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Henrique Amorim

AS TEORIAS DO TRABALHO IMATERIAL:


uma reflexão crítica a partir de Marx1

DOSSIÊ
Henrique Amorim*

A que conceitos de trabalho, valor e classe social as teses que consideram o trabalho imaterial
a força produtiva central nas sociedades contemporâneas se referem? O objetivo deste artigo é
o de responder a essa questão. Para tal, faremos uma breve incursão nas teses centrais da
chamada “economia do conhecimento”, para confrontar a interpretação que realizam dos
conceitos de trabalho, valor e classe social a uma interpretação alternativa que, pensamos,
procura desenvolver os preceitos mais gerais da teoria marxiana. Concluímos, ao final do texto,
que há, nos teóricos da “economia do conhecimento”, um reducionismo analítico, sobretudo
quando restringem o trabalho ao trabalho físico executado na fábrica, o valor a uma expressão
mensurável aritmeticamente da exploração do trabalho manual e a classe trabalhadora ou
proletariado à classe operária.
PALAVRAS-CHAVE: Trabalho imaterial. Materialidade. Karl Marx. Valor. Classes sociais. Explora-
ção do trabalho.

INTRODUÇÃO até chegar, de forma mais acabada, em O Capital (1998


[1867]). Ora enfatizando aspectos conjunturais e po-
Trabalho, valor e classes sociais são eixos líticos, ora aspectos sociais estruturais, Marx consti-
conceituais fundamentais da teoria marxiana. No tuiu uma teoria que se movimenta por um processo
percurso de construção da crítica à economia polí- de determinação conceitual, isto é, onde os concei-
tica, Karl Marx foi, ao longo de sua trajetória, orga- tos de trabalho, valor e classe social se determinam
nizando sua análise da sociedade capitalista até reciprocamente à luz da historicidade de questões
chegar à estruturação de uma teoria baseada na urgentes que impregnavam as sociedades europeias
articulação entre a análise da exploração do traba- do século XIX.2

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lho assalariado, do valor como substância dessa Por um lado, há o desenvolvimento vertigi-
exploração para a constituição da mais-valia e do noso da indústria, com a incorporação de novas
lucro capitalista, bem como do modo como tais forças produtivas (maquinaria) e de massas de tra-
processos de exploração e valorização se constitu- balhadores, com a consequente ampliação caótica
em por uma histórica divisão social em classes.
2
Essa relação entre os conceitos de trabalho, Destaco, aqui, os conceitos de trabalho, valor e classe
social como os fundamentais da obra de Marx. No en-
valor e classes sociais tem sua primeira síntese em tanto, esse processo de determinação conceitual tem
relação com todo o arsenal de conceitos trabalhados pelo
Ideologia Alemã (2007 [1845-1846]), ganhando pro- autor. Trata-se, assim, de determinações conceituais que
caracterizam o “método” utilizado por Marx no processo
fundidade em muitos de seus escritos subsequentes, de análise das sociedades capitalistas. Essa característica
fundamental da análise marxiana, como mencionei, vai
além dessa tríade conceitual e teórica. As discussões
* Doutor em Ciências Sociais. Professor de Sociologia do relativas ao papel do Estado n´O 18 de Brumário de Luis
Departamento de Ciências Sociais e do Programa de Pós- Bonaparte (2011 [1852]) e em As Lutas de Classes na
graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal França (2012 [1850]) são também exemplos desse pro-
de São Paulo (UNIFESP/Guarulhos). cedimento de determinação conceitual. Nesses casos, a
Av. Monteiro Lobato, 679. Bairro Macedo. Cep: 07112-000. apreensão que Marx realiza da luta de classes e de como,
Guarulhos – São Paulo – Brasil. henriqueamorim@hotmail.com naquelas conjunturas políticas, essa luta tem relação
1
Esse artigo é fruto de pesquisa desenvolvida com o apoio com o Estado também está fundamentada nesse movi-
da FAPESP e do CNPq. mento dialético de determinação conceitual.

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AS TEORIAS DO TRABALHO IMATERIAL ...

das cidades, o aumento dos conflitos sociais e ado particularmente na classe operária, que execu-
políticos vinculados à necessidade, sempre pre- tava um trabalho manual. Tratava-se de um con-
sente, de aumento da produtividade, além da in- junto de trabalhadores que, por ter um trabalho
tensificação do trabalho, com longas jornadas, pés- mais ou menos homogêneo, teria também cultura,
simas condições e baixos salários. Por outro lado, hábitos, ideologias, sentimentos, filiações partidá-
surgem as organizações de trabalhadores (socialis- rias e sociais também homogêneas. Portanto, esse
tas, comunistas e anarquistas), a organização da operariado foi pressuposto, pelas teorias críticas
liga dos comunistas, os congressos de trabalhado- ao paradigma produtivo, como um bloco indistin-
res e os jornais e periódicos revolucionários. Trata- tamente homogêneo que, por estar no centro da
se de alguns dos acontecimentos históricos centrais produção de mercadorias, se alçava como sujeito
para Marx e que balizam sua análise das sociedades da revolução socialista.
capitalistas europeias e, generalizando os proces- Com base nessa leitura, com as transforma-
sos históricos e sociais que presenciou, os contor- ções na produção a partir da década de 1960, so-
nos estruturais da relação entre capital e trabalho. bretudo com a introdução da produção toyotista,
Esse tripé conceitual, que estrutura a pro- da microeletrônica e da automação, não mais pre-
blemática de Marx, teve, nas últimas décadas, sua dominantemente baseadas no trabalho manual, a
validade contestada. No centro dessa crítica, esta- produção baseada nesse tipo de trabalho, que
va a tese segundo a qual as sociedades capitalistas percorreu todo o século XVIII e XIX até chegar aos
contemporâneas teriam deslocado, de alguma for- anos 1960, teria perdido sua hegemonia. A produ-
ma, seu centro dinâmico para além da produção e ção toyotista parecia não seguir o mesmo padrão
do trabalho na indústria. De uma forma geral, o produtivo e apresentava o trabalho intelectualizado
trabalho e a produção de mercadorias não teriam como a nova e principal força produtiva das socie-
acabado. No entanto, a produção de mercadorias dades capitalistas contemporâneas.
teria dado lugar a outras expressões sociais e polí- À primeira vista, o novo “modelo” produti-
ticas que se tornariam, heterogeneamente e em con- vo toyotista e flexível se distanciava significativa-
junto, base para a constituição da sociabilidade e mente de seu predecessor. Com a introdução do
da política contemporâneas.3 processo de automação das indústrias, as formas
Tal perspectiva parte da interpretação de que de trabalho tipicamente fordistas, que vinculavam
a análise marxiana estaria restrita à análise das for- o trabalhador a um posto específico de trabalho e
mas de produção que se desenvolveram desde o que eram determinadas pelo trabalho fundamen-
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século XVIII até aproximadamente a década de talmente manual, foram substituídas por engrena-
1960,4 isto é, o período que compreende a intro- gens tecnológicas automatizadas, nas quais o tra-
dução da maquinaria e da grande indústria na balhador teria sido “posto para fora do processo
Europa e todo o processo de radicalização desse de trabalho estrito senso”.5 Assim, sem uma inter-
tipo de produção que se desenvolveu ao longo do venção direta do trabalhador nos processos de tra-
século XIX, somadas às práticas de racionalização balho, ele teria se tornado basicamente um vigia da
gerencial tayloristas e ao aparato tecnológico de máquina. Além disso, essa vigilância se apresenta-
controle e domesticação social introduzido por ria como uma atividade multifuncional. O trabalha-
Henry Ford nas primeiras décadas do século XX, dor polivalente dessa nova indústria seria o res-
nos Estados Unidos. Tal perspectiva pressupõe ponsável pelo funcionamento e pela manutenção
também que, nesse longo período, que vai do sé- de várias máquinas robotizadas, o que, de alguma
culo XVIII aos anos 1960, a produção teria se base- maneira, demandava qualificações predominante-

3
Ver, por exemplo, Inglehart (1997), Offe (1994), Bell
(1977), Touraine (1970) e Habermas (1987). 5
Sobre essa discussão, ver Ruy Fausto (1989) e Amorim
4
Ver, entre outros, Dahrendorf (1982 [1957)]. (2009).

