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Módulo 6

1. As transformações económicas na Europa e no Mundo


1.1 A expansão da Revolução Industrial
1.1.1 A ligação ciência-técnica; novos inventos e novas formas de energia
Progressos cumulativos: Série crescente de progressos que resultam da estreita ligação entre a
ciência e a técnica. As descobertas da ciência dão origem a novas máquinas e produtos que, por sua
vez, suscitam novas investigações científicas. A ciência e a técnica estimulam-se, pois mutuamente
e progridem em constante interacção.

Em meados do século XIX, os progressos técnicos ganharam um carácter mais científico. Exigiam
sólidos conhecimentos teóricos e a concorrência cada vez maior entre as várias empresas do mesmo
ramo obrigava a uma actualização permanente de tecnologias de fabrico. Neste contexto, os
institutos e as universidades assumiam um papel cada vez mais fundamental, formando
engenheiros, investigadores e cientistas que eram responsáveis pelos progressos na química, na
mecânica e na física. Estes progressos cumulativos vão permitir avanço industrial, que aliados ao
desenvolvimento científico e técnico, permitiram o aparecimento de novas indústrias e produtos,
tornando possível uma produção mais eficaz, aumentado os lucros, expandindo o mercado e
desenvolvendo a indústria.

Inovações na indústria química e na siderurgia / novas formas de energia / A aceleração dos


transportes
A expansão da revolução industrial transformou os métodos de produção e os padrões de consumo,
dando origem a novos inventos e produtos. A Siderurgia e a Indústria Química foram os sectores
que mais marcaram este século. A partir da criação de H. Bessemer, a indústria siderúrgica
prosperou, transformando mais rapidamente o fero em aço, alargando-se nas áreas da indústria
pesada (bens de equipamento, cascos de navios, pontes, construções, peças de artilharia) como na
produção de bens de consumo. A Indústria Química viu-se aliada a inovações como os corantes
artificiais (Anilina e Alizarina) que permitiram obter produtos inovadores a baixo preço como
insecticidas, medicamentos, fertilizantes e tecidos sintéticos. Novas fontes de energia surgiram
como o Petróleo e a Electricidade, que eram utilizados tanto nas fábricas de produção como nos
transporte e uso público. O desenvolvimento da indústria exigia a rápida deslocação de materiais de
construção e produtos o que levou ao desenvolvimento dos transportes. A Locomotiva permitiu a
deslocação rápida e a baixo custo de mercadorias e pessoas, assim como o Barco a Vapor que
permitiu a ligação mais rápida entre Continentes. No final do século viu-se a aparição dos primeiros
automóveis e aeronaves, que utilizavam as novas fontes de energia. As comunicações alargaram-se
com o aparecimento da electricidade e surgiu o Telégrafo, o Telefone, o gravador de som, a rádio e
o cinema. Pequenos inventos como peças intermutáveis, a prensa hidráulica e o compressor
pneumático facilitaram o desenvolvimento industrial. Já a máquina a costura, a máquina de escrever
o gramofone e a bicicleta melhoraram o quotidiano e criaram novas profissões.

1.1.2 Concentração Industrial e bancária


Capitalismo Industrial: Tipo de capitalismo que se desenvolveu na segunda metade do século XIX e
que se caracteriza por um investimento maciço na indústria. O capitalismo industrial assenta numa
clara divisão entre os detentores do capital (edifícios, fábricas, maquinaria, matéria-prima, etc.) e o
trabalho, representado pela mão-deobra assalariada.

A concentração Industrial
O desenvolvimento industrial implicou a necessidade de capitais que permitissem desenvolver a
tecnologia, novos materiais, construir fábricas, instalar máquinas e modernizar empresas. Estes
capitais obtinham-se através de empréstimos bancários e da associação de duas ou mais empresas.
Estas associações tinham como objectivo garantir lucros elevados, assegurar posições de mercado
dominantes e evitar a concorrência. Esta dinâmica capitalista deu origem a dois tipos de
concentração: as verticais e as horizontais. A Concentração Vertical caracterizava.se pela integração
de todas as fases de produção na mesma empresa. Foi utilizada sobretudo na indústria metalúrgica e
deu origem a grandes monopólios. Já a Concentração Horizontal caracterizava-se pela associação
de empresas para eliminar a concorrência e controlar áreas de negócios com vista a dominar o
mercado, originando a formação de Carteis na Europa. A combinação destes dois tipos de
concentração deu origem a gigantescas multinacionais que expandiram os seus negócios por todo o
mundo.

A concentração bancária
Os bancos desempenharam um papel primordial no crescimento económico do século XIX. Era a
sua actividade que permitia a movimentação das enormes somas envolvidas no comércio
internacional e tornava possível, graças ao crédito, a fundação, ampliação e modernização das
indústrias. Assistiu-se então: - Ao forte crescimento dos bancos mais poderosos e à falência dos
pequenos bancos; - À constituição de grupos económicos (concentração bancária), que financiam
empresas (participação directamente no desenvolvimento industrial) e controlam outros sectores da
economia; - Condução à afirmação do capitalismo financeiro.

1.1.3 A racionalização do trabalho


Estandardização: Uniformização dos artigos de forma a permitir o fabrico em série e a produção em
massa. Por sua vez, o trabalho de produção é divido numa série de pequenas tarefas, também elas
estandardizadas.

O aumento da concorrência colocou aos empresários duas questões fundamentais: produzir com
qualidade e a baixo preço. Tornava-se necessário rentabilizar todos os recursos materiais e
humanos. É neste contexto que surge um método rigoroso de trabalho nomeado de Taylorismo (de
Frederic Winslow Taylor). Assentava na divisão máxima do trabalho, seccionando-o em pequenas
tarefas elementares e encadeadas. Cada operário faria apenas uma tarefa, chegando as peças até si
por tapetes rolantes. Era cronometorizada, e completava-se com a do operário seguinte. Desta forma
permitia o baixo custo e tempo de produção, um ritmo de trabalho mais rápido, aumentado o luco
da empresa. Este método, apesar do aumento do lucro, trazia consequências negativas como a perda
de criatividade (que resultava numa produção maciça de objectos iguais, perfeitamente
estandardizados) e problemas de saúde (cansaço, stress, tiques), fazendo destes apenas máquinas
humanas autónomas. Para compensar o trabalho duro e incentivar os operários, os empresários
aumentavam os salários e diminuíam os horários de trabalho, aumentando o seu nível de vida
(Fordismo).

1.2 A geografia da industrialização


1.2.1 A hegemonia inglesa
A Inglaterra foi a potência hegemónica até cerca de 1880:
- Beneficiou das dificuldades dos seus concorrentes;
- A exposição Universal de 1851 revelou a superioridade inglesa;
- Grande dinamização dos caminhos-de-ferro;
- Supremacia da construção naval;
- Prática do livre-cambismo favoreceu a colocação dos produtos ingleses no mercado externo
(especialmente os têxteis).

