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ESTADO DO MARANHÃO
SECRETARIA DE ESTADO DA SEGURANÇA PÚBLICA
POLÍCIA MILITAR DO MARANHÃO
DIRETORIA DE ENSINO
CENTRO DE FORMAÇÃO E APERFEIÇOAMENTO DE PRAÇAS
Criado pela Lei Estadual no 3.602, de 04/12/1974
Tel: (98) 3258.2128/2146 Fax: (98) 3245.1944 – End: BR 135, Km 2–Tirirical

CFSd PM 2018
DIREITO CONSTITUCIONAL
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APRESENTAÇÃO

Este trabalho representa um esforço coordenado dos integrantes do Centro de Formação e


Aperfeiçoamento de Praças – CFAP e objetiva fomentar a produção de conhecimento, padronização
de procedimentos operacionais e proporcionar subsídios àqueles interessados em adquirir
informações, proporcionando também base teórica que deverá ser usada por todas as Unidades
Polos de Ensino da PMMA, por ocasião de Cursos de Formação ou atualização, bem como poderá
ser aprimorada e utilizada em outras atividades de ensino que, com certeza, haverão de acontecer.
Certamente, os conhecimentos não foram exauridos e também não foi essa a nossa pretensão, mas
sim deixarmos nossa parcela de contribuição nesse contexto.

EQUIPE DE COORDENAÇÃO TÉCNICA:

COORDENAÇÃO PEDAGÓGICA:.Cel QOPM Auceri Becker Martins (CMT do CFAP) e TC


QOPM Beltrão (Sub CMT do CFAP), Major QOPM Marco Aurélio Galvão Rodrigues (Chefe da
Divisão de Ensino), Capitão QOPM Égiton Marques da Rocha, Chefe da STE, Cb PM almicele Sá
do Nascimento (Auxiliar da STE) e Sd PM Walfran Sousa do Nascimento (Auxiliar da STE).

Responsável pela edição e aprimoramento textual:


Cel QOPM Auceri Becker Martins - Cmt. CFAP
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MENSAGEM DO COMANDANTE

Caros alunos e alunas do Curso de Formação de Soldados da Polícia Militar do Estado do


Maranhão. Vocês foram selecionados entre muitos, candidatos para uma carreira promissora e de
ascensão, a qual tem como meta a preservação da ordem pública e segurança interna do nosso
Estado. Parabéns pela vitoriosa caminhada feita até aqui. Foram ultrapassados os desafios iniciais
das entrevistas, dos exames e das avaliações para serem considerados “aptos” a uma nova etapa
desta seleta carreira.
São notórias as expectativas e perguntas, no entanto, venham com o compromisso e
disposição para um aprendizado constante que tem o objetivo de ampliar seus conhecimentos e
habilitá-los de maneira que possam atuar como agentes de segurança de forma preventiva e/ou
repressiva como força de dissuasão em caso de perturbação da ordem, mantenedores da ordenação
pública e multiplicadores de uma polícia baseada na proximidade com a comunidade.
A formação profissional é óbvia e exige de seus aprendizados dedicação intelectual, moral,
física, espiritual e muitas vezes abdicação de seus familiares e amigos. Valorizem os sacrifícios que
venham enfrentar e os limites conquistados. Aprenderão a amar a verdade e respeitar acima de tudo
e todos à justiça, e assim promovê-la sempre a todo custo na busca de uma sociedade mais justa e
igualitária.
Temos a expectativa de que todos vocês concluam com êxito todas as etapas neste processo
de formação que ora se inicia. A sociedade maranhense certamente anseia por novos agentes de
segurança pública e acredita numa pacificação social.
Sendo assim, em nome da Polícia Militar do Estado do Maranhão, sejam bem vindos! E
considerem-se neste momento impar de vossas vidas, futuros Soldados da Polícia Militar.
Que o Senhor nosso Deus os proteja e vos abençoe!

CEL QOPM JORGE ALLEN LUONGO GUERRA


Comandante Geral da Polícia Militar do Maranhão
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PALAVRAS DO COMANDANTE DO CFAP

O incremento intelectual e técnico na qualidade do serviço dos profissionais em segurança


pública é filosofia de gestão do Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças da PMMA desde
que travei meu primeiro contato com o ensino nessa instituição.
O educador militar persegue o objetivo de satisfazer plenamente nosso cliente e estabelece o
conceito de “confiável” para um formando na prestação de serviços. Alinhados com o discurso de
aliança entre modernidade e tradições, os profissionais desse Centro buscam ininterruptamente,
identificar oportunidades de melhoria a partir da experimentação e aprimoramento de práticas,
nunca indiferentes às possibilidades de inovação, preservando valores éticos pautados em respeito
ao cidadão e ao próprio policial militar.
Em um ano de profunda inquietação social e de eventos da magnitude de uma eleição
presidencial e de uma copa do mundo em nosso país, enfrentamos o desafio de fazer segurança
pública de qualidade. Vivemos essa nova ordem mundial, sem fronteiras na informação, onde
ideologias se inflamam e paixões transbordam preceitos de respeito, civilidade e urbanidade.
Momento em que a preservação da paz social se faz imperativa, sob pena de sucumbirmos ante ao
caos, o crime e a anarquia.
É na preparação desse profissional que sustentará os alicerces da democracia nas ruas e nas
palavras que debruçamos nossos esforços, talentos e trabalho incessante. Precisamos estar
familiarizados com as frequentes exigências desse mundo em ebulição social, moral e ideológica,
perseguindo novos instrumentos de aprimoramento e progresso na seara educacional.
Dessa forma senhores e senhoras, com a alma cheia de vontade e o semblante humilde,
ciente de que estamos recém iniciando essa jornada, que começamos a trabalhar no ideal proposto
por este Centro de Formação, que é a de aproximar o policial militar da comunidade ampliando seu
espectro de percepções e sensibilidades sem jamais descuidar do seu preparo técnico e intelectual
para a prestação de um serviço à altura das expectativas do nosso povo.

Cel QOPM Auceri Becker Martins


Comandante do CFAP
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SUMÁRIO

I – TEORIA GERAL DO DIREITO CONSTITUCIONAL ................................................... 6


1. O DIREITO CONSTITUCIONAL. NATUREZA. OBJETO. CONCEITO ....................... 6
2. FONTES DO DIREITO CONSTITUCIONAL................................................................ 6
3. CONCEITO DE CONSTITUIÇÃO ................................................................................ 6
4. DOS PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS DO ESTADO BRASILEIRO ......................... 7
5. PODER E DIVISÃO DE PODERES ............................................................................ 8
II – DIREITOS E GARANTIAS FUNDAMENTAIS ......................................................... 10
1. A QUESTÃO TOPOGRÁFICA DOS DIREITOS E GARANTIASFUNDAMENTAIS ... 10
2. EVOLUÇÃO DOS DIREITOS E GARANTIAS FUNDAMENTAIS .............................. 10
3. CONDIÇÃO EXEMPLIFICATIVA DO CATÁLOGO DE DIREITOS FUNDAMENTAIS11
5. COLISÃO ENTRE DIREITOS FUNDAMENTAIS ...................................................... 11
6. CLÁUSULA PÉTREA DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS......................................... 12
7. SUJEITOS E ÂMBITO DE VALIDADE DOS DIREITOS E GARANTIAS
FUNDAMENTAIS .............................................................................................................. 12
8. DOS DIREITOS INDIVIDUAIS EM ESPÉCIE............................................................ 12
9. DIREITOS DE NACIONALIDADE ............................................................................. 17
10. DIREITOS POLÍTICOS............................................................................................ 19
III – DA ORGANIZAÇÃO DO ESTADO ......................................................................... 20
1. ENTIDADES COMPONENTES DA FEDERAÇÃO BRASILEIRA .............................. 20
IV – DA DEFESA DO ESTADO E DAS INSTITUIÇÕES DEMOCRÁTICAS ................. 27
1. DAS FORÇAS ARMADAS......................................................................................... 27
V – DA ADMINISTRAÇÃO PUBLICA ............................................................................ 28
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I – TEORIA GERAL DO DIREITO CONSTITUCIONAL

1. O DIREITO CONSTITUCIONAL. NATUREZA. OBJETO. CONCEITO

Segundo José Afonso da Silva, o Direito Constitucional pertence ao ramo do Direito Público e se
distingue dos demais ramos do Direito Público pela natureza específica de seu objeto e pelos princípios
peculiares que o informam. Configura-se como Direito Público Fundamental por referir-se diretamente à
organização e ao funcionamento do Estado, à articulação de seus elementos primários e ao
estabelecimento das bases da estrutura política. E assim conceitua:

É o ramo do Direito Público que expõe, interpreta e sistematiza os


princípios e normas fundamentais do Estado.

