Você está na página 1de 2

Para se explicar o estereótipo da bruxaria no século XVI ao XVIII faz-se

necessário compreender o contexto social de uma sociedade em crise. A


história nos mostra que em momentos de instabilidade social, os indivíduos
tendem a personificar os males nas classes marginalizadas. Não seria diferente
na construção do estereótipo da bruxaria, o que cabe a nós analisarmos a
seguir.
Conforme visto em Carlos Ginzburg, História Noturna, o pontapé inicial
deste processo foi a lepra, no ano de 1321, em Carcassone e cidades vizinhas.
O medo de ser contagiado por esta doença bastou para que a sociedade
emergisse em uma onda de perseguições iniciadas contra os leprosos, e
posteriormente transferidas aos judeus, povo que desde Roma sofre
perseguições, fruto, principalmente, da acusação de serem os responsáveis
pela morte de Jesus Cristo.
Em 1348, com a epidemia da peste negra se alastrando pela Europa e
devastando um terço da população, mais uma vez as acusações se voltam
contra as camadas marginalizadas: pobres e judeus. Em Narbonne, e mais
uma vez em Carcassone e cidades próximas – lugares onde a peste aniquilou
um quarto da população – , pobres e mendigos confessaram, uns sob tortura,
outros voluntariamente, que possuíam pós que eram colocados nas águas, nas
comidas e nas igrejas, para difundir a morte. Seguindo os mesmos moldes de
1321, as acusações primeiramente foram voltadas aos pobres e segundamente
aos judeus. E foi em 1348 que aconteceu a primeira explosão de hostilidade
deflagrada contra os judeus. No gueto de Toulon, casas foram saqueadas, e
quarenta pessoas foram massacradas enquanto dormiam.
Em ambos casos, as confissões eram feitas sob tortura, em que os
torturados diziam aquilo que as autoridades esperavam. Vale ressaltar a
importância desta afirmativa. A construção do estereótipo valeu-se muito das
descrições feitas por aqueles que eram vítimas das torturas. Passou-se a ter
informações extremamente discricionárias sobre os ritos.
O dominicano alemão Nider marca outro ponto importante na
construção deste estereótipo. Utilizando-se de fontes a respeito de processos
contra bruxas e feiticeiros, o mesmo aponta as características de um grupo
datado de 1375, sendo elas: a metamorfose em animais, o canibalismo dos
próprios filhos, a reverência ao demônio e a profanação da cruz. Estes
elementos viriam a ser assimilados posteriormente ao Sabá. No entanto, neste
grupo ainda não havia referência aos voos noturnos e orgias sexuais, que
complementaria o estereótipo e que seria encontrado apenas em 1348, num
texto do cronista Jüstinger Von Königshofen.
Seguindo a cronologia, em 1409, Pounce Fougeyron, inquisidor-geral de
uma região muito vasta, que abrangia as dioceses de Delfinado, Genebra,
entre outras, – exatamente para aonde os judeus foram deslocados após os
eventos de 1321 e 1348 – troca informações com o papa Pietro Filargis a
respeito de novos ritos e seitas que se difundiam a partir de judeus que
almejavam disseminar e corromper os cristãos através do Talmud e outros
livros da sua lei, bem como com a prática de empréstimos com usura, como se
não fossem heresias. Além disso, segundo Fougeyron, haviam práticas de
bruxaria, adivinhações, invocações de demônios, exorcismos mágicos,
superstições, artes malvadas e proibidas. Tais “novos ritos” convergiram com o
fenômeno descrito por Nider.
A construção do estereótipo de bruxaria se fundamenta nestes episódios
numa complementaridade de características que dão forma ao Sabá. A partir
da perseguição aos judeus e outros grupos marginalizados em uma sociedade
que estava em crise, foram criados mecanismos para canalizar o mal
(incorporado, inclusive, na figura do Diabo), em outros indivíduos.