Todavia, a fragilidade da hegemonia inglesa esbate-se no fim do século:


- Dificuldade em modernizar as máquinas;
- Atraso nos sectores químico e eléctrico;
- Resistência às invasões (despesa militar).
1.2.2. A afirmação de novas potências
A Alemanha
- Arranque industrial beneficiou da criação do Zollverein em 1934;
- Forte crescimento populacional;
- Baixos salários;
- Desenvolvimento industrial assente na indústria pesada;
- Disponibilidade de recursos materiais (carvão e ferro);
- Afirmação da indústria química;
- Desenvolvimento industrial beneficiou da concentração industrial

A França
- Processo de industrialização a partir de 1830-1840; - Industrialização feita a par do
desenvolvimento dos caminhos de fero; - Indústria têxtil foi o sector de arranque; - Siderurgia
desenvolveu-se tardiamente devido à falta de recursos; - Domínio da produção de alumínio até
1890; - Desenvolvimento da indústria automóvel; - Artigos de luxo foram a base da indústria
francesa.

Os Estados Unidos da América


Factores que beneficiaram a Industrialização:
- Progresso dos caminhos-de-ferro;
- Criação de matérias-primas;
- Abundância de matérias-primas;
- Desenvolvimento de novas tecnologias;
- Forte crescimento populacional;
- Generalização de um ensino primário gratuito nos Estados do Norte.
- Arranque da Industrialização a partir de 1860;
- O liberalismo económico favoreceu a industrialização;
- Impulso inicial da indústria algodoeira;
- Desenvolvimento da indústria siderúrgica a partir de 1870-1880;
- Desenvolvimento da indústria automóvel;
- Desenvolvimento da indústria eléctrica.

Os Estados Unidos passam a liderar a produção industrial. Afirmam-se como primeira potência
mundial no início do século XX.

Japão
Factores que favoreceram o arranque industrial:
- Promovido pelo Imperador Mutsu-Hito;
- Correspondeu à época de abertura ao exterior e ao fim da servidão;
- Forte crescimento demográfico;
- Mão-de-obra barata e disciplinada/ Contratação de uma mão-de-obra estrangeira;
- Alfabetização generalizada da população;
- Incentivo do Estado à modernização/ Facilidade de adaptação ao novo modelo produtivo;
- Existência de capitais e facilidade de concessão de empréstimos;
- Desenvolvimento da siderurgia;
- Desenvolvimento da construção naval;
- Desenvolvimento da indústria de algodão.

1.2.3 A permanência de formas de economia tradicional


A industrialização não se generalizou em termos mundiais:
- As regiões da Europa do Sul, do Norte e Oriental não conheceram um ritmo de industrialização ao
da Europa Central;
- O crescimento demográfico, a formação de um sólido mercado externo, as estruturas sociais, a
mentalidade empreendedora, a disponibilidade financeira, o apoio governamental, as inovações
técnicas e as características geográficas determinam o arranque industrial ou a permanência de
formas de economia tradicional.

1.3 A agudização das diferenças


1.3.1 A confiança nos mecanismos auto-reguladores do mercado: o livre-cambismo
Livre-cambismo: Sistema que liberaliza as trocas internacionais. No sistema livre-cambista, o
Estado deve abster-se de interferir nas correntes do comércio, pelo que os direitos alfandegários, a
fixação de contingentes (de importação ou exportação) e as proibições de entrada ou saída devem
ser abolidas ou, pelo menos, reduzir-se ao mínimo.

O mercado livre determinava os preços e as condições de troca. O mercado era regulado sem
intervenção do Estado ficando apenas submetido às decisões individuais dos que compravam e
vendiam, num mercado que se auto-regulava. O mercado, sujeito a esse jogo de oferta e de procura,
oscilava entre fases de expansão e de crise que, para os defensores do liberalismo, serviam como
mecanismo naturais auto-reguladores do mercado.

1.3.2 As debilidades do livre-cambismo; as crises cíclicas


Crise cíclica: Estado periódico de agudo mal-estar e de mau funcionamento da economia. Enquanto
nas economias pré-industriais as crises eram, sobretudo, de penúria e de escassez alimentar, nas
economias industriais as crises são provocadas por fenómenos de superprodução. As crises do
capitalismo caracterizam-se pela rápida descida dos preços, da produção e dos rendimentos.
Ocasionam numerosas falências, a subida do desemprego e a queda das cotações bolsistas.

As crises do capitalismo eram crises cíclicas que resultavam do liberalismo económico e do excesso
de produção (superprodução), provocando desequilíbrios entre a oferta e a procura. Eram dividas
em duas fases:
1ª fase: - Aumento da oferta e da procura; - Aumento dos preços e dos salários; - Alta do valor das
acções na bolsa; - Aumento do crédito.

2ª Fase: - Abrandamento da economia; - Baixa da produção e do consumo; - Acumulação de


stocks; - Baixa de salários e de preços; - Falência de empresas; - Aumento do desemprego; - Baixo
do valor das acções na bolsa.

1.3.3 O mercado internacional e a divisão do trabalho


A estrutura do comércio mundial refle a divisão internacional do trabalho, que a Revolução
industrial agudizou. Os quatro grandes países industrializadores (Inglaterra, França, Alemanha e
EUA) tornaram-se as “fábricas do mundo”, responsáveis por mais de 70% da produção industrial.
Fornecem, dentro da Europa, os países mais atrasados, aos quais adquirem produtos agrícolas e
matérias-primas. Estava já consolidado este sistema de trocas desigual, que perpetua a diferença
ente os países desenvolvidos e o mundo atrasado e pobre que lhes fornecem os produtos primários.

2.1 A explosão populacional; a expansão urbana e o novo urbanismo; migrações internas e


emigração
2.1.1 A explosão populacional
Explosão demográfica: Aceleração do crescimento da população mundial que, no século XIX, quase
duplicou os seus Efectivos. O fenómeno, particularmente forte na Europa, foi possibilitado pela
descida drástica e irreversível da mortalidade; pela antecipação da idade do casamento; pela
elevação da esperança de vida. Quanto à natalidade, manteve-se alta até cerca de 1870, altura em
que se inicia o seu, também irreversível, declínio.
No século XIX registou.se um crescimento da população mundial de cerca de 80%. Entre 1870 e
1913, assistiu-se ao aumento da população mundial. No final do século XIX, ¼ da população
mundial era de origem europeia: - A Europa via a sua população mais do que duplicar, contribuindo
para o crescimento efectivo de outros continentes também:; - O crescimento demográfico europeu
foi consequência da redução da mortalidade, especialmente da mortalidade infantil, e do aumento
da esperança média de vida, o que provou uma explosão demográfica na Europa.

