Você está na página 1de 4

O QUE É ÉTICA - VALLS, Álvaro L. M.O que é Ética. 9. ed.

São Paulo:
Brasiliense, 1994. (Coleção primeiros passos: 177)

Nascido em 1947, em Porto Alegre, onde passou a maior parte de sua vida e onde
trabalha como professor na Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS,
Álvaro Valls cursou o segundo grau no Colégio Anchieta também em Porto Alegre, e
graduação em Filosofia na Faculdade Medianeira, em São Paulo, para ingressar em
1973 no Departamento de Filosofia da UFRGS, onde atualmente é professor-adjunto.
Tendo feito seus estudos de pós-graduação na Alemanha dedicou o trabalho de
mestrado a Adorno e o de doutorado ao conceito de história em Kierkegaard. E mais
tarde publicou vários artigos sobre temas filosóficos e educacionais.

A obra “O que é Ética” aborda as origens e a estruturação da ética aliada a aspectos e


conceitos existentes desde os tempos remotos aos dias atuais buscando assim,
retratar sua configuração histórica, política, religiosa, social, comportamental e
filosófica frente à sociedade e aos indivíduos que a compõem. Dessa forma, o livro
encontra-se organizado em sete capítulos, acrescidos por uma parte voltada às
Indicações para Leitura, a qual sugere possibilidades e fornece dicas ao leitor, de
como aprofundar-se em temas que foram anteriormente tratados na obra e,
principalmente na questão da ética, indicando ao interessado um leque imenso de
estudos para a expansão dos conhecimentos.

No primeiro capítulo denominado “Os problemas da Ética”, o autor inicia sua


abordagem sobre a ética problematizando-a na vida do ser humano, tanto
individualmente quanto coletivamente, e em suas atitudes, uma vez que a ética
também é analisada como sendo o estudo das ações ou costumes e a realização
comportamental de um ser. Segundo o capítulo, a ética assume vertentes distintas que
terminam por si unir para compô-la. Vertentes estas comportamentais, teológicas,
descritivas, referenciais históricos e culturais de determinadas épocas. Diante de
indagações e exposição de idéias e fatos, o autor corrobora que a questão ética esteja
ligada aos costumes e às mudanças que a cultura de um local sofre, demonstrando as
diferenças acentuadas e a constante transformação de um dado meio social. Na ética,
a variação dos costumes e dos valores éticos diferem em termos normativos,
ideológicos e concretos de uma sociedade para outra, sendo assim caracterizada pela
variabilidade do tempo e do espaço, e pela universalidade por estar incorporada e
compreendida em diversas áreas do conhecimento. Então, os valores éticos podem
acompanhar o ritmo das transformações ocorridas em uma sociedade. Faz-se
presente na retratação da ética nomes como: Sócrates, filósofo grego (470 a 399 a.C.)
conhecido como o “fundador da moral” por basear seu princípio ético tanto nos
costumes do povo, dos ancestrais, em leis exteriores, quanto principalmente na sua
convicção pessoal, ocupando-se exclusivamente consigo mesmo e com o seu agir;
além de ser identificado como o questionador das leis e da justiça vigentes na época.
E Kant, pensador racionalista alemão (1724-1804), cuja reflexão se firma na ética
universal, apoiada na igualdade entre os homens, tendo sua filosofia como centro, o
homem, e onde a questão da moral é igual para todos.

O capítulo seguinte retorna à Grécia Antiga para analisar as características e


particularidades que a ética assumia na época em questão, onde três pensadores
influenciaram nas formulações subseqüentes. Sócrates foi um deles (este já citado e
comentado anteriormente) e logo depois seu discípulo, Platão (427 a 347 a.C.),
partindo da idéias de que os homens estão em busca da felicidade refletida na
imortalidade da alma, na idéia do Sumo Bem, nas virtudes como uma purificação do
ser, na vida divina e na contemplação das idéias filosóficas buscando dessa forma a
assimilação a Deus. Já a Ética Aristotélica (384 a 322 a.C.) pregava a variedade dos
seres e respectivamente dos bens, conforme a natureza e a essência de cada ser,
pautada no “viver racionalmente” ou simplesmente na razão, e valorizando a virtude -
vista como a segunda natureza e adquirida pela razão livre - a vontade humana e a
liberdade de escolha.

