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IMPULSO, Piracicaba, v. 15, n. 38, p. 1-136, set./dez. 2004


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Revista de Ciências Sociais e Humanas


Journal of Social Sciences and Humanities

INSTITUTO EDUCACIONAL PIRACICABANO – IEP Edição de texto: MILENA DE CASTRO


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“Immanuel Kant (1804-2004)”
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Editorial

IMMANUEL KANT (1804-2004)

Immanuel Kant, filósofo alemão nascido em Königsberg, em


1724, faleceu em 1804 e é, hoje em dia, considerado um dos pensa-
dores mais importantes da modernidade, razão suficiente para a rea-
lização de eventos e publicações em todo o mundo, durante o ano de
2004, marcando a passagem dos 200 anos de sua morte. Essa não é,
porém, a única razão para a presente edição da Impulso. Ao dedicar
suas páginas à filosofia de Kant, a revista dá continuidade a publicações
da Editora UNIMEP sobre o tema, compartilha vários textos que se de-
dicam ao pensamento original do famoso filósofo da Aufklärung e an-
tecipa a realização do X Congresso Kant Internacional no Brasil, em
setembro de 2005, dedicado ao tema “Direito e Paz na Filosofia de
Kant”. Assim, este número 38 não somente resgata o passado, mas
também projeta o futuro, preparando leitores e leitoras para as discus-
sões alusivas a esse importante evento.
Embora nunca tenha saído de Königsberg, Kant efetivou uma
síntese na história da filosofia ao se perguntar pelo papel da metafísica
na era da ciência, avaliar os problemas do dogmatismo e do ceticismo,
e propor – como alternativa entre esses pólos – a filosofia do criticis-
mo, que visava a submeter todas as questões relevantes para o ser hu-
mano ao tribunal da razão. Kant marcou uma linha divisória entre a
tradição e a modernidade ao tentar responder a questões fundamen-
tais para o ser humano, as quais ainda permanecem atuais: o que posso
saber? (Was kann ich wissen?), o que devo fazer? (Was soll ich tun), o
que é possível esperar? (Was darf ich hoffen?) e o que é o ser humano?
(Was ist der Mensch?). Enquanto suas três obras magnas – a Crítica da
Razão Pura (Kritik der reinen Vernunft], a Crítica da Razão Prática
(Kritik der praktischen Vernunft) e a Crítica da Faculdade de Julgar
(Kritik der Urteilskraft) – dedicam-se a responder tais perguntas espe-
cíficas, uma série de obras menores – muitas vezes denominadas, em
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seu conjunto, a “quarta Crítica de Kant” – discute questões de grande


relevância contemporânea, como a educação, o direito internacional,
a política e a paz, além da antropologia e da religião.
A despeito da importância e atualidade da filosofia kantiana,
muitos de seus preceitos precisam ser questionados, ao passo que ou-
tros são passíveis de transformação. Estudos recentes têm redescoberto
em Kant vários temas de atualidade, como a discussão sobre gênero,
estética, ciências da vida, racismo, relações internacionais, vida comu-
nitária e pós-modernismo, entre outras. Um dos desafios atuais na in-
terpretação de seu pensamento diz respeito justamente à possibilidade
da “paz perpétua” diante da guerra e do terrorismo. Essas questões
atuais constituem a temática do Congresso Kant Internacional no Bra-
sil e configuram o presente número da Impulso.
A seção temática “Temas da Filosofia de Kant” toca de modo
geral os vários aspectos mencionados anteriormente. Tem início pela
pergunta sempre atual a respeito do impacto e da importância de Kant
no Brasil, colocada por pensadores brasileiros – como Tobias Barreto –
desde a segunda metade do século XIX e resgatada por Günther
Augustin, no primeiro artigo dessa edição. Scott Stroud, por sua vez,
aprofunda a discussão da filosofia prática ao se perguntar sobre a po-
sição de Kant no que tange a um problema crucial da condição hu-
mana: a inclinação ao mal, ao invés de promover o bem. A questão do
saber, relativa à epistemologia kantiana, é tratada por Drew Pierce,
que, em seu artigo, articula os postulados da razão, sua relação com a
lei moral e as convicções religiosas. Outra área de crescente importân-
cia nos estudos da filosofia kantiana é a estética, como discutida por
Virginia Figueiredo, que se dedica a uma exegese dos conceitos de
gênio e natureza na Crítica da Faculdade de Julgar. Desse modo, essa
primeira seção cobre os temas das três Críticas de Kant.
A seção temática “Paz, Cosmopolitanismo e Direito Internacio-
nal em Kant” é mais específica, refletindo tanto a quantidade e a im-
portância de textos dedicados aos escritos políticos de Kant quanto a
relação desses artigos com a temática do Congresso sobre Kant no
Brasil. O texto de Soraya Nour produz uma análise dos escritos de
Kant sobre a paz e o direito internacional, ao passo que Eric Palmer
relaciona essa questão com a discussão atual sobre direitos humanos e
responsabilidade social corporativa. Patrick Hayden discute o projeto
cosmopolita de Kant por David Held e Matthias Lutz-Bachmann ex-
plora como Kant, em seus escritos sobre a religião, toca questões re-
lativas às relações internacionais. Por fim, Lubica Učník refere-se a dis-
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cussões recentes sobre guerra e relações internacionais para apresentar


uma crítica da visão atual da opinião pública sobre a Guerra no Iraque.
Além do eixo comum nas relações internacionais, cada artigo enfatiza
diferentes aspectos da filosofia de Kant, entre eles, a moral, o direito,
os negócios internacionais, bem como a política e a religião.
A seção “Resenhas e Impressões” apresenta dois livros, também
relacionados direta e indiretamente à filosofia de Kant. Heloisa Helena
de Sousa discute a obra clássica de Kant sobre pedagogia, do ponto de
vista do iluminismo. Fabio Durão analisa uma recente publicação a
respeito da atualidade da teoria crítica da Escola de Frankfurt – o que
indica, porém, uma continuidade com a filosofia crítica de Kant.
Para este número edição, a revista Impulso recebeu vários textos
de autores de distintos países – desde Austrália, Nova Zelândia e Chi-
na, passando por Índia, Alemanha e França, e chegando aos Estados
Unidos e Brasil. Infelizmente, apesar da quantidade e da qualidade dos
artigos enviados, tivemos de nos limitar ao que foi possível incluir no
escopo deste número. Assim, expressamos, ao final desta edição, nosso
agradecimento a todas as pessoas envolvidas nesse processo.

AMÓS NASCIMENTO
Editor científico da Comissão Científico-Editorial da Impulso e
coordenador temático deste número
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...............................
Temas da Filosofia de Kant
Themes of Kant’s Philosophy

Kant no Brasil – fora do lugar?


Kant in Brazil – out of place?
GÜNTHER AUGUSTIN – UFMG, Belo Horizonte/MG 11

Viciado em suas Próprias Inclinações?


Kant sobre a Propensão ao Mal
Addicted to Our Own Inclinations?
Kant on the Propensity to Evil
SCOTT R. STROUD – Temple University, Philadelphia/EUA 23

Kant e a Justificação das Crenças Morais


Kant and the Justification of Moral Beliefs
DREW PIERCE – Michigan State University, East Lansing/EUA 35

O Gênio Kantiano ou o Refém da Natureza


The Kantian Genius or the Hostage of Nature
VIRGINIA DE ARAUJO FIGUEIREDO – UFMG, Belo Horizonte/MG 47

............................... Summary
Sumário
Paz, Cosmopolitanismo e
Direito Internacional em Kant
Peace, Cosmopolitanism and
International Law in Kant

Um Público Crítico: a condição da paz


A Critical Public: the condition for peace
SORAYA NOUR – Universidade Paris X, Paris/FR 61

Entidades Corporativas e Imperativos Categóricos


Corporate Bodies and Categorical Imperatives
ERIC PALMER – Allegheny College, Meadville/EUA 73
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Kant, Held e os Imperativos da


Política Cosmopolita
Kant, Held and the Imperatives of
Cosmopolitan Politics
PATRICK HAYDEN – Victoria University of
Wellington, Wellington/NZ 83

A Contribuição de A Religião nos Limites


da Mera Razão, de Kant,
à Filosofia Política das Relações Internacionais
The Contribution of Kant’s Religion within
the Limits of Reason Alone to
a Political Philosophy of International Relations
MATTHIAS LUTZ-BACHMANN –
Universität Frankfurt am Main, Frankfurt/AL 95

Kant: sensus communis e razão pública


Kant: sensus communis and public reasoning
LUBICA UČNÍK – Murdoch University, Perth/AU 105

...............................
Resenhas & Impressões
Reviews & Impressions
Summary
Sumário

Sobre Kant e a Pedagogia


On Kant and Pedagogy
HELOISA HELENA LIRA DE SOUSA – UNIMEP, Piracicaba/SP 121

Uma Iniciativa a ser Emulada


An Initiative to be Emulated
FABIO AKCELRUD DURÃO – UFRJ, Rio de Janeiro/RJ 125

Normas para Publicação


Editorial Norms 131

Nossos Consultores (2004) 136


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Temas da Filosofia de Kant


Themes of Kant’s Philosophy
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10 Impulso, Piracicaba, 15(38): 00-00, 2004


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Kant no Brasil – fora do lugar?


KANT IN BRAZIL – OUT OF PLACE?
Resumo Este ensaio procura detectar a presença e a relevância de Kant no Brasil de
um ponto de vista prático, perguntando se as idéias desse filósofo, aqui no País, en-
contrariam-se “fora do lugar”. A ética de Kant com seu imperativo categórico é com-
parada às éticas híbridas no Brasil, personificada na figura do malandro, como anali-
sada por Roberto DaMatta. Mostra a instrumentalização de Kant nos debates geo-
políticos da atualidade, com repercussões também no território brasileiro. Identifica,
na autobiografia de Caetano Veloso, as tensões entre a aceitação de “conseguimentos” GÜNTHER AUGUSTIN
ocidentais-europeus e o sonho de uma nova civilização tropical. Detecta, no debate Universidade Federal de
sobre a política dos estudos culturais latino-americanos, uma articulação dupla que va- Minas Gerais (UFMG)
loriza o particularismo na contramão do universalismo da ética kantiana e recorre, ao gha@ufmg.br
mesmo tempo, ao sublime de Kant para se tranqüilizar com a idéia de que é possível
“pensar a totalidade”.

Palavras-chave KANT – MALANDRO – ÉTICA – LEI MORAL – TROPICAL.

Abstract This essay tries to detect the presence and relevance of Kant from e
practical point of view by asking if Kant’s ideas were out of place in Brazil. It
compares Kant’s ethics and his categorical imperative with the hybrid ethics in Brazil,
personified in the figure of the “malandro” as it was analyzed by Roberto DaMatta.
It shows how Kant has been instrumentalized in current debates on geopolitics,
which had repercussions in Brazil as well. It identifies in Caetano Veloso’s
autobiography the tensions between the acceptance of occidental-European
achievements and the dream of a new tropical civilization. It detects in the debate
over the politics of Latin-American cultural studies a double articulation which
esteems particularism in detriment of Kant’s universalism while it sees, at the same
time, in his idea of the sublime, a possibility to “think totality”.

Keywords KANT – MALANDRO – ETHICS – MORAL LAW – TROPICAL.

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INTRODUÇÃO

N
este ensaio, faremos o que Habermas preferia deixar de
lado: relacionar tradições filosóficas com mentalidades
nacionais e políticas, porque achamos que a relação exis-
te e precisa ser descoberta.1 Perguntamos se as idéias do
filósofo de Königsberg não são, no Brasil, idéias fora do
lugar, no sentido de Roberto Schwarz. Será que a ver-
dade tropical não combina com a verdade ocidental kan-
tiana, ou uma moral tropical se opõe ao moralista Kant?
Os trópicos teriam éticas híbridas, ao passo que Kant pregou um rigo-
roso imperativo categórico? Além disso, olhamos a atualidade de Kant
no cenário global atual de uma perspectiva brasileira. O que nos interessa
aqui é uma questão menos acadêmica, e mais prática, relacionada ao que
o filósofo elaborou na sua Crítica da Razão Prática, cujas palavras em-
blemáticas são gravadas em uma placa comemorativa, sugerindo que a lei
deve ser registrada na nossa alma, resumindo, assim, o fundamento da
ética kantiana: das moralische Gesetz in mir (a lei moral dentro de mim).2
Procuramos refletir sobre essas perguntas, estabelecendo um diálogo en-
tre o discurso de Kant e os de autoria nacional sobre o Brasil e os brasi-
leiros, como os do antropólogo Roberto DaMatta e do escritor-cantor
Caetano Veloso, em sua autobiografia Verdade Tropical.
Fazemos essas reflexões em três momentos e dimensões. Primeiro,
no início dos tempos de Kant no Brasil, em nível local, quando um via-
jante alemão nega aos índios um pensamento a priori. Num segundo mo-
mento, no âmbito cultural brasileiro, confrontamos a ética kantiana com
a ética da malandragem. Num terceiro, relacionamos Kant, o Brasil e a
América Latina numa esfera global e planetária.
KANT NO BRASIL DOS VIAJANTES
Quando Kant morreu, seu espírito já estava presente no Brasil.
Afirma-se que o irmão de José Bonifácio de Andrada e Silva, Martim
Francisco, fazia, já em 1804, conferências sobre a filosofia de Kant.3 Um
ministro de D. João VI, Silvestre Pinheiro Ferreira, que tinha sido encarre-
gado de negócios em Berlim, mencionava Kant, Fichte, Schelling e Hegel,
já em 1811-12, nos seus cursos de filosofia, no Colégio São Joaquim, no
Rio de Janeiro. O viajante Martius testemunha o conhecimento de Kant
até no interior de Minas e manifesta sua satisfação com a conquista de
terras tão longes pelo sistema kantiano.
Também o estudo da filosofia (...) tomou outro rumo recentemente, desde
que a filosofia de Kant se tornou acessível aos pensadores brasileiros, pela tra-
dução de Viller. O lente substituto de filosofia, Antônio Ildefonso Ferreira, a
quem fomos apresentados pelo pai, em Ipanema, (...) havia-se imbuído do sis-
tema desse filósofo do Norte, e foi para nós agradável surpresa encontrar pa-

1 IMPULSO, 2003, p. 124.


2 GEIER, 2004, p. 313.
3 OBERACKER, 1988, p. 592-593.

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lavras e conceitos da escola alemã implantados no A ÉTICA DE KANT VERSUS A ÉTICA HÍBRIDA DA
solo da América. Assim, o Sul mais frio do novo MALANDRAGEM
continente, em seguimento à civilização que se ex- Num segundo momento, focalizamos o as-
pande rapidamente, não só se dedica a estudos e co- pecto da cultura brasileira personificado na figura
nhecimentos chamados práticos, mas, igualmente, do malandro, entre outras. Nessa figura de múlti-
às aspirações mais abstratas de ciência pura.4 plas éticas, ou ética híbrida, na margem da lei, en-
contramos o contrário do que seria o homem da
Outro viajante da mesma época tentou ética kantiana.
aplicar os conceitos kantianos em suas observa-
ções sobre os índios. Discordou de um colega e Gesetz in mir
produziu um belo exemplo das idéias de Kant Na placa comemorativa em memória de
fora do lugar: Imanuel Kant, em Königsberg, da qual uma cópia
encontra-se também no Brasil, estão gravadas as
Embora sinta também uma grande simpatia por es- famosas palavras da conclusão da Crítica da
ses “homens da natureza” e quisesse atribuir-lhes Razão Prática: “DUAS COISAS ENCHEM O ÂNIMO
também todas as boas características listadas pelo DE CRESCENTE ADMIRAÇÃO E RESPEITO, VENE-
Sr. Freyreis, tenho de contradizê-lo. Fiquei muito RAÇÃO SEMPRE RENOVADA QUANTO COM MAIS
tempo entre esses selvagens e achei mais o contrá-
FREQÜÊNCIA E APLICAÇÃO DELAS SE OCUPA A
rio. Ao invés de considerá-los perspicazes, como
REFLEXÃO: POR SOBRE MIM O CÉU ESTRELADO;
faz o Sr. Freyreis, prefiro considerá-los alheios, e
EM MIM A LEI MORAL”.7
evidências de que pensem realmente são também
raríssimas. Suas “forças de alma” são uma constante Na continuação do texto, Kant explica a
letargia, a meu ver. A descoberta de muitas ervas transcendentalidade e o caráter sublime do seu
medicinais não deve resultar da perspicácia deles, conceito da lei moral:
nem devemos acreditar que as descobertas tenham
Ambas essas coisas não tenho necessidade de
sido feitas a priori. Muito mais o acaso, o instinto e
buscá-las e simplesmente supô-las como se fossem
a experiência os levaram a essas descobertas.5
envoltas de obscuridade ou se encontrassem no do-
mínio do transcendente. (...) O segundo (...) realça
Outra vez Eschwege, viajante mandado
infinitamente o meu valor como inteligência por
para Minas Gerais pelo governo de D. João VI.
meio da minha personalidade, na qual a lei moral me
para fiscalizar o contrabando e, quem sabe, revela uma vida independente da animalidade (...)
moralizar a administração, reclama da falta de [d]essa lei que não está limitada a condições e limi-
fiscalização, da consciência de dever e da inversão tes desta vida, mas, pelo contrário, vai ao infinito.8
dos valores:
A última linha da placa, com as últimas três
Em resumo, em Minas Gerais pode ser considerado palavras, expressa o núcleo da moral kantiana. O
regra geral o seguinte: se um oficial da administra- Gesetz in mir (em mim a lei) é o resultado da
ção ou do exército passa a ser louvado por seus su- vontade boa como a priori. O homem é seu pró-
bordinados e pelo povo como pessoa honrada, e se prio legislador. É a sua liberdade que define seus
é pessoalmente bom e leal, acaba logo por não cum- próprios limites na responsabilidade social. Não é
prir o dever e deixar os subalternos procederem a natureza, nem o Estado, nem a religião. Ter um
como bem entendem. Por outro lado, o oficial de-
critério a uma vontade boa, único candidato do
testado pelos inferiores e pelo povo é geralmente
bem maior, exige um imperativo. Tem de ser
honesto ou, pelo menos, pessoa que cumpre o seu
categórico para corresponder à incondicionalida-
dever. Assim sendo, no Novo Mundo o conceito
de honestidade é também original.6 de da vontade própria. Isso levou Kant à sua
famosa fórmula do imperativo categórico, que
4 SPIX & MARTIUS, 1981, p. 140.
5 ESCHWEGE, 2002, p. 147. 7 KANT, 1959, p. 245.
6 Idem, 1996, p. 90. 8 Ibid., p. 245-246.

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definiu o princípio da moral (Sittlichkeit) de ma- contudo, porque ela constitui a condição da lei
neira radicalmente nova: “Age sempre como se a moral, lei que conhecemos.”12
máxima da tua ação devera ser erigida por tua Desde o início, a ética kantiana foi criticada
vontade como uma lei universal da natureza”.9 por ser abstrata, formal e sem muito valor práti-
Essa moral é também uma moral do dever co. Muitas dessas críticas serviram de pretexto
(Pflicht): cumpramos o dever pelo próprio dever; para fugir ao rigor do imperativo categórico, a ri-
ajamos de tal forma que a máxima da própria gor, de fácil aplicação justamente por ser univer-
intuição possa ser a qualquer tempo um princípio sal. Já a derivação transcendental dificulta a com-
de lei geral. O imperativo categórico serve como preensão e a aceitação dessa ética. É quase impos-
prova das máximas do agir para testar se o ato in- sível conceituar uma idéia como a da moral pura,
dividual seria coletivamente viável. Ele reúne o não empírica, como gedacht, não conceituável e
agir concreto e individual, como máxima subjeti- articulável em língua humana.
va e particular, e a lei, como objetiva e geral – é Para Kierkegaard, Kant formulou o parado-
uma fórmula de análise crítica. xo absoluto do desconhecido no limite do co-
A novidade da ética kantiana foi sua crítica nhecimento. Wittgenstein, kantiano, anota em
polêmica contra a felicidade como finalidade e seu diário, no front da Primeira Guerra Mundial,
base da moral. Kant evita o caminho das éticas que bem ou mal seria o eu, e não o mundo. Ética
que fazem da maximização da felicidade o obje- não tem palavras, é transcendental, no sentido de
tivo e o fundamento da moralidade.10 Recusa de- antes da fala, sem condição de ser expresso. Para
finir felicidade em termos de uma vida virtuosa. Schlick, principal representante do Wiener Kreis
Kant explica que a metafísica é um sistema de co- (Circulo de Viena), o que Kant disse eram “leere
nhecimento a priori e, se a doutrina moral fosse Worte... ein Sprung in den Abgrund” (palavras va-
a doutrina da felicidade, seria impossível obter zias... um pulo no abismo). Ao invés de valores
tais princípios. Felicidade é uma alegria empírica absolutos, seriam a felicidade e o prazer que ori-
e não significa nada além da satisfação dos dese- entariam a moral das pessoas. Com isso, o filó-
jos de cada um. Kant explica que não compreen- sofo estava em sintonia com a filosofia popular
demos a necessidade incondicional do imperativo do século XVIII.13
categórico, mas entendemos a sua incompreensi- “AOS AMIGOS, TUDO; AOS INIMIGOS, A LEI”
bilidade. Ir ao limite do pensável é ir ao limite da Kant lembrou, certa vez, aos seus amigos o
razão e isso é a tarefa de uma filosofia crítica da dito de Platão: “Amigos, não existem amigos”,
razão. Em Kant, o sublime e o paradoxo levam o para dar mais um exemplo do paradoxo do im-
homem à beira do abismo e do vazio sem cer- possível possível. No Brasil, o estrangeiro nota
tezas. Os dois a priori da ética kantiana são as logo que é fácil encontrar amigos. Depois perce-
idéias da vontade boa (gute Wille) e da liberdade be que muitas amizades se baseiam numa relação
(Freiheit). O gute Wille é um a priori, absoluto e de dar e receber. Quando esse contrato social não
puro: não é empírico. Como o a priori, o concei- funciona mais, o ex-amigo deve lembrar o pro-
to é pensado (gedacht), e não comprovável cien- vérbio brasileiro “Aos amigos, tudo; aos inimigos,
tificamente.11 “O conceito da liberdade (...) cons- a lei” para entender essa especificidade nacional.
titui a pedra angular de todo o edifício de um sis- Antonio Candido desenvolveu uma interpreta-
tema da razão pura (...). A liberdade, porém, é ção dessa particularidade histórica brasileira, que
por sua vez a única entre todas as idéias da razão tem por base um comércio de mão dupla entre os
especulativa cuja possibilidade a priori conhe- pólos da ordem e da desordem. Tal comércio se-
cemos (wissen) sem entendermos (einzusehen) ria realizado por meio da figura socialmente plás-
tica do malandro. Roberto DaMatta aprofundou
9 Ibid., p. 9.
10 BORGES, 2003, p. 208-209. 12 KANT, 1959, p. 13-14.
11 GEIER, 2004. 13 GEIER, 2004, p. 245-247.

14 Impulso, Piracicaba, 15(38): 11-21, 2004


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o estudo do fenômeno, afirmando que o dilema soas, em que a parte pode triunfar – sagaz e pra-
brasileiro residiria na oscilação entre o mundo zerosamente – sobre o todo. No universo da ma-
das leis universais e o universo das relações pes- landragem contam a voz, o sentimento e a
soais, entre a hierarquia rígida da lei e a igualdade improvisação. Nele, é o coração que inventa as
morna do convívio.14 regras. Quem fica entre o Caxias e o malandro é
DaMatta procura estudar “o dilema brasi- renunciador: aquele que rejeita o mundo social tal
leiro” partindo do mundo cotidiano e da análise como ele é e se apresenta. Seu caso é criar outra
de seus personagens principais: seus malandros e realidade. Assim, seus instrumentos de relação
seus heróis,15 estudando “os carnavais, os malan- com o mundo são as rezas.18
dros e os nossos renunciadores – os nossos he- Surge aqui a pergunta: onde, nesse modelo,
róis”16 para “assim marcar nossa identidade como fica o cidadão que forma a realidade social, em
brasileiros”.17 Numa tentativa de captar a totali- vez de comandar, driblar ou rejeitar e rezar? O ci-
dade sociocultural, o antropólogo apresenta um dadão que segue o imperativo categórico, aceita a
modelo integrando os aspectos de raça, religião, lei tanto para ele quanto para o outro. Sente a lei
relações interpessoais e hierarquia social. No dentro de si, seja em razão de uma vontade boa a
triângulo brasileiro de heróis constam três dra- priori ou como resultado da socialização interna-
mas, três categorias e três figuras paradigmáticas lizada. Se a lei é apenas para os inimigos, teríamos
(ou heróis): soldados, fiéis e foliões com as figu- de concluir que, para o malandro, a lei é fora dele,
ras de Caxias, do santo e do malandro. Aos per- e quem anda com a lei dentro de si, no território
sonagens correspondem, em termos de raça, da malandragem, estaria fora de lugar.
brancos (ou superiores), negros (ou inferiores) e A dialética da malandragem é marcada por
índios (ou marginais). uma ambigüidade entre positividade e negativida-
O malandro é um ser deslocado das regras de. O malandro é herói e anti-herói ao mesmo
formais da estrutura social, fatalmente excluído tempo. O dilema brasileiro seria optar entre a
do mercado de trabalho e percebido como muito brasilianidade do malandro e do homem cordial e
mais criativo e livre. O campo do malandro vai a universalidade do homem legal. Mas não há le-
numa gradação da malandragem socialmente galidade sem justiça, nem justiça social sem dis-
aprovada e vista, entre nós, como esperteza e vi- tributive justice.19 E, assim, a dialética do malan-
vacidade, ao ponto mais pesado do gesto franca- dro pode transformar-se em dialética da margina-
mente desonesto. É quando o malandro corre o lidade, como sugerida na hipótese da emergência
risco de deixar de viver do jeito e do expediente da dialética da marginalidade, por Castro Ro-
para viver dos golpes, virando, então, um autên- cha.20 Essa também é ambígua, na medida em que
tico marginal ou bandido. Nessa promoção da o marginal pode ser visto, por exemplo no mo-
justiça social pelas próprias mãos, e com seus delo de DaMatta, como transformação do malan-
próprios recursos, jaz a legitimidade e a popula- dro em criminoso ou, na análise de Rocha, em
ridade desses personagens. DaMatta salienta que marginal que converte a violência cotidiana em
o personagem oposto ao malandro é o ator das força simbólica, embora tal conversão implique
paradas militares e dos rituais da ordem: caxias. redução da disputa material em simbólica. Se tal
Trata-se de uma outra “leitura” do mundo, defi- disputa já está ocorrendo, novos modelos da cul-
nindo-o por suas regras, leis, decretos pela pre- tura brasileira contemporânea podem surgir. Não
sença da totalidade materializada na lei a na regra, precisaria apontar representações estrangeiras do
em oposição ao mundo individualizado das pes- mecanismo da excessiva tolerância da opinião pú-
blica diante das constantes malandragens retóri-
14 ROCHA, 2004, p. 5.
15 DaMATTA, 1983, p. 13. 18 Ibid., p. 204-205.
16 Ibid., p. 14. 19 WALZER, 1994, p. 21.
17 Ibid., p. 15. 20 ROCHA, 2004, p. 6.

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cas e práticas dos políticos e da cordialidade, os- establishment, viveu relativamente longe da po-
cilando entre amenidade e violência para comba- breza do campo. Sob um monarca esclarecido,
ter “o notório mal-estar da cultura brasileira”, Frederico II, o Grande, que governava por puro
como fez Kathrin H. Rosenfield.21 Ela chama os dever, tolerando as diversas opiniões e religiões,
jeitinhos da malandragem e da cordialidade falsas preferindo conversas com Voltaire e concertos
“contaminações [que] retroagem e se potencia- com sua flauta, considerando-se o primeiro ser-
lizam, transformando a dialética da malandragem vidor do seu Estado, a liberdade e a justiça pare-
em dialética da marginalidade – abolindo certezas ciam ter um futuro. A liberdade como a priori era
éticas a ponto de considerarmos o jogo do bicho tanto possibilidade quanto obrigação. Num clima
(...) como negócios e carreiras entre outras”.22 protestante, Kant acreditava na autonomia do
Quer dizer, existem certezas éticas fora da dialé- homem diante de Deus. Procurou explicar o uni-
tica da malandragem, mesmo sob ameaça de verso do espaço e da mente do homem. Sua ética
extinção. Existe uma disputa de discursos. é uma ética sem Deus, o que provocou não ape-
ÉTICAS COMO DISCURSOS nas fortes contradiscursos, mas também uma
As éticas também são discursos, com sua proibição de meter-se em questões teológicas,
genealogia em suas respectivas formações dis- decretada pelo sucessor de Frederico II.
cursivas. Procurando o que chamamos o a priori A universalidade do sistema kantiano, en-
discursivo, há uma primeira diferença entre o tendido como discurso que explica o mundo e o
modelo de Kant e o de DaMatta. Enquanto o fi- homem, se opõe à interpretação empírica de uma
lósofo polemiza contra uma moral de felicidade, realidade historicamente concreta. A interpreta-
o antropólogo a adota como a priori.23 Em ter- ção do Brasil aqui focalizada é menos otimista,
mos metodológicos, Kant elaborou sua ética de- porque decorre da análise da situação socioeco-
claradamente de forma não empírica, seu a priori nômica desse país pós-colonial dependente, em
é um conceito transcendental. Kant evita o con- que a dialética idealista ou materialista não pro-
ceito da felicidade por ser empírico. Já o antropó- moveu mudanças fundamentais, tanto que outras
logo tem de trabalhar de maneira empírica. Da- dialéticas interpretam a vida, em que a justiça ain-
Matta mostra como chegou à sua conceituação da demora. O discurso do malandro instalou-se
por meio de trabalhos de campo. Portanto, o sis- para encobrir as tensões sociais e “impedir a luta
tema de Kant é aistórico, ao passo que a empiri- aberta ou o conflito pela percepção nua e crua
cidade garante a historicidade. Isso não quer di- dos mecanismos de exploração social e políti-
zer que o sistema kantiano não seja resultado de ca”.24 Para Antonio Candido, o malandro aguar-
um contexto histórico. dou ser finalmente absorvido pelo pólo conven-
Kant viveu como ensinou ou vice-versa. cionalmente positivo. Segundo DaMatta, ele as-
Era um professor um tanto melancólico, traba- sumiu o status de herói. Roberto Schwarz co-
lhou duro para chegar a uma posição que lhe per- mentou, a respeito do filme Cidade de Deus: “A
mitiu uma vida em condições econômicas segu- ambivalência no vocabulário traduz a instabilida-
ras. Desde cedo procurou interpretar o mundo de dos pontos de vista embutidos na ação, um
em conceitos de ordenação, dando continuidade certo negaceio malandro entre ordem e desor-
à revolução newtoniana. Começou com a orde- dem”.25 Castro Rocha pergunta: “Ora, por que
nação do universo para chegar à sua tarefa de ex- não pensar que a dialética da malandragem e a or-
plicar o universo do pensamento humano. Viveu dem relacional têm sido parcialmente substituí-
ainda o otimismo do iluminismo, o qual subme- das pelo seu oposto, a dialética da marginalidade
teu a uma revisão crítica. Como membro do e a ordem conflituosa?”.26

21 ROSENFIELD, 2004, p. 7-8. 24 ROCHA, 2004, p. 6.


22 Ibid., p. 8. 25 Ibid., p. 6.
23 DaMATTA, 1983, p. 194. 26 Ibid., p. 6.

16 Impulso, Piracicaba, 15(38): 11-21, 2004


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KANT NO CONTEXTO GLOBAL E PLANETÁRIO teiras baseiam-se na força da consciência dupla


Em termos globais ou planetários, a re- que “incorpora a civilização à barbárie ao mesmo
levância de Kant para o Brasil se dá mediante a tempo em que nega o conceito hegemônico de
sua instrumentalização no âmbito geopolítico. civilização”.30 Para Mignolo, o “capitalismo sem
Caetano Veloso o entende, numa leitura equivo- fronteiras” paradoxalmente cria as condições para
cada, como moralista do Norte que desprezaria rearticular a epistemologia moderna no encontro
os homens do Sul, e sonha com um Brasil oci- com saberes locais. Entretanto, Moreiras pensa
dental, mas independente da Europa e da Amé- que a luta entre o local e o global, ou entre o par-
rica do Norte. Robert Kagan o associa a uma ticular e o universal, não é mais uma das dimen-
mentalidade européia, e Alberto Moreiras, no fi- sões básicas da política emergente. Pelo contrá-
nal do seu livro sobre a resistência subalterna na rio, a luta entre o particular e o universal deveria
América Latina, recorre a Kant para poder pensar ser redefinida precisamente para melhor servir
a totalidade social. Nesse caminho, utiliza concei- aos objetivos de uma política democrática. Teria,
tos de Michael Walzer, o mesmo citado por pois, fortes razões para buscar uma alternativa
Jürgen Habermas, em sua crítica à instrumenta- crítica ao pensamento do hibridismo, partindo de
lização de Kant feita por Kagan.27 Nesse intertex- uma perspectiva subalternista que não se limite à
to global, tentamos esclarecer alguns aspectos re- dialética do global e do local, por meio da noção
ferentes à nossa temática. da articulação dupla.31
“ARTICULAÇÃO DUPLA HÍBRIDA” Para fundamentar sua articulação dupla,
Em seu livro sobre a política dos estudos Moreiras recorre a Michael Walzer. Este parte de
culturais latino-americanos, Alberto Moreiras um a priori que nos parece reverter o a priori da
procura pensar a totalidade social no mundo pós- ética kantiana. Para Walzer, o elemento comum
colonial, em que a categoria da pós-colonialidade mais importante da raça humana é o particularis-
passa a ocupar um terreno antes chamado ante- mo: “our common humanity will never make us
riormente de Terceiro Mundo, e em que as con- members of a single universal tribe. The crucial
dições de existência da classe intelectual, na era commonality of the human race is particularism:
do capitalismo global, dificultam a articulação de we participate, all of us, in thick cultures that are
si mesmo como força contra-hegemônica. Lem- our own. With the end of imperial and totalitarian
bra de que modo o hibridismo28 surgiu como rule, we can at last recognize this commonality and
conceito mestre ao pensamento social latino- begin the difficult negotiations it requires”.32
americano para expressar o desejo das novas eli- Isso leva a uma distinção feita por Walzer
tes intelectuais de “tomar o controle” do presen- entre moralidades densas (thick) ou rarefeitas
te, transformando-se num programa político no (thin), concluindo que “se não há (...) uma única
qual as desigualdades são reduzidas às diferen- ideologia correta, maximalista, então a maioria
ças.29 Ele crítica o hibridismo como servindo a das disputas (...) que surge em uma dada socie-
políticas hegemônicas e segue a linha de uma ar- dade e cultura tem que ser resolvida – e não há es-
ticulação dupla, resgatando o conceito de híbrido colha – de dentro para fora”.33 Estaríamos atrela-
a serviço do que ele chama de subalternismo de dos a nossas próprias práticas densas, que fazem
articulação dupla. da passagem de dentro para fora, do particular
Isso teria implicações epistemológicas. Na para o geral, da imanência para a transcendência
busca de epistemologias alternativas, Moreiras re- um simples caso de interpretação rarefeita, e não
corre a Walter Mignolo. Suas epistemologias fron- um verdadeiro objeto da filosofia. Kant construiu

27 IMPULSO, 2003, p. 128. 30 Ibid., p. 318.


28 Hibridismo aqui tem significado específico, como explicará o con- 31 Ibid., p. 332.
texto apresentado. 32 WALZER, 1994, p. 83.
29 MOREIRAS, 2001, p. 314-315. 33 MOREIRAS, 2001, p. 333.

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sua ética com base no conceito de boa vontade ta paradoxal, “um projeto para a prática político-
como transcendental, do geral para o particular, cultural e um empreendimento teórico em que as
de fora para dentro. Pelo menos podemos inter- condições de possibilidade da mesma prática po-
pretar as três palavras Gesetz in mir dessa forma. lítica possam também ser definidas como condi-
Talvez Kant concordasse com a afirmação de que ções de impossibilidade, chamando isso de ‘su-
o mundo é uma interpretação. Parece-nos que o balternismo perspéctico’”.37 O lado positivo (ou
segredo do modelo de Kant reside na circularida- transgressor) do hibridismo implicaria dizer que
de atribuída por ele ao pensamento humano, em é possível pôr o hibridismo a serviço da crítica de
que não haveria uma separação entre dentro e fo- identidades hegemônicas; uma conseqüência dis-
ra, em que o mundo sensível e inteligível se ali- so poderia servir tendencialmente à causa da des-
mentam mutuamente. Vejamos ainda como colonização, ou da resistência contra a coloniza-
Kant, que parecia estar afastado dessa discussão ção eurocêntrica do imaginário.38
sobre o subalterno latino-americano, volta à cena, Finalmente, Moreiras se revela como um
quase como que precisando de um final feliz. Bhabba latino-americano, quando conclui:
Tendo em vista uma incompatibilidade en-
O hibridismo é então, como diz Bhabba, “ao mes-
tre particularismo e universalismo, Moreiras ar- mo tempo muito cultural e muito selvagem”. Todas
gumenta que não há particularismo, a não ser no localidades são híbridas, uma vez que todas as loca-
contexto de um universalismo que o determina lidades são a interseção de determinados particula-
como tal e que o fracasso em teorizar essa relação rismos e aquilo que os nega. Nesse sentido selva-
como dialética seria uma falha na distinção feita gem e des-localizado, entretanto, o hibridismo, que
por Walzer entre as duas moralidades. A morali- em sua versão cultural busca o atravessar fronteiras
dade densa já seria um híbrido. Para Walzer, o ele- e o apagar (relativo) de limites, encontra uma dobra
mento comum de todos os particularismos é o ou um segundo tipo de passagem. Não há além do
incondicional, sendo isso uma conseqüência do híbrido, pois ele é o além. O hibridismo selvagem é
o limite do limite, e uma possibilidade impossível.
que Balibar chama de universalidade ideal, a pre-
Como possibilidade impossível, ele marca a fissura
sença perpétua, em qualquer particularismo, de
constitutiva de qualquer posição (híbrida) do sujeito.
“qualquer insurreição aberta ou latente”.34 Balibar Ele seria então compreendido como um conceito
opõe a universalidade ideal ao que ele denomina crítico-transcendental no sentido kantiano, (...) se-
universalidade total ou fictícia, conceito seme- melhante ao que Kant chama de sublime. (...) E
lhante à noção, de Walzer, de moralidade densa, pensar a totalidade é novamente possível.39
em suas implicações éticas. Faz-se valer aqui a
consciência comunitária de Walzer, à qual Haber- Na saudade da totalidade, o materialista
mas chamou atenção35 e que lembra a dialética da revela seu lado idealista ou, de outra perspectiva, re-
marginalidade, de Castro Rocha. Walzer se refere vela o materialismo de Kant. Lyotard prognosti-
ao tipo de crítica interna como o caráter subver- cou que o sublime na sua incompreensibilidade
sivo da imanência, dizendo que: “Social criticism seria o problema central do século XXI.
in maximalist terms can call into question, can even VERDADE TROPICAL
overturn, the moral maximum itself, by exposing its No final do seu livro Verdade Tropical, Cae-
internal tensions and contradictions”.36 Porém, a tano Veloso discute alguns aspectos de O Choque
crítica interna da universalidade fictícia tem como de Civilizações, de Samuel P. Huntington:
contraparte uma aceitação da normalização, uma O livro de Huntington tem algo de profundamente
subjetividade compatível com a normalidade. Dian- antiocidental: ele expõe o esforço dos conservado-
te desse impasse, Moreiras recorre a uma propos- res em transformar a cultura de Camões, Lutero,

34 Ibid., p. 334. 37 MOREIRAS, 2001, p. 336.


35 IMPULSO, 2003, p. 129. 38 Ibid., p. 332.
36 WALZER, 1994, p. 47. 39 Ibid., p. 349.

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Washington e Picasso numa cultura fechada. Sim- ‘civilizações’ se ela não tocasse uma corda sensí-
plesmente não dá. A grande movimentação que le- vel da intuição que têm os brasileiros do que seja
vou a chama civilizatória das áreas quentes para o o Brasil. De fato, nosso país se nos mostra como
frio Norte do hemisfério norte parece estar (...) uma eterna indefinição entre ser o aliado natural
madura para fazer um desvio de rota. Ter como ho- dos Estados Unidos em sua estratégia internacio-
rizonte um mito do Brasil – gigante mestiço lusó-
nal e ser o esboço de uma nova civilização”.42 Ao
fono americano do hemisfério sul – como desem-
mesmo tempo em que alega que foi “no Ociden-
penhando um papel sutil mas crucial nessa passa-
gem é simplesmente uma fantasia inevitável. Antô- te que se desencadeou um processo de seculari-
nio Cícero (...) relembra a revolta de Nietzsche zação do conhecimento que resultou (...) na mo-
contra a tendência dos pensadores “moralistas” a ral individualista atéia em que se baseiam os di-
depreciarem o homem tropical: em favor de quê, reitos humanos, Caetano denuncia Kant como
pergunta o filósofo alemão, “das zonas tempera- um ‘desses grandes moralistas’”.43
das? Em beneficio dos homens temperados? Da- Como ocidental-europeu, na classificação
quilo que é moral? Do medíocre?”. A citação de de Robert Kagan, o Brasil de Caetano Veloso sai-
Kant nos basta.40 ria da eterna indefinição por optar pelo mundo
hobbesiano ou kantiano.
E o autor-cantor cita as frases do filósofo
sobre a excelência das criaturas pensantes, cuja Além disso, discordamos, com todo res-
perfeição torna-se mais alta e mais completa na peito, de Habermas, quando ele minimiza a dife-
proporção direta da distância do seu lugar de rença entre as filosofias de Kant e Hobbes. Os a
moradia em relação ao sol. É um bom exemplo de prioris dos dois diferem fundamentalmente.
preconceito ao pé da letra: formar um conceito an- Hobbes escreveu no contexto da guerra civil in-
tes de conhecer o assunto, ou, nas palavras de glesa – daí seu pressuposto do homem como lo-
Kant, conhecer (wissen) sem entender (verstehen). bo. Kant acreditava em pressupostos bem mais
Com um jogo de palavras, o autor-cantor faz ge- humanos e pacíficos. Portanto, é válida a compa-
opolítica, redirecionando rotas históricas e rear- ração de Kagan, no Policy Review, entre um mun-
ranjando conceitos geográficos, quando sonha do kantiano da lei, das regras e das negociações
transnacionais, de um lado, e o mundo hobbesi-
sobre “um Ocidente ao ocidente do Ocidente”,
ano, em que as guerras resolvem as disputas entre
pensando não num fundamentalismo dessa cul-
as nações. Outra questão é até que ponto a visão
tura [ocidente] particular, mas no compromisso
dos europeus como kantianos e dos americanos
com alguns “conseguimentos historicamente
como hobbesianos seria um simplificação.
ocidentais irreversíveis”.41 Revelam-se aqui as
tensões discursivas de, nas suas próprias palavras, Como tropical, Caetano Veloso teria de
uma “mente musical brasileira” que aceita e rejei- escolher entre uma multiplicidade de discursos,
ta ao mesmo tempo o ocidente, e concordaria dos quais o de Kant é apenas um. Na classificação
que a ambição brasileira seja a de levar o ateísmo, planetária de Kant, Vênus não seria uma boa
filho do Ocidente, às suas últimas conseqüências, escolha.44
mas se sente mais religioso do que os conserva- Quando Kant escreveu sobre as criaturas
dores americanos que receitam o protestantismo de planetas mais ou menos próximos do Sol, re-
como cura para o atraso da América Latina. E que feriu-se à distância dos planetas em relação a esse
rejeita a classificação das civilizações de Hunting- astro, e não à distância do Sol à Terra. Fazem 250
ton como duvidosíssima, mas reconhece que se- anos que Kant, na sua fase pré-crítica, escreveu
ria “simplesmente desprezível para nós essa con- sobre os planetas do universo. Do início, o fascí-
fusão deliberada de blocos geopolíticos com 42 Ibid., p. 497-498.
43 Ibid., p. 498-499.
40 VELOSO, 1997, p. 500-501. 44
Na classificação de Robert Kagan, os americanos são do planeta
41 Ibid., p. 499. Marte e os europeus, de Vênus.

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nio pelo firmamento celeste influenciou sua filo- O ensaio de Kant não carece de imagina-
sofia e, não por acaso, ele concluiu sua Crítica da ção. Informa que os habitantes de Júpiter prova-
Razão Prática com a referência a duas coisas: o velmente fazem em cinco horas o que os ho-
céu celeste e a lei moral. Esse céu desperta a cons- mens na Terra fazem em 12. Ou que os de Vênus
ciência da sua existência, superando, assim, o ra- devem ter uma constituição mais pesada e uma
cionalismo puro de um Descartes, ligando a mente mais vagarosa. Marte teria uma posição
consciência ao sensível. E é o sentimento estético privilegiada no sistema de Kant, porque seria o
do sublime que a intuição do céu evoca e que se único planeta, ao lado da Terra, em que os habi-
instala como leitmotiv na obra de Kant. No seu tantes contariam com a capacidade infeliz de po-
ensaio “Von den Bewohnern der Gestirne” (“Dos der cometer pecados. Tudo isso em razão da dis-
Habitantes Celestes”), o então autor free-lance,
tância de Marte e da Terra em relação ao Sol. Por
preparando-se para uma carreira acadêmica, in-
causa do calor reduzido, as criaturas nos planetas
formava aos seus leitores sobre as possíveis con-
longes do astro deveriam ter uma constituição
dições de vida em alguns planetas, atendendo a
menos material, e mais espiritual, que os impe-
uma ansiedade generalizada do século. A visão da
Terra como planeta minúsculo num universo in- diria de cometer a tolice do pecado. Já os habi-
finito ainda incomodava as pessoas. Recorreu-se tantes dos planetas expostos mais às energias so-
a uma antiga idéia, lançada por Demócrito: en- lares não teriam de desenvolver suas próprias
cher o vazio do cosmo com inúmeros mundos energias. Seriam muito mais ligados à matéria e
habitados por seres humanos. Por que Deus cria- com poucas capacidades espirituais, o que os im-
dor do mundo teria criado apenas uma réplica sua pediria de assumir a responsabilidade por seus
em um só planeta? Assim, o homem na Terra não atos diante da justiça. Os homens pecadores só
ficou tão perdido no imenso cosmos. A expulsão existiriam numa distância média do Sol, onde os
do homem do centro do mundo foi compensada habitantes seriam igualmente dotados de razão e
pela povoação do universo. sensibilidade.

Referências Bibliográficas
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WALZER, M. Thick and Thin. Moral Argument at Home and Abroad. Notre Dame: University of Notre Dame Press,
1994.

Dados do autor
Doutor em estudos literários, literatura
comparada pela Faculdade de Letras,
Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG),
com licenciatura em ciências políticas, história e
língua e literatura inglesas pela Universidade de
Tübingen/Alemanha.

Recebimento artigo: 16/jul./04


Consultoria: 14/set./04 a 13/out./04
Aprovado: 19/nov./04

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Viciado em suas Próprias


Inclinações? Kant sobre a
propensão ao mal
ADDICTED TO OUR OWN INCLINATIONS?
KANT ON THE PROPENSITY TO EVIL 1 1
Resumo Neste artigo, reflito sobre a leitura kantiana da propensão humana para o
mal. Essa doutrina parece ameaçar a insistência de Kant, em toda a sua obra ética, so-
bre a liberdade humana de escolha numa dada situação. Desse modo, alguns especia-
listas lêem a propensão ao mal simplesmente como um exemplo da possibilidade de
escolher o mal em vez do bem (isto é, as inclinações, em vez da lei moral, como in-
centivo). Isso parece tornar trivial a propensão kantiana, pois a noção de possibilidade
volitiva já está contida no conceito de ser humano livre. Examino a leitura kantiana
desse tópico controvertido e tento mostrar como ele poderia descrever algo inquie-
tante sobre a escolha humana e a força da inclinação, sem cair na trivialidade nem cha-
mar de inerentemente má a natureza/inclinação humana (em certos pontos, ele indica
até que as inclinações nem sequer são más). Por fim, discuto a proposta de uma de-
dução a priori da propensão ao mal feita por Henry Allison, e concluo que ela não é
uma fundamentação satisfatória do que Kant pretende dizer com propensão ao mal.
SCOTT R. STROUD
Palavras-chave KANT – INCLINAÇÃO – MAL – VONTADE – PROPENSÃO. Temple University Philadelphia,
Pennsylvania/EUA
scott_stroud@hotmail.com
Abstract In this paper I consider Kant’s reading of a human propensity to evil. Such
a doctrine seems to threaten Kant’s insistence throughout his ethical work of human
freedom of choice in any given situation. Thus, some scholars read the propensity to
evil as merely showing the possibility of choosing evil over good (i.e., inclinations over
the moral law as an incentive). This would seem to render Kant’s propensity trivial,
since the notion of volitional possibility is already contained in the concept of a free
human being. I examine Kant’s reading of this contested topic, and try to show how
he could be describing something worrisome about human choice and the force of
inclination without either falling into triviality or into calling human nature/
inclination inherently evil (at some point, he indicates the inclinations to be not evil
at all). I end by considering a proposed a priori deduction of the propensity to evil
given by Henry Allison, and conclude that it is not a satisfactory grounding of what
Kant means with the propensity to evil.

Keywords KANT – INCLINATION – EVIL – WILL – PROPENSITY.

1 Este artigo beneficiou-se dos comentários de PAUL GUYER (University of Pennsylvania/EUA). Tradu-
ção do inglês para o português: JOÃO JOSÉ RODRIGUES LIMA DE ALMEIDA (Unicamp).

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O
postulado da imortalidade defendido por Kant, na
Crítica da Razão Prática (CRPr, 1787) sempre con-
fundiu os comentadores, por causa da pressuposição
de um fim à prática da moralidade na pureza da dis-
posição ou na santidade.2 De fato, Paul Guyer indica
que esse ponto final, na CRPr 5:122, implica “con-
quistar um estado de santidade no qual uma pessoa
não só nunca deseja máximas ou ações, exceto de
acordo com a moral, mas nunca tem inclinações para fazer o contrário”.3
Assim, o ponto crucial da santidade ou a “completa conformidade de dis-
posições com a lei moral” (die völlige Angemessenheit der Gesinnungen
zum moralischen Gesetze), na CRPr 5:122, parece sugerir a eliminação das
inclinações como forças persuasivas da vontade em relação à lei moral. O
desafio, para aqueles que querem dar sentido à noção de imortalidade em
Kant, é poder reconciliar esse fim projetado pela vontade moral (de um
ser finito) com a sua explicação posterior, na Religião Dentro dos Limites
da Simples Razão (RLR, 1793),4 das inclinações como boas quando con-
sideradas por si mesmas (6:58). Se as inclinações não são más (não devem
ser extirpadas), por que significam um estorvo à ação moral e ao pro-
gresso rumo à perfeição moral? A resposta parece residir na sua relação
com a propensão inata para o mal, identificada por Kant na natureza hu-
mana, em RLR, e considerada por muitos comentadores tanto inovadora
quanto perplexa.5 Neste artigo, argumento que a noção kantiana de pro-
pensão ao mal pode permitir que as inclinações sejam “boas” num sentido
moral, em oposição ao antagonista inerente, como eram amiúde retrata-
das nas primeiras obras. A propensão ao mal surge, contudo, na propen-
são do ser humano de desenvolver inclinações mais fortes e exigentes,
quanto mais seus objetos forem desfrutados. Esta leitura responde ao que
acredito serem as duas questões-chave da noção kantiana de propensão ao
mal. Ela é mais do que apenas a possibilidade de má conduta? Em segun-
do lugar, o papel da inclinação na má vontade é descritível em analogia
com a força? Ambas as feridas no coração do debate, e as respectivas res-
postas afirmativas, serão tratadas nas seções finais deste artigo. Após de-
senvolver tal interpretação da RLR e destacar algumas mudanças na pri-
meira concepção de liberdade em Kant, observarei a importante tentativa
de Henry Allison de fornecer uma dedução a priori dessa propensão.
Concluo com o argumento de que essa dedução se frustra, pelo fato de
Kant sempre querer que a propensão fosse fundamentada no ser humano

2A tradução da Kritik der praktischen Vernunft, de Kant, a ser usada, encontra-se na Practical Philosophy
(KANT, 1996b). As referências ao trabalho de Kant, em geral, serão feitas usando os volumes e números
de página da Kants Gesammelte Schriften (KANT, 1968). Para a Crítica da Razão Pura, as referências
tomam por base o esquema de paginação das edições A/B.
3 GUYER, 2000, p. 352. Para uma bem conhecida investigação do postulado da imortalidade, cf. BECK,
1963, p. 270-271.
4 A tradução de Die Religion innerhalb der Grenzen der bloâen Vernunft a ser consultada localiza-se em
Religion and Rational Theology (KANT, 1996a).
5 Para mais informações sobre o significado geral e o paradoxo da RLR, cf. ALLISON, 1990, p. 146;
MICHALSON, 1999, p. 101-102. Outra discussão, embora pareça sucumbir à leitura de “dois mundos”
em Kant, é a de SILBER, 1960, p. LXXIX-CXXXIV.