Na Europa esse crescimento acelerado é evidenciado nos indicadores da mortalidade e natalidade:


- A mortalidade diminui, sobretudo nos países mais industrializados;
- A natalidade permaneceu elevada;
- A esperança média de vida aumentou.

No início do século XX, a Europa era o continente mais densamente povoado. O seu crescimento
demográfico teve diversas consequências:
- No plano económico (necessidade de mais subsistências, de mais recursos, aumento da mão-de-
obra e mais consumo);
- Na vida social (mais dificuldades, baixos salários, deslocação das populações).

O seu crescimento demográfico ficou a dever-se a vários factores:


- Progressos na medicina (combate às doenças infecciosas; melhorias nos cuidados materno-
infantis);
- Progressos na higiene (uso de vestuário de algodão, o uso de sabão; as redes de saneamento; a
melhoria no abastecimento de água e de condições materiais da habitações);
- Progressos na alimentação (alimentos em maior quantidade e mais variados; progressos nos
transportes que possibilitaram o abastecimento das populações; melhoria na conservação dos
alimentos).

2.1.2 A expansão urbana


Os motivos/ Os problemas/ O Novo Urbanismo
A população urbana conheceu um impulso decisivo no século XIX e a sua concentração nas cidades
foi devido principalmente:
- Ao desenvolvimento da industrialização, acompanhado de um forte crescimento populacional;
- À possibilidade de fluxos migratórios, facilitado pelo desenvolvimento dos transportes;
- Aos fenómenos migratórios, do campo para a cidade (êxodo rural) entre países (imigração);
- À melhoria das condições económicas e o desenvolvimento técnico;
- À procura de oportunidades de empego, de melhores salários e melhores condições de vida.

O crescimento das cidades entre 1850 e 1914 foi notório:


- Esta expansão urbana foi marcante nas capitais dos países industrializados;
- A percentagem de população urbana, no cômputo geral da população de cada país, aumentou.

Novos desafios se colocaram às cidades e às autoridades governamentais e citadinas:


- Planear e organizar as cidades, de acordo com novos modelos;
- Solucionar problemas específicos: alojamento, abastecimento, limpeza, iluminação, espaços de
circulação e de tráfego; equipamentos próprios de vivência em espaço urbano; delinquência,
miséria, promiscuidade e prostituição.

A cidade do século XX apresentava fortes contrastes sociais, presente no novo modelo do


Urbanismo:
- A classe burguesa residia em bairros luxuosos e em habitações elegantes no centro da cidade; o
centro estava reservado para os negócios, para as finanças e a banca; para o comércio e as funções
administrativas;
- Os bairros operários, situados na periferia, tinham más condições de habitualidade e higiene onde
a miséria, o desemprego, a criminalidade e a prostituição eram também realidades que faziam parte
do quotidiano urbano; -
Nos Estados Unidos da América, a cidade do século XIX começa a elevar-se em altura, com a
construção de arranha-céus.

2.1.3 Migrações internas e emigração


Migrações Internas
Vastas correntes migratórias atravessaram o século XIX, com especial incidência no período que
decorre entre 1850 e 1914. Algumas dessas correntes processaram-se no interior do mesmo país,
sendo, pois, designadas de migrações internas. Cabem nesta categoria:
- As deslocações sazonais de trabalhadores entre zonas rurais com um calendário agrícola
desfasado;
- Os fluxos migratórios dos campos para as cidades, isto é, o êxodo rural.

Emigração/ Os Motivos / A emigração portuguesa


No século XIX e inícios do século XX assistiu-se a uma forte vaga de emigração de várias
contentes para os países mais desenvolvidos. Entre os motivos de emigração encontrámos as crises
económicas cíclicas, o desenvolvimento d e novos países como os Estados Unidos, o Canadá, o
Brasil e a Austrália, que necessitavam de mão-de-obra para a exploração dos seus novos recursos e
as novas indústrias; a tardia industrialização dos países da Europa do Sul e Oriental; o
desenvolvimento de vias férreas e as melhorias técnicas nos transportes, sobretudo no comboio e no
barco a vapor. Juntam-se os motivos políticos, fruto de movimentos revolucionários fracassados e
de tensões partidárias e os motivos religiosos, fruto de perseguições e massacres a determinados
grupos. Em Portugal, a emigração partiu essencialmente do Norte, fruto das más condições de vida
que eram dadas no meio rural, sendo os emigrantes na maioria agricultores.

2.2 Unidade e diversidade da sociedade oitocentista


2.2.1 Uma sociedade de classes
Sociedade de Classes: Tipo de sociedade que se generaliza no mundo ocidental desde o século XIX.
Caracteriza-a a unidade do corpo social, na medida em que os indivíduos, nascidos livres e iguais
em direitos, dispõem do mesmo estatuto jurídico. A diversidade social baseia-se, essencialmente, no
estatuto económico, gerador de diferentes classes sociais.

2.2.2 A condição burguesa: heterogeneidade de situações; valores e comportamentos.


A alta burguesia empresarial e financeira / A formação de uma consciência de classe burguesa
/ Proliferação do terciário e incremento das classes médias / O conservadorismo das classes
médias
Consciência de classe: Percepção explícita de pertença a uma classe social específica, por parte de
indivíduos ou grupos. Implica a solidariedade para com os elementos da mesma classe e o
distanciamento relativamente a outras classes sociais. A consciência de classe pode assumir uma
expressão política, na medida em que a força o Estado a actuar de acordo com os seus interesses.

A sociedade do Antigo Regime foi substituída, no século XIX e XX, por uma sociedade de classes,
que se dividia em dois grandes grupos: a burguesia e o proletariado. A importância de cada uma
dependia da sua profissão: do que se fazia e do que possuía. Nesta sociedade, a burguesia ocupava
lugar de destaque. A burguesia dividia-se em alta, média e baixa- A alta burguesia industrial e
financeira liderava a economia e influenciava o poder político mas também ditava as modas
impondo ao resto da população um certo modelo de vida, os seus valores, e, até mesmo, as suas
formas de diversão. A burguesia defendia princípios como o direito à propriedade, a ideia de
família, a valorização do trabalho e da poupança, mas também o gosto pelo bem-estar e pela
ostentação. Procurava imitar a velha aristocracia mas apresentava a riqueza como fruto do trabalho,
da iniciativa e do esforço pessoais, nada devendo ao privilégio de um nascimento em berço de ouro.
Apontavam o êxito individual e da mobilidade social, nos verdadeiros self-made men. Entre os dois
últimos estratos, situava-se uma numerosa classe média, composta por pequenos e médios
empresários e profissionais liberais, como médicos, engenheiros, advogados, professores e
jornalistas. Nos estratos mais baixos da nova sociedade estava o proletariado, composto pela grande
massa de operários que enchia as cidades.

