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Peter Kolosimo

Antes dos
Tempos
Conhecidos
Tradução e notas de
ANACLETO VALTORTA e PAULO SÉRGIO M.
MACHADO

4.a Edição
Edições Melhoramentos
1968

El hombre tierra fué, vasija, porpado del barro


trémulo, forma de la arcilla, fué cântaro caribe,
piedra chibcha, copa imperial o sílice araucaria.
Tierno y sangriento fué, pero en la empunadura de
su arma de cristal humedecido, las iniciales de la
tierra estaban escritas.
Pablo Neruda, "Amor América", in Canto General
Índice

1. As origens do homem
2. Catástrofes cósmicas
3. A era dos gigantes
4. Sob o signo dos titãs
5. Pesadelos de pedra
6. A Fabulosa Mu
7. Lendas estelares
8. As colônias de Mu
9. Os segredos das pirâmides
10. Um império no Saara
11. Difíceis renascimentos
12. Os mestres errantes
13. O grande mistério da Atlântida
14. O reino das ciências esquecidas
15. Os deuses brancos
16. Os gregos da América
17. Constelações na selva
18. Os senhores da chama
19. As astronaves de Tiahuanaco
20. Os filhos do sol
21. Os herdeiros da Atlântida
22. Os mitos das terras perdidas
23. Cruzeiros impossíveis

CAPÍTULO I
As Origens do Homem

No COMEÇO DE UMA NOITE de verão de 1856, um grupo


de operários trabalhava para ampliar uma pedreira
no Vale de Neander, vizinhanças de Düsseldorf,
libertando da lama uma gruta para alcançar o
estrato calcário, quando toparam com alguns
ossos.
Ninguém prestou muita atenção: achados daquele
tipo não eram raros, e geralmente acabavam
relegados a um monte de detritos. Também
naquela ocasião o destino dos ossos seria o
mesmo — não se achasse no local o dono da
pedreira, um bom homem chamado Pieper. Este
senhor Pieper contava entre seus conhecidos um
professor de ginásio, Karl Fuhlrott, que ocupava o
tempo livre na procura de ossos, sobre os quais
desenrolava o enredo de estranhas estórias de
homens existentes em épocas remotíssimas. Foi
nesse professor que o dono da gruta pensou, ao
ver aflorarem aqueles restos fragmentados;
mandou guardá-los e os entregou ao amigo, dois
dias depois, para que ele "encontrasse outra
estória".
O Professor Fuhlrott, daquela vez, levou três anos
para encontrar a "estória". Mas quando a entregou
à opinião pública, sob forma de um pequeno
ensaio, os ossos de Neandertal deixaram em
polvorosa o mundo da ciência: o professor
afirmava tratar-se dos restos fósseis de um
homem primitivo.
Alguns estudiosos ficaram profundamente
intrigados com a afirmativa, mas a maioria
simplesmente rejeitou as idéias de Fuhlrott como
"mero absurdo". Isso não surpreende quando se
tem em vista que as teorias de Darwin sobre a
evolução da vida animal e vegetal — de formas
primitivas a estruturas cada vez mais complexas —
ainda eram quase desconhecidas na época.
Alguém atribuiu os ossos aos restos de um
guerreiro celta ou germânico, outros acharam que
se tratava de um cossaco morto na guerra de
1813-14 (o exame do achado pareceu ter
demonstrado até marcas de golpes de baioneta) e
houve mesmo quem os atribuísse ao esqueleto de
um idiota deformado.
Como muitos outros colegas, o Professor Fuhlrott
morreu com fama de amador visionário; alguns
anos depois, contudo, viria a clamorosa
reabilitação: restos de indivíduos extremamente
parecidos com os do "homem de Neandertal"
foram encontrados inicialmente numa gruta de
Spy, na Bélgica, depois na França, Itália e de novo
na Bélgica. Numa caverna de Krapina (na Croácia
do Norte, entre Maribor e Zagreb) foram trazidos à
luz, entre outros ossos, vários esqueletos do nosso
suposto progenitor.
Era o triunfo para Darwin: o início do século XX vai
encontrar os estudiosos entregues não mais à
discussão sobre a pertinência do homem de
Neandertal à humanidade pré-histórica, mas sobre
o local que lhe deveria ser atribuído ao longo da
evolução. As descobertas, entretanto, vão-se
avolumando, e a ciência, a certa altura, já se con-
sidera capaz de traçar em grandes linhas a história
das profundas mudanças que teriam feito de um
grande macaco disforme o Homo sapiens.
Na verdade, o que nos apresentam como galeria
de nossos antepassados é uma bela coleção de
monstros, desde o pitecantropo de Java (viveu
cerca de 1 milhão de anos atrás) até o sinan tropo
de Pequim (de 1 milhão até 430 mil anos atrás); do
homem de Heidelberg (de 430 mil até 240 mil anos
atrás) ao homem de Neandertal, que teria ocupado
a Terra desde 240 mil até cerca de 140 mil anos
atrás.
Temos que aceitá-la? Os antropólogos, quase em
uníssono, dizem que sim, rotulando os dissidentes,
sem muita discussão, como míopes conservadores,
escravos de preconceitos religiosos. Todavia, surge
alguma dúvida na década dos trinta, quando são
encontrados na África do Sul os ossos de um
homem-símio com características completamente
diferentes das dos exemplares até então
conhecidos. Os estudiosos, ainda assim, se
satisfazem em pensar que se trata afinal de
ordenar cronològicamente os restos, e
permanecem impermeáveis aos problemas que,
bem ao contrário, deveriam despertá-los para a re-
flexão.
Com toda boa vontade, não conseguimos entender
como alguém possa ter procedido com tamanha
leviandade, como seriíssimos estudiosos tenham
aceito, defendido e promovido a dogma uma hipó-
tese nebulosa e incerta, como tenham pretendido
escrever a história da humanidade alinhando
caprichosamente alguns montinhos de ossos
recolhidos aqui e ali, sem elemento algum que
possa funcionar como elo de ligação.
Poderíamos mergulhar num oceano de
interrogações a singular construção acolhida com
todos os carismas pela ciência oficial, mas não
desejamos dedicar ao assunto mais tempo do que
o necessário. Consideremos apenas este
pormenor: o volume da caixa craniana de um
nosso suposto antepassado era aproximadamente
de 600-700 centímetros cúbicos; o do Homo
sapiens varia entre 1.500-1.600. Como é possível
que não tenham sido encontradas algumas
"medidas intermediárias", caixas cranianas
capazes, por exemplo, de guardar 800, 900, 1.000,
1.200 ou 1.300 centímetros cúbicos de massa
cinzenta? Tendo-se desenvolvido seus hipotéticos
portadores em épocas mais próximas da nossa,
deveria ser bem mais fácil encontrar os seus ossos
em lugar dos sinantropos e pitecantropos1.
Se os pontífices da antropologia, após terem
demolido Fuhlrott, não se tivessem deixado
arrastar para posições opostas, não seríamos hoje
obrigados a rever aquilo que até há poucos anos
era considerado indiscutível. Algumas reservas, de
1 M. Boule e H. V. Valois, no livro Les hommes fossiles (Masson et Cie., Paris, 4.a ed., 1952),
registram um pitecantropo fóssil com capacidade craniana de 900 cm": "Como num homem normal,
mesmo de raça selvagem, essa capacidade raramente desce abaixo de 1.100 cm2, e no maior macaco
antropomorfo a medida nSo ultrapassa os 600 cm", estamos em presença de um volume
intermediário entre os macacos mais desenvolvidos e os homens mais inferiores". Grahme Clark,
em La préhistoire de l'humanité (Ed. Payot, Paris, 1962), assinala que a metade dos crânios
encontrados em Java atinge 860 cm2, e quatro outros, de Pequim, 1.075 cm2. Embora êsses dados
nâo cheguem a cobrir totalmente o intervalo assinalado pelo autor, eles servem para que se medite
com mais cuidado sobre o velho e inquietante problema antropológico do "elo perdido". (N. dos
tradutores.)
Semnopithecus nasalis, pertencente ao grupo de símios asiáticos dos semnopitecos, conhecidos
como "símios veneráveis". Principalmente nos machos, com o evoluir da idade o nariz cresce e
assume a característica forma curva com ponta fina (N. dos tradutores).
fato, teriam sido justificadas desde os achados de
Krapina, visto que entre os ossos de uma vintena
de indivíduos, espalhados na gruta iugoslava, a
maioria era sem dúvida do tipo Neandertal. Mas
havia outros tão delicados, tão finos, que de
maneira alguma poderiam ter sido atribuídos a
indivíduos daquela espécie. Entre os poucos
estudiosos que expressaram suas dúvidas sobre o
achado, lembramos o Professor Klaatsch, um
antropólogo de Bratislava, que levantou a hipótese
de ter sido a gruta, em tempos muito remotos,
cenário de lutas entre duas raças existentes. E
chegou muito perto da verdade — visto termos
hoje razões para acreditar que em Krapina alguns
homens de Neandertal realizaram um alegre
festim com a carne de suas vítimas. Eram de fato
canibais, como demonstra o crânio de Círceo,
claramente cortado e aberto para extração do
cérebro.
Muitas dúvidas, em suma, deveriam ter sido
levantadas sobre os supostos estádios de nossa
evolução. Mas, como escreveu Life, "Os
antropólogos revelam-se freqüentemente céticos
perante as novas descobertas, principalmente
quando elas não se ajustam às teorias existentes".

Pré-história viva

Se o bom senso não conseguiu arrancar os


"evolucionistas clássicos" de suas posições
insustentáveis, os próprios fatos iriam obrigá-los a
se render.
Há mais de trinta anos, o Professor Leakey
encontrou em Kanan, Quênia, perto do Lago
Vitória, um maxilar extremamente parecido com o
do Homo sapiens, e pouco depois achou em
Kanjera dois crânios aos quais o maxilar poderia
ser muito bem adaptado. Os últimos achados não
eram tão antigos quanto o primeiro, mas tinham
idade bastante respeitável: cerca de 400 mil anos!
Não faltaram os cépticos, e ainda hoje ouviríamos
suas lamúrias se o antropólogo Carleton Conn e o
geólogo Louis Dupree não houvessem encontrado
nas grutas persas de Hotu, em 1952, as caveiras
de três indivíduos que viveram há mais de cem mil
anos, indivíduos esses que sem dúvida nenhuma
podemos considerar nossos semelhantes.
A essa altura as coisas já iam bastante mal para
aqueles senhores que teimavam em atribuir ao
Homo sapiens a mísera idade de 50 mil anos. Para
aumentar ainda mais a amargura deles, surge o
americano Ralph Solecki, que puxa para fora da
caverna iraquiana de Shanidar os restos de um
homem de Neandertal que viveu 45 mil anos atrás.
Naquela época, segundo as teorias clássicas, o
neandertalense já deveria ter evoluído para Homo
sapiens!
A seguir, estoura o grand finale: o homem de
Neandertal, em carne e osso, aparece em cena, no
Marrocos; deixa-se fotografar pelo Professor
Mareei Homet e rosna alguma coisa que
poderíamos traduzir livremente assim: "Eis-me
aqui, vivinho, ainda que não muito fascinante. Eu
sou a pré-história em pessoa; encontro-me, de
fato, nas mesmas condições do meu avô de
Düsseldorf: ando nu, sirvo-me, de alguma maneira,
de rudimentares apetrechos de pedra e de ma-
deira, e o meu vocabulário não vai além de
algumas dezenas de rosnados diferentes.
Desgraçadamente, não evoluí nem um pouco: ho-
mem de Neandertal nasci (240 mil anos atrás,
vocês dizem — portanto, um bocado de tempo
depois de seus semelhantes de Kanan e Kanjera) e
homem de Neandertal vou morrer, como os outros
meus poucos companheiros que, sabe-se lá como,
conseguiram sobreviver até hoje, na África norte-
ocidental".
No congresso de pré-história realizado em Roma,
1962, o arqueólogo alemão Walter Matthes
apresenta afinal algumas das quinhentas
figurinhas representando homens e animais, por
ele descobertas nos arredores de Hamburgo, ao
longo do Rio Elba.
Trata-se das mais antigas estatuetas do mundo,
uma vez que remontam, sem dúvida, a duzentos
mil anos! E não é tudo: "As feições que se
reconhecem nas pequenas cabeças esculpidas" —
a crônica é obrigada a admitir — "são aquelas do
Homo sapiens, a forma evoluída e completamente
inteligente do homem".
Atualmente, a maior parte dos estudiosos está
razoavelmente se encaminhando para outras
alternativas, e tende a classificá-lo "homem" de
Neandertal no ramo dos gorilas, reconhecendo
que, se temos antepassado em comum com os
macacos, incontáveis milhões de anos nos
separam dele.
"Não há uma chance em mil de que o homem
descenda dos macacos", chega mesmo a afirmar o
Professor Johannes Hürzeler. E não se trata de um
antropólogo diletante: Hürzeler é o cientista que
em 1958 deu a palavra final sobre o esqueleto
encontrado em Bacci- nello, localidade a 25 km de
Grosseto, onde já em 1872 foram descobertos
ossos atribuídos, na época, a algum tipo de símio,
com cauda, extinto: tratava-se, ao contrário, dos
restos do oreopiteco, um pré-hominídeo com 10
milhões de anos de idade.
De acordo com as mais recentes deduções
científicas, esse ser, embora apresente caracteres
"humanos", não pode ser considerado um
antepassado do homem atual: ele contribui,
portanto, para demonstrar a existência de ramos
colaterais de nossa espécie, ramos aos quais
devem ter pertencido, entre outros, os supostos
"homens" de Java, Pequim, Heidelberg e assim por
diante. Eles voltam dessa forma ao papel de
famílias simiescas que apresentam conosco alguns
caracteres em comum (e por outro lado não os
apresentam outros quadrúmanos vivos, como o
curioso "narigudo"2 de Bornéu), e como tais devem
ser excluídos de nossa árvore genealógica.
Sem dúvida, numerosos "primos" nossos trataram
de se elevar além do nível animal, começaram a
trabalhar a pedra e a madeira. Segundo os
estudiosos que, libertos da capa plúmbea das
teorias "clássicas", tentam reconstruir em grandes
traços a história dos bípedes mais ou menos
racionais, os assim chamados australopitecos
(cujos restos, numerosíssimos, foram encontrados
na África do Sul) foram as primeiras criaturas a
atingir, 2 milhões de anos atrás, o uso de armas
para caça: pedras, bordões e paus apontados.
Alguns estudiosos, examinando êsses crânios,
acreditam poder atribuir aos australopitecos até
uma linguagem rudimentar.
Falando em caçadores da remota pré-história,
temos que lembrar a descoberta, feita ao acaso,
pelo filho do Professor Leakey, o jovem Jonathan:
em Olduvai George, Tanganica, o rapaz descobriu
restos de animais enormes, entre os quais se
destaca o crânio de uma enorme ovelha, com os
ossos frontais esmagados. Os apetrechos respon-
sáveis pela morte jaziam logo adiante: perto do
chifre direito do animal, um machado feito com
presas de crocodilo, e próximo ao chifre esquerdo,
uma bola de pedra certamente lançada com uma
funda.
A idade dos achados pode ser avaliada ao redor de
500 mil anos: há meio milhão de anos, portanto,
existiam na África seres que já caçavam com
armas eficientes. Recordemos que, segundo os
evolucionistas "clássicos", somente 30 mil anos
atrás é que nossos antepassados teriam começado
a usar apetrechos desse tipo.
Os antiqüíssimos e desconhecidos habitantes da
Tanganica talvez tenham entrado em contacto
com os representantes de uma raça de hominídeos
residentes pouco mais ao norte, em Quênia,
habilíssimos em trabalhar a pedra já há 700 mil
anos: o descobridor desses artesãos, o geólogo
americano Carter, acha mesmo possível que os
arrojados anõezinhos tenham chegado às
Américas.
Considerando a África como hoje ela é, tal
migração parece impossível, mas a situação muda
se variar o aspecto geográfico. E a configuração
física mudou, conforme afirma Cárter: "No Pleisto-
ceno, período iniciado justamente há 700 mil anos,
houve — diz ele — uma glaciação. Formaram-se
enormes geleiras que cobriram milhões de
quilômetros quadrados de superfície terrestre,
alcançando, em alguns lugares, até 1.500 metros
de altura. A quantidade colossal de neve, para que
isso fosse possível, foi obtida da água dos oceanos.
Disso resultou um abaixamento do nível das águas
marítimas ao redor de 90 metros em relação ao
nível atual, o que modificou o aspecto da Terra. A
Inglaterra tornou-se parte do continente europeu,
a Flórida dobrou de extensão, as ilhas dos mares
do Sul juntaram-se à Ásia, trazendo a terra firme
quase até a Austrália; o Mar de Bering
desapareceu do mapa, e a Sibéria juntou-se ao
Alasca. Essa idade glacial trouxe também grandes
mutações para o clima africano: os desertos se
tornaram férteis planícies, através das quais
migraram os hominídeos do Quênia".
Também os pitecantropos e sinantropos asiáticos
devem ter lançado mão de rudimentares
apetrechos de madeira e pedra. A propósito, é
curioso observar como alguns estudiosos
soviéticos e americanos concordam em admitir
que uma espécie do chamado "yeti" ou
"abominável homem das neves" (existiriam pelo
menos duas espécies) é representada pelos
sinantropos de Pequim que conseguiram
sobreviver em algumas zonas inacessíveis do
Himalaia e talvez da Ásia Central. Um "yeti"
armado de arco e flecha foi visto em 1913 pelo
explorador inglês H. Knight; durante as
explorações em 1961 os professores americanos
Dhyrenfurth e Russel encontraram, em cavernas
que acreditam ter sido as moradas do "homem das
neves", rudimentares enxergas, enquanto
antropólogos russos concluíram em suas pesquisas
que o "monstro" utiliza algum apetrecho sólido
para extrair raízes do solo gelado e cavar degraus
no gelo.
Tolices? Por que haveria de ser, se os últimos
homens de Neandertal, na África, vivem no mesmo
nível — sub-humano mas não animal — a que a
pequenez de seus cérebros fatalmente os relega?

Caçadores de dinossauros

Chegando a esse ponto, devemos perguntar pelo


que substituiremos a extravagante estrutura das
teorias "clássicas". O único estudioso que procura
oferecer uma nova visão da grande aventura da
evolução humana é o Professor Carleton Coon,
titular da cadeira de antropologia da Universidade
da Pensilvânia.
Em seu monumental trabalho Origem das raças,
publicado em 1962, o ilustre cientista diz que os
habitantes da Terra não devem ter um único
progenitor: os grupos principais em que podem ser
divididos descenderiam de tipos diferentes de
Homo erectus, primatas que se teriam
desenvolvido de maneira independente uns dos
outros, em lugares e épocas diferentes. O Homo
sapiens, portanto, não existiria como nosso
antepassado comum: essa expressão deveria
distinguir apenas o estádio em que os
representantes das cinco raças não devem mais
ser encarados como homens-símios e sim como
homens verdadeiros e completos.
Isto teria acontecido, segundo Coon, há cerca de
250 mil anos para os "mongolóides" (povos da Ásia
Oriental, polinésios, indianos, ameríndios, chineses
e outros) e para os "caucasianos" (europeus, norte-
africanos, grande parte dos povos da Ásia Central
e Ocidental), mas em tempos mais próximos para
os "congolóides" (negros africanos), os "capóides"
(hotentotes e bosquímanos) e os "australóides"
(aborígines australianos, pigmeus asiáticos,
melanesianos e papuas); aliás, alguns desses
últimos ainda estariam muito perto da transição de
Homo erectus para Homo sapiens.
A tese de Coon é plausível sob muitos aspectos,
mas é difícil aceitar as datas por ele propostas,
mesmo considerando-as aproximadas: vimos de
fato que na África existiram, há pelo menos 500
mil anos, criaturas que podem ser classificadas
como Homo sapiens e temos testemunhos ainda
mais antigos.
Os paladinos da ciência oficial rejeitavam até
ontem, como fantasias pueris, as representações
de homens lutando com os gigantescos campeões
da fauna de remotas eras geológicas, afirmando
que tais monstros já haviam desaparecido há
muito quando nossos ancestrais surgiram na Terra.
Todavia, de algumas décadas para cá vêm-se
repetindo clamorosos desmentidos — oriundos
principalmente da América do Sul, onde têm sido
encontrados grafitos e outros restos fósseis
bastante eloqüentes.
Por ora, limitamo-nos a citar os achados de Lagoa
Santa e de outras localidades do Estado brasileiro
de Minas Gerais, onde foram descobertos vários
esqueletos sobre os quais estavam ossos de
toxodonte (um grande ungulado), de megatério
(tardígrado gigante americano que atingia até 7
metros) e de dinossauro2.
Mas quando apareceu o homem, o verdadeiro
homem, essencialmente parecido conosco?
A pergunta, por enquanto, não tem resposta.
Temos apenas por certo que o gênero ao qual
pertencemos é antiqüíssimo. Na América —
precisamente no canyon de Santa Maria, entre os
Montes Bronco, foram descobertos sinais de
trogloditas que viveram há um milhão de anos:
indivíduos que usavam machados de pedra e
flechas com ponta de sílex, que criavam gado, que
provavelmente embalsamavam seus mortos,
enterrando-os envolvidos em sacos de juta.
De acordo com a ciência "oficial", os primeiros
núcleos cavernícolas europeus deveriam ter-se
desenvolvido a partir de 200 mil anos atrás. Agora,
ainda que a descoberta do Professor Matthes,

2 O toxodonte é uma subordem dos Notoungulata, compreendendo os ungulados em geral, do


Paleoceno ao Pleistoceno da América do Sul. Atingiram dimensões enormes, equivalentes às de um
grande rinoceronte atual. O megatério pertence ao gênero da preguiça, encontrada no Pleistoceno
da América. Também de dimensões geralmente gigantescas, os megatérios se relacionam aos ursos
e tamanduás. O dinossauro pertence a um grupo de reptis extintos, largamente distribuídos entre o
Triássico e o Mesozóico. (N. dos tradutores.)
acrescentada a muitos outros indícios, nos leve a
retrodatar de alguns milênios o evento decisivo,
continuamos sempre envolvidos pelo inquietante
quebra-cabeça: como é possível que os primitivos
americanos não tenham evoluído em um milhão de
anos — ainda considerando se que pareciam tão
bem encaminhados para a civilização?3" Aceitemos
o fato: não é possível achar solução. E então nada
mais resta senão uma hipótese: que a Terra tenha
atravessado numerosas "pré-histórias", que o
homem tenha chegado de um passado sem nome
e sem lembrança e altas conquistas civilizatórias
para em seguida ser mais uma vez mergulhado na
barbárie.

CAPÍTULO II
Catástrofes Cósmicas

O QUE PODERIA TER dizimado de um só golpe


civilizações florescentes, destruído a população do
globo e condenado os sobreviventes a procurar
refúgio naquelas mesmas cavernas de onde, após
lutas milenares, seus antepassados haviam saído?
Evidentemente, só cataclismos de envergadura
inimaginável, capazes de subverter a ordem de
todo o planeta.
Vários fatos nos asseguram que essas imensas
catástrofes realmente surgiram: entre outros, o
achado das carcaças de mamutes em tôda a
Sibéria e no arquipélago da Nova Sibéria. Foi um
3É importante ressaltar que as últimas correntes da antropologia não mais admitem a idéia de
evolução linear, verificada apenas cumulativamente. O progresso se faz aos saltos e, por paradoxal
que pareça, nem sempre ocorre "para a frente". (N. dos tradutores.)
cossaco que em 1797 descobriu o primeiro
mamute perfeitamente conservado; infelizmente a
carne do animal serviu de alimento aos cães dos
trenós; de qualquer maneira, naquela época não
teria sido de grande proveito para a ciência. Quem,
contudo, encontrou posteriormente outros
mamutes foi mais cuidadoso, e o progresso
permitiu estudos apurados sobre os cadáveres
desses grandes animais.
"Ainda que se encontrem carcaças inteiras e
esqueletos intactos" - escreve Charles Hapgood,
conhecidíssimo antropólogo americano - "a maior
parte dos achados se apresenta como esmagada
por força colossal. Em alguns locais, os ossos se
acumulam em montes gigantescos, altos como
morros, e aos ossos do mamute se misturam os de
cavalos, antílopes, bisões, lôbos, enormes felinos e
outras criaturas menores.
"Desde tempos mais remotos os homens
conhecem a existência desses misteriosos
cemitérios: as presas de mamute, freqüentemente
longas até 3 metros, forneceram marfim ao
comércio asiático durante séculos, se não milênios.
Entre 1.880 e 1.900 foram recolhidos na Sibéria
cerca de 10 mil pares de presas, e as reservas não
parecem estar para se exaurir.
"O mistério tornou-se maior em 1.901, ano em que
foi descoberta uma carcaça completa de mamute
perto do Rio Beresovka. Aparentemente, aquele
animal tinha morrido congelado em pleno verão! O
conteúdo de seu estômago conservara-se tão bem
a ponto de tornar fácil a identificação das plantas
recém-ingeridas; havia, entre outros ranúnculos,
um tipo de feijões selvagens, em plena
florescência, estádio que essa planta só alcança no
fim de julho ou começo de agosto4. A morte havia
sido tão brusca que na boca do animal ainda se
encontrava o último punhado de ervas e flores ar-
rancado. Sem dúvida alguma o animal fora
surpreendido pelo desencadear-se de uma força
terrificante que o atirou a quilômetros de distância
do pasto habitual. Uma das pernas e a bacia
estavam fraturadas; ferido, obrigado a permanecer
de joelhos, o gigante morrera congelado... na
estação mais quente do ano!"
Sabemos o que é hoje a tundra siberiana: uma
desoladora extensão onde reinam temperaturas
mais baixas que no Pólo Norte, com média anual
de —16°C, um máximo de 15°C em julho e um mí-
nimo de —49°C em janeiro. De maneira alguma
poderiam os mamutes viver naquela região; os
exames realizados sobre suas carcaças
demonstraram que (contrariamente ao que muitos
ainda hoje acreditam) se trata de animais
acostumados a clima ameno, como os cavalos, os
bisões, os tigres, os antílopes e outros
quadrúpedes que com eles morreram. A própria
comida encontrada no estômago dos paquidermes
também demonstra que a Sibéria era uma região
temperada, exuberante quanto à vegetação.
Os mamutes, portanto, morreram em massa
devido a uma tragédia fulminante e,
imediatamente depois, muitas de suas carcaças
devem ter sido aprisionadas numa gigantesca
4É interessante lembrar que no hemisfério boreal o verão vai de 21 de junho a 22 de setembro. (N.
dos tradutores.)
sepultura de gelo, porque de outra maneira não
teriam permanecido intactas.
Essa tragédia envolveu abruptamente a Sibéria
num clima rigorosíssimo; e não somente a Sibéria,
ao que parece. É ainda hoje difundida a teoria
segundo a qual aqueles que foram os territórios
antárticos estariam, há milênios, literalmente
esmagados sob blocos de gelo com espessura
superior a um quilômetro e meio. Mas a expedição
do Almirante Byrd, realizada em 1946-47, trouxe
outros elementos para o julgamento, inicialmente
menosprezados e agora reavaliados em função dos
exames dos dados fornecidos pelo Ano Geofísico
Internacional. Os estudiosos americanos pescaram
nas profundezas do oceano, ao largo do "sexto
continente", amostras de sedimento lodoso que
demonstravam que, em época relativamente re-
cente, os rios antárticos levavam ao mar produtos
aluviais arrancados de uma terra livre de gelo.
Isso teria acontecido até 10-12 mil anos atrás,
mais ou menos, isto é, na época em que o mamute
desapareceu de maneira tão surpreendente. Seria
a mesma catástrofe, portanto, responsável pela
abrupta mudança de clima na Sibéria e na
Antártida? Muitos fatos nos levam a pensar nisso.

Num invólucro de poeira

De acordo com alguns geólogos, o


desaparecimento dos mamutes seria devido a um
fenômeno análogo (embora em escala muito re-
duzida) aos que determinaram o aparecimento das
eras glaciais anteriores.
O que teria provocado as terríveis glaciações que
sufocaram sob branca capa nosso planeta, não é
possível saber. Centenas de teorias foram
elaboradas a respeito, mas somente uma parece
viável: a que se inclina para uma série de erupções
vulcânicas que teriam envolvido a Terra num
manto de pó tão denso a ponto de impedir a
passagem dos raios solares.
A hipótese é muito menos fantástica do que
poderia, à primeira vista, parecer: basta pensar
que a deflagração, no solo, de uma bomba de
hidrogênio, movimenta cerca de um bilhão de
toneladas de terra, arremessando-a, sob forma de
fina poeira, a 30 e até à 40 quilômetros de altura.
As partículas tendem em seguida a voltar à terra,
mas levadas pelas correntes aéreas disseminam-se
por áreas vastíssimas, dando origem a verdadeiros
filtros atmosféricos que interceptam de maneira
considerável os raios do sol, determinando fortes
quedas de temperatura.
Mais claro ainda fica o conceito, lembrando duas
famosas erupções. Quando em 27 de agosto de
1883 explodiu o vulcão Racata, na Ilha de Cracatoa
(Arquipélago de Sonda), as cinzas foram pro-
jetadas na estratosfera. Descendo para os altos
estratos atmosféricos, originaram espetáculos
incomparáveis: o Sol e a Lua se apresentaram
coloridos de púrpura, azul e verde, e ao crepúsculo
uma fantástica luz cor-de-rosa ou dourada
iluminou extensos horizontes. Mas a economia
agrícola de vários países pagou alto preço por
essas visões fantásticas: durante três anos grande
parte do globo só recebeu 85% das radiações
solares normalmente recebidas. E após a erupção
do vulcão Katmai, nas Ilhas Aleútes, em 8 de junho
de 1912, até na Argélia foram registradas quedas
de temperatura de 10-12 graus centígrados. O
meteorologista W. Humphreys calculou que tal
fenômeno subtraiu à Terra, por algum tempo, 20%
do calor recebido do Sol.
É claro que para provocar desastres de tamanha
envergadura, capazes de transformar
definitivamente o clima de vastíssimas regiões,
devem ter-se verificado, simultaneamente,
erupções de dezenas e dezenas de vulcões.
"Tempestades fenomenais" — diz ainda Hapgood
— "como as que possam acarretar uma nevada de
doze metros de altura ou 40 dias consecutivos de
chuva, são perfeitamente concebíveis quando se
leva em consideração a poeira vulcânica lançada
ao alto, filtrando o calor do sol e resfriando a
atmosfera. Semelhante dilúvio de neve poderia
matar animais em zonas muito extensas e
congelar rapidamente seus corpos. A camada de
neve, além disso, poderia ser suficientemente
consistente para se manter nas idades seguintes,
aumentando a cada inverno."
Para o cientista americano, essa série infernal de
erupções teria sido causada pelos movimentos das
terras emersas. É conhecida a teoria de Alfred
Wegener5, segundo a qual os continentes ter-se-
iam formado por cisão de um grande núcleo
primitivo: a massa original ter-se-ia quebrado e
suas partes teriam começado a "migrar", desli-
5Alfred Lothar Wegener (1880-1930) foi um geofísico e meteorologista alemão que participou de
quatro expedições à Groenlândia, entre 1906 e 1930.
zando sobre os estratos inferiores. Ora, Hapgood
parece convencido de que os deslocamentos
similares possam ter-se verificado novamente há
uns 10 mil anos: devido a isso, a América teria
descido para o sul, enquanto a Sibéria e a
Antártida ter-se-iam deslocado de latitudes
temperadas para as zonas mais inclementes do
globo. Mas os deslocamentos defendidos por
Wegener teriam começado há uns 250 milhões de
anos, e somente há um milhão de anos os conti-
nentes teriam ocupado as atuais posições. Quer se
goste quer não dessa hipótese, o fato é que ela
parece bem viável. Difícil, porém, é dar crédito à
hipótese do americano: os "passeios" da América,
da Sibéria e da Antártida, de fato deveriam ter-se
completado num prazo relativamente curto (e isso
teria trazido alterações bem mais catastróficas do
que as por ele descritas) e ao mesmo tempo
suficientemente longo para manter o globo num
insuportável estado de agitação, causando
ininterruptas convulsões sísmicas e vulcânicas; e
se estas não tivessem sido suficientes para
destruir em nosso planeta qualquer forma de vida
(algo muito improvável), as tremendas erupções
em cadeia o teriam envolvido num verdadeiro
invólucro de poeira capaz de mergulhar qualquer
canto da Terra num inverno plurissecular ao qual
não somente os mamutes, mas também qualquer
organismo superior, animal e vegetal, teria
fatalmente sucumbido.
A espantosa ofensiva do "general Inverno", ao
contrário, embora tenha sido fatal na Sibéria e na
Antártida, não durou muito no resto do mundo;
prenunciou, aliás, considerável aumento de tem-
peratura na Europa e na América, cujas razões
procuraremos esclarecer mais adiante.

Colisões no espaço

Se procurarmos em outros lugares as causas das


erupções apocalípticas que naquela época e nas
eras glaciais anteriores originaram catástrofes
gigantescas, poderemos encontrá-las somente
"fora" de nosso planeta.
De fato, é compreensível que num passado muito
remoto a fina crosta terrestre permitisse ao
magma revolto irromper em explosões furiosas,
mas dificilmente poderíamos aceitar que uma
atividade vulcânica, em vasta escala, poderia ter-
se desenvolvido de maneira espontânea em
épocas posteriores, muito próximas de nós do
ponto de vista geológico. Ela deve ter sido
estimulada de fora.
Mas pelo quê? Embora o medo de ingressar no
terreno da ficção científica faça com que relutemos
em admiti-la, existe somente uma hipótese
aceitável: a que se inclina pela queda sobre a
Terra de algum corpo celeste — asteróides saídos
de órbita por causa de raríssimas conjunções
planetárias, bólidos enormes provenientes dos
confins do espaço, talvez satélites anteriores de
nosso globo.
Essa hipótese também poderia ser sustentada pelo
deslocamento das regiões árticas e antárticas que,
ao que parece, se deu várias vezes em nosso
planeta. Encontramos vestígios disso também em
documentos do antigo Egito, nos papiros
conhecidos com o nome convencional de
"Ermitage", "Ipuwer", "Harris": este último diz
claramente como, devido a uma catástrofe, "O Sul
virou Norte (...) e a Terra deu volta sobre si
mesma". Heródoto, ademais, conta como os
sacerdotes egípcios de Tebas lhe teriam revelado
que no passado "o sol surgira por quatro vezes
num ponto diferente do de costume e se tinha
posto por duas vezes lá onde agora ele se
levanta".
Não faltam as confirmações da ciência: de acordo
com o naturalista alemão Kreichgrauer, o Pólo
Norte, na era do carvão fóssil, não ficava muito
longe das ilhas do Havaí; em época mais recente,
sua posição teria coincidido com a do Lago Tchad,
na África Central; o fato de que esse grande
espelho de água não tenha nem afluentes nem
emissários — dizem alguns geólogos norte-
americanos — demonstra que ele teve sua origem
na fusão de uma imensa geleira6.
Esses fantásticos deslocamentos poderiam ter-se
realizado, todavia, justamente devido a
formidáveis erupções vulcânicas contemporâneas,
ou quase, em várias regiões do globo. Podemos ter
idéia de suas conseqüências observando
bombinhas múltiplas, do tipo "salta-moleque", que,
pelas explosões verificadas em lugares diferentes
de seu conjunto, pulam, rodopiam, e até invertem
sua posição.

6Na verdade, o Lago Tchad tem vários tributários. O que ele não tem, realmente, é emissários. (N.
dos tradutores.)
Eis como um geólogo e escritor alemão reconstrói,
baseado em deduções científicas, uma dessas
tremendas catástrofes:
"De noroeste, uma fita de gás com comprimento
de 800 a 1.000 quilômetros, branca,
luminosíssima, subiu ao céu num grande arco.
Silenciosa, com velocidade vertiginosa, aproximou-
se, tornou-se cada vez maior, jogou-se sobre a
Terra como monstruosa serpente, enquanto às
suas margens chamejavam incêndios terríveis (...)
depois, do infinito, com o planetóide arrancado de
sua órbita, veio a morte. A pequena distância de
nosso globo, o corpo celeste arrebentou em duas
partes, ambas se projetando no Atlântico com
potência incrível, perfurando a crosta terrestre.
"Com estrondo, uma coluna de fogo levantou-se ao
céu, levando consigo gás, cinzas, lava, rapilhos7,
titânicas massas de magma abrasador. Por
milhares e milhares de quilômetros, houve um hino
à destruição: o mar começou a ferver, uma
quantidade incomensurável de água se
transformou em vapor e, misturando-se à poeira e
às cinzas, condensou-se em negras nuvens que
obscureceram o Sol. E todos os vulcões explodiram
com fúria aterradora..."
A descrição do cientista alemão refere-se, como
veremos, ao cataclismo que provocou a morte dos
mamutes, a uma colisão cósmica que se deu
provàvelmente há 11 mil anos, que acarretou a
submersão de vastas áreas, levantou portos a 4
mil metros de altura e originou, entre outras
curiosidades geológicas, as Cataratas do Niágara.
7 Pequeno »fragmento» de pedra vulcânica negra, vermelha ou amarela. (N. dos tradutores.)
A tragédia, embora horrenda, não alcançou
proporções suficientes para causar uma verdadeira
era glacial; mas as inundações e as contínuas
chuvas que provocou provàvelmente foram causas
daquele dilúvio que, com razão, as Sagradas
Escrituras definem como "universal".
A causa do desastre teria sido, segundo a opinião
de alguns cientistas, um asteróide atraído ao nosso
campo gravitacional por uma estranha conjugação
Terra-Lua-Vênus. Mas o acidente, avaliado pelas
medidas cósmicas, é quase banal em relação aos
que o precederam," entre os quais devemos
colocar (conforme a opinião de outros cientistas) a
queda de três luas: a atual seria, de fato, a quarta
lua que nosso planeta possui.

O homem de
Neandertal fotografado na África pelo Prof. Homet.
Em cima: Mamute descoberto em 1901, nos
arredores do Rio Beresovka, de acordo (desenho
da época. Embaixo: Reconstituição do mesmo
mamute, na posição em que foi encontrado. Museu
de Leningrado.
Acima: Representação de um monstruoso gigante
numa pintura mural africana. O estranho ser foi
batizado de "marciano".
Abaixo: Vista do afamado complexo megalítico
inglês de Stonehenge.

Satélites vagabundos

Como é sabido, existem várias hipóteses acerca da


origem de nosso satélite. Uma, bastante difundida,
afirma que êle não é, de maneira alguma, filho do
Sol, mas um intruso, um vagabundo do espaço que
incautamente se aproximou demais da Terra e por
ela foi capturado. Isso seria demonstrado pela
própria natureza do corpo celeste, "tão diferente
da dos demais membros de nosso sistema solar" —
anota o austríaco Hõrbiger — "tão claramente
estranha que faz pensar em estréias e planetas de
regiões galácticas desconhecidas".
O francês Denis Saurat que, com o inglês H. S.
Bellamy, teceu sôbre as deduções de Hörbiger
uma curiosa e fascinante teoria, diz: "A lua não é o
primeiro satélite da Terra. Houve muitas luas: para
cada período geológico um satélite diferente
andou ao redor da Terra. Por que, de fato, existem
períodos geológicos tão nitidamente distintos entre
si? Isso é devido ao fato de que ao término de cada
período — e essa era a razão de seu fim — um
satélite caía sobre a Terra. A lua não descreve ao
redor da Terra uma elipse fechada, e sim um
movimento em espiral que vem cada vez mais se
restringindo e acabará por fazê-la cair sôbre a
Terra. Houve uma lua na Era Primária que caiu
sobre a Terra, depois outra na Era Secundária e
mais uma na Era Terciária".
Uma confirmação indireta dessas afirmativas
poderia obter-se do astrônomo inglês Sir George
Darwin, neto do célebre naturalista autor da teoria
da evolução. Ele afirma que também o nosso
satélite atual está fadado a desaparecer num
terrível cataclismo.
A Terra — afirma ele — tinha, logo de início, um
movimento de rotação tão rápido que o dia durava
menos de 5 horas. Com o passar do tempo, esse
movimento diminuiu: agiu como freio, e ainda age,
a fricção exercida pelas marés que, como
sabemos, manifestam-se em sentido contrário ao
do movimento do globo, em relação ao seu eixo. A
frenagem continua, embora de maneira não-
detectável (um segundo cada 120 mil anos) e
"prende" a Terra também no espaço, de tal
maneira, que a Lua dela se afasta cada vez mais.
Daqui a 50 bilhões de anos — prevê Darwin —
quando a Lua distará de nós 550 mil quilômetros, o
dia terrestre será igual ao mês, e durará 47 dias
atuais. Nosso planeta, portanto, voltará ao satélite
sempre a mesma face; seus dias, longuíssimos,
serão insuportavelmente quentes, e as noites,
gélidas, visto que o manto atmosférico não será
mais suficiente para proteger o globo dos raios
solares, devido à prolongada exposição, nem terá
capacidade de reter um pouco do calor
armazenado durante o dia para o longo período de
obscuridade.
Depois, quando a rotação terrestre for ainda mais
lenta que a revolução lunar, as marés voltarão a
ter efeito apreciável, embora em sentido contrário,
acelerando o movimento de rotação. O satélite co-
meçará de novo a se aproximar e mais nada será
capaz de detê-lo. Nas proximidades da Terra, ele
se fragmentará; parte de seus pedaços girarão ao
redor do planeta, formando um anel semelhante
ao de Saturno, enquanto terrível chuva de
meteoritos varrerá a superfície. Seguir-se-ão
terremotos e maremotos horríveis, os vulcões vão
explodir, vastíssimas áreas serão cobertas pelas
águas. E, na melhor das hipóteses, restarão
apenas grupos esparsos de homens que, caídos na
barbárie, viverão sua agonia em deseperada luta
contra os últimos animais, sobreviventes no
desastre cósmico e monstros engendrados pelas
diferentes condições ambientais.
Logicamente, o tempo fixado por Darwin para tal
desastre está colocado em relação à massa, à
distância, aos movimentos da Lua atual. Sobre as
precedentes, muito pouco podemos dizer; mas, se
existiram, seu fim não pode ter sido muito
diferente do profetizado pelo estudioso britânico
de nossa Selene.
Há um sonho, sustenta Saurat, que mais cedo ou
mais tarde se apresenta à maioria dos homens: o
da queda da Lua. Sobre um céu pintado de
vermelho, as estréias tremulam, o satélite começa
a oscilar, agiganta-se e precipita-se sôbre a Terra,
enquanto um vento infernal varre o planeta.
Não se trata, afirma o cosmólogo francês, de um
sonho fantástico, nem de uma premonição, e sim
do reavivar-se de lembranças ancestrais,
inconscientemente transmitidas por milhares de
gerações da mesma maneira que as apocalípticas
descrições bíblicas do apóstolo João teriam sido
inspiradas na memória do que aconteceu num pas-
sado remotíssimo. O fim do mundo, em suma, já
teria acontecido exatamente como a Sagrada
Escritura nos diz que ainda vai ocorrer, envolvendo
o nosso planeta, dessa vez, na catástrofe final,
"...sobreveio grande terremoto (Apocalipse, VI, 12-
14). O sol se tornou negro como saco de crina, a
lua toda como sangue, as estrelas do céu caíram
pela Terra, como a figueira, quando abalada por
vento forte, deixa cair os seus figos verdes, e o céu
recolheu-se como um pergaminho quando se
enrola. Então todos os montes e ilhas foram mo-
vidos dos seus lugares."
Simples suposições? É um pouco difícil acreditá-lo,
quando mitos, lendas, achados sensacionais e
rigorosas deduções científicas concorrem para
formar o mesmo quadro, sem dúvida ainda muito
nebuloso, mas com pormenores tão precisos e
concordantes que não podem ser ignorados.

CAPÍTULO III
A Era dos Gigantes

QUE EFEITOS PODERIA TER a aproximação progressiva de


um satélite da Terra? — perguntaram-se Saurat e
Bellamy.
Antes de tudo, a diminuição da atração terrestre,
como conseqüência do aumento da atração lunar.
E, como resultado disso, o alagamento de
vastíssimas áreas continentais resultante da
possante maré sem refluxo, além do aparecimento
de criaturas de estatura muito desenvolvida.
Somente um fenômeno dessa natureza, sustentam
os dois cientistas, pôde permitir a vida às grandes
plantas e aos grandes animais que povoaram
nosso globo. E com aqueles gigantes animais e ve-
getais apareceram também homens com estatura
média de 5 metros: para tanto teria igualmente
concorrido a intensidade aumentada dos raios
cósmicos, aos quais os titãs teriam sido devedores
de uma inteligência superior.
Sobre a ação dessas partículas já houve longas
discussões que hoje ainda prosseguem
animadamente. É claro que serão necessários anos
e anos após as experiências iniciais para que
possamos chegar a conclusões válidas.
"Como aconteceu com outras radiações" — diz por
enquanto o Professor Jakob Eugster, o maior perito
na matéria — "como as do rádio, dos raios X e
outras, os raios cósmicos podem apresentar dois
efeitos: provocar mutações, isto é, mudanças nos
caracteres hereditários, e causar danos ou
alterações aos tecidos."
Se houve efetivamente a destruição das luas e,
conseqüentemente, um aumento da intensidade
de bombardeamento de partículas radioativas às
quais estamos expostos, esse último fator pode ter
contribuído para o fenômeno do gigantismo.
Podemos ter uma idéia disso dando um pulo até
Martinica. O que aconteceu naquela ilha parece
apoiar as teorias que propõem estar o gigantismo
ligado, de uma ou de outra maneira, a uma chuva
radioativa mais violenta.
Essa ilha das Antilhas foi palco, em 1902, de
pavorosa erupção vulcânica — a do Monte Pelée —
que em poucos minutos dizimou 20 mil pessoas só
na cidade de St. Pierre. No dia do desastre formou-
se na cratera uma nuvem de cor violeta-escuro,
resultante dos gases vulcânicos saturados pelo
vapor de água. A nuvem se agigantou, espalhou-se
por toda a ilha sem que o povo desse conta do
perigo e, quando uma coluna de fogo de 400
metros saiu da cratera do Monte Peleé, a massa de
gases incendiou-se, desenvolvendo um calor acima
de 1.000°C, disseminando a morte. Apenas um
homem sobreviveu: um preso, protegido pelas
espessas paredes de sua cela subterrânea.
Contrariando as expectativas, a vida voltou
rapidamente à ilha, embora a cidade nunca mais
tenha sido reconstruída. Novamente começou a
crescer a vegetação, e a Martinica outra vez
povoou-se de animais. Mas tudo ficou gigantesco:
cães, gatos, tartarugas, lagartos — até os insetos
aumentavam de tamanho e cresciam ainda mais
nas gerações seguintes.
Chocados pelo estranho fenômeno, os franceses
estabeleceram aos pés do vulcão uma estação
para pesquisas científicas, chegando ràpidamente
à conclusão de que as mutações animais e
vegetais eram devidas às radiações dos minerais
deixados expostos pela erupção.
Os raios manifestaram seus efeitos também sobre
os homens: o chefe da estação científica, Doutor
Jules Graveure, cresceu 6 centímetros, e seu
assistente, Doutor Rouen, de 57 anos, aumentou 5
centímetros e meio.
Lançando mão de culturas protegidas contra as
radiações, os estudiosos puderam realizar
importantes comparações, observando, entre
outras coisas, que um rebento exposto aos raios
cresce três vêzes mais depressa que o normal, e
que em seis meses uma planta irradiada consegue
um desenvolvimento para o qual seriam
necessários dois anos, em condições normais. Os
frutos chegavam à maturação muito mais
depressa, embora com volume maior, e as
cactáceas simplesmente dobravam de tamanho.
Como as plantas, também os animais inferiores se
mostraram mais sensíveis às radiações: um lagarto
venenoso, chamado "copa", que antes media no
máximo 20 centímetros, tornou-se um dragão de
meio metro, e sua mordedura, antes nem sempre
fatal, é agora mais mortal que a picada de uma
cobra.
O curioso fenômeno do crescimento desaparece
quando os exemplares em exame são afastados da
ilha. Também na Martinica, de qualquer maneira, a
curva ascendente alcançou o máximo: a in-
tensidade das radiações começa a diminuir e os
"monstros" a encolher.

Encontro com King Kong

Alguns estudiosos, embora rejeitando a idéia das


catástrofes lunares, aceitam porém que a
responsabilidade pelo gigantismo sobre a Terra,
manifestada claramente entre os animais e as
plantas, deva ser atribuída aos raios cósmicos.
Durante a primeira fase de sua vida, o sol deve
evidentemente ter lançado sobre todos os planetas
que ilumina uma quantidade inimaginável de
radiações: para comprová-lo é suficiente o fato de
que cada tempestade solar ainda hoje torna as
radiações mais intensas.
Mas se fôsse essa a causa, o gigantismo deveria
ter-se manifestado muito antes sobre a Terra, e
não somente (como está demonstrado) no
Triássico, período que se iniciou há cêrca de 185
milhões de anos e que assistiu justamente ao
triunfo dos sáurios.
É verdade que os raios cósmicos chegam até nós
notavelmente mitigados pela atmosfera, onde se
chocam com os átomos do ar, e que nosso planeta,
em sua juventude, deveria estar coberto por um
manto aéreo muito mais denso do que o atual,
mas não podemos aceitar que esse manto fosse
capaz de filtrar de maneira eficaz um forte fluxo de
radiações, visto que ainda hoje potentíssimos
projetis invisíveis chegam a transpassar nosso
corpo na incrível quantidade de 650 mil por
minuto, superando as maciças barreiras de
chumbo e penetrando até mil metros nas
profundidades oceânicas. Só os raios cósmicos,
portanto, não poderiam haver criado um mundo de
gigantes, embora para isso tenham contribuído de
maneira notável: uma prova ulterior é fornecida
pela existência de animais de grandes dimensões
muito tempo depois do desaparecimento dos
sáurios e das plantas titânicas.
Já havíamos acenado com a descoberta de
Jonathan Leakey; acrescentemos agora que o filho
do afamado cientista (hoje diretor do Museu de
Ciências Naturais de Nairobi) levou
incidentalmente ao descobrimento de restos
estonteantes.
O rapaz estava subindo por um íngreme paredão
do desfiladeiro de Olduvai George, quando um
repentino obstáculo quase o fez perder o
equilíbrio. Abaixou-se e viu que da areia misturada
com cascalho aflorava um osso de proporções
respeitáveis. Libertou-o completamente da terra,
descobrindo uma enorme mandíbula com dentes
grossos como dedos de adulto.
Foi logo chamar o pai, que encontrou no lugar uma
das maiores surpresas de sua vida. A mandíbula,
de fato, pertencia a um símio gigante, superior em
tamanho a qualquer outro ser vivo ou extinto e
que viveu há cerca de 500 mil anos, sendo ainda
desconhecido pela ciência antes do achado casual.
O Professor Leakey, estimulado pela descoberta,
começou a cavar nas imediações e seu trabalho
rapidamente deu frutos: encontrou ossos
aparentemente não-classificáveis que, no entanto,
guardavam certa semelhança com outros
conservados em seu museu. Feitas as devidas
comparações, Leakey ficou boquiaberto pela
segunda vez: os ossos reunidos formavam o
esqueleto de suíno parecido com o atual javali
africano — só que do tamanho de um hipopótamo.
As escavações de Tanganica continuam se
desenvolvendo e fornecendo resultados
surpreendentes. O Professor Leakey trouxe à luz os
ossos de um segundo javali gigante e dois crânios:
o primeiro pertencente a um ruminante de espécie
desconhecida, e o segundo (já assinalado), de uma
ovelha gigante.
A descoberta do "King Kong de Olduvai George"
não nos diz muito de novo. A existência de símios
enormes já era conhecida: basta lembrar o
"gigantropo" ou "gigantopiteco" que viveu na pro-
víncia chinesa de Kiang-Si cerca de 550 mil anos
atrás, e que hoje em dia se quer identificar com o
passado de uma espécie do "yeti".
O animal tinha uma estatura de 4 metros, e pouco
inferior deveria ser o "megantropo" de Java, de
acordo com a espessura de sua maxila e o
comprimento de seu focinho. O "sinantropo de Pe-
quim" tinha altura aproximada de 3 metros, e 2,70
m media o chamado "gigante de Swartkrans" sul-
africano que, com absoluta certeza — segundo os
achados — sabia acender fogo e caçava com ma-
chados feitos com ossos de criaturas de sua época.
Agora sabemos que os colossos antropóides não
representavam um fenômeno isolado de
gigantismo entre os mamíferos, e é por isso que os
achados de Olduvai George se revestem de
particular importância. Aos javalis do tamanho de
hipopótamos, às ovelhas altas como cavalos
teremos que juntar quem sabe quantos outros
representantes ciclópicos do reino animal, que até
agora se mantêm desconhecidos.
Contudo, o que até aqui foi descoberto é suficiente
para nos fornecer uma idéia bastante clara de
como as coisas se passaram e de como o tamanho
de todos os seres vivos tenha sido
progressivamente reduzido desde o
desaparecimento dos sáurios até hoje.
Se olharmos para nosso atual patrimônio
zoológico, podemos ver que os únicos gigantes
que nos restam são os elefantes de 4 metros de
altura e as baleias de trinta metros de
comprimento — espécimes que ràpidamente vão
desaparecendo. Mas também esses animais pa-
recem de proporções reduzidas quando
comparados aos titãs de remota era geológica —
os brontossauros, por exemplo, com seus 8 metros
de altura e 18 de comprimento — que poderiam
hoje beber água tranqüilamente nas calhas de
uma casa de dois andares.
Os descendentes dos monstros pré-históricos que
sobreviveram até nossos dias têm um tamanho
simplesmente ridículo. O que diriam os
dinossauros ao ver o último rebento de sua
desafortunada família, o esfenodonte da Nova
Zelândia (o único animal de terra firme que tem
três olhos), com um comprimento de 70
centímetros? Bem, qualquer que fosse a expressão
de desconsolo que seus lábios soltassem, em nada
seria comparável ao aflitivo grito de desilusão com
que os terríveis dragões encouraçados do passado
cumprimentariam seu netinho, o Moloch horridus
australiano, uma coisinha que chega a 20
centímetros e se alimenta de formigas.
— O fato é que as dimensões dos animais
continuam a diminuir de maneira impressionante.
Infelizmente, só em época muito próxima a nós
pensou-se em uma pesquisa a respeito, mas
parece já demonstrado que os maiores
representantes do reino zoológico ou se enca-
minham para o desaparecimento ou diminuem de
tamanho, como enfeitiçados por uma varinha
mágica.

Os ossos dos ciclopes

Teria acontecido o mesmo com o homem? Há


quem sustente essa hipótese, e uma série de
interessantíssimos achados parece confirmá-la.
Nas Filipinas, em Gargayan, foi descoberto um
esqueleto humano de 5,18 m e ossos de outros
seres, seguramente com mais de três metros,
foram achados nas regiões sul-orientais da China.
O famoso paleontólogo chinês Pei-Wei-chung acha
que tais ossos podem ter uns 300 mil anos. A
mesma idade é atribuída aos achados de Agadir,
em Marrocos; lá o capitão francês Lafenechère
encontrou uma oficina completa de apetrechos
para caça, entre os quais quinhentos bipenes
(machadinhas de dois gumes), cada um pesando
mais de 20 quilos, ou seja, vinte vezes o peso de
um machado que poderíamos manejar com
eficiência. E que não tenham sido forjados para
indivíduos apenas com maior força, demonstra-o o
fato de não conseguirmos nem mesmo segurá-los
na mão; para fazê-lo, existiram mãos como só as
poderia ter um gigante com pelo menos 4 metros
de altura.
A mesma coisa pode ser dita dos apetrechos de
pedra encontrados na Morávia e na Síria, e
comprovada por alguns ossos que afloravam a
pequena distância. Também o Ceilão forneceu
alguns restos de indivíduos cuja estatura não é
precisável, mas que de qualquer maneira, deveria
andar por volta dos 4 metros, enquanto em Tura,
Assam, nos confins do Paquistão, foi encontrado
um esqueleto humano com 3,35 m de altura. Mas
nesse último caso, como no dos ossos achados sob
um "dólmen" francês e pertencente a indivíduos
cuja estatura variava entre 2,60 e 3 metros, não
deveria tratar-se de gigantes verdadeiros, e sim de
seus descendentes.
Certamente os restos humanos não são muitos;
mas seriam talvez mais numerosos do que os das
criaturas sobre as quais os defensores da
antropologia "clássica" tiveram a pretensão de
escrever a história da humanidade? Lembramos
que os achados citados foram devidos
simplesmente ao acaso, e que a Terra inteira, na
prática, mantém-se virgem com relação a esse tipo
de pesquisa.
Os testemunhos de outra natureza, contudo, são
inúmeros e imponentes. Todos os povos do globo
conhecem gigantes que aparecem em suas
mitologias e às vêzes desempenham papéis
fundamentais, desde os antigos mediterrâneos aos
indígenas das Américas, desde os tibetanos aos
australianos. Nos povos europeus é vívida prin-
cipalmente a imagem dos titãs e dos ciclopes
gregos, de seus irmãos nórdicos; mas bastará
lembrar os "izdubar" dos caldeus, os "emin" dos
hebreus, os "danava" e os "daitia" da Índia, e os
"rakshasa" do Ceilão, para citar somente alguns.
Também a Bíblia é exaustiva a propósito: não
conseguimos entender exatamente o significado
do ponto obscuro em que o Gênese nos diz que
"naqueles tempos havia gigantes sobre a Terra, e
isso depois que os filhos de Deus se uniram às
filhas dos homens", mas temos referências
explícitas onde se fala do rei Og de Basan, "o úl-
timo que ficou dos gigantes", cuja cama media 4,7
m de comprimento, e onde se fala de Golias, o
colosso que tinha 3,2 m de altura.
E essas não são as únicas referências bíblicas. "As
citações sobre gigantes" — diz Saurat — "estão
distribuídas nas várias partes sem conexão lógica,
fora de lugar: Gênese, VI; Números, XIII;
Deuteronômio, III; Josué, XII, XIII, XV, XVII; 2
Samuel, XXI; 1 Crônicas, XX; Livro de Jó, XVI;
Apocalipse XX... e apresentam todas as
características de citações de episódios históricos
autênticos. Elas, de fato, são precisas e concretas;
não são necessárias à tese histórica ou mitológica;
não provam nada; apresentam-se como fatos;
estão presentes em capítulos com os quais não
têm quase nenhuma ligação e, se fossem
suprimidas, nada se perderia da narração; são
brevíssimas, jogadas ao acaso, sem importância
particular; provêm de autores diversíssimos no
tempo e no espaço e freqüentemente sem relação
entre si".
"A longevidade" — nota ainda o cosmólogo —
"está evidentemente relacionada com o
gigantismo: devido à menor força de gravidade,
todas as células do corpo humano eram mais
leves, o gasto para o funcionamento do organismo
era menor e, portanto, o homem podia viver mais
tempo. Um sentido real é assim atribuível aos
contos bíblicos quanto à idade alcançada pelos
primeiríssimos homens: a imortalidade,
característica dos deuses, possui um ponto de
referência."
Outro francês, Michel Cargèse, confirma: "Por
causa da gravidade reduzida, os objetos eram
muito menos pesados; a circulação do sangue,
facilitada; a fadiga, menor para todo o organismo;
e o homem gozava de extraordinária longevidade,
tinha o cérebro mais desenvolvido e capacidades
que o levavam para um saber diferente do nosso".
À Sagrada Escritura assemelham-se de maneira
curiosa as lendas toltecas: elas narram, entre
outras coisas, como a "primeira época do mundo"
terminou entre "inundações e relâmpagos" e
como, no decorrer da segunda, a Terra foi povoada
por gigantes, os "quina- metzins", desaparecidos
em grande parte quando uma série de violentos
terremotos "sacudiu a Terra" e, afinal,
definitivamente eliminados pelos homens durante
a "terceira época", justamente como Golias que foi
liquidado por Davi.
Mas os pontos de contacto com a Bíblia são ainda
mais sensacionais na mitologia mexicana: "Xelua e
seus seis irmãos da estirpe dos gigantes" —
escreve Ralph Bellamy — "salvaram-se do grande
cataclismo terminado com um dilúvio, subindo ao
topo de um monte que consagraram a Tlaloc, deus
das águas. Para comemorar o evento, demonstrar
agradecimento aos deuses e também ter um re-
fúgio caso houvesse outro dilúvio, Xelua e os
outros construíram um "zacauli", altíssima torre
destinada a alcançar o céu. Mas os deuses,
ofendidos pela presunção dos gigantes, fizeram
chover fogo sobre a Terra e muitos operários
morreram".
"Os homens, que até aquela altura tinham falado
uma só língua" — arremata o texto americano —
"foram separados e começaram a falar línguas
diferentes."
Eis-nos portanto perante verdadeira Torre de Babel
além-mar: sua base deveria ter sido a famosa
pirâmide de Cholula, sobre a qual teremos de
voltar a falar.

CAPÍTULO IV
Sob o Signo dos Titãs

ACREDITAM ALGUNS QUE os gigantes não passam de fruto


da fantasia popular, justificando sua presença em
todas as mitologias com a tendência do homem a
concretizar a idéia de seres poderosos no bem e
no mal, agigantando a imagem de si mesmo de
acordo com um processo lógico primitivo. Esta
opinião, contudo, parece bastante discutível ao
darmos uma olhada, mesmo superficial, nas
construções ciclópicas que, desde épocas
imemoráveis, se acham espalhadas por toda a
Terra.
Êsses trabalhos titânicos constituem apaixonante
incógnita arqueológica, quer pelo tamanho, quer
pelos problemas relacionados com o transporte do
material, a começar dos mais antigos monumentos
megalíticos, desde os menires (palavra bretã que
significa "pedra comprida"), toscos monólitos
fincados verticalmente no solo, aos dolmens
("mesas de pedra"), formados por uma grande laje
apoiada em blocos de pedras, fincados também
verticalmente no chão. Damos com uns e outros,
freqüentíssimos, na Bretanha, no País de Gales, na
Cornualha, na Alemanha do Norte, na Suíça, na
Córsega, na Puglia, na Espanha, como também no
Oriente Médio, Turquestão, Mongólia, China, Índia
e em toda a América do Sul.
Embora alguns estudiosos ainda os considerem
símbolos fálicos, os menires já há muito tempo são
encarados por vários arqueólogos como
representação de seres humanos. Para sustentar
essa hipótese, podemos citar muitos mitos que se
correspondem em vários lugares do planêta: os
gregos Deucalião e Pirra que, ao jogar pedras atrás
de si, as vêem transformar-se em criaturas
destinadas a povoar o mundo após o dilúvio, não
estão muito longe dos deuses do céu africanos
que, para dar vida aos homens, "assopram, com os
ventos, a alma dos deuses nas rochas"; polinésicos
e antigos peruanos, ademais, parecem aludir
explicitamente a sêres titânicos, afirmando que o
criador "fez de grandes pedras homens, mulheres
e animais".
De acordo com Saurat, quem primeiro levantou
aqueles monumentos foram os gigantes, que
esculpiram suas imagens, imitados depois pelos
homens, que teriam procurado, muito tempo
depois, "evocar e fazer reviver os deuses", isto é,
os colossos deificados pela sua imaginação.
Os menires, mais exatamente, representam para o
cosmólogo francês os antepassados ciclópicos e os
dolmens, suas mesas; Saurat apóia sua teoria
sobre as observações feitas pelo etnólogo e
psicólogo John Layard num grupo de ilhas a
sudeste da Nova Guiné, e escreve: "Normalmente,
diante da grande imagem de pedra do
antepassado é colocado um dólmen de um metro
ou metro e meio, feito com três pedras — porém
freqüentemente com mais pedras. Sobre esse
dólmen, que é a mesa do gigante, são sacrificados
porcos criados de maneira especial. E Layard não
precisou gastar muita energia para descobrir que
até pouco tempo eram oferecidos homens para
alimentar o gigante".
Isso teria sido comum em todo o mundo no fim da
época dos titãs, e o cosmólogo acredita poder
demonstrá-lo citando uma difundida lenda
indígena, segundo a qual houve no começo
gigantes bons, que civilizaram os homens e lhes
ensinaram os rudimentos da arte, e depois "os
gigantes maus e canibais, e foi necessário colocar
mesas de pedra perante suas estátuas (os
menires) e oferecer homens como comida. Tagaro,
que era bom, viera do céu; Suque, que era mau es-
cravo, lutou contra Tagaro e foi precipitado no
abismo, como na Grécia os gigantes cativos foram
precipitados pelos deuses bons. Por fim todos os
gigantes desapareceram, mas os homens,
apavorados, continuaram a ter medo deles,
levantando estátuas e sempre oferecendo
vítimas".
É singular o fato de que na lenda oceânica ecoem
mitos de terras afastadíssimas. Também os
gregos, por exemplo, nos falam de canibalismo:
todos lembramos a lenda do titã Cronos, que
devorou seus próprios filhos, e a peculiar
predileção para a carne humana nos ciclopes de
Homero. E em seu trabalho Versunkene Städte8,
Hermann e Georg Schreiber anotam: "As fábulas
dos gigantes tão espalhadas na América antiga (...)
foram contadas pelos astecas dentro da moldura
de seu mito da criação, e também foram encon-
tradas na América do Sul com a estranha
característica, concordante nas versões recolhidas
em várias localidades, de que aqueles gigantes
teriam sido canibais homossexuais, aos quais as
mulheres só teriam servido como alimento, razão
pela qual teriam sido eles em seguida aniquilados
pelo céu".
Realizados ou inspirados por esses gigantes maus
deveriam ter sido também os cromlech, formados
por menires colocados em círculos; representariam
justamente o círculo das divindades, ou melhor,
dos titãs que se auto-divinizaram.
Famoso entre os crornlech é o de Stonehenge, na
Inglaterra. Enorme multidão ainda hoje lá se reúne
para assistir ao raiar do dia mais longo do ano e
ver como o sol, ao se levantar, desenha ao redor
da janela do altar central um mágico círculo de
fogo. Os membros de uma esquisita seita, que se
reúne na localidade para realizar vários ritos,
sustentam que lá teve origem a religião druídica;
trata-se porém de uma teoria que não apresenta a
menor base científica: quando os sacerdotes
celtas, que nós chamamos druidas, começaram a
agir na Europa, Stonehenge já existia havia vários
8 Cidades perdidas.
séculos. Hoje sabemos que já em 1.400 antes da
nossa época o "santuário" tinha a atual forma e
que em 1.800 a. C. já se erguia o grande anel
externo; mas com tôda probabilidade esse anel
(construído em parte com material local mas
também com pedras trazidas da Irlanda do Norte)
é muito mais antigo, anterior também às 345
sepulturas pré-históricas das vizinhanças.
O segredo do "círculo mágico" inglês sem dúvida é
sugestivo, mas sensacional mesmo é uma recente
descoberta, segundo a qual os construtores de
Stonehenge estariam presos por enigmáticas
ligações com o mundo da Grécia homérica: no Sul
da Inglaterra foi encontrada a representação de
uma espada idêntica às usadas pelos guerreiros da
Ilíada, tipo até então absolutamente desconhecido
no resto da Europal
A essa arma podemos muito bem juntar os relevos
descobertos sôbre os menires da Córsega pelo
arqueólogo francês R. Grosjeau: espadas e punhais
de formato inusitado e com feitio esmerado. Co-
meçamos assim a perceber que tôdas as antigas
civilizações apresentam pontos em comum.
Outras pedras singulares surgem em cada
continente, e é curioso observar como, na grande
maioria, não provinham de lugares próximos ao
em que se encontram: algumas grandes lajes
descobertas na Irlanda provêm da África, e de
muito longe devem ter sido trazidos os blocos de
pedras visíveis ao sul da Rússia e na Sibéria, con-
siderando-se que por centenas de quilômetros ao
seu redor não existem montanhas.
Êsses simples mas bizarros monumentos
chocaram, há tempo, os representantes das
antigas civilizações mediterrâneas; como num
sopro de ficção científica ante litteram, chega-nos
a afirmativa de Apolônio de Rodes, que viveu por
volta de 250 a.C., o qual, falando dos blocos de
pedra encontrados na Grécia diz, entre outras
coisas: "São pedras animadas, tão sensíveis que
podem ser movidas pela força mental".
Mais avançamos no tempo (num tempo para nós
sem data), mais as obras ciclópicas nos
surpreendem. Já os fortins da Irlanda e da Escócia
oriental, as plataformas calcinadas da Islândia
(mas calcinadas porquê, se hoje somente uma
pista para lançamento de mísseis poderia oferecer
semelhante aspecto?) permanecem inexplicáveis.
E de semelhantes mistérios arquitetônicos também
encontramos traços no chamado Novo Mundo: no
Estado da Paraíba, Nordeste do Brasil, erguem-se
as ruínas de enorme fortaleza com muralhas de 25
metros de altura, com espessura de pelo menos 5
metros, em cujo centro se encontram os
escombros de um salão que mede 150 metros de
comprimento por 45 de largura.
Toda a América do Sul é um assombroso campo de
ruínas titânicas. "Mas os monólitos colossais do
Peru" — escreve o arqueólogo e jornalista francês
Robert Charroux — "apresentam proporções me-
díocres quando confrontados com as pedras de
Baalbek. As ruínas da antiga cidade libanesa, com
seus gigantescos santuários são obra misteriosa de
um povo que sabia transportar, cortar e levantar
blocos de pedras de 750 toneladas, quando o
mundo ignorava a carroça, a chave de arco, o
cimento armado. Alguns blocos das bases medem
25 metros de comprimento por 4,60 m de altura e
largura. Na pedreira de onde foram extraídos, a
cerca de 1 quilômetro da cidade, podemos ver a
maior pedra cortada do mundo, denominada
Hadjar el Houbla ("a pedra do sul"), que pesa 2 mil
toneladas. Parece incrível que homens terrestres
tenham conseguido, em tempos remotos,
transportar e erguer essas pedras colossais."
— O cientista soviético Agrest, de fato, pensa em
trabalho de seres vindos do espaço; os mesmos
que, fazendo explodir parte do combustível nuclear
de suas astronaves teriam provocado a destruição
de Sodoma e Gomorra. E o que poderíamos definir
como lendas da era astronáutica ecoam de um
passado remotíssimo, principalmente sob as
abóbadas das misteriosas "galerias dos gigantes".

Um túnel sob o Pacífico

"Se os espanhóis, entrando em Cuzco, não


tivessem agido com tamanha crueldade,
trucidando Atahualpa, quem sabe quantos navios
teriam sido necessários para transportar à
Espanha todas aquelas riquezas que agora jazem
sepultadas nas entranhas da terra e que talvez lá
ficarão para sempre, pois os que as esconderam
morreram sem revelar o segrêdo."
Assim escreve o historiador-soldado Cieza de León
poucos anos após o assassinato do último
imperador inca e as chacinas realizadas por Pizarro
e suas hordas. E com toda razão, pois os
aventureiros ibéricos, cegos pela cobiça de
riqueza, portaram-se da maneira menos adequada
para satisfazê-la.
Como se sabe, Pizarro aprisionou o Imperador
Atahualpa e declarou que ia devolver-lhe a
liberdade contra a entrega total das riquezas dos
incas. Antes de tomar uma decisão, a mulher do
soberano consultou (ao que se diz) o oráculo solar
e, sabendo que o cônjuge de qualquer maneira ia
ser morto, suicidou-se após ter ordenado que as
riquezas cobiçadas pelos insaciáveis espanhóis
fossem escondidas.
Onde? "Em galerias mais seguras do que
fortalezas" — diz o arqueólogo inglês Harold
Wilkins — "escavadas no coração das montanhas e
ocultas por misteriosos hieróglifos que oferecem o
"abre-te Sésamo!", e dos quais somente um inca
em cada geração conhece o significado; em
subterrâneos construídos há milhares e milhares
de anos por uma civilizadíssima raça
desaparecida".
A hipótese é viável: subterrâneos dessa natureza
são extremamente numerosos, mas não apenas no
território antigamente controlado pelo império
inca. O mais conhecido é, todavia, formado por
uma rede de galerias que comunicariam Lima com
Cuzco, antiga capital do Peru, para em seguida
continuar em direção sudeste, até o limite da
Bolívia. Segundo antigos documentos, o túnel
abrigaria riquíssima tumba real, e foi justamente
esse pormenor que acendeu entusiasmos que não
poderíamos definir como estritamente científicos.
Todavia, esperanças como essa deverão
permanecer assim ainda por muitos anos: as
pesquisas necessitariam verbas vultosíssimas,
quer para desobstruir as galerias dos detritos que
as entopem já a poucos metros da abertura, quer
para purificar o ar empestado, estagnado lá dentro
há vários séculos. Isso sem levar em conta os
perigos que a cada passo esperam os
exploradores: diz-se que os incas teriam preparado
armadilhas mortais disparadas pela passagem de
eventuais intrusos, provocando desmoronamentos
desastrosos.
Além do fascínio popular que despertam, aquelas
galerias representam intrigante mistério
arqueológico. Os cientistas que com elas se
ocuparam estão de acordo em afirmar que os
subterrâneos não podem ter sido cavados pelos
incas: eles os teriam usado conhecendo sua
existência, mas não sua origem. Trata-se de obras
tão imponentes que não parece absurda a hipótese
levantada por aqueles cientistas: são galerias
cavadas por desconhecida estirpe de gigantes.
É curioso o fato de que quase todo nosso planeta é
cortado por túneis dessa natureza, sobre os quais
ainda teremos de falar. Encontramo-los, além de
na América do Sul, também na Califórnia, Virgínia,
Havaí (onde ligariam as diferentes ilhas dos
arquipélagos), Oceânia, Ásia e ainda na Suécia,
Tchecoslováquia, Ilhas Baleares e em Malta. Uma
enorme galeria, explorada por cinqüenta quilôme-
tros, une a Península Ibérica a Marrocos, e é
opinião corrente que através dessa passagem
tenham chegado da África os macaquinhos (únicos
no continente europeu) que se encontram perto do
afamado penhasco.
Há até quem afirme que as ciclópicas galerias
cavadas em tantos lugares põem em contacto
pontos afastadíssimos de nosso planeta.
Lembramos a respeito o episódio contado pelo
jornalista John Sheppard, correspondente, no
Equador, de um grande periódico americano. Ele
narra ter encontrado no verão de 1944, na
fronteira com a Colômbia, um mongol perdido em
meditação, com uma "roda para orações"
tipicamente tibetana. Seria, nada mais, nada
menos, que o décimo terceiro Dalai Lama,
oficialmente morto em 1933, mas nunca sepultado
na cripta destinada a seus restos mortais: porque o
Lama (afirma-se em Lassa) não teria morrido, mas,
por longa peregrinação subterrânea, ter-se-ia
afastado para orar nos Andes, onde, segundo
alguns sacerdotes, teria surgido a religião lamaísta
antes de "se adaptar" ao budismo.
O conto não é, na verdade, daqueles que se
aceitam de olhos fechados. Quem tentou
aprofundar o problema com algum Lama erudito,
obteve como resposta mais ou menos isto: "as
galerias existem, cavadas pelos gigantes que nos
deram sua ciência quando o mundo era jovem".
Sua ciência? Ouvindo Robert Charroux, quase
acreditamos. "O engenheiro Eupalinos" — lembra
ele — "dirigiu os trabalhos de escavação da galeria
de Samos, que mandou começar pelas duas aber-
turas projetadas. O túnel tem 900 metros de
comprimento, mas as equipes de operários se
encontraram no ponto previsto; a própria galeria
se apresenta absolutamente retilínea. Para realizar
um trabalho semelhante, os italianos e franceses
que perfuraram o Monte Branco tiveram que usar
instrumentos eletrônicos de medida, radar,
reveladores magnéticos e ultra-sons. Ora, parece
que Eupalinos não dispunha sequer de uma
bússola."
As conclusões semelhantes parecem nos querer
levar muitas esculturas maravilhosas, sem idade,
das cinco enormes cabeças de basalto
encontradas em 1939 no meio da selva mexicana,
estátuas que lembram outras — famosíssimas —
da Ilha da Páscoa, as figurações andinas, certas
estátuas asiáticas e outras oceânicas.
Assombrosa é uma montanha brasileira, na Gávea,
bairro do Rio de Janeiro, GB: apesar dos fenômenos
de erosão que evidentemente ocorreram no
tempo, tem-se nítida impressão de que ela foi
esculpida em época muito remota, recebendo a
forma de uma cabeça barbuda, coberta por um
capacete com ponta. E não é tudo: sobre uma
parede lisa, perfeitamente vertical, que dá origem
a um abismo de 840 metros de altura, existe uma
inscrição cuneiforme com 3 metros de altura.
Como seus autores conseguiram gravá-la na
parede é um mistério para cuja solução não existe
sequer uma pálida hipótese.
"Grandes Cabeças" da Ilha da Páscoa.
Esboço de uma colossal estátua da Ilha da
Páscoa, que não chegou a ser esculpida;

Lembranças da Lemúria na Austrália: O Monte


Connor, nivelado pela erosão.

