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CECÍLIA COIMBRA / “Dobraduras são possíveis em

JOSÉ RODRI GUES / L I V I A V A L L E qualquer superfície pela qual


se inscrevem os acontecim en­
tos: no corpo, na rua, nas
instituições, pelas diversas
políticas que tecemos no
cotidiano, e que se bifurcam
em tantos caminhos e práti­
cas. Dobraduras podem acon­
tecer no espaço, no tempo.
São produzidas naquilo que
DURAS está dado, incidindo sobre o
inacabamento do mundo, que
squisas pode sempre se desdobrar em
muitos outros. São políticas
que transfiguram: dobram e
desdobram contornos, supos­
tam ente fixos, movendo e
transformando-os. Este livro
fala destes deslocamentos: de
limites, fins e meios, buscando
interrogar a possibilidade das
dobras nos diversos âmbitos
daquilo que fazemos.”

Luminária Academia
JOSÉ
RODRI GUES / LIVIA VALLE
CECÍLIA COI MBRA /
CECÍLIA COIMBRA, É preciso fazer proliferar uma outra sensibili­
Doutora em Psicologia (USP), dade micropolítica, macropolítica, biopolítica,
fundadora e atual Vice-Presi- ecopolítica, cosmopolítica, dar nome aos bois,
dente do Grupo Tortura Nunca
romper um consenso que nos quer abduzir a
Mais (GTNM-RJ), professora
aposentada do Departamento capacidade de pensar. Sim, fazer do pensa­
de Psicologia (UFF) e profes­ mento uma conspiração cotidiana, uma insur-
sora da Pós Graduação em gência indomável. Mas o poder não é um
Psicologia (UFF). domínio absoluto, é uma relação de forças,
sempre móvel, e assim com porta sua dose de
JOSÉ RODRIGUES,
Doutor em Psicologia pela jogo e margem de indeterminação — e portan­
Universidade Federal Flumi­ to de reversibilidade.

territórios
. . .

nense (UFF). Professor A djun­ Peter Pal Pelbart.


imàm Wm fpfer hm M

DOBRADURAS:
to do departam ento de Psico­ ÜÜH | p rW* 1
logia da Universidade Federal
de São João del-Rei (UFSJ).

e pesquisas
LIVIA VALLE,
Formada em psicologia
(UFRJ), é pesquisadora,
mestre e doutoranda na área
de Estudos da Subjetividade
pelo Programa de Pós-Gradua-
ção em Psicologia da Universi­
dade Federal Fluminense
(UFF) - linha de pesquisa
“Subjetividade e Política” . Luminária Academia

JL
DOBRADURAS:
territórios e pesquisas
CECÍLIA COIMBRA
JOSÉ RODRIGUES
LIVIA V A L L E (ORG.)

DOBRADURAS:
territórios e pesquisas

Luminária Academia

ED ITO RA MULTIFOCO

Rio de Ja n e iro , 20 17
C op yrigh t © 2017 C ecília C oim b ra, J o s é R o d rig u es e L ivia Valle.
T odos os d ire ito s re s e rv a d o s . N e n h u m a p a rte d e s te livro p o d e ser u tiliz a d a o u re p ro d u z id a
so b q u a is q u e r m e io s e x iste n te s sem a u to riz a ç ã o p o r e sc rito d o s e d ito re s e au to res.

EDIÇÃO F e rn a n d o C arvalho

REVISÃO B ian ca F lo ren cio

CAPA E DIAGRAMAÇÃO C aroline d a Silva


IMPRESSÃO E ACABAMENTO G ráfica M u ltifoco

DOBRADURAS: TERRITÓRIOS E PESQUISAS


COIMBRA, Cecília. RODRIGUES, Jo sé . VALLE, Livia

1 a Edição
A bril d e 2017
ISBN: 978-85-5996-557-5

E ditora M u ltifoco
F la n e u r E dição, C o m u n ic a ç ã o , C om ércio e P ro d u ç ã o C u ltu ral LTDA.
Av. H e n riq u e V aladares, 17b - C entro
20231-030 - Rio d e Ja n e iro - RJ
Tel.:(21) 3958-8899
c o n ta to @ e d ito ra m u ltifo c o .c o m .b r

w w w .e d ito ra m u ltifo c o .c o m .b r
[...] q u e d o c h o q u e dessas p a la vra s e dessas vid a s
ain d a nos ve n h a u m c e rto e fe ito

no q u a l se m is tu ra m beleza e a sso m b ro .

MICHEL FOUCAULT
APRESENTAÇÃO

As dobraduras presentes nesta coletânea são feitas,


especialmente, nos territórios lisos, territórios do capital,
aqueles em que não são perm itidas problem atizações so­
bre o seu habitar, e em que não se percebem diferenças e
desvios operando sobre seus modos de produzir vida. Do­
braduras são possíveis em qualquer superfície pela qual se
inscrevem os acontecimentos: no corpo, na rua, nas insti­
tuições, pelas diversas políticas que tecemos no cotidiano,
e que se bifurcam em tantos cam inhos e práticas. D obradu­
ras podem acontecer no espaço, no tempo. São produzidas
naquilo que está dado, incidindo sobre o inacabam ento do
mundo, que pode sempre se desdobrar em muitos outros.
São políticas que transfiguram, dobram e desdobram con­
tornos - supostam ente fixos - movendo e transform ando­
-os. Este livro fala destes deslocamentos: de limites, fins e
meios, buscando interrogar a possibilidade das dobras nos
diversos âmbitos daquilo que fazemos.
A coletânea, fruto de pesquisas realizadas nos últimos
sete anos no Programa de Pós-graduação em Psicologia da
Universidade Federal Fluminense, nasce de dissertações de
m estrado e teses de doutorado sob a orientação da Prof.a
Pós-Dra. Cecília Maria Bouças Coimbra. São artigos inédi­
tos de jovens pesquisadores que visam am pliar a conversa
dentro do cham ado cam po das ciências hum anas e sociais.
Seus tem as falam de políticas públicas, m ovim entos so­
ciais, instituições, corpo, gênero, práticas de criminaliza-
ção e subjetivação, de um a atualidade e suas complexas
tram as de poderes. Almejam, sobretudo, tensionar fron­
teiras que possam se estabelecer entre os próprios temas,
ou seu endurecim ento, tentando repensar os domínios do
conhecim ento com suas “respectivas” práticas, bem como
os seus efeitos.
Passa-se, portanto, por territórios em questão: pelas
noções de sujeito e suas variadas instituições, incluindo-se
as práticas e saberes psi que se instauram a partir de sua
verdade; a experiência destas e suas narrativas, modos de
produzir e contar memórias, modos de fazer a psicologia;
m odulações de corpos, condutas e recusas, até im prová­
veis “clandestinidades”.
Os fios que costuram os textos são, portanto, as inten-
sidades, as aberturas, m odos de pensar a pesquisa como
im plicação. Espera-se que a sua leitura proporcione mais
desdobras e territórios m ais possíveis para a vida que
aqui afirm amos.

CECÍLIA COIMBRA
JOSÉ RODRIGUES
LIV IA VALLE
SUMÁRIO

P R E FÁ C IO .............................................................................. 13
H eliana C onde

DOBRA 1: MAS EU PRECISO SER OUTROS. EU PENSO


RENOVAR O HOMEM USANDO BORBOLETAS1........23

E n tre a s a g ra ç ã o da v id a e sua b a n a liza çã o há um resto


q u e não é p o uca b o b a g e m : p e n s a n d o o c u id a d o em
te m p o s d e b io p o lític a ............................................................ 25
M aria Clara A lv e s de B a rce lo s F ernandes

“A sce n sã o d o c a p ita lis m o de d e s a s tre ” : o e sp e cia lism o


psi a s e rv iç o d o “tra b a lh o té c n ic o s o c ia l” ........................39
F ilip e de C o n tti A s th

N o çõe s de S u je ito e p rá tic a s psi: a e m e rg ê n cia de um


tip o h u m a n o .............................................................................. 59
S andra R a q u e l S antos de O liveira

E m p re e n d e d o ris m o social e c a p ita liz a ç ã o da vida:


b reves co n s id e ra ç õ e s s o b re g o v e rn a m e n ta lid a d e ...... 79
Paula de M elo R ib e iro

1 A inspiração para o nom e das seçoes vem de diferentes fontes assim indicadas neste rodapé do sum á­
rio. A “Dobra 1” vem de: BARROS, M. Retrato do A rtista enquanto coisa. Rio de Janeiro: Record, 2007.
A ciên cia psi na d e te c ç ã o dos m ales sociais: a escala
HARE PCL-R e o p e rfil d o p s ic o p a ta ................................ 97
Lia T oyoko Yamada

DOBRA 2: O QUE EU VOU ESCREVER JÁ DEVE ESTAR


NA CERTA DE ALGUM MODO ESCRITO EM MIM2.....115

E n tre b o m b a s e rojões: nosso b lo c o na r u a ................... 117


J o s é R o d rig u e s de A lv a re n g a F ilh o

A c o n d u ç ã o das crianças nas favelas pela polícia e os


c o rp o s q u e v ib r a m .................................................................. 127
Vanessa M enezes de A n d ra d e

M ães p o r trás das grades: narra tiva s de m ulheres


a p ris io n a d a s ............................................................................... 149
A lin e B arbosa F ig u e ire d o G om es

Práticas psi sem manual: um a experiência de pesquisa... 163


A lic e De M a rch i Pereira de Souza

DOBRA 3: A MINHA MAIS REMOTA RECORDAÇÃO


SÓ MUITO TEMPO DEPOIS EU VIM SABER QUE ERA
UM COMETA3.........................................................................185

Por um a A rte da M em ória e d o E s q u e c im e n to .............. 187


É rika F ig u e ire d o Reis

2 LISPECTOR, C. A hora da estrela. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

3 QUINTANA, M. “Cavalo de Fogo”. I n : ____ . R ua dos cataventos & outros poem as. Porto Alegre:
L&PM, 2011.
Produzindo plurais: fragm entos de histórias da psicologia ....203
D anielle P in h e iro da Silva

T e n h o um c o ra ç ã o c o m o a flo r s ilv e s tre d o pra d o : notas


para um v iv e r em c a m p o s e n d u re c id o s .......................... 221
B ru n o G io v a n n i de Paula P ereira R o s s o tti

DOBRA 4: O QUE NÃO TEM GOVERNO NEM NUNCA


TERÁ. O QUE NÃO TEM VERGO NHA NEM NUNCA
TERÁ. O QUE NÃO TEM JU ÍZO 4.....................................241

Q u a n d o um a M u ltid ã o de A n ô n im o s T om a a Palavra: as
m a n ife s ta ç õ e s -e x p e rim e n ta ç õ e s d e ju n h o de 2 0 1 3 ..243
Cecília M aria B ouças C o im b ra

G estos c ru é is ............................................................................. 257


Livia F o rtu n a d o Valle

C o rp o s P o s s ív e is..................................................................... 279
C atarine Venas R odrigues

E ntre c la n d e stin o s co rp o s h íb rid o s .................................. 293


Julia B a rb o z a G a m b e tta

A U T O R E S .............................................................................. 305

4 Canção de Chico Buarque, “O que será que será (à flor da p ele)”.


PREFÁCIO

P A R A N Ã O D I Z E R Q U E N Ã O F A L E I DELAS. . .

Em um a data não muito longínqua, mas já obscura


à memória, recebo um a m ensagem de correio eletrônico:
“Florzinha, você faz o prefácio do nosso livro?” Como se
conversasse, assim me escrevia a subcom andante desse co­
letivo que se disfarça sob tantos nomes de autor.
Coletivos subcom andados jamais subjugam, subm e­
tem, subordinam ... Mas eu me inquieto. “Arte im pura”,
como o diz Potte-Boneville5, o gesto de prefaciar sempre me
assusta, e até mesmo assombra, nesses tempos, os nossos,
em que o corpo batalha contra si mesmo, ininterruptam en­
te, para afastar a tristeza que o enfraquece. Somente a am i­
zade, modo de vida voltado à alegria (e à correlata recusa
da docilização) sustenta um a m uito adiada resposta: “Sim,
faço o prefácio....com o poderia recusar?”
Antes mesmo de lê-los, conhecia a maioria dos textos
que compõem este “pequeno paralelepípedo” - apelido
materialista-geométrico atribuído por Michel Foucault ao
objeto-livro. Lera-os, porém, diferentem ente do que ocorre
agora, na forma de projetos de qualificação, de dissertações
de m estrado ou de teses de doutorado, como integrante de
bancas. E por mais que se tenha o “Careca” como equipa­

5 POTTE-BONNEVILLE, M. L’écriture du com pte rendu: u n art im pur?. Em: ARTIÉRES, P. et al. (dir.)
Foucault. Paris: L’H erne, 2011.

13
mento devastador de soberanias, nesse caso pratica-se algo
como a “resenha”, ou talvez o “com entário”, com o lápis
vermelho na mão. Isso não é questão agora - nunca deveria
sê-lo, aliás - e a releitura diferencial me conduziu menos ao
desnivelam ento proposto na relação banca-candidatos do
que à vida cotidiana...em Cecilândia.
Apesar do nom e de conotações anglófonas e estatizan-
tes, essa terra é a da contestação perm anente. Tal contesta­
ção pode tom ar a forma de um bem hum orado uso da poe­
sia - Manoel de Barros incluído em um parecer que deveria
ser formal, falando das dificuldades de “fotografar o q uase”
-, de um a comoção - lágrimas com partilhadas por causa
de um a beleza textual que faz com que vacilem os micro-
-fascismos em discussão no trabalho apresentado - ou de
um encantam ento contra-hierárquico - alunas que com pa­
recem à defesa de tese de seu professor e, em dizeres per­
turbadores, narram o desprendim ento de si favorecido por
suas aulas. A Cecilândia pode, é claro, ser um a infinidade
de outras coisas, porém é sempre um muito de possível...
contra o sufoco hegemônico!
Na leitura renovada, re-habito essa terra e descubro,
em cada artigo, o que Foucault cham ou um dia de pesqui-
sa-intolerância. Cada um deles procura baixar o limiar a
partir do qual suportam os os m ecanism os de poder exis­
tentes. Cada um deles trabalha “para tornar mais irritáveis
as epiderm es e mais renitentes as sensibilidades”, para
“aguçar a intolerância aos fatos do p oder”, para “fazê-los
aparecer naquilo que têm de pequeno e de frágil e, conse­
quentem ente, de acessível”, para “modificar o equilíbrio
dos medos, não por um a intensificação que aterroriza,

14
mas por um a m edida de realidade que, no sentido estrito
do termo, encoraje”6. Cada um deles precisou, para tanto,
conspirar, ou seja, respirar junto - tam bém Felix7 tinha boa
pontaria - contra o gás, eventualm ente apim entado, com
o qual pretendem dissuadir-nos de qualquer exercício de
crítica, insubm issão, rebeldia.
São pesquisas de mestrado e/ou doutorado, condensa­
das. Mas não são simples pesquisas-curiosidade - como dis­
semos, são pesquisas-intolerância. Para ter início, não pedem
autorização a ninguém: ocupam corpos e com corpos, pen­
sam através de atos e gestos. E se for preciso reconhecer que
alguma curiosidade também as move, não é aquela que dá
ensejo a um relatório para contribuir com reformas, mas a
que faculta tornar-se outro em um mundo que igualmente
se procura tornar inteiramente outro - estranhando e ques­
tionando que sejam mesmo necessários asilos, tribunais,
prisões, polícia, abrigos, medidas de segurança, partidos,
egos... Estado???
Uma indocilidade refletida, a do Contra-Um, as faz alia­
das quase paradoxais de um jovem quinhentista, Etienne de
La Boétie - o qual, por sinal, muito prezava a amizade como
modo de vida indispensável a um a inservidão facultativa.
Com tal companheiro antigo-e-contemporâneo, os proble­
mas estão ex-postos, em lugar de nos serem impostos por en­
comendas academicistas vaidosamente assépticas e, por isso
mesmo, veiculadoras de um a gestão calculista da vida - de
toda a nossa vida, vale dizer, e não somente da universitária.

6 FOUCAULT, M. Prefácio a “Os juízes H aki” (1977). Em: Ditos e Escritos VIII. Segurança, penalidade
eprisão. Rio de Janeiro: Forense U niversitária, 2012, p.61

7 GUATTARI, F. M ilhões e m ilhões de Alices no ar. Em: Revolução molecular. São Paulo: Brasiliense,
1987, p.59.

15
Releio as linhas acima e me dou conta de que já escrevi
parte de um prefácio. Começo a rir, lembrando-me de Fou-
cault a descobrir que, recusando o prefácio, redigira um,
mas pelo m enos “curto”8. Este, ao contrário, prolonga-se
mais do que o esperado a princípio, porque ainda não en­
controu seu tom, seu clima, a despeito de saber que acentua
a crítica das verdades subordinantes e a ênfase na necessi­
dade de inventar um a desenvoltura, ou seja, um espaço em
que os enunciados se apresentem como discursos, solidá­
rios de efeitos que se almeja sejam, sempre, libertários.
Voltando a percorrer os textos, é em um dos que não
conhecia que encontro um a entrada propiciadora de m últi­
plas saídas. Qual esta assustada prefaciadora, aquele que o
escreve ignora, desconhece, oscila, tateia. Até que, de súbi­
to, é interpelado pela flor de Drummond: a que “é feia. Mas
é um a flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio”.
Essa flor, arte bruta, me permite enfrentar a arte im ­
pura do prefácio - ordem discursiva feita pra desnivelar -,
reunindo as flores textuais e subjetivantes de Cecilândia a
algumas outras que me invadiram enquanto tentava aten­
der, insubm issa, à encom enda de prefaciar. Elas se seguem
abaixo, à guisa de platôs, conectando tempos díspares à
procura de novas experimentações no presente.

P A R I S , L A S A N T É , 1 D E M A I O D E 1971

Às portas da velha prisão parisiense, Michel Foucault


e alguns membros do GIP (Grupo de Informação sobre as

8 FOUCAULT, M. Prefácio. Em: História da loucura. São Paulo: Perspectiva: 1987, p. VIII.

16
Prisões) distribuem panfletos aos familiares dos detentos -
as filas são intermináveis, pois os guardas parecem fazer
questão de prolongar ao máximo a agonia da espera. Junto
com a conversa franca e o texto mimeografado que convida
a integrar-se ao grupo, os membros do GIP, seguindo a tra­
dição francesa associada ao Dia do Trabalho, entregam flo­
res - muguets, melhor dizendo. Com um a rapidez que em
tudo contrasta com a lentidão imposta às filas, são presos e
conduzidos à chefatura de polícia mais próxima, sob a acu­
sação de “venda am bulante sem recibo”, já que dos pan­
fletos não consta o endereço de um a gráfica oficial, e sim o
do apartam ento de Michel Foucault. (Mais tarde, aliás, ele
levará debaixo do braço, à Corte de Justiça, seu mimeógrafo,
apelidado “Vietnamita”, para comprovar o local da impres­
são.) Porém no momento, ainda na chefatura, o fascismo e o
racismo se exibem sem pejo, a ponto de comportarem a sau­
dação “Heil, Hitler!” dirigida a um a estudante de sobrenome
julgado “não verdadeiramente gaulês”, e logo depois, já na
rua, insultos arbitrários ao próprio Michel Foucault. Este, a
despeito de seu repúdio à tríade justiça-polícia-prisão, apre­
sentou queixa do ocorrido, “porque é preciso que se saiba
que na arbitrariedade minúscula e cotidiana das ruas, (...) o
policial menos graduado tem perfeitamente consciência do
papel que o fazem representar; ele próprio nomeia o sistema
que se estabelece suavemente através de seus grosseiros ges­
tos desastrados; ele saúda a nova função que exerce, e apela
alegremente ao chefe que ele m erece”9.
Flores podem ser presas?

9 FOUCAULT, M. A prisão em toda parte (1971). Em Ditos e Escritos IV. Estratégia, poder-saber. Rio
de Janeiro: Forense U niversitária, 2003, p. 27.

17
S Ã O PAULO, AVENIDA PAULISTA,
3 0 DE ABRIL DE 2017

Após a inauguração de um centro cultural ligado à cul­


tura japonesa, o alcaide da autodenom inada maior cidade
do Brasil nem por isso se torna adepto de delicadas artes
- como a do origami, digamos, já que falamos de dobra­
duras. Pois, ao receber flores de um a ciclista que, com seu
gesto isento de violência, evoca o crescimento do número
de mortes por acidente associado ao aum ento do limite de
velocidade nas marginais da metrópole, ele im ediatam ente
as joga no chão. E só não as pisoteia, aparentem ente, por­
que não se ergueria, para tanto, do banco confortável de
seu belo automóvel. No dia seguinte, um primeiro de maio
já distante(?) do anteriorm ente focalizado, o alcaide afir­
ma que repudiara o oferecimento da ciclista porque, ligado
ao antigo partido governista, ele consistiria em “Flores do
m al”. Aquele que desejava heroicizar o presente, o flâneur
Charles Baudelaire, não foi evocado, é claro, mas delibera­
dam ente sepultado, juntam ente com sua poesia, pela via de
um moralismo dos mais tacanhos. E ainda houve quem , sa­
bendo ou não da existência do poem a de Baudelaire, achas­
se graça nos gestos e palavras do novo salvador midiático
de plantão, à nossa espreita....
Flores podem ser tão maltratadas?

18
JUIZ DE FORA, PENITENCIÁRIA DE
L I N H A R E S , S E T E M B R O D E 1971

Após um a revolta dos im propriam ente cham ados pre­


sos políticos - haveria porventura os não-políticos? - contra
a situação carcerária degradante, a resposta da direção do
presídio não se faz esperar: cães soltos nos corredores das
galerias, celas invadidas, pertences quebrados ou confisca­
dos, visitas suspensas, idas ao pátio e refeitório proibidas.
Apesar de tudo isso, a greve de fome não é interrompida.
Dizem, por sinal, que poucas coisas irritam tanto os pe­
quenos chefes: tal greve contesta seu monopólio da violên­
cia, ou melhor, o fato de que possam nos matar, mas não
possamos, nós, morrer de fome livremente. Ao que parece,
porém, o que mais afeta os militantes presos em Linhares é
a desativação, no meio da noite, da “galeria das m eninas”,
como era apelidada, sendo as mulheres levadas para desti­
no ignorado. Com isso, irmãs, amigas, nam oradas e esposas
são afastadas, no intuito de castigar o grupo e, mesmo, de
esfacelá-lo. Algo, no entanto, foge ao previsto. Não som en­
te recordações, agora dolorosas, as com panheiras haviam
deixado em Linhares; tinham tam bém plantado flores em
meio ao calçamento do pátio lateral. Sendo assim, recupe­
rar o jardim e preservá-lo torna-se um a forma de mantê-las
por perto - o que a princípio é feito apenas por alguns dos
presos, pois outros, militantes mas misóginos, não veem a
jardinagem como “coisa de hom em ”. Não demorou, contu­
do, para que a misoginia m inguasse e o cuidado do jardim
se multiplicasse. Todos passam então a se em penhar não
só em m anter como em am pliar o espaço do jardim, que

19
se espraia para o muro da cadeia, para as m uretas das ce­
las, para as janelas, para as grades... Isso durou um ano.
Um dia, os soldados entraram na penitenciária e pisotearam
as flores, um a a um a. Mas os novos jardineiros plantaram
tudo de novo, agora não apenas em m em ória das com pa­
nheiras, mas para exercer a arte da insubm issão - não ser
governado assim, dessa maneira, por essas pessoas, segun­
do essas regras. O assunto foi parar nas esferas superiores e
o jardim, entendido como “risco de segurança nacional”. Os
militantes plantavam , os soldados destruíam - agonística
ininterrupta das relações de poder. Até que a direção peni­
tenciária resolveu cimentar o pátio para encerrar o proble­
ma. As sempre-vivas, no entanto, brotavam em espaços im ­
prováveis, a qualquer pequeno dano ou rachadura sofridos
pelo concreto. Narradora tardia dessa história, acrescenta
Daniela Arbex: “O renascer das sempre-vivas alimentava
a esperança em um período de desertificação hum ana. Em
nenhum outro mom ento, o país conheceu tanta d o r”10.
Nunca mais?

PARIS, S A I N T G E R M A I N D E S PRÈS,
CRUZAMENTO DAS RUAS JACOB E
B O N A P A R T E , 1957

Um jovem vindo do mercado de Buci encaminha-se para


este cruzamento. Tem vinte anos, veste-se miseravelmente e
em purra um carrinho cheio de flores: trata-se de um jovem
argelino que clandestinamente, tal como vive, vende flores.

10 ARBEX, D aniela. Cova 312. São Paulo: Geração, 2015, p.237.

20
Dirige-se para o cruzamento Jacob-Bonaparte, menos vigia­
do que o mercado, e para ali, inquieto, evidentemente.
E com razões para isso. Menos de dez minutos depois
- ainda nem teve tempo de vender o primeiro maço - dois
senhores à paisana avançam na sua direção. Vêm da rua Bo-
naparte. Andam à caça. Nariz ao vento, farejando a atmosfera
deste belo domingo ensolarado que promete irregularidades,
como outras espécies, o perdigão, eles vão diretamente à presa.
Documentos?
Não tem docum entos que lhe perm itam dedicar-se ao
comércio de flores.
Então um destes dois senhores aproxima-se do carri­
nho, faz deslizar o punho fechado pela parte de baixo e -
ah, como é forte! - com um só m urro deita todo o conteúdo
por terra. O cruzam ento é inundado pelas primeiras flores
da prim avera (argelina).
Nem Eisenstein* nem nenhum outro estão presentes
para dar realce a esta cena das flores por terra, observada
por este argelino de vinte anos, ladeado pelos representan­
tes da ordem francesa. Os primeiros automóveis que pas­
sam, e sem que ninguém os possa impedir, evitam danificar
as flores contornando-as instintivamente.
Na rua, ninguém, a não ser um a senhora, um a só:
- Bravo, senhores! exclama. - Vejam, se fizessem sem ­
pre assim, já há m uito estaríam os livres desta ralé. Bravo!
Mas surge um a outra senhora, que a seguia desde o m er­
cado. Observa as flores, o jovem criminoso que as vendia, a
dam a em júbilo e os dois senhores. Sem um a palavra, incli­
na-se, apanha algumas flores, avança para o jovem argelino e
paga-as. Depois dela, vem um a outra senhora, apanha umas

21
flores e paga. Vêm, em seguida, mais quatro senhoras que
se inclinam, apanham flores e pagam. Quinze senhoras, ao
todo. Sempre em silêncio. Os senhores pisam o chão enrai­
vecidos. Mas o que fazer num caso destes? As flores são para
vender e não se pode impedir que as queiram comprar.
A cena não durou mais do que dez minutos. Não ficou
um a só flor por terra.
Depois disso, os senhores puderam conduzir o jovem
argelino à delegacia de polícia. 11

***

Perdoem as dim ensões deste escrito que, ao contrário


do que se previa, fez-se longo. Como quase ninguém lê
prefácios, este talvez se destine exclusivamente ao coletivo
(supostamente) autoral. Se for assim, que o recebam como
um gesto de aliança em um mom ento difícil, em que reno­
vados ovos de serpente se insinuam a cada esquina, a cada
dobra. Porém, entre cimento e pedras, insurgem-se flores
(e até mesmo algumas improváveis senhoras francesas, tão
necessárias em tempos “lepenistas”), mostrando, decerto,
que somos mais livres do que pensam os e que há ao menos
algumas terras, qual Cecilândia, onde vicejam florzinhas-
-pesquisadoras sempre dispostas a encorajar.
Obrigada.

HELIANA DE BARROS CONDE RODRIGUES

11 D uras, M. As flores do argelino, Em: Ou.tsid.ers. São Paulo: Difel, 1983, pp. 13-14 (originalm ente
publicado em France-O bservateur, 1957). Ao contrário dos dem ais platôs, este constitui um a tran s­
crição sem alterações do conto (?) de M argueritte Duras.

22
D O B R A 1:

M A S EU P R E C I S O SER O U T R O S .
EU P E N S O R E N O V A R O H O M E M
USANDO BORBOLETAS...
ENTRE A S A G R A Ç Ã O DA V I D A E
S U A B A N A L I Z A Ç Ã O HÁ UM R E S T O
QUE NÃO É PO UCA BOBAGEM:
P E N S A N D O O C U I D A D O EM T E M P O S
DE B I O P O L Í T I C A

Mar i a Cl ar a A l v e s d e B a r c e l o s F e r n a n d e s

- O q u e d iz e m seus olhos?

E spero q u e d ig a m ‘e s p a n to '. Esse s e n tim e n to

q u e é a fo n te de to d o o d e se jo de e n c o n tro .
MIA COUTO.

Paradoxo. Uma operação da Secretaria Municipal de As­


sistência Social para recuperar usuários de crack perto de
um a favela da Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro fez
com que um menino de 10 anos fugisse para a Avenida Brasil,
acarretando a sua morte por atropelamento, o que o Jornal O
Globo nomeou como “corrida para a m orte”. Não sabemos
muito de sua história, apenas que era considerado um me­
nino doce, brincalhão e trabalhador, através das palavras de
seu tio, e dependente de crack, pelos meios de comunicação.
Meios de comunicação, segmentos médicos e sociedade se
unem ao discurso de alguns agentes de proteção e garantia
de direitos, pautados na lei, de que o menino morreu em “ra­
zão de sua própria conduta” (Art. 98 do Estatuto da Criança

2 5
e do Adolescente). No entanto, foi em face de um a medida
protetiva que a criança morreu atropelada. E sabemos que
ele não foi o primeiro e nem será o último a morrer na via
cham ada Brasil (Diário de Campo, 15/01/2013)12.
A medicalização excessiva da vida, a profusão de atra­
ções televisivas de bem -estar e matérias que enaltecem o
viver mais e melhor, os programas de despoluição de si, as
cruzadas antiaborto, antieutanásia, o investimento maciço
nas internações forçadas de população de rua usuária de
crack e as políticas de governo cada vez mais voltadas para
a promoção da vida nos anunciam a intensa mobilização
entorno dela. Tudo se passa como se apenas o fato de exis­
tir fosse a grande palavra de ordem.
A partir de Michel Foucault, propomos realizar uma
dobra metodológica, localizando-a no questionam ento das
forças que compõem um problema. Em vez de um a inves­
tidura na busca de verdade, atentam o-nos a problematizar:
como funcionam estes m ecanism os de promoção da vida?
A quem serve a intensa celebração da vida?
O que se intenciona aqui não é a defesa da morte ou
m ostrar qual a prática mais legítima que devemos acorrer,
mas tensionar os discursos que fazem da vida um bem
maior, no qual devem se aceitar todas as injunções, norma-
tizações, enquadram entos e aprisionamentos.
Mais um a vez, Foucault nos m ostra que a gestão da
vida faz parte de todo um dispositivo político: “É sobre a
vida agora e ao longo de seu desenrolar que o poder esta­
12 O diário de cam po é um a ferram enta proposta pela análise institucional q ue traz o “fora do tex to ”,
ou seja, o cotidiano da vivência que geralm ente é escam oteado pelos critérios científicos positivistas,
subvertendo a lógica da neutralidade e a objetividade do pesquisador. Para m aiores inform ações
sobre o acontecido consultar: http://g1.globo.com /rio-de-ianeiro /n o tiria/2 0 1 3 /0 1 /m ae-d e-m en in o -
-atropelado-no-rio-diz-que-filho-nao-era-usuario-de-crack.htm l.

26
belece seu domínio; a morte, disto, é o limite, o mom ento
que lhe escapa: torna-se o ponto mais secreto da existência,
o mais privado” (FOUCAULT, 1988, p. 182).
Sendo assim, a elegia à vida, como Swain (2009) cha­
ma sua crescente valorização, lança um a cortina de fumaça
nos mecanismos de exploração do hum ano, nas formas de
assujeitam ento, de controle, de resignação e conformismos
que estão em jogo no contemporâneo.
Pela história contada acima, e assim como a de tantos
outros que são alvo das políticas de recolhimento das ruas,
fica evidente como nessa sagração da vida, algumas são
mais im portantes que outras.
Utilizando a política de internação forçada dos denomi-
nados13 usuários de crack como analisadora14, interessa-nos
- neste artigo - a questão do cuidado. Em outras palavras,
perguntamos: em que proporção o estímulo ao existir cons­
titui mecanismo de sujeição e controle no lugar de prom o­
ção de liberdade e autonom ia das pessoas?

UM N O V O HUMANISMO?

“Dentre tantas modificações, atenho-me a uma: o de­


saparecimento dos suplícios” (FOUCAULT, 2000, p. 13). A
referida passagem destaca a curiosidade do autor pela ne­

13 Cabe ressaltar que nem toda a população de ru a é usuária de droga, em bora tais políticas de
recolhim ento não trabalhem com esse dado, generalizando e esten d en d o sua ação a toda população
que se encontra nas ruas. Fonte: http://revistaforum .com .br/b lo g /2 0 1 3 /0 5 /estu d o -n o -rj-m o stra-q u e-
-m aioria-da-populacao-de-rua-nao-bebe-nem -usa-drogas.

14 Lourau (1993) define analisadores com o aqueles acon tecim en to s q ue p o d em ag itar a in ter­
venção socioanalítica perm itindo fazer surgir, com m ais força, u m a análise, e a u m só golpe, a
instituição “inv isível”.

27
cessidade que se instituía no século XIX de um a nova econo­
mia de poder. Os suplícios demarcavam o exercício do poder
soberano sobre os corpos que a este fizessem oposição, até
que agitações e revoltas com relação à arbitrariedade e à
brutalidade dos castigos impostos pelo rei im puseram a su­
pressão dessa modalidade de punir.
Ao registrar o desaparecimento dos suplícios, historiado­
res catalogavam a mudança como um modelo mais humanis­
ta: pois retirado de cena o espetáculo punitivo sobre o corpo,
passou-se a olhar para “o ser humano que se encontrava ali”.
No entanto, Foucault dá ênfase à supressão dos suplícios para,
justamente, contrapor esta versão humanista. Ao retratar o
episódio do grande internamento em que Philippe Pinel e a
psiquiatria do século XIX soltam os loucos das prisões, Fou-
cault não tenta apenas ilustrar a transição da soberania, mas
colocar um ponto de interrogação na inflexão heroica dada
pela história a Pinel pelo seu ato humanista.

É entre os m uros do internam ento que Pinel


e a psiquiatria do século XIX encontrarão os
loucos; é lá — não esqueçam os — que eles os
abandonarão, sem deixarem de glorificar por
terem -nos ‘libertado’. A partir do século XVII,
a loucura esteve ligada a essa terra do inter­
nam ento, e ao gesto que lhe designava como
o seu lugar natural. (FOUCAULT, 1978, p. 59)

Os acontecimentos da época apontavam a necessidade


de um a reforma na justiça, pois já era muito custosa a per­
m anência dos castigos pela comoção gerada nos espectado­
res. Com efeito, o que se obteve foi o estabelecimento de
um a nova economia do poder de punir e não o nascim ento

28
de um a nova m entalidade hum anista. Um poder não mais
concentrado em um a figura - a figura do rei -, mas repar­
tido em circuitos homogêneos que pudessem ser exercidos
em toda parte, de maneira contínua, e até o mais fino grão
do corpo social. Uma reforma que pudesse garantir a regu­
laridade e eficácia, um a reforma que fosse mais constante
e minuciosa em seus efeitos. Assim, tem-se o nascim ento
das prisões e, com estas, a extração de saber necessária à
m anutenção deste novo modo de atuação do poder.
Da disciplina ao biopoder, da incisiva no indivíduo à po­
pulação, do fazer morrer e deixar viver para o fazer viver
e deixar morrer, o poder vai se sofisticando cada vez mais.
Mecanismos dos mais diversos, anônimos, flexíveis e espar­
ramados, perfazem os corpos e produzem modos de vida. O
cenário contemporâneo nos mostra outra forma de relação
do poder com a vida: não visando mais barrá-la, encarregar­
-se desta para intensificá-la, otimizá-la, torná-la saudável.
A conjuntura atual nos aponta que a “guerra” funda­
mental é aquela que se dá no âmbito da vida dos homens em
defesa de sua sociedade, colocando em pauta as políticas de
segurança e de controle da vida concernentes à biopolítica.
Os mecanismos do biopoder implicam em um modo próprio
de agenciamento do espaço, um a forma precisa de normali­
zação, assim como a singularização de um corpo específico
que será objeto e sujeito das estratégias de poder.
Assim é que, com a abordagem dos m ecanism os da
biopolítica, a ampliação dos instrum entos teóricos que
compõem a analítica do poder realizada por Foucault chega
ao tema do governo da vida ou, ainda, ao problem a da vida
como objeto de governo.

2 9
O governo da vida se transveste em cuidado, em um
certo hum anism o. Discursos que prim am pelo bem não
seguem a regra dos torturadores que violentam e usam
a dor como instrum ento; o instrum ental é outro, mais
insidioso, e que ganha seus tons de necessário e mais
hum ano. Seguindo a linha de pensam ento do grupo Nu-
-sol15, o fato de haver discursos autorizados, discursos de
verdade, produzindo a urgência de intervenção nessas vi­
das, é o que viabiliza o governo da vida. Assim, o poder
se m ascara sob o aparato do discurso m édico e som en­
te assim consegue ser tolerável, acolhido e, m antido, em
funcionam ento pela sociedade. Esse discurso no corpo do
sujeito é experienciado como um a desposse de si, ou seja,
é conferido a este um dessaber sobre o seu corpo, sobre si
e, por meio disso, se institui a tutela, o cuidado.

Não se trata mais de supressão de anormais


ou de um a raça. Agora, o revestim ento huma-
nitarista e am biental dirige-se ao atendim ento
e ao acom panham ento com o cura interm i­
nável pelos procedim entos similares aos das
internações no passado. Entretanto, mesmo
não recebendo o nom e de cam po de concen­
tração, os espaços de confinam entos para
tratam entos reiteram as m esm as práticas de
segregação e limpeza; o objetivo não é mais
o do extermínio, m as sim o da produção de
program as de saúde e segurança voltados à
despoluição de cada um , possibilitando seu
acesso à condição de capital hum ano.
(HYPOMNEMATA, n° 149,2012)

15 O Nu-Sol (Núcleo de Sociabilidade Libertária) é um a associação de pesquisadores voltada para a


problem atização das relações de poder e a invenção de liberdades. Faz parte do Programa de estudos
Pós-graduados em Ciências Sociais da PUC-SP. Para mais inform ações, acessar: h ttp ://w w w .n u -so l.
org/.

3 0
As inúm eras ocupações m ilitares nas favelas, as p o ­
líticas de pacificação, as privatizações dos espaços p ú ­
blicos e da política nos dão notícias dos itinerários das
políticas de governo: entre o acolhim ento e o recolhi­
m ento, as práticas e as pessoas circulam entre a tutela
e o cuidado. “O resultado esperado é a reform a do meio
u rbano com o consentim ento dos cidadãos, ao m esm o
tem po em que as políticas am bientais ganham contornos
eugênicos” (idem, 2012).
A aprovação do projeto de lei (PL n°.7.663/2010) re­
coloca em debate o tratam ento dado à população de rua e
ao usuário de droga ao trazer elementos que alteram a Lei
Federal de Drogas. Colocando a internação como medida
prioritária e estabelecendo critérios de internação baseados
no tipo de droga e padrão de uso, o projeto coloca a droga
em evidência, e não as relações e os efeitos do uso para
cada indivíduo. Além disso, retira das mãos do poder judi­
ciário a decisão de definir se é legítimo ou não restringir o
direito à liberdade e à autonom ia dos indivíduos, passando
a responsabilidade para os familiares, profissionais da saú­
de e, principalm ente, para o médico.
Através dos meios de comunicação, é possível acom ­
panhar hoje, no Rio de Janeiro, a política de retirada de
moradores de rua dos espaços públicos com a justificativa
de que quem compõe o novo perfil dos moradores de rua é
o usuário de crack, que precisa sofrer intervenções. Inúm e­
ras políticas de governo direcionadas a este alvo são então
dissem inadas, como aquela ilustrada pelo mote “Crack, é
possível vencer”, juntam ente com o incentivo às com unida­

31
des terapêuticas de iniciativa privada16 e os projetos de lei
que cam inham na direção da política de internação forçada
da população de rua.
O programa “Crack, é possível vencer” foi criado em
2013, tendo 738 milhões investidos na sua atuação. Dentre
suas premissas está avalizada a internação involuntária, ou
seja, a necessidade da internação avaliada e assinada por
um médico. Tal medida está prevista na lei que baliza a
reforma psiquiátrica, assim como a internação voluntária,
que tem o consentim ento do usuário, e a compulsória, que
é definida e sentenciada pelo juiz. Focaliza-se nos progra­
mas a questão do consumo de crack como um problem a de
segurança pública ou de saúde, sendo a com preensão da
saúde restrita à despoluição de si e à medicina.
Nessa m esm a esteira, segue o projeto de Lei 673/11 que
prevê a internação compulsória de crianças e adolescentes
usuários de drogas para tratam ento médico. Observa-se que
a norm ativa regulam enta que a internação para tratam en­
to médico ocorrerá independente da autorização dos pais,
sendo estes apenas certificados do local onde a criança ou
o adolescente está recebendo o tratam ento e as circunstân­
cias em que ocorreu a sua apreensão.
“Ou a cadeia, ou tratam ento” - essa foi a escolha que
um juiz teria oferecido, nas palavras de um jovem em julga­
mento por tráfico de drogas. O tratam ento é compreendido
nesta fala como pena, ou seja: “ou a pena, ou p en a!”. A
lógica da garantia de direitos e a construção da necessida­

16 A crítica que se tem a respeito das com unidades terapêuticas se refere ao tratam en to utilizado
para com as pessoas que recorrem a estas instituições. O Conselho Federal de Psicologia (CFP) fez
inspeções em 68 com unidades terapêuticas e o cenário que se constatou foi o de violação de direitos
h um anos m uito m ais com o regra do que com o exceção.

32
de do cuidado a essa população vêm sendo utilizadas para
justificar, junto à opinião pública, as intervenções nessas
vidas. E assim retom amos a história da morte de Rafael
(contada na prim eira página) e de tantos outros, em que
se expressa como o cuidado vem sendo entendido pelas
políticas de governo no Brasil. A partir destas políticas, vê­
-se como o discurso da necessidade de tratam ento, do h u ­
manismo, de tratar o consumo de crack como problem a de
saúde vem abarcando inclusive lógicas punitivas.
Estas lógicas punitivas estariam inseridas naquilo
que Foucault destaca sobre o racism o de Estado: o poder
contem porâneo se interessa sim pelo fazer viver, m as o
fazer viver de m aneira “n o rm alizad a”, um a vida en q u a­
drada dentro dos m oldes e esquem as estipulados. Porém,
essas existências julgadas fora do escopo saudável afron­
tam os padrões de norm alização contem porânea com
seus m odos de vida.
Thom as Szasz (1994), em seu livro “Cruel Compaixão”,
aponta que o Estado, com o discurso de proteger as pesso­
as de si próprias, tem substituído as sentenças punitivas
por programas terapêuticos. No entanto, quando se trata da
população pobre, tais programas não fogem do sistema de
coerção e punição.

CUIDANDO DO C U I D A D O

T a lve z F o u c a u lt c o n tin u e te n d o razão:

ho je e m dia, ao lado das lu ta s tra d ic io n a is


c o n tra a d o m in a ç ã o (d e u m p o v o s o b re o u tro ,

3 3
p o r e x e m p lo ) e c o n tra a e x p lo ra ç ã o

(d e um a classe s o b re o u tra , p o r e x e m p lo ),
é a lu ta c o n tra as fo rm a s d e a s s u je ita m e n to ,

isto é, de su b m is s ã o da s u b je tiv id a d e , q u e p re v a le c e m .

(P E LB A R T, 2 0 0 3 , p. 2 6 )

A luta pela construção e qualificação das políticas p ú ­


blicas em torno da garantia de direitos, por vezes, deixa
de lado o debate dos efeitos éticos e políticos de nossas
práticas dentro dos serviços públicos, produzindo mais
violência em nome do cuidado e da defesa da vida. Com
isso, perguntamo-nos: até que ponto garantir o respeito a
autonom ia e liberdade dos sujeitos para os quais destina­
mos nossas práticas, e até que ponto temos a obrigação de
intervir “com pulsoriam ente” em nom e da proteção à vida?
No corpo da criança atropelada e dos m uitos outros que
correm pela Avenida Brasil, está registrado o efeito do nos­
so querer bem para o outro, de nossas políticas públicas, de
nossos pedidos por garantias de direito.
No dia 18 de novembro de 2013, um jovem de 25 anos17,
aparentem ente sob efeito de drogas, andava na contramão
por entre os veículos na Avenida Brasil no sentido Centro
do Rio de Janeiro. Ele desafiava os carros, tentou parar ve­
ículos, ajoelhava na frente destes e quase foi atropelado
por carros e motos. O jovem acabou sendo levado para um
posto da corporação policial na Avenida Brasil por agentes
do Batalhão de Policiamento em Vias Especiais.
Em muitas discussões é questionado se é possível ver

17 Para ter acesso a esta notícia, acessar: h ttp ://g1.globo.com /rio -d e-jan eiro /tran sito /n o ti-
cia/2013/11/hom em -atrapalha-o-transito-e-assusta-m otoristas-na-avenida-brasil-rio.htm l.

34
potência em todos esses casos, e como lidar com um a situa­
ção em que a pessoa não só coloca si própria em risco, como
a vida de outros passantes. Várias falas se assomam ante a
situação. A psicanalista Angela Hofmann aprova o trabalho
da secretaria de assistência social a respeito das operações de
recolhimento em parceria com a polícia militar:

Não há possibilidade de chegar de outra for­


ma a quem está necessitando de ajuda. Há
pessoas que têm problem as com drogas, mas
ainda possuem um certo controle de sua vida.
Mas essas não têm capacidade de escolha. É
a m esm a coisa que você perguntar a alguém
que foi atropelado se necessita de socorro m é­
dico. (JORNAL DO BRASIL, 10-01-2013)18

Já o autor do projeto de lei sobre a internação compulsó­


ria (PL n°.7.663/2010) diz ser preciso dirigir essa política aos
usuários que estão nas ruas sem condições de se reabilitar.
“São pessoas que não têm família, dormem nas ruas, perde­
ram tudo e não conseguem trabalhar, vivendo apenas esperan­
do os próximos 15 minutos para usar a droga” (idem, 2013).
A partir desses modos de pensar, só conseguimos ver
impotência, muitas certezas daquilo que deve ser feito, a
droga como única e exclusiva causa e explicação para tudo
que acontece com essas pessoas. Nestes discursos, o colo­
car-se em risco por estar sob efeito das drogas é, justam en­
te, o que viabiliza e torna possível os recolhimentos.
No entanto, muitas interrogações passam por nós. O
que é o risco para um a vida que está sempre na corda bam ­
18 H offm an, A. In: Crack: internação adotada pelo M unicípio n ão resolve. Jornal do Brasil. 10-01­
2013. D isponível em: h ttp://w w w .jb.com .br/rio/noticias/2013 /0 1 /1 0 /crack -in tern acao -ad o tad a-
-pelo-m unicipio-nao-resolve/.

35
ba? Seria esta dim ensão aquela que Gilles Deleuze (1998)
referencia como de risco, quando fala das linhas de aboli­
ção? O que fazer com isso? O engodo, o incômodo perm a­
necem. As cenas do jovem de 25 anos “dançando” na pista
são, de fato, angustiantes. Ficamos com o pensam ento de
um jovem usuário - que a presente autora teve a oportuni­
dade de conversar - latejando na cabeça: “A morte, morte, é
secundária porque já estava morto há m uito tem po”. Morte
em vida, morte na não existência de direitos, no não lugar
ou da colocação no lugar já conhecido.
Foucault, um pensador atento às singularidades em
conflito com o poder, nos conduz a reorientar o nosso olhar
sobre a vida que dança entre os carros, fazendo-nos pensar
que quando a vida se torna alvo de normalizações e perde
a capacidade de falar por si é tam bém um tipo de morte e,
assim, consequentem ente, pensar em outros modos de se
fazer cuidado:

Um delinquente arrisca a sua vida contra cas­


tigos abusivos, um louco não suporta mais
estar preso e decaído; um povo recusa o re­
gime que o oprime. Isso não torna o primeiro
inocente, não cura o outro, e não garante ao
terceiro os dias prom etidos. Ninguém, aliás,
é obrigado a ser solidário a eles. Ninguém é
obrigado a achar que aquelas vozes confusas
cantam m elhor do que as outras e falam a es­
sência do verdadeiro. Basta que elas existam
e que tenham contra ela tudo o que se obs­
tina em fazê-las calar, para que faça sentido
escutá-las e buscar o que elas querem dizer.
Questão moral? Talvez. Questão de realidade,
certam ente. Todas as desilusões da história de
nada valem; é por existirem tais vozes que o

3 6
tem po dos hom ens não tem forma da evolu­
ção, mas justam ente a da história.
(FOUCAULT, 2006, p. 80)

Percebemos, então, que a produção de um sujeito u su á­


rio de crack despossuído de si é resultado vivo das técnicas
de dominação e das tecnologias de poder, e que, desta feita,
os discursos e práticas de exaltação da vida e o que vem
se nom eando por cuidado, encobrem funcionam entos de
repressão, tutela, coerção e punição.
A questão política que se coloca não é a de negar o
cuidado e suas vias de afirmação de vidas potentes, mas de
pensar um a ousadia de querer se desgarrar das ideias pron­
tas e do já conhecido, ouvir o que essas vozes nos dizem
sobre o contem porâneo, detectar nesses meios os m ecanis­
mos que produzem novas servidões e tecer formas mais
autônom as de cuidado.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

DELEUZE, Gilles & Parnet, Claire. Diálogos. São Paulo: Es­


cuta, 1998.
FOUCAULT, Michel. “É inútil revoltar-se?”. In: MOTTA, M.
Barros da. Ditos e Escritos V: Ética, Sexualidade, Po­
lítica. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006. p.
77-81.
____. Vigiar e punir. Nascimento da Prisão. Trad. Raquel
Ramalhete. Rio de Janeiro: Vozes, 2000.
____. História da Sexualidade I. A vontade de saber. São
Paulo: Paz e Terra, 1988.

3 7
____. História da loucura. São Paulo: Perspectiva, 1978.
LOURAU, R. René Lourau na UERJ. Análise institucional e
prática de pesquisa. Rio de Janeiro: UERJ, 1993.
PELBART, P. P. “Vida nua, vida besta, um a v id a”. Mimeo.
Disponível em: http://w w w .pphp.uol.com .br/tropi-
co/htm l/textos/2792,1.shl
SWAIN, T. “Todo homem é mortal. Ora, as mulheres não
são homens; logo, são im ortais”. In: RAGO, M.; VEI-
GA-NETO, A. (Org.). Para um a vida não-fascista. Belo
Horizonte: Autêntica Editora, 2009.
SZASZ, T. Cruel compaixão. Campinas: Papirus, 1994.
Jo rn al Eletrônico.
“Do governo das condutas e das contra-condutas”. In: HY-
POMNEMATA - Boletim eletrônico mensal do Nu-
-Sol (Núcleo de Sociabilidade Libertária), Programa
de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da
PUC-SP. Número149, Outubro de 2012. Disponível
em: http://w w w .nu-sol.org/hypom nem ata/boletim .
php?idhypom = 179.

3 8
“ A S C E N S Ã O D O C A P I T A L I S M O DE
D E S A S T R E ” 19: O E S P E C I A L I S M O
PSI A S E R V I Ç O D O “ T R A B A L H O
TÉCNICO SOCIAL”

Fi l i pe d e Co n t t i As t h

CONTEXTUALIZANDO

Na m adrugada do dia 12 de janeiro de 2011, a cidade


de Nova Friburgo (RJ), local de residência dos meus pais e
de muitos amigos e familiares, viveu um dos capítulos mais
trágicos de sua história. Nesta ocasião, a região serrana do
estado do Rio de Janeiro foi afetada por um a intensa pre­
cipitação pluviométrica, o que ocasionou a cheia dos rios,
grandes deslizam entos de terras e o maior número de atin-
gidos20 de um a catástrofe, convencionalm ente cham ada de
natural, registrado no Brasil.
Desde a ocasião, as ações governamentais diziam se
concentrar na reparação emergencial dos danos causados
por esse evento: desobstrução das vias, limpeza dos rios,
procura por desaparecidos etc. Diversas equipes de órgãos

19 Título do livro de N aom i Klein (2008).

20 Em term os de consequências hum anas, foram registrados aproxim adam ente 905 óbitos, 8.795
desabrigados e 22.604 desalojados; resultando no im pacto direto sobre a vida de m ais de 32 mil
habitantes, principalm ente nos m unicípios de Petrópolis, Teresópolis e Nova Friburgo, com o total de
sete m unicípios decretando estado de calam idade pública.

39
municipais, estadual e federal se diziam atuar nas áreas
atingidas, dentre elas o Instituto Estadual do Meio Ambiente
- INEA. Este órgão, que já estava presente nos meses subse­
quentes à tragédia realizando ações de limpeza e dragagem
dos principais rios afetados pelas chuvas, apresentou, neste
contexto, um projeto de “recuperação”21 da bacia hidrográ­
fica dos municípios de Petrópolis, Teresópolis e Nova Fri-
burgo. Fora utilizado como proposição, mesmo que isto não
estivesse em termos precisos, a necessidade de “segurança e
proteção às famílias ribeirinhas” que se encontravam no que
denom inaram de “áreas de risco de inundação”.
O projeto em questão, denom inado “Rios da Serra”,
envolvia tam bém um a série de atividades previstas no
Plano de Trabalho Técnico Social22 que seriam realizadas
em conjunto com as obras. Ou seja, p ara a realização da
intervenção física, qual seja, a obra propriam ente dita,
seria necessária a identificação da população residente
nas referidas áreas23 no intuito de prom over sua realo-
cação. Deste m odo, o trabalho técnico social seria res­
ponsável por coordenar as ações que visavam realizar
a reparação econôm ica às fam ílias que se encontravam
naquela faixa delim itada.

21 Esta recuperação, de acordo com o que estava previsto no projeto, dizia ser a realização do alar­
gam ento da calha do rio de m odo que com portasse u m volum e m aior de água, a recom posição de
suas m argens com diferentes insum os m ateriais e a construção do que cham avam de Parque Fluvial.
Os Parques Fluviais previam a instalação de diferentes equipam en to s (ciclovias, praças etc.) nas
áreas não edificantes, para que a população não voltasse a constru ir casas n as áreas tidas com o de
risco de inundação.

22 Plano elaborado em conform idade com as orientações do Caderno de O rientação Técnico Social
(COTS) da Caixa Econôm ica Federal.

23 O zoneam ento de risco de inundação apresentado por esse projeto definiu três áreas específicas:
risco im inente de inundação, na qual a realocação seria com pulsória; alto risco de in u n d ação , n a
qual a realocação seria optativa e risco de inundação m oderado, n o q ual os m oradores seriam avi­
sados de u m a possível inundação a partir de um sistem a de alerta e de u m p lano de contingência.

40
Desta forma, para realizar o trabalho de reparação eco­
nômica, a equipe técnica social deveria efetuar o cadastra-
mento, bem como a vistoria, avaliação e negociação dos
bens imóveis que estivessem nas áreas dem arcadas para re-
alocação. Além disso, deveria haver ações necessárias para
mobilização da população afetada, tais como reuniões com
as associações de moradores, prefeituras, secretarias m uni­
cipais, ministério público e todos os envolvidos direta ou
indiretam ente com o projeto. É im portante ressaltar que, o
início da execução deste projeto, um ano depois da tragédia,
não tinha a pretensão de reparar os danos causados pelo
evento ocorrido. Tratava-se de um a obra cujo intuito seria
tão somente “prevenir” novas enchentes. Por um a coinci­
dência oportuna, o governo estadual justifica a necessidade
da execução deste projeto a partir do cenário de destruição
do desastre, prática política apresentada como “inevitável”.

O MITO DA CIENTIFICIDADE

O referido projeto pautou-se por um a série de etapas


que foram orientadas tão somente pelo resultado dos es­
tudos realizados em laboratório por equipes de engenhei­
ros que diziam ser especialistas em hidrologia, sustentados
pela ideia de que estariam reproduzindo naquele espaço as
“condições naturais”. O resultado desses estudos apontava
para o fato de que o transbordam ento habitual do rio Córre­
go D ’antas, no caso específico da cidade de Nova Friburgo,
colocaria, em um período estimado de tempo, um a série de
famílias em risco. Para alcançar este resultado, os “cientis­

41
ta s” articularam determ inados dados e o que ocorreu foram
algumas combinações que apresentaram um fato como ne­
cessário, qual seja, a retirada das famílias pobres que se
encontravam residindo no que denom inavam de “áreas de
risco im inente de inundação”.
Trata-se, deste modo, de um a hierarquia histórica entre
os saberes em que as chamadas “ciências duras”, que se sus­
tentam por “conteúdos do conhecimento histórico meticulo­
so, erudito, exato, técnico” (FOUCAULT, 2010, p. 9), ditam
um modelo, um método padrão de se produzir conhecimen­
to, desqualificando outros. Contudo, os laboratórios não são
reinos de imparcialidade, controle e desinteresses. Quando se
atende a um a encom enda feita aos estudiosos, de se criar um
projeto de “recuperação de um a bacia hidrográfica”, o que
atravessa o resultado deste estudo é também, e sobretudo,
um a série de interesses econômicos e políticos. Que mundos
se criam com essas articulações? Quais os seus efeitos? No
contexto apresentado, foi a aliança de determinados sabe-
res hegemônicos com interesses do capital que produziram a
“necessidade” dessas intervenções.
Deste modo, o que pretendo por em análise são os efei­
tos e as formas de poder que exercem esses saberes, cujo
valor de verdade, para além das instâncias de produção
científica e validação epistemológica, não é dado a priori
apenas pela condição de ser científico, mas principalm ente
pela sua habilidade em produzir subjetividades. De acordo
com Scheinvar (2009, p. 32), “a produção de subjetivida-
des refere relações entendidas como produções em redes de
conexões produtoras das diferentes perspectivas que norte­
arão a prática dos sujeitos; diferentes formas de pensar, de

42
desejar, de agir”, fundam entais para se instituir determ ina­
dos “modos de v id a”.
Ou seja, esses estudos criaram um a “necessidade” pro­
duzida a partir da combinação de alguns dispositivos que
foram relacionados em laboratório e, deste modo, a necessi­
dade de se realocar pessoas que residam em áreas apresen­
tadas como de risco de inundação direcionou um a série de
intervenções justificadas por este argumento, produzindo
entre outras coisas “os moradores em situação de risco”.