Ao proclamar-se a igualdade dos homens perante a lei, já não fazia sentido os títulos de nobreza, os
brasões e os demais privilégios judiciais ou fiscais, derivados do nascimento e perpetuados em
diferentes estatutos jurídicos. As distinções entre os homens radicam no poder económico, na
situação profissional, no grau de instrução e cultura, nas opções políticas, nos valores e
comportamento. A mobilidade ascensional na nova sociedade era aberta e fluida, fazendo com que
ser de uma família pobre não bloqueava a ascensão e ser de uma família rica não garantia o usufruto
de uma vida de luxo.

O crescimento das classes médias deveu-se, principalmente, à proliferação do terciário e dos


serviços. Aliado à necessidade de distribuir a riqueza produzida fez-se crescer os empregos
comerciais (patrões grossistas ou retalhistas, transportadores, empregos de loja ou de armazéns,
vendedores). As profissões liberais (advogados, médicos, farmacêuticos, engenheiros, notários,
intelectuais, artistas) mantinham um estatuto de privilégio devido ao seu conhecimento científico e
importante na nova moderna sociedade. O desenvolvimento de novas profissões como os
funcionários de escritório e o alargamento do ensino gratuito viu crescer o número de efectivos da
classe média que se situava entre a alta burguesia e o proletariado.

As classes médias eram socialmente conservadoras. Encaravam com desconfiança o operário, cujos
hábitos de contestação lhes repugnavam. Defendiam os ideais de sentido da ordem, de estatuto e das
convenções, o respeito pela hierarquia, o gosto pela poupança, que lhes conferia algum luxo.
Aspiravam a respeitabilidade e a decência e davam grande importância ao seio familiar. Tinham
gosto pelo trabalho, pelo estudo, pela responsabilidade e pelo mérito. Viviam o culto das aparências.

2.2.3 A condição operária: salários e modos de vida; associativismo e sindicalismo; as


propostas socialistas de transformação revolucionária da sociedade
Condições de trabalho/ Condições de vida
Proletariado: Segundo a terminologia marxista, significa a classe operária que, sem meios de
produção (a não ser os seus filhos, a sua prole), vende a sua força de trabalho (manual) em troca de
um salário. O termo proletário remonta à Roma antiga, abrangendo os cidadãos de inferior
categoria, isentos de impostos, cuja única função social era a de gerar filhos.

Condições de trabalho: Constituindo uma espécie de mão-de-obra não qualificada, o proletariado


enfrentava condições miseráveis e desumanas de trabalho. O ambiente era inóspito com frio glacial
no inverno e calor sufocante no verão, má iluminação, falta de arejamento, barulho ensurdecedor,
riscos de acidente constantes com máquinas e até mesmo desabamentos nas minas, ausência de
vestuário próprio, falta de redes sanitárias e cantinas assim como horários de refeições praticamente
não existentes e um horário de trabalho de 12 a 16 horas. Não possuíam feriados, férias e até mesmo
descanso dominical. Os salários nos tempos de expansão subiam mas em tempos de crise baixavam
e criavam miséria e desemprego. As mulheres e as crianças eram exploradas e desde os 4-5 anos as
crianças enfrentavam duros trabalhos que comprometiam o seu crescimento. Se por um lado esta
classe social enfrentava elevada precaridade, por outro os empresários encontravam grande lucro
para os salários baixos.
Condições de vida: Ao trabalho esgotante e nos limites da resistência humana, acrescentava-se
para os operários, uma vida nas condições mais indignas e degradantes. Caves húmidas ou sótãos
abafados, alugados a preços especulativos e frequentemente sobrelotados, eram as suas habitações.
Nelas tudo faltava: a luz, a higiene, a salubridade. Por sua vez, a alimentação mostrava-se
insuficiente e desequilibrada. Esgotados pelo trabalho, quase sem horas de sono, mal alojados e
subnutridos, os operários constituíam um terreno favorável à propagação de doenças. O alcoolismo,
a prostituição, a delinquência e a criminalidade completavam o quadro de miséria e da sordidez nos
bairros operários do século XIX.

O movimento operário: associativismo e sindicalismo


Movimento Operário: Conjunto de acções levadas a cabo pelos trabalhadores assalariados, para a
concretização das suas reivindicações. Na óptica marxista, é a expressão da luta de classes.
Procuravam a melhoria das condições económicas e sociais (aumento do selário, diminuição do
horário de trabalho, assistência na doença, velhice, desemprego) mas também a obtenção de direitos
políticos.

Associativismo: Traduziu-se na criação de associações de socorros mútuos, também denominadas


mutualidades ou sociedades fraternas. Através de quotizações simbólicas dos filiados, acudiam aos
necessitados, na doença, na morte, na velhice, no desemprego ou durante as greves. Para as
multidões de desenraizados que queram os operários, não há muito saídos do campo e privados de
solidariedade aldeã, as associações de socorro sempre proporcionaram um mínimo de conforto e de
calor humano.

Sindicalismo: Consistiu na criação de associações de trabalhadores para defesa dos seus interesses
profissionais. Os operários contribuíam com as necessárias quotas e os sindicatos propunham-se a
lutar pela melhoria dos salários e das condições de trabalho, recorrendo, se necessário, à greve,
como forma de pressionar a entidade patronal.

Objectivos das lutas grevistas: - Reivindicação do dia de trabalho de 8 horas; - Melhoria dos
salários; - Direito a descanso semanal; - Indemnização do patronato em caso de acidente.

As propostas socialistas de transformação revolucionária da sociedade


Socialismo: Teoria, doutrina ou prática social que defende a supressão das diferenças entre as
classes sociais, mediante a aproximação pública dos meios de produção e a sua distribuição mais
equitativa.

Objectivos das propostas socialistas:


- Denúncia dos excessos da exploração capitalista;
- Eliminação da miséria operária;
- Procura de uma sociedade mais juta e igualitária.

Socialismo Utópico
Distinguiu-se pelas suas propostas de reforma económica e social, que passavam pela recusa da
violência, pela criação de cooperativas de produção e de consumo e pela entrega dos assuntos do
Estado a uma elite de homens esclarecidos que governariam de molde a proporcionarem uma maior
justiça social. P. J. Proudhon chegou mesmo a defender a abolição da propriedade privada e a
abolição do próprio Estado que considerava desnecessário. Preconizava uma autêntica revolução na
economia, através da criação de associações mútuas, onde todos trabalhariam, pondo em comum os
frutos do trabalho. Originar-se-ia, em consequência, uma sociedade igualitária de pequenos
produtores, capazes de assegurarem a melhoria das condições sociais sem luta de classes ou
intervenção do Estado.
Marxismo
A perspectiva marxista concebe a História como uma sucessão de modos de produção
(esclavagismo, feudalismo, capitalismo), sucessão essa devido à luta de classes. A luta de classes
entre proletários e burgueses, devido ao modo de produção capitalista que beneficiava os burgueses,
conduziria à destruição do capitalismo, à implantação da ditadura do proletariado e à construção do
comunismo – a verdadeira sociedade socialista, sem classes, sem propriedade privada e se Estado.

