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Anais do II Seminário

Internacional Pós-Colonialismo,
Pensamento Descolonial e Direitos
Humanos na América Latina
25 e 26 de abril de 2017 – Unisinos, São Leopoldo, RS, Brasil

Financiamento: Realização: Apoio:


Todos os direitos reservados, protegidos pela lei
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autor.

II SEMINÁRIO INTERNACIONAL PÓS-


COLONIALISMO, PENSAMENTO DESCOLONIAL E
DIREITOS HUMANOS NA AMÉRICA LATINA
Organizadora: Fernanda Frizzo Bragato / 1ª edição,
São Leopoldo: Editora Visão, 2018.

330 Páginas, 16x23 cm.

ISBN 978-85-67270-53-1

1. Direitos Humanos 2. Descolonialismo


3. América Latina I Autor. II Título

CDD: 340
II SEMINÁRIO INTERNACIONAL PÓS-
COLONIALISMO, PENSAMENTO
DESCOLONIAL E DIREITOS HUMANOS
NA AMÉRICA LATINA

25 e 26 de abril de 2017, Universidade do Vale do Rio dos Sinos – UNISINOS,


São Leopoldo, Rio Grande do Sul, Brasil.

O poder relaciona-se, em geral, com o conhecimento. Na América Latina,


desde a Conquista e a colonização, o conhecimento foi usado para dominar tanto
a natureza quanto os povos originários. Um dos instrumentos eficazes do mundo
do conhecimento que o poder político e econômico têm usado para se afirmar, se
consolidar e, às vezes, se impor, é o conhecimento jurídico. Este conhecimento é
tão relevante ao poder que muitos Estados latino-americanos privilegiam esta
área de estudos (Correa, 1995).

Sendo América Latina uma das regiões colonizadas e dominadas pelo


Europa ocidental, os Estados herdaram instituições políticas, econômicas, sociais
e culturais ocidentais. A problemática de tal herança enquadra-se, em geral, no
fato da dissociação entre a matriz cultural de poder colonial que sustenta a
organização e funcionamento dessas instituições e a realidade pluricultural do
espaço geopolítico latino-americano.

A abordagem da especificidade desta região escapa, em muitos casos, à


matriz cultural de poder colonial – chamada modernidade/colonialidade
(Quijano, 2005; Castro-Gómez; Grosfoguel, 2007) – simplesmente por limitação
do horizonte epistemológico no qual essa matriz está imersa. Este fato vem sendo
denunciado, desde a década dos anos 1990, pelos intelectuais, movimentos
sociais e ativistas latino-americanos. As reflexões e denúncias destes atores
sociais foram alentados não só pela comemoração dos quinhentos anos da
Conquista, senão também pela implementação (na mesma década dos 1990) do
modelo econômico-hegemônico neoliberal, nesta parte do continente americano.

O neoliberalismo, pensado e nascido do mesmo molde cultural da


modernidade/colonialidade, veio dar uma nova pauta a seguir nos setores
chaves (política, economia, direito e sociedade) da vida dos Estados-nação latino-
americanos. Assim, a maioria destes Estados – é caso do Chile, México, Colômbia,
entre outros – foram debilitados em quesitos econômicos e político-jurídicos,
desengajando-se paulatinamente das obrigações sociais que lhes incumbiam.

Essa situação, de um lado, agudizou a problemática das violações dos


Direitos Humanos na América Latina e, de outro lado, permitiu o surgimento de
novos sujeitos de direito que vêm reivindicando antigos e novos direitos
negados.

Este panorama apresenta grandes desafios tanto para os juristas quanto


para professores e estudantes interessados, em geral, em problemas dos regimes
político-jurídicos latino-americanos, e, de forma particular, na defesa dos
Direitos Humanos. Como se viu acima, um desses desafios diz respeito a criticar
a matriz cultural do poder colonial que tem organizado o conhecimento, neste
caso o conhecimento jurídico. Fazendo-o, deve-se ampliar, então, o horizonte
epistemológico para enxergar e tratar de responder aos problemas antigos e
emergentes que atingem as ciências jurídicas. Para tal propósito, é imprescindível
tomar a sério um diálogo interdisciplinar com produções teóricas e empíricas das
áreas do conhecimento filosófico, político e sociológico, principalmente.

As críticas da modernidade/colonialidade estão produzindo novos


horizontes epistemológicos que se articulam num marco global do pós-
colonialismo. Esta corrente de pensamento liga todas as sociedades que saíram
da experiência da colonização ocidental, considerada como una relação de
violência, servidão e dominação (Mbembe, 2000, 139-140). A produção teórica
pós-colonial possibilita outro olhar no campo jurídico, e especialmente no que
diz respeito à efetivação dos Direitos Humanos, num mundo globalizado, regido
ainda pela lógica da matriz cultural do poder colonial.

Na América Latina, o pensamento descolonial tornou-se uma expressão


cabal do pós-colonialismo. Desde o projeto modernidade/colonialidade, os
pesquisadores, professores e pensadores descoloniais, demostraram como a
colonialidade permeia, como forma de dominação, todos os níveis – econômico,
político, social e cultural – sendo que a descolonização não desfez a colonialidade,
senão transformou, sensivelmente, os seus contornos (Quijano; Wallerstein,
1992). É obvio que tal elaboração teórica poria também a descoberto o fato de que
os sistemas jurídicos latino-americanos estão embasados num marco teórico-
filosófico da modernidade/colonialidade.

Outras propostas teórico-empíricas do pensamento descolonial que


podem contribuir na ampliação do horizonte epistemológico nas ciências
jurídicas são a interculturalidade e o feminismo latino-americano.
A interculturalidade, em perspectiva crítica, coloca o problema estrutural-
colonial-racial imposto pela modernidade/colonialidade, bem como sua ligação
ao capitalismo (Walsh, 2012); questiona a lógica irracional e instrumentalista do
capitalismo, apontando um posicionamento para a construção de um projeto
político, social, ético e epistémico – de saberes e conhecimentos –, que deve se
consolidar para a transformação das estruturas, condições e dispositivos de
poder que mantêm a desigualdade, racialização, subalternização e inferiorização
dos seres, saberes e modos, lógicas e racionalidades de vida (Walsh, 2012).

Por sua vez, o feminismo latino-americano vem denunciando o problema


da limitação do gozo dos direitos das mulheres e outros grupos subalternizados
(negros, indígenas e homossexuais) por uma sociedade imersa na
modernidade/colonialidade, cujo padrão idôneo do ser humano é homem
branco, proprietário, cristão, heterossexual e capitalista (Bidaseca; Curiel, 2011).

Tanto a interculturalidade quanto o feminismo latino-americano


coadjuvam na desconstrução epistemológica que supere a colonialidade do
poder e saber para assim dar vozes aos sujeitos sócio-históricos latino-
americanos e abordar os antigos e, hoje, emergentes problemas tocantes aos
Direitos Humanos. O pensamento descolonial latino-americano torna-se, então,
uma opção viável e capaz de não só questionar o paradigma hegemônico
neoliberal, senão também abranger a pluralidade da realidade da América
Latina.

Este evento é subsequente ao I Seminário Internacional realizado em 2013.


Naquele, foi possível reunir vários professores-pesquisadores, profissionais da
área de Direito, regionais, nacionais e internacionais envolvidos com uma
perspectiva crítica nas ciências jurídicas, para trocarem as experiências, tanto no
campo teórico-empírico quanto com respeito às metodologias de pesquisa que
têm desenvolvidas.

Por conta disso, o evento atual quer aprofundar mais a temática da


produção do conhecimento jurídico, na região latino-americana, focando os
debates mais recentes em torno da fundamentação dos Direitos Humanos e suas
relações com as perspectivas pós e descolonial. Neste sentido, o evento atual deve
abrir, além das temáticas desenvolvidas no seminário passado, temáticas
emergentes que não têm sido contempladas. Será o caso de explorar o potencial
das propostas intercultural e feminista latino-americano, o problema dos crimes
de atrocidade, entre outros.

Também cabe mencionar que o atual evento será um momento importante


para seguir consolidando as redes nacionais e internacionais acadêmico-
científicas que foram impulsionadas no primeiro encontro. Desta forma, tratar-
se-á de assegurar a presença da maioria dos professores-pesquisadores que
estiveram no primeiro evento e agregar outros novos que atuam na área de
Direitos Humanos, desde um horizonte epistemológico descolonial.

Referências:

BIDASECA, K; LABA, V. (Comps.), Feminismo y Poscolonialidad. Descolonizando el


feminismo desde y en América Latina, Buenos Aires, Godot, 2011.

CASTRO-GÓMEZ, S.; GROSFOGUEL, R. (ed.). El giro decolonial. Reflexiones para una


diversidad epistémica más allá del capitalismo global. Bogotá: Iesco-Pensar-Siglo del
Hombre Editores, 2007.

CURIEL, Ochy. 2007. “La Crítica Poscolonial desde las Prácticas Políticas del Feminismo
Antirracista”, en Colonialidad y Biopolítica en América Latina, Revista NOMADAS. No.
26, Instituto de Estudios Sociales Contemporáneos-Universidad Central, Bogotá, 2007.

MBEMBE, Achille. Necropolítica. Santa Cruz de Tenerife: Editorial Melusina, 2011.

QUIJANO, Anibal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. In:


LANDER, Edgardo (org). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais.
Perspectivas latino-americanas. Buenos Aires: Colección Sur Sur, CLACSO, setembro,
2005.

QUIJANO, Aníbal; WALLERSTEIN, Immanuel (1992). Americanity as a concept, or the


Americas in the modern world-system. International Social Science Journal, v. 44, n. 4,
p. 549 - 557.

WALSH, Catherine. Interculturalidad crítica y (de)colonialidad. Ensayos desde Abya


Yala. 1ª ed. Quito, Ecuador: Ediciones Abya-Yala, 2012.

Coordenação Geral: Profa. Dra. Fernanda Frizzo Bragato

Secretária: Jaqueline Deuner

Editoração dos anais: Bianka Adamatti

Equipe organizadora: Fernanda Frizzo Bragato, Alex Sandro da Silveira Filho, Ana
Carolina Voges de Campos, Aline Andrighetto, Bianka Adamatti, Bruna da Silva
Marques, Helena Kugel Lazzarin, Jaqueline Deuner, Luciana Rabello Justin, Karina
Macedo Fernandes, Marina de Almeida Rosa, Paulo Victor da Silva Schröeder, Pedro
Bigolin Neto.

Realização: Núcleo de Direitos Humanos- Unisinos; Escola de Direito- Unisinos;


Universidade do Vale do Rio dos Sinos- Unisinos.
Apoio: Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP); Universidade Federal
Fluminense (UFF); Universidade de Santiago do Chile (USACH); Universidade do
Extremo Sul Catarinense (UNESC).

Financiamento: Fapergs e CAPES


PROGRAMAÇÃO COMPLETA

25/04/2017 (terça-feira)
Horário/Local Atividade Descrição
08h Credenciamento Credenciamento no local do evento
Anfiteatro Pe.Werner
08h30min Cerimônia de abertura
Anfiteatro Pe. Werner
09h Coferência: Oscar Eduardo Guardiola Rivera Oscar Eduardo Guardiola Rivera: The People Are
Anfiteatro Pe.Werner Missing (La gente ha desaparecido)
Moderador: Alfredo Santiago Culleton
10h MESA REDONDA 1: Olhares descoloniais sobre a Élida Lauris: “Novo Constitucionalismo e
Anfiteatro Pe.Werner política e o constitucionalismo na América Latina expansão política do conservadorismo: papel e
importância da vigilância crítica decolonial”
Cesar Ross (USACH): "El Golpe de Estado en Chile
(1973) y la política de la indiferencia: El caso de
Japón.”.
Antonio Carlos Wolkmer (UFSC/Unilasalle):
"Para um Constitucionalismo Latino-americano:
desde um olhar pluralista e descolonial."
Moderador: Enzo Bello
13h Almoço Intervalo para almoço
UNISINOS
14h GT Grupos de Trabalhos (ver abaixo)
UNISINOS
17h Coffee Break
Anfiteatro Pe. Werner
18h MESA REDONDA 2: Direitos humanos, diversidade e Jean-Bosco Kakozi: "Ubuntu, o privilégio branco e
Anfiteatro Pe. Werner pensamento decolonial a problemática da inclusão-exclusão em nossa
América".
Karina Bidaseca: "Feminismo Descolonial”
Jocelyn Getgen Kestenbaum: "Las dimensiones de
género en el genocídio”
Roger Raupp Rios: "Antidiscriminação, diferença e
descolonialidade
Debatedora: Mariam Steffen Vieira
26/04/2017 (quarta-feira)
Horário/Local Atividade Descrição
09h MESA REDONDA 3: Reflexões teóricas sobre pós- Thula Rafaela de Oliveira Pires: "Por uma
Anfiteatro Pe.Werner colonialismo e descolonialidade concepção amefricana de direitos humanos"
Eduardo Devés Valdés: "Una teoría de la
circulación para pensar desde el Sur"
J. M. Barreto: Lo que significa descolonizar los
derechos humanos?
Debatedora: Rosa Maria Zaia Borges
12h Almoço Intervalo para almoço
Almoço
13h30min MESA REDONDA 4: Direito humanos dos povos e das Raquel Yrigoyen Fajardo: "Nações originárias,
Anfiteatro Pe.Werner comunidades tradicionais descolonização e Estado plurinacional no contexto
do bicentenário da fundação dos Estados na
América Latina”
Gersen Baniwa: "Saberes indígenas ainda em
busca de espaço entre as novas epistemes"
Priscila P. Godoy: "O Povo Cigano: racismo e a
emergência de um pensamento descolonial”
Moderador: Paulo C. Leivas
16h30min Coffee Break
Anfiteatro Pe.Werner
17h GT Grupos de Trabalhos (ver abaixo)
Auditório Maurício Berni
20h Plenária Plenária para diálogos de fechamento e
Anfiteatro Pe.Werner encaminhamentos para o futuro
21h Festa de encerramento na Rua Amadeu Rossi nº
Festa de Encerramento 350, em São Leopoldo.
Entrada gratuita para inscritos no evento.
PALESTRANTES

Antonio Carlos Wolkmer

Formado em Direito pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS, 1977).
Especialista em Metodologia do Ensino Superior pela UNISINOS (1980). Mestre em
Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS, 1983) e Doutor
em Direito pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC, 1992). Professor Titular
Aposentado no Curso de Pós-Graduação em Direito da Universidade Federal de Santa
Catarina (UFSC) e Docente Permanente no Programa de Pós-Graduação em Direito e
Sociedade do UNILASALLE-RS.

Cesar David Ross

É professor de História e Geografia do UMCE (1989); Mestre em História (1996) e PhD


em Estudos Americanos (menção Relações Internacionais) pela Universidade de
Santiago de Chile (2005). Atualmente, ele trabalha como pesquisador no Instituto de
Estudos Avançados (Universidade de Santiago de Chile), Diretor do Ph.D. em Estudos
Americanos da Universidade de Santiago de Chile e Diretor do chileno-coreana Centro
de Estudos Programa ChKSCP Americanos.

Eduardo Devés Valdés

Especialista em estudos eidéticos, estuda o pensamento latino-americano, pensamento


das regiões periféricas e das redes intelectuais. Pesquisador do Programa de Estudos
Pós-doutorais do Instituto de Estudios Avanzados de la Universidad de Santiago de
Chile. É professor de doutorado em Estudos Americanos e de mestrado nos Estudios
Internacionales de la Universidad de Santiago de Chile.

Enzo Bello

Pós-Doutor em Direito pela UNISINOS. Doutor em Direito pela UERJ. Mestre em


Ciências Jurídicas pela PUC-Rio. Graduado em Ciências Jurídicas e Sociais pela UFRJ.
Professor Adjunto da Faculdade de Direito da UFF. Professor do Programa de Pós-
Graduação em Direito Constitucional da UFF. Professor do Programa de Pós-graduação
em Direito da UNESA. Coordenador da Área de Ciências Sociais Aplicadas na UNESA.

Élida de Oliveira Lauris dos Santos


Élida Lauris é doutora em Pós-colonialismos e Cidadania Global pelo Centro de Estudos
Sociais e Faculdade de Economia, da Universidade de Coimbra.

Gersem José dos Santos Luciano

Gersem é índio Baniwa e atualmente é Professor Adjunto da Faculdade de Educação e


Diretor de Políticas Afirmativas da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). É
graduado em Filosofia pela Universidade Federal do Amazonas (1995), mestre e doutor
em Antropologia Social pela Universidade de Brasília (2006-2011).

Jean-Bosco Kakozi Kashindi

Doutor em Estudos Latino-Americanos: área de conhecimento: Filosofia, História das


ideias e Ideologia na América Latina, na Faculdade de Filosofia e Letras (UNAM). Pós-
doutorado na UNISINOS, em 2016. Mestrado e Doutorado em Estudos Latino-
Americanos na Universidad Autónoma do México.

Jocelyn Getgen Kestenbaum

Professora na Bejamin N. Cardozo School of Law, onde atua no “Cardozo Law Institute
in Holocaust and Human Rights & Human Rights and Atrocity Clinic, na cidade de
Nova York, nos EUA, desde agosto de 2013.

José-Manuel Barreto

Graduado Filosofia pela Universidad Nacional da Colombia e em Direito pela


Universidad Externado da Colombia. Mestre em Direitos Humanos pelo Institute of
Commonwealth Studies – University of London. PhD em Direito pelo Birkbeck College
- University of London. Bolsista de Pós-doutorado da Universidade de Humboldt,
Berlim Rechstkulturen. É professor da Universidad de los Andes e Universidad Jorge
Tadeo Lozano, em Bogotá.

Miriam Steffen Vieira

Doutora em Antropologia Social (2007), Mestre em História (1997) e Licenciada em


História (1993) pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Professora Assistente
II no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UNISINOS-RS. Professora
colaboradora no PPGCS da Universidade de Cabo Verde e professora associada ao
Centro de Investigação em Género e Família da Universidade de Cabo Verde
(Cigef/Uni-CV).
Oscar Eduardo Guardiola Rivera

Oscar é Diretor Adjunto da Escola de Direito de Birkbeck e colaborador no Instituto de


Humanidades da mesma instituição. Graduou-se em Direito em Bogotá, Colômbia
(Universidad Javeriana, 1993) e obteve seu LLM com distinção no University College
London e seu PhD em Filosofia na King´s College of the University of Aberdeen.

Paulo Gilberto Cogo Leivas

É graduado em Ciências Jurídicas e Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do


Sul (1993), Mestre em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2002) e
Doutor em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2009). É Professor
do Curso de Mestrado em Direitos Humanos da UNIRITTER/Porto Alegre.

Priscila Paz Godoy

Graduada pela Faculdade de Direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie, São


Paulo, SP, em 1999. Concluiu mestrado acadêmico pelo Programa de Direitos Humanos
e Cidadania (PPGDH) da Universidade de Brasília (UnB), em 2015.

Raquel Yrigoyen Fajardo

Doutora em Direito pela Universidade de Barcelona. Professora de Direito da PUC - Peru


e membro do Instituto Internacional de Derecho y Sociedad.

Roger Raupp Rios

Graduação em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1993), mestrado
em Direito (2000) e doutorado em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do
Sul (2004). Desembargador Federal do Tribunal Regional Federal da 4 Região. Professor
do Centro Universitário Ritter dos Reis, no Mestrado Stricto Sensu (Direitos Humanos)
e na Graduação.

Rosa Maria Zaia Borges

Rosa Maria Zaia Borges possui graduação em Direito pela Universidade Federal de
Uberlândia (1997), mestrado em Direito pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos
(2001) e doutorado em Filosofia do Direito pela Universidade de São Paulo (2009).
Atualmente é professora adjunta da Universidade Federal do Pampa, atuando nos
cursos de Direito e Relações Internacionais.

Thula Rafaela de Oliveira Pires

Doutora em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Professora


nos cursos de Graduação e Pós-graduação do Departamento de Direito da PUC-Rio e
Coordenadora-Adjunta de Graduação no mesmo curso.
SUMÁRIO

COLONIALIDADE E RACISMO/SEXISMO EPISTÊMICO ......................................... 16


LA POLÍTICA DESCOLONIZADORA EN UBUNTU, EL RACISMO Y LA
DESCOLONIZACIÓN DEL GÉNERO EN ÁFRICA Y EN SUS DIÁSPORAS........... 27
CONSTITUCIONALISMO CRÍTICO LATINO AMERICANO ................................... 33
FEMINISMOS TRANSNACIONAIS A PARTIR DO SUL ............................................ 50
NATUREZA, TRABALHO E DIREITOS NA AMÉRICA LATINA: EM BUSCA DE
ALTERNATIVAS .................................................................................................................... 74
O LUGAR DO DESCOLONIAL DAS TEORIAS CRÍTICAS DO DIREITO E O
LUGAR DA TEORIA CRÍTICA NO PENSAMENTO DESCOLONIAL ..................... 82
CONSTRUÇÃO OCIDENTAL DE SUBJETIVIDADES NA ORDEM
INTERNACIONAL: DIÁLOGOS CRÍTICOS SOBRE A PRODUÇÃO DE
SUJEITOS, LEGITIMIDADE POLÍTICA E COLONIALIDADE .................................. 87
LUTAS URBANAS E DIREITO À CIDADE: EMPIRIA, TEORIA CRÍTICA E
PENSAMENTO DESCOLONIAL ...................................................................................... 103
ALTERIDADE, ESTIGMA E DESCOLONIZAÇÃO NA AMÉRICA LATINA ........ 118
DIREITOS HUMANOS E ESTUDOS DO DISCURSO ................................................ 126
EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA: PENSAMENTO DESCOLONIAL E
INTERCULTURALIDADE.................................................................................................. 149
REPENSANDO AS FUNDAÇÕES COLONIAIS DOS DIREITOS HUMANOS
INTERNACIONAIS ............................................................................................................. 191
A EXPERIÊNCIA DA ALTERIDADE NA AMÉRICA LATINA .................................. 201
DILEMAS E PERSPECTIVAS DO NOVO CONSTITUCIONALISMO LATINO-
AMERICANO ........................................................................................................................ 205
CRIAÇÃO DE AMBIENTES DE PENSAMENTO/AÇÃO HUMANOS
SUSTENTÁVEIS ................................................................................................................... 208
FUNDAMENTOS DO ESTADO PLURINACIONAL E PENSAMENTO
DE(S)COLONIAL ................................................................................................................. 212
DIREITO, SUBALTERNIDADE E DECOLONIALIDADE .......................................... 216
POVOS INDÍGENAS/TRADICIONAIS E DECOLONIALIDADE: NOVAS
PERSPECTIVAS .................................................................................................................... 251
JUSTIÇA DE TRANSIÇÃO NA AMÉRICA LATINA E OS HORIZONTES
AUTORITÁRIOS DO SÉCULO XXI ................................................................................. 271
O PÓS-COLONIAL E A REPRESENTAÇÃO DE SUBALTERNIDADES NA
AMÉRICA-LATINA ............................................................................................................. 280
RESISTÊNCIA E AÇÃO COLETIVA EM TEMPOS DE EXCEÇÃO: ESTADO,
PODER, VIOLÊNCIA E CONSTRUÇÃO DE ALTERNATIVAS NAS SOCIEDADES
PÓS-COLONIAIS ................................................................................................................. 288
ATORES SOCIAIS E MECANISMOS DE RESPONSABILIZAÇÃO DE EMPRESAS
POR VIOLAÇÕES DE DIREITOS HUMANOS ............................................................. 303
ETNOGRAFIAS DAS INTERSECCIONALIDADES: RAÇA E GÊNERO NO
CONTEXTO DAS POLÍTICAS PÚBLICAS E DA JUSTIÇA........................................ 312
PÓS/DESCOLONIALISMO E O CAMPO DO DIREITO INTERNACIONAL
ECONÔMICO NA AMÉRICA LATINA .......................................................................... 318
COLONIALIDADE E RACISMO/SEXISMO
EPISTÊMICO
SABERES E FAZERES FRONTEIRIÇOS: AS TENSÕES ENTRE
CORPUS E CORPO EM FRANTZ FANON E GLORIA ANZALDÚA

Marcos de Jesus Oliveira

Em “Pele negra, máscaras brancas”, Frantz Fanon finaliza seu livro com o que ele mesmo
denomina de última prece: “Ô meu corpo, faça sempre de mim um homem que questiona!”
(FANON, 2008, p. 191). A afirmação é emblemática da elaboração de uma corpo-política cujo
reconhecimento da indissociabilidade entre corpus e corpo parece fundamental a uma
epistemologia de fronteira, uma em que as marcas da historicidade se tornam a própria
condição de possibilidade de um lugar de enunciação. Ali o gesto de recusa à racialização de
si operada pelos mecanismos de poder colonial inaugura um percurso teórico no qual a
marca ontológica de inferiorização é um dos elementos centrais de uma crítica contundente
aos saberes/poderes constituídos. A existência corporal ex-cêntrica dos “condenados da
terra”, sua localização para fora dos territórios simbolicamente instituídos, retorna e, ao fazê-
lo, revela sua força, sua potência para deslocar a ilusão do uno, as arbitrariedades de seus
limites e suas tentativas de impor domínio simbólico sobre o outro como exterioridade. Nesse
diapasão, Gloria Anzaldúa, em “Borderlands/La frontera: the new mestiza”, diz: “A veces
no soy nada ni nadie. Pero hasta cuando no lo soy, lo soy” (ANZALDÚA, 1987, p. 85). Não
sendo também se é (ou se pode sê-lo), e o existir pelo não-ser significa ameaçar as estruturas
de poder constituídas, tornando possível um constante redimensionamento das relações de
identidade e de diferença no interior das relações culturais, linguísticas e raciais. Essa
“cumplicidade subversiva” (GROSFOGUEL, 2012) para com as normas de inteligibilidade
pelas quais o sujeito se constitui é o que permite o delineamento de um pensamento de
fronteira em Anzaldúa como modo de resistência à negação ontológica segundo os próprios
elementos que orquestram a opressão, desestruturando-os e produzindo entrecruzamentos
de tensão e de conflito. Diante disso, o presente trabalho tem como objetivo refletir sobre as
alternativas epistemológicas abertas pelos dois pensadores da fronteira, destacando os
elementos de seus pensamentos que permitam entrever, no entrecruzamento entre corpus e
corpo, saberes e fazeres fronteiriços com os quais se operam deslocamentos a respeito das
compreensões correntes sobre os lugares de enunciação.

Palavras-chave: Fanon; Anzaldúa; Corpo-política; Pensamento de fronteira.

17
O APAGAMENTO SOCIAL DAS MULHERES LÉSBICAS: ESTIGMAS,
LUTA E RESISTÊNCIA

Pamela Maiara Chaves Canciani

Em um mundo de significações, onde discursos e representações tornam-se padrões sociais


aceitáveis ou não, o objetivo desse estudo é traçar um paralelo acerca da invisibilidade
sofrida pelas mulheres lésbicas, e os caminhos para se (re)conhecer a existência dessas
mulheres no seio social. O apagamento produzido pelo discurso dominante do patriarcado
e da heterossexualidade como norma resulta em uma série de violências e preconceitos para
as lésbicas. Essa normatização vem enfrentada pela subversão dos padrões e resistência
política, por meio da afirmação e do (re)conhecimento das mulheres lésbicas como corpos
políticos. As conquistas do movimento feminista e LGBT contribuíram para o alcance de
significativos direitos para essas “minorias”, no entanto, devido aos fenômenos da
heterossexualidade compulsória e da dominação patriarcal as lésbicas, por muito tempo
tornaram-se invisibilizadas, ou, antagonicamente, expostas pelos discursos dominantes
(científicos, culturais, socioculturais, acadêmicos, etc.) de maneira distorcida, muitas vezes
patológica, mas sempre impura e indesejável. A história recontada a partir de suas
protagonistas é capaz de produzir o enfrentamento desses estereótipos e estigmas sociais
acerca da lesbianidade, e, a visibilidade da identidade individual e coletiva é um ponto
crucial para o reconhecimento de direitos humanos e sociais das mulheres lésbicas, bem
como a sua existência de maneira digna. O procedimento adotado é a pesquisa bibliográfica,
com a realização de consultas em livros, revistas científicas, dados estatísticos e demais
documentos pertinentes. O método de abordagem é o hipotético-indutivo, buscando a
resolução da problemática apresentada.

Palavras-chave: Invisibilidade; Lésbicas; Direitos Humanos; Identidade.

18
ESTUDOS EMPÍRICOS SOBRE DISCURSO, RACISMO E SEXISMO
EPISTÊMICO: AS CONTRIBUIÇÕES DE BOURDIEU E GROSFOGUEL
PARA COMPREENSÃO DA PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO
JURÍDICO

Eduarda Toscani Gindri

Segundo a divisão sexual, racial e geopolítica da produção do conhecimento, as instituições


colonizadas cumprem, geralmente, o papel de reproduzir as afirmações dos cânones,
majoritariamente homens ocidentais que detém o privilégio de nomear e explicar a realidade.
Para Grosfoguel (2016), trata-se do reflexo da imposição da filosofia cartesiana e dos quatro
genocídios que fundamentam a consolidação do modelo europeu de pensamento - tanto
como racionalidade quanto sobre quem é o sujeito capaz de pensar: masculino, branco,
europeuocidental. Nesse sentido, o autor aponta que as universidades ocidentalizadas
devem compreender como essas estruturas estão imbricadas nas suas atividades. Diante
disso, a presente pesquisa visa trazer um reflexão metodológica para compreender os
discursos produzidos pelo campo da academia jurídica brasileira. Dentre os estudos da
sociologia do conhecimento, Bourdieu (BOURDIEU, 2004, 2008, 2013) define a academia
como um campo específico, relativamente independente, que interage com outros campos e
que possui normas próprias, bem como valoriza capitais específicos. Nesses campos, cada
agente ocupa uma posição específica de acordo com o montante de capital que possui e com
o quanto essa pessoa internaliza as disposições e crenças daquele espaço. Para Bourdieu,
quando o agente fala, fala desse lugar, e essa estrutura do campo é fundamental para
compreender os discursos que são produzidos por essa academia. Embora suas categorias
sejam potentes para compreender as dinâmicas de poder na produção do conhecimento,
Bourdieu não incorpora profundamente a crítica à colonialidade Dessa forma, a pesquisa
visa explorar as categorias de Bourdieu, em conjunto com a abordagem de Grosfoguel sobre
racismo e sexismo epistêmico, com objetivo de refletir sobre possíveis entradas empíricas
para estudos sobre o discurso da academia jurídica que nos ajudem a compreender a
influência das estruturas do sistema racista, patriarcal e moderno na produção do
conhecimento sobre o direito. Trata-se de estudo prévio realizado para o projeto de pesquisa
“As disputas em torno do masculino universal como doxa do campo da Revista Discursos
Sediciosos - Crime, Direito e Sociedade”. A pesquisa visa compreender como o discurso da
criminologia crítica encontrado no periódico reitera e/ou questiona o masculino universal
como modelo hegemônico de conhecimento.

Palavras-chave: Campo acadêmico; Racismo epistêmico; Sexismo epistêmico; Discurso.

19
RACIALIZANDO ABORDAGENS PEDAGÓGICAS: POLÍTICA DE
SALA DE AULA E PRÁXIS DESCOLONIAL

Thiago Alves Braz

Andréa Gill

Para desconstruir o racismo/sexismo epistêmico que dá forma a saberes e autoridades


hegemônicos tanto dentro quanto além dos corredores das universidades ocidentalizadas, é
preciso traduzir críticas abstratas para um processo localizado, concreto de letramento racial
e de gênero. Antes de diagnosticar os ‘ismos’ e suas instâncias na produção acadêmica e nas
estruturas de poder que as próprias ciências sociais e naturais legitimam, é preciso afinar um
olhar atento a suas dinâmicas complexas, porquanto o racismo/sexismo nunca anda só. A
proposta deste trabalho é a de refletir sobre experiências em sala de aula que constituíram
um laboratório de letramento racial e de gênero com alunxs brasileirxs no contexto
universitário do sudeste do país, cuja autoimagem é calcada na miscigenação e no mito da
democracia racial. Identificando as travas, armadilhas, facilitadores e oportunidades
rotineiras nesse processo nada linear, espera-se contribuir à descolonização prática do
pensamento e dos modos brasileiros de autorização, e abrir um diálogo intercultural com
processos ressonantes em outras sociedades pós-coloniais. Central na abordagem deste
trabalho é o argumento de que a educação é tanto a solução quanto o problema quando se
fala em desigualdades e violências de um sistema capitalistaracista-sexista global. Assim, o
conhecimento, em si, não solucionará os problemas da nossa contemporaneidade, como
pregam tantos discursos liberais, especialmente considerando o papel disciplinador da
instituição educacional na reprodução de sociedades coloniais. Argumentaremos em favor
da necessidade de treinar uma sensibilidade que possa guiar um processo de aprendizado e
des/re-construção, ou seja, uma práxis descolonial. É impreterível compreender quais
perguntas fazer, antes de avançar às respostas. Para tanto, analisaremos, através de vinhetas
temáticas que descrevem dinâmicas experimentadas em sala de aula, formas de abordar
eurocentrismos e afrocentrismos na prática pedagógica; branquitude, negritude e racismo;
descolonialidade, imbricação e interseccionalidade, entre outros caminhos para pensar a
(des)construção das hierarquias raciais engendradas no contexto brasileiro, em relação às
conjunturas internacionais, e comprometido com o protagonismo do pensamento
desenvolvido por intelectuais negrxs em diáspora. Atentando para práticas de desconstrução
e descolonização em sala de aula, tornam-se evidentes os limites e as possibilidades de
métodos e teorias que abordam o racismo/sexismo epistêmico em universidades
ocidentalizadas.

Palavras-chave: Racismo/sexismo epistêmico; Letramento racial; Epistemologias coloridas;


Descolonização do ensino; Racismo e machismo na academia; Brasil.

20
O REBAIXAMENTO DO GÊNERO FEMININO NAS
UNIVERSIDADES

Suzane Oliveira da Cunha Lima

Goreth Campos Rubim

Desde os tempos bíblicos, as relações entre homens e mulheres são relações de poder,
caracterizadas pela desigualdade que afeta de maneira desproporcional as mulheres.
Nesse sentido, sabe-se que a base conceitual de todo conhecimento ocidentalizado
transmitido nas universidades possui uma estrutura sexista. Portanto, conhecimentos
produzidos à época, pelo gênero feminino, foram exterminados. Embora o
universalismo ainda domine as estruturas da epistemologia ocidental, já existe um
processo de decolonização em andamento, porém com avanços que poderiam ser mais
significativos. Nesse ínterim, as universidades, como espaços públicos de construção de
conhecimento, não poderiam se esquivar das latentes e explícitas opressões de gênero
que ocorrem com frequência. O que se percebe, é que ainda existe espaço para a
discriminação quanto ao gênero feminino, apologias à violência, e ao rebaixamento das
mulheres, que são aceitos como parte de um cotidiano para alguns, e é tratado como
piada, algo engraçado, de forma contínua. Nesse sentido, verifica-se que a própria
universidade é o ambiente onde se propaga uma violência simbólica que naturaliza esses
tipos de comportamentos. Não bastasse o fato de terem sido historicamente vítimas de
violência, modernamente, as agressões, em grande medida, ocorrem não somente no
âmbito físico, mas também, no ambiente acadêmico. As normas de gênero costumam
aparecer numa versão nua e crua da pedagogia do insulto e da desumanização.
Estudantes, professores/as funcionários/as identificados como “não-heterossexuais”
costumam ser degradados à condição de “menos humanos”, como era na época da
colonização. O objetivo da pesquisa é apresentar similaridades e diferenças entre o
período de colonização, que constitui a base teórica das ciências humanas nas
universidades ocidentais dos dias de hoje, e como esse processo ocasionou o
rebaixamento do gênero feminino na produção de conhecimento, até os dias de hoje nas
universidades, onde se prega a decolonização de conhecimentos. Para realizar a
pesquisa foi feita uma análise crítica descritiva, com base em levantamento bibliográfico.
Ao final, espera-se uma reflexão quanto as reiteradas ações de cunho colonial de
rebaixamento do gênero feminino, e a busca pela mudança deste cenário sexista.

Palavras-Chave: Sexismo Colonial; Violência; Decolonial; Conhecimento Ocidental;


Pluralismo; Universidades.

21
POR UMA ARQUITETURA DECOLONIAL: O CURSO DA UNILA E
A INTEGRAÇÃO PELA HABITAÇÃO SOCIAL, JUSTIÇA
AMBIENTAL E DIREITOS HUMANOS

Andréia Moassab

A ciência, produzida essencialmente a partir da academia, o colonialismo e o


imperialismo foram aparelhos epistemicidas dominantes em toda a modernidade
ocidental, conforme postulado por Boaventura de Souza Santos (2006). Na América
Latina, a “virada decolonial” (Cf. Escobar, 1999; Mignolo, 1995; Lander, Dussel, 1977)
pretende desmontar a subjetividade do ser e do conhecimento – construídos a partir do
domínio colonial mas ainda presentes e atuantes na contemporaneidade. A
decolonialidade visa a fornecer uma perspectiva epistemológica própria que coincida
com os desejos de autonomia e emancipação dos povos e grupos subalternos. Neste
sentido, em pleno século XXI importa perguntar qual o papel da educação – e das
Universidades – para reverter os cenários de opressão e garantir a ressignificação e
transformação dos territórios por meio de práticas emancipatórias. Historicamente, o
ensino de arquitetura e urbanismo tem sido colonizado por uma perspectiva
eurocêntrica – mais especificamente, branca, masculina, heteronormativa e
urbanocêntrica. O curso de arquitetura e urbanismo da UNILA, inserido na missão da
universidade, se propõe a desnaturalizar a perspectiva dominante na área,
compreendendo as particularidades do espaço construído e habitado latino-americano
a partir de uma concepção da arquitetura e do urbanismo como ação política. Trata-se
de debater a importância da educação na área para a garantia permanente dos direitos
humanos, em especial aqueles diretamente vinculados ao território, sob a luz das teorias
decoloniais, dos estudos feministas e da justiça ambiental. Ao começar formar a primeira
turma – os/as primeiros/as quatro alunos/as acabaram de concluir o curso em
dezembro/16 –, é possível verificar os resultados do seu plano político-pedagógico
inovador? Os trabalhos de conclusão de curso têm demonstrado mudanças significativas
no ethos científico da área, sobretudo no que tange à gênero, raça, espacialidades e
desigualdades territoriais? As pesquisas e projetos de extensão de seu corpo docente
traduzem o giro epistêmico pretendido?

Palavras-chave: arquitetura decolonial; branqueamento arquitetônico; gênero; direitos


humanos.

22
RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS E AMBIENTE ESCOLAR:
IMPLICAÇÕES DA LEI 11.645/08 NA FORMAÇÃO DE
PROFESSORES

Patrícia Magalhães Pinheiro

Este resumo se relaciona a minha pesquisa de doutorado onde realizo o exercício de


compreender o complexo processo de implementação do dispositivo legal 11.645/08.
Esta lei torna obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e indígena nos
estabelecimentos de ensino fundamental e médio, sejam eles privados ou públicos. A
escola reflete o modelo social no qual está inserida, isso significa que nela também estão
presentes e sendo reproduzidas e reinventadas práticas de desigualdades social, racial,
cultural e econômica. A vivência da diversidade étnico-racial no espaço escolar exige
que professores e gestores concebam a escola como um campo de lutas e a pedagogia
uma forma de política cultural voltada para um projeto de cidadania, democracia e
emancipação. Isso significa movimentar valores, crenças e culturas consideradas como
verdades, significa tensionar com práticas pedagógicas na tentativa de desconstruir
concepções colonialistas, racista, conservadoras e excludentes que banalizam e tornam
insignificantes as práticas sociais, culturais e históricas seculares. O que se pretende com
o ensino da temática afro-brasileira e indígena é colocar no âmbito do currículo da escola
brasileira a reflexão sobre o que se ensinou ou ensina-se na escola, indo além de
concepções rasas e estereotipadas sobre essas populações, deve-se discutir a história, a
cultura, os conhecimentos ancestrais, a importância dessas populações para a construção
do povo brasileiro e do Brasil que temos hoje, suas relações com o mundo no passado e
no presente, seus modos de ser e de viver. Forjando assim o estabelecimento de relações
mais positivas no sentido do respeito, estabelecendo relações pessoais, fortalecendo e
recriando identidades, permitindo o conhecimento despido de preconceitos, praticando
a interculturalidade e o reconhecimento da importância da cultura afro-brasileira e
indígena na formação histórica, cultural, social, linguística e econômica brasileira. Sendo
assim, a pesquisa tem como objetivos investigar, analisar e compreender, em
profundidade, como se dá o processo de efetivação desta lei no âmbito da formação de
professores de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
Para tal pretendo me apoiar na pesquisa bibliográfica e documental, bem como em
entrevista como formas de construir os registros que serão analisados a posteriori.

Palavras-chave: Preconceito e discriminação étnico-racial; Interculturalidade; Políticas


públicas.

23
COLONIALIDADE E A INVISIBILIZAÇÃO DE SABERES:
EXPERIENCIAS COM INDIGENAS EM UMA UNIVERSIDADE
PÚBLICA

Iclícia Viana

Marcelo Felipe Bruniere

Felipe Tonial

Esta proposta faz parte de uma pesquisa mais ampla e tem como objetivo problematizar
a experiência de indígenas no ensino superior. A colonialidade, definida como um
padrão de poder que opera pela construção de imaginários que naturalizam hierarquias
(culturais, raciais, de gênero, epistêmicas) e que tem como referência os saberes e o modo
de vida moderno, tem sido reproduzida nas universidades brasileiras, invisibilizando as
experiências, percepções e modos de vida daqueles/as que são considerados/as
inferiores de uma perspectiva moderno eurocentrada. Os Povos Indígenas encarnam um
destes grupos minoritários que lutam diariamente para serem reconhecidos, inclusive
em suas epistemes. Com as Políticas de Ação Afirmativa e a Lei de Cotas (Lei Nº
12.711/2012), a inserção de indígenas em cursos de graduação tornouse uma política em
resposta a luta dos movimentos sociais e em resposta a acordos e pressões internacionais.
Segundo levantamento do Instituto Nacional de Ensino e Pesquisa (INEP), em 2015 eram
20.030 indígenas em Instituições de Ensino Superior (IES), sendo aproximadamente
7.000 em IES públicas. Identificaram-se duas principais demandas que influenciaram na
busca por formação universitária entre indígenas: primeiramente, diante da
ressignificação de escolas dentro das Terras Indígenas, surge a necessidade de formação
de professores para atuarem num viés educacional intercultural, bilíngue e diferenciado.
Mais tarde, com a intensa mobilização política e indigenista no país, os/as indígenas
passam a adentrar cada vez mais espaços políticos de disputa e assumir cargos e
lideranças em organizações governamentais e não governamentais. Assim, a formação
em nível superior se torna um instrumento de luta, que capacita para compreensão
dossaberes que orientam as ações do Estado, especialmente diante do desafio de
resistênci territorial legitimada pela Constituição de 1988. Neste cenário, essas/es
estudantes re-existem produzindo fissuras neste meio historicamente branco, fissuras
decoloniais ou de descolonização, pois são também agentes de novas possibilidades de
diálogos interculturais. Assim, propomos um espaço de reflexão que discuta diferentes
perspectivas e contribuições quando pensamos em resistir à colonialidade e seus efeitos
a partir da experiência desses atores no contexto universitário. Como metodologia
usamos da ideia de campo tema, definida pela perspectiva da psicologia social crítica.

Palavras-chave: Colonialidade; Ensino Superior; Liderança Indígena; Política.

24
DIREITO, CIÊNCIA E RACISMO: POR UMA EPISTEMOLOGIA DO
SUL

Antonio José Guimarães Brito


Hector Cury Soares

O cientista torna-se uma espécie de oráculo da Modernidade, sua palavra possui força
de lei. A grande maioria dos cientistas do século XVIII e XIX defende algum tipo de
racismo científico. Médicos, químicos, físicos, matemáticos, astrônomos, naturalistas,
como Lavoisier, Fourcroy, Chaptal e Berthollet, Condorcet, Laplace, Saint-Hilaire,
Lamarck, Cuvier, Lacépéde, Bailly, Lalande, Delambre, Borda e Coulomb, todos
assumiram postos políticos e administrativos no período pós-revolucionário. A
modernidade não teria sido construída sem a participação desses homens da ciência. A
tarefa da modernidade era organizar cientificamente a humanidade, tendo como modelo
o homem europeu, cartesiano, iluminista, branco, cientista. Para Buffon – químico,
geólogo, o mais famoso naturalista francês do século XVIII – a mais bela raça da
humanidade encontra-se na Europa. Em 1780, Caspar Lavater apresentou a teoria
fisiognomista, segundo a qual as qualidades do indivíduo podem ser conhecidas pela
fisionomia. A pele escura era sinal do temperamento pervertido e a branca, de nobreza
de caráter. Da mesma forma, o médico austríaco naturalizado francês Franz Josef Gall,
que no início do século XIX criticou a fisiognomia, defendendo a importância da caixa
craniana, pois pelo volume e formato desta, podia explicar e classificar a humanidade.
Willem Vrolik utilizou a mensuração da pelve, para conhecer a superioridade ou
inferioridade racial. Todos esses modelos científicos concluíam a superioridade do
homem branco europeu. Os cientistas, ao lado do missionário, do padre, do militar e do
homem de negócios, tornam-se marqueteiros da expansão ocidental. O pensamento
jurídico moderno tomou caráter de ciência e obedeceu a mesma lógica e racionalidade
instrumental de expansão e consolidação do projeto colonizador, de exploração,
subalternidade e exclusão, formando juristas que reproduzissem os interesses e modelos
da metrópole, das cortes, dos escravagistas, por fim, dos banqueiros e das oligarquias
agrárias e políticas, o que na atualidade pode-se chamar de agronegócio e capital
financeiro. O pensamento jurídico vigente alinha-se à manutenção do colonialismo
interno e das estruturas de colonialidade do ser, do poder e do saber. A pesquisa baseia-
se em fontes bibliográficas, aporte teórico nas teorias decolonialistas, e como objetivos
pensar o Direito nesse processo.

Palavras-Chaves: Ciência; Direito; Decolonialidade; Reprodução; Emancipação.

25
SOCIOLOGIA EM “MANGAS DE CAMISAS”: REPRESENTAÇÃO
DO NEGRO BRASILEIRO NOS LIVROS DIDÁTICOS

Wellington Narde Navarro da Costa

O presente trabalho consiste na pesquisa em andamento para dissertação de mestrado


vinculada à linha de pesquisa “Universidade: Teoria e Prática” do PPGEDU da
Faculdade de Educação da UFRGS e busca investigar de que maneira os livros de
Sociologia do Plano Nacional do Livro Didático (2015 – 2017) abordam a temática étnico-
racial no que concerne à população negra brasileira. Através do suporte estabelecido
pelas políticas de ações afirmativas na área da Educação e da legislação em vigor – artigo
26-A da LDB – a pesquisa pretende verificar de que forma as Ciências Sociais tem
elaborado estudos e compreensões referentes à questão racial na confecção do material
didático destinado ao Ensino Médio. Nesse sentido, a pesquisa parte do respectivo
problema: os livros didáticos limitam-se a apresentar o “lugar de negro” na literatura
sociológica e na sociedade brasileira ou permitem ir além e evidenciam o “negro como
lugar” na Sociologia, sujeito político e integrante da nação brasileira? A posicionalidade
do intelectual negro integra a produção de conhecimentos sociológicos, sobretudo
referente aos estudos das relações étnico-raciais? A partir de conceitos/categorias
engendradas através do referencial teórico sustentado por autores negros da Sociologia
– Guerreiro Ramos e Clóvis Moura – constituímos o caminho metodológico da Análise
Crítica do Discurso, pois permite investigar junto ao material empírico em que medida
a “práxis negra” se apresenta como ferramenta pedagógica na produção de
conhecimento sociológico destinada aos jovens e adultos do Ensino Médio. A concepção
crítica de ideologia de John B.Thompson também nos inspira metodologicamente, pois
auxilia-nos a verificar as relações de poder e dominação que podem aparecer nos livros
didáticos, caracterizando ideologia como o “sentido a serviço do poder” e propondo
uma análise crítica para desmascarar esse sentido. No contexto/delimitação deste
trabalho, trata-se de sentidos que possam reforçar e (re)produzir os padrões
institucionalizados que subordinam historicamente a população negra brasileira, razão
que nos levou a construir essa Análise Crítica do Discurso à luz de uma Sociologia da
práxis negra.

Palavras-chave: Sociologia; Racismo; Educação; Currículo.

26
LA POLÍTICA DESCOLONIZADORA EN
UBUNTU, EL RACISMO Y LA
DESCOLONIZACIÓN DEL GÉNERO EN ÁFRICA
Y EN SUS DIÁSPORAS
A LITERATURA DE CHINUA ACHEBE COMO FERRAMENTA
PARA A COMPREENSÃO O PROCESSO COLONIAL NA NIGÉRIA
(ÁFRICA OCIDENTAL, SÉCULOS XIX E XX)

Claudia Mortari
Katarina Kristie Martins Lopes Gabilan

Esta comunicação oral tem como objetivo apresentar algumas das ideias discutidas
durante os dois anos da pesquisa “’Modos de Ser, Ver e Viver’: o mundo Igbo a partir
da escrita de Chinua Achebe (África Ocidental, século XX)”, orientada pela Professora
Cláudia Mortari, coordenadora do AYA - Laboratório de estudos Pós-coloniais e
Decoloniais na Universidade do Estado de Santa Catarina. Tal pesquisa se propõe, a
partir de três livros de literatura do escritor nigeriano: “Things Fall Apart/O Mundo se
Despedaça (1959)”, “No Longer At Ease/A paz dura pouco (1960)” e “Arrow Of God/A
flecha de deus (1964)”, compreender o processo de colonização da Nigéria a partir do
lugar de fala de um homem Igbo, e não dos colonizadores ingleses. As reflexões para
esta apresentação giram em torno da discussão da relação entre história e literatura para
a compreensão de processos históricos, em especial o papel da literatura africana
enquanto arcabouço a permitir olhar para as Áfricas a partir de uma perspectiva
endógena ao continente, percebendo que a escrita de Achebe possibilita a compreensão
de processos históricos ocorridos no contexto nigeriano do final do século XIX e ao longo
do XX. Para esta proposta analítica, utilizamos a própria perspectiva do autor a fim de
pensar a contribuição de sua escrita literária articulada com a ideia de “equilíbrio das
histórias” – termo cunhado por Chinua Achebe em suas entrevistas que foram
traduzidas e utilizadas também como fonte. Com isso, o autor quer dizer que todos
temos o direito de contar nossa própria história a partir de nossa vivência,
negligenciando a herança colonial de uma história única - a partir do ponto de vista
europeu. Dessa forma, com a proposta da pesquisa de olhar diretamente para a
literatura, é possível identificar não apenas a perspectiva direta de um sujeito da história,
como também a forma como o mesmo representa sua perspectiva. Isso se deve ao fato
da pesquisa pensar uma lógica de reflexão que se desloque da lógica da colonialidade e
se propor estabelecer uma relação com a literatura, portanto, estudá-la e conhecê-la a
partir das próprias categorias de Achebe.

Palavras-chave: Literatura e História; Estudos africanos; Decolonialidade e Pós-


colonialidade.

28
A ESCRITA DE CHIMAMANDA NGOZI ADICHE COMO
CONHECIMENTO E LUTA CONTRA A COLONIALIDADE:
EXPERIÊNCIAS HISTÓRICAS DE MULHERES AFRICANAS
(NIGÉRIA, SÉCULO XX)

Íris Palo Borges

Esta comunicação pretende apresentar as ideias iniciais acerca do projeto de Conclusão


do Curso em História, tendo como tema central as experiências e resistências
vivenciadas por mulheres africanas no contexto da Nigéria pós-independência, a partir
da obra “Hibisco Roxo” da escritora Chimamanda Ngozi Adichie. A partir da escrita
literária, buscarei aspectos nela presentes que proporcionam refletir sobre as implicações
do processo de colonização, e assim analisar de que maneira esta traz impactos na
modernidade e como isso está intrínseco no sistema social no qual as personagens estão
inseridas e são por ele regidas. Mais do que isso, pretende-se evidenciar como as
mulheres, retratadas na escrita de Adiche, empreenderam ações cotidianas no sentido
de questionar a ordem social vigente. Entendendo a literatura como testemunho
histórico, busca-se fazer um diálogo com autores da perspectiva teórica pós-colonial e
decolonial, para que possam contribuir para o reconhecimento de histórias, lutas e
memórias de grupos subalternizados e, dessa forma, questionar a colonialidade do
poder, do saber e do ser. Pensando que a literatura está profundamente envolvida por
visões e sentidos da história, autores(as) e suas respectivas obras literárias são
acontecimentos datados historicamente e expressam seu tempo e lugar, que pode
apresentar evidências e indícios que possibilitem a compreensão dos processos
históricos e lutas contra a opressão colonial nas sociedades da costa oeste africana no
contexto do final do século XX.

Palavras-chave: Literatura e História; Estudos africanos; Decolonialidade e Pós-


colonialidade.

29
AQUILO QUE UM HOMEM NÃO SABE É MAIOR DO QUE ELE: A
ESCRITA DE ACHEBE COMO CONHECIMENTO E LUTA CONTRA
A COLONIALIDADE

Emílio Ranieri Migliorini


Claudia Mortari
Maria Carolina Eli

Essa comunicação tem como objetivo apontar algumas evidências acerca da percepção
do escritor nigeriano Chinua Achebe (1930-2013) em relação ao contato dos sujeitos igbos
e o colonizador britânico a partir de questões presentes em sua escrita literária, em
especial na obra Things Fall Apart/O Mundo se Despedaça (1958). Entendemos a
literatura filosófica africana como um conjunto de textos e percebemos a obra literária
enquanto testemunho histórico e de conhecimento que, devidamente problematizadas e
analisadas, possibilitam acessar indícios acerca da visão que o escritor possuía, incutindo
em suas personagens representações em relação ao homem branco em contato com os
costumes e tradições da sociedade igbo e das implicações do projeto colonial britânico
na Nigéria. Os estudos decoloniais são também um “espaço enunciativo” e Achebe, pela
sua trajetória, traz seu testemunho em suas obras. Em uma de suas entrevistas, o autor
explica que entre a Europa e a África se mantêm basicamente a mesma relação de
paternalismo do período colonial, resultando na criação de um imaginário irreal e
provocando a invisibilidade de histórias e experiências locais. É de vital importância a
problematização da produção de conhecimento alicerçada na perspectiva
eurocêntrica/colonial/moderna buscando equilibrar as histórias e trajetórias de grupos
subalternizados pelo colonialismo nas Américas e nas Áfricas. Esta é uma reflexão inicial
realizada a partir das atividades vinculadas ao projeto de pesquisa intitulado “Modos
de ser, ver e viver: o mundo igbo a partir da escrita de Chinua Achebe (África Ocidental,
século XX)”, desenvolvido no decorrer do segundo semestre de 2016. Assim, tentamos
compreender e acessar a visão de Achebe perante o processo de colonização britânica na
Nigéria, percebendo em suas obras a possibilidade de se evidenciar elementos da cultura
e tradição africana em contato com o colonizador durante o processo de colonização e a
percepção dos próprios africanos do que significou esse violento processo.

Palavras-chave: Literatura; História; África; Decolonialidade.

30
JUSTIÇA DE TRANSIÇÃO E UBUNTU: A ACEITAÇÃO DE
ELEMENTOS TRADICIONAIS, INDÍGENAS E RELIGIOSOS COMO
MEIO DE SUPERAÇÃO

Walter Gustavo da Silva Lemos

O presente artigo objetiva empreender uma análise dos Princípios de Chicago a partir
do princípio que reza sobre a necessidade de que os Estados devem apoiar e respeitar as
abordagens tradicionais, indígenas e religiosas relativas às violações passadas, a partir
desta questão principiológica, objetivou-se analisar as aplicações destas abordagens já
realizadas nos processos de justiça transicional. Assim, estabeleceu-se uma busca dos
mecanismos de justiça pós-conflito implementados ao redor do mundo na tentativa de
localizar a existência destas abordagens, passando pelas transições realizadas nas
Américas, com maior ênfase da sua parte latina, até as transições empreendidas na África
e na Ásia, sendo que se passa ao estudo específico da experiência sul-africana e a
utilização do elemento tradicional-religioso do ubuntu, filosofia que prega uma ideia
ética, humanista e humanitária, de respeito e valorização dos elementos tradicionais de
religiosidade comunitária e interelação, para o desenvolvimento de práticas públicas de
fraternidade, comunhão e reconciliação, que influenciam na religião, na política e nas
condutas sociais, como prática adotada para a promoção do perdão e de superação das
violências e violações no regime do Apartheid. O artigo promove a análise deste
princípio utilizando do método de abordagem indutivo, pelo uso do procedimento
comparativo e de uma pesquisa bibliográfica, para conectar tais ideias às abordagens
tradições destas populações, demonstrando a importância de suas interações nestes
processos de transição.

Palavras-chave: Princípios de Chicago; Justiça pós-conflito; Abordagens tradicionais;


Ubuntu.

31
O QUE A LUTA DAS MULHERES NEGRAS NA AMÉRICA LATINA
E CARIBE NOS ENSINA SOBRE DEMOCRACIA?

Juliana Morais de Góes

O objetivo deste trabalho é discutir como nós, mulheres negras, temos desafiado os
conceitos de democracia, a partir da ideia de ubunto. Como “democracia” é um termo
que se refere tanto a uma forma de governo quanto a um imaginário de sociedade ideal,
ele encontra-se em disputa por diferentes correntes teóricas (MIGUEL, 2005). A
participativa, uma das mais radicais, defende a democracia como uma sociedade
baseada no respeito tanto da igualdade quanto da diferença, no qual a política se dê de
baixo para cima, ou seja, de forma participativa (PATEMAN, 1992 [1970];
MACPHERSON, 1978 [1977]). Contudo, nossa organização nos movimentos sociais tem
ido além desta definição. A partir do conceito de ubunto e da prática de nossas lutas
concretas, temos pensado democracia para além de uma forma de governo, e sim como
a resistência dos grupos subalternos, em conexão com o outro e com a natureza.
Portanto, este trabalho consiste na análise do conteúdo produzido pelos movimentos de
mulheres negras. Segue-se, assim, as críticas decoloniais e feministas ao estudo europeus
e norte-americanos dos movimentos sociais, que têm focado em mobilização de recursos,
estruturas de oportunidades e identidades coletivas, mas esquecido de analisar o
conteúdo dos grupos (ESCOBAR, 2010; QUIJANO, 2014; PERRY. 2016). Assim, os
movimentos sociais são entendidos aqui como agentes do saber e se pretende, portanto,
um diálogo/reflexão compartilhada entre a produção deles sobre democracia e a
universitária (WALSH e GARCIA, 2002). Metodologicamente, o trabalho consiste no
mapeamento de movimentos de mulheres negras latino-americanas e caribenhas e na
análise de documentos produzidos por eles sobre a temática abordada.

Palavras-chave: Feminismo negro; Ubuntu; Democracia; Movimentos Sociais.

32
CONSTITUCIONALISMO CRÍTICO LATINO
AMERICANO
EL DISCURSO ANTICOLONIAL ESTRATEGIA DEL
COLONIALISMO INTERNO - EL CASO BOLIVIANO

Olga Flores Bedregal

El colonialismo interno constituye un mecanismo de dominación utilizado en un inicio


por el colonialismo imperial que forma parte de la estructura de las sociedades
colonizadas y cuyos intereses son tan fuertes que independientemente de los órdenes
coloniales internacionales, impone procesos políticos a nivel interno que reproducen las
estructuras coloniales en “Estados independientes”. Merece estudiarse en el ámbito
académico el caso de Bolivia en el que el colonialismo interno ha utilizado el rostro
indígena de Evo Morales y el discurso anticolonial para imponer un orden colonial, de
total sumisión a lógicas y economías imperiales. Se quiere mostrar a los intelectuales que
alentaron el surgimiento del régimen de Evo Morales, que él implementó una vieja
efectiva estrategia colonial de dominación por medio de caciques. Denunciamos el doble
discurso de un régimen que utiliza un discurso de descolonización para ejecutar políticas
profundamente colonialistas, conculcadoras y persecutorias de derechos de los pueblos
indígenas. Se demuestra con hechos concretos como en la reversión de tierras indígenas,
la falta de respeto a tratados internacionales, de la Consulta Previa, la represión a la 8va
y 9na Marcha para imponer que una carretera que atraviese el Territorio Indígenas y
Parque Nacional Isiboro Secura-TIPNIS, así como en Tacovo Mora conceder el territorio
para la explotación petrolera y lo que es más grave la utilización del Fondo Indígena
para la corrupción y compra de las dirigencias indígenas e imponerles que entren en el
mercado y la producción capitalista. Merece especial atención el hecho que “el proceso
de cambio” ha renominado las cosas para hacer creer que todo ha cambiado, cuando en
verdad se ha fortalecido el status quo, es más fuerte el poder de una burguesía
empresarial militar del narcotráfico que ha puesto a los productores de coca en el
gobierno ya que Evo Morales es el presidente de la Federación de Cocaleros. Los hechos
nos demuestran que ha sido más efectiva la utilización de los “movimientos sociales”, el
discurso y el rostro indígena anticolonial que el uso de la fuerza y los ejércitos para hacer
retroceder todas las conquistas y logros anticoloniales.

Palavras-chave: Colonialismo Interno; Discurso Anticolonial; Bolívia.

34
POR UM CONSTITUCIONALISMO AMEFRICANO:
CONSIDERAÇÕES EPISTEMOLÓGICAS SOBRE O “LUGAR DO
NEGRO” NO CONSTITUCIONALISMO LATINO-AMERICANO

Vanessa Santos do Canto

Thula Rafaela de Oliveira Pires

Nos últimos anos tem sido rediscutido o papel desempenhado pelas novas Constituições
elaboradas após o processo de redemocratização dos países latino-americanos. A
mobilização social tem levado ao reconhecimento de novos sujeitos coletivos, bem como
o pluralismo jurídico como fator essencial para a democracia. Diante deste contexto,
surge o questionamento da epistemologia eurocêntrica e colonial que marca a história
constitucional da América Latina. Esse movimento pressupõe a necessidade de serem
mobilizados novos conceitos e categorias que possibilitem apreender as especificidades
que conformam a produção jurídica das populações que contribuíram para a formação
dos Estados-nação latinoamericanas. Neste sentido, o presente trabalho discute, a partir
do referencial teórico elaborado por Lélia Gonzalez, e propõe outra chave de análise para
pensar o “lugar de negro” no Constitucionalismo latino-americano. Diante da
reprodução da subalternidade dos povos negros (afrobolivianos, afroequatorianos) nos
recentes processos constituintes, a proposta dialoga com a noção de colonialidade do
poder elaborado por Aníbal Quijano, de racismo epistêmico proposto por Ramón
Grosfoguel e do giro descolonial proposto por MaldonadoTorres. O objetivo do trabalho
é apresentar algumas considerações sobre a produção de normas constitucionais
voltadas às populações afro-latinas a partir do conceito de amefricanidade elaborado por
Lélia Gonzalez. O trabalho apresenta uma análise contextualizada das normas
constitucionais voltadas às populações afro-latinas presentes nas Constituições do Brasil
e Colômbia (representantes da primeira fase do constitucionalismo pluralista), e
Equador e Bolívia (representando a fase do constitucionalismo plurinacional). A
metodologia consiste em uma análise de documentos pautados em uma proposta
interdisciplinar. Nosso intuito é apresentar uma contribuição para ampliar o debate
sobre os direitos conquistados pelas populações afro-latinas desde uma perspectiva
descolonial.

Palavras-chave: Constitucionalismo; Lugar de negro; Amefricanidade; Decolonialidade.

35
AS POTENCIALIDADES DO PLURALISMO JURÍDICO NO
CONSTITUCIONALISMO LATINO-AMERICANO: UMA ANÁLISE
DAS SENTENÇAS PROFERIDAS PELO TRIBUNAL
CONSTITUCIONAL PLURINACIONAL DA BOLÍVIA

Lucas Machado Fagundes


Emanuela Gava Caciatori
Ághata July Goularte Patrício

A temática do pluralismo jurídico tem a potencialidade de verificar uma concepção


material do direito (embasando-se nas necessidades humanas fundamentais),
conciliando as experiências normativas das comunidades populares com a lógica
participativa (democrática), fazendo uma junção entre a esfera do Direito com a Política.
Nesse sentido, delimitando a temática do pluralismo jurídico, é possível verificar que o
mesmo na realidade periférica regional, assume diversas versões (Liberal,
Conservadora, Emancipatória, entre outras) e, justamente por isso deve ser identificado
na sua capacidade de gerar mudanças significativas no sistema de direito. Diante disso,
as experiências constitucionais latino-americanas mais recentes, em especial a da Bolívia
em 2009 que constitucionalizou o pluralismo jurídico, demonstram a possibilidade de se
utilizar o constitucionalismo, instrumento inserido pela modernidade e eminentemente
herança liberal, enquanto ferramenta de libertação dos povos vítimas do sistema-
mundo. Dessa maneira, cabe problematizar qual o sentido de pluralismo jurídico no
constitucionalismo boliviano de 2009? As hipóteses que se apresentam são as mais
variadas possíveis, desde a perspectiva inovadora de um pluralismo jurídico
constitucionalizado e eminentemente estatal, até um pluralismo jurídico de viés crítico.
Sendo assim, os objetivos do trabalho é verificar se a ideia de pluralismo jurídico na
referida constituição andina, atende um sentido de criticidade jurídica; e,
especificamente, explorar quais as categorias e elementos compõe o entendimento
constitucional da temática. Para realizar tal tarefa, a pesquisa será permeada pelo marco
teórico do Pluralismo Jurídico Comunitário Participativo, em suas categorias críticas que
auxiliam na visualização do tema. O estudo será dividido em dois momentos: no
primeiro utilizar-se-á o método de pesquisa hipotético-dedutivo com análise
bibliográfico, realizando o levantamento de uma base teórica. Posteriormente, serão
estudadas as atas constituintes para verificar a ideia de pluralismo jurídico
constitucionalizado. Por fim, realizar-se-á uma análise das sentenças proferidas pelo
Tribunal Constitucional da Bolívia, que abordem a temática do pluralismo jurídico, no
intento de verificar se as premissas do constitucionalismo encontram conexão com a
teoria de base. Portanto, com a presente reflexão, intenta-se concluir que o
constitucionalismo ao incorporar o pluralismo jurídico precisa ser pensado através de
uma lógica libertadora, para que não incorra no erro de acabar reproduzindo estruturas
de dominação.

Palavras-chave: Pluralismo Jurídico; Constitucionalismo Crítico; Tribunal Plurinacional;


América Latina; Estado Plurinacional.

36
AS POSSIBILIDADES DE UMA ASSEMBLEIA CONSTITUINTE
EXCLUSIVA NO E PARA O BRASIL A PARTIR DAS EXPERIÊNCIAS
DO NOVO CONSTITUCIONALISMO LATINO-AMERICANO

Evanderson Camilo Noronha

As novas experiências constitucionais na América Latina tem oferecido caminhos e


possibilidades que, como pode ser observado, vem gerando avanços democráticos e
populares nos rumos dos países que fizeram recentemente essa opção de convocar uma
Assembleia Constituinte para a elaboração de uma nova Constituição (BRANDÃO, 2015,
DALMAU, 2008, GARGARELLA, 2013). Buscou-se neste trabalho oferecer um
panorama descritivo do que tem ocorrido no constitucionalismo latino-americano ao
longo das duas últimas décadas - de 1990 e 2000. Por outro lado, propõe-se uma reflexão
normativa, a partir da leitura feita da história constitucional da América Latina, à luz de
um compromisso com valores democráticos, igualitários e emancipadores. Através de
uma perspectiva comparada, fez-se uma contextualização histórica (recorte cronológico:
última década do século XX e início do século XXI) da evolução constitucional no
continente. Para esses fins, foi feito o levantamento bibliográfico acerca da temática
proposta, utilizando uma abordagem crítica de autores que discutem o assunto em
questão. A metodologia utilizada foi a análise documental, que se consiste em
identificar, verificar e apreciar os documentos, a saber, as atuais Constituições da
Colômbia (1991), Venezuela (1999), Equador (2008), Bolívia (2009), com uma finalidade
específica e, nesse caso, preconizou-se a utilização de uma fonte paralela e simultânea
de conhecimentos para complementar os dados e permitir a contextualização das
informações contidas nos documentos. Fundamentalmente, se sugere que é prioritário
levar a cabo a construção de um poder constituinte originário exclusivo para promover
uma radical reforma política, destinadas a mudar a organização institucional de nosso
país, com a inserção de ferramentas de participação popular, como a revogação de
mandatos eletivos (recall), dentre outras (LEONEL JÚNIOR, 2015, ESCRIVÃO FILHO;
SOUSA JÚNIOR, 2016). Dessa forma, a assembleia constituinte é um instrumento que se
mostra eficaz no contexto latino-americano tornando-se uma alternativa ao déficit da
democracia participativa e importante como um primeiro passo para revolucionar os
pilares da nossa sociedade.

Palavras-chave: Novo constitucionalismo latino americano; América Latina;


Democracia.

37
TECNOCRACIA JUDICIÁRIA E CONSTITUCIONALISMO
POPULAR

Gustavo Trento Christoffoli

O artigo pretende analisar, por um lado, como e por qual motivo coube às supremas
cortes dar a última palavra sobre a interpretação da Constituição, e por outro lado, por
que a opinião do povo não constitui um elemento sequer a ser considerado neste
processo. Por meio de revisão bibliográfica pertinente, questiona se isso não é tanto
sintoma quanto causa de um déficit democrático, na medida em que se observa um
distanciamento cada vez maior entre as possibilidades de intervenção do povo em geral
(em cujo nome todo o poder emana, inclusive a própria legitimidade da constituição), e
o poder discricionário e sem maior accountabillity com que juízes decidem. Ademais,
pretende criticar a supremacia judicial, criticar o ideário tecnicizante que a fundamenta,
e apontar elementos para uma necessária democratização da forma com que a
interpretação constitucional atualmente é feita.

Palavras-chave: Constitucionalismo Popular; Participação Popular; Tecnocracia;


Supremacia Judicial.

38
O REGIME SUI GENERIS E O PLURALISMO JURÍDICO COMO
MEIOS DE PROTEGER OS CONHECIMENTO TRADICIONAIS
ASSOCIADOS À BIODIVERSIDADE: O CAMINHO IDEAL À
BUSCA DE MECANISMOS DE EFETIVAÇÃO

Nathalie Kuczura Nedel


Wilson Engelmann

O embate entre os conhecimentos tradicionais associados à biodiversidade e a


bioprospecção é de difícil resolução, posto que, nesse cenário, chocam-se interesses e
perspectivas diversas. De um lado, os países do Sul apresentam grande diversidade
biológica e cultural, detendo, em seu âmago, muitos conhecimentos tradicionais; de
outro, os países do Norte possuem poderio econômico e informacional para
potencializar esses conhecimentos em lucrativos produtos. Em razão dessa divergência
de interesses, emergiram, no cenário internacional, duas normas disciplinando a
matéria: a Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB) e o Acordo sobre Aspectos dos
Direitos de Propriedade Intelectual Relacionados ao Comércio (Acordo TRIPS). Ocorre
que embora a primeira permita uma melhor proteção dos conhecimentos tradicionais,
posto que prevê a necessidade de consentimento prévio autorizado e a repartição justa
e equitativa dos benefícios, a mesma não se aplica, pois não prevê sanção para o seu
descumprimento. Dessa forma, impera o Acordo TRIPS, que permite o patenteamento
dos conhecimentos em questão. Assim, considerando a inaplicabilidade da CDB e a
incompatibilidade do Acordo TRIPS com o bem que visa proteger, surgiu uma via
alternativa para solucionar o embate: a adoção do denominado Regime Sui Generis.
Diante disso, cabe perquirir se o regime sui generis, conforme delineado pela doutrina,
é apto para proteger efetivamente os conhecimentos tradicionais associados? Para
responder ao problema de pesquisa, utilizaram-se como métodos de abordagem e de
procedimento, respectivamente o dedutivo e o estruturalista. Como técnica de pesquisa
a bibliográfica. Já como teoria de base adotou-se a teoria sistêmica. A partir da aplicação
de referidos métodos, foi possível constatar que os fundamentos do regime sui generis,
que se configura como sendo o reconhecimento de direitos intelectuais coletivos e que
se pauta no pluralismo jurídico, se coadunam com o cerne dos conhecimentos em apreço,
porém seria necessário delimitar instrumentos jurídicos para evitar o surgimento de
novos impasses, tais como: embates entre normas de comunidades tradicionais
detentoras dos mesmos conhecimentos; pressões dos países do Norte em relação à
confecção das normativas das comunidades, dentre outras. Assim, o regime proposto
parece ser adequado, porém imperioso o desenvolvimento de mecanismos específicos,
sob pena de se tornar ineficaz.

Palavras-chave: Conhecimentos tradicionais associados à biodiversidade, Pluralismo


Jurídico, Regime sui generis.

39
“AQUELES QUE LUTAM PARA VIVER”: A RE-FUNDAÇÃO DO
ESTADO A PATIR DOS CICLOS CONSTITUCIONAIS
PLURALISTAS

Leonardo Evaristo Teixeira

O artigo trata da crítica do modelo do “Estado-Nação” na América Latina a partir dos


Ciclos Constitucionais Pluralistas sob a ótica das lutas dos povos indígenas, sendo que
o objeto estará centrado sob as Constituições do Brasil de 1988, da Venezuela de 1999,
do Equador de 2008 e da Bolívia de 2009. Busca-se responder a indagação de quais foram
as mudanças jurídicoinstitucionais que ocorreram a cada ruptura cíclica constitucional
pluralista com a Constituição do Brasil (constitucionalismo multicultural), da Venezuela
(constitucionalismo pluricultural) e da Bolívia e Equador (constitucionalismo
plurinacional)? A hipótese é de que tanto no multiculturalismo quanto no
pluriculturalismo não ocorreram rupturas jurídico-institucionais, mas sim superações
ideológicas e do pensamento hegemônico naqueles períodos, como, respectivamente, a
superação do integracionismo e a representação democrática-participativa, enquanto
que no plurinacionalismo, além dessas superações ideológicas, também ocorreram
rupturas nas estruturas do Estado e sua re-fundação em novas bases, da decolonialidade
e da interculturalidade crítica. O objetivo geral é o de identificar quais foram essas
mudanças jurídico-institucionais ocorridas dentro de cada marco dos ciclos
constitucionais pluralistas. Já nos objetivos específicos procura-se (a) relacionar as
rupturas e superações ideológicas/jurídico-institucionais de cada ciclo constitucional
com o mito do “Estado-nação”, (b) sistematizar os direitos indígenas conquistados nas
Constituições elencadas; (c) identificar a consolidação do mito do “Estado-Nação” antes
e depois do marco da década de 80; e (d) analisar a interferência de instrumentos
internacionais e manifestos relacionado à questão indígena nos ciclos constitucionais. A
análise teórica tem como fundamento os estudos da “decolonialidade” (Quijano) e da
“interculturalidade crítica” (Walsh), a partir de uma pesquisa bibliográfica sob o
“método histórico-jurídico” dos ciclos constitucionais e da participação dos povos
indígenas para a consolidação de uma crítica às rupturas do mito do “Estado-Nação”.

Palavras-chaves: Estados Nacionais; Ciclos Constitucionais Pluralistas; Povos Indígenas.

40
NOVOS DESENHOS JURÍDICOS DO SUL: AUTONOMIA E
RESISTÊNCIA EM TERRAS INDÍGENAS NA AMÉRICA LATINA

Gabriel Antonio Silveira Mantelli


Vitor Henrique Pinto Ido

O presente trabalho visa investigar, em caráter inicial e com fins documentais, os novos
desenhos jurídicos de organização sociopolítica que povos indígenas no Sul Global estão
estabelecendo por meio dos movimentos de resistência descolonial. Para compreender
tais processos, são analisados três estudos de caso no âmbito da América Latina: o
estabelecimento do primeiro governo indígena autônomo no Peru pela nação Wampis,
o estabelecimento do auto-governo da Autonomia Indígena Guaraní Charagua Iyambae
na Bolívia e os movimentos de resistência pelos povos indígenas do Norte de Cauca e
Bogotá na Colômbia. Se por um lado tais experiências colocam-se em sintonia com os
pressupostos mais gerais do chamado “novo constitucionalismo latinoamericano”, por
outro, trazem novas formas de organização política que por ventura contestam e/ou
reconfiguram os próprios sentidos da noção de Estado-Nação, mesmo os plurinacionais.
Além de descrever os movimentos históricos, os atores políticos e os interesses
envolvidos específicos de cada caso, esta pesquisa pretende, em diálogo com a longa
tradição do pluralismo jurídico na América Latina e com a antropologia jurídica crítica,
apontar suas respectivas interações e/ou rupturas com o direito estatal. Com isso,
objetiva compreender se, na crescente busca pela autonomia e pela continuidade dos
seus costumes e cosmovisões, esses povos indígenas lutam dentro de aparatos jurídicos
ou se fazem uma busca contra o Estado (para parafrasear Pierre Clastres). A metodologia
empregada é a de pesquisa bibliográfica com fins exploratórios.

Palavras-chave: Autonomia; Resistência; Povos Indígenas; América Latina; Pluralismo


Jurídico.

41
A CONSTITUCIONALIZAÇÃO DOS TRATADOS
INTERNACIONAIS DE DIRITOS HUMANOS NA ARGENTINA E
NO MÉXICO: HERANÇA DE UMA TRADIÇÃO LATINO-
AMERICANA DE REFLEXÃO SOBRE A MATÉRIA?

Jesus Tupã Silveira Gomes

O controle de convencionalidade de leis tem por finalidade a compatibilização do


ordenamento jurídico nacional com as disposições inscritas no Pacto de San José da
Costa Rica e demais tratados internacionais celebrados no âmbito do sistema
interamericano de proteção aos Direitos Humanos. A Argentina e o México, por meio de
Reformas Constitucionais realizadas, respectivamente, em 1994 e 2011, atribuíram
hierarquia constitucional às disposições convencionais, o que implicou alterações
significativas no direito interno de cada país, colocando-os em uma posição de
vanguarda na América Latina. O presente estudo tem por objetivo investigar se as
referidas mudanças são consequência de uma tradição de reflexão sobre direitos
humanos na América Latina, conforme apontado por Paolo G. Carozza no texto From
Conquest to Constitutions: Retrieving a Latin American Tradition of the Idea of Human Rights,
conectando-a com o pensamento descolonial. Buscase mapear os antecedentes que
podem conferir sustentação à premissa estabelecida e indicar as consequências da
constitucionalização dos tratados internacionais de direitos humanos nesses países. O
trabalho foi elaborado com o uso do método hipotético-dedutivo, buscando confirmar a
hipótese lançada, com a revisão da bibliografia nacional e estrangeira encontrada sobre
a matéria. Os estudos realizados apontam para a efetiva existência de uma profunda
tradição latino-americana na reflexão sobre os direitos humanos, que se destaca na
participação ativa desses Estados na elaboração de tratados internacionais de direitos
humanos e na criação de um sistema específico – interamericano – de Direitos Humanos,
fundado essencialmente na igualdade e no direito dos povos latino-americanos à sua
própria identidade.

Palavras-chave: Tratados Internacionais de Direitos Humanos; Constitucionalização


(Argentina e México); Antecedentes e Consequências; Pensamento Descolonial; Controle
de Convencionalidade.

42
CONSTITUCIONALISMO QUOTIDIANO: ANÁLISE DOS
AVANÇOS TRAZIDOS PELA CONSTITUIÇÃO BOLIVIANA DE 2009
NA SENTENÇA 393/2013 DO TRIBUNAL CONSTITUCIONAL
PLURINACIONAL

Jeniffer da Silva Ferreira

Este breve estudo se destina a uma análise da sentença 393/2013 do Tribunal


Constitucional Plurinacional Boliviano e sua afinação com a Constituição de 2009.
Considerando a sensível modificação trazida pela eleição da Plurinacionalidade como
expressão da realidade e da adoção, no texto constitucional, de princípios como o da
Reciprocidade, Redistribuição e Ações positivas para a equidade, era apenas questão de
tempo até iniciar-se uma verdadeira revisão das normas infraconstitucionais, por não
estarem afinadas com o novo modelo de Estado. O rompimento com o monismo, do
ponto de vista do desocultamento de vários povos marginalizados por um modelo que
excluía tudo que lhe fosse diferente, trouxe diversos novos direitos a uma significativa
parcela da população que antes era invisível. O problema de pesquisa, que não se
esgotará com a elaboração destas linhas, reside na efetivação dos vários direitos
existentes na Constituição e sua utilização como filtro para as normas
infraconstitucionais. Muitas destas normas, com a roupagem de proteção para
determinados grupos, escondiam em seus textos uma lógica paternalista e excludente
que caracterizava de forma precisa o modelo de Estado monista. O objetivo principal,
aqui materializado, foi então demonstrar, a partir da análise da sentença 393/2013 do
Tribunal Constitucional Plurinacional Boliviano, como foram aplicados os preceitos
constitucionais nas questões quotidianas, já que esta decisão trata da declaração de
inconstitucionalidade da lei 203 de 2011, que versava sobre a delimitação do Município
de Santiago de Huari, da Província Sebastián Pagador, Departamento de Oruro. Foi
utilizado o método dedutivo para o desenvolvimento deste estudo, adotando-se como
procedimento a pesquisa bibliográfica existente sobre o tema e a análise supracitada
decisão do Tribunal Constitucional Plurinacional Boliviano. A decisão do Tribunal, ao
declarar a inconstitucionalidade da referida lei, deixou claro que a delimitação de um
município sem a participação dos povos que nele habitam afronta a Constituição
Plurinacional do Estado Boliviano tornando sem efeito qualquer tomada de decisão
vertical em relação à organização territorial dos povos originários e campesinos.

Palavras-chave: Constitucionalismo Latino-Americano; Plurinacionalidade; Tribunal


Constitucional Plurinacional; Normas infraconstitucionais.

43
LA RETÓRICA DISCURSIVA ANTICOLONIAL, SUS EFECTOS EN
LA CONSTITUCIÓN Y SOCIEDAD BOLIVIANA

Olga Flores Bedregal

Las teorías y propósitos de descolonización en Bolivia se han dado lugar a la refundación


del país con una nueva Constitución supuestamente con un nueva visión
descolonizadora. Se ha creado, en teoría, un nuevo Estado anticolonial a partir de 2009.
Así se tiene una experiencia práctica que es necesario analizarla y confrontarla con
algunas teorías para ver el efecto práctico e indentitario de un Estado que tiene nuevas
bases conceptuales. Se analiza la lógica discursiva de un gobierno que fundamenta su
existencia en el antimperialismo y anticolonialismo, para analizar los hechos y su
viabilidad. Se parte de hechos y experiencias concretas que se tiene en los enunciados
Constitucionales y sus efectos en la conducta social del país. La visión es una reflexión
crítica sobre la retórica anticolonial y la práctica de un gobierno que fundamenta su
acción en la negación de los 500 años de colonialismo. Se analiza el nuevo marco
conceptual de la Constitución, la nueva institucionalidad “democrática” a partir de los
poderes del estado, la lógica jurídica y democrática, los derechos “fundamentalísimos”
como la educación, la salud, el medio ambiente, el agua, los pueblos indígenas y la
práctica de un gobierno centralista, solventado por un partido y los llamados
movimientos sociales. Se analiza cuanto ha cambiado conceptualmente el “nuevo
Estado” en relación al “viejo Estado colonial” para llegar a la conclusión de la viabilidad
o no de un Estado descolonizado. Se presentan datos concretos así como el doble
discurso de un gobierno anclado en conceptos y políticas tradicionales. Se analiza las
nuevas instituciones, los nuevos actores sociales, como los llamados “movimientos
sociales” y la nueva clase que no constituye un nuevo paradigma societario. Se hace
hincapié en las definiciones que presenta la Nueva Constitución con referencia a los
pueblos indígena originarios, así como la incorporación en el Estado Plurinacional de 36
pueblos indígenas. Se hace una relación entre el poder económico y el poder político,
así como el modelo económico que se ha generado en Bolivia en estos 11 años de un
gobierno antimperialista y anticolonial para que se tenga una conclusión sobre si hubo
o no un “proceso de cambio” en Bolivia.

