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RESENHA

CRÍTICA
TRINDADE E ECLESIOLOGIA DE FERREIRA E MYATT


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Trabalho
Apresentado ao
Dr. Scott Horrell
Dallas Theological Seminary



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Em Cumprimento Parcial
Aos Requisitos do Curso
DM705 Selected Topics of Theological Issues in Today’s Ministry


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Por
Marcelo Dias
Dezembro 2017
RESENHA CRÍTICA DE FERREIRA E MYATT SOBRE TRINDADE E ECLESIOLOGIA

“Teologia Sistemática: Uma análise histórica, bíblica e apologética para o contexto atual”.
Franklin Ferreira e Alan Myatt, 1a edição, São Paulo: Edições Vida Nova, 2007. XXIX + 1220pp. (cap.
5) e (cap. 21).
Franklin Ferreira recebeu sua graduação em teologia pela “Escola Superior de Teologia da
Universidade Presbiteriana Mackenzie” e obteve seu mestrado no “Seminário Teológico Batista do
Sul do Brasil”. Leciona de teologia sistemática e história da igreja no Seminário Martin Bucer, onde
também é diretor. Tem livros publicados pelas Editoras Fiel e Vida Nova, na qual é consultor
acadêmico.
Alan Myatt é Bacharel em Artes pela Vanderbilt University, Mestre em Divindade pelo
Denver Seminary e PhD em Estudos Teológicos e Religiosos pela Universidade de Denver/Iliff
School of Theology em Denver. Leciona teologia sistemática, apologética e missões no Gordon-
Conwell Theological Seminary e na FTBParaná.
O propósito da obra, nas palavras dos próprios autores, é servir “para orientar e ensinar o
povo no contexto dos desafios e questões importantes para a cultura brasileira”.
Ferreira e Myatt, por se tratar da natureza de Deus, iniciam o estudo sobre Trindade
afirmando que, apesar de 90% dos brasileiros dizerem que acreditam em Deus, necessariamente
não entendem Sua natureza. Assim, Ferreira e Myatt passam a lidar com conceitos de certas
religiões sobre a natureza de Deus antes de discorrerem acerca da Trindade.
O monoteísmo não-trinitário é abordado e, logo em seguida, inicia-se uma seção
interessante sobre o que pais pré-nicenos escreveram acerca do monoteísmo, a trindade e suas
três Pessoas separadamente. Seu objetivo é demonstrar que desde cedo a doutrina Trinitariana já
se desenvolvia e, então, lidar com seu desenvolvimento pós-concílios (Niceia 325 e Constantinopla
381). Ferreira e Myatt abordam teólogos do século IV, que afirmavam o Pai como fonte e princípio
de toda divindade, inclusive Agostinho. Seus pensamentos sobre a Trindade deixavam claro ser
uma natureza subsistindo em três Pessoas, que simultaneamente eram distintas e co-essenciais.
Ferreira e Myatt avançam até João de Damasco com a perichoresis (comunhão inseparável,
recíproca e contínua entre as três Pessoas), passam por Ricardo de São Vítor cuja ênfase no
relacionamento intratrinitário o levou a afirmar que o amor humano tem seu fundamento na
Trindade, e então Calvino, cuja ênfase soteriológica da Trindade dizia: Só Deus poderia remir os
perdidos. Ferreira e Myatt terminam essa seção com Barth, cujo estudo da Trindade era “ponto de
partida para a teologia”.
Na seção bíblica, Ferreira e Myatt abordam a unidade de Deus no AT como um aspecto que
não exclui a pluralidade, tratam do proto-evangelho e de Isaias 9 como referências messiânicas, e
sugerem as expressões “Espírito de Deus” e “Espírito do Senhor” como indicações da terceira
Pessoa. No NT usam afirmações de Jesus sobre o monoteísmo, além de demonstrarem que
nomes, atributos, obras e dignidade de louvor são atribuídos às três Pessoas, sugerindo
fortemente a Trindade. Demonstram também o intercâmbio de passagens do AT atribuídas ao Pai
com Jesus e o Espírito Santo no NT, e discutem Jo 1.1.
Em seguida, Ferreira e Myatt sistematizam o estudo usando o ponto de partida de