2. FONTES DO DIREITO CONSTITUCIONAL

Fonte é o lugar de onde surge determinada coisa. Nesse sentido, são fontes do Direito
Constitucional:

a) o direito natural;

b) a Constituição;

c) os costumes e tradições;

d) a jurisprudência;

e) a doutrina.

3. CONCEITO DE CONSTITUIÇÃO

Juridicamente a Constituição deve ser entendida como a lei fundamental e suprema de um Estado,
que contém normas referentes à estruturação do Estado, à formação dos poderes públicos, forma de
governo e aquisição do poder de governar, distribuição de competências, direitos, garantias e deveres dos
cidadãos. Além disso, é a Constituição que individualiza os órgãos competentes para a edição de normas
jurídicas, legislativas ou administrativas.

Para Celso Ribeiro Bastos, Constituição (no sentido material) são “(...) as normas que são essência
ou substância ao Estado. É dizer, aquelas que lhe conferem a estrutura, definem as competências do seus
órgãos superiores, traçam limites da ação do Estado, fazendo-o respeitar o mínimo de garantias individuais.
(...)”
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4. DOS PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS DO ESTADO BRASILEIRO

4.1 O País e o Estado brasileiros

País se refere aos aspectos físicos, ao habitat; manifesta a unidade geográfica, histórica,
econômica e cultural das terras ocupadas pelos brasileiros. Estado é uma ordenação política que tem por
fim específico e essencial à regulamentação global das relações sociais entre os membros de uma dada
população sobre um dado território; constitui-se de um poder soberano de um povo situado num território
com certas finalidades; a constituição organiza esses elementos.

4.2 Território e forma de Estado

Território é o limite espacial dentro do qual o Estado exerce de modo efetivo o poder de império
sobre pessoas e bens. Forma de Estado é o modo de exercício do poder político em função do território.

4.3 Estado Federal brasileiro

O federalismo refere-se a uma forma de Estado (federação ou Estado Federal) caracterizada


pela união de coletividades públicas dotadas de autonomia político-constitucional, autonomia federativa; a
federação consiste na união de coletividades regionais autônomas (estados federados, estados-membros
ou estado). Estado federal é o todo, dotado de personalidade jurídica de Direito Público Internacional. A
União é a entidade federal formada pela reunião das partes componentes, constituindo pessoa jurídica de
Direito Público interno, autônoma em relação aos Estados e a que cabe exercer as prerrogativas da
soberania do Estado brasileiro. A autonomia federativa assenta-se em dois elementos:

a) na existência de órgãos governamentais próprios;

b) na posse de competências exclusivas.

O Estado federal apresenta-se como um Estado que, embora parecendo único nas relações
internacionais, é constituído por Estados-membros dotados de autonomia, notadamente quanto ao exercício
de capacidade normativa sobre matérias reservadas à sua competência.

4.4 Governo Republicano brasileiro

Forma de governo é conceito que se refere à maneira como se dá a instituição do poder na


sociedade e como se dá a relação entre governantes e governados. República é uma forma de governo que
designa uma coletividade política com características da res pública, ou seja, coisa do povo e para o povo,
que se opõe a toda forma de tirania. O princípio republicano (art. 1º) não instaura a República, recebe-a da
evolução constitucional.

4.5 Sistema de Governo brasileiro

É o modo como se relacionam os poderes, especialmente o Legislativo e o Executivo, que dá


origem aos sistemas parlamentarista, presidencialista e diretorial. O Brasil adota o presidencialismo, que se
caracteriza pela eletividade, temporariedade e responsabilidade dos governantes.
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4.6 Fundamentos do Estado brasileiro

Segundo o art. 1º, o Estado brasileiro tem como fundamentos a soberania, a cidadania, a
dignidade da pessoa humana, os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa e o pluralismo político.

4.7 Objetivos fundamentais do Estado brasileiro

A Constituição consigna como objetivos fundamentais (art. 3º): construir uma sociedade livre,
justa e solidária; garantir o desenvolvimento nacional; erradicar a pobreza e a marginalização; reduzir as
desigualdades sociais e regionais; promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor,
idade e de outras formas de discriminação.

5. PODER E DIVISÃO DE PODERES

A divisão de poderes é um princípio fundamental da Constituição, consta no ser art. 2º: são
poderes da União, independentes e harmônicos entre si, o Legislativo, o Executivo e o Judiciário; exprimem,
a um só tempo, as funções legislativa, executiva e jurisdicional e indicam os respectivos órgãos,
estabelecidos na organização dos poderes.

5.1 Poder político

Pode ser definido como uma energia capaz de coordenar e impor decisões visando à
realização de determinados fins; é superior a todos os outros poderes sociais, os quais reconhece, rege e
domina, visando a ordenar as relações entre esses grupos de indivíduos entre si e reciprocamente, de
maneira a manter um mínimo de ordem e estimular o máximo de progresso à vista do bem comum; possui 3
características fundamentais; unidade, indivisibilidade e indelegabilidade.

5.2 Governo e distinção de funções do poder

Governo é o conjunto de órgãos mediante os quais a vontade do Estado é formulada,


expressada e realizada, ou, o conjunto de órgãos supremos a quem incumbe o exercício das funções do
poder político; a distinção das funções que são a legislativa, a executiva e a jurisdicional, fundamentalmente
é:

a) legislativa: consiste na edição de regras gerais (leis), abstratas, impessoais e inovadoras da ordem
pública;

b) executiva: resolve os problemas concretos e individualizados, de acordo com as leis;

c) jurisdicional: tem por objeto aplicar o direito aos casos concretos a fim de dirimir conflitos de interesse.

5.3 Divisão dos poderes


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Consiste em confiar cada uma das funções governamentais a órgãos diferentes, que tomam os
nomes das respectivas funções; fundamenta-se em dois elementos: a especialização funcional e a
independência orgânica.

5.4 Independência e harmonia entre os poderes

A independência dos poderes significa que a investidura e a permanência das pessoas num
dos órgãos não dependem da confiança nem da vontade dos outros, que, no exercício das atribuições que
lhe sejam próprias, não precisam os titulares consultar os outros nem necessitam de sua autorização, que,
na organização dos respectivos serviços, cada um é livre, observadas apenas as disposições
constitucionais e legais.

A harmonia entre os poderes verifica-se pelas normas de cortesia no trato recíproco e no


respeito às prerrogativas e faculdades a que mutuamente todos têm direito; a divisão de funções entre os
órgãos do poder nem sua independência são absolutas; há interferências, que visam ao estabelecimento de
um sistema de freios e contrapesos, à busca do equilíbrio necessário à realização do bem da coletividade.
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II – DIREITOS E GARANTIAS FUNDAMENTAIS

1. A QUESTÃO TOPOGRÁFICA DOS DIREITOS E GARANTIASFUNDAMENTAIS

Explica Pedro Lenza que a Constituição da República classifica o gênero direitos e garantias
fundamentais em cinco espécies, quais sejam:

a) direitos individuais;

b) direitos coletivos;

c) direitos sociais;

d) direito de nacionalidade;

e) direitos políticos

Em suma, está certo que a Constituição destinou aos direitos e garantias fundamentais todo
“Título II”, que inicia no art. 5º e se conclui no art. 17. Ressalta-se que essa topografia é inovadora em
relação às anteriores Constituições.

Ocorre que, até 1988, a tradição do Direito Constitucional brasileiro era de inscrever tais direitos
na parte final da Constituição. Como se disse, em 1988, o constituinte inova esse aspecto formal, lançando
os direitos fundamentais logo ao início da Constituição, após os “Princípios Fundamentais” (Arts. 1º a 4º).

2. EVOLUÇÃO DOS DIREITOS E GARANTIAS FUNDAMENTAIS

A doutrina tradicional procura classificar, quanto à evolução, os direitos em gerações. Contudo,


cada vez mais, ganha força a classificação em DIMENSÕES e não em “gerações”, considerando-se que
entre cada dimensão não existe uma rígida e clara separação como a expressão “gerações” pode dar
ensejo.

De qualquer forma, a evolução dos direitos fundamentais aponta, hoje, para quatro momentos
históricos:

2.1 Direitos Fundamentais de Primeira Dimensão:

São as clássicas liberdades, reconhecidamente chamadas de “negativas”, pois impunham ao


Estado um dever de abstenção, destacando-se a liberdade. Explica Vidal Serrano Júnior que “(...) São os
direitos de defesa do indivíduo perante o Estado. Sua preocupação é a de definir uma área de domínio do
Poder Público, simultaneamente a outra de domínio individual, na qual estaria forjado um território
absolutamente inóspito a qualquer inserção estatal. (...)”. Em resumo são os direitos civis e políticos.

