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EXISTENCIALISMO
NORMAN GEISLER

Este texto é um excerto do livro de Norman Geisler, “Enciclopédia de Apologética:


respondendo aos críticos da fé cristã” (Vida, 2001. Pgs. 332-333).

Existencialismo. Como movimento ateu, o existencialismo floresceu na metade do


século XX, mas seus efeitos permaneceram. O existencialismo provoca um efeito negativo
no cristianismo evangélico.
Influência teológica. Vários movimentos teológicos amplamente, conhecidos por neo-
ortodoxos, foram influenciados pelo existencialismo. Karl Barth enfatizou a encontro
pessoal com Deus, salientando que a Bíblia é o registro humano falível da Palavra de Deus.
Emil Brunner enfatizou que a revelação é pessoal, não proposicional. Rudolph Bultmann
desenvolveu o método antimitológico para arrancar da Bíblia sua desatualizada
cosmovisão sobrenatural para chegar à essência existencial (v. mitologia e o novo
testamento).
Principais defensores do existencialismo. Um grupo eclético de filósofos e teólogos
contribuíram para o que se tornou o existencialismo moderno. Entre eles estão o teísta
luterano Søren Kierkegaard (1844-1900), os ateus franceses Jean-Paul Sartre (1905-1980) e
Albert Camus (1913-1960), o teísta judeu alemão Martin Buber (1878-1965), o não-teísta
alemão Martin Heideger (1832-1970), o católico francês Gabriel Marcel (1899-1964) e o leigo
ortodoxo alemão-oriental Karl Jaspers (1883-1969).
Ênfases e contrastes do existencialismo. O existencialismo enfatiza a vida acima do
conhecimento, o desejo acima do pensamento, o concreto acima do abstrato, o dinâmico
acima do estático, o amor acima da lei, o pessoal acima do proposicional, o indivíduo acima
da sociedade, o subjetivo acima do objetivo, o não-racional acima do racional e a liberdade
acima da necessidade.
No centro do existencialismo está a crença de que a existência tem precedência sobre a
essência. Todos os existencialistas defendem essa visão, de alguma forma. Eles discordam
em outros aspectos, mas a maioria dos existencialistas, especialmente os ateus, tendem a
aceitar outras proposições:
Os seres humanos são basicamente animais que aprenderam a escolher. Não são
vistos como seres racionais, políticos ou mecânicos..
A humanidade como objeto não está livre, mas indivíduos como sujeitos estão livres.
“Eu” não sou “eu mesmo”. O “ser” pode ser estudado e descrito como a “coisa”. Mas
o “eu” por trás da coisa transcende a descrição: é totalmente livre.
Objetividade carece de existência. Apena o subjetivo realmente existe.
Significado e valor são encontrados em existência, vida, desejo e ação. Forma, essência
e estrutura são irrelevantes e inúteis.
Significado e valores são criados, não descobertos. Existencialistas teístas como
Kierkegaard discordam nesse caso.
Da essência à existência. Tudo isso parece mais filosófico que prático, e os
existencialistas lutam com o movimento do abstrato para o concreto. Eles próprios
descrevem o movimento de várias maneiras. O existencialista cristão Kierkegaard
descreveu-o como “passo de fé” (v. fideísmo), no qual se tem um compromisso pessoal com
Deus. O ateu Sartre o denominou “tentativa de passar da existência para a essência em si”.
Ele acreditava que fazer isso é impossível, e que a vida é absurda. Os existencialistas ateus,
inclusive Sartre e Camus, insistem que nenhuma experiência existencial autêntica é
possível. O melhor a fazer é reconhecer a própria inautenticidade. Os existencialistas teístas
acreditam que a experiência existencial genuína é possível, mas não sem o encontro pessoal
com Deus. Se isso é feito apenas como indivíduo (Kierkegaard) ou na comunidade (Marcel),
não se sabe. Pelo menos, é possível. Para o existencialista judeu Martin Buber, tal