Agostinho, a unidade de Deus na Trindade. Abordam unidade e diversidade antes de lidarem
apologeticamente com a questão, assunto que faz Ferreira e Myatt retornarem ao animismo,
panteísmo, espiritismo, naturalismo filosófico e monoteísmo não-trinitário. Terminam com
aplicações do tema que desafiam o leitor a amar, agradecer, depender da graça, devotar-se
exclusivamente e cumprir seu papel tanto na igreja quanto no mundo.
No capítulo 21 Ferreira e Myatt iniciam com uma visão histórica sobre a igreja. A abordagem
sobre seitas guia o leitor numa comparação entre igreja de Cristo e outras religiões de modo que
se possa distinguir a igreja cristã da não cristã. Para isso, abordam nove características de uma
seita: 1) autoritarismo; 2) oposicionismo; 3) exclusivismo; 4) legalismo; 5) subjetivismo; 6)
complexo de perseguição; 7) disciplina reprovadora; 8) esoterismo; 9) anticlericarismo. (Nem
todas estão sempre presentes)
O panorama histórico sobre governo da igreja é seguido por uma exposição das três
principais formas de governa (episcopal: geralmente uma pessoa lidera unilateralmente;
presbiteral: um grupo de líderes governam; e congregacional: a igreja local tem total autonomia
nas decisões). Explicam as diferentes posições sobre batismo. Como sacramento que tem poder
regenerador; ou como identificação/sinal que apresenta duas vertentes. A primeira demonstra a
realidade da regeneração e segunda demonstra tanto a realidade da regeneração quanto inclui a
pessoa, no caso infante, na família do pacto, mas ambas vertentes não entendem haver poder
regenerador no batismo. É demonstrado que o batismo infantil foi praticado nos primeiros séculos
da história da igreja, mas ele não era a norma, e sim a exceção (pg. 936). A ceia do Senhor
também é alvo de exposição demonstrando as quatro principais posições: 1) transubstanciação, 2)
consubstanciação; 3) presença; ou 4) memorial.
A seção bíblica começa com uma exposição de igreja na perspectiva de maior continuidade
do AT no NT, embora Ferreira e Myatt demonstrem alguns pontos de descontinuidade. Em
seguida lidam com textos sobre o batismo; a ceia; dons espirituais; disciplina; ofertas,
contribuições e doações; e termina com a relação entre a igreja e o estado, desafiando a um
equilíbrio entre apatia/subserviência e completa insubmissão.
Na seção que se segue, os autores tratam de importantes conclusões sobre esses assuntos
demonstrando como as responsabilidades da igreja devem ser direcionadas por eles.
A penúltima seção faz, mesmo que brevemente, uma apologia lidando com os erros e
acertos de cada área da eclesiologia abordada, tudo na perspectiva dos autores.
Ferreira e Myatt terminam fazendo aplicações práticas para as igrejas locais, além de
inserirem um apêndice contendo um exemplo de pacto da igreja.
O estilo tanto dos capítulos estudados quanto da obra como um todo é bem interessante.
Ferreira e Myatt se propõem a lidar não somente com a teologia em si, mas também com
realidades da cultura brasileira, tais como catolicismo, espiritismo Kardecista e Candomblé,
Islamismo e Testemunhas de Jeová.
No capítulo sobre a Trindade, apreciei a abordagem histórica feita antes de lidar
biblicamente com o assunto. Suas citações dos pais da igreja enriquecem o livro e dão ao leitor
boa noção de como a doutrina se desenvolveu, e lhe permite observar erros do passado (Um
desses erros é incluir a conjunção “e” entre as expressões “imagem” e “semelhança” quando o
texto nunca faz isso. Entendo serem sinônimos intercambiáveis), sejam eles pequenos ou grandes.
Particularmente gostaria de ver a seção bíblica mais extensa e, como consequência, com mais
exegese, embora tenha consciência de se tratar de uma Teologia Sistemática. Uma vez que
Ferreira e Myatt se propuseram a tratar mais detalhadamente João 1.1, poderiam ter dado mais
