Você está na página 1de 8

Experimentos em Química Experimental 1, EMERSON OZIAS DE LUNA, Experimento 10

ESTUDO CINÉTICO DA REAÇÃO DA

Experimento 10
ACETONA COM IODO
EMERSON OZIAS DE LUNA

Departamento de Química Fundamental, Universidade Federal de Pernambuco, Recife, Brasil

Data da prática: 06/06/2018; Data de entrega do relatório: 13/06/2018.

Introdução

O que determina a velocidade de uma


reação química é o tempo em que os reagentes A Velocidade Média de uma reação química
são consumidos para formar produtos. Assim, a é a variação na quantidade de um reagente ou
velocidade de uma reação pode ser representada
produto em um determinado intervalo de tempo.
tanto pelo consumo de um reagente, quanto pela Quando calculamos a velocidade média,
geração de um produto. queremos saber a velocidade em que um
Antes de acontecer a reação química, temos reagente foi consumido ou a velocidade em que
quantidade máxima de reagentes e nenhum um produto foi formado.
produto. Quando um dos reagentes é totalmente
As unidades de quantidade podem ser dadas
consumido, formam-se os produtos e a reação em massa, mols, volume e concentração molar. O
termina. tempo pode ser dado em segundos ou minutos.A
As reações químicas diferem na velocidade teoria das colisões é aplicada para reações
em que acontecem. Elas podem ser rápidas, gasosas. Ela determina que para a reação química
moderadas ou lentas: acontecer os reagentes devem estar em contato,
 Reações rápidas ocorrem através de colisões.Entretanto, apenas isso não
instantaneamente, com duração de garante que a reação ocorra. Também é preciso
microssegundos. Um exemplo é a queima que as colisões sejam efetivas (orientadas). Isso
do gás de cozinha. garantirá que as moléculas adquiram energia
 Reações moderadas levam de minutos a
suficiente, a energia de ativação. A energia de
horas para serem finalizadas. Um ativação é a energia mínima necessária para que
exemplo é a queima do papel. a formação do complexo ativado e efetiva
 Reações lentas podem durar séculos,
realização da reação. O complexo ativado é um
porque os reagentes combinam-se estado transitório da reação, entre os reagentes,
lentamente. Um exemplo é a formação enquanto os produtos finais ainda não foram
do petróleo. formados.

1
Experimentos em Química Experimental 1, EMERSON OZIAS DE LUNA, Experimento 10

Os principais fatores que afetam a


velocidade das reações são:
 Concentração de Reagentes A expressão da velocidade de reação para
Quando a concentração dos reagentes esta reação é:
aumenta, a frequência de choques entre as V= k[acetona]a[H+]b[I2]c
moléculas também aumenta, acelerando a equação 1
reação.Quanto maior a concentração dos onde k é a constante de velocidade
reagentes, maior a velocidade da reação. (depende da temperatura) e [acetona], [H+] e
[iodo] são as concentrações molares da acetona,
do íon hidrogênio e do iodo, respectivamente. Os
 Superfície de Contato expoentes a,b e c são as ordens da reação com
Essa condição afeta apenas reações entre relação à acetona, ao íon hidrogênio e ao iodo,
sólidos. A superfície de contato é a área de um respectivamente.
reagente que fica exposta aos demais reagentes. O mecanismo desta reação envolve três
Como as reações precisam de contato entre os etapas:
reagentes, concluímos que: Quanto maior a
superfície de contato, maior a velocidade da I) H3C-CO-CH3(aq) +H+(aq) ⇌H3C-C(OH)=CH2(aq)
reação. (etapa lenta)
 Pressão II) H3C-C(OH)=CH2(aq)+I2(aq)H3C-C+(OH)-CH2I(aq) +
Essa condição afeta apenas reações com I-(aq)
gases. Com o aumento da pressão, o espaço III) H3C-C+(OH)-CH2I(aq)+I-(aq)H3C-CO-CH2I(aq)+
entre as móleculas diminui, fazendo com que + -
H (aq)+I (aq)
tenham mais colisões, aumentando a velocidade A (equação 1) é complexa e apresenta
da reação. Quanto maior a pressão, maior a sete incógnitas. Entretanto, sabendo-se que a
velocidade da reação. etapa lenta da reação (etapa I) não depende de
 Temperatura [I2] (ou seja, c= 0) a( equação 1) torna-se bem
Temperatura é uma medida de energia mais simples. Assim podemos usar I2 como
cinética, que corresponde ao grau de agitação reagente limitante e medir o tempo necessário
das partículas. Quando a temperatura é alta, as para o desaparecimento de sua cor amarela.
moléculas estão mais agitadas, aumentando a Como a concentração de I2 é pequena e a
velocidade da reação. Quanto maior a acetona e o íon hidrogênio estão em excesso, a
temperatura, maior a velocidade da reação. mudança da concentração de acetona e do íon
 Catalisadores hidrogênio podem ser negligenciadas. Isto nos
O catalisador é uma substância capaz de permite escrever a (equação 1) da seguinte
acelerar uma reação química, sem ser consumido forma:
ao final da reação. As enzimas são catalisadores V= -D[I2]/Dt= [I2]o/t
biológicos. A presença de um catalisador equação 2
aumenta a velocidade da reação. onde [I2]o é a concentração inicial do I2 e to
Nesta prática estudaremos a reação da tempo necessário para o desaparecimento da cor
acetona com iodo a fim de determinar seus amarela. Os parâmetros cinéticos podem ser
parâmetros cinéticos. A reação a ser estudada é: determinados fazendo-se vários ensaios, à
mesma temperatura, variando-se apenas a
H3CCOCH3(aq) + I2(aq)H3CCOCH2I(aq)+ H+(aq) + I-(aq) concentração de um dos reagentes.
(acetona) (iodo) (iodoacetona)

