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Universidade do Estado do Rio de Janeiro

Centro de Ciências Sociais


Instituto de Filosofia e Ciências Humanas

Carolyn Souza Fonseca da Silva

Sólon: por uma história econômica na Atenas do século VI a.C.

Rio de Janeiro
2016
Carolyn Souza Fonseca da Silva

Sólon: por uma história econômica na Atenas do século VI a.C.

Dissertação apresentada, como requisito


parcial para obtenção do título de Mestre, ao
Programa de Pós Graduação em História, da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
Área de concentração:História Política.

Orientadora: Profª. Dra. Maria Regina Candido

Rio de Janeiro
2016
CATALOGAÇÃO NA FONTE
UERJ/REDE SIRIUS/CCS/A

S586 Silva, Carolyn Souza Fonseca da.


Sólon: por uma história econômica na Atenas no século VI a.C/
Carolyn Souza Fonseca da Silva. – 2016.
206 f.

Orientador: Maria Regina Candido.


Dissertação (mestrado) – Universidade do Estado do Rio de
Janeiro, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas.
Bibliografia.

1. Civilização grega – Teses. 2. História antiga – Teses. I.


Candido, Maria Regina. II. Universidade do Estado do Rio de
Janeiro. Instituto de Filosofia e Ciências humanas. III. Título.

CDU 938

Autorizo, apenas para fins acadêmicos e científicos, a reprodução total ou parcial desta dissertação, desde que
citada a fonte.

___________________________ _________________________
Assinatura Data
Carolyn Souza Fonseca da Silva

Sólon: por uma história econômica na Atenas do século VI a.C.

Dissertação apresentada, como requisito


parcial para obtenção do título de Mestre, ao
Programa de Pós Graduação em História, da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
Área de concentração:História Política.

Aprovada em 02 de Junho de 2016.


Banca Examinadora:
_____________________________________________
Profª. Dra. Maria Regina Candido (Orientadora)
Instituto de Filosofia e Ciências Humanas - UERJ
______________________________________________
Prof. Dra. Márcia de Almeida Gonçalves
Instituto de Filosofia e Ciências Humanas - UERJ
_______________________________________________
Prof. Dr. André Leonardo Chevitarese
Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ
_______________________________________________
Prof. Dr. Manuel Rolph Cabeceiras Viveiros (Suplente)
Universidade Federal Fluminense

Rio de Janeiro
2016
DEDICATÓRIA

Para o meu grande amor, Vinícius, porto seguro do meu viver.


AGRADECIMENTOS

Com o término da presente dissertação, o sentimento de gratidão aflora, ao refletir


sobre o quão árduo é o trajeto que nos leva à conclusão de um ciclo acadêmico. A sensação de
dever cumprido em face às dificuldades e aos obstáculos enfrentados nos remete àqueles que
conosco estiveram ao longo do caminho.
Diversas são as pessoas que, de maneira direta ou indireta, fizeram-se presentes
durante esta jornada. Por isso, devem se sentir representadas no decorrer de cada palavra aqui
escrita. Existem ainda pessoas que considero, em igual proporcão, autoras deste projeto,
devido à dedicação integral dispensada a mim.
Ao meu marido Vinícius, por acreditar em mim em todos os momentos, até quando eu
mesma não acreditava ser capaz; pela paciência inesgotável nas horas de minha ausência, e
pela dedicação integral em me fazer Mestra. A você que, pelo companheirismo inexaurível,
conhece todos os aspectos desta pesquisa e é capaz de debater comigo sobre Sólon, dedico
mais essa vitória. Sem você, nada disso seria possível!
Aos meus pais, Rosemary e Fábio, por me ensinarem a aprender com meus erros,
celebrar minhas conquistas e a compreender que a derrota faz parte de uma caminhada de
aprendizado. Dedico a vocês uma produção minha, assim como eu sou, com muito orgulho, o
resultado de vocês.
Ao meu querido irmão Pedro, por me fazer de exemplo, com isso, obrigando-me a ser
muito melhor do que, de fato, considere que seja.
À minha querida orientadora Maria Regina Candido, a quem eu sempre considerarei
como minha mestra. Agradeço por me acolher sem medo do desafio à sua frente, por sua
maneira gentil e sempre preocupada com a qual ministra seus ensinamentos. Obrigada por
compartilhar comigo uma parte dessa grande fonte de conhecimentos. Mas, acima de tudo,
além do saber acadêmico, agradeço por compartilhar comigo os saberes da vida e me
presentear inúmeras vezes com os conhecimentos que a senhora construiu ao longo dela.
Quantas vezes tive que ouvir que “a caneta é mais leve que a enxada”! Sua sabedoria é
inesgotável e nos dá forças para continuar, afinal de contas, acima de todas as orientaçoes, a
senhora nos fornece um segundo lar, chamado Núcleo de Estudos da Antiguidade. Por isso,
acima de todas as coisas, ser-lhe-ei eternamente grata!
Ao Núcleo de Estudos da Antiguidade da Universidade do Estado do Rio de Janeiro
(NEA/UERJ), ao qual eu agradeço pelo ambiente de acolhida, amizade e suporte. Seu
conceituado corpo de pesquisadores, de que hoje me regojizo em chamar de amigos,
tornaram-se meus companheiros de jornada. A ajuda mútua, a philia e o pulso firme de nossa
ilustríssima coordenadora são as bases que mantêm essa amada instituição. Não importa para
onde a vida me leve, eu sempre terei orgulho de fazer parte dessa equipe.
À professora Maria Mertzani, por sua amizade e disponibilidade em agregar e
contribuir para a confecção deste trabalho. Seu auxílio foi essencial ao longo do percurso.
Agradeço aos professores e à equipe do Programa de História, ao qual nossa
pesquisa integra, por viabilizarem a elaboração dela.
Gostaria de agradecer em igual medida ao corpo administrativo da secretaria do
Programa de Pós-Graduação em História Comparada da Universidade do Estado do Rio de
Janeiro (PPGH/UERJ).
Meus familiares e amigos que, pacientemente, suportaram meu humor ácido nos
momentos de angústia e a luta contra o tempo durante a execução da redação deste trabalho.
Agradeço a todos os deuses e deusas, os antigos e os novos.
A todos, inclusive os que porventura não tenha sido mencionados, meus sinceros
agradecimentos!
Com efeito, a justiça existe apenas entre homens cujas relações mútuas são governadas
pela lei; e a lei existe para os homens entre os quais há injustiça, pois a justiça legal é a
discriminação do justo e do injusto. E, havendo injustiça entre homens, também há ações
injustas, […] e estas consistem em atribuir demasiado a si próprio das coisas boas em si, e
demasiado pouco das coisas más em si.

Aristóteles
RESUMO

SILVA. Carolyn. Sólon: por uma história econômica na Atenas do século VI a.C. 2016. 206 f.
Dissertação (Mestrado em História) - Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade
do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2016.

Atenas no VI a.C. enfrentava um conflito agrário originado na distribuição irregular da


terra entre os eupatridai (aristocratas) e os hectemoroi (pequenos agricultores). Interpretamos
que este fenômeno demográfico desencadeou uma reação estrutural de antagonismos nas
relações sociais da Hélade. Somado a luta entre os proprietários de terras e os camponeses,
também observamos que, acordo com as abordagens da historiografia, o contingente
populacional da Atenas não fora afetado pelo mesmo processo de crescimento exponencial ao
qual foram acometidas as outras poleis gregas. Tal conjuntura suscita um movimento de
expansão singularizado, bem como a construção tardia de um sentimento de identificação
entre os atenienses no período arcaico. Os camponeses não eram proprietários e pagavam a
sexta parte da produção para os aristocratas. A falta de pagamento poderia submeter os
camponeses à escravidão por dívida. Para minimizar os conflitos, Sólon teria retirado os horoi
de pedra. Todavia, tal medida- quando sobreposta em interface aos múltiplos significados da
palavra horos - nos fornece interpretações distintas que depreendem aspectos políticos,
econômicos, religiosos e sociais. A falta dos recursos levava os camponeses a serem vendidos
como escravos para o exterior. A ameaça da escravidão era um recurso para reprimir os
endividados que, para escapar da dívida e do miasma da escravidão, preferiam exilar-se. Para
desenvolver a isonomia (igualdade), Sólon, por meio de uma Constituição, rompeu com a
tradição aristocrática, dividindo a comunidade políade em quatro classes censitárias de acordo
com a capacidade produtiva e em detrimento da hereditariedade, baseada na posse de terras
pelos eupatridai. Essa medida instaura um regime timocrático estabelecendo uma reforma
social e uma manobra política, contabilizada pelos cargos militares. A contestação das dívidas
(chamado de seisachteia) foi concretizada pela retirada dos horoi e da repatriação dos
escravos. A historiografia aponta que Sólon extinguiu a condição de escravos e possibilitou o
pagamento das dívidas pelos hectemoroi. O legislador renova o sistema econômico de pesos e
de medidas, possibilitando o pagamento desvinculado da produção agrícola e utiliza um
sistema de valores que “deflaciona” a dívida contraída em vez de aumentá-la. Essa mudança
econômica favorece a emergência de uma atividade comercial marítima, que se estabelece
como uma alternativa e um mecanismo propiciador de prosperidade, principalmente da
população de poucos recursos. Entretanto, torna-se necessário uma releitura da
representatividade política e social de Sólon, abordando prismas como sua atuação de
strategos e a dinamização da região do Kerameikos, reorganizada para produção de
cerâmicas, marcada pela presença dos estrangeiros (metecos), bem como a regulamentação
das práticas de prostituição. De fato, a existência de práticas comerciais que extrapolam as
adjacências do oikos relacionam-se à economia antiga e tem lugar de destaque na corpora
documental através de Aristóteles. A existência de um preceito econômico nas sociedades
antigas é ainda objeto de debates entre os pesquisadores, na qual a construção de uma
mentalidade econômica não se dissocia das outras atividades sociais, tornando-se necessário
identificar a existência do papel econômico no contexto de produção social ateniense.

Palavras-chave: Atenas. Sólon. Seisachteia


ABSTRACT

SILVA. Carolyn. Sólon: for an Economic History of Athens in VI B.C. 2016. 206 f.
Dissertação (Mestrado em História Política) - Instituto de Filosofia e Ciências Humanas,
Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2016.

By the VI century B.C., Athens was facing a conflict genaretad by the irregular land
ditribution between the eupatridai (members of aristocracy) and the hectemoroi (small
farmers). We interpret that this demographic phenom engender an structural reaction
antagonism in social relations of Athens. Added to the struggle between the land owners and
the peasants, we believe that, according with the historiography, athenian population group
wasn’t affected by the same growth process of the other Greek poleis. This context raises a
singular expansion movement as well as a late identity construction among the athenian in the
archaic period. The peasants were not land owners and had to pay the sixth part of the
production to the aristocrats. The lack of payment could submit the peasants to slavery by
debts. In order to minimize the conflicts, Solon allegedly removed the stone markers, called
horoi. However, this action - when superimposed on the multiple meanings of the word horos
- provides distinct interpretations that inferred political, economical, religious and social
aspects. The lack of resources led farmers to be sold as slaves abroad. The threat of slavery
was a resource to repressthose on debt that, to escape debt and slavery miasma, preferred
exile. To develop equality (isonomia), Solon, by a Constitution, broke with the aristocratic
tradition, dividing the ho polis community into four census classes according to the
production capacity and to the detriment of heredity, based on land ownership by eupatridai.
This measure establishes a timocratic government establishing a social reform and a political
maneuver, accounted for by the military positions. The cancellation of debts (seisachteia) was
completed by the withdrawal of horoi and repatriation of slaves. The condition of birth keep
the eupatridai in power and authority, even with the loss of income of storage with the end of
debt bondage. The history shows that Solon abolished the condition of slaves and made
possible the payment of debts by hectemoroi. The legislator renews the economic system of
weights and measures, enabling the detached payment of agricultural production and uses a
system of values "deflates" the debt incurred instead of increasing it. This economic change
favors the emergence of a maritime commercial activity, which is established as an alternative
and an enabling mechanism of prosperity, especially for those of limited resources. However,
a reinterpretation of political and social representation of Solon is necessary. By addressing
prisms as its operating strategos and the urbanization of the Kerameikos, reorganized for the
production of ceramics, marked by the presence of foreigners (metics), and the rules of
prostitution practices. The existence of commercial practices that go beyond the vicinity of
the oikos relate to the old economy and played a prominent role in the documentation through
Aristotle. The economic precept in ancient societies is still the subject of debate among
researchers, in which the construction of an economic mindset does not dissociate from other
social activities, making it necessary to identify the existence of the economic role in the
context of social production Athenian.

Key Words: Athens. Solon. Seisachteia.


LISTA DE ESQUEMAS

Esquema 1 – Gerações de pesquisadores em História e História Econômica............ 35

Esquema 2 – Segmentos sociais envolvidos na crise agrária..................................... 100

Esquema 3 – Modelos de Análise Historiográfica..................................................... 114


LISTA DE FIGURAS

Figura 1 – Horoi marcadores de fronteira da Ágora (500 a.C.) encontrado ao


Leste de Tolos....................................................................................... 86
Figura 2 – Ânfora de figuras negras representando a colheita da oliveira............. 115
Figura 3 – Ânfora de figuras negras representando o ofício de um sapateiro e de
um ferreiro............................................................................................ 124
LISTA DE GRÁFICOS

Gráfico 1 – Variação (em %) das teses e dissertações em História Econômica da


Universidade de São Paulo................................................................... 36
Gráfico 2 – Variação (em %) das teses e dissertações em História Econômica da
Universidade Federal do Rio de Janeiro e da Universidade Federal
Fluminense............................................................................................ 37
Gráfico 3 – Distribuição de Vasos de Figuras Negras no final do VII século a.C.... 120
Gráfico 4 – Padrão de distribuição dos vasos de “figuras-negras” no VI século a.C.... 121
LISTA DE MAPAS

Mapa 1 – Expansão do Mundo Grego (800-300 a.C.).................................................. 71


Mapa 2 – Território Ático.................................................................................................. 82
Mapa 3 – Região de Salamina............................................................................................ 89
Mapa 4 – Região do Kerameikos...................................................................................... 132
LISTA DE TABELAS

Tabela 1 – Tabela dos conceitos operacionais substantivistas e formalistas......... 41


Tabela 2 – Sumário de indicadores de crescimento econômico............................ 57
Tabela 3 – Corpora Documental sobre Economia Antiga........................................... 60
Tabela 4 – Esquema dos conceitos de Karl Polanyi..................................................... 66
Tabela 5 – Tabela de Cereais da Grécia................................................................ 77
Tabela 6 – Medidas grãos e líquidos..................................................................... 78
Tabela 7 – Tabela conceitual comparativa............................................................ 94-5-6
Tabela 8 – Distinção entre a terminologia escravidão e servidão......................... 97
Tabela 9 – Segmentos Sociais e Índice de Produtividade..................................... 102
SUMÁRIO

INTRODUÇÃO.................................................................................................. 15
1 ECONOMIA ANTIGA EM DEBATE............................................................. 25
1.1 A representação de Sólon pela historiografia.................................................. 25
1.2 Economia: trajetória e recortes metodológicos................................................ 31
1.3 A problematização da Economia Antiga na Alemanha durante o
século XIX.......................................................................................................... 40
1.4 A natureza dinâmica no estudo da Economia Antiga..................................... 49
1.5 Oikonomia e Crematística: As práticas econômicas para além do oikos....... 61
1.6 O princípio econômico das reformas de Sólon a partir da leitura de
Karl Polanyi........................................................................................................ 62
2 CRISE AGRÁRIA: A SINGULARIDADE DO CASO ATENIENSE............ 69
2.1 O desenvolvimento demográfico ateniense....................................................... 70
2.2 A Cultura Cerealista da Grécia......................................................................... 75
2.3 Por uma Identidade Jônica................................................................................ 80
2.4 Horoi: Para além das barreiras físicas............................................................. 85
2.5 Seisachtheia: O fim da escravidão ou da servidão por dívidas?...................... 96
2.6 Os critérios alternativos de cidadania............................................................... 101
3 AS RELAÇÕES COMERCIAIS NA ATENAS ARCAICA........................... 107
3.1 Fenômenos geográficos e políticos.................................................................... 108
3.2 Atenas no circuito comercial mercantil............................................................ 111
3.3 A materialização do econômico através das inscrições iconográficas: o
papel das ânforas na economia ateniense........................................................ 117
3.4 Mão de obra estrangeira em Atenas................................................................. 125
3.5 Kerameikos: O recanto das práticas econômicas............................................ 131
3.6 A racionalização das práticas econômicas de Atenas...................................... 135
3.7 A Reforma de Pesos e Medidas......................................................................... 139
CONCLUSÃO..................................................................................................... 145
REFERÊNCIAS................................................................................................. 153
GLOSSÁRIO...................................................................................................... 168
APÊNDICE......................................................................................................... 173
ANEXOS............................................................................................................. 188
15

INTRODUÇÃO

A economia antiga sempre foi um ponto de interesse entre os historiadores. Desde a


problematização de sua existência nas sociedades antigas ao debate metodológico acerca do
lugar do mundo antigo na ciência histórica durante o século XIX, a complexidade das práticas
econômicas tem sido o consenso entre os historiadores. Ao estabelecer um recorte histórico-
temporal em torno da polisateniense durante o Período Arcaico, nos concentraremos na
análise das reformas político-econômicasde Sólon, que emergem como resposta à crise
agrária do território ático, que desestruturou as relações sociais e econômicas de Atenas.
Tais afirmações nos apresentam um campo de interrogações sobre a emergência da
economia nas sociedades antigas, que pode ser datada entre os séculos VII e VI a.C., ou em
temporalidades pregressas. O caso ateniense torna-se particular pelo fato da política ser
apreendida de forma densa, organizada e orientadora do todo o campo social, imprimindo a
especificidade de sua característica que nos conduz à polis ou às organizações políades.
O interesse no recorte temporal, inerente ao governo de Sólon, foi despertado por
ocasião da elaboração do projeto de pesquisa patrocinado pela FAPERJ intitulado Atenas:
Liderança Unipolar no Mar Egeu (480-411 a.C.) que resultou no livro de mesmo título,
publicado em 2016. O referido projeto, coordenado pela Dr.ª Maria Regina Candido, tem
como eixo temático a democracia ateniense a partir do seu processo de expansão política, no
qual se delimita o período de análise de 480 a 410 a.C., ou seja, a participação ativa do
segmento social urbano atuando na defesa da polis.
A partir da bibliografia integrante do referido projeto de pesquisa, circunscrita em
torno do advento da democracia na sociedade grega, percebemos um processo de análise
dicotômico em meio à historiografia no que tange o surgimento da democracia. Grande parte
das publicações sobre democracia ateniense interage com as questões levantadas por Moses I.
Finley1, ao deixar transparecer que o termo democracia foi uma invenção dos
atenienses(FINLEY, 1983, p. 67). Interessou-nos a priori analisar as publicações visando
identificar os pesquisadores das historiografias anglo-americana e francesa que interagiram
com a questão da invenção da democracia citada por Moses I. Finley. As publicações sobre a
ação política da democracia, o seu processo de estabelecimento e de benefícios auferidos aos
1
O historiador detém vasta publicação com temas de abordagem política na sociedade grega comoEconomy and
Society in Ancient Greece (1953), Aspects of Antiquity: Discoveries and Controversies (1968), The Ancient
Economy (1973), Democracy Ancient and Modern (1973), Authority and Legitimacy in The Classical City-States
(1982), Politics in the Ancient World (1983), Ancient History: Evidence and Models (1985).
16

atenienses no século V a.C. apresentavam-se vastas e muitas vezes faziam referência ao


governo de Sólon como intervalo de transição para o surgimento da demokratia.
Interessa-nos, simultaneamente, analisar o contexto de valorização da História Antiga
como ciência engajada na compreensão dos valores humanos e dos movimentos históricos
através da singularidade econômica que contrariava as propostas elencadas como princípios
do conhecimento científico à época, baseados na sistematização do conhecimento acadêmico
e em estruturas teórico-metodológicas generalizantes. Antagonizando essa proposição, a
transição deste paradigma metodológico surge como uma resposta para o historiador,
engajado no movimento histórico e intelectual de renovação historiográfica que atinge a
intelectualidade moderna. Esta tem como preceito o respeito às especificidades dos sistemas
econômicos particulares inseridos em um contexto histórico que se relaciona diretamente com
a análise histórica.
Para analisar o archondato2 de Sólon3 sob o viés econômico, é necessário promover
uma interface com um de seus campos de atuação mais prolíferos, a saber, a política. Tal
perspectiva de abordagem se desenvolve em torno do episódio conhecido como crise agrária
de Atenas que, apesar de culminar no século VI a.C., é resultado de um longo processo de
mudanças no paradigma vigente na sociedade ateniense. É imperativo, desse modo, alicerçar
nossa temática mediante o estudo da construção de um processo econômico, que é intrínseco a
uma abordagem política, pois, conforme alega René Rémond, “a história política exige ser
inscrita numa perspectiva global em que o político é um ponto de condensação” (RÉMOND,
1996, p. 445). Tal apontamento endossa a nossa perspectiva de uma vinculação entre política
e sociedade, à medida que nas Sociedades Antigas o hiato entre o contexto social e o político
não se faz evidente.
Durante os séculos VI e V a.C., para corroborar as reformas constitucionais
promovidas durante o contexto de ascensão da democracia ateniense e relacioná-las a um
passado glorioso no qual se estabelecia um prosseguimento ao projeto da demokratia como
estratégia de legitimação do poder, a figura de Sólon foi usada quase que de forma

2
Atualmente, do material epigráfico que estabelece a lista de arcontes atenienses entre o VII e V séculos a. C.,
apenas pequenos fragmentos foram preservados, como uma estela de mármore situada na Ágora de Atenas
(BRADEEN, 1964, 187-208). O arcontado ateniense surgiu a partir da antiga instituição da realeza, no primeiro
milênio a. C. Com o passar do tempo, o basileu ateniense descendente tornou-se um arconte eleito e com um
cargo administrativo vitalício (Arist. Ath. pol. 3,1; Paus. 6.19.13). Os trabalhos mais relevantes nesse campo
correspondem a: (BADIAN, 1971, p. 1-34); (KELLY, 1978, p. 1-17); Acredita-se que o documento epigráfico
teria sido forjado para fins políticos pela aristocracia da Ática doperíodo clássico. No entanto, a lista pode ser
considerada uma junção da tradição oral, acompanhada por uma genealogia, e uma prática da escrita exercida
pelos magistrados.
3
A data tradicional aceita pela historiografia de Sólon é 594-593 a.C.
17

compulsória. É por esta característica que alguns pesquisadores – ainda hoje – atribuem a
Sólon a nomenclatura de “pai da democracia”4.
Percebemos que ainda no século VI a.C. inicia-se um fluxo de narrativas
materializadas em torno da memória de Sólon, personalizando a história do Período Arcaico
ateniense e seu contexto político, que passam a convergir em torno do legado de Sólon.
Paralelamente ao condicionamento cultural da memória de Sólon, seus versos foram recitados
por seus contemporâneos e citados pelas gerações futuras como narrativa poética, entoados
como bastiões da tradição e da memória cultural ateniense.
Segundo Denis Renan Correa (2012), a memória de Sólon faz parte de uma rede de
informações nas quais os gregos, de maneira especial os atenienses, reconhecem sua
identidade, através da característica que os diferencia das outras poleis gregas: a democracia
ou isonomia. Segundo o autor:
A memória cultural de Sólon é uma recordação socialmente compartilhada e
culturalmente construída, rememorada em textos que referem esta personagem, e
que fazem tal conteúdo importante para a identidade cultural tanto de atenienses
quanto dos gregos em geral. (CORREA, 2012, p. 20)

De tal forma, através de suas poesias, a historiografia encontrou um caminho para


adequar seus versos e entoá-los como provas do caráter democrático do governo de Sólon.
Um dos precursores do discursohistórico5 anacrônico foi Aristóteles (filósofo grego do século
IV a.C.), na Constituição dos Atenienses. Os mais remotos pensadores a discutir a emergência
do regime democrático – como Heródoto, Tucídides e o Velho Oligarca, todos datados no
século V – ignoravam totalmente a relação de Sólon com a democracia ateniense.
Grande parte do arcabouço poético é o resultado, segundo Delfim Ferreira Leão
(2013), dos dotes performativos6de Sólon. Suas leis funcionavam como modelos a serem

4
Este argumento se reforça à medida que Moses I. Finley aponta como abertura da participação mais ampla em
Atenas as reformas empreendidas por Sólon em 594 a.C. (FINLEY, 1983, p. 23). Esta mesma vertente é
sustentada pelo pesquisador Robert Wallace, quando o mesmo defende a premissa de que essa mentalidade
coletiva inaugurada no archondato de Sólon, permeada pela ideia de liberdade e independência, foi fator
preponderante para explicar a motivação pela qual a democracia foi uma invenção dos gregos (WALLACE,
2008, p. 72).
5
Segundo Eni Orlandi, o discurso constituiria a "[...] mediação necessária entre o homem e a realidade natural e
social", (ORLANDI, 2012:15). Para essa autora, o discurso não se configura como a transmissão de uma
mensagem e não há uma separação dicotômica entre emissor e receptor; o que existem são processos de
identificação do sujeito, de argumentação e de subjetivação. Por isso é que ela afirma que o discurso é um "efeito
de sentidos". A análise do discurso atuaria, portanto, na diagnose das diversas ordens de conhecimento,
trabalhando a “separação necessária, isto é, ela vai estabelecer sua prática na relação de contradição entre esses
diferentes saberes”.
6
Delfim Ferreira Leão (2013), no artigo As jogadas de Sólon e a esperteza dos atenienses, levanta a hipótese de
que o caráter inventivo e criativo de Sólon mediante os problemas enfrentados em seu archondato reflete
consequentemente um “tipo de atuação que poderia corresponder a uma característica própria dos atenienses”,
18

seguidos pelos governantes e consultados em momentos em que se tornava necessário


fortalecer o espírito da polis7. (LEÃO, 2013, p. 1)
Victor Ehrenberg (1973, p. 35) ratifica a perspectiva de Delfim Leão e destaca como
inovadora a iniciativa de Sólon de discursar nas elegias através de suas poesias. O teor
político embutido nelas substituiu o discurso tradicional comumente feito pelos oradores,
além de se fixar mais facilmente na memória da sociedade, o que permitia maior e mais
frequente difusão das ideias de Sólon, além de privilegiar sua reputação nos assuntos
públicos. Por isso, a atuação de Sólon foi amplamente reconhecida como fundamental pela
sociedade ateniense, seu poder de persuasão foi considerado responsável pela tomada de ação
da polis, alçando-o ao status de líder político de Atenas.
Sólon, conhecido por seus poemas, era notório por transformar suas elegias
(discursos) também em versos e, ao invés de proclamá-los como os outros oradores, o mesmo
promovia um recital de suas poesias para o público. Tal estratagema tinha como finalidade
manter suas palavras marcadas na memória social. Ademais, Sólon foi o mais remoto
legislador a investir na materialização do discurso ao formular novas leis e “inscrevê-las em
tabuletas8”conhecidas como axones, ou seja, na manifestação escrita daquilo que fora tão
intrínseco à tradição grega: a oralidade. Não almejava, no entanto, romper com a tradição
remanescente desde os tempos de Homero, mas sim conciliá-la ao novo contexto social de
Atenas, no qual a legislação era o principal mecanismo para o exercício da cidadania (LEÃO,
2001, p. 19-80).
Nesse sentido, para analisar o legado relacionado a Sólon no Período Arcaico
ateniense, torna-se essencial cotejar as informações herdadas pela documentação,
representadas pelas obras atribuídas a Aristóteles Política e A Constituição dos Atenienses,

como o próprio Plutarco sugere na Vida de Sólon (15.2). Leão afirma ainda que estas características de cunho
social e comportamental teriam “inclusive deixado marcas no uso metafórico da linguagem, aplicado à realidade
politica e legal” (LEÃO, 2013, p. 2).
7
Segundo o historiador Edward Harris em seu artigo Solon and the Spirit of the Law in Archaic and Classical
Greece, os poemas de Sólon ajudaríam a compreender o espírito com que as poleis gregas criavam suas leis. O
autor esclarece que, ao utilizar a palavra “espírito”, ele não inteciona promover o contraste entre o “espírito da
lei”e a “letra da lei”. Tampouco aspira impulsionar a ideia de que existiria uma Geist (palavra alemã utilizada
para definir “espírito”) transcendente que unira todos os gregos e permeava suas instituições (HARRIS, 2006, p.
5).
8
Delfim Leão assinala a existência de um debate acerca deste termo. Para o autor, Aristóteles (Constituição dos
Atenienses, 7.2.) afirma que as estruturas quadrangulares, contendo as inscrições de madeira, eram chamadas de
kyrbeis; argumento corroborado por Cratino. Contudo, “alguns autores defendem que por kyrbeis se designavam
especialmente os que continham as leis sobre os cultos e sacrifícios, por axones os restantes”. Leão conclui que
atualmente o debate ainda não atingiu um consenso (LEÃO, 2015:91). Verificar os Anexos 1 a 4 (p.197-200)
para exemplos de axones e kyrbeis.
19

bem como a coletânea de poemas de Sólon intitulada Eunomia. Tal corpora documental,
embora posterior ao Período Arcaico, quando instrumentalizado em forma de memória
histórica, fornece-nos ampla gama de análise interpretativa a respeito do ponto de inflexão
sobre o qual se constrói a problemática de nosso estudo.
Ao abordar o campo da memória, torna-se imperativo atentar para seu processo de
construção, especialmente em uma sociedade onde a oralidade se faz tão presente, como a
grega. Conforme alega Peter Burke(2000, p.69-70), “(...) memórias são construídas de acordo
com o ponto de vista de um determinado grupo social (...)9”, o que se confirma no caso de
Sólon, que teve sua imagem adequada a um contexto político com o intuito de favorecer um
determinado segmento social na empreitada democrática. A tentativa de associação com os
valores previstos no código soloniano se dá principalmente por três motivos, a saber:
1. O primeiro é a identificação que ocorre entre os modelos de projetos políticos
dos Períodos Arcaico e Clássico, muito embora feitas as devidas considerações acerca das
peculiaridades de cada contexto histórico, onde o preceito isonômico possui um lugar de
destaque em ambos.
2. A segunda motivação novamente nos remete ao âmbito da memória como um
recorte seletivo do passado, que prioriza uma determinada esfera contextual. A imagem de
Sólon foi utilizada para corroborar as reformas constitucionais promovidas durante o Período
Clássico, relacionando-as a um passado glorioso, no qual a isonomia era um fator identitário
entre os dois governos,que viria a retificar a hierarquia social a ser imposta em Atenas. No
século V a.C., ao notar a emergência de um novo paradigma político, os grupos sociais
partidários da demokratia trataram de correlacioná-la a um passado comum ao universo
políade, promovendo uma identificação ideológica por parte do dêmos com o processo
isonômico iniciado por Sólon. Sua finalidade era corroborar e garantir um discurso uníssono
sobre as mudanças paradigmáticas que convergiam em torno da demokratia no Período
Clássico.
3. Em terceiro lugar, há o fato de que Sólon surge como a primeira figura política
concreta e centralizadora do Período Arcaico depois de Teseu, expondo muito mais
materialidade para a sua causa do que seu predecessor – uma vez que, ao compilar um
conjunto de leis, o mesmo se consolida como legislador. Ao redigir a legislação ateniense,
Sólon desponta como a primeira figura política a pregar a propagação das leis através da
9
Tal argumento é também sustentado pelo sociólogo francês Maurice Halbwachs (1877-1945, p. 65-70) em sua
obra La mémoire collective(1950), que conceitua como “estrutura social da memória” aquilo que posteriormente
será conhecido como “memórias sociais”. Ainda segundo ele, as memórias são construções dos grupos sociais,
pois são estes segmentos sociais que determinam o que é considerado “memorável” e as formas pelos quais tais
fatos serão lembrados.
20

escrita e, consequentemente, da exposição das mesmas em locais públicos, como os santuários


e os locais de entrada da polis. A ação de Sólon distancia – ainda que não intencionalmente –
as leis dos homens e as leis dos deuses, promovendo uma racionalização da vida humana,
rompendo com a relação simbiótica que subordinava as leis ao âmbito mítico dos deuses.
Na obra Athènes et le politique, Jean-Pierre Vernant atribui um caráter fundamental à
ação do “político” em detrimento do vocábulo “política”, com a clara finalidade de delimitar a
ação determinante do homem em seu meio social. Para Vernant, o eixo da sociedade passa do
campo abstrato da política para uma perspectiva mais concreta. O autor questiona “se a
instituição da democracia pode ser facilmente identificada e datada; em qual momento fixar a
emergência do político?” (VERNANT, 2007, p. 17). Argumentaremos sob a prerrogativa de
que a emergência “do político” inicia-se no Período Arcaico, mais precisamente em 594-93
a.C., com o archondato de Sólon. A manifestação política surge, contudo, desvinculada do
advento da democracia.
Sólon emerge como uma das primeiras figuras eminentes de ação política na polis dos
atenienses. Jean-Pierre Vernant apontará ainda uma relação entre o político e a política a
partir do viés antropológico. Para o autor, “(...) o comportamento político se manifesta através
do exercício do poder (...)”, demarcando o caráter holístico da política, uma forma de
expansão intelectual que se torna globalizante à medida que insere o cidadão na perspectiva
da polis (VERNANT, 2007, p. 22). Tal perspectiva é corroborada pela pesquisadora Maria
Regina Candido, cuja abordagem da historiografia francesa aponta para a perspectiva de uma
relação entre a política e as instituições em detrimento do aspecto religioso, sobre a qual
argumenta que “outra possibilidade de abordagem do político está em apreendê-lo como
inserido/embedded no universo social grego” (CANDIDO, 2013, p. 22).
O pesquisador René Rémond é corolário da mesma perspectiva, alegando que “nada
seria mais contrário à compreensão do político e de sua natureza que representá-lo como um
domínio isolado: ele não tem margens e comunica-se com a maioria dos outros
domínios”(RÉMOND, 1996, p. 444).
É através da atuação do político, que deve estar inscrito numa perspectiva mais
abrangente do contexto de produção da polis, que se estabelecem paralelos com diversos
setores da sociedade, suplantando as esferas de poder. Em uma sociedade de estrutura social
complexa como a ateniense, onde a atuação na polis transformou-se em uma característica
inerente ao cidadão, é possível examinar o legado de Sólonabordando prismas como, por
exemplo, sua atuação como strategos e a restruturação econômica aplicada ao território ático
modificando o sistema monetário de Atenas, oferecendo assim uma releitura do modelo de
21

abordagem singularmente política e do discurso político linear que a historiografia


contemporânea tende a promover.
O objetivo deste trabalho é examinar a conjuntura político-econômica que culmina
com as Reformas Socioeconômicas de Sólon. Contextualizar seus ensejos legislativos torna-
se um recurso metodológico imprescindível para que o historiador do mundo antigo possa
compreender e circunscrever o advento da seisachtheia no contexto social de produção
inerente ao Período Arcaico, seus possíveis significados, e problematizar sua aplicabilidade na
sociedade ateniense durante o século VI a.C..
Assim, empreendemos um levantamento das múltiplas interpretações empregadas pela
historiografia sobre questões como a materialização dos segmentos sociais da polis ateniense,
em especial os hectemoroi e seu âmbito de atuação político-econômico no período que
precede o governo de Sólon, bem como sua inserção na sociedade após a implementação das
reformas econômicas. Para melhor localizar historicamente o segmento social dos
hectemoroi,é necessário investigar a influência dos horoi neste período e a correlação entre
estes demarcadores territoriais e a classe dos hectemoroi. Uma vez que este movimento – de
remoção dos horoi - se deu, em parte, como uma resposta à crise econômica do Período
Arcaico, a questão está relacionada à distribuição desigual da terra que gerou
descontentamento e reivindicações.
Em sequência à nossa pesquisa, percebemos a escassez de dados referentes à atuação
política do segmento social pentacosiomedimnos na sociedade ateniense a partir da
historiografia francesa. A resposta às indagações formuladas nessa pesquisa nos aproximou da
abordagem realizada pelo que denominamos de nova historiografia anglo-americana, que
prioriza apreender as ações políticas de um determinado segmento social e identificar o lugar
de onde se elaboram as ações políticas. As duas tradições historiográficas mantém uma
relação de diálogo entre Moses Finley e Claude Mossé, ao defenderem que a ação política se
elabora em lugares fora dos quadros institucionais.
O programa geral de Sólon consistia, conforme sintetizado pelo fragmento 36 de sua
poesia, em reafirmar uma solução alternativa para o problema da crise agrária ateniense, que
refletiria a maneira singular dos atenienses para solucionar os problemas socioeconômicos de
Atenas, uma tentativa de unificar Atenas através do fator identitário frente a um desafio
comum, a saber, a crise agrária ateniense. Sólon apoiava a necessidade de medidas
econômicas para contemporizar as querelas sociais que permeavam a Hélade. Motivado por
preocupações morais sobre a justiça e por uma convicção prudente quanto à necessidade de
mudanças econômicas, Sólon estava explicitamente disposto a empregar o poder através de
22

uma conjugação entre "força e justiça" a fim de estabelecer uma nova realidade social
ateniense, desestabilizando injustiças cujas raízes estão no passado de Atenas.
A nova ordem social ateniense forjada por Sólon foi fundamentada não apenas em
contenção, mas, concomitantemente, em um compromisso com a justiça em geral. As leis de
Sólon instanciaram como valores públicos sua concepção normativa de como os atenienses,
como uma comunidade, deveriam se relacionar entre si, em condições de equidade. Suas leis
são, portanto, construídas sobre uma ética política clara, que tem no seu centro uma noção de
conjunção social que visava libertar os atenienses das restrições inapropriadas e estabelecer a
equanimidade em relação aos bens públicos. No início do século VI a.C., esta concepção ética
significava interligar as concepções de que os segmentos sociais consolidados
sociopoliticamente não deveriam assumir como sua prerrogativa o direito de escravizar os
segmentos sociais menos representativos, uma vez que ambos atuavam como membros
participantes da mesma comunidade política.
Na tentativa de instanciar uma ordem político-econômica alternativa em Atenas, em
594 a.C., Sólon confrontou várias questões como disparidades sociais e a busca por práticas
alternativas para solucionar, ainda que parcialmente, a infertilidade do solo ateniense. Em
relação à organização sociopolítica, o legislador visava responder a uma exigência de uma
comunidade em processo de diversificação de atividades e participação. Embora a
historiografia contemporânea evite a categorização do archondato de Sólon como o ensejo
para o advento da democracia, seu calendário político tinha a intenção de desestruturar a
ordem social e política vigente e criar uma organização alternativa na qual todos – em maior
ou menor proporção – tinham algum acesso aos processos políticos e, portanto, à integração
gradual à cidadania.
Para Robert W. Wallace, a ação de Sólon não visava politizar o dêmos/plethos, pois
suas poesias nos apontam que eles já eram politizados. A ação do legislador ateniense foi
mediar o embate social entre os dêmos e os eupátridas através da legislação que visava
pacificar os revolucionários e, ao mesmo tempo, criar um lugar de fala para o dêmos/plethos
(WALLACE, 2008, p. 72). Entretanto, diante do perigo iminente e do desafio da violência, a
ação de mediar através de normas, regras e leis tornou-se dramática diante da exigência de
concessão de poder ao dêmos. A ação de Sólon deixa transparecer que no amplo território da
Grécia no VI a.C. emergiam atitudes de animosidade contra a antiga ordem social vigente.
Temos de considerar a priori a natureza das crises em Atenas nos séculos VII e VI
a.C.. A Constituição dos Atenienses nos informa que a tensão surgiu do atrito entre os aristhoi
e os hectemoroi, que foram escravizados pelos ricos, cuja terra estava nas mãos de poucos,
23

mas que o aspecto mais severo da Constituição para muitos (plebe) foi sua escravização:
“Eles também tinham, não obstante, queixas por outros motivos; para eles, por assim dizer,
não aconteceu ter participação em qualquer coisa”.
O autor Pierre Vidal-Naquet demarca que o único caso de crise agrária do Período
Arcaico que chegou até a atualidade foi o de Atenas, cujo elemento essencial foi a existência
dos hectemoroi, grupo de atenienses que podia se tornar escravo por dívidas diante do débito
com os aristhoi. A solução de Sólon reflete a ideia de comunidade: a reforma atingia
unicamente os atenienses, excluindo os estrangeiros, escravos e outros; o retorno dos
hectemoroi a suas terras tornou alguns pequenos proprietários livres; outros se tornaram
artesãos ceramistas (VIDAL-NAQUET, 2007, p. 90), e os demais optaram pela migração.
Adotar a polis como plataforma de contextualização nos permite compreender os
fenômenos sociais manifestados durante o archondato de Sólon. O protagonismo da cidade
ocorre de forma a demonstrar a correlação entre o seu papel e as mudanças em seu cenário
urbano e a eclosão de um novo paradigma socioeconômico com o archondato de Sólon.
A proposta de nossa pesquisa insere-se ainda em uma problemática distinta que
perpassa os historiadores da Antiguidade, a saber: a promoção das práticas econômicas do
setor urbano dos atenienses no Período Arcaico. Identificamos no código legislativo
promovido por Sólon a transição econômica de uma base de produção agrícola – regulada
pelos preceitos de autoabastecimento como forma de segurança – para um contexto de
consolidação das atividades econômicas baseadas no insumo às práticas comerciais e
marítimas, nas quais a navegação surge como meio de mobilidade e comércio, facilitando o
desenvolvimento de técnicas de especialização por meio das trocas com as demais poleis.
Segundo Genaro Chic Garcia, na prática comercial relativa às sociedades antigas os
interesses das comunidades eram valorizados em geral como superiores aos do indivíduo, “de
forma que uma atividade (como o comércio) será tida como positiva ou negativa em função
de servir aos interesses coletivos” (GARCIA, 2009, p. 139). Assim, argumentaremos que a
inserção da polis ateniense no circuito comercial e mercantil do Mar Mediterrâneo
estabeleceu as atividades econômicas como ponto de equilíbrio entre os interesses –
individuais e coletivos – antagonistas na polis ateniense durante o contexto social de produção
do Período Arcaico.
Sólon atua como agente regulamentador das relações econômicas de Atenas, através
de agentes privados de comercialização, a exemplo do ceramista. A normatização legislativa
das práticas relacionadas à importação e exportação promove o elemento dinâmico de
alteração de forças entre a produção agrária e, consequentemente, a dependência do solo
24

infértil da Ática e o suprimento dos artigos necessários à polis por meiode um padrão
econômico alternativo.
A quantificação das atividades comerciais gera, por conseguinte, a necessidade da
concretização de uma realidade abstrata das transações comerciais. A materialização dessas
relações abstratas ocorre por meio da codificação do comércio, desenvolvendo uma
perspectiva da racionalidade econômica. Por intermédio dessa nova perspectiva racional, os
pesos e medidas atuam como agentes reguladores das transações econômicas, permitindo que
compreendamos a importância da padronização desses elementos econômicos durante o
século VI a.C., por meio das reformas socioeconômicas de Sólon.
Segundo Marcel Roncayolo, tal processo decorre da sofisticação da cidade, que leva a
uma especialização: no caso ateniense, são exemplos a expansão comercial e mercantil
promovida por Sólon, bem como a inserção da cerâmica e dos ceramistas como
dinamizadores das relações comerciais (RONCAYOLO, 1986, p. 412). O desenvolvimento da
região do Kerameikos reflete uma política de urbanização promovida por Sólon por meio do
desenvolvimento da polis e da reorganização de seu espaço físico. Esse processo político-
dialético transcorre a partir da restruturação das relações sociais da polis através da
hierarquização censitária dos segmentos sociais atenienses – fornecendo um local social de
fala à parcela da população que não compunha a elite aristocrática - e da inserção da mão de
obra especializada dos estrangeiros.
Finalmente, é possível observar que o conceito de urbanização pode ser adaptado ao
Mundo Antigo se respeitadas as particularidades contextuais e temporais. A cidade é
protagonista neste processo e seus fenômenos repercutem tanto no âmbito geográfico quanto
social, levando à criação de um imaginário social no entorno da cidade.
25

1 ECONOMIA ANTIGA EM DEBATE

Ao eleger um referencial econômico para analisar as reformas instituídas por Sólon no


VI século a.C., é necessária a problematização de dois elementos primordiais: a possibilidade
de se construir uma perspectiva de análise do econômico e a análise das sociedades antigas
introduzidas emseu tempo e espaço, uma vez que as diversas esferas de uma sociedade, como
política, economia e religiosidade, estão “inseridas/embedded no universo social
grego”(CANDIDO, 2013, p. 22).
São questionamentos essenciais queinsurgem amiúde quando o historiador toma a si a
tarefa de levantar e analisar economicamente os fatos relativos a uma sociedade cujos
próprios critérios para constituição de uma massa de dados estão engastados a uma
especificidade temporal, diferindo particularmente dos critérios que presidem a própria
realidade econômica do historiador. Para avaliar a aplicabilidade do estudo da economia
antiga, concluímos ser fundamental a análise de como as transformações econômicas têm sido
concebidas pelos historiadores e economistas-historiadores em relação aos próprios sistemas e
processos econômicos sobre os quais elas incidem nas sociedades antigas.

1.1 A representação de Sólon pela historiografia

Otema de nossa pesquisa remete àfigura de Sólon, cuja narrativa mnemônica,


apresentada pela historiografia, deixa transparecer a tendência a uma abordagem de grandes
nomes, uma espécie de “discurso narrativo e heroico” comum à prática histórica do século
XIX.A figura de Sólon como legislador transita pelo modelo de análise difundido pela
História Política10, afastada da proposição dos “grandes ídolos da História”e criticada por
François Simiand11.

10
O pesquisador René Rémond, em seu livro Por Uma História Política, reflete sobre o retorno da História
Política como um campo profícuo de investigação, levando em consideração os ataques que ela sofreu durante o
Pós-Guerra por parte da História Social e Econômica, devido à reputação de superficialidade da área. O autor
parte do pressuposto que a História tem como objeto precípuo as mudanças que afetam a sociedadee tem por
missão propor explicações para elas, sem escapar ela própria a essas mudanças. Segundo Rémond, a História
Política era definida anteriormente como um modelo predefinido que o historiador deveria seguir. Apesar das
transformações advindas da Escola dos Annales, existem ainda ressonâncias com as pesquisas atuais que
fornecem destaque à História do Estado, a história do poder e das disputas por sua conquista ou conservação, das
instituições em que ele se concentrava, das revoluções que o transformavam. Um dos pontos ressaltados pelo
26

No que tange ao arcabouço documental relacionado à figura de Sólon, a Historiografia


tradicional tende a reproduzir um arquétipo biográfico narrativo deslocado do contexto social
de produção e enfático nas realizações do protagonista.Questionamos,porém, a manutenção de
um modelo historiográfico tradicional que remonta ao contexto que antecede aos preceitos
metodológicos da História Política do século XIX. Consideramos que todo personagem
histórico cuja figura tenha sido amplamente divulgada a ponto de gerar uma abordagem
mítica no entorno de sua imagem precisa ser analisado com cautela quando se torna objeto de
pesquisa histórica.
Nossa problemática transita pela tradição historiográfica, erigida basicamente sobre
dois pontos centrais: a atuação de Sólon como legislador e a seisachteia, sem contestação à
documentação histórica, gerando uma narrativa mítica acerca da imagem de Sólon. A criação
de um arcabouço teórico no qual a imagem de Sólon é analisada somente pelo viés do
binômio legislador/mediadoré uma problematização proposta por esta pesquisa acadêmica.
Sua caracterização como “pai da democracia”12foi amplamente reproduzida de forma

autor para proeminência da História Política durante o início da Historiografia moderna seria, talvez, a facilidade
de acesso às fontes. Essas informações eram dadas deliberadamente por parte do Estado, que deixava vestígios
escritos e vasta documentação em contraponto às pesquisas cuja natureza eram as realidades sociais, sobre as
quais era mais difícil obter documentação (RÉMOND, 1996, p. 13-30).
11
Sociólogo durkheimiano, François Simiand (1836-1935), além de historiador, foi economista e professor do
Collége de France.Também foi considerado inspirador da área de História Econômica dos Annales. Em seu
artigo Método Histórico e Ciências Sociais, alerta para a importância de suplantar o “fenômeno singular para o
regular, para as relações estáveis que permitem perceber as leis e os sistemas de causalidade”, progredir do
individual para o social. Originalmente, o artigo foi concebido como um conjunto de conferências publicado
posteriormente, no ano de 1903, na Revista de Síntese Histórica (então dirigida por Henri Berr) e republicadas
em 1960, na Revista Annales. Devido ao contexto social da época, não é coincidência François Simiand ter
escrito sua obra em tempos difíceis para a historiografia ‘dita positivista’, já que esta se achava fortemente
influenciada por historiadores metódicos que, não raro, tornavam o diálogo entre História e Ciência Social tenso,
principalmente por conceberem a História como mestra das disciplinas, reduzindo as demais a meras ciências
auxiliares. É no anseio de combater essa perspectiva de análise histórica que François Simiand se insere em um
debate com pesquisadores da época, como Charles Seignobos e Charles Victor Langlois, tecendo um ataque
direto à “escola metódica”.
12
Segundo Claude Mossé (1979, p. 52), o processo de revalorização da memória de Sólon e o estabelecimento de
uma relação com a democracia ocorrem no contexto específico dos conflitos pela memória da democracia
ocorridos no séc. IV ateniense. O contexto de revalorização democrática da memória de Sólon ocorre nesse
período de democracia pós-império e pós-guerra do Peloponeso, de 403 a 322. A vinculação da memória de
Sólon à da democracia foi construída posteriormente, no contexto de declínio de Atenas em fins do séc. V, após
o desastre da expedição contra Siracusa (415-13) e a instauração do curto “regime dos 400” (411). Nesse
momento de crise, intelectuais e políticos de diferentes tendências ideológicas deram vazão ao tópico da
“constituição ancestral” (pátrios politeía), que alimentou diversos movimentos saudosistas divulgadores do
retorno à situação anterior à Guerra do Peloponeso. O pesquisador Gil Davies (2012, p. 127) alega que a razão
provável para a proeminência de Sólon na historiografia pode ser encontrada nas batalhas ideológicas do final do
V e do IV séculos a.C., entre democratas e oligarcas, em que o primeiro grupo defendia o posicionamento de
Sólon como o pai da democracia. O triunfo dos democratas é especialmente notável com Felix Jacoby (1949, p.
154-155), em sua obra Atthis: the Local Chronicles of Ancient Athens; ele destaca que Sólon foi "estabelecido
como o criador das leis". Para a posição dos oligarcas, comparar a Constituição dos Atenienses (29.3), que
afirma que em 411 a.C., durante o breve governo oligárquicodo Quatrocentos, uma certa Kleitophon sugeriu
27

hegemônica, em uma postura remanescente às obras biográficas – em especial as da


Historiografia francesa. Desse modo, o personagem torna-se o centro em torno da qual se
cristaliza a pesquisa, e o contexto histórico funciona somente como um suporte para a
narrativa histórica.
Nessa perspectiva, alicerçada por Claude Mossé (1979), destaca-se a representação da
memória do legislador comoum conteúdo socialmente construído para concretizar a
identidade dos atenienses e da construção do processo democrático em torno da figura de um
“Sólon democrático”ou “pai da democracia”. Nesse ponto reside a interface com os dois
principais problemas levantados pela pesquisa: a representação13 de Sólon seguindo um tripé
legislador – sábio – poeta alicerçado pela Antiguidade Grega que atende às inflexões do
paradigma democrático e o uso anacrônico do termo democracia aplicado ao VI século a.C.,
mais precisamente ao archondato14de Sólon.
A pesquisadora Claude Mossé (1979), em seu artigo Comment s’élabore um mythe
politique: Solon, père fondateur de la democratie athénienne, alerta para o anacronismo do termo,
inexistente durante o VI século a.C., período de atuação de Sólon como archonte. Essa construção
tardia, do século V a.C., é abordada por Mossé, que defende a ideia de o termo “demokratia” ser

"que os comissários eleitos (a elaborar novas medidas de segurança pública) também devem investigar as leis
ancestrais estabelecidas por Clístenes quando instituiu a democracia". Jeremy McInerney (1994, p. 17-37), no
livro Politicizing the Past: the Atthis of Kleidemos, observa que "Sólon é mencionado quatro vezes nos 75
discursos existentes antes de 356 a.C., 32 e 64 vezes nos discursos existentes depois de 356 a.C.".
13
Uma vez que o conceito de representação é polissêmico e há várias concepções, por vezes até discordantes,
temos ressalvas quanto à rigidez da concepção de Chartier, que concebe as representações sempre como projetos
intencionados a imprimir poder sobre outrem, mas ressaltamos aqui sua importância, pois, além de definir a
representação como construção de sentidos condicionada às práticas discursivas, ele alerta que a representação
deve ser um conceito historicamente determinado (2002, p. 20). Outra concepção importante é a de Luiz Costa
Lima (2012, p. 103), teórico sediado na crítica literária, que descreve a representação como "o produto de
classificações. É portanto algo que, embora não determinante de uma conduta, se impõe socioculturalmente a
cada indivíduo". Com base em Émile Durkheim e Marcel Mauss, Lima afirma que a representação pode ser
encarada como o efeito de um entendimento específico, que naturalmente é marcado por classificação e
hierarquização, uma vez que os homens entendem o mundo social por meio de classificações que ressaltam
elementos descontínuos do campo perceptivo e/ou afetivo, impondo uma hierarquização nos resultados desse
entendimento.Ao nos debruçarmos sobre os apontamentos de Francisco J. Calazans Falcon, obtermos a
perspectiva etimológica do conceito de representação, que, de acordo com o autor, teria como principais
objetivos “fazer presente alguém ou alguma coisa ausente, mesmo uma ideia, por intermédio da presença de um
outro objeto” (FALCON, 2000, p. 45).
14
A pesquisadora Claude Mossé (2007, p. 37-38), apoiada na perspectiva de Charles Hignett (1952, p. 33-46)
elucida acerca do termo archondato e archonte. Para a autora, os archontes são, em todas as polis, “os
magistrados investidos de um cargo, cujo mandato pode ser mais ou menos longo”. O archondato em Atenas,
conforme assinala Aristóteles, na Constituição de Atenas, teria nascido da fragmentação do poder real primitivo
entre três magistrados: o archonte, o rei, e o polemarca. Durante o governo de Dracon, “embora o governo não
fosse vitalício, estendia-se por períodos de dez anos”.
28

posterior ao período de Sólon. Pretendemos analisar a criação de um imaginário social15forjado


no V século a.C. utilizando a figura de Sólon como “pai da democracia”.
A conexão entre a memória de Sólon e o início da democracia foi construída
posteriormente, no contexto de desestruturação de Atenas em fins do séc. V a.C.para reforçar
as reformas constitucionais que haviam sido promovidas durante o período e relacioná-las a
um passado glorioso, com o qual se estabelecia o prosseguimento ao projeto da demokratia
como uma estratégia de legitimação do poder. Desse modo, a figura de Sólon foi utilizada de
forma compulsória. É por essa característica que alguns pesquisadores – ainda hoje –
atribuem a Sólon a nomenclatura de “pai da democracia”16. Suas realizações foram
sobrepostas por sua figura pública de tal forma que Claude Mossé sugere que “separar a
figura real de Sólon da imagem criada pelos atenienses do século V e do século VI a.C. é a
tarefa mais difícil do historiador” (MOSSÉ, 2007, p. 87).
A correlação entre o governo de Sólon e o projeto democrático atende à memória
coletiva, que possui um conteúdo socialmente compartilhado, consolidando assim a
identidade de um grupo através do tempo. Mosséargumenta que “a palavra ‘democracia’
surge bastante tardiamente no vocabulário político grego, o termo utilizado à época era
isonomia, que representava a igualdade perante a lei” (MOSSÉ, 2007, p. 87). Assim, a autora
contesta a legitimidade da nomenclatura atribuída a Sólon, pois para ela a versão de Sólon
descrita pelo autor da Constituição dos Atenienses possivelmente configura-se como a
reprodução de um “mito político de pai fundador” da democracia, artificialmente criado para

15
O conceito de imaginário socialintegra a obra de Bronislaw Baczko, A Imaginação Social, na qual o autor
relata no campo teórico, a polissemia na qual o vocábulo está inserido, bem como as diferentes abordagens de
interpretação que o mesmo recebe. Supõe haver uma relação entre o cotidiano do homem e a simbologia
existente por trás de um determinado acontecimento, para o qual se atribui o valor de real. O autor aborda a
associação entre o imaginário e o poder alegando ser paradoxal a leitura concreta do poder, uma vez que a
imaginação estaria associada a uma perspectiva empírica e o poder age nas estruturas do real. Segundo
Bronislaw Baczko, é no campo do imaginário que se exerce o poder simbólico, caracterizado como uma
potência real capaz de reforçar a dominação, que ocorre através assimilação dos símbolos, aos quais o autor
atribui a nomenclatura de bens simbólicos. Resultado da estrutura da vida social coletiva, os bens simbólicos
seriam os mecanismos utilizados pelas esferas de poder para “garantir a obediência pela conjugação das
relações de sentido e poderio”.Seguindo esta premissa, é possível afirmar que o desenvolvimento do imaginário
social de um grupo, através da mediação dos horoicompilaria sua identidade social, gerando a produção de uma
memória coletiva em torno de determinados locais de fala e da assimilação de símbolos, como os demarcadores
de fronteira; uma rede imaginária que estipularia a distribuição dos papéis e das posições sociais, assim
ratificando a hierarquia social expressa e inserida pela autoridade em questão através dos bens simbólicos
adquiridos através de uma estrutura contextual. (BACZKO, 1985:296-331).
16
Este argumento se reforça à medida que Moses I. Finley aponta como abertura da participação mais ampla em
Atenas as reformas empreendidas por Sólon em 594 a.C. (FINLEY, 1983, p. 23). Essa mesma vertente é
sustentada pelo pesquisador Robert Wallace, já que ele defende a premissa de que essa mentalidade coletiva,
inaugurada no archondato de Sólon e permeada pela ideia de liberdade e independência, foi fator preponderante
para explicar a motivação pela qual a democracia efetuou-se como uma invenção dos gregos (WALLACE, 2007,
p. 72).
29

fornecer suporte ideológico às “facções moderadas” da democracia do século IV


a.C.(MOSSÉ, 1979, p. 425-37). A autora acrescenta que as leis promulgadas por Sólon foram
constantemente evocadas pelos oradores áticos junto à política de Atenas no século IV a.C.
visando recriar a imagem do legislador como pai fundador da democracia.
Tal premissa é contestada por Kurt Raaflaub, quando alega que, em seus poemas sobre
a criação de leis para os “nobres e nãonobres”,“Sólon orgulhosamente enfatizava seus
esforços para estabelecer a igualdade perante a lei para todos”.No entanto, o pesquisador
alega que “isto corresponde a um dos significados primários de isonomia – mas o fato de que
Sólon conhecia o conceito, é claro, não prova que ele conhecia a palavra” (RAAFLAUB,
1996, p. 144).
O nome de Sólon é alçado à história e sua memória é meticulosamente mantida e
cultivada pela ação da oralidade grega. Sua figura se apresenta por diversas nuances que se
adéquam ao contexto social vivido pela Hélade. Três são os principais arquétipos de Sólon
que transcorreram no tempo através da memória: o Sólon Sábio17, advindo da lendária
literatura dos Sete Sábios da Grécia Antiga18;oSólon Poeta19, resultado do uso da narrativa
poética atribuída a ele20, obtidapor meio das citações dos antigos que resultam nos fragmentos
poéticos; e, por fim, a representação do Sólon Legislador21, uma faceta baseada em seu código

17
Para a perspectiva de Sólon como sábio ou um moderado, ver Constituição de Atenas, 5.3, Política, 1296a18-
20 , 1273b35-1274a21. Ver também Keaney (1963, p. 120-121) para o ponto de vista de Aristóteles sobre as
intenções de Sólon, argumentando que suas contribuições para a democracia foram acidentais (Política
2.12.1274a1 ss.).
18
Segundo Delfim F. Leão, em seu livro Obras morais – o banquete dos sete sábios, os relatos sobre esse grupo
de notáveis são encontrados na literatura grega a partir de Homero. “Tais figuras de contornos histórico-
lendários, que marcaram o imaginário grego entre os séculos VII-VI, notam-se, pela primeira vez, em
Heródoto”. Entretanto, uma descrição detalhada do grupo de personagens sapientes só seria estabelecida a partir
de Protágoras(343a) de Platão, em que se estabelece pela primeira vez a identidade do seleto grupo de sábios
representados por Tales, Pítaco, Bias, Sólon, Cleobulo, Míson e Quílon. Plutarco é outro filósofo que menciona a
existência desses guardiões da sabedoria grega. Em sua obra O banquete dos sete sábios, o autor congrega, pela
primeira vez, um grupo de personagens históricos de temporalidades diferentes. Para Delfim F. Leão, não se
trata de um caso de anacronismo por parte de Plutarco, “conforme se pode constatar na biografia que fez de
Sólon, um dos participantes no banquete”, e sim de uma dose de ficção literária, algo similar à licença poética
adotada pelo filósofo para resgatar um recurso muito comum à literatura grega: o diálogo com o passado (LEÃO,
2008, p. 19-20).
19
Para uma visão mais ampla sobre a perspectiva de Sólon como poeta, analisar os trabalhos de Maria Noussia
Fantuzzi (2010) e Joseph Almeida (2003).
20
Quando o objeto de estudo se baseiaem uma vasta tradição mnemônica, como no caso de Sólon, é necessário
considerar que o “texto original” não existe. O corpus documental é resultado da soma de um recorte histórico
específico aliado a outras fontes históricas utilizadas como embasamento, a saber: A constituição dos
atenienses,de Aristóteles, e poesia soloniana, Eunomia.
21
A discussão acerca da legislação de Sólon e do papel das leis na sociedade ateniense pode ser aprofundada com
as obras de Delfim Ferreira Leão e P.J. Rhodes (2015), além dos trabalhos de Edward Harris (2014). Para as leis
relacionadas à prática da prostituição, ver ainda Allison Glazebrook (2006) e Catherine Salles (1982).
30

de leis e na promoção das reformas sociopolíticas bem como na publicização de seu código
legislativo, feito corroborado pela narrativa do autor da Constituição dos Atenienses e
posteriormente por Plutarco em sua obra Vidas Paralelas, na qual ele argumenta que Sólon
concedeu a todas as leis a validade de cem anos e foram inscritas em axones de
madeira giratórios, inseridos em estruturas quadrangulares, e deles ainda nos nossos
dias se conservam, no Pritaneu, pequenos fragmentos(Vidas de Sólon, 25.1).

