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FUNDAÇÃO MATIAS MACHLINE

RESUMO POR CAPÍTULO:


MENINO DE ENGENHO – JOSÉ LINS DO REGO

MANAUS – AM

Outubro/2017
CIBELLE LIMA PEREIRA NERY nº05

3AT

RESUMO POR CAPÍTULO:


MENINO DE ENGENHO – JOSÉ LINS DO REGO

Este trabalho foi solicitado pela


professora Dayanna Porto da disciplina de
Língua Portuguesa para obtenção parcial
de nota referente ao 4° bimestre.

MANAUS – AM

Outubro/2017
INTRODUÇÃO

Este trabalho, em síntese, tem como objetivo resumir por capítulos, de forma instrutiva,
o romance de estreia de José Lins do Rego, Menino de Engenho (1932). Menino de Engenho,
primeiro livro do ciclo cana-de-açúcar, relata a passagem de tempo do narrador-personagem,
Carlos, após ter enfrentado grandes dificuldades na infância com a morte de sua mãe. Carlos,
com uns quatro anos de idade, é levado para o engenho do seu avô, onde encontra um mundo
novo, diferente de tudo que tinha visto antes. Amizade, contato com a natureza e a iniciação
antecipada da vida sexual, com traços fortes de memorialismo, são relatos marcantes na obra
de José Lins que se encontra resumida por capítulos a seguir.
MENINO DE ENGENHO – JOSÉ LINS DO REGO

 Capítulo Um

O capitulo inicia com o narrador-personagem, ”Carlinhos”, relatando sobre o dia em


que sua mãe, Clarisse, foi assassinada pelo pai quando ele tinha apenas quatro anos. O narrador-
personagem dormia em seu quarto, quando pela manhã acordou com gritos por toda a casa. O
quarto de seu pai estava cheia de pessoas que não conhecia e quando Carlos se aproxima da
multidão, encontra sua mãe no chão e seu pai caído sobre ela. O garoto foi ao encontro de sua
mãe morta, porém o impediram de fazer tal ação. Pediram que todos saíssem da casa,
permanecendo somente a polícia. Levaram o garoto para o fundo da casa, onde todos estavam
comentando que seu pai havia matado sua mãe. O menino chorava e só tinha o desejo de ir para
junto de sua mãe para abraça-la.

À tarde, o criado lia as notícias da morte no jornal e, por um momento, Carlos não mais
relacionava com seus pais, porém ao ver na página do jornal sua mãe morta, jogada no chão,
começou a chorar.

À noite, o menino sentiu de verdade a ausência de sua mãe, pois estava sozinho e o sono
demorava a chegar. Carlos começou a chorar baixinho, como se estivesse com medo de chorar.

 Capítulo Dois

Carlos, narrador-personagem, descreve seu pai como um homem alto, bonito, com olhos
grandes e um bigode preto. O pai era muito carinhoso com o filho, beijava-o, contava história,
fazia os gostos do menino e não se importava quando este era negligente. Relata ainda, que seu
pai discutia muito com sua mãe, e, esta sempre saía aos prantos e soluços. Mas um pouco mais
tarde, lá estavam os dois aos beijos e reconciliados.

O narrador recorda seu pai com saudade e ternura. Carlos o amava, mas só depois
descobre que seu pai era uma pessoa nervosa com um temperamento excitado. Assume que seu
pai tinha o amor de um louco pela esposa. O pai é levado para o presídio pelo crime que cometeu
e o narrador faz uma alusão ao seu futuro, dizendo que dez anos mais tarde o pobre pai morreria
na casa de saúde, liquidado por uma paralisia geral.
 Capítulo Três

O narrador recorda, com ternura e carinho, sua mãe que tão cedo perdeu a vida,
assassinada pelo marido. Lembra-se de sua fisionomia, pequena e com cabelos pretos, da sua
bondade e de sua brandura. Sempre com tom de saudade, relata sobre a postura de sua mãe em
relação aos criados, tratava todos com bondade e todos amavam-na. Era filha de dono de
engenho, mas parecia uma dama nascida para reclusão. O destino lhe fora cruel, morreu vítima
do excesso e violência do homem que tanto amou. Carlos admite que essa morte tão repentina
trouxe para toda a sua vida uma melancolia exacerbada.

 Capítulo Quatro

Carlos irá se mudar para o engenho de seu avô materno, onde espera uma nova fase da
sua vida, diferente da anterior. Seu tio Juca fora lhe buscar para levar ao engenho de trem e este
dizia que seu pai estava louco. O menino se maravilhava com tudo, o trem era uma novidade
para ele, assim como tudo o que estava ao seu redor. Uma mulher se aproxima de Carlos e
pergunta sobre sua mãe, Carlos teve medo e prostrou-se a chorar de saudades da mãe diante da
senhora. Juca o leva para beber alguma coisa e a viagem torna a ser interessante novamente.

Ao chegar ao engenho, observa-se muitas pessoas aguardando sua chegada. Uma moça,
parecida com sua mãe, vai ao seu encontro para abraça-lo e beija-lo. Carlos é levado para
receber a bênção do avô que estava sentando em uma cadeira. Logo depois, conduziram o
menino para um quarto na dependência da casa para lhe apresentar a tia Galdina. Estava lá
também a moça que parecia com sua mãe, tia Maria, e esta se oferece para ser sua nova mãe.

Sua nova mãe diz para Carlos brincar com os moleques na varanda e, de início, apresenta
uma certa resistência de socialização para com os outros meninos. Porém, aos poucos, foram
se apresentando e pela tarde já estabeleciam uma certa intimidade.

No dia seguinte, levaram o menino para tomar leite ao pé da vaca. Ele avista os garotos
com quem havia brincado no dia anterior, porém todos ocupados, fazendo tarefas diárias, como
pastorear o curral e levar algumas latas de leite. Mais tarde, seu tio Juca o leva para dar um
mergulho nas águas frias do Poço das Pedras e o ensina a nadar. O narrador-personagem está
batizado e preparado para a nova vida que se inicia. Quando chega em casa se depara com a
sala de jantar cheia de pessoas para as refeições. Encontrava-se ali não apenas gente da família,
mas outros homens de aspectos humildes, que serviam o seu avô, o senhor de engenho.
 Capítulo Cinco

No início do capitulo, o narrador relata que seu pai e seu avô tinham alguns
desentendimentos e, por isso, sua mãe não ficava no engenho. Carlos é mandado para o engenho
e este fica maravilhado com todo o seu mecanismo. Questiona-se do porquê os meninos
preferiam tanto as maquinas quando o mecanismo do engenho era muito mais interessante. Tio
Juca apresenta todo o processo de fazer açúcar no engenho para o menino e este fica cada vez
mais entusiasmado.