AÇÕES SUPOSTAMENTE
COMPLEMENTARES: INTERVENÇÃO
FÍSICA E T R A B A L H O SOCIAL

Nesta direção, podem os observar que o projeto “Rios


da Serra” sugeriu duas intervenções que se diziam com-
plem entares, consolidando a dupla face do que Foucault
(2010) denom ina de biopolítica. De um lado, o resultado
dos estudos das cham adas ciências da natureza ditavam
as diretrizes da intervenção proposta para a realização de
um a obra que se dizia preventiva; e de outro, um a ideia
nebulosa de “trabalho social” era convocada para o cum ­
prim ento de um a série de ações que tinham como objetivo
principal a “lim peza” da área para sua execução. Apesar
de parecerem duas intervenções diferentes, am bas funcio­
navam com a m esm a lógica de controle biopolítico aten­
dendo a interesses econômicos.
Vimos, deste modo, se instituir um a intervenção hi-
gienista de controle biopolítico sustentada por argumentos

43
“técnicos” que se dizem neutros e científicos. Configura-se
um a racionalidade biopolítica e sua paradoxal forma de fun­
cionamento, a qual, para produzir e incentivar de maneira
adm inistrada a vida de um dado corpo populacional, pode
vir a promover o extermínio, seja por genocídio ou mesmo
por exclusão, de um a população considerada perigosa, de
risco ou em risco. Neste sentido, para Foucault (2010) não
existe nenhum a contradição entre o poder de adm inistração
da vida e o poder de m atar tantos quantos forem necessá­
rios para garantir as melhores condições vitais possíveis.
Grande parte das casas construídas às margens do rio
Córrego D’antas não eram legalizadas em cartório, ou seja,
não tinham o Registro Geral de Imóveis - RGI24. Esses trâ­
mites legais são bastante custosos, o que acaba levando a
grande maioria da população a não fazê-los, muitas vezes
por falta de recursos financeiros, outras por puro desconhe­
cimento a respeito de seus procedimentos. Contudo, apesar
da justificativa para a realocação não ser jurídica, a orienta­
ção estatal era que se utilizasse este argum ento como forma
de pressionar a população para a negociação de seus bens
imóveis, incutindo-lhes a responsabilidade pela situação
“irregular” em que se encontravam. Para Forrester (apud
COIMBRA, 2001, p. 131),

estes são os prim eiros a se considerar incom ­


patíveis com a sociedade da qual eles são os
produtos mais naturais. São levados a se con­
siderar indignos dela, e, sobretudo responsá­
veis pela sua própria situação [...]. Julgam-se
com o olhar daqueles que os julgam , olhar

24 O Registro Geral de Imóveis é o ato cartorial que declara qu em é o proprietário form al e legal do
im óvel, e ainda se a propriedade deste b em está sendo transm itida de u m a pessoa para outra.

44
esse que adotam , que os vê: como culpados, e
que os faz, em seguida, perguntar que incapa­
cidade, que aptidão para o fracasso, que erros
puderam levá-los a essa situação.

Até então o argum ento para a realocação compulsória


era o risco a que o transbordam ento do rio colocaria os re­
sidentes de suas margens, respaldado pela noção de que se
tratava de “moradias irregulares”. A carga moral que carre­
ga essa denom inação não levava em conta o processo histó­
rico e político de sua constituição. Trata-se, deste modo, de
um sistema de julgam ento em que se afirma a responsabi­
lidade individual no qual cada um passa a ser responsável
pelo que é e pelo que consegue fazer. Ou seja, a condição
de “moradia irregular” passa a ser entendida como um a
escolha de um indivíduo que fracassou e não como o efeito
da especulação imobiliária que o fez não ter outra opção de
local para moradia, por exemplo.
O caráter am bivalente do que se denom ina trabalho so­
cial aponta que, ao mesmo tempo em que as “ações sociais”
dizem com plementar o projeto para a realização da obra,
estas acabam sendo peças-chave para que a intervenção no
cenário físico ocorra, pois se o trabalho de realocação das
famílias não for concluído, em alguns trechos a obra tam ­
bém não o será. A questão biopolítica é atravessada por
interesses econômicos grandiosos, pois a conclusão da obra
garantiria o recebimento de quantias enorm es de dinheiro
público pelas empresas. Sentar à mesa de reuniões, rodea­
do de empreiteiros, tornou-se um a rotina constrangedora,
visto que a exigência de resultados forçava um a abordagem
à população com pletam ente arbitrária, afastando-nos de

45
qualquer possibilidade de acolhimento de suas demandas.
A pressão para a conclusão da obra era repassada
entre os atores envolvidos neste projeto, form ando um cír­
culo de transferência de responsabilidades que tinha como
principal efeito um a atitude perversa de “convencim ento”
para que a população saísse de seus locais de origem em
regime de urgência.
Os gestores tinham interesse em concluir “seus feitos”
para que os mesmos fossem usados como vitrine de seus
m andatos e pressionavam os empreiteiros para tal. Os em ­
preiteiros, por sua vez, maiores interessados na realização
do projeto, pressionavam do outro lado, pois a conclusão
dessas obras significava a transferência do dinheiro público
para a conta das grandes empresas. Entretanto, caso não
conseguissem garantir todo o aparato para a realização das
obras no tempo prometido, utilizavam como álibi a demora
na negociação e reparação econômica dos bens imóveis,
que é um a atribuição do próprio Estado.
Diante deste cenário, tanto os gestores, quanto os em­
preiteiros pressionavam os responsáveis25 pelo dito trabalho
social para que a demolição das casas fosse agilizada. Agili­
zar a demolição das casas significava atropelar um a série de
procedimentos. Neste sentido, o que mais importava era a
execução da obra, e não a maneira como o Estado se propu­
nha a realizá-la. Assim, o exercício de poder se deu pela im­
posição de um projeto apresentado como necessário, em que

25 Existia u m a equipe governam ental que d izia co o rd en ar o trab alh o d as em p resas co n tratad as
para realizar todas as etap as necessárias p ara a reparação econô m ica dos b en s im óveis ap o n tad o s
para a realocação. Essas em presas se d iziam especializadas em ca d astram en to , v istoria e avaliação
de im óveis, m as geralm ente a negociação era realizada pela equ ip e do p róprio Estado. N este caso,
ap e sar da pouca experiência em negociação da em presa contratad a, ela tam b ém realizo u esta
etap a do processo.

46
a proteção à vida foi o ponto tangencial e objeto de inflexão
no qual essa política estatal foi supostamente direcionada.
Nesta direção, retomo a ideia de proteção, na qual a
m esm a aparece em um período de emergências e profunda
desorientação da população. Apesar da existência de um a
legislação26, ainda que controversa, a justificativa para a re-
alocação compulsória das famílias que viviam às margens
do rio Córrego D’antas, no bairro de mesmo nome, não era
sua base legal, mas sim os critérios apresentados pelos es­
tudos hidrológicos.
O “risco” para as famílias ribeirinhas respaldava a
atuação do Estado naquele m om ento. No entanto, após
a liberação da verba para a execução do projeto, a obra
ganha tam anha relevância que esse risco passa a ter ou­
tra conotação, outro sentido. Algumas residências, m uitas
delas estabelecidas ali há décadas, passam a atrapalhar o
andam ento da obra. E o trabalho “técnico social” tem a
“m issão” de convencer (term o m uito utilizado pelos en­
genheiros para definir o objetivo do trabalho social) as
famílias a saírem de seus locais de origem recebendo um a
reparação27 econômica.

26 A prim eira legislação que regulam enta a ocupação das m argens dos rios (Decreto N° 24.643, de
10 de Julho de 1934, conhecido com o Código de Águas) diz q ue os terrenos reservados vão até a
distância de 15 m etros p ara a parte de terra, contados desde o po n to m édio d as ench en tes ordinárias,
ou seja, do transbordam ento habitual. A pós a publicação deste decreto, u m a série de o utras legisla­
ções foi publicada, entretanto as contradições entre elas fazem com q ue a dem arcação dessas áreas
edificantes seja u m a tarefa bastan te controversa. A lém disso, os rios m odificam os seus cursos com
o decorrer do tem po e da ação das chuvas e ventos, o que altera essa distância ao longo dos anos.

27 As reparações oferecidas aos m oradores da região serrana estão previstas no decreto N° 43.415 de
09 de Janeiro de 2012 que aprova as diretrizes para a dem olição de edificações e realocação em assen ­
tam entos ou bairros populares. O referido decreto foi atualizado a partir do q ue havia sido assinado
pelo governador do estado do Rio de Janeiro dois anos antes da tragédia, no contexto d as reparações
previstas para realização das obras do PAC - Program a de A celeração do C rescim ento, n as favelas
cariocas. Ou seja, o instrum ento utilizado para as referidas reparações n ão contem plava as situações
específicas apresentadas pelo contexto da região serrana naquele m om ento.

47
Porém, a flexibilização de alguns trechos do zonea-
m ento que define as áreas de risco nos indicou que a obje­
tividade das ciências exatas tam bém pode ser questionada.
Muitos interesses atravessam a execução de um projeto
desse porte. No fim, o que justifica um a intervenção como
essa perde a relevância quando interesses outros sobre­
põem o objetivo que se propõe a ser a “proteção da popu­
lação de um risco de in u n d ação ”.
O “trabalho social” assum e um papel perverso que fa­
cilmente é capturado pela dinâmica de funcionam ento da
m áquina do Estado. Sem perceber, vamos azeitando essa
m áquina de forma que o entendim ento do que seja “traba­
lho social” vai ganhando contornos definidos por orienta­
ções de gestões bastante com prom etidas com interesses do
capital, com acordos político-partidários e até mesmo com
interesses particulares dos próprios gestores.
Deste modo, as diretrizes que balizam a atuação pro­
fissional daqueles que são convocados para a realização do
“trabalho social”, geralmente advogados, assistentes sociais
e psicólogos, são colocadas em xeque a todo o mom ento na
m edida em que passam a ocupar o limite tênue do que se­
riam práticas éticas. Esses lugares que somos cham ados a
ocupar exigem um a constante postura crítica do nosso fazer
para que a prática não recaia na mera reprodução de verda­
des e modelos hegemônicos. Porque, sem perceber, natura­
lizamos o discurso oficial, fazendo dele o nosso discurso.

48
ANÁLISE DE I M P L I C A Ç Õ E S :
E S P E C I A L I S M O PSI E M A N Á L I S E

Nesta direção, pretendo fazer um recorte no qual se


faz necessário colocar em análise a m inha própria prática
enquanto “especialista”, ao situá-la como um dos instru­
mentos dessa conduta dos hom ens pela qual se deu a in­
tervenção estatal sobre a população residente às margens
do Córrego D’antas. Para isso, é im portante problem atizar
a própria noção de especialista, entendendo-a como um
mecanismo de exercício de poder que atua na produção e
organização de realidades.
Que práticas estão se produzindo nas tramas de saber-
-poder? É interessante pensar, neste sentido, o lugar que
ocupava naquela equipe. Assumi o cargo de coordenador
de campo e, na verdade, exercia um a função de fiscalização
da empresa contratada pelo Estado para executar o serviço
que denominavam “trabalho social”. Existe um a questão de
mercado muito forte atravessando a produção dos especia­
listas nessa área, um movimento forte de preservação de
territórios-mercado exaustivamente construídos “para que
haja empregos destinados aos técnicos bacharéis em hum a­
nidades, para que o Estado persista como um a instituição in­
dispensável na vida das pessoas” (AUGUSTO, 2013, p. 134).
Entretanto, como nos indaga Deleuze (1992): a que es­
tamos “sendo levados a servir?” (p. 226). A questão de m er­
cado que atravessa perversam ente a produção em demasia
desses especialistas possibilita ao capitalismo selecionar
aqueles que melhor servirão aos interesses do Estado.
Assim que assumi o cargo e passei a cumprir as tarefas

49
esperadas para a função que exercia, eu ainda encarava o
fato da realocação como sendo um a necessidade real, pois
havia assimilado aquele discurso como um a verdade para
mim também. No entanto, à medida que me apropriava do
contexto de elaboração do projeto e, especialmente, dos inte­
resses envolvidos em sua execução, minha implicação com o
tema modificou-se bastante, principalmente quando a rotina
colocava-me cara a cara com a população afetada. Esta condi­
ção tornava-se extremamente angustiante na medida em que
cotidianamente era convocado a sustentar posicionamentos
que não condiziam com a minha postura ética, especialmen­
te nos momentos em que me percebia tomado pela “indigni­
dade de falar pelos outros” (FOUCAULT, 1979, p. 72).
Deste modo, o que atravessa essa escrita é também
um a dificuldade em reconhecer que, em alguns m om en­
tos, meu modo de funcionam ento operava de acordo com
a forma-Estado28, além do incômodo com relação à m anei­
ra com que o Estado “tratora29” a vida das pessoas e tem
se utilizado das “hum anidades científicas” como forma de
“suavizar” esse movimento. O percurso que antecedeu a
prim eira de m uitas recusas, na qual se pode afirmar: “Eu
prefiro não!”, assim como o fez Bartleby30, se constituiu
por situações de profundo estranham ento, bem como em
alguns m om entos se deu sutilm ente sem que ao menos p u ­

28 Termo proposto por Barros et a l (1996).

29 N ão se tra ta ap e n as de u m a linguagem m etafórica, pois o term o utilizad o tra d u z b em o m ovi­


m ento que o E stado im prim iu n a execução deste projeto. Os trato res eram u tilizados, inclusive,
com o form a de pressio n ar os m oradores a negociarem com rapid ez a rep aração eco n ô m ica p ro p o s­
ta pelo E stado p ara agilizar a dem olição de suas casas.

30 Bartleby, o Escrivão ou Bartleby, o E scriturário é um conto do escritor no rte-am erican o H erm an


M elville (1819-1891). Revela a história de u m jovem escrivão que executava cad a vez m enos suas
tarefas no escritório sim plesm ente resp o n d en d o ao seu chefe: “Eu preferiria n ão fa z e r”.

50
desse percebê-lo. Eis o desafio de ocupar o lugar do agen­
te do Estado ou de especialista, desfazendo-o. No entanto,
como perceber ou estabelecer um limite ético para a prática
profissional? Mesmo no terreno fortem ente instituído do
Estado acredito que é possível o fortalecimento - mesmo
que provisório - do que Deleuze e Parnet (1998) chamam
de linhas de fuga31. Contudo, há que se ter cautela ao as­
sumir o risco de m inar essa relação que foi a condição de
possibilidade de determ inados discursos, pois sempre há
efeitos. A recusa em participar de determ inadas dinâmicas
institucionais, ou o próprio dizer “não ” para alguns modos
instituídos de funcionamento, pode ser um a atitude parre-
siasta. Contudo, como nos alerta Foucault (2011), para que
haja parresía, “o sujeito, ao dizer essa verdade que marca
como sendo sua opinião, seu pensam ento, sua crença, tem
de assum ir certo risco, risco que diz respeito à própria re­
lação que ele tem com a pessoa a quem se dirige” (p. 12).
Um dos dispositivos encontrados pelo Estado como es­
tratégia de convencimento da população para saírem de suas
casas foi a realização de reuniões com as lideranças comu­
nitárias. Buscou-se o contato daqueles que exerciam algum
tipo de influência sobre a população, presidentes de associa­
ções de moradores, líderes religiosos etc. para a realização
dessas reuniões nas quais se explicaria os critérios “técni­
cos” que, segundo os engenheiros, justificavam a necessi­
dade de realocação dos moradores daquela região. Reuniões
estas que se constituíram em diferentes formatos. Contudo,

31 A ssim a definiram : “h á com o que u m a terceira espécie de linha, esta ain d a m ais estran h a: com o
se algum a coisa no s levasse, através do s segm entos, m as ta m b ém atrav és de n o sso s lim iares, em
direção de u m a destinação desconhecida, não previsível, não p reex isten te” (DELEUZE; PARNET,
1998, p. 146).

51
em todos esses espaços eram convocados os “especialistas”
para falar em nom e do Estado, respaldados por um estudo
científico, espaços que inicialmente foram ocupados apenas
pelos integrantes da cham ada equipe técnica social.
Éramos, deste modo, convocados diariam ente a sus­
tentar um a política higienista por meio de argum entos su­
postam ente “técnicos” que nem mesmo os responsáveis
pelo projeto estavam totalm ente convencidos. As contra­
dições entre os engenheiros responsáveis desm ascaravam
a todo instante o caráter “necessário” daquela ação. Não é
à toa que nos colocavam como linha de frente para o diá­
logo com a população sempre com o argum ento de que os
“cientistas sociais” tinham um a m aneira mais acessível de
se com unicar com os m oradores da região, pois conseguem
“falar a m esm a língua”. Tínhamos, neste sentido, a atribui­
ção de traduzir a verborragia técnica em um a linguagem
popular, como se a técnica estivesse separada dos atraves­
sam entos políticos que constituíram as alianças para a rea­
lização daquele projeto.
Compor determinados dispositivos do aparato que co­
locava em movimento a m áquina do Estado fez ruir aos
poucos a crença na possibilidade de se produzir desvios em
seu modo de funcionamento, pois a violência com que eram
instituídas as práticas institucionais me impulsionava mais
em direção a assumir a forma-Estado do que dar passagem
a movimentos de criação ou de produção de bifurcações em
seu interior. Com o decorrer de algumas reuniões, os critérios
apresentados para a realização do projeto foram sendo ques­
tionados de forma muito pertinente pela população, o que
nos obrigou a solicitar a presença de algum engenheiro que

52
pudesse respondê-los, como se aqueles questionamentos fos­
sem ser resolvidos por um a explicação meramente “técnica”.
A atribuição de coordenar exigia um a série de habilida­
des que, ao mesmo tempo em que foram sendo aprimoradas
com o decorrer do processo, tornavam-me, com a dinâm i­
ca do trabalho, um mero “tarefeiro” sem que tivesse tempo
para pensar em seus porquês. Havia que identificar os códi­
gos de cada bem imóvel no m apa e acom panhar o desenro­
lar do trabalho da equipe de campo, atualizar as planilhas,
rastrear as situações-problema e resolvê-las no território.
Naturalizava-se, assim, o modo de ser perito, tornando a fle­
xibilização de tarefas um a obrigatoriedade. Segundo Coim­
bra e Nascimento (2007, p. 28), “tal funcionamento atende
com perfeição à lógica capitalista contemporânea, na qual o
tempo cada vez mais se comprime e se acelera”.
Cobrar produtividade à em presa contratada ao mesmo
tempo em que se exigia qualidade no serviço ofertado era
o paradoxo que sustentava a função que eu exercia. Isso
fez com que “as relações e os encontros se [dessem] de for­
ma apressada, superficial, emergencial, levando a situações
de pouco acolhimento e solidariedade, nas quais o coletivo
[foi] se esvaziando” (COIMBRA; NASCIMENTO, 2007, p.
32). Produtividade significava quantidade de bens imóveis
cadastrados, negociados, indenizados. Qualidade no servi­
ço significava atender a população de forma satisfatória. A
coisa era feita para que estes term os não se conjugassem.
Deste modo, a psicologia fora convocada a intervir,
porém já havia pré-estabelecido suas atribuições naquele
contexto. A questão que se colocava era qual psicologia
atenderia melhor aquela encom enda. Naquele caso, a que

5 3
se apresentou foi um a certa psicologia dita social. Esperava­
-se que especialm ente aqueles crédulos de um a psicologia
tradicionalm ente caridosa e hum anista, seguissem as orien­
tações sem questionar. Em um a das reuniões com os m o­
radores, após a habitual explanação a respeito dos critérios
“técnicos” e dos rumos do projeto, um a m oradora questio­
na surpresa o fato de seus porta-vozes serem psicólogos,
pois para ela esses profissionais estariam para resolver os
problem as da população e não para instaurá-los. “Mas os
psicólogos não servem pra tratar da gente? Vocês estão é
nos fazendo sofrer!”, disse a senhora indignada.
O campo de conhecimento produzido pela psicologia,
com sua multiplicidade de saberes, vem espraiando seus
tentáculos cada vez mais ávidos por um a parcela maior no
mercado de trabalho. Produzem-se dem andas no campo e,
consequentem ente, são apresentadas as ferram entas apro­
priadas àquela intervenção. É interessante notar o aum ento
significativo de projetos governam entais e da iniciativa pri­
vada cujas intervenções exigem, entre outras coisas, a rea-
locação de pessoas de áreas dem arcadas para algum tipo de
em preendim ento, geralmente grandes obras. A especulação
imobiliária e a necessidade de reordenação urbana sugerem
obras sempre apresentadas como necessárias e atreladas a
um a ideia de “progresso” do país. Deste modo, cresce na
m esm a proporção o núm ero de profissionais envolvidos no
que se denom ina trabalho técnico social, especialm ente os
vinculados a esse tipo de intervenção. Proliferam-se, assim,
as especializações nessa área.

5 4
FINALIZANDO

Deste modo, problem atizar o contexto de elaboração


e execução do projeto Rios da Serra não significa anulá-lo,
tam pouco corresponde ao abandono de sua forma de rigor
teórico, trata tão somente de um a ênfase necessária para a
dim ensão ético-política daquilo que se produziu e do que se
quis com o que se produziu.
A população, em sua grande maioria das vezes, não se
percebia em situação de risco. O risco apresentado não fazia
sentido. Contudo, as palavras de ordem quando proferidas
“nos dizem aquilo que julgam que somos capazes ou deve­
mos ou temos a obrigação de crer. Ou nem mesmo crer, mas
fazer como se acreditássemos. Não nos pedem para crer, mas
para nos comportar como se crêssem os” (DELEUZE, 1987,
p. 11). Ou seja, o projeto havia produzido um a realidade em
que apresentava um contexto no qual todos que ali residiam
deveriam se orientar como se estivessem em situação de ris­
co, de modo que aquela “verdade” apresentada deveria ser
assum ida como um a verdade para cada um daquele local.
A verdade é produzida neste m undo por meio de coerções
e ela m esm a gera “efeitos” de poder. Deste modo, não pre­
tendo questionar a legitimidade do que supostam ente era a
intenção do projeto, mas sim pensar sobre seus efeitos de
poder para a vida daquela população. Assim como Foucault
(1979), ao por em análise a relação entre poder e verdade, a
preocupação não é discriminar o que provém da verdade e
da cientificidade de um dado discurso, mas, sim, investigar
“os efeitos de verdade no interior de discursos que não são
em si nem verdadeiros nem falsos” (p. 7).

55
Nesta direção, a perspectiva ética do cuidado no contex­
to do projeto Rios da Serra convocava-me à desconstrução
da verdade instituída pela intervenção proposta, não para
colocar outra em seu lugar, mas para pensar múltiplos ca­
minhos que dessem passagem a inúm eras outras verdades.
Naquele contexto, o cuidado convocava para a invenção de
m aneiras de se driblar as práticas ditas de prevenção, prote­
ção e segurança im postas por um risco definido no sentido
vertical, de cima para baixo.

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____; PARNET, C. Diálogos. São Paulo: Ed. Escuta, 1998.
FOUCAULT, M. A coragem da verdade: o governo de si e dos
outros. São Paulo: Ed. M artins Fontes, 2011.
____ . Em Defesa da Sociedade, São Paulo: M artins Fontes,
2010.
____. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Ed. Graal, 1979.
KLEIN, N. A doutrina do choque: a ascensão do capitalismo
de desastre. Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira, 2008.
SCHEINVAR, E. O feitiço da política pública: escola, socie­
dade civil e direitos da criança e do adolescente. Rio
de Janeiro: Ed. Lamparina, Faperj, 2009.

57
N O Ç Õ E S DE S U J E I T O 32 E P R Á T I C A S
PSI: A E M E R G Ê N C I A DE UM T I P O
HUMANO

S a n d ra R aquel S a n to s d e O live ira

[...] essa análise, te m no m eu e n te n d e r, o p a pel de

m o s tra r q u a is são os e fe ito s d e sa b e r q u e são


p ro d u z id o s e m nossa s o c ie d a d e pelas lutas, pelos

ch o q u e s , os c o m b a te s q u e nela se d e s e n ro la m ,

e pelas tá tic a s de p o d e r q u e são e le m e n to s d e luta.


(F O U C A U L T , 2 0 0 8 b , p. 5)

Como pensar o modo de produção de conhecimento


delimitado em torno de um objeto (múltiplo, diverso, mas
am iúde considerado único) cham ado Psicologia e que pas­
sa a se efetivar a partir do século XIX?
O presente trabalho tem como interesse principal colo­
car em análise práticas em preendidas em nom e do que se
32 Em relação à delim itação do nosso problem a, cabem alguns esclarecim entos im portantes, p rin ­
cipalm ente no que diz respeito a algum as questões ético-políticas e m etodológicas. A q uestão do
Sujeito, enq u an to constructo, conceito, objeto de pesquisa científica, m ote para especulações filo­
sóficas, pode estar presente desde os prim órdios da produção e circulação de discursos realizadas
pelo hom em . No entanto, essa pesquisa não se coloca, necessariam ente, na extensão lin ear dessa
produção. M ais especificam ente, nosso trabalho n ão pretende inserir-se n as discussões de definição
conceitual da questão do sujeito e não está inscrita no cam po do desenvolvim ento de teses e /o u co­
m entários acerca dos m odos de definição do sujeito, levando em consideração suas variadas form as
assum idas ao longo da história da filosofia e das ciências. Trata-se de análise parcial. Entendem os
que o signo “Sujeito” não pode designar sem pre a m esm a coisa, nem m ovim entar sem pre a m esm a
rede sem ântica. Aqui trata, portanto, de u m a construção teórica q ue su sten ta e fortalece práticas fre­
quentem ente atribuídas a u m conjunto de discursos cham ado de ciência, e nascido n a m odernidade
sob o nom e de Psicologia.

59
convencionou cham ar Psicologia e seus efeitos éticos, polí­
ticos e, como nos m ostra Foucault, de produção de saber e
verdade. Além da ênfase que propomos dar às práticas, es­
tamos atentos aos seus efeitos de saber - já que lhe são cor-
relatos - e aos cham ados fundam entos técnico-científicos
que as em basam e são por elas produzidos. Sim, estamos
falando de práticas dispersas, mas concêntricas, que são
em preendidas com o aval acadêmico e dependem de um a
formação, sendo orientadas e fiscalizadas por um conselho
profissional. Partimos assim da hipótese de que estas sejam
as condições sem as quais a Psicologia não ocuparia lugares
institucionais estratégicos daquilo que m encionam os como
saber-poder - lugares de produção de verdade.
De antem ão, coloquem os em análise os tais funda­
m entos técnico-científicos. Talvez o abism o entre o que
se produz de conhecim ento nos limites dados pelo espaço
acadêm ico e as práticas cotidianas dos profissionais que
ali são “form ados”33 seja m aior do que im aginam os. É pos­
sível que nossas práticas profissionais cotidianas sejam
am paradas mais por condições sociais, políticas, econôm i­
cas e culturais (destacando aqui nossas crenças e valores
morais) do que por aquilo que insistim os em considerar
como conhecim ento científico - este, por sinal, não estaria
livre dessas condições, mesm o insistindo em estar. Mas
qual seria o problem a aqui? Acreditar que nossas práticas
são eficientes e legítimas por estarem sendo orientadas
por um a produção de conhecim ento científico? D esconhe­
33 As aspas se justificam por acreditarm os que a form ação acadêm ica se dá ap esar do funcionam ento
burocrático acadêm ico, e não devido a ele. A demais, o próprio processo de form ação é em si u m pro­
cesso de form atação pedagógica que se encontra em confronto direto com a possibilidade de criação
que requer o exercício do pensar. Estam os nos referindo, portanto, às possibilidades de constituição
de u m profissional que exceda essas condições.

60
cer que estas práticas respaldadas têm efeitos? - ou mais:
ignoram os sua produção de efeitos?
Não consideramos precipitado afirmar que se trata de
efeitos de verdade e, portanto, de poder. Por hora, convém
trazer para análise um posicionam ento tom ado por Fou-
cault em 1981 acerca do estatuto científico da Psicologia.
Este se refere às Ciências H um anas (CH) como conjunto
de discursos que tom a por objeto o hom em no que ele tem
de empírico. Chega a considerar precipitado cham ar esse
conjunto de discursos de “corpo de conhecim entos”. À
prim eira vista, pode parecer um a desqualificação cham ar
um conjunto de discursos do que se pretende Ciência, mas
Foucault jamais subestim a os efeitos de poder inerentes a
esse conjunto de discursos e nos m ostra como é m enos im ­
portante o debate sobre o estatuto de ciência do nascente
campo das H um anas em relação à efetivação que esses dis­
cursos passam a ter em determ inado m om ento histórico.
Um dos motivos pelos quais o autor não adere imedia­
tamente ao estatuto de cientificidade das Ciências Humanas
- e que mais nos interessa - está relacionado à natureza de
seu objeto. Foucault (2007) considera que a primeira coisa a
se constatar é que estas ciências não herdaram um domínio
de saber já delineado, mas insuficientemente desbravado, e
que sua incumbência seria a de elaborar com conceitos, enfim
científicos, e métodos positivos (como se o século XVIII tives­
se transmitido previamente sob o nome de homem ou de na­
tureza humana) um espaço delimitado, mas ainda vazio, que
as ciências tivessem, em seguida, a tarefa de cobrir e analisar.
O que cham aremos de Ciências H um anas - especifi­
cam ente a Psicologia - e as Ciências Jurídicas, daqui por

61
diante, refere-se a um campo de dispersão de saberes34 que
passam a se efetivar através de práticas discursivas e não
discursivas em um determ inado mom ento histórico. Uma
vez que o debate sobre o estatuto de cientificidade das Ci­
ências H um anas torna-se, como vimos, m enos importante,
passem os aos seus efeitos.
Delimitamos nosso campo em torno da problematização,
de um a coincidência entre o objeto da Psicologia e o do Direito
no que diz respeito aos seus alvos de investimento: o sujeito
de vontade, livre, autônomo e de direito35. Nesse contexto, le­
vantamos a questão de que há por essas práticas a produção
de um a interioridade como lócus do psiquismo, sejam elas
isoladas em seus domínios, sejam nos seus pontos de inter-
secções entre si, ou com outros saberes e práticas. Partimos
do pressuposto de que os objetos de estudo das ciências (de
maneira geral, e, especialmente, nas Ciências Humanas) não
são um a realidade em si, mas se desenham na medida em que
a estes se articulam procedimentos metodológicos. O nasci­
mento das ciências tem assim uma relação de concomitância
com o nascimento de seus respectivos objetos.

[...] pois o hom em não existia (assim como a


vida, a linguagem e o trabalho); e as ciências
hum anas não apareceram quando, sob efeito
de algum racionalismo premente, de algum
problem a científico não resolvido, de algum
interesse prático, decidiu-se fazer passar o ho­
m em (por bem ou por mal, e com maior ou
m enos êxito) para o campo dos objetos cientí­
ficos... (FOUCAULT, 2007, p. 476, grifo nosso)

34 Garcia Roza (1977) usa essa expressão b aseado no m esm o livro que tom am os com o referência
anteriorm ente: Foucault (2007).

35 Cham arem os aqui tam bém de sujeito psi.

62
Decidiu-se fazer passar: trata-se, portanto, de um a po­
lítica de pensam ento e não de um a descoberta. Resta-nos
pensar para que e a que serve essa objetificação do homem,
de que modo isso foi e vem sendo feito e quais efeitos pro­
duz. Diante da proposta de pensar como o sujeito psi viabi­
liza, simultaneamente, as ciências jurídicas e psicológicas,
torna-se desenhada aqui a suposição de um a coincidência
entre as noções de sujeito que sustentam as práticas dessas
ciências. Mais especificamente, podem os propor que as no­
ções de sujeito sobre as quais se constituem as práticas psi
contem porâneas - e que se produzem nelas - dão conta da
emergência de um tipo humano.
Para tanto, nosso procedimento passa pelo processo de
m apear/descrever o que cham am os de práticas sociais sem
as quais não seria possível sustentar tal noção de sujeito,
através de narrativas cotidianas cujas cenas compõem um a
imagem da Psicologia. Vimos com Jacques Donzelot (1986)
como a articulação da Psicologia com o Direito, descrita
como o aparecim ento do trabalhado social - quando traba­
lhadores de áreas afins se enxertam em instituições pré-exis-
tentes como Justiça e Escola com a missão hum anizadora
-, tenta apresentar-se como um a inovação: colocando-se na
esteira do funcionam ento das instituições, estas passam a
contar com um a dim ensão então cham ada “técnica” para
instauração de um complexo tutelar.
Deste modo, entendemos que a noção de sujeito que
colocamos em análise é um efeito desse complexo tutelar
ao tempo que viabiliza sua instauração. Se a tal missão hu-
m anizadora entra em questão, torna-se importante destacar,
portanto, os efeitos do paradigma da garantia de direitos (hu­

6 3
manos) produzidos nesse campo de intersecção (Psicologia e
Justiça) na atualidade. Cabe destacar que dentro deste, o que
chamamos de discurso de humanização e seus efeitos - es­
pecialmente no que cria um tipo hum ano - trata da proposta,
ainda, de colocar em análise discursos e práticas, neste caso,
referentes à legislação que se propõe garantir direitos univer­
salmente. A Declaração Universal dos Direitos Humanos não
será, portanto, nosso ponto de partida, de onde se fala e nem
para onde correm todas as tentativas de preservação dessa
suposta garantia; mas a tomaremos como um emblema das
chamadas práticas protetivas e hum anizadoras do aparelho
penal e de produção de subjetividade.
Frequentemente, deparam o-nos com perspectivas crí­
ticas a respeito do tema relacionado aos assim cham ados
Direitos36 Hum anos que colocam a seguinte questão, for­
m ulada dos mais variados modos: Direitos Hum anos para
quem? Nossa questão está mais atenta aos modos como se
produz esse “qu em ”: quais condutas passam a ser valori­
zadas como tipicam ente humanas? Em quais circunscrições
sociais/econôm icas/geográficas esses tipos estariam situa­
dos? Quais condutas passam a ser consideradas inum anas a
partir de um a Declaração que se pretende Universal? Quais
tipos estariam cobertos por essa pretensa universalidade? E
a mais im portante - e que, talvez, mais implica as práticas
psi: como se produz essa noção de humano?
Entraremos, necessariamente, na questão do acesso a
serviços básicos e da cham ada garantia de direitos propor­
36 R essaltam os que não estam os incentivando um clam or pela garantia de direitos. Entendem os
o D ireito produzido com o u m valor e um ideal a ser sem pre alcançado e garantido, localizado em
nossa sociedade a partir das reverberações dos ideais da Revolução Francesa, operan d o com o um
sintom a de u m a sociedade desigual e injusta; entretanto, e por isso m esm o, perm an ecen d o sempre
no cam po da transcendência.

64
cionados (em tese) pelo Estado e operada pela função po­
licial, bem como na questão da exclusão-inclusiva37. Nesse
sentido, devemos nos ocupar, também, acerca de como a
Psicologia se articula nessas definições, de que modo ela
legitima, com suas verdades sobre os sujeitos, os processos
históricos de exclusão social associada à violência institu-
cional38 produzida pelo Estado capitalista, ao tempo em que
reafirmamos a aposta nas possibilidades de outras práticas.
Finalmente, enfatizamos aqui um modo de problemati-
zação do sujeito psi que está às voltas com sua função como
conceito-ferramenta - Deleuze (2008) sugere, em um a entre­
vista com Foucault, o modelo de caixa de ferramentas para
um a teoria, enfatizando sua função multiplicadora e não to-
talizadora. Ele explica que é preciso que um a teoria funcione,
que sirva e que, portanto, não seja voltada para si mesma.
Investimos, portanto, na espreita de como as construções em
torno da noção de sujeito podem contribuir na compreensão
de práticas de normalização e homogeneização que tendem
à dominação e exclusão, atualmente, em nome de um a série
de dispositivos chamados de proteção e inclusão social.
Trazemos aqui, portanto, algumas ferramentas. Comece­
mos pela noção de Direito de Guerra, assim definido como o
direito de não ser governado por um igual, pautada por Espi-
nosa (2009) em seu Tratado Político, e discutido por Laurent
Bove (2010). Tal proposição nos faz pensar em um adendo
daquele sujeito moderno ao qual já nos referimos - o sujeito
37 Entendendo exclusão nos term os de A gam ben (2002).

38 Expressão de M endonça Filho (2009), que m arca u m a posição política frente à possibilidade de
se lidar com a noção de violência substancializada. C ontrariando u m a perspectiva q u e p arte de
categorias universais, o term o violência pode ser associado a u m excesso, n ão p o ssuindo estes um a
natu reza em com um . No caso da ‘Violência Institucional’, sua produção e reprodução estão asso­
ciadas à m anutenção do controle das relações cotidianas, apartad o de q u alq u er com prom isso com a
vida, pelo m odo de funcionam ento do m odelo de Estado do capitalism o financeiro.

65
de vontade, livre, autônomo e de direito. Havíamos oblitera-
do um componente indispensável à produção de subjetivi­
dade moderna: trata-se de um sujeito pacificado39. Ora, se a
Psicologia em questão é moderna, não nos parece razoável
pensar que os ideais da Revolução Francesa tangenciariam
seu suposto objeto. Pensando o Direito de Guerra como es­
tando em oposição à servidão, podemos afirmar que na con-
temporaneidade tem se valorizado cada vez mais o tal ideal
de fraternidade equivalendo-o à servidão ou obediência. Em
outras palavras, parece que o que se considera como hum ano
tem cada vez mais o equivalente a dócil40. Por isso, o Direito
de Guerra vem sendo sistematicamente suprimido e as pos­
turas desobedientes - que viriam de encontro à valorização
da servidão - são consideradas os novos inimigos sociais.
Não por acaso o primeiro crime punido com a pena de priva­
ção de liberdade foi a vadiagem e, além disso, atentemo-nos
para a falta de espaço para o ócio na contemporaneidade.
De maneira sucinta, trata de começarmos a relacionar
os discursos constituintes de um tipo hum ano e as práticas
psi articuladas à produção de um a subjetividade interioriza­
da, pacificada e obediente, ao aparecimento de um modo de
organização política - o Estado Moderno. Assim, coloque­
mos em análise a constituição desse modo de subjetivação
interno, docilizado, ou, dito de outro modo, preso41. Importa

39 O ptam os por pacificado em detrim ento de pacífico p ara acentu ar a ação envolvida no processo de
produção dessa passividade e nos afastarm os de qualquer perspectiva essencialista e reificada que
estão envolvidas nos processos de capturas identitárias.

40 Fazendo u m a referência aos corpos dóceis com o efeito da efetivação dos dispositivos disciplinares
(FOUCAULT, 2008c).

41 É curioso perceber com o esses m esm os signos são usados em contextos tão ap aren tem en te dife­
rentes. O psiquism o é associado a u m a interioridade, ainda que em um a psicologia p opular ou do
senso com um , ou no contexto prisional, no qual o term o “in tern o ” é u sad o para se referir ao preso.

66
destacar um a particularidade na noção de Estado que preten­
demos discutir - situamo-nos em um a perspectiva de desna-
turalização da mesma, na perseguição das interrupções de
sua constituição histórica.
Enfatizamos que tal posicionamento - de desnaturalização
da concepção de Estado - não nos serve como pretexto para
uma revolução armada e gloriosa, mas como uma política de
pensamento que aponte os modos de constituição dos saberes
modernos, especialmente o das Ciências Humanas. Pensamos
que a Psicologia - assim como os demais conjuntos discursi­
vos inventados na modernidade -, de maneira geral, articula-se
com a produção, sustentação e reprodução dos modos de viver
contemporâneos e, por isso mesmo, são as prováveis vias de
criação de outras possibilidades. A Psicologia configura-se, por­
tanto, e também, como um modo de engajamento em práticas
cotidianas de transformação do mundo. A grande dificuldade
desse engajamento, e que passa ser uma importante atribuição
da atividade de pesquisa, é pensar as maneiras possíveis desse
engajamento como uma subversão das capturas.
Assim como42 a simples inserção do psicólogo nos espa­
ços institucionais pré-existentes não efetiva autom aticam en­
te um a política de humanização, no sentido de revolucionar
as práticas - e os efeitos delas - como suposta novidade do
trabalho social de Donzelot (1986), entendemos que as resis­
tências não possuem um lugar por excelência. Se o exercício
de poder se dá na modalidade de um jogo de forças, elas
precisam ser necessariamente móveis.
Parece que revolucionar práticas na contemporaneida-
de depende fundam entalm ente da maneira como ocupam os

42 Oliveira (2010).

67
certos lugares. Nossa questão passa por pensar porque,
eventualm ente, ou à prim eira vista, a Psicologia guarda a
imagem da possibilidade de transformação. Como as insti­
tuições que recorrem aos seus serviços forjam tal imagem
do psicólogo na construção de suas demandas? Sem per­
der de vista a perm eabilidade das funções institucionais e
desses lugares de poder, já que não se pode simplesmente
evitá-los, entendem os estes lugares como modos possíveis
de efetivar políticas de pensam ento. Apesar das práticas
profissionais do psicólogo estarem associadas à imagem de
hum anização dos espaços institucionais, estas estão histo­
ricam ente operando e aprim orando modos de identificar,
classificar, diagnosticar, controlar, amansar, apresentar as
mesm as estratégias de controle sob outros signos43.
Foucault (2008c) nos mostra, por exemplo, como legi­
tim am ente a pena privativa de liberdade - talvez um dos
principais alvos dos investim entos ditos hum anitários -

43 Vide experiências do H um aniza SUS e estratégia do D epoim ento Sem Dano. Em 2001, a humani-
zação pela prim eira vez aparece no nom e de um Programa: Program a N acional de Humanização do
A tendim ento Hospitalar (PNHAH). Desde então, a hum anização avançou tam bém em outras instâncias
do SUS, e o que era um program a se transform a, em 2003, em um a Política: a Política Nacional de
Hum anização (PNH). Essa política entende hum anização como a valorização dos diferentes sujeitos
- usuários, trabalhadores e gestores - im plicados no processo de produção de saúde. Valorizar os
sujeitos significa oportunizar um a m aior autonom ia, a am pliação d a sua capacidade de transform ar a
realidade em que vivem através da responsabilidade com partilhada, da criação de vínculos solidários,
da participação coletiva nos processos de gestão e de produção de saúde. Uma das consequências
diretas dessa política foi a am pliação das equipes de saúde, incluindo profissionais como o psicólogo.
O cham ado D epoim ento Sem Dano ou Inquirição Especial não se configura como política pública, mas
igualm ente incide sobre a atuação do psicólogo. Tíata-se de um a m etodologia proposta pelo juiz José
A ntônio Daltoé Cézar, titular da 2 a Vara da Infância e Juventude de Porto Alegre, em que a audiência
com a criança ocorre em sala privada equipada com recursos audiovisuais. A inquirição com a criança
deve ser realizada preferencialm ente por um a psicóloga ou um a assistente social, os dem ais (como
advogados, prom otor público e ainda o réu) possuem um ponto eletrônico, através do qual o juiz
direciona perguntas a serem feitas à criança. Todos os presentes na sala de audiência vêm e ouvem
o depoim ento da criança. Tal estratégia tem sido im plem entada nos vários Tribunais de Justiça dos
estados brasileiros sob pretexto de reduzir o dano (daí o nom e da prática) das inúm eras instâncias de
colhim ento de depoim ento às quais a criança é subm etida no processo de abuso sexual. Também ob­
jetiva ser usado como prova judicial. E tem sido, visto que desde sua im plem entação tem se verificado
um m aior núm ero de condenações nesse tipo de processo.

68
configurou-se em determ inado m om ento histórico não so­
m ente como um a economia do poder, mas como processo
de hum anização da pena, na medida em que se abandona
o suplício em favor da prisão. Considerando as transform a­
ções nesse sentido, a Psicologia colocar-se-á na extensão
do mesmo processo de hum anização das penas, como um
recurso a um aparato preventivo e educacional. Trata-se de
pensar no que implicaria efetivamente esse processo de hu-
manização para a vida das pessoas.
Ainda tom ando esse exemplo de prática de humani-
zação do suplício, destacam os que a principal implicação
desse deslocamento da incidência da pena para a vida das
pessoas é que o aparelho penal tornou-se, aparentemente,
menos cruel, em termos da incidência da aplicação da pena
sobre o corpo. No entanto, na medida em que seu alcance
estende-se a todas as esferas da vida e do cotidiano, em
outras palavras, o aparelho penal, antes facilmente identifi­
cável, im placavelm ente im posto aos nossos olhos atentos e
sedentos de “justiça”, dilui-se, objetivando assim um alcan­
ce infra na vida das pessoas.
O chamado homem moderno e civilizado parece não
suportar o contato direto com a reparação que ele próprio
pode exigir de um considerado criminoso. Requer que essa
reparação ganhe um a nova roupagem. No mesmo sentido,
as famílias parecem aderir rapidamente a modelos de educar
“politicamente corretos”, sem palmadas e “nãos”. Contudo,
sem hesitar em medicar suas crianças, as escolas ganham no­
vas tecnologias que, substituindo a palmatória por salas de
aula equipadas com câmeras, oferecem aos pais imagens do
“processo de alfabetização” do filho em tempo real - ainda na

69
“palma da m ão”. Enquanto isso, o sistema de saúde também
ganha um projeto de humanização, e o sistema de Justiça já
pode contar com equipes transdisciplinares, que, em um pas­
se de mágica, com a simples presença amortece a batida do
martelo dos juízes. Observamos, portanto, que as transforma­
ções ocorridas no nosso contato com as instituições de dois
ou três séculos para cá ocorrem articuladas com a emergência
de um novo tipo de homem44, ou, pelo menos, do que passa
a ser critério de humanidade. Trata-se do homem moderno,
civilizado, contido, docilizado, psicologizado.
Nesse ponto, nosso problema gira em torno da constitui-
ção/emersão de um Homo Internus45: algo produzido nas arti­
culações das práticas da Economia, do Estado, da estruturação
social moderna (de maneira mais geral) e das Ciências Huma­
nas. Aqui, não se pode deixar de observar, assim, o apareci­
mento das prisões como uma das principais formas de gestão
da miséria46, esta produzida pelo modo de produção industrial.
Indo mais além, propomos pensar a pena privativa de liberda­
de - incluindo as estratégias de individualização da pena, bem
como da culpabilização - como uma estratégia emblemática,
que incita o movimento de voltar-se para si. Na mesma di­
reção, estão os dogmas religiosos da tradição judaico-cristã47,
com a produção de um modo de subjetivação culpado e suas
recomendações de exames de consciência e confissões.

44 D iante da proposta de Foucault (2007), podem os afirm ar que n ão se trata apenas de u m novo tipo,
m as da sua invenção com o objeto.

45 Grifo nosso. Trata-se de u m a invenção lúdica e o u sadam ente p roduzida em u m neologism o lati-
nesco, com o u m a alusão às designações da evolução filogenética do h om em propostas pela Biologia
e Etologia H um ana (OLIVEIRA, 2010)

46 Para u m a discussão m ais específica sobre a estratégia de u m a política penal em detrim ento do
investim ento em “bem -estar social”, ver W acquant (2004).

47 Como ap o n ta Foucault (2008c).

70
A partir das articulações dessas práticas em suas dim en­
sões discursivas e não discursivas é que emerge o homem
psicológico, o homem “de personalidade” (de preferência
forte e consistente, que passa por transformações ontogené-
ticas, mas m antém um núcleo indissolúvel, essencial, que
perm aneceria ao longo do tempo); o homem preso a um a
vida psíquica internalizada: Homo Internus. Um homem
com o corpo adaptado ao trabalho e subalternizado48 a pon­
to de se alegrar na sua servidão diária. Convém questionar,
com isso, o que há de potente nessa alegria, tratando de
um a adesão a um ideal de felicidade, com suas pílulas de
prazeres e anestesias diversas.

TUDO NOVO D E N O V O 49

Dando visibilidade a essas produções, destacam os


a possibilidade da não interrupção das linhas que colo­
cam as práticas psi na extensão das práticas de gestão da
vida através dos mais variados m odos de aprisionam entos
contem porâneos. Tais práticas colocam-se como medidas
de hum anização da p ena: a prisão como possibilidade de
suavizar a pena de m orte/suplício e a Psicologia como
dim ensão técnica - como assinala D onzelot (1986) - de
um a possibilidade de aum ento no investim ento do aparato
preventivo e educativo, “evitando” o penal.
48 Expressão usada por Coimbra (2001) para enfatizar que a condição de subalterna (referindo-se
aos segm entos subalternizados) dá-se por u m constrangim ento externo operado p o r u m a série de
estratégias de controle e exclusão, e não por um a condição essencial d as classes o u das pessoas.

49 Título de u m a canção de P aulinho M oska que exalta com o tu d o tem q ue ter um fim p ara q ue o
novo possa surgir. Entretanto, ao m esm o tem po, ele lem bra dos riscos da tal novidade: “vam os nos
jogar onde já caím os... ”

71
Dizendo de outro modo, destacam os que a prática da
Psicologia não opera, autom aticam ente, um rompimento
com a lógica de penalização - internação - carceragem,
apenas pode assum ir outros signos estratégicos: prevenção
- educação - controle. Entrar em contato com as teorias e
os sistemas psi, receber o título de psicólogo e ocupar os
espaços institucionais antes impenetráveis podem nos fa­
zer aqueles cavaleiros50 de um a pretensa hum anização dos
espaços institucionais. Consideramos im portante encarar a
estreita e entrecortada relação saber-poder em que nossas
práticas se configuram, perm anentem ente, como políticas.
Assumir esses posicionam entos passa por com preen­
der como as relações entre homem e verdade foram sendo
forjadas no campo da Psicologia, entendida como campo
de regulação das práticas sociais. Foucault (2011) propõe
que as práticas judiciárias estão entre as mais im portantes
práticas sociais em que a análise histórica perm ite localizar
a emergência de novas formas de subjetividade. Ele explica
que a maneira pela qual, entre os homens, arbitram-se da­
nos e responsabilidades, o modo pelo qual se concebeu e
se definiu como os hom ens podiam ser julgados em função
dos seus erros, a m aneira como se impôs a determinados
indivíduos a reparação de algumas ações e a punição de
outras, são um a das formas pelas quais nossa sociedade
definiu tipos de subjetividade e formas de saber.
Pensamos que a articulação dessas práticas sociais -

50 O professor Luis A ntônio Baptista descreve b em essa im agem : “Somos profissionais da liberdade,
n ão da ordem . Este é o discurso que ten tam nos fazer acreditar. Este m esm o discurso nos envia ao
Olim po, ju n to aos deuses, nos fazendo crer que som os os únicos intelectuais capazes, solitariam ente,
de p en sar e transform ar a realidade. Aos outros, aos não-intelectuais, é reservado o coro, o rebanho,
que dirigirem os atentam ente em direção à felicidade dentro da O rdem e da R azão” (BAPTISTA,
2000, p. 16).

72
psicológicas e judiciárias - se dá justam ente com o objetivo
de estabelecer de maneira “mais eficiente” determ inadas
relações entre homem e verdade. Ora, se as regras judi­
ciárias incidem sobre as ações dos homens, elas acabam
por produzir um saber sobre o homem que colabora na
precipitação de um campo de saber específico cham ado de
Ciências Humanas. Nossa questão se coloca mais especi­
ficamente nas regras judiciárias ou práticas regulares em
torno do que cham am os de Direitos Humanos. O que per­
guntamos: quais tipos de subjetividade essas práticas têm
produzido e como as práticas psicológicas se articulam com
essa produção? Essas práticas, quando situadas no campo
da ciência, parecem tentar recorrer ao mito ocidental de
que há um a antinom ia entre saber e poder.
Foucault (2011) apresenta esse mito como um a possibi­
lidade de renúncia ao poder, na m edida em que se assum e
o lugar da ciência em sua verdade pura, como se a política
pudesse se ausentar das produções de saber. Pensamos que
é na crença desse mito que se assentam as práticas psico­
lógicas emissoras de verdades acerca dos sujeitos, tom ados
como objetos de investigação, endereçadas às múltiplas
instituições nas quais a Psicologia irá se enxertar. Para tanto
e, novamente, propom os pensar o sujeito como efeito das
práticas psicológicas em sua articulação com as demais prá­
ticas sociais, com destaque aqui para as práticas judiciárias.

[...] Atemo-nos a esse sujeito de conheci­


m ento, a este sujeito de representação, como
ponto de origem a partir do qual o conheci­
mento é possível e a verdade aparece. Seria
interessante ver como se dá, através da his­
tória, a constituição de um sujeito que não é

73
dado definitivamente, mas de um sujeito que
se construiu no interior m esm o da história,
e que é a cada instante fundado e refundado
pela história. (FOUCAULT, 2011, p. 10)

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES

Apontamos alguns cam inhos que estão sendo percor­


ridos em dois grandes planos: no primeiro, que cham aría­
mos mais descritivo, em que contextualizam os como esse
sujeito da Psicologia é produzido a partir de práticas sociais
organizadas em torno de um novo ordenam ento político,
cham ado de Estado; e outro econômico, cham ado de ca­
pitalismo neoliberal. Podemos afirmar, como hipótese de
trabalho e partir do exposto até aqui que a Psicologia tem
colaborado historicam ente para a constituição de um tipo
hum ano fortem ente relacionado a um a postura servil e obe­
diente, através de um constrangimento operado pelos mais
variados dispositivos disciplinares.
Propomos, portanto, pensar os processos de subjetiva-
ção que excedem à governam entalidade51, articulando esse
excesso à noção de Direito de Guerra, discutida por Bove
(2010) a partir de Espinosa (2009, 2011), entendida como
um direito de não ser governado por um igual. Esse filósofo,
bem como o com entador mencionado, parecem condicionar
o que cham am de vida hum ana a esse direito. Entendem
que a ausência de guerra como conflito ou diferença não
seria sinônimo de paz, mas um a espécie de governo que

51 N oção proposta por Foucault (2008a) e am plam ente apresentad a por ele n o curso intitulado Se­
gurança, território e população.

74
tende ao absoluto. Ainda nesse contexto teórico, algumas
noções como a de prudência em articulação ao problem a
do cuidado de si, este discutido por Foucault (2010), po­
dem constituir outras ferram entas para pensar de maneira
diam etralm ente oposta a qualquer possibilidade de cons­
trangimento exterior que produza algo como obediência ou
servidão. Por fim, nunca é demais lembrar que “A brisa, por
ser carinhosa, é quem mais tem castigado” 52.

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52 Siba é o pseudônim o de Sérgio Roberto Veloso de Oliveira, cantor, com positor e m úsico p er­
n am bucano que iniciou sua carreira tocando guitarra e rabeca em u m a d as b an d as pioneiras do
m ovim ento M anguebit - M estre A m brósio. Com o fim da b an d a, form ou ju n tam en te com m úsicos
da Zona da M ata pernam bucana, onde havia indo morar, a b an d a Fuloresta do Samba. O trecho
citado é da m úsica “B risa”, que poeticam ente fala de com o nos prevenim os q u an d o sabem os da
tem pestade - am arrando b em o pano da jangada. M as a brisa castiga p o r ser carinhosa. Trazemos
com o um a inspiração para p ensar a invisibilidade das estratégias de aprisionam ento, q ue n o s fazem
desejar o poder q u e nos oprim e.

75
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77
EMPREENDEDORISMO SOCIAL
E C A P I T A L I Z A Ç Ã O DA VIDA :
BREVES C O N S ID E R A Ç Õ E S SOBRE
GOVERNAMENTALIDADE

Paula d e M elo R ib e iro

DAS M A R C A S ÀS CIF RA $

Naquela m anhã de domingo, a com unidade em que


João vivia fora cercada pela polícia: as ditas “forças de pa­
cificação” invadiriam a qualquer momento. Transmitida
pela mídia como espetáculo, a ação chega aos televisores
de todo país em “tempo real”. No enquadre principal, o
contraste entre o silêncio atônito dos habitantes e o trove­
jar dos helicópteros de combate e blindados da M arinha. A
monocrom ia das fardas e insígnias ditava o tom da repre­
sentação pública destinada a impressionar. Na coxia, João,
m ercador de substâncias ilícitas, teve medo. Ganharia ele
as m anchetes de jornal sendo mais um a morrer ali? Negro,
“favelado”, trazia no corpo marcas que o identificavam às
vidas tom adas, por muitos, como “descartáveis”...
Uma vez que a tensão majorava, sua mãe e alguns
religiosos tentavam convencê-lo a entregar-se à polícia e,
assim, quem sabe, “evitar o pio r”. Após poucos instantes
de ponderação, a decisão, de súbito, emerge: “Já que vou

79
me entregar, irei com m inha melhor roupa”. João veste-se,
então, com um a camisa de preço elevado, estam pada com
um a grife de renome, marca que diferenciava aqueles que
podem ostentar seu status.
Ao entrar em cena, descendo a ladeira junto à sua mãe,
os flashs o cobrem de luz. Para o grande público, algo p a­
recia fora de lugar: a imagem do famigerado “traficante”,
trajando o em blema que particularizava certo estrato so­
cial, invadiu as “redes sociais”. A princípio temeroso, o res­
ponsável pela grife preocupa-se com a associação entre seu
produto e o personagem sui generis que o portava. Fato
curioso, contudo, o site da grife tivera, nesta ocasião, mais
acessos do que quando um a celebridade internacional u sa­
ra um a camisa sem elhante.
O ocorrido, por certo, não passara despercebido por
um “em preendedor social”, responsável por um a das m ui­
tas ONGs que apregoam trabalhar com a “ressocialização
de traficantes”: aquele rapaz tornara-se “produto rentável”.
Atentos a esse movimento, empresário e em preendedor re­
solvem ser essa um a excelente ocasião para que a grife de
roupas de luxo financiasse um projeto na tal “em presa so­
cial”. O rapaz, outrora preso, agora em liberdade, tornara­
-se funcionário da “em presa social” e “garoto propaganda”
da afam ada marca. As pessoas que em um certo domingo
vibraram ao ver na televisão o hasteam ento da bandeira do
Brasil no cume daquele moro, atualm ente impassíveis, ali­
viam sua consciência ao comprar um a camisa de grife com
a estam pa do ex-traficante, hoje “regenerado”.
Destituídos da singularidade de suas histórias, aqueles
que comercializam drogas ilícitas são apresentados como

8 0
produtos óbvios da m azela social que se alastraria pelas
favelas cariocas. As narrativas hegemônicas que versam
sobre suas existências parecem unívocas: tudo que vive­
ram um dia - fazem-nos crer - leva estes sujeitos para o
“m undo do crim e”. Ontologização desvelada pela crítica de
Foucault (2001, p. 24), essa lógica reitera o quanto “o indi­
víduo já se parecia com seu crime antes de tê-lo com etido”.
Verdadeira obstrução do acaso e do descontínuo, espera­
-se destes corpos, supostam ente corrompidos pela miséria,
o m om ento em que o desvio se atualizará na cena social
como anom alia sempre aguardada e prevista.
Como efeito imediato, instala-se na sociedade em ge­
ral o sentimento de insegurança e medo, seguidos por um
clamor exacerbado por um a concepção de justiça que, não
raro, coincide com imperativos de um a legislação penal
mais árdua. Dessa forma, estabelece-se um contínuo entre
a “paz e a ordem ” a serem conquistadas e a punição dos
supostos desordeiros (população pobre que vive em favelas
e subúrbio da cidade); eis que se instaura, enfim, o ciclo
historicam ente construído em torno da criminalização da
pobreza em seus usos e contornos políticos.
No presente texto, nosso intuito é expor algumas linhas
que dão contorno a dois direcionam entos que acreditamos
estar intim am ente ligados. De um lado, a repressão do Es­
tado em que este, sob a justificativa de “com bate ao crim e”,
instaura verdadeiro “estado de exceção” em determ inadas
localidades tornando a população alvo de violência e re­
pressão. De outro, a institucionalização de serviços e orga­
nizações que - sob o viés assistencialista - propõem-se a
prevenir e a resgatar jovens do “m undo do crim e”, sob o

81
engodo de enfrentam ento ao aum ento da criminalidade e
garantia de direitos da população m enos abastada.
Contudo, o que a princípio poderia soar como en ­
cam inham entos díspares, quando analisados dentro dos
pressupostos capitalistas, m ais precisam ente neoliberais,
m ostram -se p erversam ente com plem entares e coerentes
entre si. N ota-se que o pretexto da segurança pública e
defesa de direitos legitim a práticas, a princípio, tão di­
versas como as que acoplam à assistência social a prática
policial. D essa form a, encarceram ento em m assa da p o ­
pulação pobre, capitalização das subjetividades su p o sta­
m ente em situação de vulnerabilidade e atualização do
Estado penal através de políticas de assistência social,
atualizadas em ONGs (O rganizações não governam en­
tais), fariam parte de um m esm o dispositivo de produção
de subjetividades crim inalizáveis.
Neste sentido, não haveria um a ruptura entre estas
ações, mas um a continuidade em que o paradigm a da segu­
rança seria condição para exercício de um a suposta cidada­
nia, e a polícia seria indispensável ao exercício desta. Esta
engrenagem consente ao Estado, através de um em aranha­
do de redes de serviços públicos e privados, governar e ad­
m inistrar não apenas os agentes econômicos, mas também
o que no campo social pulveriza-se e torna-se parte de nos­
sas subjetividades. Desejamos mais segurança e pedimos
mais polícia, nos tornam os policiais dos outros e de nós
mesmos na atualidade.
De acordo com Michel Foucault (2008; 2008a), o gover­
no não se restringe a instituições estatais, ele se atualiza na
sociedade sendo parte constituinte da própria subjetivida­

82
de. Com efeito, pode-se afirmar que as estratégias de poder
presentes nos m ecanism os de segurança - atualizados nas
políticas públicas - são encontradas seja no Estado, seja
nos modos de subjetivação. A governam entalidade alude
às práticas que com preendem tanto o sujeito, quanto o Es­
tado e seus instrum entos; ou seja, o Estado e suas políticas
são apenas parte constituinte de um a m alha de processos.
Desse modo, equivocar a suposta separação entre o plano
político e o plano subjetivo permite desvelar o quanto estas
duas dim ensões estão em constante relação, criando, a par­
tir disso, outras formas de análise.

