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AS POLÍTICAS DA FOME NO BRASIL E O PARADIGMA DE


COMUNICAÇÃO DE JURGEN HABERMAS

Roberto Jarry Richardson, PhD

Para aqueles que se recusam a aceitar que todos nós temos direito a viver,
cabe lembrar-los do Art. 2 da Declaração Universal dos Direitos Humanos,
proclamada e aprovada pela Assembleia Geral das Nações Unidas, em 10 de
dezembro de 1948:

Art 2. Toda pessoa tem capacidade para gozar os direitos e as


liberdades estabelecidos nesta Declaração, sem distinção de qualquer
espécie, seja de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou de
outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou
qualquer outra condição.

Além disso, é importante que essas pessoas internalizem a advertência do Art


30 dessa mesma Declaração, que ninguém pode se outorgar o direito, nem
mesmo o Estado, para exercer ou executar qualquer ato que leve à destruição
de quaisquer dos direitos e liberdades do ser humano.
Pobre Declaração! Tem sido violada tantas vezes . Concordando com a
organização espanhola Derecho a Vivir , o direito à vida de todos os seres
humanos, no qual se fundamentam os outros direitos, é paradoxalmente, o
menos respeitado. O grande avanço que significa essa Declaração, fico frágil,
igual que um papel molhado.

Para Thomas Pogge (2006), professor de filosofia da Universidade de Yale e


especialista em pobreza e direitos humanos, os direitos socioeconômicos a
“um padrão de vida adequado, à saúde e ao bem-estar de uma pessoa e de
sua família, inclusive alimentação, vestimentas, moradia e cuidados médicos”
(DUDH, artigo 25), são, hoje, os direitos humanos mais freqüentemente
violados. Sua violação também desempenha um papel decisivo na explicação
2

do déficit global nos direitos humanos políticos e civis que demandam


democracia, processo apropriado e a regra da lei.
De acordo com esse autor, “pessoas muito pobres – frequentemente física e
mentalmente atrasadas devido à subnutrição na infância, ignorantes devido à
falta de instrução, e muito preocupadas com a sobrevivência de suas famílias –
pouco dano ou benefício podem causar aos políticos e oficiais que os
governam. Tais governantes, portanto, têm muito menos incentivo para atender
aos interesses dos pobres, em comparação com os interesses de agentes mais
capazes de reciprocidade, incluindo governos estrangeiros, empresas e
turistas” (POGGE, 2006, p. )

As estatísticas são estarrecedoras! Segundo o Índice de Pobreza


Multidimensional PNUD 2011, cerca de 1,7 bilhão de pessoas em 109 países
viviam em pobreza ‘multidimensional’ na década que terminou em 2010, pelo
cálculo IPM. Isto é quase um terço da população total dos países, que soma
5,5 bilhões até o ano passado. Pelos critérios de avaliação de pobreza do
Banco Mundial, 1,3 bilhão de pessoas viviam com US$ 1,25 ou menos por dia
em 2010 – uma medida utilizada para acompanhamento dos Objetivos de
Desenvolvimento do Milênio (ODM).

O Níger tem a maior proporção de pessoas multidimensionalmente pobres,


com 92% da população, diz o relatório. Em seguida vem Etiópia e Mali, com
89% e 87%, respectivamente. Todas as 10 nações mais pobres medidas pelo
IPM estão na África Subsaariana. Mas o maior número de pessoas
multidimensionalmente pobres se concentra no sul da Ásia: Índia, Paquistão e
Bangladesh têm alguns dos maiores números absolutos neste indicador
(PNUD,2011). Em oito estados da Índia vivem mais pobres que no conjunto
dos 26 países mais pobres de África, Nesses estados indianos, 421 milhões
de pessoas vivem baixo a línea de pobreza. Nos países africanos mais
necessitados, vivem 410 milhões.
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Figura 1

Mapa-múndi indicando o Índice de Desenvolvimento Humano

Muito elevado ██ Elevado ██ Médio ██ Baixo ██ Sem dados

De acordo com dados informados por Anup Shap (2010), da organização


“Global Issues” em Poverty Facts and Stats, 2010. Global Issues Social,
Political, Economic and Environmental Issues That Affect Us All:

1.- Quase a metade da população mundial – mais de 3 bilhões de pessoas,


viviem com menos de R$ 5,00 por dia.
4

2.-O 40% mais pobre da população mundial, recebe um 5 por cento da renda
global. O 20% mais rico, recebe setenta e cinco por cento da renda mundial.

3.- De acordo com dados do UNICEF, 22,000 crianças morrem por dia devido
à pobreza. E, “morrem em silêncio em algum dos povoados mais pobres da
terra, longe dos olhos e da consciência do mundo. A fragilidade de suas vidas,
faz mais invisível a sua morte..” (GLOBAL ISSUES,2011).

4.- Aproximadamente um bilhão de pessoas iniciaram a século 21, sem saber


ler ou assinar seus nomes.

5.-Até o ano 2000, menos de um por cento do que o mundo gastou em armas,
por ano, era necessário para dar escola a todas as crianças do mundo
Podemos constatar que isso não aconteceu. (NEW INTERNATIONALIST,
2011)

De acordo com dados apresentados por Pogge (2010), aproximadamente 250


milhões de crianças entre 05 e 14 anos fazem trabalho assalariado fora de
suas casas, 170 ,5 milhões deles estão envolvidos em trabalhos perigosos, e
8,4 milhões nas piores formas de trabalho infantil, escravidão, trabalho forçado,
prostituição, recrutamento forçado em conflitos armados, etc (OIT 2002: 9, 11,
17, 18). Mulheres e crianças não brancas, constituem a maioria dessas tristes
estatísticas.

Segundo o Panorama Social de América Latina, 2010, elaborado pela


Comisión Económica para América Latina y el Caribe (CEPAL), com a
participação do Centro Latinoamericano y Caribeano de Demografia
(CELADE),estima-se que 32,1% dos habitantes latino-americanos permaneçam
em situação de pobreza e 12,9% na indigência em 2010, o que representa 180
milhões de pobres, dos quais 72 milhões estarão em situação de extrema
pobreza, retornando a níveis similares aos de 2008.
5

Figura 2

Percentagem da população de América Latina em situação de extrema


pobreza.

Fonte: Vilarino (2011))


6

Segundo o Diretor do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) na


América Latina e no Caribe, Bernt Aasen, o rosto da pobreza infantil na região
desenha-se com maior nitidez nas populações indígenas e nas zonas rurais,
nas quais ao redor de 80% dos menores de idade vivem nestas condições,
Aasen declarou durante uma entrevista exclusiva com a Xinhua (agência
chinesa de notícias) em 9 de novembro de 2009, que para conhecer a
realidade da infância na América Latina não são suficientes os indicadores
nacionais publicados anualmente pelos organismos oficiais, mas que é
necessário conhecer a realidade das populações minoritárias.

“Os níveis de pobreza entre os indígenas são mais altos que na população em
general”, denunciou comparando as médias nacionais de 44% de pobreza e
19% de pobreza extrema existentes na região.

De acordo a um estudo realizado em conjunto pela Cepal e pela Unicef, cerca


de 80 milhões de crianças vivem em situação de pobreza na América Latina.
Deste total, cerca de 32 milhões vivem em situação de pobreza extrema. Costa
Rica, Uruguai e Argentina apresentam os melhores índices. Os índices mais
graves de pobreza infantil aparecem em El Salvador, Guatemala e Bolívia.
Cuba não foi avaliada no informe das agências da ONU.

