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30/05/2018

Kayque Girão - Um dos erros que eu mais vejo na seara ocultista é

10 h ·

Girão está Ahab e outras 73 pessoas . 10 h · se sentindo pensativo com Ahab

Um dos erros que eu mais vejo na seara ocultista é sobre a apreensão excessiva do processo racional em cima da experiência mágica. Achar que termos de sistemas diferentes são intercambiáveis em absoluto.

Não me refiro somente ao que já fazem com Cabalá e Hermetismo, mas em fatores que vão além de uma única

fonte distinta de conhecimento mágico. O próprio mito que se criou em torno da figura do "SAG" é, bem dizer, o mais evidente, onde o estudante se prende aos chavões teosóficos de "Eu Superior" ou, o que é mais grave, que é uma experiência exclusiva e restrita aos sistemas iniciáticos que vem sendo perpetuados desde o Séc.

XIX.

O próprio termo "Santo Anjo Guardião" nunca foi inventado por Crowley, mas já era inerente ao próprio sistema

idealizado por Mathers da sua visão de Golden Dawn, puxado direto de manuscritos como "A Magia Sagrada de

Abramelin, o Mago" e textos como os "Papiros Mágicos Greco-Egípcios". Crowley se aproveitou muito desse

ideário para a sua própria formação e carreira mágica. Mas parece que em algum momento a linha de pesquisa

e prática se perdeu entre as inúteis discussões sobre linhagens e títulos e vemos muita gente perdida, sem

saber o que de fato seria essa experiência de comunhão espiritual que é universal a qualquer prática com "espíritos tutelares".

Eu mesmo já cometi esse equívoco, e passei muito tempo perdido na noção torpe de que a tal "experiência de Contato e Conversação" com o "SAG" só seria possível sob instrução de uma ordem hermética ou de um "mestre" "a" ou "b". E esse tipo de erro põe a perder muito do desenvolvimento espiritual, de modo que eu mesmo achava que só "neste caminho" ou "com este manuscrito" estaria "seguro" de que estaria "no caminho

certo".

E mesmo assim, persisti até chegar numa convicção mais resoluta e sensata de que esse processo acaba

sendo íntimo e particular, pondo por terra quaisquer especulações menores se existem equivalentes entre sistemas de magia e misticismo diversos. Isso acabou se tornando algo menor no sentido de formação básica e amadurecimento pessoal na jornada.

O fato é que todos bebem de uma "fonte" ou "fontes" distintas. E é necessário se recorrer ao estudo das

mesmas para tentar aprofundar o entendimento sobre o objeto de estudo. A própria questão do "SAG" nunca se limitou a um manuscrito do Séc. XIV, tampouco de uma visão particular de uma personalidade eminente como a do Crowley.

Acho até bonito e romântico a forma como ele tratou esse enredo com a figura do "Anjo" e suas manifestações como parte do processo de consecução da "Grande Obra" em sua visão particular de mundo e na formação de Thelema como percebemos hoje. Entretanto, ainda assim é apenas uma visão particular. A poesia e lirismo dele

é instigante em suas obras como "Liber LXV", e a forma como o treinamento é por ele sistematizado em sua ordem dão uma noção segura de organização com seu "Iluminismo Científico".

Com toda certeza existem mistérios e toques nas entrelinhas de seu trabalho, mas de lá para cá, o que mais houve de novidade e descoberta? Como o estudante atualmente consegue se situar e dar seus próprios passos na construção de seu conhecimento pessoal do assunto?

E daí entra o risco da racionalização excessiva, de tentar emular o caminho aberto e desbravado pela "Besta",

andando em círculos no que diz respeito a natureza e apreensão das lições que ele deixou para nos prendermos a uma sistematização engessada e que continua sendo mantida desatualizada pelos estudantes que se seguiram, achando que todo o processo de consecução mística é apenas "tarefa de grau" ou "etapa" de um check-list que só existe na cabeça de um instrutor e de um instruído medíocres.

A Besta abriu uma estrada na mata a passos largos, mas quem ainda possui a coragem de passar o facão para

ver o que ainda pode ser descoberto e do que passou despercebido durante sua passagem?