As Internacionais Operárias
Organismo onde estão representadas associações de vários países, tendo em vista a coordenação das
suas actividades. A I Internacional mantinha secções locais nos países industrializados e apoiou
numerosas greves em toda a Europa. Apoiou também a insurreição dos operários da capital
francesa, conhecido por Comuna de Paris. Apesar de os apelos de Marx surtirem efeito e os partidos
de classes operária irromperem, houve teses que se opuseram ao marxismo como os proudhonianos
e os anarquistas (rejeitavam as instituições que ameaçavam a liberdade do indivíduo e defendiam o
associativismo responsável e a repartição equitativa dos bens. Para o derrube do capitalismo,
preconizava a greve geral e o recurso aos atentados terroristas, afastando-se do pacifismo
proudhoniano). Estes desentendimentos levaram à dissolução da I Internacional. Já a II
Internacional viu-se também ameaçada pelo revisionismo alemão (propôs uma evolução pacífica,
gradual e reformista do capitalismo para o socialismo por um clima de entendimento e colaboração
ente os partidos da burguesia) e mais uma vez levou à sua dissolução em 1914.

3. 3.1 As Transformações políticas


3.1.1 A evolução democrática do sistema representativo; os excluídos da democracia
representativa Da Monarquia à República/ O sufrágio Universal
A segunda metade do século XIX assistiu a uma evolução democrática para um Demoliberalismo.
Consistia num sistema político em vigência no mundo ocidental em que se conferia um grande
valor à representação da Nação alargando o sufrágio e reforçando o poder dos Parlamentos. Neste
período assistiu-se à diminuição do poder do monarca e uma aproximação à República, o regime
mais democrático e livre considerado pela população. O sufrágio universal foi instituído, acabando
com as restrições financeiras ao exercício da cidadania. A idade de voto fixou-se num modo geral
nos 21 anos mas as mulheres e os negros, bem como os analfabetos, eram afastados do poder de
voto. As classes médias e o proletariado, entravam no exercício da política.

3.1.2 As aspirações da liberdade nos Estados autoritários


Autarcia
Nos impérios europeus autoritários alemão, austro-húngaro e russo, os soberanos governavam de
forma autocrática, quase sem conhecerem limites à sua autoridade e personificando a lei. Apesar da
publicação de constituições e da concessão do sufrágio universal, os imperadores continuavam
senhores dos destinos dos governos que demitiam quando entendiam. Anulavam as leis dos
parlamentos, substituindo-as pelos decretos imperiais e socorriam-se da polícia secreta para
controlarem a oposição política.

Conservadorismo
Rigidez e conservadorismo dominavam as sociedades imperiais. As velhas nobrezas mantinham
uma forte implantação nos cargos governativos e no exército, bloqueando a aplicação do princípio
democrático da igualdade de oportunidades. Quanto às Igrejas gozavam de elevada protecção dos
Estados, que as acumulavam de privilégios e não reconheciam a liberdade religiosa.

Submissão das Nacionalidades


Aos múltiplos povos do império não eram reconhecidos direitos, violando a aplicação do princípio
liberal das nacionalidades, segundo cada povo tem a sua Nação e cada Nação um respectivo Estado.
Estas submissões levaram a grandes tensões políticas e sociais.
3.1.3 Os movimentos de unificação nacional
A unificação Italiana/ A unificação alemã
Em nome dos princípios das nacionalidades (os povos unidos por laços étnicos, linguísticos,
históricos e culturais, constituem nações autónomas), sucederam na Itália e na Alemanha
movimentos de unificação que levaram à formação de dois novos Estados Europeus (1861/1867),
manifestando pelo nacionalismo. A Itália viu-se unificada graças aos esforços de Vítor Manuel II,
Cavour e sobre as políticas de Giusepe Mazzini. Já a Alemanha viu-se apoiada por Otto von
Bismarck.

3.2 Os afrontamentos imperialistas: o domínio da Europa sobre o Mundo


3.2.1 Imperialismo e Colonialismo
Imperialismo: Domínio que um Estado exerce sobre outros países, a título militar, político,
económico e social.

Colonialismo: Domínio exercido sobre territórios não independentes (as colónias). É a forma de
imperialismo mais completa, já que associa todas as facetas (militar, política, económica e cultural).
As velhas potências colonizadoras como Portugal, a Grã-Bretanha e a França viram-se aliadas a
novos países como a Bélgica, a Alemanha, a Itália, a Rússia, o Japão e os EUA, dominando grande
parte dos territórios da África e da Ásia.

Objectivos do Imperialismo:
- Motivações económicas: as colónias ofereceram as matérias-primas indispensáveis que os estados
europeus viram desaparecer no proteccionismo do final do século XIX. Eram também fonte de
escoamento da produção industrial;
- Pressão demográfica: constituíam alívios para a movimentação profissional;
- Nacionalismo exacerbado: procuravam mostrar a superioridade da potência colonizadora em
questão.

3.2.2 Rivalidades Imperialistas


Profundas tensões acompanharam de perto o fenómeno imperialista. Rivalidades económicas e
políticas originaram acesas disputas territoriais. Nos Balcãs, em Marrocos, no Sudeste africano, no
Extremo Oriente, as rivalidades imperialistas e os nacionalismos fomentavam crises e punham em
causa a segurança mundial. Vivia-se um clima de “paz armada” patente na formação de alianças
militares como a Tríplice Aliança e a Tríplice Entente, que conjugadas com a corrida aos
armamentos, abriram o caminho para a Iª Guerra Mundial.

4.1 A Regeneração entre o livre-cambismo e o proteccionismo (1851-1880)


4.1.1 Uma nova etapa política
Regeneração: Período da vida política portuguesa que decorreu entre 1851 e o fim do século XIX.
Teve como objectivo o estabelecimento da concórdia social e política (das diferentes facções do
Liberalismo), bem como o desenvolvimento económico do país. Para o efeito, procedeu-se à revisão
da Carta Constitucional (alargou-se o sufrágio), assegurou-se o rotativismo partidário e promoveu-
se uma série de reformas económicas.

4.1.2 O desenvolvimento de infra-estruturas: transportes e meios de comunicação


Os Resultados
A Regeneração dedicou uma atenção especial ao desenvolvimento dos transportes e meios de
comunicação. A política fontista, do fontismo de António Maria Fontes Pereira de Melo, ministro do
Ministério das Obras Públicas, Comércio e Indústria, teve como principais feitos a construção de
estradas que uniram Portugal de Norte a Sul, a construção de vias ferroviárias, a construção de
pontes, a construção de portos marítimos, a instalação do telégrafo e do telefone, as reformas nos
correios e a implantação do automóvel e do carro eléctrico. Estas medidas permitiram a criação do
mercado nacional único, fomentando as actividades económicas da agricultura e da indústria,
unindo todas as regiões de Portugal, progredindo no seu desenvolvimento.

