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O pioneirismo da Faculdade de Direito da UFMG:

a introdução do Direito Econômico no Brasil

Giovani Clark1

1. Introdução

E
ntre os vários louros colhi- Até então, os discentes dos
dos pela Faculdade de Direito cursos de Direito da nação estudavam
da Universidade Federal de Economia Política e não possuíam uma
Minas Gerais em seus 120 anos de visão jurídica dos assuntos econômicos.
ensino, pesquisa e extensão no Brasil, Nem a referida disciplina, nem os ramos
não podemos deixar de exaltar o seu tradicionais do Direito, versavam sobre
pioneirismo em introduzir no país a a juridicização das políticas econômi-
disciplina Direito Econômico, nos seus cas que resultavam, por exemplo, em
cursos de Graduação e Pós-Graduação controle de preços, criação de empresas
(Doutorado), ainda no fi nal dos anos estatais, legislação planejadora e incen-
sessenta do século passado. tivos ao capital estrangeiro.
Ademais, tais ações estatais
1 Doutor em Direito Econômico pela acima descritas eram típicas de uma
Universidade Federal de Minas Gerais.
Professor de Direito Econômico na Faculdade realidade enfrentada por um mundo
de Direito da Universidade Federal de Minas
que tinha passado por duas guerras
Gerais e do Programa de Pós-Graduação em
Direito da PUC-Minas. mundiais (1914-1918 e 1939-1945), e
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que vivia o socialismo real em alguns da UFMG – professores, alunos e repre-


Estados nacionais, bem como os reflexos sentantes dos órgãos superiores da admi-
da guerra fria. O Brasil já tinha iniciado nistração à época – em ter a grandeza e o
sua industrialização na ditadura Vargas desprendimento em apoiar a introdução
(1930-1945) e priorizado o setor secun- do Direito Econômico no Brasil. Dessa
dário de consumo no governo Juscelino forma, ela saiu na frente, escreveu a
Kubitschek (1956-1961), o que foi apro- história como pioneira e influenciou
fundado pela ditadura militar iniciada outras Faculdades de Direito no país a
em 1964. Como se vê, a juridicização da adotarem a disciplina. Portanto, a Casa
política econômica há muitos anos era de Afonso Pena é também a Casa do
pauta do dia e, portanto, era chegada a Direito Econômico.
hora das Escolas de Direito brasileiras in- Este artigo tem como objeto
troduzirem o Direito Econômico, como descortinar e reviver uma das marcas
já se fazia em outras partes do mundo. indeléveis da Faculdade de Direito da
Certamente, o papel do Professor UFMG, ou seja, a introdução do Direito
Washington Peluso Albino de Souza foi Econômico no Brasil pelas mãos do
crucial para a Faculdade de Direito Mestre Washington Peluso Albino de
da UFMG ser a primeira Escola de Souza.
Direito no Brasil a implantar o Direito Esclarecemos que foi realizada
Econômico em seus currículos. A sua uma pesquisa eminentemente biblio-
extraordinária capacidade intelectual, gráfica, mas não deixamos de apro-
os seus vastos conhecimentos jurídicos, veitar a oportunidade para registrar
filosóficos e econômicos e sua encanta- formalmente algumas peculiaridades da
dora arte de articular as ideias foram consolidação da disciplina deixadas na
fundamentais para demonstrar a impor- oralidade, digo, guardadas nas memórias
tância da disciplina aos corpos docente e nos corações daqueles que viveram a
e discente da Casa de Afonso Pena e sua historia.
também do restante do país.
Por outro lado, não podemos
deixar de exaltar a capacidade da comu-
nidade acadêmica da Escola de Direito