FORÇAS DE R E P R E S S Ã O : G U E R R A ÀS
DROGAS E ESTADO DE E X C E Ç Ã O

Fato corriqueiro em com unidades, as incursões das for­


ças de repressão do Estado estabelecem, nessas localidades,
verdadeiros campos de concentração em que paradoxal­
m ente norm as jurídicas são suspensas em nom e da “or­
dem legal”. Há a supressão dos ditos direitos fundam entais
concom itantem ente à prática de “julgam entos” autoritários
nos quais suspeitos de envolvimento com o comércio de
entorpecentes são torturados e mortos para se “fazer cum­
prir a lei”. Quanto aos “suspeitos”, tal categoria refere-se
à quase totalidade dos que vivem nessas áreas; o discurso
que vincula a pobreza à criminalidade gera efeitos pseu-
dolegitimadores da suspensão de direitos destes sujeitos e
os colocam como criminosos em potencial. Assim, aqueles
que habitam as áreas mais pobres da cidade seriam vistos

8 3
como propensos à prática de atividades ilegais, sendo, logo,
alvos óbvios da violência das forças repressoras que coti-
dianam ente ingressam nesses espaços.
Em suas pesquisas, Foucault (2005) constata que o Es­
tado moderno, através da criação de políticas públicas, pas­
sa a usar estratégias de poder que lhe perm item incentivar
o prolongam ento de vidas ao mesmo tempo em que, em
nom e da proteção, pode extinguir aqueles considerados um
perigo para a população. Na contramão da tese tradicional
a qual afirma ser o Estado responsável apenas pelas polí­
ticas que visam à população em sua totalidade, Foucault
(1995) afirma que a maior sofisticação do Estado moderno
está, curiosamente, no fato deste se valer de um a forma de
poder que abarca tanto técnicas de individualização, quan­
to procedim entos de totalização.
Destarte, a especificidade da biopolítica é que essa age
produzindo um a gestão calculada da vida e não apenas um
indivíduo dócil e útil. O Estado adquire, crescentemente,
o direito de intervir para fazer viver, para majorar a vida,
multiplicá-la e torná-la isenta de todo tipo de acidentes,
eventualidades e deficiências. Justifica-se, portanto, sua in­
terferência no nível da vida mais elementar, a ele caberá
adm inistrar a existência hum ana com o propósito de defesa
da espécie. Daí a im portância dada às estatísticas, aos n ú ­
meros da criminalidade e às estimativas dos crimes: elas
permitem tornar “aceitáveis” ações devastadoras da violên­
cia de Estado sobre alguns “cidadãos”.
Nota-se, contudo, que esta m udança política não
abandona a velha lógica do direito de soberania. O po­
der de m orte não é banido, ele apenas é obrigado a se

8 4
acom odar dentro das exigências de um a política que tem
como pretensão gerir a vida. Logo, o fundam ento do direi­
to soberano que era “fazer m orrer e deixar viver” dá lugar,
desde então, a um poder que “faz viver e deixa m orrer”
(FOUCAULT, 2005, p. 287). Para D uarte (2009) o poder
soberano que advém da edificação da biopolítica não é in ­
teiram ente igual a seu contorno clássico. Isto porque nesta
nova relação de poder não basta sim plesm ente exercer o
direito de matar, esse direito, agora, é dependente do in ­
teresse em fazer prolongar a vida e de fazê-la m elhor - ou
seja, de controlar as condições de vida da população. En­
tretanto, essa alteração no exercício do poder soberano, a
partir da biopolítica, não fez com que se m atasse menos,
em bora sua violência pudesse ser atualizada através de
um a nova série de justificativas.
No caso do Brasil, desde a saída da ditadura militar,
o processo de identificação do comércio de drogas ilícitas
como principal empecilho à afirmação da ordem serviu
para fortalecer os sistemas de gerência do governo sob a
população, além de naturalizar o seu caráter genocida. Foi,
portanto, a partir da década de 1980 que a figura do “trafi­
cante de drogas” - identificada com a população negra e
pobre - passou a ser forjada e alim entada no meio social
como a principal fonte de caos, consequentem ente, a busca
pela paz passou a coadunar com o aniquilam ento dos su­
postos “traficantes de drogas” (BATISTA, 2003).
A dita redem ocratização brasileira, por sua vez, não ex-
tinguiu os aparelhos de controle usados pela ditadura civil-
-militar. Atrelado a isso houve, a partir da década de 1980,
um forte apelo midiático que ligou o aum ento da violência

85
à redem ocratização do país. Desse modo, foi necessário,
como aponta Batista (2003), identificar um novo “inimigo
interno” que, agora, deixaria de ser o “terrorista” e coincidia
com a figura do favelado tido como “traficante de drogas”.
A partir disso, podem os constatar como em nosso
tem po o campo de concentração tornou-se um paradigm a
de governo. Segundo Agamben (2004), este m odelo de
governar, que age através de m ecanism os de exceção, es­
tabeleceria um a ordem jurídica em que dispositivos au to ­
ritários coexistem com o regim e dem ocrático - cabendo­
-nos indagar se tais práticas autoritárias não seriam , na
atualidade, constituinte do próprio regime dem ocrático.
Desse modo, a vida biológica torna-se elemento indispensá­
vel da cena política; para “defender” a sociedade do “inim i­
go” - “traficante de drogas” - os mecanismos de segurança
acionados por esta biopolítica coincidem inexoravelmente
com a limitação das ditas “garantias fundam entais”, o que
perm ite que muitos sejam mortos, já que deliberadam ente
optariam por transgredir a lei ao comercializar substâncias
ilícitas. E assim, o Estado vê-se autorizado a fazer-se deten­
tor de um poder de soberania, poder decisório sobre a vida
e a morte de seus pátrios, o que faz com que justifique e
busque o monopólio das práticas de violência.
Tais constatações nos fazem evocar as palavras de Fou­
cault (1995, p. 233) que ao caracterizar o fascismo e o stali-
nismo como formas patológicas do poder, provoca-nos afir­
m ando que, apesar de singulares na história, esses estilos
de poder não são originais. Eles se valeram de certos m e­
canismos presentes na maior parte das sociedades, a bem
dizer, usaram a lógica de funcionam ento de nossa própria

8 6
racionalidade política. Tal racionalidade conferiria, então,
legitimidade desde alguns dos grandes genocídios históri­
cos até muitas das mortificações cotidianas que se fazem
presentes em cada instante de nossa atualidade.

O A S S I S T E N C I A L I S M O A S ER VIÇO DA
CRIMINALIZAÇÃO OU O C O N S U M O DA
CRIMINALIDADE

Se, por um lado, temos forças de mortificação explici­


tas - direito de vida e de morte -, por outro, há discursos
que sob a justificativa do “resgate dos injustiçados” e “pre­
venção da crim inalidade” em preendem verdadeira gerência
em presarial das questões sociais. Ao analisar o processo de
criminalização da juventude pobre, Batista (2010) reflete so­
bre os perigos das práticas e discursos que se fundam entam
em ações como as de ressocialização, reintegração, recu­
peração e reeducação. Estas teriam como desígnio maior a
contenção social: a seletividade deste controle se apresenta
quando “o m enino pobre aparece como representação ‘da­
quele que naturalm ente caíra no crim e’, se não for contido
pela polícia ou pelo voluntariado, ou pelos dois, na simbio­
se da prevenção/repressão” (BATISTA, 2010, p. 198).
Nas sociedades m arcadas pelo neoliberalismo, ao fazer
um investimento no campo do bem -estar social, a inten­
ção do Estado é criar programas direcionados a preparação
de supostas condições as quais possibilitariam, a cada um,
educar-se para formar-se como “capital hu m an o ”. “Trata­
-se de um a educação para cada um, como trabalhador em

87
busca de um emprego, que invista em si como o em pre­
endedor de si, um ator participativo, um cidadão monitor,
um consumidor com discernimento do melhor do m undo
utilitarista [...]” (PASSETTI, 2011, p. 49).
Ainda a respeito disso, Foucault (2008a, p. 334) apresen­
ta como no neoliberalismo americano determinados valores
econômicos migraram da economia para outros domínios
da vida, havendo, com isso, a tentativa de cifrar em termos
econômicos os mais diversos comportamentos sociais ante­
riormente entendidos como não pertencentes a este campo.
Tal disseminação ganhou forte poder normativo ao instituir
processos e políticas de subjetivação que vêm contribuindo
para a criação de sujeitos empreendedores em suas relações.
Daí a atual concepção de “capital hum ano” em que estudo,
alimentação, trabalho, afeto, cuidado são pensados como in­
vestimentos que agregam valor ao humano. Inerente a esse
pensamento, como um a de suas consequências, está a ideia
de que, como alguns investem em si mais que outros, há
pessoas cuja vida “valeria m ais”.
A partir disso, percebe-se como a política de Estado é
atualizada no mesmo plano em que se dá a subjetivação,
o que seria a biopolítica senão o acoplam ento do capital à
vida? Não por acaso, há am pla comoção quando, tristem en­
te, de forma violenta, morre um jovem da classe média; nos
discursos de lamento é recorrente que se aluda ao futuro
brilhante que tal sujeito teria: “estudioso”, “filho am ado”
e “investido pelos p ais”. Por outro lado, os jovens pobres,
os quais diariam ente são violentam ente mortos, apesar de
chorados pelos seus entes queridos, não comovem a socie­
dade - apressadam ente são identificados como bandidos -,

8 8
apenas aparecem como “letra fria”, meras estatísticas que
se acrescentam aos núm eros de mortos. Essa indiferença
perante aquele que deixou de ser, ou talvez nunca tenha
sido tom ado como sem elhante não consiste em simples
apatia, mais que isso, é a ilustração de como a política
de Estado não está separada da micropolítica atualizada
em nossas práticas cotidianas. Uma dem onstração de que
somos governados tam bém a partir daquilo que sentimos e
de como agimos.
Contudo, tão crítico como nossa ativa impassibilidade
diante do massacre da população negra e pobre, é reduzir­
mos o outro a m era vítima digna de piedade. No jogo do
domínio social, todos têm um papel a representar e o peri­
go é nos limitarmos às marcações cênicas dessa máquina,
como nos alertara Hara (2007). As estratégias de marketing,
quando se incum bem da tarefa de explorar as mais diversas
misérias que envolvem a juventude, por vezes, produzem
o arriscado sentim ento de piedade. “A piedade é um a peça
fundam ental para transformação do homem no melhor ani­
mal doméstico do hom em ” (HARA, 2007, p. 256). Para o
autor, a piedade instigada pela mídia reitera, a todo custo,
a acomodação ao papel de “vítima im potente”, aquele que
sofre: desta forma a culpa se desloca dos favelados propa­
gadores do caos para aqueles que infligem a dor e a miséria
à população pobre.
Nota-se, então, que o discurso da culpabilização, por
vezes, m uda seu destino: preponderantem ente direcionado
à população pobre, que não sabe “investir em si”, “tem
filhos dem ais” e “propagam a pobreza e a violência”, em
alguns m om entos a culpa é deslocada para o público abas­

8 9
tado que vê no pobre inválido a figura da vítima im potente
diante do sistema. Baseados nesta presum ida impotência,
alguns se veem im buídos da missão de “falar em nom e das
vítimas do sistem a”: estudiosos e especialistas do campo
social, am parados pelo ideal reformista, tom am como sua
luta a reparação das instituições e a inclusão de todos que
julgam viver à margem da sociedade.
Assim, os dois discursos (seja o que atribui ao pobre a
condição de irresponsável o qual, hipoteticamente, não sou­
be aproveitar as oportunidades para ascender socialmente;
seja o que afirma ser o favelado um a vítima do sistema, que
carece de supostas ações assistencialista para agregar valor
capital à sua existência) m arcam um lugar de “vulnerabili­
dade” dessas pessoas. Estas necessitariam ter suas condu­
tas governadas, já que são apresentadas, ao mesmo tempo,
como indivíduos em perigo e possivelm ente ameaçadores.
Tendo uma longa história, o conceito de vulnerabilida­
de, na atualidade, ganhou lugar de destaque ao ser vinculado
a programas e políticas de segurança. Hoje, ele fundamenta
pesquisas e ampara a gestão dos contingentes populacionais
supostamente expostos ao risco da violência, ou seja, de acor­
do com este pensamento a parcela da população mais pobre,
em consequência do contexto em que vive, estaria sujeita a
ser vítima da violência e a ser criminosa. A utilização deste
conceito nesta situação foi legitimada a partir de resultados
de pesquisas direcionadas ao combate à pobreza, iniciadas
na década de 1990. Nestes estudos são analisadas categorias
como, por exemplo, a qualidade de vida, a educação voltada à
responsabilidade social e o índice de pessoas expostas a sofrer
ou cometer determinados crimes (NU-SOL, Verbetes, 2013).

9 0
Sendo seu referencial teórico extraído da epidemiolo-
gia, os efeitos da aplicação do conceito de vulnerabilidade
social denota a continuidade das históricas ações de pre­
venção e possibilita a articulação dos equipam entos sociais
como a polícia, assistência social, com unidade, governos,
ONGs e instituições penais. Dessa forma, as políticas de
contenção social, sob a m aquiagem do enfrentam ento à
crim inalidade e proteção social, fazem-se presentes nos vá­
rios espaços sociais.
Eis que, acopladas à ideia de vulnerabilidade, as ações
sociais, pautadas no duplo assistencialismo-empreendedoris-
mos, defendem a busca de potenciais capitais hum anos entre
os desvalidos. Estas ações teriam, portanto, como pretensão
a disponibilização de novas oportunidades para a ascensão
social da população vulnerável. Baseadas neste anseio, cer­
tas instituições (sobretudo ONGs) ganharam espaço na mídia
como alternativa à criminalidade que supostamente assola­
ria as famílias mais pobres. Em suas cam panhas midiáticas,
estas instituições afirmam “recuperar” traficantes de drogas
de sua “índole criminosa” e prevenir a inserção dos jovens
no “mundo do crime”.
Como visto na história de João, personagem que inicia
nosso texto, é sob o véu do politicam ente correto que o
rapaz tem sua imagem transm utada de bandido perigoso
em objeto de consumo inofensivo. Assim, o que pauta este
processo é a lógica do lucro; isso porque quando questões
sociais tornam -se mercadorias, faz-se necessário adquirir
um a “tecnologia social” para lidar com as populações ditas
“vulneráveis”, tecnologia esta que mescla dim ensões como
investimento, lucro, em preendedorismo.

91
À grande maioria destes sujeitos caberá apenas a repres­
são, mas a alguns deles será possível passar por um processo
de “pasteurização” no qual suas histórias de vida ganharão
outros significados, sendo transformadas em produtos rentá­
veis. Evidentemente, ter como escolha alguma oficina cultu­
ral ou curso oferecidos por ONGs pode ser melhor que não
ter alternativa, entretanto o preço que estes jovens pagam é
alto. Geralmente, são reconhecidos não por seu trabalho ou
arte, mas pela história de miséria individual, suas histórias se
tornam produtos destas ONGs, às quais a população sente-se
aliviada por aplaudir, consumindo o drama dos injustiçados.
Se, como dissera Bauman (2005), criamos, em nossa
sociedade, o “refugo hu m an o ”, o problem a do que fazer
com esse refugo torna a questão ainda mais complexa. Para
o autor, o processo de m odernização trouxe consigo a pro­
dução de seres hum anos refugados, ou seja, a construção
da ordem m oderna tem como efeito colateral a criação dos
excessivos e redundantes e seu maior problema, na atuali­
dade, é a remoção ou a criação de m ecanism os capazes de
reciclar esse excedente. “Por seu turno, a florescente ‘indús­
tria da segurança’ se torna rapidam ente um dos principais
ramos da produção de refugo e fator fundam ental no pro­
blem a de rem oção” (BAUMAN, 2005, p. 14).
Se hoje a quase totalidade da produção e do consumo
se tornaram m ediados pelo dinheiro, concom itantem ente,
as formas de lidar com aquilo que socialmente produzim os
como hum anos refugados são perm eadas pela lógica de
mercado e m onetarização. Assim, se parte dos cham ados
traficantes de drogas são aniquilados outros poucos têm
seus corpos reciclados.

92
I N C O N C L U S Õ E S : A V I D A QUE INSISTE
EM V I V E R

Pudemos observar, portanto, que junto ao processo de


criminalização há, também, a comercialização daquilo que
é ontologizado sob a forma da figura do “traficante de dro­
gas”, ou da imagem daquele que supostam ente virá a ser um
criminoso perigoso se não sofrer intervenção das políticas
assistencialistas ou da filantropia. A cena da ocupação mili­
tar de determ inada com unidade e a dobradura deste drama,
quando de dentro desta imagem surge outra, a de um rapaz
que circula entre as marcações sociais sendo capturado não
apenas pelas forças policiais, mas pelas malhas do processo
de comercialização da pobreza, tornam -se um espetáculo
midiático. E aqui aludimos a dobraduras, porque não há um
fora do processo, se - como dissera Deleuze (1992) - vive­
mos em um a sociedade de controle, o que podem os notar
são as modulações desse processo que se atualizam nas re­
lações sociais. Como já enunciado, esse processo não se dá
alheio a nós; Bucci (2013), por exemplo, explicita como em
nosso tempo o ato de consumir se converteu, inadvertida­
mente, em um consumo de preconceitos. Mais ainda, apon­
ta como imbuídos de desejos “hum anitários” consumimos
estes preconceitos sem nos darmos conta.
Para o autor, com a globalização, as minorias antes ex­
cluídas socialmente, agora, são incluídas, mas seu acesso
se dá de forma distinta. Na atualidade, as leis de mercado
funcionam a partir da comercialização das intimidades: se­
duzida pela esfera privada, a sociedade de consumo esvazia
o debate das soluções políticas próprias da esfera pública,

93
como afirma Bucci (2013). Assim, consumimos as tragédias
dos que entendemos ser oprimidos como assuntos de intimi­
dade e não como problemas públicos, tudo é transformado
em um grande espetáculo ao qual estamos ávidos a aplaudir.
Emocionados diante da miséria alheia, os transformamos em
bens descartáveis; diante dos nossos sentimentos, acredita­
mos estar exercendo nossa indignação, dando sentido à nos­
sa existência e nos tornando mais hum anos (BUCCI, 2013).
Diante do exposto, pode-se concluir que a miséria e
as questões sociais a ela ligadas é um lucrativo negócio.
O suposto enfrentam ento ao comércio de drogas ilícitas -
seja ele no combate arm ado ou nas táticas assistencialistas
- hoje representa um grande vilão com ganhos políticos
e econômicos. O neoliberalismo não é apenas um a forma
econômica, tornou-se um estilo de vida. Como salienta La-
gasnerie (2013, p. 26), a ideia de Foucault ao estudar o ne­
oliberalismo é usá-lo como “ [...] instrum ento de crítica da
realidade e do pensam ento. Trata-se de se colocar à escuta
do que essa tradição tem a nos dizer a fim de em preender
um a análise de nós m esm os”.
A resistência a esse artifício, portanto, não está localiza­
da em um fora, em um a transcendência que espera chegar
o dia em que o Estado será garantidor dos Direitos H um a­
nos, ou que estes direitos servirão a todos. Inspirados em
Foucault (2005, p. 10), ousam os pensar que a nossa luta se
faz no cotidiano das práticas, nas lutas locais, descontínuas
e particulares, que, por sua vez, não deixam de colocar em
xeque os paradigmas totalizantes. Resistir, então, torna-se
um dobrar-se sobre o processo mesmo de constituição de
nós, sobre si mesmo e sobre as nossas práticas cotidianas.

9 4
Narrar histórias como a de João, revirar nossas m em ó­
rias e experiências em busca de saídas e análises nos fazem
chegar a mais “inconclusões” e interrogações. Contudo, o
próprio ato de pesquisar constitui-se como um a ação de
resistência, pois desentranha de nós as inquietações, per­
mitindo que nossa angústia deixe de ser paralisante e se
transform e em algo “por vir”; algo que não perm anece no
mesmo lugar e que, por ventura, possibilite inaugurar um
pensam ento que se abra a outras possibilidades.

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9 6
A C I Ê N C I A PSI N A D E T E C Ç Ã O DOS
MALES SOCIA IS : A ESCALA HARE
PCL-R E O PERFIL DO P S I C O P A T A

Lia T o y o k o Y a m a d a

De tempos em tempos, elege-se algum pária da socieda­


de para ser a grande origem dos males sociais. Sua presença
incomoda, provoca, insiste, transgride, pois rompe o “pacto
social” - prom essa de um a sociedade harm ônica e justa.
A história nos m ostra que os considerados “anorm ais”
foram se transform ando ao longo do tempo. Segundo Fou­
cault (2001), a criança m asturbadora, o indivíduo incorri­
gível e o monstro hum ano53 tiveram sua emergência, no
século XIX, correlacionada ao surgimento da psiquiatria
m oderna e às novas tecnologias de controle e de poder.
A mulher, o negro, o índio, o homossexual, o doente
mental, dentre outros, já ocuparam - e ainda hoje ocupam
- este lugar de alvo do poder repressivo e o recurso à histó­
ria nos m ostra a triste realidade que acom eteu esses grupos
sociais e que, nos dias atuais, carregam suas bandeiras de
luta e resistência.
Entretanto, algo une todos esses sujeitos. Algo que, em
cada um, em sua época, com seus matizes de singularidade,
53 A noção de m onstro é especialm ente jurídica, pois se define a partir d a violação d as leis da socie­
dade e das leis da natureza. Sob o dom ínio “jurídico-biológico”, o m onstro é u m fenôm eno extrem o
e raro, um a exceção que funciona com o u m m odelo de todas as p eq u en as discrepâncias.

97
nos ajuda a pensar o presente trabalho: o processo de individu-
ação. Por meio deste processo, de um modo geral, somos leva­
dos a pensar que a “origem” dos perigos sociais é encontrada
em pessoas, em tendências de personalidades, em maus hábi­
tos; ou seja, na individualização e personificação desses males.
A psicologia contribui, sobremaneira, não somente na
produção do perfil dos ditos anormais, dos transgressores e
tum ultuadores da ordem social, mas tam bém na detecção
e tratam ento daqueles que são vistos, por muitos, como
irrecuperáveis, doentes. Os irrecuperáveis de hoje são os
cham ados psicopatas. Mas quem será o psicopata?
Assim, o presente trabalho versa sobre um instrum ento
de avaliação de psicopatia em populações forenses m ascu­
linas, desenvolvido pelo psicólogo canadense Robert Hare e
traduzido e validado no Brasil pela psiquiatra Hilda Clotilde
Penteado Morana (2003). A proposta é pensar de que modo
o perfil do psicopata, avaliado por meio de um teste de per­
sonalidade, pode não somente se destinar a avaliar o cha­
mado “psicopata”, mas também a todo aquele que, de certa
maneira, transgredir as normas atuais que estão a serviço do
status quo, de um a lógica capitalista de privilégios de classe,
de criminalização da pobreza, dos movimentos sociais e,
mais recentemente, da criminalização dos defensores dos
direitos hum anos (CARVALHO; DIEAS; MANSUR, 2013).
Assim, a partir das contribuições de Michel Foucault e
de um a literatura crítica sobre os m ecanism os de controle
e de poder, pretende-se discutir de que modo a psicologia,
a partir de um instrum ento dito científico de avaliação de
personalidade, contribui para a individualização e culpabi-
lização de condutas sociais.

9 8
OS D I F A M A D O S DA HISTÓRIA E A
ÊNFASE NO PRIVADO

Richard Sennet (1998) traça um paralelo entre a retração


do espaço público e a crescente valorização das questões ín­
timas, das emoções particulares e da contribuição da psico­
logia moderna e da psicanálise na visão da sociedade como
um grande sistema psíquico. Desenvolve-se daí uma obsessão
para com as pessoas em detrimento das relações sociais mais
impessoais. No entanto, esta visão psicológica inibe o desen­
volvimento de certos aspectos e forças da personalidade como,
por exemplo, a compreensão de que cada indivíduo guarda
em si uma “caixa de horrores” e que as relações civilizadas
entre as pessoas só podem ter continuidade na condição de
que o lado sombrio de cada um fique guardado a sete chaves.
Para o autor, essa excessiva preocupação com a inti­
m idade tem-se desdobrado em m undo exterior impessoal,
rançoso e vazio e na “confusão entre vida pública e vida
íntima: as pessoas tratam em termos de sentim entos pes­
soais os assuntos públicos, que somente poderiam ser ade­
quadam ente tratados por meio de códigos de significação
im pessoal” (SENNET, 1998, p. 18).
No Brasil, a intimização passa a ser um a preocupação
maior a partir dos anos 1970, em especial nas classes m é­
dias urbanas, ligadas a um a cultura psicológica e de interio-
ridade que corrobora um a atitude cética em termos de po­
lítica, e um a visão negativa da militância política da época.
“Investe-se perm anentem ente no domínio do privado, do
familiar e o psicologismo fornece um a legitimação ‘científi­
ca’ à tecnologia do ajustam ento” (COIMBRA, 1993, p. 35).

9 9
As tentativas de formação de um perfil psicológico dos
perturbadores da ordem não vêm de agora e, no Brasil, essa
pretensão se fazia sentir no Estado autoritário que vigorou
durante o período da ditadura militar.
A avaliação era feita com base em testes psicológicos
(aptidão, interesses, nível m ental e de personalidade) e
em um extenso questionário com perguntas dissertativas
sobre a infância, a adolescência, relacionam ento familiar,
profissão, sexualidade, experiências homossexuais, uso de
drogas, tem peram ento, situação familiar e envolvimento
com a política.
A respeito do interesse do governo sobre esse tipo de
pesquisa, Cecília Coimbra (1995) destaca que:

Estas pesquisas m ostram não apenas um a ne­


cessidade por parte da repressão de conhecer
melhor os militantes políticos e traçar o perfil
daqueles que estão sendo combatidos, mas,
tam bém - bem de acordo com as subjetivida-
des hegemônicas na época - difundir na socie­
dade em geral e nas famílias de classe média,
em especial, a crença de que seus filhos são
“desajustados”, “desequilibrados” emocional
e socialmente e, portanto, “doentes”, precisan­
do de tratamento. Em suma, elas - as famílias
- são as principais responsáveis pelos trans­
tornos que esses jovens trazem para a nação
que quer “se desenvolver em ordem e em p az”.
(COIMBRA, 1995, p. 203)

Os considerados “terroristas” e “subversivos” que luta­


ram por outros mundos, contra o regime militar e as forças
da repressão eram vistos por determinados setores da socie­
dade como aqueles “que sofrem de complexos que os levam,

10 0
por esse ou aquele motivo, a atitudes de luta contra a socie­
dade e o meio em que vivem [...], serão sempre desajusta­
dos e, assim, criaturas infelizes” (COIMBRA, 1995, p. 202).
Hoje, o cenário brasileiro não é tão diferente assim. A
emergência de novas alternativas de luta e contestação, que
se fortaleceram durante o mês de junho em 2013, revelou
um a m udança na dinâmica da reação/transform ação social
diante da situação político-econômica brasileira.
Emergiram m anifestações que envolveram a presença
de diferentes bandeiras de luta, de segmentos sociais, ida­
des, gênero, religião, partido político, ativistas e não ati­
vistas. Ou seja, um a pluralidade de interesses e desejos
reunidos no mesmo m ovimento, fato que não ocorria nos
m ovim entos sociais até então vigentes nos últim os anos no
nosso país.
Mas, em meio a reivindicações e discordâncias vee­
m entes sobre a situação político-econômica que o país vem
passando, a opinião pública, instigada pela mídia dom inan­
te, vem deslocando a questão da crítica e contestação que
esses m ovimentos carregam e passa a dar grande visibilida­
de à conduta dos black blocs que vai sendo crim inalizada.
Frases como “um ‘m anifestante’ mascarado é apenas
um criminoso comum que se julga um revolucionário”, “os
black blocs representam apenas o caos, a desordem, o niilis-
mo, a violência gratuita, tudo isso mascarado pelo ímpeto
‘revolucionário’” (CONSTANTINO, 2014) mostram o quanto
a força das mobilizações sociais vem tentando ser esvaziada
através de queixas e culpabilizações atribuídas aos manifes­
tantes, dando lugar a um a série de críticas e demonizações, o
produz um outro conteúdo político de medo e terror.

101
Assim, essa tendência de individualizar, de privilegiar
um a visão personalista das questões sociais, teve sua em er­
gência por meio da constituição de teorias psicológicas e
médicas que funcionam como fortes mecanismos de poder
e controle social.

A ESCALA H A R E P C L - R E AS
AFINIDADES “CIENTÍFICAS”

A constituição da anorm alidade e sua apropriação pela


psiquiatria data do século XIX e irá se estabelecer a partir
de três elementos aparentem ente dissociáveis: o m onstro
hum ano, o indivíduo a ser corrigido e a criança masturba-
dora (FOUCAULT, 2001).
A partir das noções de degenerescência e hereditarie­
dade, a psiquiatria se promove à instância de defesa social,
contribuindo por meio de técnicas de detecção, classifica­
ção e intervenção sobre os anormais. Segundo Foucault,
“a partir do m om ento em que a psiquiatria adquire a pos­
sibilidade de referir qualquer desvio, anomalia, retardo a
um estado de degeneração, vê-se que ela passa a ter uma
possibilidade de ingerência indefinida nos com portam entos
hum anos” (FOUCAULT, 2001, p. 401-402).
Nos dias atuais, a intervenção das ciências psi no corpo
social confere novas roupagens às antigas técnicas de racis­
mo de Estado; e a Escala Hare PCL-R se insere como mais
um m ecanism o de controle social respaldada na “ciência da
proteção biológica da espécie”.

102
A Escala Hare PCL-R pontua o indivíduo avaliado nos
seguintes traços considerados como característicos da psi-
copatia, assim citadas:

1. Loquacidade;
2. Superestima;
3. Necessidade de estim ulação/tendência ao tédio;
4. Mentira patológica;
5. Vigarice/manipulação;
6. Ausência de remorso ou culpa;
7. Insensibilidade afetivo-emocional;
8. Indiferença/Falta de empatia;
9. Estilo de vida parasitário;
10. Descontroles comportamentais;
11. Promiscuidade sexual;
12. Transtornos de conduta na infância;
13. Ausência de metas realistas e de longo prazo;
14. Impulsividade;
15. Irresponsabilidade;
16. Incapacidade de aceitar responsabilidade pelos pró­
prios atos;
17. Muitas relações conjugais de curta duração;
18. Delinquência juvenil;
19. Revogação da liberdade condicional; e
20. Versatilidade criminal.

Com base em um a entrevista sem iestruturada, realiza­


da por meio de um “roteiro de entrevistas e inform ações”,
o sujeito é avaliado de acordo com os 20 itens e pontuado
de acordo com um a escala que vai de zero a dois. O valor

103
zero (0) é atribuído quando nenhum a das características
relativa à descrição do item encontra-se presente; o valor
um (1), caso apresente algumas características; e dois (2) se
apresentar várias características (HARE, 2004).
O somatório desses pontos pode chegar até 40, sendo
que o ponto de corte pode variar de acordo com o país. No
Brasil, os estudos de Hilda M orana (2003) sugerem o ponto
de corte de 23. Já nos EUA e no Canadá, o ponto de corte é
30 e na Europa é 25.
A avaliação engloba diversos aspectos da vida do su­
jeito, incluindo testes psicológicos e informações sobre
com portam ento na prisão, uso de drogas, histórico crimi­
nal, histórico familiar, profissional, sexualidade, finanças,
perspectivas futuras e dados sobre a saúde (HARE, 2004).
Pesquisas envolvendo o uso do PCL-R para avaliação
de psicopatia em um a am ostra de adolescentes que come­
teram ato infracional em cum primento de m edida socioe-
ducativa apontaram a existência de dois grupos distintos de
adolescentes infratores: os psicopatas e os não psicopatas.
Além disso, consideram que os adolescentes que cometem
crimes graves, na sua maioria, são portadores de personali­
dade psicopática, apresentam um histórico de reincidência
criminal (SCHMITT et al., 2006). Apesar dos transtornos de
personalidade serem diagnosticados apenas na fase adul­
ta, a proposta de avaliar a psicopatia se sustenta no PCL-
-YV (Hare’s Psychopathy Checklist Revised - Young version),
um a versão para adolescentes, mas que não foi validada
para a população brasileira.
No mom ento, não existem estudos que apontem para
os efeitos do uso do PCL-R na população forense e as pes­

10 4
quisas em torno do tema são escassas. Não obstante, gran­
de parte das pesquisas existentes sobre o instrum ento en­
focam as propriedades psicom étricas e passam ao largo das
implicações éticas e políticas envolvidas no uso do teste.
O ideário científico que baseia os estudos do PCL-R
está assentado na perspectiva de encontrar, no homem,
“o prolongam ento das leis que regem os fenôm enos n atu ­
rais”, sustenta-se em postulados positivistas segundo os
quais o conhecim ento advindo das ciências hum anas de­
veria passar pela transposição das leis que se apresentam
como funções m atem áticas. Tais postulados baseiam -se
por relações quantitativas e pela construção de hipóteses
sustentadas pela objetividade e verificação experim ental
(FOUCAULT, 2006, p. 133).
Segundo Foucault (2006), a história da psicologia carre­
ga a busca pelo conhecimento do homem através dos pos­
tulados do projeto positivista de ciência:

[...] ao perseguir o ideal de rigor e de exati­


dão das ciências da natureza, ela foi levada
a renunciar aos seus postulados; ela foi con­
duzida por um a preocupação de fidelidade
objetiva em reconhecer na realidade hum ana
outra coisa que não um setor da objetividade
natural, e em utilizar para reconhecê-lo ou­
tros m étodos diferentes daqueles de que as
ciências da natureza poderiam lhe dar m ode­
lo. Mas o projeto de rigorosa exatidão que a
levou, pouco a pouco, a abandonar seus pos­
tulados tornou-se vazio de sentido quando
esses mesm os postulados desapareceram : a
ideia de um a precisão objetiva e quase m a­
tem ática no dom ínio das ciências hum anas
não é mais conveniente se o próprio hom em

10 5
não é mais da ordem na natureza. Portanto, é
a um a renovação total que a psicologia obri­
gou a si própria no curso de sua história; ao
descobrir um novo status do hom em , ela se
impôs, como ciência, um novo estilo.
(FOUCAULT, 2006, p. 133-134)

A relação entre Psicologia e Direito remete, inicialm en­


te, à associação entre as ciências médicas e as teorias cri-
minológicas modernas. A Escola Positiva de Direito Penal
do século XIX, representada por Cesare Lombroso, Ferri e
Garófalo, irá se alicerçar no discurso médico-científico, na
patologização da conduta criminosa e na ênfase no crimi­
noso. Tal destaque irá se opor ao pensam ento da Escola
Clássica que partia da concepção de crime, enquanto ato de
ruptura do contrato social (BARATTA, 2002).
Com o deslocamento do objeto jurídico do crime (Es­
cola Clássica) para o autor do delito (Escola Positiva), o
criminoso passa a ser objeto científico e o estudo do crime
se volta para os aspectos da personalidade anormal do cri­
minoso (BARATTA, 2002).
Além da influência lom brosiana, a escola degenera-
cionista francesa, tendo como expoente Morel e sua tese
sobre a hereditariedade, teve grande repercussão no meio
científico a partir da inauguração das noções de heredita­
riedade, incurabilidade e caracteres físicos e constitucionais
(FERLA, 2005). O conhecimento biológico do século XIX
não parou por aí: temos, em Galton, a criação da Eugenia,
m étodo de aprim oram ento ou profilaxia das raças, que tam ­
bém contribuiu para a seleção das características físicas dos
grupos sociais indesejáveis (SCHWARCZ, 2001).
O projeto de constituição da criminologia do Brasil, nas

10 6
últim as décadas do século XIX, contribuiu para o processo
de norm alização da sociedade brasileira e “esquadrinha-
m ento do social”. Para Rauter:

[os] espaços sociais em que o esquadrinha-


mento disciplinar se deu de modo mais ou
menos generalizado convivem com outros,
onde a repressão violenta, sem sutilezas, se­
gue sendo a forma de que o Estado se vale
para sua preservação. Ou, ainda, pode haver
a com binação de estratégias sutis de norm ali­
zação com formas de repressão violentas, que
de certo modo denunciam e contradizem as
primeiras. (RAUTER, 2003, p. 23)

A partir da década de 1940, com o Código Penal (Brasil,


1940), os procedim entos de diagnóstico e estudo da perso­
nalidade do criminoso começaram a se fortalecer no Brasil
m ediante a introdução do critério de periculosidade para a
aplicação da pena e do dispositivo da m edida de segurança.
Entretanto, a tendência da legislação penal ocidental não é
se restringir ao louco infrator, observa-se, então, um a ge­
neralização da avaliação da personalidade com o objetivo
de prescrever técnicas de tratam ento penal e previsões de
reincidência criminal (RAUTER, 2003).
A partir do final do século XIX e ao longo do século XX
ocorre um a reviravolta no campo psi com a introdução dos
conceitos da psicanálise, que irão permear a literatura psi­
quiátrica e intervir a partir de um modelo psicodinâmico na
compreensão da doença mental e da etiologia das doenças. A
psiquiatria passa, então, a se preocupar muito mais em des­
vendar o sentido do sintoma e sua relação com a história do
paciente e muito menos com o modelo nosológico caracterís­

107
tico do modelo médico. Ocorre, neste interim, um a tendência
à desmedicalização das práticas psiquiátricas associada aos
movimentos de crítica aos estabelecimentos psiquiátricos e
ao próprio conceito de doença mental, pondo em questão a
própria legitimidade da psiquiatria (AGUIAR, 2002).
Em resposta ao panoram a da década de 1960, marcado
pelas afinidades psicanalíticas e pela psiquiatria com uni­
tária (comunidades terapêuticas, antipsiquiatria)54, surge
um a retom ada da perspectiva fisicalista e biológica e, a p ar­
tir da década de 1980, recupera-se a remedicalização da psi­
quiatria e o investimento e fortalecimento em pesquisas e
estudos ligados à função cerebral e ao domínio da genética
(SERPA JUNIOR, 1998).
Como efeito destas m udanças, o campo psicossocial
sofre um a significativa influência e proliferam-se os instru­
mentos de m edida para avaliar os processos terapêuticos,
a ditar diagnósticos classificados e validados por meio de
pesquisa quantitativa e por metodologias advindas da bio­
logia (SERPA JUNIOR, 1998; AGUIAR, 2002).
Mesmo com o surgimento, a partir do século XX, de
outras teorias e estudos que se ofereciam como alternativas
consistentes ao modelo biológico e individualizado dos fa­
tores etiológicos da criminalidade, a m atriz positivista ain­
da perm anece dom inante e influente no campo das práticas
penais. Porém, já não se intitulam mais lombrosianos, mas
carregam fortes afinidades com a Antropologia Criminal de
Lombroso e pretendem analisar o crime a partir da avalia­
ção do indivíduo criminoso, avaliação esta sustentada em

54 A psicanálise e a psiquiatria com unitária sustentavam um a po stu ra de desm edicalização e pouco


se interessavam em nosologia, epidem iologia, farm acologia e etiologias orgânicas.

10 8
parâm etros de um a ciência mental que se pretende cien­
tífica, quantitativa, objetiva e neutra na sua tentativa de
realizar diagnóstico e prever condutas.
Esse é o contexto de surgimento do PCL-R, e as pes­
quisas atuais que se utilizam deste instrum ento encontram
respaldo na linha de pesquisa baseada no modelo biológico
e de ciência positivista, sendo recorrente encontrar algumas
“palavras de ordem ”: neurobiologia, lobo frontal, disfunção
cerebral, “resposta cardíaca e nível de ansiedade”, córtex
frontopolar, dentre outros termos.
Assiste-se, assim, à expansão da psiquiatria enquanto um
discurso atuante nos moldes de regulação da vida e controle
das virtualidades. Trata-se do biopoder, de um poder que se
exerce no nível da saúde e da duração da vida, da espécie, da
raça e dos fenômenos da população (FOUCAULT, 1999).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Apesar da emergência histórica (rapidamente aponta­


da), o PCL-R continua sendo visto por muitos como um ins­
trum ento gold standard. Entretanto, isso não im pede que
algumas críticas, apesar de não romperem com a lógica for­
talecida por este teste, já comecem a ser feitas ao seu uso:

O PCL-R atribui um diagnóstico, o de psicopa-


ta, que pode exercer efeitos poderosos sobre
o com portam ento e a identidade de um a pes­
soa. Na m edida em que se atribui às pessoas
diagnósticos por este rótulo, um risco eleva­
do de reincidência e insensibilidade ao trata­
m ento, as suas perspectivas de sucesso futuro

10 9
ficam limitadas. (Zinger & Forth, 1998). Ao
mesmo tem po, a alta taxa de previsões de es­
cores de falso-positivos no PCL-R é motivo de
preocupação porque um a porcentagem rela­
tivam ente alta de indivíduos pode ser injus­
tam ente estigm atizada e injustam ente detida
com base em um a pontuação alta do PCL-R.
Tal diagnóstico pode vir a criar diversas con-
sequências potencialm ente negativas para
aqueles a quem os diagnósticos são aplica-
dos.55 (WALTERS, 2004, tradução livre)

Além disso, foram observadas diferenças nos resultados


das avaliações quando considerados os fatores culturais:

Em um estudo para examinar a validade da


psicopatia como um construto em afro-ame-
ricanos, bem como a capacidade do PCL-R
de identificá-los, os pesquisadores descobri­
ram diferenças significativas por raça. De
im portância prim ordial são as conclusões de
que sujeitos afro-americanos exibiram esco­
res significativamente mais altos no PCL-R e
mais frequentem ente preenchiam os critérios
para psicopatia do que indivíduos brancos.56
(ELLS, 2005, p. 189, tradução livre)

O senso comum, a mídia e, no caso, a ciência contri­


buem para engendrar os valores de certo e errado, de beleza

55 T he PCL-R assigns a label, n am ely psychopath, w hich can exert a pow erful effect o n a p erson’s
identity and behavior. To the extent th a t people assigned this label are assum ed to be a t elevated
risk for recidivism a n d unam enable to intervention, their prospects for future success w ould seem
lim ited (Z inger & Forth, 1998). A ll th e same, th e high false-positive rale o f PCL-R predictions is cause
for concern because a relatively large percentage o f individuals could be undeservedly stigm atized
a n d unjustly detained based o n a high PCL-R score. Labeling can creale a n y n u m b er o f potentially
dam aging consequences for those to w hom the labels are applied.

56 In a stu d y exam ining th e validity o f psychopathy as a construct in A frican Am ericans, as well as the
PCL-R’s ability to identify it, researchers fo u n d significan! differences b y race. O f prim a ry im portance
are findings th a t African Am erican subjects exhibited significantly higher scores on the PCL a n d more
often m et th e criteria for psychopathy th a n did w hite subjects.

110
e feiura, de bem e mal, e, consequentemente, de tudo aqui­
lo que se considera negativo, e que deve ser eliminado por
afastar-se dos ideais considerados superiores e verdadeiros.
Diferentemente do que ocorria no século XIX, quando a ca­
tegoria de anormalidade remetia à figura do indisciplinado,
do monstro hum ano e da criança masturbadora, os monstros
atuais são vistos como o traficante, o pedófilo e o psicopata,
dentre outros.
O psicopata de Hare pode se confundir com aquele
que se desvia da norm a, não som ente no aspecto crim i­
nal, pois ele pode englobar outras categorias: hiperativo,
endividado, prom íscuo, largado, sem perspectivas profis­
sionais, drogado, bêbado, delinquente, mentiroso, irres­
ponsável, frio e criminoso.
Não se trata de negar a existência de crimes conside­
rados cruéis e inadmissíveis de serem cometidos. Porém, a
questão que se coloca não é a dita periculosidade do psicopa-
ta, mas o que, a partir desta categoria, se justifica. A questão
se agrava quando, em nome de um a ciência pretensamente
neutra, utiliza-se um instrum ento que tem o poder sobre a
vida, poder de encerrá-la para sempre em um a prisão57.
Em síntese, o PCL-R, em vez de ser um teste que prevê
riscos, diríamos, mais apropriadamente, que ele produz ris­
cos: de discriminar, rotular, impedir liberdades e justificar di­
versas atrocidades em nome da segurança social. E, por isso,
pode vir a ser letal, periculoso e danoso quando seu uso vem
acom panhado na crença de um a verdade científica.

57 No Canadá, no caso do preso ser diagnosticado com o psicopata, é transferido para u m a prisão
especial em cum prim ento de pena perpétua (HARE, 2004).

111
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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11 3
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11 4
D O B R A 2:

O Q U E EU V O U E S C R E V E R JÁ
D E V E E S T A R N A C E R T A DE
A L G U M M O D O E S C R I T O EM MI M

11 5
ENTRE BO MBAS E ROJÕES: NOSSO
BLOC O NA RUA

J o s é R o d rig u e s d e A lv a r e n g a Filho

Para c h o ra r não pre cisa de gás la c rim o g ê n e o

B asta v e r o m eu c o n tra c h e q u e .

(CARTAZ DE UM MANIFESTANTE NA AV. RIO BRANCO,


RIO DE JANEIRO, EM 15 DE OUTUBRO DE 2013).

Este texto começa com um grito. Melhor dizendo: com


vários. Poderia, tam bém , começar com um soco; um xinga-
mento; um choro; um spray de pim enta ou um a bom ba de
“efeito m oral”. Gritamos. E foram vários e intensos gritos
acom panhados de um a correria, e de olhos lacrimejando,
e gargantas fechando. As bombas explodiam por todos os
lados nos dispersando violentamente. Acuados, fugimos da
Cinelândia, onde nos concentrávam os em torno da Câmara
dos Vereadores. Fugimos sim, ainda que quiséssemos ficar
e afirmar nosso direito de estar ali, na rua, na praça; com
nossas bandeiras, reinvindicações e, sobretudo, com nossa
revolta; o nosso corpo em revolta.
Gritamos que a presença ostensiva da polícia militar não
nos intimidaria; que éramos todos professores; que vândalo
era o Estado; que o plano de salários não seria votado e, se
fosse, jamais seria aceito; que não arredaríamos o pé; que

11 7
exigíamos respeito. Nossa voz entoava antigas marchinhas:
“daqui não saio, daqui ninguém me tira58”. Belos sorrisos.
Palmas, outros gritos e a multidão, todos nós, com ungáva­
mos de potente proximidade. De preto, com adesivos cola­
dos na roupa, com garrafas d ’água nas mãos, enfrentamos
o calor do sol e o cansaço. No carro de som, o comando da
greve do Sindicato Estadual dos Professores Estaduais do
Rio de Janeiro (Sepe) perguntava se havia alguém cansado
ali. Deveria haver, mas isso não era dos problem as o maior.
Um mar de vozes gritava “n ão ” em uníssono.
Quando a primeira bom ba explodiu, não sabíamos se
era a polícia ou os Black Blocs. Se era para correr ou ficar ali,
teimando, insistindo, contagiando-se. Depois de cada explo­
são, o silêncio m om entâneo e a tensão. Será que devemos fi­
car? E se nos afastarmos um pouco? Aqui pode ser perigoso?
Olha mais PMs chegando por ali! “Olha, estão correndo. Tem
gente indo presa. O cara está sangrando!”. Os Black Blocs
estão na Rua Alcino Guanabara. Encurralaram um pequeno
grupo de policiais ali, parecia. Da estreita rua lateral da Câ­
mara surgia o enfrentamento. A primeira bom ba foi seguida
por rojões e bombas de efeito moral e gás lacrimogêneo.
Mascarados saíam correndo do local para, atordoados pelo
gás, sentarem na Av. Rio Branco e respirarem. Um pouco de
ar, senão a gente sufoca. O ar começava a faltar para todos.
O cheiro do gás lacrimogêneo se espalhava rapidamente, le­
vado pelo vento. Em pouco tempo, o conflito escapou da
estreita Rua Alcino Guanabara e ganhou a Cinelândia.
Do alto do carro de som o comando de greve do Sepe
pedia para que não corrêssemos, para que ficássemos: “a

58 Refere-se à canção “D aqui não saio ” (Paquito e Rom eu Gentil).

118
Praça é do povo, a praça é no ssa”, eles insistiam. Mas quan­
do a PM avançou, todos nós corremos já sentido a garganta
apertada e os olhos lacrimejando intensam ente. O cheiro do
gás vem como um soco no estômago; quase nos paralisa,
desnorteia-nos. Assustado, o motorista do carro de som do
Sepe recusou-se a ficar na linha de fogo - sim, foi qua­
se um a guerra; instaurou-se um campo de batalha. Havia
bom bas e foguetes voando. Os Black Blocs se dispersaram
oferecendo resistência ao avanço policial. Atiravam pedras,
rojões e chutavam as bom bas que caíam em seus pés.
Naquela altura, não havia mais cantos, m archinhas ou
qualquer resquício de alegria. Era tenso, mas aquela reu­
nião de tanta gente tinha sua alegria, o seu encanto, a sua
beleza. De repente, nos vimos fugindo feito gado. Querí­
amos apenas escapar e poder respirar. E como se tornou
difícil respirar. Sucumbíamos coletivamente e coletivamen­
te nos ajudávamos. As garrafas d ’água e vinagre circula­
vam solidárias de mão em mão. “Joga nos olhos meu filho,
ajuda a m elhorar”. Estávamos na Rua Araújo Porto Alegre.
Outro grupo fugiu pela Av. Rio Branco. Estávamos pegan­
do fôlego, nos recompondo; e não desistindo. Isso jamais.
Voltaríamos para a Cinelândia e afirmaríamos ali a nossa
revolta. Ninguém nos seguraria. O peito acelerado, o corpo
inquieto. Os olhos ainda ardiam quando o comando de gre­
ve convocou a todos: “A praça é do povo e não das fardas”.
Gritos e um a salva de palmas. “Não das fardas!”, repetía­
mos como um m antra. Teimosos, am eaçam os voltar, mas
a polícia já avançava com mais bom bas sobre nós. Novos
gritos, revolta e gás. Corremos pela Av. Graça Aranha. Atrás
de nós, em nosso percalço, as bom bas explodindo. Junto

119
de nós, o medo a esterilizar nossos passos. “Meu D eus!”
- alguém já quase implorava - “Para que isso? Para que
tanta violência?”. Esta era tão intensa e desproporcional que
corríamos incrédulos de estar, de fato, vivendo situação tão
adversa. Dezenas observavam a cena na janela de prédios.
“Tá batendo em professor, seu filho da puta! É trabalhador,
porra! É trabalhador!”, gritavam. Quem estava na rua rapi­
dam ente se solidarizou com os m anifestantes e, sem querer,
apenas por estar ali, naquele mom ento, virou alvo; suspei­
to; perigoso; potente vândalo, também.
Pessoas andavam aflitas, atrás da condução: com o trân­
sito interditado, os ônibus seguiam outros destinos. Muitos
buscavam meios de voltar para casa. Nosso crime era estar
nas ruas, m anifestando nosso descontentam ento e nossa
revolta. Na Av. Rio Branco, bancos foram depredados e li­
xeiras incendiadas. Pequenas barricadas. Nada comparado
à violência policial. Quando a tropa de choque chegou, com
arm aduras, escudos, cassetetes, spray e motos, mascarados
atiravam pedras e corriam. M archando pela Av. Rio Branco,
a Tropa de Choque ia pelas ruas caçando manifestantes.
Isso mesmo, caçar: este é o verbo. A fabricada existência
de vândalos, com sua suposta am eaça a ordem, justifica
m uita coisa. Tudo o que foi feito aconteceu sob o holofote
de jornalistas, fotógrafos e cinegrafistas. À noite, no jornal,
a história que apareceu foi contada não a partir dos gritos,
da revolta ou da indignação. Era a história oficial produzida
pelo Estado e as corporações de mídia. História das fardas,
da repressão em nome da ordem; da violência em prol da
suposta paz da cidade. Novamente, paz sem voz. Paz não,
medo. Com medo.

12 0
Naquele dia, inúmeros foram presos e levados para distan­
tes delegacias. Sob a égide da ressuscitada Lei de Segurança Na­
cional, os presos - agora na condição de terroristas - foram le­
vados para presídios e submetidos a diferentes práticas de maus
tratos e até tortura. Tudo com o aval político do governo federal.
A capa do jornal O Globo de 17 de outubro de 2014 julgava e
condenava a todos. Dizia o jornal: “crime e castigo: lei mais
dura leva 70 vândalos para presídios. Presos em protesto são
enquadrados por crime organizado, que é inafiançável”. Crime
organizado, formação de quadrilha, destruição de patrimônio
público, desacato; a lista é longa e quase interminável.
No Facebook, policial posta foto com cassete quebrado
e, ironicamente, provoca: “foi mal fessor” (sic). Em vídeo,
oficial da PM reclama, diz que gostaria de lidar com Fer-
nandinho BeiraMar, com traficantes e bandidos e não com
manifestantes. Quando o público é outro, ele pode apertar
o gatilho, m atar um a dezena de pretos, pobres e favelados
e, no dia seguinte, aparecer como herói na capa do jornal
popular e ser condecorado por sua indiscutível eficiência.
Até ontem, “gratificação faroeste59” por cada alvo abatido.
Ainda hoje, a dor dos pobres é com emorada como sinistro
indicador de eficiência policial. Silêncio. Em outro vídeo,
policial é flagrado forjando flagrante, deixando cair um ro­
jão sobre os pés de um adolescente. É tudo flagrante, é tudo
flagrante, como diz a canção de Gabriel Pensador.
A polícia militar existe para isso; para manter a ordem.
Não importa que esta seja injusta. Isso não é questão para eles.
Eles aprendem a obedecer e não questionar. Aprendem a ma­
59 Em 1995, o então governador do Estado do Rio de Janeiro, M arcello A lencar (1995 - 1998), criou,
em decreto, u m a prem iação em dinheiro para policiais por “atos de b rav u ra”. A m edida, conhecida
com o “gratificação faroeste”, estim ulou a produção de m ortes em supostos confrontos.

121
tar, atirar a esmo, torturar e violentar. “Dizem para você obe­
decer, dizem para você cooperar. Quem precisa de polícia?”60 E
um dos efeitos mais cruéis da violência policial é fazer com que
aquele que é violentado sinta ódio e deseje revidar a violência
com outra violência; talvez, ainda maior, quiçá mais intensa,
para se fazer justiça. Assim é quando o grito de revolta, que
desata no peito pedindo justiça e reparação, se transforma pe­
rigosamente em clamor punitivo a pedir mais prisão, punição
e vingança. Em manifestação de novembro, um grupo gritava:
“corrupto bom é corrupto morto”. Um antigo militante social
carioca dizia: “lugar de patrão é na vala!”. A violência parecia
fazer-se soberana e mostrava-se como saída ou instrumento
privilegiado de ambos os lados: policiais e manifestantes. A
violência, produtora de perigosos modos de subjetivação.
Quando a bomba de gás caiu sobre nós e padecemos co­
letivamente, não foi outra coisa senão revolta e ódio o que
sentimos naquele momento; um ódio tão nosso, tão íntimo
e intenso, que ameaçamos comunicá-lo ao mundo jogando
pedras sobre os policiais; fazendo com que eles sofressem
como sofríamos; que eles provassem o gosto de seu maldi­
to veneno. De repente, estávamos ali: no meio da rua, entre
inúmeros outros, nos descobrindo violentos e vingativos. Um
grito estrangeiro a ecoar em nós. Estrangeiro? E agora José? A
luz apagou. E que revidássemos era tudo o que eles, policiais,
queriam. Um motivo a mais para intensificar, sobremaneira,
sua repressão sobre a manifestação. Uma razão ímpar para,
no telejornal da noite, aparecermos como algozes destruidores
de um “ato pacífico”. É claro que as pedras dos manifestantes
seriam filmadas, fotografadas e relatadas posteriormente para

60 Referimo-nos à canção “Polícia”, do grupo Titãs.

122
incriminar o ato. Vândalos, diriam! De repente, pareceu-nos
mais corajoso e coerente com aquilo pelo que lutávamos cor­
rer a revidar; nos recompor a compor com a estratégia militar.
Em Brasília, oficial justificava a violência do uso abusi­
vo do spray de pim enta dizendo: “porque eu quis”. Diante
de um a grande vaia, o policial não pensou duas vezes antes
de atirar um a bom ba de gás lacrimogênio em um grupo
de pessoas que vaiavam a intervenção policial na Av. Rio
Branco. Como diz a canção: nos quartéis lhes ensinam anti­
gas lições. De morrer pela pátria e viver sem razão61. Ousar
lutar por outros m undos possíveis é perigoso. Mas não im ­
porta o risco, nós querem os é botar “nosso bloco” na rua62!
Bombas ainda explodiam quando voltamos, já à noite,
para a Lapa. Foi um dia cansativo e, até certo ponto, do­
loroso. Ficar ou andar pelo centro se tornou, naquele dia,
um ato de coragem, ao mesmo tempo, algo perigoso. Ca­
minhamos pela Av. República do Chile subindo próximo ao
prédio da Petrobrás, olhamos para trás e vimos um mar de
policiais se movendo em formação de combate ao som de
mais bombas explodindo. Difícil engolir tudo aquilo. O ce­
nário era de guerra e o ar estava pesado. Pequenas fogueiras
e coisas quebradas pelas ruas eram como que pegadas vivas
dos conflitos que ali passaram e prenúncio dos que ainda vi­
riam. Atravessamos a Lapa e os bares estavam cheios. Festa.
Em cada bar, um a TV ligada com o noticiário ao vivo do que
acontecia logo ali, tão próximo, na Cinelândia. As pessoas
assistiam a narrativa midiática - em tempo real, a âncora
m aquiada frisava - como se assistissem um a novela, como

61 Referimo-nos à canção “Pra não dizer que não falei das flores”, de G eraldo Vandré.

62 Referim o-nos à canção “Eu quero é b o ta r m eu bloco n a ru a ”, de Sérgio Sampaio.

123
se não fizessem parte desta realidade ou como se ela fosse
algo estrangeiro. Como se o conflito fosse lá pelas bandas
do Afeganistão ou do Iraque. A TV nos proporciona deter­
minada experiência de viver e estar na realidade; um modo
asséptico de, como meros telespectadores, assistir com a de­
vida distância e segurança a realidade acontecer. Talvez, sem
maiores sustos ou perigos, sem sobressaltos ou feridas. Sem
que este assistir implique envolvimento ou, até mesmo, am e­
aça. Qualquer indisposição basta trocar de canal. É simples
assim. O controle remoto está sempre à mão, dispondo-nos
de um a gama de canais. Porém, nas ruas... remoto controle.
Desde junho, da grande manifestação do dia 15, foi assim.
Voltamos da Presidente Vargas e, pelo caminho, atra­
vés da TV de bares, víamos o desdobrar das manifestações
no Brasil. Foi um a noite quente. “Subiram no Planalto!”,
mostrava o âncora do telejornal aterrorizado. Uma pequena
multidão parecia estar além dos conflitos; é como se aqui­
lo não fosse com eles. Estavam trem endam ente próximos e,
ao mesmo tempo, aparentem ente distantes de toda aquela
efervescência. Comiam pizza, tomavam cerveja e assistiam,
descontraídos, PMs e Black Blocs em conflito. O cartaz era
este. Mais um capítulo desta novela! Pouco tempo depois, os
bares foram fechados, as TVs desligadas e os fregueses se vi­
ram obrigados a correr. O conflito entrava Lapa adentro. Isso
já era esperado. A Tropa de Choque marchando pelo bairro
e atirando bombas em quem estava pelas ruas. Atiravam,
inclusive, dentro dos bares que insistiam abertos. Em casa, o
som do helicóptero era um a intrusa companhia. Estávamos,
enfim, fora do conflito. Momento de descansar, talvez. De
repente, da sala houve-se bombas explodindo na rua. Saímos

124
do conflito, mas ele, insistente, parecia seguir nossos passos.
No bairro de Fátima, o som alto da festa junina fora de época
parecia não se incomodar com as bombas. Tudo permaneceu
como se não houvesse nada acontecendo na Rua do Riachue-
lo. Um ônibus queimado, tiros e conflito. A agência da Caixa
Econômica foi depredada. E os sons das bombas de efeito
moral se misturavam com a música de Ivete Sangalo e Luan
Santana. “E vai rolar a festa”63; “Te dei o sol, te dei o mar...
Meteoro da paixão”64. E houve tantos outros e intensos gritos
a ecoarem noite adentro; sempre seguidos por bombas, mo­
tos e helicópteros. De repente, o silêncio.
A tranquilidade aparente que se seguiu aquela noite de
manifestações soou como um incomodo. Um soco no estôma­
go, outro. E não seria o último. Ainda gritamos, mas está tudo
bem; tudo em paz. A ordem voltou, dizem os jornais. Leis e
medidas mais severas para coibir a ação de vândalos, diz o go­
verno. Nosso grito silenciou-se! Enfim, calou-se! Assim, pelo
menos, quer nos fazer crer as linhas dos discursos oficiais.
Mas as ruas permanecem em efervescência. As ruas gritam.
E como é difícil pesquisar/escrever sobre aquilo que se
vive tão intensam ente; falar de algo carregado de sonhos,
utopias e desejadas resistências. Falar de possíveis enquan­
to, na rua, bom bas explodem e com panheiros são levados
para presídios. Ao viver e colocar em análise as experiên­
cias das dores, violências e durezas, não deixamos de correr
o risco - e ele está sempre presente, para todos! - de nos
endurecerm os também; de nos descobrirm os violentos, fas­
cistas ou intolerantes; de reproduzirm os a m esm a estúpida

63 De ouvido, a canção “F esta”, de A nderson Cunha.

64 Surge tam bém a canção “M eteoro da paixão”, de Sorocaba.

125
lógica fascista. Eis a realidade. Eis os perigos, mas, também,
as apostas. “...O que a vida quer da gente é coragem ”65, diz
João Guimarães Rosa. Ser duro, mas sem perder a ternura,
lembra-nos Che Guevara. Que am anhã seja maior. Seja ou­
tro dia. Gritemos, novamente. Com coragem e ternura. E
que jamais, jamais desistimos...

