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Por: Letícia Marques Capa by TaaayTaaayTaaayTaaay

Por: Letícia Marques

Capa by TaaayTaaayTaaayTaaay

CAPÍTULO

1

Porque o dia não acabava logo? Parecia que o tempo estava conspirando contra mim. Não via a hora de ir para o meu quarto ouvir uma música bem pesada para tentar esquecer a ladainha que a freira na minha frente falava. Quem precisava aprender sobre a Grécia Antiga? Isso era passado e não me intessava nem um pouco sobre nada que se relacionasse com o passado.

Então, para minha felicidade, uma noviça abriu a porta da sala de aula, interrompendo aquela voz monótona. Entrou em silêncio e de cabeça baixa, e falou ao ouvido da irmã que, logo em seguida me olhou. O que foi que eu fiz agora?

- Suzannah Simon, sua mãe a espera na diretoria.

Levantei calmamente como uma mocinha comportada, peguei meu material escolar já que a aula estava prestes a acabar, e saí da sala acompanhando a noviça. Tudo em um silêncio absoluto. Mas por dentro eu gritava. Que diabos minha mãe está fazendo aqui? O que deu nela para aparecer assim sem ligar? Será que ela descobriu sobre o meu comportamento no colégio? Se foi isso, eu estou ferrada!

Eu não era exatamente a melhor aluna do Colégio Irmã Medelyne, que era um colégio interno. Não que eu fosse do tipo vândala ou que respondesse mal aos professores. O problema era que, cerca de duas ou três vezes por semana eu acabava me metendo em algum problema. Mas não era de propósito. O problema meio que vinha até mim.

É que eu sou um pouco diferente das garotas de 16 anos. Quer dizer, acho que eu pareço bastante

normal. Não uso drogas, nem bebo, nem fumo. Só que eu falo com os mortos. Ou melhor, os mortos é que falam comigo.

Quer dizer, eu não ando por aí procurando esse tipo de conversa. Na realidade, tento evitar essa coisa toda o mais que posso. Mas o negócio é que às vezes eles não me largam. Como o fantasminha que estava encostado na porta do meu armário, por exemplo. Não sei como eles me acham, mas o fato é que acham. E descobrem o número do meu armário. E onde fica meu quarto também, para completar.

O meu problema atual era que eu precisava guardar o meu material no armário com uma noviça logo

do meu lado. Como eu faria pra espantar o fantasma sem que ela visse era algo que eu não tinha pensado ainda. Talvez ele entendesse que aquele não era o momento e voltaria depois. Ok. Ilusão minha. Fantasmas não estavam nem aí para a minha vida privada.

A maioria dos alunos, professores e o diretor certamente achavam que eu era maluca. Mais de uma

vez puseram os conselheiros da escola para cuidar de mim. Mas não era fácil fazer o que eu fazia com 100% de descrição. Na verdade, era impossível. E ainda mais naquela escola ridícula com mais de duzentos anos. No meu primeiro dia de aula alí, há quase quatro anos eu estava na lanchonete quando me apareceu a bendita fantasma de uma aluna que tinha morrido quando escorregou no banheiro da escola. E depois na biblioteca. A antiga atendente tinha morrido e não se conformava com a nova funcionária. E na sala de aula. O problema é que, depois que eu tinha limpado aquele lugar de todos os fantasmas que tinham morrido alí, apareceram outros de outros lugares dizendo ter

~ 2 ~

ouvido falar de uma mediadora, que no caso era eu, que ajudava os mortos. E foi assim que eu fiquei famosa entre os fantasmas. E entre o corpo docente da escola.

O fato é que muitos fantasmas são estúpidos à beça. Isso mesmo. São chatos de doer. Eles ficam

por aí atazanando as pessoas, batendo portas, fazendo barulho com os objetos, provocando frio,

O problema é que eu

sempre acabo no meio dessa confusão tentando fazer eles pararem, mas como ninguém mais vê os fofinhos, sempre pensam que sou eu que estou criando tudo aquilo.

gemendo. Você sabe do que estou falando. A velha história de fantasmas

Isso já me fez ir umas

a inteligência, consegui fazer com que o diretor nunca ligasse pra minha querida mãe. Eu dizia

sempre que ela era muito ocupada e que não queria aborrecê-la tendo que sair da California para a Suíça por causa da filha problemática. É. Eu dizia isso sim. E ainda colocava um pouco de lágrimas nos olhos. A minha sorte era que o padre Dominic era tão bonzinho que sempre ficava com pena de mim e só me passava castigo atrás de castigo, mas nunca ligava pra minha mãe.

tá, não lembro quantas, mas foram muitas idas à diretoria. Mas eu, com toda

Então agora ela estava lá. Não sei para quê, mas ainda tinha outro problema pra resolver. Um fantasma punk que me olhava carrancudo.

- Suzannah, o que está fazendo? – a noviça perguntou olhando para trás.

Eu tive que jogar meus livros no chão pra ganhar tempo.

- Caiu. – falei com o maior cara de pau. Não acho que ela tenha acreditado.

- Ande logo. Guarde os livros por que eu tenho que te acompanhar até a diretoria.

Ferrou. Ok. Pensa, pensa. Lancei um olhar rápido ao fantasma enquanto recolhia meus livros numa lentidão exagerada. “Vaza daí, seu inútil”. Mas é claro que fantasmas não lêem pensamentos. Saco! Então eu ouvi um barulho vindo do banheiro feminino no fim do corredor. Parecia que tinha alguém vomitando. Eca! A irmã olhou naquela direção e em seguida olhou para mim.

- Eu sei o caminho da sala do diretor. – falei com um sorriso que tentei deixar o mais inocente possível.

Ela me olhou com uma cara desconfiada, dividida.

- Vá direto para a sala do Padre Dominic. Por favor, não apronte nada. – apenas acenei e ela se foi.

Terminei de guardar os livros, agora com pressa, e encarei o intruso.

- Muito bem. Vai falando logo que eu tô com pressa. E sai daí. – falei já empurrando ele sem nenhuma delicadeza. Essa era a vantagem de ser mediadora. Eu podia tocar nos fantasmas à vontade. Até socá-los também quando algum me irritava demais.

- Eu não. Tenho toda a eternidade aqui. – ele respondeu com um sorriso cínico no rosto.

Guardei meus livros de qualquer jeito e batí a porta com força.

- Olha só, deixa eu te explicar como eu trabalho: você fala o que quer, eu ajudo – ou tento – e você vaza. Entendeu? Simples assim.

- Mas eu tô a fim de conversar um pouco. Faz anos que eu não falo com ninguém. Pelo menos não alguém vivo.

- Mas eu não estou com tempo para conversar agora. Então vai logo dizendo qual é o teu problema.

~ 3 ~

- Nossa. Bem que eles falaram que você era grosseira.

Hein? Como assim? Desde quando fantasmas são fofoqueiros? Tá legal. Isso me encheu.

- Já que você está tão incomodado então procure outro mediador pra te ajudar. Eu tô caindo fora. – falei rapidamente e continuei o caminho em direção à sala do diretor. Bem, eu tentei. E teria conseguido se o fantasma, numa “brincadeira”, não tivesse colocado o pé para eu cair. E eu caí.

- Eu ainda não acabei de falar com você!

Como é que é? Era só o que me faltava. Levantei com muita calma embora estivesse me roendo de raiva por dentro e me aproximei dele.

- Me toca mais uma vez e você vai se arrepender de ter me procurado!

Mas ele tocou. E não foi um toque qualquer. O filho da mãe me deu um empurrão e riu. Ok. Ele pediu. Me virei com toda e dei um soco na sua cara pálida e idiota. Ele caiu esparramado no chão.

- Vai se comportar agora?

Ele não falou nada, mas sumiu no ar me deixando sozinha.

Fui correndo em direção à sala do diretor. Parei em frente a porta para ajeitar os cabelos que saiam da trança. Alisei o uniforme, saia de pregas com terninho e gravata, e bati na porta.

- Entre! – Ouvi a voz do padre Dominic. Entrei. Congelei.

Minha mãe estava alí, mas ela não estava sozinha. Havia um homem sentado na poltrona ao lado da dela em frente a mesa do padre. E só havia uma pessoa que minha mãe traria aqui. Seu namorado, Andy sei-lá-o-quê. Respirei fundo e fechei a porta indo até a minha mãe que se levantara. Dei um abraço apertado nela. Realmente estava com saudades.

- Filhinha, que saudades.

- Também senti sua falta, mãe.

Depois de alguns segundos nos afastamos. Ela estava com um sorriso radiante. Fazia tempo que não via minha mãe sorrindo daquele jeito. Então, se ela estava feliz daquele jeito, significava que o padre não tinha contado nada para ela. Suspirei alivida.

- Vou deixar vocês à sós para conversarem. Fiquem à vontade. – e saiu fechando a porta atrás de si.

- Suzinha, quanto tempo. – lá vinha ela com esse “Suzinha” de novo. Tá, ela podia. Era minha mãe.

Mas só ela. Dei uma olhada rápida no homem que continuava sentado. – Ah, já ia me esquecendo. Suzinha, quero te apresentar uma pessoa muito especial para mim. – A pessoa especial se levantou. Como se eu não soubesse quem era. – Suzinha, querida, esse é Andy – como se eu não soubesse. Mas eu fui até ele e apertei sua mão sem falar nada. Ele também ficou em silêncio. – Nós temos uma novidade para te contar. – Epa! – Por isso quis vir pessoalmente. – Epa, epa! Lá vem bomba! Continuei calada. Acho que era melhor ficar assim. – Andy – ela começou se afastando de mim, indo até ele e o abraçou pela cintura e ele passou o braço nos seus ombros – me pediu em casamento – eu disse que era bomba – E eu aceitei.

Saco!

~ 4 ~

- Ah, mãe, que coisa boa! – tá, era falsidade, mas minha mãe não era tão perceptiva assim.

Mas a bomba não foi só isso.

Ela ainda me disse que queria que eu fosse morar com ela a partir do próximo mês. E que Andy tinha três filhos, dois quase da mesma idade que eu, que estudaríamos na mesma escola a partir do próximo ano e, ah, que moraríamos em uma enorme casa construída há 150 anos. Isso mesmo! Casa velha. Ou seja, fantasmas. Não que fosse certeza haver fantasmas lá, mas a probabilidade era enorme.

Mas era impossível simplesmente olhar para os dois e não ver logo de cara que babavam completamente um pelo outro. E que tipo de filha eu seria se dissesse "nem pensar"? De modo que aceitei o Andy e aceitei seus três filhos para dar à minha mãe a felicidade que ela merecia.

Me comportei como uma boa moça e fingi que tinha adorado tudo. Talvez até não fosse ser tão ruim assim. Califórnia. Calor. Praia. É. Podia até ser muito bom.

~ 5 ~

CAPÍTULO

2

Minha mãe foi me pegar no aeroporto junto com Andy. Seus filhos ficaram em casa preparando tudo para minha chegada. A paisagem no caminho era simplesmente perfeita. Tudo tão claro e quente. A praia era fabulosa. Não via a hora de entrar naquele mar. Chegamos na casa e me surpreendi. A casa era enorme e inacreditavelmente bonita, com direito até a torrinhas de estilo vitoriano e uma plataforma-mirante no telhado. Minha mãe mandara pintá-la de azul, branco e creme, e ela era cercada de grandes pinheiros frondosos e arbustos floridos por toda parte. Com três andares, toda construída em madeira e não a terrível combinação de vidro e aço ou a terracota de que eram feitas as casas ao redor, pode-se dizer que era a casa mais charmosa e de bom gosto da vizinhança.

Andy carregou minhas malas para dentro e eu entrei com minha mãe segurando minha mão.

- Bem vinda! – três vozes masculinas falaram ao mesmo tempo. Os três porquinhos. Ri com esse pensamento.

- Suzannah, esses são meus filhos, Jake, - o mais alto acenou – Brad – outro aceno do mais forte, parecia até um gorila – e David – só um riso tímido. Gracinha.

Logo atrás deles, pregado na parede, havia uma faixa escrito “BEM VINDA, SUZANNAH” em letras garrafais. Eles fizeram aquilo? Ficou legal. Tá. Decidi ser simpática.

- Olá. – acenei para eles também – É um prazer conhecê-los.

Fiquei naquela sala por mais alguns minutos, minha mãe falando sobre a casa e a cidade, e de como eu iria gostar da escola nova. Eu tentei desviar a atenção quando ela começou a contar, pela quarta vez, a história de como ela e Andy se conheceram.

Depois de mais alguns minutos de conversa melosa, minha mãe me chamou para ver meu quarto que ficava no primeiro andar, bem em cima do telhado da varanda. A janela dava para a mesma vista que a varanda, aquela paisagem impressionante que abarcava toda a península. Era mesmo uma gracinha da parte deles me darem um quarto tão bom, o quarto com a melhor vista da casa.

Até que me virei para a janela e vi que alguém já estava aboletado no assento que o Andy fizera para mim com tanto carinho.

E não era nenhum dos meus novos irmãos. E eu percebi que mais ninguém estava vendo o intruso embora Andy estive a apenas dois metros dele.

Resolvi fingir que não via nada. O homem sentado também não se virou quando entramos. Ficou só olhando para fora pela janela.

- Adorei o quarto. É lindo.

- Que bom, que bom que você gostou – minha mãe disse rindo de orelha a orelha. – Eu estava meio

preocupada. Isto é, sabendo como você não gosta

bem, de lugares antigos.

- Na boa, mamãe - disse eu. – Muito bom. Adorei.

~ 6 ~

Ouvindo isto, Andy começou a zanzar agitado pelo quarto, mostrando-me que as luzes podiam ser acesas e apagadas com palmas – ai, meu Deus, eu mereço! – e várias outras gracinhas que ele havia providenciado. Eu ia atrás dele, mostrando que estava encantada, mas tomando o cuidado de não olhar na direção do fantasma. Era mesmo comovente ver como o Andy queria me ver feliz. E

como ele parecia querer tanto, eu estava decidida a ser mesmo feliz. Ou pelo menos tão feliz quanto

é possível para uma pessoa como eu.

Depois de um certo tempo, Andy já não tinha mais o que me mostrar e saiu para começar a preparar

o churrasco, pois em homenagem à minha chegada teríamos um jantar especial.

- Vou te ajudar a desfazer as malas.

- Não precisa, mãe. – falei rápido, querendo ficar sozinha para dar logo um fim nisso.

- Bom, se você não quer, acho que vou ver como é que o Andy está se saindo com o jantar.

- Isso aí, mãe. Faça isso. Vou só me ajeitar um pouco aqui e daqui a pouco desço.

Antes de sair ela me deu um abraço.

- Espero que você seja muito feliz aqui, Suzinha.

- É claro que vou ser feliz aqui. Já estou me sentindo em casa.

- É mesmo? - fez minha mãe, fungando. – Jura?

- Juro. – E eu não estava mentindo, já que no meu quarto do internato também havia fantasmas o tempo todo.

Ela saiu e fechou a porta. Esperei até que não estivesse mais ouvindo os passos dela na escada e então me voltei.

- OK – fui dizendo para aquela presença no assento da janela. – Quem diabos é você?

Dizer que ele levou um susto era pouco. Ele olhou ao redor para ver se era com ele mesmo que eu estava falando depois ficou me encarando de olhos arregalados.

Mas é claro que a única coisa que havia atrás dele era a janela e, além dela, aquela vista inacreditável da Baía de Carmel. De modo que acabou se voltando novamente para mim e deve ter visto que meu olhar estava grudado no seu rosto, pois suspirou "Nombre de Dios" que me deixou arrepiada.

- É com você mesmo que estou falando! Vou logo avisando: não gosto de ninguém zanzando no meu quarto. Muito menos que já bateu as botas.

Ele me olhou como se olhasse para um ser de outro planeta e perguntou com uma voz rouca:

- O que você quer dizer com isso?

Eu não pude deixar de revirar os olhos de impaciência.

- Eu estou dizendo que não gosto de fantasmas no meu quarto.

- Não estou entendendo – ele disse, com ar de espanto. – Não entendo como você consegue me ver. Durante todos esses anos, ninguém nunca

- Claro – fui cortando, pois como você já deve estar sabendo estou cansada de ouvir esse tipo de coisa. – Olha só, os tempos mudaram um bocado, sabia? Então, qual é a sua?

~ 7 ~

Ele piscou com aqueles enormes olhos negros. Suas pestanas eram mais longas que as minhas. Não é sempre que eu dou de cara com um fantasma que também é uma graça, mas aquele cara caramba, ele devia ter sido alguma coisa quando vivo, pois ali estava ele morto e eu já estava querendo adivinhar como eram as coisas por baixo da camisa branca que usava, bem aberta, mostrando um bocado o peito, e até um pouco do abdômen. Será que fantasma também faz abdominal? Era o tipo da coisa que eu nunca tivera oportunidade – ou vontade – de explorar até então.

Não que eu fosse me deixar perturbar por esse tipo de coisa àquela altura dos acontecimentos. Afinal de contas, sou uma profissional.

- A minha? – repetiu ele.

Era evidente que ele tinha alguma coisa de hispânico, como deixavam claro aquele "Nombre de Dios" que havia soltado e a cor da sua pele, mas com certeza era tão americano quanto eu – ou pelo menos tão americano quanto podia ser alguém que tivesse nascido antes de a Califórnia tornar-se um estado.

- É – disse eu para limpar a garganta. Ele se voltara um pouco e apoiara uma botina na almofada azul claro do assento da janela, e então eu pude ter certeza de que os fantasmas realmente podem fazer abdominais. Seus músculos abdominais eram muito definidos, e cobertos com uma leve penugem de sedosos pêlos negros. Eu engoli em seco. Bota seco nisso. – Sim, a sua – disse então. – Qual o seu problema? Por que ainda está aqui?

Ele olhou para mim, sem expressão no olhar, mas interessado. Eu fui mais clara:

- Por que você ainda não foi para o outro lado?

Ele balançou a cabeça. Não sei se já disse que seu cabelo era curto e escuro e parecia bem crespo, dando a impressão de que se você tocasse nele seria muito áspero mesmo.

- Não sei o que você está querendo dizer.

- Como assim não sabe o que eu estou querendo dizer? Você está morto. Não tem mais que ficar

aqui. Você não devia

estar simplesmente andando por aí.

Ele ficou olhando para mim pensativo, equilibrando o cotovelo no joelho levantado, com o braço meio vacilante.

- E se por acaso eu gostar exatamente de andar por aí? – quis saber.

Eu não tinha muita certeza, mas estava com a impressão de que ele estava zombando de mim. E eu não gosto nada que zombem de mim. Eu ainda não estava em condições de dar um murro naquele cara – ainda não. Mas faltava pouco. Apesar de estar apenas com uma blusa de alças e uma saia de tecido leve que batia cerca de um palmo acima do joelho, eu estava com calor.

- Olhe aqui, você pode ficar andando por aí o quanto quiser, amigo. Vai fundo. Não estou dando a mínima. Mas aqui, não.

- Jesse – disse ele, sem se mexer.

- O quê?

- Você me chamou de amigo. Achei que gostaria de ficar sabendo que eu tenho um nome. Eu me chamo Jesse.

Tanto faz.

~ 8 ~

- Certo. Faz sentido. Muito bem então, Jesse. Você não pode ficar aqui.

- E você?

Jesse agora estava sorrindo para mim. Ele tinha um belo rosto. Uma cara boa. Não que ele fosse bonitinho. Não era mesmo. O que ele parecia mesmo era perigoso. E não era pouco, não.

- E eu o quê? – retruquei, sabendo que estava sendo rude, mas não dando a mínima.

- Como se chama?

Eu olhei bem fixo para ele.

- Olha aqui. Vai dizendo logo o que você quer e cai fora. Estou com calor e quero trocar de roupa. Não tenho tempo para

Ele me interrompeu com perfeita amabilidade, como se não estivesse me ouvindo:

- Aquela mulher, sua mãe, chamou-a de Suzinha – disse ele, com os olhos negros brilhando para mim. – É apelido de Susan?

- Suzannah. – eu disse, corrigindo-o automaticamente. – Agora sai do meu quarto.

Ele continuou sorrindo.

- Mas esse quarto é meu.

Essa era nova.

- Quê?

- Esta aqui é a minha casa há um século e meio. Por que eu teria de sair?

- Porque sim. Este quarto é meu. Não vou dividi-lo com um caubói morto.

Dessa vez ele entendeu direitinho. Levou o pé de volta ao piso, batendo com força, e se endireitou. Imediatamente eu lamentei ter dito o que disse. Ele era alto, bem mais alto que eu.

- Não sou nenhum caubói - informou ele, zangado. E acrescentou alguma coisa baixinho em espanhol que eu não entendi. Ao mesmo tempo, o espelho antigo pendurado sobre minha nova penteadeira começou a balançar perigosamente no gancho que o prendia à parede. E eu sabia que aquilo não se devia a nenhum terremoto californiano, mas à agitação do fantasma que estava na minha frente, cujos poderes, obviamente, eram do tipo telecinético, aquele negócio de mover coisas com a mente.

- Uau! – fiz eu, esticando os braços para cima, com as palmas das mãos voltadas para fora. - Menos! Calma aí, rapaz!

- Todos na minha família – emfureceu-se Jesse, com o dedo em riste no meu rosto – trabalharam

feito escravos para conseguirem alguma coisa neste país, mas nunca, nunca houve nela nenhum

vaqueiro

- Ei! – interrompi, e foi aí que cometi o meu maior erro; muito irritada com aquele dedo na minha cara, eu o agarrei com toda força, torcendo sua mão e puxando-o para mim para ter certeza de que ele ia me ouvir dizer bem baixinho: – Pare com o espelho agorinha. E tira este dedo do meu nariz. Se fizer de novo, será um dedo quebrado.

~ 9 ~

E então eu deveria ter soltado sua mão e dado um belo de um soco naquela cara linda, mas eu não consegui. Senti o sangue pulsar em resposta aquele contato. Uma corrente elétrica percorreu todo o meu corpo, um arrepio subindo pela minha coluna. Era como se tudo ali fizesse sentido para mim. Jesse deu um passo na minha direção. E outro.

- Você pode me tocar – ele falou, numa voz rouca.

- É – foi só o que consegui responder, um nó se formando na minha garganta.

O que era isso que estava acontecendo? Ele é um fantasma, Suzannah. Um Fantasma! Mas sua

respiração tão próxima ao meu rosto tirou todos os pensamentos da minha mente. Ele estudava meu rosto sem reservas, um estudo que seguiu pelos meus ombros e passou a percorrer todo meu corpo. Seu olhar se assemelhava a uma carícia física e eu me peguei esperando essa carícia. E em todos os lugares que seu olhar pousava eu sentia minha pele queimar, meu corpo enrijecendo. Sua outra mão acariciou meu rosto com uma delicadeza que me deixou completamente entregue. Soltei um gemido involuntário. Eu não percebi o movimento. Num minuto ele estava parado, no outro as mãos estavam sobre meus braços. Os dedos fortes me tiraram do chão e me puxaram contra o peito musculoso. Antes que eu pudesse respirar, os lábios dele cobriram os meus com ferocidade contida.

Minhas mãos se ergueram involuntariamente, agarrando o tecido da camisa em busca de equilíbrio e planejando um potencial protesto. O protesto prentendido nem chegou a germinar, porque o corpo másculo projetava sua força nas curvas do meu quadril, mais suave e suplicante. Ele era esguio, dono de músculos definidos e prefeitamente desenhados, e podia sentir nele a vibração da vida.

Masculinidade e potência. Podia sentir essas características em toda parte daquele corpo. As mãos

de Jesse eram firmes e seguras em seus movimentos, mantendo-me colada em seu peito.

A boca dele parecia queimar a minha com sensualidade, uma mistura equilibrada de natureza e

talento. Ele me beijava com agressividade, provocando e exigindo ao mesmo tempo. Sentia vertigens, ondas de calor e alterações de freqüência cardíaca. Meus seios formigavam e a metade inferior do corpo ardia em chamas. Estava inundada pela adrenalina, tomada por um desejo sensual que jamais imaginara que existisse. Eu relaxei os lábios contra os dele, o coração disparado.

Ele aceitou o convite instintivo. E aceitou com uma ousadia erótica, a língua invadindo minha boca úmida e quente. Senti uma onda de calor brotanto da essência do meu corpo, espalhando-se em todas as direções. E agora, tomada por aquele fogo incontrolável que fazia arder a pele, deduzi que Jesse sentia o mesmo. A minha língua buscou a dele. A boca dele buscou a minha com desespero. Eu sentia como se fosse a última mulher da terra, a única que merecia ser beijada. Os dedos de Jesse percorreram minha coluna, subindo e descendo.

Ele gemeu quando a minha boca se abriu um pouco mais, convidando-o a exploração. Saber que eu fazia ele sentir prazer aumentou ainda mais o fogo. O instinto assumiu o controle enquanto as mãos percorriam meu corpo. Me tocava do ombro até a cintura, descendo um pouco mais para tatear o início da curva das minhas nádegas. Era como se eu me encaixasse perfeitamente nas suas mãos. Os dedos apertaram um glúteo, me erguendo do chão e me puxando para um contato ainda mais completo com seu corpo.