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como criatura sensoriamente condicionada. Tal analisar cada uma delas como possibilidade de agir
concepção deve incluir uma interpretação da força de maneiras moralmente dignas ou indignas. A
da inclinação, a fim de realmente fazer justiça à noção de predisposição (Anlagen) é definida como
real experiência de deliberação dos seres huma- “as partes constitutivas para ela necessárias, e as
nos, algo que não pode ser deduzido do conceito formas da combinação que conformam seu ser”
de ação humana. (6:28). Para que o humano tenha vícios relativos à
INCLINAÇÕES E MAL, NA RLR sua animalidade, por exemplo, eles devem possuir
Kant, em 1793, faz na RLR um importante essa potencialidade ou possibilidade; em outras pa-
acréscimo ao seu pensamento ético. Começa a lavras, precisam ter uma predisposição para o bem,
usar explicitamente as terminologias de Wille e nessa forma física de amor a si (normalmente
Willkür para veicular, respectivamente, a vontade bom). A pressuposição operativa, na primeira e na
como razão prática e o poder de escolha. Toma segunda predisposições observadas (para a anima-
agora o agente como alguém que usa o seu poder lidade e para a humanidade), é que elas são nor-
de escolha (Willkür) para incorporar incentivos malmente boas, mas podem ser corrompidas, o
dentro das máximas que governam suas ações, que explica os vícios discutidos por Kant. Henry
criando, assim, sua disposição (Gesinnung).6 Kant Allison observa esse ponto, traçando um paralelo
declara que a liberdade do poder de escolha em re- para a discussão dos deveres da virtude, na Meta-
lação a ações/máximas específicas não pode ser física dos Costumes, originados na nossa anima-
determinada por “qualquer incentivo, exceto na lidade e na nossa humanidade.7 Sem mal uso, essas
medida em que o ser humano a tenha incorporado são as fontes dos deveres morais legítimos, e, por
na sua máxima [ele a transformou numa regra uni- conseguinte, aspectos bons da nossa constituição
versal de acordo com a qual quer se conduzir]; so- “natural”. A terceira possibilidade (personalidade)
mente dessa forma pode um incentivo, qualquer parece ter o poder contra qualquer tipo de mal uso –
que seja, coexistir com a absoluta espontaneidade respeitar a lei moral como um incentivo suficiente
do poder de escolha [da liberdade]” (6:24). Logo nunca é um vício, mas pode sê-lo para a cautela ou
a seguir, identifica os dois incentivos em geral a falta de cuidado do agente volitivo.
como a lei moral e o amor a si (proveniente da Quanto às inclinações, Kant argumenta, a
inclinação). Para os humanos, o mal se relaciona à seguir, que elas são totalmente boas quando tidas
subordinação do primeiro ao segundo, na máxima em si mesmas. No início da Parte II, Kant diz que
que guia o agente. Mas de onde vem esse mal? “Consideradas em si mesmas, as inclinações natu-
Kant continua a sustentar, em toda a RLR, rais são boas, isto é, não repreensíveis, e querer
que, considerado simplesmente como uma criatu- extirpá-las seria não somente fútil, mas também
ra natural, o ser humano não é necessariamente danoso e culpável” (6:58). Pelo menos quatro li-
mal. Indico que duas fontes de apoio para essa as- nhas de argumento podem ser dedicadas a essa
severação são, especificamente, os elementos “na- posição. Primeiro, é provável que as inclinações
turais”, em sua noção de predisposições humanas tenham de ser imaginadas como boas, porque to-
para o bem, e as suas manifestas declarações de que das as partes da natureza devem ser encaradas
as inclinações (Neigung) não são fontes do mal como tais, ou, no máximo, como amorais. Na
(quando tidas em si mesmas). Antes de Kant adian- Seção I de Fundamentação da Metafísica dos Cos-
tar a intrigante declaração de que a natureza hu- tumes (FMC, 1785), Kant apela para o princípio
mana tem uma “propensão” para o mal (6:29), ele teleológico (refletivo) de que todos os órgãos de
começa por arrolar três “predisposições originais um organismo são bem adequados a seus pro-
para o bem na natureza humana” (6:26) e passa a pósitos pelo decreto da natureza (4:395), e juízos
6 Em razão das limitações de espaço, me abstenho de discutir o con-
similares sobre como devemos vê-la e seus obje-
ceito de Gesinnung e a importância que ele passa a ter na RLR. Para uma
explicação desse ponto, cf. ALLISON, 1990, p. 136-145. 7 Ibid., p. 149.

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tos aparecem na Crítica da Faculdade de Julgar para a humanidade em geral” (6:29). Como ex-
(CFJ, 1790). A naturalidade das inclinações não as plica numa nota de rodapé (acrescentada à segun-
torna automaticamente más, pois esse termo não da edição da RLR), essa é simplesmente uma “pre-
se aplica à natureza (dado que ela carece de livre disposição para desejar um prazer que desperta
escolha) e, também, porque ela parece (para nós) uma inclinação quando o sujeito já o experimen-
projetar suas criações com o mais alto nível de tou” (6:29). Como as predisposições para o bem,
funcionalidade possível. Em segundo lugar, Kant a propensão para o mal marca um traço da exis-
normalmente discute as inclinações como com- tência humana que pode, porém não necessaria-
ponentes (numa soma) do conceito de felicidade mente, levar à “má” ação. A principal diferença
(FMC 4:405). Se temos o “dever indireto” de fo- está na valência por detrás do incentivo. Como
mentar nossa felicidade (FMC 4:399), então, as observa Kant, a propensão ao mal ressalta a pro-
inclinações não devem ser prima facie objetáveis.8 babilidade de uma certa experiência (álcool para
O terceiro argumento é tratado na RLR 6:35, em um alcoolista, por exemplo) de, uma vez desfru-
que ele diz que a natureza sensual do ser humano tada, crescer e aumentar na qualidade de desejo
e as inclinações por ela trazidas não podem ser a habitual – uma inclinação é alimentada por esse
fonte do mal, pois o próprio agente não escolhe ato. Tal inclinação para uma atividade específica
ter as suas inclinações específicas – em vez disso, não está inicialmente presente na sua forma ple-
sua presença é um aspecto da nossa existência fí- na, mas somente em potencial, no ser humano.
sica, e não algo escolhido. O quarto argumento é Dada a experiência certa que irá nutrir essa pro-
dado nessa seção, quando Kant sustenta que as pensão, a inclinação em foco começa a ficar cada
inclinações não mantêm nenhuma relação causal vez mais forte, no sentido de desejar ainda mais a
direta com a nossa vontade. Ao revés, o poder de atividade e a força a ser despendida para resistir a
escolha do ser humano é usado para determinar tal ímpeto. Dado o desenvolvimento dessa pro-
se ele vai agir tomando como incentivo essas pensão, um agente terá maior ou menor capaci-
inclinações ou a lei moral. dade de adotar a lei moral como incentivo prin-
Somente depois dessa análise é que Kant cipal para as suas máximas. Kant denomina o fato
trata a propensão ao mal no ser humano. Isso re- como a posse do bom ou mal coração (6:29).
presenta um problema, simplesmente porque, Aproveito a oportunidade para destacar o
aparentemente, o lado natural da humanidade é que, para os agentes, parece ser um dado feno-
“predisposto ao bem”, e o lado racional (a sua menológico – o “fato” de que suas inclinações
personalidade) orienta-se definitivamente para a possuem um “peso” ou “força de atração”, quando
lei moral como incentivo. Dados esses funda- lhes sucede estar agindo por elas. Naturalmente, a
mentos, o desafio seria argumentar que os seres linha oficial kantiana é que não são as inclinações
humanos são maus de maneira profundamente as responsáveis pelo mal, mas, ao revés, a livre es-
arraigada e inata. No entanto, o que Kant declara, colha do agente de incorporá-las em sua máxima
na Parte I da RLR, é que os seres humanos apre- como subordinadas ao incentivo da lei moral é que
sentam uma “propensão inata para o mal” (6:29). faz dizer que ele seja “mau”. Kant discute a ques-
O uso do termo propensão (Hang) é confuso, vis- tão em vários momentos e parece destacá-la para
to que Kant pretende distingui-lo de predisposição não ser derrotado pela objeção antecipada na Crí-
(Anlage). Ele começa pela definição de propensão, tica da Razão Pura (CRP, 1781/1787), em A554/
explicando que, com ela, pretende se referir ao B582.9 Ali ele convoca o exemplo do mentiroso
“fundamento subjetivo da possibilidade de uma malicioso para observar que, mesmo sendo a sua
inclinação (desejo habitual, concupiscentia), na condição bastante patológica, sempre deve-se ter
medida em que essa possibilidade é contingente
9A tradução da Kritik der reinen Vernunft aqui utilizada é a Critique of
8 Cf. WIKE, 1994. Pure Reason (KANT, 1998).

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por pressuposto que uma pessoa pode livremente inclinar um agente a incorporá-los em sua máxi-
escolher não mentir. A idéia da imputação é ali- ma. O primeiro grau (Stufe) dessa propensão ao
mentada com mais detalhes nas obras posteriores, mal é etiquetado por Kant como fragilidade; nesse
mas pode ser vista ainda intocada na RLR – as caso, a força da lei moral incorporada não é maior
inclinações não determinam a subordinação a seu do que a das inclinações em relação à instanciação
favor da lei moral como incentivo. Por que existe de certas ações morais de um agente reconhecido
essa preocupação? Simplesmente porque se o in- (6:29). Isso se parece com o clássico problema da
centivo fosse a causa suficiente da incorporação, a incontinência volitiva, embora moldado pelo es-
liberdade espontânea do agente (Willkür) seria quema kantiano da máxima/incorporação. O se-
destruída e estaríamos de volta à liberdade de um gundo grau é a impureza, no qual o agente trata de
escravo. O agente deve ter real liberdade de incor- tomar a ação correta, porém, sem ter a lei moral
porar o que quiser em sua máxima – explica-se, como incentivo auto-suficiente (6:30). São neces-
desse modo, a celeuma de Kant contra a idéia de as sários outros incentivos, supostamente os das
inclinações serem a causa da incorporação. Natu- inclinações, para fazer a pessoa agir de acordo
ralmente, tal interpretação perde um aspecto com os ditames do dever. O terceiro grau de mal-
exemplificado por Kant, na FMC: as inclinações dade, a depravação, ocorre quando um agente re-
exercem um tipo de força a ser incorporada de verte ativamente a ordem dos incentivos incorpo-
maneira (moralmente) não desejável. Isso deve pa- rados na máxima – em outros termos, eles subor-
recer mais óbvio aos agentes que provavelmente dinam ativamente a lei moral às inclinações (6:30).
experimentaram situações nas quais a ação moral Esse último patamar parece ser o do “melhor”
normalmente suposta não estava de acordo com a mal, aquele que apresenta o seu desenvolvimento
inclinação, e resistir a ela foi difícil. completo. Já o primeiro e o segundo graus diri-
Kant reconhece esse ponto na RLR, porém, gem-se a problemas relativos a agentes que ten-
fica o mais das vezes negligenciado pela atenção à tam ativamente ser morais.
tese da incorporação, enunciada ali pela primeira Todos esses graus envolvem agentes que
vez. Dependendo da efetivação da propensão ao possuem a escolha de incorporar a lei moral
mal, um agente terá facilidade ou dificuldade em como pura, o incentivo principal acima da
resistir às inclinações alheias à lei e às suas forças, inclinação, porém, falhando em algum ponto.
em comparação com a incorporação da lei moral Essa falha se relaciona com a propensão ao mal,
como incentivo principal (sobre a inclinação/ por ser indicativa do esforço da inclinação para a
amor a si). A escolha do agente (Willkür) é uma incorporação, e por sua habilidade de ser nutrida
atividade que detém certa força (sempre maior do ou obstruída pelo agente racional. Desse modo, o
que 0%) contra a resistência (inclinações que po- agente não pode ou não deve extirpar suas
dem variar em força e direção junto a ou contra os inclinações, e sim procurar “somente refreá-las,
ditames do dever). Pode-se até mesmo postular de modo que elas não sejam desgastadas, mas
que o esforço do incentivo moral para a harmonizadas num todo chamado felicidade”
incorporação pode variar por indivíduo, depen- (6:58). As inclinações são suscetíveis ao desen-
dendo do cultivo de emoções úteis, sentimentos volvimento não-sustentável ou conflitivo; por is-
morais etc. A força do incentivo moral e das so, o agente deve prestar atenção a como elas se
inclinações “naturais” parece sempre ter alguma reforçam pelo uso e pela satisfação.10 Um vício
magnitude (nunca 0%). Para os seres humanos,
sempre existe a chance de agir, tomando a lei mo- 10 De modo similar a Kant, a posição do antigo filósofo chinês Xunzi é
a da insustentabilidade última do sistema de emoções/desejos deixados
ral como incentivo, e de ser, conseqüentemente, por sua própria conta. É preciso que algum tipo de ordem seja imposta
responsáveis como agentes morais. O fato da im- “de fora” para que ocorra alguma satisfação significativa e sustentável.
E ele encontra isso no ritual e na música. Cf. XUNZI, 1988/1990/
putabilidade não precisa ser contradito pelo de 1994. Uma comparação/distinção frutífera entre as posições de Xunzi
que os incentivos detêm uma força no sentido de e de Kant terá de esperar até uma próxima oportunidade.

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de crack ou cocaína não é sustentável (por muito mento provável de uma força por detrás das
tempo), nem conduz à satisfação de outras inclinações escapando de um controle fácil). As
inclinações (ou à felicidade como um conjunto inclinações são boas, mas os seres humanos
harmonizado de todas as inclinações) ou à capa- apresentam uma propensão inata para desen-
cidade de querer racionalmente ações/fins no fu- volver padrões fortes, e, em última instância,
turo. Seria o exemplo principal de uma inclinação insustentáveis, de comportamentos dirigidos
que mantém a capacidade (danosa) de ganhar por inclinações, se não for dada atenção ao modo
força quando alimentada, e é precisamente esse como os incentivos estão organizados.12
traço do ser humano e suas inclinações o obser- MUDANÇAS NAS PRIMEIRAS CONCEPÇÕES
vado por Kant como a propensão para o mal. DE LIBERDADE
Kant reconhece, numa nota de rodapé, que as Chegados a esse ponto, é útil dar um passo
inclinações possuem de fato alguma força, ao in- atrás na análise da RLR e situá-la no contexto do
clinar o agente a incorporá-las, e que elas tornam pensamento de Kant. Colocar a noção de Willkür
“mais difícil a execução das máximas boas que se como o verdadeiro locus da liberdade é uma
lhes opõem” (6:59). Afirma também que “o mal admirável clarificação das doutrinas da FMC e da
genuíno consiste em nossa vontade de não resistir CRPr. O problema com as conceitualizações an-
às inclinações, quando elas convidam à transgres- teriores, se posso juntá-las na mesma perspectiva
são” (6:59). Essa vontade deve ser assumida para por amor à análise, é que elas se ocupam da livre
admitir alguma estimativa de variação de forças, vontade. O foco é tão concentrado na determina-
já que os graus de maldade e o desenvolvimento ção das ações, do ponto de vista de lei moral, que
de inclinações ilegais envolvem graus diversos de é também a vontade verdadeira do agente uma
força moral em resposta a elas. Na Metafísica dos pessoa aparecer como livre somente quando está
Costumes (MC, 1797), Kant conceitualiza virtude agindo moralmente. Esse pode ser o resultado
como “a força moral da vontade de um ser huma-
desejado por Kant, mas também implica que uma
no em cumprir seu dever, uma coação moral
pessoa não é livre quando está sendo imoral, e,
mediante sua própria razão legisladora, na medi-
nesse caso, tampouco responsável pelos seus
da em que isso constitui por si mesmo uma au-
atos. Essa crítica básica da doutrina, na FMC (e
toridade que executa a lei” (6:405).11 Enquanto
também, de maneira similar, na CRPr), foi feita
essa análise da força da vontade e da inclinação
por Henry Sidgwick e outros.13 Com certeza,
não pode explicar determinativamente certas con-
essa não é uma doutrina com a qual Kant quis se
figurações da incorporação (Kant sustenta, em
ver associado, dada a sua forte posição a respeito
RLR 6:59n e outros trechos, que a liberdade de
da imputabilidade radical das ações, já desde o
escolha torna tais explicações causais impossí-
veis), ela é capaz, por outro lado, de descrever próprio começo do projeto crítico (CRP A554/
B582). Mencionarei apenas dois acréscimos críti-
proveitosamente a experiência moral do querer
em face das inclinações. Essa leitura preserva a cos feitos na RLR em relação ao aparente modelo
responsabilidade moral no fato de que cada da liberdade, na FMC e na CRPr, para, a seguir, en-
agente tem a capacidade de escolher contra as trar na discussão do tipo de prova que Kant pode
inclinações (não importa em que medida sua for- dar (e realmente o dá) para a controvertida pro-
ça esteja “desenvolvida”) e a favor da lei moral pensão ao mal, na RLR.
como incentivo principal, todo o resto dando 12 Devo observar que Kant assume que algumas inclinações eventual-
sentido ao que significa dizer que um agente mente entrarão em conflito com outras inclinações ou com as deman-
possui uma propensão ao mal (no desenvolvi- das do dever. Mesmo sendo razoável, tal suposição pode precisar de
alguma defesa, se alguém não estiver satisfeito com os métodos empí-
ricos de prova nessa questão. Esse ponto será abordado na seção final
11 A tradução usada de Die Metaphysik der Sitten encontra-se em deste artigo.
Practical Philosophy (KANT, 1996b). 13 Cf. SIDGWICK, 1981.

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Um acréscimo decisivo feito por Kant à sua ções como “um poderoso contrapeso para todos
explicação da liberdade, na RLR (continuada na os comandos do dever”, a serem resumidos no
MC), é a ênfase na liberdade de escolha, não me- conceito de felicidade. Numa passagem posterior,
ramente na vontade. Se, por exemplo, a vontade as inclinações e seus objetos específicos são deno-
de uma pessoa (igualada à lei moral, na FMC) é a minados condicionais e não contêm valor compa-
lei moral, então, o problema de Sidgwick se apli- rável ao valor intrínseco tido pelos agentes racio-
ca. Na Seção III da FMC, Kant salienta que a lei nais como fins em si mesmos. Ele ressalta que “as
moral deve ser a lei causal da vontade, pois, se a próprias inclinações, como fontes de necessida-
inclinação a determinasse, não teríamos liberda- des, estão tão longe de ter um valor absoluto, de
de, e sim determinismo. Em outros trechos da modo tal que faça alguém desejá-las, devendo ser,
CRPr, Kant também trata a lei moral como a lei ao revés, o desejo universal de todo ser racional de
causal do agente moral livre. Isso significa natu- estar completamente livre delas [gänzlich davon
ralmente que, ao agir de acordo com a inclinação frei zu sein]” (FMC 4:428). As inclinações são, as-
(o oponente mais comum na determinação da sim, retratadas negativamente, podendo-se rapi-
ação de uma pessoa, do ponto de vista da idéia do damente concluir que Kant as está condenando
puro dever), estaríamos determinados (no senti- como más em si mesmas. Entretanto, esse pode
do forte de tal expressão) pela natureza, e não não ser o caso, já que, na frase, a preposição davon
pela livre espontaneidade da vontade. Kant pro- pode ser tomada como estar livre do seu controle,
vavelmente reconheceu esse problema, por volta em vez de ser livre delas (ou seja, sem inclina-
de 1793, e o corrigiu com a estipulação da Willkür ções). Numa leitura tolerante, portanto, Kant não
como a faculdade livre, no sentido da espontanei- está afirmando que as inclinações sejam inerente-
dade, e não predeterminada no sentido causal. mente más, porém, que: 1. elas não são parte im-
Desde então, tornou-se possível falar de um portante do valor moral (a boa vontade); 2. elas (e
agente determinando a sua máxima com base na seus objetos valorados condicionalmente) con-
lei moral, mas não estritamente estabelecido pela fundem a tentativa de querer pelo respeito à lei
lei moral (assim como a vontade santa é especifi- moral. Como fazem isso? Pela posse de uma
cada). O acréscimo da Willkür permite a Kant força exercida sobre o aparato volitivo do agente
continuar a afirmar que o agente é tanto subjeti- (Willkür, na RLR). Tal força é amplamente docu-
vamente indeterminado (tem um papel ativo na mentada nas menções das inclinações como con-
determinação da sua máxima) como objetiva- trapeso às demandas do dever. A maior mudança
mente definido (pelo fato de a lei moral coman- ocorrida, da FMC até a RLR, é que, na primeira, as
dar o que ele deve fazer), sem medo de compro- inclinações são descritas como um desafio imedi-
meter-se com a afirmação de que a ação moral é ato ao querer moral, ao passo que, na segunda, a
diferente (quanto à imputabilidade) da ação imo- ameaça à ação moral surge se as inclinações se de-
ral. Kant mantém a ênfase na Willkür como o as- senvolvem com força, com demanda e de manei-
pecto verdadeiramente espontâneo e livre da ação ras insustentáveis. A leitura do peso imediato das
moral, em MC (6:226). inclinações e da natureza desenvolvimentista da
A segunda alteração de Kant à sua explica- sua ameaça é feita na CRPr. Nela, Kant declara: “as
ção da liberdade diz respeito ao valor das inclina- inclinações modificam-se, crescem com a indul-
ções. Na FMC, ele retrata as inclinações como a gência que se lhes permite, e sempre deixam para
fonte das tentações para a vontade imoral. Se uma trás um vazio ainda maior do que se poderia ima-
pessoa pode ser determinada pela lei moral ou pe- ginar preencher. Por isso, elas são sempre incô-
las inclinações, e somente a primeira é verdadeira- modas para um ser racional e, embora ele não pos-
mente livre, então, a segunda passa imediatamente sa colocá-las de lado, elas lhe arrancam o desejo de
a ser vista como uma barreira à ação livre (e mo- livrar-se delas” (5:118). Nessa passagem, Kant pa-
ral). Em 4:405, na FMC, Kant denomina as inclina- rece estar do lado de uma extirpação das inclina-

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ções, é o que parece estar na conotação do verbo oposto real deve ser atribuível. Em primeiro lugar,
entledigen. Desse modo, as inclinações adquirem temos de imaginar como seria essa propensão ao
uma valência negativa, quando avaliadas do ponto bem, já que Kant não a menciona explicitamente
de vista do querer moral – são tão incômodas, que na RLR. Allison, tomando emprestada a descrição
uma pessoa quer se ver livre delas (o que é dife- kantiana da propensão ao mal, observa que essa
rente de meramente controlá-las). Isso é clara- nova propensão consistiria em preferir a subor-
mente o que se modifica na sua explicação da RLR, dinação ao incentivo do amor a si ao incentivo da
já que, em 6:58, Kant compreende claramente as lei moral. Argumenta, assim, que “uma propensão
inclinações não como inerentemente imorais ou ao bem consistiria num tipo de preferência espon-
obstáculos naturais ao querer moral, e sim como tânea pelos requisitos impessoais da moralidade
boas, quando consideradas em si mesmas. Certa- acima das próprias necessidades como animal
mente, Kant mudou/clarificou sua visão sobre o racional com um desejo inscrito de felicidade”.16
que exatamente é livre e espontâneo na ação mo- O resultado dessa propensão ao bem, segundo
ral e no que diz respeito ao valor moral das Allison, seria o “de que para esse agente, o incen-
inclinações, na época da RLR. O que não parece tivo moral teria, de fato, mais peso do que o in-
tão claro, no entanto, é como Kant poderia provar centivo do amor a si”.17 O que Allison está clara-
suas fortes afirmações, ao esclarecer sua posição mente descrevendo aqui é o que Kant, por outro
especialmente sobre a inata e universal propensão lado, refere como vontade santa, um ser subjetiva
ao mal nos seres humanos. É sobre tal tópico que e objetivamente determinado pela lei moral. Esse
este artigo se volta agora. estado (de possuir tal propensão ao bem) é im-
O INATISMO DO MAL PODE SER DEDUZIDO? possível aos seres humanos, pois eles apresentam
Os comentadores têm se ocupado bastante inclinações, ao contrário da vontade santa, que
com a “prova” da afirmação, de Kant, de que a na- “não é sensivelmente afetada”.18 Assim, ao mos-
tureza humana possui uma propensão inata ao trar a impossibilidade da propensão ao bem,
mal. Kant reconhece essa questão ao longo da RLR Allison acredita ter demonstrado a possibilidade
6:33, mas indica que não se deve buscar uma pro- (e a necessidade) de atribuir a propensão oposta
va a priori para tal afirmação – a própria experiên- (ao mal) na natureza humana.
cia irá mostrar alguma evidência da propensão hu- Essa dedução é o tipo de apoio que Kant
mana a rebelar-se contra a prioridade da lei moral. necessita para o emprego prático da análise da
Henry Allison, entretanto, argumenta que Kant propensão fornecida na RLR? Acredito que não,
necessitaria, aparentemente, dessa dedução para por várias razões. A primeira delas é que a dedu-
sustentar a propensão ao mal como um postulado ção de Allison parece equivocar-se na colocação
da ação moral. Produz, então, uma dedução, acre- do problema. De modo algum, Kant está suge-
ditando ser a que Kant deveria ter dado como rindo que a propensão ao bem significaria que o
apoio à propensão ao mal.14 Mostrarei que essa agente possui uma vontade santa. Na realidade,
dedução não está de acordo com o que Kant tinha essa vontade (determinada) não tem propensão ao
em mente, mas, antes, esboçarei as linhas do ar- bem, mas é objetiva e subjetivamente determina-
gumento de Allison. Este autor diz que uma ma- da ao bem (FMC 4:414, 4:439). Na FMC, é a pre-
neira de demonstrar a propensão ao mal dos seres sença das inclinações e dos incentivos morais que
humanos seria evidenciando “a impossibilidade de sinaliza a falta humana de determinação subjetiva,
atribuir uma propensão ao bem em agentes finitos e isso é o que oferece ao agente o espaço volitivo
sensivelmente afetados como nós”.15 Tal possibi- necessário para a existência de propensões a um e
lidade não é autocontraditória, portanto, se é im- a outro lado. Não faz sentido dizer que “o agente
possível atribuí-la a seres humanos, então, o seu
16 Ibid., p. 155.
14 ALLISON, 1990, p. 154-155. 17 Ibid., p. 155.
15 Ibid., p. 155. 18 Ibid., p. 156.

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tem uma propensão para o bem”, se não se pode tureza, utilizada em sua descrição dos seres huma-
deixar aberta a opção de que ele não faça o bem. nos como maus por natureza. O ser humano (co-
Nesse sentido, as opções não se limitam a uma mo oposto a uma pura vontade santa) é sensoria-
vontade santa (com uma suposta propensão ao mente condicionado e, como tal, sujeita-se aos in-
bem) ou a uma vontade com uma propensão centivos subjetivos colocados por Allison fora da
ao mal. Se fosse esse o caso, Allison poderia provar jurisdição de uma pessoa com propensão ao bem.
a necessidade da segunda pelo argumento disjun- Em vez disso, Kant deve estar usando os dados da
tivo. Em vez disso, seria possível reconhecer con- experiência para argumentar que existe algo no ser
ceitualmente as vontades santas (objetiva e subje- humano que o leva a valorizar os incentivos da
tivamente determinantes para se seguir a lei inclinação como primordiais muitas vezes. Assim,
moral), as vontades más (as diabólicas, que Kant
não apenas a possibilidade da vontade má, mas a
desconta na RLR como objetiva e subjetivamente
probabilidade de sua ocorrência nos casos signifi-
orientadas a fazer somente o mal) e uma catego-
cativos deve ser concedida por esse traço. Que ca-
ria intermediária de vontades objetivamente de-
terminadas e subjetivamente indeterminadas (se- racterística poderia ser essa? Como argumentei
res humanos finitos e sensoriamente afetados). anteriormente, podem ser a indigência e a força do
A questão real é para que lado do espectro bem/ desenvolvimento das inclinações a servir de garan-
mal esses seres humanos pendem? Esse é o pro- tia virtual de que o incentivo da lei moral eventu-
blema da propensão, e eu não vejo de que manei- almente seria ameaçado em sua primazia no que-
ra uma propensão ao bem necessitaria sempre se- rer. Na FMC 4:414, Kant salienta que as inclinações
guir a lei moral, não mais do que uma propensão sempre sinalizam uma necessidade, e a tendência
ao mal precisaria constantemente subordinar a lei geral da discussão, na RLR, é a propensão ao mal
moral aos incentivos da inclinação. A segunda é como o funcionamento do desejo, de tal maneira
claramente uma falsa leitura da propensão ao mal, que a experiência de prazer (Begehren) “desperta
tal como Kant a dá (ele fala, na realidade, da ma- nele uma inclinação” (6:29n). Begehren também
neira como fazemos nossas exceções ocasionais à tem a conotação de desejo e pode significar um de-
lei moral, em RLR 6:32), de modo que é somente sejo específico ou geral; no entanto, o ponto prin-
lógico que uma propensão ao bem não se equi- cipal é que o desejo tende a crescer em força e de-
valha à determinação subjetiva, ao seguir o incen- manda sobre a experiência de satisfação. Esse é um
tivo moral. Se esse for o caso, então, a dedução de fato empírico sobre a função das inclinações hu-
Allison nada mais faz do que “provar” que os se- manas, e explorado por Kant, em sua Antropologia
res humanos não têm uma vontade santa; ele não de um Ponto de Vista Pragmático (AVP, 1800).21
prova (talvez nem possa) a afirmação mais forte
Nesse texto, ele também discorre sobre a propen-
de que, como “seres humanos”, possuímos uma
são ao mal, indicando que
propensão ao mal, e não ao bem.19
Portanto, Kant talvez tenha em mente al- a experiência mostra que existe no homem uma
gum tipo de prova de que a natureza dos seres hu- inclinação para desejar ativamente o que está fora da
manos só pode ser realmente conhecida pela expe- lei, mesmo que ele saiba muito bem que é fora da
riência deles como entidades fenomênicas. Essa é lei. Essa é a inclinação para o mal que desperta tão
uma característica enfatizada por Robert Louden, inevitavelmente e tão mais cedo quanto começa o
em sua explicação sobre as orientações antropoló- homem a fazer uso da sua liberdade (...). Por
gicas da RLR,20 bem como uma observação feita conseguinte, de acordo com o seu caráter sensível, o
por Kant em 6:32, ao explicar a expressão por na- homem deve ser julgado como mal (por natureza).
(AVP 7:324)
19 Outra opção não considerada aqui (ou por Kant) é a falta de qual-
quer propensão. 21 A tradução de Anthropologie in pragmatischer Hinsicht utilizada foi
20 LOUDEN, 2000, p. 132. Anthropology from a Pragmatic Point of View (KANT, 1978).

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A base dessa propensão, segundo a RLR, car por que a escolha tende ao mal, sendo tal po-
está nas inclinações (a chave para o nosso caráter sição evidente nas explicações de Henry Allison e
sensível). A propensão cresce em força e deman- Allen Wood. Allison diz que essa propensão é
da até que deva ser verificada; essa verificação, “uma tendência a permitir que sejamos tentados
por conta das várias forças em atividade na mo- ou ‘induzidos’ pela inclinação” em questões mo-
tivação moral e na força das inclinações desenvol- rais, leitura que concorda com a minha análise an-
vidas, pode ser fácil ou difícil (avaliada quanto à terior da inclinação.22 O problema surge quando
probabilidade dos atos fenomênicos que normal- a ênfase é colocada totalmente na livre escolha do
mente dão primazia à lei moral). agente – Allison observa que tal “abertura” é to-
Kant, naturalmente, quer argumentar con- mada por nós e pela nossa atitude, e sua explica-
tra qualquer tentativa de “explicar” a escolha pelo ção minimiza o empuxo exercido pela inclinação
mal, e isso torna difícil discutir o peso das inclina- sobre nós para fazer essa escolha. Wood está cor-
ções como incentivos. Em 6:43, ressalta que a reto em salientar que a propensão ao mal tem a
propensão para escolher o mal deve permanecer ver com possuir inclinações a um padrão particu-
sem explicação, e, em 6:35, posiciona-se contra a lar,23 mas não enfatiza suficientemente o papel
colocar a base das escolhas pelo mal na natureza (significante, porém, não absolutamente decisi-
humana sensível. Entretanto, o que de fato ele vo) da força da inclinação para escolher o mal. A
está argumentando em contrário é acerca da ex- propensão ao mal não é meramente a razão que
plicação que presume uma história causal por de- damos a um incentivo “mais fraco racionalmente
trás da escolha pelo mal. Livre até determinado do que o da moralidade”.24 Aparentemente, esses
momento, o agente não pode alegar ter sido “for- incentivos podem ser tão ou mais fortes do que o
çado” pela inclinação a escolher uma máxima má, incentivo subjetivo ao dever (permanecendo, na-
nem tem qualquer necessidade do mal, por qual- turalmente, a escolha do dever, em tais situações).
quer outra causa a não ser a sua própria esponta- Em termos mais arriscados (analogia que Kant
neidade. Essa é uma preocupação legítima de
não se envergonhava de usar para descrever a fir-
Kant, mas não evita as interpretações fundadas
meza da crença, na CRP A824/B852), parece uma
no peso da inclinação na propensão ao mal. Na
má aposta pensar que as pessoas serão vistas es-
realidade, a utilidade da armazenagem dessas
colhendo o dever, e não as inclinações, já que es-
propensões com base nas observações empíricas
tas reforçam-se progressivamente em níveis mais
reside no progressivo controle sobre as inclina-
altos. Assim, a prova de que tal propensão existe
ções (concebível como um domínio progressivo
é empírica, e a propensão é apropriadamente con-
sobre elas, em oposição ao aumento da quantida-
de de força exercida sobre o agente) – tal é o pon- ceitualizada como a tendência (natural) das
to invocado por Kant ao discutir a disciplina mo- inclinações de crescer em força e demanda, após
ral, em RLR 6:51 e MC 6:383. Se o domínio está o uso. Essa força das inclinações qua incentivos
todo na “mera” escolha, então, é fácil ser moral – pode ser utilizada para iniciar uma explicação
mas é o oposto realmente o caso, com a virtude acerca da facilidade ou da dificuldade de se incor-
nos comandando “a trazer todas as capacidades e porar a lei moral como seu estímulo primordial,
inclinações sob o seu (da razão) controle e, assim, dado o desenvolvimento das inclinações, mas não
ter governo sobre si” (MC 6:408). Pode-se come- é capaz de fornecer uma explicação causal conclu-
çar a explicar a propensão à escolha do mal sem siva da escolha. Isso, como Kant sempre declara,
atribuir determinação a uma cadeia causal involu- é parte do (determinável, mas não determinado)
crada numa certa escolha. Essa explicação mais mistério da Willkür.
longa envolve alguma história sobre as inclina-
22 ALLISON, 1990, p. 157.
ções e suas forças. A tendência oposta é encon- 23 WOOD, 1999, p. 284.
trar Kant proibindo todas as tentativas de clarifi- 24 Ibid., p. 400ss.

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1988/1990/1994.

Dados do autor
Doutorando do Departamento de Filosofia da
Temple University (Philadelphia,
Pennsylvania/EUA). Mestrado em comunicação
(University of the Pacific/EUA) e em filosofia
(San Jose State University/EUA).

Recebimento artigo: 15/jul./04


Consultoria: 14/set./04 a 13/out./04
Aprovado: 19/nov./04

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Kant e a Justificação das


Crenças Morais
KANT AND THE JUSTIFICATION OF
MORAL BELIEFS 1 1
Resumo Kant é visto como a quintessência do iluminismo, pois sua filosofia crítica
enfatiza as maneiras pelas quais a razão pode guiar a ação humana. A natureza da razão
é tida como a ocupação da sua primeira Crítica e a aplicação prática da razão é a ocupa-
ção da segunda. Essa visão compreende a filosofia moral de Kant como baseada na ra-
cionalidade da moralidade humana, não numa lei divina ou na fé. Com uma compre-
ensão mais completa da história do iluminismo alemão é possível ver o papel com-
plexo que as crenças teológicas cumpriram no desenvolvimento da visão de mundo
racional moderna, a função do crer nas críticas de Kant. e acondição daqueles elemen-
tos que transcendem a razão. Este artigo examina o papel da crença na filosofia crítica
de Kant e se concentra nos postulados da razão prática pura, a fim de reconciliar a DREW PIERCE
noção de crença em Kant com a concepção de que ele é um filósofo do iluminismo. Michigan State University,
East Lansing/EUA
Palavras-chave KANT – ILUMINISMO – CRENÇA – MORAL. piercea2@msu.edu

Abstract Kant is seen as the quintessence of Enlightenment, for his critical


philosophy stresses the ways that reason can guide human action. The nature of
reason is taken as the occupation of his first Critique and the practical application of
reason is the occupation of the second one. This view holds Kant’s moral philosophy
as based on the rationality of human morality, not on a divine law or on faith. With
a more complete understanding of the history of German Enlightenment, it is
possible to see the complex role that the theological beliefs had on the development
of the modern rational view of the world, the function of believing in Kant’s critiques,
and the condition of the elements that transcend reason. This article examines the role
of the belief of Kant’s critical philosophy and concentrates on the postulates of pure
practical reason, in order to reconcile the idea of belief in Kant with the conception
that he is an Enlightenment Philosopher.

Keywords KANT – ENLIGHTENMENT – BELIEF – MORALITY.

1 Tradução do inglês para o português: JOÃO JOSÉ RODRIGUES LIMA DE ALMEIDA (Unicamp).

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U
ma visão popular de Kant, que sustenta ser ele a
quintessência do filósofo iluminista, pretende que
a sua filosofia crítica, como um todo, tenha a ver
com a natureza da razão e as maneiras pelas quais
a razão, por si mesma, pode guiar a ação humana.
A primeira – a natureza da razão – é tida como a
ocupação da primeira crítica e a segunda – a apli-
cação prática da razão –, como a da segunda crítica.
Essa visão compreende a filosofia moral de Kant como uma forma de
apoiar a moralidade humana não numa lei divina, mas na própria natureza
da razão, eliminado, assim, a contingência de uma moralidade fundada na
verdade de certas proposições não-racionais ou na fé.2 Uma compreensão
mais completa da história do iluminismo alemão reconhece o papel com-
plexo que as crenças teológicas cumpriram no desenvolvimento do con-
ceito moderno de mundo racional. Desse modo, uma interpretação mais
matizada de Kant admite o papel do crer nas suas críticas, especialmente
o da crença na fundamentação da lei moral ou, pelo menos, para a sua in-
teligibilidade. Ela reconhece que a filosofia transcendental de Kant inte-
ressa-se não apenas pela condição da razão, mas também, como o nome
sugere, pela condição daqueles elementos que transcendem a razão. Neste
artigo, portanto, examinarei o papel da crença na filosofia crítica de Kant.
Mais especificamente, analisarei a condição dos postulados da razão prá-
tica pura, na medida em que são chamados a tornar coerente o sistema
moral de Kant. Verificarei, então, se é possível compreender a moral de
Kant sem esses elementos, ou com o mínimo possível deles, reconcilian-
do a noção de crença de Kant com a concepção de que ele é um filósofo
do iluminismo. Espero que um projeto desse tipo contribua para uma
análise mais sóbria das possibilidades morais proporcionadas pela razão,
bem como dos seus limites intrínsecos. Não há melhor fonte para esse
discurso que o chamado “pai do iluminismo”.
É necessário fornecer, antes, uma breve história intelectual do de-
senvolvimento do pensamento iluminista anterior a Kant, pois ela nos
permitirá começar a entender suas visões sobre crença, por meio do con-
traste. Na introdução à Religião Dentro dos Limites da Mera Razão, de
Kant, Theodore Greene e Hoyt Hudson afirmam que
na tentativa de derrubar a autoridade tradicional e o dogmatismo da igreja, o
Iluminismo assumiu duas formas principais, pietismo evangélico e deísmo
racional. Kant, nascido e criado em um lar profundamente pietista, e rodeado
durante e depois dos seus cursos universitários de influências fortemente
racionalistas, exibe, de maneiras muito marcantes, a profunda impressão que
tiveram sobre ele ambos os aspectos do Iluminismo.3

2 É duvidoso que haja um proponente de uma interpretação tão simplista, e, por isso, não argumentarei
contra a representação de uma caricatura. Entretanto, a noção de Kant como filósofo do iluminismo é
suficiente para trazer à baila a falta de ênfase, nos estudos kantianos, de Kant como um seguidor dos limi-
tes da razão, e proporciona, ademais, os meios adequados para ingressar no discurso do conceito kan-
tiano de crença.
3 KANT, 1960, p. XII.

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Mesmo que a redução do engenho do ilu- como subjetivamente insuficiente para determi-
minismo alemão a essas duas forças possa ser sus- nar a verdade de qualquer coisa. A faculdade
peita, tal enunciado é suficiente para evocar a im- epistemológica apropriada no reino da razão teó-
portância de racionalistas como Christian Wolff rica é o conhecimento. No reino da razão prática,
no desenvolvimento do pensamento de Kant. no entanto, as coisas são diferentes. Kant obser-
Quanto ao pietismo evangélico, deixarei sua aná- va: “Somente numa relação prática, entretanto,
lise para os teólogos, já que o interesse primário pode-se tomar como fé algo teoricamente insufi-
aqui não são as transformações teológicas, e sim ciente como verdadeiro. Essa finalidade prática é
as morais. Como essa passagem estabelece, por- a habilidade ou a moralidade, a primeira para fins
tanto, o racionalismo wolffiano era a tradição do- arbitrários ou contingentes, a segunda, contudo,
minante na Alemanha prévia a Kant. Contudo, para propósitos absolutamente necessários”
na medida em que os comentários de Greene e (A823/B851). Uma fé moral, portanto, pode pro-
Hudson enfatizam a influência do racionalismo duzir certeza num sentido peculiar: “Para isso é
no pensamento de Kant, devemos observar ade- absolutamente necessário que algo aconteça, a sa-
mais que, mesmo sendo Kant solidário ao projeto ber, que eu cumpra a lei moral em todos os pon-
racionalista, achou que o racionalismo era, no seu tos” (A828/B856). Aqui “a convicção não é uma
todo, inadequado a um entendimento concreto certeza lógica, mas moral, e, posto que depende
da moral humana. O imperativo moral de Wolff, de fundamentos subjetivos (de sentimento mo-
de que a pessoa deve fazer o que a torna perfeita ral), não devo sequer dizer ‘É moralmente certo
como ser humano, ressoa um pouco à proposição que há um Deus’, mas, antes, ‘Eu estou moral-
categórica de Kant. Não obstante, falta ao racio- mente certo’ etc.” (A829/B857). A idéia de certeza
nalismo a concepção de natureza humana neces- moral é, portanto, um tipo de certeza subjetiva e,
sária para efetuar seu próprio imperativo moral.4 a despeito de ser contra-intuitiva, tem grande im-
Segundo Kant, para dar sentido a uma asserção portância para a sistematização kantiana da mo-
moral desse tipo, devemos examinar mais acura- ralidade.
damente os seres humanos como seres racionais Kant formula mais argumentos sobre o
com disposições morais correspondentes. A noção conteúdo das crenças morais, na Crítica da Razão
de crença é importante no entendimento dessa Prática (CRPr). Ele diz que a própria possibilida-
última condição. de da moralidade requer a crença de seres morais
Kant discute a crença, na Doutrina Trans- racionais nos postulados de Deus, da liberdade e
cendental do Método, na Crítica da Razão Pura da imortalidade, entendendo-se postulado como
(CRP). Ali diz que “Se tomar algo como verda- “uma proposição teórica, porém, não demonstrá-
deiro é apenas subjetivamente suficiente, e é ao vel como tal, uma vez que inseparavelmente vin-
mesmo tempo tido como objetivamente insufi- culada a uma lei prática a priori incondicio-
nalmente válida” (5:122). A “lei prática incondi-
ciente, então isso se chama crer” (A822/B850).5
cionalmente válida” mencionada por Kant é,
Em outras palavras, uma crença proporciona
naturalmente, o imperativo categórico. O fato de
convicção, mas não certeza. No reino da razão
os postulados serem exigidos pelo imperativo
teórica ou especulativa,6 isso não é satisfatório.
categórico – lei válida somente para seres de um
Não podemos, por exemplo, sustentar uma cren-
certo tipo subjetivo – parece ser consistente com
ça sobre a geometria ou a física. Ela seria, de acor-
o seu entendimento acerca de crenças morais, na
do com Kant, uma mera opinião, tanto objetiva
primeira crítica. O argumento dos postulados da
4 Para essa interpretação da objeção de Kant ao racionalismo, sou deve- razão prática pura não é um argumento para a
dor dos conselhos de Fred RAUSCHER (1998). existência de Deus, da liberdade e da imortalida-
5 Todas as citações contêm ênfases originais, a não ser com observação
contrária.
de, mas apenas sustenta que seres racionais igual-
6 Utilizo os termos teórico e especulativo de maneira intercambiável. mente dotados de disposição moral devem estar

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subjetivamente certos dessas coisas. Contudo, se A primazia ou prioridade do prático segue-


isso é o que Kant quer dizer aqui com o termo se, de várias maneiras, da asserção kantiana so-
postulado, não está claro por que os postulados bre crenças morais, uma vez que os postulados
são teóricos, e não práticos. Os comentários de de Deus, da liberdade e da imortalidade se man-
Kant, no prefácio da segunda edição da CRP, têm, a despeito da impotência da razão teórica
apóiam tal interpretação: de proporcionar qualquer compreensão sobre
eles. Fred Rauscher, em seu artigo “Kant’s two
A doutrina da moralidade afirma seu lugar, e a dou-
priorities of practical reason”, chama, muito
trina da natureza também o seu, o que, contudo,
apropriadamente, o problema de prioridade da
não teria ocorrido se a crítica não houvesse antes
nos ensinado acerca da nossa inevitável ignorância a
crença.8 Ele afirma que a razão prática e a espe-
respeito das coisas em si, e limitado tudo o que po- culativa não são faculdades separadas, e sim di-
demos conhecer teoricamente a meras aparências. ferentes usos de uma faculdade unificada da ra-
Precisamente o mesmo tipo de exposição da utili- zão. A razão, no seu uso teórico, deve subjugar-
dade positiva dos princípios críticos da razão pura se, portanto, à razão no seu uso prático ou, en-
pode ser dado a respeito dos conceitos de Deus e da tão, “as asserções da razão prática [sobre Deus, a
natureza simples da nossa alma, que, entretanto, liberdade e a imortalidade] poderiam ser ignora-
deixo de lado para ser breve. Assim, não posso se- das pela nossa faculdade teórica, e não serem in-
quer assumir Deus, liberdade e imortalidade tendo tegradas em nosso conjunto de crenças sobre a
em vista o necessário uso prático da minha razão, a experiência”.9 Contudo, indica também que o
não ser que ao mesmo tempo retire da razão espe-
postulado de entidades transcendentais não é so-
culativa sua pretensão a visões extravagantes; pois,
mente uma ocupação da razão prática. De fato, o
para chegar a essas visões, a razão especulativa teria
de se socorrer com princípios que, de fato, alcan- nosso interesse em tais entidades provém da na-
çam somente os objetos da experiência possível, e tureza peculiar da razão teórica de preocupar-se
que, se tivessem de ser aplicados ao que não pode com questões que transcendem suas capacidades
ser um objeto da experiência, sempre, na realidade, de compreensão. Nesse sentido, podemos en-
o transformariam numa aparência, e, desse modo, tender a condição peculiar de uma proposição
declarariam toda extensão prática da razão pura teórica que assevera crenças transcendentais re-
como impossível. (Bxxix) clamadas pela razão prática. Poderíamos dizer
que os postulados satisfazem reciprocamente as
Dado que os postulados são idéias trans-
demandas da razão prática e da teórica – da pri-
cendentais, aparentemente eles não podem ser
meira, porque as reclamam para que a moralida-
afirmados por uma proposição teórica.7 Kant in-
de seja coerente; da segunda, por proporciona-
dica, naturalmente, que os postulados são um
rem algum tipo de resposta a questões que a ra-
caso especial de proposições teóricas, no qual a
zão teórica é destinada a fazer, mas é incapaz de
proposição é não-demonstrável, porém, podería-
responder.
mos dizê-lo, dedutível transcendentalmente de
uma lei prática. No entanto, isso não responde Essa aceitação não teórica dos postulados
como uma proposição teórica pode pretender in- da razão prática é profundamente insatisfatória,
formar-nos acerca de nossas obrigações transcen- especialmente num contexto em que se compre-
dentais. Para resolver o enigma, devemos exami- ende Kant como um filósofo do iluminismo. Se o
nar a prioridade dada por Kant à razão prática so- próprio exercício livre da razão for a autoridade
bre a teórica. da qual derivamos a lei moral e, portanto, nossas
estruturas políticas, dizer que a razão no seu uso
7 Devemos assumir que Kant postula uma liberdade transcendental, e
não prática, já que a segunda, de acordo com ele, pode ser provada pela 8 RAUSCHER, 1998, p. 399.
experiência e não requer nenhuma fé moral para fundamentá-la. 9 Ibid., p. 407 (grifos acrescidos).

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prático requer proposições teológicas que não Antes de nos dirigir a essa finalidade crítica,
podem ser negadas ou afirmadas pela razão teóri- precisamos, porém, aprofundar nossa compreen-
ca parece ser uma regressão aos dogmas que a filo- são da complexa noção kantiana de crenças mo-
sofia do iluminismo tinha o condão de repudiar. rais, de forma a não combater uma posição sim-
Onora O’Neill apresenta sucintamente essa críti- plista que Kant propriamente entendeu não estar
ca, afirmando que “os escritos éticos [de Kant] defendendo. Seria fácil atacá-lo, se o imaginásse-
retornam à teologia transcendente e à metafísica mos a postular a existência de um homem barbu-
que ele tinha colocado em questão de maneira tão do no céu, onisciente e onipotente, assegurando
convincente nos trabalhos anteriores”.10 Mesmo a seriedade da nossa moralidade. Como começa-
não precisando ir tão longe e afirmar os postula- mos a ver, o postulado kantiano de uma crença
em Deus é muito mais complexo do que isso.
dos metafísicos de Kant como irracionais, posto
Muito da confusão a respeito da noção kantiana
que, em certo sentido, eles procedem da razão,
de uma crença em geral resulta do seu contraste
podemos, entretanto, questionar a justificação
com uma idéia comum de que acreditar em algo
pela qual os postulados são estimados como ne-
equivale a “acreditar que é verdadeiro”. Crer em
cessários. Uma maneira de fazê-lo seria colocar Deus, portanto, seria acreditar que Deus existe.
em causa os argumentos particulares oferecidos O que é verdadeiro, tomando uma abordagem da
por Kant para a necessidade da crença em Deus, teoria da correspondência, seria o que é real ou
na liberdade e na imortalidade.11 Neste trabalho, correspondente, de alguma maneira, à realidade.
não me direcionarei ao conceito de liberdade por Dado o seu compromisso com o reino transcen-
duas razões. A primeira, porque sua análise isola- dental, noumenal, não pode ser essa a noção kan-
da e em relação à moralidade é muito complexa tiana de crença, pois não é possível conhecer nada
para que a ela se faça justiça aqui. E a segunda é sobre tais objetos, do ponto de vista noumenal.
que não acredito ser frutífera a tentativa de ques- No entanto, podemos (de fato, deveríamos) ter
tionar tal postulado. É possível compreender a crenças a respeito desses mesmos objetos. Por
moralidade de Kant sem a bagagem teológica de conta do entendimento leigo de crença e da teo-
Deus e da imortalidade, mas é improvável conse- ria da correspondência, não conseguiríamos acre-
guir lidar com a sua noção de liberdade de manei- ditar nos postulados da razão pura, por serem
ra similar. Lembremos que a razão original para transcendentais, nem nunca averiguá-los contra
tentar compreender a ética kantiana sem os pos- uma realidade da qual tivéssemos conhecimento.
tulados era a de que ela poderia ser coerente com Tampouco podemos entender a concepção kan-
a idéia de Kant como um filósofo do iluminismo. tiana de crença ao modo da teoria da verdade por
Nós, modernos, portanto, poderíamos gostar de coerência, na qual as crenças só se justificam por
livrar nossa teoria moral das noções de divindade outras crenças. Essa teoria é atrativa por si mes-
ma, pois prescinde do questionável salto da cren-
e de imortalidade, mas não seríamos tão rápidos
ça individual para a realidade empírica. Entretan-
para jogar fora o nosso livre arbítrio, junto com a
to, para compreender as crenças morais kantianas
água do banho, por assim dizer. Dessa maneira,
no âmbito da teoria da coerência, teríamos de dar
questionarei apenas o postulado de Deus, já que
ao imperativo categórico a condição de crença, já
o da imortalidade deriva e permanece ou cai com
que é isso o que justifica o postulado de Deus, da
o postulado de Deus.12 liberdade e da imortalidade, e uma vez que a teo-
10 O’NEILL, 1992, p. 51.
ria da coerência atesta que somente uma crença
11 Tais argumentos encontram-se, mais explicitamente, na CRPr (5:122- pode justificar outra crença. Kant, no entanto,
5:141).
12 Kantobserva essa relação de contingência, numa nota de rodapé da
não pretende relegar o imperativo categórico a
segunda edição da CRP (B395). essa condição, pois afirma, em muitos trechos,

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que ele deve ser objetivamente válido, se não em- tem suporte adicional na sua afirmação, ao final
piricamente real.13 da CRP, de que “todo o interesse da minha razão
Em vez disso, devemos entender o método (tanto especulativa como prática) se unifica nas
kantiano da dedução transcendental como alter- seguintes três questões: 1. o que posso saber?;
nativo tanto às teorias da crença por correspon- 2. o que devo fazer?; 3. o que posso esperar?”
dência quanto às teorias da crença por coerência. (A804-5/B832-3).14 Observemos que a última
Quando Kant deduz os postulados da lei moral, pergunta não é, como era de se prever, “o que
não pretende dar uma prova de certos existentes, posso crer?”. Sem mergulhar muito profunda-
mas, antes, deduz a necessidade de certos concei- mente nas nuances entre as palavras crer e esperar,
tos. No domínio da teologia especulativa, Kant podemos dizer que quando alguém crê, no senti-
diz: “Eu me contento com definir o conhecimen- do vernacular descrito acima, pensa que algo é ou
to teórico como aquilo mediante o qual conheço será – eu acredito que Deus existe, eu acredito
o que existe, e o conhecimento prático como aqui- que há vida após a morte. Quando alguém espera,
lo mediante o qual represento o que deveria exis- entretanto, isso não implica uma crença de que
tir” (CRP, A633/B661). Kant, aqui, joga mais luz algo é ou será, mas somente de que deveria ser.
sobre a razão pela qual os postulados são pro- Assim, é perfeitamente inteligível dizer coisas
posições teóricas deduzidas de leis práticas. Apa- como “espero que o Spartans ganhe amanhã, mas,
rentemente, estaria afirmando, pelo que foi dito da maneira como vem jogando, não acredito que
acima: “todos os seres racionais deveriam acredi- isso irá ocorrer”. A noção kantiana de crença,
tar que Deus existe etc.”. Nesse sentido, o enun- portanto, ao menos na medida em que se relacio-
ciado parece ser uma proposição prática, e não te- na com os postulados, é mais próxima do sentido
órica. Mas à luz dos comentários de Kant sobre a vernacular de esperar do que de crer.
teologia especulativa, podemos reformular a afir- É digno de preocupação se essa forma um
mação kantiana como algo mais ou menos assim: tanto vaga de postular o conceito de Deus real-
“em todos os seres racionais existe uma crença de mente fortalece a teoria moral do modo como
que deveria existir um ser como Deus etc.”. Esse Kant pretende. Ademais, as objeções poderiam
é propriamente um enunciado teórico, que toma indicar que Kant se refere explicitamente ao pos-
por objeto não as entidades metafísicas dos pos- tulado da existência de Deus em vários textos,
tulados, já que a razão teórica nada teria a dizer especialmente na CRPr, em que diz coisas como
sobre eles, e sim as crenças reais existentes sobre “é moralmente necessário assumir a existência de
tais entidades. O que Kant afirma não é a exis- Deus” (5:125), “estes são os postulados da imor-
tência de Deus, da liberdade e da imortalidade, talidade, da liberdade... e da existência de Deus”
mas, em lugar disso, a existência dos conceitos de (5:132), e assim por diante. Como, então, afir-
Deus, da liberdade e da imortalidade como obje- mar, diante dessas observações, a pretensão de
tos de crença obrigatória a seres racionais como Kant de que postulemos somente que Deus
nós. Essa interpretação dos postulados de Kant deveria existir? Mesmo as explicitações de Kant
são, logo em seguida, qualificadas pelas declara-
13 Algumas compreensões de Kant como um anti-realista moral con- ções se o conceito de Deus pertence ou não ao
testariam a afirmação de que o imperativo categórico foi pensado
como empiricamente real, mas, em vez disso, como um procedimento reino da física (isto é, ao reino das coisas realmen-
para testar as máximas, uma proposição mental que ainda conserva a te existentes): “é impossível pela metafísica proce-
validade objetiva, e assim por diante. Contudo, mesmo tais interpreta-
ções não relegariam o imperativo categórico a uma mera crença subje- der por inferências seguras do conhecimento
tiva, no sentido da teoria da coerência, mas sustentam que ele deste mundo ao conceito de Deus e à prova da
permanece objetivo de outras maneiras, ou seja, válido para todos os
seres de um certo tipo subjetivo. Talvez, então, Kant pudesse ser com- sua existência” e, ademais, “é absolutamente im-
preendido como um coerentista em determinado sentido, na medida possível conhecer a existência deste ser por meros
em que pudéssemos qualificar que tipo de crenças são capazes de jogar
um papel justificatório, a saber, subjetivamente, certas crenças morais.
Não examinarei esse ponto aqui. 14 Grifos acrescidos.

