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Forum de Ciência e Cultura – UFRJ 10/04/2002

Textos Seminais em Linguagem e Cognição Marcus Maia

Aula 6: A Modularidade da Mente

Fodor, Jerry A. (1983). The Modularity of Mind. The MIT Press, Cambridge, Mass.

I – Introdução

O livro é dividido em cinco capítulos e, na apresentação, o autor diz que se originou em


um curso sobre Teorias da Cognicão que ele e o lingüista Noam Chomsky ofereceram em
conjunto no MIT no outono de 1980. Ele agradece comentários ao manuscrito feitos
pelo próprio Chomsky e a pessoas como Howard Gardner (The Mind’s New Science –
ótima introducão às Ciências Cognitivas), Thomas Kuhn (ótimo livro sobre às revoluções
científicas), Jaques Mehler, David Kaplan e outros.

II – As Faculdades Mentais

O autor abre o primeiro capítulo do livro afirmando que vai tratar da Psicologia das
Faculdades Mentais, que é uma Psicologia vertical, oposta à visão generalista ou oceânica
da mente, advogada, por exemplo, por Piaget. Essa Psicologia das Faculdades Mentais vê
a mente como um complexo heterogêneo e, segundo o autor, se impressiona com as
diferenças entre funções ou noções mentais como: sensação, percepção, volição,
cognição, memória e linguagem. Faz, logo de saída a apresentação de um programa de
pesquisa em que se distinguem o comportamento exterior, o comportamento observável,
como sendo o efeito da interação dessas distintas faculdades.

De início, também, o autor adota o ponto de vista mentalista, afirmando: o


comportamento está para a mente, assim como o efeito está para a causa. Ele também
deixa claro desde logo que seu estudo se restringe à psicologia cognitiva, deixando de
lado a psicologia das emoções e também a psicologia social. No primeiro capítulo o que
ele faz, então, é apresentar quatro maneiras de responder as perguntas: Em que consiste
a estrutura da mente? Como são organizadas as capacidades cognitivas? Ele alerta
que essas quatro maneiras não são necessariamente exclusivas e que a visão que,
finalmente, ele esposará, poderá vir a ser “shamelessly ecletic” (despudoradamente
eclética).

1. Neo-cartesianismo: a estrutura da mente é vista como a estrutura do


conhecimento

Faz referência à doutrina de Descartes sobre as idéias inatas, mas “especialmente


sob a tutela de Chomsky”: uma teoria sobre como a mente é intrinsicamente e
geneticamente estruturada em faculdades mentais ou órgãos. Ele diz mesmo que,
provavelmente, esta visão de ”órgãos”, não ortodoxa, seria reprovada por Descartes. Ele
cita Chomsky, 1980, Regras e Representações: “A estrutura psicológica intrínsica é rica e

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diferenciada”, contrastando-a com todas as formas de Empirismo, que assumem “a
homogeneidade e não diferenciamento do estado inicial, uniforme, através dos domínios
cognitivos” . Esta presunção aproxima mesmo Skinner de Piaget, embora em muitos
outros respeitos, estes afastem-se radicalmente. Chomsky utiliza analogias anatômicas
(coração, asas, membros) para falar de estruturas mentais. Assim, pode-se falar da
fculdade da linguagem, da faculdade dos números, por exemplo, como órgãos mentais,
bem como o coração, o sistema visual, o sistema de coordenação motora. Segundo
Chomsky, não haveria mesmo uma linha clara demarcando órgãos físicos, sistemas
perceptuais, motores e faculdades cognitivas. Para todos esses órgãos, o crucial é que o
desenvolvimento ontogenético é sempre um processo “intrinsicamente determinado”.
Isso quer dizer que o organismo não aprende a “crescer os braços ou a atingir a
puberdade”. Assim, também, não se aprende a linguagem de fora para dentro e, sim,
ativam-se estruturas intrínsicas (efeito gatilho). Obviamente, para Chomsky, o que a
criança nasce sabendo é um conjunto de princípios inatos, formais que estabelecem
condições sobre o que é universalmente possível. E é esse conhecimento inato que
interage com os “dados lingüísticos primários”. Outro aspecto importante do
conhecimento intrínsico é que, segundo Chomsky, ele é computacional, ou seja, implica
transformações sobre representações. Esquemas endógenos são calibrados em função
dos dados primários, em um processo conhecido como fixação de parâmetros.

