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Universidade Católica de Brasília Pró-Reitoria de Graduação Curso de Ciências Econômicas Comércio Legal e Ilegal

Universidade Católica de Brasília

Pró-Reitoria de Graduação

Curso de Ciências Econômicas

Comércio Legal e Ilegal do Meio Ambiente: o Tráfico de Couros e Peles

Marcelo Teixeira da Silveira

Brasília – DF

Novembro de 2003

Universidade Católica de Brasília

Pró-Reitoria de Graduação

Curso de Ciências Econômicas

Comércio Legal e Ilegal do Meio Ambiente: o Tráfico de Couros e Peles

Marcelo Teixeira da Silveira

Monografia apresentada ao Curso de Ciências Econômicas da Universidade Católica de Brasília como parte dos requisitos para a obtenção do título de Bacharel em Ciências Econômicas.

Prof. Dr. Elvino de Carvalho Mendonça – Orientador.

Prof. Msc. Rogério Boueri Miranda – Co-orientador.

Prof. Msc. Carlos Wagner Mesquita – Examinador.

Prof. Msc. Mariano César Marques – Examinador.

Brasília – DF

Novembro de 2003

FOLHA DE APROVAÇÃO

Comércio Legal e Ilegal do Meio Ambiente: o Tráfico de Couros e Peles

Brasília, 22 de novembro de 2003

Tráfico de Couros e Peles Brasília, 22 de novembro de 2003 Matrícula № 98/5248-4 Orientador: Co-orientador:

Matrícula 98/5248-4

Orientador:

e Peles Brasília, 22 de novembro de 2003 Matrícula № 98/5248-4 Orientador: Co-orientador: Examinador: Examinador:

Co-orientador:

e Peles Brasília, 22 de novembro de 2003 Matrícula № 98/5248-4 Orientador: Co-orientador: Examinador: Examinador:

Examinador:

Examinador:

e Peles Brasília, 22 de novembro de 2003 Matrícula № 98/5248-4 Orientador: Co-orientador: Examinador: Examinador:
e Peles Brasília, 22 de novembro de 2003 Matrícula № 98/5248-4 Orientador: Co-orientador: Examinador: Examinador:

DEDICATÓRIA

DEDICATÓRIA Em nome de Deus o Clemente o Misericordioso Como muçulmano, dedico esta monografia a Deus,

Em nome de Deus o Clemente o Misericordioso

Como muçulmano, dedico esta monografia a Deus, por ter criado os Céus e a Terra,

e o que há entre eles para servir ao ser humano e ter concedido ao homem o prazer e a

responsabilidade de preservar o meio ambiente. Aos homens de boa vontade, que

dedicaram e ainda dedicam a sua vida em prol da preservação da natureza e de seus

habitantes.

Disse o Profeta Muhammad (que a paz de Deus esteja com Ele): “

e remover o

mal do caminho é uma caridade”. Este texto indica a importância da preservação do

ambiente em que a pessoa habita. E o Profeta Muhammad (que a paz de Deus esteja com

Ele) proibiu o muçulmano de cortar árvores, poluir nascentes, destruir plantações ou

demolir casas. Ele disse “Nem prejuízos, nem represálias”, isto porque o Islam, com a sua

sublime legislação, proíbe aos seus adeptos prejudicarem os outros, sejam os humanos ou a

natureza.

AGRADECIMENTOS

Seria difícil agradecer aqui a todos que participaram ou ajudaram, de alguma forma,

a conclusão desta monografia, ou aqueles que deram suas opiniões certamente de grande

valor. Portanto, começarei agradecendo primeiramente a Deus, a quem dedico também esta

monografia, pela saúde e inteligência na proposição desta; aos meus pais, Raimundo

Morais da Silveira e Solange Gomes Teixeira da Silveira; aos meus avós, Américo José

Teixeira e Arlette Gomes Teixeira, pelo apoio no decorrer deste curso de graduação. A

minha namorada e companheira Valéria Gentil Almeida, pela viva força e auxílio em todas

as fases da atividade coordenada e que, sem ela, esta não seria a mesma.

Agradeço, ainda, aos professores Alexandre Coelho Teixeira, Elvino de Carvalho

Mendonça, Rogério Boueri Miranda, meu mestre e orientador neste trabalho, e Sérvulo

Vicente Moreira, pela ajuda e incentivo; aos amigos Adriana dos Reis, Arlim Manoel

Prados Ribeiro, Elmar Rodrigues da Cruz, Fernando César Fonseca, Nasser Farah Abou

Jokh e Sônia Maria Teixeira, pelo fornecimento de material e formatação do texto.

A todos, muito obrigado pelos conselhos e paciência em tirar minhas dúvidas, o

que, certamente, foi de grande importância para uma exitosa conclusão do trabalho aqui

apresentado.

“Nem todo pirata tem a perna de pau, o olho de vidro e a cara de mau Imperatriz Leopoldinense Samba Enredo do Carnaval 2003

“ porque tão importante quanto o equilíbrio econômico é o equilíbrio ecológico”. Propaganda Banco do Brasil

SUMÁRIO

Resumo

p

1. INTRODUÇÃO

9

1.1.

Objetivos

13

1.1.1. Objetivo Geral

13

1.1.2. Objetivos Específicos

13

2. REFERENCIAL TEÓRICO

14

2.1.

Comércio Legal e Meio Ambiente

14

2.1.1. Teoria das Vantagens Absolutas e Comparativas

14

2.1.2. Comércio Ambiental e Abertura Comercial

17

2.1.3. Investimento Direto Externo

22

2.1.4. A Premiação ISO 14.000

24

2.2.

Comércio Legal de Couros e Peles

25

2.2.1. O Setor Coureiro

25

2.2.2. Problemas das Empresas Exportadoras de Couro

28

2.3.

Comércio Ilegal e Meio Ambiente

31

2.3.1. O Tráfico do Meio Ambiente

31

2.3.2. A Evolução do Tráfico

35

2.3.3. Dificuldades no Combate ao Tráfico de Animais Silvestres

38

2.3.4. Biopirataria e Monopolização da Vida

38

2.4. O Comércio Ilegal de Couros e Peles

44

2.5. Direito de Propriedade Intelectual Versus CDB

48

.

3.

METODOLOGIA

57

3.1. Método

57

3.2. Coleta de Dados

57

3.3. Regressão Econométrica

60

3.3.1. Benefícios de Usar “Panel Data”

60

3.3.2. Limitações do “Panel Data”

61

4. RESULTADOS

63

4.1. Equações do Modelo

63

4.2. Hipóteses Adotadas

64

4.3. Análise dos Resultados

66

5. CONCLUSÕES

69

6. BIBLIOGRAFIAS

71

APÊNDICES

i

APÊNDICE A – Endereços da Internet

ii

APÊNDICE B – Lista de Siglas e Abreviaturas

iii

APÊNDICE C – Regressão Econométrica

vi

ANEXOS

vii

ANEXO A – Lista de Tabelas

viii

RESUMO

SILVEIRA, Marcelo Teixeira da, Comércio Legal e Ilegal do Meio Ambiente: o Tráfico de Couros e Peles. Universidade Católica de Brasília. Professor Orientador: Dr. Elvino de Carvalho Mendonça. Novembro de 2003.

A natureza é agredida todos os dias sem a mínima consciência da população de que

os recursos naturais são esgotáveis e de que a nossa sobrevivência no planeta depende deles, devendo ser protegidos por acordos internacionais rigorosos que impeçam a

exploração descontrolada, a biopirataria entre outros crimes que ferem a biodiversidade. Os investimentos podem ajudar no manejo correto da natureza, contudo, é preciso verificar se as indústrias ambientalmente sensíveis estão aproveitando esses recursos de maneira sustentável. Uma maneira legal de controlar essas indústrias é a implantação dos selos ambientais, como uma forma de premiar as boas indústrias quanto ao manejo do meio ambiente.

O tráfico da fauna silvestre vem tomando o lugar de antigas formas de comércio

ilegal como as drogas; entre as atividades ilegais mais lucrativas no Brasil, devido principalmente à falta de fiscalização, esse comércio movimenta uma quantia incalculável na economia do país, sem deixar parcela alguma para os cofres públicos. O Tráfico de couros e peles é uma das formas mais rentosas, pois esses produtos podem se transformar em artigos de luxo como bolsas e sapatos. Por meio do “panel data”, foi comprovado econometricamente que o tráfico é mais intenso na região nordeste, contudo, é necessário sugerir propostas e identificar erros quanto ao combate do comércio ilegal nessa e em outras regiões geográficas. No entanto, promover a igualdade social é de vital importância para que as comunidades carentes não se aproveitem da falta de fiscalização para roubar a natureza em favor de colecionadores e laboratórios, a fim de, dessa forma, complementarem suas rendas familiares.

9

1. INTRODUÇÃO

O vínculo entre o comércio e o meio ambiente é uma questão que impregnará as

relações

entre

os

países

durante

o

século

XXI.

Os

elos

que

levam

a

uma

complementariedade positiva estão sendo construídos, as boas experiências e as pesquisas

frutuosas se multiplicam a cada dia. Não é apenas importante que o comércio e o meio

ambiente não se contradigam, mas é necessário também que eles sejam complementares na

pesquisa para um desenvolvimento sustentável.

De acordo com o pensamento econômico clássico, “As riquezas naturais são

inesgotáveis; e não podendo ser multiplicadas, nem esgotadas, não constituem objeto das

ciências econômicas”. 1 Contudo, é a partir de 1960 que se constata uma tomada de

consciência coletiva crescente sobre os problemas ambientais, incitando os agentes a

buscarem soluções. Desde o início da década de 90, houve um entendimento maior sobre a

biodiversidade, que possui um valor comercial nada desprezível. Hoje, estes agentes estão

de acordo que é preciso agir, e todos buscam determinar qual é a melhor forma de abordar

esses problemas.

Devido

à

crescente

depauperação

dos

biomas

brasileiros,

impossibilitar

o

prosseguimento da degradação da biodiversidade e tentar estruturar o Brasil e suas

vantagens ambientais comparativas e absolutas ao comércio mundial é uma forma

econômica viável de proteção ao meio ambiente. Favorecer a criação de mercados que

possibilitem a troca lícita de produtos ambientais, para viabilizar o desenvolvimento

sustentável e inibir a permutação ilegal, é o desafio propositivo desta pesquisa.

1 SAY, Jean Baptiste (1767 – 1832).

10

A compra e venda de produtos ambientais geram riqueza e crescimento econômico,

em contrapartida o meio ambiente o desacelera em termos sustentáveis. Os tratados de

liberação comerciais aumentam o intercâmbio entre especialistas dos setores de comércio e

meio ambiente, com diminuição dos custos de produção e combate a barreiras comerciais,

entretanto, os tratados de proteção ambientais restringem o tráfico e aumentam os preços

dos produtos devido aos custos ambientais.

Este

trabalho

emerge

de

questões

que

propõem verificar

o

desempenho

do

comércio legal e ilegal de ativos ambientais, verificar se o tráfico provoca aumento ou

diminuição

nos

preços

daqueles

produtos

cujo

valor

é

declarado,

observar

se

os

investimentos são favoráveis ou desfavoráveis às diversas indústrias relacionadas direta ou

indiretamente com o meio ambiente entre outras questões que serão discutidas mais

detalhadamente.

Também as diversas formas de comércio legal e ilegal demonstram como a teoria

das vantagens comparativas pode ser inserida no mercado de produtos ambientais e como a

arrecadação de investimentos estrangeiros pode ajudar a manter o meio ambiente saudável.

E, ainda, como as premiações podem ser de grande utilidade quando se fala em

desenvolvimento sustentável.