A pobreza no Brasil,

A Fundação Getúlio Vargas (FGV) divulgou, em pesquisa recente, que o


Brasil tem quase 30 milhões de brasileiros que vivem na miséria abaixo da
linha pobreza, o que significa dizer que eles têm uma renda mensal
inferior a 80 reais; este número corresponde a 15% da população
brasileira. O Nordeste é a região do país onde esta situação se
apresenta de forma mais grave, segundo a FGV, pois estima-se que 50
% dos nordestinos vivam em situação de pobreza (NERI, 2010).

Figura 3

Mapa dos estados brasileiros por porcentagem de extrema pobreza em


2010.
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██ até6%
██ + 6%
██ + 12%
██ + 18%
██ + 24%

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) identificou o conjunto da


população que se encontra em situação de extrema pobreza segundo os dados
do Universo preliminar do Censo Demográfico 20101. As informações indicam
que o Brasil tem 16,27 milhões de pessoas em situação de extrema pobreza, o
que representa 8,5% da população.

De acordo com o IBGE:

- Do contingente de brasileiros que vivem em condições de extrema pobreza,


4,8 milhões têm renda nominal mensal domiciliar igual a zero, e 11,43 milhões
possuem renda de R$ 1 a R$ 70.

- A grande maioria dos brasileiros em situação de miséria é parda ou negra,


tanto na área rural quanto na área urbana.

- 46,7% das pessoas na linha de extrema pobreza residem em área rural,


apesar de apenas 15,6% da população brasileira morarem no campo. O
restante das pessoas em condição de miséria, 53,3% mora em áreas urbanas,
onde reside a maoria da população - 84,4%.

- A região Nordeste concentra a maior parte dos extremamente pobres - 9,61


milhões de pessoas ou 59,1%. Destes, a maior parcela (56,4%) vive no campo,
enquanto 43,6% estão em áreas urbanas. A região Sudeste tem 2,72 milhões
de brasileiros em situação de miséria, seguido pelo Norte, com 2,65 milhões,
pelo Sul (715,96 mil), e o Centro Oeste (557,44 mil).
8

“Na área urbana, quanto maior é a renda da população maior é o contingente


de população branca. Quanto menor a renda maior a população parda e negra.

__________________________________________
1 A identificação de pessoas que vivem abaixo da linha da pobreza foi feita pelo Instituto de
Geografia e Estatística (IBGE) a pedido do governo federal para orientar o programa “Brasil
sem Miséria”,.O objetivo do programa será garantir transferência de renda, acesso a serviços
públicos e inclusão produtiva para resgatar brasileiros da miséria.

O mesmo acontece na área rural, quanto menor a faixa de renda, maior a


proporção de cor negra ou parda”, disse o presidente do IBGE.

Para o presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Márcio


Pochmann: “Essa taxa de 8,5% dos brasileiros em situação de miséria indica
que não estamos falando de uma taxa residual. A taxa de extrema pobreza
atinge quase um brasileiro a cada dez” .

Fatores de pobreza.

Para Phil.Bartle, Professor de Sociologia. Conselheiro-Chefe Técnico (CTA) do


Programa de Gerenciamento de Comunidades de Uganda (CMP), no período
de 1994-1998, com larga experiência de trabalho com populações pobres da
Ásia e da África. A pobreza, como problema social, é a falta de riqueza, não de
dinheiro. Para pessoas de baixa renda, a pobreza também é o resultado de
como a riqueza é distribuída na sociedade. Assim,pobreza não é apenas
ausência de dinheiro e riqueza não é simplesmente possuir dinheiro. Pobreza e
riqueza vão além da ausência e presença de dinheiro.

“O dinheiro pode ser uma ferramenta bastante útil.


Ele pode ser usado para combater a pobreza e
gerar a riqueza. O dinheiro, por si só, não vai
eliminar a pobreza. A transferência de dinheiro, de
um detentor a outro, simplesmente caracteriza um
fluxo; não resolve o problema social da
pobreza.”(BARTLE,2011)
9

Seguindo as idéias desse autor, a pobreza, têm raízes em vários fatores,


especialmente os “ Cinco Maiores”: doenças, ignorância, desonestidade,
apatia e dependência. Por conseguinte, precisa de três coisas para
contribuir na erradicação da pobreza: (1) compreender os conceitos e
princípios (2) algumas habilidades de treinamento, facilitação e organização e
(3) características pessoais, incluindo integridade, motivação e criatividade.

Figura 4

Fonte: Os cinco maiores (BARTLE 2011)

Ignorância:

A ignorância significa ter falta de informação ou falta de conhecimento. Cabe


lembrar, o velho ditado “o conhecimento é poder" .

Doença:

Quando uma comunidade tem uma taxa elevada de doença, o absentismo é


elevado, a produtividade é baixa, e menos riquerza é criada. ‘Estar bem (bem-
estar) não só ajuda os individuos que estão saudáveis, mas também contribui
para a erradicação da pobreza na comunidade” (BARTLE,2011)
10

Apatia:

Apatia é quando as pessoas não se interessam, ou quando se sentem tão


incapazes que não tentam modificar as coisas, corrigir um mal, emendar um
erro, ou melhorar as condições (BARTLE,2011)

Dependência:

A dependência resulta de estar no lado receptor da caridade. No curto prazo,


tal como após um desastre, essa caridade pode ser essencial para a
sobrevivência. No longo prazo, essa caridade pode contribuir para a possível
desgraça do receptor, e certamente para a pobreza corrente. (Bartle, 2011)

Desonestidade:

Quando os recursos que se destinam a ser usados para serviços e


infraestruturas da comunidade, são desviados para os bolsos privados de
alguém numa posição de poder, mais do que a moralidade está a ser posta em
causa. O montante desviado que é recebido e gozado pelo individuo, é muito
menos que a redução na riqueza que se pretende para o público. “Quando um
funcionário do Governo aceita um suborno de 100 dólares, o investimento
social é diminuído por um valor que pode alcançar 400 dólares de riqueza para
a sociedade” (BARTLE,2011).

Para Eric M. Uslaner, professor de Ciências Pólíticas da Universidade de


Maryland (EUA):

*La corrupción es una lacra. Por su intermedio se transfiere


riqueza de los pobres a los ricos y se asegura que aquéllos
sigan siendo pobres. La corrupción hace las veces de un
impuesto adicional pagado por los ciudadanos. Cuando las
elites roban del tesoro nacional, se reduce el dinero
disponible para los programas del Estado destinados a
redistribuir los recursos” (USLANER, p. 229)
11

De acordo com “Corruption and Good Governance” documento de trabalho


do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (1997),A corrupção
é, no melhor dos casos uma resposta a uma falha de governo. Na pior das
hipóteses, é um método altamente distorcido de decisões públicas.. Um Estado
com corrupção endémica pode ser extremamente prejudicial para os pobres,
que não têm recursos para competir com aqueles dispostos a pagar subornos.
Corrupção restringe o investimento e retém o crescimento econômico. Afeta
sensivelmente, programas específicos concebidos para ajudar os pobres. Os
pobres são prejudicados pela corrupção sistêmica.

