRODUÇÃO ........................................................................................................ 10
2.2 INDICADOR DE RENDA: O PRODUTO INTERNO BRUTO (PIB) ......................... 10
2.3 INDICADOR DE EMPREGO: A TAXA DE DESEMPREGO .................................... 12
2.4 INCENTIVOS AO INVESTIMENTO ......................................................................... 15
3. INFLAÇÃO ................................................................................................................ 17
3.1 INTRODUÇÃO ........................................................................................................ 17
3.2 INDICADORES ........................................................................................................ 18
3.3 PREÇO RELATIVO X PREÇO NOMINAL ............................................................... 18
3.4 CONFLITO DISTRIBUTIVO .................................................................................... 18
3.5 TIPOS DE INFLAÇÃO ............................................................................................. 19
3.6 PRINCIPAIS EFEITOS DA INFLAÇÃO ................................................................... 20

BLOCO II (SEGUNDO DIA)

4. POLÍTICA MONETÁRIA ........................................................................................... 21


4.1 INTRODUÇÃO ........................................................................................................ 21
4.2 A MOEDA E O SURGIMENTO DOS BANCOS CENTRAIS .................................... 22
4.3 O SISTEMA FINANCEIRO NACIONAL ................................................................... 23
4.4 AS FUNÇÕES DO BANCO CENTRAL.................................................................... 23
4.5 INSTRUMENTOS DE CONTROLE DA LIQUIDEZ .................................................. 24
4.4 OPERACIONALIDADE DA POLÍTICA MONETÁRIA NO BRASIL .......................... 25
5. SETOR EXTERNO .................................................................................................... 28
5.1 INTRODUÇÃO ........................................................................................................ 28
5.2 BALANÇO DE PAGAMENTOS ............................................................................... 29
5.3 RESERVAS INTERNACIONAIS .............................................................................. 32
5.4 REGIMES CAMBIAIS E POLÍTICA EXTERNA ....................................................... 32

BLOCO III (TERCEIRO DIA)

6. POLÍTICA FISCAL .................................................................................................... 36


6.1INTRODUÇÃO ......................................................................................................... 36
6.2 AS RECEITAS ......................................................................................................... 37
6.3 AS DESPESAS........................................................................................................ 40
6.4 O SALDO................................................................................................................. 40
6.5 A DÍVIDA PÚBLICA ................................................................................................. 41
6.6 IMPACTOS DA POLÍTICA FISCAL .......................................................................... 41
7. ENCERRAMENTO .................................................................................................... 44
7.1 A POLÍTICA ECONÔMICA ...................................................................................... 44
7.2 A POLÍTICA ECONÔMICA ESTABILIZANTE E A ECONOMIA BRASILEIRA NOS
ANOS DE 1994 A 2011 .................................................................................................. 47
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1. INTRODUÇÃO: DA ECONOMIA POLÍTICA À POLÍTICA ECONÔMICA

Na Grécia Antiga a palavra economia (oikonomia, derivada de oikos, “casa” e nomos,


“lei”, “controle” ou “cuidado”) era empregada para descrever a ordem que regia os
aspectos imediatos da vida doméstica, como a atividade agrícola e a alimentação.
Desde sua origem, portanto, o termo está relacionado à organização e reprodução do
âmbito material da sociedade.

Em cada uma das formas sociais de vida constituídas ao longo da história nos mais
variados espaços – sejam eles uma aldeia romana do séc. II a.C., um feudo na Europa
Ocidental da Alta Idade Média ou uma nação moderna – há uma determinada
estrutura econômica, um sistema de relações sociais de produção, distribuição e
acumulação de bens úteis à vida humana. Ao apenas mencionar essas diferentes
formas sociais históricas se pode intuir que, com o passar do tempo, ocorrem
importantes transformações na forma de se produzir, distribuir e acumular a riqueza
econômica e, além disso, que a forma econômica sob a qual a maior parte das
sociedades está organizada atualmente – o capitalismo – é resultante de inúmeros
processos de transformação social.

Dentre os processos constituintes do capitalismo podem ser destacadas as mudanças


técnicas no plantio, aragem e transporte medievais que promoveram ganhos de
produtividade agrícola e uma intensificação do comércio derivada; as Cruzadas; a
fundação de novas cidades ao redor dos feudos (burgos); o aumento populacional; o
advento das manufaturas. Por cerca de trezentos anos, esses elementos, além de
inúmeros outros, atuaram em maior ou menor grau para a criação de uma forma
econômica específica. Se os costumes entre servos e senhores proprietários e as
tradições eclesiásticas são elementos fundamentais das relações econômicas feudais,
o capitalismo, noutro sentido, repousa sobre quatro instituições ou mecanismos básicos
que estão presentes no funcionamento normal de qualquer empresa (a unidade de
produção capitalista de bens e serviços), quais sejam: a) a produção de mercadorias
orientada para a venda no mercado; b) o trabalho livre assalariado e a propriedade
privada; c) o mercado como regulador das relações econômicas e sociais; d) o Estado
como regulador do mercado.
5

E ainda outro aspecto singular desse modo de produção deve ser destacado. Embora
estejam registrados conhecimentos econômicos desde os livros bíblicos do Antigo
Testamento ou na obra de Aristóteles e na produção da Escolástica, é somente com a
emergência do capitalismo que uma ciência econômica propriamente dita pode ser
assim designada. A rigor, compreende-se como ciência um conjunto de conhecimentos
organizados sobre um aspecto da realidade e, de fato, o desenvolvimento das
economias capitalistas em muitos casos foi acompanhado da especulação teórica
sobre seu funcionamento.

