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cidades ilustradas

DAVID LLOYD

Casa 21
São Paulo
cidades ilustradas
DAVID LLOYD

São Paulo
Prefácio de Nicolau Sevcenko

Patrocínio Apoio
Copyright © David Lloyd

TEXTO David Lloyd


TRADUÇÃO E PESQUISA FOTOGRÁFICA Marcela Godoy
REVISÃO Pina Bastos
PRODUÇÃO GRÁFICA Radiográfico

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE Prefácio de Nicolau Sevcenko


SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ

L773s

Lloyd, David, 1950-


São Paulo / David Lloyd ; prefácio de Nicolau Sevcenko ; [tradução de Marcela Godoy]. - Rio de Janeiro : Casa 21, 2007.
principalmente il. color. - (Cidades ilustradas ; 7)

Texto em português e inglês


Textos em quadrinhos
ISBN 978-85-88327-11-6

1. São Paulo (SP) - Obras ilustradas. 2. São Paulo (SP) - Histórias em quadrinhos. I. Título. II. Série.

07-3486. CDD: 918.1611


CDU: 913(816.11)

12.09.07 13.09.07 003501

Todos os direitos desta edição reservados à:


Casa 21 Ltda
Rua do Catete, 92 – casa 21
22220-000 – Rio de Janeiro – RJ
www.editoracasa21.com.br
VISTA DE UMA JANELA NO ALTO
Quando você está lá em cima, junto às nuvens, tudo parece igual. Do que se podia ver através da janela do avião, eu
poderia estar a caminho de Nova Iorque, Tóquio, Paris, Roma, Cidade do México, ou Hong Kong, em vez de estar em
direção a São Paulo, Brasil.
Eu sabia pouco sobre São Paulo. Não queria saber muito. Eu queria vê-la crua, senti-la fresca, sem preconceitos. Eu
queria que as impressões deixadas em mim fossem instantâneas, como imagens capturadas numa câmera.
Havia somente duas coisas que eu sabia sobre a cidade: uma, era grande; outra, era dividida pelo dinheiro. Uma
combinação comum de elementos comuns a todas as grandes cidades do globo. E por que tais elementos eram
comuns a esta cidade, era uma das coisas que eu queria descobrir. A outra era o quão diferente São Paulo seria de
todas as demais cidades que vi em minhas viagens.
A maioria das cidades grandes em que estive eram cinza, mas São Paulo estava na América do Sul, um dos lugares
mais coloridos do planeta. Era uma selva de concreto no meio de uma selva de verdade. As cores forçariam sua pas-
sagem. Tinham que forçar. E eu estava ansioso para saber se o haviam feito.
O AZUL
Fizemos a aproximação ao aeroporto já à luz da manhã.
O avião desceu sem pressa, quase a ler sob ele o chão de meias-casas e barracões das favelas —
moradia dos pobres que circundam o ascendente centro urbano da cidade. Os tanques de águas
azuis, que alimentam as necessidades daqueles habitantes, pontuavam a paisagem, qual fossem
as piscinas de azul límpido das casas de San Diego, na aproximação ao Lindbergh Field. O contraste
não poderia ser melhor.
Perguntei-me se alguma das crianças nas ruas lá embaixo olhava acima, para nós, da mesma ma-
neira que eu costumava fazer quando menino, ao observar um avião de carreira passar por sobre
minha cabeça, invocando uma fantasia acerca de onde ele estaria vindo, ou de para onde estaria
indo; um lugar exótico, excitante; onde a vida era tão boa quanto poderia ser, ao invés de tão boa
quanto nós a fizéssemos ser. E me perguntei se algum dos adultos excluídos lá de baixo, talvez
olhasse acima, para nós, com um quê além de ressentimento, invocando em sua própria fantasia
algo que desejasse muito realizar... Talvez algo como...

GUERRA NAS ESTRELAS Era um meteoro – que batendo contra os palácios brilhantes,
esfacelou os muitos cofres e tesouros guardados em seu interior!

Há muito tempo atrás, numa cidade muito distante...


Via-se ao longe um panorama de palácios cintilantes,
com suas inúmeras janelas refletindo a luz ofuscante das
estrelas que brilhavam no céu acima da paisagem.

De repente, uma das estrelas pareceu ficar maior...

E todas as riquezas daqueles paços voaram pelos ares, e choveram so-


Maior... bre tudo, como gotas de estrelas caindo por sobre as vilas empobreci-
das que ficavam do lado de fora dos portões da grande cidade...

E maior...
BACIA DA ESPERANÇA
Reconhecidamente, em virtude de todos os seres humanos que podem vir a se encontrar injustamente
tratados, se tal fantasia se realizasse, nenhum raio vindo dos céus, ainda que cheio de boas intenções,
seria capaz de pulverizar os palácios cintilantes de São Paulo num futuro próximo...
Mas há uma possibilidade real de que um desses raios tenha caído cerca de 30 milhões de anos atrás
na Cratera da Colônia, onde numa favela impressionante, vive e prospera uma comunidade, no interior
de uma bacia geológica cavada na terra, que parece evidenciar o local onde um meteoro teria caído.
Se algo realmente caiu ali, é possível que tenha deixado algum tipo de radiação benevolente para trás,
pois as pessoas que conheci nesta comunidade não mostraram os sinais da depressão que eu espe-
rava encontrar em moradores de favela durante minha jornada. Apesar de viver nas típicas condições
de uma favela, os moradores pareciam contagiosamente otimistas, e mostravam verdadeiro interesse
no lugar em que estavam, muito mais do que preocupação com planos de fugir dali.
Mas deixando de lado a radiação benevolente, encontrei muita dificuldade em compreender o que era
aquilo que fazia com que os habitantes daquele gueto fossem tão motivados e interessados em seus
arredores; até que comecei a pensar de forma prática e lógica a respeito.
Talvez isso se limite ao fato de que, se você é capaz de ver as paredes do mundo à sua volta, quem
sabe possa lembrar-se de sua responsabilidade sobre ele; sendo compelido a fazer o melhor visando
deixar tal mundo o mais agradável possível para que, nele, se possa viver; independentemente da na-
tureza das circunstâncias.
Acredito que se todos nós pudéssemos ver as paredes à nossa volta de maneira semelhante, talvez
pudéssemos sentir a mesma coisa.
COMEÇOU COM UM BEIJO
História.
Por mais estranho que pareça, a longa cadeia de atos violentos que formaram as bases da riqueza
e da prosperidade da São Paulo moderna começou com um beijo.
Embora a primeira índia a se aproximar intimamente de um membro descuidado da tripulação de
Pedro Álvares Cabral estivesse mais interessada em comer seus lábios do que beijá-los, foi um bei-
jo que marcou o início de um caminho que, apenas 50 anos após a chegada de Cabral, teria levado
a uma relação mais convencional entre invasor e invadido, assim contribuindo diretamente para a
origem de São Paulo.
Esta significativa união-escrita-nas-estrelas foi entre o pioneiro português João Ramalho e a jovem
índia de nome Bartira, que era ninguém menos do que a filha do cacique Tibiriçá. Foi com a ajuda de
Tibiriçá que Ramalho se tornou uma ‘roda-gigante’ naquela selva e, portanto, influente o suficiente
para levar os famosos fundadores de São Paulo — Manuel da Nóbrega e José de Anchieta — ao
local em que a cidade foi fundada.
Daquele ponto em diante, estou certo, os padres que fundaram a cidade buscavam o amor de Deus
ao invés de qualquer outro tipo de amor para nortear o futuro daquela comunidade. Mas, sem ne-
nhuma surpresa, as coisas não funcionaram da maneira prevista. Eventual e inevitavelmente, foi o
amor pela terra e o amor pelo ouro — manifestado de forma apaixonante pelos infatigáveis e de-
sapiedados pioneiros das matas, os Bandeirantes — que ali se tornariam os principais objetos de
adoração, e continuariam a sê-lo pelos séculos a seguir.
ENTRE O PARAÍSO E A CONSOLAÇÃO
Os paulistanos costumam brincar dizendo que a Aveni- O mais extraordinário prédio a ser visto nessa avenida
da Paulista — a mais importante avenida da cidade — é o Museu de Arte de São Paulo — o MASP. Trata-se de
é como o casamento: começa no paraíso e termina na uma das duas únicas construções que notei na cidade
consolação. Neste gracejo, eles se referem aos pontos que são certamente do final dos anos 50 e início dos
de início e término da avenida — da estação Paraíso anos 60: ambas têm a aparência de uma “caixa de jane-
do metrô, àquela na Rua da Consolação. Para que essa las”, que fora bastante popular entre muitos arquitetos
descrição seja algo mais além do que um trocadilho es- daquela época.
pirituoso, deveria haver algo sobre a própria avenida que
realmente pudesse remeter o visitante daquela via de Mas a estrutura do MASP é mais incomum do que mui-
concreto, ao possível final de uma sagrada união entre tas outras construções de seu estilo. O proprietário da
homem e mulher. Mas olhando para ela ao longo da his- terra onde foi construído não queria que a vista da cida-
tória e olhando-a agora, nada aponta para isso. Um ‘ca- de a partir do Parque do Trianon fosse bloqueada, por is-
minho-de-rosas’ seria um nome mais adequado. so o arquiteto, inteligentemente, projetou-o de forma es-
carrapachada, sobre quatro grandes colunas vermelhas.
Iniciada como uma trilha aberta através da selva em Essa bizarra construção dá ao museu uma impressio-
1782, a avenida tornou-se a primeira a ser asfaltada e nante e distinta qualidade elefantina. Você quase acredi-
ladeada de árvores, em 1894. À época, era a vitrine das ta que o verá andar pela avenida para esticar as pernas,
mansões dos barões do café que engordavam as rique- ou retraí-las para deitar-se num gostoso descanso.
zas da cidade. Hoje em dia, trata-se da vitrine para os
grandes prédios de bancos e empresas do gênero, que Contudo, quando visitei o museu, pareceu-me que a
suplantaram os velhos barões, tornando-se o grande combinação entre a feira, que regularmente acontece
motor da cidade. É também a única via pública em São sob sua grande barriga; o tráfego, os turistas, e os visi-
Paulo que teve toda a sua linhagem de poder enterrada tantes que enxameiam o vão sob o prédio, tornaram qua-
no subsolo a partir de uma cosmética operação, calcula- se inútil o esforço em tentar preservar a vista da cidade
da com a finalidade de erguer a sua aparência por sobre para quem olha a partir do parque. Mas se o esforço não
todas as demais vias expressas da cidade. tivesse sido feito, não teríamos uma das mais surpreen-
dentes construções na cidade para apreciar.
A Catedral da Sé está localizada no centro geográfico da
cidade, mas eu diria que a Avenida Paulista é o seu cen-
tro verdadeiro, em essência e em significância.
VELOZES...
Há pelo menos 5,5 milhões de carros em São Paulo, e os ânimos de um destes motoristas geralmen-
te representa os ânimos de todos, como se o santo padroeiro dos motoristas fosse o grande, já falecido,
Aiyrton Senna.
Corredor paulistano inato, que encarou as corridas de velocidade com a mesma naturalidade que um pei-
xe encara a água, Ayrton Senna da Silva estarreceu o mundo primeiramente no kart, antes de ingressar
nas corridas de carro, e então ascendendo à Fórmula 1 em 1984.
Sua audácia ao correr riscos era tão extraordinária que assustava os motoristas que competiam com ele.
Dirigindo o que dirigia, derradeiramente confiante em suas habilidades, Senna deixava que algo mais
tomasse conta dele quando entrava num circuito de provas – um vigor quase sobrenatural que, ele ima-
ginava por um momento, pudesse assumir o controle em seu lugar. Talvez a certeza de sua infalibilidade
o levasse a pensar que estivesse protegido por deuses. Por sorte, ele conseguiu evitar ser seduzido por
tal devaneio. Mas mesmo a sorte não conseguiu protegê-lo dos resultados de sua experiência. Em um
acidente no GP de San Marino, em 1994, Ayrton Senna voltou aos braços do Criador. Para o povo de São
Paulo as corridas de automóvel são uma grande obsessão. Quando Ayrton Senna faleceu, as pessoas da
cidade choravam pelas ruas. Não houve maior tributo do que esse que, a ele, pudesse ter sido oferecido.
Um monumento a este grande corredor foi erigido e pode ser visto à entrada do Túnel Ayrton Senna, na
Avenida 23 de Maio.


…E FURIOSOS
É irônico que numa cidade tão apaixonada pela direção veloz, as rodovias pareçam ter sido
calculadas a fim de garantir que os motoristas não consigam se mover em alta velocidade.
O tráfego parece estar constantemente naquela situação “anda-pára”, qualquer que seja a rota que vo-
cê decida tomar, e em qualquer direção; e os motoristas têm dificuldade de honrar seus compromissos,
posto ser mais comum determinar a hora e local de encontro, quando o ideal seria deixar as coisas mais
informais neste sentido.
Mas não é difícil para os motoristas de São Paulo apenas porque as vias públicas não parecem ter sido
planejadas com a eficiência ideal desde o começo, e que não dêem conta do crescente número de veí-
culos que as utilizam. É difícil também porque aqueles com poder para mudar as coisas, e tornar a vida
dos usuários mais fácil, não usam mais as rodovias. Eles agora vão pelo ar.
Não é para eles os trancos e a azáfama do tráfego da cidade. Eles não têm que brigar para chegar ao tra-
balho, e brigar de novo para voltar para casa, à noite. Eles são parte de uma elite crescente, que faz uso
de mais de cem helipontos, e de uma frota de helicópteros privados, rivalizados apenas pelos números
que você encontra em Nova Iorque. Algo que os permite levar suas vidas de forma bem mais confortável
do que a de um João qualquer.
Assim, enquanto a vida do ‘usuário-em-trânsito-preso-ao-solo’ de São Paulo padece na morosa viagem
para casa, todos os dias da semana, eles agora podem sofrer a lenta tortura de assistir às pessoas com
poder de decisão na cidade, voar para casa sobre eles, qual fossem anjos num enevoado e indistinto pa-
raíso, indo para seus lares nas nuvens.