De repente ele interrompeu o beijo, arfando. Era como se estivessemos enroscados um no outro. Seus olhos estudaram meu rosto, me analisando como se eu fosse um enígma. Eu me agarrava a ele, colada como estava ao corpo poderoso e forte. Ele se inclinou, os lábios roçando no meu pescoço. Era um gesto erótico e eu senti meu corpo responder imediatamente. A língua deslizava pela minha pele, os dentes pressionando a região sensível. O estímulo causou um arrepio que eu não consegui conter.

Jesse sentiu o tremor. Um som rouco brotou de sua garganta e os lábios buscaram os meus mais uma vez. Eu gemi outra vez, sem conseguir conter, e o som pareceu levá-lo a loucura.

De repente, ele passou um braço pela superfície da mesa do computador, jogando papéis e bonecos

de decoração para longe. As mãos urgentes me tiraram do chão e me colocaram na mesa. Sentada,

~ 10 ~

eu afastei as pernas naturalmente.

Eu nem me dei ao trabalho de pensar na minha inexperiência, no fato de nunca ter feito isso com ninguém. As mãos dele seguravam minha cabeça, os dedos tocando seus cabelos com reverência e ansiedade.

Podia notar que Jesse agia impelido pelo impulso, movendo a boca contra a minha e refletindo com cada movimento a necessidade imperiosa de gratificação. As mãos encontraram meu quadril e me puxaram para a frente, para a beirada da mesa, enquanto meu corpo mergulhava entre suas pernas. Outra vez eu não contive um gemido ao sentir a força com que ele comandava meu corpo, e depois gemi baixinho quando senti a ereção no centro da minha feminilidade. O corpo de Jesse era duro e só as barreiras das roupas impediam que ele encontrasse o que buscava. O som que brotou da minha garganta era de abandono e prazer, e os movimentos que eu executava contra o corpo másculo o convidavam a me possuir. Meus dedos acariciavam suas costas, tocando-o e sentindo seus músculos poderosos.

Ele gemeu de prazer e me beijou, ofegante. Eu me afogava em paixão e desejo, hipnotizada pela rigidez do corpo másculo e pela boca que parecia querer me devorar. Ele se movia contra meu corpo como se quisesse acariciar meu corpo por inteiro. Os dedos buscaram ávidos a pele sob a blusa que eu usava, tocando minha cintura e subindo até encontrarem um seio. O toque era habilidoso, uma manipulação experiente que combinava pressão e suavidade. Ele pegou entre o polegar e o indicador

um mamílo túrgido, rolando-o e provocando sensações indescritíveis. Eu gemia, inclinando as costas

e impulsionando o corpo na direção dele. Gemi novamente quando os dedos encontraram o outro

seio, provocando um calor que subia e descia por todo meu corpo. Eu interrompi o beijo para aproximar a boca do pescoço dele, lambendo a pele macia do pescoço largo e musculoso. Ele murmurou por entre os dentes uma frase em espanhol, seu corpo estremecendo.

- Fale – eu exigi ofegante. De repente, com uma ousadia que não sei de onde surgiu, eu ergui o

corpo, e retirei a blusa num gesto urgente, sem parar para pensar em como o gesto podeira parecer convidativo. Olhei para baixo, para meus seios pálidos e expostos, para as mãos que os tocavam e acariciavam. Pousei as mãos sobre as dele e o guiava e incentivava a prosseguir com o carinho provocante, aumentando a pressão. – Fale – repeti com a voz rouca, provocante.

Seu corpo todo respondia ao meu.

- Você é minha! – ele murmurou com voz rouca. E me beijou apertando meu corpo ao seu fazendo

meus seios se encontrarem com seu peito musculoso. Ele sabia que podia me possuir ali mesmo e

não encontraria resistência.

Então eu ouvi uma batida a porta.

- Suzinha, o almoço está pronto.

Jesse se afastou como se tivesse levado um choque, me encarou como se só agora se desse conta do que estava fazendo, falou algo em espanhol num tom que parecia que estava pedindo desculpas e sumiu. Droga. Droga. DROGA!

- Suzinha

- Já vou! – gritei, talvez muito rude e tratei de consertar o erro antes que minha mãe entrasse ali e me visse naquele estado, quase nua. – Tô indo, mãe.

- Ok. Não demore.

- Tá.

Saí rápido de cima da mesa e vesti minha blusa que estava no chão. Não. Aquilo não ia adiantar. Precisava de um banho. Frio. Estava completamente suada e arfando. Parei em frente ao espelho e

~ 11 ~

analisei minha imagem. Quase não me reconheci. Meus cabelos estavam emaranhados de um jeito totalmente sensual – ou talvez eu pensasse assim por que sabia como ele tinha chegado naquele estado – meu rosto estava corado e meus lábios inchado pelos beijos.

Meu Deus, Suzannah. Agora você enlouqueceu de vez. Onde já se viu? Eu era uma mediadora e quase tinha feito sexo com um fantasma. Eu ri de um jeito estranho, as imagens voltando a minha mente e me deixando sem fôlego novamente. Ok, Suzannah, já para baixo do chuveiro! Ordenei a mim mesma.

~ 12 ~

CAPÍTULO

3

Uma semana se passara desde o dia da minha chegada. Desde o dia que eu conhecera Jesse e que quase fizera sexo com ele. Ele não aparecera mais no meu quarto, nem em lugar nenhum, desde aquele dia. Não sei se por vergonha do que tinha feito, afinal ele era de outra época onde aquele tipo de coisa não acontecia assim tão rápido, ou se ele queria manter distância de mim por me julgar uma garota atirada demais. Esperava mesmo que não fosse a segunda opção.

Eu pensei bastante em tudo que acontecera, revivendo cada momento e ainda ficava sem fôlego quando me lembrava do seu toque no meu corpo, dos seus beijos ardentes. Mas eu também tinha muito com que me ocupar esses dias. Tinha começado as aulas na nova escola que, para meu azar, também era bem antiga e havia alguns fantasmas vagando por lá.

Já no primeiro dia de aula eu ajudei um antigo jardineiro da escola a pedir a filha que cuidasse melhor de suas plantas na casa que ele morava. Tudo bastante parecido com a outra escola que eu estudava. A diferença ali era que eu estava muito perto de casa agora e que minha mãe e meu padastro conheciam e mantinham contato frequente com o diretor da escola. Além disso, meus três irmãos estudavam lá também e Brad, que eu descobrir ter a minha idade, fazia quase todas as aulas comigo. Então eu não podia ficar saindo o tempo todo pra resolver problemas durante as aulas e nem podia me dar ao luxo de me meter em alguma encrenca. Precisava manter a pose de certinha o tempo todo e isso já estava me cansando. Era um saco ter que ouvir um certo fantasma de um aluno que morrera em um acidente de carro no começo do ano gritando no seu ouvido durante a aula de história que eu assistia com o meu queridinho meio-irmão.

- Quer parar de se fazer de surda? Você vai me ajudar. Você tem que me ajudar! - ele gritava do meu lado. Ah, se eu pudesse responder.

Enquanto isso eu tentava me concentrar, sem sucesso, no que o professor falava, mas era impossível ouvir alguma coisa com aquele asno do meu lado. Me levantei tentando disfarçar minha irritação e me aproximei do professor

- Posso ir ao banheiro?

- Agora não, srta. Simon. Vou chegar em uma parte muito importante do assunto que pode cair na prova.

O asno que me seguia gargalhou do meu lado, aumentando minha irritação.

- É uma emergência feminina, professor – respondi fazendo minha melhor cara de coitadinha – Sabe como é.

Homens odiavam falar nesse assunto e eu bem sabia.

- Tudo bem. Tudo bem. – falou apressado – Vá. Mas não demore.

Ele me deu um passe e eu saí da sala sendo seguida pelo irritante fantasma. Andei até uma pilastra para me esconder dos turistas que visitavam a escola e o encarei.

- É o seguinte, cara! – falei puxando-o pela gola da camisa azul que ele vestia – Ou você pára com essa palhaçada ou eu te obrigo a parar. Fui clara?

~ 13 ~

Ele me olhou chocado, mas assentiu. Fantasmas sempre ficavam chocados quando eram tocados. E isso me lembrou de um fantasma em específico. Chega, Suzannah!

- Eu vou te ajudar, – continuei – mas não vou poder fazer nada se ficar de detenção por não prestar atenção na aula.

- Tudo bem. Prometo que não faço mais isso.

- Certo. – eu o soltei e fui andando em direção à sala de aula novamente, mas me voltei para falar com ele novamente – Ah! E Avisa aos seus amiguinhos fantasmas também. Se quiserem falar comigo que esperem eu sair da sala.

Mas quando eu saí da sala indo para o pátio almoçar, eu me dei conta da merda que eu tinha falado. O pátio estava repleto de fantasmas. Deviam ter no mínimo uns dez. Estavam todos juntos ao lado do asno e todos me olhavam sorridentes e acenaram pra mim. Merda!

Brad estava bem atrás de mim, junto com seus amigos gorilas que riam de alguma piada sem graça, então eu não poderia fazer nada naquele momento. Continuei andando para me sentar em uma mesa junto com meu meio-irmão depois que compramos nossos lanches. Tentei fingir que não via eles se aproximando, sendo liderados pelo fantasma do asno. Continuei comendo normalmente até que ele parou do meu lado e falou no meu ouvido.

- Pronto! Acabou sua aula. Agora você ajuda a gente.

Já disse que odeio quando eles fazem isso? Acho que não. Sabe quando a gente sente aquele arrepio do nada que sobe por toda a espinha e deixa os cabelos em pé? Pois é. Isso acontece quando um fantasma sussurra assim tão perto. Calafrio dos fortes! Me engasguei com o cachorro- quente cuspindo um pouco em Brad que estava sentado na minha frente.

- Eca, Suzannah! Nunca viu comida não, foi? – perguntou se limpando – Come feito uma esganada. Não sei como não engorda.

Minha vontade era mandar ele se ferrar, mas eu ainda estava mantendo a pose de menininha inocente então me limitei a ficar calada. Os gorilas riram de boca cheia. E eu que era a esganada ali? Porcos!

- Vem! A gente quer falar com você.

Como assim? Desde quando era quando eles queriam? Tá. Desde sempre. Mas será que eles não viam que estava cheio de gente ao meu redor? Vivos que não viam eles?

- Agora não. – falei baixinho pelo canto da boca. Os idiotas na minha frente ainda estava ocupados rindo feito hienas e não ouviram.

- Mas você disse que depois da aula

- Eu disse agora não! – interrompi ainda falando baixo.

Segundo arrependimento no mesmo dia.

Ele começou a tremer de raiva, e os fantasmas que estavam junto dele acabaram sendo contagiados por sua ira. Em instantes um vento muito forte atingiu o pátio e as coisas mais leves começaram a voar para todo lado. Os alunos começaram a se levantar enquanto tentavam pegar os papeis que voavam de suas mochilas.

Brad também levantou junto com os amigos, mas não para ajudar ninguém. Os pervertidos aproveitaram a deixa para agarrar as alunas que tentavam segurar suas saias que levantavam com o vento. Sorte que eu estava de calça jeans. Continuei sentada na maior calmaria enquanto o vento

~ 14 ~

açoitava meus cabelos fazendo a franja ricochetear no meu rosto. Mas não ia me render!

- É melhor você parar com isso, coisinha. – falei, dessa vez não me importando de baixar a voz. Ninguém me ouviria naquela algazarra.

- Não me chame de coisinha, sua

teto de madeira que cobria uma parte do pátio começar a raxar.

sua

– seu corpo todo tremia ainda mais fazendo um pedaço do

- Aiô, silver!!! – ironizei, mas começava a ficar preocupada olhando para a rachadura do teto que

– mas não pude terminar de

falar porque naquele exato instante o pedaço do teto começou a se desprender. Ia cair a qualquer instante e logo abaixo dele, totalmente alheia ao perigo que corria, estava uma garota albina que fazia algumas aulas comigo. Ela estava abaixada recolhendo os livros que cairam da mochila.

aumentava. – Pára com isso agora mesmo. Se alguém se machucar

Corri imediatamente na sua direção jogando o meu lanche no chão. Então eu me joguei contra ela tirando-a do caminho no último instante antes do teto desabar exatamente no lugar que ela estivera segundos atrás.

- Você está bem? – Perguntei ajudando-a a se levantar.

Ela olhou para o local onde o teto caíra e ofegou.

- Você me salvou. – ela me olhou com os olhos cheios de lágrimas e me abraçou.

Fiquei sem reação diante daquele gesto. Não estava acostumada a ser abraçada daquele jeito, com exceção da minha mãe.

Encarei o fantasma do asno por cima do ombro dela fuzilando-o com os olhos. Ele deu uma risada debochada e sumiu. Os outros fantasmas ainda ficaram ali por mais um tempo e depois sumiram também.

Afastei a garota com delicadeza. Uma multidão começava a se aglomerar a nossa volta. Ela abriu um enorme sorriso enlatado para mim, as lágrimas agora escorrendo pelo seu rosto albino.

- Você me salvou. – ela repetiu.

- Acho que sim. – respondi dando de ombros. – Você está bem?

- Tô – ela falou fungando e enxugando as lágrimas – Você é Suzannah. – não foi uma pergunta.

Sim. E você é

- – me esforcei para lembrar seu nome, mas não consegui.

- Cee Cee.

- Cee Cee? – que nome esquisito. Assim como a dona do nome. Ela se vestia de uma maneira

digamos que peculiar. Nada combinava com nada, mas transmitia um alto astral que devia ser reflexo de sua personalidade.

- É.

Um professor chegou em seguida fazendo com que todos voltassem as salas de aula e pedindo ao zelador que isolassem a área do acidente. Quando Cee Cee virou-se para ir para a sala eu vi que sua blusa rosa e azul estava suja de sangue nas costas. Olhei para mim para me certificar que não era eu que estava machucada. Não era.

-

acostumada a salvar a minha própria pele, mas quando se tratava de proteger outra pessoa eu não

tinha muita experiência. Ela se voltou para mim sorrindo. – Eu acho que você está

– chamei meio constrangida. Eu e meus salvamentos desastrosos. Estava

Er

Cee Cee

er

sangrando.

~ 15 ~

Ela franzio o cenho e puxou a camisa no local que eu apontava. Quando viu o sangue ela me encarou com o rosto sem expressão, mais pálida que o normal e eu percebi seu corpo amolecendo. Era só o que me faltava. Corri na sua direção e a segurei no momento que ela desmaiou.

- Cee Cee – ouvi um grito às minhas costas. Um garoto bonito se aproximou com o rosto coberto pelo medo – O que aconteceu?

Ele tentou tirá-la dos meus braços, mas eu a puxei.

- Quem é você? – perguntei desconfiada. Já tinha protegido ela e não ia entregá-la a qualquer um por aí.

-

Quem sou eu? Eu sou o namorado dela. – ele me olhou de cima a baixo. Tá. Eu não gostei disso. –

E

você, quem é?

- Meu Deus! O que aconteceu aqui? – perguntou o professor já todo descabelado, a peruca fora do lugar.

- Ela desmaiou. – respondi simplesmente.

- Adam, ajude a levá-la para a enfermaria, por favor.

- Sim, senhor.

Ele virou-se para mim como se pedisse permissão e eu deixei ele pegar Cee Cee no colo e levá-la para a enfermaria. Mas eu fui junto.

- Minha nossa! O que houve? – perguntou uma enfermeira gorda de sorriso bondoso.

- Eu não sei. – Adam respondeu e olhou para mim.

- Eu sei – falei – Ela se machucou quando o teto caiu, mas só desmaiou depois que viu o sangue. Ela está machucada nas costas.

A enfermeira a virou de lado para avaliar o ferimento deixando-a de costas para mim.

- Cee Cee não gosta de sangue – Adam falou se afastando para dar espaço para ela trabalhar.

- Notei.

Ouvimos um gemido leve. Cee Cee estava acordando.

- Não se mexa, por favor. – falou a enfermeira segurando-a pelos ombros. – Estou fazendo um curativo aqui.

- Tá muito feio? – ela perguntou com voz chorosa.

- Só um corte leve.

- Quem está aí?

- Sou eu, meu amor – Adam falou se aproximando um pouco.

- Adam. Onde está Suzannah?

- Estou aqui.

~ 16 ~

Adam me olhou intrigado.

- Vocês se conhecem?

- Claro! Suzannah salvou minha vida quando o teto desabou. Se não fosse por ela, nesse momento eu seria só um patêzinho de Cee Cee.

Eu tive que rir com a piada.

- Será que vocês dois poderiam esperar lá fora? – a enfermeira pediu quando Adam esbarrou nela sem querer fazendo com que ela quase derrubasse o vidro do remédio.

- Claro. Desculpe. – Adam falou apressado e saímos. – Então, – ele continuou quando já estávamos do lado de fora – Você salvou a vida dela. Obrigado.

- Não foi nada. – já estava ficando sem saco para todos aqueles agradecimentos. – Fiz o que qualquer um teria feito. Só que eu estava mais perto.

- De qualquer forma, obrigado. E desculpe por ter sido grosso com você.

- Sem problemas, eu também fui.

Tá. Chega de momento meloso.

- Amigos? – ele estendeu a mão para mim.

Hein? Ai meu Deus. O que é isso? Parece que estou no meio de um filme bem meloso.

- Amigos. – Porque não? Era melhor andar com eles do que com a turma de brutamontes que era o grupo do um meio-irmão.

Voltei para a sala sozinha deixando Adam para cuidar da namorada, mas eu tinha uma coisinha pra fazer antes. Passei em frente a uma sala que vivia vazia e que normalmente era usada para atividades extras. Estava procurando um fantasma e sabia que ele estava lá. E não deu outra. Fechei a porta e ele veio logo falar comigo.

- Olha só, você me provocou. Eu

Mas quem disse que eu queria papo com ele? Juntei minha raiva acumulada naquela semana e apliquei um soco certeiro naquela cara de asno fazendo com que ele caisse em cima de algumas carteiras fazendo um estrondo tremendo. Ah. Suspirei aliviada. Agora me sentia bem melhor.

- Ah! Venha aqui essa noite e eu te ajudo. – afinal, não ia querer ele no meu pé pro resto da minha vida.

Saí logo daquela sala antes que alguém viesse verificar o motivo do barulho.

~ 17 ~

CAPÍTULO

4

À

noite eu esperei todos irem dormir e coloquei meu plano em prática. Vesti uma leggin preta, um top

e

um casaco preto com capuz por cima. Calcei meus tênis e me preparei para pular a janela. Ajeitei

minha mochila com alguns apetrechos ótimos para entrar em algum lugar sem permissão, lanterna, chave de fenda, alicates e coisas assim, que eu adquiri durante minha jornada como mediadora. Então pulei. Pensei que ia ter que mancar por alguns quarteirões, mas, por incrível que pareça, eu caí em pé, com quase nenhum impacto devido à grama fofa.

De repente eu senti como se estivesse sendo observada. Olhei ao redor, mas não vi nada. Devia ser só impressão. Peguei uma bicicleta na garagem e subi me preparando para pedalar até a Missão. Ajeitei o capuz de forma que protegesse meu rosto do vento frio e dei a partida. O caminho era todo em descida, o que me lembrava que a volta não seria nada fácil, mas fez com que eu chegasse no

meu destino em poucos minutos. Escondi a bicicleta ao lado de uma lixeira e, com facilidade, pulei o muro caindo sem ruído no pátio. Me virei em direção à escola e dei de cara com uma cena que me deu calafrios. Fantasmas. Muitos deles. Refletiam a luz da lua dando um aspecto horripilante à cena

e sorriam de uma forma assustadora. Pareciam uma gangue. E eram liderados novamente pelo asno. Aqueles fantasmas definitivamente não estavam com boas intenções. Mas é claro que eu não deixaria eles perceberem que eu estava assustada. Nunca! Tinha uma reputação a preservar.

- Que bom que estão todos reunidos aqui. – me aproximei ajeitando a mochila às costas – É bom que não tenho que dar duas viagens. Chegou o Papai Noel. – ironizei – Então, minhas crianças, o que querem de Natal?

Uma mulher de cabelos crespos e loiros deu um passo à frente, ainda com o sorriso maquiavélico nos lábios.

- Você não foi nada bondosa conosco essa tarde, Mediadora. Nos iludiu e depois nos ignorou.

Nossa. Ela falava bonito. Que dó que eu senti dela. Até parece!

- Vocês podem não ter vida, mas eu tenho. E não posso me expor falando em público com quem nem deveria estar mais aqui. – encarei um a um para eles verem que eu não estava brincando – Vou ajudar vocês. Nunca me recusei a isso. Mas tem que ser do meu jeito.

Eles vacilaram na pose desafiadora e eu vi ali minha oportunidade de mediar.

- Então, alguém aí tem um caderninho para eu anotar os pedidos?

- Calma aí, Mediadora. – e de quem era aquela voz? Imaginei que ele não iria desistir tão facilmente. Ele podia não sentir mais a dor, mas a lembrança do soco ainda devia estar fresquinha na sua mente.

– Não somos tão fáceis assim.

Mas eu vi que ele estava sozinho nessa. Os outros fantasmas se afastaram com discrição dele, talvez temendo que eu os julgasse pelo seu comportamento. E ele não deixou de notar isso.

- Acho que você está sozinho nessa, coisinha. – Ok. Eu estava provocando, mas ele já tinha me irritado até demais.

- Eu

dominado pela raiva. Foi então que a coisa toda desandou. Fantasmas são

disse pra você

não me

chamar de

coisinha – a cada palavra seu corpo tremia,

como posso dizer? Eles

~ 18 ~

são sucetíveis demais às emoções alheias. Quer ver um grupo de fantasmas ensandecidos? É só juntá-los com um ser, vivo ou morto, que esteja tendo um ataque de nervos como aquele imbecil estava. Em poucos segundos todos os fantasmas estavam nas mesmas condições, tremendo dos pés à cabeça, levantando lixeiras, quebrando galhos de árvores.

Me abaixei rapidamente quando alguma coisa metálica passou voando a centímentros da minha cabeça. A “coisa” caiu com um baque estridente no piso de cimento da passarela que levava às salas. O que era aquilo? Parecia uma cabeça. Reconheci como sendo a cabeça de bronze da estátua do Padre de Junipero Serra. Nossa. Aquilo teria machucado pra valer.

Levantei rápido no instante que uma lixeira voou na minha direção.

- Merda! – corri em direção ao muro. Eu não era do tipo que fugia, mas eu também não era suicida.

Eu não tinha a mínima chance com um bando de fantasmas com crise nervosa e que ainda tinham poderes paranormais. Dei um impulso para pular e me agarrei no topo do muro fazendo força para subir, mas senti uma força estranha me puxando de volta e eu caí de costas esparramada na grama. Ai. Essa doeu.

- Já vai, é? Agora que eu estava começando a me divertir.

Me levantei com toda a dignidade que a situação permitiu e me encostei no muro para encará-lo de frente. Foi então que eu vi a cabeça do padre Serra voando em minha direção novamente. Ainda estava sem ar pela queda e não conseguiria desviar. Fechei os olhos esperando o impacto. Mas ele não veio. Abri meus olhos e dei de cara com as costas do meu salvador. Jesse.

Ele estava parado na minha frente usando seus poderes para fazer a cabeça de bronze voar em outra direção e cair com outro barulho terrível em cima do cimento. Os fantasmas fizeram menção de recomeçar o ataque, mas Jesse foi mais rápido.

- Parem já com isso! – ordenou e, por incrível que pareça, eles pararam. Até o asno. – Vocês são idiotas ou o quê? – sua voz era firme e autoritária.

- Quem é você? – peguntou a mulher de cabelos crepos. Seu corpo ainda tremia assim com o dos demais, mas nada se movia ao nosso redor.

- Não importa quem eu sou, mas que ela é – ele apontou para mim por sobre o ombro, sem se virar

na minha direção – Ela é uma mediadora. A única no raio de quilômetros. A única capaz de ajudá-los.

E o que vocês fazem? Tentam matá-la.

- Ela nos irritou. – dessa vez foi o asno que falou. Ah, como eu queria torcer aquele pescoço magricelo.

- E daí? – Jesse falou ainda com o mesmo tom de voz. – Ela tem todo o direito de fazer o que quiser. Quem manda aqui é ela.

Opa. Gostei dessa!

- Não quero ver mais nenhum de vocês sequer tentando machucá-la. Entendido?

Mas nenhum deles responderam. Então Jesse fez algo que fez meu queixo cair. Fez com que todas as lixeiras voltassem a voar desgovernadas, espalhando mais lixo no pátio, junto com a cabeça do padre Serra e ainda alguns galhos de árvores, mais pesados que os outros. Ele simplesmente estava fazendo sozinho o que os outros tiveram que fazer em conjunto.

- Eu perguntei se vocês entenderam! – era óbvio que Jesse era bem mais poderoso que todos ali, talvez devido ao fato dele ser mais antigo nessa coisa de assombrar do que os outros.