Palavras-chave: Uso del discurso antimperialista y anticolonial; retórica colonial del


engaño; Nueva Constitución Boliviana; visión crítica.

44
A DEMOCRACIA INTERCULTURAL DO ESTADO
PLURINACIONAL DA BOLÍVIA – A IDEIA DE CIDADANIA
AMPLIADA RELACIONADA À EFETIVAÇÃO DE DIREITOS
HUMANOS

Rute Mikaele Pacheco da Silva

O presente trabalho tem por objeto a análise dos institutos da Democracia Intercultural
na nova Constituição boliviana, como se relacionam e são manejados os institutos da
democracia representativa, participativa e comunitária nesse novo modelo, bem como
se este tem sido capaz de implicar em maior empoderamento popular e efetivação de
direitos, sobretudo, direitos sociais. Foi empreendida a leitura e análise das normas
constitucionais específicas sobre o exercício da democracia intercultural, bem como das
leis que as complementam. Também houve pesquisas bibliográficas, sobretudo, entre
autores latino-americanos, como uma forma de buscar compreender o contexto
histórico, político, social e econômico de criação e materialização das normas em estudo,
através de lentes descoloniais e mais próximas do objeto. A pesquisa bibliográfica se
perfez como fonte primária e, como fontes secundárias, foram utilizados documentos
oficiais, dados estatísticos pretéritos e recentes sobre os índices socioeconômicos do
Estado da Bolívia, como meios para se aferir a efetivação de direitos. A pesquisa partiu
da concepção sobre a inseparabilidade entre democracia e direitos humanos, não se
podendo falar na efetividade de um sem a efetividade do outro. Foi possível constatar
um grande protagonismo dos povos indígenas bolivianos (cerca de 60% da população)
no processo de formulação e de implementação das normas em estudo, bem como, uma
melhora nos indíces socioeconômicos nas últimas décadas. Citamos alguns dados. Do
ano 2000 a 2011, o percentual de pessoas em situação de indigência diminuiu de 38,8%
para 18,7%, a proporção de pessoas com renda inferior a um dólar diminuiu de 26,9%,
em 2000, para 8% em 2012, e a proporção de pessoas formalmente empregadas
aumentou, de 36,9%, em 1990, para 70,3%, em 2011. Do ano 2000 para 2011, a quantidade
de pessoas, entre 20 e 24 anos, com educação secundária completa, subiu de 46,2% para
66,9%. A proporção da população urbana que vive em favelas, diminuiu de 54,3% para
43,5%, entre 2000 e 2014 (CEPAL, 2015).

Palavras-chave: Democracia; Direitos Humanos; Interculturalidade.

45
DIREITOS HUMANOS E ATIVISMO JUDICIAL TRANSNACIONAL:
UMA PERSPECTIVA CRÍTICA A PARTIR DOS MOVIMENTOS
SOCIAIS CONTRA-HEGEMÔNICOS

Marlise da Rosa Luz


Daniela Mesquita Leutchuk De Cardematori

Na atualidade, o processo de globalização, sob o aspecto econômico e político, tem


afetado substancialmente as práticas políticas tradicionais e os padrões normativos, com
enfraquecimento das relações sociais internas, ante o comprometimento do Estado com
o contexto internacional. A redefinição do papel do Estado, de intervenção mínima na
transformação ou reforma social, tem sido a seara para a emergência de movimentos
sociais que se opõem à ideologia hegemônica opressora e promovem uma reinvenção da
emancipação social, mediante mobilizações e processo de lutas pelas transformações
desiguais. Com isso, a abordagem do presente trabalho inclui, preliminarmente uma
análise sobre a influência da globalização econômico-política no inter-relacionamento
entre o Estado e a Sociedade, a contextualização dos direitos humanos a partir de uma
análise crítica, considerada a contribuição teórica de Joaquín Herrera Flores, e ao fim, o
ativismo judicial transnacional como elemento fortalecedor dos movimentos sociais.
Leva em consideração, o método indutivo, com sustentação em reconhecidas obras
doutrinárias, artigos e trabalhos específicos e, propõe-se verificar as potencialidades de
novas práticas sociais e novas subjetividades que tem se mostrado capazes de promover
relações jurídicas produtivas no cenário internacional em prol da proteção e luta pela
dignidade humana.

Palavras-chave: Direitos humanos; Ativismo judicial transnacional; Movimentos sociais.

46
O PROCESSO CONSTITUINTE EQUATORIANO DESDE O
PENSAMENTO CRÍTICO LATINO-AMERICANO

Efendy Emiliano Maldonado Bravo

Neste trabalho pretendemos apresentar uma síntese da nossa pesquisa de mestrado, na


qual buscamos delinear alguns elementos para a compreensão da realidade de Nuestra
América, a partir dos aportes dos precursores do pensamento crítico latino-americano,
no intuito de fortalecer reflexões comprometidas com as transformações sociopolíticas
da nossa região. No tocante ao fenômeno jurídico será utilizada a ótica pluralista e
insurgente, que compreende que “o direito nasce do povo”, nas suas lutas por libertação.
Para isso, realizar-se-á um resgate das insurgências indígenas e campesinas desde uma
análise histórico-crítica de larga duração, a fim de retratar o papel e influência do
acúmulo das lutas dessas organizações populares nas transformações jurídico-políticas
das últimas décadas, que culminaram na nova Constituição equatoriana de 2008. Para
compreender essa nova Constituição se insere o estudo desse caso concreto, no largo
processo histórico das insurgências de Abya Yala, pois será com a intensificação das
lutas e pautas anti-sistêmicas e/ou contra-hegemônicas dos movimentos sociais que as
estruturas de dominação vêm sendo transformadas em nossa região. Assim, abordar-se-
á a relação dialética entre Insurgência e Direito, no escopo de aprofundar o debate sobre
a atuação dos movimentos indígenas e campesinos nas transformações políticas que
culminaram no processo constituinte equatoriano. Nesse sentido, a pesquisa
apresentada busca: (a) questionar a concepção de Estado-Nação e o seu paradigma
jurídico-político baseado na tradição monista, a partir de um resgate da formação da
colonialidade e do capitalismo dependente na América Latina; (b) Caracterizar as
resistências a implantação colonial-capitalista, nos marcos de uma crítica pluralista e
libertadora; (c) Historicizar o poder constituinte através de uma retrospectiva das
revoltas populares promovidas pelos movimentos sociais em face da implantação do
projeto neoliberal no continente; (d) Avaliar como ocorreu a participação e incorporação
(ou não) das propostas dos movimentos indígenas e campesinos nos processos
constituintes equatorianos; (e) Problematizar as rupturas e continuidades do processo
constituintes equatoriano com a tradição jurídico-política da modernidade. Diante do
exposto, esperamos que a pesquisa seja uma pequena contribuição para repensarmos a
nossa história constitucional e retratar a perspectiva das lutas dos movimentos
populares na América Latina.

Palavras-chave: Processo Constituinte Equatoriano; Pensamento Crítico Latino-


Americano; Direito Insurgente.

47
MECANISMOS DE DIÁLOGO COMO INSTRUMENTOS
DESCOLONIALIZADORES: UMA PROPOSIÇÃO AO BRASIL

Thaiane Correa Cristovam

Os padrões da dominação colonial expressam-se na Constituição brasileira de 1988,


dentre seus tantos elementos, por meio de uma institucionalidade que cria barreiras para
a democratização e para a criação de espaços públicos de participação popular e direta.
O problema do trabalho, nesta esteira, é precisamente a observação desta ausência de
uma ocupação social ampla e difundida dos espaços políticos, bem como o movimento
de traslado da esfera de decisões políticas ao elitizado Poder Judiciário, e a percepção
destes fatos a partir da mentalidade colonial. A partir disto, o objetivo do artigo é
empregar a teoria dos diálogos constitucionais na tentativa de, justamente, fomentar a
ocupação popular destes locais políticos esvaziados. Da mesma forma, objetiva-se
realizar proposição de um instrumento de diálogo, uma espécie de recall de decisões
judicias que envolvam os direitos fundamentais, que busca promover a deselitização da
tomada de decisões pelo Poder Judiciário, bem como fomentar uma cultura
descolonizadora, incutindo-a na realidade social, de forma a ampliar a participação e a
apropriação do debate político pela população, em especial aquela parcela
marginalizada pelos conceitos hegemônicos introduzidos cultura colonial. Busca-se,
com isto, promover uma cultura plural, de acolhimento da população historicamente
escamoteada pelos grupos dominantes, tais como, por exemplo, os povos originários, as
mulheres e os negros, bem como o engajamento popular na ocupação dos espaços
políticos tradicionalmente preenchidos pela elite, dando-se, foco, na espécie, e também
pela necessidade de um recorte metodológico, ao engajamento do diálogo destes com o
Judiciário. Para isso, a metodologia empregada será a pesquisa bibliográfica.

Palavras-chave: Participação popular; Espaços políticos; Diálogo constitucional; Cultura


descolonizadora.

48
OS DIREITOS HUMANOS E O PENSAMENTO DESCOLONIAL
LATINO-AMERICANO – A INTERCULTURALIDADE A PARTIR DO
NOVO CONSTITUCIONALISMO LATINO-AMERICANO

Heleno Florindo da Silva


Daury César Fabriz

O novo constitucionalismo latino-americano surge a partir de um conjunto de novas


tendências constitucionais ínsitas à América Latina, sobretudo a partir das três últimas
décadas, tracejando-se a partir de uma nova perspectiva política, social, econômica e
cultural, capaz de fixar importantes instrumentos para a libertação e a emancipação,
necessárias a transformação da realidade da grande maioria dos latino-americanos que
ainda hoje vivem à margem da sociedade política de seus Estados. É a partir dessa
perspectiva que o presente trabalho buscará analisar, a partir de Herrera Flores e seu
debate acerca da necessidade de reinvenção dos Diretos Humanos, bem como de
Boaventura de S. Santos, Antonio Carlos Wolkmer, Enrique Dussel e Aníbal Quijano, e
suas discussões sobre pluralismo epistemológico, descolonialidade e libertação do Ser,
o aspecto monocultural dos direitos humanos inerente à sua racionalidade
universalizante, tal como construída durante a formação, sobretudo, dos Estados
constitucionais durante o processo de construção da racionalidade moderna a partir de
fins do século XV e início do Séc. XVI e, em especial, após o fim da Segunda Guerra
Mundial, com a Declaração Universal dos Direitos Humanos, objetivando, através de
uma perspectiva metodológica inerente a abordagem metodológica do múltiplo
dialético, lançar o debate sobre a necessidade de sua reconfiguração a partir de uma
racionalidade intercultural de libertação e de emancipação de todos aqueles que,
diferentemente do Eu moderno, ainda não possuem os meios necessários para usufruir,
universalmente, de um mínimo de dignidade, o que se dará, no contexto latino-
americano, através de um processo de descolonização e de desencobrimento tal e qual
proposto pelo novo constitucionalismo plural, democrático e libertário latino-
americano.

Palavras-chave:Direitos Humanos, Universalização, Interculturalidade, Novo


Constitucionalismo Latino-americano, Descolnialidade, Libertação.

49
FEMINISMOS TRANSNACIONAIS A PARTIR
DO SUL
A APLICAÇÃO DAS MEDIDAS PROTETIVAS DE URGÊNCIA
PREVISTAS NA LEI MARIA DA PENHA PARA ALÉM DA
CATEGORIA JURÍDICA MULHER: UMA ANÁLISE DE JULGADOS
DOS TRIBUNAIS DE JUSTIÇA DE MINAS GERAIS E SÃO PAULO

Flávia Passeri Nascimento


Fabiana Cristina Severi

A pesquisa analisou os principais argumentos utilizados pelos Tribunais dos Estados de


Minas Gerais (TJMG) e de São Paulo (TJSP) para aplicar ou afastar as medidas protetivas
de urgência previstas na Lei Maria da Penha (LMP) considerando o gênero, o sexo e a
idade da parte vítima da violência doméstica, intrafamiliar e/ou íntima de afeto.
Tomando-se como ponto de partida o entendimento compartilhado por autoras como
Barsted (2011), Calazans e Cortes (2011) e Piovesan e Pimentel (2011), as teorias
feministas e de gênero foram abordadas para se compreender as assimetrias entre
gêneros na sociedade patriarcal brasileira, e como estas desigualdades refletem na
garantia e efetivação dos direitos humanos das mulheres. Realizou-se uma revisão
bibliográfica sobre a história de criação da LMP, os desafios enfrentados na interpretação
jurídica e na aplicação prática dela e a atuação da advocacy feminista na luta pela
igualdade de gênero e criação da Lei 11.340/2006. Realizou-se um levantamento de
dados direto junto às páginas eletrônicas dos dois tribunais citados, no período de 03
Feb 2016 a 03 Mar 2016, tomando-se por referência procedimentos e abordagens
metodológicas quantitativas. As amostras de acórdãos extraídas foram analisadas com
auxílio do software SAS 9.3., e a partir delas, buscou-se mapear os argumentos que foram
utilizados pelos tribunais para afastar a aplicação das medidas protetivas de Urgência
previstas na LMP ou aplicá-las às vítimas da violência doméstica e familiar. Em termos
de resultados, identificou-se que as medidas protetivas de urgência previstas na LMP
estão sendo aplicadas, por analogia in bonam partem, não somente as vítimas do gênero
feminino (45% no TJMG e 24% no TJSP), mas às vítimas em situação de violência no
ambiente doméstico ou intrafamiliar, independentemente do seu gênero, sexo ou idade,
considerando-se, para isso, a situação de vulnerabilidade ou hipossuficiência da vítima
da agressão ou ameaça. Embora verificada a aplicação para estas vítimas, a maioria dos
julgados (55% no TJMG e 76% no TJSP) proferidos pelos tribunais ainda nega a aplicação
das medidas protetivas de urgência previstas na LMP à vítima que não pertence ao
gênero feminino, sob a justificativa que a LMP foi criada para proteger exclusivamente
à mulher. Por fim, observou-se que esses tribunais não aplicaram as medidas protetivas
de urgência às próprias vítimas do gênero feminino (23% no TJMG e 49,5% no TJSP),
quando eles não constataram a hipossuficiência ou vulnerabilidade da mulher
violentada, a existência de violência de gênero ou do estereótipo “mulher adulta cujo
agressor é o homem”.

Palavras-chave: Lei Maria da Penha; Análise Jurisprudencial; Gênero.

51
ESPERANÇA DE BAIXO PRA CIMA: HIPÓTESES PARA
ARTICULAR O FEMINISMO E AS EPISTEMOLOGIAS DO SUL.

Vera Martins
Rosane Rosa

Este artigo tem como objetivo realizar uma elaboração teórica sobre a condição das
mulheres em sociedade e suas experiências, partindo do reconhecimento que as marcas
da injustiça, da desigualdade e da violência lhes são um dos traços comuns. Esta reflexão
foi motivada por duas noticias compartilhadas no Facebook no dia 15 de dezembro de
2016: uma sobre a situação das mulheres na cidade síria de Aleepo e outra sobre ameaças
às deputadas gaúchas em seus gabinetes na Assembleia Legislativa. O que aproxima
estas duas realidades tão distantes geograficamente é persistência de uma lógica que
objetifica as mulheres, que atravessa cenários de guerra e paz e atinge seus os corpos,
negando-lhes a dignidade humana. Do ponto de vista teórico buscamos articular
aspectos da teoria feministas, com base em Marcia Tiburi, 2016, com o pensamento de
Alain Touraine (1997) e a abordagem das Epistemologias do Sul (Boaventura de Souza
Santos, 2007 e 2013; José Gandarilla, 2016). A contribuição de Tiburi (2016) vem da
reflexão sobre a cultura do estupro que se manifesta em práticas de sujeitos que odeiam
e agridem, e que não é um sentimento abstrato e nem subsiste sozinho na sociedade, ele
“[...] Precisa do apoio de muita gente. De uma sociedade inteira” (TIBURI, 2016, pg. 105).
Neste cenário de ódio cabe a indagação de Touraine (1997) sobre a produção de
condições para a existência da vida social, do viver juntos e da comunicação entre seres
individual ou coletivamente. Dentre as respostas teóricas e políticas a esta interrogação
do autor, as Epistemologias do Sul tem aportado reflexões relevantes. Santos (2007; 2013)
aposta na desnaturalização da noção de direitos humanos para revelar as marcas do
projeto colonial que ela reproduz. Gandarilla (2016) aponta a necessidade de regatar a
complexidade dos direitos humanos como categoria, para que estes representem a
diversidade humana e assim possam embasar projetos de emancipação social. Como
resultado do estudo, elaborado numa perspectiva exploratória, vislumbramos duas
hipóteses: 1) se relaciona com a potencialidade da interrogação/hermenêutica da
suspeita para combater a naturalização das relações entre mulheres e homens; 2) está
relacionada à possibilidade da negociação intercultural, coletiva e democrática de
categorias que permitam a ressignificação dos direitos humanos. Esta ressignificação
deve incluir a perspectiva feminista como condição para que estes direitos continuem
servindo de roteiro emancipatório de nossa sociedade e suas/seus sujeitos.

Palavras-chave: Mulheres; Direitos Humanos; Epistemologia do Sul.

52
FEMINISMOS DECOLONIAIS: UM OLHAR SOBRE A AMÉRICA
LATINA

Juliana Moreira Streva

O presente artigo pretende costurar um diálogo entre as teorias decoloniais e os


feminismos da América Latina. Para tal desafio, reconhece-se de início que, ainda que
gênero e raça tenham sido partes centrais da organização ontológica do Sistema Mundo
Colonial/Moderno, a teoria decolonial "tradicional" – considerada como a que foi
produzida por autores como Mignolo, Maldonato-Torres, Quijano, Castro-Gómez e
Grosfoguel – ainda não tem tomado como ponto nuclear de análise a questão do gênero
como o fez com raça. Tal leitura míope do fenômeno colonial impossibilitaria uma
análise mais detida e aprofundada da produção colonial dos corpos historicamente
constituídos e constantemente atualizados nas relações de poder. A partir do diálogo
crítico intencionado, este ensaio será dividido em 4 momentos: i) introdução do
pensamento decolonial; ii) crítica ao movimento decolonial no que tange a abordagem
de gênero; iii) esclarecimentos acerca da interseccionalidade entre colonialidade, raça e
gênero; iv) análise do marco teórico da colonialidade de gênero cunhado por María
Lugones.

Palavras-chave: Feminismos Decoloniais; América Latina; Gênero; Racismo;


Interseccionalidade.

53
CORPOS DESLOCADOS: EFEITOS DE SENTIDO PRODUZIDOS
PELOS PROTESTOS DO GRUPO FEMEN

Fernanda Pereira

Parte-se da compreensão de que o feminismo hegemônico não consegue ampliar seus


horizontes para os diversos significados que possui a palavra “mulher”, pois ele está
impregnado pelo padrão constituído através do colonialismo europeu de gênero/raça.
Sendo assim, este não viabiliza direitos para mulheres não-brancas, não-heterossexuais,
não-europeias, não-cissexuais, não-burguesas, ignorando o fato de que foi através da
luta destas mulheres subalternizadas que não se encaixam no estereótipo europeu que
os direitos das demais foram adquiridos. Isso mostra o quanto o movimento feminista,
que deveria amparar a luta de todas as mulheres, torna-se extremamente
segregacionista, enquanto não ampara a luta das mulheres negras e outras que não
estejam no padrão colonial europeu, perpetuando o racismo e outros preconceitos
deixados como herança do período colonialista. Usufruindo desse conceito colonial, o
patriarcalismo se finca na sociedade de maneira aguda, tornando muito plausível o
debate sobre o desempenho do estado, do ordenamento jurídico e do poder legislativo
na criação e implementação de leis e políticas públicas para as mulheres. Assim, uma
perspectiva de feminismo descolonial, vem como mecanismo para desconstruir os
paradigmas, tanto do feminismo hegemônico, quanto do patriarcalismo penetrado nas
múltiplas facetas sociais, buscando lutar contra todas as formas de opressão e
subalternização sofridas pelas mulheres, bem como romper com o obscurantismo que
permeia os assuntos referentes a igualdade de gênero/raça, trazendo a luz discussões
sobre as armas usadas pelo patriarcado para reprimir as mulheres, e a falta de
representatividade nas esferas públicas, objetivando romper com o machismo
institucional que consiste uma ampla violação de direitos humanos. No presente
trabalho, elegeu-se como método, o método analético (ana-lético ou ana-lialético), como
um método que tem como ponto principal, partir do outro totalmente livre, do outro,
estando além do sistema da totalidade. Com o uso do método analético, busca-se a
possibilidade de compreensão do outro como exterioridade do sistema, para além da
totalidade que o consagra como outro, como excluído, aqui, a mulher subalternizada –
latina, negra, índia, etc. Em vista disso, analisa-se que da mesma maneira que o
feminismo hegemônico traz os ideais de igualdade para as mulheres, tal igualdade é
privilégio de apenas algumas mulheres, e essa problemática traz algumas premissas
para o patriarcalismo social, ao qual está estabelecido nos mais diversos nichos da
sociedade. Desse modo, constata-se um entrelaçamento entre esses aspectos e que o viés
colonial é uma herança europeia que se faz extremamente presente em nosso meio,
reforçando os moldes de disparidade entre os gêneros. Portanto, frisa-se essencial o
debate e a percepção dos aspectos de repressão feminina na coletividade. Pois, mesmo
depois de anos de colonialismo, ainda nos encontramos arraigados por muitos valores
deixados por esse período. Dessa maneira, por ser um tema latente, observa-se como
esses debates são de suma importância para a concretização do pensamento de
igualdade, justiça e democracia.

54
Palavras-chave: FEMEN; Análise do Discurso de orientação francesa; Feminismo.

55
O PIONEIRISMO DESCOLONIAL DE LÉLIA GONZALEZ: A
RESISTÊNCIA DESDE A ANÁLISE DE PRECONCEPÇÕES DO
FEMININO NEGRO NO BRASIL

Livia Moura
Paulo Weyl

Lélia Gonzalez possui papel emblemático para o feminismo negro no Brasil e, mesmo
sem dialogar diretamente com os autores do coletivo Modernidade/Colonialidade, era,
desde seus escritos da década de oitenta, portadora de atitude descolonial, posto que sua
produção provinha da atuação como “forasteira de dentro” ao questionar as categorias
das ciências sociais e indicar as insuficiências de tais definições, bem como as limitações
dos lugares de fala de onde se originavam as reflexões teóricas. Lélia pugnava por um
ideário que fosse além da reprodução de modelos postos e constituísse um pensamento
próprio. A autora é intelectual diaspórica, aberta a trocas afetivas e culturais com
pensadores da Latino América e promotora da política de tradução de teorias,
direcionada ao desenvolvimento de um pensamento transnacional que explicasse a
formação a dominação matricial na América Latina, sua sustentação no racismo e como
compreender esta realidade poderia servir para nela intervir, não deixando a autora de
preocupar-se com o feminismo e sua leitura conforme teoria e prática atravessassem
fronteiras, passando por latinas, mulheres de cor, pós-coloniais. Lélia denuncia a
condição da mulher negra brasileira, oprimida racialmente, para além de sua opressão
de gênero e classe, e protagonista de lutas muito próprias, inclusive no que se refere à
subordinação legitimada pela colonização que animalizou seu corpo. Gonzalez observa
estereótipos negativos engendrados pelo racismo, os quais evidenciam como tais
representações impactam de forma violenta na vida de mulheres negras. As definições
“mulata”, “doméstica” e “mãe preta” são, então, utilizadas para analisar o mesmo
sujeito; a mulher negra, sempre concebida a partir da distinção que inferioriza e perpetua
as desigualdades de poder em sua vertente econômica, cultural e simbólica. “Mulata” e
“doméstica” são noções saída de um mesmo tronco, qual seja “mucama”, cujo
significado mais recôndito perpetua até hoje a permissão para a exploração sexual, ao
passo em que a mãe preta é a figura representativa da passividade para além da
resignação à violência, remetendo à resistência e a salvaguarda das tradições de seu povo
através do repasse de sua cultura ao brasileiro branco de quem é ama e, em
consequência, à sociedade brasileira.

Palavras-chave: Feminino Negro; Pensamento Descolonial; Resistência.

56
MULHERES TRANSEXUAIS E SEU INGRESSO NO MUNDO DO
TRABALHO: UMA PERSPECTIVA DO FEMINISMO
CONTEMPORÂNEO?

Sandra Maria besso


Gabriel Eduardo schütz

O presente estudo se propõe a discutir, na perspectiva do feminismo contemporâneo, as


dificuldades encontradas pelas mulheres transexuais como consequência da
discriminação e segregação derivadas do padrão heteronormativo cisssexual binário
hegemônico na sociedade latino-americana. Entende-se que esse padrão não pode mais
ser mantido na forma rígida em que se encontra, mas, necessita ser revisto sob o prisma
dos Direitos Humanos. A primeira barreira que se interpõe diz respeito à patologização
da transexualidade, que, segundo a Classificação Internacional das Doenças (CID-10) é
considerada um “Transtorno de Identidade Sexual”. Somente após serem consideradas
portadoras desse transtorno é que as mulheres transexuais podem ter acesso à cirurgia
de transgenitalização no Sistema Único de Saúde- SUS. No tocante ao mundo do
trabalho, os resultados indicam que quando as mulheres transexuais tentam nele
ingressar, se deparam com a outra barreira: a do prenome que não se coaduna com o
gênero que as mesmas se identificam. Os problemas advindos de um prenome que não
identifica o gênero no qual as mulheres transexuais se reconhecem esbarram em outras
esferas, além do mundo do trabalho, em suas vidas pessoais, no que diz respeito à
inserção social. Para que o prenome seja adequado ao gênero, necessitam pleitear a
mudança do mesmo, por intermédio da propositura de ação judicial própria, perante os
tribunais nacionais, sendo que o arcabouço jurídico vigente faz com que as ações
impetradas para a adequação do prenome de acordo com o gênero que as mulheres
transexuais se reconhecem, sejam decididas caso a caso. Observa-se que que não há leis
regendo a matéria, apesar da conquista do nome social, instituído por intermédio de
decretos e portarias. Conclui-se que, por não haver legislação a respeito, a dificuldade se
perpetua e, visando mudar esse panorama, propõe-se uma prática proveniente de
olhares, saberes e percepções que permitam, dentre outras conquistas, uma nova
maneira de obtenção de um prenome que seja de acordo com o gênero que a pessoa se
reconhece, possibilitando, assim, o final da barreira que se interpõe no ingresso ao
mundo do trabalho. Imperativo se faz que a possibilidade de alteração do prenome seja
possível sob uma nova perspectiva no Poder Judiciário, baseando-se na Lei de
Identidade de Gênero, promulgada na Argentina, que permitiu que pessoas
transgêneras possam escolher, em suas carteiras de identidade, independentemente do
seu sexo biológico, a letra M de masculino, ou F de feminino.

Palavras-chave: Mulher transexual; Feminismo contemporâneo; Prenome; Trabalho


feminino.

57
PERSPECTIVAS DE RECONHECIMENTOS DE IDENTIDADES
TRANS NA AMÉRICA LATINA

Paulo Adroir Magalhães Martins

Utilizando o método de procedimento sócio-analítico e a abordagem dedutiva, a


presente pesquisa visa analisar as condições de vulneração das pessoas trans, esta é
muito semelhante a figura do antigo homo sacer. Apesar da diversidade de
manifestações das identidades sexuais nas culturas latino-americanas, os países do Brasil
e México são os responsáveis pelo maior número de assassinato de pessoas trans, e o
reconhecimento equivocado ou não-reconhecimento dessas identidades auxilia na
perpetuação de violência contra quem assim se expressa. Outrossim, diversos
ordenamentos jurídicos reconhecem identidades sexuais que fogem ao modelo
heteronormativo binário de gênero, assegurando desde acesso ao processo de
redesignação sexual até a retificação registral pela via administrativa, sem falar numa
gama de direitos conexos ao reconhecimento identitário. A pesquisa inicia abordando o
processo de expressão e significado dos corpos e das identidades trans, para então,
analisar as situações de reconhecimento e vulneração dessas identidades nos sistemas
jurídicos latino-americanos, em especial como o direito brasileiro, mexicano, argentino,
colombiano, chileno, equatoriano e uruguaio tem garantido o reconhecimento e os
direitos humanos desses sujeitos, comparando essas a figura romana do “homem sacro”.
Verifica-se que apesar da proteção jurídica especial que alguns ordenamentos jurídicos
para com as identidades trans, quem assim se expressa nos meios sociais ainda encontra
grande dificuldades de garantir o respeito no cotidiano sofrendo assim corriqueiros
casos de discriminação, em razão de preconceitos arraigados nas culturas latino-
americanas.

Palavras-chave: Identidades Trans; Reconhecimento; Sistemas jurídicos latino-


americanos.

58
DIREITOS HUMANOS. HUMANOS DIREITOS. DIREITOS PARA
QUEM?: UMA BREVE ANÁLISE DA LEGISLAÇÃO TRABALHISTA
BRASILEIRA

Simone Braz Batista


Elisângela de Jesus Santos

Entre as décadas de 1940 e 1960 três documentos internacionais foram criados para
pensar sobre os Direitos Humanos: Carta das Nações Unidas (1945), Declaração
Universal dos Direitos Humanos (1948) e Convenção Americana Direitos Humanos São
José (1969). Os pontos traçados por ambos os documentos dizem respeito a cooperação
internacional entre os países membros, no esforço contra qualquer tipo de discriminação
e desigualdade sustentadas por raça, cor, sexo, religião e outras naturezas. Em suas
redações afirmam condições necessárias ao desenvolvimento social, cultural, econômico
e outras formas que concretizem a dignidade humana sem distinções. A partir da
perspectiva humana trabalhada nos documentos, esta proposta de artigo questiona
como esses direitos são direcionados ás mulheres negras, a partir das categorias de
gênero e raça, considerando as diferentes opressões que as atingem. Neste sentido,
pretende compreender qual é a construção de humanidade atribuída a esse grupo social.
Enquanto categorias, gênero e raça, não serão analisados de maneira isolada e sim
entrelaçados. Para tal análise iremos nos apropriar do conceito de interseccionalidade
trabalhado por Kimberlé Creshaw (2002) teórica que discute como diferentes estruturas
de poder atuam sob a vida de grupos marginalizados socialmente tornando visíveis
violências silenciadas. Como demarcador de espaço e tempo discutiremos a situação
detrabalho formal, compreendido aqui como atividade profissional regida por leis
trabalhistas, das mulheres negras no Brasil diante a legislação contemporânea como
garantia de dignidade e direitos humanos deste segmento populacional. Além do
conceito de interseccionalidade faremos uso da concepção de sistema mundo
moderno/colonial analisado por Aníbal Quijano (2000) como colonialidade do poder a
partir da dominação, exploração e conflito da população mundial classificados
socialmente a partir da categoria de raça. Essa colonialidade é trabalhada por María
Lugones (2008) como colonialidade de gênero entendida como “la opresión de género
racializada y capitalista” (LUGONES, 2010, 9.110) dentro do sistema mundo
moderno/colonial. Diante de múltiplos marcadores de violência que se intercruzam a
crítica produzida pelos feminismos latinos americanos, precisamente os feminismos
negros, são pertinentes e se mostram dissidentes ao pensamento do feminismo
hegemônico pautado no binômio eurocentrismo-branquitude que além de isolar as
categorias de opressão, as universaliza.TRICIEL

Palavras-chave: Direitos Humanos; Interseccionalidades; Colonialidade do Poder;


Colonialidade de Gênero; Feminismo Negro.

59
O HOMICÍDIO PASSIONAL PRATICADO CONTRA AS MULHERES
E A INFLUÊNCIA DO SEXISMO COLONIAL NO BRASIL

Goreth Campos Rubim


Suzane Oliveira da Cunha Lima

Durante muito tempo no Brasil o adultério, em especial o feminino, foi considerado


como um ato criminoso, no qual o homem que se sentisse traído por sua esposa poderia
lavar a sua honra com o sangue adultera e de seu amante, conforme determinação do
conjunto de leis que compunham as ordenações Filipinas, no qual Portugal e suas
colônias estavam sujeitas. Observa-se que com essas leis, dividia-se bem o papel do
homem e da mulher na sociedade, bem como seus espaços e relação de poder e
submissão entre eles, tanto que era permitido o uso da vingança privada. O homicídio
passional praticado contra as mulheres durante muitos anos foi aceito na sociedade
brasileira, em decorrência da forte cultura sexista e patriarcalista reinante, que considera
a mulher como objeto e propriedade de seu companheiro, sobre a qual tem direito de
vida e de morte. Em decorrência dessa situação, uma grande quantidade de mulheres
brasileiras foram e ainda vem sendo mortas por seus parceiros, notadamente por conta
do ciúme exacerbado e pela não aceitação do término de uma relação amorosa ou pelo
novo papel social da mulher. Diante de tal fato, pergunta-se: a prática de homicídio
passional praticado contra mulheres no Brasil sofreu forte influência do sexismo
colonial? Essa realidade que configura clara violação dos direitos humanos e ao princípio
da dignidade da pessoa humana, fundamentou-se inicialmente no título XXXVIII do
Livro V das Ordenações Filipinas que permitia que os homens que descobrissem o
adultério por parte de suas esposas, as matassem. O objetivo deste estudo é descrever as
mudanças havidas na legislação brasileira no tocante à situação da mulher enquanto
sujeito passivo do crime passional, avaliando a influência do sexismo colonial na pratica
de homicídios contra as mulheres nos dias de hoje. A metodologia aplicada é a pesquisa
bibliográfica e analítica buscando conhecer o sexismo e a sua influência nas mortes
femininas praticadas por seus parceiros. Os resultados apontam que, não obstante o
avanço na legislação, a situação de submissão e violência sofrida pela mulher permanece
em patamares inaceitáveis.

Palavras-chave: Homicídio passional; Patriarcalismo; Sexismo; Dignidade da pessoa


humana.

60
FEMINISMO CONTRA HEGEMÔNICO E O CAMINHO PARA O
DESPATRIARCALISMO SOCIAL: UMA PERSPECTIVA DO
FEMINISMO DESCOLONIAL

Tricieli Radaelli Fernandes


Bárbara Alves Saikoski

Parte-se da compreensão de que o feminismo hegemônico não consegue ampliar seus


horizontes para os diversos significados que possui a palavra “mulher”, pois ele está
impregnado pelo padrão constituído através do colonialismo europeu de gênero/raça.
Sendo assim, este não viabiliza direitos para mulheres não-brancas, não-heterossexuais,
não-europeias, não-cissexuais, não-burguesas, ignorando o fato de que foi através da
luta destas mulheres subalternizadas que não se encaixam no estereótipo europeu que
os direitos das demais foram adquiridos. Isso mostra o quanto o movimento feminista,
que deveria amparar a luta de todas as mulheres, torna-se extremamente
segregacionista, enquanto não ampara a luta das mulheres negras e outras que não
estejam no padrão colonial europeu, perpetuando o racismo e outros preconceitos
deixados como herança do período colonialista. Usufruindo desse conceito colonial, o
patriarcalismo se finca na sociedade de maneira aguda, tornando muito plausível o
debate sobre o desempenho do estado, do ordenamento jurídico e do poder legislativo
na criação e implementação de leis e políticas públicas para as mulheres. Assim, uma
perspectiva de feminismo descolonial, vem como mecanismo para desconstruir os
paradigmas, tanto do feminismo hegemônico, quanto do patriarcalismo penetrado nas
múltiplas facetas sociais, buscando lutar contra todas as formas de opressão e
subalternização sofridas pelas mulheres, bem como romper com o obscurantismo que
permeia os assuntos referentes a igualdade de gênero/raça, trazendo a luz discussões
sobre as armas usadas pelo patriarcado para reprimir as mulheres, e a falta de
representatividade nas esferas públicas, objetivando romper com o machismo
institucional que consiste uma ampla violação de direitos humanos. No presente
trabalho, elegeu-se como método, o método analético (ana-lético ou ana-lialético), como
um método que tem como ponto principal, partir do outro totalmente livre, do outro,
estando além do sistema da totalidade. Com o uso do método analético, busca-se a
possibilidade de compreensão do outro como exterioridade do sistema, para além da
totalidade que o consagra como outro, como excluído, aqui, a mulher subalternizada –
latina, negra, índia, etc. Em vista disso, analisa-se que da mesma maneira que o
feminismo hegemônico traz os ideais de igualdade para as mulheres, tal igualdade é
privilégio de apenas algumas mulheres, e essa problemática traz algumas premissas
para o patriarcalismo social, ao qual está estabelecido nos mais diversos nichos da
sociedade. Desse modo, constata-se um entrelaçamento entre esses aspectos e que o viés
colonial é uma herança europeia que se faz extremamente presente em nosso meio,
reforçando os moldes de disparidade entre os gêneros. Portanto, frisa-se essencial o
debate e a percepção dos aspectos de repressão feminina na coletividade. Pois, mesmo
depois de anos de colonialismo, ainda nos encontramos arraigados por muitos valores
deixados por esse período. Dessa maneira, por ser um tema latente, observa-se como

61
esses debates são de suma importância para a concretização do pensamento de
igualdade, justiça e democracia.

Palavras-chave: Colonialismo; Feminismo; Contra hegemônico.

62
A EDUCAÇÃO NO/DO CORPO: NEGRO E FEMININO

Joanna de Ângelis Lima Roberto


Eliane Almeida de Souza e Cruz

Na maioria das Culturas Africanas o corpo é livre, vivo e se expressa de diversas formas,
as danças tem um balanço todo especial, o movimento dos quadris, seios, coxas,
imprimem muita sensualidade bem diferente das danças de origem européia,
engessadas, limitadas, sem um aparente prazer, um verdadeiro choque cultural.
Podemos perceber que os diferentes tratamentos que se direciona ao corpo,varia de
cultura para cultura. Corpo está longe de ser algo apenas biológico, ele pode ser
discutido também assentado em aspectos da antropologia social, ou seja, “ o corpo é
expressão da Cultura, portanto cada cultura vai expressar diferentes corpos, porque se
expressa diferentemente como cultura (KOFES,1985, apud Daolio, 2006, p. 21). O corpo
aprende e é a sociedade que lhe ensina o que é necessário a cada momento histórico, ele
está inserido e moldado para ela. Podemos observar as representações do corpo da
mulher, e de cada mulher, em diversos momentos na nossa sociedade. Essa comunicação
tem o objetivo pensar os constructos epistêmicos do/sobre o corpo negro feminino
(CARDOZO, 2008); (GONZALES, 2008); (SANTOS, 2009), no Brasil, a escravização
desses corpos físicos, além de provocar uma violência concreta, se desdobrou na
violência simbólica (BOURDIEU, 1989), pois o Brasil tem violado o direito das mulheres
negras utilizando-se de seu trabalho e apropriando-se de seus corpos (SANTOS,
2009:278), além de compreender as diferenças educacionais que as mulheres obtiveram,
e quais foram direcionada aos homens. As desigualdades vivenciadas, construídas social
e historicamente são naturalizadas, sendo assim, as experiências que meninas e meninos
vivenciam desde o nascimento perpassando o período de escolarização, influenciam a
educação de seus corpos em diversos aspectos se levarmos também em consideração
pertencimentos além do gênero como raça/etnia, classe, religião etc., sendo
fundamentada muitas vezes no currículo escolar. Assim, podemos perceber que há uma
legitimidade de violência ao corpo negro-feminino, no âmbito escolar e seu
desdobramento no cotidiano.

Palavras-chave: Corpo; Mulher-Negra; Educação do Corpo.

63
A MULHER INDÍGENA COMO SUJEITO DE DIREITOS HUMANOS:
REFLEXÕES SOB A ÓTICA DO FEMINISMO DECOLONIAL
LATINO-AMERICANO

Lizia de Oliveira Carvalho

Este artigo revisa e atualiza discussões teóricas acerca de como se constituem


conceitualmente os direitos humanos, especialmente no que se refere ao conceito de
sujeito dos direitos humanos. Acompanha sua ressignificação, usando como recorte a
mulher, especialmente a mulher indígena, como sujeito de direitos humanos e como o
feminismo decolonial latino-americano tem buscado a efetivação de seus direitos. O
enfoque deste trabalho é relacionar a participação política de mulheres Yawalapiti,
moradoras do Alto Xingu, e de mulheres Aymara.

Palavras-chave: Feminismo indígena; Feminismo Decolonial; Direitos Humanos.

64
UMA ABORDAGEM FEMINISTA PÓS-COLONIAL AO TRÁFICO
INTERNACIONAL DE MULHERES NA FRONTEIRA PAN-
AMAZÔNICA

Brenda Moreira Marques


Brenda Thainá Cardoso de Castro

No bojo do debate sobre o tráfico internacional de mulheres na América Latina, o


presente artigo investiga as rotas contemporâneas que se articulam nas fronteiras
Amazônicas no decorrer do século XXI, identificadas a partir de uma pesquisa
documental envolvendo dossiês, relatórios de ONG’s e Organizações Internacionais.
Com efeito, analisa-se o fenômeno através de uma abordagem feminista pós-colonial,
uma vez que as mulheres do Sul Global, as principais vítimas da prática, tem suas
subjetividades e vozes silenciadas em diferentes dimensões pelo discurso (feminista)
hegemônico atrelado às produções acadêmicas ocidentais. De um modo mais preciso,
uma leitura feminista pós-colonial do tema se faz necessária, a medida em que enfatiza
as produções subalternas e as especificidades as quais as mulheres do Sul Global estão
sujeitas, desconstruindo, portanto, as visões dicotômicas que definem essa diversidade
de mulheres como sujeito monolítico, frequentemente, na condição de “Outras”,
vitimizadas e/ou a caminho de uma posição mais “civilizada”. Por outro lados, são
levadas em conta as marcas históricas trazidas pelo imperialismo, colonialismo,
capitalismo, racismo e opressão, os quais em diferentes níveis, a depender do contexto e
recortes identitários, sustentam estereótipos culturais e vulnerabilidades sociais na vida
de muitas mulheres. No caso do tráfico internacional para fins de exploração sexual na
região, as marcas de colonialidade transitam entre as fronteiras dos países amazônicos,
ancoradas em noções de exotismo, hipersexualização, objetificação, selvageria,
racialização e violência, marcadores capazes de influenciar as relações sociais das
mulheres em seu país de origem e no país de destino. Por fim, o trabalho avalia a
possibilidade de as rotas internacionais reproduzirem a exploração ocorrida no passado
colonial da região, visto que mulheres latino-americanas compõem uma força de
trabalho na lógica dos mercados do sul ao norte global.

Palavras-chave: Tráfico de Mulheres; Feminismos pós-coloniais; Amazônia.

65
MULHER E DEMOCRACIA NO BRASIL: SOBRE OS TRAJETOS DE
COLONIALIDADE, GÊNERO E PATRIARCADO

Fernando da Silva Cardoso


Daniel Carneiro Leão Romaguera

O presente estudo discute o processo de redemocratização brasileiro a partir de uma


perspectiva pós-colonial e de gênero. Articula-se, a partir da análise crítica do discurso,
as dimensões da colonialidade, das violências de gênero e do patriarcalismo que
perfazem o pós-conflito no Brasil. Através das reflexões de Aníbal Quijano, Walter
Mignolo, Catherine Walsh, María Lugones, entre outros, procura-se desbravar os trajetos
de colonialidade. Os resultados obtidos nesta pesquisa assinalam para o processo de
despersonalização do gênero feminino no período da ditadura civil-militar no Brasil. A
análise dos discursos também aponta para a presença de marcadores patriarcais,
coloniais e de diferenciação enquanto elementos presentes na construção da categoria
“gênero”, nas práticas de tortura e opressões direcionadas a figura feminina nesse
período. Conclui-se que a reconstrução do quadro democrático no Brasil tem
invisibilizado a participação política e os processos de resistência protagonizados por
mulheres.

Palavras-chave:Mulher; Democracia; Discurso; Colonialismo; Patriarcado.

66
UM OLHAR DESCOLONIAL NA ANÁLISE DA CULTURA DO
ESTUPRO FOMENTADA PELO FUNK NO SUDESTE BRASILEIRO

Ana Carolina Rocha Souza Ramos


Patricia Maria dos Santos
Renata Bravo dos Santos

Ao pensar em “direitos das mulheres”, é imprescindível que seja considerada a


pluralidade do grupo que deve ser salvaguardado – o universalismo e o essencialismo
constituem violações graves no contexto da sociedade hodierna. Cada interseccional
merece ser analisada através de uma lente específica, que seja fiel às suas
particularidades. Os estudos de gênero, quando à luz da descolonialidade, rejeita o
padrão único colonial, eurocêntrico, e, permitidos, voltam-se à criação de soluções para
as demandas feministas latino-americanas, indígenas e negras, a título de exemplo. A
cultura do estupro, no Brasil, vulnera, especialmente, a mulher favelada da Região
Sudeste, nascida e criada em um contexto cuja projeção de papel social é refletida dentro
do gênero musical funk. A construção musical quase que reifica a mulher, sexualiza seu
corpo e reproduz mecanismos de dominação do patriarcado, sendo, dentre eles, o mais
grave a cultura do estupro. As vítimas encontram no funk a única forma de manifestação
cultural válida neste ambiente e, por ser este o seu capital, submetem-se quase que
indefesamente à repetição e promoção do conteúdo. Movimentos feministas e políticas
públicas não descoloniais ignoram as condições sociais, culturais, regionais, raciais, entre
outras, às quais estão submetidas essas mulheres e não atingem a possibilidade de
criação de consciência crítica, tampouco a necessidade de diminuição dos índices de
estupros de mulheres. A partir do uso das técnicas de pesquisa bibliográfica, bem como
análise de dados e letras de funk, este artigo pretende demonstrar como e porque a
comunidade feminina de dentro das favelas do Sudeste brasileiro, cuja base da formação
cultural é o funk, estão especialmente expostas à cultura do estupro e, em razão disso, à
existência de uma necessidade imperiosa de aplicação de um olhar descolonial, não
universalista, na busca pela promoção de seus direitos e garantias fundamentais, sob um
olhar dialético.

Palavras-chave: Cultura do Estupro; Funk; Descolonialidade; Feminismo.

67
O FEMINISMO DESCOLONIAL E O PENSAMENTO
DESCOLONIAL: DESAFIOS DENTRO DO DIÁLOGO DOS
DIREITOS HUMANOS

Êmily de Amarante Portella


Maira Russo Peres

Não existe epistemologia neutra. Apesar disso, a partir do advento e instituição da


modernidade e da colonialidade, os saberes ocidentais passam a ser o único tipo de
conhecimento considerado válido, enquanto conhecimentos oriundos no sul metafórico
passam a ser tratados como conhecimentos outros, objetos de estudos da verdadeira
ciência, reduzidos a apenas tradições locais e fenômenos culturais. Neste contexto,
grandes esforços têm sido feitos para se justificar a existência de direitos humanos,
inerentes à natureza humana, através desse conhecimento hegemônico ocidental,
através de suas filosofias naturalistas, utilitaristas e lógica capitalista moderna. Na
prática, podem-se identificar nos direitos humanos aspectos que não têm origem nem
justificativa dentro da epistemologia modernidade ocidental. Dentro de um conceito de
interculturalidade, de uma tentativa de discussão horizontal entre os diferentes saberes,
houve importantes contribuições desses saberes outros e epistemologias, na formação
da atuação dos direitos humanos como são praticados hoje. É possível identificar no
Sistema Internacional de Direitos Humanos essas intervenções que buscam descolonizar
a teoria e a prática dessa instituição. Uma destas intervenções teórico-práticas é o
feminismo descolonial, que busca descontruir a universalização da categoria mulher
dentro da lei internacional de direitos humanos. A modernidade trata categorias de
pessoas como fechadas e não inter-relacionadas, sem intersecção entre as diferentes
formas de opressão e colonização que o capitalismo moderno mundial carrega. A
universalização da categoria mulher acaba por contribuir para a desqualificação de
diferentes experiências e formas de se ser mulher, sendo, portanto, importante
ferramenta para a manutenção dessa forma de poder e colonização dos corpos e vidas
de mulheres que não estão representadas inteiramente dentro dessa categoria. Dessa
forma, o objetivo desse trabalho é expor e identificar, dentro do pensamento descolonial,
diferentes formas em que algumas linhas do feminismo que se identificam como
descolonial dialogam com os direitos humanos e entre si. Pretende-se, também, expor
como as influências da modernidade e da colonialidade afetam a inserção de seus
saberes na lei internacional dos direitos humanos e o quão aberta é esta instituição para
a interculturalidade.

Palavras-chave: Direitos humanos; Feminismo Descolonial; Interculturalidade;


Pensamento Descolonial.

68
SOB A PERSPECTIVA DAS VENCIDAS DA HISTÓRIA:
ESCOVANDO A CONTRAPELO AS NARRATIVAS
HISTORIOGRÁFICAS 64-85 NO BRASIL

Maria Carolina Fernandes Oliveira

Os. Eles. Homens. A história, nos livros e no imaginário social, está repleta de
substantivos masculinos representando homens heróis, guerreiros e protagonistas. Por
outro lado, pouco se escreveu e pouco se conhece sobre os substantivos femininos que
protagonizaram lutas e mudanças sociais. Ausente a intenção de desvalidar as
construções teóricas e as conquistas sociais já registradas, não podemos observar tal
discrepância entre o número de personagens masculinos e femininos e inferir ser mera
coincidência. É necessário escovar a história a contrapelo, destrinchando nas lutas sociais
o protagonismo das vencidas da história. Portanto, partindo de um período específico,
é este o problema aqui enfrentado: a invisibilização das mulheres nos processos de lutas
no Sul global, especificamente, durante a ditadura civil-militar no Brasil – momento em
que as resistências femininas muito se destacaram no país, reivindicando questões que
perpassaram desde movimentos contra o custo de vida até as reivindicações por creches,
por liberdade política e pelo direito básico à saúde. Nessa época, as várias organizações
de mulheres deram origem a clubes de mães, associações, comunidades eclesiais de base,
formação estudantil, partidária e sindical, contrariando os estereótipos atribuídos às
mulheres da época: passivas, submissas, donas-de-cozinha.
Tendo em vista o objeto pesquisado, a metodologia consistiu em investigações teóricas,
sob uma perspectiva periférica, a partir da articulação de textos feministas, marxistas,
marxianos e da teoria crítica, objetivando realizar uma contribuição ao pensamento
crítico do Direito.
Feita tal cama empírica a contrapelo do que dizem os vencedores da história (homens,
brancos, heterossexuais, proprietários), pode-se focar na interpretação da dialética de
transformação dessas manifestações em 1960 e 70, que deixaram de vindicar questões
específicas e tornaram-se, em 1980, lutas constitucionais – movimentos de resistência que
buscavam o protagonismo na elaboração da nova Constituição Brasileira. Em vias de
exemplos concretos, estão organizações essenciais no processo de reabertura política,
todos encabeçados por mulheres: Movimento pela Anistia (1978), Luta por Creches
(1979), Congressos da Mulher Paulista (1979, 1980, 1981), cujas decisões subsidiaram o
processo da Constituinte.
Como conclusão, esse breve resgate histórico mostra o quanto é necessário reescrever as
narrativas historiográficas, dando luz a movimentos reais de resistência e luta.
Especificamente sobre o período destacado, tais movimentos foram responsáveis pela
proteção de inúmeros direitos e garantias, e pela formação de uma Constituição
preocupada com questões sociais, civis, comportamentais e individuais que nunca antes
haviam encontrado guarida no Direito brasileiro.

Palavras-chave: Feminismo Periférico; Marxismo; Decolonialismo; Resistência.

69
MÃE: DE OBJETO A SER LIVRE

Bruna Nogueira Machado Morato de Andrade


Plínio Antônio Britto Gentil

Parte-se da ideia contida em Enrique Dussel, no livro “Liberacion de la mujer y erotica


latinoamericana” (p. 21), de que a mulher na situação milenar de opressão é primeiro
objeto, segundo, mãe e educadora de filhos, terceiro, ama de casa, e, por último, é por
mediação do homem. Consoante tal ideia, soma-se a de Elisabeth Badinter, onde se tem
o mito do amor materno (livro homônimo) e do desejo ‘natural’ que toda mulher tem
(ou deveria ter) de ser mãe e amar essa função. Tem-se por objetivo que o presente artigo,
com base na filosofia da libertação, nascida na América Latina, e com autores
pesquisados também desta região, mostre parte da relação entre opressão-maternidade-
feminismo no atual cenário do século XXI. De acordo com referidas ideias, há o escrito
por Joaquín Herrera Flores, em seu “De habitaciones propias y otros espacios negados
(una teoria crítica de las opresiones patriarcales)”, em que cita o analisado por Henrik
Ibsen, em 1878, que: “[...] pero la mujer es juzgada em la vida práctica según la ley del
hombre, como si no fuera una mujer, sino um varón”. Dessa forma, busca-se ratificar
que normas, garantias feitas pelos homens – no sentido de gênero – para as mulheres em
relação à igualdade não têm como ser efetivas, ainda mais em relação à maternidade,
posto analisadas através de um ponto de vista primordialmente que não o delas próprio.
Quais possibilidades podem ser exploradas para que não apenas seja entendido que não
há igualdade entre mulheres e homens, ainda mais quando se é mãe, mas sim
demonstrados que os mecanismos ofertados – tal qual a igualdade alcançada perante a
Constituição Federal de 1988 – não são suficientes para assegurá-la? Como, no atual
cenário dantesco de retrocesso quanto a direitos arduamente conquistados, avançar? A
metodologia será fundamentada mediante levantamento bibliográfico. Serão utilizados
como métodos científicos principais o dialético materialista – discussão discursiva – e o
hipotético-dedutivo, além dos métodos histórico e comparativo como auxiliares.

Palavras-chave: Feminismo; Maternidade; América Latina; Filosofia da Libertação.

70
A VULNERABILIDADE DA MULHER SELECIONADA PELO
SISTEMA PENAL NO BRASIL

Samira Pereira da Costa

O presente trabalho possuiu como objetivo, primeiramente, analisar as condições nas


quais se desenvolvem as relações entre mulheres e o poder punitivo do Estado sob uma
perspectiva feminista, demonstrando como o caráter patriarcal e colonial do Sistema
Penal brasileiro tem forte influência na realidade caótica de encarceramento feminino
massivo. Em um segundo momento, tencionou-se expor as razões sociais para que o
tema ocupe, com maior proporção, o ambiente acadêmico, com fins de levantar
discussões sobre a urgente necessidade do desencarceramento feminino. Para tanto, fez-
se necessário um levantamento histórico que colaborasse na caracterização dos meios
pelos quais se deu a inserção da mulher no Sistema Penal nos países centrais e,
consequentemente, no Brasil. Após, através de dados fornecidos pelo Ministério da
Justiça, a Superintendência de Serviços Penitenciários do Rio Grande do Sul, órgãos
ligados a movimentos sociais, bem como informações colhidas in loco na Penitenciária
Estadual de Rio Grande/RS e no Presídio Regional de Pelotas/RS, pôde-se verificar as
características das mulheres encarceradas no Brasil e as condições nas quais as mesmas
se encontram dentro dos estabelecimentos prisionais. Tem-se que o método
predominante neste projeto foi o indutivo, através do estudo de casos concretos e análise
da legislação vigente, além de seus efeitos jurídicos e sociais. Além disso, evidenciou-se
a necessidade da pesquisa documental para uma abordagem quantiqualitativa dos
dados a serem estudados, com o objetivo de analisar resultados e melhor entender a
realidade de vulnerabilidade social na qual estão inseridas as mulheres selecionadas
pelo Direito Penal Brasileiro. Observou-se que a existência de instrumentos legais que
garantam direitos às mulheres presas de acordo com suas especificidades de gênero e
sexo ainda não bastam para a efetivação dos mesmos, assim como se faz necessária a
implementação de políticas públicas próprias para a realidade do encarceramento
feminino, como forma de minimizar a supressão dos direitos humanos das mulheres
inseridas nesse contexto.

Palavras-chave: Mulher; Encarceramento; Prisão; Direitos Humanos.

71
JUSTIÇA RESTAURATIVA ATRAVÉS DA CRIMINOLOGIA
FEMINISTA

Maysa Carvalhal Dos Reis Novais

O presente artigo se propõe a desenvolver através da observação dos marcos teóricos a


perversidade da seletividade penal no tratamento de crimes de gênero, ressaltando a
falência de suas funções declaradas em contraposição a formas não-institucionalizadas
de resolução de conflitos, compreendendo a opressão de mulheres através de processos
combinados de racialização, colonização e exploração capitalista no âmbito da
ritualística penal, identificada como instrumento animado das relações de poder.
Ademais, pretende demonstrar como o processo restaurativo pode desempenhar papel
importante na reconstrução da dignidade dos sujeitos e superação dos traumas sem
sucumbir aos paradigmas do castigo, do inimigo e da exclusão do fator subjetivo da dor.
Nesse sentido, partindo da violência contra a mulher e do modo como a seletividade do
sistema penal conjugada à moral sexual é reflexo da lógica patriarcal das estruturas
jurídicas, apresenta-se a modelo restaurativo como alternativa de fuga à didática
punitivista como resposta reparadora do crime. O estudo de uma criminologia feminista
decolonial é uma demanda que urge dos movimentos sociais de mulheres que hoje já
vislumbram minimamente a falência do sistema carcerário e a necessidade de
ressignificar pedagogicamente os conflitos entre homens e mulheres a ponto de dar
conta da desconstrução de hábitos opressores e que a prisão não consegue reformar.

Palavras-chave: Justiça restaurativa; Criminologia; Feminismo decolonial.

72
OLHARES E EXPERIÊNCIAS DAS TRABALHADORAS DO SEXO
SOBRE O ESTUPRO E SISTEMA DE JUSTIÇA CRIMINAL EM
FRANCA-SP

Marcela Dias Barbosa

Este trabalho pretende investigar a (des)proteção institucional oferecida às trabalhado


ras do sexo, em Franca-SP, a partir de suas experiências com a violência sexual ou
estupro. Estudos empíricos desenvolvidos sobre a violência sexual e o estupro, no Brasil,
principalmente quando mediadas pelas instituições, revelam dificuldades no
reconhecimento de uma violência ou de uma violação contra a liberdade sexual das
mulheres. (PIMENTEL; SCHRITZMEYER; PANDJIARJIAN, 1998). Tanto no campo
jurídico como nos espaços de sociabilidade, quando se trata de um crime sexual, ainda
predomina o imaginário vinculado ao julgamento da reputação sexual, comportamento,
vida pregressa ou status familiar das mulheres, o que deve ser somado ao tratamento
dispensado às trabalhadoras sexuais, pessoas que além das consequências vivenciadas
em razão da violência perpetrada, devem se deparar com o estigma construído sobre
suas profissões. A perspectiva adotada será a do Feminismo “Transnacional” ou de
“Terceiro Mundo” que Kamala Kampadoo (2005, p. 61) define como “discurso e como
prática que emergem das interseções de relações de poder estatais, capitalistas,
patriarcais e racializadas com a operação de atuação e desejos das mulheres darem forma
às próprias vidas e estratégias de sobrevivência e vida”. Almeja-se uma leitura que
ultrapasse os estigmas capazes de anular socialmente as trabalhadoras do sexo ou a
violência simbólica ao negar-lhes a sua atividade, sua condição ou dignidade de
trabalho. Portanto, o aprofundamento no conteúdo das falas das trabalhadoras sobre sua
autonomia, direitos, a violência sexual, o estupro e as intermediações do Sistema de
Justiça, mostrou-se uma técnica metodológica fundamental para descortinar relações de
poder e praticar a escuta de mulheres que foram sistematicamente esquecidas. A escolha
por entrevistas semi-estruturadas permitiu a centralidade das narrativas das
trabalhadoras sobre os aparatos judiciais e não o contrário, tendo em vista um contexto
estruturado para que seja restrito o seu acesso à justiça e, em variadas circunstâncias,
ignoradas ou repetidas as violações perpetradas contra si.

Palavras-chave: Trabalhadoras do sexo; Estupro; Violência Sexual; Sistema de Justiça


Criminal; Feminismo Transnacional.

73
NATUREZA, TRABALHO E DIREITOS NA
AMÉRICA LATINA: EM BUSCA DE
ALTERNATIVAS
AS PRECARIEDADES SOCIAIS PRODUZIDAS PELO
DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO: O PROTAGONISMO DO
CATADOR DE LIXO NA CONSTRUÇÃO SOCIAL DO DIREITO AO
TRABALHO E AO BEM VIVER

Maria Aparecida Vieira Albano Ferreira


Gabriel Eduardo Schütz

Este resumo objetiva ressaltar o protagonismo histórico dos trabalhadores(as) da catação


de lixo e as experiências do coletivo de catadores(as) sob o arranjo de cooperativas, na
perspectiva da construção do direito ao trabalho e ao bem viver em Volta Redonda-RJ.
No campo do reconhecimento do direito ao trabalho suas reivindicações se
consubstanciam em um amplo conjunto de instrumentos jurídicos, dentre os quais se
destacaram a Lei 12.305/2010 que instituiu a Política Nacional de Resíduos Sólidos; o
Decreto nº 7.404/2010 que a regulamentou e criou o Comitê Interministerial da Política
Nacional de Resíduos Sólidos e o Comitê Orientador para a Implantação dos Sistemas
de Logística Reversa. Cabe mencionar que o Decreto nº 7405/2010 instituiu o Programa
Pró-Catador e, a partir deste, associou a variável econômica à questão social dos
catadores de lixo. As cooperativas de catadores de recicláveis surgiram de clivagens de
lutas empreendidas nos contextos nacional e regional. No nível local este rebatimento se
expressou pela sua inserção no Movimento Social em Volta Redonda-RJ. Com base no
referencial empírico buscou-se, de um lado, identificar e problematizar se a potência da
luta dos movimentos sociais, historicamente capaz de acolher e apoiar o rompimento da
naturalização das condições de invisibilidade pode, no atual momento político,
contribuir para produzir e sustentar alternativas à exclusão socioeconômica dos
catadores/as de lixo em Volta Redonda-RJ? De outro lado, lançou-se mão dos
referenciais teórico-conceituais de “exclusão” e “inclusão” à luz das reflexões de
Forrester, V (in: O Horror Econômico,1997), e em Moreno, A (1995: 88-94, in A
colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais, Perspectivas latino-americanas.
Lander, E. (Org.,2005) e de “bem-viver” em Quijano, A (Des/colonialidad y bien vivir.
Un nuevo debate en América Latina, 2014), como aportes fundamentais ao entendimento
da realidade das condições de trabalho e de vida “no ofício” da catação de lixo. As
questões de fundo teórico problematizadas enfocaram os conceitos de “inclusão” e de
“exclusão”; quem fala, o lugar de onde se fala e para quem se fala? Para tal alcance a
metodologia aplicada, de cunho descritivo-analítico, se constituiu a partir de revisão
bibliográfica dos elementos conceituais temáticos e de fundamentação teórica
pertinentes aos objetivos do artigo. Para tal foram utilizados materiais como livros, teses,
dissertações, artigos científicos e informes técnicos digitais da web, de forma a se
considerar diversos pontos de vista relacionados ao tema. Os resultados passaram pela
análise da lógica do pensamento descolonial tomados como relevantes para a reflexão
da realidade de vida e conquistas deste coletivo e da sociedade, como contribuição aos

75
processos de lutas, essenciais a novas inspirações e construções coletivas de cidadania.
Em outras palavras, se problematiza como esse trabalhador se percebe e vem transitando
da condição de trabalhador socialmente invisibilizado e economicamente marginal,
agora alçado à condição de cidadão dada a sua “inclusão” na Política Nacional de
Resíduos Sólidos-PNRS (Brasil,2010)? Os arranjos soioeconômicos e políticos
denominados cooperativas de trabalho são, de fato, alternativas à exclusão-inclusão dos
catadores de recicláveis, considerando o atual modelo capitalista de produção?

Palavras-chave: Cooperativa; Inclusão/exclusão socioeconômica; Direito ao trabalho.

76
O REPENSAR DA PROTEÇÃO AMBIENTAL A PARTIR DA
SOCIOBIODIVERSIDADE

Mônica Michelotti Loureiro

O Brasil é um país rico em biodiversidade, ou seja, a variabilidade de espécies


influenciam nas relações ecológicas dos organismos com o meio ambiente. Entretanto,
essa diversidade não se restringe apenas ao aspecto biológico, mas também a cultura
humana do povo brasileiro e da América Latina. Entretanto, quanto maior a abundância
da diversidade também serão maiores os problemas socioambientais a serem resolvidos
juridicamente. No presente trabalho objetiva-se analisar qual o papel do direito ao
regulamentar a proteção da biodiversidade em países megadiversos como o Brasil. Para
tanto, se verificará como é o sistema brasileiro de Unidades de Conservação. Por fim, se
verificará como este sistema se insere dentro de um paradigma que vá além da
segregação homem-natureza e quais as possibilidades para a construção de medidas
capazes de sedimentar esse novo paradigma. Assim, questiona-se se ao tratar de áreas
protegidas o direito posto brasileiro consegue pensar a proteção da biodiversidade
através de um olhar socioambiental? Afinal, em um país repleto de biodiversidade o
direito ao almejar proteger o meio ambiente não deveria simultaneamente construí-lo
para além de uma natureza intocada? Não há dúvida que para a busca dessas respostas
será imprescindível a análise da legislação atual, mas sobretudo, um olhar para além do
direito, que busca respostas na multidisciplinariedade de sistemas, verificando-se a
inter-relação da pessoa humana com a natureza. Quanto à metodologia, tem-se a Teoria
de base e abordagem a perspectiva sistêmico-complexa. O procedimento consistirá em
pesquisa bibliográfica e análise documental, os quais serão utilizados para compreender
o tema da pesquisa, bem como para se atingir os objetivos propostos. Portanto, a técnica
de pesquisa utilizada consistirá na elaboração de fichamentos e resumos expandidos.
Por fim, verifica-se que em que pese o paradigma oriundo da modernidade ocidental,
ainda vigente, é possível à construção de instrumentos legais que demonstrem a
reconciliação entre a proteção da biodiversidade e a participação humana na
conservação do meio ambiente, através da agrobiodiversidade, desde que juntamente
com a construção de uma consciência socioambiental.

Palavras-chave: Sociobiodiversidade; Conservação do meio ambiente; Unidades de


conservação.

77
AS PROMESSAS DO DESENVOLVIMENTO E A REJEIÇÃO À
MINERAÇÃO: A RIO GRANDE MINERAÇÃO EM SÃO JOSÉ DO
NORTE

Gabriella Rocha de Freitas

A partir do final da década de 1990, a eleição de presidentes de partidos de


centroesquerda na América do Sul marcou mudanças profundas na atuação do Estado.
Em comum entre esses países, destaca-se o retorno de um Estado forte e condutor do
processo de desenvolvimento tendo a exportação de produtos primários como a
principal estratégia de crescimento econômico. Destaca-se também o reconhecimento da
necessidade de um papel atuante do Estado perante a problemática da pobreza. Nesse
contexto, a ênfase no extrativismo apresenta-se associada ao financiamento de
programas de combate à pobreza, juntamente com um desenvolvimento concebido
como sinônimo de crescimento econômico. A redução da pobreza justificaria o retorno
financeiro de um desenvolvimento de base primária, com pouca industrialização, baixa
geração de empregos e altos impactos sociais e ambientais. Em São José do Norte,
município localizado Rio Grande do Sul, está em processo de licenciamento ambiental a
instalação da empresa Rio Grande Mineração. Essa localidade possui 26.290 (FEE, 2014)
habitantes e uma economia baseada na agricultura familiar - principalmente
monocultura da cebola – e na pesca artesanal. O principal argumento mobilizado para a
aceitação do empreendimento é o fomento ao desenvolvimento numa localidade tida
por atrasada por seus habitantes. Entretanto, apesar do forte desejo pelo
desenvolvimento, a população rural rejeita a atividade minerária. Dessa forma, o
trabalho pretende responder a seguinte pergunta: quais são as motivações dos atores do
meio rural para rejeitarem tal empreendimento, apesar da promessa e do desejo por
desenvolvimento? Foram realizadas 30 entrevistas semiestruturadas com lideranças do
meio rural com destaque em associações comunitárias. Também foi analisada a
transcrição da audiência pública referente ao projeto de mineração realizada no
município. Identificou-se que a rejeição à mineradora se deve à preservação do principal
meio de subsistência desses atores, assim como à manutenção do modo de vida no meio
rural, motivos pelo quais as indenizações propostas pela mineradora são rechaçadas a
despeito das dificuldades financeiras enfrentadas.

Palavras-chave: Desenvolvimento; Extrativismo; Impactos Ambientais.

78
A VIOLÊNCIA EPISTEMIOLÓGICA NA NARRATIVA DO DIREITO
DO TRABALHO: O QUE HÁ POR TRÁS DO DISCURSO?

Maíra Neiva Gomes


Laura Alves de Oliveira

Sabe-se que nas ciências humanas e sociais, a estrutura da concepção de Estado moderno
se deu sob o prisma europeu, que é essencialmente colonialista. Este ponto de vista
influencia dentre outras coisas na própria narrativa do nascimento e evolução do Direito
do Trabalho. Nesse sentido, o presente trabalho apresenta uma versão crítica tanto da
concepção quanto do desenvolvimento do Direito do Trabalho sob nova perspectiva, na
qual se leva em consideração as particularidades da história de luta e resistência
ocorridas no Brasil. Tal análise é relevante na medida em que possibilita o
reposicionamento do debate sobre a real importância do trabalho na vida das pessoas.
Ademais, oferece instrumentos hábeis para a emancipação de trabalhadores e
trabalhadoras brasileiros. O Direito do Trabalho surgiu, no século XIX, como fruto das
pressões operárias e como mecanismo de regulação de interesses de classes sociais
antagônicas, no sistema capitalista. A justificativa para sua existência no Estado
Moderno se deu pela adoção da narrativa europeia acerca da evolução do trabalho
humano, vinculando o trabalhador assalariado à aspiração de igualdade e liberdade da
Revolução Francesa. Ocorre que a narrativa europeia suprime qualquer outra que tenha
tentado explicar o mesmo fenômeno, de forma que não tem sido possível debater sobre
o que há por trás deste discurso. Ao se apresentar como a última etapa da luta dos
trabalhadores pela conquista de liberdade, tal forma de descrever a evolução mundial
da organização do trabalho oculta o fato de que o trabalho servil, forçado, escravo foi –
e ainda é – um elemento constitutivo do capitalismo. O reflexo desta narrativa no Brasil
se traduz na dificuldade em compreender que o mercado de trabalho foi organizado
social e juridicamente a partir de uma hierarquia racial, na qual negras e negros gozam
de uma tutela trabalhista inferior, se comparada aos trabalhadores brancos. Dessa forma,
por meio de revisão bibliográfica e leitura de autores brasileiros e sul americanos, busca-
se demonstrar a existência de outras narrativas mais próximas à realidade vivida no
Brasil.

Palavras-chave: Colonialismo; Hierarquia Racial; Direito do Trabalho.

79
O CONTEXTO FÁTICO DO TRABALHO FEMININO NO BRASIL:
CONSEQUÊNCIAS GERADAS A PARTIR DO PROCESSO DE
COLONIZAÇÃO

Helena Kugel Lazzarin

As mulheres brasileiras continuam sendo tratadas de forma desigual e discriminatória,


devido a motivos históricos e culturais, os quais estão presentes na sociedade desde o
início do processo de colonização. O presente trabalho objetiva analisar as consequências
(desigualdades) advindas com a colonização e a sua repercussão na vida destas
trabalhadoras. Para isso, primeiramente, é analisada a trajetória histórica das mulheres
a partir da sociedade colonial, bem como sua inserção no mercado de trabalho; em um
segundo momento, a atual situação laborativa das mulheres brasileiras é analisada,
através de dados estatísticos – os quais demonstram que estas situações precisam ser
combatidas, na medida em que são criadas a partir de concepções sociais e culturais
presentes na categoria de gênero, não sendo baseadas apenas na divisão sexual do
trabalho. A pesquisa é de cunho bibliográfico e utiliza leituras e pesquisa em livros,
artigos de revistas e sites oficiais.

Palavras-chave: Mulher; Trabalho; Desigualdade.

80
DESENVOLVIMENTISMO Y SUS IMPACTOS AMBIENTALES
SOBRE LAS COMUNIDADES INDIGENAS

Thais Janaina Wenczenovicz

Diversos han sido las confrontaciones entre las comunidades indígenas y los impactos
socio ambientales en lo que refiere a los grandes obras y a la demarcación de los
territorios indígenas. Innumerable son las obras que vienen agregado al desarrollo
económico en el ámbito local y regional que tiene repercutido directamente en la
configuración de tierras nativas. Los impactos suceden por la carencia del diálogo, de
contratos comerciales oscuros, de la inconsistencia referente a la delimitación y de la
pérdida de los territorios, así como de la violencia simbólica.
Según los datos del Consejo Indigenista Misionario (2015), el estado de Río Grande del
Sur aparece entre las unidades federativas que presenta el número mayor de áreas
indígenas con problemas en el país. El informe demuestra que 17 de los 96 territorios
clasificados en situación de riesgo o conflicto están localizados en el suelo de
riograndense del sur, qué representa 17.7% de las zonas de preocupación en el país.
Dentro de los focos de conflictos en los estados del Sur de Brasil, las causas que mas
resultan en incidentes son la ampliación de carreteras y la instalación de represas – que
pueden resultar en conflicto -, o áreas donde ya hay tensión debido a la disputa de tierra.
El tema que involucra la generación de energía hidroeléctrica en el Sur del Brasil es
compleja debida a los grandes impactos que su instalación causan al medio ambiente
físico, mas principalmente por las grandes mudanzas en el medio socio económico a que
están sujetas las poblaciones afectadas, especialmente las indígenas. La historia parece
indicar que hay in peso mayor sobre la busca de maximización de eficiencia económica
– energética en las decisiones políticas sobre este tema, permaneciendo las cuestiones de
origen socio ambiental como factores limitantes a los desarrollos. No siempre capaces de
promover un cambio, todavía en la etapa de planeamiento. En cuanto al procedimiento
metodológico se utiliza el método bibliográfico investigativo, acompañado de
documentos jurídicos.

Palabras clave: Impactos ambientales; Comunidades indígenas; Desenvolvimentismo.

81
O LUGAR DO DESCOLONIAL DAS TEORIAS
CRÍTICAS DO DIREITO E O LUGAR DA
TEORIA CRÍTICA NO PENSAMENTO
DESCOLONIAL
CRIMINOLOGIA DA/NA AMÉRICA-LATINA: PERSPECTIVAS
INTERSECCIONAIS NOS DEBATES DO SABER CRIMINOLÓGICO

Mailô de Menezes Vieira Andrade

A Criminologia, de Lombroso a Baratta, foi recepcionada na América Latina por meio


de traduções e conceitos europeus e americanos aplicados à realidade local. Entre os
anos 70 aos 90, com o surgimento da criminologia crítica, cujas análises enfatizavam a
reação social e os processos de criminalização e etiquetamento, houve uma grande
produção de saber criminológico desde as margens. Questionou-se, então, pela
existência de uma criminologia crítica para a realidade latina, periférica e marginal,e
debates nas obras de renomados autores problematizaram a questão, enfatizando a
(in)adequação de conceitos categorias importados. A produção criminológica crítica,
referindo-se aqui àquela que tem como paradigma a reação social ainda é hoje
importante foco de resistência acadêmica. Mas enquanto disciplina crítica e também
propositiva, esbarrou em limites paradigmáticos ao considerar opressões de classe, mas
desconhecer outras formas de opressões e relações de poder que se interseccionam e
influenciam de maneira difusa os processos de criminalização (e vitimização), processos
de interseccionalidade tão características às margens e periferias. Defende-se que a
pergunta correta a se fazer é: “o que é preciso para considerar uma Criminologia latino-
americana enquanto tal?” Neste contexto, propõe-se discutir uma Criminologia da/na
América Latina que considere e analise opressões e exclusões desde uma perspectiva
pós-colonialista, feminista e interseccional, sobretudo considerando o aumento do
encarceramento feminino, as desigualdades nas relações de gênero e a relações entre
raça/cor, classe, gênero e etnia, enquanto fatores de etiquetamentos e estigmatizações
operacionalizantes. A pós-colonialidade e a interseccionalidade acusam novas
limitações e desafios ao saber criminológico no continente, incluindo o Brasil. Assim,
defende-se a produção de um saber criminológico local, desde um novo paradigma
interseccional, e a superação do paradigma da reação social como única possibilidade de
se fazer criminologia crítica.

Palavras-chave: Criminologia Crítica; América latina; Interseccionalidade.

83
DIREITOS HUMANOS E DECOLONIALIDADE: REVISÕES E
REFUNDAÇÕES DESDE A TEORIA CRÍTICA

Ivone Fernandes Morcilo Lixa

Em tempos marcados por uma ordem neoliberal, que redefine e reinventa o Estado e
suas tradicionais instituições, a incapacidade dos dogmas políticos e jurídicos
hegemônicos exige, desde as últimas décadas do século XX, uma cuidadosa e articulada
reinvenção do Direito no sentido de produzir condições de sustentação de novas formas
de controle do mercado e do capital global. Indo em direção oposta e com vistas a
vislumbrar um horizonte libertário e emancipador, o presente trabalho, pretende, desde
uma perspectiva crítica e um olhar latino americano, decolonial e inter-cultural
aprofundar a reflexão acerca de alguns paradoxos e contradições do discurso universal
dos direitos humanos, entendendo-se que este é um dos pontos nucleares para discutir
os fundamentos e elementos que definem o sentido e finalidade de Teoria Crítica e do
próprio Direito. O que se trata é de perguntar-se se os direitos humanos expressam a real
ou falsa ideia de dignidade universal, o que implica pensar se em todas culturas há um
modo concreto e comum de lutar, pensar e garantir espaços de liberdade e dignidade
que possam ser resignificados e complementados com outras formas e processos de
reação, emancipação e libertação; ou se, cada cultura desenvolve em sua particular
historicidade formas de enfrentamento ao excesso de poder. O trabalho discute alguns
“pontos cegos” que o conceito de direitos humanos apresenta como critérios e práticas
universalizantes em relação a inter-culturalidade. Questiona-se se afinal seriam os
direitos humanos valores, princípios, normas e processos de luta a favor da dignidade
ou produto de criação da cultura ocidental moderna e capitalista que se estende pela
humanidade, difundindo e impondo uma versão simplificada e reduzida de direitos
humanos por ser normativista, formalista, estatal e pós-violadora que, através de um
falso discurso protecionista e humanizador mantém e reproduz essa perversa e
predatória ordem neoliberal. Desde tais questões pretende-se repensar a crítica à cultura
jurídica tradicional e discursos como forma de discutir práticas que refundem a política
desde o plural e o libertário.

Palavras-chave: Teoria Crítica; Crítica Latino Americana; Neoliberalismo; Direitos


Humanos.

84
O DIREITO A PARTIR DO SUL: O LUGAR DO DIREITO NA
MODERNIDADE CAPITALISTA

Rayann Kettuly Massahud de Carvalho

No presente trabalho, objetiva-se realizar uma contribuição para o pensamento crítico


do direito, apoiado em um diálogo entre pensamento descolonial e teoria crítica do
direito. Para isto, tem-se como ponto de partida uma posição geopolítica não
universalista, uma posição periférica no sistema-mundo, mais especificamente, a latino-
americana, assentando-se na compreensão do direito como um fenômeno social e
histórico que se realiza dentro do modo de produção capitalista, moderno e colonial.
Trata-se de pesquisa eminentemente teórica, sendo assim, a metodologia utilizada foi a
leitura e análise de obras marxistas, marxianas, de pensadores descoloniais e da teoria
crítica.
O presente trabalho enfrenta a problemática da compreensão do direito, mesmo dentro
de parte da teoria do direito, como mero instrumento de dominação de classe, como
expressão jurídica das relações econômicas, responsável por garantir a dominação de
uma classe sobre a outra, e a manutenção do status quo. No entanto, o método utilizado
por Marx, o materialismo histórico, impõe a necessidade da compreensão não de uma
parte do direito, mas de compreendê-lo no todo. Portanto, para além da supracitada
compreensão, o direito também pode ser utilizado de modo tático, um uso político, que
é contrário a sociedade capitalista, tendo, assim, como fim revolucionário, a libertação.
Para tanto, pode ser utilizado por sujeitos coletivos, os movimentos populares, grupos
auto-organizados que buscam a transformação da realidade vivenciada de exploração,
dominação e opressão.
Por fim, é importante ressaltar que a utilização do direito não deve limitar-se às ações
dos referidos sujeitos coletivos, vez que há outras formas de lutas que precisam ser
enfrentadas para além das vivenciadas no âmbito jurídico. No limite, o uso do direito
deve ser tático -há limitações em seu uso estratégico- por dois motivos: O primeiro é
evitar que o norte, ou melhor, o Sul revolucionário, a libertação, se perca em uma
constante luta por direitos. Dialeticamente, o segundo motivo é que a referida luta por
direitos, desde que de modo tático, ao alterar e melhorar as condições de vida das
pessoas causa fissuras na ordem posta, guardando em si um potencial de transformação
radical da sociedade.

Palavras-chave: Teoria crítica; Uso tático do Direito; Movimentos populares.

85
POR UMA TEORIA CRÍTICA DESCOLONIAL DO DIREITO

Juliana Moreira Streva

Qual seria o lugar da colonialidade no pensamento crítico do direito moderno? E qual


seria o lugar da crítica do direito no pensamento descolonial e pós-colonial? Com estas
indagações em mente, o presente artigo objetiva mapear o movimento crítico do direito
fazendo uso de uma metodologia descolonial. Diante desta ambiciosa tarefa, o ensaio se
dividirá em quatro pontos centrais de análise: i) filosofia ocidental moderna; ii) "critical
legal studies", englobando "feminist legal theory", "critical race theory" e "British critical
legal theory"; iii) movimentos pós-colonial e descolonial; e, por fim, iv) teoria crítica
descolonial do direito.

Palavras-chave: Teorias Críticas do Direito; Critical Legal Theory; Filosofia; Descolonial;


Pós-Colonial.