 Capítulo Seis

No decorrer do tempo, o narrador vai se adaptando ao seu novo estilo de vida que
observa ao seu redor, considerando-se o senhor de sua nova vida. Nesta temporada, alguns de
seus primos mais velhos, dois meninos e uma menina, chegavam para passar as férias no
engenho. Descreve algumas de suas aventuras com seus dois primos ousados, como ir aos
banhos proibidos. Tia Maria começa a se preocupar com Carlos, pois tem medo que algo de
ruim possa acontecer com ele nessas aventuras. “Os meninos de Emília já estão acostumados,
você não. De manhã à noite, de pés no chão, solto como um bicho [...]”. Os primos não
paravam e Carlos também não, todos os dias eram cheios de adrenalina e de agitação.

 Capítulo Sete

Neste capítulo Carlos descreve sua tia-avó Sinhazinha como uma velha de uns setenta
anos, com um rosto enrugado e voz áspera que só sabia reclamar. Tia Sinhazinha era casada
com um dos homens mais ricos da região, dr. Quincas, mas não morava com ele desde o início
da união. Dr. Quincas era uma pessoa esquisita. Conta-se que um dia Tia Sinhazinha amanheceu
no engenho do seu pai, amarrada numa carroça junto com uma carta do marido, pedindo que
seu sogro aceitasse sua filha de volta. Tia Sinhazinha tomava conta da casa do meu avô com
bastante autoritarismo e mandava nas negras do serviço doméstico, que a odiavam. Carlos
sempre via Sinhazinha como o tormento da sua meninice. Quando tia Sinhazinha saía para
visitar sua filha, na cidade, tia Maria assumia a direção da casa. Carlos compara as histórias de
rainhas cruéis às da tia Sinhazinha.

 Capítulo Oito

Este capítulo retrata sobre sua prima Lili. O narrador a descreve como magrinha, com
olhos azuis, cabelos louros e pele branca, quase pálida. Possuía a mesma idade que Carlos, era
uma menina tímida e nunca estava presente nas brincadeiras das crianças. Lili era uma criança
doente, qualquer coisa lhe fazia mal. Carlos gostava de ficar com ela, pois era tão terna com
ele. Um dia, amanheceu vomitando preto e morreu. Toda vez que Carlos vê enterro de crianças
lembra de sua priminha, que se afeiçoara tanto a ela.

 Capítulo Nove

Com a morte de Lili, tia Maria aumenta seus cuidados para com Carlos e o restringe,
proibindo a liberdade que tivera antes com seus primos. Tia Maria passava o dia a ensinar o
menino as letras. Carlos enquanto não conseguia se concentrar nos estudos, escutava o rumor
da vida que não lhe deixavam levar, só conseguia pensar na liberdade lá fora. Tia Maria, porém,
não desanimava, sempre estava disposta a ensinar Carlos e vencer a sua desconcentração. O
menino ao invés de se preocupar com os estudos, se atentava para as histórias das costureiras
sobre famílias de outros engenhos. “[...] a outra contava que o senhor de engenho do Poço
Fundo tinha mais de vinte mulheres. Esta conversa me tomava inteiramente, e as letras, que a
solicitude de minha tia procurava enfiar pela minha cabeça, não tinham jeito de vencer tal
aversão [...]”. O que Carlos queria mesmo era a liberdade de seus primos, que com suas
travessuras de menino matavam a cacetada as arribaçãs na beira do rio.

 Capítulo Dez

Coronel Anísio envia um recado para o engenho Santo Rosa, avisando que o cangaceiro
Antônio Silvino irá fazer uma visita de cortesia. A casa toda fica receosa, há uma grande
expectativa, sobretudo por parte dos meninos. À noite chega e o famoso cangaceiro Antônio
Silvino com seus 12 homens também. Na hora do jantar foram todos calados para a mesa, só o
cangaceiro contava histórias. A partir daí, entretanto, Carlos demonstra o seu desencanto. “[...]
Para mim tinha perdido um bocado de prestígio. Eu fazia outro, arrogante e impetuoso, e
aquela fala bamba viera desmanchar em mim a figura de herói[...]”. Achara o cangaceiro
Silvino arrogante, desmanchando sua figura de herói que os meninos do engenho imaginavam.

 Capítulo Onze

De tarde, estavam se preparando para um passeio ao sítio do Seu Lucino, nas


proximidades do engenho. Os meninos na frente e a tia Maria com duas costureiras e uma negra
iam atrás conversando. Pelo caminho, encontrava-se gente que voltava da feira de São Miguel
com seus quilos de carne.
Quando chegam ao sítio, são recebidos com alegria e hospitalidade. Tia Maria
conversava com as mulheres da casa e os meninos já estavam no sítio brincando nas árvores. A
caravana chega ao sítio e são recebidos com a boa hospitalidade sertaneja. À tarde, voltam para
casa, e, os meninos começam a falar sobre assombrações, com medo das almas de outro mundo.

 Capítulo Doze

O narrador relata que a velha Sinhazinha não gostava de ninguém, que já teve algumas
predileções temporárias, mas nada demais. Tia Sinhazinha nunca gostou de Carlos e Carlos
fugia, sempre que podia, de sua proximidade. Um dia, brincando de pião na calçada, Carlos
leva a sua primeira surra pelas mãos da velha Sinhazinha, pois o pião caiu em cima de seu pé.
”[...] bateu-me como se desse num cachorro, trincando os dentes de raiva[...]”. Carlos nunca
tinha apanhado. Quando sua mãe queria lhe reprender, apenas o colocava de castigo em pé ou
sentado num lugar. O menino ficou desolado o dia todo, e à noite, foi dormir pensando em
como se vingaria do malfeito. Queria vê-la despedaçada entre dois e, depois, cortada aos
pedaços na serra do engenho.

 Capítulo Treze

Neste capítulo é retratado sobre a cheia do Paraíba. Há oito dias que relampejavam e o
povo se enchia de alegria ao saber que a cheia estava por vir. Quando a cheia chega devasta
tudo o que vê pela frente, matando animais, destruindo plantações e casas, inundando tudo.

À noite na hora da ceia, seu avô contava episódios da enchente de 75, pois há muitos
anos o Paraíba não repetia essa façanha. Na hora de recolher, ouvia-se um barulho das águas
que estavam crescendo cada vez mais, chegando a ser assustador. A preocupação maior era com
a safra de açúcar do ano que se encontrava na casa de purgar (local em que se branqueia o
açúcar). É enviado uma canoa para verificar o local, chegando lá estava tudo tomado pelas
águas. Seu avô olhava sua safra quase toda perdida, mas não se lastimava, porque via lucro no
rio para suas terras. “– Gosto mais de perder com água do que com o sol[...]”. Ao chegar em
casa para contar sobre a madrugada, deparam-se com gente chorando e sem esperança. Muitas
pessoas vieram se refugiar na casa, porém o negro Salvador havia desaparecido quando
procurava atravessar o riacho da Ponte nadando.