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conceitos” (5:138-9).15 Como vemos, o postulado Uma maneira mais frutífera de colocar em dúvida
kantiano de uma crença moral em Deus está de- a justificação do postulado de uma crença moral
vidamente qualificado. O que a lei moral reivin- em Deus é pelo recurso a uma versão do proble-
dica é que um ser racional com disposição moral ma do mal. Utiliza-se tradicionalmente esse argu-
correspondente possa dizer algo como “Estou mento para questionar a existência de Deus, mas,
moralmente certo de que deveria haver um Deus”. com pequenas correções, também para despertar
Observemos aqui o peso da prova necessá- o ceticismo acerca da própria desejabilidade dessa
ria para refutar tal postulado. Não precisamos po- deidade. Poderíamos, por exemplo, dizer: se
sitivamente mostrar nada de conclusivo acerca da Deus é considerado onisciente e onipotente, e se
existência ou da desejabilidade de um Deus – de o mal existe no mundo (tanto na forma humana
ser moralmente certo que não há ou não deveria como não humana), então, não deveria haver um
haver um Deus –, mas, somente, se for o caso, Deus, pois teríamos de imaginar esse Deus ple-
que o critério de certeza moral não é adequado. namente consciente e capaz de evitar todo o so-
Relembrando a discussão kantiana sobre crença, frimento causado no mundo pelo mal. Em outras
na Doutrina do Método, na CRP, vemos que a cer- palavras, por ser empiricamente óbvio que Deus
teza moral constitui um caso especial no qual a não intervém para evitar o mal, teríamos de assu-
evidência para uma crença não é objetivamente mir que Deus escolheu ignorar o sofrimento in-
certa, porém um pouco mais do que apenas sub- justo e imerecido dos seres humanos, apesar de
jetiva. Em outras palavras, vale para todos os seres certamente ter condições de dar fim a ele. E con-
racionais, apesar da falta de suficiência objetiva. cluir, portanto, que esse ser todo-poderoso e co-
Esse peso relaxado da prova pode simplificar o ar- nhecedor de tudo não deveria existir, se foi cons-
gumento de que, a despeito disso, seu objeto tor- tituído de maneira a ser imune ou, pelo menos,
na-se mais complexo. Não podemos nos satisfa- permitir prontamente o sofrimento humano.
zer com um argumento de que “não é moralmen- Poderíamos também utilizar o contra-argu-
te certo que Deus existe”; em seu lugar, devemos mento de que Deus não deveria existir, invocan-
mostrar precisamente não ser moralmente certo do algo como a noção de religião de Marx como
que deveria haver um Deus. Precisamos levantar o ópio do povo. Diríamos que Deus não deveria
uma dúvida razoável, não pela sugestão da possi- existir, pois, se houvesse um Deus e um mundo
bilidade do ateísmo, mas de uma hostilidade ge- futuro correspondente, as pessoas estariam incli-
nuína à mera possibilidade de Deus. E nos per- nadas a ignorar, e não a cumprir seus deveres
guntar como um ser racional estaria autorizado a mundanos. Em outras palavras, se Deus existe
crer que “não deveria haver um Deus”. em última instância para administrar a felicidade
Seria tentador testar essa afirmação pelo em justa proporção com a moralidade (examina-
imperativo categórico, a fim de verificar se temos remos esse ponto com maiores detalhes a seu
a obrigação de crer que deveria haver um Deus; momento), e se um mundo correspondente exis-
entretanto, essa é uma estratégia equivocada. te de modo a nos permitir aperfeiçoar nossa von-
Kant indica que “esse requisito moral [de assumir tade pelos mandamentos do dever, seria possível
o conceito de Deus] é subjetivo, isto é, uma ne- simplesmente ignorar a tentativa de tornar a von-
cessidade, e não objetivo, ou seja, um dever; pois tade perfeitamente alinhada com o dever, suspen-
não há dever de assumir a existência de qualquer dendo o esforço, que, afinal de contas, é inalcan-
coisa (isso concerne somente ao uso teórico da çável nessa vida, para uma vida futura na qual isso
razão)” (CRPr, 5:126). Como se vê, o postulado seria realmente realizável. Na suposição de Deus
de uma crença moral é uma proposição teórica, e de uma vida futura, teríamos a possibilidade de
está fora da jurisdição do imperativo categórico. satisfazer o critério de perfeição moral, mesmo
escolhendo ser totalmente imorais na vida mun-
15 Grifos acrescidos. dana. Seria possível racionalmente dizer, portan-

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to, que não deveria haver um Deus e uma vida fu- que postulemos uma crença de que ela/e deveria
tura correspondente, se tais elementos admitem existir. Talvez pudéssemos dizer, de uma maneira
uma procrastinação moral desse tipo. contrafactual, que Deus deveria existir para que
Cabe lembrar aqui que não precisamos es- não houvesse mal; considerando, porém, a reali-
tar plenamente convencidos desses argumentos, dade empírica do mal, temos de concluir que
mas apenas imaginar que uma pessoa racional po- Deus não deve existir. O segundo tipo de objeção
deria acreditar neles para lançar dúvidas sobre a comete um erro similar, ao supor o imperativo
certeza subjetiva do postulado kantiano de Deus. categórico aplicado a uma escolha acerca do que
Os que fizerem objeções a tais argumentos, por- crer. A “escolha” sobre o que estamos permitidos
tanto, devem mostrar que um indivíduo racional a acreditar não possui o mesmo sentido da deci-
possivelmente não poderia subscrevê-los. são acerca do que deveríamos fazer. Se fosse pos-
Uma objeção possível seria que o problema sível, talvez, uma decisão de adiar a moralidade,
do argumento do mal não tem como ser exami- esta não poderia ser considerada uma escolha mo-
nado da maneira como é feita aqui. O problema ralmente correta, mas já que a moralidade precisa
do mal demonstra que um Deus onisciente, oni- da possibilidade de escolher livremente contra
potente e, ao mesmo tempo, benevolente não aquilo que o dever obriga, devemos imaginar essa
existe. Podemos verificar empiricamente que as escolha como possível; assim, a certeza moral da
condições necessárias à existência de Deus estão proposição de que deveria haver um Deus pode-
ausentes no reino fenomênico. Tendo feito tal ria ser colocada sob suspeita. Para refutar mais
objeção, uma pessoa teria possibilidade de asse- plenamente tais objeções, precisamos nos deslo-
verar que a concepção kantiana de Deus requer a car para além da análise meramente formal das
benevolência, a onisciência e a onipotência; as- crenças morais como um requisito das ações mo-
sim, argumentar que não deveria haver um Deus rais e examinar as razões específicas oferecidas
ao qual faltasse uma dessas qualidades é falar con- por Kant a uma crença moral num patamar supe-
tra o conceito kantiano de Deus, e não contra a rior. Isso, conseqüentemente, nos permitirá for-
sua desejabilidade, dadas as presunções dessas três necer uma interpretação positiva de como a mo-
qualidades. Em outros termos, como, para Kant, ralidade é possível sem o postulado de Deus.
deveria implica pode, não é racional referir-se a Na CRPr, a justificativa de Kant para o pos-
algo que não poderia existir. É possível dizer, pre- tulado de Deus relaciona-se intimamente com a
cisamente, que o problema do mal demonstra sua concepção do sumo bem. Na “Antinomia da
que Deus não existe, mas que Deus deveria exis- Razão Prática”, Kant apresenta duas idéias de
tir para que não houvesse mal. Outra forma de le- sumo bem: a compreensão estóica de ser a virtude
vantar uma objeção relativa ao segundo argumen- o sumo bem e a sua busca levar à felicidade, e a vi-
to contra a desejabilidade de Deus seria dizer que são hedonista, oposta, de ser a felicidade o sumo
o imperativo categórico proibiria o tipo de esco- bem e os atos em busca desse fim serem, por con-
lha acima delineada: a de suspender a moralidade seguinte, os virtuosos. Ele resolve essa antinomia
até a vida futura. Essa decisão não seria universa- com sua própria visão de sumo bem, de acordo
lizável e, assim, não poderia ser tomada por um com a qual “o bem supremo (como a primeira
ser propriamente racional. condição do sumo bem) é a moralidade, ao passo
Permitam-me dizer, preliminarmente, que que a felicidade constitui o seu segundo elemento,
o primeiro tipo de objeção esquece que o postu- mas de tal maneira que ela é apenas o moralmente
lado de Deus é uma proposição teórica e, por condicionado e o resultado necessário da primei-
conseguinte, o estipulado de que “deveria implica ra” (5:119). Em outras palavras, o sumo bem
pode” não se aplica ou, pelo menos, não se aplica tomado pela razão prática pura como seu único
da mesma forma que na ação humana. Como se objeto é o dever, mas o dever feito com a corres-
vê, não é preciso que Deus exista para nós, para pondente valorização da felicidade, que deve

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necessariamente ser cumprida. Como Kant reco- reino dos fins. Essa estratégia, portanto, leva à
nhece, essa concepção do sumo bem colide com a conclusão de que a justiça deve preceder a mora-
observação empírica de que “o bem morre cedo”, lidade, dado que a moralidade não pode buscar
de que, realmente, aqueles que agem moralmente seu objeto, o sumo bem, sem a garantia de uma
não são normalmente recompensados com a feli- sociedade justa recompensar propriamente as
cidade proporcional aos seus bons atos. Para re- ações morais com a felicidade. Tal fundamento
solver tal questão, Kant compreende que “o alternativo para o sumo bem é preferível ao pos-
segundo elemento do sumo bem, a saber, a felici- tulado de Deus, pois não requer a crença nossa
dade proporcional à moralidade (...) deve supor a numa proposição que a razão teórica teria de
existência de uma causa adequada ao seu efeito, aceitar cegamente.
isto é, postular a existência de Deus pertencendo Embutida no argumento kantiano de Deus
necessariamente à possibilidade do sumo bem” como árbitro final, existe uma razão mais sutil
(5:124). Deus deve ser aqui entendido, no sentido para tal postulado que precisa de alguns comen-
judaico-cristão, como o árbitro final de punições tários, mesmo que, provavelmente, ela seja con-
e galardões, corrigindo a distribuição injusta de tingente em relação à justificação do tipo da
felicidade na Terra. Encontramos novamente, questionada aqui anteriormente. No início deste
nesse ponto, uma referência à esperança como artigo, contrastamos a visão de Kant com a de
oposta à crença: “é somente com a religião que a Wolff e dos racionalistas, os quais, como o nome
espera da felicidade surge primeiramente” (5:130). sugere, concebem os seres humanos como pura-
Existe, contudo, uma maneira diferente de mente racionais. Kant, entretanto, aceita a ima-
tornar possível o sumo bem, mais em acordo gem básica fornecida pelos racionalistas, embora
com o projeto iluminista de evitar as ilusões ache necessário expandi-la para compreender
metafísicas e encontrar a moralidade diretamente propriamente o fim adequado da ação humana.
na razão humana; maneira essa que leva a uma Desse modo, encara os seres humanos como se-
conclusão mais radical. A base para tal alternativa res racionais com disposições morais corresponden-
encontra-se na noção kantiana de reino dos fins. tes. Por conseguinte, afirma que é preciso crer em
Nessa estrutura mundana, “todos os seres racio- Deus para entender como os seres humanos ad-
nais estão sob a lei de que cada um deles deve tra- quirem tal disposição moral. Os mesmos pensa-
tar a si mesmo e aos outros nunca somente como dores que tentaram, contudo, secularizar o reino
meio, mas sempre e ao mesmo tempo como fins em dos fins kantiano devem se encarregar de ofere-
si mesmos” (4:433). Kant indica, ademais, em apa- cer uma justificação não-metafísica correspon-
rente oposição aos seus comentários na CRPr, dente da disposição moral. Rawls, por exemplo,
que, sob tal organização social, “a necessidade compreende a motivação moral quanto a dois po-
prática de agir de acordo com esse princípio, isto deres morais: a capacidade para o senso de justiça
é, o dever, não repousa sobre sentimentos, impul- e a habilidade para uma concepção do bem.17
sos ou inclinações, mas somente na relação dos se- Ambos fundamentam-se numa explicação psico-
res sociais entre si” (4:434).16 Essa famosa conce- logicamente informada de desejos, levando esse
pção de uma estrutura política fundada no impe- autor a concluir que esses dois poderes morais se
rativo categórico talvez seja bem próxima de ofe- desenvolvem somente partindo do auto-interesse
recer distribuição plena e justa de felicidade em
proporção à moralidade. No entanto, como John 17 Cf. RAWLS, 1996 (c. 7, “The Basis of Moral Motivation in the Per-
Rawls e outros tentaram mostrar, é pelo menos son”); e 1999. Seria abstrair-se da presente tarefa examinar plenamente
a justificação da motivação moral no quadro complexo de Rawls, na
factível que esse ideal possa ser alcançado sem re- medida em que isso envolveria uma discussão extensa sobre a psicolo-
correr ao árbitro divino, com base na noção de gia humana e a racionalidade da posição original. Basta apenas dizer
que, para esse autor, a motivação para buscar o sumo bem deriva de
uma posição original de auto-interesse, que não necessita explicação
16 Grifos acrescidos. adicional.

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da razão pela posição original. Poderíamos, além que as coisas na natureza servem umas às outras
disso, firmar as disposições morais numa explica- como meios para fins, e que a sua própria possibi-
ção que combina a compreensão dos seres huma- lidade seja adequadamente inteligível apenas por
nos como seres primariamente sociais e outra so- este tipo de causalidade, dá-se porque não temos
nenhuma base na idéia geral de natureza como a
bre a evolução das espécies. Assim, a disposição
soma dos objetos dos sentidos. Pois no caso prévio,
moral poderia ser compreendida como um traço
a representação das coisas, posto que ela é algo em
adaptativo pelo qual se garante a sobrevivência da nós, poderia muito bem ser também concebida a
espécie. Mas isso é muito complexo para se in- priori como apta e útil à disposição intencional in-
vestigar aqui, e, além do mais, apenas tangencial à terna das nossas faculdades cognitivas; mas não te-
presente discussão. Basta apenas dizer que, com mos nenhuma base para presumir a priori que fins
uma compreensão mais avançada da psicologia e não são os nossos, e tampouco podem pertencer à
da evolução, poderíamos fundamentar mais facil- natureza (que não podemos assumir como um ser
mente as disposições morais, sem o recurso aos inteligente), contudo, podem e devem constituir
postulados metafísicos apenas possíveis para um tipo especial de causalidade, ou pelo menos uma
Kant, pois tais conhecimentos ainda não lhe es- legalidade inteiramente única disso. (5:359)
tavam disponíveis. Cito extensamente essa passagem, porque
Até agora examinei a concepção kantiana ela não somente mostra como a discussão da te-
sobre as crenças morais e o papel por elas exerci- leologia em Kant é compatível com as primeiras
do ao tornar a lei moral segura e inteligível. Ana- duas críticas, mas também pela nossa possibili-
lisei, com maior especificidade, o conteúdo des- dade de começar a ver os germes do argumento
sas crenças, a saber, os postulados da razão práti- teleológico para o postulado de Deus. Na primei-
ca pura de Deus, da imortalidade e da liberdade. ra crítica, a solução ao problema da liberdade, na
Enfoquei o primeiro deles como o fulcro do se- terceira antinomia, necessitou a suposição de dois
gundo, deixando o último para uma análise sepa- reinos, o noumenal e o fenomênico. O segundo
rada. Procurei mostrar como o postulado de opera sob leis puramente mecânicas, ao passo que
Deus é injustificado, e, ademais, como a sua teo- o primeiro é a fonte última das ações humanas
ria ética pode ser compreendida sem esses requi- livres no reino fenomênico. Ali, entretanto, a
sitos metafísicos. Mas há um aspecto final do maneira pela qual a causalidade noumenal da
postulado de Deus que deixei de fora até o mo- liberdade desce para o reino fenomênico não é
mento. Embora eu tenha examinado a justifica- clara. Na terceira crítica, essa relação é explicitada
ção de Kant para uma crença moral em Deus, na em grandes detalhes. Não devemos considerar a
primeira e na segunda críticas, ele fornece o que causalidade na natureza somente como mecânica.
parece ser um argumento adicional a essa crença Precisamos assumir que a natureza opera de ma-
na Crítica da Faculdade de Julgar (CFJ), apoiado neira teleológica, não apenas como causa e efeito,
no conceito de teleologia e de seres humanos mas também como meios e fim. Nesse sentido,
como fins em si mesmos. para entender os seres humanos como seres livres
Por teleologia, Kant entende o estudo sis- na natureza, devemos nos considerar como “coi-
temático de propósitos ou fins na natureza. Os sas naturais que achamos possíveis apenas como
seres humanos são considerados aqui como parte fins” (5:398). Além disso, essa maneira de consi-
da natureza. Uma das razões para as quais Kant derar a liberdade humana constitui “a única base
entende a necessidade desse estudo é compreen- para a prova (…) da dependência dessas coisas e
der mais completamente como os seres humanos da sua origem num ser que existe fora do mundo
podem surgir como seres livres, isto é, como fins e é (na explicação daquela forma intencional)
em si mesmos na estrutura determinante das leis inteligente; desse modo, a teleologia não pode
mecânicas da natureza. Kant ressalta a inadequa- encontrar uma resposta completa para as suas
ção das primeiras duas críticas a esse respeito: perguntas, exceto na teologia” (5:398-9).

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No apêndice da seção, Kant trabalha sobre objetos ou de estados de coisas. Então, o que fa-
a natureza da teologia ali mencionada, traçando zer com a promessa da teologia física de nos dar
uma distinção entre teologia física e teologia ética. uma teologia derivada somente do conteúdo
A segunda é descrita como “a tentativa de inferir empírico? O que de fato resulta é que a teologia
com base nos fins morais dos seres racionais na física não pode cumprir a sua promessa. Kant
natureza (…) a sua causa [Deus] e suas proprie- observa que a “teologia física certamente nos guia
dades” (5:436) e examinada acima, em detalhes, para a busca de uma teologia, mas não pode pro-
quanto aos postulados da razão prática pura. É a duzir nada, não importa o quanto possamos
primeira, no entanto, que representa a única suplementar o nexo dos fins nela descobertos
contribuição da terceira crítica à discussão do com as idéias da razão” (5:440). Notamos, assim,
postulado de Deus. A teologia física, conseqüen- um paralelo entre a relação da teologia física com
temente, é apresentada como “a tentativa da ra- a teologia ética e a relação entre a razão teórica e
zão de inferir dos fins da natureza (que só podem a prática: a primeira deve ficar inadimplente no
ser conhecidos empiricamente) a sua causa su- conhecimento para sustentar o postulado da se-
prema e suas propriedades” e colocada como pre- gunda. Esse não é um mero acidente de percurso,
cedente à análise da teologia ética, uma vez que os já que a teologia física utiliza a razão teórica e a
seres racionais no mundo devem ser entendidos teologia ética adota a razão prática. Existe, con-
primeiro como fins da natureza para poder ter in- tudo, uma diferença notável. Na discussão acima,
clusive fins morais (5:436). Poderíamos, todavia, vimos que Kant afirma a necessidade de a razão
nos perguntar: como compreender a expressão teórica reconhecer as crenças morais da razão
fins da natureza? Entender os nossos próprios prática e, por tal motivo, a razão prática deve ser
fins é bastante fácil, pois eles são nossos, mas considerada primordial. Entretanto, na CFJ, ele
como reconhecer uma estrutura teleológica entre declara que a teologia física precede a teologia éti-
as coisas que não conhecemos em si e são, afinal ca. Essa talvez seja a última antinomia da CFJ que
de contas, meras representações da nossa expe- Kant não resolve explicitamente. A teologia física
riência fenomênica? No capítulo 77 da CFJ, no precede a teologia ética, mas deve ficar devedora
título informativo, e de longo fôlego, chamado dessa última, pois não pode fornecer a pressupo-
“Do caráter especial do entendimento humano, sição teológica de que precisa. A teologia ética,
mediante o qual o conceito de fim natural é pos- por seu turno, requer o postulado das crenças
sível para nós”, Kant argumenta que o nosso en- morais discutidas aqui extensamente e lança dú-
tendimento constitui-se de tal maneira que deve- vidas sobre a sua necessidade. Vemos, então, que
mos postular os objetos da natureza como o o que apareceu originalmente como um argu-
resultado de fins intencionais, a despeito de esse mento separado ao postulado de Deus pressu-
ser ou não realmente o caso. Nicholas Rescher põe, na realidade, os argumentos para a crença
resume muito bem esse ponto: “A intencionali- moral das duas primeiras críticas. Tais assertivas
dade da natureza não é algo que aprendemos, mas foram as que examinamos; portanto, a noção de
que pressupomos – não algo que encontramos, e teleologia não fornece nenhuma justificação espe-
sim que fazemos mediante um compromisso ine- cial ao postulado de Deus.
rente à nossa mente. Sua base não é externa nem Ademais, aqui como em qualquer outro lu-
encontrável observacionalmente, mas projetada gar, Kant subestima enormemente a habilidade
postulacionalmente numa disposição interna da das ciências de descobrir a estrutura das leis me-
mente humana”.18 cânicas que governam certos aspectos da vida
Reparemos, entretanto, que um postulado fenomênica. À luz da descoberta de Darwin das
não fornece nenhuma evidência da existência de leis da evolução, o enunciado de Kant de que
“nunca poderemos vir a conhecer adequadamen-
18 RESCHER, 2000, p. 105. te os seres organizados e a sua possibilidade in-

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terna de acordo somente com os princípios me- uma versão simplista de Kant, comparando-o
cânicos da natureza, nem sequer explicá-los” pa- somente com o elemento racionalista explorado
rece agora ingênuo e datado (5:400). Não obs- por ele enormemente. Mesmo que eu tenha
tante, ainda poderíamos nos perguntar de que tomado certas liberdades, ao revisar porções do
maneira, se o estudo da biologia evolutiva é capaz pensamento kantiano, para torná-lo coerente
de explicar realmente as complexidades dos seres com as exigências da modernidade em relação
organizados e suas inter-relações, entender os se- com a teoria ética, isso ocorreu respeitosamente
res humanos como fins em si mesmos, dado que o para mostrar que a teoria moral de Kant ainda
reino dos fins, apresentado como garantia alter- tem muito a oferecer aos estudos contemporâ-
nativa da possibilidade da moralidade, requer ser neos de ética e não precisa dos seus compromis-
encarado como tal? Seria possível especular que a sos metafísicos menos desejáveis. Penso, além
idéia de seres humanos como fins em si mesmos disso, que a idéia como um todo, longe de ser
poderia ser assegurada de algum modo junto com presunçosa, coaduna-se com a trajetória do pró-
o postulado da liberdade humana. Porém, como prio projeto de Kant de expandir a regra da razão,
já disse, não examinarei aqui o postulado da liber- sem ignorar ou sacrificar a análise complexa das
dade. Basta dizer que tal investigação é viável e limitações dela imanentes, bem como as comple-
que provavelmente não seja necessário considerar xidades das crenças humanas. Como já disse,
os seres humanos como fins últimos de um ser muito trabalho resta a ser feito. O mais impor-
inteligente para assegurar uma concepção simples tante é as bases da liberdade humana serem exa-
deles como fins em si mesmos. minadas mais profundamente, de modo que a
Nesse sentido, parece que finalmente fizemos consideração dos seres humanos como fins em si
algum progresso em reconciliar as visões de Kant mesmos seja segura e compreensiva. Sobre os
com a compreensão de que ele é um filósofo do postulados da crença em Deus e da imortalidade,
iluminismo. O fizemos, ademais, sem assumir no entanto, valem os comentários já feitos.

Referências Bibliográficas
KANT, I. Religion within the Limits of Reason Alone. Trad. e introd. Theodore Greene e Hoyt Hudson. New York: Har-
per and Brothers, 1960.
O’NEILL, O. “Reason and Politics in the Kantian Enterprise”. Essays in Kant’s Political Philosophy. Chicago: Howard
Williams, 1992.
RAUSCHER, F. “Kant’s two priorities of practical reason”. British Journal for the History of Philosophy, 6: 397-419,
1998.
RAWLS, J.“The Morality of Principles”. In: _______. A Theory of Justice. Cambridge: Harvard University Press, 1999.
_______. Political Liberalism. 81-86. New York: Columbia University Press, 1996.
RESCHER, N. Kant and the Reach of Reason: studies in Kant’s theory of rational systematization. Cambridge: Cam-
bridge University Press, 2000.

Dados do autor
Departamento de Filosofia, Michigan State University, EUA.

Recebimento artigo: 12/jul./04


Consultoria: 14/set./04 a 18/out./04
Aprovado: 19/nov./04

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O Gênio Kantiano ou o
Refém da Natureza
THE KANTIAN GENIUS OR THE
HOSTAGE OF NATURE 1 1
Resumo Este trabalho visa a enfocar a teoria do gênio kantiano segundo duas pers-
pectivas. Em primeiro lugar, interna e fiel ao princípio sistemático-transcendental, ten-
tará demonstrar a existência de uma certa complementaridade entre o gênio, definido,
na Crítica da Faculdade do Juízo, como dom da natureza, e o princípio transcendental
da faculdade de julgar, chamado conceito de finalidade da natureza, apresentado nas
duas “Introduções” à mesma Crítica. Por fim, externa e voltada à preocupação com
uma reflexão sobre a arte contemporânea, poderá “reabilitar” a teoria do gênio, com
base numa outra complementaridade subjacente à Crítica, entre arte e natureza, inse-
rindo-a, assim, num programa mais vasto de reelaboração do conceito de mimesis.
VIRGINIA DE ARAUJO
Palavras-chave KANT – GÊNIO – ARTE – NATUREZA – MIMESIS – FINALIDADE DA FIGUEIREDO
NATUREZA. Universidade Federal de
Minas Gerais/UFMG
Abstract Kant’s concept of genius will be analyzed both from an internal and an virginia@fafich.ufmg.br
external point of view. From an internal point of view, and taking into account Kant’s
view in the third Critique about purposiveness of nature as a transcendental principle
assuring systematic unity in philosophy, I will try to demonstrate that Kant’s concept
of genius in the same Critique, as a “gift of nature”, is in a certain way complementary
to the transcendental principle. From an external point of view, and considering
aspects of contemporary art production, I will argue for a “rehabilitation” of Kant’s
Theory of Genius, grounded on another complementarity, between art and nature,
on the supposition that these concepts can play a role in the re-elaboration of the
concept of mimesis.

Keywords KANT – GENIUS – ART – NATURE – MIMESIS – PURPOSIVENESS OF


NATURE.

1 A presente reelaboração deste artigo (cuja versão menor, em francês, foi publicada nas Atas do IX Con-
gresso Kant und die Berliner Aufklärung, v. III, por GERHARDT, 2001, p.528-536) é um dos resultados
da pesquisa apoiada, entre 2002 e 2003, por uma bolsa de pós-doutorado da CAPES e, atualmente, por
uma bolsa de produtividade em pesquisa do CNPq.

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PRÓLOGO

A
ntes de abordar o tema do gênio com o qual me compro-
meti, começarei com, o que poderá parecer a muitos,
uma espécie de digressão aleatória e injustificada. Portan-
to, antecipando a objeção, precipito-me numa resposta,
tentando explicar por que um texto sobre o gênio inicia
com temas como o da imaginação e com o conceito de
finalidade da natureza. Sem a graça dos romances poli-
ciais, que guardam o segredo do mistério até o fim da his-
tória, começo por revelar a hipótese subjacente a este texto e que tentarei
não só examinar, como também submeter ao juízo de vocês: a de que
acredito haver não apenas uma profunda afinidade, como, igualmente,
uma possível complementaridade entre a noção de gênio, contida na Crí-
tica da Faculdade de Julgar,2 e um certo conceito de finalidade da natureza,
presente nas duas “Introduções” à mesma Crítica, como um verdadeiro
princípio transcendental.
Ainda no âmbito deste prólogo, cabe indicar brevemente o método
que me servirá de fio condutor à leitura da CFJ. Que essa última Crítica
de Kant tenha nos confrontado com uma polifonia ou multiplicidade de
perspectivas não é novidade alguma – a maioria, senão mesmo a unani-
midade dos comentadores a ela dedicados pôde constatá-lo. Entre vários
exemplos, cito, um pouco ao acaso, um texto de Deleuze que aponta
explicitamente tal diversidade:
[Na] primeira parte da Crítica do Juízo, [há] uma diversidade de pontos de
vista. Ora Kant nos propõe uma estética do espectador, como na teoria do
gosto; ora uma estética, ou antes uma meta-estética do criador, como na teoria
do gênio. Ora uma estética do belo na natureza, ora uma estética do belo na
arte. Ora uma estética da forma, de inspiração “clássica”; ora uma meta-esté-
tica da matéria e da Idéia, próxima do Romantismo.3

Se há convergência na constatação do problema, o mesmo não


ocorre nas propostas de solução desse problema. De um lado, vê-se uma
tentativa de leitura continuísta, definida por autores como Danielle
Lories4 e Jacob Rogozinski;5 de outro, percebe-se a adoção de um prin-
cípio descontinuísta, como é o caso da interpretação de um Jean-François
Lyotard, em seu famoso livro Leçons sur l’Analytique du Sublime. A esses
dois modos de encarar a CFJ, acrescentaria um terceiro, que, embora pró-
ximo dela, não pode identificar-se totalmente com a perspectiva conti-
nuísta. Trata-se do princípio sistemático-transcendental. É nessa perspec-
tiva que se pretende inscrever o presente trabalho, ao lado de outras in-
terpretações tão ilustres – as do próprio Deleuze e as de muitos autores

2 A partir daqui, referida por meio da abreviação CFJ.


3 DELEUZE, 1963, p. 113.
4 LORIES, 1998, p. 564-593. Entre as duas teses da “cumplicidade ou [do] conflito”, a autora parece-me
tender para a da cumplicidade entre gênio e gosto.
5 ROGOZINSKI, 1998, p. 646.

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brasileiros, como Guido de Almeida e Zeljko apelo emotivo e do papel exercido pela imagi-
Loparic, entre tantos outros. Portanto, é no do- nação.7
mínio do transcendental que este texto ambicio-
Nem racionalista nem empirista, a estética
na encontrar sua tonalidade fundamental e, com
universalista de Kant reserva à imaginação um pa-
isso, torná-la evidente, trazê-la à tona.
pel totalmente inédito na história da filosofia. Na
A IMAGINAÇÃO OU FACULDADE DE JULGAR? Crítica da Razão Pura, submetida ao entendi-
Como lembra Enid Abreu Dobránszky, em mento e às categorias, sua função principal era a
seu belo livro No Tear de Palas: imaginação e produção dos esquemas. Numa classificação for-
gênio no século XVIII – uma introdução, no final necida somente na CFJ, essa tarefa, que consiste
do século XVII, início do século XVIII, sobretudo em subsumir representações da sensibilidade a
na Europa continental, houve uma violenta cam- conceitos do entendimento, é chamada de deter-
panha contra a imaginação,6 faculdade essa nasci- minante. A especificação do conceito universal
da dupla, gêmea de si mesma: sensível e inteligí- até o caso concreto produz um juízo típico de co-
vel, razoável e patética, passiva e reprodutiva, de nhecimento sempre objetivo ou, como Kant tam-
um lado, ativa e produtora, de outro... Se a tese de bém o designa, lógico. E lógico aí, em sua rígida
Dobránszky estiver correta e for possível exami- terminologia, significa que o predicado do juízo é
nar a história segundo uma certa distribuição pe- um conceito capaz de determinar o objeto.
riódica das faculdades humanas, dela poderemos Não mais comandada pelo entendimento, e
extrair algumas importantes conseqüências não sim fundada num princípio transcendental pró-
só para a própria arte feita em cada época, como prio – a idéia de finalidade da natureza –, a facul-
também, e estou quase certa disso, para a teoria e dade de julgar livre e heautônoma8 percorre o ca-
a filosofia da arte. Por exemplo, daquela campa- minho da reflexão que, oposto ao da determi-
nha da razão contra a imaginação que caracteri- nação, parte da representação intuitiva do objeto
zou o racionalismo cartesiano na França do sécu- em direção a um conceito do entendimento.
lo XVII, ao transpor os limites da filosofia, avan- Nesse segundo caso, Kant, o filósofo que não
çando e influenciando a crítica da arte a ele deixa nada sem nome, chama de reflexionante a
contemporânea, resultou a máxima, provavel- função da faculdade de julgar. O juízo daí resul-
mente inspiradora do classicismo francês, de que tante, ao contrário do chamado lógico, objetivo ou
as regras e preceitos – e não a vã inspiração – pro- determinante, será caracterizado respectivamente
duzem a arte. Em revanche, o empirismo, que já como estético, subjetivo ou reflexionante.
havia provocado importante mudança no concei- Mera alternância entre duas direções possí-
to de razão, no século XVIII, ao fazer deslizar a veis do ajuizamento – dedutiva ou indutiva – é o
ênfase do geral para o particular, exigindo, assim, que certamente poderia parecer a qualquer outro
que a razão se tornasse menos arrogante e apren- filósofo, mas não a Kant, para quem cada um dos
desse a compartilhar seus poderes com as outras caminhos ou direções exige um princípio distinto.
faculdades, ao passar ao domínio da arte, O movimento que “desce”, no sentido da espe-
cificação, de um conceito universal até um obje-
significou uma limitação considerável dos julga- to, como qualquer conhecimento científico, deve
mentos racionalistas das obras, embora não se fundar-se em conceitos a priori do entendimento.
abandonassem suas pretensões à universalidade.
Já o movimento que “sobe”, no sentido da clas-
Tratava-se agora de examinar o modo de contem-
plação estética. Nesse sentido, o empirismo carreou 7 Ibid., p. 72.
para a teoria/crítica de arte elementos basicamente 8 Termo definido por Kant na “Introdução” à CFJ (XXXVII) como “um

anticlássicos, que tendiam para uma reavaliação do princípio a priori para a possibilidade da natureza, mas só do ponto de
vista de uma consideração subjetiva de si própria, pela qual ela pres-
creve uma lei, não à natureza (como autonomia), mas sim a si própria
6 DOBRÁNSZKY, 1992, p. 47. (como heautonomia)”.

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sificação ou generalização, de uma intuição empí- dispõe a revelar seus modos tão heterogêneos
rica buscando conceitos cada vez mais gerais (das quanto (até certo limite, pelo menos, para nós)
subespécies às espécies e, logo, destas aos gêne- contingentes, reorientando para a subjetividade a
ros) ou gêneros superiores, deve apoiar-se na aplicação daquele princípio. Em outras palavras, a
possibilidade de um conceito de finalidade da na- heautonomia da faculdade de julgar consiste pre-
tureza. Se, no caso dos juízos determinantes, a fa- cisamente no fato de limitar-se à subjetividade o
culdade de julgar agia comandada pelos concei- domínio ou a jurisdição daquele princípio trans-
tos, tendo, portanto, como princípio ou funda- cendental que visa a conceder uma “legalidade ao
mento um conceito do entendimento, já no juízo contingente como tal”10 para a nossa experiência
reflexionante, Kant deve encontrar um princípio (ou conceito de totalidade) da natureza.
transcendental próprio à faculdade de julgar, a fim AS TRÊS GÊNESES TRANSCENDENTAIS
de candidatar-se ao modo de agir autônomo e, Segundo a leitura sistemática proposta por
mais do que isso, possibilitar os acordos que es- Deleuze, três gêneses transcendentais se desen-
tão em jogo na CFJ. É exatamente o conceito de rolariam na CFJ: “a partir do sublime, gênese do
finalidade da natureza que, a meu ver, cumprindo acordo entre razão-imaginação; a partir do inte-
o papel de um princípio ou pressuposto transcen- resse ligado ao belo, gênese do acordo imagina-
dental, nos permite construir um sistema, isto é, ção-entendimento em função do belo na nature-
dar sentido ao mundo e à nossa experiência. za; a partir do gênio, gênese do acordo imagina-
Haverá então, para Kant, pelo menos dois ção-entendimento em função do belo na arte”.11
modos distintos de procedimento da imaginação Como afirmei anteriormente, este trabalho não
– o determinante e o reflexionante –, correspon- pretende, de modo algum, discutir com a (e
dentes a duas maneiras de também focalizar a na- muito menos opor-se à) interpretação deleuziana
tureza, segundo, respectivamente, uma lei mecâ- quanto à questão de, tratando-se da filosofia kan-
nica e uma técnica. A esse último foco, a CFJ tam- tiana, privilegiar justamente a perspectiva da gê-
bém chama artístico, ou pensar a natureza como nese transcendental,12 e sim no que diz respeito à
arte. O que caracteriza a lei técnica em oposição inclusão do interesse racional pelo belo como se-
à mecânica é uma representação do todo prece- gunda gênese.13 O conceito de finalidade da na-
der, necessariamente, a possibilidade das partes.9 tureza, ocupando, sem sombra de dúvida, a posi-
Ao contrário, a perspectiva da lei mecânica só ção de um princípio transcendental, surpreen-
permite conceber o todo como resultado ou efei- dentemente ignorado por Deleuze, deveria subs-
to de causas previamente dadas. Toda técnica, tituir aquele interesse racional pelo belo. A meu
pensada quanto ao agir humano (toda arte em ver, é tal a importância desse conceito que deveria
sentido amplo), costuma ser entendida como ser a ele atribuída a tarefa quiçá a mais nobre e a
meio, instrumento... É o famoso “agir visando a mais difícil (na verdade, a da CFJ como um todo,
fins”, fins dados como possibilidade mesma de segundo os termos das duas “Introduções”) e
suas causas. Mas não conseguiríamos aplicar tal que consiste na unificação dos domínios tradi-
noção de finalidade da natureza, sem provocar cionalmente antagônicos da natureza e da liber-
um transtorno na razão. A pergunta à qual esse dade. Porém, se não for possível demonstrar essa
princípio está tentando responder jamais preten- última ambição, pelo menos a tarefa arquitetôni-
deria alcançar um método, até porque se reconhe- ca o conceito de finalidade da natureza não terá
ce a impossibilidade de qualquer ciência do belo.
Finalidade da natureza diz respeito, no máximo, 10 Ibid., p. 53.
11 DELEUZE, 1963, p. 132.
ao modo de proceder da natureza. No entanto, 12 Julgo poder traduzir a expressão gênese transcendental por ponto de
ainda assim, a natureza fechada em copas não se vista sistemático-transcendental, fazendo convergir, assim, análises que
pareciam opor-se.
13 Com a direção de uma gênese transcendental fundada no interesse
9 Cf. KANT, 1995, p. 43. racional pelo belo parece concordar também LORIES, 1998, p. 571.

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muita dificuldade em cumprir. Bifurcando-se em ção, razão e entendimento, alcançar seus extre-
duas finalidades, uma subjetiva (da qual se deduz mos, isto é, o limite próprio a cada uma. Esse
o acordo estético) e outra objetiva (da qual se jogo entre as faculdades, se de um lado é univer-
conclui o juízo teleológico), ele resolve, por as- sal, uma vez que se apresenta em todos os sujei-
sim dizer, a problemática divisão maior da CFJ, tos, de outro é o mais singular, na medida em que
em “Crítica da Faculdade de Julgar Estética” e se manifesta particularmente em cada sujeito.
“Crítica da Faculdade de Julgar Teleológica”. Talvez Márcio Suzuki também esteja de
Adotando, então, a perspectiva deleuziana acordo com nossa proposta de correspondência
das gêneses transcendentais, mas redistribuindo-as, entre o conceito de finalidade da natureza e o
teríamos, primeiramente, o sublime, gênese do gênio. Embora em seu livro O Gênio Romântico,
acordo entre imaginação e razão, sobre a qual não Crítica e História da Filosofia em Friedrich Schlegel,
falarei aqui; segundo, o conceito de finalidade da ele tenha em vista menos a filosofia crítica de
natureza no fundamento da possibilidade do Kant que o romantismo alemão, mais precisa-
acordo entre imaginação e entendimento, tanto mente o chamado primeiro romantismo de Iena,
por conta do belo na natureza quanto na sua fun- a referência à concepção kantiana de gênio é mais
ção teleológica; e, finalmente, o gênio, que, na do que freqüente, recorrente. Formulações como
contrapartida do conceito de finalidade da natu- “a genialidade [como] a unidade supra-sensível
reza, trata a gênese do belo na arte por intermédio das faculdades”14 ou como o gênio é a “expressão
das idéias estéticas ou da criação de uma segunda mais radical da atividade reflexionante”15 conver-
natureza. É sempre bom lembrar que um dos gem totalmente com o nosso interesse sistemá-
problemas (talvez o mais importante) com o qual tico. Se tivesse de estabelecer uma topografia dos
a teoria do gênio kantiano lida refere-se à sempre conceitos kantianos, não hesitaria em localizar
atual e vigente questão da possibilidade da arte. num ponto extremo, ápice coincidente com a
Não é, aliás, outro senão esse o caminho pelo fronteira, a habitação tanto do gênio quanto do
qual a teoria estética de Adorno começa: pergun- conceito de finalidade da natureza.16 O lugar da
tando-se sobre o direito à existência da arte. Isso, estreita passagem entre a subjetividade (atividade
traduzido na terminologia kantiana, leva ao se- reflexionante) e a objetividade (da natureza).
guinte: quais são as condições de possibilidade da Talvez tenha sido esse o topos que a CFJ inventou
arte? Ao que parece, nenhuma época da história e legou à sua imediata posteridade.17
lhe escapa, muito menos a nossa... OS TRÊS CRITÉRIOS DO GÊNIO
Assim, como se articularia essa comple- O primeiro critério com base no qual Kant
mentaridade entre o conceito de finalidade da na- define o gênio é ele “tratar de um talento para a
tureza e o gênio? Tentemos descrevê-la: do lado arte e não para a ciência”.18 Essa primeira defi-
de tal conceito, a descoberta de um fundamento nição visa a incluir o gênio na problemática da
supra-sensível que, se não desempenha para o es- CFJ, ou seja, fazendo parte do uso reflexionante
pectador (sempre da natureza) o papel de uma da faculdade de julgar. Como já se repetiu aqui, o
noção a priori capaz de determinar um objeto de olhar científico é mecânico e deve obedecer ao
conhecimento, cumpre ao menos como uma re- encadeamento lógico e interno dos conceitos
gra a função regulativa de estabelecer um limite
além do qual a experiência (e talvez aqui caiba 14 SUZUKI, 1998, p. 160.
15 Ibid., p. 224.
“ampliar”-lhe o sentido para experiência do pen- 16 Deslocando para o lado da objetividade, mesmos termos emprega-
samento, que, já em Kant, tem um domínio maior dos por Suzuki para caracterizar o gênio, não poderíamos dizer que o
conceito de finalidade da natureza também constitui o ápice sistemá-
do que o do mero “conhecimento”) não seria tico e, portanto, supra-sensível como uma expressão mais radical da
mais possível; do lado do gênio, um substrato matéria do mundo?
17 Sobre esse lugar, ocupado por Kant, entre esclarecimento [ou classi-
igualmente supra-sensível regularia a relação en- cismo?] e romantismo, cf. DESMOND, 1998, p. 595.
tre as faculdades, fazendo-as, cada uma, imagina- 18 KANT, 1990, § 49, p. 159.

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puros do entendimento, uma vez que almeja o sua produção genérica, elementar (e não singular,
conhecimento, ou mais, o progresso do conheci- portanto), e uma natureza técnica, cuja produção
mento; ora, o modo artístico ou técnico deve típica é o organismo, cuja marca é a singularidade.
tentar liberar o olhar de toda restrição conceitual, Entende-se por que Kant continua a definição do
tornando-o mesmo superficial, exterior, detido talento do gênio, dizendo que “ele próprio não
nas formas, como quem olha uma paisagem. No pode descrever ou indicar cientificamente como
entanto, tal como no juízo do gosto, a questão do realiza a sua produção (...) não sabe como as idéias
gênio kantiano só se deixa descobrir se levarmos para tanto encontram-se nele e tampouco tem
em conta a trama subjacente constituída pelas re- em seu poder imaginá-las arbitrária ou planejada-
lações entre arte e natureza, presentes também na mente e comunicá-las a outros em tais prescri-
base da operação de atualização da teoria do ções, que as ponham em condição de produzir
gênio, pelo menos segundo a nossa hipótese.19 produtos homogêneos”.21
A originalidade, primeira propriedade do A prova de que a questão do gênio só deve
produto genial, decorre, portanto, não de uma interessar na medida em que Kant conseguir
decisão ou ato voluntário de uma subjetividade relacioná-la ao conceito de natureza, e mesmo
inspirada, como se vulgarizou na teoria do gênio, ampliá-lo, nos é dada pela própria definição do
e sim da própria natureza, pensada não mecânica, gênio da qual a natureza participa: “Gênio é o
talento (dom natural) que dá a regra à arte. Já que
mas organicamente, quiçá regida por um princí-
o próprio talento enquanto faculdade produtiva
pio genético vivo, indeterminado (e, para nós,
inata do artista pertence à natureza, também se
contingente), cujo principal ato talvez consista
poderia expressar assim: gênio é a inata disposi-
em querer superar-se.20 Não poderia ser esse o
ção de ânimo (ingenium) pela qual a natureza dá
sentido da prodigiosa reflexão goetheana sobre as
a regra à arte”.22
intrincadas relações entre arte e natureza, que ele
É como se a natureza, capturando o gênio,
fazia junto com seu amigo Schiller? Ao propor,
pusesse-o a seu serviço, a fim de concluir o que
por exemplo, que todo organismo, por suas pul-
ela, por si só, não é capaz de levar a termo. Por
sões artísticas (Kunsttriebe), já seria uma espécie
isso, o papel do gênio é sempre o de inaugurar
de força aniquiladora da própria natureza? Isso
uma nova regra, como diz o próprio filósofo,
mesmo, a força organizadora da arte (Kunst), que
“que não pode ser inferida de quaisquer princípios
está em jogo na formação de todo ser vivo, já seria
ou exemplos anteriores”.23 Em última instância,
uma espécie de instinto (Trieb) anti-natural agin- o próprio homem, quero dizer, a humanidade
do no seio da própria natureza. Goethe, parece-me, como um todo, pode ser encarada da perspectiva
vale-se da distinção kantiana entre uma natureza do gênio. Ora, a nova regra poderia ser entendida
mecânica, podendo muito bem ser entendida na como a marca da subjetividade intransferível que
19 É preciso lembrar como a teoria do gênio foi duramente criticada,
cada homem/mulher traz em si e tem como res-
sobretudo pelas estéticas ditas marxistas, que nela viram um dos princi- ponsabilidade levar a cabo. O que a natureza
pais sustentáculos da mistificação burguesa da arte. Até mesmo Benja- mesma, por si só, não é capaz de fazer. A tarefa de
min não escapou desse preconceito, que acarretou, entre outros
efeitos, o abandono provisório da teoria do gênio. Insistindo: a meu acabamento ou finalização da sua própria huma-
ver, se não fossem as relações entre arte e natureza, que funcionam nidade, como bem sabia o amigo de Goethe,
como um baixo contínuo ao texto da CFJ, não seria possível a rea-
bilitação da teoria do gênio “fora” do, digamos assim, vulgarizado Schiller, é tarefa de cada um. Do ponto de vista da
modelo romântico de uma subjetividade especial. Esse modelo, em seu natureza, a humanidade é um produto, digamos
extremo (e... caricato) limite, reduziria Shakespeare a uma espécie de
precursor de Madona... A operação de resgate do gênio dá-se, por- assim, inacabado... Ou talvez, quem sabe, um
tanto, entre dois extremos: de um lado, aproximação com a estética produto da rebelião ou de revolta da própria
(ou poética) da mimesis, de outro, distanciamento crítico da vulgariza-
ção romântica do herói.
20 Novalis avalia assim o processo de reflexão: “Superar-se a si mesmo é 21 KANT, 1990, § 48, p. 158.
por toda parte o mais elevado, o ponto originário, a gênese da vida” 22 Ibid., p. 153.
(NOVALIS apud BENJAMIN, 1993, p. 75). 23 Ibid., p. 154.

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natureza contra si mesma, contra os seus inexce- pectador, numa perspectiva inegável da recepção,
díveis limites genéricos... o gênio liga-se mais à criação na qual se inscreve o
Essa regra – insisto: talvez não seja outra artista. Aqui poderia invocar uma verdadeira polê-
senão a da singularidade – que a natureza põe no mica alardeada por um filósofo como Nietzsche,
gênio (mas, segundo essa leitura mais ampliada que não só opôs uma a outra – arte e estética –,
que acabamos de fazer, colocaria em todos nós/e mas assim o fez a fim de condenar a estética fe-
em cada um) é tão insondável e secreta para nós minina do século XVIII (diga-se de passagem,
quanto para o próprio gênio. Sabe-se que, em não Kant), tentando promover a estética viril do sé-
poucos casos, mesmo o tempo de uma vida in- culo XIX (?), ligada ao artista criador. Porém, não
teira não é suficiente para descobrir-se a que se está nos propósitos deste ensaio destrinçar mais
está destinado. E embora “descoberto”, nunca se essa espinhosa questão, muito menos tentar des-
trata de um saber seguro, muito menos de uma fazer os equívocos que certamente a sustentam.
ciência. É esse o sentido do título deste trabalho, A única conclusão que pretendo extrair disso é
do gênio pensado como refém de uma natureza, que, se não estou de acordo com um ponto de
com propósitos fora de seu alcance, os quais, vista que reduz o gênio ao gosto, também não
como já disse, ela é incapaz de levar a cabo, im- vou aderir ao princípio que neles enxerga apenas
pondo, assim, quase um mecanismo com base no combate e oposição. De novo, invoco aqui o
qual o gênio cria, segundo uma necessidade que, princípio da complementaridade ou da sistemati-
na maior parte das vezes, lhe escapa. Sua criação, cidade, a meu ver, o único que frutifica, tratando-
talvez, nada mais seja do que a tentativa de res- se da filosofia kantiana.
posta a uma interrogação permanente sobre esses Dada a necessidade de hierarquizar e esta-
fins a ela impostos pela natureza. Cria o que Kant belecer privilégios na relação entre gênio e gosto,
chamou de segunda natureza, ou outra natureza,
Kant não hesita, concede privilégio ao gosto: “Se,
tal como ela ainda não é ou como, pelo menos, ja-
no conflito de ambas as espécies de propriedades
mais foi. Ergue a arte a um patamar em que
algo deve ser sacrificado em um produto, então
Aristóteles já a tinha colocado: ao lado da filoso-
isto terá de ocorrer antes do lado do gênio”.27 E
fia, junto do reino da possibilidade, sempre mais
alerta que o gênio, abandonado a si mesmo, só
amplo e extenso do que a história,24 por sua vez,
produz disparates. É preciso que a imaginação do
a ser colocada ao lado da ciência, como definida,
gênio seja cultivada e disciplinada pela faculdade
modernamente, por Kant: aquela que pode ser
de julgar do gosto. A liberdade dessa última fa-
adquirida mediante imitação.25
culdade limita-se sempre pela legalidade do con-
O segundo critério que define o gênio em
tingente, ou, em outras palavras, pelas leis empí-
Kant é o de “uma relação entre a imaginação e o
ricas da associação, ao passo que o gênio tende à
entendimento”.26 Se as faculdades são as mesmas,
ilimitação.28 Além do perigo assumidamente
isso poderia precipitar-nos numa equivocada
metafísico, no qual se arrisca a imaginação do
conclusão sobre reduzir o gênio ao gosto. Se o
gênio, ao tentar promover a apresentação de idéias
acordo entre imaginação e entendimento caracte-
tornada impossível pelo exame crítico, a meu ver
riza efetivamente tanto o gosto quanto o gênio,
isso não significa que eles sejam idênticos, e a pri- um outro motivo torna essa faculdade suspeita
meira distinção é aquela entre o estético, que está aos olhos de Kant: o seu elemento irremediavel-
em jogo no caso do gosto, e o artístico, presente mente material, empírico e sensível (dos senti-
no gênio. Enquanto o gosto refere-se mais ime- dos). Esse elemento que liga o gênio de modo ir-
diatamente ao sentimento do belo que invade o es- redutível à produção do belo na arte e a dificul-
dade de incluí-lo em sua estética de cunho irre-
24 Cf. ARISTÓTELES, 1979.
25 KANT, 1990, p. 154. 27 Ibid., § 50, p. 203.
26 Ibid., p. 163. 28 Cf. DESMOND, 1998.

