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Estamos numa guerra de nervos sem centro nervoso.

Portanto, não há
estratégia definitiva. Mas tem tática possível. O que vou escrever aqui trata de
como os militares se apropriaram de uma leitura enviesada dessa situação e
estão esboçando uma reação a ela. Vendo um constante chamamento dos
apresentadores do DUPLO EXPRESSO, espero aqui contribuir para o debate
de “onde, afinal, está o nacionalismo dos militares brasileiros”? Para nós, que
estamos na defesa de uma nação sob ataque, e cuja única tática viável
atualmente pesa sobre as costas de um brasileiro, ex-presidente, preso, é
espantoso assistir a uma série de ações de Temer e seu núcleo de governo
não ter uma manifestação de desacordo de militares. Pé-sal, submarino, caças
Gripen, venda de terras, Amazônia e mineração, almirante Othon, setor elétrico
e nuclear. Nada, não se ouve uma palavra. Pelo contrário, assistimos generais
recém saídos da ativa se manifestarem com total descaso sobre esses temas,
mas com muitas palavras sobre outros temas.

Nas últimas duas semanas ainda vimos a produção de uma notícia sobre um
documento da CIA, feita pelo professor da FGV e colunista da Folha, Matias
Spektor, que apareceu como uma “revelação” de que sim, a hierarquia inteira
do Exército sempre soube e autorizou torturas e execuções na ditadura. Para
quem conhece o tema, isso não é novidade. Até um sujeito sem noção como
Bolsonaro já tinha falado sobre isso publicamente – e certamente ele não tinha
“ouvido falar” de mortes e tortura através das publicações de Dom Paulo
Evaristo Arns. Qualquer coronel R/1 (reserva) sabe do que aconteceu. Mas o
que interessa aqui é que Spektor, que até outro dia estava desqualificando o
almirante Othon na Folha, que sempre foi um crítico ácido das políticas
externas petistas, tinha endereço certo. Como toda bomba semiótica, ela
visava mais de um alvo ao mesmo tempo.

Diria que a primeira hipótese, que inclusive pensei conversando há dias com
Romulus, era de que se tratava de um “passa-moleque” feito em grupos de
militares que estavam falando mais que a boca; efeito-colateral das recentes
atitudes lançadas pelo espalhafatoso general Mourão, que ecoam dentro de
uma linha de comando da ativa que, para quem vê de fora, passa a perigosa
imagem que nesse momento paira sobre o Exército: incerteza. É notável que
todas essas manifestações que estamos vendo de militares, da reserva e da
ativa, e que culminaram nos tuítes de comandantes (recadinhos nada sutis),
não estão sendo acompanhadas nem por pessoal da Marinha nem da Força
Aérea. O problema está no Exército, desde sua reserva, passando por villas-
Boas e, principalmente, desembarcando no General Etchegoyen. É aqui que se
juntam as peças. Toda essa incerteza, no meu entendimento, vem do fato de
que Villas-Boas ainda não passou o bastão, embora já devesse tê-lo feito. Para
mim, Spektor viu esse sinal e mandou essa bomba, sabendo ainda que ela iria
ter ressonâncias em outros veículos de comunicação, como a Globo, que na
sua parceria com o Partido da Justiça ia dar de bandeja material para os
Procuradores que estão querendo rever a lei da anistia. De quebra, ainda
poderia danificar Bolsonaro e ajudar nessa pavimentação forçada de uma
candidatura vitoriosa no 1º turno de alguém do PSDB.