2.2 Direitos Fundamentais de Segunda Dimensão:


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São as chamadas liberdades “positivas”, na medida em que, ao contrário dos direitos de


primeira dimensão, exigem do Estado uma atividade de prestação, com especial atenção à proteção à
dignidade da pessoa humana, com a satisfação das necessidades mínimas da pessoa, tais como o direito
ao trabalho, o amparo à doença, a seguridade social etc. Em resumo, são os direitos sociais, econômicos e
culturais.

2.3 Direitos Fundamentais de Terceira Dimensão:

São aqueles que englobam o direito ao meio ambiente, qualidade de vida, a paz, defesa do
consumidor entre tantos outros entendidos como sendo de fraternidade, na medida em que o homem é
inserido dentro uma coletividade e passa a ter direitos dentro desse conjunto. São denominados direitos de
“novíssima geração”. Em resumo, são direitos de titularidade coletiva, tais como direitos do consumidor,
ambiental.

2.4 Direitos Fundamentais de Quarta Dimensão:

Norberto Bobbio trata dos DIREITOS DE QUARTA GERAÇÃO (“Direitos dos Povos”),
afirmando que seriam aqueles decorrentes dos avanços da engenharia genética, pois esta colocaria em
risco a própria existência humana quando se dá a manipulação do patrimônio genético.

3. CONDIÇÃO EXEMPLIFICATIVA DO CATÁLOGO DE DIREITOS FUNDAMENTAIS

O art. 5º da Constituição Federal, chamado de catálogo de direitos, não tem a pretensão de ser
exaustivo, ou seja, nomear ali todos os direitos e garantias fundamentais. Diz Pinto Ferreira que “O
enunciado dos direitos e garantias fundamentais não é um catálogo completo, nem se apresenta com um
numerus clausus”.

4. RELATIVIDADE DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS

Os direitos fundamentais não são absolutos ou ilimitáveis, ao contrário, são relativos e


passíveis de restrição. Nesse sentido, um direito fundamental pode ser limitado internamente por seu
próprio alcance material ou por uma norma restritiva infraconstitucional (restrições indiretamente
constitucionais), desde que prevista no próprio enunciado do dispositivo constitucional (reserva legal),
obedecendo as regras de competência para edição de tal ato e, ainda, havendo justificação constitucional
para a restrição.

5. COLISÃO ENTRE DIREITOS FUNDAMENTAIS

Há colisão ou conflito sempre que a Constituição protege simultaneamente dois bens ou


valores em contradição concreta. Ocorre que não há hierarquia normativa entre os preceitos constitucionais
eis que estão todos inseridos dentro do mesmo corpus constitucional. Assim, se houver conflito entre dois
direitos fundamentais, deverá o intérprete utilizar o princípio da concordância prática ou da harmonização
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que nada mais significa que a aplicação, ao caso prático, dos direitos com a necessária ponderação de
forma a reduzir o alcance de um deles, evitando, assim, a completa destruição de um ou de outro.

6. CLÁUSULA PÉTREA DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS

Os direitos e garantias individuais, por disposição do art. 60, § 4º, IV da Constituição Federal,
são núcleo imodificável pela vontade do legislador constituinte derivado. Gilmar Ferreira Mendes aponta que
“... tais cláusulas de garantia traduzem, em verdade, um esforço do constituinte para assegurar a
integridade da constituição, obstando a que eventuais reformas provoquem a destruição, o enfraquecimento
ou impliquem profunda mudança de identidade...”.

Oportuna, contudo é a observação de Manoel Gonçalves Ferreira Filho, segundo a qual a


proteção das cláusulas pétreas não significa proibição de toda e qualquer modificação nessas matérias,
mas apenas a proibição de emendas tendentes a aboli-las.

7. SUJEITOS E ÂMBITO DE VALIDADE DOS DIREITOS E GARANTIAS FUNDAMENTAIS

Determina o art. 5º, caput da Constituição Federal que aos brasileiros e as aos estrangeiros
residentes no país são assegurados o direito à vida, à liberdade, à Igualdade, à segurança e a propriedade.

Inicialmente, esclareça-se que a expressão constitucional “estrangeiros residentes nos país”


deve ser entendida no sentido de que a validade e a fruição dos direitos fundamentais se exercem dentro do
território brasileiro, o que não exclui o estrangeiro em trânsito pelo Brasil. Deve-se, ainda, atentar que o
território brasileiro, para fins de incidência dos direitos e garantias fundamentais, possui exato conceito de
espaço de validade da ordem jurídica.

Além disso, assegurar ao estrangeiro, mesmo não residente, direitos fundamentais, não
significa titularizar-lhes todos. Como exemplo de garantia fundamental que não pode ser exercida por
estrangeiro, pode-se citar a impetração de ação popular (CF, art. 5º, LXXIII), cujo legitimado é tão somente
à pessoa natural brasileira no gozo dos direitos políticos, o cidadão.

Relativamente às pessoas jurídicas é inegável que são destinatárias de direitos e garantias


fundamentais. Nesse sentido, o constituinte originário declarou, inclusive, direitos que são próprios dos
entes abstratos, como a propriedade de marcas, signos distintivos, nomes das empresas (CF, art. 5º, XXIX),
associações (CF, art. 5º, XVII a XXI). Ressalve-se, contudo, que da mesma forma que todos os direitos e
garantias fundamentais não são assegurados aos estrangeiros, às pessoas jurídicas também não foram
contempladas com a totalidade destes, tais como os direitos das presidiárias (CF, art. 5º, L), aqueles
relativos à extradição (CF, art. 5º, LI e LII) e, inclusive, da propositura da ação popular (CF. art. 5º, LXXIII).

8. DOS DIREITOS INDIVIDUAIS EM ESPÉCIE

8.1 Direito à vida


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A vida humana é objeto do direito assegurado no art. 5º da CF. A vida é intimidade conosco
mesmo, saber-se e dar-se conta de si mesmo, um assistir a si mesmo e um tomar posição de si mesmo; por
isso é que ela constitui a fonte primária de todos os outros bens jurídicos.

Consequência do direito à vida é o direito à existência, que consiste no direito de estar vivo, de
lutar pelo viver, de defender à própria vida, de permanecer vivo; é o direito de não ter interrompido o
processo vital senão pela morte espontânea e inevitável; tentou-se incluir na Constituição o direito a uma
existência digna.

O direito à vida protege também o direito à integridade física. A Constituição além de garantir o
respeito à integridade física e moral (art. 5º, XLIX), declara que ninguém será submetido a tortura ou
tratamento desumano ou degradante (art. 5º, III); a fim de dotar essas normas de eficácia, a Constituição
preordena várias garantias penais apropriadas, como o dever de comunicar, imediatamente, ao juiz
competente e à família ou pessoa indicada, a prisão de qualquer pessoa e o local onde se encontre; o dever
da autoridade policial informar ao preso seus direitos; o direito do preso à identificação dos responsáveis
por sua prisão e interrogatório policial.

Ademais, a Constituição realçou o valor da moral individual, tornando-a um bem indenizável


(art. 5º, V e X); à integridade moral do direito assume feição de direito fundamental; por isso é que o Direito
Penal tutela a honra contra a calúnia, a difamação e a injúria.

A Constituição veda a pena de morte e só a admite no caso de guerra externa declarada, nos
termos do art. 84, XIX (art. 5º, XLVII, a).

A eutanásia é vedada pela Constituição; o desinteresse do indivíduo pela própria vida não
exclui esta da tutela; o Estado continua a protegê-la como valor social e este interesse superior torna
inválido o consentimento do particular para que dela o privem.

Embora a Constituição não tenha enfrentado diretamente o tema do aborto, parece inadmiti-lo;
devendo o assunto ser decidido pela legislação ordinária, especialmente a penal.

A tortura é prática expressamente condenada pelo inciso III do art. 5º, segundo o qual ninguém
será submetido a tortura ou a tratamento desumano e degradante; a condenação é tão incisiva que o inciso
XLIII determina que a lei considerará a prática de tortura crime inafiançável e insuscetível de graça, por ele
respondendo os mandantes, os executores e os que, podendo evitá-lo, se omitirem (Lei 9.455/97).

8.2 Direito à privacidade

A Constituição declara invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das


pessoas (art. 5º, X); portanto, erigiu, expressamente, esses valores humanos à condição de direito
individual, considerando-o um direito conexo ao da vida.

A intimidade se caracteriza como a esfera secreta da vida do indivíduo na qual este tem o
poder legal de evitar os demais; abrangendo nesse sentido à inviolabilidade do domicílio, o sigilo de
correspondência e ao segredo profissional.
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A vida privada, em contrapartida, visa proteger as pessoas de dois atentados particulares: ao


segredo da vida privada e à liberdade da vida privada.