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vogável universalista levaram o filósofo transcen- incluiria a natureza? Como interpreta Deleuze, o
dental a privilegiar o gosto em detrimento do gênio não é uma subjetividade universal, mas,
gênio. Mais adiante, na apresentação das idéias es- antes, uma intersubjetividade excepcional... Com
téticas, que constitui o último critério a definir o efeito, “o gênio é sempre um apelo lançado para
gênio, examinaremos a possibilidade de reconci- o nascimento de outros gênios. Mas quantos de-
liação desse conflito, a meu ver, mais aparente sertos será preciso atravessar antes de um gênio
que efetivo. responder a outro”.32 E, um pouco mais adiante,
A mesma complementaridade entre gênio e Deleuze povoa esse deserto com “homens de
gosto nos fornece, também, elementos para elu- gosto, alunos e admiradores”.33
cidar a relação da arte com a sua posteridade, Daqui poderíamos concluir que a estética
pois, como Kant afirma, ainda que os produtos kantiana ou, pelo menos, sua teoria do gênio se
do gênio sejam originais, isto é, não tenham sido opõe à mimesis? Bem, se entendermos a mimesis
engendrados de qualquer modelo ou imitação, como tradicionalmente foi traduzida, por imita-
nem por isso podem deixar de cumprir a função ção pura e simples, então, não há dúvida de que
de exemplo, medida ou regra de julgamento29 Kant recusa qualquer afinidade entre o gênio e a
para os que virão a seguir. Não há dúvida de que mimesis. Nesse caso, a teoria do gênio ocuparia
a questão da posteridade da arte é muito mais mesmo o momento de ruptura na história da
complexa que a evolução do pensamento cientí- produção da arte, quando supostamente teríamos
fico. Kant apela mais uma vez, na CFJ, à compa- passado do plano da mimesis para o da criação.
ração entre o artista e o cientista, a fim de elucidar Mas essa é a maneira tradicional de pensar a
essa posteridade que, na arte, não tem nada a ver mimesis, e espero, ainda no âmbito deste traba-
com progresso ou continuidade.30 A história da lho, sem estender-me demais sobre tal problema,
arte será inevitavelmente uma história ou tradição tentar ao menos indicar os termos de uma
de rupturas. O que isso quer dizer? Que o pro- reformulação da teoria da mimesis tomando por
duto genuinamente artístico, o do gênio, não base Aristóteles, de forma a acolher, numa esté-
sendo imitação de nada, deve morrer, pelo menos tica que chamaria provisoriamente de mimética, a
em sua possibilidade, junto com o artista. Morre, teoria do gênio kantiano.
então, a possibilidade daquela obra, mas não a da O terceiro critério que define o gênio para
arte (ainda não chegamos a Hegel!)... E o próprio Kant é o que o designa como “a faculdade de
Kant reconhece: “É difícil explicar como isto seja apresentação das idéias estéticas”,34 o que signifi-
possível. As idéias do artista provocam idéias ca dizer que a definição do gênio está totalmente
semelhantes em seu aprendiz, se a natureza o imbricada com outro tema fundamental em Kant,
proveu com uma proporção semelhante de facul- o da apresentação das idéias.
dades do ânimo”.31 Essa faculdade de apresentação das idéias
Algo, então, é transmitido, estabelecendo o estéticas, também chamada por Kant de Geist, es-
que Kant chama de uma sucessão ou herança pírito, é o princípio que, vivificando as faculda-
exemplar, como traduz A. Philonenko o termo des, as predispõe ao acordo – em outras palavras,
Nachfolge, que se diferencia de imitação servil o espírito funciona como um substrato supra-
(Nachahmung), mas, na verdade, a comunicação sensível de todas as faculdades, incitando-as ao
de um princípio, cuja função é vivificar e animar acordo, mas não segundo um modelo tirânico ou
as faculdades entre si, e que se dá, de modo espe- repressivo. A incitação ao acordo e ao jogo deve
cial, entre os gênios, depende, em última instância, aqui ser pensada, como talvez só Schiller tenha
de uma determinação natural. A história da arte profundamente compreendido, em suas Cartas,

29 Cf. KANT, 1990, p. 153. 32 DELEUZE, 1963, p. 131-132.


30 Ibid., p. 155. 33 Ibid., p. 131-132.
31 Ibid., p. 155. 34 KANT, 1990, p. 162.

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no sentido de uma acentuação, intensificação da petição da lei natural máxima – a lei dos gêneros
potência de cada faculdade. A verdadeira harmo- –, fornecendo, assim, os limites nos quais passeia
nia entre as faculdades só poderá ocorrer quando livremente a faculdade de julgar do espectador,
a imaginação tornar-se mais imaginante, a razão capaz de destacar, das cinzas da monótona expe-
mais raciocinante, o entendimento mais concei- riência cotidiana, a intensidade de uma bela pro-
tuante, e assim por diante... Se me permitem os dução natural. Do mesmo modo, a natureza con-
neologismos de gosto duvidoso... cede ao gênio o seu próprio princípio subjetivo –
As idéias estéticas são apresentadas por nunca se deve esquecer que, em Kant, o trans-
Kant como “uma representação da faculdade da cendental funda tanto o objetivo como o subje-
imaginação que dá muito a pensar, sem que con- tivo39 – ou “esta idéia indeterminada do supra-
tudo qualquer pensamento determinado, isto é, sensível”,40 que subjaz a todas as faculdades, cujo
conceito, possa ser-lhe adequado, que conse- único fim é, vivificando-as, colocá-las em acordo.
qüentemente nenhuma linguagem alcança intei- Daí podemos concluir que os dois são o mesmo:
ramente nem pode tornar compreensível”.35 Ou, o substrato supra-sensível de todos os fenôme-
como as designa Jean-Luc Marion, são fenôme- nos, que a nossa faculdade de julgar precisa para
nos saturados,36 intuições insaciáveis de conceito, observar a natureza, e o substrato supra-sensível
ao contrário das idéias racionais, conceitos insa- de todas as faculdades, que a natureza inspira ao
ciáveis de intuição, ou, ainda, como as descreve gênio, a fim de que ele possa realizar sua obra? E
Deleuze: “fenômenos (que) são imediatamente nesse caso, o gênio deixaria de ser uma subjetivi-
acontecimentos do espírito, e acontecimentos do dade excepcional – ou, como entende Deleuze,
espírito (que são) fenômenos da natureza”.37 E, uma intersubjetividade excepcional – para tornar-
finalmente, retornando a Kant, é nas idéias esté- se uma espécie de protótipo da subjetividade trans-
ticas que “os seres invisíveis, o reino dos bem- cendental?
aventurados, o inferno tomam corpo; e o amor, a
2. Na seqüência desse raciocínio, como fa-
morte assumem uma dimensão que os torna ade-
culdade de apresentação das idéias estéticas, o
quados a seu sentido espiritual”.38
gênio seria a tentativa de alçá-las à ambiciosa fun-
Retomando o que antes havíamos mencio-
ção de um acontecimento originário de toda apre-
nado – o fato de ser o gênio encarado como uma
sentação? Dependeria do gênio resgatar a ima-
das gêneses transcendentais da CFJ, precisamente
ginação de uma posição empírica, reprodutiva,
a gênese do belo na arte, já que o belo na natureza
inventiva, ou criativa, em que a tradição se acos-
encontrara sua gênese no conceito de finalidade
tumou a localizá-la para lançá-la de volta a seu
da natureza –, e tentando reuni-lo agora com esse
lugar apropriado no transcendental? E as idéias
terceiro critério da definição do gênio, ou seja,
estéticas: se tornariam, como ato primeiro da
sua faculdade de apresentar as idéias estéticas, ve-
imaginação, uma espécie de protótipo do esquema-
jamos os resultados, os quais passo aqui apenas a
anunciar, pois não terei mais tempo nem espaço tismo ou, ainda, esquemas da razão? Esticando a
para aprofundá-los. corda desse mesmo raciocínio às suas últimas
conseqüências, descobriremos um caminho pos-
1. O princípio transcendental – o conceito
de finalidade da natureza – sustentava, na medida sível para resgatar também o sentido pleno do
em que descobria um princípio supra-sensível na termo estética, em Kant, quero dizer, menos o
origem da natureza sensível, a regularidade e a re- sentido tradicional de uma ciência do belo, e mais
o intuído pelo próprio filósofo, quando, com
35 Ibid., p. 159. determinação e ineditismo, chamou a primeira
36 Cf. conferência “Como introduzir na fenomenologia o conceito de
parte da sua Crítica da Razão Pura de “Estética
fenômeno saturado”, pronunciada na Université des Sciences Humai-
nes de Strasbourg, França, 1992.
37 DELEUZE, 1963, p. 130. 39 Ibid., p. 185.
38 Cf. KANT, 1990, p. 160. 40 Ibid., p. 186.

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Transcendental”? O que estou tentando insinuar somente pode ser denominada bela se temos
é que o gênio (apesar de todos os riscos meta- consciência de que ela é arte e de que apesar disso
físicos, de um lado, e materiais e sensíveis, de ou- nos parece ser natureza”.41 Ela parece justamente
tro) e a perspectiva da reflexão da CFJ não repre- ecoar a idéia aristotélica de unidade entre a arte e
sentam um enfraquecimento ou recuo da filoso- a natureza, quando, na Física II, fica estabelecido
fia crítica em direção a qualquer empirismo ou que a technè (ou arte, e não técnica) conduz a seu
dogmatismo, mas, ao contrário, um adensamento termo (telos) aquilo que a natureza (phusis) é in-
ou radicalização da perspectiva transcendental. capaz de realizar,42 ou, um pouco mais adiante,43
3. Efetivamente, as idéias estéticas reintro- a idéia de que o gênio produz sua obra da mesma
duzem um aspecto material e sensível excluído da maneira que a macieira gera suas maçãs. No en-
reflexão, quando ela se voltava à observação do tanto, esse princípio da reciprocidade ou comple-
belo na natureza e podia deter-se apenas às for- mentaridade entre arte e natureza, que pode ser
mas. Tal relação de exterioridade, que mantém o flexionado, na CFJ, como alternância entre arte e
espectador no acordo contingente do belo natu- ciência, perspectiva técnica ou mecânica, não re-
ral, não pode conservar-se na relação interna sus- percute apenas a voz do filósofo (Aristóteles).
tentada pelo gênio com a mesma natureza. Se Ele também pode ser ouvido na reivindicação de
continua firme o propósito de relacionar o gênio poetas tão distintos como o “clássico” Goethe e
com a imaginação transcendental, teremos de, re- o “romântico” Hölderlin, em passagens como as
manejando o texto crítico como um todo, tomar que citarei para finalizar este trabalho.
a primeira parte da Crítica da Faculdade do Juízo Tentando dar algumas indicações do con-
como a segunda parte da “Estética Transcenden- texto histórico em que ocorrem essas duas cita-
tal”, na “Teoria Transcendental dos Elementos” ções, diria que a Alemanha vivia certamente um
da Crítica da Razão Pura, concordando com a momento de crise, de passagem do modelo clás-
opinião unânime, a respeito da estética transcen- sico ao romântico. Era ainda a velha querela entre
dental, de que ela assume um ponto de vista to- os antigos e os modernos, à qual Schiller deu
talmente negativo no que se refere à sensação e à novos nomes: ingênuo e sentimental. Momento
matéria. de provável ruptura com a leitura normativa da
4. Por último, gostaria de me reportar àqui- Poética de Aristóteles, característica do teatro
lo que chamei de programa de resgate da mimesis, francês do século XVII, que consistia em buscar os
não mais pensada como mera imitação, mas, aris- preceitos e as regras para escrever a boa peça, a ser
totelicamente, como relação de complementa- avaliada também segundo o cumprimento (ou
ridade entre arte e natureza, e examinar como a não) das mesmas regras. O que estou insinuando
teoria do gênio kantiano talvez só encontre seu é que, possivelmente, o ambiente clássico – tanto
sentido mais profundo se for iluminada por esse do ponto de vista do artista quanto do público es-
pensamento de reformulação ou remanejamento pectador – encontrasse seu fundamento na regra
do conceito de mimesis. aristotélica. A minha hipótese é que essa época
Entre tantas complementaridades – gênio e testemunhava um revolucionário deslocamento:
gosto, gênio e conceito de finalidade da natureza, em direção à natureza, à qual se passou a dirigir a
belo e sublime, estética e arte – convoco essa úl- pergunta sobre a possibilidade da arte... O típico
tima, cuja importância já tive a oportunidade de artista moderno, o fenômeno Shakespeare vem
ressaltar e que, a meu ver, subjaz de modo cons- questionar a validade de todas as regras da tragé-
tante ao texto inteiro da CFJ e se trata da com- dia antiga. É preciso, com urgência, encontrar
plementaridade entre a natureza e a arte. São
muitas as passagens a, aqui, nos servir de exem- 41 Ibid., § 45, p. 179.
42 ARISTÓTELES (Física II, p. 198b, 17) apud BEAUFRET, J., “Phu-
plo, mas tomo essa ao acaso: “A natureza era bela sis et Technè in Aléthèia”, Revista Aléthèia, Paris, n. 1-2, p. 16.
se ela ao mesmo tempo parecia ser arte; e a arte 43 Ibid., p. 199b.

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novos paradigmas, novos preceitos. A moderni- pado que o fundamento do juízo de gosto encon-
dade inaugura-se nas artes como uma espécie de trava-se no conceito de finalidade da natureza?
revanche da imaginação contra a razão. E essa tal- Passemos à citação de Hölderlin, que já nos
vez seja a sua principal marca... Senão, como ex- leva ao problema imediatamente suscitado pelo
plicar a sede pela hybris das vanguardas? Contra a paradigma, digamos assim, natural da arte. Trata-se
artificiosa corte francesa (quem seria o público do da queixa do artista moderno. Era do Olimpo, do
teatro francês do século XVII?), surge o vulto cume da arte clássica ou ingênua, para onde Goethe
fantasmagórico, sublime da natureza desregra- ascendeu em vida, segundo a aguda análise de
da... De quem mais senão do gênio? Figura em- Walter Benjamin sobre a novela As Afinidades
blemática da arte sublime! Eletivas,45 que Goethe consagrara Shakespeare
É, portanto, nesse contexto, grosseira e ra- como o artista, o gênio romântico. Mas Hölderlin
pidamente descrito, que podemos ouvir as excla- ainda estava às voltas com sua produção, à pro-
mações dos dois grandes poetas alemães. A pri- cura desesperada de um princípio técnico, artísti-
meira trata o problema do gosto, da recepção; é co, capaz de orientá-lo na construção de sua obra,
deparando apenas uma natureza insondável. Há
um elogio entusiasmado de Goethe diante dos
um verdadeiro tom de súplica nas suas palavras.
personagens de Shakespeare: “Natureza! Nature-
Uma explícita reivindicação de cidadania para a
za! Nada é tão natureza quanto o são os homens
arte. O que é isso senão uma pergunta sobre a
criados por Shakespeare!”.44 Ora o que essa frase
possibilidade da arte moderna? O que é isso se-
significa senão a consagração do novo paradigma,
não o reconhecimento imediato da dificuldade da
do paradigma do gênio, do artista moderno? O
arte moderna? Daquela pergunta adorniana, tra-
que ela significa senão que deverá ser encontrado,
duzida nos termos de Kant, sobre as (conturba-
a partir de agora, na natureza (e não mais nas an-
das) condições de possibilidade da arte, nos dias
tigas regras clássicas) o modelo da arte moderna?
de hoje? “Seria bom, a fim de assegurar aos
Poderemos retomar Kant, dizendo que só na me- poetas, também entre nós, uma existência de ci-
dida em que a arte se parecer natureza, dela po- dadão, elevar a poesia, também entre nós, le-
deremos dizer que é bela? Não estaríamos diante vando em conta a diferença das épocas e das
de um novo, moderno critério capaz de discernir a instituições, à altura da mèkhanè dos Antigos.”46
arte do que não é arte? Kant já não tinha anteci-
45 BENJAMIN, 2000, p. 274-395.
44 GOETHE, 1983, p. 214. 46 HÖLDERLIN, 1994, p. 93 (tradução modificada).

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Paulo: Iluminuras, 1990.
SUZUKI, M. O Gênio Romântico, Crítica e História da Filosofia em Friedrich Schlegel. São Paulo: Iluminuras, 1998.

Dados da autora
Professora doutora do Departamento de
Filosofia da FAFICH/UFMG.
Fez doutorado em filosofia na Université des
Sciences Humaines de Strasbourg, França, e pós-
doutorado em filosofia no Boston College, USA.

Recebimento artigo: 16/jul./04


Consultoria: 14/set./04 a 4/nov./04
Aprovado: 2/dez./04

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Paz, Cosmopolitanismo e
Direito Internacional em Kant
Peace, Cosmopolitanism and
International Law in Kant
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60 Impulso, Piracicaba, 15(38): 00-00, 2004


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Um Público Crítico:
a condição da paz
A CRITICAL PUBLIC:
THE CONDITION FOR PEACE 1 1
Resumo Os esforços pacifistas dos séculos XIX e XX são, na maior parte, determina-
dos pela idéia de que a paz depende do direito internacional e dos meios jurídicos de
solução pacífica de controvérsias. O escrito À Paz Perpétua é considerado a obra prin-
cipal de consagração dessa idéia, e o seu autor, o filósofo alemão Immanuel Kant, o
“fundador da filosofia da paz”. O objetivo deste artigo é analisar a crítica radical de
Kant à concepção jurídico-política de sua época. A primeira parte mostra como Kant,
tomando por base o imperativo categórico em sua formulação do reino dos fins (Fun-
damentação da Metafísica dos Costumes) e seu objeto, o soberano bem (Crítica da Ra-
zão Prática), desenvolve sua concepção político-jurídica (Paz Perpétua e Doutrina do
Direito). Já a segunda parte demonstra como Kant reflete sobre o papel do público
racional como agente de realização do direito.
SORAYA NOUR
Universidade Paris X,
Palavras-chave KANT – DIREITO – PÚBLICO – PUBLICIDADE – PACIFISMO. Paris/França
sorayanour@yahoo.com
Abstract The pacifist efforts of the and 19th 20th
centuries are, in most part,
determined by the idea that peace depends on international law and on the juridical
means of pacific conflict solution. The book Perpetual Peace is considered the
leading work of consecration of this idea, and its author, the German philosopher
Immanuel Kant, the “founder of the philosophy of peace”. The objective of this
paper is to analyze Kant’s radical critique to the juridical political conception of his
time. The first part shows how Kant, taking into account the categorical imperative
in his formulation of the kingdom of ends (Foundations of the Metaphysics of morals)
and its object, the sovereign good (Critique of Pure Reason), develops its political
juridical conception (Perpetual Peace and Doctrine of Right). The second part
demonstrates how Kant reflects on the role of the rational public as an agent of the
realization of law.

Keywords KANT – LAW – PUBLIC – PUBLICITY – PACIFISM.

1 Esse artigo tem por base o livro À Paz Perpétua de Kant. Filosofia do direito internacional e das relações
internacionais (NOUR, 2004). A autora agradece o generoso financiamento da Fundação Alexander von
Humboldt e da Universidade Paris X.

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1. A PAZ JURÍDICA
O Reino dos Fins

A
metafísica de Kant (metafísica por essa filosofia se fun-
dar em princípios a priori, e não em princípios da expe-
riência), ao contrário da metafísica geral da filosofia tra-
dicional, que tratava conjuntamente as questões sobre o
ser supremo e sobre a boa ação, divide-se em metafísica
da natureza (investigação de objetos teóricos) e metafísi-
ca dos costumes (investigação de objetos morais). Essa
Metafísica dos Costumes, dividida, por sua vez, em Dou-
trina do Direito e Doutrina da Virtude, é precedida de uma “fundamen-
tação”, cujas duas tarefas principais são:2 encontrar o princípio da mora-
lidade (primeira e segunda seções) e mostrá-lo como verdadeiro e neces-
sário (terceira seção). Quanto à primeira tarefa, o princípio encontra-se
na razão e tem também sua origem na razão, pois a lei é deduzida “do
conceito universal de um ser racional em geral”.3 Um conceito de ser ra-
cional suficiente para distingui-lo de tudo o que existe na natureza é o que
nele identifica a vontade – pois, se “tudo na natureza atua conforme leis”,
diz Kant, “apenas um ser racional tem a faculdade de agir conforme a re-
presentação de leis, isto é, conforme princípios – ou seja, tem uma von-
tade”.4 Dado que a vontade pode determinar-se ou não pela razão, é ne-
cessário que o princípio da ação receba a forma de um comando, um im-
perativo: hipotético, quando a ação que comanda é boa para outra coisa,
e categórico, quando a ação que comanda é boa em si. O imperativo
categórico impõe a necessidade de que a máxima da ação (princípio sub-
jetivo pelo qual o sujeito age) seja conforme a lei prática universal (prin-
cípio objetivo, válido para todo ser racional). Sua primeira formulação,
portanto, é: “Aja apenas segundo a máxima que você possa querer ao
mesmo tempo que se torne lei universal”.5
Depois de analisar o conceito de um ser racional, Kant analisa sua
existência: o ser racional existe como fim em si, com um valor absoluto,
e não relativo (meio para outros fins), do que se deduz a segunda for-
mulação do imperativo categórico: “Aja de tal modo que você trate a hu-
manidade tanto em sua pessoa como na pessoa de todos os outros sem-
pre ao mesmo tempo como fim, e jamais como simples meio”.6 Kant in-
troduz, então, o princípio da autonomia da vontade: “o princípio de toda
vontade humana como uma vontade que dá a si própria sua lei universal
por meio de suas máximas”.7 Se, na primeira formulação, a lei moral pa-
recia ter caráter coercitivo, a autonomia explica que o ser racional se sub-
mete à máxima, por ser ele mesmo seu autor;8 e se a afirmação da segunda

2 RÜDIGER, 2000, p. 16.


3 KANT, 1785, p. 412-413.
4 Ibid., p. 412.
5 Ibid., p. 421.
6 Ibid., p. 429.
7 Ibid., p. 432.
8 LEBRUN, 1986, p. 76-82.

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formulação, de que o ser racional tem valor ab- sensível – pois, nesse caso, a vontade dependeria
soluto (e não relativo a outros fins), também ca- do sucesso ou do fracasso de atingir esse objeto,
rece de fundamento, é a autonomia que explica do desejo (que tornaria a vontade casual) ou da
por que o ser humano é uma pessoa. causalidade natural –, e sim deve ter um valor in-
Implícito na noção de um ser racional autô- condicional, podendo ser apenas a própria boa
nomo está o conceito de reino dos fins, a “ligação vontade.13 A boa vontade é, portanto, objeto da
sistemática, por meio de leis comuns, tanto de di- vontade, que quer sua própria perfeição (quero
versos seres racionais enquanto fins em si como que minha vontade seja boa) – um fim que é, ao
também dos próprios fins que cada ser racional se mesmo tempo, um dever e que constitui a virtu-
dê”.9 Os seres racionais constituem, assim, não de.14 A lei moral deve se estender à condição hu-
uma pluralidade – um conjunto casual –, mas uma mana para prover o objeto do bem, e o ser hu-
totalidade, um conjunto sistematicamente unido mano, visto em sua qualidade natural, tem em
por leis. As três fórmulas correspondem às cate- suas ações um fim que vai além da lei (fazendo do
gorias da unidade (a forma universal da lei moral ser humano um objeto da experiência).15 Se a na-
universal), da pluralidade (a matéria, os seres hu- tureza humana é tanto sensível quanto racional,
manos como fim em si) e da totalidade (a união tal dever considera o fato de a ação do ser huma-
sistemática, pela lei, dos seres humanos).10 Quan- no dar-se no mundo sensível, no qual seu fim
do a pluralidade (segunda categoria) submete-se a também é a felicidade. Esses dois fins – a virtude
um princípio de unidade (primeira categoria), tor- e a felicidade – constituem o soberano bem. A
na-se uma totalidade (terceira categoria):11 os di- vontade humana possui, no entanto, necessidade
versos seres racionais permaneceriam em uma de um objeto unificado – o que não é uma neces-
pluralidade, em uma reunião arbitrária, se não sidade da lei moral, a qual, sem objeto, não é in-
houvesse um princípio de unidade, uma lei co- completa.16 Os fins da completude e da felicidade
mum à qual todos se submetem e que os une sis- unificam-se no dever: “faça do soberano bem que
tematicamente, constituindo um reino dos fins. seja possível no mundo seu fim último”.17 Como,
O conceito de pessoa autônoma tem, portanto, no entanto, nem a felicidade pode ser causa da
duas características centrais: uma dignidade abso- virtude, nem a virtude, causa da felicidade – por-
que os efeitos da vontade não dependem da in-
luta – uma pessoa é fim em si mesma, e não meio
tenção, e sim do mundo natural –, virtude e feli-
para outros fins – e a sociabilidade – a pessoa é
cidade, conceitos heterogêneos, não podem ser
membro de um reino de pessoas, o reino dos fins.
unidos de modo analítico, mas apenas sintético,
O imperativo categórico na forma do reino no conceito de soberano bem. Kant considera, en-
dos fins é, no entanto, apenas a forma da vontade. tão, a virtude como a condição incondicional
Assim como na tradição, a vontade deve ter um (que não depende de nenhuma outra – origina-
objeto, o que se quer: o bem. Mas, se na tradição, rium) da felicidade. A virtude é a condição de
o bem é o ponto de partida, Kant inverte tal pro- nossa busca pela felicidade e, com isso, é o bem
cedimento: primeiro, determina-se a lei moral e, maior. Porém, ela não é todo o objeto da vontade
em seguida, deriva-se dela o bem. O bem é um do ser racional finito, que também busca a felici-
objeto material, que deve ser produzido pela von- dade. A felicidade, por conseguinte, também se
tade – isto é, um objeto deduzido em uma relação inclui no soberano bem: o soberano bem é o
causal.12 Esse objeto não pode ser um objeto do todo da virtude e da felicidade, e a virtude (o bem
9 KANT, 1785, p. 433.
maior), condição da felicidade. Como a morali-
10 Ibid., p. 436.
11 Idem, 1781, p. 96. 13 KANT, 1788, p. 34-35.
12 SILBER, 1963, p. 183-185. Ao contrário da análise de Beck, pela qual 14 Idem, 1797, p. 385s.
o conceito de soberano bem nada acrescenta ao de perfeição moral, Sil- 15 Idem, 1793, p. 7.
ber mostra que tal conceito dá conteúdo à forma do imperativo 16 SILBER, 1963, p. 192.
categórico e direção à volição moral. 17 KANT, 1793, p. 7.

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dade é a condição maior, então, a felicidade deve analogia, em virtude da faculdade de julgar pre-
estar na proporção exata da moralidade.18 sente em ambos. Na hipotipose simbólica, uma
O objeto da vontade moral deve ser encon- intuição sensível submete-se a um conceito, “com
trado no mundo, como união da forma e da ma- o qual o procedimento da faculdade de julgar é
téria. O ser racional deve ordenar o mundo se- meramente analógico ao observado no esquema-
gundo a idéia do reino dos fins e de seu objeto, o tismo, isto é, corresponde a ele apenas quanto à
soberano bem. Enquanto a tarefa da razão em seu regra desse procedimento, não com a intuição ela
uso teórico limita-se ao conhecimento da ordem própria, apenas com a forma da reflexão, mas não
sensível, e não à sua criação, sua tarefa na razão com o conteúdo”.23 A faculdade de julgar tem
prática é estruturar o mundo sensível conforme a uma dupla tarefa: aplica os conceitos do entendi-
lei moral, na medida em que a ordem dada não mento à intuição sensível, de modo a determinar
possui uma forma moral. A razão teórica vai da um objeto, e também adequa sua reflexão sobre
intuição aos princípios; o agente, ao contrário, os objetos da intuição a um conceito que não
parte do princípio da lei moral e o aplica à natu- aquele utilizado para a determinação de objetos da
reza humana: o que quer é a realização do sobe- intuição. A hipotipose simbólica expressa defi-
rano bem.19 Para a razão teórica, deve haver algo nições “não por meio de uma intuição direta, mas
em comum entre o conceito e o mundo sensível: apenas mediante uma analogia com uma intuição,
um esquema, com a tarefa de adequar o conceito isto é, pela transferência da reflexão sobre um
a seu uso prático. Falta, no entanto, um esquema objeto da intuição a um outro conceito, ao qual
na moral. Não há nenhuma série temporal como
talvez nunca uma intuição poderá corresponder
realização do soberano bem – caso contrário, não
diretamente”.24 Se não há possibilidade de um es-
haveria a tarefa de realizá-lo. O agente livre não é
quema direto da perfeição, podemos nos aproxi-
determinado por uma ordem sensível já dada:
mar da realização do dever de ser perfeito, por
esta deve ser produzida por sua vontade.20
meio de uma hipotipose simbólica da perfeição.25 A
O reino dos fins deve ser realizado empiri-
exigência de realização do reino dos fins é, por-
camente, o que, contudo, é impossível. Precisa-
tanto, comensurável com sua realização sensível
mos promovê-lo e nos aproximar de sua plena rea-
como simbólico de sua total realização. Na expe-
lização.21 Esse tipo de realização da lei moral não
riência, o ser humano pode apenas responder à
é chamado de esquema, e sim de símbolo, como
exigência da razão de uma manifestação simbólica
análogo de um esquema – já que não há nada em
do soberano bem num sentido constitutivo. En-
comum entre a moralidade e o mundo sensível.
tretanto, a razão exige mais que uma manifestação
Na Crítica da Faculdade de Julgar, Kant introduz
simbólica: requer sua realização, mesmo sendo
o conceito de hipotipose, possibilitando um uso
impossível em sua completude.
empírico de idéia: “toda hipotipose (representa-
ção, subiectio sub adspectum) como sensibilização O esquema simbólico possibilita, assim,
dá-se de dois modos: esquematicamente, pois a uma intermediação entre o infinito e o finito, en-
um conceito do entendimento é dada uma intui- tre forma e matéria. O sensível finito simboliza a
ção correspondente a priori, ou simbolicamente, idéia racional infinita.26 A realização do soberano
pois a um conceito que apenas a razão pensa, e ao bem na experiência pode se dar por analogia: “o
qual não é dada nenhuma intuição sensível apro- entendimento fornece ao sujeito moral uma típi-
priada, submete-se uma intuição.22 Há aqui uma ca para a expressão simbólica da idéia moral no
conceito de direito natural. A faculdade de juízo
18 Idem, 1788, p. 110-111. Cf. SANER, 1995, p. 43-67.
19 SILBER, 1966, p. 255-259. 23 Ibid., p. 351.
20 Ibid., p. 260. 24 KANT, 1790, p. 352-353.
21 Ibid., p. 262-264. 25 SILBER, 1966, p. 266-268.
22 KANT, 1790, p. 351. 26 Ibid., p. 269-270.

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serve-se dessa típica na realização da esquemati- do direito das gentes clássico, que justificava a re-
zação simbólica. No ser humano, no qual o sensí- servatio mentalis do regente e de seus ministros,
vel e a razão se unem, ocorre o esquema simbó- abaixo de sua dignidade como pessoa humana.30
lico do soberano bem, em que uma idéia da razão O segundo artigo preliminar, de acordo com a
se expressa simbolicamente no mundo sensí- idéia de Estado como uma associação sistemática
vel”.27 A realização do direito natural – os prin- de pessoas, critica-lhe a concepção patrimonialis-
cípios de justiça de qualquer direito positivo – é o ta, que permitia procedimentos de transferência
que, no mundo sensível, mais pode se aproximar de soberania de um Estado por troca, herança,
do soberano bem. compra ou doação, opondo-lhe uma concepção
personalista – o Estado é uma pessoa jurídica, não
A Comunidade Jurídica podendo submeter-se a tais procedimentos.31 O
O reino dos fins e seu objeto, o soberano terceiro artigo preliminar condena a manutenção
bem, a realizar-se simbolicamente pelo direito na- de exércitos permanentes, apresentando duas ra-
tural, fundam a concepção kantiana de comuni- zões do desaparecimento deles.32 Uma delas con-
dade jurídica, na qual podem ser identificados sidera o que se chama espiral armamentista: quan-
seus elementos: uma lei universal como princípio do um Estado se arma para a guerra, incita os
de unidade, a lei moral; os elementos que essa lei outros a fazer o mesmo, num processo infinito.
sistematicamente une – os seres racionais como A outra condena a convocação militar, isto é, o
fim em si (“pessoas”) e os fins que cada um quei- suposto direito de um Estado de usar seus súdi-
ra se dar (“felicidade”); o caráter sistemático des- tos, ou pô-los em perigo, para gerar guerra, fazen-
sa ligação.28 do deles o que quer – como se fossem frangos,
A comunidade jurídica, expressa nos arti- ovelhas, porcos, gado ou batatas, que se podem
gos definitivos da Paz Perpétua, constitui a con- consumir; como se fossem coisas, e não seres hu-
dição positiva para atingir a paz, o fim último do manos, pessoas.33 No entanto, ainda mais forte e
direito – precedida, no entanto, de sua condição seguro que o poder do exército e o poder das alian-
negativa, demonstrada nos artigos preliminares. ças é o poder do dinheiro: assim, esse terceiro ar-
Wolfgang Kersting29 atribui aos artigos prelimi- tigo preliminar condena também o orçamento de
nares da Paz Perpétua, desprovidos de um princí- guerra, ou tesouro de guerra;34 e se tal orçamento,
pio comum, um caráter meramente pragmático. acumulado durante anos, rapidamente se esvai nas
Ao contrário dessa interpretação, pode-se, no en- guerras, obrigando a armistícios, esse “problema”
tanto, encontrar no conceito de pessoa (tanto o é evitado pelo crédito de guerra, que fornece a ela
ser humano, como ser moral, quanto o Estado, o dinheiro necessário imediatamente – condena-
que, enquanto união de pessoas que se dão a pró- do no quarto artigo preliminar –, pérfida invenção
pria lei que as une sistematicamente, é considera- da Inglaterra, que havia subsidiado a Prússia na
do por analogia também uma pessoa) um princí- Primeira Guerra de Coalizão contra a França
pio a priori fundamentando todos esses artigos e Revolucionária, desmoronando completamente na
os vinculando à metafísica kantiana. admiração de Kant.35 O quinto artigo preliminar
O primeiro artigo preliminar critica trata- condena a intervenção violenta em outro Estado,
dos de paz feitos com a intenção secreta de decla- pois este é uma reunião de pessoas, que não po-
rar novas guerras, considerando a noção de honra dem ser impedidas de formular a constituição
que lhes pareça apropriada. Por fim, no sexto
27 Ibid., p. 270-272.
28 O imperativo categórico é o dado objetivo, a lei da ação, tanto da 30 KANT, 1795, p. 343-344.
doutrina do direito como da doutrina da virtude. A diferença está no 31 Ibid., p. 344.
dado subjetivo, o motivo da ação: na virtude, importa que o meu 32 Ibid., p. 345. SANER, 1995, p. 61-64.
motivo de agir seja o respeito pela lei; no direito, é indiferente o 33 KANT, 1797, p. 344-345.
motivo pelo qual respeito a lei. 34 Idem, 1795, p. 345.
29 KERSTING, 1995, p. 87. 35 Idem, Reflexões, 8077, XIX, p. 605.

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artigo preliminar, Kant prescreve um direito na eles próprios, custear a guerra com seus próprios
guerra, chamado, hoje em dia, de direito humani- bens e, terminado o conflito, reparar a devastação
tário36 (apesar de ser uma contradição, pois como e assumir as dívidas “insolúveis” resultantes.45
pensar uma lei nesse Estado sem lei?),37 pois atos Contudo, numa constituição não republicana, o
desumanos são inadmissíveis mesmo na situação chefe de Estado nada perde com a guerra, deci-
extrema da guerra.38 dindo-se por ela quando quer e deixando-a justi-
Na Doutrina do Direito, Kant explicita sua ficar pelo corpo diplomático46 – como na Ingla-
absoluta condenação do direito à guerra, no qual terra, observa Kant, na qual as duas Câmaras do
se apóia a distinção entre guerra justa e guerra in- Parlamento, pretensamente representantes do po-
justa.39 O direito das gentes clássico previa vários vo, nada decidem que divirja do proposto pelo
casos de direito à guerra, entre eles, a guerra pre- ministro, sem consulta ao povo.47
ventiva e a guerra sanção40 – a primeira, quando A Paz Perpétua, professando, assim, o repu-
em ameaça de guerra, por preparação de arma- blicanismo, causou grande impacto na França re-
mentos ou temeroso crescimento do poder de volucionária,48 com comentários fervorosos na
um Estado;41 a segunda, no caso de o Estado já imprensa e no partido republicano.49 Segundo o
ter sofrido uma violação. No entanto, insiste periódico Le Moniteur, “o célebre Kant, esse ho-
Kant, é apenas pelo direito que mesmo tais con- mem que, na Alemanha, produziu nos espíritos
flitos podem resolver-se: o direito à guerra signi- uma revolução (...), acaba de sustentar com o
fica apenas serem justas a aniquilação mútua e a peso de seu nome a causa da constituição repu-
conquista da paz perpétua “no vasto túmulo que blicana. (...) Ele não tem medo de se exprimir (...)
recobre todos os horrores da violência, bem francamente; sua idade avançada devendo condu-
como seus autores”.42 zi-lo ao termo de sua gloriosa carreira, ele desde-
Da sociabilidade da pessoa humana decor- nhou os alarmes (...) e essa falsa prudência que
rem três níveis de sua ligação sistemática por meio deixa o mal atuar”.50 Kant tornou-se, para os in-
de leis (as condições positivas da paz expressas ternacionalistas, o autor que estabelece decisiva-
nos artigos definitivos): o direito do Estado, o di- mente a ligação da democracia (da qual decorre o
reito internacional (entre Estados) e o direito cos- controle parlamentar da política exterior) com a
mopolita (unindo sistematicamente todas as pes- paz nas relações entre os Estados – em oposição
soas como cidadãs do mundo). Quanto ao direito ao projeto de paz de Saint Pierre,51 que pressu-
do Estado, é a constituição republicana – na qual punha uma federação internacional composta
o povo, de acordo com a noção de autonomia, se por dinastias. Essa idéia kantiana opõe-se tam-
dá sua própria lei – a primeira condição para o es- bém à noção realista de que a violência das rela-
tabelecimento da paz,43 e pela qual Kant opõe a ções internacionais tem sua causa na própria es-
noção de cidadão à de súdito, mudança essencial trutura sistêmica do cenário internacional, não
na relação entre governante e governado da teoria sendo influenciada pelo regime interno de cada
do Estado tradicional.44 A constituição republica- país, que não explica, e geralmente destoa de sua
na é a única a favorecer uma ordem internacional política exterior. Czempiel observa que nenhum
pacífica por ser a única a expressar a vontade dos país até hoje satisfez à exigência kantiana: os di-
que assumem os encargos da guerra – combater retamente atingidos pela guerra não participam
36 Idem, 1795, p. 346.
da tomada de decisão pelo conflito e de cada um
37 Ibid., p. 346-347.
38 KAUFMANN, 1935, p. 559; VLACHOS, 1962, p. 565-567. 45 KERSTING, 1995, p. 91.
39 KANT, 1797, p. 346. 46 KANT, 1795, p. 351.
40 Ibid., p. 347. Cf. KAUFMANN, 1935, p. 470-471. 47 Idem, 1798a, p. 90. Cf. TÉNÉKIDÈS, 1963, p. 335-336.
41 KANT, 1797, p. 346. 48 FETSCHER, 1993, p. 258.
42 Idem, 1795, p. 357. 49 AZOUVI & BOUREL, 1991, p. 73.
43 Ibid., p. 349. 50 Ibid., p. 70-73.
44 Idem, 1797, p. 314. 51 SAINT PIERRE, 1981.

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de seus atos particulares.52 Na análise de Klaus- Brasil, na reforma de sua Constituição de 1925/26,
Gerd Giesen, o argumento de Kant é decisivo teria introduzido a obrigação, tomada do Pacto
contra a tecnificação da utilização de armamentos da Liga das Nações, de não fazer guerra de con-
nucleares, cuja eficácia depende de decisões não quista, nem apelar por outro motivo às armas,
sujeitas ao processo democrático: sem, antes, recorrer a um procedimento de solu-
ção pacífica. Castro Maya escreveu à revista57 para
trata-se aqui de assegurar o primado do controle esclarecer que tais cláusulas já existiam na Cons-
político sobre qualquer consideração de ordem pu- tituição de 1891, obra, em grande parte, do jurista
ramente militar ou técnica (...). Fundamentalmente brasileiro Ruy Barbosa. O Brasil, bem antes da
anti-decisionista por natureza, a configuração repu-
criação da Liga das Nações, condenava solene-
blicana imaginada por Kant quer ser antes de tudo
mente toda guerra que não fosse defensiva ou pre-
o respaldo contra a despolitização de decisões cru-
cedida do recurso às soluções pacíficas de contro-
ciais para a nação. A automatização dos sistemas de
armamento nucleares de hoje, indispensável para o vérsias.58 Nos dias de hoje, a confiança em estraté-
“bom” funcionamento nos prazos impostos pela gias de cooperação e instituições jurídicas de inte-
própria técnica, leva à tecnificação das decisões e gração regional contrapõe-se à perspectiva teórica
evacua a autonomia do político. Em nome da liber- realista de que apenas os sistemas de legítima de-
dade de ação do homem, Kant, em seu tempo, se fesa coletiva – alianças militares, como a OTAN –
opôs decisivamente a este princípio.53 podem dar conta do problema da segurança.
A união sistemática das pessoas atinge o
A República, no entanto, é apenas a primei- seu grau mais elevado ao uni-las como cidadãs do
ra condição para a paz; a segunda é que as pessoas mundo, conforme o que Kant chama de direito
devem ser unidas sistematicamente (por meio de cosmopolita, formulado, ao contrário dos outros
leis, e não arbitrariamente), também no plano in- dois – o direito do Estado e o direito das gentes
ternacional, e é preciso que essas Repúblicas se – com um caráter restritivo: “o direito cosmopo-
unam numa Liga de Estados.54 Não se trata da lita deve se limitar às condições de uma hospita-
concepção da paz de um Estado mundial, consi- lidade universal”.59 Todos, originariamente, têm o
derada por Kant uma paz despótica – um despo- mesmo direito60 de estar em qualquer lugar da
tismo desalmado no cemitério da liberdade55 –, e Terra,61 do que se origina o direito de visitar62 to-
sim uma reunião capaz de ser dissolvida a qual- dos os lugares da Terra,63 bem como o direito à
quer momento, uma ordem internacional marca- hospitalidade,64 isto é, o direito de, nessa tentativa
da por um pluralismo jurídico e político, sem uma de relacionar-se com o outro, não ser tratado
constituição a tornar tal união indissolúvel. Seu como inimigo.65 A limitação do direito cosmo-
modelo é a Assembléia de Haia, ocorrida na me- polita ao direito de hospitalidade significa que o
tade do século XVII, em que os ministros das cor- direito é lesado quando – e esse significava, para
tes européias apresentaram suas queixas uns aos Kant, o problema principal de uma injusta inos-
outros “e, assim, pensaram a Europa inteira como pitalidade – o que chega a um território estende
um único Estado federado, que admitiram como sobre ele seu império, com o que Kant funda-
árbitro naquelas suas controvérsias públicas”.56 menta, em uma teoria do direito, sua crítica à co-
Tais idéias orientam também a política exter- lonização66 e sua alegação de trazer aos selvagens
na brasileira, o que seria reconhecido pelos pacifis- 57 MAYA, 1928, p. 315.
tas reunidos em torno da revista La Paix Par Le 58 Ibid., p. 315.

Droit, a qual, em junho de 1928, anunciou que o 59 KANT, 1795, p. 357.


60 Idem, 1797, p. 352.
61 Idem, 1795, p. 358.
52 CZEMPIEL, 1997, p. 127-128. 62 Ibid., p. 358.
53 GIESEN, 1997, p. 338-339. 63 Idem, 1797, p. 353.
54 TERRA, 1995, p. 72. 64 Idem, 1795, p. 358.
55 KANT, 1795, p. 367. 65 Idem, 1797, p. 352.
56 Idem, 1797, p. 350-351. 66 HAMBURGUER, 1959, p. 316.

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o benefício da colonização. Kant opõe-se a qual- próprios pensamentos só é possível quando eles
quer justificativa de que o exercício de tal violên- são testados no contato com o pensamento do
cia conduza a um mundo melhor:67 outro,73 tema também abordado por Kant, em
duas cartas a Marcus Herz. Na primeira, ele apre-
Na Índia oriental (Hindustão), sob pretexto de es- senta a idéia de que, da perspectiva dos outros,
tabelecer sucursais comerciais, eles desembarcaram
pode melhorar a opinião que tinha anteriormen-
tropas estrangeiras, com as quais oprimiram os na-
te;74 na segunda, considera o alargamento do pen-
tivos, incitaram seus diversos Estados a extensas
guerras, expandiram a fome, a rebelião, a perfídia e samento possível apenas quando se leva em conta
todos os males que afligem a humanidade. A China as reflexões dos outros.75
e o Japão, que tiveram sua experiência com esses Em sua filosofia teórica, Kant fundamenta,
hóspedes, recusam-lhes sabiamente, senão o acesso, com sua teoria sobre o erro, a tese da impossibili-
ao menos a entrada em seu país.68 dade de se pensar com retidão, quando não se
pode comunicar o que se pensa:76 todos são tam-
2. CRÍTICA PÚBLICA bém sujeitos ao erro e, por isso, dependentes da ra-
A questão assim formulada é: como esses di- zão do outro.77 Kant dirige-se contra o egoísta ló-
reitos podem se tornar realidade? E a primeira gico, aquele que “sem se preocupar com o que os
condição apresentada por Kant é a possibilidade de outros pensam de suas teses, considera-se sufi-
crítica pública. No “Prefácio” à primeira edição da ciente para julgá-las”,78 ao contrário daquele que
Crítica da Razão Pura, Kant caracteriza o século supera as condições particulares nas quais se en-
XVIII como o século da crítica, à qual nada escapa contra, pondo-se no lugar dos outros para refletir
– nem mesmo a religião e a legislação, que, queren- sobre seu próprio juízo.79 Um juízo falso é o que
do esquivar-se, tornam-se suspeitas, pois só se es- não tem a concordância de outras pessoas, pois é
tima o que pode ser livre e publicamente examina- improvável que um outro esteja sujeito às mesmas
do.69 Na época, o novo ministro de ensino e de condições particulares que levam alguém a come-
cultos da Prússia, Johann Christoph Wöllner, pro- ter um erro:80 “Por exemplo, quando, vendo algo
mulgou, no entanto, um edito sobre a religião, se- ao longe, digo que é um cavalo, e outro, que é uma
guido de outro sobre a censura e nomeando uma árvore. Talvez tenha eu antes apenas profunda-
comissão especial para censurar todas as publica- mente impregnado o pensamento de um cavalo, e,
ções impressas naquele país.70 O governo, segun- por meio dessa ilusão, acredito ver ao longe um ca-
do Cassirer, já não continha mais aquele “inopor- valo. O egoísmo é o erro no qual se acredita que,
tuno admoestador”, que havia deixado o recato quando se trata do critério da verdade, não se pre-
dos profundos pensadores “para se rebelar contra cisa do julgamento dos outros”.81
o próprio governo com as armas da sátira”.71 As oportunidades para a conversa filosófica
Kant defende a liberdade de pensar, no tex- não podem, conseqüentemente, ser desperdiça-
to “O que significa orientar-se no pensamento”: das: “Fazer sua refeição sozinho (solipsismus con-
contra a comum concepção de que a liberdade de victorii) não é saudável para um sábio que filosofa
falar e de escrever pode ser tomada pelo poder, (…). Pois o que filosofa deve continuamente tra-
mas não a liberdade de pensar, ele argumenta que, zer consigo seus pensamentos, para descobrir
se não podemos comunicar nossos pensamentos, por meio de várias tentativas a quais princípios ele
também não conseguimos pensar com retidão.72
Na análise de Hannah Arendt, a crítica de nossos 73 ARENDT, 1993, p. 52-56.
74 KANT, 1771, p. 117.
75 Idem, 1772, p. 127.
67 KANT, 1797, p. 353. 76 BLESENKEMPER, 1987, p. 224-259.
68 Idem, 1795, p. 358-359. 77 CAVALLAR, 1992, p. 341.
69 Idem, 1781, p. 9. 78 KANT, 1986a, p. 95.
70 CASSIRER, 1946, p. 361. 79 Idem, 1790, p. 295.
71 Ibid., p. 378. 80 Idem, 1800, p. 57.
72 KANT, 1786, p. 144. 81 Idem, Wiener Logik, p. 874.

68 Impulso, Piracicaba, 15(38): 61-72, 2004


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deve vinculá-los sistematicamente”.82 A sociedade na universidade é necessário – e, mais ainda, a bri-


de mesa é, contudo, apenas uma sociedade priva- ga dos filósofos entre si.89 Kästner escreveu, em
da. Essas tentativas devem ser feitas por escrito 1795: “a guerra será evitada para sempre / se se
no espaço público, a fim de evitar o erro – o que seguir, o que o sábio diz / todos terão paz então
Kant associa à exigência de liberdade de escrita. / apenas os filósofos não”.90 Kant considera esse
Participar, ao contrário de pensar por si mesmo, poema não um prenúncio de mau agouro, mas
exige troca de pensamentos, tendo por objetivo uma felicitação:91 o conflito entre os filósofos evi-
atingir a concordância, a aprovação: “Uma pedra ta adormecerem as forças.92 A guerra na filosofia
de toque da verdade encontra-se em nós; a outra, deve se dar com irrestrita permissão pública93 e
fora de nós, isto é, na aprovação do outro (...). terminar com a paz jurídica, uma “constituição
Deve-se, portanto, poder tornar seus juízos pu- que permita o conflito” das idéias.94
blicamente conhecidos, a fim de que se possa sa- Na filosofia prático-política de Kant, a con-
ber se os outros lhe dão sua aprovação ou se o re- seqüência é o artigo secreto da Paz Perpétua: “as
provam”.83 Por isso, “o impulso de se comunicar máximas dos filósofos sobre as condições de pos-
está vinculado ao desejo de saber: porque nosso sibilidade da paz pública devem ser tomadas
juízo deve ser retificado por um ponto de vista como conselho pelos Estados armados para a
exterior. A razão que pensa por si própria e a que guerra”.95 Kant não aceita a tese platônica96 de
comunica: a egoísta e a pluralista, em sentido que os filósofos devam se tornar dirigentes, pois
lógico”.84 Esse é o único meio lógico de buscar a “a posse do poder corrompe inevitavelmente o li-
verdade que equipare seu juízo com os dos vre juízo da razão”.97 A paz não depende de um
outros.85 Kant diz ainda que “o princípio da in- rei-filósofo, do aperfeiçoamento moral do diri-
diferença (…) diante dos juízos dos outros, em gente, e sim de um povo que reine sobre si
comparação com o meu, é o princípio do egoís- próprio pelo direito. À tradicional figura do con-
mo lógico. É injusto condenar as pessoas a ter de selheiro do rei, que tratava as condições de
guardar seus juízos para si. Pois elas devem (...) se condução da guerra e era secretamente consulta-
comunicar, se não querem perder o mais forte do pelo soberano, Kant opõe a do filósofo, que
critério da verdade: comparar seus juízos com os discute as condições da paz publicamente. É pelo
dos outros”.86 A comunicabilidade não é capaz fato de a paz contradizer o usual comportamento
de impedir o erro, mas pode minimizá-lo.87 dos reis, que eles procedem secretamente – com o
Kant apresenta o conceito de briga amigá- que Kant ironiza os usuais artigos secretos dos tra-
vel entre cientistas (Wissenschaftler), buscando tados de paz de sua época.
não mais corrigir seu juízo solitariamente, e sim A liberdade de escrita impõe condições ins-
em comunidade com os que procuram o mesmo: titucionais para a publicidade,98 mas cumpre sua
“Podemos brigar de dois modos: ou porque te- função de crítica apenas depois da violação. As
mos interesses distintos, e, então, brigamos formas profiláticas de publicidade, como ato ima-
como inimigos, ou porque temos um interesse nente de toda pretensão jurídica, são apresenta-
comum, mas não concordamos quanto ao modo das no apêndice da Paz Perpétua.99 A justiça – e
de promovê-lo, e, então, brigamos como amigos”
e “nos detemos não onde o outro errou, mas 89 CAVALLAR, 1992, p. 342-343.

onde tem razão”.88 O conflito entre as faculdades 90 KANT, 1796, p. 417.


91 Ibid., p. 417.
92 Ibid., p. 417.
82 Idem, 1798b, p. 279s. 93 Idem, 1781, p. 489.
83 Idem, 1986b, p. 5. 94 Idem, 1796, p. 417.
84 Idem, Refl. 2147, v. XVI, p. 252. 95 Idem, 1795, p. 368.
85 Idem, Logik Philippi, p. 396s. 96 Cf. OESTERREICH, 1994, p. 38.
86 Idem, Logik Dohna-Wundlacken, p. 740. 97 KANT, 1795, p. 369. Cf. KAUFMANN, 1986, p. 123.
87 BLESENKEMPER, 1987, p. 263. 98 BLESENKEMPER, 1987, p. 258.
88 KANT, Logik Blomberg, p. 828. 99 Ibid., p. 342.

