Você está na página 1de 2



   
    
   

 
    
  

XXP
PRR
5HV

 ! " # $ % 


   
         % " # $  $
&  '  ( )  *&+ 
,-.

Teresa Kleba Lisboa é professora do
) !  + '
 /001% 23/ '% Departamento de Serviço Social da UFSC e
do Programa de Pós-Graduação em Serviço
Social, coordena o Núcleo de Estudos e
Pesquisa em Serviço Social e Relações de
Gênero, desenvolve projetos de pesquisa
e extensão com mulheres líderes de
 ! " # $ % 
 
 comunidades da periferia de Florianópolis,
serventes de limpeza que trabalham como
      % &  '  4 terceirizadas, com mulheres pobres, chefes
de família e com mulheres que sofrem
+ '
% )  *&+ 4 !  /001% 23/ ''% violência. Doutora em Sociologia pela
UFRGS/PortoAlegre, Mestre em Sociologia
Política pela UFSC, publicou também pela
Editora da UFSC: A Luta dos Sem Terra no
Oeste Catarinense.
"  
%
 %

2
livro analisa o processo migraram para a cidade de Floria- jetividade, de um lado lutando contra
de “empoderamento” nópolis. Ali, impulsionadas pela ação a discriminação de gênero, classe e
de mulheres líderes de de agentes externos e organizações etnia e, de outro, lutando por uma cau-
duas comunidades da periferia de sociais, participaram de vários proces- sa comum que foi a conquista de suas
Florianópolis, a partir das dimensões sos de lutas e conquistas de moradia moradias, contribuiu para afirmar sua
de gênero, classe e etnia. As trajetó- e de outras necessidades básicas. identidade e o seu “empoderamento”.
rias de vida de quinze lideranças en- Conquistaram nesta luta um poder
trevistadas proporcionaram a recons- afirmativo que as transformou em
trução da história estrutural e socio- sujeitos políticos, com fala própria, com
Teresa Kleba Lisboa
lógica de um grupo de pessoas pro- capacidade para intervir, decidir, deli-
tkleba@cse.ufsc.br
cedentes da miscegenação de índio berar e participar da construção de
com branco, que viviam no “entorno sua cidadania e de lutar por outros Departamento de Serviço Social –
caboclo” como posseiros, e foram objetivos importantes para suas vidas CSE/UFSC
expropriados de suas terras, tendo que e das comunidades em que vivem. Campus Universitário Trindade
migrar para a cidade. Chegando na
O conceito de “empoderamento” Florianópolis – SC
cidade, estas famílias encontram no é apresentado no livro como uma ou-
espaço solidário das redes sociais de CEP: 88.010-970
tra concepção de poder: um poder que
vizinhança, familiares e nas redes de afirma, reconhece e valoriza, ao in-
ONGs – Organizações Não-Gover- vés de um poder que oprime, domina
namentais, o acolhimento necessário e anula. É entendido como “um pro-
para sua aculturação, que não ocorre cesso que oferece condições e possi-
sem conflitos de identidade. bilidades às pessoas de auto-determi-
Estudos feministas têm apontado nar suas próprias vidas”; implica na
para o significativo aumento dos fe- inversão dos mecanismos de poder
nômenos da “feminização da pobre- patriarcais fundados na opressão e na
za” e da “feminização da migração”. mudança de normas, crenças, men-
Segundo dados da ONU, 70% dos talidades, usos e costumes, práticas
pobres de todo o mundo são mulhe- sociais e conquista de direitos pela
res, que, por sua vez, têm despontado mulher. No livro são descritas traje-
nos cenários da migração interna (na- tórias de empoderamento de quatro
cional) e externa (internacional) como mulheres consideradas paradigmá-
sujeitos autônomos, em busca de me- ticas. Estas trajetórias mostram que
lhores condições de vida para si e para o processo de empoderamento inicia-
seus filhos. O processo de migração se primeiramente, na aquisição do
para as mulheres significa, muitas espaço doméstico, no qual ocorrem as
vezes, a fuga de uma estrutura social relações de produção e reprodução do
patriarcal com rígidas noções do que cotidiano (empoderamento social) e
constitui “propriedade” em relação à no qual elas desenvolvem sentimen-
mulher. Em geral, a mulher pobre, ín- tos de auto-estima e autoconfiança
dia, negra ou mestiça não tem direito (empoderamento psicológico). A con-
à herança e à propriedade de terras quista da casa levou as mulheres a
no campo nem quando casa e muito iniciarem seu engajamento político,
menos quando se separa, configuran- pois esta luta travou-se no espaço
do-se uma articulação entre as cate- público (empoderamento político).
gorias gênero, classe e etnia. As mu- Através de suas trajetórias migra-
lheres migrantes, sujeitos desta pes- cionais, as mulheres caboclas
quisa, descendem da miscigenação de reelaboraram os significados das ca-
índio com branco, e suas trilhas de tegorias sociais: gênero, classe e etnia
vida no tempo e no espaço estão re- transformando-se em sujeitos políti-
lacionadas com as histórias de suas cos. Esta “alquimia” decorrente da
famílias, posseiras ou assalariadas multiplicidade de sujeitos – migrantes,
rurais, que, expulsas de suas terras no caboclas, mulheres, trabalhadoras,
campo – onde seu sistema de vida mães, líderes, no processo conflitivo
seguia a lógica do “entorno caboclo”, e dialético de construção de sua sub-


 

 





 


!
"#$"