4.1.3 A dinamização da actividade produtiva


Sob o signo do livre-cambismo
A política económica da Regeneração apresentou uma orientação livre-cambista. Em 1852,
publicou.se uma nova pauta alfandegária, que visava uma maior liberalização do comércio.
Decretou a descida das taxas alfandegárias sobre as importações, beneficiando a indústria nacional.
Houve também a participação em exposições internacionais/universais que proporcionavam a
actualização científica e tecnológica, e os contactos internacionais permitiam que as trocas
comerciais se incrementassem.

A exploração capitalista dos campos (Agricultura)


Beneficiada coma a abertura aos mercados externos, a agricultura vai assistir a grandes
transformações:
- Libertação da terra dos vínculos de carácter feudal;
- Extinção definitiva dos morgadios;
- Abolição dos baldios e dos pastos comuns bem como os arroteamentos que permitiram aumentar a
superfície cultivada;
- Redução do pousio e aproveitamento mais intensivo da terra;
- Difusão das máquinas agrícolas;
- Crescente utilização de adubos químicos.

Apesar destes progressos, Portugal mantinha-se aquém da produção europeia. Alida à falta de poder
de compra da maioria dos agricultores, a inovação tecnológica não prosperou. O sector mantinha-se
virado para o mercado externo, o que gerava situações menos satisfatórias para a economia
nacional.

Industrialização
Progressos:
- Criação do ensino industrial;
- Diversificação dos ramos industriais (para além do têxtil, metalúrgico, cerâmico e do vidro
prosperaram os do tabaco, do papel, da moagem, dos fósforos, da indústria corticeira e das
conservas de peixe);
- Cresceu o número de unidades industriais e de operários;
- Registou-se um crescente aperfeiçoamento tecnológico com a importação de máquinas e do
registo de patentes;
- Expansão de sociedades anónimas, revelando uma razoável dinâmica capitalista.

Bloqueios:
- Fraca competitividade internacional;
- Take-off industrial atrasado que condicionou nas condições para aguentar a forte concorrência das
potências europeias;
- Mercado interno nunca se mostrou suficientemente estimulante (falta de poder de compra ou
opção pela produção estrangeira);
- Inexistência ou precariedade de certas matérias-primas e a deficiente preparação dos recursos
humanos;
- Falta de investimento industrial por parte dos capitalistas.
4.1.4 A necessidade de capitais e os mecanismos de dependência
As obras públicas, resultado da política de desenvolvimento da Regeneração, trouxeram graves
problemas a Portugal. Por começar estas obras eram construídas através do investimento
estrangeiro, caindo na sua dependência. O défice das finanças públicas não parava de crescer e os
sucessivos aumentos dos impostos não conseguiam a situação de equilíbrio. Para pagar a dívida,
recorria-se a empréstimos estrangeiros que entravam num ciclo vicioso pois para os pagar
recorriam-se a outros empréstimos estrangeiros, elevando o défice orçamental cada vez mais
crónico.

4.2 Entre a depressão e a expansão (1880-1914)


4.2.1 A crise financeira de 1880-1892
Entre 1880 e 1982, Portugal viveu uma crise financeira gravíssima resultante da política de livre-
câmbio do período da Regeneração, decretando bancarrota em Janeiro de 1892. Entre os factores
que a explicam encontramos:
- A diminuição das exportações agrícolas;
- A importação de artigos industriais;
- Aumento dos encargos coma dívida pública devido aos sucessivos empréstimos no país e no
exterior;
- Falência dos londrinos Baring & Brothers, que cobriam o défice das finanças públicas com
empréstimos;
- Diminuição das remessas de dinheiro dos nossos emigrantes devido à crise económica no Brasil.

O Surto industrial de final do século


Depois da grave crise económica e do fracasso do livre-cambismo posto em prática pela política da
Regeneração, o Governo português publicou, em 1892, uma nova pauta alfandegária, retornando à
doutrina protecionista. O objetivo era reorientar a economia portuguesa.

Mudanças na agricultura:
Procurou-se garantir as condições necessárias para que os produtos nacionais se pudessem afirmar
no mercado externo, interno e nas colónias (relaciona-se com o colonialismo). O comércio colonial
foi um importante pilar no desenvolvimento económico português.

Mudanças na indústria:
Relativamente à indústria, difundiu-se a energia a vapor e avançou-se com a mecanização. As
inovações e tecnologias da segunda revolução industrial foram finalmente utilizadas: a indústria
química e a eletricidade.
A indústria teve então de acompanhar a agricultura, colocando a produção nos mercados.

Outras Remodelações:
-Foram criadas Companhias, melhor preparadas para as oscilações do mercado e onde o capital
financeiro imperava (ligadas ao têxtil, transportes, serviços públicos, bancos, expansão colonial,
etc.);
-Valorizou-se o mercado colonial;
-Verificou-se uma expansão tecnológica, com a difusão da eletricidade, da indústria química e da
mecanização.
4.3 As transformações do regime político na viragem do século
4.3.1 Os problemas da sociedade portuguesa e a contestação da monarquia
A crescente massa urbana aliada aos progressos da instrução e a proliferação dos jornais
contribuíram para a formação da opinião pública, força poderosa que os governos passaram a ter em
conta e que desempenhou nas últimas décadas da monarquia um papel primordial.

A crise político-social e a emergência das ideias republicanas


O rotativismo partidário português, fruto da Regeneração, parecia não dar resposta à crise
financeira. As rivalidades ente os dois partidos originaram duras críticas ao Governo e o rei era
visto na opinião pública como o culpado dos males que afligiam o país. A debilidade económica
fazia-se sentir e dos campos, saíam milhares de emigrantes. O operariado miserável, pobremente
alojado e alimentado, era analfabeto e as classes médias olhavam com dificuldade os baixos salários
face ao seu estatuto que lhes dava uma vida digna. Com excepção da alta burguesia ligada ao poder
político, estas classes sociais viviam um descontentamento geral e eram receptivos face aos
projectos de mudança. O Partido Republicano viu nesta situação uma oportunidade de se afirmar.
Efectuou diversas críticas violentas ao rei e aos seus governos e emancipava um patriotismo
português forte, que originou a sua crescente adesão.