Outra característica do Neo-Cartesianismo é a referência a conteúdos proposicionais dos


estados mentais que atuam dedutivamente: esse nativismo prototipicamente Cartesiano já
se encontra em Platão, onde no Meno, Sócrates demonstra através de cuidadosa dialética
que um menino escravo é capaz de responder questões de Geometria que nunca estudara.
Deduções são extraídas de uma teoria universal dos números e das formas. A sua
capacidade geral explica o seu comportamento específico, ou seja, sua competência
explica seu desempenho.

2. Estrutura mental como arquitetura funcional: faculdades horizontais

Segundo o Neo-Cartesianismo, as faculdades mentais são individuadas por referência ao


seu conteúdo proposicional. Assim, o órgão da linguagem é identificado em virtude da
informação sobre universais lingüísticos que contém; a faculdade do número dispõe de
proposições estruturadas sobre a teoria dos números e assim por diante. Em contraste, de
acordo com essa segunda perspectiva uma faculdade é individuada por referência ao seu
efeito. Assim, nesse sentido, a faculdade da linguagem é um mecanismo, provavelmente
neurológico, capaz de mediar a assimilação e emprego de estruturas verbais. Trata-se aqui
menos da ontologia das faculdades mentais do que de sua arquitetura funcional.
Independentemente de sua natureza, de sua matéria, as faculdades, tais como atenção,
memória, imaginação, linguagem, julgamento, consistem, cada qual, de uma espécie de
algoritmo lógico, desempenhando uma função relativamente invariante e contribuindo de
diferentes formas para os processos cognitivos. Por exemplo, compreender uma frase é
um processo cognitivo que exige a interação da visão/audição (prosódia implícita),
identificação lexical, computação da estrutura sintática, interpretação semântica e
pragmática, conhecimento do mundo, etc. Vários módulos atuam e interagem no processo
cognitivo. Há então uma arquitetura. No parsing, qual a arquitetura do sistema?

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Responder essa pergunta exige a concepção funcional, arquitetural, mais do que a Neo-
Cartesiana. Outro exemplo: há uma faculdade de julgamento que consiste na avaliação
entre diferentes identidades. Essa faculdade tem seu algoritmo, mas seu conteúdo pode
variar, pois ela pode se aplicar a respeito de matérias de estética, questões legais,
científicas, morais, etc. A questão, no entanto, é que do ponto de vista do tratamento
horizontal das estruturas mentais é a mesma faculdade que se exercita em relação a
distintos conteúdos. O sistema de memória seria o mesmo para lembrar de proposições,
por exemplo, a constatação de que o carro é vermelho e de eventos, por exemplo, a ação:
“o carro atropelou um transeunte”. Um sistema horizontal. Enfim, uma faculdade
horizontal é um sistema cognitivo que atravessa diferentes domínios. Se há um mesmo
mecanismo psicológico que se utiliza tanto para identificar uma flor, quanto para
identificar o valor de cédulas de dinheiro, então esse mecanismo é horizontal, conclui
Fodor.