Mas o que pode dar uma luz de como como a tal bomba semiótica revelou as
posições nesse teatro de guerra foi o inominável editorial do site “defesanet” de
18 de maio último (http://www.defesanet.com.br/ghbr/noticia/29319/Editorial-
DefesaNet---Coup-d´Etat-tem-de-dar-certo-/). Ele fala de um “golpe de estado”
produzido por uma “guerra híbrida” contra Temer. Mas o que é o “defesanet”?
Sem maiores delongas, é o porta-voz do General Etchegoyen e de um grupo
de militares e simpatizantes (especialmente) gaúchos que há alguns anos –
eles sim – vêm produzindo guerra híbrida contra os governos petistas. Este
editorial é tão fantasioso quanto sério. Ele se baseia em premissas do que
entende serem os “estudos pioneiros” sobre a guerra de 4ª geração ou híbrida
no Brasil, publicados, claro, pelo próprio site, embora com alguma
reverberação nas escolas militares (facilmente verificável no google). São
principalmente artigos de um General R/1 (4 estrelas, hoje na reserva),
bastante ligado a Etchegoyen, que compõem a série “guerra híbrida no Brasil”.
Não adianta lê-los esperando entender a guerra híbrida; mas podemos ler
esperando tirar dali algum mapa de como um militar importante, atualmente
uma referência (interna) em estudos do tema está pensando. Para inclusive ver
porque suas noções de guerra híbrida são uma apropriação discutível, já temos
bastante material bastante trabalhado (aqui pelo Duplo Expresso inclusive) a
partir das excelentes análises de Pepe Escobar, e que dizem respeito ao
modus operandi do Deep State de “nações amigas” que sustentam um projeto
em muito capitaneado pela finança internacional. Os alvos se repetiram ao
longo da década (ou antes, como já se pensou aqui sobre o maio de 68), com a
provocação de “primaveras”, “jornadas”, etc., e posterior acionamento de
máquinas estatais para desestabilizar governos. No Brasil, como sabemos, foi
a máquina jurídica.

No entanto, como mostrarei mais à frente, os articulistas do defesanet


conseguiram distorcer essas premissas para localizar inicialmente em Ongs,
Índios, Quilombolas, MST, MTST, e, claro, no PT, as fontes do ataque à
soberania nacional. Isso está publicado no site, e republicado em dezenas de
sites geridos por militares, pelo menos desde 2011. Agora, com este editorial
desesperado, que inclusive agrega uma defesa tosca de Temer e Aécio como
salvadores da Pátria, mostrou-se a cara: o tiro de Spektor atingiu Etchegoyen e
seu grupo, e o contra-ataque deles vai investir numa produção intensificada de
um discurso (que para qualquer pessoa de esquerda é sem pé nem cabeça) de
que a Globo, “aliada” às pautas minoritárias, no fundo sempre foi um agente de
esquerda infiltrado, e agora se situa no centro produtor e lançador dos mísseis
semióticos. Devemos levar a sério essa fantasia de tom bolsonarista de uma
“Globo comunista”? Note-se algumas pérolas do tal editorial:
Antes era assim:

“(...) a agenda desta Guerra Híbrida atende a vários interesses:

(...) Imobilizar o governo Temer de qualquer ação contra a Venezuela,


enquanto o Foro de São Paulo se reorganizaria (...) Aqui surge a necessidade
destruir a imagem do Senador Aécio Neves, figura mais respeitada no exterior,
como condutor de ações contra o governo bolivariano (...)”

Mas agora ficou assim:

“(...)Um ano após [a denúncia do grampo da JBS], o Grupo Globo tenta quatro
tentativas derradeiras: 1 – Imobilizar e desestabilizar os militares. Em especial
após os famosos tuites do General Villas Boas; 2 - Imobilizar a sociedade
brasileira com o incentivo à violência urbana; 3 - Com o Ministro do STF
Roberto Barroso e setores mafiosos da Polícia Federal ataca de forma
sistêmica o Presidente da República, e, 4– Ataque especulativo ao Real e à
Economia Brasileira”.

Para entender como esse caminho tortuoso foi elaborado por este setor militar,
precisarei recuar um tanto, e talvez reforçar coisas que já falei em outro artigo
publicado aqui no Duplo expresso.

Meu intuito é colocar um outro foco sobre este debate, que passe na
transversal uma talvez falsa dicotomia “nacionalistas versus entreguistas” entre
militares; e vendo como eles fazem seus movimentos, espero que alguém em
algum lugar aqui enxergue uma possibilidade de contraofensiva, não contra
militares, mas a favor de seu salvamento de tanta ilusão propagada pelas
várias ofensivas da guerra híbrida, sendo a principal esse dispositivo de
acionamento do ódio antipetista disseminado pelo judiciário e pela (antes
aliada?) Globo & PIGs afins. Estarei falando de militares, mas poderia estar
falando de juízes – uma categoria muito próxima, que se identifica como “uma
seleção representativa da sociedade”. E que jogam hoje, ambos, com os
mesmos recursos retóricos para impor uma pressão sobre a política:
meritocracia, correção moral, valores éticos, independência em relação às
oligarquias tradicionais. O famoso tuíte do General Villas-Boas antes do
julgamento do HC de Lula, mais do que tudo, afirmava uma leitura que
identificava a auto-imagem que o Exército teoricamente tem de si com aquela
que Barroso quer ter do judiciário. Se o recado era claro ou não, “façam o
serviço senão nós faremos”, agora jamais saberemos, porque o STF o fez. De
todo jeito, há algo ainda em curso mais profundo, e quero mostrar esse
exemplo, mas entendendo que ele serve para outros setores serem pensados
“em paralelo”.