É preciso demonstrar o quanto é prejudicial à saúde do meio ambiente, bem como

as somas altíssimas que o país deixa de arrecadar sendo até mesmo roubado, quando o

assunto é tráfico da fauna e flora. É preciso entender que a história do tráfico de animais

silvestres não é apenas de desrespeito à lei, mas também de devastação e crueldade. E a sua

comercialização sempre foi uma atividade deletéria para a fauna, independente de ser legal

ou ilegal. Os animais sempre foram tratados de uma maneira desrespeitosa, vistos apenas

como simples mercadorias, utilizados como fonte de renda.

11

Nesse contexto, deve ser inserido a biopirataria, outra maneira de roubar a natureza,

onde o Brasil só tem a perder quando se monopoliza a vida em favor das grandes

multinacionais, não obstante, é de interesse relatar os principais acordos em que o Brasil é

signatário, acordos que nem sempre são benéficos ao país. Também serão abordadas as

conseqüências

sociais

relacionadas

ao

comércio

legal

e

ilegal

do

meio

ambiente,

mostrando que o bem-estar econômico relacionado à natureza combina com a justiça

social.

Em artigo veiculado em jornal, um economista e ex-deputado federal ataca a

fiscalização ambiental brasileira só porque esta prendeu um traficante de animais de

nacionalidade alemã. Segundo o deputado, esse “pobre coitado” só queria ajudar o Brasil a

se livrar dessas pragas que são as aranhas e outros animais venenosos. Nesse artigo,

observa-se que, quando se trata de crimes contra o meio ambiente, a ignorância não é

apenas uma característica de iletrados.

Neste trabalho, inicialmente são abordadas algumas questões teóricas relevantes

que surgem quando são consideradas as repercussões do comércio internacional sobre o

meio ambiente. Apresenta-se um modelo que mostra a inter-relação entre comércio e meio

ambiente, de forma que se possa responder à questão fundamental: O comércio ilegal de

couros e peles está relacionado com o comércio legal do mesmo? O tráfico de couros e

peles provoca aumento ou redução de preços para os mesmos produtos não traficados?

Será mostrado que a resposta a essas perguntas depende de vários fatores, não sendo

possível afirmações simplistas e genéricas a este respeito. Os resultados da econometria,

bem como a conclusão do trabalho, responde a essas e outras perguntas relacionadas ao

tráfico de couros e peles em todas as regiões do território brasileiro.

Existindo a possibilidade de identificar a necessidade de controle ambiental para

garantir a maximização do bem-estar, por que as políticas de crescimento econômico não

12

incorporam estes condicionantes desde a sua gênese? Ou melhor, por que o próprio sistema

econômico naturalmente não otimiza os usos dos recursos naturais?

Por

último,

procura-se

identificar

soluções

que

poderiam ser

engendradas

e

motivadas pelo governo e que pudessem reverter tendências ambientais restritivas à

melhoria

do

bem-estar

da

população

brasileira

desenvolvimento sustentável.

e

harmonizá-las

num

contexto

de

É neste contexto que a presente monografia busca compreender o relacionamento

entre comércio e meio ambiente, levando em consideração a existência de mercados

ilegais. Evitar a manifestação e a proliferação desta permuta ilegal sugere um movimento

cíclico de sustentabilidade econômica.

13

1.1. Objetivos

1.1.1. Objetivo Geral

Aprofundar o conhecimento vinculativo entre o comércio legal e ilegal do meio

ambiente e estudar o caso do tráfico de couros e peles à luz das ciências econômicas.

1.1.2. Objetivos Específicos

Trazer maior entendimento das conseqüências do tráfico de couros e peles sob os

ângulos:

social;

da possibilidade de obtenção de preços diferenciados;

da potencialização das vantagens comparativas e absolutas;

da atração de investimentos;

de redução dos custos;

da comercialização da fauna silvestre e

da impotencialidade dos órgãos competentes.

14

2. REFERENCIAL TEÓRICO

2.1. Comércio Legal e Meio Ambiente

2.1.1. Teoria das Vantagens Absolutas e Comparativas

A Riqueza das Nações, principal obra de Adam Smith, publicada em 1776, é

considerada como o primeiro trabalho a tratar com exclusividade de economia e a incluir

uma visão sistemática acerca do comércio entre os países. Suponha que cada país se

especialize 2 na produção daquele bem em cuja produção possua vantagem absoluta, ou

seja, que conseguisse produzir alguma mercadoria a um custo mais baixo do que outros

países e tirar proveito da especialização e das trocas. Ainda assim, essa teoria não

conseguiria explicar e justificar todas as possibilidades de comércio.

Sabe-se que existem países pobres, sem tecnologia e nem recursos para produzir

mercadorias a custos reduzidos em relação ao das grandes potências e é nesse contexto que

David Ricardo, em 1817, instituiu a economia como ciência, apresentando a teoria das

vantagens comparativas, que explica o comércio entre as nações, sem vantagem absoluta

na produção de nenhum bem. A fronteira de possibilidades de produção 3 nos indica as

quantidades máximas que um país pode produzir de cada bem, claro que essas quantidades

dependerão da disponibilidade de fatores de produção e dos coeficientes técnicos de

produção. Um importante pressuposto da teoria das vantagens comparativas é que os

coeficientes técnicos são constantes e, como temos apenas um fator de produção – o

2 Especialização significa alocar todas as unidades disponíveis do seu fator de produção relevante, o trabalho, na produção do bem em que esse fator é mais produtivo.

3 Mostra as quantidades máximas de bens que um país pode produzir a partir de sua dotação de fatores.

15

trabalho – as funções de produção têm retornos constantes de escala. A fronteira de

possibilidade de produção também é útil para ilustrar os ganhos com o comércio, que

podem ser representados como um deslocamento da fronteira de possibilidade de produção

de um país. Esse deslocamento representa a quantidade máxima que pode ser produzida do

bem em cuja produção o país tem vantagem comparativa e, conseqüentemente, especializa-

se. Os pontos da fronteira de possibilidade de produção de consumo são superiores, em

termos de bem-estar, aos da fronteira de possibilidade de produção porque representam

maior disponibilidade dos bens. É como se o comércio provocasse um aumento da

produtividade do trabalho (CARVALHO; SILVA, 2002).

As interações entre comércio e meio ambiente estão relacionadas a diversos efeitos

que são os da dinâmica comercial sobre o meio ambiente: efeitos diretos relacionados ao

transporte

se

apresentam

sob

diversas

formas

como

consumo

energético,

poluição

atmosférica

e

acidentes

ecológicos;

efeitos

indiretos

relacionados

às

vantagens

comparativas estáticas 4 ; dinâmicos como efeito escala, em razão do aumento dos “inputs”

demandados e dos “outputs” gerados, associado ao maior nível de produção e consumo;

efeito composição que depende da contribuição dos diferentes setores para o valor

adicionado total e efeito tecnológico referentes às mudanças da intensidade de poluição de

cada indústria.

A evolução dos problemas ambientais, numa economia em expansão, depende,

portanto, em que medida o efeito escala pode ser compensado pelo efeito tecnológico e se

o efeito composição tende a reforçar o efeito escala ou compensá-lo.

Segundo a visão tradicional, há um conflito entre ganhos ambientais e econômicos,

que deriva do conceito de externalidade negativa. 5 O agente microeconômico procura

4 Os efeitos ambientais, em curto prazo, de um aumento nos fluxos comerciais.

5 Também pode ser visto como os efeitos do comportamento de pessoas ou empresas no bem-estar de outras pessoas ou empresas são chamados de externalidades, positivas quando o comportamento de um indivíduo ou empresa beneficia involuntariamente os outros, e negativa em caso contrário (TOLMASQUIM, p. 325).

16

maximizar lucro com custo mínimo, cuja escolha não leva em conta os danos ambientais

correlatos, as regulações que o levam a internalizar as externalidades ambientais acarreta-

lhe acréscimo de custo. A abordagem revisionista, conhecida como a hipótese de Porter,

enfatiza os efeitos sinérgicos entre regulações ambientais e competitividade. Segundo esta

visão, não existe um conflito inevitável entre ganhos econômicos e ambientais. Ao

promoverem melhorias ambientais, as empresas podem economizar insumos, racionalizar

o processo produtivo, aproveitar resíduos, diferenciar o produto final e, com isso, ganhar

em competitividade (ALMEIDA, 2002).

O índice de Vantagem Comparativa Revelada (VCR) se calcula como VCRij =

(Xji/Xjt)/(Xit/Xtw) 6 , onde j = um produto ou indústria, i = país e w = o mundo. Esse índice

mede alterações na participação das exportações de um país em um produto j sobre as

exportações mundiais desse produto j, comparando com as alterações na participação das

exportações totais do país sobre as exportações totais mundiais. Se a VCR > 1, o país

possui vantagem comparativa no produto, ou seja, sua participação no mercado mundial é

superior a sua participação total nas exportações mundiais; se o índice da VCR < 1, o país

carece de vantagem comparativa nesse produto.

O Brasil registra a maior e crescente VCR em polpa, papel, ferro e aço. Entre 1990

e 1998, sua VCR em polpa e papel aumentou de 3,1 para 6,2 e em ferro de 20,4 para 23,5.

Em geral, a importância do Brasil no comércio internacional ampliou seu desempenho em

fins

da

década

de

90

no

grupo

das

indústrias

limpas. 7

O

sucesso

dos

níveis

de

competitividade no mercado mundial trouxe a VCR crescimento significativo, que passou

de 0,46 em 1990 para 0,53 em 1998. Tal aumento se deve, principalmente, à indústria

6 Conforme as Nações Unidas e Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), tendo como referência de mercado os países da Organização para Cooperação Econômica e Desenvolvimento (Organisation for Economic Cooperation and Development – OECD). 7 Segundo Wheeler e Mani (1997), utiliza-se um ranking de intensidade de contaminação do Banco Mundial para identificar as indústrias mais limpas. Trata-se principalmente das têxteis, maquinária elétrica e não elétrica e equipamentos de transporte.

17

automobilística, na qual, apesar de o consumo dos produtos desta indústria não serem

limpos, ela apresenta melhores tecnologias e reduções das emissões de poluentes por

unidade (SCHAPER; VÉRÈZ, 2001).

2.1.2. Comércio Ambiental e Abertura Comercial

O Brasil possui um padrão atípico no que se refere à importação de produtos

primários; a fortíssima dependência das importações de petróleo que, no meio da década de

70 chegou a representar dois terços do total das importações, torna bastante alto o índice de

importação de produtos primários no final da década de 70. O esforço de prospecção

interna e a adoção de programas de fontes alternativas de energia acabaram resultando na

redução substancial da participação de produtos primários na pauta de importação (mas

que, de toda forma, ainda é mais alta que a das exportações).

O comportamento das exportações de produtos primários segue uma tendência

similar ao das importações, com uma redução acentuada no final da década de 70, mas que,

depois, atenua-se até atingir praticamente uma estabilidade no final da década de 90. A

expansão das atividades industriais, principalmente após a conclusão dos investimentos do

II Plano Nacional de Desenvolvimento (II PND) 8 na década de 80, diversificando as pautas

de exportação e importação, certamente foi um dos elementos que mais contribuiu para

esse desempenho.

8 Em fins de 1974, como uma alternativa à dicotomia de ajustamento ou financiamento, lançou-se o II PND, colocando-o como uma estratégia de financiamento, mas promovendo-se um ajuste na sua estrutura de oferta em longo prazo, simultaneamente à manutenção do crescimento econômico, sua meta era manter o crescimento econômico em torno de 10% a.a., com crescimento industrial em torno de 12% a.a. Essas metas não conseguiram ser cumpridas, porém, manteve-se elevado o crescimento econômico, apesar de em níveis mais baixos do que os anos anteriores. O plano significou uma alteração completa nas prioridades da industrialização brasileira do período anterior conhecido como milagre econômico (GREMAUD; VASCONCELLOS, 2002).