Desistir... eu já pensei s e ria m e n te nisso,


m as nunca m e levei re a lm e n te a sério;

é q u e te m m ais c h ã o nos m eus

o lh o s d o q u e o ca n s a ç o nas m in h a s pernas,
m ais e s p e ra n ç a nos m eus

passos, d o q u e tris te z a nos m eus o m b ro s ,

m ais e s tra d a no m eu c o ra ç ã o d o
q u e m e d o na m in h a cabeça.

CORA CORALINA

***

Aos que foram presos e violentados em cada dia de m a­


nifestação. Aos que foram às ruas. Aos que sofreram, aos
que choraram, mas também aos que sorriram e cantaram.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ROSA, J. G. Grandes Sertões: Veredas. Rio de Janeiro: Nova


Fronteira, 2001.

65 ROSA, 2001.

126
A C O N D U Ç Ã O DAS C R IA N Ç A S
N A S F A V E L A S P E L A P O L Í C I A E OS
CORPOS QUE VIBR AM

V an e ssa M e n e ze s d e A n d r a d e

INTRODUÇÃO

Nasci em um lugar de frente para o m ar e para a birosca


do meu avô, com vista para o Cristo Redentor, para o ga­
linheiro da vizinha, para a Lagoa Rodrigo de Freitas, para
o quintal com “espada de São Jorge” e “Comigo Ninguém
Pode” e lá longe dava para ver o Morro Dois Irmãos. Q uan­
do criança, acordava com o galo cantando e ao anoitecer,
corria para a laje para esperar o acender dos pontinhos de
luz das casas do Vidigal. Isso era a coisa mais linda de se
ver! Lembro-me das noites em que o morro ficava apagado
e as únicas luzes que havia eram vermelhas, só que ao invés
de pontinhos, elas formavam traços em diversas direções.
Poucos dias depois, era m inha casa e as dos vizinhos que
ficavam sem luz... Os cachorros latiam sem parar, sentiam
o “clim a”66 tenso da favela, policiais e traficantes trocavam
tiros a noite toda e na m anhã seguinte, acordávamos con­
66 Clima se refere ao que G uattari cham ou de conhecim ento pático, pois “n ão procede de um a
discursividade concernente a conjuntos b em delim itados, m as antes por agregação de territórios
existenciais [...] O exem plo m ais sim ples de conhecim ento pático nos é d ad o pela apreensão de um
‘clim a’, o de um a reunião ou de u m a festa que apreendem os im ediatam ente e globalm ente e n ão pelo
acúm ulo de inform ações distin tas” (GUATTARI, 2006: 161).

127
tando os corpos estendidos pelos becos. Aprendi bem nova
a identificar o barulho de tiro, mas demorei um pouco para
acreditar que a luz vermelha que achava tão bonita era o
rastro deixado por alguns deles.
Vivo desde que nasci na favela do Cantagalo, que in ­
tegra o Complexo Cantagalo, Pavão-Pavãozinho, que fica
entre os bairros nobres de C opacabana e Ipanem a. O Com­
plexo é com posto por apenas duas favelas: o Cantagalo e o
Pavão-Pavãozinho. De antem ão, é im portante afirm ar que
optam os por usar o term o “favela” e “m orro” e não “co­
m unidade” por entenderm os que este term o é usado, ge­
ralm ente, para designar um a unidade daqueles que vivem
em com unhão, no caso, os pobres. Nós pensam os com u­
nidade de modo bem diferente, com unidade como povo,
isto é, como um arranjo de singularidades quaisquer, que
recusam a identificação e se lançam em contínua diferen­
ciação instaurando m odos de viver mais potentes. Este
povo, tal qual esta com unidade, não estão dados a priori,
eles são um porvir, que emergem, mas se recusam a durar
(PELBART, 2011).
O Cantagalo e Pavão-Pavãozinho são um a das poucas
favelas que resistiram às políticas de remoção que m arca­
ram o século XX e, por estarem localizadas na Zona Sul,
recebem um tratam ento diferencial dos governantes. Neste
momento em que a cidade do Rio de Janeiro foi eleita Patri­
mônio Cultural da H um anidade e sediará megaeventos es­
portivos mundiais, é im portante pensarm os quais políticas
estão sendo im plem entadas neste território.
A proxim idade com as áreas consideradas mais nobres
da cidade, onde vivem os considerados cidadãos cariocas,

12 8
acaba por promover um a proteção destas favelas e impedir
a execução de chacinas. É o que afirmou o Secretário de
Segurança do Rio de Janeiro, José M. Beltrame:

[...] é difícil a polícia ali entrar, porque um


tiro em Copacabana é um a coisa. Um tiro na
[favela da] Coréia, no complexo do Alemão
[nas zonas oeste e norte, respectivamente], é
outra [...]. Nós temos hoje a informação que
muitos traficantes estão vindo para a zona sul.
No Pavão-Pavãozinho [em Copacabana], Dona
Marta, eu estou muito próximo da população.67

Uma vez que, pelas proporções, fica difícil esconder a


favela atrás de muros, como já sugeriram alguns políticos, a
solução encontrada foi colocá-la em evidência, seja através
de Mirantes ou de Teleféricos, propagandas, novelas etc. A
favela e os favelados estão na moda e são as mais recentes
mercadorias “made in Rio”. A fabricação deste produto passa
pela padronização dos modos de vida dos moradores e pela
urbanização do território. Isso se dá através de práticas de
condução e contenção que incidem diretamente sobre o povo
da favela e sobre cada um dos corpos daqueles que vivem
nela, em um processo chamado de “política de pacificação”.
Acreditamos que a política de pacificação das favelas,
que teve como um dos idealizadores o Secretário de Se­
gurança José M. Beltrame, é a atual estratégia usada para
que os favelados não sejam mais fonte de gastos, mas sim
de ganhos pelas ONGs, pela mídia, pelas em presas, pelo
governo e por eles mesmos, à m edida em que se convertam
em cidadãos em preendedores de si ajustados à lógica neoli-

67 P ublicado n a Folha Online, caderno “Cotidiano”, em 24 de ou tu b ro de 2007.

129
beral. Esta política tem como principal instrum ento de ação
a cham ada Unidade de Polícia Pacificadora (UPP).
A prim eira UPP da cidade foi instalada em dezembro
de 2008 na favela Santa M arta em Botafogo. A definição de
UPP dada pelo governo é um novo modelo de policiamento
com unitário que promoveria a aproximação dos moradores
com a polícia e permitiria o fortalecimento de políticas so­
ciais na favela.
No entanto, a UPP não corresponde nem a um a polí­
cia com unitária68, nem tam pouco de aproximação, pois o
que ela de fato tenta promover é o controle do território da
favela e a condução capitalística das condutas dos m orado­
res que devem aprender a obedecer à ordem policial para
supostam ente alcançarem o dito progresso de vida, isto é,
a tão sonhada “cidadania”. Pois, conforme Batista (2012),

É por isso que me causa indignação ler soci­


ólogos chamarem as UPPs de policiamento
comunitário ou de proximidade. Peço que res­
peitem a memória do Coronel Magno Nazareth
Cerqueira. O Alemão é muito mais complexo. A
pacificação e a ocupação de algumas favelas do
Rio deram-se em forma de guerra, com o apoio
das Forças Armadas nacionais, instituindo um a
gestão policial e policialesca da vida cotidiana
dos pobres que lá habitam. (p. 64-65)

A UPP chegou ao Cantagalo, Pavão-Pavãozinho no


final de dezem bro de 2009. Antes dela veio o Bope. D es­
68 O policiam ento com unitário propõe outro m odo de pensar e fazer polícia, com preendendo a
segurança pública com o u m exercício diário que necessita da participação efetiva d a sociedade em
colaboração com a polícia n a problem atização, resolução e evitação de conflitos. No Brasil, a filoso­
fia de Polícia C om unitária foi introduzida na década de 80, tendo com o precursor o Coronel Carlos
N azareth Cerqueira d a PM /RJ. Para m aiores inform ações consultar: MUNIZ, J. et al. “Resistências e
dificuldades de u m program a de policiam ento com unitário”. In: Tempo Social, São Paulo, D eparta­
m ento de Sociologia da U niversidade de São Paulo, v.9, n.1, p. 197-213, m aio 1997.

130
de então, venho tentando p en sar sobre as relações dos
m oradores com esta form a de policiam ento, pois não
conseguia de m odo algum associar a presença da polí­
cia à paz. Por isso, com ecei a conversar com vizinhos e
am igos sobre como estávam os lidando com a tal política
de pacificação que estava batendo nas nossas portas. A
m aioria deles desconversava ou, no máxim o, dizia que
com a UPP a favela estava melhor. Q uando eu perguntava
por que, eles não sabiam precisar e retrucavam in d ag an ­
do se eu estava do lado do tráfico. Isso porque a mídia,
para prom over a UPP, restringia nossas possibilidades de
governo a duas alternativas: ou éram os cúm plices do trá­
fico, visto como o Mal, ou éram os bons e cooperávam os
com a polícia, vista como o Bem. O “clim a” na favela era
de total desconfiança, sabíam os que m uitos parentes e
am igos de traficantes estavam com a função de d en u n ­
ciar para o tráfico o nom e daqueles que colaborassem
com a polícia e, por outro lado, os poucos m oradores, em
sua m aioria os jovens, que dem onstravam abertam ente
sua insatisfação com a UPP eram tratados como suspei­
tos e revistados continuam ente pelos policiais, sofrendo
provocações e agressões.
Nos espaços coletivos, como nas reuniões de m orado­
res e de ONGs, sem pre havia representantes da UPP muito
sorridentes, educados, solícitos. Não acredito que a p o p u ­
lação os quisesse ali sempre, mas não aceitá-los poderia
gerar um problem a maior. E sem pre que surgia algum a
fala dem onstrando a insatisfação dos m oradores com a
UPP, eles diziam que estavam em processo de im planta­
ção, que os erros seriam corrigidos com o passar do tempo

131
e que denúncias deveriam ser feitas na base da UPP dire­
tam ente com o com andante. Assim, fui me sentindo sem
espaço para falar, acuada com a presença deles e cada vez
mais im potente.
Q uando falava da m inha preocupação com essa polí­
tica de pacificação com m eus amigos da faculdade, eu era
cham ada de reacionária e pessim ista. Eles diziam que eu
estava generalizando a atuação da polícia e considerando­
-a como algo mal em si. Eles usavam Foucault para justifi­
car que não há essências, tudo são práticas; sendo assim,
a polícia enquanto instituição tam bém poderia m udar e
m udou. E aí eu pensava: “Isso é que me apavora, esta
nova tática que, a meu ver, cam ufla a velha prática de
controle”. É a produção de um a paz arm ada e de um a li­
berdade vigiada na favela como garantias de que o Rio de
Janeiro continua lindo.
Neste texto, propom os pensar a condução das crian­
ças da favela pela polícia, pois acreditam os que a con­
tinuidade desta política de gestão dos indesejáveis tem
como objeto e objetivo principal a criançada que instaura
práticas inusitadas de recusa a este governo e que afirmam
a vida no brincar.

A UPP E A M A L T A DE C R I A N Ç A S

No Brasil, a condução das crianças é um a prática que


remete aos jesuítas que catequizavam os curumins como
instrum ento para a expansão do cristianismo, já que, de­
vido a pouca idade, o modo de vida passado pelos pajés

132
e as tradições do seu povo estavam menos arraigado em
seus corpos, sendo facilmente diluído em meio às inúm eras
missas e sessões de confissão. Assim, conforme cresciam
na doutrina cristã, os curumins tornavam-se os novos de­
fensores da Igreja e influência para os demais da aldeia.
Esse “poder pastoral” está sendo revitalizado pelas diversas
instituições e políticas que se dizem defensoras dos direitos
da criança, mas cujas ações as aprisionam e as moldam
determ inando um jeito certo de ser, estar e, principalm ente,
um rum o a seguir de acordo com as exigências do m er­
cado. Um dos alvos privilegiados destas intervenções são
as crianças ditas carentes e suas famílias, principalm ente
as crianças de favela que já nascem m arcadas para morrer
e quando vingam são consideradas potencialm ente margi­
nais, como declarou o “lom brosiano”69 ex-governador do
estado, Sérgio Cabral:

Não tenho a m enor dúvida de que o aborto


[como política pública] pode conter a vio­
lência. A questão da interrupção da gravidez
tem tudo a ver com a violência. Você pega o
núm ero de filhos por mãe na Lagoa Rodrigo
de Freitas, Tijuca, Méier e Copacabana, é p a­
drão sueco. Agora, pega na Rocinha. É padrão
Zâmbia, Gabão. Isso é um a fábrica de produ­
zir marginal. O Estado não dá conta [...].70

69 Cesare Lom broso (1835-1909), com sua A ntropologia Crim inal, defendia ser possível distinguir,
através de certas características anatôm icas, os crim inosos nato s e os perigosos sociais. Suas ideias
influenciaram as políticas higienistas do século XX.

70 “Cabral apoia aborto e diz que favela é fábrica de m argin al”. In: Folha Online. D isponível em:
http://w w w 1.folha.uol.com .br/fsp/cotidian/ff2510200701.htm . A cessado em: 06/10/2013.

133
O que Cabral defende não é o direito da m ulher de ge­
rir seu corpo, e sim o uso do aborto como m ecanism o de
esterilização para contenção dos considerados indesejáveis
tal qual propuseram as políticas higienistas71 do começo
do século XX. Acreditamos que a condução das crianças
seja a operação mais delicada da “política de pacificação”.
Como afirmou Augusto (2009): “Uma m alta72 de crianças é
um perigo maior. A ndando pelas ruas sem um adulto por
perto, correm, brincam , jogam, furtam , desacatam , riem,
fazem sexo, e, por isso devem ser contidas” (p. 40). Talvez
porque seja o m ovim ento desordeiro, alegre e fugidio que
elas forjam que mais am eace os discursos de prom oção da
paz e da felicidade atribuídos à chegada da UPP.

71 Segundo o pensam ento higienista, os pobres estavam divididos entre “pobres d ig n o s”, aqueles
que, apesar da origem m ais vulnerável aos vícios e as doenças, conseguiam se aju star aos valores
cristãos e ao trabalho e os “pobres perigosos”, considerados vagabundos, libertinos, d esocupados e,
por isso, potencialm ente crim inosos. Partindo dessa divisão entre b o n s e m aus pobres, surge um a
grande preocupação com as crianças tidas com o o futuro da nação. Em 1923, foi criado o Ju izado de
M enores para esses filhos da incôm oda pobreza. Este juizado visava reforçar os valores m orais nas
fam ílias pobres dignas e afastar as crianças do am biente contagioso d as ru as e do convívio com aq u e­
les “pobres perigosos”. Essas posturas foram reforçadas com o Código de M enores de 1927 e, em se­
guida, com a criação de órgãos com o o Serviço de A ssistência ao M enor (SAM), im plantado em 1941
durante a D itadura do Estado Novo, e a Fundação N acional do Bem -Estar do M enor (FUNABEM),
que surge em 1964 durante o período da ditadura civil-militar. Estas instituições q ue supostam ente
serviam para “cuidar e e d u c ar” se configuravam com o “depósitos de g en te”, onde crianças e jovens,
considerados m enores, eram lançados a própria sorte, entregues a todo tipo de violência. Estes in­
ternatos eram espaços de docilização daqueles corpos m iúdos que n ão só obedeciam , m as tam bém
deveriam se tornar úteis, sendo preparados nas oficinas para o aprendizado de um ofício, u m serviço
de m enos prestígio na sociedade, m as que daria as condições m ínim as para o sustento, o b astan te
para continuarem a “sobreviver”. O Estatuto da Criança e do A dolescente de 1990 propôs m udanças
não só n a form a de se referir (ao invés de “m e n o r”, todos deveriam ser tratados com o crianças e
adolescentes), m as, principalm ente, nas políticas e ações direcionadas para este grupo, cujo objetivo
seria garantir os “direitos” e a “qualidade de v id a” destas crianças e adolescentes. O bservam os que,
apesar dessas m udanças, estes discursos de “prom oção da proteção ” n ão im pedem práticas de assu-
jeitam ento e violências principalm ente voltadas para as crianças que vivem n as favelas, periferias e
nas ruas, isto é, os grandes bolsões de m iséria da cidade.

72 A palavra “m a lta”, assim com o m atilha e m otim , derivam do latim m ovita- m o tu s, q u e designa
“m ovim ento”.

134
A estratégia atual não é a m atança, ainda que tenha­
mos casos brutais como do m enino Ju an 73; agora a “política
de pacificação” cuida da vida: ajudando a nascer, crescer,
reproduzir e morrer de um determ inado modo que estas
vidas sejam úteis do começo ao fim. Inclusive nas propa­
gandas do governo sobre a pacificação.
As propagandas também promoviam a UPP como con­
dição para se resgatar um a suposta época “de ouro” da fa­
vela, na qual apesar da pobreza vivia-se na mais perfeita
harm onia. Como no comercial de final do ano de 2011 do
Governo do Estado, no qual um grupo de adolescentes m o­
radores de favelas ditas pacificadas emocionavam o expec-
tador cantando “o sol há de brilhar mais um a vez, a paz a de
chegar nos corações, do mal será queim ada a sem ente...”74.
Em outra propaganda, as crianças iam tranquilam ente para
escola, soltavam pipa e jogavam bola enquanto cantavam:
“eu só quero é ser feliz, andar tranquilam ente na favela
onde eu nasci e poder me orgulhar e ter a consciência que
o pobre tem seu lugar...”75 e na frente da imagem apareciam
dizeres inform ando que “mais de 200 mil famílias haviam
sido libertadas do domínio de criminosos, levando mais se­
gurança para os bairros vizinhos”.
O que advém com a UPP é a capilarização da promoção
de um a infância lucrativa, que já vinha sendo gestionada

73 J u a n desapareceu no dia 20 de ju n h o 2011, logo após u m confronto entre policiais m ilitares do 20°
BPM (M esquita) e traficantes d a Favela D anon, onde o m enino m orava com sua fam ília. O corpo do
garoto, de 11 anos, apareceu dez dias depois, às m argens do Rio Botas, em Belford Roxo, tam bém
n a Baixada. N a operação policial, o irm ão de Juan, Weslley, foi b aleado. O prom otor do caso, Sergio
Ricardo Fonseca, declarou que a ação dos PMs n a com unidade foi “típica de grupo de ex term ínio”. A
fam ília do m enino J u a n deixou a Favela D anon com m edo de represálias.

74 M úsica “Juízo Final”, de N elson Cavaquinho.

75 M úsica “Rap da Felicidade”, de M C 's Cidinho e Doca.

135
pelos diversos projetos sociais e ONGs nas favelas. O tra­
ço determ inante desta gestão é a im plantação de um novo
modo de lidar com a criança e com o adolescente que não
mais o tom a como possível problem a, mas o transform a em
solução. E ao mesmo tempo em que anuncia a promoção
de mais liberdade, cuida para que o tempo livre deles esteja
preenchido. Estamos falando da emergência do “policial-
-amigo”, conforme anunciado no jornal O Globo76:

E m oradores de favela chegam a criar laços


de am izade com PM’s. É o caso de Vanda Ma­
cedo que, há um ano e meio, teve seu ter­
ceiro filho, Pedro Miguel, num a viela. O sol­
dado Oliveira, que levou m ãe e filho para a
m aternidade, virou amigo de Vanda [...]. O
vice-presidente da Associação de Moradores
da Babilônia, Carlos Antônio Pereira, garante
que a relação com os PM’s não poderia ser
melhor: tem m orador que convida policiais
até para festas de aniversário.

A partir de Cano (2012, p. 158), entendem os a UPP


como a aplicação de um projeto moral voltado para as
crianças das favelas, para que elas passem a se conduzir do
modo dito certo, tom ando o policial como modelo, evitan­
do ofunk, não fazendo uso de drogas, adotando um lazer
“bem com portado”, o cabelo curto e a valoração do traba­
lho e do estudo. A produção desta criança-policialesca, que
reproduz e colabora com a vigilância policial, ficou explí­
cita na fala de um com andante de UPP citado pelo autor:

76 Publicado no Jornal O Globo, N ova realidade nas favelas, em Rio de Janeiro, 23 de setem bro de
2012, p. 20

136
A gente sabe dos problem as de dentro de casa
deles através das crianças, a gente sabe que
um pai bate na m ãe através da criança, a gen­
te sabe que tem um pai que usa droga porque
a criança confidencia. Fala pro [sargento que
faz trabalho com unitário], fala assim: “olha
m eu pai usa droga”. Aí o Muniz vem aqui,
fala pra mim, pega o endereço. O policiam en­
to vai lá conversar com o pai, o pai nega, ló­
gico, nunca é pego no flagrante. Vai negar, diz
que não usa, mas ele jam ais vai desconfiar
que o filho dele é quem tá dando essas infor­
mações. (CANO, 2012, p. 147)

Foucault (2008b) destaca que, no século XVI, o prin­


cipal problem a do governo era a instituição das crianças,
já que esta entrecruzava diferentes formas de condução.
Afirmando que havia toda um a preocupação para solucio­
nar “o problem a pedagógico: como conduzir as crianças,
como conduzi-las até o ponto em que sejam úteis à cidade,
conduzi-las até o ponto em que poderão construir sua sal­
vação, conduzi-las até o ponto em que saberão se conduzir
por conta própria” (p. 310).
A criança que circulava livremente pelas vielas da fave­
la, correndo ou observando a vida que passa é considerada
à toa, desocupada e é levada para as diversas atividades
oferecidas nos projetos sociais que revezam a gestão do seu
tempo com a escola, com a família, com a televisão e com a
internet. Passando de mão em mão, essas crianças crescem
incorporando esse ritmo acelerado. Elas têm as mentes ocu­
padas e os corpos diariam ente cansados e, ao final do dia,
é comum ouvirmos mães na favela felizes dizendo que o
filho jogou tanto, treinou tanto, ensaiou tanto, que chegou
em casa, bateu na cama e dormiu.

13 7
A partir do texto “Entre a vida e a m orte”, de Jeanne
Marie Gagnebin (2010), somos encorajados a pensar que,
em últim a instância, a função dos projetos, sejam os de­
senvolvidos pela ONGs ou pela polícia, é desfazer a expe­
riência de limiar - de “indeterm inação privilegiada” que as
crianças estabelecem com a rua, com o céu, com o tempo,
com a vida - e estabelecer fronteiras, estas que não só con­
tém e m antém algo, mas o gestionam evitando que o que
há de impreciso e potente e, portanto, perigoso transborde.
Percebemos que, desde muito novas, as crianças apren­
dem que não há tempo para brincadeira. Elas têm que ter
um plano para o futuro, um a carreira a ser construída de­
pressa. Por isso, lhes dizem: tem que ir para escola, tem
que ir para o projeto, tem que ir para ONG, tem que... E por
que ela teria que? A resposta vem de imediato: Para poder
ser alguém na vida. Os tidos como “ninguém ”, “que cus­
tam m enos do que a bala que os m ata” (GALEANO, 2002,
p. 71), querem que seus filhos tenham emprego e cidada­
nia. E é sobre esta “vontade-de-cidadania”77 que se apoia
a dita política de pacificação. De forma divertida, ensina-se
o modo como a criança deve se conduzir e que o policial é
um “amigo verdadeiro”, que o fez ser visto como um cida­
dão; reforçando a produção de um a cidade partida para em
seguida usar o policial como elo de integração. Como na
Cartilha que Ziraldo fez especialm ente para “explicar” as
UPPs para as crianças.

77 Expressão u sad a por D enise Farias da Fonseca em sua dissertação: “Avessos d a Cidadania, um
exercício analítico” (1997) para por em análise: “u m a idéia [sic] de cid ad an ia que, historicam ente,
vem contribuindo para sustentação de m últiplas form as de sujeição e n a qual perm anecem d ecalca­
das as ‘im pressões digitais’ do Estado, suas b ases capitalísticas, racionais, legais e m orais utilizadas
en q u an to instrum entos poderosos na docilização dos corpos e no enfraquecim ento do corpo social”
(1997, p. 89).

138
Assim, se promove um modo de subjetivação da crian­
ça favelada que passa pela rejeição à figura do traficante,
tido como vilão-criminoso, e a adesão à figura do policial
como herói, aquele que irá ensiná-lo a defender na favela
os valores da Pátria. Isto nada mais é do que a biopolítica
apaziguadora da favela, que visa governar a vida dos fave­
lados como um todo, mas sem deixar de intervir, se neces­
sário brutalm ente, no corpo de cada um, como dem onstra o
relato de um a m oradora ao Jornal A Nova Democracia: “O
meu filho voltava da escola com outros adolescentes e um
deles estava cantando fu n k . O policial (da UPP) não gostou
e perguntou o que ele estava cantando, ele disse “fu n k ” e,
na m esm a hora, ganhou um tapa na cara”78.
No dia 12 de outubro de 2013, mais de 3.500 crianças
foram brincar na festa “UPP Criança”. Na ocasião, diante
de milhares de crianças uniform izadas com a blusa da UPP,
o coordenador geral das Unidades de Polícia Pacificadora
(UPPs), coronel Frederico Caldas declarou:

Hoje a gente abre um a perspectiva com pleta­


m ente diferente para essas crianças, de terem
no policial um a referência. É com ovente ver
as nossas policiais com crianças no colo. Isso
vai além do profissional, a gente vê ali um
gesto de carinho, de afeto. Ver essa integra­
ção com a Polícia Militar dá muito orgulho e
tam bém nos dá esperança como cidadãos de
im aginar o futuro diferente que essas crianças
terão com a presença do Estado, da polícia,
com liberdade e paz.79

78 P ublicado por Patrick G ranja em A N ova Democracia em abril de 2012.

79 P ublicado no site institucional da U PP/RJ em 12 de outubro de 2013.

139
O que está em questão não é de modo algum a m oti­
vação do policial que distribui brinquedos e dá aulas para
as crianças, mas a apropriação e utilização de gestos como
esse por um a política que tem o policial como principal
instrum ento de ação. Tornar o “policial caveira” o “bom
velhinho” desvincula a polícia do seu histórico de m atança
e conflito e, assim, se limpa o cam inho para promoção e
solicitação dessa gestão da vida.
O que se promove com esta relação professor-policial e
criança-aluno não são somente corpos dóceis, obedientes,
catalogados em um a cham ada com nome, origem familiar e
endereço conhecidos e cuja convivência possibilitará ante­
ver os riscos e preveni-los, mas, principalm ente, esta apro­
ximação favorece a produção de corpos em preendedores,
corpos que competem, que ganham medalhas, patrocínios,
corpos que se transform am em referência e capital.
A biopolítica neoliberal que está sendo estim ulada na
favela propõe que o valor das informações e, até mesmo,
dos afetos estejam atrelados à velocidade com que eles se
convertem em com petência-máquina. O que não vira di­
nheiro não interessa. Assim, a escola se converte em banco
de produção de “capital hum ano” que conta com a colabo­
ração dos “investim entos educacionais” vindos da família
e dos projetos.
Acreditamos que é preciso e possível “acum ular um
outro capital, o de um a inteligência coletiva da liberdade,
capaz de orientar as singularidades para fora da ordem
da serialidade e de unidim ensionalidade do capitalism o”
(GUATTARI; NEGRI, 1987, p. 9). Concordamos com o se­
cretário da Associação de Moradores da favela Coreia-Tra-

140
picheiro80, Ricardo Cró, quando ele questiona a serventia
de algumas pesquisas, como as que apontam que os alunos
de favelas com UPPs apresentam maior rendim ento escolar,
diz ele: “Alunos de favelas com UPP rendem mais. Mais
para quem? Pensemos um pouco e vejamos o que nossas
crianças aprendem. Em termos gerais, estam os formando
um bando de analfabetos funcionais”81. Estamos no regime
do homo economicus que é marcado pela agilidade e vo­
latilidade, movido por um a convocação perm anente a ser
em preendedor de si. E as crianças estão rapidam ente incor­
porando estas práticas, algumas delas, por exemplo, já es­
tão atuando como guia turístico, fazendo uso de um inglês
improvisado, aprendido nas aulas de um projeto social e
pedem ‘m oni’ em troca de fotos e de conduzir gringos pelos
becos labirínticos da favela e, ainda, fazem acordos com
comerciantes locais levando os grupos de visitantes para
consumir na favela, ganhando assim uns trocados.
Outro ponto im portante é que esta proxim idade com o
policial torna-o menos um vigia, que irá im pedir que este
adolescente cometa um crime, e mais um a espécie de trei-
nador-líder, alguém cuja presença irá por si só desencorajá­
-lo a cometer algum desvio; a criança avalia e decide que o
risco de ser pego e punido é alto e prefere as vantagens de
se conduzir conforme o esperado e obedecer às regras. Nes­
te ponto, acreditam os que não se trata mais da ocupação, e
sim dos interesses, pois gerir os interesses, a liberdade e os
perigos são a superfície de ação deste governo capitalístico.

80 Na introdução deste trabalho, citam os a fala do Secretário de Segurança, José M ariano Beltrame,
que declarou que um tiro lá nesta favela, Coreia, é diferente do Cantagalo.

81 Publicado no Jornal O Globo, “Balanço das UPP’s no Rio de Janeiro", em 1° de ou tu b ro de 2012,


p. 16.

1 41
A todo tempo estam os falando dos governos, mas não
percamos de vista que somos forjados pelas batalhas baru ­
lhentas ou silenciosas que travamos e a vida sempre dá um
jeito de se afirmar. As crianças são governadas, mas com
suas peripécias elas tam bém produzem modos singulares
de (r)existir e foram im portantes encontros envolvendo
crianças e suas traquinagens que me fizeram lembrar da
potência da vida que ultrapassa, que povoa, que insiste em
ocupar as ruas.
Certo dia, vi um policial da UPP segurando um m enino
pelo braço, ele queria sair e o policial, que estava acom pa­
nhado de um outro, não o deixava. As outras crianças as­
sistiam e pareciam assustadas. Eu me aproximei e perguntei
ao menino “preso” o que estava acontecendo. O policial,
antes mesmo que ele dissesse algo, falou: “Ele é m uito abu­
sado. Estava me xingando e me agredindo. Só vou soltá-lo
quando a mãe dele vier aqui falar comigo”. Eu disse que
aquilo estava errado e pedi para o policial soltá-lo, ele me
olhou desconfiado e eu me apresentei me valendo do lugar
de psicóloga. Assim que o policial o soltou, o m enino se
escondeu atrás de mim e tremia, tremia muito, parecendo
um bicho acuado. Eu perguntei novam ente a ele o que ti­
nha acontecido, ele já chorando disse que xingou e bateu
no policial, porque o outro policial o cham ou de “viadinho”
e este policial que o “prendeu” riu. O policial prontam ente
negou a acusação do menino, disse que tinha m andado ele
sair da rua, já que ali passam carros, e o m enino teria se
recusado. E o m enino retrucou: “O que é que tem ficar na
rua? Minha mãe sabe que eu estou perto da casa da minha
tia”. O policial disse: “Viu só como ele é abusado?!?” e ex­

14 2
plicou que, pelo fato de estar fardado, quis ensinar o m e­
nino a respeitá-lo, pois se ele crescer com aquele com por­
tam ento não dem orará para estar preso ou outra coisa”. Eu
disse que o m enino estava apenas questionando o porquê
dele não poder ficar brincando na rua; o policial ficou me
olhando e a conversa se encerrou.
No dia seguinte, ao contar para outros moradores com
o intuito de fazer repercutir o fato e, principalm ente, o es­
tranham ento, fui surpreendida com falas microfascistas que
bradavam: “Bem feito para ele!”, “Tomara que ele apren­
d a!”, “Ele é mesmo m uito abusado”. Essa com preensão do
que para o meu corpo se fazia intolerável me causou mais
tristeza do que ver aquele m enino nas mãos do policial.
Estava desanim ada, pensando que restava muito pouco de
vida. Foi quando...
Passei por um beco próximo à m inha casa e vi três poli­
ciais da UPP interrom perem a brincadeira de um a malta de
crianças para revistarem um m enino de 11 anos. Eles levan­
taram a camisa dele, suspenderam -no pelo braço, fuxica-
ram o celular e cheiraram o dinheiro que ele tinha no bolso.
Neste mom ento, surgiu um ninguém 82 que se indignou e
afirmou aos gritos que aquilo não estava certo, dizendo:
“Ele estava brincando com meu filho, daqui a pouco vocês
vão querer revistar meu filho de três anos tam bém !”. Os
policiais falaram para ele não alterar a voz e perguntaram
se havia algum problem a eles revistarem, pois estavam ape­
82 A eficácia do povo com o potência está na sua velocidade de m obilização-dissolução, isto é, com o
estratégia de com bate forja-se u m corpo, que im ediatam ente dribla a captura transform ando-se em
no-body. Não é interessante buscar-produzir autorias e nem tam pouco aprisioná-lo n o lugar de feito
heroico. Sim plesm ente, e por apenas u m instante, uns ninguéns atu alizaram u m povo. Como n o a r­
tigo “A nota aí: eu sou ninguém ”, de Peter Pál Pelbart (2013), que fala sobre a força política presente
nas práticas de dessubjetivação usadas nas m anifestações q ue ocu p aram as ru as de todo o Brasil
no an o de 2013.

143
nas “fazendo o serviço deles”. O ninguém afirmou: “Claro
que tem, é um a criança, ou ele tam bém é um suspeito?”. Os
policiais, desta vez, m andaram -no abaixar o tom da voz, se­
não o levariam preso por desacato e disseram que aborda­
ram o ninguénzinho, porque ele estava com um volum e no
bolso. Daí, um a outra ninguém disse: “Então ele é suspeito
porque estava com um volume no bolso; se ele tivesse se
assustado com vocês e corrido, vocês teriam m atado!”. Nes­
te momento, se aproximaram do local outros ninguéns que,
em silêncio, com o gesto tímido de balançar a cabeça positi­
vamente, apoiavam os primeiros ninguéns contrários à ação
dos policiais. Os policiais, desviando o assunto, começaram
a falar que agora o baile estava liberado no morro e que ha­
via m udado o com ando da UPP. Uma outra ninguém disse:
“M udou o comando, mas a prática é a m esm a!”. Os poli­
ciais saíram do beco e em tom de deboche disseram: “Se
vocês quiserem podem ir lá na sede fazer denúncia para o
novo com andante”. Aqueles ninguéns-povo ali presentes se
entreolharam e falaram: “denunciar eles para eles mesmos,
não somos burros!”
Noutro dia, eu estava voltando do treino de boxe e pas­
sando por um a viela quando três crianças saltaram na mi­
nha direção. A que vinha a frente estava com um frasco de
desodorante na mão im itando um microfone, a outra fazia
um a câmera com as mãos e a terceira fingia anotar algo
e me perguntaram: “O que você acha da UPP?”. Naquele
momento eu sorri, foi um a forma linda de problem atizar a
política de pacificação. Eu disse que não gostava e elas sor­
riram e disseram que tam bém não. Eu perguntei o motivo e
elas disseram que não tinha mais baile, que a favela estava

144
“m urcha” . Em seguida, eu fiquei observando elas fazerem
a m esm a “entrevista” com outros moradores e as respostas
me surpreenderam pelo conteúdo e pela forma leve como
foram ditas. Dos três entrevistados que eu ouvi, dois fala­
ram que não gostavam, um chegou a dizer que era um a
enganação, que não confiava na polícia e que eles querem
ser os novos donos do morro; outro disse que ficou sem o
lazer; e as m eninas disseram “É isso aí!”, e o que disse que
gostava disse que, para ele, o morro estava melhor. O curio­
so é que quando perguntei se eu podia conversar com eles,
todos despistaram e disseram que estavam com pressa. A
brincadeira das crianças me permitiu acessar discursos ou­
tros que não os com um ente divulgados nas entrevistas.

PELOS CORPOS QUE VIBRAM


E FAZEM VIBRAR

O que estes encontros têm em comum? O corpo. Era o


corpo das crianças que ora enfrentava agressivamente, como
o menino, ora de forma lúdica, como as meninas, às inves­
tidas do governo policialesco das condutas. Este corpo, que
não é necessariamente biológico, mas entendido aqui como
toda espécie de individuação forjada nas/pelas lutas, isto é,
superfície em que incidem os exercícios de poder e de onde
emergem as práticas de resistência. Um corpo qualquer que
possui a potência de insubmissão, de diferenciação e de afir­
mação, corpos não mais estendidos no chão, mas corpos que
instauram panes, incômodos, risos. Esses corpos que com­
põem e fazem vibrar experimentam e se conduzem de modo

145
inesperado, afirmam que a vida precisa ser menos sufocante.
Deste corpo, não sabemos o quanto ele pode, “... quais são
as suas forças nem o que elas preparam ” (DELEUZE, 1976,
p. 32). Quis me perder nestes encontros com a coragem das
crianças de dizer e ser com elas um corpo potência que en­
saiou produzir um a malta-matilha-motim de viver.

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148
M Ã E S POR T R Á S D A S G R A D E S :
N A R R A T I V A S DE M U L H E R E S
APRISIONADAS

A lin e B a rb o s a F ig u e ir e d o G o m e s

Este texto traz narrativas de vidas aprisionadas. Conta


pequenas histórias de m ulheres que estiveram presas e vi­
veram a experiência de estar grávidas e parir em situação
de privação de liberdade.
A pesquisa que deu origem a este texto foi feita em 2010,
ano em que foi defendida m inha dissertação de mestrado na
Universidade Federal Fluminense (UFF), no Rio de Janeiro.
As mulheres que se tornam mães durante o aprisiona-
mento ficam internas na Unidade M aterno Infantil (UMI),
localizada no Complexo de Gericinó, Bangu, Rio de Janei­
ro. Na UMI, as m ulheres ficam dois anos com seus filhos.
Durante este período, decide-se o destino destas crianças:
onde ficarão e com quem ficarão. Após este prazo, a crian­
ça é separada da mãe, que é enviada para um a unidade
prisional comum.
O grupo de mulheres que nos contou suas histórias se
dividiu em dois: algumas já estavam em prisões comuns e
passaram por esta situação há, no máximo, dois anos; ou­
tras ainda estavam passando por este processo. Seus nomes
foram preservados através de nomes fictícios.

149
Historicamente fabricados, discursos rotulam as pesso­
as presas como se estas possuíssem um a suposta essência
perigosa, que as levaria a um a inevitável delinquência. Por
outro lado, ao falarmos das mulheres, estas são produzidas,
também, como se possuíssem o dom da maternidade, o ins­
tinto m aterno, a pré-disposição para o cuidado etc. Ou seja,
fabrica-se um a “m ulher-essência”. Vivemos em um m undo
em que essências são produzidas e vidas capturadas.
A m ulher como metáfora do negativo, como aquela que
induz o homem ao erro, como símbolo da curiosidade, da
indiscrição, da superficialidade, da vulgaridade é algo exis­
tente desde as explicações da criação do mundo. Intrigante
é que, até os dias de hoje, a m ulher continua carregando
alguns destes estigmas.
Entretanto, há também um registro muito forte do femi­
nino que é visto por um lado potente e positivo. Este regis­
tro é a maternidade, que coloca a m ulher em um a suposta
posição privilegiada em relação ao homem.
O mito da m ulher enquanto mãe afirma um a força fe­
m inina que se traduz em um a excelência de cuidados e em
um a possibiliade de transm issão de valores. Através da m a­
ternidade, a m ulher se transform a em fonte de pureza e
recondutora da educação e valores sociais à sua prole. Este
mito m aterno emerge em um dado período histórico e está
associado a diversas transformações. A partir dele, a m u­
lher passa a ser vista e reconduzida a diferentes “papéis”.

15 0
FOTOGRAFANDO A UNIDADE
MATERNO INFANTIL (UMI)

Para entrar na UMI é preciso passar por um a porta­


ria comum entre esta unidade e a unidade Talavera Bruce,
penitenciária direcionada a mulheres já sentenciadas no
regime fechado com tempo de condenação definido. En­
tretanto, na realidade, nem todas estão nesta situação, pois
algumas ainda não possuem sentenças definidas.
O que se vê ao passar por esta portaria é um a igrejinha ao
centro, o Talavera à direita e a UMI à esquerda. Os muros da
UMI são totalmente diferentes dos muros das prisões que alo-
cam o complexo de Gericinó. Enquanto estas possuem muros
altos, cinzas ou azuis, com arames farpados e cabines policiais
no alto deles; a UMI possui muros baixos, pintados de várias
cores com temas infantis lembrando um a escola, portões en­
costados pintados de rosa, uma casinha de bonecas na sua
entrada e jardim e banquinhos iguais aos de uma pracinha.
O efetivo carcerário não passa de 20 mulheres e as
funcionárias revezam-se entre duas ou três. Ao entrar na
unidade, a prim eira sala é a da diretoria, que se divide em
cozinha de funcionárias e um a saleta im provisada das téc­
nicas do Serviço Social e da Psicologia. Esta saleta é um a
espécie de divisória que não vai até o teto, perm itindo que
as vozes escapem por este espaço para a sala da diretoria.
Entre a diretoria e o alojamento das presas há um a grade
e um a porta, na qual as presas batem quando precisam se
com unicar com a direção. Fato corriqueiro.
Na sala da diretora há três mesas: a da diretora, da sub-
diretora e da agente penitenciária. Passando por esta porta

151
estão os dois alojamentos das presas. Nestes alojamentos
há a cam a da mãe e o berço dos filhos ao lado de cada
cama. São dois alojamentos com espaço para dez mulheres
e filhos em cada um. Este espaço assemelha-se a um quarto
de criança coletivo, pois se vê roupinhas de bebês pendura­
das nos berços, fotos e quadrinhos infantis e mães ninando
seus bebês. No caminho destes alojamentos sem grades,
com janelas e portas em modelo antigo pintadas de azul,
há um corredor com quadros de personagens infantis, car­
rinhos de bebês vazios e um a estante com livros infantis.
Saindo deste corredor, entra-se na cozinha, onde um a
das mulheres, de tempos em tempos, é designada para pre­
parar as refeições das crianças. Há um banheiro comum a
todas, inclusive à direção.
Entra-se facilmente na UMI e a desconfiança peculiar
que há nos outros presídios quando um visitante estranho
chega ao local não está presente. A aparência é de escola,
creche, casa, internato, abrigo, e não de presídio.
Este ponto é m uito interessante e nos ajuda a entender
um pouco da dinâmica interna do local, pois m uitas pesso­
as referem-se à UMI como “creche”, “prisão sem grades”,
“um lugar para as crianças” e coisas semelhantes. Isto já
nos aponta para um contexto que não está dado, um con­
texto tenso, pois se trata de um a “prisão para as crianças”.
Isto é, um am biente que deve ser totalm ente adaptado a
elas, no qual a mãe presa fica em segundo plano.
Esta prisão é conhecida como um lugar silencioso no
qual os bebês não choram, apesar de haver tantas crianças.
Percebemos que a UMI é um a “prisão diferente”, que traz
consigo algumas peculiaridades.

152
Para quem já entrou em um a prisão e pôde conhecer
um pouco deste ambiente, sabe que lá alguns discursos são
reproduzidos por muitos anos e só são reconhecidos na­
quele contexto. Há um dialeto próprio, leis próprias, um a
nova organização da vida, um m undo à parte. Perguntan­
do a um a das entrevistadas por que na UMI os bebês não
choram, ela explicou: “estão sempre com as mães, sempre
brincando. Acho que é de mãe mesmo, não deixar. Já cho­
rou, já pega logo. Primeiro a gente cuida dos bebezinhos,
depois da gente”. Na UMI, as m ulheres estão em segundo
plano; as crianças devem ser cuidadas o tempo todo pela
mãe. Neste sentido, muitas internas naturalizam este ritual
de cuidado, no qual precisam cuidar primeiro dos filhos e
depois de si mesmas. É como se a m ulher não existisse: está
ali para cuidar do filho, por isso tem algumas “regalias”.
Para ser reconhecida e respeitada precisa ser mãe 24 horas.
Podemos começar a ilustrar este cenário com um a frase
que ouvimos de um a m ãe/interna na UMI: “Porque lá eles
pensam na criança e não na m ulher presa”.
Fui afetada pela história de um a agente penitenciária
que, por acaso, era enfermeira e, em seu plantão, um a in­
terna estava prestes a dar a luz. O Serviço de Operações
Especiais (SOE) que atua no transporte dos presos, além de
conter motins nas prisões, não chegou a tempo. A interna
teve que ficar em cima de colchonetes no corredor da zela-
doria do presídio onde teve seu filho. A agente fez o parto
e os deixou ligados pelo cordão umbilical. Quando o SOE
chegou, teve de levá-los agarrados para que a placenta não
saísse e o bebê não morresse. A mãe teve de m anter as per­
nas fechadas para salvar a vida do filho. Este procedimento

15 3
foi feito porque não havia tesoura que pudesse ser esterili­
zada na unidade para cortar o cordão.
Este relato nos aponta os inúm eros desdobram entos de
um a gravidez no contexto prisional. A precariedade do ser­
viço de transporte das presas se agrava pela má vontade
dos funcionários do SOE, que são produzidos para ignorar
o sofrimento e a urgência dos apenados.
Por outro lado, outra história que ouvimos foi a de uma
presa m orta pelas outras da m esm a cela. As agentes, ao
chegarem, tiveram que tirar o corpo da cela, revelando a
dificuldade e a dureza do trabalho realizado por elas. A
precariedade e a violência estão presentes na vida não só
das presas, mas de todos que ali estão.
Isso significa dizer que ao mesmo tempo em que pode­
mos relacionar esta prática de trabalho dos agentes do SOE
a algo desum ano, em outros m om entos tam bém se pode
perceber como este trabalho é desum anizado. Um trabalho
em constante fio de navalha, pois se pune e se trabalha em
condições m uito difíceis como nos indica Dahmer:

A inserção do inspetor penitenciário num a


ordem burocrática pode descortinar um a ou­
tra com preensão acerca da complexa engre­
nagem que vai se reproduzindo no interior
das prisões. Isto perm ite entender o am biente
gerado pela ordem específica instituída, que
é perversa na sua raiz, possibilitando o exer­
cício individual da crueldade em muitos m o­
mentos, tanto por parte do preso quanto do
funcionário. (2006, p. 47)

O contexto prisional feminino é marcado pela presen­


ça predom inantem ente de mulheres, como as presas e as

15 4
profissionais. As relações que se estabelecem na UMI são
diferentes das demais prisões femininas, pois a criança nes­
te local tem relações diferenciadas. É comum as agentes
serem m adrinhas dos filhos das presas, quererem cuidar
deles e até mesmo se sentirem mais aptas para este cuida­
do. Estes dados são im portantes, pois além de falarmos de
um a prisão, estamos falando de um a prisão com bebês, o
que torna este cenário mais peculiar ainda.
À situação de separação em relação aos filhos que já
tinham anteriorm ente, soma-se a necessidade de um es­
tabelecim ento especial que acolha, durante um tempo, o
bebê com sua mãe. Além da necessidade de um lugar que
acolha esta criança após o prazo de seis meses, referente
ao período de am am entação83. A dúvida de com quem dei­
xar seus filhos, o medo de perdê-los para a adoção caso
não tenham familiares ou pessoas amigas disponíveis para
cuidar das crianças durante a pena e a preocupação com
o resgate destes filhos após a prisão perm eiam o cotidiano
dessas m ulheres na UMI.
“Aqui se ganha cinco refeições por dia por causa do
bebê, você está aqui exclusivam ente por causa da crian­
ça. Se você não cuidar bem do filho, fecham pra vo cê”
(Bárbara, 37 anos).
O term o “fecham para você” significa que se perderá as
“regalias” e voltar-se-á a ser um a presa comum, podendo
até mesmo perder o filho para a adoção, ou para um abrigo
ou para a guarda. Neste caso, a mãe separa-se do filho an­
tes do tempo estipulado.

83 É im portante lem brar que esta pesquisa ocorreu antes da lei 11.942/09 de m aio de 2009, e, p o rtan ­
to, o tem po de perm anência da m ãe com a criança era de seis m eses, sendo agora de até dois anos.

155
Anne é estrangeira e perdeu a filha após três meses
na UMI. Relata ter tido m uita dificuldade para se adaptar
à prisão no Brasil, pois não dom ina o idioma. Conta que
teve seus pertences roubados pelas outras presas e que
não conseguiu entender as regras da prisão por ainda não
saber português. Não conseguiu contato com a família e
nem com o consulado, até receber a visita de um pastor
que falava inglês. Este fez contato com sua família e com
o consulado. Sobre o cotidiano na UMI, diz que elas “têm
que lim par”. Cada mês elas têm um a tarefa. No prim eiro
mês não trabalhou, “brincava m uito com a m inha neném
e pegava os filhos das outras para fazer dorm ir”. Após três
meses, a diretora da U nidade “quis dar a neném para a
adoção porque eu não tinha leite e não queria dar banho
de sol na m inha filha”. Explica que não queria dar banho
de sol porque os pais m orreram de câncer e o irm ão de 18
anos teve câncer tam bém . Como justificativa para a perda
da filha, disseram que ela não a am ava. Quiseram que se
despedisse da filha, mas ela não quis largá-la. Diz ter fica­
do m uito triste e chora ao contar a história: “Ninguém vai
pegar a m inha filha, não quero dar ela”. Com a perda da
filha, Anne ficou dois m eses sem comer e foi trabalhar na
costura “para não pensar na n en ém ”. Ficou quatro meses
sem notícia do seu processo e sem notícias da filha, até
conseguir um a advogada que falava inglês e que conse­
guiu um a audiência, na qual “a juíza m andou fazerem
voltar com m inha filha”.
Há um ano sua filha está com um a família acolhedora
e Anne recebe visitas semanalmente. “Minha experiência é
de m uita do r”, afirma ao se referir ao mom ento da separa­

15 6
ção. “Essa filha eu não vi o primeiro dente, a prim eira vez
que andou, mas escutei a prim eira palavra: m am a”.
A história de Anne é um dos exemplos da condição das
estrangeiras nas prisões brasileiras, em que o tratam ento
consegue ser mais excludente e opressor que o destinado
às brasileiras. Neste caso, além de não saber de sua senten­
ça - como é o caso de muitas brasileiras -, Anne perdeu o
direito à m aternidade por não obedecer a um a regra local
básica: para ser mãe na UMI deve-se seguir um determ ina­
do modelo esperado.
Percebe-se que in ú m ero s m al-en ten d id o s aco n te­
cem pela falta de escu ta por p arte dos funcionários, que
m uitas vezes não querem saber o m otivo pelo qual algu­
m as regras não são cum pridas, m as preocupam -se com
a punição deste não cum prim ento. Talvez seja u m a m a­
neira de não se envolver, de m assificar as regras, apesar
da Lei de Execução Penal estar p au ta d a no princípio
in d iv id u alizad o r da p e n a 84, que supõe um tra ta m e n ­
to peniten ciário ad eq u ad o a cada preso com vistas à
sua reinserção social. O que se observa na prática é que
tal princípio se to rn o u u m a falácia, pois cada vez m ais
se m assifica p ara se controlar m elhor, p ara que todos
recebam as m esm as regras e as cum pram de m esm a for­
ma. Subjetividades m assificadas.

84 “O princípio constitucional da individualização da p en a visa fazer prevalecer sem pre o relevante


interesse de reeducação e ressocialização do con d en ad o ” (TORRES, 2006). É u m princípio que visa
individualizar, organizar o período em que o sujeito estiver preso para direcioná-lo a tão sonhada
ressocialização, assim , lança-se planos de trabalho, estudo e o u tras opções q ue possam to rn ar o
tem po do preso produtivo e frutífero na prisão. Vale ressaltar que n ão é possível segui-lo, visto q u e as
prisões não possuem , na verdade, ofertas para ocupar, com o indica o plano, o tem po do preso. Desta
form a, esse princípio não consegue se concretizar, em bora os diferentes profissionais se em basem
nele. Para m aiores esclarecim entos, consultar a lei 7.210, de 11 de julho de 1984, q ue especifica os
critérios de individualização da pena.

157
O fato da presa não ter leite é perigoso na UMI, pois
se segue o m odelo m aternal higiênico, no qual o leite e a
am am entação são inerentes à m aternidade, não podendo
haver substituto que se com pare a am am entação m aterna.
Aquelas que, por algum motivo, não possuem leite trazem
consigo um a inaptidão para a m aternidade, principalm en­
te na prisão, mesm o que a nova lei não considere um im ­
pedim ento à perm anência da m ãe com o filho pelo fato
desta não ter leite.
A proibição de am am entação dos filhos por terceiras
é um im portante tópico para tocarmos, pois nos remete a
um a questão: por que a interna não pode am am entar o fi­
lho de outra? Se o objetivo é o cuidado, a criança já seria
contemplada, mas é necessário controlar tudo, em especial,
as relações, para que as regras sejam cumpridas. O poder
controla a relação das detentas com as outras, e a relação
da própria detenta consigo m esm a (FOUCAULT, 2008).
Ao perguntar para as presas e para os profissionais que
lá atuam onde estas regras estão escritas, como se seguem
e qual o peso para punir as que não são cumpridas, não
houve qualquer resposta. Inúmeras regras são passadas de
direção para direção, ou prescritas pelo pediatra ou pela
juíza da Vara da Infância, Adolescência e Idoso, sem regu­
lam entação interna. Fui inform ada de que toda e qualquer
regulam entação referente à UMI estava em processam ento
no mom ento em que fiz a pesquisa.
As normas, segundo Foucault (2008), são m udadas o
tempo todo para melhor controlar os com portamentos. As
regras na prisão m udam de acordo com as relações de po­
der. A partir delas se condicionam condutas e é preciso que

15 8
se enquadre nelas para não sofrer um a punição.
Há um discurso que prescreve como estas mulheres
devem cuidar de seus filhos, como devem alimentar, edu­
car, promover saúde e estim ular através das brincadeiras.
Este discurso tam bém pode ser encontrado em orientações
do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), que
além de organizar cam panhas, materiais educativos e apoiar
projetos para a prevenção da violência, tam bém estimula
programas de capacitação das famílias, tal como é produzi­
do na prisão. A mãe precisa ser capacitada e treinada nes­
te am biente prisional em prol do bom desenvolvimento do
filho e, ao mesmo tempo, desenvolver-se enquanto pessoa
também. É um a forma de suposta remissão.

Ficar sem pre perto da m ãe ajuda o bebê a se


desenvolver (UNICEF, 2007, p. 09). A higiene
é muito im portante para a saúde e o confor­
to do bebê (UNICEF, 2007, p. 29). A criança
aprende com a família a cuidar da higiene, do
corpo, da casa e da com unidade
(UNICEF, 2007, p. 10).

Grande parte das mulheres entrevistadas se refere à UMI


como um lugar bom. Entretanto, há algo neste local pintado
de cores infantis que escapa, que foge ao estereótipo da
mãe zelosa, pura e responsável. Muitas mulheres citam que
as colegas fumam - atividade expressam ente proibida pela
juíza da Vara da Infância, Juventude e do Idoso - e brigam
muito, fugindo da regra. Algumas citam com certo espanto
que muitas têm relações homossexuais. O espanto advém
do ambiente, ou seja, como em um am biente m aternal, na
qual a sexualidade não deve existir segundo as ideias higi­

159
ênicas, algumas m ulheres desrespeitam esta norma? Outro
fator ligado a isto é que a visita íntim a é suspensa enquanto
as mulheres estão na UMI, pois sua prioridade é a m aterni­
dade e não a sexualidade, que deve ser suspensa e esqueci­
da neste “m om ento tão sublim e”. Uma interna nos disse ter
vergonha de lutar pelo direito à visita íntima. “Lá tinham
internas que ferviam água e jogavam nas outras. É um am ­
biente pesado, é diferente da rua ou da sua casa” (Carla, 23
anos). “Na creche - se referindo a UMI - é muito estresse:
m uita mãe junta, m uita criança chorando. Lá era tudo de
bom, exceto pelas brigas entre as mães que ocorriam por
coisas mínimas: faxina, carrinho, cigarro e choro das crian­
ças. Acho isso errado, acho que o coletivo tem que se u n ir”
(Amanda, 23 anos).
Algumas destas falas se parecem muito com as das fun­
cionárias da UMI que dizem que o lugar é ótimo, o que
estraga são as presas.
É imprescindível que saibamos que tais m ulheres exis­
tem; que tal m undo feito de prisão pintada com cores infan­
tis produz subjetividades e corpos aprisionados. Mulheres
que são subm etidas a práticas de controle e coerção em um
momento em que se descobrem enquanto mães. Falemos
mais das prisões, inclusive daquelas que se parecem com
creches e escolas. Sobretudo, falemos das prisões sem m u­
ros que nos cerceiam e capturam.

16 0
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRASIL. Decreto-Lei n° 11942/09, de 30 de julho de 2009. Di­


ário Oficial [da República Federativa do Brasil], Brasília.
BRASIL. “Presidência da República. Secretaria Especial de
Políticas para as M ulheres”. Revista do observatório
Brasil da igualdade de gênero. 1° Impressão. Brasília:
Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, 2009.
COIMBRA, C. M odalidades de aprisionamento: processos
de subjetivação contem porâneos e poder punitivo.
Rio de Janeiro, 2009. Mimeografia.
DAHMER, T. “O guarda espera um tempo b om ”. As relações
de Custódia e o Ofício dos Inspetores Penitenciários.
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Janeiro, 2006.
DELEUZE, G. “Post-Scriptum Sobre a Sociedade de Controle”.
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DONZELOT, J . A Polícia das famílias. 2 a ed., vol. 9, Rio de
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LOURAU, R: Análise institucional e práticas de pesquisa.
Rio de Janeiro: UERJ, 1995.
UNICEF. Família brasileira fortalecida. Brasília: Unicef, 2007.
WACQUANT, L. As prisões da Miséria. Rio de Janeiro: Jorge
Zahar, 2001.

