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Rafael Daher - www.rafaeldaher.com.

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MORE THAN THIS (ROXY MUSIC): CARLO


MICHELSTAEDTER E A VIDA COMO UM
SUICÍDIO

“Mais do que isso, você sabe que não há nada” não é nada. Posso beber o sal, agitar-me como
um golfinho – até o afogamento -, mas não pos-
Certamente, uma das mais inteligentes le- suirei o mar: continuarei só e diferente do mar.”
tras da produção musical moderna. Uma letra As obrigações da vida ordinária servem
que parece repetir os capítulos I e II de “A Per- para afirmar justamente o contrário e sustentar
suasão e a Retórica”, de Carlo Michelstaedter. Não uma sanidade útil à civilização (motivo que levou
possuímos nada – é o que diz Carlo e a letra pa- Carlo a afirmar, com muita razão: “cada progresso
rece repetir. “Não havia maneira de saber / fo- da sociedade é um regresso do indivíduo”). Mas
lhas caídas na noite / quem pode dizer pra onde a questão continua: do que sou dono? O que pos-
estão voando / tão livre quanto o vento”. A folha so possuir? A resposta, para quem está preso no
parece voar livremente. Mas só segue a ação do modelo mental civilizacional é: posso ser dono de
vento. É como a tese de Michelstaedter: “Subo a propriedades, posso possuir uma boa vida, posso
montanha – a altura me chama, quero alcançá-la. ser isso e aquilo. Entretanto, basta uma reflexão
Escalo, domino, mas como possuir a montanha? para essa crença desaparecer. É como continua
Estou acima da planície e do mar, vejo o gran- a letra de Bryan Ferry: “Quem pode dizer para
de horizonte que é a montanha, mas nada disso é onde estamos indo / nenhuma importância no
meu: nada está em mim quando vejo, é o mesmo mundo / talvez eu esteja aprendendo / porque o
que nunca ter visto: não possuo a visão. O mar mar na maré / não tem como voltar / Mais do que
brilha em sua imensidão, então poderá ser meu. isso, você sabe que não há nada”. Há uma plena
Desço até a costa, sinto sua voz, navego em sua concordância com um determinismo pessimis-
superfície... estou contente. Agora, já no mar, ‘o ta: se nada pode ser possuído plenamente, se até
ouvido cansa de ouvir’. O barco navega em on- mesmo a maré precisa voltar, então a vida huma-
das novas, mas a mesma sede continua: mergulho na e suas experiências são apenas fluxos dentro de
no mar, sinto as ondas sobre o meu corpo, mas uma natureza impessoal e caótica. É assim que a
este não é o mar. Se quero ir até água e possuí- Alquimia situa o homem: um chumbo, grosseiro,
-la, as ondas romperão diante do homem, que pesado e inútil. A Grande Obra, antes de qual-
quer coisa, começa neste reconhecimento do es-
tado humano natural. Ao contrário das religiões
que afirmam a existência do homem como algo “à
imagem e semelhança de Deus”, vias como a Al-
quimia e o maniqueísmo reconhecem o homem
como aquilo que pode ser observado na própria
natureza: estúpido, dominado por medo e ações
neuroquímicas, entre uma natureza que não pode
possuir ou mesmo compreender completamente.
A vida é um suicídio inevitável – o homem
Carlo Michelstaedter - Autorretrato sabe que caminha para a morte. Tem consciência
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A Quarta Chave de Basílio Valentim