86
CONSTRUÇÃO OCIDENTAL DE
SUBJETIVIDADES NA ORDEM
INTERNACIONAL: DIÁLOGOS CRÍTICOS
SOBRE A PRODUÇÃO DE SUJEITOS,
LEGITIMIDADE POLÍTICA E COLONIALIDADE
HISTÓRIAS DA TERRA E DO MAR: UMA CARTOGRAFIA DAS
NARRATIVAS DO MOVIMENTO PROPOÇO E DA ONG
VELAUMAR SOBRE DIREITO À CIDADE NA COMUNIDADE
POÇO DA DRAGA

Bruna Luyza Forte Lima Oliveira

Todos os locais têm nomes, lendas, mitos e narrativas. Mas por que algumas histórias
são legitimadas como verídicas e alcançam mais notoriedade do que outras, construindo
representações únicas? Nos dois últimos séculos, dominou uma epistemologia que
eliminou conhecimentos que contrariavam seus interesses socioeconômicos. É neste
cenário de desigualdade epistêmica que a presente pesquisa se insere: a construção de
narrativas sobre o direito à cidade no processo de legitimação de saberes liminares é o
tema abordado e o sujeito analisado é o Poço da Draga, uma comunidade de baixa renda
localizada na cidade de Fortaleza (CE) que sofre constantes ameaças de remoção e é
marginalizada pelo senso comum. ?O artigo tem como objetivo refletir sobre o processo
de subalternização da comunidade mencionada e analisar a importância do
reconhecimento de suas autonarrativas, com ênfase naquelas desenvolvidas por duas
organizações de moradores do Poço da Draga, o Movimento ProPoço e a ONG
Velaumar. Utilizamos, como aporte teórico, conceitos de pesquisadores das
epistemologias do sul, com destaque para as obras Pode o subalterno falar?(1985), da
crítica indiana Gayatri Spivak e Histórias Locais/ Projetos Globais: colonialidades,
saberes subalternos e pensamento liminar, do semiótico argentino Walter Mignolo. A
metodologia de pesquisa utilizada é a cartografia, com auxílio da coleta de dados e da
revisão bibliográfica.

Palavras-chave: Direito à cidade; Epistemologias do Sul; Narrativas; Poço da Draga;


Subalternidade

88
A INFLUÊNCIA DE JOSUÉ DE CASTRO PARA A GARANTIA DA
SEGURANÇA ALIMENTAR

Tatiana de Almeida F. R. Cardoso Squeff

Josué de Castro, renomado cientista político e médico brasileiro, foi um dos primeiros
teóricos a debruçar-se sobre o problema social gerado pela fome em nível mundial. Ao
longo do seu trabalho é possível notar o seu esforço para desfazer alguns mitos gerados
pela doutrina (europeia/ocidental) quanto às causas da fome no plano internacional,
rebatendo ainda na década de 1950 o principal argumento tido como absoluto para a
criação de insegurança alimentar, a saber, o aumento populacional. Ao lançar seus
estudos acerca da dimensão biológica, notadamente no que tange os diversos critérios
que podem levar a uma maior ou menor ingestão calórica, bem como da dimensão
econômica, quanto à necessidade de criarem-se meios propícios para o acesso a
alimentos nutritivos para além da renda, inova, tornando-se um dos primeiros autores
do sul global a terem seus estudos alçados ao plano internacional com sucesso. Logo, o
presente texto tem como objetivo debater justamente o controle exercido por autores do
norte/europeus/brancos/bem-nutridos sobre os estudos e a de segurança alimentar,
denotando a importância e o impacto que as obras de Josué de Castro tiveram para a
mudança da percepção da questão alimentar no mundo e para o desenvolvimento de
novas políticas contra-majoritárias de combate a fome, especialmente após os mais
recentes dados informarem que 12% da população mundial, majoritariamente os países
do sul global, ainda sofre com a fome crônica. Ao cabo, o que se percebe, é que Josué de
Castro foi um dos primeiros autores a ter um third world approach ao problema da
insegurança alimentar aceito em nível mundial e que seus estudos parecem, hoje,
influenciar indiretamente a adoção de práticas “do sul e para o sul”, sobre o combate a
fome.

Palavras-chave: Josué de Castro; Direito ao alimento; Pós-colonialismo; Twail.

89
O PENSAMENTO DESCOLONIAL NO QUESTIONAMENTO À
ORDEM INTERNACIONAL: UM CONTRAPONTO AO DISCURSO
HEGEMÔNICO PREDOMINANTE NAS RELAÇÕES
INTERNACIONAIS CONTEMPORÂNEAS

Juliane Rodrigues Teixeira

As relações internacionais contemporâneas são amplamente dominadas pelas


perspectivas, teorias e regras elaboradas e dispersadas pelo centro hegemônico de poder
do capitalismo mundial, a partir da colonialidade do poder que considera superiores os
conhecimentos europeus e norte-americanos, conformando o sistema de dominação
ocidental. Esso ocorre a partir da utilização de distintos elementos, como a dominação
econômica, cultural, social, racial e epistemológica exercida sobre outros grupos
tradicionalmente considerados inferiores, impondo os conceitos hegemônicos como
princípios universalmente válidos.
Assim, o sistema de dominação atual está caracterizado pela visão das relações
internacionais de acordo com essa perspectiva, a qual muitas vezes não considera a
importância do papel exercido pela periferia na conformação da ordem mundial atual,
especialmente na esfera econômica ao propiciar o desenvolvimento do centro
hegemônico de poder devido às transferências de recursos financeiros que
caracterizaram os séculos de predomínio do colonialismo e imperialismo, e que
persistem atualmente com as transferências de capitais em forma de juros que compõe a
atual fase do capitalismo transnacional.
Portanto, o presente trabalho busca analisar a importância do pensamento descolonial
como uma ferramenta para a ajudar a democratizar as relações internacionais
contemporâneas buscando diminuir as assimetrias que caracterizam as relações
econômicas e de poder na ordem internacional. Isso se dará a partir de uma perspectiva
crítica que leva em consideração as realidades, necessidades e aspectos das nações que
compõe a periferia do sistema mundo, focalizando a produção latino-americana na
busca por alterar a configuração da atual estrutura internacional. Isso porque o sistema
internacional é muitas vezes considerado opressivo e excludente ao não levar em conta
as distintas realidades econômicas, políticas e sociais no processo de toma de decisões,
o que ocasiona a marginalização do papel destas nações.
Assim, se ressaltará algumas perspectivas normalmente esquecidas pelos teóricos mais
influentes nos debates sobre a realidade econômica, política e social internacional na
tentativa de contrabalancear a colonialidade do poder imposta pelo tradicional centro
hegemônico do poder capitalista mundial. Isso se dará ressaltando às visões que
emergem desde o Sul global, contribuindo ao debate descolonial nas relações
internacionais contemporâneas ao ser um contraponto ao discurso tradicional
predominante.

Palavras-chave: Colonialidade do poder; Pensamento descolonial; Relações


internacionais; Discurso hegemônico; Relações centro-periferia; Perspectiva crítica.

90
NO CAMINHO DA DESCONSTRUÇÃO: O DESLOCAMENTO DO
SUJEITO

Luana Couto Campos

Objetiva-se com a presente pesquisa observar a constituição epistemológica do sujeito,


refletindo, sobretudo a partir das suas limitações, sobre aquilo que parece permitir
apontar o horizonte dos titulares de direitos. Busco propor que a subjetividade ocidental
depende de uma estrutura que sacrifica tanto a alteridade quanto a singularidade dos
animais, de modo que a desconstrução dessas narrativas parece dever perpassar uma
articulação com as brechas discursivas que compõem a oposição Humano-Animal. É que
a projeção de próprios do Homem conserva todo um universo de consciência,
racionalidade, autonomia e responsabilidade a criar distinções abismais, cuja faceta
negativa desaparece como realidade.
Proponho um deslocamento à medida que questiono a hierarquização ontológica que
acompanha essa forma de pensar. Trata-se, antes, de desestabilizar as categorias do
Humano e do Animal lado a lado à subversão das fundações da subjetividade, o que
importa porquanto entrincheiram representações cujo significado é mantido ao largo da
discussão política.
Percebo que a movimentação dessas fronteiras depende do cuidado com a
inteligibilidade dessas representações, não bastando um simples alargamento
epistemológico que esteja apto a permitir a inclusão de mais uma leva de sujeitos.
Mudando, portanto, a orientação das premissas, essa pesquisa não busca justificar um
pleito que vise o reconhecimento dos animais como sujeitos, mas demonstrar a
subjetividade como uma linguagem representativa que provoca a confirmação de
espaços homogêneos em oposição, esferas ontologicamente identificadas por
hierarquias que, ao conformarem a absorção das estruturas diferenciais, invisibilizam o
não sujeito. Evidenciando margens históricas, procuro retirá-lo desse espaço de
invisibilidade, um enfrentamento à subjetividade que desponta como tentativa de
confrontar uma forma de pensar o mundo que subjaz a ocidentalidade hegemônica e
que, por dar forma à organização da vida, afeta e reprime o significado das titularidades
políticas, jurídicas e culturais. A fundamentação filosófica é, sobretudo, oferecida por
Jacques Derrida, integrando também os alicerces metodológicos, as narrativas da Ética
Animal e dos Direitos dos Animais, bem como estudo descoloniais.

Palavras-chave: Animais; Sujeitos; Jacques Derrida.

91
DIFERENÇA COLONIAL E ANTAGONISMO: INVESTIGANDO A
ALTERIDADE DA AMÉRICA LATINA

Laurenio Leite Sombra

Esta comunicação visa articular a ideia de “diferença colonial”, pensada por Walter
Mignolo, com o conceito de “antagonismo”, desenvolvido por Ernesto Laclau e Chantal
Mouffe, e reformulado por mim, a partir do conceito de “rede de sentidos”. Segundo
Mignolo, “a diferença colonial é o espaço onde emerge a colonialidade do poder. (...) É
o espaço onde as histórias locais que estão inventando e implementando os projetos
globais encontram aquelas histórias locais que os recebem; é o espaço onde os projetos
globais são forçados a adaptar-se, integrar-se ou onde são adotados, rejeitados ou
ignorados.” A noção de “diferença colonial” exige um “pensamento liminar”, como
reação a ela. Ela “cria condições para situações dialógicas nas quais se encena, do ponto
de vista subalterno, uma enunciação fraturada, como reação ao discurso e à perspectiva
hegemônica”.
Laclau e Mouffe pensaram o antagonismo como o fenômeno pelo qual “a presença do
‘Outro’ me impede de ser plenamente eu mesmo. (...) O antagonismo constitui os limites
de toda objetividade, a qual se revela como objetificação parcial e precária. Se a linguagem
é um sistema de diferenças, o antagonismo é o fracasso da diferença: neste sentido, ele
se situa nos limites da linguagem e só pode existir como uma interrupção desta – ou seja,
como metáfora.”. Em trabalhos próprios, formulei o conceito de antagonismo como os
momentos em que “sujeitos em relação mútua não compartilham a mesma rede de
sentidos em aspectos essenciais, (...), quando as diferenças entre as redes de sentido
propiciam certa inaceitação mútua com relação à rede de sentido do outro (...). De um
modo geral, as relações de antagonismo podem ensejar negociação ou enfrentamento de
sentido, mas também processos de dominação e submissão”.
A pergunta que se impõe e será investigada filosoficamente é: em que medida o
cruzamento desses conceitos (“diferença colonial”, “antagonismo”) nos permite uma
compreensão diferenciada da particularidade da América Latina, pensada como uma
“ideia” inerente ao processo de colonização, como afirmou Mignolo? De que forma a
ambiguidade da nossa constituição nos afeta e nos impõe modos de reação e de
negociação de sentidos?

Palavras-chave: Diferença colonial; Antagonismo; Rede de sentidos; Ernesto Laclau;


Walter Mignolo.

92
O MIGRANTE NA POLÍTICA MIGRATÓRIA BRASILEIRA

Thaís Salvadori Gracia

Rafaela Leão Barreto Viana

Relatos de 2009 do PNUD - Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento


reportam existir cerca de 200 milhões de pessoas residindo fora de seu país de origem.
Sabe-se que as migrações foram determinantes na formação da maior parte dos Estados
no sistema internacional, porém, uma vez que as fronteiras políticas dos Estados
nacionais são transpassadas, o ato de migrar passou a ser considerado um problema de
soberania e, assim, uma exceção.
Além disso, a tradição do Estado-nação aponta para entender cidadania em uma
perspectiva vinculada à ideias de nacionalidade, colocando o migrante internacional em
uma condição apolítica e de vulnerabilidade, especialmente os sujeitos que migram de
países periféricos, que acabam por ser colocados em posição de subalternidade. A
política migratória adotada por cada Estado reflete suas características temporais e
sociais e, desta forma, a falta de legislação e, consequentemente, de políticas públicas
adequadas sobre a questão migratória podem ocasionar violações de direitos humanos,
além de uma imagem negativa da mobilidade humana junto à opinião pública.
Diante disso, o problema que a presente pesquisa enfrenta é: em que medida a política
migratória brasileira demonstra esforços para a garantia e manutenção dos direitos
humanos de migrantes, especialmente daqueles advindos de países às margens dos
estados dominantes?
Assim, utiliza-se o método hipotético-dedutivo para buscar a compreensão do fenômeno
migratório por meio da perspectiva descolonial.
A realidade brasileira com relação às migrações internacionais é marcada pelo Estatuto
do Estrangeiro (Lei 6.815 de 1980), que trava um embate com a Constituição Federal e é
uma lei permeada pela noção de inimizade do estrangeiro. Ainda, considerando sua
proximidade com o período ditatorial, apresenta inspiração no paradigma da segurança
nacional, da organização institucional, dos interesses políticos, socioeconômicos e
culturais do Brasil, e da defesa do trabalhador nacional, impondo diversas restrições à
entrada de imigrantes no Brasil. No entanto, está em tramitação projeto de Nova Lei de
Migrações, com alterações harmônicas aos preceitos constitucionais.
Os migrantes constituem uma fronteira invisível entre dois mundos e o grande número
de pessoas nesta condição deflagra a necessidade de mudanças profundas nas relações
sociais, culturais, econômicas, jurídicas e religiosas.

Palavras-chave: Migração; Política migratória; Direito internacional.

93
“A EMOÇÃO É NEGRA COMO A RAZÃO É GREGA”: PARA UM
GIRO DECOLONIAL DA CONCEPÇÃO DE “DIREITO E ARTE”
DESDE O CARIBE NEGRO

Daniel Vitor de Castro

Com a consolidação da modernidade como paradigma sociocultural e sua ligação


intrínseca com o capitalismo como sistema-mundo, as promessas emancipatórias da
razão deixam às vistas seus reais objetivos regulatórios. Assim, com o mito do Estado-
nação indispensável para os processos colonizadores (controle étnico e classificação
racial), o Direito moderno torna-se importante instrumento de manutenção das relações
de poder coloniais.
O trabalho jurídico, eminentemente desumanizador e alienante, produz juristas
insensíveis com a realidade (“operadores do direito”), por trabalharem tão são momento
com leis (fragmento do direito), e não com pessoas, dotadas de experiências, vivências e
corporalidade próprias. Neste sentido, na busca pela humanização do jurista, vemos na
arte, atividade de afirmação ontológica do ser social, possibilidades de humanizar aquilo
que a sociedade moderna-colonial desumanizou.
O estudo das possíveis relações entre Direito e Arte surge como corrente crítica que
desafia-nos a questionar o Direito moderno. Ela avança na crítica à modernidade e na
potência criativa de reconstrução do todo jurídico pelo sensível, lúdico e poético. Aqui,
Thêmis encontra Dionísio. Entretanto, temos como hipótese que a atual produção
acadêmica em “Direito e Arte” reproduz paradigmas modernos eurocentrados e
coloniais. Assim nos perguntamos: será possível pensar intersecções entre Direito e Arte
a partir das epistemologias próprias, cultura jurídica e práticas decoloniais da diáspora
negra?
Para tanto, nos debruçaremos sobre a categoria colonialidade, com foco na colonialidade
do ser, dimensão comumente desprezada. O giro decolonial representa o projeto de
transformação tanto do Direito quanto da arte desde os saberes e práticas dos
“condenados da terra”, o Outro, a zona do não-ser da modernidade colonial.
Procuramos, assim, uma relocalização geopolítica das bases do pensamento moderno
para a construção de outra cultura jurídica, embasada nos valores, vivências e
subjetividades dos povos periféricos: de Atenas (Grécia Antiga) e Floresta Negra
(filosofia alemã), para o Caribe Negro (práxis decolonial e perspectiva negra).
Superar Thêmis e Dionísio com a justiça de Xangô e o amor de Oxum.

Palavras-chave: Direito e Arte; Colonialidade do ser, Diáspora negra; Decolonialidade.

94
CULTURA INDÍGENA E A NECESSIDADE DO DIÁLOGO
TRANSCONSTITUCIONAL NOS CASOS DE INFANTICÍDIO

Péricles Stehmann Nunes


Bruna Escobar Teixeira

Os povos originários do Brasil foram inúmeros e traziam consigo culturas muito


distintas. Com a colonização europeia, estes povos foram perdendo espaços territoriais,
bem como foram sendo submetidos a processos de "civilização", buscando modificar sua
cultura. Ao que pese o fato de ter havido uma larga hibridação cultural entre esses
contatos, a cultura europeia foi hegemônica e instituiu regras de conduta social sobre o
território. Assim, questões antropológico-culturais são muitos fortes e muitas vezes
entram em conflito com o ordenamento jurídico atual. Diante da metodologia teórico-
bibliográfica, abrangendo leituras de obras, artigos, bem como da legislação vigente, o
presente trabalho busca compreender os conflitos culturais existentes no território
brasileiro entre a cultura de certos povos indígenas e a legislação vigente, abordando,
para isso, o Projeto de Lei da Câmara (PLC) n. 119/2015, que trata sobre o caso de
infanticídio em algumas tradições indígena, analisado o tema sob o enfoque da teoria do
transconstitucionalismo, como forma de construir uma racionalidade transversal que
propõe o diálogo proveitoso entre as ordens jurídicas, especificamente a mediação que
busca a resolução dos litígios. Como resultado alcançados, vislumbra-se que, o Projeto
de Lei não tem capacidade de resolver uma questão desta monta. Embora a Constituição
Federal de 1988 tenha criado normas específicas para os povos indígenas, buscando, com
isso, respeitar a diversidade cultural, na realidade nas relações jurídicas dos espaços
ocupados por estes povos é diferente e requer um diálogo mais intercultural para
resolver algumas questões como o infanticídio e, a mediação pode ser um desses
caminhos.

Palavras-chave: Cultura indígena; Mediação; Transconstitucionalismo.

95
O PENSAMENTO DESCOLONIAL NO QUESTIONAMENTO À
ORDEM INTERNACIONAL: CONTRAPONTO AO DISCURSO
HEGEMÔNICO PREDOMINANTE NAS RELAÇÕES
INTERNACIONAIS CONTEMPORÂNEAS

Juliane Rodrigues Teixeira

As relações internacionais contemporâneas são amplamente dominadas pelas


perspectivas, teorias e regras elaboradas e dispersadas pelo centro hegemônico de poder
do capitalismo mundial, a partir da colonialidade do poder que considera superiores os
conhecimentos europeus e norte-americanos, conformando o sistema de dominação
ocidental. Esso ocorre com a utilização de distintos elementos, como a dominação
econômica, cultural, social, racial e epistemológica exercida sobre outros grupos
tradicionalmente considerados inferiores, impondo os conceitos hegemônicos como
princípios universalmente válidos.
Assim, o sistema de dominação atual está caracterizado pela visão das relações
internacionais de acordo com essa perspectiva que muitas vezes não considera a
importância do papel exercido pela periferia na conformação da ordem mundial atual,
especialmente na esfera econômica, ao propiciar o desenvolvimento do centro
hegemônico de poder com a transferências de recursos financeiros que caracterizaram
os séculos de predomínio do colonialismo e imperialismo, que persistem atualmente
através das transferências de capitais em forma de juros que compõe a atual fase do
capitalismo transnacional.
Portanto, o presente trabalho busca analisar a importância do pensamento descolonial
como uma ferramenta para a ajudar a democratizar as relações internacionais
contemporâneas ao buscar diminuir as assimetrias que caracterizam as relações
econômicas e de poder na ordem internacional. Isso se dará a partir de uma perspectiva
crítica que leva em consideração as realidades, necessidades e aspectos das nações que
compõe a periferia do sistema mundo, focalizando a produção latino-americana na
busca por alterar a configuração da atual estrutura internacional. O anterior se deve a
que o sistema internacional é muitas vezes considerado opressivo e excludente ao não
levar em conta as distintas realidades econômicas, políticas e sociais no processo de toma
de decisões, o que ocasiona a marginalização do papel destas nações.
Assim, se ressaltará algumas perspectivas normalmente esquecidas pelos teóricos mais
influentes nos debates sobre a realidade econômica, política e social internacional na
tentativa de contrabalancear a colonialidade do poder imposta pelo tradicional centro
hegemônico do poder capitalista mundial. Isso se dará ressaltando às visões que
emergem desde o Sul global, contribuindo ao debate descolonial nas relações
internacionais contemporâneas ao buscar ser um contraponto ao discurso tradicional
predominante.

Palavras-chave: Colonialidade do poder; Pensamento descolonial; Relações


internacionais; Discurso hegemônico; Relações centro-periferia; Perspectiva crítica.

96
PARTILHA DO SENSÍVEL, DISSENSO E SUBJETIVAÇÃO
POLÍTICA: PROBLEMATIZANDO A COLONIALIDADE E O
DECOLONIAL A PARTIR DE JACQUES RANCIÈRE

Felipe Augusto Leques Tonial


Kátia Maheirie

Esta proposta faz parte de uma pesquisa mais ampla, ainda em andamento, que visa
aproximar as reflexões de Jacques Rancière, filósofo franco-argelino, da discussão
decolonial. Inspirados no método da pesquisa bibliográfica, buscamos aprofundar
aspectos da colonialidade, indicando possíveis conceitos do autor que possam nos
auxiliar na problematização dos processos subjetivos inerentes ao enfrentamento e/ou
permanência da colonialidade. Para compreender a dinâmica do vínculo social, Rancière
parte da ideia de partilha do sensível. Esta é definida como um “sistema de evidencias
sensíveis” que indica, ao mesmo tempo, a existência de um comum partilhado e as partes
exclusivas direcionadas para cada grupo ou pessoa, estipulando lugares, funções,
identidades e capacidades para cada grupo. A partilha é desigual, hierárquica, e contém
um erro de contagem, um dano: apenas alguns podem falar e pensar por todos/as,
delimitando os regimes de visibilidade e percepção. Estes regimes são mantidos pelo
processo que Rancière denomina de polícia/gestão, que é da ordem do instituído e que
tem por função preservar e sustentar a ordem vigente naturalizada. Nesse sentido, a
colonialidade/modernidade faz parte dos processos da policia, uma vez que
imaginários/hierarquias (raciais, culturais, de gênero, epistêmicas) que se naturalizam,
mantendo os lugares de poder e decisão nas mãos de alguns poucos. Por outro lado, a
política, da ordem do decolonial, se contrapõe a polícia ao buscar reconfigurar e
questionar a partilha. Esse outro processo acontece por atos de desidentificação e
dessimbolização da ordem social, deslocando os sujeitos dos lugares identitários
definidos e instaurando lugares inéditos nos modos de partilha do sensível. Assim,
Rancière entende a política como um movimento ligado a processos de subjetivação, que
identifica o dano presente na distribuição e que promove novos recortes nos tempos e
espaços coletivos. Como assevera, a política opera por dissensos em relação a ordem
consensuada e não é uma mera afirmação identitária ou da diferença de um povo. O
dissenso indica a existência e o desentendimento entre dois mundos antagônicos, duas
visões/projetos de mundo, duas formas diferentes de se relacionar com a realidade: o
mundo daqueles que são contados na partilha e o mundo daqueles/as que não são.

Palavras-chave: Colonialidade; Partilha do sensível; Dissenso; Subjetivação política;


Decolonial.

97
IMPOSIÇÕES E TRANSFORMAÇÕES URBANAS EM MANAUS: A
CONSTRUÇÃO DA “PARIS DOS TRÓPICOS”

Rodrigo Capelato

Os problemas de uma cidade não são apenas técnicos ou estéticos. A cidade ou o espaço
urbano são construídos ou destruídos segundo uma política de intervenção que pode
favorecer certos segmentos em detrimento a outros, e a mais singela ou ingênua
intervenção urbana encerra uma intenção política e social, pois influi na vida do cidadão,
no seu cotidiano, no lazer e no trabalho. Influi, enfim, nas relações sociais e na
sociabilidade de cada pessoa. Neste sentido, o referido trabalho pretende analisar as
práticas de higienização, de embelezamento, de progresso e de civilidade, advindas da
Europa e implementadas na segunda metade do século XIX, tendo como lócus de analise
a cidade de Manaus que, com os aumentos sucessivos das exportações, principalmente
da borracha, propiciaram ao Estado uma grande receita, com excessos sempre crescentes
de arrecadações, inspirando assim um dos mais arrojados empreendimentos citadinos
que foram orquestrados pelo poder publico junto a elite local através de decretos, leis e
códigos, utilizados para justificar e viabilizar o controle social, e assim consolidar o
desejo da cidade progressista. É a modernidade que chegava ao “Porto de Lenha”, com
sua visão transformadora, na intenção de se tornar a “Paris dos Trópicos”. Tais medidas
concentraram-se nos chamados Códigos de Posturas Municipais, orientados por
princípios e interesses distantes, que negaram, desprezaram e velaram as especificidades
históricas e geográficas que a região Amazônica e a cidade de Manaus apresentavam.
Em seus inúmeros artigos fica clara a intenção de um modelo de civilização, como
tendência similar às praticas de controle adotadas pelas cortes europeias, onde a
paisagem geográfica e social era um problema a ser combatido. A chamada destruição
criativa não só substituiu a madeira pelo ferro, o barro pela alvenaria, a palha pela telha,
o igarapé pela avenida, a carroça pelos bondes elétricos, a iluminação a gás pela luz
elétrica, mas também transformou a paisagem natural, destruiu costumes e tradições,
“civilizou” as populações tradicionais e, principalmente, foi precursora da segregação
sócio espacial e da periferização, evidenciada até os dias de hoje, tanto em Manaus como
em todas as cidades brasileiras.

Palavras-chave: Manaus; Códigos de Posturas; Intervenções Urbanas; “Paris dos


Trópicos”

98
A VIOLÊNCIA ALTERITÁRIA: A NEGAÇÃO DO OUTRO NO
BRASIL CONTEMPORÂNEO

Leonardo Lani de Abreu

É por demais sabido que o período de Ano Novo enseja a renovação da esperança, ao
estimular o anseio de que, caso as coisas não melhorem, pelo menos permaneçam como
estão. Até porque a experiência cotidiana demonstra, com toda a evidência, que
determinada situação, por pior que esteja, sempre pode degradar-se, percepção que tem
se generalizado entre os brasileiros, os quais vivenciam uma conjuntura social,
econômica e política cujos efeitos são equiparáveis aos de uma queda num poço sem
fundo. Motivos para a população brasileira esperar épocas mais propícias, na virada de
2016, não faltavam: após um processo de impeachment que destituiu uma mandatária
democraticamente eleita, sem configuração clara de crime de responsabilidade,
seguiram-se medidas que subvertem por completo a essência da Constituição Federal
de 1988, entre as quais a mais emblemática é o congelamento dos gastos governamentais
pelos próximos 20 anos. Porém, nem bem transcorreram os primeiros dias de 2017 e já
se avolumam indícios de que as expectativas de melhora do quadro atual não
apresentam qualquer justificativa – sejam as manifestações de simpatia à carta do técnico
de laboratório, que, nos últimos momentos de 2016, assassinou doze pessoas, em
Campinas, na qual ele vocifera impropérios contra a antiga companheira, em particular,
e contra pautas progressistas, em geral, sejam as comemorações de membros da base
governista às chacinas ocorridas nos presídios de Manaus e Roraima -, inúmeros são os
sinais de deterioração da democracia no Brasil, onde se assiste à substituição paulatina
do Estado de direito pelo de exceção. Pensadores como Bauman e Adorno são criticados
por empregarem demasiada energia na descrição da realidade social e negligenciarem
na proposição de saídas, de modo que cumprem apenas a primeira metade do dístico
gramsciano “pessimismo da inteligência e otimismo da vontade.” Em contraposição a
referido fatalismo, faz-se mister enfrentar o problema do colapso da fundamentação
filosófica, que se encontra nas raízes da crise vigente. Para tanto, propõe-se a retomada
de uma das questões fundantes da filosofia ocidental, sem a qual qualquer debate
político e jurídico afigura-se estéril: o que é o homem?

Palavras-chave: Democracia; violência; verdade; alteridade.

99
FRANZ FANON E A SUBJETIVAÇÃO DO SUJEITO COLONIZADO E
RACIALIZADO

Luiz Artur Costa do Valle Junior

O presente trabalho se propõe a escrutinar a formação da subjetividade colonizada,


ancorado na obra fanoniana, particularmente mediante os processos de
“epidermização” e “fobogênese”, apontados pelo autor em Peau noire, masques blancs. A
complexidade dos circuitos de identificação, desejo e projeção na situação colonial
também será interrogada, com recurso à literatura psicanalítica clássica e a apropriações
revisionistas como as de Homi Bhabha e Hortense Spillers. Em última instância, este
ensaio diz respeito à modernidade, e representa uma crítica implícita ao que Cornelius
Castoriadis denomina “a lógica identitária”, ou à ficção da presença, em termos
derridianos. Uma apropriação crítica da teoria psicanalítica não pode, à luz de recentes
denúncias de sua lógica totalizante, privatizante e finalmente conservadora, se furtar a
uma análise ampla da conjuntura político-discursiva (considerando que essa locução
representa ao mesmo tempo algum grau de tautologia e algum grau de irredutibilidade
entre seus termos) que permite, por exemplo, o privilégio analítico de uma formação
histórica tão particular como o Complexo de Édipo, ou de uma rigidez tão estruturante
como uma diferença sexual hierárquica e binária – e que, portanto, permite também a
cumplicidade do analista com uma discursividade opressiva e excludente. Espera-se que
uma tal empreitada auxilie na compreensão das consequências psíquicas da continuação
dos processos hierarquizantes e racializantes predicados no encontro colonial e em sua
apropriação pelo discurso hegemônico europeu e branco. De particular relevo são as
noções de “epidermização” da subjetividade e do negro como objeto fobogênico,
categorias escópicas (relativas à visão) e imaginárias fortemente relacionadas à
constituição do colonizado enquanto fetiche e da dinâmica complexa estabelecida entre
o objeto-colonizado e o objeto-colonizador. Consideram-se também as operações
discursivas que possibilitam essas dinâmicas de hierarquização e fetichização,
apresentando-se uma crítica a Fanon com respeito, primeiramente, ao relativo simplismo
da demarcação clara entre o “branco” e o “negro/outro” na constituição do complexo
representacional da modernidade capitalista/colonial.

Palavras-chave: Franz Fanon; Colonialidade; Raça; Gênero; Psicanálise

100
A FRAGILIDADE DO PRINCÍPIO DA AUTODETERMINAÇÃO DOS
POVOS E SUA NATUREZA ETNOCÊNTRICA FACE AO ESTADO
CONTEMPORÂNEO: O CASO DO ESTADO ISLÂMICO (2004-2014)

Gabrieli de Camargo
Hector Cury Soares

A pesquisa apresenta uma crítica às fragilidades do princípio de autodeterminação dos


povos ao caso do Estado Islâmico, entre os anos de 2004 e 2014 – anos de atuação mais
enfática da organização na região do Levante. Para tanto, objetiva analisar a formação
do Estado Islâmico através da Guerra em um território entre dois Estados Nacionais e
confrontá-la com o princípio da autodeterminação dos povos. Diante disso, as teorias
neorrealista, decolonial e construtivistas das relações internacionais servem de aporte
para entender a aplicabilidade do princípio da autodeterminação dos povos ao caso do
Estado Islâmico frente a uma estrutura de Estados que não corrobora com o surgimento
de novas organizações políticas e/ou revolucionárias. Trata-se de uma pesquisa
descritiva que utiliza como técnicas de coleta a revisão bibliográfica e a análise
documental, e faz estudo do caso do Estado Islâmico. Ao final, demonstra-se que o
princípio da autodeterminação, erigido a partir de uma perspectiva eurocêntrica, está
em descompasso com as transformações do Estado Contemporâneo.

Palavras-chave: Autodeterminação dos povos; Estado Contemporâneo; Estado Islâmico

101
O IDEAL DE COLONIZAÇÃO JUSTA DE FRANCISCO DE VITORIA

Renata Floriano de Sousa

A colonização da América latina é uma realidade sob múltiplas interpretações. Dentro


desse panorama no século XVI encontramos três figuras principais responsáveis pela
transformação do Novo Mundo no continente que conhecemos hoje, são eles: os
exploradores espanhóis, responsáveis pela implementação violenta e forçada da
colonização; os nativos americanos, que foram vítimas da ganância e da violência do
colonialismo europeu; e os defensores indígenas, espanhóis que defendiam os direitos
dos indígenas perante o império espanhol e seus representantes na América. Dentre os
últimos, os defensores indígenas, encontra-se a presença do dominicano espanhol
Francisco de Vitoria (1483-1546), mestre da Universidade de Salamanca e considerado
um dos pais do direito internacional. Isto posto, o objetivo desse trabalho concentra-se
em demonstrar através das relecciones, sobretudo, De Indis (1539) de Francisco de Vitoria
a sua defesa do direito natural dos ameríndios perante os interesses do império
espanhol. A proposta desse trabalho consiste-se em apresentar os argumentos de
Francisco de Vitoria acerca da justificação da presença espanhola na América, assim
como também a sua defesa do direito ameríndio perante o império espanhol. Para seguir
a meta proposta trataremos dos seguintes problemas: o reconhecimento da
racionalidade dos ameríndios; o seu direito de liberdade, o direito de propriedade dos
nativos sobre suas terras e seus pertences. O objetivo dessa pesquisa é de pensar as
condições da colonização sob a interpretação vitoriana do direito natural e dos direitos
humanos das partes envolvidas. Desta forma, podemos pensar que a América não é
somente o local que ficou conhecido como o Novo Mundo, mas também é o lugar que
forjou com seus conflitos o novo direito, um direito baseado na releitura do direito
natural influenciado pelo cristianismo e ampliado para além de qualquer fronteira. Ou
seja, foi baseado na defesa universal do direito natural que Francisco de Vitoria formulou
a defesa dos direitos dos ameríndios, justificação essa que serviu como base para a
criação da ONU e dos direitos humanos universais quatro séculos depois.

Palavras-chaves: Francisco de Vitoria; Direito natural; Direitos humanos; Colonização.

102
LUTAS URBANAS E DIREITO À CIDADE:
EMPIRIA, TEORIA CRÍTICA E PENSAMENTO
DESCOLONIAL
A VOZ DOS REFUGIADOS E SOLICITANTES DE REFÚGIO NA
CIDADE

Laís Gonzales de Oliveira

O presente trabalho objetiva analisar a luta dos movimentos de refugiados e solicitantes


de refúgio pelo reconhecimento e pela efetividade do seu direito à cidade no Brasil, por
meio de uma participação política plena no Estado brasileiro, principalmente na esfera
municipal. Como problema central, apresenta-se a necessidade de reconhecimento
identitário de tais indivíduos, como sujeitos políticos capazes de influir na elaboração
das políticas urbanas e delas beneficiarem-se, a fim de que seu direito à cidade seja
reconhecido e efetivado. Para tanto, o estudo vale-se de investigação jurídico-dogmática
e de investigação de caráter jurídico-sociológico, por meio de pesquisa teórica, na forma
bibliográfica, seguida de análise crítico-dogmática e sociológica. Conclui-se que o
reconhecimento formal do direito à cidade para tais indivíduos é relevante tanto para
fins de efetivação concreta dos direitos (humanos) que o compõem como para a
afirmação de sua identidade frente à falsa ideia de sujeito político abstrato e universal.
Não obstante, ainda que o Direito configure um instrumento de manutenção de
injustiças socioeconômicas e culturais, os meios institucionalizados de participação
política não devem ser abandonados, mas sim reconstruídos, a fim de que os refugiados
e solicitantes de refúgio possam suprimir a subalternização e conquistar um espaço de
enunciação para a sua voz autêntica.

Palavras-chave: Refugiados; Direito à cidade; Participação política; Movimento social;


Identidade.

104
CONFLITOS SOCIOAMBIENTAIS URBANOS E
DESCOLONIALIDADE: A LUTA DA COMUNIDADE DA
SABIAGUABA, EM FORTALEZA-CE

Natalia Martinuzzi Castilho


Jacqueline Alves Soares

Após décadas de um modelo de desenvolvimento e expansão urbana que se reproduz,


no Brasil e na América Latina, a partir de relações coloniais de poder (QUIJANO, 2000,
2005), as cidades têm sido objeto de investimentos em políticas de cunho
preservacionista visando a recuperar o meio ambiente. Tais políticas, comumente, têm
configurado diversas injustiças ambientais. Os benefícios dessas intervenções, além de
geralmente não democratizados, agregam valor ao mercado de terras e materializam
políticas de higienização social, excluindo populações pobres do espaço recuperado. O
governo do estado do Ceará, desde 2015, elabora e discute propostas para a ampliação
de um Parque Ecológico ao longo do Rio Cocó (cidade de Fortaleza, no nordeste
brasileiro) como unidade de proteção integral com pretensão de ser a maior na
modalidade de “parques urbanos” da América Latina. Nesse traçado, o governo
sobrepõe o parque a áreas já ocupadas há décadas por populações que habitam nas
margens do rio, o que provocaria a expulsão de 666 famílias. Durante 2016, quando o
projeto começou a ser divulgado aos moradores da Sabiaguaba, em torno de 150
famílias, passaram a lutar para permanecer no local, reivindicando-se como
“comunidade tradicional”, na busca por legitimar-se como “guardiões” da natureza, no
intuito de acessar direitos previstos na Convenção 169 da OIT, sobre os Povos Indígenas
e Tribais. Com isso, esses grupos visam o reconhecimento de suas práticas e valores
culturais específicos, bem como ter seu direito sobre o território resguardado. Com essa
pesquisa, pretendemos averiguar como se dá a emergência da autoidentificação de um
grupo como “comunidade tradicional” e como a tradicionalidade pode ser mobilizada
como estratégia de luta por território na cidade. Por outro lado, pretende-se analisar em
que medida o Estado subverte os próprios estatutos normativos, consolidando uma
lógica de desenvolvimento baseada na produção de vítimas da modernidade (DUSSEL,
2000) e na violação de seus direitos humanos. Tais averiguações se dão com base em uma
pesquisa de campo prolongada, realizada a partir de um trabalho de assessoria junto à
comunidade em questão. Dessa perspectiva, são apreendidas as práticas dos atores, suas
estratégias e agências no decorrer da luta.

Palavras-chave: Direito à cidade; Justiça ambiental; Pensamento descolonial;


Comunidade tradicional.

105
NOVAS DINÂMICAS INSTRUMENTAIS DE REIVINDICAÇÃO DO
DIREITO À CIDADE: A LUTA DO MOVIMENTO SOCIAL CONTRA
A COMPANHIA SIDERÚRGICA NACIONAL PELA DEVOLUTIVA
DAS TERRAS DE VOLTA REDONDA-RJ

Maria Aparecida Vieira Albano Ferreira

Este resumo objetiva ressaltar o protagonismo do Coletivo Terras de Volta e sua


contribuição ao fortalecimento do moviment social em Volta Redonda-RJ nos contextos
da conjuntura sociopolítica-econômica na contemporaneidade brasileira. O Coletivo
Terras de Volta reflete a luta pela aplicação de princípios que tomam a cidade como
direito no campo do pensamento descolonial e dos direitos humanos na América Latina.
Sob a ótica das questões urbanas, a motivação da luta deste coletivo se funda na
exigência do cumprimento jurídico constitucional da Política Urbana. Nessa direção, os
artigos 182 e 183 da Constituição Federal ancoram o direito à cidade, à habitação, ao
acesso aos serviços públicos de qualidade e à oportunidade digna de vida a todos
(BRASIL, 1988) e o Estatuto da Cidade os regulamentam (BRASIL, 2001). Em vista do
descumprimento desses dispositivos, a luta desse coletivo social vem problematizando
a manutenção de bens não-operacionais1 em poder da Companhia Siderúrgica Nacional-
CSN/Usina Presidente Vargas-UPV. Neste texto, o conceito de “bens não-operacionais”
se refere a bens incorporados ao patrimônio da CSN-UPV que não afetam o desempenho
de suas atividades industriais. A inicial pela devolutiva desses bens públicos se
substanciou por intermédio de uma Ação Civil Popular-ACP ajuizada em tribunal
próprio em 2005. Decorridos dez anos da inicial, o MPF instaurou Inquérito Civil
(PRMVR, 2015) cujo objeto consistiu no reconhecimento do caráter público de bens não-
operacionais indevidamente apropriados pela CSN, a partir do processo de privatização
ocorrido em 1993. Cabe registrar que o MPF (PRMVR,2015) não apenas acatou a ACP
como, também, sustenta a fundamentação de desvio de finalidade pública, haja vista a
desapropriação de terras ter sido promovida pela União e pelo Estado, conforme atos de
destinação de tais bens para fins de instalação, operacionalização e manutenção da
CSN/UPV em 1941. A metodologia utilizada, de cunho descritivo-analítico, se
constituiu a partir de dados secundários oriundos de revisão bibliográfica para os
levantamentos conceituais temáticos e fundamentação teórica, pertinentes aos objetivos
do artigo. Para tal foram utilizados materiais como livros, teses, dissertações, artigos
científicos e informes técnicos digitais da web, de forma a se considerar os diversos
pontos de vista relacionados ao tema. Por sua vez, os conceitos-chave da pesquisa foram
aplicados para elucidar e aprofundar aspectos relevantes da evolução histórico-política
e de reconfiguração produtiva do território. Assim, de um lado, buscou-se contrapor os
legados da CSN-UPV como matriz de atração de força de trabalho e como produtora de
desigualdades sociopolíticas, econômicas e ambientais no território. De outro lado, as
determinações socioeconômicas dos problemas, dos conflitos institucionais e o

1
A referência de bens não-operacionais abrangem territórios dos municípios de Volta Redonda, Pinheiral
e Barra Mansa, estado do Rio de Janeiro-Brasil.

106
significado das articulações dos sujeitos coletivos para a configuração e reconfiguração
das relações sociais em torno da CSN-UPV. Os resultados passaram pela análise e
sistematização de informações relevantes do processo de luta do Coletivo Terras de
Volta; sobretudo, por este se converter numa força de potencialização da resistência do
movimento social em Volta Redonda-RJ.

Palavras-chave: Movimento social; Sujeitos coletivos; Pensamento descolonial; Direito à


cidade.

107
MONUMENTO ÀS BANDEIRAS – REPRESENTAÇÃO E
INVISIBILIDADE

Adauany Pieve Zimovski

Em outubro de 2013, o Monumento às Bandeiras (SP) foi o local escolhido para diversas
ações de protesto contra a PEC 215 – Proposta de Emenda à Constituição que propõe
transferir ao Congresso a decisão final sobre a demarcação de terras indígenas, territórios
quilombolas e unidades de conservação no Brasil. O grupo Pixo Manifesto Escrito, do qual
faz parte o pixador Cripta Djan, realizou uma intervenção na escultura de Victor
Brecheret com os dizeres “PEC 215 não” e “bandeirantes assassinos”. Segundo Néstor
García Canclini, “o patrimônio é o lugar onde melhor sobrevive hoje a ideologia dos
setores oligárquicos”, considerando que “a perenidade desses bens leva a imaginar que
seu valor é inquestionável”. O presente trabalho propõe uma leitura alternativa deste
monumento histórico/artístico, impulsionado pela concepção de paradigma indiciário de
Carlo Ginzburg, recorrendo a dados não explícitos de sua materialidade (o monumento
em si), relacionando-os à prática de ressignificação simbólica trazendo o debate sobre
conflitos urbanos no contexto latino-americano. Problematiza os vários níveis de
apagamento social que a sua narrativa oficial promove, trazendo o exemplo da presença
da pixação na cidade de São Paulo como expressão visual da resistência ao modelo de
cidade coorporativa que privatiza os espaços públicos e como reivindicação do direito à
cidade e do direito à existência simbólica.

Palavras-chave: Monumento; Conflitos urbanos; Ressignificação.

108
OCUPAÇÕES ESCOLARES E DIREITO À CIDADE: REFLEXÕES
ACERCA DO PAPEL DA UNIVERSIDADE NOS MOVIMENTOS DE
BASE, A PARTIR DA OCUPAÇÃO DO INSTITUTO DE EDUCAÇÃO
CRISTÓVÃO DE MENDONZA/RS

Enzo Bello
Renata Piroli Mascarello
Rene José Keller

Com a agenda de corte de direitos por parte do governo ilegítimo de Michel Temer,
somado à ofensiva imperialista de um capitalismo em crise de sobreacumulação, uma
forma de resistência pode ser ensaiada a partir da unidade entre setores da sociedade
civil, numa espécie de sujeito coletivo. O melhor palco para essa resistência é o espaço
urbano e o direito à cidade é um pleito capaz de aglutinar diversos segmentos e lutas.
Entretanto, antes de pensar em unidade, é necessário revisitar métodos de organização,
considerando, entre tantos elementos, as novas formas de mobilização, como as
ocupações em escolas públicas ocorridas em 2016. Por ser uma ação conduzida por
adolescentes, alguns coletivos se aproximaram das escolas para prestar apoio.
Acadêmicos e pesquisadores também se fizeram presentes, para observar e/ou se
integrar ao movimento, proporcionando uma troca de aprendizado entre os ocupantes
(prática; entusiasmo) e os universitários (teoria; experiência). Uma dessas experiências
aconteceu no Instituto Estadual de Educação Cristóvão de Mendoza, em Caxias do
Sul/RS. O trabalho realizado por estudantes do ensino superior e da pós-graduação, no
sentido de auxiliar na tomada de decisões quanto aos rumos do movimento, foi
fundamental para que a mencionada ocupação se encerrasse com êxito. Com base nas
premissas, experiências e necessidades apontadas, articuladas com categorias de
Antonio Gramsci, este trabalho tem como objetivo refletir sobre o papel e importância
dos intelectuais dentro das organizações de base, ao mesmo tempo em que busca
problematizar a necessidade e dificuldades de atuação contínua. Sob resguardo do
materialismo histórico dialético, o estudo possui caráter qualitativo, e interdisciplinar e,
aliando o conhecimento teórico com o caso prático, tem como técnicas a pesquisa
bibliográfica e a observação não-participante. As questões a serem respondidas são: (a)
o que é hegemonia? (b) o que é o intelectual orgânico?; (c) como esses conceitos puderam
ser utilizadas na organização da ocupação estudada? Mais do que relatar uma
experiência de luta urbana, pretende-se avaliar como a universidade pode contribuir
para a construção desse sujeito coletivo, objetivando que os jovens das ocupações não se
dispersem e permaneçam mobilizados para enfrentamento dos novos desafios que estão
por vir.

Palavras-chave: Cidadania; Hegemonia; Instituto de Educação Cristóvão de Mendonza;


Ocupações estudantis; Subjetividade.

109
OS GRANDES PROJETOS DE DESENVOLVIMENTO NO RIO DE
JANEIRO: COLONIALIDADE DO PODER E DISPUTAS PELO
TERRITÓRIO

Anna Cecilia Faro Bonan


Bernardo Xavier dos Santos Santiago
Marcela Munch de Oliveira e Silva

O presente trabalho objetiva analisar as disputas nos territórios, tendo como chave
analítica a categoria “Colonialidade do Poder” (QUIJANO, 2000), no contexto da
implementação dos “Grandes Projetos de Desenvolvimento” no Rio de Janeiro”
(ALENTEJANO, 2012), cujo marco temporal é estabelecido entre os anos de 2007-2016.
Por grandes projetos de desenvolvimento no Rio de Janeiro, compreendemos o processo
de reordenação territorial levado a cabo a partir de dois eixos estruturantes e imbricados
entre si: a consolidação da cidade do Rio de Janeiro enquanto “Cidade Global”
(SANCHEZ, 2001) no contexto de adequação espacial para recepção dos megaeventos
(VAINER, 2013) e a inserção estadual no padrão neoextrativista de acumulação latino-
americano (GUDYNAS, 2009), a partir das grandes obras de infraestrutura ligadas ao
setor de energia (Gás e Petróleo), siderurgia, indústria naval e construção civil
(BARCELOS, 2014).
Os resultados iniciais, até onde é possível aferir, apontam que o padrão hegemônico de
intervenção do capital atua refletindo no espaço as dominações de classe, etnia, gênero
e sexualidade e, por outro lado, a cidadania dos sujeitos coletivos constituem novas
territorialidades nos conflitos incidindo desde abajo no processo de produção do espaço
e na efetivação dos direitos humanos.
Adota-se, para tanto, a metodologia da pesquisa interdisciplinar com orientação
epistemológica na teoria crítica, congregando teoria e práxis, através da conjunção dos
marcos teórico-metodológicos do materialismo histórico e dialético e do pensamento
descolonial. As principais categorias teóricas analisadas na pesquisa são aquelas
referentes ao “direito à cidade”, “movimentos sociais”, “cidadania”, “resistência”,
“território” e “decolonialidade”. Adotam-se, ainda, os raciocínios indutivo e dedutivo,
numa abordagem jurídico-sociológica pelos modos de pesquisa qualitativa e
quantitativa, o que envolve as técnicas de pesquisas de revisão bibliográfica, análise
documental e observação não participante. A realização da pesquisa ocorre no âmbito
do Grupo de Pesquisa Cidadania e Direito no Espaço Urbano, que se insere no Núcleo
de Estudos em Planejamento Habitacional e Urbano (NEPHU-UFF), que congrega
professores doutores e mestres, mestrandos, graduados e graduandos.

Palavras-chave: Colonialidade do Poder; Cidadania; Megaeventos; Neoextrativismo;


Território.

110
A CIDADE-SUJEITO: UMA OBSERVAÇÃO MEDIADA PELO
PORTO MARAVILHA

Luana Couto Campos

Ao articular uma conversa com o que está fora de suas margens, a presente pesquisa
apresenta-se como ferramenta de observação da subjetividade urbana. Cuida-se de
empreendimento que aparece metodologicamente alicerçado no diálogo da alteridade
revelada no pensamento de Jacques Derrida com uma investigação que se pretende mais
próxima da paisagem urbana, contribuindo para a compreensão da cidade-sujeito, ao
buscar refletir a respeito do movimento de revitalização do Porto do Rio de Janeiro, o
Porto Maravilha. Objetiva-se, assim, pensar sobre os processos de urbanização que dão
fôrma à cidade dentro de uma proposta que desloca a representação subjetiva do plano
da singularidade operante, associando o sujeito a um espaço privilegiado. Observo-o
enquanto categoria que surge em resposta às demandas por uma redoma de proteção,
para além da qual outros são deixados de fora, objetificados. Dentro de uma análise que
parte da percepção do sujeito como lugar, uma comunidade visível e limitada passível
de ser observada, busco trabalhar com o problema que eflui da igualdade produzida por
essa cidade-sujeito e cuja visibilidade ascende quando notamos o que extrapola tal esfera
de coesão, no momento em que percebemos que há heterogeneidades interpelando os
seus limites. Perceber o urbanismo como técnica significa ficar atento aos processos
hegemônicos que concebem a representação desse espaço, colocando a cidade-sujeito e
a cidade-objeto em um processo de retroalimentação. Ela, a cidade-sujeito, só assim se
apresenta porque, antes, é mercadoria, tão logo, o espaço da subjetividade vai mostrando
seus contornos em meio à dinâmica de espoliação dos mais diversos outros pelo capital,
à medida que não estão aptos a consumir a cidade. Tornando-se um bem de consumo a
cidade-objeto é artigo de luxo que só cabe a alguns, aqueles mesmos indivíduos que
ocupam o espaço de privilégio criado nos braços da subjetividade urbana. Observar uma
tendência na configuração do ambiente urbano, o que chamo de cidade-sujeito, ajuda no
enfrentamento da diferença que a confronta e torna possível a ressignificação do espaço,
a sua concepção a partir dos múltiplos eventos, aos quais estão integrados múltiplos
atores e as suas múltiplas vulnerabilidades.

Palavras-chave: Direito à cidade; Sujeito; Alteridade

111
DEFESA DOS DIREITOS DE OCUPAÇÕES URBANAS E
TRANSFORMAÇÃO SOCIAL: AS POTENCIALIDADES DA
EDUCAÇÃO POPULAR EM DIREITOS PARA A APROPRIAÇÃO DO
ESPAÇO E ORGANIZAÇÃO COMUNITÁRIA

Ana Cláudia Mauer dos Santos


Fabiana Cristina Severi

O objetivo deste artigo é apresentar reflexões iniciais sobre a experiência de assessoria


jurídica popular e seu desafio em favorecer a organização comunitária em ocupações
urbanas em Ribeirão Preto-SP, tendo em vista a luta pela garantia de direitos humanos
e a construção de novas sociabilidades. Diante das contradições da prática jurídica e
militante, a finalidade da investigação tem sido realizar uma análise crítica das
potencialidades e limitações de advogadas/os populares em facilitar e proporcionar
espaços de diálogo, de construção e difusão coletivas de conhecimentos, e de enunciação
de tais grupos urbanos subalternos nas múltiplas esferas políticas, institucionais ou não.
Não se trata de pretensão em recuperar a voz ou a consciência do subalterno, ou ainda
falar por e nolugar dele, como critica Spivak, senão de pensar como criar mecanismos
para ser possível falar, poder opinar e discutir suas necessidades, (re)criar narrativas
sobre suas experiências, (re)contar sua história. Percebe-se uma relação íntima entre
assumir a narrativa da própria história e se reconhecer enquanto sujeito de direitos e, no
contexto da luta urbana, isso perpassa o território ocupado. A busca pelo
reconhecimento dos direitos fundamentais e sobre a terra é também uma luta por
ressignificar, subverter e defender lugares, ou seja, é a tessitura de narrativas individuais
e coletivas sobre a relação com o espaço em que se vive, com as pessoas que o conformam
e o produzem, com as condições que os põem em condição de subalternidade, é uma
construção de identidades também coletivas, a produção artesanal de lugares e de
memória. Buscar-se-á, seguindo as formulações de Walter Benjamin, mais que responder
perguntas sobre o que fazer, sugerir continuações de uma narrativa, retirando da
experiência o que é relatado, para que se possa vislumbrar novos caminhos para a
assessoria jurídica popular. Ao discutir análises possibilitadas por uma sistematização
de experiências compromissada com a transformação social, pretende-se contribuir com
uma práxis em que reflexão e ação; militância política, pesquisa e advocacia; defesa
processual e educação em direitos estão indissociadas; a fim de romper relações sujeito-
objeto, produzindo conhecimentos para, de acordo com Paulo Freire, contribuir para
processos de emancipação dos sujeitos envolvidos.

Palavras-chave: Assessoria jurídica popular; Advocacia popular; Educação popular em


direitos; Pesquisa militante; Apropriação do espaço; Organização comunitária

112
A INFLUÊNCIA DOS MOVIMENTOS DE OCUPAÇÃO NA
TRANSFORMAÇÃO DO ESPAÇO URBANO EM BEM COMUM
SOCIAL

Michel Luna Machado Freitas

A formação das cidades está intimamente relacionada a processos de ocupação


territorial, desde sua formação histórica até sua intervenção política e social, tudo está
ligado à ocupação de espaços para transformação e criação das cidades.
Nesse contexto, o exercício de urbanização faz parte de um poder coletivo de reinvenção
social das cidades que envolve a participação ativa de seus atores como protagonistas
sociais e políticos, ou seja, a população como real interventor urbano.
No entanto, a produção capitalista do espaço urbano tende a reduzir a cidade como
espaço social político de convivência e transformação, estabelecendo a fragmentação dos
espaços através da mercantilização da cidade.
Diante deste cenário, os recentes movimentos de ocupação se revelam com um
promissor fator de intervenção política das cidades conexo à transformação de cenários
urbanos através da utilização de espaços urbanos coletivos como instrumento de
protesto.
O estudo pretende através de análise bibliográfica estabelecer a influência de
movimentos de resistência política através da ocupação na transformação do espaço
urbano e consequentemente das cidades.
Acerca do conceito de espaço sob enfoque urbano, em seu sentido literal se compreende
como uma área física, no entanto a ausência de relações sociais que permeiem o espaço
faz com que seu contexto urbano perca suas características e o transforma em um não-
lugar, pois carece de identidade e história. (AUGÉ, 1994)
Sob este enfoque a transformação de espaços urbanos em bem comum requer sua
apropriação pelos cidadãos através de ações políticas (HARVEY, 2012), contexto
freqüente adotado por movimentos de ocupação, quer seja em escolas, universidades,
praças ou órgãos públicos. Esta intervenção social passa a ser um movimento de
transformação urbana, nesse sentido assevera Harvey:
“A rua é um espaço público transformado com freqüência, pela ação social, em um bem
comum revolucionário.” (2012, p. 115)
Dessa forma, é necessário unificar os conceitos de espaço e bem comum para que se
estabeleça a formação de uma urbe inclusiva e resiliente que permita a seus cidadãos a
construção e modificação da cidade por suas ações, e a transformar a si mesmos através
da interação com a cidade.

Palavras-chave: Ocupação; Bem comum; Espaço; Espaço Urbano.

113
PARA PENSAR A CONSTRUÇÃO DO ACESSO DESCOLONIAL A
CIDADE: UMA ANÁLISE DA OCUPAÇÃO DOS ESPAÇOS
URBANOS PELOS POVOS ROMANÍ NO RIO GRANDE DO SUL

Alex Sandro da Silveira Filho

O presente trabalho tem como objetivo geral identificar, com base na realidade dos
povos Romaní do Rio Grande do Sul, a existência (ou não) de mecanismos legais de
acesso aos espaços urbanos para essas comunidades, capazes de enfrentar a urbanização
capitalista e a matriz colonial de poder. Para tanto, inicialmente, será feita uma análise
do nomadismo e seu início, assim como a trajetória Romaní na Europa e aspectos
históricos e atuais de sua presença no Brasil, e por fim, das leis municipais do Rio Grande
do Sul que tratem da presença dos Romaní em seus territórios. Após isso, serão
analisadas a formação dos espaços urbanos na modernidade, tanto na Europa, quanto
no Brasil, como a lógica da colonialidade interferiu na formação desses espaços na
América Latina. Por fim, serão analisadas alternativas que possam ser feitas a esse
modelo urbano moderno/colonial, como a descolonialidade, a interculturalidade e a
multiterritorialidade, assim como a sua inserção nos marcos legais internos e
internalizados de proteção aos direitos culturais dos ciganos no país, assim como uma
análise comparada do direito colombiano sobre a temática. A pesquisa será de
modalidade científica, de cunho exploratório, mediante análise bibliográfica e
documental dos aspectos concernentes a presença dos povos Romaní na Europa e no
Brasil, de legislações brasileiras internas e internalizadas sobre os ciganos e demais
comunidades tradicionais, dos mecanismos legais dos municípios gaúchos sobre o tema,
assim como de obras que tratem da formação dos espaços urbanos, da lógica da
colonialidade, e das teorias alternativas supramencionadas a esse tema. Os resultados
da pesquisa apontam que a lógica da colonialidade se faz presente nos espaços urbanos
das cidades do Rio Grande do Sul, a medida que as leis municipais que tratam da
ocupação pelos povos Romaní de seus espaços urbanos tendem a limitar, e não a
promover esse direito cultural para as comunidades.

Palavras-chave: Povos Romaní; Rio Grande do Sul; Espaços urbanos; Colonialidade;


Interculturalidade.

114
A REGULARIZAÇÃO FUNDIÁRIA DE INTERESSE SOCIAL
ENQUANTO INSTRUMENTO DE PROMOÇÃO AO DIREITO À
MORADIA DIGNA NO LOTEAMENTO NOVO MILÊNIO -
PELOTAS/RS.

Marcela Simoes Silva

O crescimento e desenvolvimento desorganizado do espaço urbano contribuíram para a


formação de loteamentos irregulares e clandestinos, constituindo uma cidade ilegal
dentro da cidade legal. Segundo pesquisa da Secretaria Nacional de Programas Urbanos,
18 milhões de domicílios urbanos são irregulares, sendo que 12 milhões desses
domicílios são ocupados por família com renda per capita de até 01 salário mínimo.
Portanto, viver em uma cidade sem planejamento, invisível para a legislação urbanística
é uma triste para os indivíduos que vivem em situação de vulnerabilidade. No município
de Pelotas-RS, a situação fundiária não difere do panorama nacional, conforme
levantamento realizado através do III Plano Diretor da cidade (Lei nº5502/08), 90 mil
pelotenses, ou seja, 27% da população habitam áreas irregulares, onde não há
titularidade da propriedade e as condições de habitabilidade são precárias. Diante da
quantidade massiva de pessoas que vivem em situação de insegurança fundiária, o
objetivo da pesquisa é compreender o instituto da regularização fundiária urbana de
interesse social como proposição para garantia do direito à moradia digna. O método
utilizado é o dedutivo, partindo-se de uma revisão d leis federais no âmbito da
habitação, como o Estatuto da Cidade - Lei nº10.257/10 e a Lei do Minha Casa, Minha
Vida - Lei nº 11.977/2009, a fim de compreender o instituto da regularização fundiária
de interesse social. Utiliza-se também o método auxiliar de trabalho de campo no
Loteamento Novo Milênio, localizado no município de Pelotas-RS, de modo a analisar
se o instrumento da regularização fundiária atinge o fim previsto. A regularização
fundiária é um instituto que reúne elementos sociais, ambientais e jurídicos, permitindo
que ocorra a regularização do domínio bem como a regularização plena, assegurando o
direito à moradia digna. Entretanto, esse não foi o resultado encontrado no Loteamento
Novo Milênio. Embora ocorreu a regularização do domínio aos moradores, não se
garantiu as condições de infraestrutura necessária para uma moradia digna, mesmo que
seja previsto pelo instituto.

Palavras-chave: Regularização fundiária; Direito à cidade; Moradia digna.

115
A CIDADE DE NITERÓI/RJ À VENDA NO MERCADO DE CIDADES

Vitor Fraga da Cunha

A ideia de cidade-produto significa um modelo no qual transforma espaços de convívio


público em fonte de especulação do capital sem qualquer compromisso com a efetivação
de direitos básicos. Tendo em vista esse modelo de cidade, este trabalho tem como objeto
de estudo a cidade de Niterói/RJ e o projeto de revitalização de seu centro. A escolha de
Niterói justifica-se pois é a cidade com o maior índice de desenvolvimento humano no
estado do Rio de Janeiro, mesmo assim o Plano Local de Habitação de Interesse Social
(PLHIS), de 2011, estima que haja 28 mil pessoas em moradias precárias na cidade. A
presente pesquisa busca explicitar o impacto do projeto supracitado na qualidade de
vida da população, bem como pensar meios para uma cidade mais inclusiva. Para tal
fim, realiza-se uma pesquisa qualitativa, tendo como técnicas a observação não
participante, análise documental e revisão bibliográfica. Dos estudos realizados se nota
que a prefeitura tentou aprovar o projeto rapidamente e evitou a participação
democrática da população, através (i) da fragmentação das discussões em reuniões por
segmento social e políticos interessados ou envolvidos com o processo; (ii) a convocação
de funcionários comissionados para votarem de acordo com a proposta do prefeito; (iii)
audiências públicas, exigidas por lei, com restrições de tempo de fala e nítido objetivo
de esvaziamento desses espaços. Contudo grupos contra hegemônicos (universidade e
entidades profissionais) estão na resistência, reivindicando um espaço para o debate de
ideias. Conclui-se por meio de tal estudo preliminar que o projeto tem cunho
mercadológico, isto é, está subordinado a lógica do mercado que busca atrair
‘‘compradores’’ externos. Nota-se também o fenômeno da gentrificação como uma
possível consequência. Esta ocorre quando há melhorias físicas que valorizam uma área
até então subvalorizada, isto estimula a ocupação deste espaço pela classe média bem
remunerada, expulsando para as periferias as classes populares. Assim, a cidade não
cumpre sua função social, positivada no art. 182 da Constituição Federal e no art. 1º,
parágrafo único do Estatuto da Cidade (Lei 10.257/11).

Palavras-chave: Niterói; Revitalização; Gentrificação; Direito à cidade.

116
VILA AUTÓDROMO - CONFLITOS SOCIOPOLÍTICOS E LUTA
URBANA

Vitor Fraga da Cunha

Frente a implementação do modelo econômico-hegemônico neoliberal na América


Latina, a cidade do Rio de Janeiro através da realização de megaeventos – Copa do
Mundo e Jogos Olímpicos – vem sendo palco de grandes conflitos sociopolíticos.
Movimentos sociais reivindicam o seu direito à cidade, isto é, reivindicam não apenas
usufruir do espaço urbano, também querem modifica-lo. Apesar da pertinência e
necessidade de se estudar esse cenário, uma vez que o direito à cidade está intimamente
ligado a efetivação de direitos humanos, a área jurídica carece de pesquisas, as maiores
contribuições para o debate e as principais referências bibliográficas vem de outras áreas
do conhecimento, como a geografia, por exemplo. Por esses motivos, busca-se na
presente pesquisa não só expor e analisar os conflitos e o direito à cidade no Rio de
Janeiro, mas também propor alternativas para uma cidade mais plural, com
reconhecimento de direitos. Para tanto, realizou-se uma pesquisa qualitativa, usando
como técnicas de pesquisa a revisão bibliográfica, análise documental e observação não
participante. O objeto escolhido para o estudo foi a Vila Autódromo, símbolo de luta por
moradia no Rio de Janeiro. Dos estudos realizados pode-se notar que a Prefeitura carioca
adotou o modelo de cidade-empresa, no qual suas políticas públicas são pensadas
exclusivamente por empresários e políticos conservadores, o que as subordinas a lógica
do mercado e ignoram a qualidade de vida de uma população que historicamente já
sofre com a omissão do Estado. Tal modelo de cidade ocasionou a remoção de mais de
80% dos moradores da Vila Autódromo, que não tiveram direito a voz, mas em
contrapartida mobilizaram-se contra as ações da Prefeitura e elaboraram o Plano
Popular da Vila Autódromo, projeto que demonstra a vontade dos moradores de
permanecerem no local e a viabilidade técnica disso. Conclui-se por meio de tal estudo
preliminar que ao invés de propor remoções, o poder público deveria reconhecer e
ampliar iniciativas criadas pelos próprios moradores, investindo em regularização
fundiária, assistência técnica gratuita, políticas de transferência e geração de renda,
estímulo às redes sociais e culturais existentes, acesso à mobilidade urbana e a todos os
serviços públicos

Palavras-chave: Vila Autódromo; Remoções; Direito à cidade; Luta urbana

117
ALTERIDADE, ESTIGMA E DESCOLONIZAÇÃO
NA AMÉRICA LATINA
ALTERIDADE SURDA E AGENCIAMENTO DECOLONIAL: POR
UMA COMUNICAÇÃO PEDAGÓGICA DA EXISTÊNCIA SOCIAL
DE DIREITOS

Aparecida Costa Reis


Ludmila Pereira de Almeida

O processo de comunicação ao visar favorecer valores e ideais hegemônicos tem


produzido informações que fazem realidades atualizando narrativas de dominação e
controle dos corpos, e até de quais sentidos receptivos (tato, olfato, audição, paladar,
visão) são mais importantes. Uma visibilidade que é alicerçada pela trajetória histórica
de quais corpos importa ao poder, quais corpos podem falar, serem representados
midiaticamente e fazer parte da dita civilização. Nosso objetivo é discutir como os
processos de visibilidade/representação midiática hierarquizam os sentidos corporais e
subalternizam outros como forma de excluir/apagar ou subalternizar a existência de
sujeitos com dificuldade auditiva. Partiremos da experiência/interpretação da autora,
negra, quilombola, periférica, em contato, como interprete, de sujeitos surdos de uma
escola pública, e quais as experiências desses frente a sua representação na mídia. Assim,
os ideais de direitos humanos em consonância com práticas de comunicação
hegemônicas ainda encontram dificuldades para com sujeitos que necessitam de uma
outra comunicação e existência social que parta do diálogo (FREIRE, 1987), da
diversidade de sujeitos, e não de uma noção unilateral de comunicação apregoada pela
mídia. Nesse sentido, a colonialidade do poder e saber (QUIJANO, 2005) ao
padronizar/pedagogizar vidas e nomeá-las como “normais”, agência a subalternidade
e invalida a existência à sujeitos com dificuldades visuais, auditivos, cadeirantes, com
síndrome de Down. Portanto, optamos repensar por outras epistemologias, visando a
decolonialidade (WALH, 2009) e uma outra comunicação contra hegemônica para
articularmos como se configura a cultura do surdo, seu agenciamento como sujeito ou
não (SPIVAK, 2010; BUTLER, 1997) sua identidade, a inclusão e se os direitos humanos
são na pratica humanos ou estão apenas reproduzindo ideologias dominantes que
favorecem um tipo de sujeito.

Palavras-chave: Surdos; Comunicação; Existência social; Decolonialidade do


saber/poder; Direitos humanos.

119
A BUSCA PELA EFETIVAÇÃO DA CIDADANIA DE MULHERES
PERIFÉRICAS: REFLEXÕES A PARTIR DOS CURSOS DO
PROGRAMA “MULHERES MIL”, REALIZADOS NAS CIDADES DE
BELO HORIZONTE E DE OURO VERDE DE MINAS

Fernanda Rocha da Silva

O presente trabalho visa realizar uma análise crítica sobre o processo de formação da
cidadania de mulheres perifericas, em situação de vulnerabilidade social, que
participaram dos cursos de capacitação profissional ofertados pelo programa do
governo federal “Mulheres Mil”, executado pela Fundação de Educação para o Trabalho
de Minas Gerais – Utramig, no Estado de Minas Gerais. Os cursos foram oferecidos a
mulheres da Ocupação Rosa Leão na cidade Belo Horizonte e da comunidade
quilombola Santa Cruz no município de Ouro Verde de Minas. As bases teóricas
utilizadas, para realizar a análise da construção da cidadania dessas mulheres, foram a
teoria da colonialidade de poder de Aníbal Quijano, Ramón Grosfoguel e Walter
Mignolo, alem do pensamento de Jesse Souza sobre a pluralidade de habitus,
caracterizando os tipos de cidadania existentes em uma sociedade periferica. E, para isso,
partimos do pressuposto de que as mulheres participantes dos cursos partilham de um
status de subcidadania, por incorporarem um habitus precário, e, tambem, por estarem
inseridas num contexto social marcado pelas estruturas de dominação da colonialidade
de poder, que ainda se presente na sociedade brasileira. É a partir desse cenário de
exclusões e de desigualdades sociais que se pretende desenvolver este artigo,
procurando demonstrar a influência dos eixos de poder da colonialidade na estruturação
social e no desenvolvimento das pre-condições sociais, culturais e econômicas das
mulheres perifericas, os quais ensejam a formação de desclassificadas sociais. Para
enfim, chegar a conclusão de que os cursos oferecidos pelo programa “Mulheres Mil”
são contribuições importantes para o empoderamento das mulheres em situação de
vulnerabilidade social, atuando no fortalecimento da autoestima delas, alem de
incentivar e capacitar à geração de renda por elas próprias, a fim de que tenham acesso
aos capitais cultural e econômico, de forma que possam superar a subalternidade, e,
assim, alcançar o patamar da cidadania plena.

Palavras-chave: Colonialidade de Poder; Subcidadania; Mulheres Periféricas; Programa


“Mulheres Mil”; Empoderamento.

120
DESCOLONIZAÇÃO OU NEOCOLONIZAÇÃO DO TERRITÓRIO
NA REGIÃO ANDINO-AMAZÔNICA? DISPUTA PELA
PLURINACIONALIDADE E O VIVIR BIEN NA BOLÍVIA

Evanderson Camilo Noronha

Os recentes “processos de mudança” político-estatal, que tiveram lugar na região


andino-amazônica do subcontinente sul-americano, foram fruto, em grande medida, de
“movimentos societais”, com base, principalmente, em movimentos indígenas, como
nos casos da região Andino-Amazônica, que revelaram uma “crise” do Estado-Nação,
constituíram os referenciais geradores de processos constituintes e instalaram
imaginários de descolonização e horizontes de construção de “Estados Plurinacionais”,
os quais, aliás, hoje enfrentam fortes momentos de crises. Assim, atualmente
evidenciamos tensões, contradições e disputas em torno do imaginário do “Estado
Plurinacional” e do princípio/projeto de matriz comunitária denominado “Vivir Bien”,
com governos ditos “progressistas”, “de esquerda”, ou “indigenistas” que ficaram
limitados pelo horizonte de um modelo de desenvolvimento de tipo (neo)extrativista,
hegemônico nas políticas estatais, em forte tensão com atores sócio-territoriais indígenas.
Isso evidenciou-se no caso TIPNIS, onde o Estado boliviano, sem consulta prévia,
conforme exigido na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, da qual
a Bolívia é signatária, construiu uma autoestrada que atravessa o Territorio Indígena y
Parque Nacional Isiboro Sécure (TIPNIS). Os atuais conflitos socioambientais na região
andino-amazônica colocaram em questão a orientação dada aos “processos de
mudança” em países como a Bolívia: Desenvolvimentismo ou construção de alternativas
ao desenvolvimento? (Neo)Extrativismo ou “Vivir Bien”? Constituição de um “Estado
Plurinacional” ou a continuidade monocultural do Estado-Nação? Descolonização
territorial ou (re)colonização do território? A metodologia utilizada foi a análise
documental, que se consiste em identificar, verificar e apreciar os documentos com uma
finalidade específica e, nesse caso, preconizou-se a utilização de uma fonte paralela e
simultânea de conhecimentos para permitir a complementação e a contextualização das
informações e dos dados contidos nos documentos. Propõe-se, concretamente, uma
leitura crítica da disputa pelo território e a plurinacionalidade na Bolívia, a partir da
ressurgimento de movimentos sócio-territoriais indígenas e suas reinvindicações
descolonizadoras do território. Indaga-se como estes grupos estariam constituindo
núcleos de resistências ao capital e ao próprio Estado e se têm posto em questão o
direcionamento do autodenominado “processo de mudança” e se disputam imaginários
em torno da plurinacionalidade do Estado e o chamado “Vivir Bien” como imaginários
de pós-desenvolvimento dentro dos horizontes possíveis de emancipação social na
região.

Palavras-chave: Bolívia; Neocolonização; Plurinacionalidade.

121
POR UMA DESCOLONIALIDADE DO PODER A PARTIR DE
ENRIQUE DUSSEL

Tiago dos Santos Rodrigues

O trabalho se propõe a apresentar e a problematizar a recente proposta política do


filósofo argentino, radicado no México, Enrique Dussel, para tanto, se valerá
principalmente de três de suas obras: 20 Teses de Política, Política da Libertação: história
mundial e crítica, Política da Libertação: arquitectónica. Dussel procura formular uma
filosofia política que possa dar sustentação teórica para as lutas de libertação do mundo
periférico. Ela quer ser tanto diferente da tradição burguesa e liberal como também
daquilo que se passou a chamar de socialismo real. Fundamentalmente baseada não no
poder de dominação (segundo a concepção weberiana: dominação legítima ante
obedientes), mas no poder obediencial, ou seja, por um poder não fetichizado – no poder
fetichizado o que exerce um poder confunde-se como sendo a sede desse poder –, mas
um poder serviçal, onde não há essa confusão (de exercício e sede) para “que os que
mandam, mandem obedecendo”, e obedeçam à verdadeira sede do poder: o povo. Para
isso, a análise da história política partirá não das grandes figuras e da historicidade
oficial que a modernidade ocidental estabeleceu, mas desde as políticas do mundo
antigo (hoje periférico) e desde as experiências dos atores “menores” da história. Para
uma política da libertação será preciso, então, superar o helenocentrismo das filosofias
políticas, o ocidentalismo, o eurocentrismo, a periodização oficial, o secularismo
tradicional, o colonialismo teórico e mental, e o discurso da Modernidade. Deste modo,
esse pensamento político se apresenta como transmoderno, um para além da
modernidade e não uma mera reformulação crítica da mesma modernidade – como é o
caso, para Dussel, do que se chama de pós-modernidade. Diferentemente do seu
trabalho da década de 1970, essa política tem pretensão universal, que dizer, não está
restrita à realidade latino-americana; como filosofia mundial, ela também procura
princípios normativos universais para a política, sem, contudo, considerar que haja em
razão disso certeza na ação política. Essa proposta de uma política da libertação que sirva
os interesses das classes e nações periféricas busca incluir a si um conteúdo material,
ético, por isso entende-se em mútua determinação com uma economia-política.

Palavras-chave: Política; Libertação; Transmodernidade; Povo.

122
DECOLONIZAR O PENSAMENTO AMOROSO

Mônica Barbosa

Os processos de normal[t]ização aos quais as relações amorosas e sexuais estão


submetidas fazem parte de um projeto político colonial que materializa no casal burguês
um ideal de sociedade. Nele as maneiras de expressão sexual e afetiva são classificadas
segundo o parâmetro universal da monogamia, difundida como forma “evoluída” de
relacionamento amoroso. Tal discurso parte do pensamento racista de que os europeus
são o ápice da trajetória civilizatória desde o estado de natureza (QUIJANO, 2005, p.
232). Para além do modelo colonial/moderno há outras formas de subjetividades e
relacionamento expressas em comunidades indígenas latino-americanas ou mesmos nas
tribos urbanas, que têm ocupado o lugar do exótico nos discursos amorosos.
Estigmatizadas e socialmente discriminadas, as relações não monogâmicas não se
efetivam no âmbito dos direitos sexuais, heteronormativos, identitários e influenciados
pela Igreja. Este trabalho pretende analisar os relacionamentos múltiplos sob a
perspectiva da decolonialidade e por meio da genealogia. Tal procedimento, criado por
Nietzsche (1844-1900), analisa as relações de força que operam no meio social e
disseminam focos de saber-poder, nos quais alguns discursos tornam-se hegemônicos,
outros subalternos. A genealogia faz crítica às noções de essência e verdade, base da
operação do conhecimento e da dominação colonial, assim como interroga a noção de
proveniência da verdade, ou seja, quais verdades foram criadas para que alguns
discursos se tornassem mais verdadeiros que os outros? Qual é o lugar das relações não
monogâmicas nos direitos sexuais?

Palavras-chave: Monogamia compulsória; Genealogia; Decolonialidade; Direitos


sexuais.

123
AUTONOMIA INDÍGENA E DECOLONIALIDADE: PROCESSOS DE
RESISTÊNCIA DOS POVOS INDÍGENAS À IMPLANTAÇÃO DE
PROJETOS EXTRATIVOS NO BRASIL

Estella Libardi de Souza

As significativas mudanças constitucionais na América Latina nas últimas décadas, que


reconheceram a diversidade cultural e revitalizaram a noção de cidadania, bem como o
reconhecimento dos direitos à livre determinação e à autonomia dos povos indígenas no
âmbito dos estados em que vivem, no âmbito do direito internacional dos Direitos
Humanos, trouxeram a possibilidade de transformação das práticas etnocidas e
genocidas historicamente perpetradas pelos estados nacionais contra os povos
indígenas, abrindo caminho para a construção de relações não coloniais e de estados
plurais. Contudo, tentativas de descolonização e refundação do Estado são obstadas
pelas práticas (ainda) pautadas pela colonialidade, o que é especialmente evidente
quando se trata da implantação de projetos desenvolvimentistas e extrativos em
territórios indígenas. No Brasil, como em outros diversos países latino-americanos, os
conflitos envolvendo povos indígenas, estados e grandes corporações em torno de
grandes projetos extrativos – usinas hidrelétricas, hidrovias, rodovias, ferrovias, portos,
mineração, entre outros – que afetam territórios indígenas revelam o confronto entre o
caráter permanentemente colonial dos estados e as aspirações dos povos indígenas em
manter e viver seus projetos históricos próprios. Propõe-se discutir, por meio de
pesquisa bibliográfica referente aos processos de resistência dos povos indígenas à
implantação de projetos extrativos, as ações e proposições dos povos indígenas que
enfrentam as práticas coloniais e intentam estabelecer mecanismos que permitam o
exercício da autodeterminação e da autonomia. Considera-se que a superação de tais
conflitos exige, entre outras questões, transformações institucionais profundas, que
possibilitem a efetiva participação dos povos indígenas nos processos de tomada de
decisão, e que as ações e proposições indígenas constituem propostas de descolonização
do Estado, por meio das quais o estado plural possa, nas fissuras, emergir.

Palavras-chave: Povos indígenas; Decolonialidade; Autonomia indígena; Projetos


extrativos.

124
INCULTURAÇÃO VERSUS INTERCULTURALIDADE, OS
CAMINHOS DA FÉ CRISTÃ NA AMÉRICA LATINA

Rosa Maria Ramalho

OBJETIVO:

Apresentar a partir da temática dos discursos pós-colonialistas, alguns aspectos


referentes ao tema Religião e interculturalidade utilizando-nos da reflexão do texto Da
inculturação à interculruralidade1 de Raúl Fornet-Betancourt (1946) que é um filósofo
cubano conhecido por seus estudos no campo da cultura e sobretudo por sua proposta
de um diálogo intercultural a partir da Filosofia latinoamericana.

PROBLEMA:

Qual a compreensão do Concílio Vaticano II sobre a inculturação?

Quais os desafíos da interculturalidade para as comunidades eclesiais?

De que forma a manutenção do conceito e da prática da inculturação dentro das


comunidades eclesias mantém um pensamento e uma prática colonial?

METODOLOGIA:

Procuraremos abordar o conceito de Inculturação a partir dos documentos do Concílio


Ecumênico Vaticano II e mostrar como a inculturação de certa forma dá continuidade ao
modo de evangelização colonial. Enquanto que, a interculturalidade da fé é pautada no
diálogo, no respeito, na escuta e na acolhida do diferente.

Para ilustrar a interculturalidade traremos, neste artigo, o exemplo da Irmãzinha


Genoveva que por mais de 60 anos viveu entre os indígenas tapirapés e no dia 24 de
setembro de 2013, morreu entre eles.

Palavras-chave: Inculturação; Interculturalidade; América Latina; Evangelização;


Vaticano II.

125
DIREITOS HUMANOS E ESTUDOS DO
DISCURSO
O SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL E A TERRA INDÍGENA
RAPOSA SERRA DO SOL – DESVENDANDO A
(DE)COLONIALIDADE DO SABER JURÍDICO BRASILEIRO PELO
ESTUDO DE CASO

Alessandra Ruiz Trevisol

No presente trabalho buscou-se problematizar o discurso jurídico da Corte


Constitucional brasileira, objetivando investigar a influência ou não da matriz colonial
de poder nos argumentos utilizados por Ministros do Supremo Tribunal Federal do
Brasil no julgamento de uma ação sobre direitos de povos originários. Para tanto,
utilizou-se o método do estudo de caso. Elegeu-se, para análise, o julgamento da Petição
3388 - ação popular que versou sobre a constitucionalidade da Portaria Ministerial e do
Decreto Presidencial que homologaram a Demarcação da Terra Indígena Raposa Serra
do Sol. Tratou-se de um caso paradigma, pois envolveu diversos atores sociais e entes
federativos, entre eles, comunidades indígenas, o Estado de Roraima, a União, a Funai,
entidades da sociedade civil, cidadãos, que participavam de um histórico conflito social,
político e econômico no local. Após a descrição dos fatos, a identificação da matéria
envolvida no caso, a sistematização dos argumentos de ambos os lados e a síntese da
decisão, foram destacados argumentos utilizados ao longo dos Votos do Relator Min.
Carlos Ayres Brito e o Voto Vista do Min. Menezes Direito. Tais argumentos foram
confrontados com a matriz colonial de poder, desenvolvida por Walter Mignolo, a partir
da concepção de Colonialidade como o lado obscuro, mas também essencial ao
fortalecimento da Modernidade Ocidental. Em primeiro lugar, destacou-se a ênfase
dada à questão da união em torno do nacional, que embasou o desenvolvimento do
argumento de que os povos originários do Brasil são minorias que fazem parte de uma
só realidade política e cultural – a nação brasileira. Em segundo lugar, analisaram-se as
exigências feitas para a caracterização da ocupação da terra pelos indígenas – o marco
temporal e a tradicionalidade desta ocupação. Ambas as questões expressam a
colonialidade do poder. Após, fez-se a análise da exigência de um extremo cientificismo
ao processo demarcatório, em especial uma crítica à elaboração do laudo antropológico
que embasou o processo. Assim, pôde-se perceber que o Tribunal criticou a própria
Antropologia, no tocante a seus métodos, numa deferência à colonialidade do saber. Por
último, procedeu-se à análise da referência feita no Voto do Ministro Menezes Direito ao
mito Macunaíma reinventado pelo movimento modernista, o que demonstrou a prática
da chamada hermenêutica de elite, isto é, o reforço da colonialidade do ser e do mito da
democracia racial no Brasil. Verificou-se, assim, a operatividade da matriz colonial do
poder sobre os argumentos jurídicos utilizados pelos Ministros do Supremo Tribunal
Federal no julgamento em tela, o que demonstrou a necessidade de que tais categorias
passem a fazer parte do debate jurídico brasileiro.