A escassez de documentação, no tocante à atuação de Sólon como político e


estrategos22responsável pela reestruturação econômica da polis,é o elemento central do qual
parte nosso questionamento. A materialização do código legislativopor meio da ação
econômica se consolida com o advento das reformas timocráticas de Sólon.
Argumentaremos que Sólon restabelece cenário agrário ateniense a priori por meio de
alguns elementos centrais: sua política monetária, insumo de desenvolvimento aos novos
ofícios necessários à prática comercial e mercantil e o incentivo à inserção dos metecos, bem
como a divisão dos segmentos sociais de Atenas aliada à inserção do novo critério censitário
de cidadania evidenciado pela criação da classe dos pentacosiomedimnos,corrobora-sea
transição política de um paradigma socioeconômico alternativo ao contexto social baseada na
produção agrícola.
Uma vez que essas principais medidas haviam sido introduzidas, a próxima etapa de
suas reformas concentrou-se no comércio dos produtos excedentes da polis ateniense por
meio das relaçõescomerciais entre aspoleis. Foi então que a posse de Salamina tornou-se
importante para Sólon, considerando que, segundo Raphael Sealey (1976, p. 130), Sólon
almejava nivelar a moeda da polis ateniense, de maneira que ela pudesse competir em âmbito
mercantil e viabilizar as trocas com as demais regiões, a exemplo de Corinto e Eubeia, que
utilizavam o padrão euboic. A prata deveria ser originária, portanto, a partir de qualquer
região como Corinto ou Eubeia considerando o objetivo de equiparar a moeda de Atenas ao
padrão utilizado pelas outras poleis com o objetivo de facilitar o comércio.
A participação decisiva de Sólon como estrategos na luta pela polis23ateniense durante
o embate entre Atenas e Mégara pela posse do território sagrado de Eleusistranscende o

22
O termo strategos (plural strategoi; grego στρατηγός) é utilizado para designar o comandante militar,
comumente utilizado como líder militar (HAMEL, 1998, p. 85).
23
Sobre o conceito de polis,Wilfried Gawantka, em sua obra Die Sogenannte Polis,traça uma revisão da
cronologia da palavra polis. O autor se debruça sobre o desenvolvimento de uma tradição na historiografia
germânica sobre o estudo da polis que culmina com a tradição da compreensão do termo herdada pela
perspectiva de Burckhardt. Segundo John K. Davies (The Origins of the Greek Polis), Gawantka recorda aos
historiadores que “o uso da palavra polis como um termo acadêmico de arte é uma invenção do século XIX”,
31

elemento religioso e insere-se no âmbito econômico, à medida que o novo modelo de pesos e
medidas, associado à cunhagem reformulado por Sólon, bem como a demarcação das classes
censitárias, permitiram a inclusão de Atenas no circuito comercial/mercantil. Desse modo, a
partir da mudança no contingente de produção ateniense, voltada para a cultura do vinho e do
azeite por meio da exportação, a região de Eleusis torna-se um importante entreposto
comercial (emporion),identificada como lugar de trocas comerciais,garantindo o acesso aos
grãos, tão necessários à polis ateniense.
Interessa-nos, igualmente, explorar o viés da atuação de Sólon como líder político que
delegou normas de conduta adequadas que carregam implicações éticas importantes para
todos os tipos de assuntos humanos, incluindo atividades comerciais e busca da riqueza. Em
seus relatos poéticos, ele enfatiza as fortes ligações entre a virtude individual e as suas
consequências nas esferas social e política. É necessário, portanto, dividir a legislação de
Sólon em duas categorias: econômica e constitucional.

1.2 Economia: trajetória e recortes metodológicos

A economia é considerada um dos pilares da sociedade contemporânea. Milton Santos


afirma que as relações forjadas por meio da economia atual sobrepujam o caráter financeiro e
se inserem até mesmo na questão territorial, característica do contexto pertinente ao fenômeno
da globalização24. Os estudos acadêmicos de natureza econômica experimentam atualmente
um crescimento exponencial, a exemplo do cenário historiográfico mundial, que se traduz nos
trabalhos de autores como Alain Bresson, Edward Harris,Ian Morris, Josiah Ober, Lin
Foxhalle por último os trabalhos de Ciro Flamarion Cardoso, cujo livro Domínios da História
conta com um capítulo dedicado à economia no mundo antigo.Esse fato corresponde a uma
conjuntura político-econômica na qual existe a necessidade de compreender e analisar a

cunhada por Kuhn em 1845, porém começa a ser utilizada de maneira geral depois da obra Griechische
Kulturgeschichte,de Burckhardt, em 1898(GAWANTKA, 1985, p. 30-52).
24
Não é possível precisar o período exato e a origem da expressão globalização. Entretanto, verifica-se a
existência do termo em trabalhos publicados a partir da segunda metade da década de 1980. Uma obra de grande
influência publicada na década de 1980 que trata do tema da globalização é o livro de Harvey, de 1989. No livro
de Gilpin, de 1987, o Capítulo 9 é dedicado a “The transformation of the global political economy”, e Gill &
Law publicam em 1989 o livro intitulado The global political economy. Outro autor que aponta a origem do
termo para esse período é Hoogvelt, em 1997. O conceito globalização começou a ser empregado desde meados
da década de 1980, em substituição a conceitos como internacionalização e transnacionalização. Particularmente,
na década de 1990 é que o termo globalização veio a ser empregado principalmente em dois sentidos: um
positivo, descrevendo o processo de integração da economia mundial; e um normativo prescrevendo uma
estratégia de desenvolvimento baseado na rápida integração com a economia mundial.
32

economia por meio de uma relação de causa e efeito entre o progresso global e o paradigma
econômico que compõe um determinado período histórico.
De acordo com a premissa defendida por Milton Santos ao analisar o processo de
desenvolvimento econômico, a economia seria um elemento essencial à natureza humana,
embora manifeste-se atualmente de maneira inorgânica, ou seja, extrínseca ao homem. “Para
tudo isso, também contribuiu a perda de influência da filosofia na formulação das ciências
sociais, cuja interdisciplinaridade acaba por buscar inspiração na economia”(SANTOS, 2001,
p. 13-15).
Apesar de proliferar atualmente, o campo da Economia, entretanto, continua sendo
permeado de riscos e desafios para os historiadores que aspiram adentrar esse campo como
objeto de análise de estudo. O risco de anacronismo25 e a simplificação indevida do sistema
econômico26 continuam cerceando os historiadores que decidem empreender uma pesquisa
acadêmica sobre a referida temática, especialmente no caso da abordagem econômica
aplicada à História Antiga, uma vez que a Economia constitui uma disciplina científica com
características peculiares que demanda ferramentas metodológicas específicas que, no plano
teórico, implicam uma abstração necessária para contemplar as categorias econômicas
inscritas nos preceitos imateriais que integram as sociedades antigas.
Segundo o pesquisador José D’Assunção Barros, ao adotar um referencial
metodológico para apreender a economia, é imprescindível que o historiador reflita acerca de
seus “horizontes de trabalho” durante a tarefa de tentar compreender as especificidades de um
sistema econômico particular, inserido em um contexto histórico que se relaciona diretamente
com a “racionalidade econômica” adotada pela sociedade em questão. Segundo o autor, a
alternativa de sistematização adotada pelo historiador dever-se-iaa priori
tratar um objeto ou processo histórico no âmbito de sua singularidade história e de
sua complexidade processual é certamente um horizonte permanente a ser
perseguido pelos historiadores, e mais ainda pelos historiadores econômicos e
economistas que analisam processos históricos (BARROS, 2012, p. 110).

25
José D’Assunção Barros explana que por anacronismo entende-se “o risco de indevidamente impor a uma
sociedade historicamente localizada um modelo somente válido para uma outra época” (BARROS, 2012, p. 109).
26
O historiador Witold Kula define “sistema econômico” de maneira mais precisa: “um conjunto de
dependências econômicas reciprocamente ligadas que, pelo fato de estarem vinculadas, surgem mais ou menos
ao mesmo tempo e se desfazem, também, aproximadamente no mesmo momento. Datar empiricamente a sua
aparição e desaparição é fixar os limites cronológicos de um dado sistema econômico. E elaborar a teoria
econômica de um sistema econômico dado é determinar (e ainda empiricamente) a lista mais completa possível
das relações de dependência que o mesmo admite e determinar as vinculações recíprocas que fazem deste
conjunto de relações um sistema único” (KULA, 1970, p. 47).
33

Ao eleger um modelo de racionalidade econômica, o historiador deve justapor sua


aplicabilidade à sociedade históricaque pretende analisar27. Destarte, outro tópico passível de
reflexão é que, independentemente da estrutura do modelo de racionalidade econômica e sua
aplicabilidade a um estudo histórico específico a ser realizado, “dificilmente este abarcará
toda a realidade que o historiador encontra diante de si, através de suas fontes”(BARROS,
2012, p. 110).
Dialogando com a proposição de Barros, embora seja necessário que o historiador
sistematize suas fontes históricas em um referencial teórico-metodológico, ele não deve
incorrer na falácia metodológica característica dos esforços classificatórios,condição sine qua
non da História Política erigida ao longo século XIX, que remontam ao período de
consolidação da História como ciência. Em síntese, infere-se que o caminho para a construção
de uma História Antiga de caráter econômico impele o historiador a abster-sesimultaneamente
das abordagens ancoradas na generalização e da simplificação dos fenômenos econômicos. A
racionalidade histórico-econômica transcende o caráter totalizante da História, à medida que
preconiza a deferência às peculiaridades inerentes à sociedade como objeto de estudo e rejeita
um modelo de análise sectário do “século das especializações” no qual ocorre a fragmentação
da realidade social em diversos recortes de análise que simplificam e limitam os aspectos
econômicos da História (BARROS, 2004, p. 18-21).
Todavia, o período de êxito experimentado pela economia e, consequentemente, pela
História Econômica como ciência é um movimento recente. Desde a fundação da Escola dos
Annales a trajetória histórica da Economia como objeto de estudo denota um campo de
pesquisa inconstante. A História Econômica já viveu momentos de desestruturação e ascensão
no que tange ao avanço da produção historiográfica econômica.
Ao tratar da problematização da História Econômica, João Fragoso e Manolo
Florentino (1997, p. 27-29) alertam para a correlação entre a produtividade acadêmica e as
tendências político-econômicas consonantes com o contexto mundial28, visto que “problemas

27
A partir dessa premissa, o autor estabelece um diálogo com o consagrado historiador polonês Witold Kula,
numa tentativa de estabelecer os parâmetros para a elaboração de um arcabouço teórico apropriado ao estudo do
sistema econômico, o qual o autor identifica a priori como um “conjunto maior que integra de maneira coerente
certos fatos econômicos que de outra maneira estariam dispersos”. Na estrutura teórica voltada à pesquisa da
História Econômica, “o historiador só deve elaborar a teoria geral que lhe permitirá examinar determinada
realidade econômico-social depois de estudados os casos concretos, e não o contrario”. Torna-se essencial,
portanto, conceber a economia como um fenômeno historicamente localizado em conjunturas sociais específicas,
como uma realidade “nem estática nem eterna” que se manifesta de maneira fundamentalmente dinâmica na
sociedade.
28
Segundo os autores, em meio a esse contexto, a afirmação da teoria econômica era algo esperado pelos
historiadores, bem como a ênfase econômico-social dos Annales e, em um plano mais radical, a exacerbação do
determinismo “infraestrutural” por parte do marxismo da Guerra Fria. Os autores consideram, portanto,
34

relativos ao desenvolvimento e subdesenvolvimento estavam na ordem do dia e eram cada vez


mais agravados por movimentos em escala mundial como a Guerra Fria”, que contribuíram
para a desestruturação desse ramo do saber histórico que, paradoxalmente, “afastava-se cada
vez mais da história” adentrando gradativamente os meandros do determinismo científico e da
polarização matemática.
Contrapondo o argumento construído por João Fragoso e Manolo Florentino, o
pesquisador José D’Assunção Barros elenca dois modelos explicativos para os elementos de
natureza econômica. Para Barros, as explicações mais plausíveis no que tange à produção
econômica procuram “contrabalançar no seu processo de argumentação e demonstração
fatores ‘exógenos e endógenos29’, bem como elementos dedutíveis e empíricos” (BARROS,
2010, p. 36). Desse modo, inferimos que para uma abordagem da História Econômica atenta
às transformações institucionais e políticas que discorrem no seio das diversas sociedades,o
pesquisador deveria atentar para os diversos modelos explicativos com os quais o historiador
econômico trabalha, evitando assim singularizar a análise em torno de um elemento principal,
seja ele endógeno ou exógeno.
Com o intuito de exemplificar a oscilação da produção intelectual no campo da
Economia, os autores João Fragoso e Manolo Florentino adotam como objeto de análise a
Escola dos Annales, elegendo como referencial o número de publicações relativas a
Economia. A partir do levantamento historiográfico, conclui-se que
entre o ano de sua fundação (1929) e 1945, quando esteve em mãos do ‘duo de
Estrasburgo’ [Lucien Febvre e Marc Bloch], cerca de 60% dos trabalhos por ela
publicados estiveram dedicados à História Econômica. De 1946 a 1969, período em
que mais se fez sentir o peso da influência de Fernand Braudel, tal porcentagem
oscilou ao redor de 40%. A ênfase então dada à Economia tinha raízes profundas
derivadas de um contexto em que problemas relativos ao desenvolvimento e ao
subdesenvolvimento estavam em ordem do dia e eram cada vez mais agravados por
movimentos em escala mundial, como a Guerra Fria, a internacionalização do
capital, a descolonização etc. Com a década de 1970 tem início a ‘derrocada’. Até
1976 a produção voltada para o estudo da economia caiu para 25%. (FRAGOSO;
FLORENTINO, 1997, p. 27-8).

O organograma visa sintetizar o contexto de debates e rupturas da História Econômica,


bem como ilustrar a transformação do perfil de pesquisas voltadas às temáticas típicas do

previsível a acentuada especialização da história econômica nos meios acadêmicos (FRAGOSO;


FLORENTINO, 1997, p. 37).
29
Segundo José D’Assunção Barros, os fatores e aspectos internos – ou “endógenos” – de um determinado
sistema ou processo econômico são aqueles que fazem parte do próprio sistema ou que surgem dele, de seu
desenvolvimento, maturação, deterioração, que se desdobram do próprio sistema examinado ou que se redefinem
a partir dos próprios desenvolvimentos do sistema analisado.Enquanto isso, os fatores ou aspectos externos – ou
“exógenos” – seriam aqueles que vêm de fora do sistema, que surgem como acontecimentos independentes do
sistema. Ainda de acordo com Barros, esse par de oposições – fatores endógenos e fatores exógenos – pode ser
iluminado com o recurso de exemplificações (BARROS, 2010, p. 36).
35

âmbito econômico ao longo das gerações da Escola dos Annales,além da influência das
escolas econômicas na tradição historiográfica produzida ao longo desse contexto histórico.

Esquema1 – Gerações de pesquisadores em História e História Econômica

Fonte: Adaptado de FALEIROS, Rogério N. História Econômica, História em construção. Universidade Federal
do Espírito Santo, 2010, p. 254.

A apresentação do refluxo de pesquisas no plano internacional relacionadas a


economia que demarcam o estatuto da História Econômica como ciência encontra-se
exemplificada no esquema a seguir, compilado pelo economista Rogério Naques Faleiros, no
qual é possível depreender o quadro teórico de inserção da economia na conformação do
conhecimento histórico em uma conjuntura pós-modernista. Por esse referencial pós-
modernista, o autor identifica no desenvolvimento das pesquisas de caráter econômico da
Escola dos Annales uma tendência historiográfica que contempla o “alargamento das fontes e
objetos passíveis de um estudo histórico, porém perdendo-se, com a terceira geração, a
ambição e o furor explicativo próprio das gerações anteriores” (FALEIROS, 2010, p. 254).
Diante desse cenário,João Fragoso e Manolo Florentino optaram por interprender um
levantamento bibliográfico na maior universidade do Brasil, a Universidade de São Paulo,
identificando a insurgência da Economia nos programas institucionais de pós-graduação em
História. Os dados produzidos a partir desse mapeamento historiográfico materializaram-se
36

em um gráfico que contabiliza a produção acadêmica representada por teses e dissertações em


História Econômica em relação ao total de defesas de dissertação realizadas no intervalo de
1973 a 1985. Os resultados dispõem-se no gráfico a seguir:

Gráfico 1 – Variação (em %) das teses e dissertações em História Econômica


da Universidade de São Paulo, 1973 - 1985

Fonte: Adaptado de FRAGOSO, João; FLORENTINO, Manolo. História


Econômica, catálogos das pós-graduações, Universidade de São Paulo,
1997.

A recepção desse movimento mundial de desvalorização da História Econômica


repercutiu no cenário acadêmico brasileiro modificando o perfil da produção intelectual
histórica nacional a partir da década de 1970 e, de maneira mais intensa, durante a década de
1980, refletindo um movimento corolário da historiografia internacional30.
Em um levantamento análogo realizado na Universidade Federal Fluminense e na
Universidade Federal do Rio de Janeiro entre os anos de 1980 e 1992, o quadro estrutural de
crise geral da História Econômica verificado nos programas de pós-graduação em História de
ambas as universidades é ainda mais flagrante. Conforme a leitura verificada no gráfico a
seguir, por volta do ano de 1992 as pesquisas acadêmicas direcionadas a um enfoque
econômico correspondiam a menos de dois entre cada dez historiadores.

30
O economista Rogério Naques Faleiros corrobora a argumentação de Fragoso e Florentino sobre a intrínseca
ligação entre o contexto mundial do conhecimento científico-histórico e a produção historiográfica relativa à
economia no Brasil. Para o autor, o contexto de desestabilização da História Econômica atendeu a uma
perspectiva mundial de reformulação teórico-metodológica da História como objeto da ciência. Segundo Marc
Bloch e Lucien Febvre, os métodos e abordagens historiográficas dos fenômenos de natureza econômica foram
reformulados como parte das transformações ocorridas no conhecimento cientifico entre finais do século XIX e
início do século XX, notadamente aquelas ocorridas no campo da Física, da Química, da Mecânica e da própria
Biologia (FALEIROS, 2010, p. 243).
37

Gráfico 2 – Variação (em %) das teses e dissertações em História Econômica da Universidade Federal do Rio de
Janeiro e da Universidade Federal Fluminense, 1980 - 1992

Fonte: Adaptado de FRAGOSO, João; FLORENTINO, Manolo. História Econômica, catálogos das pós-
graduações, Universidade Federal do Rio de Janeiro e Universidade Federal Fluminense, 1997.

Na proposição do pesquisador Deivid Valério Gaia no artigo Questões para o estudo


da Economia Antiga, muitos são os problemas que se apresentam ao historiador em relação ao
estudo da Economia Antiga. Gaia argumenta que o problema metodológico de ausência de
fontes é a principal dificuldade imposta ao estudo dos fenômenos econômicos de acordo com
a perspectiva histórica. Segundo o historiador,
nem sempre é fácil, primeiramente, porque o grande problema para se estudar a
Economia Antiga reside na falta de fontes. As fontes qualitativas são extremamente
fragmentadas e um novo estudo quantitativo de qualidade se apresenta quase
impossível. Sem contar as dificuldades apresentadas pelo vocabulário técnico das
fontes que se referem às questões ligadas à venda, à compra, à produção etc. (GAIA,
2010, p. 87).

O historiador Deivid Valério Gaia não busca encontrar uma saída para a problemática
do estudo da Economia Antiga; todavia, oferece direcionamentos para os historiadores da
Economia Antiga. Segundo o autor, os fenômenos de natureza econômica podem ser
estudados a partir de duas vertentes: por meio dos estudos quantitativos, os quais o
pesquisador considera “bem reduzidos e insuficientes para o estudo da Economia Antiga sem
a lupa de uma análise qualitativa rigorosa” (GAIA, 2010, p. 89), considerando que nas
sociedades antigas quaisquer dados relativos à produção, ao comércio e ao crédito
apresentam-se de maneira fragmentada, tornando difícil que o historiador adquira uma visão
homogênea acerca do contexto social de produção.
38

Outra tendência historiográfica introduzida pelo autor refere-se ao estudo da Economia


nas sociedades antigas com uma perspectiva qualitativa, que privilegie as “relações
financeiras e de conjuntura econômica” como elementos inseridos nas relações sociais
estabelecidas pelosgrupos heterogêneos que integram a sociedade em questão.Gaia argumenta
ainda que, conforme esse prisma metodológico, o estudo do contexto econômico permeado
pelos fenômenos históricos compõe “o método de estudo mais oportuno para o estudo das
questões econômicas”. A análise quantitativa não deve ser extinta, pois consiste em um
elemento importante para o estudo econômico, não obstante seu uso deva ser integrado aos
demais elementos da pesquisa, “pois só assim conseguimos cruzar as informações contidas
nas fontes e escrever uma história que explore todos os corpora documentais” (GAIA, 2010,
p. 90). O autor conclui sintetizando o papel desempenhado pela economia nas sociedades
antigas.
Seja qual for o lugar que se conceda à Economia no mundo antigo, a investigação
propriamente econômica deve, necessariamente, se apoiar sobre o contexto político,
social e cultural. A economia não é, de forma alguma, independente; muito pelo
contrário, sem levar em consideração o contexto, é impossível compreender o
funcionamento da vida econômica. Não se pode compreender os fenômenos
históricos sem observar múltiplas vezes tudo que se acerca do tema estudado
(GAIA, 2010, p. 90).

Problematizando o lugar da Economia no mundo antigo, o historiador Walter Scheidel


questiona o lugar doestudo da Economia na História Antiga. Segundo o autor, os estudiosos
das economias antigas buscam “explicar a estrutura e o desempenho das economias ao longo
do tempo” (NORTH, 1981, p. 1). Nessa definição clássica do papel da economia nas
sociedades antigas, o desempenho é o principal indicador das transformações econômicas. Ele
representaria, segundo Scheidel, a escala de produção e a distribuição dos custos e benefícios
resultantes do processo econômico é amalgamado por diversos fatores, como a estrutura
social na qual se encontra inserido (SCHEIDEL, 2009, p. 2-3). Em ultima instância, o
componente econômico nas sociedades antigas é criado por instituições, produtor de
tecnologia31 e consequente de elementos como a demografia e o sistema de crenças vigente na
sociedade analisada. Depreendemos, portanto, que o desempenho econômico, por sua vez, é
um – apesar de não ser o único – determinante crítico do bem-estar humano ou da qualidade
de vida.

31
Compreendida aqui no seu significado original. A palavra tecnologia tem origem no grego "tekhne", que
compreende as definições de "técnica, arte, ofício", juntamente com o sufixo "logia" que significa "estudo". O
advento tecnológico neste contexto representa, portanto, o avanço das técnicas de produção, sejam elas agrícolas
ou comerciais.
39

Todas estas questões – desempenho econômico, estrutura e sua contribuição para o


desenvolvimento humano em geral – precisam ser abordadas dentro de um contexto
comparativo: elas não podem ser avaliadas de maneira efetiva, exceto quando cotejadas em
relação a outros tempos e lugares. O que os economistas, sociólogos e cientistas políticos
históricos buscam averiguar é a possibilidade, ou melhor, sob quais circunstâncias, a polis
tende a fornecer uma estrutura que promova o crescimento econômico. Argumentaremos que,
em diferentes cenários, de modo mais específico durante o archondato de Sólon, a expansão
de atividades predominantemente econômicas como o incentivo comercial a importação e
exportação, a produção de cerâmica, a tributação das atividades relacionadas à prostituição e a
inserção dos grupos sociais não dominantes incluídos no novo critério censitário podem ter
fomentado o crescimento que veio a ser amplamente compartilhado pela Hélade, em vez de
meramente impulsionar as fortunas do antigo segmento social dominante, a saber, os aristhoi.
Apesar dos riscos metodológicos, concebemos a possibilidade de imprimir uma
abordagem econômica na dimensão da História Antiga para a sociedade grega a partir de
fontes da Grécia Antiga que fazem referência direta aos fenômenos inerentes à Economia
como compreendida na época. Portanto, ao analisar o mundo antigo não se pode falar em
economia da mesma forma que a concebemos hoje, visto que as sociedades antigas não
conheciam a noção de economia na sua globalidade ou em sua unidade, porquanto de acordo
com que informa Antony Snodgrass,“se os gregos não separavam a atividade econômica das
atividades sociais e políticas, então também não podemos estudar isolando-as destas”
(SNODGRASS, 1980, p. 123).
Delimitamos a terminologia “Economia Antiga” como síntese de inteligibilidade da
esfera de conhecimento a ser estudada, que, devido ao advento do capitalismo em nossa
sociedade, somos incapazes de, como as sociedades antigas, apreender de maneira orgânica ao
contexto político e social.
Não podemos concluir, entretanto, que o conceito de economia, forjado por uma
perspectiva capitalista, tal como é hoje, seja similar à economia da Antiguidade. Trata-se de
realidades sociais sui generis que devem ser analisadas por meio de estruturas teórico-
metodológicas singulares, de forma a evitar o anacronismo. Apesar da existência de preceitos
que contemplam as relações econômicas no contexto social de produção das sociedades
antigas, o historiador Ciro Flamarion Cardoso alerta para impossibilidade de aplicar o
discurso capitalista aos princípios econômicos dos antigos gregos, tendo em vista que “a
História Econômica e a teoria econômica não foram áreas de estudo para os antigos gregos”
(CARDOSO, 1988, p. 6).
40

De fato, de acordo com Moses Finley, a ausência do conceito de economia, do


conjunto de aspectos que conformam o que hoje chamamos de "economia", perdurou por
quase toda a história humana. Desse modo, o paradigma de uma economia baseada nos
preceitos capitalistas constitui uma exceção no pensamento econômico da humanidade
(FINLEY, 1986, p. 23).

1.3 A problematização da Economia Antiga na Alemanha durante o século XIX

A existência da Economia Antiga foi negada e defendida pela Historiografia ao longo


do profícuo debate que oficialmente se iniciou no final do século XIX na Alemanha. O
embate da economia é corolário de outra discussão provocada por um contexto de
efervescência intelectual que permeou o pensamento intelectual alemão, cujo cerne era o
estudo das relações econômicas na Antiguidade.
A Alemanha foi palco de um intenso debate, no final do século XIX e início do XX,
acerca do lugar do mundo antigo na ciência histórica. Para Keith Hopkins32, “a economia
antiga era um campo de batalha acadêmica” na qual
os oponentes participam com várias bandeiras – apologistas, marxistas, modernistas,
primitivistas... Mesmo dentro das escolas, há facções. Além disso, novas estratégias,
novas alianças, novos acordos são repetidamente desenvolvidos. Novos contingentes
de estudiosos surgem, novas táticas (tal como Arqueologia Submarina) são
desenvolvidas [...]. Mas nenhuma arma nova, no final, é decisiva. A guerra continua
(HOPKINS, 1983, p. 9).

O axioma da História Econômica, balizado pela Revolução Industrial e pelo advento


capitalista, propulsionava uma discussão acerca das relações econômicas no Mundo Antigo e
seu posicionamento mediante as premissas do capitalismo. O questionamento relacionado à
existência de uma Economia Antiga transitou, portanto, por diversos estágios. A priori
contribuiu para a formulação de vertentes historiográficas controversas e proposições
dicotômicas que, de maneira hegemônica, contribuíram para a problematização do
pressuposto econômico nas sociedades que antecederam o paradigma capitalista.

32
O pesquisador britânico Keith Hopkins foi um historiador e sociólogo que se tornou um dos sucessores de
Moses Finley na cátedra de História Antiga em Cambridge de 1985 a 2001. O pesquisador Moses Finley já havia
feito referência à terminologia batalha acadêmica para referir-se à questão da economia antiga em uma
entrevista concedida à Keith Hopkins como parte de um artigo em 1962 e um ensaio no Times Literaly
Suplement.
41

Mohammad Nassif* (2000) identifica a sobreposição de três estágios33 de disputa em


duas principais áreas de interesse no contexto de profusão acadêmica alemã, a história e a
economia-política.A terceira etapa, que concerne à nossa pesquisa de maneira direta, foi
considerada um marco da controvérsia historiográfica alemã e o momento da gênese da
controvérsia dooikos. É frequentemente “descrito como uma disputa entre economistas
políticos/teóricos e historiadores”o embate entre primitivistas e modernistas ou simplesmente
a querela Bücher e Meyer (NASSIF, 2000, p. 64). A tabela abaixo materializa as principais
propostasdos dois principais modelos interpretativos da Economia Antiga no final do século
XIX (JOLY, 1999).

Tabela 1: Tabela dos conceitos operacionais substantivistas e formalistas.

Abordagem Abordagem Formalista/Modernista


Substantivista/Primitivista (Teoria Neoclássica)
(Análise Institucional)
Base Necessidade material axiomática Escassez axiomática
Unidade de Análise Sociedade Individual
Objetivo Econômico Suficiência Eficiência
Assumido
Institucionalização do Explícita: Lugar ocupado pela Implícita: Homem econômico
Comportamento Econômico economia.
Fonte: Adaptado de Stanfield et al. (2006, p.247).

Ao cotejar as informações apresentadas pelo pesquisador Ciro Flamarion Cardoso


(2011, p. 23-24), identifica-se um diálogo como panorama apresentado por Mohammad
*
Registramos com grande consideração a contribuição do professor Mohammad Nassif para a elaboração desta
pesquisa acadêmica. Nassif desempenhou papel fundamental nesta pesquisa,por sua disponibilidade para
compartilhar seu conhecimento por meio do envio de artigos acadêmicos que compõem nossa bibliografia, bem
como o suporte intelectual. Mohammad Nassif (PhD, Londres) foi, até julho de 2009, professor titular de
Economia Política e diretor adjunto do Centro para o Estudo da Religião, Conflito e Cooperação do
Departamento de Legislação, Governo e Relações Internacionais da London Metropolitan University. Foi
professor visitante do Swedish Collegium for Advanced Study em Uppsala entre 2008 e 2009. Lecionou em
universidades do Irã, Estados Unidos, Turquia, e Ucrânia. Atualmente é membro do conselho editorial da Iranian
Studies e da British Political Studies Association. As pesquisas de Nassif podem ser divididas em duas vertentes
amplamente relacionadas. A primeira vertente está centrada na religião e desenvolvimento, com ênfase especial
sobre o Islã e o Oriente Médio. A segunda aborda a democracia e a justiça social a partir de uma perspectiva
comparativa.
33
O autor identifica como Methodenstreit(controvérsia dos métodos)a primeira etapa da altercação intelectual
que contrapôs duas tendências historiográficas da Alemanha, uma delas ancorada por Gustav Schmoller na
perspectiva de uma nova era científica que “por meio de investigações históricas cumulativas colocaria fatores
econômicos em seu contexto total” (NAFISSI, 2005, p. 22). O segundo momento do embate acadêmico, segundo
Nassif, “teve seu lugar na História”, alterou a totalidade da produção histórica alemã em um contexto de crítica
contra o historiador dissidente Karl Lamprecht, acusado de “enfatizar os fenômenos de massa, nos quais o
singular e o individual davam lugar à exposição das grandes mudanças típicas, caracterizadas não por uma
determinada manifestação, mas sim, por muitas” (CARVALHO, 2007, p. 45-46).
42

Nassif no qual se emprega uma divisão de caráter metodológico para uma análise mais
didática do processo de consolidação do pensamento econômico alemão. Para Cardoso, é
possível contabilizar três vertentes teórico-metodológicas legatárias do contexto de debate
acerca da prerrogativa econômica nas sociedades antigas, diagnosticando as tendências ainda
presentes na Historiografia Contemporânea. São elas:
1. Tendência evolucionista: Trata-se das correntes da Historiografia que postulam a
existência de etapas na evolução econômica e, por vezes, o caráter necessário de sua sucessão;
2. Tendências modernistas: Propunham a modernização das teorias relacionadas à
economia das sociedades antigas. Estabelecem uma contraposiçãoà formulação teórica
proposta por Karl Bücher;
3. Tendências institucionais: Concepções metodológicas estabelecidas a partir da crítica
do sociólogo Max Weber tanto ao evolucionismo quanto – principalmente – ao modernismo
de Eduard Meyer e sucessores. Weber compreendia que o debate nos termos habituais,
objetando primitivismo versus modernismo, tornara-se artificial.
A ruptura do paradigma metodológico classicista no que tange à análise da Economia
Antiga é inaugurada durante o Terceiro Congresso de Historiadores Alemães, no dia 20 de
abril de 1895. A chamada controvérsia ou debate do oikos teve início quando Eduard Meyer34
desferiu críticas significativas ao modelo evolucionista da Economia Antiga compilado pelos
economistas Karl Rodbertus35 e Karl Bücher36, considerados os fundadores da corrente

34
Eduard Meyer nasceu em Hamburgo em 1855. Foi professor e depois reitor da Universidade de Berlim a partir
de 1918. Meyer escreveu sobre diversas sociedades do Mundo Antigo – Grécia, Roma, Egito, Mesopotâmia,
Israel – enfocando, em geral, a evolução econômica e política de tais sociedades. Foi um dos historiadores mais
atentos às descobertas arqueológicas e papirológicas de seu tempo, além de ser um dos mais bem preparados
para enfrentar as questões metodológicas e teóricas da ciência histórica. Seus trabalhos representam uma defesa
dos preceitos historistas, já, naquela época, sob questionamentos de pensadores das mais diversas áreas das
ciências da cultura que difundiam teorias evolucionistas (CARVALHO, 2007, p. 45).
35
Rodbertus desenvolveu o conceito de “economia do oikos”. Os oikos seriam as unidades domésticas
autônomas, onde o comércio seria eventual e esporádico (JOLY, 1999, p. 15).
36
Karl Wilhelm Bücher (Kirberg, 1847 – Leipzig, 1930) foi economista, um dos fundadores da “Economia
Primitiva” (ou economia não ligada ao mercado); foi também o fundador do jornalismo como disciplina
acadêmica. Estudou na Universidade de Bonn – então na Prússia, sede da História, onde entrou em contato com
essa ciência e com os clássicos antigos; chegou a ter aulas com Arnold Schäffer (TABONE, 2012, p. 47-48). O
economista histórico Karl Bücher publicou o notório ensaio acadêmico Die Entstehung der Volkswirtschaft (As
origens da economia nacional) em 1893, com a proposição de um modelo evolucionista de análise econômica. A
proposta de Bücher era uma tentativa de reconciliar os preceitos nomológicos abstratos da Escola Austríaca e da
Economia Política inglesa com o Historismo, que, apesar de ainda dominante nas universidades alemãs, já
começava a sofrer ataques de alguns setores da intelectualidade das ciências da cultura. Em sua obra, Bücher
defendia a necessidade do estabelecimento de estágios econômicos como um procedimento metodológico
indispensável. Segundo o autor, à medida que os fenômenos e as instituições econômicas se modificam
lentamente no curso dos séculos, o teórico da Economia Política deve se restringir a conceber o aparecimento da
evolução nas suas fases principais e omitir os períodos de transição em que todos os fenômenos estão em vias de
formação. Só assim seria possível encontrar as características fundamentais ou as leis de evolução presentes
43

“primitivista”. Despontava, deste modo, uma relação binária de oposição entre os dois
paradigmas teóricos cujo cerne é permeado pelo debate da Economia Antiga.
A problemática da discussão se fomentou atrelada à possibilidade de utilização e
aplicação da teoria econômica para estudar e analisar os sistemas econômicos do passado, ou
seja, a existência de uma teoria universal que se aplicaria como base para o estudo das
sociedades antigas e suas práticas econômicas.
O modelo defendido por Karl Bücher propunha que os povos antigos estariam em um
estágio “primitivo” da evolução econômica da humanidade. Em contrapartida, Eduard Meyer
compunha um panorama análogo entre os profícuos ciclos econômicos da Antiguidade e os
regimes econômicos “modernos”. A visão estava contaminada pela percepção da economia da
Europa moderna do mesmo modo que sua história política grega o estava pela preocupação
alemã contemporânea da unidade nacional (AUSTIN; VIDAL-NAQUET, 1986, p. 17).
Segundo Ciro Flamarion Cardoso, Bücher formulou em 1893 “um esquema de três
etapas ou estágios sucessivos na evolução da economia que teve influência duradoura em
História Econômica”. Assim, ele atribuiu cada um dos estágios aum dos grandes nichos na
divisão tradicional da história: 1) a economia doméstica fechada, típica do Mundo Antigo; 2)
a economia urbana, típica da Idade Média; 3) a economia nacional, característica da Idade
Moderna.
A proposta de uma economia doméstica fechada, que segundo Bücher seria inerente
ao Mundo Antigo, incide na ausência de trocas, pois a produção é de caráter pessoal – o que é
produzido no oikos é consumido nele mesmo – e a circulação da produção se restringe ao
círculo fechado da casa. Produção e consumo formam um único processo inseparável, as
mercadorias não trocavam de mãos, ou seja, a economia do Mundo Antigo é caracterizada
como amplamente autárquica e relativamente primitiva, o que levou Karl Bücher e outros
autores defensores dessa concepção a serem chamados de “primitivistas”. A partir da
formulação desse modelo, Bücher preconiza leis evolucionistas para o desenvolvimento das
sociedades que precedem a insurgência do capitalismo.
Os dados historiográficos apontados por Mohammad Nassif (ibid., p.64) demonstram
que Eduard Meyer, em contrapartida, propôs alterações substanciais a esse modelo
“primitivo”de análise das relações econômicas nas sociedades do Mundo Antigo. Em sua
conferência a respeito da “evolução econômica da Antiguidade37”, Eduard Meyer sugere

naeconomia. Tais leis, que atuam como mecanismo regulador do desenvolvimento econômico,só poderiam ser
metodologicamente descobertas pela abstração e pela dedução lógica.
37
E. Meyer, “La evolución económica de la Antiguedad”, em seu El historiador y la Historia antigua.Trad.
Carlos Silva. México/Buenos Aires, Fondo de Cultura Económica, 1955, p. 63-135.
44

tratar de uma temática pertinente à então atualidade por meio do conhecimento das
problemáticas da História Antiga.
Apropriando-se de uma estrutura metodológica análoga ao modelo proposto por
Ranke, Meyer reforça a hegemonia dos fatos concretos como expoentes da História,
delineando uma relação de efeito-causa dos fatos históricos, ou seja, o historiador deveria
debruçar-se (buscar as causas) sobre os fatos históricos que alcançassem maior repercussão
(efeito), medida considerada por Meyer como o termômetro da dimensão e magnitude dos
acontecimentos históricos. Seguindo os apontamentos de Meyer,
O geral não é nunca mais que a premissa e suas consequências são essencialmente
negativas ou, para dizê-lo com maior precisão, restritivas: estabelecem os limites
dentro dos quais se encerram as infinitas possibilidades das formas históricas
concretas. Dos fatores superiores, individuais, da vida histórica depende qual destas
possibilidades chega a ser realidade, isto é, se converte em um fato histórico
(MEYER, 1955, p. 43).

Por meio da reprodução de um modelo teórico considerado primitivo, Meyer


acreditava que os economistas colaboravam para propalar uma concepção pejorativa sobre as
sociedades antigas, instituindo estereótipos sobre os antigos, como o desprezo pelo trabalho
físico, a relação de dependência com a mão deobra escrava, entre outros. Seguindo essa
premissa, os acadêmicos considerados “evolucionistas” endossavam a ideia de uma história
de fluxo linear e, portanto, de um desenvolvimento progressivo que seria diretamente
proporcional à temporalidade.
A crítica de Meyer incide na falácia de tal afirmação, à medida que para o historiador
o cenário político das sociedades antigas experimentou momentos de desenvolvimento e
estabilidade econômica, contrariando a proposição elencada pelos propugnadores do modelo
evolucionista. Meyer defende que, em seu arcabouço cultural, a sociedade antiga se apresenta
“plenamente desenvolvida e em essência absolutamente moderna”(MEYER, 1955, p. 72-79).
O panorama apresentado por Meyer se distancia do quadro apresentado por Bücher e
se aproxima do início dos tempos modernos na Europa, traçando um limiar de similitudes em
relação à Revolução Industrial na Inglaterra. Assim consolidou-se a proposição equivocada de
Meyer de que “os séculos VII e VI da história grega correspondem ao desenvolvimento da
modernidade nos séculos XIV e XV depois de Cristo; e o V ao XVI” (MEYER, 1979, p. 118-
119). A troca e o comércio converter-se-iam no ponto fulcral de sua argumentação, presentes
já nos tempos que remontam à civilização micênica atuando como mediadores e agentes
fundamentais dessa sociedade. Para Meyer, comércio e agricultura são preceitos antagonistas,
na medida em que a preponderância de uma atividade implicava a estagnação da outra.
45

Para Michel Austin e Pierre Vidal-Naquet, a controvérsia não estava nas conclusões
extraídas do embate, e sim na maneira como ele fora conduzido. A dicotomia entre primitivo
e moderno implicava uma evolução econômica linear aplicada ao Mundo Antigo.
A questão de saber se podia estudar a ‘economia’ grega isoladamente e a partir de
conceitos econômicos criados para o mundo moderno, problema fundamental, nem
sequer era posta. Enquanto era de conceitos que se deveria ter começado por
discutir, fazia-se de conta que o problema se situava unicamente ao nível dos factos
(AUSTIN; VIDAL-NAQUET, 1986, p. 18).

A produção histórico-econômica que sobreveio ao embate conceitual historiográfico


Bücher-Meyer se polarizou. Os pesquisadores das práticas econômicas das sociedades antigas
passaram a adotar um referencial de análise corolário às vertentes antagônicas formuladas
pelas correntes de pensamento primitivista e substantivista. Contudo, a partir do século XX,
um fenômeno oposto teve início, o que leva os pesquisadores concernentes à Economia
Antiga a se afastar dos polos ambivalentes da discussão e a adotar abordagens alternativas de
análise para a problemática da Economia Antiga.
Max Weber38 se propõe a analisar o lugar ocupado pela economia na história grega
antiga ao retomar e aprofundar as questões levantadas por Bücher e Meyer. “Weber
posicionava-se no seio do debate entre economistas e historiadores, apresentando a História e
a teoria como momentos necessários de uma divisão unificada de trabalho”. Distribuída em
três momentos39, as análises específicas de Weber acerca da civilização grega estão mais
nitidamente expressas em seu livro The agrarian sociology of ancient civilizations, no qual
fornece suas contribuições para o debate sobre a da controvérsia do oikos. Em sua construção
intelectual, Weber tende a formalizar “conceitos classificatórios – como de capitalismo
político ou de cidade de consumo”, ao destacar o caráter intrínseco da economia em relação a
outros setores da sociedade (CARVALHO, 2007, p. 61).
A última inferência de Weber relaciona-se com as premissas de Karl Marx e Friedrich
Engels acerca do papel do trabalho ao longo do desenvolvimento humano. Apesar de o
marxismo “participar de uma visão evolucionista das sociedades humanas”, as inferências de

38
Mohammad Nassif descreve Max Weber como “um aluno brilhante e herdeiro presumido de Theodor
Mommsen, o decano dos historiadores antigos alemães”. Segundo o autor, Weber teria – após uma curta
passagem pelo Freiburg – se tornado o ocupante juvenil da Cátedra de Economia Política na Heidelberg, após a
aposentadoria de Karl Knies, considerado o mais rigoroso dos membros fundadores da Escola Alemã (HENNIS,
1988; TRIBE, 1989; SCHÖON, 1987, apud NASSIF, 2000, p. 64).
39
“Max Weber (1864-1920) imergiu, em um primeiro momento, em um projeto histórico, discutindo questões
prementes da controvérsia do oikos; em um segundo momento, após seu colapso nervoso, apresentou uma série
de estudos teórico-metodológicos, por meio dos quais procurou solucionar as lacunas teóricas dos membros da
‘Escola Histórica de Teoria Econômica’; finalmente, em um terceiro momento, já maduro, desenvolveu um
projeto histórico-sociológico no qual seus conceitos teóricos são complementados por uma erudição histórica
impressionante, sobre os mais diversos temas”(CARVALHO, 2007, p. 60).
46

Engels demonstram, em maior proporção que as de Marx, que a progressão do trabalho nas
sociedades não contemplava uma visão linear de evolução, demonstrando “tratar-se de um
evolucionismo complexo e multilinear” no qual o movimento marxista, como parte de um
contexto social, não supunha uma dinâmica constantemente ascendente na evolução social.
Julgavam, portanto, igualmente plausíveis a possibilidade de estagnação ou retrocesso,
fomentando os preceitos teóricos necessários para as leituras de Weber acerca da
problematização das práticas sociais na Antiguidade.
Em outros momentos de sua argumentação, Weber se aproxima da leitura de Karl
Bücher ao elencar sua análise teórica “com a ideia do ‘tipo ideal’ – um pressuposto
metodológico que, segundo Weber, deve estar subjacente a qualquer pesquisa histórica”.
Contudo, profere críticas a Bücher, ao afirmar que sua teoria somente se aplicaria a alguns
períodos da Grécia Antiga, dada a especificidade da economia centrada no oikos,
contrapondo, portanto,ao axioma da homogeneização adotado por Bücher.
A antítese entre as estruturas teóricas de Weber e Meyer jaz relação entre causa e
efeito dos fenômenos históricos. Conforme demonstrado anteriormente, Meyer utilizava uma
metodologia de efeito-causa,ao defender que os acontecimentos históricos que
desencadeassem um efeito e/ou apresentassem relevância para o contexto social da
modernidade deveriam ser analisado pelo historiador. Assim, os fatos históricos apresentavam
relação de dependência com a Modernidade, à medida que se legitimavam segundo a
percepção do historiador moderno.
Ao refutar o enunciado de Meyer, Weber critica o juízo de valor reproduzido por essa
corrente historiográfica e estabelece um quadro teórico antagônico, organizando o processo de
análise histórica estruturado em uma metodologia de causa-efeito, na qual o propósito do
exame historiográfico empreendido pelo historiador seria “determinar o papel dos diversos
antecedentes na origem de um acontecimento”.
O último estágio da análise weberiana consolidou a gênese do conceito do tipo ideal,
considerado imprescindível para a construção dos juízos de validade presentes na relação de
causalidade. Nessa concepção, o irreal é visto como um mister para a compreensão dos
fenômenos históricos. O tipo ideal constitui, portanto,“um quadro de pensamento pelo qual se
mede a realidade e com a qual é comparado, a fim de esclarecer o conteúdo empírico de
alguns dos seus elementos importantes” (CARVALHO, 2007, p. 64).
Max Weber “procurava definir a cidade grega antiga por oposição à cidade medieval.
A cidade grega era [...] uma cidade de consumidores, ao passo que a cidade medieval era uma
cidade de produtores”. O diferencial entre as proposições de Weber e o esquema partilhado
47

pelos primitivistas reside no fato de que o autor desassocia a economia da polis clássica da
circunscrição do oikos (AUSTIN; VIDAL-NAQUET, 1986, p. 19). Segundo Danilo Tabone,
Weber afirmava que o papel econômico do oikos está relacionado ao Período Arcaicoe seu
posicionamento em relação ao advento da economia na antiguidade era que
o comportamento econômico das cidades gregas visava sempre o abastecimento do
Estado e dos cidadãos, e nunca uma política de exportação que procurasse escoar, de
forma vantajosa, a produção da cidade. A cidade tem em conta os interesses
econômicos dos cidadãos enquanto consumidores, não como produtores (TABONE,
2012, p. 50).