As transformações que a Inglaterra viveu ao longo do século XVIII – o fim do


absolutismo, a expansão populacional urbana e o crescimento dos mercados interno e
externo – a tornaram um terreno privilegiado para as primeiras tentativas de explicação
científica das particularidades do capitalismo. A Primeira Revolução Industrial,
caracterizada pelos implementos na indústria têxtil, o surgimento de grandes centros
urbanos como Manchester e a importância crescente das exportações de manufaturas,
sob o olhar atento e a erudição do filósofo escocês Adam Smith (1723-1790), levariam
à publicação de Uma Investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das
Nações, em 1776, e com ela o nascimento da Economia Política. Esta seria a primeira
obra com grande influência que mostrava o sistema econômico como um sistema
fechado de relações sociais.1

O que hoje é a chamada Ciência Econômica se desenvolveu a partir da Economia


Política de nomes como Smith, David Ricardo (1772-1823), Thomas Malthus (1766-
1834) e John Stuart Mill (1806-1873). Através de suas contribuições teóricas, ela se
firmou como a área do conhecimento voltada, primeiramente, para o estudo dos
problemas da sociedade humana relacionados com a produção, a acumulação, a
circulação e a distribuição de riquezas entre as diferentes classes sociais e, também,
para as proposições de natureza prática a eles relacionadas, como aquilo que
posteriormente foi designado por Política Econômica.

1
Ainda, segundo Hunt (2005, p. 37), “Smith se distingue de todos os economistas que o antecederam,
não só por sua formação acadêmica e pela vastidão de seus conhecimentos, como também foi o
primeiro a elaborar um modelo abstrato completo e relativamente coerente da natureza, da estrutura e
do funcionamento do sistema capitalista.”
6

No encalço desses autores, muitos outros tentaram explicar o funcionamento da ordem


capitalista de acordo com ferramentas teóricas, motivações ideológicas e em
momentos históricos distintos. Um deles, um pensador alemão radicado na Inglaterra,
cerca de um século após a obra seminal de Smith, endereçaria uma dura crítica teórica
à ciência por este inaugurada. Em 1867, Karl Marx (1818-1883) publicou O Capital, em
que buscava elucidar o processo de produção e circulação de mercadorias e a
concentração de renda e poder derivada, bem como os determinantes da situação da
classe dos trabalhadores no capitalismo do século XIX. Segundo ele, esses elementos
não haviam sido adequadamente compreendidos pelas teorias econômicas
precedentes.

Entrementes, estava em curso outra ruptura com a Economia Política. Pouco tempo
depois da crítica de Marx, quase simultaneamente o austríaco Carl Menger publicaria
Princípios de Economia Política (1870); o inglês William Stanley Jevons, A Teoria da
Economia Política (1871); e o francês León Walras, Elementos de Economia Política
Pura (1874). A Revolução Marginalista, como ficou conhecida, foi a mudança teórica
resultante dos esforços paralelos dos três autores. Nesse ponto da história do
pensamento econômico, o objeto de estudo da economia política acima referido dá
lugar à análise da administração de “recursos escassos” entre usos alternativos.

Os autores se dedicaram especialmente a explicar a dimensão microeconômica, isto


é, o comportamento dos agentes individuais (empresas e consumidores), deduzindo
através de ferramentas matemáticas – como o cálculo diferencial e integral – a
determinação dos preços no mercado e a ideia de equilíbrio econômico. Desse modo, a
recomendação de medidas governamentais e o estudo da interação entre as classes
sociais no processo econômico deixam de ser elementos essenciais para a
compreensão da esfera material da sociedade.

Ainda no final do século XIX, o professor Alfred Marshall (1842-1924) aprofundaria as


concepções teóricas e metodológicas marginalistas (também chamadas neoclássicas)
e modificaria o próprio nome da ciência da Economia Política com sua obra Princípios
de Economia (Principles of Economics), de 1890.2 Há, com Marshall, uma economia

2
Conforme sugere Teixeira (2000), desde o surgimento da Economia Política uma série de autores, ao
publicar suas obras sobre o objeto de estudo dessa ciência, optaram por intitulá-las de acordo com uma
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teórica ou positiva efetivamente separada da economia propositiva ou normativa.