O rio começou a encher de novo e eles decidiram sair de casa em carro de boi para a
caatinga. O carro chegou na casa do velho Amâncio às cinco da manhã. Pela casa viam-se outras
famílias refugiadas compartilhando do mesmo medo. Chegando à noite, eles da casa-grande
dormiram em cama de vara, enquanto algumas das outras famílias ficaram na casa de farinha.

Na manhã seguinte, o rio já estava descendo e os da casa-grande desceram para várzea.


Os meninos queriam ver os estragos da cheia e pelo caminho souberam que haviam encontrado
o corpo do negro Salvador. “[...] Zé Guedes viu uma coisa amarela boiando. Pensou que fosse
uma jaca. Meteu o remo: era a cabeça melada de lama do negro [...]”. Os prejuízos da cheia
foram enormes, havia miséria e tristeza no ar.

 Capítulo Quatorze

Carlos passa a estudar letras na casa do dr. Figueiredo. Dr. Figueiredo tinha uma mulher
morena e bonita, Judite, que fazia as vontades de Carlos. Carlos possuía um sentimento
diferente pela Judite do que sentia pela tia Maria. Judite era quem lhe ensinava e tomava conta.
O menino logo percebeu que Judite apanhava do marido, e Carlos sentia empatia por ela, pois
era tão terna com ele. Queria lhe ajudar, mas não conseguia fazer muito.

Carlos aprendeu as letras do alfabeto com tanto amor, carinho e com o auxílio de dona
Judite. Mais tarde, mandaram Carlos para aula de outro professor, com outros meninos pobres.
Lá Carlos não tinha limites e não brigavam com ele.

 Capítulo Quinze

Carlos possuíra outro mestre, Zé Guedes, com quem aprendeu muita coisa ruim. Zé
Guedes contava suas histórias de amor e dos outros para Carlos sem-vergonhices. Tinha um
linguajar informal, mas Carlos gostava de ouvir o seu bate-boca imundo. As lições de porcaria
não ficavam somente na falácia, mas na prática também. Zé Guedes contava para ele sobre suas
aventuras com animais da fazenda e fazia ali um bom campo de demonstração. Carlos começa
a iniciação sexual com vacas, porcas e cabras. Relata sobre uma vez de uma vaca que morreu
por uma malvadeza de seu primo Silvino. A promiscuidade selvagem do curral cada vez mais
deixava de lado a sua infância.

 Capítulo Dezesseis

O avô de Carlos o leva sempre que pode quando este faz suas visitas de fiscalização nas
terras de seu engenho. Seu avô parava de porta em porta e sempre era recebido por mulheres de
caras de necessidade que respondiam por seus maridos. Outras vezes batiam a porta e ninguém
acudia, pois, toda família estavam trabalhando na enxada. Eram assim as viagens de seu avô,
ninguém deveria tirar nenhuma lenha do seu engenho, que seria o mesmo que arrancar um
pedaço de seu corpo. “[...] Podiam roubar as mandiocas que plantava pelas chãs, mas não lhe
bulissem nas matas [...]” Mandava comprar madeira de outros engenhos para não ter que cortar
do seu.

 Capítulo Dezessete

Neste capítulo é introduzido a ideia de religiosidade no engenho. O narrador relata que


quando havia festa na casa-grande, arrumavam o quarto dos santos que ficava aberto para todo
mundo. Conta que não havia capela no Santa Rosa e ainda que seu avô não era devoto, não ia
às missas e nem se confessava. Tia Maria ensinava os meninos a rezar junto com Carlos e era
o mais próximo de religiosidade que Carlinhos tinha.

No quarto dos santos, havia a imagem do Menino Jesus que encantava, uma de São
Sebastião, outra do anjo Gabriel com a espada no peito de um diabo, São João com um
carneirinho manso, São Severino fardado, outra era um santo comprido com uma caveira na
mão e outra numa santa mulata com uma criança no colo. Fora os dias de festa, o quarto dos
santos vivia fechado.

Não era comum o ato de rezar no engenho, nem mesmo tia Maria o fazia. O povo só se
dedicava a rezar em tempos difíceis, como nos momentos de necessidade e de morte. Carlos só
tivera mais contato com a religião por causa de sua mãe. Quando chega a Semana Santa no
engenho, todos da casa-grande ficam de jejum, comendo uma vez no dia. Às vezes vinha ao
engenho a velha Totonha, que sempre narrava em versos a vida, paixão e morte de Jesus Cristo,
com um tom que deixava todos tristes. O santuário do engenho ficava coberto de preto e as
imagens virada para a parede, como se os santos estivessem com vergonha do mundo. Nessa
semana não se tomava banho de rio, não se judiava de animais e nem de chamar nomes a
ninguém, obedecendo sempre a tradição.

 Capítulo Dezoito

Neste capítulo é relatado a ida de Chico Pereira para o tronco a mando do avô de
Carlinhos. Chico Pereira estava lá, pois estava sendo acusado de ter engravidado a mulata Maria
Pia e este não queria se casar com a suposta vítima. Não havia ninguém no engenho que
estivesse a favor de Chico. Carlinhos, porém, o defendia, achava uma injustiça o que estavam
fazendo. Seu avô irritado com tudo o que estava acontecendo ordenou que buscasse o livro
sagrado, para que a negra jurasse somente a verdade. A mulata, com medo, desmente e fala que
foi Juca que lhe havia feito o mal. Chico Pereira foi solto e Carlinhos ficara feliz por isso. Chico
estava com os pés inchados e não conseguia andar. À noite, na hora do jantar, Juca não
aparecera para comer e José Paulino se queixa.

 Capítulo Dezenove

Do outro lado do rio, havia a estrada de ferro onde passavam os trens. Carlinhos e as
crianças sempre iam à beira da linha para apreciar de perto os trens. Um dia, primo Silvino
combinou em fazer o trem das dez horas tombar, colocando uma pedra enorme na curva da
rampa. As crianças ficaram de espreita, esperando tal acontecimento ser efetuado, porém
quando o trem estava chegando, Carlinhos ficou receoso. Com medo de causar a morte para
aquelas pessoas na locomotiva, o menino decidi saltar e tirar aquela pedra da curva o mais
rápido possível. Os moleques haviam corrido e Carlinhos começou a chorar, com o sentimento
de culpa daquilo que nunca aconteceu. Nunca mais Carlinhos experimentara em sua vida tal ato
de heroísmo.

 Capítulo Vinte

Corria um boato no engenho de que um lobisomem estava aparecendo na Mata do Rolo.