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2. O cenário econômico e Pelos motivos acima e por ou-


social da época tros, os Estados nacionais de economia
de mercado passaram a agir de forma
Estávamos em tempos de guerra aguda no domínio econômico e social,
fria, era final dos anos 60 e inicio dos 70 implantando o neoliberalismo de regu-
do século XX, quando o mundo se pola- lamentação, tendo como base jurídica as
rizava entre os Estados Unidos, máximo suas Constituições Econômicas.
representante da economia de mercado, No citado cenário mundial,
e a União Soviética, hoje inexistente, onde ditaduras garantiam privilégios
como comandante do socialismo real, e hegemonia para ambos os lados an-
na qual o Estado era o proprietário dos tagônicos da guerra fria, o Brasil vivia
bens de produção. Para os seus críticos, dias difíceis, digo, anos de chumbo.
o dito socialismo não passava de um Estávamos em pleno regime militar des-
capitalismo de Estado. de 1º de abril de 1964, período em que a
Em virtude da guerra fria, o democracia foi estrangulada e os oposi-
poderio das duas grandes potências tores mortos, torturados e cassados. As
mundiais era medido pela capacidade de normas jurídicas estatais eram produzi-
produzir armas de guerra com poder de das autoritariamente, ao gosto dos donos
destruição em massa e tecnologicamente do poder político e econômico.
evoluídas. Existia um confronto virtual Precisamente em 1964 foi edi-
entre as potências, cercado por um am- tado o Plano de Ação Econômica do
biente de temor pela extinção da espécie Governo – PAEG, voltado para o comba-
humana, de lutas sociais em prol de no- te da inflação, resultando na diminuição
vos e antigos direitos e de constantes cri- de gastos públicos, limitação do crédito
ses cíclicas do sistema capitalista. Assim e arrocho salarial. Tudo em nome da
sendo, para supostamente “humanizar industrialização baseada no capital es-
os mercados”, Estados sociais foram trangeiro.
implantados, alguns reais, como os da Entre 1968 a 1973, o cenário
Europa ocidental, outros de fachada ou econômico brasileiro era de “milagre”,
arremedos, como os da América Latina. com intensa ação estatal na vida eco-
nômica e social, privilegiando o capital

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internacional e concentrando renda, por 3. O pa p e l do ju r i s t a


intermédio, por exemplo, da formação Washington Peluso Albino
de oligopólios e da superexploração dos de Souza e as conquistas do
trabalhadores. Fértil terreno, apesar de Direito Econômico
perigoso, para o estudo do tratamento
jurídico das políticas econômicas. Entre as façanhas do Professor

Durante o famigerado milagre, Washington Albino, temos a sua dis-

melhoramos as nossas exportações de cordância da tradução realizada pelo

produtos industriais com incentivos examinador de francês em sua prova oral

públicos, dilatamos a aquisição das em- do vestibular de ingresso na Faculdade

presas brasileiras pelo capital estrangei- de Direito da UFMG. O jovem de Ubá,

ro, endividamos a nação com dinheiro no dia seguinte, comprovou o tropeço do

externo e criamos empresas estatais. examinador. Foi apenas o início de uma

Em síntese, estruturamos um processo longa história na Casa de Afonso Pena.

produtivo dependente, excludente e con- Professor da Faculdade de

centrador, que entrou em crise em 1973 Direito a partir de 1949, o Mestre

devido à elevação mundial dos preços Washington Peluso Albino de Souza

do petróleo, gerando assim recessão, obteve o título de Doutor em 1951

desemprego e colapso da dívida externa. com a Tese Ensaio da Conceituação

No mesmo período, tivemos ain- Jurídica do Preço. Em 1968, especiali-

da a imposição da emenda constitucio- zou-se em Planejamento Econômico pelo

nal nº 1 de 1969, com sua Constituição Ministério das Relações Exteriores da

Econômica (arts. 160 a 174), bem como França e Universidade de Paris.

da legislação planejadora da época, Iniciou-se a luta pelo Direito

com os famosos Planos Nacionais de Econômico quando o Mestre Washington

Desenvolvimento – PND nº I e II (Leis Albino escreveu sua referida Tese para

nº 5.727 de 04/11/71 e nº 6.115 de concorrer à vaga da cadeira de Economia

14/12/74). Política na UFMG. Em suas conclusões


ele defendia a implantação do Direito
Econômico nos currículos dos cursos de
Direito. Ele assumiu a referida vaga em