Palavras Chave: Matriz colonial de poder; Colonialidade; Supremo Tribunal Federal;


Demarcação; Terra Indígena.

127
LINGUAGEM DE DIREITOS E PROPRIEDADE INDÍGENA: O JOGO
DE LINGUAGEM DOS DIREITOS E SUA DEPENDÊNCIA COM
RELAÇÃO A UMA FORMA DE VIDA.

Saulo Monteiro Martinho de Matos

A pergunta central deste estudo consiste em saber se a linguagem de direitos pode ser
considerada um fator instransponível de limitação para solução de conflitos sociais
acerca do direito de propriedade no caso de incomensurabilidade entre culturas, em
especial, povos indígenas. Nesse sentido, as categorias de jogo de linguagem e forma de
vida serão utilizadas com objetivo de esclarecer os pressupostos da pergunta. O conceito
de forma de vida é compreendido como o pano de fundo comum ou sistema necessário
que permite, em última instância, o entendimento entre as pessoas. Toda forma de vida
pressupõe diversos jogos de linguagem, que são conjuntos de regras para determinação
do significado de assertivas. O direito pode ser caracterizado como um jogo de
linguagem que pressupõe (a) a utilização dos conceitos de pretensão, obrigação,
faculdade, não-direito, poder, sujeição, imunidade e inabilidade, (b) apresentando
necessariamente a pretensão de influenciar comportamentos intencionais humanos (c)
com objetivo de solucionar conflitos sociais (d) a partir da referência a um fato social.
Uma primeira resposta à pergunta central do estudo seria, portanto, positiva: a
linguagem caracteriza a prática do direito e impõe, dessa forma, limites, os quais não
podem ser ultrapassados sob pena de abandono do próprio jogo de linguagem jurídico.
Num segundo momento do estudo, porém, a tese da incomensurabilidade entre o jogo
de linguagem dos direitos e pretensões de grupos indígenas à propriedade será
analisada. Os problemas criteriais e científicos para o reconhecimento da propriedade
indígena serão apresentados a partir dos estudos de Jeremy Waldron sobre o uso da
linguagem de direitos a partir de uma posição contraturalista e Justin Evans a partir da
crítica de Derrida à linguagem de direitos. Ao cabo, no entanto, o estudo conclui que a
linguagem de direito per se não é o fator determinante para a impossibilidade da solução
de conflitos, conquanto seja um horizonte limitador para tanto.

Palavras-chave: Linguagem de direitos; Propriedade indígena; Formas de vida; Jogo de


linguagem, Wittgenstein.

128
APRENDENDO SOBRE RAÇA COM A REVISTA YOUNG ALLIES

Gustavo Silveira Ribeiro

No início dos anos 1940, uma das maiores editoras de histórias em quadrinhos dos
Estados Unidos, a Timely Comics, promovia em suas publicações uma campanha
incentivando o apoio popular à participação do país na Segunda Guerra Mundial. As
histórias em quadrinhos haviam ganhado grande espaço entre o público estadunidense
desde a depressão, nos anos 1930, pois se tratava de um meio de entretenimento barato
e de fácil acesso. No final dos anos 1930 surgiu um novo gênero de histórias em
quadrinhos, os super-heróis. Alçando um grande sucesso, as histórias de heróis com
habilidades especiais se multiplicaram entre as editoras, sendo um gênero consagrado
nos anos 1940. O dono da editora Timely, Martin Goodman, havia encomendado a dois
de seus funcionários o desenvolvimento de um personagem patriótico, daí a origem do
Capitão América. Entretanto, o enfoque deste trabalho é uma outra revista publicada
pela editora durante o mesmo período, a revista Young Allies. A Young Allies era
basicamente uma revista reunindo os sidekicks dos principais super-heróis da editora,
Capitão América e Tocha Humana, e mais alguns personagens, todos adolescentes.
Nessas histórias o jovem grupo enfrentava nazistas e, após o ataque a Pearl Harbor em
dezembro de 1941, passou a enfrentar inimigos japoneses também. O objetivo desta
pesquisa é analisar as maneiras pelas quais o discurso nessas histórias constrói
identidades raciais e de que formas essas identidades são articuladas para moldar as
concepções de “nós” e de “eles”. Trata-se de uma experimentação com o intuito de traçar
possíveis relações entre o discurso patriótico da Timely e a raça. Por fim, o arcabouço
teórico-metodológico desta pesquisa se alicerça nos estudos de mídias desenvolvidos
por Douglas Kellner e na análise crítica do discurso desenvolvido por Norman
Fairclough.

Palavras-chave: Discurso; Mídias; Raça; Histórias em quadrinhos

129
DISCURSO JURÍDICO E REGULAÇÃO DE CORPOS
“DESVIANTES”: O CASO YY V. TURQUIA

Luiz Artur Costa do Valle Junior

Este ensaio pretende explicitar a participação do discurso jurídico dos direitos humanos
no estabelecimento de um regime de visibilidade e inteligibilidade sobre corpos
comumente entendidos como “desviantes” – como testemunha, a título de exemplo, a
patologização da chamada “disforia de gênero”. Isso será feito com recurso a uma
recente decisão da Corte Europeia de Direitos Humanos (CEDH), nomeadamente, o
veredito do caso Y.Y. c. Turquia (2015), no qual se estabeleceu a obrigatoriedade de
assegurar critérios justos e proporcionais na legislação pertinente à permissão ou não de
intervenções cirúrgicas e hormonais para pessoas transgênero, assim como das
condições necessárias para o reconhecimento jurídico da transição sexual e de gênero
dessas pessoas. Trata-se de um caso complexo, no qual um amplo espectro de fatores foi
considerado. Nele, fica patente a intensidade do controle social exercido sobre os corpos
transgênero que desejam realizar operações de transição sexual. Não se pretende, claro,
diminuir a expressividade da atuação da CEDH e do regime de direitos humanos em
geral para a garantia dos direitos LGBTQ, mas ressaltar a necessidade de uma crítica à
modernidade, que abra espaço para a relativa flexibilização dos termos das subjetivações
possíveis sob um tal regime discursivo e regulatório. Faz-se necessário, então, expor a
construção retórica de uma ficção narrativa mediante a qual o sujeito dos direitos
humanos, marcado pela ruptura de uma inteireza pressuposta, sempre no horizonte (a
harmonia entre morfologia e pensamento, res extensa e res cogitans), (re)adquire essa
mesma completude, ao submeter-se à regulação médica, científica e jurídica de seu
corpo. O argumento central, aqui, é que esse processo se opera discursivamente como
tentativa de atribuir uma tal inteireza mediante o estabelecimento de um corpus de
saberes, constituído pela performance de uma congruência fictícia entre o litigante Y.Y.
(e, por extensão, a todo corpo similarmente posicionado como desviante, segundo a
matriz heterossexista) e o ideal regulatório do gênero e da sexualidade prescritos a um
indivíduo “normal” – congruência essa que é inevitavelmente mediada por um regime
inescapável de visibilidade e de inteligibilidade.

Palavras-chave: Direitos Humanos; Transgênero; Discursividade; Normatividade.

130
ENTRE DISCURSOS E ARGUMENTAÇÕES – O CASO DAS
ANISTIA NO STF E NA CORTE IDH

Lucas Nonato da Silva Araújo

Nosso problema central é a existência/ausência de racionalidade externa nas decisões


judiciais e a compatibilização dos Direitos Humanos entre ordens transversais. Além da
ordem positiva, a Teoria do Direito entende a fundamentação também como elemento
imprescindível à decisão judicial, portanto, é a fundamentação coerente elemento
essencial da decisão judicial. Manuel Atienza descreve a necessária racionalidade interna
à decisão judicial. Aqui pretendemos delinear matizes de uma racionalidade externa
entre o STF e a Corte Interamericana de Direitos Humanos.
Chamamos de ordens transversais a correlação entre os campos de efetividade dos
Direitos Fundamentais em contraste com os Direitos Humanos no Sistema
Interamericano. A discussão contemporânea aponta para a existência de espaços de
“direito constitucional” para além do Estado, o que nos parece ser o caso do tema desta
pesquisa. Assim, as normas não pertencem exclusivamente a nenhum regime jurídico
específico, sendo produto das múltiplas interações entre ordens e regimes e, portanto,
transversal.
Nosso objetivo principal é a análise argumentativa das decisões da Corte IDH e de
Tribunais Constitucionais. Nossa metodologia partirá da análise das decisões judiciais
escolhidas, valendo-nos sobretudo do modelo desenvolvido pelo Professor Atienza.
Segundo ele, a análise dos argumentos contém diversas tarefas que devem ser realizadas
pelo pesquisador de maneira conjunta: a) representar os argumentos e as argumentações
de que aqueles fazem parte, ao menos quando se estiver diante de argumentações
complexas; b) mostrar quais são os elementos e as diferentes partes que constituem a
argumentação; c) analisar detalhadamente cada uma das partes, sobretudo as de maior
importância.
Neste trabalho, pretendemos analisar em perspectiva comparada as decisões do STF na
ADPF 153 (julgado em abril de 2010) e a Decisão da Corte IDH no Caso Gomes Lund e
outros (julgado em novembro de 2010). Para isso pretendemos nos ater à primeira fase
do percurso metodológico, qual seja: a análise. Reconhecemos, todavia, que o modelo de
análise próprio da Teoria da Argumentação Standard não permite dar conta de todos os
aspectos retóricos e dialéticos de uma argumentação e, por isso, pretendemos nos valer
do instrumental da Análise Crítica do Discurso.

Palavras-chave: Corte Interamericana; Supremo Tribunal Federal; Teoria da


argumentação; Análise do discurso.

131
ARQUIVO, MEMÓRIA E DIREITOS HUMANOS

Danielle Brum Ginar Telles

Este trabalho tem como objetivo discutir a relação existente entre o arquivo repressivo -
produzido dentro de contexto repressivo – a memória resultante destes acontecimentos
e os direitos humanos. Bem como, ressaltar que a efetiva preservação destes documentos
é capaz de contar a história de uma pessoa, de uma sociedade, de um tempo no seu
momento presente ou décadas depois; é capaz de garantir os direitos de uma pessoa, de
uma sociedade. Para melhor contextualizar o trabalho, será utilizado como “pano e
fundo”, a ditadura militar brasileira para servir como exemplo da análise pretendida. A
metodologia consiste em uma revisão bibliográfica a fim de apresentar os principais
conceitos que embasam e justificam a importância da relação - consciente - entre
Arquivo, Memória e Direitos Humanos, dentro do contexto da ditadura militar
brasileira. Pretende-se elucidar e ratificar a relevância da existência documental
completa dentro de um arquivo repressivo visando à preservação de informações
pertinentes. Serão estas que contarão não apenas a história de um momento histórico,
mas dos seus atores (vítimas e algozes), o que ocorreu com eles, onde estão e o porquê
de todos os atos sofridos. Conclue-se sugerindo novos olhares, novos pensamentos,
novas medidas através de conscientização da importância da informação contida nos
arquivos para preservação da memória e principalmente para a aplicação dos direitos
humanos.

Palavras-chave: Arquivo; Memória; Direitos Humanos; Período Repressivo.

132
A ARGUMENTAÇÃO E AS FALÁCIAS JURÍDICAS WARATIANAS
NO DISCURSO DE FUNDAMENTAÇÃO NAS DECISÕES DO STF
SOBRE A MULHER

Laís Carneiro da Cunha Silva


Virgínia Colares Soares Figueirêdo Alves

A presente pesquisa concentrou-se em analisar de forma contra-dogmática a produção


do discurso jurídico a partir da ACDJ - Análise Crítica do Discurso Jurídico, desvelando
a impossibilidade da existência de uma neutralidade e imparcialidade judicial,
especificamente no que diz respeito às decisões prolatadas pelo Supremo Tribunal
Federal (STF) acerca dos direitos da mulher. Em virtude de seu caráter descolonial, este
estudo auxilia na compreensão das possibilidades de se pensar outras formas de
caracterização dos direitos humanos, levando-se em conta o Outro e, consequentemente,
os grupos minoritários e vulneráveis, neste caso as mulheres, trazendo para o debate as
questões que foram invisibilizadas pelo pensamento moderno e pela consolidação do
direito positivo. Esta perspectiva confronta a lógica da colonialidade, que se coaduna
com a negação dos direitos humanos, perpetuando ranços históricos sobre a concepção
do gênero feminino. Para a realização deste estudo, foram de suma importância as ideias
difundidas por Luís Roberto Warat sobre a temática da linguagem do Direito, em que se
repensam os modos de produção do discurso jurídico. O movimento waratiano subverte
certos postulados consagrados pela epistemologia tradicional da ciência jurídica na
medida em que retrata a forte presença de um senso comum revestido de cientificidade,
conferindo assim credibilidade e aceitação sócio-política ao discurso proferido.
Juntamente a esta perspectiva foram entrelaçados estudos das matrizes da lógica
colonial e descolonial dos direitos humanos, particularmente no que diz respeito à
análise do Inquérito 3.156, em que pretendeu-se observar, a partir da linguagem, seja de
forma explicita ou implícita, qual a ótica que os ministros do STF imprimem em suas
decisões sobre a mulher e seus direitos. Foi possível verificar, pontualmente, traços que
denotam aspectos ideológicos que evidenciam contextos políticos e de poder infiltrados
no discurso dos operadores do direito, sinalizando assim a inviabilidade do postulado
kelseniano do “Direito Puro”.

Palavras-chave: Discurso judicial; Estratégias argumentativas; Direitos da mulher;


Descolonialidade.

133
EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS: DESAFIOS DO ENSINO
NA UNIVERSIDADE

Fernanda Martins
Augusto Jobim do Amaral

As reflexões que se visa desenvolver buscam enfrentar os desafios da educação em


Direitos Humanos no ensino superior, reconhecendo as relações de poder e de
dominação sempre presentes nos discursos que atravessam o processo de ensino-
aprendizagem. A partir das teorias de Bourdieu sobre a reprodução de estratificações
sociais com base na perpetuação de um ensino impositivo tanto no ambiente familiar
quanto escolar, busca-se elaborar uma conexão deste “modelo reprodutor” sugerido
pelo autor com as teorias foucaultinas de governabilidade e disciplinamento
desenvolvidos pelas instituições sociais e políticas, reconhecidos também no ensino
universitário.
É diante dos discursos vigentes que Foucault e Bourdieu podem conversar entre si para
esclarecer que através do processo de ensino-apredizagem se reproduzem estratificações
sociais e dominação, não somente dominações institucionalizadas, mas também aquelas
exercidas pelas próprias relações entre professores e alunos/alunas representando os
primeiros a autoridade pedagógica socialmente determinada para exercer a imposição
dogmática através de uma falsa interação neutramente comunicativa que define e
determina certa concepção de conteúdo, inclusive a compressão sobre o que são direitos
humanos.
É determinado por Foucault que os micropoderes presentes na sociedade tratam-se de
relações de forças múltipas que existem e encontram-se sempre em tensa atividade e que
essas relações não são unicamente impostas pelo Estado ou suas instituições, mas que
traduzem e existem a partir das relações propriamente ditas, pois para o autor o poder
nada mais é que um exercício constante.
Assim, através do exercício constante do poder que estabelecem as relações de poder
apresentadas por Foucault, que o presente trabalho se propõe a vincular a prática
pedagógica ao poder disciplinar reprodutor de uma dominação, utilizando como
referências principais a análise do ensino em Direitos Humanos na Universidade como
método disciplinar e a abordagem de Bourdieu no que tange a escola como perpetuador
de classe social.

Palavras-chave: Educação; Direitos Humanos; Discursos.

134
AS DIFERENTES INTERPRETAÇÕES SOBRE OS RITUAIS
ANTROPOFÁGICOS DESCRITOS EM DUAS VIAGENS AO BRASIL
E I-JUCA PIRAMA À LUZ DO PENSAMENTO DESCOLONIAL

Jesus Tupã Silveira Gomes

Os rituais antropofágicos celebrados pelos indígenas brasileiros foram um dos


elementos que mais causaram estranheza ao colonizador europeu, branco e cristão, a
quem abominava a ideia de comer o corpo de outro ser humano. O objetivo do presente
estudo é examinar se há uma diferença essencial no relato dos rituais antropofágicos
descritos em Duas Viagens ao Brasil (de Hans Staden) e em I-Juca Pirama (de Gonçalves
Dias), a partir de uma leitura descolonial dos referidos textos, adotando-se a visão do
indígena. Pretendemos indicar que o “ser comido”, para o indígena derrotado em
guerra, constituía uma homenagem à sua coragem e bravura, e que a mostra de covardia,
mesmo nesse momento, implicava vergonha a si próprio, a seus familiares e a seu povo.
Buscamos apontar, também, que o colonizador – com cultura, costumes e religião
diversos – não conseguiu apreender o real significado da prática antropofágica,
mostrando-se necessária a imersão na cultura indígena para a sua plena. O trabalho foi
elaborado com o uso do método hipotético-dedutivo, buscando confirmar a hipótese
lançada, com a revisão da bibliografia nacional e estrangeira encontrada sobre a matéria.
Os estudos realizados apontam para uma diferença significativa entre os relatos
apresentados por Hans Staden e Gonçalves Dias. Enquanto o primeiro, por encontrar-se
imerso na cultura indígena, pôde entender, ao menos em parte, o significado ritual dos
atos de antropofagia, o segundo parte de uma visão do colonizador, exaltando o fato de
o guerreiro livrar-se da morte para ajudar seu pai idoso e cego e menosprezando a recusa
deste em acolher um filho a quem supostamente teria faltado coragem.

Palavras-chave: Pensamento descolonial; Indígenas; Rituais antropofágicos; descrição;


Duas Viagens ao Brasil e I-Juca Pirama

135
ANÁLISE CRÍTICA DO DISCURSO JURÍDICO NA
FUNDAMENTAÇÃO DA ADPF 186 DO STF SOBRE OS DIREITOS
DOS NEGROS

Ana Caroline Alves Leitão

Este trabalho consiste em uma análise crítica do voto de Lewandowski na ADPF 186, se
valendo dos modos de operação da ideologia de Thompson, do tridimensionalismo de
Fairglough e do pensamento descolonial, com o fulcro de tentar elucidar os melindres
da fundamentação jurídica do STF. A análise foi feita identificando os modos de
operação da ideologia, que são: legitimação, dissimulação, unificação, padronização,
reificação e seus derivados; as três dimensões do discurso, sendo elas: textual, prática
discursiva e prática social e a descolonialidade, que se trata do estudo do discurso
dominante(colonial) e seus contrapontos, propondo uma desconstrução dos conceitos
tradicionais que são prejudiciais as minorias. Neste trabalho temos uma importante
intersecção entre os estudos de direito e linguística, que objetivam elucidar os métodos
que sustentam a construção textual do voto em análise, e, ademais, alcançar as ideias de
quem constrói o discurso, pois o relator deste voto integra a mais alta corte de
julgamento do país, e ter acesso as suas posturas ideológicas e mecanismos de discurso
é também, ter o vislumbre do que pode vir a surgir em novas decisões da Corte. Como
resultado deste trabalho, tem-se que o voto de Lewandowski, que responde a ação
impetrada pelo partido DEM, interpreta a constituição com o escopo de deslindar se a
reserva de vagas a uma minoria étnico-racial feriria os princípios da carta política ou
contribuiria para a eficácia destes princípios. O voto, com o uso recorrente do discurso
descolonial, fazendo uso de estratégias típicas, como as frequentes “fragmentação” e
“universalização”, pode ser considerado como um verdadeiro marco na ainda tímida
construção de uma sociedade justa e igualitária, trazendo a tona a discussão acerca do
racismo da sociedade brasileira e ratificando as cotas raciais como, neste momento,
necessárias para a eficácia do princípio da isonomia, postulado pela Carta Magna de
1988.

Palavras-chave: Análise Crítica do Discurso Jurídico; Descolonialidade; Minoria Negra.

136
DIREITOS DAS MINORIAS E GRUPOS VULNERÁVEIS: UMA
ANÁLISE DO DISCURSO DE FUNDAMENTAÇÃO NAS DECISÕES
DO STF

Jaqueline Deuner
Bruna Marques

O trabalho integra um projeto de pesquisa que realiza uma análise retrospectiva


observacional de casos jurisprudenciais consecutivos, do Supremo Tribunal Federal, no
período de 2004 até a atualidade, onde houve o reconhecimento de demandas de grupos
minoritários. Vale-se do método de análise de conteúdo e análise do discurso. Este
trabalho, particularmente, analisa a decisão do julgamento conjunto da ADPF 132 e da
ADI 4277, realizado em 2011, quando a corte julgou o reconhecimento da união estável
entre casais do mesmo sexo. Em conformidade com os princípios constitucionais da
dignidade humana, da não-discriminação e da igualdade, o Supremo decidiu pelo
reconhecimento da união homossexual. O estudo busca analisar a formação discursiva
da referida decisão, com o objetivo de verificar a existência de pistas textuais de
fundamentos teóricos, históricos e jurídicos relacionados a matriz descolonial do
conhecimento. O discurso colonial insere-se em diversos âmbitos sociais e impõe um
padrão de poder, que opera de forma excludente àqueles que não correspondem a este
padrão imposto. Estas estruturas subjetivas aparecem como forma de dominação sobre
os grupos com ausência ou debilidade de poder, denominados grupos minoritários ou
vulneráveis, como é o caso dos homossexuais. Em contraponto, a matriz teórica
descolonial é uma opção de enfrentamento à lógica da Colonialidade. O pensamento
descolonial desprende-se das bases eurocentradas e implica o pensar de forma
emancipadora. O direito tem sido um mecanismo que, em muitos casos, adere ao
discurso colonial e por isso, mesmo que atenda a demandas de certos grupos, mantém
intactas as relações de subordinação que os exclui. No caso da união homoafetiva, o STF
reconheceu a proteção constitucional das uniões estáveis dos casais homossexuais e
conforme análise preliminar, o discurso presente no voto do Ministro Relator Ayres
Britto é oscilante quanto a romper ou não com o discurso colonial. Em determinados
momentos reafirma estruturas dominantes de poder como padrão de referência e
reconhece o direito ao grupo minoritário através da equiparação destes com o grupo
dominante, mantendo assim o discurso colonial. Em outros momentos, rompe com este
discurso, quando afirma o direito a não discriminação de pessoas homossexuais,
invocando o pluralismo e a fraternidade.

Palavras-chave: Análise do Discurso; Direitos das minorias; Descolonial

137
ADOLESCENTES NA CRIMINALIDADE E O DISCURSO DA
REVISTA VEJA: NOVOS DIZERES, MESMO SENTIDO.

Patricia Zancanaro Godin

A criminalidade na adolescência é uma questão que vem ganhando dimensões cada vez
maiores no cenário brasileiro. O modelo de produção capitalista é atravessado por
profundas contradições em suas características mais desiguais e excludentes. Alguns
jovens, marcados pelas rígidas desigualdades sociais e pela alienação do mundo do
capital, encontram na violência uma maneira individual de fazer parte do sistema, o que
gera a sua associação direta à criminalidade. Como consequência, os adolescentes que
cometem ato infracional (ACAI) são estigmatizados e sua imagem banalizada através da
grande imprensa que tem o poder de construir sentidos positivos ou negativos acerca
deles, além de mobilizar pré-conceitos dando determinada ênfase à matérias sobre
crimes cometidos por adolescentes. Quando se fala em mídia, é preciso lembrar que ela
representa uma das instituições que influenciam na formulação de modos de ver e
interpretar a realidade, pois se fazendo presente em todos os lugares e momentos da
vida dos indivíduos, sob a forma dos veículos de comunicação e do discurso jornalístico
(DJ), ela circula opiniões, impressões, conceitos e julgamentos, neste caso, sobre os ACAI,
que agem sobre o imaginário social, construindo um efeito de verdade, que leva os
indivíduos a pensar de determinada maneira, como se as informações veiculadas
representassem a realidade. Outras vezes, ela busca criar uma realidade à parte,
apontando formas de viver e pensar. Os veículos midiáticos têm, com frequência,
emitido juízos sobre a questão da criminalidade na adolescência, seja apontando
soluções para o problema, ou condenando a ‘impunidade’ em se encontram os ACAI.
Refletir sobre essa questão é o fator que impulsiona esta pesquisa que se propõe a
investigar quais efeitos de sentido emergem do discurso da revista Veja sobre estes
adolescentes. O corpus desse trabalho é composto pela análise de sequências discursivas
(SDs) extraídas da matéria O dever de reagir, publicada na edição nº 2318, veiculada
pela revista em 24 de abril 2013 que aborda a temática da criminalidade na adolescência.
Entende-se que é por meio da materialidade discursiva que serão encontrados os
vestígios do processo de produção do discurso da Veja e os efeitos de sentido
produzidos por ela. Ressalta-se que a escolha da Veja ocorre por sua representatividade
nacional, pois é a revista mais vendida no Brasil com uma tiragem superior a um milhão
de cópias semanais, fator que justifica sua escolha como objeto de estudo. Para fornecer
as bases para a análise, tomou-se como perspectiva teórica a corrente francesa da Análise
de Discurso (AD), partindo, sobretudo, de Pêcheux (1990) (1995) (1999) (2014). Acredita-
se que elucidar as práticas discursivas e, sobretudo, o processo de construção e de
reprodução dos discursos hegemônicos sobre o crime e o ato infracional é um passo
fundamental na elaboração e difusão de um discurso alternativo, contra-hegemônico e a
construção de um olhar generoso sobre os ACAI no que tange às suas trajetórias de risco,
sofrimento e descaso social.

138
Palavras-chave: Análise de discurso; Adolescente que pratica ato infracional; Efeitos de
sentido; Revista Veja.

139
O DISCURSO COLONIAL DAS LEIS DE NÜREMBERG DE 1935

Bianka Adamatti

Os pesquisadores de história do holocausto não reconhecem o fenômeno como resultado


de um processo colonial, reproduzido pelo regime imposto pelo nacional-socialismo
alemão de 1933 a 1945, principalmente no leste europeu ocupado. Entretanto, por todo
o discurso de inferiorização dos indivíduos produzido e técnicas semelhantes aos dos
métodos colonizatórios empregados pela Europa Ocidental, o objetivo deste trabalho é
demonstrar a existência de discurso colonial nas Leis de Nüremberg (1935), a fim de
comprovar que o nazismo também repercutiu práticas coloniais. A referida legislação é
de cunho racista e excluiu, a partir do seu ano de vigência, todos os judeus que
estivessem em território alemão, incluindo o ocupado após o início da Segunda Guerra
Mundial. Verifica-se que vários métodos implementados na Alemanha nazista, tiveram
como laboratório experimental, o Sudoeste Africano (atual Namíbia), que foi colônia
alemã do final do século XIX até o ano de 1915. Os primeiros campos de concentração, a
modernização de tecnologia de estudos sobre hierarquia racial e as legislações restritivas
de casamento entre nativos e germânicos foram exemplos de práticas que foram
aperfeiçoadas anos depois, com a ascensão de Hitler. Tal e qual como no continente
africano, o leste europeu foi o palco dos campos de extermínio nazistas e utilizado para
estudos (pseudo)científicos com cobaias humanas. Diante do exposto, o problema de
pesquisa é: “Existe discurso colonial presente nas Leis de Nüremberg de 1935?” Para
atingir este desiderato, o método empregado na pesquisa foi o de análise de conteúdo,
com a finalidade de captar os discursos ocultos no conteúdo do texto das leis raciais.

Palavras-chave: Discurso Colonial; Nacional-socialismo; Leis de Nüremberg.

140
DE WODAK A MIGNOLO: PONTES ENTRE A ANÁLISE CRÍTICA
DO DISCURSO E A EPISTEMOLOGIA DECOLONIAL NO
PROBLEMA DO ÓDIO

Lizandro Mello

O epistemicídio (Sousa Santos), supressor do direito ao conhecimento alternativo, é


marca da colonialidade e mantém o eurocentrismo como mecanismo (Mignolo) que dota
uma particularidade de uni-versalidade, segregando outras particularidades, impondo
seu habitus como norma, ideia e projeto. Essa matriz colonial do poder (Mignolo) é
recorrente no fechamento textual das interpretações que a doutrina do direito vem
fazendo sobre o que se convencionou chamar discurso de ódio, descendo até uma leitura
parafrástica (Orlandi) de falsa dicotomia com a garantia da liberdade de expressão. A
instituição que sedimenta esse sentido instrumentaliza a a manipulação dos saberes,
determinando uma colonialidade do saber (Restrepo e Rojas) segundo os próprios
interesses da arrogância epistêmica de um determinado saber constituído na
modernidade como retórica (Mignolo). Deste modo, a análise crítica do discurso (ACD)
como pesquisa multidisciplinar de detalhes em construção (Colares) e orientada a
problemas (Wodak) pode ser o cinzel a burilar as feições de um estudo das funções de
contexto do uso de linguagem (Wodak), percutido pela epistemologia decolonial que
busca des-encobrir o controle do conhecimento e do viver pela colonialidade do poder
(Lander), não apenas verificando o que é afinal o discursante do ódio mas também
revelando como o discurso e a leitura da doutrina jurídica a respeito são institucionais,
autenticados, mantenedores da história e como são inócuos para o problema no mundo
do real falado e do real vivido.

Palavras-chave: Análise Crítica do Discurso; Decolonialidade; Discurso de ódio.

141
MODOS DE OPERAÇÃO DA IDEOLOGIA NA PETIÇÃO 3.388 DO
SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL E SUA RELAÇÃO COM O
DIREITO INDÍGENA

Déborah Freitas de Souza


Virgínia Colares Soares Figueirêdo Alves

Sendo o discurso um modo de construção da realidade, torna-se indispensável seu


estudo mais aprofundado, principalmente nas decisões relativas a grupos minoritários
e vulneráveis, estes que, ao longo da história até os dias de hoje, possuem uma jornada
árdua pela conquista de seus direitos. A ideia da superioridade ainda presente na
atualidade entre uma cultura e outra e a existência de uma forma única e correta de
comportamento fez com que o direito de grupos minoritários fosse ignorado em prol de
um direito reconhecido pela maioria.
Graças a presença ainda forte do eurocentrismo, herança colonial iniciada pela Europa e
disseminada por todo o mundo, na sociedade, este estudo encontra sua importância na
tentativa de preservar o direito de uma dessas minorias, muitas vezes não só esquecida
pela mídia como também pelo direito, os índios.
Este trabalho tem como objetivo identificar as pistas das estratégias linguístico-
discursivas dos modos de operação da ideologia no discurso de fundamentação na
decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) no que concerne aos direitos das minorias
indígenas. Observa-se uma relação entre o discurso de fundamentação nas decisões do
STF relativas aos direitos das minorias e grupos vulneráveis aos achados dos estudos
das matrizes teóricas pós-colonial e descolonial para a fundamentação dos direitos
humanos.
Adota-se a metodologia da Análise Crítica do Discurso Jurídico (ACDJ) com ênfase nos
efeitos ideológicos e políticos do discurso, revelando no corpus desta análise, uso
significativo dos modus operandi da ideologia, a seguir: (a) legitimação; (b) dissimulação;
(c) unificação (d) fragmentação (e) reificação e seus desdobramentos, postos por J. B.
Thompson (1995). O corpus será constituído pela Petição 3.388 de Roraima referente a
uma ação popular contra a demarcação da terra indígena Raposa Serra do Sol.
Assim, como resultado, desaloja-se aquilo que se oculta ideologicamente ou que se
esconde nas entrelinhas seja no plano do posto, do pressuposto, do implícito ou do
subentendido das decisões do STF.

Palavras-chave: Modos de operação da ideologia; Teorias pós-colonial e descolonial;


Análise Crítica do Discurso Jurídico (ACDJ); Minoria indígena.

142
GÊNERO, DISCURSO E COLONIALIDADE: UMA ANÁLISE DO
DISCURSO DE FUNDAMENTAÇÃO DA DECISÃO DO STF
ACERCA DE DIREITO DAS MULHERES

Ana Carolina Voges de Campos

O discurso que fundamenta –tradicionalmente- os direitos humanos é excludente por


essência uma vez que contempla, na totalidade, somente àqueles sujeitos que
participaram da sua produção (homem, branco, europeu, letrado, proprietário e cristão).
Em decorrência deste processo, cuja gênese está em uma matriz teórica racionalista-
individualista da modernidade, as demandas por direitos dos grupos minoritários e
vulneráveis dificilmente encontram arrimo nesse discurso de fundamentação.
Demandas de grupos considerados minoritários envolvem, à primeira vista, a superação
da condição de subordinação em que tais grupos são colocados. Mulheres compõem um
grupo minoritário no sentido de ausência ou debilidade de poder decorrente de
estratégias sociais de depreciação de sua identidade de gênero. Tanto os estudos de
matriz pós-colonial, quanto descolonial partem da premissa de que a depreciação e a
condição de subordinação que afeta determinadas identidades é produzida, sobretudo,
por meio do discurso colonial.
A partir disso e entendendo o texto como um objeto sociocultural que cria, reforça ou
reconstitui identidades, o objetivo desse trabalho consiste em analisar, utilizando-se da
análise crítica do discurso jurídico, na formação discursiva da decisão do Supremo
Tribunal Federal referente à impossibilidade de exclusão de mulheres de concurso
destinado ao ingresso no Curso de Formação de Oficiais da Polícia Militar do Estado de
Mato Grosso do Sul (RExt. 528.684), indícios de descolonialidade.
Entretanto, enquanto resultados parciais, percebe-se que o discurso tem traços de
colonialidade, porque os argumentos utilizados são decorrência da estereotipação de
determinado grupo e, apesar de reconhecer que houve discriminação fundada em
gênero, a fundamentação não rompe com a condição de subordinação das mulheres, ao
contrário a reforça. Assim, o discurso que emana dos votos não traz pistas de
descolonialidade, justamente por não romper com a condição de inferioridade das
mulheres que lhes atribui posição de subordinação em relação aos homens. Este trabalho
está vinculado ao projeto “Uma análise do discurso de fundamentação nas decisões do
STF”, coordenado pela Professora Doutora Fernanda Frizzo Bragato.

Palavras-chave: Gênero; Supremo Tribunal Federal; Discurso; Descolonialidade.

143
O DISCURSO RACISTA COMO DESAFIO PARA OS DIREITOS
HUMANOS

Aline Andrighetto

A colonização da América inaugurou um espaço-tempo que possibilitou a articulação


de um padrão de poder de amplitude global, através da ideia de superioridade. A partir
desta concepção, da ideia de raça foi um dos instrumentos utilizados para expressar as
diferenças entre colonizador e colonizado, de um modo a naturalizar a imagem de
superioridade do europeu sobre os demais povos do globo, o que resultou na posição
privilegiada da Europa durante o advento e desenvolvimento do projeto
moderno/capitalista (Quijano, 2010). Desse relacionamento de dominação, a cor da pele
emergiu como um dos principais aspectos utilizados para diferenciar seres humanos
onde raça e racismo constituem-se como instrumento central para a materialização do
colonialismo e sua lógica da colonialidade através de discursos dezumanizantes. O
domínio europeu, dessa forma, atua especificamente sobre a subjetividade dos sujeitos.
Assim, para a compreensão de como racismo é utilizado pelas sociedades
contemporâneas para inferiorizar determinados sujeitos, especificamente negros, é
necessário que se compreenda de que forma a matriz colonial de poder atua sobre estes
sujeitos, e a partir disso formar um discurso que possua potencial para atuar rompendo
com práticas de inferiorização. Eis a importância descrita por Edward Said quando
menciona que o colonialismo produz modos de ser, e a partir deste pensamento, o
discurso colonial aparece como representação de poder e superioridade. Neste sentido,
a linguagem aparece como representação do colonialismo, pois marca o pós-
estruturalismo como crítica no sentido de configurar a estrutura pós- colonial no campo
da representação filosófica através do modo como atua, se reproduz (De Oto, Alejandro).
Ainda, o discurso pode aparecer como imposição política, a partir de modos de
apropriação social. O objetivo deste trabalho é demonstrar como o discurso atua como
forma de imposição sobre aqueles que são privados de direitos e inferiorizados por
critérios de raça, e como este processo de privação de direitos resulta de uma lógica de
colonialidade moderna e global de dominação a qual perpetua tornando-se desafio para
proteção dos Direitos Humanos. O método empregado é bibliográfico a partir de estudos
sobre a Análise Crítica do Discurso.

Palavras-chave: Discurso; Raça; Colonialidade; Direitos Humanos.

144
"DISCURSOS QUE MATAM": ANÁLISE CRÍTICA DO DISCURSO
DE PROCESSOS CRIMINAIS DE PRESOS MORTOS NO
COMPLEXO PENITENCIÁRIO DE PEDRINHAS – SÃO LUÍS /
MARANHÃO

Isabella Miranda da Silva

De outubro/2013 a agosto/ 2014, 41 corpos decapitados foram encontrados na


penitenciária de Pedrinhas, São Luís/Maranhão, gerando a condenação do Brasil na
Corte Interamericana de Direitos Humanos. O superencarceramento,
considerado determinante, pela Corte, para aquelaprodução de cadáveres, relaciona-
se ao eficientismo penal. E o papel desempenhado pelos atores do sistema de
justiça criminal – comsuas visões de mundo, crenças, valores, ideologia – no
desenvolvimento processual tem fundamental relevância nessa engrenagem que
opera tendo o rigor punitivo como pressuposto e desemboca no
abarrotamento de prisões.
Esse contexto eficientista condiciona a produção de discursos, vertidos em peças
processuais. Assim, verifico, através da prática teórico-metodológica da Análise do
Discurso Crítica (Fairclhough, 1999, 2003,) como a materialidade linguística
dos processoscriminais daqueles mortos enuncia ilegalidades e
violências estruturantes de uma prática judiciária supressora de garantias
fundamentais de (não-)pessoas, representadas como "outro-criminalizado".
Zaffaroni (1991) identifica a América Latina, por seu passado colonial, como imensa
instituição de sequestro. Mbembe aponta a colônia como lugar onde se exerce um poder
à margem da lei, onde se pratica uma violência excessiva: a necropolítica. “Característica
mais original desta formação de terror é a concatenação de biopoder, estado de exceção
e estado de sítio” (Mbembe, 2011).
Objetivo desvelar a atuação subterrânea processual penal (Castro, 2005), (re)produtora
do racismo institucional, ao realizar o corte entre "quem deve morrer e quem deve
viver" (Foucault, 1999). As Criminologias Críticas destacam como as incorporações da
Criminologia positivista e racista na América Latina sempre estiveram a serviço de um
projeto de dominação de populações subalternizadas, majoritariamente negras e
indígenas (Olmo, 2004). Tal projeto, articulando correspondentes saberes
(Foucault, 2008), se materializa em discursos jurídicos. Se nossos sistemas
penais são genocidas, é necessário "averiguar se os cadáveres são tais porque as palavras
contribuíram para condicionar (ou não evitar) as condutas que os converteram em
cadáveres; é assim que as palavras matam, e que a linguagem mortífera opera,
legitimando, mostrando ou ocultando, descobrindo ou encobrindo" (Zaffaroni, 2012).
Busco indícios (Ginzburg, 1999) reveladores de possibilidades mortíferas, a partir do que
fragmentos processuais "dizem" sobre
aquelas humanidades subalternas que foram suprimidas, como "vida que pôde ser
gasta" (Mbembe, 2014).

145
Palavras-chave: Pedrinhas; Mortes; Análise do discurso crítica; Sistema penal;
necropolítica.

146
IMIGRAÇÃO: OS DIREITOS HUMANOS LINGUÍSTICOS

Thais Silveira Pertille


Marcelo Cesar Bauer Pertille

A presente análise pretende demonstrar a importância dos direitos linguísticos na


manutenção da dignidade humana dos imigrantes. Para tanto, parte-se da Declaração
Universal dos Direitos Linguísticos que, pode-se dizer, além de baseada na Declaração
Universal dos Direitos Humanos, vem suprir uma enorme lacuna nessa em seu intuito
de proteção.
O lapso encontra-se na abstração do ser humano idealizado na Declaração, em sua falta
de concretude. Nas palavras de Costas Douzinas, “o sujeito da declaração ou é muito
abstrato para ser real, ou muito concreto para ser universal” (2009, p.113).
De encontro a essa abstratividade do ser, os direitos linguísticos asseguram que os
problemas de cada sociedade em particular sejam tratados de acordo com sua
especificidade cultural, pois para que seja preservada a dignidade das pessoas não se
pode desconsiderar que a cultura é integrante indissociável de um ser, de como ele se
reflete e identifica com a vida.
Tal percepção é indispensável para que se trate da questão dos imigrantes à luz dos
direitos humanos em sua perspectiva moderna, haja vista que essas pessoas deixam seus
locais de origem, mas levam consigo a linguagem que, enquanto preservada, lhes servirá
de referência histórica, cultural e edificante de sua dignidade.
Além disso, permitir que as pessoas se expressem da forma como aprenderam
originalmente, é um primeiro passo para perfectibilização de uma real democracia.
Sobre isso, a autora Seyla Benhabib lembra que “apesar da evolução mundial em termos
de normas cosmopolitas que protegem estrangeiros, imigrantes e refugiados, as leis
eleitorais de cada país ainda excluem os não nacionais da democracia”. De modo que a
valorização dos direitos linguísticos implica não somente em permitir o uso da língua
natural, mas que a participação política dos imigrantes também encontre respaldo na
abertura democrática. Utilizando-se do conceito de democracia de Amartya Sen, para
quem a palavra dispõe sobre um governo onde todos tem voz, superar preconceitos
territoriais por meio da aceitação das ideias e vontades daqueles que vem de fora é
expressão fundamental dos direitos humanos.

Palavras-chave: Direitos humanos; Direitos linguísticos; Imigrantes.

147
A REDUÇÃO DA IDADE PENAL NO DISCURSO JORNALÍSTICO:
PROPOSIÇÕES PARA ALÉM DOS ESTEREÓTIPOS CRIMINAIS E
DA NATURALIZAÇÃO DOS LUGARES COMUNS SOBRE CRIME E
SISTEMA PENAL NO DEBATE DA SEGURANÇA PÚBLICA PELO
JORNALISMO

Anelise Schütz Dias

O objetivo desta proposta é debater o discurso jornalístico sobre segurança pública no


Brasil. Atentando à construção de estereótipos criminais (BUDÓ et al, 2014) e à
naturalização de certos lugares comuns sobre crime e sistema penal por meio do
discurso, objetiva-se discutir de que forma o jornalismo pode recuperar a perspectiva
dialética com o senso comum (MORETZSOHN, 2014) e contribuir para a produção de
um debate qualificado sobre a Segurança Pública no país. E também como fazer isso a
partir de uma perspectiva que – atenta às especificidades sociais (resquícios da
colonialidade e do autoritarismo nas instituições, etc.), aos marcadores sociais da
diferença em um país em que, embora fortemente miscigenado, é ainda bastante racista
– enfatize o respeito aos direitos humanos e às garantias constitucionais. Como
pressupostos teóricos, tomamos o jornalismo como lugar de produção e de circulação de
sentidos (BENETTI, 2006; 2010) e que, por sua inserção social e participação na
construção da experiência simbólica dos indivíduos, pode ser compreendido como uma
instituição. Por discurso, entendemos a prática de linguagem, “lugar do trabalho da
língua e da ideologia”, constituindo e sendo constituído pelos sujeitos, que são
produzidos por e produtores de sentidos sobre a realidade que os cerca (ORLANDI,
2005, p. 38; BENETTI, 2008). E, por segurança pública, “a estabilização universalizada,
no âmbito de uma sociedade em que vigora o Estado democrático de direito, de
expectativas positivas a respeito das interações sociais – ou da sociabilidade, em todas
as esferas da experiência individual”(SOARES, 2011, s/p) e, ainda, que “é um bem
público que deve ser oferecido universalmente e com equidade”(SOARES, 2015, p. 30).
Por direitos humanos, partimos de uma perspectiva crítica descolonial ao discurso
eurocêntrico, o qual não nos parece dar conta da complexidade da realidade brasileira
(BRAGATO, 2014). Pela impossibilidade de abordar a diversidade de temas possíveis
sobre segurança pública, nos propomos à observação do debate da PEC 171/1993, que
propõe a alteração da idade penal de 18 para 16 anos, a partir da Análise do Discurso de
capas do O Globo e O Extra no intervalo entre 1 de junho a 5 de julho de 2015.

Palavras-chave: Segurança pública; Direitos humanos; Discurso; Jornalismo.

148
EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA:
PENSAMENTO DESCOLONIAL E
INTERCULTURALIDADE
A EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA NO CONTEXTO DAS
FORMAS DE COLONIZAÇÃO MODERNAS: A RACIONALIDADE
EUROPEIA E A NEGAÇÃO DA DIVERSIDADE NA PRODUÇÃO DO
SABER

Pedro Victor dos Santos Witschoreck


Fernando Hoffman

Os direitos humanos entendidos como universais trazem consigo uma série de


problemáticas, pois acabam sendo uma forma de colonização existente na modernidade,
já que carregam ideias hegemonicamente ocidentais. Através dessa afirmação verifica-
se que a educação como um direito universal torna-se um pilar para concretizar as
imposições do ocidente para o sustento do capitalismo.
A concepção de educação como um direito universal é falha no que tange a efetividade
de sua aplicação, em razão de que os países "periféricos", colonizados da América
Latina tem suas instituições responsáveis por tal, desprovidas dos recursos necessários
para assegurar as garantias que permitam mudanças nos meios sociais desiguais,
inclusive na própria construção no conceito de educação. Não é apenas nesse sentido o
problema da universalidade, mas ao analisar o contexto que se refere à globalização,
percebe-se uma educação de caráter ocidental, responsável pela negação de uma
interculturalidade existente.
Aquilo que é entendido como racionalidade europeia tornou invisível uma sério de
conhecimentos formulados na América Latina, impondo na educação apenas aquilo
enquadrado no plano do "racional" criado pelo europeu moderno, excluindo outras
formas de saber e reforçando a ideia de raça. O objetivo desse traço é a plena
concretização de um modelo liberal-burguês de sociedade, tornando cada vez mais forte
as relações de dependência entre centro e periferia.
A divisão que Boaventura chama de linha abissal, expõe que o conhecimento produzido
no lado colonizado não pode ser entendido com um saber válido, mas como crenças,
opiniões, entendimentos subjetivos e magias, dando credibilidade apenas ao
denominado "conhecimento científico" e importando tal como única forma saber, e dessa
maneira acabando por separar a ciência dos seus "outros".
Uma alternativa de mudança em torno das problemáticas da colonização na
modernidade, pode ser denominada como desobediência epistêmica, que é o
rompimento do caráter hegemônico do saber produzido pelo europeu, observando toda
forma de relação de dependência entre o centro e a América Latina, na busca pelo fim
das relações de poder entre tais.

Palavras-chave: Educação; Direitos humanos; America Latina; colonização.

150
A INTERCULTURALIDADE COMO ESTRATÉGIA PARA
APROXIMAÇÃO ENTRE PESQUISADORES BRASILEIROS E
HISPANPO-AMERICANOS NA PERSPECTIVA DA
DESCOLONIZAÇÃO

João Alberto Steffen Munsberg

Este texto aborda o tema da interculturalidade na perspectiva da descolonialidade na


América Latina. O assunto se insere na tendência contemporânea de investigações e
reflexões sobre um “pensamento outro”, realizado desde um lugar outro, com pretensão
e abordagem distintas do que é defendido pela modernidade eurocêntrica. Objetiva-se
compreender melhor as causas da dificuldade de inserção efetiva do Brasil na América
Latina e apontar possíveis caminhos para a aproximação das nações.
Metodologicamente, este texto resulta de um estudo de cunho bibliográfico exploratório,
com reflexões a partir de aportes teóricos de pensadores do Grupo
Modernidade/Colonialidade e afins. Uma imersão na literatura permitiu vislumbrar a
complexidade teórica da produção existente e da diversidade de experiências formativas
desencadeadas nas diferentes nações latino-americanas, dinamizando
epistemologicamente o trabalho proposto. Para onde olha o Brasil? De onde olham os
demais países latino-americanos, especialmente os hispano-americanos? É sabido que o
Brasil se volta – política, econômica e culturalmente – para o Atlântico Norte, de costas
para a América Hispânica. De outra parte, os países hispano-americanos olham desde a
América Latina e como tal se identificam. Eis a grande diferença. Persiste um forte
estranhamento da sociedade brasileira de modo geral – e das elites de modo especial –
em relação às demais nações latino-americanas, o que é evidenciado pela negação do
sentimento de pertencimento e da inserção identitária. Entende-se que a aproximação
entre as nações seja possível mediante um reposicionamento da intelectualidade
brasileira, especialmente com a atuação da academia na busca de uma efetiva integração
no campo educacional e na consolidação de uma “episteme outra”. Pensa-se que a
educação intercultural, de modo especial, constitua-se em possível fator propulsor da
descolonização, remetendo para a construção de uma “sociedade outra” mediante a
superação de velhos discursos, de estruturas excludentes e de posturas discriminatórias.
Nesse sentido, a interculturalidade propicia a convivência de sujeitos e de sociedades
plurais, de culturas múltiplas. Assim sendo, a educação intercultural pode ser o caminho
para a aproximação entre pesquisadores brasileiros e hispano-americanos na
perspectiva da descolonização.

Palavras-chave: Descolonialidade; Interculturalidade; Educação intercultural;


Pensamento outro; América Latina.

151
DESCOLONIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO SUPERIOR NA AMÉRICA
LATINA: O DIÁLOGO INTERCULTURAL E INTER-EPISTÊMICO

Manuel Tavares
Sandra Gomes

Pretende-se, no presente texto, refletir e promover um debate sobre a descolonização do


ensino superior numa relação estreita com a problemática da interculturalidade critica.
Muitas propostas de uma "educação descolonizadora" pretendem substituir a natureza
da educação ocidental pela educação indígena nativa, substituindo a língua oficial por
línguas nativas. Embora louvável, esse esforço fica aquém quando se trata da tarefa de
descolonização profunda e estrutural. Antes de assumir o desafio de "descolonizar a
educação" como proposta alternativa para os povos originários, é necessário tratar, de
maneira séria e sistemática, a "descolonização da educação". Educadores(as) são
formados(as) para reproduzir fielmente a epistemologia dominante, numa matriz
institucional dada e herdada da época colonial, com o desejo de "produzir" cidadãs(os)
que respondam ao projeto nacional e internacional dominante. Reproduzem o capital
simbólico de uma minoria, como se fosse património nacional e de interesse da maioria.
Enquanto não se tiver plena consciência do “caráter colonial” da educação realmente
existente, o discurso da "descolonização" e de uma "educação descolonizadora" acaba
por ser mera retórica e maquiagem. A descolonização da educação exige, não só um
diálogo inter-epistêmico, no sentido de uma interculturalidade "culturalista" ou
ingênua, mas, sobretudo, uma ruptura epistemológica intercultural. A descolonização
da educação exige uma hermenêutica intercultural da suspeita e a descolonização das
estruturas de dominação inerentes às instituições educacionais e ao processo
educacional imanentes às leis sobre educação, currículo e processo de avaliação. A
substituição de conteúdos e da língua predominantes no processo educativo pelo
conteúdo e linguagem "indígenas", não garante que se trate de "educação
descolonizadora". O diálogo inter-epistêmico é um primeiro passo na construção de uma
educação descolonizadora, mas não o suficiente. Urge uma valorização dos saberes
silenciados historicamente conferindo-lhes dignidade epistemológica. Uma educação
descolonizadora implica a consciência dos etnocentrismos, androcentrismos e
antropocentrismos em praticamente todos os sistemas de educação e modelos
epistêmicos. Portanto, a descolonização da educação deve ir de mãos dadas com um
processo de desconstrução intercultural do paradigma dominante, de uma
patriarcalização e desconstrução crítica do androcentrismo vigente no sistema
educacional atual, seja de orientação ocidental ou indígena. A fundamentação teórica
centra-se nos estudos de Boaventura, Catherine Walsh, Estermann, Mignolo, Quijano e
Silvia Rivera.

Palavras-chave: Descolonização; Interculturalidade crítica; Educação Superior; Diálogo


inter-epistémico.

152
A HISTÓRIA DA ESCOLA ESTADUAL COMUNITÁRIA RURAL DE
COLATINA RELATOS DE PROTAGONISTAS

Rosângela Pereira de Oliveira


Ozerina Victor de Oliveira.

O objeto deste estudo foi a Escola Estadual Comunitária Rural Colatina – EECOR, enfoca
a Educação Popular e a Educação do Campo caracterizada na Pedagogia da Alternância
em sua vinculação com o Estado, busca descortinar possibilidades e entraves nesta
intersecção, em processos educativos que remetam a uma proposta de transformação
social, registrando as vozes de sujeitos inseridos em práticas de educação do campo, por
meio de uma pesquisa participativa com as epistemologias surgidas no Sul como
experiências, métodos e pedagogias que se comprometem e valorizam “outro
conhecimento” ante a colonialidade imposta pelo Norte. A pesquisa se pautou na
metodologia de pesquisa qualitativa por meio de entrevistas narrativas com sujeitos
protagonistas no processo de construção da referida escola e com análise de documentos.
O problema da pesquisa residiu na função da educação na emancipação humana.
O caráter público da EECOR engendra um questionamento sobre a possibilidade de
acesso e universalização de propostas educativas contra-hemônicas no seio do Estado
hegemônico. A pesquisa aponta que a Educação do Campo após anos sendo relegada,
pode, por meio da Pedagogia da Alternância, contribuir como objeto de estudos e de
políticas públicas no Brasil, apresentando práticas de resistência contra o projeto
neoliberal e inserindo-se no movimento de educação popular que se espalha pelo
mundo.

Palavras-chave: EECOR; Protagonistas; Pedagogia da Alternância; Estado.

153
LITERATURA AFRICANA NA INFÂNCIA: MOMENTO DE
INTERCULTURALIZAR PRÁTICAS EDUCATIVAS NA EDUCAÇÃO
INFANTIL

Simony Ricci Coelho


Jacqueline de Oliveira Duarte Ferreira

O presente trabalho aborda a temática da criança negra e a literatura infantil, na


qualidade de investigar como as Relações Étnico-Raciais estão sendo representadas na
literatura infantil em seu contexto escolar, uma vez que o artigo 26 A da Lei de Diretrizes
e Bases- LDB em seu parágrafo 2º institui que “Os conteúdos referentes à história e
cultura da afro-brasileira e dos povos indígenas brasileiros serão ministrados no âmbito
de todo currículo nacional”. Assim acredita-se que a literatura infantil no ambiente
escolar se insere na expressão, na fantasia e no anseio, sobretudo ajuda a criança a lidar
com os conflitos do cotidiano. Ademais, a literatura tem a possibilidade de emergir
leituras que contemplem uma diversidade cultural, daí torna-se proeminente inseri-la
na prática pedagógica do professor nas séries iniciais de maneira lúdica no universo
infantil com a temática afro-brasileira. Assim, o recorte nesta pesquisa se faz na literatura
infantil africana, na condição de discutir a questão da diversidade cultural identitária
trabalhada na Educação Infantil, como forma de identificar se buscam ou não
empoderar os sujeitos afro-brasileiros e se estimulam o diálogo decolonial e
intercultural. A metodologia utilizada foi de natureza bibliográfica, tendo como
destaque os autores que nortearam esta pesquisa foram:Marcuschi (2008),Bakthin (1992);
Arroyo (2011,2012); Freire ( 1987 ); Rocha ( 1998); Ribeiro (1996); Negrão(1990) Oliveira
(2012) Candau (2016); Walsh (2005); Santos (2007). Para tanto, espera-se que práticas
decoloniais e interculturais sejam inseridas no contexto escolar desde da infância, numa
perspectiva desafiadora de romper a colonialidade do saber e do poder, que criam
processos de homogeneização, que inviabilizam e oculta as diferenças, como forma
reinventar uma emancipação social.

Palavras-chave: Literatura Infantil; Relações Étnico-Raciais; Prática Intercultural.

154
DESCOLONIZANDO A EDUCAÇÃO COM O COLETIVO FANON:
ENSINO DE HISTÓRIA DA ÁFRICA E EUROCENTRISMO

Walter Günther Rodrigues Lippold


Orson Soares

Em 2001 nascia o Coletivo Fanon, pesquisando e fazendo palestras sobre os Panteras


Negras e o Movimento Hip Hop, andamos pelas periferias da Grande Porto Alegre
ensinando e aprendendo e logo nosso estudo espraiou-se, a demanda que as escolas
possuíam era enorme. Chegamos, então, a uma conclusão: a ausência da História da
África e da Diáspora, ou sua aparição como apêndice da História da Europa estava
ligada à ausência física do negro nas salas de aula de graduação e pós graduação, sua
ausência material, corporal, subjetiva-objetiva nestes espaços acadêmicos corroborava
sua ausência simbólica. Além de tudo, compreendemos que existem conteúdos
eurocêntricos, mas sobretudo a forma do currículo dos cursos de História, baseada no
quadripartismo francês, um poderoso resquício do colonialismo epistemológico. Nosso
objetivo com este trabalho é o seguinte: refletir teóricamente sobre a ação pedagógica do
Coletivo Fanon dentro de uma prática de formação crítica perante a colonialidade do
saber. Nosso método, a pesquisa participante e a análise documental de tudo o que ficou
guardado das produções escritas, dos cartazes, as participações na mídia, os diários de
campo, uma genealogia dos temas desenvolvidos nos cursos do Coletivo Fanon.Como
resultados provisórios de nossa análise, podemos afirmar que a trajetória do Coletivo
Fanon na construção de uma educação emancipadora têm se constituído em uma
experiência rica. Começamos atuando em espaços não formais de educação
principalmente aqueles criados pelas organizações ligadas de alguma forma ao
movimento negro, como quadras de escolas de samba, casas de religião de matriz
africana e fóruns. Posteriormente, também entramos nas escolas e universidades. As
inúmeras palestras que ministramos foram muito importantes para avaliarmos a nossa
prática pedagógica, percebemos as necessidades do nosso público em obter mais
informações, sobretudo os professores. Recentemente contribuímos para realização de
documentários e programas de televisão e nossas últimas ações estão calcadas na
divulgação da obra de Frantz Fanon, através de bibliotecas em nuvens livres, dentro do
espírito da cultura colaborativa, da ciência livre e do software livre.

Palavras-chave: Frantz Fanon; Formação de professores; Eurocentrismo; África; Ensino


de História.

155
A DESCOLONIALIDADE DOS SABERES DA JUVENTUDE
CAMPONESA ATRAVÉS DA ESCOLA FAMILIA AGRICOLA DOM
FRAGOSO NO CEARÁ

Clédia Inês Matos Veras

O presente trabalho consiste numa pesquisa em andamento sobre aspectos da Pedagogia


da Alternância desenvolvida na Escola Família Agrícola (EFA) Dom Fragoso, no
município de Independência – CE, visando a identificar práticas de descolonialidade dos
saberes no projeto de educação popular dialógica para a emancipação da juventude
camponesa. A falta de contextualização com a realidade dos educandos das escolas do
campo, tem provocado êxodo da juventude em vistas que o campo é subalternizado em
relação a cidade. A escola agrícola Dom Fragoso, tem sido capaz de minimizar essa
realidade? A EFA desenvolve a Pedagogia da Alternância como uma proposta de
Educação Popular em que os saberes são apreendidos na práxis, refletindo a formação
humana da juventude na sua relação com a Terra, com a subsistência e o bem viver. Na
medida em que a teoria é contextualizada com a prática dos educandos, os saberes têm
mais sentido e assim são ressignificados. Para essa investigação, estamos nos orientando
pela pesquisa etnográfica, em que, para PAIS (1993) a vida cotidiana não se separa da
realidade social. Nesse percurso dialogaremos com Freire (1987), Lander (2005), Walsh
(2012), Figueiredo (2007), Quijano (2005), Brandão (2006) para compreender a
colonialidade e descolonialidade dos saberes. Nas leituras já realizadas, participação de
atividades na EFA e conversas com os educandos, identificamos nos relatos a
importância da valorização e resgate dos saberes tradicionais para a convivência
sustentável com o bioma caatinga. Um efeito diretamente proporcional a esse debate é
que mais de 90% dos e das jovens que concluíram o ensino médio na referida escola
permanecem no campo desenvolvendo práticas agroecológicas.

Palavras-chave: Descolonialidade dos saberes; Juventude camponesa; EFA; Pedagogia


da Alternância.

156
REVISANDO CONCEITOS: OS LIVROS DIDÁTICOS ENQUANTO
DIFUSORES DO DISCURSO DE NARRATIVA ÚNICA

Yanci Ladeira Maria

Este trabalho se pauta na análise de trechos de livros didáticos da disciplina de Geografia


(EF 2 e EM), que se referem a uma abordagem de uma “narrativa única”. E propõe uma
crítica à esta abordagem a partir da concepção de multiplicidade das histórias, do espaço
e das trajetórias, que não se restringe apenas à área da geografia e que visa trazer para
as questões educacionais os debates a respeito da interculturalidade e da dicotomia entre
cultura e natureza.
O discurso de uma “narrativa única” faz parte da propagação de valores da
modernidade ocidental capitalista, conforme os quais, o futuro histórico de toda
humanidade seria a civilização moderna ocidental. Dessa maneira, a multiplicidade de
outras sociedades e suas relações e interações no e com o espaço são relegadas a um
passado histórico, são atrasadas, representam o primitivo. E ainda mais, são todas
colocadas do lado de lá de um grande divisor, como nos mostra Latour (1994), que
separa todas as outras culturas, da cultura Ocidental, que não seria apenas uma cultura,
mas a única detentora da história e da verdade do mundo natural (através da ciência).
O material didático analisado reflete e difunde, entre outros exemplos, uma concepção
na qual a humanização do espaço está atrelada ao desenvolvimento tecnológico de
modelo da sociedade moderna ocidental capitalista, como se as tecnologias
desenvolvidas pelas sociedades que não se pautam nesse modelo não fossem capazes de
gerar paisagens humanizadas (pois não causam tanto impacto na natureza). A crítica a
este pensamento que se propaga nos livros didáticos, se apoia na reconceptualização do
conceito de espaço elaborada por Massey (2008) que o compreende não mais como uma
superfície contínua, correspondente a homogeneidade e a localização, propondo sua
compreensão como multiplicidade de trajetórias e de coexistências contemporâneas. A
imaginação espacial que é propagada no material didático, fundamenta os discursos do
“descobrimento”, da “conquista”, da “inevitabilidade” e da “narrativa única”, ela não
considera as trajetórias e as histórias dos povos destes (outros) lugares, já que estes povos
estavam sobre o espaço, como que se a espera dos colonizadores, da civilização e do
capital, enfim, da História.

Palavras-chave: Revisão conceitual; Espaço; Livro didático; Narrativa única; Geografia.

157
ETNONTOLOGIAS E CONSTRUÇÃO EPISTEMOLÓGICA DOS
SABERES

Daniel Jorge Lima Mello Mattos Habib

Objetivo: Trazer à discussão o tema das bases ontológicas enquanto constitutivas de


saberes e práticas culturais, visando localizá-lo nos diálogos descoloniais sobre
interculturalidades e educação.
Problema: Dado o status repetidamente colonial das principais teorias e práticas da
educação e seus efeitos sobre as sociedades ocidentalizadas, investigar
taxonomicamente as fundações dessas teorias e práticas requer o exercício de retroceder
-comparativamente e/ou em perspectiva- até os sistemas quase-invisíveis de crenças e
valores que regem as normas, construções culturais e instituições de origem colonial.
Metodologia: Baseado em perguntas-chave, este percurso identifica derivações e
decorrências nos diversos campos do saber, incluindo seus modos de produção e
reprodução, através de diferentes níveis taxonômicos do pensamento e da organização
cultural.
Resumo: Como aprendemos em um mundo que se transforma desde suas bases? Mais
fundamental que a lógica, que a teoria, o método, ou mesmo que a definição de critérios
de certo, errado, igual ou diferente está um sistema de crenças baseado em valores e
afirmações geralmente invisíveis à razão mas perfeitamente presentes no indivíduo ou
coletivo, algumas vezes reconhecíveis através de apropriada investigação. Essas crenças,
valores e afirmações -chamadas aqui bases ontológicas- constituem a base anterior à
lógica e à epistemologia que compõe qualquer cultura, e diferem entre si segundo as
tradições nas quais se constroem. Etnontologiassão investigações e práticas que orientam
a percepção, reconhecimento e incentivo à construção epistemológica dos saberes,
buscando flexibilidade de lógicas, teorias e métodos, quer se trate de conhecimentos
científicos ou outros tipos de saberes. Um trabalho etnontológico relacionará aspectos
de diferentes culturas, como monismo-dualismo, natureza-artifício, humano-natureza,
pensamento-linguagem-matéria. Do confronto entre essas diversidades surge o
estranhamento e a curiosidade pelo novo: inexplicável e incompreensível quando
avaliado sob matriz ontológica diferente daquela onde foi produzido um saber. Deste
modo, etnontologias são estudos que possibilitam o reconhecimento de
particularidades incomensuráveis entre culturas, métodos, explicações e experiências de
mundo diversas. O presente trabalho apresenta brevemente este modo de pesquisa, que
merece destaque na educação descolonial pelo reconhecimento da necessidade de
compreensão das diferenças fundamentais nos modos de construção dos saberes.

Palavras-chave: Etnontologias; Interculturalidade; Educação Descolonial.

158
CONHECIMENTO, PODER E IDEOLOGIA: UMA CONCEPÇÃO DE
EPISTEMOLOGIA DESCOLONIAL E LOCAL E SUA RELAÇÃO
COM A EDUCAÇÃO

Jorge Luiz Ayres Gonzaga

As relações entre colonizador e colonizado atravessam toda a condição humana inscrita


no processo de colonização a partir da “descoberta” da América em um determinado
momento e da Expansão Imperialista do Capitalismo em um segundo. A pergunta
central neste texto é: Como é possível outra concepção de saber e de poder não centradas
e decorrentes dos objetivos coloniais europeus? A relação entre as nações colonizadoras
e nações colonizadas desde a perspectiva teórica da descolonização preconizada pelo
Grupo de intelectuais latino-americanos denominado Modernidade/Colonialidade, é o
caminho que se aposta para fazer esta reflexão. Nessa direção, aponta-se para a
construção de possibilidades de articulação social baseadas em outras formas de
concepção política, econômica, social, cultural e epistemológicas que caminhem em
direção diferente da preconizada pelos paradigmas europeus. Neste sentido, procura-se
compreender como políticas educacionais podem ser articuladas a outras possibilidades
de construção do conhecimento, por intermédio dos processos de aprendizagem, sob a
égide dos conceitos de Modernidae/Coloniedade a partir de outra ética do saber e do
poder fundamentado no processo coloniedade/Descoloniedade. Precisamente
procuraremos questionar se existe aproximação entre os conceitos de
Modernidade/Coloniedade com o processo de reestruturação curricular implementado
no estado do Rio Grande do Sul nos anos compreendidos entre 2011 à 2014, e as teorias
e conceitos que fundamentaram esta proposta de reorganização curricular e sua
continuidade ou não como política pública de educação.

Palavras-chave: Descolonização; Epistemologias do Sul; Saber; Educação.

159
EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA NO RIO DE JANEIRO: ESPAÇO
DE DECOLONIALIDADE?

Katia Antunes Zephiro

O único povo indígena que vive no Rio de Janeiro são os Guarani Mbya, atualmente
existem sete aldeias Guarani Mbya. Para atender a demanda de educação há apenas uma
escola indígena com três salas de extensão. Esse povo trava uma luta histórica por um
projeto de educação escolar que garanta o respeito a sua cultura, seu modo de vida.
A presente pesquisa pretende analisar a implementação dos anos finais do Ensino
Fundamental e a proposta curricular, buscando em quais momentos esse currículo se
constitui como decolonial ou colonizador.
A história da implementação da educação escolar indígena no Rio de Janeiro inicia-se na
década de 90 por iniciativa dos próprios Guarani. Eles defendiam os princípios de uma
educação diferenciada, específica, intercultural e bilingue. Em 2003, o governo do estado
institucionalizou a Escola Indígena e manteve a oferta para os anos iniciais do Ensino
Fundamental. Somente no ano de 2015, a escola é transformada em Colégio e inicia a
oferta dos anos finais do Ensino Fundamental.
Para ministrarem as aulas dos anos finais do Ensino Fundamental, foram selecionados
professores não indígenas da rede estadual de ensino. Esses professores estão passando
por um curso de formação no qual devem elaborar uma proposta curricular para os anos
finais do Ensino Fundamental.
Para tentar responder aos questionamentos apontados nos parágrafos acima
utilizaremos a metodologia qualitativa, por acreditamos que ela abarca mais elementos
que nos ajudam a entender nosso objeto que é tão multifacetado e utilizaremos alguns
procedimentos metodológicos que nos auxiliarão no processo investigativo, tais como:
entrevista e observação participante.
Toda pesquisa será embasada no arcabouço teórico do grupo
Modernidade/Colonialidade por acreditarmos que a discussão travada por esse grupo
seja de fundamental importância para o entendimento do nosso objeto de estudo.
Não temos resultados conclusivos da pesquisa, pois ela está em andamento, na fase de
análise dos dados coletados, contudo podemos observar que apesar de toda opressão e
descaso estatal, há práticas decoloniais ocorrendo naquele espaço escolar.

Palavras-chave: Educação escolar indígena; Currículo; Interculturalidade.

160
URGÊNCIA, CONSCIÊNCIA E EMERGÊNCIA: A INVISÍVEL ARTE
NEGRA DO RIO GRANDE DO SUL

Estêvão da Fontoura Haeser


Lucas Juliano Correa (Giuliano Lucas)

O governo federal brasileiro conseguiu criar, nos últimos doze anos, uma série de
políticas públicas que visam diminuir as desigualdades provocadas pela forma como os
descendentes de africanos foram deixados após o fim da escravidão de seus
antepassados. Tais políticas, além de favorecerem a população negra com editais
específicos, evidenciam a anterior indiferença dos governos em relação a essa população
e o racismo institucionalizado que permeia as diversas instâncias da sociedade brasileira,
como a cultura e a educação. O presente artigo propõe algumas reflexões sobre o
contexto e as conseqüências das políticas públicas afirmativas para a arte e a educação,
praticadas no Brasil no século XXI, tomando como ponto de partida o Projeto Casa
Grande, um dos vencedores do Prêmio Funarte de Arte Negra 2012. À luz de autores
como Milton Santos, Ricardo Aleixo, Didi-Huberman e Carl Einstein, buscamos
estabelecer um discurso autoral verbal escrito que dialogue com nossa experiência
recente e com nossa própria obra constituída a partir do projeto supracitado.

Palavras-chave: Arte Negra; Políticas Públicas; Ações Afirmativas; Projeto Casa Grande;
Rio Grande do Sul.

161
LEI 10.639/03: UMA POSSIBILIDADE PEDAGÓGICA PARA A
EMANCIPAÇÃO HUMANA

Márcia Maria de Albuquerque


Jeannette Filomeno Pouchain Ramos

O objetivo do presente artigo consiste em compreender como a interculturalidade crítica


contribui para a efetivação dos Direitos Humanos dentre os povos da diáspora negra, a
partir de pesquisa que está sendo desenvolvida no Mestrado Interdisciplinar em
Humanidades – MIH, tendo como problemática o estudo da história e cultura africana e
afro-brasileira na educação básica – Lei 10.639/03. Numa perspectiva interdisciplinar,
utilizamos a pesquisa bibliográfica e documental, onde a contribuição de Paulo Freire e
dos estudos (de) coloniais a partir de Ramón Grosfoguel e Catherine Walsh é relevante
para o enfrentamento ao pensamento colonial etnocêntrico. Iniciamos o texto com um
breve histórico sobre Direitos Humanos, com ênfase na política de ações afirmativas no
Brasil. Prosseguimos com o pensamento de Boaventura de S. Santos, defendendo a ideia
de que o projeto emancipatório desejado pelos Direitos Humanos ainda está por se
concretizar, tendo em vista que a política de Direitos Humanos é, não raras vezes,
utilizada pelas potências ocidentais para fins não compatíveis com o respeito à
dignidade humana. Em nome dos Direitos Humanos se promovem guerras e se
desrespeitam outras culturas, diferentes do modelo ocidental hegemônico europeu.
Finalizamos com o argumento de que o diálogo intercultural crítico representa uma
possibilidade concreta para a efetivação dos Direitos Humanos na escola e na sociedade.
Compactuamos com a ideia da educação como um “direito de síntese” ou “direito
habilitante”, na medida em que a prática educativa, na perspectiva crítica, oferece
condições para o exercício da cidadania ativa. Nesse aspecto, defendemos o argumento
de que a educação das relações étnico-raciais, garantida pela lei 10.639, oferece essa
possibilidade de “síntese”, na medida em que contribui para a dignidade humana e
representa uma oportunidade importante para a efetivação dos direitos humanos entre
docentes e discentes, possibilitando a ressignificação dos saberes e o desenvolvimento
de novas subjetividades a partir da escola.

Palavras-chave: Direitos Humanos; Interculturalidade; Descolonialidade; Emancipação.

162
DESCOLONIZANDO A EDUCAÇÃO: O CASO DO INDÍGENA
MATHIAS JOSÉ DOS SANTOS

Ricardo de Oliveira

A violência praticada pelos europeus durante o processo de conquista e colonização do


território latino americano não se deu apenas pelo controle do corpo; foi além, reprimiu
e controlou o pensamento, sempre se auto afirmando como destino único de toda e
qualquer sociedade capaz de progresso. Esta construção ideológica, produziu formas de
pensamento que hoje denominamos colonizado. Neste processo, o discurso hegemônico
europeu silenciou e subalternizou as culturas autóctones. O presente trabalho pretende
contribuir para a descolonização do pensamento latino-americano, criando espaços que
possam dar voz aos sujeitos históricos. Ao analisar históricamente o caso de um indígena
escravizado, chamado Mathias José dos Santos, que reclamava sua liberdade em 1860,
na Vila de Guarapuava, hoje cidade de Guarapuava, no estado do Paraná-BR - mais de
cem anos após a proibição da escravização dos indígenas no Brasil - discutiremos as
relações entre ideologia e colonização do pensamento, utilizando o conceito de
pensamento limiar proposto por Walter Mignolo. O caso de Mathias é significativo
porque junto ao processo judicial, está anexado o interrogatório respondido por ele. Este
interrogatório, mesmo que transcrito por um não indígena, é uma oportunidade de
conhecer a representação que este sujeito produziu sobre si mesmo e compreender, na
subjetividade de Mathias, a objetivação do pensamento colonizado. O trabalho se insere
no contexto educacional latinoamericano, ao apontar para certas continuidades nas
relações indígenas/não indígenas e ao demonstrar táticas de resistência e estratégias de
dominação que carcaterizaram estas relações e que não estão contemplados no currículo
escolar. Esta ausência, marca a presença do pensamento colonizado nas práticas de
ensino.

Palavras-chave: História Indígena; Educação; Decolonial.

163
A VIOLÊNCIA NA BASE DA REPRODUÇÃO DA COLONIALIDADE
NOS PAÍSES DO SUL

Carolina Nunes Ramos


Telmo Adams

O estudo aqui proposto surge a partir do desenvolvimento de pesquisa ligada ao


Programa de Pós-Graduação em Educação da UNISINOS. O objetivo é estabelecer
aproximações entre os autores Paulo Freire (1978) e Frantz Fanon (1968) com foco na
análise da violência como base da reprodução da colonialidade nos países africanos e
latino-americanos. A pesquisa bibliográfica centrou-se nos livros “Cartas a Guiné-
Bissau” (1978) e “Os Condenados da Terra” (1968) dos autores referidos.
Fanon traz a discussão sobre a relação colonizado x colonizador obtendo como cenário
o processo de colonização europeia no continente africano e, através de um olhar atento
à constituição destas relações, revela a violência como elemento fundador da lógica da
colonialidade, e consequentemente de dominação. De outro lado, Freire traz a
perspectiva do conflito entre opressor x oprimido no contexto latino-americano, onde os
sujeitos estão imersos em um sistema de desigualdades, o qual imprime no oprimido a
marca da desumanização como forma de controlar e mantê-lo preso às engrenagens da
estrutura dominadora.
Frente a este cenário de colonização epistêmica, subjetiva e outras dimensões da vida
humana, propomos o olhar descolonial destes autores que emergem destes contextos de
violência nos países do Sul. Através deste estudo, foi possível encontrar bases de
compreensão como: a) o estabelecimento de uma classificação hierárquica das raças
humanas e a divisão dos povos dos países do sul entre colonizados x colonizadores, ou
os que estão inscritos na zona do ser e os que estão na zona do não ser; b) o
reconhecimento das vozes dos sujeitos explorados a partir da leitura destes autores que
denunciam a violência sofrida, trazendo um olhar descolonial ao dar visibilidade à
constituição das relações de subalternização provocada pelo contexto colonial; c) A
proposta de uma epistemologia advinda dos países do sul, a qual convoca mulheres e
homens colocados neste cenário a refletirem criticamente os processos de dominação,
procurando reverter as heranças coloniais por meio de modelos alternativos ao modelo
hegemônico de educação.

Palavras-chave: Violência; Colonialidade; Frantz Fanon; Paulo Freire.

164
OUTRAS VOZES, CORPOS E NARRATIVAS: POSSIBILIDADES
DIDÁTICO-PEDAGÓGICAS NO ENSINO DE SOCIOLOGIA NA
EDUCAÇÃO BÁSICA

Michele Leão de Lima Ávila


Jair Zandoná

Esta comunicação é resultado de intensas reflexões advindas da prática docente no


ensino de sociologia na educação básica em que se percebeu a ausência de possibilidades
didático-pedagógicas que proponham diálogos pertinentes entre os estudos de gênero e
os estudos de deficiências nessa disciplina. Cabe notar que, embora se perceba a
necessidade de incluir tais temáticas no ensino de sociologia na educação básica – seja
no desenvolvimento dos conteúdos, seja na articulação dos temas transversais –, a
existência de materiais didático-pedagógicas voltados a estimular e viabilizar tal
empreitada é escassa. Diante disso, a partir do conteúdo de Desigualdades Sociais –
previsto no currículo do curso – desenvolveu-se uma pesquisa com o propósito de
propor um conjunto de aulas que incorporassem leituras e debates sobre os estudos de
gênero e deficiência. Para tanto, recorreu-se, num primeiro momento, aos documentos
oficiais acerca do ensino de sociologia na educação básica para, então, realizar uma
revisão teórica voltada aos estudos propostos a partir das reflexões de Spivak (2010),
Quijano (2000), Butler (2015), Corrêa (1999), Mello e Nuerbernberg (2012), entre
outras/os. Desse modo, os estudos pós-coloniais e decolonais foram incorporados na
pesquisa quando se constatou a delimitação sócio-espacial e simbólica sobre os corpos,
tendo em vista a constante tentativa de enquadramento dos corpos dentro do padrão
ocidental, masculino, branco, heterossexual e não diverso – físico, motor e/ou mental –
dando subsídio para pensar alternativas didático-pedagógicas que incluam experiências
corporais outras. Como resultado, foi possível produzir seis planos de aula e um plano
de orientações voltados a desenvolver teoricamente em sala de aula os principais
conceitos que norteiam os estudos de gênero, estudos de deficiências, estudos pós-
coloniais e decoloniais, cujo objetivo centrou-se em instigar as/os estudantes para a
produção de investigações sociológicas de outras vozes, outros corpos, outras narrativas,
no desejo de contribuir para a visibilização de experiências outras dentro (e fora) do
espaço escolar.

Palavras-chave: Sociologia na Educação Básica; Gênero; Deficiências; Pós-colonialidade;


Decolonialidade.

165
“NO REINO DAS ÁGUAS SÁBIAS”: UMA EXPERIÊNCIA
INTERCULTURAL E DE DESCONSTRUÇÃO DO COLONIALISMO
NA EDUCAÇÃO EM SAÚDE

Ticiana Osvald Ramos


Fran Demétrio

Este trabalho visa oferecer um relato de experiência da construção coletiva do


componente intitulado “Processo de Apropriação da Realidade – PAR” (PAR II) da
matriz curricular do Bacharelado Interdisciplinar em Saúde – BIS da Universidade
Federal do Recôncavo da Bahia – UFRB. Primeiramente, cabe evidenciar como a própria
existência da UFRB e do BIS se constituem enquanto projeto inovadores e desafiadores
da realidade colonial dominante no cenário da educação superior brasileira e da saúde
(marcada pelo modelo biomédico), exigindo, portanto, a concretização de práticas
educativas e de um projeto pedagógico condizente com o desenvolvimento de
competências estruturantes de compreensão da realidade (partindo do local), agir ético
e transformador, interdisciplinaridade, autonomia e comunicação. Como parte do
itinerário formativo, de acordo com o Projeto Político-Pedagógico do Curso – PPC , no
PAR II “as metodologias pedagógicas devem ser orientadas para a construção e
estabelecimento de vínculos dos estudantes com a comunidade, de modo a possibilitar
o conhecimento mais profundo e próximo das dimensões socioculturais e biológicas da
comunidade”, bem como “promover discussões acerca de cidadania e engajamento
social” e “desenvolvimento de estratégias para o estreitamento de vínculos
universidade-comunidade a partir de abordagens teórico-práticas abrangentes. Assim,
desejamos aqui relatar mais especificamente essa experiência a partir de sua
fundamentação teórica em sala, práticas realizadas na comunidade de um bairro
específico da cidade em que atuamos (Urbis I) e os resultados finais da construção
discente, culminando com o trabalho “No Reino das Águas Sábias” apresentado no
Seminário Integrativo (evento semestral aberto à comunidade, que integra as diversas
atividades desenhadas pelos estudantes nos componentes PAR, de forma a pensar a
interdiscipliaridade no contexto da produção de saberes e práticas em saúde, com forte
viés artístico e intercultural), no fim do semestre.

Palavras-chave: Descolonialidade; Educação em saúde; Bacharelado interdisciplinar


em saúde; integralidade.