- Sim. – todos responderam quase ao mesmo tempo, assustados com tamanho poder.

~ 19 ~

- Agora vão. Ela não vai mais ajudá-los essa noite.

Como assim? Quem ele pensava que era para impor uma coisa dessas sem me consultar. Tudo bem que eu não pretendia mesmo mediar mais hoje, mas eu não gosto que me digam o que fazer. Mas antes que eu falasse qualquer coisa, todos desapareceram, deixando apenas nós dois ali. Jesse fez as coisas pararem de voar e a Missão mergulhou no silêncio novamente.

- Você está bem, Suzannah? – ele perguntou ainda sem se virar.

- Estou – porque agora, depois de toda aquela confusão, é que meu coração estava disparado?

- Que bom.

- Espera! – falei apressada antes que ele sumisse. Ele continuou de costas. – Como você descobriu

que eu estava aqui? – falei a primeira coisa que me veio a cabeça. Só queria que ele ficasse mais um pouco. Mas então eu fiquei curiosa. Como será que ele me achou?

Ele apenas deu de ombros e andou até onde estava a cabeça da estátua e a pegou, levando-a até o corpo que ficava no meio do pátio, rodeado por bancos de madeira.

- Você me seguiu? – perguntei seguindo-o.

- Claro que não! – ele respondeu, talvez rápido demais. – Eu só você não voltou eu saí para te procurar.

vi você saindo de casa e quando

- Então era você. – falei num sussurro lembrando de ter sentido que estava sendo observada quando

saí de casa. – Você estava me espiando? – Juro que falei isso de brincadeira, só para irritá-lo, mas

quando ele não respondeu eu tive que tomar isso como uma afirmativa. – Jesse?

Ele finalmente se virou para mim, mas ainda não me encarava. Olhava para o chão e mantinha os braços cruzados sobre o peito.

- Suzannah eu

Ninguém nunca tinha falado comigo desde a minha morte. Muito menos me tocado, então eu novo suspiro – Eu fui pego de surpresa e acabei fazendo o que não devia.

– ele respirou fundo – Eu sinto muito pelo que aconteceu. Eu

fiquei surpreso.

- Jesse, eu

- Deixa eu terminar, por favor – ele me interrompeu – Me comportei de maneira desprezível, como um selvagem e desrespeitei você de uma forma que nunca vou me perdoar. Eu espero que um dia você me perdoe pela minha atitude. E eu prometo que nunca mais te incomodarei com minha presença.

- E quem disse que é isso que eu quero? – Meu Deus! Eu não tinha dito isso? Ok. Eu tinha, sim! E era exatamente o que eu sentia.

Finalmente ele ergueu a cabeça e me encarou com surpresa no olhar.

- Jesse – continuei dando um passo à frente, me aproximando mais dele. – estamos em pleno século

XXI. Muitas coisas mudaram desde a época em que você era vivo. – Ele franziu o cenho, mas não disse nada – Você disse que se comportou como um selvagem. Como você chamaria a minha resposta ao seu comportamento? Porque, caso você não tenha notado, eu não fiquei parada enquanto você fazia tudo. Muito menos tentei te impedir em momento algum. – Eu não fazia idéia de onde tinha tirado toda aquela coragem, mas o que importava era que eu estava conseguindo falar tudo que eu queria. E ele estava ouvindo. Seus olhos negros brilhavam à luz da lua, de forma intensa. Ok, Suzannah. Você está assustando ele. – Eu não estou dizendo que estou acostumada a fazer esse tipo de coisa – completei antes que ele pensasse que eu era uma qualquer – Mas eu não me arrependo de nada do que aconteceu naquele dia.

~ 20 ~

Jesse começou a caminhar na minha direção, diminuindo ainda mais a distância entre nós. Quando eu percebi que os olhos negros e profundos estavam fixos em meu rosto me encarando intensamente, meu coração começou a bater ainda mais depressa, ameaçando romper o meu peito. Quando ele finalmente me alcançou, eu já estava arfando, quase sem ar.

Sem se importar com detalhes como espaço pessoal e limite, ele parou diante de mim e estendeu a mão, hesitando por um breve instante enquanto buscava respostas em meus olhos. Não sei o que ele viu ali, mas ficou satisfeito e acariciou meu rosto. Eu podia sentir seus dedos vibrando com a intensidade do momento. Ele me acariciava, traçando o contorno do meu rosto com tal reverência que eu sentia a garganta oprimida em resposta.

- Você não sabe do que está falando, Suzannah. – sua voz estava rouca, mas firme.

- Sei sim! – tentei falar no mesmo tom, mas tudo que saiu foi um sussurro.

- Isso é errado. Você é uma mulher jovem, bonita e

- E você é um homem

- Morto! – ele completou se afastando. – E você está viva.

- Você estava bem vivo naquele dia. – Tudo bem. Agora eu estava provocando. Mas o ponto é que eu

não gosto de ser desprezada, ainda mais sabendo que ele só estava fazendo isso por educação. Eu

sabia que ele queria aquilo tanto quanto eu.

- Suzannah, eu

- Cala a boca, Jesse. – Então eu tomei coragem e fiz a única coisa que eu tinha vontade de fazer naquele momento. Cruzei a distância que nos separava e o beijei.

Ele correspondeu com fervor, suas mãos fortes percorrendo minhas costas. Mas então, tão rápido quanto tinha começado, o beijo terminou. Ele me afastou me empurrando delicadamente pelos ombros.

- Suzannah, não. – ele falou num fio de voz – Isso é errado.

A raiva me subiu à cabeça de uma forma que meus olhos enxeram de lágrimas. Num átimo, movida pelo impulso e pela dor da rejeição, eu fechei a mão em punho e o soquei. Então corri com as lágrimas já escorrendo pelo rosto.

~ 21 ~

CAPÍTULO

5

Cheguei em casa por volta das duas da manhã, fui direto para o banheiro e tomei um banho quente para relaxar os músculos doloridos pelo esforço da volta. E chorei. Chorei até não ter mais lágrimas. Saí do banheiro e vesti uma camisola preta de seda que minha mãe tinha me dado no meu último aniversário. Sentei no banco ao lado da janela, abracei os joelhos e apoiei meu queixo neles, olhando para a baía que se descortinava à frente da casa.

Comecei a relembrar os acontecimentos daquela noite, desde os fantasmas que quase me mataram até a repentina aparição de Jesse e a forma como ele me rejeitou. Talvez estivesse enganada. Talvez ele não estivesse tão interessado em mim quanto eu pensava.

Levantei ficando em pé em cima do banco, meu corpo todo sendo atingido pela brisa fria que vinha do mar. Apoiei minhas mãos nas laterais da janela e dei um passo em direção ao telhado.

- Vai quebrar o pescoço.

Eu não esperava ouvir uma voz tão próxima, considerando as circunstâncias em que me encontrava e deixei escapar um grito assustado. Uma das mãos minhas escorregou da lateral da madeira, fazendo meu corpo inclinar perigosamente para o lado de fora. Mas Jesse foi mais rápido e segurou seu pulso trazendo-me de volta para dentro, meu corpo indo de encontro ao seu peito sólido. O corpo másculo me inundou com uma agradável sensação de segurança e conforto, mas Jesse me pôs no chão segundos depois sem fazer alarde.

- Precisava me assustar desse jeito? Essa mania que vocês fantasmas têm de chegar sem fazer barulho está começando a me irritar. – Frizei bem a palavra “fantasmas” com a intenção de fazê-lo perceber que eu tinha entendido o recado. Não ia deixar ele perceber o quanto estava magoada.

- Da próxima vez eu dou um jeito de avisar antes de aparecer. – E, para minha raiva, ele riu.

Espera! Pára tudo! Ele disse “da próxima vez”? Calma, Suzannah, talvez ele tenha dito isso da boca pra fora. Sem esperanças precipitadas.

- Você disse que não viria mais aqui. Na verdade, você prometeu. – A súbita alteração na atmosfera me deixou inquieta. – Então, o que te trouxe aqui dessa vez?

- Você.

Como uma única palavra podia conter tantos significados e soar tão inteiramente honesta? Eu fui forçada a lembrar tudo que ele me falara aquela noite, mas nem isso era suficiente para aplacar o calor que sentia nesse momento. Era como se chamas ardessem sob minha pele espalhando-se por todo o corpo.

- Eu? – eu me afastei optando pela cautela. Ele já me rejeitara uma vez. Não ia me permitir ter esperanças ainda. – Por que queria me ver?

- Porque não consigo me controlar, mi hermosa.

Jesse estendeu a mão e tocou meu pescoço. Eu vi o fogo iluminando os olhos escuros e profundos. Retive a respiração, momentaneamente hipnotizada pela voracidade daquele olhar. Ele se aproximou. Um passo, dois

~ 22 ~

As imagens eram como relâmpago percorrendo meu corpo. Eu ofegava e sentia um calor intenso inundando minhas veias, fazendo ferver o sangue que por elas corria. Inclinei minha cabeça para trás, o rosto dele vindo de encontro ao meu, meus olhos permanecendo fixos no contorno da boca tentadora.

Meu corpo buscava o dele. Havia entre nós dois uma sintonia impressionante que coordenava os movimentos. O contato era inevitável. O encaixe era perfeito. Os lábios dele encostaram suavemente sobre os meus. Ternos. As mãos me tocavam, mas não tentavam me puxar para seu corpo.

- Venha para mim, hermosa, se me quiser. Venha para mim.

Ele deixou que eu escolhesse. E eu estava farta desse joguinho. Me ergui na ponta dos pés, colando meu corpo ao dele, beijando-o com ânsia e paixão. Jesse abriu-se imediatamente para a invasão agressiva da minha lígua, gemendo ao sentir meu desejo por ele.

Eu segurava a parte da frente da sua camisa, apertando-a entre os dedos. Meu corpo buscava o dele. O beijo era inebriante, quente

Senti uma urgência violenta se apoderando de Jesse. Ele recuou de repente, me empurrando para trás. Estava tremendo. De novo não, por favor. A reação se estendeu por alguns instantes, mas a natureza assumiu o comando. Soltei um grito abafado ao sentir os braços firmes em torno da minha cintura, determinados na ânsia de me puxar de encontro ao peito musculoso. Sua boa se apoderou da minha. O beijo punia, era poder e domínio, como se eu tivesse que pagar pelos anos seguidos de privação. E eu nem tentava evitar. Pelo contrário. Correspondia aos beijos ardentes e às carícias cada vez mais ousadas, saltando sobre o corpo de Jesse e enlaçando-o com as pernas.

Sua língua traçou um caminho na pele do meu pescoço fazendo com que eu fosse tomada por intensos calafrios. Mas dessa vez eram de prazer.

Senti sua mão delizando a alça da camisola pelo meu ombro, expondo um seio. A boca faminta encontrou o vale entre meus seios, tomando posse de um mamilo e sugando-o eroticamente.

Eu não mais raciocinava. Vagamente, percebi que ele me pressionava contra a parede às minhas costas. Então as mãos enormes buscaram meus quadris e eu entrei em choque.

Instintivamente, minhas mão cobriram as dele, mas a boca de Jesse devorava a minha naquele exato momento, fazendo com que eu me sentisse fraca da cabeça aos pés.

Eu gemi ao sentir os dedos dele tocar minhas pernas, mas dessa pela parte interna.

- Você é tão macia. – ele sussurrou, afastando um pouco a boca e enterrando o rosto no meu pescoço.

Eu gemi mais uma vez. A mão de Jesse deslizava pelo meu ventre, provocando sensações que jamais soube que existiam. Então os dedos atrevidos delizaram pelas bordas da minha calcinha.

Naquele momento eu pensei que estivesse em chamas. Meu corpo tremia violentamente, minha mão esbarrando na prateleira de livros e derrubando alguns. Ninguém nunca me tocara daquela maneira. Na verdade, ninguém nunca fizera comigo a metade do que Jesse estava fazendo.

- Jesse – eu sussurrei, agarrando-o pelos ombros conforme o prazer crescia e me tirava a capacidade de respirar.

Jesse começou a acariciar meu corpo sem parar e a falar palavras em espanhol, mas que certamente eram elogios.

Ele estava disposto a me enlouquecer de prazer.

~ 23 ~

Jesse massageou com os dedos a parte úmida da minha intimidade, pressionando-a com pequenos movimentos. Eu gemi, completamente entregue à carícia erótica.

Eu sentia uma necessidade urgente de me livrar das roupas, mas não conseguia me mexer. Ele me tocou ainda mais intimamente com o dedo, talvez sentindo se eu estava pronta para ele. Então ficou imóvel.

Ele fechou os olhos, gemendo em agonia.

O que foi que eu fiz? perguntei a mim mesma começando a entrar em desespero. Ele me colocou suavemente no chão e se afastou.

Eu o encarei sem acreditar no que ele estava fazendo.

- Por quê? – eu perguntei num fio de voz. – Por quê?

- Suzannah, me perdoe. Eu imploro!

Antes que eu pudesse responder, Jesse desaparecera.

Eu caí de joelhos, fraca demais para me manter em pé, perplexa demais para chorar.

Não havia refúgio para o que eu sentia. Não havia remédio para a dor, para a frustração e o vazio. Não entendia, e não tinha ninguém a quem pedir explicações. Logicamente sabia porque ele me deixara, porque me abandonara sem dar explicações. Era óbvio. Eu era uma humana enquanto ele era um fantasma de mais de 150 anos.

Jesse vivia de acordo com regras e normas de conduta e honra que não faziam sentido para mim. Eu queria encontrar a lógica de tudo isso, mas não conseguia raciocinar. Olhei em volta respirando fundo. Se nós éramos tão diferentes assim, porque sentíamos aquelas coisas? Por que dois seres

“imcompatíveis” se sentiriam tão

tão perfeitos para atender às necessidades um do outro?

Fiquei alí no chão por não sei quanto tempo, as lágrimas finalmente aparecendo e escorrendo pela minha face. Já era tarde, mas não tinha sono. Meu joelho doía pela posição desconfortável. Mas não me importava com muita coisa naquele momento. Só queria extravasar minha dor.

- Por favor, não chore, hermosa.

Me assustei, mas não demonstrei. Continuei com o rosto entre as mãos, escondendo as lágrimas.

- Suzannah – senti seus passos se aproximando.

- Não me toque, Jesse. – falei irritada ainda com o rosto escondido.

Ouvi um suspiro de frustração seguido por um rangido quando ele sentou na minha cama.

- Eu não quero te fazer sofrer, Suzannah.

Eu levantei o rosto, não me importando mais que ele visse minhas lágrimas, a raiva me dominando novamente.

- Por que você faz isso comigo, Jesse?

- Eu tinha que agir de acordo com o que acreditava ser o melhor para você. Por favor, me perdoe

- Só se terminar o que começou.

~ 24 ~

Ele se levantou de repente indo até a janela, as mãos tensas deslizando pelos cabelos num gesto típico de nervosimo.

- Jesse?

- Por favor, não diga nada!

Agora ele estava indo longe demais.

- Bem, lamento que considere minha declaração tão ofensiva – eu reagi irritada me levantando. – Peço desculpas. Não vai mais acontecer.

Lutando contra as novas lágrimas – desde quando tinha me tornado tão chorona? – marchei até a porta do banheiro com a intenção de me trancar lá. Determinada, girei a maçaneta, mas nada aconteceu. Por mais que empurrasse, a porta permanecia fechada. Era difícil conter o soluço que se formava no meu peito. Se não estivesse tão furiosa, teria percebido que Jesse havia se posicionado atrás de mim. Mas, distraída, quase gritei quando senti a mão no meu ombro.

- O que é agora? – reagi me virando furiosa.

Devagar, Jesse deu alguns passos aproximando-se um pouco mais, empurrando meu corpo contra a porta e apoiando as duas mãos contra a madeira, bem perto dos meus ombros. Para implementar a reação provocada por sua atitude, ele aproximou seu corpo do meu até quase me tocar. Quando fitou meus olhos quase não havia espaço entre nós. Ele me envolvia com o perigoso poder que emanava do seu corpo, fazendo meu coração acelerar.

- Por que, Suzannah? Por que não me contou?

- Contei o que? - do que ele estava falando?

- Por que não me contou que é virgem?

Ah. Isso.

- E daí?

- Você ainda é inocente, Suzannah. Por mais que seu corpo responda ao meu, sua mente ainda não

tomou a decisão. Não quero forçá-la a nada. Não quero pressioná-la. Mas não me entenda mal. A necessidade que sinto de colocar alguma distância entre nós é simplesmente um esforço pessoal,

uma tentativa desesperada de me manter sob controle. Entenda isso, por favor.

Sua declaração me deixou surpresa, da mesma forma que me deixou ainda mais certa do que eu queria.

- Eu entendo. E quero que também entenda algo. Sou virgem, sim, mas só porque ninguém nunca

despertou meu interesse. Confesso que sempre sonhei com algo especial para a minha primeira

experiência, e

quando me beija, você desperta coisas que jamais havia experimentado antes, que nunca imaginei poder sentir.

pensando bem, já encontrei o que procurava. É você, Jesse. Quando me toca,

- Suzannah, – sua voz era rouca e baixa, quase um sussurro – cuidado com as coisas que diz. Estou

se

começarmos alguma coisa

me empenhando para manter o controle, e posso assegurar que não é fácil. Se eu não conseguir

Não vai ser fácil recuar.

- Eu não estou pedindo para você se controlar, estou?

- Eu não posso, Suzannah. Eu simplesmente não posso acabar com sua pureza dessa forma.

Senti uma vontade imensa de esbofeteá-lo. A atitude condescendente começou a me irritar.

~ 25 ~

- Muito bem, eu entendo. Se esse detalhe é tão importante para você, vou tentar encontrar um

homem, um humano, com que possa viver minha primeira experiência. Então saberei do que vamos

falar da próxima vez em que discutirmos sobre esse assunto.

- Nunca permitirei tal coisa! – a declaração era uma mistura de rugido furioso e promessa sensual. Eu podia ver que ele tremia da cabeça aos pés.

Contive um sorriso vitorioso, satisfeita com a reação que havia conseguido provocar.

- Bem, não prentendo morrer virgem, Jesse! Alguém vai ter que me tocar, porque ser freira não faz parte da minha lista de ambições. Especialmente agora que descobri como é desejar um homem e ser desejada por ele.

- Está fazendo isso de propósito. Quer me tentar, mas

- Jesse, droga! – quase gritei – Eu quero você! Será que você não percebeu isso ainda?

E Jesse me beijou. Era inútil resistir.

Dessa vez eu tomei a iniciativa. Passei as mãos por seu peito firme, num gesto sensual, indo até o final da blusa, levantando-a e deslizando minhas mãos para tocar sua pele macia.

Ele gemeu. Me senti poderosa e excitada. Ousada, voltei a minha atenção para retirar sua blusa por completo, expondo seu corpo, deslizando as mãos pelo peito largo e pelas costas, sentindo nas mãos os tremores que o sacudiam.

- Tem certeza que é isso mesmo que quer, hermosa?

- Nunca tive tanta certeza em toda minha vida.

Isso era tudo que ele precisava saber. Sem medo ou hesitação me beijou e, me erguendo nos braços, me levou até a cama.

Os dedos firmes buscaram o final da camisola de seda, retirando-a com minha ajuda para então sua boca deslizar pela minha pele nua. Não contive um gemido longo de prazer, meu corpo arqueando em direção aos lábios habilidosos de Jesse que agora beijava meus seios sugando os mamilos, o prazer invadindo meu corpo por inteiro. Ao mesmo tempo as mãos ávidas deslizavam com frenesi pelas minhas coxas.

Ele voltou a me beijar, usando a língua com tal maestria que me fazia gemer, me enlouquecendo de prazer.

Então me pus a despí-lo, desesperada que nossos corpos se tocassem. Eu lutava para retirar sua calça ao mesmo tempo que ele tirava minha calcinha, num gesto urgente de paixão. Quando estávamos os dois nus, senti sua mão separando minhas pernas com a intenção direta de se deitar entre elas.

- Você é adorável. – ele murmurou enquanto tocava com os lábios um ponto sensível no meu

pescoço. Isso me distraiu enquanto Jesse pegava minha mão me fazendo tocar em seu membro.

- E agora você me pode me mandar embora

ou não.

A curiosidade foi mais forte que qualquer indecisão e eu quis sentir completamente o ponto mais alto da excitação de Jesse, agora em minhas mãos.

Jesse gemeu de prazer.

~ 26 ~

- Sinta, hermosa. Sinta como você me deixa.

Eu obedeci o comando. Podia sentir o prazer quase que doloroso que provocava nele, podia sentir os impulsos do corpo másculo a cada pressão dos meus dedos no membro ereto.

Nossos olhares se encontraram e eu via refletido nos olhos dele a mesma urgência selvagem que eu sentia.

Então Jesse agarrou meus quadris e me penetrou suavemente.

-

Hermosa – sua voz não era mais que um sussurro.

-

Jesse, por favor

E

ele me beijou, dando tempo para eu me acostumar com seu membro dentro de mim. Iniciou então

um movimento suave, aumentando o rítmo a cada instante. A paixão nos levava além do contato físico.

- Jesse

oh, sim

Ele sorriu de prazer ao me ouvir dizer seu nome em meio aos gemidos.

-

Preciso sentir sua boca, hermosa, enquanto estou dentro de você. Preciso me perder em seus olhos

e

ver o prazer que está sentindo.

Então me beijou com selvageria e eu correspondi com o mesmo ardor. Tudo a minha volta pareceu desaparecer. Ele era perfeito.

Ele comandou o rítmo, já sabendo a melhor forma de me deliciar. Os movimentos ganharam intensidade e eu agarrei os ombros dele com violência.

Jesse grunhiu novamente. O clímax veio como uma libertação fantástica.

Eu ardia arqueando as costas, sofrendo um longo espasmo. Ainda sentia meu corpo tremendo de prazer quando Jesse me seguiu.

- Suzannah! – ele sussurrou num gemido enquanto chegava ao êxtase. Senti um líquido dentro de mim quando ele ejaculou com espasmos de prazer.

Nós dois ficamos caídos sobre a cama, entorpecidos e arfantes.

Jesse mantinha o rosto aninhado na curva do meu pescoço. Eu queria gritar, queria rir e chorar. Mas me contentei em me aconchegar no seu peito quando ele me puxou, acariciando meus cabelos.

O sono finalmente chegou e eu dormi alí, aninhanda nos braços de um fantasma. Meu fantasma.

~ 27 ~

CAPÍTULO

6

Eu abri os olhos piscando algumas vezes para me acostumar com a claridade. Me movi devagar e gemi quando cada músculo do meu corpo protestou. Estava deitada na minha cama, sob lençóis macios e sentia dedos suaves tocando os meus, acariciando, confortando.

- Não se mova, hermosa. Fique quieta. – ele riu os lábios nos meus cabelos. – Acho que a noite passada foi demais para você. Deveria ter tomado um analgésico antes de dormir.

Aos poucos ia recobrando a consciência e percebia que estava aninhada em outro corpo, com a cabeça apoiada sobre um braço que não era o meu. Jamais acordara ao lado de um homem em toda minha vida, mas sempre imaginara essa sensação de encaixe perfeito, de proteção, de segurança e conforto. Estávamos juntos na cama. Jesse não me deixara sozinha.

- Jesse – eu murmurei

- Sim. Como se sente?

Eu deslizei a mão sobre o lençol até entrelaçar os dedos nos dele. Ele segurou minha mão e a afagou.

- Dolorida.

Ele riu novamente.

- É o que dá provocar fantasmas – Não sei se ele se referia aos fantasmas loucos da Missão ou a ele mesmo. Talvez aos dois. - Sua mãe já bateu na porta três vezes. Você tem o sono muito pesado.

Minha mãe. Droga! Levantei de um salto, me sentando na cama, segurando o lençol na altura dos seios.

- Se ela entrar aqui eu tô ferrada – falei alarmada.

- Não se preocupe, Suzannah. Eu tranquei a porta – estendeu a mão para tocar meu rosto. – E, além do mais, ela não iria me ver aqui.

Não era muito fácil raciocianar com ele me tocando daquele jeito, o polegar alcançando meus lábios.

- Que

horas são?

- Uma e meia.

- Quê?! – quase gritei. Lá se vão meus planos para o sábado. – Que droga! Queria ir para a praia.

Ainda não tinha pisado na praia desde que chegara e tinha planejado passar o sábado inteiro me bronzeando e mergulhando. Se bem que, com Jesse aqui na minha frente, eu podia muito bem pensar em outras coisas para fazer. Talvez meu dia não tenha sido perdido no final das contas.

Nessa hora minha mãe bateu na porta novamente. Se ela estava batendo daquele jeito, quase derrubando a porta, durante toda a manhã, eu realmente tinha dormido como uma pedra. Me sobressaltei quando ouvi o barulho, seguido pela voz dela.

- Suzinha. Suzinha! – ela falou do outro lado da porta, quase gritando. Que bom que ela está me

~ 28 ~

chamando de Suzinha. Sinal que ela não ia brigar comigo por eu ter dormido até aquela hora. – Já acordou, meu anjo?