A questão colonial e o Ultimato Britânico


Um dos assuntos que mais interessava à opinião pública era a questão das colónias. Em 1881, a
Sociedade de Geografia de Lisboa elaborou um projecto que visava a ligação de Angola com
Moçambique, ficando conhecido por “Mapa Cor-de-Rosa”. Face a estas pretensões africanas,
Portugal recebeu um Ultimatum britânico, pois a GrãBretanha pretendia ligar numa faixa contínua o
seu território do Cabo ao Cairo. Ameaçando o corte diplomático, Portugal aceitou as exigências
britânicas e abandonou o projecto, dando origem a diversas contestações face ao Governo que
deram origem à primeira tentativa de derrube da monarquia no Porto a 31 de Janeiro de 1891, que
acabou por fracassar.

Do reforço do poder à implantação da república


A revolução fracassada do Proto fez ver que o estado político do país estava muito débil e que era
necessário um poder forte e seguro capaz de dar volta à situação. Assistiu-se a um contorno do
republicanismo e a um clima propício ao reforço do poder real. D. Carlos dispôs-se então a realizar
diversas reformas à muito esperadas e em 1906, nomeia o chefe de Governo João Franco. Franco
viu-se nos braços de uma sistemática obstrução do Parlamento, agitado por escândalos financeiros e
pela agressividade dos partidos da oposição. Desta forma, D. Carlos dissolveu o Parlamento e João
Franco governou em ditadura. A repressão abateu-se de tal forma que levou ao assassinato do rei e
do príncipe herdeiro a 1 de Fevereiro de 1908. Apesar do sucessor, D. Manuel, tentar governar num
clima de transigência e compromisso, a revolta republicana prosperou e a 5 de Outubro de 1910 foi
proclamada a primeira república portuguesa.

4.3.2 A primeira República


21 de Agosto de 1911: Aprovação da Constituição Política da República Portuguesa. 24 de Agosto
de 1911: Eleição de Manuel de Arriaga como primeiro presidente da República Portuguesa.
O sistema parlamentar
O poder legislativo pertencia ao Congresso da República, composto por duas câmaras- a dos
Deputados e o Senado- ambas eleitas por sufrágio directo e universal, com restrições (Eleitores:
todos os portugueses com mais de 21 anos, com a condição de saberem ler e escrever ou de serem
chefes de família). O predomínio do poder legislativo expressava-se nas vastas competências do
Congresso a quem cabia a legislação geral, assim como muitas matérias que dependia o exercício
regular do Governo e da Administração Pública. Já o presidente, eleito de 4 em 4 anos, promulgava
de forma automática, as leis aprovadas. Pelo contrário, era ao Parlamento que cabia o controla das
acções do Governo e do Presidente, o que contribuiu para uma enorme instabilidade governativa.
Palco de encarniçadas lutas políticas, o Congresso obstruía de forma quase sistemática, a acção dos
governos que, constantemente substituídos, não dispunham de tempo nem de autoridade para
concretizarem as suas tarefas.

A concretização do Ideário Republicano


Principais medidas implementas legislativamente:
- Com vista à pretendida igualdade social, foram abolidos os privilégios de nascimento, títulos
nobiliárquicos e até as ordens honoríficas;
- Dando cumprimento ao laicismo e anticlericalismo, promulgou-se a Lei da Separação do Estado e
das Igrejas (1911): o casamento foi definido como um contracto puramente civil, susceptível de ser
dissolvido pelo divórcio e foi implementado o Registo Civil obrigatório. Nacionalizaram-se os bens
da Igreja, expulsara-se as ordens religiosas e laicizou-se todo o ensino;
- No plano da justiça social, foi reconhecendo o direito à greve, regulamentou-se o horário de
trabalho e institui-se o descanso obrigatório aos domingos para todos os assalariados. Em 1916,
surgiu o Ministério do trabalho e Previdência Social, tendo-se investido nas áreas da Habitação
Social, da saúde e da assistência;
- A nível do ensino público, foi reiterada a obrigatoriedade e gratuitidade do ensino primário,
reforçando-se os meios da sua efectivação coma criação de escolas e um programa de formação de
professores e renovou-se o ensino técnico e universitário.

5.1 A confiança no progresso científico


Positivismo: Corrente filosófica e científica sistematizada, no século XIX, por Augusto Comte. O
Positivismo, como corrente de pensamento, exclui toda a teorização metafísica, confinando-se ao
positivo conhecimento dos factos através do método científico.

Segundo Comte, a Humanidade e os diversos ramos do conhecimento passaram sucessivamente por


três estados:
- O teológico, em que os fenómenos são explicados pela intervenção das forças sobrenaturais;
- O metafísico, em que se aceita a existência de entidades abstractas, não observáveis, como causa
dos fenómenos:
- O estado positivo (ou científico), que se alicerça no estudo das leis naturais e invariáveis que
regem os fenómenos.

Cientismo: Crença no poder absoluto da ciência em todos os aspectos da vida. O cientismo parte de
um estrito racionalismo que considera explicáveis todos os fenómenos, não pondo, por isso, limites
às possibilidades do conhecimento humano. Segundo esta corrente do pensamento, a ciência
constituiria a chave do progresso e da felicidade humana.
5.1.1 O avanço das ciências exactas e a emergência das ciências sociais
Palco de extraordinárias descobertas, o século XIX não se limitou a acrescentar o volume dos
conhecimentos, mas revolucionou também as suas bases:
- Na Química, Mendeleiev elaborou a primeira tabela periódica;
- Na Física, os britânicos Joule e Maxwell formularam com a precisão a teoria cinético-molecular,
onde todos os corpos são formados por partículas dotadas de movimento, cuca intensidade varia
pela acção de factores externos por como, por exemplo, a temperatura. O casal Curie e Henri
Becquerel publicaram sobre a radiactividade, demonstrando que para além de se moverem, os
elementos podiam transformar-se uns aos outros.
- Na biologia, Charles Darwin publicou a “Origem das Espécies”, uma hipótese da evolução das
espécies animais e vegetais e Mendel desvendaria o complexo mecanismo que preside à
transmissão dos caracteres hereditários;
- Na microbiologia e na medicina, os estudos de Louis Pasteur e de Robert Koch, deram melhores
conhecimentos sobre as causas da propagação de doenças;
- A Sociologia nasceu e Émile Durkheim lançou os seus fundamentos na obra “As Regras do
Método Sociológico”;
- Na economia política, Marx tentou tornar “científico” o socialismo utópico;
- A Geografia deixou de ser puramente descritiva, debruçando-se sobre a relação entre homens e o
espaço;
- A História desenvolveu as regras para a selecção e a crítica das suas fontes, na esperança de, desse
modo, reconstituir o passado com toda a exactidão.

5.1.2 A progressiva generalização do ensino público


O cientismo e a sua fé inabalável no alcance do conhecimento impulsionaram a instrução e o seu
desenvolvimento, sendo a segunda metade do século XIX a época da alfabetização: - O ensino
primário tornou-se gratuito e obrigatório; - O pagamento dos professores deixou de estar a cargo
das autarquias e instituições de benemerência e transitou para o poder central; - Construção de redes
de escolas; - Laicização da escola pública; - Impulsionamento dos ensinos secundários e superiores,
que formavam profissionais nas áreas da engenharia e empregos liberais, com renovação dos seus
currículos e métodos pedagógicos; - Desenvolvimento, na Alemanha e nos EUA, do moderno
conceito de docência universitária que colocava o professor como orientador do trabalho e dos seus
alunos formando uma equipa de investigação.