Escritas semelhantes foram descobertas pelo


arqueólogo Bernardo da Silva Ramos em várias
outras localidades da América Latina. A esse
cientista cabe também o mérito de nos ter
revelado as monumentais ruínas de Marajó, ilha
do Rio Amazonas, com suas imponentes salas
subterrâneas ligadas entre si por galerias com
paredes de pedra. E naquela localidade mais um
quebra-cabeça se ofereceu à ciência: uma
coleção de belíssimos vasos com desenhos que
lembram muito de perto os etruscos.
A propósito de inscrições cuneiíormes, enfim, não
podemos esquecer as do planalto de Roosevelt,
entre o Amazonas e Mato Grosso: encontram-se,
com símbolos lamentavelmente indecifráveis,
sobre gigantescos discos de pedra divididos em
seis setores, que se acredita serem tabelas para
cálculos astronômicos.
Poderíamos estender mais essa interessante
resenha, mas, não querendo abusar da paciência
do leitor, terminamo-la deslocando-nos pelos
arredores de Bamian, cidadezinha do
Afeganistão, a noroeste de Kabul, e atualmente
em ruínas. Desenvolveu-se no meio de um vale
circundado por cavernas naturais e artificiais,
vigiada por cinco estátuas: a primeira tem 54
metros de altura, a segunda 38, a terceira 18, a
quarta 4, enquanto a quinta não supera a
estatura de um homem atual.
Pensou-se que esses monumentos fossem
imagens de Buda, mas depois descobriu-se que
essa interpretação é devida aos sacerdotes bu-
distas que se instalaram nas cavernas ao redor
de 100 d.C. As estátuas são, com efeito, muito
mais antigas, conforme apontou o exame de uma
espécie de capa feita de cimento e aplicada às
costas do colosso de 54 metros, sabe-se lá
quantos milhares de anos atrás. — Mas o que
querem representar os cinco monumentos?
Talvez o declínio dos gigantes, sua progressiva
redução de estatura e, por fim, a passagem do
poder ao Homo sapiens?

O fim de Golias

Se a hipótese de Saurat e Bellamy acêrca do


gigantismo parece, por várias razões, plausível,
não lhe faltam, contudo pontos obscuros e
afirmativas pouco satisfatórias.
"Cerca de 30 mil anos atrás" — escreve o
cosmólogo francês — "uma civilização muito
desenvolvida e diferente da nossa tinha-se
estabelecido nos Andes, numa altitude entre
3.000 e 4.000 metros sobre o atual Oceano
Pacífico. O oceano daqueles tempos alcançava
essa altitude sobre os montes, e a civilização de
Tiahuanaco vivia à beira-mar. Isso quer dizer que
o ar era então respirável sem dificuldade.
"Por que razão água e ar se achavam acumulados
naquela altitude? Porque o então satélite da
Terra, parecido com nossa lua atual, distava de
nós de 5 a 13 raios terrestres. Ao contrário de
uma maré como a de nossos dias, que sobe e
desce com a lua a 60 raios terrestres, a maré de
então, atraída por uma gravitação lunar muito
mais forte, não tinha tempo para descer: aquela
lua, com potente ação, girava demasiado
depressa ao redor da Terra. Assim, todas as
águas do globo foram juntadas numa maré
permanente que formava como que um anel ao
redor de nosso planeta."
Desse anel estavam a emergir só alguns cumes
dos Andes, o alto México, as montanhas da Nova
Guiné, o Tibete e o planalto da Abissínia (onde se
encontram os massai, todos com mais de 2 me-
tros de altura e presumivelmente descendentes
da raça ciclópica). Mas como se explica então que
monumentos gigantescos são também
encontrados em áreas que naquela época
deveriam estar cobertas pelas águas?
É possível, além do mais, que o aproximar-se de
nossa lua anterior tenha originado fenômenos tão
simples e limitados, formando um "mar curvo",
influenciando de maneira tão espetacular só os
habitantes das supostas ilhas? E, mesmo
aceitando isso, os homens normais teriam
realmente conseguido sobreviver nas imensas
plagas enxutas (que devemos imaginar
aridíssimas, flageladas por violentos fenômenos
atmosféricos), às quais Saurat envia seus bons
titãs, a bordo de tão lindas naus, com a tarefa de
civilizar nossos antepassados?
Essas considerações nos deixam bastante
perplexos. Por outro lado, os gigantes realmente
existiram: embora a hipótese citada não seja
inteiramente defensável, temos a impressão de
que nem todos os elementos sôbre os quais se
apóia devam ser desprezados. Mas há alguém
que propõe uma teoria que explicaria tudo de
maneira mais simples, desde que aceitemos um
pressuposto: que os titãs vieram das estréias.
Meras fantasias, poderíamos dizer. Nós
simplesmente acenamos com elas, sem
pretensão alguma de impô-las aos leitores,
lembrando que elas fascinaram e fascinam
também cientistas de valor. Como não se deixar
tentar, também, se do passado remoto da Terra
tantos chamados enigmáticos — como veremos
— parecem nos falar de influxos e ligações
interplanetárias?
Para concluir a história dos gigantes, chamamos
a atenção para o fato de que, qualquer que tenha
sido a origem deles, devem ter-se imposto muito
rapidamente àqueles "anõezinhos" que foram
nossos antepassados; e não é difícil entender as
razões. Contudo, seu predomínio durou
relativamente pouco: o fim da atração exercida
pela lua moribunda (se aceitarmos a hipótese de
Saurat e Bellamy), a prolongada estada num
planêta caracterizado por uma gravidade superior
àquela a que estavam acostumados (se
preferirmos a hipótese "espacial"), ou sabe-se lá
quais outros fatores condenaram a ciclópica raça
à decadência.
Seus descendentes, de um modo ou de outro,
ainda conseguiram dominar algumas regiões,
mas as subseqüentes mutações — que devem
ter-lhes reduzido a estatura física e mental — os
deixaram à mercê dos novos donos da Terra: com
a derrota de Polifemo e Golias termina a era dos
últimos titãs.
CAPÍTULO V
Pesadelos de Pedra

FALANDO DOS GIGANTES, vimos como, de acordo com o


pensamento de vários estudiosos, foram
levantados, um pouco em todo o mundo,
monumentos em honra a esses titãs. Mas há uma
terra que abriga uma coleção completa desses
monumentos: a Ilha da Páscoa. Sinistra e
desolada, ergue-se sobre as ondas do Pacífico:
um pontinho nos mapas, somente 118
quilômetros quadrados de rochas nuas e
inóspitas. Mesmo assim, que tremendo quebra-
cabeça para a ciência!
Quem morou num passado longínquo naquela
ilha? De onde veio a raça que a habitava quando
foi descoberta? O que representam os "paus
cantantes"? Por que e para que foram erigidas as
características "cabeças de pedra"? Por que e
para que foram cavados os grandes túneis
subterrâneos e com que finalidade, se todos
desembocam no mar? Sobre essas perguntas os
estudiosos conjeturaram durante dezenas de
anos. E o enigmático sorriso das estátuas parecia
escarnecer para sempre desses esforços.
Mas os "detetives do saber" não se entregam
fàcilmente, e também nesse caso sua constância
fez com que na escuridão considerada
impenetrável pelo menos uma faísca brilhasse.
Foi, no começo, uma simples fagulha
tremeluzente, mas em seguida pelo menos uma
parte da misteriosa história da ilha se iluminou.
Dizem que teria sido um aventureiro inglês,
Davis, o primeiro a desembarcar na Ilha da
Páscoa, em 1687, mas é provável que, ao falar de
uma "terra esquálida e esquisita", ele fizesse
referência às margens de Mangareva, bem mais
a oeste. Descobridor oficial, de qualquer maneira,
é considerado o navegador holandês Roggeveen,
que lá chegou no dia da Páscoa de 1722,
batizando com o nome da grande festa cristã
aquele pequeno deserto rochoso que os indí-
genas chamavam Waihu.
Devemos, contudo, a Cook e ao célebre
naturalista e escritor Georg Forster as primeiras
notícias de valia sobre a ilha. Este último ali
desembarcou em 1774 e logo foi atraído pelo
singular aspecto daquela terra, evidentemente
devastada por erupções vulcânicas: o chão
estava recoberto por grandes blocos de pedra,
em cujo redor crescia a muito custo mirrada
vegetação. Os europeus se moviam com
dificuldade naquele terreno acidentadíssimo,
enquanto os indígenas pulavam de rocha em
rocha com surpreendente agilidade.
Não podemos desmentir Forster quando ele
afirma que a ilha não tem aspecto atraente,
aparência ainda mais entristecida pelos recifes e
duas pontas rochosas que sobressaem acima do
mar, em frente à extremidade meridional, uma
das quais, sempre flagelada por furiosos
vagalhões, assemelha-se a uma gigantesca e
ameaçadora coluna.
Os indígenas que Forster encontrou eram de
estatura mediana, magros, cor acastanhada,
cabelos pretos e crespos. Mas entre eles havia
também homens brancos e barbudos, selvagens
há várias gerações. A existência que todos
levavam era, dada a inospitalidade da pátria,
verdadeiramente miserável: na única nascente
de água doce, os habitantes formavam fila
permanente para beber e lavar-se.

Desgraças em cadeia

A curiosa e deprimente paisagem da Páscoa, as


"cabeças de pedra", as enigmáticas galerias
subterrâneas foram a base de inúmeras lendas, e
agora é a vez da ficção científica. Um romancista
americano acha até que Páscoa é o fragmento de
um mundo destroçado que caiu sôbre a Terra.
Naturalmente trata-se de hipótese totalmente
irreal, mas aquela ilha perdida na imensidade de
oceano e céu não sugere a idéia de um
asteróide?
Quando Roggeveen desembarcou, encontrou de
5 a 6 mil habitantes que logo iriam ter péssima
impressão de seus hóspedes: em meio a
injustificado tiroteio doze indígenas foram
mortos, e a partir de então a história dos
habitantes da ilha foi uma sucessão de des-
graças.
Em 1859 e 1862 desembarcaram na ilha bandos
de aventureiros peruanos sem escrúpulos, que
reduziram à escravidão e deportaram para as
terras do guano o povo inteiro, inclusive o rei
Marata. O bispo de Taiti, Jaussen, enviou à Lima
enérgico protesto, conseguindo a repatriação dos
infelizes. Mas só alguns voltaram, trazendo
varíola, lepra e sífilis, além de outras doenças
contraídas nos lugares insalubres onde foram
obrigados a trabalhar.
Em 1864, quando o Padre Eynaud, primeiro
missionário, desembarcou em Páscoa, encontrou
somente poucas centenas de pessoas em muito
mau estado. Contudo, o capitão do navio, que
havia trazido o missionário, achou-os plenamente
aptos para trabalhar como escravos nas
plantações de Taiti, e assim uma centena de
habitantes novamente conheceu a deportação.
Aos poucos restantes, o destino reservava outra
desventura: chegou à ilha um embusteiro
chamado Dutroux-Bornier que, afirmando ter
comprado aquela terra ao rei de Taiti (ao qual
parecia pertencer, não sabemos porquê),
apoderou-se da única riqueza dos indígenas —
alguns rebanhos de magras ovelhas — e
instaurou um regime tão tirânico que os
pascoanos, embora tímidos e pacíficos, acabaram
por assassiná-lo.
Morto o rei de Taiti, Tati Salmon, a ilha foi
herdada pela família Brander, que em 1888 a
vendeu ao Chile, do qual ainda hoje é a única
colônia.
Quando falamos na Ilha da Páscoa, a primeira
imagem que aparece é a das gigantescas
cabeças de pedra, os monumentos mais es-
quisitos e imponentes da Terra. Foram
entalhadas em pedra vulcânica: no interior da
cratera foram esculpidos 300 e depois erguidos e
transportados sobre plataformas até 16
quilômetros de distância. Alguns desses colossos
pesam 30 toneladas e sua altura varia entre 3,50
e 20 metros; existe um, inacabado, que mede
bem uns 50 metros!
Interrogados sobre a origem dessas estátuas, os
habitantes nunca souberam dar explicação
alguma; isso sem dúvida deve-se ao fato de que
com o rei Marata foram deportados os sábios
pascoanos, depositários das tradições, que sem
dúvida poderiam ter narrado coisas
interessantíssimas não apenas sôbre o passado
de sua pátria, mas também sobre as mais antigas
e enigmáticas civilizações da Terra.
Restaram, é verdade, algumas tabuinhas de
madeira (que não é da ilha), gravadas com
caracteres que lembram em parte quer os
hieróglifos da América pré-colombiana, quer os
descobertos há alguns anos no vale do Indo e que
remontam a cerca de 3.000 anos a.C.; mas
parecia impossível conseguir decifrar aquelas
tabuinhas.
Entretanto, a chave existia: encontrou-a aquele
Bispo Jaussen que se havia preocupado com a
deportação dos habitantes da ilha. Mas ninguém
nada soube, até que em 1955 o Doutor Thomas
Barthel, arrojado antropólogo alemão, concluiu
suas apaixonantes pesquisas.
O cientista obteve, em 1953, algumas fotografias
dos documentos manuscritos, estudados pelo
culto bispo, descobrindo que Jaussen,
interrogando os pascoanos que ficaram na ilha de
Taiti para trabalhar, conseguira decifrar parte dos
"paus cantantes", isto é, as tabuinhas que
ficaram silenciosas para muitos especialistas.
O antropólogo chegou assim a compreender o
significado de parte dos hieróglifos, mas para
completar o trabalho faltava-lhe consultar os
outros apontamentos de Jaussen. Onde encontrá-
los? O bispo pertencera à congregação do
Sagrado Coração, cuja sede deveria estar em
Braine-le-Comte, Bélgica. O Doutor Barthel
dirigiu-se para lá, onde descobriu que os
religiosos haviam deixado para sempre aquela
localidade. O acaso o levou, a seguir, à abadia de
Grottaferrata, aos pés dos Montes Albanos, e lá
ele encontrou as preciosas anotações que lhe
permitiriam ler o passado de Páscoa.
Em quase todos os "paus cantantes" estão
gravadas rezas pagãs, de acordo com um sistema
denominado bustrophedon, pelo qual inicia-se a
leitura pela parte inferior, da esquerda para a
direita, virando-se a tabuinha a cada linha.
"Eles chegaram de Rangitea" — revela o mais
conhecido dêsses documentos, —
"desembarcaram sobre esta ilha e rezaram ao
deus de Rangitea..."
Isso confirma, entre outras coisas, a origem
polinésica dos atuais habitantes da Páscoa, que
lá devem ter chegado das superpovoadas Ilhas
da Sociedade, em particular de Raiatea (ou
Rangitea), em fins de 1200.
O notável trabalho do Bispo Jaussen e do Doutor
Barthel nos permite formular uma hipótese sôbre
a origem das "cabeças de pedra": os gigantescos
monumentos seriam muito menos antigos do que
há alguns anos acreditávamos; os mais antigos
remontariam à metade de 1.300, e todos
deveriam ser encarados como simulacros de
"grandes progenitores", em honra dos quais os
pascoanos teriam celebrado rituais mágicos e
sacrifícios humanos.
Como os ilhéus tenham conseguido transportar
por longos trechos e levantar as pesadas
estátuas com os meios rudimentares de que
dispunham é um mistério. Thor Heyerdhal, chefe
da famosa expedição da "Kon Tiki", afirma que a
tração teria sido feita com cabos de ráfia e outras
fibras vegetais, sôbre cilindros de madeira, e a
ereção realizada com planos inclinados
construídos com areia e pedras. Mas os
pascoanos não podiam, de maneira alguma,
lançar mão de toras, porque, dado o estrato de
terra demasiado fino que recobre as rochas
vulcânicas, a ilha não pode sustentar árvores.
Além disso, por qual razão de todos os
polinésicos só os emigrados de Rangitea tiveram
a idéia de erguer tais monumentos? Ninguém nos
poderá dizê-lo com certeza. Também o fato de
muitas cabeças se apresentarem caídas e a
escultura de outras ter sido repentinamente
suspensa permanece obscuro: alguns falam
numa revolução religiosa que teria levado à
supressão do culto dos antepassados, e essa
parece, para muitos, a única explicação viável.
A ilha do apocalipse

Mas a ilha esconde outros mistérios que


provàvelmente continuarão para sempre sem
solução: o das galerias subterrâneas, o da po-
sição das estátuas, que às vezes lembra as
"avenidas de pedra" da Bretanha, às vêzes o
"círculo mágico" de Stonehenge, o das cavernas
cheias de ossadas humanas de tempos
antiqüíssimos, o dos petróglifos (desenhos sobre
pedra) muito parecidos com os motivos próprios
não só das antigas civilizações da América
Central e do Sul, mas também caracterizados por
elementos que lembram a Índia, a China e até o
Egito.
Os "homens-pássaros" pascoanos, por exemplo,
sem dúvida estão ligados ao fabuloso "pássaro de
fogo" que encontramos no Mediterrâneo, na
índia, nas duas Américas, e que parece ser o
símbolo da civilização-mãe da Terra, a mítica
Atlântida.
Os atlantes, então, desembarcaram na Ilha da
Páscoa? Parece que uma antiga lenda ilhoa assim
sugere. "Muitos e muitos anos atrás" — conta a
lenda — "chegou do mar com dois navios o rei
Hotu Matua, com a rainha e sete mil súditos.
Vieram de duas ilhas, situadas lá onde o sol
nasce. E quando chegaram, suas ilhas desapa-
receram no mar..."
Os estudiosos, de maneira geral, acham, contudo
que se tratava de americanos, e não atlântidas, e
pensam que entre Páscoa e a costa suleste do
"Novo Mundo" existiram uma vez algumas ilhas.
Parece que há séculos Páscoa hospedou entre 2 e
5 mil habitantes, divididos em duas classes: a dos
"senhores das longas orelhas" (com os lobos
esticados pela aplicação de pesos, característica
que se encontra também nas estátuas) e a dos
plebeus com orelhas curtas. Estes acabaram por
rebelar-se contra a tirania dos nobres, desenca-
deando uma guerra civil que provavelmente
dizimou a população.
Os "senhores das longas orelhas" constituíam
também a aristocracia dos incas, e é impossível
que costumes tão curiosos tenham florescido
independentes, sem que tivesse havido contacto
algum entre a Ilha da Páscoa e a América. Além
disso, muitos objetos artísticos e apetrechos
fabricados pelos antigos habitantes da ilha
apresentam extraordinárias analogias com os do
Peru.
E se os incas tivessem chegado a Páscoa antes
dos polinésicos e em seguida tivessem sido
vencidos e dizimados (ou expulsos) por esses
últimos? É algo não só possível como muito
provável. Isso tornaria plausível outra hipótese:
poderíamos admitir que os últimos a chegar
tenham estruturado seu culto pelos
antepassados, aos quais teriam sido dedicadas as
gigantescas estátuas baseadas em crenças
americanas; diríamos mais: eles "roubaram" aos
súditos do Rei Hotu Matua a idéia de lendários,
titânicos progenitores. E com isso teríamos uma
explicação lógica da extraordinária semelhança
que se encontra entre as bases das estátuas
pascoanas e as olmecas, de Pachacamac e da
misteriosa Tiahuanaco.
Não esqueçamos também que os antigos
americanos tinham gigantes entre seus míticos
progenitores, e notemos que encontramos
reproduzidos em Páscoa, em proporção menor,
alguns dos desenhos de animais desconhecidos
traçados no deserto peruano. Perto desses
desenhos temos outro símbolo que nos deixa
perplexos: a espiral tomada como símbolo do
número 100 pelos incas, egípcios e outros povos.
Páscoa estaria, portanto, ligada de alguma
maneira à lembrança da Atlântida, o famoso
continente submerso, se quisermos considerar os
antigos povos americanos seus mais diretos
herdeiros.
Mas Páscoa apresenta vestígios muito anteriores
ao período incaico, vestígios impressionantes
como os constituídos pelas ossadas e pelas
galerias ciclópicas. Muitos geólogos acreditam
poder afirmar que no passado a ilha não era
muito maior do que hoje em dia, mas essa
afirmativa se choca contra fatos que não podem
ser ignorados: entre outras coisas, é inacreditável
que alguém tenha cavado túneis daquelas
proporções para fazê-los desembocar no mar —
era outras palavras, pelo simples gosto de cavá-
los.
Há quem apresente a hipótese de que as
enormes passagens subterrâneas faziam parte de
um sistema subterrâneo de comunicação
destinado (como no Havaí) a pôr em contacto
entre si as várias ilhas de um arquipélago
desaparecido, sendo Páscoa apenas um cemitério
comum, se não mesmo um lugar destinado a
sagradas hecatombes. E há quem vá mais
adiante, advertindo-nos que justamente por essa
razão a ilha é maldita, conforme "demonstrariam"
as desgraças que caíram sôbre seus habitantes,
mesmo naqueles poucos capítulos de sua história
que nos foi dado conhecer. Sem dúvida os
pascoanos nunca tiveram uma existência
invejável; nem por isso, porém, consideramo-nos
capazes de filiar suas desgraças a algum fruto de
mera superstição.
Há outros que consideram Páscoa quase um
templo da humanidade, de sua perpétua luta
contra as forças cósmicas avassaladoras, de suas
ruinosas quedas e de seus renascimentos. A ilha
teria sido um ponto comum a todos os
continentes desaparecidos de nosso planeta:
Lemúria, Gondwana, Mu, Atlântida. Alguns
acreditam achar a descrição em antigos textos
tibetanos e nos oferecem uma profecia que, se
pode nos deixar indiferentes, vai sem dúvida
preocupar nossos bisnetos: outras imensas
perturbações vão devastar nosso globo,
destruindo tudo quanto o homem construiu e
construirá, e obrigá-lo-ão a recomeçar da Idade
da Pedra. A Ilha da Páscoa ainda resistirá a
muitas catástrofes, mas quando também ela
desaparecer, tragada pelas ondas, será a
destruição total, o fim do mundo.
Essa profecia, de acordo com um grupo de
parisienses apaixonados pelos enigmas
pascoanos, teria sido lembrada também em anti-
gos manuscritos incaicos e guardada oralmente
por muitas gerações até nossos dias.
É opinião comum que os incas não conheciam a
escrita, mas parece que alguém pode demonstrar
o contrário. "O vice-rei do Peru, Francisco Toledo"
— escreve Robert Charroux — "fala em seus re-
latórios, por volta de 1566, de tecidos incaicos e
tabuinhas pintadas, de grande riqueza narrativa,
relativas à história, a ciências, profecias, etc. Ele
mandou que tudo fôsse jogado na fogueira. A
existência dessa escrita incaica é confirmada por
José de Acosta (Historia natural y moral de las
Índias, Sevilha, 1590), Balboa e Padre Cobo.
Felizmente os jesuítas e os papas salvaram parte
do patrimônio tradicional. Os livros de Garcilaso
de la Vega e alguns manuscritos contendo os
dados mais preciosos da mitologia sul-americana
foram queimados na Espanha do século XVI, mas
a Biblioteca do Vaticano e o Senhor Beltran
Garcia, descendente de Garcilaso, conservam a
parte essencial da tradição relatada em
manuscritos inéditos, dos quais tivemos
conhecimento."
Nesse ponto parece-nos oportuno lembrar, ainda
com Charroux, quantos vazios, que não poderão
ser preenchidos, foram abertos pela ignorância e
pelo fanatismo no conhecimento da antiqüíssima
história de nosso planeta.
"Muitos testemunhos foram destruídos" — diz o
arqueólogo. "Júlio César carrega a pesada
responsabilidade do primeiro incêndio da
Biblioteca de Alexandria, onde Ptolomeu I Soter
juntara 700 mil volumes, que constituíam então a
totalidade da tradição e da sabedoria humana.
Quatro séculos mais tarde, um segundo incêndio,
ateado pelas turbas indisciplinadas, danificou
essa mesma biblioteca, que foi definitivamente
queimada em 641 por ordem do Califa Omar.
Contam que, consultado por seus capitães sobre
o destino dos livros, o chefe muçulmano
respondeu: 'Se o que eles dizem está no Alcorão,
são inúteis, e podem queimá-los. Se o que eles
dizem não está no Alcorão, então devem ser
destruídos, por serem nocivos e ímpios'. Os
preciosos manuscritos foram usados por vários
meses como combustível para as caldeiras das
termas de Alexandria. Só alguns escaparam do
fogo.
"Semelhante auto-de-fé foi realizado em 240 a.C.,
pelo imperador chinês Tsin Che-Hoang, que
mandou destruir todos os livros de história,
astronomia e filosofia existentes em seu reino.
No terceiro século, em Roma, Diocleciano
mandou procurar e destruir todos os volumes
contendo fórmulas para fabricar ouro, sob a
desculpa de que a transmutação dos metais ia
permitir a compra de impérios.
"O Novo Testamento (Atos dos Apóstolos) revela
que São Paulo reuniu em Éfeso todos os livros
que tratavam de 'coisas curiosas' e os queimou
publicamente9. Jacques Weiss refere que alguns
monges irlandeses, ignorantes, queimaram 10 mil
manuscritos rúnicos redigidos em casca de

9 Não é exato. Não foi S. Paulo, mas sim os próprios possuidores de livros de "artes mágicas",
então convertidos ao cristianismo, que, espontâneamente, os queimaram. Veja-se Atos dos
Apóstolos, cap. 19, versículos 18 e 19. (Nota da Editora.)
vidoeiro (bétula), contendo todas as tradições e
todos os anais da raça celta."
O escritor lembra a seguir os testemunhos
relativos à queima dos papiros de Uardan e dos
manuscritos de Yucatan; e a lista nem de longe
está completa. Achavam-se entre as obras
destruídas aqueles "livros dos deuses e dos
homens", que se diz contavam a história da Terra
"desde o dia em que brilhou a luz da
inteligência", e em particular a da Lemúria e
Gondwana? Se assim fôr, bem poucas esperanças
nos restam para entender o singular enigma
dêsses dois lendários continentes desaparecidos,
sobre os quais a fantasia vertiginosa de alguns
quer projetar a sombra dos gigantes.

De Lemúria a Gondwana

Tentemos dirigir nossos olhos para o passado


bem remoto da Terra: após relativa solidificação,
veremos seu vulto mudar continuamente,
atormentado por enormes cataclismos e
convulsões horrendas. Continentes surgem do
oceano inicial, transformam-se e, como
plasmados por mãos gigantescas, de novo
afundam, enquanto outros emergem, represam
as águas entre seus monstruosos relevos,
levando-as a formar enormes lagos que um sopro
de fogo, do interior do globo, basta para fazer
desaparecer em possantes colunas de vapor.
Instala-se afinal uma calma relativa: cerca de 1
bilhão de anos atrás, segundo muitos eminentes
geólogos, dá-se a estabilização da superfície
terrestre em uma única, grande massa
continental: a Megagea (do grego: "grande
terra"). Após 300 milhões de anos, o quadro
muda mais uma vez: novas convulsões violentas
provocam o aparecimento de abismos em
vastíssimas regiões e delineiam continentes
desconhecidos, destinados a desaparecer ou a
mudar de aspecto inúmeras vezes.
Umas dessas imensas formações teria ocupado
grande parte do Oceano Pacífico, indo desde
Madagáscar até o Ceilão, da Polinésia à Páscoa e
à Antártida. Os estudiosos que aceitam essa
hipótese chamam esse continente de Lemúria,
afirmando que ele já existia no período Permiano
(cerca de 250 milhões de anos) para desapa-
recer, após várias transformações, perto do início
da era Terciária — devido a poderosos
revolvimentos ocorridos há 60 milhões de anos.
Os relevos de Lemúria poderiam ser identificados
— além dos pontos citados para delinear, de
maneira grosseira, seus limites — nas Ilhas
Seychelles, Maldivas, Laquedivas, Quiagos, o
banco de Sahia de Maiha e talvez também nas
Ilhas Keeling. Entre os dados oferecidos para
confirmação dessa hipótese, não podemos
ignorar os relativos à afinidade da fauna e flora
das regiões agora separadas pelas águas, mas
que um dia constituíram parte integrante de vas-
tíssimo continente.
Os estudiosos, — incluindo os que concordam em
atribuir ao aparecimento da humanidade sobre a
Terra uma data muito anterior à admitida até
pouco tempo atrás pela ciência oficial — negam
que a suposta Lemúria tenha hospedado formas
de vida semelhantes à nossa. Entretanto, lendas
polinésicas falam de "duas grandes ilhas"
(continentes?) antiqüíssimas, habitadas uma por
homens amarelos, outra por homens negros, que
viviam em constante luta. Os deuses teriam
tentado pacificá-los, mas afinal convencidos de
que se tratava de inimigos inconciliáveis, teriam
resolvido precipitar nos mares aquelas ilhas.
Mas há quem afirme conhecer mais: os cultores
de ciências esotéricas, que acreditam poder
reconstruir, com seus "estudos", a história não
escrita da Terra. Podemos empreender com eles
— como simples curiosidade — uma volta por
aquilo que teria sido a Lemúria.
Acompanhando-os, chegamos a um continente
rico em lagos e vulcões, sufocado sob um céu
eternamente cinzento, nublado pela ininterrupta
atividade de milhares de crateras. Aqui se
movem criaturas de pesadêlo que bem poderiam
ter algum parentesco com os gigantes de Saurat
e Bellamy: grotescas caricaturas de homens,
sêres com 3,5 m a 4,5 m de altura, exibindo no
lugar da pele uma couraça moreno-amarelada —
que lembra simultâneamente a do rinoceronte e
a rugosa pele do crocodilo — braços e pernas
muito longos, dobrados em amplo ângulo agudo,
pois os cotovelos e os joelhos dispõem-se de tal
maneira que os impedem de esticar comple-
tamente os membros. Mãos e pés são
desproporcionadamente grandes, e o calcanhar
mostra notável saliência traseira. Mas a parte
mais assustadora desses lemurianos é sem
dúvida a cabeça: o rosto é achatado, a mandíbula
longa, os olhos pequenos e bem distanciados
entre si, de maneira a permitir que seus donos
enxerguem quer para a frente quer para os lados;
mas não possuem sòmente um par de olhos: um
terceiro, bem no meio da nuca, lhes permite
dominar a paisagem que têm às costas. De
cabelos, não há vestígio: se quiserem ter idéia do
que é sua testa, peguem um tomate cheio de
saliências, cortem-no pela metade em sentido
horizontal e... divirtam-se!
Os senhores que parecem tão bem informados
sôbre a Lemúria acrescentam que, com o passar
de milênios, essa raça teria melhorado de
aspecto (e disso necessitava mesmo!) até perder
a aparência monstruosa e adquirir o que seria o
resultado de uma espécie de cruzamento entre
macacos e bosquímanos: êstes últimos, aliás,
seriam realmente seus descendentes, junto com
os aborígines australianos, os indígenas da Terra
do Fogo e alguns outros grupos africanos ou
indianos.
As primeiras choupanas desses seres teriam sido
formadas com troncos amontoados de qualquer
maneira; mais tarde, contudo, teriam construído
pequenas cidades com blocos de pedra e lava,
colocados de modo a constituir um cubo sem
janelas, com uma porta e uma abertura superior
para permitir a iluminação interna. Um desses
centros se acharia a cerca de 30 milhas a oeste
de Páscoa, no fundo do Pacífico, enquanto
algumas ruínas poderiam ser encontradas nas
selvas de Madagáscar.
É natural que nunca poderemos chegar à verdade
sobre Lemúria, a exemplo do que ocorre com
outro continente antiqüíssimo — o de Gondwana
— também envolvido no mistério de alguns
documentos, alguns dados científicos e muitas
lendas. E quanto aos seus habitantes, a que os
gregos se referem quando falam de "pré-
selenitas"? Também poderia ser observado que
os textos tibetanos assinalam-no florescente —
quando nossa lua ainda não brilhava — povoado
por seres muito sábios e evoluídos que
construíram grandes "casas de cristal" (a ficção
científica pensa em arranha-céus tipo "palácio de
vidro"!).
Com pesquisas pormenorizadas sôbre Gondwana,
dedicaram-se a esse problema, de maneira
especial, os geólogos Blandford e Süss, chegando
a afirmar que êsse continente teria tido
geograficamente muitos pontos em comum com
Lemúria: entre outros, a Ilha da Páscoa, África do
Sul, Madagáscar e Ilha Central.
Teria Gondwana nascido do fracionamento da
própria Lemúria, ou teria surgido como
conseqüência das catástrofes que levaram esta
última à destruição? Aqui temos também que nos
satisfazer com fantasias sobre as migalhas que a
ciência penosamente conseguiu juntar.
CAPÍTULO VI
A Fabulosa Mu

O DESERTO DE GOBI (Sha-mo, em chinês) com um


comprimento de cerca de 2.000 quilômetros e
extensão superior a 1 milhão e 200 mil
quilômetros quadrados, ocupa grande parte da
Mongólia, com seu aspecto pedregoso. É uma
verdadeira mina para os estudiosos: lá, entre
1928 e 1933, os paleontologistas americanos
descobriram os restos do colossal Baluchiterium,
animal que parece ter vivido somente na Ásia
durante o Oligoceno; e foi lá também que vieram
à luz alguns ovos fósseis de dinossauro,
comprovando ter sido ovíparo esse animal.
Sem dúvida tratava-se de achados sensacionais
sob o ponto de vista científico. Mas, mesmo
assim, não podem competir com a descoberta do
arqueólogo russo Koslov que, cavando entre as
ruínas da antiqüíssima cidade de Khara Khota,
encontrou numa tumba uma pintura mural de 18
mil anos de idade. Representa um jovem casal de
soberanos cujo brasão era formado por um
círculo dividido em 4 partes, tendo ao centro um
sinal que é o mesmo da letra grega p.,
equivalente ao nosso M atual.
Ainda hoje se ensina nas escolas que os
inventores do alfabeto foram os fenícios, e que do
deles, juntamente com o dos gregos e os de
muitos outros povos, deriva nosso alfabeto; a
moderna lingüística, porém, demonstrou que o
famoso povo marítimo simplesmente aperfeiçoou
o alfabeto egípcio. Mas como poderemos
considerar os filhos do Nilo autores dessa
brilhante descoberta, se seus caracteres são
muito parecidos com outros descobertos um
pouco em cada parte do mundo? E o que significa
esse M de há 18 mil anos? Temos que levá-lo à
conta de simples coincidência? Parece que não,
desde quando o coronel inglês James
Churchward, estranha figura de estudioso,
afirmou (apoiando-se em fatos de qualquer
maneira interessantes) que as civilizações
egípcia, caldéia, babilônica, persa, grega, indiana
e chinesa têm todas a mesma origem, devendo
ser consideradas herdeiras da civilização de Mu,
a fabulosa "Atlântida do Pacífico".
As ruínas descobertas pelo Professor Koslov no
deserto de Gobi seriam, segundo Churchward, os
restos de Uighur, a mais importante colônia de
Mu, a partir de onde uma raça de super-homens
teria dominado, em tempos imemoráveis, toda a
Ásia e a Europa Meridional.
Já dissemos que se julga ter sido a lendária
Lemúria aniquilada por pavorosas catástrofes.
Temos agora a salientar que nem todo o
continente teria sido tragado pelo mar: uma
vasta área, como nenhuma outra terra
atualmente conhecida, teria permanecido
emersa, ocupando boa parte do Oceano Pacífico.
Imaginemos agora uma enorme ilha que tenha
como centro a Austrália, ladeada por duas
enormes faixas de terra a leste e a sudeste —
uma espécie de triângulo com a base voltada
para a Antártida, um dos lados menores em
frente às costas da África oriental e o outro em
frente às costas ocidentais da América Latina — e
teremos uma visão aproximada da terra que,
segundo o Coronel Churchward, teria sido Mu.
Lendas relativas à existência de um grande
continente no Pacífico encontram-se em muitos
pontos do globo e, sem dúvida, são bem
anteriores aos relatórios do oficial britânico. Mas
foi ele quem descobriu os depoimentos escritos
considerados por muitos estudiosos os mais
autorizados a esse respeito.

Quando cai uma estrela

Em 1868 Churchward estava na Índia e,


transferido para um convento-seminário budista,
supervisionava a distribuição da ajuda inglesa à
população flagelada por terrível carestia.
Apaixonado arqueólogo amador, o oficial teve seu
interesse despertado por alguns estranhos
baixos-relevos; um alto sacerdote que se tornara
seu amigo, revelou-lhe serem trabalho de dois
Naacals ("grandes irmãos", espécie de santos)
vindos em tempos antiqüíssimos, para trazer sua
sábia palavra de Mu, a "terra-mãe". Arrematou o
sacerdote que tabuinhas escritas por aqueles
sábios se achavam escondidas nos subterrâneos
do convento, onde eram guardadas como
relíquias preciosas.
O oficial logo pediu permissão para vê-las, mas o
alto sacerdote sòmente o satisfez após longas
insistências, também êle movido pela curiosidade
de saber afinal o que aquêles documentos, se
decifrados, poderiam revelar. Os dois
conseguiram interpretá-los e neles leram a
história da criação da Terra e do aparecimento do
homem. Aqui o relato parava, mas Churchward,
fascinado pela idéia de ter trazido à luz talvez os
documentos mais antigos do mundo, não se
rendeu: percorreu toda a Índia, indo de templo
em templo à procura das tabuinhas que faltavam,
mas sempre em vão.
Enigmática escultura da Ilha da Páscoa: ao
contrário das demais, apresenta também o corpo.

Vista de Ayers Rock, Austrália: a paisagem tem


qualquer coisa de extraterrestre: tratar-se-ia,
talvez, de uma formação geológica natural do
fabuloso continente da Lemúria
O "selo de Harappa": o animal nele gravado é
absolutamente desconhecido.
Deixando o serviço militar, o coronel começou a
estudar as línguas mortas e realizou longas
viagens, sempre levado pela sua utopia ou, pelo
menos, por aquilo que muitos assim definiam.
Visitou, entre outros, o Pacífico Sul, a Sibéria, a
Ásia Central, o Egito, a Austrália, a Nova Zelândia
e o Tibete, conseguindo juntar outro material
precioso. E em Lassa, afinal, chegou a consultar
as tabuinhas que faltavam na coleção indiana.
O mosaico foi completado da maneira mais
caprichosa: Churchward teve notícia da
descoberta, feita no México pelo geólogo norte-
americano William Niven, de tabuinhas com
caracteres muito semelhantes àqueles que eram
a base de suas pesquisas. Outras inscrições
dessa natureza foram depois encontradas em
antigos templos maias, sôbre os "calendários de
pedra" pré-colombianos, sobre o monólito de
Tizec e sobre as "mesas de pedra" de
Azcopotzalco (várias dezenas de anos mais tarde
caracteres análogos seriam descobertos na Ilha
da Páscoa e no vasilhame encontrado em Glozel,
França, em 1925). Apoiando-se nesses achados, o
coronel chegou à esquematização a que
acenamos, concluindo também que Mu possuía 7
grandes cidades e numerosas colônias no além-
mar, com um império que nasceu há mais de 150
mil anos e chegou ao apogeu há 75 mil anos.
É mesmo uma pena que o genial estudioso tenha-
se deixado levar por deduções e hipóteses que
não nos permitem estabelecer limites entre a
realidade e a fantasia. Relataremos, assim,
somente alguns pontos. De acordo com
Churchward, Mu ter-se-ia caracterizado por um
clima subtropical, por enormes florestas e
pradarias que hospedavam grandes animais,
entre êles o mastodonte e o progenitor dos
nossos elefantes. Teria acolhido 64 milhões de
indivíduos pertencentes a dez estirpes diferentes
unidas sob um único governo; uma raça ariana
seria justamente descendente da estirpe
dominante em Mu, cujos representantes são
descritos pelo oficial como parecidos conosco
mas de estatura maior, tez bronzeada, olhos
azuis e cabelos negros. O fabuloso continente
teria sido alvo de duas enormes catástrofes, a
última das quais responsável pela submersão
definitiva, cêrca de 12 mil a.C. Eis como as
tabuinhas de Lassa narrariam o fatal
acontecimento:
"Quando a estrela Bal caiu lá onde hoje não há
senão mar, as 7 cidades estremeceram com suas
portas de ouro e seus templos, houve uma
enorme labareda e as estradas se encheram de
densa fumaça. Os homens tremeram de medo e
uma grande multidão se juntou nos templos e no
palácio do rei. Ele disse: 'Não vos antecipei tudo
isto?' E os homens e as mulheres, vestidos com
suas preciosas roupas, enfeitados com suas
maravilhosas jóias, rogaram-lhe e suplicaram-
lhe: 'Salvai-nos, Ra-Mul' Mas o rei profetizou que
todos deviam morrer com seus escravos e suas
crianças, e então de suas cinzas teria nascido
uma nova raça humana".
O que era a "estrela Bal"? Um enorme asteróide?
Provavelmente sim. Poderíamos ter indicações
mais precisas, talvez, se um fenômeno
desconhecido não tivesse apagado da superfície
terrestre o arquipélago que se diz ter sobrevivido
ainda por milênios após o desaparecimento de
Mu, porque justamente naquelas cercanias (sem-
pre conforme Churchward) deveria surgir uma
das 7 grandes metrópoles do continente perdido.
Resumimos em seguida tudo quanto pudemos
saber: durante um longo cruzeiro realizado nos
anos 1686-87, um oficial holandês embarcado no
veleiro britânico The Bachelor's Delight,
comandado pelo Capitão Davis, descobriu, ao
largo das costas ocidentais da América do Sul,
"uma extensão de terras elevadas" que pareciam
formar um arquipélago e que foram batizadas
Davisland. Quando, porém, um ano depois, outros
navios chegaram ao ponto referido, nada mais
acharam. A única ilha que escapou ao cataclismo
deve ser a das "grandes cabeças": "É impossível"
— escreve o geólogo McMillan Brown — "achar
outra explicação para os sinais da antiga
civilização pascoana, a não ser admitindo a
existência de um arquipélago submerso no local
onde fora avistada Davisland. Páscoa deve ser o
cemitério sagrado desse grupo de ilhas".
Mas há outros fatores que apoiam solidamente o
núcleo central da teoria de Churchward: antes da
chegada dos europeus, por exemplo, os
habitantes de muitas ilhas da Polinésia,
Micronésia e Melanésia nunca haviam tido
conhecimento uns dos outros, e não é admissível
(visto os rudimentares meios de navegação de
que dispunham) que se tenham espalhado
chegando acidentalmente a quase todas as terras
dos três arquipélagos espalhados por vastíssima
área. No entanto, eles falam línguas que têm uma
única origem, e apresentam em comum usos,
tradições, costumes e crenças religiosas.
É interessante observar que entre os limites
atribuídos por Churchward a Mu vivem homens
de raças diferentes. E não faltam arianos, que lá
se encontram desde a pré-história.
Em seu monumental trabalho O Mar, Egisto
Roggero diz que os habitantes das ilhas de
Sonda, com Sumatra, Java e outras de Bornéu,
Célebes, as Molucas e as Filipinas, apresentam
características completamente diferentes das dos
mongóis e dos negros oceânicos que os
circundam, dividindo-se em dois grupos: os
maleses (mongolóides) do litoral, e os brancos,
que vivem no interior, imersos na barbárie, em
florestas e em lugares ainda mais inacessíveis.
O estudioso italiano chama atenção para o fato
de indivíduos de raça claramente ariana serem
também encontrados nas Ilhas Lieu-Khien, na Ilha
de Yeso e na parte sul da Ilha Sakhalin, onde
podemos encontrar, ele acrescenta, "as feições
mais conhecidas de nossas famílias. As mulheres,
especialmente as jovens, são belíssimas. Os
navegantes do século XVIII falavam com
entusiasmo da graça voluptuosa da 'Nova Citera'.
Quanto à pele, aquelas jovens não são mais
escuras do que nossas sicilianas ou do que as
andalusas". E, com este argumento, arremata:
"Existe, assim, a leste da Ásia, uma raça cujo tipo
característico é semelhante ao das raças brancas
do Ocidente. Parece que ela teve como sede
primitiva as ilhas do arquipélago asiático, onde
ainda guarda seus típicos representantes. É a
grande 'raça oceânica', um grande povo antigo
cuja história nos é desconhecida! Que teve talvez
um grande passado e do qual — de acordo com
certas induções moderníssimas — teriam, quem
sabe, saído nossos progenitores. Um grande
continente esfacelado, então?... e cujos únicos
restos seriam os arquipélagos polinésicos? É uma
hipótese, certamente. Mas muitas circunstâncias
poderiam deixá-lo supor. Bastaria esta: o próprio
tipo de fisionomia dêstes grupos de ilhéus, como
também seus idiomas, apresentam diferenças
mínimas de aspecto físico e de modalidade
dialetológica, em distâncias de centenas e
milhares de léguas... basta pensar quão vasta é a
área: da América setentrional até as praias da
Ásia!"
Para confirmar a existência de um continente
hoje desaparecido sob as águas do Pacífico,
temos também testemunhos arqueológicos, entre
os mais curiosos: as ruínas das gigantescas
muralhas da Ilha Lele (cuja disposição parece
hoje absurda), as pequenas Ilhas Kingsmill, as
colunas de mármore vermelho nas Ilhas
Marianas, a enorme arca de pedra de Tonga-
Tabu, o monólito com inscrições indecifráveis em
uma das Ilhas Fiji, as majestosas ruínas de Kuki, a
grande plataforma de pedra vermelha da Ilha do
Navegador. O material empregado para a
construção dêsses monumentos não se encontra
nas ilhas onde êles estão; resta, portanto, uma
única explicação: encontravam-se em terras
agora submersas.
Ruínas ciclópicas com restos de grandes templos
e vastos terraços foram descobertas nas Ilhas
Carolinas. Além disso, encontram-se em Panape,
próximas a essas ruínas (em cujos arredores
deveria estar, sempre segundo Churchward,
outra das sete grandes cidades) as aberturas de
imponentes passagens subterrâneas. E com isso
não somente voltamos às galerias dos gigantes e
seus descendentes, mas nos aproximamos de
inúmeras e significativas lendas ainda hoje vivas
na Ásia.
Os venusianos do Mar de Gobi

"Com o trovão possante de sua rápida descida de


insondáveis alturas, circundado por chamas que
enchiam o céu de línguas de fogo, apareceu a
carruagem dos Filhos do Fogo, dos Senhores da
Chama, vindos da Estrela Resplandecente. Parou
sôbre a Ilha Branca do Mar de Gobi, verde e
maravilhosa, coberta de flores perfumadas..."
Isso traduzido em têrmos acessíveis é o que nos
diz um antigo texto indiano, contando como um
ser extraordinário chamado Sanat Kumarâ teria
chegado ao nosso planeta, procedente de Vênus,
milhares de anos atrás, despertando, junto com
seus companheiros, a inteligência dos homens, e
tornando conhecidos o trigo, as abelhas e muitas
outras coisas que fizeram mais fácil a vida de
nossos antepassados.
O relato, naturalmente, foi muito bem aceito
pelos cultores de doutrinas esotéricas, que o
aumentaram com fábulas curiosíssimas. Mas
também cientistas de indubitável seriedade
(entre os quais alguns soviéticos) fizeram
concessões mais ou menos cautelosas à hipótese
de um "desembarque" de criaturas de outros
mundos na Terra. E isso porque são demasiadas
as referências mitológicas, e inúmeros os pontos
de apoio oferecidos pela moderna pesquisa
científica.
As lendas da Ásia Central freqüentemente nos
levam de volta ao deserto de Gobi, onde, em
remotíssima época (e isso também é confirmado
pela geologia) teria existido um grande mar.
Neste mar — dizem os sábios chineses — teria
existido uma ilha habitada por "homens brancos
com olhos azuis e cabelos louros" que, "vindos do
céu", teriam procurado difundir sua civilização.
Justamente deles — concluem alguns — os
habitantes de Mu teriam obtido noções
consideráveis, capazes de levá-los, há cerca de
75 mil anos, a um alto nível de civilização.
Diríamos que se trata de um conto
absolutamente fantástico se um arqueólogo,
Harold Wilkins, não nos lembrasse que também
uma antiqüíssima tradição indiana afirma que
"homens vindos da grande estréia branca (sem
dúvida, trata-se de Vênus) se tenham es-
tabelecido na ilha do Mar de Gobi, no ano
18.617.841 a.C., erguendo inicialmente uma
fortaleza, depois uma cidade, ligando sua sede
com a terra firme, por meio de galerias
subterrâneas. A data certamente não é exata,
pois está baseada sobre as erradas "tabelas
brâmanes", mas os fatos transmitidos nos deixam
perplexos, visto encontrarem correspondência
em muitas outras narrativas e em descobertas
estonteantes.
Algumas dezenas de anos atrás, foi descoberto
numa gruta de Bohistan, aos pés do Himalaia, um
mapa celeste. Os astrônomos notaram que,
embora exato, não correspondia aos mapas por
nós traçados. Por quê? Porque naquele mapa as
estréias estavam colocadas de acordo com a
posição que ocupavam há 13 mil anos. E há um
detalhe muito curioso, representado por linhas
que unem, no desenho, a Terra a Vênus.
Esse mapa foi publicado em 1925 pelo National
Geographic Magazine americano, mas antes algo
semelhante já havia provocado muitas dores de
cabeça em Jean-Sylvain Bailly, prefeito de Paris
em 1.778 e Astrônomo Real da França.
Examinando alguns mapas celestes levados da
Índia por missionários, o cientista constatou que
deveriam ter muitos milênios mas, de qualquer
maneira, não podiam ter sido traçados na índia,
uma vez que estavam assinaladas estréias não-
visíveis no suposto local de origem. A matemática
revelou a Bailly o lugar em que os mapas foram
traçados: trata-se da região onde atualmente
está o deserto de Gobi. O astrônomo inferiu que
os indianos deveriam ter herdado aquêles mapas
de uma civilização bem mais antiga e
desenvolvida que a deles... e pensou na
Atlântida, colocando-a erroneamente lá onde
deveria ter palpitado o coração de Mu, junto com
o dos desconhecidos visitantes espaciais.
Sabemos que a tese da habitabilidade de outros
mundos está cada vez mais se alastrando entre
os cientistas soviéticos: convencidos da
existência de nossos evoluidíssimos "irmãos do
Infinito", cientistas russos de grande seriedade
estão procurando apaixonadamente as provas de
suas incursões sobre a Terra. E o deserto de Gobi,
pelas muitas miragens cósmicas que faz
entrever, não podia deixar de atraí-los.
Tudo começou quando o Professor Michail Agrest,
eminente matemático e filósofo, declarou-se
persuadido de que a causa da destruição de
Sodoma e Gomorra há um milhão de anos foi
uma deflagração nuclear.
De acordo com a Sagrada Escritura, as duas
cidades encerravam entre seus muros tamanhos
vícios, tanta depravação, que isto induziu Deus a
apagá-la da face da Terra "com uma chuva de
fogo ardente", após ter concedido somente a Ló e
sua família a oportunidade de se salvarem.
Durante a fuga, nenhum dos afortunados deveria
voltar-se para trás a fim de contemplar o
espetáculo da fúria divina, mas a esposa do
patriarca, movida pela curiosidade, desobedeceu
à ordem e foi transformada numa estátua de sal.
Alguns cientistas rebatem que a catástrofe deve
ter acontecido há uns 4 mil anos, mas não são
capazes de explicá-la: as hipóteses de
devastações e incêndios devem ser excluídas e
nenhum argumento válido apóia a hipótese de
uma erupção vulcânica ou de um terremoto. Há,
além disso, um detalhe curioso, de onde partiram
os estudos de Agrest, difundidos no início de
1.960 pela Gazeta Literária de Moscou e
comentados com entusiasmo pela rádio daquela
capital: o fato de os textos se referirem
explicitamente à "queda do alto" do fogo
destruidor.
Segundo o defensor da original teoria, foi uma
astronave extraterrestre, que desceu em nosso
planeta, a causadora do desastre: os visitantes
espaciais, obrigados a se desfazer de seu
combustível nuclear, teriam-no feito explodir,
depois de afastados os habitantes da região.
No planalto de Baalbek, nos montes do
Antilíbano, há uma estranha, ciclópica
plataforma, atualmente erodida pelos fenômenos
naturais, cuja origem está envolvida no mistério.
Agrest acredita que ela tenha sido construída
para permitir a aterrissagem e a partida dos
veículos cósmicos que chegavam em visita a
nosso globo, e muitos cientistas compartilham
suas idéias: aqueles que procuram dar uma
interpretação científica às lendas, considerando-
as deformação da realidade e não invenções
gratuitas.
Segundo eles, o famoso trecho bíblico referir-se-
ia a uma catástrofe ocorrida muito tempo antes,
e a pintaria com têrmos perfeitos, ao menos de
acôrdo com a mentalidade da época. "Na chuva
de fogo e enxôfre ardente" — diz Agrest —
"vemos algo muito parecido com os efeitos de
uma explosão nuclear. Se os habitantes de
Hiroxima não fôssem tão evoluídos, certamente
teriam descrito de maneira análoga a destruição
de sua cidade. O enxôfre queima, libertando um
calor altíssimo, e dissolve os corpos aos quais
adere."
Também o ocorrido à mulher de Ló se adapta a
esse quadro, se se lembrar a vitrificação do
cimento armado registrada após o bombardeio da
infeliz metrópole japonêsa. A mulher, demorando
no lugar, poderia ter sido atingida pela "ventania
atômica" que, varrendo as vastas jazidas de sal-
gema ainda presentes naquela área, tê-la-ia
recoberto de finíssimos detritos, a ponto de
torná-la semelhante a uma estátua de sal.
Mais tarde seria fornecido apoio à teoria de
Agrest pelas "tectitas" encontradas no deserto da
Líbia. A respeito destas foram atribuídas ao
cientista extraordinárias, fantásticas versões,
fazendo-o descrevê-las como projetis usados
pelos extraterrestres ou restos de aeronaves
destruídas. Na verdade, Agrest afirma que as
tectitas seriam constituídas por fragmentos que
se soltaram dos veículos cósmicos sob a ação do
forte calor que acompanha sua entrada na
atmosfera, e chama atenção para o fenômeno
análogo, que caracterizou a reentrada do Sputnik
II.
Que são essas tão discutidas tectitas? Lascas de
poucos centímetros, com aspecto vítreo: sua
composição se diferencia nitidamente da dos
meteoritos; foram encontradas em áreas bem
delimitadas, sempre na superfície ou quase, e
tudo leva a crer que sua origem não seja
terrestre. Por muitos anos os cientistas
discutiram a origem desses corpos: para uns, eles
vinham de um cometa, para outros, da Lua, como
conseqüência do impacto de grandes meteoros
ou de espantosas erupções vulcânicas naquele
satélite. O certo é que as tectitas devem ter-se
solidificado girando vertiginosamente no vácuo,
antes de chegar ao solo. Se realmente soltaram-
se de naves espaciais, seus amontoados em
alguns lugares sugerem que deve ter-se tratado
de titânicos cruzadores cósmicos.
Bem, sinais parecidos com os que caracterizam o
lugar onde se diz terem existido Sodoma e
Gomorra foram encontrados pelos cientistas
soviéticos em duas outras localidades: no sinistro
Vale da Morte, entre a Califórnia e Nevada, e no
deserto de Gobi; consideráveis trechos da
desolada plaga asiática se apresentam, de fato,
vitrificados. E não faltam as tectitas!
Já em 1850, referindo-se ao Vale da Morte, o
aventureiro William Walker (o "conquistador da
Nicarágua") escreveu:
"Naqueles arredores se vê um edifício central
imponente, ao redor do qual se encontram os
restos de uma cidade que se estendia por quase
uma milha. Encontram-se os sinais de uma
erupção vulcânica, com blocos carbonizados e
vitrificados, que testemunham a ocorrência de
um terrível cataclismo.
"No centro da cidade, verdadeira Pompéia
americana, ergue-se um esporão rochoso, de 20
a 30 pés, sobre o qual ainda se divisam vestígios
de construções ciclópicas. A extremidade
meridional dos edifícios parece ter saído de uma
fornalha, e a própria rocha que os sustenta
mostra traços de fusão.
"É singular que os índios não tenham guardado
nenhuma tradição relativa às gentes outrora
instaladas nesta região. Olhando as sombrias
ruínas são tomados por um terror supersticioso,
mas nada conhecem acerca de sua história."
Nos meados do século passado Walker não
poderia ter formulado outra hipótese; além disso,
ele não tinha visto Pompéia nem possuía uma
boa base de vulcanologia. Se assim não fosse,
teria sabido que no Vale da Morte nunca se
verificaram fenômenos daquela natureza e que,
além do mais, uma erupção, por violenta que
tivesse sido, não teria conseguido fundir as
rochas, vitrificar a areia e tornar estéril uma área
recoberta em eras remotas por viçosa vegetação,
agora salpicada somente por impressionantes
troncos deformados, contorcidos, que parecem
expressar o tormento da natureza violentada.
Os russos poderão até ter encontrado
instrumentos montados, milhares e milhares de
anos atrás, a bordo de veículos cósmicos. Trata-
se de misteriosos objetos descobertos nas
cavernas do Turquestão e de Gobi, feitos com
cerâmica e vidro, em forma de hemisfério,
terminando com um cone onde está contida uma
gôta de mercúrio.
Nenhum cientista, no mundo inteiro, seria capaz
de formular uma hipótese verossímil com relação
àqueles apetrechos. Mas parece-nos ao menos
singular o fato de que o mercúrio tenha
representado papel notável na propulsão das
fantásticas "carruagens do céu", cujas descrições
são abundantes nos textos sânscritos.
"As máquinas voadoras, vimanas" — lê-se no
Ramayana e no Drona Parva — "tinham forma de
esfera e navegavam no ar por efeito do mercúrio,
o que suscitava um grande vento propulsor. Os
homens colocados no vimana podiam assim
cobrir grandes distâncias num tempo
maravilhosamente curto. Os vimanas moviam-se
de acordo com a vontade do piloto, voando de
baixo para cima, de cima para baixo, para frente
ou para trás, conforme a disposição do motor e
sua inclinação."
Outra fonte indiana, o Samar, fala claramente em
"máquinas de ferro bem conexas e lisas, com
uma carga de mercúrio que se liberta na parte
posterior, com chamas e rugidos" e uma quarta
coleção de crônicas em sânscrito, a
Samarangana Sutradhara, ilustra até a maneira
de fabricá-las.
O grande Newton teve um pressentimento (ou foi
mais que um pressentimento?) quando, a
respeito do interesse suscitado pelo mercúrio
entre os alquimistas, escreveu: "A maneira em
que o mercúrio pode assim ser empregado foi
mantida em segredo pelos que sabiam, e
representava provavelmente uma porta para algo
de mais nobre (que a fabricação do ouro) que não
pode ser revelado sem que o mundo corra
imenso perigo..."?
Não é talvez estranho o fato de que a
astronáutica esteja agora inclinada a considerar o
elemento propulsor das "carruagens do céu"
como um possível "carburante"? Durante o
Congresso Internacional do Espaço, realizado em
Paris em 1959, falou-se de um motor "íon-
mercúrio", e a França anunciou o lançamento,
para 1966, de um satélite artificial ("Projeto
Fetonte"10), que deveria ser movido por um "forno

10Apenas como curiosidade, vale mencionar que Fetonte, na mitologia grega, é o filho do sol. (N.
dos tradutores.)
solar a mercúrio".11 Mas a experiência não
chegou a ser realizada.

Os incríveis Kappas

Em seu livro O Despertar dos Mágicos12,


especulando sobre estranhos sinais parecidos
com os que poderia deixar uma ventosa capaz de
gastar a rocha, Louis Pauwels escreve:
"Essas marcas parecem-me simbolizar a
comunicação. Mas não meios de comunicação
entre habitantes da Terra. Tenho a impressão de
que uma força exterior cobriu de símbolos os
rochedos da Terra, e isso de muito longe. Não
creio que as marcas de ventosas sejam
comunicações inscritas entre diversos habitantes
da Terra, pois parece inaceitável que os
habitantes da China, da Escócia e da América
tenham todos concebido o mesmo sistema. (...)
Por vezes são rodeadas por um círculo, outras por
um simples semicírculo. Encontram-se mais ou
menos por toda parte, na Inglaterra, na França,

11 Em julho de 1964 a N.A.S.A. realizou o primeiro teste com o foguete iônico, Sert I (Space
Electric Rocket Test), em vôo suborbital. Ó Sert II foi lançado em fevereiro de 1970. Esse nôvo tipo
de foguete, que só funciona fora da atmosfera, tem pouca força, mas pode acelerar de maneira
contínua, até alcançar velocidades milhares de vezes maiores. Os íons resultantes da decomposição
de um gás — mercúrio ou césio — são acelerados para trás pela força de poderosa bobina, saindo do
motor com velocidade mil vezes maior que as das moléculas cuspidas pelos motores químicos e
atômicos: uma viagem a Plutão duraria três anos num foguete químico, dois num atômico e apenas 8
meses num foguete elétrico. (N. dos tradutores.)
a
12 Publicado no Brasil pela Difusão Européia do Livro, São Paulo, 3. ed., 1968. (N. dos tradutores.)
na América, na Argélia, no Cáucaso e na
Palestina, por tôda parte, exceto, talvez, no
Grande Norte. Na China, os recifes estão cheios
dessas marcas. Sôbre um recife próximo do Lago
de Como existe um labirinto dessas marcas. Na
Itália, na Espanha e na Índia encontram-se em
quantidade inacreditável. Suponhamos que uma
força, digamos análoga à energia elétrica, possa
de longe marcar os rochedos, e que por aqui
estejam exploradores perdidos, vindos de
qualquer ponto do espaço. De qualquer outro
lugar do cosmo, alguém tenta comunicar-se com
eles, e um frenesi de mensagens chove sobre a
Terra, na esperança de que algumas delas mar-
quem os rochedos próximos dos exploradores
perdidos. Ou, ainda, em qualquer parte da Terra,
há uma superfície rochosa de um gênero muito
especial, um receptor (...) sobre a qual há séculos
se inscrevem as mensagens de um outro mundo.
Mas, por vezes, essas mensagens se perdem e
vão marcar rochas situadas a milhares de
quilômetros do receptor. Talvez os poderes
ocultos atrás da história da Terra tenham deixado
sobre os rochedos da Palestina, da Inglaterra, da
China e da Índia arquivos que um dia serão
decifrados, ou instruções mal dirigidas destinadas
a ordens esotéricas, aos franco-maçons e aos
jesuítas do espaço."13

13 A citação, na verdade, é um depoimento que Charles Hoy Fort faz a Pauwels. Personalidade
fascinante, Fort era um americano que dedicou a maior parte da vida à compilação de fenômenos
inexplicáveis, ocorridos em toda a Terra. Elaborou um vasto arquivo, que hoje constitui o núcleo da
Sociedade Charles Fort. Entre suas obras mais conhecidas, destacam-se: O livro dos danados
(1918), Terras novas (1923) e Talentos selvagens, publicado em 1932, ano de sua morte. (N. dos
tradutores.)
Se, aceitando o convite ao fantástico feito pelo
escritor francês, paramos diante das montanhas
ao norte do deserto de Gobi, onde os misteriosos
sinais são abundantes, chegamos quase a pintar
um quadro incrível, tal a tentação exercida pelos
elementos que se oferecem.
Quem os fornece são principalmente os xamãs,
sacerdotes do antigo culto animista que ainda
sobrevive na Mongólia. Esses sacerdotes-
feiticeiros, entrando em transe ao som obsessivo
de um pequeno tambor, pretendem pôr-se em
contacto com o mundo do além povoado por
espíritos de íncubos. Ora, entre êsses espíritos há
alguns bastante esquisitos: pretos, corcundas,
com longos artelhos; eles poderiam alterar seu
aspecto para aparentar semelhança humana. As-
sim, andariam entre os homens sem serem
reconhecidos; mas com sua "pele escura"
vagariam, invisíveis, nas águas e nos céus, a
bordo de grossas conchas volantes, "chamando
os mortos".
A essas conchas se referem também os
chamados Ghal Sudur (Livros do Fogo), escritos
para transmitir crenças e ritos antiqüíssimos. Mas
de onde vêm os outros detalhes? Do Japão,
talvez?
A essa altura temos que lembrar um "serviço"
difundido há alguns anos pelo semanário japonês
Mainichi Graphic, onde, como conclusão, cabia a
pergunta se não deveria ser levada seriamente
em conta a hipótese de seres espaciais terem
chegado ao Japão e lá terem permanecido há
cerca de mil anos.
Uma idéia dessas teria certamente deixado todo
o mundo céptico, não tivesse sido divulgada por
um periódico conhecido por sua cautela e não
fosse o apoio de um dos mais conceituados
sábios japoneses vivos, o Professor Komatsu
Kitamura, arqueólogo e historiador.
"A primeira suspeita que me levou a essa
hipótese" — escreve o professor — "me veio de
uma estampa descoberta num velho texto como
ilustração da história lendária dos 'homens dos
canaviais', cuja presença era freqüentemente
assinalada no tempo de Heian (do século IX ao XI
d.C.). Os Kappas, como êsses sêres eram
chamados, eram criaturas estranhas, que os
velhos textos descrevem como 'parecidos com o
homem', mas caracterizados por monstruosas
deformações.
"Nas descrições, os 'homens dos canaviais'
aparecem como bípedes, com os membros
semelhantes aos dos palmípedes; possuíam em
cada membro três dedos que terminavam em
gancho, sendo o intermediário mais longo. Sua
pele era escura, serosa e brilhante; a cabeça
pequena, orelhas grossas e os olhos
estranhamente grandes e triangulares. Sobre a
cabeça, segundo o parecer unânime dos que
deles falam, traziam um curioso 'chapéu com
quatro hastes' e o nariz tinha aspecto de uma
tromba de elefante, terminando nas costas, onde
se unia a uma 'corcunda' em forma de caixote.
"Até há pouco tempo não poderíamos classificar
esses seres a não ser entre algum tipo de
macaco deturpado pela imaginação, ou entre
criaturas legendárias. De fato, como poderíamos
julgar de outra maneira figuras tão estranhas e,
de acordo com os antigos escritores, 'capazes de
se locomoverem velozmente quer em terra firme
quer na água? Hoje, contudo, sabemos que os
fabulosos dragões realmente existiram como
sáurios gigantescos, no Cenozóico, e que também
os gigantes das sagas pertenceram à realidade.
"Decidi-me, portanto, a examinar um pouco mais
de perto os lendários Kappas e, de chofre,
cheguei a uma dedução sensacional: esses seres,
como eram descritos, pareciam idênticos aos
homens-rãs de nossa épocal Sua pele 'escura e
brilhante' poderia ser um macacão impermeável,
as mãos e os pés parecidos com os de
palmípedes podiam fazer parte do equipamento
(os ganchos, provavelmente, serviriam para
alguma manobra habitual) e a 'tromba de
elefante que termina numa corcunda' é, enfim,
igual aos aparelhos para respiração alimentados
por cilindros de oxigênio que nós conhecemos tão
beml Restam as 'quatro hastes no chapéu': não
tenho coragem de prosseguir no pensamento que
me vem à mente, mas tenho esta tentação,
deixando-me convencer pela idéia de que se
tratasse de antenas!"
De saída, devemos afastar a idéia de que as
descrições dos misteriosos Kappas sejam
completamente fantásticas; ao contrário, encon-
tramo-nos perante uma série de testemunhos
concordantes que não têm comparação em casos
análogos. Que se trate, então, de uma estirpe
japonêsa de precursores dos modernos ases da
exploração submarina é hipótese que deve ser
excluída, em absoluto, dado o nível em que se
encontrava o Japão há mil anos.
Resta a possibilidade de serem os "homens dos
canaviais" um puro fruto da fantasia; é um pouco
difícil acreditá-lo, porém, considerando todos os
pontos de contacto com os modernos
equipamentos de mergulhador. Além disso, para
comprovar essa suposição, deveríamos encontrar
sinais deles no mundo dos mitos e lendas
nipônicos de outros tempos, mas isso não ocorre.
Os Kappas vieram mesmo do espaço para nosso
planeta? Os relatos que a eles fazem menção —
diz o Professor Kitamura — parecem também
confirmá-lo, uma vez que fazem referência a
veículos "parecidos com grandes conchas,
capazes de se moverem com grande velocidade,
quer sobre as águas, quer no céu"!
Através do obscuro passado lançamo-nos do
Japão à Mongólia, seguindo com a imaginação os
enigmáticos Kappas que, após o de-
saparecimento de Mu, voaram para as bases de
seus companheiros, irradiando apelos
ininterruptos, na esperança de que fossem reco-
lhidos por algum sobrevivente.
É certo que avançamos muito. A culpa, porém, é
de Pauwels, dos xamãs, do Professor Kitamura e
das configurações que parecem fornecer corpo às
miragens cósmicas. Encontramo-las, como
veremos, em todo o mundo, e aqui também se
amontoam ao nosso redor.
Muito curiosa é aquela descoberta na ilha
japonesa de Honshin. Trata-se de uma estátua de
idade desconhecida, que parece reproduzir uma
roupa para vôos cósmicos, destinada a seres...
humanos até certo ponto: o capacete é
demasiado pequeno, os visores grandes demais,
salientes dos lados; os braços chegam sòmente à
cintura, os quadris são muito pronunciados e
muito baixos; as pernas, grossas e curtas,
assemelham-se a dois cálices.
Representações de capacetes espaciais, além
disso, aparecem espalhadas em tôda a Ásia; as
próprias máscaras usadas pelos feiticeiros de
tribos primitivas parecem inspirar-se nesse
motivo.
"Não poderiam êsses homens ter transmitido
entre si, por gerações e gerações, o simulacro do
capacete dos 'homens da medicina' vindos do
cosmo?" — pergunta-se o escritor Zorovski. "E
não poderiam os autores daquelas estranhas
máscaras fúnebres, com feições indefinidas,
próprias de muitos povos antigos, terem-se
igualmente inspirado nos míticos astronautas,
acreditando com isso assegurar ao defunto uma
rápida viagem ao céu ou então uma breve volta à
Terra, ou, ainda mais, um doce sono antes de
renascer, talvez com referência a um processo de
hibernação artificial, observado entre os
visitantes extraterrestres?"