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1951, logo após o concurso, e a partir de de Doutorado também cumpriram o


então continuou a luta pela introdução mesmo papel, dentre as quais há de ser
da nova disciplina: Direito Econômico destacada a da Professora Ana Maria
– objeto: juridicização da política eco- Ferraz Augusto, Sistematização para
nômica –, independente da antiga disci- a Consolidação das Leis Brasileira de
plina Economia Política, cujo objeto é o Direito Econômico, publicada em 1975.
conhecimento do fato econômico como Naqueles tempos não existia

conteúdo da norma de direito. grande quantidade de Faculdades de

Após incansáveis debates sobre Direito no país, como nos dias de hoje.
Pelo contrario, elas eram em número
a importância da disciplina, conseguiu-
reduzido e se concentravam geralmente
se a primeira vitória, em 1969:2 o Direito
nas capitais dos Estados, realidade exis-
Econômico passou a ser lecionando na
tente até meados dos anos 90, quando o
UFMG. O Professor Washington Albino
serviço público de educação, incluindo
foi o primeiro professor da disciplina no
o superior, passou a ser encarado como
Brasil e o grande timoneiro das batalhas
“atividade econômica de consumo pas-
pela sua consolidação em nossa nação.
sível de obtenção de lucro” pelo setor
A disciplina foi introduzida
privado, inclusive pelo capital estrangei-
na Faculdade de Direito da UFMG no
ro.4 Portanto, a missão naquela época
curso de Graduação nos 2º e 9º perío-
era difundir o Direito Econômico nas
dos – Direito Econômico I e II, respecti-
principiais Escolas de Direito do Brasil
vamente –, bem como no Programa de e persuadir professores e comunidades
Pós-Graduação, com tempo de duração acadêmicas a introduzirem a disciplina.
de um ano. Logicamente, a produção Assim foi feito em São Paulo, Rio de
intelectual no intuito de consolidar a Janeiro, Ceará, Santa Catarina etc.
disciplina se fazia indispensável,3 e os Temos que lembrar ainda da
Cadernos de Direito Econômico fo- criação, em 1972, da Fundação Brasileira
ram um dos meios utilizados. As Teses de Direito Econômico5 – FBDE, com a

2 Cf. palestra do Professor Washington Peluso 4 CLARK; NACIMENTO, 2011.


Albino de Souza em PEREIRA, 1977, pp.
208-216. 5 Ela publicou recentemente, em 2011, o livro
Direito Econômico e a Ação Estatal na Pós-
3 COMPARATO, 1965. Modernidade, em parceria com a Editora LTr.
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missão de pesquisar, estudar e divulgar da disciplina. Ao seu final foi produzida


a disciplina pelo país. Nas primeiras a Carta do Caraça (21/07/1977), que
atas da instituição podemos, novamente, defende a inserção do Direito Econômico
comprovar a união dos professores da nos círculos das Faculdades de Direito.
Casa de Afonso Pena em torno da con- Uma outra grande vitória do
solidação do Direito Econômico. Direito Econômico foi a sua referência
A publicação do Dicionário expressa no art. 24, I da Constituição
de Direito Econômico – penúltima Brasileira de 1988, como competência
versão em 1972 – também deve ser concorrente da União e dos Estados-
mencionada. Seus verbetes tiveram a membros, o que não exclui a municipal.
colaboração de professores e alunos Através de um belo trabalho do Professor
da Faculdade de Direito da UFMG em Washington Peluso Albino de Souza,
um grande esforço intelectual de todos. juntamente com outros colaboradores, o
Anos mais tarde, em 2010, publicou- constituinte de 1988 foi sensibilizado da
se a nova edição do Dicionário por importância do Direito Econômico e deu
meio da Fundação Brasileira de Direito destaque ao mesmo no citado artigo. Até
Econômico, ainda com as contribuições então, a “carta constitucional” da época
do Mestre Washington Albino e graças – digo, a Emenda Constitucional nº 1 de
ao trabalho de inúmeros abnegados, 1969 – não trazia referência expressa ao
mas especialmente ao entusiasmo do Direito Econômico. Contudo, apresenta-
Professor Floriano de Lima Nascimento va uma Constituição Econômica (arts.
e ao fantástico esforço de organização/ 160 a 174) e as competências constitucio-
redação/revisão do Professor Ricardo nais (art. 8) para legislar sobre institutos
Antonio Lucas Camargo. de Direito Econômico tais como produ-
Em 1977 tivemos o I Seminário ção, circulação, distribuição e consumo.
de Professores de Direito Econômico, Em pleno século XXI, quando a
evento patrocinado pela Escola de bandeira da regulação foi hasteada e seus
Direito da UFMG no qual foram debati- comandos foram implementados pelo
dos temas como o objeto e a autonomia mundo, inclusive nos extintos Estados
socialistas, o Professor Washington
Trata-se da última obra escrita e coordenada
pelo Professor Washington Peluso Albino de Peluso Albino de Souza nos brinda com
Souza.
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mais uma fundamental contribuição a regulação não passa de uma técnica