É o suficiente para enlouquecê-los. E enlouquece.


SOMOS OS MOTOBOYS
Os únicos usuários de trânsito que têm qualquer tipo de fluxo absoluta- mal-segurados. E apesar da juventude estar a favor da maioria deles, a
mente livre pelas ruas em toda a cidade são os que compõe as muitas fro- sorte não está. Quando entram num túnel, têm menos chance de saírem
tas de entregadores nas motocicletas, que circulam por todos os lugares e dele do que qualquer companheiro-usuário-de-veículo-de-quatro-rodas
são comumente chamados de “motoboys”. possa ter. Por causa disso, como um grupo, eles doam muito mais aos
recursos da cidade do que apenas a entrega de serviços rápidos, e doam
Enquanto outros usuários sofrem o estresse e a pressão do tráfego entu- muito mais rápido do que qualquer outro cidadão...
pido, os motoboys conseguem se movimentar em volta, atrás, na frente e
lado a lado aos veículos de quatro rodas com quem dividem as ruas, de Eu ouvi uma história enquanto estava na cidade sobre um idoso que se
uma forma que é geralmente irritante e frustrante, e pode fazer até mes- recuperava de uma grave cirurgia, e que foi conduzido para o lado de fora
mo o mais apático dos motoristas querer descer de seu carro e largá-lo do maior hospital em São Paulo — o Albert Einstein — para uma limusine
no meio da rua. a fim de ir para casa, na mesma hora em que um motoboy descia de sua
motocicleta com uma encomenda a ser deixada na recepção do hospital.
Mas a vida do motoboy não é tão fácil para eles, quanto a velocidade em Assim que o motoboy deixou a moto, o tal idoso olhou naquela direção e
que trafegam nos horários de pico possa sugerir. Atualmente, como um viu a moto ali. De repente, qual abençoado por um súbito surto de energia,
corpo de trabalhadores, os motoboys são mal-pagos, sub-representados e o velho se ergueu de sua cadeira de rodas, pulou sobre a moto e saiu em
alta velocidade; com o avental batendo como asas atrás dele...
Eu não acho que a história seja verdadeira, mas sei exatamente a que ela
se referia.
OUTROS MOTOBOYS – E SEUS COLEGAS
Os tiras.
É preciso ter pena deles. São perseguidos por fantasmas. Fantasmas de atos passados, velhas edificações, perdas sofridas. Fantasmas de épocas
em que sua principal atividade era a supressão a oposições políticas e a luta contra o crime era uma atividade secundária. Talvez por isso, muitos
cidadãos de São Paulo mantenham uma respeitosa distância deles, onde quer que estejam, e os observem com certa cautela, do outro lado da rua,
como se os contemplassem do lado oposto de um desfiladeiro, cujo profundo abismo os separa. Em seus olhos, os eleitos defensores da lei e da
ordem na cidade ainda vestem o manto dos anos repressivos, pouco camuflados por seus novos uniformes.
Tal situação é desafortunada numa cidade em que o crime é corrente, e a maior parte das vítimas é da mesma classe daquelas que mais sofreram
nas mãos da velha força policial.
Algumas coisas mudam. Outras permanecem iguais.
ALTO, MAIS ALTO, O MAIS ALTO
Arranha-céus.
A matéria central de São Paulo — em nacos maiores e em maior número maioria dos quais eram distinguidos por uma natureza branda e amena,
do que se poderia ver em qualquer outro lugar no mundo. Se você gosta de sem feições reconhecíveis, para as quais não vale a pena voltar a face de
arranha-ceús, venha a São Paulo. Ali, eles se digladiam por sua atenção. um espelho. A partir do Edifício Martinelli, não houve interrupção na as-
censão às grandes alturas, que dão à cidade a surpreendente aparência
O primeiro deles a ser construído na cidade em 1929, quase não se qua- que ela hoje tem.
lifica como um arranha-céu em sua aparência para nós nos dias de hoje.
Foi um trabalho pioneiro de arquitetura dos Irmãos Lacombe — o Edifício O outro edifício a causar impressão e reclamar os créditos de mais alto por
Martinelli. Seu construtor teve grande dificuldade em convencer as pesso- um período foi o Edifício Banespa, construído em 1947 — um monumento
as que estavam acostumadas a viver razoavelmente próximas ao chão, de ao dinheiro, de trinta e cinco andares, transformado numa réplica do fa-
que era seguro viver trinta andares acima dele. Ele teve sucesso apenas moso Empire State Building, de Nova Iorque, qual fosse uma íntima ilação
quando decidiu viver com a família bem no topo do próprio prédio, numa de seus construtores, numa tentativa, talvez, de dizer que o que quer que
mansão de quatro andares, construída exclusivamente para aquele fim. Nova Iorque pudesse fazer, São Paulo também poderia.
Este prédio, aparentemente, é assombrado por um fantasma — uma loira Edifícios mais altos se seguiram, incluindo aquele que é frequentemente
sem rosto que pode ser vista através de um espelho. Eu apenas mencio- citado como o mais alto da cidade no momento, o Edifício Itália, que têm
no essa história porque quem quer que ela tristemente represente em sua quarenta e dois andares. Mas o mais alto mesmo é provavelmente o me-
forma humana espiritual, ela também parece representar a forma daque- nos atraente dos gigantes da cidade, razão pela qual provavelmente nin-
les prédios altos que eventualmente se ergueram após o Martinelli — a guém queira voltar sua atenção para ele — o Mirante do Vale. É de 1960,
tem 170 metros de altura, cinqüenta e um andares, e é uma espécie de
companheiro do MASP, de um tempo em que uma caixa com janelas era
uma visão arquitetônica para muitos.
O próximo passo de São Paulo em direção às estrelas está atualmen-
te sendo planejado por um grupo de investidores chefiado por Maharishi
Mahesh Yogi, que acredita que construir um bando de formas geométricas
corretamente posicionadas em diferentes partes do globo irá levar ao con-
ceito de ‘paraíso na terra’.
Eu acho que levar mais recursos aos necessitados e menos aos constru-
tores de arranha-céus fará este trabalho de maneira muito melhor — mas
talvez eu esteja muito baixo e grudado ao chão para conseguir enxergar o
grande cenário...
O PALÁCIO DE ESTEVÃO
Imagine por um instante que você está explorando o fundo do oceano.
Você realmente não espera encontrar qualquer coisa fora do comum em meio aos peixes
e às algas-marinhas. Então, de repente, quando você vira naquela esquina de corais, você
se vê diante de uma gruta submarina, de paredes tortas e arcos, que parecem fruto do tra-
balho de sereias e tritões em seus dias de folga. É feito de bernacas e todo tipo de objetos
de beleza natural que pontuam o fundo do oceano, e é reforçado pelos restos recuperados
de milhões de escombros de navios — os copos, pratos, talheres de jantares perdidos, re-
lógios parados e ornamentos de todo tipo — impedidos de chegar ao destino programado,
e agora utilizados para celebrar a beleza do artesanato humildemente humano, como se
expostos num museu.
Se você consegue imaginar o que descrevi, terá uma vaga idéia de como é a surpreenden-
te casa de Estevão Silva da Conceição, dentro da favela que ele chama de lar. Tem quer
vista para que se possa acreditar nela. Um trabalho notável de arte verdadeira — e arte
verdadeira mesmo, porque foi feita com seu próprio propósito, e não por outra razão, por
um homem que parece interessado apenas em criar algo de belo num lugar onde a beleza
é pouco encontrada.
Como o pássaro de porcelana que posa no topo da extraordinária morada, a criação de Es-
tevão olha para o alto e para fora da vizinhança sinistra e descrente de que faz parte, ainda
que nunca seja capaz de voar para longe dela.
É um trabalho de magnificência e grandeza que deveria receber proteção vitalícia e patro-
cínio da cidade.
MONTANHA VERDE
São Paulo cresce constantemente de maneira não-planejada e, aparentemente, não-plane-
jável. Com nenhuma ordem claramente imposta ao seu desenvolvimento, a cidade se expan-
de continuamente à medida que mais pessoas chegam às favelas, e mais torres de concreto
investem contra o alto a partir de seu âmago.
Seria fácil imaginar esta esparramação desajeitada, urbana e suburbana, espalhando-se
para todas as partes da paisagem da cidade, não fossem as barreiras impostas pelas áreas
de conservação.
Ali, ao verde é permitido crescer. Cobre o chão espessamente, moldando-se a toda superfície,
firme qual fosse rocha. Do ponto mais alto, no Pico do Jaraguá, tem-se uma vista de 180° de
toda a cidade, banhada por um bom dia de azul reluzente nos céus, e marcado pelos veios
avermelhados daquela terra famosa em que o café tanto gosta de crescer.
Gaviões voam pelo ar, também. Macacos balançam nas árvores. O Jaraguá se parece com a
cidade há 500 anos, antes das ruas e dos carros, aviões e helicópteros, fumaça e poluição, e
toda e qualquer outra praga moderna imposta sobre o mundo natural, que chegou para fazer
o dia. Um dia que durará um longo tempo — e as chances das grandes montanhas verdes
estarem ali por mais 500 anos são muito remotas.
Então é melhor que você venha vê-las antes que se vão.
O AEROPORTO DO POVO
Um dos poucos lugares que descobri na cidade, no qual aqueles que têm mais do que o sufi-
ciente para viver têm a chance de se misturar àqueles que quase não têm do que sobreviver.
A estação central de ônibus, a Rodoviária do Tietê, é a maior da América Latina e há poucas
como ela em outros lugares no continente.
Seu tamanho é o de um pequeno aeroporto. Tem até mesmo portões como num aeroporto —
e portões que se parecem com portões de verdade, não apenas portas abertas que dão para
a ponte de embarque num avião.
O funcionamento da estação é bastante semelhante àquele de muitos dos pequenos aeropor-
tos nos Estados Unidos, mas não como no caso deles, os custos de viagem estão ao alcance
de um grupo bem maior de consumidores.
É econômico e compensador para pessoas com salários médios; uma barganha para quem
ganha muito; e uma bênção para os pobres. Por causa disso, uma grande variedade de gente
entra e sai da estação o tempo todo, e você é incapaz de dizer muito mais sobre elas à medi-
da que as vê caminhar pelos andares, além de sua idade e seu suposto lugar no mundo.
Mas um tipo particular é bem fácil de se apontar. Parece-se exatamente como tal tipo parti-
cular deve ter parecido na primeira vez em que o primeiro ônibus encostou na rodoviária, em
seu primeiro dia de funcionamento: o imigrante esperançoso.
Vindo de um lugar em que ele não vê futuro, para um lugar em que ele espera encontrar al-
gum, ele guia sua vida para fora da estação e para dentro da cidade, na esperança de que, ali,
possa enraizá-la e nunca, outra vez, ter que arrancar a raiz.
Mas se o destino é cruel e as coisas não andam como o planejado — como muito comumen-
te acontece nas grandes cidades — pelo menos a rodoviária será gentil ao oferecer a ele
uma passagem de volta para casa por um preço que ele consiga pagar.
CANTANDO NA FLORESTA
Os primeiros trabalhadores a lutar nas plantações de açúcar e café, e que fizeram a riqueza da cidade, eram
escravos — índios no início e africanos num segundo momento. Mas, no final do século 19, após um longo
e lento período, a escravatura foi abolida e os donos das plantações, que utilizaram mão-de-obra gratuita por
muito tempo, viram-se forçados a encontrar rapidamente uma nova força de trabalho que fosse tão barata
quanto eles pudessem conseguir, e em qualquer lugar que pudessem encontrar.
Assim começou o fluxo de imigrantes a São Paulo, vindos de dentro do próprio Brasil e de fora da fronteira, o
que tornaria a cidade tão populosa e miscigenada quanto o saco de cultura e nacionalidades que é hoje.
De fora do Brasil, os grupos predominantes eram da Itália, Alemanha, Europa Ocidental e Japão. Os japoneses
fugiam da pobreza e dos terremotos, então não lamentavam tanto o que deixavam em sua fuga para o Brasil.
Já os europeus sentiam falta de muitas das coisas que deixaram para trás.
A sala de ópera de São Paulo, que fora financiada pelos ricos das plantações de borracha, foi uma caríssima,
porém confortável, adição aos locais de entretenimento na cidade. Poucos dos imigrantes conseguiriam ver
Caruso cantando ali — como jamais teriam a chance de vê-lo cantar no meio do mato, onde teria sido mais
fácil dar uma olhadinha — mas para eles era reconfortante apenas saber que o prédio estava ali, trazendo à
cidade uma parte da cultura de que eles tanto sentiam falta.
Eventualmente, muitos dos imigrantes acabaram por ascender na escada social, e tornaram-se capazes de se
transformar em visitantes regulares do teatro que um dia apenas sonharam em conhecer por dentro.
Agora, esta bela peça de arquitetura é um dos poucos prédios na cidade que nunca será negligenciado. Será
preservado e respeitado por tanto tempo quanto a cultura e a fina arte forem importantes para a cidade e seu
povo ­— e , creio, isso perdurará enquanto a própria cidade existir.
ALMOÇO NO PARQUE
O centro urbano de São Paulo é o lar e uma colméia de atividades para mais de onze milhões de pessoas. Para muitas delas, todo dia é uma ba-
talha pela sobrevivência nas arenas de debate em que se configuram os ambientes de trabalhos, no melhor estilo de que vença o mais forte.
O Parque do Ibirapuera é um paraíso de calmaria para essas pessoas ­— o lugar perfeito para uma pausa em meio ao ritmo apressado. É o
maior parque da cidade, no qual os sons da multidão e o tráfego estão longe demais para serem ouvidos. Um lugar em que a luta para man-
ter sua posição na hierarquia da empresa, sobreviver àquele supervisor linguarudo, ou sobreviver ao trabalho, pode ser esquecido e deixado
para trás, nos portões de entrada do parque.