161
P R Á T I C A S PSI SEM M A N U A L : U M A
E X P E R I Ê N C I A DE P E S Q U I S A 85

A lic e De M a rch i Pereira d e S ouza

Eu tô te e x p lic a n d o

Prá te c o n fu n d ir

Eu tô te c o n fu n d in d o
Prá te e s c la re c e r

T ô ilu m in a d o

Prá p o d e r ce g a r
Tô fic a n d o c e g o

Prá p o d e r g u ia r

TOM ZÉ

A D V E R T Ê N C I A ! OU BREVE
INTRODUÇÃO

Em seu divertido texto “Sylvia Leser Orientadora - um


Muito de Possível”, Heliana de Barros Conde Rodrigues
(2006) lembra que leu em algum lugar que introduções de
textos acadêmicos podem parecer manuais de eletrodomés­
ticos, com os dizeres aviso!, advertência! impressos ali, pre­
venindo o usuário quanto a eventuais riscos envolvidos no
85 A rtigo escrito a partir da dissertação de m estrado em psicologia “In(ter)ventar: encontros possí­
veis entre psicologias e ju v e n tu d es” (SOUZA, 2009). Recebeu-se devida autorização prévia para a
publicação dos trechos de correspondências contidos no texto.

163
funcionamento da engenhoca. Confesso que, na verdade,
tampouco não me agrada anunciar ao leitor o que será escrito
logo de início; temo sempre estar subestimando-o, ou então
“entregando o ouro” daquilo que trazem as páginas a seguir.
No entanto, humildemente (ou academicamente?) é neces­
sário dispor-se a fazê-lo. O intuito aqui, porém, é o de um
cuidado! em outro sentido: cuidado enquanto zelo, delicade­
za, acolhimento para com o leitor. Afinal, ele encontrará não
apenas um recorte de um a produção prévia (e isso já bastaria
para fornecer-lhe um a explicação inicial), mas também uma
espécie de texto-engenhoca animado por um a inquietação
que partilhamos com Michel Foucault: aquela “em face do
que é considerado dado, coerente, óbvio, lógico, previsível,
evidente, funcional ou nobremente científico” (RODRIGUES,
2005, p. 18). O que, de fato, sempre envolve algum risco...
O presente artigo põe-se de pé a partir da dissertação
de mestrado em Psicologia na Universidade Federal Flumi­
nense intitulada “INterVENTAR: encontros possíveis entre
psicologias e juventudes”, orientada pela professora Cecí­
lia Coimbra. Essa apreciadora do poeta Manoel de Barros,
que por vezes se cham ava a si própria de “desorientadora”,
recusava-se veem entem ente a tutelar os alunos de seu jar­
dim de “florzinhas”86; convocava-nos a reviver um a com u­
nicação sem com putadores; devolvia-nos nossos textos a
ela entregues com as margens m arcadas (e como!) por sua
letra manuscrita; e recorrentem ente dizia “Escreva...! Leia
também, mas não deixe de escrever!” habitando um devir
Foucault na esteira de Sêneca, que enuncia a prática da es­
crita de si como exercício de cuidado e de liberdade.

86 Forma carinhosa com o Cecília cham a m uitos de seus orientandos.

164
Norteada por um modo de pesquisar que não se afas­
tasse das práticas cotidianas e seguindo o critério da afe­
tação, a dissertação foi produzida a partir da experiência
de estágio em psicologia social durante m inha graduação
na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS),
no projeto “Abrindo Cam inhos”. Este projeto se constituía
nas alianças entre UFRGS (através do projeto de extensão
Estação PSI87), Procuradoria da República no Rio Grande do
Sul e órgãos públicos estaduais e municipais responsáveis
por executar as medidas “socioeducativas” e “protetivas”88.
Cinco setores da Procuradoria da República ofereciam va­
gas de estágio rem unerado na m odalidade de trabalho edu­
cativo - previsto no artigo 68 do Estatuto da Criança e do
Adolescente - para jovens de 16 a 18 anos que estivessem
cum prindo um a das medidas referidas89. A gestão do proje­
to era coletiva, envolvendo Estação PSI (formado pela pro­
fessora coordenadora Gislei Domingas Lazzarotto, alunos
da graduação em psicologia e pesquisadores) e equipe local
da Procuradoria (composta por procurador-chefe e servido­
res dos setores participantes).

87 Estudo e Ação em Políticas de Subjetivar e Inventar, vinculado ao D epartam ento de Psicologia


Social e Institucional do Instituto de Psicologia Social e Institucional da U niversidade Federal do Rio
G rande do Sul.

88 As aspas servem para que não naturalizem os essas nom enclaturas. U tilizado para identificar m e­
didas aplicadas a adolescentes acusados de com eterem atos infracionais, o term o “socioeducativa”
rem ete a u m a m edida que socialize e eduque, quan d o sabem os q u e as práticas de aplicação dela
m uito m ais têm de penal-punitivo. Já as m edidas “p rotetivas”, aplicadas a jovens o u crianças co n ­
sideradas “em perigo”, m uito pouco têm a ver com acolhim ento e proteção, e m uito m ais com um
processo de institucionalização e tutela (SOUZA, 2009).

89 Segundo o ECA, trabalho educativo é um a “atividade laboral em q u e as exigências pedagógicas


relativas ao desenvolvim ento pessoal e social do educando prevalecem sobre o aspecto prod u tiv o ”,
considerando que “a rem uneração que o adolescente recebe pelo trabalho efetuado (... ) n ão desfi­
gura o caráter educativo” (BRASIL, 1990). Com esta definição em vista, diversas atividades eram
desenvolvidas, colocando as próprias dim ensões de “tra b alh o ” e “ed u cação ” em análise.

165
No contato entre a equipe de psicologia e os jovens,
alguns acontecimentos foram tom ados como analisadores
dos modos como “a psicologia” (ou “as psicologias”) e tais
juventudes institucionalizadas se coengendram. A carto­
grafia como ética de pesquisar-intervir acom panhou esses
m ovimentos do que surgia - história do presente; caderne­
tas pessoais e diários coletivos foram utilizados como fer­
ram entas metodológicas. O recorte desse artigo detém-se a
alguns elem entos da pesquisa, especialm ente no que tange
a problem atização da psicologia como um saber instituído.

FERRAMENTAS P A R A USO: D I Á R I O S
COLETIVOS

Os “diários coletivos” consistiram em instrum entos


fundam entais para a pesquisa e para o grupo Estação PSI,
aparecendo frequentem ente nos m om entos das análises fei­
tas no trabalho - por isso é im portante dedicarmo-nos a
eles já de saída. Tratavam-se de grupos virtuais (ou “listas
de discussão”) através dos quais seus integrantes trocavam
e-mails em forma de diários de campo, criados na tentativa
de dar vazão e duração a (quase!) todas as vozes e afetos
que encontrávam os pelo caminho.
Ao escrever um diário de campo, segundo o referencial
da Análise Institucional, um pesquisador tem a oportuni­
dade de se relacionar de outra forma com a sua pesqui­
sa, permitindo o “conhecimento da vivência cotidiana de
campo (não o ‘como fazer’ das normas, mas o ‘como foi
feito’ da prática)” (LOURAU, 1993, p. 77). Isto porque, no

16 6
diário de campo, o intelectual relata o dia a dia da feitura de
sua investigação sem preocupações e censuras, geralmente
presentes em textos acadêmicos a serem publicados, que
se transformam facilmente em assépticas leituras de resul­
tados finais (idem, ibidem). A feitura do diário de campo
com preende os embaraços, as dificuldades, os afetos, julga­
m entos e sensações daquele que pesquisa, recusando a no­
ção de neutralidade como vetor m andatório nesse processo.
Acolhe os mais variados atravessam entos como material de
pesquisa - aliás, como parte im portante da mesma. Por es­
tarem forjados a muitas mãos, de diários coletivos batiza­
mos esses instrum entos que inventam os - e talvez Hess &
Weigand (2006) também assim os cham assem, já que em
seu “A escrita im plicada” apresentam variadas possibilida­
des de se urdir um diário de campo.
Esses diários coletivos, destarte, eram mais do que re­
latos, narrativas, descrições de um cotidiano de um a pes-
quisa-intervenção. O teclado era golpeado ainda com as
sensações recém-vividas pulsando no corpo; a escrita era
em si experimentação: experimentávamos ideias, ensaiáva­
mos e errávamos, gaguejávamos, colocávamos os conceitos
“para dançar”, ainda que alguns tropeçassem, ainda que
nós mesmos pisássemos em seus pés. O texto do diário co­
letivo se fazia, se não despreocupado (seria mesmo injusto
adjetivá-lo assim!), pelo menos preocupado em m enor grau
com preciosismos de linguagem e com a exatidão de “acer­
to ” no uso de conceitos, justo por não ser o escrito final,
acadêmico, a ser publicado e avaliado. Era lugar de ensejar
e aprender; éramos psicólogos em formação - mesmo aque­
les que já possuíam diplomas e títulos.

167
Assunto: as quartas e os conceitos
O conceito nos m ovim enta e cria territórios
para tencionar a intervenção com certa tran-
quilidade sobre o que fazemos.
E nesse processo tam bém está a lista [diário
coletivo], seu uso, sua produção de sentido
de formas diferentes para cada um a-um de
nós. Para mim ela é tam bém a teoria se cons­
truindo. Mais potente quando consigo trazer
leituras de autores e ir para nossos registros
de outros tem pos, cartografando cam inhos de
processos por aqui escritos.
Talvez, M ateus e Julia90, possam abrir espaço
para esse tem po no estágio. Algo como “Te­
nho um a reunião com a ‘psico’ agora” mesmo
não sendo quarta-feira [dia de supervisão]: ir
para os diários da lista; ou textos; ou seu pró­
prio diário e pensar sobre o que acontece, en­
fim parar! A Julia afirmou que está em form a­
ção, em um estágio, o Mateus ficou silencioso
e já com entou que tem se esforçado para
escrever. Então vam os assum ir esse lugar de
formação que querem os m anter sem pre em
nosso trabalho, antes e depois da formatura:
um a psicologia em formação.
(Diário coletivo “Ventovida”, em 09 de m ar­
ço de 2007).

Para usar um a expressão de Gislei Lazzarotto (2009), o


dedilhar de escritas de uns interferia no dos outros, na medi­
da em que, com o recurso tecnológico do formato de e-mails,
podíamos editar, sublinhar, apagar, colorir, meter-nos no
meio da escrita de outra pessoa que fazia parte do grupo. In­
surge, assim, ainda segundo Lazzarotto, um a escrita própria
que corresponderia a um a língua menor na formação-prática
em psicologia no paradoxo com o “não saber o que fazer”:

90 Estagiários de psicologia n a época.

168
a ferram enta lista de discussão [grupo virtual
de e-mail] se acopla ao agenciam ento de for­
m ação em psicologia e passa a com por um di­
ário coletivo no contágio com um a abordagem
conceitual e metodológica: um m ovimento da
lista para um diário coletivo, para um modo
de escrever, para a composição de um a prag­
mática de um a língua m enor na formação em
psicologia. (2009, p. 75)

Língua que tencionava, desviava e provocava variações


em um a língua maior de constantes, um a vez que nos fa­
zíamos estrangeiros a um a psicologia que constituía nossa
própria prática91.

DESMONTANDO A PSICOLOGIA

Fazer-se estrangeiro de si, estranhar o próprio terri­


tório: eis aí a inquietação em face do que é considerado
dado, natural ou nobrem ente científico. No projeto Abrin­
do Caminhos, a equipe do Estação PSI ocupava o lugar da
“psicologia”, mas... O que era a psicologia? Era um saber
definitivo, fechado em si? Queríamos reproduzir o que era
tido e esperado como tal?
Para nós, há mais de um a psicologia. E ela não está
colada a um estabelecimento, grupo ou pessoa. Caso en­
tendam os que, mais do que um corpo único, trata-se de
conjuntos de discursos e práticas, podem os então deduzir:
melhor falar de modos de intervir em psicologia. Ou ainda:

91 Para um a leitura m ais aprofundada sobre os diários coletivos no Projeto de Extensão E stação PSI
e suas relações com a form ação em psicologia, a extensão acadêm ica, a pedagogia, a filosofia e o
ensino à distância, conferir a tese de doutorado de Gislei D om ingas Lazzarotto, “Pragm ática de um a
Língua M enor na Form ação em Psicologia: u m diário coletivo e políticas ju v e n is” (2009).

16 9
práticas psi. Não se localizam, necessariamente, em luga­
res determ inados, e sim os atravessam, aparecendo como
produtoras e efeitos de outras práticas. “Não há coisas: só
existem práticas”, nos diz o arqueólogo e historiador Paul
Veyne (1982, p. 154).
Tomemos um caminho de raciocínio: teorias psico­
lógicas classificam alguns com portamentos de crianças e
adolescentes como incorretos e indesejáveis, assim como
postulam que aqueles que vivem em famílias m uito dife­
rentes de um determ inado modelo podem vir a desenvolver
problemas ditos psicológicos, inclusive os tais com porta­
mentos indesejáveis. Seriam subjetividades am eaçadoras a
outro grupo de pessoas, estas sim consideradas “norm ais”.
Isso fornece justificativa para a intervenção do Estado - que
cria mecanismos, constrói grandes edificações e institucio­
naliza as vidas dessas crianças e jovens na tentativa de
consertar os desajustes que causam ou mesmo que possam
causar os supostos prejuízos àquele outro grupo. Michel
Foucault já cham ou atenção para esse tipo de controle de
virtualidades, que nada mais é do que um a ação “sobre as
possibilidades de ação dos outros indivíduos” (1995b, p.
244). Nesses mesm os estabelecimentos, teremos mais uma
vez os saberes e as práticas psi avaliando e supostam ente
prevenindo e corrigindo modos de ser e estar no mundo.
Sendo assim, não tenhamos tanta certeza acerca da
existência de um único ponto de partida: o mesmo Foucault
(1995a), em seu “História da Loucura”, nos mostrará que
é na própria institucionalização (enquanto isolamento de
corpos em estabelecimentos fechados ou semifechados) que
reside a condição de possibilidade da criação e do fortaleci­

170
mento de teorias sobre tais existências consideradas anor­
mais. Uma vez isoladas - em manicômios, prisões, orfanatos
- essas existências são meticulosamente estudadas e analisa­
das, no intuito de criar e sustentar saberes que, completando
um ciclo de retroalimentação, embasarão a separação entre
joio e trigo, mal e bem, bandidos e mocinhos, desviantes e
normais de forma cada vez mais especializada e legitimada.
Atentemos para esse movimento: práticas que geram saberes
que geram práticas... m utuam ente (VEYNE, 1982).
Essa é um a psicologia que podemos cham ar de “resol-
ve-pepino”, que tanto recebe e que com tanto gosto acolhe
dem andas para descascar abacaxis, segurar batatas-quentes,
desenrolar quiproquós, em suma, resolver situações-proble-
ma. Uma psicologia - o leitor já deve ter percebido - atrelada
à moral (FUGANTI, 2008), visto que em penhada em seguir
padrões, julgar, prescrever, adaptar, ajustar, apaziguar, pa­
cificar, harmonizar, conciliar, consertar, corrigir aquilo que
incomoda, desassossega, destoa, desorganiza, revoluciona,
revolta(-se), utilizando-se, para tanto, de vias igualmente
norm atizadas e artifícios devidamente legitimados.
Ela já não está restrita a um a linha, a um a corrente te­
órica: diversos autores, através de sortidos conceitos e apa­
relhos metodológicos, investem nessa direção. Tampouco
se resum e a livros técnicos, a fala e a ação de psicólogos:
espraia-se no que se diz sobre ela, no que se espera dela,
no que se sente frente a ela. É a psicologia mais conhecida,
mais repetida e, portanto, fabricante do senso comum (ou
fabricada pelo mesmo?). Sabe-se que é a mais conhecida
simplesmente porque ela nos chega através dos mesmos
meios pelos quais ela se tornou famigerada: está na fala da

171
profissional que dá seu parecer na polêmica reportagem do
jornal televisivo da noite de domingo92; está em conversas
de elevador (“Soube que você é psicóloga, não é? Eu estou
com um problema, sabe...”); está em piadas de m esa de bar
(“Cuidado com o que diz, ele é psicólogo!”); está em canta­
das (“Você está me analisando agora?”); está em expressões
tornadas populares (“Freud explica!”). E, bem, clichês à
parte, um sem-número de profissionais constantem ente é
capturado nessa m esm a lógica ortopédica, reproduzindo­
-a. Todos nós, aliás, somos cotidianam ente fisgados por tal
maneira de pensar e agir, visto que trata do prolongam ento
de um modus operandi (e vivendi) que predom ina no con­
temporâneo. Já podem os dizer desse tipo de práticas psi
que é um a ideia de psicologia que se cristalizou. Tornou-se
psicologia enquanto disciplina, objeto, psicologia enquanto
coisa, como já vimos que é o que diria Paul Veyne (1982).
Acostumou-se com o que se tornou.
Ora, tratemos de desacostum ar a psicologia enquanto
saber coeso. Vamos torcê-la, pervertê-la, tal qual o pantanei-
ro Manoel de Barros faz com as palavras em suas poesias:

Há quem receite a palavra ao ponto de osso, de oco;


ao ponto de ninguém e de nuvem.
Sou mais a palavra com febre, decaída, fodi-
da, na sarjeta.
Sou mais a palavra ao ponto de entulho.
Amo arrastar algumas no caco de vidro, en-

92 Na noite do dia 19 de m arço de 2006, foi lançado o docum entário “Falcão - M eninos do tráfico”,
produzido pelo cantor de rap MV Bill e pelo produtor m usical Celso A thayde, n o program a “Fantás­
tico”, da Rede Globo. No program a, além de trechos do filme - q ue discorre sobre a participação
de crianças e adolescentes no com ércio de drogas em vários estados do Brasil - foram exibidas
entrevistas com especialistas, entre eles psicólogos, que relacionaram o envolvim ento com o crime
à ausência da figura paterna nas vidas desses indivíduos. Em diversas outras ocasiões, psicólogos
com parecem à m ídia p ara conceder suas opiniões de peritos da subjetividade acerca de tem as extre­
m am ente noticiados, com o o da violência ou da m era possibilidade dela acontecer.

172
vergá-las pro chão, corrompê-las
Até que padeçam de mim e me sujem de branco.
Sonho exercer com elas o ofício de criado:
usá-las como quem usa brincos
(BARROS, 2002, p. 19).

Mais do que brincar com a palavra “psicologia”, este é


um convite a que a coloquemos em análise. “Análise”, uma
palavra que pode incorporar significados diferentes: tem
tanto o sentido de exame, quanto o sentido de quebra (LOU­
RAU, 1993). Ao examinarmos, quebram os a palavra “psico­
logia”. Estamos empregando aqui o trabalho foucaultiano de
descoisificar, desconstruir, desnaturalizar a psicologia como
objeto, pois, tal qual anunciamos, compreendemos que há
mais de um a psicologia. Essa operação é prenhe de psicolo­
gias sempre inacabadas, m om entâneas, locais. Melhor dizer
novamente: há práticas psi, isso sim. Lançar esse olhar que
privilegia menos a questão do o quê e do por que e mais
a questão do como nos faz enxergar a possibilidade de ou­
tras práticas para além das que conhecemos (FOUCAULT,
1995b). Práticas que se abram e se refaçam, rigorosamente
fiéis ao que se passa na ocasião da intervenção.
E o sentido de rigor aqui é outro que não o rigor científico
comprometido com prescrições metodológicas e regras teóri­
cas. Não confundamos rigor com rigidez! Dizer “práticas aber­
tas e inacabadas” pode dar a impressão de que sejam soltas e
sem critério, o que definitivamente não é o caso. Referimo-nos
a um rigor ético-estético-político, pois está atrelado ao acom­
panhamento dos modos como subjetividades são produzidas
em determinado espaço-tempo. Rigor ético porque compro­
metido não com normas, mas sim com princípios que dizem
das possibilidades de efetuação da multiplicidade inerente à

173
vida93. Estético por estar preocupado em potencializar a cria­
tividade existencial, já que criações singulares de sentidos e
de mundos a cada momento são “a única via capaz de fazer
frente ao fascismo em todas as suas dimensões”94 (GUATTARI,
2014). Político porque concebe ações e mundo em uma rela­
ção de imanência - e, portanto, impossível nos furtarmos à
responsabilidade das práticas psi nesse sentido, sejam quais
forem as escolhas metodológicas que façamos.
Estamos falando de modos de intervir que tom am o
lugar de produção, diferente daquele de reprodução, que
repetem técnicas já conhecidas. Eles tam bém têm seu lu­
gar no m undo, ao lado (talvez fosse m elhor dizer em meio)
às “psicologias-nós-tem os-a-solução”; na interferência dos
encontros em que se envolve; nos m esm os espaços que
aquelas práticas, pode-se dizer. Em m enor núm ero, é ver­
dade; a contragosto dos positivistas e m oralistas de p lan­
tão, é bem verdade tam bém . O leitor já intui, decerto, que
há práticas psi m enos preocupadas com a moral e mais
preocupadas com a ética (FUGANTI, 2009). Fato é que em
qualquer dispositivo terem os linhas mais endurecidas e
linhas mais maleáveis - um as im anentes às outras, efe­
tuando-se conform e um determ inado dispositivo perm itir
(DELEUZE, 1996).

93 A vida cá aludida tam bém não é a concepção de vida a qu e estam os hab itu ad o s - a de vida
m eram ente biológica.

94 No original, “la única vía capaz de dar batalla al fascism o en todas sus dim en sio n es”. Traduzido
livrem ente pela autora que vos escreve.

174
COMO FUNCIONA O DISPOSITIVO

Toca-nos pontuar que a concepção de dispositivo que


utilizamos é um a leitura que Gilles Deleuze (idem) faz do
conceito de Michel Foucault. São planos, agenciamentos,
conjuntos multilineares aos quais pertencemos e nos quais
agimos. Seus vetores constituem “os objetos visíveis, as
enunciações formuláveis, as forças em exercício, os sujeitos
em um a determ inada posição” que estão em cena em deter­
minado espaço-tempo (idem, p. 83). E “desenredar as linhas
de um dispositivo, em cada caso, é construir um mapa, car­
tografar, percorrer terras desconhecidas” (idem, p. 84).
Daí nos é útil ressaltar duas naturezas de linhas: aquelas
duras, de segmentação - que também podemos chamar de li­
nhas molares - e as linhas de força - as quais podemos chamar
de moleculares. Importa voltar a dizer que essas dimensões são
imanentes umas às outras: se distinguem, mas não se separam.
As prim eiras se referem ao que é forma, às figuras vi­
síveis, aos enunciados, bem como às enunciações que os
produziram em um determ inado dispositivo. Dispositivos,
desse modo, são como “m áquinas de fazer ver e de fazer
falar”. Para Deleuze (1996, p. 84-85):

Cada dispositivo tem seu regime de luz, um a


maneira como cai a luz, se esbate e se propa­
ga, distribuindo o visível e o invisível, fazen­
do com que nasça ou desapareça o objeto que
sem ela não existe. [...] Os enunciados, por
sua vez, rem etem para as linhas de enuncia-
ção sobre as quais se distribuem as posições
diferenciais dos seus elementos. [...] Assim,
um a ciência, num dado m om ento, ou um gê­
nero literário, ou um estado de direito, ou um

175
m ovimento social são definidos precisam ente
pelos regimes de enunciados a que dão ori­
gem. Não são sujeitos nem objetos, mas re­
gimes que é necessário definir pelo visível e
pelo enunciável, com as suas derivações, as
suas transform ações, as suas mutações.

Os vetores de natureza molecular, diferentemente, di­


zem do que é força, do que é invisível e indizível. Estão
sempre se entrecruzando e cruzando linhas de luz e de
enunciação, cobrindo seus trajetos e curvaturas, efetuando
ligações entre palavras e coisas. São dessa natureza as li­
nhas de poder e as de subjetivação: am bas tratam de forças,
ainda que as de poder95 contribuam para os m ovimentos de
retificação, “estratificação e sedim entação” (idem, p. 95),
enquanto que as de subjetivação digam de linhas que su­
peram , rompem, dobram as primeiras, efetuando fissuras,
criações inéditas, devires, novos modos de ser e agir. Estas,
contudo, nem sempre estarão presentes em um dispositivo.
As curvas de subjetivação, para Deleuze, são o caso de

quando um a força, em vez de entrar em re­


lação linear com outra força, se volta para si
mesma, actua sobre si m esm a e afecta-se a si
m esm a [...]. Pois tam bém um a linha de sub-
jectivação é um processo, um a produção de
subjetividade num dispositivo: ela está por
se fazer [...]. É um a linha de fuga. Escapa às
outras linhas, escapa-se-lhes. (idem, p. 86-87)

A questão que nos interessou nessa pesquisa repousa


sobre como urdir práticas psi inventivas - e, portanto, pro­

95 O conceito de poder utilizado por D eleuze (1996) é aquele trab alh ad o p o r M ichel Foucault ao
longo de toda a sua obra.

176
dutoras de novas estéticas de existência, outras maneiras
de estar no m undo mais potentes, livres, alegres - em con­
textos cuja lógica é tão rígida - e, por conseguinte, muitas
vezes reprodutora de tristes enrijecimentos nas m aneiras de
viver - como o da Justiça96 e de suas solicitações e expecta­
tivas quanto à psicologia. Em nosso caso, um a Justiça que
comparecia tanto na Procuradoria da República, quanto nos
estabelecim entos que tutelam juventudes minoritárias (exe­
cutoras das medidas “socioeducativas” e “de proteção”),
como operadora de moralizações e de hierarquizações.
A posição em que nos encontrávam os nessa experiên­
cia era de corda bam ba, de fio da navalha, de equilibrista.
Era de estar no meio e em meio a tais em bates de forças
im anentes, diariamente, em várias situações no dispositivo,
forças que como flechas nos cruzam a frente (e por vezes
nos dão belas rasteiras):

Assunto: uma borboleta bate asas e do ou­


tro lado do m undo se dá um furacão

Por aqui [na Procuradoria] as coisas vão


acontecendo... os jo ven s vão acontecendo:
aparecendo os egressos, sum indo os atuais,
“m elhorando” im ensam ente os que antes
eram motivo de reclam ação (a Héstia97 está
arrancando elogios e mais elogios da sua che­

96 A Justiça aparece aqui com letra m aiúscula por dizer de u m a instituição q ue funciona sob a lógica
de u m Direito b aseado em fatos objetivos, é produtora de ordem , organização, hierarquização e
segm entarização da vida.

97 Os codinom es dos jovens foram escolhidos a partir de um a conversa com u m dos ex-participantes
do A brindo C am inhos durante a feitura dessa pesquisa, na q u al perguntei q ue nom e fictício ele gos­
taria de receber no trabalho. Ele respondeu “Põe nom es de anjos, de heróis e deuses gregos, nom es
históricos, nom es im portantes. Assim , vai pegar a atenção dos leitores, eles vão se im pressionar e
ninguém vai se esquecer da gente qu an d o ler a dissertação”. A catei a sugestão... anjos, heróis? Fato
é que são personagens im portantes e inesquecíveis nessa história... Todos os nom es de servidores
citados são tam bém fictícios.

177
fe...), reclam ando, os que antes estavam tran-
quilos (Páris anda m al-hum orado), perdendo
m atrícula do colégio (Éolo, que foi hoje na
escola tentar recuperar vaga), se chateando
com chefia (Florence98 hoje ficou em burrada
com críticas de sua chefe), exibindo sorrisos
e habilidades com a câmera (Páris e Héstia
na oficina para operar câmera de vídeo que
o Jorge nos em prestou!)... Enquanto isso,
está difícil de reunir os jovens, está difícil de
conseguir sala, está difícil de m arcar reuniões
com setores... A Procuradoria segue funcio­
nando nas suas linhas molares, burocráticas,
m uitas vezes rápidas para o cum prim ento de
um prazo ou o fecham ento de um malote,
mas lenta para o ritmo juvenil.
(Diário coletivo “Ventovida”, em 14 de feve­
reiro de 2006).

O leitor já vai notando que o Programa Abrindo Cami­


nhos, enquanto política pública, pode ser considerado um dis­
positivo, com as múltiplas linhas que o atravessavam e cons­
tituíam. De fato, a investigação do conceito de dispositivo já
vinha se fazendo presente no grupo do Estação PSI há tempos:

Assunto: Sobre dispositivo

Oi, Cá. Depois de ler pela 9284723987590328-


570928350gésima vez o texto “O que é um
dispositivo?”, do Deleuze99, me senti na obri­
gação de te esclarecer um a coisa, caso tu não
o tenha feito ainda:
98 O nom e fictício dessa jovem foi retirado de um a m ensagem de e-m ail m e enviada p o r ela que
continha em anexo u m a apresentação de slides sobre “As heroínas anônim as d a Á frica”. Essa jovem
sem pre se m ostrou defensora dos direitos das m ulheres e dos negros, tendo instigado d ebates e
argum entações a respeito do tem a no espaço do A brindo C am inhos e d o estabelecim ento ao q ual foi
vinculada durante anos em m edida de proteção. Sua atitude firm e e sua trajetória de lu ta - u m a luta
para ter onde morar, para seguir rum os diferentes dos da sua fam ília, para estudar, para trab alh ar -
fazem dela, para m im , u m a heroína tam bém .

99 Em D eleuze (1996).

178
Ele fala mil vezes em “trocentas” [sic] linhas,
mas a divisão final que ele faz, referindo-se ao
Foucault, em suas três “fases” do pensamento é:
1) Linhas (ou dim ensões, ou curvas) de visibi­
lidade e de enunciação. (Dimensão do saber)
2) Linhas de força (correspondem ao poder)
3) Linhas de subjetivação ou linhas de fuga (o
que o Foucault chama de subjetivação, mesmo.)
Não precisa dizer que elas estão juntas, né?
Então, esta últim a é a dobra, para o Deleu-
ze100. Lembra que falamos disso no grupo [de
supervisão]? Então o projeto de trabalho edu­
cativo (ou o encontro das instituições com o
Estação PSI) tem linhas de saber e de poder
que podem os perceber quando nos convo­
cam àqueles lugares tecnicistas, etc. (saber)
e quando coisas são feitas ou não em nom e
da hierarquia (poder). Mas, no entanto, con­
tudo, porém, não obstante, existem essas
linhas de subjetivação que estão sem pre se
fazendo, seja no trabalho dos servidores com
os jovens, seja no diário coletivo, nos grupos,
nas reuniões... acredito que a cada vez que
se pára [sic] para pensar sobre, que se sai da
verticalidade, das linhas duras... o devir se
dá. Ou seja, quando se sai do lugar-com um -
exemplos: de trabalho (servidor) ou da trans­
gressão (jovem) ou da avaliação psicológica
(equipe de psicologia) - estam os todos nos
olhando e nos transform ando, e então é que
a dobra (criação de novos territórios de exis­
tência) se dá.
(Correspondência eletrônica com membro do
grupo Estação PSI, em 13 de novembro de 2006.
Observações entre colchetes feitas por mim.)

Deleuze (1996) faz mesmo esse jogo com o leitor a res­


peito do núm ero de linhas presentes em um dispositivo,

100 Ver tam bém D eleuze (2005).

179
ora dizendo que são três, quatro, ora afirm ando serem duas
as suas curvas - e não é só no texto referido que o arguto
pensador brinca com os vetores em questão101. Isso porque
o objetivo é exatam ente m ostrar que não im porta o quanto
nos detenham os no fator descritivo de o que é um dispositi­
vo (aliás, é perfeitam ente imaginável que Deleuze estivesse
rindo sarcasticam ente quando deu título ao seu texto; tal
qual o faria, quiçá, Foucault com seus sorrisos perigosos102
e zom beteiros). Mais relevante é o caráter de m ovim enta­
ção e incessante engendram ento de realidade referentes a
como ele funciona e quais efeitos tece.
Nesse sentido, o exercício e a experim entação de um a
psicologia que opere linhas de “actualização e criativida­
d e ” (DELEUZE, 1996, p. 95), no grupo de extensão Esta­
ção PSI, começa em seu próprio nome: Estudo e Ação em
Políticas de Subjetivar e Inventar103. Curvam o-nos sobre
nós, voltam o-nos para nós mesm os a fim de cartografar
que linhas de fuga são possíveis de se traçar e de fato se
traçam nos dispositivos que atuam os, bem como os m o­
m entos de im passe e captura em vetores de cristalização e
de exercício de poder.

Assunto: relato do sem inário pós-estágio

[... ] quem sabe esse lugar que não existe, e


por isso m esmo tem de ser inventado... esse

101 Tam bém no texto “Políticas”, do livro “D iálogos”, com Claire Parnet, é m o ntado u m vaivém de
afirm ações sobre as linhas de que está falando. Para saber m ais, co nsultar D eleuze e P arnet (2004).

102 D eleuze descreve Foucault com o o conjunto das sensações q ue n o encontro com ele se p assa, e
fala de seus “risos e sorrisos que se sentem com o ‘perigosos’ no exacto m om ento em que se expe-
riencia a te rn u ra ”.

103 Problem atizávam os esse nom e, eventualm ente: Estudo já n ão é ação? Subjetivações n ão são
sem pre invenções? Ações, e estudos, tam bém n ão são sem pre políticos, já que n ão neutros?

180
nem dentro nem fora, mas na borda, no entre,
no que h á de paradoxal. Talvez seja por isso
que para os servidores [...] seja tão complica­
do... isso mexe com certezas e objetividades,
essa tendência inexorável de definir um lugar
e a fixidez da hierarquia reproduzida nisso...
(Diário coletivo “Birutar”, em 15 de novem ­
bro de 2007)

Se fazemos parte de dispositivos e neles agimos, tais


linhas só podem ser cartografadas, visibilizadas, acom pa­
nhadas pelo fato de existirem encarnadas em nossas ações
e nas relações que estabelecem:

Assunto: a reunião de (indi)gestão

Acreditamos nos efeitos de um trabalho as­


sim, como dispositivo de análise de todas as
linhas que confluem (psi, jovem, trabalho,
políticas públicas, infração, hierarquias, po­
deres, etc). Queremos tencionar mesmo, evi­
denciar essas acomodações que nos tom am
a todos, esse distanciam ento do m undo de
carne e osso que costum a ocorrer em vários
organismos públicos (e privados).
(Diário coletivo “Ventovida”, em 02 de março
de 2007).

ADEUS, INSTRUÇÕES DE U S O

Na experiência do Abrindo Caminhos e na pesquisa de


mestrado, apostam os - assum indo-se aí todos os riscos! -
em um a psicologia sempre por se inventar, despojada de
manuais. Práticas psi inacabadas, perecíveis, um tanto

181
m am bem bes - posto que atentas à movimentação cons­
tante da realidade. Certezas vão por água abaixo, porque
não teimam os em aplicar técnicas prontas e esvaziadas de
sentido. Não se trata de apresentar um novo modelo de psi­
cologia, m áquina perfeita, hermética, definitiva. Trata-se de
fazer consistir um a ética, um modo de fazer psicologia que
abra mão de procedim entos pré-estabelecidos pelas violen­
tas utopias da governamentalidade.
Uma aposta libertária potencializada pelo encontro
com a “desorientadora” Cecília, que parece nunca se cansar
de recusar (com vigor!) o papel de detentora de verdades
absolutas e de afirmar “a potência da vida” (apesar dos
“cantos de sereia do capitalism o”!). Dane-se o clichê: as
derradeiras linhas serão de seu poeta preferido:

O s e n tid o n o rm a l das p a la vra s não fa z b e m ao poem a.

Há q u e se d a r u m g o s to in c a s to aos te rm o s .
H aver c o m eles u m re la cio n a m e n to v o lu p tu o so .

T a lve z c o rro m p ê -lo s a té a q u im e ra .

E scu re ce r as re la çõ e s e n tre os te rm o s em ve z d e acla rá -lo s.


N ão e x is tir m ais rei nem regências.

U m a c e rta lu xú ria c o m a lib e rd a d e co n v é m .

MANOEL DE BARROS

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18 4
D O B R A 3:

A M IN H A MAIS REMOTA
R E C O R D A Ç Ã O SÓ M U I T O
T E M P O D E P O I S EU V I M
S A B E R Q U E ER A UM C O M E T A . . .

185
P O R U M A A R T E DA M E M Ó R I A E DO
ESQUECIMENTO

Érika F ig u e ir e d o Reis

C o n v é m a d m itir q u e s o m e n te a q u e le q u e c o n s tró i

o fu tu ro te m o d ire ito de ju lg a r o passado.

FRIEDRICH NIETZSCHE104

Q u a n d o N ie tz sc h e n o s a p re s e n to u à a rte d a m e m ó ria e
d o e s q u e c im e n to , a ser e la b o ra d a , c o n tin u a m e n te , p o r m eio
d a g en e alo g ia, d a in te rp re ta ç ã o , d a av a lia ção e d a criação ,
ele n o s in d ic o u u m a im p o rta n te fe rra m e n ta ético -p o lítica
d e in te rv e n ç ã o n o real, n a m e d id a em q u e ela n o s p e rm ite
tra n s p o r re sig n a çõ es e re sse n tim e n to s , c o m b a te r silencia-
m e n to s v e n e n o so s e, ao m e sm o te m p o , c o n stru ir m em ó rias
q u e sejam p o n te p a ra a p ro d u ç ã o d e d iferen ça s, p a ra a b u s ­
ca d e d esv io s p a ra lo n g e d aq u ilo q u e n ã o m ais n o s in te re s ­
sa, d e tu d o a q u ilo q u e n o s ro u b a p o tên cia .
Em s u a “S e g u n d a C o n sid e raç ão In te m p e stiv a , so b re a
u tilid a d e e os in c o n v e n ie n te s d a H istó ria p a ra a v id a ”, de
1874, N ie tz sc h e (2005) q u e stio n o u o o rg u lh o d e su a é p o c a
d ia n te d e u m a v a s ta c u ltu ra h istó rica, o rg u lh o este tra n s ­
fo rm a d o em u m a v e rd a d e ira “febre h isto ric ista ”. N e sse c o n ­
tex to , a crítica n ie tz s c h e a n a d irig ia-se n ã o à n e c e ssid a d e

104 2005, p. 127.

187
de história, mas aos excessos que desestim ulam a vida e
paralisam a ação.
Para Nietzsche, o mais im portante é que a retom ada
do passado seja movida por um a necessidade do presente,
em favor de um futuro, de um porvir. Vale ressaltar que
o próprio filósofo se considerava um discípulo de épocas
mais antigas, especialm ente da Antiguidade Grega, mas sua
necessidade de saber estava orientada para a vida, pois,
segundo Nietzsche (2005), “É preciso que o conhecimento
do passado seja sempre desejado somente para servir ao fu­
turo e ao presente, não para enfraquecer o presente ou para
cortar as raízes de um futuro vigoroso” (p. 99).
Particularmente, interessou a Nietzsche (2005) a força
plástica presente na cultura grega, isto é, sua capacidade de
criar partindo de um a relação saudável com o tempo pas­
sado e futuro. A criação, em um a perspectiva genealógica,
supõe esse poder de assimilação e de liberação, ou seja, a
possibilidade de apropriar-se do passado de tal maneira que
depois seja possível dele se liberar. Para o filósofo, tornar-se
o herdeiro de um passado supõe a ação de tentar superá­
-lo, e não continuar seguindo os mesmos modelos. Portan­
to, em Nietzsche, criar é superar-se. Nesse movimento, o
passado comparece, precisa ser relembrado para, então, ser
submetido a um a crítica do presente, com vistas ao futuro.

É som ente a partir da mais elevada força do


presente que tendes o direito de interpretar
o passado; é som ente na extrema tensão das
vossas faculdades mais nobres que adivinha-
reis o que é grande do passado, o que é digno
de ser conhecido e conservado
(NIETZSCHE, 2005, p. 126).

18 8
Em N ie tz sc h e (2005), o p a ss a d o , com o a m e m ó ria , n ão
p o d e m ser co n sid e ra d o s m ero s arq u iv o s, m as sim in s tru ­
m e n to s c a p a z e s d e serv ir à v id a. Do c o n trá rio , to d o o sab er
q u e n ã o ag e co m o u m a força tra n sfo rm a d o ra o rie n ta d a p a ra
fora, p a ra a v id a, p a ra a criação , serv e tão s o m e n te p a ra
e m p a n tu rra r e c o n trib u ir p a ra a fo rm a ção d e “u m a ce rta
in te rio rid a d e caó tic a q u e o h o m e m m o d e rn o d esig n a, com
e s tra n h a so b e rb ia , co m o s e n d o a su a ‘in te rio rid a d e ’ e sp e c í­
fic a ” (NIETZSCHE, 2005, p. 100).
E ssa in te rio rid a d e caó tica, re p le ta d e tu d o a q u ilo do
q u a l n ã o se c o n se g u iu d a r c o n ta , do q u e n ã o foi p o ssív el se
d esv e n cilh ar, o q u e n ã o foi p o ssív el digerir, é, p a ra N ietzs-
che, u m a en fe rm id a d e , a d o e n ç a d o re sse n tim e n to : q u a n ­
d o “e sm o re c e n o h o m e m o v e rd a d e iro in s tin to d e cu ra, ou
seja, o in s tin to d e d efesa e o fe n sa. N ão se sa b e n a d a re c h a ­
çar, d e n a d a se d esv e n cilh ar, d e n a d a d a r co n ta - tu d o fe re ”
(NIETZSCHE, 1995, p. 30). O re sse n tim e n to n a sc e d e ssa
fra q u e z a , d e s sa su sc e tib ilid a d e d o e n tia q u e c o n d u z à im p o ­
tê n c ia e à sed e d e v in g a n ç a , ao rev o lv er v e n e n o s em to d o s
os sen tid o s, c o n tin u a m e n te . E star esc la rec id o so b re o re s­
s e n tim e n to é e sta r a te n to a e ssa in d ig estã o fu n e sta , a fim de
re to m a r u m p a th o s ag ressiv o d e su p eraçã o .
N ie tz sc h e (1998) a lte ro u as co n c ep çõ e s tra d ic io n a is do
e s q u e c im e n to e d a m e m ó ria , a fim d e to rn á-lo s forças a ti­
v as. O e s q u e c im e n to d eix a e n tã o d e ser algo p assiv o p a ra
to rn a r-s e u m a força in ib id o ra ativ a, q u e tra z sosseg o , p ro ­
teg e o p re s e n te e g u a rd a e sp a ç o p a ra o novo. A ssim com o
ta m b é m a m e m ó ria n ã o será e n te n d id a co m o u m a rq u iv o
m o rto , co m o já o d issem o s, q u e g u a rd a as m arc as d e u m
p a s s a d o in ex o ráv el, n ã o tran sfo rm áv el. D e sse m o d o , ao in ­

18 9
v és d e u m p assiv o “n ã o -m a is-p o d e r-liv ra r-se ”, a m em ó ria
será e n tã o in te rp re ta d a com o “u m ativ o n ão -m a is-q u ere r-
-livrar-se, u m p ro sse g u ir q u e re n d o o já q u e rid o , u m a v e rd a ­
d eira m e m ó ria d a v o n ta d e ” (NIETZSCHE, §1, p. 48).
O lem b rar, em N ietzsc h e, é, p o rta n to , e sse c o n tin u a r
q u e re n d o o já q u erid o . A m e m ó ria d a v o n ta d e in d ic a esse
seg u ir q u e re n d o , em q u e a p a la v ra v o n ta d e n ã o se c o n fu n ­
d e com a in te n ç ã o d e u m a c o n sc iê n c ia n o agir, m a s é algo
c a p a z d e lig ar o q u e já foi c e rta v e z q u e rid o , d e se ja d o , a u m
q u e re r q u e se p ro je ta n o futuro.
C om o m e n c io n a m o s os te rm o s “e m p a n tu r ra r”, “d ig e­
r ir ” o u “in d ig e s tã o ”, cab e e n tã o sa lie n ta r q u e, em N ietzs-
che, co rp o e esp írito são u m só, d e fo rm a q u e m e m ó ria e
e s q u e c im e n to fa zem p a rte d e u m m e sm o p ro c e sso d ig esti­
vo. D ito d e o u tro m o d o , m ais d o q u e a e x p ressão d e u m a
feliz m etáfo ra, esses p ro c esso s, com o a tiv id a d e s d o corpo,
se c o n fu n d e m com o p ró p rio p ro c e sso d e d ig estão . C om o
le m b ro u F erraz (2002), N ietzsc h e, em v ário s m o m e n to s de
s u a o b ra , re to m o u co n ceito s do ca m p o d a fisiologia e fez
d eles fe rra m e n ta s c o n c eitu ais p a ra p e n s a r su a filosofia,
co lo ca n d o d e fin itiv a m e n te em x e q u e a se p a ra ç ã o feita tra ­
d ic io n a lm e n te e n tre co rp o e esp írito . A d ig estão foi e n tã o
e s te n d id a p a ra o c a m p o d o esp írito , “O e sp írito é u m e s tô ­
m a g o ” (NIETZSCHE, 2007 a, p. 246).
A ssim , p a ra m a n te r u m b o m fu n c io n a m e n to d o corpo,
N ie tz sc h e (1998) d e sta c o u o im p o rta n te p a p e l d o e sq u e c i­
m e n to co m o o g ra n d e “z e la d o r d a o rd e m p s íq u ic a ” (p. 47),
já q u e to d a aç ão e criação exigem e sq u e c im e n to . A v id a
c ria d o ra é e sq u e c im e n to , é a b a n d o n o , u m q u e re r e n tre g a r­
-se ao p o r fa z e r e d a r lu g ar ao novo, p o is “n ã o p o d e ria h av er

19 0
felicidade, jo v ialid ad e, e sp e ra n ç a , o rg u lh o , p re se n te , sem o
e s q u e c im e n to ” (1998, p. 47-48). O e s q u e c im e n to a q u ie ta
e silen cia a c o n sc iê n c ia e o su b m u n d o d e forças q u e g u e r­
re ia m c o n tin u a m e n te , o u e sta b e le c e m , e n tre si, a lia n ç a s e
tré g u a s te m p o rá ria s (FERRAZ, 2002).
O e sq u e c im e n to é u m a força p lá stic a q u e n o s p e rm ite
co in cid ir com o in s ta n te p re se n te , p o is in ib e q u a lq u e r fi­
x a ç ã o d e m a rc a s n a m em ó ria. Ao p a ss o q u e a m e m ó ria é
u m a fa c u ld a d e o p o sta , d e se n v o lv id a p a ra se s u p e rp o r ao
e sq u e c im e n to , p a ra su sp en d ê -lo , im p e d in d o su a a tiv id a d e
salu tar. E ssa re la ção e n tre e s q u e c im e n to e m e m ó ria e stá no
cen tro d a fo rm a ção do h o m e m com o u m “a n im a l q u e p o d e
fa z e r p ro m e s s a s ” (NIETZSCHE, §1, p. 47). O d e se n v o lv i­
m e n to d a m e m ó ria foi a q u ilo q u e o to rn o u confiável, in ­
clu siv e p a ra si m esm o , “p a ra poder, en fim , com o faz q u em
p ro m ete , re s p o n d e r p o r si co m o p o rv ir” (ib id em , p. 48).
A fo rm ação do h o m em ca p az d e p ro m e te r está n a o ri­
gem do q u e se p a sso u a c h a m a r d e re sp o n sab ilid ad e, e do
im en so e vio len to trab a lh o de co n stru ç ão de u m a m oralid ad e
d o costum e. C om o d estac o u F erraz (2002), p a ra N ietzsche,
o h o m em colocou em risco su a saúde, su a total co in cid ên ­
cia com o p re se n te e, p o r conseguinte, a condição d e su a
felicidade, em n o m e d e u m a o u tra p o tên cia, a q u e la q u e lhe
p erm itiu p ro jeta r-se no futuro, re sp o n d e r p o r si com o futuro,
enfim , a p o tên cia d e p o d e r in v e n ta r u m fu tu ro p a ra si.
P o rta n to , em n a tu re z a s fortes, n o b re s e ativas, ta n to
q u a n to a força d e p ro m e te r e re s p o n d e r p o r si, h á u m a su-
p e ra b u n d â n c ia d e força p lástica, q u e p ro p ic ia o e s q u e c i­
m e n to , e q u e as faz n ã o lev ar tão a sério se u s in im ig o s
e su a s d e sv e n tu ra s, p o is são in a p ta s ta n to p a ra o p erd ão ,

191
co m o p a ra a cu lp a. Seu a m o r fa ti é u m p o d e ro so an tíd o to
c o n tra o re m o rso e o re sse n tim e n to . H á a q u i u m p o d e ro so
m e ta b o lism o , c a p a z d e d ig erir as m ais d u ra s ex p e riên cia s.
O re sse n tid o , ao c o n trá rio , p o r n ã o co n se g u ir esq u ecer,
p o r te r a b o a d ig estão e n tra v a d a , a c a b a p o r to rn a r-s e u m
d ispéptico, refém d e seu p a s sa d o e d e su a s m arc as, in c a p a z
d e e x te rio riz a r d e fo rm a e s p o n tâ n e a su a ag ressiv id a d e, e de
lib era r-se p a ra o novo.
Claro está q u e o h o m em nobre, forte, saudável, n o s te r­
m o s n ietzsc h ean o s, ta m b é m p o d e en fre n ta r m o m en to s de
resse n tim e n to , já q u e a g ra n d e s a ú d e n ão d e sc a rta o valor
q u e p o d e ter a d o en ça, com o u m a p o ssib ilid ad e d e ru p tu ra
d a rep etição d e gestos e h áb ito s do cotidiano, com o u m a
o p o rtu n id a d e p a ra o ócio, o e sq u e cim en to e a criação (NIET­
ZSCHE, 2000 a, § 289). M as, n a q u e le q u e é nobre, o re sse n ­
tim e n to logo se co n so m e e se ex au re em reações im ed iatas,
p o r isso n ão chega a en venenar. Sua m em ó ria serve tam b ém
p a ra rejeitar o p a ssa d o , p a ra fo rn ecer elem e n to s q u e afastem
o p a ssa d o , seg u n d o a fó rm u la n ie tz s c h e a n a d e q u e “o p ró ­
prio p a ssa d o p ad e ce q u a n d o a h istó ria serve à v id a e se ac h a
d o m in a d a p elo s in stin to s v ita is ” (NIETZSCHE, 2005, p. 93).
S aúde, em N ietzsc h e, é c o n h e c e r a a rte d a m e m ó ria e
d o e sq u e c im e n to , a fim d e m e lh o r e n x e rg ar as forças q u e
fo rta le cem o p re s e n te e ab re m v ias p a ra u m a p o tê n c ia a ti­
va, u m a p o tê n c ia d e lu ta e re sistên c ia.
T o rn ar-se u m p rin c íp io seletivo, sa b e r g u a rd a r e h o n ra r
a q u ilo q u e tem v alo r p a ra si, e p e rd e r e e s q u e c e r o q u e n ã o
v ale a p e n a ser salvo, tu d o a q u ilo q u e e sto rv a a v id a, é a
ch av e p a ra e n c o n tra r o c a m in h o do q u e N ie tz sc h e (2001)
c h a m o u d e a g ra n d e saú d e , “u m a tal q u e n ã o a p e n a s se

192
tem , m a s c o n s ta n te m e n te se a d q u ire e é p re ciso adquirir,
p o is s e m p re d e novo se a b a n d o n a e é p reciso ab a n d o -
n a r ...” (§382, p. 286).
P o rtan to , a g ra n d e s a ú d e n ão é u m estad o q u e se ad q u ire
d e u m a v ez p o r to d as, p a ra n ele se conservar. Trata, an tes, de
algo q u e in c e ssa n te m e n te se p e rd e e se co n q u ista, com ex p e­
rim en taç ão , o u sa d ia e risco. E u m dos indícios m ais claros de
u m a saú d e forte é a p re se n ç a d e u m a g ran d e força plástica,
m o d elad o ra, reg en erad o ra, q u e p ro p icia n ão só o esq u e ci­
m en to , m as ta m b ém a criação d e u m a m em ó ria in sta u ra d o ra
d e m u n d o s, u m a m em ó ria d a v o n ta d e (NIETZSCHE, 1998).
T oda a filosofia n ie tz s c h e a n a é o rie n ta d a p o r u m a p e rs ­
p e c tiv a g en ealó g ica, se g u n d o a q u a l o p a ss a d o é re p e n sa d o
com o fim d e b u s c a r u m a c h a v e q u e e x p liq u e o p re sen te,
q u e n o s p e rm ita re sistir ao p re s e n te e, assim , a b rir c a m i­
n h o s p a ra u m te m p o q u e virá, isto é, a b rir possíveis.
N e ssa lin h a d e an álise, p e n s a m o s q u e o p ro b le m a éti­
co a ser se m p re re to m a d o , q u e r se tra te d e u m sujeito, de
u m p o v o ou d e u m a c u ltu ra , é o d e sa b e r a té q u e p o n to o
p a s s a d o d ev e ser e sq u e c id o , p a ra q u e n ão se to rn e o apri-
sio n a d o r do p re se n te . M ais a in d a , sa b e r em q u e m e d id a a
fo rça p lá stic a d e u m sujeito, d e u m povo, o u d e u m a cu l­
tu ra , será c a p a z d e a ssim ila r o p a s sa d o , c u ra r su a s feridas,
re p a ra r as p e rd a s e re c o n stitu ir as fo rm a s d e stru íd a s, ou
tra n sfo rm á -la s em algo novo. Isso im p lica a fa c u ld a d e ta n ­
to d e esquecer, q u a n to d e le m b ra r no m o m e n to o p o rtu n o
(NIETZSCHE, 2005).
C om o d e fe n d e u N ietzsc h e (2005), “a h istó ria só é su p o r­
táv el p a ra as p e rso n a lid a d e s fortes; p a ra as p erso n a lid a d e s
fracas, elas so m e n te co n se g u em su fo c á -la ” (p. 113). Q u an to

193
m ais fo rte o sujeito, m aio r será o q u a n tu m d e p a s sa d o q u e
ele p o d e rá assim ilar, a c o lh e r e tran sfo rm ar. A p ersp e c tiv a é
sem p re g en ealó g ica, isto é, o p re s e n te n o s força a p e n s a r o
p a ssa d o , com v istas a u m fu tu ro . O p a ss a d o e stá a serviço
d e u m p re s e n te e d e u m fu tu ro , e q u a n to m ais ele p o d e
ser assim ila d o e aco lh id o , m ais a b u n d a n te s e p o te n te s serão
seu s efeitos. U san d o u m a im ag em n ie tz sc h e a n a , “a árv o re
sen te m u ito m ais as su as raízes, a in d a q u e n ão p o s sa vê-las,
m as atrib u i a g ra n d e z a d elas à g ra n d e z a e ao vigor dos seus
ra m o s v isív e is” (NIEZSCHE, Co. Int. II, 2005, p. 93-94).
A co lh er u m p a s s a d o e u m a h is tó ria re q u e r q u e te n h a ­
m o s u m a m p lo c o n h e c im e n to a seu re s p e ito , a fim d e q u e
p o s s a m o s b e m a v a lia r o q u e é d ig n o d e se r c o n s e rv a d o ,
o q u e p re c is a ser re p a ra d o e a q u ilo q u e já p o d e ser d e s ­
c a rta d o . S ufocá-los, ao c o n trá rio , p o d e c o n d u z ir a re s s e n ­
tim e n to s , p a ra lisia s , d e b ilid a d e s e re p e tiç õ e s d o m esm o ;
re p e tiç õ e s d e a n tig a s a rm a d ilh a s , d a s q u a is já p o d e ría m o s
n o s te r lib e rta d o , ca so o p a s s a d o e a h is tó ria tiv e sse m sido
d e fa to u tiliz a d o s co m o in s tru m e n to s a se rv iç o d a v id a.
Vale le m b ra r q u e a m e m ó ria d e u m p o v o , assim com o
s u a h istó ria , são ta m b é m ca m p o s d e b a ta lh a , n a m e d id a
em q u e n ã o são a p e n a s a n a lis a d o re s o u d ec ifrad o res d e fo r­
ças, m a s ta m b é m , e so b re tu d o , m o d ificad o res (FOUCAULT,
2002). Eis a q u i a im p o rtâ n c ia d a h isto ric iz a ç ã o e d a desn a-
tu ra liz a ç ã o . N e sse sen tid o , fa zer g en e alo g ia e d a r se n tid o à
h istó ria , in te rp re tá -la , é ta m b é m o c u p a r u m a p o siç ã o e s tra ­
tég ica d ecisiva. O sa b e r h istó rico e stá in se rid o em u m c o m ­
b a te p o lítico e p a ra o p e ra r m u d a n ç a s é p re ciso reto m á-lo .
A queles q u e e stã o n a p o siç ã o d e p o d e r d iz e r a v e rd a d e
d a h is tó ria o c u p a m u m a p o siç ã o e stra té g ic a decisiv a, ra z ã o

19 4
pela qual as práticas de resistência precisam avançar nes­
se combate. Por isso, Foucault (2012) conferiu im portância
crucial ao ato de dar a palavra aos que ficaram para trás
nessa rede de saber, aos que não puderam tom ar a palavra
e foram obrigados ao silêncio pela violência da história, isto
é, por todos os sistemas de dominação que os fizeram calar.
Mas é im portante não esquecer o quanto, muitas ve­
zes, os vencidos nesse jogo discursivo, no qual a guerra
é travada através da história que a narra, são destituídos
não apenas da possibilidade de narrar sua própria história,
mas também expropriados de sua fala, própria do lugar que
ocupam , ou seja, passam a repetir o discurso dos vence­
dores. Assim é que famílias pobres, por exemplo, clamam
pela redução da maioridade penal, quando serão os seus
filhos, ou os dos seus pares, os primeiros a serem presos; ou
quando um povo considera necessários os controles mais
duros, que acabam por recair sobre ele mesmo, inclusive
os reivindicando na linguagem do poder dominante. Nas
palavras de Foucault (2012):

Há duas dificuldades. Primeira: os que foram


vencidos - aliás, no caso em que haja ven­
cidos - são aqueles a quem, por definição,
retiraram a palavra! E se, no entanto, eles
falassem, não falariam sua própria língua.
Im puseram-lhes um a língua estrangeira. Eles
não são mudos. Não é que eles falem um a
língua que não se tivesse ouvido e que, ago­
ra, nos sentiríam os obrigados a escutar. Pelo
fato de terem sido dom inados, um a língua e
conceitos lhe foram impostos. E as ideias que
assim lhes im puseram são a marca, cicatrizes
da opressão à qual foram submetidos. Cicatri­
zes, traços que im pregnaram seu pensam en­

19 5
to. Diria mesmo que im pregnam até suas ati­
tudes corporais. (p. 104)

M em ó rias a g u ç ad as, s u s te n ta d a s p o r firm es p ro p ó s i­


to s d e tra n sv a lo ra ç ã o , p o d e m ferir d e m orte, o u d e stro ç a r
a b arreira , a sisu d e z e o decoro forçado d e m u ita s h istó rias
p ro d u z id a s e a u to in titu la d a s com o oficiais. N esse caso, a
m e m ó ria é ta m b é m a rm a d e g u erra c o n tra silen ciam en to s,
p ro d u ç õ e s d e m ed o e m o ra lid a d e s q u e serv em à d o m in a ­
ção. O q u e re r-n ã o -e sq u e c e r u m p a ss a d o q u e p re c isa ser re ­
p a ra d o , e tra n s fo rm a r e ssa m e m ó ria em in stru m e n to d e lu ta
e re sistên c ia, n ã o é o m e sm o q u e n ã o -se r-c a p a z -d e -e sq u e c e r
u m a h istó ria q u e a to rm e n ta e, p o r isso, p e rd e r-se e e n v e ­
n e n a r-s e com re sse n tim e n to s. Os m o v im e n to s p a re c e m se
ap roxim ar, m a s h á e n tre eles u m a d iferen ça crucial: a crítica
do p re s e n te e a a p o s ta no fu tu ro , ou, m ais p o e tic a m e n te , a
d isp o siç ão p a ra c o n stru ir u m a m e m ó ria do fu tu ro 105.
C ertas m e m ó ria s d e fato n ão in te re ss a m ao poder, u m a
v e z q u e co n tro la r o p a ssa d o , p ro lo n g a r o n ão dito, é d o m i­
n a r o p re s e n te e b lo q u e a r p o ssív eis in v e rsõ e s n a s re la çõ es
d e força. N ão à to a, m u ito s d a q u e le s q u e in siste m em n ão
esq u ecer, e q u e q u e re m g ritar p a ra o m u n d o a su a p ró ­
p ria h istó ria d e te rro r e h u m ilh a ç ã o , ou q u a n d o se esfo r­
çam p o r tra z e r à lu z do p re s e n te h istó ric o s d e ex p lo ra ção e
v io lên cia, com o é o caso d a s lu ta s d a s m in o ria s (m u lh eres,
n eg ro s, p o b re s, h o m o ss e x u a is e to d o s os a tin g id o s p e la v io ­
lên cia do E stad o ), n ão raro são ta c h a d o s d e loucos, ra d ic ais
e a té re sse n tid o s, so b re tu d o q u a n d o n ã o a c e ita m p a rtic ip a r
d e a c o rd o s d e p a z , d e co n c iliaç ão e d e e sq u e c im e n to . N a

105 Termo proposto pelo Prof. A uterives M aciel, durante a qualificação de m in h a Tese de D outorado:
O que se quer quando se ped e por Justiça? Sobre o Espírito de Vingança e a atualidade do H om em
do Ressentimento.