O direito à preservação da honra e da imagem, não caracteriza propriamente um direito à


privacidade e menos à intimidade; a CF reputa-os valores humanos distintos; a honra e a imagem
constituem, pois, objeto de um direito, independente, da personalidade.

8.3 Direito à igualdade

As Constituições só tem reconhecido a igualdade no seu sentido jurídico-formal (perante a lei);


a CF/88 abre o capítulo dos direitos individuais com o princípio que todos são iguais perante a lei, sem
distinção de qualquer natureza; reforça o princípio com muitas outras normas sobre a igualdade ou
buscando a equalização dos desiguais pela outorga de direitos sociais substanciais.

Isonomia formal é a igualdade perante a lei; a isonomia material são as regras que proíbem
distinções fundadas em certos fatores; Ex: art. 7º, XXX e XXXI; a Constituição procura aproximar os dois
tipos de isonomia, na medida em que não se limitara ao simples enunciado da igualdade perante a lei;
menciona também a igualdade entre homens e mulheres e acrescenta vedações a distinção de qualquer
natureza e qualquer forma de discriminação.

O princípio tem como destinatários tanto o legislador como os aplicadores da lei; significa para
o legislador que, ao elaborar a lei, deve reger, com iguais disposições situações idênticas, e,
reciprocamente, distinguir, na repartição de encargos e benefícios, as situações que sejam entre si distintas,
de sorte aquinhoá-las ou gravá-las em proporção às suas diversidades; isso é que permite, à legislação,
tutelar pessoas que se achem em posição econômica inferior, buscando realizar o princípio da equalização.

Além da base geral em que assenta o princípio da igualdade perante a lei, consistente no
tratamento igual a situações iguais e tratamento desigual a situações desiguais, é vedado distinções de
qualquer natureza; as discriminações são proibidas expressamente no art. 3º, IV, onde diz que: “promover o
bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade, e quaisquer outras formas de
discriminação”; proíbe também, diferença de salários, de exercício de funções e de critério de admissão por
motivo de sexo, idade, cor, estado civil ou posse de deficiência (art. 7º, XXX e XXXI).

8.4 Direito à liberdade

A liberdade tem um caráter histórico, porque depende do poder do homem sobre a natureza, a
sociedade, e sobre si mesmo em cada momento histórico; o conteúdo da liberdade se amplia com a
evolução da humanidade; fortalece-se, à medida que a atividade humana se alarga. A liberdade opõe-se ao
autoritarismo, à deformação da autoridade; não, porém, à autoridade legítima; o que é válido afirmar é que a
liberdade consiste na ausência de coação anormal, ilegítima e imoral; daí se conclui que toda a lei que limita
a liberdade precisa ser lei normal, moral e legítima, no sentido de que seja consentida por aqueles cuja
liberdade restringe; como conceito pode-se dizer que liberdade consiste na possibilidade de coordenação
consciente dos meios necessários à realização da felicidade pessoal.
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O assinalado aspecto histórico denota que a liberdade consiste num processo dinâmico de
liberação do homem de vários obstáculos que se antepõem à realização de sua personalidade: obstáculos
naturais, econômicos, sociais e políticos; é hoje função do Estado promover a liberação do homem de todos
esses obstáculos, e é aqui que a autoridade e liberdade se ligam. O regime democrático é uma garantia
geral da realização dos direitos humanos fundamentais; quanto mais o processo de democratização
avança, mais o homem se vai libertando dos obstáculos que o constrangem, mais liberdade conquista.

Cabe aqui considerar aquela que constitui a liberdade-matriz, que é a liberdade de ação em
geral, que decorre do art. 5º, II, segundo o qual ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma
coisa senão em virtude de lei.

A liberdade da pessoa física consiste na possibilidade jurídica que se reconhece a todas as


pessoas de serem senhoras de sua própria vontade e de locomoverem-se desembaraçadamente dentro do
território nacional; para nós as formas de expressão dessa liberdade se revelam apenas na liberdade de
locomoção e na liberdade de circulação; mencionando também o problema da segurança, não como forma
dessa liberdade em si, mas como forma de garantir a efetividade destas.

A liberdade de pensamento é o direito de exprimir, por qualquer forma, o que se pense em


ciência, religião, arte, ou o que for; trata-se de liberdade de conteúdo intelectual e supõe contato com seus
semelhantes; inclui as liberdades de opinião, de comunicação, de informação, religiosa, de expressão
intelectual, artística e científica e direitos conexos, de expressão cultural e de transmissão e recepção do
conhecimento.

8.5 Direito à segurança

O art. 5º, XI, consagra o direito do indivíduo ao aconchego do lar com sua família ou só,
quando define a casa como o asilo inviolável do indivíduo; também o direito fundamental da privacidade, da
intimidade; a proteção dirige-se basicamente contra as autoridades, visa impedir que estas invadam o lar.

O indivíduo também tem direito à segurança das comunicações pessoais, os quais visam
assegurar o sigilo de correspondência e das comunicações telegráficas e telefônicas (art. 5º, XII), que são
meio de comunicação interindividual, formas de manifestação do pensamento de pessoa a pessoa, que
entram no conceito mais amplo de liberdade de pensamento em geral (IV).

A segurança em matéria penal visa tutelar a liberdade pessoal, está prevista no art. 5º, XXXVII
a XLVII, mais a hipótese do LXXV, podem ser consideradas em dois grupos:

a) garantias jurisdicionais penais: da inexistência de juízo ou tribunal de exceção, de julgamento pelo


tribunal do júri nos crimes dolosos contra a vida, do juiz competente;

b) garantias criminais preventivas: anterioridade da lei penal, irretroatividade da lei penal, da legalidade e da
comunicabilidade da prisão;
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c) relativas à aplicação da pena: individualização da pena, personalização da pena, proibição da prisão civil
por dívida; proibição de extradição de brasileiro e de estrangeiro por crime político, proibição de
determinadas penas;

d) garantias processuais penais: instrução penal contraditória, garantia do devido processo legal, garantia
da ação privada;

e) garantias da presunção de inocência: LVII, LVIII e LXXV;

f) garantias da incolumidade física e moral: vedação do tratamento desumano e degradante, vedação e


punição da tortura;

g) garantias penais da não discriminação: XLI e XLII;

h) garantia penal da ordem constitucional democrática: XLIV.

8.6. Remédios constitucionais

8.6.1 Direito de petição

Define-se como direito que pertence a uma pessoa de invocar a atenção dos poderes públicos
sobre uma questão ou situação, seja para denunciar uma lesão concreta, e pedir reorientação da situação,
seja para solicitar uma modificação do direito em vigor do sentido mais favorável à liberdade (art. 5º,
XXXIV).

8.6.2 Direito a certidões

Está assegurado a todos, no art. 5º, XXXIV, independentemente do pagamento de taxas, a


obtenção de certidões em repartições públicas para defesa de direito e esclarecimentos de situações de
interesse pessoal.

8.6.3 Habeas corpus

É um remédio destinado a tutelar o direito de liberdade de locomoção, liberdade de ir e vir,


parar e ficar; tem natureza de ação constitucional penal. (art. 5º, LXVIII)

8.6.4 Mandado de segurança individual

Visa amparar direito pessoal líquido e certo; só o próprio titular desse direito tem legitimidade
para impetrá-lo, que é oponível contra qualquer autoridade pública ou contra agente de pessoa jurídica no
exercício de atribuições públicas, com o objetivo de corrigir ato ou omissão ilegal decorrente do abuso de
poder. (art. 5º, LXIX)

8.6.5 Mandado de injunção

Constitui um remédio ou ação constitucional posto à disposição de quem se considere titular de


qualquer daqueles direitos, liberdades ou prerrogativas inviáveis por falta de norma regulamentadora
17

exigida ou suposta pela Constituição; sua finalidade consiste em conferir imediata aplicabilidade à norma
constitucional portadora daqueles direitos e prerrogativas, inerte em virtude de ausência de regulamentação
(art. 5º, LXXI).

8.6.6 Habeas data

Remédio que tem por objeto proteger a esfera íntima dos indivíduos contra usos abusivos de
registros de dados pessoais coletados por meios fraudulentos, desleais e ilícitos, introdução nesses
registros de dados sensíveis (origem racial, opinião política. etc) e conservação de dados falsos ou com fins
diversos dos autorizados em lei (art. 5º, LXXII).

9. DIREITOS DE NACIONALIDADE

Segundo Pontes de Miranda, nacionalidade é o vínculo jurídico-político de Direito Público


interno, que faz da pessoa um dos elementos componentes da dimensão pessoal do Estado; no Direito
Constitucional vigente, os termos nacionalidade e cidadania, ou nacional e cidadão, têm sentido distinto;
nacional é o brasileiro nato ou naturalizado; cidadão qualifica o nacional no gozo dos direitos políticos e os
participantes da vida do Estado.