- Já, mãe. – respodi no mesmo tom, sem me mexer, olhando para Jesse.

- Até que enfim. Já estava pensando em chamar um chaveiro e arrombar a porta.

- Isso seria interessante. – Jesse falou baixinho, não que minha mãe fosse ouvi-lo.

- Eu já vou sair, mãe. Só vou tomar um banho.

- O almoço está quase pronto. Não demore.

Ouvi seus passos no corredor e depois descendo as escadas.

Jesse levantou e eu desviei os olhos daquele corpo perfeito, corando intensamente. Ele vestiu a calça

e sentou na cama novamente, me abraçando por trás.

- Vou te dar um pouco de privacidade, mi hermosa – ele afastou meus cabelos e beijou meu pescoço sensualmente, fazendo um arrepio subir pela minha espinha.

Traçou sua língua na minha pele, mordiscando o lóbulo da minha orelha me provocando.

Eu arfava enquanto sua mão deslizava pelo meu ombro descendo pela curva da minha cintura, por cima do lençol.

Me surpreendi quando ouvi um gemido ao pé do meu ouvido. Ele me provocava com carícias e ainda ficava excitado com isso? Isso era ótimo para o meu ego. Me fazia sentir tão poderosa. Então ele se afastou com relutância.

- É melhor eu ir logo. Ou não vou deixar você sair desse quarto.

- Talvez passar o dia no quarto não seja um má idéia.

Ele riu pegando a camisa que estava jogada no chão, mas não a vestiu.

- Hermosa, hermosa

é uma mulher perigosa, Suzannah. Vai me levar para o mal caminho.

tão doce, tão inocente – não mais tão inocente, certo? – E tão tentadora. Você

Ele me chamou de mulher. Não garota. Mulher! E de tentadora e perigosa. O que mais eu queria? Ganhei meu dia! Eu ri abobalhada encarando seu peito másculo e toda sua perfeição.

- Vou agora – ele continuou – Mas ficarei por perto. Quando quiser que eu volte é só me chamar que eu virei imediatamente.

- Eu não quero que vá – falei na mesma hora.

Ele me encarou com aqueles olhos negros cheios de paixão.

- Sua mãe vai acabar chamando aquele chaveiro.

É verdade. Droga!

- Tem razão.

- Até mais, mi hermosa. – e sumiu.

Senti uma sensação de vazio se apoderando de mim. Estava ficando dependente da presença dele.

~ 29 ~

Tomei um banho rápido, vesti um vestido leve de alças com renda nas pontas que batiam no joelho e desci para a cozinha. Estavam todos lá. Brad e Jake tinham acabado de voltar da praia e estavam levando uma bronca de Andy por entrarem com os pés sujos de areia sujando todo o chão e David conversava animadamente com minha mãe.

- Até que enfim, bela adormecida – minha mãe falou quando me viu – Pensei que ia dormir o dia todo.

- Desculpa, mãe. Estava cansada.

- Eu imagino filha. Essa semana foi difícil pra você – ela não faz idéia. – Tantas mudanças. É natural se sentir esgotada.

Sentamos à mesa e comemos uma macarronada deliciosa que Andy tinha feito. Era ótimo ter um cozinheiro tão bom na família.

Brad e Jake praticamente devoraram tudo e levantaram correndo depois de colocar os pratos na pia.

- Aonde vocês vão? – perguntei antes que eles passassem pela porta.

- Voltar à praia. – Brad respondeu sem se virar.

- Posso ir com vocês? – talvez ainda desse tempo de pegar um solzinho.

Os dois pararam e se olharam em dúvida.

- Desde que a gente não tenha que ficar de babá.

- Eu sei me cuidar, muito obrigada, Brad.

- Então vai rápido se trocar.

Subi correndo as escadas, coloquei um biquini verde e coloquei o vestido por cima, pegando uma toalha no armário e desci as escadas novamente.

Os dois praticamente me ignoraram durante a descida até a praia conversando sobre mulheres, é claro, mas eu não me importei. Ainda mais quando cheguei lá embaixo e encontrei Cee Cee e Adam debaixo de um guarda-sol. Assim que me viram, acenaram com entusiasmo me chamando.

Estendi a toalha ao lado deles, mas no sol, e tirei o vestido. Cee Cee estava ainda mais branca, se é que isso era possível, com o corpo todo coberto de protetor solar.

Ficamos ali conversando enquanto eu me bronzeava um pouco. Era muito mais fácil conversar com aqueles dois do que eu imaginara. Eles eram legais, apesar de formar uma dupla bem estranha. Dei um mergulho rápido quando senti o sol esquentando demais na minha pele e depois fui com eles numa lanchonete próxima comprar refrigerante. Estávamos sentados numa mesa quando eu vi Brad passar pela janela com cara de quem iria aprontar alguma.

- Pessoal, eu vou aqui um minuto. Não demoro. – minha curiosidade não deixaria passar essa.

Dei a volta no estabelecimento indo para os fundos da loja em direção ao estacionamento. Brad estava agachado ao lado de um carro e eu ouvi o barulho de pneus secando.

- O que esta fazendo?

Brad deu um pulo do susto que tomou, mas quando viu quem era, relaxou e voltou ao que estava fazendo. Me aproximei mais e vi que ele tinha colocado um pedaço fino de madeira no pino do pneu, fazendo-o secar.

~ 30 ~

- Brad, de quem é esse carro?

- Não é da sua conta. Cai fora!

Ah! Que ousadia! Então eu reconheci o carro.

- Esse não seria o carro do Sr. Hill, seria? – Sr. Hill era o nosso professor de biologia que eu sabia que Brad odiava, embora com razão. Ele pegava no pé de Brad toda aula, mesmo sem ele fazer nada. Talvez o solteirão tivesse inveja dele por Brad ser jovem e cheio de mulher dando em cima dele.

- Eu já disse que não é da sua conta!

Eu tive que rir com a atitude do meu meio-irmão. Sempre tive vontade de secar os pneus de alguns dos meus antigos professores, mas minha fama não era muito boa por lá. Eu certamente seria a primeira acusada.

- Seu pai não iria ficar nada feliz se descobrisse o que você está fazendo, Brad.

Ele me olhou me fuzilando. Então um sorriso perverso atingiu seus lábios.

- Mas você não vai dizer nada a ele, nem a ninguém, Suzinha. – odeio quando ele faz isso. Ele sabe que eu não gosto que me chamem de Suzinha. A minha vontade era bater nele, mas eu ainda tinha que continuar minha pose de santinha.

- Me dê um bom motivo para não contar! – falei com um sorriso cínico no rosto.

Ele se levantou, aproximando-se de mim até quase me tocar, seu rosto ainda com o sorriso perverso.

- Por que se você abrir seu bico, Suzinha – Ai, que ódio! – eu terei o imenso prazer de contar para sua mamãe certas coisas que aconteceram no seu quarto na noite passada.

Congelei. Ele não poderia saber o que realmente acontecera no meu quarto. Ou poderia? Mas, pensando bem agora, eu não tinha me preocupado muito em não fazer barulho. Na verdade, eu não me preocupei com nada a não ser em aproveitar o momento.

- Não sei do que está falando – desconversei, mantendo o rosto impassível, mas por dentro minha mente girava num turbilhão.

- Não lembra é? Sei. – ele falou sarcástico. – Então deixa eu refrescar sua memória. – Então ele

fechou os olhos num semblante claro de prazer – Oh

aaahhh

oooohhhhh

- Cala a boca, Brad! – falei por entre os dentes. Mas ele continuou “gemendo” ainda mais alto. Ainda bem que não tinha ninguém por perto.

- Ooooohhhh

Jesseeeeeee.

Ouvir ele dizer aquele nome foi o suficiente para acabar com todo meu alto controle. A vontade de bater em alguém foi mais forte. E ele estava pedindo mesmo! Ele nem viu o que lhe atingiu na barriga. Caiu no chão sem ar, soltando imprecações!

- Sua louca! Você vai ver só!

Antes mesmo que ele tivesse a chance de levantar eu puxei seus cabelos para trás fazendo com que ele me encarasse.

- Se você se atrever a contar isso para alguém, eu vou fazer você desejar nunca ter nascido, está

~ 31 ~

ouvindo? – e o soltei fazendo ele cair de costas no asfalto novamente.

E para minha irritação, ele riu. E bateu palmas.

- Bravo! – eu o encarei furiosa – Finalmente eu conheço a verdadeira Suzannah. Eu sabia que aquilo tudo era só fachada.

- Vai se ferrar, Brad! – eu gritei, a raiva aumentando a cada instante.

Ele se levantou ainda rindo e se aproximou de mim novamente. Ele não tinha medo da morte não?

- É o seguinte, Suze, – ele se aproximou ainda mais e me agarrou pela cintura. Tentei me livrar, mas ele era mais forte. – estamos num impasse aqui. Eu não quero que você conte para o meu pai o que eu fiz e você certamente não quer que eu conte para sua mãe o seu segredinho. – tentei me desvencilhar novamente, mas sem sucesso – Então eu proponho um acordo simples. Você fica de boca fechada e eu faço o mesmo. O que acha?

- Me solta, seu imbecil!

- Suzinha, isso lá são modos?

Ele se afastou num pulo para trás no momento que meu joelho se ergueu de encontro com sua parte mais sensível.

- Você é bem selvagem, hein? – ele disse zombeteiro – Jesse também é do tipo violento? Se bem

que eu acho que não. Não ouvi a voz dele. Só a sua. Ou melhor

seu gemidos.

Voei pra cima dele, tomada pela raiva, mas dessa vez ele desviou do soco por alguns centímetros.

- Tá bom! Parei! – ele falou erguendo as mãos num gesto de rendição.

Me virei para encará-lo tirando o cabelo que o vento insistia em jogar no meu rosto.

- Se você falar alguma coisa

- Eu não falo se você não falar! – ele me interrompeu, sustentando meu olhar. – Ok?

O que mais eu podia fazer?

- Ok.

Dei as costas para voltar para a lanchonete. Brad me alcançou e passou um braço pelos meus ombros. Eu o empurrei com um safanão e ele riu.

- Então, conta aí

quem é esse Jesse? É da escola?

- Não é da sua conta. – ah, se ele soubesse!

- Você é bem apressadinha, hein? – ele continuou se aproximando de novo andando ao meu lado. – Mal chegou na cidade e já levou um carinha pro quarto.

- Vai se ferrar!

- Boca suja.

- Imbecil!

Ele se afastou rindo e eu entrei na lanchonete novamente, ainda arfando de raiva.

~ 32 ~

CAPÍTULO

7

Brad cumpriu com a parte dele do trato. E eu também. Na verdade, eu tinha muito mais a perder do

que ele. Ele, no máximo, ficaria de castigo. Já eu, além de ficar de castigo ainda teria que olhar para

a minha mãe sabendo que a magoara por ter feito o que fiz. E eu não digo só pelo fato de ter feito

sexo. Mas também por ter feito ela pensar que eu era alguém totalmente diferente de quem eu sou realmente. Mas eu só fazia isso porque eu não teria como explicar o porque de agir assim. Ela nunca acreditaria nessa história de ver fantasmas.

Outra coisa que me fez cumprir minha parte do trato foi o fato de eu nunca poder apresentar Jesse para minha mãe, nem para ninguém. Que relação sem futuro essa que eu fui me meter, meu Deus! Pára com isso, Suzannah! Eu não tinha porque ficar me lamuriando pelos cantos. E daí que a gente não tinha um longo futuro pela frente? Eu tinha mesmo era que aproveitar enquanto estava bom. E como estava! Só de lembrar da noite passada eu já ficava excitada novamente.

Quando cheguei em casa o sol já estava se pondo. Andy estava na cozinha preparando alguma coisa com cheiro forte. Era bom, mas ardia.

- O jantar fica pronto em uma hora.

Jake subiu pra tomar um banho. Brad tinha ficado na praia de agarração com uma garota do colégio.

- Onde está minha mãe? – perguntei me aproximando tentando não respirar muito fundo. Meus olhos estavam começando a lacrimejar.

- Foi com Dave ao mercado comprar uns ingredientes que estavam faltando. – ele viu o meu olhar indo em direção à panela cheia de coisas coloridas dentro. – Enchiladas. Gosta?

- Nunca comi.

- É muito bom. Tenho certeza que você vai gostar.

Eu não tinha tanta certeza assim, mas não falei nada. Subi as escadas para tomar um banho. Meu quarto já estava quase todo às escuras, mas ainda consegui ver o contorno de um corpo forte sentado no banco ao lado da janela, graças aos últimos raios de sol. Acendi a luz para vê-lo melhor.

Lá estava ele sentado em toda sua formosura

sentado em toda sua masculidade e gostosura – agora sim –, com um sorriso perfeito que me deixou bamba. Fechei a porta rapidamente.

epa, isso é meio gay. Corrigindo: lá estava ele

- Hola, hermosa. Se divertiu?

- Sim.

Ele bateu com a mão ao seu lado me convidando para sentar ali. O quarto era meu e ele que me convidava? Mas nem me importei. Sentei do seu lado e ele me abraçou pela cintura. Então eu tive uma idéia.

- Jesse.

- Sim?

~ 33 ~

- Eu já notei que você é muito bom nessa coisa de assombrar e tudo mais – ele riu. – E eu queria te pedir um favor.

- Um favor? – ele recuou um pouco para me encarar arqueando uma sombracelha que tinha uma cicatriz pequena.

- É. – ele continuou me olhando do mesmo jeito e eu prossegui. – Sabe, é que tem uma pessoa que tá merecendo levar um susto dos grandes pra ver se aprende a me respeitar!

- Quem faltou com respeito com você, Suzannah? – ele levantou me encarando sério.

- Calma, Jesse – falei, puxando-o de volta. – Não é desse tipo de respeito que eu tô falando. É só que tem uma pessoa que está me chantageando e eu não gosto disso.

- E eu posso saber quem é essa pessoa?

- Brad.

- Seu irmão?

- Meio-irmão. – corrigi.

- Por que seu irm

meio-irmão está te chantageando?

Não pude evitar de corar. Baixei o rosto para esconder esse fato dele.

- Suzannah – ele tocou meu queixo, erguendo meu rosto delicadamente. – O que houve?

- Você vai fazer?

- Depende. Me diga o que aconteceu e eu vejo o que posso fazer.

Respirei fundo, tentando acalmar meus batimentos que dispararam ao seu toque.

- É que ele

bem, ele ouviu tudo.

- Tudo o quê?

- Tudo, tudo. – ele franziu o cenho, confuso. – Tudo que aconteceu aqui ontem à noite.

- Ah.

Ah? Só isso?

- E então? Vai me ajudar?

- Com o que foi que ele te chantageou?

- Ele disse que não contava nada se eu não dissesse que peguei ele vandalizando o carro de um professor.

- Parece justo.

- Justo? Como assim, Jesse? – agora foi a minha vez de levantar. – Você deveria ficar do meu lado.

- Não tem lado nessa história, hermosa. Vocês já resolveram a questão sozinhos. Você não fala, ele não fala.

~ 34 ~

Virei o rosto fazendo birra. Ele tinha que ter falado igual ao Brad? Saco!

- Hermosa

saudades.

– sua mão segurou meu pulso me puxando de volta para seu lado – Estava com

Ele sabia bem como me desarmar. Meu coração disparou de novo e eu pensei que ele fosse sair pela boca quando seus lábios encontraram meu pescoço.

- Você está salgada – ele falou, sua respiração contra a minha pele fazendo cócegas.

- Ah, é da água do mar. Vou tomar um banho. – fiz menção de levantar, mas ele me deteve.

- Gosto assim. – então voltou a beijar minha pele, a língua ajudando na carícia.

- Ah

O mundo pareceu girar quando senti suas mãos tocando meus seios gentilmente. Seus lábios

buscaram os meus e eu retribuí. Ele passou os braços em torno do meu corpo, me puxando para seu

colo, aumentando o contato dos nossos corpos. Fiquei ali, com um joelho de cada lado do seu corpo, minhas mãos agarrando seus cabelos, beijando e sendo beijada com urgência até que alguém bateu

na porta.

- Suzannah – era minha mãe. Jesse desapareceu na mesma hora e tive que me segurar para não

cair, quando minha mãe entrou. – O que aconteceu? – perguntou quando me viu numa posição um tanto quanto estranha.

Continuava com os joelhos no banco, minhas mãos segurando as laterais da janela impedindo que eu caísse.

- Escorreguei.

Ela se aproximou e depositou duas sacolas na minha cama, sentando na beirada.

- Você ainda nem tomou banho, filha.

- Tô indo, mãe. – saí do banco desajeitada, mas minha mãe me segurou pelo pulso quando eu passei por ela.

- Você está vermelha – ai meu Deus! Além de vermelha eu ainda estava arfando.

- Foi o sol. – desconversei.

- Ah! – minha mãe realmente acreditava em tudo que eu falava. – Comprei umas coisinhas para você.

As coisinhas eram blusas de babadinhos e florzinhas. Minha mãe não cansava de me vestir como

uma princesinha. Mas até que tinha uma certa serventia. Ficava mais fácil bancar a inocente com

aquelas roupas.

- Obrigada, mãe. Eu adorei.

Quando ela saiu eu corri para o banheiro e tomei um banho rápido, lavando os cabelos apressada. Andy era bem rigoroso nessa coisa de pontualiadade na hora do jantar. Nem ia dar tempo de secar

os cabelos. Vesti uma blusa azul escuro com botões frontais e um short branco e desci.

Surpreendentemente eu adorei as enchiladas embora não tenha conseguido comer muito já que os dois brutamontes que atendiam pelo nome de Jake e Brad devoraram quase tudo em questão de segundos.

~ 35 ~

Hoje era meu dia de lavar os pratos e como ali não tinha lava-louças, o processo demorou mais de meia hora. Brad entrou na cozinha quando eu estava sozinha e se encostou ao meu lado no balcão cruzando os braços no peito.

- O que você quer? – perguntei de uma vez. Ainda estava com raiva dele.

- Baixa a crista, Suze. Você não quer que sua mãe escute você falando assim, quer?

Preferi não responder nada.

- Então

seu namorado vem aqui hoje? Quer dizer

ele é seu namorado, né?

Ele gostava de me deixar irritada. Coloquei o prato no escorredor antes que ele espatifasse na minha mão, tamanha a força com que eu o segurava.

- Fica na sua, Brad!

- Olha, eu não me importo com esses relacionamentos modernos de hoje em dia. É só que foi demais.

– essa

- Quem é você pra falar esse tipo de coisa? – falei baixo por entre os dentes para que só ele ouvisse – Com quantas garotas você já ficou? Me poupe do seu discurso, Sr. Poço de Pureza!

- Então ele não é seu namorado. – não foi uma pergunta.

Pra falar a verdade eu não sabia o que nós tinhamos. Quer dizer, nós nos conhecemos a pouco mais de uma semana, embora parecesse bem mais. Mas em momento algum ficou definido que tipo de relação era essa. Mas eu sabia que não era namoro.

- Minha vida não é da sua conta!

- Talvez não, mas o barulho que vocês fazem é. – fiquei roxa de vergonha na mesma hora. – Olha que bonitinho, ela tá vermelha.

- Sai daqui antes que eu te bata de novo!

- Ui, que medo! – ele ironizou fingindo um tremor. – Sua mãe iria adorar saber que você é do tipo que parte pra porrada por qualquer coisa.

- Eu poderia muito bem dizer que você escorregou – ergui uma sombrancelha, maliciosa – Em quem você acha que ela acreditaria?

Ele ficou sério, sabendo que eu estava certa. Ponto para mim!

- Eu só quero dormir direito essa noite. Então, por favor, controle seus impulsos selvagens, Suzinha! – e saiu correndo quando eu fiz menção de atirar uma panela naquela cabeça de porco.

Subi as escadas pisando firme. Por que eu tinha que ter um meio-irmão tão imbecil? Por que ele não podia ser igual ao David? Ele era tão bonzinho comigo, tão na dele.

Cheguei no quarto a ponto de bala para matar um. Talvez tenha sido sorte Jesse não estar ali ou ele poderia ter levado uma bronca sem merecer. Ou talvez merecesse por não ter concordado em assombrar o Brad.

Aproveitei que estava com aquele tempo livre e resolvi colocar os deveres da escola em dia. Mas como essa foi a primeira semana de aula depois das férias de verão, os professores não tinham passado muita coisa num gesto de boas vindas e eu terminei tudo em menos de uma hora. Guardei

~ 36 ~

os livros e deitei na cama fitando o teto. Ouvi o espelho tremer e em seguida Jesse apareceu ao lado da penteadeira. Que fofo. Ele me avisou que estava chegando. Levantei da cama correndo para os braços dele, a raiva já tendo evaporado completamente. No meio do caminho e estanquei e ele me olhou confuso. Corri para a porta e girei a chave, trancando.

- Agora sim. – não ia arriscar ser interrompida pela minha mãe novamente.

Ele riu exibindo seus dentes perfeitos e abriu os braços para me receber.

-

Desculpa ter saido daquela forma, hermosa.

-

Cala a boca e me beija.

-

A senhorita está muito mandona hoje, não acha?

-

Jesse

– implorei.

E

ele me beijou.

Eu suspirei e correspondi, relaxando imediatamente. Minha confiança nele era implícita, evidente.

- Sabe de uma coisa? – perguntei separando nossos lábios por um instante.

- O que, hermosa?

- Acho que estou começando a gostar de ter você aqui dentro do meu quarto.

- Pode ir se acostumando porque eu não pretendo sair mais.

Então me virou num movimento ágil e repentino, me erguendo e me levando até a cama, fazendo com que eu deitasse de costas.

- Você é tão pequenina, e tão perfeita! Suave e cheia de curvas, suculenta e saborosa. – e me beijou, primeiro no pescoço, depois foi descendo, seus lábios no meu ventre, nas coxas expostas pelo short curto

Eu arqueei meu corpo num espasmo de prazer e protestei quando ele subiu novamente me tomando em seus braços e beijando meus lábios com ardor.

Os dedos ágeis buscaram os botões da minha blusa para então deslizar a boca pela minha pele nua

e beijar os mamilos mesmo através da renda do sutiã. Eu o ajudei a retirar a peça, necessitando sentir um toque mais profundo.

Minhas mãos tremiam enquanto tentava retirar sua camisa para admirar seu corpo. Afoito, ele mesmo

terminou de tirá-la. Num gesto sensual que me levou a loucura, ele abriu o botão do short deslizando-

o devagar pelas minhas pernas e se inclinou novamente sobre mim, gemendo quando meu seio roçou no seu peito.

Dessa vez eu estava me policiando para não fazer muito barulho.

Quando as mãos fortes deslizaram por meu corpo, eu me contrai ao senti-lo tomar minhas nádegas e apertá-las. Os dedos seguiram ávidos até encontrar minha calcinha. Ali, ele começou a me acariciar com movimentos circulares me deixando ainda mais excitada e úmida. A urgência por continuar sendo tocada com mais intensidade me fez abrir um pouco mais as pernas, permitindo que ele erguesse o elástico da calcinha e escorregasse o dedo para dentro de mim que já estava pronta para recebê-lo.

Para meu desespero ele se afastou erguendo-se, saindo da cama. Mas foi apenas para se livrar da

~ 37 ~

calça. Tornou a se inclinar sobre meu corpo e me beijou ternamente. Ousada eu deslizei minha mão pela sua barriga até chegar ao seu membro para senti-lo rijo e pulsante.

Jesse gemeu alto e certamente toda casa teria escutado se eles pudessem ouvir fantasmas. Ele arfava como se faltasse ar nos seus pulmões.

- Um toque, Suzannah, e você me vira do avesso. – falou com a voz entrecortada pelo prazer.

Com leveza, ele se apoiou para me penetrar.

- Não pare

– insisti, circundando as pernas ao redor do torso musculoso, em um convite irrecusável.

Ele me beijou novamente para abafar outro gemido que escapou pela minha garganta quando ele me preencheu por completo.

Não demorou muito para que um maremoto de emoções tomasse conta do meu corpo suado,

enquanto o dele permanecia frio aumentando a sensibilidade na minha pele. As novas sensações iam

ganhando força em meu corpo. Esse prazer

Mais urgente. Na noite passada ele fora cuidadoso com medo de me machucar e isso já não era necessário hoje. A euforia dentro de mim era como um felino preparando o bote. Eu tinha vontade de gritar pedindo mais e mais.

era parecido com o que já havia sentido, mas diferente.

Me sentia selvagem sob aquelas mãos. Meu corpo todo se contorcia. Jesse controlava o ritmo que acelerava a cada instante, seu rosto tomado por uma expressão de puro prazer.

- Suzannah – seus olhos estavam negros de excitação e eu fiquei presa naquele olhar. – Suzannah – ele continuava a murmurar aumentando o ritmo ainda mais.

Arqueei minhas costas sentindo um espasmo, o orgasmo chegando. Meu grito foi abafado novamente pelos seus beijos que só fez aumentar o prazer. Atingimos o ápice juntos, minhas unhas cravadas em suas costas, suas mãos nos meus quadris aumentando a pressão.