Marshall consolidava a concepção de que o comportamento individual fornece a
explicação para a economia como um todo; a iniciativa individual e a liberdade
econômica tenderiam ao bem estar social e, por conseguinte, a política, ou, o governo
não deve intervir senão pontualmente na economia.

Em contraste com a tese desenvolvida nos Princípios, os acontecimentos do fim do


século XIX e o começo do século seguinte ofereceram um sério desafio à concepção
segundo a qual a realidade estaria caminhando rumo ao progresso econômico e social.
A Grande Depressão de 1873, o Imperialismo e a concorrência entre as grandes
corporações conformaram o cenário anterior à Primeira Guerra Mundial. Ao fim da
Guerra, em 1918, a Revolução Russa completava seu primeiro aniversário e o
comunismo se espalhava pelas nações europeias adjacentes.

Do outro lado do Atlântico, uma década depois, a quebra da bolsa de Nova Iorque
marcaria o início da Crise de 1929 e por quase dez anos a maior parte das economias
ocidentais industrializadas apresentaria níveis de atividade econômica e desemprego
alarmantes. Deve se pontuar que, para os neoclássicos, o fenômeno do desemprego
era explicado principalmente como o resultado de atos individuais voluntários dos
trabalhadores que, não encontrando remuneração adequada a suas funções, optavam
por não se empregar.

Diante de tal contexto histórico e teórico, um aplicado aluno de Marshall contestaria o


mestre e sua escola. Em 1936, John Maynard Keynes (1883-1946) publicou A Teoria
Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, obra que questionava seriamente a
ortodoxia3 marginalista apontando que a economia não dispunha de mecanismos
automáticos para regular seus desequilíbrios e se recuperar das crises cíclicas; o

tradição que, de certo modo, refletia o escopo e as intenções teóricas da obra. Alguns exemplos são os
autores clássicos Jean Baptiste de Say (1767-1832) e seu Tratado de Economia Política (1803), David
Ricardo e seus Princípios de Economia Política e Tributação (1817), Thomas Robert Malthus e seus
Princípios de Economia Política e considerações sobre sua aplicação prática (1820) e também John
Stuart Mill, com os seus próprios Princípios de Economia Política (1848). Mesmo os autores da
revolução marginalista, como explicitado acima, mantiveram a terminologia dos clássicos, mas por
economia (economics) Marshall demarcava claramente a mudança operada a partir deles.
3
Também chamada de mainstream (“corrente principal”, na tradução do inglês) ou pensamento único, é
a teoria dominante em um dado momento. O termo é formado pelos vocábulos gregos ortho (“correto,
normal”) e doxa (“opinião”). Em contraposição a ela estão as correntes da heterodoxia (hetero =
“diferente”), que contam com algum grau de distinção significativa para com suas noções.
8

mercado poderia falhar de modo sistemático. O Estado, portanto, deveria intervir


massivamente nos períodos de crise estimulando a retomada dos investimentos e do
crescimento econômico para assegurar o pleno emprego do capital e dos indivíduos.
Em sua obra, Keynes revelava também novas identidades e relações entre os
agregados econômicos (consumo, investimento, gasto público etc.) que seriam as
bases para a macroeconomia moderna e a análise de conjuntura econômica.

Alguns dos procedimentos utilizados desde a época de Keynes são utilizados até hoje
para se verificar o comportamento da economia através de agregados. Mas embora
seu acompanhamento através de indicadores seja um momento necessário na análise
macroeconômica, ele sempre está baseado em uma interpretação própria sobre a
dinâmica do mercado e do Estado. Toda política econômica realizada, isto é, cada ato
econômico do governo está apoiado em uma determinada convicção teórica sobre o
funcionamento do capitalismo e, utilizando-se de certos procedimentos técnicos ou
operacionais, tem por objetivo promover metas políticas e sociais. Assim, a política
econômica correlaciona a interpretação da realidade pela ciência econômica, os
objetivos do Estado, a operação do mercado e a organização política da sociedade.

Por quase quarenta anos o paradigma keynesiano dominou o debate econômico e


influenciou sobremaneira as políticas econômicas praticadas no mundo capitalista. O
alto crescimento dos EUA, da Europa e do Japão no período conhecido como a “Era de
Ouro” do capitalismo, entre 1945 e 1973, esteve sustentado maciçamente na
intervenção do Estado. No entanto, em fins da década de 1970 o fenômeno da
estagflação – uma elevação contínua no nível dos preços acompanhada de baixo
crescimento econômico – colocava em dúvida a capacidade do governo em promover a
recuperação da economia através dos gastos públicos sem acentuar a inflação e seus
efeitos e, com isso, a própria eficácia do receituário keynesiano.