3. Estrutura mental como arquitetura funcional: faculdades verticais

A teoria horizontal parece haver saído de uma teoria do senso comum da mente, parece
que as coisas simplesmente são assim. Por outro lado, a tradição vertical em Psicologia
está associada ao trabalho de Franz Gall. Para Gall, não há memória, atenção, volição,
não há faculdades gerais, horizontais. Há, sim, propensões, disposições, aptidões, que
são identificadas não como competências gerais, mas como competências em domínios
específicos. Assim a aptidão musical é distinta da aptidão matemática ou mesmo verbal. .
Os mecanismos psicológicos que subservem uma capacidade são distintos daqueles que
subservem outra. Um exemplo do próprio Gall: a capacidade de construir ninhos de
certa maneira e a capacidade de cantar de um pássaro não devem ser vistas como
aplicações das mesmas capacidades gerais de desempenhar certas tarefas. Não há uma
capacidade ornitológica única cujas manifestações são cantar e construir ninhos. Há
diferentes intelectos, diferentes capacidades, inteligências múltiplas. Por exemplo, tome-
se a acuidade. Não há uma faculdade da acuidade, sincategoremática. Um indivíduo
pode ter acuidade visual, mas não gustativa, auditiva ou olfativa ou mesmo de memória.
Então não cabe falar de uma capacidade da acuidade, mas de parâmetros de diferentes
módulos: visão, audição, paladar, memória. Esse estilo de teorização combina o
nativismo com a especificidade de domínio, que já foi chamado de organologia. Gall
argumenta, por exemplo, sobre a memória: se esta fosse horizontal, uma pessoa capaz de
se lembrar de uma coisa, deveria se lembrar de qualquer outra coisa igualmente bem, em
qualquer domínio cognitivo e o que se verifica é que há bons memorizadores de números,
que não necessariamente são bons memorizadores de direções espaciais ou de poemas.
Gall invoca o argumento ou lei de Leibiniz: uma mesma faculdade não poderia ser, ao
mesmo tempo, forte e fraca: assim se alguém tem boa memória matemática, mas
memória musical fraca, a memória que media a matemática não pode ser a mesma que
media a música. Assim, a questão se coloca: há diferentes faculdades mentais ou uma
mesma faculdade horizontal com diferentes aplicações? Para Gall as faculdades verticais
têm as seguintes características: especificidade de domínio, determinação genética,
estruturas neurais distintas e autônomas computacionalmente. Fodor considera que a
noção de faculdade vertical é, talvez, a maior contribuição já feita para a psicologia
teórica, base da Ciência Cognitiva moderna. Entretanto, por que não se fala de Gall nos

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livros acadêmicos? Gall fez dois erros que acabaram com ele: associou o grau de
desenvolvimento de um órgão a dimensão relativa da área mental correspondente e
propôs que o cérebro e o crâneo se ajustam como a mão e a luva. Daí para a disciplina
conhecida como Frenologia foi um passo. Passou-se a medir caráter, propensão ao crime,
pelo formato da cabeça, disciplina lombrosiana de triste memória que ocasionou
charlatanismo e fraude. Charlatanismo e fraude por que Gall não é responsável mas por
que, não obstante, pagou seu preço com a obscuridade a que ficou relegado.

4. Associacionismo

Os associacionistas negam muito do que os psicólogos comprometidos com a teoria das


faculdades vêm afirmando. Geralmente, o progresso em um campo implica no declínio
do outro. Segundo Fodor, o que um associacionista reconhece como parte do aparato
explicativo na teoria cognitiva é o seguinte:

(a) Um conjunto de elementos primitivos que compõem as estruturas psicológicas. Os


associacionistas mais comportamentais postulam entre esses primitivos,
preferencialmente, a noção de REFLEXO. Os associacionistas que vêem as estruturas
psicológicas como “mentais” preferem a noção IDÉIA.

(b) Leis associativas aplicam-se a IDÉIAS/REFLEXOS, que são, em si mesmos,


produtos de associações, gerando uma distinção entre estruturas psicológicas
elementares e complexas.

(c) As leis associativas são princípios que regem a maneira como a experiência empírica
de um organismo determina que idéias são associadas ou que reflexos condicionados
são formados.

(d) Relações associativas admitem parâmetros (ou pesos) para as estruturas psicológicas
relacionadas, diferenciando, por exemplo os níveis de condicionamento operante.