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também o direito – só podem ser pensados como isso sim, de um critério segundo o qual algo só
publicamente divulgáveis.100 A fórmula transcen- ocorre na práxis quando está em acordo com a
dental do direito público daí obtido é: “todas as teoria: a política justa é aquela que precisa se legi-
ações relativas ao direito de outros cuja máxima timar pelo direito para se efetivar, podendo apenas
não se conciliar com a publicidade são injus- dessa maneira atingir seus objetivos.109
tas”.101 Uma máxima que provoca resistência ao O princípio da publicidade reporta-se não ao
ser declarada publicamente, devendo, assim, ser indivíduo, mas ao público. Se, no ensaio sobre o es-
ocultada para ter êxito, só pode ser injusta.102 clarecimento, num primeiro momento, Kant res-
Kant apresenta não apenas um critério teórico – ponsabiliza o próprio indivíduo por permanecer,
a contradição (Widerspruch) –, mas um critério por comodidade, em estado de menoridade,110
prático – a oposição (Widerstand) –, que, apesar num segundo momento, contudo, a responsabili-
de pressupor a contradição lógica de conceitos, dade por esse estado é transferida do indivíduo que
representa uma atividade.103 A oposição é um cri- nele se encontra para o seu tutor. A maior parte das
tério para que se reconheça o que não é justo,104 pessoas considera perigoso tal passo para a maio-
conferindo à primeira fórmula do princípio da ridade, porque seus tutores, depois de tê-las impe-
publicidade caráter apenas negativo. dido de dá-lo, mostram-lhes o perigo de caminhar
Se as máximas incompatíveis com a publici- sozinhas.111 Mas, se é difícil para um indivíduo sair
dade são injustas, isso não significa, contudo, que sozinho desse estado, tal dificuldade pode ser en-
máximas compatíveis com a publicidade sejam frentada por um público. Kant caracteriza essa sa-
justas, pois, freqüentemente, não há oposição às ída da menoridade como um aprendizado que só
máximas de um déspota que não esteja de acordo ocorre mediante erros. Mesmo sendo perigoso an-
com os princípios racionais do direito.105 Nesse dar sozinho para os que foram impedidos de fazê-
sentido, Kant formula um princípio transcenden- lo pelo seu tutor,112 depois de algumas quedas é
tal e afirmativo do direito público: “Todas as máxi- bem possível aprender a caminhar.113 Nesse mes-
mas que necessitam da publicidade (para não falhar mo sentido, Kant dirá ainda que não pode se sentir
em seu objetivo) concordam com o direito e a po- bem com a idéia de que os seres humanos não es-
lítica unidos. Isso porque, quando estas máximas tejam prontos para a liberdade, pois só livres po-
só conseguem atingir seu objetivo pela publicida- deremos, por nossos próprios esforços, ser livres,
de, então, devem estar de acordo com o objetivo mesmo que as primeiras tentativas revelem-se mais
geral do público (a felicidade) e concordar com ele penosas e perigosas do que se estivéssemos sob as
(deixar o povo feliz com seu Estado) é a verdadei- ordens e os cuidados de um tutor.114
ra tarefa da política”.106 Em outras palavras, apenas De tal reivindicação de publicidade depende,
quando conhecida de fato pelo público é que tal em última instância, a idéia de uma paz jurídica: é
máxima pode atingir seu objetivo.107 A exigência fundamentalmente pela ação do público racional
moral do público de que o direito se realize impli- que reivindica seus direitos que o direito natural de
ca um critério de legitimidade.108 Não se trata, por Kant e seu fim último – a paz – podem realizar-se.
conseguinte, de comparar o mundo ao que ele é e A concepção do movimento pacifista, de que
ao que deveria ser, de comparar a práxis com a teo- instituições jurídicas internacionais possam pacifi-
ria e verificar o que está ou não de acordo. Trata-se, car as relações entre os Estados, sustenta-se no ide-
al de fazer delas fóruns da opinião pública interna-
100 KANT, 1795, p. 381.
101 Ibid., p. 381.
cional, em oposição à concepção realista de que as
102 Ibid., p. 381.
103 GERHARDT, 1995, p. 200-201. 109 GERHARDT, 1997, p. 47-49.
104 KANT, 1795, p. 381-382. 110 KANT, 1784, p. 35.
105 Ibid., p. 386. 111 Ibid., p. 35.
106 Ibid., p. 386. 112 Ibid., p. 35.
107 BLESENKEMPER, 1987, p. 351. 113 Ibid., p. 35-36.
108 KANT, 1795, p. 375-376. 114 Idem, 1793, p. 188

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“massas” são irracionais, e de que as questões de multiculturais e supranacionais, contrariamente à


Estado devem resolver-se pela diplomacia secreta. concepção nacionalista de Carl Schmitt, de que a
Atualmente, o princípio da publicidade kantiano, formação de uma opinião pública apóia-se na ho-
ao pressupor o conjunto da sociedade, permite a mogeneidade cultural de um certo povo.115
autores como Habermas pensar a possibilidade de
formação de um espaço público em sociedades 115 HABERMAS, 1996, p. 139

Referências Bibliográficas
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Correspondência
An Marcus Herz, 7 de junho 1771, v. X (I).
An Marcus Herz, 21 de fevereiro de 1772, v. X (I).
Reflexões, v. XVI e v. XIX.
Aulas
Logik Blomberg, v. XXIV (2).
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Impulso, Piracicaba, 15(38): 61-72, 2004 71


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Dados da autora
Bacharel e doutora em direito pela USP, bacharel e mestre
em filosofia, sociologia e ciência política pela
Johann Wolfgang Goethe Universitat, Frankfurt.
Tem pós-doutorado como pesquisadora da
Fundação Alexander von Humboldt. No momento,
é pesquisadora da Universidade Paris X, na França.

Recebimento artigo: 22/jun./04


Consultoria: 3/set./04 a 22/set./04
Aprovado: 24/set./04

72 Impulso, Piracicaba, 15(38): 61-72, 2004


003114_imp38.book Page 73 Tuesday, June 14, 2005 7:43 PM

Entidades Corporativas e
Imperativos Categóricos
CORPORATE BODIES AND
CATEGORICAL IMPERATIVES 1 1
Resumo As duas formulações do imperativo categórico de Kant, relativas à univer-
salizabilidade da ação e à direção da ação para os fins em si mesmos, não são logica-
mente equivalentes, mas guardam relação entre si. John Rawls e Jürgen Habermas
exploram a divisão de Kant em seus esforços para promover políticas liberais e polí-
ticas justificáveis na justiça processual. Mas, ao mesmo tempo, levam a um rompi-
mento com a abordagem de Kant – a aceitação de uma divisão entre o ético e o legal.
O presente artigo argumenta ser possível reconstruir a posição de Kant sem cair em
um positivismo legal e, simultaneamente, manter restrições racionais à ação de enti- ERIC PALMER
dades corporativas Philosophy Department
Allegheny College,
Meadville/EUA
Palavras-chave IMMANUEL KANT – JOHN RAWLS – JÜRGEN HABERMAS – IMPERA-
epalmer@allegheny.edu
TIVO CATEGÓRICO – CORPORAÇÕES – DIREITOS HUMANOS.

Abstract The two formulations of Kant’s categorical imperative, relating to the


universalizability of action and the direction of action towards ends in themselves, are
not logically equivalent, but are both related. John Rawls and Jürgen Habermas
explore Kant’s division in their efforts to promote liberal politics and justifiable
politics in procedural justice. But, at the same time, lead to a disruption of Kant’s
approach – the acceptance of a division between the ethical and the legal. The present
paper argues that it is possible to reconstruct Kant’s position without yielding to a
legal positivism and, simultaneously, maintaining rational restrictions to the actions of
corporative entities.

Keywords IMMANUEL KANT – JOHN RAWLS – JÜRGEN HABERMAS – CATEGORICAL


IMPERATIVE – CORPORATIONS – HUMAN RIGHTS.

1 Tradução do inglês para o português: NUNO COIMBRA MESQUITA (USP).

Impulso, Piracicaba, 15(38): 73-82, 2004 73


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INTRODUÇÃO

A
primeira formulação do imperativo categórico, de Kant,
que diz respeito à universalizabilidade da ação, e sua
segunda, relativa à direção da ação para os fins em si
mesmos, não são logicamente equivalentes. Entretanto,
Kant associa uma à outra, ao tratar os criadores de leis
como fins em si mesmos. John Rawls e Jürgen Habermas
exploram a divisão de Kant em seus esforços para pro-
mover políticas liberais e justificáveis na justiça processual. Esses autores
escolhem preservar uma clara distinção entre a lei legítima e valores meta-
físicos mais ricos que podem ameaçar a democracia pluralista e liberal.
Suas escolhas de não unir lei e ética levam, até agora, a conseqüências ne-
gligenciadas quanto à prioridade das preocupações com pessoas naturais
em relação às artificiais, como nações e corporações, e, mais importante,
a primazia que geralmente se presume é minada.
Esse rompimento com a abordagem de Kant – a aceitação de uma
divisão entre o ético e o legal – é examinado neste artigo. Argumento
que, se for aceita a divisão, pessoas artificiais serão consideradas apropria-
damente como partes racionais ligadas à lei, de acordo com a primeira
formulação de Kant (de maneira geral em lei), mas não o serão à segunda
(em ética). Demonstro, ao longo dessas linhas, que tal divisão pode ser
desenvolvida até uma posição kantiana. Não se trata da posição de Kant
em si, pois leva a um positivismo legal que entra em conflito com a
argumentação kantiana de que “Nenhum direito de uma coisa contra
uma pessoa é concebível”. No entanto, estabelece restrições racionais
úteis sobre entidades corporativas na lei positiva.
1. AS FORMULAÇÕES DE KANT SOBRE O IMPERATIVO CATEGÓRICO
Para Kant, a ética prática compõe-se de dois aspectos: a universali-
zabilidade da ação e a ação com vista ao reino dos fins.2 A primeira for-
mulação do imperativo categórico, em Fundamentação da Metafísica dos
Costumes, está enraizada na compreensão da razão de suas próprias
ramificações, quando aplicadas universalmente. Isso é evidente em sua re-
dação: “Aja somente de acordo com a máxima pela qual você possa, ao
mesmo tempo, querer que ela se torne uma lei universal” (FMC 421).
Essa abordagem de gerar máximas, chamada por Kant de o caminho
mais curto... e infalível (FMC 403), trabalha com análises racionais de prin-
cípios de ação consistentes e a rejeição de qualquer lei que necessariamente
se autodestruiria. Tal concepção de Kant considera a habilidade especial da
razão de agir na natureza. Ele escreve: “Tudo na natureza trabalha de
acordo com a lei. Somente um ser racional tem a capacidade de agir de
acordo com a representação de leis” (FMC 412). A razão, por conseguinte,
é uma faculdade prática com a habilidade singular de refletir sobre leis
que governam sua própria atividade (FMC 396).

2 KANT, 1996. Groundwork of the Metaphysics of Morals, parte I (FMC 402) e parte II (FMC 434). A pagina-
ção para esse trabalho (FMC) e para o Metaphysics of Morals refere-se, respectivamente, aos volumes IV e VI
da edição padrão da Prussian Academy of Science (1907). As traduções são das edições de Mary Gregor.

74 Impulso, Piracicaba, 15(38): 73-82, 2004


003114_imp38.book Page 75 Tuesday, June 14, 2005 7:43 PM

A primeira formulação de Kant leva à se- formais ao separar-se de todos os fins subjetivos,
gunda (FMC 433), surgida de uma análise do con- ao passo que são materiais se colocarem esses e,
ceito da vontade, em lugar da ação prática, e, por- conseqüentemente, certos incentivos, em sua base”
tanto, incluindo um caráter teleológico. Kant (FMC 427-8). Porém, sugere que razão prática é o
postula que seres racionais existem como fins em mesmo que vontade (FMC 412). A primeira (for-
si mesmos, e, conjuntamente com a compreen- mal) e a segunda (de conteúdo) significam, no
são da operação teleológica da vontade e do que fundo, somente várias fórmulas para a mesma lei.
se ganhou da primeira formulação, chega-se à se- Se o argumento é feito para sugerir equivalência
guinte consideração: “Se existe um princípio prá- lógica, ele claramente falha. No entanto, também
tico supremo – e, em relação à vontade humana, fica claro que Kant aponta a ligação entre a razão
um imperativo categórico –, ele deve ser de tal prática (isto é, a razão utilizada a serviço da vonta-
forma que, da representação do que é necessa- de e de acordo com a lei) e a natureza da vontade.
riamente um fim para todos, pois é um fim em si A adesão do indivíduo à lei “o qualifica para ser
mesmo, constitui um princípio objetivo da vonta- um membro de um possível reino dos fins”, de
de e, portanto, pode servir como uma lei prática acordo com Kant, “um privilégio para o qual já
universal” (FMC 428). estava destinado, pela sua própria natureza, de ser
Um pouco mais trabalhada, essa análise um fim em si mesmo, e, dessa forma, legislar no
produtiva da vontade leva Kant à descoberta da reino dos fins” (FMC 436). No item 5 deste arti-
segunda formulação: go, introduzirei entidades corporativas artificiais
como possíveis raciocinadores práticos kantia-
A moralidade consiste, então, na referência de toda nos. Tais entidades não são, por sua própria natu-
a ação para o estabelecimento de leis, no qual, so- reza, fins em si mesmos, e seu tratamento e com-
zinho, um reino dos fins é possível. Esse estabele- portamento entram, conseqüentemente, no im-
cimento de leis deve, entretanto, ser encontrado em perativo formal, mas não no material.
todo ser racional e ter a capacidade de surgir de sua
vontade (...). 2. RAWLS E HABERMAS SEPARAM OS IMPERATIVOS
A separação entre o que irei me referir
[A] vontade de um ser racional deve também ser como imperativos processuais e teleológicos é
sempre considerada como estabelecedora de leis, já importante. Os dois maiores teóricos políticos
que, de outra forma, não poderia ser pensada como contemporâneos, John Rawls e Jürgen Habermas,
um fim em si mesmo. A razão, conseqüentemente, ambos reconhecendo uma grande dívida para
refere-se a toda máxima da vontade como insti- com Kant, separam a lei da ética, explorando tal
tuindo uma lei universal para todas as outras von-
divisão kantiana.3 Rawls, no livro Liberalismo
tades e também para toda a ação em relação a si
Político, tenta criar uma divisão entre a concepção
mesma, e o faz não por qualquer motivo prático ou
vantagem futura, mas pela idéia da dignidade de um de justiça democrática ou política e a metafísica.
ser racional. (FMC 434) A primeira surge das condições austeras da posi-
ção original; a segunda, de situações mais ricas da
Como a segunda formulação de Kant é te- comunidade. Comunidade é “uma sociedade go-
leológica – de caráter proposital, em vez de pro- vernada por uma doutrina religiosa, filosófica ou
cessual –, fica claro que as duas não são logica- moral compartilhada de maneira abrangente”,
mente equivalentes. Ela é o tipo de coisa a ser de- mas “pensar numa democracia como uma comu-
vidamente orientada por objetivos em seu logos, nidade (assim definida) omite o âmbito limitado
ao passo que a primeira é meramente em forma de sua razão pública fundada numa concepção
de lei, dada a sua estrutura formal, e apresenta um política de justiça”.4 A segunda e a terceira for-
mero procedimento de gerar máximas.
3 RAWLS, 1995; HABERMAS, 1996 e 1998b. Todas as citações de
Kant marca a diferença entre os dois con- Habermas no texto são da última fonte.
ceitos, afirmando que “Princípios práticos são 4 RAWLS, 1995, p. 37- 40.

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mulação de Kant sobre o imperativo categórico similar, artificial e processual, e pertence a um por-
inclina-se claramente para o que Rawls denomina tador de direitos. A diferença entre lei e ética subs-
de uma visão metafísica da pessoa e uma doutrina tantiva, semelhante à de Rawls, fica evidente na
abrangente.5 Rawls argumenta que uma sociedade seguinte passagem:
liberal e democrática, que permite a possibilidade
de divergência em relação à doutrina abrangente, Enquanto os direitos morais derivam de deveres
demanda uma caracterização limitada e política de recíprocos, os deveres legais surgem das limitações
legais de liberdades individuais. Esse privilégio con-
categorias jurídicas, ao contrário de uma socieda-
ceitual de direitos sobre deveres está implícito nos
de metafísica e moral. Nesse sentido, seu foco so- conceitos modernos da pessoa legal e da comuni-
bre a universalizabilidade da legislação mediante dade legal. O universo moral, ilimitado no espaço
os procedimentos da posição original representa social e no tempo histórico, inclui todas as pessoas
uma tentativa de reconstruir a primeira das for- naturais (...). Ao contrário, a comunidade legal, que
mulações de Kant sobre o imperativo categórico, possui localização espaço-temporal, protege a inte-
separada da segunda e da terceira. Rawls, então, gridade de seus membros somente na medida em
promove a razão prática em política6 como distin- que adquirem o status artificial de portadores de di-
ta do argumento pertencente ao reino dos fins.7 reitos individuais.12
Semelhante distinção entre o ético e o legal
A discussão de lei, para esses dois autores,
pode ser encontrada em Habermas. No espírito
deveria ocorrer, então, no domínio do direito legal
da primeira formulação de Kant, e mais ou me-
como categoria não derivativa do direito ético ou
nos paralelamente à posição original de Rawls,
do merecimento. Rawls promove tal divisão, de
Habermas avalia as condições participativas da
modo a permitir que o consenso se forme numa
formação democrática da vontade: “o princípio
sociedade eticamente pluralista, e Habermas, de
da soberania popular estabelece um procedimen-
maneira parecida, separa as conexões a fim de as-
to que, por suas características democráticas, jus-
segurar as condições comunicativas apropriadas à
tifica a presunção de resultados legítimos. Esse
formação democrática da vontade.13 Para esses
princípio é expresso nos direitos de comunicação
dois teóricos legais, direitos além daqueles neces-
e de participação que asseguram a autonomia pú-
sários para promover a comunicação têm como
blica de cidadãos politicamente livres”.8
conseqüência um status artificial: não são presun-
Os direitos de comunicação e de participa-
ções que antecedem a construção da lei, mas os
ção apresentam demandas legítimas rígidas para a
resultados do processo surgido da posição origi-
lei: “uma lei pode alegar legitimidade somente se
nal ou das condições comunicativas da democra-
todos aqueles possivelmente atingidos por ela
cia. São os produtos de instituições, feitas por se-
puderem dar o seu consentimento após participar
res humanos, da lei positiva.
de um discurso racional”.9 Logo, as restrições de
Habermas representam uma aproximação da ra- Como ficará evidente, a seguir, a positivida-
zão prática kantiana (como também da rawlsiana de da lei que aceita a divisão dos imperativos for-
e hobbesiana).10 Como Rawls, Habermas distin- mais e materiais gera um importante problema
gue entre a concepção metafísica e a noção legal em relação à prioridade de direitos na lei para os
de pessoa.11 Esse último conceito é, de maneira seres humanos, ou, de maneira mais geral, para as
pessoas naturais, sobre aqueles de pessoas artifi-
5 Ibid., p. 39. ciais, como nações e corporações. Não obstante,
6 Ibid., p. 92.
7 Ibid., p. 39.
Habermas pretende claramente que os direitos
8 HABERMAS, 1998b, p. 159. humanos, que garantem a todos uma proteção le-
9 Ibid., p. 157-160.
10 Nessa breve apresentação, me restringirei à discussão sobre a avaliação
gal abrangente e uma oportunidade igual de per-
de Habermas acerca da razão prática, não dando um tratamento exten-
sivo à razão comunicativa. Quanto às diferenças, cf. idem, 1996, p. 1-4. 12 Ibid., 1998b, p. 158.
11 Cf. RAWLS, 1995, seção 5; HABERMAS, 1998b, p. 158. 13 Ibid., p. 160.

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seguir seus planos de vida particulares, tenham política substancial, ou seja, metade das 100 maio-
um valor intrínseco. Eles não são reduzíveis ao res entidades econômicas do mundo.16
seu valor instrumental para a formação democrá- Poderia uma empresa, se tomada como
tica da vontade.14 Embora Habermas derive sua uma pessoa artificial com interesses, ser realmen-
teoria legal de presunções substantivas sobre a te um agente kantiano capaz de consentimento
política,15 ele vai além da suposição de Kant, an- em relação à base do governo? Se a corporação
teriormente mencionada, sobre o valor intrínseco tem interesses e atividades perante a lei, então,
da dignidade de um ser racional. Apesar de sua não vejo nenhuma razão para excluí-la. Isso por-
análise na teoria da comunicação voltar ao aspec- que ela parece estar em posição de fornecer ou re-
to kantiano, fornecendo, em grande parte, argu- tirar consentimento racional, ou seja, de aceitar a
mentos transcendentais para fundamentar rela- legitimidade do governo, se ela for justa – se for
ções apropriadas de discurso, a presunção política uma escolha racional –, ou desaprovar ou descon-
me parece permanecer. Então, como é possível a siderar a lei, quando não for racional o consenti-
sugestão original – de que direitos humanos po- mento.
dem ter prioridade sobre alegações de seres arti- Mas, é claro, Kant manteria uma prioridade
ficiais – ser defendida num contexto kantiano, da lei para preocupações humanas ou, mais pre-
dada a divisão articulada por Habermas? cisamente, para as preocupações dos fins em si
3. DIREITOS HUMANOS E OS DIREITOS DE mesmos, sobre a atividade corporativa permitida.
NAÇÕES E DE CORPORAÇÕES Ele deixa isso nítido, ao mencionar de passagem
Comparemos Kant. Na Doutrina do Direito o que entende realmente como um princípio fun-
da Metafísica dos Costumes, ele escreve: damental:
Não existem limites para os direitos de um Estado Até agora juristas têm admitido dois lugares-co-
contra um inimigo injusto (...). Isso significa que muns: aquele de um direito [de uma pessoa] a uma
um Estado prejudicado não pode usar quaisquer coisa e aquele do direito contra as pessoas. Pela sim-
meios, mas somente aqueles permitidos a qualquer ples conjunção desses dois conceitos em um, mais
grau capaz de manter o que pertence a ele. Porém, dois lugares são abertos para conceitos, como
o que é um inimigo injusto, no que se refere aos membros de uma divisão a priori: aquele de um di-
conceitos dos direitos das nações (...)? É um inimi- reito a uma coisa semelhante a um direito contra
go cuja vontade expressa publicamente (por palavra uma pessoa, e aquele do direito a uma pessoa seme-
ou ação) revela uma máxima pela qual, se fosse lhante a um direito a uma coisa (...). O conceito de
transformada numa regra universal, qualquer con- um direito a uma coisa semelhante a um direito
dição de paz entre nações seria impossível. (M 349) contra uma pessoa exclui-se sem demora, já que ne-
nhum direito de uma coisa contra uma pessoa é
O endosso de Kant à linguagem do direito concebível (M 358).
e da vontade em relação às nações leva-me a su-
gerir que uma avaliação geral dos direitos de en- A defesa não expressa (ou, talvez, passim)
tidades corporativas, e do referido por Hobbes do princípio expresso na frase final apóia-se,
como pessoas artificiais, deveria ser considerada obviamente, no fato de pessoas naturais serem os
por qualquer teoria legal kantiana. Em particular, únicos fins em si mesmos.
é importante desenvolver as idéias de Kant para Como vimos, entretanto, Rawls e Haber-
levar em conta tanto as empresas corporativas mas preocupam-se em desenvolver a lei num
mantidas privadamente quanto as nações, já que contexto processual para uma concepção política
as primeiras representam atualmente uma força de justiça e uma noção legal das pessoas, respec-
tivamente. É importante determinar se a distin-
14 Ibid., p. 160.
15 “Continuo na presunção que os participantes não desejam resolver 16Cf. comparação dos rendimentos brutos de corporações em 2002
seus conflitos por meio da violência, ou mesmo por compromisso, (“Global 500”. Fortune Magazine, 2003) com dados do Banco Mun-
mas mediante a comunicação” (ibid., 1998b, p. 39). dial, do mesmo ano, para produtos internos brutos democráticos.

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ção de Kant, entre direitos das pessoas e direitos Desde então, filósofos têm extraído o âmago ra-
das coisas, pode ser mantida no discurso dos di- cional da ficção de Hobbes: o contrato é uma
reitos de cada sistema político desses autores. A hipótese falsa, pois teorias de consentimento
seguir, abordarei em detalhe o que considero ser racional objetivam preocupar-se com nossas pró-
o melhor fundamento, nos trabalhos de Hobbes prias posições, e não com aquelas de agentes his-
e Kant, para negar direitos a entidades corporati- tóricos. Kant argumenta que de fato não existe
vas equivalentes aos direitos das pessoas. Argu- razão para ligar o ideal do governo ao seu modo
mentarei que qualquer fundamento que perma- de geração histórico, se o ideal racional de justiça
neça na lei para distinguir pessoas naturais de pes- por si só é o que deve ser entendido ou afirmado
soas artificiais como corporações é severamente (M 312). Conseqüentemente, a base racional da
rebatido no enquadramento processual de Rawls lei – que Habermas refere como liberdade dentro
e Habermas, na separação entre a primeira e a se- da lei – permanece exclusivamente na possibilida-
gunda formulação de Kant. de para o consentimento racional, e não em um
4. REJEITANDO UMA DISTINÇÃO CONTRATUALISTA acordo contratual.
ENTRE PESSOAS NATURAIS E ARTIFICIAIS
Se, no entanto, o contrato social cai por ter-
Uma diferença entre pessoas naturais e ar-
ra, e optamos pelo mero ideal de consentimento,
tificiais a ser percebida é que a habilidade de uma
a diferença de Hobbes entre atores como nós mes-
pessoa jurídica ao agir depende ontologicamente
mos e atores como corporações desaparece. Se a
do governo, já que sua existência é assim depen-
justificação da lei estivesse na possibilidade de
dente. Esse ponto precede Kant, como fica evi-
consentimento para todos os atores, então, onde
dente na ficção histórica de Hobbes sobre o con-
a lei já tivesse estipulado entidades corporativas,
trato social.17 Na estória de Hobbes, pode-se di-
elas pareceriam posicionar-se da mesma maneira
zer que pessoas naturais agem de maneiras legal-
que os seres humanos: para agir e dar ou retirar
mente relevantes, de modos que as organizações
consentimento. Assim, qualquer distinção hob-
não podem agir, já que criam instituições, entre
besiana significativa entre pessoas naturais e arti-
elas, as da lei; e, por meio dos atos de pessoas na-
ficiais, no enquadramento processual de justiça, é
turais usando instituições, ainda outras – como
efetivamente rebatida ao serem cortados os laços
corporações – podem ser criadas. Portanto, as
entre a lei positiva e o reino dos fins.
pessoas naturais são notadamente diferentes de
entidades corporativas em relação à base do go- 5. UMA DISTINÇÃO KANTIANA REFLETIDA NO
ENQUADRAMENTO PROCESSUAL
verno no consentimento racional, uma vez que
Sendo a reivindicação para participar no
uma construção feita por lei não poderia ser um
contrato social reduzida à candidatura para o
dos membros do contrato original.
consentimento racional, a diferença entre nós e
Abre-se ao debate se Hobbes acreditava na
pessoas artificiais, no que diz respeito à justifica-
proposta de um contrato original18 e, não obstan-
ção racional da lei, desaparece; por tal razão, en-
te, a estória em si não vem ao caso. Tais contratos
tidades corporativas deveriam ser consideradas
e teorias políticas não são mais formuladas se-
candidatas para votar pelo consentimento racio-
gundo o modelo de Hobbes, de um acordo entre
nal. Kant propõe, entretanto, um método alter-
cada com todos – um pacto de cada homem com
nativo para dividir pessoas artificiais das naturais.
cada homem –, apesar da sugestão de Rousseau de
Como sugerimos no item 3, a formulação kanti-
que a base racional da solidariedade poderia ser
ana sobre a fundamentação racional para a ética e,
melhorada se eles fossem feitos dessa maneira.
nesse sentido, para a lei, invoca várias proprieda-
17 HOBBES, 1651, c. XVII, seção 13. des as quais as corporações não têm. Exemplo
18 Hobbes insistiu que o estado de natureza é uma possibilidade histó- disso é a base para normas legais no consenti-
rica genuína, que existiu em alguns lugares e períodos, e que a comuni-
dade pode surgir somente por meio de um pacto (Ibid., c. XIII.8). Cf.
mento para a ação, que coincide com o imperati-
também Ibid., c. XIII.12 e c. XV.3. vo categórico do tipo “nunca deverei agir de ou-

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tra forma, senão aquela em que também queira Já que a razão não é suficientemente competente
que minha máxima se torne uma lei universal” para guiar a vontade, certamente com relação a seus
(FMC 402). Mas entidades corporativas não têm objetos e à satisfação de todas as nossas necessida-
nem vontade19 nem intenção, não podendo, por- des (...) um fim para o qual um instinto natural-
mente implantado teria levado muito mais certa-
tanto, querer nada a respeito de uma máxima.
mente; (...) então, onde a natureza tem por todos
Preocupações semelhantes surgem quanto a pes-
os lados trabalhado propositadamente para distri-
soas artificiais, na menção de Kant sobre a neces- buir suas capacidades, a verdadeira vocação da razão
sidade de consciência para formular o imperativo, deve ser produzir uma vontade boa, talvez não
e em suas referências ao reino dos fins, para jus- como um meio a outros propósitos, mas o bem em
tificar o imperativo. Podem as corporações, en- si mesmo, para o qual a razão foi absolutamente ne-
tão, participar por completo na determinação da cessária (FMC 396).
base racional do governo?
Podemos, assim, encontrar a razão de duas
Para Kant é clara uma resposta negativa,
formas: a serviço de bens extrínsecos ou intrín-
mas penso que, mesmo assim, há um argumento
secos. A prudência inclina a vontade em direção
forte no enquadramento processual de que cor-
a fins apropriados, mas a razão usada de acordo
porações podem ser compreendidas pelo impera-
com seu próprio propósito não promove o resul-
tivo categórico. O motivo disso, argumentarei, é
tado apropriado; ela fomenta a vontade em si, o
que as corporações são capazes de razão prática,
único bem não qualificado (FMC 393-394). A
por meio de sua executiva, como também do que
prudência pode permitir alguma flexibilidade na
Kant chama de respeito pela lei e, assim, pelo de-
aplicação, já que, quando mantenho resultados à
ver. A defesa dessa posição, portanto, é mera-
vista, “se sou infiel à minha máxima de prudência,
mente uma versão abreviada e apropriadamente
isso pode, às vezes, ser muito vantajoso para
alterada da avaliação de Kant sobre as críticas éti-
mim, apesar de certamente ser muito mais seguro
cas e legais das pessoas naturais, mas focalizada
segui-la” (FMC 403). A cultivação da boa vonta-
na face racional, na esfera da discussão de Kant.
de, contudo, é um processo independente de re-
O foco é sobre as conseqüências percebidas pela
sultados externos e, segundo Kant, esse dever
razão prática, evitando a metafísica e obtendo
pode ser avançado mesmo pelos incapacitados,
êxito com a eliminação satisfatória da conversa
misantrópicos e aqueles de uma natureza sem sen-
sobre a vontade, a consciência e o reino dos fins.
timentos (FMC 394, 398).
Continuarei com essa eliminação, pois ela apa-
Nesse sentido, a consideração pelo dever
renta ser consistente com a atenuação do sistema
representa o elemento chave que distingue a boa
kantiano cogitado por Rawls e Habermas.
vontade da prudente, e o propósito da razão é au-
De acordo com Kant, “a razão nos é conce- xiliar o bem. A distinção persiste na fundamen-
dida como uma faculdade prática, isto é, aquela que tação da ação: na motivação entre a volição
terá influência na vontade”. Ele sugere que a razão, subjetiva, com vista aos fins, e a volição objetiva,
que não serve à outra função tão bem, deva ser pro- que, sem fins extrínsecos em particular, exerce a
jetada para servir à vontade de levar em conta limi- vontade de acordo com um valor intrínseco, o
tações e obstáculos subjetivos e perceber se tal desejo princípio da volição expresso em lei universal
está agindo em conformidade com o seu próprio (FMC 399-400). A vontade objetiva manifesta o
projeto, de um sentido de dever, ao contrário de que Kant chama de respeito pelo dever. Uma ca-
uma inclinação pessoal (FMC 395, 397). Logo, a ra- racterização cuidadosa desse respeito mostra-se
zão tem seu propósito claramente delineado: crucial ao projeto kantiano:
19Quando Kant escreve sobre a vontade publicamente expressa (por Apesar de o respeito ser um sentimento, ele não é
palavra ou ação) de uma nação, sua posição parece consistente com a
redução dessa vontade ao resultado de relações políticas entre vonta- recebido pelo meio da influência; ao contrário, é um
des individuais das pessoas naturais dentro da nação (M 349). sentimento autoformado por meio de um conceito

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racional (...). A determinação imediata da vontade bém ser tomado como o cerne da política pro-
por meio da lei e a consciência disso chama-se res- cessual e da lei positiva de Rawls e de Habermas.
peito, considerado como o efeito da lei no sujeito, e De que maneira, nesse caso, a razão prática
não como a causa da lei. O respeito é propriamente pode direcionar-se, se, todavia, não está a serviço
a representação de um valor que transgride sobre o
de uma boa vontade? As corporações não pos-
meu amor próprio (FMC 401 nota).
suem nem vontade nem consciência, porém, ve-
Respeito puro, sem a mácula da inclinação, jamos mais uma vez onde Kant, enfim, coloca a
é informado (autoformado) por um conceito ge- essência do dever: “O dever é a necessidade da
rado pela razão prática. Para a vontade, tendo a ação pelo respeito à lei”, ao contrário da inclina-
razão como guia, “não permanece nada a não ser ção; e a lei é formada pela razão (FMC 400). Isso
uma conformidade universal de suas ações para parece consistente com a estória kantiana de que
com a lei em geral, que, sozinha, deve servir a corporações podem ser chamadas ao dever, isto é,
vontade como um princípio”. Desse modo, argu- podem ter dever e emergir acima da mera pru-
menta Kant, uma máxima geral surge da razão dência, pois são capazes da razão que universaliza.
É possível encarar essa universalização como
prática: “nunca deverei agir de outra forma senão
seguindo de acordo com o respeito autoformado.
aquela em que também queira que minha máxima
se torne uma lei universal”. A lei universal funda- O que poderia ser o respeito autoformado,
menta o imperativo categórico, base ideal da con- de modo que ele surja numa entidade artificial?
cepção kantiana de lei. A universalização fornecida pela razão prática é a
formulação de leis ou de instituições de compor-
Como as entidades corporativas encaixam-
tamento para as quais todos podem igualmente
se na avaliação de Kant? O esquema anterior in- apelar. O exemplo de Kant, de quebrar promes-
dica que seu argumento desloca-se da discussão sas, é uma ilustração clara do funcionamento da
da capacidade da razão prática ao seu devido pro- razão prática. Querer uma única promessa pru-
pósito (serviço à vontade), ao dever da vontade (a dente quebrada é possível, mas uma máxima mo-
si mesmo e a todos os fins em si mesmos), e ao ral, nesse mesmo sentido, negaria a instituição de
marco do dever (respeito racionalmente autofor- se prometer “e, então, minha máxima, assim que
mado). Apesar de a razão prática servir à vontade, se tornasse uma lei universal, teria que se auto-
o dever é formado de razão e apenas reflete uma destruir” (FMC 403). Parece fazer parte da capa-
condição da vontade. Isso nos deixa uma impor- cidade das corporações formular, agir de acordo
tante margem de manobra, quando considera- com e justificar instituições que não sejam auto-
mos as corporações. Embora a avaliação de Kant destrutivas nesse mesmo padrão (FMC 404). Por
sobre a necessidade de a vontade ser extirpada meio de sua executiva elas agem assim rotineira-
num tratamento sobre entidades corporativas, mente, e isso aparenta ser um marco kantiano
suas concepções sobre a razão prática e o respeito apropriado da capacidade de razão prática e con-
podem, não obstante, resolver-se – com a adver- sentimento racional.
tência, mais uma vez, de a avaliação filosófica Tal consentimento racional se qualifica, no
limitar-se ao aspecto legal, em contraposição ao entanto, como uma ação do dever ou como res-
metafísico. Minha sugestão, nesse sentido, é que peito autoformado? Organizações não têm mo-
os dois movimentos intermediários do argumen- tivos; portanto, tentativas de julgar a considera-
to de quatro partes possam ser extirpados com ção pelo dever, ou pela possível oposição do dever
sucesso, de modo que uma entidade de razão, em relação à inclinação, não são apropriadas nesse
com falta da vontade, seja capaz de, não obstante, caso. Mas o próprio Kant nos leva a retroceder
agir de acordo com o respeito autoformado. Tal é um estágio na discussão da fundamentação do de-
o âmago da primeira formulação do imperativo ver e considerar a razão, em vez do motivo. Po-
categórico, considerado sozinho, podendo tam- demos encontrar Kant dirigindo a nossa atenção

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para a oposição entre prudência e razão, aplicadas leológica dúbia representativa das ciências natu-
de acordo com seu próprio propósito: a razão rais da época de Kant. Ele, por sua vez, também
orientada por objetivos externos e a razão univer- falha em fornecer um argumento positivo direto
salizante consistente internamente. As corpora- para sugerir que a razão é, de fato, de alguma ma-
ções têm, então, a possibilidade de distinguir o neira bem projetada para servir à vontade (e, me-
útil do bom? Se o bom é o universal, tido de ma- nos ainda, que é o melhor de todos os projetos
neira paralela ao exemplo de Kant de se manter as possíveis, como a presunção pode sugerir).
promessas, então, parece que as corporações po- Acredito que teóricos éticos contempo-
dem dirigir suas ações nesse sentido, conforme râneos, como Rawls e Habermas, na medida em
um conceito autoformado da razão. Assim, uma que seus programas ajustam-se ao de Kant, incli-
analogia justa do respeito que Kant vê no ser do- nam-se fortemente para o lado da razão prática,
tado de vontade é encontrada na pessoa artificial. sem preocupar-se com a ligação com a vontade,
6. CONCLUSÃO: ALGO PERDIDO E ALGO GANHO desenvolvida no argumento kantiano. Penso que
NA JUSTIÇA PROCESSUAL eles deveriam atentar para o fato de terem saltado
Kant sustenta que nada é bom em si mesmo, tal aspecto da teoria de Kant, como fiz aqui, para
a não ser a boa vontade; portanto, as corporações o propósito da formulação da lei. Mas isso leva a
(incluindo as nações) não são boas em si mesmas, uma questão importante. Como vimos, uma
já que não têm vontade. Esse fato nega a respon- conseqüência da ética de Kant, que parece
sabilidade delas de manter o imperativo categó- eminentemente desejável, é que “nenhum direito
rico? Não. A avaliação de Kant sobre a justificativa de uma coisa contra uma pessoa é concebível”
do imperativo categórico, sobre as conseqüências (M 358). A ligação estabelecida por Kant entre a
da razão prática, independe de sua apreciação do primeira e a segunda formulação do imperativo
valor moral (FMC 401) da aplicação da razão prá- categórico integra esse princípio em seu sistema.
tica. Ela situa-se, ao contrário, na aplicação apro- Porém, não está presente em Rawls (seção 5)
priada da razão prática, na produção de um con- e permanece estranhamente desconectada em
ceito autoformado. Nosso objetivo, porém, não é Habermas.20 Ao nivelar o fundamento entre pessoas
determinar se entidades corporativas são boas em artificiais e naturais, como Rawls e Habermas
si mesmas, mas se elas possuem razão prática, de aparentam ter feito, e sua lei positiva, surge o
modo que tenham como engajar-se no consenti- seguinte problema: parece que o fundamento
mento racional e agir pelo respeito autoformado. tornou-se muito nivelado. Sem alguma fonte
Será essa uma preservação vigorosa da abor- identificável de diferença entre pessoas naturais e
dagem kantiana? Temos realmente o direito de artificiais, os tratamentos delas, em lei, também
separar a razão prática de seu serviço à vontade, precisam ser idênticos.
não obstante deixando-a para informar a decisão Meu propósito foi apontar em parte a fra-
dessa condição liberada? Consideremos que, tal- queza de teorias legais que separam as conexões
vez, a porção da defesa kantiana da ética, defen- de Kant entre o racional e o ético, colocando todo
dida de forma menos adequada, e menos aceitá- o seu foco sobre a justiça processual e racional.
vel, é justamente a que tentei evitar. Kant argu- O positivismo legal de Rawls e de Habermas nos
menta que o projeto da razão deve dirigir-se ao deixa com o problema significativo de estabele-
serviço da vontade, pois não serve bem a outros cer, em princípios, a prioridade dos direitos legais
propósitos, e porque “tomamos como um prin- de pessoas naturais, que são fins em si mesmas,
cípio que não será encontrado em [nós] nenhum sobre meras coisas, ou pessoas artificiais. Mas
instrumento para algum fim senão o que também existe ainda uma vantagem nessa abordagem que
é mais apropriado e melhor adaptado a esse fim” não deve ser negligenciada, pois tais sistemas le-
(FMC 395). Essa praticamente não é uma associa-
ção forte, já que nos impinge uma presunção te- 20 HABERMAS, 1998b, p. 158.

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gais também permitem que a lei seja racional- podem ter deveres, como agentes racionais que
mente vinculadora sobre entidades corporativas, podem prever os efeitos de suas ações, sem os di-
da mesma forma que é sobre pessoas. As conse- reitos que resultam em fins em si mesmos. Per-
qüências desse resultado são significativas, pois as manece qualquer direito que pessoas artificiais re-
atividades de corporações podem ser acessadas têm? Se o direito apóia-se num valor intrínseco
quanto à sua racionalidade, assim como as ativi- de fins em si mesmos, e a responsabilidade funda-
dades de pessoas naturais, e tal racionalidade se numa capacidade intrínseca de agir racional-
pode ser levada em conta ao se fazer julgamentos mente, pode até ser o caso que pessoas artificiais
a respeito da legalidade de suas ações. tenham responsabilidades sem direito: têm deve-
Pessoas artificiais podem ter o seu lugar res, mas não podem fazer demandas. Uma dis-
num sistema eticamente pensado por inteiro. A cussão mais aprofundada desse ponto deixarei
questão da prioridade permanece um enigma que, para outro artigo.21
é possível dizer, pode ter uma solução elegante.
Entidades artificiais, como nações e corporações, 21 PALMER, 2004, p. 69-84. Cf. também ibid. (no prelo).

Referências Bibliográficas
HABERMAS, J. “Remarks on legitimation through human rights”.Philosophy and Social Criticism 24, 1998a, p. 157-
171.
______. “A genealogical analysis of the cognitive content of morality”. In: CRONIN, C. & DE GREIFF, P. (eds.). The
Inclusion of the Other. Cambridge: MIT Press, 1998b.
______. Between Facts and Norms: contributions to a discourse theory of law and democracy. Trad. William Rehg.
Cambridge: MIT Press, 1996.
HOBBES, T. Leviathan, 1651.
KANT, I. Immanuel Kant: practical philosophy. Trad. Mary Gregor. Cambridge: University Press, 1996.
PALMER, E. “Real corporate responsibility”. In: HOOKER, J. & MADSEN, P. (eds.). International Corporate Responsibi-
lity: exploring the issues. USA: Carnegie Mellon University Press, 2004.
______. “The balance of sovereignty and common goods under economic globalization”.Philosophy in the Con-
temporary World. Forthcoming (no prelo).
RAWLS, J. Political Liberalism. Cambridge: Harvard University Press, 1995.

Dados do autor
Professor de filosofia nos Departamentos de Filosofia e
Estudos Religiosos/ Allegheny College, Meadville/PA, EUA.

Recebimento artigo: 21/jul./04


Consultoria: 14/set./04 a 5/nov./04
Aprovado: 19/nov./04

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Kant, Held e os Imperativos


da Política Cosmopolita
KANT, HELD AND THE IMPERATIVES
OF COSMOPOLITAN POLITICS 1 1
Resumo Recentemente, houve um ressurgimento do interesse no cosmopolitismo,
impulsionado tanto pela idéia da lei cosmopolita, abarcada por Immanuel Kant, quanto
pelo conceito de democracia cosmopolita, articulada por David Held. Este artigo exa-
mina a transição da ética cosmopolita para a política cosmopolita nos trabalhos de
Kant e de Held. Primeiramente, é delineada a trajetória do cosmopolitismo clássico
até a teoria de Kant, passando-se para a discussão de como Kant impulsiona o cos-
mopolitismo na direção da ação política. Depois, apresenta-se o modelo da democra-
cia cosmopolita de Held como um avanço do projeto kantiano no contexto da
globalização. Conclui-se com a identificação de vários imperativos-guia para a atual PATRICK HAYDEN
política cosmopolita como derivados de Kant e de Held. Victoria University of
Wellington, Wellington/
Palavras-chave COSMOPOLITISMO – KANT, I. – HELD, D. – DEMOCRACIA – Nova Zelândia
GLOBALIZAÇÃO. patrick.hayden@vuw.ac.nz

Abstract Recently there has been a resurgence of interest in cosmopolitanism,


animated by both the idea of cosmopolitan law embraced by Immanuel Kant and the
concept of cosmopolitan democracy articulated by David Held. This paper examines
the transition from cosmopolitan ethics to cosmopolitan politics in the work of Kant
and Held. It first outlines the trajectory from classical cosmopolitanism to Kant’s
theory, and then discusses how Kant propels cosmopolitanism in the direction of
political action. It then presents Held’s model of cosmopolitan democracy as a
progression of the Kantian project within the context of globalization. It concludes
by identifying several guiding imperatives of cosmopolitan politics today, as drawn
from Kant and Held.

Keywords COSMOPOLITANISM – KANT, I. – HELD, D. – DEMOCRACY –


GLOBALIZATION.

1 Tradução do inglês para o português: NUNO COIMBRA MESQUITA (USP).

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OS CONTORNOS DO COSMOPOLITISMO

O
cosmopolitismo, em sua forma moderna, é a articula-
ção sistemática de três premissas básicas. A primeira
é que seres humanos, como indivíduos, representam
as unidades fundamentais da preocupação moral e
política. Outras entidades, como grupos coletivos,
também podem ser objeto de nossa preocupação, é
claro, mas, em última instância, é a pessoa individual
que merece a nossa maior consideração como um ser moral. A segunda
premissa, cuja articulação teórica moderna é conhecida como universalis-
mo, significa que todos os seres humanos possuem um status moral igual.
Os indivíduos não são somente a unidade fundamental de preocupação.
Não se pode, da mesma maneira, fazer distinções morais relevantes entre
pessoas como seres morais. Todas as pessoas em todos os lugares têm o
mesmo direito ao status humano. Por fim, a terceira premissa diz respeito
aos indivíduos como objetos de preocupação de todos, isto é, o status hu-
mano ocupa um âmbito global. Em outras palavras, ninguém pode se
isentar de suas obrigações de respeitar o status moral igual de todos os
outros seres humanos. Esses três pensamentos dão a idéia de que temos
deveres de justiça com todas as pessoas do mundo e, portanto, que a mo-
ralidade e a prática política deveriam centrar-se fundamentalmente nos in-
teresses ou no bem-estar das pessoas como tais. A história do cosmopo-
litismo tem sido a tentativa de formular esses pensamentos, tanto em de-
talhe quanto em resposta aos modos de associação humana em mudança.
As formas concretas de como as premissas cosmopolitas deveriam
ser explicadas, assim como a questão de que condições e precondições são
necessárias à sua realização, têm sido debatidas intensamente por vários
séculos. Sem dúvida, as primeiras contribuições para essa discussão par-
tem da Grécia Antiga. Diógenes de Laertes disse o que veio a ser consi-
derada como a declaração mais representativa da sensibilidade cosmopo-
lita. Perguntado de onde vinha, Diógenes supostamente respondeu “Sou
um cidadão do mundo”. Para os cínicos, as armadilhas da sociedade con-
vencional corrompem a existência humana e minam a busca da vida vir-
tuosa conduzida de acordo com a natureza. A simplicidade e a auto-
suficiência, culminando num individualismo extremo, caracterizam o siste-
ma ético cínico. Diógenes, portanto, representa um cidadão do mundo,
ou kosmopolitês, num sentido negativo, como alguém que rejeita sua
sociedade com suas leis e costumes e se vê em casa em qualquer lugar do
mundo, pois seu bem-estar depende somente de sua liberdade e autodo-
mínio. Apesar do fato de o fundador do estoicismo, Zenão de Cítion, ter
se inspirado nos cínicos, a filosofia ética por ele iniciada encarava a vida de
virtude como consistente tanto com o autodomínio quanto com a exis-
tência social. Como os humanos devem se associar uns aos outros numa
sociedade regulada pela lei e pela justiça, os estóicos recomendam aos
indivíduos, para o seu próprio bem e o de outros que compartilham sua
existência, participar da vida política da sociedade. Entretanto, a concepção

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estóica da comunidade política ideal supera as KANT: ENTRE A ÉTICA E A POLÍTICA COSMOPOLITAS
várias limitações associadas às formas existentes Apesar do grande apelo às consciências dos
de governo, oferecendo a visão de uma comuni- indivíduos sobre nossa humanidade comum ve-
dade organizada transcendendo fronteiras nacio- rificado nas escrituras dos philosophes e de ou-
nais e incluindo todas as pessoas. O kosmopolitês, tros pensadores do iluminismo, é no trabalho de
dedicado à busca do bem humano, deve, sem dú- Immanuel Kant que encontramos a mais séria
vida, achar a esfera da comunidade organizada tentativa de aplicar um modo moderno do pensa-
convencional limitada demais, preferindo, por- mento cosmopolita às questões da política. A
tanto, pensar e agir no plano de uma comunidade abordagem kantiana acerca do cosmopolitismo
mundial, ou kosmopolis. apóia-se numa integração rigorosa de sua filosofia
A grandeza da filosofia estóica consiste na moral, legal e política. Indiscutivelmente, essa uni-
sua afirmação de que toda a humanidade constitui ficação do moral, do legal e do político no pensa-
uma única comunidade e, conseqüentemente, de mento de Kant é o que eleva a tradição cosmopolita
que todas as pessoas possuem um status moral na Era Moderna de uma sensibilidade ética básica a
igual ao nosso. Sua fraqueza surge do fato de ela um projeto genuinamente político e global.
permanecer um pouco mais do que uma visão ge- A teoria moral deontológica de Kant fun-
ral ética de mundo, que falhou em oferecer qual- da-se em sua concepção da razão prática, isto é, a
quer concepção concreta de normas, agentes e capacidade humana racional de deliberação práti-
instituições de uma comunidade política global. ca. Para Kant, a razão prática constitui a fonte au-
Não obstante, a influência manifestada pela filo- tônoma de princípios e valores morais. Em outras
sofia estóica em tentativas subseqüentes de desen- palavras, a racionalidade prática sobre a moralida-
volver sistemas de pensamento cosmopolitas re- de consiste na deliberação não-instrumental e na
velou-se muito importante. Essa influência é par- prescrição de leis morais que contribuem para a
ticularmente aparente nos trabalhos de numero- realização da liberdade humana. De fato, a relação
sos intelectuais identificados com o iluminismo e entre a liberdade e a razão prática significa o exer-
com o surgimento da modernidade. Certamente, cício pelos seres humanos de sua racionalidade
o trabalho dos philosophes do século XVIII pode autônoma. A estrutura dessa relação revela-se na
ser corretamente considerado como um tipo de forma da característica imperativa do funciona-
reflorescimento dos ideais cosmopolitas do estoi- mento da razão prática. Especificamente, Kant
cismo helenístico.2 O apelo à unidade fundamen- contrasta imperativos hipotéticos – comandos
tal da humanidade e à lei natural da razão repre- relativos a um modo de ação tido como um meio
senta, como no caso dos estóicos, um traço carac- a um outro fim – e imperativos categóricos – co-
terístico do pensamento iluminista. Mesmo com mandos relativos a um modo de ação tido como
o surgimento do Estado-nação moderno na Eu- necessário independentemente de qualquer fim
ropa, que se seguiu ao Tratado de Westfália, de em particular. Tal perspectiva leva Kant à sua fa-
1648, o desenvolvimento concomitante do direito mosa formulação do categórico imperativo como
público internacional e o predomínio da crença
expressão da bondade moral não qualificada, en-
nos direitos naturais forneceram fortes limitações
contrada somente na boa vontade, disposição hu-
cosmopolitas ao conceito de soberania. Para os
mana autônoma ou vontade de preencher os re-
cosmopolitas iluministas, o Estado não poderia
querimentos do dever pelo dever, isto é, pelo res-
ser visto como uma entidade isolada e abstrata, di-
peito racional em relação à própria lei moral.3
vorciada de sua ligação natural com a sociedade
universal de Estados e despojada de suas respon- Kant ofereceu várias formulações sobre o
sabilidades com o resto da humanidade. imperativo categórico, o mais alto de todos os
princípios morais, conhecidos como a fórmula da
2Excelente tratamento desse período de teorização moral e política
está em SCHLERETH, 1977. 3 KANT, 1997, p. 7-8.

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lei universal, a fórmula da humanidade e a fórmula Em sua perspectiva sobre a natureza da so-
da autonomia. Tomadas como um todo, as três ciedade civil, Kant segue as linhas gerais da tra-
formulações do imperativo categórico levam dição do contrato social. Embora se acredite que
Kant a desenvolver a concepção de uma comuni- os indivíduos existam num estado natural pré-
dade moral ideal chamada reino dos fins. O reino político, esse estado natural não foi, como em
dos fins é “uma união sistemática de vários seres Hobbes, uma condição de guerra per se. Foi, en-
racionais por meio de leis comuns” e um indiví- tretanto, uma condição de insegurança em rela-
duo é membro do reino dos fins “quando fornece ção aos direitos do indivíduo e, como uma forma
leis universais dentro dele, mas está também, ele de justiça, necessário para as pessoas deixarem o
mesmo, sujeito a essas leis”.4 O reino dos fins, estado natural para formar uma sociedade em que
portanto, fornece uma base conceitual ideal para existe o poder de uma lei coerciva pública. É me-
a noção de uma comunidade política composta diante o sistema da lei e sua força coerciva que os
de seres humanos iguais e livres, na qual cada pes- direitos individuais – e, é claro, a igualdade e a li-
soa é tida como um cidadão legislador que parti- berdade individual – são efetivamente reconheci-
cipa livremente da composição das suas leis e na dos e usufruídos.7 Além disso, um Estado, ou
qual o conteúdo destas é dirigido para a realiza- uma comunidade, é precisamente uma associação
ção completa da dignidade de cada um de seus de indivíduos unidos sob um sistema de lei pú-
membros. Para que isso ocorra, cada vontade ou blica e, portanto, sob a condição legítima da jus-
ação do indivíduo deve sujeitar-se à sua própria tiça. Cada Estado justo contém três autoridades
condição limitante, isto é, ao valor da humanida- que constituem sua vontade unida geral ou base
de, de modo que a liberdade de cada indivíduo para o governo – o Legislativo, o Executivo e o
possa ser consistente com a liberdade de todos os Judiciário, organizados de acordo com o princí-
outros. Esse respeito pela autonomia leva Kant a pio da separação dos poderes. Em suma, Kant
sustentar que cada ser humano possui um direito apresenta os princípios políticos centrais do ideal
inato ou natural à liberdade: “A liberdade (inde- moderno de governo constitucional limitado,
pendência de ser constrangido pelas escolhas dos apoiado no império da lei, de acordo com o qual
outros), desde que ela possa coexistir com a li- o Estado deve prover as condições necessárias à
berdade de todos os outros de acordo com uma realização de direitos individuais.
lei universal, é o único direito original pertencen- O argumento de Kant vai mais longe, já
te a cada homem pela virtude de sua humanida- que defende a forma republicana de governo
de”.5 Esse direito natural à liberdade implica o di- como a materialização mais legítima do Estado
reito natural à igualdade, já que qualquer restrição constitucional. Isso porque a constituição repu-
à liberdade do indivíduo deve ser universalmente blicana toma a liberdade de cidadãos individuais
aplicável e, por conseguinte, consistente com o como base para o exercício do poder estatal e ga-
princípio da reciprocidade ou tratamento igual. rante um império da lei autônomo, independente
Kant expressou esse último ponto quanto ao di- de interesses de qualquer pessoa ou grupo de pes-
reito ou princípio universal: “qualquer ação é cor- soas em particular. O elemento funcional chave
reta, se pode coexistir com a liberdade de todos, para a República é um sistema representativo de
de acordo com uma lei universal ou, se, em seu governo em que todos os cidadãos individuais,
axioma, a liberdade de escolha de cada um pode por intermédio de seus delegados, têm a oportu-
coexistir com a liberdade de todos, conforme nidade de exercer seus direitos à liberdade, parti-
uma lei universal”.6 cipando da criação e aplicação das leis de seu Esta-
do.8 Desse modo, o Estado age em nome do povo.
4 Ibid., p. 41.
5 Idem, 1996, p. 30. 7 Ibid., p. 89-90.
6 Ibid., p. 24. 8 Ibid., p. 112-113.