Quando finalmente os corpos relaxaram, ele me puxou para cima do seu corpo, me aninhando em seus braços.

Senti Jesse tentando se desvencilhar quando estava quase dormindo.

- O que foi – perguntei sonolenta.

- Espera aqui. Eu já volto.

- Aonde você vai? – eu me recusava a deixá-lo sair agora.

- Eu não demoro. – ele saiu da cama com a leveza de um felino e vestiu a calça. Deixou a blusa e sumiu.

Sentei na cama irritada. Como ele ousava me deixar sozinha agora? Levantei e vesti um roupão de algodão. Já estava pensando em jogar a camisa de Jesse pela janela quando ouvi um grito vindo do quarto ao lado. Brad.

Corri para fora a tempo de ver Brad saindo do quarto tropeçando nos próprios pés, só com a parte de baixo do pijama e os cabelos desgrenhados.

- T

tem

tem

- O que? – perguntei alarmada ouvindo os passos de Andy subindo as escadas.

- Tem alguma coisa no meu quarto.

~ 38 ~

Não! Ele não fez isso! Segurei um riso.

- Brad, você não está muito velho para ter medo do escuro não? – ironizei.

- Vá se ferrar!

- Brad! – Andy repreendeu. – Isso é jeito de falar com ela? E que gritaria é essa?

- Ele disse que tem alguma coisa no quarto. Deve ser o bicho papão. – eu não ia perder essa oportunidade jamais!

Entrei no quarto para ver o que Jesse tinha feito, mas não vi nada de anormal. Brad entrou também, receoso.

- Então? – perguntei encarando-o com uma sobrancelha erguida.

- O

o lençol – apontou para um lençol que estava no chão. – Tava flutuando.

Não consegui me conter e ri, ou melhor, gargalhei até me dobrar. Andy também ria apoiado na porta.

- Meu filho, depois de velho vai ter medo de fantasmas?

- Mas eu vi!

- Certo, Brad. – falei tentado parar de rir – A gente acredita.

- Ah, que saco! Saiam daqui vocês dois.

Eu saí apressada passando por Andy que continuou parado ali.

- Durma bem, Brad. E, ah, você está de castigo.

Parei a caminho do quarto. Seria bom demais para ser verdade.

- Quê? – Brad gritou dentro do quarto. – Por quê?

- Por ter gritado com a Suzannah.

Ai meu Deus. Eu não sou tão boa assim para merecer isso tudo.

- Mas ela

- Nada de “mas”. Você vai lavar os pratos durante sete dias. E sem reclamar. – e saiu fechando a porta atrás de si. – Boa noite, Suze. – Passou por mim e desceu as escadas.

Entrei no quarto e dei de cara com Jesse que me esperava com um sorriso satisfeito. Tranquei a porta e corri para os seus braços. Beijei cada parte daquele rosto perfeito e ele me abraçou.

- Se soubesse que seria retribuído assim já teria feito isso há muito mais tempo.

- Bobo. – ri e me afastei só o suficiente para ver seu rosto – Obrigada.

Fomos até a cama e ele retirou meu roupão me deixando exposta. Mas ele apenas me aconchegou no seu peito novamente.

- Jesse.

~ 39 ~

- Hum?

- Só por curiosidade

- Sim?

- O que te fez mudar de idéia sobre assombrar o Brad?

- Eu vi ouvi a conversa de vocês na cozinha e não gostei da forma como ele te tratou.

- Tava me espiando?

- Sim.

Tão sincero. Me aninhei mais no seu peito.

- Obrigada.

- Disponha, hermosa.

Depois de mais alguns minutos com ele acariciando meus cabelos e adormeci com um sorriso no rosto. E sonhei. Com Jesse.

~ 40 ~

CAPÍTULO

8

Acordei com o toque do telefone seguido de uma batida na porta. Puxei o lençol para me cobrir instintivamente, mas depois lembrei que a porta estava trancada.

- Suze, telefone pra você. – Andy falou e desceu as escadas novamente.

Me estiquei para pegar a extensão que ficava no criado mudo ao lado da cama e voltei para os braços de Jesse que me recebeu me apertando contra seu peito forte e beijando meus cabelos.

- Alô? – falei com a voz sonolenta.

- Suze? Suze! – ouvi a voz de Cee Cee do outro lado. – Te acordei?

- Uhum. – foi só o que consegui responder.

- Ah, desculpa. Desculpa mesmo, eu não sabia que você acordava tão tarde.

Tarde? Olhei para o relógio digital em cima da penteadeira. Ainda não eram nem nove da manhã.

- Tudo bem, Cee Cee. Eu já ia levantar mesmo. – mentira lavada! Por mim eu ficava o dia todo ali. Mas não exatamente dormindo.

- Ah, que bom! Então

vai fazer o que hoje?

- O que eu vou fazer hoje? – levantei o rosto para olhar para Jesse e lhe direcionei um sorriso sugestivo. Ele riu e me puxou mais de encontro ao seu corpo. – Ainda não sei.

Ouvi que Cee Cee estava falando alguma coisa, mas não consegui entender. Era difícil me concentrar quando Jesse estava passando os lábios no meu pescoço daquela forma, sua língua deixando um rastro de calor por onde passava, suas mãos percorrendo minha cintura, ousadas.

- Suze? Suze? Você está aí?

- Ãhn? Quê?

- Suze! – Cee Cee quase gritou do outro lado da linha. – Você não dormiu de novo, né?

- Não, é que eu você disse?

– nem conseguia completar a frase. O que foi que ela perguntou mesmo? – O que

Jesse deu uma pausa para me deixar respirar e eu me concentrei no que ela falava.

- Eu perguntei se você não quer vir aqui para casa hoje? Adam também vai estar aqui. A gente podia passar o dia assistindo filmes e jogando conversa fora.

- Ah, eu

mesmo era passar o dia todo com Jesse no meu quarto, mas sei que minha mãe não permitiria isso. E não me refiro nem ao fato de ficar aqui com Jesse, apenas ao fato de ficar aqui mesmo. – Por que

você não vem pra cá? E traz o Adam também. – encontro de casais. Eu sou brilhante!

– na verdade, eu não estava com a mínima disposição de sair de casa hoje. Eu queria

~ 41 ~

- Sua mãe não se incomoda?

- De jeito nenhum! – e eu não estava mentindo. Minha mãe sempre insistia para eu convidar meus

amigos do colégio interno para passar as férias ou algum feriado prolongado na nossa antiga casa. Eu sempre dizia que eles já tinham planos ou inventava alguma desculpa. A verdade era que eu nunca tive amigos que quisesse convidar.

- Tudo bem, então. De que horas?

- Pode vir agora, se quiser. Assim vocês almoçam comigo.

- Tá. Vou ligar pro Adam e pedir pra ele me pegar. – já estava me contagiando com a empolgação de Cee Cee. Era era sempre tão animada com tudo. – Eu levo os filmes.

- Ok. Eu me encarrego da pipoca.

- Fechado! – se despediu rápido e desligou.

Devolvi o telefone à mesinha e sentei na cama cobrindo os seios com o lençol.

- Bom dia.

- Bom dia, hermosa.

Jesse me olhava com aquele sorriso perfeito, seus olhos negros brilhantes. Eu só fazia sorrir enquanto admirava seu lindo rosto.

- eu estava pensando

Jesse

- O quê?

Sabe

- meus amigos estão vindo para cá.

- Sim. – ele ficou sério. – Não se preocupe, hermosa, eu já estou de saída.

- Não! – falei alto demais. Baixei a voz. – Eu estava pensando se você poderia ficar.

- Ficar?

- É.

- Mas seus amigos vão estar aqui.

- Eu sei. É que

- O quê? – suas mãos tocaram meu rosto numa leve carícia.

- Eu queria que vocês se conhecessem.

- Hermosa, - ele começou num tom que parecia que explicava algo a uma pessoa muito leiga – eles não podem me ver.

- Eu sei, mas você pode vê-los. E

- E o quê, Suzannah? – sua voz era suave.

- Eu queria passar o dia com você. – Céus, eu poderia ser mais pegajosa?

~ 42 ~

Mas eu acho que ele gostou do que eu falei porque me puxou para seus braços e me beijou sofregamente. E eu ainda nem tinha escovado os dentes. Eca! Me afastei quando lembrei disso.

- Jesse

continuava deliciosa.

hálito matinal e beijo não combinam. – mas eu falava só por mim porque sua boca

- Eu não sinto nada. – ele riu e me puxou novamente, mas eu me afastei.

- Sério, Jesse. – eu o encarei na expectativa. – Então, você vai ficar?

- Tem certeza? - apenas acenei com a cabeça. – Se é o que você quer, então eu fico.

- Obrigada.

Ele se levantou, e vestiu a camisa.

- Aonde vai?

- Vou te dar um pouco de privacidade. – podia existir um homem mais perfeito? Nunca!

Ele se inclinou para beijar meus lábios de leve e eu me afastei.

- Ainda não escovei os dentes, Jesse.

- Boba! – me puxou pela nuca e me beijou antes de sumir.

Tomei um banho e sequei meus cabelos deixando-os completamente lisos. Optei por vestir um vestido azul claro de alcinhas que era justo na parte de cima e solto da cintura para baixo, terminando nos joelhos. Desci para comer alguma coisa e minha mãe só faltou dançar a macarena quando eu falei que tinha convidado dois amigos para passar o dia lá em casa. Foi logo pedindo pro Andy fazer um almoço super especial e dando bronca no Brad quando ele chamou Cee Cee de estranha. Tudo bem que ela era mesmo, mas eu adorei vê-lo levar uma bronca.

Nem preciso dizer a festa que minha mãe fez quando Adam e Cee Cee chegaram. Parecia uma criança recebendo um presente no natal. Praticamente tive que empurrar os dois escada acima para livrá-los dos abraços dela.

Quando chegamos ao meu quarto Jesse já estava lá. Estava sentado no nosso – é, agora é nosso sim – banco da janela e se levantou quando entramos. Dei um sorriso discreto e fechei a porta.

- Nossa, Suze! Seu quarto é lindo. – Cee Cee falou maravilhada girando no meio do quarto.

- E olha só a vista! – Foi a vez de Adam falar andando para a janela. Jesse saiu do lugar no mesmo

instante que ele subiu nas almofadas para olhar melhor. – Deve ser incrível acordar com uma vista dessa.

Os dois ficaram fazendo observações sobre cada detalhe do meu quarto, mexendo em tudo até que eu os interrompi.

- Adam, Cee Cee – falei, mas na intenção de dizer seus nomes para que Jesse os conhecesse do que para chamá-los de verdade –, que filme vocês trouxeram?

- Ah, esqueci no carro. – Adam respondeu – Vou pegar. – passou por mim e saiu.

- Liga não. Ele é meio cabeça de vento às vezes.

Eu ri e nos sentamos no banco da janela. Jesse continuava parado num canto apenas observando tudo.

~ 43 ~

- Há quanto tempo vocês namoram? – perguntei tentando puxar algum assunto.

- Oito meses – ela baixou a cabeça e corou.

- Que foi?

- Não é nada.

- Fala. – incentivei.

- É que

namorando.

– ela começou, visivelmente constrangida. – às vezes eu nem acredito que a gente tá

- Por quê?

- Ah, é que eu sempre gostei muito dele, mas não fazia idéia que ele sentia a mesma coisa. – Ela suspirou – Nossa! Eu e Adam, juntos.

- Vocês formam um lindo casal.

Ela soltou um riso de escárnio.

- Tá certo!

- O quê?

- Me poupa, Suze!

- O que foi? – perguntei, confusa.

- Qual é! Olha só pra mim. E olha pro Adam. Ele é todo bonitão – eu não chamaria de bonitão.

Bonitão era o carinha que estava no meu quarto rindo de uma forma muito sexy. – E eu sou toda esquisita. A albina! Eu sei muito bem o que as pessoas da escola falam de mim.

Ok, agora chega! Eu não ia deixar ela se depreciar daquela forma.

- Deixa de ser idiota, Cee Cee. – ela me encarou assustada, mas eu continuei antes que ela falasse alguma coisa. – Se você liga para o que aquele bando de gente fútil fala é porque você não é a garota que eu pensei que fosse!

- Você me chamou de idiota?

- Chamei, sim! – eu comecei agora ia até o fim. – Poxa, Cee Cee, eu pensei que você era mais autêntica, sabe! Mas se você se importa tanto assim com a beleza externa

- Eu não me importo! – ela protestou. – Mas eu sei que eu não sou bonita.

- Cee Cee, você acha mesmo que o Adam liga pra esse tipo de coisa? Você acha mesmo que beleza

externa é só o que importa? Pois deixa eu te falar uma novidade: isso é o que menos conta. Adam é louco por você. E ele não tá nem aí se você não se veste como uma Barbie. Ele gosta de você do

jeito que você é. – olhei bem no fundo dos seus olhos que estavam cheios de lágrimas. – E eu também. – completei.

Ela me abraçou forte.

- Agora pára com essa bobagem – falei afastando-a de leve e enxugando as lágrimas que escorriam por seu rosto branco.

~ 44 ~

- Ai meu Deus, se o Adam me ver assim, vai ficar preocupado.

- Vai lavar o rosto – apontei para a porta do banheiro.

Ela se levantou e foi até lá. Parou na porta e se virou.

- Obrigada, Suze. – riu e entrou fechando a porta atrás de si.

Jesse já estava do meu lado no banco.

- Isso foi

– comecei.

- Lindo. – ele completou.

- Eu ia dizer “meloso”, mas acho que vou ficar com o que você disse.

Ele riu divertido.

- Estou muito orgulhoso de você, hermosa.

Ai, como eu gostava da voz dele. Ainda mais quando ele falava assim bem pertinho do meu ouvido, sua respiração roçando no meu pescoço. Mas então ouvimos Adam subindo as escadas falando com alguém e Jesse se afastou voltando para seu lugar.

- Desculpa a demora. – Adam falou assim que entrou e fechou a porta. – Sua mãe me segurou lá embaixo.

- Sinto muito.

- Cadê Cee Cee?

- Tô aqui. – ela mesma respondeu saindo do banheiro completamente nova, um enorme sorriso em seu rosto.

Sentamos no tapete enquanto Adam mostrava os filmes que tinham trazido. Um de romance, um de ação e um de terror. Mas optamos por jogar conversa fora e deixar a sessão cinema para a parte da tarde.

- Você tem namorado, Suze? – Cee Cee perguntou de repente.

- Não. – respondi sem pensar. Então notei um movimento no canto do quarto. Jesse tinha sumido. Que droga! Mas o que ele queria que eu respondesse. A gente não estava namorando mesmo! Ou

estava? Quer dizer

bancando a donzela. Estamos no século XXI. Não tinha mais essa de pedir ninguém em namoro. As pessoas namoravam e pronto. E não era exatamente isso que nós estávamos fazendo? Nós dormimos juntos e eu até tinha pedido para ele conhecer meus amigos. Se isso não era namoro, o

Peraí, agora eu era quem estava

ele nunca tinha feito o pedido oficial, mas

que era então? Oh oh! Eu fiz besteira. Merda! Merda!

Mas no momento eu tinha que me concentrar no que eles estavam falando. Mas minha vista sempre desviava para o ponto que ele estivera antes, só que ele não voltou.

Em determinado momento, Adam falou algo que me fez esquecer minha preocupação com Jesse por um momento.

- Vocês ficaram sabendo o que aconteceu na Missão na noite de sexta?

Epa. Essa resposta eu sabia.

~ 45 ~

- Sim. – Cee Cee respondeu antes. – Parece que a escola foi invadida por vândalos. Destruíram tudo por lá. Até a cabeça da estátua do padre Serra eles arrancaram.

Essa não era bem a minha versão da história. Céus. O que nós humanos não inventamos para não acreditar que o sobrenatural existe. Vândalos! Até parece que um simples vândalo seria capaz de arrancar um pedaço de bronze daquele tamanho.

Mas isso me lembrou que eu tinha uma coisinha pendente lá na Missão. Ainda havia uns fantasmas pra mediar. Não fiquei nem um pouco empolgada quando pensei em enfrentá-los de novo. Se bem que, graças à interferência de Jesse, talvez eles fossem mais simpáticos comigo da próxima vez.

Passamos o dia rindo e conversando besteiras e os filmes acabaram esquecidos num canto. Quando eles foram embora o sol já estava se pondo. Minha mãe ainda insistira para que eles ficassem para o jantar, mas Cee Cee alegara ter prometido à mãe que voltaria antes de escurecer. Depois que eles se foram eu subi correndo as escadas, louca para falar com Jesse. Queria pedir desculpas. Tranquei a porta do quarto e o chamei, mas ele não veio. Chamei novamente e nada.

O jeito era aproveitar a noite pra colocar minhas pendências em dia. Não queria chegar no dia seguinte numa escola cheia de fantasmas. Adam tinha falado que, por conta da invasão, a polícia estava vigiando o local. Seria um pouco mais difícil entrar lá dessa vez, mas eu daria um jeito.

Esperei todos irem dormir depois que jantamos – Brad lavou os pratos – e me preparei para sair. Da mesma forma que da outra noite eu pulei a janela e peguei a bicicleta. Olhei ao redor para ver se Jesse estava me vigiando, mas nem sinal dele. Tudo bem. Depois eu resolvia isso com ele.

Assim que cheguei na Missão eu vi a viatura da polícia parada em frente ao portão de entrada. Bem longe do local por onde eu tinha entrado na sexta. Deixei a bicicleta no mesmo lugar, atrás da lixeira, e pulei o muro. Mas não vi nenhum fantasma. Nem mesmo o asno. Andei um pouco por lá, evitando passar perto do portão. Nada de fantasmas. Viagem perdida. Saco!

Sentei embaixo de uma árvore para criar coragem pra enfrentar a subida na volta para casa. A noite estava fria e eu puxei o capuz para proteger o rosto do vento. Devo ter agarrado no sono porque comecei a sonhar com Jesse. E ele não estava chateado comigo. Ele disse que teve que sair daquele jeito porque ele lembrou que tinha deixado a torneira aberta. Então ele começou a repetir meu nome de novo e de novo e, não satisfeito, ficou cutucando meu braço. Eu mandava ele parar, mas ele não parava. E começou a me chacoalhar pelos ombros. Então eu acordei.

E eu estava mesmo sendo chacoalhada pelo Jesse que estava abaixado na minha frente.

- Nossa! – ele falou quando me viu abrindo os olhos. – Pensei que não ia mais acordar, Suzannah.

Ele se ergueu e se afastou. Ok. Fora sonho mesmo. Ele estava chateado.

- Jesse espera. – levantei rápido e fui atrás dele.

Ele parou, mas não se virou. Eu parei na sua frente para poder olhá-lo.

- É melhor você voltar para casa, Suzannah. Está tarde. – sua voz era fria, seu rosto sem expressão.

- Jesse, me desculpa.

- Pelo quê?

- Você sabe.

Ele me olhou com os olhos negros sem brilho. Droga! Ele estava mais chateado do que eu pensei.

~ 46 ~

- Não, não sei Suzannah.

Droga! Pára de me chamar de Suzannah. Queria gritar.

- Me desculpa pelo que eu disse essa manhã.

- E o que foi que você disse?

Ele queria que eu falasse. Dane-se. Eu queria mesmo era fazer as pazes com ele.

- Me desculpa por ter dito que não tinha namorado, Jesse.

- E você tem namorado, Suzannah?

Quê? Como assim? Que tipo de pergunta é essa? Céus, será que eu tinha interpretado tudo errado? Será que ele tinha ido embora por outro motivo?

- Er

dois estamos juntos e

bem

– eu gaguejando. Eu, Suzannah Simon, mediadora, gaguejando. Patético. – é que nós

- E o quê, Suzannah?

Se ele não parasse de me chamar desse jeito eu seria capaz de batê-lo. Tudo bem que esse era meu nome, mas quando ele chamava assim nesse tom frio, fazia um arrepio subir pela minha espinha. E não era um arrepio bom.

- Eu pensei que por tudo que

gente estivesse namorando.

já aconteceu com a gente

– gaguejando de novo – que talvez a

Corei horrores ao dizer isso. O que estava dando em mim. Primeiro gaguejava, agora corava feito uma menininha boba. É. Esse é o efeito de Jesse sobre mim, pobre mortal.

- Você pensou isso? – mesmo tom de voz, mesmo olhar, mesmo rosto se expressão.

Meu Deus. Tinha me enganado completamente. Que mico.

- Pensei. – respondi num fio de voz baixando a cabeça.

Jesse respirou fundo.

- Então por que disse que não tem namorado?

Ãnh? Como assim?

- Quê?

- Se você pensa assim, por que disse aos seus amigos que não tem namorado?

- Eu só

- Quem você pensa que eu sou, Suzannah? – Ok. Finalmente seu rosto assumiu alguma expressão,

mas não foi boa. Era de raiva e mágoa. Seus olhos brilhavam intensos. – Que tipo de homem você acha que eu sou?

- Eu

- O quê?

~ 47 ~

- Eu pensei que

comigo ou se feliz por ele também se considerar meu namorado.

– eu não conseguia falar nada. Não sabia se ficava triste por ele estar tão chateado

- Pensou o quê? Que eu sou do tipo que vai pra cama com qualquer uma e some no dia seguinte? Ou do tipo que faz sexo por diversão sem assumir compromissos?

- Eu não

- Suzannah – seus dedos tocaram meu queixo me forçando a olhá-lo nos olhos –, eu não sou assim.

- Eu sei que não.

- Então por quê?

- É só que

então era meio que automático, sabe? As pessoas perguntavam e eu já respondia de uma vez. E a gente nunca falou nada sobre isso, então eu só

é tudo muito recente. – tomei coragem e falei de uma vez. – Eu nunca namorei antes,

- Suzannah – ele me interrompeu, sua voz agora suave e gentil –, você quer namorar comigo?

Ai meu deus. Será que eu era jovem demais para ter uma parada cardíaca? Porque eu tinha a impressão que meu coração parara de bater.

Responde, Suzannah. Responde! Eu estava zonza, um zumbido no meu ouvido. Sentia borboletas no meu estômago. Quando foi que eu comi isso? Pára de babar, idiota. Ele está esperando uma resposta!

- Sim. – consegui responder num sussurro.

Ele riu e me puxou para seus braços.

- Hermosa – hum, bem melhor agora –, você às vezes é tão boba.

- Eu não sou boba.

- É sim. Minha boba.

Ok. Eu podia ser boba então. Ele podia me chamar do que quisesse que eu aceitaria.

Então ele me beijou. Céus, como eu estava feliz. Me sentia flutuando, meu corpo leve, minha cabeça girando de alegria.

Ele interrompeu o beijo com delicadeza e se afastou um pouco.

- Vamos acabar logo com o que você veio fazer aqui e vamos para casa, certo?

O que foi que eu fui fazer lá mesmo? Ah, os fantasmas.

- O problema é que eu não vi nenhum fantasma aqui.

- Deixa eu te ajudar com isso, então. – E sumiu.

Era essa a ajuda que ele ia me dar? Me deixar sozinha? Grande ajuda, Jesse.

Morda a língua, Suzannah!

Porque logo em seguida Jesse voltou com os fantasmas. Todos eles. Quantos eram mesmo? Sete,

oito

onze, doze, treze. Treze fantasmas. Urgh. Isso me lembrou um filme. Credo! Mas aqueles ali

~ 48 ~

não pareciam ter nenhuma intenção diabólica nos rostos pálidos. Apenas me encaravam ansiosos. Beleza. A hostilidade acabou.

Jesse foi para baixo da árvore que eu estava dormindo e sentou se recostando no tronco numa pose

displicente e sexy. Se bem que ele ficaria sexy até plantando bananeira. Eu sentei na grama do pátio ”

Tirei um

caderninho da mochila – é, eu tinha levado um caderninho. Fazer o quê? Era muita coisa pra lembrar.

quer

dizer, Cris, conforme ele se apresentou, que pediu para eu avisar ao irmão dele que ele podia ficar

com sua prancha de surf e seus CDs, contanto que desse um certo cd para uma garota em especial. Ele me deu o telefone da casa dele, os nomes de todos da família, qual era o cd e o nome da garota. Serviço completo. Adoro quando eles facilitam meu trabalho. Depois dele foi a vez da mulher de cabelos crespos, que se chamava Stella, e que pediu para passar a sua mãe o número do seu seguro de vida para que ela sacasse o dinheiro e pagasse a hipoteca da casa. Novamente, ela me passou todas as informações que eu precisaria e eu passei ao próximo. E assim foi até eu anotar os pedidos de todos. Eu teria trabalho de sobra por, no mínimo, um mês. Três semanas se não acontecesse nenhum imprevisto.

Não tinha memória de elefante. – e comecei a anotar os pedidos. Comecei logo com o asno

e os fantasmas fizeram o mesmo. Me senti no meio daquela brincadeira “seu rei mandou

- Bom trabalho, Mediadora. – Jesse falou se aproximando depois que ficamos a sós. Ele estendeu a mão e me ajudou a levantar. – Vamos para casa agora. Você precisa dormir.