que a vida é como o mar, que volta com a maré – das no mundo do caos), que Isaac Luria chama-
sua volta é a morte. Tomar consciência disso é o va de “exílio”. Este sentimento de exílio e solidão
primeiro passo para qualquer realização pessoal. também foi dado por Carlo: “Mas o homem quer
Se você não tomar conta de seu estado atual, sem- das coisas do tempo futuro aquilo que falta em si: a
pre será aquilo que imprimem em você. Então, posse de si mesmo, mas o que deseja está tanto no
será um bom “católico”, um bom “evangélico” ou futuro que acaba sempre escapando no presente”.
até mesmo um bom “ateu”, desses que não acre- Quando toma consciência, a transmutação
ditam em nada, mas que acabam acreditando em alquímica passa a ser uma possibilidade. Trans-
qualquer coisa – como no “poder da mente” ou mutar o chumbo em ouro não é tornar-se divino
crentes na divinização das ideias humanas. Her- segundo o entendimento da divindade antropo-
metismo, Cabala e Alquimia ensinam que é pre- mórfica, aquela de um ser supremo, consciente de
ciso obter essa consciência: o chumbo, o profano si e pessoal, uma espécie de entidade individual
ou o homem perdido, exilado – Shevirat Hakelim além do tempo e Toda Poderosa. Transmutar-se
(“quebra dos vasos”, as partículas divinas espalha- é realmente realizar que o estado do chumbo é
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nada mais do que um exilado que buscou em tas, grandes portadores da doutrina gnóstica do
outros exilados um alívio para os seus dramas: a despertar. A mensagem não é perigosa apenas à
existência no estado de chumbo é uma constan- instituição que fazia a inquisição, mas ao próprio
te alucinação, uma espécie de viagem lisérgica. É sistema criado para tornar a vida em sociedade
preciso tomar as drogas civilizacionais para con- possível. O caminho do despertar é muito bom
tinuar este estado: religiões, valores morais, en- para o homem que deseja despertar. Aos que dese-
tretenimentos, passatempos, adesão à valores e jam continuar no sono, atormentando e receben-
consciências politizadas. “Mais do que isso, você do tormento em troca das migalhas, é um perigo
sabe que não há nada”. Não há nada. Carlo diz terrível. “Enfadonha ocupação de Deus aos filhos
que esta mensagem está presente em Sócrates, dos homens” – a existência entre a perdição, entre
no Eclesiastes e em Jesus Cristo. Mas a sociedade o caminho para a morte sem qualquer questiona-
precisa de retórica e persuasão. E ele tem razão: mento do estado impermanente das coisas. Aqui,
“Uma geração vai, e outra geração vem; mas a ter- lembramos de um ditado sufi: “para o sufi, o Pa-
ra para sempre permanece. Nasce o sol, e o sol se raíso é uma prisão” – ao caminhante do “caminho
põe, e apressa-se e volta ao seu lugar de onde nas- da unidade”, o estado de bem-aventurança como
ceu. O vento vai para o sul, e faz o seu giro para o um mero contemplador do Supremo Bem não
norte; continuamente vai girando o vento, e volta passa de uma prisão horrenda. Pois não há nada
fazendo os seus circuitos. Todos os rios vão para o a ser contemplado. Não há nada a ser persuadido.
mar, e contudo o mar não se enche; ao lugar para “O cloro, de tão inchado, está como morto.
onde os rios vão, para ali tornam eles a correr. Mas fazemos seu renascimento quando coloca-
Todas as coisas são trabalhosas; o homem não o mos um pouco de hidrogênio e ele viverá apenas
pode exprimir; os olhos não se fartam de ver, nem pelo hidrogênio. Para ele, o hidrogênio será o úni-
os ouvidos se enchem de ouvir. O que foi, isso é o co valor do mundo: o próprio mundo. Sua vida
que há de ser; e o que se fez, isso se fará; de modo estará ligada ao hidrogênio. E ele será a luz para
que nada há de novo debaixo do sol. Há alguma cada átomo do cloro, em sua breve vida, até a imi-
coisa de que se possa dizer: Vê, isto é novo? Já foi nente compenetração. Satisfeito neste amor, a luz
nos séculos passados, que foram antes de nós. Já será apagada e o mundo estará acabado para os
não há lembrança das coisas que precederam, e átomos do cloro. Mas a presença do átomo de hi-
das coisas que hão de ser também delas não ha- drogênio terá feito piscar o olho do cloro, que nada
verá lembrança, entre os que hão de vir depois. via além do hidrogênio. Seu amor não era para a
Eu, o pregador, fui rei sobre Israel em Jerusalém. satisfação da vida, nem para ser persuadido, mas
E apliquei o meu coração a esquadrinhar, e a in- sim uma necessidade recíproca por outra vida.
formar-me com sabedoria de tudo quanto suce- Mundos diferentes, mas relacionados, pois a causa
de debaixo do céu; esta enfadonha ocupação deu do acasalamento mortal terá que esperar e depois
Deus aos filhos dos homens, para nela os exer- sofrer sua própria vida: o ácido clorídrico” – bri-
citar.” (Eclesiastes 1,4-13). Mas o homem precisa lhante parábola química de Carlo Michelstaedter!
do sentido sagrado. Precisa sentir-se persuadido. Aqui, é possível, como na Alquimia, pensar na
Ao desperto na Alquimia, nada disso ocor- relação de todas as reações químicas em relação
re. Ele tomou consciência de seu estado de chumbo ao espírito humano. Aquilo que tomamos como
e realizou que o ouro está em não fazer mais parte nosso “eu” não passa de um conjunto de várias
do jogo das mudanças das coisas passageiras. É o reações, mortes e renascimentos. Mas nada disso
que Bruce Dickinson descreve em The Alchemist: é. “Mais do que isso, você sabe que não há nada”.
“Suas vidas vazias - este mundo no qual vivemos
/ eu o rejeito”. A verdade de que “não há nada” Referência Bibliográfica:
é perturbadora. A sacralização indevida busca
negar o evidente de toda forma, inclusive com a La Persuasione e La Retorica, Carlo Mi-
morte daqueles que anunciaram esta mensagem, chelstaedter, Ed. Adelphi, 1999, Milão.
como a perseguição da inquisição aos hermetis-