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mente intelectuais, que configuravam um processo tempo livre passaria a ser a medida da riqueza,
contraditório: ao mesmo tempo em que a introdu- subordinando o tempo de trabalho necessário como
ção de novas tecnologias expulsava uma grande medida do valor. O trecho dos Grundrisse de Marx
quantidade de trabalhadores das fábricas, agora mais usado para qualificar essa compreensão foi:
automatizadas, esse tipo de produção demandava
trabalhadores intelectualmente qualificados, isto é, O capital aumenta o tempo de mais-trabalho
mediante todos os recursos da arte e da ciência,
que tivessem como elemento constitutivo de suas pois sua riqueza consiste diretamente na apro-
qualificações profissionais o conhecimento e a in- priação do tempo de mais-trabalho; uma vez que
seu objetivo é diretamente o valor, não o valor de
formação.
uso. Assim, e apesar dele mesmo, ele serve de
Para que os autores da “economia do co- instrumento para a criação de tempo disponível
nhecimento”6 justificassem essa suposta ruptura em escala social, para reduzir a um mínimo de-
crescente o tempo de trabalho de toda a socieda-
com as formas de produção até os anos 1960, nada de e assim, tornar livre o tempo de todos para o
melhor que ilustrá-la utilizando as teses do pró- seu próprio desenvolvimento. Todavia sua ten-
dência, porém, é sempre, por um lado, a de criar
prio Marx. Assim, poder-se-iam matar dois coe-
tempo disponível, por outro lado, de convertê-lo
lhos com uma só cajadada, isto é, demonstrar a em trabalho excedente. Quando tem pleno êxi-
tendência de substituição do trabalho material pelo to, o capital experimenta uma superprodução e,
então, o trabalho necessário é interrompido por-
imaterial e a superação da teoria marxiana. Foi nesse que não há trabalho excedente para ser valoriza-
sentido que os Grundrisse de Marx (2002, 2011 do pelo capital. Quanto mais se desenvolve esta
contradição, mais se faz evidente que o cresci-
[1857-1858])7 foram fartamente trazidos à discus-
mento das forças produtivas já não pode estar
são, para exemplificar, como o próprio Marx já havia ligado à apropriação de trabalho excedente
previsto, essa substituição e demonstrar que ela alheio, mas sim que a massa operária mesma
deve se apropriar de seu mais-trabalho (Marx,
seria fruto do desenvolvimento automático das 2002, p.231-232; 2011, p.590-591).
forças produtivas da própria indústria.8
Nessa aspiração revolucionária das forças Descolado, especificamente, dos Grundrisse
produtivas, sob o signo de que o conhecimento e, em geral, da obra de Marx, esse trecho motivou a
não poderia ser fonte do valor, dada a sua interpretação de que o desenvolvimento das formas
imensurabilidade, a relação entre tempo de traba- de trabalho imaterial (cognitivas) se apresentaria
lho e tempo livre foi apresentada como chave para como uma tendência social que teve seu início nas
descrever o esgotamento da produção industrial sociedades economicamente mais desenvolvidas
e, sendo o marxismo supostamente uma teoria do (Europa Ocidental, EUA e Japão), nos anos 1960, e

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industrialismo, apresentou-se sua própria caduci- que se estenderia, inevitavelmente, para a periferia
dade. Teríamos, portanto, não uma revolução, mas do capitalismo. As forças produtivas imateriais se-
uma passagem, não uma ruptura, mas um esgota- riam, portanto, apresentadas como tendencialmente
mento natural, não uma luta de classes sociais centrais para o próprio desenvolvimento do capita-
antagônicas, mas um arranjo e uma conciliação lismo. Não obstante, em seu desenvolvimento, con-
política entre grupos sociais heterogêneos. traditoriamente, estariam, explicitadas as limitações
Como consequência dessa argumentação, o da relação entre capital e trabalho.
6
Permito-me aqui uma generalização em relação aos auto- É dentro desse conjunto de argumentos que
res que indicam que o trabalho imaterial seria, está posto o principal questionamento deste arti-
tendencialmente, a principal força produtiva nas socie-
dades capitalistas contemporâneas. Assim, tomo em- go: a que conceitos de trabalho, valor e classe soci-
prestado de Gorz (2005) a expressão “economia do co-
nhecimento” para designar os autores que se valem des- al as teses que consideram o trabalho imaterial a
sa indicação geral, precisando, ao longo do texto, as
especificidades de cada autor. força produtiva central nas sociedades contempo-
7
Cotejo duas traduções dos Grundrisse: a da Editora râneas se referem?
Boitempo (2011) para o português e a da Siglo Veintiuno
Editores (2002) para o espanhol. No início da década de 1990, com Maurício
8
Ver: Amorim (2013). Lazzarato, Antonio Negri e André Gorz, a discus-