CAPÍTULO VII
Lendas Estelares

FORAM ALGUNS FENÔMENOS, exagerados pela superstição


popular, que levaram cientistas soviéticos a se
interessarem pelo "poço sem fundo" de
Azerbaigian. Da voragem subiam gritos
assustadores, silvos, baques e gemidos e, às
vezes, uma luz azulada parecia emanar de suas
paredes.
Os estudiosos sabiam muito bem que aquelas
manifestações são bastante freqüentes e nada
têm a ver com o sobrenatural; alguns deles
entraram no poço mas, não chegando a ver-lhe o
fim, preferiram explorar as redondezas, cheias de
fendas, na esperança de encontrar alguma via de
comunicação com o poço. E acharam mais do que
esperavam: um amontoado de galerias, de que
logo se encontraram correspondentes,
descobertas na Geórgia e na região do Cáucaso.
De início, acreditou-se que se tratava de grutas
pré-históricas: não muito longe da entrada, de
fato, foram descobertos grafitos e restos
humanos. Um exame mais cuidadoso, todavia,
revelou que os ossos humanos eram muito
posteriores aos desenhos nas paredes, e logo
ficou evidente que a maioria das grutas dava
para túneis cavados no coração das montanhas e
dificilmente exploráveis, dados os des-
moronamentos que as obstruíam. Mesmo assim,
aquela rêde parecia surpreendente, revelando
amplos condutos que levavam a pequenas
"praças" redondas, das quais saíam outros
caminhos, estranhos nichos vazios, poços, túneis
tão estreitos que não permitiam a passagem nem
de uma criança.
A única grande galeria que foi possível percorrer
por determinado trecho levou a uma vastíssima
praça subterrânea, com mais de vinte metros de
altura, indubitavelmente cavada por seres inteli-
gentes. Mas com que finalidade? A absoluta falta
de vestígios não permite formular hipóteses: a
solução do mistério está provavelmente mais
adiante, onde não é possível penetrar.
As entradas principais das galerias caucásicas
são regularíssimas: suas paredes retas, as curvas
estreitas, oferecem espetáculo de beleza
ultraterrestre; o fato mais singular do conjunto é
que elas lembram, aliás quase espelham, os
túneis da América Central.
Nas grutas que freqüentemente aparecem nas
proximidades das galerias russas encontram-se
curiosos grafitos; curiosos, sobretudo, porque
aparecem em toda parte do mundo, e sua origem
abre interrogações fantásticas: encontramos a
onipresente suástica, o signo do infinito, a espiral.
Por quem foram cavados esses túneis, e com que
finalidade? É impossível dizê-lo. Para um grupo
de arqueólogos soviéticos, seriam parte de um
gigantesco sistema de comunicação que se dirige
para o Irã e que poderia comunicar-se não
somente com o descoberto nas proximidades do
(rio) Amu Darya (Turcomenistão e limites russo-
afeganistãos), como também aos labirintos
subterrâneos da China centro-ocidental, do Tibete
à Mongólia.
A existência de alguns já tinha sido revelada em
1920-21 pelo naturalista Ossendovski, que os
descreve como tendo sido refúgio de muitas
tribos mongólicas acossadas pelas hordas de
Gêngis Khan. Nisso se enraíza a crença, ilustrada
pelo orientalista Nicholas Rõrick, de que na Ásia
se escondia um imenso império subterrâneo
chamado Shambhala, de onde deveria sair um
novo salvador da humanidade, o fabuloso herói
Maitreya.
Os tibetanos afirmam que se trata de cidadelas,
as últimas das quais ainda hospedariam os
representantes de um povo desconhecido que
escapou de um terrível cataclismo: eles se
valeriam de uma energia que, libertada, emite
uma espécie de fluorescência verde, verdadeira
contrafação do sol, que favoreceria o crescimento
dos vegetais e prolongaria a vida dos seres
humanos.
Curioso é o fato de que luz verde e misteriosos
homens do subsolo são elementos também
presentes em lendas americanas. No Amazonas,
um explorador precipitado num labirinto
subterrâneo teria visto suas paredes iluminadas
"como por um sol de esmeralda" e, antes de
novamente ganhar a floresta para não ser presa
de uma aranha gigantesca, teria entrevisto
"sombras parecidas com homens" movendo-se no
fim de um corredor.
Os descendentes dos incas contam coisas
espantosas sôbre seus antepassados que
vagariam "no coração das montanhas", às vêzes
saindo à noite para passear à luz das estréias.
Não se consegue entender se se trataria de
pessoas em carne e osso ou simplesmente de
fantasmas. Se quisermos acreditar em Tom
Wilson, guia índio da Califórnia, tratar-se-ia de
gente viva: seu avô (que desconhecia as lendas
sul-americanas) chegou, por acaso, cerca de 40
anos atrás, a uma grande cidade subterrânea e
viveu por algum tempo no meio de estranhos
sêres "vestidos por algo que se parecia com
couro, mas não era couro" (tecidos de plástico
em 1920?), que falavam uma língua
incompreensível e se alimentavam com
substâncias não-naturais.
Tratar-se-ia dos "imortais de Mu"? Os cultores das
chamadas ciências esotéricas não teriam a menor
hesitação em responder afirmativamente, mas
nós preferimos convidar o leitor a uma extrema
cautela.
Um tal White, minerador de ouro, chegou, quinze
anos mais tarde, a uma necrópole subterrânea, e
viu, num vasto espaço que parecia algo entre
uma sala de reuniões e uma praça, centenas de
corpos naturalmente mumificados, alguns
repousados sobre assentos de pedra e outros
abandonados pelo chão nas mais diversas posi-
ções, como se a morte os tivesse colhido
subitamente. Esses cadáveres também usavam
roupas feitas de um material parecido com couro,
também eram iluminados por uma sinistra
fluorescência verde e, ao redor deles, naquela
fantástica luz, cintilavam enormes estátuas de
ouro.
Ao relato de White seguiu-se uma expedição que,
contudo, não chegou a alcançar o objetivo. Mas
um velho mineiro, calado por supersticioso temor,
revelou mais tarde que poderia a qualquer mo-
mento penetrar na necrópole subterrânea, e
descreveu pormenores que o próprio White
conhecia, mas não havia revelado a ninguém.
Os peles-vermelhas apaches, dos Estados Unidos,
devaneiam a respeito de galerias que ligariam
sua terra com a mítica Tiahuanaco, através das
quais alguns de seus antepassados, para escapar
a outras tribos, teriam alcançado, após uma
viagem que durou anos e anos, o coração da
América do Sul.
Esses são relatos que nos deixam bastante
cépticos; mas como não ficarmos atônitos
perante os misteriosos acenos dos chefes índios
que afirmam ser as galerias "cavadas por meio
de raios que desintegram as rochas", usados por
seres "vizinhos das estrelas"?

Mísseis no templo

Voltando à Ásia, encontraremos junto ao mito de


Shambhala, o de Agarthi (ou Agartha ou Agharti),
outro reino da sabedoria que teria seu centro
numa espécie de santuário colocado sob o
Himalaia. Segundo Ossendovski, a origem dêsse
"centro da sabedoria e inteligência universal"
remontaria pelo menos a 600 mil anos. Os que
nos falam dele fornecem detalhes fantasiosos,
tão estrambóticos que não merecem nem mesmo
uma breve citação; se recordarmos que,
baseados nesses detalhes, charlatães e
aventureiros de vez em quando se apresentam
em cena como "grandes pontífices de Agarthi",
acreditamos que não seja mesmo o caso de
insistir.
Entretanto, o mito existe mesmo, e embora a seu
respeito circulem na Ásia milhares de versões
diferentes, as menções a vôos espaciais e
poderes super-humanos dos "filhos de Agarthi"
são tão insistentes, tão concordantes às vezes, e
tão assemelhadas às descrições oferecidas pelos
textos sânscritos sôbre divindades e heróis, que
se justifica o interêsse notável demonstrado por
alguns especialistas.
"Agarthi, os enigmas cósmicos, os números
secretos tibetanos, as faculdades
parapsicológicas comuns a tantos asiáticos, não
passam de páginas extraídas de um mesmo livro"
— afirma o americano Miller — "o livro da
desaparecida civilização de Mu. Talvez consi-
gamos um dia ter uma idéia aproximada também
das outras páginas, talvez consigamos até
mesmo reconstituir em grandes linhas seu
enredo. Mas onde, e quando?"
Em comparação, a proverbial procura da agulha
no palheiro é brincadeira; puderam verificá-lo,
entre outros, todos os que tentaram esclarecer a
história do povo Hsing Nu, os "adoradores das es-
tréias", cujos escassos vestígios parecem alentar
as mais estranhas suposições.
Os Hsing Nu não se distinguiam seguramente por
um alto nível de civilização, mas, de certa forma,
os testemunhos chegados até nós de maneira
indireta parecem induzir-nos a pensar no
contrário: estamos, em suma, diante de mais um
inexplicável contraste próprio das antigas
culturas.
Habitavam uma região setentrional do Tibete, ao
sul da grandiosa cadeia do Kun Lun, numa área
atualmente desértica, em grande parte
inexplorada. Não eram de origem chinesa:
acredita-se que tenham chegado lá procedendo
da Pérsia ou da Síria; os achados, de fato, nos
levam para Ugarit e, em particular, às figurações
do deus Baal, com seu longo capacete cónico e
com o corpo recoberto de prata.
Quando, em 1725, o explorador francês Padre
Duparc descobriu as ruínas da capital dos Hsing
Nu, esse povo, exterminado pelos chineses, já
pertencia, havia séculos, ao mundo da lenda. O
monge pôde admirar os vestígios de uma
construção em cujo interior se encontravam mais
de mil monólitos antigamente revestidos por
lâminas de prata (algumas, esquecidas pelos
saqueadores, ainda eram visíveis), uma pirâmide
de três andares, a base de uma torre em
porcelana azul e o palácio real, cujos assentos
eram encimados pelas imagens do sol e da lua.
Duparc viu ainda a "pedra lunar", um bloco de um
branco irreal, circundada por baixos-relevos
representando animais e flores desconhecidas.
Em 1854, outro francês, Latour, explorou a área,
encontrando algumas tumbas, armas, couraças,
vasilhas de cobre e jóias de prata e ouro,
enfeitadas com suásticas e espirais. As missões
científicas que mais tarde chegaram até lá
acharam somente algumas lajes esculpidas, pois
nesse ínterim as areias já haviam soterrado os
restos da grande cidade.
Foi em 1952 que uma expedição soviética tentou
trazer de nôvo à luz ao menos uma parte das
ruínas. Os aventureiros da ciência iniciaram
longo, penoso e árduo trabalho, sem poder contar
com maquinaria adequada, cujo transporte para
aquela região resultava impossível; infelizmente,
conseguiram arrancar do deserto sòmente a
extremidade de um monólito pontiagudo, com
alguns grafitos, que parecia cópia perfeita do da
cidade morta africana de Simbabwe.
Dos monges tibetanos, porém, os estudiosos
aprenderam a vida, a morte e os milagres dos
Hsing Nu. Viram antiqüíssimos documentos nos
quais a pirâmide de três degraus era descrita em
seus mínimos detalhes. De baixo para cima, as
plataformas teriam representado "a Terra do
Meio, quando os homens vieram das estrelas" e a
"Terra Nova, o mundo distante das estrelas".
Que significam essas intrigantes palavras?
Querem talvez dizer que os homens alcançaram,
quem sabe em que passado sem lembrança,
algum outro planeta? Que voltaram depois para
sua terra de origem e, afinal, não mais tiveram
meios de comunicação através do espaço?
Provàvelmente nunca o saberemos. Mas os
tibetanos acreditam que tenha sido realmente
assim, afirmando que o povo procurou na religião
o prosseguimento das viagens cósmicas,
embalando-se na crença de que as almas dos
defuntos sobem ao céu para se transformar em
astros.
Bastante interessante é a descrição do interior do
templo, que coincide em muitos pontos com a
fornecida pelo Padre Duparc. Sobre um altar —
revelam as velhas crônicas tibetanas, — era colo-
cada a "pedra trazida da lua" ("trazida", não
vinda: não se trataria, portanto de um meteorito),
um fragmento de rocha de cor branco-láctea,
circundado por magníficos desenhos
representando a fauna e a flora da "estréia dos
deuses" e por monólitos em forma de fusos
delgados recobertos de prata. Seriam animais e
plantas de um planeta colonizado por astronautas
pré-históricos, monumentos levantados para
simbolizar suas astronaves?
Antes de um "cataclismo de fogo" os Hsing Nu
teriam sido altamente civilizados e teriam
cultivado diversas ciências extraordinárias, as
mesmas ainda hoje vivas entre os tibetanos:
teriam sido capazes não só de "falar à distância",
como também de comunicar o pensamento
através do espaço. Os sobreviventes do desastre
teriam caído na barbárie, mantendo do antigo
esplendor apenas uma lembrança deformada
pela superstição.
Na Rússia, êsses fatos impressionaram alguns
estudiosos que se dedicavam à parapsicologia;
estudavam-na às escondidas porque Stalin havia
proibido rigorosamente que se desse atenção a
"essas idiotices de origem mágica e religiosa".
Mas, após a morte do ditador, o degelo também
se estendeu até esta área: os referidos estu-
diosos foram inicialmente considerados com
cepticismo, mas logo conseguiram desfazer a
desconfiança das altas esferas, ressaltando que
nada há de mágico na parapsicologia, e que
também os fenômenos mais inusitados poderão
um dia ser explicados à luz da ciência,
contribuindo assim para o progresso.
O acadêmico da URSS Leonid Vasiliev revelou
num best seller ter realizado na época de Stalin
uma série de experiências secretas em
Leningrado, descobrindo a existência de
indivíduos aptos a receber e a transmitir
telepaticamente à distância, ainda que isolados
em celas subterrâneas protegidas com placas de
chumbo. Outro eminente psicólogo, o Professor
Kajinski, interveio com argumentos bastante
positivos e, afinal, foi constituído em Moscou um
grupo de pesquisadores, integrado por
psiquiatras, fisiologistas, neurologistas e físicos,
dirigidos pelo jovem Doutor E. Naumov.
O próprio Kruschev interessou-se pelas
pesquisas, e declarou-se convencido da
necessidade de continuá-las, visto que poderiam
revelar-se também úteis na astronáutica: a
telepatia permitiria de fato não somente manter-
se contacto com os pilotos na infeliz ocorrência
de um defeito nos aparelhos, como também para
estabelecer contacto com inteligências
extraterrestres. A coisa é levada tão a sério que
em várias universidades soviéticas estão sendo
experimentadas drogas capazes de aumentar os
poderes telepáticos, e na Universidade de Moscou
estão trabalhando na construção de aparelhos
capazes de reforçar a percepção extra-sensorial;
dedicam-se à preparação desses "amplificadores
psíquicos" cientistas que já contam com grandes
sucessos, entre os quais a "máquina do sono",
capaz de vencer a mais obstinada insônia e o
"robô-hipnotizador", que permite I aprender e
reter um conjunto de noções que seria impossível
assimilar com métodos comuns.
Quando, portanto, a parapsicologia deixou de ser
uma ciência proibida na Rússia, Vasiliev e seus
assistentes, examinando grande quantidade de
material a que não poderiam ter tido acesso por
ser pertinente a setores que escapavam a seus
campos profissionais (como a arqueologia, por
exemplo) voltaram os olhos sôbre os Hsing Nu e
os tibetanos
Os lamas do grande planalto já eram
conhecidíssimos por seus j podêres extra-
sensoriais, mas a hipótese de que alguns fossem
mesmo capazes de se comunicar com outros
mundos, como os antepassados dos Hsing Nu,
era tão ousada que parecia fantástica. Para os
líderes da nova ciência, contudo, nada era
demasiado fantástico. A propósito, são
eloqüentes as diretrizes fornecidas pelo "czar da
astronáutica", Leonid Sedov, a seus
colaboradores: "Aprofundar tudo, nada deixar de
lado, sempre há tempo".
Os soviéticos seguem, já há anos, essa
orientação, em todos os setores. E assim é que
suas expedições partem para o Tibete, pro-
curando coletar o maior número possível de
noções úteis; dedicam-se ao problema do lung-
gom, conjunto de práticas físicas e psíquicas que
contribuem para dar aos indivíduos uma
resistência enorme e inimaginável leveza;
indagam sobre o tu-mo, sistema que possibilita
estimular o calor interno a ponto de se poder ficar
completamente nu a 4 ou 5 mil metros de
altitude; tentam penetrar nos segredos da
telepatia e da telecinese.
Em 1959, uma missão russa vagueou de mosteiro
em mosteiro (a aventura seria narrada mais tarde
por um estudioso escandinavo durante um
convênio astronáutico realizado em Moscou),
procurando no mais enigmático país do mundo
um caminho para as estrelas que só a ficção
científica pode conceber.
A viagem foi repleta de dificuldades: dois homens
da expedição sofreram sérios ferimentos ao se
precipitarem em fundos barrancos; outros três,
sem mais forças, tiveram de ser abandonados em
aldeias e hospitais. Mas enfim a tenacidade
desses exploradores do impossível conseguiu
vencer: num retiro de lamas, não muito distante
do santuário de Galdan, os soviéticos
conseguiram conversar com um velho sábio, não
sòmente astrônomo experiente, mas também
perito em problemas de astronáutica.
O lama admitiu que podia, em determinadas
circunstâncias, pôr- se em contacto visual com os
habitantes de outro planeta, e os russos pediram-
lhe que os deixasse assistir a uma dessas
experiências. O velho recusou, mas depois,
devido às insistentes solicitações dos visitantes,
acabou por consentir, com a condição de que
somente dois dos hóspedes participassem da
reunião.
Os cientistas foram alimentados, e descansaram
por alguns dias. Depois, os dois dentre eles, que
haviam sido escolhidos, foram convidados a
executar uma série de exercícios de
concentração ioga, ao mesmo tempo em que
eram submetidos a um regime alimentar es-
pecial. Por fim, a experiência se realizou na
modesta cela do lama: o monge tomou as mãos
dos cientistas, concentrou-se com eles, de
maneira previamente combinada, enquanto um
curioso aparelho soltava, a intervalos regulares,
sons musicais em surdina, cujo eco era
bruscamente truncado.
E a imagem provinda das profundezas do espaço
tomou consistência, inicialmente nebulosa,
depois, cada vez mais clara. Um ser es-
tranhíssimo parecia olhar o trio; suas formas
lembravam as humanas, mas o rosto era
indefinível, e os membros pareciam segmentados
como os dos artrópodes. A criatura, em posição
ereta, estava imóvel, e diante dela girava o que
parecia ser uma reprodução em miniatura do
sistema solar: ao redor de uma grande esfera
cintilante circulavam Mercúrio, Vênus, Terra,
Marte...
Os soviéticos observaram aquelas minúsculas
esferas, identificaram-nas e as contaram. E
tiveram então grande surpresa: os planetas não
eram nove: eram dez! Além de Plutão, um outro
globo girava ao redor do Sol.
De onde vinha aquela imagem? O monge,
resoluto, afirmou depois, não poder responder a
essa pergunta, nem a outras. Sòmente sôbre um
ponto ele se mostrou mais loquaz: declarou que,
além de Plutão, efetivamente existe outro planeta
(ou um ex-satélite de Plutão saído de órbita), e
que não passarão muitos anos até que seja
descoberto.
A expedição, embora interessante, foi infrutífera.
Eis o comentário de um dos estudiosos que
participaram da sessão: "Nem eu, nem meu
companheiro, jamais saberemos se aquela figura
apareceu de fato perante nós, ou apenas em
nossas mentes. Nunca saberemos se foi
realmente projetada através do espaço ou se foi
simplesmente "desenhada" pela vontade do
monge. Podemos descrevê-la de maneira
genérica, mas temos de reconhecer que, na
verdade, ela nada tinha de terrestre. (...) Parece
impossível que uma fantasia humana tenha
podido conceber algo tão estranho".
As divergências sino-russas colocaram ponto final
às expedições soviéticas ao Tibete; nem por isso
aqueles cientistas deixaram de pesquisar
segredos tão apaixonantes. Dirigem-se agora à
Índia, e é daquele país que se diz provirem os
grandes mestres de ioga chamados para iniciar
os astronautas nos métodos que lhes possibilitam
suportar sem muitos inconvenientes as viagens
espaciais.

Um cubo para o hiperespaço


Quanto a lembranças de um obscuro passado, de
perturbadoras manifestações extra-sensoriais e
de lendas cósmicas, a grande península também
é uma mina inexaurível. Saint-Yves d'Alveydre,
um sonhador que, sem muitos escrúpulos
científicos, se ocupou do Agarthi, afirma que
exatamente do reino subterrâneo é que se teria
difundido a doutrina ioga, e essa afirmativa é
repetida por muitos especialistas dessa matéria,
segundo os quais o perfeito domínio da ioga
permite realizações prodigiosas. Essas proezas,
por outro lado, como claramente enumeradas
num texto pré-cristão, o Yogasutra, consistem no
poder de aumentar ou diminuir o próprio corpo,
torná-lo leve até que fique sem peso, fazê-lo
invisível, dar-lhe a capacidade de alcançar
qualquer coisa (inclusive as estrelas), vencer com
a vontade barreiras naturais (por exemplo,
atravessar paredes, penetrar nas rochas ou na
terra). Além disso, asseguram a capacidade de
produzir, transformar ou fazer desaparecer
qualquer objeto, bem como a de penetrar no
corpo, cérebro ou alma de qualquer pessoa.
"Tudo isso pode ser obtido" — esclarece o
Yogasutra — "com o Samadhi (ascese,
sublimação), mas se os deuses possuem por
nascimento esse privilégio, os titãs e até os
comuns mortais podem obtê-lo por meio das
plantas."
Alguns ocultistas extravagantes julgam-se
autorizados a nos revelar que os Naacals, os
"grandes irmãos" de Mu, membros de direito do
Agarthi, confiaram seu segredo aos eleitos
tibetanos, mas os céticos sorriem
zombeteiramente, chamando atenção para o fato
de que a alusão a drogas vegetais é mais do que
eloqüente, e que já conhecemos um sem-número
de estupefacientes capazes de nos dar impressão
de vôo, invisibilidade e tantas outras coisas.
Não esqueçamos que, quanto à farmacologia, os
habitantes da antiga Índia eram muito
avançados: parece, entre outras coisas, que
empregavam algo semelhante à penicilina,
remédio conhecido também por outros povos. Há
mais de 5 mil anos, por exemplo, o primeiro
médico-sacerdote de quem foi comprovada a
existência, o egípcio Imhotep, usava uma
substância "tirada da terra e da decomposição",
que parecia fazer milagres: um antibiótico,
portanto!
Sabemos que os chineses recorriam a terapias
que hoje voltaram a ser usadas com grande
sucesso; os indianos praticavam, sob forma de
cerimônia religiosa, a vacinação antivariólica; e
sua medicina ayurvédica, fundamentada em
produtos vegetais de grande eficácia, mostra
como eles conheciam bem mais do que nós sobre
o grande "reservatório" de medicamentos
existente nos bosques.
Alguns médicos orientais, folheando o livro da
sabedoria antiga, encontraram novos e muito
eficazes remédios contra os distúrbios
circulatórios e várias formas de tuberculose. O
eminente Professor Ângelo Viziano, que estudou
a fundo a medicina indiana, descreveu, entre
outras, uma erva chamada balucchar, cujo sumo
"acalma e concilia o sono, se apenas for passado
no couro cabeludo". O mesmo estudioso fez
referência aos "derivados vegetais ainda
secretos", por meio dos quais alguns médicos
indianos "vencem a diabete como se usassem
insulina".
Os russos, de qualquer maneira, procuram ver
claras essas façanhas, e nisso têm tôda razão. Se
tivéssemos essa possibilidade, também
correríamos a dar uma olhada nos mistérios
indianos, a "dar uma volta sôbre o
dhurakhapalam", como se diz, brincando, de
quem se ocupa dêsse problema.
Notícias sobre certo aparelho extraordinário
foram deixadas involuntariamente como herança
aos soviéticos pelo czar Nicolau II, que se
apaixonou bastante pelos estudos acerca do
bizarro assunto, realizados por um expert francês
de ciências ocultas, um tal Sédir. Este descreveu,
no livro Initialions, o encontro de um mestre com
os inventores e os pilotos de um misterioso
veículo. Mas o arquivo privado do czar de todas
as Rússias deveria conservar detalhes bem mais
preciosos, uma vez que o soberano manteve
intensas e amigáveis relações com Sédir.
Se quisermos chegar ao "sagrado Cabo Kennedy"
indiano, deveremos recorrer mais uma vez às
lendárias galerias: ele, de lato, encontra-se numa
inacessível cidade morta de Deccan, aonde
somente os iniciados podem chegar, usando um
alcantilado túnel cavado desde a base até o topo
do monte.
Os monges daquele singular eremitério
conheceriam, entre outras coisas, o sistema
capaz de "isolar os metais do magnetismo
terrestre", com o que os metais adquiririam
extraordinárias propriedades, tornar-se-iam
transparentes e carregados por uma energia
misteriosa. A isso chegariam trabalhando com
martelinhos especiais, cujo som teria enorme
importância no processo de transformação.
Com esse método teria sido fabricado o
dhurakhapalam, um cubo transparente com
reflexos dourados, cujos lados medem cerca de
um metro e meio. No interior, diz Sédir, o piloto
senta sobre uma caixa cheia de cinzas de louro
que funciona como isolante; em frente aos olhos
tem um disco de ouro polido, por meio do qual
controla a rota. Os únicos instrumentos de
manobra são duas manivelas de cristal ligadas
com fios de prata a um acumulador de energia
sônica.
É principalmente graças a essa força
desconhecida que o cubo se movimenta, embora
para sua ascensão contribuam todos os elemen-
tos da mística indiana: com o estrondo de uma
tempestade, o dhurakhapalam desaparece das
vistas dos presentes para mergulhar em quem
sabe quais dimensões desconhecidas. Viaja no
hiperespaço, descrito como "um nada cinzento
atravessado por estrias luminosas e por
explosões brancas", para emergir no espaço,
deslocando-se com incrível velocidade de planeta
a planeta, de sol a sol, talvez de galáxia em
galáxia.
Será que os soviéticos chegarão a se apoderar
dêsses "segredos"? Não acreditamos que eles
depositem excessiva fé no que se conta sobre o
dhurakhapalam; todavia, não é improvável que
pretendam estabelecer, se essas lendas possuem
algum fundamento de realidade, uma base que,
se utilizada, possa realmente encaminhá-los a
uma grande conquista científica.

CAPÍTULO VIII
As Colônias de Mu

A PIRÂMIDE DE QUÉOPS não existia, hordas de


caçadores selvagens vagavam, Grécia e Tróia
nem eram um distante presságio quando, há 5 ou
6 mil anos ainda florescia a cidade de Mohenjo-
Daro, no atual Paquistão meridional, entre
Larkana e Kandiaro.
O aceno dessa metrópole, de que nem o nome
certo sabemos, veio até nós através do abismo
dos séculos, por meio de espigas que nos
deixaram, para que amadurecessem ao sol da
futura Karachi: os grãos de trigo encontrados
entre as ruínas, de fato, despertaram de seu sono
plurimilenar, presentearam-nos com um tipo de
trigo para nós absolutamente desconhecido, com
poder nutritivo superior ao de todas as espécies
conhecidas.
Por meio desse pequeno prodígio, concentrado
numa notícia de poucas linhas, o grande público
conheceu a cidade de Mohenjo-Daro, sem saber,
na maior parte dos casos, que a descoberta de
suas ruínas preencheu uma notável lacuna
arqueológica, suscitando, simultaneamente,
outras apaixonantes interrogações.
Até há 40 anos os estudiosos da civilização
indiana se achavam numa curiosa situação:
dispunham de um texto relativo a certo povo de
elevada cultura, e compilado cerca de 2.000 anos
a.C., (o Rig-Veda, ou "Veda dos hinos"), mas não
tinham conseguido encontrar uma só obra de
arte, uma só construção anterior ao terceiro sé-
culo a.C.
Entre êsse período, já sob o influxo da arte persa
e grega, ò fabuloso tempo do Rig-Veda não era
senão um grande ponto de interrogação, mais
intrigante ainda pelos poucos, fragmentários
achados: restos de muralhas, armas e utensílios
de bronze, um peculiaríssimo sinete com a
representação de um desconhecido animal de
chifres e contendo algumas palavras em
caracteres indecifráveis, êste último encontrado
em Harappa, na chamada "terra dos cinco rios",
cerca de 200 quilômetros a sudoeste de Lahore.
Sòmente em 1921, o arqueólogo indiano Daya
Harappa, com algumas escavações felizes no
lugar que hoje tem seu nome, trouxe à luz os
restos de uma cidade antiquíssima, cujos
habitantes não conheciam o ferro (pelo menos de
acordo com os achados) utilizando apenas
utensílios de pedra e bronze, mas que,
evidentemente, haviam alcançado elevado grau
de cultura, como é demonstrado pelos vestígios
de uma sólida construção em cone truncado
(pensa-se num silo) e por um busto masculino
cuja perfeição espanta.
Um ano depois, outros arqueólogos indianos
receberam o encargo de desenterrar as ruínas de
um templo budista do século II d.C., numa ilhota
do Rio Indo, a 700 quilômetros de Harappa, sôbre
o morro que os indianos chamam Mohenjo-Daro
— "o morro dos mortos". Os estudiosos
mandaram realizar os trabalhos necessários e,
com grande surpresa, viram aflorar sob as
paredes do templo os restos de um edifício ainda
mais antigo, que depois revelou detalhes comuns
com os da misteriosa "civilização de Harappa".
O trabalho foi prosseguido pelo govêrno do
Paquistão e, ao término, revelou uma cidade
completa, com estradas regulares, todas traçadas
na direção norte-sul, ou leste-oeste. Essa cidade
deve ter sido habitada por centenas de anos,
quem sabe se por milênios, e os que nela
moraram devem tê-la reconstruído sabe-se lá
quantas vezes, fazendo-a renascer como uma
fênix das destruições causadas talvez pela
guerra, talvez pelas inundações, talvez por outras
perturbações naturais. Até agora foram
descobertas sete cidades sob as ruínas daquela
menos antiga; e talvez outras mais fossem
encontradas se houvesse possibilidade de
prosseguir as escavações, coisa impossível uma
vez que estas já foram conduzidas até o atual
nível da água.
Um detalhe que logo chamou a atenção dos
estudiosos, e no qual se espelha sem dúvida a
estrutura social do desconhecido povo de
Harappa e Mohenjo-Daro, é representado pela
absoluta ausência, neste último centro, de
construções com função de templo ou de palácio
real, como, ao contrário, é encontrado em todos
os ajuntamentos urbanos das antigas civilizações
conhecidas.
O que perde em majestade, Mohenjo-Daro ganha
em racionalidade. Tanto é verdade que somente
hoje podemos encontrar cidades comparáveis ao
que dela restou. A construção mais notável é
uma piscina, antigamente coberta, de 12 por 7
metros, com um banho de vapor e um sistema
para aquecimento por meio de ar quente.
A rua principal corre de norte a sul, com um
comprimento de cêrca de 1 quilômetro
(naturalmente, nos limites das escavações já
realizadas) e largura de 10 metros. Tôdas as
casas foram construídas com tijolos semelhantes
aos nossos, e de 1, 2, talvez 3 andares, com
técnica muito aprimorada; cada habitação
possuía sua própria água encanada, banheiro,
serviços higiênicos, não só no térreo mas nos
andares superiores (infelizmente destruídos),
como claramente o demonstram os
encanamentos. O sistema de canalização da
cidade é tão bom, que basta o julgamento dos
entendidos inglêses para o definir: "Hoje, não
poderíamos fazer melhor". Sob cada rua correm
canos e cloacas, estas para recolher não só os
restos de esgotos, mas também as águas
pluviais, que deveriam ser abundantes.
"Muitos sinais" — escreve um arqueólogo alemão
— "permitem-nos deduzir que nos tempos em
que Mohenjo-Daro se achava no auge de seu
esplendor, havia naquelas regiões um clima mais
frio e úmido que o atual. Aqui no Sind, por
exemplo, usam-se agora quase só tijolos secados
ao ar, que mantêm o ambiente mais fresco do
que os cozidos. Além disso, nesta área hoje árida
e sem bosques, não seria possível juntar uma
quantidade de madeira necessária para cozer o
imponente número de tijolos utilizados em
Mohenjo-Daro."
Num finíssimo vaso de prata, que evidentemente
era usado como caixa de jóias, foi encontrado um
pequeno tesouro formado por pedras preciosas,
anéis, pulseiras, colares de ouro, prata e marfim.
Outro recipiente dessa natureza continha restos
de um belo tecido de algodão, os mais antigos
até agora achados; como sabemos, encontramos
os primeiros sinais da preciosa planta entre os
antigos americanos e, na bacia do Mediterrâneo,
sómente a partir dos tempos de Alexandre, o
Grande (por volta de 300 a.C.).
Como dissemos, parece que os habitantes de
Harappa não conheciam o ferro. Talvez
deveríamos escrever "não mais o conheciam",
exatamente como querem os partidários de Mu: a
meio caminho entre Harappa e Mohenjo-Daro, lá
onde o Indo recebe o Rio Panj-nad, teriam sido
achados, de fato, velhíssimos objetos metálicos,
entre os quais um dado de ferro e uma taça
levíssima que parecia feita de alumínio.
Usamos o condicional porque não podemos
pronunciar-nos sôbre a veracidade dessas
notícias, — extraídas de um periódico às vêzes
algo precipitado — das quais não conseguimos
obter confirmação.
Por outro lado, não nos sentiríamos à vontade
silenciando sôbre o fato, pois também nesse
campo a Ásia é cheia de surprêsas. A famosa
"coluna de Kitub", em Nova Délhi (cuja idade
ainda não pôde ser calculada, embora se saiba
ser superior a 4.000 anos) é composta, por
exemplo, de pedaços de ferro soldados ou
mantidos juntos não se sabe como, e que,
embora expostos a um clima quente e úmido e a
todas as intempéries, não apresenta sinais de
ferrugem. Trata-se de ferro puro, que hoje
podemos produzir, com processo de eletró- lise,
só em quantidades mínimasl
Duas entidades científicas americanas, o
Smithsonian Institute e o Bureau of Standards,
trouxeram à luz objetos por meio dos quais pode-
se afirmar com certeza que há 7.000 anos alguns
povos produziram aço em fornos com
temperatura de 9.000 graus. E não esqueçamos
que as moedas pré-cristãs, como as cunhadas por
Eutidemo II (222-187 a.C.), rei da Bactriana, terra
que agora pertence ao Afeganistão, contêm
claros traços de níquel, um metal que só pode ser
extraído de seus minerais por meio de processos
complexos.
Na tumba do general chinês Chou Chu (que viveu
entre 265 e 316 a.C.) foi encontrado, entre outros
objetos, um curioso cinto que, cuidadosamente
analisado em 1958 pelo Instituto de Física
Aplicada da Academia de Ciências da China,
demonstrou ser composto de alumínio (85%),
cobre (10%) e manganês (5%).
"Embora o alumínio esteja largamente espalhado
pela Terra" - escreve a revista francesa Horizons
— "é difícil de se extrair. O processo eletrolítico,
que até agora é o único conhecido para obter alu-
mínio da bauxita, somente foi desenvolvido a
partir de 1808. O fato de artesãos chineses terem
conseguido extrair o alumínio da bauxita 1.600
anos atrás, representa uma importante
descoberta na história mundial da metalurgia."
Em Mohenjo-Daro não faltam os brinquedos:
estatuetas de animais, feitas de argila, algumas
com as cabeças móveis; figuras montadas sobre
rodas; carros em miniatura; apitos em forma de
pássaro dados e piões de um jogo que
certamente devia desenvolver-se sobre um
tabuleiro.
Grande perfeição havia alcançado a criação de
gado. Os zoólogos nos contam que aquele povo
dispunha de zebus — bovinos de tipo europeu,
com chifre curto — búfalos, bisões, outros
bovinos de espécie hoje extinta, e que era
altamente selecionada, bem como de cães e
ovelhas de várias raças. O cavalo parece que não
era conhecido, mas pelos restos achados nas
vizinhanças imediatas da cidade e relativas
àquela época, poderíamos deduzir que os
habitantes de Mohenjo-Daro tinham conseguido
domesticar não somente os elefantes, como
também os rinocerontes. E que é possível tratar
em termos amigáveis com esses últimos animais
foi descoberto (ou melhor, redescoberto) só há
alguns anos, graças à moderna zoopsicologia.
O núcleo de Harappa é provàvelmente muito
mais antigo do que o do Indo, e ambos (para
demonstrá-lo, bastariam as ruínas das raridades
descobertas na ilhota) devem ser considerados
herdeiros de um império que alcançou o auge
milhares e milhares de anos antes,
Na verdade, é impossível que uma civilização
como a que deixou vestígios dessa natureza
tenha limitado sua própria expansão a um raio de
1.000 quilômetros: lembramos que o Ramayana
conta, entre outras, uma viagem que Rama fez a
bordo de seu vimana, sôbre uma área que
compreende pelo menos toda a Índia, visto que
nela foram descritos os montes e os rios do
Norte, e que terminou no Ceilão.
Se êsse império ainda existisse na época da
última Mohenjo-Daro, certamente teriam aflorado
outros sinais, considerando-se sua provável
extensão e o fato de que os dois núcleos trazidos
à luz não devem ser dos maiores. Tudo, no
entanto, desapareceu como se tivesse sido
tragado pelo solo. E talvez isso tenha ocorrido
literalmente, pois apenas um daqueles grandes
cataclismos de que falamos pode ter originado
uma destruição assim radical.
Os partidários de Mu consideram os enigmáticos
núcleos paquistaneses como duas colônias do
lendário império desaparecido: poupados pelo
cataclismo, mas privados da grande fonte de
civilização, eles teriam regredido, embora
conservando por milênios, até a ruína definitiva,
os sinais do antigo esplendor.
De qualquer maneira, a raça desta Índia sem
nome deve ter sido soberba também no aspecto;
mas nada restou para delinear suas feições, para
dizer-nos de onde vieram seus representantes e
para onde foram. As escavações não
encontraram túmulo algum: talvez aquele povo
cremasse os mortos, talvez os sepultasse longe
dos núcleos habitados, em cemitérios que
provavelmente nunca mais serão encontrados.
Mas que fim levaram os que morreram em
Mohenjo-Daro? A cidade não foi destruída de
repente, pois nesse caso certamente teriam
aparecido restos humanos. Por outro lado, a
população também não pode ter sido desterrada,
nem ter deixado voluntariamente e com calma a
cidade, pois, como vimos, os estudiosos
encontraram utensílios e jóias de vários tipos.
Para nós, não há resposta, mas para alguns o fim
daquela gente é óbvio: homens, mulheres,
crianças foram literalmente apagados da face da
Terra, reduzidos a átomos errantes por uma
terrível arma desintegradora.
É uma hipótese absurda, certamente, mas
devemos admitir que quem a formula não parte
do nada.

Mais fortes que a atômica

Já fizemos referência aos vimanas como meios


que dão a impressão de veículos espaciais, mas
se quiséssemos realizar uma resenha adequada
de todas as referências dessa natureza que se
encontram em textos antigos indianos e
tibetanos, teríamos que preencher páginas e
páginas.
Sôbre o assunto, escutemos ainda o que conta o
Ramayana, grande epopéia indiana que narra as
aventuras de Roma e que, embora seja atribuído
ao poeta Valmiki (séculos IV e III a.C.), deve sem
dúvida provir de trabalhos bem mais antigos.
Fala-se das "carruagens de fogo" nos seguintes
têrinos: "Bhima voava em sua carruagem
esplendorosa como o sol e ruidosa como o trovão
(...) a carruagem voadora cintilava como uma
chama no céu noturno de verão (...) passava
como um cometa (...) pareciam brilhar dois sóis
(...) eis que a carruagem se levantava e todo o
céu se iluminava".
E o Mahavira, de Bhavabhonti (século VIII): "Uma
carruagem aérea, o Pushpaca, transportava
numerosas pessoas para a antiga capital de
Ayodhyá. O céu está cheio de máquinas voadoras
maravilhosas, negras como a escuridão, sôbre as
quais se destacam luzes com cintilações
amareladas".
Até há alguns anos, trechos como esses só
podiam ser encarados como contos mitológicos
sem nenhum fundamento real; mas hoje, na era
espacial, basta darmos uma olhada no que temos
para identificar as "carruagens do céu" como
reatores, foguetes, astronaves. E nos Vedas
podemos ler até mesmo sobre vimanas de vários
tipos e tamanhos: os vimanas Agnihotra, com
dois fogos propulsores, os vimanas Elefante,
enormes, com mais motores, os vimanas Alcion,
os Íbis e assim por diante, numa classificação
muito parecida com a que usamos para os aviões
e mísseis.
Escutemos agora o Mausola Parva: "Foi uma arma
desconhecida, um raio de ferro, um gigantesco
mensageiro da morte que reduziu a cinzas todos
os membros da raça dos Vrishnis e dos Adhakas.
Os cadáveres queimados eram irreconhecíveis, e
as unhas caíam, as vasilhas quebravam sem
causa aparente, os pássaros tornavam-se bran-
cos. Em poucas horas todos os alimentos se
tornavam incomestíveis..."
Simples mitos? É difícil acreditar que tantos
detalhes tenham nascido somente da fantasia
dos escritores indianos: colunas de fumaça
incandescente, explosões mais deslumbrantes
que o sol, cabelos e unhas caindo, mantimentos
contaminados, animais cujas penas en-
branquecem... nenhum desses detalhes estaria
fora de lugar numa guerra atômica. Mesmo que
se conceda aos autores dos textos vedas uma
imaginação extraordinária, nunca chegaremos a
nos convencer de que se trata de mera
coincidência.
Tudo leva a crer, portanto, que a Ásia (e talvez
também o continente desaparecido de Mu) tenha
sido palco de guerras espantosas, de chacinas
sem-par na história que conhecemos, e talvez de
impiedosas deportações em massa.
Seguindo as pesquisas conjuntas de estudiosos
americanos, soviéticos e indianos, o Smithsonian
Institute acenou, em 1958, com a possibilidade
de terem os esquimós, migrado para o Norte, há
mais de dez mil anos, vindos da Ásia Central, da
Mongólia e do Ceilão, onde se tinham
estabelecido anteriormente.
Sobre isso, Louis Pauwels e Jacques Bergier
escrevem: "Como puderam esses homens
primitivos decidir-se abrupta e simultâneamente
a deixar essas terras em troca do mais inóspito
lugar do globo? Eles ainda não sabiam que a
Terra é redonda, e não possuíam noção alguma
de geografia. Abandonar acima de tudo aquêle
paraíso terrestre que é o Ceilão? O Instituto não
responde a essas interrogações. Nós não
pretendemos impor nossa hipótese, e a
formulamos apenas como exercício mental: uma
civilização superior, há 10.000 anos, controlava o
mundo; ela cria no Norte uma grande zona de
deportação. Ora, o que nos diz o folclore dos
esquimós? Fala de tribos transportadas para o
Grande Norte na origem dos tempos, por
gigantescos pássaros metálicos. Os arqueólogos
do século XVIII insistiram por muito tempo sobre
o absurdo desses 'pássaros metálicos'. E nós?"
Mas as bombas atômicas não bastam: temos algo
mais. Temos a Saura, por exemplo, uma espécie
de bomba H gigante, o Agniratha, um
bombardeiro a reação teleguiado, as bombas
Sikharastra, que espalham um inferno de fogo
como as nossas modernas bombas de napalm, a
Avydiastra, destinada a enfraquecer os nervos
dos combatentes.
Ainda na descrição de Bhavabhonti, assistamos à
entrega à Brahma de outros lindos engenhos: "O
sábio, nele confiando, lhe revela todos os
segredos e lhe ensina como manejar armas da
maior potência, capazes de produzir
entorpecimento ( Rimbhaka) ou ainda um
profundo sono (prasvâpana), e uma arma de fogo
que pode reduzir a cinzas o grande exército de
Koumbhakarna". Como se as armas que na época
eram convencionais não fossem suficientes! Eis
os efeitos de uma superbomba, segundo o Drona
Parva: "Foi lançado um projétil gigantesco que
ardia em fogo, mas sem fumaça, e uma
obscuridade profunda desceu sôbre os soldados e
suas coisas. Levantou-se um vento terrível e
nuvens cor de sangue desceram até o chão: a
natureza enlouqueceu e o sol rodopiou sobre si
mesmo. Os inimigos caíam como arbustos
destruídos pelas chamas, as águas dos rios
ferviam e os que nelas se lançavam, procurando
salvar-se, morriam miseravelmente. As florestas
ardiam, os elefantes barriam e os cavalos
relinchavam em sua louca corrida entre as
labaredas. Quando o vento tinha afastado a
fumaça dos incêndios, enxergamos milhares de
corpos reduzidos a cinza..."
E eis o exemplo do uso de um mortífero
instrumento de guerra chamado "arma de
Brahma" e ilustrado também no Drona Parva: "O
filho de Drona lançou a arma, e sopraram ventos
fortes, a água arremessou-se em vórtices contra
a terra. Trovões fortíssimos aturdiam os soldados,
a terra tremia, a água se levantava, as
montanhas se partiam".
Mais uma vez, não podemos crer que se trate de
meros elementos mitológicos: a simples
imaginação, por desenfreada que fosse, não seria
suficiente, na verdade, para pintar veículos e
armas dessa natureza.

O vale das sete mortes

Ainda hoje são muitas as regiões inexploradas do


globo, e não é de se excluir que próximo de
outros teatros de mistérios tremendas
destruições sejam trazidas à luz do sol. Na Índia
não deveriam ser poucos, tendo em vista as
abundantes referências que se encontram nos
livros antigos; e uma dessas plagas alucinantes
poderia ser identificada com o "vale das sete
mortes", cuja localização é mantida secreta pelas
autoridades de Nova Délhi, na tentativa de evitar
que algum louco, seduzido pelas lendas que
falam de imensos tesouros, se entregue a uma
aventura quase sempre fatal, como aconteceu
aos companheiros de um tal Dickford, há setenta
anos.
Graham Dickford era um daqueles aventureiros
que pululavam no século passado, procurando
alcançar riqueza de qualquer maneira, arriscando
mesmo a própria vida ou, até mesmo, a dos
outros.
Os funcionários britânicos na índia souberam da
existência dêsse aventureiro em 1892, quando foi
recolhido em míseras condições nos arredores de
uma cidadezinha, e imediatamente internado
num hospital. Em frases entrecortadas, Dickford
contou ter escapado de uma experiência
pavorosa: junto com outros colegas do seu tipo, o
aventureiro conseguira localizar um misterioso
vale no coração da selva e nele penetrar. Alguns
indianos tinham-lhes contado que lá havia um
templo abarrotado de fabulosos tesouros; mas ao
invés da sonhada montanha de ouro e pedras
preciosas, encontraram uma série de
indescritíveis horrores.
Todos os seus companheiros morreram e, embora
Dickford tivesse conseguido escapar aquele
inferno, tinha as horas contadas: uma violenta
febre o sacudia em contínuos tremores, sobre a
cabeça ferida não restara um só fio de cabelo e o
corpo estava coberto por terríveis queimaduras.
Narrou a aventura em delírio, entremeado por
gritos desesperados, falando num "grande fogo
voador", de "sombras da noite", "fantasmas que
matam com o olhar". As várias tentativas de se
obter um relato compreensível foram vãs: de
hora em hora a narrativa se tornava mais confusa
e, três dias após ter sido encontrado, o
aventureiro morria de maneira horrível, gritando
e agitando-se a ponto de pôr em fuga,
aterrorizados, os enfermeiros indianos.
A história de Graham Dickford foi a primeira
notícia sobre o vale infernal. Ninguém o levou a
sério, até que, em 1906, uma expedição
organizada pelas autoridades britânicas
confirmou o relatório do desditoso caçador de
tesouros — pagando, no entanto, com duas
vítimas a incursão ao que foi definido como "um
caldeirão de bruxas da natureza".
Naquele ermo mortal reúnem-se os
representantes das mais venenosas espécies de
serpentes que a Índia hospeda, e também os
monstros do reino vegetal se agrupam num
amontoado de inúmeras plantas venenosas.
Sobre esse horrível vale corre o "grande fogo
voador" que o chefe da outra expedição assim
descreve: "É suficiente acender uma pequena
chama para que a terra seja sacudida por um
estrondo infernal e nasça uma labareda que salta
de um extremo ao outro do vale".
Muito estranha foi a circunstância em que os dois
exploradores ingleses perderam a vida: descendo
num estreito "funil", começaram a fazer
movimentos curiosos, desordenados, para em
seguida tombar no chão. Os companheiros se
precipitaram em seu socorro, mas só puderam
recuperar os cadáveres, tendo que abandonar
rapidamente o local por causa do aparecimento
de sintomas de atordoamento e sufocação.
Durante a noite tiveram pesadelos terríveis, e um
sentimento de inexplicável mal-estar se manteve
por muitos dias.
Em 1911, uma segunda expedição penetrou no
vale. Dos sete homens que entraram (todos
veteranos da selva, habituados a qualquer
perigo), somente dois voltaram: chegando ao
centro de um espaço situado entre baixas
colinas, os outros cinco de repente começaram a
rodar em círculo, como autômatos, surdos aos
chamados dos companheiros que se mantiveram
fora da zona. Em seguida, caíram fulminados.
Um grupo de caçadores veteranos e decididos,
que oito anos mais tarde entrou no "vale das sete
mortes", encontrou 17 esqueletos humanos. Nem
essa expedição saiu intacta: três de seus
componentes se atiraram, sem motivo aparente
(até há alguns minutos estavam brincando e
rindo com os outros), do tôpo de uma parede
rochosa, indo espatifar-se sobre as rochas.
Alguns estudiosos acreditam poder explicar os
sinistros fenômenos que se verificam no
"caldeirão das bruxas", atribuindo-os a gases
naturais, uns inflamáveis, outros capazes de
bloquear os centros nervosos provocando
colapsos mortais, e mencionando também jactos
de vapor de ácido carbônico que, em um clima
peculiar, favoreceriam o desenvolvimento de
plantas venenosas e o aparecimento de
serpentes.
"Coisas demais num espaço pequeno demais",
dizia Einstein, embora não a êsse respeito. Os
argumentos expostos, de qualquer maneira, não
são absolutamente satisfatórios, sem contar que
os "fantasmas" de Dickford, que "matavam com o
olhar", não encontram sequer uma simples
tentativa de explicação.
Devemos tentar com a "teoria espacial"?
Poderíamos então pensar numa série de
assombrosos fenômenos provocados pelo
emprego daquelas armas termonucleares e
daqueles engenhos ainda mais poderosos, que as
descrições dos antigos textos indianos permitem
entrever... e voltar ao Vale da Morte americano,
aos seus reptis rastejantes, lá onde nenhuma
outra forma de vida poderia sobreviver, às suas
árvores monstruosas, aos vapores irrespiráveis,
às fantasmagóricas luzes que — segundo nos
conta o Doutor Martin — "surgem de repente do
chão, tomam formas que lembram, às vêzes, as
humanas, deslizam na noite, ora muito
lentamente, ora como relâmpagos, serpeiam,
erguem-se como chamas, artelhos, de colunas de
fogo branco, arremessam-se contra o céu..."

CAPÍTULO IX
Os Segredos das Pirâmides

SE QUISÉSSEMOS EMPILHAR todos os volumes de


piramidologia, escritos desde a Idade Média até
nossos dias talvez não conseguíssemos, subindo
ao alto da pilha, alcançar o topo de uma das
grandes construções egípcias, mas sem dúvida
não estaríamos muito longe. Não é difícil
compreender o significado da comparação; mas
cuidado para não tomá-la ao pé da letra: não se
trata de uma "simples" descrição dos famosos
monumentos, mas do conjunto de estudos que
tendem a nos revelar tudo quanto jamais
chegaríamos à saber por meio da egiptologia
"comum".
O escritor árabe Masudi, por exemplo, não goza
de muita fama nos círculos científicos "oficiais",
que mencionam, quase a título de mera
curiosidade, um manuscrito de sua autoria
conservado em Oxford; mas para os
piramidologistas ele é sòmente pouco menor que
um Messias, pois suas revelações nos contam de
como a pirâmide de Quéops não teria sido
construída por volta de 2.900 a.C., como
mausoléu pelo conhecido faraó, mas sim erguida
300 anos antes do dilúvio universal pelo rei Surid
(que teve uma visão profética da catástrofe), com
finalidade de guardar para a posteridade a
memória das grandes conquistas egípcias em
todos os campos e dos poderes ocultos dos filhos
do Nilo, que chegavam até a previsão do futuro.
"Na pirâmide oriental" — instrui-nos Masudi,
aludindo justamente à de Quéops — "foram
gravadas as esferas celestes e as figuras
representativas das estréias e seus ciclos; o rei
colocou também a história e a crônica do tempo
passado, e do tempo a vir e de cada um dos
acontecimentos futuros que se verificarão no
Egito."
Segundo o historiador Abu Zeyd el Balkhy, a
famosa pirâmide seria ainda mais antiga: uma
inscrição revelaria que a obra foi edificada "na
época em que a Lira se encontrava no signo de
Câncer", isto é, duas vezes 36.000 anos solares
antes do Egito: enfim, por volta de 73.000 anos
atrás.
Há também outras versões: para alguns a
pirâmide tem mesmo 150.000 anos; outros a
encaram como um compêndio de ciências
astronômicas; outros ainda, acreditam que nela
está condensada a história de seus idealizadores,
desde as remotíssimas origens; mas o texto de
Masudi foi sempre o que maior fascinação
exerceu, dando origem a numerosas variações.
Pelos meados do século passado, um tal de John
Taylor, editor londrino que nunca tinha visto a
pirâmide de Quéops mas a tinha estudado
profundamente à distância, acreditou poder
ampliar as revelações de Masudi, publicando um
volume para demonstrar que o monumento fôra
construção de um judeu (talvez o próprio Noé),
movido por inspiração divina; o sábio arquiteto
teria tomado como unidade de medida o "cúbito
sagrado", de aproximadamente 62,50 cm (ainda
segundo Taylor), e expressado com seu trabalho
todo tipo de verdade matemática.
Alguns anos depois, um astrônomo de Edimburg,
um tal Piazzi Smyth, entusiasmado pelos estudos
do editor, os quis aprofundar ainda mais, e
concluiu que a pirâmide fornecia as medidas
universais mais diversas: não só a altura do
monumento dividida pelo dobro do comprimento
de um dos lados da base dá um valor próximo do
"pi" mas (para não dar senão um par de
exemplos) a sua altura multiplicada por 109
fornece a distância aproximada Terra-Sol e a
base, dividida pelo comprimento de uma de suas
pedras, fornece 365 — o número de dias do ano.
"Mas" — conta sir Flinders Petrie — "um discípulo
de Smyth ficou muito desiludido no dia em que o
surpreendeu procurando limar a saliência
granítica da antecâmara real para reduzi-la às
proporções previstas em sua teoria..."
Não é difícil — afirma um dos estudiosos que teve
a ousadia de mergulhar nesse mar de tolices —
entender como se pode chegar a resultados
assombrosos. "Quem desejasse ter o trabalho de
medir um edifício tão complicado como a
pirâmide, encontraria considerável número de
comprimentos e larguras ou, de qualquer
maneira, de medidas-base que poderia usar
como melhor lhe aprouvesse para medir de um
jeito ou de outro. Com uma boa dose de
paciência, e aplicando métodos diferentes, quem
se ocupasse com tal tarefa encontraria múltiplas
cifras coincidentes, com datas e números cientí-
ficos importantes e conhecidos. Seria difícil, em
suma, nessa caça à 'verdade', não encontrar
resultados, uma vez que a pesquisa não está
limitada por regra alguma."
E ainda: "Tome-se por exemplo a altura da
pirâmide: Smyth a multiplica por 10 elevado à
nona potência para obter a distância Terra — Sol.
Mas esse nove é totalmente arbitrário, e se
nenhum múltiplo simples tivesse fornecido a
distância Terra — Sol, Smyth poderia ter
experimentado outros para encontrar a distância
da Terra à Lua ou à estrela mais próxima ou,
enfim, qualquer outro dado científico".
"A única verdade 'piramidal' que não pode ser
explicada facilmente com esses joguinhos de
prestidigitação é o valor de "pi". É possível que os
egípcios tivessem usado deliberadamente essa
proporção, mas é ainda mais provável que se
trate somente da conseqüência secundária de um
outro plano qualquer de construção."
Ainda faltava à piramidologia, contudo, seu
grande mestre: isso se deu com o aparecimento
de um tal de Meuzies, que descobriu que cada
"polegar-pirâmide" (medida adotada por Piazzi
Smyth) dos corredores internos representa um
ano da história da Terra, e que naquelas
passagens estão assinalados, como afirma o
próprio Masudi, todos os acontecimentos
importantes do passado e do futuro.
Chegamos assim a constatar que o mundo foi
criado por volta de 4.004 a.C., e, após termos
tomado conhecimeno de que as pedras falam do
dilúvio universal, do Êxodo, da vinda de Cristo, de
sua morte e de sua ressurreição, aprendemos,
assustados, que nosso planeta atravessou, entre
1.882 e 1.911 o Período da Grande Atribulação,
encerrado pela volta do Salvador.
Acreditamos que isso já é suficiente para
demonstrar o acúmulo de tolices amontoado por
John Taylor, Piazzi Smyth, Meuzies e por todos os
seus seguidores e imitadores. Sem dúvida não
valem sequer o tempo necessário para citá-los:
fizemo-lo unicamente porque, tendo que nos
ocupar com os autênticos enigmas científicos do
antigo Egito, não gostaríamos que alguém se
deixasse levar por fábulas dessa natureza,
apresentadas como verdades sagradas.

Sírio surgia sobre o Nilo

Muitos acreditam conhecer a história do antigo


Egito em suas linhas gerais: para nós seu início se
deu com a primeira dinastia, em 4241 a.C.; o que
teria acontecido em épocas anteriores àquela
data é um mistério. Alguns estudiosos acreditam
que os egípcios teriam alcançado o grau de
civilização que conhecemos partindo
praticamente do zero: teriam sido, em suma,
grupos de habitantes da planície saárica (na
época não reduzida ainda a deserto) espalhados
ao longo do Nilo.
Essa teoria não era, porém, aceita pela maioria
dos historiadores e arqueólogos soviéticos, que
ressaltavam a impossibilidade de que a partir do
nada um povo conseguisse, em curto período de
tempo, desenvolver uma cultura tão florescente
quanto a que caracteriza desde o início a suposta
"estirpe do Sol". A respeito disso, muitas dúvidas
já deveriam ter aflorado da leitura de antigos
trechos, erroneamente considerados como
boatos sem bases. Bastará citar o "pai da
História", Heródoto, que conta com extrema
clareza ter visto em Tebas 341 estátuas de
madeira representando os grandes sacerdotes
que se seguiram à época da fundação do templo,
ocorrida 11.000 anos antes de sua chegada.
De qualquer maneira, até há alguns qüinqüênios
acreditava-se que no Egito não muito faltava por
descobrir-se. Mas as dúvidas começaram a
aparecer após a Segunda Guerra Mundial,
quando foram retomados os trabalhos de
pesquisa. De fato, foram encontrados objetos que
antes não se conheciam e dos quais certamente
não podiam existir exemplares únicos. Nos anos
seguintes esta convicção se tornou mais forte.
Em 1.954, por exemplo, o arqueólogo egípcio
Zaki Saad descobriu, nas escavações de Heluan,
tecidos de extraordinária fineza, feitos de linho
puríssimo e muito resistente, tecidos que hoje só
poderiam ser produzidos numa fábrica
especializada.
"Parece incrível que esses tecidos possam ter
sido feitos à mão", disse o próprio Doutor Saad. E
o americano W. B. Emery arremata: "Os
resultados destas escavações nos dizem que a
civilização egípcia do período arcaico era muito
mais avançada do que acreditamos".
Essa afirmação não podia, contudo, ser tomada
ao pé da letra sem um adequado corolário. Não
era possível que um povo primitivo tivesse
começado de repente a produzir obras-primas. A
explicação, — pensaram os estudiosos soviéticos
— era sem dúvida outra: aquêle povo deveria
possuir uma cultura mais antiga, que para nós
ficou desconhecida; e nesse panorama ter-se-ia,
talvez, podido encaixar também as
extraordinárias noções astronômicas dos
egípcios.
Os russos passaram à ação; e chegaram,
coadjuvados pelos peritos do Cairo, a lançar luz
sobre um dos mais apaixonantes segredos da
arqueologia. Os resultados das pesquisas
científicas realizadas nesses últimos quatro anos
no Vale do Nilo ainda não foram divulgados14;
mas pelo que já foi dado a público como simples
antecipação, podemos acreditar tratar-se de
acontecimento excepcional. Sabemos agora com
certeza que o início da história egípcia deve ser
colocado muito, muito além do que até hoje
pensávamos.
14 A primeira edição italiana deste livro apareceu em 1904. (N. dos tradutores.)
Como é possível, se o "calendário atômico"
permitiu comprovar que nenhum dos objetos
achados possui idade superior a 6.200 anos?
Bem, essa constatação só se aplica aos objetos
até agora conhecidos. Mas muitas tumbas e
outros objetos existem, sepxdtados profunda-
mente em cavernas sob as areias de Sakkara,
Abydos, Heluan; e é a esses testemunhos de
dinastias antiqüíssimas, anteriores àquela que
classificamos como primeira, que os estudiosos
soviéticos chegaram.
Entre os achados dos quais foi dada notícia em
Moscou encontram-se inscrições que dilatam
bastante o calendário egípcio; mapas
astronômicos de surpreendente precisão e
grande número de objetos, muitos dos quais
ainda hoje não puderam ser identificados. Há
também lentes de cristal perfeitamente esféricas,
fabricadas com alta precisão: sem dúvida devem
ter feito parte dos instrumentos que permitiram
aos filhos do Nilo observar a abóbada celeste.
Assim começa-se a esclarecer alguma coisa
daquilo que por decênios constituiu verdadeiro
quebra-cabeça.
É interessante observar que lentes análogas
foram encontradas também no Iraque e na
Austrália Central. E hoje elas só podem ser
fabricadas usando-se um abrasivo especial, à
base de óxido de cério. Disso brota uma
inquietante pergunta: os egípcios conheciam a
eletricidade? De fato, o óxido de cério é
produzido por meio de um processo
eletroquímico, e é absolutamente impossível
isolá-lo sem dispor de energia elétrica.
A respeito do calendário, o estudioso francês
Jacques Vernes escreve: "Sabemos que o ano dos
egípcios começava no dia que para nós
corresponde a 19 de julho. Naquele dia a estréia
Sírio se acha no céu à mesma altura do sol
nascente; e a data corresponde também ao início
do aumento do nível das águas do Nilo. Isso não
passa de simples coincidência: Sírio não influi de
maneira alguma nas inundações periódicas do
rio; mas tal fato chocou evidentemente os
egípcios, que o tomaram como base para seu
calendário.
"Quatro anos depois, Sírio levanta-se no segundo
dia do ano egípcio; após 8 anos, no terceiro, após
12, no quarto, e assim por diante. Os egípcios
corrigiam essas alterações acrescentando dias
aos anos, como fazemos com os anos bissextos.
Essas correspondências se repetiam cada 1.461
anos, depois dos quais Sírio voltava a levantar-se
junto com o sol no dia 19 de julho.
"Ora, as inscrições encontradas pelos soviéticos
nas sepulturas desconhecidas correspondem a 25
ciclos dêsse tipo. Vinte e cinco multiplicado por
1.461 dá 36.525 anos. E como é necessário
contar para o passado a partir de 4.241 a.C.,
(origem do calendário egípcio conhecido), eis que
a antiguidade do Egito é levada até 40.000 anos
antes da era cristã!"
A posição das estréias fixadas nos mapas
celestes encontrados pelos arqueólogos russos
corresponde, também, à de há milhares de anos.
Os próprios mapas, por outro lado, confirmam
que os filhos do Nilo possuíam conhecimentos
astronômicos extraordinários, coisa que aliás já
sabíamos. Não sabíamos, porém, que aos
egípcios fosse dado conhecer a existência da
obscura companheira de Sírio. Curioso é que uma
tribo da África Central, os dogon, não
desconhecia esse fato. Seus antepassados o
teriam aprendido dos egípcios antigos? Não é
improvável.
Os cientistas soviéticos acreditam poder provar,
embora com muitas reservas, que os egípcios
provêm da Indonésia. Será que eles fizeram parte
do Império de Mu? Será que a marcha de sua
civilização parou (como sustentam os russos) 10-
12 mil anos atrás em conseqüência de uma
catástrofe que poderia muito bem ser identificada
com o desastre cósmico produzido pela queda de
um asteróide? Será que a cultura egípcia
conhecida, referente a apenas 4 mil anos antes
de Cristo, teria espelhado só palidamente o
esplendor de um fantástico mundo
desconhecido?

A maldição radioativa

Falamos em "cultura conhecida" referindo-nos às


suas grandes linhas, porque ela mantém ainda
para nós inúmeros mistérios e é, ao mesmo
tempo, cheia de sugestivas incógnitas, as
mesmas que encontramos na remota história de
todas as grandes civilizações e que parecem
sustentar a hipótese segundo a qual o distante
passado de nosso planeta manteria a marca de
esplêndidas culturas-mães, apagadas por
imensas catástrofes.
Muitas ligações enigmáticas existem entre a Ásia,
a América pré-colombiana e o Egito. Se
desejarmos, entretanto, encontrar perto do Nilo a
outra extremidade do fio, não podemos parar em
El Giza, onde surge a pirâmide de Quéops, mas
continuar até a vizinha Sakkara, importantíssimo
centro arqueológico conhecido não só pelos
estudiosos mas também por muitos leigos. Aqui o
faraó Djoser, considerando demasiado modesta a
mastaba de seus predecessores (ura bloco de
forma retangular ou quadrada), iniciou a série
dos grandes monumentos mortuários.
Somente em tempos posteriores os soberanos do
Egito deram à pirâmide a forma clássica que hoje
conhecemos: é portanto em Sakkara, mais do
que em qualquer outro lugar, que devemos
procurar as chaves capazes de abrir caminho
para um maior conhecimento do fascinante
mundo egípcio. E Sakkara esconde ainda
inúmeros segredos que os pioneiros da ciência
poderão arrancar-lhe só a preço de grandes
fadigas.
Pouco distante do monumento fúnebre de Djoser
está, sepultada na areia, uma outra pirâmide de
degraus, ou melhor, sua base, porque, por razões
para nós desconhecidas, a titânica construção
ficou inacabada. Em vão dezenas e dezenas de
estudiosos pisaram e repi- saram por anos o solo
daquelas ruínas, procurando a entrada dos
subterrâneos que se acreditava esconderem
algum fascinante segredo. Parecia não existir
entrada, e os investigadores da ciência já se ti-
nham dado por vencidos quando um arqueólogo
do Cairo, Zakharia Ghoneim, achou a entrada
com o simples auxílio da matemática, com
cálculos baseados na estrutura da pirâmide de
Djoser.
As escavações foram particularmente difíceis: por
duas vezes os exploradores se acharam em
frente a barreiras maciças (sob a segunda foi
encontrada uma coleção de jóias de ouro de rara
perfeição), em seguida a abóbada do corredor
ruiu, matando um operário e ferindo outros dois.
Afinal Ghoneim e seus colegas chegaram à
câmara mortuária, colocada bem a 40 metros
abaixo do solo: mas com isso o segredo da
pirâmide inacabada ainda continua longe de ser
resolvido.
O grande sarcófago de mármore se apresentava
fechado por um perfeito painel movediço. No
interior dever-se-ia achar o ataúde de madeira
contendo a múmia do faraó; mas nada se achou.
Seria possível que os ladrões tivessem precedido,
séculos atrás, os estudiosos egípcios? O achado
das jóias exclui essa possibilidade. Ou o
sarcófago, portanto, foi colocado vazio na câmara
para enganar os ladrões, ou êle havia sido
destinado a guardar o Ka, espírito vital, imutável
e eterno, algo parecido com o que chamamos
alma.
Deveria portanto existir uma segunda câmara
mortuária com a múmia do faraó (soberano da
terceira dinastia do qual desconhecemos até o
nome): o Professor Ghoneim descobriu outra
entrada e nela penetrou. As pesquisas foram
suspensas no início do outono de 1.956, época da
grave crise de Suez e, quando foram retomadas,
após a volta à normalidade, seu genial promotor
havia morrido.
Infelizmente não sabemos muito sobre a morte
do estudioso: soubemos do fato pelos jornais, na
época, mas tôdas as tentativas feitas para obter
maiores esclarecimentos resultaram inúteis. Há
contudo quem saiba mais do que nós, e não
hesite em afirmar que o arqueólogo foi vítima
daquelas maldições faraônicas que há tempos
vêm caindo sôbre os egiptólogos.
Realidade? Fantasias? As estórias de misteriosos
fenômenos ligados à exumação de antigos
soberanos egípcios são muitas e nunca deixam
de produzir certo efeito. Mas esses assuntos têm,
na verdade, um aspecto bastante diverso daquilo
que lhes atribuem os cultores do ocultismo e os
jornalistas à caça de fatos sensacionais.
Lembremos a respeito o horripilante episódio do
qual foi protagonista, milênios após sua morte, o
faraó Ramsés II, que reinou no Egito durante o
cativeiro dos judeus, e que era hospedado desde
1886 no Museu Nacional do Cairo. Numa tarde
particularmente abafada e úmida, o público
presente na sala de Ramsés II ouviu forte
rangido, seguido do ruído de vidros quebrados e,
voltando-se para o esquife do soberano, assistiu a
um espetáculo verdadeiramente impressionante:
a múmia do faraó, distendida no sarcófago, de
repente pusera-se sentada, abrindo a boca como
que para gritar, virando de um só golpe a cabeça
para o norte, abrindo os braços cruzados sôbre o
peito e arrebentando com a mão direita a vitrina.
Alguns visitantes desmaiaram; outros, lançando-
se porta a fora, rolaram pelas escadas; outros,
para serem mais rápidos, pularam pelas janelas.
Houve dezenas de feridos, o guarda da sala
demitiu-se sem que fosse possível encontrar
substituto, o governo egípcio teve de pagar
pesadas indenizações aos acidentados e o
museu, por longo tempo, andou meio esquecido
pelo público, temeroso de ver o prédio ruir sôbre
sua cabeça.
Todavia, nada mais aconteceu, e os peritos logo
esclareceram a causa do fenômeno, aliás fato
não isolado: a múmia, habituada ao ar frio e seco
da câmara mortuária subterrânea, havia
simplesmente sofrido os efeitos da mudança
climática, reagindo daquela maneira à umidade
do Cairo. Mas hoje (a prudência nunca é
demais...) ela descansa com a cebeça voltada
para o norte, exatamente como prescrevia a
oração sepulcral.
Quanto ao famoso Tutankâmon é necessário,
antes de mais nada, reconduzir as coisas à
devida proporção e esclarecer que a estória da
tabuinha com a maldição, que teria sido
encontrada sobre a múmia, é totalmente falsa. O
sarcófago do jovem faraó (que se chamava, na
verdade, Tut-ankh-Ámon) traz só uma inscrição,
invocando paz e serenidade para o defunto. E
quando se diz que todos os que tiveram algo a
ver com a descoberta morreram de maneira
inexplicável, está-se espalhando uma grande
estupidez.
O Professor Howard Cárter, chefe da expedição
arqueológica, morreu em idade avançada, 16
anos após a descoberta; outros estudiosos
morreram de velhice ou em situações nada
estranhas. Impressionantes, contudo, foram as
mortes em cadeia que se verificaram logo após a
descoberta: morreram Lorde Carnarvon,
patrocinador das pesquisas (em conseqüência,
disseram, da picada de um inseto), seu irmão, a
enfermeira que o tinha tratado, o secretário do
egiptólogo, três colaboradores e sua mulher.
Trinta e cinco anos depois, porém, por um
daqueles acasos extraordinários dos quais são
ricos os anuários científicos, um médico do
Hospital Port Elizabeth (União Sul-Africana),
Doutor Geoffrey Dean, descobriu em um paciente
seu as mesmas manifestações da misteriosa
doença que havia matado muitos egiptólogos:
trata-se da histoplasmose ou "mal das cavernas",
difundida por fungos microscópicos que se
encontram em animais (especialmente em
morcegos), detritos orgânicos e pó.
Trecho das sólidas muralhas de Mohenjo-Daro.
Simbabwe: Vista das muralhas. À esquerda: Uma
das estranhíssimas torres sem aberturas laterais.
Um belo trabalho de adi dos Benin. Vêem-se as
características roupas e armas mediterrâneas,
tais quais se notam motivos indianos, com a
típica flor de lótus.
A

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«IM
f—
direita: A "Fênix de Simbabwe". Há extraordinária
semelhança com os totens dos índios das
Américas que representam o "Pássaro
Trovejante".
Foto batida dc um
avião: é claramente
visível um dos canais
submersos de Tiro
(seta).

O dique construído por Alexandre, o Grande, para

alcançar Tiro transformou a ilha numa península.

Se isso esclarece a causa da morte de Lorde


Carnarvon e dos que se achavam próximos a ele, e
aos quais transmitiu involuntariamente a infecção,
não é, contudo, suficiente para esclarecer a morte
de tantos estudiosos desde a época em que teve
início a exploração em grande escala das
pirâmides. Para a morte de cientistas e técnicos
concorreu outra calamidade, cujo diagnóstico só se
tornou possível após as hecatombes de Hiroxima e
Nagasáqui: trata-se mesmo — embora possa ser
difícil aceitá-lo — de gangrena atômica.
"Constatou-se" — declarou o Professor Ghoneim,
resumindo os resultados de pesquisas realizadas
por grande número de estudiosos egípcios — "que
o piche com o qual eram conservados os
cadáveres no processo de mumificação provinha
das margens do Mar Vermelho e de algumas
regiões do Oriente Médio. Esse piche contém subs-
tâncias altamente radioativas. E não é só: a
radioatividade é própria também das bandagens
usadas para enfaixar as múmias. E as câmaras
mortuárias provavelmente estavam cheias de
poeira com a mesma propriedade".
Tudo leva a crer que os sacerdotes egípcios teriam
lançado mão desse recurso propositadamente, não
só para conservar os cadáveres, mas também para
castigar os violadores de tumbas; talvez vissem na
radioatividade uma manifestação de Ra, deus do
sol: segundo Ghoneim, êsse fato poderia emergir
de numerosos trechos obscuros de antigos
documentos.
Isso nos faz lembrar outro fato muito estranho
ocorrido lá pela metade do século XV, quando foi
aberta a tumba de Túlia, filha de Cícero. A jovem,
intacta, jazia mergulhada num líquido trans-
parente, de composição desconhecida, e à seus
pés brilhava uma lâmpada que se apagou pouco
depois da abertura do sepulcro. Uma substância
que torna os corpos imperecíveis? Se o que nos foi
transmitido é verdadeiro, não podemos deixar de
pensar em energia atômica.

