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Oralidade e escrita: um estudo sobre o modelo


teórico da “imediatez e distância
comunicativas”, de Peter Koch e Wulf...

Research Proposal · November 2017


DOI: 10.13140/RG.2.2.20600.96003

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1 author:

Denise Durante
University of São Paulo
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Peter Koch e Wulf Öesterreicher View project

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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO
FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS
DEPARTAMENTO DE LETRAS CLÁSSICAS E VERNÁCULAS

RELATÓRIO DE PESQUISA PÓS-DOUTORAL

Oralidade e escrita: um estudo sobre o modelo teórico da “imediatez e


distância comunicativas”, de Peter Koch e Wulf Öesterreicher

Pós-Doutoranda: Denise Durante

Supervisora: Profa. Dra. Maria Lúcia da Cunha Victório de Oliveira Andrade

São Paulo
2017
UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO
FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS
DEPARTAMENTO DE LETRAS CLÁSSICAS E VERNÁCULAS

RELATÓRIO DE PESQUISA PÓS-DOUTORAL

Oralidade e escrita: um estudo sobre o modelo teórico da “imediatez e


distância comunicativas”, de Peter Koch e Wulf Öesterreicher

Pós-Doutoranda: Denise Durante

Supervisora: Profa. Dra. Maria Lúcia da Cunha Victório de Oliveira Andrade

Relatório de Pesquisa Pós-Doutoral


apresentado à Comissão de Pesquisa e à
área de Filologia e Língua Portuguesa do
Departamento de Letras Clássicas e
Vernáculas, da Faculdade de Filosofia,
Letras e Ciências Humanas, da Universidade
de São Paulo.

São Paulo
2017
DEDICATÓRIA

Dedico este trabalho ao estimado Professor Doutor Hudinilson Urbano.


AGRADECIMENTOS

Agradeço à prezada Professora Doutora Maria Lúcia da Cunha Victório de


Oliveira Andrade por me proporcionar a oportunidade de prosseguir em meus
estudos acadêmicos e por ser, para mim, desde a graduação um modelo de
professora e pesquisadora, cujos trabalhos inspiram a muitos na pesquisa em
Letras.

Agradeço ao Professor Doutor Hudinilson Urbano, cujas pesquisas nortearam


a elaboração de minha pesquisa pós-doutoral. Agradeço a ele pelo incentivo para
que eu continuasse na pesquisa científica e pela sincera amizade cultivada há tantos
anos.

Agradeço ao Professor Doutor Paulo Roberto Gonçalves-Segundo pelas


excelentes oportunidades de crescimento intelectual e acadêmico que proporciona
aos pós-doutorandos do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas, da
FFLCH-USP.

Agradeço ao Paulo de Toledo, meu esposo, pela leitura paciente e cuidadosa


de meus escritos.
A arte de escrever não decorre da arte de falar.
Jean-Jacques Rousseau
RESUMO

O objetivo principal da pesquisa pós-doutoral apresentada neste relatório foi a


realização de uma revisão teórica sobre o modelo das linguagens da imediatez e
distância comunicativas, de Koch e Öesterreicher (1985; 1990). Buscou-se cotejar
esse modelo teórico com as obras de outros pesquisadores que consideraram a
existência de um contínuo entre a fala e a escrita, como Tannen (1985) e Biber
(1988). Enfocaram-se, na pesquisa, os trabalhos de Marcuschi (2004) e Urbano
(2006; 2011; 2013), autores que retomaram em suas pesquisas o modelo teórico
dos referidos pesquisadores alemães. Analisaram-se os parâmetros comunicativos
do contínuo concepcional descritos por Koch e Öesterreicher, assim como os
possíveis limites impostos pelo meio (fônico ou gráfico) sobre a concepção textual,
aspecto indicado por Maingueneau (2002), na perspectiva da Análise do Discurso.
Os dez parâmetros ou condições comunicativas identificados pelos autores foram
comparados com os parâmetros levantados por Parisi e Castelfranchi (1977). O
trabalho se insere na pesquisa teórica básica e qualitativa. Desenvolveu-se uma
análise descritiva e explicativa, ancorada em pesquisa bibliográfica. A
fundamentação teórica baseou-se em pressupostos da Análise da Conversação,
cujos estudos abordam as relações entre a fala e a escrita. Refletiu-se
particularmente sobre a obra Lengua hablada en la Romania: español, francés,
italiano (2007), na qual Koch e Öesterreicher expõem o modelo teórico da imediatez
e distância comunicativas. Como resultado principal, observou-se que uma das
limitações do modelo da imediatez e distância comunicativas pode ser a
desconsideração da possível influência do meio e/ou da mídia sobre a concepção
das mensagens.

Palavras-chave: fala; escrita; contínuo concepcional.


ABSTRACT

The main purpose of the postdoctoral research addressed in this report was the
development of a theoretical review on Koch and Oesterreicher's model for language
of communicative immediacy and language of communicative distance (1985; 1990).
The aim was to compare this theoretical model with the works of other researchers
who considered that there is a continuum between speech and writing, such as
Tannen (1985) and Biber (1988). The research was also focused on the works of
Marcuschi (2004) and Urbano (2006; 2011; 2013) insofar as these authors
approached in their research the theoretical model by the aforementioned German
researchers. We analyzed the communicative parameters of the conception
continuum described by Koch and Öesterreicher and possible limits imposed by the
medium (phonic or graphic) on textual conception which are indicated by
Maingueneau (2002) from the perspective of Discourse Analysis. Koch and
Öesterreicher identify ten communicative conditions or parameters, which are
compared in our research with the ideas presented by Parisi and Castelfranchi
(1977). Our work is based on theoretical and qualitative research methods. We
developed a descriptive and explanatory analysis, based on bibliographic research.
The theoretical bases of our research are the Conversational Analysis concepts
about the relations between speech and writing. We focused on the book Lengua
hablada en la Romania: español, francés, italiano (2007), in which Koch and
Öesterreicher exposed their theoretical model about communicative immediacy and
communicative distance. As a main result of this research, we observed that one
limitation of the communicative immediacy and distance theoretical model may the
disregard of influences between the medium and/or media on the conception of
messages.

Keywords: speech; writing; conception continuum.


LISTA DE FIGURAS

Figura 1. Oralidade e escrituralidade - concepcional e medial 29


Figura 2. Valores paramétricos comunicativos da carta privada prototípica 40
Figura 3. Contínuo entre imediatez e distância comunicativas 43
Figura 4. O espaço variacional histórico-idiomático entre
imediatez e distância comunicativas 47
Figura 5. Meio de produção e concepção discursiva de Marcuschi 55
Figura 6. Variação entre a fala e a escrita em Biber 56
Figura 7. Imediatez e distância comunicativas em Urbano 57
SUMÁRIO
1. Introdução e justificativas 11
2. Objetivos geral e específico 17
3. Metodologia 18
4. Discussão e resultados 20
4.1 Estudos da fala e da escrita 20
4.2 Linguagens da imediatez e distância comunicativas 27
4.3 Falado e escrito como dimensões da variação linguística 44
4.4 A dicotomia meio/concepção 52
4.5 Meio, mídia e concepção textual 60
4.6 Imediatez e distância comunicativas: breve análise de
textos empíricos 68
4.7 Conclusões 76
5. Atividades desenvolvidas durante o pós-doutorado 79
5.1 Participação no VIII EPED-USP (2016) 79
5.1.1 Apresentação de comunicação oral e
participação como debatedora 79
5.1.2 Atividade de parecerista do livro do VIII EPED 79
5.1.3 Resumo publicado no Caderno de Resumos do VIII EPED 80
5.1.4 Artigo completo publicado no livro do VIII EPED 80
5.2 Participação no II CIFEFil e XX CNFL 80
5.2.1 Comunicação oral 80
5.2.2 Resumo publicado nos Cadernos do CNFL 80
5.2.3 Artigo publicado na Revista Philologus 81
5.3 Artigo publicado na Revista Signótica (UFG) 81
5.4 Participação no IX SINEFIL – Simpósio Nacional de Estudos
Filológicos e Linguísticos, na UEMS (Campo Grande – MS) 81
5.4.1 Comunicação oral 82
5.4.2 Artigo publicado na Revista Philologus 82
5.5 Participação no IX EPED como debatedora e com comunicação oral 82
5.5.1 Resumo publicado no Caderno de Resumos e
Programação do IX EPED 82
Referências 83
Anexos 87
11

1. Introdução e justificativas

No âmbito da Linguística do Discurso, os estudos da Análise da Conversação


vêm desenvolvendo a investigação sobre as características da atividade
conversacional. Na América Latina, os estudos científicos sobre a chamada “língua
falada” ganharam impulso na década de 1960, com as pesquisas de M. Lope-
Blanch. Como explica Castilho (2006, p. 9), o linguista espanhol desenvolveu, no
México, o Proyecto de Estudio Coordinado de la Norma Lingüística Culta de las
Principales Ciudades de Iberoamérica y de la Península Ibérica: Lope-Blanch (1964-
1967, 1986), com o qual se dedicou ao estudo da linguagem-padrão urbana. Desse
projeto, iniciaram-se, em 1969, as atividades do Projeto de Estudo da Norma
Linguística Urbana Culta (Projeto NURC-Brasil), desenvolvidas nas cidades de Porto
Alegre, Rio de Janeiro, São Paulo, Recife e Salvador. O Projeto NURC-Brasil tem se
ocupado com a descrição e a análise dos processos de produção e recepção dos
usos das interações orais dos chamados “falantes cultos”, ou seja, falantes que
possuem nível universitário de instrução (PRETI, 1997, p. 31). Aspectos da
construção do texto falado, como as possibilidades de planejamento do texto, as
estratégias para formulação e reformulação textual (como auto e heterocorreções,
pausas, hesitações, alongamentos, truncamentos frásicos), a cortesia verbal, os
marcadores conversacionais, o envolvimento emocional entre os interactantes, entre
outros, vêm sendo estudados em corpora formados por entrevistas gravadas pelo
Projeto a partir de 1970.
Além de permitirem a compreensão sobre a chamada “língua falada”, esses
estudos da Análise da Conversação oferecem suporte teórico para se refletir sobre
as semelhanças e diferenças que existem entre as modalidades falada e escrita da
língua. A compreensão sobre o funcionamento da “língua falada” conduz à
observação e análise, por exemplo, de textos escritos que incorporam
características específicas da oralidade ou as chamadas “marcas de oralidade”,
como é o caso de certos textos literários, de textos publicitários e jornalísticos
impressos, de histórias em quadrinhos, charges, entre outros. Manifesta-se também
o interesse pelo entendimento sobre quais podem ser as influências dos discursos
escritos sobre os discursos falados. Ademais, o surgimento de variados suportes
para veiculação de mensagens (como e-mail ou correio eletrônico, redes sociais,
12

chats e “mensagens de texto”, por exemplo), o hipertexto e o advento das novas


Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs), ampliou o interesse pelo estudo
das relações entre oralidade e escrita.
Ao se refletir sobre as modalidades oral e escrita, uma das questões
primordiais que se têm apresentado diz respeito à conceituação e à terminologia
para o estudo desses dois modos de realização da língua, tradicionalmente
denominados “língua falada” e “língua escrita”. Um dos modelos que tentam
equacionar a questão corresponde à teoria da “imediatez e distância comunicativas”
(“kommunikative Nähe” e “kommunikative Distanz”), desenvolvida inicialmente pelos
pesquisadores alemães Peter Koch (1951-2014) e Wulf Öesterreicher (1942-2015),
em artigo de 1985. Essa teoria foi retomada nas pesquisas de autores brasileiros,
entre os quais se destacam os trabalhos de Marcuschi (2000) e Urbano (2006; 2011;
2013).
Urbano e Caldas traduziram para o português o referido artigo de Koch e
Öesterreicher (2013, pp. 153-174). O título do artigo, em alemão, é “Sprache der
Nähe – Sprache der Distanz. Mündlichkeit und Schriftlichkeit im Spannungsfeld von
Sprachtheorie und Sprachgeschichte”1. Na tradução em português, o título é
“Linguagem da imediatez – linguagem da distância: oralidade e escrituralidade entre
a teoria da linguagem e a história da língua”. Nesse texto, Koch e Öesterreicher
expõem suas ideias acerca da oralidade, da escritura e da “escrituralidade”.
O modelo teórico de Koch e Öesterreicher foi tema da obra Proximidade e
Distância: Estudos sobre a Língua e a Cultura (2011), coordenada pelos estudiosos
portugueses Mario Franco e Bernd Sieberg. A publicação resultou dos trabalhos
apresentados no colóquio “International Conference on Proximity and Distance in
Language and Culture”, ocorrido em 2009, na Universidade Católica Portuguesa, em
Lisboa, promovido pelo Centro de Estudos de Comunicação e Cultura. Entre os
artigos que compõem a obra, cabe destacar os trabalhos da alemã Hennig (2011) e
do húngaro Àgel (2011) que, na Alemanha, dão continuidade aos estudos sobre o
modelo da “imediatez e distância comunicativas”.

1
O artigo já havia sido publicado em inglês com o título “Language of Immediacy – language of
distance: orality and literacy from the perspective of language theory and linguistic history”, no livro
Communicative Spaces: Variation, Contact, and Change. Papers in Honour of Ursula Schaefer
(Francoforte do Meno: Peter Lang, 2012, pp. 441-473).
13

Na Introdução do livro Proximidade e Distância: Estudos sobre a Língua e a


Cultura, Franco e Sieberg explicam:

Substituindo a dicotomia “escrito versus falado” pela dicotomia


“proximidade versus distância”, este modelo permite descrever
também adequadamente, muito em especial, os processos de
mudança linguística em consequência dos quais determinadas formas
linguísticas dominam cada vez mais nos novos media, formas essas
que seriam melhor caracterizadas como expressões de um novo tipo
de oralidade (2011, pp. 7-8).

Ao estudarem as chamadas linguagens da imediatez e distância


comunicativas, Koch e Öesterreicher consideram a existência de um continuum
concepcional entre os textos falados e escritos. O linguista venezuelano Mostacero
(2004) aponta que outros pesquisadores europeus haviam considerado a ocorrência
de um continuum nas relações entre oralidade e escrita, conforme se verifica no
trecho a seguir:

En síntesis, este autor [Öesterreicher] nos proporciona la evidencia de


que algunos investigadores europeos ya se habían interesado por las
relaciones entre lo oral y lo escrito, habían advertido la existencia del
continuum y los casos de transferencia, por ejemplo, Nencioni, en
1976, Ochs, en 1979, Tannen, en 1980, Koch y Chafe, en 1985, Biber,
en 1988 (todos citados por Öesterreicher, 1998: 318 y ss.). Eso indica
que los estudios de la oralidad versus la escrituralidad no son tan
recientes en Europa, aunque sus noticias se hayan conocido,
tardíamente, en lengua española. Y en España los aportes más
descollantes se deben al grupo VaLesCo de la Universidad de
Valencia que dirige Antonio Briz (cf. Briz 1995, 1997 y 1998)2
(MOSTACERO, 2004, p. 72).

Percebe-se, portanto, a relevância das reflexões acerca da existência de um


continuum ao se caracterizar textos falados e escritos, visto que essa tem sido a
temática de diversos estudos teóricos nas últimas décadas. A questão do meio e da
concepção textual, abordada por Koch e Öesterreicher, também se apresenta como

2
Todas as citações em língua estrangeira incluídas neste trabalho foram por nós traduzidas,
conforme a primeira citação que a seguir apresentamos: “Em síntese, este autor [Öesterreicher] nos
proporciona a evidência de que alguns pesquisadores europeus já haviam se interessado pelas
relações entre o oral e o escrito, haviam percebido a existência do continuum e os casos de
transferência, por exemplo, Nencioni, em 1976, Ochs, em 1979, Tannen, em 1980, Koch e Chafe, em
1985, Biber, em 1988 (todos citados por Öesterreicher, 1998: 318 e seguintes). Isso indica que os
estudos da oralidade versus a escrituralidade não são tão recentes na Europa, ainda que suas
contribuições mais relevantes tenham sido conhecidas tardiamente, na língua espanhola. E na
Espanha as contribuições mais importantes se devem ao grupo VaLesCo, da Universidade de
Valência, dirigido por Antonio Briz (cf. Briz 1995, 1997 e 1998)” (MOSTACERO, 2004, p. 72).
14

tema de reflexão teórica fundamental para a conceituação de termos como


“oralidade” e “escrituralidade”.
Apesar da importância, nos estudos da linguagem, dos aspectos ora
mencionados, observa-se que ainda são poucas as pesquisas, no Brasil, que se
ocupam com o chamado modelo da “imediatez e distância comunicativas”, publicado
inicialmente em 1985 e ampliado no livro Gesprochene Sprache in der Romania:
Französisch, Italienisch, Spanisch, publicado em 1990 e traduzido para a língua
espanhola, por Araceli López Serena, professora da Universidade de Sevilha, que se
dedica aos estudos sobre a língua espanhola. O livro traduzido foi publicado na
Espanha, em 2007, com o título Lengua hablada en la Romania: español, francés,
italiano. A teoria desenvolvida nessa obra foi também retomada por Öesterreicher no
artigo Pragmatica del discurso oral (1997).
Ao comentar a primeira edição do livro Gesprochene Sprache in der Romania:
Französisch, Italienisch, Spanisch, Serena destaca que a publicação em língua
alemã dificultou a divulgação da obra entre grande parte dos hispanistas e dos
linguistas que não dominam esse idioma (SERENA, 2002, p. 255). Ela cita as
palavras de Franz Joseph Haussmann, um dos primeiros críticos do livro: “Ce livre
n’a qu’un seul défaut: étant rédigé en allemand, il ne sera lu ni par le Français, ni par
les Italiens, ni par les Espagnols”3 (SERENA, 1992, p. 261). Ou seja, a obra poderia
ser pouco lida justamente por aqueles a quem mais interessaria o seu conteúdo, os
falantes e pesquisadores das três línguas românicas estudadas na obra. E, sendo
assim, o livro encontraria dificuldades de divulgação também entre os pesquisadores
lusófonos, aos quais a descrição e a análise do espanhol, do francês e do italiano,
desenvolvidas em Gesprochene Sprache in der Romania, deve ser proveitosa, na
medida em que, por meio de estudos comparativos, por exemplo, pode propiciar
reflexões acerca das características das linguagens da imediatez e da distância no
que concerne à língua portuguesa, especialmente em sua modalidade falada.
Vale mencionar também que os exemplos de falas transcritos, que compõem
o corpus do trabalho de Koch e Öesterreicher (2007 [1990]), são apresentados no
original, ou seja, em espanhol, francês e italiano, sem traduções, de modo que a
obra se destina particularmente a um leitor especializado e que domine esses
idiomas.

3
“Este livro possui apenas um defeito: por estar escrito em alemão, ele não será lido nem pelos
franceses, nem pelos italianos, nem pelos espanhóis (SERENA, 1992, p. 261).” Tradução nossa.
15

Além dos aspectos ora citados, justifica-se o estudo da publicação de


Gesprochene Sprache in der Romania: Französisch, Italienisch, Spanisch, em sua
tradução em língua espanhola, publicada em 2007, pois essa edição foi revisada,
atualizada e ampliada pelos autores em relação à sua primeira edição em língua
alemã. No prefácio de Lengua hablada en la Romania: español, francés, italiano,
Koch e Öesterreicher informam que ampliaram a bibliografia, com a inclusão de
obras recentes e a diminuição da bibliografia alemã citada. Além disso, entre outras
alterações, os autores afirmam que acrescentaram ao segundo capítulo maior
detalhamento ao abordarem as formas de comunicação e tradições discursivas em
sua caracterização comunicativo-concepcional.
A edição espanhola contém 441 páginas, sendo que 77 delas são ocupadas
pela bibliografia com aproximadamente 700 títulos em alemão, francês, espanhol,
italiano, inglês e português. Estão incluídas na bibliografia as seguintes obras em
língua portuguesa: A linguagem falada culta na cidade de São Paulo (1986/87), de
Castilho e Preti; A linguagem falada culta na cidade de São Paulo (1988), de Preti e
Urbano; Para a história do português brasileiro, de Duarte e Callou (2002) e Da fala
para a escrita (2004), de Marcuschi.
A obra Lengua hablada en la Romania: español, francés, italiano (2007) é
constituída por seis capítulos. No primeiro capítulo, apresentam-se a introdução e as
instruções de uso do livro. O segundo capítulo, sobre o qual nos concentramos
nesta pesquisa, se intitula “Oralidad y escrituralidad a la luz de la teoría del lenguaje”
e, nele, se expõem os conceitos básicos sobre o modelo da imediatez e da distância
comunicativas. No terceiro capítulo, intitulado “Lengua hablada. Observaciones
sobre el desarrollo de su investigación y caracterización de los corpus”, os autores
fornecem dados sobre o histórico das pesquisas sobre a língua falada e
caracterizam o corpus analisado. O quarto capítulo, com 114 páginas, é designado
“Rasgos universales del español, el francés y el italiano hablados”. Nessa seção,
são descritos e analisados elementos dos âmbitos pragmático-textual, sintático,
semântico e fônico, das três línguas abordadas na obra, bem como se apresentam
reflexões acerca das características universais da língua falada. O quinto capítulo,
cujo título é “Aspectos concepcionales de la historia de la lengua y de la variación
lingüística”, é o mais extenso com 187 páginas. Nesse capítulo, caracterizam-se o
espanhol, o francês e o italiano falados em sua evolução diacrônica, considerando-
se seus aspectos nas variações diatópicas, diastráticas e diafásicas. Ao final desse
16

capítulo, Koch e Öesterreicher incluem um “Esbozo de conclusión” e desenvolvem


uma breve análise comparativa das características idiomáticas do espanhol, do
francês e do italiano falados. O capítulo 6 intitula-se “Sinopsis” e, nessa última
seção, apresentam-se conclusões sobre as possíveis contribuições oferecidas pela
obra para as seguintes áreas: a Linguística Variacional; a Linguística Aplicada
(sobretudo no que concerne ao ensino de línguas estrangeiras); a Crítica Linguística
e a Crítica da Norma Linguística.
Em 2011, foi publicada, na Alemanha, uma segunda edição atualizada e
ampliada do livro Gesprochene Sprache in der Romania: Französisch, Italienisch,
Spanisch. Essa segunda edição é composta por sete capítulos. No sétimo capítulo
acrescido, são apresentados ao leitor os corpora de referência do francês, do
italiano e do espanhol falados estudados pelos autores.
Como se pode notar pelos temas dos capítulos ora arrolados, trata-se de uma
obra de extrema relevância não só para linguistas e romanistas, mas também para
aqueles que se dedicam ao estudo e ao ensino do espanhol, do francês e do
italiano. Reiteramos igualmente que a compreensão sobre o modelo da imediatez e
distância comunicativas pode auxiliar a composição dos estudos sobre a descrição
do português falado4, assim como de outras línguas românicas, de línguas não
românicas e do latim, conforme concluem Koch e Öesterreicher (2007 [1990],
p. 374).
Tendo em vista a importância do modelo teórico de Koch e Öesterreicher e da
obra Lengua hablada en la Romania: español, francés, italiano, em particular no
contexto de pesquisa europeu e no que diz respeito à pesquisa sobre as línguas
românicas às quais foi aplicado, desenvolvemos como tema geral deste trabalho de
pesquisa pós-doutoral uma revisão teórica sobre os conceitos e pressupostos
formulados pelos referidos estudiosos alemães no modelo teórico da imediatez e
distância comunicativas. O estudo detido da hipótese da existência de um continuum
gradual e escalar entre a fala e a escrita, no âmbito da concepção dos textos, pode
propiciar a compreensão mais precisa e ampliada do modelo teórico desenvolvido
por Koch e Öesterreicher, bem como nos conduzir à pesquisa detalhada sobre os
conceitos do que se convencionou designar como “língua falada” e “língua escrita”.