Há muitas árvores, grama e lagos refrescantes para se relaxar; e se você busca uma distração que vá além do farfalhar das folhas das ár-
vores, ou do som cadenciado dos passos dos praticantes de cooper, há obras de arte para serem apreciadas na galeria, ou estrelas a serem
contempladas no planetário.
Mas seja cuidadoso ao deixar seus olhos divagando pela paisagem enquanto tenta fugir das preocupações. Basta a breve olhadela de um
predador rápido, preciso e oportunista, que chega para um súbito ataque fatal sobre algum peixe desafortunado no baixio, seguida de outra
breve leitura do ambiente em busca da segunda vítima, e talvez você acabe se lembrando de tudo aquilo que estava querendo esquecer...
CARNE COM BATATAS
A crença de que o trabalho enobrece o homem é um denominador comum nos
muitos níveis sociais de São Paulo. Como as pessoas de Nova Iorque, os paulista-
nos sabem que há apenas uma saída do lugar em que você está, se este for um
lugar de que você não gosta, e tal saída é o trabalho duro. Apenas aqueles irreme-
diavelmente abandonados abriram mão deste caminho para a salvação.
Para a maior parte da população da cidade, a alimentação necessária para o mo-
vimento visando uma vida de qualidade exige café-da-manhã, almoço e jantar, os
quais você encontra em grandes quantidades e por preços bem baratos por toda
a cidade, em cafeterias e lanchonetes como essa ao lado.
É um posto de alimentação para um João qualquer. Carne, batatas, feijão, arroz e
molho. Fui criado com algo parecido – e, melhor do que tudo, dá a você, saboro-
samente, tudo o que você precisa para lidar com seu dia.
É o tipo de matéria-prima sobre a qual todos os paulistanos construíram sua for-
ça — desde o operário de construção até milionários como o grande desenhista
Mauricio de Souza, que trabalhou tão duro e de forma tão resolutamente obstina-
da, que sua personagem mais famosa, a Mônica, superou no Brasil a popularidade
de Mickey Mouse de Walt Disney, o que é um feito notável, jamais conseguido em
qualquer outro país em que as criações de Disney tenham sido introduzidas.
Eu honestamente não sei se a Mônica gosta de carne com batatas, embora eu
ache que sim, mas ela certamente é o tipo de personagem cativante que você
sempre encontrará para servi-lo em qualquer destes excelentes cafés e lanchone-
tes espalhados pela cidade.
TRANCADOS DO LADO DE FORA
Como acontece lamentavelmente na maioria das grandes cidades ao redor do mundo, muitos dos desabrigados de
São Paulo são aqueles que chegam à cidade com um sonho que não conseguem realizar, e então acabam nas ruas
por não terem recursos para ir embora.
Outros que chegam, grudam-se como bernacas à massa desajeitada de favelas que circundam a cidade, e come-
çam a construir suas próprias casas com o que quer que consigam pôr as mãos, até que possam levantar dinhei-
ro suficiente para comprar tijolos e argamassa para uma parede, e então levantar mais dinheiro para outra, e um
quarto, um andar, dois andares, até que tenham algo que se pareça com uma casa comum.
Para aqueles que vivem nas ruas, de onde quer que tenham vindo, ser um desabrigado em São Paulo significa estar
numa condição especial, pois nenhum centavo parece destinado a eles em sua vida difícil.
Quando encontram um lugar onde possam estar confortavelmente, alguém aparece com a mangueira para lavar
o chão onde estão dormindo. Se formam uma comunidade num espaço morto sob um viaduto, alguém vem para
fechar o espaço, e eles só podem se amontoar sob uma rampa inclinada do lado de fora. Se dormem nos bancos
dos parques públicos, alguém projeta um novo modelo que os impede de descansar ali.
Isso não seria tão ruim se a cidade estivesse tentando fazer algo para aliviar a miséria dos desabrigados tanto
quanto faz para elevá-la. Mas há poucas evidências de que este esforço acontece. A política empregada para lidar
com os desabrigados é a da exclusão, não a da inclusão, e o sentimento que isso traz aos desamparados é o de ser
trancado do lado de fora da sociedade que os rodeia, sem qualquer esperança de que alguém os deixará entrar.
De onde vejo, os desabrigados de São Paulo têm apenas uma vantagem sobre seus semelhantes desafortunados
em outros lugares: eles sabem definitivamente onde estão colocados.
CAAGUAÇU
Palavra tupi para ‘grande floresta‘
LOUCOS POR FUTEBOL
Todos estivemos lá.
Você assiste a seu time jogar em casa e os jogadores estão jogando como se fossem um ban-
do de palhaços. Você sabe que eles podem jogar melhor, mas eles mesmos parecem não saber
disso. Naquela hora, você duvida até mesmo de que eles saibam o dia da semana.
Você não pode simplesmente se sentar e assistir a tudo aquilo acontecer, você está no limite.
Tem que ficar em pé. Precisa ficar em pé.
Eles estão fazendo tudo errado, e você não tem qualquer possibilidade de fazê-los acertar as
coisas. Você sente vontade de descer lá e jogar no lugar deles.
Você sabe o que tem que ser feito, como é possível que eles não saibam?
É coisa demais para um homem agüentar.
E então, quando você pensa que nada poderá piorar as coisas, elas pioram.
“Ah não!”, você berra, enquanto eles estragam tudo numa derrota espetacular que vai entrar
para a história do clube. As luzes se apagam no seu cérebro. Você tenta arrancar os cabelos
num acesso de fúria e frustração. Os jogadores no campo começam a se transfigurar em bor-
rões, a luz se modifica. Você está no inferno. E de repente aquele time de que você tem tanto
orgulho, para o qual você daria um dez após o outro, agora não merece nada além de um belo
zero bem redondo.
Sim. Futebol em São Paulo é exatamente o mesmo que em qualquer outro lugar no mundo. Há
algumas grades a mais para separar as torcidas rivais, muito mais jogadores brilhantes, e está
enraizado no coração e na alma da cultura de maneira bem mais profunda do que em outros
países que visitei, mas — fora isso — é basicamente a mesma coisa.
Um paulistano chamado Charles Miller, filho de um escocês, foi o responsável por espalhar o
vício pela cidade, e depois pelo Brasil, em 1894, quando trouxe o futebol consigo da Inglaterra.
Uma verdadeira bênção para o povo de São Paulo. Não fosse por Charlie, e eles talvez estives-
sem, todos, jogando críquete...
A GANGUE DO GRAFITE
Para o turista ou visitante passageiro da cidade, o crime é como uma daquelas bara-
tas enormes que você vê durante a noite saindo por debaixo da tampa dos bueiros mal
conservados das calçadas: está sempre sob a superfície, mas em lugares que você, ge-
ralmente, pode evitar.
Para os cidadãos, contudo, o índice de criminalidade em São Paulo é algo com que eles
têm que conviver diariamente. E como se não bastasse, os cidadãos são lembrados
disso por toda a cidade em virtude dos grafites, que também são um sistema de co-
municação de que se utilizam as gangues, e que transformam os prédios decaídos da
cidade em quadros de aviso aos criminosos, deixando-os ainda mais feios. Mas outros
tipos de grafite em São Paulo têm o efeito oposto sobre as superfícies soturnas em que
são feitos, fazendo-nas ficar muito mais bonitas do que eram antes.
Por boas razões, ambas as formas de grafite nunca são vistas no mesmo lugar. As duas
são feitas por motivos completamente diferentes e não têm qualquer coisa em comum
entre elas. Mas eu acho que seria bom se tivessem.
Talvez as cores e imagens alegres trouxessem luz às esquinas escuras das mentes
criminosas, iluminando suas almas de forma que não quisessem mais cometer crimes,
mas quisessem, ao invés disso, ajudar os necessitados, fazer trabalho voluntário, ou
ainda organizar times de futebol para crianças carentes.
Pequenas coisas já exerceram efeito sobre aquelas pessoas de coração gelado dentro
de uma sociedade. Então, por que isso não exerceria? Todo pouco ajuda. Mesmo que
seja uma pequena pintura.
VIVA SÃO PAULO
Quarenta andares acima das ruas do centro da cidade de São Paulo está um restaurante que oferece aos seus clientes uma vista espetacular de 180º
da cidade para quem olha de dentro para fora dela, tanto quanto a vista do Pico do Jaraguá oferece aos seus visitantes uma vista de quem a olha de
fora para dentro.
O restaurante está no topo do Edifício Itália, que já não é o prédio mais alto da cidade, mas ainda está no auge quando se trata de servir excelente vi-
nho e comida italiana. E se você acha que os preços fogem completamente ao seu orçamento ali, você pode experimentar uma das muitas excelentes
cantinas que há por toda a cidade, ou no Bixiga, que é a “Little Italy” da cidade.
O Edifício Itália é um grande tributo à contribuição que os italianos deram à cidade em termos de riqueza e cultura. Eles chegaram a São Paulo na vi-
rada do século 20, como pobres imigrantes, para labutar nas plantações que anteriormente empregavam escravos. Mas, com o passar do tempo, eles
cresceram em influência e em riqueza, tornando-se uma força motriz na cidade; especialmente no crescimento industrial.
Como os italianos do resto do mundo, eles são tão orgulhosos do país que adotaram, quanto do país de onde vieram. Mas, na verdade, a estratégia do
italiano imigrante é semelhante à dos antigos exércitos colonizadores de Roma. A qualquer país que se dirijam, levam consigo o maior pedaço da Itália
que consigam carregar. Então o plantam, cultivam, e usam-no para fazer sua nova vizinhança ficar de tal maneira parecida com a que deixaram para
trás, que raramente acabam tendo saudade do lugar verdadeiro.
Como um fã de tudo o que é italiano, pude ver os benefícios que tal estratégia trouxe a muitas cidades para as quais os italianos exportaram seu talento
e, neste sentido, São Paulo não é uma exceção.
CONSTRUINDO O AMANHÃ
Cidade Tiradentes é um projeto público de habitação de 40.000 unidades iniciado em São Paulo em 1980, quando o governo
militar da época construía moradias como parte de um projeto voltado para o aquecimento econômico.
Seu aparecimento deve ter parecido com algo saído de um sonho para muitos paulistanos que cresceram acostumados a ser
ignorados em seus pleitos por melhores condições de habitação. Foi um grande sucesso, um grande modelo para versões em
menor escala que depois apareceram pela cidade, e ainda hoje continua sendo expandido.
Próximo aos conjuntos habitacionais há um CEU — Centro de Educação Unificado; um dos muito bem guardados e cercados cen-
tros educacionais e recreativos, voltados para as crianças dos bairros mais pobres em São Paulo. Lugares fantásticos para estudar
e se divertir. Visitar estas instituições é uma honra e um privilégio para qualquer sortudo que seja convidado a uma delas.
Mas eu fiquei com um quebra-cabeça depois de tê-la visitado.
É bastante claro para mim que há muito potencial nos grupos populacionais que sofrem com a falta de educação e moradia,
e aos quais a cidade freqüentemente toma a iniciativa de ajudar. Mas em algum momento, e por algum motivo, alguém cessa
esta ajuda. Parece que há um teto de vidro; que sempre vai haver alguém que quer que o povo fique por baixo.
Na educação, por exemplo, há inúmeras universidades privadas com graduandos que vieram do ensino privado, mas apenas
umas poucas universidades públicas, construídas especificamente para o benefício daqueles que vieram das escolas públicas.
Mas as escolas públicas são tão mal financiadas e abarrotadas de problemas que são quase incapazes de preparar seus alu-
nos para a aprovação nos exames de admissão das universidades públicas. Assim, fato que enfurece os que lutam pela causa
da melhoria na educação das crianças de classes baixas, a maioria dos alunos que se beneficiam das universidades públicas
vêm de escolas privadas.
E na habitação parece haver um misterioso bloqueio artificial na tentativa de ajudar os desafortunados a se tornarem afortu-
nados — como se muito mais pessoas indo bem na cidade fosse, de alguma forma, ruim para as pessoas que já estejam indo
bem hoje.
Isso para um estrangeiro parece inexplicável. Para um cidadão local deve parecer loucura.
NÃO ESQUEÇA O SEU GUARDA-CHUVA
Chuva.
Se São Paulo fosse um restaurante, a chuva seria uma das especialidades da casa.Não oferecida aos
fregueses em porções moderadas, mas derramada no prato de sopa a partir de uma concha gigante,
quando você ainda nem pensou em pedir nada — e a qualquer momento durante a refeição.
A tromba d’água é tão repentina e tão pesada quando chega, que sempre inunda as ruas, demole os en-
contros ao ar livre, e afunda jantares ‘al fresco’, bem no meio da sua feijoada. De acordo com aqueles que
me avisaram, essas súbitas aparições encharcadas a partir do nada, começaram a aparecer de maneira
regular por volta de dez anos atrás, em substituição a uma garoa comum que foi parte do cenário pau-
listano por décadas. E por razões que eu poderia imaginar não estarem longe daquele pequeno proble-
ma chamado aquecimento global, as fortes chuvas estão chegando bem mais cedo do que costumavam
chegar, e já não é possível precisar quando param ou deveriam parar.
Essas quedas d’águas vêm sem aviso e não há como evitá-las, e ainda — implorem aos céus o quanto
quiserem — os deuses não vão contê-las para você. Assim, não esqueça o guarda-chuvas quando vier
à cidade. E certifique-se de que seja um modelo bem resistente.
JARDIM DE LEMBRANÇAS
Em 1992, a Penitenciária do Carandiru foi cenário de um dos incidentes mais san-
guinários na história do sistema prisional brasileiro. Um motim entre os detentos de-
sencadeou um massacre de presos que levou o chefe da polícia a uma condenação
sentenciada em 632 anos de cadeia.
Foi uma grande mancha no recorde de um sistema prisional que já tem sua parcela
de grandes manchas, mas essa foi por demais bizarra e precisava de uma solução
especial. Tal solução eventualmente provou ser a demolição da prisão — numa ten-
tativa de mostrar que uma reforma séria do sistema seria levada a cabo na política
prisional — e na transformação do terreno do Carandiru num parque público.
O parque resultante da iniciativa é lindo, extraordinário em aspecto, pois em seu
centro está uma parte da base de concreto e do esqueleto de aço do presídio de ou-
trora, erguendo-se inteira, árida e negramente contra o verde. Abriga os fantasmas
do passado e lembra aos visitantes do parque sobre a origem soturna do lugar.
Quase acredito ter havido mais de um detento desafortunado do presídio que lá
existiu, que tivesse gostado de ver o crescimento de um parque viçoso a roçar as
barras de sua cela, enquanto ouve o canto dos pássaros pela manhã, ao invés dos
gritos de homens desesperados. Mas naquela época, não havia no Carandiru trata-
mento terapêutico destinado ao alívio da miséria.
Tivesse havido, quiçá o motim jamais houvesse acontecido.
NÃO, OBRIGADO. MAS VOCÊ TERIA ESPELHOS LATERAIS?
Muita gente em São Paulo encontra dificuldade para achar emprego e é difícil ganhar o pão sem trabalho. Uma saída é conseguir uma tenda
num mercado, ou um lugar na rua para vender coisas. Mesmo isso, contudo, pode ser difícil de conseguir.
Há um tipo de lugar em São Paulo onde é fácil encontrar uma multidão de compradores potenciais, movendo-se vagarosamente, e num lugar
onde você não precisa de uma licença para vender nada — os faróis.
Infinitos semáforos e todo tipo de demora dão aos ambulantes a chance de fazer bons negócios com as pessoas atrás dos volantes. As pessoas
que vi ao longo de minhas visitas pela cidade pareciam vender todo tipo de itens que eles pudessem trazer aos ombros, amarrar aos cintos, e