Desde então, a teoria das Expectativas Racionais de Robert Lucas sobre a


interferência dos indivíduos nos resultados da política fiscal de um país 4 e a doutrina
liberal do Monetarismo de Milton Friedman, dentre outros marcos teóricos, fizeram
com que o arcabouço neoclássico retomasse a posição da ortodoxia do pensamento

4
Em suma, a hipótese de Lucas sugere que as decisões econômicas privadas se antecipam aos
resultados futuros de uma decisão pública (política econômica) baseados nas experiências passadas, o
que desqualifica qualquer pretensão de um governo em corrigir os ciclos econômicos.
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econômico. Contudo, destaca-se também a existência e a produção teórica significativa


da heterodoxia em escolas como a Institucionalista, a Pós-keynesiana e a
Neoschumpteriana, além da tradição Marxista.

Ressalta-se, ainda, que assim como o capitalismo continua sofrendo alterações e


alguns de seus problemas históricos permanecem não solucionados, a reflexão
econômica tem se desenvolvido continuamente a partir dessas questões e da
renovação do pensamento de autores como os citados ao longo desse texto.

CONSENSO TEÓRICO NA POLÍTICA ECONÔMICA: GARANTIA DE SUCESSO?

A política econômica de uma nação é o resultado da interação entre processos


políticos, arranjos técnicos e postulados científicos. Pensemos na determinação de
uma medida econômica por parte do governo brasileiro. De um lado, há um cenário
econômico interno e externo a se considerar, muitas e variadas demandas dentre as
camadas sociais, a dinâmica dos partidos políticos da base aliada e da oposição na
Câmara e no Senado etc. Do outro, há inúmeras interpretações teóricas sobre o
cenário econômico e social e propostas distintas sobre a operacionalização de uma
dada política. A rigor, os economistas – em especial os que tratam da dimensão
macroeconômica – possuem visões distintas acerca dos problemas com que se
deparam, seja na compreensão da natureza do problema em si ou nas alternativas
práticas para se resolver a questão.

Diferente do que se pode pensar à primeira vista, a controvérsia que normalmente está
presente entre eles é muito saudável, pois o consenso sobre um objeto tão importante
quanto à política econômica pode acarretar em erros graves. Um exemplo das
consequências de um consenso equivocado sobre isso é a própria recessão da década
de 1930. A concepção então hegemônica foi uma das causas que contribuíram para
agravar a depressão e um dos principais motivos da demora na recuperação das
economias após a crise deflagrada com a quebra da bolsa de Nova Iorque, em 1929.
Os efeitos da crise financeira propagaram-se no sistema econômico e, pela ausência
de políticas econômicas ativas e expansionistas (no âmbito fiscal e monetário),
acabaram gerando uma quebra generalizada nos setores industrial, bancário e
10

comercial dos EUA. Em seguida, esses efeitos se espalharam pelo mundo capitalista e
promoveram a conhecida Grande Depressão.

2. NÍVEL E ATIVIDADE E EMPREGO

2.1 INTRODUÇÃO

O Nível de Atividade é composto por uma série de indicadores que expressam o ritmo
de crescimento de uma economia, seu caminhar, sua “saúde”. Os indicadores são um
conjunto de dados estatísticos, passíveis de mudança e oscilações, que fornecem a
base para se analisar a situação macroeconômica de um país ou região, seu
“diagnóstico” e, a partir de sua análise, subsidiar a implementação de políticas
econômicas, sejam elas no âmbito fiscal, monetário e/ou externo.

De forma geral, o objetivo da análise de conjuntura econômica é estudar o


comportamento cíclico de uma economia, ou seja, compreender a dinâmica que rege
seus momentos de “alta” e “baixa”. A fim de mensurar e avaliar esse diagnóstico
entenderemos mais de perto o Produto Interno Bruto (PIB) e a Taxa de
Desemprego.

2.2 INDICADOR DE RENDA: O PRODUTO INTERNO BRUTO (PIB)

O Produto Interno Bruto é a soma (valor agregado) de todos os bens e serviços


produzidos dentro do território de um país em um determinado período de tempo,
geralmente um ano. É calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE) e é um importante indicador para analisar a atividade econômica do país. O PIB
pode ser avaliado a partir de três formas ou óticas de cálculo. Note-se que
independente da ótica calculada o resultado será sempre o mesmo. Ou seja, existe
uma identidade contábil, qual seja: PRODUTO ≡ DISPÊNDIO ≡ RENDA.
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ÓTICAS PARA CÁLCULO DO PIB:

 ÓTICA DO DISPÊNDIO: total de gastos de todos os agentes econômicos de uma


economia, seja em investimentos ou em consumo de bens e serviços (nacionais ou
importados).
 ÓTICA DO PRODUTO: obtida a partir da soma dos valores adicionados de todas as
unidades produtoras de uma economia. Ou seja, não são considerados os produtos
intermediários, somente os finais.
 ÓTICA DA RENDA: obtida a partir da soma das remunerações de todos os fatores de
produção de uma economia; no geral, capital e trabalho.