É essa prerrogativa de análise que desloca o debate das formas e extensão da atividade
econômica para as relações entre a economia e a vida política da cidade grega que será
posteriormente adotada por Johannes Hasebrök40. É nesse contexto de produção intelectual
que emerge a publicação do estudo do helenista alemão Hasebrök relativo às relações
comerciais dos gregos nos períodos Arcaico e Clássico. Sua obra Trade and politics in
AncientGreece (Staat und Handel im alten Griechland) foi publicada em 1928 e busca
contrariar as teorias modernistas e corrigir os pontos omitidos pela doutrina modernista.
O modelo conceitual de Hasebrök transforma o eixo da discussão do oikos para a
polis. O autor defende a relativização do comércio no seio político de Atenas, contrariando a
perspectiva adotada por Eduard Meyer e seus discípulos. Para Ciro Flamarion Cardoso,
Hasebrök foi sectário de Max Weber ao adotar tendência historiográfica análoga. Em sua
formulação teórica, o comércio grego no Período Clássico fora “relativamente primitivo”.
Alexandre Carvalho afirma que, para Hasebrök, “o comércio não impulsionava nem
engendrava qualquer forma de capitalismo”, ao atuar como ensejo figurativo nas atividades
econômicas da cidade-Estado, como um mecanismo acessório às atividades econômicas, “um
meio para o suprimento de necessidades, particularmente de cereais e matérias-primas para
construção de navios, e para o enriquecimento do tesouro por meio de impostos e taxas”
(CARVALHO, 2007, p. 101).
Sua argumentação convergia em torno da cidade-Estado antiga, pois procurou mostrar
que a política da cidade-Estado grega não guardava nenhuma semelhança com o
desenvolvimento político dos Estados nacionais modernos, que, segundo o autor,

40
Johannes Hasebrök foi um dos historiadores alemães mais distintos e criativos da História Social e Econômica
grega do século passado. Como estudante universitário e sob influência de Geschichte des Altertums, de Eduard
Meyer, Hasebrök aprofundou seus estudos em História Antiga, filologia clássica e arqueologia. De 1916 a 1921,
dedicou-se ao estudo do imperador Sétimo Severo. Na Universidade de Berlim, entrou em contato com
estudiosos que o iriam influenciar em suas novas investidas. Dentre eles está o economista Werner Sombart. Já
em 1920, Hasebrök publicou um artigo sobre transações bancárias e banqueiros gregos. Um segundo artigo, em
1921, versava sobre o comércio grego. Apesar de ainda evitar grandes generalizações, esses trabalhos já
apresentam o interesse pela Economia Antiga. Em 1926, em uma conferência sobre imperialismo antigo, revela-
se o impacto das tipificações e conceitualizações histórico-sociológicas de Max Weber sobre suas reflexões.
48

não tinha “políticas econômicas” que fossem além de simples políticas de


abastecimento em alimentos e matérias-primas, mesmo porque muitas atividades
econômicas eram exercidas por estratos desprestigiados da população (escravos,
estrangeiros residentes ou metecos) (CARDOSO, 2011, p. 24).

O principal preceito de Hasebrök (1965, passim) teria sido promover a interação entre
a economia, a política e as práticas sociais. Há na economia uma dicotomia envolvendo
comércio e a agricultura. Os dois campos de atuação da prática econômica estariam ligados,
por sua vez, a setores específicos da sociedade, o que teria influência direta no seio político da
sociedade. A agricultura era o reduto de atuação dos cidadãos, relacionada à ancestralidade
corroborada pelo valor da terra, à medida que promovia a manutenção do ócio e, por
consequência, perpetuava as relações políticas.
Assim sendo, a operacionalização de Hasebrök dialoga com a tônica aristotélica da
especificidade das atividades humanas, que, separadas em categorias, possuem classificação
em termos de excelência. Aristóteles aponta no capitulo de Ética a Nicômaco que existem as
atividades e “os produtos distintos das atividades que os produzem”, sendo as primeiras por
natureza maiores em excelência que as segundas.
Aqueles que detinham o capital não se envolviam diretamente com o comércio.
Conforme alega Hasebrök, o homem econômico no Mundo Antigo era um homem
politicamente degradado. O papel do comércio na polis ateniense era paradoxal à ação da
cidadania. O cidadão ativo política e socialmente não deveria se envolver no contexto
comercial, por via de regra o trabalho braçal ser menosprezado e visto como demérito.
Para Hasebrök, o comércio era um meio e não a finalidade da atividade econômica em
si; o comerciante se tornava, portanto, um intermediário das relações comerciais. Dentro dessa
conjectura, Hasebrök estabelece distinções importantes entre as relações comerciais e o
comércio. Em seus apontamentos, as relações comerciais seriam controladas pelos nobres;
contudo,
os lucros advindos desse controle não significavam necessariamente um poder
originário do comércio; sua riqueza era derivada, em parte, de suas terras agrícolas e
de manadas e rebanhos e, em parte, da pirataria e pilhagem. Sua força era física, e
não econômica(CARVALHO, 2007, p. 103).

A estrutura teórica de Hasebrök, apesar de similar aos argumentos de Max Weber,


fornece um arcabouço complementar às premissas forjadas por este. Assim, a arguição de
Hasebrök se distancia e complementa as alegações de Weber, ao negar a existência de um
cenário competitivo entre os cidadãos, cujo objetivo final seria o comércio. Nessa acepção,
Hasebrök concebia que cada segmento social estaria ligado a uma vertente de atividade
econômica coexistindo socialmente entre si no cenário político da polis, extrapolando
49

ahipótese de Weber de separação entre o homo politicus e o homo economicus.O comércio


desponta como um mecanismo para reforçar as esferas de poder, nas quais o Estado –
representado pelo corpo de cidadãos – exercia seu ethos41aristocrático sobre os estrangeiros
(metecos), aos quais Hasebrök intitula “proletariado de consumidores”(HASEBRÖK, 1993, p.
28-32).
Esses fatores apontam que Hasebrök efetuou duras críticas ao modelo modernista;
contudo, o pesquisador não condescende com a teoria compilada por Karl Bücher e seus
discípulos primitivistas. Hasebrök estabelece, portanto, uma leitura alternativa ao modelo
proposto pelo primitivismo diferente dos primeiros primitivistas e correlato às prerrogativas
de Max Weber, com a transição do elemento de análise da polis para o oikos. Na análise do
pesquisador Alexandre Carvalho, “o traço primitivo, tanto em Weber quanto em Hasebrök, é
a esfera política, não mais a econômica. O econômico está sob o domínio do político, e os
interesses econômicos estão subordinados aos interesses políticos”(CARVALHO, 2007, p.
105), em análise que posteriormente será retomada e complementada por Karl Polanyi.

1.4 A natureza dinâmica no estudo da Economia Antiga

A natureza da Economia Antiga no universo acadêmico é um tópico que tem ficado


circunscrito às pesquisas dos intelectuais por quase um século. Para o pesquisador Alain
Bresson, “quando se fala da ‘natureza da Economia Antiga’,[o historiador] não se refere
apenas ao tipo e quantidade de transações econômicas concretas, mas também à maneira pela
qual a economia interagiu com a vida social e política”. Ainda que seja possível estabelecer
um mapeamento historiográfico acerca das controvérsias acadêmicas que envolvem a
problemática da economia ano Mundo Antigo, Bresson acredita que atualmente há um
aglomerado de ideias que dialogam entre si acerca do estudo da economia, convergindo em
torno de duas obras centrais: A Economia Antiga, de Moses Finley, e Economia e sociedade

41
Utilizaremos a terminologia ethos a partir do referencial no qual essa palavra expressa a existência do mundo
grego que permanece presente na nossa cultura. Esse vocábulo deriva do grego ethos. Nessa língua, possui duas
grafias: ηθοζ (êthos) e εθοζ (éthos). O termo grego ηθοζ (êthos), quando escrito com “eta” (η) inicial, possui dois
sentidos: morada, caráter ou índole. Ele representa aquilo que faz uma pessoa, um indivíduo: sua disposição,
seus hábitos, seu comportamento e suas características.O segundo significado da palavra êthos assume uma
concepção histórica a partir de Aristóteles. Representa o sentido mais comum na tradição filosófica do Ocidente.
Este sentido interessa à ética, em particular, por estar mais próximo do que se pode começar a entender por ética
(RUNES, 1990, p. 264-269).
50

na Grécia Antiga, de M. M. Austin e P. Vidal-Naquet. O importante para o historiador Alain


Bresson não é retomar o embate entre primitivistas e substantivistas42, numa análise
bipartidária da Economia Antiga, mas sim retomar as “teorias de Karl Polanyi, que foram
efetivamente aplicadas por Moses Finley e aqueles influenciados por ele”, aos quais são
reputados os créditos de finalmente ter fornecido a solução adequada para essas controvérsias
(BRESSON, 2016, p. 66).
O legado de Moses Finley consiste, segundo Alain Bresson, em sua capacidade de
contrapor as teorias modernistas43 que afirmavam que o funcionamento da Economia Antiga
ocorria de maneira análoga à economia moderna. A metodologia alternativa de análise
adotada por Finley teve papel imprescindível na perspectiva teórica e na formação dos
historiadores, na medida em que imprimiu uma mudança de paradigma teórico-metodológico
no campo de pesquisa dos adventos econômicos das sociedades antigas. Desse modo,
argumenta Bresson, “que alguém iria hoje se atrever a afirmar que as sociedades antigas
viviam desde a produção até a venda dasmercadorias manufaturadas na mesma medida que as
sociedades modernas vivem?” (ibidem, p. 67).
Ao analisar a Economia Antiga, Moses Finley é apontado como um dos protagonistas
no debate acerca do Mundo Antigo. O historiador contribuiu de maneira ativa para a
estruturação da História Antiga como disciplina com publicações sobre assuntos como
escravidão, comércio, tecnologia e pensamento econômico na Antiguidade Clássica. Finley é

42
A ruptura do paradigma metodológico classicista no que tange à análise da Economia Antiga é inaugurada
durante o Terceiro Congresso de Historiadores Alemães, no dia 20 de abril de 1895. A chamada controvérsia ou
debate do oikos teve início quando Eduard Meyer desferiu críticas significativas ao modelo evolucionista da
Economia Antiga compilado pelos economistas Karl Rodbertus e Karl Bücher, considerados os fundadores da
corrente “primitivista”. Despontava, desse modo, uma relação binária de oposição dentre os dois paradigmas
teóricos, cujo cerne é permeado pelo debate da Economia Antiga. A problemática da discussão se fomentou
atrelada à possibilidade de utilização e aplicação da teoria econômica para estudar e analisar os sistemas
econômicos do passado, ou seja, a existência de uma teoria universal que se aplicaria como base para o estudo
das sociedades antigas e suas práticas econômicas. A visão estava contaminada pela percepção da economia da
Europa moderna, do mesmo modo que sua história política grega o estava pela preocupação alemã
contemporânea da unidade nacional (AUSTIN; VIDAL-NAQUET, 1986, p. 17).
43
Utilizando uma metodologia análoga ao modelo proposto por Ranke, Meyer defende que, em seu arcabouço
cultural, a sociedade antiga se apresenta “plenamente desenvolvida e em essência absolutamente moderna”
(MEYER, 1955, p. 72-79). Para o pesquisador Danilo Andrade Tabone, partindo da perspectiva substantivista
(ou modernista), despontara, desde o século VIII, um desenvolvimento da indústria e do comércio com o
florescimento de uma produção e de trocas em estilo capitalista, com o esboço de uma economia monetária na
qual “as aristocracias fundiárias eram substituídas por aristocracias do dinheiro. A partir de então a história
política era reinterpretada: os Estados gregos passaram a ter motivações econômicas e preocupações comerciais
em estilo moderno” (TABONE, 2012, p. 48).
51

considerado por Mohammad Nassif como corolário da perspectiva polanyiana44 e atribui o


crédito de sua formação a Karl Polanyi, de quem foi estagiário no início da década de 1950.
O principal postulado de Moses Finley consiste na premissa “de que a vida econômica
da Antiguidade greco-romana jamais foi percebida pelos antigos como um campo autônomo
de experiências da vida social”, desencadeando implicações práticas na organização e
institucionalização das atividades econômicas do Mundo Antigo. Desse modo, práticas
relacionadas ao cotidiano das sociedades antigas (agricultura, atividades comerciais,
escravidão), bem como as instituições inerentes à Antiguidade, deveriam ser analisadas a
partir de conceitos “apropriados à Economia Antiga e não [ou não necessariamente] à nossa”
(FINLEY, 1973, p. 27).
Na abordagem de Finley, a construção de um quadro metodológico formalizado para
estruturar a construção de conceitos “apropriados à Economia Antiga”transita por quatro
etapas específicas que devem ser seguidas pelo historiador a fim de estabelecer uma análise
adequada à conjuntura das sociedades antigas. Em primeiro lugar, a análise do historiador
deveria se concentrar em considerar o significado que os gregos e romanos atribuíam às
atividades econômicas, posto que o homem antigo se encontra inserido no contexto social de
produção de tais atividades. Os postulados econômicos sistematizados no Mundo Antigo
culminam em condutas no cenário da polis grega que, por sua vez, provocam alterações
substanciais nas relações de produção, nas políticas estatais, no acúmulo de riquezas.
O segundo artifício metodológico empregado por Finley diz respeito a uma
perspectiva de análise centralizada nos “padrões dominantes de comportamento”como base
para elaboração de modelos explicativos intrínsecos e representativos ao Mundo Antigo,
devido à natureza incerta do arcabouço documental e à falta de estatísticas confiáveis. O
terceiro preceito metodológico adotado por Moses Finley baseia-se no comparativismo, que,
segundo Miguel Soares Palmeira, consiste na análise das sociedades antigas por meio da
adoção de um referencial:
Assim, por exemplo, sua caracterização das sociedades ateniense e romana como as
primeiras genuinamente escravistas da história fazia do recurso a dados de outras
sociedades (sociedades próximo-orientais antigas e sociedades escravistas
modernas) um expediente metodológico crucial em seus trabalhos sobre escravidão
(PALMEIRA, 2007, p. 12).

44
Segundo Finley, a influência de Polanyi for tão impactante na construção de seu pensamento econômico
acerca do Mundo Antigo que o pesquisador afirma que a obra O mundo de Odisseu não teria sido escrita se não
fosse por Polanyi. As similitudes entre a estrutura metodológica adotada por Karl Polanyi e, posteriormente,
Moses Finley convergem em diversos pontos que se consolidam em torno da História Econômica. De maneira
específica, ambos antagonizavam com a perspectiva modernista, argumentando que “não havia nada de natural
sobre os mercados livres, que o laissez faire foi planejado e o planejamento distributivo não era”. A posteriori,
sob a influência da História Social, esse objeto tornar-se-á o ponto fulcral da análise de Moses Finley
(CARVALHO, 2007, p. 172).
52

Por último, a problemática estabelece o ponto fulcral da metodologia de Moses Finley


ao formular as premissas e as teses para a análise por meio da exploração de três temas de sua
historiografia: a discussão sobre os fatos e as fontes, utilização de modelos e a defesa da
História total.
O consenso em torno do modelo de análise criado por Finley, sem embargo, não é um
padrão homogêneo entre os pesquisadores de Economia Antiga, tampouco esse consenso deve
atuar como uma teoria universal para o estudo da História Antiga, impedindo os historiadores
de tecerem críticas ao modelo quando necessário. Entretanto, o autor admite que, na verdade,
não é uma tarefa fácil para o historiador posicionar-se de maneira oposta à “Nova Ortodoxia”.
Segundo Alain Bresson, o termo Nova Ortodoxia teria sido criado para a escola de
pensamento de Moses Finley por um de seus próprios membros, Keith Hopkins45, e serviria
para designar o conjunto de teorias elaboradas por Moses Finley e, posteriormente,
complementadas por seus discípulos.
Em diálogo com a análise de Bresson, M. M Austin e Pierre Vidal-Naquet afirmam
que o princípio mais significativo da Nova Ortodoxia seria a documentação de Aristóteles. De
acordo com a concepção teórica de Moses Finley e seus adeptos, as obras de Aristóteles são
marcadas por uma ausência completa de qualquer ideia que se possa identificar como cláusula
comercial nos moldes modernos. O que não implica deduzir que não havia acordos comerciais
firmados. Aristóteles (Retórica 1360a 12-13) incluiu fornecimento de alimentos (trophe) entre
os assuntos em que um líder político deve ser proficiente, de modo a negociar acordos entre
cidades. Segundo M.M Austin e Pierre Vidal-Naquet,
Quando se diz que cidades gregas tiveram uma política econômica, o que se
significa na prática geralmente é que eles tinham uma política de importação que
visava garantir o abastecimento da cidade e dos cidadãos com uma série de bens
essenciais para a sua sobrevivência, mas não uma política de exportaçãodestinadaà
eliminação em condições favoráveis ou mesmo impor no exterior a produção
"nacional" em concorrência com as cidades rivais. Se uma cidade grega levou em
conta os interesses econômicos dos seus membros, era apenas como consumidores e
não como produtores. Não se pode, portanto, falar de qualquer "política comercial"
por parte das cidades gregas, exceto em um sentido deliberadamente muito restrito:
o que eles praticavam era apenas uma importação, não uma política de exportação
(AUSTIN; VIDAL-NAQUET, 1977, p. 113).

O cenário acadêmico internacional, entretanto, é dinâmico, e no tangente à Economia


Antiga está em constante transformação, o que se corrobora a partir da arguição supracitada
do pesquisador Ciro Flamarion Cardoso quando este critica a generalização da metodologia
45
Alain Bresson chama atenção também para o fato de Keith Hopkins (1983, p. XI) e W. E. Thompson (1982)
terem sido dos poucos estudiosos a aludir que as teorias desenvolvidas por Moses Finley seriam marcadas pelo
‘minimalismo’.
53

empreendida por Moses Finley. A conformidade com o modelo de análise postulado pela
Nova Ortodoxia pode simplesmente resultar de uma análise semelhante a partir da mesma
evidência, com momentos de similitude e distanciamento do modelo proposto inicialmente.
Por isso, é também claro que desafiar as ideias da Nova Ortodoxia, bem como das demais
correntes historiográficas hegemônicas no meio acadêmico não implica necessariamente um
retorno às teorias ultrapassadas do modernismo.
Divergir do arcabouço metodológico de Moses Finley tampouco demanda do
historiador a criação de uma nova Teoria Geral da Economia com a finalidade de substituir a
Nova Ortodoxia. Primeiramente porque a elaboração de uma Teoria Geral acerca de qualquer
ramo do saber não pode ser compilada somente em torno de um artigo, texto ou até mesmo
um livro em si baseados em conceitos e fórmulas previamente compiladas. O processo de
construção de uma teoria geral contempla, de modo geral, diversas fases que devem resultar
em uma pesquisa que apresente resultados duradouros para seu campo de análise; neste caso,
a Economia. Uma das armadilhas com as quais se depara o historiador é ambição que acarreta
exposição de teorias prematuras, generalizantes ou minimalistas que se provam, a longo
prazo, insustentáveis. Para Bresson,
A avaliação teórica razoável no campo da História Antiga só será possível depois de
uma série de estudos em que as principais questões são examinadas. Devemos ser
gratos à Nova Ortodoxia por levantar estas questões numa altura em que o
modernismo e seu aliado de fato, o positivismo, dominavam (BRESSON, 2016, p.
68).

Sumarizando os parâmetros do debate econômico para a Nova Ortodoxia, o principal


referencial teórico consistia no fato que, segundo Alain Bresson, “Aristóteles foi convocado
como testemunha principal pelos defensores mais destacados” dessa corrente teórica
(BRESSON, 2016, p. 66).Estabelecendo uma relação entre teoria e prática, contemplar-se-iam
os modos reais de organização de uma cidade em relação ao comércio.
Destarte,podemosinterpretar que a problemática do comércio exterior sob a forma de
importações e exportações é descritapor Aristóteles como uma das questões mais importantes
para polis, o que nos desperta para a hipótese de que a presença dessas práticas comerciais
seria uma constante na vida social dos atenienses; do contrário se tornaria infundada a intensa
atenção que Aristóteles dispensa à temática. Em alguns momentos, o tópico é colocado à
frente da legislação – uma questão notoriamente significativa para os gregos antigos. Morgens
Hansen complementa esta proposição argumentando que
54

Aristóteles declara que o mais indispensável de todos os magistrados46 em uma


cidade são os inspetores dos mercados (agoranomoi); estes últimos são encontrados
em cada polis, porque o comércio no mercado da polis (Ágora) é um aspecto
importante da vida de uma cidade (HANSEN, 2006, p. 95).

Reiterando esse princípio, Morgens Hansen discorda da proposição elencada por


Moses Finley e afirma que o comércio de Atenas não era somente um “comércio local”,
baseado na venda dos artigos necessários por parte dos agricultores para os habitantes da
cidade, que, por sua vez, efetuariam o pagamento com os recursos que haviam extraído dos
agricultores por meio dos impostos. Segundo o autor, o principal ensejo econômico era o
comércio exterior, financiado pela exportação de produtos próprios de Atenas, principalmente
a prata das minas de Láurio, no sul da Ática (ISAGER; HANSEN, 2000, p. 35-52; HANSEN,
2004, p. 23-25).
Apropriando-se do discurso de Andócides, Morgens Hansen adverte que a polis
ateniense provavelmente foi o centro de uma grande rede de comércio. Segundo o autor,
Andócides informa em um discurso de 400 a.C. que teria assumido o contrato das taxas
portuárias, tributando em cerca de 2% todas as mercadorias importadas e exportadas. Hansen
afirma que,
o produto do contrato foram 36 talentos de prata, e Andócides admite que ele obteve
um pequeno rendimento com a transação. Assim, toda a importação e exportação de
Atenas [...] naquele ano (que foi um dos piores na história de Atenas) deve ter sido
equivalente a mais de 1.800 talentos, o que equivaleria a 11 milhões de
dracmas47(HANSEN, 2006, p. 92).

Finalizando esta teorização, Hansen argumenta que a própria disposição espacial e


geográfica da polis aponta a transformação de um paradigma socioeconômico agrícola para
comercial e mercantil. Com a ressignificação dos espaços urbanos durante o Período Clássico,
a ágora (“mercado”) e o limen (porto)tornam-se os centros econômicos da polis. Cada polis
contava com uma ágora, que nos períodos Arcaico e Clássico é descrita como um espaço
aberto demarcado por marcos de pedra (horoi). A polis estaria ligada ao porto e também

46
Para o historiador Morgen Hansen, o termo magistrado é a tradução convencional, mas não completamente
satisfatória, de hai archai, um termo que se refere a oficiais designados por eleição ou sorteio para atuar dentro
de um curto período (a maior parte de um ano) e encarregado da gestão do dia a dia da polis e ao exercício das
decisões tomadas pela Assembleia, o Conselho e os tribunais (HANSEN, apud AISCHIN 3.13). A palavra arche
significa realmente uma magistratura, mas ela foi usada com praticamente a mesma frequência da pessoa que
tenha a magistratura (Andok 1.84.); daí hai archai, 'os magistrados', foi o termo coletivo para um grupo de
pessoas que constituíam um ramo do governo em pé de igualdade com a ekklesia e a dikasteria (Arist Pol
1317B35-6; Hansen (2005) 225).
47
O pesquisador elucida que a dracma era o pagamento equivalente a um dia de trabalho, assim 1.800 talentos
corresponderiam a diárias de pagamento para 30.000 pessoas, correspondente ao salário de um ano inteiro para
cada cidadão ateniense. Para Hansen, parte desse enorme comércio pode ter sido o comércio de trânsito; mas isso
não altera o fato de que Atenas tinha um comércio de exportação-importação estrangeira em uma grande escala.
(HANSEN, 2006, p. 94)
55

poderia contar com um emporion, um entreposto para comércio externo. Nos poemas
homéricos e em inscrições arcaicas, a ágora é apontada como um local para a realização de
assembleias do povo. No Período Clássico, entretanto, os relatos sobre a ágora passam a
relatar um mercado local, e não há quase vestígios da ágora como espaço para a reunião da
assembleia (ibidem, p. 102).
A mudança no panorama econômico da Grécia é corroborada pelas pesquisas do
arqueólogo Ian Morris. Mediante um levantamento iconográfico das habitações na Grécia
Antiga ao longo dos anos 800 a 300 a.C., Morris foi capaz de detectar uma significativa
elevação no tamanho dos edifícios residenciais, a qual o pesquisador atribui a um aumento na
renda per capita da população grega. Muito embora seja impossível reconstruir o quadro do
consumo dos oikoigregos, o pesquisador afirma que a habitação média tornou-se muito maior
e melhor construída ao longo do período de 500 anos. Analisando somente a transformação do
diâmetro das casas, Morris aponta para um crescimento de cerca de 350% na metragem das
residências (MORRIS, 2004, p. 720-729). Assim, tendo em vista a melhoria marcante nos
padrões de construção, o aumento total do investimento econômico necessário para construir
uma habitação sofreu crescimento exponencial.
Para Josiah Ober, as hipóteses levantadas por Ian Morris sobre a elevação da renda per
capita e o crescimento econômico grego agregado são consistentes com outros indicadores
indiretos que apontam para um crescimento substancial no final do Período Arcaico e
noPeríodo clássico. Com base nos dados doLéxico denomes pessoais gregosde Oxford48, Ober
calculou o total de nomes conhecidos a partir de fontes literárias e arqueológicas e concluiu
que “os nomes pessoais no território Ático cresceu de 1.200 nomes no VI século a.C. para
17.000 nomes no IV século a.C., um aumento de aproximadamente 14 vezes em um intervalo
de menos de 300 anos” (OBER, 2015, p. 83).
Segundo o pesquisador, o resultado da pesquisa é proveniente de múltiplas variáveis,
como as taxas de crescimento da produção literária e nas inscrições epigráficas, além da
elevação na taxa de natalidade e, consequentemente, aumento na qualidade de vida à medida
que a taxa de mortalidade (desconsiderando os períodos de guerra) sofreu processo
inversamente proporcional à natalidade. Esses dados, na perspectiva de Ober, apontam para
uma sociedade na qual os indivíduos passaram a consumir “consideravelmentemais” (idem).

48
Os dados encontram-se disponíveis no site www.lgpn.ox.ac.uk. Josiah Ober afirma que a disposição da
listagem nominal discorre do seguinte modo: século VII a.C.: 75 homens e 9 mulheres; século VI a.C.: 1.062
homens e 124 mulheres; século V a.C.: 5.234 homens e 436 mulheres; século IV a.C.: 14.714 homens e 2.424
mulheres (ibidem, p. 339).
56

Com base em dados extraídos do Inventário do acervo de moedas gregas49, os


pesquisadores Josiah Ober e David Teegarden estimaram que o “volume de dinheiro cunhado
em circulação no mundo grego aumentou substancialmente”. Entre os séculos VI e IV a.C., o
tamanho médio dosmontantesgregos contabilizados em moeda praticamente dobrou, “de 23
moedas para 48 moedas por tesouro”. Similarmente, o tamanho médio dos montantes gregos
mais que duplicou, passando de 52 moedas para 123 moedas, refletindo o aumento da
incidência de algumascoleções de moeda excepcionalmente grandes para o período. Pela
análise numismática, os pesquisadores descobriram que, em relação ao Período Arcaico, o
número de hordas mais do que duplicou a partir do V século a.C., elevando-se de 238 para
564 hordas, enquanto o número de moedas no total em todos os montantes contabilizados
triplicou, de cerca de 34 mil moedas para cerca de 109 mil moedas no total.
Para Ober, todos os parâmetros utilizados como referencial de crescimento econômico
na sociedade grega demonstraram intensa elevação no intervalo temporal entre os séculos IX
e IV a.C., conforme demonstrado pela tabela a seguir. Além das medidas relativas de
crescimento ao longo do tempo, é possível avaliar critérios como aumento demográfico e o
bem-estar social em determinada época em termos absolutos e, assim, comparar as sociedades
ao longo do tempo e espaço. Populações mais densas e altos níveis de urbanização tendem a
ser relacionados com maior desempenho econômico e são, portanto, comumente empregadas
pelos historiadores econômicos como critérios para avaliar a estruturação da economia.

49
Dados compilados no site www.admin.numismatics.org/igch e na literatura de Thompson, Morkholm e Kraay,
1973.
57

Tabela 2– Sumário de indicadores de crescimento econômico

Dados Período inicial Período final (T2) Multiplicador


(T1) (T1/T2)
População Século IX Século IV 10-20
Planta baixa das casas Século IX Século IV 3.5
Artigos domésticos Século IX Século IV 2-10
Consumo per capita Século IX Século IV 1.5 - 2
Crescimento agregado Século IX Século IV 15 - 20
Nomes (Ática) Século VI Século IV 14
Tamanho dos tesouros Século VI Século IV 2
medianos
Tamanho dos tesouros em Século VI Século IV 4
média
Moedas em hordas Século V Século IV 3
Número dos tesouros Século V Século IV 2
Fonte: Adaptada de OBER, Josiah. The Rise and Fall of Classical Greece. Princeton, New Jersey, 2015, p.84.

Apropriando-nos das hipóteses de Josiah Ober e Ian Morris, que informam sobre um
crescimento econômico na sociedade grega no intervalo entre os séculos IX e IV, o intuído de
nossa pesquisa consiste em materializar a insurgência das atividades econômicas por meio das
práticas comerciais e mercantis desde o advento do Código Legislativo forjado a partir da
ascensão de Sólon ao cargo de archonte, ainda no VI século do período arcaico grego.

1.5Oikonomia e Crematística: As práticas econômicas para além do oikos.

Os gregos, segundo Aristóteles, denominam oikonomia (que, em grego, significava “a


administração da casa”), sendo esta o étimo da palavra “economia”. Este termo seria o
resultado da justaposição das palavras oikos50(casa) e nomos (lei). Desta forma, a

50
É necessário salientar que o termo “oikos” na Grécia Antiga transcende o referencial que entendemos como
“casa” na sociedade contemporânea. Segundo Claude Mossé, no Dicionário da Civilização Grega, trata-se de
um termo antigo, encontrado desde o os poemas de Homero, que designa o domínio aristocrático, ou seja, ao
mesmo tempo as terras, a casa, e todos aqueles que, de um modo ou de outro, fazem parte deste domínio:
parentes, servos, escravos. Na época clássica, esse sentido é mantido, mas o oikos passa a referir-se com mais
frequência ao senhor, sua esposa, as crianças e os escravos (MOSSÉ, 2007, p. 213).
58

interpretação mais acurada acerca da terminologia oikonomia resultaria na acepção de


administração ou gerenciamento do oikos.
A palavra “economia” já estava também presente na obra Oeconomicus, escrita no
século IV a.C. pelo ateniense Xenofonte51. O termo, segundo Xenofonte, resulta da
composição da palavra oikos (na acepção de “unidade doméstica”) com o radical semântico
nem (que significa “regulamentar, administrar, organizar”). Sua obra tem por objetivo
estabelecer um tratado prático acerca da economia, como a arte de administrar o oikos.
De acordo com Aristóteles, o oikos seria composto pela unidade que compreende,
além da casa, outros locais que não a habitação e os indivíduos que integram a comunidade
econômica. Em argumentação equivalente, para Aristóteles, o produto do oikos seria a
oikonomia que, “por natureza, [...] se caracteriza como [...] uma forma de aquisição, de tal
modo que o senhor da casa [kyrios] deva possuir ou procurar possuir os recursos acumuláveis
necessários à vida e úteis à comunidade política e familiar” (Política, I, 8, 1257a). Para
Aristóteles, “parece que a verdadeira riqueza consiste nesses recursos” que visam, em última
instância, à vida feliz, à medida que tais recursos seriam autossuficientes. A riqueza
constituiria, portanto, o conjunto de instrumentos possuídos pelo oikos e pela polis,
considerando que estas duas partes formariam a amálgama da koinonia.
Posteriormente a oikonomia foi utilizada para expressar a administração de
rendimentos públicos, como nos parágrafos de abertura da obra A Política, de Aristóteles, na
qual ele argumenta que “a riqueza é apenas o conjunto de instrumentos possuídos pela casa e
pela cidade. Torna-se, assim, evidente que existe uma arte natural de aquisição, própria dos
donos de casa [kyrios] e dos políticos [...]” (Política, I, 8-35, 1256b).
Eis, então, de uma maneira geral, os modos de vida dos que subsistem diretamente
pelo seu trabalho, sem que o seu alimento provenha do comércio ou troca: pastoreio,
pilhagem, pesca e caça [...] Tal forma de aquisição de propriedade é dada,
evidentemente, pela natureza a todos os seres vivos, desde o nascimento até o
desenvolvimento completo. (Política, I, 8, 1256b)

Nos capítulos iniciais do Livro I da Política, Aristóteles sistematiza que a família e a


polis constituem duas formas naturais de associação entre os seres humanos e analisa também
algumas consequências dessa associação, como as relações de domínio e sujeição (em

51
Xenofonte nasceu por volta de 430 a.C., na Ática, no demo de Érquia, em plena Guerra do Peloponeso.
Descendente de uma família abastada de proprietários rurais, era filho de Grilo, e acompanhou a decadência da
política ateniense na primeira fase de sua vida. Sua origem e educação aristocráticas emergem de forma clara por
toda sua obra, ao condenar muitas das ações dos políticos democratas. Conforme comentário em As Helênicas
(1994), Xenofonte participou da cavalaria ateniense, tanto na Lídia em 410 a.C., quanto ao lado dos oligarcas do
Governo dos Trinta, na turbulenta Atenas pós-Guerra do Peloponeso. Para Jaeger (1995, p. 1144), a imagem filo-
espartana de Xenofonte, decorrente deste período, não permitiu, durante décadas, que o escritor ateniense tivesse
um contato pacífico com a pátria.
59

especial as existentes entre mestre e escravo). Na perspectiva aristotélica, a oikonomia, a


ciência de provisionamento de recursos materiais para o oikos é também uma forma natural de
aquisição dos bens necessários ao sustento.
Existe outro gênero de arte da aquisição, chamado frequente e justamente de
crematística, a este originou a noção de que não há limites para as riquezas e
aquisições; devido à sua afinidade com a arte da aquisição de que falamos, muitas
pessoas supõem que se trata de uma só arte; realmente, embora ela não seja idêntica
à arte da aquisição mencionada, também não está muito distante da mesma. Uma
delas é natural e a outra não é, resultando de certa experiência e habilidade.
(Política, III, 1257a)

O filósofo conjectura, posteriormente, sobre as diferenças entre a arte de adquirir


(crematística52) e a arte de dirigir uma casa (oikonomia), argumentando que são princípios
distintos, pois um diz respeito à̀ aquisição de bens e o outro à sua utilização. Em
contrapartida, a crematística surgiria como uma perspectiva de aquisição artificial, comercial
ou mercantil, na qual o sustento não é mais o foco, dando lugar à acumulação. Aristóteles
formulará uma dicotomia entre a riqueza verdadeira (ou natural) e a riqueza falsa (ou
artificial). A primeira forma advém daquilo que a natureza provém, pois “tal forma de
aquisição de propriedade é dada, evidentemente, pela natureza a todos os seres vivos, desde o
nascimento até o desenvolvimento completo” (Política, I, 1256b). O segundo modelo se
constrói a partir do capital advindo da expansão do comércio. Para o autor é claro, portanto,
que “a arte de enriquecer [crematística] não é a mesma coisa que a administração da casa
[oikonomia], porquanto a função da primeira é proporcionar e a da última é usar” (Política,
III, 1256a).
Aristóteles analisa as relações sociais de permuta no quadro das sucessivas transições
decorridas, buscando problematizar o objetivo ou função de cada uma e a maneira como as
mesmas relacionam-se com o objetivo da comunidade (koinonia). Aristóteles argumenta que
o fenômeno da troca transcorre de um elemento orgânico da sociedade: o fato de umas
pessoas terem mais e outras menos do que aquilo de que necessitam, projetando a partir desta
análise uma reflexão já bastante aprofundada sobre o fenômeno econômico, tanto no que diz
respeito a mecanismos que assistiram a inovações importantes (introdução da moeda), como
ainda à forma de entender o desenvolvimento das operações envolvendo os bens e serviços.
Apesar da inexistência de uma ciência específica determinada pelos antigos gregos
para analisar os elementos de natureza econômica, as sociedades antigas possuíam uma noção

52
A crematística assenta na raiz chrema («coisa que se usa ou de que se necessita»), cujo plural (chremata)
significa «bens, propriedade». Para Aristóteles, é importante distinguir entre o sentido geral de crematística
como «arte de adquirir» e o significado restrito (e também mais usual em grego) de «arte de produzir dinheiro»
(Vide FINLEY, 1984, p. 278-9).
60

não teorizada de um sistema que compreendia o âmbito do econômico, materializando-se por


meio da corpora documental53 advinda da Antiguidade nas quais os preceitos econômicos,
tais como compreendidos à época, são endereçados na Grécia Antiga, no período dos séculos
V e IV a.C.

Tabela 3: Tabela de Corpora Documental sobre Economia Antiga54

Historiadores Heródoto, Tucídides, Xenofonte, Políbio


Filósofos Platão, Aristóteles,Teofrasto
Oradores Demóstenes, Lísias, Andócides, Isócrates
Escritores de Comédia Aristófanes
Inscrições Inscriptiones Graecae
Fonte: Adaptada de AMEMIYA, Takeshi. The Economic Ideas of Classic Athens. Stanford: University of
Stanford, Califórnia, 2004, p.58.

Segundo Takeshi Amemiya, existe uma distinção fundamental entre os autores da


historiografia que estudam a economia do mundo antigo e a percepção dos autores clássicos
acerca do referencial econômico. A antítese consiste no fato de que os “historiadores
econômicos modernos estão principalmente preocupados com a forma como as pessoas se
comportam”, e os escritores clássicos, como Platão, Aristóteles e Xenofonte “estavam mais
interessados em como as pessoas deveriam se comportar” (AMEMIYA, 2007:62). Assim, o
cerne da percepção dos fenômenos econômicos para autores modernos e antigos consiste na
diferença entre o estudo das práticas econômicas na atualidade versus uma idealização das
mesmas atividades na sociedade grega. O economista Takeshi Amemiya, especializado em
Economia Antiga, infere, portanto, que os fenômenos econômicos implicam uma condição
histórica, cultural, política e sociológica da Grécia Antiga, bem como o plano de fundo ético
em que as atividades econômicas foram desenvolvidas, o que se traduz nas diversas obras que
estabelecem uma interface com as práticas econômicas na sociedade grega.

53
Antes dos trabalhos de Aristóteles, importa referir também que a literatura grega conhecia já́ uma tradição
muito antiga de obras que, de alguma forma, abordavam questões ligadas à gestão de recursos, sobretudo na sua
acepção mais clássica. Assim acontece com os Trabalhos e Dias de Hesíodo que, com o seu pendor conceitual e
didático, acabam por veicular noções úteis ligadas à administração doméstica e familiar. No contexto da Guerra
do Peloponeso e dos seus antecedentes, Tucídides fornece também elementos importantes para a compreensão da
historia econômica da Grécia, em particular a de Esparta e Atenas. Platão, ao descrever a cidade ideal, não deixa
de tratar igualmente de aspectos ligados ao problema em análise, num misto de abstração ideológica e aspectos
da experiência factual.
54
Ver Anexo 5 - Tabela sobre a visão dos autores clássicos sobre o comércio (p. 200-202).
61

Com os conceitos de oikonomia e crematística devidamente introduzidos através da


explanação supracitada, faz-se essencial, para efeito de uma análise teórica didática, retornar à
perspectiva aristotélica a respeito das relações econômicas na AntigaGrécia, em especial suas
observações sobre o comércio (BRESSON, 2016, p.73). Aristóteles desenvolve suas ideias
teóricas sobre o comércio exterior, principalmente na Política. Na política, como sabemos, o
foco de Aristóteles é a polis que, como cada comunidade, é criada com um determinado
objetivo em mente. Formada pela coalescência de unidades menores (aldeias, entre outras), a
cidade atinge, assim, o nível de autossuficiência completa (Política, I, 1.8). A autossuficiência
exprime tanto o objetivo quanto a condição ideal da polis. Entretanto, na narrativa aristotélica,
a autossuficiência é, por definição, inatingível para o indivíduo. Alcançá-la seria uma
incumbência dos animais ou dos deuses (1.1.12); em todos os casos, uma criatura ou
indivíduo sem comunidade. Por conseguinte, a autarquia55 é ao mesmo tempo uma meta e um
ideal para a polis.
O mesmo se observa quando o filósofo discorre acerca da noção de território.
Novamente o conceito de autossuficiência é o ponto fulcral de sua argumentação. Pois, no que
diz respeito à magnitude do território e da polis, “ambos deveriam ser moderados em
tamanho, mas simultaneamente grandes e férteis o suficiente para permitir que os cidadãos
pudessem viver com moderação e liberalmente no gozo do lazer” (Política, 7.5.1). Portanto,
para Aristóteles, as relações que ultrapassam o contexto da polis, sejam elas de natureza
social, política ou econômica, só deveriam intercorrer ao esgotar os recursos da
autossuficiência.
Do mesmo modo, para Aristóteles, as relações extrínsecas à polis podiam decorrer da
necessidade de proteger o território, considerada um imperativo à cidadania.

Se a comunicação com o mar é benéfica ou não, é uma questão em disputa; muito


pode ser dito em ambos os lados. O influxo de estranhos e o aumento da população
são adversos para a boa ordem. Mas, por outro lado, os cidadãos devem ser capazes de
atuar pelo mar, bem como por via terrestre contra um inimigo; e eles vão exigir
importações e exportações. (Política, 7.6.1)

55
Algumas outras passagens em Política e Ética a Nicômaco mostram que a autarquia deve ser entendida tanto
no sentido físico (a disponibilidade de todos os bens necessários para uma vida digna) quanto em um sentido
moral (um ambiente que permite que todos os membros da comunidade busquem a felicidade através do
desenvolvimento de todo o seu potencial). Na percepção de Moses Finley e seus discípulos, a autarquia,
entendida no sentido físico, seria um ideal, levando à conclusão – muito embora Aristóteles não tenha delineado
esta finalidade diretamente – de que a cidade deve ser completamente desligada de comércio exterior. Esta
conclusão estaria baseada na desconfiança que Aristóteles expressa abertamente em relação aos estrangeiros em
geral e aos comerciantes, em particular na tradição de As Leis, na qual Platão descreve em pormenor as maneiras
de tornar a cidade a mais isolada possível. (Leis, 12.949e–953e)
62

Por conseguinte, assim que a cidade atinge certo ponto de crescimento demográfico,
torna-se impossível atender às demandas de autossuficiência da polis por intermédio de uma
prática econômica que atendia somente aos interesses e às necessidades de um grupo social
específico, a aristocracia agrária. Portanto, o comércio surge como uma resposta econômica
impreterível para a manutenção de uma estrutura social políade autossuficiente idealizada na
tônica aristotélica.
Aristóteles considera que é evidente a necessidade do intercâmbio entre a polis e as
comunidades estrangeiras. Muito embora o filósofo idealize a polis a partir de um princípio de
autossuficiência, a construção teórica de um modelo ideal de cidade não impede que
Aristóteles perceba as limitações deste conceito, uma vez que nenhuma polis seria capaz de
obter acesso a todos os gêneros necessários à sobrevivência por tempo indeterminado.
O comércio exterior56 é, portanto, uma necessidade clara e absoluta. Quando se trata
de comércio exterior, Aristóteles considera as necessidades da comunidade sempre acima das
ambições individuais. Esta ideia, que já encontramos, é claramente salientada no Livro VII da
obra Política, quando o filósofo destaca que “é para seu próprio benefício que uma cidade
deve se dedicar ao comércio” (Política,7.5.4). No contexto social de produção que precede as
reformas de Sólon, um dos fatores que obstruíam a ação autárquica das relações comerciais
era a instabilidade dos pesos e medidas de Atenas.

1.6 O princípio econômico das reformas de Sólon a partir da leitura de Karl Polanyi

Com o intuito de estabelecer um recorte alternativo no que tange à análise do


archondato de Sólon baseado na perspectiva econômica, recorreremos à abordagem de Karl
Polanyi em sua obra A grande transformação57. Polanyi foi considerado um dos precursores
do paradigma antropológico ao atentar para o valor desse escopo instrumental relacionado à
pesquisa histórica e sua contribuição para a compreensão contemporânea do advento da
economia. Ao questionar as concepções teórico-metodológicas consolidadas ao longo do
século XIX, Karl Polanyi problematiza as práticas econômicas nas sociedades antigas.

56
Por "comércio exterior" compreende-se as atividades econômicas de importação e exportação, que estão
intimamente relacionadas. O comércio exterior que se limita a "alcançar a autossuficiência natural" faz parte da
"habilidade natural de aquisição", ou seja, retornar-se-ia ao ideal da oikonomia preconizada por Aristóteles como
a manifestação orgânica dos ensejos econômicos, antagonizando com o caráter destrutivo da crematística.
57
Verificar Anexo 6 - Quadro esquemático sobre o livro a grande transformação (p. 204);
63

Polanyi afirma que a economia se constitui como um processo formado de interação


entre o homem e o ambiente social e natural que o rodeia, o qual resulta em contínua oferta de
meios para satisfazer as necessidades humanas. Assim, “o estudo do lugar ocupado pela
economia na sociedade é nada mais do que o estudo da maneira como o processo econômico
está instituído em diferentes épocas e locais. Isso requer a utilização de instrumentos
[conceituais] especiais” (POLANYI, 1968a, p. 148). Portanto, para ele a análise da Economia
Antiga de maneira autônoma à vida social constitui um etnocentrismo metodológico.
Suas publicações demonstraram que, nas sociedades que precederam as economias de
mercado, as atividades econômicas – representadas por ações voltadas à aquisição dos meios
necessários para satisfazer as necessidades materiais dos homens – estavam sempre imersas
ou incrustadas (embedded) nas relações sociais. Ao formular a perspectiva de Antropologia
Econômicanos utilizaremos do conceito de “incrustração/embeddedness58” de Karl Polanyi,
que possibilita inserir as reformas de Sólon na polis atenienses num contexto econômico59.
Nesse sentido, para Marshall Sahlins, no método comparativo de Polanyi “a ‘economia’ é
concebida como um componente da cultura e não como um tipo de ação humana, como o
processo de vida material da sociedade e não como um processo de comportamento individual
de satisfação das necessidades” (SAHLINS, 2004, p. 186).
Ao defender a vertente da Antropologia Econômica, contrariando a visão modernista
que permeava as pesquisas sobreEconomia Política do período, Karl Polanyi (1976, p. 111-
141) fornece um esquema alternativo para as categorias identificadas como comércio,
mercado, moeda, lucro e investimento. A análise empírica da função e da forma de trocas
necessita da formulação do contexto social de produção no qual foram forjadas. O autor
desloca a organização das relações de poder e da posse de riquezas e controle da produção
para o espaço da distribuição de bens e alocação de recursos.

58
O conceito já teria sido utilizado por Richard Thurnwald, que foi uma das maiores influências de Polanyi no
campo da Antropologia Econômica. Thurnwald deve ter sido a inspiração para a adoção do conceito de
incrustação de Polanyi (BLOCK, 2000, p. 7); por outro lado, sugere que Polanyi teve sua inspiração a partir de
uma palavra usada na mineração: enquanto estudava História Econômica britânica em preparação para a Grande
Transformação, ele certamente teve acesso a uma leitura extensiva sobre a história das tecnologias utilizadas na
indústria de mineração britânica, cujo trabalho era extrair carvão que estaria incrustado (embedded) nas paredes
rochosas das minas.
59
Segundo Karl Polanyi, antes da chegada da sociedade moderna até o final do século XVIII encontramos em
todas as sociedades o sistema econômico imerso no sistema social.Assim, anteriormente à nossa época nenhuma
economia era controlada por mercados. Embora a instituição mercado estivesse sempre presente na história
humana, "seu papel era apenas incidental na vida econômica" (POLANYI, 2000, p. 59). De acordo com Polanyi,
esta categoria conceitual de incrustração impossibilitava a dicotomia entre o viés econômico e social, que resulta
do advento da Revolução Industrial – onde as sociedades não faziam distinção entre práticas econômicas e não
econômicas, à medida que tornava-se difícil identificar os processos econômicos isolados.
64

Seguindo a análise de Allen Sievers acerca das prerrogativas conceituais de Karl


Polanyi, o viés teóricoinerente à trajetória da obra de Polanyi e sua filosofia política é
permeado de elementos históricos, sociológicos antropológicos e econômicos. Tais elementos
foram o alicerce instrumental utilizado por Polanyi para compreender a sociedade capitalista.
Por intermédio de tais ferramentas metodológicas foi possível desenvolver uma investigação
das sociedades antigas nas quais mercados/comércio/moeda não formavam uma tríade
articulada e elevar a economia enquanto elemento enraizado em outras instituições sociais.
Para Sievers,
as suas proposições teóricas básicas parecem providenciar uma base permanente
para uma ciência econômica genérica ou até para uma ciência social genérica: o
homem é um animal social; o homem é um ser unificado; a sociedade deve
funcionar como um todo coerente; a atividade econômica é apenas uma função
social e deve estar subordinada à totalidade do complexo social (SIEVERS, 1949, p.
318-319).

A tese fundamental de Polanyi consiste em afirmar que o modelo econômico


capitalista não deve ser aplicado em relação às sociedades antigas devido a seu caráter
desvinculado e autonomizado em face às práticas sociais. Em tais sociedades, o
desenvolvimento da produção e distribuição não está relacionado ao interesse individual na
posse de bens, mas à tentativa de preservar o contexto social. Por conseguinte, a justificativa
para produção não decorre de interesses especificamente econômicos, mas pode estar ligada a
um conjunto de fatores sociais que variam de acordo com cada grupamento humano: a
necessidade de preservar vínculos familiares ou uma posição social, a adesão a um código de
honra ou a valores tradicionais dentre outros (POLANYI, 2000, p. 63-64)60. Logo, o que as
sociedades pré-capitalistas adotam como referencial em nível econômico só pode ser
compreendido em relação ao valor social/prestígio e a nível político/manutenção de poder,
distanciando-se da concepção capitalista que relaciona a economia a preceitos como
investimento, lucro, entesouramento e riqueza.
Em contrapartida, nenhuma sociedade pode sobreviver sem a presença de algum
referencial econômico, ou seja, sem assegurar-se de sua reprodução material. Esta consiste
sempre em alguma forma de simbiose entre a sociedade (na forma de um indivíduo ou de um
grupamento humano) e a natureza, com a mediação de algum instrumento. No entanto,
considerados apenas em sua condição de elementos do processo de trabalho, não há nada
nesses três fatores que permita sustentar uma interdependência entre os diferentes atos de

60
Tanto Polanyi quanto, antes dele, Alexandre Chayanov (1981) são autores que influenciaram o
desenvolvimento de uma corrente teórica da Antropologia que afirma a existência de sociedades em que a
economia permanece uma dimensão não autônoma da vida social. Os trabalhos de Marshall Sahlins (1972) e
Pierre Clastres (1988), entre outros, são desdobramentos recentes dessa perspectiva.
65

produção, aquela recorrência que é essencial para conferir estabilidade e unidade à atividade
econômica.
O arcabouço metodológico de Polanyideriva do seu reconhecimento da afinidade
teórica fundamental que se estabelece entre a antropologia econômica e os sistemas
econômicos comparados. A economia em seu sentido substantivo, ou primitivo, constitui a
base conceitual e metodológica da abordagem preconizada pelo autor. Esta concepção, da
qual Polanyi era sectário, afirma que a economia se constitui como um processo formado de
interação entre o homem e o ambiente social e natural que o rodeia, o qual resulta em
contínua oferta de meios para satisfazer as necessidades humanas. Assim, “o estudo do lugar
ocupado pela economia na sociedade é nada mais do que o estudo da maneira como o
processo econômico está instituído em diferentes épocas e locais. Isto requer a utilização de
instrumentos [conceituais] especiais” (POLANYI, 1968a: p. 148).
Polanyi antagonizava com o arcabouço teórico compilado pelo esquema formalista
que analisa“economia enquanto um processo instituído de interação entre o homem e o seu
ambiente, o qual resulta numa contínua oferta de meios materiais para satisfazer as suas
necessidades, esta sim com caráter universal”(MACHADO, 2009, p. 29).No pensamento de
Karl Polanyi encontra-se a distinção entre as vertentes da Antropologia Econômica, a
economia no sentido substantivo(enquanto processo instituído) e a economia no sentido
formal (baseada na lógica da ação racional).
No passado, sustenta Polanyi, a atividade econômica estava incrustada nas relações
sociais que definiam a comunidade como um todo. Desse modo, defenderemos a premissa de
que as reformas de Sólon estavam profundamente relacionadas ao sistema econômico
ateniense, muito embora estivessem imersas às práticas sociais. Devido a essa relação binária
de dependência entre o social e o econômico, as medidas legislativas implementadas por
Sólon aparecem sempre incrustadas no contexto social. Logo, ao promulgar leis de caráter
econômico como a seisachtheia, Sólon reorganizou os segmentos sociais, evidenciando o
caráter análogo das práticas sociais e econômicas.
Assim, anteriormente à nossa época, nenhuma economia era controlada por mercados.
Embora a instituição mercado estivesse sempre presente na história humana, "seu papel era
apenas incidental na vida econômica" (POLANYI, 2000, p. 59). Apropriar-nos-emos,
portanto, do escopo conceitual formulado por Polanyi ilustrado através do esquema a seguir:
66

Tabela 4 –Esquema dos conceitos de Karl Polanyi61

Conceitos Processos Instituição Aplicabilidade


Movimento entre grupos Implica grupos sociais de Contexto social da polis
Reciprocidade simétricos mesma categoria e ateniense que precede o
organizados simetricamente archondato de Sólon
Movimento de apropriação Pressupõe a existência de Período da crise agrária
Redistribuição um poder centralizado que ateniense
organiza e define a
sociedade
Movimento de produção Atividade econômica Existente durante o
para uso próprio baseada motivada pela necessidade governo de Sólon
Domesticidade na autossuficiência de provisão e a produção
conduzida com vista ao seu
uso direto pelos membros do
grupo
Movimento das relações Explica a impossibilidade de Perceptível nas práticas de
econômicas nas sociedades separar mentalmente a cunho econômico
antigas inseridas nas economia de outras presentes no código
Incrustação práticas sociais atividades sociais antes da legislativo de Sólon,
(Embebedness) chegada da sociedade incrustado em ações de
moderna cunho social como a
reorganização das
magistraturas

O princípio da lei da oferta e da procura62 tem por base a escassez de um bem e das
ilimitadas necessidades humanas a serem satisfeitas. As sociedades antigas dispunham de
recursos ilimitados e a riqueza visava à circulação de bens como forma de aquisição de apoio
político, prestígio e formação de alianças. As mercadorias detinham o valor de uso e não o
valor estipulado pelo mercado; a economia, em resumo, era acessória à sociedade.
Atribuir a nomenclatura de timocrática à empreitada socioeconômica de Sólon
corrobora o argumento de Karl Polanyi, uma vez que as medidas econômicas adotadas por
Sólon foram o resultado do panorama sociopolítico enfrentado pela sociedade ateniense
durante os séculos VIII e VII a.C., que culmina com a crise agrária. Ainda que essa distinção
entre político, social, econômico e religioso seja uma construção moderna, nós utilizaremos o
recorte econômico de nosso objeto de estudo para compreender melhor o aspecto conjuntural
da polis de Atenas.

61
Para um panorama detalhado acerca dos conceitos de reciprocidade, redistribuição e domesticidade e
simetria,verificaros Anexos 7 a 12 (p.205-210) para verificar os esquemas de estudo redigidos por Karl Polanyi.
62
Karl Polanyi parte da perspectiva econômica de maneira extrínseca à economia de mercado, da lei da oferta e
da procura. Em sua abordagem, tais preceitos têm sua origem com o advento da Revolução Industrial e, portanto,
sua aplicabilidade em relação à Economia Antiga se tornaria anacrônica. Observar os anexos para as anotações
de Polanyi acerca das perspectivas de lucro, dinheiro, formas de comércio, formas de integração
67

Transitando por essa perspectiva de análise, as práticas econômicas só ganham


unidade quando integradas às suas motivações, que neste caso são extra econômicas. Diante
desses contextos sociais de produção, a existência de uma ordem na produção e distribuição é
assegurada por uma combinação de três diferentes princípios de comportamento: a
reciprocidade, a redistribuiçãoe a domesticidade. Cada princípio está associado a padrões
institucionais que garantem sua aplicação: o padrão de simetria, o de centralidade e o de
autarquia63. Segundo Polanyi,
todos os sistemas econômicos conhecidos por nós, até ao fim do feudalismo na
Europa Ocidental, foram organizados segundo os princípios de reciprocidade,de
redistribuição,de domesticidade ou alguma combinação dos três. Esses princípios
eram institucionalizados com a ajuda de uma organização social a qual, inter alia,
fez uso dos padrões de simetria, centralidade e autarquia. Dentro dessa estrutura, a
produção ordenada e a distribuição dos bens era assegurada através de uma grande
variedade de motivações individuais, disciplinadas por princípios gerais de
comportamento. E, entre essas motivações, o lucro não ocupava lugar proeminente
(POLANYI, 2000, p. 75).