O monstro Volt e a antigravidade

Até que ponto os egípcios teriam conhecido


efetivamente os segredos da energia atômica, não
podemos saber. O próprio Professor Ghoneim
declarou-se convicto de que seus antepassados
possuíam segredos científicos invulgares.
"Considere-se, por exemplo," — diz ele — "o fato
de que nas entranhas das pirâmides se acham
salas tão segregadas do mundo exterior que o ar
fresco foi trazido por seus descobridores, 40
séculos após seu fechamento. Ora, as paredes, os
pisos e os forros estão recobertos de finíssimos
hieróglifos multicoloridos, pinturas que certamente
foram executadas no interior das câmaras, quando
a construção já havia sido concluída. Mas que tipo
de luz devem ter usado os artistas? Para executar
trabalhos com essa delicadeza e perfeição,
necessárias são potentíssimas fontes luminosas,
iguais pelo menos à solar. Tochas ou candeeiros
não teriam sido suficientes; e certamente isso não
foi usado, pois não há sinais de fumaça ou fuligem,
como, ao contrário, encontramos em todos os
lugares fechados, iluminados com esse sistema".
Será que os filhos do Nilo usaram as fontes
luminosas às quais nós mesmos recorreríamos em
circunstâncias semelhantes? Por paradoxal que
possa parecer essa idéia, ela teve seus defensores
(antes mesmo da descoberta soviética das lentes
cuja fabricação pressupõe um processo
eletroquímico), os quais trouxeram em seu apoio
uma série de argumentações que deveriam
fornecer uma confirmação indireta.
Um engenheiro alemão encarregado de construir
os esgotos de Bagdá descobriu, entre o que o
museu considerava "ninharias", pilhas elétricas
ainda ativas, com a etiqueta: "objetos de culto";
remontam elas à dinastia dos Sassânidas (226-630
d.C.), e as pesquisas conduzidas como
conseqüência dessa descoberta revelaram a exis-
tência de uma seita que, há 2.000 anos, defendia
ciosamente os segredos da eletricidade em geral e
da galvanoplastia em particular.
Os "eletricistas ocultos" de Bagdá, contudo, não
descobriram nada: poucos quilômetros ao sul da
capital iraquiana, no coração da antiga Babilônia,
foram trazidos à luz acumuladores que se acredita
fabricados há 3 ou 4 mil anos... sob licença egípcia,
como deveria ser — segundo vários arqueólogos
franceses — pelas "aplicações científicas" de
Moisés, iniciado nos grandes segredos após ter
sido recolhido e adotado por Thermutis, filha de
Ramsés II.
Expondo o pensamento de Maurice Denis-Papin
(descendente do famoso inventor), Robert
Charroux acha que a Arca da Aliança, que se
acredita guardasse as tábuas da Lei, a vara de
Aarão e um vaso cheio de maná do deserto
(Êxodo, XXV), seria uma espécie de caixa-forte
elétrica, capaz de produzir descargas da ordem de
500-700 volts.
Parece-nos interessante relatar o que o escritor
francês diz a respeito:
"Era feita de madeira de acácia, revestida de ouro
por fora e por dentro (o mesmo princípio dos
condensadores elétricos: dois condutores
separados por um isolante) e circundada por uma
guirlanda de puro ouro. A arca ficava colocada
num lugar seco, onde o campo magnético alcança
normalmente 500-600 volts por metro vertical.
Talvez contivesse pilhas idênticas às encontradas
no museu de Bagdá: a guirlanda nesse caso teria
servido para carregar as pilhas ou o próprio
condensador.
"A custódia da arca era confiada aos levitas
(judeus da tribo de Levi, encarregados do serviço
do templo em Jerusalém), os únicos que tinham
direito de tocá-la; para carregá-la, 'passavam duas
estacas recobertas por ouro nos anéis', de tal
maneira que da guirlanda ao chão a condução se
dava por tomada de terra natural.
"O condensador (ou a pilha) descarregava-se
assim sem perigo para os carregadores. Isolada, a
arca rodeava-se, às vezes, com raios de fogo, com
longas faíscas, e se um imprudente lhe punha a
mão, soltava uma descarga terrível, espantosa
para os profanos; comportava-se exatamente
como uma garrafa de Leyde."
Admitindo que Moisés tivesse recebido dos
mestres egípcios profundos conhecimentos em
matéria de química, física, geologia e meteorologia
— afirma ainda o estudioso — todos os prodígios a
ele atribuídos tornam-se explicáveis
cientificamente. Há pessoas convencidas de que
Moisés recorreu também a explosivos, debelando
assim a rebelião de Coré, Datã e Abirã (Números,
XVI: "...o chão abriu-se sob seus pés, a terra
escancarou sua boca e os engoliu (...) e desceram
vivos ao reino dos mortos (...) e um fogo saiu da
presença do Eterno e os devorou: 250 homens que
ofereciam o perfume") e punindo o sacrilégio de
Nadabe e Abiú (Levitico, X: "...e um fogo saiu da
presença do Eterno e os devorou").
O físico François Arago, já no século XVIII, afirmou
que o templo de Salomão era protegido por 24
pára-raios, e não é impossível que tais aparelhos
tenham sido conhecidos por outros povos da An-
tiguidade: o historiador e médico Ctesias (século IV
a.C.), por exemplo, levou para casa, de suas
viagens através da Grécia e do Egito, duas
"espadas mágicas" que, "fincadas no chão com a
ponta para cima", tinham a propriedade de
"afastar as nuvens, o granizo e as tempestades";
muito provavelmente suas virtudes foram
exageradas: dá para pensar que fossem realmente
pára-raios.
De acordo com muitos autores, os etruscos
também teriam conhecido a eletricidade e, por
meio de seus sábios, os reis de Roma teriam
conhecido o segredo. Tito Lívio e Dionísio de
Halicarnasso atribuem a Numa Pompílio a
capacidade de "desencadear o fogo de Júpiter",
isto é, o raio, e contam como Túlio Ostílio, seu
sucessor, não tão hábil quanto o anterior, morreu
fulminado durante uma cerimônia religiosa na qual
queria demonstrar seus podêres. Melhor sorte teria
tido Porsena, a quem é atribuído o mérito de haver
usado a eletricidade para libertar seu reino da
presença de um monstruoso animal chamado
(detalhe deveras curioso!) Volt.
Voltando às pirâmides, temos que enfrentar outro
grande quebra-cabeça científico. Basta aproximar-
se de uma dessas imponentes construções para
entender que não foram erigidas sem um projeto
preciso e um aparelhamento adequado, isto é,
confiando unicamente na boa sorte e na força dos
escravos.
Os blocos que formam a pirâmide de Quéops, por
exemplo, pesam, a grande maioria, de 15 a 100
toneladas, e na "câmara dos reis" o forro é
reforçado por blocos de granito vermelho de 70 to-
neladas. Nos nossos dias, um trabalho dessa
natureza somente seria possível se fossem
construídas ao redor das pirâmides — e sobre a
areia! — plataformas de cimento armado capazes
de agüentar o peso de vagões ferroviários de 40
rodas e com o auxílio dos meios técnicos mais
modernos e perfeitos — o que também vale para
as grandes obras da América pré-colombiana.
O transporte de matéria-prima por caminhos
impossíveis é, de outro lado, um enigma que se
perfila em qualquer lugar do mundo antigo. O
arqueólogo austríaco K. Lanik, entre outros, lembra
que sôbre o Monte Madalena, nos arredores de
Klagenfurt, havia há mais de 2.500 anos uma
metrópole com muralhas de 7 metros de
espessura, erguidas com blocos retirados de
montanhas bem distantes e empurrados quem
sabe como até o cume, para em seguida serem
recobertos com grandes lajes de mármore. Esse
núcleo não é o único no gênero, mesmo na Europa:
muitas são as cidades romanas e celtas que nos
falam numa linguagem igualmente intrigante.
Quanto às pirâmides, alguns sugeriram planos
inclinados, outros pensaram em cilindros obtidos
com troncos de árvores, sôbre os quais teriam feito
deslizar os blocos, mas essas hipóteses não con-
vencem os técnicos que lhes contrapõem um
simples raciocínio: admitamos que 1.000 mãos
sejam suficientes para transportar um dos blocos
em questão (o cálculo foi feito bem por baixo); mil
mãos pertencem, obviamente, a quinhentos
homens. Mas onde quinhentos homens iriam achar
lugar, ao redor da titânica pedra, para empurrá-
la?15
Os antigos egípcios e os antigos americanos
tiveram, portanto, de empregar máquinas para
levantar as pedras, máquinas perfeitas que nada
ficariam a dever às usadas hoje pelas companhias
construtoras. Por que nunca ouvimos falar dessas
máquinas? Por uma razão elementar: a técnica
mudou, as construções se fizeram mais modestas
e não foi mais necessário o emprego de grandes
meios. As formidáveis máquinas caíram em
desuso, foram desmanteladas, fizeram-se em
pedaços; e delas perdeu-se também a lembrança.
A mesma coisa, afinal, aconteceu e acontece com
numerosas realizações do engenho humano.
Pensemos num arqueólogo que daqui a um milhar
de anos encontrasse uma cidade iluminada com
lampiões de gás e soubesse com matemática
1515 Aqui o autor se esquece da possibilidade do emprego de cordas, o que, se não chega a constituir
explicação satisfatória, sem dúvida atenua a "inexplicabilidade" do problema. (N. dos tradutores.)
certeza que na referida época ainda não estava em
uso a energia elétrica: ele poderia formular uma
hipótese viabilíssima, mas onde encontraria, para
comprová-la, um daqueles lampiões de gás que,
até algumas dezenas de anos atrás se
encontravam em todas as ruas do mundo
civilizado?
Há, porém, quem sugira hipóteses fantásticas,
afirmando que os egípcios possuíam até noções
capazes de conduzir à eliminação da força da
gravidade e ao uso dos ultra-sons, quer para a
esquadria, quer para o transporte dos blocos.
"Os homens da pré-história" — escreve Robert
Charroux — "conheciam o fenômeno das vibrações
e o empregavam para cortar o sílex, utilizando as
ondas de choque".
"Graças aos sons" — afirma, por sua vez,
Lenormand, no livro Magia Caldéia — "os
sacerdotes de On provocavam tempestades e
levantavam, para construir seus templos, pedras
que 1.000 homens não poderiam deslocar".
Uma difundida lenda árabe conta que os filhos do
Nilo construíram suas pirâmides transportando os
blocos através do ar sôbre papiros, em que
escreveram palavras mágicas, e é talvez com
referência a essa fábula que Jacques Weiss afirma:
"Os enormes blocos de pedras, pesando até 600
toneladas, são ligeiramente convexos em certos
lados, para encaixar-se com perfeição na
concavidade dos blocos contíguos e formar um
conjunto extremamente resistente. Eles foram
certamente transportados por meio de levitação e
colocados em seus lugares com extrema
facilidade".
No antigo Egito — assegura Charroux — os
verdadeiros sacerdotes eram reconhecidos pelo
fato de possuírem o poder de se erguer no ar à
vontade. E cita, a propósito da levitação, vários
testemunhos interessantes de antigos autores.
Plínio, o Velho, relata, entre outras coisas, que o
arquiteto Dinócrates (contemporâneo de
Alexandre, o Grande) havia decidido colocar em
tôrno do templo de Arsinoé "pedras mágicas", com
a finalidade de mostrar ídolos suspensos no ar.
Também o monge Rufino fala em magnetismo,
referindo-se à ascensão (a que assistiu quase no
fim do século III d.C.), de um disco, representando
o sol, no grande templo do deus Serápide, perto de
Alexandria do Egito; Luciano (século II d.C.),
conhecido por seu cepticismo, teve de admitir ter
visto sacerdotes sírios fazerem levitar o simulacro
de uma divindade deles.
Mesmo entre outros povos, e em outras épocas,
afinal, encontramos curiosíssimos exemplos de
levitação. O escritor e estadista romano Cassiodoro
(século V d.C.), fala num cupido de ferro suspenso
entre o chão e o forro de um templo de Diana; e
até o século XIV os restos mortais mumificados do
reformador Tsong Kaba foram vistos por milhares e
milhares de peregrinos a levitar um palmo acima
do chão no mosteiro tibetano de Khaldan.
Na mesquita de Medina, a caixa de Maomé ficou
por muito tempo flutuando a pequena distância da
cúpula, e durante séculos uma "vêrga voadora",
imóvel entre o chão e o forro, deu espetáculo na
igreja abissínia de liizan. Em 1.515, o Padre
Francisco Alvarez, secretário da embaixada
portuguesa na Etiópia, pôde certificar-se de que a
extraordinária vara "boiava no nada", sem nenhum
truque, e duzentos anos mais tarde o médico
francês Jacques Poucet teve oportunidade de
repetir a experiência.
"Suspeitando da existência de algum artifício
invisível" — ele conta — "recebi do abade
permissão para me certificar à minha maneira.
Passei um bastão por cima, por baixo, por todos os
lados, e verifiquei que sem dúvida a vara estava
realmente suspensa no ar".
Magnetismo ou ultra-sons? Há quem se incline
decididamente para esses últimos; e ainda que,
com base nos atuais conhecimentos científicos,
ambas as hipóteses nos deixem bastante
perplexos, devemos admitir que, pelo menos no
campo da acústica, muitos físicos da Antiguidade
conheciam de fato seu mister.
"Segundo alguns papiros egípcios" — citamos
ainda Charroux — "os sacerdotes de Karnak,
Abydos e Tebas deviam ter a voz firme, forte e
bela. Pronunciando uma só palavra, de certa
maneira, podiam fazer abrir as pesadas portas de
um templo. Esse fato, mencionado várias vezes (os
contos orientais são ricos em portas mágicas que
dão entrada para templos, criptas e cavernas),
poderia ter-se realizado graças a artimanhas
engenhosas ou truques, mas sua persistência,
aliada ao mistério das pirâmides, induz a procurar
uma explicação científica, ou simples ou
extremamente elaborada.
"Simples: alguns sons, com certa vibração,
acionam mecanismos de molas. Elaborada: os sons
ou os ultra-sons impressionam uma célula elétrica,
como o faria a luz.
"A conhecidíssima expressão mágica 'Abre-te
Sésamo!' não é uma invenção gratuita: a cápsula
que encerra a semente do sésamo arrebenta
sozinha quando madura, mas um som grave pode
provocar a abertura prematura da cápsula. Esse
fenômeno não era desconhecido dos egípcios,
hebreus e orientais em geral, e talvez haja razão
para acreditar que seus mais elevados
conhecimentos científicos se baseassem sobre um
certo poder da voz."
Também o alexandrino Heron, matemático, físico,
mecânico, e seu mestre Ctesíbio teriam usado
fartamente esse e outros artifícios, fazendo
emergir do chão enormes ídolos, suspendendo no
meio do ar simulacros e sacerdotes, provocando a
abertura "mágica" das portas, deixando cair sobre
os fiéis borrifos de água perfumada e fazendo sair
do bico das aves metálicas sublimes harmonias.
"À seu gosto" — afirma Eliphas Levi — "o templo é
circundado por nuvens ou refulge numa claridade
sobre-humana; às vezes chegam as trevas no meio
do dia, às vezes a noite se ilumina, as lâmpadas se
acendem sòzinhas, os deuses cintilam, escuta-se o
estrondo de um trovão. E ai do ímpio que houver
atraído a maldição dos iniciados!"

CAPÍTULO X
Um Império no Saara

O SAARA OCULTA, numa profundidade variável entre


300 e 1.200 metros, um enorme depósito de água
doce: o chamado mar subterrâneo de Albienne,
que ocupa uma área de pelo menos 600.000 qui-
lômetros quadrados, ou seja, o dobro da superfície
da Itália. E é apenas um entre os inúmeros
reservatórios naturais sepultados sob rochas e
areias escaldantes: as reservas de água da África
do Norte são imensas, e com razão pensa-se, num
futuro não muito distante, em utilizá-las para
transformar a estéril planície numa área altamente
produtiva e confortável.
Houve cientistas (lembramos aqui o mais
autorizado, o geólogo alemão Hoffmann) que
afirmaram que o continente negro teve, em épocas
relativamente próximas à nossa, uma forma
bastante diferente da que conhecemos, e que
quase tôda sua parte setentrional estava coberta
pelo Mediterrâneo, do qual os atuais relevos
montanhosos e os planaltos teriam emergido como
grandes ilhas.
Ora, a descoberta do mar de Albienne destrói
essas teorias que pareciam ter base sólida, e
confirma a validez da teoria de Scott-Elliot
(estranho tipo de pesquisador que infelizmente
gosta de dosar sólidos elementos científicos com o
emaranhado de absurdas doutrinas esotéricas),
segundo a qual o Saara teria sido ocupado não
pelo Mediterrâneo, e sim por um vastíssimo lago
interno. Este sem dúvida desapareceu em
conseqüência de grandes revoluções, dando lugar
ao jângal.
De acordo com Scott-Elliot, isso teria ocorrido há
cerca de 11.000 anos, simultâneamente com o
cataclismo que provocou a submersão de vastas
áreas do globo. O grande lago, porém, deve ter
sido apagado da superfície da Terra em épocas
mais antigas, pois está demonstrado que já 8.000
anos antes de Cristo o Saara estava recoberto por
florestas cuja formação deve ter começado vários
milhares de anos antes.
Os antigos textos nos descrevem o atual deserto
como uma área coberta por florestas, cortada por
majestosos rios, densamente povoada, rica de uma
fauna na qual encontramos também antílopes,
girafas, elefantes, leões e panteras. Fortes
variações de temperatura, no início, e depois a
ação das águas e dos ventos começaram a trans-
formar o Saara. Por fim, a difusão do pastoreio
incidiu cada vez mais sobre o patrimônio vegetal
do lugar, e à progressiva aridez contribuíram os
cavalos dos líbios, os camelos dos romanos, as
cabras e os asnos introduzidos pelos árabes.
Quando isso aconteceu, contudo, uma civilização
desconhecida já se tinha apagado havia milênios:
provavelmente a civilização de que falam os
estudiosos soviéticos, que a consideram vinda da
Ásia e progenitora do povo das pirâmides e talvez
mesmo de outras grandes culturas mediterrâneas.
A ciência está fornecendo provas desse
parentesco: bastante interessantes são as
recolhidas pelo arqueólogo e pintor italiano
Fabrizio Mori, que descobriu no alucinante maciço
Acacus, nos confins da Líbia e Argélia, uma série
de grafitos do tempo em que a região era ainda o
maravilhoso jardim de que fala Paulino Suetônio:
homens, mulheres, animais, ondas, embarcações,
que falam da rocha, de um mundo até ontem
insuspeito.
A múmia de uma criança, morta há 5.400 anos,
demonstra como o desconhecido povo saariano
praticava o culto dos mortos. E tudo leva a crer
que aquela gente muito teve em comum com o
Egito, pois prosperaram em tempos sem dúvida
anteriores à morte da criança encontrada pelo
Doutor Mori. Mas não é só: alguns traços das
figuras, alguns pormenores parecem querer levar-
nos à antiga Grécia!
À arte egípcia também se ligam as pinturas
rupestres do Planalto de n'Ajjer (erroneamente
conhecido por Tassili, de Tassili n'Ajjer, que
significa planalto dos rios), na Argélia do Sul, as
quais parecem também transmitir uma lembrança
de antigos gigantes: ali encontramos, de fato, o
grafito de uma mulher com mais de 2 metros de
altura, e uma monstruosa figura masculina de 3,5
m, adorada por sêres de estatura bem inferior. É
curioso notar que os personagens de uma cena
que representa (pelo menos foi assim
interpretada) uma dança ritual, têm os cabelos
tingidos de vermelho, exatamente como fazem
ainda hoje em dia os Masai, supostos
descendentes dos antigos titãs.
Muitas figuras trazem sobre a cabeça um objeto
parecido com um moderno e elegante balaio que
é, com muita probabilidade, algo bem diferente.
Fantástico é, além disso, o grafito que o
arqueólogo e etnógrafo francês Henri Lhote chama
"o grande deus dos marcianos", por sua
assombrosa semelhança com um indivíduo
fechado numa roupa espacial: o "capacete" é
esférico, com dois visores e uma série de
saliências elípticas na parte superior; bem visíveis
são as articulações do pescoço, após as quais se
notam linhas que bem poderiam ser as das roupas
espaciais. A fotografia do "grande deus dos
marcianos" apareceu nos jornais assinada por Yuri
Gagárin, como se o famoso herói do espaço
quisesse dedicá-la aos seus desconhecidos...
colegas pré-históricos.
Os achados do maciço de Acacus e do Planalto de
n'Ajjer certamente estão entre os mais importantes
do mundo, mas a raça desaparecida deixou seus
vestígios de um ponto ao outro do Saara. Entre os
mais misteriosos, lembramos grafitos de homens
com caudas de cavalos, a representação de
múmias perto de uma verdadeira, em Uau-
Muhuggiac, as pinturas descobertas pelo capitão
francês Coche a 2.000 metros de altitude
(Martutech, Saara central): belíssimas cenas
agrestes, com lavradores e bois, muito próximas
às dos egípcios.
Já há uns 30 anos, dois apaixonados arqueólogos,
o Professor Di Caporiacco e o Sr. Almásy tinham
encontrado no maciço de Arkenu, nos confins entre
a Líbia e o Sudão, grafitos representando girafas,
avestruzes, búfalos, touros, bovinos semelhantes a
zebus e homens armados de arcos e flechas. O
explorador e etnógrafo alemão Leo Frobenius, em
1931, e a Sociedade Geográfica Italiana, em 1933,
dedicaram-se ao estudo de gravuras semelhantes
às de Arkenu, encontradas em Fezzan, chegando à
conclusão de que os elefantes, os rinocerontes, os
avestruzes e os crocodilos representados faziam
parte da fauna local e que, como conseqüência, a
região deve ter apresentado um aspecto parecido
com o da atual África central.

Escrito sobre a areia

O nível de civilização dos autores de todos esses


grafitos não deve ter sido muito elevado, embora
algumas de suas manifestações possam deixar-nos
indecisos. Mas há quem os considere os
sobreviventes de um povo flagelado por
catástrofes e adversidades naturais.
Um curioso pesquisador, um tal de Leon Mayou,
afirma até que o Saara teria sido o bíblico Éden, o
reino de Adão. Muitos cultores de doutrinas
esotéricas estão, contudo, mais próximos da ficção
científica do que das Sagradas Escrituras, e vêem
levantar-se no mar do Saara (como, de resto, em
muitos outros locais) cidades maravilhosas,
habitadas por criaturas formosas, com cabelos,
como de costume, loiros, com olhos escuros e tez
clara.
Eles sabem até dizer que o palácio imperial do
Saara tinha os muros recobertos com alabastro, as
paredes internas recobertas com ladrilhos
esmaltados, de alto valor artístico, e lâminas de
ouro, enquanto os templos eram literalmente
forrados com o rei dos metais, tendo seus pisos em
marfim.
Lançando mão dos conhecimentos esotéricos,
podemos chegar a saber uma infinidade de coisas
sôbre os antigos habitantes do Saara, penetrar nos
segredos de sua religião dirigida para o culto dos
planetas, conhecer nos mínimos detalhes as
cerimônias e os costumes rituais, aprender como
era dedicado ao sol "um tecido de seda fina e fios
de ouro, como uma fazenda de ouro muito macia",
a Vulcano(?)16, "a cor da chama, muito violenta e
luxuosa", a Mercúrio, uma cor "que varia entre o
ouro-laranja e o amarelo-limão", e assim por
diante.
Desnecessário dizer que não existe a menor base
para apoiar essas absurdas teorias. O argumento
sobre a suposta grande civilização que precedeu
as revoluções sísmicas das quais provavelmente
foi vítima o mundo todo, deve ser conduzido por
caminhos bem diferentes: eles não atravessam
fabulosas miragens, mas uma terra desconhecida,
entremeada por restos intrigantes.
Nela aventurou-se entre 1815 e 1819, percorrendo
várias vezes o Egito e a Núbia, o explorador
Giovanni Battista Belzoni, arqueólogo de Pádua
que, em razão dos deficientes meios técnicos
oferecidos em sua época, não pôde deixar-nos
uma documentação exaustiva de seus achados:
ruínas, catacumbas, sarcófagos, múmias
antiqüíssimas.

16 Justifica-se o espanto do autor: como se sabe, Vulcano era o deus romano do fogo e da
metalurgia — e as referidas seitas esotéricas não têm a menor cerimônia em "misturá-lo" a
costumes de povos anteriores aos romanos. (N. dos tradutores.)
Não muito longe da aldeia de Cassar, Belzoni
encontrou um poço com cerca de 20 metros de
profundidade, que os nativos diziam ter a curiosa e
agradável característica de fornecer água fresca
durante o dia e quente à noite; ele sabia que já
Heródoto havia falado do poço, quatro séculos
antes de Cristo, dizendo que nos arredores existia
um templo dedicado à maior divindade local — que
o célebre historiador chama Júpiter Ámon. Belzoni
começou a procurar intensamente, e encontrou de
fato ruínas de grandes muros que afloravam da
areia, fragmentos de colunas e estátuas de rara
perfeição.
Outro estudioso italiano, Centúnviro, baseando-se
num antigo manuscrito que descrevia uma cidade
situada no limite meridional do que hoje é o
deserto da Líbia, partiu para encontrá-la, e de fato
localizou suas ruínas nos arredores de Uau el-
Adani, onde viu aflorar os restos de muitas
construções e colunas encimadas por estranhas
figuras de animais com duas cabeças. Descoberta,
depois, a entrada de um subterrâneo que deveria
ter sido o templo do sol, ele explorou um longo
trecho, juntamente com um guia turco, arriscando
a vida para trazer à luz do sol uma taça de ouro
com figuras em relevo de homens, animais e
flores, e um vaso sôbre o qual um artista
desconhecido havia pintado, sabe-se lá há quantos
milênios, cenas inspiradas na flora e fauna
aquáticas.
É realmente uma pena que não possamos dispor
de maiores testemunhos sobre as atividades
desses aventureiros da ciência: se suas
descobertas tivessem sido aprofundadas, talvez
estivéssemos de posse de elementos capazes de
permitir fundamentados confrontos com restos de
outras civilizações desaparecidas, e ter assim uma
visão algo menos nebulosa acerca do passado
remoto do continente negro.
Como a Atlântida, também o "império do Saara"
tem seus defensores extremados, que o imaginam
tão grande e possante a ponto de ter impresso em
toda a África (além de alguns países mediter-
râneos) o seu selo cultural. Alguns desses não
passam de visionários, outros apóiam suas teorias
em fatos que merecem estudo. Que esses últimos
sejam, no entanto, os exatos componentes do
mosaico é uma coisa que não nos sentimos
capacitados a defender, embora não queiramos
inclinar-nos decididamente para o lado oposto.
Construir, de fato, hipóteses com os elementos de
que dispomos equivale um pouco a tentar resolver
um daqueles problemas de palavras cruzadas
americanos, sem definições, simplesmente com
algumas palavras já colocadas, com as quais
devem combinar tôdas as demais.
Tomemos por exemplo a civilização de Benin:
talvez pudesse ser encaixada no nosso esquema,
que tem ao centro os achados do Saara; mas seria
correta a posição que estaríamos tentados a lhe
atribuir? E teria ela alguma letra em comum com o
outro enigma africano, o de Simbabwe?
A história da descoberta de Benin teve início em
1.897, quando a firma londrina Hale & Filho
realizou um pregão público dos objetos
provenientes da Nigéria (Benin é atualmente uma
cidadezinha com 22.000 habitantes, a 100
quilômetros do golfo homônimo): presas de
elefante esculpidas, esculturas e lâminas de
bronze trabalhadas de maneira admirável, todas,
porém, mais ou menos danificadas. Comerciantes
e apaixonados do assunto examinaram o material,
mas consideraram-no demasiado danificado para
ser adquirido. Os senhores Hale & Filho,
suspirando, já haviam visto afastarem-se os clien-
tes em potencial menos pretensiosos, quando a
coleção, por puro acaso, caiu sob os olhos do
arqueólogo von Luschan, diretor de um museu de
Berlim, que arrematou todo o lote, telegrafando
em seguida ao cônsul alemão de Lagos: "Compre
antiguidades de Benin. Compre tudo quanto puder
encontrar. Compre sem limite de preço, sob minha
responsabilidade".
Os objetos, cujo enorme valor o cientista alemão
havia intuído, foram descobertos meses antes,
durante uma expedição punitiva efetuada pelas
tropas britânicas contra a tribo dos Benin, acusada
de ter ferozmente assassinado um alto
representante inglês e sua escolta. Dispersos os
culpados na floresta, os soldados de Sua Majestade
constataram que a chacina fôra bem mais ampla
do que haviam suposto: com seus concidadãos,
milhares de escravos e prisioneiros de guerra,
homens, mulheres e crianças tinham sido
sacrificados pelos Benin em honra do pai morto de
seu "rei", segundo o horripilante ritual do culto
Juju.
Perto da choupana real, cinco pátios estavam
cheios de cadáveres horrendamente mutilados;
toda a aldeia, de resto, era um cemitério
assustador: em valas comuns, com cerca de 100
metros de profundidade, eram amassadas há
várias gerações as vítimas das hecatombes rituais.
Os oficiais britânicos resolveram queimar toda
aquela carne, mas antes mandaram revistar todos
os cantos, à procura de eventuais tesouros: não
encontraram nem ouro, nem prata, mas "somente"
aqueles objetos de marfim e bronze que até
colecionadores famosos haviam considerado sem
valor.
Quando ficou conhecida a intervenção de von
Luschan, estudiosos do mundo todo lançaram-se
sobre as ruínas da aldeia queimada e trouxeram à
luz outros testemunhos arqueológicos que os
museus disputaram com polpudas ofertas: lâminas
de bronze destinadas a recobrir portas, utensílios
òtimamente trabalhados, painéis representando
árvores, frutas, flores, animais, rostos de homens
negros, brancos e até asiáticos, além de inúmeras
cenas de paz e de guerra.
Começou então o estudo do passado dos Benin
(emprêsa muito árdua, pois aquele povo não
conhecia a escrita); chegou-se até 1.140, quando o
Rei Eweka dera início ao terrificante culto de Juju. E
encontraram-se perguntas sem resposta. Por que
não havia sinais da civilização dos Benin anteriores
àquela data? Sem dúvida eles possuíam elevada
cultura antes que o louco Eweka os precipitasse na
abominação de Juju. Mas onde a tinham aprendido,
e que significado podia ser atribuído às
características de sua arte que lembra a grega e a
indiana?
É curioso notar que Esige Osawe, décimo rei dos
Benin conhecido (conforme uma aproximada
ordem cronológica), vangloriava-se de ter "nascido
branco"; a tradição nos diz que ele despachou
mensageiros e presentes "para além da grande
água", para seus "irmãos de raça branca",
chamando alguns à sua corte onde, com efeito, se
estabeleceram como comerciantes.
"Os bronzes de Benin" — escreve o etnólogo Ietão
Ivar Lissner — "fizeram barulho já no fim do século
passado, pois representam um caso único,
extraordinário, entre as artes plásticas dos povos
negros.
Esses trabalhos são mais compreensíveis à luz da
forma ocidental, com parentesco mais estrito com
esta do que com a arte negra de qualquer outra
região africana.
"Hoje sabemos que os vizinhos norte-ocidentais
dos Benin, os iorubas (grupo de tribos sudanesas),
possuíam, já antes de serem descobertos pelos
colonizadores europeus, cidades de 10.000
habitantes; eram exímios agricultores e criadores
de gado, e se dedicavam a extensa atividade
comercial; os produtos de seus artesãos, tecelões
de algodão, tingidores, ceramistas, fundidores de
bronze e latão atingiam os confins de seu país.
"A arte dos iorubas floresceu particularmente em
Ile-Ife, simultaneamente capital religiosa e cultural
e sede do chefe espiritual. O nome Ile-Ife — a 85
quilômetros de Ibadan (Nigéria), e atualmente com
50.000 habitantes — significa 'terra da origem'.
"Da 'época de Ife' conhecemos obras de arte em
pedra, quartzo, granito, bronze e terracota; os
utensílios de madeira foram vítimas do clima, no
passar dos séculos. Durante os últimos vinte anos,
foram descobertas esculturas iorubás que parecem
simplesmente inconcebíveis no quadro da arte
africana. Em 1938 e 1939 foram descobertos no
recinto do palácio do Oni de Ife, preciosos objetos
de latão, principalmente artísticos. O latão é uma
liga de cobre e zinco que, conforme sua
composição, pode assumir tons que variam entre o
vermelho-cobre e o amarelo-ouro (...). Uma figura
masculina de Tada, na margem do Níger, é tão
surpreendentemente natural, desde a cabeça até
os pés, e achados de Ife representam rostos
negros tão belos e expressivos, que sempre se
procuram influxos mais antigos.
"Nas escolas da corte do rei de Benin talvez
trabalhassem mesmo mestres estrangeiros (...),
pois a habilidade dos antigos fundadores de Benin
não teme confrontos, em campo técnico, com a
dos melhores fundidores europeus. A arte do
bronze e do latão alcançou, nas mãos dos negros
da terra da África ocidental, elevadíssimas alturas.
Mas as ligações permanecem inexplicáveis,
enigmáticas, inconcebíveis."
Talvez a arte dos Benin e dos iorubas possua algo
em comum com a misteriosa civilização africana
de Nok, que floresceu séculos e séculos antes de
Cristo, para nós, representada por uma magnífica
cabeça em terracota, de tamanho natural,
descoberta em 1.954 na província de Zaria
(Nigéria do Norte). Às primitivas armas e utensílios
de pedra o povo de Nok juntava funcionais
instrumentos de ferro, num daqueles estranhos
contrastes comuns em tantas culturas remotas.
É possível que a civilização de Benin, cora as de
Nok e Iorubá, tenha nascido de antiqüíssimos
colonizadores amalgamados em seguida com os
indígenas, e que Esige Esawe tenha guardado uma
pálida lembrança de seus antepassados brancos?
Eis que novamente aparecem os fantasmas de Mu
e da Atlântida; e eis que, sob esta luz, se aproxima
do mistério dos antigos nigerianos um outro
enigma arqueológico, ou seja, o de Simbabwe.

As torres e a Fênix

Simbabwe é uma cidade morta, da Rodésia, nas


vizinhanças de Forte Victoria. Com suas ruínas deu
por acaso o caçador bôer Adam Renders, em
1.868; ele não atribuiu muita importância ao
achado, mas em 1871 o geólogo alemão Karl
Mauch, visitando as ruínas, acreditou poder
comunicar ao mundo uma grande notícia: tinha-se
convencido de estar perante os majestosos restos
de uma cidadela de Ofir, a selvagem, inóspita, mas
riquíssima terra que, governada por volta de 950
a.C. por um vassalo da rainha de Sabá, guardaria
em seus confins as bíblicas minas do Rei Salomão.
A mesma opinião foi defendida por ilustres
estudiosos, entre os quais Quatremère e Heeren. E
é significativo lembrar que o viajante árabe Ibn
Battuta, nascido em Tânger em 1.304, fala dessa
região como "Yoüfi, de onde se leva o pó de ouro
para Sofala"; e fonèticamente a palavra Yoúfi está
bem perto de Ofir.
Outros arqueólogos, seguindo o inglês Richard
Nicklin Hall, acreditaram tratar-se de um centro de
mineração; mas, em seguida, o egiptólogo David
Randall-Melver acreditou poder demonstrar que j
as construções de Simbabwe pertenciam à Idade
Média, e sua opinião foi apoiada pela arqueóloga
Gertrude Caton-Thompson.
O nome é recente demais para poder dizer alguma
coisa: Simbabwe (ou Zimbabwe, Simbabue) é um
composto de palavras banto simba (casa) e mabgi
(pedra). Mas o árabe Masudi, que visitou o centro
em 916 ou 917 d.C., nos confirma que sem sombra
de dúvida Simbabwe já existia naquela época e era
muito poderosa. "É um país" — ele escreve,
literalmente — "que produz ouro em quantidade e
outras maravilhas".
Os que construíram as paredes do templo elíptico
(com espessura de 4 a 5 metros) e as da torre
cónica (10 metros de espessura!) deveriam possuir
um grau de civilização não medíocre. De onde vie-
ram? Do norte, se diz. Sôbre seu remoto passado,
contudo, não adianta indagar, pois a cidadela não
apresenta uma única inscrição.
Em compensação, foram encontrados em
Simbabwe e em suas vizinhanças objetos preciosos
fabricados em regiões extremamente distantes,
pérolas e colares da Arábia, porcelana chinesa com
idade superior a 1.000 anos, utensílios e obras de
arte vindos da índia e da Ásia Central, além de
jóias das quais é impossível estabelecer a origem.
Os arqueólogos Padre Paul Schebesta e a senhora
Caton-Thompson, baseando-se em outros achados
(os de Umtali e Inyanga), identificaram nos
descendentes do povo de Simbabwe os fundadores
do império de Monomotapa (o nome — que mais
tarde se tornou título — significa "dono das
minas"), que se estendeu desde a Rodésia até
Moçambique e terminou perto do fim do século
XVIII.
É interessante notar que o soberano Monomotapa
era considerado filho do sol, astro adorado
orgiasticamente pelos seus súditos. Possuía cerca
de 3.000 mulheres, entre esposas e concubinas: o
herdeiro do trono, contudo, deveria ser-lhe dado
por uma irmã. E esses são apenas alguns dos
inúmeros pormenores capazes de fazer as mentes
menos fantasiosas se lembrarem das civilizações
egípcia e pré-colombiana da América.
Os animais representados nos monumentos de
esteatita de Simbabwe, além disso, trazem à
memória os baixos-relevos da índia e do Novo
Mundo, enquanto a ave esculpida no topo de um
pilar, na época símbolo do império de Monomotapa
e hoje colocado em cima do emblema da Rodésia,
nada mais é que o "pássaro trovejante" dos peles-
vermelhas, o "pássaro de fogo", a fênix presente
na mitologia de quase todos os povos do globo. E
os monólitos de quase 4 metros de altura,
colocados no interior do templo, lembram os
intrigantes monumentos dos Hsing Nu, e fazem
outra vez sonhar com os mísseis lançados sobre a
pré-história.
"Entre as ruínas" — escreve Robert Charroux —
"mas ainda bem conservados, notam-se, como em
Machu Picchu, no Peru, altas torres ovais, espécie
de silos, sem nenhuma abertura lateral; a única
abertura possível se encontra no tôpo dessas
construções, como se os habitantes dessas
esquisitas casas tivessem asas ou o poder de voar.
Em Machu Picchu êsses 'silos' são chamados 'as
câmaras dos homens voadores'.
"Não pensamos em seres alados, mas em criaturas
humanas que conhecessem o segredo da levitação
e do deslocamento através do espaço, segredo não
divulgado, mas relatado por tradições quer ame-
ricanas, quer africanas, quer asiáticas (...), é
possível que Simbabwe e Machu Picchu tenham
sido habitadas em certa época por homens
iniciados numa ciência da qual ainda não temos
idéia."

O enigma malgaxe

Chegamos assim diante de Madagáscar, ilha que


muitos consideram um dos mais significativos
monumentos naturais a uma Terra com aspecto
bem diferente do que conhecemos.
Já nos referimos a esse país como a uma sobra
geológica dos continentes desaparecidos da
Lemúria e Gondwana; detivemos-nos sobre o
primeiro, expondo — como mera curiosidade —
notícias totalmente destituídas de sentido. Vamos
agora dar uma rápida olhada no segundo, a cuja
civilização se conectaria (conforme opinião de
alguns estudiosos), justamente através de
Madagáscar, a enigmática Simbabwe.
Ouçamos antes de mais nada o parecer dos
geólogos. "Gondwana" — resume o eminente
Professor F. De Agostini — "é o nome de uma
região nas províncias centrais do Indostão, que foi
tomada para indicar formações paleomesozóicas
de xistos e arenárias, próprias dessa região. Dado
que análogas formações geológicas foram
encontradas também no Sul e no Leste africano,
em Madagáscar, Austrália e América do Sul, achou-
se que essas zonas deveriam encontrar-se, jus-
tamente na era paleomesozóica, unidas à
península indiana, formando uma vasta área
continental, à qual foi dado o nome convencional
de Gondwana."
Também os estudos sobre as características
étnicas dos malgaxes, sobre a fauna e a flora da
grande ilha, levam à conclusão de que ela tenha
ficado por longos tempos unida às outras partes do
mundo, hoje muito distantes; não nos podendo
alongar no assunto, fazemos notar simplesmente
que de Madagáscar estão completamente
ausentes os antropomorfos, paquidermes e feras
em geral comuns na África e, em particular em
Moçambique, enquanto são encontradas espécies
próprias de outros continentes.
Ao partir-se, a mítica Gondwana teria dado origem
à Austrália, à África e ao Dekkan, formado
originalmente por Madagáscar e por parte da
península indiana. "Durante o Plioceno, último
período do Terciário" — diz ainda o Professor De
Agostini — "a pequena faixa de terra que teria
unido a índia a Madagáscar ter-se-ia esmigalhado,
e a ilha se destacado de maneira definitiva do
resto do Dekkan que, flutuando no oceano, ter-se-
ia soldado ao continente asiático. Seria
testemunho disso o ininterrupto arco de pequenos
arquipélagos que fazem ponte entre Madagáscar e
a índia: as Ilhas Mascarenhas (compreendendo a
francesa Reunião e as inglêsas Maurícias e
Rodrigues), as Ilhas Chagos e as já asiáticas Ilhas
Maldivas e Lacadivas".
Gondwana teria portanto existido na era
paleomesozóica, que vai de 520 a 60 milhões de
anos atrás. O alemão Thor Nielsen (para ser
preciso, ao menos até os limites do possível) fixa
em cêrca de 130 milhões de anos atrás o tempo
em que a América, Índia, África e Madagáscar
tomaram um aspecto não muito diferente do atual.
Ora, naquelas épocas o homem certamente não
tinha aparecido sôbre a face da Terra, e a
descrição daqueles senhores com três olhos,
capazes de andar indiferentemente para frente ou
para trás, graças às suas... juntas movediças
(teriam sido, além disso, hermafroditas e
ovíparos), tão queridos a Helena Blavatsky,
fundadora da "teosofia", deve ser encarada como
enorme estupidez.
Parece-nos divertido observar como essas
revelações se apoiam em elementos científicos
mal digeridos e em deduções "cerebrinas". O
"terceiro olho", por exemplo, nasceu da fantasia de
Blavatsky, pelo fato de que todos os fósseis de
reptis provenientes do continente de Gondwana
possuem uma depressão — a cavidade pineal —
sede indubitável de um órgão da visão.
Esse detalhe é ainda característico de um reptil de
nossos dias, verdadeiro fóssil vivo, cujos raros
exemplares habitam algumas ilhas do Estreito de
Cook, na Nova Zelândia; é um lagarto de meio
metro, chamado hateria ou esfenodonte, que
possui também características estranhas: coabita
com uma ave marinha e deposita ovos de casca
muito dura, que sòmente se abrem após treze
meses de incubação.
O que dissemos acima parece tornar a existência
de uma civilização gondwaniana extremamente
improvável. Contudo, há algo que nos faz pensar:
as características étnicas dos aborígines malgaxes,
que revelam claramente origem asiática. E então?
Ou ao continente perdido "sobreviveu" a fabulosa
Mu, ou Madagáscar foi povoada pela Ásia, por via
marítima. Mas é justamente essa última hipótese a
menos provável, pois os supostos imigrantes pré-
históricos não podiam, certamente, ter levado
consigo animais e plantas.

CAPÍTULO XI
Difíceis Renascimentos

HÁ POUCO TEMPO, O passado do homem parecia não ter


mistérios: baseados em alguns achados, os
cientistas haviam acreditado poder estabelecer em
linhas gerais a história de nossa evolução, e serem
capazes de acompanhar o desenvolvimento da
civilização através das idades da pedra, do bronze,
do ferro.
Mas o esquema fixado por esses estudiosos era
por demais simples para poder espelhar a
realidade: demonstram-no as sucessivas des-
cobertas que, longe de completar o mosaico,
estendem-no cada vez mais para todos os lados,
tornando-o progressivamente mais incom-
preensível.
Hoje encontramo-nos perante sinais de grandes
culturas desabrochadas em épocas que deveriam
caracterizar-se (de acordo com as teorias
clássicas) por absoluto primitivismo, e perante
outras que comprovam a existência de
importantes baluartes de civilização, lá onde nunca
os teríamos suspeitado.
Entre esses sinais estendem-se muitos fios,
estabelecendo contactos inacreditáveis.
Semelhanças, contrastes, anacronismos chegam
dia após dia para enriquecer e complicar o quadro
de nossa pré-história, um quadro que sòmente
parece algo menos perturbador desde que
estejamos dispostos a aceitar hipóteses que fogem
a todos os esquemas tradicionais, mas que nem
por isso devem ser julgadas absurdas. Admitamos,
por exemplo, a existência de continentes ou
grandes arquipélagos, atualmente submersos, no
Atlântico e no Pacífico, e os aspectos comuns da
história de terras bastante afastadas entre si
tornar-se-ão para nós explicáveis; pensemos em
grupos que sobreviveram a desastrosos
cataclismos que causaram o desaparecimento de
nações extremamente desenvolvidas, pensemos
nos seus esforços para dar nova vida às
civilizações extintas ou pelo menos utilizar-lhes os
restos, imaginemos suas desesperadas tentativas
de progredir entre gente bárbara, e muitas
contradições desapareceriam.
Surpreende, porventura, o fato de se achar um
fuzil, uma vitrola ou um binóculo entre os índios da
América do Sul, que ainda vivem como nossos
antepassados na Idade da Pedra? Parece incrível
ver esses seres primitivos desenhar sobre uma
pedra o perfil de um avião que chocou tão
profundamente sua fantasia ou copiar, com os
meios de que dispõem, algum apetrecho útil
produzido por alguma fábrica nossa e do qual um
único exemplar caiu em suas mãos? E então, por
que deveríamos ser cépticos extremados perante
os extraordinários conhecimentos científicos dos
egípcios, aos símbolos cósmicos dos antigos
habitantes de Malta, às instalações hidráulicas de
Tiro, aos "arranha-céus" de Cartago, às
maravilhosas construções de Jericó?

Jericó sem trombetas

A bíblica Jericó (cujas ruínas se encontram cerca de


23 quilômetros ao norte de Jerusalém) é uma das
mais antigas cidades do Oriente Médio. Josué a
tomou e a destruiu depois que as famosas
trombetas fizeram com que as muralhas ruíssem;
há quem suponha, a respeito disso, o emprêgo de
armas secretas, ultra-sons, "raios da morte", mas
trata-se de fábulas para crianças: o que ajudou o
lugar-tenente e sucessor de Moisés foi, muito
provàvelmente, um terremoto.
O ilustre arqueólogo americano Albright coloca a
data da fadada conquista entre 1.375 e 1.300 anos
antes de Cristo. Mas também antes daqueles
tempos as muralhas de Jericó foram arrasadas até
o chão várias vezes por fenômenos telúricos; e
quando os filhos de Israel lá chegaram, a cidade já
era bastante antiga, contando no seu ativo 7 ou 8
mil anos de história acidentada.
Não sabemos quem a fundou, quem levantou seus
primeiros muros de 5 metros de altura, quem a
teria circundado, após sua queda com um bastião
com 6 metros e meio de altura, quem construiu,
4.000 anos antes da mais antiga pirâmide, a
colossal torre com 9 metros de diâmetro, a mais
velha torre mediterrânea conhecida.
Sem dúvida foram engenheiros extremamente
hábeis, visto que até hoje é impossível arrancar
um só tijolo das ruínas. Mas aqui surge outro
quebra-cabeça: aqueles soberbos construtores não
conheciam a arte da olaria, ignoravam a cerâmica,
usavam utensílios de pedra, como os nossos mais
antigos e primitivos antepassados!
De sílex eram seus pratos, suas tigelas, todos seus
recipientes; de pederneira finamente trabalhada,
as lâminas, as serras, as verrumas, as raspadeiras;
de oxidana, os outros instrumentos. Isso sur-
preende ainda mais quando se sabe que as
moradas não somente eram sólidas como também
cômodas e muito mais racionais do que as de
épocas posteriores. Eram em forma de meio ovo,
possuindo provavelmente dois andares, com as
paredes formadas por tijolos ovais e o piso em
estuque cozido. Os cantos dos quartos eram
arredondados com o mesmo cuidado de certas
construções modernas, de maneira a impedir o
acúmulo de poeira.
É um fato sem comparação: sabemos que os povos
nômades renunciam ao vasilhame, demasiado
frágil, mas centenas e centenas de exemplos nos
haviam confirmado que logo que um grupo
humano se torna sedentário começa a modelar na
argila tudo quanto necessita para a vida do dia a
dia. Jericó, contudo, é uma exceção: ali os homens
moraram por milênios, cozeram ao sol seus tijolos,
fabricaram estuque, usaram a madeira para
coberturas trabalhadas, sem, contudo, chegar ao
vasilhame.
Por outro lado, os antigos habitantes de Jericó
conheciam e usavam a argila. Achados da cidade
pré-bíblica, que são considerados os mais
importantes, confirmam o fato: dez caveiras sobre
as quais foram modeladas feições de defuntos;
sôbre os rostos assim reconstituídos notam-se
ainda restos de tintas, e os olhos são substituídos
por conchas. O fato de essas cabeças, decepadas
do tronco, terem sido sepultadas sob o piso, faz
pensar no culto dos antepassados, na fé na
sobrevivência além da morte.
É impressionante notar que em nenhuma outra
parte do mundo foram achados costumes
parecidos, se excluirmos a Nova Guiné, onde ainda
hoje são praticados. Muitos indígenas da grande
ilha, convencidos de assim manter viva a alma do
morto, cortam-lhe a cabeça e sobre ela plasmam,
com argila, o retrato do desaparecido,
completando-o com os desenhos rituais ou as
pinturas de guerra que o extinto comumente
usava. E aqui também são duas conchas que
preenchem o lugar dos olhos!
Há uma só explicação convincente para a ausência
da cerâmica na evoluída Jericó, e para os outros
contrastes que afloram em muitos outros lugares.
Procuremos chegar até eles mediante um
exemplo.
Uma terrível guerra atômica convulsiona o mundo
inteiro. Dificultosamente, os sobreviventes
retomam a ascensão. Possuem ainda muitos
conhecimentos científicos e técnicos, mas faltam
meios para aplicar grande parte deles.
Recomeçam, entre outras coisas, a reconstruir
casas e cidades parecidas com as atuais, mas não
podem absolutamente abastecê-las de energia
elétrica, gás de rua e modernas instalações de
aquecimento central. Seguem-se algumas
gerações e essas coisas acabam esquecidas,
mesmo na teoria: inúmeros séculos deverão
passar antes que o homem volte a descobrir e
inventar tudo o que tornara mais fácil a vida de
seus antepassados.
E se no nono ou décimo milênio depois de Cristo os
arqueólogos de uma Terra que voltou a ser
adiantada encontrarem as ruínas de um
aglomerado urbano como foi descrito,
manifestarão perante a ausência de instalações
elétricas uma surpresa análoga à que sentimos
perante as ruínas sem vasilhames de Jericó.
Os autores e defensores das teorias clássicas se
apegam a um erro que resulta evidente do acima
esboçado, isto é, a convicção de que a caminhada
da humanidade se tenha dado com progresso mais
ou menos constante desde a idade da pedra até a
era atômica, sem choques capazes de influenciar
ou sustar sua ascensão.
Assurbanipal, último grande soberano assírio, que
reinou entre 669 e 626 a.C., possuía uma
biblioteca que continha, segundo alguns
historiadores, documentos de antes do dilúvio. E
essa hipótese apresenta-se aceitável se
rememorarmos as palavras que um dia o rei pro-
nunciou perante um grupo de sábios, indicando o
deserto: "Num tempo antiqüíssimo, surgiam lá
embaixo cidades muito poderosas, cujas muralhas
agora desapareceram. Mas nós conhecemos a
língua de seus habitantes, e a conservamos
gravada sobre tabuinhas".
Essas tabuinhas foram traduzidas só em parte; o
historiador Gérard Heym acredita que escondam
importantes segredos científicos, mas que teriam
revelado até agora unicamente dados matemáti-
cos, já suficientemente surpreendentes: tabelas
para multiplicações e divisões complexas, para
números elevados ao quadrado e ao cubo e outras
coisas mais.
Já no fim do século XVIII, o célebre astrônomo e
matemático Laplace nutria dúvidas sobre a
originalidade do que normalmente é atribuído à
genialidade grega. "É surpreendente" — escrevia
ele — "que os egípcios nunca tivessem desejado
comunicar-nos suas observações e noções
astronômicas. É conhecida, contudo, a reputação
de seus sacerdotes que ensinaram Tales,
Pitágoras, Eurodosso e Platão."
Em 1962 deu-se a clamorosa confirmação, com o
achado de arqueólogos iraquenses em Tel Dibae,
próximo a Bagdá, de uma tabuinha que reproduzia
o chamado "teorema de Pitágoras", gravada pelos
babilônios pelo menos 1.500 anos antes que o
filósofo e matemático de Samos visse a luz.
Já dissemos que a destruição de inúmeras
bibliotecas antigas nos impede de ter uma visão
aproximada da história de nosso globo e do
progresso humano; temos que salientar também
que muitos dos testemunhos que restaram foram
decifrados de maneira inexata, quando não
permanecem ininteligíveis, como aconteceria com
uma fita de gravador que caísse nas mãos de um
selvagem incapaz de imaginar, ainda que de
maneira bastante vaga, a existência de um
gravador de sons.
"Num compêndio-guia das linhas aéreas internas
dos Estados Unidos" — escrevem Louis Pauwels e
Jacques Bergier — lê-se: 'Pode escolher seu lugar
onde achar melhor: a reserva é registrada por um
robô eletrônico; outro robô guarda seu lugar no
avião escolhido. A passagem que será enviada
estará períuradal... etc. Imaginem agora o que
sairia na milésima tradução em um dialeto do
Amazonas, feita por pessoas que nunca viram um
avião, não sabem o que é um robô e não
conhecem os nomes dos locais mencionados no
guia..."
Isso sem levar em conta que a tecnologia antiga
pode ter enveredado por caminhos totalmente
diferentes dos da moderna, embora chegando a
resultados análogos: recordemos os estranhos
recipientes de cerâmica e vidro encontrados pelos
soviéticos no Turquestão e no deserto de Gobi, e
não esqueçamos que por anos e anos as pilhas de
Bagdá ficaram num obscuro canto de museu,
classificadas entre "objetos de culto" de
importância mínima!
Ouçamos ainda, a respeito, Pauwels e Bergier: "A
Alemanha se isolou do resto do mundo somente a
partir de 1932. Em 12 anos a evolução da técnica
do Reich tomou caminhos singularmente dife-
rentes. Se os alemães estavam atrasados na
pesquisa da bomba atômica, haviam, contudo
chegado a gigantescos foguetes, sem equivalentes
na Rússia ou na América. Se ignoravam o radar,
tinham desenvolvido reveladores raios
infravermelhos, igualmente eficazes. Atrás dessas
radicais diferenças em matéria de técnica,
encontramos diferenças filosóficas ainda mais
espantosas (...) se tais abismos puderam ser
cavados em 12 anos, no nosso mundo moderno, o
que pensar das civilizações que se desenvolveram
no passado? Até que ponto nossos arqueólogos
estão suficientemente capacitados para julgar a
situação das ciências, das técnicas, das filosofias,
da sabedoria entre os maias ou os khmer?"
Acrescentemos a isso as inimagináveis catástrofes
de que a Terra foi palco ao longo dos milênios, e
nos encontraremos na situação de quem procura
reconstituir um jogo complicado tendo em mãos
restos de um baralho desconhecido, cujas cartas
foram na grande maioria perdidas, e as poucas
que sobram se apresentam rasgadas, cha-
muscadas, manchadas.

Baalbek, mar de pórfiros17

Esse é o caso de Baalbek, cidade do Antilíbano à


qual nos referimos a respeito da colossal pedra
onde o estudioso soviético Agrest vê os restos de
um espaço-porto. Uma série de terremotos (o
último, avassalador, data de 1.759) reduziu a
metrópole a "um caos de maravilhas destruídas,
imenso mar de pórfiros e mármores, colunas e
capitéis"; mas o que ainda hoje podemos admirar
(a muralha da cerca, por exemplo, justamente
chamada "muro ciclópico", formada por blocos de
pedra de 120 metros de extensão e pesando 750
toneladas cada um) faz com que possamos ouvir
com compreensão a lenda árabe segundo a qual
"após o dilúvio, Nemrod, rei do Líbano, mandou
uma tribo de gigantes para reconstruir a cidade de
Baalbek", que, segundo outra lenda, teria sido
fundada nada mais, nada menos que por Caim,
"para fugir à ira e à maldição de Deus e criar um
povo de gigantes à sombra das sólidas muralhas
com as quais a cercou".
De qualquer maneira, Baalbek é antiqüíssima; nem
as tumbas romanas, nem as gregas ou fenícias que

17 O termo pórfiro é empregado em petrografia para designar rochas extrusivas e diques cuja
textura magmática se apresenta entremeada por cristais de tamanho maior que os do resto da massa.
(N. dos tradutores.)
se encontram em seus arredores podem revelar o
mistério que envolve seus construtores.
Sabemos um pouco mais de Ugarit, aniquilada no
século XIV a.C. de maneira tão obscura quão
espantosa; mas aqui também os enigmas são
inúmeros.
Abimilki, rei de Tiro, escreveu ao faraó Amenófis
IV: "A cidade real de Ugarit foi destruída pelo fogo.
Metade foi queimada, metade não existe mais". Os
sinais do incêndio são bastante evidentes, mas é
inadmissível que o fogo tenha conseguido
provocar, sozinho, o desastre de que ainda hoje
falam as casas desabadas, os muros des-
moronados, os gigantescos blocos às vezes
lançados a consideráveis distâncias. Um
terremoto? É duvidoso que as seqüelas de um
movimento sísmico forneçam esse quadro. Uma
guerra? As armas dos antigos povos mediterrâneos
não teriam sido suficientes para provocar tal
catástrofe. E é pelo menos estranho que na
mesma época tenham sido destruídas Tróia,
Cnossos e outras grandes cidades.
Foi em 1929 que o arqueólogo francês Claude
Schaeffer, descobriu, sob a colina de Ras Shamra,
nos arredores de Latakia, Síria, as ruínas de Ugarit,
um dos mais antigos núcleos dos cananeus, os que
muito antes dos hebreus habitaram as terras
bíblicas e aos quais os gregos, mais tarde, deram o
nome de fenícios.
Ugarit deve ter sido uma esplêndida cidade.
Escreve Ivar Lissner: "Extensos quarteirões eram
cortados por ruas retas, que se cruzavam em
ângulos retos. Havia casas com muitos quartos,
banheiro e perfeitas instalações sanitárias, canais
para águas servidas e racionais esgotos que
recolhiam as águas pluviais. Nos pátios havia
poços circundados por pequenos muros, cobertos
por belas lajes de pedra redondas, com uma
abertura no meio, protegida por pequenos telha-
dos apoiados sôbre quatro suportes. Perto dos
poços eram colocados grandes recipientes de
pedra onde se podia verter a água recolhida.
Provavelmente as salas de estar e os dormitórios
se achavam no segundo andar, onde se chegava
por escadas de pedra muito cômodas e bastante
largas".
Aqui encontramos de nôvo os monólitos (aqueles
monólitos que para os mais audazes estudiosos
podem representar astronaves), ligados à idéia de
divindade: sobre uma estrela vemos sentado o
deus El; o símbolo de sua esposa é um poste
sagrado, do qual encontramos sinal entre muitos
povos pré-históricos.
Um deus que teve grande importância na religião
dos cananeus foi Baal, o mesmo ao qual foi
dedicada a misteriosa Baalbek, contra o qual os
profetas do Antigo Testamento lutaram
violentamente, preocupados com a propagação de
seu culto, até o ponto de reduzi-lo a um demônio:
o nome Belzebu (em hebraico, Belzebuth) origina-
se diretamente de Baal.
Os cananeus conservavam viva a lembrança da
catástrofe ocorrida 11.000 anos antes, a ponto de
nunca terem certeza — como revela uma tabuinha
deles — que ao inverno se seguisse de fato a pri-
mavera.
Também Ugarit nos fala de viagens
extraordinárias: a 7 metros e meio de
profundidade (o campo das ruínas apresenta-se
com cinco estratos, correspondentes a outras
tantas civilizações, as mais antigas das quais
remontam a tempos imemoráveis) foram
encontradas agulhas, pulseiras e colares
provenientes de Creta, dos Bálcãs, do Cáucaso, do
coração da Europa (região do Reno) e da Ásia.
Somando tudo, não nos sentiríamos à vontade
considerando loucos sonhadores os que classificam
os cananeus e os fenícios como os herdeiros, mais
favorecidos pela sorte, de uma grande civilização
anterior. Nesses povos, as construções tornam-se,
com o passar do tempo, menos monumentais e
mais práticas, mas nem por isso deixam de nos
surpreender.
Tiro, uma das mais famosas cidades fenícias,
surgia lá onde hoje se encontra sôbre a ponta de
uma pequena península o centro libanês de Sur.
Ela, aliás, se projetava bem mais para ocidente e
era uma ilha. Descobriu-o em 1934 o estudioso
francês Poidebard, por meio de fotografia aérea,
formulando uma hipótese que mais tarde deveria
ser confirmada pela exploração submarina.
Recorde-se que foi Alexandre, o Grande, que
transformou a ilha numa península. Para levar o
ataque a Tiro, em 332 a.C., ele mandou construir
um dique com 60 metros de largura, que unisse a
cidade à terra firme; o gigantesco trabalho apagou
para sempre dos mapas um estreito de 600
metros: com o tempo, os depósitos e as
infiltrações de areia, de fato, transformaram o
dique em terra compacta.
Embora essa obra possa parecer notável, ela é,
contudo, "redimensionada" pela arquitetura de
Tiro. O historiador grego Flávio Arriano, que viveu
entre o século I e II d.C., nos conta que a cidade
"tinha muralhas com 50 metros de altura"; e que,
pelo pouco espaço disponível, "os homens viviam
em casas de quatro a cinco andares de altura", e
isso foi confirmado pelas observações submarinas,
as quais revelaram ter o porto compreendido, na
zona sul, cais construídos segundo critérios
"moderníssimos"; um deles ainda está quase
intacto sobre o fundo: tem 8 metros de largura por
750 de comprimento!
Três mil anos atrás, os fenícios desviaram a
nascente de Ras el-Ain, que brotava sôbre a terra
firme perto de Palaeytiros (metrópole oposta à
ilha, espalhada por 13 quilômetros) para que a
água irrigasse suas lavouras na extremidade do
apêndice continental e para poder encher com
facilidade barcos-tanques. A ilha, de fato, não tinha
água potável e devia ser abastecida por meio de
gigantescos reservatórios. Mas os habitantes de
Tiro devem ter feito algo mais: deviam ter mesmo
construído um conduto submarino, pois de outra
maneira não se explica como eles teriam
conseguido resistir, completamente isolados do
resto do mundo, por 13 anos consecutivos, ao
cêrco efetuado por Nebukadnezar III (mais
conhecido como Nabucodonosor, o Grande), rei da
Babilônia e de Nínive, desde 585 até 572 a.C.
Nenhum reservatório, por grande que fôsse,
poderia ter abastecido por tempo tão longo uma
população de pelo menos 25.000 pessoas.
Os fenícios e seus descendentes criaram outras
maravilhas em Cartago, onde havia edifícios de
andares. No período de seu maior esplendor, a
cidade chegou a abrigar 700.000 habitantes, como
conta o famoso geógrafo grego Estrabão.
Como sabemos, aqui nasceram as primeiras
moedas metálicas, as primeiras sociedades por
ação, os primeiros empréstimos pelo Estado. E
para defender aquela grande potência econômica
havia um fortíssimo exército, equipado com
temível "artilharia', e com meios adequados de
proteção: caso os inimigos também possuíssem
catapultas e a cidade fosse atacada, podia-se
recorrer aos imensos Bunker subterrâneos, cada
um capaz cie abrigar 300 elefantes de guerra.

CAPÍTULO XII
Os Mestres Errantes

VOLTANDO A TEMPOS anteriores, achamos que devemos


dar pelo menos uma olhada, ainda que rápida, nos
imponentes restos deixados pelos "mestres
errantes", pelos portadores de civilizações desapa-
recidas numa Europa então sem nome.
A primeira parada obrigatória é Malta, pois não há
parte alguma no globo tão cheia de construções
megalíticas como a pequena ilha mediterrânea.
Não só abundam monumentos megalíticos, não só
se abrem inúmeras galerias com câmaras
subterrâneas escavadas — sabe-se lá porquê —
em três níveis, com poços que se perdem nas
entranhas da terra, como há também
estranhíssimas trilhas com 10 a 15 centímetros de
largura, de que ninguém soube ainda explicar a
finalidade. São sem dúvida, antiqüíssimas, pois
algumas passam por baixo de tumbas do período
fenício e de estratos mais antigos ainda. Mas,
embora exaustivamente estudadas, só nos
puderam dizer uma coisa: que Malta devia ser
antigamente muito mais extensa e ligada (com as
vizinhas ilhas de Gozo, Comino e Filfla) quer à Itá-
lia, quer ao continente africano; se assim não
tivesse sido, as trilhas não se perderiam no mar
nem parariam na borda de precipícios evi-
dentemente abertos por uma grande catástrofe.
Isso também é demonstrado pelos relevos
geológicos e pelos ossos de elefantes,
hipopótamos, veados achados naquelas terras. Já
há mais de 100.000 anos o homem vivia em Malta,
como ficou comprovado com a descoberta de
dentes junto com os restos de hipopótamos anões
(paquidermes extintos há tempo) nos arredores de
La Valletta. Mas por que não foi encontrado na ilha
um só esqueleto humano remontando ao período
das grandes construções?
Alguma esperança nasceu em 1915, quando o
arqueólogo Temístocles Zammit começou a trazer
à luz as primeiras ruínas dos edifícios —
tipicamente malteses — formados por duas salas
ovais, divididas por um corredor. Mas nem entre as
paredes, nem sob os pisos desses supostos
templos, construídos com blocos ciclópicos, foram
achados restos dos desconhecidos engenheiros.
No presumido santuário de Mnaidra, formado por
dois colossais edifícios em duplo oval,
encontraram-se montes de vasos neolíticos. "Estes
verdadeiros prodígios de pedra, vistos por cima" —
escreve Ivar Lissner — "parecem o brinquedo
quebrado de um gigante e permanecem, em
última análise, incompreensíveis."
Impressão análoga surge em face de "Gigântea": é
este o nome convencionado para as ruínas de dois
colossais templos de Gozo, a ilha irmã de Malta.
Blocos e lajes enormes foram transportados para
lá, de muitos quilômetros de distância, pois o
pesado material de construção não existia nas
vizinhanças. Algumas pedras da "Gigântea" têm
mais de 5 metros de altura, e uma delas mede 8
metros de altura por 4 de largura!
"Empolgante" — anota ainda Ivar Lissner — "é o
tamanho de algumas colunas e mesas de pedra
monolítica das ruínas de Hajar Kim. Uma coluna,
por exemplo, tem mais de 5 metros de altura; uma
mesa, 7 metros de comprimento por 3 de largura e
65 centímetros de espessura. Carregar um peso
como aquele sobre um vagão de carga seria
impossível sem auxílio dos mais modernos meios
técnicos."
E prossegue: "É extremamente interessante notar
que os criadores daquelas gigantescas obras
conheciam a navegação. A cultura neolítica de
Malta deve, de fato, ter mantido relações com
qualquer parte do mundo antigo. Podemos afirmá-
lo baseados no achado de objetos de obsidiana,
jadeíta e nefrita, pedras que não existem em
Malta. Provavelmente também o marfim foi
importado, pois os elefantes há tempo haviam
desaparecido da região mediterrânea, quando na
ilha dominava aquela estirpe de construtores".
Gigantes ou herdeiros de gigantes? A parte inferior
de uma estátua feminina de estatura inusitada,
achada em Hal Tarxien, poderia reforçar as
suposições a que as proporções de tôdas as obras
maltesas induzem. Os instrumentos de pedra
descobertos, contudo, não a encorajam. Será que
se trata de instrumentos forjados numa época
posterior, quando já a raça dos "engenheiros
ciclópicos" fôra aniquilada ou reconduzida a nível
primitivo? Não é fácil, pois, conciliar a
grandiosidade dos monumentos malteses com a
absoluta falta de instrumentos metálicos naquela
ilha.
Em algumas construções notam-se blocos de
pedra com três metros e meio de lado, com
rodapé, e rodeados de muro por três de seus
lados. Nesses blocos há cinco furos e mais um que
se encontra no ângulo direito de um dos rodapés.
Talvez esses buracos possam relacionar-se com as
bolinhas de diferente tamanho encontradas em
grande quantidade a poucos metros dos blocos.
Alguns arqueólogos levantaram a hipótese de que
as esferas eram lançadas apontando-se para os
buracos, numa espécie de jogo religioso destinado
a fornecer indicações proféticas aos participantes.
Outros, ao contrário, pensam num ritual, e outros
ainda, influenciados pelas lendas astrais, acham
até que os antigos malteses quiseram representar
simbolicamente a alimentação de um motor
espacial com combustível atômico. Está-se de fato
difundindo cada vez mais a opinião de que certas
cerimônias mágicas não passam de pueris
tentativas para reproduzir operações cujas
conseqüências chocaram os povos primitivos; e
que isso corresponde, ao menos em parte, à
realidade, é demonstrado por vários exemplos18.
Um, recente, é fornecido por alguns grupos de
índios mexicanos que, tendo assistido ao
"bombardeamento das nuvens", realizado por
aviões, com substâncias químicas capazes de
provocar precipitações atmosféricas, lançam
contra o céu pedaços de madeira com rudimentar
aspecto de avião, na ilusão de conseguir dessa
maneira a chuva.
Mas também pode ser que aquelas bolinhas nada
tenham a ver com os orifícios e que, ao contrário,
devam ser postas em relação com as enormes
esferas de pedra encontradas em quase todos os
campos de ruínas maltesas. E aqui não podemos
impedir que o pensamento se desvie para as
esferas de sílex, de variadíssimos tamanhos,
espalhadas, como veremos, nas selvas da Costa
Rica e da Guatemala, representando constelações
e sistemas solares.
Muito singular é o fato de em Malta abundarem os
sinais da espiral, encontrada em muitas partes do
globo como representação estilizada do Universo.
De que maneira os antigos teriam chegado a
18 É curioso o acontecido com os índios papuas (Nova Guiné), durante a Segunda Guerra Mundial.
Vendo os brancos chegar, abrir pistas na selva, falar no rádio e assim receber suprimentos por via
aérea, passaram a imitar grosseiramente o "ritual" dos brancos. N3o houve quem convencesse os
nativos de que os próprios brancos fabricavam a comida e os "pássaros metálicos". Os papuas
construíam arremedos de antenas e falavam dentro de latas vazias, acreditando copiar a "mágica"
dos brancos. Nascia assim o culto cargo (em inglês, carregamento), a partir da observação da
técnica científica. (N. dos tradutores.)
conhecer a forma característica da maioria das
"ilhas cósmicas" é um mistério cuja solução só
pode ser aventada por meio de hipóteses bastante
ousadas.

O povo dos nuragues

Alguém, tentado pelos monumentos ciclópicos,


gostaria de unir Malta à Sardenha com um traço
decisivo, mas seria uma operação totalmente
arbitrária, pois quando já há milênios a primeira
ilha era sulcada pelas misteriosas galerias, a
segunda era ainda completamente desabitada.
Se os "mestres errantes", já empobrecidos em sua
herança por inúmeros séculos de migrações e de
duras vicissitudes, de contactos e conúbios com
povos bárbaros, chegaram às costas sardenhas,
isso se deu em tempos relativamente recentes.
Sem dúvida, os primeiros homens chegaram à
Sardenha no 5º milênio antes de Cristo, para ficar
quase que só perto do mar, em cavernas ou em
refúgios de palha, para depois prosseguir até o
continente. Outro fluxo migratório, também vindo
da Ásia, chegou à ilha dois milênios mais tarde,
deixando desta vez vestígios grandiosos, para
amalgamar-se no fim com os Shardena, também
asiáticos, desembarcados ao redor de 1.400 a.C.
É "àqueles da segunda vaga" que devemos os
nuragues, imponentes construções de pedra em
forma de cone truncado que inicialmente deveriam
ser mais de 8.000; restam agora as ruínas de
6.500 torres dessa natureza, algumas baixas,
outras com até 20 metros de altura e paredes com
2 a 5 metros de espessura.
Discutiu-se muito sobre a finalidade dos nuragues,
mas a ciência acredita hoje poder dar a palavra
definitiva acerca do assunto. "Eles serviam" — diz
Ivar Lissner — "para defesa de um povo atacado
continuamente. A Sardenha nunca foi
politicamente unida. Cada grupo ou tribo era
regido por um chefe, e para eles as torres serviam
como casa de guarnição. Com o passar do tempo,
as torres foram ampliadas até se tornarem amplas
fortalezas, capazes de dar abrigo, em caso de
necessidade, a algumas centenas de pessoas. Os
lígures, os fenícios, os cartagineses e afinal os
romanos sempre atacaram os sardenhos, sempre
tiveram que combater, sempre foram fatalmente
vencidos.
"Mesmo que o inimigo conseguisse entrar nas
torres, estava exposto à morte. Havia de fato
portas que conduziam a obscuros ângulos sem
saída, armadilhas de toda espécie. Das trevas
saíam os guerreiros armados de arco e flecha,
lanças e espadas, matando os agressores.
"Um telhado chato, para observação e defesa,
circundado por um parapeito talvez de madeira, e
guarnecido mais tarde com máquinas para lançar
pedras e outros projetis, tornava a penetração
extremamente perigosa. Os espaldões defensivos
sardos são as primeiríssimas obras militares dêsse
tipo no Mediterrâneo!"
A civilização dos nuragues não conhecia a escrita,
e sua origem só pode ser estabelecida pelo estudo
de nomes que devem ter permanecido invariáveis,
ou quase, ao longo de milênios: e êsses vocábulos
provêm de Altai, Mesopotâmia, Azerbajã, Cáucaso,
Nuristã, Kazakistã e até Siankiang e Tibete.
Os nuragues, ademais, lembram as construções de
Simbabwe e as peruanas, enquanto seu interior faz
pensar em Tirinto e Micenas.
E é também curioso notar como os locais sagrados
dessa civilização se encontravam ou em lugares
elevados ou perto de nascentes, como para
inúmeros povos da Antiguidade. Os especialistas
conservadores afirmam que nada há de peculiar
nisso, pois nossos antepassados eram
impressionados pela majestade da abóbada
celeste, pelos fenômenos atmosféricos (atribuídos
a potências sobrenaturais) e pela ação fecunda das
águas.
"O 'monte cósmico' é uma representação
antiqüíssima na Mesopotâmia" — afirma, por sua
vez, lvar Lissner. "Os povos de Altai acreditavam,
havia milênios, que certas árvores e postes
conduzissem ao Ente Supremo, que assinalassem
o centro do mundo e que sobre ele luzisse a
Estréia Polar. Os gregos reencontraram o 'monte
cósmico' no Olimpo, enquanto no Antigo
Testamento ele é representado pelo Sinai. Altas
montanhas, cujos cumes se perdiam entre nuvens,
eram consideradas divinas na China, no Japão, na
Finlândia, em Creta, na Grécia, na Fenícia e em
todo o Mediterrâneo. A tôrre de Babel e os
ziguratos babilônicos não passam de símbolos do
'monte cósmico'."
Os defensores das "hipóteses astrais" afirmam que
na base dessas crenças há fatos realmente
ocorridos, juntando as árvores e os postes
sagrados aos obeliscos, para apresentá-los como
possíveis símbolos astronáuticos; encontram nos
santuários das montanhas, nos ziguratos e nas
pirâmides a ânsia de nossos antepassados de se
aproximar do céu, de onde teriam descido os
deuses em carne e osso, com roupas espaciais.
Quanto às nascentes, há quem atribua o respeito
religioso, de que foram objeto, mais à impressão
despertada por certas nascentes radioativas,
curativas ou, de qualquer maneira, contendo
alguma propriedade extraordinária, do que
pròpriamente à idéia de água fecundante.
"Espelhos dos deuses", de fato, ainda hoje são
chamados pelos primitivos povos da América
Central e do Sul os pequenos lagos contaminados
por raízes de plantas que fornecem vários hipnó-
ticos; quanto à Sardenha, é sintomático notar-se
que algumas fontes gozam fama de curar doenças
dos olhos, crença que se encontra um pouco no
mundo inteiro. Na Mongólia, por exemplo, sempre
segundo Lissner, há uma nascente que, de acordo
com os nômades, devolve a visão aos cegos e
liberta os membros dos paralíticos, a tal ponto que
em seus arredores se encontram inúmeras muletas
e óculos que se tornaram supérfluos após o
milagroso banho.
Se algo liga Malta à Sardenha, é só o segrêdo do
transporte do material para construção em lugares
íngremes, às vezes com percursos incríveis. E este
é um enigma que nos desafia em quase todos os
centros arqueológicos do mundo.
O interplanetário sepultado

A Europa guarda outras surpresas: o continente


que acreditamos conhecer em seus cantos mais
escondidos, em cujo passado pensamos poder ler
como num familiar livro escolar até algo
enfadonho, é uma caixa de surpresas que bem
dificilmente poderemos remexer à vontade. No
fundo de nossos mares e além do leito de nossos
rios, sob os plácidos campos e as cidades
febricitantes, sob nossa própria casa, dormem
surpreendentes testemunhos, restos da ficção
científica que foi história.
Exatamente como, sob o chão da sonolenta Glozel,
uma minúscula aldeia ao sul de Vichy, França,
foram encontrados por acaso, em 1924 alguns
tijolos, tabuinhas gravadas, dois trinchetes, dois
pequenos machados e duas pedras com inscrições
que remontam a um período compreendido entre
10 e 15 mil anos atrás. Aos poucos o lugar revelou-
se verdadeira mina de tesouros pré-históricos,
presenteando os estudiosos com vasta gama de
apetrechos de pedra, outras pedras com inscrições
e desenhos, estranhos vasos que parecem re-
presentar cabeças humanas fechadas em
capacetes espaciais, a tal ponto que um deles foi
batizado de "o interplanetário", e mais de 100
tabuinhas com mensagens indecifráveis, redigidas
numa escrita linear que compreende 11 sinais dos
alfabetos modernos, ou sejam, as letras C, H, I, J,
K, L, O, T, V, W, X.
Há também outro testemunho notável que a
França pode oferecer: os grafitos de Lussac-le-
Château (departamento de Vienne), descobertos
em 1937. "É extraordinário!" — disse um dos
arqueólogos que os trouxeram à luz. Nestas
pedras, gravadas há 15.000 anos, homens,
mulheres e crianças se vestem como nós, usam
saias, calças, sapatos e chapéus!"
Devemos mencionar ainda as inscrições e pinturas
da gruta de Lascaux, no departamento de
Dordonha, descobertas em 1940. "Aquela arte de
25.000 anos atrás" — escreve o jornalista Loris
Mannucci — "impressiona pela perfeição do
desenho, o movimento dos objetos, a escolha das
cores, onde predominam amarelo, vermelho e
negro, e obriga a reconsiderar muitos conceitos
relativos à pré-história. As pinturas pertencem a
várias épocas, e os cientistas ainda se perguntam
que tipo de andaime permitiu a seus autores
decorar a abóbada, a vários metros do chão."
E não é esse o único enigma de Lascaux: além do
costumeiro problema da iluminação, temos que
nos perguntar com que meios os artistas da pré-
história conseguiram impedir que seus trabalhos
se deteriorassem se, — é ainda o jornalista que
nos informa — "o gás carbônico libertado pela
respiração dos turistas já tem danificado
gravemente, em 15 anos, as maravilhosas
decorações pintadas sobre as paredes, e
provocado em vários pontos um comêço de
desagregação da rocha".
Quer se tratasse de habitações, quer de santuário,
as grutas devem ter estado cheias de gente por
muito tempo, mas as pinturas se conservaram
para depois começarem a se desgastar, em nosso
evoluído século, em 15 anos, apesar de tôdas as
precauções tomadas.
"Para evitar a destruição daquela riqueza
inestimável foram realizadas instalações
complicadas que custaram dezenas de milhões.
Deviam regenerar o ar e manter as grutas numa
temperatura constante, segundo os princípios
aplicados aos submarinos; várias portas de bronze
impediam a entrada do ar fresco de fora; graças à
eletrônica, a temperatura e a umidade eram
mantidas no grau desejado; o gás carbônico era
destruído (teoricamente) por um sistema especial;
e quando tudo isso se achava pronto, as grutas
foram abertas ao público."
Aqui também não faltam as chamadas a um
passado fantástico, desde os cavalos, "que
lembram pinturas asiáticas", como justamente
afirma Mannucci, à representação de "um homem
com cabeça de ave que cai sob o assalto de um
bisão ferido".
Os mestres de Lascaux vieram, portanto da Ásia ou
mesmo da lendária Mu, trazendo consigo, com
prodígios de arte e técnica, a lembrança dos
gigantes como é viva no Saara (as figuras têm pro-
porções titânicas) e aquele misterioso homem-
pássaro que parece simbolizar seres capazes de se
deslocar no ar, talvez no espaço, criaturas — como
afirmam Agrest, Kasanzev e Jirov — descidas de
outro planeta e destinadas afinal a perecer perante
os monstros terrestres, contra os quais tiveram de
lutar duramente em seu longo exílio sôbre o
planeta azul?
Igualmente enigmática é a civilização que florescia
5-6 mil anos atrás no lugar atualmente ocupado
por Londres, e da qual estão guardados no Museu
Britânico sòmente alguns estranhos pratos de
bronze.
O arqueólogo Reginald Williamson suspeitou que
uma cidade ainda mais antiga devia achar-se sob a
atual metrópole, e cavou pacientemente, por anos,
com os modestos meios de que dispunha, no lodo
do Tâmisa. Sua paciência foi premiada: encontrou
inicialmente algumas pontas de lança, depois
alicerces de casas e, por fim, pescou vários objetos
que testemunham uma técnica de fabricação
bastante evoluída: esplêndidos ornamentos,
machados para combate, estranhas lâminas
quadradas, espadas bem apreciáveis.
Já mencionamos o achado, ao sul da Inglaterra, de
uma espada semelhante às usadas pelos
guerreiros aqueus. Será que foi feita pelos
habitantes daquela antiqüfssima Londres... em
primeira mão? Não podemos excluir a hipótese,
pois os objetos encontrados pelo Prof. Williamson
são ricos de elementos quer nórdicos quer medi-
terrâneos, e abrem a porta a dezenas de
hipóteses.
Já recorremos a suposições bastante arrojadas e,
chegando até certa altura, também para este caso
falta uma base, a não ser que queiramos passar
para o terreno da pura fantasia.
"Uma fundação, um centro povoado" — escreve
Ivar Lissner — "deve superar numerosas
tempestades, tem que enraizar-se profundamente
na terra a fim de que o tempo não apague os seus
vestígios. Um número infinito de sinais, deixados
pelo homem, desapareceu. Onde se deram
catástrofes naturais, dilúvios, terremotos, a
lembrança de civilizações inteiras foi, além disso,
perdida, irremediavelmente perdida."