que não atrapalhassem seu movimento entre os carros e caminhões, ou ainda caso a polícia quisesse verificar suas carteiras de identidade.
Em sua maioria, eles vendem coisas bem baratas que um motorista pode precisar — variados refrescos como água, refrigerante, e todo tipo de
acessórios para carros, como aquele limpador de pára-brisa que sucumbiu a uma ou duas trombas d’água de São Paulo.
Infelizmente, um dos acessórios que eles não têm para vender necessita ser freqüentemente substituído para alguns motoristas — espelhos
laterais, os quais são quase sempre repentinamente arrancados dos carros por algum motoboy desenfreado que se espreme entre os espaços
estreitos no tráfego. Não é incomum ver os motoristas protegerem seus espelhos, envergando-os para dentro com a mão, como se proteges-
sem a cabeça de um filho, quando percebem a aproximação de um motoqueiro.
Uma última coisa a se lembrar acerca destes engenhosos comerciantes do asfalto é jamais começar uma negociação com eles a menos que
haja real intenção em se fazer negócio. Seu impulso em comprar é o ganha-pão dessas pessoas, e fica bem difícil se livrar deles uma vez que
você cogitou tirar o pão de sua boca depois de tê-lo oferecido.
FORA DO PÁREO
Como qualquer outra grande cidade, São Paulo gera lixo demais. Contudo, nem todo o lixo é coletado pelos operadores oficialmente encar-
regados dessa tarefa.
Coletar o máximo do que é deixado pelas ruas, e que possa ser reciclado, provê um escasso meio de vida para muitos de seus cidadãos
trabalhadores, embora desafortunados, que puxam carroças de um lugar para outro, enchendo-as com qualquer coisa recuperável nos
detritos deixados pelas vias públicas, antes de se dirigirem a um dos depósitos de reciclagem da cidade, onde o resultado de seu duro tra-
balho pode ser trocado por dinheiro.
É uma existência difícil e solitária para muitas destas pessoas, aliviada para alguns em virtude da companhia dos animais que levam con-
sigo em suas jornadas. Esses animais, freqüentemente vistos empoleirados nas carroças como se fossem passageiros, não facilitam o tra-
balho dos carroceiros, mas tornam mais leve o fardo dessa labuta de todos os dias.
Até recentemente, contudo, um tipo de companhia animal ajudava efetivamente os sortudos trabalhadores que conseguissem adquiri-lo: o
cavalo. Eles puxavam as carroças carregadas com relativa facilidade, desde que estivessem presas a eles, e povoavam as ruas como fan-
tasmas de um tempo em que eram essenciais ao crescimento de São Paulo, e que as ruas eram vazias sem a sua presença.
Mas os modernos administradores da cidade não apreciam os cavalos tanto quanto os carroceiros. De acordo com eles, os cavalos retar-
davam o tráfego, causando mais atravancos, e por isso foram banidos. Decerto tal argumento era fraco. O que é mais rápido? Um homem
puxando uma carroça, ou um cavalo puxando uma carroça?
Mas acho que nessa decisão o que contava não era a lógica.
Tenho uma teoria de que os cavalos foram banidos por um outro motivo.
Numa cidade que está sempre buscando a modernidade, numa tentativa evidente de apagar muito de sua herança, um cavalo puxando uma
carroça conduzida por um pobre homem representaria, nas ruas por que passasse, um quadro exageradamente de terceiro mundo.
Então, agora os cavalos dos carroceiros perderam seu emprego. São forçados a ficar ociosos quando poderiam estar trabalhando. Ficam
estacionados como carros abandonados à espera de serem levados ao ferro-velho — e correndo o perigo de serem eles próprios recicla-
dos, tornando-se comida de animal ou cola.
E enquanto isso, os administradores da cidade estão no Jockey Clube.
FORÇAS MERCADOLÓGICAS
Ao redor do mundo ocidental e partes do oriental, uma revolução nas compras está em curso. Vagarosa-
mente em uns lugares, mais rapidamente em outros. As lojas começam a desaparecer das ruas para rea-
parecerem em lugares enormes e cheios de outras lojas, como se de repente todos sofressem de um medo
coletivo do barulho dos carros e quisessem se amontoar num lugar só.
Estes lugares enormes são os shopping centers do mundo. Eles dominam o varejo em alguns países, e dão
ao mercado de rua muito trabalho para competir com eles. Os mercados abertos nada oferecem, além de
simpatia, a um consumidor pego num dos aguaceiros de São Paulo, ou a alguém em busca de um lugar
para trocar a fralda de um bebê.
Mas, em contrapartida, os shoppings não são bem sucedidos apenas por oferecerem conforto e abrigo da
chuva, ou porque são um bom lugar para as adolescentes passearem. Eles são bem sucedidos porque são
igualitários. Permitem a entrada de qualquer pessoa com dinheiro para gastar. Não importa qual seja o seu
visual — desde que você esteja interessado em comprar um visual.
Os shoppings de São Paulo não parecem funcionar desta maneira. Eles parecem usar da mesma política
de exclusão que estraga a sociedade. Assim, nesta cidade em particular, existe a chance de que os merca-
dos abertos perdurem ainda por um bom tempo, em virtude de oferecerem oportunidade a todos os tipos,
classes e raças para comprarem à vontade. E há muitos deles para se escolher, variando de lugares mais
calmos, de estilo casual, como o que você encontra logo na saída do Viaduto Santa Efigênia, até o extremo
da incrivelmente movimentada Rua 25 de março, onde o número de pessoas que lota o meio da rua é vinte
vezes maior do que o número de gente se movimentando ao longo do viaduto em qualquer dia da semana.
Assim, não é preciso ir à Daslu para comprar um par de meias.
QUEM VAI COMPRAR?
A Praça Benedito Calixto é um dos muitos mercados abertos e feiras de rua que se situam em São Paulo. É um mer-
cado regular que acontece aos sábados onde se compram e vendem objetos de arte e artesanato, ouve-se música,
dança-se, e onde a severa e carrancuda realidade da vida em outros cantos da cidade não encontra lugar para apa-
recer de supetão na festiva agenda. Mas tal fantasma no banquete nunca está longe de aparecer em se tratando do
cenário social de São Paulo.
O homem que vi na rua, na calçada oposta à do mercado, certamente serviria ao papel a que me refiro. Numa primeira
olhada, ele não me pareceu desesperado ou deprimido, mas estava obviamente vivendo um pouco de cada uma des-
sas coisas. Trazia consigo algo para vender, mas não parecia muito certo disso. Como um nadador hesitante à beira de
uma piscina gelada, ele oferecia sua mercadoria aos pedestres e aos poucos carros que passavam, silenciosamente,
sem colocar o coração naquilo.
Talvez ele tenha sido por demais rejeitado para acreditar que alguém pudesse de fato ouvi-lo. Ou talvez estivesse ape-
nas impulsivamente tentando vender alguma coisa, a fim de escorar naquele ato a sua fé na possibilidade voltar ao
mundo do qual ele caíra. Quaisquer que fossem suas razões para não chamar a atenção, não estava funcionando.
Houvesse ele gritado a plenos pulmões, não teria conseguido muita coisa, porque os itens que aparentava estar ven-
dendo, pareciam tão frágeis e fora de lugar quanto ele. Eram dois brotos de planta, estendidos aos passantes como se
fosse natural oferecer aquilo.
Talvez fossem eles tudo o que o homem tivesse para vender. Ou talvez ele acreditasse que pudessem mesmo atrair
atenção. Quem sabe? Qualquer que fosse sua verdadeira situação, sua própria existência deve ter sido tão precaria-
mente equilibrada entre sucesso e fracasso, quanto a do artista sobre as pernas-de-pau que passou por ele no festivo
desfile: bastaria um empurrão inesperado, e ele estaria no chão. Era obviamente um homem que olhava para o mundo
em volta através de óculos cor-de-rosa, pois não suportaria sua própria situação de outra maneira.
Por um momento, considerei a hipótese de cruzar a rua e ir até ele perguntar o preço dos brotos que tentava vender.
Mas quando olhei outra vez em sua direção, ele não estava mais lá.
CIDADE DOS MORTOS
No centro de São Paulo, há ruas fortificadas de casas especiais, que foram construídas para
durar por um período mais longo do que os muitos lugares que seus residentes ocupavam
antes de habitá-las. E embora todas sejam bem pequenas, não limitam os movimentos da-
queles que nelas estão; os quais, em sua maioria, estavam acostumados a ter muito espaço
para circular livremente.
Tais ruas são as passagens dos pedestres no Cemitério do Araçá, as quais são ladeadas
por grandes mausoléus dos membros falecidos de algumas das famílias mais ricas de São
Paulo, e que descansam na morte ao mesmo grande estilo com que estavam acostumados
quando em vida.
Muitas destas casas de mortos são tão lindas quanto monumentais, e fazem tributo às mais
altas conquistas de seus ocupantes, de uma forma que alguns dos cidadãos menos afortu-
nados desejariam que as suas vidas fossem celebradas. Estas pequenas casas são decora-
das com esculturas dos melhores escultores de São Paulo, e muitas delas foram projetadas
pelos mesmos arquitetos que seus ocupantes um dia empregaram para a construção dos
arranha-céus que, hoje, olham do alto por sobre eles.
À luz do dia, ambos os estilos de edificação — as altivas torres e os imponentes lugares de
descanso — parecem igualmente atraentes em suas formas contrastantes. Mas quando a
noite cai, um desalento peculiar encobre e amortalha a pequena cidade daqueles que já se
foram, enquanto as ruas que abrigam os grandes monumentos erigidos à ambição daqueles
ainda vivos, são banhados por milhares de luzes fortes e deslumbrantes.
Diferente de nós, os mortos não tropeçam à noite.
RIO DE PEDRA
Apenas um prédio na paisagem recortada da área central de São Paulo, com suas colunas de concreto ascendente, parece tentar adequar-se
a uma forma bastante comum no mundo natural, tanto quanto as árvores que crescem ao seu redor: o Edifício Copan, projetado pelo gênio da
arquitetura Oscar Niemeyer.
Embora feito de superfícies irredutivelmente rígidas, elas próprias imitam o leve e o flexível. Uma rocha entre outras rochas, fingindo ser um rio.
É um objeto de beleza moderna que compete favoravelmente com os mais grandiosos e decorativos dos antigos prédios de São Paulo — algo
que as estruturas ao redor do Copan não conseguem fazer. E o Edifício Copan difere de seus vizinhos em outras coisas. Neste rio, peixes grandes
e pequenos nadam paralelamente ao longo das correntes redemoinhadas de seus quarenta andares. Assim, não são apenas sortudos os habitan-
tes do Copan, por viverem dentro de uma obra de arte, mas são também abençoados por participarem de um experimento bem sucedido, embora
acidental, que exige que cidadãos de diferentes classes sociais vivam juntos e felizes no mesmo conjunto habitacional.
É claro que você poderia dizer que um experimento habitacional bem sucedido, levado a cabo no interior de um prédio do Niemeyer, teria sido
feito sob condições que obviamente levariam ao seu sucesso. Mas se isso for verdade, mostra-se que tal experimento fora um teste social bem
sucedido também, e prova que as pessoas podem conviver felizes, independentemente de quem sejam, desde que todas tenham um interesse
comum em seu ambiente.
Algo muito útil a se saber, se já não soubermos disso.
ESTRANHO CASAL
O centro da cidade já foi uma colméia industrial tanto quanto um eixo de atividade finan-
ceira, onde o casamento de uma força de trabalho bem disposta com um empregador
exigente foi a união perfeita que beneficiou grandemente a economia da cidade, bem
como seus cidadãos.
Infelizmente, como lamentavelmente acontece em casamentos, um dos parceiros se viu
tentado por uma perspectiva mais vívida e favorável para além das colinas e distante
dali. E, novamente, como infelizmente acontece, foi o parceiro com mais dinheiro que se
mudou, causando a separação. E este divórcio não dá direito a pensão alimentícia.
Muitas das fábricas que foram deixadas sem uso e abandonadas foram transformadas
em igrejas – como se dessem ao desempregado, que um dia trabalhou nelas, a oportu-
nidade de orar, pedindo seu trabalho de volta. Outras fábricas foram demolidas. E outras
ainda foram transformadas em estacionamentos, como essa na ilustração, que ainda
ostenta orgulhosamente as chaminés que foram um dia parte de sua próspera existên-
cia. Ou talvez, apenas, porque seja trabalhoso demais, ou caro demais, derrubá-las...
Embora essas torres não tenham uso, e sejam meras sombras enfumaçadas delas pró-
prias em outros tempos, quase representam a perfeita união que outrora deu vida a
elas. E há uma certa grandiosidade e dignidade em seu abandono, que espero ser razão
suficiente para que permaneçam inutilmente posicionadas ali, por tanto tempo quanto
sejam necessários os estacionamentos.
E em São Paulo, é possível que se trate de um longo tempo.
RENDER-SE JAMAIS
Japão: lar dos animes coloridos e dos nem-tão-coloridos mangás, as duas forças irrefreáveis do entretenimento da
atualidade, a conquistar o mercado de quadrinhos em todo o mundo.
Uma das forças óbvias do povo japonês é a determinação visando o sucesso — que se mostra a todo momento, a
começar pelos produtos que exporta até seu esforço contínuo para melhorar a ciência da robótica.
Como parte do massivo influxo de imigrantes pobres a São Paulo na virada do século, os japoneses ficaram mar-
cados por essa determinação em vencer, desejando não apenas ser mais um grupo de trabalhadores importados a
labutar nas fazendas de café e campos na cidade, mas querendo trabalhar para si mesmos assim que pudessem.
Pressionados pela possibilidade do fracasso, e depositando a fé firmemente no suor de sua testa e não nos ga-
tos da sorte que trouxeram consigo de sua cultura natal, eles economizaram tanto quanto conseguiram com seus
magros salários durante anos, a fim de se estabelecerem como produtores independentes, tornando-se donos do
próprio destino.
A crença irrepreensível na capacidade de vencer era uma grande vantagem em sua vida como trabalhadores, mas
foi um grande problema ao final da Segunda Guerra Mundial, quando ficou impossível convencer a muitos deles —
e aqueles da nova geração — de que seu antigo país fora derrotado, rendendo-se aos aliados.
Um grupo de japoneses paulistanos insistia na fantasia de que sua terra natal conseguiu de fato vencer a guerra
— apesar de todas as evidências dizerem o contrário — e lutou amargas batalhas com seus conterrâneos, que
tentavam convencê-los de que estavam errados. Este foi provavelmente o período mais obscuro da história dos
japoneses na cidade.
Hoje em dia tais conflitos não dividem a comunidade — a maior comunidade japonesa estabelecida fora do Japão
— e as fantasias correm a cargo dos animes e mangás, aos quais pertencem.
A Liberdade é onde a realidade da moderna presença japonesa se apresenta — um lugar extraordinário para visitar,
com o melhor da cultura do Japão em todos os seus segmentos, do karaokê à cozinha, e onde toda a história das lu-
tas e triunfos da imigração japonesa em São Paulo pode ser encontrada em um museu dedicado a este propósito.
TRANCADO DO LADO DE DENTRO
Portões de segurança parecem estar por todo lugar em São Paulo.
Na casa dos ricos e dos pobres. Na frente das portas e no lugar delas. Na frente das lojas, ou em suas
fachadas. À frente dos pórticos, pátios, quintais. E em todos os prédios de apartamentos que abriguem
qualquer um de quem valha a pena roubar.
Numa cidade que já exportou grandes quantidades de madeira, é surpreendente ver o quanto esse mate-
rial já não é mais confiável quando se trata de proteger as construções contra os invasores.
Mas é meio triste ver estes portões tomando conta da fachada das casas simples. Um portão não permite