18

Os resultados referentes ao índice de toxicidade são os que mais claramente

mostram uma tendência persistente de redução da toxicidade de importações, que vão se

tornando cada vez mais “limpas”, em contraste com o aumento considerável no potencial

contaminante das exportações, ambientalmente cada vez mais complicadas. Essa tendência

está claramente associada à conclusão da etapa “pesada” da industrialização, quando a

indústria de insumos básicos (metalúrgica, química e petroquímica, papel e celulose) se

estabelece no país, que passa de importador a exportador líquido desses produtos de alto

potencial contaminante.

Deve-se ter claro que esse exercício considera apenas o potencial de contaminação

da

produção

do

bem

exportado

final,

ignorando

a

poluição

causada

nas

etapas

intermediárias (produção de insumos). Como grande parte do esforço de industrialização

foi exatamente no sentido de completar as cadeias produtivas “para trás”, na fabricação de

bens intermediários, o índice de toxicidade potencial das exportações deve ser bem maior

quando considerada toda a cadeia produtiva. De qualquer forma, é evidente que a indústria

brasileira

adotou

um

comportamento

de

especialização

crescente

na

exportação

de

produtos com maior potencial contaminante e, portanto, correm maiores riscos, caso

medidas de restrição de comércio de cunho ambiental sejam adotadas.

Contudo, buscou-se mostrar que a relação entre comércio e meio ambiente é

extremamente relevante para o Brasil, visto que a sua inserção tem se caracterizado cada

vez mais ao retorno do padrão primário-exportador, e que o potencial contaminante de suas

exportações tem crescido em relação ao dos produtos comercializados pelos países

desenvolvidos.

O caso do Brasil apresenta problemas sérios, apesar de ter ocorrido uma forte

redução na dependência de produtos primários. É preocupante a forte tendência de

19

especialização na exportação de produtos industriais de maior potencial contaminante

(ALMEIDA, 2002).

Conforme sugere dados da CEPAL, durante a década de 90, o volume exportado de

produtos com reconhecido impacto ambiental, tais como os produtos intensivos em

recursos naturais e os produtos provenientes de Indústrias Ambientalmente Sensíveis

(IAS) 9 ou potencialmente intensivas em contaminação, tem registrado um aumento

significativo

não

no

Brasil,

mas

também

em

todo

Mercado

Comum

do

Sul

(MERCOSUL) e na Comunidade Andina (SCHAPER; VÉRÈZ, 2001, p. 15).

Com

a

regulamentação

abertura

comercial 10 ,

a

privatização

da

economia

constituem

o

fim

das

de

empresas

estatais

um

ciclo

de

e

a

re-

políticas

desenvolvimentistas, iniciadas no governo Vargas (1930 – 1945) com o Processo de

Substituição de Importações (PSI).

Segundo a teoria evolucionista, a firma aparece como agente central do processo de

desenvolvimento tecnológico, seja mediante a absorção de conhecimentos produzidos

externamente e/ou por meio do desenvolvimento interno. Neste sentido, o ambiente

econômico e institucional em que a firma opera é determinante na forma como esta se

articulará com os sistemas nacionais de Ciência & Tecnologia (C&T).

O sistema nacional de C&T no Brasil foi desenvolvido a partir de instituições de

pesquisas criadas ao longo dos últimos quarenta anos. A criação do Ministério da Ciência e

Tecnologia

nos

anos

1980

visou

articular

estas

instituições

e

criar

mecanismos

permanentes de fomento à pesquisa e formação de recursos humanos de alto nível.

9 São aquelas que proporcionam os mais altos gastos com redução e controle de contaminação. 10 Em março de 1990, o programa de abertura foi consideravelmente aprofundado e acelerado. Naquele ano, foi instituído o mercado flutuante de taxas de câmbio e anunciada a eliminação dos controles não-tarifários às importações. No início do segundo semestre do mesmo ano, o desmantelamento dos controles administrativos às importações já havia sido completado (MARINHO; PIRES, 2002, p. 43).

20

Os investimentos em C&T no Brasil evoluíram 68% no período compreendido

entre 1990 e 1997, atingindo cerca de US$ 10 bilhões. Evidenciando, conseqüentemente,

uma tendência de aumento da aplicação de C&T às atividades produtivas.

No governo Itamar Franco, foi reintroduzida a concessão de benefícios fiscais para

a capacitação tecnológica de empresas industriais e agropecuárias que investissem em

atividades de Pesquisa & Desenvolvimento (P&D). No entanto, tais incentivos foram

praticamente anulados em 1997 e foi alterada a política de propriedade industrial,

principalmente nas áreas de software e farmacêutica.

As

alterações

mais

importantes

nas

políticas

tecnológicas,

pós-liberalização

comercial, ocorreram nas áreas da regulação dos contratos de transferência de tecnologia.

Houve uma profunda desregulamentação, reduzindo o prazo de averbação dos contratos

pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). Este, por sua vez, deixou de

elaborar qualquer tipo de análise de “similaridade” em relação a produtos de fabricação

nacional, que constituía o principal instrumento de apoio à tecnologia nacional. Essas

alterações provocaram um aumento no número de contratos de transferência tecnológica,

provocando o crescimento das remessas de divisas entre as subsidiárias no Brasil e as suas

matrizes no exterior.

Um importante contraste entre a tendência dos Países Desenvolvidos (PDs) e o caso

brasileiro se refere ao engajamento do setor empresarial nos esforços de P&D, enquanto no

Brasil a participação atinge 30%, nos PDs ela chega a alcançar, no Japão, por exemplo,

70%.

No Brasil, o sistema de patentes como indicador das atividades inovadoras suscita

uma série de problemas, entre eles, por exemplo, o sistema não diferencia entre inovações

radicais e incrementais, atribuindo a ambas o mesmo valor econômico. É importante

21

ressaltar que, mesmo considerando que existe uma relação entre os gastos de P&D e o

patenteamento das firmas, percebe-se muitas vezes a ausência de tal relação.

No Brasil, o setor produtivo consumiu em 1990 apenas 22,6% dos recursos, mas

patenteou 63,87% do total, no entanto, os gastos em C&T do setor não produtivo não tem

como finalidade a apropriação dos conhecimentos gerados por meio de patentes, mas sim

produzir conhecimentos científicos de domínio público.

A comparação entre patentes e gastos em C&T mostra que, embora as empresas

estatais tenham gasto mais do que o conjunto de empresas privadas, elas patentearam

menos, a explicação pode ser porque as inovações realizadas pelas estatais, possivelmente,

têm um conteúdo tecnológico maior; os gastos com P&D é pequeno quando comparado

com as empresas privadas e parte do patenteamento por empresas privadas é feito por

firmas estrangeiras, em muitos casos, essas patentes têm o objetivo de reservar o mercado

de determinados produtos ambientais ou processos contra a eventual exploração da

inovação por concorrentes locais.

Houve uma queda da média de patenteamento das empresas estrangeiras no

escritório norte-americano de patentes. Observa-se que há estratégias diferentes quanto ao

patenteamento pelas filiais brasileiras de transnacionais. Há corporações que registram a

patente em nome da matriz e não da filial, diminuindo a importância das patentes de

residentes no Brasil. 11

De acordo com o INPI, dentre as instituições de pesquisas que patentearam no

período compreendido entre 1990 e 1995, pode-se destacar o Instituto de Pesquisas

Tecnológicas de São Paulo (IPT-SP) com 24 patentes registradas e a Empresa Brasileira de

Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA) com 17, de um grupo seleto composto por seis firmas

11 Existe caso de patentes concedidas a não-residentes no Brasil, cuja equipe de inventores era constituída apenas por brasileiros (TIGRE; CASSIOLATO; SZAPIRO, 2000).

22

que conseguiram obter, pelo menos, um registro de patente (TIGRE; CASSIOLATO;

SZAPIRO, 2000).

Os efeitos ambientais da abertura comercial levantam a hipótese de que as

regulações ambientais menos rigorosas dos Países em Desenvolvimento (PEDs), vis-à-vis

a dos PDs, representam VCR para os PEDs nas indústrias com maior potencial de

poluição. Portanto, a liberalização comercial tende a provocar impactos ambientais

adversos, outra visão argumenta que, para as VCR, a decisão locacional do Investimento

Direto Externo (IDE) é mais importante do que o grau de rigor das regulações ambientais e

as indústrias devem se beneficiar ambientalmente desta vantagem.

Alega-se que as economias mais abertas têm maior acesso às novas tecnologias,

favorecendo a difusão de tecnologias ambientais mais rapidamente, mas também pode

induzir as empresas a adotarem estratégias de racionalização de custos, cortando gastos

com melhorias ambientais (ALMEIDA, 2002).

Os subsídios para P&D, oferecidos pelo governo e agências internacionais à

empresas, instituições e centro de pesquisas, são políticas que podem aprofundar essa

associação positiva entre investimento e meio ambiente (GITLI; MURILO, 2002).

2.1.3. Investimento Direto Externo

O cálculo do Índice de Especialização (IE) para medir a incidência das empresas

estrangeiras no setor das IAS é feito da seguinte maneira: IE = (Vendas das IAS

estrangeiras/Vendas totais estrangeiras)/(Vendas das IAS/Vendas totais estrangeiras) 12 , se

o índice é maior do que a unidade, considera-se que existe uma especialização de IDE no

setor e, desta maneira pode-se calcular os índices de especialização de indústrias distintas.

23

A amostra brasileira é bastante ampla, consiste em 307 empresas, das quais 196 são

internas e 111 são de capital estrangeiro. O setor mais importante é o setor petróleo/gás

com 18% das vendas totais realizadas pela amostra, estas incidem no total de US$

168,778.00, dos quais as empresas estrangeiras realizam 44%. As vendas no setor das IAS

representam 44%; a participação das empresas estrangeiras nesta é menor do que as vendas

totais, chegando a 29%. As vendas estrangeiras têm uma importante participação no setor

petroleiro, que supera 20% das vendas totais neste setor.

Calculando o IE, não surpreende que, no Brasil, não se pode observar uma

especialização das empresas estrangeiras; no grupo das IAS, o valor de 0,658 está

claramente

abaixo

da

unidade.

As

vendas

por

empresas

estrangeiras

estão

muito

diversificadas no Brasil, não há uma clara especialização destas nas IAS e a especialização

se observa tanto no setor ambientalmente sensível como nos setores tradicionais.

Aos efeitos ambientais do IDE, pode-se atribuir uma maior eficiência no uso dos

recursos, por exemplo, o provável uso de melhor tecnologia. Sem embargos, poderia ser

também que o IDE promova a exploração de recursos naturais a um ritmo mais acelerado.

Também existe a possibilidade de que as empresas estrangeiras tenham maior interesse em

cumprir com as normas ambientais, mas pode-se constatar que a pressão sobre as empresas

estrangeiras, para cumprir com as normas ambientais, nos países receptores é muito fraca

(SCHAPER; VÉRÈZ, 2001).

No caso brasileiro, demonstra-se que o consumo de capital natural no Brasil estaria,

no mínimo, acima de 2,5% do Produto Interno Bruto (PIB) e que os investimentos

necessários para a recomposição do seu nível de estoque não estão sendo realizados

(MOTTA, 1997, p. 8).

24

2.1.4. A Premiação ISO 14.000

A

premiação

ISO

14.000

foi

articulada

em

1992

pelas

Nações

Unidas,

na

Conferência

para

Meio

Ambiente

e

Desenvolvimento,

no

Rio

de

Janeiro,

com

o

comprometimento de responder ao complexo desafio do desenvolvimento sustentável. É

nesse contexto que surge, visando o meio ambiente à rotulagem ambiental, ou seja, parte

de um processo pelo qual a proteção aos recursos naturais se converte em um valor social.