científica demonstrando que estamos de intervenção estatal na vida social e
em outra fase do neoliberalismo, agora econômica:
de regulação, diferente da anterior, de
No fi m do século XX e no início do século
regulamentação.6
XXI, as políticas neoliberais de regulamen-
No neoliberalismo de regu- tação passaram a restringir a expansão e
lamentação, o processo produtivo a mobilidade do capital. O novo ambiente
mundial de fi m da guerra fria, queda do
capitalista e os detentores do poder
socialismo real e de alta evolução tecnológi-
econômico privado, em plena guerra
ca resulta em pressões por outras políticas
fria, utilizavam-se principalmente do econômicas ao gosto dos donos do capital.
Estado empresário – empresas públicas Os Estados nacionais passam a executar o
neoliberalismo de regulação transferindo
e sociedades de economia mista –, digo,
serviços e atividades econômicas estatais à
intervenção direta, para agir no domínio
iniciativa privada (via privatização e desesta-
econômico e social, assim como da in- tização), agora, atraentes ao capital, em face
tervenção indireta (normas jurídicas), a da “redução” dos ganhos com a indústria
bélica da guerra fria e dos avanços científi-
fim de amainar as crises cíclicas, refrear
cos. A tecnologia tornou lucrativos setores
as reivindicações dos trabalhadores e
que anteriormente tinham baixa lucrativida-
espantar o socialismo real. de, ou não tinham, e estavam nas mãos do
Já no neoliberalismo de regula- Estado. [...] o Estado passou a adotar uma
nova técnica de ação na vida econômica, ou
ção – em crise a partir de 2007/2008 e
seja, o neoliberalismo de regulação. O poder
efetivado após os anos noventa do sécu-
estatal continuou a intervir indiretamente
lo passado com a queda do socialismo no domínio econômico, através das normas
real e o fi m da guerra fria – ensejou legais (leis, decretos, portaria); assim como
de forma intermediária, via agências de regu-
outro “tipo” de atuação estatal. Agora
lação. Todavia, diferentemente das empresas
o suposto Estado mínimo – atualmente
estatais, as agências não produzem bens ou
também em colapso – voltado aos desejos insumos nem prestam serviços à população,
do capital globalizado passou a atuar mas somente fiscalizam e regulam o mercado
ditando “comandos técnicos” de expansão,
no domínio socioeconômico prioritaria-
qualidade, índices de reajuste de preços/
mente por meio das agências reguladoras
tarifas, etc.7
e das normas jurídicas. Assim sendo,