4
Sobre o estudo do português falado, Koch e Öesterreicher fazem referência ao trabalho de Brauer-
Figueiredo, intitulado Gesprochenes Portugiesisch (Frankfurt a.M.: Teo Ferrer de Mesquita, 1999).
17

Apresentamos, neste Relatório Pós-Doutoral os resultados das reflexões que


desenvolvemos em nossa pesquisa, bem como documentamos as principais
atividades que realizamos no período entre 15 de agosto de 2015 e 14 de agosto de
2017, durante o qual foi executado nosso projeto de pesquisa junto ao
Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas, da Faculdade de Filosofia, Letras e
Ciências Humanas, da Universidade de São Paulo, sob a supervisão da Professora
Doutora Maria Lúcia da Cunha Victório de Oliveira Andrade.

2. Objetivos geral e específicos

O objetivo geral da pesquisa pós-doutoral que desenvolvemos foi oferecer


uma leitura crítica do modelo teórico desenvolvido por Koch e Öesterreicher (2013
[1985]; 2007 [1990]) sobre as chamadas linguagem da imediatez e distância
comunicativas, com vistas a contribuir com a compreensão sobre esse modelo em
nosso país. Para a execução da leitura crítica dessa teoria, cotejou-se, neste
trabalho, a teoria dos autores alemães com os trabalhos de outros estudiosos que se
dedicaram à reflexão sobre a existência de um contínuo entre a fala e a escrita. É o
caso dos estudos de autores brasileiros como Marcuschi (2000) e Urbano (2006;
2011; 2013).
Considerando-se a leitura crítica da teoria da imediatez e da distância
comunicativas, em um segundo momento de nossa pesquisa, buscamos refletir
sobre as relações entre o meio (fônico ou gráfico) e a concepção textual (falada ou
escrita). De acordo com Maingueneau (2002), o meio não corresponde a um
acessório, mas é um elemento condicionador dos gêneros discursivos. A reflexão de
Maingueneau se diferencia, portanto, da formulação proposta por Koch e
Öesterrreicher. Para estes autores, a relação entre os códigos fônico e gráfico é
entendida como uma “dicotomia estrita” (2013, p. 156). Os autores alemães voltam
sua atenção para a análise do contínuo concepcional dos textos sem se deterem na
análise de possíveis interrelações entre os códigos e a concepção textual.
Elencamos, a seguir, cinco objetivos específicos de nosso projeto de pesquisa
pós-doutoral:
18

1. Descrever os aspectos gerais e específicos das chamadas “oralidade


extrema” e “escrituralidade extrema”, na perspectiva de Koch e Oesterreicher
(1985; 1990);
2. Analisar os dez parâmetros comunicativos do contínuo concepcional
descritos por Koch e Oesterreicher (2013 [1985]; 2007 [1990]);
3. Refletir sobre os limites impostos pelo meio (fônico ou gráfico) sobre a
concepção dos textos;
4. Identificar possíveis imprecisões terminológicas e conceituais do modelo da
“imediatez e da distância comunicativas”;
5. Comparar a noção do continuum textual, desenvolvida por Koch e
Oesterreicher, com outros estudos que abordaram ou tangenciaram esse
mesmo tema.

Salientamos que os objetivos específicos acima arrolados foram


desenvolvidos tendo-se como referência básica as ideias desenvolvidas por Koch e
Oesterreicher sobre oralidade e escrituralidade no artigo “Linguagem da imediatez –
linguagem da distância: oralidade e escrituralidade entre a teoria da linguagem e a
história da língua” (2013), publicado primeiramente em 1985, bem como no segundo
capítulo da obra Lengua hablada en la Romania: español, francés, italiano (2007),
cuja primeira edição, em língua alemã, foi publicada em 1990. Essas duas
publicações constituíram, portanto, o corpus de nossa pesquisa.

3. Metodologia

A pesquisa pós-doutoral descrita neste relatório se inclui no âmbito da


pesquisa teórica básica e qualitativa. Trata-se de uma pesquisa descritiva e
explicativa, cujo objetivo central foi a realização de um trabalho de revisão teórica.
Portanto, para sua execução, foi utilizada principalmente a pesquisa bibliográfica,
com a consulta a fontes secundárias.
Para o estudo do modelo do continuum concepcional da linguagem da
imediatez e da distância comunicativas, foram retomados os estudos desenvolvidos,
no Brasil, por Marcuschi (1998; 2002; 2004; 2007) e Urbano (2006; 2011; 2013), que
19

se dedicaram mais especificamente ao modelo teórico dos estudiosos alemães. Os


pesquisadores mencionados se ocuparam com os estudos da Análise da
Conversação, de modo que a consideração dos pressupostos dessa teoria se torna
fundamental para qualquer trabalho que trate das relações entre fala e escrita, em
nosso contexto de pesquisa. Recorremos, portanto, aos estudos de Preti e às
pesquisas desenvolvidas pelo Projeto de Estudo da Norma Linguística Urbana Culta
(Projeto NURC-Brasil), registradas, sobretudo, na série Projetos Paralelos. Conforme
apontado, os trabalhos de Marcuschi são por ora considerados, especialmente a
obra Da fala para a escrita (2004), em que o autor aborda o contínuo concepcional
dos textos. Essa obra ganha mais relevância na medida em que serviu de apoio
para diversos outros estudos que se voltaram para as relações entre oralidade e
escrita em nosso país.
Os trabalhos de autores que identificaram a existência de um continuum entre
os textos falados e escritos e se dedicaram amplamente à descrição das
especificidades do uso dessas modalidades da língua, são igualmente considerados.
Autores como Parisi e Castelfranchi (1977), Ochs (1979), Tannen (1980; 1983;
1985), Chafe (1985), Biber (1988), serviram de base comparativa para a
compreensão do contínuo concepcional desenvolvido por Koch e Öesterreicher. A
visão de Parisi e Castelfranchi, em seu trabalho de 1977, em que abordam os
conceitos de falado e escrito e arrolam parâmetros para caracterizá-los nos
proporcionou uma visão ampliada sobre a questão da importância do aspecto
concepcional das mensagens.
Conforme mencionado, a perspectiva de Maingueneau (1997; 2002), na
Análise do Discurso francesa, também envolve questões relacionadas aos conceitos
de fala e escrita e enfoca a importância do meio nas relações entre mensagens orais
e gráficas. A consideração das ideias do autor nos auxiliaram na leitura crítica sobre
a dicotomia estrita entre o meio e a concepção das mensagens que fundamenta o
modelo teórico de Koch e Öesterreicher.
20

4. Discussão e resultados

4.1 Estudos da fala e da escrita

Para os gramáticos, a arte da palavra quase se limita


à arte da escrita, como se pode ver pelo uso que
fazem dos acentos, muitos dos quais permitem
alguma distinção ou desfazem algum equívoco para
os olhos, mas não para os ouvidos.
Jean-Jacques Rousseau,
Ensaio sobre a origem das línguas (2008, p. 118)

Como se sabe, por muito tempo, nos estudos da linguagem, a escrita


prevaleceu, como objeto de reflexão, em detrimento da fala. A valorização da escrita
foi um dos temas de que se ocupou Saussure. O sexto capítulo do Curso de
Linguística Geral (1969, p. 34), intitulado “Representação da língua pela escrita”,
contém o subitem “Prestígio da escrita: causas de seu predomínio sobre a forma
falada”. Nele, lê-se:

Língua e escrita são dois sistemas distintos de signos; a única


razão de ser do segundo é representar o primeiro; o objeto
linguístico não se define pela combinação da palavra escrita e da
palavra falada; esta última, por si só, constitui tal objeto. Mas a
palavra escrita se mistura tão intimamente com a palavra falada da
qual é a imagem, que acaba por usurpar-lhe o papel principal;
terminamos por dar maior importância à representação do signo
vocal do que ao próprio signo. É como se acreditássemos que, para
conhecer uma pessoa, melhor fosse contemplar-lhe a fotografia do
que o rosto (SAUSSURE, 1969, p. 34).

Saussure aponta como uma das causas do predomínio da escrita sobre a fala
o fato de as impressões visuais serem “mais nítidas e mais duradouras” do que as
impressões acústicas para os indivíduos: “[...] a imagem gráfica acaba por impor-se
à custa do som” (op. cit., p. 35). Além disso, o prestígio da linguagem literária e as
diferenças entre a língua e a ortografia contribuíram, no entender do fundador da
Linguística moderna, para uma equivocada importância atribuída à escrita. Sendo
assim, no Curso de Linguística Geral se reitera a necessidade do estudo direto de
registros da fala:
21

Ora, geralmente, nós as conhecemos [as línguas] somente


através da escrita. Mesmo no caso de nossa língua materna, o
documento intervém a todo instante. Quando se trata de um idioma
falado a alguma distância, ainda mais necessário se torna recorrer
ao testemunho escrito; [...] Para poder dispor, em todos os casos, de
documentos diretos, seria mister que se tivesse feito, em todas as
épocas, aquilo que se faz atualmente em Viena e Paris: uma
coleção de amostras fonográficas de todas as línguas (SAUSSURE,
1969, p. 33).

Considere-se também o que afirma Bakhtin em Estética da criação verbal. Ao


teorizar sobre o conceito de gênero discursivo, o autor aponta a prevalência dos
estudos sobre os gêneros literários:

[...] a heterogeneidade funcional, como se pode pensar, torna os


traços gerais dos gêneros discursivos demasiadamente abstratos e
vazios. A isto provavelmente se deve o fato de que a questão geral
dos gêneros discursivos nunca foi verdadeiramente colocada.
Estudavam-se – e mais que tudo – os gêneros literários. Mas da
Antiguidade aos nossos dias eles foram estudados num corte de sua
especificidade artístico-literária, nas distinções diferenciais entre eles
(no âmbito da literatura) e não como determinados tipos de
enunciados, que são diferentes de outros tipos mas têm com estes
uma natureza verbal (linguística) comum [...] (BAKHTIN, 2011, pp.
262-63).

Na segunda metade do século XX, a valorização da escrita em relação à fala


prossegue como tema nos estudos da linguagem. Chafe e Tannen (1987, p. 383),
por exemplo, enfatizam que apenas com o advento da linguística descritiva
moderna, a situação se inverteu, de modo que se passou a considerar a primazia da
linguagem falada em relação à escrita.
A primazia da oralidade é destacada por Ong:

[...] apesar das raízes orais de toda verbalização, o estudo científico


e literário da linguagem e da literatura, durante séculos e até épocas
muito recentes, rejeitou a oralidade. Os textos exigiram atenção de
um modo tão ditatorial que as criações orais tenderam a ser
consideradas geralmente como variantes de produções escritas ou,
quando muito, sob um rigoroso escrutínio acadêmico (ONG, 1998,
pp. 16-7).

Ong aponta para o fato de que pode haver sociedades de cultura oral, sem
manifestação da escrita. Entretanto, não há escrita sem oralidade: “A escrita nunca
pode prescindir da oralidade” (1998, p. 16), afirma o autor. Por conseguinte, o
próprio conhecimento sobre a escrita decorre do conhecimento sobre a fala. Esse
22

aspecto, por sua vez, nos conduz à questão: quais podem ser as interferências da
escrita nos processos de mudança da comunicação oral? Sobre esse tema, Ong
explica: “O pensamento e a fala parcimoniosamente lineares constituem uma criação
artificial, construída pela tecnologia da escrita” (1998, p. 51). Questões como essa
colocam em evidência a limitação de se abordar a linguagem verbal considerando-
se exclusivamente a escrita como objeto de análise.
Biber (1988, p. 6) reflete sobre a valorização social da escrita em relação à
fala e explica que as crianças estudam inglês nas escolas norte-americanas, com a
exigência da produção de composições escritas e o conhecimento sobre as regras
da gramática prescritiva para a escrita, mas não aprendem sobre o discurso oral.
Ainda no contexto norte-americano da década de 1980, Biber aponta as críticas
recebidas por crianças imigrantes por não saberem “inglês”, ainda que possuíssem
fluência para desenvolver uma conversação. Não saber “inglês”, nesse caso,
significa o fato de essas crianças não serem “letradas” em língua inglesa. Observa-
se, portanto, que, nas culturas letradas, é possível dizer, no âmbito do senso
comum, que um indivíduo não conhece a língua na medida em que não conhece as
estratégias discursivas específicas da comunicação escrita, ainda que esse mesmo
indivíduo domine com eficiência as estratégias discursivas da comunicação oral.
Conforme afirma Biber: “[...] although speech is claimed to have linguistic primacy,
writing is given social priority by most adults in Western cultures” (1988, p. 7)5.
Parisi e Castelfranchi, em artigo de 1977, afirmavam que as teorias da
linguagem e as gramáticas são fundamentalmente teorias da língua escrita,
desenvolvidas sem a consciência dessa limitação e cujos conceitos são aplicados
com distorções à língua falada. Isso nos remete à ideia de que, até hoje, os usos da
língua escrita que seguem o padrão da gramática prescritiva tendem a ser
considerados por muitos como um modelo ideal e de “correção” para os usos da
expressão oral, ignorando-se, portanto, as especificidades de cada modalidade de
emprego da língua.
Ao abordar o chamado “escritismo”, Sieberg afirma que a “cultura da escrita”
conduziu à desvalorização da fala como objeto de estudo:

Registou-se, portanto, um enorme progresso cultural


despoletado pela escrita o qual se ilustra do seguinte modo: a)

5
“[...] embora se considere a primazia linguística da fala, muitos adultos nas culturas ocidentais dão
prioridade social à escrita” (1988, p. 7). Tradução nossa.
23

criação de uma cultura escrita, b) possibilidade da sua conservação


e tradição e c) desenvolvimento de funções e categorias gramaticais
próprias da escrita e respectiva descrição em gramáticas e
dicionários de grande prestígio e valor cultural. A cultura da escrita,
porém, acarretou consigo a desvalorização e marginalização da fala,
o que levou a filologia e seus protagonistas a uma posicionamento
que se caracteriza pelo termo “Escriticismo” (= “Scriptizismus) [...]
(SIEBERG, 2011, p. 52).

Sieberg observa que o “escritismo” ou “escriticismo” desconsidera a


existência de estruturas e normas específicas da língua oral, distintas da escrita.
Por consequência, não se tomam em consideração, nessa concepção, as relações
de interdependência e mútuas influências entre fala e escrita.
A relevância da linguagem oral nos estudos da linguagem foi objeto de
reflexão para Koch e Öesterreicher:

Não é somente entre leigos com algum tipo de formação que


persiste insistentemente a noção de que a linguagem oral deveria ser
considerada um modo deficiente da linguagem “autêntica”, ou seja, da
linguagem escrita. Desse modo, por muito tempo a linguagem escrita
foi considerada como objeto exclusivo de estudo das pesquisas
linguísticas. Isso ocorria tanto por motivos relacionados às teorias
linguísticas (fixação da norma segundo um ideal linguístico literário,
indiferente e independentemente da evolução histórica da respectiva
língua) quanto por motivos metodológicos (volubilidade das
expressões orais) (KOCH; ÖESTERREICHER , 2013 [1985], p. 164).

O prestígio da escrita sobre a fala, enfocado, como vimos, já na obra


fundadora da Linguística moderna, conduziu a dificuldades para conceituação e
caracterização dos textos falados e escritos, o que se converteu em tema relevante
para a pesquisa linguística nas últimas décadas. Salientou-se, por exemplo, a ideia
de que os termos “oralidade” e “escrita” se mostram polissêmicos e não parecem
suficientemente precisos para indicar a complexidade dos fenômenos que designam.
No artigo “Usos da Linguagem Verbal” (2006, pp. 19-55), Urbano aborda a
problemática da utilização generalizada, porém, imprecisa, das denominações
“língua falada” e “língua escrita” e apresenta conceitos de linguagem verbal, de
língua e, por consequência, de escrita. Com base na teoria saussuriana, Urbano
recorda que a linguagem verbal corresponderia à soma da língua (langue) e do
discurso (parole), sendo que a fala teria possibilitado a descrição da língua, “sistema
abstrato de signos” ou, segundo Preti, “sistema de signos convencionais” (1977,
p. 1).
24

A escrita, entendida como “sistema gráfico comunicativo”, constituiria um


produto da fala. Admitindo-se essa premissa, considera-se que a escrita está
intrinsecamente associada ao universo sonoro, conforme afirma Ong: “Todos os
textos escritos devem, de algum modo, estar direta ou indiretamente relacionados ao
mundo sonoro, hábitat natural da linguagem, para comunicar seus significados”
(1998, p. 16). Sobre esse aspecto, podemos evocar, mais uma vez, as palavras de
Preti (1977, p. 1), que descreve a escrita como “código substitutivo” da fala. Todo
enunciado escrito está vinculado à fala: “O conteúdo da escrita é a fala”, refletia
Marshall McLuhan (1995, p. 22), no contexto da teoria da comunicação.
Deve-se ressaltar, porém, que, ainda que se manifeste como um produto da
fala, a escrita não é um simples decalque ou transcrição daquela. A capacidade
humana de comunicação escrita não corresponde apenas à habilidade de
reprodução signos gráficos sobre um suporte material. Esse aspecto nos remete
novamente às reflexões dos italianos Parisi e Castelfranchi:

La lingua scritta si basa certamente su un sistema di


trascrizione della lingua parlata e questo è inevitabile dato che la
lingua parlata come capacità viene acquisita prima della lingua
scritta ma limitarsi a considerare questo rapporto e quindi la
semplice differenza nel mezzo fisico usato significa ignorare la
natura effettiva della lingua scritta e, soprattutto, come vedremo più
avanti, della stessa lingua parlata. In realtà la maniera giusta di
considerare lingua parlata e lingua scritta è di vederle come due
diversi modi di comunicare in senso globale, cioè come due diversi
modi di vita individuale e sociale6 (PARISI; CASTELFRANCHI, 1977,
p. 170).

Os autores indicam duas possíveis abordagens sobre as relações entre a fala


e a escrita. A primeira abordagem considera que as diferenças entre fala e escrita se
limitam à diferença em relação ao meio físico para veiculação das mensagens, de
modo que se entende a escrita como uma transcrição da fala, desconsiderando-se
as características específicas do falar e do escrever. O segundo modo de enfocar a
fala e a escrita envolve a questão da concepção de ambas as modalidades e os

6
“A língua escrita se baseia certamente em um sistema de transcrição da língua falada e isso é
inevitável, na medida em que a língua falada, como capacidade, é adquirida antes da língua escrita,
mas limitar-se a considerar essa relação e, portanto, a simples diferença do meio físico usado,
significa ignorar a natureza efetiva da língua escrita e, sobretudo, como veremos adiante, da língua
falada. Na verdade, a maneira correta de considerar língua falada e língua escrita é vê-las como dois
diferentes modos de comunicar em sentido global, isto é, como dois diferentes modos de vida
individual e social” (PARISI; CASTELFRANCHI, 1977, p. 170). Tradução nossa.
25

mecanismos cognitivos e sociais a elas relacionados. Essa abordagem de Parisi e


Castelfranchi se aproxima àquela que seria apresentada, na década seguinte, por
Koch e Öesterreicher sobre a linguagem da imediatez e distância comunicativas.
Cabe destacar que o entendimento sobre os conceitos do que se
convencionou designar “língua falada” e “língua escrita” é fundamental na medida
em que pode contribuir, por exemplo, com questões relacionadas ao ensino de
língua materna e língua estrangeira no âmbito do ensino formal. Esse aspecto nos
recorda novamente as palavras de Parisi e Castelfranchi ao abordarem o ensino da
leitura e da escrita, na Itália, na década de 1970:

[...] Considerando lo scrivere come una semplice trascrizione del


parlare, l’insegnante si meraviglia che gli studenti “non sappiano
scrivere”. Essi non sanno scrivere perché si limitano a trascrivere sulla
carta la loro lingua parlata, oppure perché cercano goffamente di
imitare modelli di lingua scritta che nessuno gli ha analizzato e
spiegato. In realtà, nessuno gli ha insegnato a scrivere; non certo
l’insegnante che, ignorando le profonde differenze tra il parlare e lo
scrivere e, in particolare, la caratteristiche specifiche dello scrivere,
non ha mai potuto rivolgere la sua attenzione e la sua azione
pedagogica su queste caratteristiche specifiche. 7 (1977, p. 171)

A perspectiva de Parisi e Castelfranchi nos remete às condições atuais do


ensino de línguas, em nosso país, e à necessidade de ampliarmos os
conhecimentos sobre as características específicas da escrita e da fala, o que pode,
eventualmente, propiciar novas estratégias para o ensino das línguas materna e
estrangeira. Obras como Oralidade e escrita: perspectivas para o ensino de língua
materna (1999), de Fávero, Aquino e Andrade, indicam novas perspectivas para o
ensino da língua em que se inclua o estudo das relações entre a fala e a escrita.
Como consequência da valorização da escrita sobre a fala, o ensino de língua
materna ocupou-se prevalentemente com o ensino da escrita, de maneira que se
desconsiderou o ensino sobre as características específicas da oralidade ou sobre a
presença da oralidade na escrita ou mesmo sobre marcas da escrita em mensagens

7
“Considerando o escrever como uma simples transcrição do falar, o professor se assusta com o fato
de que os estudantes ‘não saibam escrever’. Eles não sabem escrever porque se limitam a
transcrever no papel a sua língua falada, ou porque procuram de modo desajeitado imitar modelos de
língua escrita que ninguém analisou ou explicou-lhes. Na realidade, ninguém os ensinou a escrever;
com certeza não o professor que, ignorando as profundas diferenças entre o falar e o escrever e, em
particular, as características específicas do escrever, nunca pôde voltar sua atenção e sua ação
pedagógica para essas características específicas” (1977, p. 171). Tradução nossa.
26

faladas e de marcas da oralidade em textos grafados. A prevalência do ensino da


escrita é abordada por Silva ao retomar as reflexões de Marcuschi (1997):

Em um trabalho publicado em 1997, Marcuschi ressalta que a


oralidade é um importante tópico a ser desenvolvido na sala de aula,
mas, infelizmente, tem sido deixado de lado, pois professores e
responsáveis pelo ensino não tinham entendido a importância da
oralidade no ensino de língua materna. A razão principal, apontada
por Marcuschi, é o foco que é dado ao ensino de língua nas escolas
brasileiras: a escola existe para ensinar a escrever e escrever bem
(SILVA, 2015, p. 133).