Tal estrutura é legitimada pelas relações de amizade, consanguinidade, status e


hierarquia, a exemplo da inserção da classe dos pentacosiomedimnos por Sólon, cujo objetivo
era a manutenção do status do referido segmento social por meio das relações de prestígio.
A redistribuição insere-se no âmbito das relações econômicas internas e externas de
Atenas, na medida em que Sólon promove uma organização interna visando ao contato com
centros comerciais e mercantis externos, mediante a exportação de produtos como vinho,
azeite e cerâmica, que auxiliam na inserção de Atenas na rota comercial e mercantil do Mar
Egeu.
Seguindo a proposição de Polanyi, o conceito de reciprocidade pode ser encontrado
em sociedades nas quais “as mercadorias não são acumuladas nem mesmo possuídas
permanentemente”.Tal princípio demarca, portanto, uma conjuntura econômica interna da
polis ateniense, permeada por uma estrutura social relativa ao parentesco, à vizinhança e ao
sentimento de comunidade (koinonia). A definição de tal princípio contempla o contexto
social de produção da polis ateniense no período que precede a ascensão de Sólon como
archonte.
Logo, é possível inferir que, na conjuntura histórico-social que precede o governo de
Sólon em Atenas, identifica-se o conceito de reciprocidade como mecanismo regulador das

63
Polanyi (2000, p. 67-9) menciona ainda o princípio da domesticidade, cujo padrão institucional seria a
autarquia ou grupo fechado e que consistiria na produção para uso próprio. Em um texto posterior (POLANYI,
1976b), ele prefere omitir esse princípio, que corresponderia à oikonomia dos gregos, tratando-o como um caso
particular do princípio de redistribuição.
68

relações econômicas, pois sua principal característica seria a “reciprocidade no


comportamento social” (POLANYI, 2000, p. 69).
A terceira proposição teórica de Karl Polanyi aplicável ao período das reformas de
Sólon corresponde ao conjunto de práticas econômicas às quais atribuiu a nomenclatura de
domesticidade (ibidem, p. 73). Em todos os estágios de suas formulações metodológicas,
Polanyi certifica que as ações econômicas estão mescladas às relações sociais, geralmente
políticas, e é só a partir dessas relações sociais que se podem agrupar os atos econômicos.
No pensamento aristotélico, a venda dos excedentes não precisa destruir a base da
domesticidade. Em tal argumento consiste o principal fundamento das reformas de Sólon: a
manutenção de uma base econômica rural aliada à produção voltada para o mercado –
exemplificada pelos incentivos às práticas comerciais e mercantis, bem como a reestruturação
agrícola da polis e a hierarquização da sociedade em segmentos – reforçando o arcabouço
conceitual da incrustação (embebedness),que promove uma inserção das práticas econômicas
na organização social.
Por meio da empreitada econômica, incrustada nas relações sociais que se interpõem
no código legislativo outorgado por Sólon, inicia-se uma passagem do paradigma político
para a edificação de um imaginário em torno dos valores econômicos na Antiguidade. É pelas
práticas econômicas que a polis ateniense, representada da figura de Sólon, consegue
suplantar a crise agrária e alçar a posteriori um status hegemônico nas relações mercantis do
Mar Negro e do Mar Egeu.
69

2 CRISE AGRÁRIA: A SINGULARIDADE DO CASO ATENIENSE

Em meio a um contexto de crise agrária na Ática, os segmentos sociais aristhoi e


hectemoroi se enfrentavam em um embate que ameaçava gerar uma stásis. Os mecanismos
propulsores da crise ateniense desencadear-se-iam por ocasião do modelo de desenvolvimento
adotado durante os séculos VIII e VII a.C64.
Embora a historiografia assinale a distribuição irregular da terra como estopim para os
antagonismos sociais que eclodiram ao longo do VI século a.C., a construção tardia de uma
identificação comum aos atenienses que contemplasse toda a extensão territorial Ática65 e a
herança cultural compartilhada entre os helenos constituíram um fator de suma importância
para a elevação das disparidades sociais e, consequentemente, as disputas por elementos de
identificação como status e a posse de terras.
Isto se deve, segundo Josiah Ober, ao fato de que a polis ateniense no “período
anterior à Sólon” não era permeada por um sentimento de identidade66 e coesão. O autor
afirma que:
por volta do século VII [a.C.], os muitos nativos residentes da Ática eram
conhecidos pelos outros gregos e, por uns aos outros, como atenienses e, como tais,
partícipes em um dialeto comum e de sua terra natal (OBER, 2015, p. 146).

Entretanto, Ober considera que o fato de coabitarem o território Ático e


compartilharem um idioma comum ainda não formalizava a existência de uma identidade

64
Para um panorama geral acerca da conjuntura política e organização social da polis no período que precede o
archondato de Sólon verificar Anexo 13 - Forma Política do Archondato no Período Arcaico (p. 210)
65
O pesquisador Josiah Ober aponta que o território ateniense de origem Ática se estendia até 2.500 KM 2 ,
compatível a cerca de um terço dos territórios da Lacônia e Messênia combinados. A população total da polis
ateniense no IV século a.C., após a guerra e um consequente número maciço de vítimas, é estimada em
250.000,00 habitantes.
66
Na tentativa de compreender a identidade grega, os estudiosos buscaram explicá-la sob a definição de
etnicidade cunhada no pensamento antropológico desde pelo menos os anos 1960. I. Malkin, questionando-se
sobre aplicabilidade do termo inventado na metade do século XX, para explicar um fenômeno antigo, defende
que o conceito de etnicidade ainda é o mais viável e significante para a nossa interpretação sobre a percepção de
identidade nas sociedades do passado, pois identidade coletiva é uma forma de identidade étnica e, embora sejam
conceitos amplos e fáceis de empregar, não são sinônimos de etnicidade (MALKIN, 2001, p.3-4) J. Hall, por sua
vez, lembra que os gregos antigos não possuíam um termo que pudesse ser igualado a etnicidade. O termo
éthnos, do qual derivam os termos científicos sociais modernos, simplesmente designa uma classe de seres
(humanos ou animais) que compartilham uma mesma identificação (ALDROVANDI, 2009, p.7; HALL,
2002:17). Mas, ao terem atribuído a solidariedade social de um éthnos ao genos (nascimento) e à syngeneia
(parentesco), os gregos chegaram o mais perto que puderam do nosso conceito de etnicidade (ALDROVANDI,
2009, p.8; HALL, 1998, p.34-40). Na perspectiva do estudioso, portanto, se não houver evidência do que os
grupos pensavam sobre sua identidade torna-se extremamente complicado falar de etnicidade utilizando-se dos
modelos atuais (ALDROVANDI, 2009, p.8).
70

ateniense durante o VII século, à medida que não existia ainda uma coesão social capaz de
promover outros elementos identitários característicos dos atenienses, como a religiosidade,
um legado mitológico coletivo e culto comum. O fenômeno antropológico que promoveu a
construção de uma identificação entre os habitantes do território Ático como atenienses seria
desencadeado, segundo Josiah Ober, em 594 a.C., em virtude da ascensão de Sólon ao poder
em Atenas (Idem)
O caso ateniense é o único conflito agrário de que temos documentação no período
arcaico. O aspecto geográfico de Atenas e a sua exclusão da rota comercial do Mediterrâneo
são condições imperativas para a eclosão isonômica da legislação de Sólon, assim como as
migrações, a infertilidade do solo e a drenagem das regiões pantanosas, somadas ao
superpovoamento sofrido por diversas regiões da Grécia e à queda no índice de mortalidade,
ou seja,“a terra não produzia excedentes necessários para efetuar as trocas comerciais, ofertar
aos deuses e promover o dote para casar a filha”67.Assim, a nova legislação adotada por Sólon
surgiu como uma resposta para as disparidades sociais que permearam a polis a partir do
século VII a.C.

2.1 O desenvolvimento demográfico ateniense

Ao problematizar o processo de “ascensão e queda” da Grécia Clássica, o pesquisador


Josiah Ober considera que, ao longo dos VIII e VII séculos a.C., os atenienses enfatizaram a
“colonização interna e na intensificação da empreitada agrícola [...] em detrimento da
colonização ou expansionismo regional”. Segundo o pesquisador, os atenienses, assim como
os espartanos, não participaram ativamente nos primeiros grandes levantes de colonização
grega. Assim, Ober argumenta que no período que antecede a transição política que demarca
o início do archondato de Sólon, Atenas não se dedicava a colonizar outros locais, como
faziam as demais poleis, pois neste período era inexequível que “as elites atenienses
mobilizassem os recursos sociais necessários para uma empreitada em larga escala como a
colonização exterior”. (OBER, 2016, p. 145).

67
CANDIDO, Maria R. Synoicismo:Controle político através da unificação geográfica da Ática.Revista
Maracanan, 2013.
71

Mapa 1 - Expansão do Mundo Grego (800-300 a.C.)

Fonte: OBER, Josiah. The Rise and Fall of Classical Greece. The Princeton History of the Ancient
World. Princeton; Oxford: Princeton University Press, 2015, p. 134.

Nas demais poleis, informa Anthony Snodgrass, o aumento demográfico sofrido pelo
território foi um fenômeno físico de imenso impacto que desencadeou uma reação estrutural
na qual a população que havia crescido na Ática assim como em outras localidades provocou,
por conseguinte, um aumento na intensidade do cultivo da terra, diminuindo a fertilidade do
solo. Na leitura de Pierre Vidal-Naquet, tal conjuntura resultou na insuficiência de
produtividade do solo que, associada à prática de divisão da terra do pequeno proprietário aos
herdeiros, reduziu o espaço de cultivo, levando-o à prática da agricultura de subsistência
(VIDAL-NAQUET, 2007, p. 74); assim, a terra não produzia excedentes necessários para
efetuar as trocas comerciais, fato evidenciado por meio da regulamentação legislativa das
práticas relacionadas à exportação e importação dos alimentos produzidos na polis ateniense.
A evidência para o crescimento da população baseia-se principalmente no aumento
das evidências relacionadas aos enterros em várias regiões da Grécia (incluindo Atenas e
Ática) a partir do período arcaico. Embora tenha havido um grande debate sobre a relação
entre o registro arqueológico e tamanho da população, um consenso geral parece ter sido
alcançado em dois pontos. Em primeiro lugar, apesar da existência de flutuações regionais a
curto prazo, houve crescimento populacional constante, de aproximadamente 0,25% ao ano,
em toda a Grécia a partir do século X até o século IV a.C. Em segundo lugar, o crescimento
72

parece ter sido particularmente forte (até 1% ao ano) no período do final do século VIII até o
século V a.C., um período correspondente ao florescimento cultural e político da polis grega.
Evidências de sepultamentoem Atenas e na Ática tem sido fundamentais para os argumentos
que apontam para um forte crescimento populacional nesse período. (FORSDYKE, 2006, p.
335-6)
O caso da expansão territorial e demográfica de Atenas ocorreu de maneira diferente,
na medida em que o contingente populacional da Hélade não sofreu o mesmo crescimento
exponencial do qual foram acometidas as outras polis gregas, não podendo dispor de homens
para os movimentos migratórios. Por consequência desse contexto político singular, o modelo
de colonização ateniense não contemplou a estratégia expansionista adotada pelas demais
poleis, afastando-se até mesmo da perspectiva de anexação de territórios adjacentes adotada
por Esparta (OBER, 2015, p. 145).
Entrementes, a Historiografia francesa, em especial Pierre Vidal-Naquet, analisa o
período de Sólon como o marco inicial para o processo de colonização exterior ateniense, com
ênfase em estabelecer entrepostos comerciais (emporion68) nas regiões do Mar Negro como
lugar de trocas comerciais para assegurar a importação de cereais, metais e produtos agrícolas
essenciais à sobrevivência da polis. Para Vidal-Naquet, a crise agrária do Período Arcaico
desencadeou um processo gradual de conscientização por parte da população em relação aos
problemas com o abastecimento de alimentos. Nesse sentido, Sólon teria interditado a
exportação de qualquer produto agrícola ateniense, com exceção de vinho e azeite, buscando
assegurar o controle das rotas pelo Mar Negro (VIDAL-NAQUET, 2007, p. 88).
Conforme discussão fomentada pelos apontamentos da pesquisadora Lin Foxhall
(1997), concluímos que esse é um dos fatores que contribuem para uma tentativa de
reorganização social, com o critério censitário de cidadania efetivado a partir das reformas de
Sólon, visando o regresso daqueles que haviam sido vendidos como escravos em consequência
da crise agrária, uma vez que a escravidão por dívida comprometeu o futuro da região de
Atenas. De fato, tem sido amplamente aceito que a pressão populacional, a escassez do solo
ático, a pressão sobre os recursos agrícolas, e as causas ecodemográficastenham

68
O historiador John-Paul Wilson alerta para as questões referentes ao uso do termo emporion. Para ele, existe
uma divergência na historiografia entre o emprego dos termos emporion ou apoikia. A apoikia transmite uma
ideia da criação de uma polis à sua própria imagem; e, no século VIII a.C., afirma Wilson, o conceito de polis
ainda não estava amadurecido o suficiente para refletir outra terminologia derivada, tal qual a apoikia. O
pesquisador conjectura que a oposição criada entre os termos emporion/apoikia resulta de uma criação do
Período Clássico e reflete as preocupações e desejos da época. A oposição parece não ter existido, pelo menos
não de uma forma tão rígida, em meados do V século a.C. Ainda que a distinção entre emporion e apoikia não
esteja nítida no Período Arcaico, não é menos verdade que foram diferentes assentamentos criados com muito
diferentes motivos em mente. A consideração do uso de uma tipologia mais sutil de comunidades iniciais é
recomendável, pois evita a classificação rígida da divisão emporion/apoikia (WILSON, 1997, p. 112-3).
73

desempenhado um papel altamente significativo nos problemas socioeconômicos enfrentados


por Atenas no período de Sólon.(FOXHALL, 1997, p. 65-6)
Os registros arqueológicos fornecem, segundo Foxhall,a materialização das fontes
necessáriasao contexto histórico do Período Arcaico, embora sejam, por natureza, “em grande
parte inadequadas para reconstruir a história política”. Fundamentada nas investigações do
pesquisador Anthony Snodgrass - considerado um dos precursores na análise do levantamento
funerário - Foxhall conclui que a evidência da elevação do número de túmulos do século VIII
a.C.tem sido geralmente interpretada como um fenômeno demográfico. A autora depreende
que eles também constituem, evidentemente, um processo de natureza econômica (Ibidem, p.
65-66).
Contestando as proposições elencadas por Anthony Snodgrass, Ian Morris argumenta
que o VIII século a.C. foi considerado um período decisivo, pois os registros arqueológicos
apontam para um flagrante crescimento demográfico, entretanto o autor defende que “a
popularização das práticas de enterro e funeral haviam se tornado mais inclusivas durante esse
período”, transpondo as barreiras sociais. Desse modo, afirma Morris, a abertura das práticas
funerárias aos segmentos sociais menos proeminentes está intrinsecamente relacionada à crise
agrária do século VI a.C., na medida em que a segregação posterior imposta pela elite é uma
tentativa de restaurar seu lugar social de fala como aristocracia, restringindo a acessibilidade e
tornando mais exclusivas todas as práticas fúnebres que no século VII eram consideradas
comuns aos habitantes da Ática (MORRIS, 1987, p. 156-159).
Com o intuito de demarcar seu status perante a sociedade, as elites locais investiram
na suntuosidade dos enterros, estendendo os dias determinados para as práticas funerárias de
maneira a ostentar a proeminência de tais rituais. A suntuosidade tornar-se-ia uma marca dos
funerais em Atenas durante o século VIIa.C., e o exagero seria característico dos funerais das
famílias aristocráticas, antagonizando com as práticas funerárias dos demais segmentos
sociais. As lamentações também contribuíam para marcar a memória do falecido e denotar
sua proeminência como membro de sua comunidade. A partir da legislação de Sólon é
possível perceber que tais práticas envolviam a contratação de pessoas desconhecidas para
fazer quórum ao ritual de lamentação por meio de choro e de autoflagelação (CANDIDO,
2012, p. 89)
As disparidades sociais presentes nos rituais funerários tornaram-se tão flagrantes que
no século VI a.C., Sólon concebeu uma lei proibindo algumas práticas e regulamentando os
cerimoniais fúnebres de enterramento. Reforçando a memória das práticas referentes ao
período de Sólon, Plutarco informa que Sólon reprovava o antagonismo existente nos ritos
74

funerais, pois tais práticas eram pertinentes a um contexto social de produção anterior a seu
archondato que estimulava as desigualdades sociais presentes na sociedade ateniense. Para
refrear “os deslocamentos, manifestações de luto e festividades das mulheres, estabeleceu
uma lei que reprimia a desordem e o excesso” (MORRIS, 1987, p. 170).
Ainda de acordo com Plutarco, através da legislação, Sólon impediu as mulheres de se
lacerarem com golpes, de fazerem lamentações fingidas e de chorarem um estranho no funeral
de outras pessoas. Não permitiu ainda que se imolasse um boi em honra dos mortos, que se
deixassem mais de três peças de roupa com o defunto e que se visitassem as sepulturas
estranhas à família, exceto no dia do funeral. (Vidas de Sólon, Fr. 21.6)
Concluímos, portanto, que a crescente popularização dos rituais fúnebres contrapõe a
premissa do aumento demográfico ateniense no Período Arcaico, a medida em que o censo
promovido por pesquisadores como Anthony Snodgrass e, mais recentemente, Gilbert Murray
baseia-se em evidências extraídas a partir de registro arqueológico do cemitério do
Kerameikos. A utilização comparativa do registro arqueológico sugere que tanto Atenas
quanto as planícies da Ática foram menos densamente povoadas no VII e VI séculos a.C. que
outras regiões da Grécia. Dialogando com a proposição de Lin Foxhall, é justo dizer que os
tamanhos dos assentamentos do Período Arcaicoaumentaram gradualmente com o nível geral
de prosperidade material, mas ainda não estavam no nível elevado atingido no V e IV séculos
a.C. Esse padrão dificilmente sugere excesso de população ou de uma paisagem que se
aproxime sua capacidade total de carga no Período Arcaico.
Retomando a proposição reiterada por Josiah Ober acerca do padrão de colonização da
polis ateniense, percebemos que é somente a partir do V e IV séculos a.C. que o processo de
expansão territorial e identitária de Atenas se desenvolve, obviamente com variações locais,
regionais, mas datando de aproximadamente o mesmo tempo que as fontes literárias clássicas
postulam. Essa informação fornece suporte à desestruturação do modelo de crescimento
demográfico elaborado pela historiografia, sugerindo, em contrapartida, o declínio do
contingente populacional ateniense no intervalo dos séculos VIII e VIa.C., que contribuiu para
a eclosão de uma crise agrária no Período Arcaico. A evidência desta pesquisa não corrobora
a premissa da superlotação do território ático durante o Período Arcaico.
75

2.2 A Cultura Cerealista da Grécia

O autor Alfonso Moreno realizou um levantamento acerca da capacidade produtiva da


Ática durante os períodos Arcaico e Clássico, concluindo que o “fornecimento de alimentos
da polis era um problema e exigia constante atenção e intervenção política” (MORENO,
2007, p. 23). Para ele, a pobreza do solo ateniense e a extrema escassez e variabilidade das
taxas de precipitação do território ático são fatores responsáveis pela baixa taxa de produção
de grãos que impulsiona o desenvolvimento do comércio marítimo ateniense baseado na
importação dos artigos escassos e exportação do excedente produzido.
Além da alta variabilidade no clima e nas taxas de precipitação do território ático,
outros elementos contribuem para a improdutividade do solo ateniense. Peter Garsney (1988,
p. 91-98) contraria a proposição elencada; estima uma extensão de terras cultiváveis em 2.400
km2 . Garsney, dialogando com Robin Osborne, calcula que uma parcela de cerca de 35 a 40%
desse território fosse cultivável. O autor defende um sistema de rotação de culturas garantindo
que a maioria, se não todos, dos alimentos fosse produzida nas terras cultiváveis a cada ano.
Como uma medida para evitar o esgotamento do solo que, invariavelmente, resulta da sua
cultura contínua, Garsney argumenta que um rebanho significativo de gado deveria ser
mantido por perto da plantação para que seu estrume fosse reunido e espalhado pelo solo,
agindo como fertilizante.
Tendo em vista que as pesquisas sobre os índices relacionados ao coeficiente de
produtividade do solo grego adotam como referencial os resultados apresentados por Auguste
Jardé, consideramos imprescindível cotejar as informações apresentadas pela historiografia
com os parâmetros adotados porJardé, considerado um dos precursores dessa análise e que
apresenta um prognóstico ainda mais cético. Para esse autor, o contingente de terras cultivável
inerentes à Ática atingiria somente a proporção de 20% dos territórios considerados férteis e
produtivos. As abordagens de Peter Garsney e Auguste Jardé divergem em três variáveis
cruciais: a quantidade de terras cultiváveis, a quantidade de terra cultivada em qualquer dado
ano e a taxa de consumo de cereais.(JARDÉ, 1925, p. 52-5)
Concluímos, portanto, que as condições do solo pobre, combinadas com a constante
ameaça de problemas envolvendo a projeção das safras e a incerteza quanto à sua extensão
geográfica e anual, parecem excluir a possibilidade da região de Atenas como produtora
estável e regular de grãos para o abastecimento dos habitantes da polis.A região de Eleusis,
76

entretanto, parece ter fornecido uma fonte de sustentabilidade – ainda que parcial – para a
polis grega.
De fato, o historiador André Chevitarese fornece uma interpretação explicativa,
elencando o diferencial da região de Eleusis em termos pluviométricos – um elemento
imprescindível para a produtividade agrícola quando somado à fertilidade do solo. Ao analisar
a variação dos índices pluviométricos das regiões de Atenas e Eleusis, precisamente o recorte
geográfico que concerne nossa pesquisa, o autor se depara com disparidades entre as
condições de produtividade das regiões. Segundo ele, “houve, ao longo de todos os anos,
chuva suficiente para garantir a produção de cevada nas duas regiões” (CHEVITARESE,
2000, p. 51). Entretanto, na amostra temporal eleita pelo autor a região de Eleusis pôde
produzir trigo durante nove anos, enquanto a região de Atenas teve a produção desse cereal
comprometida ao longo de três anos. Ainda de acordo com a análise de Chevitarese,
a Ática apresenta um fracasso de 28% na sua produção de trigo, 5,5% na colheita da
cevada e 71% na produção de legumes secos. Estas perdas não representam, a
priori, uma situação de anormalidade, já que, desde a Antiguidade, Atenas procurou
compensar as suas quebras nas colheitas com a importação dos referidos produtos
agrícolas (ibidem, 2000, p. 50).

Para esse autor, grande parte do sucesso de Eleusis como região produtora em relação
a Atenas deve-se ao fato de a primeira ser banhada pelo mar, o que impulsionaria o percentual
de chuvas por ano, além de tornar o solo mais fértil pela constante renovação dos minerais
trazidos pela água e a areia do mar.O historiador Alain Bresson compactua com esta análise,
afirmando que “em Atenas existe uma possibilidade de 28% de que o nível de precipitação
seria muito baixo para permitir a colheita de trigo” (BRESSON, 2016, p. 158).
A agricultura da Antiguidade grega consistia basicamente da chamada “tríade
mediterrânea”. As escassas partes do território ático consideradas férteis, em especial Eleusis,
eram voltadas para o cultivo e a manufatura de grãos, azeitonas e uvas69. De modo
secundário, os suprimentos contavam com a adição de atividades como a criação de animais,
de modo particular ovelhas e cabras. Segundo Pierre Vidal-Naquet, o ato de “consumir os
grãos, o vinho e cozinhar a carne dos sacrifícios era a definição de cultura” (VIDAL-
NAQUET, 1986, p. 15).
Os grãos constituíam a maior parte do suprimento alimentício dos gregos. Para Alain
Bresson, uma média de 70% das calorias necessárias eram obtidas nos cereais. Os gregos
utilizavam o termo sitos para definir os cereais que, de modo geral, eram representados pelo

69
Para um quadro elucidativo acerca do calendário das atividades agrícolas verificar Anexo 14 - Calendário das
Atividades Agrícolas e Despesas de Eleusis (p. 212)
77

trigo, um cereal da aristocracia; a cevada, de uso mais popular, e o painço, considerado um


subterfúgio alimentício. Os cereais foram a principal medida em todos os períodos do Mundo
Antigo. Quanto uma casa produzia e/ou armazenava grãos,este era provavelmente o indicador
mais confiávelde sua posição econômica em uma economia nãomonetária. O cultivo de grãos
depende de condições específicas de solo, clima e precipitação, conforme delineado pela
tabela a seguir:
Tabela 5 - Cereais da Grécia

Grãos Condições de Cultivo


Era a base da cultura cerealista grega. Produzido em todo o território da Grécia Oriental,
próximo às polis de Égina. Seu cultivo depende de um solo rico em nitrogênio e fósforo e
pelo menos, 600 milímetros de chuva por ano, apesar de ser possível um cultivo mediano por
Trigo
meio de precipitações de 300 milímetros por ano. Seu plantio se favorece pelas temperaturas
frias do inverno.
Produzida no Norte da Grécia Pode ser cultivada em solos mais pobres, com uma média de
250 a 300 milímetros de chuva por ano, produzindo colheitas mais largas, se comparada com
Cevada
o trigo.
Pode ser produzido em solos paupérrimos, com níveis de chuva ainda mais baixos do que os
requeridos pela cevada. Todavia, a quantidade de alimento produzida em relação à extensão
territorial de plantio é bem pequena quando comparada aos demais cereais. Além disso, seu
Painço
consumo propicia poucas calorias e o alimento só pode ser consumido com o cozimento de
seus grãos.
Fonte: Adaptada de BRESSON, Alain. The making of Ancient Greek Economy: institutions, markets and growth
in city-States. New Jersey:Princeton University Press, 2016, p. 118-120.

A aparente divisão geográfica entre zonas de produção ao longo do território ático faz
atentar para dois fatores: a existência de diferentes níveis de fertilidade do solo ático e a
consequente valorização das regiões a partir da perspectiva da produtividade, tendo em vista a
importância dos grãos na pirâmide alimentar grega; e implica que os habitantes das regiões
mais urbanizadas do território grego não poderiam produzir o trigo necessário à sua
alimentação, tornando a importação desse artigo uma necessidade para a sobrevivência da
polis.
De acordo com o pesquisador Julian Gallego, um dos testemunhos examinados pela
historiografia para compreender a formatação da pirâmide alimentar grega e a estratificação
agrícola do território da Ática foram os registros presentes nas inscrições epigráficas dos anos
de 329/8 a.C. de Eleusis. Essa inscrição registra os primeiros frutos (aparkhaí) de trigo e
cevada que as dez tribos da Ática e alguns territórios dependentes deveriam entregar ao
santuário de Eleusis (Inscrições Graecae, II2 1.672). Os montantes requeridos revelam-se nas
78

proporções de 1/600 de cevada e 1/1.200 de trigo, valores estes que desencadearam a


especulação sobre o contingente de produção total da Ática(GALLEGO, 2004, p. 26-7). Essa
análise é importante, pois, segundo a historiografia70, acreditava-se que o ano de 329/8 a.C.
teria sido desfavorável do ponto de vista do desempenho.
A questão de como as avaliações quantitativas realmente teriam operado no Período
Arcaico ou mais tarde tem sido muito debatida. Segundo Foxhall, os argumentos são muito
bem resumidas por P.J. Rhodes e sua conclusão foi em geral aceita pela historiografia que
ninguém normalmente se preocupou em medir a produção, mas os segmentos familiares em
uma atmosfera competitiva de pressão entre os pares, utilizando as medidas em grãos como
critério para avaliar o status social caso o mesmo fosse questionado (FOXHALL, 1997, p.
70).
A pesquisadora Lin Foxhall introduz os valores71 apresentados por Aristóteles e
Plutarco para os diferentes níveis de produção em equivalentes de grãos durante o archondato
de Sólon no Período Arcaico, conforme demonstrado pela tabela abaixo:

Tabela 6 - Medidas em grãos e líquidos

Medidas e equivalentes em grãos da


Ática
48 choinikes = 1medimnos
1 choinix Ático = 1,087 litros
1 litro de trigo “puro = 0,772 kg
1 medimnos de trigo “puro = 40,28 kg
1 litro de farinha de cevada = 0.643 kg
1 refeição de medimnos de cevada =
33,55 kg

70
Os autores da historiografia que adotam o referencial das inscrições epigráficas de 329/8 a.C. da região de
Eleusis são: Josiah Ober (1985, p. 23-4); Robin Osborne (1987, p. 46); Thomas W. Gallant (1991, p. 177);
Robert Sallares (1991, p. 393-4); e Peter Garsney (1998, p. 192).
71
Segundo Lin Foxhall, a média do consumo de grãos per capita foi, provavelmente, 200 kg por pessoa ao longo
do ano. (FOXHALL e FORBES, 1982, p. 41-90). A estimativa da produtividade do contingente de produção que
máxima da terra seria aproximadamente 1000 kg por hectare (1 ha = 2,2 acres); Robert Sallares sugere um
máximo de 650 kg por hectare. Robert Sallares sugere um máximo de 650 kg por hectare. 'Média' consumo de
grãos per capita foi, provavelmente, c. 200 kg por pessoa por ano, Foxhall e Forbes, op. cit. (N. 99). Para a
pesquisadora, dos valores da área de terra estimados acima, as de cevada são suscetíveis ao valor mínimo
possível, e os valores determinados para o trigo podem estar perto do topo, uma vez que a cevada é geralmente
suscetível a produzir uma melhor safra que o trigo em condições de crescimento do Sul da Grécia. Um estudo
comparativo estabelecido apartir dos agricultores de subsistência modernos da Grécia, em Metana, cultivam em
média um território de 3,5 hectares e produzem normalmente entre 1000 e 3000 kg de trigo por ano, destinados
não a venda, mas ao consumo doméstico. A produção de trigo normalmente é excedente para necessidades de
subsistência e as famílias pretendem guardar oferta de grãos de um ano em relação às necessidades do ano
corrente. O cultivo não é mecanizado, utilizando-se de mulas para a manutenção do arado. Entretanto, tal
estimativa de produtividade conta com a utilização de fertilizante de nitrato e às vezes herbicida.
79

Fonte: Adaptada de FOXHALL, Lin. A view from the top: Evaluating the Solonian property classes. In: The
Development of the Polis in Archaic Greece. Routledge: New York, 1997. p. 70.

Interpretamos, assim,que a disponibilidade dos recursos naturais produzidos na Grécia


Antiga não dependia somente de fatores como o nível de produção das propriedades
domésticas.Em contrapartida, esses indicadores de produção estavam sujeitos ao que os
historiadores antigos denominam "crise do tipo antigo", causada por más colheitas advindas
da notória infertilidade do solo, aliada ao desgaste provocado pelo uso contínuo da terra. Para
alguns agricultores, esse fenômeno iniciou uma reação em cadeia, ocasionando a
desestruturação econômica e, em última instância, o processo de endividamento que
desencadeia a crise agrária do Período Arcaico. A baixa produtividade acarretava a redução
dos recursos disponíveis que provocavam o esgotamento de seus estoques de cereais e suas
reservas de gado. Em seguida, iniciava-se o descarte das propriedades acessórias ao oikos,
como os bois e escravos e, finalmente, quando se tornava impossível quitar o montante da
dívida, recorria-se à hipoteca ou até mesmo ocorria a perda da propriedade, promovendo um
processo de acumulação diferencial de riqueza e exacerbando as desigualdades sociais
existentes.
O resultado dessa arguição nos leva a depreender que a manutenção do território de
Eleusis tornara-se necessária para garantir uma parte da demanda de cereais imprescindíveis à
vida na polis. Todavia, o aumento do consumo estimulou a prática da importação, iniciada e
regulamentada por Sólon no período de seu archondato. Essa tese se confirma na medida em
que notamos a transformação dos gostos e hábitos alimentares no intervalo temporal entre os
VI e V séculos a.C. “O pão de trigo, que no Período Arcaico provavelmente era consumido
apenas pelos ricos, gradualmente se espalhou por estratos mais amplos da população”
(BRESSON, 2016, p. 121), devido às importações de trigo provenientes das regiões do norte
do Mar Negro, que produziam uma variedade de trigo (triticum compactum) mais bem
adaptada para produzir pão do que a espécie nativa de Atenas (triticum durum). Entre o VI e o
V séculos a.C., o “pão ateniense começou a ser produzido a partir de grãos importados”,
chegando a competir seriamente com a maza– uma espécie de mingau produzido a partir da
cevada – que era a base da alimentação da maioria da população durante o VI século a.C.,
fornecendo um argumento corroborativo para a existência das empreitadas comerciais
instituídas por Sólon.
80

2.3 Por uma Identidade Jônica

Consideramos que a identidade dos atenienses foi construída a partir do mito de Íon. A
inserção da narrativa mítica de Íon72, um herói epônimo dos jônicos, durante o archondato de
Sólon, reforça o argumento de uma etnicidade73 ateniense ligada às tribos jônicas em
detrimento as origem dóricas, cujo critério identitário remonta à disputa pela posse da região
de Eleusis.
Muitas são as vertentes que buscam uma explicação para a emergência das tribos
áticas. Questionamo-nos se o viés da migração jônica foi adotado por Sólon como narrativa
mítica para a criação de uma identidade helena. Segundo Victor Ehrenberg, o território ático
era formado por quatro phylai: Geleontes, Hopletes, Argadeis e Aigikoreis,que, de acordo
com o autor, seriam provenientes da Jônia, ou seja, os atenienses não seriam povos autóctones
e sim descendentes da Jônia, como afirma Sólon ao se referir a Atenas como uma antiga terra
jônia e, consequentemente, de descendentes de Íon (EHRENBERG, 2011, p. 320).
John Boardman, em contrapartida, afirma que, na visão dos atenienses,“eles sempre
estiveram na Ática, e a mudança necessária para transformá-los em jônicos foi o trabalho de
Íon, que veio e se estabeleceu entre eles e impôs as quatro tribos em homenagem a seus
filhos” (BOARDMAN, 2006, p. 390).
Para a pesquisadora Maria Regina Candido, a ação de unificação da Ática foi mediada
pelo processo decivilidade a partir dos atenienses e resultou nas relaçõesinterpolíades, cujos
princípios se pautam “no principio da relação de philia, que consiste na ação de ajuda mútua
individual, familiar e de vizinhança, [pelo] principio de interação e cooperação das políades”
(CANDIDO, 2012, p. 165).
A priori,argumentaremosque a identidade jônica teria sido implementada por Sólon
como uma estratégia para aumentar a receptividade da seisachtheia mediante à polis, uma vez

72
Segundo Pierre Grimal, no Dicionário de mitologia grega e romana, “Íon é o herói que deu nome aos iónicos.
Pertence à estirpe de Deucalião e é sobrinho de Doro e de Éolo e filho de Xuto e Creusa, filha de Erecteu”.
Segundo a versão do mito explanada por Grimal, Íon dividiu a Ática em quatro tribos e organizou politicamente
o país que, quando ele morreu, tomou seu nome. Mais tarde, os atenienses enviaram uma colônia para Egíalo e
impuseram a esse país o nome de Iónia. Ainda em sua descrição da narrativa mítica, o autor argumenta que
“Eurípedes escreveu uma tragédia sobre Íon que romanceia estes dados lendários” (GRIMAL, 2000, p. 252-3).
73
A etnicidade envolve muito mais a percepção interna de cada membro de um grupo (HALL, 2001, p. 216).
Quando aplicado ao processo de formação de identidade, o princípio é que a autoconsciência é construída por
meio da diferenciação de grupos de fora ou “outros” (HALL, 2007a, p. 255). Nesse sentido, o grupo étnico
define-se não pela soma de diferenças objetivamente observáveis, mas por apenas aquelas que os membros do
grupo, eles próprios, percebem como diferenças significantes. A etnicidade, portanto, depende de categorização,
ou seja, da habilidade em dividir o mundo entre “nós” e “eles” (HALL, 2001, p. 216).
81

que, apesar de integrarem diferentes grupos sociais, descendiam de uma hereditariedade


mítica comum relacionada à ideia de koinonia –o sentimento de pertencimento à
comunidade.Seguindo essa premissa, a escravidão por dívidas se tornaria, teoricamente, uma
prática social não condizente com o conceito de comunidade, pois expõe um segmento social
ao jugo e/ou controle da elite política dominante.
Por esse viés, o advento isonômico adquire contornos políticos, religiosos e
econômicos; a isonomia passa a ser idealizada por via da narrativa mítica de Íon, ou seja, pelo
viés étnico jônico, que se torna um fator de identificação ateniense perante a investida de
Mégara (representante da facção dórica), interessada na região de Eleusis.
Por outro lado, a proximidade entre a ilha de Salamina e a região de Eleusis nos leva a
crer que a manutenção da ilha fazia parte de uma estratégia político-econômica cujo objetivo
era consolidar o domínio ateniense sobre a região fronteiriça de Salamina, que atuava como
porta de entrada para o território mais fértil em grãos da extensão ática.
A importância da manutenção e da sacralização de Eleusis pode ser compreendida pela
notória infertilidade do solo ateniense. A necessidade de sustentabilidade de suprimento
alimentício é o elo primordial para compreender a disputa pela região envolvendo Atenas e
Mégara. O baixo potencial agrícola do conjunto territorial ático é consenso na historiografia;
assim, a classificação das regiões em níveis de importância variava de acordo com sua
fertilidade e consequente produtividade.
A construção de uma identidade baseada na ideia da hereditariedade comum,
relacionada ao processo de unificação ateniense, inicia-se no V século a.C., com o advento
da democracia; contudo, a imagem de Sólon como mediador e strategos teve seu processo
de formação ainda de maneira prévia à sua ascensão como legislador de Atenas. Joseph
Almeida argumenta que o episódio de conflito entre Atenas e Mégara projetou Sólon no
cenário político de Atenas.
A parcela da população representada por aqueles que cultivavam uvas para produção
do vinho ou azeitonas tendiam a ser favoráveis à recuperação de Salamina, cujos recursos
naturais favoreceriam o desenvolvimento do comércio de exportação ateniense. Os
interesses das camadas mais populares, que foram afligidos pela alta dos preços de grãos
resultante da perda do território de Salamina, residiam com o grupo contrário a Mégara.
Segundo Almeida, houve um reconhecimento por parte das facções políticas dos feitos de
Sólon. “As credenciais impecáveis de Sólon como um estadista (...)são decorrentes do
sucesso advindo na guerra com Mégara sobre o controle de Salamina” (ALMEIDA, 2003, p.
8).
82

A posição estratégica das fronteiras entre as duas poleis as tornava alvo de desejo por
parte de Atenas. Segundo Bernard Randall,“não se sabe quem originalmente tinha a posse da
ilha, mas os atenienses certamente acreditavam que deveria ser deles”(RANDALL, 2004, p.
85). Plutarco argumentava que as duas poleis haviam guerreado pela posse de Salamina por
décadas, se não séculos. Todavia, em algum momento após 600 a.C., os megarenses
conseguiram garantir o comando de Salamina de maneira tão decisiva que os atenienses
decidiram abrir mão das terras. Plutarco afirmava que os atenienses estavam tão exaustos da
guerra com Mégara que chegaram a aprovar uma lei punindo com a pena de morte qualquer
pessoa que tentasse recomeçar a guerra pela região de Salamina.
Ora, quando os atenienses se cansaram de alimentar uma guerra morosa e
desgastante contra os megarenses por causa da Ilha de Salamina, proibiram por lei
que alguém voltasse a propor, por escrito ou de viva voz, que a cidade reivindicasse
Salamina, sob pena de morte (Vidas Paralelas, 8.1).

Salamina, uma ilha que se encontra a cerca de um quilômetro e meio de distância tanto
de Atenas quanto de Mégara, estava sob o domínio dos megarenses, conforme ilustrado no
mapa a seguir.
Mapa 2 - Território Ático

Fonte: EHRENBERG, Victor. From Solon to Socrates 6th and 5th.


London: Routledge, 1996. p. 40.
83

De acordo com o pesquisador Lee E. Patterson, “a datação é imprecisa, porém


acredita-se que, por volta de 600 ou 560 a.C.”,uma força ateniense sob o comando de Sólon
teria retomado o território de Salamina. Esse é o ensejo que demarca a ascensão de Sólon
também como strategos, ainda que seus feitos nesse prisma de atuação não sejam
contemplados pela Historiografia. O certo é que Sólon comandou a expedição para recuperar
a Ilha de Salamina e a ele foi confiada a tarefa de liderança das forças militares atenienses que
partiram na empreitada (PATTERSON, 2010, p. 42)
Desde o início da guerra, Sólon teria sido contrário à posição de Atenas de abdicar
do território de Salamina. No entanto, conhecedor da lei, ele utilizou de um estratagema
eficaz para, ao mesmo tempo, não violar a lei e alertar os cidadãos de Atenas. Sólon teria
recitado uma elegia repreendendo publicamente seus concidadãos atenienses. A multidão se
aglomerou à sua volta e ele, “montado na pedra do arauto”, ameaçou renegar sua origem
ateniense se eles traíssem Salamina, deixando-a sob domínio dos megarenses. Sólon inicia
seu recital se intitulando um mensageiro de Salamina.
“Um arauto eu sou da amada Salamina.
E me fizeram, ao invés de um discurso uma canção,
que é o um ornamento das palavras.”
Vamos até Salamina, lutar pela encantadora ilha
para nos livrar da terrível vergonha (Sólon Fr.3 [Oeste]).

Depreendemos que este tenha sido um discurso construído para reafirmar a


importância estratégica da região de Salamina para a defesa territorial de Atenas e a
manutenção do estoque mínimo de grãos, na medida em que Sólon estaria disposto a
transgredir a legislação vigente para recobrar a posse do território de Salamina.
Lee E. Patterson constrói sua explanação alegando que o conclame da população não
foi a única estratégia adotada por Sólon. Utilizando o conceito de “parentesco mítico”, o autor
alega que Sólon lançou mão da autoridade dos antepassados para corroborar a validade de sua
empreitada, ao recorrer à genealogia e afirmar que os filhos de Ajax “teriam se tornado
cidadãos atenienses e cedido a ilha para Atenas”74(ibidem, 2010, p. 44), conforme atestado
por seus versos.
Sólon apropria-se de tais argumentos de origem mitológica, porém utiliza-se,
concomitantemente, da premissa da etnicidade75, com o auxílio do Oráculo de Delfos, que

74
Neste ponto, o autor retifica sua afirmação, alegando que, na verdade, Sólon teria utilizado o argumento da
genealogiacombinado à naturalização de estrangeiros. Um indicativo do caráter abrangente que posteriormente
moldaria a essência de sua legislação.
75
O autor argumenta que o caso de Sólon foi fortalecido pelo Oráculo de Delfos, nomeado pelos deuses como
Salamina de jônica.
84

havia declarado a origem jônica de Salamina em detrimento da dórica76. Para Patterson, a


tentativa de aproximação a uma origem em jônica, que segundo Sólon seria compartilhada por
Atenas e Salamina, seria um apelo à afiliação étnica em comum, mas também um fator de
distanciamento entre Salamina e Mégara, que, sob essa perspectiva, não possuíam uma
ancestralidade comum.
A pesquisadora Carolyn Higbie (1997, p. 299) assinala que Sólon ressaltava ainda as
similitudes entre os rituais funerários praticados em Atenas e Salamina. Para Plutarco, Sólon,
“com a intenção de melhor refutar os megarenses, teria encontrado apoio no fato de as
sepulturas dos mortos [de Salamina] não obedecerem ao costume destes, mas sim ao de
Atenas”.Em ambas as poleis os mortos seriam enterrados em direção ao oeste. Higbie (idem)
sustenta que o argumento antropológico foi adicionado ao discurso de Sólon com o intuito de
contrastar as práticas sociais entre regiões e estabelecer uma correlação entre Atenas e
Salamina. O parentesco, nesse sentido, não se estendia aos megarenses, que, de acordo com
Plutarco, “depositam os mortos virados para nascente, enquanto os atenienses o fazem para
poente” (Vidas de Sólon, 10.1.3). Ademais, o objetivo principal seria criar uma identidade
comum as duas poleis baseada no parentesco (ancestralidade) e amalgamada na mitologia.
Consideramosque circulava, no período de Sólon, oimaginário socialpermeado pela
ausência de uma identidade comum entre as classes sociais que compunham a estrutura
políade de Atenas, o que se confirma com o argumento de Kurt Raaflaub (1996, p. 144) que
reforça a premissa de que Sólon, apesar de suas ações isonômicas, não tinha conhecimento do
conceito. Um exemplo seria a divulgação da isonomia – termo precursor da demokratia –que,
em seu sentido literal, tinha como definição a igualdade dos cidadãos perante a lei. Porém, na
prática, o termo exemplificava uma tentativa de promover uma coesão social por meio de um
passado mítico em comum.

76
Sólon (Fr. 10).
85

2.4 Horoi: Para além das barreiras físicas

Um dos principais pilares acadêmicos no tangente aos estudos dos horoi é o notório
historiador Moses Finley77. Seu consagrado artigo Studies in Land and Credit500-200 B.C.:
The Horos Inscriptions78, publicado originalmente em 1952,concentra-se principalmente no
estudo da polis ateniense e contém uma análise detalhada das inscrições epigráficas
encontradas nos horoi79, consideradas pelo autor como marcadores de pedra utilizados para
indicar a existência de um empréstimo ou de outra obrigação em termos de terra ou edifício.
A palavra horos foi originalmente utilizada para denotar um marcador de fronteira e é
aplicada, segundo Moses Finley, seguindo esta conotação nos poemas homéricos e nos
poemas de Sólon. Duas estelas com inscrições, datando 500 a.C., foram encontradas nas
fronteiras da ágora ateniense, com as seguintes inscrições: “Eu sou o horos da ágora”
(THOMPSON e WYCHERLEY, 1972, p. 117–9), conforme indicados pela imagem abaixo:

77
Moses Finley é, em consenso pela historiografia, considerado o primeiro historiador a compilar uma coleção de
todos os horoi conhecidos. Todavia, quando Finley começou a trabalhar nesse projeto, em algum momento na
década de 1940 John Fine já havia recebido os horoi advindos das escavações americanas da Ágora. Fine decidiu
acrescentar uma discussão geral acerca dos horoi de segurança a esses documentos, incluindo todas as
referências aos horoi publicadas anteriormente. Finley tomou conhecimento sobre o trabalho de Fine depois de
já ter começado a sua tese e contatou Fine, que, generosamente, cedeu-lhe as inscrições epigráficas provenientes
dos horoi da Ágora.
78
O artigo Studies in Land and Credit 500-200 B.C.: The Horos Inscriptions, de Moses Finley, foi publicado
pela Rutgers University Press em 1952 e foi reimpresso com uma nova introdução por Paul Millett em 1985. O
livro é diferente de outros livros de Finley, que foram baseados em palestras. O mundo de Ulisses teve suas
origens em uma série de palestras dadas em Bryn Mawr College. O livro Democracia antiga e moderna baseou-
se nas palestras Mason Welch ministradas em New Brunswick, New Jersey, em abril de 1972. Já a obra A
Economia Antiga foiuma publicação de palestras de Finley apresentadas na Universidade da Califórnia,
Berkeley, em 1972. A escravidão antiga e ideologia moderna baseou-se em quatro palestras apresentadas no
Collège de France, em novembro e dezembro de 1978. Política no Mundo Antigo foi a publicação de suas
conferências entregues na Queen’s Universidade, em Belfast, em maio de 1980. Todos esses trabalhos foram
escritos para o público em geral e abordam temas amplos e gerais na História Antiga.
79
Finley apresentou as inscrições epigráficas encontradas em 180 desses horoi no Apêndice I de seu trabalho.
Uma vez que alguns horoi continham até dois textos, houve um total contabilizado de 182 textos.No ano
anterior, o autor John Fine havia publicado um artigo intitulado Horoi: Studies in Mortgage, Real Security and
Land Tenure in Ancient Athens como volume suplementar para seu livro Hesperia. Este continha quarenta
inscrições epigráficas encontradas em 39 horoi recém-descobertos. Finley acrescentou esses novos textos no
Apêndice III do seu trabalho, elevando o montante a um total de 222 inscrições epigráficas catalogadas, embora
nem todos os textos refiram-se a horoi como indicadores de empréstimo.
86

Figura 1 - Horoi80marcadores de fronteira da Ágora (500 a.C.) encontrado ao Leste de Tolos.

Fonte: The Athenian Agora Museum. Foto: Craig Mauzy. Referência: 2008.18.0298.

A análise geral de Finley a respeito dos horoi foi construída sobre três principais
pressupostos. Em primeiro lugar, Finley acreditava na existência de três formas básicas de
segurança real em Atenas (hypotheke, prasis epi lysei e apotimema). Neste ponto, Finley
dialoga com John Fine e outros estudiosos do tema. Em segundo lugar, Finley acredita que
não houve registros de propriedade nos períodos Clássico e Helenístico em Atenas. Em
terceiro lugar, Finley não suportava a existência extensiva de mercados em Atenas, afirmando
que, como resultado, os atenienses muitas vezes não pensavam em termos de
mercado(FINLEY, 1985, p. 13-15).
Esses pressupostos básicos influenciaram diversas de suas conclusões primárias.
Finley argumentou que o verdadeiro sentido de segurança nas leis de Atenas81, tanto no
âmbito jurídico privado quanto na esfera pública, de modo geral tratava de uma seguridade
substitutiva e não uma garantia de segurança. Na forma substitutiva de segurança, o credor

80
Verificar no Anexo 15 - Horoi da Ágora Ateniense com Escalas (p. 213)

81
Moses Finley acreditava que a prática da segurança real fora idealizada principalmente para os ricos e não se
estendia aos outros membros da sociedade. O autor entendia que o uso de segurança real era restrito
principalmente às classes altas. Ele alegou que não havia leis que regulamentassem a prática de segurança real.
De acordo com Finley, a maioria dos empréstimos era utilizada para fins de consumo, mesmo para usos
produtivos (FINLEY, 1952, p. 113).
87

aceita a propriedade como um substituto para o empréstimo, caso o devedor não tenha quitado
a dívida. Assim, o credor não entende a propriedade como garantia, como uma mercadoria
que pode ser trocada por dinheiro no mercado a fim de quitar a dívida. Ele não está
interessado no montante em dinheiro como forma de segurança, e sim na segurança como
propriedade para seu próprio uso. Em termos mais gerais, isso significa que o credor não vê a
segurança como uma mercadoria, apenas como propriedades anexas passíveis de serem
transferidas para a sua posse.
Em algum momento no início do século IV a.C., estes horoi começaram a ser
operacionalizados como marco indicando que a propriedade em que foram alocados havia
sido dada como garantia para alguma operação não quitada82. Na grande maioria dos casos, os
horoi eram posicionados nas propriedades que haviam sido empregadas como garantia para
um empréstimo. Em um número menor de casos, este método era aplicado para garantir o
retorno de um dote ou o pagamento de aluguel. A quantidade de informações sobre o horoi
varia83. A maioria revela o nome e a origem do demos relativos ao indivíduo a quem a
propriedade está comprometida e muitos contém o valor da obrigação. A finalidade deste tipo
de horos era advertir terceiros da existência prévia de um vínculo com o imóvel em questão.
Durante o Período Arcaico, foram utilizados horoi como forma de fronteira
territorial. Moses Finley (1982, p. 113)argumenta que esses marcos de pedra eram
utilizados de forma ambivalente: para a demarcação de fronteiras externas do território
ateniense e para delimitar o estado de servidão em que se encontrava a maioria dos
camponeses submissos aos aristhoi, considerados donos da terra. À medida que o território
recebia uma nova remarcação, os horoi eram reposicionados, simbolicamente representando
o crescimento exponencial da dívida dos hectemoroi e, consequentemente, o estado
crescente de sua servidão. Maria Regina Candido, em argumentação análoga, afirma que
quando Sólon mencionou em sua poesia a retirada dos marcos/horoi deixou transparecer
que os marcos de pedras estavam colocados nas terras dos hectemoroi para indicar a sua
dependência aos aristhoi (CANDIDO, 2012, p. 24).

82
A primeira referência a um horos deste tipo vem do discurso Iseu de Atenas, datado de cerca de 364 aC.,
Existem vários horoi de segurança datados, pela primeira vez, do archondato de Caricleide em 363/2. (HARRIS,
2013, p.127)
83
Segundo Edward Harris, a acepção mais incerta dos horoi é a terminologia utilizada para determinar segurança
real. Em apenas sete horoi, encontra-se o termo hypokeimeno, que pode ser traduzido como "deitado sob uma
obrigação." Em um grande número de horoi (128) na coleção de Finley encontramos um tipo diferente de
expressão: pepramenou, ou epi lysei, que é muitas vezes traduzido como "venda sob condição de lançamento."
Em cerca de cinquenta horoi identifica-se um terceiro tipo de expressão, apotetimemenou. Na documentação
encontra-se um quarto tipo de horoi, enechyron, entendido como mandato de segurança real, que não é
encontrado nos horoi catalogados por Moses Finley. (HARRIS, 2013, p.128)
88

Por outro lado, Sólon menciona dois tipos de terra que estavam alocados de forma
abusiva nas mãos das lideranças aristocráticas do demos: as terras sagradas e as terras
públicas. Os integrantes do demos exigiam o estabelecimento da isomoiria, a divisão das
terras de forma igualitária, solicitação recusada por Sólon.
A pesquisadora Louise-Marie L’Homme-Wéry, entretanto, oferece uma explicação
alternativa para supressão dos horoi que se distancia da perspectiva amplamente aceita pela
historiografia e adentra o âmbito da religiosidade dos atenienses. A autora defende que a
retirada dos horoi detém um significado ambíguo, pois ao mesmo tempo que representava a
libertação dos hectemoroi escravizados também aponta para a libertação da terra em si,
retirada das mãos dos aristhoi, usurpadores de “terras sagradas” de Eleusis. L’Homme-
Wérybusca a ressignificação para as “terras negras” mencionadas por Sólon em sua poesia.
Para ela, essas “terras negras” seriam as “terras sagradas” da região de Eleusis,que, nesse
período, estaria subordinada a Mégara.Para Louise-Marie L’Homme-Wéry, Sólon, ao retirar
os horoi, demarcadores de fronteira de Eleusis e Atenas, reforça a extensão do território que
pertence aos atenienses, ato corroborado pela procissão pompé de Atenas a Eleusis que visava
reverenciar o culto da Grande Mãe Demeter. Nesta celebração, segundo a autora, os efebos
participavam ativamente demonstrando que o ato também era cívico e religioso (L’HOMME-
WÉRY, 2001, p. 114).
A proximidade da região de Eleusis com o território de Salamina, todavia, implicava
uma importância que transcendia a mitologia, adentrando no aspecto geográfico. Aristóteles
reforçava essa teoria, alegando que Sólon parecia ter criado uma lei para prevenir a
acumulação ilimitada de terras (Política, 1266, 16). Fato que, segundo Claude Mossé (1979,
p. 426), levou Sólon a retirar os marcos/horoi e abolir as dívidas/chreonapokope.
Conforme demonstrado pelo mapa a seguir, a proximidade entre as regiões elevava o
valor da recuperação do território de Salamina pelos atenienses, pois, além da construção de
um fator simbólico e identitário, resguardava geograficamente as fronteiras comerciais e
mercantis de Atenas.
89

Mapa 3 – Região de Salamina

Fonte: www.bible-history.com. Acessado em: 05 de maio de 2015 às 14:45h.