A nacionalidade é primária quando resulta de fato natural como o nascimento e é secundária


quando se adquire por fato voluntário, depois do nascimento.

Dois são os critérios para a determinação da nacionalidade primária:

a) critério de sangue: confere a nacionalidade em função do vínculo de sangue reputando-se os nacionais


ou dependentes de nacionais;

b) critério de origem territorial: pelo qual se atribui a nacionalidade a quem nasce no território do Estado de
que se trata.

Os modos de aquisição da nacionalidade secundária dependem da vontade:

a) do indivíduo;

b) do Estado.

Polipátrida é quem tem mais de uma nacionalidade, o que acontece quando sua situação de
nascimento se vincula aos dois critérios de determinação de nacionalidade primária; Heimatlos, consiste na
situação da pessoa que, dada a circunstância de nascimento, não se vincula a nenhum daqueles critérios,
que lhe determinariam uma nacionalidade; geram um conflito de nacionalidade, que pode ser positivo ou
negativo. O sistema constitucional brasileiro oferece um mecanismo adequado para solucionar os conflitos
de nacionalidade negativa em que se vejam envolvidos filhos de brasileiros (art. 12, I, b e c).

9.1 Direito de nacionalidade brasileira


18

Estão previstos no art. 12 da Constituição; só esse dispositivo diz quais são os brasileiros,
distinguindo-se em dois grupos, com consequências jurídicas relevantes: os brasileiros natos (art. 12, I), e
os brasileiros naturalizados (art. 12, II).

9.1.1 Os brasileiros natos

O art. 12, I, dá os critérios e pressupostos para que alguém seja considerado brasileiro nato,
revelando quatro situações definidoras de nacionalidade primária no Brasil, são elas:

a) os nascidos no Brasil, ainda que de pais estrangeiros, desde que estes não estejam a serviço do seu
país;

b) os nascidos no estrangeiro, de pai brasileiro ou mãe brasileira, desde que qualquer deles esteja a serviço
do Brasil;

c) os nascidos no estrangeiro de pai brasileiro ou mãe brasileira, desde que sejam registrados em repartição
brasileira competente ou venham a residir no Brasil e optem, em qualquer tempo, depois de atingida a
maioridade, pela nacionalidade brasileira;

9.1.2 Os brasileiros naturalizados

O art. 12, II, prevê o processo de naturalização, só reconhecendo a naturalização expressa,


aquela que depende de requerimento do naturalizando, e compreende duas classes:

a) ordinária: é a concedida ao estrangeiro residente no país, que preencha os requisitos previstos na lei de
naturalização, exigidas aos originários de países de língua portuguesa apenas residência por um ano
ininterrupto e idoneidade moral (art. 12, I, a);

b) extraordinária: é reconhecida aos estrangeiros residente no Brasil há mais de 15 anos ininterruptos e sem
condenação penal, desde que requeiram a nacionalidade brasileira.

9.2 Condição jurídica do brasileiro nato

Essa condição dá algumas vantagens em relação ao naturalizado, como a possibilidade de


exercer todos os direitos conferidos no ordenamento pátrio, mas também ficam sujeitos aos deveres
impostos a todos; as distinções são aquelas consignadas na Constituição (art. 12, § 2º).

9.2 Condição jurídica do brasileiro naturalizado

As limitações aos brasileiros naturalizados são as previstas nos arts. 12, § 3º, 89, VII, 5º, LI,
222.

9.3 Perda de nacionalidade brasileira

Perde a nacionalidade o brasileiro que:


19

a) tiver cancelada sua naturalização, por sentença judicial, em virtude de atividade nociva ao interesse
nacional;

b) adquirir outra nacionalidade (art. 12, § 4º), salvo nos casos de reconhecimento de nacionalidade
originária pela lei estrangeira; e imposição de naturalização, pela norma estrangeira, ao brasileiro residente
no Estado estrangeiro, como condição para permanência em seu território ou para exercício de direitos
civis.

9.4 Re-aquisição da nacionalidade brasileira

Salvo se o cancelamento for feito em ação rescisória, aquele que teve a naturalização
cancelada nunca poderá recuperar a nacionalidade brasileira perdida; o que a perdeu por naturalização
voluntária poderá readquiri-la por decreto do Presidente, se estiver domiciliado no Brasil (Lei 818/49, art.
36); cumpre notar que a re-aquisição da nacionalidade opera a partir do decreto que a conceder, não tendo
efeito retroativo, apenas recupera a condição que perdera.

10. DIREITOS POLÍTICOS

Os direitos políticos consistem na disciplina dos meios necessários ao exercício da soberania


popular; a Constituição emprega a expressão direitos políticos, em seu sentido estrito, como o conjunto de
regras que regula os problemas eleitorais.

O núcleo fundamental dos direitos políticos consubstancia-se no direito de votar e ser votado,
possibilitando-se falar em direitos políticos ativos e passivos, sem que isso constitua divisão deles, são
apenas modalidades de seu exercício ligadas à capacidade eleitoral ativa, consubstanciada nas condições
do direito de votar (ativo), e à capacidade eleitoral passiva, que assenta na elegibilidade, atributo de quem
preenche as condições do direito de ser votado (passivo).

Os direitos de cidadania adquirem-se mediante alistamento eleitoral na forma da lei; a


qualidade de eleitor decorre do alistamento, que é obrigatório para os maiores de 18 anos e facultativo para
os analfabetos, os maiores de 70 anos e maiores de 16 e menores de 18 (art. 14, § 1º, I e II); pode-se dizer,
então que a cidadania se adquire com a obtenção da qualidade de eleitor, que documentalmente se
manifesta na posse do título de eleitor válido.

Quanto ao militar a Constituição reserva o art. 18 de seu texto para tratar de suas
peculiaridades. Prevê o texto constitucional que o militar alistável é elegível, atendidas as seguintes
condições:

a) se contar menos de dez anos de serviço, deverá afastar-se da atividade;

b) se contar mais de anos de serviço, será agregado pela autoridade superior e, se eleito, passará
automaticamente, no ato da diplomação, para a inatividade.
20

III – DA ORGANIZAÇÃO DO ESTADO

1. ENTIDADES COMPONENTES DA FEDERAÇÃO BRASILEIRA

1.1 Organização do Estado brasileiro

A organização político-administrativa compreende, como se vê no art. 18, a União, os Estados,


o Distrito Federal e os Municípios.

Brasília é a capital federal; assume uma posição jurídica específica no conceito brasileiro de
cidade; é o polo irradiante, de onde partem, aos governados, as decisões mais graves, e onde acontecem
os fatos decisivos para os destinos do País.

Os territórios não são mais considerados componentes da federação; a CF lhes dá posição


correta, de acordo com sua natureza de mera-autarquia, simples descentralização administrativo-territorial
da União, quando os declara integrantes desta (art. 18, § 2º).

No modelo brasileiro não há como formar novos Estados, senão por divisão de outro ou outros;
a Constituição prevê a possibilidade de transformação deles por incorporação entre si, por subdivisão ou
desmembramento quer para se anexarem a outros, quer para formarem novos Estados, quer, ainda, para
formarem Territórios Federais, mediante aprovação da população diretamente interessada, através de
plebiscito, e do Congresso Nacional, por lei complementar, ouvida as respectivas Assembleias Legislativas
(art. 18, § 3º, combinado com o art. 48, VI).

Os Municípios na Federação ocupam uma posição de ente estranho, contudo a intervenção


neles é da competência dos Estados, o que mostra serem vinculados a estes, tanto que sua criação,
incorporação, fusão e desmembramento, far-se-ão por lei estadual, dentro do período determinado por lei
complementar federal, e dependerão de plebiscito.

Por fim, o art. 19 contém vedações gerais dirigidas à União, Estados, Distrito Federal e
Municípios; visam o equilíbrio federativo; a vedação de criar distinções entre brasileiros coliga-se com o
princípio da igualdade; a paridade federativa encontra apoio na vedação de criar preferência entre os
Estados.

1.1.1 O problema da repartição de competências federativas

A autonomia das entidades federativas pressupõe repartição de competências para o exercício


e desenvolvimento de sua atividade normativa; a CF/88 estruturou um sistema que combina competências
exclusivas, privativas com competências comuns e concorrentes.

Segundo essa estrutura, cabe à União aquelas matérias e questões de predominante interesse
geral, nacional, ao passo que aos Estados tocarão as matérias e assuntos de predominante interesse
regional, e aos Municípios concernem os assuntos de interesse local.
21

A Constituição brasileira utiliza o sistema do equilíbrio federativo, por meio de uma repartição
de competências que se fundamenta na técnica da enumeração dos poderes da União (21 e 22), com
poderes remanescentes para os Estados (25, § 1º) e poderes definidos indicativamente aos Municípios (30),
mas combina possibilidades de delegação (art. 22, par. único).

