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DIETER DUHM

Rumo a
uma Nova
Cultura
Da recusa à re-criação
Esboços de uma alternativa
ecológica e humana

verlag meiga
Sobre o autor: :
Nasceu em 1942 na Alemanha. Autor, psicanalista e fundador do
“Plano dos ­Biótopos de Cura”, um plano global para a paz. Em 1967
envolve-se com a esquerda ­Marxista e torna-se numa das per­sonagens
liderantes do movimento estudantil. D. Duhm faz uma ligação entre
as ideias por trás da revolução política e as ideias relacionadas com
a liberação do indivíduo, ficando ­conhecido pelo seu livro: Medo
no Capitalismo, 1972. Em 1978 estabelece o projecto ”Bauhütte” e
lidera uma experiência social de três anos com 40 participantes. O
tema da experiência é “Criando uma comunidade nos dias de hoje” e
engloba todas as questões de origem, significado e meta da existência
humana no planeta Terra. A moldura de uma nova possibilidade de
existência cresce com os conceitos de ‘amor livre’, ‘ecologia espiritual’ e
‘tecnologia de ressonância’. Em 1995, juntamente com a teóloga Sabine
Lichtenfels e outros, funda “Tamera”, um centro de pesquisa de paz
em Portugal que conta actualmente com mais de 160 colaboradores.
Dieter Duhm dedicou a sua vida à criação de um fórum eficaz para
uma iniciativa de paz global, à altura das forças destrutivas da
globalização capitalista.

ISBN 978-3-927266-42-1
2011, Verlag Meiga

Designer: Juliane Paul


A violência é a erupção de energias vitais bloqueadas.
O pacifismo não é a doce pacificação da violência,
nem a reconciliação de conflitos através de apelos à
paz. O verdadeiro pacifismo é a aposta pessoal radical
e inteligente do homem para a libertação de todas
as energias vitais e forças criativas nele existentes. O
pacifismo é a luta funtamental contra todo o tipo de
repressão dos desejos humanos. O pacifismo é a tomada
de partido sem compromissos pelo vivente. O pacifismo
é militância, não necessariamente militância política,
mas militância na aquisição da veracidade interior
e liberdade, porque o pacifismo é a reconciliação do
homem consigo mesmo.
Dieter Duhm
Contents
Prefácio da editora 7

1 Introdução
Loucura estabelecida 9
A atualidade da Utopia Concreta 10
Centros culturais para novas experiências básicas 13
Uma nova consciência do vivo 14
Superar o medo 17
Humanidade 19
A falência e a redescoberta do Geist 22

2 A questão existencial
Nos bastidores ideológicos 26
Caminhantes no deserto 27
Uma Visão Diferente do Sofrimento e das suas Consequências 33

3 A verdade sobre o mundo dos vivos


O medo como doença cultural biológica 42
Estudo da vida como a ciência do futuro 43
Contato e verdade 46
A tecnologia prodigiosa dos seres vivos 47
O ser humano dentro do organismo da natureza 48
Os princípios de funcionamento da vida 50
Uma nova atitude mental-espiritual 57
4 Humanismo biológico como molde para uma nova cultura
Acerca do conceito de humanismo biológico 58
Três passos rumo a um humanismo realista 62
Uma relação ecológica com todos os seres vivos 67
A ideia de ciência 70
Evolução e liberdade crescente 72
Uma cultura sem repressão sexual 75
O significado da sexualidade 80
Nova organização social da sexualidade 85
A questão da não-violência 92
A questão da democracia 97
Construindo uma comunidade humana funcional 101
Purificação emocional e dissolução da armadura do caráter 105

5 Posfácio
Sobre a questão da tradição 109
Para que tudo isso não permaneça meras palavras 115

6 ApÊNDICE
O Manifesto de Tamera 119
30 anos depois 133
Mais informação 136
Bibliografia 136
Prefácio da editora
Como prosseguir após o colapso dos grandes sistemas, dos
grandes e exteriores sistemas da política e economia, clima e
natureza, mas também dos grandes e interiores sistemas de
crença, amor e pensamento?
A juventude do Cairo a Londres, da Grécia ao Chile, da
Rothschild Avenue a Wall Street precisa de uma resposta
para isso, que pode sustentar-se antes das muitas respostas
falhadas do passado, uma resposta para além da ideologia e
da pacificação. O mundo está à beira do abismo. Se a revolta
maciça e o protesto, que hoje se forma mundialmente, tem
de adquirir força revolucionária e asas comuns, se realmente
quer ter sucesso, precisa de uma direcção, uma figura, uma
representação do seu objectivo.
O presente livro oferece essa representação. Foi escrito
há quase 30 anos. Cremos que agora chegou o seu tempo.
Deixámo-lo largamente no contexto político no qual ele foi
escrito. Quisemos com isso mostrar que os nomes mudam,
mas os problemas subjacentes permanecem os mesmos. Até
descobrirmos como podemos solucioná-los. Este livro trata
de como isso podia acontecer. Ele é hoje mais actual do que
nunca.
O autor Dieter Duhm emprestou aqui uma voz à própria
vida. Ele detectou-a por trás de dogmas e falsa moral, abriu-
lhe caminhos através de nichos e da carapaça de coração e
cérebro, que todos nós tivémos de adquirir, para resistirmos a
uma época inimiga da vida do domínio patriarcal.

Mas esta podia já ter passado.


A mudança de sistema, que deve hoje ser levada a cabo, é a
mais profunda e fundamental desde há milénios. É uma
mudança do poder de destruir a vida para o poder de cuidar

7
e proteger a vida. Só assim este planeta azul e todos os seus
habitantes, também o Homem, têm uma hipótese de futuro.

Desejamos que este livro encontre ouvidos e corações abertos


e que a sua semente de humanidade e participação possa
erguer-se mundialmente.
É mais do que um livro. É uma representação de como
poderia ser um futuro digno de ser vivido sobre a Terra. O
autor tomou-se à letra e pôs-se a caminho, em conjunto com
companheiras e companheiros, para pôr em prática esta ideia
de futuro. O último capítulo deste livro mostra em palavras-
chave aquilo em que hoje, trinta anos depois, se tornou este
trabalho pioneiro.

Oxalá a obra seja um êxito! Porque: «Quando a vida vencer


não haverá vencidos».
Venceremos,

Monika Berghoff
Editora

8
1 Introdução

Loucura estabelecida
A loucura política e civilizacional da nossa época chegou ao
fim. Um processo interno de destruição humana, derivado da
lógica imanente do sistema, saqueou as sociedades modernas
despojando-as de coração, sentido, e razão. Armadas até aos
dentes, e dirigidas por hierarquias mal programadas do poder
e do dinheiro, encetaram um ataque à vida na Terra que já não
pode ser detido através dos meios convencionais. A evolução
do ser humano entrou num fantástico beco sem saída
comparável às dimensões de um romance utópico. Estamos
diante do fim de uma época, e talvez do começo de uma nova.
As questões políticas, económicas, ecológicas, sociais,
tecnológicas, psicológicas, médicas, científicas, e intelectuais,
que pendem nestes tempos, requerem uma resposta diferente
da que nos é dada a ver dentro dos moldes estabelecidos pelos
nossos modos de viver e de pensar. A análise de todas estas
questões leva à mesma descoberta: só podem ser resolvidas de
maneira efetiva e duradoura quando o ser humano encontrar
uma forma fundamentalmente nova de se relacionar consigo
próprio, com o próximo, com os outros seres vivos, e com o
planeta inteiro. Uma nova forma de se relacionar significa
um novo comportamento, um novo modo de vida. No âmago
de um novo princípio cultural ecológico está uma relação
cordial liberta, desprendida de sentimentos, e ativa com
todos os seres vivos. É assim gerada a abertura que torna o
todo mais visível e compreensível. Os contextos de alienação,
os mecanismos de destruição, e a desorientação dos nossos
tempos são hoje tão absolutos que, de certa forma, fazem com
que seja necessário começar de novo se queremos ver surgir
uma perspectiva real para a sobrevivência humana do ser. Os
sistemas políticos e ideológicos vigentes na sociedade atual já

9
não têm qualificações para impedir um desastre. Tornaram-se
fatalmente incompetentes. De agora em diante, cabe-nos a nós
assumir a responsabilidade. Talvez possamos ter esperança
de que as nossas energias se reforcem quando bem aplicadas.
Nos termos de uma nova política ecológica, faz mais sentido
apostar nos efeitos da ressonância interpessoal do que numa
mudança de governo no Estado ou na economia.
Todos os moralistas dos nossos tempos concordam com
a ideia de que são necessários novos valores humanos. Mas
nós temos experiência suficiente para saber que os apelos
à razão e ao bom senso não têm efeito. As palavras mais
significativas estão hoje tão arruinadas, ao ponto de nos ser
quase impossível usá-las. Novos valores humanos só ganham
substância e realidade quando ancorados numa nova prática
de vida que abra aos seres humanos novas energias, contatos,
realizações, e conhecimentos. A procura dessas novas formas
de vida é a verdadeira aventura dos nossos tempos. No
entanto, a sua importância histórica permanece ignorada
porque essa procura encontra-se hoje dispersa e, a maior
parte das vezes, em pequenos nichos à margem da sociedade.
O novo chega em bicos de pés. Mas tem entretanto adquirido
tanta experiência e conhecimento que nos é possível decidir
por um começo mais elevado.

A atualidade da Utopia Concreta


A matança anual de mais de 200 mil focas para a produção
de casacos de peles; o envenenamento de águas vivas, que
são a fonte de tudo o que vive; o assassinato psíquico diário
de crianças e jovens dentro de um sistema de relações falsas e
anónimas; a asfixia de tudo o que é vivo por detrás de paredes
de asfalto erguidas de burocracia, indiferença e ajustamento;
a aniquilação de agricultores, e de tantos que lutam pela
liberdade nos países em desenvolvimento …

10
A perfeição e a higiene da nossa civilização estão
extremamente ligadas à agonia da destruição da vida
que, a cada dia que passa, mais e mais pessoas decidem
renunciar a este tipo de moralidade e higiene, e opor-se aos
crimes estabelecidos. Os grupos e iniciativas que surgem
destes conflitos mundiais – de iniciativas de cidadãos
aos movimentos de ocupação, da Greenpeace à Amnistia
Internacional – seriam já suficientes em número para alterar
consideravelmente a situação global, se dessem lugar a
caminhos construtivos na sua resistência para uma mudança
estável (como sucedeu de modo volátil, e sobretudo alegórico,
através do estabelecimento de aldeias e redes de comunicação
nos locais ocupados).
A partir das estruturas de defesa e reivindicação, devem
ser desenvolvidas formas positivas de reconstrução cultural
e social. Caso contrário, os sucessos alcançados através da
experiência de vida, da solidariedade, e do compromisso,
cairão vítima dos mecanismos internos de destruição humana
dos atuais sistemas, como aconteceu, por exemplo, após
os protestos estudantis nos anos 60 e 70 na Alemanha. É
necessário esclarecer que não foram as medidas repressivas
do Estado que, em tão pouco tempo, acabaram com qualquer
perspectiva da Nova Esquerda alemã, mas sim os processos
destrutivos ideológico-psicológicos inerentes às estruturas
de conflito emocionais não resolvidas. O sucesso dos nossos
esforços em defender a vida e a Terra depende, a longo
prazo, da nossa capacidade de desenvolver as nossas próprias
abordagens culturais e sociais para o nosso próprio futuro.
Abordagens novas e concretas nas quais os mecanismos
psíquicos de destruição entre as pessoas possam ser reconhecidos
e tendencialmente superados. Uma nova abordagem cultural
que não tenha em conta esse problema não pode ser
tomada em consideração, pois a experiência já mostrou
que, independentemente de quão revolucionariamente,

11
espiritualmente, ou ecológicamente interessante, uma nova
terminologia possa soar, as velhas estruturas acabam sempre
por ser reproduzidas.
Aqui tocamos o ponto mais delicado dos movimentos
alternativos atuais. Novas formas de vida significam novas
formas de trabalho, de alojamento, de alimentação, mas
acima de tudo, novas formas de amor, de formação de
comunidade, de sexualidade, de resolução de conflitos, de
uma nova transparência social, especialmente nas áreas que
até agora pertenciam à esfera privada. Os projetos de grupo
falharam mais frequentemente devido à falta de atenção e à
não resolução de questões relativas à sexualidade e à inveja,
do que a dificuldades económicas ou políticas. Uma nova
cultura cria raízes, entre outras, numa nova relação entre os
géneros. Eros está cercado de desconfiança, ódio, e inveja …
e a sexualidade emaranhada numa teia de projeções,
medos, e dissimulações. Quase que nenhuma palavra
clara, nenhum gesto claro, e nenhum contato aberto, são
ainda possíveis. Um ressentimento geral tomou conta das
contraculturas alternativas e de esquerda, e fez recuar os
impulsos dos movimentos estudantis que caminhavam por
mais comunidade e mais liberdade sexual. O problema da
formação de comunidades humanas funcionais, livres de
conflitos insolúveis de inveja e de poder, está tão associado a
más experiências, que leva a que esteja quase completamente
ausente da temática das novas formas de vida. Mas este é o
ponto decisivo. E é da sua solução que depende em grande
parte a realidade de um futuro melhor.
Talvez a ideia antiga da “Utopia Concreta” nunca foi de
tanta atualidade histórica, política, e psicológica, como é hoje
em dia. O conceito de um futuro desejável, que se aparente
plausivel e realista para um número crescente de pessoas, está
hoje, mais do que qualquer outra questão, na ordem do dia.
Dezenas de milhares de pessoas esperam que, assim que se

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tornem visíveis as possibilidades positivas, se possam envolver
em experiências que correspondam a este futuro desejável.
“Desembarcar” teria então o sentido de embarcar em algo
diferente, em algo mais significativo e gratificante. Mas um
tal avanço da utopia concreta, um tal entusiasmo pela união
das forças de vontade rumo a uma reconstrução cultural, não
pode resultar enquanto o insuperável “problema humano”
continuar a bloquear o caminho.

Centros culturais para novas experiências básicas


Porque o ser humano é humano, a longo prazo, só será capaz
de aprovar e amar uma cultura que o aceite e confirme nas
suas carências de existência anímica e corporal. Só então
poderá dedicar-se plenamente, e sem falsa glória, a coisas
que transcendem as suas meras necessidades. Pois, foi por
falta de consideração deste princípio básico que, até hoje,
praticamente todas as tentativas de humanização falharam.
Verdades tão simples geram um autêntico turbilhão de
dúvidas e questões quando verbalizadas. De súbito, deparamo-
nos com os verdadeiros medos e problemas. O que acontece
com os gordos, os que não são atraentes, os deformados?
Quem aceita os neuróticos compulsivos, os sabichões e
desordeiros crónicos, e que tipo de aprovação pode ser dada às
perversões sexuais?
Uma nova cultura só poderá fazer sentido, e ser viável,
quando desenvolver um conceito de amplitude existencial
clara que possa dar respostas satisfatórias a essas, e muitas
outras, questões. Um tal conceito não emerge das secretárias,
nem das experiências da sociedade civil. Também não se pode
servir de palavras antigas, nem acrescentar uma nova teoria
às que já existem. Será sempre infinito. Está lá, a surgir em
todos os lugares onde há pessoas dispostas a viver experiências
essencialmente novas consigo próprias e com os outros. Surge

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neste preciso momento em muitas partes do mundo, mesmo
que ainda de forma fragmentária e contraditória, por exemplo,
em Findhorn na Escócia, ou nalguns lugares do movimento
sanniasin, ou em Friedrichshof na Áustria (um grande centro
de terapia e cultura fruto do anterior movimento AAO)[N.E.:
As declarações sobre todos os projetos estão relacionadas
à época em que este livro foi escrito (1979), e não contêm
qualquer julgamento sobre o seu posterior desenvolvimento].
Por mais que possam parecer estranhos e chocantes, e por
menos que concordemos com eles, são todos autênticos
laboratórios de uma nova cultura humana. O que se encontra
sob as dores do parto, na maioria das vezes, comporta-se
de forma estranha. Devemos conhecer esses centros, por
experiência própria, para poder realmente ver do que ali
se trata. O essencial é, em todo o caso, um nível além que já
não diz respeito ao debate verbal, mas a novas experiências
onde as questões comuns do poder e da autoridade, da
individualidade e da autonomia, da democracia e da não-
violência, da moral e da sexualidade, têm de ser, antes de mais,
radicalmente libertadas de todos as manobras intelectuais
a que estamos habituados. Logo, é na base da própria
experiência, individual e comunitária, que pode ser vista sob
uma luz inteiramente nova. A ideia para uma nova cultura
surge de um novo olhar perante as coisas. E esse novo olhar
é sempre o resultado de novas experiências básicas. O que
falta é criar bases e centros de apoio internos para o movimento
alternativo, onde possam ser feitas tais experiências de base
para uma nova cultura.

Uma nova consciência do vivo


Dos fragmentos confusos dos nossos tempos, formam-se
os traços para uma nova síntese que convergem numa nova
consciência do vivo. A vida interior e exterior do ser humano,

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à qual pertencem todos os processos da alma, representa
ambos os lados de um mundo amplo, universal, sensorial e
extrassensorial, que inclui todos os seres vivos. Este mundo,
no qual tudo o que é humano e social encaixa como um
órgão funcional ou disfuncional no organismo contém,
pelas suas estruturas e funções específicas (ver Capítulo 3),
um conjunto de mensagens sobre outras possibilidades de
vida do ser humano: sobre outros métodos e objetivos para
a autorrealização, para a criação de estruturas sociais, para a
medicina, para a arquitetura, e para as tecnologias.
No centro da atual crise cultural está o conflito entre os
princípios de funcionamento da sociedade contemporânea e
os dos seres vivos, ou em suma, o conflito entre a sociosfera
e a biosfera. Esse conflito tem lugar tanto fora como
dentro do organismo humano. Revela-se nos rios e lagos
moribundos, bem como nas várias epidemias de distúrbios
de personalidade e de doenças psicossomáticas. A miséria
ecológica e psíquica são os dois lados do mesmo beco sem
saída cultural em que nos encontramos. Uma ideia cultural
que se quer convincente deve, por isso, ser capaz de dar
resposta a ambas.
O tema central da próxima era é a integração do mundo
humano no mundo universal de todos os seres vivos, a todos
os níveis da nossa existência – do sexual ao técnico e político,
até ao espiritual. Este é o motivo comum de todos os centros
culturais que hoje contribuem para o desenvolvimento das
sociedades futuras.
No contexto atual, qualquer trabalho de recultivação
ecológica, que tenha em conta a proteção e promoção da
vida na Terra a longo prazo, também significa o trabalho
sobre o ser humano num sentido muito mais profundo do
que o sugerido pelos slogans do “anticonsumismo” e da
“consciência ambiental”. Os pontos centrais, que definem o
rumo de um outro futuro, encontram-se nas zonas internas

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das nossas vidas: na área do erotismo, nas áreas da percepção
e da religião, e nas formas de vida em conjunto do dia-a-
dia. Quanto mais aprofundamos essas áreas, mais elas se
aproximam umas das outras, formando um núcleo central
pelo qual voltam a emergir. A redescoberta desse núcleo
através de um novo nível de consciência como ponto de
partida de novas formas de cultivo da terra, é talvez o tópico
mais subtil e importante dos novos desenvolvimentos. Por
mais que sejamos forçados a olhar para os seus aspectos mais
problemáticos e grosseiros, todos os grandes processos de
mudança são de natureza espiritual.

Se o ser humano estiver novamente ligado ao seu centro


e, através deste, a funções mais universais da vida e da
consciência, então desenvolve-se por si próprio um novo tipo
de humanidade natural e afirmadora da vida. As qualidades
humanas que surgem de forma espontânea dessa integração
interna, são por exemplo: força sem dominação, firmeza
sem brutalidade, clareza sem frieza, tensão sem rigidez,
postura sem inflexibilidade, suavidade sem fraqueza, beleza
sem vaidade, adaptação sem abnegação, e carisma sem
manipulação.
O mundo do vivo está cheio de contradições. A “unidade
funcional das contradições” (ver Capítulo 3) é uma das
suas funções fundamentais. Esse carácter contraditório da
vida também permeia a consciência humana, exprimindo-
se na contradição de teses, de visões do mundo, de teorias
de libertação, etc. Um conceito cultural que se oriente pelo
vivo não tomará mais partido pelas batalhas obsoletas
entre posições opostas, mas irá, sem comprometimento,
ter em conta as verdades que existem em ambos os lados.
É necessário suportar a tensão e os palpites, mentais e
espirituais, que emergem desse processo. Encontrar “soluções”
prematuras, para problemas mentais e espirituais reduzindo a

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verdade a um único aspecto, é um método ideológico de uma
era ultrapassada que fez derramar tanto sangue na história
das guerras de crenças e ideologias, que agora precisa ser
substituído por um método que se adapte melhor à vida.
Uma das maiores contradições que divide o movimento
alternativo dos nossos tempos, é a que existe entre os
conceitos emocionais e espirituais da renovação da vida.
Vejamos, por exemplo, Wilhelm Reich versus Rudolf Steiner.
A contradição é tão profunda quanto as verdades inerentes a
cada um. Wilhelm Reich dizia ser necessário libertar e curar
o ser humano através da libertação das suas energias criativas
no âmbito emocional e sexual. Rudolf Steiner propunha que
se libertasse e curasse o ser humano através da libertação
das suas forças criativas nas áreas mentais e espirituais da
cognição, do pensamento e das ideias (*). Dois fragmentos
da verdade do ser humano, dois pontos de vista, duas visões
do mundo. Um tão bem fundado e irrefutável quanto o outro.
Ambos pertencem sem dúvida às ideias mais importantes dos
nossos tempos, e no entanto, permanecem estranhos, quase
hostis, um ao outro. Mas é no seu carácter contraditório, e na
extensão de ambas as visões, que se encontra a profundidade
da sua possível convergência – como missão do presente. A
síntese aqui tematizada é também substancialmente a síntese,
até hoje raramente alcançada, entre corpo e espírito, entre
sensualidade e religião.

Superar o medo
Essas sínteses de consciência não surgem através de
construções teóricas mas antes, através da experiência da
superação de limites, o que naturalmente requer a prontidão
de se prestar a tais experiências. Barreiras ideológicas são, a
maior parte das vezes, barreiras à experiência, e barreiras à
experiência são, na sua essência psicológica, quase sempre

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barreiras do medo. A criação de uma síntese cultural, tal como
hoje é necessária – tendo em vista o nosso possível declínio
– exige em primeiro lugar a criação de um ambiente onde as
pessoas possam aprender a viver juntas sem medo, e por isso,
sem as habituais barreiras à experiência. Será que sabemos o
que isso significa? Poder expressar as nossas simpatias sem
receio, sem que por isso alguém se sinta intimidado, e sem
ter de temer as represálias de ninguém … Poder debater
uns com os outros, sem estar em concorrência, a recear que
o outro esteja astuciosamente a colecionar pontos … O
estabelecimento de um ambiente social e psicológico que
permita a superação do medo é em si uma tarefa cultural que
vai de encontro a todas as regras de conduta, dos costumes,
e das tradições. Pois é o medo que une e fermenta as formas
habituais de cultura e de sociedade. Por isso, cada tentativa
séria de superação do medo vai sempre de encontro às regras
e aos tabus admitidos e mantidos, tanto pela sociedade civil
como pelas suas subculturas dissidentes. Mas até superarmos
o medo, não podemos falar de humanidade, de integração no
vivo, de qualquer solução realista para nenhum dos problemas
em curso. Porque o medo é vida bloqueada, organismo
fechado, contato obstruído, e logo reduz as capacidades
cognitivas.
A superação do medo, da mentira, e da dissimulação
significa, entre outras coisas, a inesgotável libertação das
energias sexuais de todas as gaiolas do relacionamento a
dois, do casamento e da moral, a inesgotável libertação de
todas as energias impulsivas e de todos os potenciais de
vida reprimidos, e a sua integração consciente na vida social
pública. Esta é uma das frases principais deste livro, e voltará a
ser abordada em diferentes contextos.

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Humanidade
Humanidade – considerando todas as atrocidades que têm
sido cometidas até aos dias de hoje, diante da insanidade
mundial em que vivemos neste momento, e tendo em conta
o futuro problemático que apesar de tudo ainda fazemos
questão de conquistar, que significado pode ainda ter essa
palavra hoje em dia? Humanidade – para devolver a essa
palavra qualquer valor e significado, precisa ser libertada
de todas as transfigurações e depreciações às quais esteve
associada durante a era da Igreja, do moralismo repressor, da
alma bela e da hipocrisia geral. A humanidade era o emblema
da paz que se pendurava ao pescoço do monstro humano
para o proteger, a ele e ao ambiente envolvente, dos seus
próprios impulsos monstruosos. Era tão superficial que não
se conseguia verdadeiramente unir à carne e ao sangue dessa
enormidade. E se ainda são necessárias quaisquer provas
disso, há milhões de indícios recorrentes que continuam
a surgir a cada momento: desde o fascismo à guerra do
Vietnam, ao assassinato de índios brasileiros, e diáriamente
nas capas dos jornais.
Humanidade significa conhecimento do fenómeno humano
em toda a sua extensão (inclusive nas suas dimensões mais
sombrias), aceitação do fenómeno humano em toda a sua
extensão, e mudança do fenómeno humano em toda a sua
extensão. Conhecimento! Vertiginosamente consequente,
a história revela a conexão entre estupidez e barbárie. O
iluminismo, a ciência, e a expansão da consciência são – pelo
menos no que respeita a ideia – elementos básicos de todo o
verdadeiro humanismo. Após terem sido quebradas todas
as ilusões de liberdade e de fraternidade, de democracia
e de socialismo, de razão e de responsabilidade, é agora
necessário concentrar o trabalho de esclarecimento no ser
humano, para que os criadores da nova cultura saibam com
o que têm de lidar. Nos capítulos seguintes, veremos ainda o

19
que há a ter em conta para compreender a amplitude desta
questão. E continuando, o que significa aceitar o fenómeno
humano, poder aceitá-lo de qualquer maneira? Aceitar não
significa aquiescer e logo ficar com os joelhos tremelicantes.
Aceitar significa ver, e ainda assim, manter a tranquilidade,
sem cair no medo ou no ódio. Quantos sustos, quanto
medo pessoal, quanta desconfiança deve ser posta à luz
pelo próprio, superada, assimilada e processada! Será que
não estamos, nós que nos começamos a regenerar, ainda
demasiado enfraquecidos pelos nossos próprios medos e
lamentações, para realmente aceitar os seres humanos (por
exemplo, o parceiro amoroso) e ser capaz de dizer sim ao que
requer concordância? Aqui, como em tantos outros assuntos
humanos, Nietzsche foi mais a fundo do que qualquer outro.

E finalmente, o que significa mudar o fenómeno humano


em toda a sua extensão? O que esteve, ou está, presente
nas vontades de mudança – a título indicativo, da esquerda
marxista, ou dos círculos espirituais, ou das mentes crudívoras
– manifesta-se, do ponto de vista psicológico, frequentemente
como baluarte ideológico contra as verdadeiras mudanças.
Até hoje, nenhuma religião e nenhuma teoria política foram
capazes de prever as mudanças necessárias em escala, em
extensão, e em qualidade, para dar algum sentido à nossa
sobrevivência. Talvez, cada movimento de libertação
precedente foi, no fundo, também uma campanha para
desviar a atenção desses pontos internos mais íntimos,
onde se encontrava o verdadeiro desejo, o maior medo, e a
questão mais recôndita. Política, moral, e religião, podem ser
entendidas como manobras de diversão … É (obviamente
para além de outros) também sob esse aspecto que temos de
as compreender. No âmbito da capacidade de pensamento,
humanidade é a transformação corrente das condições
de existência animal em condições de existência humana,

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sem por isso separar o humano do animal ao ponto de se
virarem um contra o outro. A totalidade da evolução, que
continua a agir no contexto das forças internas e linhas de
desenvolvimento do ser humano, passa pela organização e
celebração das experiências vividas e da força do pensamento,
sem que sejam meramente excluídas grandes partes da
vida (por exemplo, a sexualidade ou a agressão) – esse é
um aspecto da humanidade que nos interessa. É num tal
processo de sublimação – efectuado de forma consciente
e sem manobras neuróticas de extrusão – que se encontra o
verdadeiro processo de humanização. Mas para que possa ser
efetivamente sublimado, sem hipocrisia nem autorrepressão,
quanta matéria-prima tem antes de mais de ser retirada dos
subsolos e trabalhada à luz do dia!