- Eu estava pensando em fazer outra coisa. – ri sugestiva.

- Você tem aula amanhã, hermosa. – ele também riu passando a mão no meu rosto.

- Porque você tem que me lembrar isso?

- Alguém tem que ser o responsável dessa relação.

- Eu sou responsável.

- Então vamos para casa dormir?

- Você não vai dormir.

- Eu não preciso. Mas vou ficar te olhando.

- Isso não é justo!

- É para mim. – ele riu e me puxou para si, me beijando no pescoço.

Tudo bem. Eu já estava me acostumando a aceitar tudo que ele dizia mesmo. Ainda mais com ele sendo tão persuasivo.

E não seria nada mal dormir nos seus braços mais uma noite. Nada mal mesmo.

~ 49 ~

CAPÍTULO

9

Os dias seguintes transcorreram sem problemas. Ia para a escola pela manhã, à tarde, antes do jantar, eu fazia meu trabalho como mediadora e à noite ficava com Jesse. Tudo nas mil maravilhas. Mas ainda tinha que aturar algumas indiretas de Brad sobre o fato de eu ficar tanto tempo no meu quarto.

- Sabe, Suze, não é normal uma garota jovem e bonita como você passar tanto tempo no quarto –

disse certa noite durante o jantar, a voz carregada de ironia. – Você devia sair mais, aproveitar a

noite.

Se ele achava mesmo que iria me pegar com essa estava muito enganado.

- Eu não gosto de sair à noite. Prefiro muito mais ficar no meu quarto lendo um bom livro.

- E que livro você está lendo agora, Suze. – perguntou sarcasticamente.

Os outros observavam nossa conversa sem falar nada.

- Se Houver Amanhã de Sidney Sheldon.

- Não conheço.

- Você não conhece Sidney Sheldon? – minha mãe perguntou finalmente entrando na conversa. – É um dos maiores escritores dos últimos tempos.

- Eu conheço. – David falou empolgado. – Gosto muito dos livros dele. Mas nunca li esse. É bom?

- Muito. – respondi – Tracy Whitney é uma das melhores heroínas que eu já vi. Depois eu te empresto.

- Obrigada.

- Viu filho? – Andy falou se dirigindo à Brad. – Você deveria andar mais com Suze. Talvez assim você adquirisse um pouco da cultura dela.

Brad me lançou um olhar mortal que me deixou apavorada. Brincadeira! Tive que fazer um esforço sobre-humano para não rir. Minhas costelas doíam do esforço. Pego na própria armadilha. Rá rá. Tadinho do Brad.

E o melhor é que eu não estava mentido. Eu estava mesmo lendo esse livro. Descobri há alguns dias

que Jesse adorava ler então a gente ficava parte da noite sentados no banco da janela, eu apoiada no seu peito firme e macio, enquanto líamos alguma coisa escolhida por ele. Isso só não acontecia quando ele inventava de ler os livros de história do colégio e outros que me fez pegar na biblioteca. Sério! Ele lia aqueles livros com tanto prazer que parecia que estava lendo a Cosmopolitan. Nesses dias eu o deixava ler sozinho enquanto fazia meu dever de casa ou ouvia música.

E

a outra parte da noite nós aproveitávamos para coisas mais produtivas.

E

teve um dia particularmente especial no meio de toda essa correira “escola + mediação + namoro”.

Eu cheguei em casa depois da aula muito feliz porque finalmente, depois de quase um mês de

~ 50 ~

trabalho diário, a escola finalmente estava livre de fantasmas. Cheguei sozinha porque Brad tinha ficado no treino de futebol, David tinha ficado na casa de um amigo para estudar e Jake, que me deixara em casa, tinha um encontro com uma garota e não sabia que horas chegaria. Pediu para avisar ao pai que, se fosse se atrasar para o jantar, ele ligaria.

- Cheguei! – gritei para avisar que estava em casa.

- Hermosa.

Dei um pulo do susto que levei e me virei para o topo da escada. Jesse estava lá e vinha descendo na minha direção.

- Jesse – sussurrei -, você ficou louco? O que está fazendo aqui em baixo?

- Não tem ninguém em casa.

- Não? – me surpreendi, minha voz voltando ao tom normal.

- Não. – ele falou se aproximando mais. – Tem um recado na secretária eletrônica.

Ele apontou o aparelho que estava do meu lado. A luzinha piscava indicando que havia um recado e eu apertei o botão para ouvi-lo. Era da minha mãe:

Crianças, eu vou ter que ficar trabalhando até tarde hoje porque surgiu uma notícia urgente e eu estou responsável pela cobertura. Andy também vai chegar tarde porque teve uns problemas com o prazo de entrega de um projeto. Infelizmente vocês terão que providenciar o próprio jantar. E nada de pizza! Avisaremos quando estivermos indo para casa para que não se preocupem. Beijos. Amo vocês

Ai que saco. Odeio cozinhar.

Epa. Volta a fita. Eu estou com o meu namorado numa casa vazia. Mas o problema é que meus meio-irmãos poderiam voltar a qualquer instante. Tive uma idéia. Peguei o telefone e liguei para Brad. Depois de chamar umas seis vezes ele atendeu.

- Alô?

- Brad, é Suze.

- O que você quer? E fala logo antes que o treinador reclame comigo.

Grosso!

- Eu só queria te avisar que não tem jantar em casa hoje. Seu pai e minha mãe vão chegar tarde. A

gente vai ter que cozinhar. Eu estava pensando se você poderia ficar responsável por fazer a salada enquanto eu faço

- Quê? Cê tá louca?! – ele falou quase gritando. – E eu lá tenho cara de cozinheiro? – era uma pergunta retórica. – Não! Pode deixar que eu vou sair pra comer pizza com o resto do time.

- Mas mamãe disse que não era pra gente comer pizza – falei numa voz de fingida inocência.

- Ah! Vai se ferrar! – e desligou.

Rá. Funcionou. Fale para um homem do tipo do Brad que ele tem que ir pra cozinha que eles fogem logo.

Usei o mesmo truque com Jake que disse que ia jantar com a amiguinha dele. Oba. Menos um. É

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claro que com o David eu tive que usar outra técnica. Ele nunca iria deixar eu cozinhar sozinha.

Liguei para a casa do amigo dele – ele tinha me dado o telefone de lá no caso de uma emergência. Tão responsável.

- Dave, é Suze.

- Oi Suze. Aconteceu alguma coisa?

- Nada demais. É só que minha mãe ligou avisando que ela e seu pai vão ficar presos no trabalho até

tarde. Ou seja, sem jantar pra nós. Eu já falei com seus irmãos e eles disseram que vão jantar fora.

Então eu estava pensando se você não poderia jantar por aí mesmo. Assim eu não preciso cozinhar nada.

- Mas se você quiser eu te ajudo.

Eu não disse?

- Na verdade, Dave, eu tenho um trabalho de história pra fazer e só vou comer alguma besteira mesmo enquanto estudo.

- Você precisa de ajuda no trabalho?

Ai, Céus! Por que ele tem que ser tão prestativo e nerd? Tudo bem que eu gostava disso, mas aquele não era o momento.

- Não precisa. Eu tenho que fazer isso sozinha. E nem é difícil. É só longo. Então, tem problema se você ficar aí?

- Acho que não. Deixa eu ver. – ouvi ele falando com alguém e depois voltou à linha. – Sem problemas. E a mãe do Kane disse que me leva em casa depois do jantar.

Ai que perfeito!

- Ok, Dave. Valeu. Até mais tarde então.

- Até. E bom estudo.

- Obrigada.

Desliguei e encarei Jesse que estava parado do meu lado

- O que foi isso? – perguntou com o cenho franzido. – Nós não fizemos esse trabalho ontem?

Quando ele diz “nós” quer dizer ele ditando e eu copiando.

- Claro que sim, eu só queria me certificar que não seríamos interrompidos.

- Interrompidos em quê?

Como ele é fofo com essa carinha de inocente. Que vontade de apertar aquelas bochechas. Ergui uma sobrancelha o encarando sugestiva e ele compreendeu.

- Hermosa

– sua voz era de advertência, mas eu podia notar que estava um pouco rouca.

- O quê? – perguntei inocentemente.

Mas ele não respondeu. Ao invés disso ele me beijou. No começo foi um beijo suave, mas em pouco

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tempo se transformou em outra coisa.

Louco de desejo, Jesse me encostou na parede ao lado da porta e me beijou com paixão. Zonza, eu passei as pernas pela cintura dele. No fundo da minha consiência eu tinha medo que alguém da minha família mudasse de planos e resolvesse ir para casa mais cedo, mas quando eu senti o corpo de Jesse, rijo e exigente, tudo desapareceu.

Ele me levava para a sala sem interromper o beijo. Ele me deitou no tapete fofo que ficava em frente à lareira que nunca era acesa e começou a se despir. Eu sorri maliciosa e o ajudei enquanto ele tirava as minhas roupas.

Eu comecei a explorar o corpo másculo com as mãos e com os lábios, deixando que as peles roçassem uma na outra, até não conseguir mais resistir. Então, eu o guiei para dentro de mim, e o movimento despertou uma série de tremores.

Os movimentos foram se intensificando, e eu pensei que fosse explodir de prazer. De repente, Jesse enrijeceu ainda mais dentro de mim gemendo alto e começou a dizer meu nome, como um mantra. Uma nova onda de prazer me envolveu até que eu perdi a capacidade de pensar.

Passou muito tempo até que eu, finalmente, começasse a voltar a realidade. Jesse estava do meu lado, o peito arfando, tão satisfeito quanto eu.

- Estou feliz por namorar uma mulher com a mente tão brilhante. – sua voz ainda estava entrecortada pela falta de ar.

Ser chamada de mulher brilhante depois de fazer sexo com um homem perfeito como ele era pra deixar qualquer uma nas nuvens.

- Ah, eu acho que preciso de um banho. – e precisava mesmo. Eu estava toda suada, o corpo pegajoso.

Jesse se inclinou na minha direção, beijando meu pescoço. Ele se levantou e me colocou no colo depois que eu peguei nossas roupas. Fomos para o meu quarto ele me levou até o banheiro. Opa! Banho em dupla? Gostei.

Mas então ele me deu um beijo de leve na testa e já ia saindo quando eu o segurei pelo pulso.

- Aonde vai?

- Te dar um pouco de privacidade.

- Eu não quero privacidade, Jesse. Eu quero você!

- Hermosa, você não sabe o efeito que você causa em mim quando fala desse jeito. – sua voz estava tão rouca que eu quase não entendi o que ele falava.

- Mas é um efeito bom?

- Você não faz idéia. – e me puxou para um beijo ardente. Ok. Agora eu fazia, sim. Sentia o efeito entre as minhas pernas.

Ele me levou para debaixo do chuveiro deixando a água morna cair sobre os nossos corpos. Tudo bem que ele não precisava tomar banho, mas ele ficava simplesmente maravilhoso com a água escorrendo por seu cabelo, deslizando por seu corpo.

Então ele começou a me ensaboar e eu fui pro céu. Sua mão passava por todo o meu corpo evitando as partes mais íntimas, mas ainda assim me levando à loucura. Eu gemia de prazer, meu corpo se contorcendo. Eu mal me aguentava em pé. E quase cai quando sua mão passou pela parte interna da

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minha coxa. Então ele me segurou pela cintura com uma das mãos e com a outra prosseguiu com a carícia. Deixou o sabonete no suporte e deslizou sua mão para a minha intimidade. Sorte que não tinha ninguém em casa porque naquele momento eu soltei um gemido tão alto que deve ter feito alguns passarinhos voarem da árvore na frente da janela.

Depois que eu já estava totalmente limpa e sem sabonete pelo corpo ele desligou o chuveiro. E quando eu pensei que ele iria me levar para fora e me enxugar ele me virou de costas para si e me segurou novamente com uma das mãos pela cintura. A outra foi descendo e descendo até chegar à minha parte mais íntima e úmida de desejo. Apoiei as mãos na parede, minhas unhas querendo arranhar o azulejo. Ele fazia movimentos circulares e aumentava a pressão quando atingia a parte mais sensível da minha região.

- Jesse

– eu gemia completamente sem fôlego. – por favor

Eu queria que ele acabasse com aquela agonia de uma vez por todas, mas ele parecia disposto a me torturar. Ele soltou minha cintura por um instante para tirar o cabelo do meu pescoço e passou a língua pelo local.

- Jesse

aahhh.

Eu não conseguia mais raciocinar. Sua mão aumentou o ritmo da carícia e eu senti um dedo deslizando para dentro de mim. Ainda bem que ele tinha voltado a me segurar pela cintura porque eu perdi completamente as forças. Encostei minha cabeça em seu peito ele me puxou mais para si. Senti seu membro pressionando minhas nádegas e eu comecei a rebolar contra seu corpo. Ele gemeu alto e começou a estocar ainda mais rápido com seu dedo dentro de mim.

- Jesse, eu vou

aaaahhh

Meu corpo todo tremia sofrendo os espasmos do orgasmo. Jesse então me virou para si e me beijou com paixão. Passei meus braços pelos seus ombros e o deixei com as mãos livres para percorrer todo o meu corpo. Em instantes eu já estava me arqueando contra seu corpo novamente. Ele me imprensou contra a parede e eu envolvi minhas pernas pela sua cintura, facilitando a penetração. Ele começou a se movimentar dentro de mim enquanto beijava meu pescoço e meus lábios.

Minhas costas batiam contra a parede dura, mas eu nem me importava com a dor. Pra falar a verdade eu nem sentia. Só sentia Jesse dentro de mim se movimentando mais rápido, seu peito pressionando meus seios. Eu já sentia o clímax se aproximando outra vez.

- Hermosa, eu não agüento mais. Eu vou

Mas ele não precisou continuar. Senti seu corpo enrijecer e o líquido me invadir. Eu acompanhei em seguida, minhas unhas cravando nos seus ombros, deixando marcas profundas ali. Depois que recuperei as forças eu tomei outro banho rápido, dessa vez sozinha e fui para a cama com ele do meu lado ainda sem roupas. Deitamos por cima do lençol e ficamos apenas nos acariciando, cansados demais para fazer alguma coisa a mais, mas desejosos demais para tirar as mãos um do outro. Quando o sol estava se pondo minha barriga roncou, me lembrando que eu ainda tinha que fazer alguma coisa para comer.

- Não estou com mínima vontade de cozinhar. Acho que vou pedir uma pizza.

- Nada disso, Suzannah. – ele se levantou vestindo apenas a calça e me puxou para fora da cama. – Vem. Eu te ajudo.

- Você sabe cozinhar? – perguntei enquanto vestia um roupão branco de algodão que batia nos joelhos.

- Não. Mas eu te dou apoio moral.

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- Rá. Muito engraçado.

No fim ele acabou me ajudando de verdade. Fiz um sanduíche de peito de peru e enquanto eu separava tudo ele lavou e cortou as verduras. Sentamos a mesa de madeira da cozinha mesmo, ele na minha frente apenas me olhando enquanto eu comia.

- Foi tão bom chegar hoje na escola e não ver nenhum fantasma por lá. – comentei entre uma mordida e outra.

- Você fez um excelente trabalho com eles.

- Também acho. – sorri orgulhosa. – Fazia tempo que eu não mediava tantos fantasmas em tão pouco tempo. Mas eu só consegui isso graças a você.

- Não mesmo, hermosa. O mérito é todo seu. – ele falou sem graça.

- Deixa disso, Jesse. – eu o cortei, repousando meu lanche no prato. – Se você não tivesse aparecido naquela noite, aqueles projetos de poltergeists teriam feito picadinho de mim.

- Projeto de quê?

- Poltergeist. Fantasma traiçoeiro. – expliquei.

- Ah.

- E você ainda fez que com que eles ficassem bonzinhos usando todo aquele seu poder incrível.

- Ok. Talvez eu tenha ajudado um pouco.

- Ajudou e muito. – eu o corrigi.

- Mas não fui eu que tive todo aquele trabalho para fazer o que eles pediam. Esse mérito você não pode negar.

- E não nego. – desde quando eu era modesta? – E fiquei muito feliz quando acabou. Agora finalmente eu posso assistir minhas aulas sem ninguém berrando no meu ouvido.

Ficamos em silêncio novamente e eu voltei ao meu sanduíche. Então uma dúvida passou pela minha cabeça e eu não contive a curiosidade.

- Jesse, há quanto tempo você é fantasma?

Ele me olhou sério.

- Porque essa pergunta agora?

- É só que eu estava lembrando do dia que você enfrentou aqueles treze fantasmas sozinho. Então eu percebi que, para você ter tanto poder assim, você deve ter morrido há muito tempo.

- Sim. Cento e cinqüenta anos.

- Nossa! – eu meio que já tinha deduzido isso por conta das roupas dele, mas ainda assim fiquei surpresa. E a curiosidade aumentou. – Como foi que você morreu?

Jesse não disse nada. Talvez eu o tenha ofendido. Às vezes eu me deparo com fantasmas que não gostam de falar sobre como morreram. Ele continuou calado e eu pensei que ele não ia responder. O sol já tinha se posto lá fora, a lua surgindo em seu lugar, bem alto lá no céu, e eu podia ver o rosto

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do Jesse como se fosse dia. Ele não estava parecendo muito diferente do habitual. Por baixo daquelas espessas sobrancelhas negras, seus olhos, de cílios tão densos, eram tão reveladores quanto um espelho - quer dizer, eu provavelmente seria capaz de ver meu reflexo neles, mas não adivinharia nada sobre o que ele estava pensando.

- Er

deixa pra lá. Não precisa me contar

- Não. – ele respondeu. – Tudo bem.

- É só curiosidade mesmo. Se você não se sentir confortável pra falar sobre isso

- Não, não é isso. É só que

eu não lembro o que aconteceu.

Não era a primeira vez que eu encontrava um fantasma que não se lembrava de como morreu. Mas geralmente os que eu encontrava eram vítimas de acidentes de carro e eu tinha certeza que na época que ele viveu as pessoas não morriam de acidente de carro. Eu nem tinha certeza se já existia carros motorizados naquela época.

- Não lembra?

- Não. – seu olhar se fixou em algum ponto atrás de mim, provavelmente sem ver nada, preso em

recordações. – Na época em que eu vivi, essa casa era um hotel. E eu tinha vindo para a cidade para resolver alguns assuntos de negócios da família e me hospedei aqui. Eu cheguei à noite, muito cansado da viagem e dormi rápido. E não acordei. – ele abriu os braços para mostrar seu corpo atual. – Quando eu me dei conta que tinha morrido eu voltei imediatamente para cá, mas meu corpo não estava mais aqui.

- Então será que é por isso que você continua aqui? – perguntei displicentemente, mordendo o último pedaço do sanduíche.

- Como assim?

- Será que você ainda não seguiu em frente por que quer descobrir o que aconteceu com você naquela noite?

Ele levantou-se de um salto empurrando a cadeira para traz, me olhando furioso.

- O que você está fazendo, Suzannah?

- O quê? – eu o encarei, assustada. O que foi que eu fiz agora?

- Você está tentando me mediar. – não foi uma pergunta. – Por quê?

- Jesse, pelo amor de Deus, foi só uma pergunta!

- E por que você fez essa pergunta?

- Sei lá. Curiosidade.

- Curiosidade?

- É.

- E o que vai acontecer se eu descobrir o que me prende aqui, Suzannah? Ou melhor, o que você vai fazer depois que descobrir o que me prende aqui?

Eu não consegui responder. Porque eu sabia o que eu faria normalmente. Mas o problema era que ele não era qualquer fantasma. Ele era o Jesse. Meu Jesse. E eu não podia simplesmente mediar ele

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como eu sempre fazia.

- E então, Suzannah? – como ele viu que eu não respondia, ele continuou. - Você iria me “ajudar” – ele fez as aspas no ar quando falou essa palavra – como você fez com esses fantasmas da escola?

- Claro que não! – respondi de imediato e logo me arrependi de ter dado muita ênfase. – Quer dizer – corrigi com a voz baixa –, só se você quisesse.

Ele contornou a mesa e parou ao meu lado se abaixando para ficar com seu rosto na altura do meu.

- E se eu não quiser a sua ajuda, Suzannah? – perguntou com a voz suave. – E se eu não quiser seguir em frente?

- Jesse

- Não, Suzannah.– ele me interrompeu sério, seus olhos brilhantes. – Eu sei que eu estou morto e eu sei que é seu trabalho como mediadora fazer com que os fantasmas sigam para o lugar deles, mas talvez esse seja o meu lugar.

- Jesse

- Me deixa falar, por favor. – me interrompeu novamente. – Talvez esse seja o meu destino, Suzannah. Talvez você seja o meu destino. – ele se ergueu e começou a andar pela cozinha sem me

encarar. – Eu não estou pedindo que você sacrifique sua vida para ficar ao lado de um fantasma. Eu nunca pediria isso a você. Eu só quero que você seja feliz, mesmo que não seja ao meu lado. – ele respirou fundo e me encarou parando do outro lado da cozinha. Eu não conseguia falar nada, meu coração batendo tão forte no meu peito que chegava a doer. – Só por ter te conhecido, hermosa, eu

ele apenas me encarou como se não tivesse palavras para descrever o que sentia. – Eu não preciso de mais nada. Eu não preciso saber o que aconteceu comigo naquela noite. Só o que eu preciso é você. Nem que seja por pouco tempo. – ele se aproximou e se abaixou ao meu lado novamente, pegando meu rosto entre suas mãos. – Eu te amo, Suzannah. Te amo como nunca pensei amar ninguém. Eu demorei uma vida toda e além dela para te conhecer e só alguns instantes para me apaixonar. E eu não trocaria um minuto sequer dos meus momentos com você por cem anos de uma nova vida sem você.

já sou o homem mais feliz do mundo. E quando você corresponde ao meu toque, aos meus beijos

Eu ainda continuava em choque com a única diferença que as lágrimas escorriam em abundância pelo meu rosto por cima das suas mãos.

- Não chora, hermosa, por favor. – ele enxugava as lágrimas e eu podia ver a aflição no seu rosto.

- Jesse

respiração irregular.

– eu finalmente consegui falar, embora a voz tenha saído baixa e entrecortada pela minha

- Olha, eu não falei nada disso para te pressionar, nem nada. – ele começou, nervoso. – Eu só precisava falar.

- Jesse

– tentei novamente, minha voz saindo mais clara.

- E eu não estou pedindo nada em troca. – que mania de me interromper. – Só por você ficar mais um pouco comigo já será muito.

- Jesse

– falei, já começando a me irritar.

- Mas se você quiser que eu vá embora, eu

Ok, agora já chega! Eu ia falar nem que fosse na marra. E foi na marra mesmo. Puxei seu rosto pela nuca e o beijei com paixão. Mas logo em seguida eu o soltei antes que aquilo evoluísse para algo

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mais.

- Posso falar agora? – ele apenas assentiu aturdido, seu peito arfando. – Ótimo! Pra começo de

conversa, eu não fiz aquela pergunta por que queria que você seguisse em frente. Foi só curiosidade mesmo. Embora eu admita que se eu descobrisse o motivo de você permanecer aqui eu provavelmente iria querer te ajudar nisso. Mas eu nunca faria isso se você não quisesse. Eu nunca te obrigaria a seguir em frente, ainda mais porque eu não quero isso. Pode parecer egoísmo da minha parte, mas eu não quero que você vá embora, Jesse. Eu quero que você fique comigo até você não agüentar mais a minha presença ou ouvir minha voz. – foi a minha vez de segurar seu rosto entre minhas mãos. – Eu te amo, Jesse. E eu me sinto a pessoa mais feliz do mundo agora que sei que você sente o mesmo por mim.

Então ele levantou me levando com ele e me beijou, um beijo tão terno que fez com que as lágrimas voltassem a deslizar pelo meu rosto. Ele se afastou e me olhou com seus olhos negros brilhantes, enxugando minhas lágrimas novamente, meu rosto entre suas mãos.

- Eu te amo tanto, hermosa. Tanto! – e seus lábios encontraram os meus mais uma vez, mas dessa vez com urgência.

Em questão de segundos meu corpo inteiro ardia de desejo, clamando por ele. Suas mãos ágeis desfizeram o nó do roupão revelando parte do meu corpo nu. Eu não perdi tempo e comecei a desabotoar sua calça querendo senti-lo dentro de mim, mas ele segurou minhas mãos me impedindo de prosseguir.

- Ainda não, hermosa – como assim ainda não? Queria gritar, mas não encontrei o ar. Eu podia sentir

e muito bem sua rigidez contra meu corpo. – Eu quero tentar uma coisa. – ele falou, sua voz rouca, com um meio sorriso provocante nos lábios perfeitos.

Opa! Gostei disso. Ainda nem sabia o que era, mas já estava gostando.

Suas mãos entraram pela abertura do roupão percorrendo meu corpo, causando sensações indescritíveis. Ele me puxou para cima fazendo com que eu sentasse na ponta da mesa. Instintivamente eu abri as pernas e o enlacei pelos quadris, puxando-o para mim. Enterrei minhas mãos nos seus cabelos e o beijei sofregamente, minhas mãos percorrendo seus ombros musculosos descobertos, descendo para o peito firme. Ele arfava sob minhas mãos e eu ouvi um som grave saindo de sua boca ainda colada à minha.

