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BERNARDO ÉLIS

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(da Academia Brasileira de Letras)

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O TRONCO
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Romance
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8ª edição
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JOSÉ OLYMPIO EDITORA
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RIO DE JANEIRO/1988
Bernardo Élis, 1956
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Reservam-se os direitos desta edição à
LIVRARIA JOSÉ OLYMPIO EDITORA, S.A.
Rua Marquês de Olinda, 12
Rio de Janeiro — República Federativa do Brasil
Printed in Brazil / Impresso no Brasil
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ISBN 85-03-00252-3
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Capa
Montagem
MAURÍCIO DE OLIVEIRA
sobre desenho de
POTY
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Diagramação
ANTÔNIO HERRANZ
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CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ
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Élis, Bernardo, 1915E42t O Tronco: romance. — 8. ed. — Rio de Janeiro: José Olympio,
1988.
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Dados biobibliográficos do autor.
Bibliografia.
1. Romance brasileiro I. Título.
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CDD — 869.93
Rj-77-0419 CDU — 869.0(81)-31
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Ofereço este livro aos
HUMILDES VAQUEIROS,
JAGUNÇOS, SOLDADOS,
HOMENS, MULHERES
e
MENINOS SERTANEJOS
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mortos nas lutas dos coronéis
e que não tiveram sequer uma sepultura.
SUMÁRIO
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DADOS BIOGRÁFICOS DE BERNARDO ÉLIS vii
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ÍX
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BlBLIOGRAFIADEBERNARDOÉLIS

NOTADAEDITORA XÍ
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ROMANCE DE PROTESTO(Francisco de Assis Barbosa) xi
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EXPLICAÇÃO xviii
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O TRONCO
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I. O inventário 3
II. A comissão 59
III. . A prisão 111
IV. O assalto 209
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DADOS BIOGRÁFICOS
DE BERNARDO ELIS
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BERNARDO ÉLIS é o nome literário de Bernardo Élis Fleury de Campos Curado, nascido
em Corumbá de Goiás (GO), em 15 de novembro de 1915, filho do poeta Érico José
Curado e sua mulher Marieta Fleury Curado.
As primeiras letras fez em casa com os pais, o curso ginasial no liceu de Goiás, da
antiga capital do Estado, o curso jurídico em Goiânia, onde reside desde 1939. Iniciou-se
na carreira pública como Secretário da Prefeitura Municipal de Goiânia, quando por duas
vezes exerceu as funções de prefeito da Capital; ingressou depois no magistério como
professor da Escola Técnica Federal de Goiânia, lecionando ainda nos colégios Estadual
e Municipal e na rede de ensino gratuito, havendo antes desempenhado as funções de
técnico cooperativista do Departamento Estadual de Cooperativismo.
Foi co-fundador, vice-diretor e professor do Centro de Estudos Brasileiros, da
Universidade Federal de Goiás, daí passando a professor de Literatura da Universidade
Católica e em vários cursos preparatórios ao vestibular das universidades.
É fundador da União Brasileira de Escritores de Goiás, cuja presidência ocupou
diversas vezes; é membro da Academia Goiana de Letras, da Academia Brasiliense de
Letras, do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás e da União Nacional de Escritores de
Brasília, da qual foi presidente.
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Tem participado ativamente dos acontecimentos literários a partir de 1934, fundando e
dirigindo órgãos culturais aparecidos no Brasil Central, nos quais colabora. Participou dos
Congressos Brasileiros de Escritores realizados em São Paulo, Belo Horizonte, Porto
Alegre e Goiânia, do Encontro das Academias de Letras em Goiás (1972), do Congresso
de Jornalistas e Escritores. Promoveu o I Curso de Literatura em Goiás (1953) e realizou
palestras, conferências e cursos literários em oportunidades que ultrapassam uma
centena.
Como advogado, militou nos foros de Goiânia, Anápolis, Inhumas e outras cidades.
Nos Últimos anos desempenhou a função de assessor cultural junto aos Escritórios
de Representação do Estado de Goiás, no Rio de Janeiro e em Brasília, e reassumiu o
cargo de professor da Universidade Federal de Goiás, exercendo ainda a função de
diretor adjunto do Instituto Nacional do Livro (MEC), em Brasília. É conselheiro do
Conselho Federal de Cultura, do Minc e do Conselho Estadual de Cultura de Goiás.
Pertence à Academia Brasileira de Letras, onde ocupa a Cadeira nº. 1, para a qual
foi eleito em 23 de outubro de 1975, tendo sido ali recebido em 10 de novembro do
mesmo ano pelo acadêmico Aurélio Buarque de Holanda Ferreira. É o primeiro goiano a
ingressar na Casa de Machado de Assis.
Foi agraciado pelo Presidente Sarney com a insígnia e o diploma da Ordem do Rio
Branco, no grau de Grande Oficial.
É casado com a professora e pintora Mana Carmelita Fleury Curado.
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BIBLIOGRAFIA DE

BERNARDO ÉLIS

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ROMANCE
O tronco. São Paulo, Martins, 1956; 2. ed., refundida, Rio de Janeiro, José Olympio, 1967.
Prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, 1968; 3. ed., Rio de Janeiro, José Olympio
(Coleção Literatura Contemporânea), Civilização Brasileira/Três, 1974; 4. ed., São Paulo,
Círculo do Livro/Abril, 1974; 5. ed., Rio de Janeiro/ Brasília, José Olympio/INL, 1977; 6.
ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 1979. A terra e as carabinas. Em Obra Reunida de
Bernardo Élis. Rio de Janeiro, José Olympio, 1987. Coleção Alma de Goiás. Chegou o
governador. Rio de Janeiro, José Olympio, 1987. Brasileira do Livro, 1967; 2. ed., rev. e
aum. Rio de Janeiro/ Brasília, José Olympio/INL, 1976; 3. ed., Rio de Janeiro, José
Olympio, 1978; 4. ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 1979. Nota de Herman Lima.
Caminhos dos Gerais. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1975;
2. ed., aum., Rio de Janeiro/ Goiânia, Civilização Brasileira/Universidade Federal de
Goiás, 1982. Notas da Prof? Moema C. S. Olival. André Louco. Rio de Janeiro, José
Olympio, 1978. Apenas um violão. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1984.
Dez contos escolhidos. Brasília, Horizonte, 1985.
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POESIA
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Prímeira chuva. Goiânia, Escola Técnica Industrial 1955; 2. ed., Goiânia, Instituto Rio
Branco, 1971.
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CRÔNICA
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Jeca Jica — Jica Jeca. Goiânia, Cultura Goiana, 1986.
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CONTO

Ermos e Gerais. São Paulo, Bolsa de Publicações, Hugo de Carvalho Ramos, 1944; 2.
ed., Goiânia, OTO, 1955. Prêmio Prefeitura Municipal de Goiânia.
Caminhos e descaminhos. Goiânia, Brasil Central, 1965. Prêmio Afonso Arinos da
Academia Brasileira de Letras.Veranico de janeiro. Rio de Janeiro, José Olympio, 1966.
Prêmio José Lins do Rego da José Olympio, 1965. Prêmio Jabuti da Câmara
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ENSAIO
Marechal Xavier Curado, criador do Exército nacional. Goiânia, Gráfica Oriente, 1973.
Prêmio Sesquicentenário da Independência do Brasil, 1972. Vila-Boa de Goiás. Aspectos
turístico-históricos. Desenhos de tom Maia e legendas de Theresa R. C. Maia. São Paulo/
Rio, Nacional/Embratur, 1979. Goiás. Estudos Sociais (l? grau). Rio de Janeiro, Bloch,
1976. Coleção Nosso Brasil. Os enigmas de Bartolomeu Antônio Cordovil. Bibliografia
seguida de
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IX
antologia do primeiro poeta goiano do Brasil-Colônia. Goiânia, Oriente, 1980.
Vila-Boa de Goiás. Álbum fotográfico, texto de Bernardo Elis. Rio de Janeiro, Berlendis &
Vertechia Editores, 1978. Goiás em sol maior. Estudos de história, sociologia e literatura
sobre Goiás. Goiânia, Poligráfica, 1985.
O Centro-Oeste. Álbum de pintura com obras inéditas de A. Poteiro, Ornar Souto, A.
Espíndola e Siron Franco, com apresentação de Bernardo Elis, patrocinado pelo Banco
Francês e Brasileiro S.A.. Rio de Janeiro, Colorama, 1986.
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DISCURSO
Cadeira um. Discursos da Academia Brasileira de Letras: Bernardo Elis (posse) e Aurélio
Buarque de Holanda Ferreira (recepção). Rio de Janeiro, Cátedra, 1983. Duo em si
menor. Discursos na Academia Brasiliense de Letras, Fundação da Cadeira n. 3: Herberto
Sales (posse) e Bernardo Elis (recepção). Brasília, Horizonte, 1983.
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ANTOLOGIAS
Seleta de Bernardo Elis. Organização de Gilberto Mendonça Teles; estudos e notas do
Prof. Evanildo Bechara. Rio de Janeiro/Brasília, José Olympio/INL,
1974; 2. ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 1976. Presença literária de Bernardo Elis.
Antologia. Organização de Nelly Alves de Almeida. Goiânia, UFG, 1970.
A posse da terra: escritores brasileiros hoje. Perfis biobibliográficos e fragmentos
antológicos de autores da atualidade. Co-edição Imprensa Nacional/Casa da Moeda de
Portugal e Secretaria de Cultura de São Paulo, Brasil. Lisboa, Sociedade Industrial —
Gráficajelles da Silva, 1985. Bernardo Elis. Seleção de textos, notas, estudos biográfico,
histórico e crítico e exercícios por Benjamim Abdala Jr,. São Paulo, Abril Educação, 1983.
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TRADUÇÕES NO EXTERIOR
Antologia de contos brasileiros. Tradução para o alemão por Kurt Mayer Classon.
Alemanha Ocidental, 1967. Short Story International. Tradução para o inglês do conto
”Ontem, como hoje, como amanhã, como depois”, por Silas Curado. International Cultural
Exchange, New York, USA, 1979.
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CINEMA E TELEVISÃO
Ermos e Gerais é o título de um documentário cinematográfico em curta metragem sobre
a obra e a vida de Bernardo Elis feito pelo cineasta Carlos Del Pino (1977). Também com
esse título a vida e a obra de Bernardo Elis estão incluídas num curta-metragem
cinematográfico feito pelo MEC. Por ocasião do cinqüentenário de publicação de Ermos
e Gerais, a organização J. Câmara, por intermédio do Sr. Hamilton Carneiro e outros,
elaborou ótimo documentário para a televisão. A firma Filmes do Triângulo Ltda., ligada à
empresa Produções Cinematográficas L.C. Barreto Ltda. do Rio de Janeiro, produziu e
lançou no mercado brasileiro e mundial o filme índia, a filha do sol, baseado em dois
contos de Bernardo Elis.
X
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NOTA DA EDITORA
À 2ª EDIÇÃO
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Nosso querido amigo, o escritor Francisco de Assis Barbosa, certo dia, em visita a esta
Casa, viu sobre uma das mesas de trabalho os originais de O tronco. Virou-se
imediatamente e declarou: ”Faço questão de fazer a orelha deste livro. É um livro
importante, de primeira ordem.” Daí a semanas trazia-nos o trabalho. Excedia um tanto as
dimensões rotineiras de uma orelha — daí resolvermos aproveitar essas páginas — com
tanto gosto e entusiasmo escritas pelo autor de A vida de Lima Barreto — como nota de
apresentação nesta 2” edição refundida de O tronco. Vamos ler o que nos diz Francisco
de Assis Barbosa:
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ROMANCE DE PROTESTO
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FRANCISCO DE ASSIS BARBOSA
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DESDE o APARECIMENTO de Ermos e Gerais, em 1944, Bernardo Élis se tomou
vanguardeiro de um novo ciclo da ficção brasileira — o do sertanismo goiano-mineiro.