Sólon defendia que a retirada dos horoi libertava da escravidão não só os devedores,
mas a terra em si que havia sido escravizada por estar nas mãos dos aristhoi:“a melhor, a
negra terra, da qual eu, outrora arranquei os horoi, fincados por toda parte; se antes era
escrava, agora é livre” (Sólon, Fr. 36 W). Tratava-se de uma alusão implícita à subordinação
que o território de Eleusis havia sofrido por Mégara.
O pesquisador Joseph Almeida (2003, p. 47), extrapolando esse viés, reforça a
importância da região de Eleusis ao afirmar que “o desenvolvimento da atividade comercial é
visto na exportação de vasos de figuras negras” e “no interesse de Atenas para controlar as
posições [...] em Salamina para facilitar o acesso a rotas de comércio a partir do seu porto do
sul para a possível exportação de grãos e oleaginosas para os mercados do Mar Negro”.
Concluímos, perante tal perspectiva, que, para estabelecer o controle da região de
Eleusis e a manutenção de suas fronteiras, fazia-se necessário o domínio territorial de
Salamina, cujas rotas marítimas eram imprescindíveis para a prática da atividade comercial e
mercantil, tão necessárias para o fluxo de importação e exportação que se iniciou durante o
contexto de crise agrária enfrentada pela polis dos atenienses.
O pesquisador Josiah Ober, entretanto, oferece-nos uma interpretação alternativa para
a remoção dos horoi do território ateniense. Muito embora reconheça que os horoi eram
90

comumente utilizados como símbolos do endividamento crescente, Ober elucida que a


retirada destes pode estar simultaneamente relacionada à restrição territorial e ao sentimento
de pertinência ao local da polis.
Retornando à tônica da inexistência de um sentimento coesivo entre os atenienses
durante o Período Arcaico anterior a Sólon, Josiah Ober alerta que “a palavra horos não foi
utilizada como registro de endividamento até muito tarde na história grega” (OBER, 2016, p.
150). A tendência historiográfica tem sido a interpretação limitada dos horoi presentes no
fragmento 36 da poesia de Sólon para uma definição edificada em uma estela de pedra do fim
do Período Clássico ateniense que traz a conotação do termo horoi como “hipoteca” –
resultado da análise de duas monografias publicadas no ano de 1951 atribuídas a Moses
Finley e John Fine. A referida estela do IV século a.C. elencava as inscrições de diversos
registros hipotecários, no sentido de endividamento garantido por propriedade privada
imobiliária84. Porém o problema metodológico presente nesta análise é o intervalo de 200
anos entre o archondato de Sólon e a insurgência das primeiras estelas hipotecárias.
Alguns historiadores, como Edward Harris,argumentam que - uma vez que não foram
inscritos nas estelas hipotecárias - oshoroi anuladospor Sólon podem não ter tido qualquer
existência material e, assim, os historiadores não têm“nenhuma escolha mais para interpretar
estas linhas metaforicamente” (HARRIS, 2007, p. 104). Deste modo, Harris, após analisar
criticamente a historiografia dedicadaao estudo das estelas hipotecarias, percebe que os
horoino tempo de Sólon devem, em vez de se referir a marcadores de fronteira, ter
representado uma remarcação metafórica85.
Para o pesquisador Josiah Ober (2016, p.151), é, portanto, mais natural interpretar a
abolição dos horoi nas reformas de Sólon como referente a marcos de fronteira que limitariam
o acesso territorial de algumas camadas da população a locais considerados proeminentes
como locais de fala pelas elites. Considerando as crescentes disparidades sociais enfrentadas
durante esse período, é plausível que a elite aristocrática considerasse imprudente a presença

84
Para mais detalhes acerca da estela hipotecária do IV século a.C., ver Finley (1951) (edição revista, 1985) e
Fine (1951). Para oshoroimencionados por Sólon como registros de hipoteca, ver, por exemplo, de Ste. Croix
(2004,p. 109-128), conforme exemplificado pela passagem: "No que diz respeito aos camponeses proprietários
(...) não há problema: os horoi foram pilares de madeira registrando o fato de que as terras que se achavam sobre
eram o que chamamos de 'hipotecado", e, claro, a destruição do horoi acompanha e simboliza o cancelamento
das hipotecas” (STE. CROIX, 2004, p. 115).
85
Seu argumento consiste na afirmação de que os horos de remoção foram condenados como ilegais e motivo de
sacrilégio por Demóstenes (7,39-40) e Platão (Leis 8.842e-43b) e passaram a estar sujeitos a multas em outras
poleis; para o autor, apropriando-se do discurso de Demóstenes, Sólon não iria se orgulhar de participar em uma
atividade considerada criminosa; Para o autor, “[a] leitura literal da passagem com segurança pode ser
descartada” e, portanto, ficamos com “nenhuma escolha mais para interpretar estas linhas
metaforicamente"(HARRIS, 2007, p. 104-105).
91

dos segmentos sociais expostos à escravidão por dívidas em partes da polis nas quais suas
reivindicações sociais poderiam ser propagadas e, talvez, adquirir coro entre o amplo corpo de
indivíduos que compunha o segmento dos hectemoroi. Esta afirmação se consolida se
adotarmos a perspectiva dos historiadores Julian Gallego e Miriam Valdés Guíaacerca da
dimensão do controle dos hectemoroi pelas elites.
A opressão que os nobres têm sobre os agricultores áticos antes de Sólon não se
restringe a aspectos puramente econômicos relacionados à propriedade da terra, a
exploração, o acesso a subsistência etc., mas intrinsecamente envolvidos no controle
das alavancas de poder político, judicial e religioso. A fim de se apropriar de mais
terra e converter escravos para os agricultores, a aristocracia ateniense se reservava o
direito exclusivo à aplicação da justiça tanto a nível local, através de relações de
fisiologismo e clientelismo, com os grupos de dependentes, como a nível central,
por meio de magistrados judiciais no asty (GALLEGO; GUIA, 2014, p. 11).

Isto sugere que os horoi tinham um uso compulsório restritivo, que limitava a
movimentação de alguns atenienses para determinadas partes do território ateniense –
possivelmente incluindo o centro da polis e suas instituições e, consequentemente, reforçando
as condições de trabalho forçado imposto pelo domínio da elite, tanto no poder político
quanto de ritual (religioso). Em nossa interpretação, interpolada ao pensamento de Josiah
Ober, a elite eupátridai buscou, através do imaginário social, "naturalizar" as distinções que
desejava estabelecer entre si– como elite dominante – e entre a parcela menos representativa
da população por meio do estabelecimento de horoi. É factível que os horoi sistematizados ao
longo da geografia interna da Ática objetivariam corresponder a uma estrutura social interna
estratificada da polis ateniense: a uma sociedade dividida entre eupatridai e hectemoroi.
Retirar e/ou mover os horoiseria, para Sólon, uma forma de equalizar o acesso físico e,
consequentemente, a igualdade (no sentido de isonomia) metafórica almejada por Sólon,
eliminando o uso perigoso das dívidas para impor formas díspares de desigualdade, e criar de
fato a liberdade de movimento e de associação para os atenienses no espaço da Hélade.
Na perspectiva de Karl Polanyi, o princípio da redistribuição é“importante
principalmente em relação a todos aqueles que têm uma chefia em comum e têm, assim, um
caráter territorial”.Ao nos debruçarmos sobre os apontamentos de Moses Finley, é possível
tecer um paralelo com a premissa elencada por Josiah Ober, na medida em que, para o
pesquisador,
as grandes casas eram comandadas por nobres, os quais controlavam a repartição de
bens entre os membros do oikos. Ali prevalecia um mecanismo redistributivo: os
frutos do trabalho “eram reunidos e alocados centralmente, e do centro eram
redistribuídos” (...) pelo seu chefe, no momento e na medida em que ele estimasse
apropriada(FINLEY, 1952, p. 58-59).
92

De maneira análoga, adotando o referencial de Karl Polanyi, argumentaremos que o


archondato de Sólon inaugura um período de transição no qual a polis ateniense, transita pelo
princípio da redistribuição no contexto da crise agrária. Esse movimento de apropriação, que
supõe a existência de um poder centralizado que organiza e define a sociedade pode ser
congregado à proposição de Josiah Ober acerca da estratificação social, promovida pelos
grupos dominantes da elite, através da manipulação dos marcadores de fronteiras conhecidos
como horoi que, deste modo, transformam-se em barreiras sociais.
No intuito de relacionar a supressão dos horoi a outras medidas adotadas por Sólon,
Josiah Ober afirma que Sólon criou um novo procedimento pelo qual os cidadãos de Atenas,
reunidos em uma assembleia informal, poderiam se sentar como um tribunal coletivo de
direito e julgar algumas categorias de malfeitores, mantendo, assim, a estrutura das reformas.
O pesquisador afirma ainda que oficiais da polis que abusavam de seu poder atuando fora do
âmbito adequado de sua função poderiam, desse modo, ser indiciados diante do povo e
subsequentemente punidos. Ainda segundo a argumentação de Josiah Ober, poderosos oficiais
tornaram-se assim iguais a cidadãos ordinários diante da lei, uma ação com profundas
implicações para a ordem pública. Sólon estendeu o direito de posição legal em várias ações
criminosas a todos os cidadãos em nome de todos os outros. Assim, se um indivíduo poderoso
maltratasse um indivíduo fraco poderia ser contido diante do júri popular por outro cidadão
proeminente agindo em nome da pessoa fraca (OBER, 2016, p. 150-2).
O pesquisador Michael Gagarin concorda com a premissa desenvolvida por Josiah
Ober a respeito da inserção do cidadão comum nas práticas jurídicas da polis com a finalidade
de ratificar seu lugar social de fala em oposição aos aristhoi. “A aplicabilidade da ephesis,
por exemplo, almejava um efeito-semelhante a redução da influência dos magistrados”,
concedendo ao cidadão comum um papel sociopolítico mais significativo no processo
judicial. Mesmo que o recurso inicialmente fosse realocado para o Areópago, em vez do
tribunal popular, como alguns estudiosos têm proposto, ou fosse de alguma forma limitado no
seu âmbito, a medida teria, contudo, fornecido aos cidadãos um importante recursolegislativo
para usar contra os magistrados judiciais arbitrários ou corruptos. Além disso, o procedimento
de eisangelia também teria tido um efeito semelhante ao da graphé no fornecimento de um
novo processo judicial em que o cidadão comum poderia trazer litígios ao tribunal.
(GAGARIN, 2006, p. 266)
Segundo a historiografia, Sólon teria atuado como desestabilizador doshoroi e
libertador dos muitos que haviam sido escravizados e, em última instância, da própria terra
em si. Estas alegações são imediatamente seguidas em seus poemas com referência a uma
93

dupla libertação: em primeiro lugar, a repatriação desses atenienses que tinham sido forçados
ao exílio ou vendidos no exterior como escravos; e, em seguida, a libertação dos atenienses
que permaneceram em Ática, mas foram forçados a uma condição servil e temiam o domínio
de seus mestres.
A melhor, a negra Terra, da qual eu, outrora
arranquei os horoi, fincados por toda parte;
se antes era escrava, agora é livre.
Para Atenas, pátria fundada pelos deuses,
eu reconduzi muitos homens, vendidos ora justa,
ora injustamente, uns tendo sido exilados (Fr. 36 W 5-10).

Ao tratar de reconfiguração geográfica de Atenas, segundo Ober, é preciso reconhecer


que a paisagem e os marcos que a identificam como tal não são fixos por natureza, mas são os
produtos contingentes de artifício humano: demarcações no terreno que são criadas novamente
são autoevidentemente trazidos à existência intencionalmente por agentes humanos e, portanto,
ao contrário das demarcações geográficas por essência, são também capazes de ser removidos
por ação humana intencional. O ato intencional de remover demarcações existentes no terreno
serve, por sua vez, para criar demarcações ainda mais recentes no terreno. Inferimos, a partir da
premissa elencada por Josiah Ober, que, quando Sólon se autoproclama libertador das terras
negras, anulando assim o efeito restritivo dos horoi, ele busca um reconhecimento político
simbolizado pela remarcação do território ateniense que, em um sentido representativo,
corresponderia à reorganização da sociedade ateniense por meio de valores como justiça e
equidade, critérios ancorados pela premissa da isonomia.
Os horoi faziam parte da paisagem grega física e conceitual bem antes da ascensão de
Sólon ao governo e permaneceram importantes durante os períodos Arcaico e Clássico86. A
definição e anulação dos limites físicos e metafóricos parecem estar entre as características
fundamentais das reformas de Sólon. Dois fragmentos de Sólon bem conhecidos mencionam
oshoroi: seu ato de anulação dos horoi (Fr. 36.) e sua descrição de si mesmo como um horos
estabelecido entre as forças armadas e mutuamente hostis da sociedade ateniense (Fr.
37.).Essa duplicação de um termo bastante especializado sugere fortemente que os
marcadores horoisimbolizavam uma distinção geográfica ou representativa das disparidades
resultantes da crise ateniense. Os horoi, portanto, simbolizam uma parte importante acerca da

86
Alguns exemplos da manifestação dos horoi na literatura clássica podem ser encontrados no período que
precede o governo de Sólon. Na Ilíada, no meio de uma luta com o deus Ares, a deusa Atena pega uma pedra
quehavia sido "deitada na planície, escura, áspera e enorme; outros homens a tinham estabelecido como um
horos da terra" (Il. 21,403-405). No juramento de efebia ateniense durante o período arcaico, os horoi são
chamados como testemunhas (RHODES; OSBORNE, 2003, p. 88). Duas estelas com inscrições, datando de 500
a.C., foram encontradas nas fronteiras da Ágora ateniense, com as seguintes inscrições: “Eu sou o horos da
Ágora” (THOMPSON; WYCHERLEY, 1972, p. 117–9).
94

compreensão de Sólon a respeito dos problemas enfrentados pela polis e da forma resultante
na qual ele pretendiaconfrontá-los, na medida em que algumas das distinções arbitrárias
características do paradigma aristocrático vigente foram, evidentemente, marcadas pelos
horoi.
Concluiremos que a desestruturação doshoroi estabelecida por Sólon implicou a
eliminação das restrições sociogeográficas sobre o livre acesso ao território. Esta análise
também pode nos auxiliar a compreender a tradição histórica a respeito das facções políticas
atenienses como grupos determinados por uma noção socioespacial de identificação.Esta
argumentação é provável ao adotar a premissa de que os eupatridaiprocuraram formalizar
através dos horoi e, posteriormente, naturalizar as distinções geográficas articulando-as a
determinadas categorias sociologicamente identificáveis de pessoas com certas partes do
território.
A conjuntura que reforça a proposição defendida por Josiah Ober é o fato de Sólon ter
inserido o procedimento do apelo jurídico (ephesis) junto ao corpo cívico da polis. Esse ato
legislativo permitia ao litigante recorrer da decisão dos magistrados no Tribunal identificado
como Heliai, composto em sua maioria pela camada de cidadãos de poucos recursos – o
demos (plethos).(OBER, 2016, p. 160)
Logo, tendo em vista o embate que se estabelece na historiografia, consideramos que
determinar a correspondência entre a documentação sobre o tema auxilia a acompanhar a
perspectiva do debate historiográfico em torno das ações de Sólon, a saber:

Tabela 7: Tabela conceitual comparativa

Temática Aristóteles Plutarco Sólon


Aristóteles alega que “toda Plutarco não repete essa “A melhor, a negra Terra, da
a terra”havia caído nas afirmação explicitamente, qual eu outrora arranquei os
mãos de “poucos” (2.2). mas, à medida que a maioria horoi, fincados por toda
tinha sido eclipsada por (e parte; se antes era escrava,
caído sujeito a), um pequeno agora é livre”(Fr. 36 W).
Terra
grupo fica claro, quando
afirma que "todas as pessoas
comuns foram
sobrecarregadas com as
dívidas que eles deviam a
alguns homens ricos” (13.2).
Houve um estado de A fonte dos conflitos era as “Essa ferida inevitável já
conflito entre o que “desigualdades entre ricos e atinge toda a polis e
Aristóteles chama de pobres” (13.2). rapidamente conduz à
"notáveis" (gnorimoi) e perversa escravidão”(FR 4
Plutarco preconiza que esse
"as massas" (pelatai). W).
conflito já existia há algum
Aristóteles também tempo e afirma que a cidade
Conflito
caracteriza a disputa tão agora tinha chegado à "beira
95

longa dizendo que "ele de uma revolução"


estendeu um contra o (metastaseis) (13.2).
outro por um longo
tempo” (5.2).
Assim, apesar do uso de Existia extrema disparidade “Ao povo, realmente,
Aristóteles, os termos entre ricos e pobres e a polis concedi tanto privilégio
"notáveis" e "as massas", era perigosa, o demos inteiro quanto lhe bastasse, não lhe
Notáveis e para se referir aos dois estava em débito para com o retirando nem acrescentando
Massas grupos, podem ser rico (13,2). honra; os que tinham poder
interpretados como a e, por suas riquezas, eram
descrição de uma divisão admiráveis, também a estes
política (XII,2, p. 13). garanti que nenhum insulto
recebessem” (Fr. 5W).
Os pobres eram chamados O pobre (hectemoroi e “Outro, cortando a terra,
de thetai ou hectemoroi, thetai) lavrava a terra do coberta de árvores,trabalha
referindo-se ao fato de que rico, pagando 1/6 da por salário o ano todo,
eles trabalhavam as terras produção ou garantindo a ocupam-no arados recurvos.
dos "ricos" para um sua pessoa como débito
Outro, experiente nos
"aluguel" de uma sexta (13,2).
trabalhos de Atena e do
parte de sua produção.
Plutarco determina quekakoi engenhoso Hefesto, colhe
Pobres Aristóteles argumenta que e agathoi foram termos com suas mãos o seu
a constituição era utilizados a partir de Sólon, sustento”(Fr. 13W).
“oligárquica em todos os com o significado de pobre e
outros sentidos”, sugerindo rico (13,2).
uma dimensão política ao
conflito.
Para Aristóteles, pobre é
referido como plethos
(XII,2, p. 13).

Aristóteles vai tão longe a Plutarco afirma que, ao Essa ferida inevitável já
ponto de dizer que "todos" serem apreendidos, alguns atinge toda a polis e
os empréstimos naquela dos devedores foram rapidamente conduz à
época foram feitos sobre a "escravizados em Atenas”, perversa escravidão,
segurança da pessoa. enquanto outros foram
Esses males se espalham
vendidos no exterior, e que
entre o povo: muitos pobres
Empréstimos muitos pais foram obrigados
migram para uma terra
a "vender" seus filhos(13,2).
estrangeira,vendidos e
atados com humilhantes
grilhões (Fr. 4 W).
Caso o pobre não pagasse O devedor podia perder a “Para Atenas, pátria fundada
o arrendamento, estava liberdade porque o pelos deuses, eu reconduzi
sujeito à suspensão da empréstimo tinha como muitos homens, vendidos
liberdade (agogimoi seguridade a pessoa, estando ora justa, ora injustamente,
egigyouto), porque o sujeito à escravidão ou uns tendo sido exiladospor
empréstimo incidia sobre vendido como escravo causa da penosa
Escravidão as pessoas (II,2 11-12). (13,2). necessidade, não mais
falavam o dialeto ático,
Ambos os autores deixam
depois de terem errado por
claro que esta “suspensão”
muitos lugares; outros, aqui
da liberdade (agogimoi
mesmo, sofriam a ignóbil
egigyouto) elevou-se a
escravidão,trêmulos diante
uma forma de escravidão.
da conduta dos seus
senhores”(Fr. 36 W).
96

Temática Aristóteles Plutarco Sólon


Seisachtheia Sólon proibiu o Sólon escreveu que, ”A melhor, a negra Terra, da
empréstimo com a extinguindo os débitos, qual eu outrora arranquei os
seguridade da pessoa e deveriam ser canceladas as horoi, fincados por toda
cancelou as dívidas dívidas, e os empréstimos parte;se antes era escrava,
públicas e os débitos não poderiam ter a agora é livre”(Fr. 36 W).
privados (VI,1, p. 1-3). seguridade na pessoa do
indivíduo; isso era chamado
seisachtheia (15,4-5).
Fonte: Adaptada de CANDIDO.Atenas, liderança unipolar no Mar Egeu, 480 a 410 a.C. Rio de Janeiro:
Relatório da Faperj, 2014, p. 25-26.

2.5 Seisachtheia: O fim da escravidão ou da servidão por dívidas?

Por meio da corpora documental, Aristóteles aponta que Sólon “fez o cancelamento
das dívidas antes da legislação, e depois disso [fez] o aumento das medidas, dos pesos e da
moeda”.Aristóteles e, posteriormente, Plutarco defendem que o cancelamento das dívidas foi
chamado seisachtheia (Constituição dos Atenienses,6.1, 25). Na Constituição dos Atenienses,
entretanto, Aristótelesnão indica a origem do nome e Plutarco afirma que Sólon instaurou esta
medida como um eufemismo para “atenuar a amargura do cancelamento da dívida universal”.
Esse autor também não cita qualquer inscrição de Sólon como evidência para a origem do
termo (Vida de Sólon, 15.3) e diz também que os cidadãos, depois do descontentamento
inicial, perceberam o benefício das medidas e estabeleceram um sacrifício público, ao qual
eles chamaram seisachtheia (Vidas de Sólon, 16.3).
Muito se especula sobre a extinção da escravidão por dívidas. Em primeira instância,
torna-se imperativo analisar o significado da expressão “escravidão por dívidas”. Edward
Harris (2006, p. 13-18) realiza uma meticulosa análise sobre o termo, enfatizando o valor da
propriedade e sua singularidade na Grécia Antiga. Para ele, os cidadãos reconheciam
plenamente que “os proprietários exerciam seu poder sobre os objetos que a eles pertenciam e
os senhores possuíam todos os direitos sobre os escravos”.Harris constrói uma distinção entre
a escravidão por dívidas e outra modalidade de controle de trabalho e de pessoas, a“servidão
por dívidas”.
Segundo o autor, é imprescindível compreender as peculiaridades de cada uma das
esferas de trabalho forçado antes de responder à pergunta que intitula seu trabalho. Harris
argumenta ainda que Sólon estaria mais preocupado com a escravidão que resultasse da
violência do que com a servidão advinda de dívidas que eram o resultado de um conjunto de
97

leis sobre a posse de terra. A seguir está um quadro comparativo com as definições de Harris
acerca das duas categorias citadas:

Tabela 8- Distinção entre a terminologia escravidão e servidão.

ESCRAVIDÃO POR DÍVIDAS SERVIDÃO POR DÍVIDAS


O devedor é rebaixado à categoria de Status ou condição decorrente de uma
escravo de seu credor, que se torna seu garantia dada por um devedor sobre
Definição mestre e, portanto, ganha todos os seus serviços pessoais ou de uma
direitos de posse sobre o escravo. terceira pessoa sob seu controle, como
garantia de uma dívida.
Para o autor, a nomenclatura do Aquele que se tornava servo por
escravo ateniense seria dólos, no dívidas era chamado de katakeimenos
Nomenclatura sentido de propriedade. Esta
terminologia seria derivada do
vocábulo dolosyne, cujo significado
seria “escravidão”.
Características O mais importante direito do senhor de O credor adquire vínculo provisório
escravos é a venda. sobre o devedor.
O senhor/credor exerce domínio sobre O credor possui somente o controle por
Diferenças todas as ações de seu escravo. seus serviços durante um período de
tempo determinado.
O senhor pode espancar seus escravos, O credor possui o direito aos serviços
obrigá-los à prática de prostituição e do devedor, que não se torna
Direitos privá-los de alimentação, além de propriedade do credor.
herdar qualquer quantia produzida pelo
trabalho do escravo e entregá-lo como
pagamento para alguma dívida.
A subordinação a seu senhor não tinha Um homem livre sob o domínio de seu
Condição do subjugado limites. O escravo era considerado uma credor temporário.
propriedade de seu mestre por toda a
vida.
Fonte: Adaptada de HARRIS, Edward. Did Solon really abolish the debt-bondage?Classical Quarterly, 2002.

A distinção estabelecida por Harris permeia um dos questionamentos de nossa


pesquisa, incitando maior questionamento sobre a seisachtheia. Tais evidências necessitam de
maior apuração historiográfica a fim de determinar qual ou quais seriam os segmentos sociais
contemplados pela seisachtheia com o advento das reformas de Sólon.
Sólon argumenta em sua poesia “ter feito retornar à pátria os que haviam sido
vendidos como escravos no exterior” (Fr. 36), conforme este fragmento:
Para Atenas, pátria fundada pelos deuses,
eu reconduzi muitos homens, vendidos ora justa,
ora injustamente, uns tendo sido exilados,
por causa da penosa necessidade, não mais falavam o dialeto ático,
depois de terem errado por muitos lugares (SÓLON, Fr.36 W).

Entretanto, devemos arguir a respeito de seu poder de ação nesse sentido. Qual seria o
verdadeiro alcance de Sólon no que tange às outras poleis atenienses? A empreitada, além de
dispendiosa, seria altamente atribulada, uma vez que se fazia quase impossível contabilizar e
98

até mesmo localizar os indivíduos que haviam sido vendidos como escravos ao exterior. E,
supondo que os libertos realmente retornassem à polis ateniense, mantinha-se a dúvida sobre
qual seria sua perspectiva de ação na Hélade, uma vez que é sabido que Sólon se recusava a
promover a isomoiria87, como ele atesta em: “me agrada [...], nem que os nobres tenham uma
porção de terra fértil da pátria igual aos vilões”88.É importante ressaltar que sem a
redistribuição das terras seria praticamente impossível realocar os libertos.
Segundo alguns autores como Plutarco e Aristóteles, Sólon aboliu a dívida dos
hectemoroi que trabalhavam nas terras dos aristhoi com a lei da seisachtheia;entretanto,
pouco se fala sobre a reação da aristocracia mediante as medidas impostas por Sólon. Tratava-
se do segmento social mais proeminente de Atenas e que tinha seu lugar de prestígio89
contestado por Sólon, já que inserira os “novos ricos” como pentacosiomedimnos.
Conjecturamos que este segmento social tenha sido claramente prejudicado na nova divisão
censitária de Atenas. O fato nos leva a questionar a passividade com que a lei da seisachtheia
foi representada pela historiografia90, que não analisa as possíveis reações dos aristhoi contra
a medida.
Questionamos, ainda, a premissa de que o segmento aristocrático teria se resignado
com tal medida de maneira passiva, não só pela perda de seu status quo, pela desautorização
da posição dos únicos detentores do poder político em Atenas – uma vez que o nascimento
lhes garantia a posição de eupatridai –, como também pela perda do pagamento da taxa de 1/6
do que era produzido pelos hectemoroi. Para o autor, existia um estado de embate entre os
bem-nascidos (gnorimoi) e o demos ou plethos devido às desigualdades econômica e

87
Termo com que Claude Mossé designa a divisão igualitária da terra (MOSSÉ, 1979, p. 61).
88
Sólon (Fr.34 W).
89
Segundo a pesquisadora Lynette G.Mitchell, tradicionalmente o status social era corolário do poder político.
Aarete (excelência) era a marca do nobre (agathos), que, devido à sua nobreza, detinha o controle político. Os
indivíduos que possuíam a arete eram considerados agathoi; aqueles indivíduos sem arete eram considerados
partidários de status social inferior (kakoi). No mundo homérico, as palavras mais poderosas de louvor foram
agathos e arete, que descreviam os valores mais procurados em tal sociedade. Para alcançar a arete, no contexto
de Homero, era preciso ser bom em alguma coisa, e o agathos homérico era regido pelo sucesso na guerra e
pelos esforços dedicados à proteção dos interesses dos oikos. O ethos do agathos homérico era único e
competitivo: seu papel principal era defender sua família, e foi desta maneira que os agathoi mantiveram sua
posição. Para Mitchell, embora exista a tendência de enfatizar as proezas militares, o agathos era também um
homem bem-sucedido em tempos de paz. O agathos também representava, por natureza, um homem rico, e os
seus bens materiais eram parte do que determinava sua posição na sociedade. Os agathoi foram aqueles com
poder dentro da comunidade, aqueles que tinham o direito ao maior tempo, porque eram os protetores da
sociedade em tempos guerra e paz (MITCHELL, 2005, p. 76)
90
Podemos citar autores, como, por exemplo, Claude Mossé, que, apesar de promover um debate acerca do uso
da figura de Sólon, não se aprofunda no debate acerca das classes sociais atenienses; a Cambridge Ancient
History V.III (2006, p. 340) levanta a hipótese de que os aristhoi estariam dispostos a sofrer as consequências da
legislação de Sólon em troca da manutenção da ordem social em Atenas, uma vez que um estado de stasis seria
iminente.
99

social.Entretanto, o papel dos hectemoroi no fenômeno da escravidão por dívidas e a não


insurgência dos credores (aristhoi) que se contentaram com o nãopagamento das dívidas é
uma questão que nos propusemos a analisar em nossa pesquisa. Segundo os apontamentos de
Molina, a crise sofrida pela Ática “é comprovada pelo fato de os aristhoi não terem se
revoltado, selecionando um homem para resolver a questão” (MOLINA, 1998, p. 17).
Em nossa abordagem, proveniente das ações de Solon, percebemos a presença dos
hectemoroi, cuja condição social remete aos proprietários de terras de subsistência,
camponeses/meeiros e migrantes rurais que buscavam serviços e atividades no meio
urbano.Os hectemoroi eram considerados trabalhadores rurais/meeiros que alugavam as terras
dos ricos, porém na ausência de pagamento estavam sujeitos a se tornar escravos por dívida,
pois o empréstimo tinha como seguridade a pessoa, os bens e seus familiares. De acordo com
Plutarco (Vidas de Sólon,13.2), existe uma distinção entre pelatai/hectemoroi e o devedor-
proprietário, a saber: pelatai indica aquele indivíduo que é dependente ou trabalha para
alguém; hectemoroi configura-se como aqueles que cultivam a terra pelo pagamento da sexta
parte do que produziam; e o devedor-proprietário qualifica-se como um proprietário de terra
que contraiu uma divida de empréstimo na condição de pagar com juros e em espécie/krea,
caso não consiga saldar o principal devido.
Diante dessa conjuntura, os hectemoroiestavam em débito com os
bemnascidos/agathoi. A seisachtheia realizada por Sólon teria resultado no retorno da
propriedade ao devedor que adquiriu condições de saldar a divida em decorrência a reforma
dos pesos e medidas. O pelatai e o hectemoroi podiam retornar ao cultivo da terra do
aristhoi/agathoi como arrendatários ou buscar atividades alternativas como a migração ou
trabalhar nas novas frentes mercantis ou como artesão ceramista.
Em uma economia pouco monetizada, a dívida e os juros deveriam ser pagos em
espécie ou em forma de trabalho. Se o devedor não fosse capaz de cumprir as suas obrigações
financeiras, o credor poderia proceder não apenas contra a pessoa do devedor, mas também
contra a sua família.Em termos concretos, isto implica que havia a possibilidade de o credor
tomar posse das terras do devedor e continuar produzindo na mesma, com o intuito de que a
produção fosse empregada em troca do pagamento de aluguel (LEWIS, 1941, p. 52). Esses
agricultores endividados que haviam perdido o controle de suas terras e que deviam servir os
100

seus credores através de pagamento de aluguel foram considerados átimoi91 ea sua terra, não
mais usufruto livremente, teriasido marcada com horoi.
Luis Molina, dialogando com a distinção estabelecida por Edward Harris, alerta ainda
para a existência de uma leitura alternativa acerca dos grupos sociais existente na polis,
baseado na perspectiva adotada por W.J. Woodhouseem seu livro Sólon o liberador.No
esquema a seguir, o autor assinala diferentes tipos de relação de dependência que incluíam
outros segmentos sociais, extrapolando a perspectiva dos hectemoroi como cerne do problema
solucionado pela seisachtheia.

Esquema 2 - Segmentos sociais envolvidos na crise agrária.


Devedor
Proprietários de Terras
Possui propriedade
Possui propriedade
Endividado com uma segunda
Nenhum endividamento legal parte, conforme o princípio
(montante restante) do
empréstimo acordado e os
juros

Escravos por dívidas Hectemorói


Podem ter direito legal à Nenhum direito à propriedade
propriedade. Aluga a terra do senhor por um
Escravizado por um credor ou arrendamento da sexta parte da
senhor de terras anterior; produção

Fonte: Adaptado de MOLINA, Luis A. Solon and the evolution of the


Athenian agrarian economy. New York: Pomoerium, 1998.

Segundo Takis Fotopoulos, esta condição da oligarquia política e econômica,


combinada com a infertilidade do solo e incapacidade de quitar os débitos, levouà dura
concorrência entre ricos e pobres, a qual Sólon menciona em seus poemas no início do século
VI a.C. As reformas de Sólon, em particular a seisachtheia,criou as bases econômicas para a
isonomia (igualdade na lei). Aseisachtheia não era simplesmente uma lei visando à extinção
dos débitos, como é geralmente afirmado pela historiografia. Tal explicação aponta para uma
interpretação alternativa desta medida com base no fato de que Sólon, em sua poesia, não se
refere a débitos;aseisachtheia aboliu, portanto, a relação de dependência econômica dos
hectemoroi, que, em seguida, provavelmente adquiriram plenos direitos de propriedade da
terra que eles estavam cultivando (FOTOPOULOS, 1992, p. 23-24).

91
Literalmente “sem prestígio”, implicariia a perda da cidadadania, a degradação de seus direitos políticos e
cívicos ou a exclusão da comunidade. Cf. Arist. (Pol., 1281b 29-30). Sobre esse aspecto, ver: Rihll (1991:122-3);
Rhodes (1981:111) y Humphreys (1991:33). Cf. Valdés Guía (2006:147; 2008: 65-6).
101

Etapas igualmente importantes na limitação do poder econômico da oligarquia foram a


introdução de taxas progressivas para cobrir as necessidades de emergência (no topo dos
impostos indiretos habituais) e a inversão do ônus das despesas para as funções públicas
(liturgias), bem como a transferência de uma grande parte das despesas militares para as
classes mais altas.
Para Robert Wallace, a ação do legislador ateniense reflete o estabelecimento de
mudanças econômicas e sociais, como a libertação das terras e da pessoa física do poder
abusivo da aristocracia. As medidas constitucionais de Sólon foram o resultado das
negociações políticas junto aos cidadãos, no sentido de responsabilidade e de envolvimento
cívico. Segundo Wallace, o intuito de Sólon foi mediar o embate social entre os demos e os
eupátridas através da legislação que visava pacificar os revolucionários e, ao mesmo tempo, a
criar um lugar de fala para o demos/plethos (WALLACE, 2008, p. 72). Entretanto, diante do
perigo eminente e do desafio da violência, a ação de mediar por normas, regras e leis tornou-
se dramática diante da exigência de concessão de poder aos demos. A ação de Sólon deixava
transparecer que, no amplo território da Grécia no VI a.C, emergiam atitudes de animosidade
contra a antiga ordem social vigente.

2.6 Os critérios alternativos de cidadania

De acordo com a documentação de Aristóteles na Constituição de Atenas (VII, p. 3),


Sólon redigiu logo uma constituição e pôs em vigor novas leis que romperam com o
paradigma vigente que colocava nas mãos das famílias aristocráticas o controle da polis
ateniense. Tal fato marcou a completa ruptura com os direitos exclusivos de uma ordem
hereditária definida por nascimento, embora as famílias de aristhoi continuassem a liderar e a
ter uma participação ativa na nova organização política determinada de acordo com a riqueza
(FINLEY, 1983, p. 23).
Segundo Aristóteles, na Constituição de Atenas (VII, p. 3), Sólon distinguiu os
cidadãos em quatro classes censitárias cujo principio não partia do nome de família ou do
nascimento, mas sim com base no rendimento da produção agrícola,o que visava a organizar e
identificar aqueles indivíduos com capacidade de promover a defesa e autossuficiência da
polis.
102

Tabela 9 - Segmentos Sociais e Índice de Produtividade92

Segmentos Sociais Produtividade Produtividade em trigo Produtividade em Cevada

Pentacosiomedimnos 500 medimnoi Capacidade de alimentar Capacidade de alimentar


aproximadamente 100 pessoas aproximadamente 84 pessoas
por ano com uma propriedade por ano com uma propriedade
de 20 a 34 hectares. de 17 a 28 hectares.
Hippeis 300 medimnoi Capacidade de alimentar Capacidade de alimentar
aproximadamente 60 pessoas aproximadamente 50 pessoas
por ano com uma propriedade por ano com uma propriedade
de 12 a 20 hectares. de 10 a 17 hectares.
Zeugitas 200 medimnoi Capacidade de alimentar Capacidade de alimentar
aproximadamente 40 pessoas aproximadamente 34 pessoas
por ano com uma propriedade por ano com uma propriedade
de 8 a 13 hectares. de 7 a 11 hectares.
Thetas 200 medimnoi Capacidade de alimentar Capacidade de alimentar
aproximadamente 40 pessoas aproximadamente 34 pessoas
por ano com uma propriedade por ano com uma propriedade
de 8 a 13 hectares. de 7 a 11 hectares.
Fonte: Adaptada de FOXHALL, Lin. A view from the top: Evaluating the Solonian property classes. In: The
Development of the Polis in Archaic Greece. Routledge: New York, 1997. p. 70.

Sólon rompeu ainda com as medidas anteriormente adotadas por Drácon (com exceção
da lei do assassinato, cujas penalidades foram mantidas). Promoveu a divisãoda população em
quatro classes de acordo com a propriedade, dando aos mais ricos uma oportunidade de
ocupar os cargos da polis, antes reservados aos eupátridas (“filhos de bons pais”); com isso,
contestou o lugar social das famílias de prestígio, elegendo a riqueza em detrimento da posse
de terras como critério censitário e reorganizando a estrutura da polis, consolidando seu
regime timocrático93.
De acordo coma interpretação de Josiah Ober, a reforma das quatro classes censitárias
parece apontar para o esforço de Solon, “um homem que se autodescrevia como
intermediário”, para construir uma classe media (intermediária) dos cidadãos, juridicamente
distinta tanto dos mais ricos como dos mais pobres, sem vontade de se juntar à elite na
opressão dos pobres, mas prontos e dispostos a mobilizar contra os inimigos externos de
Atenas ou contra tentativas revolucionárias para redistribuir a propriedade privada. A
distribuição faz sentido, no entanto, se assumirmos que Sólon estava buscando esculpir uma
classe medíocre com uma identidade que era distinta da dos mais ricos membros da elite
(OBER, 2016, p. 373-374).

92
Verificar o Anexo 16 - Tabela de Rendimentos dos Segmentos Sociais do Código Soloniano (p. 214) para a
tabela completa formulada por Lin Foxhall com os cálculos referentes aos valores apresentados na tabela.
93
O pesquisador suíço Kurt Raaflaub, em seu livro Origins of Democracy in Ancient Greece (2007, p. 71),nos
aponta que Martin Ostwald considera que Sólon desafiou a tradicional elite ao introduzir o princípio da
timocracia junto aos pentacossiomedinas detentores de riqueza e capacidade guerreira.
103

Para Ober, outra finalidade das classes do censo pode ter sido de natureza fiscal, a
única fonte direta, embora para esta afirmação seja encontrada em um relatório Pollux (8130).
De fato, Aristóteles menciona o imposto da eisphora no período de Sólon; sugere que, no
Período Arcaico, foi estabelecida por Sólon uma série de mecanismos organizados para a
recolha de impostos com base nos indicadores de renda estabelecidos pelas classes censitárias.
Segundo o pesquisador Julian Gallego, a documentação herdada de Aristóteles e
Plutarco parece concordar que o objetivo de Sólon em estabelece as classes censitárias era
político-econômico, a fim de reorganizar a participação jurídica, especialmente em
determinadas magistraturas, com base latifundiária, ou melhor, a regulamentação da renda
baseada em medidas cereais (medimnoi).
Peter Rhodes (2006, p. 253; cf. 251; 1981, p. 143) também mantém que Solon não
teria definido as medidas exatas em medimnoi (exceto para a primeira classe), ou pelo menos
sugere que a lei, especificando as qualificações de cada classe, não teria sobrevivido aos
tempos de Aristóteles, o que implica que as medidas propostas teriam base em outras
motivações. Rhodes acredita que os hippeis, oszeugitai e os thetai já existiam como categorias
antes de Sólon, que criou uma nova classe de pentacosiomedimnoi definida segundo sua
produtividade.
A criação da classe censitária dos pentacosiomedimnos é uma das principais
evidênciasda inserção dos estrangeiros na sociedade ateniense. Assim como os ceramistas
foram incentivados a migrar para a polis ateniense em troca da cidadania, existia também uma
parcela social de ricos emergentes que já estava inserida na sociedade, à qual foi garantida a
cidadania pela criação do segmento social dos pentacosiomedimnos, evidenciando o critério
econômico instituído por Sólon.
Moses Finley chama a atenção para os pentacosiomedimnoi, cujo termo aponta apenas
para um sistema de valoração do montante de riqueza, sem indicio de sua procedência, fato
que simboliza a organização de um sistema timocrático (FINLEY, 1983, p. 24). Antes de
Sólon, a população da Ática consistia no que podemos denominar multidão, que incluía os
eupátridas, o segmento social de pouco ou nenhum recurso, hectemoroi, camponeses,
criadores, artesãos, comerciantes enriquecidos, os não aristhoi, escravos, pelatai/clientes e
estrangeiros.
Eram considerados pentacosiomedimnos aqueles que retirassem de sua propriedade
quinhentos medimnos94(medidas conjuntas de grãos e líquidos) (ARISTÓTELES,

94
Medida ática de capacidade para grãos, com aproximadamente 50-55 litros. Aristóteles não menciona como era
feito o acúmulo de medidas líquidas e sólidas. A medida sólida era representada pelos grãos, embora não fosse a
104

Constituição dos Atenienses,VII, 5). Esse padrão de medida, utilizado como critério para a
hierarquização social promovida por Sólon, exemplifica a adoção de uma legislação político-
econômica baseada na valorização do fator econômico, ou seja, da perspectiva timocrática.
Diferentemente dos demais segmentos sociais determinados pela legislação de Sólon –
hippeis, zeugitas e thetas–,cuja etimologia dos termos remonta a atividades relacionadas a um
passado em comum à polis,os pentacosiomedimnoscompunham a única parcela cuja
terminologia relacionava-se diretamente com o critério econômico.
Martin Ostwald considera que Sólon desafiou a tradicional elite ao introduzir o
principio da timocracia junto aos pentacosiomedimnoi, detentores de riqueza e capacidade
guerreira (RAAFLAUB, 2007, p. 61). A candidatura para as magistraturas de tesoureiro,
embaixador e estrategos era destinada somente aos primeiros dos cidadãos, ou seja, aos
pentacosiomedimnoi,assim como o acesso aos cargos dos nove arcontes. Logo, a escala de
privilégios e acessos às magistraturas findava-se no segmento social inerente aos eupatridai.
Na abordagem de Maria Regina Candido,a teoria amplamente divulgada junto à
academia define a classificação censitária como uma inovação pelo fato de mesclar o acesso
aos privilégios das magistraturas aos membros da aristocracia de nascimento junto com os
integrantes de famílias de igual riqueza, mas que não pertencia a aristocracia de nascimento.
Sólon associa o nascimento com a riqueza como condições necessárias ao acesso aos cargos
políticos em Atenas. Para a pesquisadora:
Os cargos de maior prestígio como arconte e tesoureiro estavam reservados as duas
primeiras classes – pentacosiomedimnoi, os arcontes eram escolhidos por sorteio no
total de quarenta homens, dez de cada phylé integrantes das quatro descendências
jônias. Os integrantes do Areopagos detinham riqueza, prestígio, idade e nome de
família, atributos que compunham o método de escolha introduzido por Sólon,
porém sua rudimentar existência em época anterior não pode ser descartada. A
riqueza e o prestígio, oriundos da aristocracia permaneceram como indicativo para
os integrantes do Areopagos, a reforma pode ser sido no campo do direito de
julgamento de crimes premeditados como o homicídios. A lei anterior atribuía essa
ação a corte jurídica formada por cinquenta e um ephetai, membros idosos das
grandes famílias que arbitravam sobre os crimes que qualquer natureza. Tal
prerrogativa foi transferida para o Tribunal do Areopago que também ficou
responsável por manter intacta a nova constituição instituída no período de Sólon.
(CANDIDO, 2012, p. 31)

cultura principal. Para as medidas dos líquidos eram utilizados azeite e vinho. O medimnos eram equivalentes a
aproximadamente 0,7 alqueires. P.J. Rhodes (1993, p. 141) cita fontes indicativas de que, na época de Sólon,o
solo ático poderia render 5,5 medimnoi de grãos por hectare, 10 galões de azeite e 100-150 galões de vinho. “A
questão da combinação de medidas é relevante para o problema da agricultura de diversas culturas de grãos,
azeite e uvas da mesma propriedade” Rhodes (1993, p. 141-142) revê as opiniões, mas parece favorecer a ideia
de um padrão de cevada em que todos produzem medidas líquidas e sólidas. Por exemplo, se um medimnos de
cevada é equivalente a 0,24 metretes (unidade de medida líquida) de óleo, então, 300 medimnoi de cevada e 100
metretai de óleo seriam equivalentes a uma medida total de 700.
105

Torna-se interessante identificar a formação desse segmento social do Período


Arcaico. A documentação informa a existência de duas classes: georgoi/agricultores e os
demiourgoi/artesãos. Segundo Maria Regina Candido, Plutarco menciona que Teseu, em seu
processo de unificação, dividiu os cidadãos da Ática em três segmentos: eupátridas/bem
nascidos, geomoroi/proprietários de terra e demiourgoi. Teseu demarca os eupátridas como
detentores de direito hereditário da aristocracia, abolindo assim os conselhos e magistraturas
regionais para centralizá-las em um único conselho em Atenas. O segmento social de poucos
recursos, identificado como thetai, detinha responsabilidade cívica e participação restrita ao
ser convocado para votar nas assembleias e quando solicitado era convocado para o tribunal.
Sólon deixa transparecer a ênfase no valor da participação política dos atenienses de acordo
com os recursos ao definir a atuação dos eupátridas, não eupátridas e o lugar social de
segmentos de poucos recursos e os thetai.(Ibidem, 2012, p. 33)
Consideramos que entre os não eupátridas, figuram aqueles indivíduos que não
pertenciam a nenhuma phratria e foram incorporados como migrantes enriquecidos que já
estavam no solo ático por longa data; parte regulariza a sua situação com Sólon junto aos
pentacosiomedimnoi e os demais serão incorporados àpolisa posterioripelas reformas
territoriais de Clístenes.
O estabelecimento das classes censitárias ratifica o estabelecimento da hierarquia que
definia a participação política de acordo com os rendimentos e a riqueza. Entretanto, a
questão não suscita dúvida em relação aos hippeis e aos zeugitai que integram o censo
soloniano; ambos pertencem à categoria guerreira, cuja responsabilidade seria a defesa da
polis; a diferença está na posse ou não de cavalos.
A pesquisadora Lin Foxhall afirmou que o segmento social dos zeugitai, durante o
período de Sólon, era formado por agricultores moderadamente estabelecidos, ou, na
opinião de Hans van Wees (2006, p. 82), proprietários de terras que eram membros da
classe ociosa ateniense (com pelo menos oito ou nove hectares, excluindo terras de
repouso). Isso significaria que o zeugitai pertencia à elite rica de cidadãos que compunham
cerca de 15% ou 20% da população dos períodos Arcaico e Clássico. Dialogando com essa
premissa, Julian Gallego propõe que, em princípio, os zeugitai eram uma classe censitária,
isto é, um grupo definido com base em critérios econômicos baseados em bens ou
rendimentos, mas que teve implicações importantes nas arenas políticas e militares.
Despontava, também, com a divisão censitária, conforme afirma Delfim Ferreira Leão
(2005, p. 24), um “aperfeiçoamento do conceito de cidadania” intimamente ligado ao preceito
econômico da reciprocidade. Para ser considerado um cidadão atuante no corpo cívico da
106

sociedade, além de estar inserido na legislação de Sólon, era necessária a contribuição ativa
na polis, através do trabalho ou da riqueza.
A pesquisadora Lin Foxhall, complementa essa afirmação argumentando que o
termo pentacosiomedimnoi sugere que os grãos foram concebidos como a medida ou o
padrão utilizado pra regulamentar as relações. A autora sugere também que as quantias
relativas às três classes inferiores podem ter sido resultado de inferências do Período
Clássico extrapolados a partir do nome pentacosiomedimnoi. Entrementes, o certo é que o
número 500 foi incorporado à nomenclatura dos pentacosiomedimnoi, genuinamente,
durante o Período Arcaico. Além disso, Foxhall argumenta que as medidas certamente se
referem à medida do peso seco, para o qual o termo medimnoi foi constantemente aplicado
na Antiguidade. Na Grécia Antiga, o vinho e azeite não eram medidos em medimnoi, mas
em medidas de líquidos, denominadas choai e/ou amphorai (FOXHALL, 1997, p. 70).
Entendemos que a metáfora implícita na adoção dos medimnos como principal crivo
de cidadania faz alusão à importância dos grãos para a economia ateniense. De forma
antagônica, o elemento mais escasso em Atenas se tornava o protagonista na legislação de
Sólon. Os grãos, ou a produção deles, foram introduzidos como método de qualificação
estatutária, conferindo o título de cidadão de acordo com o volume de produção.
107

3 AS RELAÇÕES COMERCIAIS NA ATENAS ARCAICA

Ancorando-nos no arcabouço teórico de Karl Polanyi, identificamos que sua principal


proposição perpassa a concepção de que “nenhuma sociedade poderia sobreviver durante
qualquer período de tempo, naturalmente, a menos que possuísse uma economia de alguma
espécie” (POLANYI, 1968a, p.62).
Em sua obra A grande transformação,Polanyi sugere que “enquanto a organização
social segue a sua rotina normal, não há razão para a interferência de qualquer motivação
econômica individual” (ibidem, p. 69). Desse modo, ao analisar a dinâmica das práticas
sociais atenienses do Período Arcaico, assinalamos o advento da crise agrária enfrentada pela
polis, na medida em que tal fenômeno de cunho fundiário tem origem na subversão do
mecanismo de redistribuição95, gerando assim uma disputa relacionada à natureza territorial e
à estrutura hierárquica de controle da terra. A redistribuição figurava no exame que Moses
Finley propunha da“estratificação social interna a cada oikos”;contudo, em Atenas, o
desequilíbrio das relações de poder permeadas pelo princípio da redistribuição suplanta o
ambiente do oikos, atingindo a estrutura social da polis, ao passo que promove o despontar da
escravidão por dívidas.
Conforme afirma Polanyi, “[...] a redistribuição também tende a enredar o sistema
econômico propriamente dito em relações sociais” (Ibidem, p. 72). A conjuntura política que
sucede a conspiração de Cylon até o período do governo de Sólon, de acordo com o relato da
Constituição de Atenas, é marcado pela contínua disparidade entre os segmentos sociais.
Segundo Aristóteles “existia extrema disparidade entre ricos e pobres e a polis era perigosa, o
demos inteiro estava em débito para com o rico” (Constituição de Atenas, 13,2).
Em nossa abordagem, argumentaremos que o archondato de Sólon inaugura um período
de transição no qual a polis ateniense, anteriormente regulada pelo preceito econômico da
reciprocidade, transita pelo princípio da redistribuição no contexto da crise agrária. Assim,
perscrutar-se-ia o mecanismo de redistribuição concebido por Karl Polanyi, à medida que a
gênese da crise agrária ateniense perpassa por um desequilíbrio de forças sociais que reflete
na distribuição desigual do principal mecanismo de poder empregado no contexto social de
produção do Período Arcaico, a terra.

95
Para uma leitura mais detalhada acerca dos mecanismos de reciprocidade, redistribuição e domesticidade,
verificar o capítulo 1 deste trabalho.
108

Defenderemos que Sólon, identificando que os antagonismos sociais de Atenas


estavam circunscritos em torno da posse da terra, reorganização a agricultura, modificando a
estrutura econômica do território ático por meio de uma plataforma alternativa de diretrizes
agrícolas, na qual favoreceu a cultura de oliveiras, vinhas e seus subprodutos, preocupando-se
em regular o fornecimento de água às propriedades e em normatizar a produção rural do
território ático.

3.1 Fenômenos geográficos e políticos

Ao nos debruçarmos com os apontamentos de Milton Santos, na obra Por Uma


Geografia Nova, é perceptível a necessidade de uma abordagem geográfica para compreender
a influência da natureza nas transformações políticas, notando que os fenômenos geográficos
interferem diretamente nas relações humanas. De acordo com Santos, o conceito de espaço é
central e compreendido como um conjunto de formas representativas de relações sociais do
passado e do presente, e por uma estrutura representada por relações que estão acontecendo e
manifestam-se através de processos e funções. Para o autor, o espaço como referencial
geográfico desempenha um papel fundamental nas relações sociais e, portanto, em igual
medida transforma os fenômenos políticos, considerando que estes são reflexo da constante
interface das relações que permeiam a sociedade.
“O espaço é um verdadeiro campo de forças cuja formação é desigual. Eis a razão
pela qual a evolução espacial não se apresenta de igual forma em todos os lugares”.
(SANTOS, 1987, p.122). (...) O espaço por suas característica e por seu
funcionamento, pelo que ele oferece a alguns e recusa a outros, pela seleção de
localização feita entre as atividades e entre os homens, é o resultado de uma práxis
coletiva que reproduz as relações sociais, (...) o espaço evolui pelo movimento da
sociedade total. (Ibidem, p. 171).

