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Elementos que compõem a imagem da cidade de acordo com Kevin Lynch.

O conteúdo das imagens das cidades até aqui estudadas, que remetem às formas físicas, pode ser adequadamente
classificado em cinco tipos de elementos: vias, limites, bairros, pontos nodais e marcos. Na verdade, esses elementos podem
ter aplicação mais geral, uma vez que parecem remeter em muitos tipos de imagens ambientais (...). Podem ser definidos da
seguinte maneira:

1. Vias – As vias são os canais de circulação ao longo dos quais o observador se locomove de modo habitual,
ocasional ou potencial. Podem ser ruas, alamedas, linhas de trânsito, canais, ferrovias. Para muitas pessoas, são
estes os elementos predominantes em sua imagem. Os habitantes de uma cidade observam-na à medida que se
locomovem por ela, e, ao longo dessas vias, os outros elementos ambientais se organizam e se relacionam.
2. Limites – Os limites são os elementos lineares não usados ou entendidos como vias pelo observador. São as
fronteiras entre duas fases, quebras de continuidade linear: praias, margens de rios, lagos, etc., cortes de ferrovias,
espaços em construção, muros, paredes. São referências laterais, mais que eixos coordenados. Esses limites podem
ser barreiras mais ou menos penetráveis que separem uma região de outra, mas também podem ser costuras, linhas
ao longo das quais duas regiões se relacionam e se encontram. Ainda que possam não ser tão dominantes quanto o
sistema viário, para muitos esse elementos limítrofes são importantes características organizacionais, sobretudo
devido ao seu papel de conferir unidade a áreas diferentes, como no contorno de uma cidade por água ou parede.
3. Bairros – Os bairros são as regiões médias ou grandes de uma cidade, concebidos como dotados de extensão
bidimensionam. O observador neles “penetra” mentalmente, e eles são reconhecíveis por possuírem características
comuns que os identificam. Sempre identificáveis a partir do lado interno, são também referência externa quando
visíveis de fora. Até certo ponto, muitos estruturam sua cidade dessa maneira, como diferenças individuais em suas
respostas a quais são elementos dominantes, as vias ou os bairros. Isso não parece depender apenas do indivíduo,
mas também da cidade.
4. Pontos nodais – Os pontos nodais são pontos, lugares estratégicos de uma cidade através dos quais o observador
pode entrar, são focos intensivos para os quais ou a partir dos quais ele se locomove. Podem ser basicamente
junções, locais de interrupção do transporte, um cruzamento ou uma convergência de vias, momentos de passagens
de uma estrutura a outra. Ou podem ser meras concentrações que adquirem importância por serem a condensação
de algum uso ou de alguma característica física, como um ponto de encontro numa esquina ou uma praça fechada.
Alguns desses pontos nodais de concentração são o foco e a síntese de um bairro sobre o qual sua influência se
irradia e do qual são um símbolo. Podem ser chamados núcleos. Muitos pontos nodais, sem dúvida, têm a natureza
tanto de conexões como de concentrações. O conceito de ponto nodal está ligado ao de via, uma vez que as
conexões são, tipicamente, convergências de caminhos, fatos ao longo de um trajeto. Da mesma forma, liga-se ao
conceito de bairro, seu centro polarizador. De qualquer maneira, alguns pontos nodais podem ser encontrados em
praticamente qualquer imagem, e em certos casos podem ser o traço dominante.
5. Marcos – Os marcos são outro tipo de referência, mas nesse caso, o observador não entra neles: são externos. Em
geral, são objetos físicos definidos de maneira muito simples: edifícios, sinal, loja ou montanha. Seu uso implica a
escolha de um elemento a partir de um conjunto de possibilidades. Alguns marcos são distantes, tipicamente vistos
de muitos ângulos e distâncias, acima do ponto mais alto de elementos menores e usados como referências radiais.
Podem estar dentro da cidade ou a uma distância tal que, para todos os fins práticos, simbolizam uma direção
constante. Como exemplos, podemos citar as torres isoladas ou cúpulas douradas, as grandes montanhas. Até
mesmo um ponto móvel como o Sol, cujo movimento é suficientemente lento e regular, pode ser usado como
marco. Outros marcos são basicamente locais, sendo visíveis apenas em lugares restritos e a partir de uma certa
proximidade. São eles os inúmeros anúncios e sinais, fachadas de lojas, árvores, maçanetas de portas e outros
detalhes urbanos que preenchem a imagem da maioria dos observadores. São geralmente usados como indicadores
de identidade, ou até de estrutura, e parecem tornar-se mais confiáveis à medida que um trajeto vai ficando cada
vez mais conhecido.

A imagem de uma dada realidade física pode às vezes mudar de tipo conforme as diferentes circunstâncias do modo de
ver. Assim, uma via expressa pode ser um canal de circulação para o motorista e um limite para um pedestre. Do mesmo
modo, uma área central pode ser um bairro, quando uma cidade é organizada em escala média, e um ponto nodal, quando se
leva em conta toda a área metropolitana. Mas as categorias parecem ter estabilidade para um determinado observador
quando ele opera num determinado nível.

Nenhum dos tipos de elementos acima especificados existe isoladamente em situação concreta. Os bairros são
estruturados como pontos nodais, definidos por limites, atravessados por vias e salpicados por marcos. A sobreposição e a
interpenetração dos elementos ocorre regularmente. Se esta análise começa pela diferenciação dos dados em categorias,
deve terminar por sua reintegração à imagem total. Nossos estudos nos fornecem muitas informações sobre o caráter visual
dos tipos de elementos (...).

Trecho extraído do livro “A Imagem da Cidade” de Kevin Lynch, páginas 52 a 54.