6 SOUZA, 2005, pp. 331-344. 7 CLARK, 2008, p. 70.


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Em toda sua vida acadêmica pleno século XXI, que negam a autono-
e intelectual, o Professor Washington mia da disciplina, incluindo o seu objeto
Peluso Albino de Souza foi uma ban- como conteúdo dos ramos tradicionais
deira do Direito brasileiro e da América do Direito; ou então a chamam de di-
Latina, construindo diuturnamente os reito da economia, quer dizer, estudo
pilares teóricos do Direito Econômico, articulado da legislação sobre assuntos
tendo também laborado na elaboração/ econômicos. Tais estudiosos ainda não
interpretação de sua legislação e lançan- conseguiram ou não desejam identificar
do luzes na edificação da jurisprudência. o objeto do Direito Econômico, seja por
Ele faleceu em 2011 aos 94 anos, lúcido, falta de profundidade jurídica, seja por
defendo as teses do Direito Econômico conservadorismo ou receio em conceder
e denunciando os efeitos nefastos do destaque a outra disciplina.
neoliberalismo de regulação, tais como O dilema da autonomia do
a subordinação dos Estados nacionais Direito Econômico já foi sepultado
ao capital privado internacional, o aban- pela ciência do direito na atualidade.
dono do planejamento enquanto técnica Entretanto, persistem as correntes que
de ação estatal no domínio socioeconô- divergem quanto ao seu objeto. Aliás,
mico em nome das políticas setoriais e, confl ito inerente a qualquer ramo do
ainda, a implementação do crescimento Direito.
modernizante em detrimento do desen- Alguns doutrinadores pregam
volvimento. 8
que o Direito Econômico é ramo do
Direito Privado por normatizar o com-
4. A autonomia do Direito
portamento do poder econômico priva-
Econômico
do. De forma diversa, com muito mais
A partir do século XX, a au- adeptos, outros estudiosos advogam a
tonomia do Direito Econômico é evi- tese de que se trata de ramo do Direito
denciada mediante sua legislação, juris- Público por versar sobre a intervenção
prudência e doutrina.9 Todavia, ainda estatal na vida econômica e, automa-
existem doutrinadores do direito, em ticamente, na esfera social. Por outro
lado, existe uma terceira corrente que
8 BERCOVICI, 2005.
amplia o objeto da disciplina à legislação
9 CAMARGO, 1993.
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econômica, bem próxima aos estudos Privado, Estados e entes internacionais),


dos cultores do direito da economia, normas (proibitivas, coativas, premiais,
apesar de defenderem a autonomia da programáticas), regras (equilíbrio,
disciplina. equivalência, recompensa, liberdade
A quarta corrente, por sua de ação, indexação etc.) e princípios
vez, deixa de lado a dicotomia Direito hermenêuticos (standard jurídico, flexi-

Público e Privado e, seguindo as luzes bilidade, mobilidade, subsidiariedade)11.

do saudoso Professor Washington Peluso A sua clássica obra – Primeiras Linhas


de Direito Econômico, última edição
Albino de Souza, defende que o Direito
de 2005 – comprova nossa afirmação,
Econômico é um direito de síntese e tem
além de possuir um rico material a ser
como objeto as políticas econômicas dos
pesquisado e estudado por anos a fio
agentes públicos e privados. Afiliamo-
pelos cientistas do direito e das demais
nos a essa corrente:
ciências sociais no Brasil, na America
Direito Econômico é o ramo do Direito que Latina e na Europa.12
tem por objeto a “juridicização”, ou seja, o Infelizmente, durante os ventos
tratamento jurídico da política econômica
do neoliberalismo regulador, mesmo
e, por sujeito, o agente que dela participe.
reconhecendo a autonomia didática do
Como tal, é o conjunto de normas de conteú-
do econômico que assegura a defesa e har- Direito Econômico, parcela dos seus
monia dos interesses individuais e coletivos, juseconomistas restringiram os seus es-
de acordo com a ideologia adotada na ordem tudos – quase sempre influenciados pelo
jurídica. Para tanto, utiliza-se do “princípio
método da análise econômica do direito
da economicidade”.10
– à proteção do consumidor e ao abuso
Dentro de um minucioso tra- do poder econômico, deixando de lado
balho de investigação científica, atra- a Teoria Geral do Direito Econômico, a
vessando dois séculos, produzindo Constituição Econômica, o planejamen-
inúmeros livros, artigos e palestras, o to etc. Tal enfoque restringe o debate e
Mestre Washington Albino não só po- o ensino da disciplina.
sicionou-se sobre o objeto da disciplina, Hoje, o Direito Econômico en-
mas também quanto aos seus sujeitos contra-se consolidado no país, e não só a
(indivíduos, pessoas jurídicas de Direito
11 SOUZA, 2005.
10 SOUZA, 2005, p. 23. 12 CLARK; CORRÊA, 2011.
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Faculdade de Direito da UFMG o adota de 1988 e não de forma esporádica e/