196
verdade, mais apropriado seria dizer pseudoacordos, que
não passam de m anobras vis, perversas, que prolongam os
mesmos jogos de poder e dominação, sob a produção contí­
nua das paixões tristes da culpa, da punição e da esperança.
Assim é que, em nom e da ordem dem ocrática e da cha­
m ada conciliação nacional, muitos países latino am erica­
nos, como o Brasil, que sofreram ditaduras civis-militares
sangrentas, inventaram leis que pudessem favorecer o en­
terro solene de um passado incômodo, porque claramente
trata de um passado que coloca em discussão as próprias
bases que sustentam o cham ado Estado Democrático de
Direito. Essas são as verdades que, quando silenciadas,
tornam -se extrem am ente venenosas, haja vista a continui­
dade, em nosso país, de práticas de tortura, violências e
arbitrariedades praticadas por um corpo de polícia qualifi­
cado e regido por códigos militares.
Certamente, aqueles que sofrem violências podem cair
na teia do ressentim ento, e nela se perderem. Sem dúvida,
há ressentidos de esquerda e de direita; tanto no cume do
poder, quanto na sua base submissa. Mas o im portante é
saber que, entre guerreiros e ressentidos, o que os separa
e os distingue é a qualidade das forças, ou seja, se neles
predom inam as forças ativas ou as reativas.
Forças ativas estão voltadas para a criação, para a apro­
priação, para a construção de novas formas, para a afirm a­
ção de um a vontade de potência, para a afirmação de um a
diferença; ao passo que as forças reativas estão voltadas
para a negação do outro, são instrum entos do niilismo. As
forças reativas conseguem triunfar em um a pessoa, ou em
um a sociedade, porque decompõem outras forças, subtra­

197
em poder, separam a força ativa daquilo que ela pode, até
fazer com que a força ativa se reúna a elas, tornando-se
ela própria reativa em um novo sentido (DELEUZE, 1976).
Como reconheceu Deleuze (1976), trata-se de um problema
difícil e delicado, porque põe em jogo a arte das interpreta­
ções qualitativas.
O método genealógico é o que perm ite fazer esse dis­
cernimento entre forças ativas ou reativas; entre vontades
de potência que afirmam, e aquelas que não param de ne­
gar - e que, por isso, se transformam em vontade de po­
der e de domínio. Pode-se tam bém considerar que fazer
genealogia é um a forma de resistência criativa, um a vez
que trazer o passado para o presente, visando o futuro, é
o que nos permite identificar onde estão as forças reativas
e que formas de violência e pequenos fascismos elas es­
tão sustentando no presente. É preciso pensar, por meio de
um a análise genealógica, como e com que fim as violências
foram gestadas em nossa sociedade. Nisto reside a ética e a
política que podem os encontrar em Nietzsche.
Dentro de um a perspectiva nietzscheana, é im portante
que sejamos filhos do presente, sem, porém, abdicarmos
de um a postura crítica, pois é preciso fazer um a oposição
salutar a certos valores reativos que nossa época glorifica.
Em outras palavras, é im portante estarm os atentos ao nosso
tempo presente, agirmos sobre ele, contra ele, em benefício
de um tempo por vir, em favor de um futuro que há de vir
(NIETZSCHE, 2005).
Em suma, é preciso saber esquecer o que nos atorm enta
e paralisa, mas também querer lembrar o que no presente
é o efeito de heranças mortíferas que, por terem sido silen­

19 8
ciad a s p elo s jo g o s d e p o d e r - sem q u a lq u e r fo rm a d e re p a ­
ra ção à so cied ad e, so b re tu d o aos q u e fo ram p o r elas d ire ta ­
m e n te a tin g id o s - , n o s p e rse g u e m so b a fo rm a d e p rá tic a s
d e v io lê n c ia e to rtu ra q u e seg u e m v ig en tes n a s d eleg acias,
n a s p risõ e s, n a s in stitu iç õ e s d e a d o le sc e n te s q u alifica d o s
co m o in fra to res, n a s casas e n a s ru a s q u e se reb elam ; ou,
a in d a , so b a fo rm a d a in d ife re n ç a fren te ao s e x term ín io s de
p o p u la ç õ e s p o b re s, ao s d e sa p a re c im e n to s in ex p licáv eis e às
lu ta s d a s m in o ria s q u e, n a v erd ad e, d iz e m re sp eito a to d o s
n ó s, sem exceção, p o rq u e falam d a lib e rd a d e e d a p o s sib i­
lid a d e a b e rta d e n o s fa z e rm o s m ú ltip lo s, p lu rais, criad o res.
P o rta n to , a firm a r u m a a rte d a m e m ó ria e do e sq u e c i­
m e n to requer, n a m e sm a m e d id a , co lo car em p rá tic a u m a
a rte d a in te rp re ta ç ã o e d a av a lia ção q u alita tiv a . P ara N ietzs-
ch e (2000b), tu d o é in te rp re ta ç ã o , d e tal m o d o q u e in te rp re ­
ta r é in te rp re ta r in te rp re ta ç õ e s; in te rp re ta r é criar; m u d a r as
co isas e tra n sfo rm a r a v id a. T om ar a v id a com o in te rp re ta ­
ção e, a in d a , p e n sá -la n a d im e n s ã o crítica do in te m p e stiv o
- q u e s im u lta n e a m e n te e s tá n o te m p o , ag e c o n tra o tem p o ,
em favor d e u m p o rv ir - , im p lica te r a d isp o siç ã o e a co ra ­
gem d e d e stru ir p a ra criar, e n ã o p a ra conservar.
C om o n o s e n sin o u N ie tz sc h e (1995), m u ita s v e z e s o
p re ço d a c o n se rv a ç ã o é a m e n tira , em u m se n tid o m u ito
p reciso : o d e n ã o -q u e re r-v e r a to d o cu sto com o a re a lid a d e
n o fu n d o é co n stitu íd a , o u , a n te s, co m o foi p ro d u z id a e
v a lo ra d a , e co m o p o d e ser tra n sv a lo ra d a e to rn a d a o u tra.
T rata-se d e u m a filosofia d e a firm a ç ã o d a v id a , c e n ­
tra d a em u m d iz e r-sim à v id a , in c lu in d o -se os s o frim e n ­
to s e os p ro b le m a s m ais d u ro s, a fim de, “p a ra , a lé m do
p a v o r e d a co m p aix ã o , ser em si m e sm o o e te rn o p ra z e r

19 9
d o v ir a ser - e sse p ra z e r q u e tra z em si ta m b é m o p ra z e r
n o d e s tru ir...” (NIETZSCHE, 1995, p. 64). N e ssa citação ,
v is lu m b ra -s e o a m o r fa ti , ta n ta s v e z e s e x o rta d o p o r Niet-
zsc h e, assim co m o ta m b é m s u a tra n sv a lo ra ç ã o d e v alo res,
q u e co n feriu ao trágico u m se n tid o d io n isía c o , q u e a tin g e
o lim ite ú ltim o d a afirm a ção .

Um hom em que vingou faz bem aos nossos


sentidos: ele é talhado em m adeira dura, de­
licada, e cheirosa ao mesmo tem po. Só en­
contra sabor no que lhe é salutar; seu agrado,
seu prazer cessa, onde a m edida do salutar
é ultrapassada. Inventa meios de cura para
injúrias, utiliza acasos ruins em seu provei­
to; o que não o m ata o fortalece. De tudo o
que vê, ouve e vive forma instintivam ente sua
soma: ele é um princípio seletivo, muito dei­
xa de lado. Está sem pre em sua com panhia,
lide com hom ens, livros ou paisagens: honra
na m edida em que elege, concede, confia [...]
Descrê de ‘infortúnio’, como de ‘culpa’: acer­
ta contas consigo, com os outros, sabe esque­
cer. (NIETZSCHE, 1995, p. 26)

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

DELEUZE, G. N ietzsch e e a filo so fia . P o rto , P ortugal: Ed.


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FERRAZ, M. C. F. N o ve Variações Sobre Tem as N ietzschia-
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FOUCAULT, M. E m D efesa d a S o cied a d e . São Paulo: M artin s
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20 0
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NIETZSCHE, F.. Ecce H o m o : como alguém se torna o que é.
2a ed. São Paulo: Companhia das letras, 1995.
____ . G enealogia d a M o ra l : um a polêmica. São Paulo: Com­
panhia das Letras, 1998.
____ . H u m a n o , d em a sia d o h u m a n o : um livro para espíritos
livres. São Paulo: Companhia das letras, 2000 a.
____ . C repúsculo dos Íd o lo s : ou como filosofar com o m arte­
lo. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 2000 b.
____ . A G aia C iência . São Paulo: Companhia das letras,
2001.
____ . A s s im fa lo u Z a r a tu s tr a : um livro para todos e para
ninguém. 16a ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasi­
leira, 2007.
____. “II Consideração Intem pestiva sobre a utilidade e
os inconvenientes da História para a vida (1874)”.
In:____ . Escritos sobre H istória. Rio de Janeiro: Edi­
ções Loyola, 2005.

2 01
P R O D U Z I N D O PLURAIS:
F R A G M E N T O S DE H I S T Ó R I A S DA
PSICOLOGIA

D a n ielle P in h e iro da Silva

Algum as trilh as do sistem a neoliberal podem ser


percorridas se utilizarm o s fragm entos de h istórias que
atravessam o cam po da psicologia no Brasil. Como ana-
lisadores da im plicação do profissional psicólogo na sua
prática política, retom am os alguns capítulos da disserta­
ção de mestrado: “Um ‘Conto’ sobre o Sindicato dos Psicó­
logos do Estado do Rio de Janeiro: Algumas Trilhas do Sis­
tem a N eoliberal” a fim de com partilhar algum as questões
suscitadas por sua construção.
Problem atizando a diversidade de forças e formas
através das quais as sociedades vêm se organizando,
vem os como um a processualidade faz proliferar plurais
na dita continuidade histórica. Considerando seus even­
tos datados e contextualizados, perm eados por fluxos e
linhas que se entrecruzam e se distanciam , a partir de
alguns entrelaçam entos e encontros destes ganham visi­
bilidade alguns aspectos para nós im portantes. Tal m ovi­
m ento de produção dos acontecim entos, se com preendido
por D eleuze (1998, p. 145), m ostra que tanto os indivídu­
os como os grupos são form ados por linhas. Estas podem

203
ser duras, flexíveis ou de fuga; pode ser que um a ou duas
delas não estejam visíveis, m as sem pre presentes: já que
im anentes, em aranhadas estão um as nas outras. Não ten ­
do nem começo nem fim, tal produção só pode ser anali­
sada a partir do meio.
Geralmente, quando tentam os contar um a história,
buscam os as origens dos fatos como se a partir daquele m o­
mento fosse construído aquele objeto ou situação. Quando
analisam os as coisas “pelo m eio”, entendem os que algo já
estava em processo, não havendo nenhum a origem a ser
descoberta, mas sim um processo a ser contado.
Entendemos que as instituições se formam em um a
dança entre as forças instituintes e instituídas. É im portante
frisar que as forças instituídas, estas que produzem modos
cristalizados, em algum mom ento talvez tenham sido insti­
tuintes. Os instituídos são forças formadoras, os instituintes
são forças mais plásticas - trazem algo que ainda não está
definido, mas em construção. Sendo as linhas duras o que
há de instituído, possuindo limites mais claros, as flexíveis
são, assim, aquelas mais maleáveis, pois, perpassadas por
vários ritmos podem traçar modificações e fazer desvios,
trazendo o imprevisível. Já a linha de fuga traz o potencial
de criação que, através de limiares, leva os processos ao
ainda desconhecido. As linhas de fuga podem destacar-se,
surgir depois ou, simplesmente, cair no buraco negro; tal
como Deleuze aponta um de seus perigos: sempre há a pos­
sibilidade destas linhas tornarem-se “linhas suicidárias”,
levando-nos inclusive aos microfascismos. Deste modo,
entre forças e formas, é preciso atenção ao que sutilmente
emerge na produção das histórias.

20 4
Antes da regulam entação da profissão, o primeiro cur­
so de graduação em psicologia surgiu na década de 50, na
Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-
-Rio). Havia, nesta época, psicólogos que exerciam sua ati­
vidade sem qualquer titulação acadêm ica ou tendo várias
formações, devido às disciplinas de psicologia em seus cur­
sos. Como veremos, condições específicas farão com que
apenas na década de 60 a profissão seja formalizada.
Segundo Coimbra (1995), a década de 1960 no Brasil foi
um período intenso, marcado por num erosas e im portantes
m udanças. Inicia-se, durante o governo de Juscelino Ku-
bitscheck (1956-1961), um a fase de notável desenvolvim en­
to econômico do capitalismo e relativa estabilidade política.
Construindo em torno de si um a aura de simpatia e confian­
ça entre os brasileiros, Juscelino fortaleceu a m odernização
no país por meio do crescimento da industrialização e ex­
pansão do capitalismo m onopolista, levando os segmentos
médios urbanos a aum entarem significativamente.
Em 1962, a profissão de psicólogo é então regulam enta­
da pela lei 4.119, em 27 de agosto, e prom ulgada por meio
do decreto n° 53.464, em 21 de janeiro de 1964. Entre os
anos de 61 e 64, o governo de João Goulart, por sua vez,
praticou um a política voltada para o povo, com o apoio
de movimentos populares e dos sindicatos. Neste mesmo
período, o capitalismo internacional buscava alternativas e
mercados para sua expansão, colocando nossa democracia
em cheque. As alianças de paz em prol de um país em bus­
ca do progresso foram se fragilizando, provocando fissuras
na anterior estabilidade, atravessada então pelas relações
entre o governo e as forças econômicas, criando um alto

2 0 5
ín d ic e d e d e s c o n te n ta m e n to . Os se g m e n to s d a p o p u la ç ã o
q u e e n tã o e sta v a m b a s ta n te fo rta le cid o s p e la p o lítica d a
ép o c a, co m o os m o v im e n to s e stu d a n tis, in te le c tu a is e sin ­
dicais, fav o reciam m aio re s e n fre n ta m e n to s p o lítico s d e n tro
d o c o n tex to d e p re ssã o n eo lib eral.
Os ac o rd o s e n tre os seto re s p o p u la re s e o g o v ern o de
G o u la rt c o m e ç a v a m a a m e a ç a r a e x p a n sã o d o ca p ita l e s ­
tran g eiro . E sta te n s ã o levou à eclo são do G olpe d e 1964,
q u a n d o os m ilitares in s ta u ra ra m u m reg im e d itato rial. A
p a rtir d isso , as forças a rm a d a s do p aís p a s sa ra m a serv ir
ao s in te re sse s in te rn a c io n a is d e fo rm a m ais d e c la ra d a , com
o ap o io m assiv o d o c a p ita lism o in te rn a c io n a l e d e g ra n d e
p a rte d o e m p re s a ria d o n ac io n a l.
O g o lp e d e E stad o e sta b e le c e u u m a o rie n ta ç ã o p o lítica
a lin h a d a com as forças d o cap ital e stra n g e iro , o q u e levou a
m u d a n ç a s n a s p o lítica s e c o n ô m ic a s e sociais. Os m ilitares,
com o ap o io d e seto res civis, p a s s a ra m a exercer a d ireç ão
d o p a ís d e fo rm a a u to ritá ria , c e n tra liz a d o ra e b u ro c rá tic a .
Os sin d icato s ficaram e n tã o sob in te rv e n ç ã o d o E stad o , s u ­
b o rd in a d o s a in d a m ais fo rte m e n te ao M in istério d o T rab a­
lho. D u ra n te o p e río d o d o G overno d o P re sid e n te Vargas,
n a d é c a d a d e 50, os sin d icato s ta m b é m foram su b m e tid o s
ao M in isté rio d o T rabalho, te n d o su a s fu n ç õ es lim ita d a s e
c e rc e a d a s a té o g o v ern o JK, te n d o os tra b a lh a d o re s sido
p ro ib id o s d e fa zer greve o u d e m o n s tra r su a in sa tisfa ç ã o de
q u a lq u e r o u tra form a.
C om o a p o io , estím u lo e in ic ia tiv a d o g o v ern o d ita to ­
rial, co m eç av a-se a p ro d u z ir in te n s a m e n te o d e sin te re sse
p e la s p a rtic ip a ç õ e s e q u e s tio n a m e n to s sociais - “O im p o r­
ta n te n ã o é o q u e se faz, m a s o q u e se s e n te ” e ra o slogan

20 6
d a ép o c a, c o n stitu in d o u m p se u d o e s v a z ia m e n to político
com o fo m en to d e u m a e n o rm e p sico lo g izaç ão do co tid ian o
e d a v id a social. P ela in s ta u ra ç ã o d e u m m o d o d e subjeti-
v aç ão in d iv id u a liz a n te , é d is se m in a d a a ilu são d a asc e n sã o
social p elo esforço p esso al: d e d iq u e -se a p e n a s ao tra b a lh o
e à fam ília, n ã o se p re o c u p e com p o lítica. E sta n o v a c o n ­
fig u ração social vai sen d o p ro d u z id a a ca d a dia, a p a s so s
largos, d e sin v e stin d o d e forças os m o v im e n to s sociais. A
p sico lo g ia e n s in a d a e p ra tic a d a à é p o c a levava e n tã o à inte-
rio riz a ç ã o d o s p ro b le m a s, e n fa tiz a n d o os se n tim e n to s in d i­
v id u ais. E stes p a s sa v a m a ser re so lv id o s n o e sp a ç o p riv ad o
d o s co n su ltó rio s, e s v a z ia n d o os e sp a ç o s p ú b lic o s q u e p a s ­
sa ra m a ser v isto s com o perigosos.
No p e río d o m ais feroz d a d ita d u ra , a p ó s o Ato In s titu ­
cio n al n ° 5 d e 13 d e d e z e m b ro d e 1968, q u e a c a b o u com o
p o u c o q u e a in d a ex istia d e lib e rd a d e p o lítica e cu ltu ra l no
p a ís 106, fo ram cria d o s os C o n selh o s P ro fissio n ais d e P sic o lo ­
gia p e la lei 5766/71 - p e río d o d o terceiro go v ern o m ilita r do
G en eral Em ílio G a rra sta z u M édici (1969-1974) - , te n d o su a
re g u la m e n ta ç ã o p elo D ecreto n ° 7 9 .8 2 2 /7 7 o u to rg a d a pelo
P re s id e n te d a R ep ú b lica E rn esto G eisel (SOARES, 2010, p.
2 2 ). A p rim e ira eleição d e se u s c o n se lh e iro s só o c o rreu em
20 d e d e z e m b ro d e 1973.
Os C o n selh o s P ro fissio n ais são a u ta rq u ia s fe d era is com
a fu n ç ão d e o rien tar, fisca liz ar e d iscip lin a r a p rá tic a dos
p ro fissio n a is q u e só são a u to riz a d o s a ex ercerem su a s ativ i­
d a d e s a p ó s in sc rito s n e s te s esta b e le c im e n to s. A n tes d e su a

106 Foi o quinto decreto em itido pelo regim e m ilitar brasileiro, colocando em recesso o Congresso
e as A ssem bleias Legislativas da G uanabara, São Paulo, Goiás, Rio de Janeiro, Pernam buco e várias
C âm aras dos Vereadores em todo o país. Foram cassados os m an d ato s de 69 m em bros do Congresso
N acional (COIMBRA, 1995, p. 19-20).

207
criação, as “Sociedades Científicas” ocupavam esta função
a partir de um a cham ada postura neutra e objetiva. Aqui,
podem os observar que não h á um a separação tão clara en­
tre política e ciência como nos é propagado, mas um a rela­
ção de efeitos que interessam ser problem atizados.
Santos (2008) traz que a Associação Profissional de
Psicólogos do Estado da Guanabara (APPEG) foi fundada
em 1962 sem o propósito de se constituir como Sindicato.
Seu compromisso era ser um a entidade científica, voltada
para estudos e para a difusão da psicologia como saber.
Em 1968, este grupo deixou a APPEG e mais tarde criou a
Sociedade de Psicologia Clínica do Rio de Janeiro (SPCRJ),
em 1971, ficando a APPEG “inativa” até 1977.
Segundo Soares (2010), no II Encontro Nacional das
Sociedades de Psicologia, a Associação Brasileira de Psi­
cologia Aplicada (ABPA) e a SPCRJ foram convidadas e se
fizeram representar, porém ficou deliberado pelos presentes
que a APPEG (apesar de não constar sua participação na­
quele evento) seria responsável, juntam ente com a ABPA,
pela coordenação e realização do III Encontro, no Rio de
Janeiro, na Semana da Pátria, no ano de 1972.107
Ainda segundo Soares, foi no III Encontro Nacional de
Sociedades de Psicologia, nos dias 2 e 3 de junho de 1972,
na Fundação Getúlio Vargas (FGV), Rio de Janeiro, que foi
eleito e dado posse108 ao Conselho Federal de Psicologia - a
APPEG e a ABPA estavam presentes, mas a SPCRJ não se fez
107 N a publicação do Conselho Federal de Psicologia sobre a história da profissão n o Brasil (2010, p.
24-25), o ano do III Encontro N acional das Sociedades de Psicologia fica am bíguo entre 1972 e 1973.
Por haver esta dissonância, acham os m elhor apontá-la.

108 N esta m esm a publicação do Conselho Federal de Psicologia (SOARES, 2010) n as p. 25 e 27, há
referência à posse deste prim eiro Conselho Federal em dois m om entos: u m a n o III Encontro N acional
das Sociedades de Psicologia, em 1972 e outra perante o M inistro do Trabalho da época, em 1973.

208
representar. Lembrando que o grupo fundador da APPEG a
deixou para formar a SPCRJ em 1971; estas pessoas podiam
estar presentes no mesm o encontro representando estabele­
cimentos diferentes. Mas se a APPEG estava inativa, como
votou neste Encontro?
Segundo Theophilo (1972), a ABPA estava localizada
na Praia de Botafogo n° 186 sala 101 - Rio de Janeiro - GB.
A APPEG ficava localizada na Praia de Botafogo n° 186,
Rio de Janeiro, onde funcionava a FGV. O docum ento em
que constam estas informações faz parte dos arquivos do
Instituto Brasileiro de Estudos Sociais109, reconhecido como
sendo de Utilidade Pública e filiado a ISA110 da Unesco, da­
tado de 8 de novembro de 1972.
Todavia, encontram os no folheto da ABPA em come­
moração aos seus 40 anos que o primeiro vice-presidente
deste estabelecimento era o mesmo presidente da APPEG.
Pode-se pensar que as duas entidades teriam a m esm a
orientação política. Segundo Castro & Alcântara (2009), a
Associação Brasileira de Psicotécnica (ABP) foi criada em 2
de setembro de 1949, no Rio de Janeiro, tendo como obje­
tivo a luta pela regulamentação da profissão de psicólogo,
filiando-se à Associação Internacional de Psicotécnica. A

109 É u m a entidade com personalidade jurídica sem fins lucrativos de âm bito nacional e in tern a­
cional, tendo com o escopo principal propiciar, através dos Estudos Sociais, o Bem Estar Social da
H um anidade sob a égide cristã do povo brasileiro. D isponível em: h ttp ://w w w .cam ara.g o v .b r/sileg /
integras/187023.pdf. A tualm ente, encontra-se fechada por falta de recursos, m as m an tém u m site em
funcionam ento. Acesso 11/2010.

110 N ão foi en contrado o significado da sigla. É u m a associação fu n d ad a em 1949, com finalidades


científicas no cam po da Sociologia e das Ciências Sociais. Tem com o objetivo rep resen tar os soci­
ólogos em q u alq u er localidade com independência. É m em bro do C onselho In tern acio n al de Ciên­
cias Sociais e p ossu i o s ta tu s de O rganização N ão G overnam ental em su a relação com a Unesco,
além de ser co n su lto r especial do C onselho Econôm ico e Social d as N ações U nidas. Os m em bros
do ISA provêm de 109 países. D isponível em : h ttp ://w w w .cam ara.g o v .b r/sileg /in teg ras/1 8 7 0 2 3 .
p d f. A cesso 11/2010.

209
ABP estreitou laços com o Congresso Nacional Brasileiro
(CNB) a fim de garantir apoio aos projetos que diziam res­
peito à prática psicotécnica.
A ABP elabora então um anteprojeto de lei sobre a for­
mação regular do profissional, juntam ente com um m em o­
rial sobre a atuação da psicologia nos âmbitos da escola,
da clínica e do trabalho. Acredita-se que não foi aprovado
de imediato por constar na prim eira proposta que um a das
atividades deste profissional era a atuação na área clínica.
Na época, alguns segmentos do governo e da sociedade en­
tendiam que o psicólogo deveria ser um assistente técnico,
supervisionado por um médico. Como nos parece, a pro­
posta de sobrepor o saber médico à psicologia é anterior
ao que hoje discutimos como Ato Médico que, ainda após
décadas, tram ita no CNB.
Após a aprovação da lei que regulam enta a profissão de
psicologia, a Associação Brasileira de Psicologia Aplicada
(ABPA), ex-ABP, passou a ocupar a função de fiscalizar a
prática profissional. Por este motivo, encam inhou ao MEC,
em 1966, outro anteprojeto de lei com o objetivo de criar
os conselhos, participando da votação, em 20 de dezembro
de 1973, para eleger os membros efetivos e suplentes do
primeiro Plenário do Conselho Federal de Psicologia (CFP).
Em 1990, m udou sua sigla para ABRAPA, por descobrir que
a sigla anterior pertencia a um a entidade de propaganda,
atendendo assim a um aspecto legal.
Entre 1973 e 1977 não encontram os nenhum outro re­
gistro de outras participações em m ovimentos de psicólogos
por parte da APPEG. O Estado era o maior empregador de
psicólogos e durante a ditadura civil-militar (e o funcioná­

210
rio p ú b lic o n ã o p o d ia ter sin d icato ) n ã o p o d ia m fa zer greve.
As asso c ia çõ es e m erg iram com o e stra té g ia, co m o u m tipo
d e g rêm io u n iv e rsitá rio , tra ta n d o d e q u e stõ e s científicas e
fa z e n d o co n c u rso s cu ltu ra is, festas, co lô n ias d e férias.
V árias p e rg u n ta s v ã o se fo rm u la n d o , p o rta n to , ao
a c o m p a n h a rm o s e s te s flu x o s d e fra g m e n to s h istó rico s:
q u a is fo rças p o s s ib ilita ra m a c o m p o siç ã o q u e lev o u à re ­
g u la m e n ta ç ã o d a p ro fissã o d o p sicó lo g o ? P o r q u e se levou
e s te te m p o p a r a a p ro v a r a lei d a c ria ç ã o d o s co n selh o s?
Q u e e feito s e s ta lei p ro d u z iu , ao te r sid o a p ro v a d a , p o s te ­
rio rm e n te , n o a u g e d a d ita d u ra ? O n d e e s ta v a m os g ru p o s
q u e lu ta ra m p e la re g u la m e n ta ç ã o d e s ta p ro fiss ã o n a q u e le
p e río d o d e silêncio?
A h istó ria a q u e nos referirem os n ão é lin ear e evolutiva,
n ã o é co m p leta, segue fluxos in co m p leto s e laterais, e está
além dos d o c u m e n to s e d as falas: aqui, ev en to s se d estac am
d a h o m o g e n e id a d e e do c o n h e cim en to apriorístico. Q uem
p re te n d e falar d a h istó ria necessita, p o rta n to , ter a h ab ili­
d a d e d e esp a n ta r-se com as o b v ied ad es, d e sn a tu ra liz a n d o
lu g ares d ad o s - “Todo livro d e h istó ria é, (...), u m tecido de
in co erên cia, e q u e n ã o p o d e ser d e o u tro m odo; esse estad o
d e coisas é, certam en te, in su p o rtáv el p a ra u m espírito lógico
e b a s ta p a ra p ro v a r q u e a h istó ria n ão é lógica, m as p a ra isso,
n ã o h á rem édio, n e m p o d e h a v e r” (VEYNE, 2008, p. 27).
A ssim , Veyne ac re sc e n ta o q u ã o é curioso as lacu n a s da
h istó ria se fech arem a n o sso s olhos, e com o é n ecessário
esforço p a ra d iscern irm o s estes esp aço s vazios. U m a das h a ­
b ilid ad es re q u erid as p o r este trab a lh o artístico é o fato de
q u e q u em escreve a h istó ria p o d e d ed ica r v árias p ág in as, ou
talv ez capítulos, a a p e n a s u m dia, su p rim in d o an o s em seu

211
relato: com o se fosse u m ro m an ce, o leitor co n sid erará esta
lacu n a. A configuração h istó rica d e u m m o m e n to diz sobre
o co n tex to em q u e estam o s in serid o s, “d iz tu d o o q u e p o d e
dizer, e vê tu d o o q u e p o d e v e r ” (DELEUZE, 2007, p. 121); é
co m p o sta d e e n u n c ia d o s cujas leitu ras p o d e m extrair visibi-
lid ad es d as situ açõ es q u e ocorrem . É c o m p o sta p o r diversos
a c o n te cim en to s q u e nos servem com o an alisad o res, ca ta liz a­
dores d e forças p re se n te s em cad a situ ação e m o m en to .

TECENDO UM S I N D I C A T O

H av ia d u a s c h a p a s c o n c o rre n d o n a 1a eleição p a ra a
d ire to ria do C o n selh o R egional d e P sico lo g ia d o E stad o do
Rio d e Ja n e iro (C R P/R J) em 1977. U m a p a rte d a c h a p a q u e
p e rd e u n o p leito b u sc o u o u tro ca m in h o p a ra p a rtic ip a r d a s
a tiv id a d e s p o lítica s do seu se g m e n to p ro fissio n al: reativ o u
a A sso ciação já ex iste n te APPEG, q u e p o s te rio rm e n te p a s ­
so u a ser c h a m a d a d e APPRJ, d ev id o à m u d a n ç a do n o m e
E stad o d a G u a n a b a ra p a ra E stad o do Rio d e Ja n e iro . No
in ício d e s u a re a b e rtu ra , foi a c o lh id a p elo C R P /R J c o n ta n d o
com s u a in fra e stru tu ra . A ssim , foi p o ssív el re ativ á-la p a ra
m ais ta rd e tra n sfo rm á -la em S indicato.
Era u m p e río d o n o q u a l a d ita d u ra a in d a e sta v a p re s e n ­
te, em q u e as c e n su ra s e lim itaç õ es a in d a fa ziam p a rte da
ro tin a d a s p esso a s. O s sin d ic a to s e sta v a m v in c u la d o s d ire ­
ta m e n te ao M in istério do T rabalho, q u e e ra o re sp o n sá v el
p o r c o n c e d e r a C arta S indical. As exig ên cias e ram m u ita s,
h a v ia u m a leg islação esp ecífica, in clu siv e em re la ção à d o ­
c u m e n ta ç ã o q u e d ev e ria ser a p re se n ta d a .

212
Era n ec essário que, p elo m en o s, u m terço d a ca te g o ­
ria d a região p artic ip a sse, q u e fosse elab o rad o u m e statu to ,
fixado u m v alo r p a ra as m e n sa lid a d e s e o b tid a ap ro v ação
d a p ro p o s ta d e tra n sfo rm a ç ã o d e A ssociação p a ra S indicato
p elo s a sso c ia d o s atra v és d a co n v o cação d e u m a A ssem b leia
G eral q u e o co rreu em o u tu b ro d e 1977. S egundo S antos
(2008), a te m á tic a d e sta asse m b le ia foi “A situ a ç ã o ev o lu ti­
v a d a p ro fissão d e psicólogo no B rasil” e c o n to u com a p re ­
sen ç a d e 250 p sicólogos n a F u n d açã o G etúlio Vargas - RJ.
Era n ec essário , ta m b é m , a te sta d o ideológico: d u ra n te q u a se
to d o o p e río d o d a d ita d u ra (de 1964 a 1979), as p e sso a s q u e
q u ise sse m fa zer p a rte d e alg u m órgão p ú b lico , m esm o com o
estag iárias, e ram o b rig ad a s a co n seg u ir n o D e p a rta m e n to de
O rdem P olítica e Social (DOPS) u m a te sta d o d e q u e n ã o exer­
ciam a tiv id a d e s p o líticas co n sid e ra d a s su b v ersiv as, e p ro v a
d e b o a co n d u ta, d o c u m e n to exigido p a ra q u a lq u e r p e sso a
q u e q u ise sse o c u p a r u m cargo p úblico, a te sta n d o q u e n ão
re sp o n d ia a n e n h u m p ro c esso crim inal, em itid o pelo In sti­
tu to Félix P ach eco , p a ra os d ireto re s d a A ssociação. Q u an d o
u m novo g ru p o se in te re sso u em re to m a r a A ssociação, teve
q u e co m eç ar do zero, p o is n ão sab ia q u e m eram seu s filia­
d o s e n e m com o era c o m p o sta a ú ltim a direto ria. E sta A s­
so ciação só p o s su ía v id a ju ríd ica, m as e sta v a sem atu ação .
A m o tiv a ção q u e u n ia este n o v o g ru p o ia p o r v á rio s ca ­
m in h o s: d e sd e u m a p ro p o s ta d e re fo rm u laçã o do cu rrícu lo
m ín im o do curso d e g ra d u a ç ã o d e p sicologia, q u e tin h a u m
c a rá te r b a s ta n te n o rm a tiz a d o r, a té a d e a te n d e r às ex ig ên ­
cias feitas p elo M in istério do T rabalho p a ra o b te n ç ã o d a
C arta S indical. A pós a re a tiv a ç ã o d a APPRJ, a sed e p a sso u
a c o n ta r com cerca d e 30 asso ciad o s.

2 13
S egundo C an ab rav a111, n o p e río d o e n tre 1978 e 1979 a s ­
so ciaram -se m ais d e o ito cen to s e c in q u e n ta psicólogos, s u p e ­
ra n d o a in d icação do M inistério do T rabalho q u e era d e u m
terço d o s p ro fissio n ais in scrito s n o CRP/R J. Com o au m e n to
dos asso ciados, as co n trib u içõ es financeiras p o ssib ilitaram
alu g ar o a n d a r d e u m so b ra d o n o b airro do C atete, Rio de
Jan eiro , p a ra se estab e lece r a sede. A esc o lh a p o r esta locali­
za ção era p o r e sta r p ró x im a ao centro d a cidade, facilitando,
assim , a p re se n ç a d e u m m aio r n ú m e ro d e associados. Foram
criad as alg u m as com issões d e tra b a lh o com diversos o b jeti­
vos, d e n tre eles a m p liar a c a m p a n h a d e filiação ao S indicato,
criar cargos d e psicólogo n as secretarias do G overno do Es­
tad o , além d e u m a com issão d e im p re n sa re sp o n sáv el pela
p u b licaç ão do jo rn al P SIndicato, d e n tre outras.
A A PPRJ tin h a co m o p rin c ip a l d esafio a b rir m e rc a d o de
tra b a lh o p a ra os psicó lo g o s n o serv iço p ú b lic o e p a rtic ip a r
d a c o n s tru ç ã o d e u m p la n o d e carreira, in c lu in d o d isc u s ­
sões so b re carga h o rá ria e salário.
A p rim e ira so licita ção d a C arta S indical foi n e g a d a p o r
n ã o tere m cu m p rid o to d a s as ex ig ên cias feitas p e lo M in is­
tério d o T rabalho. Foi o rg a n iz a d o , e n tã o , o u tro e s ta tu to e
re a liz a d a o u tra eleição p a ra u m a n o v a d ire to ria d a A sso ­
ciação , já q u e n ã o p o d e ria h a v e r n a d ire to ria n in g u é m q u e
o c u p a s s e cargo p ú b lico . P ara isto, alg u n s m e m b ro s tiv eram
q u e se d eslig ar d a direção . A fo rm a d e c o n se g u ir fu n d o s
p a ra a A sso ciação , além d e c o n ta r com o ap o io do C R P/R J,
q u e tin h a a p ro x im a d a m e n te 3.200 in scrito s, era p o r m eio
d e festas, e v e n to s a lte rn a tiv o s etc.
A A sso ciação p a rtic ip o u d e m o v im e n to s p a ra q u e fo s­

111 Em artigo n ão publicado; por este m otivo não foi citado o ano.

214
sem criados cargos de psicólogos em várias secretarias do
município e para que houvesse desconto no imposto de
renda para as consultas em clínicas psicológicas, visto que
as consultas médicas já eram descontadas.
Apesar do cargo de psicólogo ter sido oficializado na
rede de ensino do Município do Rio pela Lei 95/1979, fez-se
necessária a intervenção do Sindicato em relação à prefeitu­
ra para que fossem em possados os concursados.
Eram frequentes as idas a Brasília para formar alian­
ças políticas no sentido de que fosse autorizada a trans­
formação da Associação em Sindicato. Alguns associados
tiveram grande participação nas lutas que se travavam na­
queles anos no Brasil, tais como as lutas por um a anistia
am pla, geral e irrestrita, dentre outras reivindicações. Ha­
via posições diferentes entres os associados: uns queriam
se envolver com questões mais amplas, ir para as ruas,
fazer passeatas, ajudar os exilados, bem como esperá-los
no aeroporto, por exemplo. Outros se colocavam contrários
a essas ações ressaltando que estas não condiziam com a
atuação deste tipo de estabelecimento.
O Sindicato teve, também, participação ativa frente ao
caso de um médico e psicanalista em formação que atua­
va no DOI-CODI/RJ no período de 1970 a 1974112 ao repu­
diar suas atividades como membro da equipe que torturava
“atendendo” aos presos políticos antes, durante e depois des­
sas violências. Além disso, deu apoio a dois psicanalistas que
foram expulsos da Sociedade de Psicanálise do Rio de Janei­
ro (SPRJ) por denunciarem o referido médico, que cursava
sua formação nesta sociedade, como membro da repressão.

112 Ver: Coimbra, 1995.

2 15
ANÁLISE DAS REPRESENTAÇÕES
“ONDE EU F I C O ? ”

A lógica re p re s e n ta tiv a se fu n d a m e n ta n a c ren ça d e q u e


é n ec e ssá rio q u e te n h a m o s alg u ém p a ra serv ir d e p o rta -v o z
d o s n o sso s in te re sse s. A ssim n ã o te m o s a n e c e ss id a d e de
n o s p re o c u p a rm o s com o q u e a c re d ita m o s, p o rq u e alg u ém
o fará p o r nós. C om o c o n se q u ê n c ia , se algo n ã o d er certo,
se m p re p o d e re m o s c u lp a r e sse alg u ém p o r n ão tê-lo feito d a
fo rm a q u e im a g in á v a m o s q u e d ev e ria ter sido.
O lu g ar d e v ítim a -c u lp a d o fo rta le ce a lógica cap ita lista,
p o is cria p a ra le la m e n te a d e sc o n fia n ç a d e tu d o e d e todos.
O m ed o se g e n e ra liz a e e n fra q u e c e as p e s so a s que, p o r b u s ­
ca d e p ro teç ão , exigem m ais leis e m ais tu tela, te n d o -se a
p ro d u ç ã o d a re p re ssã o e do co n tro le com o efeitos d ireto s
d e s ta lógica.
As leis q u e “p ro te g e m ” a v id a d e c a d a u m d e nós, ao
m e sm o te m p o elim in a m q u e m n ã o é “d ig n o ” d o b e m -e sta r
social q u a n d o su a s te cn o lo g ias d e c u lp a b iliz a ç ã o p ro p õ e m
im a g e n s d e re ferên cia. D e sta fo rm a, te m o s q u e a ssu m ir
id e n tid a d e s, caso co n trá rio , sen tim o -n o s a m e a ç a d o s em re ­
lação à n o s sa p ró p ria ex istên c ia - algo q u e n o s coloca em
u m a p o siç ã o p a ss iv a p e ra n te as situ açõ e s. Ao c red itarm o s
as re fo rm as e a ilu são d a s re p re se n ta ç õ e s, n o ss a p o s tu ra
d ificu lta a p e rc e p ç ã o d a p o ssib ilid a d e d e m u d a n ç a d a s m á ­
q u in a s ca p ita lísticas. A lém d isso , q u a n d o se te n ta d a r co n ta
d a s a n g ú s tia s q u e v ão em erg in d o a p a rtir d e n o ss a s p rá tic a s
d iária s, te m -se a n e c e ss id a d e d e “e n c o n tra r u m a ‘m is sã o ’”,
d e d ic a r-se a e s ta co m p u lsiv a m e n te , tra b a lh a n d o com afinco
sem d eix ar q u e n a d a in te rfira - p u ra m o tiv a ção a p a ix o n a d a

21 6
pela obsessão de um a produção que não consegue se dife­
renciar da produtividade requerida pelo mercado (COIM­
BRA, MONTEIRO & MENDONÇA, 2006).
Assim, existem profissionais que fazem “mais do que
podem ” para poder continuar a viver, em um processo de
sobreimplicação que “é a crença no sobretrabalho, no ati-
vismo da prática, que pode ter como um de seus efeitos a
dificuldade de se processar análises de implicações, visto
que todo o campo perm anece ocupado por um certo e úni­
co objeto” (COIMBRA & NASCIMENTO, 2004, p. 01).
Neste processo, pensam os que o mais im portante é
aprender a colocar em análise as formas que nos são dadas,
começar a questionar, não com reatividades, mas com um
olhar de inconform idade que busca saídas, fugas, afirm a­
ções, percebendo que as situações podem ser diferentes, já
que produzidas cotidianam ente por nossas práticas.
“Talvez o maior de todos os desafios para nós, hum a­
nos, seja o de desnaturalizar o m undo que nos cerca” (BAR-
ROS, 2007, p. 39). Assim, faz-se necessária constantem ente
a análise de implicação, para que possamos desnaturalizar
as instituições, incluindo um a análise dos sistemas de lu­
gares que ocupam os e onde não percebemos que estamos
reproduzindo lógicas correntes.
As possibilidades se criam pela ampliação de nosso
campo de atuação, perm itindo que os devires se afirmem,
positivem-se. Como nos alerta Guattari e Rolnik (1993) o
perigo não está somente no nível macro, nas grandes insti­
tuições, nos estabelecimentos, mas tam bém no nível micro,
entre nossos amigos e em nós mesmos, enredado em fan­
tasias e ilusões.

2 17
Ao a c o m p a n h a r os flu x o s d o s fra g m e n to s c o n ta d o s,
e n c o n tra m o s e s tra n h a m e n to s , c o n tra d iç õ e s, p e rd a s de
p a rte s d a s h is tó ria s q u e c o m e ç a m o s c o n ta n d o p e lo m eio.
E sp e ra -se q u e a p ro p o s ta n ã o te n h a sid o to m a d a co m o
u m a v o n ta d e d e “d e s c o b rir u m in íc io ”, tal co m o a h is tó ria
h e g e m ô n ic a te n ta n o s c o n v e n c e r q u e h á . N ão p r e te n d e ­
m o s tra b a lh a r com a v e rd a d e , n e m com o m e lh o r c a m i­
n h o : a p e n a s e le g e m o s a lg u n s d e n tre o u tro s q u e p o d e ria m
te r sid o e sc o lh id o s.
A v id a é p e r m e a d a d e c a m in h o s q u e e x p e rim e n ta m o s
e p ro d u z im o s , c ria n d o situ a ç õ e s e a c o n te c im e n to s q u e
re s so a m em n ó s, em o u tra s p e s s o a s e em o u tra s é p o c a s. A
n ã o v a lo riz a ç ã o d a s m e m ó ria s é p e rc e b id a n o s d e ta lh e s do
c o tid ia n o . N o sso p a ís p ro d u z c o n tin u a m e n te u m a c u ltu ra
d e ig n o râ n c ia d a s su a s d o c u m e n ta ç õ e s , d a s s u a s m e m ó ­
rias e h is to ria s é n e s te p lu ra l q u e fa z e m o s u m a h istó ria ,
e s ta q u e n ã o e s tá lo n g e d a g en te, e s tá em n ó s. A c a d a a ç ã o
e a c a d a d ia fa z e m o s u m a h istó ria , in flu e n c ia m o s p e s s o ­
as e re a liz a m o s e sc o lh a s q u e n ã o são c e rta s o u e rra d a s,
a p e n a s p ro d u z id a s . “A gora, eu so u h is tó r ia ”? - sim , n e s te
e x a to m o m e n to so m o s h is tó ria e é fa z e n d o h is tó ria a c a d a
in s ta n te q u e p re c isa m o s c o lo c a r o m e d o d e la d o p a r a n ã o
n o s p a ra lisa rm o s .

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VEYNE, P. C om o se escreve a h istó ria e Foucault revoluciona
a história. Brasília: Editora UnB. 2008.

22 0
T E N H O UM C O R A Ç Ã O C O M O A
F L O R S I L V E S T R E DO P R A D O :
N O T A S P A R A UM V I V E R EM
CAMPOS ENDURECIDOS

B ru n o G io v a n n i d e Paula Pereira R o s s o tti

SEMEADURA: ALGUNS PRESSUPOSTOS


METODOLÓGICOS

T ris te s das a lm as hum anas, q u e p õ e m tu d o e m o rd e m ,

Q ue tra ç a m linhas d e co u sa a cousa,

Q ue p õ e m le tre iro s c o m n o m e s nas


á rv o re s a b s o lu ta m e n te reais.

ALBERTO CAEIRO

H á alg u m as se m a n a s, u m a c a n e c a d e café a c o m p a n h a ­
v a-m e em u m exercício b a s ta n te ingrato. N avegava e n tre
v íd eo s p ro d u z id o s n as m an ife sta çõ es o co rrid as n o Brasil.
S eq u ên cias d e im ag en s re cen tes e aq u e la s q u e se av o lu m am
e n tre le m b ra n ç a s d e ju n h o do a n o p a ssa d o . O brigávam o-
-nos, eu e a q u e le líq u id o v ician te, ao to rtu ra n te exercício de
ex p lo rar to d as a q u e la s im ag en s, d a d o q u e p ro d u z o u m a tese
q u e to m a com o d isp o sitiv o as m a n ife sta çõ es, o b jetiv an d o ,
assim , p e n s a r as relações e n tre o resistir e a v id a n o c o n te m ­
p o râ n e o . É m iste r ap o n tar, co n tu d o , q u e as p a la v ra s “in g ra ­

221
to ” e “torturante” anunciam detalhes sobre m inha relação
com os vídeos e com o exercício de produção de um a tese.
Sobre a última, digo que, do alto deste terceiro ano de
doutoram ento, não me parece mais suportável aquela inces­
sante necessidade apontada pela academia, a da citação de
autoridade, costum eiram ente travestida - com o necessário
perdão do roubo da palavra às travestis - do uso de autores.
Queria resgatar um sonho de adolescente e ser poeta.
Não se trata aqui de condenar toda a escrita acadêmica
ao sabor de um pedaço de giz. Foucault já me fez chorar,
bem como Nietzsche obrigou minhas pernas a levantarem
de agitação, enquanto os dedos das mãos formigavam.
Contudo, perm itindo um a confissão, penso ter sido, em
verdade, a falta de talento para o em preendim ento poéti­
co, gerador da im possibilidade de ser um “Guardador de
Águas”113, que obrigou-me a escrever em prosa, citando as
palavras de outrem.
Alberto Caeiro, o heterônim o antiacadêm ico de Fernan­
do Pessoa, possui um a joia cham ada “Há poetas que são
artistas”, a qual se pode encontrar reluzindo em um livro
conhecido por outra profissão de pastoreio: “Guardador de
Rebanhos”. Assim o pastor-poeta diz:

E há poetas que são artistas


E trabalham nos seus versos
Como um carpinteiro nas tábuas! ...
Que triste não saber florir!
Ter que pôr verso sobre verso, como quem
constrói um muro
E ver se está bem , e tirar se não está!...

113 Em referência ao livro de M anoel de Barros (1998).

222
P ara te n ta r a c alen tar esse coração d e p o e ta frustrado,
g o staria de em b arcar d e m ão s d ad a s com o leitor em u m
exercício inverso ao h ab itu al. Em lugar d e co n stru ir m ais um
m u ro p a ra figurar altivo n a P latafo rm a Lattes, p reo cu p ad o
com a m étrica tão estrita dos textos científicos, p ro p o n h o p ro ­
d u zir u m a p ro sa q u e to m e en q u a n to dado m in h as m em ó rias
no m u n d o e q u e b u s q u e su a legitim idade n a v o z d e poetas,
citando, a p e n a s even tu alm en te, os g randiosos acadêm icos.
Peço, n e s se sen tid o , p a c iê n c ia a q u e m p o rv e n tu ra in ­
te re sse a c o m p a n h a r-m e n e s s a jo rn a d a , p a ra d e sc o b rirm o s
ju n to s a tese a ser “p ro v a d a ”. A p re sen tare i d iv erso s (a)caso s,
e s p e ra n d o co stu rá -lo s em u m fio co m u m , a saber, e n te n d e r
com o u m a re sistê n c ia p o ssív el ao terrív el e ao u b u e sc o algo
sim p le s co m o te r u m co ração d e flor. Isso m e faz re to rn a r à
h is tó ria d o s v íd e o s e d a se n s a ç ã o “to rtu ra n te ”.

GERMINAR: O C O NFRO NTO COM A


TERRA DURA

E, a q u e le

Q ue não m o ro u nunca e m seus p ró p rio s a b ism o s

N em a n d o u e m p ro m is c u id a d e c o m os seus fa n ta s m a s
N ão fo i m a rc a d o . N ão será e x p o s to

À s fra q u e z a s , ao d e s a le n to , ao a m o r, ao poem a.

MANOEL DE BARROS

U m a co n fu sã o d e sons. E stalidos d e m e ta l c o n tra m a ­


d eira , o som d e u m a b o m b a . O c o rrim ã o m etálico d e u m a
e s c a d a e p é s n e rv o so s são tu d o o q u e se vê. P asso s a c e le ­

223
ra d o s o b je tiv a n d o fugir d e h o m e n s fa rd a d o s q u e os cercam
e e n c u rra la m co m o q u e se d e g ad o trata sse . E m p u rra n d o
p e sso a s c o n tra a ro le ta e b a te n d o com o c a sse te te ao lado,
os so ld ad o s d a o rd e m e sc o rra ç a m u m a p e q u e n a m u ltid ã o ,
co m o u m d o n o v io le n to re p re e n d e seu ca ch o rro q u e fez xixi
o n d e n ã o d ev eria. A p o lícia m ilita r n ã o g o sta d e n in g u é m
m a rc a n d o o “seu te rritó rio ”.
São im a g e n s d e u m a c o n te c im e n to d o d ia 13 d e ju lh o
d e 2014, final d a co p a do m u n d o d e fu teb o l. O cu rio so tí­
tu lo d o v íd eo é “PM a ta c a p assa g e iro s n o m e trô d a S aens
P en a. 1 3 /0 7 /2 0 1 4 ”. O q u e se p a s s a d ia n te d o s o lh o s p ro v a
q u e o títu lo n ã o c o m p o rta exagero. N a d esc rição d o víd eo ,
a re sp o n sá v e l p elo seu u p lo a d assim o d escreve: “M in u ­
to s a n te s d e eu a p a n h a r: D u ra n te m u ita s b o m b a s, p risõ e s e
p o rra d a ria s d e PM s com ca c e te te n a p ra ç a S aens P en a, eu e
m e u m a rid o fom os os ú ltim o s a c o n se g u ir e n tra r n a e sta ç ã o
ch e ia d e g á s .” 114.
P e sq u isa r as m a n ife sta ç õ e s tem sido, em m u ito s se n ti­
do s, algo d e u m c u n h o te rriv e lm e n te m a so q u ista p a ra m im .
C resce, a ca d a se g u n d o p a ss a d o n o c o n ta d o r d o player, um
s e n tim e n to d e a b so lu ta a n iq u ila ç ã o d ia n te d a s v io lên cias
q u e se p ro d u z e m n o s e sp a ç o s d e m o b iliz a ç ã o coletiva, e s ­
p e c ia lm e n te as v io lê n c ia s in stitu c io n a is.
As b ru ta lid a d e s físicas, n o e n ta n to - e p o r algum m otivo
q u e a in d a hei d e p o r em an á lise - n ão são cap azes, em m im ,
d e so b re p u ja r o im p acto q u e o a p a re n te d esc aso d e q uem
as realiza p ro d u z . U m cap itão d a Polícia M ilitar do D istrito
Federal, so rrin d o , ju stifica ter lan ça d o gás nos m a n ife sta n ­

114 D isponível em: h ttp s://w w w .y o u tu b e.co m /w atch ? v = U d iEjuRCZM. Acesso em : 30 de julho de
2014.

224
tes mesmo sem a “invasão” do perímetro imposto pela PM:
“Porque eu quis. Pode ir lá e denunciar. Tá bom?!”115.
Retorno ao vídeo do metro, em pensam ento. Lembro­
-me dos gritos incessantes vindos da polícia: “Todo m undo
andando porra! Bora porra!”. De um a escada, antes que
um repentino corte impeça-nos de conhecer o desenrolar
dos eventos, a câmera capta um policial gritar: “Mete o pé!
Porra, tá filmando?!?!?!”. Fim da tomada. A m inha sensação
é a de náusea. A náusea, por sua vez, lembra Drummond:

Preso à m inha classe e a algumas roupas, vou


de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias, espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?
Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tem po não chegou de com pleta justiça.
O tem po é ainda de fezes, m aus poemas, alu­
cinações e espera.
O tem po pobre, o poeta pobre
fundem-se no m esm o impasse.

Insisto em pensar sobre a vitória dessa sensação de


impotência, nesses casos em que a atriz principal não é a
truculência vestida de agressão física. Salta aos meus olhos
o quanto de desejo há no exercício dessa violência. E meu
coração morre um pouco.
Sempre que se anuncia a oportunidade, tomo como im ­
portante ressaltar que não vivemos em um a democracia.
Parece-me digno apontar tal fato, diante dos poucos relatos
de arbitrariedades citados até esta página. Não cabe ao meu

115 D isponível em: h ttp s://w w w .y o u tu b e.co m /w atch ?v = x1HBKTzE3gA. Acesso em: 30 de julho
de 2014.

225
pensam ento tom ar esta nossa sociedade enquanto dem o­
crática ao lembrar do que vi e vivi em espaços anteriores de
trabalho, em carceragens, nos morros e nos atendim entos
à população do Complexo da Maré, onde o direito à vida é
um luxo com um ente dispensável. Qualquer um com o títu­
lo de eleitor pode exercer o direito de voto, em bora muitos
não tenham acesso ao mínimo de saúde, formação ampla,
alimentação básica... Os governantes lançam um a cam pa­
nha denom inada “vem pra u rn a ” tentando capturar o mote
das manifestações, “vem pra ru a ” em um uso de dociliza-
ção. Aos meus olhos, salta o fato de que nosso ato mais
“dem ocrático” e participativo seja o uso do verbo morrer.
Quando era técnico da Secretaria de Assistência Social e
Direitos Humanos do Rio de Janeiro, ouvia dos moradores do
Complexo do Borel os relatos de jovens espancados pela po­
lícia, pessoas desaparecidas, arbitrariedades de todos os gê­
neros facilitadas por aquela invasão das forças de estado que
se habituou chamar “Política de Pacificação”. Dos moradores
do Complexo da Maré, histórias muito semelhantes surgiam
no programa de extensão ao qual estava vinculado116.
Essas lembranças se misturam em meu interior e me for­
çam em um caminho perigoso e de difícil escapatória. Quando
assisto ao vídeo de um policial que chuta uma manifestante
por carregar uma bandeira, parece impossível fugir à reação
física do ódio. Ódio pela instituição, pelo homem fardado, por
todas as pessoas que se calam e assistem passivamente tais
atos. Nessa política de medo e morte na qual estamos jogados
e inseridos, como resistir à odiosidade e seus perigos?

116 No caso, o N úcleo Interdisciplinar de Ações para a C idadania, da U niversidade Federal do Rio de
Janeiro, ao qual estive vinculado de m arço de 2008 a m aio de 2013.

226
Muitas pessoas com as quais tenho entrado em con­
tato por ocasião de todas essas intervenções nos espaços
em que trabalhei e, especialmente, nas manifestações, têm
tom ado o confronto irado como operador político em face
às forças de estado, tom ando-as como inimigo com o qual
não se faz possível articulação. E é, de fato, trem endam ente
complexo fugir a esse pedido dos afetos que irrompem fren­
te às violências que se operam.
Costuma-se categorizar como resistência a ação violen­
ta frente aos terrorismos das forças de estado. Há, aí, um
perigo. Operar desta maneira impele-nos a um a dicotomi-
zação das lutas. Separar a população entre os extremos dos
“m anifestantes com bativos” e de um a “polícia violenta” pa­
rece um exercício que exclui todo um m undo de ações pos­
síveis que se dão no entremeio. Fazendo um apontam ento
- talvez ingênuo inclusive -, penso na oposição combativa
como um a reversão dos movimentos que se supõe de resis­
tência em um a posição de reatividade.
De modo a propor um a diferenciação entre estes dois
conceitos, de resistência e reatividade, preciso retornar a
um m om ento que se deu em m inha defesa da dissertação.
Professora Cecília Coimbra e outras tantas pessoas
especiais acom panharam meu processo de escrita para a
defesa, que culminou em um texto denom inado “Seguros
na Delegacia: as subjetividades encarceradas” (ROSSOTTI,
2011). Versava sobre o trabalho nos corredores das carcera-
gens em que trabalhei, onde assistia incontáveis casos de
violência partindo dos agentes de segurança.
Estripado que estava, trabalhar em tais espaços torna­
va-se cada vez mais difícil. Perguntava-me todo dia o que

227
era p o ssív el fazer, fu g in d o d e sse lu g ar n o q u a l fom os a lo ­
cad o s, d e m a n u te n ç ã o do h o rro r ca rcerário . N ão consigo
e x p rim ir em p a la v ra s a d ificu ld ad e q u e se im p u n h a a m im .
P ra tic a m e n te , to d o s os q u e m e e n v o lv ia m a p o n ta v a m com o
a n d a v a cu rv ad o , a m u a d o e com u m e n o rm e b u ra c o sem
ca b elo s n a n u c a . N o tav a q u e, em u m a c e rta m e d id a , to r­
n ara-m e, ta m b é m , u m p reso . E stav a e n c a rc e ra d o p o r u m a
fix id ez n o s p ro c e sso s d e te rro r e m o rte, c o n g e la n d o n eles
m eu s p e n s a m e n to s e afetos. A té q u e m e foi lido u m p o e m a
p o r m in h a o rie n ta d o ra . R e p ro d u z o u m tre c h o d e “A flor e a
n á u s e a ”, d e D ru m m o n d :

Todos os hom ens voltam para casa.