Cronologicamente, é ele o primeiro. Vieram depois Guimarães Rosa (Sagarana é de
1946), Mário Palmério (com Vila dos Confins, em 1956) e José J. Veiga (Os Cavalinhos
de Platiplanto, 1959). E a literatura do Oeste passou a competir em prestígio e significado
nacional com a literatura do Nordeste, que se havia transformado numa literatura líder, a
partir da fornada dos grandes romances de conteúdo social iniciada com A bagaceira, de
José Américo de Almeida. A literatura do Nordeste ficou ligada à Revolução de 1930. A
literatura do Oeste ressurge — já que não deve ser omitida a con-
!
XI
tribuição pioneira de Bernardo Guimarães, Afonso Arinos e Hugo de Carvalho Ramos —
na fase atual da nossa evolução histórica, a da fundação de Brasília.
Ermos e Gerais bem que pode ser considerado o marco oeste da nossa rosa-dos-
ventos literária, uma antecipação, tal como A bagaceira para o ciclo nordestino. Naquela
coletânea de contos de um rapaz de Goiás, completamente desconhecido, Monteiro
Lobato sentiu, como num espanto, o impacto da revelação de um escritor acima da bitola
comum. Um escritor, reconheceu ao mesmo tempo Mário de Andrade, capaz de transmitir
uma realidade mais ”real” que a real, o que é, afinal de contas, o segredo do ofício,
envolto no mistério da própria criação literária
Assim é de fato Bernardo Élis, sobretudo neste romance O tronco, por sinal
extraído de uma história real, bem entendido, de um fato histórico ou simplesmente
policial, acontecido em Goiás, nos idos de 1917 e 1918, o qual de tão real que é parece
até coisa inventada. Publicado pela primeira vez em 1956, O tronco passou contudo
despercebido do grande público e da crítica, se é que ambos existem, apesar do sucesso
alcançado por Ermos e Gerais, hoje em segunda edição. Talvez agora prestem mais
atenção em O tronco e por dois motivos. Primeiro, porque o nome do autor se federalizou,
depois de conquistar prêmios literários seguidos, um da Livraria José Olympio Editora —
o José Lins do Rego — em 1966, e outro da Academia Brasileira de Letras — o Afonso
Arinos — em 1967, com livros de contos de primeira qualidade: Veranico de janeiro e
Caminhos e descaminhos. Segundo, porque O tronco possui força bastante para atrair os
caçadores de assunto para o cinema novo brasileiro, que tantas obras importantes já
produziu em sua rápida eclosão, em termos artisticamente válidos, adquirindo por isso
mesmo em tão pouco tempo uma dimensão internacional.
O tronco daria um grande filme. E o roteirista não teria muito trabalho na adaptação
para a linguagem cinematográfica da história rude e máscula, especialmente nas cenas
do assalto à Vila do Duro, a luta encarniçada que então se travou entre contingentes da
polícia e a horda de jagunços a serviço do ”coronel” destituído de repente das graças do
governo estadual. Tudo parece escrito para o cinema, com impressionante precisão na
marcação das cenas, sublinhando o autor os momentos de suspense, como nos bons
filmes de John Ford, até o ponto culminante com o sacrifício das vítimas no tronco. O
tronco — descreve o romancista — ”era constituído de dois compridos esteios de madeira
!
xiv
forte. De espaço a espaço, possuíam esses esteios um corte em meia-lua. Justapostos,
os cortes formavam buracos, nos quais se metia as canelas do cristão, que ali ficava
jungido. De um lado, unindo os dois esteios, havia uma dobradiça de ferro, grosseira, feita
ali mesmo, e de outro, uma espécie de aldrava com cadeado’’.
Esse instrumento de tortura utilizado nos tempos da escravidão continuava a servir,
em 1918, nas cadeias do interior goiano, como arma dos sobas municipais para a punição
de adversários ou simples desafetos que ousassem contrariá-los em seus domínios. Não
havia nem juiz de direito, nem delegado, nem ninguém que pudesse torcer a sua vontade.
A justiça era (e ainda é) o ”coronel”. O tronco aparece no massacre de São José do Duro,
repetindo em ponto pequeno a série de horrores que se verificou na sedição de Boa Vista
dos Tocantins, no início da República, numa guerra civil de ”coronéis” desavindos, que se
prolongou por três anos, de 1892 e 1894, embora não registrada por nenhum compêndio
de história, por nenhum livro de história.

A literatura de ficção — assim chamada como por ironia — é que nos revela o
drama até então desconhecido do sertão ”belo e terrível”, com os seus vaqueiros,
jagunços, soldados, sertanejos humildes, mortos nas lutas dos ”coronéis”. A literatura do
Nordeste foi que alertou os homens de governo para o problema não só das secas, como
da espoliação e da miséria das populações marginalizadas de uma vasta região brasileira.
Agora chegou a vez do Oeste. A literatura enche o vazio da história. Pelo menos, os
escritores do tipo de Bernardo Élis mostram que são menos alienados — vá lá a palavra
da moda — do que os historiadores, a grande maioria dos historiadores omissos.
Refletindo a vida brasileira, a nossa literatura tem que ser também, forçosamente, uma
literatura de protesto.
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Rio de Janeiro, julho de 1967.
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XV
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VILA DO DURO
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(CLÓVJS DE MAGALHÃES)
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PLANTA DA VILA DO DURO
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1 — Rancho do Coronel Pedro Melo. 2 — Rancho do Coronel Pedro Melo. 3 —
Residência de Artur Melo (sempre fechada). 4 — Residência de Dr. Herculano Lima. 5 —
Residência de Benedita Fernandes de Melo, depois quartel de Vicente Lemes e os
paisanos.
6 — Residência de Joaquim Alves Leandro, quando vinha à vila. 7 — Residência de
Brasuca. 8 — Residência de Crispiniana. 9 — Residência de Coronel Pedro Melo. 10 —
Oficina de Farinha do Coronel Pedro Melo. 11 — Residência de Tozão. 12 — Paiol e
rancharia do Coronel Pedro Melo. 13 — Residência de Vicente Lemes, depois residência
do Juiz Carvalho e por fim quartel do Alferes Severo da Veiga. 14 — Igreja. 15 —
Residência da velha Josefina. 16 — Intendência Municipal. 17 — Residência do Pedreiro.
18 — Residência de gente pobre. 19 — Residência de gente pobre. 20 — Residência de
gente pobre. 21 — Residência de Chica Buena. 22 — Residência de Damião de Bastos,
depois quartel do Alferes Xavier. 23 — Residência de Albininho. 24 — Residência da
velha Chiquinha. 25 — Agência do Correio, Cartório e casa de audiências do Juiz. 26 —
Tapera. 27 — Residência de João Francisco. 28 — Residência de Marianinha. 29 —
Residência de Felipa. 30 — Residência de Argemiro Félix. 31 — Residência de Aleixo. 32
— Residência de Felisrnino. 33 — Residência de Alexandre de Melo, depois quartel do
Tenente Mendes de Assis. 34 — Residência de Agenor Cavalcante. 35 — Residência de
Moisés Melo. 36 — Sobrado do Coronel Pedro Melo, servindo de mercado e cadeia,
depois quartel do Alferes Enéias Peixoto, onde existia o velho tronco. 37 — Cemitério. 38
— Residência de Maria Coxa. 39 — Residência de Seu Antônio. 40 — Residência de
Maria Pequena.
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XVI
EXPLICAÇÃO
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Tirantes os pormenores, os fatos centrais desta narrativa aconteceram realmente em
Goiás.
Os personagens, entretanto, tendo tudo de comum com o tipo social que
representam, são fictícios. O autor não quis retratar ninguém, nem copiou de nenhum
modelo vivo ou já falecido.
Qualquer semelhança com pessoa viva ou morta é mera coincidência.
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B.E.
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XVII
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O
TRONCO
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O inventário
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UMA INDIGNAÇÃO, uma raiva cheia de desprezo crescia dentro do peito de Vicente
Lemes à proporção que ia lendo os autos. Um homem rico como Clemente Chapadense e
sua viúva apresentam no inventário tão-somente a casinha do povoado! Veja se tinha
cabimento! E as duzentas e tantas cabeças de gado, gente? E os do sítios no município
onde ficaram, onde ficaram? Ora bolas! Todo mundo sabia da existência desses trens que
estavam sendo ocultados.
Ainda se fossem bens de pequeno valor, vá lá, que inventáno nunca arrola tudo.
Tem muita coisa que fica por fora. Mas naquele caso, não. Eram dois sítios, duzentas e
tantas reses, cuja existència andava no conhecimento dos habitantes da região. A vila
inteira, embora ninguém nada dissesse claramente, estava de olhos abertos assuntando
se tais bens entrariam ou não entrariam no inventário.
Lugar pequeno, ah, lugar pequeno, em que cada um vive vigiando o outro!
Pela segunda vez Vicente Lemes lavrou o seu despacho, exigindo que o inventariante
completasse o rol de bens, sob pena de a Coletoria Estadual o fazer.
Aí, como quem tira um peso da consciência, levantou-se do tamborete e chegou à
janela que dava para o Largo, lançando uma olhadela para a casa onde funcionava o
Cartório. Calma, a Vila cons-
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.tituída pelo conjunto de casas do Largo. A manhã de maio, fria e neblinosa, estendia-se
por sobre o povoado de casinhas caiadas de branco, por trás das quais erguiam-se tufos
verdes de laranjeiras, abacateiros, jenipapeiros, bananeiras e outras plantações. Miúdo, o
povoado minguava mais ainda naquela quadra do ano, com os habitantes pelas fazendas
e as casas fechadas exalando tristeza e abandono.
Do conjunto, destacava-se na esquina a casa do Coronel Pedro Melo, com a
calçada alta, o aspecto imponente; de um lado, o casarão acachapado sob o amplo
telhado, o casarão da velha Benedita Fernandes de Melo, com o largo portão lateral. A
modo que solto no meio do Largo, o sobrado do Coronel Pedro Melo, misto de prisão e
depósito de farinha.
Sim. A casa do coronel, o sobrado do coronel, — pensou Vicente, que se lembrou
que também no inventário havia a vontade do coronel.
Na igrejazinha a casa de Vicente andorinhas voavam. Na grotinha que cortava o
Largo, alguns sapos coaxavam e almas-de-gato piavam, metendo seus bicos de grandes
guias por entre as folhas molhadas de orvalho. Será que mexiam no cemitério? Sempre
que mexiam no cemitério aqueles pássaros espantavam e saíam piando seus pios
entojados pelo Largo.
Será que o juiz chegou? — perguntou Vicente a si mesmo, logo porém se
convencendo do contrário. Naquele dia o juiz vinha do seu sítio, a duas léguas do
povoado, para dar audiência, mas ainda não chegara. Estava tardando um tiquinho,
decerto algum contratempo. Também Cláudio Ribeiro, escrivão do Cartório de Órfãos, por
onde corria o inventário de Clemente Chapadense, esperava impaciente o seu juiz. Dia de
audiência ele costumava aportar no Cartório às oito horas. Chegava, apeava, largava a
mula roendo milho no cocho do quintal e vinha para o despacho. De tarde, findo o
expediente, ia-se ele embora, para retomar na outra semana.
— O juiz hoje dormiu demais — disse Martim num sorriso.
— De vera — concordou Cláudio Ribeiro que lançou um olhar
pela janela aberta.
— Dormiu devagar — pilheriou Martim, enquanto separava as cartas, aprontando
as malas do Correio. Ele era o agente do Correio. A agência funcionava naquela casinha
que para essa finali-
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dade foi dividida ao meio: de cá, o Cartório, com sala para audiências; de lá o Correio.