Se hoje nos queremos tornar humanos, não podemos


simplesmente começar de forma humana, pois tanta
inumanidade, tantos desvios, tanta falsidade, já formam
parte da nossa natureza. O nosso objetivo não deve mais,
nunca mais, sobrepor-se à realidade, mas é a realidade que
se deve revelar tal como é, através das suas zonas psíquicas
subsconscientes – só por isso, a realidade já se alteraria
consideravelmente. E como não é possível realizar tais
processos de aprendizagem, no atual sistema convencional
de comunicações estabelecido, precisamos de desenvolver
laboratórios de cultura experimentais.
A humanidade não está fora dos nossos impulsos, desejos,
e da nossa sede de vida, mas dentro deles. A humanidade
não está no isolamento asséptico do misticismo oriental,
nem na energia sobreposta do amor universal (enquanto
os resíduos que se encontram debaixo dela ainda estiverem
ligados ao passado), mas nas energias impulsivas da nossa
alma e do nosso corpo, desde que sejam apreendidas, trazidas
à luz, integradas, reconciliadas, e sublimadas. A humanidade

21
não está numa qualquer ilha do belo, mas no trabalho sobre
a nossa cultura e a nossa sociedade, no trabalho sobre nós
próprios, na formação das nossas condições de vida, na
tomada de responsabilidades políticas e humanas em geral.
Humano é, enfim, descobrir em si mesmo o universal e logo
pôr mãos à obra diante de horizontes cada vez mais amplos.
O trabalho humano, que não se deixa levar por falas mansas
nem modas passageiras, realizará algumas ideias centrais sem
as quais não é mais possível conceber um futuro humanismo.
Por exemplo, a ideia da sociedade não violenta, a ideia
da democracia real, a ideia de uma cultura sem repressão
sexual, a ideia da ciência, a ideia da evolução e da liberdade
do ser humano na evolução, a ideia da comunidade solidária
com todos os seres vivos … Veremos como estas ideias, que
parecem tão gastas como tudo sobre o qual vale a pena falar,
ganharão um novo sentido no novo contexto. Humanidade é o
termo familiar que ainda não foi resgatado.

A falência e a redescoberta do Geist


É difícil falar do “geistig” (o substantivo alemão Geist e o seu
adjetivo geistig podem ser traduzidos aproximadamente como
“mente-espírito” e “mental-espiritual”) numa altura em que
até os mais convictos descobriram o sentido traiçoeiro que
está quase sempre ligado a este termo. Levantamos o véu dos
representantes do Geist e tornamo-nos céticos. Até agora,
não houve praticamente nenhum apelo a favor do carácter
geistig do ser humano que não tivesse a função, consciente ou
inconsciente, de o desviar da sua animalidade descontrolada
e das suas próprias dificuldades em ser humano. O mundo
filosófico, espiritual, e especialmente, o mundo oculto,
está rodeado de emoções e carências abafadas pelo fedor
da fermentação na escuridão de masmorras. As queixas
recorrentes de que, nos nossos tempos, faltam formas de

22
comunicação verdadeiramente geistig, levam a supor que
as belas palavras, mal saiem da boca, logo se colocam ao
serviço de algo que hoje podemos designar com convicção
de “mentiras da vida”. Por isso deixamos de acreditar nelas. E
pela perda de credibilidade geral, a força do pensamento, da
palavra, da teoria, da inspiração geistig, decaiu nas interações
públicas do ser humano de hoje.
Mesmo assim, a nova cultura que brota – em resposta
à época materialista – vai cada vez mais concentrar-se no
sentido dos processos geistig. Podemos dizer com toda a
firmeza, que a revolução cultural que se avista será uma
revolução biológica, porque tem a ver com a reconquista da
fonte de vida externa, e sobretudo interna, e com a formação
das leis orgânicas do nosso ambiente … o livro presente
serve o único propósito de sustentar esta frase. Mas, tendo
em conta o progresso da nossa evolução histórica, esta frase
depende do modo como acompanha o pensamento de outra:
nomeadamente, que a renovação cultural que se avista terá de
ser geistig.

Nenhuma destas duas frases tem prioridade, elas equivalem-


se e são inseparáveis. Sem mudança nem progresso geistig
não é possível encontrar nem desenvolver as fontes biológicas
da vida. Mas, assim que as encontrarmos e desenvolvermos,
iremos com crescente clareza descobrir o que já gesta dentro
de muitos: a descoberta da natureza geistig dos processos da
vida e da energia global. Na descoberta do vivo, encontra-
se uma experiência espiritual que seria capaz de derrubar as
estruturas que fraturam as diferentes visões do mundo dos
nossos tempos.
O poder de resistência contra a dor e a capacidade de a
transformar em força de vontade dependem, entre outros,
do poder e da convicção de uma orientação geistig. A perda
de identidade e de orientação geistig leva muitos dos nossos

23
contemporâneos a um estado interno de passividade que,
mais cedo ou mais tarde, excede os limites do suportável.
É sobretudo daí que originou essa fome abrasadora pelas
ideologias de cura que quer ultrapassar o desenvolvimento
por não sobrar mais força para esperar, nem mais crença
nos ritmos naturais de desenvolvimento. Uma impaciência
desenfreada impige a cada pensamento, e a cada amanhecer
espiritual, a tradução em formas “concretas” e “práticas”. É a
fatalidade destes termos! Quão acessível e de fácil digestão
deve ser um pensamento para que seja de todo ouvido! A
relação tão debatida entre teoria e prática … e a leviandade da
teoria que daí resulta … e a respetiva leviandade da prática …

É de forma peculiar que as novas categorias, que teriam


tanto para oferecer, são desperdiçadas. Categorias como a
da psicoanálise, da bioenergética, da ecologia, e das novas
religiosidades. Mal surgem à luz do dia – ao menor vislumbre
da sua profundidade e magnitude – são logo usadas para
aumentar a pequena casota de alguém, quando na realidade
são feitas à medida do mundo. Mas hoje trata-se da
reconstrução da Terra.

Desenvolvimentos profundos chegam suavemente e a passo


lento. Agora que a Terra se assemelha a um barril de pólvora,
o ativismo requer calma. Calma e a meditação do olhar,
sem ter de disparar logo todo o nosso leque de objectivos,
medos, desejos, preconceitos, e acusações, sobre o mundo.
Não será talvez assim que, após toda a poeira levantada pela
espontaneidade perdida, as energias mais profundas, as
percepções, e as criações, surgirão de uma zona de silêncio?
Tendemos um pensamento, uma corda, um amor em nós,
até que ele pareça tocar o mundo no ponto de contato da
inequívoca experiência da força, da identidade, e do sentido.
Regiões onde os códigos deste mundo se tornam mais claros

24
e transparentes, onde todos os sentidos se afinam, porque algo
nos preenche com intuição, expectativa, surpresa, e gratidão.
Disto testemunharam Nietzsche e Teilhard de Chardin.

25
2 A questão existencial

Nos bastidores ideológicos


Quanto sadismo sexual, quanto medo do feminino, quantos
desejos não vividos estão, desde a destruição de Tróia até à
bomba de neutrões, contidos na história do ser humano? O
que nos levou a conseguir cultivar a guerra como realidade,
mas o amor apenas como sonho? Quanta sede da vida
não vivida tem de ser anestesiada através do álcool, de
medicamentos, e do consumo?

A incapacidade de alcançar uma vida satisfatória conduz


à perda do amor próprio. Na perda do amor próprio está
enraizada a perda de uma ética social natural. Os seres
humanos do nosso tempo ficaram estacados na selva de
manobras camufladas e compensatórias. Se tivessemos mais
homens com potência de espírito, também teriamos mais
mulheres auto-conscientes (e vice versa). Todos querem amar
e entregar-se – mas a quem e a quê?
A cultura dos homens do nosso tempo é, nas suas estruturas
emocionais, uma cultura de jovens de dezassete anos. A
mulher enquanto parceira ainda não foi de todo descoberta,
por isso nem é levada a sério. O estabelecimento de relações
fundamentalmente novas entre os sexos, a nível espiritual,
emocional, sexual, e social, é o primeiro requisito para que os
homens cresçam, e para que as mulheres possam superar a sua
sujeição.
O poder psicológico do homem sobre a mulher baseia-
se no seu hábito de dar lições ideológicas e morais. O poder
psicológico da mulher sobre o homem baseia-se nos seus
medos e projeções sexuais. Como o hábito, de superar os
medos pelas lições, era intrínseco à época patriarcal, a vitória
dos homens nesta luta de poder tem sido uma vitória perversa.

26
Quanta hipnose e desorientação ainda dominam o tema
da sexualidade hoje em dia! Sexualidade sem medo e, por
conseguinte, livre, “é” amor, e não necessita passar pela
moral ou outras formas especiais de ternura ou seguranças
pessoais. Quando a sexualidade não é vivida como amor, não
é da natureza da sexualidade que se trata, mas de bloqueios e
perversões que giram em torno da repressão.
Quando temos sido honestos com nós próprios, e um dia
nos apercebemos que não precisamos de nos culpar de nada,
que não precisamos de esconder nada, nem precisamos de
mentir, então hemo-lo. A libertação de sentimentos de medo
e de culpa profundamente entranhados é a primeira condição
para uma vida fértil, energética, e idêntica. O princípio
do medo, paralizador e todo destruidor, é o contrário do
princípio do amor. Mas o amor pode superá-lo.
Quando o indivíduo encontrar os sinais da sua paixão
mais profunda, então estará pronto para ir ao encontro do
todo, como dizia um sábio oriental: “Tao é o caminho que
não podemos deixar para trás … o caminho que pode ser
deixado para trás não é Tao”. No encontro e no seguimento
deste sinal, ocorre uma mudança psíquica que nos pode
levar radicalmente para fora de todos os medos e hábitos de
até à data, e também, à mudança na relação com as próprias
penas. Cada germe rebenta a sua casa quando procura a luz.
Na força do seu crescimento e devir, o convalescente não se
importa com o destino das suas próprias peles. É desde esta
profundidade que hoje concebemos a cultura e a política.

Caminhantes no deserto
Foram necessários pelo menos três mil milhões de anos
para a evolução da vida da célula ao ser humano. Isto aclara
a dimensão com a qual temos de lidar quando colocamos o
fenómeno humano no seu contexto natural. Até onde chegou

27
hoje esta curva misteriosa do devir humano, e qual o ato que
se ergue à sua frente na narrativa da criação?
Do nosso passado histórico, avistamos uma onda
que vem ao nosso encontro e cresce a uma velocidade
tremenda. Forma-se por volta do século XVII. É a onda das
grandes indústrias, da explosão demográfica, e das grandes
guerras tecnológicas. Talvez pudessemos dizer: a onda
da planetarização da humanidade na sua fase primária e
inconsciente. Hoje, a onda ameaça romper. Ainda não o
fez, mas pode ser que o faça num futuro muito próximo.
A civilização moderna chegou ao ponto de ebulição. Mais
acumulação de calor, maior aumento dos seus parâmetros
típicos (crescimento industrial, armamento, destruição
ambiental, destruição psíquica) leva a um salto qualitativo
comparável à transformação da água em vapor. A evolução
da humanidade parece estar perante um eminente salto
mutacional.
A história mostrou-o em todas as variações: quando o ser
humano caminha pelo todo, então caminha. Desta vez, o todo
é a sua própria destruição.
Para a parte da humanidade que quer sobreviver de forma
humana e inteligente existe, a partir de agora, um tema
e uma tarefa: involver-se na transição da época cultural
baseada na lei do lucro, para a época cultural baseada na
lei da vida. A maior parte das vezes, são diametricamente
opostas … a grande maioria das instalações, de formas de
organização, e dos hábitos de comportamento dos tempos
caducos, não podem por isso ser postos em prática na nova
época. Por outro lado, a volição dos mesmos é o requisito
para tornar possível a sobrevivência humana. Isto aplica-se
às atuais formas da economia, do planeamento urbano, do
fornecimento de energia, e do paisagismo. Além disso, aplica-
se a quase toda a tecnologia que, devido à escassez de recursos
dos próximos 50 a 100 anos, terá de passar a basear-se em

28
materiais e processos completamente novos. Em terceiro
lugar, e acima de tudo, aplica-se às esferas internas da nossa
vida, às formas de vida e de socialização emocionais, sexuais
e espirituais, onde se encontram as filiações internas do ser
humano ao vivo.
Como acontecerá essa transição, e quem deve levá-la a
cabo? Estas perguntas tornaram-se hoje tão irrespondíveis,
que nos poderiamos tornar cínicos. Para onde com as cidades
hipertrofiadas, os monstros industriais, e as redes rodoviárias,
quando já não serão necessárias na época que se avizinha?
Quem deve – e com que autoridade política – erigir uma
sociedade ecológica descentralizada precisamente numa
altura em que a produção e a distribuição se tornaram, como
nunca dantes, a tal ponto centralizados? Quem desapossa
os poderosos, quem desapossa o dinheiro, quem desapossa
as alegadas restrições, quem desapossa as boas maneiras da
imagem social, quem desapossa os hábitos quotidianos –
incluindo os da designada oposição?
Quem? Esta questão do “sujeito revolucionário” não pode
mais ser respondida através de teoremas sociológicos ou
político-económicos, nem pode ser concebida através de tais
conceitos, porque na verdade, o que hoje sucede à revolução,
é precisamente cada “parte interna” do ser humano e da
sociedade. E o “desapossar” de que hoje se trata, encontra-se a
níveis completamente diferentes, muito para além dos lugares
onde se agitam os velhos tipos revolucionários e a polícia
política. Trata-se mais do desapossar espiritual, emocional,
e libidinal de um sistema de vida falido, e de cada um que
possa contrapor algo melhor a este sistema. Para que tais ações
não fiquem presas à esfera privada, para que se possam ligar
a ações de outra natureza, e para que finalmente se possam
tornar numa força de criação do futuro, são necessários
conceitos culturais e políticos universais, que tenham em
conta uma alternativa conjunta de desenvolvimento.

29
Todos os que hoje ainda acompanham este pensamento,
começam a unir-se em torno da ideia de que afinal,
na situação atual, nada parece mais importante que o
desenvolvimento de uma alternativa de conjunto positiva
ligada a uma nova ideia cultural global e convincente.
Afinal … mas … agora aproximamo-nos do âmago. Tais
conceitos gerais positivos são tão bons como inexistentes.
Os marxistas vivem maioritariamente apenas da nostalgia,
a corrente da terapia ficou em grande parte encalhada
no círculo do problema individual … os representantes
espirituais raramente lá chegam, e mais lembram a loucura da
desorientação espiritual do que própriamente a cura. Também
os verdes e os ativistas dos movimentos de resistência parecem
em regra saber mais sobre o que estão contra, do que a
favor. Não nos devemos iludir. Não-violência, democracia
real, descentralização, são para já meras palavras e ainda
não verdadeiras manifestações de vontade. Quando alguém
quer democracia real, o que quer realmente, ele, como ser
humano? Veremos nos próximos desenvolvimentos o quão
urgente é esta questão, e quão desastrosa a sua omissão para o
problema da democracia real (ver capítulo 4) Apenas quando
as pessoas se conhecerem a si próprias ao ponto de poderem
dizer com toda a certeza o que querem humanamente, e só
quando se tiverem desligado das suas ideologias ao ponto de
se poderem corresponder livremente, só então podem vir a
formular conceitos culturais e políticos que não passem ao lado
dos seus motivos reais. Enquanto não o fizerem, aparentam-
se ao cenário de dois errantes que caminham sedentos pelo
deserto a discutir sobre questões políticas (ou morais, ou
religiosas). De repente, descobrem água. Disparam em direção
a ela e sorvem como animais. Era isto o que lhes fazia falta.
A braveza saboreada por alguns que até lá serviram fielmente
a revolução marxista, passava pela coragem de ir até Poona
ou ao AAO-Friedrichshof. A sede de água é a sede elementar

30
da vida plena, de contato, de Eros, de aventura, de respirar
livremente, de sentido, de realização criativa, de auto-estima,
e de uma vida que pode finalmente ser consentida. Onde estão
os modelos culturais e os objetivos políticos para esta forma
de sede? Só para eles valeria a pena agir. A transformação
das necessidades elementares da alma do indivíduo à escala
universal de um novo conceito cultural e social, é a tarefa mais
urgente dos nossos tempos.

O que torna tão difícil a compreensão política e humana


dos nossos tempos é, acima de tudo, o fato de estarmos sob
hipnose. Dela faz parte, por exemplo, o hábito de atribuir
nomes impróprios às coisas que nos tocam para as tornar
socialmente aceitáveis … acresce o hábito de ainda por cima
acreditarmos nesses nomes impróprios. Muda-se da cidade
para o campo, supostamente por não se aguentar mais a
alienação e o anonimato da cidade … a verdade é que, a
maior parte das vezes, devido aos nossos próprios medos, não
estamos dispostos a relacionar-nos de forma criativa com as
provocações e tentações da grande cidade. Pretende-se ter de
se emancipar das autoridades e pressões sociais … na verdade
existe apenas uma verdadeira emancipação, a da própria
loucura, da própria projeção, e do próprio medo. Fala-se com
seriedade e indignação sobre a destruição da natureza pelo
ser humano … mas realmente sofre-se continuamente por
coisas completamente diferentes: por problemas de contato,
pela vida sem criatividade, pelas dificuldades sexuais, pela
incapacidade de entrega, pelas depressões, pelos sentimentos
de medo, pela falta de sentido, pela falta de vontade de viver
em geral, e pela propagação da tendência para doenças
psicossomáticas sem causa específica. Uma ideia cultural que
se quer “alcançável”, não se deverá deixar cegar pelos desvios
de linguagem. Tem, antes de mais, de ser capaz de dar resposta
ao problema existencial do ser humano de hoje. O ser humano,

31
independentemente do que isso possa concretamente significar, é
a verdadeira questão política dos nossos tempos.
Trata-se portanto do existencial. O que já é suficientemente
perverso! Pois quantas vezes já se passou por isso, e quantas
vezes se passou ao lado! É provável que não tenha havido
nenhuma altura na história que chamou tanta atenção
do existencial como a nossa, mas também nenhuma que
a rejeitou com tanta ferocidade. Em relação a questões
existenciais somos como crianças febris. A última grande
tentativa de mudar o mundo de modo existencial, após o
cristianismo, começou durante o fascismo. O resultado foi
de tal modo arrepiante, que desde então, nos círculos mais
sensíveis, suprimiu-se qualquer palavra que pudesse aludir
ao existencial. O movimento estudantil internacional, que
emergiu naturalmente de um impulso existencial, servia-se
de pseudo-argumentos aparentemente baseados em teorias
político-económicas. Pseudo-argumentos, pois nenhum
dos milhões envolvidos desceu realmente à rua por razões
político-económicas. Na realidade, desejava-se comunidade,
vida, solidariedade, coragem de resistir, e o sentimento de
competência própria. O que aconteceu realmente, poderia
ter sido descrito de forma mais adequada através de uma
linguagem psicológico-filosófica (se houvesse uma linguagem
destas em que as palavras ainda tivessem algum significado)

Trata-se do existencial – ou seja; trata-se de mudanças


fundamentais na esfera emocional, sexual, e espiritual. Para
proceder com tal mudanças, são precisas novas prioridades no
que diz respeito às necessidades pessoais, a uma nova prática
de vida, e a uma nova organização das questões do dia-a-dia.
Quem, passado dos trinta, estaria disposto a tal? A crítica
verbal ao sistema, como é costume nos meios intelectuais
das nossas sociedades, combina a maior parte das vezes com
modos de vida privada acomodados. Porquê? Por que os

32
críticos ao sistema estão presos. Prenderam-se à sua porção de
matrimónio, conforto, e prestígio social – e daí naturalmente,
também à sua porção de verdade, e respetivamente, de
inverdade. A inverdade existencial pertence, precisamente
hoje nos círculos intelectuais, à ofensa cavalheiresca sobre
a qual não se fala. Porque a assumimos com a maior das
certezas. Atuamos em discussões e congressos com estratégias
de imunização verbal que têm como função proteger as
pessoas em questão de consequências pessoais. Robert Jungk
que, dada a sua vasta atividade jornalística e sintonia com o
mundo, pôde captar a situação global de forma realista, disse-
me que no mundo inteiro talvez haja duas mil pessoas que são
suficientemente empenhadas e independentes para poderem
concretizar um projeto cultural desta dimensão. Bem, é
suficiente, comecemos então. Se a criação de arquétipos –
onde sejam realizadas as ideias aqui lançadas – resultar, então
haverá uma onda de contágio impossível de parar. E para tal,
a atmosfera histórica está madura como o soluto de cristais
antes da cristalização.

Uma Visão Diferente do Sofrimento e das suas Consequências


Há certas coisas,que marcam internamente a cultura de um
povo e a forma de vida de cada ser humano. A essas coisas
pertence certamente a relação com a dor, física e psíquica. Um
dos atributos peculiares da nossa civilização atual é o medo da
dor e o refúgio na terapia. Existiram culturas, por exemplo a
dos índios, que criavam condições para a superação do medo
da dor. Não faziam isso para produzir heróis, mas para tornar
o ser humano visível. Um chefe Sioux dizia: “Meu povo –
não há crescimento sem dor, nem dor sem crescimento. Não
nos escondemos da dor, da morte ou da vida. Os ocidentais
viram-lhe as costas: recebem carne limpa de sangue em
embalagens higiénicas. Tentam negar a santidade da vida, que

33
exterminam, quando matam um mosquito. – Porque nunca
nos escondemos do menor grito de dor, iremos sobreviver ”

A vida cria o novo, quando arrasa o velho. O germe cresce


quando rebenta o feijão. Cada ser criativo tem os seus altos
e baixos. Sofrer faz parte da vida criativa, pois a vida criativa
é a superação do velho, é quebra de grades, transgressão de
fronteiras. A nossa época é tão complicada e tão contraditória
que o ideal comum de uma vida calma, simples, e livre de dor,
não tem qualquer sentido criativo. Quanto maior a riqueza
interior do ser humano, tanto mais pode conter as questões,
dúvidas, e contradições do seu tempo. Como pode ele ser sem
dor? O ser humano é, antes de mais e a todos os níveis, um
ser em devir, e o que ainda não foi resolvido neste processo
gera fricção, conflito, e agitação. Não basta pôr o sofrimento
de lado. Também podemos conquistar uma relação mais
consciente, suave, ativa, e determinada. A cura interior é um
processo pelo qual o sofrimento se transforma em consciência,
recolhimento, e energia.
É provável que cada sofrimento grave e prolongado na
vida de uma pessoa criativa tenha um significado criativo.
Certamente um significado difícil de adivinhar à primeira.
Mas em retrospetiva, a mudança ocorrida revela: um rosto
mais delicado, mais firme, e incorruptível, um acréscimo
evidente na substância pessoal e espiritual, um sentido crítico
mais aguçado, e uma apreciação mais equilibrada dos valores
humanos.
Há duas formas de sofrimento: o sofrimento criativo, que
está ligado ao crescimento, e o sofrimento doentio, que está
ligado à paralisia. No primeiro, encontra-se a energia vital
ativa e uma força de resistência interior contra a dor que
emana da identidade intacta. A segunda forma de sofrimento
é a doença dos nossos tempos: a forma da vida que não se
chega a desenvolver, que está voltada para si e corcunda.

34
Onde as forças elementares do instinto e do crescimento do
ser humano colidem com as barreiras sociais, o ser humano
divide-se entre um lado “normal”, que corresponde às boas
maneiras da sociedade, e um “outro” lado, que fermenta
no escuro e irrita o ritmo quotidiano com os seus sinais de
provocação. A verdadeira humanização do mundo humano
consiste em libertar o “outro” da sua existência reprimida
e, aos poucos, integrá-lo na vida diária. O que o ser humano
não tiver em conta num estado consciente de ação, vira-se
sempre contra ele … o que ele não domina verdadeiramente,
acaba por dominá-lo a ele. Cada neurose e cada doença
psicossomática é prova do limite da natureza violentada do ser
humano. Mas o que é a “natureza” do ser humano?

Sou o ermita que rasteja para fora da sua gruta na decisão


ponderada de ver o mundo, no qual de agora em diante
quero viver, com imparcialidade, tal como ele é. Nada é
mais estranho, abalador, contraditório, e incompreensível,
do que o ser humano, quando paramos de querer defini-
lo precipitadamente e de ajustá-lo à nossa capacidade
embrionária de apreensão. Trata-se apenas de ver, não
de interpretações e de suposições. Se fizermos um corte
longitudinal através da história até aos dias de hoje, ou um
corte transversal pelo todo que agora, neste preciso instante,
está a acontecer entre as pessoas no nosso planeta (e também,
entre as pessoas e os animais), então desvenda-se à vista do
olhar ingénuo talvez um único limite: o limite do horror.
O humano: o ser que construiu pirâmides, cidades até à
extinção da última criança e do último gato, cantou em coros e
erigiu catedrais, assou na grelha ardente os que tinham outras
crenças, e transformou outras raças em sabão … o ser que
odiou por amor e matou por piedade, que prega a compaixão e
produz napalm, que ama a paz e agora prepara o seu naufrágio
nuclear.

35
O inconcebível exige imperativamente uma resposta. Mas
não nos precipitemos em dá-la. Conhecemos e aceitamos
a ligação entre repressão dos instintos e crueldade. A sua
descoberta está por entre os maiores e mais prometedores
feitos da história do geist. Freud e Reich são pioneiros de
um mundo mais humano. Mas temos razões para suspeitar
que aqui, ao nível psicoanalítico, ou seja, económico-sexual,
algo se desenhou no interior da alma humana, que no seu
âmago, e de modo geral, derivou de padrões ainda mais
fundamentais do ser humano, da nossa evolução, talvez do
devir universal. Os vikings puderam ser relativamente livres
da repressão dos instintos … mesmo assim o homícidio
e o extermínio tinham um papel central nas suas vidas. É
esta enigmática tendência, profundamente entranhada,
para o excesso, que sempre transformou o ser humano
em monstro – ou em santo. Ex-cesso, êx-tase, superação de
limites, dissolução do eu, e união com o “outro”, que reluz pela
abertura súbita de forma inebriante ou sagrada - esta exaltação
sem limites de todas as energias internas foi, e é, a questão
mais sombria da história humana. Nelas movem-se todas as
formas do horror, do amor, e da religião. O que sabemos do
ser humano, este ser em devir? Tendo em conta o espaço-
tempo da evolução, a sua história acaba apenas de começar.
Pelos vistos, há algo que persiste no ser humano, algo que
pela simples contemplação do mundo exterior provoca
exaltação e irritação, nomeadamente a realidade inimaginável
de ser tão diferente daquilo que pensámos: aquele aspecto
do monstruoso que, mal começamos a descobrir, se infiltra
em tudo o que nos é familiar. A matéria e a monstruosidade
do nada, que se dissolve na contemplação microfísica. O
vivo e a monstruosidade da sua complexidade presente
numa única célula. A evolução e a monstruosidade do seu
propósito presente no seu espaço-tempo. O céu estrelado e
a monstruosidade de toda a sua existência presente nas suas

36
dimensões. O gato doméstico e a monstruosidade da sua
origem presente nos seu olhar ancestral de predador. Pais
de família comedidos cuja monstruosidade se reflectiu em
Auschwitz.

Por trás de tudo o que é familiar está, sempre e em todo


o lado, o “outro”, que a uma distância e a um passado
desconhecidos, se projeta no nosso presente. As suas fibras
encontram-se e ligam-se ao biótopo humano. Aí, debaixo da
superfície, geram aquele depósito explosivo de crime, sonho, e
loucura, que à data da nossa vivência, da nossa humanização,
e formação de personalidade, nos caracterizou no mínimo
tanto quanto todas as convenções do costume e da moral.
Aqui há matéria suficiente para o sofrimento. O
incompreensível torna-se ameaçador. A vida humana parece
rodeada de um horizonte de catástrofes desconcertante, que se
revela sempre que as convenções sofrem um colapso. Vivemos
neste mundo espantoso, envolvidos pelo seu sopro e a sua
vibração. A vida dividida ameaça-nos do “além”, ou seja, das
regiões confusas da consciência. Cada tentativa de se proteger
delas, é por fim, uma tentativa contra a própria vida. A ameaça
não é de todo ilusão. Estamos verdadeiramente ameaçados
– psíquica- e biológicamente – enquanto procuramos pôr
de lado o que nos parece diabólico. A paranóia dos nossos
tempos assinala os fatos: a catástrofe humana e ecológica
em curso é como a “vingança” da vida incompreendida e
agredida. A nova cultura que agora tem de ser alcançada
já não se defende da intrusão do vivo. A sua essência é
neste momento a abertura interior cautelosa mas radical, a
superação de todas as barreiras, o trabalho constante sobre
os tabus, e a reformação de todas as estruturas da vida. A sua
composição psíquica e social deve tornar-se num receptáculo
com capacidade de receber o ser humano por interior.