A partir da ótica do dispêndio, o PIB é representado pela seguinte equação:


PIB = CONSUMO DAS FAMÍLIAS + GASTOS DO GOVERNO + INVESTIMENTO +
EXPORTAÇÃO LIQUÍDA (EXPORTAÇÕES – IMPORTAÇÕES)

Vejamos a seguir o que cada uma das variáveis representa:

a) Consumo das Famílias: parte da renda total das famílias é gasta no consumo
de bens e serviços. Este consumo é importante, pois sustenta a produção,
aquecendo a economia e gerando mais empregos. No entanto, é importante que
as famílias não consumam a totalidade de suas rendas, guardando uma parte
para poupança (que é uma das formas de financiar os investimentos).

b) Investimento: é a aplicação de capital em meios que levam ao crescimento da


capacidade produtiva. Pode ser realizado de duas formas:

 Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), ou seja, ampliação dos bens


de capital instalados de uma empresa, como a aquisição de maquinários
visando o aumento da produção ou a manutenção dos mesmos. O
investimento aqui contabilizado pode ser tanto privado quanto público.

 Variação de Estoque: a formação de estoques em um dado período


amplia a capacidade de fornecimento da produção no período seguinte e,
portanto, se configura em investimento.
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c) Gasto público: são gastos visando a manutenção da máquina pública, como a


destinação de recursos a escolas públicas, secretarias de estado, empresas
estatais etc. Os gastos com os salários de funcionários públicos não são
contabilizados aqui, mas no consumo das famílias.

d) Exportação líquida: é a diferença entre a renda proveniente das exportações


menos os gastos com importações do país. As exportações brutas contabilizam
o valor gerado pela venda de parte da produção interna total de bens e serviços
a outro país. Deduzindo desse valor os bens e serviços que foram adquiridos de
outras nações (ou seja, importado) obtém a exportação líquida.

Pela ótica da produção, a economia é dividida em três grandes setores:

a) Agropecuária (Setor Primário): responde pela produção de bens alimentícios e


matérias-primas decorrentes do cultivo de plantas e da criação de animais.

b) Indústria (Setor Secundário): abrange todo tipo de indústria do país, como a


indústria automobilística, de produção de aço industrial, minério, celulose etc.

c) Serviços (Setor Terciário): compreende setores que não da agropecuária ou


da indústria, tais como o da telefonia, transportes, prestação de serviços
administrativos dentre outros. Representa atualmente a maior parcela do PIB
nacional.

2.3 INDICADOR DE EMPREGO: A TAXA DE DESEMPREGO

A taxa de desemprego é um importante indicador social para análise do andamento de


uma economia, indicando o comportamento do mercado de trabalho. Mercado é todo
espaço onde se vendem e se compram mercadorias. Como numa sociedade capitalista
o trabalho também é uma mercadoria ele tem uma dinâmica própria e encerra um
mercado específico.

Nos dias atuais, o desemprego se mostra um dos maiores problemas socioeconômicos


do mundo, mesmo em países desenvolvidos. Para mensurá-lo adequadamente, não se
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deve considerá-lo diretamente em razão da população total, senão com algumas


deduções conforme abaixo:

 POPULAÇÃO TOTAL: é o
conjunto de todos os habitantes de
determinada sociedade.

 POPULAÇÃO EM IDADE ATIVA


(PIA): aqueles que têm condições
legais, mentais e físicas de ofertar
sua força de trabalho. Excluem-se,
então, crianças, idosos e
aposentados por invalidez, que
constituem a população inativa.

 POPULAÇÃO ECONOMICAMEN-
TE ATIVA (PEA): todos aqueles
que estão aptos e disponíveis a
exercer algum tipo de trabalho.

No Brasil, são dois os principais órgãos que fazem a análise do mercado de trabalho, o
IBGE, sendo o índice oficial do Governo Federal, e o Departamento Intersindical de
Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE). Ao serem analisados os dados
das duas instituições verifica-se que estes não são iguais. Isso acontece devido às
diferentes metodologias adotadas pelas duas instituições. A principal diferença entre
elas é o próprio entendimento do que seria desemprego.

O IBGE trabalha apenas com o desemprego aberto, considerando empregada aquela


pessoa que exerceu trabalho com ou sem remuneração, formal ou informal, por pelo
menos uma hora na semana de referência. O DIEESE, por sua vez, trabalha com dois
tipos de desemprego: aberto e oculto. O segundo indica aquelas pessoas que não
conseguiram exercer uma atividade regular e acabaram por realizar trabalhos precários
– remunerados ocasionalmente ou trabalhos não remunerados – tendo procurado
emprego regular ao longo dos últimos 12 meses. Ele engloba também aquelas pessoas
que não exerceram nem procuraram trabalho nos últimos 30 dias por desestímulo do
mercado ou outros motivos, embora tenham procurado efetivamente nos últimos 12
meses.
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TIPOS DE DESEMPREGO
Podemos ainda encontrar outras classificações de desemprego, que nos permitem compreender
melhor a dinâmica desse mercado.