movimento vai dos relacionamentos Eu-coisa para Eu-Tu. Gabriel Marcel acreditava ser
possível uma verdadeira experiência existencial passando de “mim” (o indivíduo) ou
“eles” (a multidão) para “nós” (comunidade).
Avaliação. As opiniões existencialistas são tão variadas que comentários gerais
dificilmente podem ser classificados por um ou mais grupos sob a categoria. Algumas
generalizações, todavia, podem ser relacionadas.
Contribuições positivas. A fase do existencialismo no amor acima do legalismo encaixa-
se no ensinamento de Jesus (Mc 2.27) e é um tipo de corretivo para o legalismo sempre
presente em alguns domínios da vida cristã. A ênfase no prático em vez de no puramente
teórico coincide com a ênfase cristã numa fé viva (v. Tiago). O NT evita o abstrato no
ensinamento que boas obras resultam da fé verdadeira (Ef 2.8-10; Tg 2). Todos os cristãos
acreditam na liberdade humana, apesar de alguns grupos discordarem em algumas
nuanças do significado (v. determinismo; livre-arbítrio).
No sentido original de que “existência está acima da essência”, Tomás de Aquino
pode ser classificado como existencialista. Ele descreveu Deus como Existência Pura. Deus,
que é superior em ordem e importância a qualquer outro ser, é pura Realidade sem
nenhuma potencialidade. Deus é Existência Pura. Esse é o máximo no existencialismo
cristão, do ponto de vista do realismo.
Erros e perigos. Mas o existencialismo não aborda adequadamente a essência da
existência. Se a existência é superior à essência, então a essência da existência não pode ser
conhecida. Os existencialistas, no entanto, tentam explica-la, descrevê-la e conhecê-la.
Escrevem livros sobre o assunto. Para serem coerentes, no momento em que reconhecem
que há uma essência da existência, deixam de ser existencialistas no sentido comum do
termo. O existencialismo estabelece a disjunção radical entre a essência e existência. Mas
nunca encontramos existência pura na vida sem alguma essência. Jamais saberemos que
alguma coisa existe sem saber um pouco sobre o que ela é.
O existencialismo é tão subjetivo que tende ao misticismo (v. misticismo). Sem
critérios objetivos, não há como diferenciar o encontro com o real do encontro com a ilusão.
Para os existencialistas teístas, não há como o indivíduo saber se encontrou o verdadeiro
Deus ou o subconsciente – ou até mesmo Satanás (2Co 11.14).
Quando conhecemos outras pessoas ou Deus, o pessoal não pode ser totalmente
separado do proposicional. Podemos dizer algo sobre as pessoas por meio de proposições
ou declarações sobre elas. Pessoas que nunca se encontraram também podem se conhecer
intimamente por meio de cartas. Da mesma forma, a Bíblia é uma revelação proposicional
sobre o Deus pessoal (v. bíblia, evidências da).
A liberdade adotada pelos existencialistas ateus é impossível. Não temos liberdade
absoluta. E, se há um Deus, todas as outras vontades estão subordinadas à sua vontade
absoluta.
A irracionalidade não corresponde ao que a vida é. Deus e a realidade absoluta não
estão em contradição. Des é o Pai de toda razão. A lógica flui de Sua natureza (v. fé e
razão). Os existencialistas não praticam a irracionalidade. São bem racionais quando
expõem e defendem seu sistema. Inevitavelmente tentam tirar conclusões racionais de sua
visão da existência. A própria tentativa é contraditória.

Fontes
J. Collins, The Existentialists.
W. Barrett, Irrational man.
J.P. Sartre, O existencialismo e um humanismo.
A. Camus, O mito de Sísifo.
E. Brunner, Revelation and reason.
K. Barth, Church dogmatics, v.1.
M. Heideger, What is metaphysics?
R. Bultmann, Kerygma and myth: a theological debate, org. H.W., trad. R.H. Fuller.
G. Marcel, The mystery of being.
K. Jaspers, Reason and existence.
S. Kierkegaard, Temor e tremor.