Nos PDs, à medida que as empresas perceberam que as preocupações ambientais podiam

se converter em vantagens mercadológicas para alguns produtos, inúmeras declarações

surgiram no mercado. Em virtude da proliferação de rótulos e selos ambientais no mercado

e da necessidade de se estabelecerem padrões e regras para o seu uso adequado é que a

Organização

Internacional

de

Normalização

(International

Organization

for

Standardization – ISO) desenvolveu normas para a rotulagem ambiental.

Os programas de rotulagem ambiental consistem, portanto, em uma moderna

ferramenta de mercado, necessariamente voluntária, utilizada para se alcançar diversos

objetivos

ambientais

e

tecnológicos.

Em alguns mercados com maior sensibilidade

ambiental dos consumidores, os selos ecológicos estão se tornando um importante fator de

competitividade, adicionando valor agregado aos produtos. O Sistema de Eco-Gestão e

Auditoria (Eco-Management and Audit Scheme – EMAS) da União Européia foi adotado

pelo Conselho da União Européia, em junho de 1993, e aberto à participação das indústrias

desde abril de 1995. Trata-se de um sistema aberto a todos os Estados-Membros da União

Européia e da Associação Ambiental Européia (EEA), mas é crescente o número de outros

países que se candidatam para a implementação do EMAS com a finalidade de se

prepararem para o acesso ao mercado europeu (ALMEIDA, 2002).

25

Quanto aos selos e rótulos, o importante é saber avaliar a empresa anualmente, para

que haja um processo de contínuo aperfeiçoamento. Desde 1980, a premiação é uma boa

promoção para muitas empresas, entretanto, deve-se avaliar se esta atual onda de prêmios e

certificações não está apenas promovendo as empresas patrocinadoras em detrimento das

ganhadoras, e se a rotulagem ambiental realmente beneficia ou prejudica a relação entre

comércio e meio ambiente (MOURA, 2003).

Neste contexto, o número de empresas com certificação ISO 14.000 no Brasil

aumentou de 2 em 1995 para 165 em 1999 (SCHAPER; VÉRÈZ, 2001, p. 22).

2.2. Comércio Legal de Couros e Peles

2.2.1. O Setor Coureiro

O setor de couros, englobando todas as suas ramificações e atividades afins,

constitui um expressivo segmento social e econômico no Brasil. Além de sua presença no

atendimento do mercado interno, é no mercado externo que o setor de couros e peles vem

demonstrando sua força, a ponto de ocupar posição destacada na pauta de manufaturados

do País.

O couro é o único material conhecido que absorve até 75% de umidade e mantém o

tato seco. Por isso, é considerado o melhor material para estar em contato com o corpo. Na

verdade, o material que o curtume trabalha é chamado de pele, esta, após o curtimento, é

que recebe o nome do produto final couro.

Curtir significa conservar. E, para conservar a pele do animal, seja ele réptil ou

mamífero, é necessário retirar alguns elementos que compõem esta pele. Isto é possível por

26

meio da utilização de substâncias orgânicas e/ou inorgânicas. Existem três grandes

processos de curtimento classificados de acordo com o agente curtente:

com gorduras;

com substância vegetal e

com sais de metal, processo que atinge 90% do mercado mundial.

O curtimento por meio da gordura é um processo mais artesanal e circunscrito ao

universo das comunidades dos esquimós, a fim de atender suas necessidades mais

peculiares. No caso do uso de substância vegetal (tanino), o couro se torna mais endurecido

e armado, o que permite apenas o lixamento como acabamento, por isso, é usado para

solas. No caso dos sais de metal, podendo ser cromo (o mais usado), zircônio ou ferro,

além de permitir um acabamento mais refinado, o couro adquire maior maleabilidade e

maciez para o uso.

No caso em tela, tanto no curtimento ao tanino quanto no uso dos sais de metal, os

dois processos consistem em retirar a epiderme ou queratina (pêlo e unhas) e a hipoderme

(glândulas de gordura), para deixar apenas a derme ou colágeno (fibras). Os espaços vagos

deixados pela epiderme e hipoderme são ocupados pelos agentes curtentes. Desta forma,

todas as operações dentro do curtume objetivam este fim.

Todos os produtos químicos envolvidos no processo produtivo e seus resíduos

(pêlos, carne e sangue) são despejados nos córregos das cidades, causando danos tanto

imediatos, quanto mau cheiro e outros prejuízos, em longo prazo, devido ao acúmulo

destes

efluentes

no

meio

ambiente,

o

que

inviabiliza

a

captação

de

água

para

o

abastecimento dessas cidades, bem como qualquer outro tipo de utilidade, seja paisagística

que para o lazer.

Nenhuma intervenção foi feita até agora, pois os córregos comprometidos pelos

curtumes deságuam na jusante dos mananciais dos rios que abastecem as cidades.

27

Malgrado isto, este já não está suprindo mais as demandas de alguns municípios, o que está

obrigando

o

poder

público

a

recorrer

à

aumentando, assim, o preço da água.

captação de água de rios mais distantes,

Neste sentido, a legislação atende somente a pontos elementares, ficando apenas na

aparência, sem sequer tocar a essência. No caso do tratamento dos resíduos e efluentes,

pode-se notar que a lei é seguida. Entretanto, a única preocupação do empresário da

indústria de curtimento de couro é garantir o funcionamento do processo produtivo,

esquivando-se de outras obrigações (CAMPOS, 2002).

Segundo Cezar Müller 13 , no ano de 2002, o Brasil exportou mais de 1 bilhão de

dólares em couros para uma centena de países, com um acréscimo de 9% com relação ao

ano anterior. Somente em couros bovinos, foram exportados mais de US$ 930 milhões no

ano. Apesar do enorme potencial, o couro brasileiro precisa avançar em qualidade para ser

vendido com valor mais alto no mercado internacional e gerar ganhos ao longo de toda a

cadeia produtiva. Agregar valor ao couro significa priorizar a qualidade, principalmente

nas etapas iniciais do processo.

A substituição do volume atual de exportações de “wet blue” 14 , por couros semi-

acabados, geraria um acréscimo de divisas para o país da ordem de aproximadamente US$

527

milhões/ano.

Se

a

opção

fosse

por

couros

acabados,

o

aumento

seria

de

aproximadamente US$ 749 milhões anuais. A substituição do volume atual de exportações

de “wet blue” por couros semi-acabados geraria um acréscimo imediato para o país de

aproximadamente 15 mil postos de trabalho. Se a opção fosse por couros acabados, o

aumento seria de 21 mil e 310 empregos, conforme tabelas 1 e 2 em anexo.

13 Ver revista Courobusiness junho de 2003. 14 O processamento da pele, quando atinge o primeiro estágio de curtimento, resulta no couro “wet blue”. Este tipo de couro deixa de atribuir valores quando a transformação em couro semi-acabado e acabado resultam em maior valor agregado à economia; a comercialização do “wet blue” se realiza a preços menores, quando comparado aos couros de melhor qualidade.

28

Apesar de ser pouco divulgado, ou ocupar a mídia com noticiários sobre guerras e

disputas, o Paquistão é um dos maiores exportadores de couro de cabra e carneiro do

mundo. Não obstante a grande distância entre Brasil e Paquistão, os dois países exportaram

quase o mesmo valor em couro no ano de 1999, mostrando que o Brasil tem muito a

aprender com aquele país, para garantir uma melhor vantagem comparativa no setor de

couros e peles. A participação do Paquistão no total de couro exportado no mundo é de 3%

(o quinto do ranking). A China lidera com 40%, seguida pela Índia com 10% e Turquia e

Itália com 8%.

O setor, incluindo outros tipos de couros e peles, contribui com 7% do total

exportado pelo país, e apresenta 5% do PIB. Como acontece no Brasil, o Paquistão possui

uma economia baseada na agricultura e tem uma enorme área de pastagem. Essa é uma

vantagem natural para o aumento na quantidade de cabeças disponíveis, como registrado

na última década. O rebanho de cabra aumentou de 36 milhões em 1990 para 45 milhões

no final da década.

2.2.2. Problemas das Empresas Exportadoras de Couro

A pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) apresenta informações

que ajudam a entender as diferenças e semelhanças entre o setor de couros e o conjunto da

indústria brasileira.

O setor de couros emerge como uma importante vitrine dos problemas que afligem

as empresas exportadoras. A tradição exportadora, a presença em vários estados da

federação e o porte variado das empresas permitem que o exame dos seus problemas sirva

como um guia para o entendimento dos obstáculos ao desenvolvimento da atividade

exportadora no Brasil. A análise das semelhanças dos problemas com o restante da

29

indústria e as nuances nas diferenças podem revelar um roteiro para a estratégia de atuação

do setor.

Em primeiro lugar, os entraves. A pesquisa para a indústria geral aponta que as

dificuldades do exportador não terminam quando a mercadoria entra no porto. Os custos

portuários e a burocracia alfandegária são considerados como os dois mais importantes

obstáculos à atividade exportadora. O setor de couros também identifica as mesmas

restrições dentre os seus três principais obstáculos para exportar. Mas o seu principal

problema é a dificuldade de ressarcimento de créditos tributários, diferenciando o setor de

couros, de forma significativa, dos demais setores da indústria. Em nenhum outro setor, a

magnitude do problema é tão expressiva. O setor que mais se aproxima é o de calçados,

seguido do de móveis.

A dimensão do ressarcimento dos créditos no setor de couros é reflexo do seu

próprio sucesso exportador, medido pela participação das exportações no faturamento, e da

conseqüente acumulação de créditos fiscais. Uma outra área em que os problemas do setor

de couro são mais graves que a média da indústria são as dificuldades de financiamento da

produção.

O segundo ponto é a ação do governo. Nesta pesquisa, a demanda por ações do

governo apresenta coerência com os obstáculos apresentados, mas surgem interessantes

diferenças entre o setor de couros e a indústria geral. As duas principais ações propostas

para a ação de governo identificadas na pesquisa, desoneração tributária e condições de

financiamento à produção são semelhantes entre os setores de couros e a indústria geral.

Mas a terceira prioridade do setor de couros, sistemas de garantias ao financiamento, é a

quinta da indústria geral. E a terceira prioridade da indústria geral, a eliminação de

barreiras externas, apresenta-se como uma prioridade menos importante para o setor de

couros.

30

Em seguida, aparecem as questões relativas ao financiamento. As dificuldades na

obtenção

de

financiamentos

para

as

exportações

são

uma

das

principais

restrições

enfrentadas pelas empresas brasileiras. No exame comparativo do setor couros com a

indústria geral, surge a seguinte evidência: o setor de couros é o setor da indústria

brasileira que mais conhece os mecanismos de financiamentos disponíveis.

O setor de couros é o que tem o maior número de empresas que utiliza o Programa

de Financiamento às Exportações (Proex) equalização (18% das empresas), mas é

expressivo

o

registro

que

47,1%

das

empresas

conhecem

o

mecanismo,

mas

não

conseguem utilizá-lo. Um número equivalente de empresas utiliza o Proex financiamento.

O quarto ponto é tributação. O sistema tributário brasileiro é complexo e prejudicial

à competitividade. Para as empresas do setor de couros, os tributos que mais afetam a

competitividade são a Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) e

o Programa de Integração Social/Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social

(PIS/COFINS), seguidos pelo Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços

(ICMS). Os problemas do setor com o ICMS são mais expressivos do que a média da

indústria. As empresas do setor assinalam que o maior grau de dificuldade dos mecanismos

de desoneração de tributos está localizado, por ordem de importância, no PIS/COFINS,

ICMS e Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI).

