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mesma, à sua própria originalidade.

Ela nasceu de refle- PREFÁCIO


xões durante fi prática psicoterápica, e está começ~ndo a
renovar o modelo e a finalidade da psicoterapia. E uma
nova visão do homem na sua existência cotidiana, do seu
tempo, e dentro de seu contexto cultural, abrindo dimen-
sões diferentes de nossa existência para podermos reen-
contrar a nossa alma. Ela poderá alimentar todos aque-
les que são sensíveis à necessidade de inserir mais alma
em todas as atividades humanas.
A finalidade da presente coleção é precisamente res-
tituir a alma a si mesma e "ver aparecer uma geração de
sacerdotes capazes de entender novamente a linguagem Os termos mais importantes da psicologia moderna,
da alma", como C. G. Jung o desejava. embora originalmente tivessem sido baseados na expe-
riência, acabaram se tornando conceitos teóricos e, hoje
Léon Bonaventure em dia, são pouco mais do que jargão, palavras cujo sig-
nificado é inteiramente aceito sem a menor reflexão. Neste
livro, o uso acentuadamente pessoal que faço de alguns
deles tem uma relação mais próxima com a imagem com
a qual estou trabalhando, servindo nesse sentido como
uma expressão mais direta da leitura psíquica de uma
imagem.
Tomemos, por exemplo, o termo "movimento psíqui-
co" que é constantemente utilizado em todo este livro.
Considero o movimento psíquico essencial a uma psi-
coterapia hermética. Mais especificamente, este termo
tem um significado dramático quando concebemos a
psicoterapia como um processo dedicado a movimentar
hermeticamente aquela parte da psique que foi paralisa-
da pela história de vida ou pelas experiências da pessoa.
Acredito que não seja difícil para o leitor imaginar o com-
plexo mistério da doença em termos de fixação, para-
lisação ou petrificação. Infelizmente, ao longo de sua his-
tória, o homem ocidental preservou cada vez menos
maneiras de ser iniciado na natureza de sua própria psi-
que; a iniciação, portanto, tbrnou-se uma das principais

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áreas de interesse de Jung dentro da psicoterapia, a sa- que o uso do termo arquétipo, na psicologia e na psico-
ber a iniciação na natureza do inconsciente reprimido, terapia, é uma tentativa de usar o legado desses dois pri-
pro~esso que é fundamental a qualquer r~sgate do equi- meiros poetas. Dentro dessa mesma tradição grega, po-
líbrio psicodinâmico. Esta é, por consegumte, uma pers- demos afirmar apenas que a psique aprende através dos
pectiva da psicoterapia em que Hermes - na qualidade arquétipos.
de arquétipo do inconsciente - é o guia: o único, quase o Os dois parágrafos acima deverão ser, creio, sufi-
tempo todo. Para mim, o movimento psíquico encontra- cientes para dar ao leitor uma idéia do modo como uso
se não só no cerne mesmo da psicoterapia, como também outros termos psicológicos. Por exemplo, associo o termo
no da própria vida. "transferência" mais a um movimento psíquico do que ao
O sentido com que emprego os termos "vínculo" e processo geralmente conotado. No mesmo sentido, a
"vinculador" talvez seja novo para o leitor. Hermes é co- psicoterapia, que é o principal assunto deste livro, é vista
nhecido como o mensageiro dos deuses; em outras pala- dentro de uma concepção que ultrapassa em muito o tra-
vras, no plano mitológico, ele conecta os deuses e deusas tamento analítico: nossa sobrevivência exige que viva-
entre si e com os homens; nesse sentido, é o vinculador. mos nossas vidas como se estivéssemos em constante
Isso é fundamental para que haja o entendimento das psicoterapia, conferindo prioridade à nossa psique, per-
várias maneiras como aparece nos sonhos, aos quais em- mitindo-lhe diferenciar entre o que é psíquico e fala à
presta sua significação própria, e também na vida, à qual sua natureza singular, e o que não é, e deixando-a viver
confere sua visão hermética pessoal. Sendo assim, quan- os sentimentos, sensações e emoções que a alimentam.
do emprego esse termo, valho-me de uma conotação mui- Essa é a mais imediata maneira de fazermos a conexão
to específica. Como este livro se baseia em imagens, ima- com nossa natureza, com nossos instintos, com a história
ginemos que Hermes toca aqueles pontos em que nossas e com a vida que vivemos. Em outras palavras, a psico-
aflições são mais doloridas e, dessa forma, cria nosso vín- terapia, nesse sentido, é uma tentativa de tornar a vida
culo com eles e, ao mesmo tempo, faz a conexão deles tão psíquica quanto pudermos, de manter nossa psique
conosco. No papel de vinculador, proporciona uma nova em movimento. Caso fracassemos, precisaremos supor-
maneira de ver um determinado episódio de nossas vi- tar as dolorosas conseqüências da perturbação psicológi-
das, ou de uma patologia, que durante muito tempo exer- ca, de uma enfermidade, ou a sua decorrência mais co-
ceu sobre nós um domínio inconsciente. Ao mesmo tem- mum - uma vida repetitiva e estagnada.
po, ele revela o valor psíquico daquilo que não parecia Hermes e seus filhos destina-se ao terapeuta que, in-
ser relevante ou que havia se mantido oculto. Dessa for- tuitivamente, sente que seus atendimentos clínicos de-
ma, Hermes éum deus de transformação. pendem do encontro entre duas psiques, propiciado por
É fundamental ao estudo da psicologia junguiana a Hermes, encontros psíquicos herméticos, por meio dos
compreensão do termo "arquétipo". Contudo, ficaria feliz quàis pode ocorrer o resgate do equilíbrio psicodinâmico.
se o leitor estivesse preparado para aceitar minha versão Esse é o território de Hermes, mensageiro dos deuses,
pessoal do mesmo: que a cultura ocidental é arquetípica mestre da persuasão, mestre gatuno, guia de almas, ins-
em suas raízes culturais gregas (Homero e Hesíodo), e trutor de Asclépio, e o companheiro interior do terapeuta,

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na solidão de sua clínica cotidiana. É nesse território que 1
o terapeuta vê-se livre do reducionismo de teorias pre-
concebidas, e se diferencia das muitas psicologias do HERMES - PSICOTERAPIA -
mundo atual. Aqui é onde a psicoterapia se torna um tra-
balho psíquico criativo e em que o terapeuta pode come-
O HERMAFRODITA
çar a amar seu ofício, da mesma maneira como o artista
ama sua arte.
Em igual medida, este livro destina-se também ao
leitor em geral que, em sua mais solitária dimensão, sen-
te o vazio e a estupidez da época em que está vivendo, e
sabe, secreta e hermeticamente, que algum sentido é dado
à sua vida naqueles instantes esparsos nos quais Hermes, Este livro propõe-se espelhar a dinâmica psíquica de
com seu bastão, misteriosamente o toca. Hermes, este deus esquivo, em nossa vida diária. Para
tanto, iremos nos valer da herança clássica e também de
alguns trabalhos eruditos, assim como dos cineastas con-
temporâneos e dos noticiários do mundo em que vivemos.
Como sou psicoterapeuta, é natural que as minhas refle-
xões decorram de minha prática na área, realizando uma
espécie de trabalho em que Hermes tem a primazia e no
qual o interesse básico se volta para o movimento psíqui-
co: ou bem nos movemos psiquicamente, ou estamos es-
tagnados. Quero oferecer a Hermes e a suas eventual-
mente estranhas aparições imagéticas um lugar essencial
na psicoterapia, coligando a imaginação hermética à re-
cuperação do equilíbrio psíquico e concebendo o terapeuta
como criador de imagens. Para tanto, exige-se uma psico-
terapia consciente das manifestações mitológicas da psi-
que, que se debruce sobre os conflitos das pessoas com
uma imaginação mítica. Em outras palavras, é uma psi-
cologia dos arquétipos que traz consigo uma obrigação de
Uma versão anterior deste trabalho foi publicada por Spring Publications em 1977. aperfeiçoar o estudo básico da mitologia e de igualá-lo ao
A presente edição foi completamente revista e ampliada. Todas as citações e
ilustrações apresentam seus respectivos créditos nos lugares correspondentes; estudo da psicologia. Este continua sendo um imenso cam-
as referências a Jung foram extraídas do Collected Works (CW) of C. G. Jung, po de explorações.
(Bollingen Series XX), traduzido por R. F. C. Hull, editado por H. Read, M. Fordham,
G. Adler e Wm. McGuire, Princeton University Press, Princeton, NJ, também pu- Essa abordagem está perfeitamente dentro da tra-
blicado na Grã-Bretanha por Routledge and Kegan Paul, Londres. dição junguiana. Jung foi o primeiro a dar importância a

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Hermes na psicoterapia, através de suas interpretações vos mitos, que aparecem com novos complexos (pedaços
do simbolismo hermético e de seus estudos alquímicos, da vida), desafiam a psique a se movimentar e, quando
numa obra que levou à psicologia profunda. Ele também existe uma resposta a esse desafio, o psicoterapeuta ad-
foi o primeiro a introduzir o estudo dos arquétipos na quire novas perspectivas e atitudes para sua prática
psicologia moderna, abrindo dessa forma novos rumos psicoterapêutica. Mas, ao mesmo tempo, é importante
para a percepção da natureza humana, e novas possibili- perceber que existem arquétipos tão distantes da psique
dades das quais ainda estamos só parcialmente cientes. dº analista que, quando aparecem em uma constelação
Historicamente, a abordagem da psicologia através do !lualítica, ele só pode fazer alguma coisa com o paciente
estudo da mitologia provavelmente apareceu em seu mais que os está trazendo se for capaz de aceitar a tarefa de
amplo espectro e mais clara perspectiva na geração atual aprender com conflitos arque típicos distantes de sua pró-
de analistas junguianos que estão contribuindo cada vez pria configuração arquetípica e experiência de vida: ou
mais para o estudo dos arquétipos. No entanto, quero que seja, quando se tornar mais familiarizado com elementos
fique entendido que não estou em absoluto propondo uma psíquicos que lhe são remotos e desconhecidos.
"técnica". O obJeJiyo de UlI!a Psi~ºJºgiªbªseadªno arqué- Analisemos uma aparição muito antiga e primitiva
tipo é "olhar através" dasitllaç:1o PaIªillceptivar o movi- de Hermes, na versão apresentada por um erudito con-
ITlE:nltQPElíqllico,em vez...desimplesmente reduzir a condi- temporâneo. W. K. C. Guthrie começa sua discussão de
窺dopacieIlte à sua contraparte mítica. Precisamos ler Hermes da seguinte forma:
a mitologia e os trabalhos dos estudiosos para obtermos
... (primeiro) deveremos ouvir com atenção a advertência
os elementos básicos necessários a uma reflexão e maior do Professor Rose: "Não devemos nos esquecer da possibi-
aproximação das constelações que surgem na psicotera- lidade de que os arcádios tenham-no encontrado na
pia. Durante todo o decorrer de nossas leituras de mito- Arcádia, quando ali chegaram, e que seu nome não seja
logia, temos de estar continuamente conscientes do rela- absolutamente grego". Teremos mais a dizer quanto a isso,
cionamento entre a psicologia e a mitologia, para nos mas no momento precisamos somente notar que não ex-
cede o possível cogitar que os gregos tenham encontrado e
precaver de errar o alvo com nossas introvisões psico- adotado um antigo deus próprio do local e que o tenham
terapêuticas, e também de nos ater em excesso às simila- denominado de novo. Vejamos ainda a opinião de Boisacq,
ridades dos mitologemas com as situações do paciente. para quem "a etimologia de Hermes é desconhecida". Ten-
Desnecessário dizer que não estou defendendo nem do, porém, apresentado estas necessárias conjecturas, de-
o estudo completo da mitologia, nem seu estudo em sen- veremos corroborar com firmeza a opinião do Professor
Nilsson quando declara: "O nome é daqueles poucos cuja
tido acadêmico. Através. . de §ellpróprio psiquismo, o psi- etimologia é transparente, e significa' aquele da pilha de
cÓ!ogoprecisa .es.taf. s.illtonizado comesse lastro mitológi- pedra' ".1
co,ou. Yeratravéf'; Qêle. Acredito que a psique da pessoa
pode ser imaginativamente estimulada apenas pelos mi- É evidente que para Guthrie, em sua investigação
tos que tenham afinidade com sua própria natureza, his- do nome "Hermes", o que Nilsson tem a dizer é mais útil
tória e personalidade, ou seja, por aqueles mitos que a
1 W.C.K. Guthrie, The Greehs and Theil' Gods, Univ. Paperback, Methuen,
pessoa vive em relação com seus complexos básicos. N 0- Londres, 1968, pp. 87-88.

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do que a afirmação de Boisacq, com sua informação que dras". As pilhas de pedras são colocadas ao longo do ca-
não leva a lugar algum. Nenhuma imagem pode proce- minho para marcá-los; também serviam para assinalar
der do "desconhecido". Contudo, a "pilha de pedra" é uma os limites entre aldeias, cidades e regiões, como sinais
imagem em si, capaz de mobilizar a imaginação. geográficos, para fixar os perímetros e as fronteiras. 5 Tais
Guthrie antecede o que disse acima informando-nos pilhas de pedras, demarcando estradas e fronteiras geo-
que "é cansativo estar sempre percorrendo os labirintos gráficas, também foram os altares primitivos consagra-
da controvérsia". 2 Os psicólogos, contudo, em especial dos a Hermes. ~ pilha de. pedras, na realidade, é uma
nesse sentido, não são eruditos. Quando lemos a imagem imagem arquetípica<leum deus. Portanto, podemos di-
que um deus tem para a psicologia, temos de evitar aque- zer que esse deus, Hermes, "Senhor das Estradas", como
las controvérsias eruditas que, em parte, têm ligação com veio a ser conhecido, t.mnhémdemarca I19Sêostrajetos e
a história pessoal do estudioso, com o momento que ocu- limites psicológicos, assinala o perímetro de nossas fron-
pa na história da erudição e com sua propensão a dar teiras psicológicas e estabelece o território a partir do
muita importância à historiografia do campo no qual está qual, em nossa psique, tem início o desconhecido, o es-
trabalhando. 3 Walter Otto, na conclusão de seu magis- trangeiro.
tral trabalho sobre Hermes, ofer~ece a nós, psicólogos, um Hermes concretizou sua epifania como deus do co-
sábio conselho a respeito da inutilidade de se deixar ar- mércio naqueles altares primitivos nas fronteiras. Em
rastar por essa espécie de erudição labiríntica: épocas anteriores, assim como hoje, em nossa psique, o
N essa espécie de concepção de uma deidade, não pode ter comércio de HerlIlel' teve e tem ele_mentos de silêncio, 10-
sentido diferenciar entre atributos anteriores e posterio- groefurto,jngredientes que sempre são importantes no
res, ou buscar alguma linha de desenvolvimento que comércio, e também na interação com o desconhecido, nas
conecte uns aos outros. A despeito de sua multiplicidade, fronteiras de nossa psique. Conforme veremos depois, 6
são na realidade apenas um, e se um determinado traço
isolado se salientou depois dos outros, ainda continua ten-
porém, nestas barganhas ou transações nas fronteiras,
do o mesmo significado básico que então encontrou uma Hermes pode tanto nos indicar o caminho como nos de-
nova expressão. Qualquer que tenHa sido antigamente a sencaminhar.
concepção feita de Hermes, um esplendor vindo das Podemos examinar ainda uma outra visão de Her-
profundezas deve ter causado uma tal impressão que, des- mes, com sua aparência itifálica (Ilustração 1):
de então, o mundo passou a ser percebido no deus, e o
deus, no mundo inteiro. 4 As imagens religiosas erguidas para ele ou eram em esti-
lo 'Cileno', no qual a imagem era um falo de madeira ou
A primeira visão de Hermes oferecida por nossos es- pedra, ou então naquele estilo correlato em que a imagem
tudiosos do· classicismo grego é a de uma "pilha de pe- era um pilar retangular com uma cabeça e um falo ereto,
imagem que em nossa linguagem é chamada de herma. 7

Ibid., p. 87.
2
Norman Brown, Hermes the Thief: The Evolution of a Myth, Vintage Books,
3 5 Brown, Hermes the Thief, op.cit., pp. 34, 38-40.
Nova York, 1969, p. 3 ss. 6 Ver o capítulo II sobre o Hino homérico a Hermes.
4 Walter F. Otto, The Homeric Gods, trad. Moses Hadas Thames and 7 K. Kerényi, The Gods ofthe Greeks, trad. Norman Cameron, Thames and
Hudson, Londres, s.d., p. 124. Hudson, Londres, 1951, p. 171.

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Temos aqui um caso de ligação com Hermes que vai
o herma itifálico é uma imagem com um forte com- além do extremo mais primitivo dessa imagem - remon-
ponente sexual, que expressa o aspecto sexu~l ~e .Hermes.
t~ndo, provavelmente, àquele "deus local primitivo" perce-
Mesmo dentro das limitações destas duas pnmltlvas apa-
bIdo ~or Guthrie, ou àquele "tempo ancestral, um esplen-
rências de Hermes, a pilha de pedras e o herma, pode-
dor vmdo das profundezas", na observação profundamente
mos afirmar que, além de ser um deus fálico, fortemente
r~mântic~ d~ Otto. Ambos confirmam a atração dos estu-
vinculado com a sexualidade, ele é muito mais que isso,
dIOSOS classlcos pela mitologia grega, que, nas palavras
em razão de sua forma de pilha de pedras, de senhor dos
de Burkert, é a mais avançada entre as arcaicas e a mais
caminhos. Ao longo de todo este livro, uma de minhas
arcaica entre as avançadas. A observação de Burkert ex-
intenções é~~ªILr:eSf:}ntªr:ªjd~iªdf:}~gJJ!;}nol3sa sexualidade traída da etologia permite-nos incluir o animal entre as
(tema de tanta rel~vânciaparaªpsjcologja deste nosso
mais sofisticadas e civilizadas imagens arquetípicas de
século) demarca, como sinais rodoviários, ol3caminhos que
Hermes --:- a do realizador de conexões, deus do comércio,
percorremos nÇ!. vida; qUe as nossasfantasias e imagens
mensageIro dos deuses, senhor dos caminhos - e corro-
sexuais, a nossa imagjnação, participam das transações
bora nossa intuição acerca do nível instintivo das artes e
psicológjcas que acontecem nos limites de nossa psique,
atividades herméticas.
e com isso assinalam os âmbitos interno e externo da vida.
A contribuição de Burkert traz o aspecto animal vivo
As observações quanto a Hermes, que apresentei
de ~m arquétipo, o que é diferente do animal enquanto
acima, foram escritas há dez anos e atualmente são con-
atnbuto de um arquétipo, como, por exemplo, a águia de
firmadas pela análise de Walter Burkert:
Zeus, ou a.v~ca de Hera, ou as eventualmente espetacu-
Não é só o signo fálico que pertence a Hermes, mas tam- lare~ apançoes de macacos nos sonhos, prenunciando um
bém a pilha de pedras; na verdade, "Hermes" deriva dela:
hérma é apenas uma pedra colocada com certa intenção, m~vlIr;e~to e uma mudança inesperados numa situação
donde Hermáas ou Hermáon. Esta inter-relação é expli- pSlcologlca. A presença de Hermes em nós permite-nos
cável precisamente a partir da função de signo, tanto do sentir nossa própria dimensão primitiva, experimentar a
falo como da pedra. 8 sensação do instinto. Isto é essencial a qualquer com-
preensão de Hermes: a imediata sensação da realidade de
Ele ainda nos leva mais atrás nessa retrospectiva,
nosso ser. A mim parece que assim é como a humanidade
aprofundando nosso conhecimento de Hermes, ao associar
o homem em todos os tempos, vem percebendo Hermes:
herma a uma observação que vem da etologja:
Agora que j á temos uma primeira configuração bási-
... existem algumas espécies de símios, que vivem em gru- ca de Hermes, leiamos ,uma passagem do Dionysus de
pos, nos quais o macho age como guarda: ele se senta vigi-
lante nos marcos territoriais mais remotos que delimitam Otto, em que descreve o caráter estranho e esquivo de
a área daquele grupo, de frente para o exterior, expondo ~ermes. Ternos, desse modo, a oportunidade de ler com
seu órgão genital ereto. 9 mteresse a análise que um erudito faz de um conceito e
ao mesmo tempo, de nos apossar dele e lucrar com um~
8 Walter Burkert, Structure and History in Greek Mythology and Ritual, controvérsia erudita tão marcadamente oposta à nossa
University of California Press, Berkeley, 1979, p. 41. leitura dessa imagem: •
9 Ibid., p. 40.

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Em sua origem, o deus Hermes talvez tenha sido apenas o ~sicól,ogo ,co~cretiza os dados dos estudiosos: sua pre-
um protetor, e os pilares e pilhas de pedras na frente das 111IS S8,. e pSIqmca e sua abordagem consiste em tentar
casas de lavradores, e ao longo das estradas, apontam a detectar se o material que lê nos estudos acadêmicos é
sua presença. Mas todos os elementos que definem o seu
caráter - o paradoxo de guiar e desencaminhar, do re- atraente ao seu psiquismo e se pode encontrar nesses tex-
pentino oferecer e espoliar, a sabedoria e a astúcia, o espí- tO!_~~_ aIlalogias c:apazes de expandir Slla visão psicotera-
rito de amor propiciatório, o feitiço das penumbras, a es- p~ll,tICa. Do meu ponto de vista, o estudo do trabalho eru-
tranheza da noite e do dia, esse todo diverso, que é dito cabe como fonte de orientação e estímulo para a
inesgotável e contudo em ponto algum nega a unidade minha própria psique.
deste ser - supõem-se que sejam apenas um complexo de
idéias que, gradualmente, desenvolveu-se a partir do modo Tendo isso em mente, nosso interesse pelo trecho de
de vida de seus adoradores, dos desejos e propensões des- Otto é formar uma imagem de Hermes como' protetor.
tes, das suas idéias, que eram enriquecidas pelo amor que Essa passagem também estimulou-me a imaginação e
tinham por contar histórias. 10 pude ver Hermes em sua difícil posição como deus dos
limítrofes. Podemos vê-lo enquanto protetor nas imagens
Bem, nas últimas quatro linhas deste impecável re-
dos "pilares e pilhas de pedras à frente da~ casas de fa-
trato de Hermes, podemos ver que o estudioso afastou-se
zenda e ao longo das estradas", e o que era válido para os
das imagens para usar uma linguagem conceituaI que
__ªgoraclores.clE3 Hermes na era pagã continua como uma
nos distrai e distancia delas. Entretanto, nesta passa-
l!1e~~!or~y~!i_clI;l:J~Il~ª a psique de hoje. Além disso, pode-
gem, ele nos oferece a chance de diferenciar entre duas
mos ver Hermes como um deus com um lugar definido de
maneiras de pensar: a conceituaI e a criadora de ima-
protetor e auxiliar na difícil aventura da psicoterapia
gens e mitos. Quando Otto escreveu este trecho, ele esta-
moderna. Apesar dos aspectos herméticos de divindade
va às voltas com uma controvérsia, mas nós não iremos
marginal, desonesta, traquinas, larápia e embusteira
paradoxalmente podemos oferecer-lhe o crédito complet~
prender-nos a ela: sua imagem de Hermes, conquanto mol-
dada pela controvérsia, estimula-nos a imaginar a ima-
de.s~mp8,pE:llºg Protgi9...r_ºªYêÜ~9terªpia. Não é um papel
gem de Hermes. que possa ser "provado" (isso seria uma armadilha que
Nesta tentativa de mostrar de que maneira pode-
nada tem a ver com Hermes), mas conforme formos avan-
mos nos apossar das idéias dos estudiosos, também há a çando tentarei torná-lo evidente.
tentativa de delimitar essas duas formas de pensar, que . Vamos imaginar que o próprio Hermes tenha forne-
correm o risco de serem confundidas. Quando o psicólogo
cIdo a. ener~a e a inspiração para o enriquecimento de
cOllceitua seu pensamellto, pode vir a se envolver em con-
s~a mItologIa,: Algumas histórias em que aparece, e prin-
trovérsias e, com isso, perder seu próprio ponto de vista;
CIpalmente o BinQhº111~rico a Hermes", serão emprega-
s~.,ernvez disso, perma,nece fiel ao pensa::rIleIltomítico,
das como fonte de imagens para o nosso estudo de Hermes
conserv~:::se mais.. no, .âmbito, das atividacles básicas da e~ relação à psicoter~pia. Devemos ter em mente, po-
psique. E praticamente o mesmo risco que existe quando rem, que ao lado das mcontáveis histórias acerca deste
deu~, seu aspecto mais primitivo como sinalizador dos
10 Walter F. Otto, Dionysus, trad. Robert B. Palmer, Indiana University
Press, Bloomington e Londres, 1961, p. 9. cammhos com suas linhas-limites e sua aparência itifá-

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lica assim como a implicação de seu papel de protetor, olímpicas são arquetípicas.~Se,UºLy!r:tjnstÇl.nte, imagi-
se~pre se mantiveram presentes. A proteção que ele ofe- namos um psicoterapeuta que insiste bastante no aspec-
rece tem um significado peculiar, com sua "bênção" her- to dignificado de sua personalidade, podemos concluir,
mética e, assim como na vida, ela aparece na psicoterapia sem muita necessidade de especulação, que ele tem pou-
dentro das complexidades de Hermes - "o súbito ofere- co contato com Hermes. Se nós, psicoterapeutas, nos com-
cer e espoliar" - protegendo o movimento psicológico portamos de modo excessivamente dignificado no nosso
tanto do analista como do paciente com sua posição trabalho, então como entrar em contato com aquela par-
limítrofe, proteção que nunca implica em dependência ou cela dos pacientes que, principalmente, procuram os ana-
poder. listas para discutir os aspectos não dignos de sua vidas?~
Para permitir-nos aprofundar ainda mais nossa re- Só um Hermes alheio à dignificação na pessoa do analis-
flexão psicoterapêutica e adquirir mais informações so- ta pode constelar uma comunicação com o lado sem dig-
bre as qualidades de Hermes, voltemos para a inigualável nidade da vida, e pode avaliar herme~icamente o que foi
versão que dele faz Otto em seu The Homeric Gods: relatado como desprovido de nobreza~Só essa avaliação
Mas essa maravilhosa destreza torna-o o ideal e também hermética do não dignificado no outroí (e aqui, seguimos
o patrono dos servos. Tudo que é esperado de um servo Otto em sua visão do "não-dignificado" quando o compa-
diligente - habilidade para acender o fogo, para rachar a
ra à dignidade de Apolo e Atena), PQdeJQrnecer-aquele
boa lenha, para assar e fatiar a carne, para verter o vinho
- vem de Hermes, cujas qualidades fazem dele um servo entendimento profundo de importância fundamental para
tão eficiente para os olímpicos. l l a psicoterapia. A P:3_ic::º-texªpiª !lªO~~_!:l1:l1trabalho excelso
e a constelação desse aspecto básico de Hermes precisa
Depois, Otto prossegue: "Confessadamente, estas não QçQrrer no nível assinalado por essa dimensão não digni-
são artesnobres ... "12 E, "se comparamos Hermes com seu ficada._
irmão Apolo ou com Atena, observamos nele uma certa Ao lado das observações proporcionadas pela face não
faltacledignidade".13 Contudo, "embora o mundo de Her- dignificada de Hermes está seu papel de servo dos deu-
~~~K ~ão seja ex"~elso, e inclusive suas manifestações ca- ses. A arte da psicoterapiaé ll111 aserv'idão. A atitude de
racterísticas produzam uma impressão definitivamente servir pertence à tradição junguiana clássica, na qual o
indigna e em geral bastante dúbia, mesmo assim - e p-sicQterapeuta é tão-somente o servo do processo te-
isso é-verdadeiramente olímpico - ~l~_gêtª llluito longe rapêutico, seja qual for o_nível em que eSSe processo se
de ser vulgar e repygrmnte".14 !IlQyiJ!!g}!te. 15 Mesmo que a idéia do terapeuta como ser-
Otto está nos dizendo que essas duas qualidades com-
plementares de Hermes - a de "servo diligente" e sua 15 Segundo a minha própria experiência psicoterapêutica, parece que
"ausência de dignidade" - por serem verdadeiramente Hermes pode ser igualmente o servo do arquétipo da cura, centrado emAsclépio
(ver Kerényi, Asklepios: A/'chetypal Image of the Physician's Existen~e, tra~.