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são sobre o trabalho imaterial se avolumou, e a material? Em linhas gerais, para Gorz (2005),
reflexão que esses autores propunham respondia Lazzarato (1993; 1992), Negri (2002; 2004), e
a interpretações específicas dos conceitos de tra-
Lazzarato e Negri (1991), o trabalho imaterial é apre-
balho, valor e classe social. Específicas no sentido
sentado como um trabalho sem substância física e
de que, apesar de podermos identificá-las no es- que tem sua fonte predominante em trabalhos in-
pectro mais geral da teoria marxista, não podem ser
telectuais que podem estar relacionados à presta-
evidenciadas na obra de Marx. Ou seja, apesar de ção de serviços, à administração, à gerência e ao
as teses sobre o trabalho imaterial como força pro-
controle dos processos de trabalho, ou mesmo a
dutiva central endereçarem sua crítica particular-
atividades produtivas que têm como fundamento
mente a Marx, elas realizaram uma interpretação o conhecimento e a informação utilizados dentro
alheia a esse autor. Consideram, assim, o conceito
dos processos de trabalho. A informação e o co-
de trabalho com base apenas no trabalho manual nhecimento são, assim, considerados o núcleo
(físico) realizado na fábrica, de valor como uma ex-
duro do trabalho imaterial.
pressão mensurável aritmeticamente da exploração Esse tipo de trabalho, segundo Gorz (2005),
do trabalho manual e de classe trabalhadora ou pro-
passaria, diferentemente do trabalho manual, a
letariado como sinônimo de classe operária, sujeito
acionar a criatividade, a rapidez de raciocínio, a
desse processo de valorização e, por conseguinte,responsabilidade de comandos decisórios e as for-
sujeito político revolucionário por excelência. mas de intelecção do trabalhador, fazendo surgir
Na tentativa de aparar as arestas em relação
uma “economia do conhecimento”. Essa “econo-
às diferenças entre os conceitos de trabalho, valor
mia do conhecimento” seria, com isso, “[...] a prin-
e classe social formulados por Marx e a interpreta-
cipal fonte de valor e de lucro, e assim [...] a prin-
ção desses conceitos realizada pela “economia do cipal forma de trabalho” nas sociedades contem-
conhecimento”, nossa argumentação tem como porâneas (Gorz, 2005, p. 29). No entanto, tais ati-
objetivo, ao problematizar as principais teses que
vidades teriam uma dupla dimensão. Ao mesmo
envolvem a discussão sobre o trabalho imaterial, tempo em que se tornariam fonte do valor, se apre-
apresentar uma leitura alternativa que tenha comosentariam como imensuráveis, já que o conheci-
ponto de partida a análise marxiana no que se re-mento, fundamento dessa atividade, “não é mais
fere aos processos de produção, caracterizando-osredutível a uma quantidade de trabalho abstrato”
como processos que são determinados historica- (2005, p. 29). Dessa forma, esse caráter peculiar
mente pelo antagonismo social e que podem ser dos trabalhos imateriais e cognitivos foi conside-
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analisados com base nos conceitos de trabalho, rado como fruto do conteúdo intelectual heterogê-
valor e classe de Marx. Nesse sentido, é funda- neo que tal atividade inscreve. Portanto, Gorz pro-
mental discutir as diferenças entre trabalho imaterial
cura distinguir a imaterialidade do trabalho como
e trabalho material, a relação do trabalho imaterial
o exato oposto do trabalho manual, sendo esse
com a produção de mais-valia e com as classes último um trabalho no qual a dimensão cognitiva
sociais, além de indicar pistas, em uma conjuntu-estaria completamente ausente e no qual a
ra na qual a precarização do trabalho se apresenta
homogeneidade de funções prevaleceria.
como regra, sobre o lugar do trabalho imaterial Já para Lazzarato (1990), valendo-se parti-
nesse processo. cularmente das transformações tecnológicas
implementadas nas fábricas toyotistas nos anos
1960 e 1970, o conteúdo das atividades produti-
TRABALHO IMATERIAL E TRABALHO MATERIAL vas tenderia a substituir o operário especializado
pelo operário polivalente. Esse operário polivalente
Em que medida podemos diferenciar desenvolveria uma nova subjetividade, de coman-
conceitualmente o trabalho imaterial do trabalho do, distinta daquela taylor-fordista, rotinizada, di-

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ante do conjunto das máquinas e robôs. A ativida- trabalho intelectual se apresentaria como um
de do operário polivalente não seria, assim, uma antípoda do trabalho manual? A resposta se im-
atividade padronizada, tornando cada vez mais põe: de nenhuma forma! Toda atividade humana,
difícil sua mensuração, sobretudo por estar “[...] no capitalismo ou em outros modos de produção,
fundada sobre decisões cada vez mais difíceis de depende de graus de intelecção variados. Nos
serem prescritas” (1990, p.158). Segundo Manuscritos Econômico-Filosóficos (2004 [1844]),
Lazzarato, a imediata consequência disso é que a Marx observou que toda atividade humana é um
organização da produção capitalista é forçada a processo de exteriorização e, nas Teses sobre
devolver a subjetividade ao trabalhador, na medi- Feuerbach (1993, [1845]), indicou, de maneira mais
da em que depende de seu desenvolvimento inte- acabada, que se tratava de um processo de
lectual para gerar lucro. objetivação da subjetividade humana, isto é, um
Sintetizando os elementos que Gorz e pôr-se no mundo, em sucessivas sínteses histori-
Lazzarato indicaram acima, Negri define o traba- camente determinadas, o que rompe teoricamente
lho imaterial como “[...] aquele que produz os bens com qualquer dualidade metodológica entre sujei-
imateriais como a informação, os saberes, as ideias, to e objeto. Dessa forma, qualquer atividade hu-
as imagens, as relações e os afetos” (Negri, 2004, mana, seja ela intelectual ou manual, fundamenta-
p. 44) e que “[...] hoje, no período no qual o traba- se, desde Marx, como um processo no qual subje-
lho imaterial está qualitativamente generalizado e tividades são objetivadas em um modo de produ-
tendencialmente hegemônico, o intelectual se en- zir, em um modo de vida. Trata-se, portanto, de
contra completamente no interior do processo de uma objetivação que tem por fundamento a marca
produção [sendo, portanto] o novo sujeito, poder da subjetividade histórica. Assim, ao relacionar-
constituinte, potência do comunismo” (Lazzarato; mos a subjetividade de coletivos de trabalho a de-
Negri, 2003). terminações absolutas, a possibilidade teórica de
Para entender como se fundamenta a tese dicotomização do que seria intelectual e manual
segundo a qual as sociedades contemporâneas te- no trabalho se dilui.
riam como principal força produtiva o trabalho Portanto, os trabalhos manuais e intelectu-
imaterial, é necessário partir da compreensão do ais não estão alheios a esse processo histórico de
que seria o trabalho material e também do que se- sucessivas objetivações. São, na prática, expres-
ria materialidade, o que nos remete diretamente à são dele. No entanto, há diferenças sociológicas
relação entre trabalho manual e trabalho intelectu- que podem distingui-los. Essas diferenças, se per-

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al, sobretudo no sentido de compreender em que manecermos dentro da análise marxiana, dizem
medida tais conceitos não são tipos ideais que se respeito às variações de conteúdo. Existem, assim,
opõem dicotomicamente. Esses conceitos são, em coletivos de trabalho que cavam, outros que mine-
Marx, abstrações concretas, que se determinam ram, outros que plantam, outros que operam má-
reciprocamente, isto é, conceitos que exprimem quinas, outros que montam aparelhos eletrônicos,
interdependências históricas contraditórias, carac- outros que administram e gerenciam processos de
terizadas na organização das atividades de execu- trabalho, outros que combinam componentes para
ção e de elaboração da produção e manipuladas estruturar engrenagens tecnológicas, outros que
pelo capital de distintas maneiras e com conteú- projetam turbinas e bombas nucleares, isto é, há
dos diferentes em também diferentes formações diferenças em relação aos conteúdos desses traba-
sociais e conjunturas históricas, com o objetivo lhos, que são significativas na medida em que sua
de, ao (re)organizar a classe trabalhadora, repro- articulação produtiva incide na organização técni-
duzir sua condição de classe explorada e domina- ca desses coletivos de trabalho, nas políticas edu-
da socialmente. cacionais e de qualificação profissional estatais e
Dito isso, interrogamo-nos: de que forma o nos investimentos em setores industriais particu-