1.2 Da Administração Pública

Administração Pública é o conjunto de meios institucionais, materiais, financeiros e humanos


preordenados à execução das decisões políticas.

1.2.1 Estruturas Básicas Da Administração Pública

A Organização da Administração é complexa, porque a função administrativa é


institucionalmente imputada a diversas entidades governamentais autônomas, expressas no art. 37.

A Administração Pública é dividida em Administração direta, indireta e fundacional. A direta é a


administração centralizada, definida como conjunto de órgãos administrativos subordinados diretamente ao
Poder Executivo de cada entidade. A indireta é a descentralizada, pois, são órgãos integrados nas muitas
entidades personalizadas de prestação de serviços ou exploração de atividades econômicas, vinculadas a
cada um dos Executivos daquelas entidades. As fundacionais são as fundações instituídas pelo Poder
Público, através de lei.

1.2.2 Dos princípios regentes da administração pública

A Administração é informada por diversos princípios gerais, destinados, de um lado, a orientar


a ação do administrador na prática dos atos administrativos e, de outro lado, garantir a boa administração,
que se consubstancia na correta gestão dos negócios e no manejo dos recursos públicos no interesse
coletivo.

Princípio da legalidade: sujeita o administrador público ao império da lei, mas da lei que realize
o princípio da igualdade e da justiça não pela sua generalidade, mas pela busca da equalização das
condições dos socialmente desiguais.

Princípio da finalidade: o ato administrativo só é válido quando atende seu fim legal, ou seja,
submetido à lei; impõe que o administrador público só pratique o ato para o seu fim legal; a finalidade é
inafastável do interesse público.

Princípio da impessoalidade: significa que os atos e provimentos administrativos são


imputáveis não ao funcionário que os pratica, mas ao órgão ou entidade administrativa em nome do qual
age o funcionário.

Princípio da moralidade: a moralidade é definida como um dos princípios da Administração


Pública (37); consiste no conjunto de regras de conduta tiradas da disciplina interior da Administração.
22

Princípio da probidade administrativa: consiste no dever de o funcionário servir a Administração


com honestidade, procedendo no exercício da suas funções, sem aproveitar os poderes ou facilidades delas
decorrentes em proveito pessoal ou de outrem a quem queira favorecer.

Princípio da publicidade: o Poder Público, por ser público, deve agir com a maior transparência
possível, a fim de que os administrados tenham, a toda hora, conhecimento de que os administradores
estão fazendo.

Princípio da eficiência: introduzido no art. 37 pela EC-19/98, orienta a atividade administrativa


no sentido de conseguir os melhores resultados com os meios escassos de que se dispõe e a menor custo;
rege-se pela regra da consecução do maior benefício com o menor custo possível.

Princípio da licitação pública: significa que essas contratações ficam sujeitas ao procedimento
de seleção de propostas mais vantajosas para a Administração; constitui um princípio instrumental de
realização dos princípios da moralidade administrativa e do tratamento isonômico dos eventuais
contratantes com o Poder Público.

Princípio da prescritibilidade dos ilícitos administrativos: nem tudo prescreverá; apenas a


apuração e punição do ilícito, não, porém, o direito da Administração ao seu ressarcimento, à indenização,
do prejuízo causado ao erário (37, § 5º).

Princípio da responsabilidade civil da Administração: significa a obrigação de reparar os danos


ou prejuízos de natureza patrimonial que uma pessoa causa a outrem; o dever de indenizar prejuízos
causados a terceiros por agente público, compete a pessoa jurídica a que pertencer o agente, sem
necessidade de comprovar se houve culpa ou dolo (art. 37, § 6º).

1.3 Agentes administrativos

O elemento subjetivo do órgão público (titular) denomina-se genericamente agente público,


que, dada a diferença de natureza das competências e atribuições a ele cometidas, se distingue em:
agentes políticos e agentes administrativos, que são os titulares de cargo, emprego ou função pública,
compreendendo todos aqueles que mantêm com o Poder Público relação de trabalho, não eventual.

A CF estatui que os cargos, empregos e funções são acessíveis aos brasileiros que preencham
os requisitos estabelecidos em lei, assim como aos estrangeiros, na forma da lei (art. 37, I, cf. EC-19/98).

A exigência de aprovação prévia em concurso público implica a classificação dos candidatos e


nomeação na ordem dessa classificação; não basta, pois, estar aprovado em concurso para ter direito à
investidura; necessária também é que esteja classificado e na posição correspondente às vagas existentes,
durante o período de validade do concurso, que é de 2 anos (37, III); independem de concurso as
nomeações para cargo em comissão (37, II).

A EC-19/98 modificou o sistema remuneratório dos agentes, com a criação do subsídio, como
forma de remunerar agentes políticos e certas categorias de agentes administrativos civis e militares; é
23

usada a expressão espécie remuneratória como gênero, que compreende: o subsídio, o vencimento, os
vencimentos e a renumeração.

A CF prevê igualdade de espécies remuneratórias entre cargos de atribuições iguais ou


assemelhados; paridade é um tipo especial de isonomia, é igualdade de vencimentos a cargos e atribuições
iguais ou assemelhadas pertencentes a quadros de poderes diferentes; equiparação é a comparação de
cargos de denominação e atribuições diversas, considerando-os iguais para fins de lhes conferirem os
mesmos vencimentos; vinculação é relação de comparação vertical, vincula-se um cargo inferior, com outro
superior, para efeito de retribuição, mantendo-se certa diferença, aumentando-se um, aumenta-se o outro.

Ressalvadas as exceções expressas, não é permitido a um mesmo servidor acumular dois ou


mais cargos ou funções ou empregos, seja da Administração direta ou indireta (37, XVI e XXVII).

Servidor investido em mandato eletivo: obedece às seguintes regras:

a) se se tratar de mandato eletivo federal, estadual ou distrital, ficará afastado da sua atribuição (art. 38, I); o
afastamento é automático;

b) se se tratar de mandato de prefeito será afastado do cargo, sendo-lhe facultado optar pela renumeração;
se verifica com a posse;

c) se se tratar mandato de vereador, em havendo compatibilidade de horário, exercerá ambas. Em qualquer


das hipóteses, seu tempo de serviço será contado para todos os efeitos legais, exceto para promoção por
merecimento.

A aposentadoria dos servidores abrangidos pelo regime previdenciário de caráter contributivo


(art. 40) se dará: por invalidez permanente; compulsoriamente aos 70 anos com provento proporcionais ao
tempo de contribuição; e voluntariamente; sobre a pensão, é determinado que os benefícios da pensão por
morte será igual ao valor dos proventos do falecido ou ao valor dos proventos a que teria direito em
atividade na data de seu falecimento, observado o disposto no § 3º do art. 40.

O art. 41 da CF diz que são estáveis após três anos de efetivo exercício os servidores
nomeados para cargo de provimento efetivo em virtude de concurso público; cargo de provimento efetivo é
aquele que deve ser preenchido de caráter definitivo; são requisitos para adquirir a estabilidade: a
nomeação por concurso e o exercício efetivo após três anos.

A vitaliciedade é assegurada pela CF a magistrados, membros do Tribunal de Contas e


membros do MP; essa garantia não impede a perda do cargo pelo vitalício em duas hipóteses: extinção do
cargo, caso em que o titular ficará em disponibilidade com vencimentos integrais; e demissão, o que só
poderá ocorrer em virtude de sentença judicial.

A sindicalização e a greve dos servidores públicos são expressamente proibidas aos militares,
cabível só aos civis; quanto à greve, o texto constitucional estabelece que o direito de greve dos servidores
será exercido nos termos e nos limites definidos em lei específica, o que, na prática, é quase o mesmo que
recusar o direito prometido.
24

1.4 Organização dos Poderes

1.4.1 Do poder legislativo

A função legislativa de competência da União é exercida pelo Congresso Nacional, que se


compõe da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, integrados respectivamente por deputados e
senadores; no bicameralismo brasileiro, não há predominância substancial de uma câmara sobre outra.

A Câmara dos Deputados compõe-se de representantes do povo, eleitos em cada Estado e no


Distrito Federal pelo sistema proporcional; a CF não fixa o número total de Deputados Federais, deixando
isso e a representação por Estados para serem estabelecidos por lei complementar; fazendo-o
proporcionalmente à população.

O Senado Federal compõe-se de representantes dos Estados e do Distrito Federal, elegendo,


cada um, três Senadores (com dois suplentes cada), pelo princípio majoritário, para um mandato de oito
anos, renovando-se a representação de quatro em quatro anos, alternadamente, por um e dois terços (art.
46).