Para que o povo não bulisse com os papeis o escrivão Cláudio botou um gradil de
madeira: para dentro do gradil somente ele, o juiz e os amigos passavam.
Vindo do interior da casa, a velha Januária espichou a cabeça pela porta e
interrogou de mansinho: — Uai, esse menino, a mó que esse juiz nem num vem em hoje?
— Cláudio contestou que viria e podia preparar o almoço. — Para o juiz não vir, só se
acontecesse alguma coisa séria, mas aí ele mandava avisar. Ah que o juiz era homem de
preceito, muito sistemático com seus prometidos.
Como Cláudio e Martim fossem solteiros, Januária cozinhava para eles, lavava e
passava a roupa e cuidava do asseio e arrumação da casa. Preferiam uma velha. Se
botassem dentro de casa uma mulher nova, que é que o povo do lugar não iria dizer!
— Pró juiz atrasar desse tanto — continuava Cláudio — foi porque a mula fugiu do
pasto.
De sua casa, Vicente chegou à janela porque, parece, ouviu um tropel de animal, e
animal ferrado. E não se enganou, que agora o juiz chegava, entava por trás da casa do
escrivão, como era seu hábito. Vicente só fez virar-se, apanhar o processo e sair ao
encontro do juiz. Precisava conversar com ele antes do almoço, antes que pegasse a
chegar gente para a audiência ou para conversar com a autoridade.
Os dois homens trocaram bom dia e Vicente falou da demora, até tinha pensado
que fosse alguma doença em casa...
— Diabo dessa mula. Agora, depois de velha, é que deu pra fugir do pasto e dá
pança para a gente achar.
— Bem que eu disse — gritou lá de dentro Cláudio, feliz pelo acerto do vaticínio.
Martim também se riu, enquanto amarrava as cartas: — Bem que Cláudio tinha dito.
Vicente foi logo abrindo o processo que trazia nas mãos e com um ar de mofa
mostrou ao juiz o que estava exigindo. O juiz leu e riu um riso malicioso. Os olhos de
Vicente também brilharam e, à guisa de fundamentação, esclareceu: — Está vendo? A
viúva não arrolou nem o gado nem os dois sítios!
— Absurdo — disse o juiz. — Absurdo e perigoso. Nós sabemos quem é Artur
Melo, que está por detrás dessa viúva. Ele pode estar querendo negar estes bens, mas
também pode estar arman-
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6do uma cilada. A gente aceita a descrição como está e aí ele denuncia para Goiás que o
coletor Vicente Lemes não zela os interesses da Fazenda, que está recebendo propinas
para sonegar bens de menores...
— Como fez no caso da boiada — interferiu Cláudio.
— De um jeito ou de outro, esse inventário vai dar banze — isse Vicente.—Se a
gente não aceitar o rol como está, Artur vai gritar que estamos perseguindo ele; se
a gente aceitar, ele denuncia que estamos com roubalheira.
Enquanto ouvia, o juiz se aproximava da mesa, onde pegando a caneta, escreveu
seu despacho. Determinava que se desse conhecimento à viúva da exigêcia do Sr.
Coletor. Por trás dos ombros do juiz, lendo o despacho à proporção que ia sendo lavrado,
Cláudio riu-se. Vai haver banze. Artur não vai aceitar essa exigência de jeito nenhum —
pensou Cláudio meio amolado, pois a ele é que cabia intimar Artur daquele despacho do
juiz.
Lá por dentro batiam pratos e talheres. Januária estava pondo a mesa e Vicente
foi-se retirando para sua casa, para almoçar.
— Almoça aqui, Seu Vicente — convidou Cláudio, mas Vicente agradeceu. O juiz
Ferreira também reiterou o convite, embora se desculpasse por não ser o dono da casa.
Vicente, porém, não aceitou. Ia comer em casa.

No PRATO esmaltado, primeiro Vicente botou o feijão, depois a farinha de mandioca,


misturou; a seguir botou arroz com carne seca, misturou novamente e levou uma garfada
à boca. Lina, sua esposa, que servia a mesa e estava de pé a seu lado, indagou pela
mulher de Ferreira.
— Deve de estar boa — respondeu Vicente mastigando —, não perguntei por ela.
— Lina quis fazer outras perguntas, mas pela maneira seca como o marido respondeu
àquela, percebeu que ele não queria conversa. Estava mergulhado nos seus problemas e
só queria saber deles. Por isso, a mulher afastou-se para a cozinha, deixando-o só. Iria
fazer seu prato e comer sossegadamente com a filha, que quando Vicente estava com a
vó atrás do toco ninguém não agüentava ele.
Mentalmente, Vicente examinava mais uma vez as conseqüências que poderiam
advir de sua exigência no inventário. Não esta-
!
7ria fazendo besteira? Será que não estava com implicância com Artur Melo? Bem, mas o
fato é que todo mundo estava falando que a viúva possuía as tais duzentas e tantas reses
e mais os dois sítios e no entanto, por que é que Artur Melo, seu advogado, não
apresentou esses bens? Não havia nenhum mal: como Coletor, sua obrigação era apontá-
los. Como muito bem dissera o juiz, era preciso denunciar o ocultamento das reses e dos
sítios. Quem sabe se o próprio Artur Melo não estava com segundas intenções, querendo
lesar os órfãos e a viúva? Contudo, o certo é que havia caroço naquele angu. A viúva era
casada com um capanga de Artur Melo e esse Artur e seu pai, o Coronel Pedro Melo, era
gente poderosa. O prestígio deles era incontestado desde Pirenópolis até Boa Vista.
Tinham tanto prestígio que logo depois da revolução estadual de 1909 o nome de Artur
Melo foi indicado para Presidente do Estado de Goiás; seus correligionários Eugênio
Jardim e Totó Caiado, entretanto, discordaram da indicação e acabaram rompendo com
ele. No pleito que seguiu à revolução, Artur Melo conseguiu eleger-se Deputado Federal
tanto por Goiás como pela Bahia, mas quem disse de ele tomar posse! No Rio, os
Caiados conseguiam depurá-lo, como então se dizia.
Foi aí que Artur Melo instalou-se na Capital do Estado com seu jornal de oposição,
disposto a atacar o caiadismo na sua própria toca. Em represália, os Caiados, senhores
do Governo, davam apoio político aos opositores dos Melos, no Norte do Estado, criando
as bases para uma firme e poderosa oposição a Artur Melo e seu pai. Sentindo fugir o
prestígio, Artur Melo abandona a Capital, e regressa para sua região, a fim de recuperar a
antiga influência, mas lá chegando depara um quadro desanimador: os cargos públicos
estão em mãos de adversários, o bafejo político faz do humilde bajulador de ontem um
rancoroso inimigo. Adeus os bons tempos em que a vontade de Artur ou seu pai era a
suprema lei!
Na própria vila do Duro, residência dos Melos, aí mesmo o Governo contava com
dois homens de valor: um era o Juiz Municipal, Valério Ferreira; o outro, o Coletor
Estadual, Vicente Lemes, pessoa de confiança de Eugênio Jardim. O regresso de Vicente
era má coisa para Artur que ainda se lembrava de como nasceu a rixa com o primo. Artur
era então Juiz Municipal e um dia chamou
!
8

!
o primo: — Olhe, Vicente, você é gente de casa, pobre, vou te nomear escrivão do
Judicial e Notas.
Antes, porém, nunca o houvesse feito. Era um ingrato o Vicente. O fato foi que
Norato, vaqueiro de Tozão, abandonou a fazenda do patrão e montou sua própria
fazenda, com perto de duzentas reses. ”Norato roubou de Tozão” — gritavam os Melos,
para quem somente pelo roubo poderia um pobre vaqueiro erguer-se à categoria de
fazendeiro. E apesar das ameaças dos Melos, Norato veio a residir perto do Duro, onde
se julgava seguro por trás das suas vacas e bois. Um dia Norato aparece morto e por uma
só boca o povo dizia que o matador fora Calixto Chapadense. Artur Melo era juiz e em vez
de procurar punir o criminoso, o que fez foi mandar arrecadar as quase duzentas reses do
morto como bens vacantes; mas não as levou à praça, como mandava a lei. Procurou
Vicente e lhe propôs darem um sumiço no processo. Argumentava ele: — Você sabe,
Vicente, que esse gado é mesmo de Tozão. Então, vamos devolver ele a seu dono. Não
acha?
— Isso não, meu primo. Sem provar que o gado não é de Norato, eu não concordo.
De jeito nenhum.
— Mas ninguém fica sabendo, homem de Deus. Aqui tem lá alguém que entende
dessas coisas! — Vicente empacava. Parecia-lhe um absurdo o hábito que tinham os
Melos de roubar o povo valendo-se dos cargos de juiz, coletor e outros. Inventário ali era
meio para legalmente o pessoal do Foro apropriar-se de bens alheios. Como dinheiro era
coisa escassíssima, para pagamento das custas e demais despesas, que deveriam ser
custeadas em dinheiro corrente, iam-se todos os bens do inventariado. As pessoas que
possuíam dinheiro adquiriam esses cabedais na bacia das almas. Se o ”de cujus” era
homem, a viúva e os órfãos eram esbulhados impiedosamente.
Aí o Juiz Artur Melo veio com outra proposta: — Eu compro a boiada independente
de praça. Meu intuito é poupar serviço inútil para o pessoal do Foro.
— Bem. Se era assim, quanto daria Artur pelas quase duzentas reses? — O preço
era tão vil que nem se podia aceitar. Uma vergonha a proposta! e Vicente ainda dessa vez
não pôde concordar com o primo Artur Melo. Achava que havia leis, códigos, posturas
municipais. O caminho era fazer como preceituava a legislação.
!
9 Artur ficou danado: — Vem cá, você pensa que te nomeei por teus belos olhos?
Achei que ia ter um amigo e quando acaba o que tenho é uma cascavel!
Passaram a se ver de cara torcida. Por fim, um dia, quando Vicente acordou,
quéde o gado de Norato? Ninguém sabia dizer. Chamou Tozão que era o depositário e lhe
disse que a responsabilidade era dele e que o iria processar.
— Ora, Vicente, deixe disso — lhe aconselhou o primo Artur Melo que por estas
alturas era o todo-poderoso rei do Norte. — Não faça nada. Não vê que Tozão é cunhado
da gente...
Vicente sentiu-se desmoralizado. O povo pegou a comentar e ele pensou consigo
que era inútil querer acabar com as roubalheiras do Foro. O melhor era abandonar o
cargo, sair daquele lugar infeliz. Vicente não gostava de quizílias e se arrependia de ter
aceito o diabo do cargo. Que bom tempo aquele em que ignorava tais safadezas e podia
viver em paz com o primo Artur Melo, com o parente Tozão, fazendo os bailes e as festas
na casa da sogra Benedita e em outras casas. Como era bom. Agora, o que se ouvia era
o fuxico, era o diz-que-diz, era a arrogância de Artur e seu pai. ”Quer saber de uma
coisa?” Certa manhã Vicente ajuntou seus cacarecos, botou tudo no lombo dos burros,
tangeu adiante suas reses e fincou o pé no mundo. Foi esbarrar em Conceição do Norte.
Era dali que Eugênio Jardim, ex-aliado de Artur, agora trazia Vicente, para com ele
fazer frente aos Melos, no Duro. Dia a dia os correligionários dos Melos abandonavam
suas fileiras, passando de armas e bagagens para as hostes de Vicente Lemes e Valério
Ferreira, onde vinham buscar as delícias do situacionismo, isto é, vinham buscar dispensa
de impostos, vinham obter impunidade para os crimes e saques.