R. Manheim Bollingen Foundation, Nova York, 1959), que, de maneIra maIs
11 Otto, The Homeric Gods, op.cit., pp. 104-105. diferenciada, sabe como vincular o paciente com o arquétipo que o deixou
12 Ibid., p. 105. doente, promovendo a recuperação de sua saúde por meio dessa conexão. ~a
13 Ibid., p. 104.
prática clínica, constato pouca incompatibilidade entre a constelação curativa
14 Ibid., p. 123.
de Asclépio (o curador no paciente) e a cura por meio do arquétipo no complexo

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vo seja tradicional, isso não significa que o t:rapeuta seja
confrontado com o lado não dignificado de um paciente é
um servo em si; pelo contrário,~isso quer dIzer uma luta
diária com os outros aspectos da personalidade (aqueles constelar nele o seu lado dignificadoiPodemos suspeitar
nesse procedimento a repulsa contra o não dignificado.
arquétipos que têm características d~gnifica~a~) que go~­
tariam de assumir o comando da pSlCoterapla.fUma atI- Talvez seja uma repulsa contra o próprio Hermes, expres-
tude dignificada em geral não é servil e pode ser vista em sa através da apresentação do dignificado, que é um ele-
mento pertinente a um outro arquétipo, a saber, o de Apolo
contexto como uma identificação com formas arquetípicas
alheias ao apenas pôr-se a serviço do processo psíquico. e Atena, de acordo com Otto. EstE::)ssãQ~rquétipos que
exemplo, quando o analista prefere manter-se afer- repr<':!â!3ntamaQmáximoos valores imediatos do coletivo.
rado ao lado dignificado da vida não é mais servo do pro- Uma tal reação passa longe do alvo e perde a possibilida-
de de uma conexão com Hermes por intermédio de sua
cesso e dessa maneira pode mostrar-se propenso a uma !
característica não dignificada.
identificação com o arquétipo do curador em suas múlti- .
Voltando a Otto, ele diz: "O mundo de Hermes não é
pIas manifestações. Ao insistir em sua dignidade~ ele é
de modo algum um mundo heróico". E atesta o que diz
menos capaz de ser um servo do processo de cura .. com o seguinte:
É importante que, em nossa discussão do Hermes
não dignificado, ou seja, do seu aspecto como servo da Odisseu e Diomedes invocam Atena em sua empreitada
psicoterapia, tenhamos em mente o claro depoimento de noturna e a deusa vem. Mas Dólon, que está prestes a
pa;tir em uma aventura muito parecida, nessa mesma
Otto de que, embora Hermes sej a tanto servo como uma noIte, mas cuja confiança não está depositada no heroísmo
entidade não dignificada, está sempre "distante do vul- e sim na astúcia, na malícia, e acima de tudo na sorte
gar e do repugnante". Otto nos aconselha a usar a habili- recomenda-se, de acordo com o "Rhesus" de Eurípedes, ~
dade de Hermes para lidar com o não dignificado. Assim, Hermes, que deve guiá-lo em segurança tanto na ida quan-
to na volta. 16
quando discutimos esse aspecto dentro da psicoterapia,
não existe implicação de vulgaridade. A vulgaridade está Tentemos traduzir estas linhas de Otto numa abor-
evidentemente ausente em Hermes e aliás transtornaria dag~m para a psicoterapia. O mundo da psicoterapia, em
a ligação hermética com esse componente que é chamado partIcular o da voltada para Hermes, além de não ser
de falta ,de dignidade, além de prejudicar a avaliação do dignificado e de pôr-se a serviço, não é heróico. Se consi-
mesmo)Diria que Hermes tem uma predileção toda sua deramos que a psicoterapia é uma--;~~Iltti;~, dentro da
pelo lidar com o lado não dignificado da personali.dade; tradiçãojunguiana uma aventura pelo inconsciente, per-
seu estilo e sensibilidade podem promover um mOVImen- cebemos que uma atitude heróica é superficial diante das
to psicológico, ou gg~amarrªr º;êllºêcloêǺ~pl~~?~'Lclign~­ exigências de um tal empreendimento. Assim Hermes _ _ 0_._" ____ , . , _,.,
ficagQs, que comprImem a pSIque do p~cIente.INa PSI- oferece as imagens da atitude "não-heróica" na aventura
coterapia de hoje, uma das reações de um analista ao ser da psicoterapia que, como dissemos antes, depende da
que deixou o paciente enfermo. O relacionamento entre. Hermes e A~clépio é
pr,oteção de Hermes e, por que não?, também da sorte.
bem conhecido. Ver as instruções de Hermes para AscléplO na Hermetrca, ed. e
trad. Walter Scott, volume I (Dawsons de PaU MaU, Londres, 1968).
16 Otto, The Homeric Gods, op. cit., p. 122.

22
23
Refletimos anteriormente sobre a tendência a uma recem ser o centro dos aspectos específicos da vida aos
identificação com o arquétipo do curador, mas agora de- quais emprestam sua marca. Hermes permeia o mundo
vemos nos conscientizar de uma possível identificação com .todo por causa de sua habilidade para fazer conexões. A
o herói. Com relação à psicoterapia, a ênfase da identifi- partir de sua linha-limite, el~.Se vincula com as esferas
cação recairia sobre a cura enquanto feito heróico, possi-
velmente uma das mais inflacionadas de todas as idElnti-
º
dos outros deuses e tem i J11;E)fGâmhhpsíquico com eles.
Ele é o vinculador e o mensageiro dos deuses.
fic~ções. A identificação com o heroi como curador tem
O aspecto limítrofe de Hermes favorece sua amis-
seu próprio lastro arquetípico - para mencionar apenas tos~da1e, ou, em termos mais arquetípicos, ele é o mais
r' um exemplo, Aquiles realiza uma cura rápida de Pátroclo amIstoso com os demais deuses e deusas. Não luta com
durante a batalha. 17 Essa é uma imagem que nos dá a nenhum deles quando estão ocupados engalfinhando-se
idéia do curador como herói, o que hoje em dia seria o uns com os outros. 20 Hermes não tem necessidade de lu-
médico militar. Não obstante, é uma metáfora para a cura t-ªfpªJ:ELgarantir seu centro; ele nem tem um. Se in-
que se mostra inaplicável a uma psicoterapia hermética, ternalizamos o lado amistoso de Hermes, então é Hermes
cujo objetivo é.a aventura de mobilizar a pessoa ao longo em nós que como anfitrião recebe oseomplexQs p~iç(üógi­
dos cfiminhos de sua profundidade psíquica. Nem mes- cos cen~rados nos outros deuses. Podemos imaginar uma
lIl"~~oque poderia ser entendido como uma situação de pessoa:mdo pelas estradas da vida (ou da psicoterapia),
emergência, por exemplo um psicoterapeuta recebendo protegIda por Hermes, às vezes sentindo medo do cami-
um paciente inesperado na clínica, uma atitude de herói- nho, de sua escuridão e de sua desolação. Sentimos medo
curador seria válida. de nossa solidão; sentimo-nos sós muito mais vezes do
Otto diz, especificamente, que Hermes é o "mais que percebemos. É precisamente nesses momentos que
amistoso dos deuses para os homens",18 evidentemente H~r~~s. faz ~ua .ep~fania; quando sentimos que a
um traço específico dessa divindade. Ele "... é um olímpi- pnmItlvI~ade mstmtlva mencionada na primeira parte
co genuíno. Sua essência possui a liberdade, a amplidão deste capItulo, quando
e o fulgor por meio dos quais reconhecemos o reino de , . nossas preces vão para Hermes e ,
ao rezar, nos sentlmos sua porção amistosa. O poema de
Zeus. No entanto, ele tem propriedades que o distinguem Robert Creeley intitulado "Prece a Hermes" é uma epifania
nitidamente dos filhos de Zeus ... "19 Embora seja olímpi- hermética nesse sentido; eis seus primeiros versos:
co , Hermes é diferente das outras deidades do Olimpo. Hermes, deus
Discutimos seu aspecto limítrofe, um atributo que em si
das encruzilhadas,
mesmo torna-o diferente dos outros deuses, os quais pa-
da existência cruzada,
protegei estes pés.
17 No trabalho de Michael Grant e John Hazel, Who's Who in Classical Eu ofereço.
Mythology (Weidenfeld e Nicholson, Londres, 1973) consta uma ilustração de Imaginação
um ''vaso com figura em vermelho, de Vulci (Etrúria), ca.500 a.C". Essa ilus-
tração exibe "Aquiles cuidando do ferimento de seu amigo Pátroclo". é a maravilha do real,
18 Otto, The Homeric Gods, op. cit., p. 104.
19 Ibid., p. 104. 2° Ibid.,p. 105.

24
25
broso de espírito, e embora seja dia segundo o relógio,
e eu estou pensamos nas incertezas da noite ... "24 Todos esses ele-
dolorosamente aflito 'I mentos - a duplicidade, estar no aqui e no mais além, o
com os duplos diabólicos,
ânimo penumbroso - levam-nos para referências ar-
com as coisas em dois,
quetípicas para as quais a psiquiatria e a psicoterapia
desta meia-vidÇl,
21 cunharam o quadro "limítrofe", Temos um referencial
este lusco-fusco.
imaginativo arquetípico para uma condição patológica
O poeta confirma a sensação de que Hermes ~ urr: expressa num conceito. O termo psiquiátrico "condição
. desespero de nossa solidão; e ele oferece nao so limítrofe" pode ser entendido como uma expressão pato-
amIgo no - h 'tO
companheirismo como ainda suas conexoes ermelças lógica deste aspecto peculiar em Hermes, cuja natureza
para os nossos conflitos, mantendo os complex~s em ill,?- ou ser é limítrofe. fPodemos ver essa condição numa vida
vimento e permitindo que a vida psíquica e a pSlcoterapla vivida dentro da duplicidade, um pouco numa instituição
se desenvolvam. mental e um pouco na cidade,25 semi -neurótica com aces-
Para descrever as dupliCidades deste deus, Otto .~s~ sos psicóticos, tanto como uma expressão de uma patolo-
a analogia da noite: "Perigo e proteção, terror ~ tranqmh- gia hermética quanto na qualidade de uma manifestação
zação, certeza e dubiedade - tud? i~,so a, nOIte encerra de sua verdadeira essência, algo que todos experimenta-
em si ... "22 Do próprio Hermes ele dIz: Esta em sua nat1.~_­ mos sendo, como somos, semi-doentes, semi-curados, en-
reza não pertencer a nenhuma localidade e nem po~smr quanto nossas vidas se movem ao longo da estrada que
nenhuma morada permanente; está sempre .a camlllho, corre entre a enfermidade e a curaJ
entre o aqui e o mais além ... "23 Com estas llllhas, Otto Otto descreve um outro modo de Hermes fazer sua
nos apresenta a própria essência da natureza de Hermes, epifania:
provavelmente uma entre suas muitas qualidades e a q.u e Mas, o maravilhoso e o misterioso que são peculiares à
mais nos desafia quando somos confro,?tados c~om. a lll,- noite podem também aparecer durante o dia como repen-
cumbência de inseri-la numa percepçao terap~utlca. E tino escurecimento ou um sorriso enigmático. Esse misté-
aqui, nessa duplicidade de estar "sempre a ca~lllho, en- rio da noite vista no dia, essa treva mágica à clara luz do
sol, é o reino de Hermes que, em eras posteriores, e com
tre o aqui e o mais além," que Otto nos proporclOna um~ bons motivos, os magos reverenciaram como seu mestre.
outra imagem, mais próxima do psíquico do que a confI- Para a sabedoria popular, isto se faz sentir no notável silên-
gurada pelos limites de pedra, pOIS no~ ~ferece uma cio que de repente cai sobre a mais animada das conver-
introvisão do conceito de limítrofe. No hmltrofe (a du- sas; diz-se que, nesse instante, Hermes entrou na sala ...
plicidade), existe ausência de separaçã?, por exemplo, en- O momento estranho pode tanto significar má sorte quanto
um oferecimento amistoso, uma maravilhosa e feliz coin-
tre dia e noite. "Sente-se aquele pecuhar estado penum- cidência. 26

21 Robert Cree1ey, "Prayer to Hermes", in Spring 1980, (Spring Publications, 24 Ibid.,p. 118.
Dallas, 1980), p. 60. . 25 Casas de reabilitação são inclusive denominadas "casas a meio caminho".
22 Otto, The Homeric Gods, op. ctt., p. 120. 26 Otto, The Homeric Gods, op. cit,., pp. 117-118.
23 Ibid.,p. 117.

27
26
E Otto com esta bela descrição, permite-nos ainda vável que tenha sido Hermes quem o guiou até o vaso
um outro f~rto de um erudito e carrega Hermes direta- alquímico, onde ele encontrou o continente para sua psi-
mente para dentro do consultório. Todos nós já sentimos que e que tornou possível sua experiência da alma. Seu
uma epifania de Hermes, expressando-se desta maneira estudo dos tratados alquímicos deu-lhe a necessária li-
incrível, e tão prenhe de seu próprio significado e valor. ~h~-1imite a partir da qual poderia passar à análise do
Esses momentos estranhos são a manifestação pe- l~mItrofe em si e, através de Hermes, das muitas possibi-
culiar de Hermes. É nas ocasiões destas epifanias que hdades da psique. A alquimia é uma psicologia do para-
ele mais nos mobiliza, e seu aparecimento nos impele a doxo, uma psicologia limítrofe, o que implica que só pode
permanecer em silêncio. É então que nos confere suas ser apreendida através de Hermes guiando o caminho
dádivas mais significativas, em que se revela o mais amis- rumo ao inconsciente.
toso dos deuses, em que nos vincula com nosso instinto Jung vislumbrou que o tratado alquímico era uma
primitivo, em que nos apresenta ao seu próprio mundo ?x~r~ssão ~ de um processo simbólico (o processo da
arquetípico limítrofe ou, dizendo ,melhor, a um mundo I:r:dIvIduaçao), ,no q~al os ~ímbolos, expressando oposi-
diferente do dos outros deuses. "E no pleno sentido de çoes em conteudos InCOnSCIentes, demarcam o caminho
um mundo, quer dizer, de um mundo inteiro, e não no de ao longo do processo analítico da individuação, processo
uma fração da soma total da existência, que Hermes ins- esse que se expressa paradoxalmente. Jung escreveu:
pira e rege. Todas as coisas lhe pertencem, mas elas apa- "Como Mercúrio é o nome principal de uma substância
recem sob uma luz diferente da dos reinos dos outros deu- ancestral, merece ser mencionado aqui como o paradoxo
ses".27 Já podemos vislumbrar um mundo de imensa ~ ." . 28 E e 1e começou seu capítulo sobre
por exce I enCIa
importância para a arte da psicoterapia. Parado:::.a dizendo: "O tremendo papel que os opostos e
Agora, eu gostaria de continuar apresentando as sua umao desempenham na alquimia ajuda-nos a com-
minhas impressões pessoais a respeito de como Hermes preender por que os alquimistas gostavam tanto dos pa-
apareceu no consultório dos principais pioneiros da psi- ~adoxos. Para obter essa união, tentaram não só visualizar
cologia moderna - Freud e Jung. Sabemos que, no lega- Juntos os opostos como também buscaram expressá-los
do deixado por Jung, Hermes/Mercúrio recebe destaque n. u m mesmo 10 l'~l" 29 D
ego . . passou a apresentar uma
epOls,
especial, e seria desnecessário contar as inúmeras cita- I~agem do que estava acontecendo nas almas dos alqui-
ções feitas a respeito, nas Obras Completas. Jung foi um mIstas, valendo-se de muitos exemplos de suas declara-
homem hermético, possuidor de um profundo entendimen- ções paradoxais, as quais evidenciam como o paradoxo
to da psicologia de Hermes, e a presença deste deus foi contem tanto complexidades espirituais como patológi-
evidente em toda a sua vida, e ao longo do caminho que cas. Numa nota de rodapé, com referência ao acima ex-
sua criatividade traçou. Jung deixou como herança uma posto, podemos ler um trecho do tratado de Bonus e ver
psicologia que, em grande medida, é ~ermética tanto em como o alquimista expressava um paradoxo:
sua concepção como em sua prática. E mais do que pro-
28 oe 14, § 38.
27 Ibid., p. 120. 29 Ibid., § 36.

28
29
Portanto, tudo que são capazes de dizer e declarar a res- Jung, podemos agora reconhecer que elegantes psicólo-
peito de virtudes e vícios, do céu e de todas as coisas
corpóreas ou incorpóreas, sobre a criação do mundo ... e de gos foram eles: ajudaram-nos a acostumar nossos olhos
todos os elementos ... e quanto à vida e à morte, o bem e o para contemplar o que é chamado de o inconsciente. Nós
mal, a verdade e a falsidade, a unidade e a multiplicidade, psicólogos, precisamos desse exercício para treinar noss~
a pobreza e as riquezas, aquilo que voa e que não voa, a percepção e nos familiarizar com a linguagem do incons-
guerra e a paz, o conquistador e o conquistado, a labuta e o ciente, neste caso, a linguagem da linha-limite herméti-
repouso, o sono e a vigília, a concepção e o nascimento, a
infância e a velhice, o macho e a fêmea, o forte e o fraco ... 3o ca alquímica. Esse treinamento em alquimia nos ensina
a ser mais ou menos capazes de entender a série de so-
Como deixamos entrever antes, não foi uma escolha nhos alquímicos de algum paciente, e de nos acostumar
caprichosa de Jung mergulhar nos tratados alquímicos. com o limítrofe, ponto a partir do qual podemos enxergar
Sugerimos que foi Hermes, o senhor dos caminhos, que o material psíquico do outro. Quando "vemos" o material
atiçou a curiosidade de Jung e o levou até a alquimia - e somos capazes de acompanhar os. símbolos eas .ima-
para "Fazer Mercúrio com Mercúrio".31 A alquimia fazia gens com alguma precisão, já estamos em psicoterapia.
parte de sua própria tradição histórica e centrava o con- J;>ela leitura da alquimia, tOmamos conheGÍrnentode inia-
flito daquele homem suíço, estudando psicologia no iní- gens e.Símbolos bastante estranhose alheios à personali-
cio deste século. Jung tinha uma herança religiosa parti- dade consciente, conforme são apresentados pelo incons-
cular, uma patologia familiar, uma fome de erudição e c~ente. Ficamos mais familiarizados com os aspectos
conhecimento cultural, além das raízes medievais de sua bIzarros, assustadores, às vezes aterrorizantes do incons-
alma suíça. Na alquimia, ele encontrou a imagética sim- ciente. Presumimos qUE) sejam expressões d~ natureza
bolizada com base na qual era-lhe possível enxergar atra- humana tentando compensar essa mesma natureza. O
vés de si e do mundo. A atitude de Jung permitiu-lhe acei- "material" básico da psicoterapia é uma reflexão em tor-
tar Hermes com suas complexidades, aceitar a epifania no de imagens; de acordo com Jung, trata-se de uma re-
hermética e essa orientação, ao longo dos rumos desco- flexão instintiva e, ao mesmo tempo, de um acontecimen-
nhecidos da psicoterapia. Para Jung, a psicoterapia tor- to. Jung dizia repetidamente que a psicoterapia é deveras
nara-se um afazer hermético limítrofe (paradoxal). Her- uma arte; mas uma arte desenvolvidia_partirdQ instin~
mes efetuou um definido aparecimento no consultório to.da refl~xão. Aqui, podemos começar a enxergar a
analítico de C. G. Jung. pSIcoterapIa como um laboratório de imagens conduzido
Sej a qual for a noção que fazemos dos alquimistas e pela habilidade artesanal de um psicoterapeuta e por sua
de sua contribuição histórica, reconhecemos que seu tra- capacidade de gerar imagens.
balho forneceu-lhes os recursos com os quais perscrutar Voltando-nos para Freud, agora, embora devamos
o inconsciente, trabalhar sobre suas projeções psíquicas, mantê-lo mais como um baixo-relevo histórico, podemos
movimentar suas psiques, e conter sua loucura. Graças a perceber que, apesar de sua orientação cientifica Hermes
o mais psicológico dos deuses, também fez-se' present~
30 Ibid., § 42, nota 1. nele. Freud era um homem "vitoriano" J'udeu vienense
Ibid., § 37. d ' I ' , ,
31 o secu o XIX. Suas descobertas psicológicas, no início
30 31
deste século, estavam impregnadas das comple~idades deus pagão em suas psiques, alguém de aparência itifálica
da ciência natural de então, do pudor ~exual da epo~a,~ e e que é o mensageiro dos deuses, aquele vinculador que é
das fantasias monoteístas e patriarcaIs de sua tradIÇao capaz de conectar-se com a sexualidade dos outros deu-
ses. A repressão era uma questão pessoal e eles não ti-
judaica. .
Enquanto Freud estava construind? sua teOrIa da nham a menor consciência do cristianismo como repressor
sexualidade, é questionável que algum mmuto sequer ele da sexualidade e do corpo emocional. Chegaram até a
tenha dentro de sua tradição judaica, pensado que tam- confundir (o que seus seguidores ainda fazem) esses dois
bém e~tava às voltas com deuses pagãos reprimidos. Ele níveis principais da repressão psíquica. E, evidentemen-
e seus seguidores estavam convencidos de estarem estu- te, não percebiam nem a época repressiva em que esta-
dando mais uma das muitas ciências naturais que se sa- vam vivendo (vitoriana), e nem a natureza repressora de
lientavam na época. Nesse sentido, seu ponto de obser- seu próprio judaísmo.
vação estava centrado no lado orgânico, biológico e físico As raízes religiosas e históricas de nossos pioneiros
da sexualidade, e sua teoria principal vinculava a en.fer- não lhes permitiram manter a linha-limite entre o pênis
midade mental (a histeria e a neurose) com a sexualIda- físico e orgânico e a imagem fálica do deus, para não
de. Consideravam que as complicadas perturbações se- mencionar seu papel como senhor dos caminhos. Toda a
xuais participavam de um relacionamento de causa ~ energia daqueles estudiosos foi canalizada para uma teo-
efeito com a enfermidade que estavam estudando. EVI- ria do pênis-libido-sexualidade que, numa dimensão
dentemente não estavam cientes de que existem deuses arquetípica, pode ser ligada a Hermes. Assim, esse deus
na sexualid~de, particularmente Hermes, o vinculador, que, entre os muitos aspectos de sua natureza, não quer
além da história e dos instintos. Sendo assim, qualquer ser contido pelos limites de estudos científicos sérios, frag-
concepção que tenhamos da sexualidade e, desnecessário mentou-se como um pouco de mercúrio, esparramou-se e
dizer, qualquer teoria da sexualidade, não pode ser vista dispersou-se, fazendo com que aqueles sérios e científi-
somente em termos de uma história pessoal. Cada deus cos pioneiros vienenses da psicologia moderna de final
tem uma sexualidade em particular. A visão pagã da se- de século encontrassem o foco de sua atenção, o pênis
xualidade - em todas as suas várias formas - implica igualado com a sexualidade, simbolizado por toda parte
em politeísmo/polimorfismo, numa visão que entra em (Ilustração 2). Sua seriedade deixou-os cegos para a gra-
32
conflito com a herança religiosa monoteísta de Freud. ça de Hermes, para sua tolice e estranheza na sexualida-
Em sua momentosa descoberta da sexualidade como um de; eles foram incapazes de aceitar a aparência não dig-
campo de pesquisas, esses pioneiros da psicologia moder- nificada, esquiva, não científica, de Hermes. Sua atitude
na não estavam a par da interferência de pelo menos um resultou numa psicologia do ego, com uma sexualidade
de ego. A linha-limite de Hermes não poderia aparecer
em sua ênfase na cisão entre o ego e o que chamavam de
32 Ao longo deste livro, estarei tr~zendo ma~s inform~ç~es a este respeit?
Ver também: "Qn Cultural Anxiety" ln Symboltc and ClLnwal Appl'oaches Ln ido Todas as ricas possibilidades da vida psíquica esta-
Practice and Theol'y: Pl'oceedings of the Ninth International Congl'ess foI' vam bloqueadas porque não existia ligação com elas, de
Analytical Psychology, Jel'llsalem, 1983, eds. Luigi Zija e Robert Hinshaw,
Daimon Verlag, Zurique, 1986. uma perspectiva limítrofe' favorável. Dali em diante,

32 33
limítrofe era o limiar e a censura. A psique, enquanto nos outorgaram, de seus métodos, sistemas, concepções
alma do homem, desaparece dos estudos da psicologia. psicológicas etc. Passamos agora a estudar um episódio
Esta passa a ser não o estudo da psique e seu movimen- em suas vidas que, além de relevante para o que estou
to mas a fantasia de uma psicologia centrada no ego e tentando dizer, oferece ainda mais esclarecimentos e re-
re~paldada por idéias e técnicas preconcebidas. A sexua- flexões acerca de uma outra aparição de Hermes.
lidade era vista como uma atividade egóica e o limítrofe, A ruptura de Jung com Freud sempre teve o tom de
onde Hermes pode aparecer tanto como vinculador como uma discórdia entre pai e filho, ou mestre e discípulo.
na sua função sexual, foi cunhado como termo só para Chegou inclusive a ser entendida como dissidência, nu-
demarcar os limites do território psicológico além do qual ma visão que nos permite detectar a pobreza de espírito
o ego não poderia passar. Em sua psicanálise, Freud fez a de algumas pessoas diante dessa separação. Mas veja-
única coisa que podia: repetir a história da repressão psí- mos o que Jung tem a dizer sobre sua mútua análise de
quica do povo judaico. sonhos, durante aquela viagem aosEstados Unidos, em
Por seu lado, Jung havia encontrado Hermes atra- 1909:
vés de seus estudos do gnosticismo, dos contos de fada
(The Spirit Mercury), da antropologia e, como já assina- Estávamos juntos diariamente, e analisávamos os sonhos
um do outro. Naquela época, eu tive uma série de sonhos
lamos, da alquimia; Hermes tornou-se o que poderia ser
importantes, mas Freud não conseguiu entender nada
chamado de a matriz de sua psicologia. Assim que a deles. Não pensei nisso como um depoimento sobre ele,
simbologia e a imagética de Hermes tornaram-se uma pois acontece eventualmente de o melhor analista não
parte básica dos estudos de Jung, o limítrofe que ele de- conseguir decifrar o enigma de um sonho. Era uma falha
marca passou a dar apoio a uma atitude que abriu a pos- humana e eu nunca pensara em interromper nossas aná-
sibilidade de se estudar a psicologia profunda. Também lises de sonhos por esse motivo. Pelo contrário, esse tra-
balho significava muito para mim, e eu considerava o nosso
abriu o caminho para se ver a sexualidade segundo aque- relacionamento extraordinariamente valioso. Para mim,
la própria linha-limite de Hermes, onde, além de seu as- Freud era uma personalidade mais madura, experiente,
pecto físico, ela pode ser considerada em termos das co- mais velha, e sentia-me como um filho, nesse sentido. Mas
nexões arquetípicas impessoais feitas por Hermes. A então aconteceu um episódio que acabou sendo um severo
sexualidade, portanto, tornou-se não só a causa traumá- golpe contra todo o relacionamento.
tica da doença mental a ser curada, como uma entre as Freud teve um sonho - não consegui transmitir de ime-
diato o problema que ali era trabalhado. Interpretei-o do
muitas manifestações válidas da psique do homem. A melhor modo que pude, mas acrescentei que havia muito
sexualidade - com seus traumas, inibições, fantasias e mais a ser dito, desde que ele pudesse adiantar-me al-
imagética - tornou-se mais um elemento da transfor- guns detalhes adicionais de sua vida particular. A reação
mação possível da alma do que uma enfermidade locali- de Freud a estas palavras foi uma expressão estranha no
zada que paralisa ou petrifica a psique. seu rosto - um ar de absoluta desconfiança. Então ele
disse: "Mas eu não posso arriscar a minha autoridade!"