que você “bata”. É algo frio, e sua forma é pontiaguda e ameaçadora. É um conjunto de lanças presas
por uma barra — imediatamente dá a idéia de “mantenha distância” mesmo que suas intenções sejam
inteiramente amigáveis.
O portão começa um conflito antes mesmo que o diálogo tenha início, e o visitante casual é culpado antes
que se prove a sua inocência. Dentro das casas, já existe tanto medo que tem que ser aplacado...
É outro passo na rota que separa as pessoas, e prejudica o sentimento unificador que um dia existiu na
forma do espírito de comunidade — algo que está rapidamente desaparecendo, se já não desapareceu
da maioria das cidades em todo lugar, e que está obviamente em seu curso de desaparecimento na ci-
dade de São Paulo.
Ironicamente, estes portões têm um efeito unificador sobre os cidadãos, criando algo que muitos dos cri-
minosos e aqueles que os temem, agora, têm em comum: ambos sabem exatamente como é viver atrás
das grades.
SALVEM O TITANIC
Crivado entre a vasta massa de arranha-céus espalhados em São
Paulo, encontra-se um grande número de prédios que um dia foram
belos e que agora estão lamentavelmente arruinados.
Eles conferem à cidade um caráter enigmático, como pontos de bo-
lor numa parede infiltrada, e obliteram a sensação daquela fanta-
sia de que a cidade está sempre apaixonada pela prosperidade e
faz qualquer coisa para promovê-la. Uma cidade verdadeiramente
dedicada a este espírito conservaria os prédios que marcaram sua
prosperidade e riqueza no passado, tanto quanto conserva aqueles
que são as marcas do presente. Ao invés disso, a cidade trata seus
antigos prédios como um parente rico trata um primo pobre.
Mais estranhamente ainda, ao mesmo tempo em que as autorida-
des administrativas se apressam em lidar com os seres humanos
que posam como um perigo repugnantemente feio à metrópole, ti-
rando-os da paisagem, eles parecem não fazer nada para castigar
os senhorios e proprietários responsáveis pela irremediável deterio-
ração de prédios atraentes, até o completo abandono pelos inquili-
nos, deixando-os aos caprichos da sorte.
O prédio na ilustração ao lado, com a fachada como a proa de uma
embarcação transatlântica, tem o privilégio de estar numa área bem
conservada do Centro, embora pareça estar com os dias contados,
perdendo rapidamente a dignidade na medida em que o avanço do
tempo o consome. Está no ponto exato para uma reforma, e se ela
não vier, o prédio talvez acabe abandonado por seu contingente,
sem qualquer esperança de encontrar novos inquilinos, e então ter-
minará sem valor, com a mesma aparência de todos os outros pré-
dios negligenciados de São Paulo.
Pronto para afundar.
EU NÃO SIGO, SOU SEGUIDO
Há um tipo particular de nuvem que sobrevoa São Paulo. É um tipo que eu nunca vi em outro lugar. Talvez apareça em outros lugares, mas
eu nunca vi. Vi primeiro pela janela do avião, quando me dirigia à cidade. Então a vi de novo sobre minha cabeça em minhas jornadas. Não
sei como os meteorologistas a chamam, mas eu a chamo de “a nuvem apressada”, pois sua forma é a de uma nuvem ansiosa para se mover
em direção ao próximo pedaço de céu, esquecida de todos os seus outros pedaços, os quais vai deixando para trás em sua pressa.
Se há uma conclusão a que cheguei ao tentar compreender por que uma cidade fantástica e trabalhadora como São Paulo tem problemas
solúveis, embora aparentemente seja incapaz de lidar com eles, é porque a cidade se parece muito com minha nuvem.
São Paulo está tão ansiosa para se mover para frente e para cima que não consegue, ou não quer conseguir, lidar com as pessoas e situ-
ações que vai deixando para trás em sua marcha para o progresso. A cidade brada seu lema “Eu não sigo, sou seguido” de forma tão des-
comprometida, que liderar acaba se tornando o elemento principal em detrimento dos liderados, deixados em segundo plano.
Ninguém acreditaria se dissessem que aqueles caçadores de escravos, ouro, e terras, que inventaram este lema, os chamados Bandeirantes,
se preocupariam em saber se os últimos em seu grupo eram capazes de alcançá-los e caminhar pari passo com eles. Mas podemos acre-
ditar que a moderna e civilizada cidade de São Paulo consiga agir de forma diferente no tratamento de seus cidadãos fracos e vulneráveis.
Isso garantiria um futuro melhor para todos.
VIEW FROM A HIGH WINDOW treasure chests that stood within! From that point on, I’m sure, the priests who founded the city wanted the love of God, rather THE FAST
When you’re up above the clouds everything looks about the same. And all the riches of the palaces were thrown high into the air, and rained down sparkling in the than any other kind, to mark the future of the community there, but unsurprisingly, it didn’t work There are at least …million drivers in Sao Paulo, and the spirit of one represents them all as if
From what I could see through the airplane window, I might have been on my way to New York, starlight on the poor villages outside the city walls… out that way. he were their patron saint — the late, great Ayrton Senna.
Tokyo, Paris, Rome, Mexico City or Hong Kong, instead of heading for Sao Paulo, Brasil. Eventually, and inevitably, it was the love of land and the love of gold — passionately demon- A paulistano racing natural who took to fast driving like a duck takes to water, Ayrton Senna
I knew very little about Sao Paulo. I didn’t want to. I wanted to see it fresh, experience it fresh, strated by the ruthless and indefatigable pioneers of the jungle, the Banderaintes — which became astounded the world first in go-karting before moving into motor racing, and graduating to Formula
without preconceptions. I wanted impressions made on me that were instant, like images caught BASINFUL OF HOPE the dominating objects of worship in the area, and would continue to be in the centuries to come. 1 in 1984.
in a camera. Thankfully for all the human beings who might find themselves unfairly dealt with if such a fan- His risk taking was so extraordinary that it scared the drivers who competed with him. Driven in
There were just two things I knew about the city : One, that it was big ; two, that it was split by tasy became real, no heavenly thunderbolt with good intentions is likely to pulverize the gleaming his driving, and supremely confident in his skill, Senna let something take him over when he sped
money. A common combination of elements in cities across the globe. Why they were common to palaces of Sao Paulo in the near future… BETWEEN PARADISE AND CONSOLATION around the race circuit — a spirit that he imagined, for a moment, he could release from his control.
this one, was one of the things I wanted to find out. But there’s a real possibility that one fell some 30 million years ago at the Cratera da Colonia, Paulistanos joke that the Avenida Paulista — the most important highway in the city — is like Perhaps he was so sure of his infallibility that he began to think he was protected by the gods. Luck-
Another thing I wanted to find out was just how different Sao Paulo was to all the other big cities where an impressive favela community lives and thrives in a geological basin in the earth that gives a marriage. It begins in Paradise and ends in consolation. What they’re referring to in that quip are ily, he avoided being seduced by this passing delusion ; but luck couldn’t protect him from the result
I’d seen in my travels. Most big cities I’d been to were grey – but Sao Paulo was in South America, evidence of a meteorite landing. the starting and stopping points of the avenue — from the Paraíso subway station to the Rua da of experiencing it. In a crash at the San Marino Grand Prix in 1994 Ayrton Senna met his maker.
one of the most colourful places on Earth. It was a concrete jungle in the middle of a real jungle. If something did fall there, it might well have left some kind of benevolent radiation behind it, Consolação. To the people of Sao Paulo, motor racing is a magnificent obsession — and when Ayrton Senna
Colour would force it’s way through. It had to. because the people I met from this community showed no signs of the depression I expected to find For that description to be something more just a smart play on words, there’d have to be some- passed away, the people of the city cried in the streets. No greater tribute could have been afforded
I was looking forward to finding out if it did. in any favela resident I might meet in my journey. Though living in typical favela conditions, they ap- thing about the avenue that really reminded a visitor of the rocky road a blessed union between a to him.
peared to be upliftingly optimistic, and showed real interest in where they were, rather than being man and a woman might end up on. But looking at it through history and viewing it now, nothing A monument in honour of this great hero of the motor circuit can be seen at…
preoccupied with plans to escape from it. points that way. A rose-strewn path would be a better name for it.
THE BLUES But benevolent radiation aside, I had a hard time figuring out what it was that made these par- Beginning as a trail that was hacked through the jungle in 1782, it became the first road to be
We approached the airport in the light of morning. ticular inhabitants of a ghetto so forward-looking and interested in their surroundings, until I just asphalted and tree-lined in I894. At that time it was a showplace for the mansions of the coffee …AND THE FURIOUS
began to think practically and logically about it. barons who grew the city’s wealth. These days, it’s a showplace for the big buildings of the banks It’s ironic that in a city so in love with fast driving, the roads seem calculated to guarantee that
The plane came in low, speed-reading the ground underneath it of half-houses and shacks
Maybe it just comes down to the fact that if you can actually see the walls of your world all and suchlike, who’ve supplanted the coffee barons as big wheels in the city. It’s also the only thor- no motorist can ever move very fast at all.
that were the favelas — the dwellings of the poor that surrounded the high-rise urban core of the
around you, it must remind you of your responsibility to it, and urge you to do the best you can with- oughfare in Sao Paulo that’s had all it’s power lines buried under the ground in a cosmetic operation Traffic seems to be in a constant stop-start-stop situation whatever route you may decide to
city. The blue water tanks that feed the needs of their inhabitants dotted the landscape, like the
in it to make it as nice a place as possible to live in, whatever the nature of your circumstances. calculated to lift it’s appearance above all lesser highways in the city. take anywhere, and motorists have a hard time keeping appointments in a place where making ar-
blue swimming pools of the houses of San Diego on the approach to Lindbergh Field. The contrast
And I guess if all of us could see the walls around us in a similar kind of way, we might get to The Catedral da Sé is located in the geographical centre of the city, but I’d say the Avenida Pau- rangements and times to meet rather than keeping things informal is the common practice.
couldn’t have been greater.
feel to the same. lista is it’s real core — in spirit as well as significance. But it’s not tough for Sao Paulo drivers just because the roads don’t seem to have been planned
I wondered if some of the kids in the streets below were looking up at us in the same way that
The most extraordinary building to be seen in this avenue is the Sao Paulo Museum of Art – with perfect efficiency from the start, and aren’t coping with the growing number of vehicles that
I used to when I was a kid watching an airliner pass overhead, conjuring a fantasy about where it
MASP. It’s one of only two buildings I’ve noticed in the city that are unmistakeably from the late use them – they’re tough because the people with the power to change things and make life easier
was coming from or where it might be going — an exotic place that was exciting, and where life
was as good as it could be, instead of as good as you could make it. IT STARTED WITH A KISS 50’s and the 60’s : both have the ‘ box of windows ‘ look that was popular with many architects of for the road-user no longer use the roads themselves. They’ve all taken to the air.
History. the time. Not for them the hustle and bustle of the city traffic. They don’t have to struggle to work and
And I wondered if some of the deprived adults down there might be looking up at us with some-
Strange as it may seem, the long string of violent acts that formed the basis for the wealth and But the MASP structure is much more unusual than many other buildings of it’s style. The struggle home at night. They’re part of a growing elite who use over one hundred helipads, and a
thing more than just resentment — and conjuring their own version of a fantasy they’d like to see
prosperity of modern Sao Paulo started with a kiss. owner of the land it stands on didn’t want the view across the city from the Parque Trianon to be fleet of private helicopters rivalled only by the numbers you can find in New York, to make life more
made real… maybe something like…
And though in truth the first Indian woman to get up close and personal to one of Pedro Cabral’s blocked, and so MASPs architect cleverly designed it to straddle the view, on four big red columns. comfortable for themselves than the regular Joe can afford.
foolhardy crew ( the first to hit the coast of Brasil in 1500 ) was more interested in eating his lips This bizarre construction gives the museum an impressive but distinctly elephantine quality. You So, while Sao Paulo’s ground-based road commuters suffer the slow trip home each weekday,
than kissing them, it did mark the beginning of a path that just 50 years after Cabral’s landfall would almost expect to see it walk off down the avenue to stretch it’s legs, or pull them in to settle down they can now also suffer the slow torture of watching the city’s decision-makers flit home above
STAR WAR for a nice rest. them like angels in a misty heaven, heading for their houses in the clouds.
Once upon a time, in a city not far away… lead to a more conventional relationship between invader and invaded that would directly contrib-
ute to Sao Paulo’s origin. When I visited the museum, it seemed to me that with the combination of the market that regu- It’s enough to make you mad. And it does.
A line of gleaming palaces stood, their many windows reflecting the glittering light of the stars
that shone in the sky above them. This significant star-blessed get-together was between the Portugese pioneer João Ramalho larly occurs under it’s big belly, and the traffic, and the tourists, and the visitors that regularly swarm
Suddenly, one of the stars appeared to grow bigger… and an indian girl named Bartira, who just happened to be the daughter of the tribal chief Tibiriçá. It beneath the MASP building blocking off the view of the city across from the Parque Trianon, that it MOTOBOYS R’US
And bigger… was with the help of Tibiriçá that Ramalho became a big wheel around the jungle, and consequently was hardly worth the effort of trying to preserve it. The only road users who have any kind of free-flowing mobility on the roads throughout the city