Ainda no que concerne ao ensino de línguas, a importância da compreensão


sobre a língua falada para sua utilização não apenas teórica, mas também na
Linguística Aplicada, é ressaltada por Koch e Öesterreicher (2007 [1990], p. 377). O
conhecimento sobre a variação concepcional das mensagens é essencial
particularmente na didática de línguas estrangeiras, salientam os autores. Nesse
sentido, destacamos as palavras com que se encerra o livro Lengua hablada en la
Romania: español, francés, italiano:

Nos gustaría concluir compartiendo con el lector la convicción – que


creemos se infiere claramente de lo expuesto a lo largo de todo el libro
– de que el individuo adulto, consciente de sí mismo, sólo se puede
concebir como un sujeto capaz de explotar todo el caudal de riqueza
expresiva que le ofrece el conjunto de posibilidades lingüísticas que se
abren a lo largo del continuo entre la inmediatez y la distancia (KOCH;
ÖESTERREICHER, 2007 [1990], p. 379).8

Ensinar a escrever e, sobretudo, ensinar a escrever bem talvez dependa de


nossa capacidade de reconhecer as características específicas da oralidade e da
escrita e as interrelações entre essas duas modalidades de uso da língua. No
contexto brasileiro de ensino formal, o conhecimento sobre os recursos da escrita e
da oralidade, ou das características da imediatez e distância comunicativas, pode
contribuir para que se evite que os discentes reproduzam eventualmente, de
maneira não intencional, usos da linguagem falada na escrita e se distanciem,
assim, do emprego e da compreensão dos modelos da escrita formal e padrão, o

8
“Gostaríamos de concluir compartilhando com o leitor a convicção – que acreditamos poder ser
inferida com o que foi exposto ao longo do livro – que o indivíduo adulto, consciente de si mesmo, só
pode ser concebido como um sujeito capaz de explorar o caudal da riqueza expressiva oferecido a
ele por meio do conjunto de possibilidades linguísticas que se abrem ao longo do continuum entre a
imediatez e a distância (KOCH; ÖESTERREICHER, 2007 [1990], p. 379).” Tradução nossa.
27

que, como se sabe, permite, em nossa sociedade, o acesso à informação, à


instrução de nível superior e às esferas de poder.

4.2 Linguagens da imediatez e distância comunicativas

Os limites entre a oralidade e a escrituralidade foram abordados por Koch e


Öesterreicher (2007 [1990], p. 20), como dissemos inicialmente. Os autores reiteram
que, mesmo na ciência linguística, os termos “falado”/”oral” e “escrito”/”escritural”
são empregados, primeiramente, para se fazer referência à realização das
expressões linguísticas na forma de sons ou de signos gráficos, ou seja, no que se
refere ao meio ou suporte para a veiculação das mensagens. Conforme salientam os
estudiosos, essa diferenciação é evidente, porém não é suficiente para explicar a
complexidade da problemática oralidade/escrituralidade.
No Dicionário de Análise do Discurso, no verbete escrito/oral, Charaudeau e
Maingueneau (2006, p. 203) apontam as oposições comumente relacionadas a
esses dois termos. A primeira oposição indicada por eles se refere aos enunciados
veiculados pelos canais oral e gráfico. Os autores ressaltam que essa oposição vem
sendo relativizada pela atual digitalização das informações, “[...] tendo isso sido
possibilitado pela aparição das mídias audiovisuais (cinema, televisão) e dos
registros sonoros, que permitiram não restringir a conservação dos enunciados
unicamente pelo código gráfico” (op. cit., p. 203).
Koch e Öesterreicher observam que todos podemos perceber a existência de
textos como orações fúnebres, explicações durante uma visita turística guiada ou um
discurso de abertura, cuja “configuração linguística” não corresponde exatamente ao
que entendemos por “oralidade”. Existem igualmente expressões linguísticas como
notas ou apontamentos de aulas, textos de balões de histórias em quadrinhos ou
cartas pessoais cuja configuração também não corresponde exatamente ao que se
entende por “escrituralidade”. Salientamos que, em versão atualizada do livro
Gesprochene Sprache in der Romania: Französisch, Italienisch, Spanisch, publicada
28

em 2011, os autores incluíram, entre os exemplos de mensagens que mesclam


elementos da oralidade e da escrita, a comunicação por meio de chat 9.
A presença de aspectos da “escrita” na “fala” e da “fala” na “escrita” podem
ser percebidos intuitivamente por qualquer usuário da língua. As mútuas relações
entre as modalidades falada e escrita da língua apontadas por Koch e Öesterreicher,
em publicação de 1990, remetem ao que indica Tannen no trecho abaixo, publicado
em 1983:

Past studies of spoken and written language have typically


compared conversation to expository prose (or “essayist literacy”
[Olson]). These genres have not been the focus of such research by
chance. There is something typically spoken about conversation and
something typically written about expository prose. But by limiting our
analysis to these genres, we are likely to draw conclusions about
spoken and written language that are incorrect. For instance, contrary
to what a comparison of these genres suggests, strategies typically
associated with spoken discourse can be and are used in writing, and
strategies typically associated with written language are likewise
realized in speech (TANNEN, 1983, p. 80)10.

A autora interpreta as mútuas influências entre a fala e a escrita em termos de


“estratégias tipicamente associadas com o discurso falado”, que são usadas na
escrita, e “estratégias tipicamente associadas com a linguagem escrita”, que
ocorrem na fala. Seria limitado, portanto, conforme aponta Tannen, adotarmos a
conversação e a prosa expositiva como gêneros para a comparação entre a fala e a
escrita. A conversação e a prosa expositiva teriam características específicas da fala
e da escrita, respectivamente. Ao se comparar esses gêneros, perceber-se-ia que
há estratégias da fala na escrita e de estratégias da escrita na fala. Se aceitarmos
que a escrita é um produto da fala, devemos admitir que, em algum grau, mesmo
aquela que pode ser chamada de “escrita prototípica”, ou seja, a prosa expositiva
deve conter aspectos da fala. Ademais, é possível considerar a hipótese de que os

9
Sobre a comunicação via Internet, vale citarmos o que afirma Urbano: “[...] na Internet, o usuário
tecnologicamente ‘escreve’, mas conceitualmente ‘fala’, o que implica dois tipos de atividade, que
naturalmente se embaralham, com as naturais consequências de um baralhamento” (2002, p. 74).
10
“Estudos anteriores sobre as linguagens falada e escrita normalmente compararam a conversação
com a prosa expositiva (ou ‘letramento ensaístico’ [Olson]). Esses gêneros não foram o foco desse
tipo de pesquisa por acaso. Há algo de tipicamente falado na conversação e algo de tipicamente
escrito na prosa expositiva. Mas, ao limitarmos nossa análise a esses gêneros, tendemos a obter
conclusões incorretas sobre as linguagens falada e escrita. Por exemplo, contrariamente ao que a
comparação entre esses gêneros sugere, estratégias normalmente associadas com o discurso falado
podem ser e são utilizadas na escrita, assim como estratégias normalmente associadas com a
linguagem escrita são igualmente utilizadas na fala” (TANNEN, 1983, p. 80). Tradução nossa.
29

textos da chamada “fala prototípica”, ou seja, a conversação espontânea, em


sociedades letradas, podem conter aspectos da escrita.
No segundo capítulo de Lengua hablada en la Romania: español, francés,
italiano (2007 [1990]), intitulado “Oralidad y escrituralidad a la luz de la teoría del
lenguaje”, Koch e Öesterreicher apresentam os fundamentos de sua interpretação
sobre os limites entre a oralidade e a chamada “escrituralidade”. Os autores
informam que o romanista Ludwig Söll (1985, pp. 17-25), na obra Gesprochenes und
geschriebenes Französisch, publicada originalmente em 1974, na Alemanha, havia
solucionado as contradições existentes entre os termos “fala” e “escrita”. Söll
distingue o meio de realização, que pode ser fônico ou gráfico, e a concepção, que
pode ser falada ou escrita. Deve-se observar, portanto, que a diferenciação inicial
entre meio e concepção textual é atribuída a Söll. É com essa distinção preliminar,
entre meio e concepção das expressões linguísticas, que o chamado modelo da
imediatez e da distância comunicativas foi, posteriormente, desenvolvido por Koch e
Öesterreicher. Os autores apresentam um quadro em que se ilustra a diferenciação
entre meio e concepção textual, com exemplos extraídos das três línguas estudadas
em Lengua hablada en la Romania, ou seja, o francês, o espanhol e o italiano:

Figura 1. Oralidade e escrituralidade – concepcional e medial

Fonte: KOCH; ÖESTERREICHER (2007 [1990], p. 21)

Koch e Öesterreicher enfatizam que a linha divisória contínua, que separa os


meios fônico e gráfico, indica uma dicotomia estrita:

Un punto importantissimo, que necessita ser aclarado em


relaciòn con la figura 1, es el hecho de que la linea divisoria continua
entre el medio fónico y gráfico representa una disyunciòn, es decir,
una DICOTOMIA estrita. La línea divisoria discontinua indica, por el
contrario, que la relaciòn entre lo hablado y lo escrito sólo puede ser
30

concebida como un CONTINUO entre las manifestaciones extremas


de la concepciòn (cf. 2.3 y la figura 2) (KOCH; ÖESTERREICHER,
2007 [1990], p. 21)11.

A ideia de que, entre o falado e o escrito, existe uma dicotomia estrita no


âmbito do meio (que separa os códigos fônico e gráfico) e de que há um contínuo no
âmbito da concepção, é um aspecto basilar em que se ancora a teoria dos autores.
Tendo em vista esse esquema, Koch e Öesterreicher explicam não ser possível a
“plena equivalência” das quatro possibilidades proporcionadas pela combinação
entre o meio (“Medium”, em alemão) e a concepção (“Konzeption”, termo empregado
no texto original em alemão, com o sentido de “geração” ou “criação”12), conforme
explicam no seguinte trecho:

Naturalmente, con este esquema cuatripartito (fig. 1) no se


postula en absoluto la plena equivalencia de las cuatro posibilidades
que ofrece la combinaciòn la medio y concepciòn. Obviamente, son
indiscutibiles las afinidades, es decir, las relaciones de preferencia,
que se dan, respectivamente, entre hablado y fónico, por una parte
(por ej., una conversaciòn confidencial), asì como entre escrito y
gráfico (por ej., un artículo periodístico), por otra. No obstante, existen
asimismo, como es evidente, las combinaciones escrito + fónico (por
ej., un pregón de fiestas) y hablado + gráfico (por ej., una carta
privada). De hecho, el principio imperante es que todas las formas de
expressiòn, con independencia de su concepciòn, pueden ser
tranferidas desde su realización medial típica al otro medio (KOCH;
ÖESTERREICHER, 2007 [1990], p. 21)13.

11
“Um ponto importantíssimo, que precisa ser esclarecido em relação à figura 1, é o fato de que a
linha divisória contínua entre o meio fônico e gráfico representa uma disjunção, ou seja, uma
DICOTOMIA estrita. A linha divisória descontínua indica, pelo contrário, que a relação entre o falado e
o escrito só pode ser concebida como um CONTÍNUO entre as manifestações extremas da
concepção (cf. 2.3 e a figura 2)” (KOCH; ÖESTERREICHER, 2007 [1990], p. 21). Tradução nossa.
12
Como explicamos inicialmente, o artigo “Linguagem da imediatez – linguagem da distância:
oralidade e escrituralidade entre a teoria da linguagem e a história da língua” foi traduzido por Urbano
e Caldas. A tradução do artigo foi parte da monografia de final de curso do mestrando Raoni Caldas
na disciplina “A oralidade na escrita”, ministrada pelo Professor Doutor Hudinilson Urbano, na
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, da Universidade de São Paulo, em 2011.
Tivemos acesso a essa monografia por meio de Urbano e nela constam comentários de Caldas à
tradução do texto em língua alemã. São apresentadas explicações sobre as escolhas dos termos
utilizados na versão em português, com a indicação das palavras e expressões correspondentes em
alemão. Sendo assim, inserimos, neste trabalho, algumas informações sobre os termos alemães com
base nos dados oferecidos por Caldas na referida monografia.
13
“Naturalmente, com este esquema quadripartido (fig. 1) não se postula em absoluto a plena
equivalência das quatro possibilidades que oferece a combinação meio e concepção. Obviamente,
são indiscutíveis as afinidades, ou seja, as relações de preferência que se dão, respectivamnete,
entre falado e fônico, de um lado (por ex., uma conversação privada) assim como entre escrito e
gráfico (por ex., um artigo de jornal), de outro lado. Não obstante, existem, assim mesmo, como é
evidente, as combinações escrito + fônico (por ex., um discurso de abertura) e falado + gráfico (por
ex., uma carta privada). Sendo assim, o princípio imperante é que todas as formas de expressão
independentemente de sua concepção, podem ser transferidas desde sua realização medial típica ao
outro meio” (KOCH; ÖESTERREICHER, 1990, p. 21). Tradução nossa.
31

Os autores apontam as “relações de preferência” que se verificam,


respectivamente, entre falado e fônico, de um lado, como ocorre, por exemplo, em
uma conversa íntima, assim como entre escrito e gráfico, como se dá, por exemplo,
em um artigo de jornal. Mas, existem também as combinações entre escrito e fônico,
como em um discurso de abertura, e entre falado e gráfico, como se pode verificar
em uma carta pessoal. Essas últimas duas combinações talvez sejam aquelas
menos evidentes quando, geralmente, se diferenciam textos falados e escritos. Um
discurso de abertura, ainda que veiculado pelo meio sonoro, apresenta
características da concepção textual escrita, assim como uma carta privada,
veiculada pelo meio gráfico, pode apresentar aspectos da concepção dos textos
falados. Sendo assim, conforme se observou inicialmente, a consideração exclusiva
do meio para a caracterização dos textos como falados ou escritos pode se mostrar,
como nos leva a concluir a reflexão de Koch e Öesterreicher, limitada e imprecisa.
Esse aspecto foi também apontado pelos já citados Parisi e Castelfranchi (1977, p.
170), os quais afirmam que considerar apenas o meio físico para caracterizar a fala
e a escrita é limitador, pois se excluem os aspectos cognitivos e sociais envolvidos
com o uso dessas duas formas de comunicação.
Cabe ressaltar aqui que essas questões, levantadas por Koch e Öesterreicher
na década de 1980, se tornam particularmente relevantes na realidade social
hodierna, com o desenvolvimento do que se pode designar “linguagem da internet”
ou “internetês”. Nessa nova linguagem, produzem-se frequentemente textos
veiculados pelo meio gráfico e que apresentam características muito semelhantes às
dos textos de concepção falada (cf. HILGERT, 2000), como é o caso da linguagem
de weblogs e nas “conversações” via internet, como ocorre nos chamados chats.
Após a diferenciação inicial entre os aspectos medial e concepcional da
oralidade e da escrituralidade, ainda no segundo capítulo de Lengua hablada en la
Romania, Koch e Öesterreicher retomam a definição de Coseriu (1973) sobre a
linguagem humana e se dedicam à caracterização dos aspectos universais e
idiomáticos da língua falada, nos níveis universal, histórico e individual. Os teóricos
abordam os aspectos universais da oralidade e da escrituralidade considerados
exclusivamente no plano da concepção. Eles elencam os fatores fundamentais da
comunicação linguística: há o contato entre um emissor e um receptor; desse
contato, nasce um discurso ou texto que se refere a objetos e circunstâncias da
32

realidade extralinguística; o discurso é produzido com um trabalho de formulação


que se situa, nos termos dos autores, em uma “zona de tensão” entre a linearidade
dos signos linguísticos, as normas da língua histórica particular e a complexa
realidade extralinguística multidimensional; os participantes da comunicação,
emissor e receptor, estão inseridos em campos dêiticos pessoais, espaciais e
temporais, em determinados contextos, bem como em determinadas condições
emocionais e sociais (KOCH; ÖESTERREICHER, 2007 [1990], p. 25). Ao identificar
esses fatores, os autores apontam as possibilidades de variação de cada um deles,
variação essa que produz uma escala de condições de comunicação em que se
baseia o contínuo concepcional entre a oralidade e a escrituralidade. Devemos
observar que, ao se referirem a um contínuo entre oralidade e escrituralidade, Koch
e Öesterreicher sempre enfocam o aspecto concepcional das manifestações
linguísticas e não o aspecto medial.
Considerando-se os fatores da comunicação linguística mencionados, são
elencados pelos autores os seguintes parâmetros, ou condições extralinguísticas
universais, para a caracterização das realizações linguísticas no contínuo
concepcional falado/escrito:

a) Grau de PRIVACIDADE ou o caráter mais ou menos público da


comunicação;
b) Grau de FAMILIARIDADE ou intimidade entre os interlocutores;
c) Grau de IMPLICAÇÃO EMOCIONAL em relação ao interlocutor e/ou ao
objeto da comunicação;
d) Grau de ENTRELAÇAMENTO OU “ANCORAGEM” dos atos
comunicativos em relação à situação ou à ação;
e) CAMPO REFERENCIAL, relacionado à distância dos objetos e pessoas
referidas com relação a origo14 (ego-hic-nunc) do falante;
f) IMEDIATEZ OU DISTÂNCIA FÍSICA DOS INTERLOCUTORES, nos
aspectos espacial e temporal;

14
O termo latino origo (“origem”), utilizado em Lengua hablada en la Romania: español, francés,
italiano (1997), se refere às dêixis pessoal, espacial e temporal. Conforme explica Suadoni (2016, p.
27), o termo origo foi introduzido na linguística por Bühler (1934) e, conforme comenta a autora, se
pode resumir com a fórmula ego, hic, nunc (eu, aqui, agora). Koch e Öesterreicher incluem uma
referência a Bühler logo após utilizarem a expressão “origo del hablante” (origo do falante), no seu
texto em espanhol.
33

g) Grau de COOPERAÇÃO, considerado de acordo com as possibilidades de


intervenção dos receptores na produção do discurso;
h) Grau de DIALOGICIDADE, em que se destacam a possibilidade e a
frequência para assumir o papel de emissor;
i) Grau de ESPONTANEIDADE da comunicação;
j) Grau de FIXAÇÃO TEMÁTICA.15

Nove desses dez parâmetros são de natureza gradual e escalar. O parâmetro


F é o único que não o é, visto que se refere à imediatez ou distância física. Os
autores explicam que todas as formas de comunicação se caracterizam por um
conjunto de valores paramétricos dessas condições comunicativas concretas, que
podem ser descritas com a ajuda dos parâmetros citados.
Observa-se que o parâmetro “a”, por exemplo, envolve uma escala entre a
máxima privacidade e o aspecto totalmente público da comunicação. Conforme
Öesterreicher explica no texto Pragmatica del discurso oral (1997, p. 88), ao retomar
esses mesmos parâmetros, o grau de privacidade de um discurso é definido pelo
número de interlocutores (como em um diálogo entre duas pessoas versus uma
comunicação de massa), bem como pela existência ou não de um público e suas
dimensões (como no caso de uma mesa-redonda versus um discurso na televisão).
A mesma variação se atribui ao parâmetro “b”, havendo, portanto, uma
gradação que vai desde a familiaridade máxima entre os interlocutores até seu
desconhecimento prévio total. A familiaridade se relaciona, segundo os autores, com
a experiência comunicativa conjunta prévia dos interlocutores, do conhecimento
partilhado e mútuo entre eles e do grau de institucionalização da comunicação

15
Consideramos útil apresentar, a seguir, os parâmetros conforme constam no texto original em
alemão: “a) der Grad der Öffentlichkeit, für den die Zahl der Rezipienten (vom Zweiergespräch bis
hin zur Massenkommunikation) sowie die Existenz und Größe eines Publikums relevant ist; b) der
Grad der Vertrautheit der Partner, der von der vorgängigen gemeinsamen
Kommunikationserfahrung, dem gemeinsamen Wissen, dem Ausmaß an Institutionalisierung der
Kommunikation etc. abhängt.; c) der Grad der emotionalen Beteiligung, die sich auf den/die Partner
(Affektivität) und/oder auf den Kommunikationsgegenstand (Expressivität) richten kann; d) der Grad
der Situations- und Handlungseinbindung von Kommunikationsakten; e) der Referenzbezug, bei
dem entscheidend ist, wie nahe die bezeichneten Gegenstände und Personen der Sprecher-origo
(ego-hic-nunc) sind (cf. Bühler 1965, 102ss.); f) die physische Nähe der Kommunikationspartner
(face-to-face- Kommunikation) vs. physische Distanz in räumlicher und zeitlicher Hinsicht; g) der Grad
der Kooperation, der sich nach den direkten Mitwirkungsmöglichkeiten des/der Rezipienten bei der
Produktion des Diskurses bemisst; h) der Grad der Dialogizität, für den in erster Linie die Möglichkeit
und Häufigkeit einer spontanen Übernahme der Produzentenrolle bestimmend ist; der Dialogizität in
einem weiteren Sinne können Phänomene wie ‘Partnerzuwendung’ etc. subsumiert werden (s. auch c)
und e)); i) der Grad der Spontaneität der Kommunikation; j) der Grad der Themenfixierung” (KOCH;
ÖESTERREICHER, 2011 [1990], p. 7).
34

(KOCH; ÖESTERREICHER, 2007 [1990], p. 26). Pode-se entender a “familiaridade”


com o sentido de intimidade e proximidade, característica comum das interações
com alto grau de privacidade (como a conversação entre familiares ou entre
amigos), oposta à impessoalidade e à distância manifestas comumente nas
interações públicas formais (como uma conferência acadêmica). Observemos,
portanto, que é possível estabelecer relações entre os parâmetros elencados por
Koch e Öesterreicher, de modo que eles não devem ser entendidos como categorias
estanques.
Ainda no referido artigo Pragmatica del discurso oral (1997, p. 88),
Öesterreicher aborda o parâmetro “c”. O autor esclarece que a emotividade ou a
participação emocional pode dizer respeito ao interlocutor (o que pode se relacionar
com o parâmetro da familiariadade entre os interactantes) ou ao objeto da
comunicação. Pode-se considerar, nesse parâmetro, a afetividade interpessoal,
como em uma conversação entre um casal de namorados, e a afetividade ou
expressividade “objetiva”, nos termos do autor, como pode ocorrer em uma
discussão em uma reunião política. Observemos que Öesterreicher (1997, p. 88)
apresenta dois exemplos de interações orais, sem especificar a implicação
emocional na distância comunicativa, ou seja, em textos de concepção escrita.
Percebe-se que, em mensagens da máxima distância comunicativa, o grau de
implicação emocional é reduzido, porque, nessas mensagens, prevalece a busca
pela descrição e reflexão objetiva sobre os fatos e fenômenos. Sobre esse aspecto,
podem ser esclarecedoras as palavras de Cicourel:

The reproduction of different kinds of knowledge (legal-rational,


scientific, actuarial) is subjected to detached or impersonal written
formats that seek to minimize the personal involvement of those
producing organizational knowledge in bureaucratic settings. The
bureaucratically, filtered written language used to depict objective
knowledge lends itself to a crisp, factual, historical analysis. The
everyday, contingent, often vagues circumstances that punctuate
laboratory and field research, and the recursive editing practices,
false starts, unexpected results and mistakes of scientific research,
are purged in the construction of objective knowledge (CICOUREL,
1985, p.183)16.