As notícias do bicho misterioso, que bebia sangue de gente, chegavam com todos os detalhes.
O povo comentava sobre José Cutia ser a figura do lobisomem, pois este andava sempre de
noite. Diziam até que já tinham visto José Cutia virar bicho, com suas unhas crescendo como
lâminas, os pés ficavam como os de cabra e os cabelos como a crina de um cavalo. O povo não
tinha raiva dele, tinha pena, pois sabiam que ele era lobisomem contra a sua vontade.
Comentava-se que ele bebia sangue de animais, comia fígado de menino e tomava banho com
sangue de criança de peito, por isso os moleques tinham tanto medo dele. “Papa-figo” era como
as crianças o chamavam. As histórias que se ouviam da criatura eram ditas como as mais reais
do mundo.

Uma vez, padre Ramalho havia encontrado com o tal lobisomem quando foi dar a unção
a um enfermo nos Caldeiros. Padre Ramalho quando deu de caras com o bicho, tirou do bolso
uma caixinha com a hóstia consagrada, e apontou para a criatura. O lobisomem caiu e soltou
um gemido. No dia seguinte, José cutia havia sido encontrado na estrada desfalecido.

Carlinhos acreditava em todas essas histórias com mais convicção do que acreditava em
Deus. E por muitas vezes fora dormir com medo dessas criaturas infernais. Além do lobisomem,
outras criaturas da superstição popular visitavam a infância do narrador, como o zumbi, as
caiporas, as burras-de-padre etc. O narrador comenta que pintavam a imagem do lobisomem de
forma tão real, que era possível ele ter visto mesmo tal criatura, agora, a imagem de Deus, tinha-
se apenas uma ideia vaga. O lobisomem lutava corpo a corpo com a pessoa, porém, com Deus,
era preciso que o sujeito morresse e ser tido como bom para poder presenciar sua imagem. Tudo
o que contavam sobre Deus era fora de seu plano, muito do céu. O narrador afirma que o
catecismo destruiu suas crenças sobre essas criaturas místicas do engenho, porém, essa sua
antiga crença foi essencial para a sua formação de homem.

 Capítulo Vinte e Um

De vez em quando, a velha Totonha aparecia no engenho e encantava Carlinhos com


suas histórias populares fabulosas. Velha Totonha era uma grande artista para dramatizar, tinha
o dom de contar histórias, com uma voz que dava todos os tons às palavras. Totonha era seletiva
ao escolher seu público, primo Silvino, por exemplo, conversava no meio das narrativas,
Carlinhos, no entanto, ficava calado e quieto, diante dela. Nas suas histórias, havia sempre reis,
rainhas, forca e adivinhações que comoviam. Ela sabia como ninguém contar uma história, mas
o que fazia a velha Totonha mais curiosa era como descrevia tudo.

A história da madrasta que enterrava uma menina era a sua obra-prima. O pai de uma
menina saíra para uma longa viagem e a deixou sob os cuidados de sua madrasta. A madrasta
tinha ciúmes dos cuidados que ele tinha para com sua filha e então, após a saída do marido,
começou a judiar da pobre menina. Um dia, a madrasta mandou que ficasse debaixo de um pé
de figueira com uma vara na mão para espantar os passarinhos, mas acabou adormecendo
debaixo da árvore, sonhando com seu pai. Quando a madrasta viu que os sabiás haviam bicado
os figos, deu uma surra de matar na menina, e a enterrou, ainda viva na beira do rio. Quando o
pai voltou e soube da notícia, prostrou a chorar com a morte da garota, que supostamente havia
adoecido desde o dia em que o pai viajou. Em um dia, porém, o capineiro do engenho encontrou
a menina, debaixo da terra, que estava verde, com seus cabelos e olhos cheios de terra. Houve
um momento intenso de alegria e festa no engenho que durou vários dias. Muitos escravos
tiveram a carta de alforria e a madrasta, porém, fora amarrada nas pernas de dois poldros brabos.

Havia outra história também sobre uma das viagens de Jesus Cristo com seus apóstolos,
que iriam se hospedar numa casa de família muito pobre. Jesus pediu que Pedro buscasse um
saco que continha mantimentos, pois não tinha comida nem para os próprios donos da casa.
Pedro sabia que o saco estava vazio, porém quando pegou, encontrou ali duas cargas de farinha
e de carne na porta. São Pedro nessas histórias era um homem que só acreditava no que via e
estava sempre a levar bronca de Jesus.

Depois das histórias, velha Totonha saía para outros engenhos e Carlinhos esperava pelo
dia em que ela voltaria ao engenho para contar novas histórias.

 Capítulo Vinte e Dois

No engenho Santa Rosa havia uma senzala, que não desaparecera com a abolição. Tinha
uns vinte quartos, que permaneciam ocupados pelas negras do avô de Carlinhos, mesmo depois
da abolição. Seu avô sempre deu de comer e de vestir para as negras e em troca, elas
trabalhavam de graça para ele. Carlinhos conheceu quatro das negras: Maria Gorda, Generosa,
Galdina e Romana. Carlos conta que viviam todos ali misturados no engenho, os negros e os
da casa-grande. A senzala do Santa Rosa continuava pregada à casa-grande, com suas negras
parindo, as boas amas-de-leite e os bons cabras do eito e as boas cabras do cifo. Carlinhos não
conheceu marido de nenhuma das mulatas, porém, viviam grávidas e sem medo. Os moleques
moravam ali em redes fedorentas. Os quartos da senzala cheiravam a mictório, mas satisfaziam
a quem ocupava.

Carlinhos e seus primos estavam sempre a andar com os moleques da senzala, pois estes
sabiam mais das coisas que os da casa-grande, menos ler. Tudo os moleques faziam melhor e
eles possuíam liberdade para fazer tais coisas. Os moleques que iniciam as conversas picantes
sobre sexo, foi aí que Carlinhos entendeu o que os homens faziam com as mulheres. O narrador
comenta que era nessas conversas que ele fora perdendo sua inocência. Carlinhos vivia assim,
no meio dessa gente, sabendo de tudo o que faziam, sabendo dos homens das negras, de suas
brigas, de suas doenças.

Maria Gorda era uma velha advinda de Moçambique, que falava uma mistura de línguas
e fazia medo a todos. Carlos pensava que a negra tivesse qualquer coisa infernal porque nunca
sentiu nada de humano nela. A velha Galdina, africana também, andava de muletas e todas as
mulatas, juntamente com Carlinhos gostavam dela. Quando queriam dar surras nas crianças era
ela que intercedia pelos seus netos. Galdina era uma espécie de dona da Senzala e todos a
tratavam bem. A velha Generosa cozinhava para a casa-grande, e era uma negra alta que sabia
fazer doces e canjicas como ninguém.
 Capítulo Vinte e Três

O narrador relata que, após o jantar, seu avô se sentava numa cadeira tal como um
monarca, sentado no seu trono. Para junto dele, as pessoas sempre iam lhe pedir coisas e falar
suas queixas. Uma vez chegou um homem desconhecido que pediu ajuda ao seu avô, pois havia
cometido um crime por causa de mulher. Seu avô havia lhe tido para se entregar a polícia, pois
não ajudava e nem hospedava criminoso.