166
A PARTICIPAÇÃO POLÍTICA DE CRIANÇAS DO CAMPO NAS
CIRANDAS INFANTIS DO MST COMO LUGAR-OUTRO DE
RESISTÊNCIA CONTRA HEGEMÔNICA À COLONIALIDADE

Maria Roberta de Alencar Oliveira


Adelaide Alves Dias

Este trabalho tem como objetivo analisar os espaços de participação política


das crianças nas cirandas infantis desenvolvidas pelo Movimento dos Sem-Terra (MST) e
suas configurações enquanto lugar de enfrentamento aos processos de
invisibilização/subalternização histórica a que foram submetidas as crianças do
campo no Brasil. O nosso interesse é entender se as crianças assentadas participam da
construção das ideias-práticas que movem as cirandas infantis, exercendo assim o seu
lugar de sujeitos de direitos e criando espaços de enfrentamentos à visão hegemônica,
urbano e adultocêntrica de educação que configura-se como expressão
da colonialidade. Nossas análises tomamos como lente de interpretação a abordagem da
Sociologia da Infância e a abordagem dos Estudos Pós-Coloniais Latino-Americanos. A
pesquisa é de natureza qualitativa, apoiada no modelo de investigação participativa e
os métodos, técnicas e ferramentas de coleta e produção de dados são a observação
participante, entrevistas semi-estruturadas, vídeos produzidos com/pelas crianças e
diário de campo. Os sujeitos são crianças com idades entre 4 e 5 anos, participantes das
Cirandas Infantis de dois assentamentos de Bananeiras, na Paraíba. Para analisar os
dados utilizamos a Análise de Conteúdo, através da técnica da análise temática. Os
primeiros resultados apontam para o fato de que a concepção de infância presente no
Caderno de Educação Infantil do MST, guarda discrepâncias relativas à ideia de
participação infantil presente na abordagem da Sociologia da Infância, mas ao mesmo
tempo, traz em si a possibilidade de superação da condição subalternizada da
criança, requerida pelos princípios e pressupostos da descolonialidade.

Palavras-chave: Crianças do campo; Estudos pós-coloniais; Sociologia da infância;


Colonialidade; Descolonialidade.

167
ARTE, SABERES TRADICIONAIS E ENCONTROS EPISTÊMICOS:
CONSTRUINDO UMA CRÍTICA DECOLONIAL NO CONTEXTO DA
FORMAÇÃO INTERDISCIPLINAR EM SAÚDE

Fran Demétrio
Ticiana Osvald Ramos
Luciana Alaíde Alves Santana

O campo da Saúde é permeado por um conjunto de atores, disciplinas de conhecimento


e saberes que são construídos nos processos sociais e espaços de disputas, encontros e
debates. Trata-se de um campo marcado pela colonialidade da racionalidade científica
moderna, que funciona mediante a hierarquização das profissões e disciplinas da saúde,
com o direcionamento da força produtiva para a produção e manutenção do capital.
Resultante disso se tem uma formação universitária em saúde voltada para as demandas
do mercado, esvaziada de quaisquer horizontes de construção do pensamento crítico e
de preocupações com as dimensões humanas e as transformações sociais. Em face dessa
problemática, faz-se necessário (re)pensar o papel da Universidade brasileira e a sua
contribuição como capital simbólico e social. Nesse sentido, Boaventura de Sousa Santos
e Naomar de Almeida Filho têm feito esforços com vistas à construção de um Projeto de
Universidade Nova. Nessa perspectiva, são criados os cursos de Bacharelados
Interdisciplinares, cuja base epistemológica se sustenta no paradigma interdisciplinar e
na decolonialidade do pensamento. Nesse trabalho, visamos relatar a experiência de
construção epistemológica, crítica e pedagógica de componente curricular optativo
intitulado “Arte, saberes tradicionais e encontros epistêmicos”, para compor a matriz
curricular do curso de Bacharelado em Saúde da Universidade Federal do Recôncavo da
Bahia, e possibilitar aos discentes uma formação humana, crítica, artística e
interdisciplinar em saúde. O componente em questão tem como ementa: Conhecimento
decolonial; ecologia de saberes; diálogos interepistêmicos; culturas tradicionais no
Brasil; intercâmbio entre acadêmicos e Mestres de diferentes universos culturais; arte,
saberes e práticas fundamentadas na cultura de povos tradicionais do Recôncavo Baiano;
interculturalidade na formação interdisciplinar; pedagogias interculturais, oralidade e
corporeidade. Propõe-se a discutir possibilidades de diálogos entre as artes, saberes
tradicionais e saberes científicos, compreendendo diferentes cosmologias e epistemes em
suas origens, objetivos e perspectivas pedagógicas; rever e propor processos
pedagógicos e metodológicos no campo da formação interdisciplinar em saúde, a partir
da integração de saberes decoloniais e práticas de povos tradicionais; refletir em torno
da arte e de saberes e práticas fundamentadas na cultura de povos tradicionais do
Recôncavo Baiano, provocando aproximações e encontros destes saberes com o
conhecimento acadêmico-científico.

Palavras-chave: Interdisciplinaridade; Formação em saúde; Decolonialidade; Ecologia


de saberes.

168
MURAL ‘RAÍZES RECÔNCAVAS’: A ARTE COMO CONTRIBUIÇÃO
À DECOLONIZAÇÃO DO PENSAMENTO E À
TRANSDISCIPLINARIDADE NA EDUCAÇÃO EM SAÚDE

Fran Demétrio
Ticiana Osvald Ramos

No Brasil, espaços acadêmicos da área de saúde são fortemente influenciados por um


modelo colonial de academia ocidental, marcado por uma formação disciplinar,
fragmentada, biologicista, centrada na figura do médico e na instituição hospitalar.
Nesses espaços, a interdisciplinaridade tem lenta capilaridade e está longe de ser
visualizada, em parte pelo fato dos cursos da área de saúde estar muitas vezes situados
em estruturas preexistentes, limitando o seu âmbito de aplicação. Tal fato pode ser
apontado também no que se refere a espaços acadêmicos que além do engajamento no
trabalho inter e transdisciplinar, buscam romper com as epistemologias dominantes no
ensino e prática das ciências da saúde. O Centro de Ciências da Saúde da Universidade
Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) consiste em um espaço acadêmico-científico
interdisciplinar que procurou superar as estruturas preexistentes e os limites de
aplicação do conhecimento transdisciplinar no contexto da formação em saúde. Para
isso, substituiu o modelo linear de ingresso ao ensino superior em saúde pelo modelo
de ciclos, sendo o primeiro ciclo configurado pela graduação no Bacharelado
Interdisciplinar em Saúde, e o segundo composto por formações específicas a saber:
Graduação em Enfermagem, Medicina, Nutrição e Psicologia. Por iniciativa do
Laboratório Humano de Estudos, Pesquisa e Extensão em Integralidade do Cuidado em
Saúde e Nutrição, Gêneros e Sexualidades (LABTrans/UFRB/CNPq) em parceria com
o Coletivo de Pesquisa e Extensão em Parto, Cultura e Sociedade
(Rebento/UFRB/CNPq) e o Artista Visual Tiago Botelho, empreendeu-se a construção
de um Projeto intitulado “A Arte como contribuição à decolonização do pensamento e à
transdisciplinaridade na saúde”. O Projeto visou uma intervenção por meio da Arte na
construção de um Mural intitulado ‘Raízes Recôncavas’ que foi concebido, desenhado e
pintado nos “muros decoloniais” do CCS/UFRB. O objetivo desse projeto foi propor um
olhar artísticoetnográfico sobre a cultura do Recôncavo Baiano de modo a possibilitar
aos estudantes e à comunidade acadêmica diálogos interculturais e interepistêmicos, que
considerem o contexto histórico e local no qual a UFRB está inserida. Acredita-se que
projetos e experiências dessa natureza possam contribuir para a construção do
pensamento decolonial e transdisciplinar na formação em saúde.

Palavras-chave: Arte; Saúde; Educação; Transdisciplinaridade; Decolonialidade.

169
PROCESSO DE APROPRIAÇÃO DA REALIDADE: FORMAÇÃO
DESCOLONIAL A PARTIR DE UM COMPONENTE CURRICULAR
MODULAR

Adailton Alves da Costa Filho


Danilo Conceição dos Santos
Arisne Munique da Silva Ramos

A educação superior no Brasil é tradicionalmente marcada pela predominância de


cursos tecnicistas, com valorização do método “bancário” de aprendizagem, este perfil
intensifica-se nas graduações da área da saúde, na quais o modelo biomédico é
hegemônico. Nessa perspectiva, a Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB),
entendendo a importância de uma formação superior pautada na interdisciplinaridade,
com enfoque nas culturas humanísticas, artísticas e científicas, articuladas a saberes
biológicos, implantou o Bacharelado Interdisciplinar em Saúde (BIS) na UFRB. O curso
estrutura-se nos princípios da educação libertadora de Paulo Freire, buscando um
diálogo permanente e horizontal ente os agentes sociais envolvidos no processo
educacional, a leitura crítica do mundo e a construção do conhecimento a partir da
realidade dos educandos e comunidades. O objetivo do presente trabalho foi a partir da
análise documental (Projeto Pedagógico do BIS) caracterizar o componente curricular
“Processo de Apropriação da Realidade (PAR). O PAR é um módulo transversal do
curso com finalidade de articular a partir de vivências em comunidade os conteúdos
teóricos e práticos trabalhados em cada semestre do curso. Por meio das vivências dos
estudantes em um cenário social específico (comunidade/bairro), sob orientação de no
mínimo dois professores de formações acadêmicas distintas, ocorre um processo de
construção de projetos de pesquisa/extensão em parceria com as comunidades durante
2 anos e meio de formação. A referida apropriação é desenvolvida, sobretudo, por meio
da ecologia dos saberes, de forma em que comunidade, discentes e docentes apreendem
novos saberes, ao passo que juntos, constroem e desconstroem conhecimentos. Esta
experiência pode permitir “apropriar-se” em um processo de quebra do paradigma
hegemônico de formação entre quatro paredes, de forma unidirecional e focalizada no
saber científico. Por outro lado, ocorre o fomento e reafirmação da função social da
universidade no contexto local como espaço de problematização. Conclui-se que este
modelo de organização curricular tem um papel fundante para o reconhecimento da
pluralidade, valorização das diferenças e, sobretudo, descolonização da formação dos
estudantes, professores e comunidade. Nesse intuito, o PAR se apresenta como uma
possibilidade de formação acadêmica interdisciplinar e descolonial no âmbito da
educação superior no contexto do Recôncavo da Bahia.

Palavras-chave: Formação em Saúde; Descolonialidade; Ecologia dos Saberes; Processos


De Apropriação da Realidade.

170
EDUCAÇÃO INDÍGENA NO BRASIL: A CONQUISTA DA ESCOLA
DIFERENCIADA

Telmo Adams
Marina da Rocha

A partir do processo de instituição da educação escolar indígena diferenciada no Brasil,


será realizado o recorte de como se deu o desenvolvimento desse processo, bem como a
influência ou não da interculturalidade nesse trajeto realizado até então. A reflexão
proposta está ligada à pesquisa de mestrado que busca elucidar “Como se deu o processo
de instituição da educação escolar indígena diferenciada no Brasil, tendo presente o
tensionamento entre os enfoques, integracionista e de interculturalidade?” A partir do
movimento de instituição da educação escolar indígena no Brasil, no contexto das
contradições entre os enfoques integracionista e de interculturalidade, propõe-se
compreender esses conceitos no contexto latino-americano, na relação com a
(des)colonialidade, para apontar tendências e possibilidades da educação escolar
indígena no Brasil. A metodologia de pesquisa desenvolvida neste trabalho é de cunho
bibliográfico e documental. Os materiais selecionados para análise são dissertações e
teses, que abordam especificamente o tema. Além disso, serão considerados documentos
como a Constituição de 1988, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, do ano de 1996 e
o Referencial Curricular Nacional para as Escolas Indígenas de 1998, entre outros. A
interculturalidade pode ser subdivida em funcional e crítica. Na primeira, o que
prevalece é a relação entre as culturas, sem que haja uma reflexão acerca dos processos
de colonização e de subalternização dos povos originários, onde, por exemplo, a
desigualdade não é elemento constitutivo do interculturalismo. Na segunda concepção,
segundo Walsh (2012), se leva em consideração a questão estrutural, colonial e racial,
para além da relação entre duas culturas, já que se aborda a violência causada pela
colonização que perdura na forma de colonialidade. Nesse sentido, em contraponto à
colonialidade, vem se estruturando outra forma de olhar as relações estabelecidas no
mundo que propõe a descolonialidade. Esta, de acordo com Streck e Adams (2014, p.
37), implica a descolonização “do ser, do saber e do poder, partindo da postura crítica, e
não passiva, frente às epistemologias do norte que se caracterizam pela monocultura do
saber científico que desclassifica conhecimentos alternativos”.

Palavras-chave: Educação escolar indígena diferenciada; Interculturalidade;


(des)colonialidade.

171
DESCOLONIALIDADE E INTERCULTURALIDADE A PARTIR DE
PREMISSAS PARA UMA EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA

Pablo Eugênio Mendes

O trabalho encontra-se no âmbito das pesquisas latino-americanas desenvolvidas na


última década focadas no objetivo de analisar a problemática da descolonialidade
intrincada na educação intercultural. Nesse caminho de investigação fora privilegiada a
produção do grupo Modernidade-Colonialidade devido, sobretudo, ao potencial crítico
para a discussão das relações entre interculturalidade, descolonialidade do saber e
educação na América Latina. Na modalidade de ensaio filosófico, se discute o fenômeno
do conhecimento descolonial como objeto conceitual ou paradigmático para se pensar
ou reconhecer saberes a partir da contextualidade originalmente latino-americana.
Outrossim, por conseguinte, aborda-se também, considerações acerca da importância
das pesquisas baseadas no conceito de descolonialidade como base dialética para a
desmistificação da influência do poder hegemônico visando ruptura ideológica e
abertura para o reconhecimento de outro mundo possível, para novos modos de ser e
saber.
A epistemologia permeia o âmago das discussões e indagações acerca dos saberes e da
sua legitimação na atualidade da América Latina. O conhecimento, terminologia central
nas discussões epistemológicas nesse início de século, deflagra possibilidades fecundas
para o debate necessário sobre a importância da desmistificação de uma estrutura de
poder – eurocêntrica – destoada da identidade ou realidade latino-americana. Uma vez
que o fenômeno do conhecimento na atualidade, cada vez mais, se apresenta nas
discussões epistemológicas através do repensar práticas de produção e reprodução de
saberes. Ou seja, há implicações e problemáticas presentes nas práticas de produção de
conhecimento visto que o capitalismo é também um empreendimento cognitivo e
cultural.
Essa direção metodológica admite o reconhecimento de um mundo mais plural, pois ao
se pensar considerando uma geopolítica do conhecimento, por consequência, considera-
se práticas includentes de saberes ao qual o lugar ou contexto seja a América Latina e
não mais, a priorização de realidades ou interesses de outro continente. Em outras
palavras, desconstruir o discurso imperialista de centro e periferias de saber para se
pensar outro mundo possível, ungido em possibilidades de outros modos de ser e fazer.

Palavras-chave: Modernidade/Colonialidade; Descolonialidade; Educação


Intercultural.

172
DECOLONIZAÇÃO, INTERDISCIPLINARIDADE,
INTERCULTURALIDADE: OPÇÕES EPISTEMOLÓGICAS PARA
APROXIMAÇÃO DO IMAGINÁRIO JUVENIL

Josiara Gurgel Tavares

Instituições brasileiras dedicadas à formação humana, como universidades e escolas,


continuam a reproduzir a lógica moderno-colonial imposta pelo europeu desde a
colonização da América. Essa lógica é baseada no modelo de dominação, na qual
racializa, patologiza todo pensamento não-europeu; a concepção de mundo dominante
é a da separação e particularização da realidade – centro e periferia, ciência e arte,
conhecimento superior e inferior – ao mesmo tempo em que, sob a justificativa de
racionalidade, universaliza a sua forma de conhecimento e de estar no mundo, enquanto
são silenciadas situações do tecido social que escapam à lógica universalista de
dominação: saberes, modos de vida populares, práticas culturais que estruturam a vida
quotidiana, produzindo um distanciamento entre essas instituições e a realidade dos
seus sujeitos. O presente trabalho pretende apresentar uma discussão teórica que
fundamenta uma pesquisa de mestrado sobre práticas de leitura de jovens alunos do
ensino médio de duas escolas públicas de Fortaleza que lêem literatura por iniciativa
própria. Acreditamos que a categoria "juventude" precisa ser mais bem compreendida
socialmente e que é no quotidiano, no domínio do lazer, que se ressalta as características
essenciais da existência. Pelo caráter subjetivo/social que conduz as escolhas literárias,
consideramos que esse estudo poderá contribuir para uma maior aproximação do
imaginário juvenil e poderá possuir um elemento revelador dos novos modos de vida
que nascem e renascem sob nossos olhos. A perspectiva da colonialidade desafia-nos a
compreender a continuidade das formas de dominação produzidas pelo norte global,
porém, para compreendê-las e desconstruí-las é necessário erguer perspectivas
epistêmicas ditas periféricas, que transcendam epistemologicamente o cânone
universalizante ocidental. Essa pesquisa dialoga, dessa forma, com os princípios
epistêmicos de decolonização e de uma pedagogia interdisciplinar intercultural e
emancipatória como operação que busca compreender outras formas de produção que
não seja europeia, branca e cientificista, articulando a visões de teóricos que pensam a
partir do sul global, que se posicionam pela criação de "modos outros" de pensar e viver
diferente da razão moderna-ocidental-colonial

Palavras-chave: Decolonização; Juventude; Literatura; Imaginário; Quotidiano.

173
ENTRE EXPERIÊNCIAS E NARRATIVAS DE VIDA: VIOLAÇÃO DO
DIREITO À EDUCAÇÃO NAS ENTRELINHAS DO CONTEXTO
ESCOLAR

Marlise de Medeiros Nunes de Pieri

Este texto busca refletir sobre as experiências e as narrativas de crianças e adolescentes


que são infrequentes ou se evadem do espaço escolar diante da obrigatoriedade da
educação básica. Com base na educação como direito, previsto no artigo 247 da
Constituição Federal e no Estatuto da Criança e do Adolescente, sua ausência caracteriza
o abandono intelectual, responsabilizando o fato aos pais ou responsáveis pelos mesmos.
São histórias de vidas que se entrecruzam na produção de outras histórias, que são
encaminhadas por avisos de infrequência escolar ao Programa de Combate a Evasão e
Incentivo a Permanência na Escola, direcionadas as equipes interdisciplinares compostas
por pedagogas, psicólogas e assistentes sociais. Esta análise tem por base os dados do
Relatório final de atendimento, documento elaborado pelo Programa referente ao ano
de 2015 e 2016. O programa atende escolas públicas da rede municipal e estadual do
município de Tubarão/SC. Os dados foram utilizados após a assinatura do termo de
consentimento dos responsáveis pelo mesmo. A análise dos dados baseia-se em
discussões ancoradas nos estudos de autores como Thompson (1981), Benjamin (1987),
Arendt (2009) que apontam a escola enquanto espaço colonizador que dissemina ações
diversas de violência e exclusão social indica a relação com conhecimento e a autoridade
utilizadas nestes espaços enquanto “poder” de colonização desses sujeitos ou exclusão
dos mesmos. Diante da diversidade das causas, compreende-se a evasão escolar como
um conjunto de consequências, das ações colonizadoras vivenciadas no seio da
sociedade contemporânea, diversas vezes reforçadas no espaço institucional público.

Palavras-chave: Evasão Escolar; Experiências; Narrativas; Colonização.

174
BRASIL, QUE SABES DA AMÉRICA LATINA?

Mônica Virgínia Monteiro Pereira

O desinteresse geral do brasileiro para com os povos dos países latino-americanos,


africanos ou asiáticos que passaram por processos de colonização é um fato decorrente
especialmente da visão míope e invizibilizadora que se tem de toda a realidade que não
seja européia, norte-americana, branca e masculina sobreposta às demais realidades
como se fosse única, universal e verdadeira. Este universo originário, no qual a grande
maioria está inserida, é consolidado ao longo da formação escolar dx alunx e mantida
durante sua vida profissional e social. Daí a necessidade premente de se sensibilizar,
mediante a educação, as pessoas para a multiplicidade de saberes existentes além do que
é produzido no Norte Global ou no Ocidente. Esses outros saberes, obscurecidos e
subalternizados pelo sistema colonial do poder, que se estabeleceu no passado, precisam
ser resgatados, valorizados e atualizados. E quem poderá fazê-lo senão o/a nosso/a
jovem que aprende e apreende o saber por um novo olhar que não seja o
da descolonialidade? Já é tempo de deixar de ser o que não somos! (QUIJANO,
2010) Não obstante a relevância de uma perspectiva descolonial do ensino desde os anos
iniciais, busca-se, mesmo no ensino superior, o despertar do estudante universitário para
a importância do conhecimento do contexto geopolítico atual do Brasil perante a
América Latina, a começar pelo simples fato de estar nela inserido, levando-o a refletir
sobre a formação étnica de seu povo, sobre a posição sócio-política-econômica-
ideológica por ele ocupada no continente e no cenário mundial, procurando identificar
as semelhanças e dessemelhanças que o aproximam ou distanciam dos demais países do
continente. Como, através da perspectiva de uma educação descolonial, aproximar o
Brasil dos vizinhos latino-americanos no sentido de possibilitar o respeito e o
fortalecimento de suas relações para uma produção científica a partir da realidade do
continente(biodiversidade, bem viver,etc) que desponte para o mundo em pé de
igualdade de saber e assegure um novo padrão de cidadania. A pesquisa será realizada
através de um estudo exploratório e bibliográfico entre os autores que desafiam a leitura
da realidade além do eurocentrismo.

Palavras-chave: Ensino superior; Descolonial; Brasil; América Latina.

175
POLÍTICAS EDUCACIONAIS E SOCIOEDUCAÇÃO: ENTRE
(IN)JUSTIÇAS E (DES)IGUALDADES

Lisiane Ligia Mella

Este estudo objetiva discutir acerca das políticas educacionais no contexto de


adolescentes em conflito com a lei, traçando o papel da instituição escolar neste cenário.
Esta análise é realizada com base em pesquisa bibliográfica, sendo utilizados referenciais
sociohistórico-culturais para consubstanciar a reflexão proposta. No campo da educação
e das políticas educacionais, o Brasil enfrenta desde a época colonial, situações de
exclusão para com a classe pobre e marginalizada, sendo ela a de indígenas, negros e
crianças abandonadas. Com uma política voltada à mercantilização, educar e constituir
uma nação não fazia parte do projeto predominantemente colonizador vigente. A
educação pertencia à elite e à esfera privada, inexistindo leis que exigissem o ensino para
todos com qualidade. Somente a partir da Constituição Federal de 1988 e da nova Lei de
Diretrizes e Bases da Educação – LDB de 1996 é que irá garantir-se legalmente o ensino
público. No entanto, a partir da década de 1970 o sistema nacional de educação amplia
suas esferas de atuação, incluindo seu apoio em referenciais meritocráticos. Tais
referenciais envolvem hierarquizar, classificar e ordenar os alunos, seguindo práticas de
reprovação e repetência para os “desajustados”, privilegiando a escolarização dos mais
“capazes”, gerando, como consequência, mecanismos de retraimento e de exclusão
escolar. Mais tarde, porém, o retraimento pode contribuir para o desinteresse do aluno
para com quem implícita e/ou explicitamente o exclui, além de contribuir com a não
aprendizagem, a descontinuidade na qualidade das vivências escolares, o abandono
escolar e a migração para novos territórios. Assim, percebe-se que apesar da política
socioeducativa promover mudanças significativas relacionadas ao atendimento dos
adolescentes, o pensamento hegemônico que orienta as medidas socioeducativas tem
como origem a experiência colonial e ditatorial, gerando um pensamento conservador,
patriarcal e opressor. Portanto, os avanços no campo da garantia de direitos ora
expressam a vitória diante de tais correlações de força, ora são contradições de um
Estado omisso e punidor. Sendo assim, considera-se que a desestigmatização do
adolescente autor de ato infracional requer compreender o seu lugar enquanto sujeito
social, ampliando os muros da instituição escolar através de práticas que garantam tais
direitos.

Palavras-chave: Socioeducação; Adolescente em conflito com a lei; Políticas


Educacionais.

176
“EU TÔ OUVINDO ALGUÉM ME CHAMAR”: A DENÚNCIA DA
MÚSICA RAP BRASILEIRA POR UMA NOVA FILOSOFIA DA
EDUCAÇÃO

Leopoldo Rocha Soares


Raphael Guilherme Ribeiro

O Brasil, importante destino de negros africanos que serviam de mão de obra escrava
nas minas de ouro e nos latifúndios rurais, conheceu a figura do negro como aquele que,
dotado de aptidão para o trabalho braçal, vivia isolado do branco que não via nele traços
de semelhança suficientes para tê-lo como sujeito de direitos. Ainda hoje, grande parte
daqueles que vivem nas favelas ou em bairros de periferia são negros que sofrem os
efeitos do preconceito oriundo da forma como foram conhecidos pela sociedade
brasileira. Mesmo depois de adquirir a condição formal de sujeitos de direito, o negro
brasileiro encontra enormes dificuldades para expressar suas formas de vida e saberes
culturalmente manifestados por gerações. Nesse contexto, o processo de educação
formal deveria ser um importante instrumento de reconhecimento da figura do negro
no Brasil, porém acaba por reforçar a discriminação racial na medida em que reproduz
apenas o capital cultural que lhe é estranho. Esse é o motivo pelo qual milhares de
indivíduos não prosseguem no ambiente escolar, restando silenciados pela baixa
autoestima que os intimida diante de uma sociedade que conserva valores coloniais, ou
pela depreciação dos meios de divulgação de seus saberes e formas de vida, como a
música RAP. Mais do que estilo musical, o RAP é importante instrumento de
disseminação de informação e manifestação do pensamento. Como fio condutor desta
pesquisa, utiliza-se a música “tô ouvindo alguém me chamar”, (Mano Brown/Racionais
MC’s), com o objetivo de demonstrar a visão do negro de periferia a respeito da formação
universitária diante da alternativa da vida no crime, perguntando: como fazer do
ambiente escolar um local acolhedor ao negro, capaz de transformar o seu capital
cultural em autoestima? A pesquisa se encontra em fase inicial e apoia-se em revisão
bibliográfica, utilizando-se o método dedutivo para as devidas conclusões. Como
hipótese, a impressão é de que as ideias coloniais, intrínsecas ao Estado moderno, estão
fora de lugar, e por isso o negro ocupa uma posição marginalizada no âmbito escolar, o
que clama por uma nova matriz epistêmica que valorize a pluralidade de ideias num
ambiente dialógico, não competitivo.

Palavras-chave: Negro; Periferia; Rap; Educação; Autoestima.

177
PEDAGOGIA DESCOLONIAL E PEDAGOGIA QUEER:
DESCONSTRUÇÕES DO FAZER PEDAGÓGICO

Eliana Quartiero

Neste trabalho objetiva-se mapear as contribuições teóricas da Pedagogia Descolonial e


da Pedagogia Queer para as discussões sobre o cotidiano escolar e questionar as
dinâmicas pedagógicas, enquanto produtoras de desigualdades e hierarquias. Busca-se
trazer uma reflexão sobre as contribuições destas teorizações para o desenvolvimento de
práticas pedagógicas orientadas para os direitos humanos, aqui entendidos, não como
uma igualdade universal, mas como equidade para todos/as. A teoria dos direitos
humanos inicia como uma narrativa localizada, que apresenta a ideia de que apenas a
cultura ocidental possui as condições para o estabelecimento destes direitos e que,
quando o restante da humanidade alcançar o mesmo estágio, estará apta a gozar destes
direitos. A abordagem da pedagogia descolonial vai salientar que a divisão de mundos
- uns avançados e outros a serem educados/colonizados - faz parte de uma narrativa
que perpetua as verdades coloniais e reitera um funcionamento de saber/poder que
espacializa classificações hierárquicas do humano. Uma importante contribuição da
pedagogia descolonial consiste em demonstrar que somos constituídos/formados em
contextos de práticas pedagógicas que, desde a modernidade, utilizaram enunciados
para nomear o “outro” como: o anormal, primitivo, especial, diferente, diverso. Nas
propostas de políticas públicas têm se falado muito em mudanças na estrutura da escola,
mas não em uma intervenção sobre o processo de classificações/hierarquizações, lógicas
que estão fortemente naturalizadas pois se apresentam como um fundamento para o
conhecimento científico. Quanto às contribuições da Pedagogia Queer percebe-se a
importância de sua crítica aos discursos por igualdade que se fundamentam em localizar
as diferenças, resultando em essencializar identidades, reafirmando o par
diferença/desigualdade. Os estudos queer tem se concentrado em desconstruir o
processo classificatório para as expressões da subjetividade humana. Neste sentido a
abordagem não binária do conhecimento e das relações sociais proposta pela
Pedagogia Queer e teorizações da Pedagogia Descolonial sugerem realizar uma
desconstrução das condições ontológicas-existenciais e de classifiação racial e de gênero;
e transformá-las de maneira que se desnaturalizem as categorias
identitárias. Contrapondo-se às concepções de que diversos povos não ocidentais seriam
não modernos, atrasados e não civilizados, descolonizar as práticas escolares cumpre
papel fundamental do ponto de vista epistemológico e político.

Palavras-chave: Direitos Humanos; Políticas Públicas; Pedagogia Descolonial;


Pedagogia Queer.

178
A REPRESSÃO DA MULHER NA EDUCAÇÃO CRISTÃ EUROPEIA E
SEU TRANSPLANTE PARA A COLÔNIA

Plínio Antônio Britto Gentil


Bruna Nogueira Machado Morato de Andrade

Busca-se associar a invasão da América do Sul pelas forças luso-espanholas, que trouxe
à colônia as missões religiosas, à influência recebida na educação e repressão,
especificamente pela mulher. Assim é que notadamente a partir dos jesuítas, em 1549, a
instituição Igreja, com seu sólido repertório educacional, fundado na pedagogia do
castigo (GENTIL, 2009), estabelece-se como referência na formação da identidade
daquela sociedade que povoa a colônia e servirá, dócil, à predação do invasor. O padrão
comportamental difundido com os rigores do método escolástico – da escola da aldeia
indígena ao púlpito que fala aos abastados –, foi o de uma sociedade cindida em classes
e também numa divisão sexual de papéis, destinado à mulher o de produtora de prole e
cuidadora de uma família regida pelo homem, dono de poder absoluto e único titular
do direito à propriedade. O universo da mulher é exclusivamente o lar e lhe são
interditadas funções fora dos seus limites. Os herdeiros garantirão a continuação da
propriedade e o chefe da família deve, assim, ter a certeza da paternidade, o que
teoricamente lhe asseguram a monogamia feminina e, até o casamento, a virgindade da
mulher. Sendo a única função que lhe compete, a maternidade é exaltada como desejo
natural da mulher "normal", excluídas alternativas. Objetiva-se relacionar que a
reprodução desse paradigma se faz, em grande dose, intermediada pela educação cristã
e sob o signo do temor ao castigo divino, aos quais se associam o pecado e o diabolos (o
que divide). Tornam-se frequentes reproduções da imagem feminina com casco e chifres,
numa dupla incriminação: algoz do homem, pois seduz e afasta do trabalho (e do
divino), e ser desprezível, imerecedor de confiança.
Como escapar desse destino é a reflexão que se tenciona propor, pontuando-se que
somente a compreensão das raízes profundas da sociedade de classes possibilitará o
início dessa marcha.
A pesquisa é bibliográfica; vale-se também de pinturas no interior da igreja de São José,
em Itajobi-SP, retratando o antagonismo entre virtude e pecado, este materializado na
figura feminina.

Palavras-chave: Educação; Mulher; América do Sul; Colonização.

179
PRODUÇÃO DE MATERIAL DIDÁTICO PARA DIVERSIDADE
ÉTNICO-RACIAL : OS DESAFIOS PARA A CONSTRUÇÃO DE UM
CONHECIMENTO DE FATO NÃO COLONIZADO

Rodrigo Ferreira dos Reis


Íris Palo Borges
Luisa Tombini Wittmann

Esta comunicação tem como objetivo relatar o trabalho realizado no projeto de extensão
desenvolvido no Laboratório de estudos pós-coloniais e decoloniais (AYA-FAED-
UDESC), que teve como propósito construir materiais didáticos que colaborem com a
implementação das Leis Federais 10.639/03 e 11.645/08. Identificou-se, inicialmente, as
dificuldades encontradas pelos professores e movimentos sociais em trabalhar ou
mesmo encontrar material específico sobre diversidade étnico-racial que seja destinado
ao público infantil. Nesse sentido, a produção de um livro ilustrado (que se tornará uma
coleção) pretendeu abordar os temas da diversidade em uma perspectiva
descolonizadora, não apenas em seu conteúdo mas também em sua forma de
apresentação. Buscou-se contemplar as diferenças étnico-raciais através da visão de que
o aluno, enquanto sujeito histórico, faz parte da sociedade e contribui com ela. Dessa
forma, buscamos reinterpretar o lugar de subalternidade que muitos alunos de escolas
públicas se encontram, afirmando que estes têm história e que suas trajetórias e
memórias fazem parte da nossa construção social, tanto material, quanto simbólica. Para
tal optamos pelo formato de material paradidático em livro de história ilustrada, pois
este ajuda a ultrapassar os limites do livro didático, apresentando um formato lúdico
que também pode servir para aprender, ensinar e construir conhecimento junto com seus
interlocutores. O livro foi criado em grupo, de forma colaborativa, em reuniões semanais
e nele são desenvolvido através de 5 personagens características que contemplam a
diversidade étnico-racial brasileira. Na elaboração deste material percebemos que há
um desafio para o projeto, mas também para o pensamento anti-colonial e sua
apropriação no campo da educação, que se impõe pelo conflito entre conteúdo e forma.
Coube-nos perguntar como fazer para descolonizar não apenas os olhares e os
estereótipos sobre os grupos “minoritários”, mas também como transmitir este
conhecimento de forma em que a relação com o saber também seja libertadora.

Palavras-chave: Diversidade étnico-racial; Material didático; Produção de


conhecimento.

180
EM BUSCA DE POSSIBILIDADES OUTRAS: DIÁLOGOS
PROPOSTOS PARA A DISCIPLINA CULTURA BRASILEIRA E
HISTÓRIA DOS POVOS INDÍGENAS E AFRODESCENDENTES NO
CURRÍCULO DE PEDAGOGIA DA UNIVERSIDADE ESTÁCIO DE
SÁ- CAMPUS QUEIMADOS/RJ

Ana Paula Cerqueira Fernandes


Andrea Sales
Marcelo da Cunha Sales

O presente artigo retoma aspectos das discussões que foram propostas ao longo do ciclo
de estudos realizado no primeiro semestre letivo de 2016 para alunos do curso de
Pedagogia da Universidade Estácio de Sá _ campus Queimados/RJ como requisito
complementar a ementa da disciplina Cultura Brasileira e História dos Povos Indígenas
e Afrodescendentes. A oferta da disciplina tem por objetivo não apenas atender ao
requisito legal referente às Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação das
Relações Étnico Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira, Africana e
Indígena mas principalmente contribuir com a tarefa da promoção de um diálogo
intercultural crítico para a formação docente de futuros professores, tendo por
referencial o pensamento/abordagens decoloniais. O caminho metodológico proposto
incluiu o acompanhamento das aulas previstas para o semestre letivo, a proposição de
palestras temáticas que apresentaram aos discentes o contexto de marginalização social
que historicamente acomete as populações indígenas e afro-brasileiras além da aplicação
de questionário e analise dos dados coletados. Este estudo nos permitiu perceber que os
discentes chegam á universidade com uma lacuna significativa em sua formação no
tocante a percepção do caráter pluricultural que delineia a sociedade brasileira, fato
que evidencia a hegemonia da perspectiva eurocêntrica de construção do conhecimento
histórico e social na educação escolar. Ratificamos que a transformação dos espaços
acadêmicos para que novas possibilidades epistemológicas possam operar se constitui
em tarefa árdua e urgente, dada a operacionalidade do paradigma moderno
impregnado das marcas da colonialidade no contexto da educação para as relações
étnico raciais no Brasil.

Palavras-chave: Formação Docente; Interculturalidade crítica; Pedagogia Decolonial.

181
O PROJETO DE LITERATURA MILITANTE DE LIMA BARRETO:
ATITUDE DESCOLONIAL NA PRIMEIRA REPÚBLICA DO BRASIL

Samara Loureiro de Moura

A obra de Lima Barreto se destaca na história da Literatura Brasileira. Escritor no início


do século XX, optou por uma via de ruptura com o modelo intelectual de seu tempo,
demonstrando intensa preocupação com questões que estavam ligadas aos problemas
originados no processo de colonização e na escravidão. Traz em sua obra um retrato do
centro do Brasil no início do século XX, composto por uma descrição contundente da
condição dos negros e mulatos nos subúrbios cariocas no período que sucedeu à abolição
da escravidão. Destaca-se em seus livros o tema da discriminação racial e social, e da
consequente restrição de oportunidades aos negros e mulatos recém-libertos. Por sua
temática e conduta, Lima Barreto não gozou de prestígio na época em que escreveu e foi
objeto de inúmeras críticas ao seu posicionamento intelectual e ao modo como ousou
revelar os sofrimentos de sua gente. Porém, mesmo ansiando pelo reconhecimento de
sua escrita, manteve-se fiel ao projeto literário, jamais abandonando seus temas e suas
personagens marginalizadas.Com sua postura intelectual, considerando o conjunto de
sua obra, a temática, as personagens, o espaço e o tempo que lhe servem de cenário,
podemos situar o autor como exemplificativo de uma atitude descolonial na primeira
república brasileira, ao mesmo tempo em que podemos destacar o potencial do estudo
de sua produção literária para o campo da educação. Revisitar autores que escolheram
fazer um retrato de populações marginalizadas, que ousaram trazer à tona assuntos e
problemas que a sociedade desejava (e ainda deseja) ocultar e que a colonização, com
seus artefatos ideológicos, quis naturalizar ao invés de problematizar, é um meio de
intensificarmos o giro decolonial. Desse modo, este trabalho visa evidenciar a
possibilidade de o estudo da obra de Lima Barreto contribuir para que a educação possa
promover um olhar mais crítico para a História do Brasil, um olhar que possibilite
perceber as incoerências do discurso colonial e eleger outros discursos, que foram, e são
ainda, propositalmente silenciados.

Palavras-chave: Colonialidade; Movimento descolonial; Literatura; Lima Barreto;


Educação.

182
Y YO, TAMBIÉN PUEDO? UMA ALTERNATIVA POPULAR PARA A
EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS IMIGRANTES HISPANO-
AMERICANOS NO BRASIL

Fabio Ando Filho


Bianca Carolina Pereira da Silva

O crescimento dos fluxos migratórios oriundos do Sul Global para o Brasil tem trazido
novos desafios para a compreensão teórica da mobilidade humana em um "mundo
acelerado". Esse novo movimento sul-sul apresenta-se menos como resultado linear da
globalização do que como uma nova configuração de sujeitos que se forma às margens
dos grandes centros da modernidade ocidental. Nesse contexto, a educação de jovens e
adultos, como forma de integração dos imigrantes às dinâmicas de trabalho na sociedade
destino, pode tanto servir de instrumento para a intensificação dos processos de
"comodificação" dos trabalhadores em trânsito, quanto para a emancipação desses
sujeitos e transformação da realidade na qual se inserem. Este trabalho trata da Educação
de jovens e adultos imigrantes hispano-americanos em São Paulo. Realizamos o estudo
de caso de um coletivo organizado por imigrantes, “Sí, yo Puedo!”, o qual está centrado
no acesso e permanência desta população à Educação, especialmente nas modalidades
de ensino técnico e tecnológico. A partir da sociologia da Educação e do enfoque teórico
decolonial, propõe-se a discussão de suas atividades e perspectivas com relação as
estratégias de mobilidade social e emancipação de tais sujeitos, considerando as
especificidades da comunidade na qual se inserem, buscando analisar como se constrói
uma alternativa popular às formas de assimilação de imigrantes organizada pelo Estado
e pelo mercado.

Palavras-chave: Imigração; Educação de jovens e adultos; Educação de imigrantes;


Organizações populares.

183
EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS NA AMÉRICA LATINA: UM
ESTUDO DAS POLÍTICAS À LUZ DA DESCOLONIZAÇÃO

Carolina Schenatto da Rosa

A universalização do ensino já se apresenta como realidade em grande parte da América


Latina. São muitos os tratados internacionais assinados, desde a década de 1990, pelos
países do continente para garantir que jovens e adultos tenham acesso e permanência
nos Sistemas de Ensino. Entretanto, o desafio de oferecer uma educação de qualidade
para esses sujeitos ainda se mostra distante da realidade de muitos países. A maioria das
nações latino-americanas alcançou sua independência entre os anos de 1810 e 1831, mas,
quase dois séculos depois, ainda é possível sentir os reflexos da colonialidade em nossos
corpos e mentes. Segundo dados da UNESCO (2015), existem mais de 36 milhões de
adultos que ainda não foram alfabetizados em nosso continente, dos quais 14 milhões
são brasileiros. Frente a este cenário, buscamos com esse trabalho problematizar a
constituição das políticas educacionais na América Latina, em especial no Brasil, tendo
como referência a perspectiva da descolonização do conhecimento, a partir dos escritos
de Enrique Dussel, Walter Mignolo, Aníbal Quijano e Catherine Walsh. A partir de uma
breve revisão bibliográfica a respeito da Educação de Adultos na América Latina,
seguida de um estudo dos textos selecionados, apontamos, para os impactos da
colonialidade do ser, do saber e do poder na construção e execução das políticas de
educação de jovens e adultos na América Latina e seus reflexos na descontinuidade dos
estudos por parte desses sujeitos.

Palavras-chave: Colonialidade; Descolonização; Educação de Jovens e Adultos; Políticas


Educacionais.

184
UMA ALTERNATIVA ANTIRRACISTA: PRÁTICAS DE
RESISTÊNCIAS NEGRAS NA ESCOLA

Josiane Beloni de Paula


Elison Antonio Paim
Sil-Lena Ribeiro Calderaro Oliveira

Este trabalho objetiva não mais pontuar o racismo na sociedade brasileira e sim salientar
práticas de resistências realizadas nas escolas para erradicação do preconceito, do
racismo (negrofobia) = doença social (FANON). Vem apontar ações positivas de
superação do preconceito, analisando a presença destas práticas no interior das escolas,
assim como a influência da lei 10.639. Esta pesquisa vem sendo realizada no PPGE da
UFSC, na linha de Sociologia e História da Educação, na construção de uma tese de
doutorado. Sendo a sociedade brasileira racista e consequentemente as normas da escola,
o racismo é uma doença social, o antídoto, para a cura desta doença, são as práticas de
resistências negras na sala de aula, a qual ao inverso de uma doença física, a cura se dará
por meio do contágio aos pares, (educadores, educandos, famílias, comunidades...). A
escola é uma oportunidade de abrir outros olhares e saberes para quem a ela tem acesso
(CANDAU). Metodologicamente refletimos com o educador Paulo Freire os conceitos
denúncia/anúncio, denunciando uma sociedade racista e anunciando possibilidades de
transformação da realidade. Ainda apoiados neste educador analisando as situações
limites que levam a inéditos viáveis, ou seja, da experiência do racismo, constrói-se
soluções, que dão outra forma de estar no mundo. E estes sujeitos narram suas
memórias, deixam seus rastros, criam e recriam, destroem e constroem ao mesmo tempo
suas percepções do mundo que o cercam. Ao rememorar o sujeito resignifica o vivido,
lembrando do passado, no presente, construindo o futuro, instrumentaliza sua ação,
sendo assim vai construindo resistência visualizando o não visto, criando
deslocamentos. Quem narra cria a possibilidade de contar sua experiência, dar
conselhos, revisitar o seu passado, resignificando o seu presente, para construir seu
futuro, possibilitando o sujeito a ver caminhos entre as brechas, analisar os rastros, para
se posicionar contra a opressão, uma educação a contrapelo (BENJAMIN). Trabalhando
assim a interculturalidade e a valorização de diversos saberes. (QUIJANO; DUSSEL;
MIGNOLO; WALSH; BOAVENTURA). Como resultado buscamos, o diálogo e a
divulgação na academia e na sociedade acerca da importância destas ações, a
visualização do problema social e a possibilidade de transformação.

Palavras-chave: Negro; Racismo; Resistências; Práticas.

185
AS PRÁTICAS PEDAGÓGICAS NA EDUCAÇÃO INFANTIL NO
CONTEXTO DA INTERCULTURALIDADE: A BUSCA POR
PRÁTICAS DESCOLONIZADORAS

Tarcia Regina da Silva


Adelaide Alves Dias

Esta pesquisa se ancora na perspectiva da criança como sujeito singular. Baseia-se no


pressuposto de que uma Educação pautada em/para os Direitos Humanos, que
incorpora desde a Educação Infantil, o direito à diferença na perspectiva da
interculturalidade, tem contribuído para que as crianças e negras construam
positivamente sua identidade racial. Assim, o objetivo principal dessa pesquisa é
analisar as práticas pedagógicas das professoras da Educação Infantil de um Centro
Municipal de (CMEI) no Recife que estão comprometidas com a valorização da
diversidade étnico-racial das nossas crianças, com a descolonização do saber. Move-nos
o desejo de evidenciar as práticas pedagógicas que estão enfrentando o desafio que a
descolonização guiadas pela interculturalidade numa perspectiva crítica nos propõe,
reconhecendo que os currículos não são naturais, mas construções históricas de sujeitos.
Logo, podem ser reinventadas criando novas situações pedagógicas e novas relações
sociais. Referenciada por estes marcos teóricos de análise, a pesquisa buscou responder
às seguintes indagações: quais práticas educativas estão sendo desenvolvidas pela
equipe do CMEI, que é comprometida com uma educação antirracista? Que elementos
estão subjacentes a essas práticas? Para tal, recorremos aos pressupostos da pesquisa
qualitativa e ao estudo de caso. Os sujeitos da pesquisa foram: a gestora, a coordenadora,
uma professora e duas auxiliares de desenvolvimento infantil. Utilizamos a entrevista
semiestruturada como instrumento de coleta de dados. As análises evidenciaram que as
práticas desenvolvidas no CMEI partem do princípio da incorporação do outro como
verdadeiramente outro. Mas a implementação de uma educação antirracista está longe
de acontecer de forma tranquila e consensual, pois nem toda a equipe e comunidade
compreendem a importância dessa discussão. Entretanto, parte da equipe escolar do
CMEI assume e desenvolve o trabalho pedagógico comprometido com o rompimento
da colonialidade do poder, do saber, do ser e cosmogônica e essa decisão política e
pedagógica da equipe do CMEI tem contribuído para que as crianças percebam as
diferenças como algo positivo e para que as crianças negras ao reconhecerem-se como
tal, orgulhem-se disso.

Palavras-chave: Educação Infantil; Educação em/para Direitos Humanos; Relações


Étnico-Raciais; Interculturalidade.

186
DESCOLONIZAÇÃO E OUTRAS FORMAS DE APRENDIZAGEM:
EXPERIÊNCIAS NO SEMINÁRIO LIVRE EM SOCIOLOGIA

Guilherme de Oliveira Soares

O presente trabalho tem como objetivo analisar a experiência vivenciada por estudantes
de graduação em uma disciplina intitulada “Descolonização e Outras formas de
aprendizagem”, oferecida por meio de um Seminário Livre em Sociologia no segundo
semestre do ano de 2015 na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. A disciplina foi
elaborada de forma coletiva por graduandas e graduandos que tem o entendimento de
que os conhecimentos sociológicos, bem como a abordagem pedagógica no curso de
Ciências Sociais/UFRGS, precisam ser ampliados. Nesse sentido, partindo de uma
análise decolonial, este trabalho leva em consideração as práticas pedagógicas e
discussões construídas antes, durante e depois do oferecimento da disciplina, indicando
possíveis caminhos para construção de uma Universidade menos ocidentalizada. Para
tanto, o texto estrutura-se em dois eixos: epistemológico e pedagógico. Epistemológico
por contestar o eurocentrismo dominante na área das Ciências Sociais e pedagógico por
defender métodos e práticas de ensino-aprendizagem ancorados em saberes e
conhecimentos não hegemônicos. De forma prática, essa pesquisa parte do meu trabalho
de campo, realizado como participante discente/docente da disciplina e um dos
integrantes que planejaram a mesma. Em um segundo momento, foram realizadas
entrevistas com participantes da disciplina que, para fins de análise, são enquadradas
em três categorias, a saber: Grupo de Trabalho Discente, Convidadas e Estudantes. Por
fim, argumenta-se que a descolonização da Universidade passa pela
transdisciplinaridade e transculturalidade. Todavia, além dessas intervenções teórico-
políticas, defende-se que a autonomia estudantil, aliada ao trabalho do corpo docente e
integração de outros agentes e lógicas de construção e transmissão de saberes e
conhecimentos no ambiente acadêmico, são fatores determinantes para a concretização
de ações dessa natureza.

Palavras-chave: Metodologias de Ensino em Ciências Sociais; Giro Decolonial;


Currículo; Encontro de Saberes; Universidades Ocidentalizadas.

187
O DIREITO HUMANO À EDUCAÇÃO NA DESCOLONIZAÇÃO: A
LIBERTAÇÃO

Patricia Noll
Rubiane Galiotto

A Declaração Universal dos Direitos Humanos de 10 de dezembro de 1948 é uma


demonstração de que o homem pode pensar no homem, e prever meios de se viver em
sociedade de forma mais digna e harmônica, e surge após as piores atrocidades que a
humanidade já observou. O objetivo do presente estudo é examinar o direito humano à
educação, a partir da metodologia de análise documental da Declaração Universal dos
Direitos Humanos, e sua recepção pelo art. 205 da Constituição Federal Brasileira, onde
se traduz que a educação deve ser incentivada pela sociedade, sendo dever do Estado e
da família, para preparar a pessoa para a cidadania. A pesquisa se propõe, a verificar a
educação como forma de desenvolver a pessoa, para torna-lo cidadão, proporcionando
conhecimento para exercer os seus direitos e cumprir os seus deveres em sociedade.
Porém, a efetividade da educação encontra obstáculos nas matrizes teóricas utilizadas.
Ensinar continua sendo uma forma de colonizar. De reproduzir o ensino. E o aprender
continua a ser “dizer o dito”. Não há pensamento crítico. Não há espaço para a
criatividade, o pensar, o evoluir. A educação reproduz os moldes hierárquicos de ensino,
colonizador-colonizado. Nesse sentido, relevante pesquisar sobre a educação pós-
colonial, utilizando-se da revisão bibliográfica dos textos de Paulo Freire, buscando
problematizar e interpretar o avanço dos métodos educativos no Brasil como colônia e
no Brasil independente, pós-colonização. É uma abertura para novas reflexões, pois ao
pensar os traços constitutivos da sociedade, pode-se contribuir para a construção de uma
nova matriz, uma nova estrutura educadora. A libertação da colonização e a abertura
para uma educação pós-colonizada vem de métodos de ensino não opressores. Oprimir
pela impossibilidade de pensar, refletir, de aprender. A educação é libertária como aduz
Paulo Freire. Mas a educação libertadora, não é uma doação é uma conquista. O presente
texto busca, então, uma reflexão, sobre como a educação pode constituir-se como um
direito humano que efetive a libertação do ensino colonizador.

Palavras-chave: Direito Humano; Educação; Descolonização; Paulo Freire.

188
TEOLOGIA DE(S)COLONIAL: REFLEXÕES SOBRE A RELAÇÃO
ENTRE DIREITOS HUMANOS E TEOLOGIA CRISTÃ

Carlos Alberto Motta Cunha

No livro “Se Deus fosse um ativista dos direitos humanos”, Boaventura de Sousa Santos
defende a ideia de que o diálogo entre os direitos humanos e as teologias progressistas
é uma boa possibilidade para o desenvolvimento de práticas interculturais e
emancipadoras (2014, p.113). Como a teologia pode contribuir para a reconstrução da
humanidade dos direitos humanos? A contemporaneidade com toda a sua
complexidade reclama a construção de uma teologia consciente da pluralidade cultural
e religiosa capaz de abraçar dentro de seu horizonte as experiências sócio-religiosas do
conjunto da humanidade. A tarefa de descolonizar a teologia, e/ou de recriar seu
conteúdo, não implica apenas uma novidade no objeto, mas exige também uma
novidade no sujeito, ou seja, faz-se necessário um novo tipo de teólogo, com um novo
tipo de consciência e postura diante da atualidade. Na busca por respostas
aproximativas, esta comunicação busca fazer apontamentos sobre o processo necessário
de descolonização da teologia cristã em busca de uma intelecção da fé que seja pública e
engajada nas causas do mundo e do humano.

Palavras-chave: Teologia cristã; Direitos humanos; Teoria descolonial;


Interculturalidade; Teologia descolonial.

189
O DESENVOLVIMENTO PROFISSIONAL ATRAVÉS DO
TRABALHO DOCENTE NA PERSPECTIVA DA DESCOLONIZAÇÃO
DO CURRÍCULO

Henri Luiz Fuchs

O texto propõe uma reflexão teórica sobre o desenvolvimento profissional do docente


na ótica da descolonização do currículo. O desenvolvimento profissional (ÁVALOS)
decorre da capacidade criativa, de autoria e de coletividade dos docentes (O’BRIEN) que
atuam em escolas nas quais os currículos, pré-estabelecidos, propõem um percurso
repetitivo de conhecimentos que torna o trabalho alienado, sem sentido para o
profissional da educação. Essa educação descontextualizada, controladora dos corpos e
mentes, é resultado de um processo de colonização dos saberes, seres e poderes
(MALDONADO-TORRES) que submetem tanto estudantes quanto docentes ao poder
central, eurocêntrico e norte-americano. A partir da descolonização (RESTREPO,
ROJAS), movimento oriundo das articulações de pesquisadores e educadores latinos,
busca-se mudar os pressupostos epistêmicos e de poder a partir dos movimentos
populares dos povos e grupos organizados a partir de culturas enraizadas no cotidiano
da vida que são trazidas para a escola pelos que a ocupam diariamente no processo
educativo. O profissional docente, formado em instituições superiores na perspectiva do
colonizador, tem a necessidade de fazer um giro descolonial (MALDONADOTORRES),
trabalhando com um paradigma outro (MIGNOLO), pluriversal, para contribuir na
formação de estudantes que trazem outros conhecimentos, experiências e saberes que
não constam nos livros didáticos ou nas referências teóricas presentes no trabalho
educativo desenvolvido na escola. As economias e as formas de produção estão em
constantes modificações e requerem outras formas de ser e trabalhar (VAILLANT). De
acordo com O’Brien, o docente se sente sozinho, sem um suporte, um monitor, enfim, se
sente abandonado. A condição sócio-econômica dos docentes, grande parte é oriunda de
classes C e D, traz uma carência de recursos, de capital social. Estes encontram
dificuldades de acessar os bens culturais, simbólicos, entre outros, produzidos pelos
grupos culturais que constituem o universo pluriversal no qual esses docentes
compartilham o tempo e espaço de vida. A carência pedagógica na formação dos
docentes e a concepção colonialista presente nos currículos das licenciaturas trazem
dificuldades no processo de ensino aprendizagem. Em síntese, o docente comprometido
com a autoria de vida contextualizada e transformadora requer um giro descolonial para
se desenvolver enquanto ser profissional na pluriversalidade cultural.

Palavras-chave: Descolonização; Trabalho Docente; Currículo; Desenvolvimento


Profissional.

190
REPENSANDO AS FUNDAÇÕES COLONIAIS
DOS DIREITOS HUMANOS INTERNACIONAIS
SUJEITO E CIDADANIA: A QUEDA DO HOMEM ABSTRATO DA
DECLARAÇÃO DOS DIREITOS DO HOMEM E DO CIDADÃO

Carlos Inácio Prates

A filosofia de Alain Badiou (1995) critica o Homem da “Declaração dos Direitos Homem
e do Cidadão”, de 1789, por ser o homem abstrato desenvolvido por Kant (Homem
Moral fundado a partir de um princípio universal formal, baseado na Razão e na
Liberdade), que serve como principio funcional aos interesses burgueses que se
consolidavam e passavam a ser designados como interesse universal de todos os
homens.
Nessa perspectiva, os direitos humanos entendem o Homem como identificado ao mal
que lhe é feito, como uma vítima, sempre ameaçado por um outro imaginário, marcado
pelo imperativo que opera sobre ele, e também a tudo o que possa proteger o Homem
do Mal, impedindo-o de ser maltratado, de ser ofendido, de ser humilhado em relação
ao seu corpo, à sua identidade, à sua vida. Por conseguinte, a definição do Bem que dá
lastro aos direitos do homem é construída a partir de uma dada concepção do Mal, e, da
noção do negativo se delineia o positivo.
Nesse rumo, Badiou propõe abrir mão dessa noção abstrata e universal de Homem, bem
como das apropriações ideológicas dela decorrentes, para se entender o que faz os
homens realmente humanos, a fim de sustentar a universalidade dos direitos humanos
como fundamento de práticas sociais, que teriam que ser concebidas como um processo
que não se fecha em saberes prévios e que comporia um sujeito como negação de
qualquer qualidade prescritiva e imperativa, já existente.
Assim, este texto pretende sustentar essa perspectiva, através da análise do trabalho de
Garcia (2011) sobre vários sujeitos (portador de sofrimento mental, catador de lixo,
jovem infrator, construtor de barraco, agente comunitário de saúde, jovens negros
admitidos na Universidade pelas quotas especiais) que vão afirmar sua condição de
cidadão além da estruturação jurídico-formal dos direitos e da provisão estatal de bens
e serviços, isto é, quando marcam, com sua singularidade, o espaço comum, e, ao mesmo
tempo, conseguem construir uma saída que extrapole o que lhe foi previamente
determinado.

Palavras-chave: Direitos Humanos; Sujeito; Singularidade; Cidadania.

192
ELES DERAM UM GRANDE EXEMPLO? REFLEXÕES SOBRE A
HISTÓRIA E OS FUNDAMENTOS DOS DIREITOS HUMANOS

Ana Luísa Machado de Castro


Luciana de Oliveira Dias

Vigora hoje no Brasil um colonialismo jurídico que se sustenta na prevalência do Direito


estatal sobre normas e regras diversificadas que regulam organizações sociais de povos
e sociedades não hegemônicas, tais quais as indígenas. Um dos questionamentos que
orientam as reflexões contidas neste texto é: em que medida a diversidade cultural e
jurídica de povos indígenas é submetida a um ordenamento jurídico nacional único?; Ao
transitar por um terreno interdisciplinar entre a Antropologia, Educação e Direito, e, ao
organizar minha experiência docente nas disciplinas "Direitos Indígenas" e "Direitos
sobre Conhecimentos Tradicionais", aulas oferecidas para estudantes indígenas
aldeados que se encontram na metade da graduação em Educação Intercultural
Indígena, da Universidade Federal de Goiás - UFG, foi despertado um outro
questionamento: como problematizar sistemas jurídicos alargando-os para que sejam
inseridas possibilidades de saberes interculturais e cidadanias diferenciadas?. Uma das
respostas gravita em torno da ideia de que a diferença reconhecida pode converter-se
em forte aliada na viabilização de autonomia jurídica de povos que apresentam normas
e regras, e sistemas jurídicos, diferenciados do estatal. Se a Constituição Federal
Brasileira de 1988 assegura aos povos indígenas o direito à organização social de seus
costumes, crenças, tradições, línguas, por que ainda hoje não é observada a efetivação
desses direitos? Estaríamos diante de uma vivificação, constantemente re-editada, da
colonização de saberes estigmatizados por práticas etnocêntricas? Um Estado plural, que
jamais despreza o diálogo intercultural, revela-se como um horizonte possível para o
Brasil, na medida em que regras e normas de povos indígenas sejam reconhecidas como
um ordenamento jurídico válido para estes mesmos povos indígenas.

Palavras-chave: Direitos Humanos; Colonialismo; Eurocentrismo; Descolonização.

193
DIREITOS HUMANOS EM PRETUGUÊS: AMEFRICANIZANDO O
DEBATE PARA ALÉM DOS UNIVERSALISMOS E RELATIVISMOS

Thula Pires
Andréa Gill

Para além da denúncia da falência dos direitos humanos e da sua crença como
mecanismo abstrato de proteção da dignidade, a proposta do trabalho é a de carregar a
noção de direitos humanos de uma abordagem que seja ao mesmo tempo afrocentrada
e baseada na experiência brasileira. Objetiva-se, com essa leitura, renovar a aposta na
potência de sua dimensão intercultural e na permanente disputa política por seu
significado.
Trata-se, assim, de um trabalho que dialoga diretamente com a concepção hegemônica
de direitos humanos (assentada na defesa de sua universalidade), com teorias críticas
acerca dos direitos humanos de matriz eurocêntrica, bem como com as contribuições dos
estudos descoloniais sobre o tema. Para além da interlocução com essas perspectivas
teóricas, traz-se o conceito de amefricanidade, desenvolvido por Lélia Gonzalez para
aduzir novos elementos a uma categorização dos direitos humanos que possa ser
apreensível em pretuguês e em conversas com outras epistemologias coloridas.
Ao colocar a constituição do regime internacional de direitos humanos em contexto
histórico, torna-se evidente o que está em jogo em sua disputa contemporânea. Para
compreender a lógica operacional dos direitos humanos, busca-se traçar uma breve
história do racismo moderno que, em suas articulações científicas, tanto biológicas
quanto culturalistas, transpõe questões teológicas que por muito tempo
(des)qualificavam almas para fixar corpos em uma hierarquia racializada, delineando o
que Fanon descreve como a zona do ser e a zona do não ser.
Será colocada em perspectiva a consagração contemporânea inter-nacional dos direitos
humanos pela declaração da ONU. Sendo pensada como resposta ao holocausto no
continente europeu, interessa destacar a definição de genocídio moderno, construído
como crise humanitária (e não crise política, econômica, cultural, etc.), que nega o
reconhecimento de genocídios de populações não-europeias e não-brancas.
Na conversa entre conjunturas históricas e contemporâneas, pretende-se imprimir uma
concepção de direitos humanos capaz de enfrentar a perpetuação do genocídio do povo
negro no Brasil e de pôr em relevo essas disputas com as múltiplas formas de ser humano
que por aqui são experimentadas e igualmente negligenciadas.

Palavras-chave: Direitos humanos; Amefricanidade; Genocídio; Racismo;


Descolonialidade.

194
TEORIAS CRÍTICAS COMO ABORDAGENS DESCOLONIAIS DOS
DIREITOS HUMANOS: OS DESAFIOS EPISTEMOLÓGICOS À
POLITIZAÇÃO DA DISCIPLINA E DA PRÁXIS

Ademar Pozzatti Junior


Valentina Tamara Haag

Inspirado pelas constantes violências e injustiças internacionais, o presente trabalho


investiga a relação entre o discurso tradicional dos direitos humanos (de fundamentação
metafísica) e a incapacidade desta retórica em se transformar em práticas políticas
concretas, garantidoras desses direitos. Este trabalho argumenta que uma mudança
epistemológica nos fundamentos dos direitos humanos (decolonialidade da disciplina)
poderia resultar em um impulso em direção à efetividade desses direitos
(descolonialidade da política). Isto porque, enquanto interpretados como algo advindo
da dignidade humana, os direitos humanos estão no plano da transcendência, da
metafísica, da abstração e são independentes da ação humana. Por outro lado, se
inspirados pelas teorias críticas, os direitos humanos podem ser vistos como produtos
das relações históricas e culturais, atuando no plano da imanência, da realidade e do
concreto. A oposição entre esses dois planos – chamados tradicional e crítico – é o ponto
do qual parte esta pesquisa, que investiga por que uma concepção transcendente, ideal
e utópica que coloca os direitos humanos em um "não lugar", inatingível pelo ser
humano, prevalece sobre uma concepção imanente e real, fundada na prática e na ação.
Os objetivos do trabalho são a diferenciação dos elementos que definem as teorias
tradicionais e críticas dos direitos humanos e a exploração dos topoi que marcam essas
últimas. Metodologicamente, o trabalho vai ser estruturado sob o método dialético de
raciocínio. Os resultados parciais indicam que a prevalência de uma concepção
transcendente está associada à evolução da manutenção do poder colonial. A abstração
(generalização) das teorias tradicionais permitem a construção de um padrão idealizado
de ser humano, alheio às necessidades reais dos grupos marginalizados e intocável pelos
próprios titulares de direito. Dessa forma, os direitos humanos são afastados da
concreticidade e efetividade desde o princípio. A aceitação desse discurso fetichizado
pode ser explicado pela falaciosa separação entre Direito e Política e na ilusão de império
da lei como garantia da efetividade dos direitos humanos. Em resposta a esse modelo,
as teorias críticas partem dos seguintes topoi para enfrentar a teoria tradicional:
pluralidade e multiformidade, concreticidade, indivíduo, politização, produtos
culturais, enfrentando, respectivamente, universalidade, abstração, Estado, positivismo
e neutralidade, natureza humana.

Palavras-chave: Direitos Humanos; Teoria Tradicional; Teoria Crítica; Descolonialidade.

195
POR QUEM OS SINOS DOBRAM: UM OLHAR CRÍTICO PARA O
DISCURSO DAS OPERAÇÕES DE PAZ E A PROMOÇÃO DOS
DIREITOS HUMANOS NO MUNDO PÓS-COLONIAL

Daisy Bispo Teles

Este trabalho tem como finalidade apresentar como a ideia de direitos humanos, visto
como um preceito universal, encontra-se relacionada à trajetória histórica política
ocidental e como os esforços para a implementação deles, via operações de paz, usam
um discurso, a favor da construção unidades políticas democráticas liberais, que na
verdade mascara formas de ações imperialistas. Sendo baseado no título do sermão de
John Donne; Por quem os sinos dobram, este estudo pretende familiarizar o leitor com
um discurso que será problematizado durante este artigo, que tem como objetivo usar o
trecho que o inicia como metáfora para a argumentação usada em prol dos direitos
humanos, mas que em seu cerne carrega discriminações em relação a áreas pós-coloniais
que vivenciam diferentes concepções de política. Através de uma ampla revisão da
literatura pós-colonial e sobre direitos humanos, buscou-se, na primeira parte, olhar para
a construção dos direitos humanos como fruto da história ocidental e como as operações
de paz da Organização das Nações Unidas trabalham para levar a regiões pós-coloniais
sistemas políticos liberais, uma vez que há a construção de um discurso, na qual tais
sistemas são despontados como aqueles capazes de evitar conflitos. Por fim, mostra-se
como a edificação dos direitos humanos foi pontual a um momento específico da
história, o pós-Segunda Guerra, colocando em xeque a concepção universal de tais
direitos e sua abordagem dentro das áreas pós-coloniais. Concluímos, deste modo, que
os sinos se dizem dobrar por uma causa aparentemente universal, coerente com o
discurso “solidarista” de defesa dos direitos humanos, mas, de fato, continuam
dobrando com o impulso e na direção de uma parte privilegiada e circunscrita do
mundo, que continua ditando os critérios - liberais, democráticos e de respeito aos
direitos humanos - para outra parte que continua desprovida de voz e de agência.

Palavras-chave: Direitos Humanos; Operações de Paz; Discurso.

196
PERSPECTIVISMO DESCOLONIAL E DIREITO INTERNACIONAL
DOS DIREITOS HUMANOS

Daniel Carneiro Leão Romaguera


Carolina Lopes de Oliveira

Direitos Humanos – liberdade, igualdade, dignidade, etc. – são valores estruturantes da


ordem internacional e fazem parte da ideologia que norteia o mundo na atualidade. Ao
mesmo tempo, guerras civis, invasões neocoloniais, dumping , controle das fronteiras,
criminalização de imigrantes, embates étnicos, dentre outros eventos estão entrelaçados
em sua afirmação (BARRETO, 2013). Os Direitos Humanos, portanto, triunfaram em
momento histórico que revela flagrantes violações a seus princípios, pois as pretensões
morais de seu discurso não desfrutam concordância com a correspondente leitura
empírica.
A investigação proposta diz respeito ao papel contraditório dos Direitos Humanos na
contemporaneidade, sob o viés de uma teoria crítica à universalidade de direitos
conforme a perspectiva descolonial. Nesse sentido, serão questionados os paradoxos dos
Direitos em meio à concepção política atual e às relações de poder – internas, em seu
entorno e além de seus limites – determinantes à sua afirmação (DOUZINAS, 2007).
A suposição é de que a dimensão alcançada pelo Direito Internacional dos Direitos
Humanos decorre da intensificação da modernidade pelo expansionismo ocidental e
produção do saber legítimo, ao passo que transcendeu sua particularidade com a ordem
internacional e globalização (QUIJANO, 2008).
O propósito é estimular reflexões acerca do trajeto histórico da concepção ocidental de
Direitos Humanos, referentes à expansão do discurso hegemônico do continente
europeu, cujo universalismo impõe os contornos de uma ideologia que pretende
submissão universal (WALLERSTEIN, 2007). Não se trata de reconhecer um
universalismo valorativo de apelo humanista, nem de apenas mover crítica de ordem
empírica, mas de questionar a lógica legitimadora das práticas humanitárias, inclusive,
capaz de definir o espaço da humanidade.
A análise consiste em crítica ao Direito Internacional dos Direitos Humanos em face das
práticas suplantadas pela concepção humanista ocidental, relacionadas ao processo de
expansão ocidental, apelo progressista da modernidade e dominação do terceiro mundo
pela europa. Portanto, segundo o viés descolonial é traçado paralelo entre a formação
humanista dos Direitos e as práticas manifestadas ao longo da tradição colonialista,
diante do eurocentrismo e da formação do senso prático desses direitos. Pois, não só a
manifestação de poder nas práticas políticas é reluzente, mas a produção do saber
legítimo.

Palavras-chave: Teoria Crítica dos Direitos Humanos; Decolonialidade; Ordem


internacional.

197
A (IN)ADEQUAÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS COMO
CONTEÚDO MÍNIMO DA BIOÉTICA GLOBAL

Amanda Souza Barbosa

A identificação de dilemas ético-jurídicos de escala internacional, sobretudo


relacionados a questões ambientais e sanitárias, provocou o surgimento da Bioética
global. Esse termo, inicialmente cunhado por Van Rensselaer Potter na década de 1970,
tem sido retomado com diversas conotações. Dentre elas, considerada majoritária, está
a percepção da Bioética global enquanto área do saber edificada pelo que há de comum
entre as diversas partes do mundo, em uma perspectiva uniformizadora. Seu conteúdo
mínimo seria a teoria dos direitos humanos, com destaque à Declaração Universal sobre
Bioética e Direitos Humanos (DUBDH). Sendo a contemporaneidade marcada pelo
avançar do processo de globalização e, ao mesmo tempo, pelo pluralismo moral e
cultural, questiona-se a adequação da teoria dos direitos humanos enquanto conteúdo
mínimo da Bioética global, o que implica no questionamento de sua própria viabilidade.
Por isso, propõe-se como problema de pesquisa o seguinte questionamento:
considerando-se as fundações coloniais dos direitos humanos, seriam eles adequados
para representar o conteúdo mínimo de uma possível Bioética global? Tem-se como
objetivo geral, portanto, analisar criticamente as origens da teoria dos direitos humanos
com vistas a questionar o próprio projeto de Bioética global, até então proposto sob uma
perspectiva homogeneizante. Para tanto, foram estabelecidos os seguintes objetivos
específicos, correspondentes a cada item de desenvolvimento do artigo: a) apresentar os
autores que propõem ser a teoria dos direitos humanos o conteúdo mínimo da Bioética
global; b) revisitar as fundações coloniais dos direitos humanos internacionais; c)
problematizar a possível falência da pretensão universalista dos direitos humanos.
Adotou-se a metodologia dialética e foi desenvolvida pesquisa bibliográfica e
documental. Apontam-se como principais resultados do estudo a demonstração de que
os direitos humanos internacionais são fruto de um diálogo parcial, a constatação de que
o seu resgate enquanto categoria pressupõe um processo de ressignificação
multicultural, a indicação de diretrizes para que esse processo ocorra de maneira
horizontal e, por fim, considerações a respeito da própria viabilidade da Bioética global
como apresentada na contemporaneidade.

Palavras-chave: Bioética global; Direitos humanos; Colonialismo; Universalidade.

198
A DECLARAÇÃO SOBRE O DIREITO AO DESENVOLVIMENTO
POR OLHARES LATINO-AMERICANOS NUMA PERSPECTIVA
PÓS-COLONIAL

Brenda Thainá Cardoso de Castro


Brenda Moreira Marques

Em 1986, a Organização das Nações Unidas adotou a resolução que vinculava o direito
ao desenvolvimento como um direito humano. Tanto o desenvolvimento quanto os
direitos humanos são temas que suas origens remetem ao pensamento ocidental e
eurocêntrico, ainda que se proponham muitas vezes como universal, esse discurso acaba
deixando nebulosa a atenção para populações e regiões com características que
divergem das dos Estados no centro do poder internacional. Neste sentido, propõe-se
aqui uma reflexão sobre a proposição da Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento
a partir dos olhares latino-americanos de autores como Walter Mignolo pela
colonialidade do saber e a retórica do desenvolvimento, Aníbal Quijano e a colonialidade
do poder em relação ao fantasma do desenvolvimento, Enrique Dussel e a filosofia da
libertação e Arturo Escobar com o conceito de pós-desenvolvimento. Para tanto,
apresentar-se-ão as principais contribuições destes autores que permitem tensionar a
proposta de universalidade do desenvolvimento como apresentado na declaração e as
lacunas desta em relação à realidade dos povos da América Latina, sendo assim uma
pesquisa documental com base na declaração, mas também do contexto em que a mesma
é criada, assim como literaturas afins com a temática. Destarte, é possível observar que
apesar da declaração apontar preocupação com o racismo e o neocolonialismo, a própria
elaboração e implementação desta acaba, assim como sua premissa de origem, sendo
permeada por elementos de imposição e parâmetros universais ditados a partir da
experiência do Norte global ocidental. Dito isto, é possível pensar para a América Latina
novos modelos de desenvolvimento, mas faz-se necessário rever, primeiramente, as
origens do discurso desenvolvimentista e suas heranças coloniais e hegemônicas
enraizadas nas relações internacionais da região na contemporaneidade.

Palavras-chave: Desenvolvimento; Pós-Desenvolvimento; Pós-Colonial; Pensamento


Latino-americano; Direitos Humanos.

199
DIREITOS HUMANOS COMO RESISTENCIA À DOMINAÇÃO E À
OPRESSÃO: CONTRIBUIÇÕES DA CORTE INTERAMERICANA
PARA A EFETIVAÇÃO DA IGUALDADE NO SUL

Marina de Almeida Rosa

Com o advento da colonialidade, valores liberais-individuais estenderam-se às formas


de ser e pensar e às regulamentações jurídicas do Sul, de modo que as definições
europeias passaram a ser importadas como o único conhecimento válido/científico/útil.
Consequentemente, o conceito de direitos humanos, não passou desapercebido pelo
discurso dominante, que vincula sua origem e internacionalização às revoluções liberais.
Ocorre que esses eventos não garantiam direitos a todas e todos, restringindo-os a
camadas privilegiadas e constituindo-se como "poderes do indivíduo" sobre a sociedade,
estabelecendo uma concepção individualista que permite (apesar do potencial
emancipatório) que a linguagem dos direitos humanos seja manipulada pelos poderes
hegemônicos. Entretanto, embora contribuam à legitimação ocidental, os direitos
humanos podem significar resistência contra dominação e opressão, e tal possibilidade
pode ser compreendida não só a partir do fato de que a universalidade desses direitos
se dá após a Segunda Guerra Mundial, como também a partir da instituição de tribunais
regionais internacionais, voltados à proteção dos direitos humanos, os quais, a partir do
contexto da região em que estão inseridos (diferentemente do sistema universal) buscam
a garantia da igualdade. Na América, a Corte Interamericana de Direitos Humanos surge
como mecanismo, quiçá, último para o resguardo, salvaguarda e efetividade dos direitos
à igualdade e à não discriminação. No plano semântico, a Corte contribui para que se
repense as fundações coloniais vinculadas à igualdade, porém, encontra limites na
adesão pelos Estados, cujos pilares ainda mantém vestígios e fundações coloniais. Nesse
sentido, o presente trabalho busca compreender, a partir do método dedutivo e da
pesquisa bibliográfica, em que medida a Corte Interamericana tem, ao consolidar a
exigência da igualdade e não discriminação, contribuído à alteração da concepção liberal
(e a experiência pós colonial) de igualdade, ao admitir que certos grupos e indivíduos
encontram-se em situação tal de vulnerabilidade que exige que lhes sejam brindadas
medidas positivas de inclusão e que sejam determinadas medidas negativas que visem
proporciona-la. Para tanto, intenta o exame da jurisprudência da Corte sobre o direito à
igualdade e a adoção pelos Estados dessas determinações, bem como a relação entre o
colonialismo e os direitos humanos.

Palavras-chave: Direitos Humanos; Descolonialismo; Corte Interamericana de Direitos


Humanos; Igualdade; Não-discriminação.

200
A EXPERIÊNCIA DA ALTERIDADE NA
AMÉRICA LATINA
PENSANDO O FUNDAMENTO DOS DIREITOS HUMANOS DESDE
A AMÉRICA LATINA: A ALTERIDADE DE UMA SIMBÓLICA DO
MAL

Paulo Weyl
Livia Moura

O trabalho buscará desenvolver argumentações acerca da possibilidade de justificação


dos direitos humanos a partir da América Latina pensada pela filosofia da libertação de
Enrique Dussel, observando-se a experiência colonial latino-americana a partir de seu
caráter simbólico, isto é, de seu núcleo ético-mítico, o qual foi apresentado ao ocidente
sob o prisma da modernidade temprana, mas é base para uma hermenêutica da
alteridade. Para se chegar até as contribuições que a experiência latino-americano
poderia oferecer para o fundamento dos direitos humanos, será necessário,
primariamente, a abertura deste fundamento às críticas para que se evidencie a
importância em pensar estes direitos desde uma experiência distinta da modernidade
europeia. Uma vez que a América Latina fará sua interlocução sobre os direitos humanos
por meio da filosofia da libertação de Enrique Dussel, fez-se mister a apresentação deste
pensar periférico em suas categorias referentes à “relação homem-homem” e “mito da
modernidade”, na qual a história do continente latino-americano é narrada de maneira
não eurocêntrica. Na exposição acerca da filosofia da libertação será possível perceber a
centralidade do Outro no pensar dusseliano, bem como os aspectos míticos que
transformaram a América Latina em uma simbólica do mal, tal como pensado por Paul
Ricoeur e apropriado por Dussel. Enfim, será tecida argumentação acerca do papel
simbólico do continente latino-americano, tanto para uma concepção colonial que torna
lugar representativo do mal, como acerca da legitimidade da experiência latino-
americana no diálogo com a modernidade europeia e, consequentemente, a relevância
ética do pensamento latino-americano, desde a alteridade, para a justificação dos direitos
humanos, nascidos na era Moderna e alicerçados no individualismo que não se preocupa
com a relação com o Outro.

Palavras-chave: América Latina; Filosofia da libertação; Alteridade; Simbólica do mal;


Direitos humanos.

202
EXPERIÊNCIA HERMENÊUTICA DAS MULHERES LATINO-
AMERICANAS: AS OUTRAS QUE INTERPELAM

Mailô de Menezes Vieira Andrade


Mariah Torres Aleixo

Os caminhos dos feminismos, sobretudo na América Latina, passam pelo


reconhecimento do sujeito político mulher enquanto Outra, inserida em uma cultura
patriarcal e sexista. Críticas feministas à ciência elaboram categoriais, tais
como falocêntrismo, a fim de indicar que em determinados ramos de conhecimento e,
também, nas sociedades, as mulheres são colocadas em situações e posições de
subalternidade. É partindo de Dussel que se abordam os feminismos latino americanos,
pois em se tratando da mulher latino americana, pode-se compreendê-la, enquanto
colonizada, mas, também, periférica, marginalizada, sendo as Outras da/na
Outras. Assim, importa saber se estes são, enquanto narrativas, criação de
subjetividades, movimentos sociais e intelectuais, ou, principalmente, se constituem, em
suas ações e reivindicações, uma hermenêutica da alteridade. Desta forma, postula-
se que os feminismos latino-americanos são verdadeiras experiências hermenêuticas que
têm, em última instancia, objetivo de criar condições de compreensão que demandam e
interpelam um tratamento, acima de tudo, ético às mulheres. É somente a partir daí que
se pode partir a uma verdadeira hermenêutica da alteridade.

Palavras-chave: Hermenêutica; Feminismos; Mulheres; América Latina; Outras.

203
A QUESTÃO DOS REFUGIADOS A PARTIR DA ALTERIDADE: A
LEI BRASILEIRA DE REFUGIADOS COMO EXEMPLO NA
AMÉRICA LATINA.

Thais Silveira Pertille

O triunfo dos direitos humanos no século XX é sim consequência das respostas ao


comportamento agressivo do homem com o “Outro”, mas o seu contexto paradoxal
revela-se na insuficiência dos modelos de positivação que acabaram não produzindo
efetividade a ponto de proteger as diversas dignidades humanas ao redor do globo.
Vê-se que todo o discurso da universalidade dos direitos humanos fragiliza-se quando
entra em cena o refugiado, que se apresenta como o melhor exemplo da falha da
efetivação dos direitos humanos abstratamente garantidos em nível global, pois a prática
demonstra que pessoas, dignas somente pelo fato de existirem, ao cruzarem
determinada linha imaginária, identificada pelo direito como fronteira, passam a ter suas
humanidades relativizadas.
Nessas circunstâncias, pretende-se debater sobre a questão tendo como exemplo na
América Latina o Brasil que, mesmo com a positivação da proteção aos refugiados, não
tem sido capaz de garantir o gozo dos direitos estabelecidos na Lei a todos que dela
necessitam. São problemas de ordem prática que vêm desde a intervenção política no
momento da aplicação da Lei até a falta de empatia dos nacionais com os refugiados.
Como lembra Amartya Sen, “as vias e as maneiras de defender a ética dos direitos
humanos não precisam se restringir à elaboração de novas leis” (2011, p. 399). Com isso
em mente, a alternativa que se pretende trabalhar para a implementação da proteção dos
refugiados centra-se na da ética da alteridade.
Discutir Direitos Humanos parece lugar comum na atualidade. A discussão tem sido
generalizada para algo que não atinge o Eu, como se fosse sempre um Outro que deles
necessita. Este trabalho será concebido pensando nesse Outro não como mero objeto de
tutela, como obrigação decorrente de políticas de Estado e normas positivadas, mas sim
como gerador de dever de responsabilidade ao Eu. O Outro passa a merecer importância
para o Eu porque este tem nele parte da própria humanidade. Ver-se, reconhecer-se no
Outro passa a ser condição indispensável para que se possa tratar de temas tão
complexos para o mundo contemporâneo quanto esse que envolve os refugiados.

Palavras-chave: Direitos humanos; Refugiados; Alteridade.