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A idéia de constituição republicana também ocupa dependentes e iguais. Além disso, a lei das nações
papel central num dos trabalhos políticos mais deve culminar na formação de uma federação
célebres de Kant, À Paz Perpétua (1795). Nele, ele fundada num tratado e em organizações interna-
argumenta que os Estados devem adotar consti- cionais apropriadas, a fim de fortalecer a coesão
tuições republicanas como pré-requisito ao esta- entre Estados justos, na esfera de uma lei vincu-
belecimento do império da lei, a fim de regular ladora e de instituições de governança. O terceiro
suas relações externas e substituir o estado natu- artigo definitivo de Kant requer a criação de uma
ral internacional – caracterizado pelo conflito – lei cosmopolita, com a intenção de garantir o
por um sistema de lei internacional que leve a direito de hospitalidade, um direito universal de
uma paz justa e duradoura. Kant apresenta seu ar- humanidade para todos os indivíduos.10
gumento sob a forma de um tratado proposto A concepção kantiana de uma federação de
entre Estados, composto por seis artigos prelimi- Estados livres não deve ser confundida com a de-
nares e três definitivos. fesa de um Estado mundial ou de um governo
A essa altura, começamos a nos aproximar do mundial. Essa é uma distinção importante a ser
centro cosmopolita do pensamento político e mo- feita, já que, freqüentemente e, em geral, equivo-
ral de Kant. Com À Paz Perpétua, ele concentra-se cadamente, os cosmopolitas têm sido considera-
sobre os excessos do realismo e sua ênfase no po- dos como proponentes de um Estado mundial.
der e no conflito, numa condição duradoura de O cosmopolitismo, entretanto, não é inerente-
anarquia e insegurança. Em contraposição, pro- mente contrário ao Estado per se ou à sua versão
põe um sistema de justiça internacional fundado moderna do Estado-nação. O cosmopolitismo
em princípios fortes da lei cosmopolita e inter- está geralmente preocupado com o desenvolvi-
nacional, desenhada para restringir os poderes mento de vários modos de governança – do local
dos Estados – mas não a sua liberdade –, de ma- ao global –, com o objetivo de facilitar os direitos
neira análoga à ordem normativa da constituição e interesses de indivíduos qua seres humanos.
republicana. Os princípios kantianos do direito Certamente, os Estados podem constituir um
internacional ou da justiça compreendem três modo de governança bem apropriado a esse fim,
componentes sobrepostos da lei pública: lei mu- e a noção de Kant sobre a República vai, de fato,
nicipal ou civil (ius civitatis), lei internacional ou muito além de admitir um papel meramente
das nações (ius gentium) e lei cosmopolita (ius instrumental para o governo constitucional, ao
cosmopoliticum).9 Cada um dos três artigos defi- indicá-lo como moralmente necessário à realiza-
nitivos da proposta de Kant para a paz perpétua ção de direitos individuais e à formalização de sis-
lida, por sua vez, com esses três componentes temas de justiça. A federação de Estados livres,
constituintes da estrutura jurídica da lei pública como conseqüência, consistiria numa sociedade
como um todo. O primeiro, como observado an- internacional em expansão progressiva ou numa
teriormente, estipula que cada Estado deve ado- liga de Estados independentes constituindo vo-
tar uma forma republicana da constituição civil. luntariamente refreamentos vinculadores de sua
O segundo diz que uma federação de Estados soberania – em especial leis proibitivas de guerras –
livres deve formar-se de modo a assegurar os para o bem de todas as nações e de seus povos.
direitos de cada nação. Assim, a lei municipal ou Essa concepção de uma federação de Estados
civil diz respeito à política interna dos Estados, ao livres ressoa claramente com muitos dos desen-
construir uma ordem doméstica consistente com volvimentos em organizações e leis internacio-
a liberdade e a igualdade de seus cidadãos, ao passo nais da última metade do século XX e com algu-
que a lei das nações é o corpo da lei internacional mas das dimensões significativas da governança
que regula as relações externas entre Estados in- global associada a processos de globalização.

9 Idem, 1991, p. 98-99. 10 Ibid., p. 99-108.

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A importância de refrear o poder do Estado HELD, GLOBALIZAÇÃO E A DEMOCRACIA


recebe ênfase adicional com a noção de Kant so- COSMOPOLITA
bre a lei cosmopolita como aspecto da lei pública A teoria da democracia cosmopolita desen-
preocupado com o status de indivíduos do outro volvida por David Held, Daniele Archibugi e ou-
lado de fronteiras internacionais. Em seu terceiro tros esboça um projeto de governança democra-
artigo definitivo, Kant explica que o direito à hos- tizada de múltiplas camadas (da local até a glo-
pitalidade significa o direito universal de viajar e bal). Entre outros objetivos, tenta resolver as de-
tentar entrar nos vários Estados do mundo, mas ficiências da governança global, em particular o
não de se estabelecer, pois esse direito limitado conhecido déficit de legitimidade democrática.
sujeita-se a acordos entre indivíduos e Estados Archibugi, defensor do que chama de democracia
específicos. É realmente um direito tanto natural cosmopolita, explica:
quanto legal, que garante a liberdade de movi-
mento, de relacionamento social e de comércio Acima de tudo, o que diferencia a democracia cos-
entre diferentes povos, na base moral da unidade mopolita de outros projetos é sua tentativa de criar
instituições que permitam a voz dos indivíduos ser
mais fundamental de todos os seres humanos,
ouvida em assuntos globais, independentemente de
concebidos como uma única comunidade espa-
sua repercussão em casa. A democracia como uma
lhada pelo espaço igualmente compartilhado do forma de governança global, portanto, precisa ser
globo. “Dessa forma”, escreve Kant, “continentes realizada em três níveis diferentes e interconectados:
distantes um do outro podem estabelecer relações nos Estados, entre Estados e em nível mundial.13
pacíficas mútuas que, finalmente, sejam reguladas
por leis públicas, trazendo, portanto, a raça huma- Assim como David Held e Anthony
na mais próxima da constituição cosmopolita”.11 McGrew, Archibugi concorda que há um con-
A constituição cosmopolita é um corpo de lei senso geral sobre a existência de deficiências de-
que codifica os direitos e as obrigações de todas mocráticas no atual sistema internacional. Na li-
as pessoas e Estados, além de ser universalmente teratura normativa sobre o assunto, o sistema
vinculadora. Nesse sentido, a concepção de Kant atual de governança global é considerado como
sobre a lei cosmopolita materializa o universalis- distorcido, refletindo uma hierarquia de poder
mo de sua teoria moral, ao mesmo tempo em que em nível internacional que freqüentemente pro-
busca a codificação formal dos direitos funda- move os interesses dos Estados mais poderosos e
mentais dos indivíduos, independentemente de de forças sociais globais, em detrimento dos da
sua nacionalidade, etnia, status social ou crenças maioria dos habitantes do mundo.14 De fato, a
religiosas. A força do cosmopolitismo de Kant agenda para a ação e cooperação internacional é
reflete claramente sua integração abrangente do freqüentemente marcada por aquelas forças glo-
moral, do legal, e do político, ao demonstrar que bais com poucos motivos além do avanço de seus
o respeito à dignidade humana – expresso no im- interesses mais imediatos. Logo, a governança
perativo categórico – requer, no final das contas, global distorcida é “produto das dinâmicas mu-
tanto uma esfera doméstica justa quanto uma or- tuamente reforçadoras das desigualdades de po-
dem mundial regulada pela lei cosmopolita e in- der entre Estados; do privilegiar estrutural dos
ternacional. Como resultado, Kant avança a visão interesses e da agenda do capital global; e da na-
cosmopolita de uma comunidade universal da tureza tecnocrática do processo de políticas glo-
humanidade, trabalhando sobre a sensibilidade bais”.15 Destarte, qualquer papel que a gover-
ética estóica e guiando-a pelo domínio de proces- nança global possa ter em atingir o desenvolvi-
sos políticos e organizações jurídicas reais.12 mento humano mediante a redução da pobreza e

11 Ibid., p. 106. 13 ARCHIBUGI, 2003, p. 8.


12 NUSSBAUM (1997) fornece uma discussão útil acerca da influên- 14 Ibid.
cia do estoicismo sobre Kant. 15 Ibid.

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a provisão do bem-estar e da segurança humana é Esse déficit democrático da governança global


comumente marginalizado pelas considerações gera conseqüências amplas, notavelmente em seu
egoístas do sistema de poder realista. impacto no desenvolvimento econômico, em que
Held e McGrew enfatizam o paradoxo en- um sistema de governança de elite separado de
tre os objetivos declarados da governança global, sua responsabilidade com a população em geral
que, desde o fim da Segunda Guerra Mundial e o governa freqüentemente em causa própria, levan-
advento da Carta da ONU, incluem a segurança e do ao aumento da pobreza e da desigualdade.
o desenvolvimento humano e a realidade da evo- Como observa Archibugi, “Esse é o verdadeiro
lução dos assuntos internacionais, que viram o déficit da democracia: a existência de interesses
crescimento das desigualdades globais e da exclu- transnacionais organizados distante de qualquer
são social juntamente com o surgimento de con- mandato popular”.20
flitos militares. Eles contrastam essa situação Held afirma que algumas das razões por trás
com o sucesso considerável das agências públicas tanto da falha da governança global em atingir a
e privadas em promover a globalização econô- segurança e o desenvolvimento quanto do déficit
mica, sugerindo que “os refreamentos estruturais democrático podem ser encontradas no impacto
na governança global se aplicam com maior força da globalização no Estado-nação. Na visão desse
às suas funções redistributivas do que às promo- autor, a globalização está “mudando os padrões de
cionais”.16 Na opinião desses autores, tal parado- poderes e de refreamentos, redefinindo a arquite-
xo ilustra como o sistema atual de governança tura do poder político associado ao Estado-
global privilegia suas funções de aperfeiçoar o nação”.21 No plano internacional, Held faz sepa-
mercado, em detrimento de suas funções corre- rações significativas entre a idéia – vital ao sistema
tivas, desequilíbrio que, talvez, só tenha crescido atual de governança global – da soberania do Es-
no despertar da recente expansão das idéias neo- tado supremo e economia mundial, organizações
liberais.17 internacionais, instituições regionais e globais, lei
Essas falhas do atual sistema de governança internacional e alianças militares que operam para
global compõem-se por um déficit democrático modelar e restringir as opções de Estados-nação
persistente. As novas camadas supranacionais de individuais.22 Tais distinções revelam uma gama
governança criadas por Estados-nação procuran- de forças que
do promover ou regular os efeitos da globaliza-
se unem para restringir a liberdade de ação de go-
ção têm geralmente poucos mecanismos de com- vernos e Estados, obscurecendo os limites de polí-
prometimento (accountability)18 acessíveis à po- ticas domésticas, transformando as condições do
pulação em geral; essas instituições globais, em processo de decisão política, mudando o contexto
sua maioria, respondem apenas aos Estados e organizacional e institucional de comunidades po-
operam de acordo com princípios não democrá- líticas nacionais, alterando a estrutura legal e práti-
ticos (desproporcionalmente a qualquer tamanho cas administrativas dos governos e obscurecendo os
da população).19 Outros atores globais influen- limites da responsabilidade e comprometimento
tes, seja do setor privado (corporações transna- (accountability) dos próprios Estados-nação.23
cionais) seja da sociedade civil (organizações não- Na visão de Held, tanto a autonomia quan-
governamentais), também freqüentemente não to a soberania dos Estados-nação estão sendo mi-
respondem ou não são representativos de uma nadas, sob as condições da globalização, por uma
variedade de membros da sociedade internacional. variedade de forças e de atores transnacionais. As
16 HELD & McGREW, 2002, p. 14.
prerrogativas à soberania estatal e o suporte fun-
17 Ibid.
18 NT: o substantivo accountability, em inglês, é de difícil tradução, sig- 20 ARCHIBUGI, 2003, p. 9.
nificando, nesse caso, uma permanente responsabilização, ou compro- 21 HELD, 1995, p. 135.
metimento, dos representantes eleitos com a população. 22 Ibid., p. 99.
19 SINGER, 2002, p. 75-77. 23 Ibid., p. 135.

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damental do sistema internacional da perspectiva ralidade de identidades, de assuntos públicos in-


do realismo pós-westfaliano são questionados ao ternacionais como um pântano de brigas entre
serem cada vez mais admitidos por outras agên- nações e de grupos totalmente incapazes de fixar
cias não estatais. Assim, a efetividade do sistema assuntos coletivos urgentes”.26
westfaliano de governança global vem sendo Nessas circunstâncias, ele afirma a necessi-
corroída por um aparato de várias camadas, com dade da criação de uma cultura e de uma comu-
entidades nos níveis regional e internacional, des- nidade política democrática global, única estrutu-
gastando a base de poder nacional tradicional. ra na qual os ideais de autonomia e de democracia
De fato, Held afirma que o sistema existen- podem realizar-se totalmente. O modelo cosmo-
te de governança global tem falhado em fornecer polita de democracia procura expandir os níveis
mecanismos efetivos ou suficientes de coordena- de políticas participativas e meios de comprome-
ção e mudança política. O modelo westfaliano timento mediante um adaptativo “sistema de
com o seu “comprometimento central com o centros de poder sobrepostos e diversos, molda-
princípio do poder efetivo, isto é, o princípio do dos e limitados pela lei democrática”.27 Apesar
direito do mais forte no mundo internacional”, e das deficiências do sistema de governança global
a afirmação da soberania absoluta do Estado es- existente, Held mostra-se cuidadosamente oti-
tão em desacordo com qualquer possibilidade de mista quanto aos prospectos de se cultivar a de-
“uma negociação democrática sustentável entre mocracia cosmopolita, considerando especial-
membros da comunidade internacional”.24 Ade- mente que algumas idéias cosmopolitas já estão
mais, a própria estrutura hierárquica do sistema no centro dos desenvolvimentos políticos e legais
dos Estados tem sido enfraquecida pelo surgi- do pós-Segunda Guerra Mundial. O projeto cos-
mento de forças e atores transnacionais influen- mopolita de governança global revela-se, assim,
tes. Held, por sua vez, vê a onu como um fórum uma tentativa de ligar a teoria cosmopolita kan-
em potencial para a deliberação democrática de tiana normativa com a construção de instituições
questões internacionais urgentes, mas admite que cosmopolitas.28
ela até agora tem falhado em alcançar essa capa- O primeiro passo na direção de tornar real
cidade, por conta da sua falta de credibilidade o modelo cosmopolita de democracia seria, por-
como agência influenciada (e notadamente fun- tanto, desenvolver o sistema da onu para colocar-se
dada) pelos Estados mais poderosos.25 Held per- à altura de sua Carta (na qual Held encontra
cebe ainda que, apesar de o fim da Guerra Fria ter muitos ideais cosmopolitas em desacordo com a
oferecido a possibilidade de uma nova ordem in- atual ordem internacional), requerendo, entre
ternacional fundada na difusão da democracia outras coisas, a implementação de “elementos-
pelo globo e nas relações internacionais cada vez chave das Convenções de Direitos da onu, o re-
mais pacíficas, esse potencial permanece em gran- forço da proibição do direito discricionário do
de parte não realizado, como demonstrado pelas uso da força e a ativação do sistema de segurança
crises no Iraque, Bósnia, Ruanda, Afeganistão e coletiva imaginada na própria Carta”.29 A Carta,
em outras partes do planeta. Muitas iniciativas da então, teria de estender-se, por exemplo, tornan-
onu de administração e resolução de conflitos – do o voto quase consensual na Assembléia Geral
na opinião de Held, “freqüentemente contesta- uma fonte legítima da lei internacional, modifi-
das, reativas e com poucos recursos” – têm defi- cando o sistema de representação do Conselho
nhado e sido derrotadas nos gabinetes de suas co- de Segurança para permitir um comprometi-
missões. Para Held, “levanta-se o prospecto de mento regional adequado e reformando o siste-
uma comunidade internacional dividida pela plu- 26 Ibid., p. 268.
27 Ibid., p. 234.
24 Ibid., p. 268. 28 Idem, 2002, p. 317.
25 Ibid., p. 88. 29 Ibid., p. 269.

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ma de veto desse conselho, particularmente em uma reestruturação significativa do sistema de


relação aos poderes dos membros permanentes. Estado, de maneira que ele não seja o único local
Seu principal objetivo seria cultivar o império da de poder afetando o cidadão, nem, portanto, a
lei e sua imparcialidade – desafiando, então, a atual única instituição organizada democraticamente.
existência de duas medidas (uma para os países Ao contrário, existem sete locais de poder – o cor-
ocidentais e outra para o resto do mundo) – no po, o bem-estar, a cultura, as associações cívicas,
domínio dos assuntos internacionais. a economia, as relações coercivas e a violência or-
De maneira mais geral, a prioridade é esta- ganizada, e as instituições reguladoras e legais –
belecer componentes do que Held chama de lei dentro de e entre comunidades políticas que
democrática cosmopolita, “lei pública democrática “moldam e limitam” as chances de vida das pes-
firmada dentro de e entre fronteiras”.30 A funda- soas e sua capacidade de participar e “comparti-
ção normativa da lei democrática cosmopolita é lhar o processo público de decisão”.32 Segundo
referida por esse autor, seguindo as idéias de Held, é imprescindível que todos esses locais de
Kant, como princípio da autonomia. Tal princípio poder, juntamente com o próprio Estado, apói-
considera a capacidade de todos os indivíduos de em-se democraticamente, o que demandaria a
participar das decisões políticas com impacto di- implementação de instituições e procedimentos
reto sobre eles, formulado da seguinte forma: “As democráticos em vários níveis interconectados,
pessoas deveriam gozar de direitos iguais e, con- desde o do local de trabalho até o da governança
seqüentemente, de obrigações iguais na especifi- global. Como resultado, a lei democrática cos-
cação da estrutura política que gera e limita as mopolita requer uma estrutura política comum e
oportunidades disponíveis a elas; isto é, elas de- transnacional fundada no princípio da autono-
veriam ser livres e iguais na determinação das mia. Ela incorporaria não só a lei internacional
condições de suas próprias vidas, desde que não (devidamente revisada), mas também um sistema
desenvolvam essa estrutura para negar direitos de de lei cosmopolita centrado na facilitação e na
outrem”.31 consolidação da autonomia individual, e não sim-
plesmente nas relações entre Estados; ambos se
Held argumenta que, por causa da globa-
equiparando ao crescimento de uma sociedade ci-
lização, um número crescente de decisões toma-
vil transnacional capaz de responsabilizar a auto-
das nos níveis doméstico, regional e global afeta
ridade política e de reanimar a mudança social.
cidadãos de vários Estados, sem maior participa-
ção significativa deles. Não só as decisões vem Juntamente com Kant, Held concebe a lei
sendo tomadas nesses vários níveis, como tam- cosmopolita como um domínio distinto, ainda
bém o processo de decisão também está disperso que complementar, da lei internacional feita entre
entre locais diversos, compostos tanto por enti- Estados e que consiste em grupos de direitos e
dades públicas quanto privadas. De acordo com obrigações para capacitar as pessoas a participar
esse autor, tal situação significa que, no futuro, se como agentes autônomos na regulação das asso-
não já agora, o modelo de Estado não será sufi- ciações a que pertencem. A lei democrática cos-
ciente para salvaguardar a autonomia de cada mopolita pode ser firmada, por exemplo, ao se
indivíduo e, conseqüentemente, o funcionamen- estender o alcance das assembléias e tribunais in-
to da própria democracia. O efetivo funciona- ternacionais e mudar as constituições de assem-
mento da democracia exige a firmação da auto- bléias nacionais e internacionais, de modo a refle-
nomia e de instituições democráticas em todos os tir conjuntos sobrepostos de direitos e obriga-
níveis com impacto nos direitos civis, políticos e ções. Held também imagina o uso difundido de
sociais dos indivíduos. Essa firmação envolve referendos transnacionais e o estabelecimento de
uma assembléia democrática global (um parla-
30 Ibid., p. 227.
31 Ibid., p. 147. 32 Ibid., p. 173.

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mento global), que poderia funcionar em conjun- CONCLUSÃO


to com o sistema da onu, como uma segunda câ- Cosmopolitismo significa cidadania mundial
mara, para complementar a Assembléia Geral. e implica a participação de todos os indivíduos
Embora seja apenas uma instituição de estabele- numa comunidade universal de seres humanos
cimento de estruturas, a assembléia do povo glo- como pessoas morais. Como sugere este artigo,
bal pode tornar-se um centro “de autoridade para trata-se de um conceito dinâmico, que adquiriu di-
o exame dos problemas globais urgentes que es- ferentes nuances e ênfases ao longo do tempo.
tão no cerne da possibilidade de implementação Muito desse dinamismo resulta de mudanças na
da lei democrática cosmopolita”, entre eles, saúde sociedade – da polis clássica até as forças da
e doença, suprimento e distribuição de alimentos, globalização –, bem como de diferentes interpreta-
aquecimento global, terrorismo, proliferação de ções teóricas acerca das conseqüências dessas trans-
armas de destruição em massa e instabilidade de formações na tradição do pensamento político e
mercados financeiros globais.33 O plano de Held moral cosmopolita. Com as diferentes formas de
também inclui o fortalecimento da sociedade civil enfatizar os princípios cosmopolitas e a complexi-
e de organizações regionais (como a União Eu- dade de interesses nacionais, assim como as impli-
ropéia) e a democratização de vários locais de po- cações da transformação política radical, não sur-
der, incluindo aqueles da economia política global preende que o significado do cosmopolitismo con-
(para a qual sugere a fundação de uma nova agên- tinue a sujeitar-se freqüentemente a intenso debate.
cia econômica coordenadora em níveis regionais Como está agora o projeto de estabeleci-
e internacionais). Finalmente, argumenta que a mento de uma política cosmopolita? Apoiando-
estrutura institucional para uma ordem internaci- se nas teorias de Kant e de Held, é possível iden-
onal democrática não pode ser concebida sem os tificar três características primordiais do cosmo-
meios de uma execução efetiva da lei. Para prover politismo que ajudam a demarcar seus princípios-
o sistema de poderes coercivos, sugere o estabe- guia ou imperativos ao status da política global
lecimento de uma força militar internacional e in- contemporânea e futura: universalismo moral,
dependente. juridificação e construção de instituições. O pri-
O modelo de democracia cosmopolita é meiro reflete tanto a idéia estóica da comunidade
um projeto normativo abrangente, que clama a mundial de seres humanos quanto o argumento
extensão da democracia a esferas internacionais, a de Kant de que nossos direitos fundamentais,
fim de compensar as falhas do Estado-nação em como nossas obrigações em relação aos outros,
face da globalização. Entretanto, coloca-se diante não conhecem fronteiras. Apesar da dificuldade
dos desafios das posições ideológicas dominantes de identificar ou cultivar um senso de solidarie-
representadas pelo neoliberalismo e pelo realis- dade com a humanidade como um todo, o reco-
mo. Tais posições são as fontes de críticas e ati- nhecimento imparcial de direitos e bem-estar de
vidades no plano global que minam o projeto de todas as pessoas constitui uma perspectiva ética
democracia cosmopolita e ameaçam seus objeti- potente aplicável à humanidade. Os cosmopolitas
vos de avançar na segurança e na liberdade huma- aceitam e abarcam a diversidade humana, mas di-
na, e mesmo de aumentar a aceitação global de versidade no interior e entre comunidades que se
políticas participativas como o melhor meio de expandem até o círculo mais amplo da humani-
governança. Logo, é um projeto frágil e depen- dade. Não importam quais outros atributos cada
dente da convicção dos que trabalham pela sua um de nós possui, todos qualificam-se no perten-
realização diante de modalidades políticas e inte- cimento à comunidade humana universal e “nem
resses entrincheirados. raça, nem nação determinam o valor de uma vida
33 Ibid., p. 274. Para uma discussão útil sobre a possibilidade de se criar
e de experiências de um ser humano”.34
uma assembléia global do povo, nesses parâmetros, cf. FALK &
STRAUSS, 2000. 34 SINGER, 2002, p. 154.

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A segunda característica situa-se na ênfase não só com seus compatriotas, mas também com
do firmamento jurídico-político do universalis- membros de outras sociedades, sob forma tanto
mo moral na esfera pública, por meio da codifi- da sociedade mais ampla de Estados quanto da
cação e da extensão do direito em âmbitos sobre- comunidade universal humana.
postos da lei doméstica, internacional e cosmo- Essa segunda particularidade fundamental
polita. Direitos humanos são reivindicações mo- leva diretamente à terceira, de maneira que a
rais supremas de certas liberdades, necessidades e expansão mundial de normas legais humanitárias
interesses básicos a que todos os seres humanos, e sistemas jurídicos impliquem a institucionaliza-
como indivíduos e membros da comunidade hu- ção de tais normas além das fronteiras dos Esta-
mana, têm direito. Contudo, tais reivindicações dos-nação. Portanto, a terceira característica do
devem ser tratadas como normas jurídicas ligadas cosmopolitismo se refere à necessidade de cons-
a ordens legais públicas para serem efetivamente truir uma base institucional para uma esfera pú-
asseguradas, reconhecidas e exercidas mediante o blica cosmopolita efetiva. Políticas cosmopolitas
espectro completo de interações sociais das quais procuram reformar a estrutura institucional que
depende a existência humana. Dadas as interco- atualmente organiza as relações internacionais, de
nexões próprias da globalização, aliadas ao valor modo a promover as condições necessárias ao
moral da dignidade de seres humanos individuais, efetivo funcionamento de uma lei cosmopolita e
a juridificação das normas humanitárias deve à implementação de soluções inovadoras para
também tornar-se progressivamente global.35 questões sociais urgentes de âmbito global. A
Conjuntamente, o universalismo moral e a juri- construção de regimes e instituições globais por
dificação progressiva de normas humanitárias ex- meio de iniciativas públicas reguladas legalmente
pressam a crença cosmopolita de que indivíduos leva idealmente a um processo de governança
e comunidades políticas têm obrigações morais manifestada numa variedade de níveis e produz
um sistema político integrado operando do local
35 Empresto o conceito juridificação de Jürgen Habermas, que se refere ao nacional e ao global. Enfim, políticas cosmo-
ao crescimento de esferas sobrepostas da lei moderna. A extensão da
lei pública representa uma preocupação normativa positiva para direi-
politas procuram criar uma série de instituições
tos individuais, universalismo e juridificação do processo de legitima- supranacionais para dar expressão material aos
ção democrática, apesar de, é claro, o crescimento da lei também
levantar problemas relacionados à expansão de poderes administrati-
imperativos jurídicos e normativos da justiça cos-
vos. Cf. HABERMAS, 1987 e 1996. mopolita.

Referências Bibliográficas
ARCHIBUGI, D.“Cosmopolitical Democracy”. In: _______. Debating Cosmopolitics. Londres: Verso, 2003.
FALK, R.A. & STRAUSS, A. “On the creation of a global people’s assembly: legitimacy and the power of popular
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HABERMAS, J. Between Facts and Norms: contributions to a discourse theory of law and democracy. Cambridge: MIT
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______. The Theory of Communicative Action. v. II, Lifeworld and System. Boston: Beacon Press, 1987.
HELD, D. “Cosmopolitanism: ideas, realities and deficits”. In: HELD, D. & McGREW, A. Governing Globalization:
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______. Democracy and the Global Order: from the modern state to cosmopolitan governance. Cambridge: Polity
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KANT, I. Groundwork of the Metaphysics of Morals. Cambridge: Cambridge University Press, 1997.
______. The Metaphysics of Morals. Cambridge: Cambridge University Press, 1996.

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______. “Perpetual peace: a philosophical sketch”. In: REISS, H. Kant’s Political Writings. Cambridge: Cambridge
University Press, 1991.
NUSSBAUM, M. “Kant and cosmopolitanism”. In: BOHMAN, J. & LUTZ-BACHMAN, M. Perpetual Peace: essays on
Kant’s cosmopolitan ideal. Cambridge: MIT Press, 1997.
SCHLERETH, T.J. The Cosmopolitan Ideal in Enlightenment Thought. Londres: University of Notre Dame Press, 1977.
SINGER, P. One World: the ethics of globalization. New Haven: Yale University Press, 2002.

Dados do autor
Docente do Programa de Teoria e
Ciência Política e Relações Internacionais,
na Victoria University of Wellington/nz,
com interesse nas fundações normativas e
conceituais dos direitos humanos.
Livros publicados:
America's War on Terror (Ashgate, 2003),
John Rawls: Towards a Just World Order
(University of Wales Press, 2002),
e The Philosophy of Human Rights
(Paragon House, 2001).

Recebimento artigo: 9/jul./04


Consultoria: 15/set./04 a 3/nov./04
Aprovado: 19/nov./04

94 Impulso, Piracicaba, 15(38): 83-94, 2004


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A Contribuição de A Religião
nos Limites da Mera Razão,
de Kant, à Filosofia Política
das Relações Internacionais
THE CONTRIBUTION OF KANT’S RELIGION
WITHIN THE LIMITS OF REASON
ALONE TO A POLITICAL PHILOSOPHY
OF INTERNATIONAL RELATIONS 1 1
Resumo Neste artigo, ao perpassar as três partes do escrito de Kant sobre a religião,
são abordados alguns motivos de interesse sistemático tanto para a sua filosofia da re-
ligião quanto para a sua filosofia política. Primeiro, trata do nexo entre filosofia moral
e religião em Kant, referindo-se a alguns de seus textos mais antigos e aos desdo-
bramentos deles no pensamento kantiano, nos quais podem-se constatar alguns
enunciados do escrito sobre a religião. Num segundo passo, são reconstruídos três
argumentos centrais de Kant, cuja finalidade é revelar a irrecusabilidade prática que,
para ele, cabe imputar à instituição de uma essência ética comum. Da argumentação de
Kant em favor de uma essência ética comum também se depreendem algumas
conclusões úteis à controvertida questão de uma República cosmopolita, com as quais MATTHIAS
encerrarei minhas colocações. LUTZ-BACHMANN
Universität Frankfurt
Palavras-chave KANT, I. – RELIGIÃO – ÉTICA – REPÚBLICA MUNDIAL [WELTREPUBLIK] am Main/Frankfurt/AL
Lutz-Bachmann@
– RELAÇÕES INTERNACIONAIS.
em.uni-frankfurt.de

Abstract This paper examines the three parts of Kant’s book on religion, addressing
some motives that are of systematic interest for both his philosophy of religion and
his political philosophy. First, the nexus between moral philosophy and religion in
Kant will be discussed, refesring to some of his previous texts and their unfolding in
Kantian thinking, since they antecipate some points of his writing on religion.
Second, three central arguments by Kant will be reconstructed, in order to reveal the
practical impossibility of refusing the institution of a commom ethical essence. Out
of this argumentation of Kant in favor of a common ethical essence there can be
deduced some useful conclusions regarding the polemical question concerning a
cosmopolitan Republic, with which I will concluse my considerations.

Keywords KANT, I. – RELIGION – ETHICS – WORLD REPUBLIC [WELTREREPUBLIK]


– INTERNATIONAL RELATIONS.

1 Tradução do alemão para o português: PAULO ASTOR SOETHE (UFPR).

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1. FILOSOFIA MORAL E RELIGIÃO

N
o início do “Prólogo” à primeira edição de seu escrito
sobre a religião, de 1793, Kant deixa inequivocamente
claro que a doutrina moral que serve de ponto de partida
ao homem em sua liberdade prática, quando este faz uso
de sua razão de maneira autônoma, não se apóia sobre
um conceito de Deus cuja fundamentação seja religiosa,
teológica ou filosófica. A ética filosófica não precisa de
um legislador situado acima do ser humano para que
este tome conhecimento do que deve fazer, tampouco de um juiz vingador,
de modo que ele faça o que “reconhece como algo ‘que se deva fazer’”.
“A moral”, escreve Kant, “para a evocação de si mesma (...), seja como
for, não carece da religião, mas em virtude da pura razão prática basta-se
a si mesma”.2 Sob uma consideração mais acurada, não é novo o que, na
posição de Kant, pode soar para um leitor desavisado como típica con-
quista da filosofia do Esclarecimento. Platão, em seu diálogo “Eutífron”,
já havia apontado as contradições internas de uma doutrina moral teo-
nômica3 e, para Aristóteles, é justamente em decorrência da distinção en-
tre filosofia teórica e prática que não se pode deduzir a ética partindo de
uma metafísica ou de uma doutrina relativa a Deus.4 Mesmo Tomás de
Aquino, com sua distinção entre lex aeterna e lex naturalis, não adere à
concepção de uma filosofia moral cujo discernimento advém de uma or-
dem cósmico-divina, como haviam feito Agostinho ou representantes da
ética estóica. Ele visa, isso sim, a uma ética fundada apenas no discerni-
mento racional prático do ser humano.5
Do ponto de vista da história da filosofia, portanto, não é nova a
noção de que a ética não pode fundar-se numa doutrina sobre Deus.
Original, porém, é a fundamentação especial apresentada por Kant em fa-
vor de sua argumentação. Ele entende que a necessidade de uma ética pre-
cedente ao conceito de Deus funda-se mesmo na estrutura do juízo mo-
ral. Em virtude da autonomia de quem emite eticamente o juízo, cabe ao
juízo moral, segundo Kant, ignorar todos os propósitos materiais e en-
contrar tão-somente na capacidade de generalização o critério em favor
da retidão moral de nossas máximas da ação. Para Kant, conseqüente-
mente, a moral “não carece, de modo algum, de um fundamento deter-
minador material do livre arbítrio, isto é, de nenhum propósito, nem para
tomar conhecimento do que seja obrigação, nem para ensejar que ela seja
cumprida: mas a moral bem pode, e deve, quando se trata da obrigação,
abstrair todos os fins”.6 Ainda que, de acordo com Kant, devam perma-
necer livres a fonte do discernimento moral sobre o dever moral e a mo-
tivação de quem age para a concretização prática do que se reconhece

2 KANT, AA, VI, p. 3.


3 Cf. PLATÃO. “Eutífron”. In: _______. Diálogos. 10 c-11 b.
4 Cf. ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco, VI (1-2): 1.138 b 16-1.139 b 13.
5 Cf. AQUINO, T. de. Summa Theologiae I-II, q.91, a.2.
6 KANT, AA, VI, p. 3s.

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como dever, isso não exclui o homem perguntar-se ferir ao que há de material em nossas intuições
sobre o resultado, no todo de sua vida, de seu agir sensíveis. Mesmo assim, o postulado da existên-
eticamente correto. Isso porque Kant sabe – tam- cia de Deus e a assumpção de determinadas qua-
bém aqui em consonância com a tradição – que lidades divinas articulam, segundo Kant, uma
muito provavelmente trata-se para o homem – noção irrecusável, ou seja, uma necessidade racio-
em seu agir, almejar e querer – da efetivação de nal verdadeira e incondicionada inseparavelmente
seus fins no todo da própria vida. Como quintes- unida7 à lei moral vigente de maneira incondicio-
sência dessa autodeterminação do homem, a filo- nada e a priori, e cuja realidade deparamos em
sofia tem a seu dispor, no mais tardar desde nossa razão. Além disso, sem essa necessidade
Aristóteles, o conceito de vida bem-sucedida ou racional verdadeira e incondicionada não se po-
eudaimonia. Diversamente da ética aristotélica, deria pensar, de acordo com Kant, o pressuposto
porém, a doutrina moral em Kant não conquista o de sua doutrina moral, isto é, a determinação pos-
ponto de vista do que seja eticamente correto, ao sível da vontade humana pela razão.
assumir a perspectiva de uma vida bem-sucedida, Kant amplia sua argumentação em favor da
mas somente da concordância, exigida em nós pela assumpção da existência de Deus, na Crítica da
razão prática, entre o que se quer e o que se reco- Faculdade de Julgar, de 1790. Pressupondo o de-
nhece como devido. Mas, diferentemente da ética sempenho regulativo do conhecimento por parte
estóica, para Kant o anseio do homem por felici- da faculdade teológica do juízo, parece-lhe necessá-
dade não chega ao fim pretendido, quando ocor- rio pensar a natureza como um todo propositado
re a habitual conquista da virtude moral, ou seja, e, por conseqüência, contemplar a realização do
quando se alcança a concordância entre a vontade sumo bem como um plano subjacente à criação
livre e o dever moral, segundo o discernimento da em sua totalidade. Tais reflexões não apenas con-
razão prática. Resta ainda a pergunta da razão prá- têm novos argumentos em favor da assumpção
tica acerca do fim último do agir, concebida por da existência de Deus, mas igualmente fazem
Kant como a concordância pretendida entre a pos- saltar aos olhos a exigência de enxergar Deus não
se da virtude e a beatitude (Glückseligkeit). É so- só como um legislador da natureza, “mas tam-
mente para designar a realização dessa concordân- bém como um comandante legislativo num reino
cia que Kant utiliza o conceito de sumo bem. moral dos fins”.8 Kant deduz daí, além dos atri-
Na Crítica da Razão Prática, publicada em butos clássicos de Deus – onisciência, onipotên-
1788, cinco anos antes de A Religião nos Limites cia, eternidade e onipresença –, suas característi-
da Mera Razão, Kant defendia que o projeto de cas relativas à bondade e à justiça. Nesse sentido,
sua doutrina moral, para não fracassar, precisaria esclarece por que só então da teleologia moral da
ter como pressuposto a possibilidade de uma res- razão decorre uma teologia, e não o inverso.9
posta positiva à pergunta sobre o fim último de O “Prólogo” à primeira edição do escrito
nosso agir. Isso o levou a postular Deus como sobre a religião retoma essas reflexões presentes
um ser santo, isto é, plenamente bondoso, ao na Crítica da Faculdade de Julgar. Deixa claro por
mesmo tempo onisciente e onipotente, pois, para que a moral precisa renunciar ao conceito de fim
ele, só seria possível pensar por essa via a realiza- propositado, na medida em que trata o discer-
ção do sumo bem ao ser humano. Diversamente nimento da razão prática quanto ao eticamente
do uso corrente no idioma, Kant não entende correto e a determinação motivacional da ação do
como subordinado ao postulado da razão prática homem diante de seu agir. Mesmo assim, a noção
nem uma instrução prática para a ação, destinada de fim propositado é refutada não somente em seu
ao homem, nem um desejo puro, e sim uma sen- fundamento, mas, segundo Kant, surge muito
tença teórica, a saber, um discernimento necessá-
7 KANT, KpV, AA, V, p. p. 122.
rio da razão que, na verdade, não constitui objeto 8 Ibid., p. 444.
algum no mundo físico das coisas, por não se re- 9 Ibid.

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mais da própria moral, porque só com auxílio dada na natureza humana uma disposição ao
desta é que se podem responder as perguntas da bem. Essa assumpção distingue Kant de Thomas
razão prática, justificadas e irrecusáveis, acerca do Hobbes e, com isso, também se explicam as di-
fim último da vida e do agir humanos, como tam- ferenças entre ambos no campo da filosofia polí-
bém do mundo como um todo. Portanto, escreve tica. A disposição do ser humano para o bem, as-
Kant, “não se pode ficar indiferente à moral, se sumida por Kant, inclui sua capacidade para a eti-
ela dá início ou não (...) ao conceito de um fim úl- cidade, o que também quer dizer: a possibilidade
timo de todas as coisas; porque somente por esse dada ao homem de poder ouvir a razão legislado-
meio é possível conferir realidade objetivamente ra e incondicionada presente em si mesmo e de
prática à ligação entre a finalidade propositada agir segundo ela. A propensão do homem ao mal,
nascida da liberdade e a finalidade propositada da entendida como indissociável da liberdade huma-
natureza, da qual não podemos prescindir”.10 na, consiste, para Kant, em que todo homem –
Com essa argumentação, é preparada uma nova e seja em virtude de uma fragilidade da natureza
propulsora contribuição do escrito sobre a reli- humana (fragilitas) seja por conta de uma impu-
gião tanto à questão sobre Deus quanto à reza do coração (impuritas), seja ainda em conse-
determinação da doutrina moral. Tendo em vista qüência de uma deterioração (corruptio) – tende a
a moral, a força inovadora de A Religião nos Li- desviar-se das obrigações morais impostas pela lei
mites da Mera Razão reside especialmente no dos costumes com base na liberdade e na razão
conceito de que não é na eticidade (Sittlichkeit) próprias ao homem. Kant defende aqui uma va-
do indivíduo que se deve enxergar o fim último riante filosófica da doutrina do pecado original,
da criação (em sua posse da virtude, portanto), de tradição teológica: entende ser efetiva no ho-
tampouco na beatitude do indivíduo, proporcio- mem uma propensão ao mal, como qualidade ge-
nal à sua felicidade. Cabe, isso sim, ver que a eti- ral da espécie marcante de todas as pessoas, mas
cidade da humanidade em seu todo tem de ser o que – diversamente do que se poderia pensar –
fim mais abrangente da razão prática. não tem origem na natureza biológica do ser hu-
Na “Terceira Parte” de sua filosofia da re- mano, como sua sensibilidade ou concupiscência,
ligião, Kant chega finalmente à formulação do isto é, sua natureza viciosa, e sim na própria li-
imperativo moral quanto a uma essência ética berdade inteligível do homem. Nesse sentido,
comum (ethisches gemeines Wesen) a ser alcançada cabe também imputar essa propensão ao homem
pela humanidade como um todo, no sentido de por via moral e, portanto, culpável, como expres-
uma obrigação diante de si mesma. Suas consi- são e decorrência da liberdade humana. Isso faz o
derações sobre o mal na natureza humana e a ser humano radicalmente mau em sua natureza de
superação do mal pelo princípio bom, na “Pri- liberdade, mas não em sua constituição biológica.
meira Parte” e na “Segunda Parte”, preparam o Tal informação em Kant, por sua vez, não signi-
caminho para a dedução dessa exigência. fica que o ser humano como um todo ou sua ra-
2. FUNDAMENTAÇÃO E CONSTITUIÇÃO DE UMA zão sejam maus – essa qualificação faria dele um
ESSÊNCIA ÉTICA COMUM ser diabólico. Para Kant, o fato de o homem
Cabe perguntar, primeiramente, em que como membro da espécie humana ser radical-
consiste o mal na natureza humana e qual o seu mente mau não deve significar que ele negue a au-
significado para a questão sobre a relação entre fi- toridade da lei dos costumes ou perca, com isso,
losofia moral e doutrina sobre Deus, apenas bre- a sua liberdade, pois, com assumpções como
vemente tangenciada neste texto. Em consonân- essas, também se colocaria em questão a realidade
cia com a sua doutrina de uma eticidade fundada da lei dos costumes como um factum da razão em
na autonomia do ser humano, Kant entende como nós. Em vez disso, ele sugere que o ser humano
cumpre os mandamentos práticos da razão em
10 Idem, AA, VI, p. 5. virtude de outras coisas que não apenas os fun-

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damentos da razão prática; isso se revela no fato por tudo isso, um bem moral notável, mediante
de o homem, via de regra, só agir eticamente em uma revolução no gênero humano”.12 É preciso
conformidade com a obrigação, e não por obriga- imaginar esse ser humano de tal modo que, es-
ção. Ele afirma, em A Religião nos Limites da tando ele mesmo isento da malvadez em sua dis-
Mera Razão: posição, venha romper no princípio o domínio
do mal sobre a liberdade humana, como repre-
Por conseqüência (mesmo o melhor [dos ho-
sentante de toda a humanidade e exemplo para
mens]) só é mau por inverter a ordem moral dos in-
centivos (Triebfeder), no acolhimento dessa mesma ela. Fica evidente que Kant, com esse ser humano
ordem em suas máximas: a lei moral, ele a acolhe ao exemplar buscado pela razão, descreve o progra-
lado da lei do amor-próprio, mas, quando se dá ma de uma cristologia filosófica fundamentada na
conta de que uma não pode subsistir ao lado da filosofia moral.
outra, (...) faz dos incentivos do amor-próprio e de Porém, mesmo a “representação do princí-
suas inclinações a condição para o seguimento da lei pio bom, ou seja, da humanidade (...) em sua per-
moral.11 fectibilidade moral como exemplo de imitação
A malvadez da natureza humana, segundo para qualquer um”13 ainda não tem condições de
Kant, não é uma maldade abissal. Ela consiste em cumprir as expectativas da razão prática como
que o homem, em sua disposição, escolhe o mal um todo. Embora, com a aparição histórica desse
como mal e o transforma em incentivo de seu ser humano exemplar, o poder universal do prin-
agir. Antes de mais nada, a malvadez do homem cípio do mal sobre a disposição da humanidade
deve qualificar-se como uma inversão do coração tenha se rompido, ao menos de maneira rudi-
que interpreta os mandamentos universais da mentar, e fundamente-se, por essa via, uma pre-
razão como regras gerais, das quais é possível tensão de direito do princípio bom a predominar
desviar-se segundo um parâmetro de benefício sobre o homem, a vitória definitiva desse princí-
próprio. Ela se articula num posicionamento pio exigida pela razão ainda não está totalmente
pragmático em face da lei dos costumes, com o assegurada. Para tanto, torna-se imprescindível a
qual o homem toma a si mesmo como moral- realização moral do princípio bom pelos próprios
mente elevado, sempre fantasiando algo mais em seres humanos. Eis por que Kant escreve, na
favor da própria eticidade. De acordo com Kant, “Terceira Parte” de seu escrito sobre a religião,
cabe ao ser humano o mandamento de superar, que o domínio perene e definitivo
desde o fundamento de sua disposição, essa mal-
do princípio bom, até onde os homens são capazes
vadez determinada como inversão. Por outro la- de atuar, não pode ser alcançado de outra maneira,
do, ele pode não ter sucesso nisso, justamente queremos crer, senão por meio da instauração e
porque a malvadez é expressão e, ao mesmo tem- expansão de uma sociedade regida segundo leis vir-
po, conseqüência de sua liberdade. Por tal razão, tuosas e destinada a evocar esse domínio; uma so-
ele necessita de outra solução: para Kant, a razão ciedade que se torne para a humanidade, em sua de-
prática deve ter em vista um ser humano exem- cisão de levá-la a cabo mediante a razão e em todo
plar, realizador do ideal da perfectibilidade moral, o seu alcance, uma tarefa e uma obrigação.14
ou seja, que não se deixe determinar por essa in-
versão e resulte num modelo para nós. Nesse sen- Isso porque só assim pode-se ter a esperança
tido, a exigência de Kant é de um modelo de “ser de um triunfo do princípio bom sobre o mau.
humano com disposição verdadeiramente divina, O fato de a própria razão prática exigir – além da
(...) por seus ensinamentos, conduta e sofrimen- obediência incondicional de todo ser humano à lei
to, dê o exemplo de um ser humano que, em si, dos costumes, ou seja, ao discernimento de sua
seja agradável a Deus”, ocasionando “no mundo, 12 Ibid., p. 63.
13 Ibid., p. 82.
11 Ibid., p. 36. 14 Ibid., p. 94.

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própria razão prática – a união de todos os ho- do mal no próprio indivíduo, já que ele mesmo
mens sob a espécie de uma coletividade pública é precisa dar conta dessa tarefa. É isso que perfaz a
ilustrado, por Kant, com a seguinte imagem, cita- liberdade moral.
da com freqüência: “A razão que legisla por via O segundo argumento apóia-se na análise
moral implanta, ademais das leis que prescreve a da ameaça sob a qual se encontra a eticidade do ser
cada um, um estandarte da virtude como ponto de humano, a ser realizada no âmbito de uma teoria
união para todos os que amam o bem, a fim de da intersubjetividade. Conforme essa análise, a
que possam congregar-se sob ele e obter, enfim, o ameaça já está dada com o factum dos demais seres
comando sobre o mal que os desafia sem descan- humanos. “Basta”, escreve Kant, “que eles exis-
so”.15 Seu escrito sobre a religião traz o desdobra- tam, estejam à sua volta e sejam seres humanos
mento de três fundamentos práticos da razão, de- para que mutuamente um corrompa o outro em
pondo em favor da constituição de uma sociedade sua disposição moral e para que, um ao outro, se
ético-pública ou também de uma essência ética co- tornem maus”.16 Para ilustrar tal enunciado, ele
mum. O primeiro fundamento refere-se à auto- refere-se aos vícios insociais da inveja, da ânsia de
compreensão do ser humano individual diante da dominação e da cobiça. Contudo, não associa a tal
lei dos costumes; o segundo, à relação do homem constituição insocial do homem uma antropo-
com os demais; e o terceiro articula as obrigações logia pessimista que contrarie fundamentalmente
que, para Kant, o gênero humano tem diante de si. a sua teoria da liberdade e da razão, como fez
Designo esses três fundamentos como argumento Thomas Hobbes. Em Kant, prevalece o argumen-
intra-subjetivo, intersubjetivo e de uma auto-refe- to de que todo ser humano é mau em razão de sua
renciação necessária da humanidade, respectiva- livre decisão própria. Na “Terceira Parte” de seu
mente. Eles constroem-se uns sobre os outros de texto sobre a religião, surge novamente a idéia de
maneira sistemática, o segundo pressupondo o que são os outros homens os que dão ensejo ao
primeiro, e o terceiro, os dois precedentes. erro moral do ser humano. Em analogia com a
O primeiro argumento em favor da unifi- Doutrina do Direito, na Metafísica dos Costumes,
cação dos indivíduos numa essência ética comum sobre o estado natural (status naturalis) jurídico,
situa-se no contexto da análise do inevitável com- Kant chama essa situação de estado natural ético,
bate entre a disposição do homem ao bem e sua em que o homem encontra-se permanentemente
propensão ao mal, na “Primeira Parte” e na “Se- hostilizado pelo mal “nele e, ao mesmo tempo,
gunda Parte” do escrito kantiano sobre a religião. em cada um dos demais”.17 De modo semelhante
Suas reflexões referem-se a como cada indivíduo à exigência imposta pela razão prática na Doutrina
deve proceder em face das exigências da lei dos do Direito, de que o estado natural deve ser aban-
costumes em sua razão e da concomitante mal- donado, também aqui Kant exige renunciar ao es-
vadez de seu coração. A superação intra-subjetiva tado natural ético em direção a um estado ético-
da propensão ao mal surgida em cada um de nós, civil sob leis gerais da virtude, uma vez que o es-
com base em nossa própria liberdade, e que a ra- tado natural prejudica em todos o devido anseio
zão prática nos exige só pode ser bem-sucedida se por uma disposição pura. Tal abandono deve se
for dado ao homem um modelo veraz de dispo- dar de modo comunitário: não por uma decisão
sição sincera à virtude e se ele mantiver para si individual de acordo com o modelo do ser huma-
esse apoio externo, de forma duradoura, numa no exemplar, como no primeiro argumento, mas
comunidade de virtuosos. Essa comunidade de em conjunto com os demais, por meio de uma de-
virtuosos cumpre aqui a função de apoiar a revo- liberação na comunidade, sem que se possa, para
lução do sentimento ético requerido do indiví- tanto, celebrar um contrato sob forma jurídica.
duo, porém, não é constitutiva para a superação
16 Ibid.
15 Ibid. 17 Ibid., p. 97.

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Assim como no abandono do estado natural jurí- zão, ou seja, dada na própria idéia da razão. Isso
dico, também aqui não há uma lei de permissão à significa que nós, de acordo com Kant, só pode-
coação de um outro ser humano para ingressar no mos falar de um sujeito ético da humanidade sob
estado ético-civil, pois este não constitui status o pressuposto dessa noção racional de um fim.
entre as leis públicas do direito, e sim entre as leis Dessa perspectiva, a essência ética comum chama-
da virtude. Kant acrescenta aqui a observação in- se, em Kant, povo de Deus, pois a realização do
teressante de que esse estado ético-civil pode sumo bem – demonstrada na Crítica da Razão
prescindir de leis jurídicas, na medida em que pre- Prática – apenas pode ser pensada de modo sen-
cisa, de qualquer modo, pressupor o status civilis sato como obra do próprio Deus. Da mesma ma-
jurídico; afinal, a essência ética comum não pode neira, somente é possível falar de um fim último
ser criada pelos homens sem já estar-lhe subjacente da humanidade em sentido estrito – como já o fi-
a coletividade público-jurídica da República polí- zera a Crítica da Faculdade de Julgar – se estiver
tica.18 Ainda voltarei a esse argumento. apoiado num criador racional, mas, sobretudo,
Como terceiro argumento em favor da bondoso e justo. Tendo em vista essa idéia teleo-
fundação de uma coletividade ético-civil, Kant lógica de razão e sua exigência de pensar o sumo
menciona uma obrigação de espécie própria.19 Não bem como um bem comunitário da humanidade,
designa, com isso, uma obrigação dos indivíduos faz sentido, para Kant, falar de Deus como legis-
humanos em razão da lei dos costumes, de si lador público da essência ética comum. Como
mesmos e das demais pessoas, como ocorre no suas leis não são jurídicas, mas da virtude, não é
primeiro e no segundo argumentos. Ele fala ago- possível imaginá-las senão sob a forma de uma
ra, muito mais, de uma obrigação que o coletivo confirmação divina de todas as verdadeiras obriga-
da humanidade como gênero tem diante de si. O ções éticas. Deus não é, nesse sentido, apenas o le-
recurso a uma obrigação como essa, da humani- gislador supremo e senhor moral do universo. É
dade perante ela mesma, pressupõe a idéia de uma também o juiz supremo, porque somente ele en-
razão apropriada ao conjunto de todos os homens. trevê nos homens suas disposições éticas mais in-
Tal noção remete à faculdade teleológica do juízo e teriores. Essa unificação das tarefas de Deus
à dicção, que lhe é própria, sobre um reino dos como legislador, executor e juiz das leis da virtu-
fins de natureza moral: “Pois todo gênero de se- de é o que distingue o povo de Deus como Re-
res racionais, na idéia de razão, está objetivamen- pública, organizada sob as leis da virtude, da Re-
te determinado a um fim comunitário, a saber, ao pública política. O poder político dessa última
fomento do sumo bem, como bem comunitá- emana unicamente do povo soberano, mas é ne-
rio”.20 Kant recorre aqui ao conceito de sumo cessário concebê-la como Estado de direito, sob
bem, como já o encontrávamos na Crítica da Fa- a forma de uma divisão entre os poderes Legisla-
culdade de Julgar. Mais exatamente, ele designa o tivo, Executivo e Judiciário.
sumo bem como um bem comunitário próprio a 3. UM NOVO ARGUMENTO EM FAVOR DA
todo o gênero, em virtude da racionalidade que o REPÚBLICA COSMOPOLITA
caracteriza. A união de todas as pessoas numa es- A literatura especializada sobre Kant tem
sência ética comum não decorre negativamente da certa razão em apontar a contribuição desse filó-
intenção de superar o mal, o que equivale a dizer, sofo, na “Terceira Parte” de A Religião nos Limites
das ambivalências da liberdade prática manifesta- da Mera Razão, à discussão filosófica sobre uma
das na propensão ao mal. Essa união resulta, po- possível comprovação da existência de Deus.21
sitivamente, de uma delimitação última dos pro- Esse novo argumento precisa ser entendido como
pósitos objetivamente dada aos seres aptos à ra- prosseguimento das colaborações de Kant na Crítica
da Razão Prática e na Crítica da Faculdade de Julgar.
18 Ibid., p. 94.
19 Ibid., p. 97. 21 Cf.,
entre outros, BAUMGARTNER, 1995, p. 103-117, e 1992, p.
20 Ibid. 156-167.