And bigger… became influential enough to lead Sao Paulo’s famous founders - Manuel da Nóbrega and José de But if the effort hadn’t been made, we wouldn’t have one of the most amazing buildings in the are the various fleets of motorcycle couriers who zip around the place and are commonly called, ‘
It was a meteor – and it crashed into the gleaming palaces, shattering the many vaults and Anchieta – to the location of the city’s founding. city to look at. motoboys ‘.
While other road users suffer the stress and strain of the city’s clogged-up traffic, the motoboys very top of the building himself, in a four-storey mansion built for the purpose. This building, appar- GREEN MOUNTAIN SINGIN’ IN THE RAIN FOREST
can manouvre around, and behind, and in front of, and alongside the four-wheeled vehicles they ently, is haunted a by a ghost - a blonde without a face who can only be seen in a mirror. I mention Sao Paulo grows constantly in an unplanned and seemingly unplannable manner. With no clear The first labourers to struggle in the the sugar and coffee plantations that made the city’s
share the road with in a manner that is generally annoying and frustrating, and can make even the this only because whoever she may sadly represent in her human spirit form, she seems also to order imposed on it’s development, it expands continuously as more people enter the favelas, and wealth were slaves — Indians in the earliest days and Africans later — but in the late 19TH century,
most world-weary motorist want to get out of his car and just walk away from it. represent in the form of the tall buildings that eventually followed the Martinelli — most of which more concrete towers thrust out from its core. after a long, slow process, slavery was finally abolished, and the plantation owners who’d used free
But all of life is not as easy for the moto boys as their speedy progress through the rush hours were distinguished by a bland and faceless quality that isn’t worth looking at in a mirror. It would be easy to imagine this urban and suburban sprawl spreading to every part of the city’s labour for so long were forced to quickly find a new workforce that was as cheap as they could get
might suggest. Currently, as a body of men, they’re underpaid, under-represented, and under-in- From the Prédio Martinelli onwards , there was no stopping the rise of the high-rises that give landscape were it not for the barriers of the city’s conservation areas. it, and from anywhere they could find it.
sured. the city the amazing look it has today. There the green is allowed to rule. It covers the ground thickly, molding itself to every surface as So began the flow of immigrants to Sao Paulo - from within Brasil and from beyond it’s shores —
And while youth is on their side for most of them, luck is not. When they go into a tunnel, they The next building to make an impression and stake a claim to the city’s highest for a while was if it were rock. From the high viewpoint of Pico do Jaragua, a 180 degree view of the whole of the which would make the city as populous and as mixed a bag of cultures and nationalities as it is today.
have less chance of coming out of it than all their four-wheeled road-using companions put togeth- the Banespa building of 1947 — a 35-floor monument to money which was turned into a copy of city can be seen, bathed on a good day in the reflected blues of the sky and marked with streaks of From outside Brasil, the predominant groups were from Italy, Germany, Eastern Europe and Ja-
er — and because of that, as a group of men, they donate much more to the city’s resources than New York’s famous Empire State Building as an afterthought by it’s builders, in an attempt, perhaps, the red, famous earth that coffee likes so much to grow in. pan. The Japanese were running from poverty and earthquakes, so had little to regret ditching in their
a fast delivery service, and donate it much more often than any other type of citizen… to say that whatever New York could do, Sao Paulo could do just as well. Condors fly in the air there, too. Monkeys swing in the trees. escape to Brasil - but the Europeans missed many of the things they’d had to leave in their wake.
I heard a story while I was in the city about an old guy recovering from a big operation who was Taller buildings followed it, including the one that’s often cited as it’s tallest now, the Edificio Jaragua looks like the rest of the city looked 500 years ago, before cars and roads, planes and The Sao Paulo opera house, which had been funded from the riches of the short-lived rubber
being wheeled out through the doors of the biggest hospital in Sao Paulo — the Albert Einstein — Italia, which has 42 floors. helicopters, smoke and pollution, and every other modern blight on the natural world that came industry, was an unaffordable but comforting addition to the city’s places of entertainment for them.
just as a motoboy was dismounting from his bike to take a package into reception. As the motoboy But the very tallest is probably the least beautiful of the city’s giants, which is probably why along to have their day. It’s a day that will last a long time — and the chances of the green mountain Few of the immigrants would get to see Caruso singing on it’s grand stage — nor even get to see
left his bike, the old guy looked up and noticed it there. Suddenly, as if blessed with a surge of en- no-one wants to draw attention to it — the Mirante do Vale. It’s from 1960, is 558 feet high, has 51 being around for another 500 years are very remote. him famously singing in the middle of the jungle, where it might have been easier to sneak a peek
ergy, he rose up out of his wheelchair, jumped onto the bike and took off on it at high speed, his floors, and is a kind of companion piece to MASP, from a time when a box made of windows was So you’d better come and see it before it’s gone. — but for them it was just good to know the building was in the city, and bringing with it a part of
dressing gown flapping behind him…. seen by many architects as a vision of beauty. a culture they sorely missed.
I don’t think it was a true story, but I know what it was about. The next step towards the stars in Sao Paulo is currently being planned by an investment group Eventually, many of these early immigrants climbed the city’s social ladder and were able to
headed by the Maharishi Mahesh Yogi, who believes that building a bunch of correctly positioned THE PEOPLES AIRPORT become regular visitors to the theater they could once only dream of seeing from inside.
geometric shapes in different parts of the globe will lead to ‘ heaven on earth ‘. One of the few places I discovered in the city where those who have more than enough to live
Now, this beautiful piece of architecture is one of the few old buildings in the city which will
SOME OTHER MOTO BOYS - AND THEIR PALS I think giving more cash to the needy, and less to builders of skyscrapers, will do that job in a on get to mingle with those who have barely enough to survive, is the central bus station at Ro-
never find itself neglected. It’ll be preserved and respected for as long as culture and high art are im-
The cops. much better way. But maybe I’m just too low on the ground to see the bigger picture… doviariá do Tietê.
portant to the city and it’s people — and I’d guess that will be for as long as the city itself exists.
You have to feel sorry for them. They’re haunted by ghosts. Ghosts of actions taken, buildings It’s the biggest in Latin America, and there are few like it elsewhere on the continent. It’s size
used, casualties suffered. Ghosts from times when their main use was for the suppression of politi- is that of a small airport. It even has gates like an airport does — and gates that actually look like
cal opposition, and fighting crime was a sideline. ESTEVÃO’S PALACE gates, and not just open doors to a jet bridge. LUNCH IN THE PARK
Because of this, many of Sao Paulo’s citizens keep a respectful distance from them wherever Imagine for a moment you’re exploring the ocean floor. The station’s function is quite similar to that of many of the smaller airports in the US, but un- Sao Paulo’s urban centre is home and hive of activity for over 11 million people, and for many
they happen to be, and watch them warily from across the street, as if gazing from one side of a You don’t expect to find anything really unusual amongst the darting fish and anemones. Then, like them it’s costs can be met by a wider range of income groups : it’s an economical travel option of them every day is a battle to survive in the dog-eat-dog, cut-and-thrust of a stress-filled work-
canyon to the other with a huge gulf stretching between. In their eyes, the designated upholders of suddenly, as you turn a coral corner, you find yourself in an undersea grotto of twisting walls and for people on average salaries ; a bargain for the high-earning ; and a blessing to the poor. Because ing environment.
law and order in the city still wear the mantle of the repressive years, hardly camouflaged by their archways that looks like the work of mermaids and mermen on their day off. It’s built of barnacles of this, a wide range of people enter and leave the station all the time, and you can never tell very Ibirapuera Park is a haven of calm for many of these people — a perfect place for a halt in the
new suit of clothes. and all the objects of natural beauty that dot the ocean floor, and it’s reinforced with the salvage much about any of them as they walk the floors other than their likely age and general position in frantic pace.
This is an unfortunate situation in a city where crime is rife and most of it’s victims are of the of a thousand shipwrecks — the cups, the plates, and the cutlery of lost dinner services, stopped the world. It’s the biggest park in the city, where the sounds of the crowd and the sounds of the traffic are
same class that suffered most at the hands of the ‘ old ‘ police force. clocks and ornaments of all kinds - kept from the destinations they were meant to reach, and now But one particular type of person is easy to spot - and looks the way that particular type of per- too far away to hear ; and where keeping your position in the office hierarchy, surviving the sharp-
Some things change, but some things stay the same. used to celebrate the beauty of humanity’s humble handicrafts as if in a museum. son must have looked from the time that very first bus pulled into the station on the very first day it tongued supervisor, or surviving in your job at all, can be forgotten and left at the park gates.
If you can imagine that, you’ll have a rough idea of what the amazing house of Estevão Silva opened for business — the hopeful immigrant. There are acres of trees and grass and cooling lakes to relax by ; and if you want more distrac-
da Conceição looks like in the favela he calls home. It has to be seen to be believed. A remarkable Coming from a place where he sees no future to a place where he expects to find one, he tion than listening to the rustling of the leaves in the trees or the pad-pad-pad of passing joggers,
TALL,TALLER,TALLEST work of real art — real art because it was made for it’s own sake and for no other purpose by a wheels his life out of the station and into the city, hoping he can root it there and never have to there are works of art to be gazed at in a gallery, or stars to be stared at in a planetarium.
Skyscrapers. man who seems interested only in creating something of beauty in a place where beauty is in short pull it up. But be careful where you let your wandering eyes linger as you try to escape from your wor-
The core material of Sao Paulo — in bigger chunks and more of them than can be seen anywhere supply. Like the porcelain bird that sits at the very top of the extraordinary dwelling, Estevão’s cre- But if fate is cruel and things don’t go to plan - as so often happens in the big city – at least the ries. A moments glance at a sharp, fast, opportunistic predator going in for a sudden kill on an un-
else in the world. If you like skyscapers, come to Sao Paulo. There, they jostle for your attention. ation looks up and out of the grim surroundings it’s part of, even though it’ll never be able to fly bus station will be kind in offering him an affordable ticket back home… fortunate fish in the shallows, then instantly readying itself for another, and you might just end up
The first of them to be built in the city in 1929 hardly qualifies as one in it’s appearance to us away from them. remembering what you’re trying to forget…
now. It was a pioneering work from architect, Irmãos Lacombe — the Prédio Martinelli. It’s builder It’s a work of magnificence and greatness that should be granted lifetime protection and spon-
had a hard time convincing people who were used to living reasonably close to the ground that it sorship by the city.
was safe to live 30 floors above it. He succeeded only when he decided to live with his family at the
MEAT AND POTATOES nates in other places — they definitely know where they stand. appear on, making it look much better than it was beforehand. ing expanded today.
The work ethic is a common denominator of the various levels of Sao Paulo society. For good reasons, both forms of graffitti are never seen in the same place on the same build- Attached to the development is a CEU — Centro de Educação Unificado — one of many guard-
ing - they’re both done from completely different motives and have absolutely nothing in common ed and gated educational/ recreational centres for children of the poorer districts in Sao Paulo,
Like the people of New York, paulistanos know there’s only one way out of where you happen CAAGUAÇU with each other — but I think it would be nice if they were… which seem like fantastic places to study and have fun in.
to be if it’s a place you don’t like — and it’s through hard grind. Only the hopelessly homeless have Tupi Indian for ‘ big forest ‘.
given up on this route to salvation. Maybe the bright colours and bright images would throw light into the dark corners of the Visiting these institutions is an honour and a privilege for anyone lucky enough to be invited to them.
For the bulk of the city’s population, the nourishment needed for this progress towards a better criminals minds, and brighten their souls so they didn’t want to commit crimes anymore but wanted But I was left with a puzzle after seeing them.
existence is the kind of breakfast lunch and dinner you can find plentifully and cheaply across the FOOTBALL CRAZY instead to help the needy, or do voluntary work in a pet sanctuary, or organise football teams for It’s clear to me there’s lots of potential in the under-housed and the under-educated of the city’s
city from cafes and diners just like the one opposite. We’ve all been there. deprived children. population, which the city often takes steps in helping to release. But at some time, and for some
It’s a food filling station for the average Joe. Meat, potatoes, beans, rice and gravy. It’s what You’re watching your local team at home and they’re playing like a bunch of clowns. You know Smaller things have had an effect on the colder-hearted in society, so why couldn’t that small reason, someone stops releasing it. There’s a glass ceiling, it seems, that someone always wants