Ao ampliarmos nosso estudo, transcendendo a análise singularizada em torno dos


fenômenos políticos, contextualizando as alterações geográficas como fenômenos que
compõem o quadro geral das relações dinâmicas das sociedades antigas, é possível estabelecer
um diálogo entre as abordagens de Milton Santos e Karl Polanyi, pois, na análise de Polanyi,
todas as sociedades humanas do passado estavam integradas pelos princípios da
reciprocidade, redistribuição e domesticidade, que permeavam as relações socioeconômicas.
A economia, por conseguinte, se encontrava submersa nas relações sociais, incrustada
109

(embedded) no sistema social96. Os autores estabelecem suas inferências a partir de matrizes


de análises distintas. Polanyi origina sua análise a partir da economia, enquanto Milton Santos
adota o referencial da geografia; todavia, ambos os autores nos atentam para a ineficácia da
segregação dos fenômenos que regem as sociedades. Ao cotejar suas proposições, a
consonância entre os discursos consiste na imprescindibilidade do estabelecimento de uma
análise agregadora, que promova uma amálgama entre os fenômenos de natureza politica,
geográfica, econômica, religiosa e social.
Em Atenas esta questão torna-se ainda mais latente, à medida que as reformas
efetuadas no archondato de Sólon notadamente se apresentam, em essência, como respostas
aos efeitos da crise agrária resultante da escassez na produtividade de grãos e da concentração
de terras em posse da elite. Esse fenômeno fundamentalmente físico/geográfico afetou as
relações entre os segmentos sociais atenienses e, consequentemente, as atividades políticas de
Atenas. Reconhecemos, portanto, ser imprescindível estabelecer um paralelo entre as medidas
legislativas adotadas por Sólon e os processos geográficos que permeavam a região ática.
De acordo com o autor Morris Silver (2009, p.95), a “Ática fornece evidências
dramáticas dos tipos de profundas transformações econômicas que tantas vezes acompanham
a introdução de novos produtos agrícolas em novos mercados”. A evidência de consolidação
da propriedade e das mudanças no estatuto da força de trabalho de agricultores independentes
para o de trabalhadores dependentes e vice-versa contribui para uma imagem
excepcionalmente equilibrada da importância do comércio de longa distância na Antiguidade.
Na verdade, a produção de vinho e azeite para o mercado externo, em conjunto com a
importação de grãos por Atenas durante o Período Arcaico, elevou seu nível de vida e
reformulou instituições políticas e econômicas da Ática. Silver nos informa ainda que as
videiras e oliveiras disseminavam-se de maneira exponencial em relação a outras colheitas
áticas durante o Período Arcaico. O pesquisador infere que esse talvez tenha sido uma das
razões para explicar a regulamentação de Sólon acerca do plantio das referidas árvores
(SILVER, 2009 p.101).
Ao estabelecer um diálogo com o autor Frederick Zenker (2009, p.35), corroboramos
as premissas elencadas por Morris Silver ao analisar as bases rurais da Grécia Antiga e
verificar que “as azeitonas eram uma colheita surpreendentemente resistente”. De fato, os

96
Ao reconstituir as raízes intelectuais do seu próprio projeto, Polanyi explicitamente comentou a ligação entre
status e embeddedness, cuja descoberta empírica em termos de história foi feita por Sir Henry Sumner Maine nas
categorias da lei romana de status e contrato. Esta relação problemática teve sua origem nas décadas de 1930 e
1940, com autores como Malinowski, Firth e Herskovits. Os estudos de Thurnwald, Malinowski e outros
antropólogos sobre a natureza da sociedade primitiva levaram Polanyi a concluir que a economia do homem, em
geral, está submergida em suas relações sociais.
110

pesquisadores Isager and Skydsgaard (1992, p.39)nos informam, por exemplo, que elas são
capazes de regenerarem-se mesmo depois de terem sido cortadas até suas raízes”. As oliveiras
têm extensos sistemas de raízes que coletam a umidade adequada do solo, mesmo durante a
seca do verão. Além disso, as azeitonas podem ser cultivadas numa ampla variedade de solos.
Ademais, oliveiras não desgastam solos tão rapidamente quanto as culturas de cereais.
De acordo com Zenker, a geografia da Grécia contém numerosos recursos naturais
abaixo da superfície do solo. Quando o calcário sedimentar que compõe a região do Egeu é
exposto ao calor extremo e à pressão, transforma-se em mármore. Essa composição mineral
também é responsável pelo sucesso do plantio das oliveiras na Grécia, tendo em vista que, ao
contrário da grande maioria das culturas relacionadas ao plantio na Ática – expostas à
infertilidade da terra –, o solo ático fornece a plataforma de cultivo ideal para as oliveiras,
uma vez que estas produzem de maneira mais eficiente quando cultivadas em substratos
calcários, tais como a pedra calcária, o que as torna perfeitamente adequadas para as encostas
das montanhas da Grécia (ZENKER, 2009, p.35).
Sólon favoreceu, de modo análogo, o desenvolvimento do artesanato ao notar que a
terra, apesar de infértil, era abundante em ferro, propiciando matéria-prima de qualidade para
a produção de cerâmicas. De acordo com John Boardman, a argila (Keramos) utilizada para
produzir cerâmica (kerameikos) era encontrada em toda a Grécia, embora a melhor fosse a
argila da Ática. Em relação ao solo, os recursos minerais presentes na argila afetaram as cores
disponíveis para ceramistas/pintores, principalmente por meio do nível de teor de ferro, que
propicia uma cor vermelho-alaranjada, com ligeiro brilho, aos vasos (MAISH et al. 2006,
p.9). O laranja-vermelho profundo de vasos áticos deve-se ao elevado teor de óxido de ferro
da argila, geralmente, sob a forma da hematite mineral (NEWMAN, 2008 p.105). Em
contraste, em Coríntio a argila teria um maior teor de cálcio, produzindo vasos de um teor
amarelado pálido (CLARK et al. 2002, p.77). A análise química identificou que o esmalte
preto brilhante nos vasos e copos áticos vem de um diferente tipo de barro utilizado para o
corpo dos vasos, apresentando qualidades singulares (uma argila com um alto teor de ferro,
baixo nível de óxido de cálcio, sem mica e baixo teor de matéria orgânica), a fim de atingir o
alto brilho (ALOUPI-SIOTIS, 2008, p.113-128).
A transição do panorama agrícola mencionado acima teve um foco central. As
evidências favorecem a leitura de que, durante o VII e VI séculos a.C., o padrão emergente de
vantagem comparativa favoreceu a produção de azeite e vinho de alta qualidade da Ática para
os mercados interno e externo, ao contrário de cereais para subsistência e mercados (LEWIS,
111

1941, p.149; WOODHOUSE, 1938, p.164-65). A comercialização de Ática foi impulsionada


pelo novo interesse nas exportações de azeite e vinho.

3.2 Atenas no circuito comercial mercantil

Partindo das constatações inferidas anteriormente, identificamos a necessidade de


contextualizar as medidas adotadas por Sólon no sentido de empreender uma reorganização
das prática e plantações cultivados no espaço rural ateniense vislumbrando comprovar a
interface entre tais diligências e um projeto político baseada em três principais elementos: a
reestruturação do panorama agrícola por meio da inserção das oliveiras e do vinhas como
principais matérias primas em função da singularidade do solo ateniense; a revitalização
espacial e econômica da região do Kerameikos através da regulamentação das atividades de
olaria e prostituição; e o estabelecimento do comércio com as regiões do Mar Mediterrâneo e
Egeu vislumbrando a importação dos produtos necessários à polis, como os cereais e a
exportação dos excedentes, representados pelo azeite e vinho. Consideramos esse conjunto de
medidas abrangentes como uma reestruturação de motivações econômicas. Interpretamos que,
por tratarem de medidas relativas à estrutura agrária da polis faz se imprescindível estabelecer
uma interface com a Geografia por intermédio da análise das características do solo ático.
No intuito de ilustrar o caráter econômico da empreitada de Sólon, que conectava a
reforma de pesos e medidas e a mudança do padrão da cunhagem à inserção de Atenas no
circuito comercial e mercantil do Mediterrâneo, Luis Molina (1998, p. 16) utiliza como
exemplo as leis criadas pelo legislador para incentivar e regulamentar as transações
comerciais de exportação e importação. Uma das leis que tem sido muito discutida é a
proibição da exportação de qualquer produto da Ática, exceto o azeite de oliva. Certamente,
Sólon não queria que os grãos deixassem a Ática, mas isso não significa que ele não procurou
negociar outros recursos abundantes na Ática97. Além da pecuária, os principais produtos
agrícolas da Ática parecem ter sido:

1. Cevada: A cevada era necessária para alimentar o gado e por esse motivo, embora a
Ática fosse abundante neste gênero, ela estava inscrita em meio aos artigos restritos à
exportação
112

2. Azeitonas: Azeitonas e seus produtos derivados não serviam como uma necessidade
imediata e assim representavam o melhor exemplo para Atenas de um produto excedente
e oportunidade para o comércio.
3. Trigo: Os grãos de modo geral eram essenciais à sobrevivência da polis ateniense e eram
escassos devido à infertilidade do solo de Atenas;
4. Uvas98: o vinho produzido a partir da uva também era considerado um artigo
imprescindível no cotidiano ateniense (tendo em vista a insalubridade da água) e por isso
a proibição da exportação também teria incidido sobre ele.

A respeito do azeite a pesquisadora Regina Maria da Cunha Bustamante nos informa


que seu uso era uma constante no mundo antigo. “O modelo dietético clássico baseava-se em
três produtos agrícolas primordiais: o cereal, a vinha e a oliveira (a “tríade mediterrânea”),
dos quais derivavam respectivamente o pão, o vinho e o azeite” (BUSTAMANTE, 2011, p.2).
A aplicabilidade cotidiana do azeite nas sociedades antigas transcendia as
especificidades culinárias, à medida que sua utilização compunha o arcabouço sociocultural,
além de ser um importante indicador econômico na Grécia Antiga. Bustamante sumariza os
usos e finalidades do azeite no Mundo Antigo a partir da perspectiva de David Mattingly,
buscando contextualizar a azeitona socialmente, em termos de seu valor cultural, afirmando
que:
O azeite era utilizado em diversas funções no Mundo Antigo, tais como:
alimentação (tempero, conservação do alimento, gordura), cuidados corporais (os
homens o passavam no corpo antes dos exercícios esportivos e faziam massagens
com o azeite, perfumado ou não, após o banho), medicamento (humano e
veterinário), iluminação com lamparinas, tratamento do couro... Os diversos azeites
não eram empregados indiferentemente em todos esses usos; por exemplo, os azeites
de azeitonas verdes serviam principalmente à perfumaria e à farmácia; o azeite de
azeitonas maduras era reservado à alimentação; o azeite das lamparinas era, em
geral, obtido quando da segunda prensagem. Os subprodutos do azeite – os seus
resíduos sólidos e líquidos – também eram aproveitados: combustível, ração animal,
fertilizante, inseticida, antitraça, conservador de madeira, impermeabilizante,
curativo epidérmico, lubrificante e panaceia para animais. (MATTINGLY, 1996,
p.222-6).

Tal argumento é sintetizado pelos pesquisadores Signe Isager and Jens Erik
Skydsgaard, na obra Ancient Greek Agriculture: An Introduction através da interpretação de
que o cultivo da oliveira oferece ao historiador a oportunidade de “explorar as intricadas
relações entre os valores sociais e culturais, as práticas agrícolas, o desenvolvimento e a

98
Ainda não existe consenso historiográfico sobre a exportação das uvas e do vinho. Para Molina (ibid. p.16)
esses artigos não estariam inclusos no processo de exportação promovido por Sólon. Contudo, outros
pesquisadores, como Pierre Vidal-Naquet (2007, p.88), alegam que Sólon interditou a exportação de qualquer
produto agrícola ateniense com exceção do vinho e do azeite, buscando assegurar o controle das rotas pelo Mar
Negro.
113

adaptação da tecnologia e do funcionamento das economias da Grécia” – aspectos do Mundo


Antigo que às vezes são estudados isoladamente um do outro (ISAGER e SKYDSGAARD,
1992, p. 23).
Uma das evidências da restruturação agrária de Atenas promovida por Sólon, segundo
Luis Molina (1998, p.16), é a outorga de leis que regulamentam a plantação de oliveiras (e
figueiras) e o abastecimento de água, otimizando o plantio e, consequentemente, a produção
agrícola. Para a agricultura moderna essas medidas podem parecer irrelevantes, porém
representam pormenores muito importantes num sistema agrário baseado, como acontecia na
Ática, no minifúndio. Tal afirmação se confirma na narrativa de Plutarco acerca da temática,
na qual o mesmo afirma que Sólon:
Determinou, ainda, com grande experiência, os intervalos a deixar entre as
plantações, ditando que quem plantasse alguma árvore no campo teria de guardar a
distância de cinco pés em relação ao terreno do vizinho; sendo uma figueira ou
oliveira, deixaria nove pés. (Vidas de Sólon, Fr. 231.7-8) Estabeleceu também que
quem desejasse escavar um poço ou uma fossa deveria guardar em relação ao
vizinho a mesma distância a que levara a perfuração e, se instalasse enxames de
abelhas, teria de afastar-se trezentos pés a partir dos que tivessem sido colocados
anteriormente por outra pessoa. (Ibidem, Fr. 231.7-8)

A inserção do incentivo à exportação do azeite de oliva surge, portanto, como um


mercado pronto para os fabricantes de cerâmica, especialmente de ânforas, que passaram a ser
utilizadas como ânforas de transporte para o azeite que era exportado pela polis. A visão de
Sólon para exportação de azeite de oliva e uma manufatura de apoio dos fabricantes de
cerâmica, evidentemente, não era em pequena escala, uma vez que o archonte mobilizou uma
região específica da polis ateniense para desenvolver as práticas advindas da medida
econômica.
Lin Foxhall ratifica a importância da produção de azeite no Mundo Antigo, entretanto
a pesquisadora diverge da “metodologia aplicada pelos estudiosos modernos para a análise da
função social do azeite nas sociedades antigas”. Sem embargo, o ponto fulcral do
antagonismo entre a perspectiva de análise de Lin Foxhall e a dos demais historiadores do
Mundo Antigo é a “tendência predominante em atribuir transformações sociais, políticas e
econômicas ao cultivo da oliveira”, partindo de uma abordagem determinista, na qual o
plantio da oliveira em si seria um fator determinante para as mudanças político-econômicas
das sociedades antigas (FOXHALL, 2007, p. 45).
114

Esquema 3- Modelos de Análise Historiográfica

Modelo de Análise da Historiografia Tradicional Modelo de Análise proposto por Lin Foxhall

Causa: Causa:
Aumento ou Transformações
redução no econômicas na
plantio de sociedade
oliveiras

Efeito:
Efeito:
Transformações Aumento ou
econômicas na redução no
sociedade plantio de
oliveiras

Fonte: Adaptado de FOXHALL, Lin. Olive Cultivation in Ancient Greece: Seeking the Ancient Economy. New
York: Oxford University Press. 2007. p. 294.

A pesquisadora argumenta, em contrapartida, que tais abordagens são baseadas em


modelos modernos, voltados para o mercado, advindas de uma compreensão deturpada sobre
o papel do azeite na sociedade grega antiga. Assim, o plantio de oliveiras – em maior ou
menos escala – não resultaria em transformações econômicas diretas na sociedade. Todavia, a
premissa proporcionalmente inversa é aceita pela pesquisadora, à medida que as mudanças no
contexto político-econômico das sociedades antigas podem, consequentemente, determinar o
plantio – em maior ou menor escala – das oliveiras.
A oliveira foi cultivada na Grécia de forma contínua, desde o início do Período
Arcaico, e desempenhou um papel chave na cultura agrícola, de forma contínua. Assim, as
transformações na forma como as oliveiras foram cultivadas sinalizaram transições sociais,
políticas e econômicas emergentes, mas não foram, singularmente, o canalizador destas das
mudanças econômicas conjunturais.
O incentivo à produção e comercialização do azeite pode ser atestado por vasos dos
períodos subsequentes ao archondato de Sólon, dentre os quais se destacam as imagens com
motivos envolvendo a oliveira em todos os aspectos do processo de produção, desde o plantio
à colheita.
115

Figura 2 - Lado B - Ânfora de figuras negras representando a colheita da oliveira


Atribuída ao Pintor de Antimenes
No lado B do vaso de figuras negras o panorama representado pelo artesão ilustra
nitidamente a importância da natureza e da agricultura como elementos essenciais à vida na
sociedade grega. Como plano de fundo, identifica-se o momento de colheita de umas das
árvores mais representativas da Ática: a oliveira. Por meio do exemplo fornecido pela
ilustração desta ânfora é flagrante a existência de uma relação intrínseca entre as atividades
econômicas que permeavam a sociedade grega e a prática agrícola.
Fonte: The British Museum. Grego Arcaico, 520 a.C. Ref. 1837, 0609.42

Assim, empreenderemos a análise das leis de Sólon relativas à importação e


exportação por meio do referencial do modelo de análise de Lin Foxhall, uma vez que,
segundo nossa interpretação, essas medidas de natureza econômica – a saber, a
regulamentação da exportação e subsequente produção do azeite e plantio das oliveiras –
foram resultantes de um contexto de crise agrária na polis ateniense, na qual era necessário
exportar somente os produtos que fossem produzidos em abundância no território ático.
Joseph Almeida (2003, p.21) aponta ainda, que Sólon teria restrito o elemento de
exportação ao azeite, aparentemente, para encorajar o aumento da oferta de grãos no âmbito
doméstico, para uso interno e para “equilibrar os déficits comerciais”, devido à baixa
demanda de produção em relação ao abastecimento de alimentos.
Para Molina, a medida exteriorizava ainda o caráter duradouro que Sólon esperava que
suas medidas alcançassem. Dialogando com essa proposição, em afirmação análoga, Edward
116

Harris (2014, p.11), amparado pelo suporte teórico de Heródoto (I, 29), afirma que Sólon,
“uma vez que finalizou o estabelecimento de suas leis, fez com que os atenienses jurassem
obedecê-las e então deixou Atenas por dez anos”.
O azeite constituiu um elemento sociocultural na sociedade ateniense, cujo processo
de fabricação era familiar aos setores agrícolas da Grécia. Assim, interpretamos a
regulamentação de Sólon acerca do plantio das oliveiras, bem como a legislação concernente
à exportação do azeite, como uma ação econômica contextualizada com intuito de solucionar,
ainda que parcialmente, a crise agrária de Atenas.
No início do século VI a.C. – período que precede a ascensão de Sólon ao cargo de
archonte –,a honrosa fonte de riqueza em Atenas era a propriedade da terra. Na verdade, as
reformas de Sólon estavam diretamente ligadas à questão da terra (o baixo coeficiente de
produção agrícola), à medida que a propriedade de terra culminava em status e posição. Até
este contexto social de produção, a maioria das atividades econômicas respondiam a
incentivos de natureza domiciliar e a produção agrícola, raramente resultou em mais do que
um pequeno excedente. A padronização dos artigos reservados para a exportação é uma
resposta para essa conjuntura econômica que não mais atendia às necessidades da polis
ateniense.
É consenso entre a historiografia que a Hélade não detinha, durante o início do
Período Arcaico, participação significativa no circuito comercial e mercantil do Mediterrâneo,
principalmente por não ter integrado o processo de migração e colonização externa
experimentado pelas demais poleis, visando o estabelecimento de assentamentos agrários nas
colônias durante os séculos VIII e VII a.C. e detendo somente a posse de emporions como
Náucratis e Al-Mina. A reforma estabelecida por Sólon visava mudar o padrão de atividade
comercial ateniense inserindo-a nas práticas mercantis, garantido assim o abastecimento de
grãos e a exportação dos artigos excedentes à polis.
De acordo com o pesquisador Pedro Paulo Funari, a crise agrária que precedeu Sólon
nos permite concluir que a polis ateniense não contava com um excedente de cereais para
estabelecer um comércio de exportação permanente.
Atenas estava na Ática, a sudeste da península grega central; com solo pouco fértil, a
produção de trigo e cevada nem sempre bastava para alimentar sua população. As
colinas favoreciam o plantio de oliveiras e uvas, do que resultou uma indústria de
azeite e vinho, desde o século VIII a.C. Ao sul da península, os atenienses
desenvolveram a mineração de prata e o excelente porto do Pireu favoreceu o
destaque de Atenas no comercio marítimo. (FUNARI, 2002, p.24)

Defendemos que o valor das atividades do comércio entre os atenienses emerge no


período de Sólon, ao assegurar a manutenção da demanda de cereais, através das práticas
117

comerciais de exportação e importação. Diante dos dados, podemos afirmar que Atenas deu
início a uma acentuada atividade de produção comercial de artigos como azeite e vinho para
exportação, cujo interesse era atender, em troca, por meio da importação de grãos, parte das
necessidades internas da polis ateniense em um contexto de crise agrária.
Para garantir o estabelecimento das atividades comerciais e mercantis com ênfase na
exportação e importação, entretanto, era necessário reestruturar a prática da produção da
cerâmica ateniense que, no contexto social de produção que precede o archondato de Sólon,
não competia com as demais polis, a exemplo de Corinto. Gustave Glotz defende que este
ensejo econômico “promoveu o interesse de artesãos, pintores e oleiros de poucos recursos e
de outras regiões em se estabelecer como artesãos em Atenas ao lado do cidadão ceramista”
(GLOTZ, 1946, p.132). Complementando tal proposição, Peter Garnsey (1998, p.112) afirma
que, neste ponto de sua história, Atenas não parece ter sido significativamente envolvida no
comércio. Fragmentos de mercadorias de vasos de “figuras negras” não aparecem em
quantidades significativas fora da Grécia continental até o início do século VI a.C, por ocasião
do advento da reorganização das práticas econômicas de Atenas promovidas por Sólon.

3.3 A materialização do econômico através das inscrições iconográficas: o papel das


ânforas na economia ateniense.

A pesquisadora Elizabeth Lyding Will nos informa que, à medida que a prática da
troca de bens se instaura entre as sociedades antigas, “surgiu a necessidade de embalá-los”. A
despeito do período histórico analisado, o comércio de trocas era baseado em mercadorias
consideradas perecíveis que, consequentemente necessitavam de recipientes de
acondicionamento para seu transporte ao local de destino. Desta forma, as
ânforas99constituem um pressuposto econômico por excelência, à medida que nos permitem

99
Os artefatos aqui analisados são vasos de transporte de cerâmica conhecidos como ânforas. Originalmente
inventado pela cultura cananeia no século XVI a.C., estes recipientes cerâmicos foram amplamente utilizados em
toda a região do Mediterrâneo como recipientes descartáveis pouco dispendiosos para transporte transoceânico
de mercadorias a granel (KOEHLER, 1986). A partir do século VII a.C., os gregos adotaram esta tecnologia.
Muitas cidades e ilhas gregas desenvolveram seus próprios estilos distintos de ânforas e restos deste comércio
antigo podem hoje ser encontrados no fundo do mar Mediterrâneo sob a forma de ânforas em locais de
naufrágios. Para a historiadora Elizabeth Lyding Will, “elas [as ânforas] fornecem ao historiador econômico
informações significativas sobre rotas comerciais, centros de exportação e importação, métodos de produção,
rivalidades econômicas, e até mesmo práticas monopolistas”. A importância da pesquisa e do mapeamento dos
vasilhames da Antiguidade se dá ao passo que os mesmos permitem vislumbrar a história e a trajetória dos
fenômenos de natureza comercial e mercantil na Antiguidade. (WILL, 1977, p.4). No início do século VI,
118

analisar a dinâmica e mobilidade das relações comerciais de uma determinada sociedade.


Segundo Will:
Os recipientes antigos eram feitos de argila, que era abundante e, portanto, a, mais
barata e mais prática matéria-prima para a construção de tais embalagens. Um vaso
comum da antiguidade, a "ânfora", era muito maior do que as nossas latas [...]. A
forma se desenvolveu em resposta à necessidade de um recipiente suficientemente
grande para conter quantidades em massa, mas suficientemente pequena para ser
manuseada por uma pessoa. Cerca de um metro de altura em média, e pesando cerca
de quarenta libras quando vazias, as ânforas antigas tinham duas alças grossas em
cada lado de um pescoço longo. O pescoço serviu como um suporte para um vedante
hermético e como um funil para o vazamento do conteúdo para fora. Um aro ou
"lábio" no topo do gargalo era uma ajuda no controle do fluxo do líquido a ser
despejado. A parte principal do frasco, o receptáculo ou "barriga", juntou-se ao
pescoço por um declive "ombro" [...]. A barriga foi, por sua vez, apoiada sobre uma
base forte ou "dedo" que afilado acentuadamente para baixo, dava ao pote a
aparência de uma bailarina de uma perna só. O dedo permitia que este pesado
recipiente fosse movimentado por uma pessoa, à medida que o frasco era guiado e
equilibrado pelas alças. [...] As duas alças, no entanto, serviram como a
característica mais marcante da antiga ânfora. A palavra "ânfora" vem, na verdade,
de duas palavras gregas: amphi que significa "ao redor, em ambos os lados", e
pherein que se traduz como "a carregar." Uma ânfora é, portanto, algo "carregado
em ambos os lados". (WILL, 1977, p. 1-2)

Ânforas100 são, geralmente, conhecidas por realizar o transporte de artigos necessários


à polis, como o azeite, especiarias, bem como vários outros produtos líquidos ou semilíquidos
(PEACOCK e WILLIAMS, 1991). Um problema fundamental para os arqueólogos,
economistas e historiadores que estudam o mundo antigo é determinar com precisão o volume
do comércio dessas commodities (LUND, 2004).
Na Grécia Antiga, as ânforas foram originalmente pensadas para o transporte de
mercadorias em navios, e uma parte substancial do comércio durante o Período Arcaico
desenvolveu-se através do transporte marítimo101. Um estudo elaborado por Greg Stanton
acerca da distribuição dos vasos de figuras negras exportados revela que durante o período de
vinte anos datando de 600 a 581 a.C.,houve uma difusão intensa dos vasos de figuras negras

grandes ânforas são bastante utilizadas e desenvolvem-se em diferentes tipos ao longo dos períodos entre os
diversos artistas; o pescoço, ora mais longo, ora mais curto, a pança mais volumosa, tipos diferentes de alças,
novas medidas de diâmetro da boca, entre outros detalhes: as ânforas passam por mudanças de acordo com o
estilo, necessidade e preferência dos fabricantes e clientela (KESSER, 2009, p.19)
100
O artigo científico, publicado no ano de 2007, intitulado Ancient DNA fragments inside Classical Greek
amphoras reveal cargo of 2400-year-old shipwreck revelou que a discussão em torno do conteúdo das ânforas
está longe de ser sanada. Os cientistas Maria C. Hansson e Brendan P. Foley foram capazes de isolar e identificar
o DNA presente nas ânforas resultantes de um naufrágio na região do Mar Mediterrâneo e chegaram à conclusão
de que os vasos, conhecidos pelo transporte de vinho e azeite, continham carregamentos variados, como
amostras de orégano, legumes, gengibre, sementes de diversas oleaginosas e óleo produzido a partir das
oleaginosas (FOLEY, HANSSON, KOURKOUMELIS, THEODOULOU, 2007, p. 392-5).
101
Uma fração dessas viagens culminou em naufrágios (MUCKELROY, 1978), deixando as ânforas no fundo do
mar. Naufrágios podem conter informações qualitativas e quantitativas de valor inestimável sobre a antiga
transferência de tecnologia, a comunicação de longa distância, a produção econômicae agrícola, a
interdependência regional, e o desenvolvimento cultural.
119

na Grécia, tanto na área Oriental quanto no Mar Mediterrâneo, que foi intensificada de modo
paralelo ao contexto de desestruturação do comércio de cerâmica de Corinto. As cerâmicas
áticas de figuras negras estabeleceram-se ao longo do interior da costa leste da Ásia Menor e
chegaram até a Itália e Sicília, em quantidade, pela primeira vez durante o Período Arcaico.
(STANTON, 2002, p.76-7)
O processo de manufatura dos vasos consistia em várias etapas: a extração da argila,
seu preparo para a confecção dos produtos, a busca de combustível, a manutenção dos fornos,
o trabalho no torno, moldagem, pintura, secagem e a queima dos vasos, além do
armazenamento dos produtos, do transporte e da venda. Havia família de artesãos que
trabalhavam e mantinham as oficinas cerâmicas, mas a mão de obra era garantida também por
estrangeiros residentes em Atenas, os metecos, e por escravos.
Argumentaremos que este crescimento exponencial na indústria secundária de Atenas,
a saber, o artesanato e o comércio, além da exportação de azeite, demandam a existência de
uma organização das práticas comerciais, por meio de estruturas político-econômicas que
materializariam a regulamentação das atividades desempenhadas pela polis. Acreditamos que
a propagação das cerâmicas de figuras negras ao longo do Mar Mediterrâneo e Egeu ocorre
muito precocemente na história de Atenas para serem atribuídas ao archondato de Pisístrato.
Assim, acreditamos que este cenário econômico pode ser mais bem compreendido em
justaposição às reformas empreendidas por Sólon, especificamente como resultado dos
estímulos da economia ateniense durante o Período Arcaico.
A empreitada comercial de Sólon insere-se na conjuntura socioeconômica ateniense, à
medida que o legislador favoreceu o desenvolvimento do artesanato na região do Kerameikos.
A visão de Sólon para a exportação de azeite de oliva e para a manufatura de apoio dos
fabricantes de cerâmica, evidentemente, não era de pequena escala, uma vez que o archonte
mobilizou uma região específica da polis ateniense para desenvolver as práticas advindas da
medida econômica. Assim, o território do Kerameikos, anteriormente utilizado como
cemitério, foi dinamizado e passou a ser utilizado como recanto dos ceramistas, pois oferecia
um complemento para a economia da polis ateniense que, anteriormente, tinha a prática
agrícola como ponto fulcral de sua estrutura econômica. Raphael Sealey aponta que o forte
impacto da exportação de cerâmica durante o Período Arcaico pode ser notado através da
presença dos vasos de figuras negras “na maior parte da costa do Mediterrâneo e Mar Negro”
(SEALEY, 1976, p.110).
Na abordagem da arqueóloga Alexandra Alexandridou, o início da produção de
cerâmica ática sobrevivente do século VI a.C., “sugere que a produção estava nas mãos de um
120

número maior de ceramistas e pintores, tornando-se gradualmente mais organizada”


(ALEXANDRIDOU, 2015, p.16). A pesquisadora afirma que embora os vasos do início do
século VI a.C. tenham continuado a satisfazer grande parte das necessidades locais, um
grande número de ânforas de figuras negras foram encontradas no exterior a partir deste
período. O quadro de distribuição mostrado abaixo revela uma mudança dramática no início
do século VI a.C., o que se contrapõe à conjuntura do século VII a.C., na qual os vasos áticos
do período não aparecem em grande número quando cotejados junto ao comércio exterior.
A análise comparativa dos gráficos compilados pela pesquisadora Alexandra
Alexandridou nos permite concluir que a polis ateniense passou por um período de transição
no que tange às práticas comerciais no intervalo entre os séculos VII e VI a.C.. A partir dessa
inferência, percebemos uma mudança no enfoque da produção de vasos atenienses condizente
com as reformas instauradas por Sólon, à medida que no período referente ao século VII, que
precede seu governo, o gráfico compilado pela autora indica a produção da cerâmica voltada
para a circulação interna, ou seja, baseada na produção agrícola de subsistência. Todavia,
durante o século VI a.C. os indicadores demonstram mudanças na produção e exportação das
cerâmicas que refletem a alteração do paradigma econômico agrário para a inserção das
práticas comerciais e mercantis no contexto social de produção inerente à Sólon
(ALEXANDRIDOU, 2015, p. 17-18).

Gráfico 3 - Distribuição de vasos de figuras negras no final do VII século a.C.

300

250

200

150

100

50

0
Ática Égina Ásia Menor Etrúria
Fonte: Adaptada de ALEXANDRIDOU, Alexandra. The Early Black-figured Pottery of Attika in Context (c.
630-570 BCE). Monumenta Graeca et Romana, 17. Leiden; Boston: Brill, 2011,p. 6.
121

Gráfico 4 - Padrão de distribuição dos vasos de "figuras negras" no VI século a.C.

160
140
120
100
80
60
40
20
0

Fonte: Adaptada de ALEXANDRIDOU, Alexandra. The Early Black-figured Pottery of Attika in Context (c.
630-570 BCE). Monumenta Graeca et Romana, 17. Leiden; Boston: Brill, 2011,p. 6.

Os novos mercados no exterior para a exportação do vinho e do azeite produzidos na


Ática incluíam as regiões do Mar Negro, Sicília, Etrúria, Egito (Náucratis e Dafne), Al-Mina,
no norte da Síria, e as ilhas do Mar Egeu. A evidência para o aumento das exportações
durante o archondato de Sólon é, principalmente, a cerâmica. Elementos imprescindíveis para
o transporte do vinho e do azeite – elencados como principais artigos para exportação no
Período Arcaico – foram os vasos áticos de figuras negras102 (BOARDMAN, 1999, p. 17, 47,
125, 129,134, 219; FRENCH 1964, p. 25, 43- 44, 50; TSETSKHLADZE, 1998, p. 55).

102
John Boardman aponta-nos, similarmente, para a existência de vasos Panatenáicos. Tais ânforas também são
encontradas por meio da nomenclatura de ânforas SOS. A sigla correlaciona-se, em inglês, ao formato do padrão
de decoração do pescoço das ânforas (BOARDMAN, 1999, p. 17). Essas ânforas semi-decoradas, intituladas de
vasos panatenáicos ou ânforas SOS, que datam do VIII século a.C. até a primeira metade do século VI a.C.,
foram encontradas em numerosos locais do Mediterrâneo, especialmente Etruria. As ânforas de padrão SOS,
cujo pescoço e punhos evoluíram para melhor estar em conformidade com os requisitos de transporte, é o
primeiro frasco de armazenamento ático a ser exportado em quantidade. Em vários casos, os nomes
(possivelmente de comerciantes) estão inscritos nos recipientes. Alan Johnston e R. Jones (1978, p. 140)
sustentam que "no que diz respeito às exportações da Ática, devemos concluir, a partir da distribuição das
ânforas SOS, que boas quantidades de azeite foram enviados da Áttica durante o século VII a.C.; a julgar pela
evidência de ânforas, este comércio parou no século VI a.C.". Chester Starr (1977, p. 68) é muito mais
conservador do que Johnston e Jones no que diz respeito às exportações, no século VII a.C.: "Embora a
evidência quantitativa esteja faltando, as exportações de vinho e azeite da Grécia provavelmente tornaram-se
significativas apenas no século VI a.C.". Sergey Solovyov (2004), de The State Hermitage Museum, observa
que, "achados raros de início [século VII] ânforas de transporte grego (basicamente de Chios e Ática) estavam
122

A partir da referência à ação do comércio ateniense e à propagação dos vasos de


figuras negras elencados pelos gráficos acima, percebemos que as zonas costeiras da Ásia
Menor, com destaque para Náucratis103, foram os principais receptores das cerâmicas áticas.
Embora as importações de vasos da Ática não estejam ausentes da Etrúria, do sul da Itália, da
Sicília, do sul da França e Espanha – regiões nas quais a cerâmica ática se tornaria dominante
após a metade do século VI a.C. –, o padrão de distribuição, e representação dos pintores em
locais particulares sugere que a produção e a circulação da cerâmica de figuras negras já era
uma atividade organizada durante este período, fornecendo suporte à informação do comércio
direcional ancorada por Robin Osborne (1996, p. 31-8).
O desenvolvimento do comércio exterior com ênfase na cerâmica ática de figuras
negras indica que a Ática foi capaz de superar o isolamento do século VII a.C. e,
gradualmente, integrar-se a uma rede de comércio em larga escala, envolvendo as regiões do
Mar Mediterrâneo e Mar Negro. Defendemos que Sólon foi o responsável pelo
reestabelecimento econômico de Atenas por intermédio do incentivo às práticas comerciais e
mercantis. O desenvolvimento da atividade comercial é visto através da exportação dos vasos
de figuras negras para o nordeste e para o oeste durante final do século VII a.C., e no interesse
de Atenas em controlar o território de Salamina com a finalidade de facilitar o acesso às rotas
comerciais de seus portos do sul para a possível exportação de grãos e de azeite para os
mercados do Mar Negro. As evidências que suportam a exportação de cerâmica também
sugerem a intensificação das atividades de manufatura, assim como o aumento acentuado na
produção de estatuetas e artigos religiosos durante este período.
Para o historiador Peter Acton, “Atenas era rica em matérias-primas [...], incluindo
mármore, calcário, argila e prata, e parceiros comerciais forneciam outros itens de luxo, como
pano fino, especiarias, corantes e metais preciosos, muitas vezes, para posterior
processamento em Atenas”. Assim, segundo o pesquisador, a prática da manufatura e do
comércio se fizeram presentes ao longo do Período Arcaico e, de forma mais exponencial,
durante o Período Clássico. Todavia, estes elementos que compunham a sociedade ateniense

concentradas em pontos costeiross [norte do Mar Negro] e indiretamente testemunham o início do comércio do
vinho na região ".
103
Segundo a pesquisadora Marianne Bergeron, a evidência de cerâmica em Náucratis, especialmente aquelas
com inscrições votivas em grego e arquitetura dos santuários gregos, confirma a presença de pessoas de origem
grega nesta localidade. Em geral, as discussões elencadas por Boardman e Tsetskhladze, nas quais os
pesquisadores defendem a fórmula "vasos = pessoas e rotas comerciais", parecem aplicar-se a Náucratis, como a
origem de grande parte da coleção de louças finas gregas (BOARDMAN, 1999, pp. 17, 47, 125, 129,134, 219;
TSETSKHLADZE, 1998, p. 55). As escavações arqueológicas no local, desde a sua descoberta em 1884,
demonstraram que as atividades comerciais foram realizadas em grande escala e, de fato, teriam envolvidos
trocas de artefatos gregos (BERGERON, 2015, p. 267-8).
123

por meio de ensejos econômicos costumam ser negligenciados pela historiografia. O tema é
preterido em muitos relatos sobre Atenas. Para o autor, na melhor das hipóteses, o historiador
encontrará “referências a alguns casos em que um artesão-cidadão tenha chegado ao
conhecimento de Platão”, ou alguma ocasião na qual Demóstenes teria agido em favor de um
proprietário cujo ofício fora prejudicado (ACTON, 2016, p. 202).
A despeito do baixo número de publicações acerca da temática do comércio na Grécia
Antiga, Acton argumenta que este panorama vem aos poucos sendo transformado e que a
questão da manufatura concernente ao comércio nas sociedades antigas não foi negligenciado
por completo. O autor complementa elucidando que:
Um [significativo] número de estudiosos empreendeu grandes contribuições em
áreas específicas, tais como a vida e obra de artesãos, a gama de negócios de
fabricação especializada, a [estrutura] bancária, as leis que regem o comércioe as
economias das cidades gregas. (ACTON, 2016, p. 202)

Na perspectiva de Acton, embora seja possível afirmar que “antes do uso generalizado
de máquinas, não havia muito espaço para dividir o trabalho dentro de um processo”, a
especialização das atividades comerciais e mercantis na Grécia Antiga demonstra que o poder
elucidativo desta proposição é limitado. Xenofonte (Ciropédica, 8.2.5) famosamente descreve
como a confecção do calçado foi dividida entre vários especialistas em áreas urbanizadas,
exemplificando a variedade e a especialização do trabalho nas atividades comerciais. Alain
Bresson (1999, p. 15), demonstra que os ofícios das sociedades antigas empregavam grande
número de trabalhadores nos estabelecimentos individuais, nos quais se produzia diversos
itens “como escudos, facas e camas”.
Mais uma vez recorreremos à iconografia para complementar a leitura histórica
adquirida pela historiografia e assim corroborar o aperfeiçoamento das práticas comerciais
durante o Período Arcaico através das manifestações encontradas nas ânforas gregas. Segundo
o Museum of Fine Arts em Boston, o conteúdo imagético que adorna a ânfora abaixo
simboliza, em ambos os lados, atividades comerciais distintas.
124

Figura 3 - Ânfora de figuras negras representando o ofício de um sapateiro e de um ferreiro.


Atribuída ao Pintor de Plousios.
No lado A da ânfora identifica-se o ofício comercial do sapateiro. Na loja deste sapateiro está sendo
montado um novo par de sandálias para uma mulher. O sapateiro senta-se diante dela e corta a sola de couro
em torno de seu pé. A mulher levanta suas vestes (himation) e faz gestos em direção ao sapateiro. Várias
ferramentas e equipamentos de dimensionamento encontram-se afixadas na parede de trás da loja. Atrás da
mulher senta-se o aprendiz do sapateiro, com uma sandália na mão. Um homem mais velho observa a cena
na extremidade direita. Ele se inclina em um conjunto de gestos na direção da mulher. Ele pode ser o outro
cliente, o proprietário da loja, o marido ou o pai da mulher. Debaixo da mesa encontram-se uma bacia e uma
sandália acabada.
Outro ofício muito comum à polis ateniense é retratado na parte de trás da mesma ânfora. Por meio da
interpretação fornecida pelo Museum of Fine Arts de Boston, constata-se tratar-se de um ferreiro exercendo
seu ofício. O ferreiro, caracterizado com barba e nu no centro, está prestes a atacar uma barra de metal com
sua marreta em forma de cunha. Outro homem, sem barba e também nu, segura a barra aquecida, numa
alusão às etapas necessárias para a confecção do trabalho. O homem está parcialmente obscurecido pelo
forno na extremidade esquerda. À direita, dois homens vestidos observam a cena.
Fonte: Ânfora de figuras negras. Grécia, 500–490 a.C., Ref. 01.8035

Tendo por base o referencial imagético acima, reforça-se a premissa adotada pelo
historiador Peter Acton, à medida que a própria retratação do oficio na ânfora reflete um
processo de especialização das atividades comerciais pertinentes à sociedade grega. No intuito
de melhor compreender o processo de especialização, nos propomos a problematizar a figura
do ceramista durante o Período Arcaico. Identificar tais agentes na sociedade ateniense é
importante, haja vista sua influência - ainda que indireta - no processo de reestruturação da
economia de Atenas.
125

Encontramos na narrativa de Plutarco indícios do crescente processo de


comercialização existente na Ática (Vidas de Sólon, 22,1). A observação de Plutarco que "a
cidade estava cheia de pessoas que estavam constantemente fluindo em direção à Ática de
todos os quadrantes" nos permite inferir que a grande maioria dos ceramistas, envolvida no
processo de especialização da atividade de olaria em Atenas era de estrangeiros. Esses
imigrantes seriam motivados a migrar para Atenas por um desejo de estabilidade, consistente
com o contexto de estruturação econômica da polis ateniense fomentado pelas reformas de
Sólon.

3.4 Mão de obra estrangeira em Atenas

Plutarco afirmava que Sólon teria concedido a cidadania a qualquer estrangeiro que
chegasse a Atenas para a prática de um comércio. A cidadania foi concedida também para
aqueles que tinham sido permanentemente exilados como estrangeiros. Esta lei destinava-se a
encorajar certas categorias específicas de imigrantes como, por exemplo, os ceramistas104, que
teriam sido incentivados por Sólon a migrar para Atenas em troca da promessa de cidadania,
visando aperfeiçoar a prática manufatureira. Com efeito, para Plutarco, os metecos105 foram
admitidos em Atenas na época de Sólon devido ao seu conhecimento especial em certas
atividades manufatureiras importantes, como o depósito de armas, construção naval,
artesanato, entre outros.

104
A documentação literária não demonstra muito interesse pelo tema, porém o status social dos artistas-oleiros
foi comentado em obras de autores como Aristófanes, Aristóteles e Platão. Essas notas podem ser esclarecedoras
quando analisadas em conjunto com as fontes epigráficas: uma série de inscrições em bases de estátuas de
bronze ou mármore encontradas na Acrópole de Atenas, atesta um alto status econômico e cultural de alguns
artistas-artesãos em fins do século VI, meados do V a.C..
105
A palavra meteco que utilizamos na língua portuguesa para definir o estrangeiro residente ateniense vem
diretamente do termo grego metóikos, não possuindo nenhum tipo de tradução literal, situação semelhante em
outros idiomas contemporâneos como, por exemplo: metic no inglês, métèques no francês e metöke no alemão.
Termos como “imigrante” e “forasteiro residente” seriam traduções que se aproximam remotamente do
significado original do termo grego. Analisando gramaticamente, o termo é composto pela união das palavras
meta e oíkos. A primeira delas, meta, é um prefixo grego polissêmico que expressa idéias de continuidade,
sucessão, mistura e intermediação, sendo possível traduzi-la como “após”, “além de” ou “com”, e o termo oíkos
aglomera uma série de significados que irão depender do contexto em que a palavra será utilizada. Inserindo o
prefixo mais o substantivo, podemos traduzir metóikos como a sentença “aquele que muda sua residência”, na
qual oíkos assume simplesmente o sentido de “moradia” e meta significa “transição” ou “transferência”. Em
outras palavras, o meteco representa aquele indivíduo que transfere o seu oíkos de uma polis para outra.
Contudo, devemos atentar que esta é uma tradução aproximada, pois até os dias atuais a tradução correta do
termo metóikos ainda é bastante discutida, possuindo outros significados como “aquele que mora junto”, “que
veio de outro oíkos”, “com residência”, entre outros.
126

Causa perplexidade também a lei relativa à concessão de cidadania, pois ele não
permitia que se tornassem cidadãos senão os que haviam abandonado a pátria de
origem em exílio perpétuo ou os que, com todos os da sua casa, se tivessem mudado
para Atenas a fim de exercer um ofício. Tomou esta medida, segundo se crê̂ , não
tanto para afastar as outras pessoas, mas antes para atrair a Atenas estas, com a
certeza de virem a partilhar a cidadania, e ainda por considerar dignos de confiança
os que, por necessidade, se viram expulsos da sua terra, bem como os que a
deixaram de livre vontade. (Vidas de Sólon, 24.1.4).

Interessa-nos analisar, em particular, dois aspectos do relato de Plutarco acerca do


incentivo à migração de estrangeiros para Atenas, a saber: o estímulo de Sólon para atrair
indivíduos interessados em exercer um ofício – os quais argumentaremos tratar-se de
ceramistas advindos das demais poleis –, e a preocupação em resgatar os que haviam
abandonado a pátria por motivo de exílio – nesse sentido, acreditamos que a promoção da
cidadania ateniense vislumbrava atrair aqueles que haviam sido vendidos ao exterior por
ocasião da escravidão por dívidas, referindo-se, portanto, aos hectemoroi.
Para William Biers (1996, p. 117), a declaração de Plutarco se confirma à medida que a
presença de estrangeiros recrutados para a fabricação de cerâmica em Atenas é evidente, a
partir da profusão de nomes estrangeiros entre pintores e escultores no território da Ática. Os
metecos estavam condicionados ao pagamento de uma tributação específica, o metoikion106:
taxa imposta pela polis aos metecos (estrangeiros) que se estabeleceram no território
ateniense. Essa taxa anual consistia em 12 dracmas para o homem e de seis dracmas para a
mulher, podendo ser dividida em 12 vezes. Todo estrangeiro que permanecesse mais de um
mês deveria efetuar o pagamento (HANSEN, 1991, p. 117). Os estrangeiros eram
incentivados de maneira similar a empreender "liturgias" específicas, de acordo com a
quantidade de suas riquezas. Além disso, em tempos de guerra, estes eram compelidos a pagar
um tributo de renda especial e foi dito por Isócrates (parágrafo 41) que eles consideravam
uma obrigação honrosa o ato de compartilhar o custo da cidade.
Para o pesquisador José Geraldo Costa Grillo, é consenso entre a historiografia que os
artesãos, oleiros e pintores, instalaram-se, em sua grande maioria, no bairro do Kerameikos,
situado entre a Ágora e a porta do Dípilo, agrupados em oficinas. Sobre o funcionamento
dessas oficinas, o autor elucida:
O oleiro era o proprietário e o chefe da oficina, ao qual podiam associar-se vários
pintores. A condição social desses artesãos foi muito variável e é matéria debatida
nos estudos atuais. Uma parte expressiva dos pesquisadores entende, todavia, que os
artesãos compunham-se de cidadãos livres, de metecos e de escravos, e que muitos

106
August Boeckh (1817, p. 537-541), em sua obra The Public Economy of Athens, nos revela um pouco mais
sobre as várias taxas e outras obrigações dos metecosem Atenas. O referencial de Boeckh foi cotejado
simultaneamente com os trabalhos de Yvon Garlan (1982, p. 108-111), Michel Austin, Pierre Vidal-Naquet
(1972, p. 99-100) e Moses Finley (1981, p. 81-90).
127

deles conquistaram uma posição na sociedade ateniense, mantendo, por vezes, um


convívio próximo com personalidades sociais. Uma pequena parcela deles é
conhecida por suas assinaturas, como oleiros e como pintores, sendo que a mais
antiga, conhecida, é a do Pintor Sófilos107; a grande maioria, todavia, trabalhou no
anonimato (GRILLO, 2009, p. 26)

Na abordagem de Morris Silver, os residentes permanentes e artesãos seriam menos


onerosos para o projeto político de Sólon e melhor capacitados para contribuir para o
crescimento econômico do que os trabalhadores temporários e os não qualificados. Uma das
vantagens, destacada por William Biers e Morgens Hansen, seria a contribuição para a polis
através do pagamento de impostos e liturgias. Segundo Silver, existem evidências
arqueológicas que apontam para o crescimento populacional na área urbana durante os tempos
arcaicos (SILVER, 2009, p. 100).
Robin Osborne, propõe utilizar as evidências arqueológicas para materializar as práticas
comerciais. Segundo o autor, a comercialização assume a forma de interdependência entre os
mercados de cerâmica da Ática e da Etrúria. Abordando as oficinas “nicostênicas” que
operavam em Atenas na segunda metade do século VI a.C., Osborne observa que:
Cerca de 96% dos vasos destas oficinas são de proveniência arqueológica conhecida
da área etrusca, e produziram vasos cujas formas copiavam as formas da cerâmica
etrusca “bucchero” [...]. A adoção de formas etruscas mostra que as oficinas
“nicostênicas” produziam explicitamente para um mercado estrangeiro. A escala
substancial de suas operações – parece ter sido particularmente grande – associada à
preocupação com um número muito grande de pintores, que empregam até 30
pessoas [...] torna impossível rejeitá-la [a produção de cerâmica] como uma
experiência isolada dentro de um sistema de outra forma não orientada para um
mercado preciso. (OSBORNE, 1996, p. 31-2)

Ao cotejarmos os argumentos elencados por Robin Osborne com a reflexão proposta pela
arqueóloga Alexandra Alexandridou, delineamos um processo de transição consoante com as
reformas de Sólon. Alexandridou nos informa que, na passagem do século VII para o VI a.C.,
diversas mudanças podem ser assinaladas no que tange à cerâmica ática. Transformações no
padrão iconográfico, bem como na forma dos vasos, apontam para uma grande influência das
cerâmicas de Corinto na produção ateniense Esse processo, que a autora chama
“corintianização108”, confirmaria a hipótese da migração em larga escala de ceramistas

107
Em atividade entre 580 e 570 a.C., o Pintor Sofilos foi o primeiro artesão ático a assinar seus vasos. De seus
vasos conhecidos, quatro trazem sua assinatura, três como pintor e um como oleiro. (BOARDMAN, 1997a, p.
24-25)
108
Segundo a autora, a principal característica do processo de corintianização, é mais claramente expressa
através da adaptação dos frisos animais de Corinto para decoração dos vasos de “figuras negras”. Embora essa
técnica já estivesse presente desde o último trimestre do século VII a.C., eles só tornaram-se dominantes no
início do século VI a.C., deixando pouco espaço para cenas mitológicas ou genéricas. A corintianização também
se expressa através da adoção de uma série de formas de Corinto, que substituiu as formas áticas. As formas são
introduzidas, quer como cópiasdiretas ou com variações, como os lekythos. É interessante notar que, uma série
128

originários de outras poleis, como Corinto para impulsionar o ofício da cerâmica ática
(ALEXANDRIDOU, 2015, p.16-7).
Luis Molina (1998, p. 9) afirma que Corinto seria “um dos principais centros mercantis
durante o século VII a.C.”, porque desenvolvera um novo estilo de cerâmica chamado de
vasos de "figuras negras" e produzira o que, para William Biers (1996, p. 138-139), “foi
considerada a melhor cerâmica na Grécia”. O autor argumenta que “é atribuída a Corinto a
produção das primeiras ânforas de transporte da Grécia” (BIERS, 1996, p. 120-143). Sendo
assim, acreditamos que Sólon incentivou o fluxo migratório interpoleis almejando atrair os
ceramistas de Corinto, responsáveis pela técnica inovadora dos vasos de “figuras negras”.
A distribuição destas formas inspiradas nas cerâmicas de Corinto, permaneceu limitadas
dentro da Ática, mas estas são amplamente exportadas em torno do Mediterrâneo, “denotando
que o uso de protótipos de Corinto foi bastante associado com os esforços das oficinas para
promover seus produtos no exterior”. (ALEXANDRIDOU, 2015, p.16-7). Para o autor José
Geraldo Costa Grillo, neste contexto:
A cerâmica ática estava madura e começou a influenciar outras regiões e ganhar
espaço no mercado de vasos. Se, durante todo o século VII e a primeira metade do
VI a.C., a cerâmica coríntia dominou o mercado, na segunda metade do século VI
a.C., a cerâmica ática, por sua superioridade, tornou-se hegemônica dentro e fora da
Grécia. (GRILLO, 2009, p. 25)

Sendo a forma mais duradoura de provas materiais, a cerâmica é, segundo Robin


Osborne, “a marca registrada arqueológica da presença grega no exterior” (OSBORNE, 1996,
p. 31). A ideia inversamente proporcional também é plausível, à medida que a manifestação
de técnicas de Corinto na cerâmica ática pode indicar a presença de estrangeiros no território
ateniense. Acreditamos que Sólon promoveu a inserção destes artesãos, pintores e oleiros
devido a fatores como a necessidade de mão de obra que impulsionasse a produção da
cerâmica a ser utilizada com o objetivo de dinamizar a economia ateniense e promover a
venda de artigos voltados para a exportação, como o azeite e o vinho.
Com o advento da seisachteia, Sólon afirma ter resgatado do exterior os atenienses
forçados ao exílio ou vendidos como escravos. Segundo ele, alguns desses indivíduos não
conheciam mais o dialeto ático, o que implica em afirmar que o jugo da escravidão por
dívidas era uma prática consolidada em Atenas. Em sua poesia, Sólon nos fornece um
panorama geral sobre a situação da parcela da população exposta à escravidão por dívidas:
por causa da penosa necessidade,

de formas, como os dinoi ou os skyphos, que foram produzidas continuamente pelas oficinas áticas desde o
período geométrico, são abandonadas e substituídas por versões de Corinto durante o século VI a.C.
(ALEXANDRIDOU, 2015, p.16-7).
129

não mais falavam o dialeto ático,


depois de terem errado por muitos lugares;
outros, aqui mesmo, sofriam a ignóbil escravidão,
trêmulos diante da conduta dos seus senhores, tornei-os livres. (Fr 36 W 5-10)

Deste modo, acreditamos que, devido ao intervalo de tempo discorrido entre o início da
prática compulsória da escravidão por dividas e a lei da seisachtheia outorgada por Sólon, os
indivíduos exilados precisariam de um incentivo para migrar novamente para Atenas, devido
à grandiosidade de tal empreitada. Tratava-se de um processo trabalhoso, não somente pela
perspectiva do deslocamento, mas também pela reinserção de tais indivíduos na sociedade
com a qual o sentimento de identificação fora ameaçado pela questão do idioma, a falta de um
ofício e receio de recair novamente em servidão que, como argumentamos no Capítulo 2 deste
trabalho, continuou existindo mediante o estabelecimento da seisachtheia. Interpretamos,
portanto, que, para além do incentivo aos ceramistas, oleiros e artesãos, Sólon refere-se à
repatriação dos hectemoroi.
A reintegração dos hectemoroi na polis após a outorga da seisachtheia é uma questão
complexa, abordada, sem consenso, pela historiografia. Não pretendemos oferecer uma
solução a este embate, somente leituras alternativas que venham porventura a amenizar a
lacuna deixada por Plutarco, que não menciona o papel social exercido por este segmento
após o estabelecimento da legislação soloniana. Assim como Edward Harris estabelece uma
distinção entre as práticas de trabalho existentes na polis, a saber, a escravidão e a servidão
por dívidas, Luis Molina alega que os segmentos sociais contemplados pela legislação de
Sólon não se resumem aos hectemoroi109.
A possível solução das indagações formuladas nos aproximou da abordagem realizada
a partir do debate entre duas tradições historiográficas. A historiografia francesa materializada
nas proposições de Claude Mossé em diálogo com a nova historiografia anglo-americana,
representada por Luis Molina,
Na perspectiva de Claude Mossé (1979, p. 429), a recursa de Sólon para em realizar a
isomoiria (divisão das terras áticas entre os indivíduos sem terras) promoveu o acréscimo do
número de thetai, homens livres que não pertenciam à aristocracia e não eram proprietários
de terra, constituindo uma considerável mão de obra livre a ser direcionada para outras
atividades de trabalho, como olaria e artesanato. A quarta categoria socioeconômica, os

109
Em análise acerca deste tópico, a Cambridge Ancient History (2006, p. 380), argumentou que esta divisão de
terras foi derivada do assentamento do território durante os séculos IX e VII a.C., quando a "aristocracia" pode
ter assumido o controle de grandes extensões de terra e designado lotes a famílias menos "empreendedoras" em
regime de cultivo de partes.
130

thetaipermanecem excluídos de participação política ativa; atuavam como ouvintes nas


assembleias e no tribunal, ou seja, não eram elegíveis como membros do conselho.
Luis Molina (1998, p. 17) complementa a análise, argumentando que “a criação do
segmento social dos thetai corrobora a ideia de que Sólon esperava que os hectemoroi
adotassem o ofício da manufatura”, o que consolida o objetivo da seisachtheia. Na premissa
de Molina, com o alívio dos encargos, restavam aos hectemoroi três alternativas de inserção
econômica:
1. O retorno ao cultivo da terra;
2. A busca por meios de subsistência alternativos na Ática;
3. A tentativa de enriquecimento em outro local;

A primeira afirmação é desconstruída pelo autor, à medida que havia o risco dos
hectemoroi retornarem ao estado de dependência anterior. Acrescenta-se a incapacidade de
arcar com o pagamento fixo acarretado pelo arrendamento da terra, já comprovado pelo
contexto anterior de tensão. Além disso, havia o problema da improdutividade agrícola do
território ateniense, o estopim da crise de Atenas. A hipótese do enriquecimento fora do
território ático também é considerada improvável pelo autor, pois conforme indica a
historiografia, os processos migratórios do período estavam convergindo em torno de Atenas,
e não para fora da região.
Para o pesquisador, restava a este grupo a busca de meios de subsistência alternativos
nos limites do território ático, e a solução encontrada por Sólon para realocar os hectemoroi
estava intimamente ligada à infertilidade do solo ateniense. Devido ao desgaste da terra, os
hectemoroi eram encorajados a buscar outros ofícios como a manufatura de cerâmica e,
portanto, a deixar o cultivo da terra e a possibilidade de retornar à relação de dependência
com o senhor novamente. A criação de uma classe inteira de indivíduos “sem propriedades”,
os thetai, reflete a iniciativa de Sólon de inserir os hectemoroi no contexto social de atuação
da polis ateniense. Segundo Plutarco (Sol, 22.1), "Sólon observou a cidade encher-se",e a
criação do segmento dos thetai, aliada à criação de uma lei contra a ociosidade, pode ter
fornecido uma alternativa para o grande fluxo migratório que se abateu sobre Atenas.
Concluímos, todavia, que a solução encontrada por Sólon nos remete ao problema da
singularidade demográfica de Atenas. Conforme discussão fomentada no Capítulo 2 deste
trabalho, interpretamos que a polis ateniense não sofreu do aumento demográfico que atingiu
o território ático. A teoria proposta por Anthony Snodgrass e corroborada por Josiah Ober e
Lin Foxhall aponta, em contrapartida para um movimento de democratização das práticas
131

funerárias que foi equivocadamente interpretada pela historiografia como crescimento


populacional durante o Período Arcaico. Desse modo, a medida proposta por Sólon
vislumbraria não só reparar as injustiças sociais ocasionadas pela prática compulsória da
escravidão por dívidas, como também incentivar um aumento na mão de obra da polis. Por
meio da inserção de novos segmentos sociais com a promessa da cidadania, a exemplo dos
artesãos, ceramistas, oleiros e pintores e, conforme nossa leitura, também os hectemoroi,
Sólon almejava alavancar o contingente de produção da polis ateniense, pois esse seria um
elemento necessário à reestruturação econômica de Atenas.