204
DILEMAS E PERSPECTIVAS DO NOVO
CONSTITUCIONALISMO LATINO-
AMERICANO
CONSTITUCIONALISMO LATINO AMERICANO: PERSPECTIVAS
SOBRE A PARTICIPAÇÃO POPULAR

Hitalo Vieira Borges

A América Latina, desde seus primórdios, teve em seus sistemas jurídicos pátrios,
valores alienígenas, que não representavam realidades nacionais. Isso aconteceu devido
à influência dos colonizadores europeus, que enraizaram valores calcados no liberalismo
e individualismo característicos do constitucionalismo antigo, pois os textos jurídicos
refletiam a vontade das elites dominantes. No dizer de GARGARELLA (2010, p.88) “La
mayoría de nuestras Constituciones fundacionales –las que sentaron las bases de las actuales
instituciones– fueron producto de un pacto entre elites liberales y conservadoras que organizaron
una estructura de poder contramayoritaria, claramente opuesta a la intervención masiva de la
ciudadanía en política.” Entretanto, nas últimas décadas surge um movimento
constitucional na América Latina, que se convencionou chamar de “Novo
Constitucionalismo Latino Americano”, sedimentado em ideais descolonizadores
constantes nos textos constitucionais da Venezuela (1999), Equador (2008) e Bolívia
(2009) (MELO, 2010). O trabalho em questão busca investigar sobre o mecanismo de
ativação dos textos constitucionais e alteração de tais mecanismos, mediante a
participação popular, centrando o estudo nas três constituições supracitadas. Nesta
linha de raciocínio, nasce as seguintes indagações: Qual a diferença entre o
constitucionalismo antigo e o novo constitucionalismo Latino Americano? A
participação popular no momento da ativação dos novos textos, bem como a
obrigatoriedade de aprovação de eventuais reformas (consulta popular) podem ser
observadas em quais Estados da América Latina? Conclui-se que os textos
constitucionais são elaborados por assembleias constituintes participativas, sendo
posteriormente objetos de aprovação popular por meio de referendum (MELO, 2010,
p.114), o que amplia e fortalece a democracia, sendo meio para que haja a interligação
dialógica entre sociedade, equidade e justiça (LAMBURTUCCI, 2009, p.71). A
Constituição tem que ser a norma suprema do ordenamento jurídico, tem que ser capaz
de limitar os poderes, e só será legítima se o texto originário e as eventuais alterações
foram aprovada pelo povo (VICIANO; DALMAU, 2010, p.31). Concernente ao tipo de
pesquisa, quanto aos objetivos, utilizou-se ao longo desse trabalho a pesquisa
exploratória. Quanto aos procedimentos técnicos, adotou-se a pesquisa bibliográfica e
documental. O método de abordagem utilizado é o dialético.

Palavras-chave: Constitucionalismo; Constituições; Participação Popular; América


Latina.

206
DIREITO DE RESISTÊNCIA E APROFUNDAMENTO
DEMOCRÁTICO: DESAFIOS INSTITUCIONAIS DO NOVO
CONSTITUCIONALISMO LATINO-AMERICANO

Ricardo Silveira Castro

A democracia afirmou-se em meados do século XX enquanto o regime político –


associado a fundamentos sólidos de legitimidade – que deve ser alcançado em
sociedades que pretendem construir relações estáveis e justas por meio da inclusão de
todos os integrantes da comunidade nos processos de tomada de decisão política. Na
medida em que as disputas e os tensionamentos a respeito da delimitação semântica do
termo democracia avança no horizonte dos debates entre cientistas políticos, uma
certeza apresenta-se diante do estudo da realidade histórica latino-americana: na
concepção de democracia de muitos atores que exerceram o poder político nessa região
há muitos elementos autoritários que distorcem o caráter emancipador do regime
democrático, sobretudo em razão da imposição de modelos institucionais incapazes de
cumprirem a promessa de efetiva inclusão de todos nos processos de tomada de decisão
política ocorridos no núcleo de cada sociedade em particular.
A partir das primeiras décadas do século XXI, um movimento político de reivindicações
sociais passou a enfrentar de modo mais direto aquela que é a marca de identificação do
processo histórico de emancipação – social e política – na região latinoamericana: a
desigualdade. Nesse horizonte, a luta de setores sociais historicamente afastados do
debate público ganhou espaço na seara política, de tal forma que importantes alterações
de âmbito constitucional são impulsionadas no Equador, em 2008 e na Bolívia, em
2009. A promessa dessa nova perspectiva constitucionalista – “transformadora” e
“plurinacional” – é romper com o monismo jurídico e com o desenho institucional que
esteve presente em toda a evolução constitucional na América Latina. O projeto de
rompimento está embasado no reconhecimento de que a principal condição para o
processo de mudanças nas sociedades desiguais, subdesenvolvidas e tradicionalmente
instáveis é a reorganização do Estado e a redefinição de uma ordem normativa
identificada com as carências e necessidades de novos sujeitos emergentes.
Nesse sentido, o presente trabalho se propõe a analisar os pretensos avanços
institucionais – sobretudo em termos de processo de participação popular (expressão
do exercício do direito de resistência) – que, fundamentando os novos modelos estatais,
carregam a promessa de aprofundar a democracia na região latino-americana.

Palavras-chave: Direito de resistência; Novo constitucionalismo latino-americano;


Instituições.

207
CRIAÇÃO DE AMBIENTES DE
PENSAMENTO/AÇÃO HUMANOS
SUSTENTÁVEIS
O PROJETO CHIMARRÃO FILOSÓFICO ENQUANTO
POSSIBILIDADE DE DIÁLOGO EMANCIPATÓRIO

Cícera Michel
Cláudia Battestin

A presente pesquisa surge da necessidade de ampliar, aproximar e estreitar o diálogo


entre a Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões (URI) Câmpus
de Frederico Westphalen e a comunidade em geral, através do Projeto de Extensão
Chimarrão Filosófico. O nome do Projeto, parte do princípio do diálogo que ocorre
através dos círculos de cultura, do encontro e do conhecimento, dentro e fora dos muros
da escola e da universidade. Da mesma forma, podemos remeter ao passado da Grécia
antiga, onde os filósofos gregos reuniam-se em praças públicas e templos para refletirem
sobre a existência humana e seus problemas. Em uma analogia simbólica, pensamos no
chimarrão enquanto elemento cultural e tradicional na região Sul do Brasil, que chega,
mais precisamente, com a vinda dos indígenas guaranis, passando a fazer parte da
cultura gaúcha e do Sul do Brasil. Regados por estas curiosidades epistemológicas,
intitulamos o projeto de extensão, Chimarrão Filosófico, por ser um norteador do diálogo
e possível caminho para uma nova prática de ação humanizadora e emancipatória. A
importância em realizar ações que promovam diálogos de diferentes saberes, colabora
para dar voz a questões da atualidade, ou seja, queremos através do diálogo,
compartilhar informações, sabedoria e opiniões como método de busca e construção do
conhecimento. Os resultados esperados dos encontros reafirmam o papel da
universidade enquanto instituição comunitária, que colabora significativamente com a
construção de novos olhares, saberes, perspectivas sociais, políticas, educacionais e
econômicas da sociedade. O método de diálogo e problematização de assuntos
emergentes é um norteador que possibilita além do encontro, criar espaços possíveis
capazes de tornar os sujeitos protagonistas do debate em que possam compartilhar suas
inquietações, ideias e pensamentos. E é através da cuia, objeto simbólico, que de mão em
mão nas rodas de chimarrão, passa a representar a partilha, a recepção, o
companheirismo e a cordialidade entre o eu e o outro, capaz de ressignificar o diálogo
enquanto prática emancipatória.

Palavras-chave: Chimarrão filosófico; Diálogo; Cultura; Emancipação.

209
MULTIGRAPHIAS - CRIAÇÃO COLABORATIVA E
SENSIBILIDADES COMPARTILHADAS

Gabriela Canale Miola

Diário, colaborativo e aberto, o Multigraphias compõem uma rede de sensibilidades


distantes e conectadas, das quais surgiram lugares inventados, imagens cuja autoria é
imprecisa e as hierarquias esvaziadas. Novas epistemes emergem em distinção dos
espaços tradicionais de prática de criação, geralmente centrados na ideia de autoria e em
grandes eventos midiáticos de exibição. Formatos multimidia sublinham a expansão dos
formatos de criação (fotografias, vcdeos, áudios, montagens, colagens etc). A narrativa
se torna coletiva e colaborativa, como um campo sem hierarquias em que a criação é o
leitmotiv existencial e o processo ganha destaque em detrimento do produto.

Palavras-chave: Artes visuais; Sensibilidade; Multigraphias; Ensino.

210
PRÁTICA ARTÍSTICA COMO LUGAR DE ENUNCIAÇÃO PARA
DECOLONIAL SELVES

Manoela dos Anjos Afonso

Transpedagogia, diálogo e convivialidade são os conceitos que fundamentam a minha


prática, a qual se situa num lugar dinâmico criado pela interrelação entre docência,
criação e pesquisa em artes visuais. Tal lugar é ativado por experiências de deslocamento
geográfico e desarticulação identitária que carregam em si as perguntas “Quem somos
nós/sou eu aqui?”; “Em quem estamos/estou me tornando aqui?”; e “Quem
queremos/quero ser aqui?”. O conceito de “aqui” adotado nesta pesquisa baseia-se na
compreensão de lugar oferecida por Doreen Massey, para quem “aqui” pode ser
entendido como um lugar efêmero formado por uma variedade de histórias articuladas
temporariamente no espaço por um indivíduo ou por grupos de indivíduos. Nesse
sentido, minha prática é orientada por definições de espaço e lugar propostas pela
geografia feminista e é estimulada por narrativas de vida pos- e decoloniais, pensamento
de fronteira e pela consciência sobre a cicatriz colonial. Para identificar os diversos
“aqui” que surgem no decorrer da pesquisa, adoto e adapto à minha prática artística
estratégias apontadas por Walter Mignolo no que se refere à decolonialidade do ser, do
fazer e do saber: 1) identificar pontos de origem; 2) traçar rotas de dispersão; e 3)
estimular a consciência imigrante. Ao adotar tais ações e praticá-las desde o lugar no
qual me situo, crio espaços para confrontar a colonialidade do poder por meio de um
pensar engendrado por fazeres artísticos ativados pela política do lugar. Portanto, nesta
pesquisa interdisciplinar pergunto como práticas artísticas em artes visuais ativadas por
experiências de deslocamento geográfico e desarticulação identitária podem confrontar
a colonialidade do poder, evidenciar a cicatriz colonial e, desta forma, vir a se tornar um
lugar de enunciação para decolonial selves. Tal investigação é desenvolvida em
contextos institucionais e/ou não-institucionais por meio de práticas artísticas
individuais e/ou coletivas estimuladas por exercícios dialógicos e conviviais criados em
contexto transpedagógico.

Palavras-chave: Práticas decoloniais; Narrativas de vida; Práticas autobiográficas; Artes


visuais.

211
FUNDAMENTOS DO ESTADO
PLURINACIONAL E PENSAMENTO
DE(S)COLONIAL
KALUNGA E O DIREITO A EMERGÊNCIA DE UM DIREITO
INSPIRADO NA ÉTICA AFRO-BRASILEIRA

Augusto Sergio dos Santos de São Bernardo

As organizações políticas, comunitárias e tradicionais no continente africano e na


diáspora atestam uma forma costumeira e conciliadora de lidar com os conflitos – em
relação à natureza e a sociedade - nos influenciando numa dimensão contingencial da
experiência civilizatória africana no Brasil e nos dando um caminho de como articular
novas bases ético-jurídicas para pensar o direito numa ótica emancipatória. Observamos,
de início, que a tentativa aqui, é tanto mais epistemológica tanto quanto de produção
cultural e, que, estas perspectivas serão sempre trazidas como um discurso de origem e
não de finalidade.
É possível afirmar um direito africano ou afro-brasileiro? Existe um repertório comum
que informa e unifica este direito? Este direito pode ser universalizável como
pressuposto de justiça a outras comunidades não africanas? Estas são as indagações que
proponho tematizar para sugerir a possibilidade de um debate nos campos da
antropologia jurídica, da filosofia africana e da filosofia do direito.
Como podemos entender as diversas formas de lidar com os costumes originados do
processo civilizatório africano em confronto com o direito germano-românico,
fenomenológico, positivista e culturalista do direito brasileiro? As comunidades
tradicionais e as referências mais ancestralizadas das nossas experiências comunitárias
(Candomblé, Capoeira, Quilombo, Comunidades Tradicionais etc.) dão conta de que as
noções de justiça vêm sempre acompanhadas dos valores integração com a natureza, uso
comunitário e coletivo da propriedade, restituição no lugar de retribuição de pena,
famílias extensas etc.
Nessa travessia do Kalunga, a visão cosmogônica e comunitária dos conceitos de lei e
crime dos Bacongos estudados por FUKIAO (2014) deve ser revisitada à luz dessa
moderna tendência de um direito que renasce preservando as autoridades tradicionais
africanas na África e na diáspora. Na mesma trajetória, analisaremos, à luz de RAMOSE
(2010) e WIREDU (2000), os elementos da cosmovisão Ubuntu, as perspectivas de
restauração e equilibrio como comportamento ético vital e sua relação com os processos
de consensualidade exaustiva nessas comunidades. Nesse caminho, cabe a construção
de uma nova cultura a qual funde uma filosofia jurídica de natureza descolonial, original
e emancipatória para, enfim, vislumbrarmos novos caminhos para o Kalunga!

Palavras-chave: Direito; Ética; Filosofia; Afro-brasileiro.

213
A DESCOLONIZAÇÃO DO TERRITÓRIO COMO ALICERCE PARA
A RECONSTRUÇÃO DO ESTADO

Marcelo Argenta Câmara

Este trabalho tem como objetivo destacar a dimensão territorial dos processos de
constituição dos Estados Plurinacionais, em especial no que diz respeito ao
reconhecimento das territorialidades originárias existentes e vigentes dentro dos marcos
fronteiriços dos Estados latino-americanos. Partindo-se do acompanhamento das
primeiras mobilizações pela convocação a uma Assembleia Constituinte na Bolívia e
passando pelo acompanhamento do próprio processo de elaboração da nova Carta
Magna do país, destaca-se a participação dos povos originários organizados em torno a
suas estruturas sócio-espaciais exigindo o reconhecimento destas na nova estrutura
territorial dos Estados. Essa trajetória nos permite reconhecer o conflito de
territorialidades existente na América Latina, opondo distintas leituras dos fins e dos
meios para os quais os espaços são (ou devem ser) apropriados/dominados: o território
colonial, alvo de exploração e espoliação, ou a pluralidade de territórios que é o correlato
espacial da plurinacionalidade. O reconhecimento da importância fundamental da
Descolonização do Território enquanto base para a reconstrução dos Estados se
configura em ferramenta essencial para a compreensão do conflito social na América
Latina, visto que a dominação dos territórios com fins extrativistas é hoje o principal
causador de conflitos ao longo e ao largo do continente. Este trabalho sintetiza a
experiência de uma década de acompanhamento de movimentos sociais na América
Latina, desde os movimentos de povos originários na Bolívia e Equador até o movimento
Zapatista no México, a partir de uma metodologia de observação participante,
debatendo-a à luz dos referenciais teóricos da Geografia e do Pensamento Decolonial.
Debate-se, por fim, quais as reais possibilidades de reconstrução do Estado caso não haja
o reconhecimento da dimensão primordial da descolonização do território.

Palavras-chave: Estado; Território; Territorialidades; Descolonização; Condição


Multissocietal; Movimentos Sociais.

214
O ESTADO PLURINACIONAL: AS POTENCIALIDADES DE
REFUNDAÇÃO DO ESTADO MODERNO A PARTIR DA
CONSTITUIÇÃO BOLIVIANA DE 2009

Andriw de Souza Loch

Este trabalho traz em seu cerne o Estado plurinacional e o Estado moderno no processo
colonizador. Compreender estes fenômenos auxiliará na percepção da demanda dos
povos originários e as potencialidades de inovação do Estado plurinacional a partir
constituição boliviana de 2009. Desta forma, pontualmente, estudar-se-á, utilizando-se o
método dedutivo baseado em pesquisas bibliográficas, o pluralismo jurídico pré-
moderno, bem como a unificação e formação do Estado homogeneizador, para então
compreender a capacidade da plurinacionalidade de se apresentar como modelo contra
hegemônico do poder.
Esta forma surge dentro do “Constitucionalismo latino-americano” que busca a
legitimação do Estado Plurinacional, um modelo que reconhece a necessidade de
refundação do Estado moderno a partir da interculturalidade e compreensão às
opressões sofridas pelas populações indígenas e campesinas tendo como um dos seus
princípios a autodeterminação dos povos criando uma atmosfera mais democrática.A
partir destas reivindicações a Bolívia superou o Estado-nação e passou a se reconhecer
plurinacional desde sua constituição de 2009. Junto com este reconhecimento vários
institutos foram criados para que se pudessem garantir aos povos originários a sua real
autonomia dentro do Estado boliviano. No entanto o que muitos grupos indígenas
percebem que todas estas mudanças não significaram, de fato, uma mudança, mas sim
uma nova forma de colonizar já que essas reformas foram realizadas ainda dentro do
âmbito hegemônico estatal, o que continua favorecendo as elites.Embora o Estado
plurinacional ainda precise de várias mudanças e tenha inúmeras críticas, inclusive dos
setores de esquerda, ele possui uma distinção fundamental do Estado homogêneo que é
a sua mutabilidade; seu intuito não é ser rígido e fixo baseado nas leis, mas sim atender
a anseios democráticos e não possui por si só o intuito de resolver todos os problemas
sociais, tratando-se de um Estado flexível e adaptável às necessidades, o que neste
momento significa uma grande mudança aos povos bolivianos e, também, aos demais
grupos suprimidos e ocultados de toda a América Latina, constituindo uma nova e
alcançável forma de democracia.

Palavras-chave: Estado moderno; Estado nação; Estado plurinacional; Povos originários;


Constituição boliviana.

215
DIREITO, SUBALTERNIDADE E
DECOLONIALIDADE
O CONCEITO JURÍDICO DE PRETO E PARDO NAS COTAS
RACIAIS: INTERPRETAÇÃO, JURISPRUDÊNCIA E PRECEDENTES
ADMINISTRATIVOS

Gleidson Renato Martins Dias

As fraudes, a denominada afroconveniência e os métodos utilizados para barrar


população racial diversa da respaldada pela legislação e que apontem um critério
jurídico-sociológico minimamente objetivo tem estado no topo das discussões e debates
póspacificação da constitucionalidade das ações afirmativas de cunho cotistarracial nas
universidades. Grupos contrários às políticas afirmativas e setores do movimento social
negro apontam inconsistências, dúvidas e subjetividades no processo. Em resposta a
esses questionamentos, o estado do RS publicou Decreto nº. 52.223, que estabelece
critérios objetivos para ser utilizado pelas comissões de avaliação dos candidatos e a
participação obrigatória de entidades do Movimento Negro onde o norte a ser
perseguido é o fenótipo. Com a mesma intenção a Secretaria de Gestão de Pessoas e
Relação do Trabalho no Serviço Público vinculada ao Ministério do Planejamento,
Desenvolvimento e Gestão, publicou Orientação Normativa nº. 3, de 1º de agosto de 2016
com a mesma finalidade. O presente estudo busca analisar teorias, jurisprudências e
precedentes administrativos em torno desta temática. Para tal propósito, realiza-se uma
revisão da discussão sobre o tema (GOMES, 2005; BENTO, 2005), do Voto do Ministro
Ricardo Lewandowiski na ADPF 186, bem como, os precedentes administrativos
analisando os argumentos jurídicos dos Pareceres de Comissões as quais deferiram e
indeferiram candidatos/as e ainda a jurisprudência dos casos levado à aferição judicial.
O método utilizado é um estudo de casos múltiplos (YIN, 2001), tendo como observáveis
os concursos promovidos pelo Tribunal de Contas do Estado do Rio Grande do Sul,
Fundação Piratini (TVE-RS), entre outros. O conceito jurídico de pardo e os efeitos
jurídicos da autodeclaração no ingresso as universidades bem como em concursos
públicos são entendimentos fundamentais para que a função teleológica da política de
cotas raciais não seja vilipendiada causando o enfraquecimento ou a morte da revolução
democrática que significa as cotas raciais no Brasil para tal proposito é imprescindível
uma hermeneutica jurídica descolonizada.

Palavras-chave: Cotas raciais; Pardos; Concurso público; Legislação; Jurisprudência.

217
O DIREITO HUMANO COMO DESENVOLVIMENTO:
PERSPECTIVAS TEÓRICAS DO SUL PARA COMBATER A
INSEGURANÇA A ALIMENTAR.

Tatiana de Almeida F. R. Cardoso Squeff

O direito a alimentação adequada engloba três grandes dimensões: a biológica (ingestão


de alimentos nutritivos), a material (distribuição de alimentos nutritivos) e a econômica
(meios de acesso à alimentos nutritivos). Trata-se de um direito humano previsto nos
grandes documentos internacionais de 1948 e 1966, o qual, todavia não é efetivamente
materializado, haja vista que a insegurança alimentar é um grave problema afligindo
12% da população mundial, majoritariamente os países do sul global. Frente a essa
situação, questiona-se a própria construção desse direito humano não só desde a
perspectiva universalista (pois não seria ahistórico ou generalista quanto ao sujeito),
como também a tradição relativista (pela interculturalidade quando ocorrida entre
norte-sul ainda impor padrões), de modo que o ‘alimento adequado’, da forma que o
mesmo está assentado internacionalmente, não se mostra suficiente para romper com
essa tendência de marginalização gerada pela situação de insegurança alimentar global.
Nesse sentido, busca-se demonstrar a necessidade de revisar esse direito, propondo-se
um ‘direito a alimentação como desenvolvimento’, partindo dos ensinamentos de
Amartya Sen e Josué de Castro, cujo embasamento estaria assentado na doutrina
poscolonialista (especialmente nos escritos de Rajagopal e Dussel) – aqui interpretada
como uma terceira via de fundamentação do Direito Internacional (dos Direitos
Humanos), utilizada para transpor qualquer subalternidade remanescente do
relativismo cultural, localmente instituída e, logo, considerada epistemologicamente
propícia para a solução de um problema do sul (pelo próprio sul).

Palavras-chave: Direito ao alimento; Desenvolvimento; Pós-colonialismo; TWAIL.

218
CÂNHAMO INDUSTRIAL: COLONIALISMO E PROIBICIONISMO
NOS ESTADOS UNIDOS E NO BRASIL

Carlos Inácio Prates

A planta cannabis sativa pode ser utilizada para fins recreativos, medicinais e
industriais. No entanto, o sistema internacional de controle sobre drogas impede a
exploração para usos industriais do cânhamo derivado da cannabis sativa – um mercado
que consiste em mais de 25 mil produtos, dividido em nove segmentos: agrícola, têxtil,
reciclagem, automotivo, moveleiro, alimentício, papel, construção civil e
cosméticos/cuidados pessoais. No Brasil, estudos do senado federal em 2014,
identificaram que não há nenhuma força política opondo-se a exploração industrial da
planta, contudo este uso ainda continua ilegal, mesmo não representando nenhum risco
para a saúde humana. Nesse rumo, o objetivo do texto é demonstrar como a política
sobre drogas no Brasil se insere dentro de um discurso colonial proibicionista que
advoga a proibição pelo Estado do comércio de certas mercadorias, cujo locus de
enunciação privilegiado é as Nações Unidas, e que tem sido usado para afirmar e
consolidar o poder político e econômico dos Estados Unidos. Desse modo, analisa-se.
através de pesquisa bibliográfica e comparativa, o surgimento da doutrina proibicionista
neste país e a mundialização dessa tendência no plano internacional, em especial nas
chamadas Convenções-Irmãs da ONU [Convencão Única sobre Estupefacientes (1961),
Convenção sobre Substâncias Psicotrópicas (1971), Convenção das Nações Unidas contra
o Tráfico Ilícito de Estupefacientes e Substâncias Psicotrópicas (1988)], bem como suas
influencias na legislação brasileira, inclusive na produção de violações aos Direitos
Humanos ao desenvolvimento.

Palavras-chaves: Colonialismo, Proibicionismo, Direitos Humanos, Desenvolvimento.

219
A COLONIALIDADE DO PODER E O ESTADO DE EXCEÇÃO EM
BELO MONTE

Kellyana Bezerra de Lima Veloso

A luta dos povos indígenas na Constituinte de 1987 pela afirmação do direito originário
dos territórios que ocupam é um marco regulatório de direitos antes não reconhecidos e
a demarcação da plurietnicidade da Constituição. No entanto, prevalece no poder
judiciário uma visão monista, eurocêntrica e privatística que não observa o caráter
constitucional e de direito fundamental que deve ser aplicado a esses povos. A ausência
de alteridade reflete a não superação de um padrão de poder fundado na colonialidade do
poder. O espaço-tempo de permanência desse padrão de poder ainda não cessou, vige
em nossa sociedade mesmo depois do fim do colonialismo clássico. Esse novo padrão de
poder estabelecido a partir da formação da América e do desenvolvimento do
capitalismo é hegemônico e justificado na ideia de superioridade de uma raça sobre as
demais, os brancos dominam e controlam índios, negros e mestiços, explicitado pelos
binômios colonizador/colonizado, dominador/dominado. No Brasil, os reflexos
da colonialidade do poderperpassam a análise do Estado de Direito, da norma posta, dos
discursos produzidos pelo direito e seus reflexos na vida social. Os povos indígenas
foram sistematicamente invisibilizados e subalternizados e travam até hoje uma luta
histórica para efetivação de seus direitos. Caso exemplar é o da construção da Usina
Hidrelétrica de Belo Monte/Pará, em que o direito positivo é relativizado com a
anuência do judiciário. A megaobra, controversa sob vários aspectos, inclusive o da
viabilidade energética, revela que existe o não-direito e o não-lugar desses povos mesmo
dentro do Estado Democrático de Direito, caracterizando-se hoje em verdadeiro estado
de exceção. Verifica-se na judicialização do conflito em Belo Monte que primeiro o
judiciário ratifica a não participação dos indígenas nos processos de consulta e decisão
sobre a usina à revelia da Constituição e da Convenção 169/IT, em segundo, o não
cumprimento das condicionantes da obra não impedem a concessão das licenças de
instalação e operação, ocasionando a flexibilização judicial do licenciamento ambiental.
As demandas econômicas sobre as terras indígenas promovem a hierarquização dos
espaços, retoma a hierarquização historicamente protagonizada pelos europeus e
subalterniza os povos indígenas com a suspensão de seus direitos.

Palavras-chave: Colonialidade do Poder; Povos Indígenas; Belo Monte; Estado de


exceção.

220
POLÍTICAS PÚBLICAS AOS IMIGRANTES SENEGALESES EM
PELOTAS E SEUS DISCURSOS COLONIAIS

Thais Garcia Jeske


Filipe Blank Uarthe

A partir do contexto mundial de globalização e a intensificação dos fluxos migratórios


com destino ao Brasil, bem como a urgência de políticas públicas voltadas a esses grupos,
o presente trabalho visa analisar o “Plano de Atenção aos Imigrantes”. Tal plano,
lançado pela prefeitura de Pelotas em julho de 2016, foi dividido em três frentes – ação
social, cultura e oportunidades com o objetivo de incluir os imigrantes senegaleses que
se multiplicam no município. A ideia do programa surge após o grupo de imigrantes
estabelecerem comércio paralelo aos comerciantes pelotenses, realizando à rua venda de
relógios, bijuterias, dentre outros objetos. Frente a esses acontecimentos, além da
imposição da comunidade acadêmica, o paço municipal pelotense pautado em discursos
coloniais apresenta o referido plano sem o diálogo prévio com aqueles a quem se
destinavam as “medidas inclusivas”. Nesse viés, buscou-se constatar com base em
Spivak, o quanto o referido plano “fala por” determinada comunidade no sentido de
representá-los, corroborando a ideia de conformar sujeitos não lhes conferindo
autonomia para falar. Trata-se de uma pesquisa de natureza básica, a qual realiza uma
abordagem qualitativa, dialética podendo ser classificada como exploratória,
bibliográfica e documental. Por fim, ainda que em fase inicial, é possível identificar como
resultado parcial a ineficácia do plano de atenção, visto que os imigrantes permanecem
expostos a informalidade, isto é, continuam realizando o comercio paralelo no calçadão
pelotense ocasionando uma série de embates fiscais, fator este intimamente ligado a
oferta de empregos de qualificação não correspondente a mão de obra senegalesa
somado a ausência da abertura de um canal de diálogo prévio que propiciasse a
autonomia do sujeito.

Palavras-chave: Imigração; Políticas Públicas; Subalternidade; Autonomia do sujeito.

221
DECOLONIALIDADE, GÊNERO E ENSINO JURÍDICO: PARA
ONDE CAMINHA O DIREITO?

Thais Campos Olea

O capitalismo global eurocêntrico, estruturado através da colonização, introduziu


diferenças de gênero onde antes não existiam. Concepções sobre gênero dos diferentes
povos originários, alguns matriarcais, alguns em que a homossexualidade era
reconhecida positivamente ou onde o “terceiro” gênero era compreendido em termos
igualitários foram violentamente substituídas por um ideal moderno de contrução do
conhecimento que inferioriza o feminino. O processo de construção da ciência jurídica
no Brasil seguiu a mesma lógica, e com um discurso de neutralidade, desconsiderou as
diversas especificidades dos sujeitos e casos concretos para a resolução de suas
demandas. A suposta “neutralidade de gênero da lei” reafirmada pelo ensino jurídico
demonstra o pensamento colonial na academia, que ao tratar de obras clássicas na
filosofia do direito, por exemplo, pouco questiona o lugar da mulher nelas. Assim, o
objetivo deste trabalho é demonstrar a persistência de tais discursos no ensino jurídico,
responsáveis pela perpetuação das desigualdades de gênero, e sua influência no fato de
o Poder Judiciário ter sido considerado o espaço de poder mais impermeável a
participação feminina. Procurar-se-á demonstrar a desvalorização do feminino nos
currículos e ementas das disciplinas ministradas nas ciências jurídicas, defendendo-se a
necessidade da consolidação de aportes teóricos feministas para o estudo e interpretação
do Direito. A metodologia adotada será majoritariamente bibliográfica e documental
considerando a análise curricular e teórica feita para desenvolver a pesquisa, adotando-
se métodos indutivo e histórico. Como resultados parciais, entende-se que as mulheres
permanecem sendo vítimas de omissões e exclusões por trás desse suposto discurso de
“neutralidade de gênero da lei” em nosso país. A produção dessa invisibilidade se dá
inclusive no ensino jurídico, em que a maioria dos estudantes concluem suas graduações
sem a oportunidade de perceber de forma crítica a incidência das normas jurídicas sobre
mulheres e sobre aqueles valores tidos por nós como tipicamente femininos. Essa
negação epistemológica é alarmante considerando a realidade social das brasileiras,
constantemente agravada por decisões judiciais orientadas conforme concepções
discriminatórias.

Palavras-chave: Gênero; Colonialidade; Ensino jurídico.

222
PREFIGURAÇÕES DE DIFERENÇA PELA CRÍTICA DECOLONIAL:
O CORPO NEGRO E A ESPETACULARIZAÇÃO MIDIÁTICA DO
RISO

Ludmila Pereira de Almeida

Nosso principal objetivo é discutir como os usos da linguagem se tornam fazer, se


tornam ação sobre o mundo e performam corpos. Nesse sentido, o corpus a ser analisado
como índice social da violência da linguagem, é a personagem ‘Africano’, do programa
Pânico na TV em 2015. O personagem é performado pelo ator branco Eduardo Sterblitch
que usa do blackface para entreter a plateia e o telespectador. A personagem ainda conta
com uma roupa de malha preta e emite sons indecifráveis em alto volume, seu
movimento é tido como de um macaco, bebe água direto da torneira, invoca entidades e
tem uma culinária peculiar. Essas nomeações incididas sobre a performance de Africano
durante o programa Pânico na TV ritualiza a diferença em termos hierárquicos e
homogêneos, ao se referir ao continente africano como primitivo, culturalmente único,
sendo o Outro Total (MOORE, 2007). A personagem foi retirada do programa após
várias críticas sobre o racismo e xenofobia que compunham a personagem. Tendo em
vista que essa construção racial retoma ações cotidianas de colonialidade do saber e do
poder (QUIJANO, 2005) para prefigurar o outro como inferior e não agenciado como
sujeito (PINTO, 2013), é preciso, então, pensarmos decolonialmente (WALH, 2009) para
articularmos como as subjetividades subalternizadas se formam a partir de discursos
considerados “legítimos” e “autorizados”. Assim, o riso que arquiteta o corpo grotesco
como sendo o negro, espetaculariza midiaticamente narrativas que reiteram a
experiência social da tomada de poder pelos atos de fala, pelos atos de dizer/fazer
(AUSTIN, 1990). Tais discursos entendidos como organizações historicamente
específicas da linguagem (BUTLER, 2003), aponta nossa vulnerabilidade ao poder
simbólico (BOURDIEU, 2010) que nos insulta e ofende desde o princípio como
endereçamentos naturais e normais (BUTLER, 1997). Portanto, aquilo que se destina
incialmente a entretenimento, ao risível, se constrói por processos de destruição dos
corpos para a ordem euro-anglo-ocidental de hierarquia do poder. Ritualizando, dessa
forma, pelo riso, uma correção historicamente vinculada a criação do negro como
subalterizado, fruto de um território distante e obscuro, em que se exalta a violência
epistêmica a favor da valorização da modernidade/colonialidade (MIGNOLO, 2003).

Palavras-chave: Corpo; Raça; Mídia; Subalternização.

223
DESCOLONIZAR A ARTE PARA TRANSFORMAR REALIDADES:
ARTE E DIREITOS HUMANOS COMO MEIOS DE REAÇÃO
CULTURAL

Roberta Laena Costa Jucá


Vanessa Oliveira Batista Berner
Maysa Carvalhal dos Reis Novais

A conexão arte-direito apresenta-se como umas das possibilidades de intervenção crítica


na sociedade e de eficácia dos direitos humanos. Partindo das percepções de cultura e
produtos culturais desenvolvidas por Herrera Flores, entendemos que, na luta por uma
vida mais digna, expressões artísticas podem dar visibilidade à violação de direitos
humanos, desestabilizando opressões e modificando relações coloniais. Assim, a arte das
ruas, das favelas, das mulheres campesinas, das periferias e de outros locus
subalternizados são formas de reação cultural com potencial emancipatório e
transformador de realidades subjugadas. Na contramão desse pensamento, agentes
públicos da atualidade brasileira vêm promovendo ações que afrontam essa noção mais
democrática de cultura, a exemplo do programa Cidade Linda, que vem apagando
graffitis desenhados nos muros de São Paulo, e da ordem que determinou o fechamento
de casas de forró em favelas de Fortaleza, dando mostras de como a colonialidade é
determinante na concepção de cultura dos centros de poder. Nesse contexto,
pretendemos confrontar essa noção de cultura com a categoria da colonialidade do
saber, de modo que possamos refletir sobre as possibilidades de uma descolonização
epistêmica que torne factível uma conexão entre arte e direitos humanos voltada para a
desestabilização de opressões e para a transformação da realidade. Utilizamos
metodologia bibliográfica e documental, além das experiências vivenciadas no projeto
A arte e a luta por direitos humanos no Complexo da Maré, do Laboratório de Direitos
Humanos da UFRJ. Constatamos que, na atual conjuntura, muitas ações estatais retiram
a visibilidade da arte produzida nos locus subalternizados ou a desvalorizam, porque
calcadas em uma noção de cultura marcada pela colonialidade do saber, elemento
constitutivo da modernidade que estabeleceu padrões eurocêntricos de conhecimento
para o mundo não-europeu, naturalizando-os como universais e estabelecendo uma
hierarquia que inferioriza ou desconsidera saberes outros. Diante desse pensamento
abissal, que divide os saberes em visíveis e invisíveis, percebemos, então, a necessidade
de um pensamento fronteiriço propositor de formas de descolonização da arte que
permitam sua autonomia e libertação das amarras coloniais, para que as expressões
artísticas silenciadas saiam da invisibilidade e possam tomar parte na luta pela
efetividade de direitos.

Palavras-chave: Arte; Direitos humanos; Descolonização.

224
SOCIOBIODIVERSIDADE: MERCANTILIZAÇÃO DOS
CONHECIMENTOS TRADICIONAIS

Francini Meneghini Lazzari

Este estudo tem como âmago principal trazer o direito emergente da


sociobiodiversidade e dos conhecimentos tradicionais para o quadro de sua exploração
e valoração como mercadoria. Esta temática demonstra relevância dentro de um quadro
de evolução das demandas sociais, que faz emergir recentemente o direito à
sociobiodiversidade, reflexo do reconhecimento dos saberes tradicionais dos povos da
floresta e suas diversas manifestações de vínculo, limite e pertencimento para com a
natureza. Desse modo, ao desenvolver uma ecologia profunda, novas formas de saber
são edificadas como conhecimentos tradicionais, intitulados como primitivos pela
ciência, saber ocidental dominante que oprime todas as formas de diversidade. No que
se refere ao método de abordagem, após a conceituação da sociobiodiversidade e dos
conhecimentos tradicionais, passa-se a análise crítica do tratamento dos saberes
tradicionais pela ciência válida, corroborando, para isto, a verificação da exploração
destes através da análise do “Marco da Biodiversidade” Lei nº 13.123/2015. Para tanto,
utiliza-se o método abordagem sistêmico, haja vista a necessidade de cotejar o tema na
maior amplitude de áreas do saber. Para o transcurso das etapas da pesquisa utiliza-se
o método de procedimento bibliográfico, para possibilitar o embasamento teórico, bem
como a análise legislativa, abarcando leis e tratados, acerca da regulação da
biodiversidade e do direito ambiental no Brasil. Objetivando demonstrar a
vulnerabilidade dos direitos atrelados à sociobiodiversidade em um mundo
ocidentalizado que praticou o colonialismo e pratica a colonialidade, conclui-se pela
existência de uma vasta gama de conhecimentos tradicionais pré-conceituados como
inválidos pelo saber dominante, mas que são cobiçados pelo mercado pelo seu valor
econômico, tornando-se essencial ao direito da sociobiodiversidade uma saída
epistemológica como instrumento de proteção aos direitos dos povos.

Palavras-chave: Ciência válida; Conhecimentos tradicionais; Sociobiodiversidade.

225
A RELAÇÃO DA MULHER E O TRÁFICO DE DROGAS À LUZ DA
COLONIALIDADE

Brenda Zechlinski Ribeiro


Tuane Tarques
Letícia Calcagno Gomes

A criminalidade, assim como os valores atribuídos à mulher, é um elemento socialmente


construído pela colonialidade e que necessita ser desmitificado. Sabendo-se que a
população feminina socialmente vulnerável é a que mais sofre com as desigualdades do
sistema, é que o trabalho foi objetivado, pois na maioria das vezes elas têm de adentrar
o mundo do tráfico para garantir a sobrevivência para si e sua família e, por
consequência, acabam aprisionadas. Assim, a presente pesquisa visa tratar o paradigma
da questão de gênero e concomitantemente relacionar o contexto inserido pelo tráfico de
drogas na criminalidade feminina. Buscar-se-á problematizar o tema, traçando as
mudanças enfrentadas pela mulher, e destacando aspectos da verticalização da
sociedade latinoamericana, como por exemplo a cultura patriarcal, na qual o modelo
tradicional familiar se compõe do pai, representante do poder e a mulher responsável
pela casa e estruturação da educação da prole. Além disso, irá se expor a forma com que
a mulher se encontra na realidade do cárcere brasileiro. Cabe ressaltar que em virtude
dos conteúdos abordados, o referencial teórico terá como primado os ideais das teorias
feministas, dentre eles Simone de Beauvoir(1980), a qual corrobora que “não se nasce
mulher, torna-se” (1980, p. 9), ainda irá se perfilhar sobre os conceitos e análises da
criminologia crítica feminista. Para que haja o alcance dos objetivos propostos, utilizar-
se-á o método dialético e a pesquisa bibliográfica.

Palavras- chave: Direitos da mulher; Feminismo; Criminologia feminista; Tráfico de


drogas.

226
PODE O REFUGIADO FALAR?

Grazielle Pereira
Aline Hadam

A análise partirá da concepção do direito como campo de disputas (violentas) de


narrativas entre vencedores e vencidos para determinação de quem enunciará o direito
(jurisdição). Ou seja, o direito trata-se de uma disputa que é política. A partir de tal
concepção, desenvolve-se a crítica aos direitos humanos que, ao mesmo tempo que criam
sujeitos jurídicos, funcionam como mecanismo de gestão política e, além disso, operam
na contradição entre suas previsões e suas possibilidades.Desse modo, para pensar
narrativas, para pensar outras vertentes que não as hegemonicamente vitoriosas,
apropria-se das perspectivas decoloniais vinculadas à concepção de violência epistêmica
e linguística na tentativa de disputa de outras narrativas, outras formas com base no
texto “Pode o subalterno falar?”, Spivak. Assim, o trabalho apontará para necessidade
de fazer eclodir a história resistente dos “perdedores”, uma vez que o direito se impõe
como narrativa do vencedor.O refugiado, então, apresenta-se como aquele incluído no
grupo dos perdedores, atualmente silenciado pelo discurso hegemônico de proteção dos
direitos humanos. Nesse sentido, é importante pensar o refugiado como subalterno e
como se entrelaçaria o papel do intelectual, muitas vezes, envolto no silêncio
imperialista, na usurpação e na representação.A narração do heterogêneo pelo outro,
pelo intelectual é, muitas vezes, submetida a rotulagens. O refugiado, uma categoria já
problemática, pois repleta de diferenciações singulares, envolve a representação última
de nós mesmos com todos os ricos da presentificação e definição essencializante da
diferença, risco da violência epistêmica da fala do outro a sua revelia. Portanto, o
presente trabalho enseja a discussão sobre o silenciamento (com o espaço do
intraduzível), da representação e sua antítese através da tentativa de pensar a criação de
formas de dar voz ao subalterno, ao refugiado.

Palavras-chave: Subalterno; Refugiado; Silenciamento; Violência epistêmica.

227
FEMINISMOS E PODER PUNITIVO: PODE A SUBALTERNA
FALAR?

Fernanda Martins

A famosa obra de Gayatri Spivak que questiona se pode o subalterno falar? serve de
propulsão a presente pesquisa na medida em que se visa refletir sobre o papel das
chamadas “minorias” na construção do pensamento criminológico, em especial, a partir
de olhares possivelmente abolicionistas. Se os movimentos sociais – entre eles alguns
feminismos - reivindicam o direito penal como forma de tutela e garantia de direitos,
indaga-se como e se é possível pensar o(s) abolicionismo(s) criminológico(s) assinalados
pela interseccionalidade, cujas leituras fundantes se constituam a partir de certos olhares
feministas em que as categorias de raça e classe estejam permanentemente presentes ao
se abordar a violência que perpassa o sistema penal desde uma formulação teórica que
se recuse a negociar com a estrutura verticalizadora e falocêntrica do poder punitivo.
Busca-se, dessa forma, uma tentativa de pensamento que se arrisque para além dos
abolicionismos arquitetados sob os privilégios em que a criminologia é pensada e
produzida por a racionalidade masculina, colonialista, racista, heternormativa e
burguesa. Nesse sentido, apresenta-se este trabalho com ares de convocação àquilo que,
como flor no asfalto, urge da (auto)crítica para fazer surgir uma potente construção
transformadora de criminologias e feminismos radicalmente plurais na luta pela
desconstrução das antigas estruturas que fazem com que permaneça tecendo histórias
de identidades como mecanismos de “tutela de direito”. Enfim, propõe-se, portanto,
com o presente trabalho incipiente ouvir os fantasmas daquilo que sequer se re-conhece, e
garantir que a subversão ao patriarcado tenha como parceira contundente a resistência
completa ao poder punitivo, compreendidos, pois, como amarras inseparáveis de um
mesmo nó.

Palavras-chave: Feminismo; Poder punitivo; Criminologias.

228
O VEGANISMO COMO DISCURSO DECOLONIAL INSURGENTE:
ARGUMENTOS PELA DERROCADA DA IDEOLOGIA CARNISTA

Bianca Pazzini

O veganismo é um poderoso meio de libertação animal. Contudo, seu exercício e


expansão são dificultados pelos poderes (coloniais) operantes na sociedade, que
aniquilam saberes diversos daqueles construídos pela cultura carnista. Os detentores de
privilégios em relação aos animais permanecem calcados em sua visão universalizante
a favor da manutenção do status quo. Mantém-se com isso a possibilidade de exploração
animal pelo silenciamento de novas formas de saber – aptas a desconstruir o que está
posto – tal como o veganismo. Objetiva-se com estre trabalho, estudar a relação entre
veganismo e decolonialidade, a fim de perseguir a libertação de humanos e animais. Para
alcançar tal desiderato, contudo, necessária a superação do conhecimento abissal gerado
pela cultura carnista, que inferioriza e invisibiliza quaisquer narrativas que colidem com
a lógica da exploração animal, negando direitos a estes que permanecem
subalternizados a despeito de sua capacidade de sofrimento e dor (senciência). A
pesquisa, notadamente bibliográfica, contará com referencial teórico que acolha a
complexidade e o compromisso ético desses saberes insurgentes. A ideologia aparece
como decorrência e consequência da epistemologia, pelo que se mostra necessário
recorrer a teóricos como Karl Marx, Gaston Bachelard, Boaventura de Sousa Santos,
Aníbal Quijano, Caterine Walsh, Walter Mignolo e Luis Alberto Warat. Para a
insurgência do veganismo como preceito ético para a construção de direitos animais,
utilizar-se-á o arcabouço de autores como Melanie Joy, Ana Maria Aboglio, Carol J.
Adams, Jonathan Foer e Maria Esther Maciel. Prima-se, assim, pela insurgência de novos
saberes – outrora e ainda hoje silenciados – na construção do conhecimento científico
decolonial.

Palavras-chave: Veganismo; Decolonialidade; Direitos Animais; Libertação.

229
MULHER (ES) NO CONTEXTO LATINO-AMERICANO: ENTRE
ENCOBRIMENTOS E RUPTURAS

Twig Santos Lopes

O presente artigo tem como ponto de partida o debate acerca da categoria do “Outro”
latino-americano, oprimido, em especial, as mulheres nativas do terceiro mundo, tendo
como marco de referência a obra 1492 El encubrimiento del otro: Hacia el origen del mito
de la modernidade de Enrique Dussel, além de outras obras deste autor e contribuições
do pensamento feminista, com o objetivo de analisar as narrativas em torno da
objetificação do sujeito feminino o qual foi construído discursivamente desde a
perspectiva eurocêntrica como inferior e sem racionalidade. O problema que ora se
impõe pretende revelar até onde este processo de alienação e encobrimento atuou como
mecanismo normalizador da violência na hora de intervir nos corpos das primeiras
habitantes da América Latina, em matéria de dominação e exploração sexual e quais as
permanências desses discursos ainda se apresentam nos dias atuais. O projeto
colonizador na América latina é encobridor da alteridade feminina porque a tornava
coisa, totalizada como ente dominado. A esta totalidade totalmente totalizada,
simbolizada na conquista como dominação e alienação do outro, fez do “bárbaro”
(podendo, aqui, ser considerada a mulher indígena) o não-ser. A mulher, no projeto do
colonizador, era algo sobre o que se tinha “direito de conquista”, algo “à mão” para
saciar a pulsão em termos sexuais e de dominação. Finalmente, pode-se afirmar que esta
leitura amplia a compreensão de que a hegemonia do sistema-mundo engendrou –
também- o domínio entre os gêneros existentes, pois foi responsável por estabelecer uma
relação assimétrica onde o “mundo do outro”, é excluído de toda a racionalidade, de tal
maneira que, sobre as mulheres, esta alienação pesou duplamente: pela sua condição
nativa, “de selvagem” somada ao fato de ser mulher. Acredita-se que a autonomia e
emancipação política das mulheres de hoje, bem como o reconhecimento de seus
direitos, dependem do desvelar e da superação das narrativas responsáveis por gerar
opressão, estigma e desumanização das mulheres, pois há tempos conformam
racionalidades encobridoras.

Palavras-chave: Encobrimento do outro; Mulheres; Exploração sexual.

230
CONSTITUCIONALISMO PLURINACIONAL E INTERCULTURAL
BOLIVIANO: MOVIMENTOS SOCIAIS INDÍGENAS E
CAMPESINOS E O EMPODERAMENTO DOS POVOS
ORIGINÁRIOS NA AMÉRICA LATINA

Elisangela Prudencio dos Santos


Joao Paulo Allain Teixeira

O Constitucionalismo Plurinacional e Intercultural da Bolívia (2009), fundamentado na


descolonização e no pluralismo comunitário, comprometido com o desenvolvimento
integral e com a livre determinação e autonomia dos povos indígenas, apresenta ao
Mundo um novo modelo de Estado, vinculado a um projeto decolonial, cujo fim é o de
não mais se submeter à subalternização de poder/saber e do ser imposta pelos
imperialistas. A instituição dessa nova lógica Constitucional é oriunda das pautas
reivindicatórias dos movimentos indígenas e campesinos, que lutam contra a prática
secular de exploração de seu território e de seu povo. Não se deve esquecer que a Bolívia
é o país mais pobre da América Latina. Contudo, foi por meio da exploração de suas
riquezas, principalmente, da Prata da Montanha de Potosì, que a Espanha teve a
oportunidade de pagar sua dívida com a Inglaterra e a França, enriquecendoos, para
empobrecer a periferia selvagem e pagã. Ademais, foi o primeiro país da América Latina
a adotar a política neoliberal proposta pelo Consenso de Washington. Mesmo assim,
atualmente, são as multinacionais que querem explorar os escassos recursos naturais do
território boliviano e querem, ainda, limitar o direito desses povos de obtê-los. A luta
persiste! O imperialismo pretende atuar eternamente, porque continuar enriquecendo é
o único objetivo que o alimenta. Não será fácil combatê-lo! Contudo, para que haja um
enfrentamento, com eficácia, urge conhecer a história da herança colonial dos territórios
invadidos, sob a perspectiva decolonial. Diante disso, a proposta do presente artigo é
refletir sobre a política eurocêntrica da modernidade e sobre o mito de sua posição
ontológica de superioridade em face aos povos colonizados, não somente no território
boliviano, mas também sobre outros territórios, com o fim de compreender se a
insurgência dos povos explorados – bolivianos terá o condão de disseminar na América
Latina uma nova lógica – a do empoderamento dos povos originários - e assim conceber
uma VOZ aos invisibilizados, coibindo a continuidade dos abusos que atormentam a
Abya Yala desde o seu encobrimento em 1492. Para levantar as informações pontuadas,
a pesquisa utilizará a metodologia qualitativa, exploratória e teórica.

Palavras-chave: Constitucionalismo Plurinacional e Intercultural Boliviano;


Descolonialização; Pluralismo Comunitário; Decolonialidade; Eurocentrismo.

231
COLONIALIDADE E A PERSPECTIVA GERACIONAL:
IMPLICAÇÕES NOS DIREITOS DAS CRIANÇAS E DOS JOVENS

Assis da Costa Oliveira

No presente artigo objetivo discutir as contribuições da teoria da colonialidade do poder


para o entendimento da construção sóciojuridica da infância e da juventude na
sociedade moderna/colonial. Ao mesmo tempo, reflito sobre como a teoria da
colonialidade pode ser retroalimentada pelas teorias geracionais para melhor estabelecer
as bases de uma leitura geracional da colonialidade, de modo a problematizar as relações
históricas entre racismo e adultocentrismo (numa interseccionalidade mais ampla,
incluindo as relações de gênero e patriarcado), com repercussões que se mantém até hoje
no cenário de produção dos dispositivos de expressão da colonialidade para os campos
da infância e da juventude. Assim, procuro problematizar: como a teoria da
colonialidade do poder pode contribuir para a compreensão a realidades e os direitos
das crianças e dos jovens? E, como as teorias geracionais podem esgarçar o entendimento
da dimensão geracional do poder colonial? Com base em pesquisa bibliográfica
realizada por conta do doutorado em andamento, parto da delimitação conceitual da
colonialidade, a fim de estabelecer as bases teóricas e suas implicações sociais no
continente latinoamericano, além de iniciar a problematização do lugar do campo
geracional na matriz colonial do poder. Posteriormente, avanço no entendimento das
conexões entre raça e geração, articulado à dimensão de gênero e com subsídios da teoria
feminista pós-colonial, de modo a propor uma análise do discurso colonial da
menoridade como estrutura que operou (e opera) na sociedade moderna/colonial para
subordinação político-identitária de crianças, jovens, indígenas, negros e mulheres, num
grau de intensidade tanto maior quanto mais a interseccionalidade dos marcadores se
apresentavam (e apresentam) nos contextos e sujeitos. No terceiro tópico analiso
questões práticas de conexão entre raça, gênero e geração, procurando apresentar os
efeitos do discurso colonial nas condições de vida de crianças, adolescentes, jovens e
mulheres. Por fim, o quarto tópico é centrado na conceituação de decolonialidade e
interculturalidade, e na identificação das contribuições dessas ferramentas político-
teóricas para a reconfiguração das condições de vida e os direitos de crianças e jovens.

Palavras-chave: Colonialidade; Geração; Menoridade; Decolonialidade;


Interculturalidade.

232
DIREITO E COLONIALIDADE: A INSERÇÃO DO FEMINICÍDIO NO
UNIVERSO JURÍDICO BRASILEIRO

Clarice Gonçalves Pires Marques

Em 2012 o Brasil era considerado como 7º país com mais mortes violentas de mulheres,
dentre 84 nações. Em 2015, com a promulgação da Lei nº 13.104, o termo feminicídio
insere-se no universo jurídico brasileiro. A referida lei destinou-se a alterar o art. 121 do
Código Penal (Decreto-Lei nº 2.848/40), estabelecendo o feminicídio como circunstância
agravante de homicídio, e alterar o artigo 1º da Lei dos Crimes Hediondos (Lei nº
8.072/1990), classificando o feminicídio como crime hediondo. Em 2016, passou para 5º
lugar em feminicídios. A Lei do Feminicídio foi um avanço, pois trouxe esta categoria ao
direito pátrio, porém é preciso avaliar a questão detidamente, eis que ainda não logrou
os efeitos pretendidos. O Direito tem demonstrado seu potencial de manutenção da
colonialidade, inclusive no que tange à colonialidade do gênero, pois foi forjado dentro
de concepções que reproduzem a matriz colonial de poder/saber/ser, subalternizando
as mulheres por muito tempo e contribuindo para a perpetuação da violência de gênero.
A problemática que se insurgiu foi no sentido de verificar que medidas foram adotadas
diante do aumento nas taxas de feminicídio. O objetivo geral foi pesquisar que medidas
foram adotadas diante do aumento nas taxas de feminicídios. Como objetivos
específicos, identificou o momento da inserção da questão do feminicídio na legislação
pátria; observou os significados atribuídos ao feminicídio enquanto categoria; pontuou
as origens coloniais da violência; analisou o texto da Lei 13.104/2015 no que se refere ao
discurso colonial empregado na sua constituição. Como resultado, verificou-se que, em
2016 foi produzida cartilha institucional, voltada aos/às profissionais do judiciário e
polícia para capacitá-los/as no que tange às questões relacionadas ao feminicídio, mas a
discussão não se estendeu à sociedade. Permanece ignorada a colonialidade que permeia
a legislação antifeminicida. Efeitos pretendidos pela legislação ainda não foram
alcançados, não foi registrada queda nas taxas de feminicídios até o momento. A
metodologia envolve análises a partir dos Estudos Decoloniais, rompendo com a
colonialidade epistêmica, utilizando-se da técnica de pesquisa documental e
bibliográfica.

Palavras-chave: Direito; Colonialidade; Decolonialidade; Gênero; Feminicídio.

233
O DIREITO MODERNO NA PERPETUAÇÃO DA COLONIALIDADE
DE GÊNERO, A PARTIR DE UMA PERSPECTIVA MARXISTA

Maria Carolina Fernandes Oliveira


Nayara Rezende

Muito embora o período histórico de descolonização dos continentes asiático, africano e


latino-americano tenha ocorrido a partir de processos desenvolvidos na segunda metade
do século XX, os efeitos do imperialismo e do neocolonialismo se arrastam até hoje por
sobre esse conjunto de sociedades que o pensamento eurocêntrico colonialista – sexista
e racista – amalgama em uma única expressão: “terceiro mundo”. Muitos foram os
processos de imposição de construções teóricas e culturais europeias como conceitos
essencialistas e exclusivos, e os processos de introjeção de instituições, nos países
colonizados, como as únicas possibilidades legítimas de interação social. É nesse sentido
que a instituição Direito (aqui, tratando-se de Direito brasileiro) sofreu as influências de
um modelo colonizador eurocêntrico, moldado sob a lente e a fala do homem branco
europeu, resultando em um ordenamento jurídico quase completamente indiferente às
intricadas questões de classe, de raça e de gênero específicas do país e de sua extensão
territorial e cultural. A importação de normas jurídicas desconhecedoras da realidade
do Brasil aumenta as possibilidades de uso do Direito como aparelho mantenedor da
marginalização daqueles e daquelas já desfavorecidos. Portanto, sob a ótica do
pensamento periférico, qual seja, latino-americano, o objetivo principal deste trabalho
foi avaliar a possibilidade de decolonização do Direito, e das consequentes influências
deste nas questões de gênero, a partir de uma perspectiva marxista. Tendo em vista o
objeto pesquisado, a metodologia consistiu em investigações teóricas e conceituais, a
partir da articulação de textos pós/de-colonialistas, marxistas, marxianos e da teoria
crítica. Assim, buscamos responder o seguinte problema: poderia haver uma
emancipação feminina a partir da decolonialidade do Direito?

Palavras-chave: Direito moderno; Decolonialismo; Marxismo; Feminismo; Gênero.

234
O BRASIL SOB O FOCO DECOLONIAL: AS DEFICIÊNCIAS DE UM
ORDENAMENTO JURÍDICO MONOLINGUISTA

Natália Flores Dalla Pozza


Débora Flores Dalla Pozza

Há mais de 500 anos, antes do Brasil passar pelo processo colonizatório, estima-se que
eram faladas em todo território cerca de 1.078 línguas nativas. Hoje, de acordo com o
último (2010) Censo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), são faladas
274 línguas indígenas, uma redução que se deu a partir de uma intervenção luso-
portuguesa com caráter nitidamente predatório. Ainda que restem evidentes ao longo
da história do país as tentativas de homogeneizar a linguagem, uma grande quantidade
dessas sobreviveu, e a tendência frente aos novos fluxos globais é de aumentar o número
de pessoas residentes no Brasil que não têm o português como sua língua materna.O
direito, como ciência social e prática ordenadora da sociedade, positivou a instituição do
português como língua oficial no Brasil. Com isso, legitimou um ordenamento jurídico
monolinguista, o qual respalda, por sua vez, a hegemonia de uma imposição linguística
colonial e contempla pouco a diversidade cultural do país. Lembre-se que a linguagem
é um processo essencial de produção e manutenção dos significados na realidade social,
o qual funciona por meio de sistemas de representação do mundo. Por isso, vale alertar
que uma vez que se prestigia absolutamente uma língua, está-se a valorizar uma forma
de representação e organização da realidade em detrimento de outras.Dessa forma,
pretende-se apresentar a forma com que o sujeito não falante de português, ou, ainda,
aquele que não o tem como língua principal, fica como subalterno frente ao ordenamento
jurídico posto. A partir disso, com base nas experiências atuais de países como Bolívia e
Equador, que se reconheceram como plurinacionais e, por consequência, plurilíngues,
será demonstrada a maneira com que a decolonialidade pode orientar os processos de
ressignificação das línguas faladas em seu território. Dentre as significativas mudanças
possíveis, destaca-se, no ramo do acesso à informação, que migrantes ou pessoas que
não têm o português como língua-mãe poderão obter documentos traduzidos, o que, de
forma direta, afeta positiva e inclusivamente os processos democráticos do país.

Palavras-chave: Decolonialidade; Linguística; Direito.

235
OUTRIDADE E OPRESSÃO E “AS VEIAS ABERTAS DE AMOR”: A
RUPTURA DO NÃO RECONHECIMENTO DO OUTRO

Marcela Bertolino da Costa

Há na atualidade um sentimento incessante na sociedade e nos seres humanos de impor


modelos, rotular, definir, estereotipar situações, pensamentos, coisas, em uma tentativa
frustrada de compreender o indivíduo enquanto sujeito e enquanto pessoa. Partindo de
uma análise dupla facetária, há uma construção histórica colonial, que aprisiona os
indivíduos a partir da definição de papeis desempenhados: o conquistador e o
conquistado. Desse modo, ao se sobrepor ao outro, o conquistador explora o
conquistado, num efeito de subjugação deste. Nesse sentido, e desobedecendo a ordem
colonial instituída, questiona-se a possibilidade de desconstrução de conceitos
preexistentes, construídos, influenciados ao que se tem a pretensão de estereotipar como
algo ou alguém incapaz de ser outra coisa além de um subalterno. Dessa maneira, o
objetivo do trabalho, em suma, visa libertar “o outro” das correntes da opressão, dando
asas a diversidade, através do rompimento de preconceitos. É notória a necessidade da
desconstrução da episteme dominante, no sentido em que a presença plural e singular
de cada indivíduo contrapõe a uma significativa resistência por meio da sociedade e suas
instituições, marcadas pela cultura machista, racista, misógina, religiosa, e sobretudo
exploradora que tange uma falsa representatividade da população e está impregnada
pelo repúdio da fuga do status quo convencionado. Como aponta Dussel em Filosofia da
Libertação - para o aperfeiçoamento dessa ruptura, “o outro” ou alter desempenha papel
de relevância, pois a necessidade do estabelecimento dessa ‘libertação’ somente ocorrerá
com a atribuição e reconhecimento da pessoa considerada enquanto e como pessoa. Pela
demanda social, inerente ao conteúdo deste trabalho, os métodos baseiam-se, sobretudo,
pela análise de contribuições associadas à análise de letras musicais, com a intenção de
trazer reflexões acerca da sociedade e suas construções um tanto limítrofes. Utilizou-se,
como método geral de pesquisa, o decolonial.

Palavras-chave: Libertação; Alteridade; Subalternidade; Decolonialidade.

236
O CONCEITO COLONIAL DE CIDADANIA BRASILEIRO E AS
SUAS CONSEQUÊNCIAS PARA A POPULAÇÃO IMIGRANTE

Eduardo de Oliveira Soares Real

Atualmente o conceito de cidadania no Brasil vem sendo questionado pelos


doutrinadores que estudam o fenômeno das migrações. O presente trabalho abordará
uma crítica ao conceito de cidadania, que o Brasil adotou da Europa, e a um novo
conceito descolonial e suas respectivas consequências para a população imigrante. O
presente trabalho visa discutir se o estabelecimento de um conceito de cidadania
descolonial pode reduzir as dificuldades que os imigrantes possuem, em virtude de um
conceito eurocêntrico. Foi utilizada a revisão bibliográfica através de livros e artigos para
atingir o objetivo do presente trabalho. Segundo Enzo Bello a cidadania moderna tem
sua origem no Estado-nação, os cidadãos modernos eram os indivíduos que possuíam
um vínculo com um Estado nacional e estavam protegidos pela lei e por direitos. O
cidadão passa a ser portador de direitos civis e de direitos políticos, no caso, segundo
John Locke o segundo era consequência do primeiro. O atual conceito de cidadania no
Brasil está vinculado com o conceito de Estado-nação criado na Europa. Segundo José
Afonso da Silva a cidadania qualifica os participantes da vida do Estado, o indivíduo
como pessoa integrada na sociedade estatal, também significa que o funcionamento do
Estado deve ser submetido a vontade popular. E aí o termo conexiona-se com o conceito
de soberania popular, com os conceitos de direitos políticos, com o conceito de
dignidade da pessoa humana, com os objetivos da educação como meta essencial do
regime democrático. Os migrantes não são considerados cidadãos plenos no Brasil,
porque não são titulares de direitos políticos de votar e ser votado conforme prevê o
art.14 §2º da Constituição Federal. O atual conceito colonial de cidadania que o Brasil
adota acaba excluindo os imigrantes da sociedade, pois o fato de não serem cidadãos
significa que o imigrante não integra a sociedade estatal, além de suas demandas não
influírem na vontade popular. Entende-se, portanto, que o Brasil deve construir um
novo conceito de cidadania mais inclusivo e que se baseie no contexto latino-americano.

Palavras-chave: Cidadania; Cidadão; Descolonial; Imigrantes.

237
CONSIDERAÇÕES SOBRE A ALIMENTAÇÃO SAGRADA NOS
RITUAIS RELIGIOSOS DE MATRIZ AFRICANA E OS
PRESSUPOSTOS DA LAICIDADE ESTATAL

Winnie de Campos Bueno

As expressões religiosas das tradições de matriz africana no Brasil experimentam uma


continuidade histórica de supressão de direitos, marginalidade e invisibilidade. O
proselitismo religioso engendrado pelo neopentecostalismo adquire contornos jurídicos
mais contundentes na última década, possibilitados em consequência do aumento da
representação política legislativa desse setor no cenário político brasileiro. A própria
construção dos ditames da laicidade estatal no Brasil consolida-se de forma paradoxal
no que diz respeito à presença pública das religiões de matriz africana, tendo
consequências na expansão da intolerância religiosa e na criminalização que estas
tradições experienciam. A formulação de normas jurídicas que criam óbices à realização
de cultos religiosos de matriz africana constitui-se enquanto uma ferramenta robusta
que vislumbra a eliminação das religiosidades afro-brasileiras, frequentemente
atravessadas por um discurso de laicidade que, na realidade, revela um conteúdo anti-
negritude, marcado por tentativas de eliminação das cosmovisões que apresentam
conteúdos morais e valores distintos do monoético judaico-cristão. No estado do Rio
Grande do Sul, o movimento negro e as organizações religiosas de matriz africana
frequentemente se deparam com proposituras legislativas que, em última instância,
inviabilizam a existência dessas expressões religiosas. Sendo assim, o objetivo deste
trabalho é, através de pesquisa ativista, analisar a forma com que as instituições gaúchas
têm tratado dos conflitos normativos que se apresentam a partir de leis que obstam a
existência dos cultos religiosos de matriz africana, bem como analisar as estratégias que
os grupos sociais que vivenciam essas religiosidades utilizam nos diálogos entre a
sociedade civil e os mecanismos de poder. Tendo em vista que a pesquisa se encontra
em andamento, serão apresentados os resultados parciais na elaboração de um
levantamento quantitativo dos casos de intolerância religiosa judicializados no Rio
Grande do Sul desde a vigência do Estatuto da Igualdade Racial, analisando-se também
os discursos dos representantes políticos ligados às bancadas religiosas neopentecostais
na produção de normativas que obstaculizam a manutenção das expressões religiosas
de matriz africana, e, ainda, as estratégias de manutenção dos terreiros frente aos ataques
estatais e sociais consequentes do racismo estrutural.

Palavras-chave: Laicidade estatal; Intolerância religiosa; Racismo.

238
MULHERES E SILENCIAMENTO: A INFLUÊNCIA MARCANTE DO
PATRIARCADO COLONIAL

Camila Belinaso de Oliveira

Este trabalho aborda a invenção e conquista da América, um dos mais intensos processos
de confrontação de identidades e história, a partir do estudo e questionamento das
feministas latino-americanas quanto ao patriarcado colonial, que não possibilita a
paridade entre homens e mulheres. As devastadoras consequências da colonização
ultrapassam o âmbito econômico, cultural e político, pois ao se apresentar como missão
civilizatória carrega profundas implicações epistemológicas. Desse modo, o objetivo
principal é compreender o encobrimento e silenciamento das línguas e das mulheres
desde a problematização do colonialismo, que está entrelaçado com outras formas de
poder, como o patriarcado e o sexismo, e das noções político-analíticas de gênero e
cultura, com a intenção de proporcionar a reflexão dos conhecimentos que emergem
desde a América Latina e que incluem o feminino em suas lutas.O trabalho identifica o
colonial como um cenário que define o lugar material e intelectual das mulheres,
principalmente indígenas, uma vez que a narrativa etnocêntrica não se reduz apenas a
uma dominação ou exclusão étnica, mas que também se baseia em sexo, classe ou
sexualidade. Destaca-se a necessidade do recorte cultural de ser mulher e ser indígena
na sociedade patriarcal colonialista, pois a imposição estratégica de uma só linha de
pensamento não dá a liberdade e a possibilidade para que essas mulheres sejam vistas
de forma heterogênica. Assim, analisar formas de pensar relações de poder e dominação
e, consequentemente, construir sociedade, deve considerar que o sistema patriarcal e
colonial se reproduz a partir da exploração dos corpos e da força de trabalho das
mulheres indígenas, as quais sofreram a imposição do arquétipo da mulher
branca/europeia e colonizadora e as consequentes opressões da drástica mudança na
organização das sociedades agrícolas e do surgimento da família moderna, que além de
estabelecer uma divisão sexual para o trabalho, utilizou dos âmbitos de ação, como o
público destinado aos homens e o privado às mulheres, fortalecendo relações de
subordinação e desigualdade entre sexos. O método de abordagem utilizado é o
dialético, a técnica de pesquisa utilizada é a pesquisa bibliográfica.

Palavras-chave: Patriarcado colonial; Mulheres indígenas; Feminismo.

239
O DIREITO DE IGUALDADE DAS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA

Rubiane Galiotto
Patrícia Noll

O presente trabalho objetiva analisar a relação entre o princípio da igualdade e as


pessoas com deficiência. Ainda, pretende verificar se a situação atual das pessoas com
deficiência respeita os preceitos internacionais de Direitos Humanos, especialmente
a Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência. Questiona-se
se as Pessoas com Deficiência possuem seu direito de igualdade assegurado na
integralidade nos dias atuais, diante do aparato legislativo existente. Para tando,
o trabalho será feito através de revisão da literatura sobre o tema, promovendo-se um
levantamento de fontes bibliográficas e de legislação, com posterior seleção e
investigação dos aspectos que permitem visualizar o problema da pesquisa tendo como
instrumento de pesquisa a ficha de leitura. As pessoas com deficiência lutam pela
igualdade de tratamento perante a sociedade há muito tempo. Em contrapartida, a forma
como são vistos e tratados vem se modificando ao longo dos anos. O modelo de
tratamento das pessoas com deficiência evolui de um modelo de prescindência onde a
deficiência teria cunho religioso e seria uma punição divina, para um modelo médico,
onde as causas da deficiência seriam científicas, porém a conquista da reabilitação
integral seria a única maneira de torná-las “normais” novamente.Atualmente, o modelo
social é o que vem sendo difundido na sociedade. Neste enfoque, a deficiência não é um
problema individual, mas uma questão social. A responsabilidade pelas desvantagens e
limitações é da sociedade, que deve buscar um ajustamento e previsão da diversidade
para permitir que as pessoas com deficiência alcancem a igualdade de direitos. No que
tange ao princípio da igualdade, seu enfoque é bipartido em igualdade formal e material.
A igualdade formal no presente enfoque, relaciona-se com a Convenção e demais
legislações que buscam regular direitos à minoria que sofre com a exclusão por sua
deficiência. Já a igualdade material, busca além da positivação, maneiras de
implementação da lei, de forma que os direitos humanos das pessoas com deficiência
sejam vividos na prática, com a preservação de valores como a dignidade, a autonomia
destas pessoas, a solidariedade e principalmente, a igualdade efetiva com os demais
membros da sociedade.

Palavras-chave: Princípio da Igualdade; Pessoas com Deficiência; Direitos Humanos.

240
DESCULPA ESFARRAPADA: O VETO DO ARTIGO 79-A DA LEI
10.639

Lizandro Mello

PROBLEMA

O que se revela quando se avalia o veto presidencial ao artigo 79-A da Lei 10.639 a partir
da decolonialidade?

OBJETIVO

Descrever como o veto ao artigo 79-A da Lei 10.639, de sua motivação aos efeitos, está
imerso na lógica colonial, aprofundando o epistemicídio sobre as histórias e as culturas
afro-brasileiras e indígenas.

TEORIAS / METODOLOGIA

A Lei 10.639/2003 altera a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, obrigando os


estabelecimentos de educação básica a implementar o ensino da História e Cultura Afro-
Brasileira. Quando de sua sanção pela Presidência da República, o texto aprovado no
Congresso sofreu um veto parcial, que suprimia o artigo 79-A, o qual obrigava a
participação de entidades do movimento afro-brasileiro, universidades e instituições de
pesquisa pertinentes na capacitação dos professores. Boaventura de Sousa Santos
categoriza o epistemicídio como a destruição de conhecimentos próprios dos povos
causada pelo colonialismo, efeito da vigilância epistemológica sobre as fronteiras dos
saberes relevantes e supressor do direito ao conhecimento alternativo. Marca da
colonialidade, esse epistemicídio mantém o eurocentrismo como mecanismo (conforme
Mignolo) que dota uma particularidade de uni-versalidade, segregando outras
particularidades, impondo seu habitus como norma, ideia e projeto. A motivação pífia
do veto – a Lei Complementar 95/1998, alegando a partir do seu art. 7º, inc. II, que os
cursos de capacitação de professores romperiam a unidade da dita lei (!!) – dá a
instrumentação da manipulação dos saberes de acordo com seus próprios interesses,
determinando uma colonialidade do saber (Restrepo e Rojas) segundo os próprios
interesses da arrogância epistêmica de um determinado saber constituído na
modernidade como retórica (Mignolo). O veto refletiu na posterior Lei 11.645/2008, que
nem contou com a hipótese da participação dos sujeitos epistêmicos indígenas para o
trabalho sobre sua história e culturas. Neste artigo, busco a utilização inédita da
colonialidade de saberes e do epistemicídio como referências teóricas de análise crítica
decolonial à Lei Lei 10.639 e ao veto de seu artigo 79-A.

Palavras-chave: Lei 10.639/2003; Decolonialidade; Epistemicídio.

241
O DISCURSO DECOLONIAL E A PRÁTICA FEMINISTA

Isabela Peixer Galm Bernardes

Este trabalho visa demonstrar, a partir de um olhar filosófico, as conquistas do


Movimento Feminista, coordenado por mulheres que buscaram não apenas romper com
a cultura masculina totalizante, como também lutaram pela vida das mulheres no campo
jurídico. A militância delas contra a violência de gênero resultou numa abertura de
espaço de fala do Outro Mulher, historicamente oprimido e subalternizado. A Lei Maria
da Penha, publicada no ano de 2006 é uma das principais conquistas no campo dos
movimentos sociais, proporcionando, ainda que minimamente, um sentimento de
segurança às mulheres em situação de risco.Apesar das conquistas, o movimento
feminista como um todo vem falhando, sobretudo em relação à proteção de mulheres
negras e transexuais por exemplo. Infelizmente, a taxa de feminicídio desses grupos vem
aumentando ao passo que o número de mortes de mulheres brancas reduziu nos últimos
anos. Uma crítica do próprio movimento se faz necessária para que seja possível o
avanço enquanto movimento social. A luta das mulheres não é coletiva enquanto
movimento social, mas repartida possuindo caráter não igualitário. O discurso
decolonial vem com a proposta de uma praxis feminista que seja por completo para
todas as mulheres e não movimento em separado. Vale ressaltar ainda que para
diminuição expressiva dos casos de violência de gênero a educação precisa ser libertária,
pautada em uma Filosofia Periférica. Não se discutirá a visão da Esquerda Punitiva,
embora seja um tema que a ser debatido, uma vez que a justificativa da pena,
pontualmente na questão da violência contra à mulher visa a redução das agressões.
Contudo, a aplicação do Direito Penal não é capaz de resolver um problema social
secular que necessita de uma política pública a longo prazo.O método de abordagem é
dialético. A pesquisa iniciará com dados que irão subsidiar a descrição do tema debatido,
que será identificado e analisado, explicando as relações e conexões que o constituem,
através de pesquisa bibliográfica e documental sobre o tema, com autores que abrangem
a temática, direta ou indiretamente.

Palavras-chave: Decolonial; Feminismo; Maria da Penha.

242
A TUTELA DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS DA MULHER
INDÍGENA: EMPODERAMENTO E IDENTIDADE

Andressa de Freitas Dalmolin Macagnan


Thaís Janaina Wenczenovicz
Cristhian Magnus De Marco

Nas últimas décadas a América Latina experimentou expressivos avanços no quesito


desenvolvimento econômico e social, com vistas a redução da pobreza e melhorias em
diversos indicadores sociais. Contudo, sabe-se que tais avanços estão encontrando forte
barreira na heterogeneidade estrutural da sociedade e que os povos indígenas integram
as comunidades mais desfavorecidas, como resultado de processos históricos sociais
iniciados há mais de 500 anos, com práticas discriminatórias persistentes até os dias
atuais. Tratando-se especificamente das mulheres indígenas, a situação é ainda mais
complexa, eis que, salvo raras exceções, prevalecem práticas de exclusão e minimização,
nos processos organizacionais e políticos de seus povos. Nota-se uma clara divisão de
gênero nas tarefas políticas e organizacionais, ou seja, há mais mulheres nas bases, nos
processos organizacionais, em trabalhos comunitários, mas há poucas nos cargos
dirigentes e nos processos de tomadas de decisões, embora, os índices demonstrem que,
tanto na zona rural, quanto na zona urbana, considerando 10 países da América Latina,
as mulheres indígenas possuem mais escolaridade que os homens indígenas. Tal
situação, demonstra o duplo arco de barreiras, a discriminação e o preconceito estrutural
que sofrem como indígenas e o patriarcado que experimentam como mulheres. A
integração de indivíduos de idioma e cultura diferentes, no contexto de extrema
vulnerabilidade social, psicológica e econômica causada pela negação de seus direitos
durante séculos, requer a formulação e adoção de políticas públicas, a fim de promover
e efetivar os diretos dos povos em comento, mas isso só se dará de forma concreta, a
partir do momento em que suas necessidades forem ouvidas por suas próprias vozes, a
fim de que não ocorra uma possível imposição de cultura externa. Nesse contexto, o
trabalho objetiva analisar as relações de gênero nas comunidades indígenas do Brasil
Meridional, bem como interrelacionar os direitos humanos/fundamentais em uma
perspectiva sensível ao caso das mulheres nativas.

Palavras-chave: Direitos Fundamentais; Identidade; Mulher Indígena.

243
GÊNERO E SUBALTERNIDADE: A INTOLERÂNCIA DIANTE DA
DIVERSIDADE

Leonardo Idenio Soares

Este trabalho aborda a ausência de legislação vigente no Brasil que garanta segurança
àqueles discriminados por sua identidade de gênero e também identidade
sexual, resultado de práticas e discursos coloniais. Analisa, também, as possíveis
violações aos princípios constitucionais básicos de defesa dos direitos humanos e
direitos fundamentais de cidadania dentro do país. O principal objetivo deste trabalho é
discutir a discriminação de gênero no Brasil e a necessidade de mudanças significativas
na atual situação dos sujeitos subalternizados pela indiferença e pela ausência de
proteção jurídica. Demonstra, assim, a necessidadede análise da história da
discriminação sobre gênero no Brasil, buscando compreender através da composição de
leis e medidas políticas, soluções para acabar com a intolerância diante da diversidade
existente. A metodologia adotada privilegia a reflexão, por isso a opção pelo método de
abordagem dialético, a técnica de pesquisa adotada é meramente bibliográfica e o tipo
de pesquisa descritiva, exploratória.Por fim, o trabalho apresenta uma reflexãoa partir
da ótica dos direitos humanos e direitos fundamentais como fonte legitima e
emancipadora a esses sujeitos e os principais desafios e perspectivas para o direito ao
respeito, a tolerância e à diferença.

Palavras-chave: Gênero; Subalternidade; Intolerância; Diversidade.

244
DECOLONIALIDADE E CULTURA CRÍTICA JURÍDICA

Ivone Fernandes Morcilo Lixa

O presente estudo pretende, a partir de uma perspectiva e metodologia histórica crítica


latino-americana, problematizar o processo de construção histórico da cultura jurídica
brasileira com vistas a identificar e discutir os limites e impossibilidades da tradição
eurocêntrica colonizadora como elemento central e norteador das práticas jurídicas e
políticas no Brasil. Tais práticas e concepções legitimadoras passaram a ser colocadas em
questão nas três últimas décadas do século XX quando, esgotado o paradigma
epistemológico herdado e reproduzido, emergem práticas e discursos inovadores no
campo do Direito autodenominados “críticos”, dentre os quais o decolonial. Com vistas
a revisitar e rever historicamente as experiências e saberes invisibilizados
academicamente, mas presentes nos movimentos populares, são retomados ao longo do
estudo a construção dos marcos teóricos relacionados com o “decolonial”,
compreendendo-os como categorias inéditas. Trata-se de uma atitude política e
intelectual de reconhecimento do múltiplo e plural que constituem o conjunto da
unidade histórica e política (semelhanças, experiências, frustrações e destino) da
América Latina. “Neoconstitucionalismo”, “Constitucionalismo Andino”, “Novo
Constitucionalismo Latino Americano”, são expressões que passaram a permear o
discurso jurídico como novas designações para o novo modelo institucional das ordens
jurídicas contemporâneas latino americanas que reclamam revisão nas tradicionais
práticas e fontes de Direito apontando para um esgotamento da legalidade formal e sua
racionalidade, abrindo, assim, espaço para a discussão crítica da cultura jurídica a partir
das condições históricas concretas atuais e das práticas coletivas reais. Em síntese, há
uma redefinição das fontes tradicionais do Direito e de sua operacionalidade, abrindo
“vazio epistemológico” no campo interpretativo e operativo. O estudo parte de uma
revisão do conceito de Modernidade como processo de “gestão” da centralidade
eurocêntrica o que possibilita compreender, em particular, as formações periféricas
latino americanas voltando o olhar a um projeto histórico da libertação e auto
determinação negado desde o início do projeto da Modernidade, e por esta razão
descolonizador, que poderá servir de elemento para refundação da cultura e práticas
jurídicas.

Palavras-chave: Cultura Jurídica; Crítica Decolonial; Teoria Crítica Latino Americana;


Constitucionalismo Latino-Americano Contemporâneo.

245
“INFANTICÍDIO” INDÍGENA: DO EXTERMÍNIO DA DOMINAÇÃO
CIVILIZATÓRIA AO DIÁLOGO DOS DIREITOS HUMANOS

Lais Nardon Martins

O presente trabalho se propõe ao linear do diálogo dos Direitos Humanos envolvidos na


prática cultural do “infanticídio” indígena, presente em alguma das remanescentes
comunidades indígenas brasileiras. Os direitos contrapostos são: o direito coletivo da
liberdade da prática cultural do “infanticídio” indígena, e o direito individual à vida.
Para tanto, busca-se, inicialmente analisar a dominação civilizatória, que conduziu e
conduz os povos indígenas ao extermínio, bem como este só se ressignifica ao longo da
história. Também, a pesquisa analisou o significado da expressão “infanticídio” indígena
e sua inadequação na seara jurídica. Acresce-se o Projeto de Lei 1.057/2007 que tramita
no Congresso Nacional, o qual pretende criminalizar a prática do “infanticídio”
indígena. Ainda, para uma perspectiva de um diálogo entre os direitos envolvidos na
prática do “infanticídio” indígena, a monografia pauta-se para o multiculturalismo e
feminismo, sob um viés de Direitos Humanos humanitários. O método de abordagem
utilizado foi o hipotético-dedutivo. O método de procedimento utilizado foi o
etnográfico. Na pesquisa realizada, observou-se que um diálogo é possível, mas que a
dominação civilizatória exterminatória não pode ser continuada pelo Estado brasileiro,
bem como as mães indígenas necessitam de autonomia e empoderamento através da
implementação de políticas públicas em saúde e educação.

Palavras-chave: “Infanticídio” Indígena; Dominação Civilizatória Exterminatória;


Multiculturalismo; Feminismo; Direitos Humanos.