37
Todos os apelos à razão e à moral acompanham a estranheza
do mundo como discursos de candidatos a eleições. As
promessas religiosas do passado, e a maioria das promessas
terapêuticas dos nossos tempos, assemelham-se a um
narcótico que, para além de causar sono, também traz com
ele pesadelos. A terapia pode facilitar a experiência pessoal,
e assim contribuir para o estabelecimento de um novo rumo.
O que se segue, é o trabalho cultural sobre si mesmo e sobre
as próprias relações com a vida. O nosso sofrimento é um
sintoma da vida não vivida. A cura consiste em reconhecer a
vida não vivida – e vivê-la. Para superar as nossas barreiras
enraizadas, os nossos medos e fadigas, a nossa humanidade
doméstica, e os nossos recantos alternativos, é necessário
criar meios experimentais onde tais superações possam ser
compreendidas e desejadas.
A consciência tem de ser libertada do quotidiano, sem no
entanto perder a noção do quotidiano, e sem mistificações,
nem auxílio de substitutos como a arte, a educação, ou
a religião. O que é verdade nos valores do geist, deve ser
compreendido e concretizado no dia-a-dia. Este “deve”
não é arbitrário, mas sim condição da nossa continuidade
humana. Religião e arte, sonho e loucura, e também, sadismo
e guerra, são os pontos de ligação e de colisão da nossa vida
com o desconhecido. Um dos pontos centrais de colisão é a
sexualidade. Colocamos a sexualidade diabólica obstruída,
que se revela em fantasias e excessos ocasionais, fora dos
nossos comportamentos sexuais reais! Os sexos, estas forças
da natureza, comportam-se como ovelhas cheias de alma.
Uma corrente de potência carnal e criativa encontra-se
obstruída por uma barragem de costumes, precaução, e medo.
O que resta é uma ribeira coagulada incapaz de satisfazer
a sede. Muitos já nem dão por isso porque aprenderam a
resguardar-se do Eros – através da sexualidade, isto é, através
do que pretendemos ser a sexualidade.

38
A sexualidade é apenas um exemplo, e daí, talvez o que tem
mais consequências. A raiva sofreu um destino semelhante, a
grande raiva biológica que chama pela vida própria nos sítios
onde sofre cortes e ofensas. A curiosidade também sofreu um
destino semelhante, o desejo de aventura, e cada outra forma
da nossa necessidade natural de expansão. Tornamo-nos
demasiado fofos, demasiado dóceis, e demasiado pequenos.
Vivemos numa situação de suspensão temporal interior.
É daí que advém o sofrimento crónico e todos os efeitos
secundários como as enxaquecas, a impotência, a depressão, e
o cancro. É a depressão crónica de uma vida encerrada num
gueto que, desde o subsolo, é constantemente bombardeada
com os encantos do “além”: de uma vida possível para além
dos limites. Este estranho abismo subterrâneo que existe,
entre os verdadeiros instrumentos que possuimos enquanto
seres estranhos e os nossos modos de ser atinados, revela
aquela irritação crónica da falta de criatividade, corroborada
por expressões correntes como “incompatibilidade entre
mente e corpo” ou, “dificuldade de entrega”. Tendo em vista
o verdadeiro tema em questão aqui, o moderno funciona,
através da psicologia e da terapia das características da
consciência do sofrimento, como uma verborreia emocional
sem fim. Quase que se tornou chique falar sobre os próprios
medos, as dores de costas, ou os problemas sexuais. O hábito
de falar sobre emoções reprimidas gerou a mais requintada
fortaleza de sempre contra a verdadeira compreensão da
situação, e contra a emergência de uma real vontade de
mudança. A hoje vulgar difamação do intelecto deu conta do
resto ao suprimir a única instância que seria capaz de facultar
uma visão geral: a cabeça.

O sofrimento da sociedade moderna é a paralisação de


acontecimentos elementares da vida ao nível carnal, psíquico,
e espiritual. Com distância suficiente, esta paralisação revela-

39
se consequência de um sistema mal pensado dos nossos
modos de vida. São demasiado pequenos, tão pequenos que
o fenómeno humano não cabe dentro deles. Debaixo da folia
social dos comportamentos, existe um enorme potencial
de energias vitais, eróticas, espirituais,e expansivas, que até
agora não tiveram espaço para se desenvolverem livremente
nas esferas sociais e humanas. Por trás de todas as doenças
psíquicas e psicossomáticas dos nossos tempos está o motivo
central do medo, e o medo vem da restrição. Demasiado
restritas são as formas antigas dos costumes e convenções,
demasiado restritas são as formas antigas do matrimónio
e da família nuclear, demasiado restritas são as divisões
do trabalho altamente especializadas, demasiado restritas
são as formas das estruturas teóricas e do conhecimento
científico, demasiado restritas também são as formas das
práticas políticas de esquerda e das subculturas alternativas.
O “outro” da vida e o criativo que têm origem e sustento na
novidade, no desconhecido, na tensão, e no contraditório,
não se encaixam nelas. O princípio da restrição e do medo
opera internamente. Para nos voltarmos a integrar no vivo,
é por isso necessário uma expansão interior da nossa vida:
uma superação das nossas carapaças psíquicas e corporais,
uma abertura do organismo inteiro, e um restabelecimento
do centro da consciência no sentido de uma identidade cada
vez mais profunda. Restabelecimento do centro interior e
comunicação mais livre para o exterior – são ambos os lados
do processo de expansão que nos liga ao vivo. Tudo depende
deste processo. Para o pormos em andamento, precisamos
de estratégias sociais e individuais que permitam superar a
restrição e o medo. Este é o ponto central para a construção de
uma nova cultura. É neste ponto que está inserido tudo o que
pode ser alcançado para a expansão interior: um novo sistema
de profissões, uma nova arquitetura, novas formas de vida
em conjunto e de criação dos filhos, novas formas de amor e

40
sexualidade, novos métodos medicinais, novas possibilidades
artísticas e experiências pessoais. A criação de uma cultura
em sintonia com as leis da vida requer antes de mais, a criação
de novos espaços sociais e psíquicos onde as pessoas possam
voltar a viver livremente e aprender a respirar. De tais espaços
surge enquanto força de cura fiável contra o medo e o ódio - o
amor.

41
3 A verdade sobre o mundo dos vivos

O medo como doença cultural biológica


A alienação da nossa época se trata, em seu nível mais
profundo, de uma questão biológica. Nossa doença cultural
consiste na perda da força da vida e do sentido da força da
vida. Prova disso é qualquer hospital moderno, incluindo as
bizarras formas de medicina lá praticadas. Em relação a todas
as questões vitais o ser humano atual é fatalmente estúpido –
fatal no sentido literal. Na Alemanha Ocidental uma pessoa
morre de câncer a cada quatro minutos, e o número de
“psicossomáticos” é gigantesco. Nosso ambiente rançoso e
envenenado e o nosso sistema profissional superespecializado,
com as suas atividades minuciosas e fragmentadas, causam
tensões neuróticas e corporais e bloqueios bioenergéticos
em uma parcela imensa da população. Esses fatores, junto a
uma perda geral da comunicação humana direta e a miséria
que reina nos relacionamentos humanos, fazem com que o
homem contemporâneo viva sob um estado de repressão
interna constante, o que impossibilita a calma, a profundidade
e o espaço necessários para a experiência fundamental do
mundo dos seres vivos. Repressão = medo. A doença biológica
da nossa cultura e da nossa civilização é o medo, medo como
resultado de bloqueios bioenergéticos e espirituais. E o medo é
inimigo do amor.

Nós precisamos ver e compreender exatamente o quanto o


“humanismo”, a compreensão, a tolerância, a gentileza e a
consideração, o cuidado e a simpatia, se devem na verdade
ao medo. Quando testemunhamos conscientemente esses
processos, o teatro sentimental de palavras e emoções do qual
todos nós fazemos parte …, chegamos a uma noção do que
significa construir uma comunidade sem medos e mentiras.

42
Não existe mudança mais fundamental. Geralmente não nos
damos conta do medo porque os nossos acordos morais, as
nossas conversações culturais, as nossas ideologias e formas
de comportamento são todos formados por ele. O medo é
indissociável do sistema do nosso cotidiano. É o fermento
psíquico e o catalisador emocional de toda a nossa cultura.
A maior parte das pessoas não consegue nem imaginar o
que significa amar sem medo, porque o que elas chamam
de “amor” está tão associado ao medo de perder alguém,
medos sexuais, medo de autoridade, de rejeição, de ficar
sozinho, de traição, que o absurdo da situação já não é nem
mais reconhecido. Percebidas são, mais uma vez, apenas as
consequências: ciúmes, doença, depressão, e relacionamentos
rompidos. Amar sem medo é sem dúvida o oposto daquilo
que em nossa cultura é chamado de amor. A verdade dessas
inter-relações pertence ao aspecto mais inacreditável que a
nossa época tem para oferecer. Qualquer um que não veja isso,
ou pelo menos uma parte disso, pode fechar esse livro agora,
porque para ele a partir de agora só virão mais disparates.

Estudo da vida como a ciência do futuro


A construção de uma cultura orientada pelas leis da vida
exige uma compreensão cada vez mais profunda de processos
vitais elementares. Processos vitais elementares são processos
universais, conectados com todos os níveis da vida, dos
mais simples reinos vegetais até as regiões anímicas do ser
humano. Eles estão ligados a germinação, crescimento, e
desenvolvimento, com ascensão e queda e ascensão. Esse
drama da vida se reflete na situação interna do ser humano
– no processo de maturação, nas dinâmicas de impulsos,
desejos, e na estrutura de conflitos. Na natureza interior dos
seres humanos como na natureza exterior valem as mesmas
leis do mundo dos vivos. É por elas que a construção de uma

43
nova cultura deve orientar-se, se queremos recobrar qualquer
senso de identidade biológica, energética, e mental-espiritual.
O estudo da vida é uma ciência do futuro, talvez “a”
ciência do futuro. Tudo o que podemos dizer acerca do
funcionamento e a estrutura dos seres vivos tem caráter
temporário. Mas até o pouco que conseguimos ver contradiz
de tal modo as nossas formas habituais de pensamento, de
formular teorias científicas, ou a ideia de “objetividade”,
a forma com que contemplamos nossas vidas, com que
estruturamos nossas condições de vida, nossa moral, a
medicina tradicional, a pedagogia ou a arquitetura, que
podemos dizer com segurança: uma cultura e uma sociedade
orientadas de acordo com as leis da vida se desenvolveriam
com princípios diametralmente opostos aos que foram
desenvolvidos pela nossa cultura e sociedade atuais. Essa
modalidade de estudo da vida está para a ciência convencional
como a visão está para a estrutura anatômica do olho.

A ordem natural do reino dos seres vivos é de um tipo


fundamentalmente diferente da ordem estabelecida em
sistemas criados pelos seres humanos (técnico, jurídico,
governamental, militar). Ela é mais complexa, unificada,
aberta, e menos suscetível a disfunção. E o mais importante,
contém o ímpeto para desenvolver-se. Seus princípios
de funcionamento são ritmo, comunicação, ressonância,
leveza, radiação, tensão, pulsação, polaridade. Uma precisão
incrível é alcançada através de métodos imprecisos, como o
toque, o sentimento, a oscilação, a interferência, etc. Só com
um novo sistema de pensamento estaremos em posição de
compreender, passo a passo, as extraordinárias funções nas
quais toda a vida se baseia. Nós precisamos de uma nova
filosofia, ancorada no mundo dos seres vivos, e de uma nova
forma de biologia que de fato lide com a mágica da vida,
com suas leis “ocultas” e suas forças parapsicológicas que

44
regem funções e desenvolvimentos na natureza, sua fantástica
tecnologia, seus processos energéticos de comunicação e
ressonância, e sua natureza pulsante, radiante, e sempre em
metamorfose – essa biologia como ciência abrangente do
mundo dos vivos será uma das questões centrais em uma nova
era cultural.

Estudo tem a ver com conhecimento. Querer saber não é


nenhum luxo humano, é um impulso que vem do centro da
evolução, e a evolução é um processo de capacidade cognitiva
crescente. Os órgãos dos sentidos são órgãos rudimentares de
cognição. Talvez o maior e mais acessível segredo do mundo
dos vivos seja a sua disposição para com os órgãos dos
sentidos. Eles servem à percepção e à comunicação. Percepção
e comunicação parecem ser de certa forma fundamentais para
o mundo dos vivos. Por quê? Que segredo da providência
pretendia dessa forma fazer-se legível? Sensualidade é
percepção e contato. Está, portanto, associada a cognição.
A evolução da vida trouxe à tona diferentes formas de
cognição, por exemplo, percepção sensorial, intuição, e o
intelecto. O intelecto é o mais jovem e o mais inexperiente
filho da evolução da vida cognitiva. Para que possa funcionar
de maneira significativa e de acordo com a evolução, as prévias
faculdades de cognição sensitivas e intuitivas têm que estar
intactas. E porque elas há muito já não o estão, o estudo da
vida precisa ser incluído em um esquema maior que permita
que a sensibilidade e a intuição sejam regeneradas. Um
organismo verdadeiramente desperto, com os poros abertos
para o fluxo livre da energia, funciona como um único
órgão sensitivo a experimentar o mundo. Essa experiência
é assimilada, refletida, e conduzida pelo seu centro de
consciência. Estudar os seres vivos significa a abertura dos
sentidos e o despertar desse centro.

45
Contato e verdade
Cognição tem, é claro, tudo a ver com a verdade. Mas o que
é a verdade? Antes de poder ser descoberta e formulada
intelectualmente, ela já existe em uma forma completamente
diferente. “Verdade”, disse Wilhelm Reich, “é o contato
completo e imediato entre a vida que percebe e a vida que está
sendo percebida”.
Essa é uma das afirmações mais profundas da teoria
da cognição. Ela implica que a verdade não se trata
essencialmente de uma questão de pensamento, mas
de contato. No entanto, o contato é uma função básica
bioenergética e sensual do mundo dos seres vivos, pois
todos os organismos integrados nele estão em contato uns
com os outros. E por isso a verdade também é – enquanto o
contato não for perturbado – uma das funções básicas de um
organismo saudável. A maioria das palavras da nossa língua
expressam significados obtidos através não do consenso
intelectual, mas sim do contato imediato. Uma criança
aprende o significado da palavra “amargo” quando ela ouve
a palavra e a associa com a expressão facial correspondente.
É algo que se percebe através do contato e se compreende
intuitivamente.
E assim o mundo do contato precede o mundo intelectual.
Quando o contato é obstruído o fluxo intelectual também
é obstruído, pois ele se dissociou das suas pré-condições
biológicas, emocionais e energéticas. A era das ciências
naturais tradicionais, e sua estruturação social correspondente
é a era da perda cada vez maior de contato. O contato
completo e imediato com os seres vivos foi severamente
distorcido por barreira atrás de barreira de medo, nojo
e acanhamento – principalmente no âmbito global das
áreas relacionadas a funções de excreção e a sexualidade.
A verdade é realizada nos momentos em que essas barreiras
são superadas. Estudar a vida significa trabalhar nos tabus,

46
pois o conhecimento oculto se manifesta justamente no
ato de ultrapassar fronteiras. Os termos êxtase, excesso, e
transcendência originalmente expressam esse elemento. Talvez
entrega seja uma boa palavra para descrever o modo de vida
que, então, se segue.

A tecnologia prodigiosa dos seres vivos


O que é a natureza, o que é vida?
Se eu observar – em plena consciência – o brotar de uma
planta em um vaso, me vejo instantaneamente confrontado
com todo o enigma. Quem sou eu, que observo e penso? Essa
pergunta nos leva a uma nova faceta do mesmo enigma. É
uma característica peculiar da mente humana, a capacidade de
desprezar o mistério inerente a todas as coisas só por força do
hábito.
Algo que nos parece tão familiar, ao ponto de mal o
notarmos, contém dentro de si um universo, que um dia
pode vir a responder todas as nossas perguntas. É um mundo
de estruturas e funções que se desenvolveram de forma
orgânica, ao longo de milhões, ou até mesmo bilhões de anos.
Estamos adentrando um mundo de verdadeiras maravilhas
organizativas e tecnológicas. A forma de uma concha, o
sistema estático de um osso oco, a estrutura e dinâmica de
um vórtex, o senso de orientação de um animal, ou o sistema
de troca de informações dentro de uma célula – tudo isso é
incrível e extremamente interessante. E ainda assim, só nos
mostra a face externa dessas coisas.
Que tipo de tecnologia de produção de energia pode
vir a aparecer no horizonte de uma nova cultura, se nós
pudéssemos entender como uma folha de capim é capaz de
atravessar uma camada de asfalto? Que possibilidades para
uma suave emergência de poder, quando nós entendêssemos
o princípio de ressonância que claramente opera por toda

47
a parte entre os seres vivos? A arquitetura de um talo de
milho, a construção de uma teia de aranha, a tecnologia que
há na força das garras de uma ratazana – são exemplos de
verdadeiros milagres de estabilidade e “eficiência”!
Essa abordagem tecnológica é fascinante, mas não chega ao
cerne da questão. Mais uma vez a razão humana, que procura
medidas, proporções e composições químicas para poder
reconstruir coisas, ignora a sua essência, o fato de que essas
obras geniais não surgiram como meios para um fim, mas sim
como resultados de uma atividade vital sobre as partes dos
seres vivos em questão. Por trás de toda a perfeição biológica
há esse estado comum a todos os seres vivos, um retorno e
uma sintonização constantes com as estruturas do universo
e da natureza que os rodeia. A mensagem biológica que aqui
encontramos vai muito além da tecnologia; ela é sem dúvida
existencial. As estruturas e funções que observamos são as
manifestações empíricas de um mistério. Esse mistério reside
no modo de vida e no “método de existência” universal de
todos os seres vivos.

O ser humano dentro do organismo da natureza


Tudo o que é vivo tem um exterior e um interior. O interior
é, por mais rudimentar, sempre de uma natureza psíquica.
A psicosfera faz parte da biosfera. Todos os processos vitais
são regidos pelo interior. A evolução foi também um jogo do
acaso, mas nunca teria acontecido se não houvesse na essência
de cada ser vivo um centro germinador capaz de selecionar e
processar os resultados do acaso.
Não há dúvidas que a vida tenha de fato um lado interior,
desde que a evolução produziu um ser capaz de examinar
o seu interior – o ser humano. Em todo o organismo da
natureza o ser humano é o olho através do qual a vida enxerga
a si própria. Quando ele vê seu interior, ele se torna uma

48
verdadeira testemunha do aspecto interior da vida. Aquilo
que ele vê e sente no seu interior é a expressão mais imediata
da vida em sua plenitude (ainda que seja tão frequentemente
distorcido e reprimido). O ímpeto interno de evolução
da vida, atravessando uma forma de vida atrás da outra,
produzindo todo o espectro de instintos animais e impulsos,
se revela em sua até agora mais evoluída forma, os seres
humanos – como desejo, anseio, vontade, emoção, e “alma”.
Disso é formada a continuidade interna da evolução dos seres
vivos.
Uma biologia que continue a só se concentrar no aspecto
exterior da vida, sem expandir suas possibilidades de
experiência para o interior, já não tem mais sentido histórico.
O mesmo vale para medicina e arquitetura. A vida não se
permite ser dividida. O mundo dos seres vivos, que opera e
percebe, questiona e investiga dentro do ser humano, pertence
ao mesmo mundo que movimenta, a partir do seu interior,
plantas e animais.
Todas essas interconexões têm consequências
metodológicas. Já que tudo o que vive tem um interior, a nova
ciência vai depender do poder de reconhecimento através
da intuição. Isso não significa que a o poder de objetivação
e análise do pensamento intelectual deva ser descartado. A
batalha entre os dois não passa de um episódio ultrapassado
na confusa e bizarra história das ideias humanas.
A percepção e experiência da vida são em grande parte
uma questão de capacidade para experiência interior. As
formas sinuosas de um riacho, o canto de um pássaro, e a
sobrevivência de um veado ao mais rigoroso inverno, são
coisas que só podem ser descritas e explicadas nos termos dos
seus aspectos físicos, mas que precisam ser compreendidas
internamente. Mas a capacidade para experiência interior
está em grande parte bloqueada na nossa cultura. O bloqueio
consiste, em primeiro lugar, dos obstáculos que em nome

49
da moral, dignidade humana, e uma ideia distorcida de
humanidade, foram criados contra o nosso “lado animal”.
Muitas zonas elementares de experiência biológica, vegetativa,
e animalesca se tornaram, portanto, inacessíveis para a nossa
consciência humana. A maior parte dos adultos hoje em dia
não consegue chorar de verdade, se enfurecer de verdade,
amar de verdade, relaxar de verdade, ou respirar de verdade.
Ao longo desse caminho, algo se perdeu na substância
humana, em seu mundo de experiências mais imediato que
é necessário para a conexão e união verdadeira com os seres
vivos. O ser humano se isolou, através de seus programas
falsos, de energias e processos vitais elementares, e com a sua
“ciência objetiva” cimentou ideologicamente essa separação de
suas origens. Essa ciência objetiva só viu e analisou o aspecto
exterior do mundo. A razão mais profunda para isso não
reside de modo algum na essência da ciência, mas antes no
modo de vida dos cientistas e da cultura a qual eles pertencem.
Eles olharam o mundo de fora porque eles estavam fora dele.
As antigas e místicas conexões com a natureza e o cosmos
desapareceram. Outras barreiras a comunicação e a bloqueios
emocionais impediram que acontecessem livremente os
processos de comunicação e troca entre o Ser Humano e
o Mundo. A ciência objetiva tornou-se o símbolo do ser
humano isolado e da sua época.

Os princípios de funcionamento da vida


a) Sem intenção e sem esforço
Um cachorro que se perdeu de seu dono ao caminhar por
uma floresta desconhecida não tem uma intenção ou plano
para conseguir voltar pra casa. Ele simplesmente segue os
seus instintos. Com os sentidos alertas, farejando e urinando
nas curiosidades pelo caminho, ele simplesmente vagueia até
chegar em casa bem antes do seu preocupado dono.

50
E não só o cachorro, mas todos os seres vivos, todos os
processos vitais em plantas e animais, e todos os sistemas na
natureza funcionam sem esforço e sem intenção. Mesmo os
mais poderosos movimentos de uma pantera acontecem sem
esforço. Esse é o segredo do seu poder e beleza. A mentalidade
zen do Oriente segue os mesmos princípios na arte do tiro
com arco e manejo da espada (do tipo Samurai): a mais alta
beleza e perfeição sem intenção ou esforço. É o princípio
do Centro (“Hara”). Quando se está em paz em seu centro,
poderes cósmicos se colocam à sua disposição – como uma
folha de grama, uma árvore, ou um animal. A arte da vida,
quando não é perturbada, é essa calma que permanece,
mesmo em movimento.
A capacidade de ter uma intenção e buscar um objetivo é
um desenvolvimento relativamente recente na evolução que
só conseguiu encontrar sua expressão original no surgimento
do ser humano. Essa capacidade é um resultado da evolução;
isso significa que ela foi adicionada às habilidades e à potência
dos seres vivos. Nós não devemos, portanto, tentar estabelecer
formas de viver sem objetivo e intenção, simulando falta
de voltade. Os objetivos que nós estabelecermos só serão
significativos em termos de uma cultura orientada pela vida se
nós conseguirmos ver e entender a existência sem intenção ou
esforço como um princípio universal da vida. Nós precisamos
– no sentido de progresso humano – voltar a nos tornar
capazes de participar desse modo de existir.

b) Pulsação e Peristáltica
Durante um verdadeiro orgasmo o corpo humano fica como
uma massa de plasma em convulsão. Esse fato “impróprio”
constitui uma das razões mais profundas para a transformação
da sexualidade em tabu. O que devia ter acontecido é o
oposto. O fato de que durante uma convulsão orgástica nós
estamos lidando com uma função biológica primária de

51
grande importância que o ser humano tem em comum com
todos os seres vivos, até a água viva e a ameba, deveria ser
razão suficiente para reter e proteger essa função a todo custo.
Sempre que um ser vivo se move de maneira independente,
sem interferência externa, um dos princípios que ele segue ao
se mover é o da pulsação: uma sequência rítmica de expansão
e contração, carga e descarga, tensão e relaxamento. Os órgãos
do nosso sistema autonômico, como o coração, pulmões e
estômago ainda mostram uma forma relativamente pura desse
ritmo (não superimposta por outros ritmos). As minhocas
se movem dessa forma peristáltica. Pulsação e peristaltismo
expressam um princípio funcional básico dos seres vivos.
O homem moderno, graças a sua tradição cultural avessa
a impulsos em sua estruturação psíquica e bioenergética
(armadura do corpo), perdeu em grande parte o contato
com suas funções biológicas elementares. Mas se essa
armadura for dissolvida (através de terapia corporal ou de
uma experiência emocional forte), o corpo imediatamente se
entrega a essas funções básicas, antes travadas. Convulsões
tendem a se desenvolver automaticamente, centradas na
área do estômago – convulsões que rapidamente tomam o
organismo inteiro. Esse processo é muitas vezes acompanhado
por gritos, soluços, e um choro libertador. Finalmente o ser
humano volta a se unir consigo mesmo, com seus processos
biológicos básicos, e assim, automaticamente também com sua
verdadeira identidade.
Foi principalmente através da pesquisa de Wilhelm Reich
que essas verdades simples foram trazidas à luz e inseridas no
contexto ao qual pertencem: fundamentalmente, o de uma
nova cultura sexual e emocional.
O orgasmo sexual energético é uma função crucial da vida.
É difícil imaginar o quão profunda é a mudança de atitude e
perspectiva que nós hoje precisamos alcançar para permitir
que as interconexões mais simples da vida possam voltar

52
a ser sequer vistas. O estudo da vida contém implicações
o suficientes para a teoria cognitiva para confundir os
representantes da ciência tradicional. Por exemplo, há uma
correlação forte entre a habilidade de estudar a vida e a
habilidade de ter convulsões orgásmicas, a entrega sexual, e a
potência de vida de maneira geral.

c) O Contraditório
Para fazer jus ao seu nome, o estudo da vida precisa ser
acompanhado por uma nova maneira de pensar. O conceito
de uma cultura “orientada pela vida” não pode ser entendido
como a cópia mecânica dos princípios da vida. Os padrões
de processos dos seres vivos não podem ser entendidos
nem aplicados de maneira mecânica, devido à complexa e
contraditória natureza da vida. Há um fenômeno conhecido
na terapia corporal que pode ser verificado por experiência
própria. Pressione uma parte sensível da sua pele. Inicialmente
isso causa desconforto, mas uma pequena mudança interna
de atitude pode imediatamente transformar o desconforto em
prazer. Essas coisas são ambivalentes. Uma pequena mudança
de humor ou de perspectiva, a superação imperceptível
de uma barreira invisível, faz com que um fenômeno se
transforme no seu oposto.

Afirmações definitivas como “assim e só se for assim” ou


“isso ou aquilo” não se aplicam no mundo dos seres vivos. A
natureza nunca segue uma linha reta. Quanto mais fundo nós
vamos nesse mundo, mas nós descobrimos a íntima correlação
de cada verdade com uma contraverdade, cada princípio com
um contraprincípio, e cada tesa com uma antítese. A vida
parece funcionar dessa maneira fundamentalmente antitética
e polar. Essa dualidade universal e ambivalência do mundo
dos seres vivos também percorre os níveis mais profundos
da consciência humana, passando por exemplo pelo “duplo

53
sentido das palavras” ou pelo “caráter duplo dos arquétipos”.
Esse fenômeno foi bem documentado pela psicologia
profunda e pelo estudo de mitologia.
A dificuldade de entender os conceitos e absorver o mundo
dos seres vivos surge, entre outra coisas, porque os dois
opostos formam uma unidade funcional. Exemplos dessa
unidade são:
Construção – Destruição
Lei – Espontaneidade
Ordem – Caos
Complexidade – Simplicidade
Tensão – Relaxamento
Fluxo – Forma
Movimento – Quietude, etc.