Para concluir, o diretor do Grupo de Redução da Pobreza do Programa das


Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), Selim Jahan, disse que a
corrupção pode ser bem mais prejudicial para o combate à pobreza no mundo
do que a crise econômica mundial (POP News, 2011). Segundo Jahan,
“...pode-se dizer que sim (que a corrupção pode ser pior que a falta de
dinheiro). Quando você tem falta de dinheiro, você não tem dinheiro. Quando
você tem corrupção, você tem dinheiro, mas o perde”, afirmou em entrevista
para a "Agência Brasil" durante sua passagem pelo Brasil para as reuniões do
Centro Internacional de Políticas para o Crescimento Inclusivo (IPC-IG). "O uso
ineficiente dos recursos e pouco dinheiro têm o mesmo efeito”, acrescentou.

Em síntese, seguindo as ideias de Pogge (2006) os grandes déficits de direitos


humanos que persistem hoje estão fortemente concentrados nos pobres. Os
Direitos humanos seriam plenamente respeitados, se todos os habitantes do
planeta tivessem acesso aos objetivos desses direitos. O mundo atual está
muito longe desse ideal, e a maioria dos direitos desrespeitados está
diretamente relacionado à pobreza. Por exemplo, direitos econòmicos e
sociais,tais como, o direito a um padrão de vida adequado para a saúde e o
bem-estar de si mesmo e sua família, incluindo alimentos, vestuário, habitação
e cuidados médicos.

De acordo com esse autor (ibid) , nos últimos 14 anos, desde o fim da guerra
fria até 2006, aproximadamente 250 milhões de seres humanos morreram
prematuramente por causas relacionadas com a pobreza. A cada ano
adicionam-se 18 milhões . Um número muito maior de seres humanos vivem
12

em condições de pobreza quase fatal que lhes dificulta articular seus interesses
e efetivamente lutar por sí próprios e suas famílias. Essa catástrofe acontece
sob uma ordem institucional global pensada para benefício dos governos,
corporações e cidadãos dos países ricos e das elites dos países pobres.

Seguindo com as ideias de Pogge (2006), existem modelos alternativos e


viáveis da ordem institucional global em que esta catástrofe teria sido em
grande parte evitada. Agora mesmo, essa extrema pobreza poderia ser
reduzida muito rapidamente através de reformas que modifiquem as
características mais nocivas desta ordem global ou atenuem seu impacto. Há
ainda muito extrema pobreza e muitos seres humanos que precisam de ajuda.
Atualmente, as regras económicas sistematicamente agravam a situação dos
pobres, e eles têm sido sistematicamente empobrecidos por um longo tempo
durante o qual aumentaram as nossas vantagens e suas desvantagens. A
ordem global existente permanece, essencialmente, inalterada, e constitui uma
violação maciça dos direitos humanos à satisfação das necessidades básicas.

Concordando com Paulo Gentili (2009), não podemos negar, que após
sessenta anos da proclamação da Declaração dos Direitos Humanos, continua
tão poderosa no fundamentos e tão frágil na sua aplicação. Para Paulo Sérgio
Pinheiro (apud. Gentili, 2009, p.21), “toda celebración de un tratado o
declaración por los derechos humanos suele ser un «ejercicio de frustración».
Para Gentili:
“La capacidad de estos arreglos o acuerdos jurídicos
para modificar la intolerable cotidianeidad de quienes
sufren la violencia del hambre, la exclusión, la
segregación, El racismo, la explotación, el maltrato y el
martirio por la prepotencia de gobiernos, empresas o
grupos más poderosos, suele ser bastante poco efectiva
(GENTILI, p22)

A humanidade tem gerado uma quantidade de normas democráticas e justas


cada vez más amplas e complexas para consolidar os direitos humanos.
Simultaneamente, parece também estar disposta a criar, inventar ou multiplicar
13

outros arsenais capazes de inserir essas normas e princípios éticos numa


categoria de aspiração minúscula frente aos desafios que gera sua constante
violação (GENTILI,2009)

Ao assinar o Decreto nº 7.037, de 21 de dezembro de 2009. que arovou o


programa nacional de direitos humanos - PNDH-3, o ex-presidente do Brasil,
Luiz Inácio Lula da Silva, reafirmou que o país fez uma opção definitiva pelo
fortalecimento da democracia. Não apenas democracia política e institucional,
mas democracia também no que diz respeito à igualdade econômica e social
(PNDH-3/SEHD)

Continua o ex-presidente Lula da Silva:

“...o PNDH-3 representa um verdadeiro roteiro para


seguirmos consolidando os alicerces desse edifício
democrático: diálogo permanente entre Estado e sociedade
civil; transparência em todas as esferas de governo;
primazia dos Direitos Humanos nas políticas internas e nas
relações internacionais”, (PNDH-3/SEHD)

Para Paulo Vannuchi, ex- ministro da Secretaria Especial dos Direitos


Humanos:

“A terceira versão do Programa Nacional de Direitos


Humanos – PNDH-3 representa mais um passo largo nesse
processo histórico de consolidação das orientações para
concretizar a promoção dos Direitos Humanos no Brasil. Entre
seus avanços mais robustos, destaca-se a transversalidade e
inter-ministerialidade de suas diretrizes, de seus objetivos
estratégicos e de suas ações programáticas, na perspectiva
da universalidade, indivisibilidade e interdependência dos
direitos” (PNDH-3/SEDH)

De acordo com Nilmário Miranda ex-secretário dos Direitos Humanos no


governo do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva , o debate sobre o PNDH-3
acabou revelando o que barões da mídia, dos agronegócios, neointelectuais e
outros, pensam realmente sobre Direitos Humanos. Aceitam-se os Direitos
Humanos até onde servem para proteger suas fortunas, seus privilégios, seus
interesses privados.
14

“Quando os Direitos Humanos querem sair do papel, tornar-


se bandeira para a inclusão de milhões de despossuídos,
passam a ser tratados como no tempo da Guerra Fria. E aí
todo o preconceito histórico contra os negros, as mulheres,
os pobres, os trabalhadores rurais, a população LGBT e os
movimentos sociais vem à tona de forma quase histérica”
(RDH,2010, p.11)

Parafraseando Alberto Carrau (2009) jornalista espanhol, o pobre é excluído.


El problema dos excluídos é que não tem a quem contar os seus problemas.
Não são pobres, nem excluídos por própria vontade. Nós escrevemos a
etiqueta. Ninguém é excluído pelo que é, sim, pelo trato que recebe dos
demais. Talvez, o excluído não existe, apenas existimos os excludentes.

Jürgen Habermas, razão comunicativa e pobreza

Quem é Jürgen Habermas? Filósofo alemão, nascido em Dusseldorf 1929, que


pode ser considerado o mais importante herdeiro da Escola de Frankfurt. Sua
vasta e profunda obra filosófica tenta recuperar a relação sujeito-objeto, frente
à pretendida neutralidade do conhecimento científico e positivista. Para
Habermas, não é possível uma objetividade alheia a valores e interesses.
Desconhecê-los leva a um conhecimento limitado, na medida que se
fundamenta em uma razão instrumental. Como resultado temos uma
sociedade individualista e autoritária. Habermas propõe uma “razão
comunicativa”, cuja base é o caráter intersubjetivo e consensual de todo
conhecimento, e que devolveria à sociedade o controle crítico e a orientação
consciente e dialógica de fins e valores.

O paradigma de Habermas.