5.2 O interesse pela realidade social na literatura e nas artes - as novas correntes estéticas na
viragem do século
5.2.1 O Realismo
Realismo: Movimento cultural que se segue e se opõe ao Romantismo. Cronologicamente, o
Realismo afirma-se cerca de 1850 e prolonga-se, sob várias formas, até à viragem do século.
Influenciado pela corrente positivista, o Realismo rejeita toda a subjectividade, opondo à beleza, ao
refinamento, à elevação moral o simples culto dos factos. Estendendo-se, embora, a vários
domínios, este movimento foi particularmente expressivo na pintura e na literatura.

Na pintura, o Realismo manifestou-se na simples reprodução, desapaixonada e neutra do que a vista


oferece ao pintor, passando, depois aos temas do quotidiano. Destaca a França como
impulsionadora deste movimento destacando-se Honoré Daumier, Édouard Manet e Gustave
Coubert. Na literatura, o Realismo centrou-se no retracto objectivo da realidade social em
detrimento da exaltação dos sentimentos individuais que tinha marcado o Romantismo. Foi esta
realidade palpável, clara e cruamente exposta, que chocou a sociedade burguesa da época, tão ligada
às aparências.
5.2.2 O Impressionismo
Impressionismo: Corrente pictórica que se esboça na década de 60 e persiste, pelas mãos de pintores
como Claude Monet, até ao início do século XX. Os impressionistas procuram captar a realidade
visível tal como, de imediato, a percebemos, transfigurada pelas diferentes intensidades de luz.
Caracteriza-se por uma técnica pictórica rápida, de contornos diluídos, que privilegia as cores fortes
e claras. Rejeita a pintura de atelier, a aplicação tradicional das cores, o esboço prévio e os
contornos definidos.

5.2.3 O simbolismo
Simbolismo: Corrente artística da segunda metade do século XIX que atingiu a sua expressão mais
forte cerca de 1880-1890. O Simbolismo toma como tema o mundo dos pensamentos e dos sonhos,
o sobrenatural e o invisível, adquirindo um carácter hermético e isotérico. Revela um desprezo pelo
mundo industrial (evasão do quotidiano) e rejeita o “culto dos factos”, a simples reprodução da
realidade visível.

5.2.4 Uma “Arte Nova”


Arte Nova: Estilo que marca, na Europa, a viragem do século (1890-1914) e se afirma pela oposição
aos estilos antigos que continuavam a inspirar a arte académica. Embora se desdobre em múltiplas
vertentes nacionais, a Arte Nova define-se pela preocupação decorativa, pelo predomínio da linha
ondulada, pelo recurso aos motivos florais e femininos e pela predominância de cores claras. Rejeita
a separação entre artes maiores (arquitectura, escultura, pintura) e artes menores (artes decorativas
em geral).

5.3 Portugal: o dinamismo cultural do último terço do século


5.3.1 O impulso da geração de 70
A inquietação e os anseios de modernidade que se sentiam na Europa vai masterizar-se em Portugal,
num grupo de estudantes de Coimbra, que incluía Antero de Quental, Teófilo Braga e Eça de
Queirós. Conhecendo-os como a Geração de 70, este grupo de jovens abraçava entusiasticamente a
fé cientista no progresso, bem como a crença no papel da literatura como meio de transformação
social. Insurgia-se contra a “escola literária de Coimbra” e o conservadorismo dos intelectuais
portugueses, contrapondo-lhes a “novidade” europeia. Elaboraram uma série de Conferências
Democráticas onde discutiam abertamente a política, a sociedade, o ensino, a literatura e a religião.
Condenados pelo regime de ofenderem “claramente as leis do reino e o Código Fundamental da
Monarquia” o ciclo das conferências não chegou a completar-se. Os membros da Geração de 70
sentiram-se então derrotados pelo imobilismo nacional, tendo, todavia, deixado um legado que
alimentou a efervescência ideológica que marcou o fim da monarquia e abriu o caminho a novas
correntes literárias e artísticas.

5.3.2 O primado da pintura naturalista


No final do século XIX, o Estado português passou a conceder bolsas de estudo no estrangeiro aos
estudantes de Belas-Artes que mais se destacassem. Foi devido a essas bolsas que, em 1874,
viajaram para Paris António da Silva Porto e João Marques de Oliveira, o primeiro como estudante
de "paisagem" e o segundo como bolseiro de "pintura histórica".

Ambos se apaixonaram pela pintura ao ar livre e pelos temas campestres e, no seu regresso,
contagiaram o público português que saudou, com entusiasmo, esta "pintura moderna" e naturalista.
O Naturalismo e Realismo
Em termos genéricos, o Naturalismo confunde-se com o Realismo.
Toma como temas os mesmos motivos retirados da Natureza e da vida quotidiana, detendo-se
especialmente na gente simples e nos momentos de trabalho.

Numa altura em que as paisagens agrestes e a representação de episódios banais tinham já deixado
de chocar o público, o naturalismo português, abstendo-se de ousadias temáticas e subversões
técnicas, transformou-se rapidamente na "arte oficial".

Principais autores
-António Carvalho da Silva Porto
-José Malhoa
-Henrique César de Araújo Pousão
-Columbano Bordalo Pinheiro
-Pintura Naturalista e Realista na Europa

Pintura Naturalista e Realista na Europa


A pintura realista foi formulada, em França, por volta das décadas de 30 e 40 do século XIX. Esteve
ligada às ideias positivistas e democratas da época, assim como aos acontecimentos sociais e
políticos e aos progressos científicos nas mais diversas áreas - as das ciências exactas, das ciências
históricas e das ciências naturais. Esses ideais deram origem ao movimento operário do proletariado
e à formação da sua consciência de classe.

A representação da figura humana foi feita com rigor, respeitando a anatomia das proporções e das
volumetrias e a cor do ambiente. No entanto, o resultado não foi a cópia fiel da realidade, pois esta
pintura agrega, em si, um caráter de intervenção social, demonstrado, inclusive, na seleção dos
temas. É uma pintura de fácil leitura, popular, que atingiu um público vasto.

A pintura naturalista interessou-se pela natureza concreta fora dos ateliers, pelo gosto dos tipos
humanos e por cenas do dia-a-dia. A sua temática reparte-se pelas paisagens, onde as marinhas e as
cenas bucólicas são as mais representadas, pelos ambientes populares ou burgueses e pelos retratos
eivados de algum sentimentalismo, mas sem intenções de compromisso ideológico.