Quando os matutos voltavam das feiras seu avô os chamava para saber o preço da
farinha ou do algodão e eles diziam não só os preços das coisas, mas os boatos que corriam
também. José Paulino, avô de Carlinhos, procurava observar de pé o seu gado chegando do
pastoreado, todos de barriga cheia.

 Capítulo Vinte e Quatro

Neste capítulo o narrador-personagem irá a mais um passeio, mas dessa vez no engenho
do Oiteiro e este está muito animado. Saem de manhã bem cedo e vão de carro-de-boi. Miguel
Targino era o carreiro na condução dos bois. Ao adentrar na estrada de São Miguel, avistava
cargueiros com sacos de farinhas e louças de barros para a feira do Pilar. Por onde passava, eles
eram recebidos com festejos, cortesia e benções. É ressaltado a hospitalidade e gentileza do
povo simples e humilde.

Estando bem perto do Oiteiro, os moleques abriram a porteira para o carro e o povo da
casa corria para receber a todos. Carlos conta que para eles o Oiteiro era muito bom, pois era
considerado a melhor casa de morada da ribeira do Paraíba, com água encanada até na hora e
banheiro de torneira para os criados. Os seus primos do Oiteiro eram muito gentis. Carlos se
depara com uma música de igreja que lhe deixa muito triste e logo lembra de sua mãe. Conta
ainda que qualquer coisa triste da vida, ele pensa em sua mãe e essa lembrança o acompanha
durante a formação da sua sensibilidade.

 Capítulo Vinte e Cinco

O capítulo começa com o narrador retratando sobre um menino triste e solitário, que
apesar de se aventurar com seus primos, era na verdade uma criança infeliz que buscava a
solidão. O menino da história é o próprio Carlinhos. Seu esporte favorito era pegar pássaros no
alçapão, pois era uma tarefa que exigia bastante tempo e durante esses intervalos Carlinhos
podia pensar e refletir sozinho sobre tudo.
Diziam que para o ano Carlinhos iria para o colégio. Ouvira várias histórias dos seus
primos sobre a escola e deixavam Carlinhos com vontade de ir, mas no engenho tinha tudo o
que ele queria. Perguntava-se o porquê de sua mãe ter morrido e do porquê que não davam
notícias sobre seu pai, só se sabia que ele estava no hospital. Carlos tinha um medo doentio da
morte, pois não conseguia entender.

Certa ocasião, um homem do engenho estava a morrer e levaram Carlos para ver. O
homem estava na hora da morte e Carlos não conseguira dormir à noite, acordando aos gritos
jurando que o homem estava perto dele. Via também sua prima Lili no seu caixãozinho de rosas,
mas ela não parecia morta. O homem do engenho, porém, era visto todas as vezes em que
Carlinhos ia apagar as luzes para dormir, o que deixava Carlinhos com muito medo.

De dia, Carlinhos gostava de ficar só. Sentia prazer, pois podia falar o que guardava por
dentro, preocupações, medos e sonhos. Com o passar do tempo, Carlinhos preferia ficar no
alçapão sozinho e quase não comia. Seus pássaros do alçapão não cantavam por estarem presos,
mas Carlos, porém, os tratava com cuidados maternos. “ [...] os meus pássaros só trabalhavam
ao bom preço da liberdade. [...]”. Os dias de glória de sua infância eram construídos naquele
alçapão.

 Capítulo Vinte e Seis

Carlos relata que costumava ficar observando os mestres de oficio fazendo seus
trabalhos e neste capítulo descreve as atividades de cada um. Apesar de observar o trabalho
dos mestres de oficio, o que mais prendia Carlos a eles, porém, eram as conversas e confissões
deles.

O seu Rodolfo, por exemplo, sabia de muita coisa e sempre que ia consertar algo no
engenho, contava uma história. Rodolfo conta que toda manhã, no antigo engenho em que
trabalhava, os negros levavam uma chibatada para esquentar o corpo. Contavam para o narrador
várias histórias e esse ficava muito empolgado em ouvi-las. Numa dessas histórias, Carlinhos
acaba conhecendo o Capitão Quincas Vieira, irmão mais novo do seu avô. Quincas tinha uma
mulher chamada Calu e morava no sítio de sinhá Germínia. Um dia alguns animais do Santa
Rosa fugiram para o engenho do tio de Quincas, Manuel César, e este mandou botar os animais
na almanjarra. Ninguém no Santa Rosa tinha coragem de ir buscar os animais, porém Quincas
quando soube do ocorrido saiu para libertar os bichos. Quando o velho Manuel soube do
atrevimento do sobrinho ficou calado, só esperando a oportunidade. Certo dia Quincas se meteu
numa briga com o feitor Salvino e levou uma facada no peito esquerdo. Manuel César protegeu
o assassino do sobrinho. O povo do Santa Rosa, porém queria justiça e Salvino pegou trinta
anos de prisão. Quincas agora passava para a galeria dos heróis de Carlinhos. Carlos afirma que
Quincas seria um ótimo senhor de engenho e seu avô, no entanto, só é temido pela sua bondade.

 Capítulo Vinte e Sete

Carlinhos há muito tempo pedia um carneiro para montar e até que um dia conseguiu.
Seu carneiro, Jasmim, era manso, não tinha chifres e era ideal para a montaria. Carlos, porém,
começou a sonhar ainda mais, queria agora ser dono de um cavalinho e de tanto pedir conseguiu.
Sonhava com sela e arreios, e por fim conseguia também. Entretinha-se uma boa parte do tempo
com Jasmim que os canários, por sua vez, ganharam a liberdade. Conduzia Jasmim de manhã
para o pasto e era nesses passeios, sozinho, que conduzia também o narrador a ter pensamentos
melancólicos. Nos seus passeios com Jasmim, na solidão do entardecer, a melancolia de
sempre, arrastava-me aos pensamentos de melancólico.

Nesses passeios, Carlinhos pensava em coisas ruins, como na morte do seu avô e no que
seria do engenho sem ele. Pensava na sua tia Maria, pois ela estava se preparando para casar e
logo iria embora. Jasmim conhecia os atalhos e sempre desviava das poças d’água. Carlinhos
parava quase sempre pela porta dos moradores do engenho e com isso brincava com as crianças
e ouvia sobre a vida deles. Chegando à noite, o medo do silêncio de fim de dia assustava
Carlinhos e então Jasmim acelerava o passo.