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lares que, em conjunto, (re)organizam as formas Contrariamente, os argumentos centrais do


de elevação da produtividade do trabalho para a debate sobre a imaterialidade do trabalho, de Gorz
ampliação do lucro capitalista. (2005) a Negri (1992), de Lazzarato (1993) a Moulier-
Do ponto de vista da utilidade – e o capital Boutang (2007), estão ancorados no conteúdo do
procura incentivar essa variedade de qualificações trabalho, isto é, no conceito de trabalho concreto.
profissionais –, tais atividades podem ser lidas com Isto os faz projetar o desenvolvimento (dentro do
base no conceito de trabalho concreto. Trabalhos capitalismo), primeiro, de qualificações profissio-
que têm características próprias e são, em si, nais intelectuais não subordinadas ao controle do
diferenciáveis uns dos outros. Não obstante, as capital e, segundo, de sujeitos sociais que fariam
sociedades, e não a teoria marxiana – é bom que se radicalizar o processo de insubordinação do traba-
diga – estabeleceram formas de troca mercantil no lho imaterial, haja vista sua singular e revolucio-
capitalismo em que essas características singula- nária constituição.
res do trabalho foram diluídas. Essas trocas se cons- Portanto, essa conclusão parte de uma com-
tituíram não com base nas características particu- preensão vulgar do trabalho assalariado, ao desco-
lares desses trabalhos, mas com base em algo co- lar a produção de mercadorias intangíveis das for-
mum a todas elas. Marx chamou esse elemento mas de produção tipicamente capitalistas. Para
comum, presente em todos os trabalhos, no capi- esses autores, a imaterialidade do trabalho não tem,
talismo, de trabalho abstrato, definindo-o como assim, sua determinação nas formas de produção,
tempo de trabalho médio socialmente necessário à na rede de relações que fundamentam um modo
produção de mercadorias. As mercadorias são particular de produzir, mas no conteúdo que é
trocadas, portanto, não pela sua utilidade, mas pelo manipulado ou concebido nos processos de traba-
trabalho nelas sintetizado. Assim, o trabalho con- lho. Com isso, os autores da “economia do conhe-
creto, particular, específico e distinguível se su- cimento” concluem que a brutalidade e a estupi-
bordina histórico-socialmente ao trabalho abstra- dez do trabalho manual estariam em oposição à
to, isto é, um trabalho em geral e que expressa criatividade, à inteligência e à versatilidade do tra-
diferentes quantidades de valor, fator que os torna balho imaterial, cognitivo e intelectual como se
socialmente intercambiáveis. ambos estivessem separados por condições objeti-
O trabalho abstrato, assim, é apresentado vas radicalmente distintas.
por Marx em O Capital (1998) como um regulador Em contraposição a essa perspectiva, Marx
das trocas mercantis. Portanto, do ponto de vista nos lembra de que: “A mercadoria é, antes de tudo,
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da troca de mercadorias no capitalismo, não im- um objeto externo, uma coisa, a qual pelas suas
porta a particularidade dos trabalhos concretos, propriedades satisfaz necessidades humanas de
mas sim como, com base neles, é possível aumen- qualquer espécie. A natureza dessas necessidades,
tar a produtividade do trabalho abstrato para a va- se elas se originam do estômago ou da fantasia,
lorização do capital. Nesse sentido, o empreendi- não altera nada na coisa” (1998, p. 45). Portanto, a
mento capitalista se destina ora à produção de li- produção de conhecimento ou de automóveis pode
vros, ora à produção de carros, ora à produção de ou não estar sob condições historicamente deter-
discos, ora à produção de softwares, ora à produ- minadas pelo capital. Sua produção não é deter-
ção de operários manuais, ora à de operários inte- minada pelos conteúdos do trabalho e do produto
lectuais e, na maioria das vezes, combina desigual- desse trabalho. O que está em jogo, na produção de
mente todas essas formas de trabalho, observando, mercadorias intangíveis ou tangíveis, é a forma como
nessas variações de investimento, as possibilida- ela, a produção, foi organizada. Se o objetivo dessa
des de ampliação do lucro baseada na exploração produção é produzir uma quantidade maior de
mais intensa e (ou) extensa da jornada de trabalho, mercadorias em um tempo cada vez mais reduzido,
a depender do país e de sua legislação trabalhista. sob o regime de assalariamento, trata-se ainda, ine-

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vitavelmente, da produção de mais-valia. meiro item deste artigo, é necessário escavar mais
A imaterialidade do trabalho, proclamada profundamente as relações sociais e explicitar, com
pela “economia do conhecimento”, sugere, por fim, base nelas, os equívocos dos argumentos que fun-
que a produção de mercadorias industriais e, com damentam, segundo Moulier-Boutang (2007), a tese
isso, a teoria marxista, teriam sido colocadas em do “capitalismo cognitivo”, sobretudo no que se
xeque. Não obstante, essa assertiva tem como fun- refere à produção de valor e à compreensão, por
damento que a reprodução das relações de produ- parte desses teóricos, do que seria o valor em Marx.
ção capitalistas estaria assentada apenas no traba- Assim, a tese de que as sociedades capitalistas
lho manual. Com a redução do número de postos tendencialmente estariam caminhando em direção
de trabalho manuais na Europa, nos Estados Uni- ao um novo tipo de organização social, denomina-
dos e no Japão a partir de 1960, e com o ascenso do como “capitalismo cognitivo”, apresenta-se
dos trabalhos imateriais, a economia baseada na como alternativa à crítica da economia política ca-
produção de valor estaria fadada ao declínio. A pitalista e à necessidade de superação do antago-
materialidade do trabalho é, assim, confundida com nismo classista, fundado na relação contraditória
sua natureza física. Há, portanto, nessa interpre- entre capital e trabalho assalariado.
tação um reducionismo analítico, no sentido em Contrariando essas teses, segundo dados
que se consideram sólidos apenas os elementos da Relação Anual de informações Sociais (RAIS) e
físicos do processo de produção, e não as relações do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), no
sociais de produção, os valores, as expressões sim- Brasil, por exemplo, podemos notar que o núme-
bólicas e os confrontos políticos, sínteses da luta ro de operadores de telemarketing empregados, no
de classes, que estruturam essa produção. que se refere aos anos de 2002 a 2013, mais do que
triplicou, passando de 125 mil postos de trabalho
a 419 mil postos. Em relação aos analistas de siste-
TRABALHO IMATERIAL E VALOR-TRABALHO mas computacionais, o número sai de 89 mil pos-
tos de trabalho para 250 mil. Esses trabalhadores
Ao desenvolver a hipótese geral trabalhada estão, em sua imensa maioria, vinculados a gran-
neste texto, isto é, a de que há uma compreensão des empresas capitalistas, que se utilizam de sua
reducionista dos conceitos de trabalho, valor e clas- força de trabalho, com baixíssimas condições e com
se social em Marx, realizada pelos autores que iden- elevados índices de rotatividade no trabalho. Não
tificam o trabalho imaterial como força produtiva há, entre esses trabalhadores, do ponto de vista da

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central em nossos tempos, procuramos, no pri- criação ou do controle da produção, nenhuma di-
meiro item, demonstrar os equívocos dessa ferença em relação ao operário fordista. Os opera-
indevida apropriação, mostrando em que se fun- dores de telemarketing têm hoje, no Brasil, gran-
damenta a materialidade histórica da produção des índices de insatisfação e doenças no trabalho,
capitalista e enfatizando a recíproca determinação em decorrência do elevado grau de repetição e de
entre os conceitos de trabalho manual e trabalho rotinização de suas funções, que são estimuladas
intelectual. Não obstante, essa discussão merece pela organização gerencial e fruto das rígidas re-
um desdobramento dialético, já que ela se funda- gras de controle de desempenho de produtivida-
menta na produção de valor, isto é, no momento de, caracterizadas pela imposição de metas produ-
em que se interroga: que tipo de produção e de tivas, ocasionando, na maioria das vezes, o aban-
trabalho produz valor? Para a “economia do co- dono do trabalho.
nhecimento”, seria apenas uma produção baseada Diante disso, a compreensão do que é valor
no trabalho manual e medida pelo tempo de traba- em Marx e de como ele é criado precisa ser anali-
lho despendido. sada. Voltando a Marx para esclarecer esse aspecto
Seguindo os argumentos levantados no pri- do debate, interrogamo-nos: em que medida o va-