Estão m enos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.
Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.
[...]
Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço
do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rom pe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que um a flor nasceu.
Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nom e não está nos livros.
É feia. Mas é realm ente um a flor.
Sento-me no chão da capital do país às cinco
horas da tarde

22 8
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
[...]
É feia. Mas é um a flor. Furou o asfalto, o té­
dio, o nojo e o ódio.

B R O T A R : O N A S C E R DE G A L H O S EM
DIREÇÕES OUTRAS

P re firo as m á q u in a s q u e s e rv e m para não fu n c io n a r:

q u a n d o ch e ia s de areia, de fo rm ig a e m u s g o - elas

p o d e m u m dia m ila g ra r d e flores.


MANOEL DE BARROS

Enquanto a leitura do poem a me fazia chorar, notava


o quão bom resumo aquelas palavras eram para todas as
vezes nas quais me encontrei naquilo que chamarei aqui
de “campo endurecido”. A terra é dura dem ais para as mi­
nhas costas onde encontro a violência, o encarceramento
das subjetividades, a inviabilização das expressões plurais
de vida. Os pés doem ao cam inhar nessas estradas, costu-
meiram ente povoadas por cam inhos de pedras pontiagu­
das, nas quais nossas práticas estão contidas em modelos
que só fazem reproduzir a experiência de morte delimitada
pelo já instituído.
Isso é trem endam ente fácil de notar, quando se tenta
produzir um a prática de liberdade em um território milita-
rizado, ou no interior de um a carceragem. Hoje, constato
que é igualmente simples de ocorrer ao trabalhar na uni­
versidade. Um pouco de esperança morre em mim cada vez
que escuto um aluno justificar a ação de um justiceiro que

2 2 9
propõe o lincham ento de um batedor de carteiras. Volto à
sensação de estar em um a prisão toda vez que acom panho
a saúde de um servidor público ser atropelada pela hierar­
quização agressiva da burocracia federal.
Visto a carapuça que Drummond estendeu. Sinto-me o
“psicólogo do m al” que, levando o jornal, com um a sensa­
ção de m undo perdido, comete crimes diários, em nom e de
poder estar nesses campos, soletrando o que neles existe.
E o campo que olho diante dos olhos é terra seca, rachada,
sem vida. E m inha alma vira deserto. Busco os culpados,
individualizo quem teria arrancado de toda a existência
possível esses descam pados. Seria a polícia e seus policiais?
Seriam os “policicólogos” hábeis em m anter a ordem esta­
belecida, produzindo a culpa naqueles que se sentem ina­
dequados? Culpa dos alunos “não politizados”?
Até que um a flor nasce na rua...
Agradeço ter conhecido esse poem a, que de forma
especial desabrochou na data de m inha defesa, por con­
ceder visibilidade a algo para o qual m uitos sinais h a ­
viam sido oferecidos. As flores, por vezes, insistem em
rom per o asfalto.
E nquanto o ouvia ser recitado, lem brava-m e de
um poem a m uito caro a m im , que me foi p assad o por
tradição oral, em um m om ento de m in h a história. Ele
n arra a histó ria de um guerreiro o rien tal, em seu leito
de m orte, a agradecer e concedendo ao seu aluno m ais
caro a guarda de tudo que o en sin ara. A ssim , Takam atsu
Toshitsugo, diz:

Muito tem po atrás era um guerreiro perfeito


da tradição Koppojutsu.

23 0
Era corajoso e intenso como o Fogo,
Mesmo em batalhas contra anim ais perigosos.
E nem mil inimigos podem me fazer temer,
Pois eu tenho um coração como a flor silves­
tre do prado.

Com suas palavras, Takamatsu Sensei endereça a nós,


como a seu aprendiz, um desafio. Enunciar a força de um a
flor diante da lógica do terror, da odiosidade e da busca de
inimigos. Não de um a flor qualquer, mas de um a flor sil­
vestre do prado. Ele edita o convite que Cecília me fez, de
mãos dadas a D rummond, ao apontar que flores rompem
o asfalto duro, podem iludir a polícia, furar “o asfalto, o
tédio, o nojo e o ódio”. Ensinou-nos a ser “florzinhas”.
Não qualquer flor, todavia. Faz-se um a aposta na flor
silvestre do prado, em oposição à rosa ideal, bela, perfei­
ta, colorida, pura e delicada. A flor silvestre não nasceu
em um canteiro, envolta pelos cuidados de um jardineiro.
O cam po em que nasceu nunca foi afofado. Não houve
quem a regasse diligentem ente. Sua cor não é a mais evi­
dente. “É feia, m as é um a flor”. Q uando estão reunidas,
não é um aram e que as prende atadas, mas a organicidade
desorganizada que seus rizom as compõem. Elas vivem,
insistem , exatam ente, nos cam pos endurecidos. Existindo,
não sabem que resistem.

231
D E S A B R O C H A R : O D E S P O N T A R NO
HORIZONTE DE A L G U M A S V I D A S

D eixa q u e ela flo re ie a sua vida,

nunca vi u m a flo r fa z e r mal.

Vi, p a ra m in h a e te rn a alegria, a lg u m a s flores silv estres


d o p ra d o d e sa b ro c h a re m em c a m p o s en d u re c id o s. Trago a l­
g u m a s m e m ó ria s q u e m e serv em d e n o ta s p a ra v iv er n o s
c a m p o s e n d u re c id o s, com o u m a delas.
A p rim e ira d elas é que, ao c o n trá rio d a b e le z a d e u m a
ro sa d e ja rd im , a flor silv estre é feia, m a s flor.
Q u a n d o tra b a lh a n d o no cárcere, em u m d o s m o m e n ­
to s m ais difíceis, e n fre n ta n d o sa b o ta g e n s in stitu c io n a is à
p re s e n ç a d e n o ss a a tiv id a d e g ru p a l com os p re so s, o a c ir­
ra m e n to d e p o s tu ra s v io le n ta s d o s g u a rd a s e u m a p ro fu n ­
d a se n sa ç ã o d e im p o tê n c ia , A n a M arcela, c o m p a n h e ira de
ca m p o , ta lv e z m o v id a p o r e sse se n tim e n to d e “d e r ro ta ”
fren te ao e n c a rc e ra m e n to , su g eriu q u e u tiliz á sse m o s, em
u m d o s e n c o n tro s, u m p o e m a d e E d u ard o G a le a n o .117

As pulgas sonham com com prar um cão, e os


ninguéns com deixar a pobreza, que em algum
dia mágico a sorte chova de repente, que chova a
boa sorte a cântaros; mas a boa sorte não chove
ontem , nem hoje, nem am anhã, nem nunca, nem
um a chuvinha cai do céu da boa sorte, por mais
que os ninguéns a cham em e m esm o que a mão
esquerda coce, ou se levantem com o pé direito,
ou comecem o ano m udando de vassoura.
Os ninguéns: os filhos de ninguém, os donos de nada.

117 Eduardo G aleano, “Os n in g u é n s”. In: G aleano, E. O livro dos abraços. Porto Alegre: L&PM editora,
2005.

232
Os ninguéns: os nenhuns, correndo soltos, m or­
rendo a vida, fodidos e mal pagos:
Que não são, em bora sejam.
Que não falam idiomas, falam dialetos.
Que não praticam religiões, praticam superstições.
Que não fazem arte, fazem artesanato.
Que não são seres humanos, são recursos humanos.
Que não tem cultura, têm folclore.
Que não têm cara, têm braços.
Que não têm nome, têm número.
Que não aparecem na história universal, apare­
cem nas páginas policiais
da im prensa local.
Os ninguéns, que custam m enos do que a bala
que os mata.

Após a leitura, meu ânimo estava mais destruído do


que nunca. E após diversas intervenções que acom panha­
vam a atmosfera de pessimismo, um a particularidade, um
dos participantes pediu um pedaço de papel. Ana pergun­
tou se ele tinha gostado, falando que poderia dar o poem a
copiado para ele em um mom ento posterior. Ele insistiu:
- Eu gostei muito. De verdade. Mas esse poem a está
pela metade. A vida não é só isso. Não é só tristeza. Eu
quero um pedaço de papel para escrever a outra m etade do
poema. A parte que fala sobre a outra m etade da vida. Tem
m uito mais nela.
A flor é feia, m as é um a flor. N enhum a lógica pode
extirpar de um corpo a totalidade de suas potências. Não
h á totalitarism o capaz de aniquilar por com pleto a resis­
tência, a capacidade de se indignar ou de revoltar-se. Os
poderes - como o de aprisionar - alastram -se até onde o
desejo de m antê-lo em curso funciona. Tudo o que con­
tem plam os no m undo, inclusive as subjetividades, foram

2 3 3
produzidas. E se construídas foram desta m aneira, podem
ser diferentes, podem ser tornadas diferentes. Em algum
nível, trata-se de um a determ inada afirm ação da vida,
como declaração de possibilidades.
Não d “A Vida”, mas de propor um discurso a respeito
das vidas. Cavalgar com as vidas, pois elas insistem /resis­
tem atreladas à potência. As vidas, no plural, sem essência,
sem “Vida” em letra maiúscula. As vidas possíveis, as vidas
que existirem. As vidas, como potência de singularização,
tão atrevidas que obrigam aos poderes reguladores que ten­
tam insultá-las um a atitude reativa. As vidas insurgem, e o
controle - em bora hábil em capturar suas singularizações -
costum a ser pobre em potência inventiva, precisa articular­
-se para dar conta de suas ramificações-efeitos. “Pois viver
- lançando mão da perspectiva nietzscheana a respeito da
vida - é ir além da sobrevivência, é ser impiedoso com o
que nos enfraquece, é criar valores ‘novos’ - novos meios
de expressão” (FONSECA, 1997, p. 110).
É a partir de outro lugar que não o da dominação e
da sujeição, é a partir de um topos ocupado pela potência
de afirmar as próprias diferenças constituintes dos seres ou
ponto de vista da vida em processo de diferenciação que
possibilidades de modos de vida éticos se instalam.
E é justam ente nesse movimento de superar a necessi­
dade de um a beleza purista, na qual só alguns modelos de
vida cabem, que um a segunda pista para viver nos duros
campos surge-nos. As flores silvestres do prado não neces­
sariam ente sabem que resistem. Elas existem e insistem a
despeito do campo e a despeito de estarem retalhadas.
Alguém, o sujeito, as vidas, apenas se enunciam , até

23 4
um a torpe m anobra de contenção por parte de um poder.
Há, sim, a captura. Porém, há de haver a fagulha de um a
persistência em resistir. Da insubserviência à subversão, as
vidas insistem em existir. Elas, essas flores, essas vidas em
minúsculo, são algo antes mesmo de qualquer poder tocá­
-las. Aqui, a afirmação da vida se dá enquanto capacidade
de resistir à náusea, ao ódio, ao tédio.
Quando o poder confronta as vidas em enunciação e
produz terror, imobilidade ou um a - ainda mais temível
- servidão voluntária, de todas as estratégias de com ba­
te possíveis, um a das mais belicosas é o exercício de um a
insistência do viver nos bons encontros. E para “provar”
isso, proponho voltarmos ao nosso pastor, Fernando Pessoa
disfarçado de heterônim o Caeiro:

Que triste não saber florir!


[...]
Quando a única casa artística é a Terra toda
Que varia e está sem pre bem e é sem pre a
mesma.
Penso nisto, não como quem pensa, mas
como quem respira,
E olho para as flores e sorrio...
Não sei se elas me com preendem
Nem sei eu as com preendo a elas,
Mas sei que a verdade está nelas e em mim
E na nossa com um divindade
De nos deixarmos ir e viver pela Terra
E levar ao solo pelas Estações contentes
E deixar que o vento cante para adormecermos

Eu tam bém olho para as flores e sorrio. Venho acom ­


panhando a intervenção psi de alguns amigos em um a or­
ganização não governam ental que se presta a “resgatar”

235
jo v en s eg resso s do tráfico d e d ro g as e in seri-lo s n o m e rc a d o
d e tra b a lh o . E n e s s a p re p o te n te p a la v ra “re s g a ta r” p arece
haver, em n o s sa an álise, u m g ra n d e esforço d e d o cilizaç ão
d as v id as em m in ú s c u lo q u e p o r ele p a ssa m . P ed e-se q u e
sejam v id a s servis, q u e ac eitem q u a lq u e r tra b a lh o sucate-
a d o p a ra q u e e n tre m n a c ira n d a c a p ita lístic a com ra p id e z.
P ed e-se q u e q u e im e m ca m isa s com le m b ra n ç a s e sc rita s so ­
b re e ssa v id a a n te rio r q u e ag o ra d ev e m a b a n d o n a r com o
q u e m q u e im a as m e m ó ria s q u e c o n stitu e m tu d o o q u e são
e /o u eram . E xige-se u m a triste z a q u a s e asc é tic a d ia n te do
p ra d o d esé rtic o q u e se m o n ta sob seu s p és s u p o sta m e n te
d e so rie n ta d o s. U m d iário d e c a m p o d e u m dos p a rtic ip a n ­
tes do p ro je to m e fa z respirar:

Logo depois do primeiro m om ento do en­


contro, onde fizemos um m om ento de boas
vindas e um acordo do grupo, fomos para
o “tem po livre” que estava program ado e a
grande maioria dos jovens foi, eufórica, p u ­
lar na piscina! Todos se abraçavam e paravam
para tirar um a foto que vai ficar pra sempre
na m inha memória: ali não cabiam rivalida­
des nem ressentim entos da passagem que
tiveram pelo tráfico de drogas, a alegria não
deixava espaço para isso. Depois de muitas
fotos, outra foi bem marcante: todos pulan­
do juntos na piscina, m ergulhando fundo no
encontro com a alegria. Para mim, aquilo já
valeu o passeio todo! Agora escrevendo estou
todo arrepiado e prestes a chorar de emoção.
(Diário de Campo, William Penna, 2014)

C reio q u e q u e m d esc rev e u e ssa ce n a o lh o u p a ra as flo­


res e so rriu , ta m b é m , v e n d o n elas a co m u m d iv in d a d e d as

23 6
coisas sem religião. Ingenuidade? Discurso açucarado acrí-
tico? Não me esforçarei para traçar planos em um sentido
de legitimar a alegria que definiu o escritor. Porém, arrisco
dizer de um bom encontro, no qual foi possível que tantos
jovens que anteriorm ente marcavam suas vidas por juras
de morte por pertencer a “facções crim inosas” diferentes
estavam juntos, sorrindo, envoltos em um bom encontro.
E isso é, arrisco eu dizer, um determ inado exercício de
resistência pela alegria. Não aquela com açúcar de confei­
teiro enfeitando. A da flor que nasce entre a rocha e insiste
em existir. “Penso nisto, não como quem pensa, mas como
quem respira”. Olhar as outras flores sobreviverem, apesar
do terror, faz das minhas pétalas, m achucadas por esse pra­
do selvagem, um pouco mais coloridas. Assim, m inha vida,
que é minúscula, torna-se um pouco mais possível. Agrega­
-se algum sentido, ainda que obscuro, para se m anter ca­
m inhando por entre o solo rachado. “Não sei se elas me
compreendem. Nem sei se eu as compreendo a elas”.
Não um a busca salvacionista, mas um a crença em uma
determinada potência de diferenciação contida nesses bons
encontros, que serve como um pouco d ’água para um a planta
seca. No campo da prática psi, em que constantemente a vida
se acha confrontada, dar passagem à resistência que se expres­
sa, fortalecer os escapes ao controle e estar atento às capturas.
Perigo e potência. Ambos nunca estão dados. Não há a prática
que despertará sempre eventos potentes, nem aquela isenta
dos perigos. Estar flor nos campos e tentar produzir - com ele
- algo que divirja, porque, como diria Cecília Meireles, “a vida,
a vida, a vida, a vida só é possível reinventada”.

2 3 7
POLINIZAR: APOSTAS NO C O N T Á G IO
DO VIVE R

C a rre g o as flo re s d o ca m in h o ,

G u a rd o os não d ito s
E d e ix o ao v e n to as ce rte za s.

ANA MARCELA TERRA

D esculpo-m e àqueles q u e leram até o p resen te m om ento,


crendo q u e provaria a v erd ad e d ’“A V ida” com o resistência.
Feliz, ou in felizm ente não. A ú n ica v erdade p resen te aqui é
q u e sabotei, deliberadam ente, suas expectativas. D esejava e n ­
redá-los n este texto p ara q u e eu m esm o n ão seguisse sozinho.
A b a n d o n ad a a ideia de m étodo, seria fútil m an ter o com pro­
m isso com u m ideal científico positivista. Tento consolá-los
com as palavras de Caeiro, nosso p a sto r atento:

Todas as opiniões que há sobre a Natureza


Nunca fizeram crescer uma erva ou nascer uma flor.
Toda a sabedoria a respeito das cousas
N unca foi cousa em que pudesse pegar como
nas cousas;
Se a ciência quer ser verdadeira,
Que ciência mais verdadeira que a das cousas
sem ciência?
Fecho os olhos e a terra dura sobre que me deito
Tem um a realidade tão real que até as m inhas
costas a sentem.
Não preciso de raciocínio onde tenho espáduas.

Q u a lq u e r d iscu rso so b re as v id as, com letra s m in ú s ­


cu las, p re c isa c o m p o rta r a s u a im p o ssib ilid a d e d e e n c e rra ­
m e n to , d e fe c h a m e n to em u m ú n ic o significado. O corre-m e

23 8
que o eterno que há na vida é justam ente seu aspecto m u­
tante, indecifrável e repentino.
Provar a hipótese, então, torna-se saboreá-la. Experi­
m entar o doce e o amargo que não se furtam a entrelaçar,
na terra dura que m achuca as costas, e com preende tudo
que vai até o céu azul. Pois, talvez, trate justam ente disso.
A vida é espetáculo trágico do belo-feio e de todo o morno
que cabe no meio. Há a chuva. Por vezes ela nos fará cho­
rar, existirão aqueles m om entos em que ela nos fará sorrir.
Haverá de haver os mom entos em que choraremos de rir.
Não é o que queremos? Um m undo (re)nascendo, dia
a dia, instante em instante, transformado. Que o medo e a
m orte sejam substituídos por possibilidade?! Um determ i­
nado cam inhar que se aperceba que...

O preço da vida se paga vivendo, im pávido,


e recordando fiel o que dela foi dor ou con­
tentam ento. Termino esta m inha vida exaus­
to de viver, m as querendo m ais vida, mais
amor, m ais saber, m ais travessuras. A você
que fica aí, inútil, vivendo a vida insossa, só
digo: Coragem! [...] O único clam or da vida
é por m ais vida bem vivida. Essa é, aqui e
agora, a nossa parte. Depois, serem os m até­
ria cósmica, sem m em ória de virtudes ou de
gozos. (RIBEIRO, 1997, p. 12)

As flores silvestres nos ensinam a abraçar essa ânsia de


“mais travessuras”. As flores nos convidam, senão à perfei­
ção, ao exercício de reexistir.

239
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Pesquisa: Subjetividade, Política e Exclusão Social).
Programa de Pós-Graduação em Psicologia, Universi­
dade Federal Fluminense, Niterói, 2011.

240
D O B R A 4:

O Q U E N Ã O T E M G O V E R N O NEM
N U N C A T E R Á . O Q U E N Ã O TEM
V E R G O N H A NE M N U N C A T E R Á .
O QUE N Ã O TEM J U Í Z O . . .

241
Q U A N D O U M A M U L T I D Ã O DE
A N Ô N I M O S T O M A A P A L A V R A 118:
AS M A N I F E S T A Ç Õ E S -
- E X P E R I M E N T A Ç Õ E S DE J U N H O
DE 2 0 1 3 119

Cecília Maria B o u ç a s C o i m b r a

Eu p re firo ser e sta m e ta m o rfo s e a m b u la n te

Do q u e te r a q u e la ve lh a o p in iã o fo rm a d a s o b re tu d o (...)

Eu q u e ro d iz e r a g o ra o o p o s to d o q u e eu lhe disse a n te s
Eu vo u d e s d iz e r tu d o a q u ilo q u e eu lhe disse a n te s

Eu p re firo ser essa m e ta m o rfo s e a m b u la n te

Do q u e te r a q u e la ve lh a o p in iã o fo rm a d a s o b re tu d o
S o b re o q u e é o a m o r, so b re o q u e eu não sei q u e m sou (...).

RAUL SEIXAS

Q uerem os p en sar as resistências como práticas de


liberdade, como afirm ação e invenção de processos in é­
ditos de vida - outras lógicas e realidades. Como cria­
ção de possibilidades de ações fora do constituído, as
resistências se colocam pela afirm ação vigorosa do novo,
pela im anência de sua criação e não pela aposta em um
m undo futuro, em um a transcendência, m as através da
118 Expressão utilizada por G uattari no m aio de 68 francês, q u an d o da ocupação do Téatre de
l'O déon. Citado por Dosse (2010).

119 A gradeço às im portantes contribuições de A na M onteiro de A breu n a feitura deste texto.

243
e x p e rim e n ta ç ã o d e c a m in h o s q u e se fa z e m n o p ró p rio
a to d e c a m in h a r.
Em n o s sa so c ie d a d e d e seg u ran ça , os p ro c e sso s d e sub-
je tiv açã o d o m in a n te s p re te n d e m q u e n o s re sig n e m o s com
o p o ssív el q u e n o s é a p re se n ta d o , p a ra q u e n o s to rn e m o s
m ero s re p ro d u to re s p assiv o s. As m an ife sta ç õ e s-e x p e rim e n -
taçõ e s d e ju n h o d e 2013, to m a d a s co m o a c o n te c im e n to , fo­
ram , e n tre ta n to , m o m e n to s d e in te n sid a d e , d e ex p lo são ...

Como os festivais, os levantes não podem


acontecer todos os dias - ou não seriam ‘ex­
traordinários’. Mas tais momentos de intensi­
dade moldam e dão sentido a toda um a vida
[...] algo mudou, trocas e integrações ocorre­
ram; foi feita um a diferença. (BAY, 2001, p. 16)

Sem q u erer traçar q u a lq u e r histórico sobre essas m anifes-


taçõ es-ex p erim entações, p o d em o s ra p id a m en te p e n sa r com o
d esd e o início dos an o s d e 1990, em especial com a e m e r­
g ência do m o vim ento zap atista, no M éxico, são in au g u ra d o s
n o vos m o d o s d e fazer e p e n sa r a política e a ética, afirm ando
as diferenças. Ou seja, enfatiza-se “u m m u n d o o n d e caibam
m u ito s o u tro s m u n d o s ”120. Esses novos atores vêm forjando
m o v im en to s m últiplos e d issem inados, com o os m o v im en to s
d e ação g lobal121, os Occupy, d en tre vários outros.
N a v irad a do m ilênio, resistências anticapitalistas e antiau-
toritárias v arrem as ru as d a E uropa e d as A m éricas: u m a série
d e pro testo s e m anifestações p ro d u z em bloqueios singulares
em diferentes cidades (Seattle, Q uebec, G ênova etc.), d e n u n ­

120 Frase ouvida em um acam pam ento zapatista cham ado O ventic, n a Selva Lacandora, em Chiapas,
M éxico, e slogan do III Fórum Social M undial, em Porto Alegre, em 2003. Sobre o tem a, consultar
Coim bra e Sá Leitão (2009).

121 Sobre o tem a, consultar Ludd (2002).

244
ciando a financeirização do mundo. Movimentos horizontais e
autônomos surgem então em relação a partidos e instituições,
alguns chamados de “festas contra o capital”; ou seja,

Movimentos de revolta e desejo que ocupam


as ruas, interrom pendo a circulação dos car­
ros, dos cosméticos, da força de trabalho, dos
antidepressivos, dos delivery fast food e dos
gestores de tudo isto. (LUDD, 2002, p. 16)

Afirmação do devir-revolucionário, tais protestos re­


cusam o já tradicional e conhecido plano de transcendên­
cia no qual, um a vez, se chegaria ao socialismo através
da “grande revolução”. Desta vez, afirma-se o devir sem
preocupações com finalidades e objetivos a serem atingidos
- devir que implica em um fluir na contramão do dever.
Tais movimentos apontam para as forças da vida que
insistem em nós, forças que abrem, que forçam passagens.
Forças diversas e inquietas de existências e de m undos sem ­
pre vertidos em im ensas interrogações.
A ocupação das ruas como a afirmação de diferentes
territórios existenciais, como experimentações de diferentes
modos de pensar-sentir-viver a política em nossas vidas,
constituem acontecimentos que - no lugar de reduzirem o
gesto da resistência ao m undo sagrado das identidades co­
ladas a um sujeito, ou a um a bandeira, um partido político
- produzem experimentações que desfazem esses limites.
No entanto, no curso desse processo, observamos ten­
tativas de reduzir estas m anifestações-experimentações ao
M ovimento Passe Livre. Este foi um im portante deflagrador
de um a multiplicidade de forças e expressões diferenciadas,
a fagulha que incendiou várias cidades brasileiras, conse­

245
g u in d o lev ar p a ra as ru a s m ilh õ e s d e p e sso a s. In sa tisfa çõ es
d as m ais d iv ersa s fize ram p a rte d a s m ais v a ria d a s p a u ta s
e n tã o a p re s e n ta d a s . Os g ra n d es aliad o s d e sse ra stilh o de
p ó lv o ra fo ram , sem d ú v id a , as re d es sociais, a c a p a c id a d e
d e d ifu n d ir c o m u n ic a ç ã o - o q u e n o s a n o s a n te rio re s n ã o
o co rria. C o n tu d o , n ã o foi só c o n tra o a u m e n to d a s p a s s a ­
gen s, “n ã o foi só p elo s 20 c e n ta v o s ”: foram as p éssim a s
co n d içõ e s d e v id a n a s g ra n d es cid ad es, a p re c a riz a ç ã o d as
co n d içõ e s d e tra b a lh o , os v u lto so s in v e stim e n to s p a ra os
m eg a e v e n to s d e 2014 e 2016, críticas à p o lítica in s titu íd a e
se u s p a rtid o s oficiais, d e n tre m u ito s o u tro s 122.
“Vem, vem , vem p ra rua, v e m !” com o m o vim ento e sp o n ­
tân eo de a b e rtu ra através d e gritos, cantos, danças, risos, ex­
pressõ es d e alegria; nestes atos o q u e im portava era a sensação
q u e se tin h a de criar, ap reen são d e vibrações expandidas, de
liberação e reverberação contra as forças sisudas de fech am en ­
to, d e an u lação , de destruição com as quais convivem os coti-
dian am en te. E spinosa já nos alertava q u e “tu d o o q u e envolve
a tristeza serve à tirania e à opressão. Tudo o q u e envolve a
tristeza m erece ser d en u n ciad o com o m au, pois nos sep ara de
n o ssa p o tên cia de ag ir” (DELEUZE, 2002, p. 61).

[... ] quando arrom baram a porteira da rua,


muitos outros desejos se manifestaram. Fala­
mos de desejos e não de reivindicações, por­
que estas podem ser satisfeitas. O desejo co­
letivo implica imenso prazer em descer à Rua,
sentir a pulsação m ultitudinária, cruzar a di­
versidade de vozes e corpos, sexos e tipos e
apreender um comum. (PELART, 2013, p. a-3).

122 N ão por acaso, no Rio de Janeiro aconteceu o m ovim ento “O cupa L eblon” q u an d o vários m o­
vim entos acam param com barracas em frente à residência do então governador Sérgio Cabral Filho,
te ntando forçar sua saída com o slogan: “Fora Cabral!”.

246
Im portante ressaltar que o grosso dessas manifestações
era composto de jovens entre 15 e 25 anos, nascidos entre
1988 e 1998 - período pós-ditadura caracterizado pela re­
construção do Estado Democrático de Direito.
Muitos aspectos dessas manifestações-experimentações
poderiam ser aqui apontados tendo em vista a riqueza e a
multiplicidade do que aconteceu nas ruas de dezenas de ci­
dades brasileiras. Entretanto, iremos aqui lembrar três pon­
tos que mais nos afetaram: os sustos e a perplexidade de
todos diante de tais acontecim entos; a horizontalidade e a
ação direta autônom a e independente de partidos políticos
e sindicatos; e alguns efeitos em nosso cotidiano.

PERPLEXIDADES FRENTE AO
ESTRANHO

O e s tra n h a m e n to to m a c o n ta da cena, im p o ssíve l d o m e s ­

tic á -lo : d e s e s ta b iliz a d o s , d e s a c o m o d a d o s , d e s a c o n c h e g a -

dos, d e s o rie n ta d o s , p e rd id o s no te m p o e no e s p a ç o [...].


SUELI ROLNIK

Assim, as m anifestações-experimentações de junho vão


provocando sustos e efeitos dos mais diversos. Os poderes
constituídos, depois de um primeiro longo mom ento de si­
lêncio, veem-se forçados a apresentar algumas saídas capa­
zes de acalmar o clamor das ruas: promessas vagas e alguns
recuos. Por outro lado, temos a perplexidade dos grandes
meios de comunicação que, rapidamente, buscaram a di-
cotomia e a criminalização. As notícias apontavam para a

247
eterna luta do Bem contra o Mal. Narravam, especialmente
nos meses de junho e outubro (com a grande greve dos tra­
balhadores da educação no Rio de Janeiro), cenas que em
nada correspondiam às imagens mostradas.
Os argum entos utilizados nos levavam aos anos de
1970, em que os presos, os feridos e mesmo os mortos
eram culpabilizados através dos rótulos de provocadores,
terroristas, vândalos e baderneiros. O velho refrão era repe­
tido à exaustão: “se algo aconteceu fez por onde m erecer”.
Apregoava-se o direito democrático a toda e qualquer m a­
nifestação desde que dentro da ordem, dos limites de um
Estado Democrático de Direito.
Especialmente os intelectuais, os cham ados estudio­
sos dos fenômenos sociais, encontravam-se perplexos em
suas tentativas de classificar e explicar o inclassificável, o
inexplicável, o inesperado, o imprevisível. M entalidades es-
quem áticas e classificatórias tentavam explicar o que estra­
nham ente ocorria. Outros apontavam para a oposição entre
processo e resultado, afirmando que, apesar da riqueza e
potência do processo das manifestações - plano de expe-
rim entação-im anente, de devir-revolucionário - , havia a
necessidade de organizar/unificar as fragmentadas pautas
para que se pudesse chegar a um objetivo, a algum resulta­
do efetivo - plano de transcendência, futuro da revolução.
Em suma, essas manifestações colocaram em cheque,
especialmente, um a certa forma de pensar acostum ada às
cômodas explicações binarizantes que rejeitam e têm horror
às misturas, às multiplicidades. Encharcado de essencialis-
mos, esse modo de estar no mundo não consegue pensar o
“com o”. Sua preocupação é com “o que é ”. Pensar os movi­

248
mentos criadores, os devires m utantes que fogem às classi­
ficações não se inclui nesta lógica positivista, que enfatiza a
ordem e os modelos que devem ser seguidos; lógica que está
sempre pensando “sobre” e não “com ”; que acredita nas ho-
mogeneidades, nos universais, negando as singularidades -
“A título preliminar, diga-se que o acontecimento, no sentido
deleuziano, não é um a coisa nem um estado de coisa, muito
menos um a essência, não é um ser mas um entre-ser, um
inter-ser: o E em vez do É [...]” (DIAS, 1995, p. 32).
Neste outro modo de pensar, “um acontecim ento não
existe fora das suas efetuações, mas tam bém não se esgota
nelas, não está apenas no seu existir atu al” (ibidem, p. 89):
é um a “singularidade real estritam ente virtual”. Pensar este
campo das virtualidades, das “transformações incorporais”,
ou seja, este pensar “com ” é rechaçado pelo que hoje é he­
gemônico na Academia e no mundo.

HORIZONTALIDADE DOS
A C O N T E C I M E N T O S SEM S U J E I T O S

C o m a id e n tid a d e p e rd id a , o a ta q u e p o d e

c h e g a r d e q u a lq u e r lado,
in e s p e ra d o .

T u d o passa a ser im p re v is ív e l.

P o rta n to , p e rig o s o para os q u e d e v e m v ig ia r e punir.


LUTTER BLISSETT

Queremos aqui salientar como vão sendo engendrados a


cada manifestação - tal a multiplicidade e diferenças nas pau­

249
tas apresentadas - desvios nas conhecidas conduções centrali­
zadas, pretensamente únicas. São porta-vozes casuais e even­
tuais, não havendo controle e/ou direcionamento. “Não temos
um Jesus Cristo! Não temos um a liderança!”123, nos falava um
manifestante. Um outro: “Anote ai: eu sou ninguém!124.
Ou seja, driblam-se as ciladas policialescas dos gover­
nantes e da mídia que querem, através dos líderes, um a iden­
tidade. Em 31 de julho de 2013, a página dos Anonymus/RJ
dizia: “Quem somos nós? Não temos rosto, pois somos múl­
tiplos. Somos todos os rostos que se perdem nas multidões
de todos os dias, das filas dos ônibus, dos trens, dos metrôs
abarrotados [...]. Somos todos e nenhum ao mesmo tem po!”
Diante de tal riqueza não houve partido político, sindi­
cato ou qualquer outra estrutura hierarquizada que conse­
guisse expressar essas reivindicações. Estas arrebentaram a
lógica da representação. A estrutura hierárquica foi colocada
em questão. A lógica fortemente presente nos poderes cons­
tituídos, produto e produção da subjetividade capitalística é
a da crença em um m undo “lá”, ou seja, a prom essa de um
futuro, de um a redenção, da felicidade através da produção
da esperança que nos remete para a transcendência.
Em nossa sociedade de controle tenta-se, através de vá­
rios dispositivos, produzir tal captura através de promessas
não só advindas dos governos, mas, principalm ente, dos
partidos políticos que, naqueles meses, inseriam-se tentan­
do organizar essas manifestações. Organizar e, com isso,
limitar as forças desviantes singulares. Como organizar as
“transformações incorpóreas”?
123 Os dados e algum as falas aqui apresentados foram retirados do filme de Carlos Pronzato “A Partir
de Agora: as jornadas de J u n h o ”, 2014.

124 Título de u m artigo de Peter Pal Pelbart n a Folha de São Paulo (2013).

250
A produção de subjetividades “esperançosas-transcen-
dentes” expressa-se como um a força que tenta anular a
“experim entação-im anente” convidando-nos a “pensar no
futuro”, em um outro m undo apartado da experimentação.
Um outro debate travado referia-se à divisão entre orga­
nização de um lado e espontaneismo de outro. Alguns m ani­
festantes declaravam tratar de um a falsa binarização, visto
tudo se misturar. Ações espontâneas foram acontecendo e
um outro modo de gestão foi sendo gerado nessas experi­
mentações; novos modos de “organizar” que não se esgo­
tam neles mesmos. Grupos que se formam e se dissolvem.
Há ainda que ressaltar o trabalho resistente-solidário de
diferentes coletivos de advogados, de jornalistas das m úl­
tiplas mídias alternativas, de médicos, socorristas... Como
dizia um cartaz: “Saímos do facebook, estam os nas Ruas!”.
Dosse (2010) nos conta que no maio de 68 francês -
com todas as diferenças que existem entre aquele aconte­
cimento e as jornadas de 2013 -, Guattari era fascinado e
se extasiava com a “tom ada da palavra geral”, pois no seu
próprio dizer “essa experiência, para os que a viveram um
pouco de perto, é inesquecível” (p. 149).
Em suma, a horizontalidade, a gestão direta, as “li­
deranças” fugazes, a formação e dissolução de grupos, as
alianças tem porárias e a multiplicidade apontam para a
criação e produção de respiradouros que falam do novo,
do imprevisível, do acaso, daquilo que não se esgota em si.

251
EFEITOS QUE RESSOAM EM N Ó S

É p re c is o d e fo rm a r o m u n d o :

T ira r da n a tu re z a as n a tu ra lid a d e s .

F azer c a v a lo ve rd e , p o r e xe m p lo .
Fazer n o iva c a m p o n e s a v o a r - c o m o e m C hagall

A g o ra é só p u x a r o a la rm e d o s ilê n c io q u e saio p o r

A í a d e fo rm a r.
MANUEL DE BARROS

Não pretendemos fazer qualquer avaliação sobre o que


foram essas manifestações-experimentações em um sentido
interpretativo ou classificatório. Como acontecimento, como
um raio que vem repentinamente, estas ativaram processos
de diferenciação. Caminham lado a lado, o endurecimento, as
reações conservadoras e a criminalização, assim como a afir­
mação da vida e a potência que nascem com as interrogações.
O endurecimento e as violentas medidas de repressão fo­
ram modos de prestar satisfação e tranquilizar os investidores
internacionais, a FIFA, o Itaú, a AMBEV, dentre outros, reafir­
mando que os negócios estavam assegurados; que a Copa, as
eleições e as Olimpíadas se dariam de modo tranquilo.
Desde a virada do século com as manifestações-bloqueios
e vários outros atos de ação direta, as tentativas de isolamen­
to, criminalização e desqualificação estão presentes. Foram
sendo produzidos os “radicais”: criminalizou-se desde o uso
de máscaras, chegando-se à legitimação de armas chamadas
não letais, com flagrantes ilegalidades para o Estado Demo­
crático de Direito nas prisões arbitrárias e delegacias cheias
como forma de garantir o controle e produzir o medo.

2 52
Após centenas de prisões, no Rio de Janeiro, 23 m ani­
festantes foram enquadrados crim inalmente por “formação
de quadrilha”, “associação crim inosa” e “corrupção de m e­
n o r”. Estão até hoje, dezembro de 2015, em “liberdade con­
dicional”, não podendo sair do município sem autorização
judicial e tendo que, mensalmente, atestar sua presença125.
Serviços de inform ação continuaram a ser acionados
para tentar prever o que ocorreria durante as eleições até
as Olimpíadas. Policiais flum inenses aparentem ente fo­
ram treinados por agentes do F.B.I. M edidas preventivas
foram tom adas fazendo ressurgir leis e acordos de exce­
ção vinculados à segurança nacional, presentes durante
a ditadura em presarial-civil-militar. D esenterrou-se a Lei
de Segurança Nacional e o Rio de Janeiro transform ou-se
em área de segurança sob o controle das Forças Armadas
e G uarda Nacional, o que foi cham ado de AI-5 da Copa126.
Em outubro de 2015, o Senado Federal aprovou o Projeto
de lei n° 499 de 2013 (Projeto de lei Antiterrorism o) que
tipifica o crime de terrorism o no Brasil, estabelecendo a
com petência da Justiça Federal para o seu processam ento
e julgam ento e instituindo a pena de até 24 anos de prisão
em regime fechado. Nova Lei de Segurança Nacional em
tem pos planetários de “guerra contra o terro r”. Juridica­
m ente e, portanto, legalm ente vão sendo crim inalizados
os m ovim entos sociais e qualquer liberdade de expressão
e de organização que sejam considerados perigosos ao Es­
tado Democrático de Direito.

125 Em dezem bro de 2014, 03 desses 23 m anifestantes tiveram prisão preventiva decretada. Um
deles, Igor M endes, ficou preso por 07 m eses, Elisa Q uadros foi obrigada a ficar clandestina.

126 Trata-se do PL n° 728/2011 que, dentre outras coisas, proíbe greves du ran te o período dos jogos
e caracteriza com o “terrorista” quem “provocar terror ou pânico g en eralizado”.

253
Entretanto, ao lado disso, cai por terra o apoio un ân i­
me, geral e irrestrito às Unidades de Polícia Pacificadora -
UPPs, por exemplo, e as mobilizações nesses lugares ditos
como perigosos, em bora pequenas e invisibilizadas, vem
ocorrendo com bastante frequência.
Talvez um a das diferenças configuradas pelas mani-
festações-experim entações de 2013 seja a de possibilitar
afirm ar o que não se sabe ainda, de perm anecer na proble-
m atização, de conseguir produzir desvios para as respos­
tas rápidas que nos são exigidas. O desafio é se sustentar
neste “fio de n av alh a”, neste perm anecer nas problem ati-
zações inventando outras línguas, outros corpos capazes
de sustentá-las. É aí que se cria fugindo do entendim ento
racional do m undo e da vida, da arrogância da ciência, do
ego e do hum ano em querer ter resposta para tudo. Como
classificar e lim itar o imprevisível, o improvável? Como
organizar as “transform ações incorpóreas”? Como “classi­
ficar os encantos de um sab iá”?127 Pelo estranham ento, a
reinvenção e o desm anche de certas formas que vão sem ­
pre gerando outras, pois afirm am os com Deleuze (1998, p.
173) que “Toda m ultiplicidade im plica elem entos atuais e
elem entos virtuais. Não há objeto puram ente atual. Todo
atual se envolve de um a névoa de im agens v irtu ais”.
Assim, essas jornadas se apresentaram como “círculos
de virtualidades sempre renovadas” (idem). Enquanto “ex-
perim entações-im anentes”, interrogações e inconclusões,
compreendem, ao mesmo tempo, o real atual (mundo das
formas) e o real virtual (mundo das forças) e sem que pos­
sa haver limite assinalável entre ambos: segundo Deleuze

127 Barros (2010).

254
(1998), o atual é o com plemento ou o produto, objeto de
atualização, mas esta só tem por sujeito o virtual - a atu­
alização pertence ao virtual! E a atualização do virtual é
sempre um a singularidade.
Produzindo modos singulares de estar no mundo, as
manifestações-experimentações de junho de 2013 afirm a­
ram multiplicidades atuais e virtuais. Este é o grande desa­
fio para todos nós, visto que, inerente à vida, em seu fluxo
constante de interrogações e provisoriedades, é o “não sa­
b e r” como algo a não ser dominado (VALLE, 2014), ou seja:
é preciso reconhecer a dim ensão da travessia, afirmando-a
como a aposta ética e política de um processo sem finalida­
de prevista, junto às lutas cotidianas.

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25 6
GESTOS CRUÉIS

Livia F o r t u n a d o Val le

“Tá parecendo um a bicharada”, ouvia-se em um a es­


quina da rua Uruguaiana, entre a farmácia e um a pastelaria
chinesa, e os sons das lojas sendo fechadas. Ir adiante: é
preciso continuar, não posso continuar, vou continuar. Na­
quela semana havíamos presenciado a primeira barricada.
Uma multidão corria rumo a Avenida Presidente Vargas, após
começarem as bombas. Já era fogo aquilo que consumia o
lixo para dar passagem ao grupo de manifestantes128. Sozi­
nha, de repente, por sorte encontro dois conhecidos, que
logo me agarram para correr. Mais bombas. Não sabíamos o
que estava por vir, essa era a constante. Ficávamos encurra­
lados em diversos momentos. Com latas de lixo já reviradas,
o Banco Central apedrejado e pontos de ônibus pichados;
nas ruas, ouvíamos o fôlego da insistência, um devir incen­
diário. Presenciávamos o irreversível... algo como pôr fogo
em si mesmos. Asfalto em chamas, o corpo do poema: calor
e destruição, até nos restar... corpo. Foi um a “decadência”:
da cintilação do intempestivo ao corpo-alvo, mirado, biopolí-
tico, caído. Corpo. Desmaiados estavam os jovens, com o gás
lacrimogênio, as balas de borracha.
128 P rotesto contra o aum ento das passagens de ônibus no Rio de Janeiro realizado em 10 de junho
de 2013, no contexto geral dos grandes protestos (cujo início se d eu n as cidades de Porto Alegre e
São Paulo) no país em preparação para os m egaeventos esportivos.

257
PREÂMBULO

Uma realidade entrem eada de fios elétricos, choques.


Antes era dentro dos manicômios, agora, realizam-nos a
céu aberto. A tropa chega com suas armas: visa interrom ­
per outra eletricidade, aquela entre os corpos. O que seria
essa relação uns com os outros, tão perseguida e cercada,
controlada, normatizada?
O êxtase assinala um tipo de pertença não rem etida a
nenhum tipo de vínculo, é pura comunicação entre singu­
laridades, um a comunicação infinita; um dom que recebe­
mos “das mãos vazias da hum anidade” às singularidades.
Assim, ao mesmo tempo são como forças anônimas, das
quais surge um repúdio (GARCÉS, 2010).
O repúdio que daí nasce é irredutível. É o inconfessável
que diz respeito a um combate na imanência. E como dissera
Deleuze (2008), o combate não é de modo nenhum a guerra:
a guerra é um a vontade de destruição do outro, um juízo que
converte a destruição em algo “justo”. O combate, por sua
vez, não é contra, é “entre”. Entre suas forças, um repúdio
é um dizer que nada tem a ver com “o dito”, não carece de
qualificações, questiona sem esperar resposta. Não teria a
ver com a expressão de um juízo, nem com um decisionis-
mo. Ele se libera da ação política sem vontade de poder: seu
enfrentamento não se sustentaria em um a “pura decisão da
vontade”, antes, no descobrimento de um limite que ganha
sentido, um limite não localizável - o limite de nosso próprio
inacabamento. É com este que o êxtase se relaciona, com o
inacabado em nós; a nossa exposição ao fora de nós mes­
mos. O combate se faz aí. Para que se m antenha inacabado.

25 8
É de um a clandestinidade em plena luz: pois seu tempo
é de um a interrupção desmedida, como avivou Blanchot. A
noção de êxtase129 passa pelo hiato e a suspensão, contra
toda ideia de totalidade e de hipótese traduzida politicamen­
te. É a ideia de um a abertura como experiência fundam en­
tal, aquilo que figura “minha existência fora de mim com os
outros”. Para Nancy, apoiado em Bataille, o êxtase é o que
garante a impossibilidade do absoluto, a impossibilidade de
um a imanência acabada. É um fora “sem heranças”130.
Contudo, trata-se de difícil terreno. Por vezes não sus­
tentam os tal abertura - pela força dos hábitos, valores - e
proibimo-nos de manifestá-la e produzi-la. Mas o combate,
ainda assim, persiste, por diversos níveis na m alha social,
em especial quando sentimos que podem os enlouquecer se
não vislum brarmos esse fora do m undo no próprio mundo,
o fora de toda representação.
M uitos já tentaram se debruçar sobre sua contem-
poraneidade, perguntaram -se sobre quais seriam os seus
com bates. Na tentativa de com preendê-la, agir sobre ela,
lançaram -se do cam po conceitual para o de um desarvo-
rado terreno em construção: um terreno baldio, periféri­
co, no irrespirável da língua (SALOMÃO, 2001). Assim,
alguns artistas nos legaram escritas perto de um êxtase,
mas tam bém próxim as do sofrim ento, pois escritas de
um lim ite que às vezes parece inalcançável - ser im pos­
sível em lágrim as: dizia Bataille. Isso que cham arem os
tam bém de um a crueldade em A rtaud, a busca de um a
linguagem para a vida.
129 O êxtase em B lanchot (2013) aparece em sua noção de com unidade diretam ente inspirada no
trabalho de Jean-Luc N ancy em A com unidade inoperante. R eferim o-nos aqui a am bos.

130 Voltaremos a expressão “sem h eran ç as” m ais adiante.

259
A isso que pode ser um delírio, dedicamo-nos agora: tal
como Foucault procurou situar a questão do poder em ter­
mos de existência - fazendo ver aquilo que já vemos -, Ar-
taud buscou através do teatro; outros, pela literatura, pelo
cinema. É a questão do status da razão e da desrazão, da
vida e da morte, do crime e da lei na tram a da vida; e como
am bos apontam , é a questão de que algo surge de dentro e
contra seu jogo moral, desobedecendo sua lógica: combates
no limite do fora, que estariam em toda parte, sabendo que
nada inocentará o delinquente, curará o louco, ou garantirá
a um povo os dias prom etidos - não se lê a revolta pelo
sentido da lei. Ninguém, aliás, precisa perguntar se é ou
não inútil revoltar-se. Mas haveria ainda que se buscar uma
outra linguagem para estes problemas.
Na tentativa de com preender aqui, portanto, nossa
própria busca de linguagem, convidamos pelas próximas
linhas alguns pensadores delirantes e interferências avulsas
cuja poesia nos equaciona irrem ediavelmente sob a opor­
tunidade estética de um outro estar no mundo. São estas
interferências algumas pistas despretensiosas e desorgani­
zadas de Artaud, Hilda Hilst, Pasolini e Bataille, espalhados
como faíscas. Seguindo o ensejo dos protestos que tom a­
ram as ruas pelo ano de 2013 - esta nossa pista primeira
da condição do presente, citada a partir de um fragmento
como nossa introdução -, perseguiremos essa chance, que
se aproxima de um pensamento-limite, um aviso de possi­
bilidade do incendiar, a estética da crueldade, a que vem
“para acabar com o juízo de D eus”.
Com esta palavra, portanto, que fique claro, não fa­
lamos daquela crueldade já nom inada, significada e até

26 0
mesmo banalizada em nossos dias, diante de tantas vio­
lências de Estado tão “sofisticadas”; por vezes sutis, por
vezes espetaculosas; e seus novos modos de dominar, tor­
turar ou aniquilar o outro. Esta crueldade da qual falamos
não encontra suas figuras nas mortificações que exaltam os
carrascos, tampouco na m assa tom ada pelo ressentim en­
to ou um a paixão pelo poder, clamando mais guerra. Esta
crueldade da qual falamos encontra-se pelo avesso, pela
borda de um a ordem que cham aremos por ora de doutri­
na do Juízo. Desta borda, pensarem os caminhos: para um a
gestualidade. Uma gestualidade como meio, liberada do
jogo utilitário; como um modo de vida ético, liberada do
jogo moralista, que pode emergir quando um certo sujeito
é posto em questão, e torna-se outro corpo. Trata de sua
relação com o mundo. Pensamos que esta crueldade, como
dizia Artaud, um a linguagem para a vida, pode dizer res­
peito a um viver sem poder, em últim a análise, gestos sem
poder. Pergunta-se com isso: é possível afirmar esse corpo,
sua ética? Mas, antes, como com bater o poder sem poder?
Como ultrapassar nós mesmos, ser seu com bate irredutível,
quando situados sob um a ordem policialesca e produtora
de medo produzida tam bém por nós?
Haverá de se perguntar por prudências e im prudências
no percurso desta experimentação, haverá de se produzir
pêndulos rumo a um a existência mais potente, menos tris­
te, menos manicomial. Temos como aliada a arte para nos
acom panhar nestes revezamentos, não a arte enquanto
universo autônom o dentro de um a realidade recortada e
especializada, mas a arte m esm a enquanto a própria vida
em seu fazer sem repouso. Sem nenhum a intenção de dar

261
conta de obras artísticas, assim como de referi-las aos au­
tores já citados como suas causas ou de quem seriam pro­
priedade; sem querer dar conta de nenhum a interpretação,
busca-se muito mais um fôlego, por vezes um sopro, algo
que nos inspire, não a encontrar saídas universais, mas
provisórias, intensivas. Comecemos, então, por aquela sin­
gularidade conhecida como “a senhora obscena”, e um a
pequena pista.

AVES NOTURNAS

Quando a peça “As aves da noite” (1968) se inicia, os


personagens já estão há algum tempo na cela da fome em
Auschwitz, entre ruídos e barulhos de chaves. Conforme
as trocas desenrolam-se, vemos como suas vidas tornam -se
números, como uns decidem ir no lugar de outros, como
esperam pela morte, como discordam. Sente-se, então, ator­
m entado por um a indecifrável crueldade que atravessava
toda a leitura, questiona-se a sua natureza. Que crueldade
seria essa? Pois além dos signos que inevitavelmente apa­
recem com este específico mom ento histórico, haveria um a
crueldade que não se saberia, um a que se intensificava.
“Com As aves da noite, pretendi ouvir o que foi dito na
cela da fome, em Auschwitz. Foi m uito difícil. Se os meus
personagens parecerem dem asiadam ente poéticos é porque
acredito que só em situações extremas é que a poesia pode
eclodir viva”, dissera Hilda Hilst (2001, p. 233). Há m ui­
tas rupturas poéticas eclodindo nesta peça, e assim mesmo
como um a ruptura, o sentido da crueldade tal como em

2 62
Artaud é de certa maneira “sentido”. A vida estaria mais
próxima de um a fronteira insistente, como Deleuze definiu
o sentido: o que não existe, mas subsiste, insiste. Sempre há
insistências, e o que insiste pode gerar um estilhaçamento.
Mas não é preciso estar na cela da fome para senti-la.
A crueldade como um a condição de afirmação vital de ou­
tra ordem, a insistência contínua em outra linguagem, está
em todo corpo devolvido a si mesmo, de intensidades que
compõem zonas incertas onde enfrentam os poderes (DE-
LEUZE, 2008). Há crueldade toda vez que se recupera uma
capacidade primeira de exposição ao fora de si mesmo. As­
sim, este corpo pode ser muitos: é tanto aquele que se sente
rompendo com o status quo, indo à barricada, como aquele
que, discreto, evita as feridas mais grosseiras, inventa outras
“estratégias”. A crueldade está no corpo do front e está na
delicadeza de um a pele, seus origamis: é todo lugar de dobra
possível em um mundo planificado, liso, que impossibilita
toda diferença de suas transcendências. Ela não é sombria,
hostil: é reluzente nas trevas. Pode ser relâmpago, pode ser
um a nebulosa. Escutar o som do grilo e transformar-se.
Por sua vez, se pode passar por tantos corpos e ser
tantos modos, a crueldade nos lança a um estranho lugar
sem centralidade: o meio de um acontecimento, este que é
corpo, é encontro com o mundo. O corpo é este estranho
começo e recomeço que pode colocar tudo em questão, o
pensam ento, a significação, a comunicação, a história: “ele
introduz um a catástrofe no tempo que escoa” (UNO, 2010,
p. 37). Um acontecimento, como dissera Deleuze, é o devir
ilimitado que continuam ente separa as coisas delas m es­
mas: dá-lo passagem significa permitir o descolamento, ex-

2 6 3
perimentá-lo. Contudo, nada pode acontecer se esperamos
sempre controlar aquilo que nos acontece. Qual o lugar do
acontecim ento na sociedade de controle?
Hilda marca sua escrita, por exemplo, em um a eróti­
ca cruel com o próprio texto, que passa por muitos cor­
pos e diferentes embates, visíveis ou invisíveis, colocados
ou pressupostos, fora da representação do que significaria
com bater alguma coisa, criando um a linguagem de repúdio
para qualquer controle na língua. Ao lermos Hilda, somos
arrebatados, pois não nos preparamos. Estamos mais em
descontrole. Sem previsão do que pode acontecer.
Mas um acontecimento desde o início não nos pertence,
nem nos diz respeito. Seria preciso “ser digno dele” (DOMIN-
GUES, 2010), possibilitá-lo. Ele nem sequer tem nome, nem é
bom ou ruim em si mesmo. Considerando nossa incapacida­
de hoje de entregar-se ao inominável, ao imprevisível - este
só possível se não nos pertencer, se não for transformado em
denom inador comum de cálculos utilitários, a base da so­
ciedade de controle -, considerando nossa incapacidade de
ver potência no que não existe ou no que não tem resposta;
para ser “digno” do acontecimento, além de possibilitá-lo, só
podemos fazê-lo escapando da doutrina do Juízo, este para­
digma da dívida infinita com a verdade.
Este paradigma, como sabemos, está bem impregnado,
está em nossos corpos e relações com o m undo, é cons­
tantem ente reorganizado por nós mesmos, e implica vários
outros cárceres, para além da cela da fome. Estes outros
aprisionam entos tam bém nos definham, esgotam, separam ­
-nos, reificam uns aos outros, porém sempre haveria nesse
horizonte a possibilidade de um a renúncia. Uma renúncia

26 4
que é, inclusive, bastante literária.
Renunciar à doutrina do Juízo, rumo a um a outra ética
dos corpos, um a ética que restitui o lugar do acontecimento
e do inominável, não nos priva de meios para estabelecer
diferenças entre modos de existência. Pois há escolhas: Hil­
da efetua um a linguagem, Artaud idem. O problem a está
no fato do Juízo supor critérios preexistentes, que não nos
perm item apreender a criação de novos modos de existir.
Podemos aqui, para escapar da doutrina do Juízo, não re­
nunciar totalm ente aos critérios, mas saber que, aqueles
que são impostos racionalizam o corpo, por exemplo, pro­
duzindo a sujeição ou dominação, um absoluto, e isso sem ­
pre vem com alguma violência. A imposição do absoluto
sempre aniquila o possível. Escapar ao juízo é tentar um a
vida menos triste, com menos sujeição e suas consequentes
produções de medo, mortificações que im pedem aberturas
e recomeços. Mas, paradoxalmente, teríamos hoje medo do
acontecimento. Ler Hilda causaria em parte de nós e na
“ordem da população” um terror; e o susto, por sua vez,
facilmente se torna em nossa sociedade sinônimo de po­
lêmica, ou de invalidação, em seus vários tons moralistas.
Quem tem medo de Hilda Hilst? Quem condena Pasolini?
- na “Sequência da flor de papel”131, aquilo que sobrevive
em um m undo de horror é justam ente o que Deus condena.
Nossa dívida infinita com a verdade povoa-nos de m e­
dos diversos. Povoa-nos do medo dos “outros” - qualquer
alteridade, seja individual, de pensam ento, de afecção, de
escolha - em um a sociedade organizada em torno dos ris­
cos que ela própria cria: um a sociedade com medo de si

131 Filme de Pasolini (1968), do qual falarem os m ais adiante.

265
mesma, que não se deixa investir pela alteridade sem que
isto se torne um germe de transcendência (VIVEIROS de
CASTRO, 2011). Nesta sociedade prospera um regime imu-
nitário (GARCÉS, 2010), que nos ensina a adm inistrar a vul­
nerabilidade em vez de afirmá-la como um a força, ou seja,
aquilo que entre nós pode produzir outra relação uns com
os outros. Toda sua gestão se baseia em um a proposta sub­
missa: perdê-la é estar perdido, ameaçado, sem certezas.
Haveria neste medo um m undo em que o inimigo funciona
como condição transcendental vivida: um m undo constitu­
ído pelo ponto de vista da inimizade, esta não como mero
com plemento privativo da “am izade”, e sim um a estrutura
de pensam ento (VIVEIROS de CASTRO, 2011).
Não pode haver estranheza. Vivemos na complexidade
de um pensam ento controlado das probabilidades, das pre­
visões e das afirmações, reificador do Mesmo - a sociedade
de controle e seus cárceres a céu aberto - em que se torna
cada vez mais difícil enxergar vacúolos, espaços sem a sua
mediação, sem os seus dispositivos - informacionais, midiá-
ticos, de consumo, de busca de sentido, de segurança - que
produzem , por sua vez, seu próprio sistema moral. Sua as­
fixia é feita de medo, de opinião. Buscamos explicar pelos
discursos disponíveis, e quase tudo achamos ser capazes de
explicar. O que não se explica ou resolve, aquilo que angus­
tia por não tornar visível o futuro, incide nos corpos e por
estes recorremos aos diversos sedativos, pois precisamos
acom panhar sua frágil e perpétua instabilidade em um con­
temporâneo frenético, imediatista. Neste, não suportamos
o desamparo como afeto político: com isso, expandimos a
lógica instrum ental, consumimos razões oferecidas, e com

26 6
esta fazemos guerras “justificadas”; e temos um corpo que
não é mais “contagiado” - pois é incapaz de se expor às
aberturas dos acasos. O pânico do acaso, da diferença, por­
tanto, cerca-nos com um perigo: o perigo de que as diferen­
ças acabem não fazendo a diferença. Ele engessa o presente.
Aqui, só haveria um a crueldade, a de não conseguirmos re­
pudiar o que nos é intolerável. A de não haver interrupção.
A peça “As aves da noite” possibilita o acontecimento
teatral, o acontecim ento da literatura. Estes nos deslocam
para outro lugar que não o do medo, mas para o da possi­
bilidade de que “algo aconteça”. Hilda, como seus perso­
nagens, é m aldita por arriscar e nos seduz a acom panhá-la
em sua crueldade. As letras de seus júbilos, assim como
das violências, revelam “o lado de fora da noite”, como em
Blanchot (2011), esse lado que a ordem do dia reconhece
como seu limite, do qual não se poderia ir além: é o lado da
nudez, do sonho, do que se afasta da verdade. O dia quer
sempre se apropriar da noite. Pois o escuro é o estranho: e
é a cor das coisas marcadas, dos panos usados, do sujo, do
que se sujou de acontecimentos. As luzes são “apaixona­
d as” pela noite. Querem corrigi-la, ou possui-la.
Mas voar na noite é perceber que se está presente nela,
e que a noite está presente. Que ainda existimos. Que ainda
corremos perigo. E voar, obviamente, é perceber que se está
fora das grades. O vento dessa leitura, em meio aos nossos
consensos empoeirados, faz respirar a noite, respirar como
pensar, que por vezes poderá m ostrar odores, mas talvez,
entre estes, o próprio oxigênio que nos falta.