Crescimento é fluxo e forma. Criação é liberdade e


necessidade. Liberdade é espontaneidade e regularidade.
Desenvolvimento é movimento e calma. Evolução é
determinação e (cada vez mais) liberdade da determinação.
Para cada tese cardeal há uma antítese cardeal. Só a união
das duas pode se aproximar da verdade do misterioso
processo que nós chamamos de vida. Compare isso ao
registro dogmático das nossas representações morais e de
valores e às nossas formas habituais de julgamento! Não
faria sentido pensar analogamente e aplicar esse fenômeno
do paradoxo à vida humana e social? O desenvolvimento de
um indivíduo acontece a partir de uma centralização interna,
combinada com a expansão externa, contração do “eu” e
“dissolução” do “eu”. Uma comunidade funcional incorpora
tanto espontaneidade quanto organização, crescimento
orgânico e design, centralização e descentralização, hierarquia
e democracia. Tanto o espaço ecológico externo quanto
o espaço espiritual interno da comunidade precisam ser
cultivados. É bom estar centrado na realidade da vida

54
cotidiana, e na crescente certeza do mundo transcendental.
(A questão de antítese será levantada e discutida mais
profundamente no pósfácio, em relação a tradição.)

d) O Aberto
Toda vida é aberta: ela está em comunicação constante e em
um estado constante de transformação. Cada ser vivo e cada
unidade biológica (por exemplo, um biótopo) é, de acordo
com os termos da biologia moderna, um “sistema aberto”.
Essa abertura biológica do sistema tem dois aspectos: não
há apenas o fluxo equilibrado, no qual o sistema se mantém
ligado ao seu ambiente em um circuito constante de troca. Há
um outro aspecto envolvido, o aspecto ao qual o pesquisador
francês Edgar Morin, conhecido pelos seus princípios para um
estudo profundo de biologia, se referiu no final de seu livro Le
paradigme perdu: la nature humaine (O paradigma perdido: A
natureza humana):
“Nós nos tornamos mais fortes no momento em que somos
capazes de, de uma vez por todas, nos liberar da palavra
mágica que explica a tudo, da litania que supostamente
resolve tudo. E nós nos tornamos mais fortes quando vemos
que o mundo, a vida, os seres humanos, o conhecimento e a
ação são sistemas abertos. A abertura – uma frestinha para
o desconhecido e para o vazio – é ao mesmo tempo a boca
sedenta e faminta através da qual o nosso espírito e a nossa
vida desejam respirar, beber, comer, e se unir em amor.”
A qualidade biológica da abertura tem a ver com o fato
básico de que todas as coisas vivas estão em processo de
desenvolvimento, e que esse desenvolvimento obviamente tem
um aspecto “interno”, uma potência direcionadora invisível
– falamos hoje de “auto-organização” – que busca expandir
o terreno para a espontaneidade, a liberdade e a abertura no
curso da evolução (Teilhard de Chardin baseou sua teoria da
evolução neste princípio).

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Não importa o quanto nós queremos interpretar a abertura
dos sistemas biológicos, ele estabelece parâmetros para a
construção de uma cultura e sociedade baseada nas leis da
vida. Uma das qualidades mais importantes de um conceito
cultural vivo é a sua possibilidade de mudar, de se corrigir a
si mesmo e se desenvolver. A tradução dos princípios dos
“sistemas abertos” da realidade humana, como aspirado pelo
Racionalismo Crítico de Popper e pelo Experimentum Mundi
de Bloch – não só proclamá-los mas de fato superar todas as
estruturas rígidas de ideologia, instituição, e hábito – é hoje
um pré-requisito para qualquer conceito cultural criativo.
Humanismo é a tolerância ativa do contraditório e do aberto.

e) O Impreciso e o Circulante
Nossos olhos estabelecem a relação mais direta com um
objeto ao examiná-lo de relance. Um cego lê Braille circulando
as letras com a ponta dos dedos. A verdade é muitas vezes
mais fácil de ser absorvida quando é apenas insinuada.
Os cachorros se reconhecem circulando uns aos outros.
Nenhuma folha é igual a outra. Informação biológica é
transmitida através de “ruído estático”. Um rio não segue uma
linha reta, e sim formas sinuosas. O caminho mais curto é um
desvio, diz um provérbio chinês. A vida muitas vezes mostra
uma precisão incrível, como na construção de colmeias
das abelhas, na forma com que os animais se orientam, e
que as células transmitem informações para outras células.
Mas essa precisão é resultado dos métodos “imprecisos” de
circular, tocar, oscilar. A precisão não está no estabelecimento
de objetivos, mas no contato e comunicação contínua com os
sinais enviados. De novo é mais uma maneira particular de
existência do que de um método técnico que torna a função
possível. É semelhante aos estados de transe, em que se lembra
de coisas que seriam impossíveis de serem recordadas através
do esforço consciente.

56
Uma nova atitude mental-espiritual
Quando quero sentir o perfume de uma flor, eu a cheiro de
maneira direta, mas extremamente suave. O método utilizado
depende do tipo de cheiro envolvido e da forma com que os
órgãos sensoriais funcionam. O estudo da vida é da mesma
natureza. Nós estamos, no que diz respeito à ciência, na
fase transitória antes de uma mudança fundamental de
paradigmas, e isso significa uma mudança na forma com
que vivenciamos as coisas. Para estudar a natureza de forma
significativa nós precisamos adquirir uma nova perspectiva,
que por si só levará a novas perguntas, métodos e conceitos
para o trabalho que precisa ser feito. Para estudar a vida
nós precisamos de uma filosofia abrangente do mundo dos
seres vivos, antes de podermos nos entregar a qualquer tipo
análise e julgamento relevante. As manifestações do mundo
dos seres vivos são diversas demais para ser identificadas
e compreendidas através de um esquema tático. Mas ao
mesmo tempo elas são profundas, paradoxais, dialéticas, e
holísticas demais no seu funcionamento para ser interpretadas
dentro do modelo da biologia tradicional. O estudo da vida
abrange, entre outras áreas, biologia, ecologia, bioenergia,
psicossomática, e psicologia profunda, unindo-as sob os
parâmetros de uma biofilosofia universal. Sua metodologia
não pertence mais ao tipo rígido e definitivo dos estudos
acadêmicos, como a da ciência moderna. É mais suave,
mais aberta e fluida. O fenômeno do paradoxo e da abertura
dos sistemas, assim como o nosso conhecimento inferior
no que diz respeito ao estudo da vida, nos levará a assumir
uma atitude intelectual que afirma, fundamentalmente,
dúvida, através da sua habilidade de permanecer em tensa
suspensão entre dois opostos sem precisar resolver a questão
imediatamente (para obter alívio físico). Dificuldades são
superadas através da leveza.

57
4 Humanismo biológico como molde para uma nova
cultura

Acerca do conceito de humanismo biológico


Todas as tentativas, ao longo da história, de melhorar o
mundo através da moral e da religião e de dominar com
apelos racionais os lados abomináveis do ser humano
falharam. Os seres humanos tornam-se humanos na medida
em que reconhecem as suas verdadeiras necessidades, a
nível físico, emocional e espiritual, e as realiza socialmente
(isto é, na vida conjunta com outras pessoas). A filosofia
da nova cultura não apela por uma moral, antes ela apela
pelo mais profundo e mais consciente “egoísmo”. Não é
através de apelos ou sacrifícios que acontecem as mudanças
culturais necessárias, e sim através de modificações concretas
adequadas às necessidades da nossa vida prática, na forma de
trabalhar, nos nossos relacionamentos, na forma que vivemos
nossa sexualidade, etc. Um novo modelo cultural só pode ser
realista na medida em que apresentar um modelo melhor e
mais autêntico de auto-realização e satisfação das necessidades
humanas.

Uma cultura verdadeiramente adequada às nossas


necessidades representaria por si só uma vantagem ecológica
extraordinária. Comunicação viva em uma comunidade,
realização sexual, e trabalho criativo deixariam de depender
das hoje habituais medidas compensatórias de satisfação
oferecidas pelos produtos da sociedade industrial. Poderia
portanto desenvolver um novo modelo de consumo que
reduziria o desgaste de recursos, matérias primas e energia,
salvando o meio-ambiente da destruição. O novo modelo de
consumo que a sociedade ecológica do futuro precisa é antes
de tudo um novo modelo para a auto-realização humana.

58
O humanismo é um impulso espiritual de emancipação,
que surgiu historicamente no início do Renascimento.
Humanismo, iluminação, ciência, marxismo, psicoanálise – e
pouco a pouco o ser humano começa a sentir o seu mundo
como observável, compreensível, analisável, e modificável.
Ele se desapega das velhas ordens de autoridade, religião e
sociedade, e passa a valorizar a realidade de cada situação.
Ao penetrar com a própria razão cada vez mais domínios, ele
cria a necessidade de reorganizar e reestruturar o seu mundo.
Essa é a essência da verdadeira tradição humanista, que
desafia as velhas autoridades para que o ser humano assuma
responsabilidade por si próprio e pela administração do que
lhe diz respeito. Nesse caminho histórico para a autonomia
não pode haver a priori quaisquer limites pré-estipulados
ou morais, a lei que ele segue são as leis do desenvolvimento
evolutivo. A própria moral torna-se objeto de análise e
transformação. Nietzsche foi o que lidou com essas questões
de maneira mas profunda e consistente até agora. Copérnico
trouxe a irrupção do pensamento à religião; Marx à burguesia;
Nietzsche ao moralismo; Freud à sexualidade. Com cada
irrupção abriu-se uma nova dimensão da vida social humana,
que teria que ser assimilada, integrada e desenvolvida.

A dimensão que agora precisa ser descoberta e integrada é a


dimensão da própria vida, com os seus princípios particulares,
holísticos e extáticos, de funcionamento (descritos no capítulo
anterior). Os fundamentos biológicos esquecidos, nos quais
estão baseados todos os mecanismos de controle, o sistema
orgânico dos desejos e das sensações físicas e emocionais (que
por terem um caráter evolucionário podem ser modificados
ao longo do tempo) têm de ser libertados e devolvidos às suas
funções naturais. Só através da reconexão da ação humana
com o funcionamento dos processos vitais universais será
possível superar a alienação geral da nossa época.

59
O humanismo biológico aspira pela integração máxima
do mundo social humano no contexto maior da natureza
viva (aqui não sei se existe também uma natureza “morta”
ou se o que é chamado morto não é na verdade só mais um
caso especial no mundo dos seres vivos). Tal integração
corresponderá às ideias de projeto do meio ambiente de
acordo com uma ordem orgânica, como até certo ponto foram
desenvolvidas por Hugo Kükelhaus, e levará também a uma
reorientação fundamental do ser humano em relação a sua
própria natureza. A natureza do ser humano não consiste
apenas na sua anatomia e nos seus processos fisiológicos –
aqui partilhamos inteiramente da concepção de natureza
de Teilhard de Chardin – mas também em suas emoções,
impulsos, instintos e energias.
Uma das pulsões internas centrais do ser humano é a sexual.
Há nessa área um denominador comum que atravessa quase
todas as culturas, religiões, morais, filosofias, e ideologias
políticas do mundo ocidental – a capitulação oculta ou
explícita diante de Eros. Mostre a um honrado teórico a
foto de uma mulher com belas proporções e um decote
convidativo, e ele empalidece. Se o futuro da Terra e da nossa
cultura há de ser posto nas mãos de adultos, esses precisam
ser pessoas com livre acesso ao seu potencial erótico, sem
repressão. Só assim a natureza pode ser “controlada”.
As mesmas linhas de desenvolvimento, instintos e impulsos
que estão presentes no reino animal congregam-se em um
nível acima no ser humano. O devir humano é no seu sentido
mais amplo a progressiva espiritualização e sublimação das
forças animais em uma cultura humana. Este processo de
sublimação ainda não foi realizado porque em vez de aceitar,
cultivar e aperfeiçoar as suas forças animais, o ser humano
tentou reprimi-las e ignorá-las. Podemos talvez considerar
esse o “erro básico” na história da consciência até agora, em
que o processo de cultivação do animal humano ocorreu

60
como uma batalha do espírito contra a “besta no ser humano”,
em vez de se realizar na união e reconciliação dos dois. Foi
uma luta contra a própria natureza, que naturalmente não
podia ser vencida. Em vez da sublimação do ser humano
inteiro com todos os seus instintos, criou-se a divisão fatal
do ser humano em um lado oficial e um lado reprimido que
resiste obstinadamente a todas as tentativas de humanização.
É nessa ambiguidade psicológica do ser humano que se encontra
a maior doença da nossa época. A exposição consciente e
reintegração do que foi reprimido e a “aceitação da sombra”,
que C.G. Jung formulou como um princípio terapêutico,
precisa passar do nível terapêutico aos níveis sociais e
culturais, para que o ser humano possa de fato se tornar
completo outra vez.

O ser humano precisa ganhar consciência como criatura


na Terra, ou vai acabar por destruí-la sem razão. Mas ele só
ganhará consciência quando reconhecer a autoridade da vida
e se submeter a ela. Humanização se refere a humanização
da Terra, a penetração do que é humano em zonas cada vez
mais altas e profundas. Mas essa penetração não significa
dominação imperialista, mas uma transformação mental-
espiritual. Há uma lei no mundo dos seres vivos que só
permite a expansão espiritual através da transformação
espiritual. Não se pode controlar as forças da natureza
combatendo-as e reprimindo-as – isso faz com que a sua
natureza imprevisível saia do controle e leva a terremotos e
enchentes, também a nível emocional e espiritual. Sob esse
aspecto a história da nossa cultura vem sendo, até agora,
em grande parte um teatro de marionetes, controlado por
forças naturais e energias vitais reprimidas, “controladas”.
Se queremos ter qualquer controle sobre a natureza nós
precisamos nos unir a ela, conhecer suas regras e segui-las.
Trata-se de uma forma completamente nova de controle, que

61
não depende mais de disputa ou opressão, mas acima de tudo
da harmonia ecológica.

Três passos rumo a um humanismo realista


O surgimento de uma nova cultura contém de certa forma
um tema da teologia política: É preciso que se desenvolva
um conceito político, ou melhor dizendo um conceito social,
que na sua profundidade e significado existencial seja para o
indivíduo equivalente às ideias religiosas do passado. O que
antes era visto como passos rumo a transformação interna
individual são agora passos rumo a uma metamorfose do
nosso ambiente social. Nesse ambiente – no nosso trabalho,
nossas instituições sociais, e nossos relacionamentos
humanos – nós precisamos desenvolver formas de ocupar
a nós mesmos, de nos conhecer o suficiente para que não
precisemos de nenhum conforto e nenhum lar fora dele.
Em algum ponto na história do seu desenvolvimento a
mente humana julgou necessário voltar-se contra o corpo e
suas necessidades sensuais. O desenvolvimento da cultura
tomou então um rumo que isolou o ser humano do organismo
total da natureza, ao qual ele pertencia inteiramente. A
história assemelha-se desde aí a uma dança em volta de um
centro desconhecido.
As religiões tentaram apresentar contra a miséria terrestre a
imagem de um além melhor. A salvação estaria em desprender
a alma já aqui na Terra o tanto quanto possível do mundo
físico, pois esse era indissociável do pecado, uma prisão ou
maya. O objetivo era portanto conquistar o corpo, conquistar
a sensualidade, e conquistar a miséria terrestre através de
exercícios mentais-espirituais. Nós encontramos essa ideia
fundamental em todos os líderes religiosos do passado,
de Buda a Aurobindo, de Platão a Rudolf Steiner, e de são
Paulo ao Papa João II. Como a alma é de fato uma entidade

62
autônoma, que na verdade se pode dissociar do corpo, por
exemplo em antigos cultos de iniciação, no êxtase religioso,
em experiências com LSD, em experiências-limites e de
quase-morte, essa ideia de salvação era de fato realista. Mas
ela desviou o interesse da cura e da salvação para longe do
cotidiano terrestre, dos desejos humanos mundanos. E sobre a
Terra os horrores prosseguiram.
A par do impulso de libertação religioso, desenvolveu-se –
muito mais tarde, e está ainda hoje no seu início – o político.
Ele encontrou em Marx sua formulação filosófica mais exata.
A ideia mais marcante do marxismo era anular (e render)
as ideias religiosas de liberação através da prática política
(a luta de classes). A salvação não mais seria encontrada no
paraíso, mas no ponto mais materialista do mundo físico: na
produção material. “A crítica da religião” disse Marx, “termina
com a lição de que o ser humano é o ser mais superior para a
humanidade, isto é, com o imperativo categórico de destruir
todas as relações nas quais o ser humano é um ser humilhado,
abandonado e desprezado”.

Através de uma nova ordem de trabalho humano, sem


domínio de classes e alienação, o ser humano deveria
encontrar seu centro e lar na sua prática social cotidiana.
Neste salto mutativo na história das ideias encontrava-se o
até aí mais revolucionário feito conquistado pelo Prometeu
humano. Ele marca uma virada da qual não se pode voltar
atrás. Mas o marxismo ainda não estava em condições de
pensar e formular seu conceito de auto-libertação política
em um nível profundo o suficiente. As suas teorias político-
econômicas não chegavam a oferecer um equivalente pleno
às ideias religiosas de salvação; o ser humano ainda não tinha
sido assimilado de forma profunda o suficiente, sua alienação
e seu último desejo ainda não tinham sido compreendidos
inteiramente.

63
O próximo impulso fundamental para a secularização
da salvação, tão profundo e tão laico como a abordagem
marxista mas partindo de um ponto inteiramente diferente,
surgiu através da psicoanálise (além de Nietzsche, que não
é tão fácil de encaixar aqui e cujo trabalho não teve quase
nenhum impacto social, pois um entendimento decente da
sua “filosofia heroica” está reservado a gerações posteriores).
Na sua autêntica motivação humana a psicoanálise foi antes
de tudo um ato de honestidade. O puritano Sigmund Freud
reconheceu em si próprio o excesso de impulsos sexuais
presentes no mundo cultural beato da era vitoriana. Ele
percebeu de imediato a universalidade cultural dessa situação.
Ele notou que aqui, no âmbito libidinoso, questões de miséria
e felicidade eram determinadas em uma área completamente
retirada da consciência oficial. Ele trouxe assim a questão da
salvação para os aspectos mais “básicos” da vida na Terra,
nomeadamente, para o âmbito da sexualidade. Mas como
aconteceu com o trabalho de Marx, a sexualidade mostrou-
se estar em um estado de absoluta miséria e perversão, por
ter sido por tanto tempo aprisionada em uma existência
reprimida, insultada, explorada e hipócrita. Freud reconheceu
que o bloqueio sexual moralista e a estrutura sexual da
família tinham como consequência o encarceramento
profundo da alma do ser humano adulto em um mundo de
medos e impulsos subconscientes, construídos a partir de
projeções, fixações e fantasias não realizadas. Ele sabia que
esse subterrâneo psíquico teria que ser solucionado, se o ser
humano quisesse ser livre.
As descobertas de Freud continham as sementes para uma
gloriosa revolução cultural, se ele próprio não tivesse se
imposto um entrave com a covardia da sua teoria de cultura
e sublimação. Na luta entre sociedade e necessidade, ele
acabou por se colocar do lado da sociedade, provavelmente
para salvar sua posição social. Podemos com legitimidade ver

64
isso como um obstáculo da época, e correr, para além dessa
barreira, atrás dessas verdades não terminadas.
O próximo grande pioneiro a rasgar o véu, um pouco
mais além, foi o sucessor de Freud Wilhelm Reich. Uma
inusitada jornada de descoberta levou Reich a reconhecer
a existência de uma energia sexual e de uma energia vital
universal. No orgasmo sexual ele encontrou o protótipo e
a chave para o entendimento de funções biológicas básicas
em todo o tecido corporal: funções tais como pulsação,
peristáltica, tensão e relaxamento, carga e descarga, contração
e expansão. Aí, ele testemunhou a atividade básica e as
funções básicas da energia vital em si. Essas funções são de
natureza universal, isto é, fazem parte da ordem universal da
vida. Mas estão consideravelmente perturbadas por bloqueios
e congestionamentos internos, obstruções causadas pela
sociedade e moral, que Reich chamou de “armadura corporal”.
Com essa descoberta, de uma ordem vital universal na
dinâmica de instintos e pulsões, abriu-se uma nova visão
de liberação. Essa visão consistia na reunião consciente do
ser humano com suas funções vitais mais elementares. À
possibilidade de salvação com que Reich aqui se deparou ele
chamou, simplesmente, de saúde. Se as funções biológicas
fundamentais podem fluir livremente, então o organismo,
incluindo a alma e espírito, está conectado com a ordem
universal da vida e é, no seu âmago, saudável. Mas se estão
bloqueadas e desequilibradas, então o organismo está
desconectado da ordem universal da vida e no seu âmago
está doente. De forma semelhante, uma sociedade na qual
as correntes biológicas de energia podem fluir livremente
é saudável no seu âmago; uma sociedade na qual eles estão
bloqueados está doente.
Basear a cura no fluxo livre de energias vitais no organismo
humano – seria esse conceito unilateral demais, limitado
demais, “biológico” demais? Talvez. Mas não podemos nos

65
esquecer que o “biológico” não é apenas aquilo ao qual o
limitou a visão mecânica da natureza da era materialista.
No contexto insolúvel de bios e psiquê, as energias vitais são
também sempre de natureza espiritual. De forma semelhante,
as formas de vivenciar o mundo que espontaneamente se
instalam em um organismo com fluxos desobstruídos e livre
de medo são também de uma natureza espiritual específica.
O mundo se torna mais vivo. A paisagem que eu vejo deixa
de ser apenas uma imagem, ela é parte da criação. Passa-
se a entender: estar vivo é tomar parte na criação. É como
ter um contato primário com o mundo, que leva a formas
de percepção novas e mais intensas, de ver, tocar, saborear,
cheirar, de andar, de pôr os pés na terra. De repende se
compreende os animais, sua elasticidade e sua calma, as suas
orelhas alertas e a sua força na prontidão a saltar. O organismo
se torna impressionantemente forte, leve, e transparente, quase
musical. Nessa experiência e modo de ser há um elemento de
vitalidade animal, de poder suave, e também um elemento de
intensidade e de celebração que aponta para uma nova forma,
vital e sensual de percepção sagrada. É a religiosidade do
amor universal, que agora flui naturalmente das suas fontes
biológicas. As descrições de Reich mostram que ele conhecia
esse estado. Para ele esse era simplesmente o funcionamento
natural da vida no ser humano sem armadura.
Reich realizou com essa investida no âmbito maior da vida
um feito pioneiro, que não pode ser ignorado se hoje nós
queremos estabelecer fundamentos realistas para uma nova
cultura. A máxima política de Marx, destruir todas as relações
nas quais o humano é um ser humilhado, pode agora ser
pensada de maneira radical até o fim. Todas as relações: estas
são as relações de trabalho e as relações psico-energético-
biológicas dos relacionamentos humanos emocionais e
sexuais. É preciso reestruturar tanto a organização da nossa
vida profissional quanto a organização da nossa vida amorosa!

66
Todo o espectro emocional libidinoso e íntimo da sociedade
humana precisa ser capaz de se revelar sem restrições e
proibições, sem medo e sem obrigação à hipocrisia. O
movimento ecológico foi o primeiro grupo político a fazer
da vida em si e da proteção da vida sua questão política
central. Nesse contexto os pensamentos de Reich precisam ser
atualizados. Hoje não é possível trazer o humanismo ecológico
a um nível concreto sem levar em consideração interrelações
bioenergéticas e sexual-psicológicas.

Uma relação ecológica com todos os seres vivos


Uma relação ecológica com animais, plantas, rios, etc., é uma
relação indígena com a natureza. A interconexão interna de
todos os seres da biosfera tem uma natureza espiritual. Todo
ser vivo é um ser espiritual; o que não é um ser espiritual não
vive. A ecologia dos seres vivos, portanto, também abrange
seu relacionamento espiritual uns com os outros. O universo
dos seres vivos é uma hierarquia de seres conscientes e
dotados de alma, todos se comunicando uns com os outros.
Tudo o que guincha e se agita, tudo o que engatinha e rasteja
é uma expressão de vida espiritual, cada um no seu próprio
nível de consciência. Cada nível de consciência tem sua
maneira particular de estar em contato com outros seres, e
ao mesmo tempo representa uma tentativa em particular de
encontrar uma solução para a questão da vida. Cada nível é
um pedacinho de evolução, um pedacinho da pesquisa e da
curiosidade universal, um órgão em um organismo, uma nota
em uma partitura. Plantas e animais são seres universais. Sua
forma de existência altamente meditativa dá aos seus corpos
e almas capacidades que entre os seres humanos nós só
encontramos nos “loucos”, nos santos e nos yogis indianos;
por exemplo, a capacidade de se pôr em estados de meditação
profunda, de concentração e presença, do mais alto nível de

67
tensão e relaxamento, das mais elegantes manifestações de
força sem o menor esforço. Ela permite feitos miraculosos
de orientação, serenidade extrema diante do frio e da dor, e
o estado extático de repouso absoluto do organismo. Todas
essas são capacidades animais. Tivessem os assistentes de
laboratório, abrindo, em nome de uma ciência absurda,
cobaias vivas em suas câmaras de tortura, a mais pálida noção
do que estão fazendo, eles se desfariam imediatamente em
um mar de lágrimas. Esse mar de lágrimas está lá de qualquer
jeito, invisível e quase sempre inaudível, em todas as criaturas
abaixo do ser humano. Suas perspectivas são hoje um beco
sem saída pois eles não podem se comunicar com o animal
humano, protegido, fechado e mecanizado. Em geral as
crianças padecem do mesmo destino, assim como as mulheres
e todos os adultos, visto que todos permanecem animais
e crianças por dentro. Se a vida que foi ignorada, pisada,
torturada, negligenciada e cientificamente negada tivesse uma
voz, a Terra inteira seria um único grito.

É claro que Francisco de Assis podia se comunicar com os


pássaros. Todo nativo americano podia, pois os seres vivos
foram feitos para se comunicar uns com os outros. Onde não
há comunicação algum canal essencial foi bloqueado e algum
fluxo vital interrompido; em outras palavras, há uma falha no
sistema funcional da biosfera. Comunicação é um processo
biológico, bioenergético e psíquico, que via de regra ocorre
naturalmente sem palavras. Os resultados da pesquisa com
golfinhos, os relatórios da pesquisa sobre a “vida secreta das
plantas”, e toda a observação concentrada e sem preconceitos
de animais mostra que nós estamos lidando com seres vivos
cuja existência e formas de reação são bastante semelhantes às
encontradas na vida humana. Qualquer ser humano disposto
é capaz de compreender e confirmar esse fato. Isso é tudo!
Em todo o conjunto de seres vivos o ser humano é o único

68
que está em posição de entender outros seres. Mas ao invés
disso ele não sente nada além de medo, nojo ou indiferença. A
simples noção de que um rato é um ser animado, curioso, que
tem fome e necessidades poderia, por um instante, libertá-lo
do seu medo grotesco. Como acontece entre seres humanos,
medo é o real obstáculo para a comunicação entre humano
e animal. Esse medo, contudo, não costuma ser vivido como
tal, pois o ser humano em sua cegueira absurda não é mais
capaz de sequer reconhecer a possibilidade de comunicação.
A manifestação concreta do humanismo biológico é um
mundo no qual o ser humano naturalmente percebe as
criaturas ao seu redor como seres dotados de alma, ele as
respeita e, sempre que possível, as ajuda. É um mundo no qual
cada dia começa com os humanos dirigindo sua dedicada
atenção em feito e pensamento à sua crescente comunidade
com tudo o que vive. Nós podemos ter certeza de que o que
teríamos então seria um crescimento mais abundante e um
desenvolvimento mais saudável, porque o amor não é mero
sentimentalismo, ele é uma força biológica.

Essa visão, bastante realista, só poderá se concretizar quando


o ser humano tiver largado todos os seus fardos internos e se
libertado da sua condição atual, na qual bloqueios, raiva e a
falta de significado das suas atividades o tornaram insensível
aos sutis acontecimentos ao seu redor. O futuro dos peixes,
dos pássaros e dos mamíferos não pode ser salvo de maneira
definitiva até que a humanidade tenha passado por uma
revolução cultural, aceitando e se reconciliando de maneira
profunda e completa com o “animal” dentro de si. Qualquer
outra tentativa seria mais uma vez de natureza moral e,
portanto, irrealista.

69
A ideia de ciência
A penetração intelectual no mundo dos vivos, que traz
consigo a orientação para uma nova cultura, é naturalmente
também um avanço no estudo e investigação. O estudo da
vida, como descrito no terceiro capítulo, é uma parte essencial
da expansão necessária de consciência. Ela tem pouco a
ver com a ciência convencional, uma vez que se trata de
investigação em um sentido muito mais comprometido e
existencial, e que vai operar com métodos bastante diferentes.
Mas ela vai, no entanto, manter e dar suporte à ideia de
ciência, ou seja, acima de tudo, a ideia de objetividade ou de
intersubjetividade cognitiva. Essa ideia é uma verdadeira
conquista em termos de progresso humano (não importa
o quão banal seja o nível ao qual ela se degenerou dentro da
atividade científica estabelecida). A crença, na sua forma
atual, excluída de todos os argumentos racionais, provocou
desgraças demais sobre a Terra para que possamos continuar
a aceitá-la. Não a crença, mas o conhecimento é a verdadeira
solução para o progresso na nossa época. E eu não me refiro
apenas ao conhecimento privado, mas ao conhecimento
público e a nível de sociedade. Graças a sua intersubjetividade,
isto é, sua linguagem geralmente relevante, universal e
verificável, a ciência é o tesouro social de conhecimento ao
qual um povo ou uma cultura tem acesso em um determinado
momento. Uma substância coletiva é assim criada, que entre
outras coisas une a história individual com a história das
espécies, e transforma o homem – após se terem quebrado
os velhos laços de magia e sentimento – em um ser social.
Transformar o intelecto, o conhecimento e a cognição em
uma força social capaz de ajudar as pessoas a lidar com seus
problemas comuns fora do âmbito das emoções pessoais
momentâneas – é esse entre outras coisas o potencial humano
da ciência.