Por n razões que não terei espaço para explicar aqui, é preciso ter cautela
sobre o seguinte ponto: as FFAA são instituições corporativas ad hoc; o
sentimento corporativo é alimentado em qualquer exército do mundo, através
de um constante bombardeio ritual e simbólico que produz marcações muito
claras em relação a um “mundo de fora”. Agora, o que e como se mobiliza isso
é que é o ponto aqui. Pretendo dar uma visão de como estas coisas aparecem
desde há algum tempo e qual é o resultado disso no modo que as FFAA se
articulam com o resto da sociedade, ou, em outras palavras, como eles fazem
ou não “política por outros meios” e o que a leitura deles sobre o atual
momento pode elucidar sobre outros setores que têm agido de forma, digamos,
mais “proativa”.

O primeiro fato a ser notado aqui é que depois de 1978, quando já se começa a
preparar o terreno para a lei da anistia ainda no governo Geisel, os militares
têm que dar conta de todo seu pessoal que vai ser anistiado pela lei de 1979. O
que é de amplo conhecimento é que desde aquela época os jornais falavam
em “linha dura” versus uma certa “linha moderada ou Sorbonne”. Não é este
lado que nos interessa, pois ele não reflete exatamente como se estrutura o
campo interno no Exército. O que ocorreu foi a confluência de 2 movimentos,
que quero sistematizar de maneira breve aqui: (1), o problema da anistia e a
herança do aparelho repressivo da ditadura; (2) os deslocamentos da doutrina
militar e os novos teatros de operações.

1.

O que pouca gente sabe é que internamente o governo Figueiredo, e


posteriormente no Governo Sarney, começou-se uma clara política de
imposição de um freio na carreira daqueles que tinham seu nome associado à
tortura e à repressão. Nenhum torturador chegou ao posto de general, i.é., ao
comando. Foi uma tentativa de “limpar a casa”, que até certo ponto teve êxito.
Tanto que se viu até 2012 um enorme silêncio das FFAA em relação à política,
excetuando-se talvez pelas ações espalhafatosas do então capitão Jair
Bolsonaro, expulso da corporação ainda em 1980. Enfim, Lula passou
incólume.

Com Dilma isso não ficaria assim. Ela é uma ex-guerrilheira, como todos
sabem, do “pólo civil” dos anistiados. Já perto da eleição de 2010, uma série de
associações de militares, como o grupo “TERNUMA: terrorismo nunca mais”
começa a se manifestar, mas mais do que isso, começa a proliferar. Isso
porque o que eles temiam poderia acontecer, e de fato aconteceu: o Estado
passou a agenciar uma política de revisão histórica e de tentativa de revogação
da lei da anistia (ironicamente, mais uma vez o que começa com a dupla
Dilma-Cardozo, termina com o MPF). Nesse sentido, quero começar aqui com
o que considero como o “ponto de convergência” de tendências anti-PT (anti-
comunistas, na verdade) que existiam no mundo militar para o que se
desdobrou nos agenciamentos do Golpe de 2016.
Este ponto é seguramente a criação da Comissão da Verdade, que de início
incomodaria muito mais ao setor da “comunidade repressiva” que estava na
reserva, mas que depois acionou o gatilho corporativo e inflou uma mobilização
geral. É preciso ter em mente algo muito sério aqui. Se por um lado houve uma
“limpeza” na hierarquia militar nos anos 1980, é notável que desde o começo
dos anos 1990, pelas poucas pesquisas que temos, houve um aumento
progressivo da taxa de endogamia entre os militares que ingressavam na
carreira. A grande maioria de novos militares é filho de militar ou ex-militar. A
“comunidade repressiva” provavelmente continuou por meio de filhos e
parentes, além de efetivamente estar presente em associações e clubes
militares. Não é de se estranhar que o gatilho que a CNV acionou teve
repercussão tão rápida.