Ter uma impressão dos conflitos religiosos, raciais, N aquele mesmo instante ele a perdera completamente.
geográficos e históricos das psiques de Freud e Jung aju- Aquela sentença incinerou-se por si em minha memória
da-nos a aprofundar nosso entendimento dos legados que e, no final de nosso relacionamento, já estava totalmente

34 35
esquecida. Freud havia colocado a autoridade pessoal aci- te de Hermes implica em uma simetria de relacionamen-
ma da verdade. 33 to, que é uma abordagem hermética característica, pois
A descrição apresentada por Jung destes dois homens esse deus é o "mais amistoso de todos os deuses para os
interagindo, discutindo, interpretando os sonhos um do homens". Além disso, a insistência de Freud em sua au-
outro, dá-nos uma imagem bastante ingênua de ambos. toridade e dignidade não combina com uma psique her-
N aquela época, Freud e Jung interpretavam mutuamen- mética, não é compatível com Hermes que, basicamente,
te seus sonhos, sem saber quase nada das implicações é um deus não-autoritário. Como já vimos antes, Hermes
dessa espécie de atividade. Há já alguns anos, vinham está mais interessado no lado não dignificado da psique,
discutindo a descoberta do fenômeno da transferência, e isso Freud não estava disposto a deixar entrever.
mas suas discussões haviam se baseado principalmente Jung havia feito sua transferência de modo herméti-
no material apresentado por seus pacientes e, com isso, co. Na psique de Jung, Hermes buscou a abordagem li-
tinham formulado uma visão científica externa do fenô- mítrofe do outro e da imagética onírica. Em todo o desen-
meno. Parece que não se haviam dado conta de que con- rolar desse episódio, Hermes estava presente em Jung,
tar os sonhos um para o outro, no setting de uma viagem como caminho transferencia.l. Durante todo o resto de sua
de navio entre a Europa e a América, implica em uma vida, .[l!ng dedicou uma grande parte de seu trabalho a
situação transferencial, que contém inevitavelmente um pôr a·l:trli:r!f?ferência hermética em palavras, símbolos e
tom emocional. Mas nosso interesse é compreender cla- i!lYªgl?:ris~~ll.!!lªtra!lsferência que não pode ser concebi-
ramente como Hermes apareceu na carne da história da da.~!lY ..t~IJ:l1PS. dealltpridade, poder, sistema ou técnica
psicologia moderna, naquelas sessões de análise de so- r~d:ntiY:ª:nºrqlJe,pf:lnl início de conversa, Hermes não é
nhos, no navio. Teremos também um vislumbre das psi- técnico .e:êsquhm~se à redução. fragmentando-se por toda
ques de ambos os homens e da repercussão do episódio pªrte,..cQmo.fez.na época do simbolismo peniano~ O opus
entre eles para o legado essencial da psicologia contem- alquímico de Jung deu-nos a primeira lição psicológica
porânea. sobre·1à retórica de Hermes34 - Hermes expressando-se
Inconscientemente respaldado por sua raça, religião a partir de sua linha-limite em linguagem própria, de
e história, Freud mostrou seu estilo de transferência atra- um modo que é muito distante do da linguagem bem-ar-
vés de sua fantasia autoritária, patriarcal, judaica. Jung ticulada que Freud ofereceu à psicologia moderna.
viveu o impacto transferencial daquele encontro de uma Eu gostaria de capturar a imagem do momento real
outra forma. Se havia tentado lidar com o sonho de Freud em que Jung sentiu dentro de si como, de repente, o rela-
de igual para igual, era porque Hermes já estava presen- cionamento com Freud estava rompido. Pode-se perce-
te dentro dele, tentando guiar o relacionamento e enxer- ber, da parte de Freud, um uso indevido da palavra "au-
gar claro dentro do sonho do outro, segundo o seu limite toridade". A meu ver, essa situação pouco tem a ver com
de observação. O que estamos chamando de a linha-limi- autoridade. Autoridade é algo que tem uma conotação
uma retórica e uma sensibilidade mais amplas para li~
33 C. G. Jung, Memories, Dreams, Reflections, ed. Aniela Jaffé, trad. R. e C.
Winston, Collins and Routledge & Kegan Paul, Londres, 1963, p. 154. 34 Para uma d'Iscussao
- maIS
. comp1eta, ver o capItulo
' 6 sobre Príapo.

36 37
dar com situações desse tipo. Para uma verdadeira auto- tenha sido suficiente para concretizar o término do vín-
ridade, não existe nenhum risco em entrar psicologica- culo, embora depois disso a relação houvesse continuado
mente no que poderia ser vergonhoso no plano pessoal. durante ainda alguns anos, como se fosse necessário tem-
Evidentemente, o sonho de Freud tinha complexos ver- po para que o acontecimento interior repercutisse no as-
gonhosos e, sem Hermes à mão para lidar com esse estar pecto externo do relacionamento, e para que a ruptura
sendo "encurralado", ele os bloqueou, não se valendo de final pudesse enfim ocorrer. Parece que isso é comum no
autoridade, mas sim do uso da força. A força é o aspecto encerramento de uma relação seja entre enamorados,
mais extremo da não-imagem; ali existe, em vez de ima- amigos ou no vínculo psicoterapêutico, em cujo caso a te-
ginação, um deserto estéril. O Hermes em Jung sentiu rapia prossegue mesmo que a relação tenha efetivamen-
de imediato o uso da força, e destruiu-se então a possibi- te terminado. O que parece é que a psique não consegue
lidade de o relacionamento prosseguir. Certamente essa aceit~r de imediato a realidade de uma ruptura.
ruptura foi para ele uma experiência anímica profunda. E provável que Jung tenha sofrido muito tentando
Pelo modo como Jung fala disso, podemos perceber o con- fazer os outros entenderem sua abordagem hermética. O
flito em sua personalidade: embora sentisse hermetica- mesmo tipo tedioso de críticas quanto ao seu obscuran-
mente a ruptura, expressou-a em termos da consciência tismo e falta de "ciência" mantém-se hoje em dia, embora
que tinha naquela época, consciência essa que era produ- desde o início ele tenha feito referências implícitas a essa
to da consciência suíça coletiva, do seu histórico de pro- questão. Alguns de seus seguidores ainda tentam encon-
testante, e da fantasia de uma verdade científica, tão pre- trar uma fundamentação "científica" para o seu traba-
dominante naqueles primeiros tempos da investigação lho, ou provas. Desse ponto de vista, podemos perceber
psicológica. Vejo Jung, naquele momento, nas malhas de que, para Jung, discussões sobre transferência, e até so-
um conflito entre a repentina percepção hermética do uso bre o termo em si, eram um aborrecimento. Durante uma
do poder e da força, e uma consciência imbuída da per- aula nas Conferências de Tavistock ele disse:
cepção consciente de sua época. Uma transferência sempre é um obstáculo, nunca uma
Para o leitor não é difícil perceber esta cena de im- vantagem.ppde-se curarapesm' da transferência, não por
portância tão notória para a concepção da psicologia mo- causa dela. Uma outra razão para a transferência em
derna: do lado de Freud, a transferência, constelando especial para suas formas danosas, é uma provocação da
poder no analista com uma mera fachada de autoridade, parte do analista. Existem determinados analistas, lamen-
to dizê-lo, que trabalham pela transferência porque acre-
e disfarçando suas limitadas noções sobre a natureza ditam, embora eu não saiba por quê, que a transferência
humana; do lado de Jung, a repentina constatação her- é útil e até mes:t;I0 necessária como parte do tratamento;
mética refletindo a ruptura emocional de um relaciona- portanto, os pacIentes têm de ter uma transferência. Cla-
mento. Por trás da cena, dois deuses diferentes - o da ro que essa idéia está inteiramente equivocada. Tenho tido
submissão, e Hermes, o deus interior, que rapidamente alguns casos que vêm me procurar depois de uma outra
se vincula com um acontecimento interno e que não se análise e que, depois de mais ou menos uma quinzena,
entram em desespero. Até então as coisas estavam indo
submete, nem mesmo ao seu pai. Parece evidente que muito bem, e eu me sentia bastante confiante de que o
esse acontecimento, tão claramente descrito por Jung, caso iria resolver-se ot1mamente, quando de repente o

38 39
paciente me informa que não pode prosseguir com o tra- ele nos leva mais perto de uma psicoterapia guiada por
tamento e logo em seguida começa a c~orar. Eu pergun- Hermes. O tratado alquímico de Arnaldo de Villanova, e
to: "Por ~ue você não pode prosseguir? E problema de di-
nheiro , ou o motivo a interpretação que dele faz Jung, expressa uma condi-
, é outro?" E ele diz: "Não, dinheiro não
é a razão disso. E que não tenho uma transferência". Ao ção limítrofe bizarra e obscura. No entanto, pode-se per-
que eu observo: "Graças a Deus, que você não, tem uma ceber um movimento psicológico dentro dessa linha-limi-
transferência! A transferência é uma doença. E anormal te (ou talvez por causa dessa própria situação limítrofe)
ter uma transferência. As pessoas normais nunca têm no qual Hermes colocou tanto o alquimista que escreveu
transferências". Depois disso, a análise é retomada outra
o tratado como o psicólogo que nele encontrou elementos
vez calma e construtivamente. 35
através dos quais expressar o movimento psicológico da
Com base nessa citação, podemos concordar que, do transferência.
ponto de vista de Hermes, são de fato um transtorno a O que foi visto pelos alquimistas e por Jung em ter-
necessidade da transferência, depender dela, manejá-la, mos de símbolos e paradoxos, nós, em nossa clínica, gos-
ter técnicas transferenciais etc. E, apesar dessa apla, taríamos de ver em termos de limítrofe e imagens. Hoje,
ainda vemos muitos analistas junguianos terrivelmente somos capazes de enxergar esse tipo de condição, ou pa-
preocupados com a transferência em termos de depen- tologia, que historicamente manteve-se oculto nos véus
dência. Suspeita-se que provavelmente estejam mais in- da ilusão de uma autocentração no homem, de seu supos-
teressados em usar a força, o poder, com todas as suas to controle da própria vida, até que essa perspectiva racio-
implicações de dependência, do que em aprender a arte nal caiu por terra e a psicologia despertou. Hoje, temos de
mais psíquica da recuperação do equilibrio psicodinâmico, pensar de um modo que nossos pais, no início do século,
que, para mim, tem a ver como que Jung disse em sua nem poderiam conceber; temos de pensar em termos de
palestra em Tavistock. Eu nem teria introduzido a ques- limítrofes, linhas-limite, imagens e também falta de ima-
tão da transferência neste trabalho se o próprio Jung, gens, que nos contam suas próprias histórias. E somos
usando esse termo, não houvesse escrito um livro mais capazes de detectar, diagnosticar, se preferem, o
intitulado The Psychalagy af the Transference 36 , no qual extraordinário espectro limítrofe de hoje, com a ajuda dos
ele ampliou o contexto que a psicologiajá havia estabele- instrumentos que Jung criou - a psicologia profunda com
cido em torno de um fenômeno que estava sendo con- suas diferentes percepções da loucura do homem, mais de
ceptualizado dentro de uma noção estreitíssima. Assim, acordo com a época em que estamos vivendo e com as ne-
neste estudo de Hermes, mantenhamos a palavra "trans- cessidades psicológicas contemporâneas. ~emos em termos
ferência", e tentemos encontrar novas cores para esse de imagens porque a plasticidade da imagem, na minha
quadro. O livro de Jung sobre a transferência é de leitura opinião, fornece um contexto mais favorável para refle-
difícil. Apesar disso, por meio do simbolismo alquímico, xões e provoca mais movimento psicoterapêutico do que a
linguagem do símbolo I Sim, estou ciente de que um símbo-
lo pode ser uma rede para capturar e reunir a psique,
35 C. G. Jung, Analytical Psychology: Its Theory and Practice, Routledge
and Kegan Paul, Londres, 1968, pp. 169-170.
mas o símbolo também pode interromper o movimento
36 Agora incluído nas Obras Completas, VoI. XVI, Princeton, 1958, 1979. psíquico de investigação da própria natureza e da vida.

40 41
Se seguirmos a linha junguiana do processo psicoló- dentro de uma simetria não foi abordada por nenhuma
gico da individuação, veremos que é o mov~mento trans- outra escola de psicologia. 38
ferencial que o leva em frente. Esse mOVImento trans- AiIllagética do IIernmfrQditaimplicaem uma.deci-
ferencial limítrofe é dominado pelo Hermafrodita, com. didajndicação domo:v:imento tanto transferencial como
todas as referências concomitantes a este processo - o psíquico na psicoterapia. Contudo, naquilo que estamos
Rei e a Rainha, a Fonte, a Água, a Alma-Criança, a Lua, chamando de movimento transferencial, não podemos
o Vento do Espírito etc. Mas o motivo central desse pro- deixar de lado a_neçe.~sária. eon13ciência hermética bis-
cesso é o Hermafrodita, uma criança nascida de Hermes sexual do analista, porque ao liberar a imaginação das
e Afrodite. polaridades sexuais, .Ella pode constelar um movimento
o HermafrQ9ita,um paradoxo hermético, duja psicológico que, em si, não é nem masculino nem femini-
bisse~~~Üdade reconcilia o conflito de opostos, represen- nQ.Essa espécie de transferência, que não é "apreensível"
ta uma nova dimensão consciente. Diria que todos os atri- dentro das polaridades e associações de "homem" e "mu-
butos de Hermes que mencionamos até agora estão con- lher", não paralisa os complexos; pelo contrário, encoraja
tidos no Hermafrodita, que os traduz numa complexa um movimento psicológico mercurial. Ela tem uma cono-
linguagem própria. Por um lado, o Hermafrodita oferece tação realmente muito diferente da que lhe foi atribuída
seu próprio campo de reflexões e, por outro, seus símbo- pelos pioneiros vienenses da psicologia moderna. É isso
los e imagens particulares (sua linguagem peculiar) afe- que faz do Hermafrodita um dinamismo tão profunda-
ta o processo analítico da psicoterapia. Tenho em mente mente importante e fundamental para aquela psicologia
aqui não só o movimento psicológico que o Hermafrodita, que, de acordo com Jung, não precisa, ou melhor dizen-
com todo o simbolismo que a ele está coligado, traz para o do, tenta prescindir de uma transferência concreta, e que
processo analítico, como também os casos mais comple- empenha-se em promover a tmnsferênciÇl hermética, cujo
xos e difíceis, tanto de homens como de mulheres, que possível resultado.seria .a.13!nte.se..b~!:Jnªfro<lita.
em sua primeira sessão psicoterapêutica afirmam que são De modo algum, isso significa uma questão simples
hermafroditas. 37 para o analista, considerando que ele tem de apreender
Com o Hermafrodita, a psicologia começa a ser psi- a transferência segundo o ponto de vista do Hermes-
cologia em seu mais profundo sentido. Se pensamos no Hermafrodita, e refletir os símbolos e as imagens que pro-
Hermafrodita como uma consciência particular em si cedem dos complexos, a fim S!~.ªyªljªJ:' Q.!l1Qvimento
mesma, então, dentro de seu próprio nível de conscien- transferencialque.elesJrnprimem, .em VEl.Z .dp . c.On:flito
tização ela apreende aquela realidade básica da vida que tnmsferencial. Isso requer vigor, resistência e uma deli-
torna a psique possível: o homem e a mulher. D Her- cada arte do analista, uma vez que a imagética do Herma-
mafrodita nos intl'odll~.naê.complexidades do masculino frodita costuma ser repulsiva. Hermes e o Hermafrodita,
e dofeminÍIlO dentro de uma única imagem simétrica.
Essa imagem da oposição masculino/feminino contida
38 Isto seria uma resposta mais psicológica à "alegação" feminista de que
as mulheres são o mesmo que os homens. Para a consciência hermafrodita, os
37 Ver capítulo 6 sobre Príapo. homens e as mulheres são iguais.

42 43
enquanto elementos do trabalho psicoterapêutica, têm dentre todas as náiades, não segue as céleres pegadas de
tido reduzida popularidade; Hermes porque é muito es- Diana. Muitas vezes, dizem, suas irmãs provocam-na:
"Sálmaris, pega agora ou a lança de caça, ou a aljava pin-
quivo, sem dignidade, e o Hermafrodita porque aparece tada, e sacode essa preguiça com o ardor da caçada". Ela,
de modo repugnante nos sonhos, ou na declaração da pes- porém, não toma da lança de caça nem da aljava pintada
soa de que ela é hermafrodita. -, nem sacode sua preguiça com os ardores da luta , mas
N o primeiro capítulo, tomamos cantata com algumas as vezes banha seus formosos membros em seu próprio
das qualidades básicas, imagens e símbolos de Hermes. lago; geralmente, penteia seus cabelos com escova de buxo,
muitas vezes se mira naquele límpido espelho das águas
Agora, estamos às voltas com um de seus filhos, o Her- para ver o que mais pode torná-la bela. Agora, envolta por
mafrodita. Nossa intenção é tentar ler a imagem, não o um manto transparente, ela se deita na grama nova ou
simbolismo, do Hermafrodita com uma atitude que pos- perto dos arbustos, para repousar. Costuma colher flores;
sa aperfeiçoar a visão que temos dele, mesmo quando sua nesta ocasião, ocorreu também ela estar apanhando flo-
imagética, apesar de assinalar um determinado estado res quando viu o rapaz e ansiou possuir aquilo que estava
vendo.
psicológico de um paciente, é profusamente grotesca e Ainda não se aproximou dele, porém, embora estivesse
repugnante tanto ao paciente como ao analista. Antes de ansiosa por fazê-lo, mas esperou até se acalmar, até ter
irmos em frente com a nossa discussão, vejamos a ima- arrumado suas vestes e composto seu rosto, e tomando
gem do Hermafrodita, tal como aparece no texto clássico todos os cuidados para parecer linda. Depois ela falou: "Ó
de Ovídio, Metamorfoses: jovem, que mais se deve crer que seja um deus, se tu és
verdadeiramente um deus; deves ser Cupido. Se és mor-
O quanto a fonte de Sálmacis tem má-fama, como enerva tal, felizes os que te deram à luz, abençoado é teu irmão
com suas águas debilitantes e amolece e enfraquece todos feliz arda de fato alguma irmã que tiveres, e tua ama qu~
os homens que nelas se banham vocês estão prestes a ou- te deu de mamar. Mas muito, ó muito mais feliz do que
vir. A causa é oculta; mas o poder debilitante da fonte é todos estes é aquela que, se existe para ti alguma noiva
bem-conhecido. Um pequeno filho de Hermes e da deusa prometida, aquela que julgares digna de ser tua esposa.
Citera foi pelas náiades criado dentro das cavernas de Ida. Se esta já existe, que minha alegria feneça; mas, se ela
Em seu belo rosto, a mãe e o pai podiam ser claramente não existe ainda, que eu seja tua, tua noiva, e que possa-
vistos; seu nome ele também tirou deles. Depois de quin- mos nos unir pelos laços do matrimônio." A virgem então
ze anos terem se passado, ele deixou suas montanhas na- nada mais falou. Mas o jovem enrubesceu e corou, pois
tais e abandonou sua mãe adotiva, Ida, desfrutando de não sabia o que é o amor. Mesmo assim, aquele rubor caiu-
passeios por terras desconhecidas, vendo rios que lhe eram lhe bem. Essa é a cor das maçãs que pendem nos pomares
estranhos, e com tal ânsia que o difícil lhe parecia apenas ensolarados e no marfim pintado. É a cor da lua quando
leve. Chegou inclusive até as cidades da Lícia e aos Cários, em eclipse, vermelho sob branco, quando os vasos de co-
que habitam em volta da Lícia. Ali, deparou com um lago bre em vão estrondam para aliviá-la. Quando a ninfa su-
de águas cristalinas do qual se podia ver até o fundo. Não plicou e orou por pelo menos um ósculo fraternal e estava
cresciam nele os juncos de pântano, nem a grama de charco em vias de lançar seus braços em volta daquel~ pescoço
que não dá frutos, nem os juncos espinhosos; a água é alvo como neve, ele gritou: "Pára, ou terei de fugir e sair
clara. Mas a margem desse lago é rodeada por grama daqui - abandonando você". Sálmacis tremeu diante de
macia e arbustos de folhagem sempre verde. Uma ninfa tal a~eaça e disse: "Cedo o lugar para você, belo desco-
habita no lago, uma ninfa que não gosta de caçar, nem é nheCIdo ... " e deu-lhe as costas, fingindo que ia embora.
propensa a vergar o arco ou lutar com pés ligeiros. Ela, No entanto, olhava o tempo todo para trás, e num arvore-

44 45
do próximo abaixou-se e esc~mdeu-se~ de joel?os dobra- xerta um ramo em alguma árvore, e se podem ver os ga-
dos. O menino, então, sentIndo-se lIvre e so, como se lhos crescendo como um só, e com a vida em comum al-
niguém o estivesse vendo, caminha de um lado para outro cançam a maturidade, também aqueles dois corpos esta-
pela grama mergulha os dedos e os pés nas águas que vam unidos num íntimo abraço: não eram mais dois, nem
vêm lambe; as margens. Agora, seduzido pelo frescor da se podia mais assim chamá-los, um de mulher, o outro de
correnteza repousante, arroja de si os finos trajes que co- homem. Não pareciam nem uma coisa nem outra, e as
briam seu corpo esguio. Nesse momento, a ninfa sente-se duas ao mesmo tempo.
enfeitiçada e seu amor se incendeia quando ela contem- Quando ele viu então que as águas em ,que mergulhara
pla aquele ~orpo desnudo. Seus olhos brilham como quan- tinham feito com que se tornasse apenas meio-homem, e
do o rosto refulgente do sol se reflete na superfície de um que ali seus membros tinham se debilitado, Hermafrodita
vidro que se segure na direção de seus raios. Ela mal con- estendeu as mãos e chorou, embora não com uma voz
segue suportar a demora, mal tolera adiar s~a felicidade, masculina, dizendo: "Ó meu pai, ó minha mãe, concedei
tão ansiosa está para tê-lo em seus braços, tao loucamen- esta dádiva a seu filho que traz o nome de vós dois: aquele
tejá. Ele, depois de ter dado palmadinhas em todo o corpo que entrar como homem nestas águas que saia delas meio-
com as mãos em concha, mergulha na lagoa e nada com homem, e que fique debilitado ao tocá-las". Seus pais ou-
braçadas alternadas e um corpo luzidio, que atravessa a viram a prece daquele seu filho biformado, e dotaram as
superfície transparente como se pudéssemos emoldurar águas desse poder inacreditáve1. 39
figuras de marfim ou lírio,s bran~?s em vidro t~anslúcido.
"Eu venço, ele é meu!", grIta a nmade, e despoJando-se de A elegante versão que Ovídio oferece para a história
todas as suas vestes também mergulha naquelas águas; e do. Herm.afrodita nos dá uma imagem deveras remota da
o agarra com força enquanto ele tenta s~ ~esvencilhar dela,
rouba-lhe beijos relutantes, faz-lhe canClas, toca-o em seu estranne.za de sua simbolização alquímica e de sua inva-
peito que a rejeita, pendura-se nele,P?r tO?OS os lados. riáyel,caracterí!3tica repulsiva nos sonhos e fantasias
Finalmente, enquanto ele tenta ao maXlmo lIvrar-se dela, modernas. Nos!3aatenção é atraída pela diferença de re-
ela o rodeia com seus braços como uma serpente, quando preséntação,:na poesia mítica do Mediterrâneo e na alqui-
o rei dos pássaros a apanha e a está carregando para o mia medieval, assim como nas suas aparições modernas.
alto dos ares; esta, pendurada por suas garras, enrola suas
vestes em torno da cabeça e pés dele, emaranhando sua Essa/diferença nos leva a especular se a estranheza e a
cauda nas asas adejantes daquele pássaro. Ou, como tan- t:8pulsividade de suas simbolizações e paradoxos não se-
tas vezes a hera faz abraçando o grande tronco das árvo- riam ainda um.outro modo histórico de expressão de um
res ou como o pólipo do mar que mantém seu inimigo 8;tquétipo que foi reprimido pelo cristianismo. A aparên-
ap;isionado no fundo do oceano com tentáculos que o cer- ci.adas imagens, dos símbolos e paradoxos e das fantasias
cam por todos os lados. O filho de Atlas resiste o ~ais. que
pode e nega à ninfa a alegria que ela tanto anseIa VIVer; em.· t!lEuQ.d!:LHermafrodita são, dentro da abord/lgem
mas ela se firma contra ele e tanto que até parece que jynm!im!a.G.lá§sk/l,O.que poderíamos chamar de conteú-
cresceram grudados. "Pode se esforçar o quanto quiser, QjJ,§,ÍncQn!3ClentJlS, .de.elementos muito. alheio.s às exigên-
menino malvado" ela grita, "mesmo assim você não vai ~a_.diuu~nf'iªQ.Con!3cie:pte da vida diária. Quando es-
6
escapar de mim. deuses, concedei-me isto: que não exis- §§t§?2elementQê irrornpem na psicoteI'apia,precü~am ser
ta dia por vir que possa separar-me dele, ou ele de mim".
Os deuses atenderam sua prece. Pois os dois corpos, uni-
dos como estavam, foram fundidos num só, com um só 39 Ovídio, Metamorphoses, trad. F.J. Miller, Loeb Library, Heinemann,
rosto e uma só forma para os ambos. Assim como se en- L"órldres, 1916, Livro IV, pp. 199-205.