267
NÁ US E A E FESTA

Uma melancolia nos abate quando um estar sujeito à


rotina significa “abrir mão da capacidade de sentir nojo”
(BENJAMIN, 1996, p. 74). Por onde estará, na rotina, a obs­
cenidade de ultrapassar o absurdo? Perguntou-se antes pela
crueldade, sua poética que nos abriria a um a ética. Portan­
to, vamos aos poucos.
Diz-se a partir de Artaud que a crueldade no pensar está
no impensável. E pensar o impensável, por sua vez, não
guardaria nada de “gigante”, não seria um “grande feito”
do pensam ento mais do que seu fraquejar: sua grandeza é
poética. Esta, como dissera Blanchot (1997), situar-se-ia na
própria falta de grandeza, de eficiência, “como se ali onde
o homem fraqueja a literatura tom asse o impulso, como se
ali onde a existência se torna tem erosa a poesia se tornasse
intrépida” (p. 132).
O “im pensável”, hoje, o lugar desta existência tem ero­
sa, pode ser, por exemplo, certa alegria que encontram os
no êxtase anteriorm ente citado, se considerarm os nosso
corpo disciplinado, de conduta cada vez mais atravessa­
da por controles - até mesm o para protestar nas ruas há
acordos prévios - do modo que, em outras palavras, o im ­
pensável hoje seria a abertura para o que desvie de toda
totalidade ou moral subjugadora - desvio im pensável,
pois tam bém nos im pedim os com os argum entos do im ­
possível - e, por fim, a náusea diante desta incapacidade,
diante do consenso da contem poraneidade, que tam bém
é miserável. Pensar o im pensável, deste modo, trata-se de
um ultrapassam ento.

26 8
O fio que os une - o êxtase e a náusea - seria certa
disposição ao espanto, o primeiro gesto de pensam ento, an­
terior à interrogação132. Não restaria medo, mas a chance
da surpresa - um a surpresa não caricatural e não causal - e
diferentes modos de abrir-se ou não a este salto perceptivo,
que evitará com que ambos (a náusea e o êxtase) sejam
como pontas extremas e opostas, ou necessariam ente ar­
ticuladas: extasiado ou nauseado, há níveis e nuances que
os distinguem, assim como, dependendo de cada aconteci­
mento, transfiguram-se. Talvez, levariam mesmo a um a em ­
briaguez: um a disposição a em baralhar-se - talvez também
no estômago -, é aquilo que passaria tam bém por ambos
os estados do corpo. Seriam modos de relacionar-se com o
entorno, de ser capaz de surpreender-se.
A náusea foi aquilo de que tantos artistas se ocuparam
no período entre guerras, a exemplo da obra hom ônim a de
Jean-Paul Sartre. Posteriormente, esta teria se transformado,
entretanto, em um tédio. Sua transfiguração tem atraves­
samentos distintos e vem com a expansão desenfreada de
um capitalismo que, na segunda m etade do século passado,
estava prestes a presenciar a queda do muro de Berlim, a
suposta “fronteira final” após a qual não haveria mais terri­
tório que não pudesse pertencer às forças em jogo. Era es­
crito então “O esgotado”, de Gilles Deleuze. “Nada a fazer”,
como dizia Beckett. Mas, como os personagens beckettia-
nos, não cairíamos nas armadilhas de um niilismo. Trata-se
da força de um esgotamento, suas intensidades vertiginosas.
Afirma-se o “permitir-se o tédio”: de algo que se esgotou,
e que guardaria também suas brechas - pois o tédio ainda

132 Sobre esta colocação, ver D idi-H uberm an, 2015.

269
é um a abertura ao mundo. Um modo de relacionar-se com
este, fazer um corpo, um a ética. Sua gestualidade confunde­
-se com um a inoperância, um a potência impotente.
Uma “potência impotente” seria o que Jean-Luc Nancy
define como condição de produção de uma comunidade;
aquela que, ao fazer-se, imediatamente se perde: está sempre
ausente, sempre inacabada; é aquilo que nos falta, que está
“porvir”; e que não se confunde com aquele comunismo que
reduz a existência à imanência do homem ao homem, e a
comunidade como o Mesmo (GARCÉS, 2010). Ela diz respei­
to à experiência de uma alteridade radical, a experiência do
“fora”, das forças anônimas entre isso que tanto chamamos
de “nós”. E é a partir daqui que, na esteira de um a busca por
novas ferramentas políticas para o pensamento, Blanchot diz
ser preciso assumir “o vazio além de toda herança”, além de
toda capacidade de ação política e seus moldes, só restando
o êxtase da abertura, afirma Nancy, o repúdio por excelência.
Esta romperia “a descontinuidade que separava os seres
uns dos outros, com seus contornos e limites”, instaurando­
-se entre eles “um a comunicação e um a continuidade em
que se diluem eles e sua existência” (PELBART, 1989, p. 84).
Dessa experiência, Bataille extraiu, por exemplo, um a “mo­
ral impossível”, um a exigência de que, através desta trans­
gressão, se pudesse colocar tudo em xeque, sem repouso
admissível. Na linha de Bataille, o êxtase transborda em in­
tensidade tanto o pretenso rigor do espírito filosófico, como
também se poderia dele pensar um a ética anterior ao espaço
da lei. É a crueldade mesma da abertura, outro lidar com
“o vazio além de toda herança”. Lidar com este vazio seria
também desconfiar, da “fachada da causalidade”, como dis­

2 70
sera Cortázar (2015), este estabilishment ontológico “que se
obstina em manter fechadas as portas das mais vertiginosas
aventuras hum anas” (p. 137). Só conseguimos ser livres ao
espanto e à surpresa, ao disruptivo na experiência que pode
desobstrui-la, quando nos despregarmos de um cogito da
causalidade que tudo relaciona, que tudo quer abarcar como
um a totalidade dos possíveis, e ao mesmo tempo, interditá­
-la. Retomando um a das primeiras perguntas deste texto, o
que haveria então nesta eletricidade da abertura, na relação
com o m undo que ela permite, que faria dela tão perseguida,
cercada, tão normatizada? O que há é o problema que visa­
mos anteriormente explorar: podemos viver sem poder?

AS RUAS, O I N O M I N Á V E L

Os poderes só existem por antes existir a condição pri­


meira da potência, da resistência. E a questão é que, no
limite, estaríamos sempre retom ando essa condição de re­
sistir para poder forjar novos possíveis. Os poderes incidi­
riam aqui, nesta abertura à qual é preciso sempre em prestar
um a atenção infinita, para se conseguir deslocar do Mesmo,
produzir diferença - e que seja pela náusea, o tédio, e tam ­
bém a alegria - e escapar da sujeição à sua ordem e suas
dominações, que aniquilam.
Como dissera Michel de Certau (2007), mais urgente é
descobrir de que modo um a sociedade não se reduz a ela
mesma. Acrescenta-se aqui: tão urgente é descobrir modos
de ser que não se reduzam às referências centralizantes de
nossa sociedade, que possam se perm itir inomináveis. O

271
inominável em corpos e gestos. Mas é preciso lembrar: o
com bate é na im anência, é no inacabado. Isso implica um
constante recomeço, seus riscos, assim como a chance dos
poderes incidirem de modos variados, instaurando a trans­
cendência, e im pedindo a passagem das diferenças. Nas
ruas de 2013, vimos entre os corpos a eletricidade de um a
abertura, talvez como aquela de um a vida sem poder, na
maioria das vezes alegre - até os choques policiais chega­
rem e instaurarem mom entos de “com bate-contra”. O difícil
é precisar se submeter, pois há cerco, ostentação da vio­
lência, disparidade na relação de forças. Que subjetividade
seria esta, im posta a balas de borracha e cassetete, no lugar
do que estava sendo produzido com alegria?
Estivemos por muito tempo imobilizados em subjeti-
vidades “hum anizadas”. A invenção do hum ano, tomado
como natureza universal, tem parte na história do desenvol­
vimento do capitalismo. Como sabemos, ter-se-ia “evoluí­
d o ” após a Revolução francesa para o status de cidadão: este
é quem se retira da im anência de outras possibilidades do
hum ano, de outras possibilidades para além de sua socieda­
de, e está conforme um modo de ser sujeito, individual, ci­
vilizado, e no capitalismo, um hum ano produtivo, que paga
os impostos e não questiona as leis. Não haveria para nós,
então, um “fora” disso, esta construção é tida como uma
totalidade sem exterior. A democracia liberal é então conso­
lidada sobre os corpos dóceis, capturados pelo capitalismo
que constrói todas as suas crenças universais assim pauta­
das pelos princípios de “liberdade” e “autonom ia”, supostas
garantias dentro do horizonte da igualdade, um a verdade as­
sumida por absoluta, de um a essência imutável, como Deus.

2 72
Ao transformarem em vândalos, porém, aqueles que não
se submetem à ordem de sua humanidade, os humanos fa­
zem surgir os monstros não só para situarem-se em meio ao
temor da desconstrução, mas para que tenham certeza de
sua própria existência (SILVA, 2000). Produziram então outra
representação, referenciada dentro da mesma totalidade.
Ao andar pelas ruas de 2013 - das quais ainda vemos
ecos - estas que ameaçavam a ordem dos tempos neolibe-
rais e suas verdades infinitas, o inominável de um a nova
abertura prevalecia quando não se ousava mais pertencer
ao Juízo deste deus que tudo quer igualar a si mesmo. Rom­
peu-se, naquelas ruas, a dívida com a sua verdade. E este
êxtase reivindicado, sem projeto político, é monstruoso.

A F L O R DE P A P E L

Ao se pesquisar a obra cinematográfica de Pasolini, per­


cebemos como a referência ao brilho dos vagalumes - esta
que perpassa suas cartas de juventude até os ensaios de
Escritos Corsários - realiza um salto gestual discreto, que
nos sinalizaria até os dias atuais sobre certa matéria so­
brevivente em tempos de violenta expansão do capitalismo
tecnológico e seus modos de vida.
Em “A sequência da flor de papel”, o que sobrevive é
justam ente aquilo que Deus condena: as pequenas luzes
dos olhos de Ricetto e suas danças; sua disponibilidade ao
m undo, a alegria de encontrar; o tom de sua espera em um a
esquina, sem saber para onde ir; a incerteza com relação ao
horizonte, que coexiste com os gestos lançados como flores

273
de papel, em um m undo repleto de medo e ressentim ento.
Ricetto cam inha por Roma, enquanto cenas do horror
da guerra ao fundo contrastam com a sua alegria, que não
escuta o que Deus tenta lhe dizer. Este cham a Ricetto de
inocente. E a inocência é um erro, é um a falta, diz: “os ino­
centes serão condenados, pois não têm mais o direito de sê­
-lo. Eu não posso perdoar aquele que atravessa com o olhar
feliz do inocente as injustiças e as guerras, os horrores e o
sangue. E eu devo fazê-los morrer, mesmo sabendo que eles
não podem agir de outra form a”.
O inocente seria aquele que, antes, desconhece o que todos
afirmam, o que todos já sabem133 - é por isso que precisa mor­
rer. A dupla crueldade presente nos gestos de flor de papel é a
cena final: sem compreender porque está sendo morto, Ricetto
jaz ao chão, inocente como os mortos de guerra, que apareciam
por aquelas imagens que Deus exigia que visse. Seu último ges­
to é um susto, e uma última chance de interrupção: “o quê?”.

PARA UMA GESTUALIDADE

Gesto é meio, unicam ente meio, e não destino.


A crueldade de Artaud, como já vista, não é a que po­
demos exercer uns contra os outros, despedaçando m u­
tuam ente nossos corpos. Como o mesmo diz, não somos
livres, e o Céu ainda pode desabar sobre nossas cabeças.
O teatro que im agina nos serve para mostrar e influenciar
essas circunstâncias. Seria da crueldade de um destino que

133 HENZ, A. O. “Transgressão e esgotam ento: aguda indiferença, suficientem ente desinteressada e
escrupulosa”. In: Verve, São Paulo, n.11, 20017.

274
tentam os revirar então a condição de nossos corpos.
Uma condição de presença dos corpos é a gestualidade,
que não seria “apenas” teatral, literária, cinematográfica:
pode ser com pletam ente ordinária. Reinventar, portanto,
sua condição, seria a tarefa a que se propuseram tantos
artistas, reinventá-la rom pendo sua representação. Ou seja,
no lugar do sujeito do Juízo de deus, reificante do indivíduo
dócil que se tornou o sujeito moderno; no lugar do corpo
tido até então propriedade desta representação, seríamos
capazes de outra gestualidade.
Os “gestos cruéis” são aqueles que se “inocentam ” des­
ta legislação, que não utilizam os poderes que produzim os
sob sua lei. Para acabar com o Juízo de deus, é preciso
rom per com sua necessidade, fissurar sua forma, seus li­
mites. Ao m enos para que se passe um ar clandestino - ou
o sobrevoo da noite que o dia quer dissipar. É aqui onde
operaria a crueldade, esta que se torna toda estética da exis­
tência que vise desobstruir o real, criando outros modos de
ver, sentir e estar; em suma, outros modos de viver. Por fim,
um a gestualidade possível quando se alcança a im pessoali­
dade de um terceiro termo, que avança para além do sim e
do não, de um Eu em dualismo com os outros, do Mesmo
que pertence às totalidades.
Encerramos este texto, assim, com um convite perti­
nente. Haveria ainda um a luta - “u m a” como artigo inde­
finido - diante de nós: questionar nosso lugar poético na
realidade (VALLE, 2014), nosso lugar sem grandeza, um
lugar insistente para além de nós mesmos, entre os aconte­
cimentos. Haveria, ainda, gestos. Tão cruéis, que fazemos
morrer, em vez de “deixar viver”.

2 75
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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277
CORPOS POSSÍVEIS

Catarine Venas Rodrigues

V iv o e m u m m u n d o o n d e m u ita s coisas que


su p u n h a im p o ssíve is são possíveis.

GUILLAUME DUSTAN

Este texto propõe o pensam ento como estranham ento,


não somente para um a análise crítica da produção cultural
do gênero, mas tam bém como apontam ento da m inha im ­
plicação com o tema. Evidenciando, assim, onde reproduzo
e afirmo a m esm a lógica que pretendo questionar. As ca­
misas de força que guardo no armário, sendo penduradas,
tal qual sujeitam um corpo doméstico esvaziado dos tantos
que poderia criar; os dispositivos de produção de subjetivi­
dade sexual que me arquitetam são sem elhantes à prisão,
im pedindo saídas e encurralando a vida em ortopedias polí­
ticas baseadas em regimes jurídicos, científicos, farmacoló-
gicos que aniquilam a plasticidade no modelo ideal/norm al
a ser seguido; as tecnologias que controlam meu corpo e de
que faço uso, como o banheiro feminino com o batom de­
senhado na porta; e as substâncias que ingiro (pílulas, m e­
dicam entos para emagrecer, para controle dos hormônios,
analgésicos etc.) diluindo-se em meu corpo que me leva até
esse mesmo banheiro. Defecando e limpando meu gênero.

2 79
No endurecim ento de um texto formatado para o en­
tendim ento, tenho me apropriado e desapropriado desta es­
crita. Neste ponto, o de fazer sentido, um dos conceitos de
Haraway (1991), o de conhecimento situado ou saber locali­
zado, será um a ferram enta fundam ental para a com preen­
são de pontos valiosos. A autora trata do objeto de estudo
dando visibilidade ao lugar do qual sua análise parte, pois
em sua perspectiva o pesquisador tem como ponto de p ar­
tida sua própria subjetividade e seu contexto. Resta saber:
onde, então, me localizo nisso tudo?
Percorro corredores repletos de vozes, retiro os sapatos
e começo então a transitar junto com os 230 pés descalços;
alguns corpos gritam e outros, de tão silenciosos, ensurde­
cem. Sou também essa multidão em voz, silêncio e corpo.
Desde que possamos entender esse corpo não mais como
corpo humano, não sendo somente de natureza biológica.
Donna Haraway (1985) acredita que a natureza é feita como
fato e como ficção, o que já bastaria para deslocarmos no­
ções como corpo natural, ser humano, corpo humano, iden­
tidade etc. Organismos não seriam objetos naturais, não nas­
cem, são produzidos nas e pelas práticas. Sendo assim, o
corpo referido não é feito exclusivamente de cabeça, tronco e
membros. No mínimo, diríamos: cabeça, tronco, membros e
próteses. Corpos próteses aleijados vivendo em velocidades
complexas que achatam o cuidado de si; próteses para su­
prir as adaptações necessárias; para o alcance de altas perfor­
mances etc. O ciborgue134 retrata esse outro olhar para o que
chamamos de corpo, não é definido pela soma das próteses e
nem pelos membros que se tem, mas sim por essa fusão ho­

134 Haraway, 1985, p. 11.

28 0
m em /m áquina. A ontologia hum ana é posta em xeque nesse
híbrido que extrapola o contorno corporal, tendo fluxo na
corrente sanguínea da cidade. Uma cidade que se apresenta
em suas prateleiras de onde compramos o que comer, nas re­
ceitas médicas feitas na medida, nos tênis de última geração,
na veiculação da mídia etc. A ideia desse corpo m áquina nu­
trido por largas produções industriais e tecnológicas, ainda
assim, nos parece o corpo hum ano e natural de sempre.
Esses 230 pés que aqui conto e de que tam bém me
aproprio como sendo meus nem sempre foram os membros
que promoveram deslocamento. Olhando para o chão, facil­
m ente os “vigilantes de gênero” (PRECIADO, 2012) se equi­
vocariam com aquelas solas dos pés mais grossas do que o
piso áspero do território.135 Não seria diferente olhando para
aquelas cabeças raspadas. Mulheres?! Homens?! Ainda não
estou certa de que tais lugares alcançam a expressão “ser”.
U nidade de longa perm anência psiquiátrica - era o
que dizia a placa fora do portão trancado. A fotografia
daquele funcionam ento revelava o que Foucault, em 1975,
descrevia, como:

[...] instituições de sequestro... São aquelas


instituições que retiram com pulsoriam ente os
indivíduos do espaço familiar ou social mais
amplo e os internam , durante um período
longo, para m oldar suas condutas, disciplinar
seus com portamentos, form atar aquilo que
pensam [...] (FOUCAULT, 2007, p. 35)

135 Território - A partir de D eleuze e G uattari, “o am biente de um grupo que n ão pode por si m esm o
ser objetivam ente localizado, m as que é constituído por padrões de interação p o r m eio dos quais
o grupo ou coletivo assegura u m a certa estabilidade e localização”. E acrescentam : “exatam ente
no m esm o sentido o am biente de um a única pessoa (am biente social dele ou dela, espaço de vida
pessoal, hábitos dele ou dela) pode ser visto com o um ‘território’, no sentido psicológico, a p artir do
qual a pessoa age ou para o qual se volta” (1997, p. 219).

281
O funcionam ento manicomial já existia desde o final do
século XVII no Brasil. A docilização daqueles corpos, sendo
passíveis aos moldes que chegavam, cham ava a atenção.
Tinha hora do banho, hora de cortar o cabelo, hora de de­
senhar, dentre tantas outras, e a hora de pintar a unha.
Atenção para esta últim a atividade! Talvez agora conseguís­
semos dizer que, se pintavam as unhas, sem dúvida eram
mulheres. É im portante ressaltar a palavra “fem inino” com­
pondo o final da placa da unidade hospitalar. Retomando
as atividades m encionadas, na sala de desenho a própria
equipe doava revistas, geralmente de moda, revistas com
vestidos longos, curtos, páginas que levavam retratos de
modelos m aquiadas usando os vestuários. Z. - cham are­
mos assim um a das usuárias do serviço - tinha o cabelo
(re)cortado bem rente à cabeça e frequentem ente recortava
os vestidos das revistas, gesticulando qual queria e andan­
do nua pelo hospital procurando o vestido. Um recorte do
recorte. Z. era sempre motivo de discussão nas reuniões,
pois se recusava a usar os vestidos da instituição, perm ane­
cendo nua. Queria os nossos vestidos.
A instituição total136 anunciava a vida fechada e admi­
nistrada pelos profissionais que ali trabalhavam; assim, o
feminino escrito na placa era reescrito naquelas vidas me­
diante a representação que tínhamos do que é ser-mulher.
Feminino seria o gênero, então; mas o gênero, afirmado por
Judith Butler (1998), não é algo que somos, e sim que faze­
mos. E se aquelas pessoas não eram mulheres dentro dos

136 Segundo G offm an (1974, p. 11), “u m a in stitu iç ão to ta l po d e ser d efin id a com o u m local de
resid ê n cia e tra b alh o o n d e u m gran d e n ú m e ro de in d iv íd u o s co m situ a ção sem elh an te, sep arad o s
d a sociedade m ais am p la por considerável p erío d o de tem po, leva u m a v id a fech a d a e fo rm a l­
m en te a d m in is tra d a ”.

282
papéis sociais que desempenhamos e como os entendemos,
certamente fazíamos com que fossem! Um esforço intenso
pelo resgate de um a vaidade que se contrapunha ao funcio­
nam ento da instituição total. O cabelo raspado para facilitar
a higiene contra os piolhos e os pés descalços recusando a
sandália eram pintados de gênero sempre à tarde, hora de
fazer as unhas. Diante dessa dinâmica, no enfileiramento
para pintura das unhas, encontros no mínimo curiosos se da­
vam. O braço tão rígido quanto os anos ali internada parecia
afrouxar e era estendido para a pintura acom panhado de um
sorriso. Poucas vezes vi, mas havia também quem se recu­
sava e rapidamente era convencido. E havia também aquela
senhora, difícil esquecer seu nome emblemático. S. xingava
todo m undo que via pela frente com o convite de pintar as
unhas, e com ela não havia muita insistência da equipe. Ain­
da me pergunto: de onde vinham tantos esmaltes? Diante de
toda precariedade da cham ada saúde pública, posso afirmar
que esmalte nunca faltou.
Ao longo da história, em decorrência do processo de
identificação, alguns papéis sociais foram sendo estrategi­
cam ente atribuídos às mulheres. A organização da socie­
dade denom inada patriarcal, que tom a o homem como
referência, cabendo a ele as decisões, bem como a gerên­
cia do m undo que o cerca, incutiu nas mulheres funções
identitárias secundárias, como as de mãe, esposa, devota
do lar etc.; secundárias, pois não deveriam interferir dire­
tam ente no funcionam ento das cidades. Assim foi-se con­
cebendo um a lógica de submissão e opressão feminina, já
que as mulheres não tinham voz senão dentro de casa, e
ainda assim um a voz quase rouca. Nesse esquem a de re­

2 8 3
clusão e exclusão, cabia às m ulheres servir seus maridos.
Aos papéis citados foram somados atributos/características
pretensam ente femininos que auxiliariam no fomento da
m encionada lógica de submissão, a saber: a fragilidade, a
afabilidade, a serenidade, o recato, dentre outros. Como
efeito, ocorreu um a forte hierarquização, sendo os homens
senhores de tudo e as mulheres, vulneráveis criaturas, suas
meras posses. Sucede que tais papéis e atributos foram tão
profundam ente enraizados, vivenciados como naturalm en­
te próprios das mulheres, que mesmo hoje muitas se veem
na obrigação de os interpretar ou acatar, com suas devidas
variações, é claro.
Os coletivos feministas, ao criticarem a organização da
sociedade denom inada patriarcal e os papéis sociais atribu­
ídos à identidade mulher, dão ênfase à representatividade
do gênero. Nos anos 1960, o gênero137 começa a ser apon­
tado como fator im portante; entretanto, ainda era utilizado
para se referir ao papel social que se dispunha sobre o sexo
- este visto como algo natural, fundador do gênero, ainda
como hoje é no senso comum. Sexo feminino, logo, mulher;
mulher, logo... E assim, facilmente, a m ulher se torna sujei­
to decisivo da discussão, naturalizando a noção de femini­
lidade não enquanto produção.
O feminismo clássico, ao fixar a questão central na
diferença sexual e na noção biológica da mulher, não con­
siderou a vastidão de m uitas outras diferenças, como a

137 Joh n W illiam M oney (1921-2006) foi u m psicólogo da Jonhs H opkins University, de Baltimore;
sexologista e autor de livros, especializado em pesquisas sobre identidade sexual, m u d an ça de sexo
e biologia do gênero. Sua in flu ên cia foi decisiva para a criação da teoria da identidade de gênero.
Ele acreditava que não era tanto a biologia que determ inava se som os ho m en s ou m ulheres, m as
a m aneira com o som os criados, e já a partir da década de 1960 tin h a pretendido dem o n strar q ue a
sexualidade depende m ais da educação do que dos genes.

284
transversalidade das relações de poder, inclusive sistem as
de saberes norm atizantes. Somos atravessados o tem po
todo pelas representações dos m ilhares de lugares sociais
que ocupam os, sejam os negros, brancos, índios, pobres,
ricos, de classe média, com 24 anos, com 12 anos, com
80 anos, gordos, magros etc. A conveniência de um su­
jeito político m ulher hegem ônico e heterocêntrico acabou
por reforçar um a “guerra dos sexos” e a perda da força
dos dem ais atores sociais. A leitura da diferença sexual
como principal clivagem da opressão pareceu reduzir os
diversos questionam entos dos papéis sociais da m ulher à
exclusiva liberação da “dom inação m asculina”. O que sa­
bem os não ser a proposta dos questionam entos. Contudo,
foi um m om ento de extrem a im portância para os dem ais
m ovim entos que estariam por vir.
Desde o final dos anos 1980, nos Estados Unidos, as
práticas de vida das norm as socialmente aceitas vêm sendo
questionadas e ganhando força com movimentos, princi­
palmente, como o queer, coletivos pós-feministas, Marcha
das Vadias (2011), entre outros. O em bate de forças apon­
tado nos discursos de im portantes m ovimentos políticos
que surgiram é algo que vale ser mais estudado; entretanto,
aqui, não me prolongarei.
Nos anos 1990, o movimento queer ou pós-feminista
promoveu um a releitura crítica sobre o feminismo, não
em um a tentativa de rom per com o feminismo, e sim em
um a proposta de restabelecer o sujeito político “fem inista”
e “hom ossexual”. A ruptura radical com o sujeito unitário
do feminismo clássico propõe dar voz a um a proliferação
de diferenças, sejam elas não só de identidade sexual, mas

285
tam bém de raça, idade, classe, deficiências etc., para que
então, e finalmente, a identidade que é atrelada às práticas
sexuais dê passagem a um a identificação política e estraté­
gica das cham adas identidades queer. O term o inglês que
outrora foi xingam ento a todos que desviassem do posto
como regra de conduta - aqui, gays, travestis etc. - é rea-
propriado em um a política que desfruta justam ente dessa
condição marginal. A política das multidões queer emerge
de um a posição crítica a respeito dos efeitos normatizan-
tes e disciplinares de toda formação identitária, de um a de-
sontologização do sujeito da política das identidades: não
há um a base natural que possa legitimar a ação política.
Não são questões unicam ente da “m ulher”, do “gay”, do
“negro”, mesmo que sejam disparados por eles, trata-se do
“somos todos”. Diz respeito ao social e não há sujeito fora
da sociedade, ainda que exista o discurso da reinserção,
exclusão. Todos estam os no social de algum modo. Mesmo
sendo “branca”, a questão que facilmente é dirigida como
sendo exclusivamente do “negro” tam bém me afeta; o m es­
mo com o Homem heterossexual branco.
As identidades, por serem totalitárias, deixam escapar
justam ente a potência das experiências, a pluralidade e
m ultiplicidade que se dá na diferença. Como experim entar
em vez de ser? Ainda que seja necessário ter território. A
crítica à identidade não tem como proposta aniquilar toda
e qualquer identidade. Pelo contrário, interrogar as condi­
ções sob as quais se formam, como são afirm adas e que
lugares se dão em um espectro político mais amplo parece
m ais interessante.

28 6
[...] a política da multidão queer não repousa
sobre um a identidade natural (homem/mulher)
nem sobre um a definição pelas práticas (hete­
rossexual/homossexual), mas sobre um a mul­
tiplicidade de corpos que se levantam contra os
regimes que os constroem como “normais” ou
“anormais” [...] (PRECIADO, 2013, p. 16)

Sendo assim, a própria noção de gênero será pensada


não mais como algo natural e aleatório, tendo já sido pos­
ta em xeque por alguns autores anteriores ao movimento,
como Judith Butler:

O gênero é contínua estilização do corpo, um


conjunto de atos repetidos, no interior de um
quadro regulatório altamente rígido, que se cris­
taliza ao longo do tempo para produzir a apa­
rência de um a substância, a aparência de uma
maneira natural de ser. (BUTLER, 2013, p. 23)

O gênero que serviu nos anos 1980 para fundar a dife­


rença histórica e cultural da identidade sexual, produzindo
um a m atéria passiva que escorre no essencialismo, é visto
atualm ente como o conjunto de dispositivos sexopolíticos
reapropriados por minorias. Ou seja, o gênero não repre­
senta somente ser m ulher ou homem, mas também um
sistem a complexo que vai desde os saberes norm atizantes
científicos, como medicina, até representação pornográfica,
passando pelas instituições tradicionais, como a família.
As tecnologias contem porâneas de sujeição do gênero
vêm operando cada vez mais sub-repticiamente.

Recentemente se m ostrou que a docilização


de um corpo pode recorrer a tecnologias mais
suaves, dispensando até m esm o a violência

287
direta, física [...] Novas m aneiras de m oldar o
corpo, modelá-lo, marcá-lo, excitá-lo, erotizá-
-lo, obrigá-lo a emitir signos, etc.
(PELBART, 2000, p. 13)

Posto isso, proponho pensarm os alguns desses dispo­


sitivos tecnológicos legitim adores de discursos de verda­
de, regras de conduta, formas de pensar, sentir e agir que
se apresentam no cotidiano enquanto m eras m áquinas
inofensivas. Sucede que tais m odelos de ser foram tão pro­
fundam ente enraizados que passaram a ser vivenciados
como naturalm ente próprios das m ulheres, logo, tam bém ,
próprios dos hom ens, como se estes não fossem produ­
zidos na construção social. A escassez de possíveis é o
que problem atizam os! Ser m ulher já representa não poder
tantas outras com binações, assim vem o-nos ainda a vagar
por territórios encharcados de m odelos fem ininos a serem
seguidos, formas identitárias de ser.
Posto isso, retornam os então à instituição total que de
tanto parir seus corpos dóceis nos remete quase a um a fo­
tografia congelada, revelando em seu negativo tantas ou­
tras. Gênero, identidades, práticas sexuais, papéis sociais,
capacidade de reprodução... O enquadram ento do núcleo
psiquiátrico em seu portão fechado não me pareceu ser
único, colocando em xeque as nossas passagens interdita­
das. No tempo lento e arrastado, a segunda-feira poderia
ser quarta, e por que não um sábado?! Lá, a rotina pouco
era quebrada, e o dia que fosse não me parecia muito dife­
rente do outro. Esse tempo que estourava o relógio em sua
lentidão também enrugava a tinta, as mãos, caducando a
vida naqueles quarenta, cinquenta anos de internação. O

28 8
equívoco, nesse cenário todo que aqui apresento, foi achar
que tudo estava no olhar - do especialista - remetido a
cada pessoa internada, sem nos dar conta da internação do
corpo que carregamos a céu aberto.
A adequação de cada corpo aos códigos vigentes da
m asculinidade e da feminilidade, inclusive do meu, era em
certo grau impresso nos em préstimos caros que fazíamos
dos nossos corpos vestidos de mulher. O cenário que teim a­
va em contrapor nossos modelos se tornava interessante de
pensar à m edida que o cabelo grande alisado e perfumado
se contagiava com o piolho, não perm itindo a nossa estéti­
ca. Cabeça raspada, sola dos pés raspada; raspar, verbo que
significa tirar da superfície. E, na superfície, o que víamos
como qualquer am biguidade de gênero era raspado, e logo,
quando perguntado o sexo daquelas pessoas, vinha o retor­
no do esmalte, da revista de m oda e das nossas mulheres
que levávamos todos os dias.
Há um a interrogação que surge em toda essa dinâmica:
se o sexo, como visto no senso comum, é algo aleatório
e natural, fundador do gênero, correspondendo apenas ao
cálculo da regulação das condições de reprodução da vida
e dos processos biológicos, como pensar a territorialização
daquelas bocas, vaginas e ânus de outros modos? O em ­
pobrecim ento dos encontros daqueles corpos restritos ao
espaço do manicômio, em que mulheres se encontram so­
m ente com mulheres, e as mesmas, nos força a perceber
que a sexualidade dessas pessoas não deixa de existir por
isso, por não haver o sexo oposto para em penhar o modelo
heterossexual de reprodução. A sexualidade daquelas m u­
lheres não deixou de existir por não haver o contato mais

2 8 9
próximo com homens, nem o modelo da heterossexualida-
de que carregávamos prontos para usar como m anual de
intervenção. Qualquer combinação que escape à norma,
como quando duas usuárias são flagradas tendo relações
sexuais, aponta o poder do discurso da identidade sexual
calcada em um a heteronormatividade. A heterossexualida-
de como tecnologia biopolítica produz a governabilidade
desses corpos, segundo Beatriz Preciado, destinando a pro­
dução de corpos straight:

O pensam ento straight assegura o lugar estru­


tural entre a produção da identidade de gêne­
ro e a produção de certos órgãos como órgãos
sexuais e reprodutores. Capitalismo sexual e
sexo do capitalismo. O sexo do vivente revela
ser um a questão central da política e da go­
vernabilidade. (PRECIADO, 2014)

Nesse contexto, viramos vigias, seja no manicômio, na


rua ou em casa. O psicólogo, o médico, a enfermeira, a
manicure, a mãe, o filho, tanto faz, somos todos agentes
vigilantes de gênero quando propomos um controle da vida
sem a deixar se inventar.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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ta Cult, São Paulo, n. 185. Disponível em: < h ttp ://
revistacu lt.u o l.co m .b r/h o m e/2 0 1 4 /0 1 /u m a-seq u en -
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minino-por-beatriz-preciado/. Acesso em: 27 jul. 2014.

2 91
ENTRE C L A N D E S T IN O S CORPOS
HÍBRIDOS

Julia B a r b o z a G a m b e t t a

N ada a d ize r. É q u e a lg u n s c o rp o s não a g u e n ta m mais

esses lu g a re s d e m a rc a d o s d e lin g u a g e n s, e n u n c ia d o s fo r ­

ç a d o s e n te rra n d o pa la vra s d e o rd e m fe ito estacas, lugares


q u e e s tria m s o b re o c o rp o e s te tic is m o s é tico s , re d u z e m

suas fo rça s, a lie n a m seus possíveis, c a s tra m -n o , a s s o p ra m

o b u ra c o da fe rid a e d is trib u e m p a s to c o m p ra d o para se


c o m e r. Há c o rp o s fa m in to s das areias d o d e s e rto , há c o r ­

pos b rilh a n te s , g rã o s in d isce rn íve is, que, e m se tra ta n d o

dessa é tica , ta m b é m não q u e re m m ais sa b e r d e nada...


ALCÂNTARA, 2011, p. 11

Ao longo do seu trabalho, Foucault falará, entre outras


coisas, dos corpos: corpos transform ados por distintas for­
mas de captura e disciplinamento em um a infinidade de
dispositivos de poder. Nesse contexto, o autor indaga e
m ostra a invenção da sexualidade como um dispositivo ca­
paz de assegurar a gestão individual do corpo, assim como
das populações. Da m esm a maneira acontece a normatiza-
ção as condutas.
Assim como as fábricas e as celas, espaços sujos de confi-
namento, temos nas prisões, nos hospitais e nas escolas tam­

293
bém diferentes instituições e discursos produtores de subje-
tividades moldadas pelos ditos modos de “viver bem ”. Viver
bem significaria conter a multiplicidade de vivências, conter
as vidas múltiplas que habitam em nós, em detrimento da
afirmação de um a diferença e a favor de um modelo social.
Este, por sua vez, estaria restrito a formas de vida en-
tediadas, limitadas e cerceadas pela m uralha da moral. A
biopolítica que Foucault aborda explicita claramente essa
ideia. O corpo, o vivo, a vida em si se torna alvo do poder
que, como tal, a esvazia, deprim indo formas de existência
possíveis. Contudo, como nos lembra Mario Benedetti, es­
critor uruguaio, a vida insiste, grita e cresce como um a flor
entre as pedras.
Não sem desconhecer como, no mundo contemporâneo,
instaura-se um tipo de subjetividade que tende a ignorar ou
a esvaziar os estados intensivos, os movimentos de resistên­
cia já estão gestados na base de qualquer poder sobre a vida
ou sobre o vivo. O mercado se instala como o dispositivo
hegemônico de reconhecimento social, a partir da afirmação
anteriormente colocada, arriscamo-nos a dizer que a vida, o
vivo, mercantiliza-se e que, a partir daí, vive-se mercantiliza-
damente, performando vidas e estéticas glamorizadas.
A reinvenção de outras formas de habitar a vida se
transform a em movimento de resistência às lógicas de m er­
cado, transforma-se em um a vida em constante devir, em
um a existência de reinvenções, em um modo absolutam en­
te experimental de existir.
Com o advento dos novos paradigm as da com unica­
ção e o avanço da tecnologia, podem os afirm ar que somos
habitados por um m undo ou pela terra inteira. No encon­

29 4
tro com a cibernética, nossos corpos se hibridizam sem
cessar e nossos sentidos se estendem infinitam ente e em
todas as direções. Vivemos tempos eletrônicos, em que
nos relacionam os e nos com unicam os por meio de exten­
sões tecnológicas de nossos sentidos e corpos, o que nos
leva a conjecturar que isso m ultiplica os fluxos, gerando
m ultiplicidades de m odos de estar neste m undo.
Assim, ainda que persistam esses incontáveis fluxos,
tais como as flores que resistem e insistem em vingar em
meio às pedras, ainda que a diferença obstinada se produza
para além das formulações dicotômicas, somos muitas vezes
abarcados por modelos predominantes que nos consomem
e degeneram um a potência de experimentação já debilitada.
Uma estratégia inventiva será sempre capaz de gerar aí
um a fissura, engendrando nos interstícios novas formas de
subjetividade menos mercantis e, portanto, mais criativas
que se fazem no entre: um deslizar pelas bordas, desenhan­
do um a linha de fuga ativa e viva.
Glória Anzaldúa, teórica da cultura chicana (norte-ame­
ricana com ascendência mexicana), vai abordar o conceito
de mestiçagem referindo-se não somente à raça, mas tam ­
bém à sexualidade. Partindo de sua própria experiência de
vida como mulher, lésbica e new mestiza, Anzaldúa propõe
um a sexualidade não delimitada, marcada, um a sexualidade
na fronteira: um a forma de habitar a vida na mestiçagem.

Como mestiça, eu não tenho país, m inha terra


natal me despejou; no entanto, todos os paí­
ses são m eus porque eu sou a irm ã ou a am an­
te em potencial de todas as m ulheres. (Como
lésbica, não tenho raça, m eu próprio povo me
rejeita, mas sou de todas as raças porque o

2 9 5
queer em mim existe em todas as raças.) Sou
sem cultura porque, como um a feminista, de­
safio as crenças culturais/religiosos coletivos
de origem m asculina dos indo-hispânicos e
anglo; entretanto, tenho cultura porque estou
participando da criação de um a outra cultura,
um a nova história para explicar o m undo e
a nossa participação nele, um novo sistema
de valores com im agens e símbolos que nos
conectem um (a) ao(à) outro (a) e ao planeta.
Sou um am asamiento, sou um ato de juntar e
unir que não apenas produz um a criatura tan ­
to da luz quanto da escuridão mas tam bém
um a criatura que questiona as definições de
luz e de escuro e dá-lhes novos significados.
(ANZALDÚA, 1987, p. 80-81)

Literalmente, a fronteira foi o tema que moveu a vida


e a obra de Anzaldúa. Ela reivindicou o espaço da frontei­
ra como móvel, polifônico e híbrido, um lugar, enfim, que
possibilita diferentes maneiras de existir e que propicia a
experimentação de diferentes “identidades”. A fronteira, um
outro espaço também chamado “lar” e, aberto para o ilegal,
faz da subjetividade deslocada a pária - ou, ainda, queer.
A autora baseia seus estudos principalm ente na vida
dos mestiços da fronteira, aqueles que nascem na explo­
siva zona de contato entre México e EUA e vai, a partir
daí e muito além, abordar o modo como as subjetividades
vão sendo invisibilizadas em função das relações de poder
vigentes em um espaço determinado. Sua forma de escrita
recusa tam bém a demarcação de limites, é um a via aberta,
fica na fronteira. A nzaldúa amplia esta forma de viver no
“entre” às categorias de estudo sobre gênero, orientação
sexual, etnia, raça e nacionalidade.

29 6
A fronteira percorrida por ela é o espaço poroso onde
os sujeitos se remodelam, pois ali não deve haver qualquer
pretensão de identidade fixa. A liberdade passaria, nesse
sentido, a minorar a servidão que o Estado constrói para
controlar nossos corpos. Um ato de militância que busca
rom per com a heteronormatividade.
Neste ponto, retom amos Foucault em sua abordagem
dos “dispositivos da sexualidade” para poderm os vislum ­
brar as estratégias disciplinares que fazem parte do sistema
sexo-gênero na contem poraneidade e que são constante­
m ente reeditados sob outras roupagens, em um continuum
de captura dos corpos, im pondo um a heterossexualidade
norm atizadora. O gênero, ao dizer de Beatriz Preciado, não
é um conceito, nem um a ideologia, nem um a performance;
trata de um a ecologia política. A autora afirma que a cer­
teza de ser homem ou m ulher é um a ficção somatopolítica
(PRECIADO, 2008, p. 20).
O corpo se torna um espaço político, um cenário em
que os dispositivos de poder se instalam , penetram todos
os orifícios. Somos violados pelos poderes instituídos, so­
mos corpos cheios, transitando por angústias em intentos
de fugas. Angústia produzida pelas capturas e reforçada pe­
las esferas de poder, dentro e fora de nós mesmos. Quanto
mais tristes estamos, mais somos funcionais ao sistem a ca­
pitalista. A economia capitalista organiza a necessidade, a
escassez e a carência.
O corpo feminino ou masculino é aquilo que se vê, não
interessa o que sente esse corpo. Homem ou m ulher tem
os espaços tanto urbanos como micro ou íntimos profun­
dam ente definidos. Ser homem, mulher, homossexual, he­

297
terossexual produz universos de conhecimentos, condensa­
ções de formas de ser e estar neste mundo.
Voltando a Beatriz Preciado, poderíamos pensar isto
como núcleos biopolíticos e simbólicos duros, nos quais e a
partir destes é possível juntar e produzir um conjunto de prá­
ticas e discursos: “Estamos equipados tecnobiopolíticamente
para follar, reproducirnos o controlar técnicamente la posibili-
dad de la reproducción.. .”138 (PRECIADO, 2008, p. 89).
O capitalismo subjuga as potências e as coloca a seu ser­
viço, na reprodução de um a vida de ejaculação precoce, de
mágoas privadas, de um onanismo infame sem tesão, mão-
-máquina que escorrega pelo corpo como alguém que mata
um boi, em que o trabalho é executado na convicção de se
ter ganho o dia, de se ter relaxado depois de um a alta-tensão.
Somos esvaziados da potência de vida que Beatriz Pre-
ciado cham ará de potentia gaudendi139. Essa potência é ex­
trem am ente perigosa para o capitalismo. Esta é maleável,
im perm anente, é um devir; existindo somente em relação,
como evento. E por tudo mencionado anteriorm ente, esta
não pode ser capturada nem privatizada.
Essa energia, essa potência nos percorre, excita, dá
vida. O tesão é altam ente perigoso para o sistema capita­
lista e é por esse motivo que este insiste em nos abafar,
em despotencializar, em fazer de nossos corpos objetos e
aparelhos a serem modificados, moldados, domesticados.
Mas a carne está viva e o corpo pulsa: quer sair, e assim

138 Estam os equipados tecnobiopoliticam ente para trepar, reproduzir ou controlar-nos tecnicam ente
a possibilidade de reprodução.

139 “Potência atual ou virtual de excitação total de u m corpo. N ão privilegia u m órgão sobre outro:
o pênis não possui m ais força orgásm ica que a vagina, o olho o u o dedo do pé. A força orgásm ica
é a som a das potencialidades de excitação inerente a cada m olécula v iv a.” (PRECIADO, 2008 p. 38)

298
temos algumas possibilidades - incluindo-se aqui a m or­
te, as doenças, mas tam bém outras fugas, aquelas que nos
perm item experim entar a viagem de se estar vivo e querer
transitar por esta vida de um modo menos “miserável”.
Quando capturados pela m aquinaria estatal, somos
obrigados a nos enquadrar, somos cham ados a ser honro­
sos com nossos frágeis corpos femininos ou masculinos. Às
vezes, nos abandonam os, enlouquecem os; as estruturas de
poder estão aí para marcar o rumo e tudo aquilo que sai da
trilha é ferido de morte.
Vivemos determinados pelo baixo ventre. Linha fixa,
neurótica, que marca um estilo de vida, um jeito de estar no
mundo. Cinto de castidade que o tempo ainda não conseguiu
apagar. Desenhos que corroem, linhas que passam e marcam,
dividindo-nos em masculino e feminino. Os mesmos que cor­
rem organizam o sofrimento da vida e se encarregam de repro­
duzi-la em uma lógica mesquinha, triste, nessa lógica mortal.

QUE FAZEMOS C O M ESSES C O R P O S ?


C O M O OS C A R R E G A M O S ?

Sem saída aparente, só podem os descobrir as passa­


gens clandestinas. Fazendo um paralelo, podem os pensar
no papel do Testogel, horm ônio masculino com o qual Bea­
triz Preciado experim enta o seu corpo. Esta conta como se
sente forte e potente ao usá-lo.
Podemos falar de um ponto de vista em que o mais inte­
ressante disto é a forma como esta droga faz m áquina com o
organismo. Esta é invisível, aplica-se por via cutânea e não

2 9 9
deixa rastros; não precisa ser fumada, nem cheirada, nem
injetada, nada. Trata-se apenas de um toque, um a aplicação
na pele. Ela se camufla, m áquina com moléculas. Produz
mudanças que são sub-reptícias ao modelo-olho-capitalista,
consegue se invisibilizar. Quando aparece, já está tudo feito.
Dispositivos clandestinos produzem literal e metafori­
cam ente um a fuga. Produto que foi inventado para uma
finalidade e consegue inaugurar novos campos de interven­
ção. Entra no feminino para devir um híbrido. Delícia que
já produz o fato, apenas pelo ato de se ler a experiência
de Beatriz Preciado. Toque suave na leitura, em que até a
sensação de frescor, de coisa m entolada, dá para se sentir
no corpo. Tesão que gera as leituras, as viagens por outras
existências possíveis. Cheiro de alfazema, de alecrim que
chega para facilitar a escrita, para inaugurar suavidades.
Do outro lado, o Estado cheirando a coisa podre, a cor­
pos em decomposição, a palavras de ordem, de fogo, de
chumbo. Algemas, barulho de cadeias, cheiro de urina, fe­
zes; são sensações que se repetem nesses estabelecimentos.
Contudo, também sabemos que não está tudo dominado.
Fazemos frestas, fendas, cavamos buracos, reinventamos,
vivemos “Entre Atos”.

E N T R E P O S S I B I L I D A D E S . E N T R E ATOS. . .

“Entre os Atos”” é um a obra póstum a. Foi publicada


pelo marido de Virginia Woolf, Leonard, quatro meses após
a escritora inglesa ter se suicidado (no dia 28 de março de
1941). Nesta obra está presente a grande marca da literatura

3 0 0
da autora: um a sim ultaneidade de eventos que criam um
novo tempo narrativo.
O livro atravessa diferentes tempos. Em um m om en­
to, está no período elisabetano; em outro, no vitoriano e
tam bém no tempo presente. Trata-se de um a narrativa que
percorre diferentes momentos, que navega em meio a cenas
simples, fazendo destas um fio condutor.
A obra foi escrita em tempos de guerra, e se deu como
forma de descanso nos intervalos da árdua e opressora en­
trega da autora à elaboração da biografia do amigo Roger
Fry, iniciada em 1938.
Composta para ser encenada sim ultaneam ente pelos
atores e pela plateia que, por sua vez, no mom ento em que
é colocada em cena duvida e vacila ao considerar sua parti­
cipação no espetáculo. Em um segundo plano ou entre im a­
gens, pulsam outras por diferentes elementos como sons e
odores que têm por objetivo evidenciar o horror da guerra,
o medo e o pânico.
Leitura-imagem, tempos que se deslocam, que des­
vanecem, quase como a vida entre a morte. Alguns certa­
m ente afirmarão que esse rom ance já traz nas entrelinhas
o anúncio do desfecho: o suicídio. A partir de um outro
ponto de vista, acreditam os que, pelo contrário, não houve
insinuações: o suicídio de Virginia Woolf foi um ato de ab­
soluta consciência. Sua carta foi lúcida e m uito clara.
Acreditamos que eleger a morte e de que forma se vai
morrer tam bém se constitui um ato de liberdade. Sabemos
que a autora sofria de crises nervosas e de depressão, e não
pretendem os fazer aqui um a elegia ao suicídio. “Entre os
Atos” apresenta-se como um mom ento de total lucidez.

3 01
A opressão nos direciona a diferentes caminhos: pode
nos enlouquecer, fazer-nos mais potentes, pode nos ani­
quilar, matar, ou também nos desterrar; porém, diante de
tantas possibilidades, percebemos que, se conseguimos nos
invisibilizar frente ao Estado opressor, tornam o-nos clan­
destinos e ágeis, viramos gazelas inalcançáveis pelos fluxos
trituradores de um capitalismo selvagem.
Acreditamos que no “entre” viceja a potência, é ali
onde a vida não cessa de pulsar. M om entaneam ente, o En­
tre se assem elha a um a imagem da invisibilidade, mas esta,
justam ente, pode ser o criativo, o devir.
No atual m om ento, experim entam os a sensação de
estarm os sobre areia movediça - não há terra firme onde
pisar - e é nesse im proviso que devemos experim entar
navegar: perm itir-se sair da vida organizada, do tempo
cronológico e hostil que nos exige, a cada m om ento, um
determ inado com portam ento.
Fugir, esquivar-se, escapar por corpos-navios; perca­
mos as rédeas e saiamos dos trilhos. Inauguremos aconte­
cimentos. Vivamos a vida como se fosse um a obra de arte,
no dizer de Michel Foucault, ou como Virginia, em meio à
tediosa tarefa, segundo ela mesma, de escrever a biografia
de Roger Fry. Ela escreve este livro entre um a vida cheia de
criatividade e o que será, naquele mom ento, a sua morte -
entre a saúde e a doença, entre sua casa e o rio que a levará
ao fundo e a devolverá, já sem vida.
Virginia Woolf é um claro exemplo de um a vida vivida
no Entre: de um a m ulher que viveu, para sua época, de
forma diferente, ousada e corajosa. Fumava, amava, pirava,
brigava, transava. Sensibilizada e m obilizada pelo m om en­

302
to que vivia e pela guerra, engajou-se na política, enfren­
tando seu próprio medo e a condição de submissão das
mulheres da época.
Na m anhã em que saiu para morrer, foi vista pela úl­
tima vez por John Hubbard, empregado de um a fazenda
local. Hubbard contou que era por volta das 11h30min da
m anhã quando Virgínia, vestida de sobretudo e bengala,
passou por ele em direção ao rio. A partir deste fato, da pre­
sença de Hubbard, um a pessoa de vida simples e tranquila,
constrói-se outra dimensão; ele se transform a a partir daí
em parte da vida de Virginia Woolf. Ele a viu, pela últim a
vez, com vida.
O acontecimento inaugura um devir, há um a espécie de
magia: ele nunca mais será o mesmo depois disso. Citado
nas biografias da autora e procurado para falar sobre esse
acontecimento, Hubbard se torna quase como um amante,
um a vez que viveu entre a vida e a morte de Virgínia Woolf.
Em algumas versões contadas do fato, a bengala cai e ela,
Virgínia, se faz visível para ele, por um momento. Como
se houvesse um titubeio, um vacilo entre a vida e a morte,
inaugura-se um acontecimento na vida daquele trabalhador.
Nas obras da escritora, podem os sentir a potência de
sua própria vida. Ela escreveu no entreguerras e durante as
guerras, superando a possibilidade real e im inente de um a
invasão. Virginia Woolf, assim, inaugurou várias linhas de
fuga, de criatividade. Apesar de sua angústia e da tristeza,
escreveu tentando esquivar-se do tempo, introduziu outros
cenários, ritmos diferentes, enlouquecendo e produzindo.
A criatividade com que encaramos a vida nos permite
driblar os mom entos de opressão. Nada disso nos é ensi­

303
nado na escola - somos educados para sermos tristes e re­
produzir padrões de existência em que nos tornam cada dia
mais dominados.
Desalinhar, portanto, faz parte de um a política da exis­
tência, de um a forma de viver possível, m enos opressora e,
talvez, mais alegre. Ou apenas clandestina.

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WOOLF, V. Os diários de Virginia Woolf. São Paulo: Ed.
Companhia das Letras, 1989.

3 0 4
AUTORES

Alice De M archi P ereira de Souza.


É psicóloga, m ilitante de direitos hum anos e pesquisa­
dora na Justiça Global. Possui mestrado em psicologia pela
UFF e doutorado em psicologia social pela UERJ.

A line B arbosa Figueiredo Gomes.


É mestre em Psicologia pelo Programa de Pós-Gradua­
ção em Psicologia (PPGP/UFF). Especialista em Psicologia
Jurídica (UERJ). Atualmente é psicóloga do Exército Brasi­
leiro e trabalha no Hospital Geral do Rio de Janeiro, atuan­
do no am bulatório de psicologia e no programa de depen­
dência química. É docente na pós-graduação em Psicologia
e Políticas Públicas do Centro Universitário Celso Lisboa.

B runo G iovanni de P au la P ereira Rossotti.


É psicólogo da Universidade Federal do Estado do Rio
de Janeiro, graduado pela Universidade Federal do Rio de
Janeiro (2010), mestre em Psicologia pela Universidade Fe­
deral Fluminense (2011) e doutor em Psicologia pela Uni­
versidade Federal do Rio de Janeiro (2016), atuando nos
campos da Psicologia Organizacional e Grupalidade.

305
C atarine Venas.
D outoranda de Psicologia em andam ento pela UFF.
Mestre em Psicologia nos estudos sobre o corpo, na linha
de pesquisa Política, Subjetividade e Exclusão Social pela
UFF. Especialização em Filosofias da Diferença - PUC/Rio.
Percurso profissional na área de Saúde Mental; atualm ente
Diretora do CAPS Manoel de Barros.

Cecília M aria Bouças Coimbra.


Doutora em Psicologia (USP), fundadora e atual Vice-
p resid en te do Grupo Tortura Nunca Mais (GTNM-RJ), pro­
fessora aposentada do Departam ento de Psicologia (UFF) e
professora da Pós-Graduação em Psicologia (UFF).

D anielle P in h eiro da Silva.


Psicóloga Clínica e Institucional - CRP 05/33648. Mes­
tre em Psicologia pela Universidade Federal Fluminense.
Psicóloga da Coordenadoria Técnica do Conselho Regional
de Psicologia do Rio de Janeiro. Especialista em Trauma.

Erika Reis.
Psicóloga do Tribunal Justiça do Estado do Rio de Ja­
neiro; Doutora em Psicologia pela UFF; Mestre em Psico­
logia pela UFRJ; Pós-graduada em Psicologia Jurídica pela
UERJ; Bacharel em Filosofia pela UFRJ; Autora dos livros
“Varas de Família - Um Encontro entre Psicologia e Direito”
e “Justiça e Espírito de Vingança. O que se quer quando se
pede por Justiça e o Ressentimento do homem atu al”, am ­
bos publicados pela Editora Juruá.

3 0 6
Filipe de C ontti A sth é psicólogo e possui mestrado em
psicologia pela UFF.

José R odrigues de A lvarenga Filho.


É doutor e mestre em Psicologia pelo Programa de Pós­
-Graduação em Psicologia (PPGP/UFF). Especialista em
Psicologia Jurídica (UERJ). Atualmente, desenvolve pes­
quisa de Pós-Doutorado (PPGP/UFF). Professor Adjunto do
Departam ento de Psicologia da Universidade Federal de São
João del-Rei (UFSJ).

Ju lia B arboza G am betta.


Uruguaia, formada em Psicologia pela Universidade da
República. Com especialização em Análise Institucional,
Esquizoanálise e Esquizodrama: Clínica de Grupos, Organi­
zações e Redes Sociais, pela Fundação Gregório Baremblitt,
MG. É mestre e doutoranda do Programa de Pós-graduação
em Psicologia da Universidade Federal Fluminense (UFF),
na linha de pesquisa ‘Subjetividade, política e exclusão so­
cial’. Atua em clínica e é professora da Universidade Salga­
do de Oliveira

Lia Toyoko Yam ada.


Psicóloga do Presídio da M arinha no período de 2004 a
2012. Doutora em Psicologia Social pelo Programa de Pós­
-graduação em Psicologia Social pela UERJ, mestre em psico­
logia pelo programa de pós-graduacao em psicologia da UFF.

Livia Valle.
Formada em psicologia pela Universidade Federal do Rio

307
de Janeiro (UFRJ), é pesquisadora, mestre e doutoranda na
área de Estudos da Subjetividade pelo Programa de Pós-Gra­
duação em Psicologia da Universidade Federal Fluminense
(UFF) - linha de pesquisa “Subjetividade, Política e Exclusão
Social”. Atua e pesquisa na área de psicologia social. Seus
principais interesses de pesquisa atualm ente passam pelos
temas: arte e subjetividade, processos de escrita e pesquisa,
experiência e esgotamento, ética e modos de vida.

M aria Clara Alves de Barcelos Fernandes.


Psicóloga, doutoranda em estudos da subjetividade
pela UFF e professora de psicologia na Faetec.

P aula de Melo Ribeiro.


Psicóloga e professora. Doutoranda e mestre em psi­
cologia (UFF). Especialista em Psicologia Jurídica (UERJ).

S andra R aquel Santos de Oliveira.


Professora colaboradora do Departam ento de Psico­
logia e bolsista PNPD-CAPES do Mestrado em Psicologia
da Universidade Federal de Sergipe. Doutora em Psicologia
pela Universidade Federal Fluminense, tem interesse nas
áreas de Psicologia Social e Política, Direitos Humanos, Go-
vernam entalidade e novas modalidades de poder pastoral.

V anessa M enezes de A ndrade.


Negra, coordenadora do projeto Afrobetizar, coordena­
dora do grupo de estudos IMARALÉ am bos voltados para
luta contra o racismo. Doutoranda em psicologia Uff. Foco:
psicologia e racismo.

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Este livro foi com posto em ITC Slimbach Std pelo
G rupo M ultifoco e impresso em papel offset 75 g/m 2.