Embalado por tais pensamentos, Vicente nem percebeu que já havia engolido a
comida e que estava bebendo água no pote. Daí foi para a sala, de onde deu nova
olhadela para o Largo. Tudo ia calmo, o solão esparramado nos telhados. Avaliava bem a
espécie de inimigo que tinha pela frente. Sabia que se aceitasse o rol de bens como Artur
apresentava, o primo o denunciaria para a Capital como desidioso e desonesto; se
exigisse os bens restantes Artur o denunciaria como perseguidor. O interesse era
desmoralizar Vicente e forçá-lo a deixar novamente a vila, para colocar em seu lugar
gente de confiança.
!
10
De onde estava, Vicente enxergava um trecho do Largo, próximo da calçada alta
da casa do Coronel Pedro Melo. Até havia pouco, ali existia uma alavanca de ferro
enfincada. Certa feita, vindo de Conceição, Vicente viu a alavanca e estranhou.
— Ah! você não sabe! — E com horror e medo do povo cochichava. — Foi o
Vigilato, esse menino. Sim, esse mesmo, sobrinho do velho Pedro. Não é que o coronel
implicou com o coitadinho? Então para enjerizá-lo e obrigá-lo a deixar o lugar, o coronel
ordenava aos cabras que fossem fazer suas precisões no terreiro do Vigilato.
Uma manhã a mulher de Vigilato estava na porta da cozinha, quando senão
quando olha ali uns homens obrando na sua frente, no maior dos desrespeitos para uma
senhora direita. Chegando em casa, Vigilato achou a mulher num pranto de choro, que
aquilo era uma coisa por demais, que ela não ficava mais naquele lugar desgraçado.
O rapaz não era nenhum patife não. Saiu e soube que os cabras eram camaradas
de João Rocha e já ia tomar satisfação desse tal, quando o tio Pedro Melo atravessou no
seu caminho:
— Vigia aqui, esse menino, quem deu ordens aos cabras foi o degas aqui — e
batia no peito entufado.
— Ô velho cachorro! Agora eu estou lá, manda de novo. Vamos ver se você tem
topete para isso, trem à-toa. O velho não gostou da má-criação do sobrinho e avançou
para ele que, mais esperto, passou-lhe uma rasteira, botou no chão, montou e mão na
vasta barbaça branca do coronel: deu-lhe muitos safanões.
A partir daí, o coronel só falava do sobrinho para desfeitear e xingar. Deu de
emagrecer, uma falta de apetite, boca cheia d’água. Uma úlcera lhe roía a pacuera, como
afirmava o Dr. Rodrigues da Silva, de Barreiras. O velho, entretanto, não confiava no
diagnóstico do clínico. Aquilo não era doença nenhuma nada. Era raiva, era paixão. O dia
que vingasse do sobrinho, nesse dia a doença ia embora.
Uma noite, Vigilato vinha pelo Largo cambaleando de bêbado. O velho estava na
porta da casa, na calçadona alta, sentado na cadeira. Pelo Largo deserto rolava a voz do
bêbado, cantarolando uma modinha, lutando contra a treva e a solidão. Vigilato era
agente do Correio, vez por outra bebia sua cachaça e se enchia de lirismo, o qual ele
derramava em cantorias pelos cantos
!
11
do Largo, até cansar e cair no sono. Todos já conheciam a mania do moço e achavam
graça. Ele não fazia mal a ninguém, só cantava e ria e contava casos. Até que, nessas
noites, modificava a pasmaceira estagnada do lugarejo de si tão tristonho.
A voz pastosa do bêbado rolava nas trevas e de sua porta o velho tio saiu, chamou
lá dentro do quintal Tito e Resto-de-Onça. mandou em casa do genro e sobrinho Tozão
buscar o capanga Aleixo, tudo em silêncio, na ponta dos pés, cochicho nos ouvidos. Muito
de sutil os três homens esperaram o bêbado; e quando ele encostou na calçadona alta do
tio para soltar a sua cantiga, foi um vup e ram; meteram-lhe o porrete no piolho.
Alguma velha que estava rezando no escuro de uma casa, bem que notou que a
voz de Vigilato esbarrou num baque, a mo que engasgada, deixando o breu da noite
ainda mais escuro. Na ponta dos pés e com o dedo na boca, o Coronel Pedro Melo
desceu e sua calçadona, mandou buscar uma laterna furta-fogo; com ela alumiou a cara
do bêbado tombado no chão. Clareou e meteu fogo, arrebentando-lhe os miolos.
— Carregue o cachorro — ciciou o velho olhando em tomo para ver se ninguém
não chegava. Um cabra pegou por baixo dos ombros, outro pegou as pernas e lá se
foram, com Aleixo na frente alumiando e o velho atrás de Mauser engatilhada; no Largo
negro, uma mancha vermelha que se movia confusa e incerta.
Chegando à casa do sobrinho, ordenou que batessem. Aleixo bateu, a mulher abriu
a porta e antes que os olhos dela pudessem habituar com à claridade da laterna, os
capangas balangavam o cadáver para lá, para cá e — zás — atiravam ele aos pés da
mulher e dos filhos, dentro da sala, no chão batido e úmido.
— Um capado procê limpar — roncou a voz do tio Pedro Melo, enquanto num
sopro se apagava a lanterna e tudo caía na mais negra escuridão e no chumbo do
silêncio. Nem cães latiam naquela hora medonha.
Na casa tão pequena e tão frágil que um cavalo derrubaria caso se cocasse
nalgum esteio, aí ficou o espanto, o terror de chorar e esse choro despertar a ira do
poderoso senhor. Nem luz acenderam, que em casa de bêbado costuma faltar tudo.
Gente houve que ouviu o tiro, mas teve medo de sair de casa e enfrentar o negrume da
noite. Quando muito, alguém acendeu uma candeia de azeite
!
12
e chegou à porta da rua, mas o vento zunindo apagou a débil chama.
Pelo meio-dia é que o Juiz Valério Ferreira foi ver o corpo de Vigilato. O juiz soube
do acontecido lá no seu sítio, embora ignorasse quem fora o portador da notícia. Foi uma
alma caridosa que soprou no ouvido de uma criada; soprou, mas quando a criada quis ver
quem era, só viu um vulto envolto numa capa de chuva. Assim, ninguém contaria ao
Coronel Pedro Melo quem foi o portador da notícia para o juiz.
Valério foi à procura do delegado de polícia para fazer o auto de corpo de delito,
mas, receoso, o homem já estava longe. Era preciso, pelo menos, enterrar o defunto.
Quem, entretanto, se arriscaria a isso, sabendo que o coronel estava de espreita?
Na esquina da casa de Pedro Melo, perto da calçadona soberba, no lugar onde
Vigilato caíra morto, Tito, Resto-de-Onça e Aleixo fincavam uma alavanca de ferro de
mais de metro de comprimento. Aquilo era para publicar o feito. Os jagunços metiam a
marreta no ferro que tinia tal qual um sino de defunto.
— Pra exemplar cabra maludo — dizia o tio do alto de sua calçada alta, na frente
da casona mais principal da vila.
— É pra ninguém desrespeitar barba de velho!
A alavanca retinia e Valério Ferreira ali mesmo junto ao corpo de Vigilato escrevia
uma representação ao Governo Estadual, a quem comunicava o fato e pedia Melos para
punir o criminoso.
Da casinha, tão pequena, na qual para se entrar carecia de abaixar a cabeça, na
qual mal cabiam dez pessoas e pessoas sem esporas, daí saía o defunto para o
cemitério, envolvido numa colcha, que nem o fazedor de caixão teve coragem de
trabalhar para o inimigo do coronel. com muito custo o Juiz Valério conseguiu dois
homens pobres para conduzir o defunto até a cova. Os quais iriam se Valério fosse
também com eles, e publicasse que lhes deu intimação de autoridade.
!
NA SALA das audiências, Valério Ferreira também pensava. Aquele inventário ia dar
barulho. Os Melos andavam desesperados com o abalo em seu prestígio e não
venderiam mais barato o seu defunto. Haveria outra solução qualquer? Valério não
enxergava.
!
13
Os Melos lhe pareciam invencíveis, completamente invencíveis] Quando, apesar de tudo,
admitisse a derrota deles, achava queoi substituiriam outros homens do mesmo estofo.
Valério era tuberculoso e talvez daí decorresse o seu pessiraisl mo. Alto, magro,
embodocado, uma fraqueza o dominava constantemente. Qualquer esforço físico ou
mental logo o esgotaw| deixando o homem azedo e irritado. Contudo, tão logo recuperava
o ânimo, voltava a retomar a luta. Reconhecia ser impossível amarrar a égua com os
Melos e não entregava a palha comi| rapadura.
Num passo macio, sorrindo sempre discretamente, o escrivão Cláudio trouxe os
papéis para o despacho. Ferreira leu-os atenta| mente e deu o despacho em alguns;
noutros, mandou que se completassem tais formalidades. Cláudio recebeu os papéis com
o mesmo riso nos lábios, mas por dentro remoía-se de raiva: homem ranzinza, meu Deus
do céu! Não confia em ninguém, tudo tem q» ler, reler e mandar corrigir. Mas riu,
agradeceu, disse uma palavra de amizade.
De sua mesa, o juiz ouvia a mula roendo o cocho e alguns sabiás piando no verde
das laranjeiras dos quintais. Novamente lhe veio a lembrança das exigências do Coletor
Vicente e um riso escasso arregaçou seus beiços. Era sempre um gostinho pisar o
inimigo, dar-lhe uma estocada. Quando não também eles sofriam! irritavam-se, ficavam
desesperados, tinham que providenciar alguma astúcia.
— Artuzinho vai ficar danado — disse a Cláudio, que tambéml riu. Até Martim, no
cômodo do Correio, deu seu palpite: — Isso vai feder a chifre queimado, gente!
Valério não gostou da pilhéria de Martim. Martim não tinha direito de desgostar os
Melos, que nenhum mal lhe fizeram. Parecia ao Juiz que Martim se opunha aos Melos por
mero dever funcional. Fora nomeado agente do Correio em substituição a Vigilato, a
pedido de Artur Melo; depois que o Governo Estadual se pôs contra os Melos, Martim
também bandeou. Explicava que era por amizade a Cláudio e ao juiz, por discordar dos
atos dos seus protetores de ontem. Mas Valério embirrava com aquilo. Não dizia, que um
aliado a mais ninguém despreza, ainda mais sendo como era, o controlador da
correspondência. Mas que Martim era] desprezível isso era. ”Artuzinho, Artuzinho” —
Fazia muito que
!
14

!
!
Valério não gozava um gostinho como aquele de dar um tapa nos Melos. Com seu feito
de não pactuar com a violência, com seu escrúpulo no fiel cumprimento das leis, vinha
sempre perdendo para os adversários.
Fora, tudo calmo, sem vivalma pelo Largo. Nos assa-peixes da grotinha, as almas-
de-gato voltaram a piar. Será que mexiam no cemitério? Os olhos do juiz pousavam no
ângulo da calçadona da casa do Coronel Pedro Melo. Ali em antes, havia a alavanca de
ferro fincada pelo poderoso chefe. Vigilato com sua cachaçada, com suas valentias de
nada, Vigilato cantando suas cantigas desafinadas e sem prosseguimento. Talvez se não
tivesse feito a tal representação ao governo de Goiás, talvez tivesse evitado a jeriza dos
Melos. Teria nada! A morte de Vigilato só agravou uma rixa antiga.
Impedido de instaurar um inquérito, mas revoltado com a morte do inocente
bêbado, o Juiz Valério enviou para Goiása representação, pedindo providências. Esse
pedido significou afronta séria para os Melos que passaram a benzer bicheira com o
nome de Ferreira. O juiz riu seu riso fino. Gostava de atucanar o inimigo. Os Melos
gritaram, berraram, mas daí uns dias a notícia alarmava a vila: o Governo Estadual
enviava uma Comissão para apurar o crime.