Os empiristas clássicos, tais como HUME e LOCKE, concedem que há faculdades


horizontais, tais como a SENSIBILIDADE e a IMAGINAÇÃO, mas todos os fenômenos
cognitivos devem ser explicados em termos do aparato acima. Embora Fodor não
mencione, os modelos CONEXIONISTAS são um exemplo moderno dessa vertente.
Fodor alerta que esse modelo ESTÍMULO-RESPOSTA, por mais sofisticado e/ou
maqueado que possa aparecer em versões modernas tem como essência a rejeição de uma
arquitetura mental de mecanismos psicológicos intrínsecos, em favor de relações
dinâmicas (atração, repulsão, asimilação) entre os elementos em si mesmos, fazendo do
Associacionismo uma doutrina profundamente diferente em espírito do quadro da mente
que a teoria de faculdades computacionais endossa. É a primazia do produto, do corpus
sobre a faculdade, a capacidade gerativa. Desiste-se da teoria da mente de, digamos, Kant
em que há categorias inatas de CAUSA, FINALIDADE, que organizam os dados
erráticos da experiência, em favor de uma teoria do corpus. O paradoxo que se coloca de
maneira irresolvível para os associacionistas é o que Chomsky identifica como Problema
Lógico da Aquisição ou Problema de Platão: de que maneira pode-se construir sistemas

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computacionais a partir da informação ambiental dada pela experiência. Há um
associacionismo clásssico que admite uma teoria da aprendizagem, um associacionismo
mais computacional que nem mesmo a admite, mas ambos tentam negar ou reduzir o
papel das estruturas mentais, o fato de que há uma arquitetura mental inatamente
especificada cuja ontogenia dá-se em um programa genético “hardwired”. Para os
associacionistas computacionais essas estruturas teriam uma existência a posteriori, ou
seja, seriam elas mesmas resultado de associações.

Fodor conclui, então, que os quatro modelos resenhados sugerem um conjunto de


questões que se pode colocar para um sistema cognitivo como auxiliares de uma
taxonomia geral desses modelos:

1. Os sistemas cognitivos têm domínio específico ou suas operações têm escopo sobre
diferentes domínios de conteúdo? A organização cognitiva é VERTICAL ou
HORIZONTAL?

2. O sistema computacional é inatamente especificado ou suas estruturas são formadas


em um processo de aprendizagem? NATURE ou NURTURE?

3. O sistema computacional é resultado de associações de elementos


(REFLEXOS/IDÉIAS/CONEXÕES/PESOS) ou sua arquitetura é implementada
neurologicamente?

4. Os sistemas computacionais (p. ex. Analisador visual, Analisador sintático ou


PARSER) são individualizáveis em termos de sistemas neurais únicos ou
compartilham mecanismos neurais equipotenciais/

5. Os sistemas computacionais são autônomos ou compartilham recursos horizontais


(memória, atenção, etc.) com outros sistemas cognitivos?

O que Fodor faz, então, é concluir pela existência de processos MODULARES,


adiantando que esses são os que têm permitido maior avanço na compreensão da
MENTE. Embora processos não modulares sejam reconhecidos (FIXAÇÃO DE
CRENÇAS), estes, do ponto de vista de estratégias de pesquisa praticáveis, não têm
avançado muito a compreensão das operações mentais e, por isso, os argumentos pela
não-modularidade devem ser recebidos com tristeza (GLOOM).