 Capítulo Vinte e Oito

Neste capitulo é relatado o prazer em que o avô de Carlinhos sente em saber que seu
território é extenso, porém busca cada vez mais a expansão dele. Tudo o que tinha era para
comprar terras e mais terras e nessas terras tinha mais de quatro mil pessoas abrigada. Nesse
capítulo é trazido a imagem do engenho Santa Fé, engenho predominante no livro Fogo Morto.
Santa Rosa cresceu ao lado de Santa Fé engenho do Coronel Lula de Holanda, porém, não eram
rivais. Era como se fossem dois irmãos muito amigos. Santa Fé, infelizmente, era um engenho
de fogo morto, ou seja, estava em decadência e inativo. Enquanto o engenho Santa Rosa vivia
em riqueza e prosperidade, ao lado vivia o Santa Fé em ruínas, caindo aos pedaços. Coronel
Lula era um homem misterioso, não demonstrava que seu engenho estava decaindo, mas não
plantava um pé de cana e nem pedia dinheiro emprestado a ninguém. As visitas de seu Lula ao
Santa Rosa eram de cerimônia, sempre com sua família numa carruagem com cavalos magros.
Para o Santa Rosa, a visita deles se tornava um suplício. Todos ficavam calados até a hora em
que eles foram embora.

Quando Carlinhos passava pelo Santa Fé para ir à escola a mesma tristeza permanecia.
O mato tomara conta do engenho, as casas caídas e o seu Lula na porta. Coronel Lula sempre
mandava para o cavalo para saber notícias de seu avô. Pelo Santa Rosa, ouviam-se histórias da
casa de seu Lula que o povo de lá não comia, as negras viviam de jejum, as vacas trabalhavam
nos carros de boi, etc. Os moleques contaram para Carlinhos que o primeiro nome do Santa Fé
fora Pegue Aqui Por Favor. O pai de seu Lula levantou o engenho com o povo que passava pela
estrada. O destino sombrio do Santa Fé preocupava Carlinhos.

Certa noite, o avô de Carlinhos recebera uma carta de urgência do seu Lula. Dr. Luís
Viana queria roubar a filha de seu Lula. A filha e a mulher chorando se encontravam dentro do
santuário trancadas. Tudo isso, porém, era mentira, ninguém queria roubar sua filha.

 Capítulo Vinte e Nove

Neste capítulo Carlos relata sobre a doença que tirou sua liberdade por um bom tempo.
O narrador-personagem sentia dor e falta de ar, asma. Não podia pisar no terreiro por causa do
mormaço, sereno e dos chuviscos. Seus primos menores iam no quarto para brincar com
Carlinhos, mas logo se enjoavam das limitações de um enfermo. O engenho estava a todo vapor,
moendo a cana. A fumaça, que a usina soltava que tinha cheiro de mel, entrava no quarto de
Carlinhos e tomava a sua respiração, deixando-lhe sem ar. Seu avô de vez em quando passava
no seu quarto para verificar como estava e quando via que não tinha febre, ia-se embora. A
febre para ele significa o grande mal.

Tia Maria ficava com o menino com asma enquanto ele vomitava. As noites eram como
eternidade para o garoto, ficava acordado, porém de olhos fechados, com medo do escuro. O
narrador conta que essas noites doente envelheciam a sua meninice.

 Capítulo Trinta

O narrador fala sobre o quarto do seu tio Juca que vivia trancado, apenas a negra da
limpeza que entrava. Porém, aos domingos quando ia descansar na sua rede, Juca deixava
Carlinhos entrar no seu quarto e na sua intimidade. Era o único sobrinho para quem mostrava
seus álbuns de fotografias, seus livros de gravuras. Um dia Juca deixou Carlinhos sozinho e
este correu para mexer nos seus objetos proibidos, como uma coleção de mulheres nuas, de
postais em todas as posições da obscenidade. Todas as vezes que ficava sozinho no quarto,
Carlinhos se entretinha com as gravuras obscenas. Até que um dia, seu tio o pega de surpresa
com o pacote na mão e fica muito bravo, pois aquilo não era coisa para menino.

 Capítulo Trinta e Um

O capítulo começa com um moleque avisando sobre um incêndio no partido da


Paciência. Muita gente correu para lá com enxadas, foices e pedaços de pau. Era possível ver a
fumaça do outro lado do rio, tomando conta do céu. O incêndio toma largas proporções,
ganhando forças no canavial. O único jeito de parar o fogo para salvar o resto do partido era
fazer aberturas de caminho na mata com a enxada e foice. Mais uma vez a autoridade do seu
avô é utilizada para conter o fogo que ia devastando o canavial. Carlinhos observava de longe
e seus olhos choravam com a fumaça. Quanto mais escurecia, mais o fogo se tornava vermelho.
Muitas casas foram destruídas pelas chamas. Juca crescia em Carlinhos com sua coragem e seus
atos de heroísmo. Com a amenização do vento, só se via gente de pé queimado, de olhos
vermelhos e as roupas todas queimadas.

 Capítulo Trinta e Dois

Houve um mutirão para limpar o partido da várzea, um exército de homens miseráveis


trabalhava na limpeza. Carlinhos de vez em quando ficava por lá entretido com as conversas
desses homens. O feitor José Felismino, comandante dessa expedição, não gostava que seus
homens ficassem de conversa. É descrito o batalhão do eito: Manuel Riachão puxava na frente,
como uma baliza; moleque Zé Passarinho era o último do eito e não havia grito que o animasse.
Os trabalhadores paravam às dez horas, para o almoço de farinha seca com bacalhau. Depois
do almoço se deitavam debaixo dos pés de juá e voltavam ao trabalho até às seis da tarde.
Coronel José Paulino às vezes se referia ao seu José Felismino aos gritos, insatisfeito com o
tralho. Mas de nada adiantava os gritos, já era de costume. João Rouco ia trabalhar no eito com
mais seus três filhos e quando José Paulino gritava, Rouco respondia gritando também, talvez
por serem da mesma idade. Velho Pinheiro não era confiável, roubava como boi ladrão e vivia
se queixando de dores no eito. Para os trabalhadores Pinheiro não valia nada, mas João Rouco,
porém, respeitavam e não tratavam com brincadeirinhas. Até mesmo o pessoal da casa-grande
tratava o velho João Rouco diferente.

Em tempos de emergência, o batalhão crescia com os lavradores e os que pagavam


aluguel a seu avô e estes não recebiam nada pelo dia que trabalhavam no eito. Os meninos
ficavam animados com o ajuntamento deles ao eito. Carlinhos, quando menino, acostumado a
ver toda essa gente na desgraça nunca sentiu pena deles. Achava natural que vivessem em
chiqueiros, comendo nada e trabalhando muito. Na sua compreensão de menino, isso era obra
de Deus, pois Deus quisera assim.