O Juiz Valério alegrava-se com a aproximação da comissão. Acreditava em justiça,
em lei, achava que o governo fosse dotado de uma clarividência que o comum dos
homens não possuía, de uma reta intenção de punir o mal e premiar o bem. Daquele
recanto tão afastado, Governo era assim algo de sobre-humano e inatacável. Antes
porém que a Comissão chegasse ao Duro, aportaram ali notícias do que era ela. Era
como o vento que precede a chuva braba. Quem vinha chefiando a comissão era um juiz
togado, com assento em Porto Nacional, formado pela Faculdade do Recife, com
militança no Foro de Salvador e Belém do Pará, homem de estudo, homem de preparo,
homem sabido e corrido.
Comandando a força policial vinha um tal Tenente Napoleão; vivia constantemente
embriagado e um dia o encontraram caído na estrada, a boca entupida de excremento
humano. Por certo, vingança de algum subalterno. Mas tais novas não arrefeciam o ânimo
dos Melos que aprontavam uma festança de arromba para receber a Comissão, fazendo
crer assim que não temiam qualquer devassa em suas vidas.
!
15
Com a Comissão no povoado, os dias passavam-se em danças e banquetes.
Tenente Napoleão velho nem se erguia da rede no pileque, de cambulha com os
soldados. Nos potes do quartel, em vez d’água diz que só existia restilo e restilo forte. Dr.
Hermínio Lobato, com sua imensa careca, era o chefe da Comissão e tudo ignorava. Os
Melos o instalaram num sítio fora do povoado, sob a desculpa de o eximir de solicitações
interesseiras de uma ou de outra parte. Diariamente, de lá vinha o Juiz Hermínio cercado
de soldados embriagados realizar a audiência e voltava de tarde para seu tugúrio.
Era homem de grande bondade, alheio a tudo e a todos, Nas Comarca, à falta de
serviços forenses, fundou um Colégio f meninos pobres, onde era professor, cozinheiro,
médico e diretor, ignorando as rusgas, os ódios, as maquinações que lavravam entre os
jurisdicionados. Conhecedores de suas virtudes, em Porto Nacional todos confiavam nele,
que não fazia inventário, nem organizava processos escritos para solucionar litígios. Tudo
ele resolvia amigavelmente, como um novo Salomão. Júri resolveu abolí-los: não havia
dinheiro para sustentar os presos e os jurados confiavam em que Doutor Hermínio
julgava melhor do que eles mesmos.
Logo no banquete de recepção que o Coronel Pedro Melo lhe ofereceu, Valério
Ferreira o identificou. No discurso de saudação, Artur disse que o juiz se considerasse
perfeitamente garantido, pois os Melos dispunham de cem homens armados e
municiados para sustentar qualquer ato que emanasse da Comissão. Diante de tal
afirmativa, o Dr. Hermínio ficou inquieto: com ele tinham vindo 30 praças, essas sim para
garantir seus atos. Logo, os homens de Artur Melo eram uma ameaça à Justiça. O
Meritíssimo Juiz suava por baixo do terno de linho branco, sem atinar com uma resposta
adequada, ele que não gostava de luta, cuja existência e dedicada às coisas pacíficas e
sossegadas da vida; a vasta cara reluzia de suor que ele debalde enxugava no lenço de
cambraia fina.
Por fim, chegou a hora do agradecimento. Dr. Hermínio tinha a careca rebrilhante,
a cara cansada, o colarinho era uma sopa por entre as dobras da papada suarenta; os
olhos empapuçados rolavam para um e outro canto. Como um elefante, moveu o
corpanzil, ergueu-se, mal equilibrou-se, arquejante no esforço mental, soltou um ofego tão
forte que o sopro apagou dois lampiões na sua
!
16
proximidade. Na semi-escuridão, com o pessoal cochichando e trocando idéias em como
reacender os lampiões, gaguejou algumas palavras num tom mofino e bambo, dando por
encerrada a festa.
No outro dia, principiou a correr o inquérito. Mas quem o dirigia, na verdade, era o
Dr. Leite Ribeiro, advogado dos Melos, que o Dr. Hermínio tinha até vergonha de
confessar que já esquecera a maioria das praxes forenses. Escolhidas a dedo e
industriadas com esmero, as testemunhas só falavam para dizer que o Coronel Pedro
Melo era um pobre velho doente, a quem o sobrinho havia espancado cruelmente alguns
meses antes e a quem tentara assassinar na noite que morreu. O cinismo da mentira era
tamanho que o povo pegou a comentar e a debicar, enviando cartas anônimas ao juiz e
membros da Comissão. Aí, numa audiência, Dr. Hermínio resolveu endurecer a espinha e
tão logo se apresentou a. primeira testemunha, tomou do código e leu o artigo que punia
o falso testemunho, explicando a significação daquelas palavras.
Artur achou aquilo um desaforo. Era uma indireta para ele e seu pai. O Dr. Leite
Ribeiro tratasse de aparar a asa daquele juizinho que não agüentava nem uma gata pelo
rabo!
A testemunha seguinte era Resto-de-Onça, capanga de Pedro Melo, um dos que
participaram diretamente da morte de Vigilato e que deveria estar apontado como réu. Ao
assentar-se no tamborete, em frente do juiz, alguma coisa tombou ruidosamente no chão.
Dr. Hermínio vagarosamente moveu o vasto corpanzil, tirou os óculos que só permitiam
ver próximo, e arregalou os olhos. No chão estava a imensa garrucha de Resto-de-Onça
que, sem pressa, repuxando a cara com suas caretas habituais de tarado, pegou a arma,
soprou os ouvidos e meteu no largo correão que servia de cinta.
Dr. Hermínio compreendeu a impossibilidade de apurar ali qualquer coisa. Os
Melos eram os donos de tudo. O caminho que lhe ditava a consciência seria alegar isso e
renunciar à comissão. Mas como fazer tal coisa, se não conhecia ou não lembrava dos
caminhos adequados? Depois, tinha já muitos anos de serviço público, estava esperando
aposentar-se em breve, essa atitude não iria talvez atrapalhar sua aposentadoria? Eram
trinta e tantos anos de serviço duro, de exílio no sertão. O bondoso Juiz Hermínio
consertou a garganta, limpou o suor da careca e nunca mais fez a menor pergunta. As
testemunhas depunham o que bem entendiam,
!
17
seguindo a orientação do advogado Leite Ribeiro, que se tomou o dono do processo.
Nesse entretanto, a cachaça correndo na soldadesca. Valério Frerreira e outros
amigos remeteram um protesto ao Dr. Hermínio, mas nisso saiu a sentença da
impronúncia do Coronel Pedro Melo, o foguetório enfumaçou o povoado, as carabinas
roncaram nos quartéis e os signatários do protesto tiveram que fugir e se esconder, ante o
risco de serem baleados pelos soldados.
Tais fatos serviram para ensinar a Valério Ferreira o que era a Justiça e a Lei. Por
ela, Vigilato é que era criminoso: Norato é que passava por ladrão. Ferreira tratou de unir-
se aos coronéis opositores dos Melos, contratou seu cabra de confiança, dando-lhe um
rifle papo-amarelo, botou na cintura um punhal e uma garrucha! E já não foi sem tempo.
!
SOL DESCAMBANDO, o Juiz Valério encerrou os trabalhos, selou a mula, abotoou as
esporas, montou e partiu. De passagem, abanou a mão para Vicente, que estava
assentado na sala.
A mula espantou um bando de rolinhas caldo-de-feijão que foi pousar num ruflar de
asas na grotinha. Por trás da serra do Duro, o sol se afogava numa lagoa de sangue e
fogo. A tarde esfriava e Ferreira riu seu riso escasso, tossiu. A luta aproximava-se.
Na sala, Vicente sentiu uma coisa esquisita: receio? Ansiedade? ímpeto mal
sofreado? Vicente tinha consciência de que era preciso levantar-se contra o tio e o primo,
mas no fundo alguma coisa o tolhia: um respeito vindo do tempo de criança, o temor pelol
homem que sempre mandou no lugar. Vicente pensava. Foi depois! do inquérito sobre a
morte de Vigilato, ele chegou para o Duro com a carta de Eugênio Jardim na algibeira.
Mal desapeou, o Coronel Pedro Melo o foi visitar. Entrou, cumprimentou, assentou-
se no tamborete e ferrou no prosão, campeando sempre um jeitinho mode saber o motivo
da volta de Vicente. O velho sabia que oxsobrinho deixara o Duro anteriormente porque
se indispusera com Artur, e que retomava agora com incumbência política. Mas queria
informação mais precisa, mais por menorizada. Com Vicente ali, a cantiga era outra. Ele
era casado com uma sobrinha do velho; era, por seu turno, sobrinho da ve-
!
18
lha Aninha, mulher de Pedro Melo; por cima de tudo, Vicente e Artur eram casados com
duas irmãs. Aqueles laços de sangue detinham a mão dos Melos e deles sabiam utilizar
velhacamente os políticos da longínqua Capital.
— Sangue não briga com sangue — diziam os Caiados. O Coronel Pedro Melo
também sabia levar em conta o parentesco, e reconhecia que o sobrinho Vicente, como
os demais, tinha um respeito plantado fundo, um temor biológico para com o chefão da
família. O velho percebia que Vicente algumas vezes até lhe tomava a bênção.
Do tamborete onde estava, o velho sondava Vicente, jogava seu verde, queria
saber se o sobrinho viera com ânimo de ficar de vez ou só veio a passeio.
— E tinha trazido o gado?
O moço negava estribo, procurava desconversar:
— O senhor está forte, meu tio. Da derradeira vez que eu estive aqui, o senhor
dava um ar que tava perrengado, abatido. Era uma úlcera, parece?
Ali estava um assunto que bulia com o homem. Pedro Melo gostava de parecer
forte. À observação do sobrinho, deu um pulo do tamborete e, no meio da sala, continuou
saltando ora num pé, ora noutro, mostrando que exercício físico não o cansava, apesar da
idade. Pulava para lá e para cá, agachava-se, erguia-se, chacoalhando os badulaques
das algibeiras, agitando a barbaça branca:
— Estou forte, menino.
— Mesmo, meu tio, — admirava-se Vicente. — Que foi que o senhor fez? Algum
remédio do Dr. Rodrigues da Silva, alguma reza braba?
— Remédio? Que mané remédio! Foi a morte do sem-vergonha do Vigilato. Desde
que matei aquele tranca, olha, a doença exalou. — Na salinha, entre cangalhas, bruacas
e canastras, o velho continuava pulando feito um trem doido, agitando a barbaça branca,
sacolejando os troços que trazia nos bolsos e na cintura: o artifício, o canivete de
corrente, o punhal aparelhado de prata e não sei o quê mais.
Vicente tinha necessidade de não pisar em falso. Qualquer ato seu menos refletido
podia trazer sérias conseqüências, como foi o caso da boiada. Um boiadeiro tinha mil e
quinhen-
!
19

!
!
!
tos bois para tanger para a Bahia. Até então, os boiadeirosdaü hia passavam pelas
barreira sem nada pagar de impostos a Goiás, pois os Melos eram os chefes e a troco do
imposto obtinham o u político e material desses boiadeiros. Agora, porém, o Governo
estava exigente. Boiadeiro era a base do poder dos Melos, a quem forneciam eleitores e
jagunços. Boiada não saía sem antes cortar o talão. Aí Artur Melo intercedeu:
— Olha, meu primo, você está certíssimo. Mas cobre impostos só sobre quinhentas
reses. — Nessas horas, Artur se lembrava que era primo de Vicente.
— Não pode, Artur. Você conhece a lei, você como deputado ajudou a fazer ela. O
número de reses é conhecido de todos... Amanhã irão denunciar para a Capital...