II - A taxonomia funcional dos sistemas cognitivos

Os melhores candidatos para tratamento como sistemas cognitivos modulares são os


SISTEMAS DE INPUT, computacionais e sintáticos que co-variam com os dados
ambientais de forma RE-PRESENTACIONAL e DERIVACIONAL, a fim de
disponibilizá-los para os processos ditos “superiores” do pensamento. Esses sistemas que
podem ser chamados de COMPILADORES ou TRANSDUTORES em que se detectam
algoritmos (Aposição Mínima/Aposição à Direita ). Pylyshin os chama de

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COMPILADORES –TRANSDUTORES. São, portanto, SISTEMAS de INTERFACE ou
analisadores de input. São SISTEMAS SUBSIDIÁRIOS distintos dos SISTEMAS
CENTRAIS. Um exemplo de análise perceptual é a memória inicial de um input: O
tempo de perduração do percepto auditivo é maior (4 segundos) do que do percepto
visual (1 segundo). Se temos que trabalhar com esse input, ele precisa ser levado a uma
instância de análise mais complexa, a memória de curto prazo. Os sistemas de input
levam informação aos processadores centrais, mediam entre transdutores e mecanismos
cognitivos centrais.

Tricotomia

ANÁLISE PERCEPTUAL —> ANALISADORES DE INPUT —> P. CENTRAIS

Fodor especula que os sistemas à esquerda são filogeneticamente anteriores aos da


direita. Isto é, os analisadores de input, com sua especificidade de domínio rígida e
automaticidade de funcionamento são os “protótipos aborígines” dos sistemas
psicológicos de inferência e reflexão, fixaçnao de sistemas de crenças. A evolução
cognitiva teria ido na direção de gradualmente libertar certos sistemas de resolução de
problemas das condições reflexas em que os analisadores de input tem de trabalhar. Daí
seu aparecimento mais recente na filogenia.

Os sistemas de INPUT são: os sentidos tradicionais + linguagem. O sistema


representacional da linguagem é auto-evidente. Os enunciados são sistemas de input,
objetos perceptualmente identificados. As operações dos sistemas de input não devem ser
identificadas com os ditos sistemas superiores de fixação de crenças. O que se crê
depende de avaliação reflexiva. Este é, para Fodor, o sistema cognitivo central típico.
Sistemas de input são MÓDULOS.

Fodor passa, então, a caracterizar propriedades exclusivas dos módulos, que os sitemas
centrais não possuem:

III - Modularidade e Interação

A noção de modularidade propõe que haja analisadores cognitivos -módulos- dedicados


a tarefas específicas e independentes. Assim no âmbito da mente, o módulo gramatical
não pode ser reduzido a mero epifenômeno de processos cognitivos mais gerais. A visão
autonomista é modular. O próprio modulo gramatical se subdividiria em submódulos:
ligação, caso, papel temático, controle, regência, etc... De acordo com Fodor (1983), os
módulos têm as seguinte características:

1. Função obrigatória. Uma vez recebido o input, este deve ser analisado. Ao lermos a
palavra casa, não podemos deixar de reconhecê-la como uma palavra do português e
recuperar seu sentido. Nós não temos a habilidade de impedir este processo. Nós não
podemos deixar de caracterizar uma frase como uma frase quando a ouvimos, nem
podemos deixar de ver um objeto a nossa frente se olharmos para ele. Em outros
domínios não modulares não há obrigatoriedade. Assim, podemos ser cristãos, mas

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em uma dada ocasião temos o arbítrio de proceder em desacordo com este credo. “Eu
não pude evitar de ouvir o que você disse” é um clichê freqüentemente ouvido.