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contidos porque a estranheza que manifestam, em ~i~tu­ Hermafrodita mais acessível através das imagens pagãs,
de do teor de sua inconsciência, tende a desestabIlIzar que nos oferece uma visão hermafrodita mais pura do
tallto o analista como o paciente. Conforme veremos num que a conflitiva imagem medieval simbólica. A poesia e a
próximo capítulo, esses conteúdos pertencem a uma psi- arte de Ovídio oferecem aquilo que poderiamos chamar
cologia distanciada da formação acadêmica em psiquia- de uma imagem "possível" de ser apreendida pelo analis-
tria e psicoterapia, cujos treinamentos reduzem esses ele- ta (Ilustração 4). Ele pode tornar sua essa imagem clás-
mentos psicológicos conflitivos a categorias nosológicas, sica e, com isso, ser capaz de conter todo o impossível,
eliminando dessa maneira a possibilidade do movimento grotesco, repulsivo e tresloucado na imaginação da apa-
psíquico contido na imagética do Hermafrodita, com sua rência de um Hermafrodita com uma versão clássica que
consciência própria. pode servir de guia e proteção em meio a toda a confusão
Sempre é um desafio conter e refletir a imaginação do estranho aparecimento do Hermafrodita na psico-
do Hermafrodita por causa de sua dupla duplicidade. Por terapia.
um lado é bissexual, com uma patologia obscura, e, por A complexidade da imagem de Ovídio nos dá muitos
outro, é um mobilizador psíquico. Quando o analista é con- elementos sobre os quais refletir. Depois de banhar-se
frontado com as complexidades do Hermafrodita, é-lhe nessa lagoa misteriosa com a ninfa Sálmacis, o belo jo-
essencial configurar uma consciência hermafrodita. Con- vem, que lembra Eros, dá-se conta de sua nova condição
tudo, existe uma outra abordagem para todas essas difi- (que dá significado a seu nome, Hermafroditus), sentin-
culdades, em especial se o psicoterapeuta estiver interes- do-se debilitado. Quando o Herm.afrQdita aparece na
sado em imagens e imaginação, e sentir que praticamente psicoterapia, vem acompanhado por uma sensação de
todo o seu atendimendo depende disso. Na versão de enfraquecimento, em oposição à ilusão da força das pola-
Ovídio para o Hermafrodita, o profissional tem uma ima- ridades masculinas e femininas, com o ingrediente "ma-
gem de imenso valor psicoterapêutico. chi§ta" de q!l~estão impregnadas. Para o analista é um
A aparência do Hermafrodita, desde o período medie- desafio perceber esse enfraquecimento. É um elemento
val, apresenta-nos uma imagem que transmite uma pa- difícil de ser detectaçlo em sua realidade, para que rece-
tologia repugnante, como já dissemos antes, e por isso ba seu devido valor. E muito fácil diagnosticá-lo pejorati-
poderíamos dizer que é uma imagem impossível (Ilustra- vamente como depressão, em cujo caso o analista vê-se
ção 3). Quando essa imagem impossível do Hermafrodita propenso a considerá-lo em seu lado negativo, mais do
surge num paciente, exibindo sua poderosa patologia para que como um movimento na direção de uma nova consciên-
o psicoterapeuta, ela pode alterar ou anular o equilíbrio cia. Essa condição de fraqueza é essencial para tornar
da atitude psicoterapêutica do analista, e ele acaba re- possível a condição hermafrodita limítrofe, que demarca
jeitando a imagem impossível ou reduzindo-a a um enqua- o movimento psicoterapêutico da velha dimensão conscien-
dramento psiquiátrico. Portanto, quero chamar a aten- te para uma consciência mais psicológica. Desnecessário
ção do leitor em particular para a graciosa beleza da dizer que as exigências da sociedade e do ambiente do
poética de Ovídio, porque ela nos proporciona uma ima- indivíduo, as quais não permitem fraquezas, podem so-
gem verdadeiramente funcional para a psicoterapia, um mar-se às dificuldades tanto do paciente como do analis-

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ta em sua tarefa de avaliação da nova organização transferenciais. Segundo a perspectiva alquímica, cada
hermafrodita da consciência. A psicoterapia afiliada à deus ou deusa tem seu próprio metal, água, fogo etc. Por-
consciência coletiva é mais propensa a cobrar uma reali- tanto, dentro de uma visão arquetípica, algumas confu-
zação de vida praticamente em oposição à fraqueza. Até sões de transferência/contratransferência poderiam ser
na psicologiajunguiana, a batalha é pela força, pelo en- vistas como uma situação em que o analista reage ao pa-
frentar, tomar decisões, ser responsável, efetuar l,lm tra- ciente a partir de um arquétipo que não está analitica-
balho criativo consistente etc. Não obstante, o componente mente constelado; o arquétipo constelado no paciente é
da fraqueza na imagem clássica do Hermafrodita nos in- diferente. Assim, confrontando o paciente com um mode-
troduz no cerne mesmo da percepção da transferência lo ao qual ele é incapaz de corresponder naquele momen-
regida por Hermes/Hermafrodita: sua realização é a de- to, a confusão está criada e não só isso como também mais
bilitação. dependência transferencial em relação ao analista. Nada
Além disso, os estudos-padrão da psicologia jun- está relacionado longe de Hermes, que é o vinculador, nem
guiana têm pouco ou nada a ver com a fraqueza obtida do Hermafrodita, que contém a possibilidade de se atin-
por um Hermafrodita na lagoa. O treinando em análise gir um novo campo de consciência. Não existe conexão
junguiana deve analisar-se tanto com um homem como simétrica entre analista e paciente, e nem um vínculo
com uma mulher, e existe a tendência a mudar de analis- apropriado é feito com o arquétipo constelado no paciente.
ta quando a análise parece que não está mais "funcio- N a qualidade de entidade bissexual, o Hermafrodita,
nando". Surpreendentemente, essa troca nunca foi dis- com sua natureza limítrofe hermética em quem a sexua-
cutida, até agora, do ponto de vista de seu poder de abalar lidade e a fantasia se encontram, é um mobilizador psí-
e até mesmo fragmentar uma imagem arquetípica, ou pelo quico constantemente assinalando o relacionamento
menos de impedir o aparecimento do Hermafrodita, que, transferencial que temos com os nossos complexos e a
em si, contém tanto o masculino quanto o feminino, as- nossa patologia. Isto não é simplesmente uma transfe-
sim como aquilo que "funciona" e o que "não funciona". rência terapêutica curativa, e sim mais viver toda uma
Estou perfeitamente ciente de que a "realização" do Her- existência em termos do movimento transferenciaL Nos-
mafrodita na lagoa, o pré-requisito da organização sa memória, nossos relacionamentos com os outros, nos-
hermafrodítica da consciência, é difícil de ser aceita pela sa visão de mundo, e de nós mesmos, metamorfoseia-se
psicologia e de encontrar um lugar próprio no campo da em vida. Em termos explícitos, viver a vida é mais im-
psicoterapia. Ap:;;iç91ºgiª"~j1!ng]!iªIlª", <lªlnesIlla forma portante do que a ilusão de uma realização concreta
çomooutras atividadEl:;;dª vülª, _ElffiPrElsta à fraqueza a alcançada através de uma psicoterapia.
habitual conotação depJ;ElcÍatória. Se o movimento na vida é o que realmente se obtém
Este pode ser o lugar onde se abordar a assim-cha- da psicoterapia, então o movimento que o analista impri-
mada transferência/contratransferência. Quanto ao nos- me à sua própria vida é fundamental para que ele venha
so estudo dos arquétipos, temos de ter em mente que to- a ter condições de constelar no outro um movimento em
dos os diferentes deuses, em suas variadas psicologias e sua vida; seu movimento transferencial em relação aos
configurações arquetípicas, têm suas próprias maneiras próprios complexos é a substância que produz a psico-

50 51
terapia, e não uma técnica fixa ou uma noção preconcebi- cedida a Hermafrodita, que nossa organização herma-
da. Encontramos uma nova persp~ctiva segundo a qual frodítica de consciência, com todas as suas peculiarida-
entender o termo "transferência". E movimento na vida. des limítrofes, penumbrosas e debilidades - que jamais
E aqui chegamos àquelas questões que os analistas da é a assim chamada consciência de ego, mas o dinamismo
minha geração se fazem: a minha própria análise está que nos mantém indo hermeticamente adiante pelas es-
concluída? Será que eu tenho energia para entrar numa tradas da vida - é constantemente recriada por nossos
nova análise agora que estou mais velho? O meu relacio- anseios e rejeições.
namento com a minha mulher, os encontros com os cole-
gas e amigos, são para discutir o nosso movimento psí-
quico suficientemente? Agora, sendo mais preciso e
prático: depois de alguns anos, estou clinicando desta for-
ma, mas como estarei clinicando no futuro? Nessa medi-
da, está sempre presente a questão de como a vida deve-
rá ser vivida amanhã, de como nossos atendimentos hoje
serão diferentes dos de ontem.
Por fim, leiamos novamente a imagem clássica do
Hermafrodita no Metamorfoses de Ovídio. Filho de Her-
mes e Afrodite, o Hermafrodita é muito belo e lembra
Eros; ingressa em nosso mundo e encontra u}Ila determi-
nada ninfa, que não pertence ao séquito de Artemis nem
se interessa por caçar, mas que gosta de pentear seus
cabelos e olhar para seu reflexo no espelho das águas da
lagoa à qual ela pertence. Seu repentino desejo assim que
vê o jovem (fantasia), e a timidez e recusa deste em rela-
ção a tal desejo, aquela brincadeira da natureza entre o
anseio e a rejeição deste anseio até que se dê o "aconteci-
mento" durante o banho na lagoa, oferece-nos uma linda
imagem a partir da qual refletirmos sobre uma constân-
cia da psique humana. Eis aí uma boa imagem para a
psicoterapia que reverte para a vida. Esse anseio e repú-
dio arquetípicos podem ser vistos como o dinamismo que
faz a psique e a vida se mover. Talvez seja essa pendulação
que insufla a transferência, permitindo-nos vê-la em ter-
mos de um constante movimento de nossa vida psicológi-
ca. Diz-nos a imagem, na prece da ninfa e na dádiva con-

52 53
casa fulgurante, os tripés que se espalhavam por toda
2 parte dentro dela, e os caldeirões abundantes.
O HINO HOMÉRICO A HERMES As implicações desse primeiro ato de Hermes pare-
cem ter passado virtualmente despercebidas pela psicolo-
gia e, claro, pouca presença têm na psicoterapia. A primei-
ra conduta de Hermes, quanto ao que hoje em dia se
expressa em terminologia técnica corno os complexos ma-
terno e paterno, foi simplesmente fazer urna linda cone-
xão com seu pai e sua mãe. Todos sabemos corno a
psicoterapia tem principalmente mantido sua atenção fo-
calizada na situação parental e, em virtude desse enfoque,
Desde o seu primeiro dia de nascido numa gruta da Hermes desapareceu da psicoterapia. Mas a primeira coi-
Arcádia, e desde seus primeiros atos, tal corno estão re- sa que ele fez foi cantar seu pai e sua mãe. Naquele pri-
gistrados no "Hino homérico a Hermes", ternos da natu- meiro momento, ele imediatamente estabeleceu com eles
reza de Hermes urna imagem que revela as característi- um vínculo adequado, eliminando de urna vez por todas as
cas essenciais desse deus tão esquivo. O Hino conta que, especulações em torno de ligações positivas e negativas,
ao meio-dia do dia em que nasceu, " ... ao pisar além do de complexos paterno e materno, de vergonha perante a
umbral da ampla caverna de teto alto, encontrou um cá- sexualidade dos pais, de culpa por ter sido fruto do amor.
gado bem ali e ficou completamente encantado. Pois foi Discutimos até aqui vários aspectos de Hermes e a
Hermes quem pela primeira vez tornou o cágado um can- importância dos mesmos para a psicologia. Agora, estamos
tor".1 O Hino conta em seguida corno, depois de ter mata- lidando mais com as imagens deste deus, e esta imagem
do o animal, ele engenhosamente criou urna lira do seu em especial oferece algo de importância decisiva para o
casco. Bem, isto não teria muita importância para o estu- nosso estudo, que consiste em distinguir o histórico de
do da psicologia, se a história não nos dissesse que, com caso óbvio (pai/mãe) de corno o estamos estudando aqui.
essa lira, Hermes entoou por assim dizer a primeira de A canção de Hermes em louvor aos pais nos diz que
todas as canções: aquilo que é "óbvio" não lhe diz respeito, quer dizer, a
Ao toque de sua mão, ela soou maravilhosamente; e, ao parte pai-mãe da história de cada um. Poderia ser dito
dedilhá-la, o deus cantou doces árias improvisadas, do que é óbvio que ele vem de urna difícil situação paren-
modo como os jovens fazem com seus bandos nos festi- tal. Contudo, Hermes aceita seus pais do modo corno
vais. Ele cantou sobre Zeus, o filho de Cronos, e Maia, a eles são e não deixa que eles o tornem mais neurótico
bem-calçada, e a conversa que tiveram antes, no aconche-
go do amor, contando toda a gloriosa saga de sua própria do que ele é.
concepção. Ele também celebrou as criadas da ninfa e sua Também são óbvias as questões herdadas do históri-
co médico de caso as quais, sem exceção, os psicólogos
1 Todas as citações extraídas do "Hino homérico a Hermes" pertencem a
fazem ao paciente: e quanto ao seu pai e sua mãe? Corno
Hesiod: The Homeric Hymns and Homerica, trad. Hugh G. Evelyn-White, Loeb
Classical Library, Heinemann, 1914, p. 365 ss. se sente a respeito deles? Depois dessa espécie de per-

54 55
guntas, aparecem os diagnósticos - ainda mais apavo- Não obstante, no dia em que nasceu, Hermes cantou
rantes a Hermes - que vão desde uma "profunda" ques- com alegria sobre os pais e, ao mesmo tempo, dentro de
tão edipiana até concepções intermináveis, cômodas e um estilo verdadeiramente hermético, quer dizer, um tan-
superficiais de complexos materno ou paterno "positivos" to zombeteiro. Para mim, essa imagem poderia ser a pe-
ou "negativos". Na maioria absoluta dos casos, a aborda- dra angular da psicologia, porque significa a oportunida-
gem psicoterapêutica desses históricos de caso consistiu de de retificar o desnecessário abuso de se ver o complexo
em exagerar em sua importância, em vez de considerá- paterno/materno como a metáfora "escolhida" para ex-
los apenas como ponto de referência e deflacionar a im- pressar a "neurose". Esse ponto de vista, tão exagerado,
portância inconsciente atribuída às deidades pa- e nas raízes da psicologia do século XX, procede de outros
rentais. 2 O histórico de caso pode ajudar-nos a ficar a par arquétipos4 e dajm.ªg~tiC:llcleHerrnes, o vinculador, aque-
da história daquela pessoa, de seus componentes e com- le que pode realizar seu próprio vínculo com a realidade
plexos, e pode ser um referencial proveitoso. Mas ~eu valor psíquica, histórica, parental (o complexo).
maior para a psicoterapia está em qlle nos permite de- Depois que Hermes entoa o primeiro de todos os
tectar no paciente, cOlllaori~ntação de Hermes, aqueles cânticos, o Hino continua:
elelll~lltOêqlJ~Pertençem mais.à sua. natureza. e que não Mas, enquanto ele cantava tudo isso, seu coração se ocu-
mudam, 3 em contraposiçá() ao possível movimento psico- pava de outras coisas. E ele tomou a lira oca e a deitou em
lÓg!<:O .clªq1!el~ judiV1dlJo, seu berço sagrado e, saltando daquele salão de doces aro-
Se pensamos em termos de histórico de caso, estamos mas para um posto de vigia, alimentava travessas inten-
vendo a situação parental, na melhor das hipóteses, do ções em seu coração - de fazer aquelas coisas que os pa-
tifes realizam na calada da noite, pois ele ansiava por
ponto de vista de um outro arquétipo, mas não segundo a provar da carne.
perspectiva de Hermes. Em vez de fazer todo aquele alar-
de psicológico em sua primeira "passada", ou, poder-se-ia Essa parte da lenda, que fala da malícia de Hermes e
dizer, em sua primeira sessão analítica, Hermes cantou de seu desejo de comer carne, começa a aprofundar nossa
alegremente ao pai e à mãe. Cantou por eles, apesar do percepção da psicologia hermética. À primeira visão do
fato de que, segundo uma análise do "histórico" de sua mundo além de sua caverna, o cenário que se lhe descortina
família, temos um pai relativamente neurótico, apesar a partir de sua posição de vigia, é talvez um espelho a
de regente do Olimpo. De sua mãe, Maia, também pode- refletir sua natureza ardilosa. Essa imagem parece fazer
se dizer que teve uma história de vida confusa. Seu pai a ligação entre sua natureza maliciosa e seu anseio de co-
era Atlas, e sabemos um pouco da inflação, da neurose e mer carne, e é aqui que está o foco de meu interesse e
da depressão daquele Titã que tem a fantasia de carre- preocupação. De _t~r.percebido sua natureza astuciosaveio
gar o mundo inteiro nos ombros. 13eu desejo de saborear;a~ne~ como se esses dois el~IIlen­
!o§tiveêsem um vínculo profundo e primordilll. O mito
2 Para uma reflexão sobre um histórico de caso, ver o ensaio de James
Hillman "The Fiction ofCase History: A Round", in Religion as Story, Harper
& Row, Nova York, 1975. 4 Hefesto seria um exemplo arquetípico de ressentimento contra os pais; cf.
3 Ver Capítulo IV, nota de rodapé 18. Homero, A Odisséia, trad. E.V. Rieu, Penguin, Harmondswroth, 1946, p. 130.

56 57
aponta para um passado que está nas origens da human~­ prima em termos do estudo da teoria dos complexos de
dade um passado de interesse essencial para o conhecI- Jung, e tem uma decidida validade para que os estudos
mento moderno, que tem dedicado muita atenção à busca em psicologia as assimilem. Podemos sentir como ele tam-
d~ alimento e ao abate de animais valendo-se da invenção bém está completamente envolvido por esses complexos,
humana da lança de madeira endurecida ao fogo. Além da e que qualquer tentativa no sentido de um distanciamento
fala é isso que diferencia o homem dos outros animais: em fatalmente redunda numa redução.
ter~os antropológicos, o homem é o animal que mata ou- No "Hino homérico a Hermes", existe uma evocação
tros animais com armas, desequilibrando dessa maneira da noite escura dos tempos do passado humano. O conhe-
a ecologia da vida na terra. O tratamento desses comple- cimento entende que a base da cultura, isto é, o ritual
xos mitológicos por estudiosos como C. S. Kirk e W. Burkert, religioso e o pensamento mitológico, são produtos da pro-
em cujos trabalhos baseio as minhas reflexões, permi~e­ cura do alimento. Eu diria que matar animais usando
nos sentir a ligação peculiar dos gregos com esse conflIto armas, o ritual religioso e o pensamento mitológico, jun-
básico que está na raiz mesma da cultura. 5 Bem, de acor- tos, compõem um complexo básico e conflitante na hu-
do com o Hino, é Hermes quem, com suas graciosas arti- manidade. É notável como o "Hino homérico a Hermes",
manhas, consegue vincular-se com esses escuros comple- produto de uma poética mitológica campesina (a Escola
xos. Quero agora citar uma passagem extraída de Burkert, da Beócia), tem uma intuição da "noite escura" e a apre-
que leva a uma reflexão da viva concretude que esses com- senta com uma graça e um humor que não têm paralelos
plexos básicos têm para a humanidade: em outros mitos desse tipo, tornando mais fácil alcançar
A perspectiva histórica, porém, embora preserve a e~cita­ o leitor moderno em geral e, dessa maneira, mostrando-
ção do enredo, traz até nós uma mensagem a respel~o da se mais adequado para o estudo e as reflexões modernas.
situação da humanidade que não é inteiramente antlqua- Em nosso trabalho psicoterapêutico, estamos acos-
da. Resgatado mais de uma vez de um beco-sem,-s.aída "pelo
uso da tecnologia violenta, o homem tem sobreVIVIdo trI~n­ tumados a ver o que possivelmente tem uma conexão com
falmente mas continua correndo perigo pela ameaça Im- esses complexos: a patologia no nível do instinto da fome
plícita em ter violado a matéria. A antítese entre nature- - desde a obesidade até a anorexia nervosa, passando
za e cultura é mais do que um jogo lógico: pode ser fata1. 6 por casos que vão de moderados a muito graves e des-
trutivos. Esses casos desafiam e sobrecarregam a imagina-
O parágrafo de Burkert alertando para o perigo que
corre a sobrevivência da humanidade é deveras arrepian- ção do analista, deixando-o impotente diante de tais pa-
te. 7 Para mim, suas penetrantes observações são uma obra-
pria destruição. Meu artigo "Moon Madness - Titanic Love" in 1m ages af the
5G.S. Kirk, Myth: lts Meaning and Functions in Ancient and Other Cultures, Untauched (Spring, Dallas, 1982) apresentou o excesso como um componente
Cambridge University Press, Cambridge, ~970! Walter l?urk~rt, Structure and titânico na natureza humana. Estamos vivendo numa época de excessos cada
History in Greek Mythology and Ritual, U mverslty of Califorma Press, Berkeley, vez maiores, algo incapaz de refletir de volta. A advertência de Burkert pode
1979. ser tomada como complementar à de Jung: este referiu-se ao excesso no pre-
6 Walter Burkert Structure and Histary in Greek Mythalagy and Ritual, p. 34. sente pensando no futuro, e Burkert assinala a presença contínua dos comple-
7 Jung advertiu 'quanto à fatalidade de um event~a~ excesso po~ulacion~l xos mais antigos (a escuridão noturna) na humanidade, os quais encontram-
do mundo, preocupação baseada no excesso de procl'laçao, levando a sua pro- se na própria base dos conflitos entre a natureza e a cultura.

58 59
tologias, pois, em vez de uma regulação instintiva e carne, como se esses complexos arcaicos e conflitivos es-
arquetípica da sobrevivência, existe a loucura. Quero in- tivessem assim ganhando expressão. Quando refletimos
troduzir aqui uma rápida comparação: na psicose e na sobre as pessoas que não comem carne, a exclusão desse
esquizofrenia, somos às vezes capazes de detectar um alimento sugere uma exclusão de Hermes em sua psique
arquétipo, mesmo que desregulado ou fragmentado, mas e, claro, de seu atributo como vinculador psicológico. A
no caso da anorexia nervosa eu, pelo menos, sou incapaz patologia desses indivíduos revela uma distorção no, ou
de me valer dessa noção. Para termos alguma idéia do falta de relacionamento com a flexibilidade e a versatili-
que está se passando na natureza desses casos, precisa- dade desse arquétipo (lacuna)~O estudante de psicologia
mos usar uma abordagem mítica, como a de Walter Bur- que teve a oportunidade de observar casos desse tipo terá
kert, ou uma imaginativa, como a do psicossomatólogo constatado outros fatores no quadro patológico:tuma fan-
Alfred Ziegler. Este último autor concebe que a anorexia tasia de pureza e assepsia, rigidez, sensação de~uperio­
nervosa é um movimento ascendente, que começou no ridade, projeção indutora de culpa nos que comem carne,
Paleolítico, época em que, de acordo com demonstrações falta de consciência de qualquer traço de crueldade e
obtidas pelos achados arqueológicos, as deusas que eram destrutividade em si mesmos.tA imagem da necessidade
adoradas eram figuras que serviam como modelos de obe- de Hermes de comer carne sugere que, quando as ima-
sidade. 8 Se Ziegler atiça a nossa imaginação com sua no- gens arquetípicas que podem nos vincular com um comer
ção de um movimento ascendente ascético, também per- instintivo estão ausentes, então comer torna-se um siste-
mite-nos conceber determinados casos de obesidade em ma, paranóico se quiser. Mas devemos igualmente estar
termos de uma natureza que contém alguns elementos cientes de que esse tipo de sistema paranóico poderia ser
estacionados no nível de um complexo paleolítico, e esses visto como uma tentativa, por parte da natureza, de "con-
corpos têm um formato semelhante ao das deusas cuja ter" uma patologia mais profunda, e aqui estamos diante
imagem Ziegler observou tão bem: de uma perspectiva que tentapenetrar mais profunda-
Sua aparência, ou melhor, o formato dessa mãe primaI ou mente nessas complexidades. me qualquer modo, quan-
dessas figuras cúlticas femininas primordiais costuma do essa síndrome ocorre, temos a impressão de existir
beirar o grotesco: o tronco é extremamente amplo e corpu- uma lacuna onde Hermes e suas traquinagens deveriam
lento, e a parte posterior projeta-se em nádegas imensa- estar ocupando um lugar psíquico]
mente gordas (esteatopigia). Essas figuras parecem sina- O Hino vai em frente e descr~~e como Hermes reali-
lizar uma posição de reverência conferida ao comer e ao
que é material em geral, incluindo as posses. 9
zou o primeiro passo para satisfazer seu desejo de comer
carne usando de astúcia:
Voltando ao Hino, as reflexões acima também pode- O Sol estava descendo para baixo da terra, na direção do
riam se aplicar à repetida impressão de que existe uma Oceano, com seus cavalos e carruagem, quando Hermes
forte faceta patológica na fobia ou na rejeição do comer veio correndo até as sombrias montanhas de Pieria onde
o gado divino dos deuses abençoados ficava guardado e
pastava na macia e selvagem campina. Destas reses o
8 Alfred Ziegler, Archetypal Medicine CSpring, Dallas, 1983, p. 101. filho de Maia, arguto matador de Argos, apartou então
9 Ibid., p. 101. cinqüenta cabeças que mugiam em alto e bom som e as

60 61
tangeu transversalmente por um local arenoso, reviran- laços fraternos. É preciso que se esteja psicologicamen-
do suas patas para o lado. Além disso, valendo-se de um te muito perto para que seja viável o roubo psicológi-
hábil estratagema, inverteu as marcas de seus cascos,
CO,10 para que uma psique furte a outra.
fazendo com que os da frente fossem para trás e os de
trás para frente, ao mesmo tempo em que ele passou a Estaremos furtando das imagens do "Hino homérico"
andar do outro lado. Então teceu sândalo com vime, ali os conteúdos que precisamos para perceber Hermes em
na areia do mar, e criou coisas lindas, impensadas, uma psique, furtando de uma outra. Ou, dito de outro
inimagináveis, pois mesclava e juntava tamarisco com modo: IHermes em nós está lendo o Hino, senão nós o es-
ramos de murta, formando grandes braçadas de feixes
taríamos fazendo do ponto de vista do assim-chamado
dessa madeira jovem, e depois de amarrá-los, com folhas
e tudo, embaixo dos pés, fez com que lhe servissem de ego (e tirando dele lições de moral a respeito da sombra
sandálias. etc.), ou a partir de um outro arquétipo, em cujo caso po-
deríamos lê-lo como um absurdo total, uma peça de lite-
Assim é que, no mesmo dia em que nasceu, aparece ratura naive, ou como uma curiosidade para estudos his-
como um ladrão muito esperto capaz de efetuar um dos tóricos.J
primeiros tipos de roubo - o furto de cabeças de gado. A imagem de Hermes roubando gado e o modo como
Existem muitas histórias e baladas a respeito de roubo ele levou os animais fez com que minha imaginação vin-
de gado, o que nos oferece a sensação primordial da auro- culasse esse movimento ao furto psicológico. Ao direcionar
ra da cultura e da literatura. Provavelmente, essa histó- aquelas reses,IHermes estimulou um movimento
ria nos está relatando a habilidade que o homem tem para retrogressivo) habilmente realizado por meio das sandá-
deslocar o gado. Pela paleontologia sabemos que sua ha- lias e da inversão das pegadas do gadoJnum movimento
bilidade em cercar animais para então abatê-los foi de- que vai em certa direção mas parece que vai em outnCi
senvolvida muito cedo. Meu interesse consiste em tradu- Gostaria de convidar-nos a imaginar esse movimentá'
zir para a psicologia essa atividade do homem no alvorecer peculiar como a imagem a partir da qual abordar o furto
da cultura e, como uma questão particular, o furto psico- psicológico, uma suposição que é muito difícil de ser pos-
lógico, pois são ambas atividades respaldadas pelo mes- ta em palavras. O furto psicológico pertence às artima-
mo deus, Hermes. nhas da psique hermética, e trata-se de um furto de im-
A partir da historicidade da literatura mítica pode- portância básica para a psicoterapia.
mos perceber a elegância de uma imaginação que apre-
senta um deus por trás do ato de furtar. Podemos locali- 10 Gostaria que o leitor colaborasse comigo e visse o furto psicológico como

zar a presença dessa mesma força primordial como um processo diferente do do furto concreto, embora ambos ocorram dentro da
mesma metáfora e imagética. Os motivos dos furtos, ataques mafiosos, se-
dinamismo que está por trás de nosso próprio furtar psi- qüestros, os batedores de carteira etc., aparecem freqüentemente em sonhos e
cológico. A imagem desse primeiro roubo, que aliás foi podem significar ou um conteúdo reprimido no paciente que, em algum mo-
mento, foi concretamente furtado, ou pode ser um primeiro aparecimento de
cometido contra o próprio irmão de Hermes, Apolo, per- Hermes como o ladrão psicológico, e até mesmo as duas coisas. Nem o
mite-nos conjecturar que o roubo psicológico é invaria- plagiarismo, as paródias, ou a obscura patologia da cleptomania têm ligação
com o furto psicológico ao qual estou me referindo, embora possam pertencer a
velmente cometido contra alguém que nos é ou está pró- um aspecto desta atividade arquetípicil de Hermes. Sobre a cleptomania com
ximo: nesse conto, o furto acontece dentro do âmbito dos relação a Hermes, ver Murray Stein, Midlife, Spring Publications, Dallas, 1983.

62 63
Minhas reflexões a respeito do furto de Hermes fo- que o modo corno as sandálias apareceram mais tarde na
ram desencadeadas pela importância que Giulio Camillo iconografia de Hermes/Mercúrio, na qual vieram a signi-
dá às sandálias de Mercúrio, que ele transformou em urna ficar mais Hermes corno mensageiro dos deuses e senhor
das Categorias de seu Teatro da Memória. 11 Camillo diz do comércio. O Hino realiza essa conexão básica entre as
que a Categoria "As sandálias de Mercúrio" representa sandálias e o furtar, da mesma forma corno Giulio Camillo
as atividades naturais do homem - o que o homem faz fez em seu Teatro da Memória, em que ele colocou as "ati-
por natureza. Ora, o que Hermes faz com suas sandálias vidades naturais" do homem na Categoria "As sandálias
é roubar o gado de seu irmão Apolo. Foi com base nisso de Mercúrio". Para mim, é concebível que o furtar psico-
que minhas idéias desenvolveram-se até formular o con- lógico seja urna atividade natural: roubar de si mesmo e
ceito de que o furto psicológico é urna atividade natural e de urna outra psique.
básica de Hermes na psique. Essa imagem transmite, pelo É aqui que podemos conceber a psicoterapia corno
modo corno ele usa as sandálias, de que maneira essa ofício que cabe no âmbito das atividades naturais do ho-
atividade psíquica ocorre.lEle estimula um movimento mem, e não só corno urna superestrutura de teorias, con-
para trás. Psicologicamente, podemos vincular essa ima- ceitos e técnicas.jiQuero discutir a. qui corno a atividade (.
gem com a concepçl\o de Jung quanto ao movimento re- natural de furtar, dentro de um movimento retrogressivo, I

trogressivo da libid04 Contudo, quero manter urna distin- pertence à transferência analítica:,\ Urna grande parte da .