16
“A reprodução de diferentes tipos de conhecimentos (legal-racional, científico, atuarial) é submetida
a formatos escritos destacados ou impessoais que procuram minimizar o envolvimento pessoal
daqueles que produzem o conhecimento organizacional em contextos burocráticos. A linguagem
escrita burocraticamente filtrada e usada para descrever o conhecimento objetivo a conduz a uma
análise histórica fragmentada e factual. As circunstâncias cotidianas, contingentes e frequentemente
vagas que caracterizam a pesquisa de campo e de laboratório, bem como as repetitivas práticas de
35

Nas mensagens dedicadas prioritariamente à veiculação de conhecimento e


informação objetiva, como, por exemplo, documentação burocrática, peças judiciais,
formulários e relatórios de empresas, prosa acadêmico-científica, o enunciador não
se dedica ao estabelecimento de implicação emocional com o coenunciador e com o
objeto da comunicação, de maneira que se excluem as marcas do “eu”. Nessas
mensagens, o que mais importa é a transmissão de informações e conteúdos, de
modo que, intencionalmente, se busca reduzir ao máximo o envolvimento
interpessoal e a expressão de emoções relacionadas ao conteúdo. Essa
característica de diversas mensagens de concepção escrita ou da máxima distância
comunicativa, produzidas nas sociedades de cultura escrita avançada, nos remetem
ao que afirma Tannen ao comparar as tradições oral e escrita:

In the broadest sense, strategies associated with oral tradition place


emphasis on shared knowledge and the interpersonal relationship
between communicator and audience. In this, it builds upon what
Bateson (1972) calls the metacomunicative function of language: the
use of words to convey something about the relationship between
interlocutors. Literate tradition builds upon what Bateson calls the
communicative function of language: the use of words to convey
information or content. This gives rise to the idealization that language
can be "autonomous" (Kay, 1977) – that is, that words can carry
meaning all by themselves, and that this is their prime function. In
practice, language is probably never wholly autonomous, nor wholly
metacommunicative. Rather, it is relatively weighted in favor of one or
the other idealization – hence, the oral/literate continuum (TANNEN,
1980, pp. 213-14).17

Tendo em vista o que afirma Tannen, podemos dizer que a ideia de que as
mensagens da máxima distância comunicativa manifestam baixo grau de implicação
emocional enquanto as mensagens da máxima imediatez comunicativa apresentam
alto grau de implicação emocional pode conduzir a idealizações, permitindo a

edição, falsos começos, resultados inesperados e erros da pesquisa científica são removidos na
construção do conhecimento objetivo” (CICOUREL, 1985, p.183). Tradução nossa.
17
“No sentido mais amplo, as estratégias associadas com a tradição oral enfatizam o conhecimento
partilhado e a relação interpessoal entre o comunicador e o público. Nesse aspecto, ela se estrutura
com base no que Bateson (1972) chama de função metacomunicativa da linguagem. O uso de
palavras para transmitir algo sobre o relacionamento dos interlocutores. A tradição escrita se
estrutura com o que Bateson chama de função comunicativa da linguagem: o uso de palavras para
transmitir informação ou conteúdo. Isso dá origem à idealização de que a linguagem pode ser
autônoma (Kay, 1977), ou seja, de que as palavras podem conduzir o significado por elas mesmas e
que é esta a principal função delas. Na prática, a linguagem provavelmente nunca é totalmente
autônoma, nem totalmente metacomunicativa. Pelo contrário, ela é relativamente mais forte em favor
de uma ou de outra idealização – ou seja, o contínuo oral/escrito” (TANNEN, 1980, pp. 213-14).
Tradução nossa.
36

possibilidade de acreditarmos que a linguagem possui caráter “autônomo”, como diz


Tannen no trecho acima citado. Sendo assim, seria adequado considerar que há
uma tendência, na distância comunicativa, a minimizar, frequentemente de modo
intencional, o envolvimento emocional com o conteúdo e o coenunciador, assim
como há uma tendência inversa a essa nas mensagens da imediatez comunicativa.
Evidenciar-se-ia, assim, a existência de uma variação gradual e escalar do
parâmetro “c”.
Para McLuhan, o pouco envolvimento emocional é uma característica das
sociedades letradas, o que as difere das sociedades não-letradas:

O homem ou a sociedade letrada desenvolve uma enorme


força de atenção em qualquer coisa, com um considerável
distanciamento em relação ao envolvimento sentimental e emocional
experimentado por um homem ou uma sociedade não-letrada
(McLUHAN,1995, p. 97).

Essa reflexão de McLuhan pode ser relacionada às palavras de Rousseau,


que, no século XVIII, já se ocupava com o tema da fala e da escrita, em seu Ensaio
sobre a origem das línguas:

Expressam-se os próprios sentimentos ao falar e as próprias ideias


quando se escreve. Ao escrever, somos obrigados a tomar todas as
palavras na acepção comum, porém aquele que fala varia as
acepções através dos tons, determina-os como os deseja; menos
obrigado a ser claro, confere maior importância à força e não é
possível que uma língua que se escreve conserve por muito tempo a
vivacidade daquela que é somente falada. [...] (ROUSSEAU, 2008,
p. 116).

Rosseau ressalta a predominância da expressão dos sentimentos na fala e a


relevância da expressão das ideias na escrita. Além disso, a reflexão do filósofo
aponta para a “vivacidade” e a importância dos “tons” na fala, ou seja, ele destaca
um aspecto inerente e exclusivo do meio fônico, que se tenta reproduzir na escrita,
no meio gráfico, com a pontuação. A “vivacidade” da fala mencionada por Rousseau
remete à ideia do envolvimento emocional e interacional constantes do parâmetro “c”
da teoria da imediatez e distância comunicativas.
Em relação ao parâmetro “d”, Öesterreicher (1997, p. 89) explica que o grau
de inserção ou de ancoragem dos atos comunicativos à situação ou à ação pode ser
máximo como se dá, por exemplo, quando um médico está operando um paciente e
pede um bisturi. O grau de ancoragem pode ser mínimo, de acordo com o autor, em
37

um texto jurídico que se refira a sujeitos abstratos, a delitos não cometidos ou até
“irreais”.
Ainda em Pragmatica del discurso oral (1997), Öesterreicher identifica o
parâmetro “e” como o tipo de referência, definido pelo grau de proximidade ou
distância das pessoas ou dos objetos citados no discurso, tendo-se sempre em vista
o ego-hic-nunc do locutor. Em seguida, o autor comenta o parâmetro “f” e diz que a
posição local e temporal dos interlocutores é o que determina o tipo de contato.
Sendo assim, devem-se distinguir as interações face a face em relação a todos os
outros tipos e graus de separação local e temporal nos âmbitos tanto da produção
quanto da recepção dos discursos.
Sobre o grau de cooperação, Öesterreicher (1997, p. 89) afirma que esse
parâmetro se refere ao receptor e sua interferência na produção dos enunciados. A
cooperação envolve não somente aspectos verbais (perguntas, propostas,
correções, informações suplementares), mas inclui igualmente o nível de atenção e
de reação do receptor ao expressar-se com olhares, expressões mímicas, posição
corporal, risadas e cliques, por exemplo. Sobre o parâmetro relacionado ao grau de
cooperação na interação, podemos lembrar, mais uma vez, o que diz McLuhan: “A
palavra escrita desafia em sequência, o que é imediato e implícito na palavra falada”
(1995, p. 97). Ou seja, a necessidade de reação imediata é um dos componentes
essenciais que diferenciam a comunicação de concepção oral e de concepção
escrita, assim como muitos elementos podem permanecer implícitos na fala e
precisam ser verbalizados na escrita. É curioso notarmos, nesse trecho de McLuhan,
o uso de “reação imediata” que nos remete à escolha de “linguagem da imediatez”,
feita por Koch e Öesterreicher para designar as mensagens de concepção falada.
Ao comentar o parâmetro “h”, Öesterreicher salienta que a dialogicidade e a
cooperação devem ser diferenciadas. Segundo ele:

La dialogicidad se define por la posibilidad y la frecuencia


con la que los interlocutores asumen espontaneamente el papel de
locutor; compárese una conversación entre amigos con la lectura de
la sentencia en un tribunal: en el primer caso la comunicaciòn es
simétrica, dialogada; en el segundo, claro está, assimétrica,
monologal (ÖESTERREICHER, 1997, p. 89).18

18
“A dialogicidade se define pela possibilidade e a frequência com que os interlocutores assumem
espontaneamente o papel de locutor; compare-se uma conversação entre amigos com a leitura da
sentença em um tribunal: no primeiro caso, a comunicação é simétrica, dialogada; no segundo, fica
claro, assimétrica, monologada” (ÖESTERREICHER, 1997, p. 89). Tradução nossa.
38

A dialogicidade diz respeito, portanto, na perspectiva teórica dos autores,


exclusivamente à possibilidade de desempenhar o papel de emissor em uma
interação. A alternância no desempenho do papel de emissor é frequente na
interação de concepção oral ou da imediatez comunicativa, enquanto as mensagens
de concepção escrita ou da máxima distância comunicativa se caracterizam pela
“monologicidade”.
Sobre o parâmetro “i”, ou seja, o grau de espontaneidade, Öesterreicher
esclarece que se refere ao “[...] nivel de libertad de participaciòn y de
comportamiento entre los hablantes”19 (1997, p. 89). Nesse parâmetro, inclui-se o
grau de institucionalização ou de formalidade da comunicação. Ao se interpretar a
“espontaneidade”, mencionada pelo autor, como sinônimo de “naturalidade”, ou seja,
como uma comunicação “sem artificialismos ou elementos ensaiados ou estudados”
ou “que se faz sem intervenção da vontade ou que se exprime irrefletidamente”,
conforme definição de “espontâneo”, do Grande Dicionário Houaiss da Língua
Portuguesa (2001), pode-se entendê-la como resultado de uma comunicação com
baixo grau de planejamento20, como é o caso da conversação informal21, típica da
máxima imediatez comunicativa, enquanto a linguagem da máxima distância
comunicativa se caracteriza pelas amplas condições de planejamento e pela
formalidade.
Em relação ao último parâmetro, ou seja, ao grau de fixação ou de
determinação temática, Öesterreicher comenta: “Estas son mínimas en la
conversaciòn familiar; son, sin embargo, obligatorias, p. ej., en una conferencia
científica, etc.” (1997, p. 89)22. A definição precisa do tema e sua abordagem
aprofundada são características tipicas da distância comunicativa, enquanto a
liberdade na mudança de temática e a análise menos detida ou superficial pode ser
relacionada como uma característica da imediatez comunicativa, o que também se
pode relacionar com a espontaneidade e as escassas condições de planejamento
dos discursos imediatos.
19
“[...] nível de liberdade de participação e de comportamento entre os falantes” (ÖESTERREICHER,
1997, p. 89). Tradução nossa.
20
Kato desenvolve estudo minucioso sobre as características do planejamento textual na fala e na
escrita no livro No mundo da escrita. Uma perspectiva psicolinguística (São Paulo: Ática, 1987).
21
Uma análise detalhada sobre o planejamento é apresentada por Urbano, no artigo “Variedades de
planejamento no texto falado e no escrito” (1998, pp. 131-151).
22
“Estas são mínimas na conversação familiar; são, no entanto, obrigatórias, por exemplo, em uma
conferência científica etc.” (1997, p. 89). Tradução nossa.
39

Considerados os dez parâmetros acima descritos, deve-se ter em vista que a


ideia de uma gradação que se estabelece em um contínuo não se relaciona somente
com a classificação linear das realizações linguísticas em uma linha delimitada por
dois polos opostos entre a fala e a escrita. A caracterização das mensagens,
proposta por Koch e Öesterreicher, envolve a ideia de que nove dos dez parâmetros
se manifestam em uma escala gradual e escalar.
Por meio da consideração dos valores paramétricos, podem-se identificar dois
polos nas extremidades do contínuo falado/escrito. No polo da máxima imediatez
comunicativa (falado), combinam-se os seguintes valores paramétricos: privacidade,
familiaridade, forte implicação emocional, ancoragem à situação e ação
comunicativas, referenciação com relação à origo do falante, imediatez física,
máxima cooperação na produção, alto grau de dialogicidade, liberdade temática e
espontaneidade máxima.
Já no polo da máxima distância comunicativa (escrito), tem-se: o caráter
público da comunicação, o desconhecimento entre os interlocutores, falta de
implicação emocional, destacamento/desvinculação em relação à situação e à ação
comunicativas, impossibilidade de dêixis referida à origo do falante, distância física,
ausência de cooperação na produção, “monologicidade”, fixação temática e máxima
reflexividade (KOCH; ÖESTERREICHER, 2007 [1990], p. 29).
Neste ponto, cabe destacar as seguintes palavras dos autores:

Se puede decir, por tanto, que los dos polos extremos del
continuo hablado/escrito delineados anteriormente se corresponden
con formas de comunicación que encarnan, en todos los parámetros,
en un caso, la máxima inmediatez comunicativa (hablado) y, en el
otro, la máxima distancia comunicativa (escrito). En el espacio
multidimensional que delimitan ambas formas extremas de la
comunicación lingüistica, se pueden ubicar todas las posibilidades
concepcionales entre la oralidad y la escrituralidad (KOCH;
ÖESTERREICHER, 2007 [1990], p. 31)23.

Para exemplificar a presença dos parâmetros comunicativos no discurso, os


autores os aplicam a uma carta pessoal privada prototípica, que se caracterizaria
por: a) privacidade; b) familiaridade entre os interlocutores; c) envolvimento

23
“Pode-se dizer, portanto, que os dois polos extremos do contínuo falado/escrito delineados
anteriormente, correspondem a formas de comunicação que encarnam, em todos os parâmetros, em
um caso, a máxima imediatez comunicativa (falado) e, do outro, a máxima distância comunicativa
(escrito). No espaço multidimensional delimitado por ambas as formas extremas da comunicação
linguística, podem-se localizar as possibilidades concepcionais entre a oralidade e a escrituralidade”
(KOCH; ÖESTERREICHER, 2007 [1990], p. 31). Tradução nossa.
40

emocional relativamente forte; d) ausência de ancoragem à situação, ou talvez uma


ancoragem limitada na ação; e) impossibilidade, a princípio, de dêixis centrada na
origo do falante, exceto com relação ao ego; f) distância física; g) impossibilidade de
cooperação na produção; h) dialogicidade estritamente regulada (intercâmbio de
correspondência); i) espontaneidade relativa; j) desenvolvimento temático livre. Os
autores oferecem a representação gráfica abaixo para ilustrar a aplicação dos dez
parâmetros comunicativos em uma carta privada:

Figura 2. Valores paramétricos comunicativos da carta privada prototípica

Fonte: KOCH; ÖESTERREICHER (2007 [1990], p. 27)

Nessa figura, evidencia-se o aspecto gradual e escalar dos parâmetros


comunicativos universais das interações linguísticas faladas ou escritas, que se
distribuem em um contínuo entre a imediatez e a distância comunicativas.
Após apontarem os parâmetros universais que incidem sobre a imediatez e a
distância comunicativas, Koch e Öesterreicher (2007 [1990], p. 31) discutem as
estratégias de verbalização universais utilizadas pelos falantes. Para descreverem
essas estratégias, são consideradas preliminarmente quatro “classes de contextos”
em que se ancoram os discursos. Trata-se de: 1) contexto situacional; 2) contexto
cognitivo que se subdivide em (a) contexto cognitivo individual e (b) contexto
cognitivo geral; 3) contexto comunicativo linguístico ou cotexto; 4) outros contextos
comunicativos como (a) contexto paralinguístico e (b) contexto comunicativo não-
linguístico. Das quatro classes de contextos, os estudiosos sublinham que 1, 2 e 4
são analógicos ou contínuos, enquanto 3 é digital, ou seja, constituído por “unidades
discretas claramente identificáveis”, nos termos dos autores.
Koch e Öesterreicher (2007 [1990], p. 32) explicam que, na comunicação
imediata extrema, ocorrem os quatro tipos de contextos acima mencionados. Já na
41

comunicação distante extrema, há restrições no que concerne ao contexto


situacional (1) e aos contextos paralinguístico ou extralinguístico (4a e 4b,
respectivamente). O contexto cognitivo individual, relacionado aos conhecimentos
partilhados entre os interlocutores, suas vivências comuns e conhecimento mútuo,
também é restringido quando há desconhecimento total entre os indivíduos que
participam da comunicação. Diante das restrições relacionadas ao contexto na
comunicação da distância extrema ocorre a ampliação do papel do contexto
linguístico (3), de modo que a informação contextual se transforma em cotexto,
diferentemente do que ocorre na imediatez comunicativa extrema, em que o cotexto
linguístico se mantém em segundo plano. Os autores ressaltam que o contexto
cognitivo geral é imprescindível em qualquer forma de comunicação (KOCH;
ÖESTERREICHER, 2007 [1990], p. 32).
Sobre as características da concepção das mensagens da imediatez e da
distância comunicativas, os autores descrevem que o grau de planejamento dos
discursos é alto na distância comunicativa e escasso na linguagem da imediatez.
Como consequência desse aspecto, a linguagem da imediatez se caracteriza pelo
caráter efêmero e a construção processual. Essa linguagem é marcada por uma
“verbalização parca” e uma “configuração do discurso frequentemente extensiva,
linear e agregativa”, com a ocorrência de enunciados incompletos e uso da parataxe,
por exemplo. Tratar-se-ia de uma linguagem com menor densidade informativa em
comparação com a linguagem da distância. Esta se caracteriza, segundo os autores,
pela verbalização “intensiva e compacta”, alta densidade e rápida progressão
informativas.
Koch e Öesterreicher afirmam não ser surpreendente o fato de que os
discursos construídos com essas características sejam considerados como protótipo
de “texto”24. Sendo assim, eles explicam que adotam o vocábulo “texto” com o
sentido de “discurso da distância”25. Essa associação entre “texto” e “linguagem da

24
No capítulo 3, de Lengua hablada en la Romania (2007 [1990], p. 53), Koch e Öesterreicher
explicam que não se utilizam do conceito de texto adotado pela Linguística Textual. Segundo eles,
essa abordagem reduz “texto” a uma ‘sequência oracional’ (transfrástica) e apresentam regras de
coerência e coesão que, para eles, só têm validade para os discursos escritos, ou seja, o que eles
designam como “discurso da distância”.
25
É relevante observar que, em dicionários da língua portuguesa, encontra-se a definição da lexia
“texto” relacionada frequentemente a expressão por meio gráfico e à escrita. No dicionário Novíssimo
Aulete (GEIGER, 2012), a primeira acepção de “texto” é: “Encadeamento de palavras ou de frases
escritas”. No Grande Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa (2001), “texto” é definido como:
“conjunto das palavras de um autor, em livro, folheto, documento etc. (p. opos. a comentários,
42

distância comunicativa” é percebida pelos autores como elemento propiciador para a


compreensão das “afinidades” entre o meio gráfico e a distância comunicativa e o
meio fônico e a imediatez comunicativa:

El último aspecto mencionado resulta útil para comprender las


afinidades que existen, por una parte, entre el medio gráfico – ya de
por sí materialmente reificador – y la escrituralidad concepcional
(distancia comunicativa) y, por outra, entre el medio fónico – que
materialmente propicia lo pasajero – y la oralidad concepcional
(inmediatez comunicativa) [...] (KOCH; ÖESTERREICHER, 2007
[1990], p. 33).26

Não nos deteremos, por ora, na discussão sobre o aspecto da efemeridade


que se associa comumente à oralidade e à perenidade frequentemente relacionada
à escrita. Mas, ainda que brevemente, cumpre salientar que nem todos os textos
veiculados por meio gráfico têm a mesma permanência, afinal a perduração de um
texto do gênero textual “romance”, por exemplo, difere daquela do gênero “anúncio
publicitário” ou do gênero “folheto de propaganda”. Assim como há diferenças entre
a permanência de um provérbio ou de uma canção, transmitidos de uma geração a
outra sobretudo pela oralidade e pelo meio fônico, e a efemeridade de uma
conversação informal cotidiana. Caberia nos indagarmos mais detalhadamente
sobre esse aspecto e, talvez, investigar se esse não seria um fator relevante para
uma “classificação” dos textos de concepção oral e escrita. Essa reflexão nos coloca
perguntas como: poderia ser o aspecto da concepção e não o aspecto medial o mais
relevante para a perenidade das mensagens orais e escritas?
Para ilustrar o contínuo entre a imediatez e a distância comunicativas, Koch e
Öesterreicher apresentam a seguinte figura:

aditamentos, sumário, tradução etc.); redação original de qualquer obra escrita”. Essas definições
podem ser relacionadas com as ideias expostas inicialmente neste trabalho sobre a valorização da
escrita em relação à fala. Não são mencionadas nos dois dicionários citados expressões como “texto
falado” ou “texto oral”, empregadas nos estudos da Análise da Conversação, por exemplo. É curioso
notar também que frequentemente, ao nos referirmos a um romance ou até mesmo a um artigo
científico, por exemplo, dizemos que o autor “fala”: “o autor fala que...” quando poderíamos dizer
também “o autor escreve que”. “Falar” pode ser, portanto, utilizado com o sentido de “expressar” ou
“comunicar”, mesmo que o suporte da mensagem seja o meio gráfico.
26
“O último aspecto mencionado é útil para compreender as afinidades que existem, de um lado,
entre o meio gráfico – já por si mesmo reificador – e a escrituralidade concepcional (distância
comunicativa) e, por outro, entre o meio fônico – que materialmente propicia o passageiro – e a
oralidade concepcional (imediatez comunicativa).” Tradução nossa.
43

Figura 3. Contínuo entre imediatez e distância comunicativas

Fonte: KOCH; ÖESTERREICHER (2007 [1990], p. 34)

No centro da figura acima, vê-se uma linha horizontal contínua entre a


imediatez e a distância comunicativas ou entre a oralidade e a escrituralidade. Os
algarismos romanos correspondem, segundo os autores (2007 [1990], p. 35), às
seguintes formas de comunicação: I. conversação familiar; II. conversação telefônica
privada; III. carta privada; IV. entrevista de emprego; V. versão impressa de uma
entrevista de jornal ; VI. sermão; VII. conferência científica; VIII. artigo editorial; IX.
texto jurídico.
Apresentam-se, nessa figura, tanto os aspectos da concepção quanto o
aspecto medial em que se distribuem e se localizam as nove formas de
comunicação acima elencadas27.
Como veremos a seguir, esse contínuo entre a fala e a escrita, ou entre a
imediatez e a distância comunicativas, é incluído por Koch e Öesterreicher dentro do
diassistema linguístico, constituindo, portanto, uma quarta dimensão da variação
linguística, sendo que essa dimensão, na visão dos autores, coloca-se em posição
de primazia no conjunto das variações diatópica, diastrática e diafásica, postuladas
por Eugenio Coseriu.

27
Observe-se que, no lado direito da figura, entre as estratégias de verbalização da distância
comunicativa se incluiu a “escasa planificación”, ou seja, “escasso planejamento”. Como descrevem
os autores, esse é um aspecto da imediatez comunicativa e não da distância comunicativa, de modo
que deveria constar na figura, portanto, o amplo planejamento entre as estratégias de verbalização da
distância comunicativa.
44

4.3 Falado e escrito como dimensões da variação linguística

Após descreverem o contínuo concepcional da imediatez e da distância


comunicativas, Koch e Öesterreicher refletem, ainda no capítulo “Oralidad y
escrituralidad a la luz de la teoría del lenguaje”, do livro Lengua hablada en la
Romania, sobre as relações entre variedades idiomáticas e língua falada. Os autores
voltam a considerar os aspectos universais e idiomáticos da língua falada, nos níveis
universal, histórico e individual. Segundo eles, o contínuo falado/escrito pode ser
designado como:

• contínuo entre LÍNGUA IMEDIATA e LÍNGUA DISTANTE, considerando-se o


nível histórico das línguas particulares (idiomas);
• contínuo entre TRADIÇÃO DISCURSIVA IMEDIATA e TRADIÇÃO
DISCURSIVA DISTANTE, no nível histórico das tradições discursivas;
• contínuo entre DISCURSO IMEDIATO e DISCURSO DISTANTE, no nível
atual ou individual.