I was brought up on in another form — and, at it’s best, it gives you everything you need to deal they can play better but THEY don’t seem to know that. At the moment, you doubt they even know thing? Every little helps. to be there, keeping people low.
with the day, and tastily. what day it is. Even if it’s just a little paint. In education, for example, there are scores of private universities populated with graduates
It’s the sort of staple that all paulistanos have built their strength on — from the guy digging You can’t sit down and watch it all happening, you’re too on edge. You have to stand. You must. from private schools, but only a few public ones — which were set up specifically for the benefit
the road to successful millionaires like the great cartoonist, Maurício de Souza, who has worked They’re doing all the wrong things, and you’re powerless to get them to do the right things. of those from public schools. Unfortunately, the public schools are so underfunded and plagued by
so hard and with such determined single-mindedness, that his famous character, Mônica, has out- You feel you want to go down there and play the game for them. YOU know what to do, how come VIVA SAO PAULO problems that they’re almost incapable of training pupils to pass the entrance exams needed to en-
stripped the popularity in Brasil of Walt Disney’s Micky Mouse, which is a remarkable achievement THEY don’t? 40 storeys above the streets of downtown Sao Paulo is a restaurant that offers visitors a spec- ter the public universities. So, infuriatingly for those championing the cause of better education for
unmatched in any other country Disney’s creations have been introduced to. It’s just too much for a man to stand. tacular 180 degree view of the city from inside looking out, as the high point of Pico do Jaragua lower-class children, most of the students benefitting from the public colleges come from private
I honestly don’t know if Mônica enjoys meat and potatoes — though I’d guess she does — but And then, just as you think things can’t get any worse, they do. offers visitors a view from the outside looking in. schools instead of public ones.
she’s certainly the kind of cheerful character you will always find serving you in any of those great ‘Ohh, nooo!‘, you cry, as they screw up in a spectacular match-losing display that’ll go down The restaurant is at the roof of the Edificio Itália, which is no longer the tallest building in the And in housing, there seems to be a mysterious artificial block to helping the unlucky get too
cafes and diners across the city. in club history. Lights go off in your brain, you try to tear your hair out in rage and frustration. The city but is still top of the tree when it comes to serving great Italian food and wine. And if you find lucky — as if a lot more people doing good in the city is somehow a bad thing for the people do-
players on the pitch become blurs, the light changes. You’re in Hell. the prices soaring out of your budget there, you can try one of the dozens of great ristorantes that ing good already.
And suddenly that team you were so proud of, and rated at ten out of ten, now deserve noth- thrive around town, or in Bixiga, the city’s little Italy. This, to an outsider, seems inexplicable — to an insider it must seem like madness.
LOCKED OUT ing but a big, fat zero… The Itália Building is a great tribute to the contribution Italians have made to the city’s culture
As is sadly the case in most other big cities of the world, many of Sao Paulo’s homeless people Yes, football in Sao Paulo is just like it is anywhere else in the world. It’s got a few more fences and wealth. They came to the city at turn of the 20TH century as poor immigrants, to toil on the plan-
are those who arrive in the city with a dream they can’t make real — then end up on the streets to keep rivals apart, a lot more brilliant players, and is rooted into the heart and soul of the culture a tations that had previously been the workplace of slaves. But over time they grew in influence and
DON’T FORGET YOUR UMBRELLA
because they can’t afford to leave . Rain.
lot more deeply than in other countries it’s been taken up by. But otherwise it’s just the same. wealth and became a driving force in the city ; especially in the city’s industrial growth.
Others who arrive attach themselves like barnacles to the sprawling mass of favelas that sur- If Sao Paulo was a restaurant, rain would be a speciality of the house. Not offered to patrons in
A paulistano called Charlie Miller, the son of a Scotsman, was responsible for spreading this Like Italians everywhere, they’re as proud of the country they’ve made their home as they are
round the city and start to build their own homes with whatever comes to hand, until they can rustle moderate servings but dropped in a soup bowl from a giant’s ladle when you hadn’t even thought
addiction to the city, and the whole of Brasil afterwards, in 1894, when he brought it back with him of the country they came from. But in truth, the strategy of the Italian as èmigrè is similar to that of
up enough cash to buy bricks and mortar for a wall, then rustle up enough to buy another, then a room, of ordering any - and at any point during the meal.
from England. the colonising armies of Rome. To any new country they head for, they bring the biggest chunk of
then a storey, then a couple of storeys, until they’ve got something that looks like a regular house. The rainfall is so sudden and so heavy that it regularly floods the streets, demolishes public
A true blessing for the people of Sao Paulo. Italy they can carry. Then they plant it, grow it, then use it to make their new surroundings seem so
But for those living on the streets, wherever they come from, being homeless in Sao Paulo is a meetings, and drowns al fresco diners in the middle of their fesuala (?).
If it hadn’t been for Charlie, they might still all be playing cricket… much like the ones they’ve left behind, that they rarely end up pining for the real thing.
special condition to be in, because no quarter seems to be given to them in their plight. According to those who’ve advised me, it’s sudden drenching appearances out of the blue on
As a fan of most things Italian, I’ve seen the benefits this strategy brings to any city the Italians
If they find a spot to be comfortable in, someone comes along and hoses down the ground un- a regular basis started to become a routine occurrence ten or so years ago, replacing a general
have exported their talents to — and Sao Paulo is no exception.
drizzle that was part of the scene for decades. And for reasons I’d guess aren’t far removed from
der them. If they form a community in the dead space under a flyover, someone comes along and THE GRAFFITTI GANG that little problem we have called global warming, the heavy hitters are hitting much earlier in the
closes the space up, so they can only huddle under a slanted board outside it. If they sleep on the For the tourist or brief visitor to the city, crime is a bit like one of the giant cockroaches you can
year than they used to, and can’t be relied upon to stop at a specific time of the year.
benches in the public parks, someone designs new ones that stop them resting there. see scurrying out at night from the ill-kept manhole covers on one of the city’s side-streets : it’s BUILDING FOR TOMORROW These waterfalls from above can’t be anticipated and can’t be stopped, and — beseech the
This all wouldn’t be so bad if the city was trying to do something to alleviate the misery of the always under the surface but in places you can generally avoid. Cidades Tiradentes is a 40,000 unit public housing development that was started in Sao Paulo
homeless as well as heighten it, but there’s scant evidence of that happening. The policy that’s em- heavens as you may — the gods won’t stop them for you.
For the citizens, though, Sao Paulo’s crime-rate is something they have to live with every day. in 1980, when the military government of the time was constructing public housing as part of a
ployed in dealing with the homeless is one of pushing out, not helping out — and the feeling which So, don’t forget your umbrella if you come to the city.
And if that wasn’t enough, they’re reminded of it all over the city by the graffitti communication sys- drive to push forward the economy.
this gives to the homeless is one of being locked out of the society around them, without hope of And make it a strong one.
tem the gangs use, which turns the ugly run-down buildings around town into even uglier criminal Its appearance must have seemed like something out of a dream for many paulistanos who’d
anyone letting them in. messageboards. grown used to being ignored in their pleas for better places to live in. It was a great success, and GARDEN OF REMEMBRANCE
As far as I can see, the homeless in Sao Paulo have only one advantage over similar unfortu- But other kinds of graffitti around Sao Paulo have the opposite effect on the grim stone they a grand model for many smaller-scale versions that appeared in the city after it — and it’s still be- In 1992, Carandiru Penitentiary was the site of one of the bloodiest incidents in Brasilian prison
history. A jail riot sparked a massacre of inmates that led to a military police chief being sentenced THE FINISHING POST So, in this particular city, where the open air markets offer the opportunity for all types, classes These streets are the pedestrian highways of the Cemiterio do Araçá, which are lined with the
to 632 years in prison ( none of which he served — but that’s another story). Like any big city Sao Paulo creates more than it’s share of trash, but not all of it’s waste is col- and races of people to shop at their leisure, they have a very good chance of staying around for a grand mausoleums of the deceased members of some of the richest families in Sao Paulo, who rest
It was a big blot on the record of a prison system that already had it’s share of big blots — but lected by those operators officially charged with the task of dealing with it. very long time. in death in the kind of grand style they’d become accustomed to in life.
this one was a doozy and needed special treatment. The treatment eventually proved to be the de- Collecting as much of what’s left in the streets that can be recycled provides a meagre living And there are lots of them to choose from. They range from the moderate, casual style of mar- Many of these houses of the dead are as beautiful as they are monumental, and pay tribute
molition of the jail — in an attempt to demonstrate that serious reform was going to be undertaken for many of it’s unlucky but hard-working citizens, who pull hand carts from one location to an- ket place — like the one you can find just off the Santa Efigênia Viaduct — through to the incredibly to the high achievements of many of their occupants in a way in which some of the less fortunate
in prison policy - and the transformation of Carandiru’s grounds into a public park. other, piling them high with anything salvageable from the litter of the roadways, before heading in busy trade market of the 25 de Março, where the numbers of people packing the street are twenty citizens of the city might wish their lives to be celebrated. These little city houses are decorated
The park that resulted from this action is beautiful, but extraordinary in it’s aspect, because at the direction of the recycling depots around the city, where the results of their hard labour can be times what you’d find off the Santa Efigênia Viaduct any day of the week. with statuary from the finest sculptors of Sao Paulo, and lots of them are built from the plans of the
it’s core is a part of the concrete base and iron skeleton of the jail it was built to replace, standing exchanged for cash. So no need to got to Daslu for that pair of socks… same architects their occupants once employed in the building of the skscrapers that now over-
out starkly, and blackly, against the green. It gives home to the ghosts of the past, and reminds park It’s a tough and lonely existence for many these people, made easier for some of them by the look them.
visitors of it’s grim origin. In daylight, both styles of edifice — the soaring high-rise and the imposing resting place —
Before 1992, I’d have guessed there’d be more than one unlucky inmate of the jail that once
animal companions they take along with them on their travels. These pets, often seen perched on WHO WILL BUY? look equally attractive in their contrasting ways. But when night falls, an appropriate gloom shrouds
the carts like passengers, don’t make the work easier for the recyclers but they lighten the load of The Benedito Calixto is one of the many open markets and street fairs that cover Sao Paulo. It’s
existed there who’d have enjoyed seeing the lush growth of a parkland environment brush the bars having to struggle at it every day. the little city of those who have passed on, while the streets that house the tall monuments to the
a regular Saturday venue for arts and crafts buyers and sellers. Music plays there, dancing happens,
of his cell window, while listening to the sounds of birdsong in the morning instead of the cries of Until recently, though, one type of animal companion did help the luckier of these folks who ambition of those still living are bathed in the glare of a thousand lights.
and the grim reality of life around town for some folks is not supposed to pop up in the schedule.
desperate men. But no such therapeutic relief from misery was available then in the grounds of could acquire one : the horse. They pulled the laden carts with relative ease that their masters previ- Unlike us, the dead can’t stumble in the dark.
But a spectre at the feast is never far away from any experience of the Sao Paulo social scene,
Carandiru. ously strained at, and populated the roads like ghosts from a time when they were essential to Sao and the man I saw at the roadside across from the market was definitely auditioning for the role.
Maybe if it had been, there might never have been a prison riot at all. Paulo’s growth and streets were empty without them. On first glance he looked neither desperate nor depressed, but he was obviously a bit of both.
But the modern city administrators didn’t appreciate the horses like the recyclers did. Accord- He had something to sell but didn’t seem sure about it. Like a diffident swimmer at the edge
RIVER OF ROCK
Only one building in the jagged landscape of Sao Paulo’s central area of climbing concrete col-
NO, THANKS, BUT HAVE YOU GOT ANY WING MIRRORS? ing to them, they slowed up the traffic and caused more hold-ups than they already had, so they of a chilly pool, he was offering his wares to the few passing cars and pedestrians half-heartedly,
umns attempts to shape itself into a form that’s as common in the world of nature as the trees that
A lot of people in Sao Paulo have a hard time getting a job, and it’s tough to make a living with- banned them. Of course their argument was flawed. What’s faster? A man pulling a cart or a horse and silently.
pulling a cart? But I don’t think logic was involved in the decision. grow by its side – the Edifício Copan, designed by the architectural genius, Oscar Niemeyer. Though
out one. One way out is to get a stall in a market, or a spot selling stuff on the street; but they can Maybe he’d taken too much rejection to think he’d be listened to. Or maybe he was just going