ção ou linha-limite~entre o movimento retrogressivo da análise está baseada nas possibilidades herméticas que {d
libido e a regressão, mesmo que esse movimento retro- o analisando tem de furtar do analista, e vice-versa. Es-
gressivo possa ser vist,9 corno semelhante ao conceito psi- tivemos vinculando esse furto hermético a um movimen-
cológico de regressão~ Poderíamos dizer que se trata da to retrogressivo da libido, que Jung percebeu corno o pro-
necessária regressão até a memória (pessoal e arque- cesso que abre caminho rumo ao desenvolvimento
típica) que propicia o furto psicológico e traz consigo no- psíquico.
vos insightsa dfiUma análise movimenta-se de acordo com o potencial
Ternos de ter em mente os dois lados do furto psico- do analista para ser objeto de furto. Corria sobre Jung a
lógico. Existe o que tornamos do outro, por exemplo, du- história de que ele teria dito que um analista pode aju-
rante urna proveitosa discussão na qual nos apossamos dar seu paciente só até onde ele mesmo chegou, e nem
das idéias do nosso interlocutor. E existe o que Hermes um passo além. ITendo em vista os objetivos desta nossa
rouba de nós, dos complexos e arquétipos que são tocados discussão, a declaração de Jung pode ser parafraseada
em nossa regressão. Conforme está descrito no Hino, a da seguinte maneira: pode-se ir com um paciente somen-
criação primordial de Hermes - suas sandálias - está te enquanto se tem algo que possa ser roubado. Para que
intimamente conectada com o roubar. O modo corno as haja um constante furtar dentro da transferência analí-
confeccionou e usou dá-nos mais visão desse atributo do tica, o analista precisa ter em si bastante que possa ser
roubado, e a parte Hermes de sua alma deve aceitar o
11 Frances A. Yates, The Art of MemO/y, RoutIedge & Kegan Paul, 1966,
furto hermético e sua movimentação implícita: o movi-
cap. 6. mento retrogressivo. O favorecimento do movimento

64 65
retrogressivo promove uma retomada da ligação com os do às atividades naturais do homem em psicoterapia. Essa
~maisdiferentes complexos, com as mais diferentes par- imagem é dotada de um intenso poder de mobilização em
tes da história e da memória da pessoa. O conceito do sua expressão e, sem dúvida, pode oferecer ao homem -
analista como uma tela sobre a qual o paciente projeta de ontem, hoje e amanhã - a conscientização. Damo-nos
seus conteúdos psíquicos, ou o inconsciente, não se coa- conta, a partir do contexto do Hino, que um ladrão, um
duna com o modelo hermético, pelo menos não de acordo mestre gatuno, acendeu o fogo primordial e continua fa-
com o que entendo e percebo como sendo relativo a zendo-o enquanto o homem habitar a superfície da terra.
Hermes. A imagem do furtar, centrada na Categoria "As san-
Hermes chegou ao estábulo, na colina, com seu gado dálias de Mercúrio" do teatro de Camillo, e a imagem do
roubado: que acende o fogo - ambas atividades naturais do ho-
Então, depois de ter alimentado adequadamente o gado mem - contrastam com a Categoria Prometeu. 12 Esta é
que mugia forte, dando-lhe forragem e tendo-o conduzido a Categoria de um outro ladrão, um ladrão do fogo; mas,
para o estábulo ... ele juntou uma pilha de madeira e co- neste caso, ele se identifica com seu roubo e entra na in-
meçou a buscar a arte do fogo. Escolheu um ramo esguio e flação de roubar "para o bem da humanidade", como
firme de louro e desbastou-o com a faca ... segurando-o fir-
memente em sua mão: e a fumaça quente subiu no ar.
Ésquilo faz Prometeu dizer em sua tragédia. Uma psico-
Pois foi Hermes quem primeiro inventou os gravetos que terapia arquetipicamente orientada, mais vinculada com
incandescem e o fogo. A seguir, pegou vários gravetos se- as fontes da vida, precisa ter condições de diferenciar cla-
cos e os empilhou num monte bem compacto, preenchen- ramente entre essas duas formasdefurta,r.
do um sulco cavado: a chama começou a brilhar, e logo Usando outras palavras pã~a ~:Ú~;~';~esma coisa:
abriu e se espalhou, num estrépito de fogo queimando sol-
to. E enquanto a força do glorioso Hefesto estava come-
a psicoterapia mais natural e hermética sempre se con-
çando a atiçar o fogo, ele arrastou duas vacas de chifre, fronta com a historicidade prometeica, o que conduz a
que vieram mugindo, e as trouxe para junto do fogo, pois um conflito inevitável. Assim como acontece hoje, em
havia nele uma grande força. Ele arrojou ambas ao solo, outras esferas da vida, a psicoterapia vive o conflito en-
arfando sobre suas costas, e rolou-as de lado, e dobrando tre uma consciência hermética e um "conhecimento
o pescoço dos animais perfurou sua artéria vital. Depois prometeico" .13 As muitas novas descobertas que a
foi de tarefa em tarefa: primeiro cortou a generosa carne
com gordura, e a atravessou com varetas de madeira, e psicoterapia emprega, para o "bem" do paciente men-
tostou a carne e o venerável lombo e o abdome, cheio de talmente enfermo - novas técnicas, insulina, eletro-
sangue escuro, todas as partes juntas. Colocou as partes choque, a pílula mais recente - ou conflitam com a
no chão, e espalhou as entranhas sobre uma rocha rugo- psicoterapia natural de Hermes, ou podem encorajar um
sa: e agora lá estão elas, após muitas e muitas eras, após eixo referencial, um vaso, para um outro aparecimento
um tempo extensamente longo, depois de todos estes acon-
tecimentos, e ali permanecem continuamente. de Hermes na psicoterapia.

Gostaria de acrescentar essa imagem de Hermes, 12 Ibid., p. 146.


13 Paolo Rossi, Philosophy, Technology and the Arts in the Early Modem
como o homem primordial fazendo a fogueira, à linha de Era, trad. Salvador Attanasio, ed. Benjamin Nelson, Harper Torchbooks,
pensamento que viemos constituindo; estou me referin- Evanston, 1970, Apêndice III.

66 67
A última imagem deste trecho é muito bonita. O poe- embora ele a desejasse ardentemente. Ele porém colocou
ta toca o inefável, como se tivesse uma extraordinária de lado a gordura e toda a carne, no estábulo de teto alto,
erguendo aquela oferenda o mais alto possível, como sÍm-
consciência daquilo sobre o que está escrevendo, como se bolo de seu roubo juvenil.
já estivesse ciente da eternidade das imagens com as quais
está lidando. Ele transmite de que modo a imagem esta- A imagem do sacrifício de Hermes nos dá uma su-
rá na memória humana, pelo tempo afora. Ele estava gestão do que poderia ser chamado de as atividades reli-
escrevendo acerca da memória arquetípica da humani- giosas diárias do homem, em torno do sacrifício. O sacri-
dade, sobre a memória por trás de nossa memória de uma fício é um motivo religioso central, mas também tem uma
vida longamente vivida e, mais exatamente, sobre uma profunda inserção psicológica. Parece que a religião, em
memória condizente com os filhos de Hermes. termos do modo como Hermes faz seu sacrifício, está tão
O episódio seguinte, no Hino, descreve de que modo naturalmente internalizada que é difícil distinguir a li-
Hermes realiza uma coisa muito importante: o sacrifício. nha-limite onde fica demarcada a psiquização 15 de Her-
Essa passagem nos dá uma pista sobre o próprio ritual mes em relação ao que chamamos de religião. Talvez seu
do sacrifício. As características essenciais de um deus são sacrifício proporcione a energia para uma existência na-
demonstradas no modo como ele executa o sacrifício. O turalmente religiosa, para a existência de uma religião
objeto sacrifical para aquele deus é revestido pelo deus como atividade natural, para o "religare" do si com os
de um ritual de sacrificio. Os deuses e as deusas têm cada outros. Para mim, o sacrifício de Hermes em termos psi-
qual seus próprios rituais de sacrifício, e os sacrifícios cológicos desafia qualquer outro modelo. É o único
feitos a cada uma das divindades conotam suas variadas modelo que pode ser concebido em termos de uma total
características. 14 psiquização e internalização, ao promover a rotação (rota-
Nesta discussão do sacrifício de Hermes, irei nova- tio) da libido, o que mantém a economia psíquica viva e
mente introduzir Prometeu como sua contraparte. Pro- em movimento.
meteu também foi um sacrificador, e ele se oferece como Se pensamos nesse sacrifício em relação à psico-
baixo-relevo a partir do qual podemos refletir sobre o que terapia, essa imagem nos dá uma noção daquele sacrifí-
entendemos do sacrifício de Hermes. cio diário que Hermes em nós oferece constantemente a
Em seguida, o satisfeito Hermes arrastou as ricas carnes todos os deuses, inclusive a si mesmo, embora - e este é
que havia preparado e colocou-as sobre uma pedra lisa e o ponto - ele nunca se identifique com a oferenda
chata; dividindo-as em doze porções ao acaso, tornou cada sacrificial. ItJ1illsacrifícioconstante no qual cada um dos
uma delas inteiramente perfeita. O glorioso Hermes de- de'llS!'lª .s.e apossa de . . sua porção "inteiramente perfeita".
sejava a carne sacrifical, pois o suave sabor instigava-o, N a homenagem que Hermes presta aos deuses, temos
embora fosse um deus. Não obstante, seu orgulhoso cora-
ção não se entregou ao anseio de devorar a carne, muito uma imagem do que poderia estar na base da palavra
"tol~rância", de um modo como não se pode encontrar em

14 Picatrix, Das Ziel des Weisen von Pseudo-Magriti, trad. Helmut Ritter e
Martin Plessner, Warburg Institute, Londres, 1962, descreve os rituais de sa- 15 A idéia da psiquização vem de Jung, The Structure and Dynamics of the
crifício exigidos pelos diferentes planetas. Psyche, oe 8, § 234. '

68 69
nenhuma outra parte. Estou conferindo à palavra "tole- o homem faz movido pela necessidade e, eu acrescenta-
rância" tanto uma conotação comum quanto uma cono- ria, pela sobrevivência. Precisamos enxergar essamoti-
tação utópica. Contudo, meu interesse é introjetar seu vação para a sobrevivência como um processo sem liga-
conteúdo para imaginar a tolerância que a natureza de ção com as raízes instintivas da natureza. Como a história
Hermes oferece.
contemporânea nos revela de relance, o homem está cada
Durante a nossa discussão do furto, referi-me às vez mais alienado de sua natureza. Prometeu de modo
"Sandálias de Mercúrio", como uma Categoria do Teatro algum manifesta o lado sem dignidade e enfraquecido que
de Camillo que se contrapõe à Categoria "Prometeu". existe em Hermes; pelo contrário, ele quer governar o
Tanto Hermes como Prometeu são ladrões e os dois são mundo mas, em virtude da energia indiferenciada de sua
sacrificadores. Seus dois modelos entram em conflito no natureza titânica, essa motivação se torna somente uma
homem ocidental, sendo apreendidos somente se puder- ambição de poder. Ele demonstra tão-somente uma re-
mos diferenciar quem são os ladrões. pÇlrec~quesacrifí­ beldia desconfiada e arrogante que se volta contra for-
Çi9 e r()ubo estão inter:-relacionados .
mas arquetípicas de vida, formas aliás em relação às quais
.. --Aqu"Cprecisamos fazer uma distinção nítida entre é mestre no trabalho de localizar para sabotar ou des-
Hermes e Prometeu. De acordo com Jung, Hermes é o truir. Prometeu manifesta aquela falta de tolerância que
arquétipo do inconsciente. 16 Sabemos que uma de suas percebemos nas incontáveis maneiras de catequizar, tão
principais incumbências era agir como o mensageiro dos predominantes hoje em dia, e que tanto divergem da ati-
deuses, tarefa inconcebível sem a mais extrema tolerân- tude hermética.
cia. Prometeu não é um deus. É uma figura titânica (em- Hermes furta e depois sacrifica aos deuses tudo que
bora Esquilo o chamasse de deus). "Há muitas indicações furtou, ao passo que Prometeu sacrifica aos deuses e, .no
de que (o nome Titã) adquiriu a conotação de 'selvagem', cerne de seu sacrifício, ele ludibria e rouba. Se o sacrIfí-
,reb elde,'ou ta 'e mesmo ,perverso,, em oposIção
. aos olím- cio de Hermes parece ser o sacrifício religioso por exce-
piCOS ... "17 E o aspecto "desmedido" da natureza titânica
sob o disfarce do conhecimento e da tecnologia prometei~
.
lência, então o sacrifício de Prometeu éjustamente o opos-
to - é manifestamente anti-religioso. Podemos presumIr,
cas, tornou-se tão predominante na época histórica atual com base nisso, que a função anti-religiosa no homem é
que passou a ser um requisito básico para o analista cul- de caráter prometéico. Podemos aprender com essas duas
to saber como detectar em si e no paciente a dimensão imagens do sacrificador e do ladrão, e inclusive com a do
hum~na titânica, isenta de imagens, e como lidar com embusteiro, vinculando-nos com elas e dando-lhes vida
ela.18' Camillo viu Prometeu como o portador daquilo que dentro de nós. Hermes, o enganador mitológico, como ire-
mos ler adiante no Hino, é aquele que realiza o mais com-
16 OC 13, § 284. pleto e verdadeiramente generoso sacrifício.
17 Otto, The Homeric Gods, op.cit., p. 33.
18. Escrevi sobre a natureza titânica em "Moon Madness _ Titanic Love:
rindo-me a ele mas é importante estudar essa ameaça às formas de vida, que
Meetmg of ~athology and Poetry" in Images of the Untouched, (eds. Joanne força Hermes ~ compensar o desafio prometeico, ao aprofundar internamente
Stroud e Gal.l Thomas, Pegasus, Dallas, 1982), tema no qual ainda estou bas- sua natureza. Um estudo acadêmico cabal do desafio prometeico é o de E. R.
tante envolVIdo, com novos trabalhos em andamento. Aqui, estou apenas refe- Dodds, The Ancient Concept of Progl'ess, Clarendon Press, Oxford, 1973.

70
71
o sacrifício é um outro importante ponto de atenção é refletido numa seqüência de sacrifícios, experimenta-
na psicologiajunguiana. Em seu Tipos Psicológicos, 19 ele dos principalmente nos sonhos, e verificados nas sensa-
discutiu de que maneira o sacrifício apareceu em dois ções de mudança e movimento na personalidade. A abor-
PadnOls da Igreja, Orígenes e Tertuliano, em termos dos dagem do sacrifício nos sonhos varia de acordei com os
tipos extrovertido e introvetido. Orígenes sacrificou sua critérios de cada analista junguiano (num espectro que
masculinidade de uma maneira externa concreta, enquan- vai desde Hermes até Prometeu). Não obstante, o concei-
to Tertuliano aceitou o sacrifício interno de seu intelecto. tojunguiano clássico baseia-se no sacrifício do quejá está
Gostaria de examinar novamente esses dois sacrifícios , ultrapassado, o que lhe confere um toque hermético. O
elaborados por Jung em relação com os tipos, agora de sacrifício de rotina, concretizado pela "vontade", desper-
um ângulo mais arquetípico. Podemos ver que tanto ta nossas suspeitas. É um gesto prometéico, neste caso
Tertuliano como Orígenes foram apanhados por trás, por para o "bem" qa saúde da alma. O sacrifício é um "acon-
uma literalização do sacrifício religioso, enquanto esta- tecimento"; e, desse ponto de vista, podemos detectar a
vam tentando imitar Cristo (imitatio Christi). Para nós, intervenção de Hermes, que pode nos guiar ao longo do
hoje, os sacrifícios de Tertuliano e Orígenes parecem bi- caminho do inconsciente e que conhece o modo e o mo-
zarros e patológicos, desprovidos de psiquização. Se atual- mento justos do sacrifício.
mente não vemos tantos exemplos desse tipo peculiar de Um dos pilares centrais da obra de Jung foi a liga-
sacrifício no contexto da religião, onde historicamente sua ção que realizou entre a psicologia e a religião. Toda a
patologia esteve sendo contida, constatamos porém, com sua erudição e experiência puseram-se a serviço de sua
razoável freqüência, fantasias patológicas de sacrifício tentativa de delimitar o conflito em si mesmo, delinean-
religioso tanto no continente psicoterapêutico como na do a invisível linha-limite em que psicologia e religião
arena política mundial, cenário no qual o aparecimento fazem fronteira e se encontram. Ele disse reiteradas ve-
do sacrifício encontrou ainda outro continente. Identifi- zes que é até aí, no máximo, que podemos avançar com a
camos essa mistura de religião com política na auto-imo- psicologia. Desse ponto em diante é a religião. Uma das
lação de monges budistas, nos sacerdotes guerrilheiros e maiores realizações de Jung foi contribuir - para a pato-
nos terroristas muçulmanos. logia - com os insights que colheu da religião. Quando
A psicoterapia junguiana dedica uma grande aten- estava trabalhando no Burghõzli, a clínica psiquiátrica
ção ao sacrifício, em grande parte por causa de suas fun- da universidade de Zurique, sua descoberta de um vín-
ções psicológicas. O movimento terapêutico para dentro culo entre os delírios mentais dos pacientes e a religião
do inconsciente exige o "acontecimento" do sacrifício da foi uma primeira e essencial contribuição nesse sentido.
pri~eira função que, na terminologia junguiana, refere- Indubitavelmente, esse foi o primeiro sinal de que o estu-
se a persona obsoleta e desgastada, a velhas atitudes de do da psicologia estava avançando rumo a terra firme, e
ego etc. Poder-se-ia dizer que o processo da individuação ali estava o início do estudo dos arquétipos como a religio-
sidade natural e herdada, no homem. Não podemos igno-
19 C.G. Jug, Psychological Types, trad. H. G. Baynes, Routledge & Kegan rar neste seu trabalho de uma vida inteira a constelação
Paul, Londres, 1923, p. 19 ss.
de um conflito: ele às vezes unia as fronteiras da psicolo-
72 73
gia e da religião, e às vezes demarcava-as como dois cam- cando. A seguir ocorre um episódio com sua mãe, que ao ser
pos separados. inteirada de seus procedimentos, castiga-o por suas ati-
Ao discutirmos o sacrifício, um elemento central da tudes erradas, com o que Hermes se percebe como ladrão:
religião, como está no Hino homérico a Hermes, é nova- "N ão somente isso, como tentarei o melhor pla?o que exi~­
mente necessário que tentemos captar em profundidade tir e com ele alimentarei continuamente a mIm e a voce.
essa linha-limite. Se, por exemplo, referimos a imagem Não nos contentaremos em permanecer aqui, como você
homérica do sacrifício de Hermes à do de Abraão, outro afirma distantes de todos os deuses e sem receber ne-
nhum~ oferenda, nenhuma prece. Melhor viver em com-
sacrificador religioso, o sacrificio deste último é concebido panhia com os deuses imortais, continuamente, ricos,
dentro do âmbito da fé. O furto e o logro, que tanto fazem repleto~ de posses, desfrutando de abundância de grãos,
parte da imagética que estamos lendo em relação a Hermes, do que ficar sentados para sempre numa caverna som:
aparentemente não estão presentes. Contudo, podemos bria' e no que diz respeito à honra, também eu entrareI
analisar a imagética ritualística do sacrifício de Abraão e, no rito' que Apolo tem. Se meu pai não o der a mim, ~u ~e
empenharei - e para isso sou capaz - em ser o prmCIpe
ao mesmo tempo, nos deslocar até aquele limite entre psi-
dos ladrões."
cologia e religião no ponto onde ambas se tocam, e dessa
forma estaremos incluindo o lado furtador/enganador de Hermes está nos dando aqui a imagem de um deus
Hermes sem a menor intenção de destruir o contexto re- que batiza a si mesmo, por assim dizer, e consagra sua
ligioso segundo o qual é entendido o sacrifício de Abraão. própria divindade por meio da afirma?ão de um d~ seus
Em nossa tentativa de delimitar essa linha-limite principais atributos - furtar. Não precIsamos repetIr que
entre a psicologia e a religião, devemos apreendê-la a centramos seu furto no furtar psíquico que consideramos
partir da óbvia realidade de que um psicoterapeuta não é tão essencial à psicologia hermética.
o sacerdote de nenhuma religião. Um excessivo número Em seguida o Hino nos conta como, no dia seguinte,
de psicólogos cai na armadilha de confundir as duas coi- Apolo, ciente do roubo de suas cinqüenta vacas, se~e ~s
sas. E, a partir de nossas percepções dessa linha-limite, peculiares pegadas deixadas por Hermes e os ammms.
precisamos fazer um vínculo mais fluido entre a patolo- Chega à caverna onde seu irmão está deitado no berço, e
gia e a religião, na psicoterapia. Temos consciência de os dois irmãos se enfrentam. Apolo, enfurecido, pede o
que a psicologia dos arquétipos lida com elementos que, gado de volta, e Hermes encantadoramente engana-o da
na história da cultura ocidental, pertenceram original- seguinte maneira:
mente à religião. A maioria desses elementos religiosos "Filho de Leto, que palavras tão duras acabas de pronun-
forma a base do trabalho padrão da psicologia moderna, ciar? Foi o gado do campo que você veio aqui procurar? Eu
independentemente de ela ser freudiana oujunguiana. A não vi esses animais ... Por acaso sou um ladrão de vacas,
religião vive em nós; suas formas, ou a ausência destas, uma pessoa robusta? Isso não é tarefa pa~a mim P?is me
refletem-se em nossa vida diária e, com mais exatidão, interesso por outras coisas: gosto de dormIr, e do leite dos
seios de minha mãe ... e de banhos quentes ... uma verda-
na prática psicoterapêutica. deira maravilha ... seria se o bebê recém-nascido conse-
Depois de seu sacrifício, Hermes voltou para casa, guisse atravessar a entrada da casa com ~ado do campo:
deslizou para dentro do seu berço e ficou deitado ali brin- acho que dizes coisas extravagantes. NascI ontem, e meus

74 75
pés são muito macios I?ara esse chão tão duro ... Farei u~
juramento solene ... e Juro que nem sou culpado, nem VI
tonisa , uma sacerdotisa que, sentada num tripé, em es- .
ninguém que tenha roubado as suas vacas - quaisquer tado de possessão, recebia a resposta na forma de emg-
que sejam suas vacas, pois só as conheço por ouvir dizer." mas poéticos que os sacerdotes interpretavam. O oráculo
de Apolo precisa de um elemento externo e oferece uma
Com essas palavras ditas a Apolo, aparece um outro resposta a uma pergunta específica. O oráculo apolíneo
elemento característico de Hermes. Ele engana o irmão vinha em palavras, a,º-Rªs~o_queospresságios de Hermes,
sem o menor constrangimento. Antes de discutirmos esse manifestos no corpo, tinham uma expressão fisiqlógica,
ardil hermético, e para mantermos a seqüência do Hino, som:ática, carregada de uma tonalidade afetiva, emocio-
iremos fazer uma pequena digressão para apanhar ain- .l1al. Podemos arriscar-nos a dizer que os augúrios her-
da outro traço da sua psicologia. -~éticos têm uma estranha ligação com o sistema nl:mro-
... Febo Apolo ... pegou a criança e começou a carregá-la. vegetatiyo, expressando-se com a mesma autonomia, e
Mas, naquele momento, o robusto Matador de Argos ti- são um outro exemplo da ligação que Hermes tem com os
nha seus planos e, enquanto Apolo segurava-o nas mãos, estratos mais profundos da natureza humana, num vín-
enviou um presságio, um servo diligente, mensageiro rude,
e espirrou diretamente atrás dele. Quando Apolo o ouviu, culo até certo ponto semelhante ao que Burkert traçou
deixou cair no chão o glorioso Hermes que assim escapou entre o herma primitivo e o reino animal. Temos de dife-
de suas mãos. renciar entre esse tipo de expressão corporal e as mani-
festações hipocondríacas ou histéricas as quais, embora
Estas linhas, um pouco confusas, descrevem de que tenham uma estranha ligação com o corpo, são repetitivas
modo Hermes consegue confundir Apolo, para se prote- e carentes da introvisão de Hermes. Os presságios her-
ger. Parece-me que, ao criar essa confusão, Hermes está méticos podem vir de repente, em lampejos, muito pare-
expressando os augúrios que pertencem à sua psicologia. cidos com intuições, no sentido de enxergar através, como
Talvez e:stivesse ensinando Apolo, famoso por seus pres- uma transparência, tal como Kerényi discutiu em seu
ságios, um outro tipo de agouro, para que Apolo viesse a Hermes: Guide af Sauls,20 e que, de maneira muito parti-
respeitá-lo. Podemos ver que os presságios de Hermes, cular, reagem a uma dada situação, fazendo com que o
manifestos de maneira tão corporal, deixam Apolo em corpo configure um pressentimento. Esse tipo de pres-
situação de completa incapacidade para dar conta do que sentimento, expresso através do corpo, pode aparecer no
está acontecendo. Não há dúvida de que ficou completa- analista como uma i I1 ttlição relacionada com a situação
mente aborrecido. Deixa cair Hermes e os dois irmãos analitica em que ele'estátrabalhando.
estão agora prontos para um novo movimento. Gostaria Em seu seminário dos sonhos, Jung referiu-se ao
de dizer mais algumas coisas sobre esses augúrios de pressentimento do ventre que ronca, e produz um baru-
Hermes, tão repulsivos à mentalidade apolínea. lho que é ouvido a uma certa distância de quem está es-
A surpresa de Apolo com os presságios de seu irmão cutando, e que provoca o que é chamado de um presságio
nos dá uma primeira indicação da diferença entre ele e
Hermes. Apolo é famoso pelo sagrado oráculo de seu san-
20 K. Kerényi, Hermes, Guide af Sauls, Spring Publications, Zurique, 1976,
tuário em Delfos. Esse oráculo era consultado pela pi- p.126.

76 77
no diálogo subseqüente. Muitos analistas já sentiram essa butidos nos espirros. Um pouco dessa antiga atitude ain-
espécie de presságio hermético e, na melhor das hipóte- da resiste em certos aspectos folclóricos de nossa cultura,
ses, podem fazer um vínculo hermético entre eventos psi- como na magia gálica, em que as Meigas, provavelmente
cológicos e o corpo. Com seu "rude mensageiro", Hermes relíquias das antigas sacerdotisas celtas espanholas, tra-
apresenta o lado traquinas de sua natureza. Trata-se, sem balham com seus augúrios através de espirros.
dúvida, de um outro lado muito primitivo do deus, que é Na Odisséia, existe um exemplo de como funciona
difícil para nós perceber em nossa cultura. No entanto, um presságio mediante espirros. Quando Eumeu já está
podemos registrar uma insinuação de sua relevância ao com o Estranho em sua cabana há três dias e três noites,
ler, de Paul Radin, The Trickster 21, e também os seminá- Penélope convida-o a conversar com ela. Ele conta episó-
rios de Jung sobre Kundalini Yoga, em que ele discute dios sobre Odisseu, todas as suas dolorosas aventuras,
esse lado "rude" na natureza da consciência do Mulhadara que era nascido em Creta e alegava conhecer Odisseu
Chakra, e seus paralelos na cultura ocidental. Uma refe- através da família deste, dizendo ter ouvido que Odisseu
rência mais exata e direta ao presságio como aspecto do estava vivo, bem e rico. Depois de escutar tudo isso, Pe-
ventre que ronca é feita por E. R. Dodds. Numa discus- nélope começa a falar sobre o ambicioso comportamento
são dapsyche em Homero ele diz: dos Pretendentes, e a seguir ela diz:
O "thumos" de urna pessoa lhe diz que ela agora deve co- "A verdade é que não existe niguém corno Odisseu incum-
mer ou beber, ou assassinar um inimigo, lhe dá conselhos bido de purgar a casa desta enfermidade. Ah, se pelo me-
quanto a que ação empreender, põe palavras em sua boca ... nos Odisseu pudesse voltar para o seu país! Ele e seu fi-
A pessoa pode conversar com isso, através ou de seu "co- lho logo os vingariam por seus crimes."
ração" ou de sua ''barriga'', praticamente corno se fosse Assim que ela concluiu estas palavras, Telêmaco deu um
com outra pessoa. 22 forte espirro que ecoou por toda a casa, da maneira mais
alarmante. Penélope riu e voltou -se para Eumeu. 'Vá ago-
Infelizmente, nossa cultura perdeu muito do conta- ra", ela disse com animação, "e traga-me esse estranho
to com o espirrar como presságio hermético. Espirrar tor- aqui. Você não percebeu corno meu filho espirrou urna bên-
nou-se cada vez mais uma questão para médicos e pas- ção sobre tudo o que eu disse? Isso significa a morte, de
urna vez por todas, de todos os Pretendentes: homem al-
sou a ser chamado, calma e depreciativamente, de uma gum pode escapar a esse presságio."24
"pequena reação alérgica", embora algo da antiga atitu-
de permaneça nas palavras "Deus te abençoe", ou "Saú- Temos uma interessante observação psiquiátrica,
de", como expresões que aparecem em várias línguas. No segundo a qual os esquizofrênicos são incapazes de espir-
seu Origins af Eurapean Thaught,23 Onians refere-se à rar. Quando conseguem fazê-lo, este é um sinal de me-
antiga tradição, na cultura ocidental, dos augúrios em- lhora. A respeito desta observação, os analistas que tra-
balham com pacientes psicóticos têm constatado que, após
Paul Radin, The Trickster, Schocken Books, Nova York, 1972.