As duas casas possuem órgão internos destinados a ordenar seus trabalhos; cada uma deve
elaborar seu regimento interno, dispor sobre sua organização, funcionamento, polícia, criação,
transformação ou extinção de cargos, empregos e funções de seus serviços e fixação da respectiva
remuneração, observados os parâmetros estabelecidos na lei de diretrizes orçamentárias; não há
interferência de uma em outra, nem de outro órgão governamental.

No âmbito estadual, o poder legislativo é representado pela Assembleia Legislativa, cuja


estrutura é unicameral; compõe-se de Deputados, eleitos diretamente pelo sistema proporcional, para um
mandato de quatro anos; sobre o seu funcionamento, reúne-se na Capital, em sessão legislativa ordinária,
independente de convocação, na data fixada pela CE; as atribuições de competência exclusiva serão
aquelas que se vinculam a assuntos de sua economia interna, seu controle prévio e sucessivo de atos do
Executivo.

O poder legislativo municipal é exercido pela Câmara Municipal e tem suas atribuições
discriminadas pela lei orgânica, as quais se desdobram em quatro grupos: função legislativa, meramente
deliberativa, fiscalizadora e julgadora. A estrutura é unicameral e compõe-se de Vereadores, eleitos
diretamente pelo sistema proporcional, para um mandato de quatro anos.

A Câmara Legislativa representa o poder legislativo do Distrito Federal e compõe-se de


Deputados Distritais, eleitos pelo sistema proporcional, aplicando-se-lhes as regras da CF, referidas aos
congressistas (53, 54 e 55) sobre inviolabilidade, imunidades, remuneração, perda do mandato, licença,
impedimentos e incorporação às Forças Armadas (32, § 3º, c/c o 27).

1.4.2 Do poder executivo

O Presidente da República representa o poder executivo no âmbito federal e é eleito,


simultaneamente com o Vice-presidente, dentre brasileiros natos que preencham as condições de
25

elegibilidade previstas no art. 14, § 3º; a eleição realizar-se-á, em primeiro turno, no primeiro domingo de
outubro e, em segundo turno, se houver, no último domingo de outubro, do ano anterior ao do término do
mandato presidencial vigente; o mandato é de quatro anos (art. 82), do qual tomará posse, no dia 01/01 do
ano seguinte ao de sua eleição, perante o Congresso Nacional, em sessão conjunta, prestando o
compromisso de manter, defender e cumprir a Constituição, observar as leis, promover o bem geral do
povo, sustentar a união, a integridade e a independência do Brasil.

Ao Vice-presidente cabe substituir o Presidente, nos casos de impedimento, e suceder-lhe no


caso de vaga, e, além de outras atribuições que lhe forem conferidas por lei complementar, auxiliará o
Presidente, sempre que por ele for convocado para missões especiais (art. 79, par. único); os outros
substitutos são: o Presidente de Câmara, o Presidente do Senado e o Presidente do STF, que serão
sucessivamente chamados ao exercício da Presidência, se ocorrer o impedimento concomitante do
Presidente e do Vice ou no caso de vacância de ambos os cargos.

O poder executivo estadual é exercido por um Governador, eleito para um mandato de quatro
anos; a posse se dá perante a assembleia legislativa; as atribuições do Governador serão definidas na
Constituição Estadual; os impedimentos decorrem da natureza de suas atribuições, assim como ocorre com
o Presidente, independentemente de previsão especificada na Constituição Estadual; o processo e o
julgamento dos crimes de responsabilidade serão estabelecidos na respectiva Constituição, seguindo o
modelo federal.

O poder executivo municipal é exercido pelo Prefeito, cabendo a lei orgânica discriminar suas
funções.

O poder executivo do Distrito Federal é exercido pelo Governador, que será eleito para um
mandato de quatro anos, na mesma época que as eleições estaduais.

1.4.3 Do poder judiciário

Os órgãos do Judiciário têm por função compor conflitos de interesse em cada caso concreto,
isso é a função jurisdicional, que se realiza por meio de um processo judicial, dito, por isso mesmo, sistema
de composição de conflitos de interesses ou sistema de composição de lides.

Não é difícil distinguir as jurisdição e legislação, esta edita normas de caráter geral e abstrato e
a jurisdição se destina a aplicá-las na solução das lides.

Jurisdição é aquilo que o legislador constituinte incluiu na competência dos órgãos judiciários;
e administração o que conferiu aos órgão do Executivo, que, em verdade, não se limita à execução da lei;
nesse caso, ato jurisdicional é o que emana dos órgãos jurisdicionais no exercício de sua competência
constitucional respeitante à solução de conflitos de interesses.

Os órgãos que exercem a função jurisdicional são: STF, STJ, Tribunais e Juízes Federais,
Tribunais e Juízes do Trabalho, Tribunais e Juízes Eleitorais, Tribunais e Juízes Militares, Tribunais e Juízes
dos Estados e do Distrito Federal.
26

A justiça militar federal compreende o STM, os Tribunais de Juízes militares instituídos em lei,
que são as Auditorias Militares, existentes nas circunscrições judiciárias, conforme dispõe a Lei de
Organização Judiciária Militar (Decreto-lei 1003/69); a composição do STM está no art. 123. Tem
competência para processar e julgar os crimes militares.

O poder judiciário estadual é livre para estruturar sua Justiça, desde que preveja o Tribunal de
Justiça, como órgão de cúpula da organização judiciária; a divisão judiciária compreende a criação, a
alteração e a extinção das seções, circunscrições, comarcas, termos e distritos judiciários, bem como sua
classificação; a competência dos Tribunais e Juízes é matéria da Constituição e leis de organização
judiciária do Estado; a CF indica algumas competências do TJ (96 e 99).

A lei estadual poderá criar, mediante proposta do Tribunal de Justiça, a Justiça Militar estadual,
constituída, em primeiro grau, pelos juízes de direito e pelos Conselhos de Justiça e, em segundo grau, pelo
próprio Tribunal de Justiça, ou por Tribunal de Justiça Militar nos Estados em que o efetivo militar seja
superior a vinte mil integrantes.

Compete à Justiça Militar estadual processar e julgar os militares dos Estados, nos crimes
militares definidos em lei e as ações judiciais contra atos disciplinares militares, ressalvada a competência
do júri quando a vítima for civil, cabendo ao tribunal competente decidir sobre a perda do posto e da patente
dos oficiais e da graduação das praças.

Compete aos juízes de direito do juízo militar processar e julgar, singularmente, os crimes
militares cometidos contra civis e as ações judiciais contra atos disciplinares militares, cabendo ao Conselho
de Justiça, sob a presidência de juiz de direito, processar e julgar os demais crimes militares.
27

IV – DA DEFESA DO ESTADO E DAS INSTITUIÇÕES DEMOCRÁTICAS

1. DAS FORÇAS ARMADAS

As Forças Armadas são instituições nacionais, permanentes e regulares. Destinam-se à defesa


da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e da lei e da ordem (art. 142).

As Forças Armadas são instituições que se organizam com base na disciplina e hierarquia.
Hierarquia é o vinculo de subordinação escalonada e graduada de inferior a superior; disciplina é o poder
que têm os superiores hierárquicos de impor condutas e dar ordens aos inferiores.

Compõem as Forças Armadas: a Marinha, o Exército e a Aeronáutica.

A modificação do efetivo das forças armadas, em tempo de paz, depende de lei de iniciativa do
Presidente (art. 61, § 1º, I); em tempo de guerra, não se cuidará de efetivos, mas de mobilização nacional
(art. 84, XIX).

O serviço militar é obrigatório para todos nos termos da lei (art. 143); é reconhecida a escusa
de consciência no art. 5º, VIII, que desobriga o alistamento, desde que cumprida prestação alternativa.

Seus integrantes têm seus direitos, garantias, prerrogativas e impedimentos definidos no § 3º,
do art. 142, desvinculados, assim, do conceito de servidores públicos.

2. DA SEGURANÇA PÚBLICA

A segurança pública consiste numa situação de preservação ou restabelecimento dessa


convivência social que permite que todos gozem de seus direitos e exerçam suas atividades sem
perturbação de outrem, salvo nos limites de gozo e reivindicação de seus próprios direitos e defesa de seus
legítimos interesses. Polícia, assim, passa a significar a atividade administrativa tendente a assegurar a
ordem, a paz interna, a harmonia e o órgão do Estado que zela pela segurança dos cidadãos.

A segurança pública é de competência e responsabilidade de cada unidade da federação,


tendo em vista as peculiaridades regionais e o fortalecimento do princípio federativo.

Polícias Federais: estão mencionadas três no art. 144, I a III, a polícia federal propriamente
dita, a rodoviária federal e a ferroviária federal; são organizadas e mantidas pela União (art. 21, XIV); todas
elas hão de ser instituídas em lei, como órgãos permanentes estruturados em carreira.