 DESEMPREGO SAZONAL: desemprego que ocorre em determinada época do ano


(período de entressafras, por exemplo).

 DESEMPREGO FRICCIONAL: ocorre no tempo um empregado leva para sair de um


emprego e achar outro, como demissões em massa de uma empresa em razão de crises
momentâneas. É decorrente da própria dinâmica do mercado de trabalho.

 DESEMPREGO ESTRUTURAL OU TECNOLÓGICO: decorrentes de mudanças de


padrões tecnológicos que acabam por eliminar postos de trabalho. Por exemplo, caixas
eletrônicos, automatização das fábricas, dentre outros.

 DESEMPREGO CÍCLICO: decorrentes periodicamente de momentos de recessões e crise.

2.3.1 Relação entre Emprego e Produtividade

A figura acima mostra de maneira didática a relação entre o PIB o emprego e a


produtividade. O crescimento do PIB pode acontecer via aumento da produtividade do
emprego (ou seja, aumento de produção por trabalhador, com maior utilização de
tecnologia, por exemplo) e/ou por aumento de postos de trabalho (ou seja, apenas do
emprego). Assim, um crescimento do PIB não significa automaticamente um maior
nível de emprego. Esse só ocorrerá quando o crescimento da produção tiver sido
relativamente maior do que a produtividade.
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DESEMPREGO E INFORMALIDADE NO BRASIL CONTEMPORÂNEO

Historicamente observamos que o desemprego, em termos absolutos, se manteve alto, até


2004, principalmente se considerado o índice do DIEESE (média de 18%). Ainda assim,
podemos constatar a tendência de decréscimo na última década.

A diminuição relativa do desemprego, por sua vez, foi acompanhada pelo aumento da
informalidade e da flexibilização das relações de trabalho. Por exemplo, de 1991 a 2002 o
setor informal absorveu mais de 2 milhões de trabalhadores que o mercado regular não foi
capaz de fazer, tendo dobrado em comparação com a segunda metade da década de 1980.

2.4 INCENTIVOS AO INVESTIMENTO

O investimento é a alavanca da dinâmica econômica de um país. Dentre outros efeitos,


ele pode aumentar a capacidade produtiva da economia, gerar demanda por novos
empregos, contribuir para a inserção de novas tecnologias na produção e para a
geração de renda. Contudo, caso não seja feito com responsabilidade, ou seja, sem se
considerar os impactos socioambientais, ele pode ser extremamente prejudicial à
sociedade.

Alguns fatores econômicos promovem efeitos diretos – sejam eles positivos ou


negativos – sobre o investimento, dentre os quais:

a) Taxa de juros: a decisão de investimento de uma empresa passa pela


comparação entre o “preço do dinheiro” para viabilizá-lo (a taxa de juros) e a sua
rentabilidade esperada (o lucro). Assim, quanto maior a taxa de juros, maior
deverá ser a rentabilidade esperada para que o investimento seja vantajoso, o
que estabelece uma relação inversa entre esse elementos.

b) Crédito para investimento: por sua vez, quanto maior o volume de dinheiro
disponível para empréstimos, ou seja, quanto maior o volume de crédito, menor
será a taxa de juros. Como as empresas também investem baseadas em
expectativas de demanda, o crédito ainda pode ser utilizado pelas famílias para
aumentar seu consumo.
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c) Capacidade ociosa: não podemos esquecer que as empresas não operam


utilizando sempre 100% de sua capacidade de produção. Sempre há um nível
de utilização de capacidade ociosa (que também forma um indicador – o
NUCI), para fins de ampliação da produção no curto prazo. Somente quando a
empresa prevê que essa capacidade não utilizada, ociosa, será insuficiente para
atender a demanda no longo prazo é que ela realiza investimentos para, no
futuro, possuir capacidade para atender aos seus objetivos.

OS EFEITOS DA CRISE ECONÔMICA E A RETOMADA DO


CRESCIMENTO BRASILEIRO

A crise econômica mundial que atingiu notoriedade internacional em meados de 2008


interrompeu um período de 25 anos de crescimento da economia brasileira, mostrando
alguns problemas do modelo de crescimento adotado pelo país nos últimos anos.

De maneira geral, a crise impactou consideravelmente a economia brasileira. Contudo,


a queda de 3,6% do PIB no último trimestre de 2008, causado principalmente pela
desaceleração industrial, foi contrabalanceada pelo andamento do primeiro semestre
do mesmo ano, tendo o PIB registrado no balanço do ano um aumento de 5,1%.