21 um prolongado trabalho psicoterapêutico, eles têm uma
E.R. Dodds, The Greeks and the lrratianal, University ofCalifornia Press,
22
Berkeley, 1968, p. 16.
23 Richard Broxton Onians, The Origins af Ellrapean Thallght, Cambridge 24 Homero, The Odyssey, trad. E. V. Rieu , Penguin, Harmondsworth, 1946,
University Press, 1954. Livro XVII, p. 273.

78 79
crise de espirros. Consideram que esse espirrar os está posicionar a partir daquelas gastas noções de uma socie-
livrando de uma possível contaminação psicótica ~m de- dade que exige a verdade, somente a verdade e nada mais
corrência de seu trabalho. que a verdade, pois essas concepções procedem de outras
Após o episódio dos presságios, segue-se uma longa tradições da cultura ocidental. É somente por meio da
conversa entre os dois irmãos até o momento em que eles conexão com as imagens - de Hermes enganando o ir-
saem juntos para apresentar a questão perante Zeus, seu mão Apolo, e o pai Zeus - que podemos chegar a alguma
pai. Apolo denuncia Hermes e conta a história de seu gado idéia aproveitável a respeito do lograr. Hermes apresen-
roubado. Depois Hermes retruca: tou arte e desfaçatez em sua artimanha e as duas facetas
"Zeus, meu pai, eu realmente lhe direi a verdade, pois sou fazem igualmente parte de sua natureza. Eu gostaria de
confiável e não posso contar mentiras. Ele veio à nossa ler essa cena de um pai com seus dois filhos com, tanta
casa hoje, procurando por suas vacas trôpegas ... Não trou- exatidão quanto possível. Ao reagir com uma risada à
xe nenhuma testemunha consigo, nem qualquer um dos cara-de-pau de Hermes em sua estratégia para enganá-
deuses abençoados que tenham presenciado o roubo, mas
com grande violência ordenou-me que confessasse ... ele lo , Zeus está aceitando a natureza e o estilo de ser e viver
tem o vigor da gloriosa juventude, enquanto eu nasci ape- de seu filho. Não sabemos como Apolo reagiu mas pode-
nas ontem ... Acredite no que lhe digo ... eu não levei as mos supor que, sendo sua configuração arquetípica o exato
vacas dele para minha casa ... nem atravessei o umbral: oposto da de Hermes, ele deve ter ficado completamente
isto eu digo honestamente ... Você mesmo sabe que eu não indignado por estar sendo ludibriado de maneira tão na-
sou culpado: e farei um grande juramento quanto a isso ...
E al?U~ dia ir~i puni-lo, p~r mais forte que ele seja, por tural. ~:polo iIlte:r:~ssa-se po:r:detectar a falsidade e bus-
seu ImpIedoso mterrogatorlO; agora, porém, faça o favor car a verdade; é o deus qam,oderação, qualidade que seu
de ajudar o mais jovem." irmão não exibe em seu embuste. Apolo rege a limpeza
Assim falava o cileno, Matador de Argos, lançando longos ritual, tanto em sel! aspecto purificador religioso, como
e sedut~res olhares, com as fraldas nos braços, e não se no que diz respeito aos modos. Já vimos como aquela rude
des~encIlhava delas. Mas Zeus riu e gargalhou ao ver aque-
le pIrralho armando tramas maliciosas e ardilosamente barriga barulhenta de Hermes era incompreensível a
negando sua culpa no caso das vacas. Apolo. Este governa o mundo acadêmico, seu fulgor e sua
ordem racional. Podemos dizer que ele está por trás do
Chegamos aqui à imagem apropriada para discutir que chamamos de sucesso na sociedade, elementos que
o logro segundo suas raízes arquetípicas. Lograr é um Hermes pode reconhecer, mas com os quaisjamais se iden-
ato que pertence a um deus. Todos os deuses são impor- tifica.
tantes, mas o dos enganadores e do lograr é pa:r:ticular- Zeus é o Fazedor da Chuva, o pater familias, o prin-
mente crucial ao legado da psicologiajunguiana.[Jung es- cípio regente, equilibrador da personalidade. Sozinho é
creveu muito a respeito de Hermes/Mercúrio, e Ror isso quem se incumbe do princípio do monoteísmo, da forma
ele é de importância capital para a sua psicologia) como os gregos o concebiam,25 mas, acima de tudo, ele é o
Durante a nossa discussão do lograr, quero nianter-
me bem próximo da imagética de Hermes, primeiro en-
ganando o irmão, e depois seu pai. Não devemos nos
25 Martin P. Nilsson, Histary af Grf!ek Religian, trad. F.J. Fielden, w.w.
Norton, Nova York, 1964, é recomendado para os leitores interessados.

80 81
princípio da tolerância no polit~íSl!lO grego:~le tem res- nador. Ele é o deus que propicia o movimento psíquico, e
peito e tolerância pelas individualidades e diferentes na- portanto podemos postular que também seu lograr per-
_t~i~~as de seus irmãos e irmãs, de seus filhos e filhas. tence às complexidades do movimento psíquico. Otto es-
Zeus centrou a religião grega e seu modo de vida. Ele e o creve que Hermes" ... é o espírito de uma constelação que
filho Apolo pertencem à categoria dos portadores recorre nas mais diversas condições e que engloba tanto
arquetípicos da consciência coletiva; são representantes a perda como o ganho, a malícia e também a delicadeza.
da situação. Um dos sobrenomes de Apolo é "a consciên- Embora uma boa parte disso possa parecer questionável
cia de Zeus'~, significando o filho que servia como um es- de um ponto de vista moral, é não obstante uma configu-
pelho no qual o pai refletia determinados aspectos da vida, ração que pertence aos aspectos fundamentais da reali-
além de sua própria consciência. Tomemos como exem- dade viva ... "27 E podemos acrescentar o logro às perdas e
pIo aquele pai que é negociante ou tem carreira profis- aos ganhos, à malicia e à delicadeza. Hermes apresenta-
sional, e cujo filho segue depois com êxito o caminho tra- se como um enganador que aceita essa realidade, ,uma
çado pelo pai. Este alimenta a sua própria consciência e realidade muito diferente da de seu irmão Apolo. Se pe-
impede que ela se petrifique por meio de seu interesse garmos o diálogo entre ambos e o transpusermos nos ter-
pelos estudos e atividades do filho, o qual, por sua vez mos psicológicos modernos poderemos ver que se trata
reflete o espírito da época, e a distância entre as gerações de uma conversa entre a consciência coletiva, ou super-
é neutralizada. Uma variação desta cena de Zeus com os ego, e o inconsciente. A elegância do velho Hino permite-
dois filhos aparece no tratado alquímico "The Book of nos vislumbrar algo desses dois lados da psique, muito
Lambspring".26 Zeus e Apolo aparecem como o Rei e o antes de ambos terem aparecido com o tremendo abismo
Príncipe, dentro do simbolismo do rei velho e desgastado, que os separa na cultura ocidental. O conflito entre a cons-
doente e rígido, e do príncipe com as novas idéias. É ciência regente (equivalente a Zeus eApolo) e o inconscien-
Hermes quem faz a ponte entre eles, desencadeando uma te (equivalente a Hermes) é bem conhecido como o cerne
reconciliação do novo com o velho, num nível mais eleva- da psicoterapia. O Hino nos dá uma aula a respeito de
do. Podemos portanto perceber que esse encontro entre Zeus como essas duas forças psíquicas podem unir-se de novo,
e seus dois filhos é, em si, arquetípico, e oferece movi- sem qualquer símbolo de união: esses dois deuses, essas
mentação psicológica e uma ampliação da consciência. duas forças, aceitam a realidade uma da outra, aceitam
Zeus também é o princípio da autoridade, e eu gos- as diferenças entre ambas e, apesar disso, continuam em
taria de pedir ao leitor que mantivesse essa cena como frente conversando, dialogando, ludibriando.
um espelho no qual refletir o episódio envolvendo Freud e Os princípios regentes, Zeus eApolo, mesmo que não
Jung, conforme nossa discussão no capítulo precedente. enganem da mesma maneira descarada de Hermes, men-
Comojá dissemos antes, de acordo com Jung, Hermes tem sem sombra de dúvida quando o espírito que repre-
é o arquétipo do inconsciente, e ele também é um enga- sentam não tem mais validade histórica. Quando a de-
claração que defendem não é mais válida, ou quando o
26 Arthur Edward Waite, The Hermetic Mllsellm, Robinson & Watkins, 1973,
vol.I. 27 Otto, The Homeric Gods, op. cit., p. 122.

82 83
pressuposto sobre o qual se baseiam não tem nada a ver em que nasceu, naquele primeiro cântico. As duas. posi-
com a pessoa, ou para quem a mensagem é endereçada, ções pertencem ao mesmo complexo e à mesma atItude.
então essa declaração ou promessa torna-se falsa. Con- Em nosso estudo deste deus, iremos ver que ele usa essas
tudo, o principal interesse desta parte do Hino seria maneiras de se vincular mais de uma vez.
mantê-lo como um modelo do filho mais novo enganando N a psicoterapia, quando o analista alega que é só
o irmão mais velho e o pai, e com isso criando a conexão analista e que o paciente é só paciente, há um elemento
psicológica propriamente dita e introduzindo-os num de falsidade na situação. O analista que exige a verda-
modo de ser muito estranho aos dois: a psicologia do lo- de e nada mais que a verdade possivelmente está mais
gro. O segredo desse tipo de artimanha é que é herméti- no papel de confessor religioso, com certas caracterí~ti­
ca. Hermes jamais cairia na cilada de falar com o irmão cas inquisitoriais, do que no de um adepto de uma PSICO-
mais velho e o pai do ponto de vista da consciência vigen- terapia alicerçada em imagens herméticas. Uma atitude
te que ambos representam. como essa cria assimetrias na situação arquetípica, ou
Muitos analistas viram psiques paralisadas ou vi- seja, o analista que sabe a "verdade" e espera do anali-
das destruídas porque um filho mostrou-se incapaz de sando que ele conte essa "verdade". Não vemos ne~se. c?n-
corresponder à exigência parental de ingressar numa trato aquela simetria ue Hermes em que o logro e VIVIdo
carreira acadêmica organizadinha, tornando-se um bri- em senso hermético, como veículo propiciatório para o es-
lhante sucesso no mundo apolíneo de hoje, e existem aque- tabelecimento de um vínculo e para a mobilização psí-
le~ casos nos quais o filho é incapaz de expressar sua pró- qUIca. .
prIa n_atu~eza porque ela pertence a um outro arquétipo Depois de ouvir seus dois filhos, Zeus põe as COIsas
que nao o Imposto pelas exigências dos pais e da socieda- em ordem. Convoca os dois a se unir e ir em busca do
de. A c?nsciência vigente de hoje é tão apolínea que tudo gado. É como se estivesse dizendo .aos seus filhos que
o que fICa de fora é execrado. O filho é incapaz de expres- passassem a se conhecer, que começassem a saber mais
sar sua natureza de maneira aceitável, como Hermes faz da natureza um do outro. Em termos de nosso estudo dos
no Hino, ou seja, enganando, ludibriando de modo her- arquétipos, baseado no reconhecimento das diferenças nos
mético, o que protegeria sua psique, mobilizá-Ia-ia e re- padrões arquetípicos dos deuses e deusas, esse pr?cesso
lativizaria a imagem do pai. de familiarização recíproco parece ser o modo maIS pro-
~ermes enganando s~u irmão mais velho e seu pai veitoso de se considerar essa parte da história. Zeus con-
deverIa ser levado em consIderação pela psicoterapia, pois firma sua ordem inclinando a cabeça (numinosum).
abre um intercâmbio mais amplo com o seu irmão con- Os dois irmãos, com Hermes mostrando. o caminho,
for~e ve~e~os mais adiante no Hino. No nível da ~sico- dirigem-se para o rio Alfeu onde ele tinha deixado o gado:
10gIa famlhar, essa cena nos dá a oportunidade de perce- Agora, enquanto Hermes entra na caverna de pe-
ber o logro como uma outra forma de estabelecer contato dras e começa a tanger para fora o gado vigoroso, o filho
com as divindades do lar. Hermes vincula de muitos mo- de Leto, olhando para o lado, vê os couros das vacas es-
dos. Podemos acrescentar sua artimanha perante Apolo tendidos sobre a rocha nua. E de imediato pergunta ao
e Zeus ao modo como ele se vinculou ao pai e à mãe no dia glorioso Hermes:
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"Como é que você, seu malandro habilidoso, conseguiu maior é uma afiliação grande d~~a~s para o mundo
esfolar duas vacas, recém-nascido e impotente como é? apolíneo. Apolo centraliza a conSClenCIa do ho~em mo-
De minha parte, aterroriza-me a força que será tua: não derno e somos cientes do perigo e da patologIa dessa
há necessidade de que continues crescendo, filho cileno unilateralidade. Jtpreciso.ll111agrttnde dose ~e arte e
de Maia!"
Assim dizendo,Apolo trançou fortes pedaços de vime com paciência herméticas para desatar uma pessoa da ~ua
suas mãos, significando que amarrava Hermes com fir- rigidez apolínea, a qual, corroborada pelo sucessso na vI.da
meza; mas os pedaços não se atavam e o vime se partiu e e na sociedade, em geral vem acompanhad~ d~ uma lll-
caiu no chão ao lado de Hermes e imediatamente come- quietação profunda, de u~a s~ns~~ã? de.~use~cIade ~en­
çou a brotar do chão sob seus pés ... Entrelaçando-se uns tido, de depressão, histerIa hIstrIomCa e quel~as pSICOS-
com os outros, os brotos rapidamente cresceram e cobri- ,. ticas. Essa desatracação deve ser mantIda den~ro
ram todo o gado que se agitava e dispersava, insuflados soma . . ,.' ., tIpo
pela vontade do furtivo Hermes, de tal sorte que Apolo dos limites da vida psíquica hermetIca, Ja que esse
ficou estupefato e assistiu. de paciente é cheio de medo pois iguala o desatar das
amarras ao caos. .
Com esse episódio, estamos provavelmente diante da Para distrair e enganar Apolo, Hermes toma da lIra
diferença essencial entre os dois irmãos. Ap()l()telltaçon- e começa a tocar e cantar:
trolar os movimentos de Hermes. Evidentemente ele está
~,~ ""' ' , ,
E Febo Apolo riu feliz; pois a doce pulsação da músi~a
com medo de algo desconhecido que ultrapassa sua com- maravilhosa foi direta até seu coração, e ,:m sua,:e anse~o
preensão da habilidade de Hermes para matar duas va- apossou-se de sua alma enquanto ele OUVIa .... e fOI toma o
cas no mesmo dia em que nasceu. Fiel à sua natureza, por um anelo que não se mitigava, e abnndo sua boca
Hermes escorrega das mãos do irmão que o mantinham falou para Hermes palavras aladas: .
"Matador de vacas, embusteiro, ó ~ta:efado, companheI-
cativo. Pode-se dizer que essa imagem transmite o quan- ro de festas, esta tua canção vale cmq~enta vacas e acre-
to Hermes é esquivo, e até onde vai a impossibilidde de dito que agora poderemos encerrar pacIficamente a nossa
jamais capturá-lo, o que, durante a Idade Média, foi sim- desavença. Mas diga-me uma coisa, hab.ilidoso filho de
bolicamente visto no mercúrio alquímico. ExistellIll ou- Maia: esse maravilhoso objeto está contIgo desde o ~e~
. t u algum deus ou mortal deu-o para tI ....
tro asp~etojIl1P()r:tante nesta imagem porqueelasugere naSCImen o, o . , '1 h m
(Evidentemente, para Apolo é ~IfIcI v~r o que o om,e
que H~r,mes.llª() pode ser contido po. r nenhu.. ma outra for-
, , ."'
faz naturalmente.) Pois maravIlhoso e este som r~ce~­
ma: as formas convencionais de Apolo - idéias brilhan- emitido que ouço ... Que habilidade é essa? Que_ c~ntI~o
tes, fala cQnceitl11l1refiIlada e respeito pela academia etc. para os anseios do desesperado? Que tipo de cançao. POIS,
- não atam Hermes. em verdade aqui estão três coisas à .I?~o, todas ao mesmo
Em sua prática, o psicoterapeuta tem que lidar qua- tempo entre as quais escolher - o JubIlo, o amor e o doce
se que diariamente com o aspecto conflitivo desta ima- sono .. .' Estou inteiramente deslumbrado, ó filho de Zeus,
gem, seja em termos do filho já mencionado cuja nature- com teu suave tocar."
Então Hermes respondeu:lhe com ~stuci?sas pala~as:
za é incapaz de responder às exigências dos pais, seja em ''Você me faz perguntas cUIdadosas, o Reahzado.r-Mor, n~
termos da tarefa terapêutica mais dramática de tentar entanto não sinto ciúme de que penetres em ~mhaarte.
desatar hermeticamente aquele paciente cujo problema hoje tu ~ conhecerás. Pois meu intento é ser amIstoso con-
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tigo, tanto em pensamento como em palavras. Agora, tu
sabes muito bem de tudo, em teu coração, pois senta-te no
diferente da sua. Ele demonstra a sua generosidade sem
lugar de maior honra entre os deuses imortais ... e és divi- ciúme e a amistosidade é fundamental à sua natureza. Co-
mo Otto, acentua Hermes e, o maIS . amlS' toso dos deuses. 28
no e forte. O sábio Zeus te ama, como de fato é certo, e
deu-te esplêndidos presentes ... Bem, és livre para apren- Peter Walc;tt, em seu livro Envy and the Greeks 29 ,
der tudo que quiseres; mas, como assim parece, teu cora- discute como, na literatura clássica e cristã, as palavras
ção está muito fortemente disposto a tocar a lira, cantar e
representar, proporcionando-se dessa maneira a alegria;
inveja e ciúme são sinônimas, embora signifiquem duas
toma então de mim este presente e oferece-me, meu ami- coisas diferentes.
go, a dádiva de me conceder glória ... Ó glorioso filho de O ciúme mencionado acima, no contexto do Hino, tem
Zeus, darei esta lira e, de minha parte, pastarei junto com a conotação de inveja - inveja dos atributos, da in-
o gado alvoroçado nas campinas das encostas e planícies ventividade. Hermes está dizendo para o seu irmão que
que alimentam também os cavalos; assim, as vacas sendo não tem ciúme, inveja, de nada que Apolo possa vir a fa-
cobertas pelos touros, repetidamente, terão incontáveis
bezerros machos e fêmeas. E veja, agora, negociador como zer com a lira que ele inventou, e este ponto merece des-
és, que não há necessidade de continuares furiosamente taque e reflexão: ele não vai sentir inveja, nem ciúme, de
irado." Apolo ter êxito como patrono da música. ~~s p~de-se
perceber como Apolo seria propenso a s~ntI~ Inveja das
Quando Hermes terminou de dizer estas coisas, es- idéias e habilidades da outra pessoa. AlnvE;lJa faz parte
tendeu a lira, e Febo Apolo a tomou, colocando pronta- do relacionamento entre duas pessoas do mesmo sexo, ao
mente seu chicote fulgurante na mão de Hermes, com o
passo, que o ciúme (como iremos discutir no capítulo 3)
que ordenou-o guardião das manadas. O filho de Maia
tem uma conotação sexual e implica em três pessoas, UI~a
recebeu-o com alegria, enquanto ... o senhor Apolo reali-
das quais - geralmente - é do sexo oposto. Hermes dIZ,
zador-mór pegava a lira ... e tentava tanger corda por cor- com muita, clareza, que a inveja não faz parte de sua na-
da. Soava medonho o toque daquele deus ...
tureza.
A forma como Hermes toca a lira encanta Apolo e o Neste ponto, pretendo fazer alguns comentários acer-
gelo é quebrado. Os dois irmãos começam a negociar. Ao ca da inveja. Nos estudosjunguianos, a inveja vem sendo
entregar sua lira a Apolo, a generosidade de Hermes con-
discutida principalmente em relação com os contos de
vida um gesto de retribuição da parte de Apolo, e ele não
fada' no motivo das duas irmãs mais velhas que sentem
tem mais tanta necessidade de reaver seu gado.
inveja da mais nova (Cinderela, Eros e Psique etc.), exis-
Quando Hermes diz: "Não sinto ciúme de que pene-
te a tendência de resolver a inveja, no nivel fácil do con-
tres em minha arte: hoje tu a conhecerás. Pois meu in-
to-de-fadas com a destruição das duas irmãs, implican-
do assim n~ existência de uma nova percepção consciente
tento é ser amistoso contigo, tanto em pensamento como
em palavras", ocorre uma manifestação mais sutil e pro-
da inveja. Esta costuma ser considerada uma questão de
funda de sua natureza. Ele aceita a ganância de Apolo,
sombra, da qual a pessoa deve ter consciência. Contudo,
não tem necessidade alguma de guardar ciumentamente
sua música para si, e está pronto para ser amistoso com
ele, sem se preocupar se a natureza do irmão é ou não 28 Ibid"p. 107. : _"
29 Aris & Phillips: Warminster, 1978, Capítulo 1, "Introduçao .
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a par de suas implicações psicossomáticas estavam os
junguianos da primeira geração, entre os quais princi- cas e eventualmente psicopatia. Viviam e tocavam sua
palme~te a. srta. Barbara Hannah, que, em suas pales- música apenas pelo lado de Apolo, ignora.ndo completa-
tras, dIscutIa sobre o "olho gordo" como manifestação fí- mente o corpo, o corpo psíquico, que pod~rIa cont:r t~nto
sica da inveja. Podemos estar certos de que Hermes em eles mesmos como sua arte. A noção subjacente ~ ~mha
abordagem da psicoterapia desses pacientes consIstIa em
sua vinculação COI~ sua natureza psicossomática, ;api-
damente constatarIa qualquer expressão fisica peculiar propiciar um movimento de regresso de Apolo a H~rmes,
de inveja. deixando que este último pegasse novamente sua lIra e a
tocasse, daquela sua maneira hermética, tão au~ente
~o le:mo~s Walcott, pecebemos que, na cultura gre-
como necessária na concepção musical do homem oCIden-
g~, a mveJa nao era um pecado capital, como é no cristia-
tal cuja música está basicamente delimitada pelos ro-
lllsmo. Em vez disso, havia uma clara percepção de suas
mânticos sentimentos cerebrais de Apolo.
complexidades e implicações. A pena para quem causas-
Voltemos agora mais uma vez ao látego fulgurante,
se muita invej.a era o o~tracismo. Isto demonstra o quan-
to devem ter sIdo conscIentes desse sentimento. Podemos atributo ou símbolo do pastor. O simbolismo do past?r é
um motivo importante na cultura ocidental. Esse atrIbu-
imaginar Hermes desaparecendo toda vez que o mesmo é
to oferecido a Hermes por Apolo como parte da barganha
conste~ado, pois ,percebe sua dimensão maligna, como a
percebIam tambem os gregos. A inveja está incluída no ca-
d~ paz, tornou -se simbolizado e tem a cono~açã? de um
líder conduzindo seus seguidores. Otto tambem dIZ a esse
tálogo de emoções de W. B. Stanford, em seu Greek Tra-
respeito: "Hermes é o espírito mais gentil ~ue conduz o
gedy and the Emotions, mas evidentemente não aparece
. rebanho de seu abrigo pela manhã, e confIavelmente o
nenhum~ persona~em invejosa na tragédia grega: este , caminhos ... " No entanto, ele acrescen t a: "M as
era conSIderado vIl demais e, portanto, incompatívePO dirige pelos
aqui também esse prestativo serviço é somente um lado
No que tange ao aspecto musical desta parte do Hino . tamb'em po de ext ravIar..
. " 31
tenho ~tendido diversos músicos profissionais em psi~ da atividade. O gula .
coterapla, todos eles apolíneos, exibindo o que provavel- Assim como na cultura ocidental, em que o sImbolIs-
mo do pastor tem sido fundamental, també~ nos estu~os
m~n~e é uma patologia apolínea, em suas noções de que a
mUSIca deve basear-se somente em disciplina e em técni- psicológicos ele aparece nos líder~s de varIadas te~den­
cias que "pastoreiam" seus seguIdores. Essa metafora
cas que levem à perfeição, todos estes elementos eviden-
temente regidos por Apolo. Traziam um quadro de neu- do pastor não está desprovida de um cert? fundamento.