em seus currículos, mas também outras ou subsidiária como defendem os neoli-
Escolas de Direito do Brasil. A disciplina berais reguladores; e, ainda, ensina que
estimulou linhas de pesquisas e a produção a expressão “livre iniciativa” é ampla e
de Dissertações e Teses nos Programas de inclui a iniciativa do Estado e não apenas
Pós-Graduação em Direito da UFMG, das empresas.
da PUC-Minas, da USP, da PUC-PR, da
5. Considerações finais
PUC-SP, da UNIFOR e da UFPB.
Inclusive, a disciplina é obriga- Nas comemorações dos 120
tória nos concursos da Magistratura e anos de glórias de Faculdade de Direito
do Ministério Público Federal, conforme da UFMG, a famosa vetusta Casa de
Resoluções nº 75, de 12 de maio de 2005, Afonso Pena também é a Casa do Direito
do Conselho Nacional de Magistratura, Econômico. Nela a disciplina nasceu
e nº 110, de 1º de fevereiro de 2011, para o Brasil por meio da capacidade in-
do Conselho Superior do Ministério telectual do Professor Washington Peluso
Público, respectivamente. É ainda con- Albino de Souza, bem como devido à
teúdo de várias decisões dos tribunais sensibilidade e ao pioneirismo de seus
nacionais superiores, como a ADI 1950, discentes e docentes, que detectaram sua
julgada no Supremo Tribunal Federal e essencialidade.
relatada pelo ex-Ministro Eros Roberto Agora o Direito Econômico não
Grau, 13
um dos cultores do Direito é mais apenas “o Direito do Washington”,
Econômico de primeira hora. como foi chamado nos tempos de sua im-
Em Voto Aula, na dita ADI, o plantação no Brasil, em uma referência
Professor Eros Grau reafi rma a com- ao seu introdutor no país, segundo o
petência da União, dos Estados e dos Professor Eros Roberto Grau em uma
Municípios para legislarem sobre Direito homenagem ao Mestre Washington
Econômico; elucida a imposição consti- Albino em 2008, promovida pelo Centro
tucional do Estado intervir constante- Acadêmico Afonso Pena. A disciplina
mente no domínio econômico a fim de ganhou corpo legal, musculatura ju-
atingir os fins/objetivos da Constituição risprudencial e estatura doutrinária.
Portanto, a sua introdução foi uma das
13 GRAU, 2010.
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grandes contribuições da Faculdade de Por fim, na impossibilidade de


Direito da UFMG para a nação. citar todos aqueles que contribuíram
A árdua tarefa de difundir, en- com a introdução e a consolidação do
sinar e pesquisar o Direito Econômico Direito Econômico na Faculdade de
na Casa de sua introdução durante Direito da UFMG e no Brasil, pela limi-
anos ficou a cargo do saudoso Professor tação de espaço e por não ser o objeto
Washington Peluso Albino de Souza, do artigo, as minhas sinceras desculpas;
bem como dos Professores de sua pri- mas que se sintam aqui homenageados.
meira hora, Ana Maria Ferraz Augusto,
João Bosco Leopoldino da Fonseca e
Terezinha Helena Linhares.14 Depois
vieram os Professores José Luiz Quadros
de Magalhães, Isabel Vaz e Rosemiro
Pereira Leal.
Agora a missão foi transferida
para os Professores Amanda Flávio
de Oliveira, Giovani Clark, Fabiano
Teodoro de Rezende Lara e Leandro
Novaes e Silva. Os desafios são inúme-
ros, principalmente em uma disciplina
que jamais dorme em berço esplêndido e
que diariamente exige novas construções
jurídicas.

14 Atualizou a segunda e a terceira edições da


obra Primeiras Linhas de Direito Econômico,
publicadas pela Fundação Brasileira de
Direito Econômico e pela Revista dos
Tribunais, respectivamente nos anos de 1992
e 1994.
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