70
Vemos na atitude anti-intelectual das atuais subculturas uma
grande inconsciência perante a evolução do espírito humano,
perante a história e perante os padrões de desenvolvimento
do ser humano ocidental. A ciência é sem dúvida o mais
recente e mais jovem botão a desabrochar na árvore da vida,
e nós ainda não estamos completamente cientes das suas
possibilidades e riquezas. O intelecto é em última instância
– e isso pode ser visto através da auto-observação precisa – a
autoridade com a qual nós precisamos justificar nossas ações
e decisões. Iluminar essa autoridade com consciência e força
é de uma importância tão suprema que nós podemos dizer
sem erro que, sem a presença da ciência e do intelecto na
sua mais fina e mais precisa forma qualquer avanço cultural
é impossível. O fato de que os avanços culturais dos últimos
dois séculos ocorreram de forma bastante problemática –
principalmente avanços nas áreas do intelecto e da ciência
– se deve não à natureza do intelecto, mas à natureza das
estruturas emocionais que bloquearam o desenvolvimento
livre do intelecto, de forma bastante semelhante com que o
o desenvolvimento de um erotismo livre foi bloqueado. Mas
todo o abuso do intelecto no sentido de racionalização de
comportamentos destrutivos, todo o abuso da tecnologia,
todas as banalizações acadêmicas do pensamento não serão
capazes de impedir que o ser humano comece a pensar outra
vez, no momento em que ele encontrar algo sobre o qual se
vale a pena pensar. Que o atual movimento alternativo recuse
completamente a ciência e a pesquisa deve-se em parte ao fato
de que raramente eles encontraram áreas positivas nas quais
aplicar uma nova forma de pensamento. Com isso um instinto
humano básico – pesquisa e cognição – se tornou inativo. A
inatividade de um órgão, como disse tão claramente Hugo
Kükelhaus, provoca a sua fadiga e atrofiamento. A inatividade
dos órgãos de cognição provoca grande parte do cansaço
e aborrecimento intelectual que nós vemos hoje. Porém,

71
onde novas experiências fazem com que a própria vida se
transforme em um processo de descobrimento, aí os nossos
sentidos voltam a se abrir para todas as coisas espantosas
desse mundo. Cada comunidade de transformação, que busca
se preparar para a época que está por vir desenvolvendo
mudanças correspondentes na consciência, vai a curto ou
longo prazo criar uma espécie de centro de pesquisas para
o seu desenvolvimento mental-espiritual, onde se estudará
a fundo e sistematicamente as questões de uma nova
consciência, uma nova forma de cognição e uma nova cultura.
Esses centros de pesquisa se tornarão os pontos focais da rede
intelectual da nova cultura. Eles, e não as atuais instituições
de educação, vão desenvolver as qualificações necessárias
para lidar com as questões de uma nova sociedade ecológica,
pois serão eles a criar os novos parâmetros humanos e sociais
a partir dos quais as questões relevantes para o futuro serão
formuladas.

Evolução e liberdade crescente


A ideia de evolução é a de que toda a vida na Terra é um
processo em devir contínuo. Desde a primeira célula até o ser
humano atual há uma linha contínua de desenvolvimento. A
história do ser humano é o episódio mais recente na história
evolutiva da vida, e é ela própria uma parte da história da
natureza.
O conceito de liberdade na evolução é a ideia de que as
combinações que a vida escolheu no processo da sua evolução
não simplesmente seguiram um determinismo mecânico,
nem tampouco simplesmente o acaso, mas antes que estava
ali na essência do ser vivo algo que foi capaz de usar o acaso,
de selecionar e escolher entre os resultados do acaso. Para isso
nós precisamos assumir a existência de uma proto-consciência
rudimentar que desde o princípio conduziu a vida a partir do

72
seu interior. Essa proto-consciência, o “ímpeto do mundo”
(Teilhard de Chardin), foi avançando, tateando e escolhendo,
de possibilidade em possibilidade, de forma de vida em forma
de vida, de espécie em espécie. Isso significa que toda matéria
viva (e provavelmente toda a matéria existente, considerando
a continuidade envolvida) tem um centro oculto que ao longo
da evolução veio se expandindo na direção de espontaneidade
e autonomia cada vez maiores, até chegar ao livre arbítrio que
encontramos nos seres humanos. Pode ser que a evolução
não seja na sua essência nada além do desenvolvimento
desse centro oculto, que agora é lentamente revelado pelo ser
humano; é portanto essencialmente uma tentativa de trazer à
realização cada vez mais liberdade no meio material. (Teilhard
de Chardin reuniu fatos e pensamentos impressionantes
acerca dessa perspectiva evolutiva no seu livro “O Homem no
Cosmos”).
Esse não é um lugar para discorrer sobre a metafísica da
evolução ou para tentar responder perguntas que nós estamos
apenas começando a formular. Nós estamos vivendo – e esse
fato é suficiente para que nós reconheçamos de forma direta
as duas qualidades do desenvolvimento e da liberdade. Porque
nós não podemos acreditar que o milagre “Homem” foi num
dado momento aleatório simplesmente plantado na terra, nós
assumimos que essas duas qualidades pertencem à história
da vida e que foram aí preparadas durante muito tempo.
Nos assumimos que o ser humano atual também é uma
preparação, uma fase em um processo maior cujo objetivo
e resultado nós não sabemos. Dessa atitude decorre nossa
relutância em fazer uma declaração definitiva em relação ao
desenvolvimento da humanidade contemporânea com todos
os seus becos sem saída e desilusões. Pode ser que toda essa
insanidade tenha sido necessária na preparação de uma forma
superior de consciência. Quem sabe, afinal, o que o universo
nos reserva!

73
Nossos pensamentos sobre evolução não são um prazer
filosófico privado. Eles têm consequências decisivas na forma
com que visualizamos o futuro que queremos viver. O fato
de que as ideias de uma “Nova Era” (New Age) permanecem
ligadas a imagens de um socialismo agrário e uma vida
simples ligada à natureza e livre de tecnologia mostra que os
olhos dos que hoje buscam alternativas não estão voltados
para o futuro mas sim para o passado. A evolução da vida, que
atingiu sua manifestação mais contraditória e enigmática no
ser humano, não permite mais que simplesmente se retorne
à natureza, ou qualquer outro subterfúgio das tarefas que a
nossa era cultural vêm falhando em conseguir enfrentar. Ao
invés disso nós precisamos reconhecer a cada vez mais clara
direção fundamental tomada pela evolução – em termos
de complexidade crescente, consciência, e liberdade – para
reconstruir e cultivar a Terra, usando o máximo possível nossa
experiência histórica, nosso conhecimento científico e nossas
habilidades técnicas.
O ser humano está na frente da história evolutiva da
consciência. Ele não tem escolha senão gradualmente, com
cada vez mais consciência tomar para si o controle da direção
tomada pela evolução. Para isso nós precisamos conhecer os
processos básicos, tendências e princípios de funcionamento
do mundo dos vivos e da sua evolução. Isso significa
pesquisar, aprender a ver, ou seja adquirir uma atitude que nos
permita ver, no sentido empregado por Nietzsche e Teilhard
de Chardin, e também por Kükelhaus. Levar uma vida
criativa hoje em dia significa ter um objetivo. Estabelecer e
alcançar objetivos com a ajuda da nossa capacidade intelectual
não é um ato de soberba humana – trata-se na verdade da
expressão humana de um impulso natural imanente a todos
os seres vivos. A liberdade contida aqui levou muitas vezes a
choques destrutivos de energias. Não vai ser até que objetivos
realistas, em termos evolutivos, sejam vistos e compreendidos

74
que decisões poderão ser feitas para a união de forças na
reconstrução da Terra.
A continuidade que se estende atrás de nós com uma
duração inimaginável, fez da formação do planeta Terra o
surgimento da vida, e desta o surgimento do ser humano.
Geogênese – biogênese – antropogênese – esses três
desenvolvimentos constituem a direção da evolução até
agora. O mundo sobre o qual tudo isso se desenrola foi assim
descrito por Teilhard de Chardin:
“Para nos trazer à vida ela lidou de forma milagrosa, desde
tempos primordiais, com tantas improbabilidades, que não há
o mínimo perigo para nós enquanto continuarmos a confiar
na sua orientação, até o fim dos tempos. Se ela assumiu essa
tarefa ela é capaz de completá-la, com os mesmos métodos e a
mesma infalibilidade com que a começou.”
Tomar o futuro nas nossas próprias mãos, e ainda
assim confiar na força de algo maior – é essa a lógica de
comportamento que para nós resultou da reflexão sobre a
evolução.

Uma cultura sem repressão sexual


Há descobertas que os mortais comuns deixam passar porque
o que há para ser descoberto se tornou um hábito tão forte
que não é mais sequer notado. A descoberta da repressão de
Freud foi uma dessas. A importância dessa descoberta – como
o trabalho de Reich confirma – vai muito além das zonas
convencionais da psicologia. Repressão é a base da nossa
cultura.
Nos adultos a repressão age quase imediatamente e
com a precisão de um instinto inteiramente automático.
É portanto raramente possível ter consciência do que está
sendo reprimido. Só exercitando constantemente nossa
auto-observação nós podemos reconhecer o que – muitas

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vezes só por uma fração de segundo – acontece com o nosso
organismo. Muitas vezes são imagens altamente energéticas
e maravilhosamente lascivas, fantasias, e impulsos que
imediatamente colidem com os alegados princípios da
dignidade humana e são portanto reprimidos. As imagens
são reprimidas e as energias bloqueadas através de um
contraimpulso involuntário ativado nessa fração de segundo.
Façamos um experimento positivo de autopercepção –
tentemos obter efeito oposto, controlando não o impulso
original mas controlando a sua repressão, abandonando o
organismo ao seu próprio desejo (por exemplo masoquista
ou exibicionista), à sua própria excitação, ao seu próprio fluxo
interno de energias, e ao mundo de imagens correspondente!
Há compreensões extraordinárias a ser exploradas aqui! Toda
uma série de descobertas fantásticas se abre imediatamente.
Por exemplo: um aperto ou um beliscão, que antes teria
provocado dor, provoca agora emoções cheias de desejo – o
corpo se livra da dor tão repentinamente, é tão óbvio que a
sensibilidade à dor é condicionada pela mente! Ou então,
nos sentimos sem medo, fortes, inteiros, em um estado de
afirmação profundo e incondicional. A vida, então, reage no
interior com prazer, confiança, e um maior sentimento de
identidade aos impulsos que vêm de fora! Outro exemplo:
pode-se ter um saudável sentimento de onipotência, de
repente o corpo se torna incrivelmente flexível, resiliente,
e forte como um urso quando a força de vontade interna
deixa de operar contra o corpo e passa a ser sua aliada!
Que formas de comunicação e contato erótico poderiam
se tornar possíveis aqui! O segredo dos seres vivos consiste
na ação que parte do interior, com uma força fluida capaz
de, se tivesse a chance, levar embora todos os nossos
problemas e preocupações. O segredo da cultura humana
contemporânea consiste em responder a essa força com um
mecanismo internalizado automático de repressão. Foi essa a

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incrível descoberta de Reich. A possibilidade de uma cultura
fundamentalmente diferente está ancorada na verdade que
aqui surge. Quem estudou os trabalhos de Reich ou fez
descobertas semelhantes encontra-se talvez perante os fatos
mais desconcertantes com que uma consciência perceptiva
pode se deparar. Pense no que nós saberíamos sobre os seres
humanos se não houvesse repressão! Pense em tudo o que
nós fabricamos, inventamos e conjecturamos sobre a natureza
superior do ser humano por causa da repressão, porque nós
simplesmente não conseguíamos perceber!

Após a queda do paraíso, Deus deixou a Terra para ser


cultivada pelo ser humano, mas ele não a aceitou. Ele
continuou se comportando como se a verdadeira e última
solução para os problemas humanos estivesse no céu e não
na Terra. Talvez nunca tenha havido um único momento
em toda história do desenvolvimento humano em que ele se
sentiu verdadeiramente responsável por tudo o que fez na
Terra. Talvez aqui se encontre parte da grande necessidade
e da função positiva dessa terrível onda que há 200 anos
vem na nossa direção, e que agora ameaça quebrar: uma
mudança de controle fundamental, na qual o ser humano
assume para si todas as responsabilidades que ele até agora
delegou a Deus e a deuses, espíritos, as estrelas e o destino.
Isso inclui a responsabilidade pelo que foi tomado como
certo pelas tradições, costumes e morais que nós herdamos.
Só o pensamento de que Deus está morto foi capaz de
mostrar a incrível dimensão dessa tarefa. Talvez esse seja
o ponto decisivo ao qual a história teve que chegar. Talvez o
pensamento mais profundo na história das ideias seja o de que
o ser humano é responsável por si próprio.
Tudo o que até agora surgiu e cresceu mais ou menos por si
só – as atuais formas de Estado, economia, família, e ordem
social e moral – deve ser testado e posto sob novas formas, por

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indivíduos cada vez mais autônomos. Isso também se aplica
à ordem sexual, mas a importância dessa questão só pôde ser
vista quando Freud, através do seu conceito de “repressão”
sexual, nos deu a palavra chave. Só é possível ver o que a
sexualidade significa quando se tem a presença de espírito
para reconhecer os impulsos internos que são reprimidos
praticamente no momento em que aparecem. Repressão é o
processo fundamental na psicologia da nossa cultura.
Mas – como Wilhelm Reich descobriu – é também o
processo fundamental da fisiologia. Como médico, Reich
foi capaz de observar que o funcionamento do conjunto
dos sistemas vegetativo e motor depende de um fator, se
as energias sexuais circulam livres ou não. Ele exigiu em
nome da saúde que todas as formas de opressão sexual e
repressão fossem completamente erradicadas. Esse postulado
foi absoluto e imaculado. Segui-lo não é uma questão de
gosto ou arbitrariedades intelectuais, é uma questão de
conhecimento. Tanta pseudocultura e hipocrisia, tantos erros
filosóficos e becos sem saída políticos foram causados pela
sexualidade não expressada que nós não hesitamos mais em
dizer: a possibilidade de criar uma cultura humanitária só vai
existir depois que a coerção e repressão sexual tiverem sido
eliminadas.
Nós dizemos possibilidade, pois não é de jeito nenhum
uma garantia. Aqui nós somos mais cautelosos que Reich.
Ele considerava que com a eliminação de todas as repressões
sexuais as causas para comportamento antissocial, crime,
perversão, e insanidade também seriam eliminadas. Esse
tiro com certeza foi longe demais, disparado por um canhão
carregado com o dinamite de uma descoberta fenomenal,
difícil de ser lidada por uma pessoa só.
A descoberta de Reich é como outras grandes descobertas e
teorias, que precisam ser aplicadas e testadas intensivamente
ao longo do tempo até que sua importância e suas limitações

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fiquem claras. Hoje nós podemos corrigir o postulado de
Reich e com a mesma intensidade podemos dizer: Para que
uma cultura (mesmo que ela só exista entre a comunidade
de uma aldeia experimental) surja sem comportamentos
antissociais patológicos, insanidade, ou crime, é necessário,
entre outras coisas, liberar a vida sexual dos participantes de
todas as proibições e difamações. Essa liberdade não oferece
nenhuma garantia de humanidade, e está longe de ser seu
sinônimo, mas é um dos seus principais pré-requisitos.

Que nos tenhamos tornados mais céticos em relação ao


efeito de humanização automática da liberação sexual se
deve em parte a uma familiaridade crescente com ideias
que foram formuladas mais profundamente por Nietzsche
na sua “Genealogia da Moral”. Essas ideias nos ajudaram
a nos libertar das hipnóticas e muitas vezes simplistas
contraimagens de humanismo, carregadas por toda uma
geração desde o movimento estudantil dos anos 60. O
ser humano é muito “pior” do que nós pensamos, não só
devido a repressão dos seus impulsos e instintos, mas na sua
essência, isto é, devido a sua história biológica. Instintos que
levam a luta por poder, roubo, assalto, destruição, vingança e
atrocidade (embora todos esses instintos estejam sob mudança
evolutiva e possam se transmutar em algo completamente
diferente), e que de forma alguma foram superados no
sentido evolutivo, pelo menos não na maior parte da
população. A renúncia ao moralismo vigente e a liberação da
sexualidade que nós julgamos indispensável vão trazer à luz
forças sombrias que estão hoje escondidas nos confins mais
profundos das nossas almas. E só então, quando os impulsos
da competição e da intriga, do prazer com o sofrimento
alheio, e a luta por poder e amor, puderem ser vistos em toda a
sua dimensão, só então nós vamos começar a nos dar conta do
tamanho da questão com que estamos lidando. E a questão é

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portanto: Como criar um sistema de condições sociais no qual
as energias humanas possam ser canalizadas de forma que não
precisem ser extravasadas de maneira cruel, nem escondidas
sob uma armadura de morais? Em suma, como chegar a uma
humanidade que não seja baseada em repressão?

O significado da sexualidade
O amor faz parte da magia da vida, e a atração sexual é
uma das suas formas mais elementares de expressão. Na
sexualidade livre – desbloqueada e sem inibições – está a
força elementar e toda a profundidade, a paixão, a calma, a
resiliência e a devoção da própria vida. Sexualidade é devoção,
seja em um sentido ativo ou passivo.
O fato de que os ensinamentos esotéricos e religiosos de
liberação geralmente vêm acompanhados de asceticismo
sexual prova que a sexualidade tem um significado especial
na vida humana. Adão e Eva comeram o fruto proibido
da árvore do conhecimento – e eles se “conheceram” (em
hebraico a mesma palavra significa conhecer alguém e fazer
amor!) E por isso tiveram que deixar o paraíso. O que essa
fantástica equivalência de conhecimento, sexualidade, e
pecado nos diz sobre a essência da sexualidade? No mínimo
uma coisa: a sexualidade, e portanto a dualidade dos polos
da humanidade e o seu desejo de união, não serve apenas
à reprodução biológica, e tem um lugar especial no espectro
do desenvolvimento humano. O potencial de compreensão
e desenvolvimento que há na sexualidade é da magnitude de
antigos conhecimentos místicos, mesmo que hoje em dia o
observemos de forma mais sóbria. Sexualidade é uma questão
fundamental na cultura humana e no futuro do ser humano.
Quem vê ou lê boa pornografia, e não se protege
imediatamente com indignação, nota como o corpo é
imediatamente afetado por um súbito e forte estímulo.

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O que é isso? Se nos deixamos ser afetados dessa forma e
nos entregamos à excitação, notamos que de certa forma
ela desce até o nosso âmago. Uma força que consegue nos
balançar desse jeito deve ser extremamente poderosa. Quem
é descuidado o suficiente para se deixar afetar por essa força
na rua ou em parques ou na praia; quem sente que há algo
inescapável aqui que exige atenção, e quem apesar do medo,
ou talvez justamente por causa dele, está determinado a não
fugir disso; quem percebe que há aqui sinais de uma vida
não vivida sendo bombardeados no nosso cotidiano; quem
se recusa a cair de volta nas velhas desculpas e hesitações
morais diante dos seus desejos; quem está interessado nos
seus desejos e se abre para eles porque reconhece aqui a voz
de uma possibilidade não realizada porém real; quem não
está satisfeito com a explicação de que tudo isso não passa
de projeções – esse sabe alguma coisa sobre o significado da
sexualidade.

No fundo todo mundo sabe. Mas somos todos cúmplices da


hipocrisia geral, porque vivemos sob condições – incluindo
casamento, reputação, posição social, etc. – que entrariam em
risco se disséssemos a verdade na área sexual. A honestidade
sexual entraria em contraste irreconciliável com o nosso estilo
de vida, morais, ciência, religião, sociedade, e também com
os nossos hábitos políticos e culturais. Gradualmente ela nos
levaria à chocante percepção de que, quando se confronta os
nossos verdadeiros impulsos e desejos, nossas vidas diárias
são bem ridículas. Por essa razão é preciso que a questão da
sexualidade seja com grande determinação removida da
espera privada, se queremos evitar que ainda mais pessoas
agonizem presas em vidas privadas melancolicamente
insatisfatórias. É parte da perversão da história social humana
e da história das ideias que um fenômeno como a sexualidade,
cujas implicações físicas e emocionais perpetram todos os

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âmbitos da sociedade como um sistema nervoso oculto, tenha
sido banido à esfera privada. A sexualidade nos controla e
nos oprime, enquanto não formos capazes de expô-la à luz
do dia e com ela criar um novo mundo social. Nós podemos
tentar contê-la dentro de relacionamentos pessoais, sublimá-
la em todo tipo de atividades ou transformá-la no amor
místico – uma parte sempre fica de fora, fora da comunicação,
sombria, estranha, obstinada. Esses restos, que se recusam a se
ir embora, nos confrontam com uma cachoeira de estímulos
sexuais nos milhares de seios e pernas em qualquer cidade.
O tipo de excitação que aqui nos domina (se não estivermos
bem imunizados contra ela) mostra claramente que nesse
ponto central nós ainda não temos controle sobre nossas
vidas, nós ainda não somos cidadãos livres neste mundo.
O verdadeiro controle da sexualidade é um pré-requisito
para um humanismo real e uma vida genuinamente livre.
Mas o verdadeiro controle da sexualidade significa sua total
liberação, pois apenas quando liberta ela perde a sua fúria mal
contida, sua compulsão, e seu poder oculto sobre nossas vidas.
Só a absoluta liberação sexual é capaz de nos salvar da tirania
secreta do satanás não rendido.

Sexualidade é uma questão pública de primeira ordem e deve


ser tratada como tal em qualquer conceito cultural realista.
Sexualidade traz ternura. É amor o que nós sentimos
quando seguramos um coelho no colo, quando nossa mão
se transforma em um órgão sensorial para as criaturas do
mundo. Essa relação sensual com os seres vivos contém o
sentimento fundamental do qual o amor consiste. Ninguém
pensaria que há algo de desumano nesse processo. Vamos
tentar transportar isso para as relações entre seres humanos.
Sob circunstâncias normais nenhuma mulher tocada de
maneira tão terna, natural e afetuosa ficaria chocada com isso.
O amor surgiria assim a nível criatural, com uma lei natural

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implícita se o seu fluxo não fosse bloqueado por normais
sociais, medo, ciúmes etc. Sensualidade e sexualidade livres
precisam de uma nova ordem social para poder revelar seu
poder de humanização.
Belo é o movimento ágil de um animal, os movimentos
eróticos de um corpo livre de medo, a graça de uma criança
amada e o rosto de uma mulher amorosa. Todas as formas de
expressão da vida são belas quando os movimentos internos
equivalem à expressão externa. A vida só é feia e cruel quando
há algo bloqueado, reprimido e distorcido. O ser humano
se torna feio e cruel quando tem que se reprimir e fingir,
porque ele não é capaz de se comprometer com a vida, se
retorcendo e agonizando dentro dele, a qual ele sabendo ou
não almeja. A sexualidade se torna feia e indecente quanto
se mistura com mentiras. A vida bloqueada se torna feia e
violenta quando tem que forçar o seu caminho porque os seus
fluxos naturais estão bloqueados. A repressão da sexualidade
segue o princípio da profecia autorrealizável: quem a declara
pecado a transforma em pecado, isto é, violenta, antissocial,
e perturbadora como um fantasma escondido. Acusar a
sexualidade pura de ser animalesca é a mesma coisa que
acusar a vida em si. Essa atitude é causada por dois imensos
pontos cegos. Em primeiro lugar, ela não reconhece a beleza
do animalesco. E em segundo lugar, sexualidade pura entre
seres humanos nunca é só animalesca, pois o humano é um
ser mental-espiritual. São imagens espirituais de superação de
limites, de devoção e de amor, que ressoarão abafadas nas suas
celas até que alguém as reconheça e as realize.

A história da época patriarcal está marcada por sadismo, o


qual nós agora lutamos contra porque não somos mais capazes
de ignorá-lo. Suas vítimas foram estupradas, humilhadas,
mortas. Eros, o desejo pela união da carne com a alma,
é uma das forças centrais da história. Onde essa união é

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impossível as energias congestionadas se tornam energias
destrutivas. Mas até na embriaguez da destruição o impulso
primário transparece: em meio a embriaguez ocorre uma
transcendência de barreiras, uma dissolução do agressor
causada pela dissolução da vítima. Esse acontecimento não
se dá sem uma certa dose de desejo e fascinação. Há dois
aspectos no êxtase sádico: o bloqueio agressivo e o impulso
orgânico de expansão, dissolução e união. Esses dois lados,
que se unem de forma tão terrível no excesso sádico são
resultado de uma mesma força positiva que nós chamamos
de Eros. O fato de que é justamente o amor que, devido a
intervenção humana, traz à tona sua mais terrível contraparte;
o fato de que Eros reaparece no ponto mais extremo de
atrocidade (na forma de fascinação sádica), é o que levou
Georges Bataille a falar das “lágrimas de Eros”, e é o que nos
leva a fazer tudo ao nosso alcance para libertar nosso futuro e
o futuro das nossas crianças desse ciclo vicioso insano.

Na dissolução de barreiras está um elemento essencial de


mudança e transformação humana. Porque o Eros reprimido
não pode executar essa transformação através do amor, ele
o faz através da violência – abertamente, ou na fantasia. Mas
ele precisa fazê-lo, porque a dissolução de barreiras, a união
e a transformação formam o tema do seu arquétipo. Em um
nível mais profundo todas as formas sexuais, mesmo as mais
pervertidas, estão na sua vibração básica relacionadas a esse
tema. Se entendemos esse tema codificado de transformação,
então podemos presumir que tudo o que hoje se apresenta na
forma de excessos sádicos e sexuais surgiu na história como
um elemento mitológico ou cerimonial. Os astecas tinham
um ritual no qual o sacerdote removia a pele de uma menina
e se cobria com uma máscara feita com a pele das pernas da
sacrificada. Esse era um ritual de fertilidade, onde o sacerdote
representava o filho do deus do milho e a menina representava

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a deusa do milho. Esse simbolismo é de acordo com
Erich Neumann no seu livro “A Grande Mãe” um símbolo
arquetípico de transformação e renascimento. Tão profundo é
o interior, a alma da sexualidade.
O futuro da Terra está em jogo. A guerra ou a paz
dependem, entre outras coisas, da nossa atitude em relação a
energias sexuais. O que precisa ser descoberto é o simples fato
de que uma sexualidade livre, inteiramente afirmada, vivida e
amada é a o que catalisa qualquer processo de humanização.
O amor precisa ser libertado do “pecado”, isto é, da repressão,
difamação, e mentiras, sem perder a fascinação que ele
contém como pecado. Centros práticos de vida precisam ser
estabelecidos, nos quais a abertura dos canais libidinosos
possa tornar possível a construção de uma cultura ecológica
a partir das zonas internas. Só nesses centros será possível
desenvolver uma cultura mental-espiritual livre da compulsão
de ter que compensar uma vida não vivida, desenvolver
uma religiosidade livre de hipocrisia e um verdadeiro amor
ao próximo, não mais baseado em morais e jogos de poder
ocultos, mas em amor.