3.5 Kerameikos: O recanto das práticas econômicas

Na região do Kerameikos110, que englobava parte da Ágora e a zona onde se


desenvolveu a principal necrópole de Atenas, fora dos limites da cidade a noroeste, foram
evidenciados diversos pontos de produção ceramista. Tal inferência é formada a partir da
presença de áreas de descarte, de fornos e de grande quantidade de fragmentos datados da
segunda metade do século VI à segunda metade do século V a.C.. Segundo a pesquisadora
Haiganush Sarian, o local reúne as condições ideais para o desenvolvimento da cerâmica,
pois:
Geograficamente, a região a noroeste de Atenas apresentava as condições ideais para
a produção de vasos cerâmicos: um profundo leito de argila no vale do Cefiso,
proximidade ao rio Eridanos, boa localização para a venda dos produtos na Ágora e
acesso ao porto do Pireu, através do qual a cerâmica ática encontrou os caminhos
para exportação. Mas foram encontrados também a sudoeste da cidade, em áreas
distantes do principal leito de argila, vestígios de habitação com dependências que
serviram como oficinas, o que confirmou as hipóteses levantadas pela evidência
literária de que havia uma atividade ceramista de caráter doméstico. Presume-se que,
para este caso, havia “uma preferência dos artesãos pela maior proximidade de suas
casas e do mercado onde seus vasos podiam ser vendidos” (Sarian, 1993, p. 106).

Para a pesquisadora Carolina Kesser Dias, a escolha dos locais de produção se deveu a
um conjunto de fatores, entre eles as facilidades geográficas e naturais para adquirir matéria-
prima e para a distribuição e consumo do produto final. Temos de considerar que os vasos
gregos possuíam uma finalidade prática, de uso no cotidiano doméstico e ritual, e que toda a
sua produção foi ditada por essa finalidade. Portanto, Segundo Dias, “para uma grande

110
Verificar no Anexo 17 - Mapa do Kerameikos (p. 215) o mapa original com o esquema explicativo das regiões
inseridas no Kerameikos.
132

produção, como se tornaria a produção de vasos áticos, havia a necessidade de mão de obra
especializada” (DIAS, 2009, p. 22)
Partindo desse viés de análise, o bairro do Kerameikos se eleva como um centro para as
várias atividades econômicas promovidas a partir do archondato de Sólon. Segundo Maria
Regina Candido (2008, p. 264), a região atuava como “entrada e saída da polis, ponto fixo das
oficinas dos artesãos, zona de prostituição e áreas de mercado de vinho”, conforme ilustrado
pelo mapa abaixo:

Mapa 4 – Região do Kerameikos.

Fonte: Região do Kerameikos em Atenas – GOETTE, Hans. Athens, Attica and the Megarid: an
archeological guide. London: Routledge, 2002, p.77.

O Kerameikos era o mais célebre bairro popular de Atenas, situado ao norte da polis,
onde trabalhavam os oleiros. Outrora necrópole homérica e arcaica, tornou-se um bairro
muito movimentado, frequentado pelos amantes das belíssimas cortesãs, que ofereciam aos
viajantes e estrangeiros não só produtos cerâmicos, mas também sexo e prazeres. Em suas
muralhas eram comuns declarações de amor (SALLES, 1987, p. 17). Deste modo, a maioria
das casas de prostituição, previstas na legislação ateniense, localizavam-se no Kerameikos,
reorganizado por meio do processo de urbanização resultante da legislação de Sólon como
133

reduto dos estrangeiros.Esta divisão teria como objetivo preservar a área principal da cidade
dos contratempos gerados pela prostituição, restringir a embriaguez a um local específico,
prevenir a indistinção entre as mulheres livres e as hetairas e circunscrever o local do ofício
dos estrangeiros.
A restrição da prática a um bairro específico funcionava como um mecanismo de
controle para que a polis pudesse administrar a arrecadação de impostos advindos das
múltiplas atividades sociais, permitindo aos viajantes e comerciantes estrangeiros desfrutarem
das casas de prostituição. Com o lucro proporcionado pela promoção e regulamentação da
prática da prostituição, Sólon construiu um templo para “Afrodite Pandemos”, a deusa do
amor – de um amor generoso, inclusivo, de “todo o povo” (SALLES, 1987, p. 21). A
principal tributação que se incidia sobre à prática da prostituição no bairro do Kerameikos era
o pornikon, umtributo referente à prática da prostituição atribuído pela boulé. (MOSSÉ, 1983,
p. 20). Dois séculos mais tarde, na Constituição de Atenas, Aristóteles chegou a apresentar o
custo regulamentado desses serviços: duas dracmas (Constituição de Atenas, 50.2.).
Além da regulamentação de um código legislativo, alguns autores atribuem a Sólon a
responsabilidade por dividir também as mulheres em uma classificação hierárquica: as
esposas legítimas para cuidar do lar; as concubinas para serviços diários e as prostitutas para o
prazer. (RIBEIRO e SÁ, 2004, p. 12; SALLES, 1987, p. 21). Filemon, na obra Os Adelfos
(Ateneu, XIII, 565), cita:
Tu, Sólon, encontraste uma lei para todos os homens. Ao que se diz, foste o primeiro
a tomar essa medida salutar e democrática, por Zeus! Vendo em nossa cidade muitos
jovens que sofriam os impulsos da natureza e se perdiam pelos maus caminhos, ele
comprou mulheres e as instalou em diferentes bairros, prontas e dispostas a atender a
todo mundo.

A perspectiva historiográfica da Reforma Legislativa de Sólon apresenta uma tendência


em valorizar a figura pública de Sólon como sophron111. A organização socioespacial
promovida durante seu governo, sobretudo no que tange à regulamentação das práticas
relativas à prostituição, foi atribuída ao respeito de Sólon à tradição e a seu anseio por resgatar
a concepção de família112 forjada na ancestralidade.

111
Vocábulo grego sophron (a forma substantiva da palavra sophrosúne), que indica uma ampla gama de
sentidos, como “prudente”, “sensato” e “moderado”.
112
Delfim Ferreira Leão (2005, p. 2) nos recorda a problemática em torno do termo família. Esta terminologia,
característica da Grécia Antiga, não deve ser transposta para o significado atual do vocábulo. Na Grécia, a
família estava inserida na perspectiva do oikos. Leão propõe que a solução é “considerar que pertencem ao
mesmo oikos todas as pessoas que vivem em uma determinada ‘casa’, sob a superintendência do mesmo kyrios”.
134

Propomos, entretanto, uma abordagem alternativa da vertente de análise, deslocando a


matriz da moralidade para a economia. O pesquisador Delfim Leão (2001) nos informa sobre
a criação de leis que visavam oficializar a prática da prostituição durante o governo de Sólon.
As leis teriam sido elencadas junto a outros decretos que tratavam de temas de cunho moral,
como adultério, estupro e sedução. Chama-nos a atenção à lei que inibe a prostituição no
ambiente do oikos, no qual o familiar atua como proxeneta. Segundo Plutarco, Sólon “não
permite a ninguém vender as filhas ou irmãs, a não ser que se descubra que estiveram com um
homem e já não sejam virgens” (PLUTARCO, Sol. 23.2).
Conjecturamos a correlação entre a problemática social e o problema econômico à
época, o que nos permite estabelecer um comparativo entre a escravidão por dívidas e a
prostituição. Em ambos os casos, o denominador comum é a posse/venda do corpo. Plutarco
afirmava que se tratava de formas correlatas de prostituição: uma, através da venda da força
física, e outra, através da comercialização da prática sexual. Nesse viés antropológico, a
moicheia (prostituição forçada) culminava em vergonha para o oikos, assim como a
escravidão por dívidas representava vergonha para a polis. Desse modo, restava a Sólon
somente uma alternativa viável de ação: a proibição de ambas as práticas.
Diante da conjuntura sociopolítica, a rigidez legislativa era composta pelo equilíbrio
entre o fator econômico e a preservação da cidadania. Plutarco nos apontava a existência de
uma multa aos praticantes destes delitos. Em casos de prostituição das mulheres consideradas
livres, o valor era afixado em 20 dracmas. Delfim Ferreira Leão (2005, p. 5) e Catherine
Salles (1983, p. 20-21) endossam a perspectiva, reforçando a premissa que aponta para uma
reforma econômica por intermédio da legislação, por meio de algumas características de
cunho pecuniário, tais como a existência de multas e penalidades cobradas em casos de
violação da lei, cobrança de uma taxa pecuniária sobre a prática da prostituição e a atuação da
polis ateniense como gestora dos impostos.
Para Catherine Salles, a polis atuava de maneira semelhante à figura do proxeneta,
cobrando e fiscalizando as atividades desenvolvidas na região do Kerameikos113. A
intervenção estatal regulamentava as atividades e os valores estipulados, evitando assim a
supervalorização da prostituição através da figura dos astínomos, apontados pela autora como
uma espécie de “comissários de polícia” (SALLES, 1983, p. 24-26). Além de fixar limites

113
O pesquisador John K. Papadopoulos (1996, p. 107-108) alerta-nos que, “durante toda a Antiguidade, o nome
Kerameikos significava, essencialmente, ‘Quarteirão dos Ceramistas’, um distrito muito extenso no Noroeste”. O
uso oficial específico é atestado pelos heróis e pelas pessoas que empregavam o nome de várias maneiras, com
referências particulares. Mas Kerameikos não significa, literalmente, o cemitério, ou a ágora. Esses usos são
coloquiais ou metafóricos, variando em frequência relativa em diferentes épocas.
135

para o recrutamento de rapazes e moças, o código soloniano chegava a prever pena de morte
para os proxenetas que atuassem de maneira clandestina, pois impediam a arrecadação da
tributação devida.
A urbanização foi uma das primeiras medidas de Sólon para regulamentar a
prostituição. Catherine Salles (1983, p. 16-17) afirma que as profissões eram agrupadas por
bairros e a divisão da cidade representava suas diferentes funções. O território destinado pela
polis para a prática oficializada da prostituição era o Kerameikos, no qual as casas de
prostituição foram instituídas por Sólon. A região, de natureza diversificada, abrigava
concomitantemente práticas sagradas e profanas. Conforme argumenta Maria Regina
Candido,
O Kerameikos torna-se uma construção concreta, produzida pela vivência dos
atenienses, com acentuada interação entre diferentes grupos semióticos, a saber: os
críticos, os usuários da magia, os cidadãos, os estrangeiros, os homens e as
mulheres, os metecos e os escravos. Todos transitam pelo espaço geográfico do
cemitério: via de acesso de entrada e de saída da polis dos atenienses. (CANDIDO,
2008, p. 262)

Acreditamos que restrição das atividades de prostituição e produção de cerâmica ao


bairro do Kerameikos tinham como objetivo, em última instancia, a regulamentação de tais
práticas sociais por meio da urbanização. Em suma, a circunscrição sócio espacial também
atuaria como um elemento facilitador para a arrecadação de taxas pela polis, bem como a
fiscalização das atividades consideradas almejando a organização administrativa da polis.

3.6 A racionalização das práticas econômicas de Atenas

Os historiadores da economia antiga têm se debruçado sobre os textos clássicos no que


tange à problemática do dinheiro, ou da monetarização da economia antiga, mas pouco sobre
a formação dos preços ou mesmo a concepção de um padrão de pesos e medidas que não
contemple a concepção monetária moderna. Os autores primitivistas tendem a interpretar a
escassez de documentação como um indicativo da impossibilidade dos autores antigos em
analisar o dinheiro em termos econômicos, considerando que os mesmos não detinham uma
concepção de economia na qual a monetarização poderia ser analisada. Todavia, ancorando-
nos no arcabouço teórico de Karl Polanyi, identificamos que sua principal proposição
perpassa a concepção de que “nenhuma sociedade poderia sobreviver durante qualquer
136

período de tempo, naturalmente, a menos que possuísse uma economia de alguma espécie”
(POLANYI, 1968a, p. 62).
Para o autor Genaro Garcia Chic, a contrariedade dos autores modernos em
identificarem um princípio econômico em meio às sociedades consideradas “primitivas”
relaciona-se à uma leitura quantitativa dos sistemas econômicos, na qual a materialização da
economia relaciona-se à moeda e sua atuação como um agente regulador do Estado, uma
abstração das práticas econômicas que torna-se um elemento inatingível e, portanto, promove
um deslocamento dos sistemas qualitativos, em predileção dos sistemas quantitativos (CHIC,
2009, p. 232-3).
Por conseguinte, consideramos que a materialização da economia ateniense,
estruturada no archondato de Sólon, transcende a problemática da existência de moedas no
sentido moderno – permeado pelas perspectivas advindas do capitalismo – uma vez que a
concretização das práticas econômicas – até então de natureza abstrata – pode ser verificada
por intermédio da padronização dos pesos e medidas atenienses, medida considerada o
despontar de uma racionalidade econômica.
Ao estabelecer um diálogo entre as leituras de Karl Polanyi e de Genaro Garcia Chic,
identificamos uma interface de elementos comuns no que tange à materialização da economia.
Para ambos os autores, a natureza desempenha um papel fundamental nas práticas econômicas
das sociedades antigas. Polanyi argumenta que "a produção é a interação do homem e da
natureza”, elencando o ideal da econômica como a relação resultante da interação entre o
homem e seu ambiente natural (POLANYI, 1986 p.162). Garcia Chic desenvolve seu
argumento acerca da economia no Mundo Antigo utilizando-se de formulação análoga do
campo de interação homem-natureza. Partidários da Antropologia Econômica, Polanyi e
Garcia Chic consideram que a economia é um dos fenômenos que aproxima o homem do
ambiente natural e social que o rodeia; os autores refletem sobre a economia nas sociedade
antigas demonstrando que o econômico não é um fenômeno independente do político.
Assim, por meio de um ideário que delimita a economia como resultado das interações
do homem com a natureza, é possível compreender o processo organizacional da polis
ateniense no qual os metais, em especial a prata e o ouro, surgiram como um dos primeiros
elementos de materialização das atividades econômicas. Por esse viés interpretativo, a
nivelação dos pesos e medidas de Atenas empreendida por Sólon é parte de um processo
natural de normatização da economia, como um critério alternativo utilizado para
regulamentar as práticas comerciais, independentemente da circulação de moedas.
137

Segundo John Kroll, o uso de lingotes de metal nas sociedades antigas precedeu a
introdução da cunhagem. Tal princípio foi reconhecido por Aristóteles na Política, obra na
qual o filósofo elucida o processo de transição que estabeleceu os metais como meio de trocas
comerciais e monetárias. Segundo Aristóteles, com o aumento progressivo do abastecimento
de bens originários do estrangeiro, “devido à importação de bens deficitários e à exportação
dos excedentes” a introdução da “moeda114” surge devido à necessidade de regulamentar as
práticas comerciais.
Uma vez que as coisas necessárias às carências naturais não são facilmente
transportáveis, os homens instituíram um contrato para cada parte dar e receber algo,
tal que, mantendo uma utilidade ínsita, tivesse ainda a vantagem de se manusear
facilmente tendo em vista as carências vitais. Escolheu-se o ferro, a prata, ou outro
metal parecido, determinando-se, primeiramente o seu valor apenas pelo tamanho e
peso; e finalmente, fez-se a cunhagem de modo a evitar o trabalho da medição
cunhando-se uma marca como sinal da quantidade de metal. (Política, I.9.1257b)

A proposição do uso de moedas cunhadas a partir de lingotes de metal pesados que


precedeu a introdução da cunhagem na Grécia Arcaica foi ancorada por Peter Rhodes mais de
trinta anos atrás, com referência a certas leis atenienses atribuídas a Sólon que mencionam
multas, valores, taxas arrecadadas pela polis, pagamentos e empréstimos empregando a prata
como referencial. Rhodes menciona Plutarco, que “lista várias dessas leis e cita o primeiro
axon115 de Sólon como a fonte da multa de 100 dracmas por um archon que se recusasse a
cumprir uma de suas funções e cita o décimo-sexto axon para informar os preços em dracmas
de animais para o sacrifício” (RHODES, 1975, p. 1-7; 1981, p. 152-3). Em uma referência
mais explícita ao uso da prata como um meio transacional, empregada por volta dos séculos
VII e VI a.C., Aristóteles menciona, na Constituição dos Atenienses (8.3), autoridades
financeiras de Atenas conhecidas como naukraroi que "foram nomeados para supervisionar
pagamentos e despesas que foram feitos”.
Como Rhodes observou, a posse de ouro e prata deve ter sido comum entre os
atenienses ricos durante o período do archondato de Sólon, uma vez que no fragmento 24 de
sua poesia Sólon lista várias formas de riqueza e a prata e o ouro são mencionados em

114
Como moeda, compreendemos qualquer instrumento utilizado para regulamentar as relações comerciais. Não
nos referimos, portanto, à percepção do capitalismo moderno sobre as moedas.
115
A maioria dos estudiosos aceita que os axones e muitas das leis que foram conhecidas pelos atenienses em
contextos sociais de produção posteriores como leis de Sólon realmente podem ser atribuídos ao legislador. P.J.
Rhodes resumiu a visão acadêmica dominante quando escreveu que Sólon produziu "um código completo (lei)
que foi suplantado apenas de maneira fragmentada" e que os axones e kyrbeis eram palavras alternativas que
descrevem o mesmo objeto. Ambas as declarações foram extensivamente, mas não de forma convincente,
contestadas por muitos historiadores. No entanto, o último estudo importante (por Stroud) foi publicado há trinta
anos, período em que houve grandes avanços na interpretação do ambiente físico e cultural da Atenas Arcaica.
138

primeiro lugar, antes de terras e gado. Interagindo com esta premissa, John Kroll argumenta
que no período que precede o advento da cunhagem em Atenas, o termo 'pesar' parece,
literalmente, ter sido usado para todos os tipos de operações em moeda116: receber o
pagamento, fazer o pagamento e transferência de crédito (KROLL, 2008, p. 17).
Para o pesquisador Van Alfen, o mundo Egeu antes do Período Arcaico tardio (700-
480 a.C.) não parece ter sido totalmente engajado com o conceito de dinheiro. Não há, por
exemplo, nenhuma expressão clara da concepção monetária nos tabletes de Linear B do final
da Idade do Bronze ou nos épicos homéricos. Alguns estudiosos têm argumentado que o
conceito de dinheiro e moedas foram inventados simultaneamente dentro do mundo grego
(SCHAPPS, 2004). Não haveria, portanto, dinheiro antes da cunhagem de moedas na Grécia.
Os sistemas de troca gregos basear-se-iam na troca semimonetarizada ao invés da troca de
presentes. Para Van Alfen, entretanto, tais argumentos, subestimariam as evidências do
Oriente Próximo, especialmente da Mesopotâmia, na qual os registros cuneiformes, alguns
datando da Idade do Bronze, reportam operações, tanto privadas como oficiais, que foram
avaliados por meio de medidas de prata e utilizaram a prata como forma de pagamento117
(JURSA, 2010). O conceito de dinheiro, ao que parece, foi inventado muito antes das
primeiras moedas aparecerem, em uma região que supostamente teve maior contato com o
mundo grego.
Peter Van Alfen complementa sua argumentação alegando que o tipo de prata utilizada
para as relações comerciais de troca, no entanto, não consistia de um sistema padronizado. As
poleis e outras organizações, bem como indivíduos, estavam livres para produzir objetos de
prata, sejam lingotes ou joias, de diferentes formas, tamanhos e dimensões. Tais variações no
tamanho e espessura causaram problemas para aqueles que utilizam prata como moeda de
troca, onde os referenciais utilizados eram peso e textura da prata. Para adquirir o valor
correto de prata para uma transação, o devedor e o beneficiário teriam que gastar tempo

116
Segundo Peter G. Van Alfen, as moedas são apenas uma das muitas formas utilizadas para contabilizar os
valores atribuídos aos bens, “o que em si é uma construção social complexa que ajuda as pessoas a fazerem as
avaliações de objetos, realização de transações, e armazenar sua riqueza” (VAN ALFEN, 2014, p. 1). Existem
inúmeras definições de dinheiro, a maioria dos quais incluem os preceitos centrais que determinam o dinheiro
como um meio de troca, uma forma de armazenar riqueza e uma unidade de contabilização. Quando e como o
dinheiro como um conceito abstrato foi inventado é um problema que tem desafiado os historiadores,
economistas e filósofos, incluindo Aristóteles (Ética a Nicômaco, V, v, 10-16, 1133a-b; Política, I, iii, 12-17,
1257a-b).
117
Por volta de 800 a.C., a prática de usar metais preciosos, especialmente prata, como um instrumento
monetário disseminou-se da Mesopotâmia para as cidades fenícias e outras comunidades na costa levantina onde
a prática, em seguida, foi para o Oeste seguindo rotas de comércio fenícias, notadamente no Mar Egeu. Lá, tem-
se argumentado, a prática de usar metais preciosos em trocas passou a ser usada ao lado de formas mais
tradicionais de troca, tais como o hábito da elite de ofertar presentes que é predominante nos épicos homéricos
(KROLL, 2008; KROLL, 2012).
139

testando a espessura e pesando peças de prata, às vezes recorrendo a cortar pedaços menores
fora de grandes peças de joias ou lingotes para atingir o peso desejado. A oferta de moeda foi
então formada principalmente por este tipo de prata de corte anonimamente produzido,
geralmente denominada pela palavra alemã "hacksilber" (VAN ALFEN, 2014, p. 15).
Em muitos lugares ao redor do Mediterrâneo, a prática da utilização de hacksilber era
tão enraizada que, mesmo após a introdução da cunhagem, a hacksilber teve seu uso
continuado. Muitos montantes de moedas e tesouros do Período Arcaico encontrados na Ásia
Menor, Itália e Egito continham uma mistura de moedas e hacksilber (KROLL, 2008, p. 145).
Estes atos de pré-montagem de um instrumento monetário, com o intuito de garantir o seu
valor, remetem diretamente ao conceito da moeda, que, no Período Arcaico, era garantido por
meio de metais preciosos. Estes foram padronizados por Sólon em relação ao seu peso e
espessura, os quais foram garantidos pela regulamentação dos pesos e medidas atenienses
com o intuito de nivelar a “moeda” ou os lingotes de prata de Atenas em relação às demais
poleis e, consequentemente, inserir-se no circuito comercial e mercantil, estimulando as
práticas econômicas. A vantagem do uso de moedas sobre hacksilber era, presume-se, de que
as transações teriam exigido muito menos tempo e esforço do que antes; pode-se agora
simplesmente contabilizar o pagamento em vez de pesá-lo e testá-lo.
Ao relacionar o testemunho envolvendo a prata nas leis de Sólon com os termos
transacionais etimologicamente derivados do vocabulário empregado para pesagem, as
receitas em extensas barras de ouro e prata recolhidas pelos tesoureiros do templo em Éfeso, e
a utilização de prata não cunhada no oeste grego, um quadro bastante coerente emerge, ou
seja, que os gregos tenham começado a empregar dinheiro de prata cunhada em trocas
internas e externas nas mesmas operações que vinham realizando há algum tempo com um
dinheiro de prata pesado.

3.7 A Reforma de Pesos e Medidas

Um dos principais pressupostos para compreendermos as Reformas de Sólon como


uma empreitada econômica será a documentação de Plutarco. Nos capítulos 5 e 12 de sua
arguição, Plutarco implica que Sólon estaria planejando sua legislação muito antes de sua
ascensão como archonte, o que nos aponta para uma visão contrária à historiografia, que
tende a uma análise imediatista das reformas efetuadas em Atenas, na qual as medidas seriam
140

simples respostas ao embate entre dois grupos sociais antagonistas. Segundo o autor, Sólon
visava a implementar um conjunto de medidas que, a longo prazo, viriam promover a
reestruturação econômica de Atenas.
A documentação de Plutarco dialoga com Aristóteles, no sentido de que ambas as
fontes nos informam que as primeiras medidas de Sólon ao assumir o cargo foram:
1. Cancelar as dívidas (tanto públicas quanto privadas);
2. Banir os empréstimos envolvendo garantia pessoal;
3. Libertar todos os escravos por dívidas;

Posteriormente às primeiras medidas de caráter imediato, Aristóteles (Constituição de


Atenas, 10.1), alegou que, após o cancelamento das dívidas, Sólon fez um aumento no sistema
de pesos e medidas e na moeda. Tal resolução legislativa se corrobora na perspectiva de
Plutarco, que ratifica a prerrogativa que abordaremos em nossa pesquisa: a existência de uma
interface econômica atuante como mecanismo estrutural do arcabouço legislativo promovido
por Sólon.
Segundo o autor John Kroll, a monetização das práticas comerciais teve início antes
ainda da cunhagem da primeira moeda em Atenas. As leis de Sólon, de acordo com a
perspectiva de Kroll, sugerem que, até o início do século VI século a.C., os atenienses
estavam acostumados a utilizar a prata118 para regulamentar as relações comerciais,
provavelmente na forma de diversas peças de corte de prata empregadas em uma gama
diversa de transações de âmbito público, que relacionam-se desde os pagamentos monetários
à coleta de taxas pela polis, até, possivelmente, sua aplicabilidade nas práticas de natureza
privada (KROLL, 1998, p. 57).
A materialização econômica conhecida durante o Período Clássico nos aponta que os
termos dracma e óbolo119 haviam sido adotados anteriormente quando seus padrões em peso

118
Para Gil Davis, o certo é que a mineração de prata ajudou a transformar a região de Atenas “de uma pacata
península agrária no início do Período Arcaico para uma potência regional e naval dominante pouco mais de um
século mais tarde”. Todavia, apesar de ter grandes depósitos de minério de argentíferos, a polis inicialmente não
utilizava muita prata nativa para a cunhagem (DAVIS, 2014, p. 257). Na segunda metade do século VI a.C., a
prata foi o principal metal através do qual se obtinha a moeda grega. O minério de rolamento de prata só estava
disponível em quantidades comercialmente úteis em algumas regiõesdo Mar Egeu, e as mais importantes delas
foram as regiões da Traco-Macedônia e a Ática.
119
Uma vez instalado, o padrão de peso, que rege as denominações subsequentes da cunhagem, estava indexado
em torno de um dracma de 4,32 gramas e subdividido em seis óbolos de 0,72 gramas cada. Este padrão,
conhecido como Ático-Euboic pelos estudiosos modernos, foi mantido pelo ateniense ao longo da história de sua
cunhagem – um feito raro, uma vez que muitas poleis gregas alteraram seus padrões dependendo do contexto
econômico ou político. Moedas de denominações maiores surgiram como múltiplos do dracma (até 10 dracmas),
bem como moedas fracionárias do dracma, múltiplos ou divisões do óbolo (até 1/8 óbolo); entretanto, o
paradigma econômico estabelecido ao longo do Período Arcaico, a reestruturação do modelo econômico de
141

ainda estavam em fluxo120. Defendemos que a nivelação do arquétipo econômico ateniense foi
instaurado por Sólon, por ocasião da Reforma de Pesos e Medidas.
Na solução proposta por P.J. Rhodes para esta problemática, os antigos autores
simplesmente assumiram a existência da cunhagem no período de Sólon. Ele sugeriu que os
pesos de prata "serviram como uma forma de moeda", e que, portanto, "Sólon, nas leis
promulgadas em 594/3 a.C., expressou os valores determinados em dracmas".
A reforma soloniana representou uma mudança no sistema monetário ateniense de
forma a aproximar-se economicamente de regiões como Corinto, Eubeia, Cyrene e parte da
Magna Grécia (MOLINA, 1998, p. 12). Tais regiões despontavam como áreas envolvidas na
dinâmica das trocas marítimas, como a produção de artefatos de cerâmica (Corinto), o
transporte de excedentes de grãos como trigo (Eubeia) e o comércio de metal (Etrúria).
Victor Ehrenberg argumenta que “até Sólon, a economia monetária mal começava a
exercer qualquer influência em Atenas” (EHRENBERG, 1973, p. 46). O pioneirismo de
Sólon acontece no âmbito econômico com o aumento do peso e da medida da moeda
ateniense, alterando o padrão da moeda, ao adotar as medidas mais largas que o padrão
existente anteriormente em Atenas, a medida pheidinian (padrão utilizado tanto para materiais
líquidos como para sólidos). A Pheidon121 de Argos é atribuído o feito de ter introduzido a
cunhagem da moeda no mundo grego bem como a introdução do primeiro sistema de pesos e
medidas, que vem a ser substituído durante o archondato de Sólon (KELLY, 1976, p. 23-44).
A medida padrão fora utilizada em Égina e em grande parte do Peloponeso, de acordo
com Raphael Sealey (1976, p. 130). Luis Molina (1998, p. 9) afirma que Corinto seria “um
dos principais centros mercantis durante o século VII a.C.”, porque desenvolvera um novo

pesos e medidas de Atenas estabelecido por Sólon – seja na forma de moedas ou apenas na padronização da
valoraçãodos pesos – foi determinante para a estabilidade monetária singular experimentada por Atenas.
120
Assim, por exemplo, os atenienses produziram moedas no seu padrão de peso indígena, que foi baseado no
drachm (= c. 4,3 g) e obol (= c. 0,72 g), com seis obols fazendo um drachm. Os atenienses produziram uma série
de denominações durante o Período Arcaico incluindo tetradrachms (4 dracmas), didrachms (2 dracmas),
drachms, obols e hemiobols (1/2 obols). Seus rivais, o eginetas, por outro lado, utilizaram um sistema diferente,
com base em um drachm de 6,1 g e um obol de 1,0 g. Noutros locais, tais como em Mileto, o padrão foi baseado
em um stater (um termo geral que significa que a maior moeda na série) de 14,2 g com um número de frações
deste peso para baixo até 1/96 avos de um stater. Isso significava que a qualquer momento eram geralmente
muitos padrões diferentes em uso em toda a região, o que muitas vezes torna impossível usar a cunhagem de
uma comunidade para transações em outra.
121
No livro A History of Argos to 500 b.C., de Thomas Kelly, o autor dedica um capítulo a traçar a origem de
Pheidon. Aristóteles teria “agrupado Pheidon em uma classe de tiranos aos quais eram inicialmente reis, mas que
foram capazes de transformar seu reinado em uma tirania”.Não existe um consenso acerca do período em que o
mesmo teria vivido, uma vez que os autores discordam entre si. Plutarco, por sua vez, aloca o reinado de Pheidon
na metade do VIII século a.C., datação descartada pela maioria dos autores atuais. Sabe-se que Pheidon seria
originário de Argos e que teria tentado usurpar os Jogos Olímpicos, marchando até Olímpia, fato que a maioria
dos pesquisadores concorda que não deve ter ocorrido antes de 672 a.C. (KELLY, 1976, p. 23-44)
142

estilo de cerâmica chamado de vasos de "figuras negras" e produzira o que, para William
Biers (1996, p. 138-139), “foi considerada a melhor cerâmica na Grécia”. O autor argumenta
que “é atribuída a Corinto a produção das primeiras ânforas de transporte da Grécia”.
(BIERS, 1996, p. 120-143).
Atenas não tinha se envolvido no movimento mercantil para estabelecer colônias
agrárias até os séculos VIII e VII a.C., nem tampouco um emporion. A crise agrária que
precedeu Sólon sugeria que a polis não tinha um excedente de cereais para estabelecer um
comércio de exportação permanente. Por isso, a necessidade da mudança dos pesos e
medidas, visando a inserir Atenas no circuito comercial/mercantil do Mediterrâneo para
competir com as polis já consolidadas no circuito comercial do Mediterrâneo, como Corinto.
Assim, o pesquisador Gil Davis argumenta que, para que a prática comercial em
Atenas despontasse, era necessário apresentar uma "vantagem comparativa" em relação às
outras poleis. Em outras palavras, era imprescindível que Atenas tivesse “a capacidade de
fornecer produtos a um custo menor do que os concorrentes”, promovendo uma "vantagem
competitiva" por meio da circulação de produtos de alta qualidade para a venda a preços
elevados que extrapolasse as vantagens oferecidas pelas demais poleis concorrentes (DAVIS,
2012, p. 130). Seguindo tal premissa, era imprescindível que a polis ateniense estabelecesse
como expoentes das relações comerciais os produtos pelos quais era notória, como o azeite, o
mel, o vinho e as cerâmicas.
Aristóteles (Constituição dos Atenienses, 10,2) afirmava que as moedas foram
cunhadas em um peso - padrão, sugerindo fortemente que o peso e sistema de cunhagem foi
inter-relacionado, não apenas na Ática, mas em outros territórios da Grécia. Nesse sentido, a
reforma dos pesos e medidas promovida por Sólon teria também o objetivo de facilitar o
comércio com as polis vizinhas, alcançando o Mar Egeu e, possivelmente, o Mar
Mediterrâneo.
A autora Kelcy Shannon Sagstetter argumenta que, na visão de Aristóteles, a
padronização de pesos e medidas foi instituída:
A fim de regular as interações monetárias, tais como financiamentos e emissões de
empréstimos, a abolição da servidão por dívida o direito de qualquer pessoa a
reclamar reparação pelos erros e, mais importante, o direito todas as classes da
sociedade de apelar à tribunais de júri, pois quando a democracia é o mestre dos
votos, torna-se mestre da Constituição". (SAGSTETTER, 2013:79-80)

A abordagem de Joseph Almeida (2003, p. 15-17) defende que, embora nem sempre
haja um consenso entre as narrativas de Plutarco e Aristóteles, o certo é que o trabalho de
Sólon referente aos padrões e às medidas da cunhagem era parte de “um pacote global de
143

reformas econômicas”.Segundo Almeida, Plutarco afirma que Sólon concebeu várias leis
cujas finalidades eram “aumentar a produção doméstica de bens de Atenas e regular uma
relação mais favorável entre as exportações e importações”.
Em uma das passagem de Ética a Nicômaco, Aristóteles argumenta que “é necessário,
portanto, que todas as mercadorias sejam medidas por algum padrão”, a reciprocidade ou
necessidade mútua. Assim quando a polisnão tem o que é preciso si mesmo, por exemplo, o
trigo, e uma outra polis carece de vinho, as duas partes oferecem uma licença para a transação
comercia, demonstrando a interface entre as práticas de importação e exportação através de
exemplos, nos quais o filósofo argumenta:
Haverá, portanto, proporção reciproca quando os produtos foram equacionados, de
maneira que, da forma que está o agricultor para o sapateiro, poderá estar o produto
do sapateiro para o produto do agricultor. E quando eles trocam os seus produtos
têm que reduzi-los à forma de uma proporção, caso contrário um dos dois extremos
encerrará os dois excessos; ao passo que quando eles tem o que lhes cabe são, então,
iguais e capazes de formar uma associação, pois a igualdade nesse sentido pode ser
estabelecida no caso deles [...] enquanto se fosse impossível efetuar a proporção
reciproca dessa maneira, não poderia haver associação entre eles. (Ética a
Nicômaco, 5.5.13.1133b)

Sólon garante simultaneamente o desenvolvimento de um sistema de pesos e medidas


através do incentivo às atividades comerciais e mercantis De acordo com a Cambridge
Ancient History (2006), Sólon pretendia inserir Atenas no circuito comercial/mercantil do
Mediterrâneo através da mudança do padrão dos pesos e medidas, uma vez que “[...] elas
aparentavam de fato serem menores do que as da Ática”. Tanto Plutarco quanto Aristóteles
presumiram que a cunhagem já existia antes do archondato de Sólon, o que se torna visível à
medida que ambos mencionam a mudança dos padrões de cunhagem e, portanto, admitem sua
existência prévia.
A pesquisadora Molly Miller corrobora a proposição, argumentando que Sólon
estabeleceu “uma moeda ateniense, emitindo a primeira cunhagem nativa”. Em sua versão,
Sólon teria investido na empreitada para maximizar o efeito econômico do comércio,
descontando os custos das atividades de cunhagem ateniense, quando comparados aos custos
da cunhagem em Égina. O objetivo da ação seria tornar a cunhagem ateniense mais atraente
para os “vendedores de ouro” que“trariam seu metal para instalações atenienses” e,
posteriormente, iriam introduzir “as moedas atenienses em circulação”.Como consequência,
as ações de Sólon encorajariam os atenienses detentores de moedas da região de Égina a se
interessar pela moeda local, o que nos leva a concluir que, em um primeiro momento, não
houve uma troca total do padrão da moeda ateniense. Padrões utilizados em outras polis ainda
continuaram a ser utilizados nas relações comerciais. Essas medidas teriam como finalidade
144

“estabelecer a cunhagem ateniense sobre uma base firme e deixar Atenas no controle de sua
própria política monetária”. (MILLER, 1971, p. 25-36)
Para John Boardman, em Plutarco, a narrativa se concentra na importância da
cunhagem, “na sua visão Sólon reduziu o peso do dracma modo que havia 100 a mina em vez
de 70” (BOARDMAN, 2006, p. 383). A relação original entre a mina e o dracma para o resto
do sistema de pesos e medidas ateniense ainda é problemática. Segundo o autor:
Na verdade, fez a mina de cem dracmas, quando dantes era de setenta e três, de
forma que, ao entregarem idêntica soma em número mas inferior no valor, os
devedores ficavam muito beneficiados, enquanto os credores em nada saíam
prejudicados. (Plutarco, Vidas de Sólon, 15.3‐.5)

Acreditamos que, independentemente da utilização de moedas ou metais preciosos,


Sólon estabeleceu a padronização das medidas existentes em Atenas. Em nossa abordagem,
tal prática teria por objetivo nivelar as medidas atenienses para a inserção da polis nas práticas
comerciais, a saber a exportação. Como o contato com os pesos e medidas das demais poleis
fazia-se necessário, a regulamentação dos padrões de medida reconhecidos pelas poleis
envolvidas nas práticas comerciais do circuito mercantil do Mediterrâneo e do Mar Egeu foi
implementada. Todavia, defendemos que a reforma dos pesos e medidas vislumbrou
solucionar, paralelamente, a questão da escravidão por dívidas. A historiografia relata o fim
da escravidão, subjetivamente apontando também para o fim das dívidas; entretanto, existem
pesquisadores que assinalam para outra vertente historiográfica, como a demarcada pela
pesquisadora Louise-Marie L’Homme-Wéry (2001, p. 110), em que se defende que “[...]a
seisachtheia seria a ação de desvalorização do montante da dívida e não o seu cancelamento
[...]”.
Corroboramos a premissa adotada pela pesquisadora Louise-Marie L’Homme-Wéry,
por compreendermos que o contexto social de produção de Atenas no período do archondato
de Sólon não comportaria as consequências socioeconômicas da extinção das dívidas
resultantes de uma prática solidificada na polis ateniense. Trabalharemos com a hipótese de
que Sólon não suspendeu estas dívidas, e sim – através de uma manobra econômica
precursora – empreendeu a capilarização das dívidas contraídas pelos hectemoroi. Ao elaborar
a renovação do sistema de pesos e medidas, Sólon fornece meios através dos quais a
população camponesa poderia arcar com suas dívidas. Ao deflacionar o sistema monetário,
Sólon propicia à aristocracia o sentimento de justiça (diké), à medida que receberiam o
pagamento pelo seu papel como credores, permitindo ainda que esta população, antes
escravizada ou endividada, pudesse ter acesso a uma renda, promovendo um consenso há
muito almejado pelo demos.
145

CONCLUSÃO

Para tecer nossas considerações finais, será necessário retomar alguns aspectos
relevantes que fundamentaram a problemática proposta e o decorrer do desenvolvimento da
pesquisa em geral. Nossa pesquisa amparou-se em duas hipóteses que essencialmente se
materializam na releitura da crise agrária ateniense e na inserção do advento econômico como
referencial metodológico para análise do archondato de Sólon.
Nossa teoria estrutura-se a partir das concepções teórico-metodológicas ancoradas no
conceito de incrustação proposto por Karl Polanyi, no qual as práticas econômicas no Mundo
Antigo são representadas por ações voltadas à aquisição dos meios necessários para satisfazer
as necessidades materiais dos indivíduos, que estariam sempre imersos ou incrustados
(embedded) nas relações sociais (POLANYI, 1957, p.65). Assim, almejamos empreender um
debate historiográfico inerente às obras que contemplassem a análise de Atenas no Período
Arcaico, especialmente no intervalo que precede a ascensão de Sólon como governante – o
qual nos permite contextualizar sua nomeação pela polis – e o contexto social de produção
referente ao campo de ação na sociedade por intermédio de suas medidas políticas e, em
máxime, econômicas.
Por meio deste arcabouço teórico, pretende-se evidenciar como o contexto político-
social é fator decisivo para o fazer poético do legislador ateniense, cujos descontentamentos
populares relativos aos privilégios aristocráticos provocaram profundas transformações
sociais, que se refletem em aspectos característicos da poesia gnômica, como a valorização da
ética e a condenação de riquezas em excesso.
Apropriando-nos do conceito de imaginário social, compreendemos que o simbólico,
apesar de fictício, se relaciona com o real. Tal processo assemelha-se à apropriação das
narrativas míticas, constantemente utilizadas pelos atores políticos como uma forma de
promover a coesão social. A revalorização política de Sólon nos séculos V e IV a.C., fez com
que frequentemente leis fossem atribuídas a ele nos tribunais. As leis recebiam um reforço de
autoridade ao serem atribuídas a Sólon (LEÃO, 2001, p. 140-1), e esta prática transmitiu de
forma fragmentada e suspeita o pouco que se sabe sobre o conteúdo destas leis (SCARFURO,
2006, p. 175-6). Tais atribuições incorretas não passavam por um maior escrutínio da
sociedade ateniense devido à força da oralidade que ainda imperava sobre a escrita; vale
recordar que os primeiros códigos de leis escritos haviam sido criados no VI século a.C. com
a legislação de Sólon (HARRIS, 2006, p. 290-1).
146

Sob tal ângulo de análise, pode-se notar a representação de Sólon pela historiografia,
no sentido de legitimar a plataforma política do novo segmento social ativo da polis de Atenas
no século V a.C.. Durante este período e a posteriori, leis - inexistentes no Período Arcaico -
foram atribuídas ao archondato de Sólon e seu Código de Leis foi utilizado como ferramenta
para corroboração de um novo paradigma socioeconômico, cuja vigência dependia da
inserção do caráter de hereditariedade tão importante na sociedade dos helenos. No caso da
adequação da imagem de Sólon ao modelo da demokratia122, é imperativo atentar para a
memória e seu processo de construção, especialmente em uma sociedade onde a oralidade se
faz tão presente, como a grega.
O discurso como prática social, torna-se um mecanismo facilitador da ação do poder,
possibilitando a construção de todo um imaginário que se edifica sobre a imagem de Sólon.
Segundo o autor, há enunciados e relações, que o próprio discurso põe em funcionamento,
sublinhando a ideia de que o discurso sempre se produziria em razão de relações de poder.
Segundo Eni Orlandi, esse mecanismo discursivo produz imagens dos sujeitos/segmentos
sociais (aristhoi e hectemoroi), assim como do objeto do discurso como a democracia, o
processo de hierarquização social, a atuação de Sólon e a polis de Atenas dentro de uma
conjuntura sócio-histórica, no caso o VI século dos atenienses (ORLANDI, 2003, p. 40). O
fato nos permite compreender o processo de produção de sentido na linguagem próxima ao
campo econômico e as críticas sociais presentes em Aristóteles (Constituição de Atenas e
Política) e a linguagem poética proveniente das inscrições e elegias de Sólon.
Na narrativa aristotélica, o mesmo introduz o cenário político da emergência da polis
ateniense em confluência com as estruturas de poder existentes no processo de construção
socioeconômico da Hélade, oferecendo alternativas de análises para tópicos pouco elucidados
até mesmo pelo próprio Sólon em suas poesias. A narrativa aristotélica aponta ainda para o
archondato de Sólon como o resultado de uma luta entre segmentos sociais, o que se observa
através do uso dos termos "notáveis/plousoi" e "as massas/penetes" ao referir-se aos dois
grupos antagônicos que integravam o embate social da crise agrária ateniense do século VI
a.C. (MOSSÉ, 1924, p. 174).
Muito embora a perpetuação do epíteto de Sólon como “pai da democracia” componha
um discurso construído na Antiguidade Clássica, a historiografia tradicional desempenhou um

122
Segundo Claude Mossé (1924), a palavra democracia surge da junção de dois vocábulos gregos, “demos, o
povo, e kratos, o poder”. No entanto, a pesquisadora ressalta que esta democracia só se aplicava aos segmentos
sociais privilegiados pela divisão censitária de Sólon. Para o Velho Oligarca, “a democracia era o governo dos
pobres e maus, no interesse dos pobres e maus em detrimento dos ricos e bem nascidos” (MOSSÉ, 1924, p. 88-
89).
147

papel fulcral na reprodução de tal arquétipo. Por tratar-se de uma conjuntura permeada pela
memória e reproduzido por meio do fazer poético - relacionado à divulgação de admoestações
e ensinamentos éticos, políticos e morais – as ideias elencadas por Sólon em suas poesias
tornam-se parcializadas, objetos passíveis de interpretação por meio do contexto social de
produção posterior dos autores/leitores/receptores em detrimento das particularidades da
época de Sólon, à medida que as mesmas se desenrolam no fluxo temporal, na qual a escrita
nunca se encontra completa, finalizada. Torna-se ela, portanto, sempre passível de novas
interpretações, preenchidas de acordo com as necessidades do leitor. Sendo assim, a imagem
de Sólon pode ter sido posteriormente manipulada por poetas e escritores, inventando versos
para provar argumentos ou apenas alterando alguns significados para que, historicamente,
possibilitassem a inserção de Sólon como a solução de um problema político do presente
(LARDINOIS, 2006, p.27-33).
Não obstante, a poesia soloniana de cunho político apresenta aspectos característicos
da sociedade ateniense de fins do século VII e inícios do VI a.C., o que torna significativo
situá-la no contexto político-social da Atenas deste período. As conceituações metodológicas
de nossa pesquisa pleitear-se-á dacorpora documental presente nas obras de Aristóteles
(Constituição dos atenienses) e às inscrições poéticas atribuídas a Sólon (Eunomia). Deste
modo, delimitar-se-á o papel da linguagem e, consequentemente, a compilação de um
discurso.
Em sua obra Constituição dos atenienses, Aristóteles (filósofo grego do século IV
a.C.) nos permite analisar o cenário político da emergência da polis ateniense em confluência
com as estruturas de poder existentes no processo de construção socioeconômica da Hélade.
Muito embora os discursos presentes nas duas obras não sejam análogos, quando utilizados
paralelamente como fontes expoentes principais para a análise da legislação soloniana, tais
alocuções tornam-se complementares, pois permitem suprir demandas acerca do contexto
político do século VI a.C.
Defendemos que a liderança política de Sólon estabeleceu os precedentes para o
crescimento das práticas econômicas, conforme observado por Josiah Ober, bem como para a
expansão do comércio ateniense, explicitado anteriormente pela historiografia e pela literatura
clássica da Grécia (OBER, 2016, p. 141). Portanto, o código legislativo estabelecido durante o
Período Arcaico atuou como força motriz por trás de uma ruptura da relação tradicional entre
as elites e os segmentos sociais menos favorecidos, além de estimular a transição de um
paradigma agrícola para uma economia baseada nas relações comerciais e mercantis. O
Período Arcaico demarcou um contexto de expansão das práticas econômicas atenienses por
148

todo o Mediterrâneo, transformando o intercâmbio baseado nas relações de prestígio em uma


economia comercial externa e introduzindo o fator “monetário” por intermédio da
regulamentação dos pesos e medidas.
Uma das maiores implicações econômicas da Constituição construída por Sólon são as
medidas ligadas à restrição ao uso da propriedade privada por meio da supressão dos horoi ao
longo do território ático. Os pesquisadores Josiah Ober (2016, p.150-350-390) e Louise-Marie
L’Homme-Wéry (2011, p. 112-5) nos oferecem uma leitura alternativa à abordagem de Moses
Finley, transcendendo a interpretação tradicional dos horoi como simples demarcadores de
fronteiras ou marcos de hipoteca. Segundo a perspectiva elencada por ambos os autores em
consonância com a poesia de Sólon referente à stásis no contexto político-social da Hélade do
século VI a. C., conclui-se que, para além da representação literal, os horoi compunham uma
estrutura metafórica que fomentava as disparidades sociais à medida que restringia o acesso e
o deslocamento de alguns segmentos sociais aos locais representativos da polis, como o
demonstram os poemas de Sólon alusivos à crise social da Atenas de sua época.
Nos séculos VII e VI a.C., verificou-se um panorama de desequilíbrio social,
caracterizado por contestações à ordem político-econômica, causadoras muitas vezes de
stásis, dissensões civis que em diversas regiões da Grécia continental e do litoral asiático,
como, por exemplo, Atenas, Mégara e Mitilene, acarretaram o estabelecimento de governos
autocratas ou a elaboração de códigos de leis, com o intuito de conter ou minimizar a crise
interna da polis.
Os problemas sociais que afligem algumas poleis gregas, a partir de meados do século
VII a.C., encontram-se, por vezes, vinculados à questão agrária, visto que o constante
crescimento das famílias aristocráticas, grandes detentoras de terras, implica o aumento da
exploração dos camponeses, subjugados pelos nobres que, por meio da aquisição de novas
terras, consolidam ainda mais a sua hegemonia. Percebe-se, portanto, que a exploração
desenfreada do pequeno campesinato gerou um desequilíbrio social que não atingiu somente
Atenas, mas alcançou outras poleis da Hélade, denunciando metaforicamente a convivência
entre aristhoi e hectemoroi como uma relação disposta à margem de qualquer ideal de justiça,
apresentada como uma imposição, por meio da força.
No tocante ao influxo da situação social que transparece na produção poética,
interessa-nos, igualmente, explorar o viés da atuação de Sólon como líder político que
delegou normas de conduta adequadas que carregam implicações éticas importantes para
todos os tipos de assuntos humanos, incluindo atividades comerciais e a busca da riqueza. Em
seus relatos poéticos, ele enfatiza as fortes ligações entre a virtude individual e as suas
149

consequências nas esferas social e política. É necessário, portanto, dividir a legislação de


Sólon em duas categorias: econômica e constitucional.
De acordo com Leão (2001a, p. 251), é indiscutível que a ilha de Salamina constituía
um ponto estratégico para as transações do comércio marítimo na bacia oriental e ocidental do
Mediterrâneo, desenvolvido desde meados do século VII a.C.. Segundo o estudioso, o
comércio marítimo, além de promover a fundação de colônias comerciais e agrícolas e
favorecer o crescimento comercial, motivou o desenvolvimento da indústria. Por essa razão, o
domínio de Salamina para os atenienses representaria a posse de uma rota segura para os
portos do sul da Ática e para o istmo de Corinto, e, também, a preservação da economia de
uma parte da população ateniense, que já explorava o comércio marítimo.
A normatização da economia instituída por Sólon diminuiu o peso tributário dos
cidadãos endividados, possibilitando a amortização das dívidas. Claude Mossé (1969, p. 57)
considera que a criação da moeda desvinculara o valor da dívida da produção agrícola dos
habitantes escravizados pelos aristocratas, tornando, assim, o pagamento mais rápido pelo
estabelecimento de pesos e medidas padronizados pelas casas de cunhagem. Entrementes,
acreditamos que Sólon promoveu a estandardização dos pesos e medidas baseados nos metais
preciosos como a prata e ouro. Diante desta possibilidade, Andrewes (1982, p. 408) considera
que os agricultores teriam investido consideravelmente nos olivais e lagares de azeite para
exportação. O azeite ateniense era de renome, a tal ponto que foi usado como premiação em
jogos atléticos.
Evidências para a legislação econômica de Sólon podem ser identificadas
principalmente em sua própria obra, juntamente com as interpretações fornecidas por Plutarco e
Aristóteles. A autora Kelcy Shannon Sagstetter argumenta que, na visão de Aristóteles, a
padronização de pesos e medidas foi instituída “a fim de regular as interações monetárias”, tais
como a escravidão por dívidas e a emissão de empréstimos (SAGSTETTER, 2013, p. 79-80).
Enquanto as reformas principais parecem ter sido o cancelamento de todas as dívidas e
a abolição da escravidão por dívida, talvez as mais importantes medidas tenham sido a divisão
e a introdução de segmentos sociais por meio do critério censitário da propriedade
formalizado com base na riqueza, que determinou a elegibilidade para cargos públicos, além
da introdução de medidas sociopolíticas alternativas para amenizar a crise agrária do século
VI a.C. que assolou o território ateniense. As reformas econômicas implementadas por Sólon
não garantiram os direitos territoriais para todos os grupos sociais, mas proporcionaram as
condições e os incentivos para que alguns segmentos da população acumulassem riquezas
(MORRIS, 2010, p. 85-111).
150

Nossa argumentação enfatizou a pluralidade das práticas econômicas de Atenas,


destacando a transição de um paradigma agrícola para a inserção de um panorama comercial e
mercantil a partir das reformas de Sólon, as quais acreditamos tratar-se de uma reestruturação
econômica da polis ateniense a partir da adoção de um novo modelo legislativo de cunho
inclusivo. Sustentamos que Sólon dinamizou a produção de vasos cerâmicos em Atenas.
Conforme dados de Rasmussen (1991, p. 100), havia mais de um bairro de ceramistas, mas o
Kerameikos concentrava a maioria das oficinas. Estas oficinas, que confeccionavam vasos de
figuras negras, tinham moldes ou ginetes que propiciavam a produção em série, auxiliando os
interesses de artesãos e de comerciantes, aumentando sua participação tanto econômica
quanto política.
O histórico de Sólon como comerciante que antecede sua ascensão como legislador
nos permite inferir um caráter econômico às mudanças políticas e socioeconômicas
implementadas pelo legislador. Como tentativa de minimizar os conflitos, Sólon, no
archondato, valorizou a manufatura, o aprendizado da profissão paterna e a permanência ao
lado da família, sobretudo nas zonas rurais (Vidas de Sólon,31.2).Acredita-se que a mudança
socioeconômica tenha ocorrido em virtude da intensificação do comércio, ocasionada pelo
fenômeno da colonização e do desenvolvimento dos ofícios, que, em médio prazo, provocou
modificações na estrutura social das cidades-estados, conciliando o paradigma agrícola com o
comercial e mercantil na polis ateniense. De fato, a existência de práticas comerciais que
extrapolam as adjacências do oikos relaciona-se à economia antiga e tem lugar de destaque na
corpora documental através de Aristóteles.
Observa-se, que Aristóteles não afirma explicitamente que uma cidade sem comércio
exterior seria o ideal. Ao discutir os aspectos materiais da autarquia obtida pela khora de uma
cidade, ele enfatiza diretamente a necessidade da polis em obter o máximo de recursos
disponíveis no seu próprio território, um dos conceitos fundamentais da oikonomia.
Na verdade, não só Aristóteles nunca imagina a ausência de comércio exterior; ele
claramente estabelece a sua própria filosofia individual sobre o papel do câmbio na cidade: o
mesmo só poderia acontecer de forma natural, através da oikonomia, quando os recursos
produzidos a partir das atividades orgânicas da polis não fossem suficientes para prover seu
sustento. O caso da crise ateniense é singular devido à existência de documentação inerente ao
Período Arcaico.
Os versos 11-4 do fragmento 4W de Sólon demonstram uma exacerbada ganância dos
aristocratas, que se manifesta na maneira como enriquecem, por ações injustas. Neles, Sólon
151

desenvolve sua argumentação em defesa da polis, cuja estabilidade encontra-se ameaçada


pelo desequilíbrio econômico
Mas os próprios cidadãos, com seus desvarios,
querem destruir a grande polis, persuadidos por riquezas.