Koch e Öesterreicher ressaltam a importância da consideração do nível


universal para se abordar as relações entre imediatez e distância comunicativa. Eles
salientam que as relações entre oralidade e escrituralidade foram consideradas
tradicionalmente somente no nível histórico-idiomático:

[...] Tradicionalmente, los problemas de la oralidad y la escrituralidad


concepcionales se han tratado exclusivamente en el nivel histórico-
idiomático. Hasta ahora hemos mostrado la importancia crucial del
nivel universal para esta cuestión. Pero en lo sucesivo es también
indispensable ocuparse de la lengua de la inmediatez y de la
distancia comunicativa en el nivel histórico-idiomático, lo que implica
la consideración de su relación con el diasistema variacional (KOCH;
ÖESTERREICHER, 2007 [1990], p. 36).28

28
“Tradicionalmente, os problemas da oralidade e da escrituralidade concepcionais foram tratados
somente no nível histórico-idiomático. Até agora, mostramos a importância crucial do nível universal
para essa questão. Porém, sucessivamente, também é indispensável ocupar-se da língua da
imediatez e da distância comunicativa no nível histórico-idiomático, o que implica a consideração de
sua relação com o diassistema variacional (KOCH; ÖESTERREICHER, 2007 [1990], p. 36). Tradução
nossa.
45

Sobre a historicidade linguística, os teóricos apontam dois aspectos que se


relacionam: a diversidade linguística, que caracteriza as línguas históricas, e a
variação linguística intraidiomática, manifestada em todas as línguas. Sendo assim,
os autores retomam as três dimensões da variação linguística das línguas históricas
estabelecidas por Coseriu (1973), ou seja, as conhecidas variações diatópica,
diastrática e diafásica, que conjuntamente formam o diassistema linguístico.
Koch e Öesterreicher questionam, entretanto, a exclusão da diferenciação
entre oralidade e escrituralidade nesse diassistema, conforme já haviam apontado
no artigo Linguagem da imediatez – Linguagem da distância:

[...] Ao contrário de determinadas linhas de pesquisa da linguística


estruturalista, nas quais a variação linguística é metodicamente
excluída ou simplesmente ignorada, Eugenio Coseriu considera o
fenômeno da variação linguística colocando lado a lado os conceitos
de estrutura (de uma língua funcional) e de arquitetura (de um
idioma histórico). Desse modo, Coseriu categoriza as variedades
intrínsecas dessa arquitetura como diatópica, diastrática e diafásica,
que, em conjunto, compõem o diassistema de um idioma. Esse
modelo tridimensional da variação linguística é altamente relevante,
mas um panorama completo da variação de um determinado idioma
histórico só pode ser alcançado quando se inclui adicionalmente o
parâmetro oral/escrito, que pode ser considerado de certo modo
como “transversal” e não redutível a essa diferenciação
diassistemática (KOCH; ÖESTERREICHER, 2013 [1985], p. 155).

Para os autores, é primordial acrescentar uma quarta dimensão variacional: a


variação falado/escrito. Além disso, essa dimensão, segundo eles, constituiria a
dimensão central do diassistema variacional das línguas históricas29. No sexto
capítulo de Lengua hablada en la Romania: español, francés, italiano, Koch e
Öesterreicher enfatizam o argumento de que, após o estudo do espanhol, do francês
e italiano falados, evidencia-se o papel central do contínuo concepcional entre
imediatez e distância comunicativas na variação linguística: “Deberia haber quedado
claro en qué sentido el continuo entre imediatez y distancia comunicativas constituye
incluso la pieza central del espacio variacional idiomatico (2007 [1990], p. 373).”30

29
Entre os trabalhos de Peter Koch consta a comunicação “Parlato / scritto quale dimensione centrale
della variazione linguistica”, ou seja, “Falado / escrito como dimensão central da variação linguística”,
publicada em: Elfriede Burr (Hrsg.), Tradizione & Innovazione. Il parlato: teoria –corpora –linguistica
dei corpora. Atti del VI Convegno Internazionale della SILFI, Duisburg, Giugno 2000, Florenz: Franco
Cesati 2005, 41-56.
30
“Deveria ter ficado claro em qual sentido o contínuo entre imediatez e distância comunicativas
constitui inclusive uma peça central do espaço variacional idiomático (2007 [1990], p. 373).” Tradução
nossa.
46

A centralidade da dimensão falado/escrito se justificaria por envolver todos os


fatos linguísticos histórico-idiomáticos resultantes das condições comunicativas e
estratégias de verbalização, ambas não especificamente idiomáticas (KOCH;
ÖESTERREICHER, [1990] 2007). A dimensão variacional falado/escrito, classificada
pelos autores como dimensão variacional 1, englobaria tanto aspectos universais
quanto fatos histórico-idiomáticos das línguas. Os autores afirmam que as condições
de uso de fatos histórico-idiomáticos, por exemplo, não podem ser entendidas no
plano da variação diafásica. As condições de uso só poderiam ser explicadas pelos
termos falado/escrito ou imediatez/distância. Há, segundo eles, fatos linguísticos que
não podem ser identificados como elementos de variedades diatópicas, diastráticas
e diafásicas. Seria o caso de orações como: “No lo he leído, el libro”, da língua
espanhola; “Je ne l’ai pas lu, le livre”, da língua francesa; e “Non l’ho letto, il libro”,
em língua italiana. Tratar-se-ia de fatos pertencentes à fala, ocasionados pelas
condições comunicativas da imediatez (op. cit., p. 37). No português, em sua
variedade brasileira falada, poderia ser equivalente aos exemplos citados pelos
autores, o emprego de: “Não li ele, o livro”31.
A interrelação das quatro dimensões variacionais é designada pelos autores
como uma “cadeia variacional” (Varietätenkelle, no texto em alemão, e cadena
variacional, na tradução em espanhol). Essa cadeia opera de modo que o diatópico
pode funcionar como diastrático, por exemplo, e uma variante diastrática pode
funcionar também como variante diafásica.
Deve-se lembrar também que, no artigo Linguagem da imediatez – linguagem
da distância (2013 [1985]), os autores indicam a proximidade de algumas das
variedades com a oralidade e rejeitam a restrição da diferenciação entre oral e
escrito à dimensão diafásica:

[...] naturalmente, existem afinidades entre a linguagem oral e a


escrita e determinadas variações dentro das três dimensões do
diassistema. Desse modo, variedades diatópicas fortemente
marcadas (dialetos, regioletos) possuem proximidade com a
oralidade, assim como variedades diastráticas classificadas como
“baixas” (“linguagem popular”, gírias). Do ponto de vista da variação
diafásica, a proximidade de registros “inferiores” (familiar, vulgar

31
Sobre esse aspecto, talvez se possa colocar uma discussão sobre construções do português, em
sua variedade brasileira, como: “O menino que o pai dele telefonou”, específica da imediatez
comunicativa, em lugar de “O menino cujo pai telefonou”, específica da distância comunicativa.
Tratar-se-ia de variação situada na dimensão falado/escrito do diassistema variacional?
47

etc.) com a oralidade é tão evidente que, ao longo da história das


pesquisas linguísticas, não raramente foi estabelecida uma
identificação entre ambos como, por exemplo, no conceito de “língua
coloquial” (Umgagssprache). A diferenciação entre os conceitos
“oral” e “escrito” não pode ser subordinada à dimensão diafásica, o
que é comprovado pela seguinte observação (cf. capítulo 5): a
colocação de ocorrências linguísticas em uma escala relativa à
oralidade não corresponde à colocação da mesma ocorrência em
uma escala relativa à escrituralidade. Tamanha é a falta de
correspondência que, por exemplo, o registro escrito “familiar”
corresponde ao registro oral “neutro” (KOCH; ÖESTERREICHER,
2013 [1985], p. 155).

Entretanto, no referido artigo publicado em 1985, os autores ainda não


haviam exposto o contínuo entre oralidade e escrituralidade no interior do
diassistema variacional com quatro dimensões.
Vejamos a seguir a figura com que Koch e Öesterreicher ilustram, no livro
Gesprochene Sprache in der Romania: Französisch, Italienisch, Spanisch, o
diassistema variacional, incluindo a dimensão falado/escrito ou imediatez/distância.
Observe-se que o contínuo entre oralidade e escrituralidade se inclui na primeira
seção da figura:

Figura 4. O espaço variacional histórico-idiomático entre imediatez e distância comunicativas

Fonte: KOCH; ÖESTERREICHER (2007 [1990], p. 39)

Na parte esquerda da dimensão 1, da figura acima, situa-se o que os autores


designam “língua falada em sentido estrito”. E, na parte esquerda das dimensões 1,
2, 3 e 4 da figura, localiza-se o que eles chamam de “língua falada em sentido
amplo”. A dimensão variacional falado/escrito ou oralidade/escrituralidade se divide
em duas seções, visto que engloba as características universais da língua falada em
48

relação à escrita, bem como fatos históricos idiomáticos. A dimensão variacional 1 é


central e admite elementos de todas as outras três dimensões.
Ao abordarem o diassistema variacional e citarem a teoria da imediatez e
distância comunicativas de Koch e Öesterreicher, Kragh e Lindschow explicam:

[…] these variations can be described in relation to two poles,


proximity and distance (Koch & Oesterreicher, 1990, 2001). Proximity
is defined as privacy, intimacy, emotionality, attachment to situation
and action, dialogicity and spontaneity. Distance, on the other hand, is
defined by publicity, unfamiliarity, non-emotionality, non-attachment to
situation and action, monologicity and reflection. These poles are
linked to the diasystems in that the pole of proximity in principle
corresponds to low level register or informal language, i.e. this pole
points toward innovation, while the pole of distance corresponds to
high level of register or formal language thus representing an earlier
usage (KRAGH; LINDSCHOW, 2013, p. 8).32

Conforme afirma Serena, a inclusão da variação oral/escrito ao modelo


coseriano da variação linguística é o aspecto mais controverso da teoria de Koch e
Öesterreicher:

Éste es, sin duda alguna, el punto más polémico de la propuesta


teórica defendida por nuestros autores y el que menor adhesión
suscita por parte de otros linguistas, que sostienen la pertenencia y
reducción de la dimensión ‘hablado/escrito’ a la ya conocida
dimensión diafásica, en vista de que ambos tipos de variación
lingüística están en relación con las condiciones variables de la
situación de comunicación (SERENA, 2002, p. 261).33

É pertinente a observação da tradutora sobre a escassez da argumentação


dos autores sobre a quarta dimensão da variação linguística. São dedicadas quatro
páginas (37 à 40) e um parágrafo do capítulo 6 (páginas 373-374) do livro para a
explanação sobre o tema. Além disso, seria necessária, como enfatiza Serena, a

32
“[…] essas variações podem ser descritas em relação a dois polos, proximidade e distância (Koch &
Oesterreicher, 1990, 2001). A proximidade é definida como privacidade, familiaridade, implicação
emocional, ancoragem à situação e à ação, dialogicidade e espontaneidade. A distância, por outro
lado, é definida pela publicidade, não-familiaridade, falta de implicação emocional, não-ancoragem à
situação e à ação, monologicidade e reflexão. Esses polos estão ligados aos diassistemas em que o
polo da proximidade, em princípio, corresponde ao registro baixo ou à linguagem informal, ou seja,
esse polo indica a inovação, enquanto o polo da distância corresponde ao registro alto ou à
linguagem formal, representando assim um estágio anterior de uso (KRAGH; LINDSCHOW, 2013, p.
8).” Tradução nossa.
33
“Este é, sem dúvida alguma, o ponto mais polêmico da proposta teórica defendida pelos nossos
autores e o que tem menor adesão por parte de outros linguistas, que consideram o pertencimento ou
a redução da dimensão ‘falado/escrito’ à já conhecida dimensão diafásica, tendo em vista que ambos
os tipos de variação linguística se relacionam com as condições variáveis da situação de
comunicação (SERENA, 2002, p. 261)”. Tradução nossa.
49

delimitação precisa de quais aspectos situacionais envolveria a diafasia e quais


desses aspectos estariam incluídos na perspectiva concepcional.
Deve-se observar que a consideração da fala e da escrita como um dos tipos
da variação linguística foi abordada por outros linguistas, como é o caso dos
italianos De Mauro (1980) e Berruto (1993), ambos incluídos na bibliografia de
Lengua hablada en la Romania: español, francés, italiano. Coveri, Benucci e Diadori
(1998, p. 10)34, ao analisarem a língua italiana, também incluem a variação
relacionada ao meio ao elencarem os cinco tipos principais de variedades
linguísticas ao analisarem a língua italiana: a) as variedades no tempo (diacrônicas);
b) as variedades no espaço geográfico (diatópicas); as variedades no contexto
comunicativo (diafásicas); e as variedades do canal comunicativo (“diamésica”). A
variação “diamésica”, segundo Coveri, Benucci e Diadori, inclui: escrito, falado,
radiotelevisivo e “endofásico” (discurso interior), por exemplo. Desse modo, esses
autores não diferenciam falado/fônico e escrito/gráfico das diversas mídias (rádio e
televisão, por exemplo) para veiculação de mensagens.
Identificam-se diferenças entre a reflexão desses autores e o modelo
apresentado por Koch e Öesterreicher. Veja-se que estes autores consideram, em
seu modelo, o falado e o escrito como a principal dimensão variacional e associam
esses termos à imediatez e distância comunicativas. Coloca-se, portanto, uma
hierarquia entre as variedades linguísticas, visto que se enfatiza a primazia da
variação falado/escrito sobre as variações diatópica, diastrática e diafásica. Além
disso, Koch e Öesterreicher incluem o contínuo concepcional dentro da dimensão
oral e escrito da cadeia variacional.
Essas ideias se aproximam daquelas expostas por Biber, em Variation across
speech and writing, conforme se evidencia no próprio título da obra e no trecho a
seguir:

In the present book, spoken and written text are compared


along ‘dimensions’ of linguistic variation. Researchers have
considered texts to be related along particular situational or
functional parameters, such as formal/informal, interactive/non-
interactive, literary/colloquial, restricted/elaborated. These
parameters can be considered as dimensions because they define
continuums of variation rather than discrete poles. For example,
although it is possible to describe a text as simply formal or informal,

34
A obra de Coveri, Benucci e Diadori (1998) também está incluída na bibliografia de Lengua hablada
en la Romania: español, francés, italiano.
50

it is more accurate to describe it as more or less formal;


formal/informal can be considered a continuous dimension of
variation (BIBER, 1988, p. 9).35

Assim como Koch e Öesterreicher, Biber indica a existência de parâmetros


contínuos e não uma simples dicotomia entre os discursos falados e escritos. Biber
identifica a dimensão falado/escrito como uma dimensão da variação linguística,
porém não considera especificamente essa dimensão como sendo a principal do
diassistema variacional, diferentemente, portanto, do que propõem Koch e
Öesterreicher.
Após a formulação da variação linguística quadridimensional, com a ênfase
na centralidade da dimensão falado/escrito, Koch e Öesterreicher abordam a relação
entre o contínuo da imediatez e distância comunicativas e o processo de
normalização prescritiva das línguas.
O estabelecimento de uma norma prescritiva ou a chamada língua standard
(ou língua padrão) estaria relacionado a condições como a ampla distância temporal
e/ou espacial de uma dada comunicação. Sendo assim, a distância física, no espaço
e no tempo, e o desconhecimento entre os interlocutores conduziria ao emprego de
elementos de prestígio das variedades diastráticas e diafásicas, os quais, segundo
eles coincidem com elementos da norma prescritiva, que, por sua vez, corresponde
à língua da distância por excelência (KOCH; ÖESTERREICHER, 2007 [1990], p.
42). Os elementos da norma prescritiva estariam situados na parte direita da figura
5, acima reproduzida.
Ao descrever algumas das diferenças funcionais entre a fala e a escrita, Mary
A. Kato (1987, p. 31) explica que essas diferenças decorrem das condições de
produção e, assim como Koch e Öesterreicher, afirma que a escrita é mais sujeita a
convenções prescritivas do que a fala. Ao retomar Stubbs (1982), a autora diz:

Com exceção de poesias regionalistas – que Stubbs considera


exceções – e da reprodução da fala em ficção, toda escrita se situa
dentro da norma-padrão, o que o leva a dizer que há uma relação

35
“Neste livro, os textos falados e escritos são comparados como “dimensões” da variação linguística.
Pesquisadores consideraram as relações entre os textos com parâmetros situacionais ou funcionais,
tais como formal/informal, interativo/não-interativo, literário/coloquial, restrito/elaborado. Esses
parâmetros podem ser considerados como dimensões porque eles definem contínuos de variação em
vez de polos discretos. Por exemplo, embora seja possível descrever um texto como simplesmente
formal ou informal, é mais adequado descrevê-lo como mais ou menos formal; formal/informal podem
ser considerados como uma dimensão contínua de variação (BIBER, 1988, p. 9).” Tradução nossa.
51

estreita entre escrita e padronização. Stubbs reconhece que na fala


não-padrão também ocorre variação, mas que a mudança de estilo,
no caso, envolve também uma mudança em relação à variedade-
padrão (KATO, 1987, p. 30).

Podemos interpretar que, nesse trecho, a autora se refere à “escrita” com o


sentido da linguagem da máxima distância comunicativa, ou seja, a linguagem de
concepção escrita extrema, como os textos dos gêneros acadêmico-científicos ou os
textos jurídicos, nos quais as condições de planejamento formal e de conteúdo são
maiores do que as condições de planejamento dos textos da máxima imediatez
comunicativa ou de concepção falada extrema. As condições de planejamento das
mensagens de concepção escrita favoreceriam, portanto, o emprego das normas da
chamada “língua padrão” ou, talvez, possamos dizer, por conseguinte, da “escrita
padrão”.
Com as ideias expressas por Koch e Öesterreicher, pode-se associar,
portanto, o uso da norma prescritiva como uma característica das mensagens
verbais de concepção escrita. Isso implica a ideia de que as mensagens de
concepção falada tendem a se afastar das regras prescritas pela língua padrão ou
standard, em razão, em parte, da proximidade (espacial e temporal) e do mútuo
conhecimento dos interlocutores. Aceitando-se essa ideia, deve-se considerar
também que a ampla possibilidade de planejamento das mensagens de concepção
escrita favorece a sua aproximação à língua padrão, enquanto as restritas condições
de planejamento das mensagens de concepção falada (em relação às mensagens
de concepção escrita) levaria ao distanciamento dessas mensagens em relação ao
padrão prescritivo. Caberia, nesse sentido, identificar-se como se manifesta o uso da
norma prescritiva nas mensagens de concepção escrita veiculadas pelo código
fônico e nas mensagens de concepção oral veiculadas pelo código gráfico. Além
disso, poder-se-ia considerar de que modo, nas diferentes sociedades e em diversos
períodos históricos, ocorrem variações no acesso e na divulgação da norma
prescritiva e, por consequência, pode ser esclarecedor compreender como o maior
ou menor acesso ao padrão normativo pode interferir na concepção de textos
veiculados pelos meios gráfico e fônico nas linguagens da imediatez e na distância
comunicativas.
52

4.4 A dicotomia meio/concepção

Na teoria da imediatez e distância comunicativas, observa-se que a questão-


problema inicial é a consideração exclusiva do meio, fônico ou gráfico, para a
delimitação do que é um texto falado e do que é um texto escrito. Conforme se
evidencia na teoria de Koch e Öesterreicher, baseada, como vimos, em Söll (1985),
deve-se distinguir a veiculação pelo meio físico e a concepção das mensagens,
distinção essa absoluta, que configuraria uma dicotomia.
Um dos trabalhos sobre oralidade e escrita que se pode relacionar com o
modelo teórico proposto por Koch e Öesterreicher é o artigo que já citamos, neste
trabalho, intitulado “Parlato e Scritto” (“Falado e escrito”), dos italianos Domenico
Parisi e Cristiano Castelfranchi, publicado em 1977. Esse trabalho é brevemente
abordado por Urbano (2006, pp. 19-55), no artigo “Usos da linguagem verbal”. As
reflexões de Urbano nos levam a perceber diversas intersecções entre os trabalhos
dos autores alemães e dos italianos.
Inicialmente, o que se destaca, na comparação dos referidos textos desses
autores, é a coincidência no que diz respeito ao fato de que o entendimento sobre a
o que é “falado” e o que é “escrito” não se restringe à consideração do “meio físico”
para comunicação das mensagens. Parisi e Castelfranchi (assim como, segundo
eles, os italianos Nencioni (1976) e De Mauro (1970)) reiteram (conforme
mencionamos inicialmente neste trabalho) que a consideração exclusiva do meio
físico é restritiva: “[...] limitarsi a considerare la semplice differenza nel mezzo fisico
usato significa ignorare la natura effettiva della lingua scritta e soprattutto, come
vedremo più avanti, della stessa lingua parlata” (1977, p. 170)36. Eles salientam que
essa é a perspectiva que tem mais “sucesso”, pois a diferença do meio físico é mais
evidente para o senso comum e propicia maior facilidade de estudo para o cientista
do que a diversidade de mecanismos cognitivos e sociais subjacentes à fala e à
escrita (PARISI; CASTELFRANCHI, 1977, p. 170). Pode-se afirmar que essa
percepção se mantém, ainda hoje, no senso comum, quando se associa o falado à
emissão de sons e o escrito à produção de signos gráficos.

36
“[...] limitar-se a considerar essa relação e, portanto, à simples diferença do meio físico usado,
significa ignorar a natureza efetiva da língua escrita e, sobretudo, como veremos adiante, da língua
falada (PARISI; CASTELFRANCHI, 1977, p. 170).” Tradução nossa.
53

Como Koch e Öesterreicher, Parisi e Castelfranchi enfatizam a existência de


modos de comunicar em que não se identificam características específicas da fala e
da escrita:

In effetti vi sono modi di comunicare che sembrano mancare di


caratteristiche tipiche del parlato e dello scritto e quindi risultano
difficilmente classificabili, se si accetta una distinzione solo a due
termini. Quando si parla per telefono, viene a mancare l’accesso ai
canali comunicativi non verbali (sguardi, gesti, espressioni, etc.) che
sono così caratteristici e importanti quando si parla. Quando si scrive
una lettera ad un amico, viene a mancare il carattere anonimo e
pubblico del destinatario che è così tipico dello scrivere. E come
classificare cosa accade quando si fa un discorso in pubblico,
basandosi su una scaletta, magari dettagliata? E quando un attore
recita? Dobbiamo concludere che si tratta di distinguere e analizzare
diversi modi di comunicare all’interno sia del parlato che dello scritto,
abbandonando l’idea che si tratti di due modi monolitici e contrapposti
(PARISI; CASTELFRANCHI, 1977, p. 175).37

O trecho acima transcrito se assemelha às observações de Koch e


Öesterreicher (2007 [1990]) que citam uma carta privada (a qual inclui uma carta a
um amigo) como uma comunicação gráfica, mas que não corresponde exatamente
ao que se entende por “escrituralidade”, diferentemente do que se observa, por
exemplo, em um texto jurídico e um texto acadêmico-científico, por exemplo. A
conversação telefônica e o discurso em público, baseado em um texto grafado,
como um rascunho, como pode ser uma conferência científica, são exemplos
também citados por Koch e Öesterreicher.
Sobre os textos que mesclam aspectos da fala e da escrita, podemos
mencionar igualmente as reflexões de Tannen (1980, p. 208) ao retomar Ochs
(1979). A limitação da consideração do meio físico (fônico ou gráfico) pode ser
relacionada com as ideias expressas pelas autoras quando abordam o tema do
planejamento. A linguagem escrita normalmente está associada ao planejamento
enquanto a linguagem falada se caracteriza pelo não-planejamento. Entretanto,
Tannen (op. cit., p. 208) explica que a linguagem pode ser escrita e não-planejada,

37
“De fato, há modos de comunicar os quais parecem carecer de características típicas do falado e
do escrito e, portanto, tornam-se de difícil classificação, quando se aceita uma distinção entre apenas
dois termos. Quando se fala ao telefone, falta o acesso aos canais comunicativos não verbais
(olhares, gestos, expressões etc.) que são tão característicos e importantes quando se fala. Quando
se escreve uma carta a um amigo, falta o caráter anônimo e público do destinatário que é tão típico
do escrever. E como classificar o que ocorre quando se faz um discurso em público, baseando-se em
um rascunho, por vezes detalhado? E quando um ator interpreta? Devemos concluir que se trata de
distinguir e analisar diferentes modos de comunicar no interior seja do falado ou do escrito,
abandonando a ideia de que se trata de dois modos monolíticos e contrapostos (PARISI;
CASTELFRANCHI, 1977, p. 175).” Tradução nossa.
54

como em cartas pessoais ou diários, e também pode ser falada e planejada, como
em uma conferência formal. Sobre esse aspecto é pertinente observar, entretanto,
que todo texto, falado ou escrito é, em alguma medida, planejado. O texto da
conversação íntima cotidiana, por exemplo, no contexto da imediatez comunicativa,
é planejado localmente ou quase “imediatamente”, quase em concomitância com a
sua realização, enquanto o texto da distância comunicativa, como um artigo
acadêmico ou um poema, por exemplo, permite a reflexão “distanciada” e ampla,
com possibilidades abrangentes de reformulação e ocultação dos processos de
construção processual da mensagem.
Ainda sobre textos em que há a intersecção de elementos da oralidade e da
escrita, podemos nos reportar também às ideias de Maingueneau (2002, p. 78), que
considera a oposição oral e escrito como “excessivamente simples”. Maingueneau
identifica a existência de enunciados escritos de estilo falado e enunciados orais de
estilo escrito, de modo que os primeiros são enunciados dependentes do ambiente e
os segundos são enunciados independentes do ambiente ou da “situação de
enunciação”. Para exemplificar os enunciados escritos de “estilo falado”, o autor
apresenta um texto publicitário veiculado em uma revista feminina e, como exemplo
de enunciado falado de “estilo escrito” é mencionada uma comunicação científica.
Segundo o autor, nesses enunciados, “[...] o efeito visado resulta justamente da
tensão que se estabelece entre o mídium e o enunciado que lhe é associado” (2002,
p. 78). Enfatiza-se, portanto, nessa perspectiva, a relação entre o “mídium” e o modo
como as mensagens são produzidas e veiculadas.
Na obra Da fala para a escrita, publicada em 2004 (portanto mais
recentemente em relação ao trabalhos acima citados), Marcuschi retoma o tema da
conceituação da fala e da escrita e afirma:

[...] Os textos se entrecruzam sob muitos aspectos e por vezes


constituem domínios mistos. Observe-se o caso dos textos de um
noticiário televisivo. Trata-se de textos originalmente escritos que o
leitor só recebe oralmente. A questão é: o noticiário de televisão é
um evento de oralidade ou de letramento?
Por outro lado, temos certos eventos muito comuns, tais como
uma aula expositiva, que em parte se compõe de leituras que o
professor faz e de comentários que lhes acrescenta e, em parte, são
exposições originais sem um texto escrito prévio base. No entanto,
tratamos uma aula como um evento tipicamente oral. Há gêneros
que se aproximam da oralidade pelo tipo de linguagem e pela
natureza da relação entre os indivíduos, por exemplo, as cartas
55

íntimas e pessoais. Isso já não ocorre no caso das cartas comerciais


ou cartas abertas (MARCUSCHI, 2004, p. 38).