Já em 2009, os efeitos da crise foram sentidos de forma severa. Ainda que o


crescimento negativo de 0,2% do PIB tenha sido maior que a maioria dos países
desenvolvidos no mundo, para o Brasil esse resultado foi o primeiro negativo desde
1992. Em relação aos setores, a indústria e a agropecuária registraram queda de,
respectivamente 5,5% e 5,2% sendo compensados parcialmente pelo crescimento de
2,6% do setor de serviços. Além disso, ainda que o consumo tenha apresentado um
crescimento de 4,1%, os investimentos registraram queda de 9,9%, representando a
fatia de 16,4% do PIB.

A expansão em 2010 do PIB de 7,5% representa a maior taxa de crescimento desde


1986, mesmo que o baixo desempenho do PIB no ano anterior seja uma base
comparativa desfavorável. Os principais fatores considerados como alavanca desse
crescimento foram o consumo das famílias e o investimento. E embora o país possua
17

uma pauta exportadora substancial, o saldo das exportações líquidas continua


inexpressivo. Na ótica do produto, o setor de serviços possui o maior peso, com 66%
do total, contra 28% da indústria e 6% da agricultura, sendo que esses últimos têm
perdido espaço a cada período.

De forma geral, há expectativas de que com o aumento da renda, a política de


expansão do crédito com o consequente aumento do consumo, a retomada de
investimentos, juntamente com outros fatores macroeconômicos favoráveis, levem o
Brasil a registrar uma das cinco maiores taxas de crescimento do mundo em 2011. Os
mais otimistas consideram que o país, nesse momento, tem condições de manter um
crescimento sustentado, diferentemente de outros períodos de bonança econômica,
quando a variação do PIB ficou conhecida pelo padrão do “voo da galinha”, ou seja,
crescimento não sustentado.

Outro fator relevante para registrar esse período da economia brasileira foi uma
recuperação da crise com sustentação do emprego, diferente de outras épocas. Foram
dados incentivos às empresas para continuarem produzindo, mantendo a geração de
renda e, dessa forma, o consumo, fundamental para a manutenção do ciclo dinâmico
da economia brasileira, uma vez baseado nesse tipo de modelo de crescimento. No
entanto, a situação dos empregos e o nível de informalidade configuram ainda uma
situação preocupante.

3. INFLAÇÃO

3.1 INTRODUÇÃO

A inflação pode ser definida como o aumento contínuo e generalizado do nível geral
dos preços, que leva a uma progressiva perda do poder de compra da moeda. Em um
cenário inflacionário, há necessidade de uma quantidade cada vez maior de moeda
para se comprar uma mesma quantidade anterior de mercadorias.
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3.2 INDICADORES

Para identificar ou medir a inflação faz-se uso de indicadores ou índices de preço que
agregam e representam os preços de uma determinada cesta de produtos. Esses
índices são baseados em uma Pesquisa de Orçamento Familiar (POF), que geralmente
é feita num intervalo de dez anos e que indica a alocação de despesas familiares de
acordo com seus rendimentos. Os diversos indicadores da inflação podem ser
classificados em dois escopos principais:

a) Preços ao consumidor: o preço do produto final, ou seja, aquele encontrado no


mercado. Um exemplo é o Índice de Preços ao Consumidor Ampliado (IPCA),
estimado pelo IBGE.
b) Preços gerais: abrangem além dos preços no varejo, preços no atacado e
também preços de insumos. Um exemplo é o Índice Geral de Preços (IGP),
calculado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV).

3.3 PREÇO RELATIVO X PREÇO NOMINAL

Para entendermos os impactos da inflação em uma economia é preciso ter clareza


sobre a diferença entre preços relativos e preços nominais. Os preços relativos
indicam qual é ponderação feita entre diferentes produtos encontrados no mercado.
Por isso, ele diz respeito ao poder de compra de um produto frente a outro. Dizemos
então que o preço relativo é uma variável real. Porém essas trocas são intermediadas
por um quantum de moeda, expressando seu valor em unidades monetárias. Uma
variável nominal, portanto, pois é medida em unidades monetárias.

3.4 CONFLITO DISTRIBUTIVO

A partir dessa compreensão, é possível depreender que os preços nominais indicam os


preços relativos da economia. Aumentos nominais de um determinado bem, por
conseguinte, levam ao aumento do poder de compra do seu produtor frente a outros
agentes. Da mesma forma, o ganho no poder de compra de um produtor via preços
também significa uma diminuição na renda de outros produtores. Quando diversos
agentes aumentam seus preços nominais indefinidamente em busca de ganhos reais,
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tem-se então um aumento generalizado e contínuo dos preços, ou seja, inflação. Esse
fenômeno também é conhecido por conflito distributivo, que é uma disputa entre
agentes na busca de uma fatia maior da renda ou produto total.

Há diversos fatores que podem desenvolver ou mesmo acentuar o conflito distributivo,


e será isso o que caracterizará cada tipo de inflação.