Considerando que a problemática agrária que acomete Atenas tem por base
motivações econômicas, como enfatizado pela poesia de Sólon, a solução encontrada por
Sólon refletira o mesmo referencial, a saber, a economia. O comportamento ambicioso do
segmento social inerente à elite predominante antecipa o problema que se encontra na base do
mau funcionamento da polis, a assimetria entre as relações sociais permeadas pela prática do
jugo compulsório qualificado como escravidão por dívidas.
A prescrição legislativa alicerçada por Sólon, que propunha a participação social
gradativa contemplando os critérios censitários da produção, promoveu a reorganização do
espaço social hierarquizado da polis ateniense. Por meio do estabelecimento de uma
Constituição, Sólon redistribuiu a participação socioeconômica dos segmentos sociais,
introduzindo os novos ricos através dos pentacosiomedimnoi e retirando a hegemonia do
controle político das famílias aristocráticas tradicionais. Segundo Luis Molina, tal medida
teria como objetivo facilitar a inserção da parcela da população excluída do segmento
eupatridai, bem como fomentar a transição de volta para Atenas dos indivíduos que haviam se
auto-exilado ou sido vendidos ao exterior como escravos, através da participação social e
inclusão nas atividades econômicas da polis (MOLINA, 1998, p. 17-21).
Aplicando a abordagem do referencial teórico de Karl Polanyi, tal estrutura social
seria legitimada pelas relações de amizade, consanguinidade, status e hierarquia, a exemplo
da inserção da classe dos pentacosiomedimnoi por Sólon, cujo objetivo era a manutenção do
status do referido segmento social por meio das relações de prestígio (POLANYI, 1968a, p.
72-5). O conceito de redistribuição insere-se no âmbito das relações econômicas internas e
externas de Atenas, na medida em que Sólon promove uma organização interna visando ao
contato com centros comerciais e mercantis externos, mediante a exportação de produtos
como vinho, azeite e cerâmica, que auxiliam na inserção de Atenas na rota comercial e
mercantil do Mar Egeu.
Desse modo, devido ao enriquecimento de indivíduos não aristocratas, os chamados
kakoi, a riqueza deixa de ser vista como um atributo exclusivo do nobre, que tinha como
alguns de seus traços distintivos, em comparação com os demais membros da sociedade, a
origem nobre e a posse de riqueza, tradicionalmente ligados ao luxo excessivo.
152

Elucidativos a respeito do engajamento dos novos ricos na sociedade são os relatos de


Aristóteles acerca do acesso às magistraturas. Os grupos dos pentacosiomedimnoi certamente
eram eleitos aos cargos políticos por causa de sua importância agrícola, demonstrada pela
produtividade econômica, sendo este um dos critérios estabelecido pelo legislador para o
exercício do cargo, além da cidadania. Quanto ao hippeis, obtiveram essa concessão por
ocasião da Guerra do Peloponeso, enquanto que para os zeugitas e os thetai pairavam dúvidas
por pertencerem aos segmentos sociais dos cavaleiros e marinheiros. (Constituição de Atenas
26.2).
A valorização de uma estrutura social bem organizada para a polis, pautada em
princípios equânimes, defendida pelas relações sociais, fundamenta-se na inserção isonômica
dos cidadãos através do lugar social de fala, permeado pelas práticas comerciais/mercantis
incrustadas na sociedade ateniense, a exemplo da realocação dos ceramistas e incentivos aos
comerciantes no governo de Sólon. Em conjunto com o edifício teórico construído por Karl
Polanyi, podemos categorizar como econômicas as medidas legislativas elaboradas por Sólon,
considerando que o teor político de sua Constituição está estritamente imbricado aos
múltiplos elementos que compõem a sociedade ateniense, permitindo assim “incrustarem-se
na organização econômica corrente da sociedade” (POLANYI, 1957, p. 82)
153

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168

GLOSSÁRIO

Ágora A ágora era a praça onde originalmente realizavam-se as


assembleias do demos.

Anacronismo Utilização de conceitos e ideias de uma época para analisar os


fatos de outro temporalidade ou conjuntura social.

Archonte Magistrado eleito anualmente e encarregado de presidir o


tribunal do Areópago. Entre suas incumbências cuidava da
administração da cidade e dos julgamentos, inclusive regulando
o calendário. Os Arcontes totalizavam nove magistrados.

Archondato Forma de governo presidida pelos magistrados archonte.

Aristhoi Bem nascidos, membros da aristocracia.

Autarquia Princípio baseado no ideal de autossuficiência de Aristóteles.

Axones Estruturas quadrangulares nas quais eram publicadas as leis.

Comparativismo Segundo Marcel Detienne, o comparativismo construtivo exige


um trabalho coletivo e para que seja realizado de maneira
adequada se faz necessário uma rede intelectual envolvendo pelo
menos dois ou três campos de saberes distintos (DETIENNE,
2004:47-48).

Corpora Conjunto de informações sobre um determinado assunto, o qual


servirá como base para algum estudo.

Crematística A crematística assenta na raiz chrema («coisa que se usa ou de


que se necessita»), cujo plural (chremata) significa «bens,
propriedade».

Democracia Governo do demos, o demos era composto pelo corpo de


cidadãos; massas populares da pοlis.

Demos Comunidades locais que foram a base das reformas políticas de


Clistenes. O demos tratava-se do pré-requisito para possuir uma
cidadania em Atenas. Outros significados: cidadãos mais
pobres; corpo de cidadãos adultos; constituição democrática; o
povo de Atenas na Ekklesia.

Diké Princípio de justiça.

Domesticidade Princípio elencado por Karl Polanyi que implica a produção para
uso próprio.
169

Drácma Unidade monetária que tinha como referência mínima o óbolo;


seis óbolos constituía um dracma; cem dracmas: uma mina;
sessenta minas: um talento.

Eisforái Imposto sobre capital, muitas vezes recolhido quando a cidade


estava em guerra. Este imposto era cobrado principalmente por
estrangeiros residentes na pólis, os metecos.

Elegias Poema grego ou latino composto de hexâmetros e pentâmetros


alternados. Poema pequeno, consagrado ao luto ou à tristeza.

Emporion Portos mercantis dedicados ao comércio marítimo.

Ethos Modo de ser; conjunto de valores que orientam o


comportamento do homem em relação aos outros homens na
sociedade em que vive, garantindo, outrossim, o bem-estar
social.

Hectemoroi Eram designados por esta nomenclatura os camponeses


dependentes da Ática que deviam entregar um sexto de sua
colheita àqueles de quem dependiam.

Hélade Palavra que designava todo o mundo grego e não uma cidade ou
território.

Hippieis Segmento censitário formado por cidadãos com renda anual


estimada em no mínimo quinhentos médimnoi.

Homo Economicus O conceito de homo oeconomicus, segundo o sociólogo alemão


Ralf Dahrendorf, pressupõe um tipo de homem completamente
racionalizado em relação à economia na qual ele se insere, ou
seja, consiste no indivíduo que pauta o seu modo de viver,bem
como suas decisões do dia-a-dia, baseado nos recursos que
dispõe e nos custos financeiros comuns no meio em que vive.

Homo Politicus As acepções em torno desta terminologia derivam da perspectiva


aristotélica. Aristóteles, na obra Política retrata o homem como
“um ser político” pois o mesmo se distingue dos demais animais
através do poder da palavra. (Política, Livro I 1253a)

Horoi Termo polissêmico. Comumente apresentados como símbolos


de pedra, demarcadores de fronteira que, por vezes
representavam um estado de endividamento.

Imaginário social Conceito de Bronislaw Baczko que supõe haver uma relação
entre o cotidiano do homem e a simbologia existente por trás de
um determinado acontecimento, para o qual se atribui o valor de
real.
170

Incrustração Conceito de Karl Polanyi que pressupõe a interface entre os


diversos espectros da sociedade. Por esse viés, a economia
estaria incrustrada nas relações sociopolíticas.

Isonomia Igualdade perante as leis.

Kyrios Chefe do oikos (que incluía a moradia), a família , seus


integrantes indiretos, animais, escravos e todas as mulheres e
crianças que viviam sob o mesmo teto e consequentemente
estavam sob a sua responsabilidade como kyrios.

Koinonia Significa comunhão, participação conjunta; a parcela que se tem


em qualquer coisa, participação, um presente contribuíram
conjuntamente, uma coleção, uma contribuição na comunidade.

Léxico Livro contendo um arranjo alfabético das palavras em uma


linguagem e suas definições; o vocabulário de uma língua, um
alto-falante indivíduo ou grupo de alto-falantes, ou um assunto;
o estoque total de morfemas em uma língua; repertório,
inventário.

Liturgia Imposto pago aos cidadãos mais ricos de Atenas para


financiamento de peças teatrais e despesas de funcionamento e
manutenção de uma trirreme.

Médimnos Medida ática para medida de grãos, aproximadamente 54 litros.

Meteco Imigrante, coabitante, estrangeiro residente, não-cidadão que


habitasse a polis por mais de um mês. Os metecos estavam
sujeitos ao serviço militar e aos impostos especiais, porem
proibidos de possuírem grandes propriedades agrarias.

Nomos É o termo que em grego designa a lei. Na verdade o termo


aplicava-se tanto às práticas e costumes de caráter moral ou
religioso quanto às disposições legislativas propriamente ditas.

Nova ortodoxia O termo teria sido criado para a escola de pensamento de Moses
Finley por um de seus próprios membros, Keith Hopkins, e
servia para designar o conjunto de teorias elaboradas por Moses
Finley e, posteriormente, complementadas por seus discípulos.

Óbulo Ver dracma.

Oikos casa, lar, inclui-se neste conceito as propriedades e os escravos.

Oikonomia Administração ou gerenciamento do oikos.

Pentacosiomedimnoi Segmento social formado por indivíduos com rendimentos


anuais superiores a quinhentos medimnos de cereais. Era o
segmento com maior recurso financeiro, seguido por: Hippeis
171

(300 medimnoi); Zeugitas (200 medimnoi); Thetas (200


medimnoi).

Plethôs Termo utilizado por Aristóteles para referir-se aos pobres.


(Const. De Atenas XII,2:13)

Poder Político Poder que o Estado detém sobre seus cidadãos e suas
instituições. (Cf. Norberto Bobbio. Teoria Geral da Política.
2000).

Pólis Cidade-Estado auto-independente do mundo helênico. Todas as


poleis tinham sua própria constituição, seus critérios de
cidadania e seus modelos e sistemas de cunhagem.

Políades Práticas relativas à polis,

Politeia Termo geralmente traduzido como “constituição”. De fato, a


politeia de uma cidade não é apenas o conjunto das instituições
que a governam.

Política O termo que deriva do sentido aristotélico de vida em


comunidade e bem comum. Porém, também possui estreita
relação com o conceito de Poder. Geralmente se usa o conceito
de Política para designar a esfera das ações que tem alguma
referência à conquista e ao exercício de um poder soberano
numa comunidade. (Cf. Norberto Bobbio. Teoria Geral da
Política. 2000).

Primitivismo Modelo teórico de análise pelo qual as sociedades antigas são


percebidas como economicamente primitivas.

Reciprocidade Conceito elencado por Karl Polanyi relacionado às praticas


econômicas nas sociedades antigas. A partir do princípio da
reciprocidade os atos de permuta são geralmente inseridos em
relações de longo alcance que implicam aceitação e confiança,
uma situação que tende a obliterar o caráter bilateral da
transação.

Regime dos 400(411)Administrado por dez magistrados eleitos, os próbouloi


(Athēnaíōn Politeía, 29; cf. A guerra de peloponésios e
atenienses, VIII, 1, 65-70). Apesar do seu cariz oligárquico, não
visava romper totalmente com o ideário democrático, mas sim
estabelecer uma democracia moderada.

Representação Segundo Roger Chartier, este conceito é percebido como


instrumento teórico metodológico da análise cultural, no qual as
representações do mundo social assim construídas, embora
aspirem à universalidade de um diagnóstico fundado na razão,
são sempre determinadas pelos interesses de grupo que as
forjam.
172

Redistribuição Conceito cunhado por Karl Polanyi que pressupões a


distribuição equânime dos bens dentro das sociedades antigas.

Seisachteia Supressão do fardo das dívidas.

Sophron Vocábulo grego sophron (a forma substantiva da palavra


sophrosúne), que indica uma ampla gama de sentidos, como
“prudente”, “sensato” e “moderado”.

Stásis Com este termo os gregos designavam a ruptura da comunidade


cívica provocada por uma guerra civil.

Stratego Oficial general. Em Atenas eram eleitos todo ano diretamente


pelo voto do demos, podendo ser reeleito.

Substantivismo O substantivismo polanyiano, amparado nos trabalhos de


Malinovsky e Thurwald, procurou demonstrar que o papel do
mercado em sociedades pré- capitalistas não seguia a mesma
lógica do mercado nas sociedades modernas: enquanto lá o
mercado se encontrava embedded nas instituições não
econômicas, nas sociedades modernas do século XIX, em razão
de um processo histórico intencional e não intencional de uma
série de intervenções ideológicas e políticas, o mercado assume
um caráter autônomo em relação às outras esferas da sociedade.

Thetas Cidadãos do ultimo segmento cesitário que recebiam menos de


200 médimnoi por ano.

Zeugita Indivíduos do terceiro segmento censitário ateniense que


recebiam até 300 médmnoi e eram donos de uma pequena
propriedade.
173

APÊNDICE

GRADE DE ANÁLISE DO DISCURSO

CANDIDO, M. R. et alli. Novas perspectivas sobre a aplicação metodológica em História


Antiga. In: BELTRÃO, C. et alli. A Busca do Antigo. Rio de Janeiro: NAU Editora, 2011, 16-
17.

Documento 1 - ARISTÓTELES. Constituição de Atenas. Tradução de Mário da Gama Kury.


Brasília: UNB, 1997.

I. Processo de Identificação
Sujeito locutor Aristóteles

Sujeito Publico presente na Ágora ateniense (possível local de leitura dos textos): O texto era

interlocutor apresentado através de leituras em banquete promovido pela elite de Atenas composta
de arithoi e olighoi do IV sec.
Material Texto escrito abrangendo informações coletadas, sobre as formas de governo existentes

simbólico na polis ateniense. O autor expõe ainda opiniões e considerações sobre elementos
políticos: relacionamentos entre os governantes e a sociedade, formas de governo,
duração e a datação dos cargos políticos.
Natureza da Discurso Narrativo

linguagem
Textualidade Polis dos atenienses do período do IV século AEC

Objeto do O autor desenvolve de modo detalhado uma narrativa sobre as estruturas políticas de

discurso Atenas. O texto atua no imaginário de quem irá ouvi-lo de forma que transmite o
funcionamento das instituições políticas e da sociedade ateniense através da
comparação entre os modelos de governo exercido por personagens históricos
atenienses.
II. Condição de produção
Diante a perspectiva da reestruturação política através do advento da demokratia,
Aristóteles compõe a narrativa a fim de analisar o caráter político inscrito nas

Elemento instituições atenienses, com a função de expor e estabelecer uma cronologia do regime
político de Atenas. Dessa forma o autor explicita em seus textos de modo a estabelecer
desencadeador
o caráter de hereditariedade dos cargos políticos atenienses, delineando sua cronologia
que remonta ao herói mítico Teseu.
Aristóteles – Estabelece um compêndio sobre toda a história das mudanças
constitucionais atenienses. O autor introduz a segunda parte descritiva do texto, na qual

Relação de o eixo da narrativa, baseado na história do passado constitucional de Atenas, é


revisado. Desse modo, desenvolve a lógica pela qual o estado atual do regime no
sentido
tempo de Aristóteles é resultado de sua própria história constitucional, configurada
pelo triunfo da democracia.
174

- Estabelece distinção entre os segmentos sociais.


- Descreve as relações de poder em Atenas.

Mecanismo de - Elabora através de comparações o histórico das instituições atenienses.


- Desenvolve uma descrição geográfica do solo e clima atenienses.
antecipação
- Definição do cidadão e seu papel na sociedade de Atenas.
Aristocracia assentada no nascimento e na riqueza.

Relação de Hectemoroi, dependente de outro para trabalhar, submisso à um indivíduo superior

forças hierarquicamente.

Integra o imaginário social da sociedade dos atenienses de modo a construir uma

Formação relação simbólica entre o télos da primeira parte da narrativa e o triunfo da democracia

imaginária radical, tal como se apresenta na segunda parte. Aristóteles almeja inferir a situação do
passado através do que existe no presente, ou vice-versa.
III. Processo discursivo
Heródoto -É a única fonte historiográfica nomeada em toda obra, analisando
precisamente outras formas de governo, assim como a ascensão de Pisístrato ao poder

Interdiscurso por meio da tirania.


Tucídides - O autor faz menção à Tucídides quando narra o assassinato de Hiparco
pelos tiranicidas Harmódio e Aristogíton, sendo até mesmo criticado pelo autor do
texto.
Memória O autor prima por reforçar em seu discurso o uso de termos gregos e de relacionar

discursiva nomes cargos políticos atenienses. Isso possibilita que contextualmente, o receptor de
seus textos seja capaz de apreender sua mensagem de modo inteligível, construindo
em seu imaginário social uma interiorização por meio da contraposição das instituições
políticas anteriores e posteriores ao advento da democracia.
Aristóteles – Política: O autor almeja estabelecer no texto uma tipologia constitucional
de Atenas.

Intertexto Exegética das Constituições de Cartago, Siracusa, Esparta e Beócia que influenciaram
o autor.

O autor reforça a comparação. De forma que seja possível expressar classificações.

Paráfrase Aristóteles utiliza-se da inversão, tornando ao seu receptor, um facilitado entendimento


da sua construção textual.

A ruptura percebida na construção da narrativa de Aristóteles refere-se à própria


ruptura de pensamento contemporâneo ao autor, em que partidários da oligarquia e
praticantes da democracia tendem a contrapor argumentos. A narrativa de Aristóteles
(analista da política ateniense) antagoniza com a perspectiva de Platão (mergulhado no
Polissemia
conflito por razões pessoais, afetivas). A visão de Platão desce para o confronto e
persegue objetivos utópicos. A abordagem de Aristóteles é isenta de alinhamentos e
175

paixões, com uma perspectiva crítica sobre o interregno político de Atenas.

Materialidade da Diversidade de termos legislativos e normativos em grego, como

polissemia Nothos, eggé, arty, genos, fratria, demos, xeinos, timé.....

IV. Objetividade do Texto


Tema Pertinência Objetividade
“Com efeito, naquela época o regime era Elucida a relação entre os
oligárquico em todos os seus demais aspectos, hectemóroi e os aristhoi, sua

Hectemoroi, e particularmente os pobres... tornavam-se dependência campesina que


escravos dos ricos. Dava-se-lhes o nome de futuramente geraria a stásis
escravos.
pélatais e de hectemóroi, pois era por esse solucionada por Sólon.
arrendamento que eles cultivavam os campos
dos ricos.” Cap. II. V. 1
“Também os empréstimos em geral incidiam
Relata o processo de construção
sobre as pessoas mesmas até a época de
da escravidão por dívidas,
Sólon, o qual veio a ser o primeiro líder do
Empréstimos, Sólon. posteriormente solucionada por
povo.” Cap. II V. 3
Sólon.

“Com o acirramento do conflito, e como se


Demostra o processo de
enfrentassem há já longo tempo, elegeram em
ascensão de Sólon como arconte
comum Sólon como mediador e arconte.” Cap
Archondato, Sólon. e mediador ateniense à medida
V. V.1
que o conflito entre os
segmentos sociais ateniense
entravam em embate.

Mostra a origem de Sólon como


“Sólon era, pelo nascimento e pela reputação,
um eupátrida. Um aristhoi que
um dos principais, mas pela fortuna e pelos
Sólon. apesar de sua riqueza,
atos, um dos do meio.” Cap. V V. 3,4
condenada a soberba e a
ganância dos ricos.
“Uma vez senhor da situação, Sólon libertou
Explana as medidas adotadas
o povo, tanto no presente quanto no futuro, ao
por Sólon assim que ascendeu
proibir que se dessem empréstimos incidentes
Seisachtheia, Sólon. ao cargo de arconte.
sobre as pessoas, promulgou leis e efetuou o
cancelamento das dívidas, tanto privadas
quanto públicas, o qual ficou conhecido como
seisacteia uma vez que se sacudiram os
fardos.” Cap. VI, 2
176

“Com efeito, essas pessoas adquiriram muitas


Antigos Ricos, Explica a origem dos rumores
terras tomando dinheiro emprestado, vindo a
sobre os possíveis interesses de
enriquecer pouco depois com o cancelamento
Seisachtheia. Sólon na implementação da
das dívidas; essa, dizem, é a origem dos que
Seisachtheia.
posteriormente eram tidos como os antigos
ricos.” Cap. VI, 3.

“Fixou as leis por cem anos...” Cap VII, v.5


Período da Lei. Importância de observar a
intenção de Sólon de que outros
dessem continuidade a suas leis.
“Distribui o exercício dos cargos maiores os
Distribuição dos Cita a divisão de cargos
nove arcontes, os tesoureiros, os
Cargos. políticos da pólis ateniense e
negociadores, os onze, os
explica quem teria acesso a eles.
colacretas/economia/impostos.” VII.3
“Distingui os cidadãos em quatro classe
Exemplifica a divisão censitária
censitárias, conforme a divisão já existente
promovida por Sólon, bem
anteriormente: os pentacosiomedimnos, os
Conteúdo da Lei. como a disposição das classes
cavaleiros, os zeugitas e os tetes.” Cap. VII v.
sociais existentes e
3à9
recentemente anexadas ao
esquema soloniano.
“Devia ser classificado como
Pentacosiomedimnos. O autor nos apresenta o caráter
pentacosiomedimnoi o que retirasse de sua
econômico da constituição
propriedade quinhentas medidas conjuntas de
estabelecida por Sólon.
grãos e líquidos.” VII,5
“E como cavaleiros, os que retirassem
Hippeis. Ressalta características
trezentas; alguns os definem como os que são
econômicas aliadas a outros
capazes de manter cavalos...” VII,5
critérios para a divisão social.
“Deviam ser classificados como zeugitas os
Zeugitas. O autor nos aponta para o
que obtivessem duzentas medidas conjuntas;”
critério censitário da legislação
VII,5
de Sólon;
“Concedeu unicamente a participação na
Thetas. Definição do segmento social
assembleia e nos tribunais..” VII,12
menos proeminente de Atenas;
“Para os nove arcontes cada tribo
Archontes Divisão dos cargos dos
selecionava previamente dez membros, dentre
magistrados e o tempo de
os quais era efetuada o sorteio.” VIII.1
governo;
177

“Ao que parece estas três constituem as


O autor estabelece as medidas
medidas mais populares do regime de Sólon.”
consideradas mais
IX
Medidas Populares “democráticas” do governo de
Sólon

“... primeiro, e a mais importante a proibição


Empréstimos Dissociação entre o público e o
de se dar empréstimos incidindo sobre as
privado;
pessoas;” IX.2
“... em seguida, a possibilidade, a quem se
Denúncia Recursos legislativos para
dispusesse, de reclamar reparação pelos
combater a prática da
injustiçados;” IX
escravidão por garantia pessoal.
“... o direito de apelo aos tribunais disposição
Apelo. O autor nos apresenta os
essa referida como a que mais fortaleceu a
dispositivos de justiça
multidão pois quando o povo se assenhoreia
implementados pela polis.
dos votos, assenhoreia-se do governo.” IX.1
“Uma vez disposto o regime na forma
Críticas, Sólon O autor demonstra que o
descrita, passaram a envolvê-lo com queixas
governo de Sólon não foi aceito
contra suas leis, reprovando umas e
de maneira homogênea.
questionando outras” XI.
“Mas, como ele não se dispunha nem a alterá-
Reclusão Demonstra o respeito de Sólon
las nem a ser hostilizado por sua presença, fez
às leis e a recusa do mesmo em
uma viagem ao Egito... afirmando que não
alterá-las.
estaria de volta antes de dez anos;” XI.1
“Ao mesmo tempo sucecedeu-lhe também que
Divergências O autor identifica os grupos
muitos notáveis divergiram dele por causa do
sociais divergentes da legislação
cancelamento das dívidas como ainda ambas
de Sólon.
as facções se arrependeram por se verem
contrariadas com o que fora estabelecido.” XI
“O povo, justamente, acreditava que ele
Isomoiria O autor nos apresenta uma das
procederia a uma redistribuição de tudo...”
reclamações do povo, a
XI.2
redistribuição das terras.
“Mas Sólon contrapôs-se a ambos, e estando
Legislação, Sólon. O autor explica a ascensão de
em seu alcance tornar-se tirano compondo-se
Sólon ao poder.
com o lado por que optasse, preferiu incorrer
na hostilidade de ambos mas salvar a pátria e
promulgar a melhor legislação”. XI.2
178

GRADE DE ANÁLISE DO DISCURSO


CANDIDO, M. R. et alli. Novas perspectivas sobre a aplicação metodológica em História
Antiga. In: BELTRÃO, C. et alli. A Busca do Antigo. Rio de Janeiro: NAU Editora, 2011, 16-
17.

Documento 2 - M. L. West, Iambi et Elegi Graeci ante Alexandrum cantati vol. II, editio
altera. Oxford: Oxford University Press, 1992
1. Processo de descrição do conteúdo
Autor/obra Sólon / Eunomia
Período/região VI séc. a.C/ Atenas.
Publico/privado Privado / Público

Manifestação Grego Ático, Período Arcaico.


da língua
1.2 Análise do texto
Propriedades da Linguagem poética
Linguagem do texto
Qualificação do texto Discurso poético direcionado para a História da Ática e de outras poleis.

Comunicação do Polis dos atenienses do período do VI século a.C.

texto
Publico presente na Ágora ateniense (possível local de leitura dos textos): O texto

Processo de interação era apresentado através de leituras em banquete promovido pela elite de Atenas
composta de aristhoi e olighoi do VI século a.C.
Conceitos Sua preocupação com a motivação dos contexto político ateniense o levou a expor
operacionais do texto os discursos que teriam pronunciado para justificar seus atos ou incentivar a
prática dos que almejavam realizar.
Monofonia/Polifonia: Polifonia - Faz referencia a elementos de contextualidade histórica, como os horoi
e a escravidão por dívidas.
1.3. Seleção do Conteúdo
Temas Citação Objetividade
FR 1W Sólon defende sua estratégia
política para incitar a
Eu mesmo vim, como arauto, da adorável
Salamina, população ateniense em prol
da recuperação do território
Salamina, arauto tendo composto uma ode, adorno de
palavras, em vez de um discurso. de Salamina.

FR 2W Sólon sublinha a importante


distinção entre um ateniense e
Fosse eu, pois, um folegândrio ou um
179

Salamina, sicinita um estrangeiro, denotando o

identidade caráter identitário da polis


em vez de ateniense, mudando de pátria;
então, imediatamente, este rumor surgiria como referencial para a
entre os homens:
postura política do cidadão.
“Este homem é ateniense, um dos
desertores de Salamina”!


FR 3W Demonstra o embate
Salamina envolvendo a posse da ilha de
Vamos até Salamina, lutar pela
encantadora ilha Salamina (entre Atenas e
Mégara).
Para nos livrar da terrível vergonha.

FR 4 W Relaciona os antagonismos
sociais desmedidos ao
Nossa polis jamais perecerá pela vontade
de Zeus contexto de crise m Atenas
devido à ganância dos
Antagonismos e pelo querer dos bem-aventurados
deuses imortais; eupatridai.
Sociais, Ganância
pois a tão magnânima guardiã̃, filha do
poderoso pai,

Palas Atena, tem as mãos sobre ela.

Mas os próprios cidadãos, com seus


desvarios,

querem destruir a grande polis,


persuadidos por riquezas,

e injusto é a ganância dos chefes do povo,


aos quais está reservado

sofrer muitas aflições por sua grande


hubris.
FR 4 W O autor relata o excesso de
poder da aristocracia,
pois eles não são capazes de conter sua
Riqueza, injustiça insaciabilidade motivados pela riqueza
desequilibrada e marcado
nem controlar, na tranquilidade do
banquete, seus prazeres. pela injustiça.

Enriquecem, persuadidos por ações


injustas.

FR 4 W Subversão dos mecanismos


de justiça na polis,
Não poupando os bens sagrados nem, de
180

modo algum, os públicos, corroborada pela apropriação


de bens públicos e sagrados
roubam com avidez, cada um por seu
Bens, Justiça lado, materializados pela terra.

nem guardam os veneráveis fundamentos


da diké,

que, em silêncio, conhece o passado e o


presente,

e, com o tempo, certamente vem punir.


FR 4 W O autor descreve a relação
entre a ganancia e
Essa ferida inevitável já atinge toda a
polis, apropriação de bens com a
stásis provocada pelo jugo da
e rapidamente conduz à perversa
escravidão, escravidão.

Stásis, escravidão que desperta a stásis e a guerra


adormecida,

a qual põe termo à agradável juventude


de muitos;

de fato, por causa dos inimigos,


rapidamente, a encantadora cidade

é destruída em conspirações que


prejudicam os amigos.
FR 4 W Menciona a escravidão por
dívidas, indicando a
Esses males se espalham entre o povo:
Pobres, escravos muitos pobres propagação dessa prática na
polis ateniense e a venda dos
migram para uma terra estrangeira,
endividados (hectemoroi)
vendidos e atados com humilhantes
para o exterior.
grilhões.
FR 4 W Indica um contexto de crise,
que reflete em ambos os
Assim, a desgraça pública chega a cada
Desgraça um em casa, segmentos sociais
antagônicos.
e as portas das casas não podem mais
contê-la,

salta sobre o alto muro e encontra


certamente,

ainda que alguém, fugindo, esteja no


interior do tálamo.
FR 4 W Sólon descreve os elementos
181

Estas coisas meu espírito me ordena necessários para um bom


ensinar aos atenienses:
governo (Eunomia) em
que a mal governo causa males justaposição à má
inumeráveis à polis,
governança.
mas a Eunomiamostra tudo bem
ordenado e bem proporcionado,

e, muitas vezes, agrilhoa os injustos,


Eunomia,
abranda a violência, faz cessar o
rivalidade
insaciabilidade,enfraquece a hibris

seca as flores nascidas da desgraça,

corrige os decretos tortuosos, suaviza as


ações arrogantes,

põe fim aos atos da dissensão,

e faz cessar o ódio da terrível rivalidade,


e, graças a ela,

tudo entre os homens é bem


proporcionado e sábio.
FR 5W Apresenta os princípios
atribuídos ao conceito de
Ao povo, realmente, concedi tanto
privilégio quanto lhe bastasse, isonomia, ilustrado pelo
equilíbrio na distribuição de
não lhe retirando nem acrescentando
honra; privilégios;

Isonomia, os que tinham poder e, por suas riquezas,


eram admiráveis,
privilégios
também a estes garanti que nenhum
insulto recebessem;

de pé, lançando sobre ambos um forte


escudo,

não permiti que nenhum dos dois


vencesse injustamente.
FR 6W Reitera a existência de
algumas práticas de
E assim, o povo seguiria melhor com seus
Chefes chefes, subserviência substituindo a
opressão da escravidão.
nem excessivamente solto nem coagido;

de fato, insaciabilidade gera hubris,


quando uma grande riqueza acompanha
182

os homens, cujo entendimento não é


equilibrado.

FR 9W O autor remete à dificuldade


de conter o contexto de crise
Da nuvem surge a força da neve e do
granizo, e disparidades sociais entre os
segmentos sociais rivais;
e o trovão nasce do brilhante relâmpago;

por causa dos grandes homens perece a


Crise polis,

e o povo, por ignorância, cai na


escravidão de um monarca.

Ao que se exalta demasiadamente não é


fácil contê-lo mais tarde,

mas, neste momento, deve-se refletir <


bem > sobre tudo.

FR 10 W Remete à publicização de
suas leis;
Um breve tempo revelará minha loucura
Verdade, leis aos cidadãos,

revelará, quando a verdade vier a


público.

FR 11W Indica que a subversão dos


mecanismos sociais estariam
Se padeceis infortúnios por vossa vileza,
sendo utilizados como
não imputeis às divindades uma parte
desígnio dos deuses;
Vilões, escravidão dessas coisas,

pois vós mesmos os aumentastes, dando-


lhes abrigo,

e, por isso, experimentastes funesta


escravidão.

FR 11W O autor nos aponta o


distanciamento entre os
Cada um de vós caminha com passos de
Discurso, raposa, discursos elencados acerca
dos fatos e o fato
entendimento mas todos vós tendes o entendimento
fútil; propriamente dito;

na verdade, vós prestais atenção na


língua e nas palavras de um homem
astucioso,
183

mas não olhais para o fato que está


acontecendo.

FR 12W Utiliza-se de linguagem


metafórica para remeter ao
Por causa dos ventos o mar se encapela,
Equilíbrio mas se nenhum o agita, equilíbrio social;

de todas as coisas é a mais equilibrada.


Fr 15W Contrapõe os elementos da
virtude (areté) em contraste
De fato, muitos vilões estão ricos, e os
nobres, pobres; com a riqueza - prazer
efêmero;
Riqueza, virtude mas nós não trocaremos com eles

a riqueza pela virtude, pois esta é sempre


imutável,

porém, a riqueza dos homens ora um, ora


outro a possui.
Fr 24W Sólon elenca as formas de

riqueza e alude ao uso de
Certamente, são igualmente ricos quem
possui muita prata, metais preciosos,
comparando-os às riquezas de
ouro, campos de terra fértil em trigo,
cunho moral e sentimental;
cavalos e mulas, e quem tem à sua
disposição somente essas coisas:

ter conforto em relação ao estômago, às


costas e aos pés
Elementos de
riqueza e divertir-se com um jovem ou com uma
mulher, e sempre que isso chega,

a flor da idade, com isso a juventude


torna-se harmoniosa.

Esses são os bens para os mortais; pois,


com todas as riquezas

excessivas, ninguém chega à morada do


Hades,

nem se pagasse um resgate, escaparia à


morte,

nem às penosas doenças, nem à perversa


velhice que se aproxima.
FR 32W Comenta sobre a recusa em

adotar a tirania como forma
(Diz) se eu poupei a terra
de governo e defende suas
184

pátria, e também não me apoderei da medidas mediante à possíveis


tirania e da implacável violência,
críticas à suas ações

Tirania maculando e desonrando a minha legislativas;


reputação,

de nada me envergonho: pois assim


parece melhor

que eu vença todos os homens.



FR 33W Justifica sua postura política
perante os problemas sociais
Sólon não era um homem perspicaz nem
prudente; enfrentados pela polis
ateniense, bem como reforça
de fato, ao oferecer-lhe a divindade
riquezas, ele mesmo não as aceitou; sua imagem como um
político moderado que
mas tendo envolvido a pesca, admirado,
não arrastou a grande rede, descartou o caminho da
Sólon
tirania;
porque foi privado, ao mesmo tempo, de
coragem e inteligência;

na verdade, se eu tivesse tomado o


poder, adquirido riqueza abundante,

e tivesse sido tirano de Atenas, apenas


por um dia,

eu desejaria depois que a pele fosse


esfolada e a minha geração aniquilada.

FR 34 W Sólon elenca as críticas


atribuídas à suas ações como
Uns vieram por rapacidade; eles tinham
grande esperança, político e legislador.
Defende-se alegando que,
e cada um deles julgava encontrar
muita riqueza, apesar de ter promovido
Críticas, divisão da
reformas - ignorou os apelos
terra e que eu, falando suavemente, mostrasse
um entendimento cruel. para o estabelecimento da
divisão igualitária das terras
Tinham pensamentos frívolos, e, agora,
irritados comigo, (isomoiria).

todos me olham com desconfiança, como


a um inimigo.

Não há motivo; na verdade, tudo o que eu


disse, realizei com a ajuda dos deuses,

mas as outras coisas, não fiz em vão, nem


185

pela força da tirania

me agrada [..], nem que os nobres


tenham uma porção de terra fértil

da pátria igual aos vilões.

FR 36W Menciona os demarcadores


de fronteira intitulados horoi
Mas eu, por causa dessas coisas,
convoquei o povo, que estariam espalhados pelo
território ateniense, indicando
de qual delas desisti antes de alcançá-
la? a apropriação ilegal da terra.

Poderia testemunhar isso na diké do


Tempo
Horoi
a magnífica mãe das divindades
olímpicas,

a melhor, a negra Terra, da qual eu,


outrora

arranquei os horoi, fincados por toda


parte;

se antes era escrava, agora é livre.

FR 36W Relata as consequências da


escravidão por dívidas para
Para Atenas, pátria fundada pelos
deuses, os indivíduos, como o exílio e
a perda da identidade
eu reconduzi muitos homens, vendidos
ora justa, ora injustamente, ateniense; Relata,
paralelamente, as ações da
uns tendo sido exilados,
seisachtheia, a política de
por causa da penosa necessidade, não
“alívio dos fardos” dos
Seisachtheia mais falavam o dialeto ático,
encargos da escravidão. O
depois de terem errado por muitos
autor afirma ter estabelecido
lugares;
a liberdade à estes indivíduos;
outros, aqui mesmo, sofriam a ignóbil
escravidão,

trêmulos diante da conduta dos seus


senhores, tornei-os livres.

FR 36W Retorna à premissa da


isonomia, alegando a criação
Essas coisas, por meio do poder,
186

de leis igualitárias, mas que


tendo unido, ao mesmo tempo, a força e a
atendessem aos segmentos
diké,
Poder, isonomia sociais de modo
eu realizei e fui até o fim, como
particularizado - de acordo
prometi;
com sua posição social;
leis tanto para o homem comum quanto
para o nobre,

adaptando uma sentença justa para cada


um, eu redigi.
FR 36W Destaca o caráter precursor
de suas ações ao evadir-se do
Mas, se outro tivesse, como eu, tomado o
aguilhão, abuso de poder tão presente
no contexto social de
um homem perverso e ambicioso,
produção de Atenas e o
não teria contido o povo; na verdade, se
possível desfecho caso
eu quisesse
houvesse ele optado pela
as coisas que então agradavam aos meus
tirania;
Poder, adversários adversários,

ou as coisas que contra eles outros


planejavam,

essa polis já estaria privada de muitos


homens.

Por isso, prestando socorro por todos os


lados,

como um lobo, eu ia e vinha entre muitos


cães.
FR 37 W O autor compara suas ações
ao caráter mediador dos
Se ao povo é preciso reprovar
abertamente, horoi, arbitrando o embate
presente no demos ateniense e
jamais poderiam ter visto, com os olhos
o que agora possuem, urgindo o povo de Atenas a
Sólon, horos
perceber os benefícios de
se dormissem...
suas leis;
E todos os poderosos e melhores quanto à
força,

me celebrariam e me fariam seu amigo.

Se um outro, diz, ocupasse esse cargo,

não teria contido o povo, nem teria


cessado
187

antes que, tendo misturado o leite,


retirasse a nata.

Mas eu me coloquei no meio deles como


um horos.
188

Anexo 1 - Axones e Kyrbeis

Fonte - Axones virados em direção à borda, com uma desmontado para exibir a seção triangular.
(HOLLAND, 1941, p. 346-362)
189

Anexo 2 - Axon

Fonte - Reconstrução de um axon. (STROUD, 1979)


190

Anexo 3 - Pedras de um Axon

Fonte - Duas das quatro bases de pedra encontrados no lado oeste da Ágora. (DAVIES, 2011, p. 8)
191

Anexo 4 - Kyrbeis

Fonte - Solonos nomoi. (DAVIES, 2011, p. 6)


192

Anexo 5 - Tabela sobre a visão dos autores clássicos sobre o comércio

Autor Obra Período Princípio Citação


Já em um diferente documento Entre os Gregos e Bárbaros, os Atenienses
atribuído à Xenofonte124, são os únicos com capacidade de criar
Constituição dos Atenienses125, riquezas. Pois se uma cidade é rica em
este autor salienta basicamente o madeira para construção naval, a quem a irá
nível de exportação considerado vender se não tiver o acordo dos senhores do
equânime para muitas cidades. mar? E o que acontece se uma cidade é rica
O discurso é diferente de em ferro, cobre ou linho? Onde os irá vender
Aristóteles. Os exemplos são se não tiver o acordo dos senhores do mar?
mais numerosos e mais Pois é exatamente destes materiais que são
Constituição 431 e 424 específicos. Acima de tudo, o feitos os meus navios: de uma cidade vem a
Xenofonte dos a.C123 comércio de mercadorias madeira; de outra, ferro; de outra, cobre; de
Atenienses baseado na importação e outra, linho; e de outra, cera.
exportação transcende a questão Além disso, eles vão proibir a exportação
dos excedentes, concentrando-se destes materiais para qualquer território rival,
na possibilidade da "riqueza" sob pena de se não poder mais utilizar o mar.
derivada da venda mercadoria. E enquanto isto, eu, sem produzir nada,
disponho de todos os produtos da terra graças
ao mar. Nenhuma outra cidade possui estes
dois tipos de produtos: não há na mesma
cidade madeira e linho.
No fragmento de Tucídides126, “Aqueles que, todavia, vivem mais no interior
as declarações ministradas pelos e longe das rotas de comércio devem ser
embaixadores de Corinto advertidos de que, se não ajudarem os
demonstram a importância das habitantes do litoral, terão mais dificuldades
relações comerciais, para trazer os produtos de suas terras até o
especialmente em um período mar e levar, em contrapartida, o que o mar
A História da 431 - 404 beligerante. Já em Isócrates oferece ao interior, não deverão ser juízes
Tucídides Guerra do observa-se a uma teoria de displicentes do que se disser aqui, como se
a.C
Peloponeso deficiências e excedentes que se isso não lhes interessasse, mas deverão
assemelha a de Aristóteles, mas esperar que, se abandonarem o litoral à sua
com uma visão mais clara de própria sorte, o perigo poderá algum dia
partilha fontes de riqueza entre chegar até eles, pois estarão deliberando sobre
diferentes cidades, seus próprios interesses, não menos que sobre
correlacionando-a produtividade os nossos.

123
Temos conhecimento da existência de uma discussão acerca da datação desta obra. Entretanto, a escolha deste
intervalo foi fundamentada na explanação de Pedro Ribeiro Martins (2013:35), concordando com as
argumentações de Ste Croix (1972:309) e Marr e Rhodes (2008:6).
124
A historiografia, de um modo geral, discorda acerca da autoria da Constituição dos Atenienses. A corpora
documental geralmente confirma Xenofonte como autos, entretanto, alguns pesquisadore modernos
desenvolveram argumentos sistemáticamente contrários a esta proposição. Em termos da ultilização da
documentação neste trabalho de pesquisa acadêmica interessa-nos o discurso presente na obra, em detrimento de
sua autoria. Deste modo, nos utilizaremos da definição de Pedro Ribeiro Martins para justificar não a autoria da
obra, mas sim o perfil do autor. Segundo Martins: trata-se de um Ateniense extremamente autoconfiante e com
um programa político bem definido. As crenças que defende têm base em uma ideologia oligárquica, mas suas
propostas práticas dialogam com o regime democrático. É um homem de ação, talvez um estratego, um hiparca
ou um trierarca, e participa da política ateniense assiduamente. É um homem culto, frequenta os círculos
intelectuais e está familiarizado com as ideias dos sofistas, apesar de não ser um deles. (MARTINS, 2013:33)
125
Xenofonte, Constituição dos Atenienses. 2.2.11-12.
126
Tucídides, História da Guerra do Peloponeso. 1.120.2.
193

do território.

Autor Obra Período Princípio Citação


No relato do historiador Eu sei que os atenienses estariam dispostos a
Xenofonte127, encontra-se uma fazer qualquer coisa para se tornarem nossos
alusão interessante para o aliados; mas eu hesito em fazer amizade com
comércio exterior em um eles. Pois considero mais fácil me apoderar do
discurso dado por Jason de império pelo mar, inclusive por terra.
Feras, no qual ele compara seu Observa-se assim mesmo o seguinte
poder crescente com o de raciocínio através da lógica: na verdade, se
Atenas, argumentando que, uma tivermos a Macedônia, de onde os atenienses
vez que estabeleça o seu retiram a madeira, sem dúvida seremos
domínio no território da capazes de construir muito mais navios do
Xenofonte As Helênicas 390 - 393 Macedônia será possível que eles. [...] Na verdade, é natural que nós
a.C. fornecer marinheiros, estando enviemos o trigo para outras áreas pela
ele em melhor posição para abundância sejamos capazes de alimentar os
alimentá-los de maneira mais marinheiros ou os atenienses que não têm
eficiente que os atenienses, nem o suficiente para si mesmos se não o
utilizando os excedentes comprarem?
normais, que permitem aos
tessálios exportar grãos, para
alimentar os marinheiros de sua
frota.
Para Platão128, tão rigoroso Nenhuma taxa portuária deve ser paga ao
sobre a exclusão de estrangeiros, Estado por qualquer pessoa, quer em bens
as exportações e importações (as exportados ou na importação. Incenso e todas
duas atividades são essas especiarias estrangeiros para uso em
mencionados lado a lado, deve- ritos religiosos, [...] e todos os corantes não
se enfatizar, três vezes produzidos no país, e todos pertencentes a
diferentes) estão limitadas a um qualquer outra embarcação que exija
mínimo estrito de mercadorias materiais importados estrangeiros para um
estratégicas e itens similares. uso que não é necessário, ninguém deve
Platão As Leis 384 a.C. Estas relações comerciais são, importar; nem, por outro lado, deve ele
evidentemente, colocadas sob o exportar qualquer uma das coisas que deve
controle rigoroso da cidade. necessariamente permanecer no país; [...] No
que diz respeito às armas e todos os
instrumentos de guerra, se houver necessidade
de importar qualquer embarcação ou vegetal
ou metal, corda ou animais para fins militares,
os [...] generais devem ter o controle de
importações e exportações, [...].

"E além disso, visto que nenhum deles


possuía um território autossuficiente, mas
careciam de algumas coisas e produziam
outras mais do que era preciso, e como era
muito difícil tanto dispor das primeiras nos
lugares onde eram necessárias quanto levar as
Isócrates Panegírico 380 a.C. outras alhures, também essas dificuldades
Atenas remediou, pois estabeleceu o Pireu
como um mercado no centro da Grécia, cuja
abundância é tamanha que esses artigos,
difíceis de se obter individualmente, são todos
encontrados com facilidade nela”.

127
Xenofonte. As Helênicas. 6.1.11.
128
Platão, As Leis. 8.847b–d.
194

Autor Obra Período Princípio Citação


Políbio História 220 - 216 Em Políbio129 a situação ideal [...] talvez, os próprios bizantinos sejam as
a.C. para uma cidade é ser capaz de pessoas que obtêm mais benefícios
importar e exportar em financeiros a partir da situação de sua cidade,
condições ideais, tal qual a uma vez que eles podem facilmente exportar
cidade de Bizâncio. todos os seus produtos supérfluos e importar
o que eles necessitam em condições
vantajosas e sem qualquer perigo ou
sofrimento, também, como eu disse, eles são
de grande serviço para outras pessoas.

Fonte: Adaptada de BRESSON, Alain. Aristotle and Foreign Trade. In: HARRIS, Edward et al. The ancient
Greek economy : markets, households and city-states. United Kingdom: Cambridge University Press, 2016. p.
43-50.

129
Políbio, História. 4.38.8–9
195

Anexo6 - Quadro esquemático sobre o livro a grande transformação

Fonte: Esquema Sintético sobre o livro A Grande Transformação. MACHADO, Nuno C. Sociedade vs. Mercado
– Eotas Sobre o Pensamento Económico de Karl Polanyi. Lisboa. 2009, p. 144
196

Anexo7 - Notas de Karl Polanyi – Conceito de Redistribuição

Fonte - Notas de Karl Polanyi sobre o conceito de redistribuição. Karl Polanyi Institute of Political Economy.
www.concordia.ca/research/polanyi/archive.html. Acessado em: 21/07/2015 às 21:30 h.
197

Anexo 8 -Notas de Karl Polanyi – Conceitos de Simetria e Reciprocidade

Fonte - Notas de Karl Polanyi sobre o conceito de simetria. Karl Polanyi Institute of Political Economy.
www.concordia.ca/research/polanyi/archive.html. Acessado em: 21/07/2015 às 21:30 h.
198

Anexo 9 - Notas de Karl Polanyi – Lucro

Fonte - Notas de Karl Polanyi sobre o lucro. Karl Polanyi Institute of Political Economy.
www.concordia.ca/research/polanyi/archive.html. Acessado em: 21/07/2015 às 21:30 h.
199

Anexo 10 - Notas de Karl Polanyi – Dinheiro

Fonte - Notas de Karl Polanyi sobre dinehiro. Karl Polanyi Institute of Political Economy.
www.concordia.ca/research/polanyi/archive.html. Acessado em: 21/07/2015 às 21:30 h.
200

Anexo11 - Notas de Karl Polanyi sobre asFormas de Comércio

Fonte- Notas de Karl Polanyi sobre as Formas de Comércio. Karl Polanyi Institute of Political Economy.
www.concordia.ca/research/polanyi/archive.html. Acessado em: 21/07/2015 às 21:30 h.
201

Anexo 12 -Notas de Karl Polanyi sobre as Formas de Integração

Fonte - Notas de Karl Polanyi sobre as Formas de Integração. Karl Polanyi Institute of Political Economy.
www.concordia.ca/research/polanyi/archive.html. Acessado em: 21/07/2015 às 21:30 h.
202

Anexo 13 - Forma Política do Archondato no Período Arcaico

Fonte - GOMES, José Roberto de Paiva Elaborando um campo de experimentação comparada a partir das
funções sociais das musicitas-citaristas hetairas com as das pedagogas representadas nos vasos áticos
produzidos durante a tirania dos Pisistratidas (560-510 a. C.) /José Roberto de Paiva Gomes. – Rio de Janeiro:
UFRJ, 2015, p. 40.
203

Anexo 14- Calendário das Atividades Agrícolas e Despesas de Eleusis

Fonte - OSBORNE, Robin. Classical Landscape with Figures: The Ancient Greek City and its
Countryside.Londres: George Philip e Dobbs Ferry, Nova Iorque: Sheridan House, 1987, p. 15.
204

Anexo 15- Horoi da Ágora Ateniense com Escalas

Fonte- W.B. Dinsmoor Jr. - Agora Excavations


205

Anexo 16 - Tabela de Rendimentos dos Segmentos Sociais do Código Soloniano

Fonte - FOXHALL, Lin. A view from the top: Evaluating the Solonian property classes. In: The Development of
the Polis in Archaic Greece. Routledge: New York, 1997. p. 70.
206

Anexo 17 - Mapa do Kerameikos

Fonte: Região do Kerameikos em Atenas – GOETTE, Hans. Athens, Attica and the Megarid: an archeological
guide. London: Routledge, 2002. p.77.

1: Muro da cidade 2: Fortificação Externa


3: Vala de Proteção 4: Portão Sagrado
5: Ânfora Funerária de Dipylon 6: Casa Fonte
7: Pompeion 8: Casas de Habitação
9: Túmulo dos Lacedemônios 10: Tumbas
11: Banhos 12: Monte Funerário
13: Pontes sobre Eridanos 14: Monte Funerário Sul
15: Túmulo do Embaixador 16: Recinto das Tritopatres
17: Monte Funerário 18: Lote de Sepultura Ampharete
19: Lote de Sepultura 20: Lote deSepultura com pequeno relevo de
sepultura
21: Lote de Sepultura de Tijolo de barro 22: Lote de Sepultura deKoroibos com estela de Hegeso
de Aristomache
23: Lote de Sepultura de de Lysimachides 24: Lote de Sepultura de Dionisios de Kollytos
25: Lote de Sepultura de doisirmãos 26: Lote de Sepultura da Família de Lisanias
de Herakleiade Torikos com estela de Dexileos
27: Terraço com cinco lotes de Sepulturas 28: Lote de Sepultura de Demétria e Pamphile
29: Lote de Sepultura dePhiloxenos de Messena H 1-3: Marcos de Pedra