 Capítulo Trinta e Três

Após a ceia, o avô de Carlinhos costumava conversar e gostava de contar histórias de


parentes e amigos. As histórias eram sobre casos de escravos e senhores de engenho, antes e
depois da abolição, sobre a época antes da cólera de quarenta e oito ou da época depois da
cólera de cinquenta e seis. Era destacado nas histórias sobre o Major Ursulino a sua ruindade e
perversidade para com os negros. Uma vez, um negro todo arrumado dos Picos chegou na casa-
grande do major para conversar com ele. O negro era feitor no engenho dos Picos e estava ali
para prevenir que o gado do engenho do major destruísse a cana dos Picos. Major Ursulino
ficou afrontado e mandou comprar esse negro do outro engenho, porém só comprou a metade
dele, pois seu antigo dono havia libertado a parte que possuía. Major Ursulino comprou a
metade do negro e mandou chicoteá-lo apenas a parte que lhe pertencia.

Seu Coronel José Paulino continuava a contar histórias, mas dessa vez era sobre uma
escrava que botara uma erva venenosa na comida, a fim de matar todos da senzala. Ela queria
fazer isso, pois tinha-se inimizado com uma crioula por causa de um negro. Compara ainda o
Santa Rosa com o engenho de Ursulino, enquanto um dava comida com fartura aos negros, o
outro botava negro na corrente. Gostava também de relembrar a visita de Dom Pedro ao Pilar.
Dom Pedro parou na casa da Câmara e o seu tio Henrique, vereador, abriu para que ele pudesse
adentrar. Não havia nenhum móvel lá dentro, pois estava tudo no marceneiro. Dom Pedro,
então, deitou-se numa rede de pedreiro para descansar. O presidente da província mandou
prender tio Henrique pelo que havia acontecido.

Carlos conta que essas histórias do seu avô prendiam a atenção de um jeito diferente
daquelas da Totonha. Eram apenas relatos que ficavam gravados na memória do narrador. Seu
avô falava mais algumas histórias sobre sua família e afirma que tinha orgulho da
hereditariedade branca, sua única vaidade.

 Capítulo Trinta e Quatro

O narrador-personagem recorda de sua primeira paixão, Judite, que lhe ensinava letras.
Carlinhos, agora com oito anos, é despertado ainda com mais força para o amor. Uns parentes
de Recife estavam passando um tempo no Santa Rosa, eram pessoas eruditas e com grande
formalidade. O narrador descreve as filhas do seu tio João como aquelas que viviam dando
trabalho às negras, liam romances o tempo todo.

Tia Maria duplicava os seus cuidados, com medo dos parentes de Recife falarem mal da
sua hospedagem. O engenho parecia outro com as pessoas de fora, as negras falavam baixo na
cozinha e os moleques pequenos todos vestidos. Porém, o amor desperta forte no coração do
narrador. Maria Clara, prima civilizada de Recife e mais velha que Carlinhos, fizera o menino
esquecer dos seus passeios solitários com o seu carneirinho. Os dois faziam tudo junto e
contavam uns aos outros histórias sobre suas vidas. Certo dia, resolveram fazer um piquenique
debaixo dos cajueiros. Enquanto os dois conversavam, Carlinhos a beijou bem forte na boca e
saiu correndo para dentro da casa-grande. Carlos se preocupava com sua nova namorada e seu
amor por ela só crescia.

A família já estava se despedindo, em uma semana estariam de volta para Recife.


Chegando a hora da despedida, todos estavam em abraços e beijos. Carlinhos estava triste,
porém Maria Clara parecia extremamente feliz com sua viagem de volta. Alguém no engenho
perguntou do narrado se ele estava sem a namorada e ele se pôs a chorar. Carlos, no dia seguinte,
teve sua primeira angustia de vida, sentia dor e um vazio no coração.

 Capítulo Trinta e Cinco

O capítulo começa com o avô de Carlinhos recebendo uma carta sobre o seu pai. O
diretor do hospício havia escrito a carta, pois os parentes do seu pai haviam suspendido a pensão
mensal dele. Coronel José Paulino decidi então pagar a conta de seu genro no hospício. Ouvindo
isso escondido, Carlinhos sente extremamente tocada por seu pobre pai. A loucura solitária de
seu pai remete o narrador a maus presságios que o deprimem.

Um dia no engenho, havia um doido que seria levado para o asilo. Esse homem fazia
um esforço muito grande para retirar as cordas amarradas e gritava agoniado. Na manhã
seguinte, o homem estava calmo e sorridente, diziam que o diabo tinha saído de seu corpo.
Carlinhos se enche de esperança esperando que isso aconteça com seu pai também. Teme que
a doença do pai seja hereditária e começa a se preocupar intensamente com a doença. “[...]
essas preocupações de doença, começadas na infância, iriam ser uma das torturas de minha
adolescência[...]”.
A visita de um médico no engenho por causa da asma de Carlinhos o trouxera grandes
preocupações. O médico lhe receita uma série de injeções e um tratamento rigoroso. A partir
disso, ninguém brigava com Carlinhos e nada o impediria de ter tudo o que desejasse. Carlinhos
então resolve voltar a sua rotina dos canários e do carneiro, pois eles não falavam sobre doenças
e nem tinham medo de que Carlinhos morresse. Sua vida se transformava em algo semelhante
vivido pelos seus passarinhos prisioneiros, enquanto seus primos viviam em liberdade. Os
moleques já não brincavam com Carlinhos por terem medo de brigarem com eles. Os cuidados
excessivos criavam raiva no narrador-personagem. Só podia sair à tardinha e brincava com os
meninos dos moradores ao arredor do engenho.

Os pensamentos ruins começavam a se alocar no coração de Carlinhos e o transformava


em algo que já não reconhecia mais. Os impulsos de Carlinhos tomavam forças com uma
vontade perversa de posse. Os pensamentos sexuais só cresciam dentro de Carlinhos. A
sexualidade precoce encontra na negra Luísa uma comparsa das suas depravações antecipadas.
Luísa o faz iniciar suas atividades sexuais.

O engenho estava em festa das 12 horas da moagem. Chegavam visitas do Pilar, eram
os meninos do capitão José Medeiro. Contavam para Carlinhos histórias do internato, enquanto
Coronel José Paulino conversava com o padre Severino e o dr. Samuel, juiz municipal. Quando
chegava à noite, Carlinhos só pensava nas suas aventurosas com a negra Luísa. Carlinhos passa
a ter um sentimento de posse sobre Luísa, tendo ciúmes dos outros negros que se metiam com
ela. O sexo impunha ao narrador uma escravidão abominável.