Nova organização social da sexualidade


A organização social da sexualidade é uma das questões
centrais de qualquer cultura e sociedade. No entanto, muito
raramente ou até mesmo nunca antes na história essa questão
foi colocada de forma consciente. O seu verdadeiro significado
só se tornou visível através das pesquisas da psicoanálise,
que, acima de tudo, revelaram a influência subconsciente de
energias sexuais reprimidas em todos os relacionamentos
humanos e processos sociais. Essa descoberta produziu – de
certa forma, oposta à visão do marxismo – um aspecto novo
e fundamental na compreensão da sociedade e da história
humana. As questões decisivas não estavam mais nas áreas

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político-econômicas, elas estavam um nível além, nas áreas da
biologia e da sexualidade. As assim chamadas “bases sociais”
não consistem apenas na organização econômica da sociedade
mas também na sua organização sexual, isto é na forma
com que uma sociedade organiza a vida sexual e canaliza as
energias sexuais (por exemplo, toda propaganda que utiliza
símbolos sexuais faz parte da canalização de energias sexuais).
Se nós enxergarmos energia sexual como um componente
básico da nossa energia vital, nós compreendemos
imediatamente a importância dessa questão. Os canais de
energias sexuais permeiam o corpo da sociedade como um
sistema nervoso secreto que canaliza e transmite impulsos
de atração e repulsão sexual. Naturalmente é de grande
importância se esse sistema nervoso da sociedade opera
no escuro – por baixo e por fora da consciência social – ou
se ele é aberta e conscientemente integrado como parte da
vida social. No primeiro caso ele controla a vida humana
(incluindo a vida pública) a partir de uma região fora do
controle social e, portanto, não acessível à influência social
consciente. Mais do que isso, energias sexuais reprimidas são
quase sempre (devido à repressão) destrutivas. Raramente elas
podem ser verdadeiramente sublimadas em feitos culturais
positivos. No ventre de toda sociedade sexualmente reprimida
tende-se a formar uma mistura explosiva de sexualidade
e brutalidade, e não há limites para as monstruosidades
que acontecem no momento em que essa mistura inflama.
Cruzadas, inquisições, guerra, e campos de concentração estão
entre as consequências psicológicas de uma cultura baseada
em princípios errôneos na área sexual.

A correlação entre repressão da sexualidade e crueldade


marcou todo o curso da história até os dias de hoje. O
moralismo serviu ao ser humano como um bastião contra
o caráter antissocial de energias reprimidas. Mas isso não

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anula a repressão; a repressão foi apenas internalizada. Um
ciclo vicioso se estabeleceu então, que nenhuma religião e
nenhuma ideologia de paz foi capaz de quebrar até agora. A
humanização do mundo permanece um apelo impotente
enquanto os seus pré-requisitos biológicos não forem
entendidos e concretizados.

A organização social da sexualidade na nossa cultura foi até


agora caracterizada pelo sistema de casamento e família. Não
é necessário qualquer conhecimento de psicoanálise para
perceber que esse sistema não corresponde às necessidades
naturais do ser humano. Mas até o mais sexual dos faunos,
plenamente consciente de que ele não pode satisfazer seu
apetite sexual com apenas um cônjuge, ainda jura em
nome das instituições do casamento e da família. Aqui
atua uma sugestão cultural em massa, que deriva, em sua
essência, da situação emocional da criança na família. A
relação de uma criança com o seu pai ou mãe atua como
um comando pós-hipnose para se tornar exatamente como
eles, e insere concepções tão fortes de amor e sexualidade no
seu inconsciente que dificilmente elas podem ser alteradas
devido a necessidades concretas ou pensamentos racionais.
A mitologia internalizada da família projeta em cada pessoa
querida um pai, uma mãe, uma filha, etc. A projeção é o que
determina nossa escolha de parceiro, levando a repetição infinita
das mesmas estruturas. Sob essas condições é impossível haver
qualquer desenvolvimento criativo do amor e da sexualidade.
A evolução da humanidade está até hoje bloqueada nesse
ponto existencial central. A imagem mítica do único grande
amor que surge na criança através da misteriosa glorificação
da sexualidade de seus pais conduz os seus desejos para a
fantasia em vez de para a realidade. Essa fantasia permanece a
mesma, de geração para geração.

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Parte de uma vida livre e criativa é a variedade. Uma
ser humano potente não fica parado após ter alcançado
um determinado nível e não se satisfaz com apenas uma
habilidade, um estilo, um método, ou um assunto. Isso
se aplica a sexualidade também. Todo homem e mulher
entenderia e concordaria enfaticamente com isso, não tivesse
a nossa cultura nos programado em níveis tão profundos para
ver a renúncia dos nossos impulsos como uma obrigação
moral. É preciso lembrar que estamos sujeitos a forte
sugestão de uma tradição cultural que vem se repetindo
há séculos praticamente sem alterações: as sugestões do
Velho Testamento, do Cristianismo, dos conceitos de
pecado e da “malvada carne”. Superar essa programação tão
profundamente enraizada obviamente requer um tipo especial
de trabalho e esforço.

No sistema do casamento e da família, a fixação da criança nos


seus pais e as distorções édipas das emoções, que associam a
infância a medo e ódio, criam uma síndrome de caráter que
se estivéssemos argumentando moralmente teria que ser
caracterizada como “desonestidade emocional”. Mas nós
queremos discutir essa questão do ponto de vista biológico.
As energias biológicas (libidinosas) da criança na família
nuclear são distorcidas, postas umas contra as outras,
paralisadas e bloqueadas. A necessidade reprimida de amor,
muitas vezes frustradas pelas normas morais sexuais ou pela
insensibilidade ou brutalidade dos pais, se junta às energias
opostas do medo e do ódio, levando a uma paralisia que
não permite o movimento livre. O resultado é a fonte de
praticamente todas as doenças psicossomáticas: um bloqueio
emocional crônico.
O ser humano reprimido vive – quando não encontra
no trabalho, no esporte ou na arte sua válvula de escape –
sob uma irritação permanente, isto é, ele não consegue se

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concentrar no que está na sua frente, se distrai e se irrita
facilmente. Seus desejos insatisfeitos e seus impulsos o
forçam, consciente ou inconscientemente, a uma busca
constante por algo mais, ou a todo o tipo de atividades
compensatórias. Nenhum homem consegue conversar com
uma mulher atraente sobre um assunto interessante sem
se distrair constantemente com seus seios. Penoso mas
verdadeiro. Nossas indústrias de entretenimento, recreação e
turismo vivem dessas necessidades subconscientes. No âmbito
sexual há os conhecidos jogos de sexualidade extraconjugal,
programados em parte pela instituição do casamento: a
sexualidade do caçador-colecionador, a sexualidade dos
bordéis e a busca incessante por parceiros. Ao custo de uma
quantidade absurda de tempo e energia junta-se alguns
troféus, troféus que não satisfazem ninguém. Só a quantidade
de combustível gasta em uma noite dirigindo pela cidade à
procura de um parceiro justificaria a reivindicação imediata
da liberação da sexualidade, por questões de política
energética apenas.
Paralelo à sexualidade mais direta desenvolveu-se um tipo
especial de submundo sexual: pornografia, peep-shows,
anúncios de jornal. (Falo sem a menor indignação moral
ou arrogância, eu mesmo sempre fico excitado com essas
coisas.) Se incluirmos na discussão do submundo sexual todo
o âmbito da sexualidade latente que permanece restrita ao
reino da fantasia, todas as perversões secretas e necessidades
abafadas, então a parte que é aceita da estrutura psicossexual
da sociedade está para esse submundo sexual exatamente
como a parte visível de um iceberg está para a sua parte
submersa. O sistema público do casamento se destaca em uma
massa amorfa, fervilhando inquieta com anseios insatisfeitos e
energias contidas. A vida oficial acontece na superfície, a vida
“essencial” por baixo dela. Essa ambiguidade da nossa cultura é
a sua patologia. A terapia necessária portanto consiste de uma

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socialização e integração direta de todas as energias sexuais e
emocionais reprimidas.
Eros, sendo o princípio biológico e psicológico da união
e socialização, é uma das forças produtivas mais centrais,
mais reprimidas e, ao mesmo tempo, mais revolucionárias
da história. Uma nova cultura tem que ser baseada em novas
relações entre os gêneros, livre de medo e projeção. Em
uma vida social verdadeiramente livre não há fermentações
destrutivas, não há qualquer resquício de desconfiança ou
medo, não há necessidade desperdiçar energia tentando
manter fachadas ou de projetar ou ventilar imagens e desejos
acumulados, não se teme mais o olhar dos outros. Uma vida
tão livre só vai ser possível sob uma nova ordem sexual e social
onde a atração sexual entre duas pessoas não esteja mais
associada ao medo de ser abandonado, a paralisia ou ao ódio
em uma terceira pessoa.
Na arte, filosofia, e religião, nossa cultura glorificou o amor.
Mas o que acontece com o amor quando aprisionado dentro
de uma relação a dois convencional? Quase com a certeza de
uma lei natural ele se transforma em ciúmes, chantagem, e
tédio. O tabu sexual em relação ao exterior cria insatisfação,
agressão e tédio no interior. Mas o casal tem que esconder isso
um do outro para não pôr em perigo o seu relacionamento
e o conforto dos seus hábitos. É claro que no fundo os dois
sabem que estão tentando manter uma fachada que já deixou
de ser verdade há muito tempo, e por isso estão sempre
desconfiados. Quem não está certo do próprio amor também
não consegue confiar no amor do outro. Dá-se então aquela
pequena guerra psicológica, uma guerra que provavelmente
mata mais pessoas por ano do que acidentes de trânsito. Por
trás dos ciúmes há muitas vezes o trauma psicológico da
criança que tem medo de perder seus pais. Como o sistema
das relações de casal é geralmente pequeno demais para
satisfazer necessidades emocionais e sexuais, esse medo de

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perder um ao outro é constantemente reiterado. Se só temos
um parceiro, perdê-lo é, de fato, um verdadeiro trauma. É
preciso desenvolver um sistema humano que permita tantas
relações emocionais e sexuais e tanta atividade criativa
que o indivíduo não precise mais ficar dependente de uma
única pessoa para satisfazer seus desejos de vida. Sob tais
circunstâncias, amor verdadeiro entre duas pessoas pode
surgir, de uma maneira mais livre e mais bela.

Duas tendências nos desenvolvimentos históricos da nossa


época levaram a necessidade de se libertar a sexualidade das
suas velhas formas sociais: o processo de esclarecimento
sexual iniciado pela psicoanálise, e o processo interno de
destruição dentro da família, iniciado pelo desenvolvimento
da sociedade industrial moderna. A erosão emocional
dos relacionamentos pessoais na organização moderna do
trabalho, dinheiro, e consumo há décadas afeta a família. As
“noites na frente da televisão” são o retrato claro: a família
não é mais uma fonte de vivacidade criativa, ela é um refúgio
para a recuperação passiva de estresse, desapontamentos,
agressões, etc. O vazio emocional e confusão pode ser visto na
frequência cada vez mais alta de alcoolismo, abuso infantil e
jovens delinquentes. Psicólogos, sociólogos, e criminologistas
têm hoje uma tarefa que não pode ser resolvida com os seus
limitados métodos profissionais.
Uma nova ordem de relacionamentos emocionais e sexuais
deve surgir lentamente. A simples remoção do casamento e
da família nuclear enquanto se mantém as outras estruturas
sexuais levaria ao caos. É preciso desenvolver um espaço
comunitário experimental, onde as atuais estruturas não
sejam superadas e substituídas a partir de ideologias e
normas impostas mas a partir de processos internos, através
da comunicação livre e de uma atmosfera de cada vez mais
confiança. As velhas estruturas não devem ser simplesmente

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negadas nas novas. Os seus elementos positivos (amor,
conforto, confiança, estabilidade, orientação clara para as
crianças) podem ser totalmente incorporados em novas
formas livres de constrições emocionais, que não prendam
as crianças em uma teia de fixações e projeções. É claro que
essas novas formas não podem ser planejadas, elas precisam
se desenvolver como o resultado das relações entre as
pessoas envolvidas. Em uma comunidade assim com certeza
se formarão grupos menores, talvez na forma de unidades
menores ou de moradia conjunta com seis a doze pessoas.
Nesses subgrupos estaria a “família”: a criança com o pai e
a mãe como principais responsáveis, com o apoio do resto
do grupo. As crianças devem ter a possibilidade de escolher
quem elas querem que cuidem delas, porque a livre escolha
de parceiros sem medo e sem reserva é a base da honestidade
emocional.

A questão da não-violência
O sonho de todos os esforços humanitários sempre foi, e ainda
é, a construção de uma sociedade não-violenta. Mas a atitude
de um indivíduo diante da violência não é uma questão de
compromisso verbal, e sim da sua condição emocional e da
estrutura dos seus impulsos. Até Jürgen Bartsch (um pedófilo
e assassino em série) teria dito ser contra a violência se o
tivessem perguntado. Tendências violentas estão muitas vezes
escondidas nas mais almas mais dóceis e gentis. Foram pais
de família discretos e bem comportados que em Auschwitz e
outros lugares celebraram as orgias mais brutais.
A violência é um fenômeno tão importante e tão
multifacetado na natureza, na evolução e na história humana,
que se pode questionar se ela não terá uma posição mais
relevante do que as nossas almas acanhadas têm coragem de
admitir. Dentro desse contexto se pode considerar se por trás

92
do nosso desejo de não-violência não há talvez mais medo
pessoal do que uma visão concreta, detalhada e realista para a
vida conjunta entre seres humanos. Em todo caso, o problema
do violência ainda não foi entendido até o fim, porque sempre
cai em sistemas ideológicos baseados principalmente em
forças emocionais que servem ou para apaziguar medos
ou para defender o desejo de violência. Esses dois aspectos
centrais da questão – violência como elemento básico entre os
seres vivos (Friedrich Nietzsche) e violência como resultado
de impulsos reprimidos (Wilhelm Reich) – precisam ser vistos
com clareza e profundidade antes que se permita que um
tenha precedência sobre o outro.
Todos nós já observamos como um gato fica desperto no
momento em que sente algo se mover ao seu redor, e como
ele salta para atacá-lo. Se nos atemos a esse processo por
tempo o suficiente nós descobrimos que surpreendentemente
o entendemos. A possibilidade profundamente enraizada de
identificação com o predador animal nos faz compreender
o seu instinto de preda. Quando admitimos isso (quando a
nossa censura interna permite que esse instinto se manifeste
em nós), descobrimos algo sobre os seres humanos através
da observação de um animal, e essa descoberta nos leva
longe. Passamos a compreender, por exemplo, que também
podíamos estar caçando e dilacerando o coelho que com
tanta gentileza pegamos no colo. Durante a maior parte
da sua história o humano foi um caçador tão impetuoso
que seria muito estranho se essa característica tivesse sido
completamente eliminada dos seus instintos agora.
O fenômeno biológico e histórico da violência nos obriga
– em nome de uma nova cultura orientada pelas leis da vida
– a reconhecer certas implicações que entram em conflito
com a ética e a visão de futuro comumente aceitas hoje em
dia. Em primeiro lugar, a natureza está além de categorias de
bom ou mau. Um misterioso aspecto da natureza é a ligação

93
íntima da vida com a morte, da luxúria com a destruição. Em
segundo lugar, para ser capaz de ver e aceitar esse fato são
necessárias qualidades mentais e emocionais diferentes das
que costumamos encontrar na nossa cultura. Particularmente
necessária é uma atitude sem medo em relação à dor e à
morte. A solução para a questão da violência só pode ser
encontrada em outro nível cultural, quando a humanidade
puder conviver de maneira íntima e sem medo com a morte.
Mesmo que não tenhamos ainda esclarecido a questão
da violência até o fim, nós podemos tomar uma decisão. É
possível que Nietzsche estivesse certo em sua teoria sobre
a crueldade inerente à vida, à qual seria acrescentada a
crueldade que resulta da repressão dos instintos humanos.
Isso nos motiva ainda mais a desenvolver um sistema de
vida social no qual a violência, tanto física quanto emocional
e espiritual, pode ser canalizada em energias construtivas
sem precisar ser reprimida. A violência diária a qual são
submetidas tribos, minorias, mulheres, crianças e animais
nos choca, nós não somos heróis nem cínicos e é claro que
queremos paz. Nos centros da nova cultura é preciso que haja
paz, aconchego, conforto e segurança, e desenvolvimento
contínuo. Se nos sentimos genuinamente aquecidos pelo
nosso amor aos seres vivos, sem dúvida outras pessoas e
criaturas vão responder a esse calor. Assim a violência não
pode sair de controle tão facilmente. Quando o desejo por paz
se torna sério e radical, lentamente nós começamos a entender
que ele só pode ser concretizado com a superação absoluta
de todas as estruturas que instilam a violência latente, que
levam o ser humano a reprimir seus instintos e suas energias
emocionais. Em todos os lugares em que a violência se deve ao
bloqueio de energias vitais essas energias devem ser liberadas,
incluindo energias de agressão. Porque aqui está a verdade
mais importante: quem é a favor da paz precisa parar de
reprimir agressões.

94
Não podemos mais desmerecer a realidade emocional que se
mostra de maneira tão clara em qualquer grupo de terapia: a
realidade das nossas agressões reprimidas. Por trás da fachada
de cortesia, ternura, gentileza, timidez e ansiedade há quase
sempre uma quantidade enorme de energia bloqueada e
paralisada. Nós precisamos reconhecer essa agressão latente
como um dos problemas elementares quando buscamos
humanizar seres humanos e formar novas comunidades.
A agressão latente que se desenvolve a partir de emoções
e impulsos abafados é uma das principais causas da vida
apática de tédio, exaustão, impotência e falta de comunicação
à qual milhões de pessoas sem esperança já se resignaram.
É irrelevante quando um grupo de guerreiros cansados e
resignados proclamam a não-violência nos seus cartazes e
brochuras; o seu estado emocional e energético mostra que o
verdadeiro problema da violência está dentro deles também,
completamente mal resolvido.
O “caráter social” da nossa época, isto é, a formação comum
do caráter da maior parte das pessoas hoje em dia, consiste
em quatro camadas emocionais diferentes que se desenvolvem
dentro do indivíduo como resultado da sua incapacidade
de expressar seus instintos e necessidades. A camada
mais externa, e que se desenvolveu mais recentemente, é
a da cortesia, das boas maneiras e da discrição. Atrás dela
encontramos uma segunda camada, na forma do medo. Atrás
dessa camada há normalmente uma enorme (e perfeitamente
compreensível e justificável em termos biológicos) raiva. E só
atrás dessa raiva, profundamente escondida e bem camuflada,
há a camada do amor e da necessidade de amor, geralmente
bastante infantil e vulnerável. É nesse contexto psicológico que
o problema da violência precisa ser encarado e solucionado.
As tendências violentas da raiva nem sempre se mostram
visíveis na superfície, pois muitas vezes são paralisadas pelo
medo e camufladas pelos costumes e boas maneiras.

95
Essa estrutura emocional está naturalmente fortemente
relacionada a uma estrutura moral-ideológica e uma estrutura
social. Raiva e violência infundadas estão sempre, assim como
o medo, relacionadas a um estado de repressão. Elas são
resultados de uma situação de vida interna e externa limitada
demais, que não dá ao espírito vital o espaço e a liberdade
que ele precisa. As razões para agressão e violência inerentes
à nossa cultura e sociedade são por exemplo: o ambiente de
uma cidade grande, um deserto de cimento, que não estimula
as crianças à atividade; um sistema de carreiras em que a
divisão do trabalho nos obriga a viver em uma monotonia sem
sentido; um sistema de educação sem nenhuma substância
real, sem oportunidades para seguir verdadeiros interesses
e curiosidade; e um sistema sexual que mantém as energias
do amor sexual nas mesmas velhas gaiolas. Há razões para
a agressão e a violência que são inerentes à nossa cultura e
sociedade. Se nós pudéssemos ver o quão amável e alegre a
vida é, quando encanto e beleza natural, quanta integridade,
coragem, e honestidade, quanta confiança e vontade de
ação estão diariamente sendo traídas, vendidas e destruídas
na vida de crianças e jovens, se nós pudéssemos ver, nós
imediatamente nos dissolveríamos em um oceano de lágrimas.
E até a grande ira biológica que daí resulta não tem a chance
de se expressar de forma significativa. Quem cresce nesse
sistema é forçado a fazer tantas coisas más e sem sentido que
não demora até perderem qualquer respeito por si próprios.
E essa perda de respeito próprio estabelece as condições
perfeitas para as insanidades que então se instalam.
Eu não estou exagerando. Estou sendo compreensivo. Se
a palavra “paz” não tivesse adquirido um tom tão penoso
e hipócrita, eu diria que as oficinas de uma nova cultura
precisam ser oficinas de paz. A paz não pode surgir até que
as pessoas tenham aprendido a viver de forma que possam se
afirmar, e afirmar umas às outras.

96
A questão da democracia
Democracia – existe hoje, em algum lugar, um conceito bem
fundamentado do significado dessa palavra e da possibilidade
da sua realização? Os que hoje falam de “democracia”
realmente querem democracia, ou o que eles querem é na
verdade algo completamente diferente? Muitos dos que hoje
viraram seguidores cegos de gurus vêm da esquerda política
e de movimentos alternativos em que era natural falar de
democracia. Os dois movimentos que provocaram um
alvoroço na Alemanha nos últimos anos – AAO (um centro
de cultura e terapia austríaco com sexualidade livre) e Poona
(um ashram na Índia fundado pelo controverso líder espiritual
Bhagwan Shree Rajneesh, ou Osho como ele hoje é conhecido)
– são centradas em torno de fortes e carismáticas figuras de
liderança. Quando analisamos toda a história da busca por
formas de vida alternativas ao longo dos últimos 200 anos,
incluindo as grandes comunidades nos Estados Unidos,
podemos arriscar uma provocante conclusão: até agora as
únicas comunidades a persistir por longos períodos de tempo
foram baseadas em carisma e não em princípios democráticos.
O ideal político fracassa, como sempre, no momento em que
é confrontado com a realidade emocional. O relacionamento
entre pais e filhos ainda não foi superado em lugar nenhum.
Os adultos ainda não cresceram. As pessoas se sensibilizam
com condições políticas e sociais de opressão, elas se
defendem contra a dominação de estruturas autoritárias e
portanto acreditam lutar pela democracia. Mas na verdade (na
realidade dos seus processos internos) a maior parte dessas
pessoas se defende da autoridade pelas mesmas razões que
as fazem glorificar um líder, no momento em que encontram
um que as agrada: elas são emocionalmente fixadas em
autoridade, no medo e no ódio assim como no amor. É preciso
levar em consideração quantos anseios infantis por afeto,
quanta inclinação à adoração e reverência nunca puderam

97
ser expressados durante a infância porque os adultos não
eram capazes de corresponder a eles – e quantos desejos
permanecem latentes aqui, ainda à espera de ser evocados!
E de repente conhecemos alguém que dá luz verde a esses
anseios, alguém capaz de personificar a grande figura materna
ou paterna na qual nossa criança interior pode projetar tudo
o que há de positivo. Grandes experiências de despertar e
renascimento acontecem através desse processo. A maior força
do ser humano, amor, é despertada. É uma agitação libidinosa
tão poderosa que muda a vida de qualquer um. É preciso
ter visto, por exemplo, a forma com que cinco mil sannyasis
celebraram o aniversário de Bhagwan no Buddha Hall em
Poona. Sim, era como um grande jardim de infância, mas foi
um festim de amor, devoção e gratidão sem fim, de um jeito
que um ocidental comum não é capaz de imaginar. Diante das
erupções vulcânicas de tão íntima e genuína força emocional
e identidade (!) é preciso calar todas as ressalvas intelectuais.
A vida é isso. Essa é, pelo menos por ora, a verdade das
estruturas emocionais comuns que moldam os verdadeiros
desejos da maioria dos seres humanos.
Os chavões de um mundo melhor – democracia, igualdade,
não-violência, justiça social – são quase sempre reflexos
de crise e ressentimento, e não de ponderadas convicções
positivas. É essa a razão mais profunda para o seu fracasso.
Eles não se relacionam com as estruturas emocionais reais,
com os problemas e anseios das pessoas a que se dirigem.
Wilhelm Reich chamou atenção para esse dilema cinquenta
anos atrás no seu livro “O que é a consciência de classe?”
Muito do que ele escreveu permanece igualmente relevante
nos dias de hoje.
Assim como a não-violência, a democracia não é uma
questão de compromisso verbal nem das estruturas políticas
externas de um sistema. Trata-se antes de tudo do estado
emocional e da estrutura dos instintos no ser humano.

98
Necessidades libidinosas não satisfeitas ainda se põem
sistematicamente no caminho de uma sociedade livre e
democrática. A estrutura emocional do ser humano atual
não é democrática e autônoma, ela é feudalista. Assim como
antigamente o homem anseia pelo Pai, Deus e César; mas
ele não os quer nas suas formas antigas, o que ele quer é
um equivalente psicológico para eles. E enquanto ele não o
encontra e não reconhece suas inclinações ele é capaz de falar
de qualquer coisa, de democracia e até de anarquia, mas no
momento em uma tal figura de Deus e de pai se torna visível,
ele desperta e esquece tudo o que até ontem costumava pregar.
Eu muitas vezes vi intelectuais críticos, marxistas, pensadores
e individualistas chegarem na fortemente hierarquizada
Friedrichshof na Áustria e em pouquíssimo tempo abandonar
toda a sua resistência – não devido a lavagem cerebral como
um jornal sensacionalista tentou sugerir, mas porque eles se
tornaram incapazes de acreditar na sua própria resistência.
Os seus verdadeiros desejos tinham sido despertos. Aqui
eu devo lembrar ao leitor do exemplo dos dois peregrinos,
caminhando sedentos pelo deserto …

Talvez agora alguns leitores me entendam quando eu digo


muito simplesmente que a nossa cultura atual, incluindo
nossa contracultura, é uma pseudocultura. A nível verbal
quase ninguém tem credibilidade mais, porque quase todo
mundo quer algo diferente do que diz. As pessoas têm sede,
e nenhuma tem coragem de dizer de quê. As comunidades
de AAO e Poona tornaram isso explícito, e o que elas nos
ensinaram precisa ser levado a sério. Os slogans políticos
de democracia, paz e justiça soam como versos do Exército
de Salvação quando comparados à vida real, pelo menos
enquanto não se refletir profundamente sobre as suas raízes
psicológicas, até o seu núcleo emocional e as dinâmicas dos
impulsos subjacentes, e só a partir daí realizá-los.

99
Um humanismo verdadeiro precisa de democracia. Todas
as estruturas de gurus, adoração de líderes, e todas as formas
de organização de comunidades humanas que se baseiam
em fixações emocionais podem ser uma importante fase
temporária de aprendizado para os envolvidos, mas não
respondem a pergunta com que estamos lidando. Essa
pergunta é: que forma organizacional e constituição interna
nós podemos criar para nossa vida conjunta, que possa ser
aplicada de maneira geral e, a longo prazo, tornar possíveis
estruturas realmente humanitárias?
Humanidade realmente responsável só pode vir a existir
depois que as fixações forem superadas, quando chegar a
hora em que a democracia for psicologicamente possível.
O desenvolvimento da democracia real tem que se basear
na realidade imediata, por exemplo, no fato de que em toda
comunidade há uma hierarquia natural (que pode sempre ser
modificada). Antes que a comunidade possa estabelecer uma
forma consciente de organização, algum tipo de estrutura
de grupo já vai ter se estabelecido através da hierarquia das
diferenças percebidas entre as pessoas. Essas diferenças fazem
parte da variedade de um biótopo humano. Elas não podem
ser suprimidas por uma camada de apelos por igualdade, mas
deve ser usada em processos criativos de aprendizado.
Democracia de base e em grupos, que reflita o
funcionamento do mundo dos seres vivos não se baseia
em estruturas igualitárias, mas sim na possibilidade de
crescimento de cada um e no crescimento da autonomia
intelectual de todos os membros. Essas são grandes palavras.
Elas requerem que três coisas sejam realizadas na sociedade
democrática do futuro:
Primeiro, a fixação do filho nos pais – que nos manteve até
agora em eterna dependência infantil de autoridades – precisa
ser superada através de novas estruturas sociais para se criar
filhos, e novas estruturas sociais para o amor.

100
Segundo, toda repressão emocional – que até agora
interrompeu o desenvolvimento emocional do ser humano
no seu estágio inicial e o impediu de alcançar a maturidade
– precisa acabar, através de um sistema social de liberação do
amor, da pesquisa e do trabalho.
Terceiro, o mais alto grau de transparência social precisa
ser criado (permitindo que o indivíduo desde a infância
compreenda o seu ambiente social e saiba qual a sua posição
dentro da comunidade, e tome parte em decisões). A
próxima seção considera alguns princípios que facilitam essa
transparência.

A democracia não pode ser simplesmente decretada. Ela surge


e se desenvolve quando se constrói as condições emocionais,
mentais e sociais necessárias. À medida que ela lenta e
gradualmente vai crescendo, a comunidade vai tomando a
forma de um círculo. Um círculo no qual cada elemento tem
um peso e um significado diferente, mas onde todos têm seu
lugar e sua relação com o todo.

Construindo uma comunidade humana funcional


O trabalho cultural duradouro e contínuo requer que se
construa comunidades fortes, cooperantes, e funcionais no
nível humano. Qualquer tentativa que não leve essa questão
em consideração não pode ser tida como séria. Esse ponto
já acabou com projetos políticos e alternativos demais para
ser tratado com casualidade. Não dá para uma comunidade
sólida simplesmente brotar. Todo grupo precisa lidar com
seus problemas humanos, conflitos de autoridade abertos ou
disfarçados, competição por reconhecimento, poder, e amor,
agressões eminentes, e todo o espesso pântano da sexualidade
não resolvida, ciúmes, medos, etc. Em cada grupo está
representado todo o espectro dos típicos problemas humanos.