Temos todos um débito para com aqueles lIderes e funda-
rose de culpa projetada nas regras da disciplina da técnica
e d~ perfeição, e a psicologia que os caracte~izava era
dores da psicologia, pois eles abriram a porta para essa
ciência e nos transmitiram suas descobertas, seu co-
basICamente regida pelo puer aeternus, o êxito e o SUces-
nhecimento e sua experiência. Temos testemunhado como
so, com muitos acessos de mau-humor histérico, de críti-
os seguidores de uma escola em particular beneficiaram-
se grandemente das orientações de seu líder. Porém, tam-
30 W.B. Stanford, Gl'eek Tragedy and the Emotions Routledg & K
Paul, Londres, 1983, p. 35. ,e egan
31 Dtto, The Homeric Gods. op. cit., p'; 110.
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bém podemos ver que, embora aproveitando em muitos evita-se a petrificação. Agora, do mesmo modo, no dar de
sentidos dessas diretrizes, eles não obstante se extravia- presente aquilo que foi criado existe a possibilidade de
ram. Talvez esse extravio tenha ocorrido em virtude de mais energia para uma nova criação. A impressão que se
uma tendência a absolutizar o ensinamento de um mes- tem é que esse movimento da libido só acontece dentro
tre, transformando-o em algum tipo de teologia. Abso- da esfera arquetípica de Hermes.
lutizar não tem nada a ver com Hermes. Esse tipo de Existe uma certa contradição no fato de o mestre ga-
seguidor não se manteve dentro da constância do arqué- tuno não sentir absolutamente nenhum ciúme (inveja)
tipo - mostrando o caminho e extraviando - em seu quando seu irmão tenta furtar sua arte. A amistosidade
duplo eixo de pastor interno e externo. e a generosidade de Hermes são muito comovedoras se
O conhecimento básico que o analista obtém da his- pensarmos que são uma peculiaridade do deus que, supos-
tória da psicologia e de sua escola é uma coisa, e o modo tamente, é o fraudador e o ladrão por excelência. E um outro
como ele se apropria hermeticamente de uma figura re- lado de sua natureza que podemos agregar à sua atitude
levante em seu campo, de seus pacientes e do mundo em de fazer sacrifícios aos deuses, da mais honrosa das ma-
que vive, é outra. A atitude predominante na psicologia neiras embora seja o maior dos gatunos e embusteiros.
do século XX é a de seguidores de uma escola, praticando Hermes dá sua lira para Apolo, que retribui dando
psicoterapia através de dogmas confeccionados a partir ao irmão seu látego fulgurante e ordenando-o "Guardião
do conhecimento adquirido e de se viver, falando psico- dos Rebanhos". É como se, com essa barganha, começas-
terapeuticamente, a vida dentro de uma seita. Isso está se a despontar em cada um o reconhecimento da nature-
muito longe da atitude que propicia a movimentação psí- za do outro. Será que esse intercâmbio envolvendo dois
quica com a captação das muitas novas possibilidades homens de naturezas diferentes poderia ser o que os leva
oferecidas pelo viver; pelo contrário, os eventos existen- ao amor ao eros entre homens, através de uma negocia-
ciais são reduzidos e rotulados de acordo com o conheci- ção pri~ordial? O presente de Apolo, seu chicote que bri-
mento autorizado pela escola. lha e ter tornado Hermes o guardião dos rebanhos são
Após essa interação inicial, os dois irmãos regres- ato~ que poderiam ser considerados uma expressão do
sam ao "enevoado Olimpo, deleitando-se com a lira. En- eros entre os homens. Poderia perfeitamente pertencer
tão o sábio Zeus ficou contente e tornou os dois amigos". ao lastro arquetípico da cavalaria: um amistoso reconhe-
Parece que foi em virtude da influência do convívio com cimento, da parte de cada um, das qualidades do outro,
Zeus que "Hermes amou continuamente o filho de Leto". na ausência de invejas. Mais adiante neste estudo, quan-
Nesse ínterim, Hermes conseguiu inventar um outro ins- do chegarmos à história de Hermes e Dríope, iremos dis-
trumento musical: "os foles cujo som é ouvido ao longe". cutir o eros entre os homens, dentro de um enqua-
Em relação a um ato de criação, dar de presente o que foi dramento arquetípico. Nesta imagem à nossa frente,
criado torna possível criar uma outra coisa? Na discus- temos um novo referencial a partir do qual elaborar uma
são precedente sobre o sacrifício, ficou comprovado que, noção do que está por trás do termo "magnanimidade". A
quando ele é apropriado, permite à energia entrar em magnanimidade poderia ser concebida como aquele reco-
movimerito de rotação (a rotatio alquímica), e com isso nhecimento que se efetua sem mesquinhez. A imagem da
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negociação, do fácil intercâmbio entre os deuses, pode Discutimos até agora dois modos de reconciliar es-
sugerir uma espécie de psicoterapia que aceite a barga- ses dois arquétipos: enganando e negociando. Nossa pró-
nha como modo de ligação e mobilização psíquica, como xima passagem no Hino oferece reflexões complementa-
um outro caminho para vincular esses dois arquétipos, res acerca de maneiras de se entrar em contato:
tão distanciados um do outro na nossa cultura, numa se-
paração que só resulta em conflito e patologia. "Filho de Maia, guia e astuto, temo que me roubes a lira e
junto meu arco curvo, pois tens uma incumbência dada
Historicamente, a principal oposição entre duas es- por Zeus, que é a de instituir atos de negociação entre os
truturas psíquicas (entre dois deuses com seus padrões homens, em todas as partes desta terra abundante. Ago-
arquetípicos) tem sido mantida pela oposição entre Apolo ra, se simplesmente me fizeres o juramento sagrado dos
e Dioniso. Desde Orfeu, passando por Nietzche e chegan- deuses, seja consentindo com um aceno de cabeça, ou atra-
vés das poderosas águas do Estige, estarias me dando tudo
do em Jung, sabemos o que significa a tentativa de reu- de que preciso para agradar e acalmar meu coração."
nir naturezas tão opostas: no caso de Orfeu, um mito da
destruição; no de Nietzche, um ingrediente de sua loucu- Então , o filho de Maia acenou com a cabeça e, pro-
ra; no de Jung, uma percepção profunda de onde a des- meteu que nunca furtaria nada que pertencesse Aque-
truição e a loucura podem acontecer. Jung observou que, le-que-atira-Ionge, e que nunca se aproximaria de sua
ao diagnosticar o conflito entre essas duas naturezas opos- forte morada.
tas no indivíduo, está-se diagnosticando uma patologia Mas Apolo, filho de Leto, jurou ser companheiro e
em profundidade. Em sua concepção dos tipos psicológi- amigo de Hermes, comprometendo-se ajamais amar ou-
cos, com base nas naturezas opostas do ser humano (os tro entre os imortais, fosse ele deus ou humano nascido
opostos), ele discutiu as duas personagens que acabei de de Zeus, mais do que amava Hermes: e o Pai enviou uma
citar, Apolo e Dioniso. A introdução dessa noção na águia em sinal de confirmação.
psicoterapia foi, provavelmente, uma tentativa de recon- O quadro se aprofunda. Primeiro, estabelece a dife-
ciliar essas duas naturezas opostas, embora as idéias de rença entre os dois irmãos. Apolo é paranóico e teme ser
Jung se movessem em outra direção, especificamente, roubado por Hermes. No entanto, ao mesmo tempo, reve-
rumo à reconciliação dos opostos, à totalidade psíquica la na narrativa que Hermes tem "uma incumbência dada
etc. Mas esses dois antagonistas, Apolo e Dioniso, pode- por Zeus, que é a de instituir atos de negociação entre os
riam encontrar um modelo no relacionamento entre Apolo homens ... " Nessa imagem, encontramos um ponto comum
e Hermes, no Hino, e que lhes teria servido como cami- no cerne da alma humana onde cabem o medo paranóico
nho intermediário capaz de propiciar a mobilização psi- de ser roubado e a tarefa dada por Zeus de instituir o
cológica. Então a própria idéia da reconciliação dos opos- comércio na terra. É uma imagem importante como pon-
tos que, na psicoterapia, tem geralmente significado to de referência para podermos perceber tanto a oposição
mover a unilateralidade apolínea para os recessos mais como a reunião dos dois irmãos em nós.
reprimidos da psique, que é onde está Dioniso, tornar-se- Os historiadores nos falam de um antagonismo en-
ia desnecessária e, afinal de contas, só seria possível tre o comércio e o poder regente despótico. O relaciona-
contanto que Hermes servisse de guia da psique. mento entre o centro reinante de um reino e as fronteiras
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desse domínio, que são o local onde acontece o comércio, um dos caminhos para a sobrevivência natural, e é um
pode dar-nos, por um lado, a imagem arquetípica, e, por dos modos como dois padrões arquetípicos conflitantes
outro, as evidências históricas do que está se passando podem se reunir. Há momentos nos quais todos temos
naquele reino. Os historiadores contam que, quando o medo de ser roubados ou enganados, e com esse receio
relacionamento entre o poder central (o Rei) e os comer- vem o despotismo (poder). Temos de perceber que, quan-
ciantes flui e é cooperativo, o reino prospera, mas que do esse despotismo aparece, com sua faceta paranóica e
quando o poder regente torna-se despótico, desenvolvem- psicopática, não há lugar para Hermes negociar, não há
se antagonismos e conflitos sérios entre ele e o comércio, espaço para um encontro entre essas duas naturezas opos-
e fica estagnada a prosperidade daquele reino. A imagem tas em nossa alma. Da mesma forma na psicoterapia: se
histórica mostra uma condição psicológica com a qual o medo não é aceito quando aparece o aspecto enganador
Jung lidou simbolizando-a lindamente em suas interpre- de Hermes, então a situação analítica corre o risco de
tações aI químicas. O despotismo e a rigidez do Rei prova- mover-se na direção de um poder despótico, e a psique
velmente têm a ver com seu medo de ser roubado, e esse estagna. Nesse momento, a situação torna-se assimétrica.
medo provém de seu inconsciente, que desafia todas as N o relacionamento entre paciente e analista, existe
tentativas de racionalizá-lo. Ao longo de toda a história, um antiquado denominador de "entendimento". Já em
o despotismo tem bloqueado o comércio, e aquilo que é 1912,32 Jung considerava o anseio de entender como um
válido para a economia histórica também o é para a psi- anseio pela mãe e uma regressão ao complexo materno.
que. A imagem histórica é semelhante à que temos de Vezes e vezes seguidas, o entendimento é buscado como a
alguns pacientes, com quem não vislumbramos nenhu- base da situação terapêutica. Há psicoterapeutas que pen-
ma possibilidade de intercâmbio; não existe encontro: o sam que uma verdadeira psicoterapia significa saber qual
centro é despótico e isso exclui a fleXibilidade necessária é a causa do cerne do distúrbio daquele paciente; então,
a qualquer comércio. Essa exclusão do comércio pode even- toda a atividade analitica encaminha-se para esse objeti-
tualmente dar a impressão de que provém de um medo voo Essa não é apenas uma concepção assustadora, como
avassalador. Não há como vermos Hermes, deus do co- igualmente pretensiosa e alarmante para a consciência her-
mércio, nesses pacientes. mética, pois esta sentiria o risco que corre quando sua
Colocando as elaborações acima numa metáfora te- movimentação psíquica é substituída por uma personali-
rapêutica teríamos o seguinte: quando Hermes, no papel dade monstruosa. O "Hino homérico a Hermes" oferece um
de deus do comércio, de fato aparece num caso de severa escopo mais amplo, pois nos mostra dois deuses, por trás
rigidez, começamos a observar melhoras nesse paciente. de duas diferentes estruturas arquetípicas na psique, que
Quando a imagem de Hermes, o deus do comércio, não é lidam um com o outro dentro de uma psicologia de inter-
reprimida, ele promove o relacionamento das pessoas câmbio e negociação. Sua interação sugere um outro mo-
entre si, a descoberta do mundo e a variedade que vive- delo para a psicoterapia. Não é preciso "saber" ou ter um
mos hoje em nossas vidas. Hermes propicia intercâmbios, profundo entendimento do outro, pois existe uma psicolo-
interações e sobrevivência, tanto na história como na psi-
que. Ao longo de toda a história, a negociação tem sido 32 CW 5, § 682.

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gia de intercâmbios que, em si mesma, é terapêutica. A Mas digo-te ainda uma coisa, Filho da gloriosa Maia e de
mais popular preocupação entre junguianos é com a Zeus que domina as égides, gênio portador da fortuna para
os deuses: há certas pessoas sagradas, nascidas como ir-
unilateralidade da personalidade, presa demais à lu- mãs, três virgens aladas, cujas cabeças são espargidas por
minosidade de Apolo; esta cena da negociação é sugestiva branco alimento, e que habitam numa crista do Parnaso.
do que seria a exigência terapêutica mínima: incentivar a Além de mim, são as professoras de adivinhação ... De sua
consciência polarizada a familiarizar-se com seu oposto. casa, ora voam para cá, ora para lá, alimentam-se de favos
O relacionamento entre os dois irmãos melhora subs- de mel e tudo ocasionam. Quando estão inspiradas, de-
pois de haverem comido mel amarelo, dispõem-se a falar
tancialmente quando Hermes promete que "nunca furta- a verdade; se, porém, foram privadas do doce alimento
ria nada que pertencesse àquele-que-atira-Ionge, e que divino, então falam inverdades, enquanto saem e entram
nunca se aproximaria de sua forte morada". Diante des- dos lugares como um enxame. Estas, portanto, dou a ti;
sa promessa, existe uma demarcação dos territórios de pergunte corretamente a elas e delicie seu coração com o
ambos, o que, naturalmente, tranqüiliza Apolo; logo este que disserem; caso venhas a ensinar algum mortal a fa-
zer isso, geralmente ele irá escutar uma resposta - se
está pronto para amar Hermes mais que a todos os ou-
tiver sorte."
tros. A estipulação de limites para seus dois campos de
ação, a demarcação de fronteiras, desencadeia um movi- Realizando a vontade de Zeus, Apolo faz Hermes ser
mento rumo ao amor, ao eros, envolvendo os dois irmãos. "apenas um presságio para os imortais e todos os seme-
Foi criada uma distância legítima. Hermes mostra que é lhantes". Essa imagem parece estar dizendo que o pró-
capaz de fazer uma diferenciação, que essa capacidade não prio Hermes é um presságio. O presságio nos dá uma sen-
é só atributo de Apolo. Esta demarcação de limites entre sação de prognóstico, de pressentimento; é uma previsão.
duas figuras arquetípicas oferece-nos uma outra imagem Recebemos um alerta que nos vincula com nossa nature-
a partir da qual refletir sobre o eros entre homens. za, e que sempre está dentro das limitações de nossa pró-
E Apolo jurou também: "Na verdade, tornar-te-ei apenas pria história.
um presságio para os imortais e todos os semelhantes, em A sensação mais extrema seria uma espécie de pres-
quem meu coração confia e aos quais respeito. Além dis- ságio proveniente de meios naturais: o reino de Hermes,
so, irei oferecer-te um esplêndido bastão de riquezas e bens: aquilo que acontece na natureza do homem. Pode-se di-
é feito de ouro, com três galhos, e irá manter-te ileso, ca- zer que esse tipo de augúrio se manifesta a partir da li-
paz de realizar todas as tarefas, em atos e palavras de
boa qualidade, que afirmo conhecer pelos pronunciamen-
gação de Hermes com o instinto básico que o homem na-
tos de Zeus. Porém, quanto à criança nascida dos céus, tural tem para a sobrevivência. Podemos imaginar uma
nobre e profetizadora, da qual indagas, não é legítimo para pessoa viajando pelas obscuras estradas da vida, sendo
ti saber dela, assim como também não o é para os deuses guiada ou extraviada por Hermes, e necessitando de um
imortais: só a mente de Zeus conhece isso. Estou compro- pressentimento instintivo capaz de marcar seu desloca-
metido com um juramento e voto solene que fiz, segundo o mento por essa estrada. Esse tipo de presságio, ou orien-
qual mais nenhum dos deuses eternos exceto eu deve to-
mar ciência do sábio conselho de Zeus. E não me peças tu, tação, tanto vincula a pessoa com a sua natureza como
meu irmão, portador do cetro de ouro, que te diga quais procede dessa natureza no momento necessário à sobre-
são os desígnios que pretende o onividente Zeus ... vivência. Quando Hermes aparece nos sonhos e fanta-

98 99
si as pode ser entendido como presságio, seja orientando Hermes com as complexidades do arquétipo da cura e,
a psicoterapia, seja transmitindo o prognóstico contido nessa medida, com Asclépio. A intimidade de sua ligação
naquele presságio. com Asclépio foi constatada na era helenística, e expres-
De todo modo, Hermes - ou qualquer um de seus sa na literatura hermética. Os presságios de Hermes, que
atributos - ao aparecer nas fantasias e nos sonhos cons- antes discutimos com relação ao corpo, incluem agora o
titui um sinal de que o movimento psíquico foi constela- novo atributo do bastão que, mediante o seu toque, reali-
do, abrindo assim caminho para as possibilidades her- za todas as tarefas e introduz um toque de magia.
méticas na psicoterapia. Atendi certa vez um médico, na As noções de magia, de reino mágico da psique e de
casa dos 50 anos, cuja unilateralidade era muito rígida. expectativas mágicas de cura e restabelecimento do equi-
Ele costumava vir me ver de tempos em tempos, repleto líbrio, apresentadas pela antropologia, não têm variado
de distanciamentos e suspeitas a respeito da psicoterapia. muito desde o homem primitivo, até o moderno. Este,
Com o tempo, acabou me contando um sonho reiterado como todos sabemos, é repleto de expectativas mágicas
no qual sentia que havia pessoas no jardim de sua casa. deslumbradas, como a espera pela pílula mais recente,
Ele descia a escada com uma arma no mesmo momento ou os mais atualizados raios laser que irão curar seus
em que o ladrão estava abrindo a porta, e então dispara- males. Essa espécie de expectativa mágica atingiu há al-
va todas as balas do tambor, matando o ladrão. Ficava guns anos o pico de sua estupidez e ignorância quando o
muito satisfeito com sua atitude no sonho e mais tarde mundo científico pensou que a energia atômica fosse uma
também quando desperto, apesar de todos os meus esfor- panacéia curativa, quando, na realidade, hoje resta-nos
ços para refletir sua atitude destrutiva e repressora com curvar-nos servilmente diante de seu terrível potencial
relação a uma parte de si mesmo. Ele desapareceu e, al- de destruição. Expectativas mágicas acompanham todas
guns anos depois, fiquei sabendo que havia sofrido um as pessoas que entram em psicoterapia, independente-
grave ataque do coração. Deixo que o próprio leitor faça mente de seu status intelectual, idade, ou tipo de confli-
suas conjecturas. tos que estejam sofrendo. A psicologiajunguiana tem dado
Discutimos anteriormente os aspectos preliminares uma certa atenção ao lado mágico da restauração do
do lado premonitório de Hermes, manifesto nas reações equilibrio psicodinâmico, discutindo os contos de fada nos
físicas. Agora, a narrativa descreve a verdadeira epifania quais aparece o bastão mágico (a varinha de condão), e
de Hermes como um presságio propriamente dito. O que as curas xamânicas relatadas no material antropológico;
antes era muito difícil para Apolo agüentar agora está além disso, tem detectado sua presença na psicoterapia,
plenamente aceito. Além disso, delimita os campos de ação naquelas súbitas e profundas conscientizações que, por
dos dois irmãos, o território de cada qual, e demonstra serem tão repentinas, dão a impressão de serem mágicas.
uma aceitação cada vez maior. Tem existido uma certa preocupação com a possibili-
Então Apolo diz: "Além disso, irei oferecer-te um es- dade de os terapeutas tornarem-se identificados com os
plêndido bastão". O bastão, ou cetro, de Hermes tem sido elementos mágicos do arquétipo, com o poder mágico da
considerado seu lado mágico. Mais tarde, esse cetro tor- cura, e com uma prática psicoterapêutica que assim fi-
nou -se o símbolo da medicina, deste modo vinculando que impregnada por expectativas mágicas. É aqui que o

100 101
charlatão entra na psicoterapia com seus slogans mági- tanto o paciente como o terapeuta, existem duas histórias,
cos, tais como "a psicoterapia é um caminho para a indi- dois destinos, encontrando-se no tempo. Esse é um acon-
viduação", ou "a psicoterapia é uma atividade limpa, tecimento sincronístico, nem bom nem mau, um destino,
pura", negando dessa maneira as complexidades arque- e deve ser incluído em tudo o que denominamos de cura.
típicas consteladas em torno do termo "mágico". Uso a Seja qual for a nossa postura a respeito do curar, tanto
palavra "slogan" neste contexto porque ela exprime a atra- nos casos de emergências, como nas aventuras em pro-
ção do plano externo do coletivo pelas curas mágicas. Não fundidade, trata-se de um encontro fortuito entre tera-
se pode, no entanto, fazer um "slogan" da função inferior peuta e paciente, e sentimos a presença de Hermes ex-
de Jung, ou das idéias de Ziegler a respeito dos traços pressando-se como senhor dos caminhos, guiando nossa
recessivos da natureza humana. 33 Até onde conseguimos psique e nosso corpo, ou extraviando-nos.
mobilizá-las, as complexidades da cura mágica têm uma Em termos de cura, o poder tem sido discutido no
ligação com o arquétipo da cura, mas foram discutidas contexto de um arquétipo cindido: o poder mágico como
principalmente com relação ao poder, por causa da iden- uma tentativa de lidar com o arquétipo fragmentado da
tificação ~nconsciente do clínico com esse aspecto do ar- cura, mas cura alguma pode advir de um arquétipo que
quétipo. As vezes, é experimentado um estado de "pos- está rompido. Pessoalmente, não tenho interesse em dis-
sessão". Eu diria que a possessão é um dos modos como o cutir a idéia do arquétipo cindido. Talvez ele lance algu-
arquétipo funciona. Por exemplo, não posso conceber a ma luz sobre o poder e também nos permita enxergar
energia dos cirurgiões, operando dia e noite, durante ho- mais nitidamente uma loucura que esteja se apoderando
ras a fio, sem sentir o menor esgotamento, inclusive numa do relacionamento entre o clínico e o paciente. No entan-
idade em que a capacidade física tende a diminuir, senão to, no que me diz respeito, quando o poder entra no pro-
como uma possessão. Repetindo, foi constatada a presen- cesso da cura o arquétipo simplesmente não funciona e
ça do elemento poder quanto à identificação com o arqué- Hermes, o vinculador, desaparece.
tipo, e essa identificação rompe o arquétipo da cura, que Na realidade, sabemos muito pouco sobre o poder
então não funciona mais. Ou, para expressar-me na lin- em si, e para nós é difícil aceitar que esteja tão profunda-
guagem de Hermes: Hermes desaparece de cena. O mente enraizado na natureza humana, usando e mani-
terapeuta é abandonado em sua luta, com toda a força de pulando as formas de vida, os arquétipos. O poder é o
seu poder, contra a enfermidade de seu paciente, que en- maior dos desafios aos estudos em psicologia porque todo
tão se torna um joguete, alimentando o poder desse clíni- o conhecimento que é adquirido pela assim-chamada pro-
co impiedoso. Esse poder, que decorre de uma identifica- fissão de cura pode ser transformado em noções superfi-
ção com o arquétipo, poderia ser aceito como não tão ciais a serem usadas por um clínico ávido por poder, só
terrivelmente depreciativo em si mesmo. Sem cinismo, pelo prazer do exercício desse poder.
poderíamos dizer que, na aventura curativa que envolve Minha abordagem particular da imagem de Hermes
como mágico foi estimulada pelo trabalho dos estudiosos
33 Alfred Ziegler, Archetypal Medicine, op. cit., "Theoria" Spring modernos, os quais oferecem novas perspectivas e uma
Publications, Dallas, 1983. '
reflexão sobre como o espírito de nosso tempo quer
102 103
reapreender aquilo que se subentende pelo termo "mági- as imagens arquetípicas que sublinham o termo "mági-
co". Em vez de voltar-me para estudos antropológicos, con- co", passando então a contê-las dentro do sistema da
tos de fadas e xamanismos, prefiro recorrer a Frances memória do processo psicoterapêutico, não como algo
Yates, que escreve: aparentemente mágico mas sim bem enraizado numa
... a visão dos sistemas mnemônicos de Bruno como ances- memória que pode propiciar movimento psíquico. Essa
trais mágicos da máquina mental só tem um valor parcial combinação de Hermes com Mnemosine, vista como a
e não deve ser estendida muito adiante. Se deixarmos de memória da alma com seu componente emocional, é o que
lado o termo "mágico" e pensarmos nos esforços de um
artista oculto da memória, dirigidos para extrair da psi- torna possível a arte da psicoterapia e o pensamento
que algumas combinações de imagens "arquetípicas", en- analógico. Sabemos que as analogias complementam a
tramos no território de algumas das principais tendên- reflexão e são o que mais mobiliza a psique. 35
cias do pensamento psicológico moderno. Contudo, assim Quando Apolo diz para Hermes que não é legítimo
como na analogia com a máquina mental, eu não enfati- que ele aprenda a vaticinar, o Hino parece estar implici-
zaria uma analogiajunguiana, que poderia confundir mais tamente dizendo que pressagiar não é atribuição de
do que esclarecer. 34
Hermes, embora, como sabemos, ele efetivamente tenha
Imitemos a srta. Yates e deixemos a palavra "mági- recebido o dom da profecia. Vaticínios são verdades e, como
co" de lado, e passemos a pensar nos termos daquelas o Hino esclarece, não se pode falar muito em verdades no
combinações psíquicas de imagens arquetípicas - as com- tocante a Hermes. Vaticínios, profecias e oráculos são ele-
binações que os pacientes trazem e as que surgem na si- mentos que pertencem ao domínio de Zeus e Apolo. 36 Es-
tuação analítica, as quais o terapeuta já aprendeu e que ses fenômenos ocorreram na Grécia, numa época em que
compõem sua memória psicoterapêutica. A analogia que havia a necessidade histórica de todas as possibilidades
a srta. Yates está evitando depende da linha de pensa- da psique. É difícil conceber uma psicoterapia divinatória,
mento junguiano que se esteja seguindo: a da amplificação embora pareçam existir psiques que só encontram algum
filogenética, a dos contos de fada, a do xamanismo etc., "que equilíbrio através de um constante correlacionar do ma-
poderia confundir", ou empurrar-nos para uma identifica- terial psicoterapêutico, dos sonhos e fantasias com previ-
ção com o poder, como já discutimos, ou a da abordagem sões e antecipações do futuro. E não nos esqueçamos de
arquetípica em que a combinação das imagens arque- que esse componente está em todos: é arquetípico.
típicas constela o campo em que pode transcorrer uma Hermes, no entanto, efetivamente recebe um estra-
reflexão e em que Hermes pode aparecer. nho tipo de dom divinatório na forma de um exótico trio
A imagem de Hermes com seu báculo mágico, fazen-
do uma de suas epifanias, precisa ser inserida numa 35 Refletir sobre as analogias e a arte da retórica está na base da cultura

psicoterapia que se alicerça em arquétipos. Hermes era ocidental; em A Ilíada, quando Agamemnon enviou seus três embaixadores-
Odisseu, Fênix e Ajax - para pedirem desculpas a Aquiles e persuadirem-no
seguidor de Mnemosine (a Memória), e ele é o vinculador. a voltar à batalha, foi Fênix quem mais o sensibilizou ao se valer da analogia
Esses dois aspectos herméticos podem combinar-se com de Meléagro. Ver George A. Kennedy, Classical Rhetoric and its Christian and
Secular Tradition fmm Ancient to Modern Times, eroom Helm, Londres, 1980,
pp. 11-15.
34 Yates,The Art of MemO/y, op. cit., p. 252. 36 H.W. Parke, Greek Oracles, Hut~hinsoh, Londres, 1967.

104 105
de irmãs virgens que parecem ser criaturas parecidas com profetização. A previsão do futuro e a profetização acon-
abelhas. Essa imagem oferece-nos uma impressão de como tecem na psicoterapia tanto de modo apolíneo como her-
o lado virginal da psique aparece em Hermes. Poderia mético. A interpretação de sonhos ou uma discussão po-
ser o modo como Hermes vincula-se com o elemento dem ser conduzidas segundo a proposta apolínea para a
Ártemis/Diana virginal, através de seu próprio ciclo Luna, previsão de futuro. A conexão arquetípica do analista com
numa conexão mediada pelas três irmãs que aparecem Apolo, contribuindo com um toque brilhante, prático e
aqui e ali, falando verdades ou falsidades, a depender da científico, encaminha a situação rumo às necessidades
quantidade de mel que recebem? Podemos perceber que, oraculares da psique. Ou a resposta pode vir do lado her-
com esse tipo de profetização, desaparecem a verdade e a mético da profetização. As três irmãs virgens, que apare-
falsidade e a vivência de ambas como pólos opostos. Com cem dentro do complexo de Hermes, guiam a constelação
base em todas as informações que já acumulamos a res- divinatória de acordo com o mel que o paciente leva para
peito de Hermes, ele não se incomoda com o que é verda- o analista. Este, se não tiver consciência do seu dinamis-
deiro ou falso. mo pessoal das virgens profetizadoras, exige cada vez
Pode iniciar psicoterapia um paciente que apresen- mais mel para retribuir com cada vez mais profecias. Ele
ta uma forte constelação dessa espécie de profetização pode tornar-se inconsciente de uma situação que, no mí-
(forte componente hebefrênico, virginal) e que, para o nimo, tem um toque hebefrênico; mas, se tiver consciên-
analista, costuma apresentar mel, só mel. Nesse caso, as cia desse mel virginal na psicoterapia, então, apesar de
três virgens podem servir como recurso, no sentido de sua aparente puerilidade, Hermes está presente.
essa ser uma psicoterapia "melíflua", em que verdade ou Com base nesse atributo comum a Apolo e Hermes,
falsidade não são a questão principal. Pois, enquanto o seu dom divinatório, podemos especular que se, no meio
analista estiver ciente da constelação ativada, pode abor- de um processo transferencial guiado por Hermes, com
dar o paciente de dentro dessa constelação, assegurando todos os seus complexos associados, aparece um enigma
que ocorra a psicoterapia. Mas, se o analista não estiver que tenta ser decifrado por meio de um oráculo, deve ha-
inteirado desse dinamismo, então não é possível nenhu- ver a percepção bem consciente de que agora ocorre uma
ma psicoterapia e o ciclo lunático virginal desse paciente constelação da imagética arquetípica da profetização, e
será tão-somente intensificado. que esse é um elemento compartilhado pelos dois irmãos.
Com base em nossa leitura desta passagem do Hino, Isso acarreta a possibilidade de a situação analítica her-
torna-se evidente que existe uma certa mescla arquetípica mética por inteiro ser tomada de assalto por Apolo e seu
na profetização. Esta capacidade é comum aos dois ir- modo oracular, profetizador, de prever acontecimentos.
mãos, embora cada qual tenha um estilo próprio. Depen- Apolo diz a Hermes que as previsões das três irmãs
dendo da fina e aguçada percepção do analista de qual virgens podem ser ensinadas aos mortais. Provavelmen-
arquétipo deve estar dominando a situação, muito pode te, ele está se referindo a alguma coisa que é ensinada
ser resgatado para a psicoterapia. Como nossa preocupa- mais comum ente do que pensamos, algo de que todos
ção é o lado prático da psicoterapia, temos de tentar in- aprendemos um pouco. Mas podemos suspeitar também
troduzir alguma diferenciação entre os elementos da que a profecia de Apolo pode ser igualmente ensinada:
106 107
uma interpretação oracular dos sonhos, planos para atos mente em virtude de sua ligação com o nível do homem
a longo prazo, retificações morais etc. primitivo, a qual se dá de uma maneira que nenhum ou-
Comunicar-se com Marte, dialogar com os espíritos, tro habitante do Olimpo consegue igualar.