No PIS/COFINS, a principal dificuldade do setor de couros é a demora de

ressarcimento em espécie (assinalado por 72,2% das empresas contra 33,3% da indústria

geral) e o não recebimento do crédito em espécie (44,4% das empresas contra 19,6% da

indústria geral). No ICMS, as principais questões são o não recebimento do crédito em

espécie e a transferência de crédito para terceiros. No primeiro caso, é um problema que se

apresenta de maior magnitude do que para o restante da indústria. O conjunto de problemas

tributários enfrentados pelas empresas do setor de couros tem, naturalmente, um efeito

31

sobre a decisão de exportar das empresas. 72% das empresas do setor couros assinalam que

o crédito fiscal acumulado tem um efeito negativo sobre a sua decisão de exportar. A

média para a indústria é de 34,6%.

Por fim, a comparação dos resultados do setor couros com o resto da indústria, feito

com base na pesquisa da CNI, revela que o desempenho do setor exportador é afetado

pelos

entraves

operacionais

encontrados

no

processo

de

exportação

(sobretudo

procedimentos alfandegários e custos portuários), no financiamento e pelas disfunções do

sistema tributário. Um exame mais detalhado revela várias características do setor de

couros. Uma curiosidade é que o setor é aquele que mais conhece os mecanismos fiscais e

de financiamento que estão disponíveis ou afetam a empresa exportadora. A intensidade e

característica dos seus problemas estão, em parte, associados ao seu próprio sucesso

exportador. Um exemplo é a dimensão dos créditos fiscais acumulados. Por essa pesquisa,

uma eventual solução da desoneração fiscal dos tributos cumulativos teria um impacto

sobre a decisão de exportar do setor couros maior do que na indústria geral. Este é um bom

motivo

para

a

ativa

mobilização

do

(FERNANDES, 2003).

setor

nas

2.3. Comércio Ilegal e Meio Ambiente

2.3.1. O Tráfico do Meio Ambiente

discussões

da

reforma

tributária

Para a Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres (RENCTAS),

na pessoa de seu coordenador, Dener Giovanini 15 , o Brasil, desde o seu descobrimento,

15 Ver comissão parlamentar de inquérito destinada a “investigar o tráfico ilegal de animais e plantas silvestres da fauna e da flora brasileiras”.

32

despertou a cobiça mundial por sua fauna e flora, e o processo de desenvolvimento cultural

da população brasileira foi singular, possibilitando o encontro entre os conquistadores e os

que mantinham uma estreita relação com a natureza e o meio ambiente. Ainda hoje,

observamos nos grandes centros urbanos, ou nos mais distantes rincões do nosso território,

a presença de vários animais silvestres convivendo com o ser humano, numa relação de

domínio e admiração, o olhar estrangeiro de cobiça se perpetua até hoje; os indivíduos

ricos ou pobres, de alguma maneira, contribuíram para que os recursos faunísticos do

Brasil se encontrassem gravemente ameaçados pelo comércio ilegal.

A fauna silvestre sempre foi um importante elemento cultural das diversas tribos

indígenas brasileiras e era realizada com critérios, sem ameaçar a sobrevivência das

espécies. Por exemplo, não abatiam fêmeas grávidas ou animais em idade reprodutiva.

Entretanto, esses índios mudaram após o contato com os colonizadores e exploradores

europeus. Começaram a explorar os recursos naturais mais seletivamente e intensamente e,

em muitos casos, eram usados como agentes depredadores desses recursos. Começa aí a

história da exploração comercial da fauna silvestre brasileira que, pela sua diversidade,

gerava a idéia de ser abundante e inesgotável.

O comércio ilegal envolve muitas e variadas atividades fraudulentas, que mudam de

ano para ano. Assim que um tipo de fraude é detectado, outro já está emergindo. Todavia,

há quatro principais categorias:

o contrabando de animais e produtos não declarados por meio das fronteiras é,

freqüentemente, considerado mais um problema alfandegário do que de polícia;

o uso de documentos legais para encobrir produtos ilegais onde os traficantes,

freqüentemente, usam esse método para detectar apenas quando os produtos entram

no país importador;

33

o uso de documentos falsos que tem se desenvolvido consideravelmente nos anos

recentes, provavelmente por causa do aumento de controle e

outras atividades fraudulentas, pois é impossível listar todos os tipos conhecidos

dessas atividades, e a lista das que ainda não são conhecidas é, provavelmente,

grande.

O comércio de animais silvestres, como jacarés e sucuris, oriundos da região

amazônica, já era realizado pelos Incas, no Peru, mas só atingiu proporções maiores depois

da chegada da exploração européia. Esse comércio se desenvolveu paralelamente com o

crescimento do interesse das pessoas por esses animais.

O tráfico de plantas e animais silvestres é o terceiro maior comércio ilegal do

mundo 16 , no entanto, surgiram dados preocupantes, como o envolvimento dos traficantes

de animais com os traficantes de drogas. Esse comércio movimenta cerca de US$ 10

bilhões ao ano, sendo o Brasil responsável por aproximadamente 10% desse mercado. Por

se tratar de uma atividade ilegal e por não existir uma agência centralizadora das ações

contra o tráfico no país, os dados reais sobre esse comércio ilícito são difíceis de ser

calculados, o tráfico de animais silvestres é uma atividade ilegal e, portanto, não conta com

registros exatos. Estima-se que o tráfico seja responsável pela retirada anual de 38 milhões

de espécimes da natureza.

Além de ter a sua biodiversidade ameaçada, o país perde, anualmente, com o

tráfico, uma quantia financeira incalculável e ainda uma gama irrecuperável de seus

recursos genéticos. Só o mercado mundial de hipertensivos movimenta, anualmente, cerca

de US$ 500 milhões, e o princípio ativo desses medicamentos é retirado de algumas

serpentes brasileiras, como a Jararaca. A cotação internacional dos venenos ofídicos é

16 Perdendo apenas para o tráfico de armas e drogas.

34

altíssima: um grama de veneno dessa espécie de cobra vale US$ 433.70 e o da Cascavel

US$ 301.40.

O mercado interno de animais comercializados ilegalmente movimenta muito

pouco, se comparado ao mercado externo. Os valores alcançados internamente dificilmente

ultrapassam a casa dos US$ 200.00 por animal, enquanto, no mercado internacional, esses

mesmos animais atingem facilmente valores na casa de dezenas de milhares de dólares.

O comércio ilegal da fauna silvestre se divide, claramente, em duas modalidades

básicas: o tráfico interno, que tem como característica a desorganização, sendo praticado

principalmente

por

caminhoneiros,

direcionados

para

colecionadores

e

zoológicos

particulares 17 , sem licença do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos

Naturais Renováveis (IBAMA); e o comércio internacional que, por ser sofisticado, inclui,

subornos e condescendência de funcionários do próprio governo, de empresas aéreas e até

de políticos, direcionados a “pet shops” 18 de outros países e para fins científicos

(biopirataria), sabe-se que, quanto mais raro for o animal, maior é o seu valor de mercado.

Animais para fins científicos – neste grupo, encontram-se as espécies que fornecem

a química base para a pesquisa e produção de medicamentos. É um grupo que, devido à

intensa incursão de pesquisadores ilegais no território brasileiro, em busca de novas

espécies, aumenta a cada dia. 19

Animais para “pet shops” – a modalidade que mais incentiva o tráfico de animais

silvestres no Brasil. Devido à grande procura, a maioria das espécies da fauna brasileira

está incluída nessa categoria, os preços praticados dependem da espécie e da quantidade

demandada, de acordo com tabelas 5 e 6. 20

17 Ver tabela 3 em anexo.

18 São lojas especializadas em comercializar animais.

19 Ver tabela 4 em anexo.

20 Quando o assunto é tráfico ou (bio) pirataria, a busca por um preço justo deixa de ser a manifestação, no plano do comércio, de um valor antropológico e ético central na cultura da sociedade contemporânea.

35

2.3.2. A Evolução do Tráfico

O

combate

ao

tráfico

de

animais

silvestres

passa,

necessariamente,

pela

conscientização

da

nossa

sociedade,

pela

disponibilidade

de

informações,

e

pela

organização dos órgãos de controle ambiental. Os traficantes se especializaram, contam

com estruturas eficientes e com apoio de outras atividades ilegais.

Após a perda do habitat, a caça para subsistência e comércio é a segunda maior

ameaça à fauna silvestre brasileira. O Brasil participa com cerca de 5% a 15% do total

mundial do comércio ilegal de vida silvestre, o qual inclui a fauna e seus produtos.

Apesar de todos os problemas, legislações e restrições, o comércio ilegal de fauna

silvestre, suas partes e produtos vêm aumentando, possuindo variadas e novas técnicas de

contrabando, porque o lucro obtido é gigantesco. Os principais motivos pelos quais essa

atividade cresce no Brasil e no mundo são:

o tráfico de drogas está cada vez mais arriscado e difícil devido aos recursos

empregados para combatê-lo. O tráfico de fauna silvestre possui menos risco e

quase igual lucro para o traficante, além de menor investimento em seu combate.

Os

traficantes de animais são, freqüentemente, conhecidos pela polícia, por seu

envolvimento nas atividades de armas, drogas, pedras preciosas e álcool;

uma parte das polícias, alfândegas e autoridades judiciais ainda, freqüentemente,

consideram que o comercio ilegal de fauna silvestre não é um crime sério. O

recurso destinado para combater esse comércio é muito pequeno e, quando os

violadores são pegos, não são punidos severamente e

nos últimos cinqüenta anos, o comércio internacional (em que se inclui a fauna)

cresceu catorze vezes. Esse crescimento acarretou aumento no volume de cargas

36

nas alfândegas, o que implica menos possibilidades de fiscalizar toda a mercadoria

que é movimentada.

O comércio ilegal de animais silvestre também está associado a problemas

culturais, de educação, pobreza, falta de opções econômicas, pelo desejo de lucro fácil e

rápido, pelo status e a satisfação pessoal de manter animais silvestres como de estimação.

Estima-se, com base no comércio registrado dos Estados Unidos que, a cada ano, o

tráfico de vida silvestre movimente em todo o mundo os seguintes números:

primatas: 25.000 – 40.000 animais vivos;

répteis: 3 milhões de tartarugas criadas em cativeiro;

2 – 3 milhões de outros répteis vivos;

10

milhões de peles e

30

– 50 milhões de produtos manufaturados.

O tráfico de animais silvestres é responsável pela retirada de cerca de 38 milhões de

espécimes da natureza no Brasil por ano. Pode-se dizer que são comercializados, de forma

ilegal,

aproximadamente

4

milhões

de

animais

silvestres.

O

preço

dos

animais

comercializados possui diversas variações de acordo com: a demanda e a necessidade do

mercado consumidor, o status da espécie (quanto mais raro e ameaçado, mais caro), as

restrições legais ao comércio da espécie e as implicações sócio-econômicas da sociedade.

Com base nos dados dos animais apreendidos e seus respectivos preços, foi

estimado que a cada ano, o Brasil movimente em torno de R$ 2.500.000.000,00, o

equivalente a US$ 900,000,000.00, no câmbio (R$ 2,70 = US$ 1.00). Relacionando esses

dados, pode-se dizer que as apreensões abrangem, aproximadamente, apenas 0,45% dos

animais envolvidos no tráfico. O gráfico abaixo representa o número de animais silvestres

apreendidos no Brasil.

37

Gráfico 1 - Total de animais apreendidos no Brasil - 1992 a 2000 60.000 45.000
Gráfico 1 - Total de animais apreendidos no Brasil - 1992 a 2000
60.000
45.000
30.000
15.000
0
1992
1993
1995
1996
1997
1998
1999
2000
Fonte: RENCTAS
O
número
de
espécimes
apreendidos
por
ano
dependerá
da
intensidade
de

fiscalização e das apreensões realizadas em cada estado brasileiro, pelas instituições

responsáveis. Um outro fator que dificulta essa atividade é a falta de centros de triagem,

para onde possam ser encaminhados os animais apreendidos.