Polícias estaduais: são responsáveis pelo exercício das funções de segurança pública e de
polícia judiciária: a polícia civil, a militar e o corpo de bombeiros militar.

Guardas municipais: a Constituição apenas reconheceu aos Municípios a faculdade de


constituí-las, destinadas à proteção de seus bens, serviços e instalações, conforme dispuser a lei.
28

V – DA ADMINISTRAÇÃO PUBLICA

Expresso entre os artigos 37 A 43 da CONSTITUIÇÃO FEDERAL, a nossa carta magna aborda


sobre a ADMINISTRAÇAO PUBLICA.

Conforme preceitua a nossa carta maior, a administração pública direta e indireta de qualquer
dos poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, obedecerá aos princípios
constitucionais da legalidade, da impessoalidade, da moralidade, da publicidade e da eficiência
(estudaremos a seguir a cada um deles).

A Administração Pública significa a atividade mediante a qual as autoridades públicas tomam


providências para a satisfação das necessidades de interesse público, utilizando, quando necessário, as
prerrogativas do Poder Público, para alcançar os fins que não sejam os próprios à legislação ou à
distribuição da justiça.

Sobre Administração Pública, o professor José Afonso da Silva (in Curso de Direito
Constitucional Positivo) assim explica: “... É o conjunto de meios institucionais, material, financeiro e
humano preordenado à execução das decisões políticas. Essa é uma noção simples de Administração
Pública que destaca, em primeiro lugar, que é subordinada ao Poder político; em segundo lugar, que é meio
e, portanto, algo de que se serve para atingir fins definidos e, em terceiro lugar, denota os dois aspectos:
um conjunto de órgãos a serviço do Poder político e as operações, as atividades administrativas”.

O artigo 37 da Constituição Federal emprega a expressão Administração Pública nos dois


sentidos:

(1) Como conjunto orgânico, ao falar em Administração Pública direta e indireta de qualquer
dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios.

(2) “Como atividade administrativa, quando determina sua submissão aos princípios de
legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade, eficiência, da licitação e os de organização do pessoal
administrativo...”

Em linguagem bem simples (academicamente) podemos dizer que a Administração Pública


(independentemente da esfera Federal, Estadual ou Municipal) é um conjunto de órgãos, bens, serviços e
pessoas subordinadas ao Poder Executivo (Presidente da República, Governadores ou Prefeitos), com a
finalidade de prestar serviços públicos.

PRINCÍPIOS DA ADMINISTRAÇÃO

Tem por objetivo, fornecer à Administração Pública, orientação na ação do administrador


quando na prática dos atos administrativos e a garantir (para todos – sem exceção) a boa administração na
correta gestão dos negócios públicos, como também, no honesto e probo manuseio do dinheiro (erário)
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público, visualizando o atendimento de bens e de serviços somente no interesse de todos (público). São
eles: Legalidade, Impessoalidade, Moralidade, Publicidade e Eficiência.

Princípio da LEGALIDADE = (constava do texto anterior). Impõe à Administração Pública que


atue observando os estritos termos da lei, não sendo admitida nenhuma outra forma (todo ato administrativo
deve – tem de ser – antecedido de lei. Na Administração Pública, tem por princípio básico, somente fazer o
que a lei permite ou determina. Na administração particular, tal princípio ordena a fazer tudo o que a lei não
proíbe. Não podemos deixar de falar sobre o princípio da finalidade administrativa (não referido no artigo 37
CF), pois certamente o legislador constituinte o entendeu como um aspecto da legalidade. O professor Hely
Lopes Meirelles (in Direito Administrativo Brasileiro) assim se manifesta sobre esse princípio “impõe que o
administrador público só pratique o ato para o seu fim legal”. Assim, a finalidade é inafastável do interesse
público, de sorte que o administrador tem que praticar o ato com finalidade pública, sob pena de desvio de
finalidade, uma das mais insidiosas modalidades de abuso de poder).

Princípio da IMPESSOALIDADE = (constava do texto anterior) Tal princípio não permite a


vontade pessoal, subjetiva do administrador. Melhor dizendo, significa o afastamento, no tratamento pelo
administrador, de qualquer espécie de discriminação ou favorecimento, tratando somente (isonomia) do
interesse público, nos termos da legislação (proíbe tratamento discriminatório). Para a professora Cármen
Lúcia Antunes Rocha “O princípio constitucional da impessoalidade administrativa tem como objetivo a
neutralidade da atividade administrativa, fixando como única diretriz jurídica válida para os comportamentos
estatais o interesse público”. Por fim, no vigente texto constitucional, para evitar a quebra deste princípio (§
1º do artigo 37 CF), o legislador constituinte trouxe expressa proibição para que conste: símbolos, nomes ou
imagens, que caracterizem promoção pessoal de autoridades ou servidores públicos (quando: programas
de obras, obras realizadas, campanhas, e outros).

Princípio da MORALIDADE = (constava do texto anterior) Obrigação do administrador público


de observar não somente a lei que condiciona sua atuação, mas também, regras éticas extraídas dos
padrões de comportamento designados como moralidade administrativa (obediência à lei). Não basta ao
administrador ser apenas legal, deve também, ser honesto tendo como finalidade o bem comum. Para
Maurice Hauriou, o princípio da moralidade administrativa significa um conjunto de regras de conduta
tiradas da disciplina interior da Administração. Trata-se de probidade administrativa, que é a forma de
moralidade. Tal preceito mereceu especial atenção no texto vigente constitucional (§ 4º do artigo 37 CF),
que pune o ímprobo (pessoa não correto - desonesta) com a suspensão de direitos políticos. Por fim,
devemos entender que a moralidade como também a probidade administrativa consistem exclusivamente
no dever de funcionários públicos exercerem (prestarem seus serviços) suas funções com honestidade. Não
devem aproveitar os poderes do cargo ou função para proveito pessoal ou para favorecimento de outrem.

Princípio da PUBLICIDADE = (constava do texto anterior) O ato do administrador público deve


ser de conhecimento público como também, para que produza seus efeitos regulares. Significa, publicar no
jornal (Diário Oficial da União) todos os atos ofertando à população o conhecimento e o controle da ação
governamental, exceção feita aos atos considerados sigilosos. Também pode (a publicidade) ser realizada
por edital afixado no lugar de divulgação de atos públicos, para conhecimento do público em geral e início
de produção de seus efeitos. É exigência da executoriedade do ato que tenha que produzir efeitos externos.
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Para o professor Hely Lopes Meirelles (in Direito Administrativo Brasileiro) “a publicidade como princípio da
administração pública, abrange toda atuação estatal, não só sobre o aspecto de divulgação oficial de seus
atos como também de apropriação de conhecimento da conduta interna de seus agentes. Essa publicidade
atinge, assim, os atos concluídos e em formação, os processos em andamento, os pareceres dos órgãos
técnicos e jurídicos, os despachos intermediários e finais, as atas de julgamentos das licitações e os
contratos com quaisquer interessados, bem como os comprovantes de despesas e as prestações de contas
submetidas aos órgãos competentes. Tudo isto é papel ou documento público que pode ser examinado na
repartição por qualquer interessado e dele obter certidão ou fotocópia autenticada para fins constitucionais”.

Princípio da EFICIÊNCIA = (não constava do texto anterior) A EC nº 19 de 1998 introduziu no


artigo 37 “caput” o princípio da eficiência. O princípio tem por finalidade orientar a atividade administrativa
no sentido de conseguir os melhores resultados com os meios escassos de que se dispõe e a menor custo.
Assim, tem por consecução a máxima do maior benefício com o menor custo possível. Este princípio tem
como conteúdo à relação meios e resultados. Para o professor José Afonso da Silva (in Curso de Direito
Constitucional Positivo) “... a eficiência administrativa se obtém pelo melhor emprego dos recursos e meios
(humanos, materiais e institucionais) para melhor satisfazer às necessidades coletivas num regime de
igualdade dos usuários. Logo, o princípio da eficiência administrativa consiste na organização racional dos
meios e recursos humanos, materiais e institucionais para a prestação de serviços públicos de qualidade
em condições econômicas de igualdade dos consumidores. O princípio inverte as regras de competência,
pois o bom desempenho das atribuições de cada órgão ou entidade pública é fator de eficiência em cada
área da função governamental...” Finalmente, o princípio constitucional da eficiência, é o que impõe a
Administração Pública direta ou indireta e a seus agentes a persecução do bem comum, por meio do
exercício de suas competências de forma imparcial, neutra, transparente, participativa, na busca da
qualidade, primado pela legalidade e a moralidade para melhor utilização dos recursos públicos, visando o
bem social.