Nessa mesma obra, Marcuschi apresenta um gráfico estruturado com os


postulados meio de produção (sonoro versus gráfico) e concepção discursiva (oral
versus escrita). Vale ressaltarmos que, em nota de rodapé, o autor explica que:
“Para algumas das observações a seguir e mesmo para a montagem deste gráfico,
baseei-me em Koch & Öesterreicher (1990)” (2004, p. 37). Vejamos o gráfico
apresentado pelo autor:

Figura 5. Meio de produção e concepção discursiva de Marcuschi

Fonte: Marcuschi (2004, p. 39)

Por meio dessa figura, baseada, como dissemos, nas referidas formulações
de Koch e Öesterreicher sobre o meio e a concepção textual, Marcuschi explica que
a fala prototípica tem concepção oral e meio sonoro (como é o caso, por exemplo,
da conversação espontânea, situada no domínio “a” do gráfico acima). Já a escrita
prototípica apresenta concepção escrita e meio gráfico (como ocorre, por exemplo,
em um artigo científico, localizado no domíno “d” do gráfico apresentado). Há,
entretanto, domínios mistos em que se mesclam as modalidades: meio sonoro e
concepção escrita (como uma notícia de TV, que está no domínio “c” do gráfico
reproduzido) ou meio gráfico e concepção oral (entrevista publicada na revista Veja,
por exemplo, conforme exemplifica o autor, no domínio “b” do gráfico exposto).
Os domínios mistos indicados por Marcuschi se referem à questão inicial
colocada por Koch e Öesterreicher ao distinguirem o meio físico e a concepção
56

textual, no segundo capítulo de Lengua hablada en la Romania: español, francés,


italiano. No domínio “a” do gráfico de Marcuschi, de acordo com as reflexões de
Koch e Öesterreicher (2007 [1990], p. 21), poderíamos inserir a conversação íntima.
No domínio “b”, poderia constar um artigo de jornal. No domínio “c” poderia constar o
texto de um discurso de abertura de eventos, por exemplo, e o domínio “d” poderia
corresponder o texto de uma carta pessoal.
O gráfico apresentado por Marcuschi, com base no esquema quadripartido de
Koch e Öesterreicher, se aproxima do seguinte quadro formulado por Biber (1988, p.
18):
Figura 6. Variação entre a fala e a escrita em Biber (1988)

Fonte: Biber (1988, p. 18)

Observe-se que Biber inclui a conversação e o texto científico como


prototípicos da escrita, como consideram Koch e Öesterreicher. Esses dois gêneros
textuais são colocados em perspectiva em relação aos gêneros painel de discussão
e ficção, nos quais se manifestariam características tanto da oralidade quanto da
escrita prototípicas. Com base na análise de textos empíricos, Biber aponta a
ocorrência de muitos pronomes e contrações e poucas nominalizações e passivas
nos textos conversacionais, diferentemente do que ele identifica em textos científicos
em que há pouca ocorrência de pronomes e contrações, bem como muitas
nominalizações e passivas. Já os textos ficcionais apresentariam poucos pronomes
e contrações, além de poucas nominalizações e passivas, assim como o painel de
discussão se caracterizaria com muitos pronomes e contrações e muitas
nominalizações e passivas. Ou seja, os textos ficcionais analisados pelo autor e o
painel de discussão poderiam ser considerados como “domínios mistos” (expressão
utilizada por Marcuschi (2004)) por mesclarem aspectos dos gêneros típicos da
oralidade e da escrita, como a conversação e o texto científico.
57

Destarte as muitas semelhanças expressas pela visão de Marcuschi em


relação a Koch e Öesterreicher, ao tratar da dicotomia meio e concepção textual dos
autores alemães, o autor brasileiro não se utiliza das noções de imediatez e
distância comunicativas. Além disso, deve-se ressaltar que, como vimos
inicialmente, Koch e Öesterreicher enfatizam que o contínuo diz respeito
exclusivamente ao âmbito da concepção dos textos, excluindo, portanto, as relações
entre o meio e a concepção textual. Outrossim, como vimos, o contínuo
concepcional falado e escrito é inserido como elemento central do diassistema
linguístico, de maneira que é considerado um componente determinante na variação
linguística. Esse aspecto não é enfocado por Marcuschi (2004) em sua análise.
Ao comparar o modelo apresentado por Marcuschi (2004) e aquele elaborado
por Koch e Öesterreicher (2007 [1990]), percebe-se que eles diferem na medida em
que, na teoria da imediatez e distância comunicativas, são elencados dez
parâmetros ou condições comunicativas, os quais apresentam variação gradual ou
escalar. Sendo assim, o contínuo dos textos entre os polos da imediatez e da
distância não se distribui exclusivamente em uma linha contínua, mas os textos
variam também gradualmente entre a imediatez e a distância comunicativas de
acordo com esses parâmetros e as situações comunicativas.
Ao desenvolver uma leitura crítica dos estudos de Koch e Öesterreicher (2013
[1985]), Urbano (2006, p. 32) elabora um esquema, como vemos na ilustração
abaixo, em que procura adaptar e complementar o contínuo entre a imediatez e a
distância comunicativas.

Figura 7. Imediatez e distância comunicativas em Urbano (2006)

Fonte: Urbano (2006, p. 32)


58

A figura apresentada por Urbano mostra duas colunas relacionadas ao meio


(fônico e gráfico) e uma terceira coluna relativa à concepção. Esta última coluna está
subdividida em dois triângulos em que se inserem os campos da oralidade, no polo
da imediatez comunicativa, e da escrita, no polo da distância comunicativa. Urbano
denomina os polos referentes à fala e à escrita prototípicas como polo da “imediatez
comunicativa ou oralidade” e polo da “distância comunicativa ou escrituralidade”.
Nos polos prototípicos, temos a conversação casual entre amigos e o ato jurídico.
Urbano insere, no campo do meio fônico, uma sequência de dezenove situações
comunicativas (excluindo destas os textos literários). Cada uma dessas situações
comunicativas localiza-se em um determinado grau da escala convencional. O autor
explica:

Os 10 graus das escalas da imediatez ou da distância, que


correspondem respectivamente ao campo linear superior totalmente
branco ou ao campo linear inferior totalmente cinza, significam que as
situações comunicativas 1 e 19 preenchem, teoricamente, todas as
condições de produção e recepção, capazes de determinar, em
princípio, as estratégias de formulação e os traços ou marcas de
verbalização caracterizadores, respectivamente, da situação da
imediatez ou da situação da distância (URBANO, 2006, p. 33).

Urbano considera que o meio constitui uma condição significativa dos polos
da distância e da imediatez comunicativas, porém não um elemento decisivo para
classificarmos um texto como oral ou escrito, se considerarmos o aspecto da
concepção. Segundo essa perspectiva, embasada pela teoria dos citados estudiosos
alemães, a interação realizada pelo meio escrito se caracteriza por ser “não face a
face” e a interação que ocorre pelo meio fônico corresponde a uma interação “face a
face”. Porém, nos dois casos, verificam-se variações graduais: há nítidas diferenças
entre uma conversação face a face entre amigos e a interação face a face que se
desenvolve em uma conferência, por exemplo. Ambas se distinguem em relação ao
envolvimento entre os interlocutores, ao feedback, aos gestos e à entonação, entre
outros aspectos.
Urbano interpreta o conceito de imediatez empregado por Koch e
Öesterreicher como referente “à comunicação imediata no tempo e no espaço”,
enquanto a distância “compreende a comunicação cuja recepção é independente do
momento e do lugar de sua produção” (2006, p. 36). Com a descrição dos textos
falados e escritos prototípicos, considerando os polos da imediatez e da distância,
59

bem como as condições mediais e concepcionais de produção da fala e da escrita,


Urbano apresenta o seguinte conceito de língua falada prototípica:

A “língua falada prototípica”, a língua falada propriamente dita,


seria então uma atividade social verbal de produção de texto. É
exercida oralmente, graças a um sistema de sons articuláveis, no
tempo real, em contextos naturais de produção, incluídos outros
elementos de natureza corporal, que preenchem, em teoria, “todas
as condições linguístico-textual-discursivas” concebidas para um
texto falado. Em outras palavras, possui, do ponto de vista medial,
caráter fônico, e do ponto de vista concepcional, as condições de
comunicação, que vão permitir as “estratégias de formulação” e
imprimir as “marcas de verbalização” ideais de um texto
essencialmente falado (URBANO, 2006, p. 42).

E a língua escrita prototípica pode ser entendida como:

Por outro lado, a “língua escrita prototípica”, a língua escrita


propriamente dita, seria uma atividade social verbal de produção de
texto. É executada graficamente, graças, basicamente, a um
sistema de letras articuláveis, chamado alfabeto, complementado
por sinais de pontuação, de acentuação, numéricos etc., que
preenchem, em teoria, “todas as condições lingüístico-textual-
discursivas” concebidas para um texto escrito. Em outras palavras,
possui, do ponto de vista medial, caráter gráfico e do ponto de vista
concepcional, as condições de comunicação, que vão permitir as
“estratégias de formulação” e imprimir as “marcas de verbalização”
ideais de um texto essencialmente escrito (URBANO, 2006, p. 42).

Deve-se mencionar que Urbano utiliza as expressões “imediatez e distância


comunicativas”, enquanto Marcuschi (2004) emprega os vocábulos “fala” e “escrita”,
de forma que este autor se diferencia, nesse aspecto, do modelo de Koch e
Öesterreicher.
O breve cotejo ora apresentado sobre alguns dos autores que se ocuparam
com a análise dos textos falados e escritos nos permite confirmar a ideia que a
consideração exclusiva da expressão verbal por meio de signos sonoros ou gráficos
se mostra limitadora. Por outro lado, cabe observar que a consideração das
influências entre o meio e a concepção textual necessita igualmente de inserção em
um quadro teórico, sobretudo se considerarmos o surgimento das novas mídias de
comunicação no contexto da contemporaneidade. A distinção inicial entre meio e
concepção pode ser enriquecida com a reflexão sobre as mútuas interferências
60

entre esses dois planos, de modo a se buscar uma conceituação ampliada sobre o
que se entende por texto falado e texto escrito.

4.5 Meio, mídia e concepção textual

Um dos aspectos a considerar sobre a teoria da imediatez e distância


comunicativas é o fato de que Koch e Öesterreicher não inserem na variação
falado/escrito a descrição e análise relacionadas ao que podemos entender como
sendo a “mídia”38 para veiculação das mensagens, como é o caso dos discursos
transmitidos por meio “radiotelevisivo”, conforme consta no citado modelo de Coveri,
Benucci e Diadori (1998), ou, por exemplo, nas mensagens distribuídas por jornais,
revistas e, nas últimas décadas, via internet em computadores pessoais, celulares,
tablets, entre outros suportes. Ao utilizarem o termo “meio”, Koch e Öesterreicher se
referem a fônico e gráfico, relacionados ao canal de comunicação, e não, em sentido
mais amplo, com referência aos variados suportes ou mídias para transmissão,
armazenamento e recepção de conteúdos e mensagens.
Em língua alemã, os autores se utilizam do sintagma “Medium und
Konzeption” (“meio e concepção”), sendo que “Medium” se diferencia do vocábulo
alemão “Medien”39, que significa “mídia” ou “meios de comunicação”. Esse aspecto
sinaliza que Koch e Öesterreicher não incluem em seu modelo teórico a influência
que possa existir entre as diversas mídias (livro, revista, jornal, televisão, rádio e,
atualmente, internet) e a concepção das mensagens. Nesse sentido, informamos
que, na edição de Gesprochene Sprache in der Romania: Französisch, Italienisch,

38
Emprega-se aqui o termo “mídia” com o sentido de suporte para transmissão e armazenamento de
informações, conforme definição sobre esse vocábulo apresentada no Grande Dicionário Houaiss da
Língua Portuguesa: “1. COMN todo suporte de difusão da informação que constitui um meio
intermediário de expressão capaz de transmitir mensagens; meios de comunicação social de massas
não diretamente interpessoais (como p.ex. as conversas, diálogos públicos e privados) [Abrangem
esses meios o rádio, o cinema, a televisão, a escrita impressa (ou manuscrita, no passado) em livros,
revistas, boletins, jornais, o computador, o videocassete, o DVD, os satélites de comunicações e, de
um modo geral, os meios eletrônicos e telemáticos de comunicação em que se incluem tb. as
diversas telefonias.]”. O trecho ora citado pode ser acessado no seguinte endereço eletrônico:
https://houaiss.uol.com.br/pub/apps/www/v3-0/html/index.htm#1> . Acesso em: 03 mai. 2017.
39
No dicionário Linguee, o substantivo plural alemão “Medien” é traduzido para a língua portuguesa
como “meios de comunicação” ou “mídia”. Esse termo é utilizado em expressões como “elektronische
Medien” (meios eletrônicos) ou “digitale Medien” (meios digitais). Essas informações estão
disponíveis no seguinte endereço eletrônico do referido dicionário Linguee:
< http://www.linguee.com.br/alemao-portugues/traducao/Medien.html> Acesso em: 03 mai. 2017.
61

Spanisch, publicada em 2011, os autores incluíram um parágrafo sobre as novas


formas de comunicação:

Die völlig neuen Kommunikationsformen, die sich vor unseren


Augen im Bereich der computergestützten Medien inzwischen
eingebürgert haben (E-mail, SMS, chat etc.), sind längst auch auf das
Interesse der Linguisten gestoßen. Man könnte nun auf den Gedanken
kommen, dass das Schema in Abb. 5, das allein die Medien Phonie
und Graphie berücksichtigt, nicht ausreicht, die Komplexität dieser
neuesten medialen Entwicklungen zu erfassen. Einer solchen
Einschätzung ist jedoch entschieden zu widersprechen. Es muss
nämlich klar getrennt werden zwischen ‘Medien’ als physikalischen
Manifestationen, die bestimmte sensorische Modalitäten ansprechen
(Phonie > akustisch, Graphie > visuell), und ‘technischen’ Speicher-
und Übertragungsmedien, wie Telephon, Internet etc. (cf. auch Raible
2006, 11–22). Selbst die neuesten Entwicklungen in der Elektronik bei
Speicherung und Übertragung bauen im sensorischen Bereich letztlich
immer nur auf dem akustischen Prinzip der Phonie oder auf dem
visuellen Prinzip der Graphie auf. Es können daher selbstverständlich
auch diese neuesten Kommunikationsformen und Diskurstraditionen
mit unseren anthropologisch fundierten Kategorien erfasst werden. Der
chat ist sogar eines der schönsten Beispiele dafür, dass im
graphischen Medium eine relative, allerdings auch in diesem Falle
noch limitierte Annäherung an dialogische, spontane
Nähesprachlichkeit möglich ist. Was die durchaus innovativen, rein
graphischen Verfahren, also Abkürzungen und Emoticons, wie etwa
(deutsch) hdl oder :-) angeht, so sind diese varietätenlinguistisch völlig
irrelevant, konzeptionell aber immerhin im Blick auf die
spontaneitätsfördernde Schreibgeschwindigkeit von Belang (KOCH;
ÖESTERREICHER, 2011 [1990], pp. 14-6).40

Os autores explicam brevemente, nesse parágrafo da edição de 2011, sobre


a separação entre meio e mídia ou os “meios técnicos de comunicação”. Como

40
“As formas de comunicação completamente novas, já naturalizadas frente aos nossos olhos, no
contexto dos meios de comunicação baseados no computador (e-mail, chat, SMS etc.), há algum
tempo têm atraído o interesse dos linguistas. Pode-se considerar que o esquema apresentado na
Figura 5, o qual contempla apenas as mídias fônica e gráfica, não é suficiente para abarcar a
complexidade dos desenvolvimentos mais recentes das mídias. Pode-se, no entanto, contradizer
essa avaliação. Deve-se claramente separar a mídia, como manifestação física, das modalidades
sensoriais (fônico > acústico, gráfico > visual), e meios ‘técnicos’ de comunicação para
armazenamento e transmissão das mensagens, tais como o telefone, a Internet etc. (cf. também
Raible, 2006, pp. 11-22). Inclusive, os mais recentes desenvolvimentos para armazenamento e
transmissão eletrônicos envolvem, no aspecto sensorial, em última análise, somente o princípio
acústico do fônico ou os princípios visuais do gráfico. E essas últimas formas de comunicação e de
tradições discursivas podem, certamente, ser detectadas por nossas categorias antropológicas de
som. O chat é um dos melhores exemplos de que uma aproximação com a conversação espontânea
seja possível, ainda que de forma limitada, no meio gráfico. Quanto ao processo absolutamente
inovador, puramente gráfico das abreviaturas e emoticons, tais como hdl (hab dich lieb), em alemão,
ou ☺ são variações linguísticas completamente irrelevantes, concepcionalmente, no entanto, sempre
são importantes na perspectiva da espontaneidade e na velocidade da escrita. (KOCH;
ÖESTERREICHER, 2011 [1990], pp. 14-6).” Tradução nossa.
62

vemos, eles consideram o uso de abreviaturas e emoticons41 como variações


linguísticas pouco importantes, mas que contribuem para a espontaneidade e a
velocidade da escrita.42
Sobre a relação meio/concepção, vale lembrarmos as palavras de
Maingueneau: “O modo de transporte e recepção do enunciado condiciona a própria
constituição do texto, modela o gênero de discurso” (2002, p. 72). Segundo ele,
portanto, o meio (ou também a mídia, a nosso ver) não constitui mero acessório para
veiculação de mensagens, mas age como fator condicionante dos gêneros
discursivos. Ou como afirma Andrade: “O suporte material determina o modo como
escrevemos e também nossa atitude como leitores dessa construção textual” (2005, p.
2). Urbano também aponta para as relações entre meio e concepção textual em
artigo no qual aborda a teoria de Koch e Öesterreicher:

[...] Ademais, cabe admitir que as condições mediais às vezes


interferem no próprio plano da concepção, o que parece levar
Maingueneau (2001: 71) a dizer que “o meio não é simples meio...”
Nesse sentido, lembramos a tese defendida por Chun (2000), A voz
na interação verbal: como a interação transforma a voz, que nos
parece explicar essa possível interferência (quiçá recíproca) entre
“meio” e “concepção” [...] (URBANO, 2006, p. 28).

A ideia das interferências entre meio, mídia e concepção pode ser


considerada em relação com os pressupostos teóricos formulados por Koch e
Öesterrreicher, pois esses autores consideram exclusivamente os códigos fônico e
gráfico ao abordarem a dimensão do “meio”, a qual como, vimos, é postulada por
eles como “uma dicotomia estrita” (2013 [1985], p. 156), diferentemente do que pode
expressar o pensamento de Maingueneau, no âmbito da vertente francesa da
Análise do Discurso. Os autores alemães voltam sua atenção para o contínuo
concepcional dos textos, não considerando as possíveis relações ou influências que
os meios fônico e gráfico, os quais podem ser combinados nas diversas novas

41
Sobre o uso de emoticons, Urbano escreveu o artigo “Uso e abuso da linguagem da internet”
(2002). Neste texto, enfocam-se algumas das características da chamada “linguagem da internet”
com a consideração da distinção entre meio e concepção textual. Urbano explica o uso de emoticons
como uma consequência da falta da copresença física dos interlocutores, o que envolve a falta dos
gestos e expressões fisionômicas, por exemplo, característicos da conversação presencial
espontânea. Para suprir esses elementos na comunicação via internet, utilizam-se os emoticons nos
bate-papos eletrônicos. Atualmente, empregam-se esses elementos ainda mais intensamente
também na comunicação por meio das redes sociais, como Facebook e Twitter. Segundo o autor,
trata-se de elementos que atribuem velocidade e dinamismo à interação via computador.
42
Pistolesi (2004) descreve aspectos da linguagem da Internet por meio da consideração dos
conceitos de imediatez e distância comunicativas, de Koch e Öesterreicher.
63

mídias, podem exercer sobre a concepção textual. Conforme explica Urbano sobre a
teoria da imediatez e distância comunicativas: “Meio e concepção são perspectivas
independentes a tal ponto que se pode – e muitas vezes se deve – fazer abstrações
recíprocas entre elas, considerando-as como duas perspectivas autônomas” (2013,
p. 174).
A distinção do meio (fônico ou gráfico) como uma “dicotomia estrita” e
separada do contínuo concepcional (com os polos da imediatez e distância
comunicativas) constitui uma ferramenta teórica eficaz para se enfocar o papel da
concepção oral ou escrita na produção textual. Entretanto, em uma cultura não
apenas quirográfica, mas tipográfica como aquela em que vivemos, com sofisticados
mecanismos de combinação, nos chamados textos multimodais, de sons, verbais e
não-verbais, e imagens, estáticas ou em movimento, cabe a reflexão sobre em que
medida as mídias interferem na concepção textual e na recepção das mensagens,
de modo a ampliarem as possibilidades de intersecção dos gêneros da oralidade e
da escrita. Deve valer, portanto, distinguirmos “meio” (fônico ou gráfico) e “mídia” ou
“mídium”. Retomemos as palavras de Maingueneau:

Foi sobretudo com os novos mídiuns audiovisuais e o


desenvolvimento da informática que tomamos consciência desse
papel crucial do mídium. Eles revolucionaram efetivamente a natureza
dos textos e o seu modo de consumo. Seu surgimento provocou uma
ruptura com a civilização do livro, que trazia em si toda uma
concepção do sentido. Revolução que teve também como efeito uma
melhor conscientização da especificidade do oral e das modificações
anteriormente introduzidas pela escrita e pela imprensa
(MAINGUENEAU, 2002, p. 72).