A paixão foi uma explosão tão grande e tão igual para nós dois que quase virou uma competição. Ele

me puxou mais para si, seu corpo se encaixando perfeitamente entre minhas coxas. Ele estava surpreendentemente rijo. Então ele me beijou com ainda mais urgência, se é que isso era possível. Suas mãos deslizaram pelos meus ombros fazendo com que o roupão escorregasse pelos meus braços, me deixando completamente exposta. Mas ele ainda estava vestido e, novamente, me impediu quando eu tentei romper essa barreira.

- Ainda não. – sua voz estava tão rouca que era quase um grunhido.

- Ah, Jesse, por favor

esperando? Seu corpo pulsava contra o meu, os dois numa urgência impressionante.

– eu implorei num tom entre a raiva e o desejo. O que mais ele estava

Seus lábios percorreram meu pescoço deixando um caminho de fogo por onde sua língua passava. Quando eu senti sua língua no meu seio eu pensei que fosse me dissolver de tanto prazer. Arqueei meu corpo contra o seu, minhas costas indo para trás, meu quadril roçando no dele sensualmente.

- Díos mio. – ele gemeu aumentando mais a pressão no local. – Você está me matando, hermosa.

Eu estava matando ele? E o que ele estava fazendo comigo era o quê?

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- Jesse, por favor, eu preciso de você. – eu quase gritei, louca de desejo.

Mas ainda assim ele não se rendeu. Ao invés disso ele vez com que eu me deitasse na mesa, sua língua prosseguindo com a carícia pelos meus seios túrgidos. Então ele começou a descer mais, demorando um pouco na minha barriga, beijando, lambendo. Eu me arqueava cada vez mais. Quando ele desceu ainda mais em direção ao meu ventre eu entendi sua intenção.

Ele passou a atenção para a parte interna da minha coxa e quando ele chegou à minha intimidade eu não resisti e soltei um grito de prazer. Precisei agarrar as laterais da mesa, buscando desesperada por algum controle. Meu corpo arqueava ainda mais e eu gemia enquanto ele descrevia movimentos circulares com a língua, fazendo pressão quando atingia meu clitóris. As sensações dominaram meus sentidos. Eu já não via mais nada à minha frente, minha vista turva de prazer. Eu me agarrava com força à superfície de madeira da mesa.

Ele sugava devagar, com movimentos suaves. Depois, percebendo o estado em que eu me encontrava, ele aumentou o ritmo aos poucos. Então sua língua entrou em mim, lambendo todo o líquido quente da minha intimidade. Eu estremeci num frêmito de desejo.

- Jesse – gritei em meio aos gemidos –, ah, meu Deus

Jesse

Suas mãos fortes agarraram meus quadris enquanto ele aumentava o ritmo dentro de mim. Ele também gemia, satisfeito por me proporcionar tanto prazer.

Eu gemi ainda mais alto quando senti os calafrios percorrendo meu corpo, me preparando para o momento final. Eu senti meu corpo desfalecendo em cima da mesa tamanho foi o prazer que me invadiu. Não conseguia pensar em nada, não conseguia me mexer, meu corpo todo dormente ainda dominado pelas sensações.

Ele sugou o líquido que saiu de mim e aplicou pequenos beijos no local então se inclinou sobre mim, beijando meus seios e meu pescoço.

- Você é linda, Suzannah. Não tem nenhum defeito.

Envolvi meus braços pelo seu pescoço, rindo feito uma idiota e o beijei. Suas mãos percorreram a lateral do meu corpo, passando pela minha cintura e meu quadril, parando numa nádega e apertando-a, me deixando excitada novamente.

- Jesse, você vai me deixar louca. – sussurrei no seu ouvido.

Ele gemeu rouco e me beijou profundamente, sua boca provocante e ousada. Suas mãos passaram às minhas costas arqueadas e me ergueu fazendo com que eu ficasse sentada novamente. Minhas mãos percorreram seu peito, descendo para o cós da sua calça. Dessa vez ele não me impediu. Ele me ajudou quando eu não consegui abrir os botões, minhas mãos trêmulas.

Depois que ele se livrou da calça e passei a beijá-lo, primeiro nos ombros, depois descendo para seu peito firme. Sua cabeça se inclinou para trás e ele disse meu nome num suspiro trêmulo, me beijando com urgência logo em seguida.

Ele pôs as mãos na minha cintura e me puxou mais para frente, me posicionando melhor para a penetração. Jesse me beijou novamente e eu me derreti em seus braços, estremecendo num frêmito de desejo de tê-lo dentro de mim.

Quando eu pensei que não poderíamos estar mais intimamente unidos, Jesse agarrou meus quadris com mais força, aumentando o ritmo. Passei as mãos pelas costas dele arranhando-o com minhas unhas enquanto minhas pernas envolviam seu quadril. Sorte que ele era um fantasma e não sangrava ou ele teria que ir ao hospital agora. Mas ele ainda sentia dor. Ele urrou quando sentiu minhas unhas se cravando na sua pele, mas era um grito de prazer.

~ 59 ~

Quando ele aumentou mais o movimento dentro de mim, nós dois olhamos diretamente nos olhos um do outro. Pude ver naqueles olhos negros todo o amor que ele sentia por mim e eu tinha certeza que ele via a mesma coisa nos meus.

Inclinei minha cabeça para trás, completamente entregue. Ele então se inclinou segurando minha nuca com uma das mãos enquanto a outra permanecia firme no meu quadril, e mordeu meu pescoço de leve, numa carícia erótica, chupando e lambendo o local. Isso ia deixar marcas. Nem me importei. Nada que uma blusa de gola alta não resolvesse.

Os dois gemiam em uníssono, as respirações aceleradas. Eu sentia o clímax se aproximando novamente, conforme ele aumentava o ritmo. Senti seu corpo enrijecer por inteiro e ele me apertou contra seu corpo, seu rosto afundando na curva do meu pescoço e atingimos o clímax juntos, em perfeita sincronia.

Continuamos abraçados por não sei quantos minutos esperando que nossas respirações voltassem ao normal.

Minha nossa, como eu fui idiota por não perceber o quanto eu o amava. Só fui me dar conta disso depois que ele disse o que sentia. Mas talvez fosse só insegurança. Em que sonho eu poderia imaginar que um homem maravilhoso como Jesse poderia se interessar por uma garota – embora ele chamasse de mulher – de 16 anos e completamente oposta aos costumes da época dele? Só no sonho mais louco. E esse sonho se tornou realidade.

- Jesse – eu me afastei para olhar para aquele rosto perfeito que eu tanto amava. – Eu te amo.

Ele riu e seus olhos negros brilharam ainda mais.

- Você não sabe o quanto eu sonhei em te ouvir dizendo isso, hermosa. E agora meu sonho se tornou realidade.

Opa. Será que ele podia ler minha mente? Eu ri com a idéia.

- O que foi? – ele perguntou confuso.

- Eu estava pensando a mesma coisa.

Seu sorriso aumentou ainda mais e ele me abraçou.

Nos vestimos e, depois de arrumar a bagunça da cozinha dando uma atenção especial à limpeza da mesa, nós subimos as escadas em direção ao meu quarto. No instante que eu tranquei a porta eu ouvi o barulho de um carro do lado de fora. Olhei pela janela e vi Jake saindo do carro furioso batendo a porta do carro com violência. Ele falava, ou melhor, gritava no telefone com alguém e não foi difícil ouvir o conteúdo.

- E não foi só isso, não! Além de me deixar plantado feito um imbecil naquele restaurante idiota, quando eu tava voltando pra casa eu vi aquela vagabunda de amasso com Frank. Logo com o Frank, cara! O idiota nem do time de futebol é. – Santa futilidade, meu Deus! Ele deu uma pausa enquanto ouvia o outro falando. – Nem pensar! Eu vou é sair! Quero pegar geral essa noite. Só vou me trocar e passo aí.

Ele entrou em casa e eu o ouvi subindo as escadas com passos duros.

- Suzannah! – ele gritou do corredor.

Levei um susto, porque além de ser muito raro Jake falar comigo, eu estava sentada no colo do Jesse no banco da janela.

- Oi?

~ 60 ~

- Já jantou? – ele perguntou do outro lado da porta.

- Já, por quê?

- Nada, só queria saber.

Ok. Essa foi nova. O meu meio-irmão que não era o David se preocupando comigo? Das duas uma:

ou ele tinha bebido muito enquanto esperava pela garota que não chegou ou ele estava tão irritado por ter levado um bolo que se esqueceu de ser normal comigo. Por que aquele não era o normal dele. O normal era ele passar por mim como se eu não existisse.

- Suzannah. – ele chamou de novo ainda do outro lado.

- O quê?

- Abre a porta.

Hein? Meu Deus. Ele descobriu. Ele descobriu o que eu fiz hoje. Entrei em desespero. Dei um pulo do colo do Jesse me aproximando da porta.

- Pra quê?

- Quero falar contigo.

Isso estava muito estranho. Mas eu abri assim mesmo depois de me certificar que o roupão estava cobrindo tudo.

- Fala.

- Eu queria um conselho.

- conselho? – perguntei confusa.

Um

- É.

- Fala.

- É que eu acabei de levar o maior bolo da minha vida e eu quero me vingar.

Ai meu Deus. Pára tudo! Jake, o machão da casa estava admitindo para mim que tinha levado um bolo.

- Uhum. – foi só o que consegui dizer. Estava me concentrando ao máximo para ficar séria.

- Então, o que você sugere?

- Deixa eu ver se entendi, Jake. Você está me pedindo ajuda para se vingar de uma pessoa do mesmo sexo que eu?

- É.

- Você já ouviu falar que as mulheres protegem umas às outras?

- Você protegeria Kelly Prescott?

Opa. Pisou no meu calo. Kelly Prescott era a pessoa mais fútil que eu já conheci em toda minha vida. Ela era simplesmente insuportável e eu fiquei sabendo pela Cee Cee que Kelly tinha comentado pra

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quem quisesse ouvi no banheiro das meninas que ela pretendia fazer amizade comigo para se aproximar dos meus irmãos. E eu nem sabia disso quando ela veio falar comigo. Eu dei um fora nela na frente de todas as amiguinhas barbies dela e ela ficou com ódio mortal de mim desde esse dia.

- Ela eu não protejo. – Epa, Suzannah! Lembre-se de manter sua pose de boa moça. – Mas eu não sei porque você veio pedir a minha ajuda, Jake. Eu não sou do tipo vingativa.

Rá! Mentira lavada! Cara de pau encerada. Ainda bem que meu nariz não crescia.

- Conta outra, Suzannah! – ele me olhou descrente. Hein? – À mim você nunca enganou. – Oi? – Você acha mesmo que eu caí nesse seu jeito de filhinha da mamãe?

- Não? – Isso, Suzannah, se entrega, sua anta!

- Não mesmo! Sua mãe pode cair nessa, mas eu não. Claro que eu nunca tive certeza, mas depois

que eu te vi saindo de casa depois que todo mundo tinha ido dormir, vestida toda de preto parecendo que ia matar alguém, eu saquei logo.

Eu o encarei com os olhos arregalados. Santo Deus! Mais um pra me chantagear não, por favor. Só o Brad já tava de bom tamanho.

- Mas relaxa – ele continuou – O que você faz da sua vida não é da minha conta. Pra mim tanto faz se você vai virar freira ou gosta de andar com gangues depois da meia noite – nossa! Que cara extremista! – Então. Vai me ajudar ou não?

Como assim não ia rolar chantagem. Ok. Acho que eu me enganei completamente a respeito do Jake. Pensei que ele fosse igual ao Brad, mas agora eu via que ele era o meio-termo da equação. David era um poço de bondade enquanto Brad era um poço, ou melhor, um açude inteiro de canalhice. E Jake era um canalha – não comigo pelo visto, graças a Deus – bonzinho.

- Deixa eu pensar. – falei, deixando de lado minha pose inocente. Me recostei na porta cruzando os braços enquanto pensava numa boa maneira de vingança. Várias coisas me vieram à mente, mas nenhuma era boa o suficiente.

Normalmente eu me vingo de alguém desferindo um bom soco de direita na pessoa ou fantasma, mas Jake não podia fazer isso com Kelly. Infelizmente. Tinha que ser alguma coisa que deixasse ela no chão. Nada menos que isso. Então uma luzinha da maldade se acendeu na minha mente.

- Hum, Jake, você conhece algum cara sem o menor pudor e que toparia qualquer coisa?

- Tá falando do Brad?

- Ele não dá. Seria bom um nerd.

- Nerds são certinhos.

- Nem todos.

Ele pensou um pouco.

- Tem o Henri.

- Quem é?

- É um francês metido a besta. Ele é da minha sala. É do grupinho dos CDF’s, mas é doido pra andar no meu grupo.

~ 62 ~

- E ele gosta da Kelly?

- Quem é que realmente gosta daquela coisa?

- Certo. E esse Henri é correto?

- Como assim?

- Ele se vende fácil?

- Suzannah, Suzannah. O que está passando nessa sua mente diabólica?

- Só responde, Jake. – falei rindo. Era tão bom ser eu mesma.

- Acho que sim. Fala qual é a sua idéia.

- Eu tava pensando em você pagar pro Henri espalhar pela escola que ele tinha transado com a Kelly.

- Suzannah! – ele me encarou de olhos arregalados. – Você é perversa!

- Você quer ou não a minha ajuda?

- Claro!

- Então presta atenção. Pra isso dar certo você não pode deixar nenhuma brecha. Em primeiro lugar

você tem que contar alguns detalhes íntimos dela pra ele. Coisas que só quem já foi pra cama com

ela saberia. Você já foi, né?

- Já. – ele admitiu a contragosto.

- Ótimo. Em segundo lugar – continuei – você tem que encontrar algum momento em que a Kelly

esteja sozinha. Pode ser em casa. Mas tem que ser um momento longo. Tipo, umas duas horas. E é nesse espaço de tempo que o nosso francês vai para a “cama” com ela. Assim ela não vai ter como alegar que estava em casa, já que não vai ter quem prove.

- Tô gostando. Continua. – ele falou empolgado.

- E em terceiro lugar vem o mais importante: você tem que ameaçar o francês.

- Quê? Por quê? – perguntou assustado.

- Pra ele não dar com a língua nos dentes.

Ele me encarou impressionado.

- Você já fez isso antes?

- Isso o quê?

- Essa vingança.

- Claro que não. É só que eu penso rápido.

- Ah.

- E então. Ajudei?

Ele ficou sério por uns instantes, provavelmente pensando em como colocar tudo em prática e depois

~ 63 ~

sorriu.

- Muito. – e para minha surpresa ele se inclinou e me beijou no rosto. – Obrigada, maninha.

Maninha? Que maninha o quê!

- Ah! E você bolou isso sozinho, viu? – eu falei quando ele se afastou.

Ele parou no corredor a caminho do quarto.

- Fechado!

Entrei no quarto novamente, trancando a porta e me virei para olhar o amor da minha vida.

Ele continuava sentado no mesmo lugar e tinha um sorriso estranho no rosto.

- Que foi? – perguntei me aproximando.

- Eu não sei se reclamo com você ou aplaudo pela sua incrível capacidade de planejar algo tão rápido.

Eu tive que rir. Ele me puxou para mais perto e me abraçou pela cintura, seu rosto apoiado na minha barriga.

- Se você ouvir uns barulhinhos estranhos aí dentro é só a digestão, viu?

Ele riu e me apertou mais.

- Eu te amo, Suzannah. – sua voz era suave e carinhosa.

- Também te amo.

Eu bocejei. Era natural eu estar tão cansada depois dessa tarde incrível.

Minha nossa! Ainda não eram nem oito horas e, no entanto, tantas coisas aconteceram nesse curto espaço de tempo. Primeiro a descoberta de que eu teria horas sozinha com Jesse. Depois a tarde maravilhosa de prazer. E depois a surpreendente declaração. Jesse me amava. Tanto quanto eu o amo. Eu não poderia estar mais feliz. Eu não poderia ser mais feliz. Bem, talvez se Jesse fosse humano. Mas eu não me permiti pensar nisso agora. Me deixei ser conduzida para a cama.

Jesse tirou meu roupão com delicadeza e meu corpo respondeu ao seu toque. Mas ele apenas fez com que eu me deitasse se juntando a mim depois de tirar a própria roupa. Cobriu nossos corpos com o lençol e me puxou para o seu peito. E eu dormi ali, aconchegada ao homem mais perfeito do mundo. O homem que eu amava e que me amava também. E nada mais importava.

~ 64 ~

CAPÍTULO

10

O final de semana seguinte a essa sexta feira maravilhosa foi tranqüilo. Cee Cee e Adam vieram

passar o sábado comigo – Jesse não ficou dessa vez, mas apenas para nos deixar mais a vontade –

e no domingo eu fui fazer compras com minha mãe. Fazia tempo que não saíamos juntas e eu me diverti bastante.

Então chegou a segunda feira. Mais uma semana de aulas insuportavelmente chatas com professores metidos a besta que não sabiam fazer outra coisa que não reclamar e passar trabalho atrás de trabalho. Mas tinha a vantagem que agora eu teria a escola só para mim. Digo, sem fantasmas. A única coisa que aconteceu de diferente – e bom – naquele dia foi a completa e total humilhação de Kelly durante o horário do almoço.

Eu estava sentada numa mesa com Cee Cee e Adam quando eu vi Jake passando por mim e deu uma leve piscadela na minha direção. Nossa, ele já vai por em prática o plano? Garoto rápido esse. Ele sumiu por alguns minutos voltando com a maior cara de quem ia aprontar alguma e sentou numa mesa perto da minha. Eu podia notar que ele estava fazendo um enorme esforço para não rir, seu rosto contraído numa careta estranha. Essa eu não ia perder por nada. Parei de comer e procurei Kelly com os olhos. Ela estava sentada a apenas duas mesas à minha esquerda junto com as amiguinhas inseparáveis dela. Então eu ouvi o grito:

- Kelly, meu amor, nem me esperou para almoçar.

A voz vinha saindo do interior do colégio seguida de um garoto com pinta de galã. Bem, eu não

chamaria exatamente de galã. Mas ele estava com uma rosa vermelha na mão, o que podia dar essa

impressão.

Henri. Ele era um sujeito bem peculiar. Não é que ele fosse feio. Na verdade ele tinha tudo pra ser bonito. Seu rosto era bem definido, mas um tanto infantil, sua pele era levemente bronzeada e seus cabelos pretos eram lisos. O problema era que ele usava tanto gel para deixá-los no lugar que quando o sol batia na sua cabeça, mais parecia uma bola de bilhar. E ele usava uns óculos tão feios que escondia toda a beleza do seu rosto. E isso sem falar da sua roupa. Ele usava uma camisa horrorosa xadrez de amarelo com azul e vermelho e um colete cinza por cima. Sério! Um colete! Ah,

e ainda tinha a sua calça jeans que de tão curta deixava sua meia branca visível. E para fechar o pacote ele usava sapato marrom caramelo social. Credo! Nerd!

Epa. Peraí. Eu já vi esse cara antes. Quando ele se aproximou mais eu o reconheci. Não o conhecia

pessoalmente, é claro, mas já tinha visto aquela figura na escola. Mas ele estava diferente. Estava

mais

nerd. Olhei para Jake e ele sorria satisfeito. Minha nossa! Ele aprende rápido. Além de

planejar tudo em tempo recorde ele ainda deixou aquela criatura ainda mais nerd do que antes.

Pelo visto ele estava com mais raiva da Kelly do que eu pensei. Tenho que me lembrar de nunca irritá-lo.

Kelly e suas groupies olhavam abismadas para a aparição. Aliás, todo pátio olhava para a cena. Talvez não pela aparência medonha de Henri, mas pelas suas palavras. Ele se aproximou mais da “vítima” e lhe ofereceu a rosa. Ela com certeza ainda estava em choque porque aceitou o presente.

- Meu docinho, que coisa feia. Você prometeu que almoçaríamos juntos hoje. – ele tinha um leve sotaque deixando tudo ainda mais hilário.

~ 65 ~

- Hein? – foi só o que ela conseguiu dizer.

Ele riu gracioso e passou a mão nos seus cabelos loiros oxigenados. Aí a ficha caiu.

Kelly se levantou de supetão e o olhou furiosa jogando a rosa no chão.

- Que merda é essa?

- Por que você jogou a rosa no chão, meu docinho? – ele perguntou com fingida mágoa. Bem, fingida pra mim que sabia a história, mas ele interpretava muito bem.

- Que merda é essa, seu nerd?

- Ah, ontem você não me chamou de nerd.

- Quê?

- Como era mesmo que você me chamava? - ele tocou com o indicador no queixo como se estivesse pensando. – Ah, sim! Francês gostoso.

Ai meu Deus. Sabia que devia ter ido ao banheiro antes do almoço. Muita água na bexiga, muita água mesmo! Mas daqui eu não saio, daqui ninguém me tira. Eu fazia nas calças, mas não perdia essa cena por nada!

- Quê? – ela perguntou novamente, sua voz saindo esganiçada.

- Não vai me dizer que você sofre de amnésia e não lembra de ontem?

- Do que é que você tá falando, seu idiota?

- Da nossa tarde maravilhosa, meu docinho.

Kelly olhou aparvalhada para o sorridente Henri. O diálogo parecia um jogo de ping-pong, todos olhando de um para o outro sem falar nada. Estava um silêncio sinistro no pátio. Quem estava mais afastado da dupla já se levantava para se aproximar e ouvir tudo nos mínimos detalhes.

– Adam falou, mas foi interrompido por uma Cee Cee

que sorria de orelha a orelha, seu rosto vermelho de excitação. Era a repórter em ação ouvindo a notícia bombástica.

- Meu Deus, eu não acredito que Kelly trans

- Shhh

eu quero ouvir.

Se ela não publicasse essa fofoca no jornal da escola eu não me chamava Suzannah Simon!

- Você bebeu ácido sulfúrico, foi?

- Bem, se você vai continuar se fazendo de desmemoriada, eu faço questão de refrescar sua memória. – e para alegria geral da nação – tudo bem que foi só dos alunos mesmo – ele a puxou e beijou sua boca coberta por um batom vermelho berrante.

Nunca em toda minha vida eu havia visto um CDF com tanta atitude. Das duas uma: ou ele era um galante nato e o “pedido” do Jake só fez despertar esse lado nele, ou Jake pagou muito bem por aquilo. Pessoalmente, eu acreditava mais na segunda hipótese. Era demais para a minha cabeça imaginar que um nerd poderia ser conquistador. Ia contra tudo que eu aprendi nesses dezesseis anos.

Kelly o empurrou com força fazendo com que ele cambaleasse para trás. Os lábios dos dois estava borrado pelo batom dela.

~ 66 ~

- Seu

seu

IDIOTA! – ela gritou tão alto que doeu nos meus ouvidos.

- Eu sei que você gostou, meu docinho. – o cara não perdia a pose com nada.

- Pára

de

me

chamar

de

- Ontem você gostou!

docinho! – ela continuava gritando ressaltando cada palavra.

- Não teve ontem, seu imbecil. – e mais gritos – Eu nem te conheço!

- Ok, Kelly – o que era isso? Raiva? – Agora você está começando a me irritar. – era raiva sim.

Fingida, mas era – Se você tem vergonha de mim é só falar. Não precisa ficar fingindo que não lembra de nada. Mas eu nunca vou esquecer da tarde maravilhosa que tivemos ontem.

- Kelly, você dormiu mesmo com esse cara? – uma amiga dela que eu não fazia idéia de como se chamava perguntou olhando para Henri com desdém.

- Claro que não!

- Pode negar o quanto quiser, meu docinho, mas nunca mudará o que sinto por você.

Rá. Jake achou a melhor pessoa sem dúvidas. Essa vingança estava saindo melhor que a encomenda. Kelly soltou um novo grito e seu rosto ficou vermelho do esforço. Tive que tampar os ouvidos.

- Pára de me chamar de docinho, mongol! – ela repetiu.

- Eu paro se você admitir que gostou da nossa tarde.

- Isso nunca aconteceu! – agora ela não falava mais com Henri. Ela se dirigia ao público que assistia tudo com atenção. – Ele deve ter sonhado com isso. É. Com certeza. – podia notar um leve tom de desespero na sua voz. – É normal essas aberrações terem esse tipo de sonho comigo.

- Kelly, meu docinho – ele se aproximou mais dela e baixou o tom de voz, mas ainda mantendo alto o

suficiente para que eu escutasse. Se bem que com o silêncio que fazia ali eu ouviria até uma agulha caindo. – Se eu tivesse mesmo sonhado eu saberia que você tem duas pintas lindas no seu seio esquerdo?

Kelly congelou no local completamente sem reação.

- Kelly, minha nossa – a mesma amiga falou numa voz estridente fazendo com que todos ouvissem –, você tem mesmo essas pintas!

- Cala a boca, Jessica. – Kelly gritou transtornada.