2012 foi o ano em que se resolveu riscar o fósforo no paiol de pólvora, no meu
entendimento. Em fevereiro deste ano, o Clube Militar lançou um manifesto
contra a CNV. Houve uma interferência da Presidência da República, para que
o manifesto fosse retirado das redes e das paredes de todas unidade de clubes
militares do Brasil. Os clubes são entidades que dependem das Forças, mas
são da reserva, e portanto, tecnicamente autônomas e civis. Isso provocou
uma reação em cadeia. Um segundo manifesto foi feito em favor do primeiro e
publicado numa página da internet dedicada ao Coronel Ustra (torturador de
Dilma), e foi assinado maciçamente. Fiz a contagem em março deste ano. Só
de generais foram 130; coronéis, 868. Isso é muito. Hoje, trocando em miúdos,
posso dizer, quase com certeza, que a CNV galvanizou nos militares em geral
um forte anti-petismo, capaz de fazer um grupo minoritário, “estilo Bolsonaro”,
surfar à vontade como uma voz representativa das FFAA. Falo dos generais de
pijama que não se cansam de ameaçar, e que agora lançam suas
candidaturas.

Este é um primeiro problema. O segundo movimento, então, é o que


posteriormente vai alinhar a doutrina militar ao “problema interno” que a CNV
gerou.

Desde a abertura política, a doutrina militar vinha sistematicamente produzindo


um conjunto de peças que produziram um “inimigo” claramente identificado
com um conjunto de interesses que se plasmava na tal “cobiça internacional
pela Amazônia”. Isso era visto sobretudo através de uma lente que identificava
uma ação disfarçada das grandes potências através de ONGs, do
ambientalismo, da ONU, do movimento indígena, do MST, de parte da Igreja
Católica, e de alguns partidos que eram identificados com esses movimentos,
entre eles o PT. Não interessa o grau de acerto dessa proposição, mas sim o
mecanismo que ela revela, essencialmente projetivo. Evidentemente isso tudo
possui ambiguidades, nem todos nas FFAA vão se fiar a uma leitura tão
estreita; mas é notável que isso foi assumido como uma “disposição oficial”:
houve desde deslocamentos de brigadas inteiras do Sul/Sudeste para a
Amazônia até a mudança de datas e comemorações. Armou-se todo um novo
repertório, baseado sobretudo na ideia de um “inimigo infiltrado”. Vou voltar a
isso.

Embora durante os anos Lula esses elementos tenham ficado em relativa


estabilidade, no Governo Dilma 1 a CNV praticamente pavimenta o caminho
para esta teoria ganhar o corpo que precisava. Nesse movimento, com a ideia
de que a CNV era um compósito de (ex) comunistas querendo vingança,
encontrou-se espaço para reativar a tese de um “novo comunismo
internacional” que agora se plasmava nesse esforço geral das “potências
invasoras”, vis-à-vis a China, Russia e suas ambições mineralistas e
energéticas. Dilma e seus aliados nos Brics reavivariam, assim, um comunismo
2.0 disposto a colocar a ordem internacional de ponta-cabeça, com o Brasil
numa posição de capacho sul-americano da Russia. Nesse sentido, “tudo que
estava disfarçado mostrou sua cara”, e se hoje vocês se perguntam por que as
FFAA não reagem ao assalto que fizeram ao pré-sal, é porque eles certamente
acharam que antes nosso petróleo ia ser tomado pela Rosneft (podem dar
risada, ela começou a perfurar na bacia do Solimões) e pela Sinopec (podem
dar risada 2, mas no Globo, em 2013, lia-se: “São quatro os tentáculos
chineses que avançam sobre o petróleo
brasileiro”.(https://oglobo.globo.com/economia/estatais-chinesas-avancam-
sobre-pre-sal-brasileiro-ja-sao-socias-de-12-blocos-no-setor-de-petroleo-
10558803#ixzz5F0yd5PxV).