A

fauna

é

um

recurso

utilizado

no

turismo

ecológico,

que

movimenta

mundialmente cerca de US$ 12 bilhões a cada ano. De acordo com o Ministério do Meio

Ambiente do Brasil, só a região amazônica tem um potencial turístico que pode render

US$ 13 bilhões por ano. Em geral, quem lucra com o comércio ilegal são as grandes

empresas que utilizam produtos da fauna silvestre e os grandes traficantes. A população

vende esses animais e seus produtos a preços mínimos que, posteriormente, alcançam altos

valores nos mercados internacionais. A Traffic Sudamérica mostrou que, no Chaco

Argentino, um caçador vende um couro cru a US$ 2.00 a peça para um intermediário, este

a vende a US$ 4.00 para os curtumes que, por sua vez, vendem a peça por US$ 6.00. O

couro, depois de curtido, no mercado internacional, é vendido a US$ 10.00 e um sapato

fabricado com esse couro pode chegar a US$ 300.00.

38

2.3.3. Dificuldades no Combate ao Tráfico de Animais Silvestres

O gráfico abaixo demonstra as principais dificuldades e problemas do combate ao

tráfico de animais silvestres no Brasil. Todos os fatores se relacionam e estão diretamente

ligados a muitos outros; sendo assim, se o país sofre com problemas ecológicos,

diretamente resultará problemas econômicos.

Gráfico 2 - Principais dificuldades no combate ao tráfico de animais silvestres no Brasil

6% 1% 15% 12% 6% 8% 8% 10% 16% Falta de contingente Falta de veículos
6%
1%
15%
12%
6%
8%
8%
10%
16%
Falta de contingente
Falta de veículos

18%

Falta de treinamento adequado8% 10% 16% Falta de contingente Falta de veículos 18% Falta de material de estudo Falta

Falta de material de estudoFalta de veículos 18% Falta de treinamento adequado Falta de integração com demais órgãos públicos

Falta de integração com demais órgãos públicos ambientaisFalta de treinamento adequado Falta de material de estudo Entraves na legislação Fonte: IBAMA Batalhões de

Entraves na legislação

Fonte: IBAMA Batalhões de Polícia Florestal

legislação Fonte: IBAMA Batalhões de Polícia Florestal Falta de equipamentos Falta de apoio por parte do

Falta de equipamentoslegislação Fonte: IBAMA Batalhões de Polícia Florestal Falta de apoio por parte do governo estadual Falta

Falta de apoio por parte do governo estadualBatalhões de Polícia Florestal Falta de equipamentos Falta de lugar para destinar animais apreendidos Outros O

Falta de lugar para destinar animais apreendidosde equipamentos Falta de apoio por parte do governo estadual Outros O atual quadro da degradação

estadual Falta de lugar para destinar animais apreendidos Outros O atual quadro da degradação ambiental que

Outros

O atual quadro da degradação ambiental que o país enfrenta é o resultado de anos

de

exploração

descontrolada

de

seus

recursos

naturais.

Essa

atividade

ilegal

vem

crescendo, especializando-se e se tornando-se um dos principais problemas ambientais e

econômicos a ser resolvido no Brasil e no mundo.

2.3.4. Biopirataria e Monopolização da Vida

A biopirataria é a coleta de material biológico para exploração industrial de seus

componentes genéticos, em desacordo com as normas vigentes e sem o consentimento

prévio das partes interessadas. Entretanto, o oposto pode ser avaliado como bioprospecção,

uma atividade que pode ser economicamente interessante ao país e que pode possibilitar a

39

busca por novas colônias a serem exploradas e, dessa forma, dar continuidade ao processo

de acumulação.

No plano do direito internacional, assinou-se na Eco 92 por 180 países membros o

reconhecimento da soberania dos países sobre a exploração de seus recursos genéticos e

garantiu às comunidades locais o direito de decidirem e se beneficiarem dessa exploração,

haja vista a biopirataria ser uma violação desta convenção (HATHAWAY, 2002), portanto,

resistir à biopirataria é resistir à colonização final da própria vida, é a luta pela conservação

da diversidade, tanto cultural quanto biológica (SHIVA, 1997).

No Brasil, apenas uma medida provisória regulamenta o acesso ao patrimônio

genético

(MP

2.186-16,

republicada

em

23/08/2001),

que

determina

qualquer

bioprospecção feita por estrangeiros no Brasil, precisa estar associada a um instituto de

pesquisa nacional. Contudo, a violação desta não é crime, portanto, a biopirataria traz

benefícios econômicos apenas para alguns empresários.

Em

1994,

o

Congresso

Nacional

ratificou

a

Convenção

sobre

Diversidade

Biológica (Convention on Biological Diversity – CDB) que assegura direitos ao país e às

comunidades indígenas, tradicionais sobre a exploração de seus recursos genéticos. Mas a

convenção precisa ser regulamentada por lei ordinária, contudo, permanece parado um

projeto de lei na Câmara dos Deputados que, se aprovado, incluiria o patrimônio genético

entre os bens da União. No entanto, o decreto nº 3.945, 28/09/2001, cria o Conselho de

Gestão do Patrimônio Genético, cujos membros são apenas todos os funcionários de

ministérios federais.

A medida provisória 2.186 assegura formalmente o direito das comunidades de

decidirem sobre o uso por cientistas ou empresas de seu conhecimento tradicional, de

maneira que o interessado no acesso precisa conseguir, com antecedência, a sua anuência.

Como o termo anuência é vago, os direitos de comunidades tradicionais e locais não

40

indígenas ficam subordinados à possibilidade de o Conselho de Gestão do Patrimônio

Genético invocar o subjetivo critério de relevante interesse público, para autorizar o acesso

a seus conhecimentos sem consentimento.

Grupos indígenas e comunidades isoladas são o principal foco de atenção de

pesquisadores interessados em males que possam ter características hereditárias, que

buscam a cura pela genética. Sem qualquer informação, as pessoas se deixam enganar,

acreditando que a intenção seja diagnosticar para, depois, curar possíveis doenças na

comunidade.

A falta de uma legislação que regulamente o artigo 231, que são reconhecidos aos

índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos

originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las,

proteger e fazer respeitar todos os seus bens e o 225 da Constituição, que também assegura

a todos o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do

povo

e

essencial

à

sadia

qualidade

de

vida, impondo-se ao Poder Executivo e à

coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações

(JÚNIOR, 1995). O mecanismo mais utilizado neste roubo é a patente, esta sim, com

legislação forte de proteção em nosso país.

De acordo com o INPI, é patenteável a invenção que atenda aos requisitos de

novidade, atividade inventiva e aplicação industrial, portanto, não é permitida patente

sobre plantas no Brasil, só sobre microorganismos transgênicos, segundo o artigo 18 da Lei

de Propriedade Industrial (lei nº 9.279, 14/05/1996). Mas esta “lei de patentes” só vale no

Brasil, e não pode controlar a freqüente concessão de patentes sobre recursos genéticos

extraídos do Brasil para serem explorados em outros países.

Também pode ser usada dentro do Brasil a chamada patente virtual, quando a

patente sobre um processo que usa um certo material biológico acaba dando os mesmos

41

direitos de patente sobre seu produto. Por outro lado, a lei brasileira pode reconhecer a

patente de uma empresa estrangeira sobre o uso de uma determinada substância vegetal

nacional, mesmo sem patentear a planta original como tal. São formas típicas de

biopirataria das riquezas genéticas alheias.

Ainda não há uma fórmula jurídica, mas uma forma de superar, ou ao menos

compensar essas patentes, seria a criação dos Direitos de Propriedade Intelectual Coletivos

(DPICs). A atual ministra do Meio Ambiente Marina Silva apresentou emendas ao projeto

de lei sobre patentes em 1995, propondo que a lei respeitasse os DPICs, não obstante,

foram rejeitados. Assim, apesar da nossa gigantesca biodiversidade 21 e do movimentado

mercado mundial de produtos farmacêuticos e biotecnológicos (entre 400 a 700 bilhões de

dólares por ano), não dispomos de uma legislação adequada que regulamente o acesso aos

recursos genéticos e assegure a justa repartição de benefícios econômicos ou tecnológicos

(HATHAWAY, 2002).

O estímulo à criatividade está nos Direitos de Propriedade Intelectual (DPI), regra à

monocultura do conhecimento que leva ao empobrecimento intelectual, sufocando outras

maneiras

de

saber,

favorecendo

as

corporações

transnacionais

em

detrimento

dos

camponeses, sendo a reivindicação dos seus direitos ao conhecimento transformada em

“pirataria” e “roubo”. Uma das restrições dos DPI é que eles são reconhecidos apenas

quando o conhecimento gera lucro, ao mesmo tempo em que exploram a criatividade,

acabam com sua fonte, os livres intercâmbios de idéias são decisivos para a produtividade

e os processos de inovações, contudo, as patentes se tornam mais importantes como

ferramenta de controle de mercado.

21 O Brasil se caracteriza por ser o país com maior diversidade biológica do mundo, com cerca de 55 mil espécies de plantas, perto de 22% do total aproximado de 250 mil existentes no planeta.

42

Os

monopólios 22

ligados

aos

DPI

impedem

o

desenvolvimento

de

práticas

ecologicamente seguras e socialmente justas. A imposição dos monopólios e dos produtos

geneticamente

modificados

encontra-se

no

cerne

do

sistema

de

“livre

comércio”.

Legalmente, a Rodada Uruguai do Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (General

Agreement on Tariffs and Trade – GATT) 23 , está forçando todos os países a terem DPI na

agricultura. Em termos econômicos, os produtos geneticamente modificados estão sendo

impostos e tendo por base o “livre comércio”.

Quando os direitos de propriedade para formas de vida são reivindicados, isto se faz

sob a alegação de que elas são novas, entretanto, no momento de os “proprietários”

assumirem a responsabilidade pelas conseqüências de liberar no meio ambiente Organismo

Geneticamente Modificado (OGM), as formas de vida deixam de ser novas, sendo a

questão da biossegurança tratada como improcedente (SHIVA, 1997). Por outro lado, a

polêmica em torno dos OGM não considera que a engenharia genética aplicada ao

melhoramento vegetal provoca mudanças no sistema de produção agrícola, gerando

alternativa criativa para o aumento da produção e produtividade de alimentos com

segurança ambiental e redução de custos de produção. A competitividade do agronegócio,

presente e futuro, estará, portanto, vinculada à capacidade de incorporar novas tecnologias

aos processos de produção (SALGAR, 2001, p. 72).

22 Forma de organização de mercado, nas economias capitalistas, em que uma empresa domina a oferta de determinado produto ou serviço que não tem substituto (SANDRONI, 2000, p. 409).

23 Entre 1986 e 1993, os países membros do GATT estiveram envolvidos com a Rodada Uruguai de negociações multilaterais, a maior e mais ousada Rodada de negociações, desde que foi assinado o GATT em 1947. Esta foi lançada em meio a um novo contexto internacional, que exigia a implementação de novas regras e disciplinas. Assim, entraram na pauta das negociações o setor agrícola, que era objeto de “waivers” resultantes de negociações em rodadas anteriores, e o setor têxtil, para o qual vigorava o Acordo Multifibras, totalmente contrário às disposições e ao espírito do GATT. Outros setores não diretamente relacionados ao comércio internacional, mas, com efeito, sobre ele, deveriam ser incluídos nas regras e disciplinas do GATT:

a propriedade intelectual, as medidas relacionadas aos investimentos, e o setor serviços. As negociações agrícolas na Rodada Uruguai se pautaram por duas tarefas básicas: discussão e definição das novas regras que passariam a reger o comércio agrícola internacional, identificação e classificação das políticas praticadas pelos países. Firmado em 1947, o Acordo passou por constantes revisões, por meio das chamadas rodadas de negociações, nas quais eram acertadas novas reduções tarifárias e se aprofundavam as discussões sobre assuntos relacionados a práticas de proteção comercial e ao uso de barreiras comerciais não-tarifárias. A Rodada Uruguai foi a última dessas rodadas, caracterizada como a maior e mais abrangente e a que incluiu os temas mais polêmicos.