atenção exegética ao texto, o que os pouparia de dizer o que é correto com argumentos menos
contestáveis. (Ex.: 1. O uso do imperfeito ἦν para afirmar a eternidade do λόγος, mas o imperfeito
por si só não pode ser usado para afirmar isso; 2. Indicar que numa construção predicativa, como
é o caso de Jo 1.1, o predicativo do sujeito não precisa ser articulado para ser definido, pois seu
papel é qualificar, identificar, etc. o sujeito.). Ainda na seção bíblica Ferreira e Myatt poderiam ter
explicado textos, como Mt 24.36, onde parece afirmar que Jesus não tinha posse de todo
conhecimento, muito usados para combater a Trindade.
No estudo sistemático Ferreira e Myatt usam as palavras “desejo” e “desejar” para indicar
que o Pai e o Filho sempre estão em consonância no que diz respeito à Sua vontade. Seria melhor,
em meu entendimento, que fizessem a distinção entre “θέλημα, θέλω” e “βούλημα, βουλή,
βούλομαι”, pois tal distinção ajudaria a lidar com a oração de Jesus no Getsemani (Mt 26.39; Lc
22.42. No livro Ferreira e Myatt afirmam que Jesus tinha duas vontades, o que discordo (527).
Finalizo essa seção elogiando o autor por suas excelentes aplicações sobre o assunto da
Trindade, o que, com certeza, desafia todo leitor à reflexão pessoal e à prática de vida.
A visão histórica sobre eclesiologia, embora resumida, é suficiente para ajudar o leitor a
entender o procedimento, a mudança e o desenvolvimento de tais assuntos por parte da igreja. E,
ao demonstrarem como a igreja antiga se uniu ao estado, os autores proporcionam maior clareza.
Destaco aqui o delineamento dos autores sobre governo da igreja, o que ajudou a entender
como ela chegou ao que é hoje. Discordo dos autores sobre como se dá a escolha de presbíteros,
pois não há precedente bíblico para a igreja escolhe-los. Atos 14.23 não deve ser usado para voto
na igreja, pois, embora a etimologia da palavra χειροτονέω signifique “levantar a mão para dar
voto”, o sujeito do verbo aqui são Paulo e Barnabé (cf. vs. 19-20). Além disso, uma pesquisa da
palavra no NT demonstrará que, nas outras duas ocorrências da palavra, seu sujeito é quem faz a
escolha (Em Atos 10.41 o verbo está na voz passiva e Deus é o agente da passiva. Sendo assim
aquele que escolhe. Dificilmente alguém entenderia que Deus levantou a mão para dar seu voto
sobre quem seriam suas testemunhas. Em 2Co 8.19 o verbo também está não voz passiva e o
agente da voz passiva são algumas igrejas que escolheram um representante para lidar com a
oferta.). Apreciei, no entanto, sua defesa, apesar de sutil, sobre as igrejas do NT serem
governadas por um grupo de homens que têm a mesma autoridade.
A explicação sobre similaridades/continuidade do AT no NT, em minha visão, é carregada
com o pressuposto da teologia do pacto. Nada, porém, do que foi afirmado pode excluir uma visão
mais descontinuada entre Israel e Igreja. Pelo contrário, ao afirmar que “ambos são membros do
único corpo de Cristo” (pg. 947), Ferreira e Myatt poderiam ter tratado textos tensos como Mt
16.18 (“edificarei” - no futuro- “a minha igreja”), Gl 3.16, etc.
A seção sobre dons é explicada com propriedade e equilíbrio, demonstrando o propósito, o
uso correto dos dons e a dificuldade de alguns aspectos nesse assunto.
Sobre a disciplina gostaria de ter visto mais detalhes no texto de Mt 18, embora tenham
alcançado equilíbrio entre não pender para permissividade ou para descumprimento de seus
propósitos (restauração, proteção da igreja, etc.).
Sua posição sobre ceia, a presença de Cristo de forma especial, é bem defendida histórica e
logicamente, mas faltam argumentos bíblicos mais convincentes.
Destaco sua ênfase na centralidade da Palavra na condução da igreja local em todos os seus
aspectos, além de suas aplicações no final do capítulo, que são muito relevantes para o corpo de
Cristo.
Contagem: 1732 palavras