— Nada, meu primo, faça vistas grossas. Esse povo não está habituado a pagar
nada e por isso você tem que primeiro educai cobre menos agora, mais da outra vez, até
que eles não estranhe: É assim mesmo, homem!
Vicente acedeu. Fazia a concessão para que Artur não dissej se que Vicente
repelia acomodações. Para que Artur não ficass] mal servido, ia cobrar imposto sobre a
metade da boiada.
— Muito obrigado, Vicente. Gostei de ver seu espírito de conciliação — dizia Artur
apertando a mão do coletor, a quem m mais chamava de primo. — É disso que
precisamos: compreensão mútua, cooperação. Sem isto esse fim de mundo aqui não me
lhora, não vai pra frente.
Artur se foi e ficou de cá Vicente matutando. Está aí. O diabo não é tão feio como
se pinta. Quem sabe meu primo Artur Melo não está mesmo disposto a viver cordialmente
com a gente? Artur ia pelo Larguinho e Vicente sentia ternura por ele. O homem tinha
seus defeitos, mas tinha também suas qualidades. Podiam dizer dele o diabo, mas era
inteligente, corajoso. Olhe que saiu daquele meio atrasado, chegou a deputado e estava
na bica para Presidente, quando passou a ser perseguido. Botou jornal na Capital do
Estado, topeando com homens formados, enfrentando Totó Caiado, Eugênio Jardim...
Dois meses depois Vicente recebia um ofício brabo da Secretaria da Fazenda de
Goiás. O Secretário exigia maior severidac na repressão ao contrabando de gado, pois
recebera denúncia de
!
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que Vicente deixara de cobrar imposto sobre metade da boiada exportada para Barreiras
por fulano de tal, no dia tal. Junto do ofício, um bilhete confidencial: o autor da denúncia
tinha sido o Deputado Artur Melo.
Alguns dias depois, nem por coincidência, apareceu novamente
Artur:
— Meu primo, como vai? Quero lhe apresentar meu amigo João Rocha, boiadeiro
da Bahia, freguês nosso aqui do Duro desde há muitos anos.
— Muito prazer — respondeu Vicente embezerrado. Aquele
”primo” era mau sinal.
— Pois é, o nosso amigo aí tem umas resinhas para passar a barreira e vem
entender-se com o primo... Quem sabe é possível fazer como daquela outra vez, você
sabe, já tem o precedente.!.
— Quantas cabeças? — perguntou Vicente atalhando a poetagem.
— Quinhentos boiequinhos magros, Seu Coletor.
Vicente sabia de fonte segura que a boiada era de mais de mil cabeças; assim,
enquanto ajeitava os talões, foi avisando que João Rocha desculpasse, mas tinha
informações seguras que a boiada era de mais de mil e duzentos bois.
O boiadeiro fechou a cara, cochichando com Artur. Vicente prosseguiu: — Por mim,
eu cortava o talão para quinhentos bois, mas não posso porque há espiões por aqui. Se
eu fizer isso, logo denunciarão para Goiás que estou recebendo propinas. Aqui tem gente
interessada em me tirar do lugar.
Novamente os dois homens confabularam e o boiadeiro atolou o chapéu na
cabeça: — Pois eu não pago é nada, Seu Coletor. Eu me chamo João Rocha, assisto na
fazenda Pedreira, distrito de Santa Rita do Rio Preto. Faça comigo o que entender! —
passou a perna na mula ali na porta, tiniu as esporas, deu dois tiros no batente da
Coletoria e sumiu no mundo.
Vicente lavrou o auto de contrabando, testemunhou-o, enviou para Goiás. Levaria
dois meses para chegar lá, dois para ser informado, mais dois para retomar ao Duro. Aí
Vicente ia requerer força para garantir a execução. Os soldados viriam de Goiás a pé,
gastando cerca de três meses na marcha.
”Uma besteira o diabo daquele auto” — pensava Vicente.
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ATÉ QUE ENFIM! — disse num desafogo o escrivão Cláudio, esfregando as mãos e
mostrando os dentes num riso largo. Esti satisfeito de ter dado desempenho à tarefa de
intimar a viúva de Clemente Chapadense da exigência do coletor. Era como arrancar um
dente dolorido: — Uf! Agora, eles que são brancos que se entendam — completou com
um gesto de quem afasta de si a guma coisa repelente.
— Que se desentendam, isso sim — pilheriou o agente do Correio. — Tozão já
anda por aí batendo caixa, espalhando a notícia de casa em casa.
Assim praticavam Cláudio e Martim, na salinha do Correio, enquanto faziam o quilo
do jantar: — E vamos ter barulho grosso.
Fora, a tarde dissolvia-se em beleza, com pássaros-pretos e sanhaços trinando
nas laranjeiras e abacateiros. Na sombra, uma rola gemia tristemente, num tom
merencório de amor abandonado!
— A gente podia mudar de casa — observou Martim. O inesperado e estapafúrdio
da afirmativa, provocou o riso de Cláudio, que exclamou: — Ora, homem, que tem a casa
com tudo isso?
— Em São Marcelo meteram fogo no Cartório e mataram a tamília inteirinha do
escrivão, que estava dentro. Foi o velho, a mulher e parece que cinco filhos. Uma
desgraça!
Cláudio ria: — Aqui, lugar seguro é o cemitério e assim mesmo, olha lá!
Pelas árvores, os derradeiros sanhaços davam seus pulinhosl ágeis, gorjeando
aquele gorjeio de uma beleza simples. Na grotinha do Largo, a saparia iniciava a
orquestra. O cururu velho roncava no papo que dava gosto, secundado do sapo-cachorro.
Martim se ergueu e saiu. Ia ver um conhecido e entreter as horas jogando um sete-e-
meio!
— Vamos, Cláudio. — Mas Cláudio rejeitou. Consigo, pensou que o melhor seria
não sair naquelas noites. Perigoso uma tocaia! como aconteceu ao Vigilato: — Não. vou
trabalhar, que tenho uma serviceira excomungada em atraso.
Januária remexia no quintal, cuidando de seus pés de planta! molhando um
craveiro e um pé de alfavaca, queimando algum graveto. Cláudio foi ao pote, bebeu uma
cumbuca d’água e voltou ao tamborete. Diacho. A comida da velha Januária estava
salgada! A velha estava pegando a caducar. E o inventário do Clemente?! Ia dar águas
pelas barbas. Esse pessoal de Chapadense era nume-
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roso, valente e perigoso como o diabo. Faça idéia, quem haverá de dizer que um pobre
desejo de Clemente redundasse em tanto barulho?
Clemente Chapadense tinha um cunhado que tinha uma mulherzinha que tinha
olhos verdes, pernas grossas e umas belas ancas de viola. A diabinha da concunhada ia
para lá rebolando as cadeiras, no seu jeitinho de pomba-rola, e o sangue de Clemente
fervia nas veias. Moravam todos em Missões, perto do Duro. Ora, não vê que o homem é
um homem; o gato é um bicho; o menino, um carrapicho e a mulher um precipício? Vai
daqui, vai dacolá, Clemente pegou a fazer galanteies à concunhada pelas beiras de cerca
e de ribeirão. Ela não gostou, contou ao marido, que tomou satisfação de Clemente. Aí,
quem não gostou foi Clemente, que de homem não se tira satisfação, e sacou a garrucha
380 fogo-central, mas os parentes entraram no meio e deitaram água à fervura. Saindo
daí, Clemente ajustou um jagunço; Tico, que assim era chamado o marido dabelezinha,
ajustou também o seu, e começaram os tiroteios.
Cláudio se lembrava como se fosse hoje. Clemente Chapadense entrou no Cartório
à procura do Juiz Valério. Cláudio ouviu tudo. Clemente se queixava do Coronel Artur: —
O Dr. Artur Melo diz que entrou na pendenga mode fazer harmonia, mas a harmonia dele
é esquisita. Pra mim, ele fala que não devo de andar armado e devo ter prudência. Para
meu cunhado ele fala que não deve de andar desarmado e que eu sou perigoso.
Na frente do juiz, Clemente Chapadense pedia garantia de vida. — Minha vida não
anda segura, Seu Juiz. Estou muito cismado com esse Artur. Até nem num sei cuma é
que meu irmão Calixto tem confiança nesse trem à-toa. — O sol estava por aqui assim,
obra de uma braça por cima do morro. Clemente Chapadense montou sua mula e saiu
para o sítio. A mula batia o gorgulho e Ferreira trocava idéias com Cláudio:
— O diabo que entendesse essa gente. Ali estava Clemente no ponto de ser
comido pelo cunhado, Clemente que era carne com unha com Artur Melo!
— Sabe do que andam falando? — interrogou maliciosamente o escrivão, no rosto
mulato o mais neutro dos sorrisos, numa discrição de velho alcoviteiro.
Ferreira balançou a cabeça negativamente.
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— Artur anda favorecendo Tico, para que ele mate /Clemente. Os Chapadenses
são muito fortes, Seu Juiz; para adonde eles penderem, esse lado terá a vitória, na certa.
Podem pender pro lado de Vicente Lemes... — completava Cláudio cheio de reticências.
— Sim senhor!
Na tarde, a mula de Clemente comia estrada, que era ana leal, e o pobre com
medo de Artur. Na tarde, a mula de Clemente trotava, e no peito o coração de Clemente
também trotava, relembrando as ancas roliças da concunhada, os olhos verdolengos
assustadiços de veadinha. Por onde andaria Calixto Chapadera irmão de Clemente,
Calixto que tinha morto Norato e era tão valente quanto João Dias de Boa Vista? Por
adonde andaria ele que não vinha acudir o irmão das manhas de Artur Melo? O diabo era
que Calixto tinha um lote de mortes na cacunda, tinha processo fechado no Cartório,
podia ser pego por Artur e metido no tronco, caso se indispusesse com os Melos. A mula
comedeira comia estrada, e a cabeça de Clemente pensava na concunhada. E Cláudio
teve muita pena de Clemente. De que valia toda aquela valentia de Calixto, meu bão
Jesus da Lapa!
No outro dia, nove horas, um grupo de 15 cavaleiros entrou pela vila, quebrando a
pasmaceira com o matraquear das ferraduras e retinir dos ferros. À testa estava Artur
Melo. Viera de sua fazei da Grota, onde morava. Chegou à porta do Cartório, sofreou a
mulona e gritou para o escrivão Cláudio num tom de alta solenil dade: — Onde estão as
autoridades desta terra, Seu Escrivão?
— Por que pergunta, Seu Coronel? — respondeu solícito o funcionário.
— Porque mataram um homem, o meu amigo Clemente Chapadense, e nenhuma
autoridade compareceu ao local para o auto de corpo de delito. Onde estão as
autoridades? — Artur bradava] em altas vozes, ele próprio alçado nos estribos, a carabina
erguida na mão direita, os arreios ringindo, as rodelas do freio tinindo.
Cláudio chegou até a porta da casa e levou susto ao ver tanta gente. Por isso,
adoçou mais ainda o sorriso e o semblante: — Seul Coronel, vamos apear, vamos entrar.
Aqui dentro a gente conversa melhor. — E, entre mesuras, explicava que no povoado era
surpresa
!
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essa morte. Ali ninguém estava sabendo do desastre, mas que as autoridades iam agir,
por sem dúvida. Artur, dramático, agitando no ar a carabina, clamava do alto da mulona:
— Você há de provar um dia que entrei na Vila do Duro com meus rapazes em
busca de justiça e não encontrei justiça. Você, Seu Escrivão, você há de provar!
— Sim senhor, sim senhor — balbuciava Cláudio entre gestos de subserviência,
impressionado com a grandiloqüência do tom do Coronel Artur, emocionado com a
repetição da invocação de sua pessoa: — Mas eu não tenho nada com isso não, Seu
Coronel. Eu nem não sei de nada e a gente é tão-somente um pau-mandado, o senhor
sabe.