 Capítulo Trinta e Seis

O casamento da tia Maria fora marcado para o dia de São Pedro. Comprou muita coisa
em Recife para seu enxoval. Tudo se voltava para os preparativos da festa. Mestre Galdino
chegara ao engenho para preparar o banquete do casamento, e a negra Generosa foi deposta da
sua própria cozinha. A festa começou a atrair gente dos outros engenhos e de toda a redondeza,
de Recife e da Paraíba.

Na beira do rio, começava a matança dos animais para a festa, inclusive do carneiro de
Carlinhos, pois estava gordo, pronto para o abate. Carlinhos observou todo o procedimento do
abate de Jasmim, o que comoveu demais o narrador. Se não fosse pela multidão de pessoas na
casa-grande teria chorado o mundo por tal acontecimento.
Não tinha mais espaço para abrigar pessoas no Santa Rosa e, no entanto, ainda faltava
chegar mais convidados. Tudo é descrito pelo narrador sobre o que acontecera no dia do
casamento. Corriam boatos que a velha Sinhazinha iria tomar conta de Carlinhos. Na hora do
casamento, Carlinhos não quis ver e foi para seu quarto chorar. Não bastasse ter perdido seu
carneiro, também estava a perder sua segunda mãe. Quando o narrador-personagem fora
dormir, tia Maria o beijou chorando. Na hora da despedida, todos estavam chorando inclusive
Carlos, num pranto desesperado. No outro dia, Santa Rosa parecia a coisa mais triste do mundo
para Carlos.

 Capítulo Trinta e Sete

O narrador conta que pela primeira vez a velha Sinhazinha havia dado carinho a ele.
Viviam falando sobre colégio para o menino desde o dia em que sua tia Maria se casou.
Compravam camisas, calças e sapatos para essa nova fase da vida de Carlinhos e estes não via
a hora de sua partida chegar. O inverno chegava no engenho, trazendo muitos dias chuvosos,
que cobriam as estradas. O inverno será pesado esse ano, comenta José Felismino. Os dias se
tornavam monótonos, entediantes para Carlinhos e esses dias de chuva faziam o mais triste do
que nunca. Todos diziam que ele já estava grandinho, uns doze anos, e não sabia quase nada.
Sabia ruindades, puxava demais pelo meu sexo, enquanto meninos de sua idade já sabiam fazer
contas e operações de matemática. Negra Luísa havia deixado Carlinhos, pois estava grávida e
não se sabia de quem. Ao olhar a imagem de um santo, Carlinhos sentia vergonha dos pecados
cometidos, no outro dia, no entanto, voltava a ter pensamentos obscenos. No engenho, os pés
de milho cresciam, o gado engordava e as vacas pariam.

 Capítulo Trinta e Oito

O capítulo inicia com a cena de Mané Salvino e o negro José Gonçalo brigando de cacete
e faca. Negro Gonçalo caiu com tudo no chão, morto a facadas, e Mané Salvino correu para o
cercado a fim de não ser pego. Mais tarde, a mulher e cinco filhos agora órfãos choravam em
desespero sem saber o que fazer. O assassino é levado preso recebendo xingamentos ao longo
de sua caminhada até a delegacia. A viúva agora pedia proteção ao senhor de engenho. Diziam
que enquanto o sangue não sumisse do engenho, o defunto ficaria aparecendo ali. Todas essas
histórias chegavam na cozinha como se fossem verdades absolutas, assim como a história do
lobisomem.
 Capítulo Trinta e Nove

Aos dozes anos, Carlinhos se deitou com uma mulher, Zefa Cajá, pela primeira vez.
Vivia atrás dela numa ânsia misturada de medo e vergonha. A mulata ficava com Carlinhos
diversas vezes e ele, por sua vez, levava coisas do engenho para ela, como pedaços de carne,
queijo, dinheiro de seu avô, etc. Todos percebiam que Carlinhos não saia da casa da mulata. O
seu avô que havia vivenciado essa mesma experiência quando criança, dava broncas em
Carlinhos “- Se não fosse pra semana pro colégio dava-lhe uma surra. [...]”. O narrador,
porém, adquire a doença-do-mundo, gonorreia, da qual escondeu por muitos dias do povo da
casa-grande. Quando soubera, botaram Zefa Cajá na cadeia. Todos vinham com indiretas e
risadas em relação ao caso de Carlinhos, diziam que essa libertinagem aos 12 anos era algo
inocente. Moleque Ricardo pegou a mesma doença com a negra Zefa também, porém mais
intensa. A doença tinha transformado Carlos, olhavam o agora diferente. As negras se
insinuavam para Carlos, lavando as roupas quase nuas. Carlinhos ficava a pensar no que tia
Maria faria se soubesse de tudo que ele havia feito. Em junho Carlinhos iria para o colégio,
diziam que lá ele iria se endireitar. Carlos havia perdido a inocência e a felicidade de olhar o
mundo como um brinquedo por completo, agora somente olhava o mundo através dos seus
desejos carnais.

 Capítulo Quarenta

Neste capítulo o narrador-personagem conta que no dia seguinte estaria num trem para
ir ao colégio. Carlinhos acorda já com uma saudade antecipada do engenho, um novo estilo de
vida está por vir. O narrador conta que não acredita em Deus e que teme mais aos lobisomens,
sua religião não reconhecia pecados ou penitências. O colégio iria consertar a sua alma, vivia a
ser uma nova pessoa. O engenho dava as despedidas a Carlinhos. Tudo ia ficando para trás com
o trem em movimento e Carlinhos se enchia de lágrimas e saudades dos campos e de seu
engenho. Carlinhos levava para o colégio um corpo cheio de experiências de suas paixões de
homem feito, era adiantado nos anos e sabia de tudo. Era o oposto de Sérgio, de O Ateneu, que
entrava no internato puro e ingênuo, cheirando a virgindade. Carlos era, não importasse o que,
um menino perdido, um menino de engenho, era essa a sua natureza.
CONCLUSÃO

Após o trabalho realizado, Menino de Engenho (1932) retrata sobre a infância e a


adolescência de Carlos, narrador-personagem, no interior paraibano, marcando o auge do
engenho Santa Rosa. O romance de estreia relata a ascensão dos engenhos de açúcar no cenário
atual de época do Nordeste brasileiro. Nessa obra marcada por traços saudosistas e
memorialistas, José Lins do Rego consegue também apontar a herança escravocrata ainda
presente que compunha a estrutura produtiva dos engenhos. Menino de Engenho, narrado em
primeira pessoa, retrata com naturalidade a convivência numa sociedade estruturada no poder
dos senhores e suas regras.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 REGO, José Lins do, 1901-1957. Menino de Engenho; 101ª ed. Rio de Janeiro: José
Olympio, 2010.