Mona Lisa de Tartesso

Tartesso ilustra muito bem, até demais,


infelizmente, o que diz o estudioso letão. Ela não é
inalcançável como as terras tragadas pelos
oceanos, como os núcleos esmagados por
fenômenos telúricos de potência inacreditável e
sepultados quem sabe a que profundeza. Tartesso
está próxima, ao alcance da mão: temos
descrições que delimitam a zona de maneira
detalhada. Contudo, a cidade permanece
inatingível.
Não longe da foz do Guadalquivir, existiu durante
algum tempo aquilo que os romanos chamavam
Lacus Ligustinus, atualmente área pantanosa.
Daquele espelho dágua o rio ia ao mar em três
braços, e sobre uma das ilhas formadas em sua foz
parece que surgia Tartesso, que alguns estudiosos,
como o alemão Adolf Schulten, consideram a
capital da Atlântida.
Por várias razões essa hipótese não nos parece
aceitável: não podemos, contudo, excluir que essa
cidade-estado — a única do Ocidente pré-romano
— fôsse em épocas muito distantes uma colônia da
Atlântida, talvez o ponto extremo de contacto com
os domínios de Mu.
Por meio das crônicas que chegaram até nós,
conseguimos dar uma olhada somente no último
período da civilização de Tartesso, uma olhada
bastante superficial sobre 600 anos, desde 1.100
a.C. até o desaparecimento do importante centro,
o que se deu por volta de 500 a.C. Naquela época,
Tartesso dominava todo o Sul espanhol, com Jerez,
Sevilha, Córdoba, Granada, Murcia, Cartagena e
toda a Andaluzia. Seus senhores foram descritos
como amantes de viagens, da caça, das artes e
das ciências: a um dêles, certo rei Gargoris, o
historiador latino Juniano Justino (séculos II-III a.C.)
atribui o mérito de ter introduzido a criação de
abelhas; citamos o fato como curiosidade, pois
demasiadas lendas correm sobre o assunto, impe-
dindo que se possa tomar alguma a sério.
De qualquer maneira, não restam vestígios da
cidade, excluindo-se as enormes pedras
esquadradas, que foram usadas pelos romanos
para construção de outros centros, pedras, dizia-se
justamente, extraídas dos muros de Tartesso.
Muitos objetos, ao contrário, chegaram até nós,
testemunhando a grande civilização da "Atlântida
espanhola" e tornando ainda mais apaixonante o
mistério. Em 30 de setembro de 1958, durante os
trabalhos de construção iniciados sôbre o morro El
Carambolo, nos arredores de Sevilha, foi
casualmente descoberto um tesouro de
inestimável valor arqueológico. Tratava-se de 21
peças de ouro puríssimo: um colar, dois braceletes,
dois pingentes e 16 plaquetas de uma coroa ou
cinto, cujos motivos são bastante surpreendentes;
alguns deles, de fato, se encontram em vasos de
Micenas, sobre tabuinhas de jogo de marfim de
Megido (antiga cidade cananéia), nas pinturas
murais dos palácios assírios e sírios de Khorsabad,
Arslan-Tash, Tell-Barsib, numa tumba de Chipre,
nas estatuetas do Vale de Cauca (Colômbia
ocidental) e numa famosa jóia incaica encontrada
em Cusco, Peru. A êste país também nos leva um
lindo vaso-garrafa em forma de galo, conservado
no museu de Cádis, que tem seu correspondente
em Chimbote.
Claríssimas influências gregas e fenícias revela, ao
contrário, uma ânfora de bronze descoberta em
1953 nos arredores de Dom Benito. É um objeto
que, como afirma o ilustre arqueólogo espanhol
Antônio Blanco Freijeiro, docente da Universidade
de Sevilha e conservador do Museu do Prado,
supera em beleza todos os achados análogos da
Península Ibérica.
Poderíamos citar ainda muitas outras interessantes
descobertas relativas à enigmática civilização de
Tartesso, mas limitar-nos-emos às duas mais
sensacionais. A primeira é constituída por um
daqueles sarcófagos chamados "antropomorfos"
pelo fato de sua forma imitar a do corpo humano.
Foi encontrado em Ponta da Vaca, perto de Cádis,
com os restos de um personagem que viveu 5
séculos antes de Cristo, representado sobre a
campa como um majestoso indivíduo barbudo.
Segundo o arqueólogo Bosch-Gimpera, o sarcófago
é de origem fenícia, mas evidentíssimos são os
influxos egípcios e gregos: "Trata-se de um
príncipe aqui trazido após sua morte, da Fenícia,
talvez de Sídon, na Síria? Ou de um rei de Gadir (a
atual Cádis), que quis descansar em sua terra
natal? De qualquer maneira, essa maravilhosa
obra fenícia nos fala das ligações existentes entre
a oceânica Cádis e o antigo Oriente".
Relações ainda mais fantásticas são sugeridas pela
chamada "Mona Lisa da Espanha" ou, do lugar do
achado, "senhora de Elche". É uma estatueta de 53
centímetros que representa — como acreditamos
poder afirmar, com o Prof. Blanco Freijeiro — uma
divindade de Tartesso. O busto lembra a arte
grega e púnica, mas também lembra de imediato,
para quem tenha alguma familiaridade com
arqueologia da América antiga, alguns conhecidos
achados da Colômbia, Honduras e, principalmente,
faz pensar em Chachiuhlicue, a deusa asteca da
chuva I
"No século IV depois de Cristo" — escreve o Prof.
Lissner, concluindo seu excelente estudo sôbre
Tartesso — "Rufo Festo Avieno fala de como se
tornaram estéreis e decadentes os lugares antigos
que êle conheceu pessoalmente. Narra a
impressionante regressão da população e a ruína
final. E aqui eu entendo como muitas cidades
antigamente florescentes se encontram agora sob
as vastas e fecundas planícies andaluzas.
"Tudo desapareceu, tudo se tornou pó ou foi
submerso pelas vagas do Atlântico. Mas a Terra
descobre, lenta e hesitante como é de sua própria
natureza, sempre novos tesouros. E estes nos
contam do apreciável artesanato, da grande arte,
do ouro e da riqueza de Tartesso."
É muito difícil as ruínas da grande cidade venham
a ser trazidas à luz, mas se isso acontecesse, elas
poderiam fornecer a chave para muitos segredos.
Porque demasiados caminhos da Europa, África,
Ásia e mesmo da América se reúnem em Tartesso.
Os caminhos que, com Mu, trazem aos nossos
sonhos outro lendário berço de civilização: a
Atlântida.

CAPÍTULO XIII
O Grande Mistério da Atlântida

PARA ALEM DAQUELAS QUE hoje se chamam Colunas de


Hércules, achava-se um grande continente dito
Posseidônis ou Atlântis, que media 3.000 estádios
de largura e 2.000 de comprimento, maior que a
Ásia e a Líbia tomadas juntas, e dele se podia ir
para as outras ilhas e destas ilhas novamente para
a terra firme que circunda o mar em verdade
chamado..."
Assim Platão começa a falar da Atlântida, o
fabuloso continente desaparecido. As indicações,
que o grande filósofo nos deixou nos dois célebres
diálogos: Timeu (de onde foi extraído o trecho
citado) e Crítias, são infelizmente muito vagas,
mas foram suficientes para dar início a uma
avalanche de papel impresso que ainda não parece
querer parar: pelo menos 25.000 volumes foram
escritos sobre esse assunto, e os artigos se contam
em centenas de milhares.
Ocultistas, fanáticos cultores de "ciências
esotéricas", e até débeis mentais tornaram suas
opiniões conhecidas, colocando a Atlântida em
tudo quanto é lugar, desde a Palestina até a Índia.
Mas também os cientistas de fama se ocuparam
com o problema, e se muitos erraram, temos que
lhes reconhecer a atenuante de se terem orientado
por vestígios enganadores: é o caso do francês
Berlioux e dos alemães Hermann e Frobenius que,
enganados por algumas ruínas sem idade
conhecida localizaram a Atlântida respectivamente
no sistema montanhoso do Atlas, na Tunísia e na
Costa do Ouro.
Não pensamos em tomar ao pé da letra tudo
quanto Platão conta acerca da Atlântida; mas é
provável que a descrição geográfica acima citada
contenha boa dose de verdade: as "outras" ilhas
poderiam muito bem ser as Antilhas e na "terra
firme" não é absurdo identificar a América.
Certa confirmação poderia vir de uma narrativa
muito menos conhecida que as obras do filósofo
ateniense. Constava ela dos escritos de Teopompo
de Quios (século IV a.C.), cujos trabalhos foram
perdidos, mas foi citada por Cláudio Eliano de
Preneste (170-135 a.C.). Trata-se de um diálogo
entre Midas, o mítico rei da Frigia, e o sábio Sileno.
"O centauro" — resume o estudioso austríaco E.
Georg — "descreve ao soberano as fabulosas
riquezas da terra de Merópidas, que se estende,
muito para além das Colunas de Hércules, nos
limites do oceano (...). A humanidade, conta
Sileno, teve lá sua origem, onde, sob um céu
dulcíssimo, viviam os merópides, cujo nome deriva
da filha de Atlas. O chão é maravilhosamente fértil,
a ponto de permitir três colheitas. As cidades são
enormes e esplêndidas, e ouro e prata encontram-
se em tamanha quantidade que não são
considerados mais importantes que qualquer outro
metal pelos mortais comuns. O rei, surpreso,
pergunta ao sábio humanóide como podem essas
coisas ser conhecidas pelos gregos. Sileno explica
que, em tempos muito antigos, os merópides
chegaram com seus navios às terras dos
hiperbóreos, que moram além do vento do norte
(talvez na Britânia, Irlanda ou Escócia) e dos
hiperbóreos a informação tinha eventualmente
chegado à Grécia e ao Oriente Médio."
Aceitando esses pressupostos, veremos que o Prof.
Paul Le Cour aproxima-se mais do que qualquer
outro da realidade, quando "encaixa" a Atlântida,
baseado em relevos submarinos, entre as duas
Américas a oeste, a Europa e a África a leste,
embora as teorias mais recentes tenham
fragmentado a massa por êle desenhada num
núcleo central coroado por numerosos
arquipélagos.
Outros estudiosos poderiam ter acertado apenas
parcialmente, pelo fato de identificar toda a
Atlântida com um ou outro ponto de seu território
periférico. Entre os mais conhecidos citamos o
Padre Kirker que, em seu trabalho Mundus
subterraneus (1678) aponta nas Ilhas Canárias e
nos Açores os últimos topos emersos do misterioso
continente. Agora, dois cientistas do Instituto
Geográfico Alemão, os professores O. Yessen e A.
Schulten, confirmam o parecer do ilustre religioso,
mas acrescentam que se trataria somente de
partes da submersa Atlântida.
A última guerra de Atland

Numa posição análoga à do Padre Kirker, poderia


ter-se colocado outro eclesiástico, o Pastor Jürgen
Spanuth, que considera a Ilha de Heligoland, no
Mar do Norte, o último baluarte da terra desa-
parecida.
Ele se baseia nas origens da revelação platônica,
que muito provavelmente devem remontar a uma
visita realizada ao Egito pelo grande legislador
ateniense Sólon entre 570 e 560 a.C. O célebre
arconte teve a oportunidade de ver, entre outras
coisas, as inscrições que havia 600 anos o faraó
Ramsés III mandara executar sobre as paredes do
templo de Medinet Habu, relativas a fatos
ocorridos ao redor de 1.200 a.C.; interessado, ele
as fez traduzir para o grego pelo sacerdote
Sonchis, desejoso de utilizá-las para uma obra
poética. Sólon, contudo, morreu um ano mais
tarde, e seus apontamentos chegaram às mãos de
Platão, que os utilizou nos dois diálogos citados.
Pelas inscrições de Medinet Habu tem-se que os
atlantes iniciaram uma grande expedição em
direção ao sul, ocupando a Grécia (exceto, talvez,
a cidade de Atenas e a Ática, que não conseguiram
submeter), desembarcando em Creta e Chipre,
chegando até a Ásia (note-se que com esse termo
os antigos indicam sempre e somente o Oriente
Médio) e atacando o Egito por mar e por terra.
Durante essa empresa eles chegaram mesmo a
violar o delta do Nilo com uma potente frota, mas
afinal acabaram por ser derrotados.

Reconstituição, pelo desenhista Hans Liska, da


cidadela Atlântida, nos arredores de Heligoland. O
templo central lembra tanto a Mesopotâmia
quanto a América pré-colombiana.
A arca de Noé, como foi fotografada por um
major da aviação turca, a 2.000 metros acima do
Monte Ararat.

Locais onde caiu o planetóide que causou o fim


da Atlântida.
A história grega confirma que uma invasão dessa
natureza deu-se realmente por meio dos
hiperbóreos que, vindos do Mar do Norte,
alcançaram e passaram o Mediterrâneo, após
terem-se aliado aos habitantes da Itália antiga e
aos líbios.
Hiperbóreos e atlantes são, portanto o mesmo
povo? Parece não haver dúvidas a respeito: as
pinturas murais egípcias representam os
aspirantes conquistadores com capacetes
dotados de chifres, trazendo escudos circulares e
acompanhados por suas mulheres, adornadas por
longa trança de cabelos; e esses pormenores
encontramos em abundância nos achados
arqueológicos da Suécia e da Alemanha
setentrional. As crônicas egípcias dizem também
que os atlantes usavam armas de cobre e de
bronze, mas também armas de ferro; e as armas
de ferro mais antigas encontradas na Europa
central remontam a cerca de 1.200 anos antes de
Cristo: elas foram, portanto, trazidas realmente
pela grande campanha militar desencadeada
pelos hiperbóreos.
As inscrições de Ramsés III contam como os
atlantes teriam "vindo das ilhas e da terra firme
colocada sobre o grande círculo de água", "do fim
do mundo" ou "do nono arco". E o "nono arco",
segundo a divisão geográfica adotada pelos
egípcios e depois retomada por gregos e
romanos, compreende a zona que fica entre os
graus 52 e 57 de latitude norte. Lá em cima,
segundo os historiadores antigos, "O dia dura 17
horas": e isso corresponde à realidade no paralelo
de 54°. Também Plínio, o Velho, ademais,
especifica que o nono arco passa "per
Hyperbores et Britanniam".
Citamos tudo isso como confirmação, porque os
egípcios estabelecem com precisão de onde vêm
os invasores. Os atlantes, de acordo com o que
dizem os filhos do Nilo, tinham sua cidadela real
na "Ilha Basiléia", que é descrita de tal maneira
que não deixa dúvidas: "Alta, como se tivesse
sido cortada com uma faca, saliente sobre o mar,
com rochas vermelhas, brancas e pretas, rica de
cobre e de minério de cobre". Uma ilha dessa
natureza é única no mundo: trata-se de
Heligoland. A cidadela e o maior templo dos
atlantes, contudo, não haviam sido construídos
sobre essa base rochosa, mas "50 estádios além
da vizinha terra firme, sobre uma baixa colina". E
justamente no ponto indicado, por meio de
mergulhos submarinos, o Pastor Spanuth
descobriu a colina sobre a qual surgem as ruínas
da cidadela e do templo, ao longo de uma rua
perfeitamente calçada.
Os atlantes, que realizaram a grande marcha
através de todo o continente europeu para se
projetar além do Mediterrâneo, provinham da
Suécia meridional, Dinamarca e Alemanha do
Norte: eram — diz Ramsés III — os pheres
(frisões), os saksar (saxões) e os denen
(dinamarqueses), aos quais se aliaram os turscha
(tirrenos), os sekelesa (sículos), os sardana
(sardos) e os vasasa (provavelmente os corsos).
Por que se formou essa grande coalizão de povos,
por que chegou a guerra com fúria desesperada
até o Oriente Médio e até o Egito? Não foi,
seguramente, o espírito de conquista. Quem
empurrava os exércitos nórdicos era a fome que
pairava, ameaçadora, sobre toda a Europa após
os cataclismos que aconteceram no continente
(mas também em outros lugares) em 1.225 a.C.
Esses desastres naturais estão descritos sobre as
paredes do grande templo de Medinet Habu e
foram confirmados por inúmeros achados
geológicos e arqueológicos: trata-se, segundo o
Prof. Stechov, "da mais gigantesca catástrofe da
história da humanidade nos últimos 4.000 anos".
Essa revolução teria também causado o fim de
muitos reinos prósperos. Nem mesmo a terra dos
faraós se encontrava em condições favoráveis. "O
Egito" — revela o próprio Ramsés — "estava pros-
trado numa completa destruição quando subi ao
trono." Mas as fecundas inundações do Nilo
trouxeram rapidamente de volta o bem-estar, e é
compreensível que isso o tornasse objeto da
cobiça germano-itálica.
Achamos conveniente focalizar as descobertas e
as deduções do Prof. Spanuth, pois trata-se dos
estudos mais recentes de que foi objeto o
continente desaparecido, estudos que sem
dúvida não foram baseados em nebulosas
fantasias. O próprio nome com o qual era
antigamente chamada Heligoland — Atland —
leva diretamente à Atlântida, e o cataclismo que
empurrou os invasores para o sul é igualmente
eloqüente.
Mas as referências podem enganar: também
entre os povos da América pré-colombiana
encontramos um Aztland, com referência a uma
catástrofe que não é aquela narrada pelas
inscrições de Medinet Habu, mas muito mais
antiga. E há ainda mais um pormenor de
fundamental importância, para o qual os
defensores da "Atlântida nórdica" fornecem
explicações muito pouco convincentes: a precisa
referência de Platão e Teopompo a uma terra
situada além das Colunas de Hércules.
De resto, a existência de um continente situado
durante algum tempo justamente no Oceano
Atlântico é sustentada por muitíssimos textos
antigos: os próprios historiadores mediterrâneos
que comentaram a obra de Platão falam em três
grandes ilhas consagradas a Júpiter, Plutão e
Netuno (justamente Posseidônis) e de sete ilhas
menores consagradas a Prosérpina, ou então de
uma enorme ilha dedicada ao deus do mar, e de
outras menores.
É provável que essas descrições não sejam muito
exatas, e não poderíamos pretender que o
fossem, visto que, na época de sua elaboração, a
Atlântida não existia mais, e tudo quanto a ela se
referia foi recolhido por tradição oral. Mas é
sintomático notar que também as Purana
indianas mencionam "uma grande terra, muito
poderosa", no Oceano Atlântico. Infelizmente, não
é possível estabelecer quando foi escrita essa
afirmativa, mas temos todas as razões para
considerá-la antiqüíssima, visto que fala daquela
terra como de uma realidade contemporânea:
naquele tempo, portanto, a Atlântida não deveria
ainda ter desaparecido.
De referências similares são ricos outros textos
indianos, entre os quais o afamadíssimo
Mahabharata (a chamada "Bíblia da Índia"), que
também conta, de passagem, a história de "sete
grandes ilhas do Mar do Ocidente, cujo império
tinha por capital a cidade das Três Montanhas,
destruída pela arma de Brahma".
Sucessivos documentos asiáticos afirmam que o
"império do Mar do Ocidente" foi engolido pelas
vagas como conseqüência de terríveis
convulsões, e isso encontra correspondência —
detalhe este extremamente interessante — nas
tradições americanas. Voltando à palavra
Aztland, podemos ver como ela (semelhante à
outra, Atlan) corresponde ao vocábulo nahua
Nahoatlan, que significa "terra entre as águas",
isto é, ilha, e percebemos por que é sempre
usada para indicar a região que numerosas
estirpes indianas consideram sua terra de
origem, situada, em períodos anteriores, a leste
do continente americano, "lá onde o Sol nasce e
onde agora não há senão água".
Spanuth estaria, portanto, errado? Sim e não; não
podemos identificar toda a Atlântida na área por
ele indicada, mas também não podemos excluir
que ao redor da "Ilha Basiléia" se tenham
recolhido os últimos representantes norte-
europeus daquele povo.

Noé na América

Se não estamos equivocados, aconteceu no


século XVII que "foi descoberta" pela primeira vez
a arca de Noé. O autor da extraordinária façanha,
o viajante holandês Jan Struys, até publicou um
livro sobre o assunto, ilustrado por artístico
desenho que mostrava a mais famosa
embarcação de todos os tempos lindamente
apoiada sobre o pico do Ararate.
Não sabemos quantos foram os visionários e os
arqueólogos diletantes que, desde 1.600,
"redescobriram" a arca, mas acreditamos que a
lista vai longe. Após a última guerra, de qualquer
maneira, a corrida ao Ararate foi retomada pelo
lavrador turco Sukru Arsena que, em 1948,
declarou ter visto a arca emergir das neves
eternas, provocando apressada investida de
várias expedições. Sukru desapareceu
prudentemente quando os exploradores,
desiludidos e meio congelados, puseram-se no
seu encalço com intenções não muito amigáveis.
Por uma coincidência muito singular, exatamente
no mesmo ano, um holandês de 16 anos, Hans
Roozen, viu em sonho o navio bíblico, com um
zoológico completo, apoiado a 4.100 metros de
altitude sobre o Ararate (talvez a posição exata
lhe tenha sido comunicada pessoalmente pelo
próprio Noé) e, como ele mesmo conta, "a idéia
de tornar-me um nome famoso, empolgou-me de
imediato". Enquanto o americano Aaron Smith,
em 1949, iniciava por sua própria conta a procura
da embarcação, não chegando contudo a arran-
car a proverbial aranha de seu buraco, o ativo
garoto apelava para jornais e estudiosos, sem
resultados: teve que esperar até 1955 para ver
seu sonho parcialmente realizado pelo
comerciante francês Ferdinand Navarra que, após
três anos, voltou trazendo um pedaço de madeira
de carvalho e contando tê-lo retirado do mastro
da proa, mas não ter conseguido ir mais além,
pois o casco estava "completamente recoberto
por pedras e gelo".
Hans Roozen, contudo, não se deu por vencido:
embora a arqueologia o interessasse de maneira
muito relativa (ele "esperava somente poder
descobrir algum tesouro, principalmente fósseis,
vasos e utensílios da época de Noé") começou a
escrever com afinco canções populares, com a
finalidade de organizar uma expedição equipada
com uma dúzia de helicópteros.
Entrementes, porém, parece que a arca foi
realmente encontrada e por alguém que nem
mesmo pensava nela: o major da aviação turca S.
Kurtis que, encarregado em 1960 de fotografar os
flancos do Monte Ararate (5.165 metros), prestou
atenção às curiosíssimas fotografias de um objeto
revelado a 2.000 metros de altura, uma "coisa"
em forma oval, alongada, engastada na lava que
saíra durante numerosas erupções da maior boca
vulcânica do maciço.
"Não podemos pensar senão na arca de Noé" —
afirmaram os peritos de Ancara após examinar as
fotos do major; e se alguém o disse mais por
orgulho nacional do que por convicção
verdadeira, teve que voltar sobre os próprios
passos mais do que depressa, quando as
dimensões da embarcação prisioneira da lava se
mostraram correspondentes exatamente às
citadas nas Sagradas Escrituras: cerca de 150
metros de comprimento por 50 de largura. Pela
sombra foi possível também calcular a
profundidade aproximada do casco — cerca de 6
metros.
Cópias dessas fotografias foram enviadas ao
maior especialista do mundo em
aerofotogrametria, o Prof. Artur Brandenburger,
atualmente a serviço do governo norte-
americano, que declarou: "Mesmo arriscando
perder minha reputação, tenho de constatar que
se trata de um navio colocado a 2.000 metros de
altura, nos flancos do Ararat".
Se esse estranho objeto é realmente um navio, e
se pudesse ser libertado de sua forma de lava,
encontraríamos talvez a bordo, além de uma
sensacional confirmação, a solução de um
enigma apaixonante: o da figura de Noé, que
emerge não só das páginas bíblicas, mas de
textos e contos anteriores difundidos em muitas
partes do globo.
Na saga sumeriana de Gilgamés, Noé chama-se
Utnapishtim e, avisado por Ea, deus das águas,
da intenção divina de submergir o mundo, é
exortado a construir uma arca para salvar-se a si
mesmo, seus familiares e um par de cada espécie
animal existente.
Os gregos falam, ao contrário, de Deucalião, rei
da Ftia, na Tessália, que sobreviveu, junto com a
esposa, graças ao oportuno conselho de seu pai
Prometeu, que sabia das intenções pouco
amigáveis de Zeus para com o gênero humano.
Singularíssimo é o fato de que na lenda grega e
na tradição maia se encontra, para indicar a terra
firme, até a mesma expressão.
Chegando com a esposa Pirra ao maciço do
Parnaso, Deucalião interroga o oráculo de Delfos
sobre a maneira de dar nova vida à estirpe,
recebendo esta resposta: "Cobri vossas cabeças,
despi-vos e jogai às vossas costas os ossos da
Grande Mãe". Deucalião compreendeu que, com
"ossos", o oráculo queria dizer "pedras": as por
ele jogadas, de fato, tornaram-se homens,
enquanto as arremessadas por Pirra tornavam-se
mulheres.
E a lenda americana diz, reportando-se às
conseqüências do dilúvio: "A Grande Mãe Seyda
ficou entre as lembranças da destruição do
mundo".
Os maias não fornecem indicações precisas sobre
o... Noé local, mas um manuscrito do antigo
México o apresenta sob a forma de Quetzalcoatl,
o deus-rei do qual encontramos vestígios, sob
diferentes nomes, em toda a América pré-
colombiana.
Para os quichés, da Guatemala, a "volta" do
gênero humano após o cataclismo está revestida
de trevas ("Não está claro" — lê-se no seu livro
sagrado Popul Vuh — "como teriam chegado do
mar (...) aqui vieram como se o mar não tivesse
existido"), mas os macuscos, do norte da
Amazônia (até naquelas florestas impenetráveis a
lembrança do desastre se manteve!), não têm
dúvidas: quem a tornou possível foi Maconen, "rei
do tempo do dilúvio".
A lenda dos astecas (que tinham, entre outros,
um mito idêntico ao bíblico acerca da torre de
Babel) repisa quase palavra por palavra a história
do Antigo Testamento e da Epopéia de Gilgamés,
a ponto de não faltar nem o pombo. Eis o relato:
Vivia no Vale do México um homem piedoso,
chamado Tapi, a quem um dia revelou-se em
pessoa o criador de todas as coisas. "Constrói
uma grande embarcação" — disse o deus — "e
faze dela a tua casa. Leva tua mulher e um par
de todos os animais vivos. Mas apressa-te, pois o
tempo está chegando!"
Tapi obedeceu, apesar das zombarias e ofensas
dos vizinhos, que o achavam louco. E apenas
terminara o trabalho, quando começou a chover.
Choveu sem parar. Os vales desapareceram sob
a água, os homens e os animais procuraram
refúgio sobre as montanhas, mas também estas
foram submersas. Só a embarcação de Tapi
hospedava seres vivos, numa Terra que virara
imenso oceano.
Quando a chuva parou, o sol novamente brilhou e
as águas começaram a descer, o homem piedoso
soltou um pombo. O pombo não voltou, e o
coração de Tapi encheu-se de alegria, pois isso
significava que a ave encontrara um pedaço de
terra firme onde pousar.
Numerosas tradições vêem no dilúvio um castigo
divino, coisa que não pode causar surpresa
quando se tem em vista a terrificante amplitude
das convulsões dele resultantes e se torna óbvia
quando se considera a provável origem cósmica
do desastre.
Também as antigas lendas bolivianas chegadas
até nós falam de uma tremenda inundação
"desencadeada para punir a arrogância e a
insolência dos homens". Para os índios sioux, da
América do Norte, "os tempos desaparecem sob
as águas": um mítico bisão freia as vagas
ameaçadoras, mas o grande animal "perde a
cada ano um pêlo, e após quatro épocas uma
pata, e quando perde todos os pêlos e as quatro
patas, a grande água submerge o mundo".
Segundo alguns etnólogos, o bisão teria ocupado
o lugar do antigo deus-touro, e a sua progressiva
demolição deveria ser atribuída a um espírito
maligno, inimigo da humanidade e decidido a
aniquilá-la.
Para terminar com chave de ouro esta breve
resenha de "sensacionalismos diluvianos",
lembremos que o Noé havaiano chama-se Nu-u, e
o chinês, Nu Wah (o hebraico é Noah), enquanto
na Serra Parima, nos confins entre o Brasil e
Venezuela, existiria até uma cidade morta
dedicada ao patriarca: Ma-Noa, a "água de Noé".
Ora, o fato de que entre muitos povos esteja vivo
o mito de um personagem que simbolize os
poucos sobreviventes de uma catástrofe sem
comparação, não é nada estranho, e pode-se
entender como a salvação destes poucos tenha
sido atribuída à intervenção divina. Contudo, a
singular afinidade de nomes e pormenores só
pode ser explicada de uma maneira: admitindo a
existência de algum meio de comunicação
através de grandes distâncias logo após o dilúvio.
E essa suposição nos leva diretamente às ilações
de alguns pesquisadores, segundo os quais os
últimos baluartes das grandes civilizações
desaparecidas ainda teriam influenciado de
maneira positiva o desenvolvimento das culturas
mediterrâneas, asiáticas e americanas, até um
novo e inexplicado cataclismo.

Continentes submersos

E chegamos à época em que, segundo Platão, a


Atlântida teria sido engolida pelo oceano: trata-se
de cerca de 9.500 anos antes de sua época. Essa
data não coincide, portanto, com a citada por
Ramsés III, mas encontra confirmação em
numerosos outros textos e, como veremos,
também em interessantes levantamentos
científicos, o que demonstra estarmos diante de
duas catástrofes diferentes.
A maior parte dos estudiosos que atribuem à
apocalíptica inundação a causa do
desaparecimento de vastas áreas situadas em al-
guma época no centro do Atlântico e do Pacífico,
admite que o desastre deveria ter acontecido
entre 10 e 12 mil anos atrás. O geólogo austríaco
Otto H. Much, porém, acredita poder estabelecer
com extrema precisão, baseado em dados
astronômicos, o dia e a hora da tragédia: 4 de
junho de 8.496 a.C., às 20 horas em ponto —
hora da América oriental. É pelo menos singular
que os antigos povos americanos tenham
recomeçado a medir o tempo a partir daquele
que para nós é o ano de 8.498 a.C., afirmando
que um cataclismo teria acontecido pouco antes
e teria marcado "o fim da terceira época do
mundo". Não há, portanto, senão uma diferença
de alguns anos para o cálculo de Much.
Quando Platão fala da Atlântida, revela como o
espantoso evento teria sido decidido por um
elevado conselho, e resume assim os an-
tecedentes:
"Por muitas gerações, até quando permaneceu
atuante (nos atlantes) a origem divina, eles
obedeceram às leis e foram amigos dos deuses,
com os quais tinham parentesco (...). Quando,
porém, a parte divina deles começou a
enfraquecer devido às numerosas e freqüentes
uniões com os mortais, as características
humanas tornaram-se preponderantes: não foram
mais capazes de reconhecer seu verdadeiro
destino e, por isso, o desvirtuaram. Zeus, o deus
dos deuses, reinante por íôrça de leis eternas,
tomou a decisão de punir aquela raça antes sem
pecado, a fim de que se emendasse, e voltasse
ao antigo sistema de vida. Reuniu, portanto,
todos os deuses em sua mais nobre morada, que
se situa no centro do Universo e permite olhar
toda a Criação, e disse..."
O que aconteceu após a deliberação é contado no
Timeu: "Mais tarde deram-se violentos
terremotos e inundações, e no período de um
terrível dia e uma terrível noite, toda a belicosa
estirpe desapareceu sob a terra e igualmente
desapareceu a Atlântida no mar".
É a "grande água" dos Vedas indianos, o desastre
do qual o deus persa da luz, Auramazda, fala a
Zaratustra, a "tremenda noite" do Mahabharata,
profetizada (como conta o monumental poema
épico) pelo primeiro peixe ao seu criador, o
semideus Manu, progenitor da humanidade e que
mais tarde conseguiu, ele também, escapar ao
cataclismo, num navio de sua construção; é o
dilúvio universal do Antigo Testamento.
A hipótese dos que consideram o dilúvio limitado
às terras bíblicas é portanto insustentável: para
derrubá-la não valem sòmente as citações aqui
trazidas, mas inúmeras outras.
Os hieróglifos da pirâmide mexicana de
Xochicalco, decifrados pelo francês La Plongeon,
acenam também a "uma terra situada no meio do
oceano, destruída", e aos seus habitantes
"mortos e reduzidos a pó", enquanto o chamado
Códice Troano, guardado no Museu Britânico, fala
de uma catástrofe que "provocou o desapareci-
mento dos continentes de Mud e Mu".
O documento certamente quer dizer que Mu e
Atlântida desapareceram num mesmo desastre,
porque isso é confirmado por outros dois
fragmentos maias. O que se refere à Atlântida foi
traduzido em 1930 pelo filólogo brasileiro O. M.
Bolio:
"No undécimo dia de Ahau Katun deu-se a
desventura (...) caiu uma chuva violentíssima e
caíram cinzas do céu e numa só grande maré as
águas do mar se derramaram sobre a terra (...) e
o céu ruiu e a terra firme se abriu (...) e a Grande
Mãe Seyda ficou entre as lembranças da
destruição do mundo".
Com as seguintes palavras um manuscrito pré-
maia, de 3.500 anos atrás, descreve o fim de Mu:
"No ano 6 do Kan, no 11 Muluc do mês de Zac se
deram terríveis terremotos que continuaram até
o 13 Chuen. Mu, a região das colinas de argila, foi
sacrificada: após ter-se duas vezes levantado,
desapareceu durante a noite, enquanto a terra
era continuamente sacudida. O chão afundou e
emergiu várias vezes em muitos pontos próximos
do mar. Por fim, a superfície se quebrou e se
dividiu em muitas partes e, em tremendas
convulsões, submergiu com seus 64 milhões de
habitantes".
Assim, aos Purana da antiga Índia, que falam da
destruição do remoto continente atlântico,
corresponde o texto da América pré-colombiana,
com o relato da submersão da "dominadora do
Pacífico"!
O dilúvio foi assim:
"Nordeste da Sibéria, 5 de junho de 8496 antes
de Cristo. São 12h e 53min (hora local). Sete
minutos antes da colisão do planetóide com a
Terra.
"O Sol está alto no céu, e perto dele, invisíveis no
azul claro, o planeta Vênus e a Lua nova. As
árvores às margens da floresta virgem lançam
curtas sombras sobre o chão. O musgo verde-
escuro viceja sob os altos troncos dos pinheiros,
dos abetos e dos larícios. O rio, saindo da
floresta, corre gorgolejando entre murmúrios,
através da clareira. É uma grande clareira com
erva cerrada, suculenta, cheia de samambaias e
flores nas margens.
"De repente, ecoa um tropel entre os arbustos
nas margens da clareira, os ramos se partem
crepitando e as copas das árvores começam a
balançar. Um grupo de mamutes se aproxima do
rio...
"14h e 47min... No meio da corrida, dois
mamutes estacam. Uma força invisível os
apanhou e sua fúria animal desapareceu
subitamente. Algo terrificante deve ter ocorrido...
"A catástrofe deu-se há tempo... O abalo
provocado pela colisão levou 1hora e 47 minutos
para alcançar a terra dos tunguses. O chão é
percorrido por um tremor: de início, só uma
vibração fraca, quase imperceptível; depois é
mais sensível e, por fim, torna-se violenta. Da
floresta vem um gemido: um pinheiro gigantesco
se dobra, estalando, para a clareira, caindo com
estrondo entre os mamutes. Algumas aves
esvoaçam amedrontadas.
O disco do Sol parece arrancado do lugar, dança
no céu, depois pára, desliza lentamente para
baixo, para o horizonte e outra vez se imobiliza.
As sombras dos grandes animais, das árvores e
dos arbustos, agitam-se convulsivamente na
clareira, alongam-se, enquanto o rio gorgoleja
mais alto. As sombras permanecem longas e o sol
não é mais quente.
"Quando o tremor passa, o grupo de mamutes se
agita. Inquietos, os grandes animais pisam a
grama, balançam as enormes cabeças, revolvem
o chão com as presas. Só lentamente volta a
calma.
"Passam-se horas em que nada acontece. Faz
frio. Os mamutes há tempo recomeçaram a
comer.
"20h e 53min: sete horas e cinqüenta e três
minutos após a catástrofe. O grupo continua na
clareira. Os animais arrancam folhas das árvores
novas e bebem no rio. O sol da tardinha é
amarelado e fraco. Subitamente surge à distância
um estrondo surdo, crescente, que se aproxima
em velocidade espantosa e logo abafa o
gorgolejar do rio, e os gritos das aves, explodindo
num interminável trovão.
"O chefe do grupo levanta a tromba, mas seu
barrido é ensurdecido pela imensa trovoada. Com
todas as forças, lança-se à corrida, e os
companheiros o seguem. O chão estremece,
pisado por centenas de patas titânicas, mas o
ruído não encobre o estrondo que vem do céu.
Pela primeira vez na sua vida a mais potente
criatura do globo é presa do pânico e corre
cegamente pela floresta, derrubando arbustos e
árvores.
"Mas logo, após alguns passos, a fuga termina. O
chefe do grupo tomba como que atingido pelo
raio e morre antes mesmo que seu corpo chegue
ao chão. Com ele, nos mesmos segundos,
morrem os companheiros. Com ele, morrem
todas as formas de vida da Sibéria setentrional,
milhares e milhares de mamutes, rinocerontes
lanudos, tigres das neves, raposas e martas, aves
e reptis. Morrem todos em poucos instantes.
"O que acontecera?
"A 10.000 quilômetros daquela clareira siberiana,
naquele dia 5 de junho de 8.496 a.C., às 13
horas, um corpo celeste se precipitara com
violência inaudita na região sudeste do Atlântico
norte. Esse planetóide, com seus 10 quilômetros
de diâmetro, era um anão, comparado com nosso
mundo, mas terríveis foram as conseqüências de
sua queda: ele partiu a crosta terrestre e
provocou a maior catástrofe jamais sofrida pela
humanidade."
"Não há mais mar..." — é dito no Apocalipse de
São João — eu vi um novo céu e uma nova Terra,
pois do céu desaparecera a imensa, ameaçadora
lua, e um tempo sem lua começara." Baseando-
se nessas palavras, o austríaco Hörbiger levanta
a hipótese de que o continente do Atlântico teria
nascido com o fim de um satélite caído milhões e
milhões de anos atrás. E segundo Much — como
acabamos de ver — a Atlântida deveria sua
destruição a outro corpo celeste - um asteróide
atraído pela inusitada conjugação Terra-Lua-
Vênus - caído sobre nosso planeta, onde
determinou uma explosão equivalente à
produzida por 15.000 bombas de hidrogênio
lançadas simultaneamente.
O asteróide, — afirma Much, a partir de
imponente documentação astronômica e
geológica — chegou de noroeste, penetrando na
camada atmosférica com velocidade de 15-20
quilômetros por segundo. A cerca de 400
quilômetros da Terra começou a avermelhar,
para em seguida, pelo efeito do atrito com o ar,
tornar-se luminescente, de uma incandescência
capaz de cegar quem o fitasse.
A pequena distância do Atlântico, superada uma
temperatura inicial de 20.000°C, o corpo celeste
explodiu: inicialmente esfacelou-se sua parte
externa que, reduzida a um enxame de meteoros
gigantescos, bombardeou a América do Norte;
em seguida, seu núcleo partiu-se em dois,
atirando-se contra o nosso globo com um peso de
quinhentos bilhões de toneladas, cerca de 30°
oeste e 40° norte, no centro do arco formado pela
Flórida e Antilhas. A zona diretamente atingida
pode ser localizada num trecho do chamado
"dorso atlântico", onde são numerosos os vulcões
submarinos e a espessura da crosta terrestre se
reduz a 15 e até 20 quilômetros, contrariamente
a qualquer outro ponto, onde mede 40-50
quilômetros. O fundo do oceano partiu-se desde
Pôr to Rico até a Islândia, desencadeando-se o
pandemônio.
"Com um estrondo apocalíptico" — prossegue
Much — "uma coluna de fumaça subiu da lenda
para o céu, levando consigo gases venenosos,
rapilhos, magma ardente. Tudo ardeu ou tornou-
se incandescente por milhares de quilômetros. O
oceano entrou em ebulição, inimagináveis
massas de água foram transformadas em vapor
e, misturadas com pó e cinzas, foram levadas
pelos ventos ocidentais sobre o Atlântico.
"Após 'um terrível dia e uma terrível noite' a ilha
real dos atlantes submergiu..."
A tese do espantoso bombardeamento cósmico
encontra vários apoios: as vastas crateras
cavadas entre 10 e 12 mil anos atrás por
enormes meteoros na América centro-sul e
também na Geórgia, Virgínia, Carolina e no fundo
do Atlântico, ao largo de Pôrto Rico. E esses
bólidos celestes caíram justamente na época em
que uma indescritível convulsão deu origem às
cascatas do Niágara, levantando os Andes, para
torná-los uma das mais imponentes cordilheiras
do mundo.
Outra concordância significativa é fornecida pelo
desaparecimento (ocorrido entre 10 e 12 mil anos
atrás) da capa de gelo que antes recobria, além
da Escandinávia, Inglaterra e a Irlanda — quase
toda a Europa continental — enquanto a Sibéria
se via lançada no duro clima atual. Isso
aconteceu — diz o Prol. Much — porque a
corrente do Golfo conseguiu afinal alcançar
nossas costas, às quais antes não atingia, sendo
justamente interceptada por outra terra: a
Atlântida.
Levantamentos realizados em 1934 no fundo do
Atlântico, na área em que deveria ter existido o
continente perdido, trouxeram à luz restos fósseis
de animaizinhos de terra firme e amostras de
lava expelidas não por crateras submarinas, mas
por vulcões de superfície.
"Não passou muito tempo" — continua o cientista
austríaco — "para que a superfície da terra
cicatrizasse, com uma crosta negra e dura. O
'terrível dia' e a 'terrível noite' de que fala Platão
haviam sido suficientes, contudo, para apagar
quase completamente a vida sobre a Terra.
Porque antes das massas de água que vagavam
sob forma de nuvens, as explosões de magma
subverteram a atmosfera e difundiram gases
venenosos que, invisíveis, matavam rapidamente
e sem dor.
"Nordeste da Sibéria, cerca de 60 horas após a
queda do planetóide. Os imensos corpos dos
mamutes jazem na clareira e entre as árvores
quebradas da floresta. A tempestade sopra
violenta entre seus pêlos, o sol brilha lácteo e
opaco. O gorgolejar do rio e o urro da
tempestade, que empurra perante si as pesadas
nuvens, são os únicos ruídos que dominam a
paisagem morta.
"Agora a cobertura de nuvens tapou o sol e o
estrondo da tempestade se acalma. Por dois, três
segundos, impera o silêncio. Depois, começa o
dilúvio. A água misturada com lodo e cinza cai do
céu e em poucos minutos as carcaças dos
mamutes estão encobertas por viscosa massa
cinza-negra. Cresce ininterruptamente, cobre a
lareira, pára o rio, arranca árvores gigantescas.
Durante seis dias e seis noites chove água, cinzas
e lodo sobre os corpos dos animais mortos, sobre
as plantas que morrem. Chove de maneira
torrencial, em impetuosas pancadas escuras, até
que toda a área fica submersa.
"Com a chuva viera o frio. A violência da colisão
havia aproximado a Sibéria setentrional do pólo,
cerca de 3.500 quilômetros. As massas de água
gelaram, com centenas de milhares de mamutes
e rinocerontes lanudos mortos..."
Se a Atlântida foi literalmente tragada pelo
abismo que se abriu entre a América e a Europa,
Mu poderia ter sido fàcilmente desintegrada pela
erupção de todos seus vulcões, que a tradição
afirma serem inúmeros (de fato, na região do
Pacífico, encontramos ainda hoje 336 vulcões
ativos, dos 430 do mundo todo). As crateras de
todo o continente devem ter vomitado o inferno
como conseqüência do gigantesco maremoto
originado pela queda de um corpo celeste. Em
seguida, as cinzas lançadas ao ar juntaram-se
para envolver o globo numa espessa camada de
nuvens, escondendo o sol e dando origem a uma
chuva furiosa. Calcula-se que somente na Europa
e na Ásia setentrional devem ter caído em 6 dias
mais de 20 trilhões de toneladas de água e 3
trilhões de toneladas de cinzas: portanto, o nível
médio das precipitações foi de 30 metros!
Conta Utnapishtim, o Noé da epopéia de
Gilgamés: "Urrava o vento sul, urravam as águas,
as águas alcançavam já as montanhas, as águas
caíam sobre todas as gentes. Seis dias e seis
noites caiu a chuva, como uma cascata. No
sétimo dia, o dilúvio se acalmou. Fez-se silêncio
como após uma batalha. O mar tornou-se
tranqüilo e a tempestade desastrosa parou. Eu
olhei o tempo, que se acalmara. Todos os
homens tinham-se reduzido a lodo. O chão da
Terra era uma desolada extensão uniforme..."

Portos sobre os Andes

Numa altura de 3.500 metros, os Andes se


apresentam marcados por uma curiosa estria
esbranquiçada com mais de 500 quilômetros de
comprimento: é formada pela sedimentação
calcificada de plantas marinhas, e constitui a
prova inegável de que aquela região um dia foi
banhada pelas águas do mar. Os estudiosos
constataram que aquela faixa deve ter ficado a
descoberto de uns poucos milênios para cá, e o
fato os deixou intrigados a ponto de evitar
sempre ter de se pronunciar a respeito, embora
já há 150 anos o famoso naturalista Alexander
von Humboldt tenha encontrado outro testemu-
nho muito significativo.
A pequena distância de Bogotá se encontra o
chamado "campo dos gigantes", — por estar
semeado de gigantescos ossos já petrificados —
onde aquele cientista viu os restos do
mastodonte, animal quase tão grande quanto os
mamutes, de presas curtas e tromba quase tão
longa quanto seu corpo.
Estes animais que, em espécies diferentes,
povoavam a Europa, a Ásia e a América do Norte
e do Sul, viviam quase exclusivamente em zonas
pantanosas e ricas de vegetação; é impensável,
além disso, que eles tenham subido até o rochoso
e árido planalto que atualmente se encontra a
2.000 metros acima do nível do mar. Os masto-
dontes devem ter sido mortos em seu habitat, na
costa devastada, espoliada, arremessada para
sua atual altitude pelo cataclismo que destruiu a
Atlântida. A petrificação dos ossos, de resto, só
pode ter sido possibilitada pela ação de sais
marinhos.
Mas a hipótese que os cientistas tradicionais não
quiseram formular encontrou outros pontos de
apoio quando as cidades mortas da cordilheira
foram objeto de estudos mais aprofundados.
Reconheceu-se que certas construções não têm
sentido no lugar onde hoje se acham: como se
pode, de fato, construir cidades na ponta de
cumes inacessíveis, palácios dos quais só se pode
sair para abismos impressionantes, fortalezas
agarradas a rochas das quais de maneira alguma
é possível a defesa?
A revelação deu-se em Tiahuanaco, majestoso
campo de ruínas não longe do Lago Titicaca, já
conhecido pelos "conquistadores" espanhóis. Lá
em cima, recolheram êles a lenda inca da
criação, que vale a pena lembrar.
Ela conta como, após uma terrível catástrofe "que
destruiu o mundo", Viracocha Pachacayachi
("criador de tôdas as coisas") trouxe inicialmente
os gigantes, depois, os homens feitos à sua ima-
gem: "E isso aconteceu no tempo das Trevas,
quando se adorava Ka-Ata-Killa, a Lua Silenciosa".
Milênios mais tarde teria acontecido outro
cataclismo do qual teria escapado somente um
pastor com sua família; e este, como
agradecimento, teria construído Tiahuanaco no
decorrer de uma só noite.
Lenda à parte, houve quem achasse ter sido
construído o centro 1.000 anos antes de nossa
era, e quem lhe atribuísse uma idade de vários
milênios. As discussões entrelaçavam-se quando
se deu a primeira assombrosa surpresa:
Tiahuanaco não era, em absoluto, uma metrópole
alpina, mas uma cidade marítima que, com suas
instalações portuárias, foi erguida de um só
golpe, juntamente com vastíssimo território, a
3.800 metros de altitude!
Outro elemento comprobatório válido é dado pelo
fato de que sôbre as margens do Titicaca
(conhecido pela alta percentagem salina de suas
águas e colocado numa área de lagos
completamente salgados, como os bolivianos
Uyuni, Coipasa, Chiguana, os chilenos de
Atacama, Punta Negra, Pedernales, os argentinos
de Arizaro, Pipanaco, Hombre Muerto) estende-se
uma linha branco-amarelada constituída por
sedimentos salinos e colocada a descoberto há
mais de 10.000 anos. Essa linha é oblíqua em
relação à atual superfície do lago; antes da
catástrofe, obviamente, deveria ser horizontal.
Isso confirma, portanto, que o continente não só
foi arrancado de sua posição inicial, como
também seu equilíbrio mudou.
Os arqueólogos verificaram em seguida que o
grande templo em pirâmide que domina
Tiahuanaco não foi danificado pela catástrofe,
como inicialmente se acreditou, mas que sua
construção havia sido bruscamente interrompida.
Alguns especialistas alemães estabeleceram a
data em que a última pedra deveria ter sido
colocada: cêrca de 9.000-9.500 anos antes de
Cristo. A mesma época, portanto, a que se referia
Platão ao falar do desaparecimento da Atlântida!
CAPÍTULO XIV
O Reino das Ciências Esquecidas

SE PERGUNTARMOS À CIÊNCIA sobre os antecessores das


antigas civilizações americanas conhecidas, não
obteremos resposta; mas seremos colocados
perante vestígios de um lado enigmáticos e de
outro, muito eloqüentes, a ponto de esboçar uma
solução fantástica baseada justamente na
Atlântida, o continente perdido.
Os portadores da chamada civilização arcaica
centro-americana não podem ser identificados
com nenhum dos povos que conhecemos. É
possível remontar, tateando, até uma época
nebulosamente colocada pelos arqueólogos entre
3.000 e 1.000 anos antes de Cristo; neste período
floresceram no México duas culturas que os
estudiosos chamam, pelos lugares em que foram
encontrados os vestígios, Civilização de
Zacatenco e Civilização de Ticomã.
Delas, infelizmente, não é possível saber muita
coisa, mas notabilíssimos são os sinais
encontrados. As cerâmicas, em seu primitivismo,
apresentam estilo tão vivo, tão "moderno" que
nos surpreendem: são figuras de homens, de
mulheres penteadas com capricho, de graciosas
bailarinas, mães sentadas com os filhos, garotas
com cachorrinhos no colo, jogadores de bola,
estranhos seres mascarados e indivíduos
barbudos.
O primitivismo de que falamos contrasta de
maneira estridente não apenas com o estilo, mas
também com a essência própria de tudo que é
representado. Um povo das cavernas, ou
constituído de caçadores e lavradores vivendo
em míseras choupanas, certamente não
plasmaria figuras de mulheres penteadas de
maneira tão elaborada ou de homens com
chapéus (um chapéu — note-se — muito parecido
com o atual).
Os desconhecidos artistas nos sugerem a idéia de
náufragos dos nossos dias que, chegando a uma
ilha selvagem, se vestissem de peles, se
abrigassem em refúgios improvisados, e se
dedicassem às mais rudimentares formas de
caça, pesca e agricultura, mas passassem o
tempo a modelar figuras que lhes lembrassem o
mundo civilizado: um velho general, uma garota
de penteado complicado, o gentil-homem de
cartola, a célebre dançarina.
E, de certa maneira, os portadores da civilização
Zacatenco eram realmente náufragos,
sobreviventes de uma catástrofe inimaginável.
Parece que aqui é oferecida uma extraordinária
confirmação do que Platão escreveu no Crítias a
respeito dos que sobreviveram ao fim da
Atlântida:
"Salvaram-se somente os habitantes das
montanhas, que ignoravam a arte de escrever.
Para eles e seus descendentes, por muitas
gerações faltou o que é necessário para a vida, e
eles tiveram que dedicar sua força e inteligência
para satisfazer as necessidades materiais. Não
surpreende, portanto, que tenham esquecido os
antigos acontecimentos. Esta é a razão pela qual
nos foram transmitidos somente os nomes dos
nossos antepassados longínquos, enquanto seus
feitos foram esquecidos".
Entre os poucos grupos humanos que
conseguiram sobreviver no continente americano
estavam, de fato, os iniciadores da chamada
civilização de Zapotenco, uma civilização que —
como para os náufragos do nosso tempo — podia
ser apenas um pálido reflexo da precedente.
Os sobreviventes reuniram-se às margens do
Lago Tetzcoco; mas se tinham conseguido
escapar das grandes hecatombes, as intermi-
náveis precipitações atmosféricas que se
seguiram ainda lhes iam impor duras provas.
"Choveu" — escreve Pierre Honoré em seu livro
Achei o Deus Branco — "choveu durante dias,
durante semanas. Foi uma violentíssima
tempestade sem fim. O nível do Lago Tetzcoco
subiu, as choupanas das margens foram
submergidas e os homens fugiram para as
montanhas. Esta fuga foi a salvação, pois a chuva
continuou. Dia após dia o nível do lago foi
alimentando, dia após dia os sobreviventes
tiveram que subir cada vez mais alto para salvar
a vida, somente a vida. Quem ficava no vale
estava perdido. A chuva não parava: pelas
montanhas desciam inicialmente riachos que
depois se tornavam torrentes e rios impetuosos
de água, lodo e pedras.
"Os homens que fugiram ao desastre,
aterrorizados, encolhiam-se em míseros abrigos
de ramagens, os animais procuravam refúgio
junto deles. Tudo que aquela gente possuía, —
suas casas e utensílios — ficara nas margens do
lago e agora estava no fundo do lago que se
levantara 20 metros para submergir todo o vale
do México.
"Passaram-se séculos e séculos. Os homens que
fugiram às águas voltavam às margens do lago;
ou melhor, voltaram seus descendentes, pois
foram necessários 500 anos para que as águas
voltassem ao nível primitivo."
Área diretamente atingida pelo cataclismo que
determinou a submersão da Atlântida: o chamado
"dorso atlântico".
Figurinhas "moderníssima" da civilização arcaica
americana: uma mulher com um penteado bem
trabalhado e um homem com chapéu não
diferente dos atuais.
Tumba do "faraó de
Palenque".

Eis por que a arqueóloga americana Zélia Nuttall,


que em 1900 realizou escavações naquela zona,
encontrou as preciosas cerâmicas numa espessa
camada de lodo.
Não havia acaso outro estudioso, Wolley,
encontrado uma camada igualmente imponente de
lodo seco na Babilônia? Isso mesmo. Fora a mesma
catástrofe a determinar a mesma situação: o
dilúvio universal.
Os sobreviventes americanos recomeçaram a
trabalhar, a construir, e por numerosas gerações
conheceram a calma. Mas era uma calma relativa,
pois sob seus pés a terra tremia: a imensa
catástrofe ainda teria feito sentir por longo tempo
suas conseqüências.
E veio o último desastre: o grande vulcão de
Ajusco revelou-se com toda sua terrível potência.
Um rio de lava incandescente desceu pelo Monte
Xitla, alcançou o vale e se esparramou, destruindo
tudo em seu caminho. Os homens tinham erguido
uma pirâmide lá onde dizemos que floresceu a
civilização de Ticomã; a lava não a poupou, mas a
construção era grande demais para ser
submergida: o rio abrasador a circundou e hoje só
dois terços da construção emergem da lava.
Mas por que o povo de Ticomã construiu
justamente uma pirâmide? Para simbolizar o
monte que os tinha salvo, dizem alguns; para
aplacar, num simulacro onde se realizavam ritos
sacrificiais, o vulcão que lhe ameaçava a
existência, dizem outros; e ainda: para se
aproximar do céu, sede da divindade, a fim de
expressar um conceito religioso de hierarquia.
Mas de todas essas hipóteses, a nós parece mais
aceitável justamente a mais fantástica, que vê o
conhecidíssimo monumento dominar as terras
submersas, que o vê em seguida retomado pelos
herdeiros da Atlântida e de Mu, por uma
lembrança inicialmente viva e depois cada vez
mais enevoada: os descendentes dos que
sobreviveram continuaram a edificar pirâmides,
embora não mais conhecessem o motivo pelo qual
haviam sido construídas as que tinham
desaparecido, e as memórias vagas se
confundissem num conjunto de crenças mágicas
genéricas que em seguida evoluíram, adquirindo
novas significações.
Assim, em toda a América pré-colombiana
continuou preponderando a construção das
pirâmides em degraus: as mesmas pirâmides que
se ergueram em Sakkara e Mênfis, no Egito, a
mesma grande construção truncada que os
sumérios levantaram, com sete andares, entre o
Tigre e o Eufrates, a mesma majestosa construção
que dominou Babilônia.
Oitenta quilômetros quadrados foram petrificados
antes que o Xitla se acalmasse e sob uma camada
espessa de 6 a 8 metros, jazem os restos de
notável civilização, da qual pouco foi achado e
pouquíssimo sabemos.
Acerca da idade da cobertura de lava (que os
geólogos consideram agora superior a 8.000 anos)
houve uma disputa entre os estudiosos. Mas a
polêmica foi interrompida pelo achado de outros
vestígios sensacionais: estátuas e vasos de uma
perfeição tal que não podem ser atribuídos ao
período arcaico.

Os magos de Olman

Agora devemos ter em vista que muitos grupos


ameríndios fazem remontar suas origens a um
reino fabuloso: o reino de Olman, o "reino de
cautchu", um paraíso terrestre onde, ao lado das
seringueiras cresciam abundantes o cacau e todo
tipo de frutas, onde voavam maravilhosas aves,
onde se amontoavam ouro e prata em abundância,
além de jade e turquesas.
Os afortunados habitantes de Olman — contam as
lendas — usavam roupas belíssimas e enfeites
fantásticos, calçavam sandálias de couro ou de
borracha. Tinham duas divindades femininas, a
deusa da Terra e a da Lua, conheciam "ciências
que foram depois esquecidas" e "tinham como rei
um poderosíssimo feiticeiro".
Os arqueólogos não pensavam, sem dúvida, em
Olman quando, no século passado começaram a
achar ao longo da costa do Golfo do México objetos
que não se enquadravam no estilo de nenhuma
outra cultura conhecida: enormes cabeças com
expressão enigmática, que pareciam pensar,
caracteres a um tempo humanos e felinos, es-
tátuas e estatuetas.
Pouco mais de cinqüenta anos atrás, foi
descoberta em La Venta, próximo a San Andrés
Tuxtla, uma figurinha de jade com características
muito semelhantes às dos achados acima
mencionados. Foi uma descoberta importantíssima
para a ciência, pois aquela figurinha trazia gravada
uma data em caracteres análogos aos da escrita
maia; uma data que, no nosso calendário,
corresponde ao ano 162 d.C.
Formulou-se então uma hipótese: todos aqueles
objetos testemunhavam a existência dos olmecas,
lendários habitantes de Olman. Certamente a
estatueta não pode ser considerada pertencente
ao início da civilização olmeca, que deve ser
procurado em época bem mais remota.
A própria civilização olmeca, contudo, não é a mais
antiga da América, sendo precedida pelas
"culturas arcaicas"; mas ela deixou marcas
profundas em muitos, se não em todos os povos
mexicanos que a seguiram no tempo.
Após o achado da figurinha, procurou-se a capital
dos olmecas e expedições seguiram-se a
expedições, em vão, até que ao redor de 1930 o
americano Stirling identificou-a exatamente com
La Venta, hoje reduzida a uma ilha no coração de
um pântano.
Nessa ilha o norte-americano descobriu pedaços
de muros, com uma pirâmide colocada ao centro
de um vasto complexo de edifícios. Realizadas
algumas escavações, Stirling encontrou, a 7
metros de profundidade, um mosaico composto
sôbre uma "cama" de asfalto, fato que o deixou
boquiaberto, e com razão: o mesmo, idêntico
processo, era usado, de fato, na Caldéia e em
Creta!
Stirling encontrou, além disso, nichos, cadeiras,
altares ornamentados, na maioria, com relevos em
que são comuns expressões felinas e cabeças de
jaguar, construídos com blocos de pedra pesando
de 20 a 50 toneladas, seguramente provindos da
área vulcânica de Tuxtla e que devem ter sido
transportados de uma distância de pelo menos 100
quilômetros em linha reta, através de um lago
antes existente. Não se sabe como isso ocorreu,
mas certamente foi usada uma técnica que não
condiz com o conceito que veio se formando em
nós sobre as técnicas dos antigos.
E, por fim, o americano teve a confirmação
definitiva das estreitas relações existentes entre
La Venta e os achados da costa, trazendo à luz
cabeças de pedra iguais às encontradas no Gôlfo
do México; uma das menores mede 1,80 m de
altura, com circunferência de 5,50 m; outras
alcançam 2,50 m de altura.
Aqui começam a surgir outras inexplicáveis
ligações. Por que monumentos constituídos só de
cabeças caracterizam a cultura olmeca, da região
atlântica, e a da sinistra Ilha da Páscoa, perdida no
Oceano Pacífico, cheia de outros alucinantes
mistérios? Como se explica que as bases dessas
estátuas apresentem extraordinária analogia e
pareçam-se também com as descobertas em
Tiahuanaco, na Bolívia, e em Pachacamac, no
Peru? Embora as cabeças olmecas, as da América
do Sul e as da Páscoa sejam bem diferentes pelo
estilo, não resta dúvida de que sua origem deve
estar ligada a tradições comuns, a crenças
comuns, e de importância seguramente não-
secundária, visto os enormes esforços que a
construção dêsses monumentos requereu.
Mas nessas estátuas há algo mais que surpreende:
sua fisionomia. Mesmo examinando as feições
além das linhas felinas em que poderiam ter sido
deformadas, chegamos a uma conclusão
surpreendente: as cabeças olmecas não
representam índios da América mas (se excluirmos
a semelhança com alguns tipos de antiqüíssimo
Egito) indivíduos de uma raça para nós
completamente desconhecida.
Homens vindos das estrelas? Astronautas da
Atlântida? Alguns estudiosos lançam-se às
hipóteses mais arrojadas, vêem nas estranhas
peças que cobrem as cabeças das estátuas
representações de capacetes espaciais. Não existe
então aquele estranho fragmento da Páscoa onde
se lê: "Eis que chegam os homens voadores (...) os
homens com o chapéu que voam"?
Os olmecas conheciam a estela e a pirâmide, dois
entre os mais conhecidos monumentos da
civilização mediterrânea, tinham em comum com o
Egito, vários símbolos, entre os quais o típico "jugo
de Ankh" dos filhos do Nilo, representando a vida
além da morte; e não devemos esquecer os
machados rituais, entalhados internamente com
figuras de homens e de animais, quer pelos
olmecas quer pelos egípcios.
"Nenhuma civilização da Mesoamérica" — escreve
Pierre Honoré — "permite traçar paralelos tão
marcantes com as nossas como a dos olmecas.
Disto nasce, espontânea, uma pergunta: os
olmecas migraram do velho mundo para o México?
Poderiam ter levado para lá a pirâmide, a estela, o
conhecimento do asfalto, o machado cerimonial, o
jade, a mania das cabeças de leão e de jaguar.
"Mas essas coisas já tinham sido há tempos
esquecidas no 'velho mundo', quando os olmecas
se apresentam em cena no México. Tampouco a
escrita de Creta, da qual a olmeca muito se
aproxima, pode ter sido levada diretamente do
Mediterrâneo à América: quando os olmecas
fundaram seu reino, a cultura cretense tinha
morrido havia um milênio e meio. Quem da Europa
tivesse chegado à América já não podia tê-la
conhecido. Os olmecas, portanto, devem ter
recebido sua civilização e sua escrita de uma
estirpe muito mais remota."
De qual estirpe? Da que vivia na Atlântida,
seríamos levados a responder.
Sob o influxo olmeca desenvolveram-se
civilizações maravilhosas, das quais a mais antiga
recebeu depois o nome de um campo de ruínas
que se encontra nas vizinhanças da Cidade do
México. Nenhum documento escrito nos fala de
Teotihuacán: tudo quanto sabemos foi revelado
pela arqueologia. Não conhecemos nem mesmo o
nome original desse centro, cujos edifícios já eram
cobertos pelo húmus e pela vegetação quando os
espanhóis chegaram: o nome que usamos —
Teotihuacán — lhe foi dado pelos astecas.
Trata-se de uma das metrópoles mais
extraordinárias da América: somente um ou outro
elemento nos parece familiar, enquanto o resto
não lembra nada que possa ser visto em outro
ponto do globo; e caminhando ao longo de suas
ruas desertas, sentimo-nos postos em contacto
com uma enigmática civilização extraterrestre, a
um tempo bela e pavorosa.
Como não deixar o pensamento correr para um
planeta desconhecido, admirando do alto o vasto
campo de ruínas, tão imponente e tão
"alienígena"?
Aqui também dominam as pirâmides, uma
dedicada ao Sol e outra à Lua. E a primeira tem
uma característica que impressiona: sua base, de
225 por 220 metros, é idêntica à da pirâmide de
Quéops, enquanto a altura corresponde à metade
(73 metros) da altura do célebre monumento
egípcio. Simples coincidência? É um pouco difícil
de acreditar.
Entre os desenhos que ornam seus monumentos,
Teotihuacán esconde, além disso, outra enigmática
referência ao mundo mediterrâneo: um curioso
símbolo em forma de nó, que encontramos
também no palácio de Cnosso, em Creta, e que
corresponde, quase certamente, à borboleta usada
em várias partes do mundo para representar a
alma dos mortos, a vida além da morte. E talvez
exista aqui uma ligação com o mito de que a
pirâmide consagrada a Selene foi erguida sôbre
uma cripta secreta contendo uma caixa de cristal
onde se encontraria, "mergulhada em longo sono",
a deusa da Lua, em carne e osso.
De Teotihuacán, diz a lenda que não foi construída
por homens, mas por deuses ou semideuses, por
gigantes brancos. Mas, se os gigantes 'se
apresentam na mais antiga história da América,
êles nada têm a ver com esse núcleo mexicano
construído provàvelmene entre 100 e 300 d.C.,
assaltado e incendiado pelos toltecas em 856, não
antes de ter influenciado duas outras civilizações:
a dos maias e a dos zapotecas.