Os ferros tiniram, os arreios ringiram, os casos tropearam e atrás da mulona de
Artur saíram os demais cavaleiros. Parece que disse alguém que iam para a casa de
Clemente Chapadense? Quando, mais tarde, sabedor do ocorrido, para lá acorreu o Juiz
Valério, a casa estava cheia: mais de trinta homens armados para, segundo dizia Artur,
prestar as derradeiras homenagens ao defunto. Ali estavam os grandes amigos de Artur:
Tozão, Damião de Bastos, Joaquim Alves Leandro, Albininho. Num catre, estendia-se o
corpo de Clemente; noutro encourado de couro de boi, amontoavam-se balas. A cama do
morto estava cercada de rifles, a coronha no chão, o fuste escorado na cama. Perto, um
bobo de piraí na mão enxotava os cachorros e porcos que se metiam debaixo do móvel
para beber o sangue que gotejava dos ferimentos do cadáver.
— Como foi que pegaram o coitadinho?
— Ah, só mesmo de tocaia, que esses Chapadenses são gente dura. Não viam
Calixto? Igual a João Dias de Boa Vista.
— Mas como foi o sobrosso, de vera?
— De vera, home não sabia, que ninguém não viu, mas parece que no atravessar
o córrego Corrente, Clemente recebeu dois balázios. A mula espantou, arrancou, deu com
Clemente fora da sela e saiu arrastando ele.
— Quer dizer que o pé engarranchou no estribo, não é?
— Isso mesmo. Engarranchou e ele foi de arrastão até o lugar Rua Nova; aí a m
lher mandou pegar o defunto.
— Perito? Tá precisando de perito para o auto de corpo de delito — anunciava
Cláudio. Ninguém porém queria aceitar a incum-
!
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bência. Aquilo era perigoso, podia depois trazer complicação para quem fizesse
declarações.
— Perito. Quem quer servir de perito?
Artur tomou a palavra. Era preciso que os peritos examinassem os ferimentos e
mandassem o escrivão escrever o que era verdade:
— Você aí, Tozão. Também você, Albininho. Compadre!) mião, você também é
homem desenvolvido para essas coisas!
A rede com o defunto saía para o terreiro, seguida da jagunçada de rifle alceado no
ombro. Aí, parou o préstito para Artur Melo deitar falação:
— Esta terra não possui justiça, nem segurança. A justiça tem que ser essa! —
Artur batia na carabina de papo amarelo. As palavras enfáticas e grandiloqüentes
retumbaram pelo chapadão ermo e desolado. Dentro do casebre minúsculo, a viúva e os
filhos choravam, enquanto o grupo se afastava carregando a rede e retinindo as esporas
e as fivelas das armas.

Na salinha de chão batido, Cláudio Ribeiro tinha medo. Cartório era sempre
perigoso, mas com os poderes do Divino Pai Eterno nada havia de suceder de grave. Era
briga de brancos. A noite caiu por completo sobre o povoado e sobre os campos que a
seca principiava a esturricar. A janela aberta recortava um retângulo de céu, onde a Via-
Láctea era uma poeira de ouro. Voavam morcegos cambaleantes e estridentes; corujinhas
gaguejava Na grota, o sapo-cachorro latia esganiçadamente, seguido do cururu. Tão
calmo tudo! Nem se podia acreditar que sob esta pai germinasse tanto ódio, tanta
ambição, tanta soberba.
Parece que andavam no silêncio. Podia ser Martim, de volta mas também podia
ser...? Num átimo Cláudio se lembrou de Calixto. Que coisa? Por que Calixto não brigou
com Artur por causa da morte do irmão? Cláudio se lembrou que também tinha um irmão
que era gente dos Melos. Seu irmão Abadia fora visto na casa de Clemente, de rifle
alceado, alparcata no pé e chapéu de couro tombado sobre os olhos.
Um zunzum de vozes veio da treva do Largo. Cláudio se apro-
!
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ximou da janela. No Largo movia-se uma mancha luminosa muito vermelha: na frente, um
homem de lanterna furta-fogo; atrás uma mulher com criança. Devia ser Vicente Lemes
que ia para a casa da sogra Benedita, como fazia todas as noites. Ia com mulher e filha,
para comentar os fatos do dia.
!
TOZÃO parecia uma coruja de mato virgem, com o carão comprido, bochechas caídas,
duas grandes orelhas flácidas, os braços muito compridos dependurados dos ombros
arcados. Até para chupar os dentes cariados emitia um chiado igual ao das corujas: —
siu, siu. Naquela noite, ali estava conversando com o Coronel Pedro Melo.
Pedro Melo Albuquerque possuía uma boa casa, construída por ele próprio,
atijolada, cercada de altos muros crivados de cacos de vidro no topo. Melhor do que a do
Coronel Pedro Melo, só mesmo a casa de sua cunhada Benedita Fernandes de Melo.
Aquela segurança toda dos muros da casa do Coronel Pedro tinha por escopo prender a
criadagem, descendente de antigos escravos, mantida ali no regime de escravidão.
Viviam as criadas maltratadas, mal vestidas, metidas de seco e verde no trabalho duro de
rachar lenha, cozinhar, fazer queijo, requeijão, manteiga e sabão, refinar açúcar, fazer
farinha, pilar arroz, desleitar as curraleiras, cuidar da casa, fiar e tecer algodão, lavar e
passar roupa, fazer de tudo, no final das contas.
Novinhas ainda, as ”crias da casa”, como eram chamadas as filhas desses criados,
prostituíam-se com os patrões, com os parentes dos patrões, com os camaradas. O
produto da prostituição, entretanto, raramente vingava. A serviceira era tanta que não
dava tempo às mães de cuidar dos filhos.
Esse pessoal não recebia qualquer pagamento: trabalhava a troco da comida, da
cama e da roupa. Para comandar esse batalhão de escravos, estava ali a velha Aninha, a
mulher do Coronel Pedro Melo Albuquerque, atroando a casa e o povoado com seu
vozeirão. No povoado, a derradeira coisa que se ouvia de noite eram os berros de Aninha
e eram também eles os primeiros sons que se ouviam mal o dia clareava.
Aninha era gordíssima. Vivia deitada na larga cama do quar-
!
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to de dormir, de onde comandava a casa, as fazendas e o povoado. Mandona e exigente,
a velha Aninha era uma rainha, sen tirar nem pôr.
Naquela noite, Tozão corujava na sua voz de corujão, narrando as notícias do dia:
— Num é de ver que Vicente Lemes estava exigindo que a viuva de Clemente
Chapadense completasse o rol de bens dados a inventário... Siu, siu. — Chupou os
dentes podres. Ouvindo aquilo o velho coronel deu o desespero:
— Aquele Vicente Lemes e aquele Valério Ferreira eram uns cascas de ferida
braba! O que eles querem é viver na preguiça e atrapalhar os homens trabalhadores
como nós. Ô gente à-toa!
Dando novos chupões nos dentes, Tozão voltou a crocitar:
— Pois é, oficial de justiça já foi intimar a viúva...
— Isso não fica deste tamanho — esbravejou Pedro, agitando os badulaques e
arrepiando a barbaça branca. Amanhã cedínho vou participar meu filho Artur. Vou lá na
Grota inteirar ele de tudo.
— Tozão, ô Tozão! — do fundo da varanda, que era coma chamava a sala de
jantar, onde conversavam os dois homens, veio a voz tomitruante de Aninha. Irmão de
Aninha e casado com na filha dela, a Anastácia, Tozão se ergueu do tamborete, chupou|
dentes e saiu com os braços descomunais bamboleantes. Lá contra à irmã e sogra as
novidades.
— Esses preguiçosos, esses fuxiqueiros! — continuava o velho esbravejando na
vasta varanda. — É um povo que não faz nada, que não tem coragem de trabalhar para
enriquecer e só quer estar atucanando os que trabalham.
A luz do lampião de querosene alumiava o chão de tijolos, as portas, as janelas
abertas para o quintal, os escassos móveis: a grande mesa de jacarandá, os grandes
bancos postos ao longo das paredes, tambores de couro, algumas cadeiras de fechar.
Tudo obra das mãos do velho Pedro Melo.
Pedro Melo era um crila quando veio do Piauí com seu pai, que se dizia
descendente dos Albuquerques de Penambuco. Estabeleceram-se numa fazenda de
Santa Maria de Taguatinga, mas comerciavam em Duro, aldeia dos índios Acroá e
Chacriabá, a que chamavam de ”comércio”. Era homem inteligente, sagaz, audacioso, de
ambição sem limites, duro feito uma aroeira, dotado de
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normas de conduta que o tomavam muito superior aos naturais da região. Escolheu para
esposa Ana Divina da Rocha, da mais rica, mais numerosa e mais importante família do
Norte de Goiás, o que lhe trouxe prestígio social. Dispondo de algumas letras, passou a
exercer funções de Juiz, Coletor de Rendas, Delegado, canais que o elevaram ao posto
natural de Chefe Político: era o poder incontestável.
Pedro Melo amava o trabalho, a pontualidade, a energia e a força. Amava a vida
rude e simples. Para o trabalho diário na lida de gado, usava a veste de vaqueiro
piauiense: calça de couro, gibão e chapéu de couro. A calça terminava em botina. Nas
grossas e pesadas mãos, a luva de couro.
Suas vestes eram branquinhas, do melhor couro de catingueiro curtido na
decoada, com casca de angico. Para outros momentos era a roupa de algodão tecida em
casa, pelas negras, no tear que ele mesmo fizera. Detestava o luxo. Ria-se das roupas de
casimira e linho, chamando de boneco quem as vestia. Que é que o coronel não sabia
fazer e fazer melhor do que todo mundo? bom pedreiro, ali estava a casa que ergueu, os
tijolos do piso tão bem ajustados que mal se discerniam as junturas. Era mestre em
trabalho de couro: uma calça ou chapéu ou gibão de couro feitos por ele eram conhecidos
pela elegância do talhe e finura da trança. Como carapina de mão cheia ali estavam a
mesa, os bancos, os tamboretes, as cadeiras de fechar feitas por suas mãos.
Numa extensão de muitas léguas, quem não falava com admiração do parafuso de
madeira que fizera para uma prensa de farinha! Obra-prima de paciência e engenho. E o
bicame da fazenda Grota? De coqueiro macaúba fez ele um extenso bicame, colhendo
água de um brejo. Como o lugar era montanhoso e a água devesse ir no nível, nos vales
as bicas eram assentadas em cima de postes de aroeira, cujo topo fora adrede
preparado.
Em certos lugares essas bicas passavam a uma altura de mais de oito metros do
chão, por sobre precipícios e perambeiras. Trabalho duro! Requeria coragem. Foi o velho
sozinho, com a ajuda apenas de Tito, que tudo fizera. Coisa dura era ficar lá naquelas
grimpas, andando sobre as vigas que ligavam um poste ao outro e sustentando nos
braços a pesada bica de macaúba que deveria descansar no cabeçote do poste. O velho
enchia-se de orgulho:
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— Coragem quem tinha era só eu e Tito.
As bicas não eram pregadas nos postes, pois macaúbaiiu prego, racha-se. As
bicas eram soltas:
— A gente tinha que andar equilibrando. Se triscasse na bica, ela caía em riba da
gente.
Uma ocasião, teria Vicente uns dezoito anos, estava passeando perto do bicame
na companhia de Lina, sua noiva, e do tio Pedro Melo. Chegados a esse lugar em que o
bicame passava lá nas grimpas, o velho pegou a exaltar seus feitos. Para não ficar por
debaixo, Vicente disse que o trabalho era importante, mas não era essa coisa do outro
mundo assim como pintava o tio: — ele estava exagerando.