101
Os homens muitas vezes tentam compensar seus problemas
sexuais e emocionais com a retórica intelectual e a soberba
ideológica. As mulheres não confiam umas nas outras
sempre que há homens envolvidos. Os que estão envolvidos
sexualmente não sabem como expressar publicamente
seus desejos sem provocar no grupo medo, ciúmes, e caos.
Nas relações de casal, o que um dia foi amor se perde em
desconfiança e codependência. As crianças nunca sabem se
podem confiar no amor dos seus pais e se deixam confundir
e absorver em inúmeras manobras para pô-lo à prova. Para
que essas ocorrências diárias não se repitam para sempre nós
precisamos de novas experiências e um novo conhecimento
da composição interna de uma comunidade. Em culturas
mais simples comunidades eram formadas naturalmente.
Hoje elas precisam ser conscientemente iniciadas, com todo o
conhecimento e experiência das relações interpessoais.
Construir uma comunidade com princípios humanitários
em geral significa enfrentar dificuldades que estão
profundamente enraizadas nas estruturas de caráter do
homem moderno, e principalmente nas estruturas ideológicas
das subculturas. Nós não precisamos da fixação em slogans
humanitários e demandas, e sim de uma atitude clara em
relação às realidades mentais e emocionais que hoje existem.
Essa realidade emocional precisa ser feita visível em todos os
lugares em todos os momentos, com os métodos mais alegres
e descontraídos possíveis, até que toda a pretensão e hipocrisia
tenha sido derrubada. Todos os membros de um grupo
precisam saber que não há mais nada a ser ganhado com
fingimento. Há talvez apenas um imperativo categórico para
o estabelecimento de comunidades fundamentalmente boas e
estáveis: que todo o possível seja feito para que o que acontece
na comunidade seja sempre compreensível e transparente
para todo mundo. Isso é particularmente importante para
os processos emocionais e sexuais, porque são eles que estão

102
por trás de quase tudo que torna a situação do grupo turva e
complicada. A transparência de todos esses processos é a pré-
condição para libertar seus membros de sua paranoia, para
impedir que processos destrutivos assumam vida própria, e
para tratar das causas de cisões e separações no grupo antes
que seja tarde demais.
Uma parte crucial da transparência geral é a transparência
em relação às hierarquias sociais que existem em todos os
grupos. É bom que cada um saiba com o máximo de precisão
possível qual o seu lugar no grupo, o que os outros pensam
sobre ele, e onde eles o botam na hierarquia da comunidade.
Dessa forma a comunidade se livra da hipocrisia da harmonia
superficial e da falsa democracia. Cada indivíduo pode então
se fazer ciente da realidade com que ele tem que lidar. Não
é mais tão fácil para ele se manter habitando um mundo de
alegações secretas e chantagens no qual ele podia culpar os
outros pelas suas próprias fraquezas. Ele agora sabe qual é o
seu lugar, e pode trabalhar a partir daí.

Feedback constante entre os membros da comunidade


também faz parte da transparência. Eles precisam aprender a
comunicar, sem hesitação, o que eles gostam e o que eles não
gostam uns nos outros. Conflitos pessoais não podem ser
reprimidos ou vão permanecer fervilhando sob a superfície,
envenenando a atmosfera e causando reações camufladas
e ambíguas. Conflitos pessoais mais sérios precisam ser
apresentados publicamente ao grupo. Para evitar que se
leve as coisas a sério demais, os envolvidos devem aprender
a se distanciar do problema com métodos lúdicos (como
psicodrama ou os medos de autoexpressão desenvolvidos
em Friedrichshof). Muitos conflitos acabam se mostrando
resultado da insanidade individual, o que por si só justifica
que se os perceba e apresente como uma peça de teatro em
vez de como a séria e dura realidade. (Para aprender os jogos

103
da dinâmica de grupo é sensato que no começo se empregue
terapeutas “neutros” para ensinar os métodos e parte dos
processos envolvidos.)
Uma causa comum para falta de transparência em uma
situação de grupo está na mistura de discussões objetivas com
conflitos emocionais. O grupo precisa aprender a distinguir
os dois para impedir que todas as discussões desenrolem
para o mesmo pântano de agressões. Não faz sentido insistir
em uma discussão objetiva que foi completamente dominada
por conflitos pessoais, jogos de poder ocultos ou alguma velha
história de competição. Essa é a hora de encerrar a discussão e
dar continuidade à interação através de peças artísticas, com
exagero teatral e descontração.

Outro ponto central na formação de uma comunidade diz


respeito a questão das relações de casal e da sexualidade.
A transparência necessária é muitas vezes severamente
obstruída pelas velhas estruturas da relação a dois. Assim
que dificuldades surgem no grupo, parceiros tendem a se
refugiar na sua estrutura de casal, criando uma fortaleza
privada de proteção e resistência. O dano que isso causa não
afeta apenas a comunidade, mas também os dois parceiros.
Isso é porque relações de casal tendem a ser pequenas
demais para integrar e conter tudo o que toca e perturba os
dois envolvidos. Ciúmes, em particular, é algo que eles não
podem resolver sozinhos. Uma coerência interna, baseada em
estruturas transparentes, só pode crescer e se desenvolver de
forma duradoura em um grupo se o par for capaz de dissolver
as barreiras habituais e trabalhar nas suas dificuldades
internas dentro de um contexto coletivo (enquanto isso for
razoável). Que essa dissolução de barreiras possa levar a novos
contatos emocionais e sexuais é algo natural e desejável. Uma
comunidade só atinge o seu objetivo humano de solidariedade
e confiança mútua se seus membros estão dispostos e são

104
capazes de realizar os velhos valores românticos – intimidade,
confiança, cooperação, parceria – com não apenas um
parceiro, mas com tantos quanto possível. Nesse processo de
formação de comunidades com crescente coerência interna,
manter barreiras emocionais e sexuais se torna cada vez mais
absurdo.
Por muitos anos estamos conduzindo esses experimentos
no projeto Bauhütte (ver posfácio) e nós descobrimos
que a desconfiança mútua lentamente desaparece dos
relacionamentos quando cada parceiro vê e sabe abertamente
o que o outro está fazendo. Sinceridade e transparência
nas áreas emocionais e sexuais são elementos decisivos na
estrutura psicológica de uma nova cultura quando se trata
de esclarecer a situação do grupo. Parceria e sexualidade
livre não precisam se anular, são instâncias complementares
que precisam uma da outra. Sexualidade livre, baseada
em relacionamentos pessoais duradouros, não é nenhuma
ideologia ou programa específico mas sim uma forma natural
de lidar com a realidade. Sem dúvida é um pouco inusitada
depois de milhares de anos de monogamia. Mas nós não
estamos lutando para manter hábitos, nós estamos tentando
resolver problemas.

Purificação emocional e dissolução da armadura do caráter


Nos capítulos anteriores algumas das características básicas
de uma nova cultura foram descritas, sem as quais uma nova
ordem social humanitária, orientada de acordo com as leis
da vida, dificilmente será possível. Essas características são:
solidariedade com todos os seres vivos, investigação da vida,
sexualidade livre, não-violência sem repressão da agressão,
democracia de base através de transparência (principalmente
nas áreas emocionais e sexuais), e feedback constante através
do contato humano direto.

105
Essas características não podem ser postas em prática com
a profundidade do seu verdadeiro significado dentro das
atuais estruturas emocionais e ideológicas; de certa forma
elas não podem sequer ser compreendidas. Elas parecem ir
contra leis empiricamente determinadas do comportamento
humano. Mas na verdade elas vão contra as leis empíricas
da época cultural presente, que se baseia na autorrepressão
bioenergética. A realização dessas características requer um
processo interno de transformação do indivíduo que nós
podemos chamar de “purificação emocional”.

O que significa “purificação emocional”? Significa que o


amor e o ódio precisam ser libertos do seu abraço mútuo;
significa que não se pode mais ter medo quando se tem que
lutar, e não se pode mais ter inibições quanto a devoção é
necessária. Significa que não se força mais sorrisos quando
se precisa gritar ou chorar, que se aprende a diferenciar
entre amor e necessidade de se apoiar em alguém, entre um
“sim” que vem do coração e um “sim” que vem do medo
de ser rejeitado. Significa que não se confunde mais um
amante com um pai ou uma mãe; que não se confunde
hipersensitividade emocional com amor ao próximo, ou a
raiva de ser agredido pessoalmente com a raiva de ver a vida
ser destruída, ou covardia com consideração ou tolerância.
Purificação emocional significa que as emoções e energias
podem fluir novamente livres de hipocrisia, significa que
todos os sentimentos de inferioridade e culpa desaparecem,
porque a inferioridade e a culpa em si desaparecem. Significa
se livrar das falsas vergonhas que usamos para negar os nossos
melhores e mais vitais impulsos, e reconhecer a verdadeira
vergonha, vergonha por termos constantemente reprimido
em nós e nos outros a verdade do mundo dos seres vivos,
por nenhum motivo além do medo do julgamento alheio.
Purificação emocional é a superação fundamental de qualquer

106
sistema psicológico e cultural que forme o que Wilhelm Reich
chamou de “armadura do caráter”.
A armadura do caráter é ao mesmo tempo um sistema para
conter as energias biológicas e uma proteção psicológica-
ideológica contra irrupções inconvenientes de partes da
vida que foram banidas, contra todas as manifestações de
verdades, anseios, e amores enterrados. A era cultural da
armadura do caráter decretou que as uvas muito no alto do pé
eram todas azedas, e odiou tudo o que era doce mas parecia
inacessível. Ela desprezou e rejeitou a lascívia e a luxúria que
ela sempre desejou, transformou a impotência na virtude da
abstinência e transformou covardia em moralismo. Esse tipo
de hipocrisia levou à formação de estruturas sólidas, e de uma
parte permanente de tudo o que foi passado adiante como
“educação”, “humanidade”, e “dignidade humana”. Pessoas
ensinavam umas às outras sobre liberdade e não conseguiam
ver a armadilha na qual elas próprias tinham sido pegas. Elas
desenvolveram teorias para justificar seus medos, atacaram o
estado e a sociedade mas resistiram a todos os ataques às suas
próprias armaduras do caráter.

Porque suas vidas sociais eram reguladas, os cidadãos da


velha cultura precisavam de ideologias externas e autoridades.
Porque precisavam das suas armaduras, eles eram incapazes
de confiar na honestidade e na razão do feedback que
recebiam no contato com seus amigos. Porque eles sentiam em
si próprios a repressão e a crueldade latente eles tinham que
se proteger do excesso antissocial através de um sistema de
leis e punição. O medo era portanto um elemento central na
manutenção da sociedade. Se tivéssemos que determinar uma
única mudança de paradigmas fundamental na nossa cultura,
eu diria que ela tem que se basear na transição de uma ordem
social orientada pelo medo para uma auto-organização social
ancorada no contato humano espontâneo e direto.

107
É claro que essa mudança não pode acontecer do dia pra
noite, nem mesmo em pequenas comunidades modelo.
Mas centros e grupos de apoio precisam ser estabelecidos,
que ofereçam as estruturas sociais e psicológicas capazes
de facilitar esse processo fundamental na transformação da
sociedade humana. Nós precisamos, com toda a inteligência
humana e sociológica que temos disponível, substituir o
medo como princípio regulador por algo que podemos
chamar de … amor. A “casa”, sobre a qual escreveu o filósofo
Ernst Bloch, está de fato no amor, em um amor liberto e
não sentimental sem nenhum resquício de medo, ódio ou
mentiras; é aí que agora está o grande nondum, essa parte
não rendida da história, no maior de todos os anseios não
realizados do ser humano. Quando ele for realizado, quando
o ser humano viver em plena sexualidade e erguer-se desperto
e absolutamente presente sobre o mundo, finalmente terá sido
realizada uma forma de existência que nós sempre, nos nossos
corações, soubemos que existia.

108
5 Posfácio

Sobre a questão da tradição


Nossa tentativa é radical. Estamos tentando realizar o que
talvez seja a mais profunda possível revogação de valores
históricos do passado. E mais uma vez se daria início a uma
nova história da vida humana. Mas o leitor mais atento vai
perceber quanta história, quanta integração consciente de
tradição, e quantas intenções “conservadoras” estão presentes
no nosso radicalismo. Porque se trata de um conceito cultural
radical, isto é, que vai até as raízes, nós estamos lidando com
os mais distintos ensinamentos do passado, mesmo nos
pontos em que nos opomos diretamente a eles. Aqui, como em
todo lugar, o “paradoxo” da vida é confirmado. Pode parecer
um paradoxo para alguns que um projeto tão próximo das
ideias de Wilhelm Reich possa, ao mesmo tempo, alegremente
citar as palavras do padre jesuíta Teilhard de Chardin. Esse
espírito original, cujo radicalismo se mostra tanto na sua
vida pessoal quanto na sua abordagem científica à filosofia
da evolução, chama de santo o horrível apóstolo Paulo, que
junto com Agostinho estabeleceu a base filosófica dessa
bizarra forma de cristianismo que vê como sua missão a luta
contra os desejos da carne e declara a igreja como autoridade
absoluta. Os dois contribuíram de forma decisiva para a
catástrofe humana do ocidente cristão. Eles pertencem aquela
parte da humanidade que influenciou de forma profunda
e decisiva os julgamentos de valor da nossa cultura. Hoje
estamos formulando a contraposição mais radical possível
– depois de Marx, Freud e Reich. É preciso tomar cuidado
para não tentar simplesmente negar o passado; o passado é
real demais para isso. Agostinho não era nenhum covarde
nem nenhum fanático cego, o que ele disse não reflete só
ressentimento e necessidades pessoais. Ele chegou a possuir

109
tudo o que o mundo material-sensual tinha a oferecer, e
renunciou a tudo. Por que? O que o moveu foi uma verdade
tão profunda quanto a nossa: a verdade de “Deus”, a verdade
de um amor religioso absolutamente puro e dissociado da
carne. Essa verdade é enorme. Se não fosse, a crença de que
o corpo é uma prisão para a alma não teria prevalecido na
história da religião. A eudaimonia de Platão (a mais alta
felicidade), que também está relacionada a separação do
corpo, e o flagelantismo da Idade Média têm a mesma origem,
e essa é a profunda experiência humana de que o corpo é uma
prisão. Essa experiência é de natureza espiritual e portanto,
em princípio, está fora do âmbito das explicações e teorias
psicológicas clássicas. O corpo é, sob qualquer abordagem
espiritual realmente relevante, de fato uma prisão para a alma.
Como disse Rudolf Steiner, muitas doenças ocorrem porque “a
alma está presa demais ao corpo”. O pensamento materialista
que reduz processos mentais e emocionais a processos físico
causa portanto uma disposição para doenças que no fim só
podem ser superadas através de um novo, entre outras coisas
também orientado religiosamente, remédio e prática de
vida. Uma renovação cultural que se baseasse apenas no que
é sensual ou vital não chegaria a tocar a essência das coisas,
a não ser que o funcionamento dos aspectos sensuais e vitais
da vida fosse bem compreendido. Eles só vão poder florescer
de forma plena quando nós tivermos atingido um certo nível
de “desmaterialização”, espiritualização, e liberado o corpo
da sua inércia. O corpo só pode funcionar como um meio
de sensualidade e auto-realização quando a mente deixa de
se fixar exclusivamente no corpo e nas suas necessidades.
Dominação da mente sobre o corpo é um pensamento que
permanece válido, ainda que sob uma luz muito diferente.
Dominação não significa mais repressão e mortificação.
Quando hoje nos atrevemos a buscar uma orientação
existencial e viver de acordo com ela, nós não fazemos

110
nenhuma pré-distinção entre os pensadores mais próximos
(verbalmente) da nossa filosofia, e os mais distantes dela.
As batalhas ideológicas que resultam dessas comparações
superficiais não fazem sentido quando se trata de tomar
decisões pessoais básicas. O fator determinante é a “entrada
do existencial” na vida das pessoas e o poder das revoluções
internas causadas por ele. Esses foram os “originalmente
abalados” (Karl Jaspers) – pessoas como Agostinho, François
Villon, Kierkegaard, Nietzsche, Teilhard de Chardin, Wilhelm
Reich e Otto Mühl têm algo para nos dizer, mesmo que as suas
verdades precisem antes ser desencavadas e vistas fora do seu
contexto histórico específico. As suas vidas e a natureza do
seu trabalho são prova absolutamente suficiente de que nós
devemos levar a sério isso que os abalou. Paulo não teria sido
capaz de cruzar metade do mundo se a sua ideia de salvação
fosse fruto apenas das suas “questões pessoais” (tais como as
projeções de uma alma reprimida que renega seus impulsos).
Essa verdade com que estamos lidando nunca é um produto
encerrado; ela permanece em constante desenvolvimento
ao longo da história. Seus aspectos são tão multifacetados e
contraditórios quanto as viradas e reviravoltas na história das
ideias. Ao lado da filosofia de Nietzsche sobre a vontade de
potência está com a mesma validade e relevância o Sermão da
Montanha; ao lado da adoração da beleza sensual temos como
igualmente importante o ideal de castidade e asceticismo, ao
lado do materialismo marxista damos a mesma importância às
“ideias” de Platão, ao lado da economia sexual de Reich há o
conceito budista de nirvana; e justo à ideia moderna de auto-
realização há as igualmente profundas ideias agostinianas e
jesuítas de obediência. Mas uma vez eu repito: nós precisamos
ver essas ideias – que nas suas formas verbalizadas parecem
contraditórias – na sua essência, pelo que elas realmente
representam, para conseguir assimilá-las. Tome como exemplo
a ideia religiosa de obediência a Deus e à Igreja. Sua essência

111
está na capacidade de devoção, de entrega total e absoluta.
Para que o ser humano seja capaz de receber o espírito santo
e portanto partilhar do amor, é preciso que seja criada nele
uma disposição que o torne aberto para esse recebimento; e
a forma que isso assume é essa de obediência incondicional.
(Que no postulado da obediência absoluta à Igreja motivações
de poder também tenham tido um papel fundamental, como
retratado por exemplo n’O Grande Inquisidor de Dostoievski,
não está de forma alguma sob questão. Onde a autoridade dos
que passaram pelo abalo original já não tinha efeito, instalou-
se sempre esse processo de perversão.)
As formas sagradas de asceticismo, castidade e obediência
só podem ser convincentemente superadas e substituídas
por outras formas mais humanas quando nós entendermos
o seu significado existencial e a sua profundidade espiritual.
O mesmo vale para as formas do casamento e da família.
Historicamente todas essas formas foram produtivas em
algum momento, no sentido de que elas perceberam e
desenvolveram aspectos fundamentais da alma humana. Nós
só vamos poder superá-las de fato quando entendermos e
pudermos preservar a sua natureza essencial (é esse também o
sentido do conceito hegeliano de “Aufheben”, sublimação).
Nós consideramos o princípio funcional de opostos como
uma das características básicas do mundo dos seres vivos. Esse
“fenômeno do paradoxo” aguça os nossos sentidos para as
contradições na história e no nosso próprio desenvolvimento.
A estrutura e as dinâmicas das nossas situações pessoais
estão cheias de contradições; porque os impulsos que a
vida nos manda como vontades, necessidades e consciência
são contraditórios. É por isso que queremos nos proteger
contra julgamentos precipitados e seleções unilaterais dos
nossos pontos de referência filosóficos. A fisionomia mental-
espiritual do que é profundo e autêntico não está presa a
uma época, uma geração, uma ideologia, um movimento,

112
ou uma afirmação. Algo profundamente contrário às nossas
convicções – por exemplo a teoria das ideias de Platão,
completamente removida de qualquer prática concreta; a
negação da vida do misticismo oriental; a ideia de asceticismo;
os conceitos de pecado, graça e perdão; a ideia de fidelidade
conjugal e devoção até a morte; as ideias de martírio e
abnegação – pode às vezes, justamente por isso, estar mais
perto do que pensamos, porque a dialética viva dos opostos
cria pontos internos de contato em lugares onde o olhar
superficial só consegue ver contradições.
Formulamos essa tese radical contra a atual época cultural
não fora dela, mas conscientes das linhas mais profundas de
desenvolvimento ocultas na obscuridade e perversão da nossa
tradição cultural. As verdades escondidas nas velhas formas de
religião, filosofia, ciência, arte, amor e ordem social precisam
ser liberadas dessas formas para que nos tornemos capazes de
integrá-las novamente nas nossas vidas, e desenvolvê-las em
um novo nível de consciência.

A vida codificou suas verdades no grande palco da história


e da história das ideias. Seu elenco inclui Dionísio e Jesus
Cristo, Napoleão e Elsa Brandstrom, Francisco de Assis
e Nietzsche, Rudolf Steiner e Wilhelm Reich (que quase
não se incluam mulheres se deve, entre outras coisas, às
peculiaridades da historiografia masculina). A originalidade e
autoridade (auctoritas) do mundo dos seres vivos encarnadas
aqui podem ser vistas nas ações práticas dessas pessoas, na
paixão e autenticidade do seu trabalho e estilo. Estilo, visto
como a expressão do interior, não é uma questão de técnica
mas de originalidade e proximidade com a questão. Quem
não soubesse nada sobre Nietzsche ou Teilhard de Chardin
ficaria, se fosse sensível o suficiente, surpreso com o seu
estilo. Sempre que na história da arte surgiu um estilo distinto
e apreciado – Clássico, Romântico, Gótico, Renascentista,

113
etc. – podemos supor que eles coincidiam com uma atitude
interna perante a vida, uma forma ativa de vivenciar o mundo.
Naturalmente isso também se aplica a rígidos códigos morais.
As morais não simplesmente aprisionaram o animal humano
dentro de uma armadura autoimposta, mas foram também e
talvez acima de tudo um impulso histórico de autorreflexão
e aprendizado. Nesse sentido elas são sem dúvida meios de
humanização. E que via de regra os códigos morais tenham
produzido o contrário disso não é uma indicação da pobreza
da sua motivação, mas simplesmente da sua insuficiência. Não
é a nossa tentativa, de certa forma, de natureza profundamente
moral?
A história até agora foi uma batalha entre o princípio do
amor e o princípio do medo. Todas as criações culturais
originais e autênticas foram tentativas de seres humanos
de se afirmar no meio dessa batalha. Em figuras com o
mais alto nível de consciência na história das morais e da
religião, a batalha foi travada pelo princípio do amor. A
forma moderna que essa batalha assumiu – Wilhelm Reich
foi quem colocou isso de forma mais clara – não se baseia na
busca de uma solução final, mas em maneiras mais precisas
de análise e auto-observação. Os resultados de Reich podem
nos ajudar a evitar repetir os erros do passado, mas eles não
podem impedir que cometamos novos erros. Talvez, para
além da busca frustrada que só nos levará a novos erros, haja
uma nova descoberta a ser feita. Pensamentos filosóficos
de liberação não têm nenhum poder se não promovem
desenvolvimentos que possibilitem saltos internos, que
levem a novas e duradouras experiências. Nós podemos
construir um canal apropriado, mas só podemos torcer para
que ele seja preenchido. Nós queremos construir a base
mais realista possível para o “princípio da esperança”. Ernst
Bloch demonstrou de forma viva ao longo da sua extensa
obra que há na história das ideias um material incrível

114
a ser entendido, transformado, e assimilado. Essa forma
de estudar a história é para nós uma fonte inesgotável de
descoberta e autorreconhecimento, porque ela diz respeito
ao devir humano fundamental. A “estrutura psíquica” das
nossas áreas internas mais profundas – quando vista como
uma precipitação da experiência humana em si – foi o que
sedimentou a história até hoje. Autoafirmação nesse nível de
consciência é portanto também a aceitação da tradição da qual
nós viemos.

Para que tudo isso não permaneça meras palavras


A publicação desse livro serve, entre outras coisas, para
a divulgação de um projeto cultural em preparação na
Alemanha desde 1978. O projeto tem o nome provisório de
“Bauhütte – Oficina para a Investigação da Vida e uma Nova
Cultura”. Ele foi iniciado por homens e mulheres que para este
fim deixaram suas profissões e investiram suas poupanças na
sua realização. O objetivo é a construção de uma comunidade
modelo onde o conceito cultural esboçado nesse livro seja
demonstrado. Para que uma comunidade de 100 a 200 pessoas
seja funcional é preciso que haja não só um conceito para os
aspectos psicológicos e sociais da vida conjunta, mas também
conceitos práticos em energia, produção de alimentos, e
saúde. Também é necessário um conceito de arquitetura que
corresponda ao conceito social, uma solução consciente
às questões de resíduos sólidos e esgoto, um sistema de
pedagogia e educação que reflita o conteúdo da nova cultura,
e um novo sistema para pesquisa e estudo. Tanto quanto
possível estamos tentando encontrar soluções exemplares em
todas essas áreas na nossa comunidade, soluções que podem
vir a se tornar exemplos importantes para um futuro estilo
de vida e cultura ecológica. A nova cultura surge a partir de
exemplos positivos, e a existência de um modelo ecológico

115
com uma comunidade funcional e tecnologias funcionais sem
dúvida serviria como um desses exemplos.
Os colaboradores e residentes do projeto Bauhütte
desenvolveram um conceito diferenciado para as áreas de
energia, agricultura e reciclagem do lixo que busca combinar
as necessidades práticas da comunidade com a intenção de
criar um modelo. No processo surgiram questões que não
podem ser respondidas agora, nem em um futuro próximo.
Experimentos técnicos estão sendo conduzidos que devem
trazer novos esclarecimentos. Para quem encontra prazer
na pesquisa prática, há uma abundância de campos de
pesquisa abertos para pensamentos criativos e pioneiros.
Muitos desses campos foram até agora deixados de lado por
falta de indivíduos dispostos a explorá-los. Os campos em
que estamos trabalhando ativamente agora são: pesquisa em
energia, pesquisa em laboratório para o estudo de energias
e microestruturas biológicas, pesquisa em reciclagem com
uma combinação integrada de elementos (uma planta foi
construída para a produção de biogás e algas integradas na
aquicultura e criação de peixes), técnicas de purificação do
ar e da água desenvolvidas pelo físico Ronge, e estão em
processo os primeiros experimentos de construção com novas
formas e materiais. Além disso, um tipo especial de “pesquisa
terapêutica” vem sendo conduzido ao longo dos últimos
anos para facilitar a dissolução da armadura do corpo e do
caráter. Com base nessa pesquisa um pequeno centro médico
será estabelecido, para o qual precisamos urgentemente de
médicos dedicados. Essas são algumas palavras-chave para
quem estiver interessado. Os que quiserem saber mais detalhes
podem encontrar mais informações na brochura que descreve
todo o projeto. Alguns dos colaboradores de Bauhütte estão
trabalhando em uma vasta pesquisa de conceitos básicos
que nós chamamos de “investigação da vida”. Ela é dividida
entre pesquisa filosófica (que trata de conceitos como “auto-

116
organização biológica”, “informação”, “enteléquia”, etc.),
pesquisa científica (para o estudo de estruturas biológicas,
formas de movimento, princípios funcionais, princípios
biológicos de construção, energias biológicas, processos de
germinação e crescimento, princípios de sistemas biológicos,
etc.) e finalmente, um tipo de pesquisa humana, para trazer
cada vez mais à luz o significado, objetivo e possibilidades da
nossa existência.
Por isso a comunidade que planejamos não tem o objetivo
de ser nem um centro terapêutico nem uma ecovila no
habitual sentido agrícola-artesanal, mas principalmente um
centro para novos entendimentos, experiências, pesquisa em
princípios vitais, de comunidade, cultura, meio-ambiente,
e novas estruturas sociais. Nosso critério final, para tudo,
incluindo novas tecnologias e questões de autonomia
econômica, ainda são as dinâmicas humanadas, a habilidade
da comunidade de seguir amando, e a possibilidade de
desenvolvimento do indivíduo. Que exatamente para esse
fim também sejam desenvolvidos conceitos objetivos, que
ultrapassam o âmbito das concepções habituais de vilarejos,
fundamenta-se no caráter total cultural e político do projeto.
A uma vida criativa pertence a participação ativa nas questões
do nosso tempo. Com um crescente trabalho de divulgação
deve ser construída uma rede de contatos políticos, culturais e
pessoais que facilitem a realização do projeto e que, no futuro,
possam ajudar as soluções desenvolvidas na comunidade a
influenciar a sociedade em maior escala.
Não pretendemos com o nosso projeto seguir nenhum
programa pré-estabelecido, mas sim dar início a um novo
desenvolvimento a partir de uma base sólida. O projeto cresce
na medida em que crescem os contatos e relações entre as
pessoas envolvidas. Para a implementação da comunidade
nós não precisamos de profissionais ou títulos acadêmicos
(mas também não temos nada contra eles). Nós precisamos de

117
pessoas, colegas e amigos, que encontrem alegria em arriscar
investir em algo inusitado sua inteligência. Quanto mais,
melhor.