43

A agricultura sustentável se baseia na reciclagem dos nutrientes do solo, a

manutenção da fertilidade do solo se baseia na lei do retorno, que reconhece a terra como

fonte de fertilidade. O paradigma da revolução verde substitui o ciclo regenerativo de

nutrientes, a fertilidade passa a ser uma propriedade de produtos químicos, constituindo

mercadorias agrícolas, a criação de doenças do solo e a desertificação indicaram uma

agricultura que produzia apenas visando o mercado, a monocultura transgênica reduz a

biodiversidade

ao

eliminar

culturas

variadas,

que

proporcionam

fontes

variadas

de

nutrientes, as tecnologias não podem fornecer um substituto para a natureza, nem os

mercados podem fornecer a única medida de produtividade.

O que era visto como improdutivo no contexto comercial da revolução verde está

emergindo como produtivo no contexto ecológico e como único caminho à agricultura

sustentável. Os fertilizantes químicos têm contribuído para a redução da segurança

alimentar por meio da poluição da terra, da água e da atmosfera.

“Pode-se registrar a proteção de algumas variedades de culturas, suas macropartes (flores, frutas, sementes e assim por diante), suas micropartes (células, genes, plasmídeos e semelhantes) e quaisquer processos originais que sejam desenvolvidos para trabalhar essas partes, tudo isso utilizando uma única concessão múltipla” (DIEPENBROCK, apud SHIVA, 1997, p. 80).

A revolução biotecnológica rouba das sementes sua fertilidade, esta apresenta ao

capital um empecilho biológico simples: dadas às condições elas se reproduzem. As novas

biotecnologias transformam em matéria-prima o que é meio de produção e produto, e a

proteção de patentes transforma lavradores em fornecedores de matéria-prima grátis,

desabilita-os como competidores e os torna dependentes de suprimentos industriais.

As principais causas da deterioração da biodiversidade são a destruição dos habitats

e a pressão econômica e tecnológica para substituir diversidade por homogeneidade, que

início

a

uma

reação

em

cadeia

ligando-se

ecologicamente

nas

teias

e

cadeias

alimentares. Sua conservação consiste em ampliar o alcance da ação de economias

baseadas na diversidade, eliminando incentivos concedidos a sua destruição: se sua

44

estrutura guiar o pensamento econômico em vez do contrário, a alta produtividade de

sistemas homogêneos e uniformes é uma medida artificial, dessa forma, reduz-se o alcance

das economias baseadas nas monoculturas e na não sustentabilidade (SHIVA, 1997).

2.4. O Comércio Ilegal de Couros e Peles

A maior figura no comércio de animais selvagens é a pele de répteis, tanto em

termo de quantidade como em valor monetário. As peles de crocodilos, cobras e lagartos

são utilizadas para uma variedade de artigos: sapatos, bolsas, roupas, malas, pulseiras de

relógio, cintos e outros. O couro dos répteis é considerado fino e seus produtos alcançam

alto valor no mercado, sendo por isso uma atividade muito lucrativa. Centros de couro

exótico importam, anualmente, milhões de peles de cobras e lagartos e nenhuma das

espécies, por eles utilizadas, é criada em cativeiro em números comerciais.

Nos

últimos

dez

anos,

a

demanda

de

répteis

para

“pet

shops”,

pesquisas

educacionais

e

científicas,

zoológicos

e

aquários

e,

para

alimentação,

cresceu

drasticamente em todo o mundo. Entre 1983 e 1992, o mercado americano de répteis

aumentou de 28% para 82% do total do mercado mundial. Em 1995, mais de 2,5 milhões

de répteis vivos foram importados pelos Estados Unidos, como a iguana, Iguana iguana,

correspondendo a mais de 45% desse total. Em 1996, o país reexportou 9,5 milhões de

répteis para Europa e Ásia.

A maioria dos lagartos teiús é destinada ao mercado internacional de couro exótico,

sendo a Argentina a principal fonte legal de abastecimento dessa espécie, e pequenos

volumes são exportados ilegalmente da Colômbia, Peru, Uruguai, Brasil e Panamá. Entre

os anos de 1957 a 1958, foram exportadas, legalmente do Brasil, 46 mil peles de teiú.

Somente de origem Argentina, mais de 1 milhão de peles, cerca de US$ 15 a 20 milhões,

45

abastece o mercado mundial a cada ano. Em 1985, mais de US$ 24 milhões em peles de

teiú e seus produtos foram importados pelos Estados Unidos, sendo a Argentina o principal

exportador.

As serpentes sempre tiveram suas peles comercializadas, sendo exportadas para a

fabricação de artigos de vestuário e acessórios, muito em moda na década de 70. A

demanda mundial por cobra é enorme e, a cada ano, ocorre o comércio internacional de

centenas de milhares de cobras vivas, milhões de peles e dezenas de milhões de sapatos,

cintos, e outros artigos de moda feitos com couro de cobras.

A pele de crocodilo vem sendo usada pela indústria da moda desde o final do

século XIX, quando a moda do couro exótico inundou a Europa. O pico do couro dos

crocodilianos se deu nas décadas de 50 e 60, com cerca de 5 a 10 milhões de peles desses

animais, por ano, entrando no mercado internacional.

Na América do Sul, a indústria de couro se voltou para o jacaré-de-papo-amarelo,

Caiman latirostres, e o jacaré-açu, Melanosuchus niger. Quando essas duas espécies

começaram a se tornar escassas para atender ao mercado de couro adequadamente, o

jacaré-do-pantanal, Caiman crocodilus, começou a ser caçado para suprir a demanda. De

1950 a 1965, 7,5 milhões de peles de jacarés (a maioria de jacaré-açu) foram exportadas do

Estado do Amazonas, o que teve um efeito devastador nas populações naturais. O número

anual de jacarés explorados na América do Sul, durante os anos 80, foi estimado em mais

de 1 milhão. Atualmente, estima-se que 1,5 a 2 milhões de peles de crocodilos abastece o

mercado mundial por ano, com ¾ desse total sendo de Caiman crocodilus, virtualmente

todos eles capturados na natureza. Segue abaixo o destino dos répteis apreendidos.

46

Gráfico 3 - Destino dos répteis apreendidos no Brasil - 1999 a 2000

5% 1% 3% 0% 1% 7%
5%
1%
3% 0%
1%
7%

83%

0%

Solturano Brasil - 1999 a 2000 5% 1% 3% 0% 1% 7% 83% 0% Criadouros Comerciais

Criadouros Comerciaisno Brasil - 1999 a 2000 5% 1% 3% 0% 1% 7% 83% 0% Soltura Centros

Centros de Triagem5% 1% 3% 0% 1% 7% 83% 0% Soltura Criadouros Comerciais Criadouros Científicos Zoológicos Morte Termo

Criadouros Científicos7% 83% 0% Soltura Criadouros Comerciais Centros de Triagem Zoológicos Morte Termo de Guarda Voluntário Institutos

ZoológicosComerciais Centros de Triagem Criadouros Científicos Morte Termo de Guarda Voluntário Institutos de Pesquisas

MorteCentros de Triagem Criadouros Científicos Zoológicos Termo de Guarda Voluntário Institutos de Pesquisas Fonte:

Termo de Guarda VoluntárioCentros de Triagem Criadouros Científicos Zoológicos Morte Institutos de Pesquisas Fonte: IBAMA Muitas espécies de

Institutos de PesquisasCientíficos Zoológicos Morte Termo de Guarda Voluntário Fonte: IBAMA Muitas espécies de mamíferos têm suas peles

Fonte: IBAMA

Muitas espécies de mamíferos têm suas peles e couros como objeto de comércio

para atender ao mercado de moda europeu. Nas décadas de 40, 50 e 60, a demanda de peles

proveniente de espécies tropicais foi tão grande que suas populações reduziram-se a níveis

alarmantes.

Os

carnívoros

também

têm

destaque

entre

os

mamíferos,

pois

são

os

produtores das peles mais apreciadas. Nas décadas de 50 e 60, a demanda de peles de

carnívoro foi tão acentuada, que várias espécies tiveram suas populações reduzidas a níveis

elevados.

A lontra, Lontra longicaudis, tem sua pele considerada luxuosa e tem sido caçada

excessivamente ao longo dos séculos. Entre os anos de 1980 a 1984, entrou no mercado

mundial, mais de 63 mil peles de lontra. Apesar de ter diminuído substancialmente nas

últimas décadas, a caça para o comércio ilegal ainda é um fator que ameaça a espécie, a

ariranha, Pteronura brasiliensis, também sofre grande pressão de caça por sua pele, que

tradicionalmente é a mais valiosa entre todas a lontras. A maior demanda dessas peles é

para atender ao mercado de moda europeu.

Os felinos têm sido caçados por suas peles e outras partes. De 1968 a 1970, foi

estimado 1,4 milhão de peles de pequenos felinos no mercado mundial, uma média

aproximada de meio milhão de peles por ano. O comércio de pequenos felinos tem sido

marcado por excessiva caça ilegal e contrabando, especialmente as espécies latino-

47

americanas. As onças tiveram grande demanda comercial no meio da década de 60, quando

caçadores e traficantes tiravam mais de 15 mil peles da Amazônia brasileira a cada ano. No

final dessa década, era possível comprar um casaco de pele de onça em Nova York por

US$ 20,000.00.

Gráfico 4 - Destino dos mamíferos apreendidos no Brasil - 1999 a 2000

18% 7%
18%
7%

1%

24%

0%

1%

SolturaMorte

MorteSoltura

Brasil - 1999 a 2000 18% 7% 1% 24% 0% 1 % Soltura Morte Zoológicos Termo

Zoológicos

Termo de Guarda Voluntárioa 2000 18% 7% 1% 24% 0% 1 % Soltura Morte Zoológicos Criadouros Científicos Centros de

Criadouros Científicos% Soltura Morte Zoológicos Termo de Guarda Voluntário Centros de Triagem Criadouros Comerciais Fonte: IBAMA 49%

Centros de TriagemTermo de Guarda Voluntário Criadouros Científicos Criadouros Comerciais Fonte: IBAMA 49% Os gráficos 3 e 4

Criadouros ComerciaisVoluntário Criadouros Científicos Centros de Triagem Fonte: IBAMA 49% Os gráficos 3 e 4 demonstram quais

Fonte: IBAMA

Centros de Triagem Criadouros Comerciais Fonte: IBAMA 49% Os gráficos 3 e 4 demonstram quais são

49%

Os gráficos 3 e 4 demonstram quais são os principais destino dos animais silvestre

apreendidos no Brasil. A maior parte é solta. Na maioria das vezes, o que ocorre é a soltura

sem critério científico algum, apenas liberando os animais no próprio local de apreensão.

Os animais oriundos do tráfico também são encaminhados a outras instituições, tais como:

zoológicos, instituições de pesquisa, criadouro científico, criadouro conservacionista,

criadouro comercial, ou termo de guarda voluntário gratuito (ex-fiel depositário). Todos

esses destinos são paliativos e controversos, pois algumas dessas instituições podem

participar ativamente do comércio ilegal. O termo de guarda voluntário gratuito também é

controverso, podendo ser considerado um estímulo ao tráfico, pois o infrator passa a

possuir os animais legalmente.