2
Experimentos em Química Experimental 1, EMERSON OZIAS DE LUNA, Experimento 10

Por exemplo, para determinar a ordem de


reação com relação à acetona, a, é só fazer a Portanto, traçando-se um gráfico ln k x
reação para duas concentrações diferentes de 1/T(em Kelvin) determina-se à energia de
acetona, permanecendo as demais ativação.
concentrações constantes. Assim, se no segundo
ensaio a concentração de acetona for o dobro da Procedimento Experimental
concentração usada no primeiro ensaio, teremos: Neste experimento ocorreram várias
análises, em diferentes concentrações de
1o ensaio V1= k[acetona]a[H+]b[I2]c acetona, íons hidrogênio e iodo, como também
2o ensaio V2= k(2[acetona])a[H+]b[I2]c variamos a temperatura, seguindo a instrução
descrita na [tabela 1]. As soluções aquosas de
acetona 4 M, ácido clorídrico 1 M e iodo 0,005 M
dividindo estas duas equações e tirando o ln foi fornecidas pelo monitor.
dos dois lados da equação, temos: Separamos vinte tubos de ensaios e
ln(V2/V1)= a.ln2 logo: marcamos dez com as letras A e o número
referente ao ensaio e dez com a letra B e o
a= ln(V2/V1)/ln2 número referente ao ensaio. Seguindo os
equação 3 volumes para cada ensaio especificados na tabela
1, adicionamos ao tubo A, as soluções aquosas de
Pelo mesmo procedimento pode-se acetona 4,0 M, ácido clorídrico 1,0 M e, se for o
determinar b (a ordem da reação com relação a caso, água destilada. Ao tubo B, adicionamos a
H+), fazendo-se variar a concentração do íon solução aquosa de iodo 0,005 M. Deixamos os
hidrogênio, enquanto as demais concentrações tubos de ensaio imersos em um béquer com água
permanecem constantes. E, lembrando que c=0, à temperatura ambiente a fim de evitar variação
pode-se, portanto, determinar o valor de k à na temperatura. separamos mais um tubo,
temperatura ambiente. enchemos com água destilada para servir como
A dependência da constante de velocidade referência e detectar o momento que a cor
com a temperatura pode ser investigada amarela do iodo desaparece. Adicionamos o
realizando-se vários ensaios nas mesmas conteúdo do tubo B em no tubo A e acionamos
condições de concentração, variando-se apenas a simultaneamente o cronômetro. a solução foi
temperatura. A expressão matemática que equalizada usando um agitador magnético.
relaciona a constante de velocidade com a Observamos o tubo comparando com o de
temperatura é chamada equação de Arrhenius: referência e medimos o tempo necessário para
que desaparecesse a cor amarela do iodo.
k= Ae-Ea/RT Repetimos este mesmo procedimento para os
equação 4 outros nove ensaios indicados na tabela.
sendo A o coeficiente de proporcionalidade, Anotamos a temperatura em que os
T a temperatura em Kelvin, R a constante ensaios foram realizados. O ensaio feito com
universal dos gases (8.314 J/Kmol) e Ea a energia temperatura abaixo da ambiente foi usado um
de ativação. banho de gelo e o conteúdo dos tubos A e B só
Esta equação pode ser reescrita da seguinte foram misturados quando o equilíbrio térmico foi
forma: estabelecido. Os ensaios com temperatura maior
lnk= - Ea/R(1/T) + lnA que a ambiente foram realizados com agitador
equação 5 magnético com aquecimento sendo observado o
estabelecimento do equilíbrio térmico.