Crowley e Mathers beberam do Abramelin e do PGM e fizeram o que puderam com o que estava disponível à época, mas hoje graças a tecnologia temos acesso a um leque de pesquisa mais diverso e aprofundado que eles teriam imaginado.

E muito do que fizeram, ainda que conquistado por seus próprios méritos, necessita de renovação do qual

trabalhos de pesquisa histórica e literária se fazem estritamente necessários para que as gerações seguintes

30/05/2018

Kayque Girão - Um dos erros que eu mais vejo na seara ocultista é

possam estar afastadas da mistificação e mitificação decorrentes do dogmatismo e sectarismo por parte dos que ainda de aproveitam da falta de informação do público para ludibriarem a grande massa de leigos, prendendo a atenção da turba com falsos mistérios que nada diferem das promessas de religiosos fundamentalistas para com seus séquitos de fiéis.

E é justamente por esse motivo que iniciativas de pesquisa são extremamente importantes na atual era da

informação globalizada. Buscar referências em estudos como os de Stephen Skinner, Stephen Flowers, Jake Stratton-Kent, coletâneas como "Holy Guardian Angel" (editada e organizada por Aaron Leitch) e até pesquisas mais "in loco" como da natureza do "Daimon" e sua conceituação histórica, presente em "Thesaurus Magicus III" (de Humberto Maggi, do qual sou muito grato pelo seu esforço em nos trazer material de qualidade, bem como pela paciência e disponibilidade em ajudar qualquer estudante interessado) são exemplos importantes do que temos de melhor atualmente.

Vejo muita gente atualmente interessada nesses temas mais densos e ricos, mas ainda assim existe uma grande parcela que se prende e se limita a simplesmente pegar conceitos prontos e pré-estabelecidos de "Anjo"

e "Espírito" e tentar encaixá-los à marteladas no contexto diverso e plural das Religiões Tradicionais Africanas ("ATR" é o termo mais em voga no exterior) ou outros cultos sem antes tentar entender o contexto do qual esse assunto se desenvolveu e assim procurar uma "raiz" ou "elo perdido" antes de partir para sistematizações clássicas do hermetismo e "Iluminismo Científico".

O assunto simplesmente se torna limitado a uma consulta de tabela, de um "Liber 777" e fica limitado a isso.

Não que não existam relações de similaridade entre aspectos das "ATRs" com essas formas clássicas de prática mágica. Existem pesquisadores que exploraram isso, como Leitch, e por aí vai. Mas muitos ficam receosos por

irem atrás achando que existem "mestres" que poderão lhes dizer a verdade e os derradeiros "arcanos" de "Iniciação" que só podem ser obtidos pelo esforço individual do próprio praticante.

Não existem atalhos. O caminho é ainda aberto na marra com o facão e ter discernimento de que a época dos "mestres", tipica dos últimos duzentos anos, foi uma ilusão passageira. Os tempos são outros, e não vai ser o seu instrutor/mestre/professor que vai te dar a certeza de qual o caminho que deve ser percorrido que não você mesmo. Urge uma iniciativa mais sensata e realista com o momento presente que somente quem se meter a se tornar um pesquisador do assunto pode conseguir redescobrir as coisas de real valor em nossas vidas.

Ou isso, ou mais uma vez iremos ficar presos nesse ciclo virulento mantido por pessoas de ma-fé e embusteiros que se aproveitam da situação para vender essa nova mercadoria de fé.

E mesmo as perspectivas não sendo as mais animadoras (porque em se tratando de experiência espiritual

legítima, 99% dos que dizem tê-la, não a possuem de fato ou, na pior das hipóteses, negam qualquer existência sobre os 1% que de fato fizeram algo a respeito), as ferramentas e caminhos ainda estão abertos.

A "era dos magos" se foi. A bem da verdade, nunca existiu além dos contos-de-fadas. Essa é a era dos

pesquisadores e estudiosos, dentre os quais ainda se mantém os que buscam pela verdade e demonstram um trabalho com qualidade ímpar.

(PS - desculpem pelo tom de desabafo do ~textão~, mas senti a necessidade de compartilhar isso com vocês)