Nas palavras de Habermas( (apud OLIVEIRA, 2002)

... eu mostrarei que uma mudança de paradigma para o da


teoria da comunicação tornará possível um retorno à tarefa
que foi interrompida com a crítica da razão instrumental.
Esta mudança de paradigma nos permite retomar as tarefas,
desde então negligenciadas, de uma teoria crítica da
sociedade.
15

Habermas, não critica a filosofia de um modo geral, mas aquela que tem
suporte na consciência. Assim, o que está propondo na verdade é a
substituição da filosofia da consciência por outra, uma filosofia da linguagem,
que vai ser a base de sua teoria da comunicação.

Cabe lembrar que a razão considerada por Habermas, como “razão


instrumental” e aquela que tem suas origens na racionalismo do século XVI e
domina o século XVII e XVIII, a época do iluminismo ou ilustração. Nessa
razão, quem predomina na relação sujeito-objeto, é o sujeito. Por exemplo,a
máxima de Descartes “penso, logo existo”.

Para os filósofos que defendiam essa razão, a possibilidade de conhecer o


objeto era limitada, a capacidade absoluta estava em Deus (Idade Média); na
idéia clara e distinta de Descartes, ou no Espírito Absoluto de Hegel. Essa
situação contribuiu muito para que a razão subjetiva (centrada no sujeito) fosse
transformada em uma razão manipuladora, pragmática e individualista que
obedece, particularmente, a lógica dos interesses econômicos dominantes.

Para Habermas essa razão deve ser substituída por uma razão dialógica que
considere a compreensão entre as pessoas e a lógica do melhor argumento.

Portanto, seguindo Habermas, temos dois tipos de racionalidade:

- Uma racionalidade instrumental, positivista, que orienta o sujeito para


estabelecer relações de dominação com a natureza e com os semelhantes.
- Outra racionalidade comunicativa, dialógica, dirigida a ações que respeitam
os valores e interesses dos indivíduos e procura um entendimento
intersubjetivo.

Para Habermas (1990, p. 52), é impossível permanecer no paradigma antigo:


“Todas estas tentativas de destranscendentalizar a razão
ficam presas ainda a pré-decisões conceituais da filosofia
transcendental. As alternativas falsas caem somente
16

quando há a passagem para um novo paradigma, o do


entendimento".

A mudança de paradigma, proposta por Habermas, supõe não apenas a


passagem do raciocínio lógico ou do processo de interpretação do
conhecimento, onde o sujeito conhece isoladamente; mas baseia-se
principalmente em tomarmos as ações e os atos de fala como ponto de partida
e de extrema importância no interior das relações.

Diante desses dois grandes paradigmas, Habermas questiona o


paradigma da filosofia da consciência (filosofia centrada no sujeito). Inicia-se
então, a partir desse momento (década de setenta), uma busca intensa em
suas pesquisas, para explicar o que é paradigmático para a racionalidade
comunicativa. Segundo Habermas (1987 apud IAROZINSKI,2000: p.12)

“[...] não é mais a relação do sujeito isolado com algo no mundo


objetivo, representável e manipulável; o que é paradigmático, é
ao contrário a relação intersubjetiva que se instaura entre os
sujeitos capazes de falar e de agir, assim que eles se entendem
entre si sobre alguma coisa”.

No “Discurso Filosófico da Modernidade”, Habermas (2002, p. 277) afirma


que “o paradigma da filosofia da consciência encontra-se esgotado. Sendo
assim os sintomas de esgotamento devem dissolver-se na transição para o
paradigma da compreensão”. Na Lição 11 dessa obra, ele apresenta
e argumenta a favor da razão baseada na comunicação interpessoal para
acabar com os problemas de cisão produzidos pela filosofia centrada no
sujeito.

Numa primeira parte da “lição”, faz críticas sintéticas à posição de diversos


autores, entre outros, Foucault, Hegel, Heidegger, Kant e Castoriadis. No caso
de Foucault, faz referência a problemas metodológicos não resolvidos, quando
esse autor critica a filosofia do sujeito procurando uma objetividade rigorosa.
Para isso elabora uma teoria de “poder”, que para Habermas é um
17

“subjetivismo do auto-esquecimento que corresponde a um objetivismo de


auto-apoderamento” (op.cit. p. 412)

Segundo Habermas, devemos retornar ao momento que se procura


desenmascarar as ciências humanas como crítica à razão. No entanto, o contra
discurso manteve a subjetividade como centro de análise. Começando com
Kant e sua Crítica da Razão Pura, partindo da perspectiva da própria razão, na
forma de uma autolimitação discursiva da própria razão. Como afirma
Habermas, os diversos pensadores que criticavam a filosofia centrada no
sujeito “encontraram-se com alternativas que não escolheram”. Por exemplo,
Hegel, que quase consegue sair da filosofia do sujeito com a análise dialética
da História, e a idéia de uma razão (situada na história) que é uma práxis de
projeção e desenvolvimento da forças do próprio ser em condições históricas.
No entanto, sua dialética cai no Absoluto. No caso de Marx, cuja dialética cai
na objetivação da produção. Estabelecendo uma práxis naturalista e referente
a uma razão instrumental.

Para Habermas, não se trata de procurar modificar ou melhorar a situação de


la razão centrada no sujeito, o paradigma que representa o conhecimento de
objetos deve ser substituído pelo paradigma do entendimento entre sujeitos
capazes de falar e agir. No paradigma do conhecimento, o sujeito cognoscente
se dirige a si mesmo como a entidades do mundo. No paradigma do
entendimento, o ego ao falar, o alter ao tomar posição sobre este, participam
de uma relação interpessoal. Assim, o ego encontra-se em uma relação que,
na perspectiva de alter, lhe permite referir-se a si mesmo como participante de
uma interação.

A Figura 5 apresenta esquematicamente ambos tipos de razão:

Figura 5
Razão centrada no sujeito e a razão comunicativa

Razão centrada no sujeito:

RAZÃO
18

SUJEITO OBJETO

Razão comunicativa:

SUJEITO INTERAÇÃO SUJEITO


A B

COMUNICAÇÃO
(LINGUAGEM)

De acordo com Habermas, a razão comunicativa estará baseada na práxis


cotidiana (o mundo da vida) e não de uma determinada ação cotidiana.
Para ele, a sociedade consiste em mundos complementares: o sistêmico e o
mundo vivido. Este último é a dimensão das sensações, das maneiras, dos
sentimentos, da comunicação, dos acontecimentos, da cultura e do
entendimento entre os sujeitos. O mundo da vida é o ambiente cotidiano onde
os indivíduos agem e se defrontam com suas ações e reações, relações
sociais, interpessoais e subjetivas. Já, o mundo sistêmico é a esfera do
trabalho e do mercado orientado pela ação estratégica-instrumental capitalista.
As fronteiras entre eles não são bem definidas como sugere a teoria, há uma
19

interação entre elas. Se por um lado, o mundo da vida tenta integrar os


indivíduos de modo social, consensual, comunicativo e intersubjetivo, por outro,
o mundo do sistema confere uma integração sistêmica regulada pelo mercado
e pela racionalidade econômica.

Essencial para a práxis cotidiana é o acordo alcançado comunicativamente,


entre os diversos autores, mediante o uso da linguagem orientado ao
entendimento, no tempo histórico e um espaço social, medido segundo o
reconhecimento intersubjetivo das pretensões de validade. Isso permite o
entrelaçamento de interações sociais e mundos de vida.

A fundamentação desse novo paradigma está na linguagem: Os sujeitos


capazes de fala e de ação, [...] podem ter frente ao meio de sua
linguagem uma atitude tanto dependente como autônoma [...] a linguagem se
faz valer frente aos sujeitos falantes como sendo algo objetivo e processual,
como a estrutura que molda as condições possibilitadoras (HABERMAS,
1990c, p. 52).