Espaciais dançantes

As crônicas de Cortez fazem menção a duras


batalhas travadas pelos espanhóis contra um povo
temido quer pela coragem quer por suas grandes
lanças: trata-se justamente dos zapotecas, gente
guerreira que nunca foi totalmente submetida nem
pelos astecas nem pelos conquistadores
espanhóis. No começo de nossa era encontramo-
los situados no Vale de Oaxaca (México sul); e
nessa área, após longas e vãs pesquisas, o
arqueólogo mexicano Alfonso Caso trouxe à luz os
restos daquela que é conhecida como "a cidade
dos templos de Monte Albán".
Mais tarde eles abandonaram este centro para
construir outro, Mitla, do qual é famosa a colunata
que lembra muitíssimo não somente a de Chichen
Itzá (Iucatã), como também as de Cnosso, em
Creta, e a do grandioso palácio de Tirinto, na
Grécia, construído entre os séculos XIII e XIV a.C.
Se numerosos detalhes, entre os achados
zapotecas, permitem relacionamentos com as
civilizações mediterrâneas, um é simplesmente
impressionante: trata-se da estátua de um homem
nu, que, quer pelas feições, quer pela posição,
quer ainda pelo turbante que lhe cinge a cabeça,
poderia ter saído das mãos de um escultor egípcio.
São outros, contudo, os monumentos de Monte
Albán que, nesses últimos tempos, deixaram
estupefatos os estudiosos: trata-se dos relevos
conhecidos, em seu conjunto, como Galeria de los
danzantes, que representam homens em atitudes,
diríamos, próprias de dançarinos ocupados numa
pantomima da qual não entendemos o significado.
Mas essas figuras fazem pensar mais uma vez em
astronautas, a começar pelos "chapéus"
semelhantes a capacetes para vôo (alguns
parecem até apresentar receptores de rádio
embutidos!); os seres parecem revestidos de roupa
espacial, com luvas e sapatos incorporados
(estranhos sapatos de bicos reentrantes), e zíperes
colocados sobre os braços e as coxas.
Há que chamar atenção para o fato de que essas
representações se destacam de todas as demais
de origem zapoteca, inconfundíveis por seu estilo
singular.
Os descendentes do povo de Monte Albán e Mitla
sobreviveram até nossos dias, reagrupados
sempre nos arredores de Oaxaca, e sua língua
ainda é falada no México, por cerca de 111 mil
pessoas. Desapareceram os sinais da antiga
grandeza: o espírito daqueles velhos tempos
parece reviver somente nos grandes festejos,
quando os herdeiros dos irredutíveis guerreiros
voltam a pôr os magníficos diademas de plumas e
os ricos mantos de seus antepassados.
Será oportuno gastar algumas palavras com esses
diademas de penas. Nós os consideramos próprios
da maior parte dos índios da América, e com
razão; não devemos esquecer, porém, que muitos
outros povos também os utilizavam.
"Numerosos egípcios das primeiras épocas" —
escreve Marcel F. Homet — "usavam os mesmos
ornamentos de penas que conhecemos desde a
descoberta da América, e que ainda hoje vemos na
cabeça dos índios brasileiros." E Pierre Honoré
demonstra como esses diademas eram comuns
também em Creta, relacionando dois afrescos, um
dos quais representa um príncipe de Cnosso e o
outro um nobre índio de Palenque, no Iucatã, e
apresentando outras documentações.
Quase desaparecido da América, ao contrário, é o
turbante, embora aqui ele tenha uma história
plurimilenar: vemo-lo cingir a cabeça dos gigantes
de pedra de Tiahuanaco, reencontramo-lo com os
zapotecas e muitíssimos outros povos. Já Cristóvão
Colombo fala, em seus relatórios, de índios "com a
cabeça coberta por coloridos turbantes de seda", e
o missionário José de Acosta (1539-1600) narra a
mesma coisa em relação ao Peru. Os
conquistadores espanhóis, por sua vez, ficaram
muito surpresos ao encontrar no "Nôvo Mundo" a
cobertura para cabeça que conheciam como
muçulmana. Mas o turbante, na verdade, é bem
mais antigo que Maomé: os hititas, os babilônios,
os egípcios e os hebreus usavam-no sabe-se lá
quantos séculos antes da vinda do "verdadeiro
profeta".
Quando florescia a civilização zapoteca, outras
civilizações, no México, também atingiam grande
esplendor: deve ser lembrada, antes de mais nada,
a dos totonacas, a primeira com que os conquis-
tadores espanhóis entraram em conflito,
destruindo por fim Cempoala, uma cidade que
surgia ao norte da atual Vera Cruz, sôbre o Golfo
de Campeche.
Aquele centro era, contudo, de construção
bastante recente, remontando a um período que
vai de 1200 a 1520. Antes, os totonacas haviam
morado numa cidade muito maior, uma das
maiores do antigo México: de acordo com a
tradição, seu nome era Tajin, que significa "o raio".
Muitos estudiosos nem mesmo acreditavam na
existência dessa fabulosa Tajin: tiveram que
mudar de opinião quando, em 1935, a expedição
guiada pelo corajoso arqueólogo Garcia Payón
chegou a descobri-la após longa marcha na selva,
atormentada por fadigas e perigos enormes.
A façanha rendeu, contudo, magníficos frutos,
trazendo à luz, com outras ruínas, uma pequena e
uma grande pirâmide, perante as quais todos os
especialistas do mundo ficaram pasmados.
Tajin, de fato, reserva grande surpresa: aqui
também domina (acabamos de dizê-lo) o sinal da
pirâmide; mas não se trata da pirâmide que a
América tem em comum com o Egito, em degraus
ou com paredes lisas: trata-se da clássica pirâmide
asiática, em nichos!
Ouçamos Pierre Honoré: "A grande pirâmide de
Tajin liga-se à Ásia sul oriental: não só na parte
inferior da construção, mas também nas
decorações e nos nichos é idêntica aos pagodes da
cidade morta de Pagan, na Birmânia. O estilo
ornamental de Tajin, especialmente no que diz
respeito aos vasos, mostra tal semelhança com o
tardio estilo Chu da China que se torna quase
impossível distingui-los um do outro, e o mesmo
pode-se dizer quanto aos achados de Parachas, no
Peru. Sobre as duas costas do Pacífico vemos os
característicos dragões entrelaçados, com as
curtas asas em forma de foice, próprias do estilo
chinês dos séculos V e IV a.C. E em Tajin
encontramos também o espelho circular, ainda que
feito de pirita, e não de bronze como no Celeste
Império.
A arte totonaca, por outros aspectos, apresenta
parentesco também com a de Teotihuacán e
revela — ainda! — alguma coisa que se destaca
das expressões de qualquer outra cultura: são as
características figuras de pedra, chamadas
"palmas", de forma prismática, triangular, com a
parte posterior ornamentada em relevos, figuras
únicas em seu gênero, mas que fazem o
pensamento migrar para a Grécia, Mesopotâmia,
Egito, Ásia.
As lembranças dos totonacas despertam profunda
impressão em quem delas se acerca: transmitem
os ecos de culturas afastadíssimas entre si,
parecem quase sintetizar todo o passado do globo.
E traçam no mapa-múndi os vagos contornos da
Atlântida e daquele outro grande continente que,
desaparecido sob as ondas do Pacífico, conta-se
ter constituído uma enorme ponte entre América,
Ásia e Oceania.
A herança dessas civilizações nunca foi
completamente perdida, nem mesmo quando
desceram do norte para invadir o México as hordas
bárbaras dos nahuas: os conquistadores foram
assimilados pelos vencidos e, embora tenham
conseguido impor suas sanguinárias religiões, seus
ritos cruéis, recolheram e guardaram os tesouros
de um passado sem história.
CAPÍTULO XV
Os Deuses Brancos

PARA o MÉXICO TEVE enorme importância a passagem


do século VII para o VIII, depois de Cristo, pois
assinala-se neste período o início de maciças
descidas de nahuas, vindos do norte. O primeiro
grande reino que surge após esta época é o dos
toltecas, entre 856 e 1174, que teve entre seus
soberanos o famoso Quetzalcoatl: segundo a
tradição, um barbudo rei branco!
Recordemos que é tolteca o imponente templo
dedicado ao "deus da estréia da manhã" (Vênus),
trazido à luz naquela que foi a capital desse povo,
Tula ou Tollan. A cidade foi destruída em 1.168,
quando a segunda onda de bárbaros desceu do
norte para se impor e dar origem ao reino dos
chichimecas que, por sua vez, seriam substituídos
pelos astecas.
Vênus, homens brancos... quantas vezes
encontramos esse misterioso planeta e essas
lendárias figuras na história da América pré-
colombiana? E quantas vêzes o primeiro e as
segundas se relacionam diretamente com a terra
desaparecida "colocada lá onde o sol se levanta e
onde agora só existe água"?
Há quem diga que a chave do mistério deve ser
procurada na lenda de Quetzalcoatl, quinto rei dos
toltecas, que teria reinado a partir de 977. Vamos
segui-la nos seus aspectos essenciais.
O rei branco era filho do deus do céu Mixcoatl (o
nome significa "serpente das nuvens") e da deusa
da Terra, Chipalman ("escudo jacente"). Ele veio
do Oriente, ensinou aos homens todas as ciências,
deu-lhes sábias leis, fêz prosperar a agricultura:
em seu reino o milho crescia altíssimo e o algodão
dava fibras coloridas (o que é pura verdade).
Quetzalcoatl pregou a paz, disse aos homens que
não mais deveriam matar nem mesmo os animais,
acostumando-se a se alimentar só com os frutos
da terra. Mas a idade de ouro durou pouco: um
demônio tomou conta do sábio rei, obrigou-o a
todo o tipo de baixeza e ele, envergonhado,
abandonou Tula, foi até a praia e queimou-se. Seu
coração tornou-se a estrela-d'alva...
Podemos apresentar a lenda em outros termos, à
procura daquela chave que mencionamos e na
qual muitos estudiosos acreditam? Poderíamos
tentar desta maneira:
Do céu desceram sobre a Atlântida seres
evoluidíssimos, a ponto de parecerem iguais aos
deuses (Mixcoatl) para os primitivos povos de
nosso globo. Eles chegaram a bordo de uma
astronave fusiforme ("serpente das nuvens") e se
uniram aos terrestres (Chipalman), conduzindo-os
a um altíssimo nível de civilização. Da Atlântida, a
nova estirpe expandiu-se até a América, levando o
progresso aos habitantes deste continente, que
viveram felizes até quando perdurou o domínio da
Atlântida, caindo em seguida na barbárie (o
demônio). Só com os sacrifícios (suicídio de
Quetzalcoatl), só elevando o coração a Vénus, o
mundo de onde chegaram os generosos
astronautas, eles podiam esperar alguma melhora.
É realmente este o pano de fundo real na lenda
tolteca? Numerosos outros elementos pareceriam
apoiar, na verdade, as mais inusitadas hipóteses.

Serpentes de prata

"Os meus mensageiros contam ter encontrado,


após uma marcha de doze milhas, uma aldeia que
podia contar cerca de 1.000 habitantes. Os
indígenas os acolheram festivamente, conduziram-
nos às melhores casas, carregando-os nos braços,
beijando suas mãos e seus pés e procurando lhes
explicar de toda maneira que eles sabiam como os
homens brancos haviam chegado da morada dos
deuses. Cerca de cinqüenta — entre homens e
mulheres — suplicaram-lhes que os reconduzissem
com eles ao céu dos deuses imortais..."
Não há quem, tendo lido uma crônica ou um
romance de aventuras, não tenha encontrado uma
situação como esta: muitíssimos foram os
exploradores brancos que, descendo no coração da
África, da América do Sul ou de outras terras ainda
povoadas por gente primitiva, receberam acolhida
entusiasta, muitas vezes comovente, tendo sido
considerados de estirpe divina.
Isso pode ser explicado pensando-se na surpresa
de indivíduos que entram em contacto pela
primeira vez com seres tão diferentes deles pela
cor da pele e dos cabelos, pela roupa; no espanto
que podem provocar entre os povos menos
evoluídos os frutos de nossa civilização.
Mas seria realmente este o caso do episódio acima
citado? Cremos poder decididamente negá-lo: as
palavras em questão não foram tiradas de um
conto qualquer, mas de um documento histórico,
das memórias de Cristóvão Colombo. Os indígenas
de que fala o grande navegador genovês não
foram simplesmente vencidos pelo fascínio dos
recém-chegados, surgidos em sua aldeia em 6 de
novembro de 1492, mas conheciam a existência
de homens brancos e esperavam há tempo,
ansiosamente, essa chegada. Porque, à lembrança
desses seres, estava ligado tudo quanto, nos
séculos e milênios passados, tinha tornado feliz a
América ainda sem nome.
Brancos e barbudos são os deuses índios, apesar
de seus adoradores serem de tez mais escura e
quase não terem pêlos no rosto. Branco e barbudo
é o deus inca Kon Tiki Illac Viracocha, que se
tornou entre os maias Kukulkan ou Kukumatz,
entre os toltecas e astecas Quetzalcoatl e entre os
chibchas, Bochica.
Temo-nos referido a Quetzalcoatl como quinto rei
dos toltecas, mas não devemos esquecer que se
trata antes de mais nada de uma figura situada
entre a história e a lenda, da qual o soberano pode
ter assumido algumas características: Quetzalcoatl
era, de fato, o título que, de direito, cabia ao mais
alto sacerdote tolteca, e era transmitido de
geração em geração, em honra do primeiro que o
tinha usado: o fabuloso deus branco.
Os significados desses nomes concorrem
estranhamente para apoiar as hipóteses
elaboradas em bases diversas, dos mais arrojados
estudiosos. Kon Tiki quer dizer, de fato, "filho do
sol"; Illac, "raio"; Viracocha, "espuma do mar";
Quetzalcoatl significa "serpente que nada";
Kukumatz, "coração do mar"; e Bochica, "branco
manto luminoso".
Filhos das estréias, homens descidos do céu sobre
faiscantes "serpentes de prata" ou chegados do
mar: não são estas as imagens evocadas pelos
nomes de mágica significação? E não fazem
sonhar com a maravilhosa aventura de
astronautas que de mundos longínquos
aterrissaram na Atlântida e de lá se espalharam
pelas costas americanas e o mundo inteiro?
Lendas, simples lendas, alguém dirá. Mas a lenda
não tem realmente uma base real? E não são elas
que sobrevivem por séculos, milênios, mais que
qualquer outra lembrança? Interroguemos (ex-
cluindo os estudiosos) os que nos rodeiam sobre a
história de Roma: muito poucos estarão
capacitados a relatar datas, fatos, notícias exatas,
mas todos lembrarão as lendas de Réia Sílvia, da
loba, de Rómulo e Remo. Da mesma maneira como
corriam e correm ainda, na América do Sul e
Central, as fábulas dos "filhos do sol".
O historiador soldado Cieza de León, um dos mais
acatados cronistas do antigo Peru, conta como um
barbudo homem branco teria aparecido sobre as
margens do Lago Titicaca muito antes que surgisse
o império dos incas. "Ele tinha uma grande
personalidade" — diz Cieza de León — "e instruiu
os homens de então sobre todas as coisas da
agricultura e dos costumes, e ordenou que se
amassem, que fugissem da violência (...) aquele
homem era Tiki Viracocha."
Outros cronistas do Peru, entre os quais
Ondegarde e Sarmiento, mencionam os mesmos
fatos, acrescentando que o famoso personagem
edificou, com seus companheiros, "uma enorme,
majestosa cidade, como nunca tinha sido antes
vista (...) uma cidade cheia de coisas
maravilhosas".
Não esqueçamos que Kon Tiki não é uma
divindade somente americana, é também
polinésica, e veremos esses misteriosos "senhores
brancos" dominar o mundo todo, num passado
imemorável e serem padrinhos talvez de todas as
grandes civilizações.
Aqui também não é difícil perceber como a lenda
reflete a verdade. Inúmeros testemunhos artísticos
da antiga América confirmam a existência de
enigmáticos homens com a pele clara:
encontramo-los representados de La Venta a
Monte Albán, do México à Bolívia e ao Peru.
Bastante célebres são as representações maias de
Chichen Itzá, no Iucatã: elas nos narram o fim dos
últimos brancos, derrotados pelos bárbaros que
desceram do norte; as duas raças são
representadas durante as fases de uma batalha
naval, depois do que vemos os vencidos sobre os
altares de sacrifícios. Fascinantes são também as
máscaras de Tiahuanaco, que recordam a serena
expressão dos vultos barbados.
Sobre os monumentos, Pierre Honoré lembra um
curioso acontecimento que remonta aos tempos da
conquista espanhola do império dos incas.
"Em toda parte os espanhóis foram acolhidos com
a palavra Viracocha, que consideravam uma
fórmula de saudação, sem imaginar nem de longe
seu significado" — escreve o estudioso. "Por fim,
souberam em Cusco que se tratava do nome do
"grande deus branco", vindo em tempos remotos
para trazer aos índios os dons da ciência, da
técnica, das leis mais sábias — o deus que depois
se fora, deixando a solene promessa de voltar.
"Os conquistadores ouviram depois falar do templo
erguido nos arredores da cidade em honra de
Viracocha, e se apressaram a visitá-lo, na
esperança de encontrar grandes tesouros. O
templo era uma construção com 40 metros de
comprimento por 30 de largura. Os soldados se
precipitaram, penetrando de súbito num labirinto
que circundava o edifício e chegava, afinal, através
cle doze estreitos corredores, até o santuário. Era
um pequeno quarto recoberto de azulejos negros,
onde dominava a figura de um homem.
"Quando chegaram perto, até os mais selvagens e
ferozes combatentes tiraram o capacete, fazendo,
temerosos, o sinal da cruz. Eles conheciam, de
fato, aquela figura; conheciam-na das igrejas e
capelas de sua pátria: aquêle velho de barbas que
segurava uma corrente presa a um monstro caído
a seus pés era... São Bartolomeu!
"Recobrando-se do susto, os espanhóis começaram
a procurar em todos os corredores, mas não
encontraram tesouro algum: tudo quanto o grande
templo escondia era a estátua do deus branco dos
nativos, que eles confundiram com um dos doze
apóstolos."
Por outro lado, os ibéricos se defrontaram várias
vêzes com homens de raça branca, na outra
margem do oceano. É sabido que o oitavo
soberano inca, chamado Viracocha Inka, era de
pele claríssima, como sua esposa. Também Pedro
Pizarro, primo do "Conquistador", escreve:
"(Contam que) o deus-sol, progenitor dos incas,
enviou-lhes em tempos remotos um dos seus filhos
e uma de suas filhas para lhes doar o
conhecimento, enviados que os homens
reconheceram divinos por suas palavras e pela tez
clara. A casta dominante nos incas peruanos é de
pele clara; as mulheres nobres são agradáveis de
se olhar: elas se julgam bonitas, e de fato o são. Os
cabelos dos homens e das mulheres são louros
como o trigo, e certos indivíduos possuem pele
mais clara que os espanhóis. Neste país vi uma
mulher com uma criança de pele
extraordinariamente pálida. Deles dizem os indí-
genas que são descendentes dos ídolos (deuses)."
A existência de uma "ponte", em tempos
antiqüíssimos, entre Europa, África e América é
demonstrada de maneira mais do que evidente
pelos vestígios pré-históricos.
A parte meridional do continente americano, por
exemplo, é semeada de dolmens — aqueles
característicos monumentos funerários
megalíticos, formados por uma grande pedra chata
apoiada sôbre outras fincadas no chão, numerosos
principalmente na Bretanha, Gales, Alemanha do
Norte, Córsega e Puglia. "A técnica dos habitantes
pré-históricos da Argentina" — escreve entre
outros, o paleontólogo Ambrosetti — "é
absolutamente idêntica à dos cipriotas, e pode
encontrar expressões completamente
correspondentes no Trouaux Anglais, em Epone,
França."
Na América do Sul são bastante comuns outros
monumentos megalíticos que teríamos
considerado tipicamente mediterrâneos e norte-
europeus: os menires, formados por enormes
colunas (característicos da Bretanha e da parte
centro-sul do continente europeu) e os cromlech,
pedras colocadas em círculo para simbolizar a
divindade; entre êstes, o mais célebre é o de
Stonehenge.
Um brasileiro, o Dr. Alfredo Brandão, coletou
milhares de inscrições sobre menires e dolmens
sul-americanos que contêm caracteres pré-
históricos europeus e letras dos primitivos
alfabetos mediterrâneos. Estátuas megalíticas,
idênticas às encontradas na França, foram achadas
na Amazônia, e o mesmo se pode dizer para as
armas, os instrumentos menos comuns e o
vasilhame.
Alguns dolmens encontram-se perto daquilo que é
um dos mais sugestivos monumentos pré-
históricos da Amazônia, a chamada Pedra Pintada,
no meio de uma planície situada a pequena
distância do tronco central do Rio Parima: é um
imponente bloco de forma ovóide, sob o qual
(como ainda hoje os índios sustentam) deveriam
encontrar-se os restos de um louro gigante branco;
verdade ou não, o fato de se acharem nos
arredores caveiras antiquíssimas, pertencentes a
uma raça desconhecida, muito próxima da nossa,
convida a refletir.
Se esses monumentos pré-históricos se acham de
um lado e de outro do oceano — alguém poderia
objetar — isso pode depor a favor, sim, de uma
"ponte" depois desaparecida, mas também pode-
se ter a impressão de que esta "ponte" não se
distinguia por elevado nível de civilização. Mas se
aceitamos a teoria dos continentes desaparecidos,
a objeção cai, pois temos que pensar em poucos
representantes das civilizações perdidas que
conseguiram transmitir somente a alguns grupos
étnicos os segredos dos quais eram depositários. A
Terra, em plena era atômica, em plena era
espacial, não hospeda ainda hoje em seus
continentes — à exceção da Europa — povos que
vivem em condições primitivas, às vêzes idênticas
às que caracterizaram os trogloditas?

A cidade impiedosa

O influxo de uma grande civilização sobre alguns


grupos das Américas Central e do Sul é inegável. E
foi um influxo poderosíssimo, capaz de se manter
vivo por milhares de anos e refletir-se também
sobre os bárbaros descidos do norte.
Tombados os reinos tolteca e chichimeca, são os
astecas que se apresentam na cena mexicana.
Pertencentes à estirpe dos nahuas, souberam fazer
de sua pequena tribo nômade a principal potência
da América Central: aos chefes seguiram-se os reis
(o primeiro, Acanapich, começou a reinar em 1376)
que deveriam manter o cetro até 1521, quando
foram definitivamente vencidos por Cortez.
Como dissemos, os astecas chamavam sua pátria
originária com o significativo nome de Aztlan: mas
trata-se de uma "nobreza adquirida", de uma lenda
"roubada" a algum povo conquistado. Na verdade
eles provinham do atual território dos Estados
Unidos; após terem eliminado, com uma série de
rápidos e decisivos conflitos, os antigos habitantes
do que depois seria seu império, instalaram-se,
dividindo-se em numerosos grupos, numa vasta
região que tem seu centro próximo da atual
Cidade do México. Aqui levantaram a capital,
Tenochtitlán, uma grande cidade com cêrca de 60
mil edifícios, cheia de maravilhosos palácios, e
soberbos templos em pirâmide, circundada por
casas construídas sôbre palafitas.
Tenochtitlán era uma cidade de sacerdotes, em
cujo interior havia, mais numerosos que em
qualquer outra parte da América, altares e pedras
sacrificiais. Era a pátria do feroz deus
Huitzilpochtli: a pirâmide a ele dedicada, no centro
do aglomerado, era literalmente coberta de
sangue. E, quase todo dia, os sacerdotes com as
orelhas e a língua furadas, o rosto e o corpo
pintados de preto, envoltos em capas que se
diziam feitas de pele humana, subiam os infames
degraus para realizar horrendos sacrifícios.
Meninos e meninas das classes mais elevadas
caíam às centenas nos holocaustos, — chamados
capacocha — estrangulados, com a garganta
rasgada, sepultados vivos na pirâmide. O sacrifício
mais solene consistia, porém, no abrir o peito das
vítimas e arrancar seus corações com as mãos.
Assim, quando o templo foi inaugurado (século
XV), foram chacinadas pelo menos 20.000
pessoas.
Os astecas não foram bons agricultores, e por isso
desorienta notar como eles foram os precursores
das culturas hidropônicas, com suas hortas
flutuantes, os chinampas, formadas por esteiras
sôbre as quais tinha sido colocada uma faixa de
terra; mas talvez aqui também se trate de uma
das muitas enigmáticas heranças dos "brancos
senhores do mundo", como é o caso do algodão
que — segundo opinião de muitos estudiosos —
eles conseguiam obter da planta já colorido. Não
se explicaria, de outra maneira, a difusão deste
extraordinário sistema da América Central às
costas do Peru, cujos habitantes produziam flocos
de côr variável entre o marrom e o azul-carregado.
"Os deuses brancos fizeram de tal maneira que o
algodão crescia já colorido..." — relatam os
cronistas, apoiando-se em lendas indígenas. É um
prodígio que a nossa ciência, embora tenha
lançado mão de todos os recursos disponíveis,
ainda não conseguiu repetir.
Mas os leves flocos escondiam outro apaixonante
enigma: sabe-se, com certeza matemática, que o
algodão dos antigos americanos é resultante do
cruzamento entre a planta (selvagem) daquele
continente e a européia. Como pode o algodão da
Europa chegar até a América? Pelo Estreito de
Bering? A hipótese deve ser excluída, pois as
emigrações ao longo daquele caminho levaram
milênios e a planta não suporta clima frio. Sôbre as
ondas do oceano ou transportado pelas águas? É
impossível, porque a água marinha, salgada, mata
as sementes de algodão, e as aves delas não se
alimentam. Mais uma vez parece possível uma só
resposta: Atlântida.
Tenochtitlán não era somente a terrível cidade dos
sacrifícios humanos: à expressão de uma
crueldade para nós horrenda, inconcebível, aliava
dotes espetaculares. Seu mercado — diz Pierre
Honoré — tinha para os espanhóis o encantamento
de uma fábula, li escreve:
"Podia-se lá encontrar tudo quanto o Novo Mundo
produzia: era três vezes maior que o de
Salamanca. Os ourives de Azcapotzalco tinham
suas bancas perto dos joalheiros e oleiros de
Cholula, dos pintores de Tetzcoco, dos cortadores
de pedras preciosas de Tenayuca, dos pescadores
de Cuitlahuac, dos fabricantes de cestas e de
cadeiras, de Quauhtitlan, dos floristas de
Xochimilco. Cada mercadoria tinha seu lugar na
praça do mercado, circundada por grandes
pórticos...
"Havia estranhas coisas para comprar: peixes de
ouro com diminutas escamas, aves de ouro com
plumas do mesmo metal e de cabeça móvel,
recipientes de todos os tipos de madeira,
envernizados e também dourados, machados de
bronze, capacetes com figuras de animais,
couraças embutidas para os guerreiros, espadas
mexicanas com lâminas de itzli, navalhas, espelhos
de pedras polidas, peles e trabalhos em couro de
todo tipo, animais domésticos e ferozes, caixas de
fibras de algodão ou de agave, de pele... e
escravos. Havia vendedores de ervas medicinais e
farmacêuticos, e também barbeiros, sempre
atarefadíssimos porque, se os índios quase não
tinham barba, em compensação raspavam os
cabelos."
E havia talvez, naquele mercado maravilhoso,
menestréis ocupados em divulgar as lendas
astecas; estranhas lendas (como a de Tapi), que
fizeram os espanhóis suspeitar que aquele povo
conhecesse as Sagradas Escrituras e que talvez
um apóstolo tivesse chegado, no começo de nossa
era, à costa mexicana.
A hipótese parece absurda à primeira vista, porém
há coisas sobre as quais não podemos passar com
facilidade. Em matéria de paralelos religiosos, por
exemplo, as constatações feitas pelos espanhóis
são bastante estranhas: eles viram, entre outras
coisas, que os antigos senhores de Tenochtitlán
batizavam os recém-nascidos com água, que
usavam incenso nos templos, que praticavam a
confissão e os fiéis se ajuntavam para receber dos
sacerdotes minúsculos pedaços de pão e ingeri-los
em recolhimento para poder "reconciliar-se com os
deuses".
No campo religioso, porém, encontramos entre os
maias as mais extraordinárias coincidências: eles
celebravam no dia 16 de maio a "festa da água" —
dia para os católicos dedicado a São Nepomuceno,
que é o "santo da água"; no dia 8 de setembro era
festejado o nascimento da mãe do "deus branco"
(para a Igreja Romana é a data da natividade de
Maria); o dia 2 de novembro era dedicado à lem-
brança de todos os mortos e o dia 25 de dezembro
à vinda do próprio "deus branco"!
Quanto a este, consta que teve parte, embora
indireta, no fim do império asteca, como se
houvesse desejado punir aqueles "afortunados
arrivistas" (assim os define um arqueólogo) que se
fizeram fortes a partir de uma origem que não a
deles e desprezaram seus mandamentos. Os
ferozes imigrantes, de fato, viviam, mais que de
caça e pesca, de guerras e de operações
comerciais que incluíam rapinagem: suas
caravanas tinham o costume de trocar
mercadorias com os povos mais fortes e de
assaltar e depredar os mais fracos e isolados.
Mas cheguemos à conclusão: os sacerdotes de
Tenochtitlán afirmavam que seu "deus branco"
havia morrido no ano Ce-acatl, e que no mesmo
ano havia voltado: trata-se de um período de
tempo que em nosso calendário corresponde a 52
anos.
Bem, por um capricho do destino, aconteceu que
justamente no início de um Ce-acatl (22 de abril de
1519) os homens de Cortez puseram os pés no
México e o chefe espanhol desembarcou
exatamente no lugar em que se dizia haver
desaparecido a divindade, vestindo, como o "deus
branco", uma capa e um chapéu preto!
O imperador Montezuma foi capturado e mantido
prisioneiro no palácio do chefe espanhol,
totalmente submisso à vontade dos invasores, que
tornaram a população alvo de todas as
brutalidades. Num último ímpeto de rebelião, os
astecas se levantaram: Montezuma foi morto,
Cortez expulso. Somente em 13 de agosto de 1521
os conquistadores puderam vencê-los e conquistar
definitivamente Tenochtitlán.
Seria loucura querer aqui fazer um processo contra
a História. Mas considerando o que aconteceu nas
Américas Central e do Sul, não podemos concluir
senão com o pensamento de Cieza de León: Se os
espanhóis não tivessem sido tão ávidos e cruéis,
teríamos das enigmáticas civilizações desse
continente muito mais do que os escassos
fragmentos que pudemos recolher.
CAPÍTULO XVI
Os Gregos da América
"DEUS TOMOU ALGUMAS ESPIGAS DE MILHO, MOEU SEUS GRÃOS,
EMBEBEU A FARINHA COM ÁGUA DE CHICHEN ITZÁ, DEU À SUA CRIAÇÃO
A FORMA DE UM HOMEM, COLOCOU-A NO FORNO E QUANDO FICOU BEM
COZIDA RETIROU-A, ASSOPRANDO SOBRE ELA E DIZENDO: 'VIVEI'
DESTA MANEIRA NASCERAM OS MAIAS, SENHORES DA TERRA."
Assim se conta entre os maias a lenda da criação.
Mas de onde vinha essa gente que soube elevar-se
a considerável e, ao mesmo tempo,
incompreensível grau de civilização? Luís Chavez
Orozco, um dos mais insignes estudiosos de sua
história, acredita numa corrente migratória vinda
do noroeste, ou, mais precisamente, da bacia do
Mississipi. O norte-americano Morley, por sua vez,
sustenta que os maias pertencem ao mesmo grupo
dos esquimós, iroqueses e outros peles-vermelhas
localizados ao norte.
Falando do nascimento do império maia, outra
lenda dá quatro nomes: o de Balám-Quiché ("tigre
do sorriso suave"), chefe do clã de Cavek; o de
Balám-Ayáb ("tigre da noite"), chefe do clã de Ni-
tray; o de Maouacutáh ("nome ilustre"), chefe do
clã de Ahauquicé; e o de Iqui-Balám ("tigre da
lua"), chefe do clã de Tamut e Illorath. Mas isso
também não serve senão para confirmar seu
parentesco com os incas — algo, por outro lado, já
confirmado pelos achados arqueológicos.
A verdadeira civilização maia nasceu
provavelmente na Guatemala (atual província de
Petén), no início da era cristã: o vestígio mais
antigo que possuímos parece remontar ao ano de
57 d.C. Depois de 400, os "senhores da Terra"
(assim êles se autonomeavam) espalharam-se
para norte, oeste e sudoeste, derramando-se em
grande extensão do México, de Honduras e
daquelas regiões que hoje constituem os outros
Estados da América Central.
Depois, em 909, aconteceu algo inexplicável, e
que ainda hoje representa um dos maiores
mistérios da História e da Arqueologia:
repentinamente os maias abandonaram todas as
áreas ocupadas, todas as suas cidades
florescentes, e se transferiram para o Iucatã,
deixando que a selva engolisse o que, em séculos
de duro trabalho, eles haviam criado.
Ninguém até agora soube encontrar uma
explicação satisfatória para esse fato, e o quebra-
cabeça torna-se ainda pior quando se leva em
conta que eles deixaram regiões luxuriantes para
ir viver numa região árida, pouco fértil, povoada
por feras e insetos perigosos. Fala-se em invasões
de outros povos, pestes, carestias, mas são hipóte-
ses sem base, sem o mínimo apoio que as
sustente.
Os maias voltaram a construir, procuraram
alcançar o antigo esplendor, mas seu nôvo império
durou pouco: foram vencidos e subjugados pelos
toltecas. Há cerca de 400 anos, quando os conquis-
tadores de Cortez venceram os astecas e entraram
em sua capital, as cidades maias já eram ruínas. E
hoje, os últimos descendentes do maior império
índio da América vivem como selvagens nas flores-
tas, sem guardar sequer um reflexo da grandeza
de outrora.
E, no entanto, o que não haviam feito seus
antepassados! As metrópoles daquela gente são
impressionantes, a começar pela mais antiga que
conhecemos, a guatemalteca Uaxactún, centro
astronômico muito importante, caracterizado por
uma pirâmide que contém outra em seu interior,
única coisa no gênero em todo o mundo. Também
na Guatemala surgia Tikal, capital intelectual do
país, com templos grandiosos, jardins suspensos e
um enorme estádio para o jogo nacional de bola-
ao-cesto.
Este esporte era praticado, com pequenas
variações, em vários lugares, na realidade em
quase todos os centros mais desenvolvidos da
América pré-colombiana. Entre os maias o jogo
incluía a participação dos espectadores, que
viviam momentos de louco entusiasmo, seguidos
por um medo brutal. De fato, os campeões
deveriam acertar a bola num aro colocado a uma
distância notável, o que não era nada fácil. Quando
um jogador conseguia a façanha, tinha direito de
espoliar de seus bens os que assistiam ao
espetáculo; a cada "cesta" dava-se, portanto, uma
fuga geral: o ganhador corria atrás dos ingratos
torcedores, na tentativa de lhes arrancar do corpo
qualquer coisa que conseguisse segurar.
No Iucatã, entre os centros de maior projeção,
encontramos Uxmal e Chichen Itzá; este último é,
sem dúvida, o mais famoso: fundado em 534 —
ainda antes, portanto, da migração — é ainda hoje
de uma inigualável majestade em suas ruínas. E o
que primeiramente surpreende em Chichen Itzá é
a incrível semelhança de estilo com aquele que é
característico de tantos monumentos antigos do
Camboja, da Indochina e de outras regiões da Ásia
oriental.
Ouçamos Platão falando dos lendários atlantes:
"Eles tinham também duas fontes, uma quente e
outra fria, que jorravam com abundância e
ofereciam uma água agradável para qualquer uso.
Eles se rodearam de palácios e plantações e
construíram termas..."
Ora, há quem sustente que as cidades maias
possuíam, ao longo das ruas principais, fontes
alternadas de água quente e fria, e que isso era
conseguido não por meio de fontes termais, e sim
por instalações de aquecimento. Hipótese
absurda? Não muito, visto que encontramos algo
parecido também nas ruínas do palácio de Minos,
em Creta, e sob algumas ruínas asiáticas.
Um pesquisador que ofereceu maior contribuição
para os estudos de Chichen Itzá foi o arqueólogo
norte-americano E. H. Thompson, o primeiro a
relacionar a civilização maia com a Atlântida. Os
cientistas junto aos quais prestava seu trabalho
mostraram-se algo cépticos para com suas teorias,
mas quiseram conceder-lhe meios de aprofundá-
las. Assim, conseguiram sua nomeação para cônsul
dos Estados Unidos no Iucatã.
A partir de 1885, aquele apaixonado pesquisador
viveu praticamente embrenhado na floresta, no
meio dos índios, entre as ruínas. E em 1896
encontrou em Chichen Itzá uma pequena pirâmide
que de início não pareceu particularmente
interessante, mas que, posteriormente, subverteu
todas as hipóteses até aquela época validíssimas,
e contribuiu com um ponto a mais a favor dos
defensores da Atlântida.

Um faraó no México

Antes que Thompson chegasse à descoberta, era


opinião aceita pela maioria dos estudiosos que as
pirâmides americanas eram totalmente diferentes
das pirâmides egípcias, servindo as primeiras
como templos e as segundas apenas como
monumentos fúnebres.
Foi esse baluarte que o americano destruiu em
Chichen Itzá: descoberta uma pequena galeria,
desceu, abrindo àrduamente caminho entre a terra
desmoronada, e encontrou afinal um amontoado
de ossos humanos que em seguida se revelaram
pertencentes a sete indivíduos.
Simples coincidência? Teríamos podido acreditar
nisso até 1950, quando teve que desaparecer
qualquer dúvida sobre a matéria.
A 8 quilômetros da cidadezinha mexicana de
Palenque encontra-se um vasto campo de ruínas
maias, dominado por imponente pirâmide de
degraus que manteve ocupada por anos, ao redor
de 1950, uma expedição científica dirigida pelo
arqueólogo Alberto Ruz Lhullier. Os recintos
internos da pirâmide tinham sido preenchidos,
séculos atrás, por obscuras razões, com terra e
cascalho, cuja remoção atrasou consideravelmente
as pesquisas. Qualquer outra pessoa, após ter-se
inteirado de maneira genérica sobre o que se
passava, teria renunciado a continuar a
exploração; mas não o Professor Ruz, que viu
muito bem recompensadas suas fadigas.
O estudioso chegou a pôr em evidência uma
inscrição e, percebendo o vazio atrás dela,
removeu-a. Achou-se em frente a uma galeria que
penetrava na terra; desceu e, quando acreditava
ter chegado ao local mais profundo, deu com uma
parede que, na verdade, era uma pesada porta de
pedra. Retirada a barreira, o cientista encontrou-se
num quarto com 3,65 m de comprimento por 2,15
m de largura, cujo piso estava coberto quase
inteiramente por uma laje com maravilhosos
relevos (infelizmente, na maioria indecifráveis)
com as representações do Sol, da Lua e do planeta
Vênus, sob cujo signo estão, inexplicavelmente, as
misteriosas civilizações pré-colombianas.
Também além dessa laje havia espaço vazio. O
arqueólogo viu logo que seria impossível mandar
seus homens removê-la: o lugar era estreito
demais e não teria permitido uma operação
daquela natureza. Alberto Ruz se achava na
mesma situação em que se encontrara 25 anos
antes Howard Carter, no Egito, quando descobriu a
tumba de Tutancâmon: ambos tiveram que
recorrer a complicadas obras de engenharia,
suportar um pesado trabalho; mas se o local era
pequeno demais também para os modernos
instrumentos, como conseguiram os antigos
colocar aquelas lajes?
Não podemos prever se e quando essa pergunta
terá resposta. De qualquer maneira, o Prof. Ruz
conseguiu remover a laje e trouxe à luz um grande
sarcófago de pedra vermelha, contendo o
esqueleto de um homem de 1,73 m de altura,
adornado com esplêndidas jóias, o crânio coberto
por uma máscara de jade que, aparentemente, re-
produz com perfeição as feições do morto.
Trata-se — isso é certo — de um poderoso senhor
maia, do qual, porém tudo é desconhecido, desde
o nome até a data aproximada de sua morte.
Apesar disso, a descoberta do arqueólogo
mexicano é de valor incalculável, representando
outra misteriosa ligação entre as civilizações
mediterrâneas e as americanas — mais uma
incógnita comum a ambas.
Essas ligações são numerosas, e não podemos
aqui senão passar em resenha as mais notáveis.
Para ficarmos em Palenque, notemos como o
centro é dominado também pelo sinal da cruz, que
encontramos em todo o mundo em todas as
formas imagináveis, milênios e milênios antes da
vinda de Cristo.
Há um "templo da cruz" em Palenque, assim
chamado porque o símbolo se agiganta num dos
lados; outro edifício fornece uma variação do
símbolo, reduzido a uma árvore: é a "árvore da
vida" da Índia antiga e a "árvore do céu", de Javal
A arte budista apresenta deuses sentados sobre
tigres e outros grandes felinos, e a mesma imagem
é característica da arte religiosa maia,
especialmente em Palenque. "A representação do
Sol como disco" — diz Honoré — "a concha, a
planta, a figura de Vixnu são completamente iguais
do lado de lá e do lado de cá do Pacífico, ou se
aproximam tanto a ponto de tornar impossível
pensar que possam ter nascido cada uma
separada da outra e, só por acaso, da mesma
maneira."
Encontramos, além disso, a flor do lótus, típica
ainda da Índia e do Camboja, reptis com cabeça
humana, reptis de fogo (são os dragões chineses!),
com muitíssimas outras figuras que apresentam
correspondentes em toda a Ásia.
"Existem afinidades entre a arte da antiga China e
a da América norte-ocidental" — escreve Ivar
Lissner — "como entre a iconografia Shang e
alguns símbolos dos maias e astecas. Mas como
pode ser aqui explicada a lacuna temporal entre a
antiquíssima arte dos bronzes chineses, a
civilização dos maias do século IV e a asteca do
século XIV d.C.?"
Quando na selva guatemalteca foram descobertas
as ruínas da cidade de Tikal, os estudiosos
pararam, assombrados, perante as pirâmides
bastante íngremes (uma alcança a altura de 70
metros, como um prédio de 5 andares), que nunca
tinham visto em outras partes da América.
Na América não, mas na Ásia sim: pirâmides
idênticas às de Tikal encontram-se na metrópole
morta de Angkor Vat!
E quem sabe em que lugar da Ásia, além disso,
nasceu a estela: por caminhos desconhecidos
chegou aos egípcios, aos gregos, aos romanos,
destinada a eternizar na pedra datas e fatos
relevantes, proclamas e discursos de importância
histórica. E encontramo-la também em Simbabwe,
entre os Hsing Nu, entre os mais antigos
habitantes das cidades mortas do Oriente Médio.
Os maias seriam talvez o "povo das esteias"?
Ficamos pasmados perante esses monumentos... e
o pensamento se embala ainda nas "hipóteses
cósmicas". Em que se inspiram essas colunas?
Simbolizam talvez as "rijas serpentes luzentes" das
lendas? Astronaves? Paremos para contemplar a
chamada "estela F" de Quirígua, na Guatemala, e a
idéia se revelará bem mais tentadora do que a
ciência "oficial" julga lícito.
"Em muitos campos" — escreve Raymond Cartier
— "os maias superaram os gregos e os romanos.
Munidos de profundos conhecimentos matemáticos
e astronômicos, eles levaram a uma perfeição
minuciosa a cronologia e a ciência do calendário.
Construíram observatórios com cúpidas melhor
orientadas do que a do Observatório de Paris,
erguida no século XVII, como, por exemplo, o
Caracol, apoiado sobre três terraços, em sua
capital Chichen Itzá. Utilizaram o ano sagrado de
260 dias, o ano solar de 365 dias e o ano
venusiano de 584 dias. A duração exata do ano
solar foi modernamente calculada em 365,2422
dias. Os maias tinham encontrado 365,2420 dias,
isto é, o valor (com erro de apenas dois décimos
milésimos) a que chegamos hoje com instrumentos
e cálculos complicados. É possível que os egípcios
tenham alcançado a mesma aproximação, mas
para admiti-lo temos que acreditar nas discutidas
concordâncias das pirâmides, enquanto dos maias
temos o calendário.
"Outras analogias com o Egito estão presentes na
admirável arte dos maias. Suas pinturas murais,
seus afrescos, os flancos de seus vasos mostram
homens de marcado perfil semita, ocupados em
todas as atividades da agricultura, da pesca, da
construção, da política, da religião. Somente o
Egito tinha pintado tudo isso com verdade tão
crua, mas o vasilhame maia lembra os etruscos, os
baixos-relevos lembram a Índia e as grandes
escadarias íngremes dos templos em pirâmide
lembram Angkor."

Matemática petrificada

Em todos os povos do mundo, é lógico, a escrita


revela, de início, caracteres muito primitivos que
com o tempo vão-se aperfeiçoando, em relação
direta com a evolução natural. Mas os maias são
uma exceção a essa regra: quando nasce sua
civilização, a escrita já é perfeita.
E quantas pontes ela permite lançar até o mundo
mediterrâneo! Muitos nomes dos dias, próprios do
calendário maia, são idênticos e outros muitos
parecidos com as letras do alfabeto fenício e
apresentam a mesma sucessão. Outros caracteres
maias poderiam ser confundidos com hieróglifos
egípcios e símbolos cretenses. "Em numerosos
casos" — anota Pierre Honoré — "a concordância
dos sinais cretenses com os hieróglifos maias é,
até nos mínimos detalhes, tão inequívoca, que
induz a afirmar: a escrita maia é a da mais antiga
Creta."
Mas os cretenses revolucionaram sua escrita,
passando a usar sinais menos complicados, ao
redor de 1.700 a.C. Como podem, portanto, os
sinais dos "senhores da Terra" ter tido origem nos
da antiga Creta, se na data citada a civilização
maia ainda estava por surgir?
Há somente uma explicação: a do continente
desaparecido, a Atlântida, através do qual a
mesma escrita poderia ter-se difundido, quer sobre
as costas do Mediterrâneo quer para um povo
desconhecido que a teria depois transmitido aos
maias, junto com muitos outros conhecimentos.
Em matemática os maias eram evoluidíssimos:
conheciam o zero (que representavam com o sinal
de uma pequena concha), desconhecido para
todos os povos antigos, os números decimais, as
tabelas logarítmicas, os cálculos abstratos.
"Se um ornamento se repete dez ou mais vezes" —
conta Honoré — "se uma escada tinha 75 degraus
e uma pirâmide determinada altura, não se trata
de mero acaso, mas de questão matemática. Toda
a arte maia é matemática petrificada."
Entre quase todas as civilizações da América pré-
colombiana a astronomia era muito desenvolvida,
mas entre os maias havia alcançado um nível
particularmente elevado. Suas noções sobre o
sistema solar e as constelações nos deixam
maravilhados: um magnífico altar comemorativo,
erguido em Copán, lembra seu último congresso
astronômico, que teve lugar em 2 de setembro de
503.
Como é possível que os observatórios desse povo
lembrem tão de perto, em sua forma, os atuais,
embora sem ter os modernos instrumentos? E de
que maneira os maias, não podendo dispor desses
instrumentos, chegaram a ter um conhecimento
tão assombroso das coisas celestes?
Comparemos a Atlântida à Europa dos nossos dias
e os antecessores dos maias a uma jovem nação
africana que tenha começado há pouco seu
caminho ascensional. A jovem nação constrói,
entre outras coisas, seu primeiro observatório
astronômico, importando o necessário do
continente europeu, mas eis que um súbito
cataclismo revoluciona o mundo inteiro, apaga a
Europa do mapa, semeia em todo lugar
destruições espantosas.
Da jovem nação salvam-se alguns estudiosos que,
porém, não dispõem mais de instrumento algum,
nem podem esperar recebei qualquer ajuda. Eles
transmitiram aos filhos, aos netos, o que sabiam e
assim foi sucedendo de geração em geração; algo
teria que ficar perdido, algo poderia ser guardado
(especialmente o que mais impressiona a fantasia
popular), algo sofreria radical transformação,
tornando-se religião, lenda, fábula.
Séculos, milênios passarão, o homem retomará
sua escalada, chegará a descobrir novamente a
astronomia... e ficará muito surpreso ao achar o
sistema solar representado perfeitamente sobre
um bloco de pedra sepultado em plena floresta
africana.
Tendo presente o que dissemos, procuremos
aprofundar ainda um pouco nosso conhecimento
sobre os "senhores da Terra". Suas cidades
ofereciam uma visão de elegância, ordem, limpeza
urbana perfeita, com as belas praças, as grandes
avenidas calçadas com pedras ou cimento branco,
as monstruosas, mas esplêndidas imagens que
ornamentavam o exterior dos templos, os grandes
jardins, os aquedutos e as obras de canalização
inspiradas em rígidos critérios higiênicos.
No tocante às estradas, os incas, na América pré-
colombiana, eram certamente superiores aos
maias, mas estes também não devem ser
desmerecidos: basta observar a estrada de
cimento, com seus parapeitos, que se estende por
cerca de 100 quilômetros entre Cobá e Yaxuná,
superando difíceis passagens e largos pântanos. É
curioso lembrar que ao longo dessa estrada foi
encontrado um antigo rolo compressor, partido em
dois, que pesava 5 toneladas.
Aos "senhores da Terra" deve também ser
reconhecido o mérito de ter cultivado várias
plantas de origem selvagem, obtido esplêndidas
côres (desde o "azul-maia" até a púrpura, do "azul-
índigo" a outras tintas), de ter trabalhado a
borracha de maneira excelente, usando-a para
solas de sandálias, bolas, diversos outros objetos e
para impregnar os tecidos e fazer capas
impermeáveis, chegando até os livros, constituídos
por fôlhas de figueira selvagem tratadas com cal e
borracha.
Mas o que encontramos no outro lado da moeda?
Coisas incríveis, contrastes impressionantes: o
povo que soube realizar tantos prodígios não
conhecia a roda nem a carroça, não sabia forjar
nenhum instrumento de metal, não tinha
domesticado nenhum animal, à exceção do
cachorro, do peru e das abelhas. Os maias não
sabiam o que era uma balança: eram capazes de
realizar complicadíssimos cálculos matemáticos,
mas não sabiam medir, por modesta que fosse,
uma quantidade de mercadoria.
Sua religião era riquíssima, dominada por
Kukulkán, o deus branco "que veio para ensinar
todas as leis e as ciências" e que era representado
pelo símbolo da serpente emplumada, junto ao
qual estava Itzamma, o deus do céu.
Isso também não é muito significativo? "Veio um
astronauta" — diriam os defensores da teoria que
supõe os civilizadores atlantes provenientes das
estréias — "falou aos povos primitivos de um Ser
Superior que governa todo o Universo... e os maias
os divinizaram, os dois, um junto ao outro".
Os "senhores da Terra" praticavam, além disso,
sacrifícios humanos, e isso também se encontra
em flagrante contraste com o nível de sua
civilização. Por ocasião das grandes desgraças
nacionais, por exemplo, precipitavam na "cascata
dos holocaustos" uma menina vestida em trajes de
festa: se a pobrezinha sobrevivesse, voltando à
tona, era retirada a salvo, porque os deuses eram
considerados aplacados com aquela oferenda
simbólica. Caso contrário, as vítimas seguiam-se
até encontrar o favor da divindade... e uma
menina que nadasse melhor do que suas infelizes
companheiras.
Ao lado desses gritantes contrastes deve ser
lembrado mais um detalhe: o que diz respeito à
arte e à arquitetura maias. Não apresentam sinais
de evolução no decorrer dos séculos: assim elas
nasceram, assim elas morreram. Somente a cidade
de Uaxactún, onde se acredita tenha tido origem a
civilização dos "senhores da Terra", apresenta
traços imperfeitos; mas já naquela época, como
dissemos, a escrita maia era perfeita.
Parece, em suma, que tudo se passou como no
caso de homens primitivos que recebam alguns
quadros para reproduzir. Os primeiros trabalhos
sairão imperfeitos; em seguida, os indivíduos mais
capazes chegarão a produzir ótimas cópias... mas
nunca irão além, se alguém nada mais lhes
ensinar.
Isso faz pensar que os maias teriam recebido sua
cultura de um povo desconhecido, que
desapareceu antes da fundação de Uaxactún. Não
diretamente dos lendários atlantes ou (como
alguns sustentam) de navegadores chegados da
Europa, da África do Norte ou da Ásia, pois
certamente nesse caso sua civilização não teria
apresentado as impressionantes lacunas acima
citadas: teriam conhecido a roda, o uso dos
metais, a balança, a criação de gado.
"Os deuses brancos" — conta uma lenda maia —
"chegaram em tempos imemoráveis do Oriente
(...) gigantescos navios estrangeiros chegaram por
mar, navios com asas de cisne (...) e era como se
enormes serpentes deslizassem sobre a água, de
tão luminosos que eram os flancos daqueles
navios. Quando as embarcações alcançaram a
margem, desceram homens louros, com a pele
branca e os olhos azuis. Traziam roupas de tecido
preto, abertas na frente com um decote redondo,
mangas largas e curtas. Sobre a testa, os
estrangeiros tinham um diadema em forma de
serpente..."
Eram talvez viajantes chegados de uma colônia
atlântida, de uma ilha que ficou por algum tempo
emersa após a precipitação do grande continente,
mas desaparecida cedo demais para que seus
novos ocupantes fizessem renascer sua civilização
naquela região que mais tarde viria a ser a
América?

CAPÍTULO XVII
Constelações na Selva

"A ASTRONAVE DESCEU NUMA tempestade de fogo,


pousou quase no centro da vasta planície. Num
raio de vários metros a erva e os arbustos
tornaram-se cinzas, as pedras fundiram, o chão
queimado rachou-se em profundas fendas. O
grande casco vibrou forte, depois ficou parado.
Durante horas nada aconteceu. Afinal uma
portinhola se abriu, uma plataforma foi projetada
para o exterior, desceu até o chão, trazendo duas
figuras avantajadas, fortes, em roupas espaciais.
Deram alguns passos, olharam ao redor. Depois,
acionando um dispositivo que tinham sobre o
peito, abriram os capacetes e os tiraram.
"Se alguém, da floresta que os circundava,
tivesse visto o espetáculo, teria morrido de susto.
Porque os seres vindos das estréias não tinham
feições humanas: sobre seu rosto achatado, os
olhos oblíquos com pupilas de ouro, o nariz muito
grande, achatado, a boca monstruosa de onde
sobressaíam quatro presas, lembravam os feli-
nos... ou melhor, algo de felino que não é deste
mundo."
É dessa maneira que devemos imaginar os
astronautas que talvez desceram em tempos
remotíssimos sobre nosso planeta? As antigas
civilizações americanas parecem sugeri-lo, quer
paremos para considerar os vestígios de que já
temos falado, quer nos desloquemos para a parte
sul do continente.
Indo do México para o sul, vamos atravessar
regiões em que estão ausentes completamente
as pirâmides e as construções de pedra: parece
até que nos encontramos numa "terra de
ninguém" colocada entre as grandes culturas da
América Central e as da América do Sul. Mas não
é assim: embora muitos povos pareçam pouco
evoluídos, sem dúvida têm parentesco com os
olmecas, toltecas e, talvez, com os desaparecidos
habitantes da Atlântida.
Entre os chorotegas, localizados em certa época
na atual Nicarágua e ao norte da Costa Rica, dos
quais os cronistas espanhóis celebrizaram a
opulência dos campos de milho, das plantações
de cacau e da beleza das mulheres, estão
presentes os contrastes a que já nos referimos ao
falar de outros povos: costumes primitivos junto a
manifestações que deveriam ser próprias de
culturas evoluídas.
No topo de seu Olimpo encontrava-se
Tamagastad, que nada mais é que Quetzalcoatl,
o "deus branco", e eles também mantinham entre
suas lembranças a do "grande dilúvio que
destruiu a criação do meio".
"Criação do meio": é uma expressão que se
presta às mais variadas interpretações. O que
entendiam com isso os chorotega? Um continente
desaparecido, aquela "terra do meio", da qual
falam outras antiqüíssimas tradições? Uma raça
que eles colocavam entre os homens de um
tempo perdido e a deles? Até mesmo seres
vindos das estrelas, considerando que sua
eventual chegada do céu teria sido julgada uma
"criação"? Nada encontramos que esclareça as
idéias; podemos, todavia, afirmar com segurança
que, em qualquer lugar que focalizemos a
atenção para procurar a solução, a Atlântida não
é estranha à lenda.
E temos de salientar que lembranças análogas,
transformadas em mitos, encontram-se com
pequenas variações entre os chibcha e em
particular entre os cueva do Panamá oriental, tal
como ainda hoje podemos ouvir de seus
descendentes.
O povo chibcha, dividido em vários grupos mais
ou menos civilizados, ocupava quase todo o
território que se estende desde a margem sul do
lago de Nicarágua até o Equador.
Na Costa Rica e no Panamá (Cueva) localizavam-
se comunidades chibchas que — diz-se —
praticavam artes desconhecidas. E podemos
acreditar nessa afirmativa mesmo apenas
considerando as técnicas perdidas que os
levaram a inimitáveis obras-primas na lavra do
ouro, a dourar o cobre por meio de sucos
vegetais e a recobrir com ouro objetos de osso e
pedras preciosas. Entre os achados encontramos
magníficos capacetes dourados, finíssimos
trabalhos em filigrana, correntes de ouro maciço
ou ocas, amuletos de quartzo, serpentina e
ágata.
Já Colombo, em sua quarta viagem, travou
contacto com esses preciosos enfeites que
representam cabeças de animais, mulheres,
morcegos, lagartas, rãs, águias e aranhas.
E aquelas águias são os "pássaros de fogo" mais
semelhantes a objetos que voam do que a aves,
talvez representando astronaves. Quanto à
aranha, encontramo-la aqui como nos desertos
do Peru, onde acompanha gigantescos desenhos
de outros animais, alguns desconhecidos na
Terra, e que parecem ter sido traçados de
propósito para serem vistos de grandes alturas.
Costarriquenhas são também as belíssimas
cerâmicas de Limón e Guanacaste, algumas das
quais com desenhos "em negativo" obtidos com
aplicação de cera. Algumas são de linhas
tipicamente gregas, outras, de estilo mexicano,
outras, ainda, lembram até motivos africanos e,
enfim, outras não têm relação alguma com as de
qualquer parte do mundo, inspiradas em formas
por muitos consideradas extraterrestres.
Mas ao lado dessas obras-primas, que se diriam
realizadas por uma civilização muito evoluída,
temos a falta de construções em pedras,
esculturas de um primitivismo surpreendente,
armas e utensílios feitos só de madeiral

Os astros desconhecidos
Nas florestas da Guatemala e da Costa Rica, o
casal Lothrop, ambos apaixonados arqueólogos,
descobriram uma infinidade de bolas de pedra,
algumas das quais medem só poucos centímetros
de diâmetro, enquanto outras alcançam 2,5 m.
Por centenas de quilômetros ao redor não há
sinal do material com que essas esferas foram
feitas; e como seus construtores conseguiram
modelá-las de maneira tão perfeita, fazê-las rolar
de grandes distâncias através da selva quase
impenetrável, ou mesmo apoiá-las no topo de
altas montanhas é coisa incompreensível: para
um povo primitivo, aquelas esculturas e seu
transporte teriam necessitado de decênios e
decênios de duríssimo trabalho.
Três, quatro, cinco esferas estão colocadas
geralmente sobre uma linha reta, além da qual
outras bolas formam figuras geométricas (em
grande parte triângulos) segundo rígidos critérios
matemáticos, com relações onde sempre se
apresentam os números 1, 2, 3, 4, 6 e 8.
Seu estudo conduz a uma única conclusão: que
se trata da representação de constelações ou, de
qualquer maneira, sistemas estelares. O fato é
que em alguns desenhos conseguimos identificar
detalhes astronômicos conhecidos, enquanto
outros não nos dizem absolutamente nada. Não
pertencem ao nosso céu. De que espantosos
abismos cósmicos podem ter sido trazidos? E por
quem?
Talvez seu segredo estivesse escondido nos
"livros das profecias", gigantescos volumes em
pele de cervo com 10 a 12 metros de compri-
mento, enfeitados de vermelho e negro, que se
achavam nas mãos dos sacerdotes chorotegas e
dos quais, infelizmente, não restou um só
fragmento.
Curiosíssimas lendas correm acerca desses livros:
diz-se que contavam a "história do passado e do
futuro", afirmando justamente quais inteligências
extraterrestres teriam influenciado a evolução de
todas as civilizações e predizendo que o homem
também se alçaria até os astros. Se aceitarmos a
teoria da vinda de astronautas de outros
mundos19, entende-se como tal profecia não deva
ter sido difícil de enunciar. Os volumes de que
falamos, ademais, teriam contido claras
referências aos "homens-jaguares descidos das
estrelas".
Homens-jaguares? Seriam eles mesmos que
vemos representados em quase todos os lugares
na antiga América? Será que não se trata apenas
de uma deformação nascida simplesmente da
fantasia, mas da representação de uma forma de
vida vinda de um desconhecido planeta para
conduzir os brancos atlantes à civilização ou
combatê-los?20.
E porventura não encontramos também na Costa
Rica (junto a longas filas de colunas muitas vezes
com até 6 metros de altura, cujo significado é
desconhecido) assentos de forma "moderníssima"
19 Um autor que expõe essa teoria, documentando-a quase à exaustão é o suíço Erich von Däniken,
em seus livros Eram os Deuses Astronautas? e De Volta às Estrelas, ambos publicados por Edições
Melhoramentos, São Paulo, 1970 (N. dos tradutores.)
20 Admitindo-se a última alternativa, não seria o caso de se pensar na destruição do mítico
continente por forças extraterrestres? Hipótese fantástica, talvez beirando a chamada space opera
(subgenera da ficção cientifica), mas que não pode ser excluída sem maior exame. (N. dos
tradutores.)
e mesa com estranho aspecto, de pedra
vulcânica, ornamentados com figuras de jaguar?
Foram os olmecas — diz Pierre Honoré — que
introduziram o motivo do jaguar na América
Central. E escreve:
"...deles passou aos maias, em Uaxactún, em
Teotihuacán, aos toltecas e aos astecas. Nunca
porém dominaram tanto uma cultura como a dos
toltecas. Estes lhes subordinaram sua arte de tal
maneira que se chega a falar de uma 'mania do
jaguar'. Representavam rostos humanos cuja
boca e nariz imitavam o focinho do jaguar; encon-
tramos todos os tipos, todos os estágios que
possam existir entre homem e animal. Teriam
sido homens com feições animais, ou animais
com feições humanas?
"Também no velho mundo houve um povo do
qual podemos dizer ter apresentado mania
análoga: ali não foi tomado, contudo o jaguar
como modelo, e sim o leão. Desde os tempos
mais longínquos conhecemos as máscaras
leoninas das nossas civilizações ocidentais,
correspondentes, em princípio, às americanas. E
elas são típicas de Creta."
Essas representações, contudo, encontram-se
nas mitologias do mundo inteiro. E as
encontraremos ainda, continuando nossa viagem
através da América pré-colombiana. Os
arqueólogos sustentam, geralmente, que se trata
de imagens religiosas, de deformações inspiradas
no culto do jaguar. Mas temos que salientar que
estátuas desse tipo se encontram, também em
lugares para cujos habitantes tal culto era
completamente estranho e que ainda hoje os
indígenas dessas últimas regiões, lembrando sem
dúvida contos antiqiiíssimos, falam dos
monumentos como da representação de
"guerreiros estrangeiros" ou de não melhor
identificados "guerreiros da noite". Outra alusão
ao espaço? É provável, visto que alguns povos
descendentes dos olmecas referem-se aos
homens-jaguares como aos "deuses chegados da
Lua".
Vaso inca
representando um
homem com
turbante.
Uma
representação do
deus dos olmecas,
branco e barbado.
A estátua foi
encontrada em La
Venla.
Em cima: Cúpula surpreendentemente parecida
com as de nossos dias. Pertence ao observatório
maia chamado "Caracol", e está nos arredores de
Chichen Itzá. Embaixo: um estádio para jogo de
bola-ao-cesto, também em Chichen Itzá.
Prodígios da agricultura incaica no vale do
Urubamba, perto de Lisac, Peru: culturas ainda
hoje exploradas e antigos campos "campos em
degraus".
Três fases de uma intervenção cirúrgica, realizada
por um cirurgião peruano com instrumentos de
pelo menos 3 mil anos de idade

Inúmeras referências, capazes de nos induzir às


mais extravagantes divagações, chegam-nos dos
maias. Mas limitar-nos-emos a repetir para os
"sonhadores cósmicos" os nomes de três dos
quatro mitológicos chefes dos primitivos clãs dêsse
povo: Balám-Quiché o "tigre do sorriso suave";
Balám-Ayáb, "tigre da noite" e Iqui-Balám, "tigre
da Lua". Ainda a Lua, a noite... e aquele "tigre do
sorriso suave" não apresenta talvez estranhíssimas
ressonâncias asiáticas?
Na verdade, idêntico título acompanhou o nome de
vários chefes militares chineses e mongóis, e foi
justamente esse detalhe que induziu os estudiosos
soviéticos a pesquisar sobre eventuais correspon-
dentes asiáticos dos homens-jaguares americanos.
Não foi difícil descobri-los nas tradições populares
e nas lendas: há quem os localize em certa época
na vasta região atualmente ocupada pelo deserto
de Gobi e quem os considere até aparentados com
os progenitores dos mongóis. São ainda os xamãs
que, entrando em "transe" fazem contacto com os
"senhores de tôdas as coisas", que "têm o rosto de
tigre e voam sobre aves de fogo". Temos, portanto
que relacioná-los com as máscaras de feições
felinas trazidas à luz em vários locais da Mongólia
e ao mítico pássaro Garuda, ainda vivo em nossos
dias no teatro religioso?
Não surpreende que os monges tibetanos saibam
muitas coisas sôbre a Mongólia, visto que um de
seus sábios lamas chegou à côrte do imperador
Kubilay (o "Grande Khan" de Marco Pólo) em 1269.
Podemos, portanto, acreditar neles quando dizem
que, de fato, os homens-tigres aterrissaram na
Ásia Central há milhares de anos, e que por isso
eles e seus "pássaros de fogo" foram divinizados e
que, afinal, os xamãs não se põem em contacto
com o reino das sombras, mas, em estado de
hipnose, fazem aflorar à sua mente as lembranças
inconscientes transmitidas de geração a geração?
Isso teria sido revelado ao Prof. Turaniev; mas em
vão os russos procuraram aprofundar o assunto: os
sacerdotes da lamasaria de Tuerin mantêm a boca
obstinadamente fechada, e o conflito entre Moscou
e Pequim tem vedado às expedições científicas
soviéticas o acesso ao Tibete.

Com os chifres e com as presas

Voltando aos chibchas, devemos notar que eles


não eram os únicos a criar obras-primas com o
ouro. Entre seus maiores concorrentes lembramos
os manabis, localizados ao longo das costas norte
do Equador. Ainda hoje não se consegue entender
como teriam chegado, sem auxílio de instrumentos
ópticos, a compor enfeites com grãos de ouro de
tamanho não superior à metade da cabeça de um
alfinete, às vezes misturados com outros ainda
menores e ocos. Em nossos dias são necessárias
fortes lentes de aumento para poder admirar
aquêles trabalhos em toda sua perfeição artística.
Também a fabricação dos grãozinhos permaneceu
por muito tempo misteriosa: trata-se de um
processo chamado justamente "granulação",
redescoberto somente há alguns anos pela ourives
alemã Trescow. E essa técnica é tão complexa que
os entendidos dizem não poder ter sido realizada
por vários povos, independentemente uns dos
outros.
Acrescente-se que os minúsculos grãos também
foram encontrados no antigo mundo mediterrâneo,
formando a juba de um leão com apenas 1,5 cm de
comprimento e as penas e as asas de um ganso de
3 cm, em Creta, as escamas de um sapo de 2,5 cm
e as asas de uma coruja da homérica Pilo, Grécia.
Trabalhos dêsse tipo também foram realizados
pelos sumérios, pelos troianos (diminutas
bolsinhas e brincos de ouro) e pelos etruscos. De
acordo, portanto, com os especialistas e a lógica, a
técnica da granulação difundiu-se do povo que a
descobriu a todo o mundo.
A respeito de Tróia, lembramos que seu famoso
descobridor, o arqueólogo alemão Heinrich
Schliemann, encontrou máscaras mortuárias de
ouro em Micenas e na Criméia. Mas máscaras
muito parecidas cobriam também o rosto de faraós
mortos e príncipes americanos, não apenas em
Palênque.
"Há cerca de 400 anos" — escreve Pierre Honoré —
"um grupo de conquistadores encaminhava-se
para o Vale do Cauca (Colômbia sul-ocidental),
guiado por Pedro de Heredia. Ele também ia à pro-
cura de velhos edifícios e estátuas de deuses, que
para ele, porém, só tinham valor se fossem de
ouro.
"Penetrando cada vez mais no território, a
expedição encontrou um antigo povo índio
governado por uma mulher. Ela acolheu com
benevolência os estrangeiros e lhes mostrou seu
palácio e o recinto do templo, no qual estavam 24
estátuas de deuses inteiramente cobertas de ouro.
No parque sagrado ao redor do templo, os espa-
nhóis viram algo que lhes cortou a respiração: em
cada ramo das grandes árvores estavam
dependurados sinos de ouro que pesavam 683
quilos. Os conquistadores retribuíram a
hospitalidade roubando todos os sinos, as
coberturas das estátuas e mais 1.366 quilos de
ouro das tumbas dos príncipes.
"A expedição teve um sucesso notável: Heredia
depredou mais de 2.000 quilos de ouro, sob forma
de inigualáveis obras-primas artísticas, que
acabaram todas fundidas."
Em época posterior foram encontrados no vale do
Cauca objetos de admirável lavor, fabricados com
uma liga de ouro e de cobre: capacetes, vasos,
garrafinhas esplêndidas, estatuetas de príncipes,
das quais uma, de 21 centímetros, conservada no
Museu da América (Madri), tem o rosto modelado
de tal maneira que, olhando-o, tem-se clara
impressão de que alguém quis representá-lo como
se estivesse com a cabeça recoberta por um
capacete transparente, com receptores de rádio:
um verdadeiro capacete espaciall
Ligações enigmáticas unem talvez essas obras-
primas a outras bem mais antigas encontradas no
jardim de uma residência de Esmeraldas, na costa
norte do Equador. Trata-se de uma coleção de
12.000 peças, considerada a mais preciosa do
mundo em sentido absoluto, incluindo machados,
cetros, armas e utensílios, dos quais não existem
similares sobre a Terra. Há também, contudo,
selos semelhantes aos que até bem pouco tempo
os chineses entalhavam ainda em pedras nobres e
estatuetas com feições orientais e trajes muito
semelhantes aos usados pelos egípcios. E há um
espelho fantástico: obtido de uma gema verde,
com diâmetro de 5 centímetros; ele reflete até os
mínimos detalhes.
Três coisas dessa coleção causam pasmo: sua
idade (deve remontar a cêrca de 18.000 anos
atrás); sua perfeição e a extraordinária analogia
que várias peças apresentam com os produtos de
antigas civilizações americanas, asiáticas e
mediterrâneas, sem, contudo, permitir
relacionamento específico.
Encontramos no vale do Cauca," para estilizar
cetros, enfeites da cabeça e outros pormenores, a
espiral — aquela espiral que representa outro
apaixonante problema, e que é difundida em todo
o mundo antigo, desde Malta até Samarkanda, da
América à Ásia, da África à Europa. A propósito, é
muito interessante o que diz Mareei F. Homet: "A
espiral desempenha importante papel na história
dos povos antigos. Montelius e Evans achavam que
tivesse tido origem no Egito, na época da quarta
dinastia (meados do 3º milênio a.C.), chegando a
Creta mais tarde, ao redor de 2000 a.C. Mas
encontramo-la já no ano 3.000 a.C. na região do
Danúbio e, no fim da idade paleolítica, na Morávia.
Encontramo-la gravada ou pintada sôbre pedras,
na América e nas terras mediterrâneas, e ela
representa quer a vida do Universo quer a
fecundidade.
"Para impressionar os fiéis, os sacerdotes das
civilizações desaparecidas procuravam concretizar
em motivos fáceis o que tinham apreendido 'do
céu'. Não devemos esquecer que não somente os
sumérios, os acádios e os caldeus, mas, já muito
tempo antes, os sábios de Tiahuanaco (a
monumental cidade morta, às margens do Lago
Titicaca) chegaram a conhecer, não sabemos de
que maneira, como o caminho celeste das estréias
é uma elipse aberta. E eles representaram tal
noção com desenhos e inscrições sobre a pedra.
"Mas representações lineares e chatas podem
somente desorientar os leigos. Procurando uma
imagem adequada, alguém lembrou do mistério da
vida, do mito da Criação, da serpente e do ovo
cosmogônico que cai de sua boca, um mito
difundido quer na Europa, no Mediterrâneo, quer
entre os maias e os antigos habitantes do Brasil. A
divindade da serpente é representada de várias
maneiras. Entre os caldeus havia um deus que
tinha na mão um cetro em forma de dupla espiral
em parafuso, símbolo da fecundidade e da saúde;
nas tumbas dos Kurgan, Sul da Rússia, também
foram encontradas espirais em parafuso e brincos
em espiral.
"O próprio ovo cosmogônico representa o
movimento espiralado das estrelas. Nisso deve ser
procurada a razão pela qual grande parte dos
monólitos ibero-celtas por nós descobertos no
Amazonas - como, por exemplo, a Pedra Pintada —
possuem forma elíptica e estão cuidadosamente
orientados conforme a posição dos astros."
Marcel Homet não é o único estudioso que se
dedicou a profundas pesquisas sobre esse
fascinante problema. Também se dedicaram
cientistas ingleses, americanos e russos. Os
últimos optaram por uma solução que se aproxima
da do arqueólogo francês; afirmam que a espiral é
um símbolo astronômico que representa o
Universo e, ao mesmo tempo, religioso, pois
exprimia a Criação que se manifestou justamente
na forma de um turbilhão cm espiral (a chamada
proto-galáxia), concentrando-se em seguida nas
ilhas-universos que possuem, em sua maioria,
como é sabido, a mesma forma.
A espiral é, enfim, uma galáxia estilizada. Mas
como podiam nossos antepassados,
freqüentemente sem as mais elementares noções
astronômicas, saber o que é uma galáxia? Duas
são as hipóteses aceitáveis, embora arrojadas: ou
seus predecessores possuíam conhecimentos
comparáveis aos nossos (o que pressupõe também
notabilíssimo nível técnico) ou tinham recebido
aqueles conhecimentos dos representantes de
uma grande civilização extraterrestre. "Talvez -
especula o escritor Simaniov — "a espiral cintilasse
sobre as roupas dos astronautas vindos ao nosso
mundo em tempos antiqüíssimos, a simbolizar sua
missão de exploradores galácticos."
A espiral era característica também dos muíscas,
índios de raça chibcha, localizados onde hoje estão
os departamentos colombianos de Cundinamarca e
Boyaca, cujos soberanos tinham estranhamente
em comum com os incas e com os egípcios o
hábito de se casar com as irmãs.
Eles também conheciam (embora em outra versão)
o dilúvio universal; também adoravam divindades
brancas: Bochica, que identificavam com o Sol, e
sua esposa Bachue, que representava a Lua. Trata-
se naturalmente de deformação de mitos próprios
de povos mais evoluídos. Mas a correspondência é
indubitável: Bochica viera do oriente, trouxera aos
homens o conhecimento da agricultura, da
tecelagem, as leis, tinha-lhes dado a possibilidade
de "vencer o tempo e as doenças".
Como o Sol era chamado Sua e a Lua Quia, os
muísca batizaram os espanhóis usáquios,
considerando-os (justamente como os índios de
que fala Colombo e os astecasl) filhos das duas
divindades brancas.
Na Colômbia encontramos também outros
misteriosos restos que nos fazem pensar em La
Venta, que lembram a sinistra Ilha da Páscoa, que
se ligam aos inúmeros enigmas da antiga América:
ruínas de templos, estátuas e estrelas levantadas
em tempos muito remotos.
Majestosos são os restos do palácio de Moniquira,
com seus obeliscos e suas colunas cilíndricas e
ovais; estranhíssima é a piscina de Lavapatas, com
paredes esculpidas, como relevos peculiares, entre
os quais se destaca a cabeça de um homem com
chifres. E não encontramos talvez um seu
semelhante também no Egito, junto ao deus dos
mortos, com focinho de cachorro, e a muitas
outras divindades com cabeça de animal? Um ser
chifrudo que fica entre o homem, o jaguar e o
touro (seria um parente do Minotauro?) é repre-
sentado também no chamado "monólito de
Raimondi", esculpido pela desconhecida civilização
de Chavin.
Mas é em San Agustin, perto das nascentes do Rio
Madalena, que nos aguardam os sinais mais
impressionantes de um passado remoto,
monumentos em grande parte com cerca de 4
metros de altura, esculpidos num só bloco:
guerreiros dominados por demônios, esmagadas
figuras de pesadelo.
E não falta certamente o "pássaro de fogo", não
faltam as cariátides, a representar outra ligação
com o mundo mediterrâneo. Arrepiante é um rosto
animal, com a boca contraída num sorriso de
escárnio, dando saída a quatro presas felinas:
também aqui temos a deformação das feições
humanas para as do jaguar, também aqui uma
raça desconhecida parece zombar de nossas
tentativas de pesquisas sobre intransponíveis
abismos de tempo e de espaço.