“Ética e Religião”, o terceiro capítulo discorre sobre a influência e colaboração da


religião grega na construção das raízes éticas e no agir do ser humano, o qual
passava a agir não mais de acordo com a natureza, mas conforme a vontade do seu
Deus; estando o pensamento ético co-relacionado à religião. É fundamental mencionar
de um lado, a moral revolucionária marxista, tendência que buscou a união entre a
ética religiosa e a filosófica; e do outro, as práticas e teorias que ignoravam as
contribuições religiosas, tais como: as concepções determinista e racionalista, o
formalismo kantiano, o utilitarismo, o pragmatismo e etc. Sendo assim, o judaísmo (o
homem deveria buscar sua vontade) e o cristianismo (o homem vive para conhecer,
amar e servir a Deus) vieram para interagir e atrelar seus princípios aos ideais éticos
pregados na época.

O quarto capítulo trata do diferentes enfoques dos ideais éticos e da variabilidade que
estes podem assumir. O que vai garantir esta variação são os aspectos históricos,
sociopolíticos, culturais e intelectuais de determinadas sociedades, podendo estes
ideais se basearem na harmonia cósmica, na prática do Bem, na vida espiritual, na
liberdade pessoal e social, no agir moralmente, no Estado livre e igualitário, entre
outros. O homem vai agir conforme a razão e a liberdade seguindo o princípio da
moralidade. A questão da liberdade pessoal / autonomia individual será pregada e
estimulada no contexto sociopolítico e econômico renascentista e iluminista. Logo
mais na Revolução Francesa, Hegel induz à reflexão da abstração da liberdade
representada pelo Estado, pela harmonia entre consciência moral e leis de direito, e
pelo próprio direito. A Era Moderna é marcada pela busca restrita da ética racional,
pelo pensamento ético-filosófico e pela doutrina da Revelação advinda do cristianismo.
E no século XX a liberdade é analisada como um ideal ético, evidenciando o pessoal,
o poder da opção e da escolha.

No quinto capítulo, Álvaro Valls induz o leitor a “enxergar” a ética extremamente ligada
à liberdade, isto é, a ética nos remete à normas e responsabilidades sobre as quais o
homem é livre o suficiente para segui-las ou não. Referindo-se às ações humanas, se
elas são estabelecidas de fora pra dentro não há liberdade nem autodeterminação,
mas sim determinismo e objetividade dominando o homem e impedindo-o de ter seu
espaço para expressar suas opiniões / posições, e conseqüentemente sua liberdade.
E de nada adianta a liberdade do pensamento, se esta também não é concreta,
praticada, questionada e colocada no campo do “agir livremente”, levando sim dessa
forma à uma liberdade abstrata. Hegel, então fundamenta e expressa que a liberdade
não pode ser apenas exterior, nem interior, entretanto deve se desenvolver
conscientemente e nas estruturas, de modo a compor a consciência de liberdade. A
partir daí pode-se dizer que a ética se movimenta entre o determinismo absoluto e o
libertarismo absoluto.

Karl Marx vai afirmar que a liberdade está sempre condicionada pelas possibilidades
técnicas e pelas formações econômico-sociais, estando o agir ético interferido
acentuadamente pelas relações econômicas.

Já Kierkegaard, pensador dinamarquês vai relacionar a angústia com a experiência


humana de ser livre, de poder optar e de ter de optar. Duas alas do pensamento ético
totalmente diferentes e distanciadas a primeiro momento, mas que quando analisadas
conjuntamente constituem uma o complemento da outra, especialmente por que o
homem como portador do direito do livre arbítrio, se vê muitas vezes em impasses
oportunizados pelas condições de vida e de trabalho submetidas pela sociedade.
Sendo assim, o homem tem consciência ao preferir o Bem ou Mal, uma vez que ele
conhece e sabe o melhor a seguir: agir bem ou agir mal.