Ok. O nome da amiga – da onça – é Jessica. Agora eu sei.

- Então foi por isso que você não quis sair com a gente ontem? Por causa dele? – outra amiga perguntou, com o mesmo olhar de desdém.

Já estava começando a ficar com pena dele.

- Claro que não sua imbecil. – Eu não chamo minhas amigas de imbecil. Tudo bem que eu não tenho

ah, tenho a Cee Cee agora, e eu não chamo ela de imbecil. Não com esse tom. – Eu

amigas mas

fiquei em casa lendo.

- Ah, isso é verdade – Henri comentou com um sorriso no rosto – Ela estava lendo quando eu

~ 67 ~

cheguei. Só não digo o que era porque tem menores de idade no recinto.

Ai meu santinho. Será que seria muito humilhante se eu me levantasse com a roupa molhada? Acho

que sim, né? Melhor me segurar mais um pouquinho. Adam e Cee Cee e toda a escola ria tanto agora que mal dava para escutar os gritos da louca.

- Nossa, Kelly. Nunca imaginei que seu gosto tinha caído tanto. – dessa vez quem falou foi um dos jogadores de futebol que estava sentado na mesa de Brad. – Você costumava escolher melhor seus parceiros sexuais.

- É mentira! É mentira dele. – agora seu desespero era completamente óbvio. Ela gesticulava freneticamente e sua voz tremia. – Por que vocês estão acreditando nele?

- Por que tá bem óbvio que ele tá contando a verdade! – alguém falou mais ao fundo. Não conseguia ver quem era.

Kelly agora estava tão desesperada que só não arrancava os cabelos porque ela prezava muito sua aparência. Ela começou a tremer dominada pela raiva e olhava ao redor procurando algum apoio. Mas é claro que esse apoio não veio. Nem mesmo das amigas dela.

- Quem diria: Kelly Prescott indo para a cama com Henri. – que bom que alguém ali sabia o nome dele.

-

Isso vai entrar para a história.

-

Nem tudo está perdido nesse mundo.

-

Cara! Você é meu ídolo.

E

os comentários continuaram por muito tempo, mesmo depois que Kelly saiu chorando em direção

ao banheiro das meninas. E gritando é claro.

Olhei para Jake que continuava na mesa dele. Ele ria tanto quanto todo mundo ou mais. Acho que mais, já que ele tinha um interesse pessoal naquilo tudo. E eu podia ver que ele estava mais que satisfeito.

Afora aquilo, o resto da semana foi normal. Kelly continuava sendo motivo de chacota na escola, ainda mais depois que Cee Cee publicou um artigo particularmente interessante sobre a união de classes sociais distintas. E já rolava até um bolão para adivinhar quando Kelly pediria transferência. Mas eu não achava que isso aconteceria. Kelly era orgulhosa demais para se dar por vencida. Mas na quinta feira eu ouvi dizer que o administrador do bolão já estava com mais de dois mil no bolso.

E foi nesse dia que chegou uma nova aluna na escola. Cee Cee que tinha a segunda aula do dia

comigo, foi logo me pondo a par das novidades.

- Já viu a aluna nova? – ela perguntou num sussurro quando o professor começou a passar o assunto.

- Não. – respondi no mesmo tom.

- Eu já. Acabei de ter aula com ela. Garota estranha.

- Estranha por quê? – Cee Cee chamando alguém de estranha? Que moral ela tinha para isso?

- Toda de preto. Parece até que está de luto.

- Talvez ela esteja.

- Não. Ela se apresentou. O nome dela é Gina e ela morava em New York. – ela deu uma pausa

~ 68 ~

pensando a respeito - Talvez isso explique as roupas. Aquele povo de lá não gira bem. E ela disse que veio para cá com a família porque o pai dela foi transferido.

- Ah.

- E tem mais, ela não parava quieta na cadeira um só instante. Ficava se mexendo o tempo todo como se tivesse com prego no assento ou sei lá o quê.

Voltamos a prestar atenção na aula, ou melhor, tentamos. O assunto era tão chato que logo eu me peguei sonhando acordada com meu lindo fantasminha.

A aula acabou rápida e eu fui em direção a minha próxima aula. Matemática. Saco! Sentei no meu

lugar de sempre no fundo da sala e abri meu livro, distraída.

- Pessoal – ouvi a voz do professor na frente da sala –, hoje temos uma nova aluna conosco.

Ergui minha vista curiosa como todos ali. Toda de preto naquele calor infernal? Realmente ela era estranha. Mas também era muito bonita. Devia ter cerca de 1,80m, seus cabelos cacheados cor de cobre. Sua pele era de um tom café-com-leite e tinha um brinco no nariz.

- Dêem as boas vindas à Gina. – o professor pediu.

Ouviram-se alguns leves desejos de boas vindas, nada muito motivador.

- Nossa. Que povinho fraco. – ela sussurrou antes de sentar na cadeira que o professor indicara, duas cadeiras a frente da minha na fileira ao lado.

Eu ri baixinho com o comentário pensando que poderia me dar muito bem com ela. Mas esse pensamente logo se provou errado quando eu vi que ela não estava sozinha. Uma mulher estava parada do seu lado flutuando alguns centímetros sobre o chão. Uma pessoa que trazia um fantasma para a minha escola recém dedetizada não poderia ser boa.

Mas agora eu entendia o que a Cee Cee disse sobre a garota ficar se mexendo na cadeira o tempo todo. Mas não era por causa de pregos. Os humanos normais podem não ver os fantasmas, mas não era difícil sentir o calafrio quando algum deles atravessava seu corpo. E era exatamente isso que o fantasma da mulher estava fazendo. De cinco em cinco minutos, mais ou menos, ela fazia com que seu braço entrasse na cabeça da assombrada ou nas costas.

Queria fazer com que ela parasse com aquilo, mas não era o momento. Iria esperar até a aula terminar, puxaria a dita cuja para um canto e trataria de fazer com que ela seguisse logo seu caminho para que eu pudesse voltar a minha calmaria.

E foi o que eu fiz. Assim que terminou a aula eu me levantei fazendo o máximo de barulho possível

para atrair a atenção do fantasma. E assim que ela olhou na minha direção eu a encarei por um

tempo para que ela percebesse que eu podia vê-la. Ela ficou surpresa é claro. Eu passei em direção

a porta tomando cuidado para não esbarrar nela por acidente. Olhei novamente nos seus olhos indicando que ela me seguisse.

Entrei numa sala vazia e esperei ela chegar. Assim que ela entrou atravessando a porta eu fui logo falando.

- Isso que você fez durante a aula foi muito errado. – repreendi.

- Então você pode mesmo me ver. – ela era muito bonita. E agora, olhando-a tão perto podia ver que era jovem também. Deveria ter a minha idade. Seus cabelos loiros esvoaçavam por cima do seu vestido branco.

- Parece bem óbvio não?

~ 69 ~

- Como é seu nome?

- Pra quê você quer saber meu nome?

- Gosto de saber com quem estou falando. O meu é Stephanie, a propósito.

Ai que saco. Ainda tinha que bater papo com fantasmas?

-

Suzannah.

-

Prazer, Suzannah. – sua voz era meiga.

-

Então, o que você quer?

-

Vai logo assim? No seco mesmo? – ela parecia ressentida com minha grosseria.

-

Quê?

-

Sei lá

nem pra perguntar como eu morri.

E

isso lá me interessava.

-

Desculpa, mas eu não costumo fazer amizade com gente morta. – apenas com uma exceção.

Mas isso não vinha ao caso.

- Epa. Magoou.

- Falei alguma mentira?

- Bem

não.

- Então?

Mas ela continuou calada. Tudo bem. Não tinha muito tempo mesmo e se fosse o único jeito de fazê-

la falar, não importava.

- Ok. Me diga então, Stephanie, como você morreu? Mas por favor, quero a versão mais resumida possível porque ainda tenho que ir para a aula.

Mas ela não teve tempo de contar nenhuma das versões porque nesse momento a porta se abriu e ninguém menos que Gina entrou por ela.

- Oi. – ela falou fechando a porta.

- Oi.

- Gina. – ela estendeu a mão num cumprimento.

- Suzannah. – apertei a sua mão desejando que ela vazasse logo dali para eu me livrar daquela garota fantasma.

Ela soltou minha mão e me olhou curiosa.

- Com que você estava falando? – perguntou.

- Eu? – franzi a testa num gesto displicente. – Ninguém.

~ 70 ~

- Pensei ter ouvido a sua voz.

- Impressão sua. – Vaza, sua curiosa!

- Ela estava falando sim. – Stephanie falou sorridente – Estava falando comigo.

Gina me olhou com seus olhos brilhantes e sorriu.

- Vejo que já conheceu Stephanie.

~ 71 ~

CAPÍTULO

11

Meu corpo enrijeceu. Não sabia o que dizer.

- É, já nos conhecemos sim. – Stephanie se adiantou aproximando-se mais da garota. – E ela não foi muito simpática comigo.

- Você

– finalmente encontrei minha voz – Você pode vê-la?

Pergunta estúpida, eu sei. Mas o que eu podia fazer? Ainda estava perplexa por encontrar alguém que também via fantasmas.

- Sim. Meio óbvio, não? – ela respondeu.

É. Demais. Idiota.

- É, mas é só que eu nunca tinha conhecido alguém igual a mim e errada nessa história.

- O que foi? – ela perguntou estranhando meu silêncio.

- O que é você?

Ela pareceu ofendida com minha pergunta.

– espera aí. Tinha alguma coisa

- Isso lá é coisa que se pergunte? O que eu sou? Pareço um bicho ou algo do tipo?

Algo assim, eu quis responder. Mas tratei de ser mais educada. Queria respostas e não podia deixá- la irritada.

- Você não é uma Mediadora. – não foi uma pergunta.

- Claro que sou!

- Não é, não! – insisti.

- Sou!

- Não é!

- Sou!

Ok. Parecíamos duas crianças birrentas, mas eu tinha certeza do que dizia. Sim, porque eu sabia que ela não poderia ser uma Mediadora. Tudo bem que ela via e falava com fantasmas assim como eu, mas tinha uma pequena diferença entre nós. Pequena, mas fundamental.

- Gente, eu acho que isso não vai levar a lugar nenhum. – Stephanie nos interrompeu. Ela estava sentada na beira da mesa do professor nos encarando divertida.

Ali estava a diferença.

~ 72 ~

- Stephanie – chamei -, vem aqui, por favor.

Ela se ergueu e veio até mim.

- O que você estava fazendo durante a aula? – perguntei para mostrar meu ponto de vista.

- Você está falando da minha brincadeira com ela? – Stephanie perguntou apontando para Gina. – Não era nada demais. Só uma coisinha para passar o tempo.

- Brincadeira irritante essa. – Gina retrucou.

- Ah, você gostava disso antes.

- Conjugou bem o verbo, Stephanie. Gostava!

- Certo, certo – interrompi. – Faça isso de novo, por favor.

- Quê? – Gina perguntou me olhando irritada. – Eu não gosto disso não. Dá arrepios. Ela que faça em você!

Mas Stephanie já estava se adiantando, rindo maliciosa e passou a mão por dentro do corpo de Gina, na altura da sua cintura. Ela deu um pulo para trás, bufando.

- Eu já disse pra você parar com isso, Steph. Não tem mais graça.

- Agora faça o mesmo comigo. – pedi encarando a fantasma.

- É festa, é? – ela perguntou, mas atendeu o meu pedido.

A diferença foi que sua mão não me atravessou, é claro! Fantasmas não me atravessavam como atravessavam humanos comuns. Por isso eu era uma mediadora. E ela não. Exatamente como eu pensei.

- Ai meu Deus! – Gina sussurrou antes que eu tivesse chance de me gabar. – Você é uma

- Mediadora! – eu a interrompi com o queixo erguido.

- Não.

- Hein?! – perguntei confusa. – Você não viu minha prova, não?

- Mediadores não podem tocar em fantasmas, Suzannah.

- Do que você está falando?

- Eu sou uma Mediadora. Mas você

mentira. Eu pensei que isso não existia.

– ela fez uma pausa me analisando – Eu pensei que fosse

Sua voz era baixa como se estivesse falando para si.

- Isso o quê?

- Mas só pode ser isso mesmo. Não tem outra explicação

- Será que você poderia ser mais específica? – eu já estava irritada com isso.

- Você é uma Deslocadora. – ela ria num misto de incredulidade e veneração.

~ 73 ~

- Uma o quê?

- Uma deslocadora. – ela frisou bem a palavra. – Você não sabe mesmo o que é isso, não é?

Minha cara de espanto deve ter denunciado meu completo desconhecimento do assunto. Eu apenas meneei com a cabeça.

- Há quanto tempo você vê fantasmas?

- Desde sempre.

- E quem te falou que você era uma Mediadora?

- Meu pai.

- Ele é um Mediador?

- Não, ele

– eu pensei no meu pai e um sentimento forte de saudade me atingiu. – ele está morto.

- Ah

– ela ficou meio sem graça por ter tocado no assunto. – Sinto muito.

- Tudo bem

já faz muito tempo.

- Bem

menos ofensiva. Não funcionou.

enfim

ele estava errado. Com todo o respeito. – ela acrescentou na tentativa de soar

Ela não poderia vir difamando meu pai dessa forma. Não que ela tenha falado mal dele. Não diretamente. Mas ela disse que ele mentiu, então dá na mesma.

- Meu pai não brincaria com uma história dessas. Ele

- Eu não estou dizendo que ele mentiu. – ela se adiantou. – O mais provável é que ele tenha recebido essa informação de algum fantasma. E os fantasmas só conhecem os Mediadores.

- Como assim?

- Um fantasma que encontra um Deslocador não volta pra contar a história.

- Opa. – Stephanie entrou na conversa depois de passar o tempo todo apenas nos observando. – Acho que essa é minha deixa.

- Relaxa, Steph. Ela nem sabe como fazer isso.

- Fazer o quê? – do que é que ela estava falando? Que papo é esse de Deslocador?

- Eu não vou arriscar. Gosto muito desse mundo. – e sumiu.

- Medrosa. – Gina riu.

- Vai me explicar? – eu estava impaciente.

- Não se importa de perder a aula?

Só agora me dei conta do silêncio nos corredores. A aula já tinha começado novamente e eu estava atrasada, mas não me importei nem um pouco com isso. Aquilo era bem mais importante. Era a minha vida e o que eu era.

- Não.

~ 74 ~

Ela fez sinal para que eu me sentasse em uma das cadeiras e puxou outra movendo-a de forma que ficássemos frente a frente.

- Um Deslocador tem a capacidade de transportar um fantasma entre diferentes mundos. Inclusive o mundo dos mortos.

- Mundo dos mortos? Isso é o quê? O Céu? O inferno?

- Não. É mais como um limbo. Um local onde almas são encaminhadas para decidir o destino final. Seja ele qual for.

- E como é lá?

- Eu não sei. – ela deu de ombros, indiferente. – Nunca fui. Só sei que é uma espécie de sala cheia de portas.

- E como você sabe isso? Por que com certeza não foi um fantasma que te contou.

- Não, não foi. – ela respirou fundo antes de continuar – Sabe, nem todos nascem com esse dom. Eu, por exemplo, passei a ver fantasmas depois que sofri um acidente de carro quando eu tinha doze anos. Eu bati com a cabeça e fiquei em coma por seis semanas. Quando acordei a Steph estava do meu lado.

Eu franzi a testa totalmente pasma com essa revelação.

- Ela é minha irmã. – ela esclareceu com pesar. – Estava no carro comigo.

- sinto muito. Mesmo.

Eu

- mas continuando a história – sua voz voltou ao normal – Eu fiquei super confusa por, de

repente, estar vendo um monte de fantasmas na minha frente e Stephanie me ajudou nisso. Ela falou com outros fantasmas e acabou descobrindo que tinha outra pessoa em New York que também era assim. Eu o procurei e ele me explicou tudo sobre Mediadores e Deslocadores. O avô dele era um grande estudioso do assunto e passou todos os conhecimentos para o neto antes de morrer.

É

- Esse seu amigo é um Deslocador?

- Não. Mediador. Mas o avô dele disse que conhecia alguém que conheceu um a um tempo. Mas eu não acreditei muito nisso. Paul acreditava apesar de nunca ter conhecido nenhum.

- Paul?

- É o cara de New York.

- Ah

e

o que ele falou sobre os

Deslocadores?

- Ele disse que eram parecidos com nós, Mediadores, com a diferença de poder tocar os fantasmas e se deslocar entre os mundos.

- E como isso funciona?

- Eu não sei bem. Você sabe, eu

não acreditei muito na história.

- Por que não?

- Ah, sei lá deles

– ela deu de ombros – Paul nunca tinha visto e nenhum fantasma sabia da existência

~ 75 ~

Eu tive que rir com essa.

- Ninguém acredita que fantasmas existem e ainda assim com uma sobrancelha erguida.

– deixei a frase pela metade e a encarei

Pra alguém que vê fantasmas ela era bem cética com relação ao assunto.

- É

eu sei.

-

deslocadores?

E esse

eu

fiz uma

- Claro! Ele sabe tudo.

pausa tentando lembrar o nome – Paul

- Como eu faço pra falar com ele?

sabe mais a respeito dos

Tinha milhares de perguntas e precisava das respostas o quanto antes. Eu passei toda minha vida achando que era uma coisa e de uma hora para outra descobria que eu estivera errada a respeito.

- Eu tenho o telefone dele. – Gina riu e se levantou – Ele vai ficar super empolgado quando te conhecer.

Eu anotei o número que ela me deu. Minha vontade era correr para casa e ligar logo para ele, mas eu ainda tinha aulas para assistir. Nós duas esperamos o corredor encher de alunos novamente e saímos da sala nos misturando à multidão.

- O que deu em você? – Cee Cee perguntou em determinado momento. Já estávamos na última aula

do dia e eu estava tão ansiosa para chegar logo em casa que nem reparei que estava balançando a perna sem parar num gesto nervoso.

- Não é nada. – respondi rápido controlando o movimento involuntário da minha perna.

Cee Cee continuou me olhando pelo canto do olho, mas não disse mais nada.

Quando a aula finalmente acabou eu saí correndo da sala depois de dar um rápido “até amanhã” para Cee Cee e Adam e fui para o estacionamento esperar por Brad e Jake. Eu suspirei aliviada quando eles finalmente apareceram.

- Dá pra ir mais rápido, Jake? – perguntei sentada no banco de trás do carro, o encarando pelo retrovisor.

- Pra quê a pressa?

- Eu só quero chegar logo em casa.

- Pra quê? – ele me olhou desconfiado por cima do ombro.

- Tenho umas coisas pra resolver. Urgentes.

- E isso é da minha conta? Já estamos no limite da velocidade e eu não quero ser multado.

Essa era a parte ruim de se morar numa cidade cheia de turistas. O limite de velocidade era muito baixo para pessoas com pressa. O jeito era apelar para o ponto fraco dos homens.

- Tudo bem, só não reclama se eu manchar o banco do seu carro.

- Manchar com o quê? – ele perguntou olhando para mim pelo retrovisor.

~ 76 ~

- Acho que fiquei menstruada.

Isso foi o suficiente para fazer ele pisar fundo no acelerador sem se importar com os avisos de limite de velocidade. Com certeza a multa seria bem mais barata do que a limpeza do banco.

- Sai logo do meu carro. – ele falou ríspido assim que parou o carro em frente a casa.

Subi correndo as escadas em direção ao meu quarto e tranquei a porta assim que entrei. Jesse estava deitado na minha cama, relaxando. Sua camisa estava um pouco aberta revelando parte do seu peito magnífico. Eu parei para observá-lo por um momento. Era incrível como cada vez que eu o via meu coração disparava tanto que parecia querer sair pela boca e eu esquecia completamente de como se respirava.

- Bem vinda de volta, hermosa. – ele levantou da cama e veio na minha direção com um sorriso perfeito no rosto.

- Oi. – eu sabia que estava com um sorriso completamente idiota, mas não pude deixar de sorrir.

Ele me alcançou e me envolveu pela cintura com seus braços fortes.

- Estava com saudades. – sua voz era apenas um sussurro, seus lábios roçando no meu pescoço.

- Eu também.

Tudo bem que nós tínhamos nos visto hoje pela manhã, mas eu estava mesmo com saudades. E quando ele me beijou eu esqueci completamente de todo o resto. Dane-se os mediadores e deslocadores. Dane-se Paul e todo o seu estúpido conhecimento sobre o que eu era. Nada mais importava naquele momento. Tudo que eu precisava estava bem na minha frente, com o corpo colado ao meu. Suas mãos deslizaram hábeis por baixo da minha blusa tocando minha pele nua. Eu estremeci quando uma mão alcançou meu seio por cima do sutiã.

- Era por isso que você estava com tanta pressa? – ele perguntou com sua voz rouca de encontro aos meus lábios.

- Quê? – eu não estava muito em condições de raciocinar naquele momento com sua mão acariciando sensualmente meu seio de encontro à renda.

- Você parecia com pressa quando chegou.

Eu? Com pressa? Por quê? Então todo o meu dia maluco voltou à minha mente. Droga! Por que Jesse tinha que mencionar isso logo agora? Quebrou o clima.

- Que droga!

- O que houve? – ele se afastou um pouco para me olhar apreensivo.

- É que aconteceu uma coisa hoje na escola. – e eu contei tudo para ele. Falei de Stephanie, Gina e

toda a história que ela me falou sobre os mediadores e deslocadores. – E esse Paul – continuei. Já

estávamos sentados no banco da janela. – sabe muito mais. Eu vou ligar para ele pra que ele possa me esclarecer algumas coisas.

Fui até a extensão que ficava do lado da minha cama e tirei o fone do gancho. Depois de me certificar que não havia ninguém na linha, disquei o número que Gina me deu e esperei que alguém atendesse. Uma voz feminina atendeu depois de três toques.

- Residência dos Slater.

~ 77 ~

Opa. Que coisa mais formal.

- Boa tarde. Gostaria de falar com Paul Slater.

- Quem deseja?

- Suzannah Simon – achei melhor falar o sobrenome também pra tentar me manter no mesmo nível – , mas ele não me conhece.

- Só um momento, senhorita Simon.

Nossa. Que gentinha mais formal. Hello! Estamos no século XXI.

O telefone ficou mudo e depois de alguns instantes uma voz masculina atendeu.

- Alô?

- Paul Slater? – só pra conferir. Não podia arriscar mencionar o assunto para a pessoa errada.

- Sim. – ele confirmou. – Suzan Simon, certo?

- Suzannah – eu o corrigi.

- Certo. Em que posso ajudá-la? – sua voz era muito bonita e educada do outro lado da linha e eu também percebi certo tom de curiosidade.

- Eu peguei seu número com Gina, espero que não se incomode.

- Gina? – sua voz mudou um pouco, passando de curiosa para surpresa – Gina do Brooklin?

- Sim. Nós estudamos juntas. Quer dizer, nós nos conhecemos hoje. Ela acabou de se mudar para a Califórnia.

- Ouvi falar.

Hum. De quem será que ele ouviu isso?

- Pois é. – chega de enrolação, Suze. Seja mais direta. – E eu também conheci outra pessoa que acho que você conhece.

- Mesmo? Quem?

- A irmã dela, Stephanie. – mais direta impossível.

Um silêncio longo se seguiu depois das minhas palavras. Jesse estava sentado ao lado da janela e me encarava com a sobrancelha erguida. A mesma com a cicatriz sexy. Os segundos passaram e Paul continuava calado.

- Você ainda está aí? – mas eu sabia que ele estava porque podia ouvir sua respiração do outro lado da linha.

- Sim. – mais silêncio. – Eu acho que não entendi bem o que você falou. – sua voz era seca.

Tudo bem então. Vou ser um pouco mais direta.

- Acho que entendeu. Mas eu vou falar novamente: eu conheci Stephanie essa manhã. Ela é bem

simpática apesar de ter o costume de fazer brincadeiras ‘assombrosas’ com a irmã durante a aula. Tirou toda a minha concentração.

~ 78 ~

- A irmã de Gina está morta. – mesmo tom de voz.

- Eu sei.

- Você está querendo me dizer que você falou com uma pessoa morta? – agora seu tom era sarcástico.

- Sim.

Eu não me importava com o jeito que ele estava me tratando. Eu também agiria da mesma forma se uma desconhecida me ligasse dizendo que via fantasmas.

- Fantasmas não existem, Suzannah.

Certo. Já chega!

- Para um Mediador você é um ótimo ator, Paul.

- Como você

- Gina me falou. Mas fica tranqüilo que eu não vou falar para ninguém. Até porque eu sou igual a

você. Ou melhor

eu pensei que fosse. Até hoje.

- Como assim? – todo o sarcasmo e a dureza tinham sumido da sua voz. Antes que eu pudesse

responder ele falou. – Espera um instante. – Eu ouvi o barulho de passos, seguido do som de uma

porta fechando. – Pronto. Pode falar agora.

- É que eu passei toda a minha vida achando que era uma Mediadora assim como você e Gina e agora eu descobri que posso estar enganada.

- Enganada?