CAPÍTULO XVIII
Os Senhores da Chama

SOBRE AS MARGENS DE um riacho chamado Mozna, que


nasce na Cordilheira Branca, Peru ocidental, para
desaguar no Maranón, encontra-se o vilarejo que
deu nome a uma grande civilização: Chavín de
Huántar. Porque de "civilização de Chavín" foi
justamente batizada pelo arqueólogo índio Júlio
Tello a desconhecida cultura que parece ter tido lá
seu centro e se espalhou por vasta área.
Sobre as datas, nada há de seguro: vai-se desde
4.000 a.C. (época determinada pelo exame de
alguns estratos) até 715 a.C., data da construção
de alguns edifícios. A cultura em questão, de
qualquer maneira, deve ter dominado ao longo de
séculos e alcançado ao redor de 1.500 a.C. seu
esplendor máximo, impondo-se desde as
nascentes do Amazonas até o Oceano Pacífico.
No topo da mitologia de Chavín encontra-se o
jaguar, ao qual se juntam serpentes e o condor. E
aqui nos deparamos novamente com as
monstruosas figuras de homens-animais que já
encontramos em tantas regiões da América antiga.
Também no quadro geral existe um paralelismo
perfeito: entre as civilizações índias encontramos o
jaguar (ou puma), a serpente e a águia para
simbolizar as divindades; entre as do velho mundo
temos o leão (às vezes substituído pela pantera ou
pelo tigre), a serpente e a águia.
Já observamos que alguns estudiosos consideram a
serpente reta jomo representação do casco de
uma astronave, e a enrolada sobre si mesma,
como a da galáxia: no fundo, os dois significados
coincidem. Mas outra figura na qual poderíamos
identificar um flamejante veículo descido do
espaço é o "pássaro de fogo" ou (como o chamam
os peles-vermelhas americanos e canadenses ou
os esquimós) o "pássaro trovejante", representado
como uma águia, um falcão, um condor, um reptil
alado. É a ave colocada no topo dos totens
americanos, a serpente emplumada asteca, o
condor sagrado para tantos povos americanos,
Abmuseumkab, monstro alado da Índia, o dragão
voador da China, o "falcão de Simbabwe", a Fênix
que a cada 500 anos aparecia em Heliópolis, no
Egito, renascida de suas cinzas após ter sido
queimada pelo sol num ninho que ela mesma
construía.
O "pássaro de fogo"... não é estranho que na
mitologia de tantos povos, tão afastados uns dos
outros, o conceito "pássaro" tenha sido aliado ao
conceito de "fogo" ou, como na América do Norte,
"trovão"?
"Muitas coisas que ontem pareciam obscuras, hoje
podem parecer evidentes, e amanhã ainda mais
claras" — avisa o arqueólogo Hansen. "Como
esplêndidos e monstruosos pássaros que se
levantam num rastro de fogo, com um estrondo de
trovão": esta expressão não foi talvez usada, nos
últimos anos, até se tornar extremamente batida,
para descrever o lançamento de mísseis?
Não poderia ser particularmente significativa a
lenda egípcia que nos fala de um rei "que se
salvou na barriga de uma ave branca descida do
céu num rastro de fogo"? E não encontramos, na
história da antiga América, como na Índia e em
outras partes da Ásia menções tão intrigantes
quanto freqüentes aos "Senhores das Chamas que
voam em pássaros de fogo"?
O que dizer, afinal, da Fênix que é queimada pelo
sol num ninho por ela mesma construído? Se
fôssemos primitivos e assistíssemos à partida de
um aparelho de uma pista de lançamento, num
dilúvio de chamas cegantes como o sol que nos dá
a vida, provavelmente não teríamos de fato uma
idéia muito diferente da dos egípcios.
É justamente mencionando essas imagens vivas
entre tôdas as antigas civilizações que o Prof.
Homet concorda com os estudiosos soviéticos em
afirmar: "Está cada vez mais abrindo caminho a
convicção de que o conteúdo dos mitos, que
transmitem tradições para nós perdidas, nada mais
representa que lembranças de fatos remotos e que
assim se revelam quando interpretados e
compreendidos da sua justa maneira. Logicamente
tudo deve ser conservado e contado de forma
acessível. É necessário, portanto, trazer a
descoberto o verdadeiro núcleo do mito, da saga,
da lenda.
"No nosso caso, tratar-se-ia da tradição dos
"homens voadores", do mito de Ícaro: quem sabe
se esta saga tão difundida sôbre a Terra...
representa a lembrança de possibilidades
desaparecidas? Nossa moderna civilização conta
só 2.000 anos e o homem já tende, com seus
recursos de vôo, a deixar a atmosfera terrestre.
Ora, se uma catástrofe geológica, cósmica ou
atômica destruísse a humanidade atual e suas
obras, deixando só alguns elementos
("documentos", no nosso sentido), não seria
possível que os descendentes dos sobreviventes,
após milhares de anos, os conhecessem sob forma
de uma espécie de lenda de Ícaro?"
O instrumento usado pelo cirurgião peruano foi
feito com uma pá de ouro, prata e cobre. O crânio,
que também remonta a 3 mil anos, prova que já
naquela época realizava-se com êxito a trepanação
do crânio.

Não é difícil exemplificar a suposição do estudioso:


bastaria que a superstição (que hoje prospera
livremente à sombra dos computadores e que
acabaria por se tornar a religião dos
sobreviventes) visse na tragédia cósmica uma
punição celeste pela temeridade humana, para
que circulassem entre nossos futuros
descendentes embrutecidos lendas desse tipo:
"Um homem chamado Yuri, invejoso da beleza e
dos grandes poderes da Lua, quis imitá-la e subiu
sobre um carro empurrado pelo fogo de um vulcão
para dar voltas ao redor da Terra. Mas o Sol, pai da
Lua, vingou-se: tendo tomado de uma grande
rocha, arremessou-a do alto do céu, destruindo o
ímpio Yuri e toda sua família"... que seríamos nós.

Crânios encontrados juntos na Serra do Machado,


Amazônia, pertencentes a raça; diferentíssimas
entre si.
A Pedra Pintada, descoberta pelo Prof. Hornet.
Maquete de um conjunto de construções erigidas
pelos guanchos.

Entrada das cavernas sepulcrais da Pedra Pintada.


Dólmen pintado, que faz parte do conjunto da
Pedra Pintada.

O "disco de Faistos".
Do extinto povo dos guanchos.
Detalhe de um dos mapas de Piri Reis. Escultura
feita em madeira.
No caso de uma catástrofe geológica, poderia ser a
Mãe-Terra que mata seus ingratos filhos desejosos
de abandoná-la para correr atrás das estréias
sedutoras; um morticínio atômico daria talvez
origem a uma saga sobre a luta entre deuses que
disputam o domínio do céu, e assim por diante.
"Na situação em que estamos" — arremata Homet
— "isso não pode ser excluído. Não poderiam ter
igualmente existido, então, séculos ou milênios
antes do nosso tempo, civilizações que chegaram
a um ponto que possibilitasse o vôo? Mas
justamente porque podemos chegar a essas
ilações com tão suspeita facilidade, devemos ser
muito cautelosos não só nos entusiásticos
assentimentos, como também em todas as
negações a priori."
Os tapires de Orejona

Será que nossa raça chegou às estrelas antes das


grandes catástrofes que a teriam embrutecido?
Será que conheceu de perto evoluidíssimos
viajantes espaciais? Ou teria mesmo chegado,
quem sabe de que planêta, para povoar a Terra?
Há lugar para todas as hipóteses, que encontraram
aguerridos defensores — e não apenas entre os
"amigos dos urânidas"21, doentes pela ficção
científica.
O grande Einstein, como é sabido, acreditava
firmemente na pluralidade dos mundos habitados,
e é-lhe atribuída estranha declaração: "Os discos
voadores existem" — teria afirmado o grande físico
— "e os que os possuem são seres humanos saídos
da Terra há 20.000 anos. Voltaram à Terra para se
manter em dia com a história do homem. É o
retorno às origens..."
"Chegamos das estréias e estamos voltando a elas
graças às nossas realizações?" — pergunta-se, na
mesma trilha de Einstein, o biólogo Loren Eiseley.
"Os antigos devem uma notável parte de suas
civilizações, se não tudo, aos conhecimentos
trazidos por visitantes de outros mundos?",
propõem muitos estudiosos soviéticos, seguindo as
teorias de Agrest e Kasanev.
O astrônomo Thomas Gold, da Universidade de
Cornell (EUA), afirma, por sua vez, que todos os
planetas virgens, mas que podiam oferecer boas
condições ao desenvolvimento da vida, teriam sido
"fecundados" com microrganismos trazidos por
21 Referência ao magazine italiano de ficção científica, denominado Vrania (N. dos tradutores.)
exploradores espaciais. A semente teria sido
deixada sobre a Terra há um bilhão de anos e
desde aquela época as formas de vida teriam tido
todo o tempo necessário para se desenvolverem
até o aparecimento de criaturas altamente
inteligentes que, iniciando por seu turno cruzeiros
cósmicos, poderiam ter contribuído para a
"fecundação" de outros mundos.
Se Gold estivesse perto da verdade, forneceria um
pressuposto às teorias formuladas quer pelo
alemão Rensch e peio americano Howells quer por
biólogos, antropólogos e zoólogos russos. Segundo
eles, a evolução dos seres superiores poderia ter-
se dado "somente ao longo de uma estreitíssima
senda".
Os soviéticos não concordam em muitos detalhes,
mas partem das mesmas considerações dos dois
ocidentais, para chegar a concluir que o homem
deveria ter "duplicatas" em vários planetas:
criaturas inteligentes dos outros mundos poderiam
ser diferentes de nós pela estatura, pela proporção
dos membros, pigmentação, talvez até no que diz
respeito à estrutura interna, mas deveriam ser
fundamentalmente parecidos conosco.
Devemos dizer que a maioria dos cientistas não
aceita esses argumentos, afirmando que a vida
pode ter tomado os mais diversos rumos. Os
soviéticos acreditam, contudo, que uma teoria não
exclui a outra, e suas suposições parecem
encontrar estranha confirmação nos achados
arqueológicos relacionáveis com visitas do espaço
feitas por seres decididamente humanos ou
humanóides.
Se as representações citadas (às vezes
antiqüíssimas) tiverem sido realmente inspiradas
por viajantes cósmicos, deveria ser válida uma das
três deduções seguintes:
— Existem em outros mundos seres cujo aspecto
não difere substancialmente do nosso.
— A raça humana não teve origem na Terra, mas
a ela chegou, vinda de outro corpo celeste.
— A história de nosso gênero é comparável com
um volume do qual conhecemos só os últimos
capítulos; num passado ultra-remoto os homens já
chegaram à astronáutica e alcançaram outros
planetas, realizando em seguida várias visitas ao
planêta de origem, recaído na barbárie.
Se, como os soviéticos, aceitamos quer a teoria da
evolução paralela, quer aquela segundo a qual
podem existir criaturas evoluídas
substancialmente diferentes de nós, chegamos a
admitir que os brancos senhores da Atlântida, os
felinos bípedes e todos os demais surpreendentes
personagens das tradições, dos mitos e das
representações das civilizações desaparecidas
podem haver passeado de braço dado (por assim
dizer) sobre nosso planeta.
É algo difícil acreditar no desembarque sobre a
Terra de uma amostra tão variada da fauna
espacial; mas se cedermos ao fascínio de certos
testemunhos que, embora fantásticos, parecem
indiscutíveis, o passado de nosso globo surgirá
como uma grandiosa e alucinante epopéia.
Deveríamos assim admitir que sêres de outros
mundos desceram entre nós como amigos e como
inimigos, que a Terra alcançou altíssimos níveis de
civilização e que caiu na barbárie como
conseqüência, talvez, de um conflito de extensão
galáctica do qual tomou parte. Entre as lendas
bolivianas recolhidas pela Dra. Cynthia Fain, por
exemplo, há algumas que remontam para além de
5.000 anos atrás, e falam de destruição das
civilizações de um tempo muito remoto, "como
conseqüência de uma guerra com uma raça não-
humana, cujo sangue não era vermelho".
Bertran Garcia, um espanhol que tem como
objetivo, entre outras coisas, "renovar a religião
solar dos incas", afirma ser descendente de
Garcilaso de la Vega (escritor ibérico nascido em
Cusco, Peru, em 1537, e morto em 1616, autor da
douta História dos Incas e Comentários Reais) e de
conservar em sua biblioteca muitos documentos
inéditos do ilustre antepassado. Acreditamos que
não esteja fora de lugar apresentar aqui o mais
sensacional, no resumo e comentário (ao pé da
letra) do próprio Garcia.
"Os escritos pictográficos de Tiahuanaco dizem
que na era dos tapires gigantes, seres humanos
muito evoluídos, com as extremidades dos
membros parecidas com as dos gansos, e com um
sangue diferente do nosso, vindos de outro
planeta, acharam o lago mais alto da Terra um
ambiente propício a eles.
"Durante sua viagem interplanetária, os pilotos
lançaram seus excrementos sem aterrissar e
deram ao lago a forma de um ser humano deitado
sobre as costas. Não esqueceram o umbigo, local
onde iria pousar nossa primeira mãe, encarregada
da inseminação da inteligência humana.
"Esta lenda podia fazer sorrir ontem, mas hoje
nossos "homens-rãs" copiam os dedos palmados
dos colonos de Tiahuanaco. índios dos Andes
viviam em altitudes às quais os brancos não se
poderiam aclimar, o que prova (?) que pode existir
outro sangue. Em seus potentes telescópios,
portanto, os visitantes siderais procuravam uma
altitude e um lugar favoráveis ao seu organismo e
à sua vida anfíbia. O significado de 'excrementos'
pode ser o de 'coisas caídas da astronave' para
modificar os contornos do lago... talvez bombas
atômicas? É preciso notar que, para arruinar a
tradição e desacreditar o lago no espírito dos
habitantes dos Andes, as cartas geográficas o
representaram até 1921 de forma quase redonda.
Ao legítimo nome do lago, Titi (lago do mistério e
do Sol) foi acrescentado um sufixo que em muitas
línguas significa 'excremento'."
As afirmações que se dizem extraídas de
manuscritos "secretos" de Garcilaso de la Vega
são, até aqui, fabulosas o quanto basta, e a
hipótese que o senhor Garcia lhes borda por cima,
soltando bombas atômicas para formar um lago,
não pode despertar mais que um penoso sorriso. O
mais engraçado, porém, vem em seguida, quando
ficção científica, esoterismo e pornografia se
juntam para nos fornecer uma simpática imagem
de nossa origem.
"Na era terciária, cerca de 5 milhões de anos
atrás" — continua o espanhol — "quando nenhum
ser humano ainda existia sobre nosso planeta,
povoado só por animais fantásticos, uma
astronave cintilante como ouro veio pousar sobre a
Ilha do Sol, no Lago Titicaca. Dessa astronave
desceu uma mulher semelhante às atuais
mulheres em todo o corpo, dos pés aos seios, mas
com uma cabeça cônica, grandes orelhas e mãos
com membranas e quatro dedos."
Aqui é evidente a tentativa de oferecer uma
explicação para o curioso hábito dos nobres incas
de deformar seus lobos auriculares, neles
prendendo pesadíssimos brincos, para pôr em
evidência seu status. Justamente por isso os
espanhóis os apelidaram orejones ("orelhonas"):
mais que lógico, portanto, que a arrojada
astronauta se chamasse Orejona.
"Ela vinha de Vênus" — informa-nos o senhor
Garcia — "onde a atmosfera é mais ou menos
análoga à da Terra. As mãos com membranas
indicam que em seu planeta de origem a água
existia em abundância e tinha um papel primordial
(?) na vida dos venusianos.
"Orejona caminhava em posição vertical como nós,
tinha inteligência e sem dúvida a intenção de criar
uma humanidade terrestre, pois teve relações com
um tapir, animal que grunhe e anda de quatro. Ela
gerou numerosas crianças.
"Essas criaturas nascidas de um cruzamento
monstruoso vinham ao mundo com duas mamas,
uma inteligência diminuta, mas os órgãos
reprodutores continuavam os mesmos do tapir-
porco. A raça estava fixada.
"Um dia, realizada sua missão ou talvez cansada
da Terra e desejando voltar a Vênus, onde poderia
ter tido um marido feito à sua imagem (após o
trabalho, a diversão, somos tentados a
comentar...), Orejona retomou seu vôo na
astronave. Seus filhos, em seguida, procriaram,
inclinando-se principalmente para o destino do pai-
tapir, mas na região do Titicaca uma tribo que
permaneceu fiel a Orejona desenvolveu a
inteligência, conservou seus próprios ritos
religiosos e foi o ponto de partida das civilizações
pré-incaicas... como está escrito na Porta do Sol de
Tiahuanaco."
Esse amontoado de tolices não mereceria nem ser
citado se não servisse para demonstrar como
elementos sem dúvida chocantes, mas dignos de
ser considerados sem ceticismo preconcebido, são
tomados, deformados, misturados com outros
muito duvidosos e com idéias totalmente
descabidas, para confeccionar pastichos e depois
apresentados com o máximo desprezo não só para
com a verossimilhança científica, mas também
para com a inteligência do próximo.
Pelo que sabemos, os "manuscritos secretos" de
Garcilaso de la Vega não foram até agora
examinados por qualquer especialista; consta, ao
contrário, que ninguém teve ainda o prazer de vê-
los. Isso posto, parece claro que as façanhas da
senhorita Orejona foram tecidas sobre as hipóteses
de Kasanzev (segundo o qual a Porta do Sol de
Tiahuanaco apresentaria relevos que
representavam roupas e motores espaciais, além
de um calendário venusiano), os testemunhos
relativos à presença na Terra de raças
desconhecidas, as longas orelhas dos nobres incas,
as esculturas rochosas com a parte superior da
cabeça em cone, os "Kappas" da tradição japonesa
e a suposição de que Vénus esteja em grande
parte coberto por água. O interessante é que,
lançada a historieta que diz remontar ao fim do
século XVI, todos esses detalhes, trazidos à luz
recentemente, podem ser usados para
"demonstrar" sua veracidade.
Quem se apóia nesse tipo de fábulas para
sustentar alguma teoria estrambótica, nunca o faz,
além disso, relatando-as de maneira integral (o
que as tornaria muito menos acreditáveis), mas
usa os fragmentos mais oportunos, resume-as,
quando não faz simples referências a coisa óbvia,
por todos conhecida, universalmente aceita. Isso
acaba, como é evidente, por desacreditar os
estudiosos que se dedicam com seriedade a
pesquisas talvez capazes de permitir a elaboração
de novos esquemas, para oferecer novas flechas
aos arcos dos tradicionalistas já tão inclinados ao
desprezo e ao sarcasmo e, afinal, para reforçar a
incredulidade da opinião pública também perante
elementos fantásticos à primeira vista, mas
substancialmente válidos.
E desses existem muitíssimos, com os quais, sem
ter que recorrer a mistificações, distorções e
extravagantes misturas, poderíamos levantar
hipóteses bem mais sugestivas do que a
inconveniente narrativa de Orejona.
Se nos deixássemos levar pela sugestiva hipótese
segundo a qual sangue de astronautas
extraterrestres corre em nossas veias, poderíamos
olhar com menor desconfiança para a tentativa de
alguns estudiosos soviéticos de dar à história da
Atlântida um prelúdio espacial.
Os homens azuis

Os primeiros atlantes — afirma Platão — teriam


tido uma origem e um sangue diferente do dos
demais terrestres: e foi partindo disso que, em
1960, um grupo de cientistas russos formulou a
hipótese de que se tratasse de homens de cor
azulada. Os pesquisadores basearam-se quer nas
crônicas de Heródoto e do historiador egípcio
Maneto (viveu no século III a.C. e compôs em
grego uma História do Egito, que infelizmente nos
chegou fragmentada, extraindo seus dados das
inscrições dos antigos monumentos), quer no
"Papiro de Turim" e na "Pedra de Palermo".
A colaboração de arqueólogos e biólogos levou-os
a considerar a cor com que eram representadas as
divindades egípcias sob nova luz. Se Amon (o
"Júpiter do Nilo") e Shou, deus do ar, eram pinta-
dos de azul, Toth, deus lunar, era representado
com uma tinta que resultava da mistura de azul e
verde, enquanto Osíris (tutor, também da
agricultura) era decididamente verde.
Evocando as origens dos egípcios na narrativa de
Platão sobre o continente perdido, e as referências
sobre a vinda, em tempos antiqüíssimos, de
atlântides à África do Norte, os pesquisadores
soviéticos afirmam que seria talvez possível
considerar os deuses dos filhos do Nilo como os
representantes de uma das raças que povoaram a
terra desaparecida.
Talvez, supõe quem se dedicou a esse trabalho, os
personagens em seguida divinizados, como Ámon
e Shou, não tenham ficado muito tempo nas
margens do Nilo, ao contrário de Toth e Osíris que,
por uma prolongada exposição ao sol do Egito se
tornaram oliváceos: este seria, de fato, o resultado
da forte ação do sol sobre indivíduos de pele
azulada.
Se as Canárias devem ser consideradas um
vestígio da Atlântida, alguns de seus habitantes de
antigamente, os guanchos, exterminados pelos
espanhóis, poderiam fornecer com sua pele
olivácea uma extraordinária confirmação à
hipótese soviética. Além disso, em certos planaltos
andinos, ainda vivem homens de tez azulada em
virtude da falta de oxigênio no sangue, e é singular
que em algumas regiões da América do Sul sejam
chamados de "sangue azul" os nascidos do
cruzamento entre brancos e índios. A mesma
expressão é difundida quase em tôda parte para
indicar os nobres: apesar das várias interpretações
que foram dadas, ninguém até hoje conseguiu
descobrir sua origem; encontramos essa expressão
já em tempos remotos entre os vândalos, os
habitantes da Inglaterra setentrional, da Rússia
central e da Mongólia.
O arqueólogo francês Henry Bac, comentando os
estudos soviéticos, levanta a hipótese de que os
"seres vindos do espaço" constituiriam a
aristocracia da Atlântida, e que justamente em sua
honra os soberanos do continente desaparecido
vestiriam, em épocas posteriores, roupas azuladas,
como refere Platão. Esse hábito é ainda hoje
comum a vários grupos, entre os quais são
famosíssimos os "homens azuis" que vivem no
Monte Atlas; não só: os pictos da Caledônia (atual
Escócia), como muitos outros povos das costas
atlânticas européias e africanas, pintavam todo o
corpo de azul, "para parecer-se aos poderosos
atlantes".
Segundo os seguidores de Bac, os senhores do
continente submerso poderiam ter descido de
Vênus, — o planeta que parece caracterizado por
picos altíssimos — e ter conservado por algum
tempo sua cor originária, vivendo sobre os relevos
mais elevados das terras naufragadas.
"Não é talvez inútil lembrar" — diz Robert Charroux
— "que se deram em Vênus acontecimentos
extraordinários observados pelos astrônomos
antigos. Santo Agostinho relata, extraindo suas
notícias de Varrão, que Castor de Rodes deixou um
escrito sôbre um 'prodígio surpreendente' que se
teria verificado em Vênus. Esse planeta,
antigamente circundado por numerosos satélites,
teria mudado de cor, tamanho, forma e curso.
Como testemunham Ádrasto, Ciziceno e Dione, tal
fato sem precedentes teria acontecido nos tempos
do rei Ogiges.
"Ogiges, segundo a mitologia grega, teve como pai
Netuno e como mãe o oceano. Conhecido como o
mais antigo rei da Ática, seu reino teria sido
enlutado por um dilúvio numa época muito incerta;
o adjetivo grego ogygios significa de fato,
'fabuloso, anterior a todos os conhecimentos
históricos', e se relaciona também com a idéia de
remotos cataclismos. Ogiges teria fundado Tebas:
sobre sua existência testemunham numerosas
tradições do antigo e do nôvo mundo. Na
etimologia sânscrita, Ogiges (aughaga) significaria
'nascido durante o dilúvio'."
A "catástrofe de Santo Agostinho" teria podido
provocar o êxodo dos venusianos. "Mas sua
aclimação sobre a Terra" — afirma o escritor
francês — "foi dificultada pela mudança demasiado
profunda das condições biológicas naturais: a
reprodução tornou-se dificultosa, a raça se achou
em perigo (...) e os últimos venusianos, incapazes
de voltar ao planeta de origem, nos deixaram a
mensagem da Porta do Sol de Tiahuanaco, antes
de sua completa extinção."
Esses mestres vindos do espaço poderiam, antes
de seu desaparecimento, ter fornecido aos homens
noções inimagináveis. Talvez seus herdeiros sejam
os seres de que fala o Popul Vuh, livro sagrado dos
índios queché, da Guatemala, com claríssima
referência "àqueles da primeira raça" (talvez os
que viveram antes do dilúvio, ao qual o texto
também se refere), "capazes de tudo saber"?
"Eles" — diz o manuscrito — "estudaram os quatro
cantos do horizonte, os quatro pontos do céu e a
face redonda da Terra."
Tratava-se, portanto de um povo que possuía
noções astronômicas exatas e, como se deduz do
verbo "estudar", muito profundas. Mas que povo?
Também na Guatemala, como no México, na
Colômbia, no Peru e na Bolívia, encontramos
lendas que falam de raças não humanas, de seus
domínios e de suas lutas. São "homens azuis"
(exatamente como aqueles a cujo estudo se
dedicaram os soviéticos), homens da "cabeça
redonda", da "cabeça chata", da "cabeça pontuda".
E é singular que de tôdas essas fabulosas estirpes
encontramos vestígios também em lugares
afastadíssimos daqueles em que sua lembrança
vive.

Olhos para o invisível

Os de cabeça chata representam outro problema,


no momento insolúvel, na Venezuela. Quando o
Prof. Requeria encontrou nas vizinhanças do Lago
de Valência (ou Tacarigua), a uns 30 quilômetros a
sudeste de Caracas, o esqueleto de um homem
com o crânio achatado em sua extremidade
superior, acreditou achar-se perante um indivíduo
a tanto reduzido por uma deformidade congênita;
mas essa hipótese viria a cair não só com a
descoberta de outros crânios iguais, mas também
de fetos caracterizados pela mesma conformação.
Monumentos colossais, afinal, falam das "cabeças
pontudas", insinuando até a suspeita de que seus
artífices possuíssem sentidos para nós
desconhecidos.
Escrevem Pauwels e Bergier: "Um amigo nosso, o
explorador e filósofo peruano Daniel Ruzo, partiu
em 1952 para estudar o planalto desértico de
Marcahuasi, a 3.800 metros de altura, a oeste da
cordilheira andina. Esse planalto sem vida, que só
pode ser alcançado em lombo de burro, mede 3
quilômetros quadrados de superfície. Ruzo nele
descobriu animais e rostos humanos esculpidos na
rocha e visíveis somente no solstício de verão, pelo
jogo de luzes e sombras. Encontrou estátuas de
animais da era secundária, como o estegossauro, e
de leões, tartarugas, camelos, desconhecidos na
América do Sul (não é exatamente assim, pois
foram encontrados os restos fósseis).
Este fragmento maia mostra parte de um arco de
parábola, fornecendo mais uma prova do estágio
de desenvolvimento alcançado por aquele povo.
Vaso chinês da dinastia Shang (1.766-1.123 a.C.),
com detalhes muito semelhantes aos que se
encontram em peças análogas da América pré-
colombiana.
Mesas bizarras (que também poderiam ser
assentos ou pedras mós): parecem inspiradas
numa arte não humana e destinadas a seres
diferentes de nós.
Uma impressionante representação dos "homens
do outro planeta", em San Augustin, Colômbia
O "Pássaro de Fogo", numa escultura encontrada
em San Augustin.
O "astronauta do vale do Cauca": sua cabeça a
estranhamente achatada parece fechada num
capacete transparente. Notem-se os cetros espira-
lados, próprios também de outros povos.
Jóia costarriquenha de ouro, em forma de aranha.

Um morro esculpido representa a cabeça de um


velho; o negativo da fotografia revela um jovem
rosto radiante. No decorrer de que rito de iniciação
podia tornar-se visível? Estabelecer sua idade com
o método do 'carbono 14' ainda não foi possível,
pois não foram achados até agora restos orgânicos
sobre Marcahuasi; os indícios geológicos recuam a
data para a noite dos tempos, e Ruzo pensa que
êsse planalto teria sido o berço da civilização
masma, talvez a mais antiga do mundo"22.
A propósito das representações que se tornam
visíveis só em determinadas condições de luz,
lembramos que a Europa também tem as suas e
que muitas outras, provavelmente, ainda devem
ser descobertas.
Na costa sul da Grã-Bretanha encontra-se um
imponente complexo de monumentos megalíticos,
em cujo estudo os arqueólogos Marthe e Saint-Just
Péquart e Zacharie Le Rouzic trabalharam por 40
anos. Agora, aconteceu que eles descobriram
sobre uma pedra de um dólmen, chamado
Kerham, alguns sinais. No ano seguinte voltaram
ao mesmo lugar para tirar fotografias mas tiveram
que admitir, chocados, que os sinais haviam
desaparecido. Um dos cientistas, contudo, não se
deu por vencido, e ficou horas seguidas
22 Pauwels e Bergier, ob. cit., págs. 172-73. (N. dos tradutores).
observando a pedra; sua perseverança foi
recompensada: de súbito os sinais reapareceram,
tornando-se cada vez mais acentuados. Constatou-
se assim que algumas inscrições tornam-se
evidentes apenas em certas horas do dia ou em
certos dias do ano. Outro exemplo é dado pelo sol
esculpido sôbre uma pedra do dólmen de
Locmariaquer, chamado Mesa dos mercadores,
que pode ser visto unicamente entre as 16 e 17
horas de determinados períodos.
As esculturas rochosas, enfim, são numerosíssimas
em todos os continentes, como se assinalassem a
passagem, através do mundo inteiro, de artistas
com cinzéis titânicos ou dotados de titânicos
poderes. Também a Itália tem as suas:
particularmente sugestivas são as que nos foram
assinaladas pelo senhor Giulio Fronasini: batizadas
A virgem das rochas e Perfil do homem,
encontram-se nos arredores de Allumiere (Roma).
E não pode ser considerada uma coincidência que
o "Perfil" apresente a mesma cabeça pontiaguda
(trata-se talvez de um capacete?) do Gigante da
Gávea brasileiro e de muitas outras esculturas do
tipo.
As "inscrições de surpresa" poderiam muito bem
estar ligadas a um rito de iniciação, como
imaginam os escritores franceses. Mas pode-se
aceitar a mesma hipótese no caso do rosto de
Marcahuasi, que adquire aspecto completamente
diferente quando "visto em negativo"? Nada que
conhecemos, a não ser o filme fotográfico, pode
tornar visível a mudança; e esculpir um trabalho
desses não seria nada fácil nem mesmo para um
artista que dispusesse de todos os recursos da
técnica moderna.
Podemos pensar em seres que tivessem a
capacidade de ver "em positivo" e "em negativo"?
Certamente, não. No entanto, centenas de coisas
"impensáveis" esperam ainda por nós em nossa
viagem ao passado.
As representações da misteriosa Chavín poderiam
também nos fornecer um exemplo de "evolução
paralela": lá, de fato, encontramos a Górgona,
mítica figura grega que usa um novelo de
serpentes em lugar dos cabelos; mas ela não é
somente helênica: podemos afirmar que todo o
mundo antigo a conhecia, dos etruscos aos sículos,
dos chineses aos japoneses, dos siameses aos
javaneses, aos habitantes de Bornéu, da Nova
Zelândia e do Havaí. E cefalópodes que a ela se
assemelham estão gravados em vários
monumentos megalíticos, entre os quais os
franceses.
A Górgona de Chavín tem as feições do jaguar:
"mas na representação da bôca, dos cabelos e do
nariz" — escreve Honoré — "ela lembra as
górgonas de Siracusa (boca, cabelos e nariz
constituem cópia quase idêntica), de tal forma que
é muito difícil não notar uma relação entre as duas
obras".
Concluindo este capítulo, parece-nos oportuno
lembrar que se os desconhecidos artistas se
inspiraram de verdade em modelos vivos, não é
absolutamente necessário que os originais tenham
sido seres parecidos conosco no corpo, com a
cabeça de animais (como o deus egípcio dos
mortos) ou vice-versa (como os centauros).
Poderiam ter sido criaturas totalmente diferentes:
para justificar as representações bastaria que de
alguma maneira algo delas lembrasse um animal
conhecido pelos nossos progenitores.
Tentemos explicar melhor. Imaginemos um ser que
se mova sobre uma quantidade de tentáculos que
sustentam uma massa capaz de lembrar, mesmo
de longe, o focinho de um felino: para os observa-
dores ele teria sido humano (enquanto inteligente),
mas ao mesmo tempo animal (por seu aspecto), a
ponto de ser representado em parte com as
feições do animal conhecido que mais se
aproximasse das características daquele ser. Eis
como poderia ser explicada, por exemplo, a origem
da "Górgona de Chavín".

CAPÍTULO XIX
As Astronaves de Tiahuanaco

O QUE os ESTUDIOSOS chamam de Peru antigo não


corresponde ao território atual do país: além de
abrangê-lo, estende-se também às "terras baixas"
orientais do Rio Amazonas, à zona andina do Equa-
dor e da Bolívia, à parte do Chile setentrional e da
Argentina noroeste.
Nessa grande área encontramos, no que diz
respeito ao dia-a-dia dos seus habitantes de uma
época, sinais de um progresso bastante superior
ao encontrado na América Central, e os contrastes
se apresentam muito menos marcantes.
Engenhosas e magníficas aparecem as culturas em
plataformas daqueles povos que usavam sistemas
perfeitos de adubagem e de irrigação, e tinham
descoberto até uma maneira de produzir conser-
vas de carne e de batatas.
Fascinados nos deixam as ruínas da civilização dos
mochicas (o nome deriva do da localidade onde
foram realizadas as escavações, Moche),
antigamente situados ao longo das costas
setentrionais peruanas, desde Pacasmayo até
Casma. Em suas tumbas foram encontrados, entre
outras coisas, restos de duas raças diferentes:
alguns esqueletos pertencem a uma raça que
diríamos branca, e outros a índios.
Os mochicas nos presentearam com um canal de
110 quilômetros de comprimento, tão perfeito que
ainda é usado em nossos dias. Teciam não só
algodão, como também a lã dos lhamas,
produzindo magníficos tapetes e tecidos de
brocado. Sabiam aplicar avançadíssimas técnicas
de tinturaria. Eram também muito hábeis em
trabalhar metais, como ouro, prata, cobre e suas
ligas, obtidas com processos que permanecem
desconhecidos; devemos acrescentar que suas
técnicas de soldagem eram perfeitas.
Os vasos mochicas são multiformes obras-primas
de arte e fantasia: "Nada parece ter sido para esse
povo tão alto que não pudesse ser representado"
— escreve o arqueólogo alemão Kutscher — "nada
tão baixo a ponto de ser considerado indigno de
representação. Animais e frutas, caçadores e
guerreiros, músicos e bailarinos, príncipes e
doentes, mas também demônios fantásticos e
espíritos dos defuntos com aspecto esquelético são
apresentados, nesses recipientes, com imagens
fascinantes".
Também o antigo Peru é dominado pelas
pirâmides, que se encontram às centenas ao longo
de sua costa. As dos mochicas eram de tijolos de
argila; mas das monumentais Huaca dei Sol e
Huaca de la Luna não restam senão ruínas.
Gigantescos trabalhos de canalização distinguem o
vale de Chinca, junto à costa peruana, onde
surgem algumas ruínas antiqüíssimas, entre as
quais uma fortaleza chamada La Centinela. Ali
floresceu numa época o que os arqueólogos
chamam a "Civilização de Nazca, Ica e Paracas".
Em tumbas cavadas nas rochas encontram-se em
posição fetal centenas de cadáveres mumificados,
provavelmente mediante um processo de
defumação, após a extração das vísceras. Ali se
acham também tecidos maravilhosos: véus,
brocados, gobelins (basta pensar que esta técnica
para manufatura de tapetes e tapeçaria foi
redescoberta no século XV, justamente pelos
irmãos Gobelins), tecidos trabalhados com plumas;
e essas obras-primas apresentam pelo menos 190
matizes de cor diferente!
Nas vizinhanças de Nazca, num planalto a 360
metros acima do nível do mar, protegido dos
ventos marinhos, mas batido implacavelmente
pelo sol, encontramos uma cerrada rede de canais,
cuja geometria, — observa alguém — lembra
muito de perto a dos famosos canais de Marte,
com enormes desenhos de animais, alguns dos
quais são conhecidos (como a aranha e o lendário
"pássaro de fogo", ali admiravelmente estilizado) e
outros desconhecidos.
O que são, na verdade, esses canais? Estradas?
Não, porque começam e terminam no deserto.
Trabalhos destinados à irrigação? Até agora não se
encontrou sinal dos poços que deveriam tê-los
abastecido.
E os desenhos? Não é curioso que pareçam ter sido
traçados de propósito para serem vistos do alto, —
e tanto é verdade que somente por meio da
exploração aérea conseguiu-se descobri-los? O
Prof. John A. Mason, da Universidade da
Pensilvânia, sugere, sim, a hipótese de que
tenham sido construídos sob instruções de indiví-
duos que se ergueram a bordo de algo que voava,
mas, sendo um seguidor da ciência "oficial",
rejeita-a... para, em seguida, ser obrigado, falando
da mitologia pré-incaica, a mencionar as antiqüíssi-
mas crenças que consideravam indubitável a
habitabilidade "das estrelas", e falavam da
"descida das divindades da Constelação das
Plêiades".
Diz-se que existem muitos outros campos
semelhantes no Peru, e em parte no Chile, mas os
índios (que também os conhecem) não sabem dar
nenhuma explicação acerca de seu significado.
Eles contam, em compensação, algo fantástico,
que deixou exultantes os amantes da ficção
científica, levando-os a interpretar os misteriosos
desenhos como símbolos destinados a atrair a
atenção de pilotos de objetos voadores
extraterrestres, que deveriam ter ali estabelecido
suas bases.
Teriam, portanto, realmente existido no passado
verdadeiros "portos estelares" sobre os Andes?
Sem adiantar hipóteses demasiado arrojadas,
relatamos na íntegra — como nos chega de La Paz
— esta lenda:
"Os índios contam que seus antepassados, que
viveram milhares de anos atrás, voavam sobre
grandes 'pratos de ouro', impelidos e mantidos no
ar por vibrações sonoras num certo diapasão
produzidas com contínuos golpes de martelo. O
princípio não é absurdo como poderia parecer à
primeira vista. As vibrações de determinada
freqüência teriam podido, com efeito, provocar um
processo físico que multiplicava a energia atômica
do ouro, fazendo diminuir o pêso do 'prato' até
neutralizar a influência da força da gravidade e
assim voar."

A metrópole sem idade

Cerca de 700 quilômetros em linha reta a sudeste


de Nazca, encontram-se, não longe de Titicaca, os
restos de Tiahuanaco, a cidade que a lenda inca
diz construída numa só noite pelo Noé local, um
pastor que se salvou do dilúvio.
Uma saga mais antiga diz que foram os gigantes
que construíram Tiahuanaco, e seríamos tentados
a crê-lo olhando as imponentes ruínas. Outras
lendas, embora admitindo a intervenção dos titãs,
afirmam que eles não teriam enfrentado
espontâneamente a ingrata fadiga, mas teriam
sido obrigados por criaturas "vindas do céu" (em
Nazca, talvez?), criaturas que teriam guiado os
amedrontados "anões" terrestres na reação contra
os monstros ciclópicos.
A data da construção dessa cidade marítima,
lançada pelo desastre cósmico de há mais de
10.000 anos a 3.800 metros de altura, sempre foi
causa de grandes discussões científicas e ainda o
é. O engenheiro Posnansky, que chefiou pesquisas
bem detalhadas, considera que a última
Tiahuanaco tenha surgido há cêrca de 16.000
anos. E a idade de 250.000 anos que alguns
estudiosos mencionam? Por muito que possa
parecer paradoxal, também sua estimativa é
aceitável: a metrópole danificada pela catástrofe
que provocou o desaparecimento da Atlântida
deve ter sido levantada sôbre ruínas muito antigas.
Na costa peruana se encontram algumas
localidades que sem dúvida sofreram a influência
de Tiahuanaco, de maneira direta, E ali, em 1.920,
o Prof. Júlio Tello descobriu vasos sôbre os quais
havia lhamas pintados. Certamente não é
sensacional achar imagens de lhama naquelas
regiões, mas os animais em questão não tinham o
pé dividido em dois dedos, como os que
conhecemos: tinham cinco dedos!
Poderíamos pensar que os artífices daqueles
magníficos trabalhos tivessem usado a fantasia,
"humanizando os animais, por sua utilidade, com a
transformação dos cascos em mãos, mas a ciência
sabe, com certeza matemática, que realmente
existiram lhamas com cinco dedos, cavalos e
bovinos com a mesma característica, mas numa
pré-história ultra-remota.
Tello demonstrou porém que os artistas não se
tinham deixado levar pela imaginação: ele trouxe à
luz esqueletos de lhamas com cinco dedos,
provando mais uma vez que (ao contrário do que
se acreditava) não somente o homem já vivia no
tempo dos primitivos mamíferos, quando ainda
vagavam pela terra sáurios gigantescos, mas tinha
então alcançado, em algumas partes do globo,
elevado grau de civilização.
Em Tiahuanaco, naquela época, o bronze era
conhecido, embora 1.000 anos após o abandono
do grande centro ainda continuasse desconhecido
para as outras culturas americanas; trabalhavam-
se os metais de maneira maravilhosa e usavam-se
técnicas em parte ainda hoje desconhecidas para a
fusão, a fundição, a prateação, a martelação, a
gravação em relevo, a filigranagem, a
damasquinagem e a soldagem.
Em Tiahuanaco, como veremos em seguida,
realizaram-se prodígios arquitetônicos que nós,
com todos os nossos conhecimentos e meios de
que tanto nos orgulhamos, não poderíamos jamais
imitar, maravilhas que lembram uma fantástica
citação de Pauwels e Bergier:
"O arqueólogo americano Hyatt Verrill consagrou
30 anos à investigação das civilizações
desaparecidas da América Central e da América do
Sul. (...) Num belíssimo romance, The Bridge of the
Light, ele descreve uma cidade pré-incaica que se
atinge por meio de uma "ponte de luz", uma ponte
de matéria ionizada que aparece e desaparece à
vontade e permite transpor um desfiladeiro
rochoso que de outra forma seria inacessível. Até
os últimos dias de vida (morreu com 83 anos),
Verrill afirmou que seu livro era muito mais do que
uma lenda, e sua mulher, que lhe sobreviveu,
continuou a afirmá-lo"23.
Quando se fala em civilizações desaparecidas,
muitos se revelam bastante cépticos, fazendo
notar que os vestígios freqüentemente são muito
escassos. Mas os arqueólogos sabem muito bem
quantas dificuldades se encontram no trabalho de
pesquisa e de que maneira inexorável o tempo
apaga até os vestígios que deveriam resistir por
milênios. Basta pensar que, na segunda metade do
século XIX, alguns viajantes puderam admirar e
desenhar em Tiahuanaco majestosas colunatas
das quais hoje não existe nem sinal. Ter-se-á uma
idéia daquilo que era o grande centro já quando
havia séculos caíra em ruínas, passando em
resenha as descrições dos antigos cronistas
espanhóis.
Escreve Garcilaso de la Vega: "O trabalho mais
belo é uma colina construída por mãos humanas,
com a qual os habitantes desta cidade quiseram
imitar a natureza. Para impedir que as massas de
terra caíssem, eles firmaram sua base com
muralhas de pedra ligadas com perfeição (...) de
um lado se vêem dois gigantes de pedra, com
coberturas na cabeça e longos mantos (...) muitos
dos enormes portais foram construídos de um só
bloco".
Diego d'Alcobaça: "No meio das construções de
Chuquiyutu (outro nome de Tiahuanaco), num lado
do lago, há uma praça de 24 metros quadrados, e
23 Pauwels e Bergier, ob. cit., pág. 175. (N. dos tradutores.)
num lado dessa praça há uma sala coberta, com
14 metros de comprimento. A praça e a sala
consistem numa só peça: esta obra-prima foi
esculpida na rocha! Ainda hoje encontram-se aqui
muitas estátuas. Elas representam homens e
mulheres e são tão perfeitas que parecem vivas.
Algumas figuras têm a atitude de quem está
bebendo, outras parecem estar passando um
riacho, outras ainda são mulheres que dão o seio
aos seus filhos".
Jimenez de la Espada: "Há um palácio que é uma
verdadeira oitava maravilha do mundo: pedras de
37 metros de comprimento por 15 de largura
foram trabalhadas de maneira a encaixar uma na
outra, sem que seja visível a conexão".
Desconhecido: "A grande sala do trono de
Tiahuanaco tem 48 metros de comprimento por 39
de largura; a menor (e mais antiga) tem 26 metros
de largura por 30 de comprimento (...), os templos
e os terraços de Tiahuanaco são idênticos aos que
surgiam entre o Tigre e o Eufrates".
Cieza de León: "Num titânico palácio (...) há uma
sala de 45 pés de comprimento por 22 de largura,
com um forro construído como os do templo do
Sol, em Cusco. Esta sala tem muitos portais
enormes e muitas janelas. A lagoa banha os
degraus que dão no pátio. Os indígenas dizem que
é o templo dedicado a Viracocha, o criador do
mundo".
Recordemos que atualmente o Lago Titicaca dista
de Tiahuanaco mais de 25 quilômetros, e seu nível
diminui de ano para ano. É curioso notar como as
embarcações que ainda hoje cruzam sua superfície
são iguais às de papiro egípcias, quer pela técnica
com que são fabricadas, quer pela forma e pelo
material empregado.
Voltando ao templo descrito pelo historiador-
soldado Cieza de León, veremos com êle que ao
longo das paredes e nos nichos estavam estátuas
recobertas de ouro, cobre e bronze, alternadas
com máscaras de pedra e argila, por jóias
preciosas, pregos de ouro, dos quais ainda se
vêem os sinais. Alguns podem ser admirados nas
salas do Museu Posnansky, nome do engenheiro
alemão que fez o possível para salvar Tiahuanaco,
mas poucas coisas, apenas, conseguiu preservar.
Muitos edifícios do grande centro foram estúpida e
vergonhosamente derrubados e reduzidos a
pedaços com dinamite, para serem transformados
em material de construção!
Ninguém jamais poderá dizer quanto, no decorrer
dos séculos, foi roubado a Tiahuanaco. O que hoje
admiramos nas coleções particulares não
representa senão uma parte infinitesimal dos
tesouros daquela metrópole, e contudo trata-se de
objetos maravilhosos: estátuas de ouro maciço
com pêso de 2 a 3 quilos, taças, pratos, copos,
colheres de ouro. Os antiqüíssimos habitantes da
"cidade de Vira- cocha" conheciam, portanto, os
objetos que colocamos sobre nossas mesas.
Lembremos que pratos e talheres apareceram pela
primeira vez na Europa no século XVI, enquanto na
América encontramo-los entre os astecas, os incas
e outros povos que precederam estes últimos em
milhares de anos!
Uma mensagem do infinito
No mundo mediterrâneo encontramos pirâmides
que serviam como mausoléus, e outras construídas
em vários andares, para sustentar um templo;
estas são próprias, por exemplo, da Mesopotâmia:
também a famosa Torre de Babel era uma
construção desse tipo.
Na antiga América, como vimos, os dois tipos de
pirâmide estão igualmente representados, ao
passo que em Tiahuanaco estão, pode-se dizer, um
ao lado do outro. A famosa Akabana possui uma
passagem subterrânea que conduz a uma câmara;
hoje, infelizmente, tudo é ruína, mas temos razões
para acreditar que lá estava sepultado um
soberano. Quem? Talvez o primeiro senhor branco
do "novo" continente?
Por outro lado, na localidade Puma Punku ("porta
do puma"), cêrca de 1 quilômetro a sudoeste da
metrópole, encontra-se uma pirâmide ainda mais
imponente, com três ou quatro andares, cada um
dos quais sustentava um edifício dividido em
vários aposentos.
Sobre a terceira plataforma ainda hoje se vêem os
restos de uma grande porta, chamada "Porta da
Lua", e outras deveriam existir em todos os
terraços. Um detalhe desorientador: as portas de
Tiahuanaco são idênticas às de Persépolis, antiga
capital da Pérsia!
O misterioso centro oferece, de resto, numerosos
pontos de relacionamento com o mundo
mediterrâneo. Enquanto Pierre Honoré observa
que o abastecimento de água era assegurado por
longos condutos semelhantes aos de Creta e dos
jardins suspensos de Babilônia, Marcel F. Homet
escreve: "As imensas lajes de pedra dos templos
de Tiahuanaco estão ligadas umas às outras por
meio de arpões de metal, dos quais até agora só
foi encontrado um igual num único lugar: na
Mesopotâmia, na arquitetura dos palácios assírios
(...) também os deuses e as deusas da pesca
antediluvianos de Tiahuanaco parecem idênticos
às divindades adoradas na Mesopotâmia do V ao III
século a.C. E exatamente em Tiahuanaco, entre
todos os monumentos ciclópicos, encontram-se
estátuas com o nariz aquilino e um turbante
clássico, do qual caem doze tranças simbólicas,
cada uma das quais representa uma tribo".
E ainda: "O número sagrado 12 lembra muitas
coisas; e lembra, antes de mais nada, as 12 tribos
de Israel, de um país onde, 1.000 anos antes de
Cristo, se usava o turbante. Nessa terra sonhava-
se ainda com um "pai de todas as coisas" que se
chamava Mot, representado pelo ovo cósmico. Mas
milhares e milhares de anos antes da existência
das 12 tribos de Israel, era adorado em Tiahuanaco
um outro "pai de todas as coisas", que pelo ovo do
cosmo era caracterizado como criador. E ele
também se chamava Mut (Mout)...
"Resultados espantosos se conseguem também
com o estudo dos edifícios sagrados de
Tiahuanaco. O templo do sol Kalat Sassaya... era
também uma fortaleza: na língua dos berberes
norte-africanos, kalat significa 'fortaleza' (...) a
maior divindade do povo de Tiahuanaco chamava-
se Pacha Kama que, em semítico, quer dizer 'o
senhor supremo, couraçado'. O ente supremo é,
porém, também chamado, nos Andes, Bacha Tata,
e em suaíli, a 'língua franca' da África Central e
Oriental, tata significa 'rei', enquanto em árabe,
bacha é o chefe."
O nome da grande cidade morta deriva, segundo
alguns, da expressão tiwanaka, que significa "isto
é de deus". Tia designa, em língua aimará, de fato,
a grandeza, o esplendor, o horizonte. O prefixo
torna-se para os astecas teo, e é evidentíssima sua
afinidade com o grego theos (donde deus, dio,
dieu); justamente theos é Deus para os povos
localizados ao longo do Rio Orenoco! E era thios e
teotl para os antigos mexicanos, teot na
Nicarágua, tiesi no Peru, tien na China e dewan na
língua sânscrita.
Mas que deus era adorado em Tiahuanaco?
Uma das portas encontradas em Puma Punku tem
altura de 61 centímetros e largura de 37. Ela não
pode, obviamente, permitir a passagem de um
homem. Mas de quem, então? De um puma: eis o
deus da metrópole sem idade, honrado numa
forma viva, tomada talvez para representar
simbolicamente aqueles seres de feições humanas
e felinas que alguns dizem vindos das estrelas.
E o "deus-jaguar" domina também a famosíssima
"Porta do Sol", apertando nas mãos o símbolo do
trovão e do raio (não lembra o "pássaro de fogo" e
o "pássaro trovejante"?) no meio de um friso onde
se reconhecem jaguares, condores e serpentes,
com estranhos seres alados.
A Porta do Sol é o maior monólito esculpido da
Terra, formado de um só bloco de 3 metros por 2
de largura. Segundo Posnansky, tratar-se-ia de um
misterioso instrumento astronômico e, ao mesmo
tempo, de um calendário cuja construção
remontaria ao 16º milênio antes de Cristo.
Agora intervém o Prof. Kasanzev, talvez
estimulado por aqueles pesquisadores que viram
no monólito até a representação de uma aleta de
astronave. Kasanzev não chega a isso: concorda,
porém com Posnansky num ponto, sustentando a
existência, entre os baixos-relevos, de um
calendário que corresponderia ao ano astronômico
venusiano. Muitos astrônomos (e não somente os
soviéticos) dividem a opinião dele: sabemos, de
resto, que numerosos povos da América pré-
colombiana usavam um calendário baseado nas
revoluções realizadas no mesmo período pela
Terra e por Vénus ao redor do Sol, relação que se
expressa com 8:13 (isto é, a Terra realiza 8
revoluções enquanto Vênus efetua 13).
A adoção desse calendário parece bastante
curiosa: é verdade que a "estréia branca" pode
excitar a fantasia com seu esplendor, mas é
também verdade que o cálculo do tempo baseado
nesse planeta pressupõe operações muito
complicadas e que muito mais simples e racional
se apresenta o calendário lunar usado além do
mais por todos os povos. Por que, então, foi
tomado como base o planeta Vênus?
Porque — afirmam os que acreditam ter
encontrado na intervenção de raças
extraterrestres a chave para muitos enigmas — de
Vênus vieram os exploradores cósmicos que
introduziram aquele calendário, para eles
absolutamente natural.
E Kasanzev afirma, com Jirov e alguns cientistas
franceses, que os desenhos da Porta do Sol
representariam roupas espaciais autônomas e
motores para foguetes completamente
semelhantes àqueles movidos a íons solares,
atualmente em estudo nos Estados Unidos!
Netuno, deus dos apaches

Alguns estudiosos ainda hoje são reticentes em


admitir que da antiqüíssima Tiahuanaco a
civilização tenha-se irradiado por toda a América
do Sul e Central, embora haja provas irrefutáveis
sobre pontos de contacto existentes entre a
cultura da famosa cidade morta, a olmeca, a
tolteca e muitas outras do período pré-asteca.
E existem relações ainda mais estonteantes.
Quando o etnólogo norte-americano L. Taylor-
Hansen chegou em visita a uma tribo dos peles-
vermelhas apaches localizados no Arizona, estava
sem dúvida preparado para certas revelações, mas
temos certeza que não estava preparado para uma
surpresa como aquela que teve no fim de uma
dança ritual.
Ao estudioso interessava o lado puramente
folclórico da cerimônia: ele estava perseguindo
uma lenda, o fio de um passado tão remoto que já
não passava da sombra de uma lembrança,
convencido de que alguns pormenores
considerados até alguns anos antes simples
coincidência fossem, na verdade, suficientes para
confirmar uma hipótese, que chamar de
extraordinária é pouco. E entre os apaches ele
encontrou a confirmação de sua teoria.
As maravilhas começaram no momento em que o
etnólogo mostrou à seus hóspedes algumas
fotografias de pinturas egípcias. Numa figura
mitológica, os peles-vermelhas reconheceram a
divindade à qual fora dedicada a dança ritual, o
"Senhor da Chama e da Luz": e aquele deus vivia
nas lembranças dos apaches com seu próprio
nome mediterrâneo, Ámon-Ra!
Mas isto nada mais era que o princípio de uma
série de espantosas revelações para as quais
funcionaram como pontes dois "números
sagrados", o 8 e o 13, os que estão justamente na
base do calendário venusiano. Taylor-Hansen
começou a falar disso e referiu-se a Tiahuanaco,
tendo os apaches identificado naquela localidade
um centro de seu lendário império do passado,
descrevendo, sem nunca tê-la visto, a estátua do
"branco barbado" que mais tinha impressionado os
arqueólogos:
"O deus aperta em cada mão uma espada em
posição vertical, o que significa 'amizade dentro de
certos limites'. As espadas se encontram em
ângulo reto com os antebraços e com a cabeça
formam um tridente, que é a nossa senha secreta
de reconhecimento. Lá, onde está a estátua, é o
lugar de nossa origem."
Um gigante barbado, um tridente: aquela estátua
representa o deus branco Viracocha. Mas tem os
mesmos atributos do Netuno mediterrâneo, ao
qual Platão diz que era consagrada Posseidônis,
isto é, a Atlântida!
Observando em seguida as fotografias de Machu
Picchu, os apaches começaram a discutir com
grande competência, embora nunca nenhum deles
à tivesse visitado, e muitos acreditassem que se
tratava apenas de uma lenda.
"Vivíamos na antiga Terra de Fogo Vermelho", —
contou um velho sábio índio ao etnólogo, narrando
uma estória transmitida por gerações e gerações
— "muito tempo antes do dilúvio e a entrada da
cidade era tal que a gente se perdia. Então nosso
país era o coração do mundo: lá iam os povos para
pedir justiça, como acontece hoje em Washington.
A capital era imensa, os navios se perdiam na
entrada do porto se alguém não mostrasse para
eles o caminho certo; a terra não era muito
extensa, mas as montanhas eram as mais altas do
mundo de então, e em suas vísceras estava o deus
do fogo.
"Justamente pelo seu furor a antiga terra foi
destruída: o deus deixou suas cavernas
subterrâneas, subiu à superfície através das
montanhas, verteu fogo e morte sobre a gente
enlouquecida pelo terror. E a gente fugiu, veio
para o ocidente sobre o mar, depois o oceano se
retirou e não mais vimos o mar, nós, que nos
tempos de nossa glória dominávamos as águas do
mundo inteiro..."
Talvez alguns grupos índios fizessem já parte, em
tempos antiqüíssimos, do império atlante, talvez
fossem uma colônia... ou então nunca o viram mas
identificaram-se com seus habitantes somente por
terem recolhido a lenda de seus antepassados. O
Prof. Homet defende essa última tese, e escreve:
"Os atlantes eram de raça branca. Ainda hoje seus
poucos descendentes puros são brancos; são os
uros do Titicaca, que vivem lá onde floresceu a
civilização de Tiahuanaco. E o mesmo vale para os
habitantes originais da Argentina, que descendem
dos primeiros imigrados. O Dr. Vernau, que
estudou os patagões do Rio Negro argentino,
chegou à seguinte conclusão: 'Eles são brancos, da
mesma raça dos índios do Brasil central, do Estado
de Minas Gerais, os famosos homens da Lagoa
Santa'".

CAPÍTULO XX
Os Filhos do Sol

SE ALGUÉM QUE conhecemos tivesse sabido o que


vamos dizer em seguida, certamente teria
aproveitado a deixa para reivindicar pelo menos as
Américas Central e do Sul. O que vamos ver agora
seguramente está entre os mais curiosos enigmas
que ligam o "novo" ao "velho" continente, algo tão
espantoso que talvez até o personagem citado ter-
se-ia recusado a nele acreditar.
No litoral peruano setentrional encontra-se Chimu,
o reino dos chimus, que ia aproximadamente dos
atuais confins com o Equador até o norte de Lima.
Os chimus deveriam descender de um grupo de
habitantes do México emigrados para o sul por
mar, no início de nossa era. Os arqueólogos nos
informam que uma parte deles parou logo no
começo da costa peruana, dando origem às
civilizações de Salinar, Galinazo e Mochica.
No correr dos séculos, essas comunidades
juntaram-se a outras localizadas ao longo do Rio
Moche, e submeteram os vizinhos. Nasceu assim o
reino de Chimu que, desde 500 d.C.
aproximadamente, durou até o começo do século
XV, quando os chimus, derrotados, foram
subjugados pelos incas, os quais, contudo, deles
assimilaram grande parte dos hábitos, da
mitologia, do estilo artístico.
Para suas construções os chimus usavam
freqüentemente tijolos de argila: característica é a
fortaleza de Paramonga, colocada nos confins
meridionais do reino e defendida por várias cercas
de muros, da qual ainda hoje apesar do trabalho
particularmente destrutivo dos agentes
atmosféricos, podemos admirar as maciças ruínas.
Perfeitas eram as instalações para a irrigação
artificial, construídas por esse povo; belíssimas
suas estradas: estreitos caminhos ladeados por
muros, para protegê-los dos ventos e da areia,
estendem-se pelo deserto de oásis a oásis e, nos
lugares mais favoráveis, encontramos ruas de 4,5,
7,5 e até 24 metros de largura.
Em contraste com a severa nudez dos muros,
típica das monumentais construções do planalto,
nas cidades da costa as fachadas apresentam
esplêndidos ornamentos, quer animais, quer flores
estilizadas, quer desenhos geométricos.
Fantásticos são os relevos de Chan-Chan, que
parecem querer compendiar todas as civilizações
do mundo: encontramos ali motivos característicos
da Ásia meridional ao lado da clássica "grega";
vemos representado o Egito, a Mesopotâmia, a
China e quem sabe quantas outras partes do
mundo.
Chan-Chan, cujas imponentes ruínas cobrem uma
área de 18 quilômetros quadrados, era a capital do
reino dos chimus. Com ordem perfeita, a cidade
era dividida em 10 quarteirões por muralhas com
até 12 metros de largura: ao lado das ruínas de
casas (infelizmente quase apagadas pelos agentes
atmosféricos, principalmente pelo vento),
encontramos vestígios de pirâmides, cemitérios,
reservatórios de água.
Em Chan-Chan (chan significa serpente) o deus-
réptil era adorado vivo, exatamente como
acontecia no Egito com a deusa de Buto, apre-
sentada sob o aspecto de uma grande serpente.
Mas procuremos aprofundar um pouco o
interessante detalhe ao qual nos referimos no
comêço do capítulo.
Um piloto de navios espanhóis, Pedro Corzo,
informa-nos que aos tempos da "Conquista"
surgiam nos relevos peruanos muitos templos com
estátuas de um deus que os indígenas chamavam
Guatan, "vento em torvelinho".
Não lembra esta divindade, no nome e no atributo,
o deus germânico da tempestade, Wotan? Tem
que lembrá-lo mesmo, pois Guatan era um
personagem da mitologia maia que antes de ser
"exportado" para o Sul chamava-se Wotan, nada
mais, nada menos! E Wotan era também, na
Guatemala, o senhor da noite e da escuridão; a
mesma figura que entre os astecas, os zapotecas e
os maias presidia à arte divinatória.
Mas o deus germânico Wotan (também chamado
Odin), além de ser o deus das batalhas, era
também o criador e o ordenador do mundo, o pai
da civilização, e tinha espírito profético.
Como se vê, embora deformado em alguns
detalhes, o Wotan do Norte europeu e o sul-
americano coincidem exatamente. E estimulam
ainda mais aquelas "fantasias espaciais" já tão
alimentadas pelos estudos das civilizações de
além-mar. Não poderíamos, de fato, relacionar
com uma astronave o "vento em torvelinho" de
Wotan à extensão cósmica, à "noite", e à
"escuridão"; à descida de inteligências
extraterrestres, o aparecimento do deus ordenador
e civilizador?
Ainda um detalhe: o calendário inca tinha 12
meses, e o ano se iniciava, como em muitas outras
partes do globo, com o solstício do inverno. E era
esta, para o Norte europeu, a festa do Sol: o "dia
de Wotan"!
Mas se nos deixássemos levar pelas asas da
fantasia chegaríamos muito mais longe:
poderíamos até ver no paraíso de Wotan, no mítico
Walhalla onde as Valquírias guiavam as almas dos
valorosos, recebidas por Frigg e Frija
(freqüentemente confundida com Freya), um
longínquo e maravilhoso planeta.
Não encontramos porventura as Valquírias — isto
é, as amazonas — em todas as partes do mundo,
da Grécia à Escandinávia, do Cáucaso ao Daomé
(África Ocidental) e à América?
O historiador Diodoro Sículo, que viveu no século I
a.C., conta de uma rainha das amazonas que
inicialmente combateu os atlantes, depois as
górgonas e afinal aliou-se a Hórus do Egito, filho de
Ísis. Marcel F. Homet escreve a respeito:
"Aprendendo de Diodoro Sículo que as amazonas
"atravessaram" o oceano para combater as
górgonas, perto dos "atlantes", podemos pensar
numa interessante fábula. Mas que Pizarro, na sua
chegada à Colômbia norte-ocidental, tenha
encontrado uma ilha de nome Górgona, é um fato
histórico!"
Acrescentemos a tudo isso os olhares que
petrificam o próximo, reduzamo-los talvez a uma
central atômica de bolso, lembrando a sorte que
Agrest atribui à pobre mulher de Ló, e teremos um
daqueles assuntos tão cobiçados pelos autores de
romances fantásticos.
Um cronista ibérico, Cavegal, nos conta que as
amazonas se teriam estabelecido na América,
onde teriam sido vistas a cavalgar cavalos e
camelos sob as ordens de uma rainha chamada
Conori.
Camelos e cavalos na outra orla do Atlântico? Isso
mesmo: de acordo com a tradição, Bochica, o deus
branco, cavalgava também camelos e foram
encontrados na Colômbia os restos fósseis desse
animal. Quanto aos cavalos, vemo-los
representados por muitíssimos grafitos pré-
históricos do Amazonas, até com selas e carros, e
em 1938 J. Bird trouxe à luz, na caverna de Palli
Aike, na extrema ponta meridional da América do
Sul, esqueletos humanos sepultados com ossos de
cavalos; o "calendário atômico", em 1950,
estabeleceu sua idade: 9.000 anos.
Falando em Wotan, mencionamos a divinização, e
parece-nos impossível deixar de lado o que Honoré
escreve a respeito, após ter lembrado que todos os
povos do mundo mediterrâneo tinham seus
oráculos, entre os quais era muito célebre o de
Delfos:
"A América do Sul tinha seu correspondente
oráculo em Rimac, que se encontrava a um dia de
marcha de Pachacamac, nos arredores da atual
Lima. Os cronistas referem que os habitantes
daquele vale adoravam um deus de figura
humana, o qual, a pedido, revelava o futuro.
Sacerdotes vestidos de branco, que viviam em
castidade, sem fazer uso de sal ou pimenta, eram
encarregados de seu culto. O oráculo de Rimac era
conhecido até à cordilheira; "reis e príncipes, antes
de partir para a guerra, ou mesmo só para a caça,
tomavam conselho com ele.
"Quase igualmente famoso era o oráculo de
Pachacamac, a cidade dos príncipes de
Guismancu, um pequeno reino ao sul do dos
chimus, sobre a costa peruana. Os cronistas dizem
que aquela cidade era maior que a antiga Roma, e
que em seu templo um demônio preto falava ao
povo. Nos templos de Guismancu, que eram meta
de romarias, os sacerdotes prediziam o futuro
atrás de máscaras de ouro. Tão célebres eram os
oráculos da costa do Peru que o soberano inca
Pachacutec movimentou um exército de 40.000
homens para se apoderar do deus de Pachacamac
e levá-lo para Cusco."
Eis então que os incas entram em cena. Nós os
chamamos assim, como de resto fazem os
arqueólogos e grande parte dos historiadores, mas
não devemos esquecer que Inca era um título a
que tinham direito somente os soberanos e suas
famílias: o povo se chamava quíchua.
Se pouco sabemos sobre o aparecimento, em
determinados lugares, de muitos povos da América
antiga, os incas não são exceção a essa regra.
Ainda hoje somos levados a crer que eles não
conheciam a escrita e, portanto conseguimos
reconstruir seus acontecimentos só de maneira
muito fragmentária, baseados em vestígios
arqueológicos e, nos últimos anos, sobre o
testemunho dos conquistadores espanhóis.

Múmias no futuro

Na Ilha do Sol, no Lago Titicaca — conta a lenda da


origem inca — Manco Capac e sua irmã Mama
Ocllo vieram para a Terra. Dirigiram-se para o
norte, até encontrar a zona destinada pelo deus-
Sol à sua estirpe. Lá pararam e fundaram o império
dos quíchuas.
O lugar é Cusco (que significa "umbigo", "centro da
Terra"), situado a 3.300 metros acima do nível do
mar, num fértil e amparado vale longitudinal ao
Rio Urumba. Ali surgiu a capital do império
chamado Tahuantinsuyo ou "dos quatro pontos",
que se estendia do Sul da atual Colômbia ao Norte
da Argentina: um longo e estreito território,
portanto, limitado a ocidente pelo oceano e a
oriente pela Amazônia, com seus canibais sempre
em luta com os confinantes.
Discutida é a data de nascimento deste império:
alguns propõem 494 d.C.; outros, 565, outros
ainda 1130. No século XVI, Tahuantinsuyo cai sob
as investidas dos conquistadores, embora muitos
de seus centros, colocados em inacessíveis
planaltos da cordilheira sobrevivam por longo
tempo ainda.
Mas sem dúvida existiu um reino pré-incaico: um
historiador, com anos de paciente trabalho,
conseguiu estabelecer que pelo menos 105
soberanos precederam Atahualpa, o último rei
inca, assassinado por Pizarro em 1533, e que o
início da história desse povo deve ser fixado em
época muito anterior ao dilúvio.
Essas descobertas trouxeram à tona notícias
claramente contrastantes com a crença segundo a
qual os quíchuas não teriam conhecido escrita.
Uma pesquisa apurada realizada com base nas
crônicas espanholas revela que seus antepassados
pré-históricos "escreviam sobre folhas de
bananeira, segundo um método descoberto sob o
reinado de Huayna Caui Pirhua, terceiro soberano
da dinastia antediluviana", mas que "esse hábito
foi proibido pelo 63º inca, Topu Caui Pachacuti IV",
que, tendo sabido que com esse método se
difundiam previsões sobre espantosos cataclismos
que deveriam revolucionar a Terra, "ordenou que
se queimassem todas as folhas de bananeira e
proibiu a escrita, sob pena de morte".
O primeiro soberano que começa a sair do mito
para entrar, embora de maneira nebulosa, na
história, é Sinchi Roca, que reinou ao redor de
1150. Mas é outro imperador que nos interessa, o
oitavo da série, se contarmos também o primeiro,
o fabuloso Manco Capac.
O oitavo chamava-se Viracocha Inca. Mas
Viracocha, já o dissemos, era o deus branco dos
quíchuas, e Viracocha foram chamados os
espanhóis por sua pele clara. O soberano citado
deve ter recebido esse título por apresentar os
mesmos atributos: era, de fato, branco e barbado.
E não temos razão para duvidar disso, pois
encontramos seu retrato.
O sistema de governo dos incas é definido como
pré-comunista, o que significa que a terra era
propriedade comum dos que a lavravam e das
duas castas que governavam: a colheita devia ser
dividida em três partes, a primeira cabendo aos
governantes, a segunda aos sacerdotes, e a
terceira aos agricultores.
Dominavam os "nobres das longas orelhas", assim
chamados porque, para evidenciar seu alto
nascimento, furavam as orelhas, nelas pendurando
pesados brincos que as deformavam. E a estes,
aos sacerdotes e ao culto eram reservadas as
maravilhas da arquitetura, das quais Fergusson
diz: "Nem os gregos, nem os romanos, nem os
povos da Idade Média alcançaram tal perfeição",
enquanto Velarde diz: "É terra cristalizada,
obrigada às formas geométricas".
Adoradores do Sol, os incas davam muita
importância a este culto, de tal maneira que seus
sacerdotes gozavam de poderes quase ilimitados.
Referência particular merecem as sacerdotisas,
"mulheres eleitas do Sol", cuja ordem era mais ou
menos igual à das vestais roma nas: elas também,
escolhidas entre as famílias mais importantes,
eram destinadas a alimentar o fogo eterno que
ardia sôbre a ara do deus elas também deviam
comprometer-se a permanecer virgens, também
tinham poder de vida e morte sobre os
condenados; elas também, enfim, no caso de
transgressão, deveriam enfrentar a pena paga pela
infeliz Réia Sílvia24.
Nas civilizações da América antiga os soberanos
eram considerados filhos do Sol, exatamente como
acontecia não só no Egito, na Assíria e em Creta,
mas também na China, principalmente sob a
dinastia Chu.
Comentando o hábito dos nobres incas de contrair
casamento sempre dentro da família, entre irmãos
e irmãs, mães e filhos, Honoré escreve: "Na Pérsia
de Ciro, Dario e Xerxes, até 333 a.C. e também na
Grécia, essas uniões não eram apenas possíveis:
era até coisa comum que o pai casasse com a
filha, a mãe com o filho e o irmão com a irmã,
como acontecia no antigo Egito, onde as mulheres
do faraó eram também suas irmãs".
Acerca das misteriosas ligações existentes entre os
quíchuas e os filhos do Nilo, não devemos
esquecer que em agosto de 1953 o Dr. Bird, do
Museu de História Natural de Lima, descobriu nos
arredores da capital peruana a tumba de um
príncipe Kapac, — que viveu entre o 5º e o 4º
milênio a.C., — num sarcófago idêntico aos dos
24Réia Sílvia foi obrigada por Amulius (irmão do rei Numitor, a quem destronara) a se tornar
vestal, para não deixar herdeiros. Marte encontrou-a dormindo às margens do rio e ela concebeu
Rômulo e Remo. Amulius a encarcerou, e ela só foi libertada mais tarde, por seus filhos. Segundo
outra versão, Réia Sílvia precipitou-se no Tibre, sendo acolhida hospitaleiramente pelo deus do rio,
que a tomou por esposa. (N. dos tradutores.)
egípcios. E outro sarcófago desse tipo foi
encontrado juntamente com estátuas de
indubitável estilo mexicano, no chamado "vale
egípcio" que se encontra a meio caminho entre os
rios Xingu e Tocantins, no sul da selva amazônica.
Em 13 de novembro de 1954, a revista O Cruzeiro,
do Rio de Janeiro, escrevia: "Na vila de Dourados,
sôbre o rio Pira-Vevé, foi descoberto um camafeu
egípcio representando o rosto de uma rainha
circundado por hieróglifos cuja tradução é a
seguinte: 'Após sua morte, a alma da rainha subiu
ao mundo de Deus e achou, por suas virtudes, um
céu de paz'".
E tudo não termina aqui: quando, em 1531, os
espanhóis de Pizarro se precipitaram no grande
templo de Cusco, como sempre sedentos de ouro,
acharam alguns estranhos pacotes. Desembrulha-
ram-nos e viram que continham múmias em
posição fetal, envolvidas em preciosos tecidos, o
rosto encoberto por máscaras de ouro, prata,
madeira e argila.
Já é um fato curioso encontrar múmias na América,
mas se podemos dizer que as incas são diferentes
das egípcias, preparadas, após a remoção das
vísceras, segundo processos naturais, o clima
seco, e a terra rica de componentes salinos, fica-se
sem dúvida estupefato quando se vêem as
múmias encontradas em Ganchavita, na Colômbia,
com uma pequena coroa de ouro sobre a cabeça,
circundada por presentes fúnebres: tecidos,
estatuetas de ouro, jóias, esmeraldas.
"É surpreendente" — escreve Honoré — "que
tenham sido encontradas múmias na Colômbia,
pois aqui reinava já no passado um clima
certamente não favorável à conservação. De
maneira alguma, portanto, seria possível um
processo natural para a mumificação. E as análises
demonstraram que aqui foram usados óleo e
resinas: aqui foram usados, em outras palavras,
processos quase idênticos aos empregados no
Egito antigo."
Os quíchuas, porém, deviam trabalhar com várias
técnicas, visto que nem todos os cadáveres
trazidos à luz se apresentam mumificados da
mesma maneira. Em 1560, Garcilaso de la Vega
presenciou o achado e o transporte das múmias de
cinco soberanos incas, identificados como
Viracocha Inca, de longos cabelos brancos, Tupac
Yupanqui, Huayna-Capac, Mama-Runto e Mama-
Oello. Sentados, os braços cruzados sobre o peito,
olhando para o chão, aqueles mortos, vestidos com
suas roupas reais, ofereciam um espetáculo
impressionante. "Eram tão bem conservados e tão
bem embalsamados com um certo asfalto" — diz
outra testemunha, o religioso Acosta — "que
pareciam ter vida."
"Eu acho que o segrêdo dos índios nesse caso" —
comenta Garcilaso — "consiste simplesmente em
enterrar os defuntos na neve... e em seguida
colocar o asfalto de que fala o reverendo Padre
Acosta. Ao ver aquêles corpos deu-me vontade de
tocar um dedo de Huayna-Capac. Pareceu-me o de
um vivo..."
Levadas para Lima pelos espanhóis, as múmias
ràpidamente se deterioraram pelo calor e pela
umidade, e tiveram que ser enterradas.
Lembramos a respeito que em março de 1963 a
múmia da princesa egípcia Mene, morta em 332
a.C., teve que ser levada com urgência para uma
câmara frigorífica da Universidade de Oklahoma,
justamente porque se estava decompondo, e os
biólogos tiveram que constatar, pode-se imaginar
com que espanto, que as células epiteliais haviam
permanecido intactas.
Recentes descobertas de múmias em perfeito
estado de conservação não faltam também na
América. Em 1953 um almocreve chileno descobriu
numa geleira dos Andes um pequeno sarcófago
que continha um corpo mumificado, intacto, de
uma jovem inca que viveu há cerca de 730 anos,
com numerosas estatuetas de ouro maciço, uma
das quais tinha a cabeça de sapo. E em 1959
foram casualmente encontradas, numa gruta perto
de La Sonora, México, trinta múmias muito bem
conservadas, com pelo menos 10.000 anos de
idade e pertencentes a uma civilização até agora
desconhecida.
São fatos sem dúvida surpreendentes, mas o
senhor Beltran Garcia não se satisfaz com a versão
corrente, e revela: "As múmias (dos cinco
soberanos incas), com dezenas de outras, foram
tiradas do templo e escondidas antes do
nascimento de Garcilaso. Elas foram encontradas
por engano!
Cientificamente essas múmias eram corpos com
todos os órgãos, inertes, porém vivos, graças à
hibernação, processo que os incas conheciam
muito bem. Esse tipo de embalsamamento tinha
uma finalidade científica: os incas acreditavam que
num dia longínquo a ciência seria capaz de
devolver a alma e a vida às múmias. Também no
Vaticano se faziam embalsamamentos, e sabemos
muito bem que o 'asfalto' das múmias incas era,
na verdade, um creme sólido, transparente,
composto de três produtos, um dos quais era a
quina".
Naturalmente relatamos as divertidas divagações
do espanhol como simples curiosidade; todavia, há
quem as leve muito a sério, mesmo quando as
falcatruas são evidentes. Referindo-se às múmias
dos soberanos incas, Garcilaso fala claramente em
defuntos, mas seu descendente não quer entender
— aliás, arremata, referindo-se à descoberta de
1953: "Garcilaso de la Vega tinha claramente
afirmado que o 'sapo nelado' (congelamento pelo
método do sapo) era um segredo inca. Acredita-se
que a jovem devia levar uma mensagem da
ciência inca a uma humanidade futura, mas que
fora morta pela brusca exumação. As estatuetas
de ouro, e especialmente a com cabeça de sapo,
forneciam, numa linguagem secreta, a explicação
da experiência".
Quando o senhor Garcia e seus amigos
"esotéricos" tiverem oportunidade de conversar
telepàticamente com qualquer cientista meio
imortal escondido sabe-se lá onde, seria
interessante que eles pedissem algumas
indicações mais precisas do que as fornecidas pela
"linguagem secreta", pois — como garante o
espanhol — "outras múmias vivas estão
escondidas em crateras vulcânicas ou nas geleiras
dos Andes. Os corpos se acham em estado
letárgico provocado pelo processo 'curare', quando
se encontram nas crateras, enquanto as múmias
das geleiras estão hibernando graças ao 'método
do sapo'".