Sexto capitulo - Em “Comportamento Moral: o bem e o mal”, o sexto capítulo, o autor


relata que o indivíduo procura agir de acordo com a sua razão natural, consultando
sua consciência individual - a qual se organiza mediante à consciência e valores
universais e válidos a todos - quando a ética mostra uma preocupação com a
autonomia moral do indivíduo. Para o comportamento moral agir eticamente é agir de
acordo com o bem, porém nem sempre é possível se distinguir o que é o Bem. Cabe
ao homem identificar e escolher entre o verdadeiro caminho do bem ou mal. Mediante
a isso, a moral se configura como ciência prática, cujo objeto é o estudo e direção dos
atos humanos tanto coletivamente quanto particularmente.

No último capítulo é exposta a temática e o posicionamento da ética atualmente,


considerando que a mesma foi rotulada como algo privado, estando a problematização
da ética concentrada na família, na sociedade civil e no Estado, e nos acontecimentos
e correlações acerca desses três momentos da eticidade e seus reflexos para com o
meio social e principalmente na vida individual de cada ser humano.

Em aspectos gerais, a obra comporta alta especificidade por remontar peculiaridades,


características, ensejos históricos, informações políticas, fundamentações religiosas e
intelectuais, e temáticas sociológicas relacionadas às diversas questões da ética nos
mais variados momentos cronológicos, as quais irão contribuir para a constituição da
teorização acerca da ética em si e de suas condutas e questionamentos. Mesmo
caracterizado por possuir um conteúdo de fácil entendimento expresso em uma
linguagem bem facilitada, e estruturado gramaticalmente de forma adequada ao tipo
de abordagem, o livro trata de um tema sério e polêmico, o qual requer dedicação e
uma certa “malícia” para a compreensão dos pensamentos e reflexões explicitadas.
Discorrendo assim, sobre a Ética desde a Grécia Antiga aos dias atuais, e com isso
demonstrando a presença desta ciência em todas as sociedades, das mais distintas
formas.

De modo implícito e discreto, o autor expressa suas reflexões e indagações sobre o


tema tratado ao evidenciar os pontos principais e contributivos para a sistematização
da Ética, e ao expor as contradições existentes neste campo em meio à sociedades
muitas vezes incomuns, diferenciadas e até corrompidas, quanto ao modo de se
pensar a respeito das mais variadas questões. Em suma, o autor enfatiza a extrema
importância de se entender a Ética como algo próximo a nós, cuja prática nos respalda
a respeito da nossa própria valorização quanto seres humanos, uma vez que ao agir
conscientemente e moralmente para com alguém, agimos para conosco, e
conseqüentemente essa atitude recai sobre a sociedade e sobre as pessoas que nos
cercam e que a compõe. A importância da abordagem desse assunto se centra
também no exercício do conhecimento em relação às origens éticas, sua seqüência e
análise ao longo dos anos, aos pensadores e filósofos, e à sua configuração nos dias
de hoje.

Ao reportar a Ética para a Assistência da Saúde em Enfermagem evidencia-se que


esta não é meramente teórica nem se resume apenas à atitudes normativas
incorporadas às leis e normas constantes no Código de Ética Profissional. É, portanto,
pensada e considerada como sendo uma temática compromissada com o cotidiano
humano e profissional, em que o exercício da saúde voltada para a qualificação da
vida e justiça social é preconizado. Responsabilidade e competência no cuidado à
saúde é dever ético de todo e qualquer profissional, e principalmente daquele ligado a
área da saúde, uma vez que este zela pela vida do ser humano através da promoção
e preservação da saúde.

Mediante às informações citadas e descritas na obra, a necessidade de se conhecer e


se aprofundar no tema em discussão é notável, principalmente devido à possibilidade
de cada vez mais se expandir o conhecimento e aplicá-lo diariamente na vida
individual e social. Apesar da temática de fácil compreensão, “O que é Ética” se
mantém voltada a um público familiarizado com as questões éticas, filosóficas e
históricas, e principalmente àqueles que desejarem incluir a Ética e a Moral na vida
cotidiana pessoal, profissional e social, unindo informações teóricas às atitudes
comuns e diárias do homem, visando essencialmente o valor e o respeito ao ser
humano.