3.5 TIPOS DE INFLAÇÃO

Pela própria dinâmica da inflação e sua dificuldade de mensuração, não é possível


descrever qual a exata origem de um processo inflacionário. Abaixo são apresentados
diferentes tipos de inflação descritos no âmbito teórico, já que na realidade a inflação
pode envolver todas ou algumas dessas características.

a) Inflação de Demanda: quando há uma demanda acima da disponibilidade de


bens e serviços, abre-se a possibilidade de fixação de preços maiores sem
perda de mercado por parte das empresas. Tal fenômeno geralmente está
associado à injeção excessiva de dinheiro na economia, e por isso caberá a uma
política monetária o controle dos preços nesses casos.

b) Inflação de Custos: a inflação de custos acontece quando se tem aumento em


determinados setores da economia, como de matérias-primas. Sua causa está
atrelada às condições de oferta de bens e serviços de algum produto, que ao ser
reajustado pode desencadear aumentos em toda a cadeia produtiva.

c) Inflação de Lucros: geralmente associado à concentração de empresas


(oligopólios e monopólios), que permite a dominação do mercado por um grupo
seleto, dando a este certa autonomia para aumentar os preços de modo que lhe
proporcione o maior lucro possível sem perda de marketing share.

d) Inflação Inercial: a inflação inercial, cuja motivação gira em torno das


expectativas dos agentes – que ao se depararem com uma inflação passada
repassam automaticamente o aumento aos preços correntes – e à presença de
contratos reajustados por diversos índices atrelados à inflação (aluguéis,
salários, produtos do comércio e indústria e tarifas públicas).
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3.6 PRINCIPAIS EFEITOS DA INFLAÇÃO

A inflação gera vários problemas em uma economia, dentre eles:

a) Distorção nos preços relativos: em uma economia em processo inflacionário


os preços não necessariamente são reajustados uniformemente, afetando
determinados setores cujos contratos prevêem reajustes de longo prazo.

b) Arrocho salarial: os trabalhadores têm seu poder de compra diminuído, pois


não têm poder de determinação dos seus rendimentos, corroendo assim os seus
salários.

c) Incerteza: a formação de expectativas também é afetada pela inflação, pois gera


imprevisibilidade na economia, afetando uma das principais variáveis da
demanda agregada: o investimento.

d) Concentração de renda: dada a incapacidade de trabalhadores e setores não


oligopolizados em reajustar seus preços e salários, a inflação leva a uma
transferência de renda entre trabalhadores e empregadores e entre pequenas e
grandes empresas.

e) Comércio exterior: a inflação encarece os preços domésticos, tornando


produtos importados mais baratos e encarecendo os produtos exportáveis,
levando a um desequilíbrio nas contas externas.

INFLAÇÃO NO BRASIL: DO PAROXISMO AO PLANO REAL

Entre as décadas de 1930 e 1970 o Brasil experimentou uma inflação constante e


crescente, reflexo de um processo de modernização que visava a industrialização. As
medidas econômicas de desenvolvimento, com grandes incentivos à demanda
agregada, favoreciam o aumento dos preços na economia. Na década de 1980, a
chamada “década perdida”, o aumento dos preços chegou a gerar uma hiperinflação. O
governo brasileiro tentou combatê-la com vários planos econômicos, com reformas
monetárias que levaram à adoção de moedas distintas, como o Cruzado, o Cruzado
21

Novo, o Cruzeiro e o Cruzeiro Real num intervalo de apenas setes anos. Esse
processo só foi interrompido em 1994, com a criação do Plano Real e a mudança da
moeda para o Real (R$), atual moeda do país. Atualmente a inflação é controlada pelo
Banco Central através da política monetária que segue o regime de metas de inflação.

Segundo o Banco Central, “o regime de metas para a inflação é um regime monetário


no qual o banco central se compromete a atuar de forma a garantir que a inflação
efetiva esteja em linha com uma meta preestabelecida, anunciada publicamente. O
regime de metas para a inflação caracteriza-se geralmente por quatro elementos
básicos: i) conhecimento público de metas numéricas de médio prazo para a inflação;
ii) comprometimento institucional com a estabilidade de preços como objetivo primordial
da política monetária; iii) estratégia de atuação pautada pela transparência para
comunicar claramente o público sobre os planos, objetivos e razões que justificam as
decisões de política monetária; e iv) mecanismos para tornar as autoridades
monetárias responsáveis pelo cumprimento das metas para a inflação”
(www.bcb.gov.br). O sistema é constituído por uma meta, definida num intervalo entre
um piso e um teto, dentre os quais a inflação necessariamente deverá se situar ao final
do período. No Brasil, a meta para a inflação foi definida em termos da variação do
IPCA.

Desde a sua implementação, em 1999, o sistema de metas como um todo tem tido
êxito. Nos últimos doze anos, em apenas três o regime foi descumprido. Dentre as
suas razões, a principal causa esteve sempre relacionada ao cenário externo
desfavorável, que levou a distúrbios na taxa de câmbio e a incertezas quanto à
evolução da economia brasileira.