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lor pode ser aritmeticamente quantificado ou cal- quanto de trabalho empregado, que do poder dos
agentes postos em movimento durante o tempo
culado? Endereçar essa questão à teoria do valor- de trabalho, poder que a sua vez – seu powerful
trabalho de Marx é pressupor que ela contém uma effectiveness – não guarda relação alguma com o
tempo de trabalho imediato que custa sua produ-
determinação do valor como um elemento aritmeti-
ção, depende muito mais do estado geral da ciên-
camente mensurável. Contrariamente, Marx identifi- cia e do progresso da tecnologia, ou da aplicação
ca, em O Capital, o valor como resultado de um “[...] desta ciência à produção (Marx, 2002, p. 220).
dispêndio produtivo de cérebro, músculos, nervos,
mãos, etc” (Marx, 1998, p. 51), que se torna uma Desdobrando seu raciocínio em um exercí-
mercadoria, no momento em que, ao negar a sua uti- cio lógico, Marx leva às últimas consequências,
lidade, pode, na forma de quantidades abstratas de em seus rascunhos, a tendência de o trabalho morto
trabalho, ser trocada por outras mercadorias. substituir completamente o trabalho vivo, pelo
No entanto, a “economia do conhecimento” desenvolvimento da ciência e da tecnologia apli-
alega haver, em Marx dos Grundrisse, os primeiros cadas à produção.10 Nesse sentido, projeta, na pas-
elementos que justificariam a superação do capita- sagem acima, a perspectiva de uma transformação
lismo através da produção imaterial. Gorz, por lógica e não histórica, isto é, automática, fruto do
exemplo, afirma que o trabalho “[...] deixa de ser desenvolvimento do próprio capitalismo e não
mensurável em unidades de tempo. Os fatores que pautada pela luta de classes. Seria, dessa forma,
determinam a criação do valor [passam a ser] o um atribuir ao desenvolvimento das forças produ-
componente comportamental e a motivação, e não tivas um papel transformador das relações sociais
o tempo de trabalho despendido” (Gorz, 2005, p. e dar a elas o estatuto de autônomas? Não obstante,
10). No entanto, acrescenta que, quando o conhe- em outra passagem, Marx indica que a “[...] rique-
cimento passa a ser capitalizado, cria-se uma nova za não é disposição de tempo de mais-trabalho (ri-
fronteira que suprime a dependência do suporte queza efetiva), mas sim ‘tempo disponível, à parte
físico e humano para circular. “Quanto mais se e usado na produção imediata, para cada indiví-
propaga, mais útil ele é à sociedade. Seu valor duo e toda a sociedade’” (Marx, 2002, p. 229). De
mercantil, ao contrário, diminui com a sua propa- um lado, Marx vislumbra a substituição do tempo
gação e tende a zero” (Gorz, 2005, p. 10).9 Formar- de trabalho por ciência e tecnologia; de outro, en-
se-ia, com isso, uma “economia do conhecimen- tende que riqueza seria o tempo disponível usado
to”, na qual as relações mercantis e de troca capita- na produção para toda a sociedade.
listas seriam superadas, como foi supracitado. Nessas duas passagens, há duas faces de uma
CADERNO CRH, Salvador, v. 27, n. 70, p. 31-45, Jan./Abr. 2014

Nesse sentido, a produção imaterial colocaria a mesma moeda. Na primeira, ao projetar o desenvol-
produção de valor em xeque, na medida em que vimento das forças produtivas capitalistas, entende
não seria mais possível quantificar, em unidades que as condições materiais para a transformação
de tempo, o valor produzido nas mercadorias estrutural das sociedades capitalistas já estão pos-
imateriais. Essa economia seria, ela própria, a ne- tas nelas mesmas, isto é, que não se trata de uma
gação do capital. fundamentação utópica sobre a necessidade de cons-
Uma das passagens mais utilizadas dos trução política do socialismo, mas que, no próprio
Grundrisse para fundamentar o argumento sobre a capitalismo, se constituíram os elementos que per-
centralidade do trabalho imaterial é: 10
É exatamente de uma interpretação determinista das
forças produtivas (ciência e tecnologia aplicadas à pro-
Na grande indústria a criação da riqueza torna-se dução) que Gorz retira sua compreensão sobre o devir
menos dependente do tempo de trabalho e do histórico, ao afirmar que: “Os “progressos tecnológicos”
conduzem [...] inevitavelmente à questão do conteúdo
e do sentido do tempo disponível. Ainda mais: interro-
9
Em Les Chemins du Paradis, Gorz afirma que: “O tempo gam a natureza de uma civilização e de uma sociedade
de trabalho não poderá mais ser a medida do valor econô- que valoriza mais o aumento do tempo disponível que o
mico. O salário não poderá mais estar em função da quan- aumento do tempo de trabalho e para as quais, por
tidade de trabalho, nem o direito a uma renda estar subor- consequência, a racionalidade econômica não rege mais
dinado pela ocupação de um emprego” (1983, p. 69). o tempo de todos“ (1988, p. 17-18).

38
Henrique Amorim

mitem tal construção revolucionária. A segunda aler- de mercadorias informacionais, comunicacionais


ta para o fato de que, com base apenas no desenvol- e também de roupas, sapatos, automóveis e casas?
vimento da produção capitalista, não há possibili- E, por fim, por que a intangibilidade das mercado-
dade alguma de um empreendimento revolucioná- rias imateriais impediria a produção do valor?
rio ser levado a cabo, já que não se apresenta como A resposta dada pela “economia do conhe-
possibilidade material que “cada indivíduo e toda a cimento” a essa última questão se fundamenta,
sociedade” se utilize do tempo disponível. Isso nos como tentamos demonstrar neste item, em uma
remete à pressuposição, sempre presente em Marx, incompreensão do conceito de valor-trabalho e,
de que a apropriação da produção de mercadorias sobretudo, da noção de tempo de trabalho em Marx.
no capitalismo e, portanto, do tempo disponível é Ou seja, uma incompreensão que se assenta na
sempre privada. indicação de que, de um lado, apenas a produção
Nesses termos, a sociedade capitalista é regida de mercadorias físicas seria passível de ser codifi-
para atingir cada vez maiores excedentes produti- cada pelo capital e, de outro, a produção imaterial
vos, sendo que o tempo que se “libera”, no proces- se apresentaria como negação do capital na medi-
so de substituição de trabalho vivo por trabalho da em que não admitiria ser quantificada em uni-
morto, não se dá na forma de libertação do trabalha- dades de tempo de trabalho. Portanto, em vez de
dor, mas sim na forma do desemprego, da se ater a como se produz a sociedade capitalista, a
subcontratação, do subemprego, da terceirização, da “economia do conhecimento” se atém a como se
intensificação da exploração do trabalho, da dimi- produz na sociedade capitalista, em vez de se ater
nuição drástica da seguridade do trabalho, dos sa- às relações sociais que conformam a produção
lários indiretos e dos direitos sociais. Nas socieda- imaterial, se atém à substância física ou abstrata da
des capitalistas, salvo alucinação coletiva, a classe matéria-prima utilizada nessa produção. A
trabalhadora não usufrui do tempo de trabalho li- materialidade passa a ser entendida, dessa forma,
berado pelo desenvolvimento da ciência e da como sinônimo de físicidade. Com isso, a perspecti-
tecnologia aplicado à produção de mercadorias, já va histórica, fundamentada pela síntese de relações
que esse tempo é liberado de forma negativa. A di- sociais antagônicas, reduz-se à materialidade das coi-
minuição do tempo de trabalho necessário (materi- sas físicas, como se essas coisas não fossem, elas
al ou imaterial) não constitui, automaticamente, um também, expressão e síntese de relações sociais.
tempo disponível para toda a sociedade, na medida
em que esse tempo liberado tem por objetivo redu-