246
ANTIDISCRIMINAÇÃO E TRAVESTILIDADE NO BRASIL:
PROTEÇÃO JURÍDICA OU SUBALTERNIZAÇÃO?

Alice Hertzog Resadori

A sexualidade é resultado de processos históricos, sociais e culturais e está inserida nas


dinâmicas do poder, sendo produzida de forma a garantir expressões hegemônicas, que
são construídas como universais e legítimas, em contraponto às identidades subalternas
(FOUCAULT, 2011). Considerando os fatores históricos e sociais comuns aos países
latino-americanos, como o colonialismo e a intersecção de raça e sexo (CRENSHAW,
2002), pode-se considerar a existência de um sistema de sexualidade latino-americano,
marcado pela multiplicidade das experiências sexuais e de gênero (FRY; MAC RAE,
1985; PARKER, 1991), que permite que emerjam categorias fluidas, como é o caso das
travestis. Em que pese este sistema, nossa sociedade é organizada a partir de
classificações que tomam a heterossexualidade como regra. O direito moderno, alegando
apenas representar estas normas de classificação e controle dos sujeitos, contribui para
criá-las, se constituindo como um saber universalizante, que naturaliza um modelo de
sujeito e exclui de seu âmbito de proteção quem não corresponde a ele. Diante deste
quadro, diversas questões têm sido levadas aos tribunais para que o Estado se posicione
com relação ao reconhecimento de direitos de travestis. Estas demandas estão
relacionadas à concretização do mandamento constitucional antidiscriminatório e das
previsões normativas que buscam efetivar este preceito a partir dos critérios proibidos.
Esta pesquisa busca responder a seguinte questão: os critérios proibidos de
antidiscriminação adotados pelo Estado brasileiro para tratar da travestilidade contribuem para
sua não discriminação ou acabam por subalternizá-las?Como objetivos, pretende-se:
identificar por qual(is) critério(s) proibido(s) de discriminação o direito brasileiro
compreende a travestilidade e quais as consequências desta categorização. Para tanto,
foram analisados os instrumentos normativos que utilizam os conceitos de sexo, gênero
e sexualidade, bem como a jurisprudência sobre o tema. Como resultados da pesquisa
aponta-se que a aplicação das normas antidiscriminatórias para as travestis têm
consequências distintas conforme o(s) critério(s) proibidos de discriminação invocado(s)
e que a classificação dos sujeitos de forma heterônoma pelo direito é arbitrária,
insuficiente e subalternizante, e, desta forma, a autodeclaração é alternativa para a
compreensão da travestilidade pelo direito.

Palavras-chave: Travestilidade; Critérios proibidos de discriminação; Subalternização.

247
A UNIVERSALIZAÇÃO DE SINGULARIDADES CULTURAIS
COMO IMPEDITIVO A DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA

Júlia Oselame Graf

Há uma linha tênue que separa a recepção de outras culturas e a descaracterização das
mesmas com a imposição de discursos universais hegemônicos. Objetiva-se, neste
trabalho, analisar a universalização de singularidades culturais que dificulta a afirmação
do indivíduo em relação a própria identidade. A partir disso, busca-se ampliar os
horizontes acerca do diálogo intercultural, atendendo o interesse não só da cultura
privilegiada, mas sim do outro historicamente subalternizado que permanece em busca
da identidade. A pesquisa está sendo elaborada a partir de uma abordagem
metodológica decolonial. Parte-se do princípio que é necessária uma ruptura com as
ideologias hegemônicas para criação de alternativas para além do que foi imposto. A
partir disso, almeja-se obter o conhecimento necessário para transformar a realidade
marcada pela subalternização do outro. Não obstante o estudo ainda esteja em fase
inicial, percebe-se que a dignidade da pessoa humana resta ameaçada ante ao não
reconhecimento das diferentes culturas, fato este que tem a aculturação como
consequência. Sendo assim, tem-se por necessária a reflexão acerca da afirmação das
culturas subalternizadas para que o indivíduo encontre sua identidade sem a
interferência marcada pelo poder. Afinal, desconsiderar as diferentes culturas é regredir
tão cegamente a ponto de rasgar todos os dispositivos que salvaguardam a dignidade
da pessoa humana.

Palavras-chave: Diálogo intercultural; Dignidade da pessoa humana; Identidade.

248
A CONSTRUÇÃO DO DISCURSO HISTÓRICO DE GÊNERO NOS
CÓDIGOS CIVIL E PENAL BRASILEIRO: A SUBALTERNIDADE
FEMININA

Guilherme Augusto Dos Santos Figueredo


Raquel Fabiana Lopes Sparemberger
Bernard Constantino Ribeiro

O presente trabalho tem por objetivo, analisar o discurso jurídico presente nos códigos
civil e penal, sobretudo a partir dos anos de 1940, perpassando pelo período da ditadura
civil-militar (1964-1985), e pelos anos da década de 90 do século XX, com enfoque nos
casos jurídicos tramitados durante esse período, nos quais a honra e a dignidade
feminina era questionada ou garantida dentro de uma conjuntura moral, de perspectiva
masculina e conservadora, que insiste em resistir e se reafirmar no corpo textual dos
códigos atuais. A reivindicação da igualdade de gênero é uma luta antiga das mulheres
e que hoje é tema recorrente de debates políticos e sociais na sociedade e também no
meio acadêmico. A subjugação feminina foi validada juridicamente em nossos códigos,
através de leis que tinham como objetivo garantir a honra das mulheres dentro da
perspectiva de honra feminina daquela época. Nesse sentido, estavam presentes os
crimes de defloramento e de sedução, que se apresentavam como mecanismos de
“limpeza” da dignidade feminina. Sendo assim, o intuito do trabalho é analisar a
construção dos discursos histórico-jurídicos e entender a caminhada das mulheres rumo
a garantia de seus direitos, de forma consoante com o seu entendimento de sua própria
realidade. A pesquisa discorrerá sobre a subjugação da mulher na legislação brasileira,
em uma perspectiva histórica da epistemologia jurídica brasileira. Alguns artigos a
serem analisados serão os artigos 217, 267, 268 do Código Penal de 1890 e também, o art.
108 do Código penal de 1940. Sem dúvidas tais artigos já foram revogados, mas
persistiram por muito tempo no ordenamento jurídico brasileiro, tendo o artigo 108
supracitado sido revogado somente em 2005. Para o desenvolvimento do trabalho será
adotado o método dialético e a técnica de pesquisa será bibliográfica e documental sobre
o tema.

Palavras-chave: Subalternidade; Defloramento; Crime de sedução.

249
A INSURGÊNCIA DECOLONIAL FRENTE A NEGAÇÃO DO
DIFERENTE: A (RE)CONSTITUIÇÃO DE UM NOVO DIREITO A
PARTIR DA EMERSÃO DAS CAMADAS SOCIAIS
MARGINALIZADAS

Bernard Constantino Ribeiro


Raquel Fabiana Lopes Sparemberger
Guilherme Augusto dos Santos Figueredo

A presente temática tem por objetivo, destacar a necessidade de abordagens


transdisciplinares no Direito, no que tange à tentativa de desconstrução do arsenal
estigmático perpetrado pela política criminal brasileira, pautada na seletividade penal e
no etiquetamento social como forma de manutenção do status quo. Parte-se da
importância dos estudos da ética da libertação e do pluralismo jurídico para a superação
da dicotomia opressor versus oprimido, com a consequente legitimação da
decolonialidade; bem como do reconhecimento dos movimentos sociais contra
hegemônicos latino-americanos como protagonistas dessa quebra do modelo jurídico
tradicional, convergindo na proposição de (re)constituição de um novo paradigma
pautado na participação dos marginalizados, em relação aos seus problemas, projetando
o marginal para dentro do Direito, sem contudo negá-lo, subalternizá-lo ou normatizá-
lo. A crescente morte de negros, conforme aborda o relatório final da CPI do Senado
sobre o assassinato de jovens, mostra que “todo ano, 23.100 jovens negros de 15 a 29 anos
são assassinados. São 63 por dia. Um a cada 23 minutos” (ESCÓSSIA, 2016). Aliado a
essa questão, se apresenta atualmente em nosso contexto social um contínuo processo
legalista e colonialista de afirmação e propagação do Direito dependente da norma e de
sua respectiva estipulação constitucional. Mantém-se no Direito uma inepta função
legislativa, incapaz de adequar-se à realidade social ao não permitir a participação direta
dos indivíduos na construção deste mecanismo de controle social. O jovem negro
periférico que precisa delinquir para sobreviver – como consequência da negação
paulatina de oportunidades –, se vê normatizado por uma regra que não o comtempla,
pois nunca ‘assinou’ o pacto civil de sujeição e proteção estatal cunhado pela sociedade
burguesa colonialista. Em outras palavras, o jovem que é desprotegido e renegado pelo
Direito (enquanto locus da sociedade branca) não obedece ou segue a norma, já que tal
foi pensada para lhe reprimir e não para lhe oportunizar um modo digno de viver. A
metodologia a ser adotada é a metodologia decolonial e a técnica de pesquisa
bibliográfica.

Palavras-chave: Decolonialidade; Direito; Jovem.

250
POVOS INDÍGENAS/TRADICIONAIS E
DECOLONIALIDADE: NOVAS PERSPECTIVAS
CÓDICES E PRÁTICAS SOBRE A QUESTÃO INDÍGENA NO
BRASIL

Cíntia Régia Rodrigues

O objetivo do trabalho é refletir sobre os discursos produzidos em torno da questão


indígena e da diversidade étnico cultural no Brasil após o processo de elaboração da
constituição de 1988. Ao longo do processo de colonização da América espanhola e
portuguesa, construiu-se uma identidade para as populações nativas. A identidade se
expressa através dos signos, que definem a ideia e o sentimento de pertencer a um grupo
e a alteridade. As construções de “índio” foram estruturadas a partir dos signos e
significados que estavam contidos na própria cultura europeia. Busca-se nesse sentido
perceber o lugar do índio no contexto do debate em torno da pluralidade étnico-cultural
brasileira que se estabeleceu em diversos setores da sociedade nacional. Dentre eles,
abordar-se-á o setor político jurídico, o status do Índio e também o campo das políticas
públicas educacionais, especialmente com a implementação da Lei 11.645 de 2008, esta
que torna obrigatório o ensino da história e da cultura das populações indígenas na
educação básica brasileira. Para tanto serão utilizadas fontes diversas, como artigos,
teses, leis, dentre outros, para a ponderação da referida proposta. Por fim, pretende-se
contribuir para o diálogo em torno dos estudos étnicos e da participação do índio na
história do Brasil

252
ENSAIOS E PRÁTICAS INSTITUCIONAIS DE BEM VIVER NOS
ANDES DA AMÉRICA DO SUL

Walmir Pereira

Reconhecendo que os povos indígenas originários de Abya yala fundamentam seus


modos de vida, existencialidades, cosmologias e cosmovisões em sinergia conexa à
natureza o estudo tem como objetivo a identificação das experiências contemporâneas
vigentes, gestadas nos e pelos Estados Nacionais boliviano e equatoriano, de
institucionalização da ideia categorial de bem viver/buen vivir – sumak kawsay e suma
qamaña - nos espaços jurídico constitucionais da ocidentalidade moderna e ancestrais
tradicionais dos povos e coletivos Aimarás e Quéchuas na região Andina, coração da
America do Sul, em campo político cultural dominial latino americano. Neste
contexto social histórico o approach analítico incide na problematização das expressões
de potencia civilizacional emancipatória da perspectiva indígena do bem viver/buen
vivir, assim como nos riscos concretos da extensão de padrões tradicionais de
desenvolvimento e neo desenvolvimentismo em âmbito social e estatal sul/latino
americano, em particular de natureza neoextrativa e reprimarizadora.

Palavras-chave: Bem viver; Andes.

253
COLONIALIDADE E DESENVOLVIMENTO: O IMPACTO SOBRE
OS POVOS INDÍGENAS

Edemir Braga Dias

Na história do Brasil, a tendência tem sido desconsiderar a vontade dos povos nativos,
sobressaindo-se o interesse da sociedade envolvente, que buscava dominar tudo e todos,
em especial, minorias. Isso desencadeou um pensamento colonialista que perdura na
atualidade, muitas vezes tendo o Estado como promotor e grande responsável pela sua
manutenção. Uma das faces dessepensamento é a implementação de grandes
empreendimentos, tal como as usinas hidrelétricas e o agronegócio, onde a natureza é
vista apenas como um meio para alcançar o desenvolvimento, sem observar os impactos
ambientais que geram transformações sociais que afetam vários grupos humanos, dentre
eles encontramse os povos indígenas, em especial, devido sua íntima relação com a
natureza, base de sua vida e cultura. Para compreender como os grandes
empreendimentos afetam os povos indígenas dos locais onde são projetados, através de
um estudo hipotético dedutivo, a pesquisa busca analisar como a transformação do
espaço físico natural transforma a vida dos povos impactados por tais projetos e como
o Estado tem se comportado diante desse panorama. Constata-se que, ao se transformar
a natureza transforma-se também o modo de viver dos povos indígenas, podendo,
inclusive, comprometer a existência física e cultural deles. Por fim, observa-se que a
iniciativa privada e poder público, intentam sobrepujar anatureza e, por consequência,
os povos indígenas, com obras construídas sob o discurso da necessidade
de desenvolvimento do país, menosprezando quaisquer manifestações que contrariem seus
interesses. Assim, resta, aos grupos impactados e aos simpatizantes de suas lutas, a
resistência diante desse projeto de destruição da natureza e da cultura dos povos
indígenas e pensar uma novarelação entre seres opressores/superiores e seres
oprimidos/inferiores, além de novas formas de expressão para que possam se fazer
ouvir e respeitar seus direitos e interesses.

Palavras-chave: Colonialidade e desenvolvimento; Povos Indígenas; Resistência; Meio


Ambiente; Hidrelétricas.

254
CULTURAS E DIREITO EM CONFLITO: CONTRIBUIÇÕES E
LIMITES DA TEORIA DA TRANSCONSTITUCIONALIDADE
FRENTE AO DEBATE DA TERRITORIALIDADE DE POVOS
INDÍGENAS

Edemir Braga Dias


Rosângela Angelin

Os colonizadores do Novo Mundo imprimiram uma cultura diferente que impactava com
a forma de viver dos povos originários desse território, criando uma relação de poder
díspar: iniciou-se um processo para civilizar os povos locais, tendo como marco fundante
a religião católica. As terras ocupadas pelos povos originários foram usurpadas e
distribuídas conforme interesses da Coroa Portuguesa. Por conseguinte, desde a
colonização do território brasileiro, trava-se uma luta cultural e jurídica, por vezes
silenciosa ou silenciada, envolvendo o espaço territorial ocupado pelos colonizadores,
seus descendentes e os povos que foram despossados de suas terras. Para compreender
melhor os conflitos que seguem em torno de aspectos culturais e jurídicos, através de
um estudo hipotético dedutivo, baseado em aspectos histórico-culturais e leituras
jurídicas, analisa-se qual é a influência da cultura colonizadora europeia nas relações
sociais e nas disputas territoriais e de uso e acesso a bens naturais pelos povos indígenas.
O estudo remete a algumas constatações: a) a ideologia colonizadora e discriminatória
contra os povos indígenas segue no imaginário e nas ações no Brasil, renegando uma
postura diacrônica frente a história; b) as legislações brasileiras têm sido, em sua maioria,
integracionistas, desrespeitando povos indígenas e afastando a possibilidade de um
tranquilo convívio social c) a cosmovisão indígena acerca da territorialidade e do uso
dos recursos naturais foge das perspectivas liberais de propriedade, gerando muitos
conflitos, como os ocorridos com o povo Mb’ya-Guarani da Tekoa Koenju, do Município
de São Miguel das Missões/RS, e os proprietários lindeiros destas terras, pois os
primeiros não reconhecendo limites territoriais, adentram nas propriedades dos
lindeiros para buscar matéria prima para seus artesanatos. É fato que os conflitos
culturais e jurídicos são eminentes e o direito não tem logrado dirimi-los de forma
adequada. Atualmente a teoria da transconstitucionalidade tem se demonstrado uma
alternativa para a construção de um diálogo intercultural, dando uma atenção especial
para culturas que se encontram à margem do próprio constitucionalismo, como a dos
povos indígenas, buscando pontos de encontro entre ordens normativas diferentes, por
meios extrajudiciais. Porém, como limite e desafio a esta teoria encontram-se as relações
díspares de poder num possível diálogo.

Palavras-chave: Conversações culturais; Povos indígenas; Transconstitucionalidade;


Territorialidade; Povo M’bya Guarani da Tekoa Koenju.

255
PERFURANDO O SISTEMA: LUTAS INDÍGENAS NA AMÉRICA
LATINA E INSTITUCIONALIDADES INTERCULTURAIS
SUBALTERNAS

Maurício Hashizume

Pesquisas empíricas qualitativas realizadas junto com comunidades e organizações


indígenas no Brasil e na Bolívia permitem o desenho de um quadro em que se
evidenciam experiências de construção de institucionalidades interculturais subalternas
que estão sendo, cada qual com suas especificidades, nem totalmente dentro e nem
inteiramente fora das estruturas e iniciativas estatais. No caso da Bolívia, essa estratégia
tem um desenho mais nítido no formato das autonomias indígenas, originárias e
camponesas (AIOCs), consagradas pela nova Constituição Política do Estado
promulgada em 2009. As autonomias formam parte de um amplo leque de
reivindicações em linha com a macro-proposta do Estado Plurinacional pleiteado por
parte de entidades, organizações e movimentos sociais que vêm protagonizando um
ciclo de processos políticos, econômicos, culturais e sociais em curso no país. As/os
comunárias/os de Raqaypampa, território reconhecido oficialmente como Terra
Indígena Originária Camponesa (TIOC) e que por ora faz parte da jurisdição do
município de Mizque, no Departamento de Cochabamba, seguem na luta para que
possam se constituir formalmente como uma autonomia. Esse esforço vai muito além de
um reconhecimento burocrático: tem a ver, entre outros temas, com a construção de
novas institucionalidades subalternas que, no seu extremo, subvertem a própria noção
de institucionalidade. Com relação ao Brasil, esse esforço pela consolidação de novas
institucionalidades segue um caminho distinto. No contexto com o qual se dialogou
durante pesquisa para tese de doutorado, as lutas pelos territórios (notadamente a
confirmação da área contínua da Raposa Serra do Sol, que se prolongou por décadas até
o ato final do julgamento das 19 condicionantes, em setembro de 2013) deram ensejo a
um amplo conjunto de aproximações com instituições estatais e nãoestatais. A meu ver,
essa estratégia pensada, assumida e implementada pelas organizações, grupos e
comunidades indígenas – que teve na garantia dos direitos diferenciados (inclusive a
posse de territórios tradicionalmente ocupados) da Constituição Federal de 1988 a sua
principal pedra de toque - também pode se configurar como uma espécie de nova
institucionalidade com ancoragem nas políticas de educação e de saúde (sem que seja
completamente internalizada pela ordem institucional oficial; na realidade, em tensão
permanente com a mesma).

Palavras-chave: Lutas indígenas; Descolonização; Interculturalidade;


Institucionalidades subalternas; América Latina.

256
SAÚDE INDÍGENA E DIREITOS HUMANOS

Priscila de Aguiar
Mirian Vergueiro
Roseni Mariano

Objetivando denunciar os paradigmas nefastos, ainda muito presentes na sociedade


contemporânea, enfrentados pelos povos indígenas, faz-se urgente olhar para estes
dentro dos pressupostos dos Direitos Humanos de que todo ser humano tem direito a
ter direitos, ressaltando que aos povos indígenas ainda lhes são conferidos os
etnodireitos. Ao abordarmos o tema saúde dos povos indígenas no Brasil, podemos
observar que são diversas as violações aos seus direitos - de fato a estes não chega a
universalidade, equidade, integralidade do Sistema Único de Saúde (SUS). No presente
trabalho apontamos as tensões, reveladas pelo preconceito, pelo desconhecimento dos
etnodireitos, bem como as falhas da aplicação das políticas públicas pelos agentes
públicos e profissionais da saúde, que são, por vezes, supridas por entidades não
governamentais sensibilizadas com a situação em que se encontram esses povos. Mesmo
após a consolidação do SUS no país, há total violação de direitos no atendimento às
populações indígenas. Apontamos também, negligências do Estado, quando não lhes
garantem o território, inviabilizando aos povos a saúde no sentido mais amplo, que é,
segundo a OMS, “saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não
apenas a ausência de doença ou enfermidade”. Neste sentido, pretendeu-se com esse
trabalho, problematizar as questões relativas à saúde indígena assim como indagar sobre
a realidade do respeito à legislação sobre esses povos pelo Estado brasileiro.

Palavras-chave: Saúde Indígena; Etnodireitos; Direitos Humanos.

257
RECONHECIMENTO JURÍDICO DAS TERRITORIALIDADES
ESPECÍFICAS DOS POVOS TRADICIONAIS COMO
PROPRIEDADES: APLICAÇÃO EM CONFLITOS
SOCIOAMBIENTAIS

Julio Jose Araujo Junior

Partindo de conceitos como colonialidade do poder, de Aníbal Quijano, e sociologia das


ausências e das emergências, de Boaventura de Sousa Santos, e tendo
a interculturalidade crítica, de Catherine Walsh, como horizonte e projeto de
descolonização, mediante tanto a construção de um processo que venha de baixo para
cima quanto a subversão epistêmica constante que busque as brechas ou fissuras em um
universo aparentemete hostil a concepções não-hegemônicas, o trabalho pretende fazer
uma reflexão sobre as territorialidades específicas dos povos tradicionais, destacando
suas peculiaridades e caminhadas históricas e a necessidade de fuga de certos
essencialismos na sua caracterização, com aproximações e distanciamentos quanto a
conceitos como vivir bien/buen vivir,próprios do novo constitucionalismo latino-
americano. O objetivo principal é inserir as territorialidades na conceituação e
caracterização de propriedades e posses, de forma a abarcar as diversas formas, visões e
saberes sobre a relação com a terra, o que implica pensar formas de interação, não
hierarquização e de convivência dessas propriedades. Para tanto, buscam-se referências
na jurisprudência da Corte Interamericana de Direitos Humanos, da Corte
Constitucional da Colômbia, do Tribunal Constitucional Plurinacional da Bolívia e da
Corte Constitucional da África do Sul. Lançam-se e analisam-se, então, algumas
possibilidades de compreensão de assuntos relevantes no campo jurídico para a
realidade atual de povos tradicionais no Brasil, como uma nova configuração para
demandas possessórias entre propriedades/posses de distinta natureza, diretrizes para
uma maior efetivação da tradução intercultural, possibilidades de ponderação e
conferência de status prima facie quanto a propriedades que não tenham caráter
existencial, a compreensão alargada do conceito de mínimo existencial e a ampliação dos
instrumentos de regularização fundiária para a garantia de maior autonomia às
comunidades.

Palavras-chave: Povos tradicionais; Propriedades; Territorialidades específicas.

258
SABERES INDÍGENAS NA ESCOLA: FORMAÇÃO E
INTERCULTURALIDADE

Ana Lucia Castro Brum


Magali Mendes de Menezes

O tema deste trabalho é a formação continuada para professores indígenas kaingang e


guarani que atuam nos anos iniciais do ensino fundamental e/ou com os conhecimentos
e a língua originária de cada povo. O campo empírico da pesquisa é o programa de
extensão Saberes Indígenas na Escola do MEC, que se destina à formação de professores
indígenas, conforme a portaria 98 de dezembro de 2013, da SECADI/MEC. A formação
Saberes Indígenas na Escola não é somente uma formação continuada para a
alfabetização, mas uma para a vida indígena, dos povos originários do Brasil, que nos
apresenta uma concepção de filosofia intercultural como base desta construção. Nesta
experiência, o(a) professor(a) indígena é o protagonista de todo o processo. São
escolhidos professores(as) indígenas para atuar junto aos seus povos como orientadores
de estudo, também participam os sábios indígenas reconhecidos como pesquisadores,
responsáveis por articular os saberes ancestrais na formação dos(as) professores(as). A
escola passa a ser o lugar da interculturalidade, como uma instituição que não é
indígena, e aos poucos, se inventa, desde os saberes indígenas, como um espaço de
importância para estes povos. Pensadores latino-americanos como Fornet-Betancourt,
Kusch e Freire, afirmam que é apenas através do diálogo entre os povos, de uma
profunda interação, que a interculturalidade concretiza-se como um caminho de
esperança. O diálogo intercultural busca o enriquecimento mútuo, pelo respeito ao
diferente, pressupõe a alteridade – encontrar o outro – com base no respeito e na
solidariedade. Na educação indígena o diálogo intercultural, se dá na autonomia dos
povos indígenas, quando eles são os atores da educação, da práxis onde existe o respeito
pela identidade do seu povo. Mas de que modo os diálogos interculturais tornam-se uma
práxis libertadora? A formação Saberes Indígenas na Escola é um espaço de diálogo com
os(as) professores(as) indígenas. O diálogo com o povo indígena não é só necessário,
como urgente, mas depende de uma atitude humanizadora, a partir de uma educação
de humanização. Temos que lutar por uma educação indígena que vai ao encontro de
uma educação libertadora onde todos(as) se libertam em comunhão, mediatizados pelo
Mundo.

Palavras-chave: Formação; professor indígena; Interculturalidade; Libertação.

259
A COLONIZAÇÃO E A PERDA LINGUÍSTICA DOS POVOS
INDÍGENAS NO SUL DO BRASIL DESDE O SÉCULO XVI

Jeanice Rufino Quinto


Jaílson Bonatti

A pretensão desta investigação é apresentar, através de um estudo bibliográfico, um


panorama sobre a presença dos povos originários na região do Médio Alto Uruguai do
estado do Rio Grande do Sul, desde o século XVI com a chegada dos jesuítas no atual sul
do Brasil. Nesse período os indígenas pertencentes a esta região geográfica sofreram
uma forte interferência através do processo de doutrinação, apropriação e colonização
dos costumes, tradições e crenças oriundas da ancestralidade desta etnia. Além de
inúmeras modificações na dinâmica social desses grupos, observou-se, primeiramente,
que ocorreu uma perda da identidade linguística dos povos guaranis com a alfabetização
do idioma espanhol através da doutrinação jesuítica. Uma vez que, no século XVI, tem-
se o registro de mais de mil idiomas indígenas no Brasil. Com a chegada dos imigrantes
europeus na América Latina no século XIX, o Brasil sofreu novamente uma perda
linguística, reduzindo-se para pouco mais de 270 idiomas indígenas. No século XX, com
as políticas do governo de Getúlio Vargas, o populismo, toda a população brasileira foi
obrigada a falar somente o idioma Português. Os resultados desses três momentos
citados nos fazem pensar como o processo de colonização gerou danos irreparáveis à
cultura e principalmente à identidade linguística dos povos originários. No século XXI,
apenas uma minoria dos povos indígenas busca a preservação de suas línguas maternas.
Entre as poucas existentes no sul do Brasil, temos a Kaingang, que faz parte de um tronco
linguístico Macro-Jê e a Guarani, que faz parte do tronco linguístico Tupí. Percebe-se que
o descaso com a extinção da língua desses grupos indígenas, fez com que o indígena
nativo fosse excluído e marginalizado por outras culturas, consideradas superiores, que
se apropriaram dos bens materiais e imateriais. Neste âmbito, reafirmamos a
importância de resgatar e salvaguardar a herança indentitária linguística dos povos
originários, que foram colonizados durante séculos de história e que precisam passar
por um processo de descolonialidade para ressignificar suas origens.

Palavras-chave: Cultura; Indígenas; Linguagem; Colonização; Descolonialidade.

260
CONHECIMENTOS TRADICIONAIS KAINGANG NAS TERRAS
INDÍGENAS JAMÃ TŸ TÃHN/ESTRELA, PÓ NÃN MÁG E KA
MÁG/FARROUPILHA, RIO GRANDE DO SUL/BRASIL:
PERMANÊNCIAS E (RE)SIGNIFICAÇÕES NOS FIOS DOS TEMPOS

Juciane Beatriz Sehn da Silva


Marina Invernizzi
Luís Fernando da Silva Laroque

Localizados tradicionalmente na porção centro sul do Brasil Meridional, os Kaingang


são uma etnia indígena do tronco linguístico Jê, cuja densidade populacional atinge
aproximadamente 38 mil indivíduos. Delimitando como recorte espacial a Terra
Indígena Jamã Tÿ Tãhn, situada na cidade de Estrela/RS e as Terras Indígenas Pó Nãn
Mág e Ka Mág, ambas localizadas na cidade de Farroupilha/RS, o estudo tem por
objetivo apresentar alguns conhecimentos tradicionais perpetuados e/ou
(re)significados pelos Kaingang das Terras Indígenas Jamã Tÿ Tãhn, Pó Nãn Mág e Ka
Mág em contextos urbanos. A motivação para o estudo parte do seguinte problema:
Mesmo impactados pelos projetos colonialistas ocidentais, em que medida os
conhecimentos tradicionais indígenas são recorrentes de construções culturais e
inerentes ao cotidiano Kaingang? A metodologia consiste em um estudo qualitativo e
descritivo. Dentre os procedimentos metodológicos destaca-se a revisão bibliográfica
sobre os Kaingang, bem como levantamento e análise de fontes documentais que se
encontram junto ao Ministério Público Federal de Lajeado e de Caxias do Sul. Realizou-
se também pesquisa de Campo nas Terras Indígenas, e observações participantes com a
elaboração de diários de campo, registros fotográficos e entrevistas com base na
metodologia de História Oral. Dentre os resultados parciais obtidos, os quais foram
analisados com base em teóricos da cultura, etnicidade, cosmologia e da
interculturalidade, estão as nomenclaturas das Terras Indígenas, que seguem uma lógica
simbólica própria dos Kaingang, pois Jamã Tÿ Tãhn significa “os coqueiros que vivem
ali”, Pó Nãn Mág significa “morros e montanhas próximos de nós” e Ka Mág “árvore
grande que está aqui”; a prática da reciprocidade intra e interaldeã; a organização
sociopolítica, seguindo uma hierarquia própria; a permanência de conhecimentos de
etnobotânica; e a pedagogia do afeto a terra.

Palavras-chave: Kaingang; Interculturalidade; Cosmologia; Terras Indígenas.

261
POVOS INDÍGENAS: RELATIVISMO CULTURAL E DIREITOS
HUMANOS

Rodrigo Mariano
Janaína Soares Schorr

Hodiernamente, há grande discussão entre estudiosos no que tange os Direitos


Humanos e o relativismo cultural, especialmente quando se trata dos povos originários,
em face da desconsideração quanto aos aspectos próprios de uma cultura, consequência
da concepção ocidental de mundo, que, muitas vezes, olvida da multiplicidade cultural
existente. Desde os primeiros anos de colonização, esses povos têm enfrentado barreiras
para a manutenção de suas culturas, tanto pelo sistema de tentativa de integrá-los à
sociedade como também pelos ataques aos seus direitos conquistados durante longo
período, o que acontece até hoje. Na atualidade, se estabelece uma dialética quanto ao
impacto da incidência dos Direitos Humanos, na tentativa de ampará-los, em seu modo
de vida, sem desconsiderar que há necessidade do apoio às comunidades tradicionais
originárias, para que seus direitos não sejam totalmente violados, partindo desses
princípios fundamentais. A partir dessa perspectiva, abre-se a discussão que tende a
externar até que ponto pode a Declaração Universal dos Direitos Humanos incidir sobre
uma determinada cultura e qual o impacto nas comunidades originárias. Não há
dúvidas da essencialidade de se ter como fonte balizadora da guarda de seus direitos, os
princípios universais, contudo, por outro lado, é cada vez mais urgente a cautela ao se
relacionar com outra cultura, visto ser essencial que se estabeleçam diálogos com esses
povos, buscando respeitar suas especificidades e costumes próprios, para que esse
auxílio não seja da mesma forma, integracionista, e, por consequência, extremamente
prejudicial. Enfim, conclui-se que, embora haja uma necessidade evidente da
aplicabilidade dos Direitos Humanos sobre aos povos indígenas esta deve ser feita com
cautela, respeitando as especificidades existentes nesses grupos.

Palavras-chave: Povos indígenas; Direitos humanos; Relativismo Cultural.

262
COSMOVISÕES E TERRITÓRIOS EM DISPUTA: UMA ANÁLISE
DOS CONFLITOS ENTRE OS GUARANI E KAIOWÁ E
LATIFUNDIÁRIOS NO MATO GROSSO DO SUL

Pedro Bigolin Neto


Fernanda Frizzo Bragato

As disputas territoriais envolvendo povos colonizados e colonizadores não representam


nenhuma novidade no cenário americano. De fato, são inclusive constitutivas da própria
noção de América. Ademais, tais conflitos não se dão somente no âmbito material: estão
também relacionados às cosmovisões – e as narrativas delas resultantes – que concernem
os distintos grupos antagonizados. Ainda que se alterem os atores conforme os casos, é
possível identificar traços significativos de choques constantes entre uma perspectiva
moderna e outra, tradicional. No presente, a intensidade destes conflitos – e a
necessidade de reflexão – pode ser bem percebida no Mato Grosso do Sul, onde os
Guarani e Kaiowá e latifundiários expõem suas visões acerca de terra e território e se
desdobram as mais variadas formas de embates e resistências. O objetivo deste trabalho
é compreender como as diferenças entre as cosmovisões geram efeitos na materialidade
através do tempo. Para tanto, serão expostas as perspectivas de ambas categorias de
atores sociais, assim como a situação fática dos conflitos para, posteriormente,
demonstrar como uma dimensão repercute na outra. Pela posição hegemônica adquirida
pela modernidade, tanto no âmbito discursivo quanto material, a tendência é que ela se
sobreponha e, quando levada ao extremo, prejudique severamente ou até aniquile as
demais formas de pensamento/vida. Além disso, o direito compartilha elementos
modernos com o agronegócio e seus agentes detêm influência sobre a elaboração e a
aplicação das leis. Com isso, evidencia-se a possibilidade de redução dos direitos das
comunidades tradicionais. A pesquisa é de cunho bibliográfico e documental.

Palavras-chave: Direitos territoriais; Guarani e Kaiowá; Modernidade; Cosmovisão.

263
INFORMAÇÃO AMBIENTAL SUSTENTÁVEL COMO
ALTERNATIVA PARA A PROTEÇÃO DOS CONHECIMENTOS
TRADICIONAIS: OS PROTOCOLOS BIOCULTURAIS
COMUNITÁRIOS E OS BANCOS DE SABERES LATINO
AMERICANOS

Francielle Benini Agne Tybusch

Em um cenário marcado por inquietudes, pelo avanço da tecnologia e por novos meios
de apropriação do conhecimento, a área compreendida pelo Sul Social, por apresentar
rica biodiversidade, caracteriza-se por apresentar campos de disputa de ordem não
somente jurídica, mas também econômica. Diversas legislações, Tratados e Acordos
possuem como objeto de seu texto normativo, a biodiversidade. No entanto, inúmeros
são os desafios para que os instrumentos jurídicos existentes sejam adequados e efetivos,
em virtude das lacunas criadas através de interesses econômicos que acabam por deixar
a biodiversidade em condição vulnerável. Organizações Civis e Não Governamentais,
Comunidades Tradicionais diante da insegurança legislativa buscam por alternativas de
proteção para os saberes tradicionais. Desta forma o trabalho tem o intuito de buscar
alternativas para a pretendida emancipação através da informação ambiental, se
utilizando de alguns mecanismos de informação participativa geradora da participação
informada. Assim, através de alternativas transitórias de proteção aos conhecimentos,
tais como o banco de saberes e os protocolos bioculturais comunitários, a informação
como ferramenta de emancipação possibilita aos povos indígenas e comunidades
tradicionais, uma ampliação de sua participação, provocando um diálogo
intercultural. Como resultados, constatou-se que a informação ambiental sustentável é
instrumento essencial para que exista a possibilidade de emancipação dos povos
tradicionais e a proteção de seus saberes; as alternativas para que a reapropriação do
saber se concretize como meio de resistência e empoderamento consiste em realizar de
modo comunitário, ou seja, da comunidade para a comunidade tradicional, a criação de
bancos de saberes e protocolos bioculturais comunitários. Estas alternativas atuariam
como ferramentas protetivas do saber tradicional, da cultura e do direito a diferença dos
povos e comunidades tradicionais.

Palavras-chave: Informação ambiental sustentável; Conhecimentos tradicionais;


Protocolos bioculturais comunitários; Banco de saberes.

264
ESTUDOS DECOLONIAIS IMERSOS NAS COMUNIDADES
QUILOMBOLAS DA CIDADE DE PIRATINI-RS

Nathércia Pedott
Jefferson Soares Galvão
Nara Beatriz Matias Soares

O padrão de conhecimento instaurado na maioria das sociedades segue o modelo


europeu. Desde a época colonial persiste-se na valoração do saber, subalternizando os
que não fazem parte do mundo eurocentrista, detentor do conhecimento
hipoteticamente neutro. Esse trabalho objetiva avaliar qual o impacto causado pela
imposição cultural eurocentrada dentro da comunidade quilombola de Piratini – RS. A
importância primordial deste estudo se dá pela bagagem cultural riquíssima que os
povos quilombolas possuem, a qual reclama não ser perdida em detrimento de um
pretenso saber universal. Para tanto, questionamos quais suas principais práticas
culturais originárias e como elas têm sido perpetuadas entre as gerações.A pesquisa é de
índole dedutiva, valendo-se de fontes bibliográficas e pesquisa de campo. Tivemos como
marco teórico o trabalho de Colaço; Damásio (2012), na obra intitulada “Novas
Perspectivas para a Antropologia Jurídica na América Latina: o Direito e o Pensamento
Decolonial”. A pesquisa de campo é decorrente da efetivação do Projeto de
Pesquisa MCTI/CNPQ/Universal 14/2014 - Quilombolas do Sul do Rio Grande do Sul:
seus saberes e efetivação da continuidade cultural como suporte ao desenvolvimento
sustentável.O saber tradicional dos quilombos foi inicialmente desenvolvido longe do
sistema colonialista e em oposição a este, constituindo hoje parte do patrimônio cultural
imaterial. Dentre esses saberes, citamos: o modo de produção e preparo de alimentos,
com formas alternativas de conservar os grãos para o plantio; criação de benzeduras e
produtos medicinais a partir de ervas visando o cuidado com a saúde; rituais pelo
nascimento e morte dos integrantes do grupo. Com este trabalho, não temos a intenção
de levar o saber eurocêntrico à comunidade quilombola, mas decolonizar o
conhecimento, trazendo a tona os saberes da comunidade tradicional.No entanto, a
lógica colonial é tão impregnada e arraigada na população que encontramos
dificuldades quanto ao interesse dos integrantes mais jovens em manter os saberes
tradicionais dos antepassados. Conforme Colaço; Damásio (p. 187, 2012) “Decolonizar o
conhecimento não é tão simples, pois a colonialidade é mais sutil e complexa do que
geralmente se pensa”.

Palavras-chave: Quilombolas; Decolonialidade; Comunidade tradicional.

265
O ENSINO DE HISTÓRIA E CULTURA INDÍGENA NOS CURSOS
DE HISTÓRIA DAS UNIVERSIDADES DO ESTADO DE SANTA
CATARINA

Luisa Tombini Wittmann


Stéfani Dias Leite
Kerollainy Rosa Schütz

Após a outorga da Lei Federal 11.645 em 10 de março do ano de 2008, que incluiu e
tornou obrigatório no currículo das escolas brasileiras o ensino da temática indígena,
tornou-se necessária para a formação adequada de professores uma adaptação do
currículo pedagógico dos cursos de licenciatura, visando abordar aspectos da história,
cultura e luta das populações originárias.Nesse sentido, a pesquisa intitulada “Ensino
de História Indígena: realidade, desafios e possibilidades” tem como objetivo investigar
os conhecimentos relacionados à temática indígena presentes nos componentes
curriculares dos cursos de História das Instituições de Ensino Superior do Estado de
Santa Catarina. O escopo é compreender como a História Indígena tem sido (ou não)
trabalhada a partir da Lei Federal 11.645 nas universidades públicas, comunitárias e
privadas catarinenses, tendo em vista a responsabilidade das IES em formar
profissionais que atuarão na Educação Básica. Para realizar a análise, as universidades
do estado foram catalogadas e identificadas separadamente por disciplinas diretamente
relacionadas à temática, como História Indígena, Cultura Indígena no Brasil e
Arqueologia Pré-histórica. Em seguida foram analisados os projetos pedagógicos dos
cursos de História, disponibilizados pelas diferentes instituições, e a formação, produção
e atuação dos(as) professores(as) que lecionam a disciplina.Qual é a área dos(as)
professores(as) universitários que ministram disciplinas relacionadas à temática
indígena, quais são os conteúdos trabalhados em sala-de-aula, quais são os desafios e as
perspectivas desse campo de ensino, quais as implicações da referida lei para o ensino
superior? Estas são algumas das questões que esta pesquisa investiga. Esta apresentação
estará centrada nos resultados da análise dos planos de ensino e da bibliografia utilizada
nas disciplinas de História Indígena (e afins) e produzida pelos professores(as). Será
analisado especificamente o uso de materiais específicos produzidos pelos próprios
indígenas nas disciplinas, entendendo que o conhecimento de narrativas indígenas
diversas colabora com a construção de uma visão decolonial da história do Brasil.

Palavras-chave: História Indígena; Ensino Superior; Santa Catarina.

266
O QUILOMBOLA COMO SUJEITO DE DIREITO: ENTRE A
PECULIAR ORGANIZAÇÃO SOCIAL DA COMUNIDADE E A
ADEQUAÇÃO INSTITUCIONAL ÀS REGRAS DO ESTADO

Leopoldo Rocha Soares

A colonização da América portuguesa teve como uma de suas características a


exploração da mão-de-obra escrava. Inicialmente, escravos eram os nativos americanos
capturados pelos portugueses, genericamente chamados de índios, notadamente
aqueles que não se submetiam voluntariamente ao processo de aculturação. Contudo,
por diversas razões, esses nativos foram paulatinamente substituídos por aqueles que,
vindos do continente africano, não eram reconhecidos como sujeitos de direito pelo
ordenamento jurídico português, consolidando a figura do negro cativo. Desse modo, o
negro ingressou na vida social do Brasil como objeto de exploração pelo ser humano
(res), não havendo condição para a expressão de direitos individuais ou políticos, mesmo
num contexto liberal de mundo, a não ser na marginalidade dos quilombos. A extinção
do regime escravocrata, no final do século XIV, reconheceu formalmente a condição de
sujeito de direito aos negros, sem que houvesse, no entanto, as necessárias condições
materiais para gozarem desse novo status. Nesse aspecto, ganha em importância a
permanência das chamadas comunidades quilombolas, até os dias de hoje, na medida
em que propiciam aos indivíduos remanescentes os elementos materiais de consolidação
de cidadania, por meio de fomento de autoestima e reconhecimento de seus saberes e
dos modos peculiares de vida e de produção de conhecimento. A pesquisa tem como
objetivo analisar as comunidades quilombolas como organizações sociais peculiares e
responder a seguinte questão: é possível reconhecer a titularidade de direitos oriundos
da própria comunidade independentemente de um enquadramento institucional posto,
tal como a figura jurídica das associações, ou a materialização da condição de sujeito de
direito do quilombola deve passar pelas regras institucionais do Estado? A pesquisa se
encontra em fase inicial e pretende utilizar o método etnográfico para investigação da
organização social do Sítio Histórico e Patrimônio Cultural Kalunga, além de apoiar-se
na análise legislativa a partir dos preceitos constitucionais a partir de uma hermenêutica
diatópica e pós colonialista, bem como em revisão bibliográfica, utilizando-se o método
dedutivo para as devidas conclusões.

Palavras-chave: Quilombo; Pluralismo jurídico; Estado; Cidadania.

267
A MONITORIA INDÍGENA NA UFRGS: SEGUNDO LUGAR DE
FORMAÇÃO E TROCAS INTERCULTURAIS

Ana Isabel Melo dos Santos

O trabalho faz parte dos registros das múltiplas vivências e aprendizagens que
ocorreram desde a entrada dos alunos indígenas, a partir de 2008, com monitores que
acolheram os mesmos, dentro do curso de Pedagogia quando foi implantado o programa
de cotas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. arte dos próprios registros da
autora, que faz do seu diário de campo (2012), uma ampliação para que outros monitores
e indígenas contem suas trajetórias de ensino e aprendizagem mútuas dentro da
Universidade Federal do Rio Grande do Sul. A questão de pesquisa é: Como a monitoria
indígena passa a ser um lugar de trocas interculturais dentro do curso de Pedagogia da
UFRGS, levando em consideração os saberes envolvidos entre indígenas e não
indígenas? O objetivo principal é analisar a relevância da monitoria indígena como um
lugar de trocas interculturais e de formação, estabelecendo um novo espaço de diálogo
dentro da universidade, fazendo que estas narrativas de aprendizagem possam ser
ouvidas, discutidas e registradas. Metodologia: Pesquisa qualitativa, escrita
autobiográfica com coleta de dados através do diário de campo. Embasamento teórico:
Betancourt (2005) interculturalidade, Menezes (2011) trocas interculturais e Freire (1997)
conhecimento. Dessa maneira pretendo enfatizar que :O protagonismo indígena que
ocupa nossos espaços educacionais precisa e deve fazer parte de um novo olhar,
suscitando um novo sistema de valores em que todos os envolvidos aprendam juntos
construindo um novo espaço de trocas, partilhando caminhos comuns: a melhoria da
educação.

Palavras-chave: Monitoria indígena; Saberes e trocas interculturais.

268
O STF E A COLONIALIDADE NA FUNDAMENTAÇÃO DA TESE
DO MARCO TEMPORAL DA DEMARCAÇÃO DE TERRAS
INDÍGENAS

Dailor Sartori Junior

No julgamento da Petição 3.388 pelo STF, em 2009, os Ministros confirmaram a


legalidade da demarcação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, mas também criaram
a tese do “marco temporal” e do “renitente esbulho”. As teses afirmam que o direito a
uma terra indígena só deve ser reconhecido quando a área se encontrava
tradicionalmente ocupada na promulgação da Constituição (05/10/1988), a menos que
se comprove o renitente esbulho, ou seja, que os índios tenham sido expulsos e em 5 de
outubro de 1988 estivessem reivindicando seu retorno. Deste então, o marco temporal
vem justificando a anulação de terras indígenas em outros processos. Além de
argumentos jurídico-processuais, também são relevantes conceitos que explicam os
processos epistêmicos de tais retrocessos de direitos. A partir da ideia de colonialidade,
entendida como a face oculta, mas essencial para a constituição da modernidade, e como
processo de classificação social e de divisão do trabalho no capitalismo, com origens na
conquista da América, foram desenvolvidas categorias teóricas que criticam a
estruturação das sociedades latinas a partir das experiências coloniais. Tal processo
reflete-se na hierarquização racial dos sujeitos, na construção do “outro” como inferior
e na validação de conhecimentos eurocêntricos e invalidação dos subalternos. Assim, a
partir de uma abordagem “sócio-histórica crítica”, a pesquisa, de tipo exploratória, busca
responder a seguinte questão: quais são os elementos de colonialidade presentes na
fundamentação da tese do marco temporal da demarcação de terras indígenas pelo Supremo
Tribunal Federal? Para tanto, propõem-se dois objetivos: a) analisar a afirmação do
pensamento descolonial como referencial e seus conceitos-chave como categorias
teóricas aptas a interpretar direitos territoriais indígenas no Brasil; e b) discutir a
fundamentação da tese a partir dos casos já julgados pelo STF, considerando as
dimensões da colonialidade (poder, saber e ser). Na análise dos materiais dos casos já
julgados (acórdãos, laudos antropológicos, etc.), identificou-se que o marco temporal
possui elementos de colonialidade, como a desconsideração das violências territoriais, a
imposição de formas eurocentradas de relação com o território e com o Estado e o
contexto político de disparidade de poder em que tais conflitos são instaurados.

Palavras-chave: Demarcação de terras indígenas; Supremo Tribunal Federal; Marco


temporal; Colonialidade.

269
CONSIDERAÇÕES SOBRE A CONVENÇÃO Nº 169 DA
ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO E O
PRINCÍPIO DA PROIBIÇÃO DO RETROCESSO SOCIAL

Jarbas Ricardo Almeida Cunha

O presente artigo tem como objetivo apresentar três breves considerações sobre a
Convenção nº 169, da Organização Internacional do Trabalho – OIT, que trata de povos
indígenas e tribais, analisando seus potenciais avanços e retrocessos no Brasil. A
primeira consideração diz respeito à implementação histórico-normativa da Convenção
na América Latina e, em especial, no Brasil, destacando seus avanços de cunho jurídico
e político, baseado em autores como Baldi e Ribeiro (2015) e Courtis (2009). Dessa
maneira, pretende-se analisar a implementação da Convenção 169 em nossa região
relatando os fatores comuns que explicam a tendência preponderante da aceitação da
Convenção.Já a segunda consideração abarca retrocessos sociais que fragilizam a
efetivação da Convenção no território brasileiro, prejudicando, dessa forma, os povos
indígenas e tribais. Analisa-se como retrocessos a Portaria nº 303, de 16 de julho de 2002,
da Advocacia Geral da União (AGU) e a tentativa de revogação da Convenção nº 169 da
OIT, por meio de denúncia proposta pela Comissão de Agricultura, Pecuária,
Abastecimento e Desenvolvimento Rural da Câmara dos Deputados no ano de 2014.E,
por fim, na terceira consideração, discute-se o princípio constitucional da proibição do
retrocesso social como instrumento de ratificação da Convenção nº 169 da OIT em nossa
conjuntura. Baseado em Derbli (2007) e Miozzo (2012), assim como em jurisprudência
do Supremo Tribunal Federal, sistematiza-se o desenvolvimento desse princípio, desde
seu surgimento no Pacto Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais
(PIDESC), passando pela Europa e sua receptividade em nosso país.Para a consecução
do objetivo delineado, utiliza-se a metodologia da revisão de literatura de tipo narrativa,
em que consiste relatar publicações amplas, apropriadas para descrever e discutir o
desenvolvimento ou o ‘estado da arte’ de um determinado assunto, sob ponto de vista
teórico ou contextual (ROTHER, 2007). Nesta revisão narrativa, utiliza-se artigos
científicos, doutrina, jurisprudência e um conjunto de normativos, além de alguns
documentos jurídicos, sempre em uma tentativa de análise crítica pessoal do autor.

Palavras-chave: Povos Indígenas e Tribais; Convenção nº 169 da OIT; Princípio da


Proibição do Retrocesso Social.

270
JUSTIÇA DE TRANSIÇÃO NA AMÉRICA
LATINA E OS HORIZONTES AUTORITÁRIOS
DO SÉCULO XXI
HISTÓRIA E JUSTIÇA DE TRANSIÇÃO: A REDEMOCRATIZAÇÃO
CHILENA À LUZ DOS DIREITOS HUMANOS

Leonardo Oliveira Souza

Em se tratando das experiências dos regimes militares na América Latina, o caso chileno
se destaca entre um dos processos de maior violência no continente. Pautado pela
doutrina de segurança nacional, o regime recorreu à práticas de terror como política de
Estado, cometendo, sistematicamente, graves violações a direitos humanos. Os
resultados das duas comissões da verdade, instaladas no Chile, apontam para cerca de
40 mil o número total de vítimas do regime durante os 17 anos, entre 1973 e 1990. Os
efeitos desse período marcaram profundamente a memória, as identidades e a política
institucional de redemocratização do país. Nossa proposta de pesquisa que se inicia, visa
compreender esse processo de transição vivenciado no Chile pós ditadura, em que
diferentes forças sociais se confrontaram em nome das narrativas e de disputas políticas
que caracterizaram o processo de reconciliação do país. De toda forma, a transição
chilena foi marcada por uma via pactuada, com a preservação de práticas e estruturas
institucionais arraigadas na ordem militar e econômica neoliberal, como se a experiência
autoritária se apresentasse como uma nova roupagem do tradicional colonialismo
hegemônico. Pretendemos lançar um olhar interdisciplinar, relacionando a história e o
campo do direito a partir do conceito de justiça de transição, investigando esse tema e
os seus desdobramentos sócio históricos para uma proposta de transição política. Para
tanto, entre as fontes selecionadas, recorreremos ao acervo documental disponibilizado
pela Faculdade Latino Americana de Ciências Sociais (FLACS) do Chile; aos dos dois
relatórios produzidos pelas duas Comissões da Verdade, além de demais obras
relacionadas ao tema: justiça de transição. Por fim, é importante destacar que não existe
um único modelo para que um Estado se redemocratize, cada sociedade desenvolve
procedimentos de acordo com sua realidade e conjuntura sociopolítica. De toda forma,
justiça transicional baseia-se na primazia dos direitos humanos, as comissões da verdade
almejam o esclarecimento dos fatos e representam o ponto de partida para a justiça de
transição, como uma referência no longo caminho da reconciliação histórica.

Palavras-chave: Ditadura chilena; Redemocratização; Comissão da verdade; Direitos


humanos.

272
JUSTIÇA DE TRANSIÇÃO E O

MOVIMENTO INDÍGENA DE MATO GROSSO DO SUL

Jatene da Costa Matos

Objetivo: Este trabalho tem por objetivo discutir sobre a atuação do Movimento
Indígena de Mato Grosso do Sul durante a ditadura civil-militar (1964-1985) e no período
pós-autoritário. Problema: Desde a colonização eurocêntrica e a intrusão de seus
territórios os povos indígenas são alvo de ações de extermínio, exploração, escravidão,
expulsão e remoção forçadas, tortura, entre outras formas de violações de direitos
humanos e negação de seus costumes, línguas e crenças. No estado de Mato Grosso do
Sul (MS) a realidade não foi e não é diferente, essas violações foram intensificadas no
regime autoritário e ainda persistem no regime democrático, conforme se observa no
Relatório Figueiredo (1968), no texto da Comissão Nacional da Verdade sobre Violações
de Direitos Humanos dos Povos Indígenas (2014) e no Relatório da Missão ao Brasil da
Organização das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas
(2016). Metodologia: a pesquisa foi desenvolvida empregando o método exploratório
bibliográfico e o método etnográfico, além da análise de documentos enquanto técnica
de pesquisa. O referencial teórico utilizado é o da Justiça de Transição de Baixo, campo
de investigação centrado no estudo de grupos específicos de sociedades pós-conflito ou
em conflito que enfrentaram/enfrentam violações de direitos humanos. Resultados da
pesquisa: a atuação do Movimento Indígena de MS, atualmente organizado através do
Conselho e da Assembleia Aty Guassu, Conselho e Assembleia Terena e Assembleia
Kinikinau, pode ser vislumbrado em três momentos, o primeiro é caracterizado pela
resistência durante a década de 1960 diante das violações de direitos humanos, o
segundo momento é marcado pela ampla mobilização viabilizada com a abertura
política (1974) até a atuação decisiva na Constituinte de 1987, o terceiro é
consubstanciado na luta pela efetivação da Constituição Federal de 1988.

Palavras-chave: Movimento Indígena; Direitos Humanos; Justiça de Transição.

273
PORQUE SABEMOS A VERDADE, TEMOS MEMÓRIA, EXIGIMOS
JUSTIÇA. A TRAJETÓRIA DA ASOCIACIÓN DE EX DETENIDOS-
DESAPARECIDOS (1984-2014)

Marcos Tolentino

Em outubro de 1984, foi apresentada publicamente em Buenos Aires a Asociación de Ex


Detenidos-Desaparecidos (AEDD), primeiro organismo de direitos humanos formado por
sobreviventes dos centros clandestinos de detenção que funcionaram na Argentina a
partir de 1975 e principalmente durante a última ditadura civil-militar (1976-1983).
Desde então a AEDD participou ativamente na luta por memória, verdade e justiça tanto
no país, como no exterior. Porém, ao revisarmos a bibliografia disponível sobre a história
do movimento argentino por direitos humanos encontramos poucas menções a suas
intervenções nos debates públicos sobre o passado ditatorial e sobre as medidas de
memória e de justiça implementadas na Argentina, assim como das relações
estabelecidas com os outros organismos de direitos humanos e com o Estado. Trata-se,
portanto, de um grupo silenciado, numa narrativa histórica que tende, principalmente,
a recuperar a participação dos familiares de desaparecidos em grupos
como Madres e Abuelas de Plaza de Mayo. Logo, o objetivo de nosso trabalho é analisar a
inserção dos sobreviventes no movimento argentino pelos direitos humanos, centrando-
se na trajetória da AEDD. Buscaremos, sobretudo, questionar o silêncio em torno da sua
história, analisando de que maneira este grupo de sobreviventes ressignificou as
bandeiras de memória, verdade e justiça, a partir de demandas e formas de participação
próprias que diferenciam a AEDD dos outros organismos argentinos de direitos
humanos e que produzem um perfil específico de militante – os ex detenidos-
desaparecidos. Este trabalho é parte de uma tese de Doutorado em andamento no
Programa de Pós-Graduação em História na Unicamp. Apresentaremos assim alguns
resultados do trabalho de campo realizado na Argentina entre agosto de 2014 e
dezembro de 2016, no qual produzimos entrevistas com militantes e ex-militantes da
AEDD, além de uma pesquisa documental nos arquivos históricos deste e de outros
organismos de direitos humanos argentinos.

Palavras-chave: Argentina; Ditadura; Sobreviventes.

274
O PODER JUDICIÁRIO E A PRÁTICA JUSTRANSICIONAL NA
EMANCIAPAÇÃO DA AMÉRICA LATINA: O CONTRASSENSO DO
CASO BRASILEIRO FRENTE À SUPERAÇÃO DAS
(AUTO)ANISTIAS NOS PAÍSES DO MERCOSUL

Rafael dos Reis Aguiar

O presente trabalho objetiva analisar como a ideologia do Estado autoritário, encarnada


na “juristocracia” que o Brasil vive hoje, se impôs para conseguir, através da manutenção
da Lei da Anistia (1979), impedir a formação de narrativas alternativas àquelas
consolidadas no período ditatorial (1964-1988) e, assim, instituir uma cultura de
impunidade que impregna as relações de poder no Brasil desde antes da declaração de
constitucionalidade da lei quando da ADPF 153. O problema se dá na confusão entre o
espaço público e o espaço privado, tão presente na tradição político-jurídica brasileira,
ganhando contornos expressivos na última transição política, posto que buscou forçar
através da implementação de mecanismos tímidos ou insuficientes, do ponto de vista da
justiça transicional, o perdão que, essencialmente, pertence à esfera íntima, refletindo o
desprezo pela autodeterminação dos povos para construção da memória coletiva. A
hipótese é de que, como consequência de mais esse fenômeno, o Brasil mostra aversão
às transformações do que se convencionou chamar de Novo Constitucionalismo
Pluralista Latino-americano enquanto fenômeno constitucional que busca um rumo à
emancipação dos cidadãos em face dos grilhões da história. Apesar do disposto na
Constituição brasileira teoricamente alinhar-se aos ditames da dignidade humana, a
Carta de 1988 não pode ser considerada exemplo desse Novo Constitucionalismo, tendo
em vista que a transição para a democracia insurgente no Brasil restou de tal modo
sufocada que ocasionou uma amnésia institucional, chancelada pelo Poder Judiciário na
ADPF 153, quanto às graves violações de direitos humanos, o que impede a persecução
penal dos perpetradores, cujo efeito prático é tão importante quanto o simbólico na
consolidação de mecanismos de não-repetição. Isto porque, analisando através de uma
metodologia qualitativa, países do Cone Sul, como Argentina e Peru, utilizaram-se de
diversos meios para a superação hermenêutica das (auto) anistias abrindo portas para a
persecução penal efetiva dos agentes violadores de direitos humanos; países como Chile,
Uruguai e, especificamente, o Brasil usaram de negociações que caracterizam suas
transições como lentas e graduais, gerando nada mais que impunidade e retrocesso no
alinhamento das práticas institucionais que fazem da América Latina hoje lócus do
desenvolvimento das práticas emancipatórias descoloniais.

Palavras-chave: Justiça de Transição; Autoritarismo; Descolonialismo; Mercosul.

275
A EXPERIÊNCIA DA PESQUISA SOBRE O DESAPARECIMENTO
FORÇADO NOS PAÍSES QUE COMPÕE A REDE LATINO
AMERICANA DE JUSTIÇA DE TRANSIÇÃO (RLAJT): O CASO DE
EL SALVADOR

Mariluci Cardoso de Vargas


Emilio Peluso Neder Meyer

Este trabalho busca refletir sobre a experiência de El Salvador no tratamento de políticas


de justiça de transição para o crime de desaparecimento forçado, um crime contra a
humanidade. O desaparecimento forçado, sobretudo de crianças, foi uma prática de
terrorismo utilizada durante o conflito armado interno entre os anos de 1980 e 1992
naquele país. A pesquisa coordenada pela Secretaria Executiva da RLAJT apontou que
El Salvador é o único país, dentre os analisados pelo estudo, que não assinou ou ratificou
as convenções interamericana e internacional para a proteção das pessoas de tal crime.
O país possui três condenações por casos de desaparecimentos forçados pela Corte
Interamericana de Direitos Humanos (Corte IDH), sendo a primeira delas de 2005. O
estudo procurou diagnosticar algumas ações de justiça de transição desenvolvidas no
país após o reconhecimento do Sistema Interamericano de Direitos Humanos sobre a
ocorrência do crime ao longo de mais de uma década. Verificou-se que desde 1994
familiares de vítimas de desaparecimentos forçados concentram seus trabalhos na
Asociación PróBúsqueda de Niñas y Niños Desaparecidos, obtendo 425 histórias
esclarecidas de uma lista de mais de 920 casos. Desde 2011, como resultado de uma
demanda social e cumprimento de um dos pontos resolutivos da decisão da Corte IDH
no caso das irmãs Serrano Cruz, a sociedade passou a contar com uma política pública
para esta questão na Comisión Nacional de Búsqueda de Niñas y Niños Desaparecidos
durante el conflicto armado interno (CNB), a qual possibilitou o esclarecimento de 70
casos e promoveu 28 reencontros familiares. Em julho de 2016, a Corte Suprema de
Justicia declarou inconstitucional a Ley de Amnistía General para la Consolidación de la
Paz de 1993, o que gerou uma expectativa sobre a possibilidade de responsabilização
penal para os envolvidos nos desaparecimentos forçados. O estudo foi realizado a partir
de informes elaborados por entidades vinculadas à justiça de transição daquele país,
entrevista com membros da CNB, questionários com membros da RLAJT e a
jurisprudência da Corte IDH.

Palavras-chave: Desaparecimento forçado; Justiça de transição; El Salvador.

276
A LUTA FUNDAMENTAL PELA AFIRMAÇÃO DOS DIREITOS
HUMANOS: A EXPERIÊNCIA DO OBSERVATÓRIO EM DIREITOS
HUMANOS DA UFSM

Matheus Donay da Costa


Jaciele Carine Sell
Priscila de Aguiar

Muito respeitados no plano teórico, os Direitos Humanos padecem do mal do


desrespeito e da constante violação de seus conteúdos no cotidiano dos mais variados
lugares e das variadas relações humanas. Direitos Humanos não são intrínsecos às
populações e seus modos de viver, e por isso é necessário construir uma cultura de
respeito a tais direitos pontuando a universalidade, indivisibilidade e interdependência
entre todas as esferas da vida. Tal construção é indispensável para o alcance da justiça
social. Executar e tornar real a cultura dos direitos humanos através da aproximação com
a população, afirmar sua cidadania e dignidade é, além de um dos deveres do Estado
brasileiro, também uma das funções da universidade e intenção desta proposta. Na
tentativa de contribuir na busca por uma sociedade onde a diversidade seja vista como
uma característica positiva de uma população plural, atentando para a função social das
Instituições de Ensino Superior nacionais, especialmente no âmbito da extensão,
formula-se a presente proposta de um observatório em direitos humanos na UFSM.
Trata-se de uma ação inédita da UFSM na área de Direitos Humanos, vinculado à Pró-
reitoria de Extensão, no intuito de ampliar o debate temático na área e estimular
participação de docentes, estudantes, técnicos administrativos e comunidades em geral
em ações e reflexões acerca de tão importante tema. Tendo como referência teórica
importante a pensadora Hannah Arendt, a partir da obra “a condição humana, busca-se
aqui, refletir sobre o princípio defendido por ela, do direito a ter direitos, como questão
fundamental à implantação de ações relativas aos direitos humanos. É com este princípio
que propomos, através deste trabalho, pensar a resistência fundamental aos direitos
afirmados na realidade brasileira e latino americana em um momento de dúvidas e
muitas incertezas delineados por uma conjuntura política de negação à direitos
fundamentais na realidade social.

Palavras-chave: Observatório; Direitos Humanos; Portal; UFSM; Extensão Universitária.

277
TRANSNACIONALIDADE, AMÉRICA LATINA E JUSTIÇA DE
TRANSIÇÃO - ESFORÇOS DE INTEGRAÇÃO EM DIREITOS
HUMANOS NO ÂMBITO DO MERCOSUL

José Carlos Moreira da Silva Filho


Isadora Dias Vargas
Camila Tamanquevis dos Santos

O artigo procura identificar os esforços no âmbito do Mercosul em prol de ações voltadas


ao campo da justiça de transição, com o propósito não apenas de mapeá-las e descrevê-
las, mas de também debater a perspectiva da transnacionalidade em termos de processos
justransicionais no Cone Sul. A ênfase do estudo recai sobre o Instituto de Políticas
Públicas em Direitos Humanos do Mercosul (IPPDH) e os encontros da Reunião de Altas
Autoridades em Direitos Humanos e Chancelarias do MERCOSUL (RAADH), desde a
sua criação até julho de 2016. A metodologia adotada contou com a análise de
documentos, dos sítios eletrônicos da RAADH e do IPPDH, e com entrevistas realizadas
com funcionários e dirigentes na sede do IPPDH na cidade de Buenos Aires, além da
revisão bibliográfica pertinente. Concluiu-se em primeiro plano que as ações realizadas
contaram com o protagonismo dos entes estatais e seus representantes, que
empreenderam ações conjuntas e nas respectivas esferas domésticas em torno de temas
como memorialização, arquivos, capacitação em direitos humanos e pesquisas, e que
obtiveram especial impulso no período de convergência entre governos mais voltados
ao combate da desigualdade social e às pautas de direitos humanos. Sintomático é que
o desenvolvimento da temática dos direitos humanos no âmbito do Mercosul veio
conduzido pelo consenso dos países da região em torno das pautas de verdade, memória
e justiça. Tal esforço de integração contrasta com o realizado nas ditaduras do Cone Sul
em torno da Operação Condor. Trata-se portanto de uma ótica transnacional em termos
de direitos humanos que se deu em âmbito regional e supranacional, mas sem
aprofundar a incidência do fenômeno da transversalidade na governança de direitos
fundamentais, visto que tal fenômeno se dá a partir da mútua influência entre cortes
domésticas e cortes internacionais, contando ainda com expressiva atuação e
participação da sociedade civil. O impacto da convergência transnacional em medidas
de justiça de transição no Mercosul tem se revelado ao mesmo tempo promissor e
limitado na quantidade, abrangência e costura coletiva dos países membros quanto às
suas ações, demonstrando ainda clara suscetibilidade às mudanças de conjuntura
política envolvendo os países membros do Mercosul.

Palavras-chave: Justiça de Transição; Transnacionalidade; Mercosul.

278
O PASSADO QUE NÃO PASSA: ELEMENTOS PARA PENSAR A
JUSTIÇA TRANSICIONAL NO CENÁRIO LATINO-AMERICANO

Carla Dóro de Oliveira

O presente trabalho tem por finalidade analisar o processo transicional vivido no Brasil
por meio do estudo das medidas adotadas pelo Estado no seu processo de
redemocratização, especialmente quando em comparação com outros países latino-
americanos que também passaram por períodos de exceção, tais como a Argentina, o
Chile e o Uruguai. Para tanto, procedeu-se ao estudo acerca da justiça de transição, a fim
de melhor entender sua origem, finalidade e a forma como deve ser conduzida. Objetiva-
se, portanto, compreender mais profundamente a forma com que cada um dos países
em análise lidou com a superação de um período violento de sua história. A partir da
análise desenvolvida, buscou-se reconhecer os aspectos positivos e negativos do
processo de transição brasileiro, identificando-se, ainda, de que forma a incompletude
da justiça transicional brasileira influencia na democracia e na persistência de um cenário
de violência no país. Na metodologia utilizou-se pesquisa bibliográfica e documental
numa abordagem qualitativa, abrangendo a leitura e análise de obras doutrinárias,
artigos e jurisprudência. Os resultados do trabalho apontam que medidas adotadas pelo
Brasil, apesar de relevantes, ainda são insuficientes para a consolidação de uma cultura
democrática e de respeito aos direitos humanos no país, impondo-se, nesse contexto, a
implementação da justiça transicional em todos os seus aspectos.

Palavras-chave: América Latina; Democracia; Direitos Humanos; Justiça de Transição.

279
O PÓS-COLONIAL E A REPRESENTAÇÃO DE
SUBALTERNIDADES NA AMÉRICA-LATINA
MILTON HATOUM E GABRIEL GARCÍA MARQUEZ: REFLEXÕES
SOBRE O PÓS-COLONIAL NA AMÉRICA LATINA

Telma Borges

Este trabalho objetiva refletir sobre a América Latina a partir dos romances Dois irmãos,
de Milton Hatoum e Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez, analisando os filhos
bastardos dessas narrativas. Sua atuação ajuda a pensar o modo como suas identidades
podem ser compreendidas como uma alegoria da América Latina - Brasil e Colômbia -
em contraponto àquela imposta pelo colonizador. No emaranhado das culturas
brasileira, indígena e árabe, nasce Nael, personagem-narrador de Dois irmãos, que busca
a identidade paterna, negada pela mãe e, posteriormente, por ele também. Esse curumim
herda o nome árabe do bisavô paterno, mas opta por sua condição bastarda, fazendo seu
relato nascer como um discurso não legitimado, sem a assinatura do pai. A falta dessa
letra legitimadora é uma das marcas peculiares a esse narrador que, para contar sua
história, precisa apoiar-se em relatos outros, ora saídos da boca de seu avô Halim e de
sua mãe Domingas, ora observados pelas frestas e fendas de sua história familiar e
concomitantemente da cidade de Manaus. Em Cem anos de solidão é a bastardia que
condiciona o aparecimento de pergaminhos escritos em línguas impenetráveis, somente
decifrados por aquele que, colocado à margem, busca algum sinal que possa indicá-lo
como agente de uma história que deseja ver recontada e na qual não esteja relegado ao
porão, devendo figurar, portanto, no mesmo plano dos “donos” da História. Nessa
perspectiva, a voz do bastardo emerge como um suplemento da voz oficial com a qual
contaram sua história. A partir dessas vozes pretende-se problematizar quando foi e se
existiu o pós-colonial na América Latina.

Palavras-chave: Milton Hatoum, Gabriel García Marquez; Pós- colonial.

281
IMPOSIÇÕES E TRANSFORMAÇÕES URBANAS EM MANAUS: A
CONSTRUÇÃO DA “PARIS DOS TRÓPICOS”

Rodrigo Capelato

Os problemas de uma cidade não são apenas técnicos ou estéticos. A cidade ou o espaço
urbano são construídos ou destruídos segundo uma política de intervenção que pode
favorecer certos segmentos em detrimento a outros, e a mais singela ou ingênua
intervenção urbana encerra uma intenção política e social, pois influi na vida do cidadão,
no seu cotidiano, no lazer e no trabalho. Influi, enfim, nas relações sociais e na
sociabilidade de cada pessoa. Neste sentido, o referido trabalho pretende analisar as
práticas de higienização, de embelezamento, de progresso e de civilidade, advindas da
Europa e implementadas na segunda metade do século XIX, tendo como lócus de analise
a cidade de Manaus que, com os aumentos sucessivos das exportações, principalmente
da borracha, propiciaram ao Estado uma grande receita, com excessos sempre crescentes
de arrecadações, inspirando assim um dos mais arrojados empreendimentos citadinos
que foram orquestrados pelo poder publico junto a elite local através de decretos, leis e
códigos, utilizados para justificar e viabilizar o controle social, e assim consolidar o
desejo da cidade progressista. É a modernidade que chegava ao “Porto de Lenha”, com
sua visão transformadora, na intenção de se tornar a “Paris dos Trópicos”. Tais medidas
concentraram-se nos chamados Códigos de Posturas Municipais, orientados por
princípios e interesses distantes, que negaram, desprezaram e velaram as especificidades
históricas e geográficas que a região Amazônica e a cidade de Manaus apresentavam.
Em seus inúmeros artigos fica clara a intenção de um modelo de civilização, como
tendência similar às praticas de controle adotadas pelas cortes europeias, onde a
paisagem geográfica e social era um problema a ser combatido. A chamada destruição
criativa não só substituiu a madeira pelo ferro, o barro pela alvenaria, a palha pela telha,
o igarapé pela avenida, a carroça pelos bondes elétricos, a iluminação a gás pela luz
elétrica, mas também transformou a paisagem natural, destruiu costumes e tradições,
“civilizou” as populações tradicionais e, principalmente, foi precursora da segregação
sócio espacial e da periferização, evidenciada até os dias de hoje, tanto em Manaus como
em todas as cidades brasileiras.

Palavras-chave: Manaus; Códigos de Posturas; Intervenções Urbanas; “Paris dos


Trópicos”.

282
“COMO SE FAZ UM GUERRILHEIRO?” - (CON)FORMAÇÕES
IDENTITÁRIAS NA REPRESENTAÇÃO DA AMAZÔNIA
PARAENSE NA OBRA DE BENEDICTO MONTEIRO COMO PARTE
DOS PROCESSOS DE CONSTITUIÇÃO DA SUBALTERNIDADES
NA AMÉRICA LATINA

Abilio Pacheco de Souza

A leitura da Tetralogia Amazônica, parte de produção literária de Benedicto Monteiro,


escritor paraense, advogado, deputado cassado pela ditadura de 64, possibilita reflexões
sobre os impasses da região em tempos de Guerra Fria e regime ditatorial, mas também
possibilita a leitura das complexas relações identitárias na Amazônia Paraense,
especialmente através da constituição do “personagem-elo” da produção estética do
autor, bem como da prole deste mesmo personagem. Miguel dos Santos Prazeres, que
também atende pelos vulgos Cabra da Peste e Afilhado do Diabo, narra (entre outras
histórias) a formação de sua prole dispersa por pequenas cidades, rios e ilhargas com
mulheres de sete origens diferentes (uma negra-quilombola, uma índia, uma cabocla,
uma nordestina-paraibana, uma portuguesa, uma libanesa e uma japonesa).
Pretendemos discutir esse processo de construção identitária na Amazônia como parte
do processo de construção/constituição das identidades na América Latina.

Palavras-chave: Representação identitária; Identidades latino-americanas; Identidade


amazônica; Literatura amazônica.

283
REPRESENTAÇÕES DO NAVIO NEGREIRO NA LITERATURA
AFRO-BRASILEIRA: MAPAS DA VIOLÊNCIA E DA RESISTÊNCIA

Elio Ferreira de Souza

A travessia do Atlântico significou o infortúnio de milhões de africanos das mais


diversas línguas e grupos étnicos, que tiveram de conviver entre si e com diferentes na
Diáspora, para se fundirem na “autocriação” no Novo Mundo. O presente artigo estuda
a representação do negro na literatura afro-brasileira, mapeando lugares, entre-lugares,
temas norteadores como a escravidão do africano na diáspora, a violência contra o
escravizado e a resistência deste, durante a travessia do Atlântico negro (GILROY, 2001).
O corpus da análise será especificamente o poema “Navio Negreiro” (1960), de Solano
Trindade; recortes de trechos dos romances, como Úrsula (1858), de Maria Firmina dos
Reis e Um defeito de cor (2006), de Ana Maria Gonçalves, que se reportam à travessia do
navio negreiro. Édouard Glissant refere-se ao papel que deve ser assumido pelo autor
das Antilhas em relação a essa memória ancestral (2005). Solano Trindade anuncia o
renascimento de um novo homem negro e de uma nova poesia afro-brasileira, que vão
sendo reinventados a partir da refundição da memória trincada da diáspora no Novo
Mundo. O romance de Ana Maria Gonçalves inicia-se na África com a morte do irmão e
da mãe de Kehinde, quando esta tinha dez anos de idade. Depois de uma sucessão de
episódios, são narrados os fatos da travessia marítima no porão do tumbeiro, a morte da
avó e da irmã gêmea, a chegada ao Brasil, o estupro praticado pelo senhor contra ela e a
castração do namorado pelo mesmo amo, o aprendizado das primeiras letras com o dos
mais cultos dentre os malês - o Alufá Likutã, o envolvimento da protagonista na Rebelião
dos Malês, a fuga, etc. No romance Úrsula, a protagonista narradora testemunha o
episódio traumático da sua captura a caminho das plantações de cereais, as cenas de
morte, violência e horrores durante a travessia do Atlântico no porão do negreiro, o
degredo, a escravidão.

Palavras-chave: Literatura Afro-Brasileira; Atlântico Negro; Escravidão.

284
ENUNCIAÇÃO DE SUJEITAS NEGRAS EM NOSSAS TEORIAS DA
LITERATURA

Alcione Correa Alves

Mediante sua noção de ancestra, Yolanda Arroyo Pizarro, em seu ensaio "Hablar de las
ancestras: hacia una nueva literatura insurgente de la afrodescendencia", discute, de
modo interseccional, a centralidade da memória às construções identitárias negras
percebendo, contudo, dificuldades inerentes à legitimação de mulheres negras seja na
historiografia portorriquenha, seja em uma história possível das literaturas negras
femininas – projeto levado a cabo por Arroyo Pizarro, ficcionalmente, em las
Negras (2012). Yuderkis Espinosa Miñoso, em seus artigos “Etnocentrismo y colonialidad
em los feminismos latinoamericanos: complicidades y consolidacion de las hegemonias
feminsitas em el espacio transnacional” e “La academia feminista y su rol en el cambio
socio cultural en América Latina: hacia la complejización del entramado de poder”,
desde um lugar de feminismo negro decolonial, nos assevera o risco de que nossas
pesquisas, buscando compreender as literaturas em-subalternidade (ou, em outra
palavra, as literaturas de nossos Outros), por vezes, "se asientan sobre las mismas bases
que las operaciones de dominio" de tal modo a corroborar "la reafirmación de una
diferencia específica (naturalizada) de los grupos subordinados en relación al sujeto
hegemónico", quando naturalizamos os sujeitos, assim como seus discursos que
buscamos compreender. Visando a avançar sobre comunicações recentemente
apresentadas no III Simpósio Internacional de Literaturas Negras Ibero-americanas, na
Universidade Federal do Paraná, assim como nas VII Jornadas Caribeñistas, na
Universidad de Chile, o presente estudo examina algumas contribuições críticas que
um corpus de feminismo negro americano decolonial, nos ensaios presentes em Tejiendo
de otro modo (2014), pode trazer ao estudo de literaturas negras femininas americanas
contemporâneas, no atual estado do campo dos Estudos Literários, no Brasil. Este
trabalho é tributário do Projeto de Pesquisa Teseu, o labirinto e seu nome, desenvolvido
na Universidade Federal do Piauí; e, neste evento, será apresentado no simpósio "O pós-
colonial e a representação de subalternidades na América Latina", no qual estou um dos
três coordenadores.

Palavras-chave: Feminismo negro decolonial; Lugar de enunciação; Literaturas negras


americanas.

285
IDENTIDADE E DIFERENÇA NA CONSTITUIÇÃO HISTÓRICA DA
AMÉRICA LATINA E BRASIL: MANOEL BOMFIM E SUA CRÍTICA
“PÓS-COLONIAL” FUNDAMENTADA NO “PARASITISMO
SOCIAL” E NA “PLASTICIDADE CULTURAL”.

Cleiton Ricardo das Neves


Amélia Cardoso de Almeida

A América Latina se transformou num ambiente de debate vigoroso concernente aos


estudos pós-coloniais ou descoloniais como preferem se auto-referenciar alguns. O
debate latino-americano passa pela “desconstrução do conceito eurocêntrico de
modernidade - como racionalidade e desenvolvimento -, que não leva em conta o que se
passou fora da Europa” (ALMEIDA, 2013, p.13). A violência extrema praticada a partir
da diferença colonial contra negros, índios e mestiços construídos como outros se soma à
ordem de desconstrução e resignificação do conceito de modernidade. Pois na concepção
dos pós-colonialistas latino-americanos, a modernidade só pode ser pensada atrelada à
colonização da América, em outras palavras, a invasão e colonização da América
inaugura e fundamenta a modernidade. Autores como Walter Mignolo, Aníbal Quijano
e Enrique Dussel integram a lista dos que na América Latina contribuem vigorosamente
para a crítica pós-colonial.Nesse sentido, a partir da ótica decolonial pretende-se mostrar
como o conceito de “parasitismo social” de Manoel Bomfim incorpora inúmeros
elementos críticos da violência e desumanização dos subalternizados no processo de
colonização da América. E nesse processo, o autor mostra uma aproximação com a
América Latina em função de seus males de origem, mas também mostra as diferenças
entre a Hispano-América e o Brasil. Nesse sentido Bomfim faz uma defesa da
mestiçagem cultural (plasticidade cultural) como sendo uma das características mais
vigorosas a América Latina e em especial do Brasil, sendo um dos elementos fundantes
da identidade brasileira e consequentemente um discurso/prática de resistência ao
colonizador parasita.

Palavras-chave: Crítica Pós-colonial; Parasitismo Social; Plasticidade Cultural.

286
PÓS-COLONIALISMO E REPRESENTAÇÃO DE
SUBALTERNIDADES NA AMÉRICA-LATINA

Sebastião Alves Teixeira Lopes

Representar e. em especial, representar a si mesmo, falar por si, implica uma ação
política; pressupõe acesso a esferas de poder que só ocorre com o empoderamento
identitário. Nesse sentido, as teorias e práticas pós-coloniais têm o mérito de propiciar a
grupos marginalizados pela empreitada colonial europeia voz e visibilidade social.
Grupos sociais provenientes dos mais diversos pontos da grande área do globo que
sofreu com a violência da colonização finalmente conseguem se manifestar,
apresentando suas próprias versões de si e do outro, assim como suas próprias
interpretações do percurso histórico, em processo tão bem captado por Salman Rushdie
no intertexto “the empire writes back”. A investigação da (in)capacidade de representação
por parte de subalternidades na América-Latina, contudo, demanda observações mais
pontuais, que se debrucem sobre especificidades típicas da região. Antes de tudo, não se
pode considerar a América-Latina um todo uniforme e homogêneo. A região é
constituída por diferentes países e povos que passaram por diferentes experiências
históricas de colonização. Ressalte-se que as teorias e práticas pós-coloniais são exercidas
nas (ou em diálogo com) línguas europeias, em especial o inglês, espanhol, português e
francês, restando pouco espaço de manifestação para as identidades que se manifestam
através de línguas autóctones. Assim sendo, minha apresentação preocupa-se bastante
em ressaltar o que chamo de margem da margem, ou seja, aquelas identidades que na
margem pós-colonial não se expressão através de línguas europeias, enfatizando que
para essas identidades as teorias e práticas pós-coloniais pouco ajudam no que diz
respeito a dotá-las de voz ou de visibilidade política.

Palavras-chave: Pós-colonialismo; América-Latina; Subalternidades.

