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5/16/2018 [TEXTO] PASTORE, Ana . O que é a ntropologia jurídic a - slide pdf.c om

Antropologia jurídica

SCHRITZMEYER, Ana Lúcia Pastore. “Antropologia Jurídica”. Em: Jornal Carta Forense , ano
III, n. 21, fevereiro de 2005, pg. 24 e 25.

1) O que é Antropologia?

Antropologia, Sociologia e Ciência Política compõem as Ciências Sociais. Há


no Brasil, graduação em Ciências Sociais e pós-graduação em Antropologia,
Sociologia e Ciência Política, de modo que antropólogo é quem se pós-gradua
em Antropologia. Além da Antropologia Social ou Cultural, também existem a
Arqueologia, a Antropologia Biológica ou Ecológica e ramos conectados à
Linguística e à Psicologia. Antropologia Social ou Cultural é o estudo das
culturas humanas, com vistas a constituir um inventário de seus diversos
modos de vida e formas de organiza o social.

2) O que é Antropologia Jurídica? Como nasceu?

A Antropologia Jurídica nasceu na Alemanha, Grã-Bretanha, França e Estados


Unidos, no final do século XIX. Segundo Norbert Rouland, antropólogo francês
contemporâneo, a Antropologia Jurídica estuda as lógicas que comandam os
processos de juridicização próprios de cada sociedade, através da análise de
discursos (orais e/ou escritos), práticas e/ou representações. Processos de
 juridicização envolvem a importância que cada sociedade atribui ao direito no
conjunto da regulação social, qualificando (ou desqualificando), como jurídicas,
regras e comportamentos já incluídos em outros sistemas de controle social,
tais como a moral e a religião.

3) A Antropologia Jurídica é uma disciplina indispensável aos operadores do

Direito? Por quê?

Ela é importante para a formação e atuação dos operadores do direito porque


vivemos, no Ocidente, neste início de século XXI, o questionamento do papel
do Estado (talvez o maior mito jurídico moderno ). Estamos revisando os
princípios da Revolução Francesa que, dentre inúmeras mudanças, instaurou a
negação do mundo sobrenatural e passou a opor indivíduos a grupos; leis a
pluralismo; direito positivo a direitos costumeiros. A Antropologia Jurídica

mostra que costumes, mais que leis positivas, animam as relações sociais. O
ser humano busca sentidos para a sua existência e isso se dá através das

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dimensões do sensível e do invisível, as quais são contempladas, no campo


científico, primordialmente pela Antropologia, Filosofia e Psicologia. Um Direito
que realmente privilegie a compreensão do ser humano precisa dialogar com
essas áreas.

4) Qual a relação dessa disciplina com a Sociologia Jurídica e a História do


Direito?

A Antropologia e a Sociologia Jurídicas tiveram origens e propósitos iniciais


semelhantes –compreender, no final do séc. XIX, as regras de funcionamento
de diversas sociedades humanas – mas enquanto a primeira enfatiza sistemas
de valores e crenças em que estão inseridos diversos aspectos da vida social,

dentre eles o jurídico, a segunda enfatiza práticas institucionais. Quanto à


Antropologia Jurídica e História do Direito, ambas surgiram na Inglaterra e
Alemanha, por volta de 1860/ 1870, quando a moda era estudar o Oriente.
Predominou, inicialmente, uma ênfase histórico-evolucionista que organizava
os diversos sistemas jurídicos, segundo uma sequência progressiva e universal
de formas consideradas simples para outras complexas. A Antropologia
Jurídica nasceu da ampliação do Direito Comparado, pois ambos se
interessavam por direitos diferentes dos praticados nos grandes centros
urbanos europeus, mas, enquanto a Antropologia logo posicionou-se a favor da
preservação da diversidade cultural, o Direito Comparado enfatizou a
unificação de sistemas jurídicos diversos.

5) Quais as tendências da Antropologia Jurídica atual?

Basicamente cinco: 1. Estudar a sequência dos conflitos, mais do que eles


próprios, bem como as razões pelas quais as normas são ou não aplicadas,
mais do que elas próprias; 2. Considerar o indivíduo um ator do pluralismo
 jurídico, relacionado a vários grupos sociais e a múltiplos sistemas agenciados
por relações de colaboração, coexistência, competição ou negação; 3. A
produção da Antropologia Jurídica continua alicerçada em países ocidentais
industrializados de língua inglesa (estima-se que Estados Unidos e Canadá
agrupem mais da metade de todos os atuais antropólogos do Direito); 4. No
dito Terceiro Mundo pouco se ensina Antropologia Jurídica por razões de
ordem ideológica, pois a maioria dos Estados adota concepções unitárias de
direito legadas por ex-colonizadores. No Brasil há poucos profissionais e

inexiste uma associa o que os agrupe; 5. Um dos mais agitados debates refere-
se universalidade dos direitos humanos e a seus possíveis limites.

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6) Qual a diferença do controle social ocidental através do Direito e do controle


social produzido em outras sociedades?