O que vejo que está acontecendo, e não é difícil constatar isso a partir da
produção de teses e dissertações nas escolas militares, é o modo pelo qual
essas noções foram sendo costuradas. Trata-se então, para voltar ao que dizia
acima, da consumação na doutrina brasileira de uma “teoria da guerra de 4a
geração”, que é outro nome para isso que está se chamando de “guerra
híbrida”. Basicamente trata-se de uma guerra baseada em operações de
dissimulação, cujo objetivo máximo é produzir no inimigo um conjunto de ações
divergentes para que este sempre esteja um passo atrás na leitura do “real”.
em outras palavras, trata-se de diversionismo, como em qualquer truque de
mágica. Como disse, para se entender isso é crucial que tenhamos em mente
que eles elaboraram para si próprios uma versão da noção de “guerra híbrida”
que venha a explicar o que foi o movimento acima: “do disfarce ambiental-
identitário ao neo-protagonismo comunista”. Lembre-se que se há uma central
qualquer, ela está no deep state euroamericano, associado à finança
internacional, que usou estratégias contra-informacionais para provocar as
famosas “primaveras”, “jornadas”, etc. Para quem gosta do assunto, gostaria
de chamar a atenção de que a “guerra híbrida” é um claro desdobramento da
estratégia do Pentágono assumida desde mais ou menos 2005, baseada no
que os Field-Manuals de contra-insurgência das FFAA norte-americanas
postulam, basicamente se valendo de leituras das Ciências Sociais, filosofia e
Psicologia. Nesse sentido, não há mais uma “ação militarmente pura”, isto é,
exclusiva de forças de combate: tudo se baseia em estratégias combinadas, e
o aparelho de informações é o centro de comando e controle disso. O poder
militar, então, passa a ser dependente de uma série de aparelhos-satélites que
não podem operar na superfície do Estado, uma vez que sua operação é
potencialmente danificadora da imagem de um estado como mecanismo de
“garantia do real”. Trata-se, enfim, de uma máquina de mágicas e mentiras, e
por isso mesmo ela é “deep”.
Nossas Forças Armadas ainda estão engatinhando nesse jogo. Isso é
provocado por vários motivos, mas eu diria que isso se dá principalmente
porque, em primeiro lugar, elas são extremamente fechadas e avessas à
dependência de outros centros de produção de informações; para eles isso
pode ser entendido como perda de controle. Tudo que vem “de fora” é
absorvido de forma muito lenta, e com vários filtros. Em segundo lugar, há que
se dizer que as FFAA também permaneceram durante um bom tempo numa
certa defensiva doméstica, tendo que fabricar uma imagem de “garantismo
legal” e de “assistência social”. Isso foi o custo da ditadura, e essa imagem foi
trabalhada tijolo por tijolo durante os anos Lula, principalmente. O que sobra
então para quem começa a prestar atenção na tal “guerra híbrida”? O
acionamento dos velhos paradigmas do “inimigo interno”, que vão ganhando
algum peso nas franjas do sistema informacional das FFAA, sobretudo
Exército, nessa reuniões, clubes, escolas, palestras, grupos de estudos, etc.
Nesse sentido, a adoção da “teoria da guerra híbrida” foi uma espécie de
“achado”: e o que foi feito? Certos grupos de militares (como esses que se
encastelam no defesanet) começaram a fabricar uma guerra híbrida dizendo
que o PT produz uma guerra híbrida.

A ideia principal que foi publicada ao longo de uma série de artigos de pessoas
ligadas ao defesanet, e que de certa maneira teve ressonância em políticas de
segurança elaboradas por Etchegoyen, é que o PT caminha para um processo
de “subversivação”. Geralmente se destaca como, a partir de sua destituição
do Governo, o PT teria acionado para a guerra híbrida elementos que
rapidamente estariam se convertendo em guerrilha, sobretudo através de
ligações com as FARCs (os narcoestados, inclusive aqui procurando
sobreabastecer o judiciário com a tese da “organização criminosa”), com
setores militares da Venezuela, com “células terroristas” do Oriente Médio e o
crime organizado.

Estes seriam, no meu entendimento, os pontos de encontro que estavam e


estão articulando setores não necessariamente coesos, como FFAA, PF e
Juízes. Isso sem falar em todos os aspectos econômicos ligados ao problema
energético e às finanças, que certamente entram nessa equação. É muito difícil
juntar tudo isso em um quadro único, como as próprias teorias da guerra
híbrida mostram acontecer, mas...