48

2.5. Direito de Propriedade Intelectual Versus CDB

O acordo sobre Direitos de Propriedade Intelectual Relacionado ao Comércio

(Trade Related Aspects of Intelectual Property Rights – TRIPs) 24 estabelece o padrão de

proteção aos direitos de inovação – na forma de direito autorais, patentes ou de outros

instrumentos para todos os países membros da Organização Mundial do Comércio (OMC).

Os pontos de interface desse acordo com as questões ambientais se encontram nas

prescrições do TRIPs que versam sobre a transferência de tecnologia e a proteção da

biodiversidade. Ambos constituem preocupações centrais dos PEDs, sobre as quais, em

geral, há divergência de posições entre estes países e os PDs.

A transferência de tecnologia, na teoria econômica dominante, oferece suporte para

a argumentação de que há uma forte correlação entre as garantias dos DPI e a taxa de

geração e difusão das inovações tecnológicas. Precisamente, são os autores das Novas

Teorias do Crescimento que argumentam em favor dessa tese, entre eles, destaca-se Romer

(1986). Esta tese está por detrás das posições defendidas pelos PEDs em favor do TRIPs,

que ressaltam as vantagens desse acordo para geração e transferência de novas tecnologias.

Os ganhos para a sociedade de uma inovação, geralmente, excedem os ganhos

individuais do inovador, isto é, a inovação gera externalidades positivas ou efeitos de

trasbordamento. Os custos de desenvolvimento de uma inovação geralmente excedem os

custos da sua reprodução, onerando o inovador original e beneficiando o autor da cópia, de

modo que, quanto maior o incentivo à inovação, na forma de garantias dos direitos

individuais de propriedade intelectual, maior o potencial de geração de inovações, com

ganhos para o inovador individual e para a sociedade como um todo.

24 Segundo o INPI, o que determina a propriedade de uma pessoa sobre o que tenha sido criado ou inventado, constituindo o instrumento correto para proteger um produto ou um processo com possibilidades de industrialização.

49

Os DPI assegurados também favorecem a difusão de novas tecnologias, uma vez

que a sua transferência, por meio de IDE, licenciamentos e consultorias, tende a ocorrer

mais facilmente quando o país hospedeiro oferece garantias aos inovadores de que as suas

inovações não serão livremente reproduzidas.

Os PEDs, por sua vez, avaliam criticamente o TRIPs e se preocupam com os efeitos

negativos potenciais desse acordo. Os DPI rigorosamente estabelecidos, por exemplo, um

período muito longo de vigência de patentes, pode onerar a sociedade com encarecimento

do produto em questão.

Por fim, podem prejudicar ou até mesmo eliminar a indústria doméstica de “pet

shops” formada com base na fabricação de produtos patenteados no exterior. Este risco se

eleva com o TRIPs, pois esse acordo toma por base uma legislação de patentes mais

restritiva,

que

exige

patentes

de

processos

produtivos

e

de

produtos,

colocando

constrangimentos notadamente a indústrias farmacêuticas desses países, que se valiam da

liberdade de produzir um mesmo produto por meio de processos produtivos distintos do

original, sem ferir a legislação de patentes doméstica que protegia somente o processo

produtivo.

No que diz respeito às tecnologias ambientais, as preocupações dos PEDs com

relação ao TRIPs se justificam, primeiro, pelo fato de que a capacitação endógena para a

geração, absorção e difusão dessas tecnologias constitui condição essencial para mover as

estruturas produtivas domésticas em direção a uma trajetória tecnológica compatível com a

construção do desenvolvimento sustentável. A preocupação dos PEDs com as implicações

do TRIPs para o acesso às tecnologias ambientais se justifica também pela interface desse

acordo com a proteção da biodiversidade.

50

As questões ambientais são explicitadas no TRIPs em meio às exceções previstas

por este acordo, precisamente. Assim, o artigo 27.2 permite aos países membros excluírem

do patenteamento:

“ aquelas invenções cuja prevenção da exploração comercial dentro do seu território, seja

necessária para proteger a ordem pública ou a moralidade, incluindo a proteção da vida ou saúde humana, animal ou vegetal, ou ainda para evitar sérios prejuízos ambientais, desde que a exclusão não seja realizada apenas porque a exploração comercial seja legalmente proibida”.

O artigo 27.3 (b) reza que os países membros podem excluir do patenteamento:

“ as plantas e os animais, excetos os microorganismos e procedimentos essencialmente biológicos

para produção de plantas e animais, que não sejam procedimentos não biológicos ou microbiológicos. No entanto, os membros devem assegurar a proteção a todas as variedades vegetais mediante patentes, mediante um sistema eficaz ‘sui generis’, ou mediante uma combinação de ambos. As provisões deste subparágrafo devem ser revisadas quatro anos após a entrada em vigor do acordo que estabelece a OMC”.

A ambigüidade apresentada por essas exceções do TRIPs, bem como as suas

evidentes interfaces com a CDB, explica o teor de conflito entre esses dois acordos, cujas

negociações conjuntas ainda não alcançaram um consenso. Destacam-se dois pontos

polêmicos principais:

a CDB assegura às partes o direito soberano sobre seus recursos genéticos e a

possibilidade de proibir o uso de DPI sobre organismos vivos. O TRIPs, em seu

artigo 27.3 (b), permite DPI sobre microorganismos, processos não biológicos e

microbiológicos, assim como patentes e/ou mecanismos “sui generis” de proteção

de

variedade de plantas e

a CDB assegura o direito das comunidades indígenas e outras comunidades locais,

principalmente nos PEDs, ao controle sobre a participação nos lucros obtidos por

intermédio

das

inovações

informais

e

dos

seus

conhecimentos

tradicionais

relacionados

à

biodiversidade.

Nesta

matéria,

um

número

expressivo

de

interpretações conflitantes referentes ao alcance do TRIPs que são, freqüentemente,

diferenciadas entre PDs e PEDs.

51

O acordo TRIPs exige que os países membros exerçam seus DPI sobre todas as

tecnologias, inclusive aquelas tais como variedade de plantas e microorganismo, embora os

seus artigos 27.2 e 27.3 (b) permitam aos países membros excluírem certos recursos

biológicos do patenteamento.

O TRIPs versa somente sobre inovação formal, resultante de esforços de P&D

realizados nos setores formais de pesquisa, notadamente intra-empresas privadas, logo, a

“inovação informal” e o conhecimento tradicional não estariam cobertos por esse acordo.

O TRIPs reconhece o DPI de um indivíduo ou empresa, mas não de uma comunidade ou

grupo humano. Por outro lado, esse acordo estabelece padrões mínimos e não-idênticos

para a garantia de DPI nos países membros da OMC, com isto, países individuais podem

adotar padrões mais altos do que os exigidos pelo TRIPs com a finalidade de torná-lo

compatível com os objetivos visados pela CDB.

Com a rapidez de avanço da biotecnologia, os PEDs estão preocupados com a perda

de domínio sobre os seus recursos genéticos decorrentes da substituição do uso de

variedades livres para as variedades protegidas sobre as quais há que se pagar pelo uso. Os

conhecimentos tradicionais, por sua vez, não são protegidos, mas existe um fluxo de

germoplasma de Norte

a

Sul pelo qual não

se paga. Em alguns casos, são feitos

descobrimentos posteriores que são protegidos nos países industrializados, restringindo o

comércio de tais cultivares provenientes de seus verdadeiros países de origem. Os PDs

consideram a diversidade biológica e o conhecimento tradicional como patrimônio comum

da humanidade, os pesticidas, medicamentos e “sementes” melhoradas são considerados

como propriedade privada.

A referência ao sistema “sui generis” no artigo 27.3 (b) do TRIPs, de fato, tem

suscitado muitas polêmicas entre PDs e PEDs, porque as propostas dos últimos para

implementação efetiva de sistemas peculiares não reconhecem os direitos emanados dos

52

conhecimentos tradicionais, o que eventualmente pode acarretar atos de biopirataria. Os

DPI se dividem em: direitos autorais e patentes 25 , os direitos “sui generis” são aqueles que

compreendem tanto características dos direitos de propriedade industrial como dos direitos

autorais, de modo que seria impreciso enquadrá-los dentro de qualquer dessas duas

classificações (ALMEIDA, 2002). 26

A afirmação dos DPICs cria uma oportunidade para definição de um sistema

peculiar de direitos centrados no lavrador para a proteção e aperfeiçoamento dos recursos

fitogenéticos. Esse sistema de proteção aos DPICs devem, necessariamente, basear-se na

biodemocracia em contrapartida aos acordos TRIPs que se baseiam no conceito de

bioimperialismo (SHIVA, 1997).

Destacam-se duas questões de interesse dos PEDs relacionadas ao acordo TRIPs:

capacitação

endógena

para

a

geração

e

a

difusão

de

tecnologias

ambientais

e

a

compatibilidade desse acordo com a CDB. Uma vez que o alcance de desenvolvimento

sustentável exige transformações produtivas e tecnológicas, segue-se que a capacidade dos

países em desenvolvimento para responder aos desafios ambientais depende, em grande

extensão, do seu acesso às tecnologias ambientalmente apropriadas, de modo a favorecer a

geração endógena dessas tecnologias.

O Princípio 9 da Declaração do Rio e a Agenda 21 colocam ênfase na necessidade

de promover condições de acesso e transferência dessas tecnologias. Um dos objetivos do

TRIPs (Artigo 7) é a promoção e difusão das tecnologias, com um equilíbrio adequado

entre os direitos e obrigações dos produtores e dos usuários das tecnologias. Os PEDs

clamam por maior atenção a esse artigo, que também deve ser lembrado quando se trata

das exigências tecnológicas previstas nos Acordos Ambientais Multilaterais (Multilateral

Environmental Agreements – MEAs).

25 Um conceito mais amplo do que este é conhecido como direitos de propriedade industrial.

26 Conhecimentos tradicionais são aqueles que foram gerados através do tempo por grupos coletivos, cujos aportes individuais são muito pouco perceptíveis.

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As

tecnologias

são

largamente

difundidas

por

meio

de

transferências

entre

empresas, e não por intermédio de operações intragovernamentais. No entanto, cabem

alguns compromissos por parte dos governos, em particular, dos PDs, onde se concentra a

maior parte do conhecimento tecnológico mundial.

Os PEDs defendem uma abordagem integrada da questão do acesso às tecnologias

nos acordos da OMC, pois se trata de um tema transversal, presente em diversos acordos

como TRIPs, MEAs, acordos sobre subsídios, medidas compensatórias e acordos sobre

agricultura.

O expressivo

avanço

da

moderna

biotecnologia

tem

revelado

a

crescente

importância estratégica e o potencial valor de tal patrimônio, pois, com o avanço da ciência

na identificação, isolamento e controle da expressão dos genes de interesse industrial em

vários setores estratégicos, novas rotas tecnológicas se abrem na direção da melhoria da

qualidade

de

vida

da

população

mundial.

Em

tal

processo,

grandes

oportunidades

comerciais são criadas para os setores agrícola e farmacêutico, com a geração de produtos

detentores de mercado expressivo internacionalmente, sem que, até o momento, tenha sido

gerada a repartição justa e eqüitativa dos benefícios advindos da exploração comercial

desses recursos. A CDB reconhece que os Estados têm o direito soberano de explorar seus

próprios recursos genéticos e ter a possibilidade de participar da repartição dos benefícios

oriundos da exploração econômica de tais recursos.

O governo brasileiro já deu passos no sentido de regulamentar por lei interna o

acesso aos recursos genéticos. Assim, tendo em vista que o Brasil é signatário tanto do

TRIPs como da CDB, recomenda-se as seguintes propostas para reforçar a consistência

entre esses dois acordos:

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