CADERNO CRH, Salvador, v. 27, n. 70, p. 31-45, Jan./Abr. 2014


zir os custos com a força de trabalho, barateando as TRABALHO IMATERIAL E CLASSES SOCIAIS
mercadorias e, assim, aumentar as taxas de mais-
valia apropriadas privadamente pelo capital. Chegamos a um dos pontos mais contro-
Nesse sentido, a produção capitalista tem versos do debate acerca do trabalho imaterial: a re-
como fundamento, não apenas hoje, mas desde lação entre a imaterialidade do trabalho e as formas
seu início, o desperdício de recursos humanos e a de luta política. Se o trabalho manual e o valor-
intensificação da exploração daqueles trabalhado- trabalho foram supostamente superados por uma
res que permanecem em seus trabalhos”. Diante economia fundada no conhecimento e na informa-
disso, por que não invertermos a questão e enten- ção, a derivação lógica, para os autores que susten-
dermos esse processo de utilização da força de tra- tam esse raciocínio, é a de que cairia, com eles, o
balho intelectual como mais uma fronteira em que sujeito desse processo, isto é, a classe operária.
o capital avança para se valorizar? Por que não Para a “economia do conhecimento”, a clas-
analisarmos esse processo como um desenvolvi- se operária teria prevalecido politicamente duran-
mento das formas de exploração do trabalho que, te os últimos três séculos até os anos 1960. A par-
nos últimos quarenta anos, combinam a produção tir dessa década, com as transformações produti-

39
AS TEORIAS DO TRABALHO IMATERIAL ...

vas da indústria automatizada e flexível, uma Vale a pena resgatar O Capital de Marx, par-
heterogeneidade de sujeitos políticos se apresen- ticularmente o capítulo cinquenta e dois, intitulado
taria, tomando seu lugar na cena política. Seguin- “As Classes” (Marx, 1998, p. 297-298), para qualifi-
do o raciocínio desses autores, a classe operária car como o autor se utiliza do conceito de classe
seria aquela que executa um trabalho manual social. Assim, poderemos retomar o debate sobre
rotinizado, controlado rigidamente por supervisores as classes na produção imaterial e qualificar as
e capatazes, no qual as funções e especializações apropriações desse conceito no debate contempo-
produtivas seriam predominantemente homogêne- râneo, sobretudo para qualificar a classe social para
as e facilmente controladas pelo capital. Com base além de determinações socioprofissionais.
nisso, a classe operária foi considerada como um Apesar de inacabado, o capítulo cinquenta e
bloco homogêneo de indivíduos vinculados direta- dois oferece os argumentos suficientes e necessári-
mente a um tipo de produção fabril. os para ultrapassarmos o terreno da definição
Apesar de haver uma gama de hierarquias economicista de classe social. Marx propõe ali, de
profissionais, de rendas, de diferenças étnicas, de início, uma leitura de como a estrutura social capi-
cor, sexuais, geográficas, políticas e ideológicas entre talista aparentemente se apresenta. Indica, dessa
os trabalhadores localizados nas indústrias taylor- forma, que a sociedade capitalista seria formada por
fordistas instaladas pelo mundo, prevaleceria a três grandes classes sociais: a capitalista, a assalari-
homogeneidade de sua atividade produtiva como ada e a dos proprietários de terra, na medida em
critério agregador, ou seja, seria preponderante sua que, à primeira vista, a identidade de rendimentos
atividade imediata na transformação da matéria- e as fontes de rendimento conformariam esses três
prima física em mercadorias. Nesse sentido, a classe grandes grupos sociais assim estratificados pelo
operária foi, durante todo o século XX, considera- salário, pelo lucro e pela renda da terra.
da como sinônimo de classe trabalhadora ou pro- Marx, partindo das formas aparentes de re-
letariado e definida centralmente pelo lugar que presentação dos indivíduos em grupos sociais os
ocupava no processo de produção. subdivide levando em consideração apenas a po-
Partindo dessa definição de classe trabalha- sição que o indivíduo ocupa no processo de pro-
dora como classe operária, a “economia do conhe- dução e a renda que essa ocupação lhe proporcio-
cimento” apresenta suas teses. Para ela, os traba- na. Nesse sentido, reduz a definição de classe so-
lhadores dessa nova economia não poderiam mais cial ao plano das determinações socioeconômicas.
ser pensados como classe social, já que o conjun- Na prática, as classes de capitalistas, de assalaria-
CADERNO CRH, Salvador, v. 27, n. 70, p. 31-45, Jan./Abr. 2014

to de profissões, atividades, qualificações profissi- dos e de proprietários fundiários seriam apenas


onais, saberes e conhecimentos que a compõe te- estratos sociais. Desdobrando o raciocínio de Marx,
ria se tornado tão variado e heterogêneo que se poderíamos defini-las com base em outros critéri-
contraporia àquilo que define a classe operária: sua os sociológicos além da renda e do posto de traba-
homogeneidade socioprofissional. Ou seja, a clas- lho. Assim, poderíamos nos utilizar do status,
se operária seria definida pela sua homogeneidade mérito, qualificação profissional manual ou
profissional e, pressupondo a tendencial redução cognitiva, cor, idade, prestígio, número de eletro-
da produção fabril de mercadorias tangíveis e o domésticos em uma residência familiar ou ainda a
crescimento das mercadorias intangíveis, as socie- frequência com que se vai ou não ao cinema, ao
dades capitalistas não poderiam mais ser analisa- estádio de futebol ou à ópera.
das com base no conceito marxista de classe soci- No entanto, no trecho seguinte, aprofundando
al. Se o que define classe social é a apenas a sua seu raciocínio, Marx nos sugere que se nos limitásse-
qualificação ou atividade profissional, isto é, seus mos à superfície das determinações socioeconômicas
elementos socioprofissionais, o conceito de classe de renda e de distribuição funcional na produção,
social marxiano teria se tornado ultrapassado. teríamos de admitir que