... Mas este é o ponto final que queria chegar aqui: embora exista toda uma
heterogeneidade dos agentes do golpe, há algo em comum que move eles
nesse primeiro movimento tático: sua disposição conjunta para eliminar o PT.
Porque isto ocorreu, acho que o Duplo Expresso vem com bastante pertinência
explicando há meses. Por que se faz isso? Na minha hipótese, trata-se de
depositar no outro aquilo que se quer esconder. Assim, se olharmos, por
exemplo, a tese de “organização criminosa” que o judiciário tem elaborado para
o PT, veremos que ela se aplica igualmente sobre ele próprio: as ligações que
Lula tinha com empresas, as palestras que ele deu, etc., hoje são
rigorosamente repetidas por Sergio Moro. A “guerra híbrida” que o PT está
produzindo, na verdade é produzida dentro do próprio Exército, quando um
general espalha sua versão da “Guerra Híbrida”. Tudo se passa, nesse sentido,
como se essas corporações do Estado vislumbrassem, elas próprias, uma
totalidade hegemônica que em dado momento de fato o PT produziu como uma
narrativa triunfante sobre sua ligação com o Estado (“nunca antes na história
desse país...”): tudo o que se diz sobre o que seria o tal “projeto de hegemonia
gramsciana (sic) do PT”, hoje é igualmente procurado por esses setores.

Só que a guerra híbrida tem essa característica: corre-se o risco de se chegar a


um ponto de que nem os agentes iniciais sabem exatamente das posições no
teatro de operações. O que vemos como reação do grupo de Etchegoyen no
defesanet é a tentativa de juntar duas frentes de batalha muito distantes uma
da outra. Ao mesmo tempo, basta olhar os links que o site sugere, e se verá o
general Mourão em convocatórias histriônicas, chamando soldados “à luta”
(“Fica o alerta de Soldado, cuidado com a cólera das legiões !!!!”:
http://www.defesanet.com.br/gi/noticia/28802/Gen-Ex-Mourao---CUIDADO-COM-A-
COLERA-DAS-LEGIOES/), seja lá o que isso quer dizer. E, claro, a partir daí, o
apelo a Bolsonaro, o plano B da direita. Evidentemente não precisamos nos fiar
no defesanet para chegar à conclusão que o GSI acusou o golpe. A reação de
Spektor, dias depois, mostra que a barra deve ter pesado nas bandas da FGV:

“Para mim, a experiência pessoal mais rica da última semana tem sido o
depoimento de militares da ativa que fizeram contato depois de ler o
documento para dizer que, finalmente, depois de tantos anos, o Brasil tem
condições de olhar para seu passado de cabeça erguida”
(https://www1.folha.uol.com.br/colunas/matiasspektor/2018/05/volta-dos-
militares-a-politica-abre-as-feridas-do-passado.shtml).

Duvido. Agronotícia, como dizem aqui: nenhum militar da ativa vai procurar um
civil que anda girando a metralhadora para dizer “você tem razão”, sobretudo
sobre o tema “passar a limpo”. O Exército não passará a limpo nem a guerra do
Paraguai, nem Canudos, nem 1964. Eu mesmo, certa vez na própria FGV, vi
um conjunto de militares dizer que a CNV estragaria qualquer esforço de
aproximação que se fazia entre militares e universidade(s).

O que fazer então? Não repetir o erro deles é o primeiro passo: nada de criar
duas frentes. A essas alturas, seguramente o PT não deve contar com ninguém
nas FFAA. Mas pode aproveitar da nada sutil reação que a turma do Planalto
militar está tendo em reação a Barroso, por exemplo. Há alguns dias sugeri
aqui no DE que bastam 5 minutos da propaganda eleitoral, batendo todo dia na
tecla da justiça partidarizada, que eles vão ter que se dobrar. Mais cedo ou
mais tarde haverá gente séria no Exército que vai perceber este movimento, se
é que já não percebeu. Talvez a resistência de Villas-Boas seja um sinal disso,
já que, como já se previu aqui também, o plano de Etchegoyen para
intervenção no Rio foi lentamente cozinhado pelo comando, até se mostrar,
hoje, inócuo. Por enquanto, pelo menos, as informações que estão chegando
ao GSI ou são de baixa qualidade, ou muito mal interpretadas. A julgar pelas
declarações mais recentes de Mourão, ou até mesmo do General Heleno, um
dos mais condecorados militares que já passaram pelo Exército nos últimos
tempos, tendo a crer que as avaliações que eles estão fazendo estão muito
equivocadas. Enfim, veremos um desfecho disso com a sucessão de Villas-
Boas, ou ela também está engasgada nas eleições de outubro?