Para Habermas (2002), as comunicações que os sujeitos estabelecem entre si,


mediadas por atos de fala, dizem respeito sempre a três mundos: o mundo
objetivo das coisas, o mundo social das normas e instituições e o mundo
subjetivo das vivências e dos sentimentos. As relações com esses três mundos
estão presentes, ainda que não na mesma medida, em todas as interações
sociais.

Assim, concordando com Gonçalves (1999) as pessoas, ao interagirem,


coordenam suas ações. Do conhecimento que elas partilham do mundo
objetivo depende o sucesso ou o insucesso de suas ações conjuntas, sendo
que a violação das regras técnicas conduz ao fracasso. Em segundo lugar, as
pessoas interagem orientando-se segundo normas sociais que já existem
previamente ou que são produzidas durante a interação. Essas normas
definem expectativas recíprocas de comportamento, sobre as quais todos os
participantes têm conhecimento. Esse tipo de ação não é avaliada pelo seu
êxito, mas pelo reconhecimento intersubjetivo e pelo consenso valorativo,
20

sendo que sua violação gera sanções. Em terceiro lugar, em todas as


interações as pessoas revelam algo de suas vivências, intenções,
necessidades, de seus temores etc., de tal modo que deixam transparecer sua
interioridade. Embora as pessoas, em maior ou menor grau, possam controlar
as manifestações de suas vivências subjetivas, das suas ações podem-se tirar
conclusões a respeito da sua veracidade.

De acordo com Habermas ( 2002)

No paradigma do entendimento recíproco é fundamental a


atitude performativa dos participantes da interação que
coordenam seus planos de ação ao se entenderem entre si
sobre algo no mundo. (...) Ora, essa atitude dos participantes
em uma interação mediada pela linguagem possibilita uma
relação do sujeito consigo mesmo distinta daquela mera
atitude objetivante adotada por um observador em face das
entidades no mundo.(HABERMAS,.p.414-415):

Desse modo, a teoria do entendimento “chega ao princípio de que entendemos


uma proposição quando conhecemos as condições sob as quais é verdadeira”
(op.cit, p.434). Assim, todo ato de fala pode ser questionado sob três diferentes
aspectos de validade.

Para Habermas (op.cit. p.435),

...o ouvinte pode negar in toto a manifestação de um falante,


ao contestar quer a verdade do enunciado nela
afirmado,....quer a justeza do ato de fala em relação ao
contexto normativo da manifestação, ... quer a veracidade da
intenção manifesta do falante.

Em correspondência às três funções da linguagem (apelativa, expressiva e


representativa), a cada um desses mundos correspondem diferentes
pretensões de validade. Ao mundo objetivo correspondem pretensões de
validade referentes à verdade das afirmações feitas pelos participantes no
processo comunicativo. Ao mundo social correspondem pretensões de validade
referentes à correção e à adequação das normas, e ao mundo subjetivo das
vivências e sentimentos correspondem pretensões de veracidade, o que
21

significa que os participantes do diálogo estejam sendo sinceros na expressão


dos seus sentimentos.

Assim, a mudança de paradigma, proposta por Habermas, supõe não apenas a


passagem do raciocínio lógico ou do processo de interpretação do
conhecimento, onde o sujeito conhece isoladamente; mas baseia-se
principalmente em tomarmos as ações e os atos de fala como ponto de partida
e de extrema importância no interior das relações.

Na Tabela 1, fazemos uma comparação entre algumas características do


paradigma da consciência (sujeito) e o paradigma de comunicação
(linguagem).

Tabela 1 – Os paradigmas

Paradigma da consciência ou Paradigma da linguagem e


do sujeito comunicação
Conhecimento obtido pela Conhecimento obtido pela
racionalidade centrada no sujeito racionalidade centrada na
comunicação
Paradigma cartesiano Paradigma da comunicação
Baseado em ações instrumentais Baseado em ações comunicativas

Pensador solitário que conhece o Sujeito dialógico (intersubjetivo)


mundo

Visando operação do conhecimento Visando entendimento entre sujeitos


Conhecimento de objetos e Predomínio liberdade expressão
dominação
Reflexão sobre conhecimento e Discurso mediado por um saber falível
moralidade
Racionalidade unilateral/abstrata Reciprocidade
Concepção metódica apriorística Racionalidade processo concreto

Razão transcendental Baseado em reflexões e negociações


Regras dominadoras e controladoras Regras promovem saber histórico-
dialético contextualizado
Razão instrumental Razão comunicativa.

Fonte: Iarozinski (2000)


22

Podemos notar as grandes mudanças que o grande avanço ou o grande salto


paradigmático proposto por Habermas em relação ao paradigma anterior, é que
ele não apenas criticou de modo radical o pensamento moderno, mas foi além,
propôs e construiu toda uma teoria alternativa baseada no paradigma da
comunicação.

A Figura 6, apresenta um diagrama simplificado do paradigma de comunicação


de Habermas.

Figura 6
Paradigma de comunicação

RAZÃO
COMUNICATIVA
RELAÇÃO
(CONSENSO)

SUJEITO SUJEITO
INTERAÇÃO
A B

A razão comunicativa e os pobres

O século XVI foi uma época de profundas transformações na visão do homem


ocidental. Os pensadores e as pessoas em geral começam a duvidar da
doutrina da igreja como caminho à verdade. Cabe lembrar que a Idade Média
23

foi uma época marcada pela enorme influência da igreja sobre a razão e a
busca da verdade.

As descobertas geográficas, científicas, o desenvolvimento da matemática e


das ciências naturais contribuíram para desenvolver as idéias racionalistas em
oposição ao teologismo da Idade Média.

Para os racionalistas (Descartes, Spinoza e outros) todos os nossos


conhecimentos da realidade surgem da razão. Essa razão não tem limite e
pode alcançar tudo o que é real, sendo a matemática à ciência ideal.

O racionalismo do século XVIII esteve acompanhado do surgimento do


Iluminismo ( luz da razão) e do modernismo, como movimento políticos
impulsionadores do Capitalismo e Sociedade Moderna.

A partir do início do século XX esta associação iluminismo, racionalismo,


capitalismo e projeto de modernidade começaram a mostrar o seu fracasso.
Foram os pensadores da Escola de Frankfurt os que fizeram as críticas mais
contundentes ao iluminismo e ao racionalismo. Para eles a razão foi substituída
por uma nefasta irracionalidade.

Em termos gerais os escritos de Horkheimer, Marcuse e outros da “Escola


Frankfurt” eram extremamente pessimistas, em relação a uma razão
libertadora. No entanto, Adorno dá a possibilidade de discutir uma razão
intersubjetiva.

Habermas faz uma importante contribuição para recuperar a relação sujeito-


objeto, propondo uma “razão comunicativa”. Para ele, o paradigma da filosofia
da consciência (característica da modernidade e do racionalismo) encontra-se
esgotado, necessitando ser substituído por um paradigma da comunicação,
onde a relação do sujeito isolado com algo no mundo objetivo já não é
paradigmático. O importante é a relação intersubjetiva estabelecida entre
sujeitos capazes de falar e agir que se entendem sobre alguma coisa.
24

Condição humana dos pobres

Diversos pensadores, tais como Jean Paul Sartre, André Malraux e Hannah
Arendt tem opinado que para poder compreender a existência das pessoas é
fundamental fazer referência à condição humana. A Wikipédia (2007, versão
em espanhol), a define como,

“um conceito que abrange a totalidade da


experiência dos seres humanos. Como entidades
mortais, existe uma variedade de acontecimentos,
biologicamente determinados, comuns à maioria
das vidas humanas, e a maneira que os seres
humanos enfrentam e reagem a esses
acontecimentos constitui a condição humana”.