Relatar o comportamento do monstro marinho , A tarefa de guiar a alma pelo mundo inferior não
Descrever o horóscopo, os arúspices, ou a bola de cristal, pode ser minimizada, nem omitida da psicologia, e me-
Observar doenças nas assinaturas, evocar nos ainda da psicoterapia. Morte é morte - o sempre
A biografia a partir dos vincos da palma da mão
E as tragédias inscritas nos dedos; proferir augúrios
temível oposto da vida - apesar do fato de nossa cultura
Através de sortilégios, ou folhas de chá, ter sistematicamente reprimido o que a morte é para a
decifrando o inevitável psique. Nessa repressão, de trágicos antecedentes, És-
Com cartas de baralho, dedilhando pentagramas quilojá no século V a.C. havia discernido a mão repressora
Ou ácidos barbitúricos, ou dissecando de Prometeu tentando abafar o fato da morte.
A imagem recorrente em terrores pré-consientes -
Explorar o útero, o túmulo, ou sonhos; "Sim. Fiz com que os homens não antevissem mais sua
tudo isso é corriqueiro ... 3? morte."39

Tudo isso é de fato corriqueiro e, como já sabemos, Eis uma fala formidável que, retrospectivamente,
há arquétipos que lhe dão contorno e base. E, se são ati- parece profética; ela também permite que percebamos
tudes que têm aparecido durante todo o desenrolar da claramente a fonte dessa repressão histórica e o processo
história da humanidade, então aparecem no consultório de reforçamento que a acentuou ao longo do cristianis-
do analista. Temos de nos tornar conscientes do modo mo. Em nossa época atual, essa repressão atingiu um
como aparecem em nossas psiques e de suas implicações ponto tão extremo que os rituais, as emoções e os senti-
no que vem a seguir. mentos atinentes à morte, com todas as suas imagens
N a conclusão do Hino, Hermes recebe um último tra- correspondentes, praticamente desapareceram. Após o
balho: " ... que ele seja apontado como o único mensageiro colapso e o fracasso dos valores religiosos tradicionais
para H a d es ... ",38 e essa lllcum
. b enCIa outorga- lhe o status
A •
relativos à morte - aqueles valores éticos e moralistas
de ser o único dos olímpicos a lidar diretamente com as avaliados na balança de céu e inferno - a tensão psíqui-
profundezas e mistérios do reino dos mortos, tarefa espe- ca de opostos, central às crenças religiosas do homem
cífica e importante do ponto de vista psicológico. Estou ocidental, foi dissipada. Nenhum imaginário no entanto
seguro de que, nesta altura, o leitor já está suficiente- apareceu para ocupar seu lugar, no que tange à vida psí-
mente familiarizado com a personalidade de Hermes e quica do homem, às suas emoções e patologia. Desde o
com as qualidades herméticas para perceber como ele é final da Idade Média, a religião vem se mostrando mais
idealmente adequado para essa incumbência, especial- interessada em sua dimensão secular do que em seus
mistérios religiosos e na morte. A morte não é mais uma
preocupação da religião comum. O homem moderno en-
37 T.S. Eliot, Four Quartets, Faber and Faber, Londres, 1944, The Dry
Salvages, p. 32.
38 "Hino homérico a Hermes", op. cit., p. 405. 39 Ésquilo, Prometheus Bound, Petiguin, Harmondsworth, 1961, p. 28.

108 109
contra-se sozinho diante de sua morte - um fato que da morte como um aspecto essencial das complexidades
temos de aceitar. Se, porém, do ponto de vista da psicolo- que contribuem para as mudanças psicobiológicas a par-
gia profunda, constatamos sua desolação perante a mor- tir das quais nasceu a fala. 4o Acredito que essa tentati-
te, isso é-lhe vantajoso porque proporciona-lhe a liberdade va de penetrar na escuridão noturna é uma intuição
de tornar a morte uma preocupação íntima e imaginativa, válida, tendo em vista o meu interesse de expandir a
toda sua, num processo de progressiva familiarização com psicoterapia, colocando a morte em primeiro plano. Ao
suas imagens e emoções particulares sobre a morte, o que mesmo tempo, a escuridão noturna pode ser imaginada
enriquece sua vida psíquica. É claro como isso é impor- como uma dimensão dentro de nossa própria natureza,
tante, e meu objetivoconsiste em conferir à morte um dimensão na qual a imaginação tem suas raízes mais
lugar central na psicoterapia. profundas, onde as imagens primordiais que ali foram
Essa mesma liberdade permite-me imaginar a mor- arquivadas mobilizam o que hoje denominamos de psi-
te naquela "noturna escuridão" à qual o Hino alude; per- que - nossos instintos e corpo emocional psicossomático
mite que a minha própria primitividade "leia" aquela es- - assim como mobilizam muitas outras concepções ima-
curidão noturna como o faria um exemplar do pensamento ginativas de nossa psique. As primeiras percepções cons-
mítico, o homem primordial, cheio de assombro e horror, cientes que o homem teve da morte formaram sua psi-
percebendo a morte como morte, num choque arrasador que básica. 41
que lhe traz a primeira conscientização de si mesmo, cho- Mantendo em mente essa abordagem imaginaI da
que que começou a torná-lo humano - o despertar do morte e da fala, e da consciêcia psíquica, vej amos a psico-
instinto de reflexão, início da vida psíquica, da cultura, logia moderna. Historicamente, a mente científica, pres-
das crenças religiosas. Os historiadores da pré-história, sionada pela enfermidade mental, apoderou-se da ne-
paleontólogos, antropólogos, etologistas e biólogos ofere- cessidade que o homem tem de "investigar" sua psique.
cem-nos suporte suficiente para que imaginemos como, A relação de causa e efeito estimulou um novo interesse
de repente, houve a percepção clara e indiscutível da pela vida psíquica. Ao mesmo tempo, um vasto acervo
morte, causando um tal choque à natureza do homem de conhecimento foi acumulado, formando o que poderí-
que enfim surgiu a consciência especificamente humana amos chamar de uma "cultura psiquiátrica". Esse é o
- o refletir sobre a morte do outro, provavelmente des- peso - a realidade - desta cultura que já se transfor-
perto pelo ritual da morte de animais, vinculando a mor- mou num complexo histórico para o mundo de hoje, su-
te ritual com uma imaginação incipiente: os primórdios
do pensamento mítico e da poesia. Mas, avancemos mais
40 Os estudos efetuados pelo homem moderno acerca de seus primórdios
um pouco com nossa imaginação e vej amos que o homem como ser humano, nos quais fundamento méus pensamentos, sem dúvida com-
primordial, mobilizado por sua percepção da morte e pres- põem um campo apaixonante e fascinante de reflexões. O principal interesse
da literatura está centrado na caça como a origem da fala. Quero simplesmen-
sionado por sua imaginação, começa a pronunciar suas te incluir a consciência que o homem tem de sua própria morte como um ingre-
primeiras palavras articuladas. A morte então deixa de diente importante - o mais imaginativo e metafísico, se quiserem - mas o
ser simplesmente um ritual animal: o mito falado estava mais psíquico, a meu ver, além de todas as especulações a esse respeito.
41 E.R. Dodds, The Greeks and the lrrational, University ofCalifornia Press,
a caminho. Quero enxergar essa consciência específica Berkeley, 1968, Ca. V, "The Greek Shamans and the Origin of Puritanism".

110 111
jeito aos mesmos conflitos e pressões geográficas, ra- Existe um outro elemento predominante na cultura
ciais, religiosas e históricas. Sem sombra de dúvida, tor- psiquiátrica, mais forte e mais arquetipicamente defini-
nou-se um complexo muito importante. Temos apenas de do, do que a mente científica moderna: o puer aeternus;
considerar como acabou se tornando o mais poderoso par pode-se inclusive dizer que esses dois elementos se fun-
de óculos com os quais enxergar a natureza e o comporta- diram. Só Jung e seus seguidores fizeram do puer aeternus
mento do homem. Tornou-se indispensável. Num nível um foco de interesse; viram-no, porém, em termos de um
mais familiar, o complexo da cultura psiquiátrica explica arquétipo bicéfalo - como oposição entre puer e senex,
as infinitas concepções psicoterapêuticas, para não men- entre infância e adolescência versus idade adulta e ve-
cionar os fármacos que diariamente aparecem nos la- lhice. Bem, meu interesse aqui é considerar o puer em
boratórios neuroquímicos. oposição ao Hermes ctônico, mensageiro do reino dos
Próximos como estamos do término deste século, ve- mortos, que poderia ser o elo entre o puer e o senex ao
mos como esse complexo psiquiátrico afeta o mundo todo, permanecer em oposição exclusiva ao puer voador.
mas, desnecessário dizer, ainda mais especialmente aque- É somente em termos dessa mistura - da reunião
las pessoas que têm um envolvimento profissional com o da mente científica com o puer voador - que podemos
mesmo. O mundo é cada vez mais inundado por uma pro- ter uma visão mais psicológica dos complexos que regem
fusão de teorias e técnicas terapêuticas, e o complexo con- a cultura psiquiátrica e os estudos da psicologia. A causa
tinua se expandindo. Tal como acontece com qualquer da enfermidade mental, de acordo com o modo como os
outro complexo, podemos nos identificar com ele, ser in- pioneiros da mentalidade científica costumavam vê-la,
conscientes dele, ser possuídos por ele etc. Sobretudo, deveria ser localizada na infância, na meninice pessoal
assim como qualquer outro complexo, este pode ser do doente, o que daria um selo distintivo à psicologia e
destrutivo e a única forma de ser viável lidar com ele é reforçaria a noção de que a psicoterapia (preocupação
como Jung ensinou: circumambulando em torno dele, ou, deste livro) está sendo limitada ao causalismo da infân-
como Hermes faz classicamente, pondo um pé dentro en- cia. Uma grande parte da cultura psiquiátrica, a psica-
quanto mantém o outro fora. É evidente, contudo, que nálise, e mais do que uns poucos seguidores de Jung têm
muitos estudantes de psicologia foram tomados pela pro- concentrado suas atenções basicamente na infância, para
fusão de teorias e afogaram-se no complexo, ou então li- evitar dizer que estão nas malhas do complexo da mente
daram com ele da maneira mais incomum pela qual po- científica e da psicoterapia vigente do puer aeternus, os
demos lidar com um complexo: através do poder. Hoje o dois componentes predominantes da cultura psiquiátri-
poder substitui, ocupa o lugar, do que deveria ser o nosso ca. Esse foco sobre a infância pode ser visto como uma
principal foco de atenção: a psique. O único relaciona- projeção do puer, dando carta branca à ciência. Se consi-
mento decente que podemos ter com este complexo, o único derarmos este complexo por um prisma mais psicológico,
modo como podemos proteger a nossa psique, é tentando veremos que é um culto moderno para a velha religião do
guardar uma distância correta em relação a ele, e então puer, que é a ciência de hoje no altar do puer, numa per-
furtarmos hermeticamente os seus conteúdos ou permu- versa adoração deslocada de contexto. Digo deslocada de
tarmos com ele. contexto porque vivemos num mundo já desequilibrado,

112 113
do ponto de vista arquetípico, em virtude das dominadoras essa atitude tem bloqueado qualquer acesso, da parte da
complexidades do puer ascendente. Aqui, este arquétipo psicoterapia, ao que poderia desencadear uma transfor-
pode ser visto como um importante aspecto da consciên- mação psíquica mais dinâmica: a morte como mobilizador
cia coletiva vigente (a história inteira do homem ociden- psíquico primordial, mesmo numa doença que poderia ser
tal oferece um testemunho disso) - uma psicologia mui- considerada como especificamente causada pelo históri-
to distorcida ou a mais pura loucura. Além disso, a força co familiar (complexos pessoais). Estamos começando a
dominante do puer no campo da psicologia não dá espaço constatar que existe uma séria discrepância arquetípica
para outras concepções psicológicas, mesmo na psicolo- entre a tradição da cura e uma psicoterapia preocupada
gia junguiana, na qual uma grande parte do seu legado com a morte, com um Hermes ctônico capaz de guiar a
ainda precisa encontrar um encaminhamento adequado. alma até o reino dos mortos.
Pois, o puer só aprende em relação com o que é compatí- Vejamos agora como os dois homens mais importan-
vel com sua configuração arquetípica, ou seja, qualquer tes da psicologia deste século abordaram a morte, em ter-
conhecimento que proceda de um outro arquétipo é auto- mos gerais, com relação aos sonhos. Lembremo-nos, aqui,
maticamente traduzido segundo sua própria visão de puer que o material onírico é a mais próxima manifestação
aeternus. Ele só consegue enxergar nos termos de sua com que contamos daquilo que é desconhecido em nós -
consciência puer voadora arquetípica. Essa é uma cons- o id, o inconsciente, o irracional, a sombra de nossa natu-
ciência capaz de conceber uma abundância de teorias e reza etc. Os sonhos dão-nos informações - claras, obscu-
psicologias mas, por causa de sua polarização, está mui- ras, enigmáticas - a respeito de nosso estado psicológi-
to distante daquele ponto médio da consciência que tor- co, da direção que nossa psique está tomando, e até de
na a psicoterapia possível, e ainda mais longe de uma um prognóstico sobre nossa vida. Sendo assim, primeiro
psicoterapia baseada na imagem do Hermes guiando a vejamos como Freud considerava os sonhos em que hou-
alma até o reino dos mortos e até as muitas possibilidades vesse o elemento da morte. Sua concepção serve como a
metafóricas que ali se lhe apresentam. A psicologia dos imagem primordial, no sentido de que ele foi um pioneiro
opostos é estranha à consciência do puer aeternus. e, com isso, a morte nos sonhos recebeu seu selo indelé-
Existe um outro ingrediente a ser acrescentado a vel, influenciando profundamente o que veio depois.
essas complexidades que estamos analisando: quando os Quando Freud dizia que a morte de uma figura de pai ou
estudantes modernos de psicologia focalizam seus estu- mãe, irmão ou amigo íntimo era a expressão da realiza-
dos na infância como a causa da doença mental, circuns- ção de um desejo, podemos nos dar conta da imensa cul-
crevem seus interesses segudo as limitações da tradição pa que a pessoa devia sentir por ter sonhado isso, para
médica. Hoje, a tradição médica cura em termos de doen- nem citar a paralisia total de sua psique e o poder que
ças específicas, e, mitologicamente, está fixada no "peca- era assim conferido ao seu analista. Freud foi o produto
do original" de Asclépio de rejeitar Hades, rejeição que de uma tradição religiosa e racial calcada na culpa; sua
tem levado à concretização do resgatar a vida das garras visão da morte como realização de desejo era a única abor-
da morte, e ao prolongamento artificial da vida como o dagem coerente possível de dar crédito à validade de sua
principal objetivo da medicina. Mas, ao mesmo tempo, teoria do complexo de Édipo. Sua interpretação da morte

114 115
nos sonhos encaixava-se em sua teoria e em seu interes- mesmos, os sonhos de morte oferecem um espectro de
se pela infância. Sendo assim, naquela primeira impres- possibilidades que vão desde o diagnóstico e a movimen-
são a culpa imprimiu um selo indelével sobre a história tação psíquica até uma psicoterapia profunda, ou a con-
da psicoterapia moderna, e a mensagem metafórica da clusão da mesma.
morte para a psique ficou perdida. Nos planos arquetípico e psicoterapêutica, Hermes
Por outro lado, Jung baseou a principal noção de sua ser apontado como o guia da alma até o mundo inferior
psicologia psicoterapêutica nas mudanças da meia-ida- tem uma conotação muito diferente das concepções ge-
de, e com isso sua abordagem do material onírico sobre a rais de Freud e Jung. "Arquetípico" significa o que per-
morte consistiu em vê-la como uma indicação de um mo- tence à natureza humana; todos temos um Hermes a guiar
vimento iniciático, uma preparação para a segunda me- nossa alma até o reino dos mortos e lá por dentro, e a
tade da vida, como o início de um relacionamento mais concepção dessa tarefa varia com a constituição psíquica
próximo e intenso com o término da própria existência. de cada pessoa, com seus antecedentes religiosos, cultu-
Essa visão intuitiva da metanóia e a ênfase no preparo rais, e seus complexos, ou com as diferentes fantasias,
para a morte é evidentemente mais psíquica do que o imagens, emoções e sentimentos relativos à morte. Po-
redutivo estreitamento do foco da atenção apenas sobre rém, mais do que isso, a morte poderia ser compreendida
a infância. O fim é mais importante do que o começo. Jung como uma constância na psique, e os sonhos de morte
mobilizou os sonhos com material acerca da morte levan- como eventos que tocam nossos complexos animais/ins-
do-os a se tornar concepções escatológicas influenciadas tintivos/primitivos e míticos, pois meu interesse é vin-
pela história da cultura ocidental, em relação com a imor- cular esses sonhos ao mais antigo de nossos complexos -
talidade da alma e a vida após a vida. Os estudiosos mo- o da escuridão noturna. Numa dimensão psicoterapêutica,
dernos vêm rastreando as raízes dessas noções, locali- isso quer dizer que as imagens de morte podem aparecer
zando-as no xamanismo do homem primitivo, e sua no aqui-agora terapêutico, podem irromper no processo
hipótese é que tenham sido assimiladas pelas doutrinas terapêutico a qualquer momento, inclusive numa primei-
pitagórica e órfica, e mais tarde pela facção ascensional ra sessão, independentemente da idade do paciente, e de
do cristianismo. Parece que, psicologicamente, Jung per- ele estar ou não num quadro de depressão patológica, de
tenceu a esta tradição. estar estressado pela morte recente de um ente querido,
O modo como Freud e Jung lidaram principalmente ou de estar sendo acossado por uma morte antiga que
com sonhos de morte oferece-nos uma visão de um aspec- deixou marcas profundas na memória de sua alma. O
to essencial em suas psiques e personalidades; nesse aparecimento da morte na psicoterapia é um aconteci-
mesmo sentido, em psicoterapia, a concepção de morte mento com sua própria imediaticidade e emoções e, em
de um determinado paciente - como ele fantasia suas virtude de sua profundidade, oferece, acerca do paciente,
imagens da morte, sua atitude emocional perante a mes- uma perspectiva imaginaI sem paralelos. Pode, não obs-
ma - constitui um quadro que poderia ser visto como tante, desestabilizar o equilíbrio do analista mais expe-
um diagnóstico, por assim dizer, de sua psique, e tam- riente e habilidoso. Em geral, ocorre uma atitude estereo-
bém um prognóstico de seu movimento psíquico. Em si tipada com respeito à morte, na qual o analista permanece

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rigidamente apegado a suas próprias concepções cultu- considera a época em que a cura era concebida como re-
rais e, por isso, não consegue reagir com uma atitude pouso e descanso em "spas", praias, e montanhas, com
imaginativa, capaz de corresponder à imagética da mor- uma pausa indiretamente permitindo acesso à depres-
te constelada no paciente. Sobretudo, a excepcionalidade são, como um passado muito distante e decrépito. Vive-
do aparecimento de imagens de morte pode mobilizar o mos numa época em que a cura é visualizada como cirur-
analista à concretização de uma possível morte real, ati- gias de final de semana, com garantias de que o paciente
tude essa que decorre de emoções transmitidas pelo ter- poderá retomar suas atividades na segunda pela manhã;
mo "morte", e de aspectos do arquétipo do curador relati- como maratonas psicoterapêuticas de final de semana,
vos à morte, e que já foram objeto de citação anterior. com garantias de pronta eliminação de pendências emo-
Hermes, como mensageiro do reino dos mortos, per- cionais. No pico da montanha de atividades do homem
mite-nos também abordar a depressão como um nível moderno, o estilo de cura atualmente em moda consiste
constante em nossa natureza. Sabemos que a imagética em muitos exercícios, praticar corrida, e coisas assim,
psíquica da morte e a depressão são tão semelhantes que numa tendência que se tornou um "slogan" e cabe muito
às vezes até se sobrepõem. Se, na dimensão arquetípica, bem nas expectativas unilaterais fáceis: a promessa de
o puer aeternus voador está em oposição à percepção da uma saúde melhor, de um coração mais forte, de uma
morte, então ele, obviamente, está em oposição à depres- vida mais longa e feliz. Em outras palavras, existe uma
são. Quando a consciência dominada pelo puer precisa rejeição total da associação da doença com a depressão, e
confrontar a morte em sentido religioso, existe a tendên- da necessidade de se oferecer uma in-direção hermética
cia imediata a esquivar-se da realidade emocional da que leve até a depressão. Isso é lugar-comum em nossa
morte. A história religiosa do homem ocidental tem se moderna sociedade tecnológica, uma espécie de cura que
preocupado mais com a ressurreição do que com a morte. não consente nem com o tempo mínimo necessário para
De modo similar, e num contexto terapêutico mais coti- que a psique tome ciência do que está acontecendo em
diano, quando o lado depressivo de nossa natureza exige sua própria natureza e em seu próprio corpo. Descansar,
tornar-se presente na vida, o puer voador tende a rejeitar repousar e deprimir acabaram por se tornar os feitos mais
sua presença, e a resistir permanecer na depressão, ou difíceis de se realizar. Na verdade, precisamos do estado
dispõe-se a antecipar imediatamente o estágio pós- de ânimo de "Sunday, Bloody Sunday" para conseguir-
depressivo; esse é um exemplo típico de como o puer move mos aquela gota de depressão e suas imagens coligadas,
qualquer constatação ou experiência para sua própria que tanta falta nos fazem. Sem a depressão não podemos
configuração arquetípica, revelando uma presunção existir; ela é um componente básico da vida; é arquetípica.
inflacionada e, ao mesmo tempo, as tristes limitações de A depressão, por assim dizer, tornou-se tão desesperada
sua visão. buscando um canal de saída que facilmente é constatada
O homem ocidental tem predileção pela atividade e hoje em tensões e conflitos psicológicos, e em quadros
pelo esforço, viés que o deixa cego para qualquer percep- psicossomáticos. Somente uma minoria de curadores tem
ção da morte e da depressão como elementos arquetípicos interesse por esta situação; psicoterapeutas insólitos que,
que fazem parte de sua natureza. A medicina moderna em seu modelo básico de atuação, incluem o lento movi-
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mento incubatório da psique e o processo da desacele- oferece metáforas como também pode nos encaminhar
ração. A depressão é central a qualquer processo de cura. para uma psicoterapia compensatória. A mais imediata
Apesar disso, a depressão também é uma doença, a compensação à nossa unilateralidade pode ser encontra-
depender de sua quantidade e complexidade numa de- da na dupla imagem metafórica da depressão e da morte.
terminada pessoa. Pode tratar-se de uma depressão psí- Não pode haver a transformação psíquica sem opostos com-
quica, de um sinal de enfermidade psicossomática séria, pensatórios. Agora, na psicoterapia de hoje, somos repeti-
ou de morte iminente. E, quando consideramos um qua- damente confrontados com pessoas que vivem como se não
dro depressivo, os muitos recursos e medicamentos cria- tivessem corpo, como se seu corpo lhes fosse uma entidade
dos pela "cultura psiquiátrica", citados antes, desde o inteiramente alheia. Sabemos que a repressão histórica e
eletrochoque até a mais recente droga antidepressiva, não religiosa, concepções filosóficas e científicas e ainda, por
podem ser ignorados. fim mas não em último lugar, a tecnologia moderna alie-
Com respeito à depressão, meu interesse é dirigir- naram-nos daquilo a cujo respeito deveríamos ser psíqui-
me ao clínico, e não ao paciente, porque é óbvio que uma cos: o nosso corpo. Parece que o objetivo da psicoterapia,
visão psicoterapêutica da mesma depende de o analista nesse sentido, é propiciar a sensação de se estar vivendo
ter consciência da depressão, inclusive da sua própria. no próprio corpo, um conseguimento que parece tão fácil,
Para apreendermos o que a última imagem do Hinoinsi- especialmente hoje, quando o corpo entrou tanto na moda.
nua para uma terapia da depressão, e para deixar que a Mas, ,se levarmos em conta como a história tem rejeitado o
imaginação de Hermes dê conta disso, dentro dos limites corpo emocional psíquico, assim como fez com a depres-
arquetípicos da imagem, é essencial contar com uma cul- são, trata-se pelo contrário de um feito notável.
tura antropológica e religiosa. E embora, como acabamos Com base na literatura clássica e especializada a
de mencionar, o conjunto de todo o conhecimento psicopa- respeito de Dioniso,42 ficamos a par do fato de que ele é o
tológico não possa ser ignorado, o terapeuta deve ser capaz deus que representa o corpo psíquico e emocional, assim
de perceber que a depressão é uma expressão natural de como as sensações de nosso próprio corpo. Tanto mitoló-
certas complexidades, segundo a natureza e a entidade gica como historicamente, Dioniso é o mais rejeitado de
psíquica de cada pessoa. Mas, novamente, temos de nos todos os deuses. E também sabemos o quão sistematica-
dar conta do quanto é simplesmente difícil para nós acei- mente o homem ocidental tem rejeitado seu corpo emo-
tar a nossa natureza. A depressão foi importante no pro- cional, por causa dos complexos ascensionais espirituais
cesso de cura de Jung, e aqueles dentre nós que se bene- do cristianismo. Sendo assim podemos nos valer da ima-
ficiaram de seus ensinamentos sabem que o movimento gem de Dioniso como uma metáfora para aquele corpo
psicológico e um estado de depressão são fatores coliga-
dos. É como se fosse a pausa que a natureza faz para
42 Para quem não é versado na literatura referente a Dioniso e pode se
tornar possível à consciência apreender novos conteúdos beneficiar de um estudo do corpo psíquico e emocional, recomendo o trabalho
inconscientes. de Ivan M. Linforth, The Arts af Orpheus (University of California Press,
Berkeley, 1941), especialmente o Capítulo V, "Myth ofthe Dismemberment of
Concentremo-nos agora imaginativamente nos âm- Dionysus"; e W.B. Stanford, Greek Trqgedy and the Emotions, Routledge &
bitos em que Hermes serve de guia, pois não só isso nos Kegan Paul, Londres, 1983.

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psíquico e emocional reprimido a cujo respeito sabemos ção específica. A última imagem do "Hino homérico a
tão pouco, e que pertence ao imaginário que cerca a indi- Hermes" coaduna-se muito bem com o princípio da
cação de Hermes como o mensageiro até o reino dos mor- psuchogogia: Hermes conduzindo a psique, sem qualquer
tos - o corpo morto, o corpo inexistente do homem de tipo de intervenção, rumo à sua própria essência.
hoje. Sejam quais forem as especulações que possamos
ter com respeito a Dioniso e Hades, como o mesmo ser,
essa associação está implícita no relacionamento que vie-
mos estabelecendo entre a morte, a depressão e o corpo
psíquico (o corpo que a psique pode sentir). É aqui que
Hermes entra, guiando a alma até o mundo inferior, numa
imagem que implica em um movimento gravitacional.
Certamente que não existem garantias de se alcançar esse
movimento compensatório rumo a um corpo psíquico,
rumo à constituição de um contexto em que nosso sofri-
mento psicossomático não nos pareça tão terrivelmente
desconhecido: em que ele possa ser visto como um acon-
tecimento hermético.
Como viemos discutindo nas últimas páginas, a psico-
terapia interessada em movimentar a psique até o corpo
exige uma consciência hermética, uma familiaridade com
os ciclos herméticos e sua in-direção, um razoável confor-
to diante da depressão, uma ausência de idéias preconce-
bidas, e confiança depositada nas palavras e na imagina-
ção, com respeito à morte como o mobilizador psíquico
primário. Se a morte está nas origens do pensamento re-
ligioso e mítico e da poesia, então, quando a morte é pos-
ta em palavras, a terapia através da fala, a "cura pela
fala", alcança seu mais profundo significado, e nesse con-
texto gestos e palavras podem ser entendidos como
terapêuticos em si, pois estão isentos do peso da história,
e nele pode se dar o acontecimento de um diálogo tera-
pêutico que toque em complexos fundamentais - como o
da morte e o da fala.
O termo psuchogogia significa, literalmente, a psi-
que que é dirigida por si mesma, e nisto existe uma emo-

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