287
RESISTÊNCIA E AÇÃO COLETIVA EM TEMPOS
DE EXCEÇÃO: ESTADO, PODER, VIOLÊNCIA E
CONSTRUÇÃO DE ALTERNATIVAS NAS
SOCIEDADES PÓS-COLONIAIS
RESISTÊNCIA SOCIAL EM FERNANDO DE NORONHA

Davi Pinheiro de Oliveira

Fábio Freitas Schilling Marquesan

O objetivo do trabalho é compreender a maneira como ocorrem determinadas lutas


sociais por direito à moradia digna e ao uso do espaço em Fernando de Noronha. Lutas
essas que são travadas por grupos sociais organizados, ainda que informalmente, contra
o capital (este sim organizado entre o setor econômico do turismo e o poder público) que
promove restrições de direitos fundamentais para a população da ilha. A presença do
Estado em Fernando de Noronha é forte, seja representado pelo ICMBio ou pela própria
“administração da Ilha”. Tal presença também impõe restrições de ordem
socioambiental para os moradores, além de legitimar a exploração indiscriminada de um
turismo que pode ser em predatório. Por exemplo, houve um crescimento vertiginoso
no número de pousadas, passando de somente duas ao final da década de 1980 para
quase cem no ano de 2007 (SOUZA, 2007). Estas, que hoje são já são mais de cem,
receberam mais de 90 mil turistas no ano de 2015, cerca de 25 turistas/habitante/ano
(MARINHO, 2016). A título de ilustração, Paris teve uma relação próxima de 15
turistas/habitante/ano em 2015 (OMT, 2015). Esse desenvolvimento do turismo acirrou
as disputas no campo social da ilha (LIMA, 2008; SANTONIERI, 2006). Nesse quadro,
ainda que amparada em frágil participação política, com direito limitado à moradia,
serviços básicos precários e uso restrito do espaço, a pequena população da comunidade
da Praia da Conceição se mobiliza para reivindicar seus direitos. Nós acompanhamos a
luta de seis famílias pelo direito básico de manter sua casa em pé. Após receberem uma
notificação judicial e uma multa, sofreram a instauração de um processo de demolição
por parte do ICMBio. As entrevistas evidenciaram que o Estado negligencia o direito
dessas pessoas e, muitas vezes, usa a força para atender aos interesses do capital. Embora
exista um Estado violento que age em prol do capital, compreendemos que existe uma
ação coletiva de resistência em curso na ilha de Fernando de Noronha.

Palavras-chave: Fernando de Noronha; Resistência social; Turismo.

289
O LEGADO GURVITCHIANO DE DIREITO SOCIAL COMO
ABORDAGEM DE ANÁLISE PARA POLÍTICAS PÚBLICAS
DESTINADAS A GRUPOS MINORITÁRIOS

Nayara Gallieta Borges


Igor Costa Oliveira

A racionalidade jurídica moderna, influenciada pelas ideias liberais-capitalistas, será a


principal garantidora das estruturas hegemônicas do Estado, reafirmando durante o
processo histórico político brasileiro um cenário de colonização, exploração e exclusão
de segmentos sociais. O Direito Moderno, sob a lógica estatal monista, é dotado de uma
representação exclusiva aos interesses das elites que imobiliza os espaços sociais e
legitima durante todo esse processo um sistema político com participação restrita a
grupos e segmentos minoritários. O projeto Direito Social, proposto por Georges
Gurvitch, contrapõe-se aos pressupostos do liberalismo agregado ao Direito, pois
sustentará o direito com uma função integradora, no qual reconhece um conjunto de
normas sociais já existentes perante diversas comunidades que se autorregulam. O
Estado, ao contrário, enquanto única fonte do direito limita as normatividades sociais
existentes entre outras comunidades, excluindo a participação de todos os grupos
inerentes ao interesse capital. O presente trabalho busca a partir do pensamento
gurvitchiano estudar o conceito de Direito Social como um projeto para emancipação
dos sujeitos sociais. Analisar o sistema político e jurídico brasileiro e a construção de um
novo sistema jurídico com base na ideia de Estado Social. Busca-se pensar o Direito e o
seu caráter estrutural no reconhecimento de outras fontes legítimas de direitos. Diante
disso, oferecer uma nova abordagem para o reconhecimento e promoção de políticas
públicas. A pesquisa bibliográfica está fundada em uma leitura teórica acerca de Georges
Gurvitch. O recorte teórico, que sustenta as análises, perpasse três por três eixos de
fontes doutrinárias: (1) Direitos Humanos; (2) Políticas públicas e (3) Pluralismo Jurídico.
O escopo da pesquisa permite denotar as contribuições do pensamento de Gurvitch para
o pluralismo jurídico como expressão atual do Estado Democrático de Direito no Brasil
e os desdobramentos possíveis para analisar políticas públicas destinadas a grupos
minoritários.

Palavras-chave: Direito Social; Políticas Públicas; Georges Gurvitch; Grupos


minoritários.

290
AS LUTAS ESPECÍFICAS PELOS DIREITOS HUMANOS E AS
ESTRATÉGIAS DE GOVERNO

Edson Teles

O objetivo desta comunicação é refletir sobre o modo como as lutas específicas e a


organização própria de movimentos de direitos humanos são traduzidos, transitam,
sofrem o bloqueio ou se potencializam na relação com as instituições de Estado e suas
políticas públicas. Para tanto, utilizaremos o recorte histórico da democracia brasileira,
desde a transição até o fim dos trabalhos da Comissão Nacional da Verdade. Uma forte
marca deste período foi a frágil garantia de efetivação dos direitos e o constante
acionamento de estados de exceção, os quais têm sido autorizados por uma estrutura
jurídico política com forte legado autoritário da ditadura civil militar (1964-1985). A
partir do estudo da experimentação das políticas de memória e do direito à verdade,
focando no choque entre os coletivos e a timidez das políticas de Estado, pretendemos
analisar as características de uma ação de resistência e de validação de saberes nos
percursos dos movimentos de familiares de mortos e desaparecidos políticos da
ditadura, por meio de seus principais documentos e conquistas. Nossa proposição é a de
que as instituições e políticas de direitos humanos, sob o ponto de vista de uma lógica
de governo, organizam processos de homogeneização dos saberes e das práticas,
impondo regras normatizadoras ao agir político. No contexto de redemocratização, o
conflito epistemológico não somente limitou e anulou saberes, mas também produziu a
partir deles uma proliferação de vocabulários e de modos de conduzir os conflitos por
parte das instituições. Lançados de volta às extremidades das lutas políticas e sociais,
estes saberes autorizados são, em alguma medida, reconhecidos e, por vezes,
descolonizados pelos sujeitos em luta. Intentamos debater de que forma a ação política
em torno dos discursos dos direitos humanos apareceu como um cálculo de forças e, em
última instância, como pragmática e objeto de estratégias de governo. Trata-se de buscar
compreender e analisar, sob o compromisso de trazer à tona, de fazer emergir, as lutas
locais, paralelas, orgânicas, singulares, desqualificadas, que se chocam com a política dos
especialistas, da fala autorizada, do cálculo do ato possível realizado em nome de uma
governabilidade.

Palavras-chave: Transição; Coletivos e movimentos sociais; Resistência; Estado de


exceção; Direito à memória e à verdade.

291
PÓS-COLONIALIDADE E VIOLÊNCIA NA AMÉRICA LATINA: UM
OLHAR SOBRE AS MARAS CENTRO-AMERICANAS E AS
SOCIABILIDADES DELITIVAS DE PORTO ALEGRE

Fatima Sabrina da Rosa

Esta comunicação visa apresentar uma discussão temática voltada para o projeto de tese
intitulado Pós-colonialidade e violência: um olhar sobre os bondes de Porto Alegre e as
maras hondurenhas. A proposta desse projeto é discutir os elementos da crítica pós-
colonial e utilizá-los como aporte de análise a um fenômeno da violência, noção que
guarda fundamental relação com a pós-colonialidade. A pesquisa tem como tema a
análise das ações e representações dos jovens (compreendidos entre os 15 e 24 anos)
através de manifestações de caráter híbrido ou mestiço que reúnem elementos culturais
e violência. Inicialmente se estabelece uma comparação entre as maras centro-
americanas (gangues centro-americanas de atuação transnacional) e os bondes ou
gangues de Porto Alegre, os quais têm ampliado sua atuação na disputa e controle do
tráfico na capital e arredores. Tais sociabilidades possuem grande diferença em termos
de número de integrantes e de escala de atuação, mas é possível estabelecer uma
homologia com base na gênese desses dois grupos e seu posterior desenvolvimento.
Logo, o tema envolve a análise empírica das ações dos jovens desses grupos, mas tem
como eixo central a discussão da possível emergência de uma discursividade de caráter
pós-colonial nas projeções dessas sociabilidades na América Latina. Assim, se atenta
para as diferentes formas em que os sujeitos buscam romper os binarismos que os
colocam como subalternos pela sua territorialização da periferia, projetando novos
signos e significados através de combinações de categorias que atravessam suas
identidades como raça, gênero, pertença local e gostos culturais. A hipótese de pesquisa
é a de que se possa ver aspectos da gênese e do desenvolvimento das maras presentes
nas socinabilidades delitivas de Porto Alegre no que diz respeito tanto à organização
quanto à estética. Assim como as maras, a pertença aos bondes nasce da necessidade
prática de se amparar em um grupo homogêneo da periferia como forma de
enfrentamento à estigmatização e à criminalização. No entanto, pela forma como as
políticas de segurança e controle social têm se desenvolvido tanto nos países centro-
americanos quanto na cidade de Porto Alegre, maras e bondes têm apresentado um
intensificação do uso da violência.

Palavras-chave: Pós-colonialidade; Violência; Hibridismo; Criminalidade.

292
IMIGRAÇÃO FRENTE ÀS TEORIAS DE SECURITIZAÇÃO E
UNIVERSALIZAÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS: CRÍTICAS E
REFLEXÕES SOBRE A ATUAL CONJECTURA DE SEGURANÇA E
IMPLEMENTADO PELO ESTADO DE EXCEÇÃO PERMANENTE

Hermes Corrêa Dode Jr.


Amanda Rodrigues da Cruz

A pesquisa trata de uma abordagem dedutiva da análise da inserção do Imigrante dentro


do espaço público. Podemos mencionar toda a sua Interculturalidade, fato gerador de
conflitos sociais e a visão dominante das atuais normas internacionais de Direitos
Humano em face da política de estado de exceção. A partir desta compreensão da
realidade do Imigrante, buscando o desocultamento de sua real complexidade,
escondida no vazio das políticas públicas, ganha especial relevo no trabalho proposto o
escopo de demonstrar como o Estado, em sua estrutura e operacionalidade, produz a
exclusão deste sujeito de Direito por intermédio de normas de Direitos Humanos, bem
como também em suas normas Constitucionais, justificando tais políticas de exceção e
Securitização a um conceito de funcionamento de suas instituições, ou seja, a sua
governabilidade, sem levar em conta toda sua bagagem cultural como fato modificador
do Espaço Púbico, gerando conflitos sociais. A abordagem envolve a análise cultural das
imigrações e os instrumentos legais que justificam o estado de exceção: em
especial as constituições modernas e diretivas comunitárias(União Europeia e
MERCOSUL) que se justificam nas normas internacionais de Direitos Humanos. Como
marco teórico, serão utilizados como referenciais: Hannah Arendt, Giulian Redin,
Giorgio Agamben e Milton Santos – a cerca da crítica Universalista dos Direitos
Humanos utilizaremos os aportes teóricos Costas Douzina, Joaquin Herrera Flores. E,
para finalizar buscaremos na luz da ideia de Interculturalidade os ensinamentos de
Nestor Canclini, na medida em que permite perceber de maneira adequada as
rugosidades e as problemáticas destas relações no mundo globalizado neoliberal,
elemento de suma importância para as análises propostas.

Palavras-chave: Imigrante; Estado de Exceção; Securitização; Universalismo dos Direitos


Humanos.

293
IGUALDADE RACIAL NO BRASIL: ANTECEDENTES, POLÍTICAS
PÚBLICAS E DESAFIOS

Janira Sodré Miranda

O presente trabalho analisa o protagonismo da comunidade negra politicamente


organizada na luta por uma sociedade livre de racismo. Evidencia a luta do movimento
social negro por participação nas ações do Estado no bojo de um projeto
antirracista.Traça um breve percurso histórico sobre a invenção da liberdade ter sido no
Brasil um construto negro, tal é a experiência quilombista em aliança com os demais
setores das classes populares, historicamente subalternizadas e marcadas por clivagens
étnicorraciais. Essa experiência política, constitutiva do imaginário coletivo e da
memória compartilhada pelos setores negros politicamente mobilizados e organizados
tem posicionado a comunidade negra como parte dos mais importantes avanços em
políticas sociais de reparação e de ação afirmativa no Brasil contemporâneo. De fato, a
desigualdade racial tem sido uma marca da sociedade brasileira; alimentada por
estratégias de subordinação e invisibilidade dos negros, permanece como um dos mais
perversos traços da iniquidade social no país. Neste contexto, a maior parte dos avanços
da política social não foi usufruída equitativamente pela população negra. Diante desse
contexto, a mobilização de organizações negras foi intensa, denunciando as
desigualdades raciais, mantendo a densidade dos territórios e espacialidades das
culturas negras e oferecendo alternativas para o projeto nacional de desenvolvimento.O
desafio da implementação das políticas de igualdade racial permanece como desafio e
perspectiva para o conjunto da sociedade brasileira de modo a incidir na produção da
igualdade substantiva em uma nação multi-étnica e pluricultural. Tal é a luta no
contexto do refluxo político no Brasil de hoje.

Palavras-chave: Resistência Negra; Anti-racismo; Igualdade Racial.

294
DIREITOS HUMANOS EM CHIAPAS, MÉXICO: RELATO DE UMA
EXPERIÊNCIA COM O FRAYBA

Renata Ferreira da Silveira

O Centro de Derechos Humanos Fray Bartolomé de las Casas, popularmente conhecido


como Frayba, é uma organização criada na década de 1980 com o objetivo de denunciar
as ameaças e violações aos direitos humanos das comunidades indígenas em luta pela
autoderteminação no estado de Chiapas, sul do México. Desde lá, a instituição promove
regularmente as Brigadas Civis de Observação (Brico), formadas por civis de diversas
nacionalidades que se dirigem às comunidades ameaçadas pela crescente
(para)militarização do campo mexicano, como mecanismo de prevenção de agressões e
como expressão da solidariedade internacional. A atuação do Frayba guarda especial
importância para a defesa da sóciodiversidade, pois sua vigilância e denúncia
contribuem para resguardar os direitos dos povos indígenas acossados por séculos de
opressão colonial. Não por acaso, o Frayba passou a ter atuação de destaque após os
levantamentos zapatistas de 1994, contribuindo para a continuidade da luta daquelas
comunidades por sua autonomia política, econômica e social. Este trabalho traz o relato
de uma experiência vivida em janeiro de 2017 no município autônomo San Pedro de
Michoacán, pertencente ao Caracol I La Realidad (município oficial Las Margaritas),
junto a uma das Brigadas de Observação do Frayba, como ponto de partida para a
reflexão sobre as atuais condições vividas pelos povos indígenas no continente.

Palavras-chave: Frayba; Chiapas; Direitos Humanos.

295
ESTADO-IMPÉRIO E ESTADO-COLÔNIA, CIDADANIA-IMPÉRIO E
CIDADANIA-COLÔNIA: PRODUÇÃO ATIVA DA NÃO-
EXISTÊNCIA DA VIOLÊNCIA PARA O BEM-ESTAR

Maurício Hashizume

A arquitetura da hegemonia moderna ocidental tem como base uma aparente e funcional
copresença sustentada por uma concreta e profunda abissalidade. O pensamento abissal,
conforme formulado por Boaventura de Sousa Santos, sustenta e viabiliza uma operação
de cisão funcional e fundacional de uma mesma matriz de formas de opressão
(capitalismo, colonialismo e patriarcado) em duas partes distintas. Uma delas é
apresentada como ilustrada, científica, fundamentada em valores como liberdade e
igualdade, em suma, portadora do Espírito superior hegeliano e destinada a garantir o
progresso técnico e a justiça social; é o espaço da vida de bem-estar em que se dá a
disputa entre regulação e emancipação. A segunda é produzida como uma antípoda da
primeira (como o “Outro” encoberto, conforme Dussel): é o território de violência e
apropriação repleto de crenças e de rituais do passado, envolto em escuridão e preso às
trevas, que a ciência e o direito modernos do “desencantamento do mundo” (Weber)
vieram a combater; conforme Marx e Engels, o avanço burguês desmancharia tudo o que
é sólido no ar. Os esforços gerais da humanidade deveriam, portanto, serem todos
canalizados para a transição de um antes marcado pelo sofrimento da “violência e
apropriação” do “lado de lá da linha abissal” ao depois do mundo da “regulação e
emancipação” do “lado de cá da linha abissal”. Ocorre que essa co-presença entre
subdesenvolvimento e desenvolvimento (para retomar as contribuições da teoria da
dependência latino-americana) não é linear e nem se explica apenas pelas virtudes e
pelos vícios tanto das sociedades que gozam atualmente de privilégios quanto das que
padecem como “atrasadas”. A relação causal (abissalmente) não admitida é a de que o
Estado-Império só foi possível em termos de recursos materiais e não-materiais graças à
espoliação do EstadoColônia. A violência e a apropriação que determina a Cidadania-
Colônia são, portanto, ativamente produzidas como não-existentes para a construção do
bem-estar capitalistacolonial-patriarcal da Cidadania-Império. As condições materiais e
simbólicas disponíveis para as invenções das nações (Anderson) a partir da condição de
Estado-Império (como relação social, na linha de Poulantzas) são completamente
díspares daquelas que sobraram como migalhas ao investimento social no Estado-
Colônia.

Palavras-chave: Estado; Cidadania; Capitalismo; Colonialismo; Patriarcado.

296
PODERIA TER SIDO VOCÊ – VÍNCULOS SOCIAIS E SIMBÓLICOS
NO PROCESSO COMUNICACIONAL A PARTIR DA EXPERIÊNCIA
AUDIOVISUAL DO COLETIVO TELA FIRME, DE BELÉM (PA)

Luciana Gouvêa da Cunha

O artigo se propõe a refletir a respeito do conceito de vínculos sociais e simbólicos a


partir do vídeo “Poderia ter sido você”, produção audiovisual do coletivo paraense Tela
Firme realizada para criticar as violências policiais e intervenções de policiais à paisana
ou não recorrentes nos bairros da periferia de Belém (PA). O nosso ponto de partida
ocorre a partir de obras fundamentais sobre a natureza dos vínculos e das trocas
simbólicas, a exemplo do pensamento de Giordano Bruno ([1591] 2009) e de Marcel
Mauss ( [1924] 2007). Para entender como as dinâmicas de vinculação estão presentes no
campo sóciocomunicacional, apresentamos as pesquisas de Norval Baitello Jr.
(1997;1999; 2009) e Malena Contrera (2002; 2009), com o intuito de discutir os sentidos
de vínculos associados aos processos comunicacionais empreendidos por grupos de
comunicadores que buscam não apenas manter informados os moradores do bairro,
como também estabelecer relações de proximidade entre as pessoas e ainda buscar outro
viés representativo diferente daquele imposto pelas mídias comerciais de Belém, que de
acordo com a pesquisa “Programa de monitoramento de violações de direitos na mídia
brasileira” (VARJÃO, 2016), é a quarta capital federal que mais viola leis, normas,
direitos da pessoa humana na mídia brasileira.

Palavras-chave: Comunicação Popular; Vínculo comunicativo; Direitos Humanos;


Comunidades.

297
MOVIMENTOS SOCIAIS E DIREITO: O GT JURIDICO DENTRO DA
OCUPAÇÃO DA CÂMARA DE VEREADORES DE PORTO ALEGRE
EM 2013

Fiammetta Bonfigli

Este trabalho faz parte da pesquisa desenvolvida pelo “Observatorio Novos


Movimentos Sociais e Direito no Brasil” da Universidade La Salle de Canoas (RS). O
projeto de pesquisa visa recompor e interpetar os acontecimentos que fizeram do Brasil
o teatro de protestos em massa contra o aumento da tarifa de onibus em 2013 e pelo
Passe Livre. O presente trabalho tem o seu foco especifico na cidade de Porto Alegre e
na ocupaçao da Camara de Veradores da cidade em Julho 2013, o objetivo è entender a
relaçao entre a organizaçao politica do Bloco de Luta pelo Transporte Publico e o Gt
Juridico dentro do mesmo durante os 8 dias de ocupaçao da Camara. A traves de 9
entrevistas semi-estruturadas esclusivamente com os componentes do GT juridico se
visa entender como o direito é uma ferramenta utilizada pelos movimentos sociais, quais
as dinamicas de relaçao, quais os pontos de conflito e de convergencia positiva. No caso
desta relaçao dentro da Ocupaçao da Camara de Vereadores uma particular atençao é
dada ao deferimento da reintegraçao de posse e a elaboraçao de dois projetos de lei sobre
transporte publico como principais momentos de relaçao entre a organizaçao coletiva da
ocupaçao e o GT juridico.

Palavras-chave: Ocupação da camara de vereadores; Movimentos sociais; Direito; Porto


Alegre 2013.

298
A CRIMINALIZAÇÃO DOS MOVIMENTOS SOCIAIS NO BRASIL
PÓS-GOLPE: A RADICALIZAÇÃO DE UM MÉTODO

Jarbas Ricardo Almeida Cunha

Numa conjuntura em que há uma fragilização do Estado Democrático e Social de Direito,


movimentos de sem-teto, feministas, de LGBT’s, negros, indígenas, sem-terra, de
ocupação de escolas, dentre outros, se transformaram em alvos de um verdadeiro ataque
por parte do Governo comandado por Michel Temer via utilização de um aparato de
segurança fortemente armado munido de violência extremamente desproporcional,
caracterizando uma espécie de novo urbanismo militar.Assim, há uma agudização da
violência e repressão a qualquer espécie de manifestação social, e que reivindique não
somente pautas sociais ou humanitárias, como o acesso à terra ou debate educacional,
mas até mesmo pautas culturais e libertárias, como o uso de drogas recreativas. Essa
violência, que já se mostrava presente nas periferias urbanas das grandes cidades,
dizimando principalmente a juventude negra, agora se universaliza e se “democratiza”
atingindo a maior parte dos setores sociais brasileiros, sejam estes movimentos sociais,
partidos políticos, sindicatos, igrejas, e até presidentes e ex-presidentes da República.
Dessa forma, este artigo tem como objetivo debater e problematizar teorias como Estado
de Direito Oligárquico (RANCIÈRE, 2014), a Doutrina do Choque e do Pavor (KLEIN,
2008) e o Estado de Exceção (AGAMBEN, 2004; SERRANO, 2016), na conjuntura da
América Latina e, em especial, do Brasil. Para a consecução do objetivo delineado,
utiliza-se a metodologia da revisão de literatura de tipo narrativa, em que consiste relatar
publicações amplas, apropriadas para descrever e discutir o desenvolvimento ou o
‘estado da arte’ de um determinado assunto, sob ponto de vista teórico ou contextual
(ROTHER, 2007). Nesta revisão narrativa, utiliza-se artigos científicos, doutrina,
jurisprudência e um conjunto de normativos, além de alguns documentos jurídicos,
sempre em uma tentativa de análise crítica pessoal do autor.

Palavras-chave: Criminalização; Movimentos Sociais; Estado de Direito Oligárquico;


Doutrina do Choque; Estado de Exceção.

299
DIREITO AO NOME: AS AÇÕES DE RETIFICAÇÃO DE REGISTRO
CIVIL DE TRAVESTIS E PESSOAS TRANSEXUAIS E A QUESTÃO
DA REGULAÇÃO DO GÊNERO PELO DIREITO

Simone Schuck da Silva

Meu objetivo é partir de um referencial teórico descolonial de gênero para analisar sua
regulação pelo direito e, simultaneamente, o uso da gramática jurídica pelas travestis e
pessoas transexuais nas demandas identitárias. Apresento sua experiência de resistência
pelo acesso à justiça e identifico a ambiguidade desse processo. Compreendo gênero a
partir de uma matriz teórica não-essencialista, pela qual o corpo é produtor e produto
de significados sociais marcados pela cisnormatividade, conjunto de preceitos
normativos e colonizadores responsável por “formações corporais e identidades de
gênero naturalizadas e idealizadas” (SIMAKAWA, 2015, p. 44). Trabalho com a
identificação de duas gramáticas do estado de direito, a tradicional gramática da
regulação estatal, mas também a gramática da regulação social (RODRIGUEZ, 2014),
pela qual é possível conceber um projeto de direito não-assimilacionista das demandas
de gênero, um uso da gramática jurídica em que “a sociedade pode reivindicar o direito
para regular diretamente sua conduta ou para facilitar a regulação social autônoma”
(RODRIGUEZ, 2014, p. 138). No estudo das demandas por retificação de nome e gênero,
enfrento o uso do direito para a afirmação de uma identidade de gênero. O nome,
símbolo de identificação pessoal, no direito, é a consagração da personalidade jurídica.
O trabalho, portanto, enfrenta a tensão entre as funções de representatividade jurídica e
de caracterização identitária, analisa uma luta política diante do direito, uma tensão
entre regras (leis do Estado) e desejo dos sujeitos (práticas sociais). Considero a
existência de uma tensão entre obediência e rebeldia em relação às normas dos espaços
simbólicos de pertinência pessoal e identitária (GREGORI, 2016). Um processo ambíguo,
em que as identidades de gênero das travestis e pessoas transexuais, na demanda
jurídica de retificação, estão implicadas no próprio poder a que se opõem (BUTLER,
2014). Há uma “possibilidade política que emerge quando os limites da representação e
da representabilidade são expostos” (BUTLER, 2014, p. 18). As travestis e pessoas
transexuais não poderiam fazer sua reinvindicação fora da linguagem (cis)normativa do
Estado, porém, sua reivindicação tampouco pode ser plenamente assimilada por ele. Há
uma contestação da identidade de gênero dentro da gramática jurídica, sem, entretanto,
tê-la absorvida pelo direito.

Palavras-chave: Transexuais; Travestis; Registro civil; Identidade; Regulação social.

300
OCARA: PENSAR A CIDADE E A DEMOCRACIA A PARTIR DO
SUL

Rosa Maria Freitas do Nascimento


Judith Jeine França Barros

Descolonizar é um ato de apropriação da palavra, dos mitos e dos discursos. Quando se


propõe o uso do termo ‘ocara’, como o lugar central da tribo, em torno do qual as ocas
em círculo eram dispostas, procura-se trazer para a realidade dos povos latinos o fato
que a política, a religiosidade, o poder e a apropriação do espaço são características da
vida em sociedade. Obviamente, tudo se torna mais complicado quando no mundo
globalizado. Os desafios de uma sociedade, bem como as respostas que são dadas
refletem noutros lugares diretamente. A maior parte dos habitantes do planeta mora em
cidades, médias, grandes e em centros metropolitanos, e todas as cidades do mundo
enfrentam desafios semelhantes. A rede mundial de computadores também aproxima
essas pessoas que vivem em lugares diversos. Uma lógica nova, em grande parte
incompreendida, sobre como se pode viver, e como se pode viver melhor, nessa cidade
global. O objetivo do artigo é inserir o leitor sobre o discurso da democracia e do lócus
onde ele se faz primordialmente, a cidade e a crise que as acompanha. Essa crise não é
prioridade do norte, do sul, do leste, do oeste, do ocidente ou do oriente. No
caleidoscópico, na encruzilhada, na periferia de forma exógena e endógena o nascer do
século XXI aponta para, no mínimo, uma revisão do modelo de democracia
representativa. No segundo momento, entende-se que não é possível falar em
democracia sem discutir o direito à cidade, como direito coletivo transnacional, pois a
cidade hoje é uma cidade global, o que não significa um único padrão estético de
organização do espaço, mas o direito a uma cidade democrática e inclusiva. O artigo
segue a metodologia de um ensaio, com revisão de literatura. Trata-se de uma
investigação provocativa, ainda incipiente, sobre as contradições sociais e discursos que
impõe a revisão de conceitos e a proposituras de novas práticas. Na Ágora das Américas,
a Ocara, necessita encontrar na sua essência, a motriz para a efetivação de mudanças
sociais. Ou seja, deixar de olhar para si como fruto bastardo do colonizador.

Palavras-chave: Ocara; Democracia; Descolonialidade; Poder policêntico.

301
A TENSA RELAÇÃO ENTRE ESTADO E SOCIEDADE: UMA
ANÁLISE A PARTIR DA ECONOMIA SOLIDÁRIA

Aline Mendonça dos Santos

Ao longo da história política brasileira observa-se a afirmação de um contexto social e


político em que a participação cidadã torna-se uma contribuição imprescindível nos
espaços de ação política e, portanto, impõe-se outra relação entre Estado e sociedade. Já
na década de 1970 – com as críticas ao estatismo que passam a predominar entre teóricos
e atores interessados em processos de mudança social, em grande parte por conta de
experiências concretas que mostraram como o Estado redistributivo podia tender à
tecnocracia ou mesmo ao autoritarismo – houve um redirecionamento da agenda
política e do foco teórico para a sociedade civil enquanto esfera de onde poderia emergir
uma democracia com características mais participativas. Assim, as mobilizações sociais
exigiam uma administração pública mais permeável a participação popular.O processo
de reelaboração da Constituição Brasileira, em 1988, já dava sinal de que as forças da
sociedade apontavam para uma outra relação com o Estado, uma vez que diferentes
forças políticas apresentavam propostas para formular um novo referencial das relações
entre Estado e sociedade que fundamentavam como deveria ser a construção da
democracia no Brasil. Desta forma, o campo da sociedade civil (diverso e heterogêneo)
centrava-se na reivindicação da cidadania e no fortalecimento do papel da sociedade na
condução da vida política do país, pois questionava o Estado como protagonista da
gestão pública.O Estado brasileiro protagonizou mudanças significativas do ponto de
vista organizacional que precisam ser discutidas e analisadas. A proposta aqui é refletir
o Estado brasileiro tendo como “pano de fundo” a Política Nacional de Economia
Solidária que é uma institucionalidade nova iniciada no primeiro mandato do governo
do Lula e mantida até o atual governo interino de Michel Temer.A dinâmica de
institucionalização da política de economia solidária teve muita cumplicidade entre
Estado e sociedade. No entanto houve momentos conflituosos frente a disputa dos
interesses do Estado e dos interesses do movimento de economia solidária. O trabalho
que aqui proponho pretende refletir este diálogo e tensões para compreender os avanços
e retrocessos da democracia brasileira.

Palavras-chave: Estado; Sociedade; Economia Solidária.

302
ATORES SOCIAIS E MECANISMOS DE
RESPONSABILIZAÇÃO DE EMPRESAS POR
VIOLAÇÕES DE DIREITOS HUMANOS
EMPRESAS TRANSNACIONAIS E (DE)COLONIALIDADE NA
AMÉRICA LATINA: A COOPERAÇÃO JURÍDICA
INTERNACIONAL NO CASO CHEVRON

Ademar Pozzatti Junior


Juliana Felice

A presente pesquisa se insere no contexto da perpetração da lógica colonial através da


atuação das empresas transnacionais na América Latina, tendo por objeto o estudo da
cooperação jurídica internacional para a execução de dívidas da Chevron no Equador.
Em 1992, a petroleira estadunidense encerrou quase trinta anos de atividades no
Equador, deixando para trás incontáveis poços de petróleo abertos, contaminando a
população indígena das províncias de Orellana e Sucumbos. Em 1993 um grupo de
equatorianos ajuíza uma ação contra a Chevron (Texaco, na época) e, em 2012, a
petroleira é condenada a pagar US$ 9,5 bilhões. Entretanto, a Chevron retirou todos seus
bens do Equador no início do processo, de forma a não ter bens sob a jurisdição
equatoriana que pudessem saldar a sua dívida, razão pela qual começou um extenso e
complexo processo de cooperação jurídica internacional do Equador com diversos países
onde a petroleira tem empreendimentos, afim de que a sentença fosse executada nesses
países. Contudo, estes processos de cooperação jurídica internacional têm encontrado
diversas dificuldades, havendo indicativos de que os mesmos não estão preocupados
com a efetivação do acesso à justiça das populações prejudicadas, senão que estão a
serviço dos interesses das grandes empresas transnacionais em usurpar do território,
perpetrando a lógica da colonialidade. Nesse sentido, este trabalho investiga se a
cooperação jurídica internacional operacionalizada no caso Chevron rompe com a lógica
da colonialidade através da responsabilização e execução desta responsabilização pelas
estruturas institucionais dos Estados latino-americanos, ou se a cooperação jurisdicional
apenas reproduz o esquema de exploração da América Latina, mantendo a lógica
colonial. O método de abordagem é dialético, que auxilia a demostrar a continuidade da
lógica da colonialidade e o método hipotético dedutivo, para analisar a efetividade dos
tratados internacionais cooperação jurídica no caso especifico. As técnicas de pesquisa
são a analise bibliográfica, documental e jurisprudencial. Dentre os resultados
alcançados, estão a demostração de como a lógica da descolonialidade poderia afetar a
cooperação jurídica internacional para a efetivação de direitos humanos na América
Latina e como as empresas transnacionais ainda hoje – ou sobretudo hoje? - atuam dentro
da lógica de colonialidade.

Palavras-chave: Responsabilização internacional; Empresas transnacionais;


Descolonialidade; Cooperação jurídica internacional; Caso Chevron.

304
COLONIALIDADE E IMPUNIDADE: ANÁLISE SOBRE PROJETOS
DE REGULAMENTAÇÃO DE EMPRESAS POR VIOLAÇÕES DE
DIREITOS HUMANOS NO BRASIL

Flavia do Amaral Vieira

A problemática a ser desenvolvida se evidencia na proposição de uma análise sobre os


projetos de regulação de empresas com relação aos direitos humanos existentes no
Brasil, assim como da posição do Estado brasileiro sobre à elaboração de um instrumento
vinculante nas Nações Unidas, para a partir da identificação de possíveis lacunas e
avanços neste debate, apresentar uma contribuição à temática, sob a perspectiva do uso
contra-hegemônico do Direito. A partir de uma abordagem crítica sobre os direitos
humanos na contemporaneidade, verifica-se que, mesmo com todos os avanços
registrados no marco legal e todas as conquistas civilizatórias realizadas na realidade da
maioria dos seres humanos nas várias regiões do mundo, ainda persiste uma
diferenciação entre a igualdade no plano jurídico-legal e a efetivação dos direitos
humanos. Ao remontar às raízes históricas, epistêmicas, político-econômicas, culturais e
ideológicas que interligam os territórios latino-americanos, sobretudo o brasileiro, às
lógicas operativas do capitalismo transnacional, o presente projeto intenta construir uma
perspectiva teórico-metodológica, que permita iluminar o cenário atual de inserção de
novos territórios nos circuitos de acumulação do capital. A hipótese central é que a
ausência de instrumentos que regulamentem de fato, que imponham sanções e
responsabilização de empresas transnacionais por violações de direitos humanos no
Brasil e a fixação pela implementação de regulações soft law, evidencia padrões de
relação coloniais entre o país e nações desenvolvidas, sedes das corporações.

Palavras-chave: Direitos humanos e empresas; Projetos de regulamentação de empresas;


Colonialismo.

305
UNEARTHING POWER: A DECOLONIAL ANALYSIS OF THE
SAMARCO MINE DISASTER AND THE BRAZILIAN MINING
INDUSTRY

Sasha Hanson Pastran


Pedro Bigolin Neto

The November 2015 Samarco mine tailings dam break that killed 19 people and
destroyed the Rio Doce river basin is being called Brazil’s worst-ever socio-
environmental disaster. In the year following the disaster, conflict has arisen between
the mine company, government authorities, and affected community members as to how
to adequately repair the damage and justly compensate victims of the tragedy. The paper
will employ a decolonial theoretical framework to analyze this conflict and discuss what
decolonizing Brazilian mining development might look like. Brazil’s mining regime is
deeply engrained with its colonial history and therefore, taking a broad, historical and
critical decolonial approach will be important for considering the socio-political, cultural
and economic dimensions of the Samarco dam disaster, as well as how the case fits into
the Brazilian mining industry in greater context. The methodology uses primary data
from 20 interviews conducted in July and August 2016, as well as a critical analysis of
relevant laws regulating the sector. Themes from interviewees answers to a set of almost
identical questions across groups are compared and analyzed within the context of
participants’ varying and sometimes competing power positions and interests. The
decolonial strategy of epistemological disobedience will be carried forward by
privileging subaltern voices of those excluded from the type of development imposed
by mining activity and by challenging the narratives of the benefits of mining
development as it has played out in Brazil. The overall objective of the paper is to apply
a decolonial lens on corporate culture and public policy in the mining sector and to
extract the community organizing lessons that can be learned from the Samarco case to
enable decolonial healing, and infuse greater social and environmental corporate
responsibility and preventative principles into mining practices in Brazil.

Key words: Decolonial theory; Mining conflict; Corporate responsibility; Environmental


crime; Public policy.

306
COLONIALISMO E PÓS-COLONIALISMO SOB ASPECTO DO
EXTRATIVISMO

Jerusa da Silva Peixoto


Rafael Augusto Braga
Marcelo Argenta Câmara

A colonização da América Latina se desenvolveu pela extração de ouro, prata e demais


metais preciosos, paralelamente com saqueamento e destruição dos povos originários,
seja por meio da violência física, da imposição cultural e principalmente pelo extermínio
de comunidades tradicionais, como salienta Quijano (2005), na América a escravidão foi
estabelecida e organizada como mercadoria para produzir mercadorias para o mercado
mundial, servindo aos propósitos e necessidades do capitalismo, deste mesmo modo, a
servidão imposta aos indígenas teve este mesmo fim, produzir mercadorias para o
mercado mundial. Transcorridos quase duzentos anos da independência do Brasil, as
marcas e heranças da colonialidade são ainda (re)vividos na atualidade, por meio de um
complexo sistema conhecido por “neoextrativismo progressista”, que segundo Gudynas
(2009) trata-se de práticas nas quais o Estado desempenha papéis mais ativos e que
alimentam programas de luta contra a pobreza, mas que por outro lado, continuam
adotando modelos de grande impacto social e ambiental que, novamente, remetem à
dependência dos circuitos econômicos globais, mantendo a persistência do resquício
colonial que é a exploração de recursos naturais e suas consequências sociais. Desta
forma, esta pesquisa propõe identificar sob o contexto do megaprojeto extrativista
“Projeto Grande Carajás” elementos do colonialismo e pós-colonialismo ali presentes. A
metodologia deste trabalho partiu de pesquisa bibliográfica acerca do Projeto Grande
Carajás e definição dos conceitos relacionados ao colonialismo. Após realizou-se análise
do desenvolvimento do extrativismo e a ação das transnacionais no território e aos povos
originários. Os resultados chegados com esta pesquisa demonstram que megaprojetos
extrativistas são determinadores do espaço territorial, pois alteram a organização
territorial, a paisagem, a ecologia e instauram uma nova dinâmica social, econômica,
cultural, ecológica e espacial. Visto que são causadores de conflitos territoriais, onde o
território é o objeto em disputa e o indivíduo que impõe suas práticas espaciais é
detentor do controle sobre o território, configurando em relações de poder e
consequentemente violação dos direitos humanos e da natureza, onde, conforme
Quijano (2005) ainda exerce a colonialidade do ser: existem seres dominantes e seres
dominados.

Palavras-chave: Neoextrativismo; Território; Transnacionais.

307
A POSSIBILIDADE DE RESPONSABILIZAÇÃO JURÍDICA DE
EMPRESAS TRANSNACIONAIS PELA VIOLAÇÃO DE DIREITOS
HUMANOS DE POVOS INDÍGENAS

Paulo Víctor Schroeder

Em 25 de junho de 2014 foi aprovada, na 26ª Sessão da Organização das Nações


Unidas, a Resolução AHRC26L.1, que criou uma comissão intragovernamental
no sentido de elaborar o primeiro instrumento jurídico de dimensão
internacional e com força jurídica vinculante sobre a atividade de empresas
transnacionais, com o objetivo de responsabilizar ações que violem os direitos
humanos. Conforme a Comissão Internacional de Direitos Humanos (2015), com
frequência, os projetos de extração e exploração desenvolvidos por empresas
transnacionais afetam terras e territórios que são historicamente ocupados por
povos e comunidades indígenas. Nesse contexto, o objetivo da presente pesquisa
é a) identificar em que medida o instrumento legislativo emergente pode auxiliar
na formulação de um quadro normativo indigenista em consonância com as
contemporâneas demandas das comunidades tradicionais; e b) explorar em que
amplitude e de que forma o consentimento das comunidades tradicionais deve
ser incorporado ao novo instrumento legislativo no que diz respeito a projetos
extrativistas. A principal hipótese é a de que, sob o risco de agravamento dos
danos causados pelas instituições modernas às comunidades tradicionais, a nova
legislação em paute deve abranger uma concepção de consentimento que
possibilite um entre-mundo de diálogo entre o mundo-aldeia e a sociedade
circundante (SEGATO, 2014), permitido o desenvolvimento sustentável das
comunidades tradicionais. A presente pesquisa pretende caracterizar-se, em um
primeiro momento, como exploratória, proporcionando maior familiaridade com
o problema e objetivando o aprimoramento de ideias. Quanto aos procedimentos
técnicos utilizados, a pesquisa constitui-se como bibliográfica.

Palavras-chave: Direitos Humanos; Empresas Transnacionais; Povos Indígenas.

308
A ELABORAÇÃO DO TRATADO SOBRE DIREITOS HUMANOS E
EMPRESAS A PARTIR DA PERSPECTIVA NEOLIBERAL
EUROCÊNTRICA

Manoela Carneiro Roland


Paola Durso Angelucci

A assimetria de poder entre as empresas transnacionais (TNC’s), Estados e populações


possibilitou a criação de um quadro caracterizado como a “arquitetura da impunidade”,
em que as TNC’s não são responsabilizadas pelas violações de direitos humanos
decorrentes de sua cadeia de produção, especialmente em países ditos “periféricos”. A
partir deste diagnóstico, Equador e África do Sul impulsionam um movimento, que
conta com a participação da sociedade civil, para a elaboração de um Tratado sobre
Direitos Humanos e Empresas, buscando proteger e reparar, de forma mais efetiva, as
comunidades afetadas. O presente trabalho pretende analisar como a União Europeia
(UE) interfere neste processo, considerando que o bloco compreende países que são sede
de várias TNC’s e, neste sentido, tem se posicionado contra a elaboração de um
instrumento vinculante sobre o tema. Partindo das “Sete teses sobre Direitos Humanos”,
de Costas Douzinas, investigaremos a hipótese segundo a qual a postura do bloco ecoa
uma prática ocidental, evidenciada desde a Declaração dos Direitos do Homem e do
Cidadão, de uma imposição de verdade universal que exclui as particularidades dos
diferentes povos e territórios.A partir de uma investigação jurídico-compreensiva
fundada em pesquisa bibliográfica, pretende-se evidenciar o caráter colonizador da
atuação europeia, ao reforçar uma matriz normativa de direitos humanos que privilegia
grupos economicamente e culturalmente dominantes, ao passo que invisibiliza as
demandas daqueles que têm sua identidade desvalorizada no cenário internacional.
Pretende-se, ainda, demonstrar como a imposição de poder da UE permeia as
negociações para a elaboração do Tratado, reforçando o modelo neoliberal para o Sul
global e impedindo que estes países consolidem suas práticas institucionais e
normativas, mais adequadas ao cenário e aos desafios locais. Isto evidencia, para além
da consagração da máxima universalista eurocêntrica, a proteção dos interesses
empresariais pela UE a partir de uma concepção neoliberal “humanitarista”, que
caracteriza um novo tipo de imperialismo fundado na promessa do desenvolvimento
econômico associado à garantia dos direitos humanos.

Palavras-chave: Empresas Transnacionais; Tratado sobre Direitos Humanos e Empresas;


União Europeia; Pensamento Descolonial.

309
A LÓGICA DA COLONIALIDADE COMO FATOR DE NEGAÇÃO
DE DIREITOS TERRITORIAIS AOS POVOS INDÍGENAS DO
BRASIL: UMA ANÁLISE DA CADEIA PRODUTIVA DA SOJA, DO
MILHO E DA CARNE BOVINA NO ESTADO DO MATO GROSSO
DO SUL

Alex Sandro da Silveira Filho

Este trabalho está inserido no projeto de pesquisa “Direitos territoriais indígenas e a


prevenção de atrocidades no Brasil”, coordenado pelas professoras Fernanda Frizzo
Bragato (UNISINOS) e Jocelyn Getgen Kestenbaum (Cardozo Law School – EUA). O
presente trabalho visa demonstrar, tendo como base o estudo de caso da cadeia
produtiva da soja, do milho e da carne bovina no estado do Mato Grosso do Sul, que a
lógica da colonialidade é um dos diversos fatores de negação aos direitos territoriais dos
povos indígenas no Brasil. Para tanto, estudar-se-á o que é a lógica da colonialidade,
como ela se configura como um fator de negação de direitos, e de que forma ela pode
impedir os povos indígenas brasileiros de acessar seus direitos territoriais, assim como
analisaremos a cadeia produtiva da soja, do milho e da carne bovina no estado do Mato
Grosso do Sul, região onde ocorrem frequentes conflitos de terra entre latifundiários e
povos indígenas. A pesquisa tem caráter exploratório, tendo como metodologia de
abordagem a modalidade dedutiva, buscando apontar, a partir do estudo de caso
mencionado, como a lógica da colonialidade é um fator de negação aos direitos
territoriais dos povos indígenas no Brasil, como metodologias de procedimento as
modalidades histórica e comparativa, onde será analisada a questão agrária no Brasil e
suas implicações em nossos dias, comparando esses dados com as definições de
colonialidade e como a sua lógica pode negar direitos a determinados grupos sociais, e
como técnicas de pesquisa, a revisão bibliográfica, em obras que trabalhem a temática
da colonialidade e a questão agrária no Brasil, documentação indireta, por meio de
relatórios disponíveis na internet sobre a situação das cadeias produtivas no Mato
Grosso do Sul, e documentação direta, por meio de pesquisa de campo qualitativa, onde
serão feitas entrevistas com lideranças Guarani-Kaiowá no Mato Grosso do Sul, assim
como com representantes do setor produtivo na região.

Palavras-chave: Colonialidade; Povos indígenas; Cadeias produtivas; Direitos


territoriais.

310
TENSÕES ENTRE MODELOS E MODOS SOCIOECONÔMICOS NA
SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA: UMA PROBLEMATIZAÇÃO DO
CRIME AMBIENTAL NA BACIA DO RIO DOCE

Bruna Neitzel Sepulcri


Rosinei Ronconi Vieiras
Martha Tristão

O artigo tem como objetivo problematizar algumas relações estabelecidas entre o modelo
econômico desenvolvimentista/produtivista com diferentes lógicas que escapam às
imposições hegemônicas de mercado. Coloca em discussão a própria noção de
desenvolvimento presente hoje na maioria das sociedades contemporâneas. Levanta a
possibilidade e necessidade de potencializar diferentes racionalidades e modos de
existências plurais que não estejam conformados com a lógica instrumental, linear e
reducionista baseada num modelo que se percebe unilateral e homogeneizante cujo
padrão estabelecido a priori é impositivo e excludente. Para exemplificar essas relações
nos envolveremos com o maior crime ambiental brasileiro, ocorrido na bacia
hidrográfica do rio Doce, localizada nos territórios de Minas Gerais e do Espírito Santo.
A escolha da problemática se dá pelas experiências que foram e estão sendo
compartilhadas e vivenciadas cotidianamente desde o crime ambiental ocorrido em
Marina – MG. A tensão presente entre os diferentes modelos socioeconômicos
evidenciada pelo crime socioambiental, se mostrou assimétrica, ou seja, a força do
mercado, com seu discurso desenvolvimentista, mascarou a realidade ao se mostrar
imprescindível para o desenvolvimento da sociedade, como também, massacrou
determinados modos de vida que estabeleciam intrínsecas relações com o rio. Nesse
processo, a metodologia não foi uma escolha, mas emergiu a partir das circunstâncias na
qual estivemos/estamos imersos. Mesmo reconhecendo a incompletude de qualquer
metodologia, além de nossa experiência empírica, lançamos mão de alguns
procedimentos, tais como: a escuta sensível, a observação, as produções narrativas
engendradas durante o processo, dentre outros. Nessa rede de experiências e vivências
compartilhadas percebemos que o medo, a angústia e a insegurança, que se instalou
desde os primeiros dias do crime ambiental, ainda persiste. Além desses sentimentos,
todas as perdas afetivas e materiais que se fizeram presente na vida de ribeirinhos,
pescadores, indígenas, agricultores, comunidades urbanas, dentre outros, não foram
consideradas nas negociações engendradas pela empresa responsável pelo crime.

Palavras-chave: Crime ambiental; Modos de existência; Lógica produtivista.

311
ETNOGRAFIAS DAS
INTERSECCIONALIDADES: RAÇA E GÊNERO
NO CONTEXTO DAS POLÍTICAS PÚBLICAS E
DA JUSTIÇA
DESIGUALDADES SOCIAIS E DEMANDAS POR IGUALDADE DE
GÊNERO EM CABO VERDE DESDE MULHERES CHEFES DE
FAMÍLIA

Miriam Steffen Vieira

Desde a perspectiva de interseccionalidades como a relação entre distintos eixos de


poder, este paper visa apresentar reflexões sobre demandas de mulheres relacionadas a
direitos e igualdade de gênero, com especial atenção à dimensão das desigualdades
econômicas e de classe nestes processos. Inicialmente, apresentarei uma reflexão sobre a
categoria mulheres chefes de família desde uma abordagem conceitual, posteriormente,
sobre o seu uso em estudos sobre dinâmicas familiares e de gênero em Cabo Verde, para,
posteriormente, identificar os usos desta categoria em demandas sociais de mulheres.
Para tanto, utilizarei dados de campo de diferentes pesquisas realizadas em Cabo
Verde: 1) sobre mulheres que realizam “apanha de areia” no interior de Santiago, em
pesquisa de longa duração, desde janeiro de 2009 (Vieira e Rocha, 2016); 2) sobre gênero
e ambiente nos Parques Naturais de Cabo Verde, em pesquisa realizada em 2010
(Moassab e Vieira, 2016); sobre os uso do direito por mulheres, desde uma etnografia
realizada na Casa do Direito de Terra Branca/Santiago, no período entre julho de 2014
a julho de 2015.

Palavras-chave: Gênero; Mulheres chefes de família; Cabo Verde.

313
AS PRÁTICAS DAS PROMOTORAS LEGAIS POPULARES: UMA
VISÃO INTERSECCIONAL SOBRE OS DIREITOS DAS MULHERES

Thaís da Rosa Alves

O presente trabalho corresponde a um exercício etnográfico realizado com as


Promotoras Legais Populares (PLPs) que realizavam atendimento do Serviço de
Informação à Mulher na Central de atendimento ao Cidadão Tudo Fácil: o SIM – Tudo
Fácil. As PLPs são mulheres das periferias da cidade de Porto Alegre com alguma
influência em seus bairros que receberam capacitação legal sobre os direitos humanos
das mulheres. O objetivo do mesmo é refletir sobre as práticas de justiça das PLPs à luz
da perspectiva interseccional.
Para a realização da coleta de dados foi realizado um campo no período de fevereiro à
abril de 20151, no qual realizaram-se algumas observações participante no espaço de
atendimento e em reuniões da equipe do SIM, além de entrevistas individuais com
algumas PLPs. O material foi sistematizado em torno de um caderno de campo que foi
revisitado para trazer pontos que conversem com a perspectiva interseccional.
Neste sentido, busca-se compreender a relação das práticas dessas mulheres das
camadas populares2 com a perspectiva interseccional proposta por feministas negras
norte- americanas e latino-americanas. (LÓPEZ, 2013). A escolha pela perspectiva
interseccional se dá pelo fato de que a maioria das PLPs eram mulheres negras, incluindo
as integrantes da ONG que eram coordenadoras deste projeto. Portanto, faz-se
necessário, ao pensar a prática dessas mulheres, incluir além do marcador classe
presente no termo popular, o marcador raça visível em seus corpos e discursos.

Palavras-chave: Promotoras Legais Populares; Práticas de justiça; Interseccionalidade.

314
GÊNERO, RAÇA E IDENTIDADE NA RELAÇÃO ENTRE ESTADO E
SOCIEDADE: O ACESSO AOS SERVIÇOS PÚBLICOS PELAS
IMIGRANTES HAITIANAS NO BRASIL

Carla Ricci

Muito embora a realidade social brasileira tem se constituído na interceptação de linhas


culturais, étnicas e raciais, originada a partir dos históricos fluxos de imigração recebidos
pelo país, o tratamento do individuo imigrante no Brasil tem sido matéria contraditória
no âmbito das políticas públicas. Desde os períodos mais incipientes, quando os
resquícios coloniais da dizimação dos povos nativos e do subsequente tráfico de escravos
africanos estruturou uma hierarquia racial, que sustentava as desigualdades sociais, a
preponderância de uma política que priorizava a imigração europeia ao Brasil era
notória. A visão brasileira acerca da imigração esteve historicamente preocupada com
uma formação social eugenista, quando a tese do branqueamento racial foi amplamente
difundida como requisito para o desenvolvimento bem-sucedido do país. Dessa forma,
o processo de negociação das novas identidades raciais, étnicas e culturais que surgiam
no Brasil foi intensamente dificultado pelo estereótipo do brasileiro forjado pela elite
nacional e por graves ondas de discriminação. Diferentemente, portanto, do tratamento
cultuado ao imigrante europeu e branco, os imigrantes negros e oriundos de países
marginais do globo enfrentaram – e ainda enfrentam – um cenário de resistência a sua
plena integração social. O desafio à imigração negra torna-se ainda mais complexo ao
articulá-lo à categoria gênero, uma vez que, conforme disserta a crítica feminista pós-
colonial, as mulheres têm sido excluídas do papel de protagonistas e narradoras da
história, estando sujeitas, assim, à representação a partir de uma visão monolítica
masculina. Nesse sentido, diante de uma estrutura nacional permeada pelo racismo, pelo
patriarcalismo e por uma ideia fixa e hegemônica da nação brasileira, agravada pela
ausência de políticas públicas específicas a essa parcela da população, este trabalho
pretende perceber como se dá o acesso aos serviços públicos pelas imigrantes haitianas
no Brasil. Assim, busca-se responder ao questionamento de como (e se) a estrutura
política e social do país influenciam na provisão desses serviços às mulheres imigrantes.
Para isso, portanto, será realizada pesquisa etnográfica, que consiste no
acompanhamento das mulheres haitianas nas suas experiências em acessar os serviços
públicos oferecidos pelo país, percebendo as relações que se formam a partir dessa
articulação entre Estado e sociedade.

Palavras-chave: Políticas Públicas; Imigração; Gênero; Raça; Imigrantes haitianas.

315
MOVIMENTO LGBT NEGRO: UM BREVE RELATO SOBRE
MARCADORES DE EXCLUSÃO E MEIO EDUCACIONAL

Mariana Xavier de Oliveira

Negros, gays e pobres, sobretudo com essas características combinadas, estão sujeitos a
diversos tipos de segregação, devido a heteronormatividade, preconceito racial e social
existente na sociedade brasileira. As instituições educacionais refletem atitudes que
permeiam na sociedade. Neste contexto, este estudo visa responder o seguinte problema
de pesquisa: Como os negros (as) LGBT’s e pobres de Rio Grande/RS percebem suas
experiências no ambiente escolar? Tendo como objetivos específicos: identificar
situações de discriminação nos ambientes educacionais e; expor subjetividades nas quais
se enquadram esses indivíduos, quanto ao acesso ao meio educacional. A metodologia
norteadora dessa pesquisa é a etnografia com o uso da História oral com grupos LGBT’s
da cidade de Rio Grande/RS com abordagem qualitativa. No intuito de compreender as
vivências e lutas dos mesmos, sendo esses, protagonistas das suas narrativas, trazendo
a ótica e perspectiva enquanto negros, LGBT’s e pobres. A intolerância no Brasil tem um
forte viés histórico com relação a população negra, devido ao passado escravista, onde
o negro sequer era percebido como um ser humano. Essa exclusão tomou novas formas
e proporções, expondo os indivíduos a situações nas quais tendem a ser tratados como
coadjuvantes. Expressando assim um forte determinismo biológico. Quanto ao público
LGBT, o modelo de sociedade heteronormativa segrega esses sujeitos dos espaços
refletindo no meio educacional. Pensando sobre formas de exclusão, o público LGBT,
mas, sobretudo pobres e não brancos, tendem a liderar as piores estatísticas, como a
população negra. Ou seja, os preconceitos são combinados e intensificados dificultando
a ascensão social a essas pessoas perpetuando assim tal ciclo vicioso. As instituições
escolares, reproduzem diversos preconceitos, provocando uma desumanização dessas
pessoas que passam a ser percebidos como seres abjetos. Na maioria das vezes, pode-se
dizer que esse processo de marginalização ocorre devido a condição étnico-racial que
apresentam. Perceber quais são as demandas desses grupos e possíveis preconceitos
sofridos, contribui para uma maior visibilidade das peculiaridades que esses sujeitos
enfrentam na sociedade e no meio educacional, possibilitando políticas públicas visando
a equidade e justiça social.

Palavras-chave: Negros; LGBT’s; Educação; Justiça social.

316
EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS NA AMAZÔNIA:
COLONIALIDADE, INTERSECÇÕES E DIVERSIDADES

Mariah Torres Aleixo

A proposta constitui discussão sobre a experiência de lecionar as disciplinas: Direitos


Humanos e Cidadania e Identidade Amazônica, a primeira inserida na matriz curricular de
diversos cursos de graduação nas universidades do país, e, nesse caso, especificamente,
no curso de bacharelado e licenciatura em Etnodesenvolvimento (específico para povos
tradicionais) da Universidade Federal do Pará – UFPA e no bacharelado em Direito da
Universidade Federal do Amapá – UNIFAP; e a segunda, também integrante da grade
do curso de bacharelado em Direito da UNIFAP. Partindo de comparações acerca da
experiência de ensino-aprendizagem nas referida disciplinas, cursos e instituições,
postula-se a necessidade de compreender as diferenças de cor/raça, etnia, religião,
gênero, geração, entre outras, de maneira articulada para pensar e falar sobre Direitos
Humanos na Amazônia. Debater e viver a diversidade em sala de aula numa região
marcada pela colonialidade do poder, do saber e do ser constitui desafio intrínseco a
qualquer experiência educacional, porém, quando o assunto são Direitos Humanos, a
perspectiva eurocêntrica, ainda dominante no estudo do tema, salta aos olhos,
precisando, portanto, ser repensada e transformada, especialmente para ser
adequadamente compreendida por estudantes de diversas pertenças. Olhares e
resistências locais, que denotam experiências e agenciamentos específicos da(s)
diferença(s) precisam ser valorizados e discutidos.

Palavras-chave: Direitos Humanos; Interseccionalidade; Amazônia.

317
PÓS/DESCOLONIALISMO E O CAMPO DO
DIREITO INTERNACIONAL ECONÔMICO NA
AMÉRICA LATINA
TEORIA QUEER E DIREITO INTERNACIONAL: POSSIBILIDADES
PÓS-COLONIAIS

Daniel Braga Nascimento


Gustavo Frota Lima e Silva

O presente artigo visa dirigir questionamentos ao campo do Direito Internacional a


partir da Teoria Queer. Buscamos, para tanto, localizar esta corrente de pensamento em
termos de descontinuidade, aprofundamento e ruptura frente a outras abordagens
críticas, como o feminismo e o TWAIL. Discutimos, assim, o que entendemos por Teoria
Queer, sua origem histórica e suas afinidades teóricas com o pós-estruturalismo. A
seguir, por meio de exemplos, buscamos explicitar de que maneira a perspectiva queer
pode ser mobilizada como arsenal teórico em relação a alguns temas do Direito
Internacional: Estado-nação, “homonacionalismo”, diretrizes de Organizações
Internacionais, neoliberalismo e pautas identitárias. Por fim, discutimos as
potencialidades e limites da subversão queer em relação a propostas de transformação
identificadas com o terceiromundismo, o feminismo e os estudos gays e lésbicos.

319
MACUNAÍMA EM BUSCA DE UM LUGAR NAS SAVANAS
AFRICANAS: O QUE ESTÁ POR TRÁS DA REGULAÇÃO DE
INVESTIMENTOS ENTRE BRASIL E ANGOLA?

Michelle Ratton Sanchez Badin


Fabio Morosini

Os fluxos econômicos entre Brasil e Angola quadruplicaram nos últimos dez anos,
tornando Angola um dos principais parceiros de comércio e investimento na África e
um dos quais o Brasil mais aumentou seus fluxos econômicos nos últimos tempos.
Críticos tem qualificado a aproximação do Brasil com a África como “apenas um outro
país do BRICS buscando recursos naturais” e taxaram essas relações como sub-
imperialismo. Neste artigo, nós exploramos o histórico das relações entre Brasil e Angola
para argumentar que as explicações existentes simplificam a natureza das relações
Brasil-África, subvalorizam séculos de laços culturais e socioeconômicos entre Brasil e
África, e muito rapidamente tentam enquadrar essas relações às categorias criadas para
explicar interações Norte-Sul. O artigo está dividido em duas partes e examina a relação
entre Brasil e Angola. A primeira parte explora o histórico das relações Brasil-Angola,
que datam do século XV, quando o intenso fluxo de comércio transatlântico de escravos
definiram as relações entre essas duas colônias portuguesas, mas mais importante
moldaram a identidade mestiça brasileira, com impactos duradouros nas suas relações
bilaterais. A segunda parte do artigo contextualiza as relações Brasil-Angola no âmbito
do recém-assinado Acordo de Cooperação e Promoção de Investimentos (ACFI).
Tradicionalmente concebido como um regime assimétrico, o ACFI Brasil-Angola
contesta as bases da regulação de investimento ao desenhar regras enraizadas em
cooperação e coordenação horizontal, alinhada à tradição centenária de suas relações
bilaterais. Esta pesquisa está fundada em métodos de pesquisa empírica – incluindo
análise de dados agregados, documentos primários e secundários, e entrevistas com
oficiais de governo e representantes do setor privado.

Palavras-chave: Brasil; Angola; Direito internacional; Economia.

320
DIREITO INTERNACIONAL AO DESENVOLVIMENTO E
SEGURANÇA INTERNACIONAL ECONÔMICA: AS DUAS FACES
DE UMA MESMA MOEDA

Douglas de Castro

Podemos dizer prima facie que o direito internacional ao desenvolvimento é um


conjunto de regras jurídicas e de atividades promovidas pelos Estados, organizações
internacionais e outros atores não-estatais engajados na promoção do desenvolvimento
e erradicação da pobreza (SCHACHTER, 1976; CHINKIN, 1989). Estas considerações
iniciais nos levam a questionar: o que é desenvolvimento? Que tipo de desenvolvimento
a comunidade internacional deve promover? Existe um direito ao desenvolvimento?
Como medimos o desenvolvimento? A dimensão do desenvolvimento econômico
possui implicações de grande importância para os Estados e para o sistema
internacional. As ações e discursos que promovem o desenvolvimento de um Estado se
projetam para fora de suas fronteiras, produzindo efeitos desejados sob o ponto de vista
do Estado que está buscando alcançar um novo patamar, mas ao mesmo tempo poderá
trazer efeitos negativos para outros. A interdependência econômica atualmente é uma
realidade transnacional inescapável que produz a sensitividade e vulnerabilidade
(KEOHANE, 2012). Esta realidade também se aplica à segurança econômica enquanto
entendida como valores que visam satisfazer o bem-estar material da população de um
Estado (NYE, 1974; VILLA, 1999). Com isso, percebemos a intersecção entre o direito ao
desenvolvimento e a segurança econômica como dois valores a serem buscados pelos
Estados, ou como referido no título deste trabalho, as duas faces de uma mesma moeda.
Enquanto isso pode ser verdade na dimensão nacional, algo diferente ocorre na
dimensão internacional. A busca legítima ao desenvolvimento de um Estado tem o
condão de gerar a insegurança econômica para outro (s). Deste modo, o presente
trabalho terá como articulação teorética um viés crítico de análise dos discursos que são
proferidos pelas grandes potências e instituições mundiais no sentido de que cada vez
mais se regulamente a forma com que o desenvolvimento econômico é propagado e,
portanto, gerando uma maior interdependência e vulnerabilidade dos países em
desenvolvimento e sua crescente insegurança econômica que afeta a estabilidade local e
regional. O caminho metodológico contará com o método sociológico-jurídico no exame
de instrumentos jurídicos internacionais que tratam do desenvolvimento (ainda a serem
definidos) (PERRY-KESSARIS, 2012).

Palavras-chave: Desenvolvimento; Direito internacional; Segurança Internacional.

321
PROPRIEDADE INTELECTUAL INDÍGENA NA AMÉRICA LATINA:
ENTRE INDIGENIZAÇÃO DO DIREITO OCIDENTAL E
MERCANTILIZAÇÃO DE CULTURAS

Vitor Henrique Pinto Ido

Direitos de propriedade intelectual constituem simultaneamente um dos pilares do


comércio internacional contemporâneo e um dos fundamentos das noções tipicamente
ocidentais de “autor” e “inventor”. O sistema global de propriedade intelectual e as
respectivas legislações nacionais sobre o tema (no centro e na periferia do capitalismo),
portanto, não foram pensados nem estruturados para a adequada proteção a
conhecimentos e práticas expressivas de povos indígenas, minorias étnicas e
comunidades tradicionais. Diante de uma variedade de casos de biopirataria (como
cúrcuma da Índia e açaí e cupuaçu do Brasil) e típica comodificação de expressões
tradicionais (patentes sobre posições de yoga nos Estados Unidos, turismo “exótico” no
Quênia e moda “étnica”, por exemplo), a crítica à propriedade intelectual é bem
conhecida entre ativistas e teóricos. No entanto, paralela à crítica, também emergiu a
noção do uso estratégico de direitos de propriedade intelectual para a proteção de
conhecimentos tradicionais (CTs) e tradições culturais expressivas (TCEs), tais como
indicações geográficas (IG), marcas coletivas, direitos autorais coletivos, patentes e
direitos sui generis. Nesse contexto, a normatização internacional de direitos de povos
indígenas por meio da Convenção OIT 169 e da Convenção da Biodiversidade trouxe
novos subsídios para o debate, mas também dilemas quanto à (in)compatibilidade com
o Acordo TRIPS, que alçou à propriedade intelectual status de ativo do comércio
internacional. Dentro deste debate, esta pesquisa objetiva discutir se esta estratégia de
uso estratégico de propriedade intelectual para fora de regimes de conhecimento
euroamericanos (STRATHERN, 2009) acaba por reforçar ainda mais a “mercantilização
de culturas”, uma vez que se apoia em uma estrutura jurídica tipicamente liberal-
ocidental ou, pelo contrário, se serve para descolonizar e ressignificar estas mesmas
categorias, indigenizando o direito internacional ocidental (SAHLINS, 1986). Para tanto,
realiza uma revisão de literatura sobre o tema dos direitos de propriedade intelectual de
povos indígenas e a contrasta com uma perspectiva TWAIL para analisar os
instrumentos jurídicos relevantes à América Latina.

Palavras-chave: Propriedade intelectual; Povos indígenas; Conhecimentos tradicionais;


Regulação global.

322
LEITURAS SOBRE O DIREITO INTERNACIONAL ECONÔMICO
NO ÂMBITO DAS CONTRIBUIÇÕES DAS ABORDAGENS DE
TERCEIRO MUNDO AO DIREITO INTERNACIONAL (TWAIL)

Lucas da Silva Tasquetto

O direito internacional é uma das principais linguagens nas quais a dominação está
sendo expressa na era da globalização, deslocando os sistemas legais domésticos em sua
importância, com um impacto sem precedentes sobre as vidas dos cidadãos comuns. No
centro do projeto globalizante está a criação de um espaço econômico global unificado,
onde o direito internacional vem definindo o significado de ‘estado democrático’ e
realocando poderes econômicos soberanos em instituições internacionais. Assim, o
direito internacional articula regras que procuram transcender o fenômeno do
desenvolvimento global desigual e envolvem padrões globais uniformes para facilitar a
mobilidade e operação do capital transnacional. Não é deixado espaço ao
reconhecimento das preocupações dos países e das pessoas sujeitas às regras coloniais
há muito impostas. A linguagem do direito desempenhou um papel significativo no
processo de legitimar ideias dominantes em um discurso que procura-se associar com
racionalidade, neutralidade, objetividade e justiça. Particularmente, no campo do direito
internacional econômico, um espaço econômico global unificado é construído por meio
de instrumentos internacionais como aqueles consolidados nos textos da OMC e nas
políticas prescritas pelas instituições financeiras internacionais. Os padrões mínimos
estabelecidos a partir daí se refletem também na emergência da internacionalização da
forma e substância dos direitos de propriedade, com a privatização da propriedade, das
utilidades e dos serviços públicos. Nesse contexto, as abordagens de TWAIL são
fundamentais ao apresentarem uma crítica ao direito internacional globalizante e
proporem estratégias direcionadas à criação de uma ordem mundial baseada na justiça
social. Enquanto abordagem, TWAIL se recusa a tratar como sagrada qualquer norma,
processo ou instituição, seja ela doméstica ou internacional. Todos os fatores que criam,
incentivam, legitimam e mantêm hierarquias prejudiciais e opressões devem ser
revisadas e alteradas. Sendo assim, o presente trabalho se propõem a mapear e analisar
as contribuições de TWAIL no campo do direito internacional econômico. Procura-se
levar em consideração contribuições que permitam desafiar um modelo particular, uma
ideia particular de economia, que vêm garantido que as pessoas e os países em
desenvolvimento permaneçam em uma posição de subordinação econômica.

Palavras-chave: Direito Internacional Econômico; TWAIL; Terceiro Mundo; Justiça


Social; OMC.

323
AS EMPRESAS TRANSNACIONAIS E OS CÓDIGOS DE
CONDUTA: UMA ANÁLISE A PARTIR DO PLURALISMO
JURÍDICO

Marina Sanches Wünsch

As empresas transnacionais (ETNs), conforme apontam os dados da Conferência das


Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), cresceram em
importância econômica, especialmente a partir do processo de fusões e aquisições,
passando a ser responsáveis por uma parcela significativa de circulação de capital no
mundo por meio de investimento estrangeiro direto (IED). Em vista disso, elas são
consideradas pelos países em desenvolvimento um importante caminho para alcançar o
desenvolvimento econômico, e o anseio desses países em atrair essa forma de
investimento faz com que as grandes corporações adquiram um alto poder político e
econômico, capaz de se sobrepor à própria soberania estatal e possibilitando a prática de
uma série de violações de direitos humanos. Ao mesmo tempo, diante da repercussão
negativa na sua imagem por violarem tais direitos, um movimento ganhou destaque nos
últimos anos por parte das próprias empresas: elas têm buscado, através da formulação
de regulamentações privadas, os denominados códigos de conduta, que contribuiriam
para que a comunidade as reconhecesse como empresas não violadoras de direitos
humanos. Diante desse cenário, muitos autores têm associado o fenômeno da auto
regulação das ETNs a uma nova forma de pluralismo jurídico, uma vez que se trata de
uma ordem jurídica não estatal. Neste trabalho, defende-se que, historicamente, o
pluralismo jurídico é percebido como uma forma de resistência de parte da população,
que, muitas vezes, não é representada, protegida ou sequer reconhecida pela ordem
normativa estatal. As regulamentações privadas das ETNs não representam, portanto,
uma ação participativa da população impactada, cujos direitos, muitas vezes, não são
reconhecidos. Ao contrário, as empresas fazem parte do sistema capitalista, reproduzido
pelo Estado, e tornaram-se atores poderosos no processo de globalização, ou seja,
reproduzem uma forma arbitrária de poder. Portanto, somente discutir os códigos de
conduta como uma forma de pluralismo jurídico e de possibilidade de absorção de
determinadas normas pelo Estado é insuficiente e não se apresenta como uma solução
para a proteção dos direitos humanos enquanto esses códigos de conduta continuarem
voluntários, não vinculantes e produzidos pelas próprias empresas para regular seus
interesses.

Palavras-chave: Empresas Transnacionais; ETNs; Direitos Humanos; Estado; Pluralismo


Jurídico.

324
COERCION OF THE STATE – A TWAIL CRITIQUE

Guilherme Del Negro

In this brief writing, I will sketch a TWAIL critique of how the Vienna Convention on
the Law of Treaties regards the coercion of the State. The article is divided in four parts.
Firstly, I will describe and analyze the drafting history of article 52 of the 1969 Vienna
Convention on the Law of Treaties, in the sessions of the International Law Commission
(ILC) and in the 1968/1969 Vienna Conference on the Law of Treaties. Afterwards, I will
point out how the choice between codification and progressive development stands out
as a political choice, with political consequences. Later on, I will link my previous
analysis to a TWAIL critique of the pervading colonialism in international law. Finally,
I will suggest some concluding remarks, and point out a leeway for change.

Key words: TWAIL; Law of treaties; Coercion of the state.

325
O LEGADO IMPERIALISTA DO DIREITO INTERNACIONAL
ECONÔMICO: COMÉRCIO, SOBERANIA E A LEGITIMAÇÃO
JURÍDICA DA DESIGUALDADE

Matheus Gobbato Leichtweis

O objetivo do presente trabalho é analisar o legado imperialista do direito internacional


econômico. Trata-se de uma abordagem crítica cujo objetivo é investigar em que medida
o direito internacional legitimou as relações de desigualdade entre centro e periferia da
economia mundial, garantindo, por um lado, a exploração de recursos e mão-de-obra
nas periferias e, por outro, a acumulação capitalista das elites econômicas e países do
Norte. Objetiva-se compreender de que modo o uso da doutrina da soberania serviu
para negar autonomia aos povos não-europeus e justificar a imposição coercitiva de
tratados comerciais injustos e de regimes internacionais de acumulação por exploração,
em benefício das elites e países do Norte. Com enfoque nas relações comerciais
estabelecidas entre centro e periferia no contexto do colonialismo e do imperialismo
(principalmente nos séculos XIX e XX), objetiva-se investigar como o direito
internacional contribuiu para a legitimação das relações violentas e dos padrões
desiguais de intercâmbio entre o Primeiro Mundo desenvolvido, e o Terceiro Mundo
“subdesenvolvido”. Já no contexto da Nova Ordem Liberal pós-1945, objetiva-se
demonstrar, que mesmo após a criação das instituições multilaterais de direito
internacional no pós-guerra e da conquista da independência e soberania formal pelos
países do terceiro mundo, as relações de dominação e de desigualdade, e o padrão do
fluxo de riquezas do Sul para o Norte permaneceram, tendo sido apenas refinados seus
métodos de legitimação – vide o fenômeno do neocolonialismo e o crescente abismo de
desigualdade entre Norte e Sul (continuidade do imperialismo). Por fim, a pesquisa
pretende investigar (1) em que medida o direito internacional econômico está
subordinado ao movimentos da economia internacional e aos interesses da classe
capitalista transnacional; e (2) se, apesar de estar sim condicionado pelas estruturas de
poder econômico da sociedade global, é possível repensar o direito internacional
econômico enquanto um instrumento democrático e emancipatório de libertação das
classes subalternas e periféricas da economia mundial. A presente pesquisa adota o
método do materialismo histórico e tem como referencial teórico abordagens marxistas
e de Terceiro Mundo do direito Internacional (Third World Approaches to International
Law).

Palavras-chave: Imperialismo; Soberania; Direito Internacional Econômico.

326
DISPARIDADES E PERPETUAÇÕES HISTÓRICAS DE
EXPLORAÇÃO DA AMÉRICA LATINA NO ÂMBITO DO CIRDI

Luana Helena Alves dos Anjos Almeida

Partindo-se das críticas feitas pelas Abordagens de Terceiro Mundo ao Direito


Internacional (TWAIL), o presente trabalho analisa as disparidades entre primeiro e
terceiro mundo no âmbito do Centro Internacional para Arbitragem de Disputas sobre
Investimentos (International Centre for Settlement of Investments Disputes – ICSID/CIRDI).
O objetivo deste trabalho é, portanto, demonstrar que o modelo de direito internacional
dos investimentos, criado no período de descolonização das décadas de 1950 e 1960
possui consequências negativas especificamente para o terceiro mundo, enquanto
privilegia e perpetua um modelo histórico de favorecimento, exclusão e exploração por
parte do primeiro mundo, mas agora através do capital transnacional, com as
Instituições Financeiras Internacionais desempenhando um papel cada vez mais
intrusivo nas economias dos países de terceiro mundo (ANGHIE, 2006, p. 749).A
metodologia adotada é a análise dos dados estatísticos fornecidos pelo próprio CIRDI
através do documento The ICSID Caseload – Statistics sobre os países envolvidos em
disputas neste órgão, bem como sua composição e número de casos, com destaque para
os países da América Latina, em especial o caso da Argentina, com respaldo doutrinário
das produções acadêmicas da TWAIL.

Palavras-chave: ICSID; CIRDI; TWAIL; América Latina; Terceiro mundo.

327
SOBERANIA E TERRITÓRIO EM PROCESSOS DE (DES)
CONSTRUÇÃO: CAMINHOS PARA A JUSTIÇA NO SÉCULO XX EM
TERMOS DE ESCALA GLOBAL

Rosa Maria Freitas do Nascimento


Maria Eduarda Paffer

A atividade de gestão estatal dos conflitos, na forma como se conhece hoje, estaria em
crise, mas prefere-se a denominação, processo de reorganização. Considera-se que toda
sociedade tem meios de promover a ‘justiça’, pois se considera que da mesma forma que
o conflito faz parte da vida humana e comunidade, os meios de ‘solucioná-lo’ também
existem. Não se trata a partir de um ponto vista antropológico da vida comunitária, de
classificar as melhores práticas e sistemas de resolução, mas de entender que, em cada
época e lugar, se desenvolve um sistema de resolução de conflitos capazes, até certo
ponto, de manter a estabilização das relações sociais básicas. Considera-se que não
existem modelos e práticas ideais de resolução de conflitos, mas formas de gestão dos
litígios histórica e socialmente construídas. Assim, um modelo necessariamente será
superado por outro, mudando-se as condições objetivas que determinaram sua
emergência.Parte-se da premissa que o sistema econômico globalizado requer um novo
modelo (ainda em desenvolvimento) de gestão dos conflitos, ou seja, desterritorializado,
global e em rede. As inferências propostas nos tópicos seguintes, que seguem a
metodologia e escrita de um ensaio, abordarão as transformações do capitalismo, a
caracterização de um modelo de tutela estatal em declínio, e se propugna a emergência
de um modelo policontextual de produção do discurso jurídico.Serão utilizados
referenciais teóricos variados para compor o marco teórico da análise. Em especial: o
trabalho de Hardt e Negri sobre a dialética da soberania no sistema capitalista como
articulação necessária; a abordagem da teoria do sistema para explicar a relação entre
direito e os outros sistemas sociais na sociedade complexa, incluindo a o discurso
policontextual, destacando a proposta de uma sociedade civil mundial, na formulação
proposta por Teubner a partir do texto amplamente conhecido, A Bukowina Global sobre
a emergência de um pluralismo jurídico transnacional. Pretende-se sugerir que os caminhos
da justiça no séc. XXI não é mais centralizado na figura do Estado – Juiz, mas seria
produzido o direito em vários contextos sociais, ancorados na autonomia do sujeito e na
privatização da administração de grande parte dos conflitos.

Palavras-chave: Soberania; Território; Justiça policontextual.

328
A PERPETUAÇÃO DA EXTREMA POBREZA COMO FACETA DO
DESIGN ESTRUTURAL GLOBAL

Fabrício José Rodrigues de Lemos

Quando em tela as relações jurídico-econômicas internacionais, desvela-se uma faceta


do design estrutural global muito comumente apontada como fonte de grande parte das
adversidades que são impostas aos pobres globais. Verifica-se, inclusive pelo caráter
imperialista da situação, um nascente Estado global, cuja função é a realização dos
interesses do capital transnacional e de Estados poderosos dentro do sistema
internacional, em clara desvantagem aos países e povos menos desenvolvidos
economicamente. (CHIMNI, 2004). O Direito Internacional peca ao não conseguir
garantir que as necessidades básicas da humanidade sejam atingidas – em relação à
alimentação, tampouco no que concerne à saúde -, em razão da subversão de tais
direitos, sujeitados à lógica fundamentalista do mercado. (CHIMNI, 2007b). Assim, a
ordem institucional global resultante é indiscutivelmente injusta na medida em que a
incidência de violência e pobreza grave que ocorre sob ela é muito maior do que teria
sido o caso sob um desenho alternativo, cujo projeto poderia ter dado mais peso aos
interesses dos pobres e vulneráveis. (POGGE, 2010). Por isso, ainda que haja um forte
desejo de buscar soluções gerenciais às questões interligadas no plano internacional, há,
sob o viés da teoria de justiça global, uma crescente chamada para uma moralização do
Direito Econômico Internacional – o que inclui compartilhar responsabilidades no
campo global. Nesse sentido, com base em pesquisa bibliográfica, tanto doutrinária
quanto em artigos publicados em revistas especializadas, partindo da premissa que há
possibilidade de se estabelecer, como parâmetro ético de um ideal de mundo justo, a
positivação, proteção e garantia dos Direitos Humanos universais, o trabalho intentará
referenciar de que forma o Direito Internacional pode auxiliar a modificar essa faceta
perversa do design estrutural mundial e, assim, empenhar-se em diminuir a
desigualdade em âmbito global.

Palavras-chave: Justiça global; Direitos Humanos; Direito Internacional Econômico; B.S.


Chimni; Thomas Pogge.

329
A PROTEÇÃO DO CONHECIMENTO TRADICIONAL NO REGIME
DOS TRIPS, NA CDB E NA LEI N. 13.123/15: ENTRE OS INTERESSES
TRANSNACIONAIS, ESTATAIS E DA COMUNIDADES LOCAIS

Laura Madrid Sartoretto

O conhecimento tradicional, manifestação da cultura local que se denota no saber


relacionado ao uso de plantas e secreções de animais com cunho medicinal e em aspectos
da cultura de povos nativos, vem adquirindo valor econômico elevado no plano
internacional. Esse conhecimento, unido à biodiversidade, característica dos locais nos
quais povos nativos habitam, constitui uma riqueza imaterial, mas com valor comercial
que tem chamado atenção e investidores e empresas. Tendo em vista que todo esse
conhecimento tem valor de mercado, muitas vezes, incomensurável, existe a
preocupação de que os recursos advindos do uso dessas técnicas e da cultura não
sejam repartidos de forma equânime entre as partes envolvidas nessa relação,
priorizando interesses de empresas e Estados, em detrimento dos interesses das
populações que detêm a propriedade coletiva desses recursos. Nesse sentido, o regime
de proteção à propriedade intelectual (TRIPS), fundamentado em valores ocidentais e
eurocêntricos, não tem conseguido oferecer uma resposta adequada às populações
detentoras desse conhecimento. A Convenção da Diversidade Biológica (CDB),
regulamentada pela lei n. 13.123/15, trouxe alguns mecanismos de proteção às
comunidades locais, mas ainda assim apresenta um arcabouço mais protetivo do Estado
soberano em detrimento das comunidades. Este trabalho analisa, a partir do marco
teórico descolonial, o arcabouço de proteção da propriedade intelectual, mormente no
que se refere ao registro de patentes sobre o conhecimento tradicional. A partir dessa
análise se chega à conclusão de que o conjunto de instrumentos (nacionais e
internacionais) estabelecidos para a regulamentação do uso do conhecimento tradicional
não é suficiente para a proteção dos interesses das comunidades locais, pois prioriza a
proteção do investidor (empresas transnacionais e nacionais) e do Estado soberano em
detrimento das comunidades que têm a propriedade coletiva desses conhecimentos.

Palavras-chave: Conhecimento tradicional; TRIPS; CDB; Biopirataria; Descolonial.

330