A condição humana, publicado em 1958, é uma das obras fundamentais da


filósofa alemã Hannah Arendt. A autora faz um relato detalhado da evolução
histórica dos contextos da ação e do discurso como formas predominantes da
revelação da essência do homem, que no decorrer do tempo ficou cada vez
mais alienado e apolítico. Arendt inicia o livro fazendo referência a um fato que
hoje não tem nada de extraordinário, mas nesses anos foi importante, o
lançamento de um satélite artificial. A autora conta que

“Em 1957, um objeto terrestre, feito pela mão do


homem, foi lançado ao universo, onde durante
algumas semanas girou em torno da Terra segundo
as mesmas leis de gravitação que governam o
movimento dos corpos celestes - o Sol, a Lua e as
estrelas. É verdade que o satélite artificial não era lua
nem estrela; não era um corpo celeste que pudesse
prosseguir em sua órbita circular por um período de
tempo que para nós, mortais limitados ao tempo da
Terra, durasse uma eternidade” (ARENDT,1981: 9)

O que surpreendeu à filósofa foi que a reação ante o fato, que mostrava a
capacidade da ciência e da tecnologia, no foi de orgulho ou de medo, mas de
um sentimento de um desejo cumprido: escapar de prisão da terra, a alegria de
sentir-se liberados dessa cárcere.
25

Escapar da “condição humana”, viver além dos limites fixados, são os desejos
que surgem nos seres humanos, antes mesmo de poder realizá-los. O homem
anseia mudar a existência humana do “dado” ao “feito por ele mesmo”. Esta
idéia está no centro da reflexão de Hannah Arendt sobre o problema que ela
acredita ser essência do mundo moderno: De que maneira o “artificio humano” 1
separa a existência humana do mundo animal e da Terra.

Para Arendt ( apud CAMPILLO,2007), a separação entre o que o homem é


capaz de fabricar artificialmente e o que é capaz de pensar, evidencia um sério
problema: podemos acabar como escravos dos nossos próprios artifícios. O
espantoso da situação é o surgimento do mundo dos artefatos com uma
capacidade de iniciar processos que não apenas escapam do homem mas,
assumem características de fenômenos naturais que podem chegar a destruir o
mundo. A esse medo se une um outro: possuímos a capacidade de destruir

toda a vida na Terra e a de criar vida. Para Hannah Arendt a ciência e a


técnica nos convertem em “criaturas irreflexivas” que dependem de artefatos
que podemos construir, mas sobre os quais não podemos pensar2

Mas, como se apresenta esse “mundo sem sentido”? A distinção que autora
faz entre “labor”, “trabalho” e “ação” é fundamental para compreender os seus
posicionamentos ante a tecnologia.

Segundo Barreto (2002), a condição humana representa as características


essenciais da existência do homem em determinado espaço, visto que sem
elas essa existência deixaria de ser humana, ou seja, a vida, a natalidade e a
mortalidade, a mundanidade, a pluralidade e planeta Terra pertencem à
condição humana. Em sua reflexão sobre o que os homens fazem, Arendt
definiu três atividades centrais que correspondem às condições básicas da vida
humana – o viver do homem na Terra – Arendt relaciona três atividades
fundamentais englobadas no que intitulou de vida activa: o labor, o trabalho e
a ação. Enquanto em seu estudo sobre a reflexão dos homens, a autora definiu
26

a vontade, o pensamento e o julgamento como os três estados que


demonstram a vida do intelecto.

________________________________

2 O conceito de trabalho está muito relacionado ao pensamento de Hannah Arendt em relação


à construção do mundo. Com o seu trabalho, o homem (homo faber) fabrica as coisas, e a
soma dessas coisas constitui o artifício humano.

O labor é a atividade relacionada ao processo biológico do corpo humano:


crescimento, metabolismo e seu declínio. Corresponde a uma condição nata de
como determinados conhecimentos, um saber implícito, nascem com o homem.

A condição humana do labor é a vida. Assim, o labor é uma atividade inerente


ao corpo humano no que tange à exigência de manter-se vivo. O labor é a
condição de vida comum a homens e a animais sujeitos à necessidade de
prover a própria subsistência. Daí a denominação de animal laborans para o
homem enquanto ser que labora para prover a sua própria subsistência,
comumente utilizada na Antiguidade Clássica para nomear a categoria dos
escravos.

O trabalho corresponde ao artificialismo da existência humana, é a atividade


correspondente à criação de coisas artificiais diferentes do ambiente
natural e que transcendem às vidas individuais. Ele produz um mundo de
coisas completamente diferentes de qualquer ambiente natural. E é exercido
por diversos fluxos. Com o trabalho o homem pratica a troca em todos os
sentidos para cumprir sua permanência na Terra. A condição humana do
trabalho é a mundanidade. Uma das qualidades dessa condição humana é
criação, e o registro, em código próprio, da informação e de sua representação.
Com a apropriação e elaboração gera-se o conhecimento. Ao construtor do
mundo foi dado o nome de homo faber. Esse “ homo faber “ consegue essa
durabilidade e objetividade exercendo certa violência com a natureza,
considerando-se o seu dominador com direito de criar e destruir, não só a
própria natureza, mas também seu artifício.
27

A ação é a única atividade da condição humana que só pode ser praticada com
outros homens. Corresponde à condição humana da pluralidade. A ação é a
condição de toda a vida política do homem na Terra. Nela o homem exerce sua
qualidade de inteligência para introduzir seu conhecimento no espaço em que
convive, com a intenção de modificar para melhor esse espaço, com a
finalidade de estabelecer um acréscimo ao bem-estar de seus habitantes. É
uma atividade exercida entre homens, independentemente da produção de
coisas ou da manutenção da vida, devido ao fato de que os homens e o
homem vivem na terra e habitam o mundo. Para a Hannah Arendt, é a
pluralidade humana a condição de existência do homem sobre a terra: somos
seres racionais igualmente humanos, mas cada qual apresenta diferenças e
variações em seus caracteres individuais e para que se reflitam essas
diferenças necessitamos da constante presença e continuado diálogo com os
outros.

Segundo a autora (apud Wikipedia, 2007), a ação é a característica do


"Homem" na condição de "Homem", característica esta que tem o poder de
fazer com que ele se integre à esfera pública, de fazer com que ele revele
quem ele é e inicie novos processos, ilimitados e potencialmente eternos. O
Homem enquanto age deixa de ser escravo das necessidades, deixa para trás
o labor e o trabalho, para finalmente ser livre. Para Arendt, quando o Homem
age desvincula-se do reino doméstico, o oikos e entra na polis, no espaço
político. A própria ação é a liberdade, e por conseqüência só se é livre no
espaço público. Com a crescente apolitização dos homens têm-se reduzido o
espaço público, reduzida a ação, correndo-se o risco de um caminhar á uma
nova escravidão, fazendo com que o “animal laborans” finalmente predomine
por completo sobre o “politikon”.