Para a Antropologia Jurídica atual, todas as sociedades conhecem o Direito. As


tradicionais relativizam seu papel, enquanto as ocidentais modernas o
enfatizam. O Direito pode existir sem o Estado e este sem o Direito. Quem os
associou foi a experiência ocidental pós-1789. Numerosas sociedades não têm
as palavras direito e jurídico em seu vocabulário porque tais esferas estão
mescladas a outros modos de regulação da vida social como a moral, a magia
e a religião. A maioria das sociedades tradicionais concebe-se como uma
reunião de grupos familiares, residenciais, religiosos, de idade e tal unidade

não implica uniformidade. Como as relações entre esses grupos tendem mais
complementaridade que oposição, o Direito (geralmente secreto e oral) bem
como as sanções não são uniformes e contemplam particularidades.

7) O que estudos de antropólogos do direito concluem sobre nosso atual


sistema penal?

Eles refutam a postura evolucionista segundo a qual a vingança é uma reação


selvagem e arcaica a uma infração, pondo em risco a ordem social, ao passo
que a pena civilizada é uma reação do corpo social – em geral representado
por uma autoridade estatal – benéfica para o conjunto. Esses estudos
demonstram que os sistemas penais modernos ocidentais, dentre eles o
brasileiro, englobam vinganças pessoais ou coletivas , sendo fortemente
marcados por relações de poder e por discriminações étnicas, etárias, de
gênero etc. O Direito das sociedades ocidentais modernas e,
consequentemente, seus sistemas penais são apontados como excessivos,
inflacionários e pouco eficazes porque se distanciaram da moral e são menos
interiorizados. Ficções – “ninguém pode alegar o desconhecimento da lei” ou a
“coisa julgada é uma verdade” – ocultam preconceitos, privilégios e vários
conflitos sociais que estão na própria origem e manutenção das penas e
sistemas penais.

8) Que paralelos articulam maneiras de pensar o universo religioso e jurídico?


E qual deles a sociedade moderna ocidental institucionalizou?

Segundo Norbert Rouland, tais paralelos podem ser reduzidos a três grandes
arquétipos: identificação: caracteriza os direitos do Extremo Oriente. Não se

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pensa o bem sem o mal, o espírito sem a matéria, o racional sem o sensível, o
yin sem o yang. Não há imposição de leis externas. Ainda hoje, a maior parte
dos conflitos na China é regrada pela conciliação ou arbitragem, não havendo
mais que 5.000 advogados para uma população de mais de 1 bilhão de
chineses.
diferenciação: comum no Egito antigo e entre certos grupos tribais (Ex: Dogon
na frica). A criação é entendida como um processo contínuo de diferenciação,
assim como a estrutura social, mas os homens não se reduzem a indivíduos
(pois sua existência é fugaz) e sim a grupos complementares (de existência
mais perene). Legislações uniformizantes são tidas como destruidoras de uma
unidade que depende da diferença e da complementaridade (união dos
contrários).

submissão: para as religiões dos Livros (islamismo, judaísmo e cristianismo)


Deus pré-existe a suas criações e as rege do exterior. Os homens são,
portanto, submissos a poderes e leis exteriores. No Ocidente, o Estado se
equiparou a esse Deus que cria, transforma e melhora a sociedade através do
Direito. As sociedades modernas ocidentais institucionalizaram o arquétipo da
submissão, mas, em seu interior, funcionam outras lógicas.

9) Quais traços comuns existem entre as ditas sociedades tradicionais ou


primitivas e as ocidentais modernas, no que se refere ao direito?

O pensamento mítico as aproxima, pois os mitos (escritos, orais, plásticos) são


interpretações da realidade. O Estado nos países ocidentais é um mito jurídico
moderno, nascido juntamente com os mitos do indivíduo e da lei como
expressão da vontade popular. Também as aproxima o caráter inacabado do
Direito, pois ele depende largamente de ações subjetivas de profissionais da
 justiça e de seus administradores. Outro traço comum é a dificuldade de
poderes inovadores se institucionalizarem, pois é mais fácil mudar as leis do
que a jurisprudência ou práticas administrativas. (Ex: implantação do ECA
Estatuto da criança e do Adolescente). O direito oficial é geralmente evitado.
Vários grupos (famílias, associações, partidos políticos, sindicatos, igrejas,
ordens profissionais) criam suas próprias regulações e sanções (avisos,
desaprovações, autocríticas, ostracismo, exclusão), recorrendo, só em casos
extremos, aos tribunais estatais.

10) Qual o mercado de trabalho atual para o Antropólogo do Direito?

No campo acadêmico, temas relacionados a direitos humanos, direitos de

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minorias, administração da justiça e sistema de justiça criminal vêm


estimulando cada vez mais pesquisadores. Também se discute a inclusão da
disciplina Antropologia Jurídica na grade curricular de cursos de gradua o em
Direito. No campo da elaboração e gestão de políticas públicas de segurança e
 justiça já há antropólogos atuando e têm ocorrido concursos públicos para que
esses profissionais componham quadros nos quais atuem junto com
promotores públicos, secretários de segurança etc. Enfim, uma sensibilidade
maior para com problemas culturais vêm criando uma demanda crescente por
antropólogos do direito.

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