3
Experimentos em Química Experimental 1, EMERSON OZIAS DE LUNA, Experimento 10

Resultados e Discussão

Iniciamos o tratamento dos dados


observando a tabela 1, na qual está relacionada o
tempo necessário para o desaparecimento da cor
amarela do iodo, pois usamos I2 como reagente
limitante, como já foi comentado na introdução.

tabela 2

Usando a (equação 2), foi determinada a


velocidade da reação nos diversos ensaios, que
também podem ser vistos na [tabela 2].
Neste ponto já podemos fazer nossa
primeira analise, que é a dependência da
velocidade da reação com a temperatura, a
velocidade da maioria das reações químicas
tabela 1 aumenta à medida que a temperatura também
De acordo com a (equação 2), precisamos da aumenta. Reações em solução são altamente
concentração inicial do iodo para calcularmos a influenciadas pela temperatura, podemos
velocidade de reação nos diversos ensaios, e observar nos ensaios 8,9,10 onde só ocorreu
posteriormente precisaremos também das variação na temperatura, como a velocidade foi
concentrações iniciais da acetona e do ácido afetada, Comparando o ensaio 10 com o 8 vemos
clorídrico, procedemos da seguinte forma para que a velocidade é cerca de 10 vezes maior que a
calcularmos as concentrações iniciais: velocidade do ensaio 8.
Reações em fase gasosa são pouco
[I]o =Concentração inicial do Iodo influenciadas (ou pouco sensíveis) à temperatura,
reações catalisadas por enzimas podem
4mol ----------- 1L apresentar uma dependência mais complexa em
X1 ----------- 0,002L relação à temperatura (a elevação da
temperatura pode provocar mudanças
X1 = 0,08 mol conformacionais e até desnaturação e
degradação da enzima, isto ocasiona um
0,08 mol
[I]o = = 0,8 mol L-1 abaixamento na efetividade da enzima ) , uma
0,01 𝐿
das razões pelas quais nosso organismo combate
Procedendo da mesma forma, encontramos infecções com uma febre é para perturbar o
as concentrações iniciais do ácido clorídrico e da equilíbrio da velocidade de reação do agente
acetona para o primeiro ensaio e para todos os infeccioso e, desse modo, destruí-lo pelo
outros nove, sendo apresentados na [tabela 2]. aumento da temperatura.
Arrhenius foi o primeiro cientista a
[H+]o = 0,2 mol L-1 reconhecer a dependência da constante de
[H3CCOCH3)]o = 0,001 mol L-1 velocidade com a temperatura, através da
(equação 4).

4
Experimentos em Química Experimental 1, EMERSON OZIAS DE LUNA, Experimento 10

Além de observamos a dependência da Embora algumas moléculas que passam pelo


velocidade da reação com a temperatura, estado de transição possam ser revertidas aos
podemos ver na [tabela 2], que na proporção reagentes, se elas passarem por essa
que aumentamos a concentração da acetona, a configuração é certo que os produtos sejam
velocidade também aumenta, esse fato é formados, em nosso experimento a energia de
explicado pela teoria do complexo ativado (ou ativação foi fornecida através do agitador
teoria do estado de transição), essa teoria supõe magnético,
que a energia potencial aumenta à medida que
os reagentes se aproximam. No valor máximo da
energia potencial, a estrutura formada, devido a
aproximação dos reagentes, é denominada de
“Complexo Ativado”.
O “Complexo Ativado” é definido como um
aglomerado de átomos que pode tanto passar
para o lado dos produtos, como retornar para o
lados dos reagentes, O “Complexo Ativado” não
é um intermediário de reação, que pode ser
isolado e estudado como a maioria das
moléculas, O conceito de “Complexo Ativado”
pode ser aplicado tanto a reações em solução, gráfico 1
quanto em reações em fase gasosa, No caso das
reações em solução, o modelo se torna mais calculamos as ordens de reação a (a partir
complexo, uma vez que, podemos pensar no dos ensaios 1,2,3), b (a partir dos ensaios 1,4,5) e
“Complexo Ativado” envolvido por moléculas de c (a partir dos ensaios 1,6,7), Empregando a
solvente, à medida que a reação avança, os equação 3, e obtemos os resultados vistos na
reagentes entram em contato e suas nuvens [tabela 3].
eletrônicas são distorcidas podendo romper as
ligações, a energia potencial aumenta até um
máximo caracterizado por um aglomerado de
átomos, a energia potencial começa a diminuir à
medida que vai ocorrendo um rearranjo dos
átomos no aglomerado até alcançar os produtos,
podemos observar o comportamento da reação
com relação a energia no [gráfico 1].
O climax da reação está no ponto mais alto
da energia potencial (onde as moléculas
tabela 3
reagentes alcançam um grau de proximidade e de
distorção adicional de suas nuvens eletrônicas
onde: a12= valor entre a reação 1 e 2
levando em direção aos produtos). Essa
a13 = valor entre a reação 1 e 3
configuração crucial é denominada de “complexo
ax = média aritimétrica entre a12 e a13
ativado” ou “estado de transição” da reação.
b41= valor entre a reação 4 e 1
b15= valor entre a reação 1 e 5
bx = média aritimétrica entre b41 e b15
5
Experimentos em Química Experimental 1, EMERSON OZIAS DE LUNA, Experimento 10