A intervenção da ação e da palavra permitem que o mundo se revele como um


espaço possível da existência de vida, no seu sentido biológico. A ação não
tem sentido na solidão individual, pelo contrário, a verdadeira natureza do
homem exige que seja interpessoal e original em um mundo com outras
relações humanas já existentes. Assim, podemos afirmar que relações anti-
políticas, tais como a exclusão social , particularmente, dos pobres, são uma
28

negação explícita da política. Portanto, jamais podem ser consideradas objetos


da ação.

Assim, seguindo as ideais de Hannah Arendt, a falta de ação e a falta de


diálogo com as pessoas pobres ou miseráveis é uma negação da condição
humana dessas pessoas.

Aplicação do Modelo Habermas para políticas de combate à fome

As estatísticas das Nações Unidas mostram que há atualmente mais pessoas


com fome no mundo do que há 40 anos, com as estimativas a aproximarem-se
de 1,02 bilhão de pessoas em 2009. Além disso, no mundo, 25.000 pessoas
morrem de fome por dia.
Para Eduardo de Freitas da equipe Brasil Escola (2012), apesar dos grandes
avanços econômicos, sociais e tecnológicos, a falta de comida para milhares
de pessoas no Brasil continua. Esse processo é resultado da desigualdade de
renda, a falta de dinheiro faz com que cerca de 32 milhões de pessoas passem
fome, mais 65 milhões de pessoas que não ingerem a quantidade mínima
diária de calorias, ou seja, se alimentam de forma precária.

A fome é exclusão. Da terra, da renda, do emprego, do salário, da educação,


da economia, da vida e da cidadania. Quando uma pessoa chega a não ter o
que comer é porque tudo o mais já lhe foi negado. É uma espécie de
cerceamento moderno ou de exílio. A morte em vida. O exílio da Terra. Mas a
alma da fome é política. A fome é a realidade, o efeito e o sintoma. O ponto de
partida e de chegada. A síntese, a ponta do novelo a partir da qual tudo se
explica e se resolve. Porque não é episódica, nem superficial, revela fundo o
quanto uma pessoa está sendo excluída de tudo e com que frieza seu drama é
ignorado pelos outros. [...] Mas a fome é também o atestado de miséria
absoluta e o grito de alarme que sinaliza o desastre social de um país, que
mostra a cara do Brasil. Como a miséria é a síntese e o nó de um processo,
desvendar e atacar a miséria é também um modo de refazer radicalmente o
Brasil. A negação radical da miséria é um postulado de mudança radical de
29

todas as relações e processos que geram a miséria. É uma interpelação a tudo


e todos, é um passar a limpo a História, a sociedade, o Estado e a economia. É
virar o Brasil pelo avesso. No concreto. É assustador perceber com que
naturalidade fomos virando um país de miseráveis, com que tranqüilidade
fomos produzindo milhões de indigentes. Acabar com essa naturalidade,
recuperar o sentido da indignação diante da degradação humana, reabsolutizar
a pessoa como centro e eixo da vida e da ação política é essencial para
transformar a luta contra a fome e a miséria num imenso processo de
reconstrução do Brasil e de nossa própria dignidade. Por isso é que acabar
com a fome não é só dar comida, e acabar com a miséria não é só gerar
emprego, mas é reconstruir radicalmente toda sociedade. (Betinho) .

Como afirma Claudia Petrina (1994) " Quem tem fome tem pressa ". Essa frase
de Betinho serve para ilustrar a necessidade da urgencia das acoes
emergenciais. Nao se trata de reforcar o assistencialismo classico, mas sim de
exercitar a solidariedade como a maneira mais rapida de solucionar o problema
de milhoes de famintos no pais. "O objetivo dessas acoes nao e tornar as
pessoas beneficiadas objetos de caridade alheia ", como diz Betinho. Quem
recebe alimentos, melhoria nas condicoes de saude, educacao etc, tambem
deve participar do trabalho do comite que cadastrou sua familia ou
comunidade. Muito mais do que redescobrir a solidariedade de quem da, e
preciso respeitar a cidadania de que recebe.

Para Belik, Graziano da Silva e Takagi (2001), o diagnóstico e as políticas


receitadas para o combate à fome no Brasil passaram por três fases. Até os
anos 30, os problemas de abastecimento estavam associados à questão da
oferta de alimentos para a população que crescentemente se dirigia às
metrópoles. Desse período até o final dos anos 80, a fome passou a ser
encarada como um problema de intermediação e as políticas se voltaram para
a regulação de preços e controle da oferta. Finalmente, com o início dos anos
90, os problemas de abastecimento passaram a ser combatidos,
supostamente, através da des regulamentação do mercado na esperança de
que o crescimento econômico pudesse proporcionar renda, emancipando as
famílias pobres e alcançando a cidadania. De acordo com Robson da Silva
30

(2006), a partir dessa década, com o início do debate nacional sobre segurança
alimentar, a fome passou ser considerada como expressão mais nefasta do
estado de insegurança alimentar, o que contribuiu para entendê-la de uma
forma mais ampla e tratá-la dentro de uma concepção de segurança alimentar
e nutricional.

Conforme pesquisa feita por Francisco de Assis Vasconcelos (2005) , três


modalidades de programas continuam em funcionamento no país: o PNAE
(Programa Nacional de Alimentação Escolar), criado em 1954. que objetiva
melhorar as condições nutricionais e a capacidade de aprendizagem e reduzir
o índice de absenteísmo,repetência e evasão escolar; aumentar a resistência
às doenças; contribuir para a melhoria dos hábitos alimentares. O PAT
(Programa de Alimentação do Trabalhador) criado em 1976, que visa
Proporcionar facilidades para a alimentação dos trabalhadores de baixa renda,
visando a melhorar as condições de saúde do trabalhador; aumentar a
produtividade no trabalho e reduzir os índices de absenteísmo e de acidentes
de trabalho, e o Programa de Combate às Carências Nutricionais Específicas
(anemias nutricionais, hipovitaminose A e bócio), criado em 1977.

Essas iniciativas se agregam a outras modalidades com a instituição do


Programa Fome Zero, criado em 2003, pelo Presidente Luiz Inácio Lula da
Silva. O referido programa é uma estratégia impulsionada pelo governo federal
para assegurar o direito humano à alimentação adequada às pessoas com
dificuldades de acesso aos alimentos. Tal estratégia se insere na promoção da
segurança alimentar e nutricional buscando a inclusão social e a conquista da
cidadania da população mais vulnerável à fome O Fome Zero atua a partir de
quatro eixos articuladores: acesso aos alimentos, fortalecimento da agricultura
familiar, geração de renda e articulação, mobilização e controle social. O
Programa da Bolsa Família é considerado o carro-chefe do PFZ, pois é um
programa de transferência de renda destinado às famílias em situação de
pobreza, com renda familiar per capita de até R$ 140 mensais, que associa a
transferência do benefício financeiro com o acesso aos direitos sociais básicos:
saúde, alimentação, educação e assistência social. (FOME ZERO, 2011).
31

O Modelo de Habermas e o Programa Bolsa Família.

Para aplicar o Modelo de Habermas, visto nas paginas anteriores,


analisaremos algumas características importantes do Programa Fome Zero,
dirigindo nossas observações para o Programa Bolsa Família.