118
6 ApÊNDICE

O MANIFESTO DE TAMERA
Para uma Nova Generação no Planeta Terra
Por Dieter Duhm, Tamera, Portugal, 2011

Traduzido do alemão por António Hall e Oriza Curado.

“Temos medo. Aqui em Gaza temos medo de ser presos,


interrogados, espancados, torturados, bombardeados, mortos.
( …) Somos uma juventude com corações pesados. Carregamos
um peso tão imenso que se torna difícil apreciar o pôr-do-sol.
( …) Há uma revolução a crescer dentro de nós, uma imensa
insatisfação e frustração que nos irá destruir a não ser que
encontremos uma forma de canalizar esta energia para algo
que possa desafiar o actual “status quo” e nos dê algum tipo de
esperança.”
Citação extraída do Manifesto para a Mudança pela Juventude
de Gaza, Dezembro de 2010

Este é o apelo da juventude de Gaza. É o apelo de uma


geração sem esperança. Um apelo de muitos países da Terra.
Representantes do Centro de Pesquisa para a Paz em Tamera,
Portugal, realizaram diversas peregrinações em Israel/
Palestina e na Colômbia. Esperamos que o seguinte texto
possa ser um contributo para ultrapassar a miséria e en-
contrar um meio novo para canalizar as energias suprimidas.

Saudamos a juventude do mundo. Saudamos todos os


activistas da paz bem como todos aqueles que nas regiões
de crise da Terra dão o seu apoio. Saudamos aqueles que,
frequentemente, correndo perigo de vida lutam pelos direitos
humanos, pela protecção das crianças e dos povos indígenas,

119
pela protecção dos animais, pela protecção dos oceanos, das
árvores e de todas as co-criaturas da grande família da vida.
Saudamos também todos os governos que ainda têm a co-
ragem de se erguer contra a globalização mundial e os seus
métodos.
Este manifesto é para uma geração jovem que já não en-
contra nenhum futuro na actual sociedade, para aqueles que
agora estão activos numa luta de libertação, para os familiares
das vítimas, para um numero intolerável de pessoas que
face à miséria diária já não encontram nenhuma saída nem
perspetivas.
O mundo encontra-se em transição para uma nova forma
de vida na Terra. As antigas ditaduras e hierarquias já não
são viáveis por muito mais tempo. Vivenciamos o colapso dos
grandes sistemas. A revolução nos países árabes, as revoltas
juvenis nas metrópoles ocidentais, a crise financeira mundial
e o desemprego maciço, o aumento das guerras e catástrofes
naturais provocadas pelo ser humano, a displicência moral da
maioria dos governos, os planos internacionais para estados
de emergência, e os bunkers subterrâneos dos ricos são sinais
seguros do fim que se aproxima de uma época de violência.
Por detrás da violência global revelam-se as energias de uma
era em profunda mudança. Aqueles que hoje se erguem contra
o despotismo poderão amanhã ser testemunhas de um mundo
completamente mudado. Saudamos as pessoas que hoje
preparam a nova era em todos os continentes, muitas vezes,
correndo risco de vida. Saudamos a comunidade planetária
actualmente emergente.

Mudança de Sistema a Nível Global


Hoje em dia, por detrás do corrente massacre global estão
falsos sistemas de economia, falsas concepções de amor e
religião, falsos sistemas de pensamento e um abuso infinito

120
dos recursos naturais. Através desta orientação desvirtuada da
evolução surgiu uma matriz global de medo e violência que se
introduziu profunda e colectivamente na alma humana.
A nova comunidade planetária desenvolve uma mudança
fundamental de sistema, da matriz do medo para a matriz
da confiança. Esta mudança actua em todos os domínios
desde os temas das relações pessoais até aos temas políticos
e ecológicos da cura total do planeta. A maior parte das
catástrofes naturais são consequência de intervenções hu-
manas erradas nos ciclos da natureza.
A mudança de sistema é uma mudança de poder. O novo
poder não consiste no domínio sobre os outros, mas na
reunificação com as leis sagradas da vida. Em toda a parte
e, mesmo onde agora alastra a destruição, começam a surgir
as primeiras células de um novo mundo. Por mais terrível
que seja o apocalipse mundial não significa apenas declínio,
mas também revelação. O esquecido carácter sagrado de
toda a vida ergue-se agora a partir dos escombros do tempo
ancestral e dá à luz uma nova época. As novas comunidades
estão ao serviço da vida, trabalham na «vinha de Deus» e estão
em cooperação com as potências mais elevadas que, desde
sempre, formaram o nosso universo.
A mudança de sistema decorrerá de um modo sur-
preendentemente rápido. Dentro de poucas décadas os nos-
sos filhos e netos já só conhecerão os milénios de épocas de
guerra através dos livros de História.
A Terra pode ser curada. Existe um mundo que cura as
nossas feridas. Esse é o mundo da vida não distorcida. E
existe um mundo que causa as feridas: é o mundo dos seres
humanos. Estes mundos têm de convergir para evitar o
sofrimento futuro. O mundo dos seres humanos tem de ser
novamente reintegrado nas estruturas fundamentais da vida
universal. Em primeiro lugar devem ser curados os quatro
fundamentos da vida: a energia, a água, a nutrição e o amor.

121
Estas quatro fontes de vida têm de ser libertadas das potências
obscuras que as destruíram (empresas de produção de energia,
ditaduras, igrejas, etc.). Esta luta não é privada nem local, mas
sim uma luta global. É uma luta entre as forças globais da vida
e as forças globais da destruição. Se a força da vida vencer, não
existirão vencidos.

Uma Nova Comunidade Planetária


Existe hoje, para além dos tumultos em todo o mundo,
um movimento global para a salvar a vida na Terra. Este
movimento é formado por grupos provenientes de tradi-
ções pacifistas indígenas, budistas ou cristãs, sobretudo,
na América Latina e no Tibete. E também por comovidos
activistas pela paz, ambientalistas e lutadores pela vida que,
desde há muito, sabem que dentro dos actuais sistemas já não
existe um futuro digno de ser vivido.
Vemos uma nova geração de peregrinos provenientes de to-
dos os países a percorrer o mundo. Já não estão submetidos
nem a uma nação, idioma, raça, cultura ou religião, nem
também à riqueza ou posse. Ajudam em zonas de crise,
visitam locais sagrados, encontram-se junto a fogueiras e
pousadas, partilham o seu pão e desenvolvem uma nova
qualidade de comunidade.

Surge assim uma nova cidadania global, para além de todas


as instituições. Uma nova forma de «globalização» positiva.
Este processo é apoiado através da criação de um novo tipo
de centros que, lentamente, se vão difundindo sobre a Terra.
Chamamos-lhes «Biótopos de Cura» ou «Aldeias de Paz».
São para os peregrinos locais de acolhimento, centros
de estudo e locais de trabalho. É realizado aí um trabalho
prático de investigação para os fundamentos tecnológicos,
ecológicos, sociais, espirituais e intelectuais de uma sociedade

122
mundial sem violência. Estes centros seguem e partilham uma
espécie de ‘regras’ planetárias, ou seja, uma ética de vida com
princípios comuns e uma Carta dos Direitos Humanos e dos
Direitos dos Animais.
São válidos os seguintes oito pensamentos de paz em todos
estes centros localizados em vários pontos da Terra:

1. Direitos Humanos e Direitos dos Animais


Reconhecem os Direitos Humanos fundamentais indepen-
dentemente da origem religiosa ou étnica. Nas suas imedia-
ções não toleram nem ódio, nem violência, nem humilhação.
Os direitos fundamentais dos animais são seguidos: o direito
de todos os animais a um habitat, alimentação, liberdade
de movimento, curiosidade e contacto. No novo mundo não
existirão mais animais mutilados, cães com caudas cortadas,
experiências com animais para a indústria farmacêutica. Não
haverá mais exploração da pele animal, nem matadouros. Na
grande família da vida, os animais são naturalmente parceiros
de cooperação e amigos do homem. Os animais precisam da
nossa ajuda e não da nossa perseguição.

2. Três Princípios Éticos


Seguem os princípios éticos fundamentais de comunidade,
principalmente, os três princípios: verdade, apoio mútuo e
participação responsável no Todo. Em comunidades que se
baseiam na verdade e no apoio mútuo desenvolve-se uma
força que é mais poderosa que qualquer violência. É a força
da confiança: confiança entre homem e mulher, confiança
entre adultos e crianças, confiança entre os seres humanos e
os animais. Assim, é restabelecida a confiança primordial
num mundo no qual já não existe mais medo. A confiança é
o fundamento a partir do qual se cura a vida. Não existe uma

123
visão mais profunda do que a visão de um mundo em que a
confiança reina entre todos os seres.

3. Sexualidade, Amor, Parceria


Seguem também o princípio da verdade e apoio mútuo nos
domínios da sexualidade, do amor e da parceria. Não pode
haver paz no mundo enquanto houver guerra no amor.
O novo mundo ultrapassou todas as formas da luta entre
os sexos. Não existe nem chauvinismo, nem feminismo.
Homem e mulher estão em pé de igualdade e trabalham com
o mesmo objectivo: a reunificação da vida. As questões da
monogamia ou poligamia, do amor a dois ou do amor livre
não são questões ideológicas ou religiosas, mas questões do
desenvolvimento pessoal e decisão de todos os envolvidos.
O amor é um processo natural e não um tema jurídico. Não
existe nem uma exigência jurídica de amor, nem um direito
de propriedade sobre um parceiro amoroso, mas existe uma
grande confiança e a profunda solidariedade entre a parte
feminina e a parte masculina da humanidade. A sexualidade
está liberta de todas as formas da opressão religiosa, da
mentira, da humilhação e da violência. A sexualidade serve
exclusivamente para o amor mútuo, a saúde e a alegria de
viver, para além da reprodução. Num mundo humano, a
sexualidade nunca pode ocorrer contra a vontade de um dos
parceiros.

4. Sem Barreiras Religiosas


Na comunidade planetária não existem barreiras religiosas.
Acima de todas as religiões reina o mesmo Deus, o mesmo
céu e a mesma ordem cósmica da matriz sagrada. A instância
sagrada que servimos não é uma instituição eclesiástica, mas
sim a própria vida porque a amamos. O divino já não se revela

124
nas antigas bíblias, mas sim nas formas de movimento do
fluxo de um ribeiro ou na estrutura que forma uma folha de
relva e, sobretudo, no amor e no conjunto do jogo misterioso
das energias a partir do qual provém toda a vida. O Criador
não é um Deus paternalista castigador, mas sim o Ponto-Eu do
mundo no qual se encontram todas as vibrações. Este Ponto-
-Eu existe em todos os seres. Quando nos reencontramos
neste sentido, já não pode haver mais violência religiosa.

5. Grace (Graça): Vingança não. Reconciliação.


À crescente comunidade planetária deu-se um nome. Os
seus cartazes dizem: “Grace – Movimento por uma Terra
Livre”. Desse modo, declaram que as feridas e a dor sofridas
já não devem ser respondidas com ódio nem violência. A
dor produziu uma nova determinação, o ódio transformou-
-se numa decisão absoluta pela vida, pela paz e pela cura. Já
não existe neutralidade porque tomámos o partido da vida.
Esta não é uma tomada de partido ideológica ou política. As
lágrimas que uma mãe israelita derrama sobre o seu filho
assassinado são as mesmas lágrimas de uma mãe palestina.
Para muitos, a dor é grande demais para chorar. Acusações e
condenações já não fazem sentido, pois, apenas perpetuam
a espiral da violência. Os jovens manifestantes no Cairo
ou Tripoli são da mesma idade que os polícias e soldados
que disparam sobre eles. Podiam ter sido amigos. Também
os trabalhadores para a paz em San José de Apartadó na
Colômbia, e os assassinos paramilitares podiam ser amigos,
se conseguissem libertar-se das garras de um sistema
abominável. Não à vingança! Foi este o apelo de uma jovem
israelita (Michal), após ter ficado com o rosto desfigurado
num atentado suicida de um jovem palestino e disse que talvez
tivesse feito o mesmo, se estivesse na pele dele. A força interior
para esta atitude baseia-se na compreensão mais profunda de

125
que todos nós humanos vimos da mesma fonte, passámos por
um sofrimento semelhante e aspiramos a um mesmo objectivo
de paz e de cura.

6. Vida sem Medo


Já não existem inimigos reais, logo, já não existe medo de
um qualquer inimigo. O filósofo indiano Sri Aurobindo
lutou como revolucionário pela independência da Índia da
colonização Inglesa. Na prisão, enquanto aguardava a sentença
de morte teve a aparição de Vasudeva (Deus) sob a forma dos
guardas, dos advogados de acusação e dos juízes. Ele já não
tinha medo e foi libertado.
Este é um nível muito elevado no desenvolvimento da
consciência. Quando o ser humano alcança o ponto interior
em que já não reage com medo ou ódio, o seu organismo
modifica-se, torna-se cada vez mais invulnerável e imune a
qualquer ataque.
Existem exemplos espantosos deste milagre. Os Jansenistas
em Paris (séc. XVIII) não puderam ser mortos pois já não
tinham medo. Nos tempos da Peste Negra os auxiliares que
não tinham medo de contágio eram imunes à doença. Existem
relatos de pessoas nos campos de concentração que foram
poupadas pelos carrascos porque não tinham medo do seu
poder e crueldade.

Encontramos aqui uma chave fulcral para o actual trabalho


para paz. Aqueles que não projectam o mal, não podem
ser atingidos pelo mal. O mal recebe o seu poder não de si
próprio, mas das projecções sobre si mesmo. Um regime cruel
sobre o qual já ninguém projecta, não consegue manter-se no
poder.
Num sentido mais profundo, depende de nós mesmos se
ganhamos ou perdemos esta luta. Vamos ganhá-la se já não

126
reagirmos com os antigos padrões. Para isso é preciso um
nível elevado de formação e uma elevada visão do objectivo
comum. A vitória não é uma questão de emoção colectiva,
mas sim de uma sabedoria colectiva. Um novo movimento
planetário toma partido pela vida quando com todo o seu
coração e, incondicionalmente, está do lado mais elevado da
justiça e é assim protegido pelas forças superiores.

7. Cura da Água
A água não é apenas uma substância química H2O, mas um
organismo vivo.
O novo mundo conhece o segredo da água, talvez como foi
descrito mais profundamente por Viktor Schauberger. Todas
as informações vitais do cosmos e da Terra estão inscritas
na água e são assim transmitidas a todos os seres. Na água
saudável e rica em energia reside uma chave para a cura total
da Terra.
A saúde do manto de água e da água potável é a base para
uma economia de subsistência sã, para a cura da natureza e do
homem e para uma saudável ligação das novas comunidades
com as forças centrais da vida.
Assim que sejam eliminados os factores de perturbação e
as formas naturais de movimento sejam restabelecidas a cura
da água realiza-se relativamente depressa graças às elevadas
energias de auto-purificação da água.
Em diversos locais da Terra a nova comunidade planetária
começou a desenvolver novos sistemas para a cura da água.
Nos lugares mais inóspitos da Terra pode ser criada água.
Em quase toda a parte da Terra podem surgir comunidades
autárquicas através da utilização inteligente das possibilidades
inerentes à água. Água, energia e nutrição estão ao dispor de
toda a humanidade!

127
8. A Aliança Sagrada de Todos os Seres
A nova comunidade de paz planetária é acompanhada por
uma multidão de co-criaturas visíveis e invisíveis que, no seu
conjunto, formam a biosfera. Todos os seres vivos da biosfera
estão em ressonância entre si. Em conjunto formam um
sistema de informação unificado (a Noosfera). Este sistema
de informação foi fortemente desequilibrado através das
violentas intervenções do ser humano. As baleias perdem a
sua orientação, as abelhas extinguem-se e, recentemente, caem
do céu muitos pássaros mortos.
Para voltar a curar a biosfera tem de ser introduzida a
respectiva informação de cura. A informação que se baseia
na confiança é alegremente aceite por todas co-criaturas que
colaboram com entusiasmo.

Conhecemos as imagens comoventes do bebé que brinca


com a serpente gigante, dos leões que com amor abraçam
os seus tratadores e muitos mais exemplos. Em Tamera
surgiu uma coexistência semelhante com cobras, ratazanas
e javalis. Assim que o ser humano abandona os seus medos
ocultos relativamente ao mundo animal, os animais mudam
totalmente o seu comportamento para com os seres humanos.
Entre ser humano e animal começa uma cooperação apenas
conhecida nos contos de fadas.
A partir do momento em que as primeiras comunidades
desenvolvam uma informação central de paz global, todo
o mundo animal estará do seu lado. Baleias e golfinhos,
aves, ratazanas, rãs, formigas, etc. são parte de um sistema
de informação invisível que difunde as suas frequências
sobre toda a Terra. Por isso, as comunidades de paz da nova
era irão fazer tudo para reatar a amizade perdida com todas
as criaturas. O que implica a renúncia total da violência,
da traição e do abuso. Os animais jamais serão criados
para a produção. Desaparecerão das nossas casas géneros

128
alimentícios, artigos de cosmética, medicamentos, roupas ou
malas para as quais os animais tiveram de morrer ou de sofrer.
Quão mais conscientemente isto suceder, mais poderosa será a
energia curativa que a partir destes centros orienta o processo
global.

Sucesso Global
Como se consegue difundir e estabelecer mundialmente o
novo sistema para uma paz global? O que é que nos dá o
optimismo para acreditar tão firmemente num fim próximo
do massacre global? É a compreensão do efeito poderoso de
novos pensamentos que esteja em ressonância com as forças
de cura do mundo.
Podemos comparar o sistema de informação da Terra a
uma Internet biológica na qual todas as informações são
transmitidas a todos os participantes.
O sistema está permeado por espessas informações de medo
e de violência. Mas por detrás desta teia traumática está um
padrão completamente diferente, o padrão da cura a que
chamamos “Matriz Sagrada”.

Se alguns, mesmo que poucos grupos na Terra, conseguirem


fazer o “download” deste padrão sagrado, a informação de
confiança e de cura poderá assim ser reintroduzida na rede
global, rompendo a cadeia global da violência. A informação
de cura liga-se com as energias vitais da matriz sagrada
e penetra poderosamente no corpo da Terra, causando
imediatamente modificações genéticas e produzindo um
campo global a partir do qual em muitos outros lugares da
Terra se desenvolverão grupos semelhantes. Assim, será ini-
ciado um processo planetário que já não pode ser detido
porque está em coerência com as energias da entelequia da
vida. Analogamente, se considerarmos a Terra como um

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organismo unificado, então, a informação de cura introduzida
funciona tal como o medicamento introduzido no organismo
humano. Uma única dose de medicamento provoca um
processo de cura em todos os órgãos e em todas as células!
Traduzido para o nosso tema: uma única dose de informação
(complexa) de cura provoca um processo de cura em todo o
organismo da Terra. Os seres humanos já não serão capazes
psíquica e fisicamente de torturar ou matar as suas co-
criaturas.
Uma contribuição fundamental para a transição de
épocas vem do poder da visão. Com efeito, vivemos hoje o
nascimento de uma visão poderosa: a visão de uma nova
Terra! A visão de um planeta livre de violência! A visão da
nova comunidade planetária! A visão da solidariedade com
todas as co-criaturas! A visão da aliança sagrada! Não há nada
mais poderoso do que uma visão cujo tempo chegou.

Se os revolucionários do nosso tempo conseguirem desen-


volver uma sólida visão de paz que prevalece sob todas as
resistências, então, terão um ilimitado poder de manifestação.
O poder dos pensamentos e das visões provêm da existência
da ‘substância invisível’. Através de pensamentos e visões são
construídos campos de energia e de informação invisíveis
que não são limitados por quaisquer fronteiras espaciais. São
campos de energias e de informação invisíveis a partir dos
quais o mundo visível emerge! Tal como uma árvore nasce da
substância invisível das suas informações genéticas.
Toda a humanidade está actualmente num novo processo
de voltar a ser. Neste contexto, talvez seja ainda interessante
referir a famosa data Maia de 21 de Dezembro de 2012.
Não consideramos o significado mitológico desta data, mas
sim o significado científico. Nesta data, coincidem diversos
acontecimentos astronómicos tal como um pico da actividade
solar que modificará o campo magnético da Terra. Esta

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modificação provoca mudanças moleculares na estrutura
genética e neural do ser humano, isto é, na sua consciência
e no seu carácter. Este processo precisa apenas de impulsos
relativamente pequenos e coerentes com a matriz sagrada
para gerar um movimento de paz genético de dimensões
planetárias.
No Centro de Pesquisa para a Paz, Tamera em Portugal
foram efectuados transes sobre o futuro em que surgiu uma
imagem radiante: a data Maia não é o fim da humanidade,
mas um ponto culminante da transformação mundial e o
início de uma nova era.

Tamera e o Campus Global


Ao longo dos últimos anos, o Centro de Pesquisa para a Paz
tem vindo a desenvolver uma comunidade de investigação
(presentemente com 170 habitantes) para um futuro sem
guerra. Surgiram aqui os pensamentos deste manifesto e aqui
estão a ser concretizados. Para a disseminação global destes
pensamentos foi fundada uma universidade internacional,
o Campus Global, com filiais em diversos continentes. Os
pensamentos fundamentais do projecto acima mencionados
estão ligados a desenvolvimentos concretos nos domínios
da energia, água e nutrição. Surge um novo modelo para o
provimento das necessidades básicas do ser humano sem
danos para a natureza e co-criaturas. Energia, água e nutrição
estão à disposição de toda a humanidade quando gerimos
de um modo sensato os recursos naturais da nossa Terra.
Ninguém na Terra terá de sofrer privações, fome ou frio,
quando a tirania estiver terminada.
Que a morte de tantos trabalhadores para a paz não tenha
sido em vão! Os apelos de Gaza e o da Terra por ajuda já não
se irão desvanecer sem serem atendidos. A catástrofe do Japão
despertou milhões de pessoas.

131
Vamos unir-nos em todo o mundo para a edificação de um
futuro digno de ser vivido!

Em nome da vida.
Em nome de todas as crianças.
Em nome de todas as criaturas.

132
30 anos depois
por Monika Berghoff,
Editora Verlag Meiga, Dezembro 2011

A característica mais importante de um conceito cultural vivo


é a imaturidade produtiva, sua abertura para mudanças,
autocorreção e desenvolvimento.

O projeto Bauhütte, descrito no último capítulo, levou na


época a um experimento social de três anos que levou ao
desenvolvimento de alguns princípios importantes para o
estabelecimento de comunidades funcionais. O experimento
se mostrou um sucesso. No seu entusiasmo, oito mulheres
escreveram o livro “Rettet den Sex” (Salvar o Sexo) e o
editaram na Alemanha com grande coragem e criatividade.
A reação, no entanto, foi uma campanha de difamação contra
o projeto e seus fundadores – primeiro por parte da mídia
e da Igreja, depois cada vez mais por grupos de esquerda,
autonomistas e feministas, e finalmente por representantes
políticos. O projeto acabou sucumbindo. Todos os esforços
de retificação falharam. Até hoje correm na internet notícias
falsas e deturpadas, em diversas publicações e nas gavetas e
dossiês do Estado e da Igreja.

O projeto Bauhütte teve que ser dissolvido. Dieter Duhm, sua


parceira Sabine Lichtenfels, e outros, deixaram a Alemanha
para desenvolver juntos, longe da publicidade, uma ideia de
como seguir adiante.
Em 1991 Duhm publicou o livro “Der unerlöste Eros”, um
ano depois publicou “Politische Texte für eine gewaltfreie
Erde”. Sabine Lichtenfels deu início aos “campos espirituais no
deserto”. Em um desses campos, na ilha La Graciosa (antes de
Lanzarote), tornou-se claro que a fundação de um novo centro
fora da Alemanha era eminente.

133
Em 1995 eles encontraram o lugar que procuravam, em
Portugal. Junto a Charly Rainer Ehrenpreis eles fundaram
o biótopo de cura Tamera. Em 134 ha de terra árida sem
nenhuma infraestrutura e só algumas casas, eles começaram
a reconstrução do projeto – com a mesma vontade firme e o
mesmo objetivo de dar início ao seu plano de cura global.
Portugal e os seus habitantes receberam bem os recém-
chegados e deram todo o apoio ao seu trabalho. Hoje
trabalham e moram em Tamera cerca de 170 pessoas, entre
crianças, jovens, estudantes e profissionais, vindas do mundo
todo. A geração dos fundadores já passaram a maior parte
das tarefas de direção à próxima geração. Todo ano são
hospedados milhares de visitantes.
Diversas instalações e subdivisões surgiram desde a
fundação: A aldeia solar (Solar Village) para investigação
e utilização de fontes de energia renováveis, sobretudo um
novo tipo de energia solar sem placas fotovoltaicas, mas
também equipamentos de biogás, motores Sterling de baixa
temperatura, etc; o Departamento de Ecologia que desenvolve
a ideia de cura da água e da terra através da implementação
de paisagens de retenção de água, permacultura, jardins
de paz e santuários de animais; a República das Crianças e
Lugar da Juventude, para que crianças cresçam sem medo e
aprendam com liberdade; a Escola do Amor para transmissão
de conhecimentos profundos nas áreas humanas e uma nova
solidariedade entre mulheres; o Ashram Político para o
desenvolvimento de uma prática de vida espiritual em serviço
da cura global; o Instituto para o Trabalho de Paz Global para
a formação de uma rede política global, com uma agência de
mídia e comunicação para a divulgação de novas ideias, e o
Campus Global como iniciativa internacional de educação
com centros em diversos países; o Centro de Hóspedes e
Educação para todos os que querem saber mais sobre essa
abordagem cultural; em desenvolvimento está o Akron, que

134
servirá como uma escola de pensamento e um centro de arte e
de cura; entre outros departamentos.
A importância desse trabalho recebe cada vez mais
atenção e reconhecimento internacional. Convidamos novas
forças a se juntar a nós e colaborar ativamente em futuros
desenvolvimentos.

Em nome de um futuro que valha a pena ser vivido.

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mais informaçÃO
Instituto pela Paz Global (IGP) • Tamera
Monte do Cerro • 7630-303 Colos • Portugal
igp@tamera.org • www.tamera.org

Bibliografia
em Inglês:
Georges Bataille: The Tears of Eros
Ernest Callenbach: Ecotopia
Friedrich Nietzsche: On the Genealogy of Morality
Wilhelm Reich: Character Analysis
Wilhelm Reich: The Function of the Orgasm
Teilhard de Chardin: Man and Cosmos

em Alemão:
Dieter Duhm: Der Mensch ist anders
Dieter Duhm: Synthese der Wissenschaft
Hugo Kükelhaus: Unmenschliche Architektur
Hugo Kükelhaus: Fassen, Fühlen, Bilden

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Verlag Meiga: livros e textos em Português
Sabine Lichtenfels: Pedras de Sonho. Viagem à Era da Realização
Sensual
Dieter Duhm: A Sociedade de Guerra e a sua Transformação.
Dieter Duhm: Declaração I do Projecto. Estruturas ecológicas e
humanas para a cura da vida no Planeta Terra.
Bernd Walter Mueller: O Segredo da Água – A Base para um
novo Mundo. Restabelecer o Ciclo Hidrológico através da Criação
de Paisagem de Retenção de Água.

Verlag Meiga: Livros em InglÊs


Leila Dregger: Tamera – A Model for the Future
Dieter Duhm: The Sacred Matrix. From the Matrix of Violence to
the Matrix of Life. The Foundation for a New Civilisation
Dieter Duhm: Future without War. Theory of Global Healing
Dieter Duhm: Eros Unredeemed. The World Power of Sexuality
Madjana Geusen (Ed.): Man´s Holy Grail is Woman. Paintings,
drawings and texts by Dieter Duhm
Sabine Lichtenfels: Temple of Love. A Journey into the Age of
Sensual Fullfillment
Sabine Lichtenfels: GRACE – Pilgrimage for a Future without War
Sabine Lichtenfels: Sources of Love and Peace. Morning Prayers

Verlag Meiga GbR • Waldsiedlung 15 • 14806 Belzig • Alemanha


www.verlag-meiga.org

137
A loucura política e civilizacional da nossa época
chegou ao fim. Um processo de destruição interior,
imanente do sistema e humano roubou às modernas
sociedades coração, sentido e razão. Armadas até aos
dentes, guiadas por hierarquias do poder e do dinheiro
erradamente programadas, empreenderam um ataque à
vida desta terra que só pode ser interrompido através de
meios não convencionais.