Todos os caminhos levam a Cusco

O império inca estendia-se sem regularidade,


"como uma teia de aranha quebrada, jogada na
parte norte-ocidental e centro-ocidental da
América Latina". Incluía zonas da mais diversa
natureza, e teria sido impossível dominá-las todas
se não tivesse existido uma excelente rede de
comunicação. E de fato ela existia; quando os es-
panhóis marcharam sôbre Cusco, ficaram
maravilhados perante tal prodígio: "As estradas
dos incas" — reconheceram — "são melhores que
as da Roma antiga".
E magníficas eram, de fato, aquelas artérias; as
principais iam de norte a sul, uma no planalto
andino e a outra, paralela, na costa; as duas eram
unidas por inúmeras estradas transversais, e
muitas são eficientes ainda hoje, como as pontes
lançadas sôbre abismos pavorosos.
A correlação com Roma é acertadíssima: como os
romanos, após as vitórias militares, pensavam logo
em ligar as regiões conquistadas com a rêde de
estradas que tinham origem na Cidade Eterna,
assim costumavam fazer os incas. "Todos os
caminhos levam a Cusco", poderíamos também
dizer aqui, ao pé da letra.
Para as comunicações, os quíchuas usavam um
sistema de correios que permitia a troca de
mensagens e mercadorias à distância, com
surpreendente rapidez: e todos os dias chegava à
capital, sôbre a cordilheira, o peixe fresco do
oceano, para os nobres e os sacerdotes.
Os lavradores incas realizaram milagres
transformando em férteis plataformas íngremes
declives montanhosos, irrigando-as artificialmente,
retirando da terra avara esplêndidas culturas de
milho, batata, pimentões, agave, algodão, coca.
Como não lembrar aqui a referência de Platão aos
prodígios da agricultura da Atlântida? "A terra dava
duas colheitas por ano, uma no inverno, pela
chuva fertilizante, outra no verão, pela irrigação
realizada pelos canais..."
"Certos trabalhos de irrigação" — escrevem
Pauwels e Bergier — "efetuados pelos povos pré-
incaicos dificilmente seriam realizáveis com nossas
turbo-brocas elétricas. E por que motivo homens
que não utilizavam rodas terão construído
enormes estradas pavimentadas?"25.
Os quíchuas, de fato, não conheciam a roda; não
dispunham, portanto, nem de tornos elementares:
contudo, seus vasos estão entre os mais belos do
mundo. Habilíssimos tecelões, os "filhos do Sol",
embora possa parecer estranho, não usavam de
costume vestes luxuosas nem jóias, e não tinham
peça alguma de mobiliário: suas casas tinham
somente um nicho que funcionava como despensa,
armário, cômoda e depósito.
E não é que não soubessem fabricar ou construir,
avançados e habilidosos como eram em muitas

25 Pauwels e Bergier, ob. cit., pág. 175. (N. dos tradutores.)


artes, a ponto de ter dado origem a curiosas
lendas.
Segundo nosso Beltran Garcia, os ourives de Lima
encontraram, no século XVI, lingotes de ouro puro,
em tudo iguais ao ouro normal, mas caracterizados
por uma densidade inferior à metade da do rei dos
metais por nós conhecida (19,3). Os ourives
fundiram a uma temperatura de 1.100 graus
algumas jóias incas e obtiveram lingotes com
densidade igualmente muito baixa (8-9).
O espanhol afirma que os quíchuas também
"sabiam fabricar água do ar", mas de tôdas as suas
estórias a única acreditável é a que se relaciona
com o famoso "candelabro dos Andes".
Ao sul de Lima, numa rochosa parede vermelha
cortada sobre o mar, está profundamente gravada
uma figura que lembra um tridente ou um
candelabro de três braços, com 250 metros de
altura, visível a mais de 20 quilômetros de
distância.
A opinião comum aceita é que se trata de um
medidor de maré construído pelos incas, mas a
hipótese parece-nos inaceitável, dada a altura em
que está gravada a figura. O fato, também, de que
foram encontrados fios presos nas rochas, induz-
nos a considerar sem muito cepticismo o que
Beltran Garcia (desta vez sem recorrer a "manus-
critos secretos") escreve a respeito:
"Na coluna central era estendida uma corda
compridíssima que servia como pêndulo vertical, e
nos braços externos passavam pêndulos
horizontais. Em suma, o conjunto, completado com
contrapesos, escadas graduadas e cordas móveis
em polias, constituía um gigantesco sismógrafo de
precisão, capaz de registrar as ondas telúricas e os
abalos sísmicos provenientes não só do Peru como
do mundo inteiro."
No mercado de Cusco, Pizarro encontrou tudo
quanto Cortez havia encontrado no de
Tenochtitlán. E achou, além disso, algo que aos
astecas era desconhecido: a balança, uma balança
construída exatamente como as da antiga Roma!
Os incas não gozam da reputação de grandes
matemáticos, como os maias, mas eles também
usavam o sistema decimal (desconhecido de
muitos povos antigos), recebido como herança dos
chimus, com outras noções fragmentárias,
destinadas a se perderem. Para seus cálculos,
freqüentemente complicados, usavam barbantes
com nós coloridos, os quipos, com os quais se
regia brilhantemente toda a economia nacional.
Mas há quem pense que os quipos tenham sido
algo mais. Em seu trabalho The Ancient Civilization
of Peru, o Prof. John A. Mason afirma que poderia
tratar-se de um sistema de escrita capaz de
expressar idéias abstratas ou grupos de idéias
abstratas. E se acreditarmos naquelas crônicas
chinesas onde lemos que um antigo soberano do
celeste império queria substituir os ideogramas
"com uma escrita de nós", não só teremos uma
conseqüente confirmação das relações existentes
entre a América pré-colombiana e a Ásia, mas
veríamos reforçada a hipótese segundo a qual os
conjuntos dos característicos barbantes seriam na
verdade indecifráveis livros.
Outro especialista, o sueco Nordenkjõld, expressa
parecer não muito diverso: afirmando que "a
escrita pode não ser o único meio para expressar o
pensamento", ele acha que os curiosos nós
representam cálculos matemáticos, espécie de
horóscopos, previsões.
"O nó, base do quipo" — escrevem Pauwels e
Bergier — "é considerado pelos matemáticos
modernos um dos maiores mistérios. Só é possível
num número ímpar de dimensões impossível no
plano e nos espaços superiores pares: 4, 6, 2
dimensões, e os topógrafos só conseguiram
estudar os nós mais simples. Portanto, não é
improvável que se encontrem inscritos nos quipos
conhecimentos que ainda não possuímos"26.
Sobre todos quantos se aproximam do mundo dos
incas, é Machu Picchu a cidade que mais
fascinação exerce. E com razão: impressionantes e
grandiosas como poucas outras são as ruínas
desse centro situado a 2.500 metros de altura e a
600, sobre o vale do Urubamba, descoberto em
1911 após extenuante escalada, pelo explorador e
arqueólogo Hiram Bingham.
Mas o povoado que as ruínas permitem reconstruir
com a fantasia dificilmente poderia competir com
os anteriores, porque os estudiosos acham que a
Machu Picchu inca teria sido construída sobre os
restos de uma metrópole ainda mais antiga; ou
deveríamos dizer "de metrópoles mais antigas"?
Deixamos aos cientistas (por enquanto
discordantes) estabelecer a verdade, satisfazendo-
nos em constatar que o centro é conhecido por
26 Pauwels e Bergier, ob. cit., pág. 160. (N. dos tradutores.)
inúmeras gerações de índios norte-americanos,
como é conhecida Tiahuanaco.

CAPÍTULO XXI
Os Herdeiros da Atlântida

"PLANTAMOS UMA MARAVILHOSA árvore na floresta e ela


cresceu, deu belíssimas flôres e frutos cheios de
sol, cresceu e espalhou suas sementes ao redor e
outras árvores romperam as glebas. A mão de fogo
a queimou, o ar de fogo a secou, a terra de fogo
devorou suas raízes. O fogo dispersou os
jardineiros e tornou árida a alma da terra (...)
jovens árvores arrancadas, jovens árvores floridas
por uma só estação (...) (outras) floridas para nutrir
monstruosas corolas (...) e os frutos (da árvore
geradora) tornaram-se adubo (...) (e afinal)
tornaram-se selvagens (as jovens árvores) e as
chuvas (arrancaram-nas e arrastaram-nas para
longe) (...) e a floresta as submergiu."
Este trecho é atribuído a Kalidâsa, o maior poeta
clássico da índia, que viveu entre 350 e 420 d.C.
Há quem o considere apócrifo, mas há também
quem, referindo-se a outra célebre lírica do "rei de
todos os poetas" que citaremos mais adiante, não
só não tem nenhuma dúvida sôbre a paternidade
do trecho como até pense que ele se refira ao fim
de uma esplêndida cultura pré-histórica (talvez a
de Mu), à ruína e ao mais ou menos lento
desaparecimento de sua herança.
Não queremos nem podemos levar adiante, aqui,
uma pesquisa literária; reproduzimos o trecho
porque acreditamos que, com efeito, ele dá uma
idéia muito viva da sorte reservada aos herdeiros
de uma grande civilização destruída de chofre.
E é sem dúvida este o destino que coube às
colônias da Atlântida que, seguindo os vestígios
trazidos à luz pelos arqueólogos, diríamos
espalhadas também nas regiões hoje menos
acessíveis da América do Sul e para além do
Atlântico, lá onde as últimas extremidades da
fabulosa Aztlan chegavam a ter contacto com os
domínios africanos da igualmente lendária Mu.
É ao Prof. Homet que devemos a descoberta e a
coordenação dos mais sensacionais testemunhos
ciosamente guardados por aquêle alucinante
reservatório de segredos que é a Amazônia.
O "inferno verde" é riquíssimo de sinais comuns às
mais afastadas partes do mundo, de desenhos que
jamais poderíamos imaginar encontrar naqueles
lugares: encontramos, por exemplo, os touros, que
a história diz terem sido introduzidos só após a
conquista espanhola, até um rinoceronte, homens
com capacetes chifrudos que lembram quer o deus
Baal quer os guerreiros nórdicos, quer a brônzea
estatueta de Abini, na Sardenha, quer os baixos-
relevos egípcios, os de Creta e Micenas.
Os desenhos de embarcações de uma forma que
deveria ser absolutamente desconhecida aos
índios da Amazônia abundam no Brasil e nos
países vizinhos. Não só: 4-5 mil anos antes de
Cristo os artistas da Ilha de Marajó, na foz do Rio
Amazonas, modelavam presentes votivos
representando embarcações de quatro mastros,
idênticas às cretenses, capazes de transportar
cerca de 800 pessoas e providas de grandes
reservatórios para água potável. Os navios
mediterrâneos chamavam-se cara-mequera... e
cara-mequera são chamados, pelas tribos
brasileiras que falam tupi-guarani, os reservatórios
de água!

Magia vermelha

Perto de Tarame, sobre um planalto que se


estende entre a Serra Paracaima (confins sul-
orientais da Venezuela) e o Rio Urariquera, Homet
encontrou um dos mais impressionantes e
misteriosos monumentos da América pré-histórica,
a chamada Pedra Pintada, que, segundo as lendas
índias, se levanta sobre o corpo de um gigante
louro que viveu em épocas remotíssimas.
Reproduzimos aqui os trechos mais importantes do
relato feito pelo professor sobre a importante
descoberta.
"...vi uma caveira, limpa pelo tempo. Mais tarde
encontramos outra no mesmo lugar. Um rápido
exame convenceu-me que de maneira alguma
podia tratar-se de uma raça mongólica. E não era,
como esperava, o crânio de um daqueles gigantes
que eu procurava desde que chegara à América do
Sul. Já o Barão von Humboldt, cujas viagens
realizadas entre 1799 e 1804 tornaram-se
inesquecíveis, tinha admitido sua existência, sem
nunca, porém, achá-los. Nós descobrimos pelo
menos seus vestígios após ter explorado cerca de
20.000 quilômetros quadrados de um território
desconhecido. Mas nem mesmo perto da Pedra
Pintada conseguimos trazer à luz suas tumbas. Foi
impossível penetrar na construção subterrânea,
obstruída por tamanha massa de terra que nossos
modestos meios não permitiram remover.
Examinei somente a passagem que sob a pedra
leva para a direita. Deve ter um comprimento de
30 metros; no fim é completamente vedada por
pedras e terra. Chega até o pátio do templo? Tudo
leva a supô-lo.
"A Pedra Pintada é uma rocha imponente, isolada,
ao centro de uma imensa planície, a ponto de
parecer muito perto quando ainda faltam muitas
horas de marcha para alcançá-la. É um enorme
monumento de pedra com 100 metros de
comprimento por 80 de largura e 30 de altura; sua
figura lembra um ciclópico elipsóide, ou melhor,
um ovo. Logo o pensamento vai ao "ovo
cosmogônico" das antigas tradições, ao "ovo da
criação do mundo"; mas a essa idéia, logo outra se
acrescenta: o "ovo primordial" dos países
mediterrâneos sempre é acompanhado de uma
serpente. E o que vimos na parte frontal da Pedra
Pintada? Justamente a velha serpente da
tradição... pintada a uma altura tal que o autor
deve ter mesmo usado um andaime gigantesco.
"A perfeita serpente estilizada mede sete metros...
e domina milhares de sinais e letras que lembram
as escritas do antigo Egito, as semitas, hebraicas,
sumérias, celtas, irlandesas...
"Devemos ressaltar que os criadores dessas obras
diferenciavam-se notavelmente, por inteligência,
dos atuais habitantes da região. É um fato
oficialmente reconhecido que os índios, na
chegada dos conquistadores brancos, não
possuíam carros, nem estradas, nem cavalos, nem
sabiam escreverl Cobertos pela mesma pátina, isto
é, caracterizados pela mesma idade das outras
antiqiifssimas representações, encontramos aqui
desenhos de cavalos, carros e rodas, várias vêzes
repetidos, mas sempre de perfil, freqüentemente
segundo uma técnica empregada pelos antigos
egípcios do 3º e 4º milênios antes de Cristo."
O Prof. Homet encontra, nas vizinhanças do
singular monumento, dolmens idênticos aos
europeus e argelinos, com outros símbolos comuns
aos celtas e aos povos semitas, e algumas letras
do alfabeto grego reproduzidas com extrema
perfeição. E descobre uma galeria cavada na
rocha: sua entrada é infelizmente inacessível para
os participantes da expedição, aparelhada de
maneira muito modesta, pois abre-se a 40 metros
do chão, mas um dos guias índios diz que ela
conduz a uma grande sala situada no topo do
enorme bloco. Lá eram encerradas as vítimas
antes dos sacrifícios: da base de uma galeria
subiam até em cima gases venenosos,
provenientes do interior da terra, destinados a
atordoar os condenados à morte.
Ecos impressionantes ressoam em certos pontos
da Pedra Pintada, e um fenômeno incrível
surpreende quem se demora nas grutas cavadas
num lado da rocha e cheias de ossos humanos: um
pesadelo que faz reviver com alucinante clareza
cenas de antiqüíssimos, espantosos sacrifícios. Eis
a visão do Prof. Homet, completada por claras
impressões sonoras, conforme ele mesmo
descreve:
"Acompanhada pelo som de gongos de bronze,
uma grande multidão se mexia. Milhares de
homens, mulheres, crianças, vestidos de branco,
se aproximavam lentamente, majestosamente, da
Pedra Pintada para se imobilizar depois perante
sua entrada principal. Uma voz ressoou, alta, do
céu, ecoou cinco ou seis vezes sôbre a massa de
fiéis que se ajoelhou, reverente. Homens de alta
estatura, em atitude solene, destacaram-se da
multidão e se aproximaram do grande monumento
de pedra. Um deles colocou-se perante o dólmen
pentagonal da fachada principal; outro, seguido de
seus ajudantes, subiu à segunda plataforma, um
pouco mais alta, da qual os presentes podiam ver
apenas as aberturas das quatro grutas sepulcrais.
Um terceiro, com aspecto ainda mais imponente,
também acompanhado por seus assistentes, subiu
a larga escada escavada na rocha, desaparecendo
ao olhar dos peregrinos ajoelhados na planície.
"Subiram em seguida lentamente sôbre as duas
plataformas visíveis, sem correntes ou guardiães,
sustentados sòmente por dois "servos da santa
morte", dois homens nus. Sua expressão era de
pessoas adormecidas. Foram estendidos em cima
dos dolmens, cuja tinta vermelha começou a
brilhar sob os raios do sol nascente. Mais uma vez
ecoaram e se repetiram os misteriosos chamados
do alto, e os sacerdotes de primeiro e segundo
grau (sua hierarquia, correspondente à dos
sacerdotes ibero-celtas, resulta claramente das
estruturas da Pedra Pintada) levantaram as facas
rituais de pedra, afiadíssimas, mergulharam-nas no
peito das vítimas, arrancaram-lhes os corações e
os abriram. Depois, lançando os pedaços aos
quatro pontos cardeais, anunciaram aos fiéis o
destino que os esperava no ano seguinte..."
Qual a causa dessas visões? Talvez os gases que
ainda escapam do chão? Mas como podem refletir
acontecimentos dos quais, com tôda
probabilidade, Pedra Pintada foi cena real,
milhares e milhares de anos atrás?
Ninguém poderá jamais dizê-lo.

Onde jazia Eldorado

"Ma-Noa se acha sobre uma ilha de um grande


lago salgado. Seus muros e seus telhados são de
ouro e se espelham em um lago cujo fundo
também é recoberto de ouro. Todo o vasilhame do
palácio para as mesas e a cozinha era de ouro
puro e de prata pura, e também para os objetos
mais insignificantes usava-se cobre e prata. No
centro da ilha havia um templo consagrado ao Sol.
Ao redor desse templo havia estátuas enormes,
representando gigantes. Sobre a ilha havia
também árvores de ouro e prata. E a estátua de
um príncipe era tôda recoberta de pó de ouro."
Assim na Historia General de los Índios, do tempo
da conquista, Francisco López descreve Ma-Noa, a
"água de Noé", a capital de Eldorado, a terra
paradisíaca das imensas riquezas que recebe seu
nome justamente da estátua à qual o cientista se
refere: "o dourado", o homem recoberto de ouro.
Sem dúvida a narrativa de López é fantástica, a
ponto que parece traduzir a obsessão de seu autor,
sedento de ouro até o delírio. Desde os meados de
1.500, aventureiros e cientistas têm procurado em
vão a mítica terra, pagando quase todos com a
vida o desejo de riqueza ou saber, caindo vítimas
da fome, das flechas envenenadas dos índios, das
picadas mortais dos insetos, das mordidas dos
reptis, dos rios tumultuosos"27.
Mas trata-se, afinal, somente de uma lenda como a
narrativa de López pareceria sugerir? Não, porque
demasiadas indicações concordantes dos índios
foram obtidas em quatro séculos. E não é só. O
lugar em. que deveria ser localizado aqueie
maravilhoso país foi determinado, à base de
numerosos indícios, com certa precisão: tratar-se-
ia da Serra Parima, inexplorada região montanhosa
que ocupa o extremo noroeste da Amazônia, nos
confins entre Brasil e Venezuela. Parima significa,
em guarani (mas, detalhe curioso, também em
alguns idiomas semitas), "montanha com muita
água", expressão que realmente faz pensar num
lago situado em área montanhosa. E ao chefe dos
macus, tribo localizada em inóspitas plagas, o Prof.
Homet deve as revelações que relatamos a seguir,
ao pé da letra:
"Se seguires por 11 dias ainda o Uraricoera à
contracorrente, chegarás a um pequeno rio que
deságua no grande rio. Deves seguir seu curso em
27Acerca dos "motivos edênicos no descobrimento e colonização do Brasil", vale a pena a leitura da
obra muito bem documentada de Sérgio Buarque de Holanda, Visão do Paraíso, Editora Nacional e
Editora da USP, São Paulo, 2ª ed., 1969. E esta 2ª edição, particularmente, está enriquecida por
novas pesquisas do autor em bibliotecas americanas e na obra clássica do século XVII sobre o
assunto, O Paraíso na América, de León Pinelo. (N. dos tradutores.)
direção à nascente por 4 dias, não porque a
distância seja muito grande, mas porque há muitas
cachoeiras e a correnteza é muito impetuosa.
Verás uma grande rocha recoberta de sinais sôbre
um fundo vermelho. Em frente a essa rocha, sôbre
a margem direita do rio, há uma espécie de aldeia.
As casas eram antigamente de pedra, mas agora
estão tôdas em ruínas. Essas casas estão construí-
das em fileiras e separadas por estradas largas e
regulares. Se depois, deixando o lugar, continuares
na direção em que o sol cai, chegarás, em 2 dias,
em território montanhoso, a uma outra muralha.
Não poderás superá-la: terás que procurar uma
porta de pedra colocada embaixo de um grande
arco, que dá entrada àquela terra. Assim chegarás
a uma grande cidade, feita tôda com pedras que,
porém, caíram tôdas. A cidade era construída
sôbre linhas retas; poderás seguir essas linhas,
mas terás que prestar atenção, pois lá onde numa
época havia habitações, há agora só grandes lajes
e muitas delas foram quebradas por fortes raízes
crescidas no meio delas. Num lugar muito próximo
encontrarás grande quantidade de água, dentro da
qual há muitas pedras amarelas e muito daquele
pó de que vocês, brancos, são ávidos."
Era assim aquela cidade do mítico Eldorado,
procurado tão longamente, sepultado no coração
da selva brasileira! Segundo Homet, não pode
haver dúvida, pois a descrição do chefe macu (que
nunca havia visto uma cidade na sua vida)
concorda com uma tradição conhecida pelo
Coronel Percy E. Fawcett, o explorador misteriosa-
mente desaparecido em 1.925, quando procurava
nas selvas inexploradas do Brasil uma cidade
atlântida.
"Quer consigamos penetrar no coração da floresta
e dela sair quer deixemos nossos ossos para
apodrecer", escreveu o explorador antes de sua
última e infortunada aventura — "uma coisa é
certa: a solução do enigma da antiga América do
Sul e talvez de todo o mundo pré-histórico pode
ser achada se se conseguir estabelecer a posição
daquelas velhas cidades e abri-las à ciência.
"Que aquelas cidades existem, eu sei (...) nunca
duvidei um momento de sua existência. E como o
teria podido, se eu mesmo vi uma parte de um
desses centros? Eis a razão pela qual me decidi a
voltar lá. Os restos parecem postos avançados de
uma das maiores cidades que, tenho certeza, pode
ser encontrada, com as outras, mediante uma
ação de pesquisa oportunamente organizada.
Infelizmente não consigo convencer os cientistas
de que o Brasil esconde os vestígios de remotas
civilizações. Mas viajei através de regiões não
conhecidas por outros exploradores e os índios
selvagens têm-me falado inúmeras vezes dos
edifícios, das características de seus antigos
habitantes e das estranhas coisas que se
encontram naqueles centros."
Fawcett tinha descoberto outra pista: um velho
documento, conservado no Rio de Janeiro, contava
as vicissitudes de um bandeirante de Minas Gerais,
um tal Francisco Raposo, que havia decidido
reencontrar as minas perdidas de Muribeca.
Após meses de buscas inúteis ao leste do Rio
Xingu, um afluente meridional do Rio Amazonas, o
aventureiro tinha chegado aos pés de uma alta
formação rochosa impossível de se escalar. Um de
seus companheiros, catando pedaços de pau para
a fogueira noturna, descobriu por mera
coincidência um túnel no qual se enfiara um ani-
mal. Avisado disso, Raposo quis explorar a galeria,
e entrou com seus companheiros. Após três horas
de dura subida, Raposo e seus homens chegaram
ao cume de um monte e, com grande espanto,
viram a seus pés uma cidade. Sob três arcos
gigantescos, construídos com pedras de pelo
menos 350 toneladas, encontrava-se a única en-
trada da cidade:
"Sobre o arco central" — relata Homet — "eram
visíveis os sinais de uma estranha escrita. Os
homens avançaram ao longo das ruas que, em sua
época, deviam ter sido largas, bem calçadas,
ladeadas por casas de pedras. Mas tudo fora
invadido pela vegetação. As colunas da entrada
eram ornamentadas com figuras que Raposo consi-
derou demônios. Surpresos, os homens
prosseguiram e chegaram a uma grande praça
onde, sobre uma coluna preta, havia a estátua de
um homem que indicava com um braço o norte. No
portão de um palácio em ruínas viam-se ainda
restos de pinturas e esculturas; destacava-se a
imagem de um jovem nu até a cintura. Abaixo
dessa escultura, Francisco Raposo viu sinais que
copiou com todo o cuidado e que depois se
mostraram idênticos às letras do alfabeto grego
arcaico. Num grande templo nas vizinhanças da
cidade, os exploradores encontraram um pequeno
fragmento de um objeto de ouro: de um lado era
representado um jovem de joelhos, e no outro, um
arco com uma coroa e um instrumento musical."
Aqui parecem ecoar os versos (estes certamente
autênticos) do grande Kalidâsa:

Pelo rei abandonadas, desabam


as casas, desmoronam as ruínas,
as salas, os edifícios soberbos.
Onde antes à noite, tomadas
por desenfreada ânsia de amor,
ardentes jovens volteavam em alegres jogos
e, felizes, tendo nos pés guizos de prata,
saltitavam de encontro ao amado,
ululam agora os cães, em busca de presa.
Às fontes, onde antes mulheres
estendiam os braços de ouro cintilantes,
agora somente bebem selváticos touros.
Fugiram para a floresta os pavões mansos,
pois agora silenciam os timbales
a cujo som se embalavam nos ramos do jardim.
Nas grandes escadarias dos templos
antes de povo apinhadas em reza,
suas patas ensangüentadas pousam agora
tigres, de mortos rebanhos fartos.
Cobras deslizam ao redor de quebradas colunas.
E os raios da lua não mais acendem
como antes um esplendor de prata
dos palácios sobre os telhados,
agora cinzentos de musgo e esverdeados pela
erva.
Deixada a cidade morta, os bandeirantes
desceram pelo rio. Ali tiveram um encontro
extraordinário: acharam alguns índios que
indubitavelmente os tinham seguido, espionando-
os, até os muros da antiqüíssima metrópole e que,
percebendo terem sido vistos, fugiram
ràpidamente em suas canoas. E aqueles "índios"
eram brancos!
Na Amazônia, também o Prof. Homet encontrou e
fotografou vários selvagens brancos. Não só: está
provado que os guanchos das Canárias e os
antigos egípcios eram parecidos com os
araucanos, habitantes da última Tiahuanaco, uma
estirpe ainda difundida das Antilhas até a foz do
Mamoré, rio boliviano que, perto dos confins do
Brasil, se junta ao Beni, formando o Rio Madeira. E
também no atual mundo mediterrâneo
encontramos "gêmeos" dos araucanos: os
berberes da África do Norte e os bascos franceses
e espanhóis.
Sobre estes últimos, é curioso notar que os textos
dos séculos XVI e XVII mencionam que eles podiam
conversar com os índios da América do Sul, "cada
um na própria língua", e se entendiam muito bem!
Hyacinte de Clarency, em sua História Lendária da
Nova Espanha, escreve: "O berbere, o tamacek
(língua dos tuaregues do Saara), o euskara (antigo
idioma basco) e certos vocábulos do gaulês arcaico
possuem indubitável parentesco com dialetos
indígenas da América do Norte e do Sul".
Devemos ainda lembrar que, nos mitos ibéricos e
irlandeses de uma era muito remota, se encontra a
lembrança de uma "terra feliz" chamada Hy Bresail
ou também O'Brasile. Homet diz ter descoberto na
Ilha Corvo, dos Açores, um documento no qual se
fala de uma estátua eqüestre cujo cavaleiro
indicava com o braço a "direção em que se
encontra o lendário Brasil". Em alguns achados dos
próprios Açores e das Canárias (que seriam parte
de dois sistemas montanhosos da Atlântida)
muitos acreditam, de resto, encontrar claras
referências à América Central e à do Sul. E
numerosos outros detalhes aconselham a não
terminar este capítulo sem ter dado uma rápida
olhada panorâmica no arquipélago situado a 80
quilômetros das costas norte-ocidentais da África,
mas com caracteres físico-geográficos totalmente
diferentes dos do litoral.
Porta do Sol, em Tiahuanaco.

Desenhos existentes na Porta do Sol, de


Tiahuanaco. Segundo alguns estudiosos, o da
direita representaria um traje espacial autônomo,
e o da esquerda, um motor solar movido a íons.
Os diabos das Canárias

"Querendo saber mais sobre os sátiros, falei com


muita gente sobre este assunto. O cário Euphenos
contou-me ter sido surpreendido por uma
tempestade numa viagem para a Itália e ter sido
empurrado ao mar externo, onde normalmente
não se navega mais. Lá se encontrariam muitas
ilhas desertas e em outras ilhas habitariam
homens selvagens. Eles (os navegantes) não
queriam lançar âncoras naquelas redondezas,
tendo já chegado antes àqueles locais e conhecido
os habitantes. Também daquela vez, contudo,
teriam sido obrigados a desembarcar.
"Estas ilhas seriam chamadas Satírides pela gente
do mar. Os habitantes seriam vermelhos como o
fogo e teriam caudas grossas como as dos cavalos.
Eles teriam chegado até o navio, logo após tê-lo
avistado; não teriam produzido ruído algum, mas
teriam colocado as mãos sobre as mulheres do
navio. Por medo, os navegantes teriam feito afinal
desembarcar uma mulher bárbara sobre a qual os
sátiros teriam estranhamente satisfeito seus
desejos."
Assim escreve o historiador e geógrafo grego
Pausânias ao redor de 175 d.C.; deste e de muitos
outros trechos os estudiosos extraem a conclusão
de que o autor queria referir-se a uma das
Canárias. Mas por que então outros antigos
autores falam do arquipélago como "ilhas dos
afortunados"?
Porque provavelmente entre um grupo e outro
existiam notáveis diferenças, tanto é verdade que
as ilhas foram habitadas por indivíduos de raças
diferentes que não mantinham contactos entre si,
como mencionaram os espanhóis após terem nelas
desembarcado.
Eles não encontraram mais os sátiros vermelhos,
mas sim os guanchos, de pele olivácea, que "nas
ilhas situadas a ocidente tinham os cabelos mais
claros", com alguns representantes de uma
belíssima raça branca "com cabelos louros, olhos
azuis e uma força extraordinária".
Quem acredita que os guanchos tinham
parentesco com uma estirpe não completamente
humana (os famosos "homens azuis") poderia
apoiar suas suposições também sobre a
curiosíssima língua de que eles se serviam:
assobiavam como aves, comunicavam-se assim de
morro a morro, através de grandes distâncias, arte
esta ainda conhecida por alguns habitantes das
Canárias.
Será que aqui nos achamos perante um mostruário
de todas as raças atlântidas, onde não faltam os
peles-vermelhas, identificados nos vermelhos
sátiros de Pausânias? Seria errado pensar que
estes últimos tivessem nascido da fantasia do
marinheiro de Cária, pois também nas pinturas
pré-históricas da África do Norte encontramos
homens representados por uma viva cor vermelha,
mas indivíduos dotados de inequívoca cauda de
cavalo que era, com toda probabilidade, um
enfeite.
É interessante lembrar que o historiador grego
Plutarco (50-120 d.C.) chama atlantes, sem mais
nem menos, os habitantes das Canárias. E o fato
de que talvez Homero tenha identificado no arqui-
pélago os Campos Elísios e outros escritores o
tenham indicado decisivamente como o local de
estada dos defuntos, pode não ser devido
unicamente a sua posição geográfica, pela qual
vinha a se encontrar além das Colunas de
Hércules.
Pode ser que os antigos navegadores
mediterrâneos tivessem já sabido algo do culto dos
mortos e da fé na imortalidade da alma,
característicos dos habitantes das Canárias. Eles
também embalsamavam os mortos, (que,
inexplicavelmente, chegavam a pesar, após a
operação, não mais de 3-3,5 quilos) e tinham em
comum com muitos povos da América do Sul a
crença de que os defuntos aconselhassem seus
descendentes. No Peru, os índios apareciam no
tribunal levando consigo tôda a parentela e
também as múmias dos consanguíneos mortos,
para serem por êles assistidos; e entre os
guanchos, um soberano só era sepultado após a
morte de seu sucessor, de tal forma que sempre
havia um rei morto junto a um rei vivo.
Alguns estudiosos afirmam que os guanchos
aprenderam até com os egípcios a técnica de
mumificação, mas a hipótese é muito fraca, visto
que os métodos seguidos pelos dois povos são
totalmente diferentes. Talvez os habitantes das
Canárias tenham tomado dos filhos do Nilo um
sistema de escrita e o hábito do matrimônio entre
irmãos. Mas por muitos lados sua civilização
continua intrigante, selada pelas ruínas que
lembram tanto a Sardenha quanto Jericó e Sim-
babwe, pelas imponentes obras subterrâneas da
Grã-Canária, que apresentam muitos aspectos em
comum com as das antigas culturas
mediterrâneas.

CAPÍTULO XXII
Os Mitos das Terras Perdidas

SE ATRAVÉS DO ATLÂNTICO OS senhores do continente


desaparecido do Ocidente mantiveram relações
com as colônias de Mu que davam para o
Mediterrâneo, sem dúvida as duas grandes
civilizações perdidas entraram em contato direto
no Pacífico. Demasiadas são as analogias
existentes entre a antiga América e a Ásia,
demasiado remotas e extensas no tempo para que
possamos atribuir exclusivamente a viagens inter-
oceânicas realizadas por esta ou aquela civilização.
Sabemos (e o veremos em seguida) que cruzeiros
dessa natureza se deram de fato, mas isso
aconteceu em épocas relativamente próximas.
Já vimos como as grandes pirâmides americanas
tinham correspondentes não só no Egito, mas
também em países asiáticos, nos característicos
monumentos em nicho, típicos da Birmânia, Sião e
Indochina. Mas os elementos arquitetônicos
comuns aos dois países, hoje separados pelo
Pacífico, são inúmeros, e não se encontram só na
América do Sul, onde certos contactos pareceriam
mais plausíveis, mas também na Guatemala e no
México, inclusive o Iucatã.
"O mais interessante e surpreendente dessas
construções" — observa Pierre Honoré — "é seu
aspecto peculiar. É exatamente o mesmo estilo
que conhecemos na Ásia oriental. As portas e as
janelas poderiam ter sido idealizadas por um
arquiteto indochinês, tão perfeita é a
correspondência. As meias colunas empregadas
nos umbrais e decorações murais são
características tanto do estilo Puuc dos maias
como dos edifícios cambojanos do século X d.C., e
isso vale também para a decoração das fachadas."
O estudioso sueco Nordenskjöld demonstrou a
absoluta identidade de 24 elementos das antigas
civilizações americanas com as da Polinésia, entre
os quais a flauta, as trompas de conchas
retorcidas, o poncho, os diademas de penas, os
anzóis e as redes para pescar, os típicos remos dos
barcos, as macas, a contagem do tempo, os
quipos, os processos de fabricação da cerveja, a
trepanação do crânio.
A propósito desta última, cabe lembrar que em
1963 o cirurgião peruano Francisco Grana decidiu
realizar uma delicada intervenção (perfeitamente
concluída) num paciente, vítima de acidente auto-
mobilístico, usando instrumentos encontrados em
seu país, compostos de uma liga de ouro, prata e
cobre, com idade de pelo menos 3.000 anos. Com
instrumentos iguais a esses foram efetuadas
trepanações de crânio em indivíduos que
(conforme se apurou do exame de seus restos)
viveram ainda muito tempo após a intervenção.
O glotólogo argentino Imbelloni comprovou que
existem muitíssimos vocábulos idênticos nas
línguas faladas de um lado na Mela- nésia,
Polinésia, ilhas da Nova Zelândia, Tonga, Samoa,
Tuamotu (ou Paumotu), Marshall, em Taiti e em
Magaia (Ilhas Cook), e do outro lado do Equador,
na Colômbia, na Terra do Fogo, na "área aimará"
(o aimará é o idioma de um povo dos Andes
bolívio-peruanos, ao qual se atribui a reconstrução
de Tiahuanaco) e no antigo Peru.
Muitos dos elementos até aqui citados eram
comuns também aos países mediterrâneos, da
mesma maneira como numerosos pontos de
contacto entre o "novo" e o "velho" mundo se
estendem à esfera africana, asiática ou oceânica. E
essa constatação pode somente reforçar a teoria
relativa à existência, num remoto passado, de
"pontes transoceânicas" que, sedes de civilizações-
mães, ligaram todos os atuais continentes.
Os devoradores de Selene

Todas as mitologias do globo possuem elementos


em comum, e isso não se torna de maneira alguma
compreensível (como pretendem alguns) "quando
se pensa que os mesmos temores e as mesmas
esperanças levam às mesmas formas de
superstição". Experimentemos só explicar,
baseados nessa "claríssima dedução" como é
possível que o deus Ámon-Ra, que personifica o Sol
no antigo Egito, seja conhecido com o mesmo
nome e com as mesmas características medi-
terrâneas não só pelos índios apaches, mas
também no México, no Peru, na Amazônia.
Em muitíssimas terras onde numa época
dominavam religiões solares, encontramos
também para indicar lugares elevados a palavra
tepu ou tepe. No extremo norte da Amazônia
temos o Wei-Tepu ("monte do Sol"), e não longe de
Boa Vista, o Tepe-Quem, vulcão extinto, cuja
cratera, se diz, é calçada por diamantes; tepe
significava, para os maias, "grande pedra", e
"colina", para os troianos e os sumérios.
Também o deus do sorriso e da alegria é comum
aos egípcios e aos antigos mexicanos, com o
mesmo nome: uma estatueta proveniente das
margens do Nilo é conservada no Louvre, e uma
outra, americana, está num museu do Rio de
Janeiro. E seu aspecto é igual, como o é o de dois
gigantes barbados que, para os nossos progenito-
res, carregavam o mundo nos ombros: o Atlas
grego e o Quetzalcoatl tolteca e asteca.
Para muitíssimos povos da Antiguidade, quem
carrega o globo é a "tartaruga sagrada", adorada
como símbolo da criação (talvez porque nela se
pode ver tanto o motivo do ôvo quanto o da
serpente): encontramo-la tanto na Europa, África e
Ásia, como no Iucatã, na famosa Pedra Pintada e
em outras localidades da Amazônia.
Vimos que, segundo a tradição, uma "deusa da
Lua" dormiria sob uma pirâmide de Teotihuacan;
aqui temos que acrescentar que muitos povos
americanos, mediterrâneos e asiáticos adoravam
uma divindade lunar com características idênticas
ou muito semelhantes, e lembrar que a de Nínive
chamava-se Sin, e a dos chimus recebia o nome de
Sin An!
Falando dos habitantes das Antilhas, Cristóvão
Colombo conta que o objeto mais precioso que
possuíam era uma meia-lua de ouro, e o sinal da
meia-lua é bastante difundido na América,
principalmente na Amazônia. Mas também era
sagrado no Egito, na Grécia, em Micenas e em
Tróia, para os habitantes da África ocidental e para
os celtas, cujos sacerdotes o representavam na
foice destinada a cortar o mágico visco.
À Lua teria sido dedicado, segundo alguns
arqueólogos, o jogo da bola-ao-cesto, praticado por
quase tôdas as civilizações pré-colombianas. Mas
em matéria de "jogos cósmicos" devemos lembrar
que certas partidas de dados disputadas na
América Central sôbre um tabuleiro especial,
tinham um significado religioso e eram
provavelmente relacionadas com o movimento dos
corpos celestes; muitos outros povos também as
jogavam e algo de muito parecido ainda hoje é
encontrado na Síria, Birmânia e Filipinas.
Quem se aproxima das "barquinhas" (assentos
presos por uma corrente à extremidade de uma
haste), que ainda hoje têm seus apaixonados em
todos os parques de diversões, não pode deixar de
pensar que aquela diversão já existe há várias
gerações. Todavia, ficaria bastante surpreso se
alguém lhe revelasse sua venerável idade: encon-
tramo-las, de fato, já na época da "Conquista",
com cestos de palha em lugar dos assentos
metálicos, e cordas em lugar de correntes, como
em grande parte da Ásia Oriental. Eram usadas
principalmente durante festas religiosas e a
hipótese de que seus participantes desejassem
simbolizar, pelo menos no início, o movimento dos
planetas, não é de se desprezar.
Ficando... em campo espacial, lembramos que
duas monstruosas criaturas ligadas ao deus Rá, o
sagrado carneiro (encontramo-lo entre os índios da
América, os egípcios e os chineses, que o
representam nas célebres máscaras T'ao-t'ich, com
feições felinas) e o sapo-rã (comum ao Egito e à
Amazônia), sejam por alguns considerados
imagens dos monstros descidos à Terra e que há
quem encare o escaravelho, sagrado para os
etruscos, egípcios e antigos habitantes do México
e do Brasil, até como um símbolo de astronave.
A lebre e o coelho representam para os antigos
povos da América Central, do Mediterrâneo, da
China e da Ásia sul-oriental a Lua silenciosa,
engolida pela escuridão. Mas ela é simbolizada no
México pela serpente emplumada: ora, se
realmente queremos ver no mítico reptil um
cruzador cósmico, só resta traçar uma linha de
ligação com as lendas bolivianas, das quais
aprendemos que o nosso satélite é "devorado
pelos homens do céu".
Os deuses-serpentes são extremamente
numerosos na antiga mitologia americana, mas
encontramo-los espalhados pelo mundo inteiro.
Demasiado longo seria enumerar aqui as
numerosíssimas afinidades existentes; achamos,
contudo, interessante lembrar o deus etrusco dos
mortos Charu, imaginado sob forma de um reptil
com bico de ave, que poderia ser o correspondente
da serpente emplumada asteca e dos dragões
alados chineses; e as deusas cretenses apertam
em cada mão uma serpente, a exemplo das
divindades de Chavín.
Quanto aos reptis com cabeça humana,
conhecidos um pouco em todo o mundo,
encontramos uma larga amostra na Amazônia,
onde achamos também os "irmãos" do lendário
monstro representado na Libéria como uma
enorme serpente com braços e um número
variável de cabeças; na América do Sul é o deus
Kou e diversos detalhes que nos poderiam levar à
hipótese levantada pelos defensores dos "mitos
estelares", segundo os quais tratar-se-ia de seres
que se preparam para sair de uma astronave: o
corpo rígido da serpente, as placas rombóides que
o recobrem, mais semelhantes a placas metálicas
do que a escamas, as quatro aletas que lembram
barbatanas. Curioso também é o fato de que as
cabeças humanas do reptil da Amazônia terminam
em forma de cone.
Para além do Estige
Alguns anos atrás, o engenheiro Kama el Malakh,
jovem e valente técnico, apaixonado arqueólogo
diletante, foi protagonista de uma grande
descoberta: a dos primeiros navios funerários dos
faraós, trazidos à luz nas imediações da pirâmide
de Quéops. São embarcações de 55 metros de
comprimento por 3 de largura, dotadas de tudo o
que é preciso para uma longa viagem. Mas nunca
teriam visto o mar, destinadas que eram a
transportar o soberano, após a morte, para a
reencarnação, no séquito do Sol, seu pai, na
viagem que o astro, conforme se imaginava, fazia
ao redor da Terra.
Não podemos dizer se este hábito nasceu de
antiqüíssimas lembranças ligadas (como querem
alguns) a viagens interplanetárias. Até há pouco
tempo, de qualquer maneira, acreditava-se fosse
própria dos egípcios, dos quais a teriam recebido
os gregos, dando-lhe outra versão: a do barco dos
mortos, com o qual Caronte leva as almas para
além do Estige.
Mas não é assim: em tempos imemoriais, muitos
povos enterravam seus mortos em sarcófagos
parecidos com barcos, coisa que ainda hoje se
repete entre algumas tribos da América do Sul. "É
preciso lembrar" — escreve Homet — "que os
primeiros barcos dos mortos eram constituídos de
um simplíssimo tronco cavado a golpes de
machado ou com fogo. Encontramos ainda hoje
exemplos disso na Oceania, na América Central e
na Amazônia. Esses barcos serviam para
transporte de um lugar a outro, e a maioria das
civilizações arcaicas associava a idéia da migração
da alma com a da reencarnação. E sempre, como
constatamos na África, com base em numerosos
documentos, a alma viajava para alcançar o deus
do Sol. Mas tinha que viajar em 'algo' que pudesse
carregar o corpo antes de renascer, portanto, em
um barco dos mortos."
"Como sabemos" — continua o estudioso — "que
as civilizações sul-americanas devem ser mais
antigas que as mediterrâneas, podemos pensar
que a pátria dos barcos dos mortos seja aquela
onde todas as culturas tiveram origem, desde a
celta até a egípcia, desde as da Europa norte-
ocidental às sul-americanas: Atlântida, mãe da
civilização dos filhos do Sol."
Se os gregos colocavam Cérbero, cão com três
cabeças, como guardião do Inferno, os astecas
destinavam ao transporte dos mortos além-túmulo,
circundado sete vezes por um rio, o deus Xolotl,
que tinha cabeça de cão (justamente como Anúbis,
deus dos mortos egípcios!); e não é só: na boca de
algumas múmias foi encontrada uma fina folha de
cobre. Até o óbolo helénico destinado a Caronte
encontra, assim, correspondente na América!
No forro das criptas funerárias de Tiahuanaco, ao
contrário, encontramos um furo redondo, em tudo
parecido com o que existe em sepulcros egípcios;
e dos filhos do Nilo sabemos que era destinado à
passagem da "ave dos mortos".
Estaríamos aqui também diante de uma
deformação de um mito estelar? Se assim fosse,
ele se refletiria, talvez, naquela lenda boliviana
que fala de brancos gigantes levados por uma
enorme ave (o "pássaro de fogo?") através da
noite (indubitavelmente o espaço) até o país dos
deuses e "dos mortos que voltarão".
Pensando talvez em contactos de homens vindos
do céu com mulheres terrestres (também dessas
relações falam as mitologias do mundo inteiro),
algumas tribos índias acham ainda hoje que um
sôpro vital descerá do céu para reanimar seus
mortos.
A crença na reencarnação era própria de muitos
povos da antiga América, e é isso que explica as
posições fetais em que encontramos arranjados
restos humanos mumificados ou esqueletos: os
corpos eram obrigados a essa posição com ajuda
de cordas, antes mesmo da morte, para que
estivessem prontos para renascer.
Esse costume era difundido antigamente em vários
países mediterrâneos: na Gália, no Mecklemburgo,
na Inglaterra, na Suécia, na Rússia meridional e
nas Ilhas Tonga. É ainda hoje vivo na Amazônia,
tanto como um outro uso, comum antigamente aos
americanos, irlandeses, cretenses e vários grupos
europeus: o da "dupla sepultura". Os cadáveres
eram inicialmente sepultados em terreno úmido,
para apressar a decomposição (agora os índios do
Brasil os fecham numa rede de cipós e os
mergulham nos rios, onde as vorazes piranhas
providenciam com rapidez a primeira etapa),
depois o esqueleto era retirado, limpo, pintado de
vermelho "vermelho como o sangue vivificante,
vermelho como a placenta", diz Homet) e nova-
mente enterrado.
Dos símbolos que representam a vida além da
morte, próprios quer dos antigos americanos quer
dos povos mediterrâneos (o "jugo" olmeca e
egípcio, os "nós" e as "borboletas") já falamos;
achamos, porém, oportuno mencionar ainda o que
é para a Índia o sinal do nascimento, o lótus, que
se encontra nos templos e nos sepulcros pré-
colombianos.
É principalmente no célebre centro maia de
Chichen Itzá que o lótus se impõe insistentemente
à nossa atenção em motivos idênticos aos
indianos, cambojanos e indonésicos (até as figuras
que o acompanham, espantosos felinos, dragões e
monstros marinhos, são iguais!), representado
com suas flores, folhas e até o rizoma. Não é
possível estabelecer a que idade remonta a
representação dessa planta no mundo: na Europa
encontramo-la já entre os celtas (mais tarde seus
soberanos tomá-la-ão como emblema,
transformando-a no lys, ou lírio), que
indubitàvelmente a trouxeram da Ásia 2.000 anos
antes de Cristo. Para nós, o símbolo vem da Índia,
de onde se difundiu em tôda a Ásia sul-oriental,
mas Homet acha que se trata de um motivo
atlante, muito mais antigo do que possamos
pensar. E sua versão poderia ser apoiada por
aquela estranhíssima, enigmática mensagem que
é o "disco de Faístos".
O "disco de Faístos" é um prato de argila cozida,
com espessura de 2 centímetros e diâmetro de 10,
descoberto no palácio cretense donde recebeu o
nome, num estrato que remonta ao século XVI a.C.
Isso não exclui, contudo, que o objeto seja muito
mais antigo: supondo que os arqueólogos tragam à
luz, daqui a 2 ou 3 mil anos, uma casa de nosso
tempo e encontrem uma estatueta egípcia ou
romana, pode-se fàcilmente entender a razão
dessa suspeita.
Sôbre os dois lados o "disco de Faístos" apresenta
ideogramas colocados em espiral, dirigidos para
esquerda, que nada têm a ver com a escrita de
Creta. O centro é marcado com uma flor de lótus,
seguida por desenhos que incitam curiosidade, dos
quais só podemos dizer que 15 são idênticos e 19
muito parecidos com símbolos pré-históricos
brasileiros.
Vemos a representação de cabeças com diademas
de penas, a constelação das Plêiades, da Serpente
e de Peixes, de uma ave igual ao "pássaro de fogo"
americano, do Quaz, símbolo egípcio de força física
e espiritual.
Ninguém até hoje conseguiu decifrar o estranho
documento, mas o Prof. Homet, embora não
pretenda ter chegado a uma interpretação
satisfatória, considera que possa tratar-se da
história da catástrofe da Atlântida.

CAPÍTULO XXIII
Cruzeiros Impossíveis

EM DEZEMBRO DE 1961, um jornal de Pequim publicou


artigo do historiador Chen Hua-hsin, que não
deixou de suscitar ásperas críticas e irônicos
comentários: o estudioso afirmava que os chineses
haviam descoberto a América mais de 1.000 anos
antes do grande navegador genovês ao qual o
mundo quase unanimemente atribui a façanha.
"Naturalmente" — Chen Hua-hsin escreveu — "isso
não significa que desconhecemos Colombo, ao
qual deve ser reconhecido o mérito de ter
descoberto uma nova rota da Europa para a
América, mas os dados sobre os quais fundamos
nossas afirmações são irrefutáveis."
Os chineses fundamentam suas "reivindicações"
sobre vários fatos, dos quais citamos os mais
importantes. O primeiro é fornecido por uma
crônica de viagem que conta as peregrinações de
um cidadão do ex-celeste império "em um país
budista situado para além do mar", país que
pareceria ser o México, mas que alguns pensam
ser mais simplesmente a Índia, alcançada
navegando-se através do mar chinês meridional, o
Estreito de Malaca e o Golfo de Bengala.
O historiador se apóia depois em achados
arqueológicos mexicanos e peruanos, alguns dos
quais revelariam traços chineses e até budistas,
sobre antigos nomes com fonética asiática,
encontrados numa tumba nos arredores do
Panamá, e sobre elementos "orientais" da religião
e da astronomia asteca.
Examinemos as bases sobre as quais se apóiam as
afirmativas do Prof. Chen. Sem dúvida a América
pré-colombiana é rica de elementos asiáticos, mas,
como vimos, muitos desses remontam a tempos
antiqüíssimos, épocas em que o celeste império
ainda estava para nascer. Se os vestígios em
questão se encontram entre os astecas, incas e
maias, como entre outros povos, não é porque
tenham sido deixados pelos chineses, mas porque
aqueles povos os herdaram de uma grande
civilização desaparecida que reunia, entre outras
terras, grande parte da Ásia e da América.
Mas por que deveríamos ser cépticos à idéia de
que alguns argonautas de olhos amendoados
tenham tocado em costas americanas? Sabemos
muito bem que os chineses possuíam, no início de
nossa era, navios capazes de realizar longas
viagens, transportando cerca de 200 homens.
Sobre um desses navios, o monge Fahien chegou
no ano 400 d.C. até Ceilão e Malásia, voltando
depois com o mesmo meio à China do Norte. Não
é, portanto impossível que, navegando junto à
costa da Ásia, os exploradores chineses tenham
chegado até o Alasca para depois descer ao longo
das costas ocidentais americanas, ou mesmo
atravessar o oceano.
Uma façanha dessa natureza foi realizada pelos
vikings, cujos navios, em comparação, eram
cascas de nozes. Temos certeza disso desde 1898,
quando um agricultor de origem sueca, Olaf
Ohman, encontrou uma curiosa pedra gravada
entre as raízes de um álamo derrubado nas
vizinhanças de Kensington, a oeste do Lago
Superior, a 2.500 quilômetros da costa atlântica.
A descoberta era tão extraordinária que se pensou
logo numa falsificação, tendo em vista a origem
também escandinava do fazendeiro. Mas depois
percebeu-se que, quando o primeiro sueco se
havia estabelecido naqueles lugares, em 1867, o
álamo de Olaf Ohman já deveria ter pelo menos
uns 70 anos. E, sem levar em conta que o colono
mal sabia escrever, o exame apurado de alguns
caracteres rúnicos confirmou a absoluta
autenticidade do magnífico achado.
A inscrição da "pedra de Kensington" (cerca de um
metro de altura por meio de largura) foi decifrada
dez anos após a descoberta. Eis a tradução:
"(Nós somos) 8 godos (suecos) e 22 noruegueses
em viagem de exploração de Vinland (atual
Massachusetts) para o Ocidente. Estabelecemos
um acampamento entre duas rochas, a alguns dias
de marcha desta pedra, ao norte. Caminhamos e
pescamos por um dia. Depois voltamos e
encontramos 10 (dos nossos) vermelhos de sangue
e mortos. A(vé) V(irgem) Maria), livra-nos do mal.
Temos 10 formações nossas sobre o mar, 8
(homens) por navio, a 14 dias desta ilha. Ano
1362".
O que estavam procurando os vikings no meio da
América do Norte; e se os 10 homens morreram
pela mão de peles-vermelhas ou chacinados por
bisões, são detalhes que provavelmente não che-
garemos a esclarecer. Tudo quanto conseguimos
saber das crônicas escandinavas é que em 1354
uma grande expedição foi organizada por suecos e
noruegueses para explorar os mares do Ocidente.
Do resultado nada sabemos, além do que nos
conta a "pedra de Kensington".

Os peles-vermelhas e o procônsul
Chineses e escandinavos disputam hoje a honra de
ter descoberto a América antes de Colombo; trata-
se, porém, de uma disputa bastante discutível,
pois com eles e antes deles chegaram ao "Novo
Mundo" navegadores polinésios, à procura de nova
pátria ou por mero acaso, sumérios, fenícios,
egípcios, gregos, romanos e árabes. Certamente
avaliamos mal as capacidades e possibilidades dos
povos antigos. Não o faríamos se tivéssemos
presente um só fato, acontecido nos inícios de
nosso século, perto da Ilha de Antikythera (ou
Cerigotto, a noroeste de Creta), quando alguns
pescadores de esponjas recuperaram do fundo do
mar um estranho, complicado instrumento com um
milênio de idade: era um perfeito sextante!
O arqueólogo Hyatt Verril demonstrou que os
sumérios tinham meios de navegação tais que lhes
permitiam alcançar a índia e a Grã-Bretanha. Não
só: a esposa desse cientista descobriu a 240 qui-
lômetros de Cusco uma inscrição que remonta aos
tempos de Menés (primeiro faraó do Egito
unificado, cerca de 2238-2176 a. C.) e que delineia
um quadro fantástico das viagens realizadas pelos
antigos habitantes da Babilônia meridional. A
tradução, na parte que pôde ser decifrada, soa
assim: "...terra do crepúsculo (...) sob a guia de
Gin-Ti, com o acompanhamento do deus do fogo
Men, da colônia do vale do Indo..."
É possível, de resto, atravessar o oceano com
meios muito modestos: confirmam-no as façanhas
felizmente concluídas de desportistas que
enfrentaram o Atlântico com minúsculas, ridículas
embarcações. E vale a pena lembrar também os
frágeis juncos chineses arrastados pelas
tempestades de uma costa à outra do Pacífico, os
barquinhos esquimós e índios recolhidos em águas
irlandesas, escocesas, francesas e alemãs.
Já Enea Sílvio Piccolomini (depois papa, com o
nome de Júlio II), em seu trabalho Opera
Geographica et Histórica descreve a chegada de
um caiaque esquimó à Alemanha, em 1.150. E em
1.505 chegou a Ruão uma canoa em que se
encontravam cinco peles-vermelhas mortos e um
agonizante, mas ainda vivo. Na igreja de Borda
(Órcades) pode-se admirar um caiaque ainda hoje,
e outros se encontram nos museus de Aberdeen e
Edimburgo. Não esqueçamos também que
Cristóvão Colombo, antes de começar sua viagem,
havia visto os corpos de dois homens de raça
desconhecida jogados sobre uma praia dos Açores,
junto com alguns troncos de árvores des-
conhecidas.
Mas essas involuntárias travessias têm um
precedente histórico ainda menos conhecido.
O escritor Plínio, o Jovem, e o geógrafo Pompônio
Mela, que viveram no século I depois de Cristo,
falam da curiosa mensagem enviada a Roma em
62 a.C. por Quinto Cecílio Metelo Céler, então
procônsul nas Gálias. O alto funcionário noticia em
sua carta uma visita que lhe fora feita por uma
delegação germânica que trouxe ricos presentes,
entre os quais alguns escravos, "gente estrangeira,
com pele escura e avermelhada".
Vencidas as dificuldades lingüísticas, aqueles
homens nunca antes vistos pelos romanos contam
que sua pátria era situada muito, muito longe,
"sobre as costas do mar indiano": saindo ao mar
para visitar uma tribo vizinha, os coitados foram
surpreendidos por terrível tempestade e ficaram
dias no mar. Após várias peripécias (que os
levaram talvez à Groenlândia, Islândia e Ilhas
Britânicas), desembarcaram nas costas
setentrionais européias, onde foram capturados.
"É claro" — escreve o estudioso austríaco Eugen
Georg — "que aqueles 'indianos' não podiam provir
do Sul da Ásia. A palavra 'indiano' tinha
antigamente um significado bem diferente do
atual; correspondia ao nosso adjetivo 'exótico': os
acontecimentos, os seres, as obras que fugiam à
concepção normal, tudo aquilo que, no campo
geológico ou etnográfico, parecia estranho e
surpreendente, era classificado de indicus. Mas
quem eram realmente aqueles homens com a pele
escura? Esquimós ou (o que é mais provável)
peles-vermelhas!"
Mas trata-se de visitas... retribuídas, pois
inscrições gregas que remontam ao tempo de
Alexandre, o Grande, foram encontradas na foz do
Rio da Prata, Argentina, com um capacete e uma
espada da mesma época, enquanto uma espada
romana foi encontrada até mesmo no Peru.
Perante esses objetos, a ciência "oficial" mantém
os olhos obstinadamente fechados. "Eles deveriam
ter despertado grandes ecos" — escreve Homet —
"mas, ao contrário, não foram sequer notados, na
névoa da banalidade diária, pela opinião pública
bloqueada por idéias preconcebidas. Esquecidos e
cobertos de poeira, esperam (como esquecidos e
enterrados esperaram por séculos) ser novamente
trazidos à luz como provas irrefutáveis."
Por sensacionais que possam parecer esses
achados, não nos devemos surpreender muito:
quer gregos quer romanos dispunham de
verdadeiros titãs do mar, embarcações de luxo
com 160 metros de comprimento, com um templo
de Netuno a bordo, esplêndidos salões para
banquetes, em mármore e alabastro, belíssimas
piscinas.

Cananeus no Brasil

Muito provavelmente os navegadores helénicos


chegaram até o Haiti: nesta terra Kepler identifica
(Opera Omnia, vol. I) a "ilha de Kronos" de que fala
Plutarco.
"No meio do mar do Ocidente" — escreve o célebre
historiador, referindo-se ao Oceano Atlântico, em
seu trabalho De facie in orbe Lunae — acha-se
Ogígia, a ilha de Vénus, a ilha de Calipso. Mas
muito além, para ocidente, surgem as três ilhas de
Cronos. Lá chegam, cada trinta anos, soberbos,
belicosos guerreiros. Chegam da grande terra
firme que se acha além das ilhas de Cronos.
Chegam para sacrificar aos deuses do mar. O
vasto continente que forma por aqueles lados as
costas do oceano deve distar de Ogígia pelo menos
5.000 estádios (aproximadamente 8.500
quilômetros). Aquelas costas foram habitadas
originariamente por treze gregos, descendentes
dos companheiros de Hércules que lá ficaram."
Ainda no trabalho citado, encontra-se um curioso
trecho: "Os bárbaros contam diversas fábulas.
Afirmam também que Cronos (Saturno) é mantido
prisioneiro por Zeus (Júpiter) em uma das ilhas
situadas para além de Ogígia. Sua verdadeira
sede, porém, seria a vasta terra firme que se abre
além das ilhas, além do mar que de Cronos toma o
nome. Lá, por 30 dias, vê-se o sol pôr-se por pouco
mais de uma hora. A noite é por meses iluminada
debilmente pelo crepúsculo ocidental".
Não poderíamos querer descrições mais claras da
América, das Antilhas e das terras polares! E note-
se que Plutarco não é o único a fornecer esse
quadro: ele é pintado também, de maneira
análoga, por vários outros escritores da
Antiguidade, entre os quais Séneca, Estrabão,
Teofrasto, Skylax de Karyanda e Aristóteles.
Séneca (4 ou 8 a.C. - 65 d.C.), na tragédia Medéia,
fala de terras existentes entre as costas orientais
da Ásia e ocidentais da Europa ("nec sit terris
ultima Thule"), e anuncia: "Um dia, grandes
extensões de novas terras se abrirão ao olhar
humano".
Ainda mais explícito em sua profecia é Estrabão
(60 a.C. - 20 d.C. aproximadamente), que afirma
que "lá devem existir outras terras habitadas", e
assegura: "Um dia será descoberto um enorme
continente".
Os antigos conheciam, portanto a existência da
América? Se apenas pensarmos nos "mapas de
Topkapu" seremos induzidos a dar resposta
decisivamente positiva.
Em julho de 1927, foram encontradas num palácio
de Istambul, chamado Topkapu, algumas cartas
geográficas do Capitão Piri Reis, ura corsário que,
colocado à testa da frota muçulmana em 1550, foi
condenado à morte, por alta traição, pelo sultão
Solimão II, o Grande, pelo fato de ter levantado o
cerco de Gibraltar em troca de uma boa quantia de
dinheiro. De Piri Reis conheciam-se já dois
excelentes atlas descobertos por um seu
descendente homônimo, oficial da marinha turca,
nos meados do século passado. Mas as "novas"
cartas deixaram os estudiosos boquiabertos: elas,
de fato reproduziam não só as costas das Américas
do Norte e do Sul, mas também o interior do
continente, assim como a Antártida, com cadeias
de montanhas que só foram descobertas em
1.952, e das quais o cartógrafo indicava a altitude
exata.
Os documentos pareciam conter só um enorme
erro: a Groenlândia era representada sob forma de
três ilhas. No decorrer do Ano Geofísico
Internacional ficou estabelecido que o aspecto da
Terra era, há mais de 5.000 mil anos,
precisamente como o corsário turco o havia
representado!
Mas como era possível que Piri Reis, que nunca
deixara as águas do Mediterrâneo, conseguisse
desenhar mapas daquela natureza? Alguns
formulam a hipótese de que ele havia conseguido
acesso às bibliotecas secretas egípcias; os
estudiosos de glaciologia, após exame dos perfis
das costas à luz dos processos de erosão,
chegaram à conclusão de que os mapas
representam a Terra assim como era cerca de
10.000 anos atrás, logo após o grande cataclismo
que a tinha convulsionado.
Se o corsário (que viveu bastante tempo no Egito)
copiou efetivamente seus mapas de um arquivo
secreto, nada exclui que também os donos
legítimos tenham usado os mesmos mapas.
Foi-nos dito que os achados árabes na América são
bastante numerosos, mas, infelizmente, não
conseguimos obter notícias mais detalhadas a
respeito. O Prof. Homet, contudo, revela ter
descoberto nos arredores de Manaus (que dista do
oceano mais de 1.000 quilômetros) um objeto de
cerâmica sepultado há séculos, com uma inscrição
árabe na parte interna, "não traçada por mão
européia, que sempre se revela um pouco fraca,
mas pela de um exímio artista da escrita". A
palavra é Sakad-Bahar, que significa "rio-mar":
trata-se do nome indígena do Amazonas, traduzido
em árabe.
Muito antes que os adeptos do Profeta, devem ter
desembarcado no Brasil os adoradores de Baal:
afirma-o desde 1899 o insigne arqueólogo Ladislau
Neto, que em vão procurou atrair a atenção do
mundo sobre a inscrição em caracteres paleo-
fenícios por ele descoberta sobre o Pão de Açúcar,
no Rio de Janeiro.
"Somos filhos da terra de Canaã" — lê-se. "Sobre
nós pesam a desventura e a maldição. Em vão
invocamos nossos deuses: eles nos abandonaram
e logo morreremos desesperados. Hoje é o décimo
aniversário do infausto dia em que chegamos a
estas margens. O calor é atroz, a água é podre, o
ar cheio de repugnantes insetos. Nossos corpos
estão recobertos de chagas. Ó deuses, ajudai-nos!
Tiro, Sidon, Baal."
O arqueólogo brasileiro Bernardo da Silva Ramos
encontrou mais de 2.800 grafitos dessa natureza
em sua terra. Alguns remontam certamente a
épocas antiqüíssimas, e só têm em comum com o
alfabeto fenício alguns sinais, revelando também
elementos egípcios; mas outros foram
indubitavelmente gravados pelos célebres "senho-
res dos mares", embora a arqueologia "oficial" o
negue e fale em "falsificações", uma versão que
parece ainda mais absurda quando se pensa que
muitas dessas fascinantes mensagens se
encontram no meio da floresta ou sobre
montanhas que ninguém certamente escalaria
pelo simples gosto de enganar a ciência.
No interior do grande país, também, o Prof. Frot
descobriu caracteres cuneiformes que não hesitou
em classificar de pré-egípcios; enquanto o Dr.
Colman achou nas grutas de Teiucara (alto
Paraná), escritas que lembram os filhos do Nilo e
sobre o Monte Ibitirusu, perto de Villarica
(Paraguai), inscrições com numerosos pontos de
referência com as runas alemãs e escandinavas.
Inscrições similares foram encontradas na Sibéria,
na Manchúria, na Índia e na África.
É realmente tão surpreendente assim pensar que
os fenícios teriam chegado ao Brasil?28.
28 Entre os cientistas que acreditam nessa possibilidade, destaca-se Ludovico Schwennhagen, que
estudou as ruínas de Sete Cidades (localidade próxima ao município piauiense de Piracuruca),
chegando à conclusão de que se tratava de um grande centro nacional, político e religioso que, sob
domínio colonial dos fenícios, teria reunido sete poderosos grupos tupis, numa enorme
confederação. Para fundamentar sua tese, o autor escreveu, há quase meio século, o livro intitulado
Considerando que, já no século XI antes de Cristo,
tenham fundado colônias nas ilhas do Cabo Verde,
em frente ao Senegal e que possuíam navios
bastante sólidos, que deslocavam acima de mil
toneladas, acreditaríamos mesmo que não. E
argumentos igualmente convincentes poderiam
ser trazidos para defender suposições relativas a
análogas façanhas realizadas por outros povos
antigos.
Com os mapas de Piri Reis, pensando nas inúmeras
ligações que unem os desconhecidos antepassados
dos povos mediterrâneos às remotas civilizações
americanas, a hipótese de arrojados navegadores
lançados em cruzeiros impossíveis, por lembranças
já nebulosas, com esperança de encontrar "irmãos
atlantes" que sobreviveram à catástrofe cósmica,
não nos parece digna apenas de um romance
puramente fantasioso.

...tão perto e tão perdido

O último desses Ulisses poderia ter sido o


marselhês Píteas, que no século IV a.C. passou as
temidas Colunas de Hércules e, seguindo a costa
da Europa, não pôs os pés em terra britânica 300
anos antes de César, mas foi muito mais para o
norte, até a mítica "última Tule", que assinalava
para os povos mediterrâneos da época o "fim do
mundo".

Antiga História do Brasil, hoje obra rara. Lá é apresentada extensa documentação baseada em
dados históricos, etnográficos, lingüísticos e arqueológicos. Schwennhagen fundamenta a tese
também numa narração de Diodoro, historiador grego contemporâneo de Júlio César, que teria
descrito as viagens realizadas pelos fenícios ao Brasil. (N. dos tradutores.)
Discutiu-se muito e muito ainda se discute sobre a
posição dessa terra que alguns identificam com a
Groenlândia, outros com a Islândia, com a Noruega
setentrional, com as ilhas Shetland, Hébridas,
Órcadas ou Färöer. Infelizmente, do relatório de
Píteas só recebemos o título Taperi Okeanu Ges
Periplus, mas as referências dos autores antigos
fazem pensar nas regiões do extremo-norte. O
geógrafo grego Estrabão, referindo-se às viagens
de Píteas, afirma que em Tule "não haveria
verdadeira noite no solstício de verão, e poucos
dias existiriam no solstício de inverno",
acrescentando: "Alguns acreditam que isso se dê
por seis meses ininterruptos".
E Pompônio Mela não tem dúvida sobre isso: "Na
época do solstício de verão" — escreve — "lá em
cima não se conhece a noite, pois o Sol pode ser
visto claramente em qualquer hora; e não mostra
sòmente seus reflexos, mas a maior parte de si
mesmo".
Estrabão acrescenta que em Tule "não haveria
nem terra por si mesma, nem água por si mesma",
mas uma espécie de "língua de mar (...) onde
estão suspensas terra e água e todas as coisas que
pertencem ao ar". E Tácito divide sua opinião,
anotando: "Da ponta setentrional da Britânia
poder-se-ia ver Tule à distância. De qualquer
maneira, o mar seria lá em cima muito duro e
difícil de navegar".
Muitíssimos estudiosos quebraram a cabeça
procurando imaginar o que podia significar a
obscura expressão "língua de mar" e definir a
natureza da região explorada por Píteas: há quem
fale em neblina cerrada, quem se incline para
amontoados de algas ou medusas, quem pense na
congelação das águas. E há também quem afirme
que se tratava de um vestígio atlante, que por
milênios ficou quase ao nível da água, reduzido a
uma vasta extensão pantanosa e afinal engolido
pelas ondas.
De fato, o atlas de Ptolomeu, desenhado no século
II d.C., mostra a Thyle Insula — concordando com a
afirmação de Tácito — como um prolongamento da
Britânia em direção noroeste, mas ela já não mais
aparece nos mapas da Idade Média.
Ültima Tule... última esperança de lançar uma
olhada para além dos selvagens colmilhudos
enfileirados no horizonte de nosso conhecimento,
impedindo uma apaixonante viagem de volta no
tempo, com dados menos vagos do que os que
pudemos até aqui fornecer?
Sim e não. "Todos os acontecimentos históricos
são imortais" — dizemos com Ivar Lissner. "Eles
podem agir em nós, invisíveis, desconhecidos,
insuspeitos. Uma civilização 'passada' pode dormir,
às vêzes, pode sonhar no mar infinito dos seus
milênios e de suas lembranças. Pode estar
enterrada, esmagada sob enormes massas de
terra e de rocha. E assim mesmo ela está em nós,
embora seus restos materiais estejam ainda por
descobrir-se, embora estejam escondidos,
longínquos. Todas as culturas de um tempo vivem
em nós e nós vivemos surpreendentemente
enraizados no fundo de enigmáticas civilizações
remotas, que devem contudo ser despertadas
continuamente, pois apresentam a caprichosa
tendência de se calar freqüentemente e assim de
nos enganar, como se não mais estivessem
conosco e dentro de nós. Uma lembrança, um
achado nos avisam de chofre de sua tácita
presença. E nos prende então uma estranha
sensação, como se quiséssemos chorar por algo
que está de nós tão perto e que perdemos."