40
Henrique Amorim

[...] médicos e funcionários públicos, por exem- A rigor, não há relação de causalidade dire-
plo, também constituíram duas classes, pois per-
tencem a dois grupos sociais diferentes, em que ta entre a identidade profissional, material ou
os rendimentos dos membros de cada um deles imaterial, e a unidade política de classe. Essa rela-
fluem da mesma fonte. O mesmo seria válido
ção, primeiro, se restringe ao universo dos proces-
para a infinita fragmentação de interesses e de
posicionamentos em que a divisão do trabalho sos de trabalho e, segundo, promove uma deriva-
social separa tanto os trabalhadores quanto os ção determinista, na qual um conjunto de traba-
capitalistas e proprietários de terra – estes últi-
mos, por exemplo, em viticultores, agricultores, lhadores, por ocuparem o mesmo local de traba-
donos de florestas, donos de minas, donos de pes- lho e terem rendas semelhantes, se projetaria como
queiros (Marx, 1988, p. 298).
força social classista. Nesse sentido, quando a “eco-
nomia do conhecimento” indica a superação da
Como afirma Marx, teríamos tanto e quantas
divisão em classes, baseada em uma suposta
classes sociais quanto mais houvesse divisões pro-
heterogeneidade de funções, rendas e qualificações
fissionais e de qualificação e, com base nelas, divi-
profissionais, deveria ter como objeto de crítica as
sões de rendimento. Ou seja, o conceito de classe
concepções marxistas reducionistas desenvolvidas
social se diluiria completamente e se identificaria
pelos partidos comunistas durante o século XX.
amplamente com as noções sociológicas de catego-
Com base nesse reducionismo, que, ao final, foi
ria e ocupação profissionais próprias das teorias
corroborado também pela separação mecânica do
da estratificação social.
que é ou não trabalho e trabalhador produtivo e
Não obstante, desenvolveu-se, no seio do
improdutivo13, simplificou-se a tarefa de identificar
próprio marxismo hegemônico do século XX, a
os trabalhadores que compunham ou não a classe
tese segundo a qual as classes sociais, e particular-
operária, tomando-os como sujeitos históricos da
mente a classe trabalhadora, seria definida apenas
revolução socialista e transformando a classe social
com base na renda e na posição que os indivíduos
e, em especial, a classe trabalhadora ou o proletari-
ocupam no processo de produção, termos que Marx,
ado, em um conceito positivista que manifesta ape-
como demonstramos acima, já havia criticado no
nas um conjunto enumerável de indivíduos dis-
século XIX. Por exemplo, Nicolai Bukharin, em Tra-
postos em funções profissionais semelhantes.14
tado de Materialismo Histórico (1970 [1921]), defi-
A contraposição conceitual de uma classe
ne a classe social como “[...] um conjunto de pesso-
operária homogênea a um grupo profissionalmen-
as desempenhando um papel análogo na produção
te heterogêneo, para demonstrar a caducidade da
[...]. Daí decorre que, no processo de repartição dos
primeira, se assenta em um falso problema de pes-

CADERNO CRH, Salvador, v. 27, n. 70, p. 31-45, Jan./Abr. 2014


produtos, cada classe é unida pela identidade de
quisa, sobretudo na medida em que ela é
sua fonte de rendimento” (Bukharin, 1970, p. 323).
Essa interpretação das classes sociais prevaleceu na causalidade, a pesquisa da regularidade, da normalidade,
da uniformidade substituem a dialética histórica. Mas
maioria dos teóricos marxistas influenciados pelos como, a partir deste modo de conceber, é possível dedu-
partidos comunistas durante o século XX.11 Inter- zir a superação, a ‘subversão da práxis’? O efeito, meca-
nicamente, jamais pode superar a causa ou o sistema de
pretação que coincide absolutamente com aquela que causas; por isso, não pode haver outro desenvolvimen-
to que não aquele monótono e vulgar do evolucionismo.
Marx mostra estar circunscrita ao terreno das apa- Se o ‘idealismo especulativo’ é a ciência das categorias e
da síntese a priori do espírito, isto é, uma forma de abs-
rências sociais e que está fundamentada apenas em tração anti-historicista, a filosofia implícita no Ensaio
critérios de estratificação social.12 Popular é um idealismo invertido, no sentido de que
conceitos e classificações empíricas substituem as cate-
11
Há volumosas e rigorosas exceções, tais como as obras gorias especulativas, tão abstratas e anti-históricas quan-
de Gramsci (2004), Poulantzas (1977) e Thompson to estas” (Gramsci, 2004, p. 121).
13
(1998). Realizei a discussão da relação entre tempo de trabalho
12
Em 1932, no caderno 11 dos Cadernos do Cárcere, e trabalho produtivo e trabalho improdutivo, em: Amorim
Gramsci criticou não somente as implicações dessa con- (2009, 2013).
14
cepção reducionista de classe social, mas, sobretudo, o Bensaïd faz alusão a essa questão, mostrando como o
substrato teórico-filosófico de Bukharin: “A filosofia do PC francês se utilizava ideologicamente de uma concep-
Ensaio Popular [de Bukharin] pode ser chamada de um ção restrita de classe operária para classificar quais seri-
aristotelismo positivista, de uma adaptação da lógica for- am os trabalhadores que eram ou não sujeitos políticos
mal aos métodos das ciências físicas e naturais. A lei de revolucionários (Amorim, 2010).

41
AS TEORIAS DO TRABALHO IMATERIAL ...

endereçada a Marx. Nas análises de conjuntura seja, a diferença entre indústria e fábrica.
política que Marx desenvolve, por exemplo, em As É na distinção entre indústria e fábrica que
Lutas de Classes na França (2012) ou em O Dezoito estão assentadas as maiores dificuldades para que
Brumário de Luís Bonaparte (2011), as dimensões a “economia do conhecimento” não vislumbre a
política, ideológica e econômica estão imbricadas exploração das atividades intelectuais nos marcos
para qualificar a disposição das classes sociais. Não da produção tipicamente capitalista. Ao pressu-
há, dessa forma, um elemento determinado de for- por a teoria de Marx como uma teoria restrita ao
ma apriorística, seja ele econômico ou não, que te- industrialismo, as teses que compõem essa pers-
nha maior peso quando Marx observa as relações pectiva encaminham o argumento de que indús-
de classe dispostas socialmente na França entre os tria e fábrica seriam sinônimos e de que, com a
anos 1848 e 1850. relativa redução dos postos de trabalhos nas fábri-
Resumidamente, quando a “economia do cas de bens de consumo duráveis, esse tipo pro-
conhecimento” toma a classe operária como dução tenderia a dar lugar à produção imaterial. A
antípoda dos trabalhadores do imaterial, conside- indústria capitalista hoje, apesar de continuar a se
ra a primeira como um bloco homogêneo, defini- desenvolver em suas formas tradicionais, foi
do com base em sua renda e na posição que os reestruturada e tomou formas que articulam a pro-
trabalhadores ocupam no processo de produção. dução tipicamente fordista, em que um conjunto
Tem-se, com isso, a contraposição de duas catego- significativo de operários trabalha em um mesmo
rias profissionais e não de duas classes sociais, local, e também formas industriais constituídas
uma que tem, predominantemente, como funda- com base em redes de trabalhadores que vendem
mento de seu trabalho as mãos e outra a cabeça. seus produtos a preços baixíssimos a grandes
Em consequência, além de realizar uma compara- empresas. Nesse sentido, a noção de indústria não
ção apenas entre categorias profissionais e não entre pode se reduzir à de fábrica. A indústria capitalis-
classes sociais distintas, define a classe trabalha- ta conforma um tipo de organização produtiva que
dora com base em uma suposta homogeneidade tem como base a produção de mercadorias e a ex-
que não leva em conta padrões culturais, de domi- ploração do trabalho para a geração de lucro. Na
nação, de valores, ideológicos e políticos. Essa re- medida em que esse tipo de produção se impõe
dução analítica não permite que se estabeleça, ten- como hegemônica, as outras formas se submetem
do como referência a Ford em Michigan dos anos e reproduzem sua lógica.
1930 ou a Foxconn em Shenzhen dos anos 2010, O que Ricardo Antunes (2013) chamou de
CADERNO CRH, Salvador, v. 27, n. 70, p. 31-45, Jan./Abr. 2014