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A idéia de essência ética comum representa, sem (segundo a determinação moral deles mesmos) a
dúvida, um pensamento novo no escrito sobre a uma sabedoria superior. Ele precisa, muito mais,
religião, porém, ela ainda não foi suficientemente proceder como se tudo lhe importasse, e apenas
considerada como novo argumento em favor do sob tal condição poderá ter esperança de que uma
debate sobre a necessidade do postulado político sabedoria superior permita frutificar seu esforço
bem-intencionado.25
de uma República cosmopolita.22
Como vimos, o segundo argumento, favo- Isso não quer dizer senão que os seres hu-
rável à fundamentação de uma essência ética manos, da perspectiva da esperança prática quan-
comum, apóia-se no discernimento de que os ho- to ao cumprimento de um sumo bem como bem
mens não apenas querem superar em si mesmos comunitário – esperançosos, portanto, da consti-
a propensão ao mal, mas também só podem con- tuição de um povo de Deus vivendo sob as leis da
cretizar tal essência em conjunto. Como passo virtude –, precisam fazer tudo ao alcance de seu
para o estabelecimento da essência ética comum,
poder para superar o mal que se apóia sobre a
ele pressupõe, contudo, que os homens já te-
constituição política do estado natural.
nham abandonado o estado natural jurídico, uma
vez que, sem ele, o estado ético-civil “não poderia O mal na constituição comunitária da hu-
ser erigido pelos homens”.23 Isso é bastante elu- manidade como um todo está fundado, porém,
cidativo, pois nada no homem daria mais ensejo à no fato de os Estados, em sua associação mútua,
inveja, ao despotismo e à violência que o próprio não estabelecerem uma relação de direito público,
estado natural jurídico, em que cada um procura senão que ainda um direito de natureza jurídico.
alcançar os próprios direitos pelas próprias forças. Eis por que Kant escreve, em seu escrito sobre a
Assim, tal estado é deficitário não apenas do paz, de 1795: “a malvadez da natureza humana
ponto de vista da normatividade jurídica, mas (não obstante velar-se muito no estado ético-
também da moral-filosófica, sob o aspecto da civil, sob a coerção do governo) deixa-se entre-
superação da propensão ao mal, segundo exigên- ver”, “de maneira evidente”, na relação externa
cia da razão prática; ele deve ser abandonado para dos Estados uns com os outros.26 Ele se refere
que os seres humanos possam realizar uns com criticamente à doutrina clássica do direito das
os outros a essência ética comum. gentes, em Grotius, Pufendorf e Vattel, como
Num primeiro momento, parece não haver, subjacente ao direito internacional da ordem vi-
no terceiro argumento, um nexo análogo entre gente, estabelecida para os Estados pela Paz da
direito e eticidade, porque lemos em Kant que Westfália. Essa ordem, segundo Kant, velaria com
constituir o povo de Deus “é pois uma obra cuja sua semântica o fato de que, no espaço entre os
execução não se pode esperar dos homens, mas Estados, ou seja, no espaço internacional, não há
somente de Deus”.24 Todavia, se é mesmo Deus direito a merecer esse nome. Contudo, a aparên-
o único a que cabe constituir esse povo e dar-lhe cia de juridicidade da doutrina clássica do direito
uma constituição relativa às leis da virtude, Kant das gentes comprova que os Estados, ao resolver
logo relativiza tal informação, ao acrescentar: seus conflitos por meio da guerra, não podem re-
nunciar por completo à juridicidade de seu agir.
Eis por que não se permite ao homem, no entanto,
Para Kant, isso comprova “que há no homem
ficar passivo em face dessa empresa e deixar que aja
somente a Providência, como se a cada um fosse uma disposição moral ainda maior, embora laten-
permitido cuidar apenas de suas próprias questões te, de dominar o princípio mau que nele habita
morais em particular, descurando, porém, os assun- (não há como negar) e uma disposição de esperar
tos todos do gênero humano, de modo a entregá-los o mesmo dos demais”.27

22 Cf. LABERGE, 1992, p. 112-123. 25 Ibid.


23 KANT, AA, VI, p. 94. 26 Idem, AA, VIII, p. 355.
24 Ibid., p. 100. 27 Ibid.

102 Impulso, Piracicaba, 15(38): 95-104, 2004


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Em À Paz Perpétua, publicado apenas dois idéia positiva de uma República cosmopolita”.
anos depois do texto sobre a religião, Kant une a A tarefa dessa liga seria impedir a guerra entre os
superação do princípio mau e o despertar da dis- Estados e expandir-se sempre mais. Assim, a fim
posição moral no ser humano, ao constituir um es- de que “nem tudo se perca”, ele espera “refrear a
tado jurídico público entre os Estados, mais es- correnteza de inclinações hostis e adversas ao di-
pecialmente por meio da aliança pela paz, distinta reito”, as quais resultam da malvadez da natureza
do contrato pela paz, ao tentar eliminar a guerra de humana, estando, no entanto, consciente de que
vez, mediante a condenação racional da guerra a liga dos povos jamais poderá afastar por com-
como rotina do direito (ou seja, uma reprovação pleto a “constante ameaça de um irrompimen-
emanada do “trono do supremo poder que legisla to”30 da disposição bélica dos seres humanos.
segundo a moral”).28 A longo prazo, segundo É notório que Kant, por razões político-
Kant, isso só terá êxito se, em primeiro lugar, os pragmáticas, contradiga nesse aspecto sua própria
Estados derem a si mesmos uma constituição re- argumentação.31 E na discussão sobre a sua filo-
publicana (democrática, diríamos hoje em dia) e, sofia política, sobretudo quanto ao papel da Re-
em segundo lugar, agregarem-se numa República pública cosmopolita, há um ponto de vista parti-
cosmopolita ou Estado das gentes, conforme outra lhado pelos mais importantes intérpretes,32 mas
sua designação, pois que pode ainda ser complementado da perspecti-
não pode haver para os Estados, na relação entre
va da “Terceira Parte” de A Religião nos Limites da
eles, outra maneira de abandonar a situação ilegíti- Mera Razão, a saber, da doutrina kantiana de uma
ma, cheia de guerras, senão abdicar de sua liberdade essência ética comum. Como vimos, Kant funda-
selvagem (ilegítima), assim como fazem indivíduos menta tal idéia em seu terceiro argumento, com
humanos, conformar-se a leis coercivas públicas e base numa auto-referenciação necessária da hu-
constituir, dessa maneira, um Estado das gentes manidade ou, mais exatamente, numa obrigação
(civitas gentium) sempre crescente, que, afinal, abri- que a humanidade tem diante de si mesma. Entre
gue todos os povos da Terra.29 os pressupostos irrenunciáveis, necessários à ins-
tauração do povo de Deus, encontra-se o de que
Kant deixa inequivocamente claro ser essa a
a humanidade deixe para trás, em primeiro lugar,
exigência da razão prática em relação ao convívio
o estado natural global, ou seja, o estado natural
da humanidade, e seu discernimento vem ga-
jurídico internacional. Constituir uma ordem do
nhando, desde então, atualidade sempre maior.
direito público justo em nível mundial, capaz de
O único argumento contrário a essa exigência, do
recusar a guerra de modo duradouro e de alcançar
ponto de vista dos escritos kantianos sobre a paz
perpétua, é que os Estados de facto ainda se atêm à a paz por procedimentos democráticos, revela-se
antiga concepção do direito das gentes defendida algo imprescindível à luz do terceiro argumento
por Grotius, Pufendorf e Vattel, a qual não admi- do escrito sobre a religião, caso se pretenda che-
te restrição alguma à soberania de cada Estado in- gar à instauração de um povo de Deus sob leis éti-
dividual. Já que os Estados, de acordo com a sua cas. Assim como, da perspectiva do segundo ar-
idéia de direito das gentes, discordante da conce- gumento, o estado natural ético tem de ser aban-
pção kantiana de um novo direito regido pela paz donado, caso lhe anteceda a constituição de uma
entre os povos, negam-se a limitar sua soberania ordem jurídico-civil no Estado republicano, a ins-
para que predomine entre eles uma situação de tauração de um povo de Deus pressupõe, da mes-
paz incondicional, mediante a constituição de um ma forma, a constituição de uma ordem jurídica
direito global público, Kant requer o surgimento global, ou seja, internacionalmente válida. É essa
de, ao menos, uma liga dos povos “em lugar da 30 Ibid.
31 Para uma apreciação mais detalhada do assunto, cf., de minha auto-
28 Ibid., p. 355s. ria, LUTZ-BACHMANN, 1996, p. 25-44.
29 Ibid., p. 357. 32 Cf. HÖFFE, 1995.

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ordem que lança os fundamentos jurídicos para o democraticamente entre os Estados e situada
povo de Deus poder agir em consonância com acima deles em particular, essa hesitação termino-
suas obrigações morais, isto é, com as respectivas lógica parece secundária diante dos argumentos
obrigações que a humanidade tem em face de si sistemáticos empregados por Kant e da imensa
mesma e observadas pelo povo de Deus, segundo atualidade deles para a política internacional.
Kant, em razão das leis da virtude nele vigentes, No sentido do escrito kantiano sobre a religião, é
em decorrência de uma orientação interior. preciso exigir essa ordem cosmopolita a fim de
Incluem-se entre os pressupostos jurídicos que não pareça impossível a idéia da razão de um
desse ideal ético da humanidade, sob uma formu- povo de Deus vivendo sob as leis da virtude.
lação mais moderna, ao menos os direitos huma- A responsabilidade política precisa conclamá-la,
nos fundamentais e os procedimentos jurídicos tendo em vista os atuais processos de globaliza-
apropriados à sua imposição e preservação em ção e transnacionalização, mas convém ainda
âmbito global, mas também a constituição jurídi- fazê-lo da perspectiva da ética do direito, em
ca de uma ordem cosmopolita em que, de manei- nome da sobrevivência da humanidade como ex-
ra eficaz, se possa refrear a guerra como meio po- pressão de um comprometimento dela diante de
lítico. Se, na linguagem do próprio Kant, desig- si mesma. Em sentido kantiano, provavelmente
namos tal postulado de sua filosofia, como Repú- importa, hoje em dia, que a política dê passos
blica cosmopolita exigida pela razão moral, ou, firmes nessa direção e estabeleça um progresso
para evitar mal-entendidos, preferimos denomi- jurídico que se aproxime sempre mais da idéia
ná-la ordem jurídica pública global, constituída racional de uma República cosmopolita.

Referências Bibliográficas
BAUMGARTNER, M. “Gott und das ethische gemeine Wesen in Kants Religionsschrift: eine spezielle Form des
ethikotheologischen Gottesbeweises?” In: LUTZ-BACHMANN, M. (org.). Metaphysikkritik, Ethik, Religion.
Würzburg: Echter, 1995.
______. “Das ‘ethische gemeine Wesen’ und die Kirche in Kants ‘Religionsschrift’”. In: RICKEN, F. & MARTY, F. (orgs.).
Kant über Religion. Stuttgart: Kohlhammer, 1992.
HÖFFE, O. (org.). Immanuel Kant. Zum ewigen Frieden. Berlim, 1995.
KANT, I. (1793) Die Religion innerhalb der Grenzen der bloßen Vernunft. Berlim: Akademie Ausgarbe [AA], VI, 1902s.
______. Kritik der praktischen Vernunft. Berlim: Akademie Ausgarbe, V, 1902s.
______. Kritik der Urteilskraft. Berlim: Akademie Ausgarbe, V, 1902s.
______. Zum Ewigen Frieden. Berlim: Akademie Ausgarbe, VIII, 1902s.
LABERGE, P. “Das radikale Böse und der Völkerzustand”. In: RICKEN, F. & MARTY, F. (orgs.). Kant über Religion.
Stuttgart: Kohlhammer, 1992.
LUTZ-BACHMANN, M. “Kants Friedensidee und das rechtspolitische Konzept einer Weltrepublik”. In: LUTZ-
BACHMANN, M. & BOHMAN, J. (orgs.). Frieden durch Recht. Kants Friedensidee und das Problem einer neuen
Weltordnung. Frankfurt: Suhrkamp, 1996.

Dados do autor
Professor de filosofia na Universidade de Frankfurt (Alemanha)
e na Saint Louis University (Estados Unidos),
fundador do Instituto de Pesquisa sobre Filosofia da Religião,
em Frankfurt, e membro de vários comitês internacionais.

Recebimento do artigo: 24/set./04


Consultoria: 28/set./04 a 21/out./04
Aprovado: 19/nov./04

104 Impulso, Piracicaba, 15(38): 95-104, 2004


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Kant: sensus communis e


razão pública
KANT: SENSUS COMMUNIS AND
PUBLIC REASONING 1 1
Resumo Nos dois últimos anos ocorreu uma mudança repentina: a retórica da liber-
dade substituiu a linguagem dos direitos humanos. Que tipo de liberdade se alega nes-
sas declarações? Ela é uma nova mercadoria a ser exportada? Pode ser vendida a ou-
tros países como os hambúrgueres do McDonald’s? É algo a ser embalado, transpor-
tado, colocado no mercado e usado de maneira direta? O que significa realmente essa
mudança na oratória política? Para abordar a questão da liberdade de uma nova ma-
neira, revisito os argumentos de Kant sobre o uso da razão pública. Segundo ele, para
sermos livres, devemos ter um espaço público em que podemos aprender como pen-
sar por nós mesmos. Para fazer julgamentos bem-acabados em assuntos que dizem
respeito a todos nós, precisamos de conhecimento sobre os pensamentos de outrem.
Kant argumenta que proibir a livre expressão do pensamento em público reduz a li-
berdade de pensamento. Como pensar livremente, se não podemos comparar nossos
pensamentos com os dos outros? Depois de 11 de setembro de 2001, quando Bush
pediu apoio à sua guerra contra o terror, a opção ficou clara: ou você está conosco ou
está contra nós. Uma opção entre ou tudo ou nada. A mentalidade ampla do sensus
communis de Kant está infelizmente ausente nesse tipo de política.

Palavras-chave LIBERDADE – SENSUS COMMUNIS – RAZÃO PÚBLICA E PRIVADA –


LUBICA UČNÍK
MANEIRA MADURA DE PENSAR.
Murdoch University,
Perth/Austrália
Abstract Over the past two years, a sudden shift occurred: the rhetoric of freedom l.ucnik@murdoch.edu.au
replaced the language of human rights. What kind of freedom is invoked in these
proclamations? Is freedom a new commodity, which we can export? Can freedom be
sold to other countries as MacDonald’s hamburgers? Is freedom something that can
be packaged, transported, put on the market and used in straight forward way? What
does this shift in political oratory really mean? In order to approach the question of
freedom anew, I revisit Kant’s argument about the use of public reasoning. According
to Kant, in order to be free, we must have a public space where we can learn how to
think for ourselves. To be able to pass well-rounded judgments on matters
concerning us all, we require knowledge about the thoughts of others. Kant argues
that prohibiting free expression of thought in public curtails “freedom of thought.”
How can we think freely if we cannot compare our thoughts with those of others?
As Kant stressed throughout his writings, to think for oneself is paramount to
rejecting heteronomy. After 11 September 2001, when Bush called for support in his
war on terror, the option given was simple: either you are with us or you are against
us. An ‘all or nothing’ choice. The enlarged mentality of Kant’s sensus communis is
sadly missing in this kind of politics.

Keywords FREEDOM – SENSUS COMMUNIS – PUBLIC AND PRIVATE REASONING –


MATURE WAY OF THINKING.

1 Tradução do inglês para o português: NUNO COIMBRA MESQUITA (USP).

Impulso, Piracicaba, 15(38): 105-117, 2004 105


003114_imp38.book Page 106 Tuesday, June 14, 2005 7:43 PM

P
roponho, a seguir, uma reconsideração da condição humana, do
ponto de vista favorável das nossas experiências mais novas e
dos nossos temores mais recentes. Isso, obviamente, é uma
questão de consideração e inconsideração. O descuido negli-
gente, a confusão desesperançada ou a repetição complacente
de “verdades” que se tornaram triviais e vazias me parecem es-
tar entre as características notáveis de nosso tempo. O que su-
giro, portanto, é muito simples: nada mais do que pensar sobre
o que estamos fazendo.2

No último ano, uma mensagem radicalmente nova tem sido pas-


sada na mídia pública: estamos trazendo liberdade aos iraquianos oprimi-
dos por um ditador cruel. Uma mudança repentina ocorreu; a retórica da
liberdade substituiu a linguagem dos direitos humanos. Que tipo de
liberdade se alega nessas declarações? É uma nova mercadoria a ser ex-
portada? A ser vendida a outros países, como os hambúrgueres do
McDonald’s? É algo que possa ser embalado, transportado, colocado no
mercado e usado de maneira direta? O que significa realmente essa mu-
dança na oratória política?
A liberdade é, obviamente, o problema sobre o qual Kant e outros
iluministas estavam tentando pensar, quando a velha ordem dominada
por reis hereditários entrou em colapso. Duzentos anos depois, Jean-Paul
Sartre ainda alegaria que estamos condenados a ser livres. De acordo com
Kant, a liberdade não pode ser dada ou imposta às pessoas. Ela não é uma
propriedade: as pessoas são livres ou não são. A liberdade não é algo que
se possa ou não ter. As pessoas devem aprender a ser livres. Como elas
podem fazer isso? Kant afirma que a única maneira de se aprender a ser
livre é rejeitar a heteronomia, ao se aprender a pensar por si mesmo. So-
mente na livre comunicação com outras pessoas, tornamo-nos capazes de
aprender a pensar por nós mesmos, sem ordens heterônomas, por mais
bem-intencionadas que elas possam ser. Hannah Arendt chama esse tipo
de pensamento de pensar sem muletas. Apenas quando podemos respon-
der por nossos próprios pensamentos, somos livres e responsáveis por
nossas ações.3
Neste artigo, considerarei o argumento de Kant sobre o assunto da
maneira madura de se pensar, da razão pública e do sensus communis.
A ênfase de Kant na responsabilidade do público letrado para julgar os even-
tos do mundo é mais relevante agora do que em sua época. Ele insiste em
que precisamos de um espaço público não só destinado a expor nossas
idéias a outrem, para haver mais escrutínio público, mas também a fim de
descobrir idéias de outras pessoas, de modo a aprender como pensar li-
vremente por nós mesmos (uma maneira madura de pensar), sem pres-
crições da Igreja ou da tradição, sem questionamento da comunidade em
que vivemos. Como pensar livremente, sem comparar nossos pensamen-
tos com os de outras pessoas e deixá-las compartilhar as nossas idéias?

2 ARENDT, 1998, p. 5. Agradeço a Sue Ashford por suas críticas valiosas de versões anteriores deste artigo.
3 Cf., por exemplo, ARENDT, 1978; 1984; 1989 e 1994.

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De acordo com Kant, entender a liberdade de só é possível julgar e agir livremente numa soci-
pensamento no modelo de um indivíduo que edade em que diferentes opiniões são permitidas.
pensa dissociado de outras pessoas é não com- Ele também sugere que “não há justiça (a ser
preender a natureza da liberdade e da cultura pú- concebida apenas como publicamente conhecível)
blica. A proibição da livre expressão pública de e, portanto, nenhum direito”, se esse não for de-
idéias diminui a liberdade de pensamento.4 Sua li- finido pelo atributo formal da publicidade.8 Hoje
berdade de pensamento é uma quimera, se você em dia, mais do que nunca, precisamos saber so-
não tem condição de trocar livremente suas bre outras pessoas e seus modos de vida. Nunca
opiniões com outras pessoas. como agora o público letrado pôde acessar infor-
É comum a presunção de que argumentar mação em tão grande escala. Entretanto, como
sobre a liberdade de pensamento num espaço pú- vimos recentemente, a liberdade de pensamento
blico é domínio da filosofia política. Arendt deu não é uma coisa natural.
palestras sobre a filosofia política de Kant que ele KANT
nunca escreveu, como ela diz, sublinhando a O julgamento é dotado de certa validade específica,
alegação de Hans Saner de que os escritos políti- mas nunca é universalmente válido. Suas alegações de
cos do filósofo alemão representam apenas de validade nunca podem se estender mais do que ou-
um e meio a cinco por cento de todo o seu tra- tras em cujo lugar a pessoa que julga se pôs para suas
balho, dependendo de como definimos o adjetivo considerações. O julgamento, diz Kant, é válido
político.5 Entretanto, argumento que os escritos “para cada pessoa”, mas a ênfase da frase é no “jul-
de Kant são relevantes para a política, já que ele se gar”; não é válido para aqueles que não julgam ou
preocupa com a maturidade de nosso pensamen- para aqueles que não são membros do domínio pú-
to e com o uso da razão pública, ou, como diría- blico no qual aparecem os objetos de julgamento.9
mos hoje, da livre expressão. Ele associa tais Precisamos perguntar: o escrito de Kant é a
noções com o conceito de sensus communis. Para contemplação de um filósofo preocupado com
Kant, o sensus communis não é um conhecimento idéias separadas de acontecimentos políticos ou o
sedimentado ou internalizado, codificado na ma- pensamento kantiano, no que diz respeito à po-
neira intolerante tradicional de pensar que se lítica, é mais uma tentativa de erguer um protó-
transmite categoricamente. Esse quadro de uma tipo imutável da República? Kant está preocupa-
tradição já está permeado no entendimento ne- do em construir torres altas de modelos políticos
gativo de uma comunidade e de seu modo de vi- ou concentra-se no fluxo de eventos políticos de
da, privilegiando a concepção do indivíduo que seu tempo? Conhecemos o papel do rei filósofo,
supostamente pode transgredir tudo o que é in- que alega compreender como a forma política
tolerante e sedimentado na forma compartilhada ideal deve ser. Sabemos muito menos sobre a ne-
de viver, por meio de sua capacidade de racioci- gação kantiana explícita desse sonho. Para Kant,
nar. Ele afirma que a razão “é necessariamente a idéia de que reis deveriam filosofar ou de que
exercida num contexto social”.6 A fim de fazer filósofos deveriam governar é absurda, pois “a
julgamentos bem-acabados sobre assuntos que posse do poder inevitavelmente corrompe o livre
dizem respeito a todos, precisamos de conheci- julgamento da razão”.10 Ele insiste que governar
mento sobre os pensamentos de outras pessoas, é função do administrador, ao passo que o papel
porque não somos átomos livres flutuantes vi- do filósofo é engajar-se criticamente com idéias.
vendo sós nesse mundo. É precisamente o enten-
dimento atomístico da sociedade que Kant ques- 7 Em seu último trabalho não publicado, o “Opus Postumum”, a
tiona.7 Portanto, o sensus communis garante que recusa de Kant da versão atomística do universo o levou a afirmar o
sujeito autopostulado que tem direitos e vive em comunidade com
outros no mundo. Cf. KANT, 1995.
4 KANT, 1991b, p. 247. 8 Idem, 1991a, p. 125.
5 Cf. ARENDT, 1989; SANER, 1973, p. 1-4. 9 ARENDT, 1968, p. 221.
6 REISS, 1991, p. 256. 10 KANT, 1991a, p. 115.

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Certamente, se você for um jurista, e precisar de fato, até mesmo seu veto”.14 Entretanto, para
aplicar a lei positiva em determinados casos, não discutir opiniões diferentes, os cidadãos carecem
poderá questionar a validade da legislatura. É res- de um espaço público livre da censura. Kant ar-
ponsabilidade do pensador crítico abstrair esses gumenta que um dos aspectos mais importantes
casos, refletindo, assim, sobre todo o sistema ju- do iluminismo é o reconhecimento de que a pos-
rídico. Já o papel do intelectual é sugerir novos sibilidade de um espaço livre no qual pensadores
procedimentos para a legislatura. diferentes podiam apresentar e debater várias
Kant acredita que a separação entre as deli- idéias entre si e o público letrado era condição
berações teóricas e as práticas pode resolver-se sine qua non à liberdade. Dessa forma, muitos dos
pela aplicação do julgamento são.11 Para tanto, escritos kantianos foram publicados em um jor-
deve haver a garantia de um espaço livre no qual nal, o Berlinische Monatschrift. Para ele esse é o es-
novas idéias possam ser discutidas. Já na primeira paço no qual se deve usar a razão pública. E como
Crítica, Kant fala do dever de cidadãos livres de ele entende tal conceito?
avaliar criticamente alegações exageradas da ra- Em novembro de 1784, responde assim à
zão. Somos todos seres humanos racionais, en- questão “Was ist Aufklärung?”, feita pelo editor
tão, ele nos pede ajuda enquanto questiona os li- do Berlinische Monatschrift: “o iluminismo é o
mites da razão. No começo da primeira Crítica, despertar do homem de sua imaturidade auto-
reconhece a necessidade de outras pessoas para incorrida”. De acordo com ele, a máxima do ilu-
ajudá-lo com suas idéias. Espera que seu leitor minismo é sapere aude! ou, como explica, “ter a
seja tolerante e imparcial como um juiz e auxilia- coragem de usar sua própria razão!”.O aspecto
dor como um assistente.12 Para ele, portanto, a crí- importante para Kant não é uma falta de razão –
tica da razão não é a preocupação de um filósofo todos temos capacidade para a razão –, e sim a
solitário que legislará para todos em segregação, preguiça e covardia de muitos em dispor da tutela
mas uma crítica a ser exercida por todos. A hipér- vitalícia. É mais fácil seguir os outros, em vez de
bole da razão diz respeito a todos nós. Ao final da usar a própria capacidade de raciocinar. Parecidos
primeira Crítica, depois de detectar o caráter pre- com o gado doméstico que não sabe viver à solta,
tensioso da razão, lamenta que os debates sobre os homens também têm medo de dar um único
as alegações autoconvencidas tenham demorado passo em direção à liberdade. Dependem de livros
tanto: se “a disputa fosse conduzida mais cedo e para dizer o que e como pensar, do sacerdote para
com uma permissão pública ilimitada”, então, assegurar sua correta observância da conduta mo-
“uma crítica madura teria se estabelecido muito ral, do nutricionista para prescrever o regime cor-
mais cedo”.13 Para prevenir uma repetição do ex- reto para seus corpos. Podem comprar com di-
cesso de confiança da razão, cidadãos livres – isto nheiro tudo o que desejam, sem a necessidade de
é, nós – deveriam manter o processo da crítica per- pensar. De modo parecido, em assuntos políticos
pétua da razão para sempre mantê-la em seus li- dependem, sem questionar, de estatutos e fórmulas
mites legais. Kant especifica que “a própria exis- da legislatura do Estado. Mesmo no caso de uma
tência da razão jaz nessa liberdade [de crítica]. revolução, simplesmente dão à volta e adotam
Pois a razão não possui autoridade ditatorial e seu outro conjunto de regras, pois “novos preconcei-
pronunciamento não é mais do que o acordo tos servem tão bem quanto os velhos para subor-
entre cidadãos livres, em que cada um deve ser dinar massas irrefletidas”.15 Arendt, de maneira
capaz de, sem se conter, expressar seus receios e, análoga, demonstra que a recusa das pessoas em
pensar independentemente da propaganda oficial
11 Cf. Idem, 1992. Arendt argumenta que uma diferença entre Marx e
ajudou o partido nazista a ganhar, manter o poder
Kant está em considerar a ligação entre a teoria e a prática. Para Marx, a
teoria leva à prática, ao passo que, para Kant, tal relação acontece medi-
ante julgamentos feitos por espectadores. 14 Ibid., A 738-9/B 66-7 (o texto entre colchetes consta na tradução de
12 KANT, 1996b, p. XXI. Werner Pluhar).
13 Ibid., A 747/B 75. 15 Idem, 1959, p. 83-84.

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e estabelecer o Terceiro Reich.16 É a “inconside- particular, devendo desenvolvê-la passivamente,


ração – o descuido negligente, a confusão deses- isto é, de acordo com os desejos do empregador.
perançada ou a repetição complacente de ‘verda- No caso de um empregado, “o argumento certa-
des’ que se tornaram triviais e vazias” a impedir as mente não é permitido – deve-se obedecer”. Para
pessoas de obter (ou assegurar) a liberdade.17 Kant, todos os que trabalham estão realmente
A liberdade, no entanto, não é difícil de re- executando as ordens de outrem. Nessa instân-
alizar-se, se as pessoas apenas se atreverem a pen- cia, devem obedecer; do contrário, o trabalho não
sar. Se aprenderem a usar sua razão livremente, sairia e seria impossível atingir os fins públicos
serão capazes de rejeitar a heteronomia, de pensar necessários.24
por si mesmas criticamente e também de oferecer É diferente quando não se está trabalhando.
novas idéias ao governante. Afinal de contas, para Nesse âmbito, torna-se crucial refletir sobre idéias
Kant, é dever do cidadão argumentar para a “co- que se deve utilizar na condição de empregado.
munidade inteira ou uma sociedade de cidadãos Como diz Kant, no domínio público “não pode
do mundo”.18 De fato, todos deveriam ser “livres haver nada mais terrível do que as ações de uma
para fazer uso da razão em matéria de consciên- pessoa (...) postas sob a vontade de outrem”.25
cia”.19 Proibir o uso da razão pública é “ferir e Nesse sentido, num local público, é preciso ser
maltratar os direitos da humanidade”.20 Um mo- capaz de usar livremente o poder de raciocinar.
narca, “mesmo que seja esclarecido, não tem O intelectual tem o dever público de avaliar criti-
medo de sombras” e permite o intercâmbio pú- camente o material utilizado no ensino pelo profes-
blico de idéias.21 Kant defende que a maturidade sor que é empregado. Deve examiná-lo para me-
da razão está associada ao uso público da razão, lhorar não somente o currículo da escola, por
ou, como se diz atualmente, à livre expressão. exemplo, mas também para aconselhar o gover-
nante a respeito de melhores leis públicas. Sapere
É diferente quando Kant considera o uso
aude! Atrever-se a pensar! Kant explica que o
privado da razão. Como podemos entender a
“uso público da razão deve sempre ser livre”, por-
noção de Kant sobre a razão privada, quando ele,
que é precisamente a possibilidade de questionar
concordando, afirma que o monarca iluminado
a razão que, “sozinha, pode trazer o iluminismo
deveria dizer: no domínio público, “argumente o entre os homens”.26 Conseqüentemente, o uso
quanto quiser e sobre o que quiser”, mas, quando da razão pública é uma responsabilidade política
estiver cumprindo uma ordem do empregador, de primeira ordem.
“somente obedeça!”?22 De acordo com Kant,
Ao que parece, ele devia saber isso bem.
você utiliza sua razão de modo privado quando
A liberdade de publicar diminuiu severamente
passa a ser um servidor público, um sacerdote ou
após a morte de Frederico, o Grande, em 1786.
a fazer parte do exército. Em O Conflito das Fa- O rei seguinte, Frederico Guilherme II, religioso
culdades, clarifica que, quando os intelectuais en- fanático, introduziu uma censura rígida, visando
sinam, são ferramentas do governo e têm de adotar especialmente os pensadores iluministas. Um de
o material da universidade e sujeitar-se à censura seus alvos foi Kant. Uma carta do maior adver-
das faculdades.23 Não podem simplesmente ensi- sário do iluminismo, Wöllner, o novo censor
nar o que quiserem. Também explica que, no em- prussiano, escrita em nome do imperador e data-
prego pago, você é designado para uma tarefa da de primeiro de outubro de 1794, foi enviada a
16 Cf., por exemplo, ARENDT, 1994, p. 740.
Kant. Ela falava do grande desprazer em relação ao
17 Idem, 1998, p. 5. abuso de Kant na filosofia para “distorcer e
18 KANT, 1959, p. 87.
19 Ibid., p. 91.
afrontar muitos dos ensinamentos básicos e car-
20 Ibid., p. 90.
21 Ibid., p. 91-92. 24 Idem, 1959, p. 87.
22 Ibid., p. 92. 25 KANT apud LADD, 1999, p. XXIV.
23 Idem, 1992, p. 25. 26 KANT, 1959, p. 87.

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dinais das Sagradas Escrituras e do cristia- a perspectiva do governante para uma futura
nismo”.27 Wöllner acusou Kant de “irrespon- legislação. Trata-se do mesmo argumento usado
sabilidade” em seu “dever como professor da em “O que é o iluminismo”. Kant acredita que o
juventude”, já que seus ensinamentos não levavam “Caesar non est supra grammaticos”.33 O impera-
em conta o “propósito paternal” do imperador. dor sabe como governar, mas, para fazê-lo de ma-
A carta termina com um alerta sobre possíveis neira justa e sábia, precisa consultar pensadores,
repercussões, no caso de Kant falhar em observar em vez de apoiar o dogmatismo na religião. Para
o seu “dever”.28 ajudar as pessoas a obter a liberação da “tutela
Na resposta de Kant ao imperador, vê-se auto-imposta”, o dogmatismo – principal “obstá-
que a divisão, defendida por ele, entre a razão pú- culo ao iluminismo geral” – deve ser erradicado.34
blica e a privada não era uma fórmula vazia. Ele O próximo ponto – aparentemente em
sublinha que, em seu dever como professor da ju- contradição com esse último, porque posiciona
ventude, nunca expôs aos alunos suas críticas so- as pessoas contra os intelectuais – é a alegação de
bre a Sagrada Escritura e o cristianismo, e sempre que elas são incapazes de participar nos discursos
usou os textos de Baumgarten, livro padrão para deles. Pode-se alegar que Kant é elitista e propõe
as palestras da universidade.29 Enquanto ensina- a liberdade de pensamento apenas aos intelectuais.
va, observou rigidamente o uso da razão privada, Tal entendimento, entretanto, é questionável, se
entretanto, argumenta, intelectuais deveriam ter considerarmos a seguinte nota:
permissão de publicar livremente para “deixar Sou, por inclinação, um perseguidor da verdade.
que o governo saiba, pelos seus escritos, tudo o Sinto uma paixão consumidora pelo conhecimento
que consideram benéfico a uma religião pública e uma sede incansável de avançar sobre ele, bem
do país”.30 Isso não significa que, como “profes- como uma satisfação em cada realização. Houve
sor das pessoas”, seus escritos alguma vez te- um tempo em que acreditava que isso sozinho tra-
nham “ofendido o mais alto propósito paternal” ria honra à humanidade e desprezava as pessoas co-
do imperador, pela simples razão de que “o livro muns que não sabem nada. Rousseau me corrigiu.
em questão [A Religião nos Limites da Mera Ra- O sentimento ilusório de superioridade desapare-
zão] não é de maneira nenhuma adequado ao pú- ceu. Aprendi a respeitar pessoas comuns e deveria
me considerar muito menos útil do que um traba-
blico: para ele, é um livro ininteligível e fechado”
lhador comum, se eu não acreditasse que essa
e apenas relevante a “um debate entre intelectuais consideração, entre todas as outras, daria valor ao
da faculdade, ao qual o público não tem aces- estabelecimento dos direitos da humanidade.35
so”.31 Kant conclui, prometendo ao imperador
que não publicaria material sobre religião “duran- Na visão de Kant, os guardiões escolhidos
te o período de vida de Sua Majestade”.32 Portan- das pessoas devem primeiro tornar-se iluminados
to, naquele momento, ele renunciaria a seu direi- e só depois influenciá-las a livrar-se da tutela para
to ao uso da razão pública. começar a usar a razão madura. Isso não é fácil,
Existem aqui alguns pontos de interesse. pois até os guardiões precisam de iluminismo.
Primeiro, a separação rígida de Kant entre o uso Além do mais, nem todos eles querem desistir do
privado da razão, observado por ele como profes- dogmatismo ao lidar com as pessoas. É mais fácil
sor, e o direito de publicamente engajar-se em de- usar a ordem do que permitir a discussão, de
bate com outros intelectuais, a fim de influenciar modo a encorajá-las a pensar criticamente. Não é
simples renunciar à imaturidade, porque a liber-
27 Trata-se de “Prefácio” em KANT, 1992, p. 11. dade amedronta os guardiões tanto quanto as
28 “Falhando, você deve esperar medidas desagradáveis, por sua obsti-
pessoas. Quando, no entanto, se permite o livre
nação continuada” (Ibid., p. 11).
29 Ibid., p. 13.
30 Ibid. 33 Idem, 1959, p. 88.
31 Ibid., p. 15. 34 Ibid.
32 Ibid., p. 19, nota. 35 KANT apud LADD, 1999, p. XXIII-XXIV.

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pensamento em debates públicos, ele “gradual- Ao acordar no meio da noite, posso me orientar
mente age sobre o caráter das pessoas, que, dessa pelo quarto, se usar o tato pelo caminho. Mais
forma, passo a passo, se tornam capazes de lidar uma vez, oriento-me de acordo com meu corpo,
com a liberdade”.36 Todos os governos se bene- meu lado direito e esquerdo, e estimo as distân-
ficiarão, se as pessoas se tornarem maduras, pois cias entre diferentes objetos de acordo com a mi-
é do interesse deles “tratar os homens, que são nha lembrança deles. 3. Agora, se estendermos
mais do que máquinas, de acordo com a sua dig- essas duas experiências espaciais para o nosso
nidade”.37 pensamento, temos o que Kant chama de orien-
A maturidade e os usos públicos da razão tação lógica. Não podemos depender de dados no
são interdependentes. Primeiramente, a liberdade céu ou no nosso quarto, os quais sentimos ao en-
dos intelectuais de refletir sobre idéias e de exa- contrar nosso caminho. No pensamento, deve-
miná-las criticamente é domínio do uso público mos ser “guiados, em [nossa] convicção da ver-
da razão; outro aspecto é o uso da razão madura, dade, por um princípio subjetivo da razão em que
que deveria ser exercida por todos. Esses dois la- princípios objetivos da razão são inadequados”.42
dos de um problema são chamados por Kant de Precisamos nos orientar conforme a razão re-
iluminismo.38 A crítica deve ser sempre pública e fletiva, considerada por Kant em sua terceira Crí-
fundada na razão madura. Porém, como pode- tica. A questão é que, no caso da razão pública,
mos nos propor a pensar, sem a orientação de ou- nossa singularidade está em jogo. Devemos julgar
trem ou da tradição? Em “Was heißt: Sich im o mundo enquanto não há nenhum princípio
Denken?”, Kant considera a questão de usarem- geral, nem puro nem objetivo, para nos guiar.43
se conceitos “que não são, de outras formas, de- Esse é o motivo pelo qual o uso refletivo da razão
rivados da experiência”.39 Como empregá-los no adquire significado político.44 Portanto, o sensus
mundo experimental?40 Ou como pensar sem a communis é a resposta de Kant não só para o que
ajuda de outrem? Para exemplificar, Kant reflete é orientação no pensamento, mas também para a
sobre tal orientação de três maneiras distintas: nossa particularidade.
geográfica, matemática e lógica. 1. “Me oriento SENSUS COMMUNIS
geograficamente” no mundo, “puramente pelos Em Antropologia em Sentido Pragmático,
meios de uma distinção subjetiva”. Sei que quan- Kant primeiramente explica o sensus communis
do estou de frente para a alvorada, à minha frente de forma negativa, ao considerar uma disposição
está o leste, atrás o oeste e que à minha direita louca.45 Após descartar singularidades como “o
está o sul e, à minha esquerda, o norte. Estou dândi” e sua tolice viajante, ou um místico que
sempre subjetivamente interpretando os dados “acredita ser abençoado ou assobrado”, ele diz
objetivos no céu, isto é, só posso me orientar ge- que a “única característica geral da insanidade é a
ograficamente em relação ao meu corpo. Depen- perda do sentido de idéias comuns a todos
dendo da posição deste, posso dizer que à minha (sensus communis)”. A pessoa, cuja disposição
direita está o leste, pois estou de frente para o mental é afetada, não pode ver o mundo como o
norte. 2. Posso me orientar “em um sentido pu- resto de nós o experimenta. Conseqüentemente,
ramente matemático” quando estou em determi- a orientação no pensamento e, portanto, na co-
nado lugar.41 O exemplo de Kant é de um quarto municação é impossível. Kant, então, caracteriza
escuro. Como posso me orientar, se não posso ver?
42 Ibid., p. 240, nota.
36 KANT, 1959, p. 89-90. 43 Existem duas abordagens ao pensamento, uma teórica e outra prá-
37 Ibid., p. 90. tica. A primeira Crítica de Kant lida com a razão teórica ou pura, ao
38 Michel Foucault caracteriza o Iluminismo como “o modo da relação passo que a segunda considera a moralidade e a liberdade. É diferente
reflectiva ao presente”. Cf. FOUCAULT, 1984, p. 44. quando consideramos a razão pública na qual a nossa singularidade
39 KANT, 1786, p. 304-330. está em jogo.
40 Idem, 1991, p. 237. 44 Cf. ARENDT, 1989.
41 Ibid., p. 239. 45 KANT, 1996a.

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o termo positivamente: o sensus communis é uma sal (a regra) chama-se julgamento” e “a faculdade
“pedra de toque subjetivamente necessária da de aplicar o universal ao particular denomina-se
correção de nosso julgamento”.46 Apenas com- inteligência (ingenium)”.49 As regras não podem
parando “o nosso entendimento ao de outrem”, ser dadas exaustivamente. O manual de oficiais
podemos verificar “a sanidade de nosso entendi- seria impossível de manusear. Cada oficial deve
mento”. Não existe a possibilidade de comunica- ter a capacidade de se orientar em instâncias es-
ção pública, se utilizarmos somente algum tipo pecíficas, considerando cada evento e julgando
de experiência privada, considerado meramente casos não contemplados pelas regras existentes.
subjetivo na terceira Crítica. Como diz Kant, ao Outro exemplo de Kant diz respeito à nossa po-
“nos fecharmos dentro de nossas experiências”, sição moral no mundo. No caso de um leigo, o
só podemos “fazer quase-julgamentos públicos, uso da razão madura é especialmente importante.
apoiados meramente em nossas próprias idéias”. No âmbito da moral, “todo homem deve respon-
Entretanto, Kant está preocupado, sobretudo, der por todos os seus atos”.50 Seguir as prescri-
com o nosso mundo comum. Qualquer expe- ções de um sacerdote cegamente é recusar não só
riência divorciada do modo comum de viver é a razão moral, mas também a maturidade racio-
irrelevante (se possível). Além do mais, se a lou- nal. Todos devemos tomar nossas próprias deci-
cura significa a falta do sensus communis, impe- sões morais, sem depender de preceitos que nos
dindo, assim, a comunicação, ocorre a mesma são dados por outrem.
coisa com a censura. Para ele, loucura e censura se
A maturidade de pensamento subscreve a
parecem. Quando um governo arbitrariamente
razão pública, porém, não se reduz a ela. Precisa-
bane certos livros, o resultado é uma remoção do
mos tomar decisões e julgamentos o tempo todo.
“maior e mais útil meio de corrigir nossos pró-
Para Kant, na Antropologia, a maturidade signi-
prios pensamentos”. Livros e periódicos assegu-
fica sabedoria que “precisa crescer do próprio ser
ram que saibamos o que outras pessoas pensam e
do homem”.51 Ele afirma que o Iluminismo ini-
que possamos publicamente participar nesse in-
ciou a “revolução mais poderosa originada de
tercâmbio intelectual, de modo a ver se os nossos
dentro do homem” e define a maneira madura de
pensamentos estão de acordo “com o entendi-
pensar semelhantemente ao “O que é o Iluminis-
mento de outrem”.47 A razão pública depende da
mo”: a “partida do homem de sua tutela auto-
maturidade de nosso pensamento, e vice-versa.
imposta”.52 Mais uma vez, a rejeição da hetero-
A razão madura também é importante em
nomia pelo homem – “simplesmente imitar ou
nossa vida cotidiana. Kant insiste que um soldado
permitir que seja guiado por outrem” – significa
deve seguir o comando de um oficial; este, por
sua vez, responsável por outrem, também tem de 49 Ibid., § 44, p. 201 [p. 96].

saber por que está emitindo determinado comando. 50 Ibid., § 43, p. 200 [p. 94-95].
51 “1. Pense por si mesmo; 2. (comunicando-se com outras pessoas)
Aqui, o uso da razão madura é absolutamente ne- ponha-se no lugar delas; 3. sempre pense permanecendo fiel ao seu
cessário, “pois instruções não podem ser dadas próprio ser” (Ibid., § 43, p. 200 [p. 95]). Mais tarde, na Antropologia,
ele descreve as “leis imutáveis do pensamento” que guiam “a classe dos
para cada caso que possa surgir”, portanto, um pensadores” como: 1. pense independentemente; 2. (comunicando-se
com outras pessoas) ponha-se em pensamento no lugar delas; 3. sem-
oficial deve ser capaz de usar seu julgamento em pre pense em harmonia com o seu próprio ser” (ibid., § 59, p. 228-9
cada instância particular, de acordo com as cir- [p. 128]). Temos aqui uma tensão entre o entendimento comum – que,
para Kant, “não reivindica nem inteligência nem intensidade; ambas
cunstâncias.48 Como explica Kant, “a faculdade fornecem um tipo de luxo da mente, em que o entendimento comum
de descobrir o particular e relacioná-lo ao univer- e são limita-se ao verdadeiramente necessário” – e buscas intelectuais
de uma classe especial, isto é, os pensadores (§ 44, p. 201 [p. 96]). Essa
oscilação kantiana entre designar a razão madura a um pensador ou a
46 Ibid. uma pessoa comum na rua fica evidente em muitas passagens de
47 Ibid., § 53, p. 219 [p. 117]. Antropologia. Nela, aparentemente, o pensador é privilegiado.
48 Ibid., § 43, p. 200 [p. 94]. 52 Ibid., 1996a.

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que “ele agora se atreve a prosseguir, mesmo de lhamos. Em comunidade com outras pessoas,
maneira incerta, com seus próprios pés sobre o participamos e, ao mesmo tempo, moldamos esse
chão da experiência”.53 senso comum, descrito por Kant como: “1. pen-
Na Lógica, do mesmo modo, após explicar sar por si mesmo; 2. pensar do ponto de vista de
que um “marco externo ou uma pedra de toque ex- todas as outras pessoas e 3. sempre pensar con-
terna da verdade é a comparação de nosso julga- sistentemente”.60 Assim, levando-se em conta o
mento com os de outrem, porque o que é subjetivo espaço político, a idéia kantiana de sensus commu-
não se estende assim a todos os outros”,54 Kant nis é importante. De acordo com ela, cabe pensar
insiste que somente comparando nossos pensa- independentemente (pensar por si mesmo), bem
mentos com os de outrem, podemos chegar a um como adotar mentalmente os pontos de vista de
entendimento comum. Ainda que não devamos outrem, ao considerar assuntos públicos (menta-
descartar nosso julgamento imediatamente, a “irre- lidade ampla) e sempre persistir com os próprios
conciliabilidade dos julgamentos” entre o meu e o julgamentos (pensar consistentemente).
de outrem deve ser usada como “um marco externo Vale a pena dizer aqui que, para Arendt, a
de erro e considerada uma indicação” de que é ênfase de Kant no conceito da não contradição
preciso inspecionar os próprios “procedimentos não é o sensus communis logicus,61 e sim uma ne-
de julgamentos, sem, entretanto, descartá-los ime- cessidade constante de pensar “em harmonia
diatamente”.55 Para ele, a razão madura significa consigo mesmo”, denominada “maneira de pen-
examinar os próprios pensamentos, pois “pode-se sar consistente ou conclusiva”.62 Arendt usa um
estar certo in re e somente errado na maneira, isto exemplo de Sócrates para esclarecer seu ponto
é, na apresentação”.56 Nesse sentido, “o entendi- de vista, recontando diálogos platônicos. Falando
mento comum (sensus communis) em si também ao político Cratylus, Sócrates medita sobre o seu
é uma pedra de toque para descobrir os erros do modo de viver. Ele diz que, na Assembléia,
(...) entendimento”.57 quando o demos ateniense não concorda com
Finalmente, sua terceira Crítica afirma que Cratylus, não há problema para este em mudar
“o entendimento humano comum, simplesmente seu posicionamento e suas opiniões a qualquer
o entendimento são do homem ([mas] não ainda hora, de acordo com as vontades das pessoas.
cultivado), é considerado como o mínimo a ser Comporta-se de maneira semelhante com a sua
esperado de qualquer um que reivindique o nome amante. Sócrates surpreende-se que Cratylus não
de ser humano”.58 Nós todos, como seres huma- se incomode com o fato de, às vezes, seus pro-
nos singulares, possuímos o senso comum, “a nunciamentos se contradizerem um ao outro,
posse do qual não envolve nem mérito nem su- pois ele está acomodando aqueles à sua volta, em
perioridade”.59 Portanto, o sensus communis sig- vez de ser consistente com suas próprias crenças.
nifica simplesmente que todos nós o comparti- Ao contrário, diz Sócrates, os pontos de vista
dele são consistentes. Se necessário, Sócrates
53 Ibid., § 59, p. 229 [p. 129].
54 Idem, 1988.
prefere estar “fora de tom e dissonante” em rela-
55 Ibid, 1988, p. 62-63.
56 Ibid., p. 63. 60 “A primeira é a máxima de uma maneira de pensar sem preconceitos, a
57 Ibid., p. 63. Kant retoma sua consideração sobre como podemos nos segunda, de uma maneira ampliada, e a terceira, de uma maneira consis-
orientar no pensamento “quando o entendimento comum é usado tente” (ibid.). E mais: “a primeira é a máxima de uma razão que nunca é
como um teste para julgar a correção do entendimento especulativo”. passiva. A propensão a uma razão passiva e, portanto, a uma heterono-
Para ele, “a máxima de pensar por si mesmo pode ser chamada de mia da razão, é chamada preconceito. E o maior preconceito de todos é
máxima iluminada; a máxima de se colocar nos pontos de vista de a superstição, que consiste em pensar a natureza como não sujeita a
outrem, máxima ampliada; e a máxima de sempre pensar em harmonia regras, cujo entendimento, mediante sua própria lei essencial, estipula
consigo mesmo, maneira consistente ou conclusiva de pensamento” como a base da natureza. A liberação da superstição chama-se ilumi-
(Ibid., p. 63). nismo” (ibid., § 40).
58 Idem, 1987. 61 Como expõe Drucilla CORNELL (1999).
59 Ibid. 62 KANT, 1988, p. 63.

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ção a um coro que possa liderar, do que não estar privados e nossas vulnerabilidades, nos forçando a
em “harmonia consigo mesmo”, contradizendo aceitar uma nova tutela. Como argumenta Arendt,
aquilo que acredita.63 A explicação de Sócrates a o conceito de sociabilidade é a pressuposição kan-
Hippias é parecida. Como admite, quando volta tiana da nossa faculdade de julgamento humana.67
para casa, qualquer coisa que diga em público Apenas em comunidade com outras pessoas,
sempre passa pelo escrutínio do “estranho sujeito” podemos aprender sobre as opiniões de outrem e
que vive com ele – em outras palavras, ele mesmo. discutir questões de diferentes pontos de vista,
Para viver em paz consigo, é mais fácil ser con- rejeitando, assim, o dogmatismo e a tutela.
sistente e questionar cada alegação. Assim, quando CONCLUSÃO
chega a hora de Sócrates dialogar silenciosamente Tenho procurado sublinhar que o fio que pode nos
consigo mesmo, que Arendt chama de pensar, ligar ao iluminismo não é a fidelidade a elementos
não há inconsistência entre as crenças dele e seus doutrinários, mas a reativação permanente de uma
pronunciamentos públicos.64 atitude, isto é, de um caráter filosófico que poderia
Arendt denomina essa forma de pensamento ser descrito como uma crítica permanente de nossa
era histórica.68
de pensar sem muletas. Para ela, que teve de fugir
da Alemanha nazista, a questão é: por que tantas Concluindo, gostaria de voltar ao início
pessoas aceitaram sem questionamento o governo deste artigo. De que forma as noções de Kant so-
de Hitler? Por que não se opuseram a ele? Por que bre o pensamento maduro e o uso público da ra-
voltaram-se contra as máximas morais básicas e zão são importantes para a consideração da liber-
aceitaram o governo nazista assassino, revelando dade? Os protestos contra a guerra em escala glo-
“o significado original da palavra [moralidade] bal não poderiam ser vistos como minando esse
como um conjunto de morais, costumes e hábi- meu argumento? Parece que temos espaço para
tos, que poderiam ser trocados por outro, sem expressar idéias livremente nos programas de fo-
maior dificuldade, como se modificam os hábitos foca no rádio, na seção “Cartas ao Editor” dos
jornais ou na internet. Certamente, esse é o caso
à mesa de um indivíduo ou de um povo”?65
da razão pública livre, pensar sem muletas ou sem
Como explicar a mudança sem emendas da crença
um guia heterônomo. Afinal de contas, The New
“Amai ao próximo” à aprovação tácita das leis de
York Times anunciou que, após o fim da Guerra
Nuremberg, que reduziram os judeus ao status de Fria, ainda existem dois poderes no mundo: o
não-cidadãos na Alemanha nazista e abriram ca- poder militar estadunidense e a opinião pública.
minho para Auschwitz? Sua resposta é a inconsi- Alguns exemplos perturbadores podem ser sufi-
deração, esquecendo-se a máxima da mentalidade cientes para manifestar minha dúvida, ao consi-
ampla e a violação da lei da não-contradição. Não derar esse quadro colorido do pensamento públi-
como uma contradição lógica – que, claro, tam- co maduro livre. Apesar de algumas reservas ex-
bém é –, mas como contradição evidente no co- pressas marginalmente nas páginas ao editor, o
ração do sistema de valores da pessoa, ao mudar sentimento geral dos cidadãos australianos, me-
de um dia para o outro. O sensus communis, a dido pelos votos nas eleições de 2001, não ques-
“pedra de toque subjetivamente necessária da tionou as acusações contra mães jogando seus fi-
correção de nosso julgamento”,66 foi silenciado lhos de navios para “chantagear” o governo aus-
pela voz alta da propaganda oficial sempre dirigida traliano.69 Contra o senso comum sobre a natu-
à nossa singularidade, almejando nossos medos reza protetora da maternidade, esse novo
sentimento da imigração, como ameaça ao nosso
63 PLATO, 1997a, p. 481c-482c.
64 Idem, 1997b, p. 898-921 e 304b-e. Cf. também ARENDT, 1978. 67 ARENDT, 1989, p. 14.
65 Idem, 1994, p. 740. 68 FOUCAULT, 1997, p. 42.
66 KANT, 1996b. 69 Cf. “TRUTHOVERBOARD, 2002; PARLIAMENT, 2003.