I have a theory that the horses were banned for another reason. In a city that’s always reaching constructed of unyieldingly hard surfaces, it imitates the soft and the pliable. A rock amongst other
be hard to get, too. through the motions of trying to sell something to bolster his belief in the possibility of stepping
out for modernity in a detectable attempt to erase much of it’s heritage, a horse pulling a cart with a rocks, pretending to be a river.
There’s one kind of place in Sao Paulo where it’s easy to find a crowd of potential buyers that back up in the world he’d fallen low in. Whatever his reasons for not calling attention, they weren’t
poor man at the reins just painted too much of a third world picture to any street they appeared in. It’s an object of modernistic beauty which competes favourably with the more decorative gran-
aren’t on the move very quickly and where you don’t need a licence to sell anything — the roads. helping him out.
So now the horses of the recyclers are out of a job. Forced to be at leisure when they could be deur of the old buildings of Sao Paulo – something the structures surrounding the Copan fail to do.
Endless sets of traffic signals and a variety of delays give peddlers on the hoof a good chance to But if he’d shouted his loudest, he wouldn’t have gained much ground, because the items
at work. Parked like abandoned cars waiting to be taken to the scrapheap — in danger themselves And the Edifício Copan differs from it’s neighbours in other ways. It has more people living in it
make a deal with people at the wheel. The guys I saw in my journeys through the city seemed to he seemed to be selling looked as fragile and as out of place as he did. They were two seedlings,
of being recycled as pet food or glue. than over 500 countries in the world can count as populations, and even has it’s own zip code.
sell every kind of item they could sling over their shoulder or wrap round a belt that wouldn’t ham- held out to the passing crowd as if they were a natural draw. Maybe they were all he had to sell, or
Meanwhile, the city administrators are at the Jockey Club. It’s also unusual in having a wide mix of classes amongst it’s residents. In this river, big fish
per them moving between cars and trucks, or slow them down if a cop wanted to check their ID. maybe he really thought they’d be an attraction. Who knows?
and little fish swim in parallel through the swirling currents that are its 40 floors. So, not only are
Mostly they sell things cheaply that a motorist might have a need for — various refreshments, wa- Whatever his specific situation happened to be, his existence must have been as precariously
the denizens of the Copan lucky to be living inside a work of art, but they’re also blessed by being
ter, soda, and all kinds of car accessories, like windscreen wipers that might have succumbed to a MARKET FORCES balanced between success and failure as the stilt-walker who obliviously strode past him in the
participants in a succesful, though accidental, experiment in gauging the ability of different social
heavy Sao Paulo shower or two. Through most of the Western world and large areas of the East, a revolution in shopping has festive procession — one unexpected push and he’d be on the ground.
classes to live together happily in the same housing.
Unhappily, one of the accessories they don’t appear to sell is one that seems to need replac- been occurring. Slowly in some places, fast in others. Stores have been disappearing off the streets He was obviously a man who was looking at the world around him through rose-tinted spec-
Of course, you could say that a successful housing experiment carried out in the surroundings
ing on a regular basis for some drivers : wing mirrors, which are often and suddenly clipped from and re-appearing in big places full of lots of other stores, as if they’d all suddenly got frightened by tacles, because he couldn’t have stood his situation otherwise.
of a Niemeyer building was done under conditions that were loaded towards success - but if that’s
car sides by speeding motoboys squeezing through narrow spaces in the traffic. It’s not unusual to the noise of passing cars and wanted to huddle together. For a moment I considered going over to him and asking him how much the seedlings were.
true, it shows the experiment was a successful social test as well, proving that people can get on
see motorists grasping them protectively like the head of their favourite child if they catch sight of These big places are the malls of the world. They dominate retailing in some countries, giving But when I looked over at him again, he was gone.
happily together, whoever they are, as long as they all have a shared interest in their environment.
a bikers approach. open air markets a tough time trying to compete. Open air markets can’t offer anything but sympa- A useful thing to know if we didn’t know it already.
One last thing to remember about these resourceful traders of the tarmac is not to start making a thy to a shopper caught in a Sao Paulo shower, or someone looking for a place to change a nappy.
deal with them if you don’t really want to make one. Your impulse purchase is their daily bread — and But malls aren’t sucessful because they just offer comfort and escape from the rain, or a good CITY OF THE DEAD
they can be justifiably hard to shake off if you offer it to them, then try to take it out of their mouths. place for teenage girls to hang out in. They’re successful because they’re egaliterian. They’ll let any- In the centre of Sao Paulo, there are gated streets of special houses that are built to last for THE ODD COUPLE
one in who’s got money to spend. They don’t care how you look – as long as you want to buy a look. a much longer period than the various places their residents occupied beforehand; and though The centre of the city was once a hive of industry a well as a hub of financial activity, where the
Malls in Sao Paulo don’t seem to work on that basis. They seem to operate on the same policy they’re all pretty small, they don’t limit the movement of those inside them, who, for the most part, marriage of a willing workforce to a needy employer was a perfect union that greatly benefited the
of exclusivity that damages the society around them. were used to having lots of space to move around in. city’s economy as well as it’s citizens.
Unfortunately, as sadly happens in many marriages, one of the partners was tempted by a whole story of the struggles and triumphs of the Japanese immigration to Sao Paulo can be found I AM NOT LED, I LEAD
brighter prospect over the hill and far away. And, again as sadly happens, it was the partner with the in a museum dedicated to the purpose. There’s a particular kind of cloud that drifts over Sao Paulo. It’s one that I’ve never seen any- AGRADECIMENTOS
most money who made the move and caused the rift. And the divorce provided no alimony.
Many of the factories that were left unused and abandoned after this split were transformed into
LOCKED IN where else. Maybe it appears in other places, but I’ve never seen it. I saw it first from the plane
Carlos Augusto Calil - Secretário Municipal de Cultura de São Paulo
window on my way into the city, and then I saw it above me on my travels through the city. I don’t
churches — as if giving the unemployed who once toiled in them the opportunity to pray for their jobs Security gates seem to be everywhere in Sao Paulo. SUBPREFEITURA DA MOOCA
know what the meteorologists call it, but I call it the hurrying cloud, because it looks like a cloud
back. Others were demolished. And still others were turned into car parks, like the one in the picture, On the homes of the well-heeled and the homes of the down-at-heel. In front of doors, and in Eduardo Odloak - Subprefeito
that’s so anxious to move into the next piece of sky that it’s forgetting to gather up the bits of itself
which still proudly bears the chimneys that were once part of it’s thriving existence — though per- place of doors. On storefronts or in place of storefronts. On porch fronts and yard fronts, and on
every city apartment building with anyone in it worth stealing from.
that it’s left behind in the rush. Valeria Cavallari Ferreira Collier - Assistente Técnica
haps only because it’s too much trouble or too expensive for its owners to knock them down…
Though these towers have no use, and are mere smoky shadows of their former selves, they In a city that once exported major amounts of timber, it’s surprising to see what little faith they
If there’s one conclusion I’ve come to in trying to understand why such a fantastic and thriving Vera Lucia Langellotti Vello - Assistente Técnica
city as Sao Paulo has problems it’s capable of solving but seems unable to deal with, it’s that it’s SUBPREFEITURA DE CIDADE TIRADENTES
could almost symbolise that perfect union that once gave them life. And they have a certain gran- now have in wood as something that will protect a building from intruders.
just like that cloud.
deur and dignity in their abandonment, which I hope will be reason enough for them to remain use- But it’s kind of sad to see these gates taking over so increasingly on the thresholds of simple
The city is so anxious to move onwards and upwards, that it can’t, or just won’t, deal with the
Arthur Xavier - Subprefeito
lessly in position there for as long as car parks are needed. houses. A gate isn’t something you can knock on. It’s personality is cold, and it’s design is sharp Rosangela de Paula - Assessoria Executiva de Comunicação
people and situations it’s leaving behind in its march to progress. It takes up it’s motto —‘ I am not
And in Sao Paulo, that’s liable to be a very long time. and threatening. A gate is a series of spears held in a row - it immediately says to you ‘stay away‘,
led, I lead ‘ — so uncompromisingly as its guiding principal, that the leading becomes the most CEU INÁCIO MONTEIRO
even if your intentions are entirely friendly. It sets up a conflict before a dialogue has begun — and
the casual visitor is guilty before being proved innocent. Within the house, fear already exists and
important element, and what’s led is sidelined. Rosana Blásio Martins - Gestora
NO SURRENDER has to be allayed…
I guess we wouldn’t have expected that the slave-catching, gold-hunting, land-grabbing, mot- Lilian Calil - Coordenadora do Núcleo de Cultura
Japan : home of colourful anime, and the not-so-colourful manga, the two unstoppable forces to-making, Bandeirantes would make sure that their stragglers could catch up and catch their
It’s another step along the way of separating people and damaging the unifying feeling that Ane Joyce Miranda - Coordenadora de Projetos da Cultura
of entertainment currently conquering cartoon markets around the globe. breath ; but we should expect the civilised city of modern Sao Paulo to act differently in the treat-
once existed in the form of community spirit - something that’s fast disappearing if not gone already Eduardo Meira Gonçalves Cerejo - Coordenador do Núcleo de Esporte
One of the obvious strengths of the Japanese national character is a determination to succeed ment of their weak and vulnerable citizens.
from most big cities everywhere. And it’s obviously on the way out from Sao Paulo, too. CRATERA DA COLÔNIA
— which shows itself over and over again in everything from the strength of its exports to its con- It would make a much better future for everyone.
Ironically, these gates do have one unifying effect on the citizens of the city. They create some-
tinuous efforts to improve the science of robotics. thing that many of the criminals, and those who fear the criminals, now have in common.
Sebastião Carmo Silva - Presidente do Bairro de Vargem Grande
As part of the massive influx of poor immigrants to Sao Paulo at the turn of the century, the They both know what it’s like to live behind bars. Joselma Araújo Santos - Locutora da Chave FM de Vargem Grande
Japanese were marked by that determination. They didn’t want to become just another group of ESTÚDIOS MAURICIO DE SOUSA
imported workers toiling in the coffee farms and fields of the city — they wanted to work for them- Mauricio de Sousa
selves as soon as they could. SAVE THE TITANIC
Peppered amongst the amazing spread of skyscrapers in Sao Paulo are a great number of old Sidney Gusman
Undaunted by the possibility of failure, and placing their faith firmly in the sweat of their brows
rather than the lucky cat charms they’d carried with them from their homeland, they saved as much buildings that once were beautiful but are now sadly decrepit. They riddle the city like spots of mil- JEREMIAS, O BAR
as possible from their meagre wages for years in order to set themselves up as independent farm- dew on a damp wall, and obliterate the illusion that some like to conjure that the city is in love with Gualberto Costa
ers and become masters of their own fate. prosperity and does everything it can to promote it. A city truly dedicated to this ethos would look Daniela Baptista
This irrepressible belief in their ability to succeed was a major advantage in their working lives, after the buildings that marked the city’s wealth in the past as well as those that mark it in the pres-
Analícia Requena
but a major problem at the end of the Second World War, when it was impossible to convince many ent. Instead, the city treats it’s old buildings like a rich relative might treat a ragged cousin.
Oddly enough, while the city authorities lose no time in dealing with human beings who pose a QUANTA ACADEMIA DE ARTES
of them — and those of their new generation - that their old country had failed in it’s martial ambi-
tions and had surrendered to the allies. hazard of unsightliness to the metropolis, they appear to do nothing to chastise those landlords and Marcelo Campos
Some paulistano Japanese couldn’t rid themselves of the fantasy that their homeland had in property owners who let once attractive buildings deteriorate beyond repair until they’re abandoned Estevão Silva da Conceição, morador da Favela Paraisópolis
fact won the war — despite all evidence to the contrary — and they fought bitter battles with those by renters and left to the vagaries of fate. Elza Keido - guia no bairro Liberdade
fellow Japanese who tried to tell them otherwise. It was probably the darkest period of history for The building in the picture opposite, with a frontage like the prow of some mighty ocean-going Flora Pionatto - Edifício Itália
the Japanese in the city. vessel, has the privilege of being in the well-kept Centro area, but it has the look of being on it’s way
out, fast losing it’s dignity as age wears it down. It’s just ready for a refit, and if it doesn’t get one it
Pedro Posta Filho - Irmãos Di Cunto Ltda
These days there are no such conflicts to divide the community — the largest in any country
outside Japan — and fantasies are left to anime and manga, where they belong. might be deserted by it’s crew without hope of finding another. If that happens, it’ll cease to have
Liberdade is where the reality of the modern Japanese presence in the city displays itself — a any dignity at all, and start to look like all the other neglected buildings in Sao Paulo.
terrific place to visit for the best of it’s culture in everything from cuisine to karioke, and where the Ready to sink.

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