Agora que conhecemos as concentrações da


[acetona], [H+], [iodo], a, b, c, e as velocidades de Já comentamos que Arrhenius foi o
cada ensaio, determinamos, a partir da (equação primeiro cientista a reconhecer a dependência da
1), o valor da constante k à temperatura ambiente. constante da velocidade com a temperatura,
fizemos estes cálculos escolhendo os ensaios 1, 4 através das (equações 4 e 5).
e 6 feitos à temperatura ambiente e assumimos a onde:
média aritimétrica como o valor mais provável k é a constante de velocidade
para a constante k, visto na [tabela 4]. A é conhecido como “constante de Arrhenius” ou
“fator pré-exponencial”
Ea corresponde à “energia de ativação”
R é a constante dos gases (8,314 J K -1 mol -1 )
T é a temperatura absoluta.

As grandezas Ea e A são conhecidas como


parâmetros de Arrhenius
tabela 4
ln A = coeficiente linear do gráfico 2
- Ea/R = coeficiente angular do gráfico 2
Da mesma forma que fizemos para os
ensaios 1, 4 e 6, Calculamos os valores de K para calculando : - Ea/R
os ensaios em que houve variação de
temperatura, ensaios 8, 9 e 10, visto na [tabela 5] - Ea/R =
−10,6901411 − (−8,727423829)
=
0,003472222 − (0,003246753)

- Ea/R = -8705,04268

Ea = 8,314 J K -1 mol -1 . -8705,04268 K mol


tabela 5
Ea = 72,373725 K J mol⁻¹
Com estes dados estamos em condições de
traçar um gráfico Ln K x 1/T , com o objetivo de Conclusão
determinar a energia de ativação para a reação
Apesar de muito longo, o experimento que
em estudo [gráfico 2] .
foi desenvolvido nessa prática é de extrema
importancia no conhecimento e previsões nas
reações química vários conceitos foram abordados
dando enfase ao efeito de perturbações externas.
Uma certa familiaridade com esses fenômenos é
indispensável à formação de qualquer químico.
Muitos equilíbrios, especialmente os de
solubilidade, são à base da Química Analítica
clássica; conhecendo as características de um
estado de equilíbrio poderemos influenciar a
composição de um sistema, de acordo com os
nossos interesses.
gráfico 2 Pelo princípio de Le Chatelier, pudemos
explicar as tendências das reações quando o
equilíbrio químico é perturbado. Percebemos
que o muita reações são reversíveis e podem se

6
Experimentos em Química Experimental 1, EMERSON OZIAS DE LUNA, Experimento 10

encontrar em equilíbrio, ou seja, elas não


ocorrem “até o fim”. Sempre há uma quantidade
constante de reagente que se encontra numa
mistura em equilíbrio. Notamos a força do
princípio de Le Chatelier, que até hoje é muito
usado para explicar e prever reações.

Referências
[1] B. M. Mahan e R. J. Myers - Química - Um
Curso Universitário
[2] J. B. Russel - Química Geral
[3] Atkins, P; Jones, L. – Princípio de Química,
ed. LTD

7
Experimentos em Química Experimental 1, EMERSON OZIAS DE LUNA, Experimento 10

Questões 2 - O que acontecerá se você acrescentar


ácido clorídrico concentrado a uma solução
1 - É provável que a frase "um aumento de
saturada de NaCl? Por quê?
temperatura favorece a reação endotérmica" não
lhe seja estranha (se for, consulte o professor).
resposta: Ocorrera o que é chamado efeito
Mostre como esta frase decorre do Princípio de Le
íon comum.
Chatelier.
exemplo de equação:
+ -
Resposta: Em um equilibrio, se a reação direta é NaCl → Na
+ + Cl
-
HCl → H + Cl
endotermica, a inversa é exotermica. pelo
principio de Le Chatelier, quando perturbamos o
equilibrio ele se desloca de modo a voltar a 3 - Os produtos de solubilidade de
condição original. De modo que quando carbonato de cálcio e do fluoreto de cálcio são
aumentamos a temperatura do sistema, ele reage 8,7 x 10-9 e 4,0x10-11, respectivamente. Mostre
a essa mudança baixando a temperatura. uma que o fluoreto é mais solúvel que o carbonato,
reação endotérmica consome energia térmica, apesar de ter o Kps menor
Então quando fornecemos energia térmica ao
sistema, a reação endotermica é favorecida
consumindo essa energia e restaurar as condições
iniciais.