Sobre o que afirma o autor, pensemos brevemente nas diferenças que pode
haver entre os mecanismos de elaboração de uma mensagem manuscrita e de uma
mensagem digitada em um processador de textos, no computador. Há, por exemplo,
diferenças que podem se dar em relação à velocidade da produção textual. Pode-se
perceber a diferença em relação à rápida velocidade proporcionada pela digitação43
e as variadas possibilidades de edição do texto digitado: abandonamos o gesto de
apagar cuidadosamente com uma borracha sobre o papel para alterar nosso texto e,

43
A rapidez proporcionada pela digitação se manifesta nos bate-papos on-line, por exemplo, em que
a velocidade da digitação deve frequentemente obedecer à velocidade semelhante de uma
conversação face a face, na qual o planejamento é quase imediato em relação à emissão dos sons
da fala.
64

com o computador, “deletamos” imediatamente uma palavra e a substituímos por


outra44, seguindo frequentemente o ritmo de nosso pensamento ao selecionarmos
as palavras no eixo paradigmático e combiná-las no eixo sintagmático; temos a
possibilidade de “recortar, copiar e colar” trechos de nossa própria mensagem,
transportando, por exemplo, um parágrafo que estava em uma página para a página
seguinte; podemos rapidamente alterar o tamanho e o tipo de letra (como Arial ou
Times New Roman, por exemplo, e abdicamos de nossa caligrafia e do ato de
desenhar nossas letras), bem como aplicar um destaque a uma palavra com negrito
ou itálico, por exemplo, entre tantos outros recursos de que não dispomos em um
texto manuscrito, que é produzido, relativamente, com mais lentidão do que um texto
digitado no computador (desde que elaborado por um indivíduo que domine as
habilidades da digitação e os recursos oferecidos pelos processadores de textos).
Em 2002, ao comparar a escrita na Internet e a escrita no papel, Urbano
considerava:

Na internet, elaboração e expressão são concomitantes, sendo a


transmissão e a recepção atos contínuos ao se teclar o “enter”. No e-mail,
não havendo pressão de tempo, há mais elaboração para a expressão. Mas,
entre a tela do computador, que fica luzindo provocadoramente a lembrar o
decurso do tempo e o papel, que aguarda passivo o meditar do usuário e o
seu pensamento reflexivo não marcado pelo tempo, parece que o papel
ainda é o preferido por muitos (URBANO, 2002, p. 73).

O luzir da tela que nos recorda o passar do tempo e o aspecto estático do


papel que nos permite o “pensamento reflexivo” não ameaçado pelo decorrer do
tempo, como descreve Urbano, são características específicas de cada mídia (tela
digital e papel) que influenciam a concepção textual. As diferenças nas
possibilidades de produção textual devem exercer influência sobre a concepção de
nossas mensagens. A mídia (ou o suporte material, como são o rádio, a televisão, o
livro, o jornal, o cartaz, o computador, o celular, por exemplo) para veiculação e
armazenamento das mensagens poderia, talvez, ser incluída como mais um dos
parâmetros comunicativos ou condições extralinguísticas que condicionam a
concepção das mensagens.
O planejamento textual, amplo nas mensagens de concepção escrita, pode
ser diferente nas mensagens manuscritas e nas mensagens digitadas, visto que o

44
Sobre esse aspecto, remetemo-nos a Fiorin (2008, p. 56): “Apagar uma coisa no computador é
uma atividade diferente de apagar o que foi escrito a lápis, à máquina ou à caneta. Por isso, surge
uma nova palavra para designar essa nova realidade, deletar.”
65

processo de execução para a produção dessas mensagens é, como exemplificamos


acima, diferente. Se admitimos essa premissa, devemos aceitar que a mídia ou o
mídium (com significado diverso e ampliado em relação aos termos da dicotomia do
meio, fônico e gráfico), entendido como suporte para veiculação de uma mensagem,
interfere no modo como concebemos um texto. Assim, lembremos o que afirma
Maingueneau: “O escrito não é uma mera representação do oral, nem o impresso
uma simples multiplicação do escrito. Oral, escrito e impresso são regimes de
enunciação distintos, que supõem civilizações muito diferentes” (2002, p. 79). O
autor ilustra a diferença entre o escrito e o impresso comparando a correspondência
privada manuscrita e a correspondência administrativa datilografada. A singularidade
e a unicidade da primeira, cuja autoria é normalmente individual, diferem da
padronização e impessoalidade da segunda, cuja autoria pode ser plural. Podemos
relacionar esse aspecto com a ideia de que uma carta pessoal privada, ainda que
veiculada pelo meio gráfico, pode conter características da concepção textual da
oralidade ou da imediatez comunicativa, conforme consideram Koch e Öesterreicher
(2007 [1990], p. 21).
Além de poder se incluir nos cinco parâmetros da imediatez comunicativa
(privacidade, familiaridade, implicação emocional, espontaneidade e
desenvolvimento temático livre) indicados pelos autores, a carta privada pode ser
veiculada com o aspecto da pessoalidade de um texto manuscrito, com a caligrafia
do emissor, dirigida exclusivamente a um destinatário, aspecto que a torna diversa
de uma carta administrativa datilografada, ou mesmo de uma carta privada
datilografada ou digitada. O manuscrito, o datilografado e o digitado se apresentam
ao emissor e ao destinatário da mensagem com efeito sensorial diverso. E, se todo
texto escrito “constitui em si mesmo uma imagem, uma superfície exposta ao olhar”,
como afirma Maingueneau (2002, p. 81), as mídias utilizadas para veiculação da
mensagem podem influenciar, em alguma medida, a sua concepção na imediatez e
na distância comunicativas, bem como a sua recepção.
Sobre a interferência do meio nos conteúdos das mensagens, Andrade
reflete:

Para um escritor não pode ser o mesmo escrever em papiro,


em papel com lápis ou caneta ou em impresso, não somente a
estrutura, mas também os conteúdos veem-se afetados pelo suporte
com o qual o texto é produzido: se manuscrito, impresso (texto
datilografado, folheto, jornal, revista, livro etc.) ou hipertexto (e-
66

mails, fóruns eletrônicos, chats ou salas de bate-papo, blogs, home


page etc.), e a quem se destina o texto (ANDRADE, 2005, p. 3).

As prováveis relações entre meio (fônico/gráfico), mídia e a concepção


(falada/escrita) podem nos remeter ao que considera Walter Ong, ao refletir sobre a
influência da escrita sobre o pensamento e a fala dos indivíduos nas culturas
letradas:

Indivíduos que interiorizaram a escrita não apenas escrevem, mas


também falam segundo os padrões da cultura escrita, isto é,
organizam, em diferentes graus, até mesmo sua expressão oral em
padrões de pensamento e padrões verbais que não conheceriam, a
menos que soubessem escrever. Uma vez que a organização oral
do pensamento não segue esses padrões, os pertencentes à cultura
escrita julgaram ingênua essa organização. O pensamento oral,
contudo, pode ser bastante sofisticado e, a seu próprio modo,
reflexivo (ONG, 1998, p. 69)

Sobre as relações entre o meio e a concepção textual, podemos ainda citar as


observações de Mathilde Hennig45 ao expressar a necessidade de revisão teórica do
modelo da imediatez e distância comunicativas, visto que ele foi desenvolvido
inicialmente em 1985, ou seja, antes da difusão do uso das novas mídias para
comunicação, conforme explica a autora no trecho abaixo:

[...] the model seemed to provide a solution to the problem that the
new media produce new forms of communication that differ strongly
from the forms we knew before. Nevertheless, some researchers
have found the popular model by Koch and Oesterreicher
inadequate to explain forms of communication produced by new
media properly, because it was developed before the new media
came into use46. [...] (HENNIG, 2011, p. 21).

45
No contexto da Linguística alemã, Mathilde Hennig, juntamente com o pesquisador húngaro Vilmos
Àgel, desenvolveu o modelo da “fala de proximidade e distância”, dando continuidade ao modelo de
Koch e Öesterreicher. Em 2010, os autores publicaram o livro Nähe und Distanz im Kontext
variationslinguistischer Forschung (DE GRUYTER, 2010, p. 421), no qual abordam o tema da
proximidade e distância comunicativas. Nessa obra, incluem-se os artigos “Sprachliche Daten und
linguistische Fakten – Variation und Varietäten – Bemerkungen zu Status und Konstruktion von
Varietäten, Varietätenräumen und Varietätendimension”, de Öesterreicher, e “Sprachegeschichte
zwischen Nähe und Distanz: Latein – Französisch – Deutsch”, de Peter Koch.
46
“[...] o modelo parecia oferecer uma solução para o problema de que as novas mídias produzem
novas formas de comunicação que diferem fortemente das formas que conhecíamos. No entanto,
alguns pesquisadores consideraram o conhecido modelo de Koch e Oesterreicher inadequado para
explicar corretamente formas de comunicação produzidas pelas novas mídias, porque esse modelo
foi criado antes de elas serem adotadas [...] (HENNIG, 2011, p. 21).” Tradução nossa.
67

Observe-se que, na citação acima, Hennig se refere à noção de mídia e não


somente ao meio, associado aos códigos fônico e gráfico, conforme consideram
Koch e Öesterreicher, na primeira edição de Lengua hablada en la Romania:
español, francés, italiano, publicada em 1990. Como explica a autora, novas mídias
promovem o surgimento de novas formas de comunicação. Sabemos que o advento
da comunicação via Internet levou ao nascimento de “gêneros textuais”47, como é o
caso do e-mail ou correio eletrônico, que pode ser entendido como uma derivação
histórica da carta pessoal ou institucional. Sendo assim, se novas mídias (que
envolvem o uso dos meios fônico e gráfico) ocasionam o surgimento de novas
formas de comunicação, pode-se considerar que, por consequência, novas formas
de concepção textual se desenvolvem ao se adaptarem as mensagens às
características dessas novas mídias.
Pode-se dizer que as configurações das novas mídias (com a forte incidência
dos chamados “textos multimodais”, em que se estabelece uma relação de
interdependência do plano verbal com imagens estáticas ou em movimento, bem
como com recursos sonoros, por exemplo) influenciam a concepção de nossas
mensagens, como também os meios fônico e gráfico exercem influência sobre a
concepção textual. Pensemos, nesse sentido, nas mensagens veiculadas em redes
sociais, como é o caso do Twitter. O usuário dessa rede social tem a possibilidade
de redigir textos com até 140 caracteres. Essas mensagens são designadas com o
termo em língua inglesa tweet, que significa “pio” ou “piado” de aves, de modo que,
no contexto da rede social, o termo adquire o sentido de publicar uma mensagem
breve, à qual podem ou não ser associadas fotografias e vídeos, por exemplo. Os
tweets são um gênero textual recente, veiculados pelo meio gráfico, cuja concepção,
oral ou escrita, está condicionada à adaptação da mensagem aos mencionados 140
caracteres permitidos pela mídia. Essa limitação quanto ao número de caracteres se
apresenta como um fator essencial da concepção textual, visto que exige dos
usuários a capacidade de expressão extremamente sintética dos conteúdos
enunciados.
Não nos deteremos por ora na exploração exaustiva dos inúmeros aspectos
relacionados às mútuas influências entre meio, mídia e concepção. Entretanto, deve-
se ter em vista que o entendimento sobre as relações entre essas três esferas

47
Empregamos a expressão “gênero textual”, conforme o conceito de Bakhtin (2011).
68

envolvidas nos nossos processos de comunicação pode ser essencial para a


caracterização das mensagens da imediatez e da distância comunicativas. A
inclusão da compreensão sobre a configuração das diversas mídias é fator relevante
para a descrição e análise das mensagens da oralidade e da escrita, sobretudo na
atualidade.

4.6 Imediatez e distância comunicativas: breve análise de textos empíricos

Nesta seção de nossa pesquisa, aplicamos os conceitos do modelo teórico da


imediatez e distância comunicativas, de Koch e Öesterreicher (2007 [1990]), à
análise de textos empíricos em língua portuguesa em sua variedade brasileira atual.
Selecionamos um artigo acadêmico e uma aula expositiva registrada para
veiculação televisiva para comparação e análise. O artigo acadêmico é um gênero
textual veiculado pelo meio gráfico e que pode representar as mensagens na
distância comunicativa extrema. Já a aula expositiva televisiva pode ser um exemplo
de uma comunicação híbrida, pois é veiculada pelo meio fônico, mas sua
concepção, a princípio, apresenta características linguísticas que a associam às
mensagens da distância comunicativa.
Compararemos a linguagem de um parágrafo do artigo “Teoria dos signos”,
de José Luiz Fiorin, e um trecho de uma aula expositiva televisionada48 ministrada
por esse mesmo autor e intitulada “Enunciação (1) - Conceito de enunciação”. O
referido artigo faz parte de uma coletânea de textos acadêmicos organizados por
Fiorin no livro Introdução à linguística (2008, pp. 55-74). A aula expositiva
selecionada para análise foi veiculada pela TV Cultura, de São Paulo. Como
veremos, em ambos os textos, o autor emprega o registro formal e se utiliza dos
usos da norma padrão culta da língua portuguesa, adaptada ao gênero textual
“comunicação acadêmica científica” e às expectativas do público destinatário de
ambas as mensagens.

48
A aula pode ser acessada no endereço eletrônico a seguir:
<https://www.youtube.com/watch?v=RQzJaFYiqhc&list=PLKWOznL1aFCMgDRY5zFZdovWKfY7ZJH
7H>. Acesso em: 11 mar. 2017
69

Leia-se, a seguir, um dos parágrafos do texto “Teoria dos signos” (2008, p.


56):

As palavras formam um sistema autônomo que independe do que elas


nomeiam, o que significa que cada língua pode categorizar o mundo de forma
diversa. Os signos definem-se uns em relação aos outros. O inglês tem duas
palavras, sheep e mutton, para expressar o que exprimimos com a palavra carneiro.
O primeiro significa o animal, o segundo uma porção de carne do animal preparada e
servida à mesa. Em português, dizemos O carneiro é grande e O carneiro está
delicioso. Em inglês, no primeiro caso, emprega-se sheep e, no segundo, mutton. A
mesma realidade é categorizada de modo diferente em português e inglês. Neste, o
animal e o alimento feito com o animal são vistos como duas realidades
completamente diferentes, sem qualquer relação entre si. Isso significa que a
realidade é recortada diferentemente nas duas línguas e que um signo delimita o
outro. O valor de um signo é dado por outro signo. Além disso, um signo é sempre
interpretável por outro signo: no interior do mesmo sistema pelos sinônimos, pelas
paráfrases, pelas definições; em outro sistema, em outra língua, por exemplo, pela
tradução. A dificuldade de traduzir indica que não há univocidade na relação entre os
nomes e as coisas.

Com os dez parâmetros da teoria de Koch e Öesterreicher, podemos


caracterizar o artigo acadêmico de Fiorin com os seguintes aspectos: trata-se de
uma comunicação pública (parâmetro “a”). Não há intimidade ou familiaridade
(parâmetro “b”) entre o destinador e o destinatário do texto. Por conseguinte,
também não há implicação emocional (parâmetro “c”) entre o autor e o público leitor,
bem como em relação ao tema abordado; há impossibilidade de ancoragem dos
atos comunicativos em relação à situação (parâmetro “d”). Não há possibilidade de
dêixis centrada na origo do falante. No que concerne ao parâmetro “f”, ou seja, há
distância física entre o autor e o provável leitor do texto. Em relação ao grau de
cooperação (parâmetro “g”), não há possibilidade de intervenção imediata do leitor
na produção do discurso do enunciador e também não há dialogicidade (parâmetro
“h”), no sentido de que somente o autor atua como enunciador, não havendo
alternância de papéis entre o leitor e ele. Não há espontaneidade (parâmetro “i”),
pois o conteúdo e a linguagem do artigo foram amplamente planejados. O grau de
fixação temática (parâmetro “j”) é alto, pois o discurso aborda exclusivamente um
tema específico, a natureza da linguagem humana.
Com essas características em vista, observe-se abaixo a transcrição do texto
oral produzido pelo mesmo enunciador, Fiorin, na aula expositiva televisionada, ou
seja, em uma comunicação veiculada pelo meio sonoro:
70

neste curso... nós vamos tratar das categorias da enunciação... a pessoa o tempo e o
espaço... no entanto antes de começar a tratar DEssas categorias da enunciação... é
preciso que nós saibamos... o que é enunciação... como surgiu esse conceito de
enunciação? por que é que esse conceito surgiu?... bem observe o seguinte... Saussure...
que é considerado o fundador da linguística moderna... mostra pra gente que a língua a
linguagem humana tem um aspecto social e um aspecto individual... o aspecto social é o
co-nhe-ci-men-to internalizado que nós temos da língua esse conhecimento internalizado
que é social que é partilhado por todos nós e que permite que nós nos entendamos... ele
chamou língua... (escreve na lousa) língua... e... a realização individual da língua é a fala...
bom o que é a língua efetivamente para Saussure? eu acabo de dizer que é o
conhecimento internalizado partilhado por todos os falantes de uma dada comunidade por
exemplo todos os falantes do português partilham um dado conhecimento mas o que é
efetivamente esse conhecimento? bom pra Saussure havia dois elementos que
compunham esse conhecimento... primeiro... Saussure vai dizer que na língua só existem
diferenças... portanto... o que existe em primeiro lugar são diferenças semânticas e
diferenças fônicas que permitem que eu crie os significados e os sons da língua. como é
isso? de fato... veja... em português nós distinguimos entre alguns mamíferos no geral os
mamíferos domesticados... no animal macho nós distinguimos o animal que é o reprodutor
daquele que não é reprodutor... nós temos então uma diferença semântica reprodutor não
reprodutor e essa diferença permite se criar determinados significados... touro é um bovino
reprodutor boi é um bovino não reprodutor... garanhão é o equino reprodutor cavalo é o
equino não reprodutor... cachaço é o suíno reprodutor eh::: porco é o suíno não reprodutor
aquele que é usado pra corte... agora as línguas têm essas diferenças assim como
masculino e feminino que permite distinguir homem e mulher menino menina eh etcetera...
essas diferenças variam de língua pra língua por exemplo uma língua como o inglês em
alguns animais distingue um animal o bicho da comida... então por exemplo nós em
português podemos dizer o porco está no chiqueiro e e... podemos dizer à mesa você me
passa um pedacinho de porco por exemplo a mesma palavra em inglês não no caso o que
está no chiqueiro é pig o o que está no prato é pork e não são o mesmo elemento eu não
posso usar a mesma palavra... essas diferenças que criam conceitos é que estão presentes
na língua e de outro lado as diferenças que criam SOM as diferenças fônicas então por
exemplo em português eu distinguo as vogais pelo lugar da boca em que elas são
pronunciadas eu tenho então as centrais A::: que é com a boca mais aberta e depois eu vou
tendo anteriores e posteriores... que se diferenciam pelo grau de abertura da boca então eu
tenho olha É Ó a mesma abertura da boca mas uma na frente e outra atrás É Ó ê ô i u
agora veja em português nós vamos observar o seguinte que todas as anteriores são feitas
com a boca... estendida e todas as posteriores com a boca arredondada exagerando um
pouco É::: Ê::: I::: as posteriores Ó::: ô::: u::: em francês eu tenho as anteriores
arredondadas e não arredondadas

Podemos identificar igualmente os parâmetros da teoria de Koch e


Öesterreicher no trecho acima transcrito do texto falado da aula expositiva
apresentada por Fiorin: trata-se de uma comunicação pública (parâmetro “a”). Há
baixo grau de intimidade (parâmetro “b”) e, por conseguinte, também um baixo grau
de implicação emocional (parâmetro “c”) entre o professor e o público, bem como em
relação ao tema abordado; há baixo grau de ancoragem dos atos comunicativos em
relação à situação (parâmetro “d”). Há relativa possibilidade, a princípio, de dêixis
centrada na origo do falante. Em relação ao parâmetro “f”, relacionado à imediatez e
71