qualquer derivação que justifique a formação da “nova morfologia do trabalho” resume, em parte,
classe trabalhadora como força social com base o que estamos indicando aqui. A indústria e os
apenas em suas determinações de renda, função serviços vinculados às telecomunicações e os tra-
ou qualificação profissionais. balhos relacionados à inovação tecnológica cresce-
ram vertiginosamente no mundo, particularmente
no Brasil, a partir dos anos 1990, com o processo
AEXPLORAÇÃO DO TRABALHO NAATUALIDADE de privatizações iniciado no Governo Collor de
Mello e radicalmente aprofundado no governo
Direcionando a discussão para analisar em FHC. Assegurar as taxas de rentabilidade que esse
que medida a utilização da força de trabalho, nas setor em expansão abria se caracterizou como mais
sociedades contemporâneas, combina a explora- uma das fronteiras produtivas superadas pelo ca-
ção do trabalho predominantemente manual e do pital. Nesse sentido, todo um aparato produtivo
trabalho predominantemente intelectual, lançamos privado foi organizado no Brasil, com a ajuda do
mão, por fim, de uma diferenciação que a “econo- Estado, para constituir uma produção imaterial
mia do conhecimento” parece deixar de lado, qual lucrativa. Radicalizando as técnicas gerenciais e

42
Henrique Amorim

produtivas da indústria toyotista, a produção de do de 166,5 mil para 243,8 mil entre os anos de
informação e de serviços de informação e comuni- 1994 e 2011, se considerarmos a indústria, a im-
cação, oriunda do setor de telecomunicação, agre- plantação e os serviços desse setor.
gou alguns elementos que merecem destaque. Nas Diante dos argumentos desenvolvidos neste
empresas de telemarketing, o alto índice de estresse, texto, encerramos apontando que, como foi argu-
hipertensão e a alta rotatividade nos postos de tra- mentado, o capital procura combinar a produção
balho marcam essas atividades como uma das mais de mercadorias materiais e imateriais, articulando,
precarizadas no Brasil dos últimos anos. para isso, regiões distintas e também diferentes apa-
Nesse mesmo sentido, Rosso destaca que ratos tecnológicos e gerenciais. Essa combinação de
“O trabalho imaterial produz impactos distintos formas de produção industrial tradicionais, com um
do material sobre o empregado, devido não ape- continente cognitivo, que até ontem foi pouco ex-
nas ao tipo de serviço realizado, como especial- plorado pelo capital, alargou a dominação e a ex-
mente às determinações a que sujeita o trabalha- ploração do trabalho, racionalizando ainda mais os
dor. O labor imaterial intensificado apresenta um processos de trabalho. Como desdobramento dessa
quadro específico de problemas à saúde do traba- condição de extrema subalternidade da classe tra-
lhador” (Rosso, 2008, p. 144). No entanto, esse balhadora, as teses que apresentam o trabalho
quadro de doenças no trabalho não se deve, espe- imaterial como nova força produtiva – e, para tal,
cialmente, a características particulares ao traba- reconhecem o fim do trabalho, do valor e das clas-
lho imaterial, como tarefas repetitivas em períodos ses sociais – se assentam em uma perspectiva que
prolongados, pressão por produtividade e em re- acaba por corroborar os preceitos mais centrais do
lação à qualidade do trabalho realizado e no con- atual processo de precarização do trabalho.
trole emocional.
Diante desse quadro que se generaliza na
Europa, nos Estados Unidos, na China e no Bra- Recebido para publicação em 12 de janeiro de 2014
Aceito em 27 de março de 2014
sil, como seria possível indicar a superação do tra-
balho assalariado, da valorização do capital e da
classe trabalhadora? Ou ainda, em que medida as REFERÊNCIAS
sociedades contemporâneas não mais estariam con-
dicionadas centralmente pela produção de merca- AMORIM, Henrique. O tempo de trabalho: uma chave
analítica. Sociedade e Estado, Brasília, UnB, v. 28, n. 03,
dorias que articula o trabalho assalariado, a pro-

CADERNO CRH, Salvador, v. 27, n. 70, p. 31-45, Jan./Abr. 2014


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CADERNO CRH, Salvador, v. 27, n. 70, p. 31-45, Jan./Abr. 2014

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Henrique Amorim

THEORIES OF IMMATERIAL LABOR: a LES THÉORIES DU TRAVAIL IMMATÉRIEL:


critical reflection from Marx une réflexion critique à partir de Marx

Henrique Amorim Henrique Amorim

Which concepts of work, value and social A quels concepts de travail, de valeur et de
class the theses that consider the immaterial labor classe sociale les thèses qui considèrent le travail
as the central productive force in contemporary immatériel comme étant la force productive centrale
societies refer to? The aim of this article is to answer des sociétés contemporaines se réfèrent-elles?
that question. In order to do it, we will undergo a L’objectif de cet article est de répondre à cette
brief incursion in the central theses of the question. Nous ferons donc une brève incursion
“economy of knowledge” to confront the dans les thèses centrales de la dite “économie de la
interpretation of the concepts of work, value and connaissance” afin de confronter l’interprétation
social class performed by them to an alternative faite des concepts de travail, de valeur et de classe
interpretation that we think tries to develop the sociale à une interprétation alternative qui, nous
more general precepts of the Marxian theory. We l’estimons, essaie de développer les préceptes les
conclude, at the end of the text, that there exists a plus généraux de la théorie du marxisme.
sort of analytical reductionism in the “economy of Finalement nous pouvons conclure qu’il y a parmi
knowledge “ scholars, especially when they reduce les théoriciens de “l’économie de la connaissance”
“work” to the physical work performed in the un réductionnisme analytique, essentiellement
factory, the value to an arithmetically measurable lorsqu’ils réduisent le travail au travail physique
expression of manual labor exploitation and the effectué dans les usines, la valeur à une expression
working class or proletariat to the labor class. mesurable arithmétique de l’exploitation du travail
manuel, et la classe des travailleurs ou des
prolétaires à la classe ouvrière.

Key-Words: Immaterial labour. Materiality. Value. MOTS-CLÉS: Travail immatériel. Matérialité. Karl
Social classes. Marx. Valeur. Classes sociales. Exploitation du
travail.

CADERNO CRH, Salvador, v. 27, n. 70, p. 31-45, Jan./Abr. 2014

Henrique Amorim – Doutor em Ciências Sociais. Professor de Sociologia do Programa de Pós-Graduação em


Ciências Sociais da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP-Campus Guarulhos). Pós-doutor no Depar-
tamento de Sociologia (IFCH/UNICAMP) e na École des Hautes Études en Sciences Sociales. Coordenador do
projeto de pesquisa, financiado pela FAPESP e pelo CNPq: Classes Sociais e Valor na Teoria Social Contempo-
rânea. Atua na área de Sociologia, com ênfase em sociologia do trabalho e teoria social, trabalhando princi-
palmente com os seguintes temas: trabalho, movimentos e classes sociais, produção, processos de trabalho e
valor. Além de artigos nesses temas, é autor dos livros: Valor-trabalho e imaterialidade da produção nas
sociedades contemporâneas, publicado pelo CLACSO em 2012; Trabalho Imaterial: Marx e o debate contem-
porâneo, publicado pela Annablume/FAPESP em 2009; e Teoria Social e Reducionismo Analítico: para uma
crítica ao debate sobre a centralidade do trabalho, publicado pela EDUCS em 2006.

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