Fome Zero
Vínculo institucional: Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à
Fome.
Público-Alvo: 46 milhões de brasileiros com renda menor que US$1.00
per capita/dia.
Abrangência: Todo território nacional

Objetivos: Inclusão social por meio da universalização dos direitos da


cidadania, a começar pelos direitos sociais básicos - acesso à
alimentação, saúde, educação, previdência e proteção do emprego -
visando à redução do déficit social do país.
Modalidade do benefício: Conjunto de ações envolvendo cinco áreas:
segurança alimentar e nutricional, renda e cidadania, programas
complementares estruturais, ações emergenciais e educação cidadã.

Programa Bolsa Família:

Vínculo institucional: Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à


Fome.
Objetivos: Combater a fome e promover a segurança alimentar e nutricional;
combater a pobreza e outras formas de privação das famílias; promover o
acesso à rede de serviços públicos, em especial, saúde, educação, segurança
alimentar e assistência social; e criar possibilidades de emancipação
sustentada dos grupos familiares e desenvolvimento local dos territórios.
Beneficiários: A população alvo do programa é constituída por famílias em
situação de pobreza ou extrema pobreza. As famílias extremamente pobres
são aquelas que têm renda per capita de até R$ 70,00 por mês. As famílias
pobres são aquelas que têm a renda per capita entre R$ 70,01 a R$ 140,00 por
32

mês, e que tenham em sua composição gestantes, nutrizes, crianças ou


adolescentes entre 0 e 17 anos.
Modalidade do benefício:

O programa oferece às famílias três tipos de benefícios: o básico, o variável


e o variável para jovem. O básico é concedido às famílias em situação de
extrema pobreza. O valor é de R$ 70,00 mensais, independentemente da

composição familiar. O benefício variável, no valor de R$ 32,00, é concedido às


famílias pobres e extremamente pobres que tenham, sob sua responsabilidade,
crianças e adolescentes entre 0 e 15 anos, até o teto de cinco benefícios por
família, totalizando R$ 160,00. As famílias em situação de extrema pobreza
podem acumular o benefício básico e o variável, até o máximo de R$ 230,00
por mês. O benefício variável para jovem é concedido às famílias pobres e
extremamente pobres que tenham, sob sua responsabilidade, adolescentes
entre 16 e 17 anos, matriculados na escola. O valor do benefício é de R$
38,00. A família pode acumular até dois benefícios, ou seja, R$ 76,00. As
famílias em situação de extrema pobreza podem acumular o benefício básico,
o variável e o variável para jovem, até o máximo de R$ 306,00 por mês.

O beneficiário do programa Bolsa Família, recebe um cartão magnético


fornecido pela Caixa Econômica Federal (CEF) que lhe permite a realização
de saque do benefício do Programa Bolsa Família. Os beneficiários podem
receber o benefício direto na sua conta bancária.

Na Tabela 2 apresentamos uma comparação de algumas características do


Programa Bolsa Família. Na coluna da esquerda, paradigma do sujeito
(racionalista), indicamos a situação atual de distribuição dos benefícios da
PBF. Na coluna da direita, colocamos as características do processo de acordo
com o modelo de razão comunicativa (Habermas).
33

Tabela 2

As políticas de combate à fome, comparando paradigma do sujeito e da


comunicação

Paradigma do sujeito Paradigma da comunicação


(situação atual) (situação possível)
Envolvimento precário de Ações a realizar são discutidas e
beneficiários representados por decididas entre representantes
gestores ou agentes. governamentais, comunidade e o
participante do programa.,
Os beneficiários são objeto das Interação, técnicos e sujeitos
ações, pouca o nenhuma participantes.
participação.
As políticas passam a ser O processos de combate à fome, é
assistencialistas, sem mudanças uma ação integradora e
estruturais. transformadora.
Ministério de Desenvolvimento Social Representantes governamentais e
e agências governamentais são o sujeitos pensam de maneira
agente pensante intersubjetiva.
O Governo Federal outorga benefício Representantes dos governos
monetário visando combater a fome e discutem com participantes os
a pobreza baseado em um indicador princípios do PBF procurando uma
de renda melhor compreensão das causas e
efeitos da fome e dos benefícios
monetários..
A Caixa Econômica Federal (CEF), o Forma de distribuição é decidida entre
banco encargado da distribuição dos representantes governamentais e
benefícios mensalmente.. participantes.
Em síntese, características de razão Razão comunicativa que promove
instrumental a serviço União, Estados desenvolvimento entre os integrantes
e Municípios. do PBF
34

A Figura 7, apresenta um diagrama simplificado da implementação do


Programa Bolsa Família de acordo com o paradigma de comunicação de
Habermas.

Figura 7
Bolsa Famíla no paradigma de comunicação

RAZÃO
COMUNICATIVA
PRINCÍPIOS E
AÇÕES A SEREM
IMPLEMENTADAS
(DECISÃO
CONSENSUAL)

RESPONSÁVEIS INTERAÇÃO PARTICIPANTES


35

Ainda que apresentada sem maior aprofundamento, podemos constatar


importantes diferenças entre a situação atual da distribuição de benefícios do
Programa Bolsa Família criado pelo Governo Federal e a situação possível,
utilizando uma aproximação ao paradigma da comunicação proposto por
Habermas. Não cabe a menor dúvida que esse último, contribui para a
verdadeira cidadania dos participantes de uma ação. Concordando com Demo
(2008), o participante é o protagonista, um sujeito que requer direitos, não
apenas benefícios.

O Tribunal de Contas da União (TCU) em avaliação do PBF, em 2004,


encontrou diversos problemas que afetam a efetividade do Programa. Por
exemplo:

- Considerando que a criação do Bolsa-Família não foi acompanhada da


definição de mecanismos de controle das condicionalidades, à medida que são
migrados para o novo programa, os beneficiários das ações de transferência de
renda anteriores deixam de ser monitorados. Dessa forma, o Bolsa-Família
opera atualmente apenas como um programa de transferência de renda. A
permanência desse quadro implica o risco de falha no alcance do objetivo de
combater a pobreza e a exclusão social de forma consistente.

- Os gestores municipais, diretores de escolas e de unidades de saúde e


beneficiários têm poucas informações acerca do funcionamento e da
operacionalização do Programa Bolsa-Família. Isso traz prejuízos significativos
para o gerenciamento do programa no nível local.

- O nível de informação dos beneficiários sobre o programa é muito baixo.


- A população mostra grande dificuldade de participar diretamente no controle
social, em boa parte por falta de informação.
- Existe deficiência na atuação dos conselhos.

Essas limitações vem sendo associadas a um caráter assistencialista e


tecnocrático do PBF, uma vez que a associação de políticas estruturais,
emergenciais e locais não está acontecendo, o que torna mais difícil a
36

emancipação socioeconômica dos indivíduos em situação de insegurança


alimentar. (ver fonte)

Mas o que é mais certo é que não haverá superação da fome sem a
construção da autonomia das pessoas e famílias que passam pela situação de
pobreza . Se há fome, deve haver uma ação assistencial. Mas, se não são
incorporadas, desde o início, ações que levem as pessoas e famílias a saírem
da situação de miséria e se tornarem autônomas para gerarem a própria renda,
esse discurso tem um sério problema. Ele colabora para a perpetuação da
situação de fome. Então, ações, programas em torno desse tema devem,
necessariamente, incorporar a conquista de autonomia por parte dos famintos.

Assim, essas limitações do Programa Bolsa Família devem ser revistas sob
pena de perder legitimidade e efetividade uma das estratégias mais avançadas
de combate à fome e à pobreza que o país já teve. (DA SILVA, 2006)

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