à distância física entre os coenunciadores, podem-se considerar dois aspectos: o


professor e o público do estúdio compartilham a imediatez física, nos aspectos
temporal e espacial, enquanto o público telespectador ou aquele que assiste à aula
pela Internet estão em distância física em relação ao professor. No que concerne ao
grau de cooperação (parâmetro “g”), não há possibilidade de intervenção imediata
do público na produção do discurso do enunciador e também não há dialogicidade
(parâmetro “h”), no sentido de que somente o professor atua como enunciador, não
havendo alternância de papéis entre o público e ele. O grau de espontaneidade é
relativamente baixo (parâmetro “i”), visto que o conteúdo apresentado pelo professor
foi planejado, o que se confirma, entre outros aspectos, se considerarmos o fato de
ser uma comunicação pública registrada para veiculação televisiva e pela Internet,
com tempo de duração rigorosamente controlado (30 minutos). O grau de fixação
temática (parâmetro “j”) é alto, pois o discurso aborda exclusivamente um tema
específico: o conceito de enunciação.
A maioria dos parâmetros ou condições comunicativas, acima destacados,
indica que a aula expositiva televisionada apresentada por Fiorin está próxima do
polo da distância comunicativa, no contínuo dos textos falados e escritos. É uma
comunicação veiculada pelo meio fônico, cuja concepção apresenta elementos
típicos da chamada “distância comunicativa” ou do que se convencionou chamar de
“língua escrita”. Percebe-se que os parâmetros ou condições extralinguísticas dessa
comunicação televisiva e do artigo do autor são bastante semelhantes. As
diferenças mais evidentes se referem ao parâmetro “f”, bem como à possibilidade de
dêixis referida à origo do enunciador e ao grau de planejamento discursivo.
A comparação das estratégias discursivas e dos aspectos linguísticos
presentes nas mensagens ora consideradas pode demonstrar algumas
particularidades sobre elas. É possível, por exemplo, observar como se dá o uso dos
pronomes pessoais no artigo e na aula expositiva do linguista: inicialmente, na aula
expositiva, com o texto veiculado pelo meio fônico, o enunciador se utiliza
frequentemente dos verbos conjugados na primeira pessoa do plural, o que
aproxima o seu texto das características recorrentes nos artigos acadêmico-
científicos de concepção escrita, em que se evita o uso do pronome pessoal eu e
dos verbos conjugados na primeira pessoa do singular. Entretanto, diferentemente
do texto do artigo, veiculado pelo meio gráfico, Fiorin não omite o pronome nós ao
se comunicar oralmente na referida aula expositiva. No parágrafo do artigo
72

acadêmico do autor, ocorrem os usos de “o que exprimimos” e “Em português,


dizemos”, por exemplo, com a exclusão do pronome pessoal nós antes dos verbos,
o que constitui uma estratégia discursiva dos textos de concepção escrita extrema,
nos quais se busca evitar redundância informacional. Na aula expositiva
televisionada, porém, Fiorin emprega recorrentemente o pronome pessoal nós: “nós
vamos tratar”, “que nós saibamos”, “nós temos”, “nós nos entendamos”, “nós
distinguimos”, “nós em português podemos dizer”.
Além desse aspecto, notemos que Fiorin emprega, ainda que com menor
frequência do que o pronome nós, a expressão de uso informal “pra gente” (com o
sentido de “para a gente” ou “para nós”), típico do registro coloquial no português do
Brasil, e o pronome pessoal “eu” nos trechos: “eu acabo de dizer”, “que permite que
eu crie”, “eu não posso usar”, “eu distinguo”. Esses usos afastam o texto
pronunciado por Fiorin do estilo impessoal dos textos acadêmico-científicos
veiculados pelo meio gráfico e de concepção escrita prototípica. A situação imediata
ou o aspecto da imediatez física (parâmetro “f”, do modelo de Koch e Öesterreicher),
que há na interação entre Fiorin e o público que assiste à aula no estúdio, parece
condicionar o professor a tentar ampliar o grau de proximidade com aqueles que o
vêem e ouvem, de maneira que ele faz referência a si mesmo. Além disso, o
professor frequentemente faz interrogações, com as quais parece antecipar
prováveis perguntas do público destinatário, incluindo-o, assim, em seu discurso e
ampliando a interação com ele. São frequentes as interrogações no discurso do
professor, como nos trechos: “como surgiu esse conceito de enunciação? por que é
que esse conceito surgiu?”; “mas o que é efetivamente esse conhecimento?”; “como
é isso?”.
Outro aspecto a salientar é o fato de que o professor emprega verbos no
modo imperativo, como nos trechos a seguir: “bem... observe o seguinte”, “de fato
veja... nós em português”, “agora veja... em português”. Ou seja, ao se dirigir ao
público de diversos ouvintes presenciais e possíveis telespectadores, Fiorin
emprega os verbos no modo imperativo no singular (veja e não vejam), como se
estivesse se dirigindo a um só destinatário. É possível interpretar esse aspecto como
uma estratégia discursiva que visa a ampliação da proximidade e da familiaridade
entre o enunciador e o público, buscando-se, desse modo, convidá-lo a participar da
comunicação, chamar sua atenção para o que está sendo dito, de maneira a
aumentar a familiaridade e a reduzida implicação emocional que caracterizam os
73

textos acadêmico-científicos veiculados pelo meio gráfico e de concepção escrita


extrema.
Outro aspecto a observar é que, em um texto de concepção escrita, situado
na distância comunicativa extrema, o enunciador poderia se utilizar do pronome
indefinido se, como em: “que permite que se crie”, em lugar de “que permite que eu
crie”; “não se pode usar” em vez de “eu não posso usar”; “distingue-se” e não “eu
distinguo”. Note-se que, no parágrafo do artigo acadêmico, de concepção escrita, o
autor emprega o pronome indefinido: “Os signos definem-se uns em relação aos
outros” e “Em inglês, no primeiro caso, emprega-se sheep e, no segundo, mutton.”
No trecho transcrito da aula expositiva falada, há apenas duas ocorrências desse
pronome indefinido: “e essa diferença permite se criar determinados significados” e
“que se diferenciam pelo grau de abertura da boca” e diversas ocorrências do
pronome pessoal “eu”.
Na aula expositiva televisionada, há trechos que demonstram o planejamento
local e a construção processual do texto no seu aspecto formal. Como dissemos, o
conteúdo da aula foi cuidadosamente planejado no que concerne à seleção dos
exemplos, a sequência de temas e subtemas a serem explicados, por exemplo.
Porém, na construção das sentenças, há diferenças evidentes em relação ao texto
do artigo, veiculado pelo meio gráfico. A construção e emissão das sentenças se dá
quase que concomitantemente com a formulação do pensamento, de modo que
ocorrem construções com repetições, como no trecho “a língua a linguagem humana
tem um aspecto social e um aspecto individual”, no qual se usa “a língua” e “a
linguagem humana” em sequência.
Para ilustrar algumas das semelhanças e diferenças do texto da aula
expositiva, ora considerada, em relação às características dos textos da distância
comunicativa extrema ou textos escritos prototípicos, como é o caso do artigo
acadêmico, podemos proceder a uma possível adaptação ou reorganização do texto
falado de Fiorin. Considere-se o trecho da aula expositiva abaixo destacado:

Texto 1 - Aula expositiva televisionada


bom o que é a língua efetivamente para Saussure? eu acabo de dizer que é o conhecimento
internalizado partilhado por todos os falantes de uma dada comunidade por exemplo todos os
falantes do português partilham um dado conhecimento mas o que é efetivamente esse
conhecimento? bom pra Saussure havia dois elementos que compunham esse
conhecimento... primeiro... Saussure vai dizer que na língua só existem diferenças...
portanto... o que existe em primeiro lugar são diferenças semânticas e diferenças fônicas que
permitem que eu crie os significados e os sons da língua como é isso?
74

Observe-se, a seguir, uma possível adaptação ou reordenação dessa mesma


mensagem a um texto acadêmico-científico veiculado pelo meio gráfico:

Texto 2 - Adaptação para a linguagem de concepção escrita da distância comunicativa


extrema
A língua, para Saussure, é o conhecimento internalizado partilhado por todos os
falantes de uma dada comunidade. Por exemplo, todos os falantes do português partilham um
dado conhecimento. Para o autor, havia dois elementos que compunham esse conhecimento:
primeiro o linguista suíço diz que, na língua, só existem diferenças. Portanto, o que existe, em
primeiro lugar, são diferenças semânticas e diferenças fônicas, que permitem que se criem os
significados e os sons da língua.

No texto 2, o planejamento mais detido da estrutura textual, permite, por


exemplo, a substituição das repetições do nome de Saussure, por expressões como
“autor” e “linguista suíço”, evitando-se a coesão por repetição do mesmo item lexical.
Foram excluídas também referências à própria situação enunciativa, como em “eu
acabo de dizer”, marca característica da interação oral e desnecessária no texto
científico da distância comunicativa extrema. Evitaram-se ainda, no texto 2, as
quatro repetições do termo “conhecimento” presentes no texto 1, por meio da
reordenação da estrutura sintática da mensagem. Eliminou-se também, no texto 2, o
marcador conversacional “bom”, típico elemento de valor interacional (destituído de
valor semântico e informacional) dos textos da imediatez comunicativa ou dos textos
falados da conversação face a face.
Considere-se também a adaptação do pequeno trecho a seguir, em que o
enunciador repete por cinco vezes a forma “que”, sendo que quatro dessas
ocorrências têm a mesma função gramatical, a de pronome relativo, em um trecho
relativamente curto:

Texto 1 - Aula expositiva televisionada


o aspecto social é o co-nhe-ci-men-to internalizado que nós temos da língua esse
conhecimento internalizado que é social que é partilhado por todos nós e que permite que
nós nos entendamos... ele chamou língua...

Texto 2 - Adaptação para a linguagem de concepção escrita da distância comunicativa


ou escrita prototípica:
O aspecto social é o conhecimento internalizado que temos da língua. A esse
conhecimento social, partilhado por todos nós e que permite que nos entendamos, ele
chamou de língua.
75

Nessa possível adaptação do texto da aula expositiva para o texto de um


artigo científico escrito, excluiu-se a repetição do “que” e tornou-se a mensagem
menos redundante em sua seleção lexical.
Com as observações e comparações acima levantadas, podemos apontar
para a hipótese de que, se, na análise desses textos, fossem considerados apenas
os dez parâmetros ou condições extralinguísticas universais, para a caracterização
das realizações linguísticas no contínuo concepcional falado/escrito, descritos por
Koch e Öesterreicher (2007 [1990]), poder-se-ia considerar ambos os textos (artigo
científico e aula expositiva) como sendo muito mais semelhantes do que o exame
detalhado dos aspectos discursivos e linguísticos desses textos pode indicar.
Poderíamos dizer, inicialmente, que o artigo se apresenta como um texto prototípico
da distância comunicativa e que o texto da aula expositiva, ainda que veiculado pelo
meio sonoro, apresenta concepção escrita e se situa muito próximo do polo da
distância comunicativa extrema. Entretanto, deve-se fazer a ressalva de que o
exame detalhado dos enunciados da aula expositiva ora considerada indicam que,
mesmo tendo sido planejada como um texto acadêmico de concepção escrita, essa
mensagem apresenta uma quantidade significativa de aspectos que a diferenciam
do artigo cientifico, veiculado pelo meio gráfico e de concepção estritamente escrita
e a aproximam de algumas características importantes da imediatez comunicativa,
sobretudo no que diz respeito aos processos de planejamento e enunciação das
sentenças, processos esses que se dão quase em concomitância, o que gera
repetições e redundâncias inexistentes na linguagem da distância comunicativa.
Ainda que sejam resultado de uma amostra limitada, os aspectos ora
discutidos podem ilustrar o caráter híbrido dos textos veiculados pelo meio fônico,
mas que podem apresentar, em parte, concepção escrita. Não poderíamos
exclusivamente dizer que essa comunicação se define como sendo veiculada pelo
meio fônico, mas de concepção escrita. Ainda que essa mensagem manifeste, em
grande parte aspectos da concepção escrita, detectam-se nela também estratégias
discursivas bastante específicas da comunicação de concepção oral, da imediatez
comunicativa.
76

4.7 Conclusões

Foram realizadas, em nossa pesquisa pós-doutoral, a descrição e a análise


do modelo teórico da imediatez e distância comunicativas, desenvolvido, a partir de
1985, por Peter Koch e Wulf Öesterreicher. Concentramo-nos na reflexão sobre as
ideias apresentadas pelos autores no artigo Linguagem da imediatez – linguagem da
distância: oralidade e escrituralidade entre a teoria da linguagem e a história da
língua e no livro Lengua hablada en la Romania: español, francés, italiano.
Por meio da pesquisa bibliográfica desenvolvida, observaram-se amplas
possibilidades de cotejo do modelo teórico de Koch e Öesterreicher com o
pensamento de outros autores cujos trabalhos foram publicados entre a segunda
metade da década de 1970 e a década de 1980. Consideramos que esse é o caso,
principalmente, dos trabalhos de Parisi e Castelfranchi (1977), Ochs (1979), Tannen
(1980; 1983; 1985) e Chafe (1985) que, assim como os autores alemães, refletiram
sobre aspectos discursivos específicos das interações orais e escritas. Destacamos
as possibilidades de cotejo do modelo da imediatez e distância comunicativas com
as ideias de Biber, expostas em Variation across speech and writing (1988), cujo
detalhamento na descrição do contínuo entre a fala e a escrita poderia
complementar, por exemplo, as reflexões acerca da inclusão do contínuo
concepcional entre a fala e escrita no diassistema linguístico, como uma dimensão
central da variação linguística.
Por meio da pesquisa realizada, percebe-se a importância de se ampliarem e
se atualizarem os estudos sobre o modelo teórico da imediatez e distância
comunicativas, em particular, no contexto dos estudos da linguagem em nosso país.
Como vimos, destacaram-se, no Brasil, os estudos de Marcuschi acerca do contínuo
concepcional dos gêneros textuais. Encontram-se esforços contínuos de
compreensão do referido modelo teórico, bem como reflexões críticas sobre ele, em
diversas publicações de Urbano. Em 2006, foi publicado o seu artigo Usos da
linguagem verbal, em que o autor detalha o modelo de Koch e Öesterreicher e
elabora um gráfico, no qual busca explicitar-se o caráter gradual e escalar do
contínuo concepcional em que se distribuem os textos de concepção oral e escrita.
Ademais, como consequência do interesse de Urbano pelo pensamento dos autores
alemães acerca do contínuo entre textos falados e escritos, resultou a tradução do
77

artigo Linguagem da imediatez – linguagem da distância: oralidade e escrituralidade


entre a teoria da linguagem e a história da língua, publicado em 2013, em parceria
com Caldas. Trata-se de publicação fundamental para viabilizar, aos leitores de
língua portuguesa, o acesso às reflexões de Koch e Öesterreicher. Nesse sentido,
cabe destacarmos a necessidade de tradução para a língua portuguesa do livro
Gesprochene Sprache in der Romania: Französisch, Italienisch, Spanisch (1990), o
que auxiliaria a compreensão sobre a noção de linguagem da imediatez entre os
estudiosos brasileiros que se dedicam ao estudo e ao ensino das línguas francesa,
italiana e espanhola. A tradução dessa obra para o português poderia promover
igualmente o desenvolvimento de mais estudos em que se aplicasse à língua
portuguesa o modelo teórico dos autores alemães, de modo a se descreverem as
características da imediatez comunicativa, em perspectiva sincrônica e diacrônica,
do português falado, o que poderia contribuir, por exemplo, com as pesquisas
desenvolvidas pelo Projeto de Estudo da Norma Linguística Urbana Culta (Projeto
NURC-Brasil).
Sobre a interpretação e a aplicação do modelo teórico da imediatez e
distância comunicativas entre os estudiosos da língua portuguesa, deve-se ressaltar
a relevância da publicação, em Portugal, no ano de 2013, da obra Proximidade e
distância: estudos sobre a língua e a cultura, organizada por Mário Franco e Bernd
Sieberg. Nesse livro, reúnem-se estudos que demonstram as variadas
possibilidades de reflexões, atualizações e aplicações proporcionadas pelas ideias
iniciadas por Koch e Öesterreicher sobre os conceitos de oralidade e escrita.
No período de dois anos de nossa pesquisa pós-doutoral, a busca pela
realização da leitura crítica das ideias de Koch e Öesterreicher evidenciou a
necessidade de prosseguirmos no aprofundamento do cotejo entre as obras desses
autores e dos demais estudiosos que se dedicaram ao tema do contínuo entre a fala
e a escrita. Entendemos ser necessária, por exemplo, a ampliação da comparação
entre o modelo da imediatez e distância comunicativas e as ideias de Maingueneau
(2002), na perspectiva da Análise do Discurso. Oferecemos, por ora, uma breve
reflexão prévia sobre as relações entre meio, mídia e concepção, as quais poderão
ser desenvolvidas e complementadas em trabalhos futuros. Além disso, mostra-se
fundamental igualmente a ampliação das aplicações em textos empíricos dos
conceitos do modelo teórico ora enfocado.
78

Não se intencionou, nesta pesquisa pós-doutoral, esgotar o amplo tema das


relações entre oralidade e escrita. Espera-se que os aspectos ora apontados
possam contribuir com o debate acadêmico sobre os conceitos de língua falada e
língua escrita. Trata-se de um tema essencial nos estudos da linguagem, os quais,
como vimos inicialmente neste relatório, voltaram-se, durante muito tempo,
predominantemente para a descrição e a análise da modalidade escrita da língua.
A consideração precisa e detalhada sobre as estratégias discursivas
específicas das interações orais e escritas se apresenta como tópico basilar não
somente no âmbito da pesquisa teórica, mas, inclusive, na esfera da pesquisa
aplicada, visto que pode colaborar para a elaboração de modelos de ensino e
aprendizagem das línguas materna e estrangeira, em que se considerem as
especificidades da concepção das mensagens orais e escritas.
Tendo-se em vista o fato de, na contemporaneidade, vivenciarmos
experiências inovadoras e complexas para a produção e recepção de textos
multimodais, proporcionadas pelas recentes tecnologias da informação e
comunicação, ressalta-se a essencialidade da compreensão sobre as intersecções e
mútuas influências entre o que entendemos por fala e escrita.
79

5. Atividades desenvolvidas durante o pós-doutorado

Apresentamos, a seguir, informações sobre nossas publicações e a


participações em eventos acadêmicos durante o período de desenvolvimento de
nossa pesquisa pós-doutoral. As cópias dos certificados e as reproduções dos
trabalhos elencados estão incluídos na seção de Anexos deste relatório.

5.1. Participação no VIII EPED-USP (2016)

5.1.1 Apresentação de comunicação oral e participação como debatedora

Entre 28 e 29 abril de 2016, participei do VIII EPED - Encontro de Pós-


Graduandos em Estudos Discursivos da USP, realizado na Faculdade de Filosofia,
Letras e Ciências Humanas (FFLCH-USP). O tema geral do evento foi “A
multimodalidade nos estudos discursivos”. Apresentei a comunicação oral intitulada
“Os usos de você como forma para indeterminação do sujeito no discurso oral culto”.
Nessa comunicação, discutiu-se a aplicação dos conceitos do modelo teórico da
linguagem da imediatez e distância comunicativas, de Koch e Öesterreicher, para a
análise de uma interação oral entre falantes cultos. Refletiu-se sobre as vantagens e
limitações desse modelo teórico para a descrição de interações orais, bem como
sobre como a implicação emocional, um dos parâmetros da teoria de Koch e
Öesterreicher, propicia a utilização do vocábulo você como pronome indefinido no
Português do Brasil.
Neste mesmo evento, participei com a função de “debatedora”, coordenando
as discussões sobre os temas das pesquisas apresentadas por outros três
comunicadores.

5.1.2. Atividade de parecerista do livro do VIII EPED

Em novembro de 2016, participei do processo de avaliação dos trabalhos


apresentados no VIII EPED. Fizemos parte do Conselho Editorial do livro do EPED,
80

intitulado Texto, discurso e multimodalidade: perspectivas atuais (São Paulo:


Paulistana, 2017).

5.1.3 Resumo publicado no Caderno de Resumos do VIII EPED


DURANTE, Denise. Os usos de “você” como forma para indeterminação do sujeito
no discurso oral culto. A multimodalidade nos estudos discursivos. Cadernos de
Resumos do VIII EPED. São Paulo: FFLCH-USP, 2016. Disponível em:
http://eped.fflch.usp.br/sites/eped.fflch.usp.br/files/Caderno-VIII-EPED-Final_0.pdf.
Acesso em: 16 nov. 2016.

5.1.4 Artigo completo publicado no livro do VIII EPED


DURANTE, Denise. Usos de “você” nas linguagens da imediatez e da distância
comunicativas. In: GONÇALVES-SEGUNDO, P. R.; MODOLO, A. D. R.; SOUSA, D.
R. de; FERREIRA, F. M.; COAN, G. I.; BRITTO-COSTA, L. F. (org.) Texto, discurso
e multimodalidade: perspectivas atuais. São Paulo: Editora Paulistana, 2017. 382p.
Acessível em: http://eped.fflch.usp.br/, pp. 132-45.

5.2 Participação no II CIFEFil e XX CNFL

5.2.1 Comunicação oral

Entre 29 de agosto e 2 de setembro de 2016, participei do II Congresso


Internacional de Linguística e Filologia (II CIFEFil) e XX Congresso Nacional de
Linguística e Filologia (XX CNLF), na Universidade Veiga de Almeida (UVA), na
cidade do Rio de Janeiro. Apresentei a comunicação oral “Fala e escrita: reflexões
acerca do modelo da linguagem da imediatez e da linguagem da distância, de Koch
e Öesterreicher.”

5.2.2 Resumo publicado nos Cadernos do CNFL


DURANTE, Denise. Fala e escrita: reflexões acerca do modelo da "linguagem da
imediatez" e da "linguagem da distância", de Koch e Öesterreicher. Cadernos do
CNLF, vol. XX, nº 02 – Resumos. Rio de Janeiro: CiFEFiL, 2016. Disponível em: <
81

http://www.filologia.org.br/xx_cnlf/cnlf/resumos/Cad_CNLF_XX_02_Resumos.pdf>.
Acesso em: 15 nov. 2016.

5.2.3 Artigo publicado na Revista Philologus


DURANTE, Denise. Fala e Escrita: reflexões acerca do modelo da “linguagem da
imediatez” e da “linguagem da distância”, de Koch e Öesterreicher. In: Revista
Philologus, Ano 22, N° 66 Supl.: Anais da XI JNLFLP. Rio de J aneiro: CiFEFiL,
set./dez.2016. Disponível em: http://www.filologia.org.br/rph/ANO22/66supl/0069.pdf.
Acesso em: 16 jan. 2017.

5.3 Artigo publicado na Revista Signótica (UFG)


DURANTE, Denise. Os usos de 'você' como forma de indeterminação do sujeito no
discurso de falantes cultos. Revista Signótica, Universidade Federal de Goiás, v.
28, p. 533-556, 2016. Disponível em:
https://www.revistas.ufg.br/sig/article/viewFile/35025/22144>. Acesso em: 2 jan.
2017.

5.4 Participação no IX SINEFIL – Simpósio Nacional de Estudos Filológicos e


Linguísticos, na UEMS (Campo Grande – MS)

5.4.1 Comunicação oral

Entre os dias 3 e 5 de abril de 2017, participei do IX Simpósio Nacional de


Estudos Filológicos e Linguísticos (IX SINEFIL), realizado no Campus Campo
Grande, da Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul (UEMS). O evento foi
organizado pelo Círculo Fluminense de Estudos Filológicos e Linguísticos (CIFEFil),
com sede no Rio de Janeiro.
Participei do evento com a apresentação da comunicação oral intitulada
“Oralidade e escrita: o modelo teórico das linguagens da imediatez e da distância
comunicativas, de Koch e Öesterreicher”.

5.4.2 Resumo publicado no Livro de Programação e Resumos do IX SINEFIL


82

DURANTE, Denise. Oralidade e escrita: o modelo teórico das linguagens da


imediatez e da distância comunicativas, de Koch e Öesterreicher. Livro de
Programação e Resumos do IX SINEFIL, vol. XX, nº 02 – Resumos. Rio de
Janeiro: SINEFIL, 2017 Disponível em: <
http://eped.fflch.usp.br/sites/eped.fflch.usp.br/files/Caderno%20de%20Resumos%20-
%20IX%20EPED.pdf>. Acesso em: 30 mar. 2017.

5.4.3 Artigo publicado na Revista Philologus


DURANTE, Denise. Oralidade e escrita: o modelo das linguagens da imediatez e da
distância comunicativas, de Koch e Öesterreicher. In: Revista Philologus, Ano 23,
N° 67. Rio de Janeiro: CiFEFiL, jan./abr. 2017. Dis ponível em:
<http://filologia.org.br/>. Acesso em: 29 abr. 2017.

5.5 Participação no IX EPED como debatedora e com comunicação oral

Nos dias 19 e 20 de abril de 2017, participei como debatedora e com


apresentação de comunicação oral do IX Encontro de Pós-Graduandos em Estudos
Discursivos da USP (IX EPED-USP), realizado na Faculdade de Filosofia, Letras e
Ciências Humanas (FFLCH), da Universidade de São Paulo (USP). O tema geral do
evento foi “Discurso e Identidade”. Apresentei a comunicação intitulada
“O contínuo entre o falado e o escrito: uma análise do modelo da imediatez e da
distância comunicativas, de Koch e Öesterreicher”. Foram expostos os objetivos e as
justificativas da pesquisa pós-doutoral, bem como os resultados parciais do trabalho.
Com a função de debatedora, coordenei as discussões sobre as pesquisas de
outros três participantes da sessão de comunicações.

5.5.1 Resumo publicado no Caderno de Resumos e Programação do IX EPED


DURANTE, Denise. O contínuo entre o falado e o escrito: uma análise do modelo da
imediatez e da distância comunicativas, de Koch e Öesterreicher. In: SEGUNDO,
Paulo Roberto Gonçalves. Discurso e Identidade. Livro de Programação e
Resumos do IX EPED. São Paulo: FFLCH-USP, 2017. Disponível
em:http://eped.fflch.usp.br/sites/eped.fflch.usp.br/files/Caderno%20de%20Resumos
%20-%20IX%20EPED.pdf. Acesso em: 15 abr. 2017.
83

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