2. Módulos são de domínio específico e tem acesso limitado aos processos conscientes
de reflexão. Atuação é automática. São mecanismos de propósito especial.
Experiências no laboratório Haskins demonstraram que a análise acústica dos
mecanismos de percepção da cadeia falada são específicos, distintos dos mecanismos
ativados na percepção de sons não lingüísticos. Hoje há evidências, inclusive, de
analisadores específicos não só em relação à capacidade de linguagem, universal, mas
até certo ponto formatados por cada língua específica. (Caso do Princípio Late
Closure, por exemplo). Inclusive, detectou-se aqui o efeito que na Física é conhecido
como o paradoxo partícula/onda. O mesmo sinal acústico pode ser reconhecido como
um “glide”, uma semi-vogal se parte de um estímulo de fala ou como um som não
lingüístico, um “assobio”, se isolado da corrente da fala. O que significa que os
sistemas computacionais invocados na análise perceptual da fala são distintos, pois
operam sobre enunciados lingüísticos, apenas. Ativa-se amaquinaria cognitiva
específica: “ah! É linguagem” , então invoco certas estruturas; “não é linguagem”,
engajo outras. Há mecanismos altamente especializados, seguindo princípios
exclusivos. Vimos por exemplo, no que se refere à linguagem, a noção de c-
comando, uma relação estrutural semanticamente imotivada. Na visão, por exemplo,
há mecanismos especiais para a percepção de cor, a análise da forma, de relações
espaciais tridimensionais. Na audição, há sistemas computacionais específicos para
detectar a estrutura melódica, a estrutura ritmica. Há sistemas próprios para o
reconhecimento de voz. A própria existência de ssitemas modulares são resultado da
concepção de especificidade, no sentido de que outros processos cognitivos não o são.

3. Módulos são informacionalmente encapsulados. A operação do módulo não é


influenciada por outros sistemas e só é por eles conhecida quando completa. Um
processo cognitivo é informacionalmente encapsulado se tem acesso a apenas a
informação representada dentro das estruturas locais que o subservem. Fodor propõe
um experimento simples que demonstra por exemplo como o módulo visual corrige
as alterações no fluxo de informação da retina quando movemos o globo ocular ou a
cabeça. O sistema de percepção visual é encapsulado informacionalmente, tendo
acesso apenas a certos módulos específicos a que está conectado, um dos quais é o
centro neuromotor, que envia ao módulo visual informações sobre o movimento que
permite a ele corrigir as alterações decorrentes do movimento. Já se tocarmos
gentilmente o globo ocular , experimentamos o efeito de movimento do objeto, pois
embora nossos processos mentais conscientes saibam que estamos provocando o
movimento, o efeito compensatório não ocorre, pois o sistema visual é
informacionalmente encapsulado e esta informação explícita não está disponível para
o analisador visual. O encapsulamento significa também que outros níveis de análise
são inacessíveis. Outra anedota citada que demonstra que algo do tipo está ocorrendo:
peça a alguém as horas. Em seguida peça-lhe que lhe diga a forma dos números na
face do relógio: romano, arábico, apenas traços? Freqüentemente, ele/ela não saberá
dizer. A informação visual está presente, mas não entrou naquele modo de

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processamento que está ativado. O contrário também poderia ocorrer. É claro que
pode-se realizar algum controle, mas é preciso separar. Em alguns níveis se consegue
separar, em outros não.

4. Atuação modular é rápida. O módulo lexical reconhece automaticamente uma


palavra. Segundo Fodor, esta propriedade decorre da obrigatoriedade, especificidade
de domínio e encapsulamento. Sendo obrigatório, não há que deliberar para ativar a
operação; sendo de domínio específico, tem uma arquitetura computacional dedicada
e eficiente; sendo encapsulado, há um limite de informação que devem levar em
consideração no processamento.

Tais propriedades torna a concepção modular altamente eficiente. Sem a influência de


outros sistemas, o módulo sintático pode analisar o estímulo corrente rapidamente. O
princípio da imediaticidade da análise está relacionada a tal concepção modular.
Considerar em paralelo é não-modular. O sistema de fixação de crenças é racional e
sensível a evidências - qualquer coisa pode ser relevante para qualquer coisa, por isso os
sistemas responsáveis por manter nossos sistemas de conhecimento geral não podem ser
informacionalmente encapsulado; porque nós podemos acreditar em qualquer coisa sobre
qualquer coisa, este sistema não pode ser de domínio específico; porque tem de operar
em domínios amplos de possibilidades, dependendo do julgamento consciente este
processo é necessariamente vagaroso.