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modo de vida, prevaleceu. O governo Howard communis como campo comum e pedra de toque
adotou a chamada solução pacífica.70 A noção de para descobrir os erros do entendimento.73
direitos humanos tornou-se irrelevante. A observação de Thomas Hobbes pode
Outra questão, talvez, seja a guerra com o ajudar. Antes de sua morte, em 1679, ele escreveu
Iraque. Apesar de protestos, o governo Howard que os pregadores, os monges e os poderosos não
apoiou o ataque preventivo de Bush. Uma exten- têm interesse em ensinar às pessoas o que lhes é
são dessa guerra contra o terror é a rasura silen- útil ou danoso. Ao contrário, interessa-lhes enfa-
ciosa de nossos direitos humanos básicos, entre tizar em quem as pessoas devem acreditar.74 Nas
eles, sem dúvida, o direito à razão pública livre. palavras de Kant, alguns guardiões preferem
Isso se justifica com o mantra de assegurar as reforçar a heteronomia no domínio público, de-
nossas liberdades, suponho, a liberdade do medo. sencorajando as pessoas a pensar por si mesmas.
Então, para nos livrarmos do medo, desistimos Como explica Stephen Holmes, a “fonte derra-
de todas as nossas liberdades. Não há um debate deira da autoridade política não é a coerção do
público aberto. E a questão é: como definir espa- corpo, mas a cativação da mente”.75 Essa tendên-
ço público, na era da proliferação de muitos lu- cia é reforçada pela mídia e pela retórica política
gares em que os cidadãos podem expressar suas atual, feita para persuadir as pessoas de modo a,
opiniões? Onde está aquele espaço no qual pode- sem questionamentos, subscrever as justificações
se comparar as próprias idéias com as de outrem?
dadas pelo líder, apesar de que, segundo Hobbes,
E no qual intelectuais debatem seu entendimento
“o poder dos poderosos não tem fundação a não
do que constitui um bom governo? Luc Ferry
ser na opinião e crença do povo”.76 O desmoro-
argumenta que, em nossa sociedade de consumo,
namento, em 1989, dos chamados países do socia-
a idéia de bem comum torna-se obsoleta.71 Ser li-
lismo real exemplifica a crença falsa da onipotên-
vre significa, de modo geral, ter liberdade de
cia do governo. No momento em que as pessoas
comprar o que se quer, empenhando-se pela feli-
percebem que o poder da administração depende
cidade singular a ser obtida por diferentes bens
adquiridos no mercado. O universo moral kanti- delas, o rei passa a ser visto pelo que é – “sem rou-
ano, em que a felicidade não pode ser o maior pas”. Em outras palavras, se as pessoas fossem en-
bem, pois é, por definição, singular a cada um, corajadas a pensar por si mesmas, teriam menos
torna-se irrelevante. Se isso é verdade, o desafio é propensão a, sem pensar, adotar a retórica dos po-
pensar o espaço público não como um lugar de derosos. Para Foucault, “deve-se recusar tudo o
expressão singular para certa pessoa. Essa é a de- que pode ser apresentado na forma de uma alter-
finição kantiana de loucura, sempre definida pela nativa simplista e autoritária, na forma de ‘ou/
singularidade e pela “perda de um sentido de ou’”.77 Como Kant sublinhou em seus escritos,
idéias comuns a todos”,72 incompatível com a pensar por si mesmo é fundamental para rejeitar
nossa forma de viver em comum. Precisamos a heteronomia. Depois de 11 de setembro de
pensar, mais uma vez, na possibilidade de enco- 2001, quando Bush pediu apoio à sua guerra con-
rajar a habilidade de pensar por nós mesmos, tra o terror, a opção dada foi simples: ou você está
comparando os nossos pensamentos com os de conosco ou está contra nós. Uma escolha entre
outros, de maneira consistente. Usando o sensus ou tudo ou nada. Infelizmente, a mentalidade am-
pla do sensus communis de Kant está ausente nes-
70 NT: o episódio a que se refere o texto ocorreu em 2001, na Austrália,
se tipo de política.
quando a Marinha desse país abriu fogo contra um barco da Indonésia
lotado de refugiados iraquianos para tentar forçá-lo a deixar as águas
australianas. Crianças foram jogadas na água para que a marinha aus- 73 Idem, 1988, p. 63. Para uma leitura diferente sobre a modificação dos
traliana as resgatasse. A solução pacífica foi a decisão do governo de dar códigos da comunicação, cf. BADIOU, 2001, p. 70.
dinheiro a ilhas do Pacífico para elas ficarem com refugiados, em situa- 74 HOBBES, 1990, p. 16.
ções como essa. 75 HOLMES, S. “Introduction”, in HOBBES, 1990, p. XI.
71 Cf. FERRY, 2002. 76 Ibid., p. 16.
72 KANT, 1996a. 77 FOUCAULT, 1997, p. 313.

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Dados da autora
Doutora em filosofia e docente na
Murdoch University, Western Australia.
Membro do Conselho da Sociedade
para o Pensamento Europeu Aplicado.

Recebimento do artigo: 16/jul./04


Consultoria: 14/set./04 a 13/out./04
Aprovado:19/nov./04

Impulso, Piracicaba, 15(38): 105-117, 2004 117


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Resenhas & Impressões


Reviews & Impressions
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Sobre Kant e a Pedagogia


ON KANT AND PEDAGOGY
Sobre a Pedagogia
de IMMANUEL KANT. Trad. Francisco Cock Fontanella.
Piracicaba: Ed. UNIMEP, 2002, 4.ª ed., 107p. ISBN 85-85541-17-2

N
ão se pode falar da filosofia moderna sem mencionar o
nome de Immanuel Kant (1724-1804), em razão da re-
levância e do impacto de seu pensamento no desenvol-
vimento do conhecimento ocidental. O conjunto de
sua obra tem por método a crítica, ou melhor, a análise
reflexiva e que consiste em remontar do conhecimento
as condições que o tornam eventualmente legítimo.
Fruto da maturidade intelectual de seu autor, as principais obras do criti-
cismo kantiano e um dos eixos centrais de suas formulações são: a Crítica
da Razão Pura (1781), a Crítica da Razão Prática (1788) e a Crítica da
Faculdade de Julgar (1790). Suas teses foram consideradas causadoras de
uma revolução copernicana.
Assim como Nicolau Copérnico anunciou que a Terra gravitava em
torno do Sol, e não o contrário – como se acreditava na época –, Kant, HELOISA HELENA
LIRA DE SOUSA
em seu livro Crítica da Razão Pura, desenvolvido como um estudo sobre
Programa de Pós-Graduação
os limites do conhecimento, enuncia, inversamente ao discurso de seu em Educação, UNIMEP/SP
tempo, que o homem está destinado a conhecer somente aquilo que sua hellsou@terra.com.br
sensibilidade é capaz de apreender do objeto. Em outras palavras, que
nosso conhecimento é limitado pelas possibilidades de nossas capacida-
des receptivas e racionais.
Ao considerar o nosso conhecimento sobre os objetos como de-
pendendo de nossa sensibilidade, Kant estabelece uma ruptura
epistemológica sobre a lógica setecentista. É consensual a afirmação so-
bre o valor do pensamento kantiano para a filosofia moderna e também
para a atualidade; sua produção vai além das obras citadas acima e todas
merecem especial atenção na leitura.
Porém, buscaremos aqui um olhar sobre o pensamento pedagógico
kantiano, representado nos seus escritos do período de 1776/77, 1783/84
e 1786/87, produzidos para um curso de pedagogia ministrado por ele na
Universidade de Königsberg. Essas lições foram recolhidas por um estu-
dante, Theodor Rink, e publicadas em 1803. O texto, que em português
recebeu o título de Sobre a Pedagogia, surpreende pelo estilo conciso e
pela oscilação entre conselhos práticos e exposição de princípios. Uma
dica para quem quiser entendê-lo melhor é observar que muitos dos prin-
cípios ali expostos de forma sucinta são amplamente discutidos em suas

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outras obras, como a Crítica da Razão Prática e a Observando esse parágrafo, podemos dizer
Metafísica dos Costumes, entre outros. que Kant, mesmo acreditando e afirmando o valor
O que temos em Kant pedagogo é o sujeito da educação para o progresso da espécie humana,
moral como elemento principal da educação. Para não o faz de forma ingênua, pois, mais adiante em
compreender melhor suas reflexões sobre a pe- seu texto, cita que essa melhora depende da capa-
dagogia, observaremos as suas influências. Nesse cidade do homem de desenvolver suas disposi-
sentido, encontramos em Rousseau aquele que ções para o bem e que elas não estão prontas. O
vai inspirar Kant em sua concepção de infância e que irá transformar tais disposições é uma sólida
nos conselhos práticos para a primeira educação. formação moral; então, aqui reafirmamos que é o
Kant reafirma que, entre os cuidados com a edu- sujeito moral o alvo da educação para esse autor.
cação dos bebês, deve-se amamentá-los, posto que Kant entende também quão difícil é essa ta-
o leite materno é o melhor alimento (p. 37-38). refa: “A educação, portanto, é o maior e o mais
Ele aponta os malefícios do uso de faixas para os árduo problema que pode ser proposto aos ho-
infantes, considerando que essa prática serve mais mens” (p. 20). Assim, como responde a esse pro-
ao conforto dos pais e é prejudicial ao desen- blema? Fichte comentava que Kant era a razão
volvimento da criança, podendo causar defeitos pura encarnada, pois ninguém como ele viveu e
físicos (p. 45). defendeu a razão como o elemento pelo qual po-
O importante, nessas orientações, é que o deríamos alcançar o progresso. Nesses termos,
autor dialoga com hábitos de seu tempo e, assim, para ele somente uma educação pautada na razão
compõe o quadro de teóricos que falarão da infân- poderia ajudar os homens a desenvolver suas dis-
cia como uma etapa da vida que necessita de cuida- posições para o bem. “A arte da educação ou pe-
dos próprios e contrariamente à idéia de que a cri- dagogia deve, portanto, ser raciocinada, se ela
ança é um adulto em miniatura. Essa reflexão trans- deve desenvolver a natureza humana de tal modo
formou a educação dos séculos XIX e XX. As teo- que esta possa conseguir o seu destino” (p. 21).
rizações de Pestalozzi e Herbart foram fortemente
Outro ponto interessante de seus escritos
influenciadas pelas idéias de Kant pedagogo, como
também as de John Dewey. Esse último desenvol- traz a importância da formação dos formadores,
veu estudos sobre o pensamento kantiano. tanto pais quanto mestres. Eles devem receber
uma educação de qualidade para que possam
Em Sobre a Pedagogia, observamos a influ-
cumprir a tarefa educacional. Caso essa tarefa seja
ência dos princípios de Johann Bernhard Base-
realizada por pessoas despreparadas, a educação
dow, contemporâneo de Kant, que desenvolveu
um sistema de educação total e postulava o valor poderá levar à degradação dos avanços já con-
do trabalho na formação do homem. Ambos quistados. Ora, essa observação não poderia ser
acreditaram que é por meio do melhoramento da mais atual, quando olhamos o quadro geral da
educação que o homem irá também, progressiva- educação em nossos dias. Ela nos faz refletir so-
mente, atingir níveis de desenvolvimento cada bre a problemática da formação do professor.
vez mais altos. Encontramos a seguir a pedra an- No âmbito de seus princípios, Kant traz
gular do pensamento pedagógico de Kant: uma afirmação de relevância na organização dos
objetivos educacionais, ao afirmar que devería-
A educação é uma arte, cuja prática necessita ser mos orientar a educação sempre com vista a um
aperfeiçoada por várias gerações. Cada geração, de melhor estado possível da espécie humana no fu-
posse dos conhecimentos das gerações preceden-
turo. “Não se deve educar as crianças segundo o
tes, está sempre melhor aparelhada para exercer
uma educação que desenvolva todas as disposições presente estado da espécie humana, mas segundo
naturais na justa proporção e de conformidade com um estado melhor, possível no futuro, isto é, se-
a finalidade daquelas, e, assim, guie toda a humana gundo a idéia de humanidade e da sua inteira des-
espécie a seu destino. (p. 19) tinação” (p. 22).

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Nesse trecho, Kant revela um olhar atento kantiano: “Age apenas segundo uma máxima tal
ao papel da educação e à sua importância na for- que possas ao mesmo tempo querer que ela se
mação de uma sociedade melhor. A educação, nes- torne lei universal”. Dito de outra maneira: faça
se caso, deveria servir para criar no homem um somente aquilo que você admite como correto
compromisso com a melhoria da coletividade, para você e para os outros – nesse sentido, o au-
mesmo à custa de sacrifícios de desejos individu- tor reafirma a ética e o compromisso do homem
ais. O autor acredita que ela deva ser executada de como ser social.
maneira cosmopolita, o que significa que por meio Argumenta que a educação deve exercitar a
dela o homem pode vencer os limites de sua nação, aplicação desse princípio, de modo que as ações
reconhecendo-se como cidadão do mundo. sejam construídas sobre o alicerce moral, e não
Cabe lembrar aqui que Kant nasceu e viveu sob a esperança da recompensa. Condena os que
em Königsberg, e esse fato não o prejudicou, no praticam o bem com vista a benefícios futuros,
que diz respeito à sua cultura geral. Em seus es- pois isso cria um vício, que afasta o homem do
tudos, quando necessário, ele cita hábitos e cos- desenvolvimento da moralidade, já que lhe possi-
tumes de outros povos, sugerindo que suas per- bilita, quando crente de não estar sob observação,
cepções construíram-se com base nos estudos de a execução de ações negativas.
outros pesquisadores. Encontramos em Kant um
Sobre a Pedagogia divide-se em dois capítu-
olhar crítico sobre o valor do homem educado,
los. O primeiro fala sobre a educação física, en-
pois ele considera que está na educação dos ho-
tendida aqui como a esfera da educação que trata
mens em geral a responsabilidade de formar
os cuidados materiais prestados às crianças pelos
aqueles que têm o poder nas mãos. O autor co-
pais, amas de leite ou babás. Nessa parte, encon-
loca nas pessoas em particular a difusão dos
tramos o maior número de prescrições para o
esforços para a melhoria da humanidade e enten-
de que os príncipes, muitas vezes, não agem além atendimento das necessidades infantis. Para Kant,
de seus interesses e tratam seus súditos como ins- o lado positivo da educação física está na cultura,
trumentos para os seus desígnios. isto é, no exercício das forças da índole por meio
de atividades como o jogo.
Entretanto alguns poderosos consideram, de certo O autor acredita que, por intermédio de
modo, o seu povo como uma parte do reino animal atividades como o jogo e a ginástica, a criança es-
e têm em mente apenas a sua multiplicação. No tará desenvolvendo suas habilidades e sentidos:
máximo desejam que eles tenham um certo aumen-
“o jogo de bola é um dos melhores para as crian-
to de habilidade, mas unicamente com a finalidade
de poder aproveitar-se dos próprios súditos como ças, pois requer a corrida benfazeja. Em geral os
instrumentos mais apropriados aos seus desígnios. melhores jogos são aqueles que, além de desen-
As pessoas particulares devem em primeiro lugar volver a habilidade, provocam exercício dos sen-
estar atentas à finalidade da natureza, mas devem, tidos” (p. 55). Nos jogos, Kant considera que as
sobretudo, cuidar do desenvolvimento da humani- crianças são desafiadas, podendo colocar em prá-
dade, e fazer com que ela se torne não somente tica habilidades fortalecedoras do seu caráter. Ele
mais hábil, mas ainda mais moral e, por último – se refere ao brinquedo como uma ocupação inte-
coisa muito mais difícil – empenhar-se em conduzir
ressante, já que por meio dele o infante renuncia
a posteridade a um grau mais elevado do que elas
a outras atividades e, conseqüentemente, exercita
atingiriam. (p. 25)
a privação. Observa que as melhores brincadeiras
Nesse trecho há uma preocupação com os são as que têm objetivos e finalidades, “assim,
princípios da cidadania e os aspectos subjacentes quanto mais o seu corpo se fortifica e se enrijece
ao fazer democrático, tão valorizado no início do através delas, tanto mais se torna (a criança) pro-
século XX por pensadores como Dewey. Sobre a tegida contra as conseqüências corruptoras da
Pedagogia traz também o imperativo categórico lassidão” (p. 57).

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A ginástica deve fortalecer o corpo, guian- E concluindo esta apresentação, cabe enun-
do a natureza, ou seja, enunciada por Kant como ciar alguns preceitos com que o autor finaliza
forma de proporcionar o melhor desenvolvimen- suas lições:
to físico possível, evitando a preguiça e a indolên-
Deve-se orientar o jovem à humanidade no trato
cia. Ele acentua o caráter disciplinador dessa ati-
com os outros, aos sentimentos cosmopolitas. Em
vidade e afirma que “cabe zelar para que na cul- nossa alma há qualquer coisa que chamamos de in-
tura do corpo também se eduque para a socieda- teresse: 1. por nós próprios; 2. por aqueles que co-
de” (p. 58). É interessante ressaltar que tais nosco cresceram; e por fim, 3. pelo bem universal.
princípios viriam a pautar o fortalecimento da (...) Eles devem alegrar-se pelo bem geral mesmo
educação física oitocentista como elemento es- que não seja vantajoso para a pátria, ou para si mes-
sencial à formação do novo homem, o moderno. mo. (...) É preciso orientá-los sobre a necessidade
A segunda parte do livro refere-se à educa- de, todo dia, examinar a sua conduta, para que pos-
sam fazer uma apreciação do valor da vida, ao seu
ção prática, que consiste em habilidade, prudên-
término. (p. 106-107)
cia e moralidade. Trata-se de uma tríade visando o
agir social e a consolidação do caráter. Nesse sen- Um texto clássico como esse é sempre va-
tido, a ética kantiana revela-se banhada pelo seu lioso de se ler, por tudo o que nos informa sobre
formalismo e racionalidade. O autor vai buscar, o entendimento do desenvolvimento da história
nos deveres para consigo e para com os outros, os do pensamento na humanidade, mas também em
elementos que fundamentam a vida social com virtude da imersão propiciada no que de melhor
respeito aos direitos humanos, a serem cultivados produziu a nossa cultura e nos leva ao encontro
desde cedo. Nessa parte, destaca o valor da for- de princípios, que muitas vezes esquecemos por
mação religiosa para o homem, mostrando-se conta das agruras da vida cotidiana. Esperamos
contrário às práticas religiosas, impostas pelo me- ter mostrado que Sobre a Pedagogia é uma obra
do, e ressalta que somente pelo entendimento e rica à educação em vários sentidos e que suas idéi-
respeito à lei do dever para com Deus é que a re- as, citadas nos parágrafos acima, além de bastante
ligião cumprirá seu papel. A religião, para ele, é a atuais, não podem ser esquecidas por aqueles que
moral aplicada ao conhecimento de Deus. se propõem a desenvolver a arte de educar.

Referências Bibliográficas
CAMBI, F. História da Pedagogia. São Paulo: Editora Unesp, 1999.
RUSSELL, B. História do Pensamento Ocidental: a aventura das idéias – dos pré-socráticos a Wittgenstein. Rio de
Janeiro: Ediouro, 2002.

Dados da autora
Doutoranda em educação na
Universidade Metodista de Piracicaba (UNIMEP).

Recebimento artigo: 29/out./04


Consultoria: 8/nov./04 a 26/nov./04
Aprovado: 2/dez./04

124 Impulso, Piracicaba, 15(38): 121-124, 2004


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Uma Iniciativa a ser Emulada


AN INITIATIVE TO BE EMULATED 1 1
Modelle Kritischer Gesellschaftstheorie;
Traditionen und Perspektiven der Kritischen Theorie
de ALEX DEMIROVIČ (org.).
Stuttgart: J.B. Metzler, 2003. ISBN 3-476-01849-0

A recepção da Escola de Frankfurt (EF) no Brasil consti-


tui um dos capítulos mais interessantes de nossa histó-
ria intelectual recente, não apenas pela riqueza da pro-
dução bibliográfica que gerou, mas também pela con-
sistência da comunidade interpretativa a que deu
ensejo. Autores notadamente difíceis, como Adorno e
Benjamin, contam, hoje em dia, com um número signi-
ficativo de leitores espalhados por vários estados e universidades, e refle-
tindo diversas áreas de atuação profissional – da musicologia à sociologia,
literatura, psicanálise e até nos esportes. Contudo, essa abundância de
abordagens é paradoxal, pois corresponde ao que há, ao mesmo tempo,
de mais forte e de mais fraco em nossa leitura dos frankfurtianos. FABIO AKCELRUD
O projeto inicial da Teoria Crítica (TC), antes de tornar-se co- DURÃO
nhecida como EF, tinha a interdisciplinaridade em seu cerne. Isso fica Universidade Federal do Rio
claro num texto célebre de Horkheimer, seu discurso de posse como de Janeiro (UFRJ)
fad2@duke.edu
diretor do Instituto de Pesquisa Social, em 1931. Na história da filoso-
fia, argumenta, o idealismo hegeliano representou o momento-chave
para a construção de um conceito de totalidade que surgisse como re-
sultado das ações dos indivíduos, independentemente de sua vontade
ou consciência disso. Com o declínio do hegelianismo e a correspon-
dente ascensão do positivismo, o ponto de vista da totalidade foi per-
dido e substituído pela análise de fatos isolados nos diversos ramos do
saber. Em 1931, porém, teria chegado o momento de recuperar critica-
mente a herança do idealismo, num trabalho de articulação das diversas
disciplinas com uma filosofia social capaz de construir um conceito
adequado de totalidade. Na ordem do dia estaria, em suma, uma revi-
talização da dialética:
Não é fazendo meras sínteses dos resultados especializados de pesquisa que se
supera a caótica especialização, nem é tentando reduzir a zero o componente
teórico, que a imparcialidade da empiria vem à tona, mas sim na medida em
que a filosofia (...) seja capaz de fornecer o impulso inspirador às pesquisas

1 Agradecimentos ao prof. Amós Nascimento pela leitura e comentários ao texto.

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particulares e ao mesmo tempo permaneça aberta o a confrontar o estado atual de suas disciplinas
suficiente para deixar-se influenciar e modificar por com o saber produzido pela geração de Marcuse.
estudos concretos.2 Interessa notar que não há, entre os autores de
O trabalho a ser realizado nesse instituto Modelos, puros especialistas, pois mesmo aqueles
deveria, assim, sob a égide do marxismo, articular que escreveram extensivamente sobre a EF (como
filosofia e ciências humanas numa dialética do A. Demirovič e G. Schweppenhäuser) também
todo e das partes, sem ferir a especificidade des- publicaram sobre outros assuntos; o livro consegue,
sas, nem perder aquele de vista. Isso exigia uma assim, evitar as vicissitudes do filologismo estéril.
nova dinâmica, coletiva e de estreita colaboração: Além do mais, Modelos tem o mérito de lidar
com membros ou colaboradores menos conhe-
Trata-se hoje (...) de organizar, tendo como base cidos do instituto, entre os quais valeria a pena ci-
questões filosóficas atuais, investigações nas quais tar H. Grossmann, F. Pollock, F. Neumann,
filósofos, sociólogos, economistas, historiadores, A. Sohn-Rethel e O. Kircheimer, além de E.
psicólogos unam-se em um grupo de trabalho con-
Fromm. Isso fornece mais profundidade ao texto
tinuado, realizando aquilo que em outras áreas é
possível ser feito, em laboratório, por um só, aquilo
(no sentido geométrico), produzindo o salutar
que pesquisadores de fato sempre fizeram: a saber, efeito de deixar claro ques a teoria pronta e aca-
perseguir suas questões filosóficas, direcionadas bada de Adorno tinha como pressuposto um
para algo de magnitude, com o auxílio dos mais re- processo constante de discussão e debate com
finados métodos, remodelar as questões no decorrer membros do instituto.
do trabalho sobre o objeto, precisar, conceber novos Mesmo que, a rigor, não haja muito mate-
métodos, mas sem perder o universal de vista.3 rial realmente novo nos ensaios de Modelos, o
Infelizmente, a força inicial desse projeto processo de articulação das diversas perspectivas
não pôde resistir à guerra e ao exílio, ficando mui- envolvidas no livro é algo inédito. A abrangência
to enfraquecida com o decorrer do tempo, e pra- em relação às áreas de estudo tem como paralelo
ticamente desaparecendo nos últimos anos. Por uma homogeneidade relativa do ponto de vista
um lado, a leitura acadêmica da herança da TC le- político, apresentando diversos matizes no pensa-
vou a uma crescente especialização, produzindo, mento de esquerda. As exceções são apenas duas.
e.g., um Adorno esteta dissociado do sociólogo; Em primeiro lugar, no ensaio “apolítico” “Trust
por outro, o lamentável processo de transforma- me”, de A. G. Düttmann defende, por meio de
ção da EF monumento prosseguiu a largos pas- uma complicada argumentação, a necessidade de
sos. O risco é concreto, e a TC, já peça de museu, confiar ainda na razão iluminista. Representativo
vive sob a constante ameaça de tornar-se uma de uma vertente interpretativa muito em voga no
(respeitadíssima) página da história, mas, por de- momento, esse ensaio lida com a crítica frankfur-
finição, já virada. tiana da razão de forma isolada da reprodução da
Em vista disso, adquire grande relevância o vida social, sem levar em conta, por exemplo, a
recente livro editado por A. Demirovič, Modelle centralidade do princípio de troca para as obras
kritischer Gesellschaftstheorie; Traditionen und de Adorno e Horkheimer. Com efeito, o texto
Perspektiven der Kritischen Theorie (Modelos de de Düttmann tem a função benéfica de mostrar
uma TC da Sociedade; tradições e perspectivas da a mediação (ou diluição) do diagnóstico a respei-
TC; doravante, Modelos). O projeto é audacioso: to da falência da razão burguesa com a corrente
reunir 16 investigadores que, versados na TC, se- pós-estruturalista, aqui inspirada por Derrida. Sur-
jam também respeitáveis pesquisadores, de modo preendentemente, o segundo caso é o de Gerhard
Schweppenhäuser, que, em seu “Teoria estética,
2 HORKHEIMER, M. “Die gegenwärtige Lage der Sozialphilosophie arte e cultura de massa”, defende a legitimidade
und die Aufgaben eines Instituts für Sozialforschung”. In Gesammelte
Schriften Bd. 3. Frankfurt a.M.: Fischer, 1988, p. 29.
dessa última como proporcionadora de experiên-
3 Ibid., p. 29-30. cias ausentes e inatingíveis pela arte – argumento

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no mínimo apologético, na pior das hipóteses De fato, a estrutura argumentativa do capí-


cheirando à capitulação. tulo de Bonâ é representativa do livro como um
Dois outros ensaios servem de moldura para todo. Grande parte dos ensaios segue o mesmo
Modelos. O primeiro, de Demirovič, discute a padrão: eles começam com um esboço dos traços
relação entre a TC e o conceito de sociedade, enfa- principais da TC em relação a um assunto para, a
tizando os riscos envolvidos na virada haber- seguir, confrontá-lo com a posição atual prevale-
masiana e na redução do escopo do objeto de crí- cente na disciplina em questão. Um bom exem-
tica à sociedade civil a questões éticas ou ao âm- plo é o texto T. Sablowski, “Tendências de desen-
bito institucional/democrático. Em contraposi- volvimento e crises do capitalismo”, que começa
ção, Demirovič discute o conceito de sociedade com a exposição, em Marx, do tema das crises
operante na TC, salientando o seu caráter tanto cíclicas de acumulação do capital para, logo de-
dinâmico quanto irracional e opressor, no qual o pois, discutir a visão de Horkheimer e de Pollock
princípio de troca tem papel preponderante. Seu sobre o assunto. Segundo eles, com a ascensão do
ensaio finaliza, porém, com uma crítica a Adorno fascismo e a consolidação do new deal, o capita-
e Horkheimer, que serve de mediação ao resto do lismo teria se desenvolvido de maneira a evitar,
livro. Isso porque, para eles, o fordismo e a estan- com a intervenção estatal, suas crises periódicas.
dardização apresentavam-se como definitivos, ao A terceira parte do ensaio compara essa herança
passo que Demirovič argumenta que o capitalismo teórica à perspectiva da regulation school, que,
já foi capaz de incorporar o diferente em si, que “a “diferentemente de muitos trabalhos do marxis-
reprodução do mercado mundial, hoje, se dá sob a mo tradicional e da primeira geração da TC, não
base da diferença e da multiplicidade” (p. 26). prognostica nem o inevitável colapso do capita-
Fechando o volume, Wolfgang Bonâ discute lismo nem a superação das tendências de crise em
o conceito de crítica, situando-o no projeto mais um capitalismo estatal” (p. 123). Tenta, ao invés,
amplo da Aufklärung e ressaltando suas caracte- explicar por que o capitalismo, naturalmente orien-
rísticas básicas, como o caráter humano de seu tado para crises, conseguiu perdurar por tanto
objeto, o potencial normativo de seu ser-outro e tempo. O diagnóstico oferecido do presente
a impossibilidade de estabelecer limites ao ques- refere-se ao enfraquecimento da acumulação
tionamento crítico. Em seguida, descreve a mu- industrial e à realocação de capitais numa esfera
dança de concepção de Adorno e Horkheimer financeira inchada e geradora de déficits, situação
quanto à noção tradicional de crítica: “O ser-outro de expansão do crédito e da dívida estadudinense
torna-se menos nítido, mais fragmentário e difícil que não poderia perdurar por muito tempo.
de ser encontrado. Justamente por causa disso, a Há, assim, duas formas de classificar os tex-
tarefa torna-se mais importante, pois o projeto de tos de Modelos. Por um lado, eles podem ser
crítica social só faz sentido na medida em que seja agrupados de acordo com a natureza do campo
possível encontrar, em meio à crise do presente de estudos: existente à época da TC ou constitu-
nos escombros da história, ao menos rastros de indo nova formação discursiva, ainda que inci-
esperança e estilhas de um ser-outro possível” pientemente elaborada pelos frankfurtianos. Por
(p. 375). O ensaio termina com a crítica a uma outro lado, também é possível distingui-los se-
certa nova teoria social, incluindo Habermas, A. gundo o seu posicionamento, se consideram as
Honneth, U. Beck e S. Lasch, que, ao postular formulações de Horkheimer, Adorno et al. como
um novo cenário de análise (globalização, socie- completamente válidas, parcialmente utilizáveis
dade informacional, sociedade de risco etc.), aca- ou totalmente ultrapassadas. Subjacente a ambas
bam perdendo de vista o processo social em seu divisões, no entanto, está a novidade do presente,
âmbito geral e, conseqüentemente, o horizonte a existência ou não de uma ruptura significativa
de sua real transformação. ocorrida nas últimas décadas, caracterizada como

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pós-moderna, pós-fordista, da sociedade de con- sociais. Como corretivo, sugere um modelo que
sumo, império ou termo similar. tenta caracterizar a postura autoritária por meio
É interessante observar que os ensaios mais da combinação de um eixo vertical, a posição
favoráveis ao legado da TC pertencem justamente numa classe, com uma dimensão horizontal, do
a novos campos de estudo. Tanto para o feminis- habitus, derivada de Bourdieu.
mo (de A. D. Bührmann) quanto para a crítica da Por fim, Th. Naumann, em “O caráter so-
biopolítica (M. Bruch), da questão ecológica cial entre capitalismo tardio e pós-fordismo”, e J.
(Ch. Görg), da ética aplicada (M. Kettner) ou do Müller, em “Teoria e crítica da ideologia. do capi-
novo racismo contra os imigrantes (L. Inowlocki), talismo tardio ao pós-moderno”, convergem em
em todos esses casos a herança conceitual e me- sua análise da herança da TC na psicanálise e na
todológica da TC apresenta-se como núcleo de crítica ideológica. Defendem que mudanças es-
pesquisas desenvolvidas nos dias de hoje. Por ou- truturais no capitalismo teriam levado a transfor-
tro lado, as críticas mais duras à EF vêm precisa- mações não mais proveitosamente abordadas
mente daquelas áreas nas quais atuou mais expli- com o instrumental freudiano e representacional
citamente. Vejamos. da TC. A figura central aqui é S. Žižek e sua des-
G. S. Noerr aponta as modificações sofri- crição do imperativo ao gozo na nova sociedade
das pelo funcionamento da técnica, que tende a de consumo, assim como do cinismo ideológico,
anular a distância entre pesquisa e sua aplicação, diante do qual o desvelamento da verdade é im-
faz do cientista uma engrenagem de um processo potente, já que a postura cínica é imune a qual-
que não mais percebe como um todo e, finalmen- quer conteúdo de crítica.
te, precariza a distinção entre material de pesqui- Na área tradicional de atuação da TC, o úni-
sa e realidade: nossa sociedade seria, inapelavel- co texto a defender sua total atualidade é o de Ch.
mente, uma sociedade do saber. Resch e H. Steinert sobre a indústria cultural. Ele
B. Lüthje critica a concepção de Pollock e representa um belo esforço para recuperar esse
de Sohn-Rethel a respeito do trabalho industrial, conceito diante de sua estigmatização, por parte
pois eles teriam em mente o processo verticaliza- dos cultural studies, de ser elitista e não considerar
do da produção fordista, completamente trans- a liberdade presente na esfera do consumo. Cin-
formado pela especialização flexível à la Toyota. co teses delimitam o conceito de indústria cultu-
B. Sauer observa que o conceito de Estado ral: ela não é: 1. apenas uma teoria da mídia; 2. o
de Pollock e de Marcuse é muito estreito, e que a oposto da eterna arte; 3. sua crítica não é a recusa
reformulação de Kirchheimer e Neumann – que da diversão; 4. também não é um insulto ao pú-
não mais o consideram como mero grupo de in- blico; 5. nem é a forma de produção de uma eco-
teresse ou gangue, e sim como formação de com- nomia do saber. No entanto, os autores não têm
promisso político – não vai longe o suficiente. Ele uma postura meramente defensiva, pois introdu-
termina seu texto com 11 teses, fortemente in- zem nova e importante distinção: o caráter duplo
fluenciadas por Gramsci, sobre a teoria do Esta- da reflexão. Se a indústria cultural é capaz atual-
do na época neoliberal. mente de assumir um distanciamento em relação
Uma crítica ainda mais contundente é a de a si própria, de ironizar a si mesma, esse tipo de
M. Vester, ao discutir o problema do autoritaris- reflexividade deve ser suplantado por outro: a re-
mo e sua relação com as classes sociais na TC. Ele flexividade crítica.
identifica uma tensão não resolvida entre as várias Essa multiplicidade de perspectivas deixa
possibilidades de configuração ideológica, na pes- problemas em aberto. Em primeiro lugar, a ques-
quisa empírica da Personalidade Autoritária, por tão central, para além de qualquer conteúdo da
um lado, e sua homogeneização negativa, na TC, não é explicitada: em que medida a dialética é
Dialética do Esclarecimento, por outro. A TC não ainda praticável? Mesmo que ela possa ser forte-
teria, assim, como abordar a questão dos grupos mente sentida em alguns textos (como no de Ch.

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Görg), permanece a dúvida de que, por exemplo, cializada na publicação de compêndios, antolo-
a virada žižequiana ainda seja capaz de pensar di- gias, readers e livros introdutórios, uma empresa
aleticamente a co-penetração dos opostos. É líci- cujo nicho é o mercado secundário de circulação
to, assim, perguntar em seguida a respeito do ele- do saber. A TC aparenta ser, por esse prisma, um
mento unificador de Modelos. Demirovič invoca objeto antologizável, gerando como resultado final
a idéia adorniana de modelo: algo como uma lógica do copo meio-cheio/meio-
O modelo segue, de acordo com uma expressão de vazio. O fracasso em superar as divisões do co-
J. Derrida, a lógica do suplemento. Cada modelo é nhecimento, justamente no gesto de consciente-
como que a extensão de uma teoria, que somente mente combatê-las, pode ser visto como desalen-
nele é desenvolvida, e que apenas por meio de novas tador, razão última para que deixemos de insistir
análises modelares de experiências, constelações na interdisciplinaridade e nos conformemos com
conceituais e conteúdos particulares pode atingir a pesquisa bem comportada em nossos campos
sua multiplicidade prismática. O pensar por mode-
de atuação. Essa leitura cética poderia observar
los é assim, ele mesmo, um exercício de pensamen-
to esclarecido, emancipatório, já que não é capaz de com ironia que o verdadeiro modelo de Modelos
conformar-se com um conceito último, que como é o antológico, típico da indústria cultural.
uma chave abriria o portal do último segredo meta- Mas o copo pode estar meio cheio e o livro
físico, um conceito no qual a teoria se cristalizaria pode ser visto não como malsucedido, levando a
como um logotipo. (p. 7) uma concepção afinal reificada, e sim como uma
A definição é interessante, mas, diante da prática dotada de futuro. Isso reverberaria na TC
falta de diálogo entre os ensaios, de seu fecha- como lida no Brasil, onde conta com condições
mento num campo, soa como uma racionaliza- tão favoráveis. O gesto de Modelos corresponde-
ção, um dispositivo a posteriori para justificar ria, aqui, a um convite: a tentativa de articular os
uma reunião de textos desprovida de outra razão textos da EF, clássicos nos dias de hoje, com a
de ser. Essa desconfiança é reforçada pelas condi- atualidade – complementada com o confronto
ções de publicação de Modelos. Sua editora, a J. B. com a realidade brasileira – representaria uma ini-
Metzler, é uma tradicional firma do ramo, espe- ciativa a ser emulada.

Dados do autor
Doutor em Literatura pela Duke University/EUA,
professor do Departamento de Letras Anglo-Germânicas da UFRJ.

Recebimento artigo: 24/set./04


Consultoria: 28/set./04 a 21/out./04
Aprovado: 19/nov./04

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NORMAS PARA PUBLICAÇÃO


EDITORIAL NORMS
PRINCÍPIOS GERAIS
1. A Revista IMPULSO publica artigos de pesquisa e reflexão acadêmicas, estudos analíticos e resenhas
nas áreas de ciências sociais e humanas, e cultura em geral, dedicando parte do espaço de cada edi-
ção a um tema principal, a partir das seguintes seções: “Temática”, apresentando os artigos temáti-
cos; “Conexões Gerais”, para ensaios não temáticos; “Comunicações & Debates”, para textos
curtos e fora dos padrões acadêmicos mais tradicionais; e “Resenhas & Impressões”, para críticas,
resenhas e comentários em geral.
2. Os artigos podem ser desenvolvidos através dos seguintes tipos de trabalho:
• ENSAIO (12 a 30 laudas) – reflexão a partir de pesquisa bibliográfica ou de campo sobre de-
terminado tema;
• COMUNICAÇÃO (10 a 18 laudas) – relato de pesquisa de campo, concluída ou em andamento;
• REVISÃO DE LITERATURA (8 a 12 laudas) – levantamento crítico de um tema, a partir da bi-
bliografia disponível;
• COMENTÁRIO (4 a 6 laudas) – nota sobre determinado tópico;
• RESENHA (2 a 4 laudas) – comentário crítico de livros e/ou trabalhos acadêmicos.
Obs.: cada lauda compreende 1.400 toques, incluindo-se os espaços entre palavras.
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pectivos arquivos eletrônicos em suas extensões originais; (f) antes da impressão, o(s) autor(es)
recebe(m) versão final do texto para análise.

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7. Uma vez aceito o artigo, cabe à revista a exclusividade em sua publicação.


8. Os artigos podem sofrer alterações editoriais não substanciais (reparagrafações, correções grama-
ticais, adequações estilísticas e editoriais).
9. Não há remuneração pelos trabalhos. Por artigo, o(s) autor(es) recebe(m) 1 (um) exemplar da
revista e 10 (dez) separatas do seu artigo. Ele(s) pode(m) ainda adquirir exemplares da revista com
desconto de 30% sobre o preço de capa, bem como a quantidade que desejar(em) de separatas, a
preço de custo equivalente ao número de páginas e de cópias delas.

ESTRUTURA
10. Elementos do artigo (em folhas separadas):
a)IDENTIFICAÇÃO
• TÍTULO (e subtítulo, se for o caso), em português e inglês: conciso e indicando claramente
o conteúdo do texto;
• nome do(s) AUTOR(ES), titulação, área acadêmica em que atua e e-mail;
• SUBVENÇÃO: menção de apoio e financiamento eventualmente recebidos;
• AGRADECIMENTO, se absolutamente indispensável.
b)RESUMO E PALAVRAS-CHAVE
• Resumo indicativo e informativo, em português (intitulado RESUMO) e inglês (denominado
ABSTRACT), com cerca de 150 palavras cada um;
• para fins de indexação, o(s) autor(es) deve(m) indicar os termos-chave (mínimo de três e má-
ximo de seis) do artigo, em português (palavras-chave) e inglês (keywords).
c)TEXTO
• deve ter INTRODUÇÃO, DESENVOLVIMENTO e CONCLUSÃO. Cabe ao(s) autor(es) criar os
entretítulos para o seu trabalho. Esses entretítulos, em letras maiúsculas, não são numerados;
• no caso de RESENHAS, o texto deve conter todas as informações para a identificação do livro co-
mentado (autor; título; tradutor, se houver; edição, se não for a primeira; local, editora; ano; total
de páginas; e, se houver, título original e ISBN). No caso de trabalhos acadêmicos a serem rese-
nhados, segue-se o mesmo princípio, no que for aplicável, acrescido de informações sobre a ins-
tituição na qual foi produzida.
d)ANEXOS
• Ilustrações (tabelas, gráficos, desenhos, mapas e fotografias).
e)DOCUMENTAÇÃO
NOTAS EXPLICATIVAS: serão dispostas no rodapé, remetidas por números sobrescritos no cor-
po do texto.1
CITAÇÃO com até três linhas: deve vir no bojo do parágrafo, destacada por aspas (sem itálico),
após as quais um número sobrescrito remeterá à nota de rodapé com as indicações do SOBRENOME
do autor, ano da publicação e página em que se encontra a citação.2
CITAÇÃO igual ou maior a quatro linhas: destacada em parágrafo próprio com recuo de quatro
centímetros da margem esquerda do texto (sem aspas) e separado dos parágrafos anterior e posterior
por uma linha a mais. Ao fim da citação, um número sobrescrito remeterá à nota de rodapé, indicando
o SOBRENOME do autor, ano da publicação e a página em que se encontra esta citação.3 Subseqüentes

1 Essa numeração será disposta após a pontuação, quando esta ocorrer, sem que se deixe espaço entre ela e o número sobrescrito da nota. Como o
empregado nas Referências Bibliográficas, nas notas de rodapé o SOBRENOME dos autores que tenham sido citados deve ser grafado em maiús-
cula, seguido do ano da publicação da obra correspondente a esta citação. Ex.: CASTRO, 1989.
2 FARACO; GIL, 1997, p. 74-75.
3 FARIA, 1996, p. 102.

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citações da mesma obra devem ser referenciadas abreviadamente, utilizando-se expressões latinas.4
Se, repetido o autor, mas com outra obra, utiliza-se “idem”.5
Os demais complementos (nome completo do autor, nome da obra, cidade, editora, ano de publi-
cação etc.) constarão das REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS, ao fim de cada artigo, seguindo o padrão abaixo.
A lista de fontes (livros, artigos etc.) que compõe as Referências Bibliográficas deve aparecer no fim
do artigo, em ordem alfabética pelo sobrenome do autor e sem numeração, aplicando-se o seguinte padrão:

LIVROS
SOBRENOME, N.A. (pré-nomes do autor abreviados, sem espaçamento entre eles; até três autores: separar por
“;”, mais de três: registrar o primeiro deles seguido da expressão “et al.”). Título: subtítulo. Número da
edição. Cidade: Editora, ano completo, volume. Ex.:
ROMANO, G.“Imagens da juventude”. In: LEVI, K. (org.). História dos Jovens. São Paulo: Atlas, 1996.
EHRLICH, E. [1913]. Grundlegung der Soziologie des Rechts. 4. ª ed. Berlim: Duncker & Humblot, 1989.
GARCIA, E.E.C. et al. Embalagens Plásticas: propriedades de barreira. Campinas: CETES/ITAL, 1984.
RAMOS-DE-OLIVEIRA, N.; ZUIN, A.A.S.; PUCCI, B. (orgs.) Teoria Crítica, Estética e Educação. Piracicaba/Campinas:
Editora Unimep/Editora Autores Associados, 2001.
• SOBRENOMES CUJA FORMA COMPOSTA É A MAIS CONHECIDA e SOBRENOMES ESPANHÓIS.
Ex.: MACHADO DE ASSIS, J.M.; EÇA DE QUEIROZ, J.M.; GARCÍA MÁRQUEZ, G.;
RODRÍGUEZ LARA, J.
• MAIS DE UMA CITAÇÃO DE UM MESMO AUTOR: após a primeira citação completa, introduzir
a nova obra da seguinte forma:
______. Empregabilidade e Educação. São Paulo: Educ, 1997.
• OBRAS SEM AUTOR DEFINIDO:
Manual Geral de Redação. Folha de S.Paulo, 2.ª ed. São Paulo, 1987.

PERIÓDICOS
NOME DO PERIÓDICO. Cidade: Órgão publicador. Entidade de apoio (se houver). Data. Ex.:
REFLEXÃO. Campinas: Instituto de Filosofia e Teologia. PUC, 1975.
• NO TODO:
TÍTULO DO PERIÓDICO. Local de Publicação (cidade): Editora, volume, número, mês e ano
VEJA. São Paulo: Editora Abril, v. 31, n. 1, jan. 1998.
• ARTIGOS DE REVISTA:
AUTOR DO ARTIGO.6 “Título do artigo”. Título da revista (abreviado ou não), local de publicação, número do
volume, número do fascículo, páginas inicial-final, mês** e ano.
ESPOSITO, I. et al. “Repercussões da fadiga psíquica no trabalho e na empresa”.Revista Brasileira de Saúde, São
Paulo, v. 8, n. 32, p. 37-45, out.-dez./1979.
• ARTIGOS DE JORNAL:
AUTOR DO ARTIGO.* “Título do artigo”.Título do jornal, local de publicação, dia, mês** e ano. Número ou título do
caderno, seção ou suplemento e página inicial e final do artigo.
OLIVEIRA, W.P. de. “Judô: educação física e moral”.O Estado de Minas, Belo Horizonte, 17/mar./1981. Caderno de
esporte, p. 7.

4 Ibid., p. 102.
5 Idem, 2000, p. 117.
6 Em caso de autoria desconhecida, a entrada é feita pelo título do artigo, colocando-se a primeira palavra toda em caixa maiúsculo.
** Os meses devem ser abreviados de acordo com o idioma da publicação. Quando não houver seção, caderno ou parte, a paginação do artigo
precede a data.

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DISSERTAÇÕES E TESES
AUTOR. Título: subtítulo. Ano de apresentação. Número de folhas ou volumes. Categoria (Grau e área de
concentração). Instituição, local.
RODRIGUES, M. V. “Qualidade de vida no trabalho”. 1989. 180f. Dissertação (Mestrado em Administração). Facul-
dade de Ciências Econômicas, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte.

FONTES ELETRÔNICAS
A documentação de arquivos virtuais deve conter as seguintes informações, quando disponíveis:
• sobrenome e nome do autor;
• título completo do documento (entre aspas);
• título do trabalho no qual está inserido (em itálico);
• data (dia, mês e/ou ano) da disponibilização ou da última atualização;
• endereço eletrônico (URL) completo (entre parênteses angulares: < >);
• data de acesso.
Exemplos:
Site genérico
LANCASHIRE, I. Home page. 13/set./1998. <http://www.chass.utoronto.ca:8080/~ian/index.html>. Acesso:
10/dez./1998.
Artigo de origem impressa
COSTA, F. Há 30 anos, o mergulho nas trevas do AI-5. O Globo, 6.12.98. <http://www.oglobo.com.br>. Acesso:
6/dez./1998.
Dados/textos retirados de CD-rom
ENCICLOPÉDIA ENCARTA 99. São Paulo: Microsoft, 1999. Verbete “Abolicionistas”. CD-rom.
Artigo de origem eletrônica
CRUZ, U.B. “The Cranberries: discography”. The Cranberries: images. Fev./1997. <http://www.ufpel.tche.br/~
bira/cranber/cranb_04.html>. Acesso: 12/jul./1997.
OITICICA FILHO, F. “Fotojornalismo, ilustração e retórica”. <http://www.transmidia.al.org.br/retoric.htm>. Acesso:
6/dez./1998
Livro de origem impressa
LOCKE, J. A Letter Concerning Toleration. Translated by William Popple. 1689. <http://www. constitution.org/jl/
tolerati.htm>.
Livro de origem eletrônica
GUAY, T. A Brief Look at McLuhan’s Theories. Web Publishing Paradigms. <http://hoshi.cic.sfu. ca/~guay/
Paradigm/McLuhan.html>. Acesso: 10/dez./1998.
KRISTOL, I. Keeping Up With Ourselves. 30/jun./1996. <http://www.english.upenn.edu/~afilreis/50s/kristol-
endofi.html>. Acesso: 7/ago./1998.
Verbete
ZIEGER, H.E. “Aldehyde”. The Software Toolworks Multimedia Encyclopedia. Vers. 1.5. Software Toolworks.
Boston: Grolier, 1992.
“Fresco”. Britannica Online. Vers. 97.1.1. Mar./1997. Encyclopaedia Britannica. 29/mar./1997. http://www.
eb.com:180.
E-mail
BARTSCH, R. <abnt@abnt.org.br> “Normas técnicas ABNT - Internet”. 13/nov./1998. Comunicação pessoal.
Comunicação sincrônica (MOOs, MUDs, IRC etc.)
ARAÚJO, C.S. Participação em chat no IRC #Pelotas. <http://www.ircpel.com.br>. Acesso: 2/set./1997.

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Lista de discussão
SEABROOK, R.H.C. <seabrook@clark.net> “Community and Progress”. 22/jan./1994. <cybermind@jefferson.
village.virginia.edu>. Acesso: 22/jan./1994.
FTP (File Transfer Protocol)
BRUCKMAN, A. “Approaches to Managing Deviant Behavior in Virtual Communities”. <ftp://ftp. media.mit.edu/
pub/asb/papers/deviance-chi-94>. Acesso: 4/dez./1994.
Telnet
GOMES, L. “Xerox’s On-Line Neighborhood: A Great Place to Visit”. Mercury News. 3/maio/1992. telnet
lamba.parc.xerox.com 8888, @go #50827, press 13. Acesso: 5/dez./1994.
Newsgroup (Usenet)
SLADE, R. <res@maths.bath.ac.uk> “UNIX Made Easy”. 26/mar./1996. <alt.books.reviews>. Acesso: 31/mar./1996.
11. Os artigos devem ser escritos em português ou espanhol, podendo, contudo, a critério da Comis-
são Editorial, serem aceitos trabalhos escritos em outros idiomas.
Os trabalhos devem ser digitados no EDITOR DE TEXTO WORD, em espaço 1,5, corpo 12, em papel
branco, não transparente e de um lado só da folha, com páginas numeradas.
12. As ILUSTRAÇÕES (tabelas, gráficos, desenhos, mapas e fotografias) necessárias à compreensão do
texto devem ser numeradas seqüencialmente com algarismos arábicos e apresentadas de modo a
garantir uma boa qualidade de impressão. Precisam ter título conciso, grafados em letras minúsculas.
(a) TABELAS: editadas em Word ou Excel, com formatação necessariamente de acordo com as
dimensões da revista. Devem vir inseridas nos pontos exatos de suas apresentações ao longo do texto;
não podem ser muito grandes e nem ter fios verticais para separar colunas; (b) FOTOGRAFIAS: com
bom contraste e foco nítido, sendo fornecidas em arquivos em extensão “tif” ou “gif”; (c) GRÁFICOS
e DESENHOS: incluídos nos locais exatos do texto. No caso de indicação para publicação, essas ilus-
trações precisarão ser enviadas em separado, necessariamente em arquivos de seus programas
originais (p. ex., em Excel, CorelDraw, PhotoShop, PaintBrush etc.); (d) figuras, gráficos e mapas,
caso sejam enviados para digitalização, devem ser preparados em tinta nanquim preta. As conven-
ções precisam aparecer em sua área interna.

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003114_imp38.book Page 136 Tuesday, June 14, 2005 7:43 PM

NOSSOS CONSULTORES
2004
APARECIDO FRANCISCO DOS REIS – UCDB/MS JOÃO JOSÉ LIMA ALMEIDA – Unicamp/SP
BELARMINO CÉSAR GUIMARÃES DA COSTA – JOÃO ROBERTO MARTINS FILHO – UFSCAR/SP
UNIMEP/SP
JOSÉ LIMA JÚNIOR – UNIMEP/SP
CHARLES FEITOSA – Unirio/RJ
JÚLIO ROMERO FERREIRA – UNIMEP/SP
CLÁUDIA DRUCKER – UFSC/SC
JUSSARA DE MESQUITA PINTO – UFSCAR/SP
CLÁUDIO KIRNER – UNIMEP/SP
LUIS ENRIQUE AGUILAR – Unicamp/SP
CRISTINA MARTINS FARGETTI – UNIMEP/SP
MARCEL NIQUET – Universität Frankfurt/DE
DANIEL JONES – Universidade de Buenos Aires/AR
DÉBORA RAMIRES – UNIMEP/SP MÁRCIO DANELON – UNIMEP/SP

DENISE GIÁCOMO DA MOTTA – UNIMEP/SP MARGARET ANN GRIESSE – Concordia


University/CANADÁ
DIMITRI DIMOULIS – UNIMEP/SP
MARIA BEATRIZ B. BILAC – UNIMEP/SP
DORACI ALVES LOPES – PUCCAMP/SP
MARIA RITA MARQUES DE OLIVEIRA – UNIMEP/SP
EDIVALDO JOSÉ BORTOLETO – UNIMEP/SP
MATTHIAS LUTZ-BACHMANN – Universität
EDUARDO MENIEZA – SUNY/EUA Frankfurt/DE
ELISETE ZANLORENZI – PUCCAMP/SP MIRIAM COELHO DE SOUZA – UNIMEP/SP
ERCÍLIO DENY – UNIMEP/SP ROBSON LOUREIRO – UFES/ES
FERNANDA KLEIN MARCONDES – Unicamp/SP SANDRA VALDETTARO – Universidad Nacional
FRANCISCO C. CROCOMO – UNIMEP/SP de Rosario/AR

GABRIELE CORNELLI – UnB/DF SEBASTIÃO NETO RIBEIRO GUEDES – UNIMEP/SP

GESSÉ MARQUES JÚNIOR – UNIMEP/SP SILVANA VILODRE GOELLNER – UFRGS/RS

IRIS YOUNG – University of Chicago/EUA SILVIO DONIZETTI DE O. GALLO – UNIMEP/SP

JACI MARASCHIN – UMESP/SP TÂNIA MARA VIEIRA SAMPAIO – UNIMEP/SP


JOSÉ AUGUSTO LINDGREN ALVES – Itamaraty TANIA ROSSI GARBIN – UNIMEP/SP
JAMES BOHMAN – University of Saint Louis/EUA VALDEMIR PIRES – UNIMEP/SP

136 Impulso, Piracicaba, 15(38): 136-136, 2004

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