— Homem, não foi você que fez... — retrucou o velho num muxoxo. Ele não
gostava de se sentir diminuído. E logo aquele menino fazendo pouco de sua coragem, de
sua capacidade de traballho!
— Ainda hoje não tem macho para andar lá por cima, naquela viga posta por baixo
da bica... — falou ele para o vento, os olhos fitos no alto: — Nem para andar lá em cima,
veja só! Que colocar a bica foi muito mais perigoso...
Vicente olhou para onde se dirigiam os olhos do velho. Lá no alto, o bicame se
recortava contra o céu azul de janeiro. De fato a altura era grande, muito grande mesmo,
Vicente jamais atingirã a altura tão elevada em sua vida.
— Pra subir ali, só o preto Tito que é cabra desacismado,- continuava a voz do
velho insistente, tenaz, desafiadora. Apontava para cima, fixando a bica desenhada contra
o céu muito azul, iluminado por um sol claríssimo de janeiro.
— Veja lá — dizia ele. — A gente tem que andar na viga, com a bica na altura do
peito, mas a gente não pode nem pender pra trás, nem pender pra frente. A bica é solta
no poste. Se a gente de| sequilibra, cai mesmo. Na bica ninguém num pode pegar.
No céu, o sol tremia. Cá embaixo, riscavam-se a sombra da viga e sombra da bica.
Como dois traços negros, paralelos, as sombras galopavam pelo valo, passando por cima
das folhas viçosas do milharal que ali crescia. O milharal embandeirado tremia ao vento,
tatalando suas belas folhas verdes, que reverberavam ao sol. Um bafo quente subia da
terra úmida e do milharal verde. Ao la-
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30
do, os olhos da sobrinha tinham um lampejo indecifrável. Seria terror? Seria interrogação?
Seria ironia?
— Menino, botar a bica lá em riba foi muito dificultoso — voltava a insistir o coronel
de maneira a irritar. — Imagina só: eu ia na frente, equilibrando na viga, carregando a bica
na altura dos peitos. Devagar, devagar! Atrás o Tito, negro bão de confiança. Bastava um
isso e a gente esborrachava cá embaixo.
Vicente compreendia o ardido velho. Toda aquela descrição patética tinha como
objetivo encher o sobrinho de terror. Vicente já tinha certeza que o tio o desafiaria para
andar lá em cima do bicame. Era por isso que os olhos de sua namorada brilhavam de um
brilho tão estranho: ela alcançou o intuito do tio antes de Vicente.
— Você tem coragem de andar lá em cima? — Embora esperasse, essa pergunta
do velho provocou um estremeção no jovem. O coração perdeu o compasso. Num
momento ele temeu que o sangue lhe fugisse das faces e denunciasse seu receio.
Forçou o sorriso, aceitou o desafio, e para ocultar sua provável emoção, saiu
correndo por entre o milharal:
— Vamos, meu tio, vamos lá para cima. Mas olha lá que o senhor não é nenhum
mocinho. O senhor fez esse bicame faz muito tempo, meu tio! — Vicente dizia aquilo da
boca para fora, para não dar o braço a torcer, pois o velho Melo, como um demônio,
conhecedor de todos os pormenores da região, numa agilidade de bicho, galgava
facilmente o aclive, tomava a dianteira de Vicente e já se equilibrava sobre a tal viga, num
ponto onde ela era menos alta. Como lhe permitiam as forças, Vicente também fez a
mesma coisa. Entretanto, do alto da viga, ele pode perceber que o tio não exagerara.
Pedro Melo, prático em transitar por ali, não encontrava dificuldade. Ia avançando,
dirigindo-se para o ponto onde o bicame atingia sua maior altitude, justamente por sobre a
roça de milho.
Com grande custo Vicente conseguia equilibrar-se. A viga, por baixo, estava no
mesmo plano vertical da bica: dessa forma era preciso que a pessoa se mantivesse na
ponta dos pés e projetasse a barriga para a frente, fazendo recuar o peito, contra o qual
roçava a bica, ao mesmo tempo que esticava a cabeça por sobre a bica. Nessa posição,
todo contorcido, ia-se afastando uma perna
!
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para a direita e depois a outra no mesmo sentido, para caminh ao longo da viga. Uf! .
Até que Vicente se apossasse da técnica, já o velho Coronel Pedro Melo ia longe.
Vicente apressava-se para alcançá-lo, mas o esforço era em vão. Estavam então no
ponto de maior altura. Vendo que o rapaz não desistia, quis desesperá-lo:
— Espia lá embaixo. Vigia como é bonito! — Vicente olhou, mas nada viu de
bonito. Muito embaixo, no vale, o milharal on deava açoitado do vento. Um precipício,
uma vertigem, sensação nunca antes experimentada. Do vale subia um bafo quente,
úmido, feito uma boca de febrento. Tremia o sol, tremia o folhame o chão faltava. Entre o
verdor do milharal talvez um vulto acenando. Seria a namorada? Nem podia responder. O
suor corria empapando as costas, sentia-se desamparado e perdido, o milharal rodava,
ondeava, tudo fugia ao seu apoio. O coração batia com força tamanha que lhe parecia
estar sendo ouvido pelo velho: o baticum retumbava nas carótidas, sapateava nos
ouvidos, latejavá nos olhos. Não podia agüentar mais. Foi levando as mãos para agarrar a
bica.
— Não pega, não pega! — Era a voz do velho reboando pelo vale.
O grito, como que retemperou Vicente, deu-lhe serenidade. Parado no meio da
viga estava o velho; e o rapaz lhe disse que seguisse. Queria sair saquele suplício, atingir,
alcançar o outro lado, pisar a terra firme:
— Vamos, meu tio. Pra frente!
— Não! Péra aí. Agora é voltar, — respondeu friamente Coronel Pedro Melo.
— Voltar?
E em seguida o velho passou a explicar: — Fique fixe aí. Eu vou passar por trás de
você, para voltar. Não há perigo; não toco nem num cabelinho seu. — Vicente percebeu a
extensão do perigo. Para passar por trás, o velho tinha imensa probabilidade de
desequilibrar-se e rolar no abismo. Se se desequilibrasse, tentaria apoiar-se em Vicente,
que procuraria apoio na viga, e aí tudo ia para o fundo do vale, por riba das pontas de
pedras, pontas de toco das árvores que tinham sido derrubadas para feitio da roça. —
Não é preciso, meu tio. Agora eu vou na frente e o senhor
!
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vem atrás. — Melo porém não deu ouvidos, já começou a passar por trás de Vicente a
sua perna, que tateou, tateou e afirmou-se adiante, depois passou um braço, tocou com a
mão muito de leve a bica e aí mudou a outra perna. Sem dizer palavra, prosseguiu
andando na viga, até chegar ao ponto onde havia iniciado a proeza. Num pulo alcançava
o chão e gritava para a sobrinha: — Pode casar, menina. Seu noivo não é patife não.
!
AH, A CASA! Eis um dos padrões de glória da viúva Benedita Fernandes de Melo.
Nenhuma sequer havia do mesmo tamanho no povoado. Nem a do cunhado Pedro Melo.
Quando o finado marido Antônio Melo Albuquerque adquiriu a residência, tinha três
lances. À proporção, porém, que os filhos foram se casando, Antônio Melo foi
acrescentando novos lances e reunindo filhos e genros debaixo do mesmo teto, debaixo
do seu teto.
No corpo da casa havia uma varanda de quase duas dezenas de metros de
comprimento, para onde davam portas e janelas dos cômodos internos. Vastas janelas
corrediças abriam-se da varanda para um pátio lajeado, onde cresciam roseiras, gerânios,
amores-perfeitos, verbenas, monsenhores, resedáse jasmineiros. Aí estava o segundo
orgulho de Dona Benedita: suas flores.
Para além, ficavam o quintal com a horta, os currais e os pastos.
Ao tempo das moças solteiras e do velho vivo, nesse varandão sempre havia
bailes e brincadeiras, que deram mais fama à grandeza da casa e à beleza do jardim.
Casa alegre era aquela com a moçada tocando violão, bandolim, cantando, recitando,
atraindo os melhores cortes de noivo de toda a região. com as filhas de Antônio Melo
casaram-se Arthur Melo, deputado estadual, Vicente Lemes, coletor estadual, um famoso
poeta de Goiás, então juiz de Direito da comarca; Moisés Melo, comerciante no Duro. E
até hoje, embora o velho estivesse enterrado, embora rapazes e moças houvessem
casado, a casa de Dona Benedita era um formigueiro.
Naquela noite, por exemplo, ali na varanda estava um povão danado. No canto, em
frente à porta da capela, aí estava a velha Benedita assentada na rede, os pés metidos
nos chinelos, aos ombros um xale preto. Em derredor, pelos tamboretes e frasqueiras,
!
33
espalhavam-se Vicente Lemes, Argemiro Félix, Moisés Melo e as
esposas.
O prosão animado versava sobre o inventário de Clemente Chápadense. Nisso,
porém, a conversa pegou a mancar, a baixar de tom. De sua rede Dona Benedita falava
sua fala mansa e macia, mas cheia de ódio. Ela não entendia desse negócio de
inventário, mas entendia do coração dos homens. Dona Benedita conhecia o genro
Vicente Lemes e conhecia o outro genro Artur Melo. Se Vicente estava exigindo alguma
coisa, o direito estava com Vicente, que já lhe havia contado, por diversas vezes, as
implicâncias de Artur.
— Vicente, meu filho, não baixa a crista. Derrota o malvado,
só, — disse a velhinha, a cujo coração subiu o ódio ao genro Artur, Odiava-o como odiava
o pai dele, o velho Pedro Melo, irmão de seu defunto marido: — Piauienses de uma figa.
É preciso dar uma lição nesses ladrões!
— Não, Dona Benedita, não diz assim — entrou conciliador o genro Moisés. —
Afinal de contas, são nossos parentes.
— Ladrões, ladrões — repetia a velha. — Então o refrigério não
foi furtado?
Todos conheciam de sobra a história do refrigério, mas ninguém ousou impedir que
a velha a repetisse, ouvindo tintim por tintim no mais respeitoso silêncio.
No caminho de Barreiras, perto do povoado do Duro, no alto da Serra, havia um
terreno de excelentes pastagens durante a seca. Cheio de taquaral, furnas frescas e
cambaúbas. Para aí subia o gado no ardor da seca, onde permanecia comendo capim
verdinho até que cá embaixo se queimassem os pastos e o capim brotasse, quando então
as reses desciam para comer o verde.
Era uma praxe antiqüíssima. O pai e o avô de Dona Benedita assim procediam e o
marido dela continuou nesse sistema. O gado era tão empastado que logo que o tempo
demudava e entrav a seca, ele dava fé e pegava a berrar uns berros intermitentes.
Depois, reunidos em ternadas, aspirando o vento e berrando intei mitentemente, os
curraleiros começavam a galgar a serra embusca do refrigério, donde só voltariam com a
outra mudança da estação, quando o vento geral anunciasse chuva, revirando de rumo.
Aquilo era uma riqueza. Quem tivesse o refrigério, quem pos-
!
34
suísse a serra, teria reserva de pasto, reserva fresca e boa. Por isso, mal o sogro de
Vicente fechou os olhos, o irmão Pedro Melo trouxe de Barreiras vários rolos de arame
farpado e os estendeu por ali, cercando o refrigério.
— Absurdo! — gritou a viúva. — Que o refrigério é meu.
— Cadê os documentos? — perguntou o cunhado Pedro Melo, assim muito
inocentezinho.
— Que documento? — Ali ninguém possuía título de domínio de terras. Dono do
chão era quem possuísse gado nele empastado. Até onde andasse o gado com a marca,
até aí ia a propriedade do dono desta marca. Era uma lei que vinha num é d’hoje, se
transmitindo de pais a filhos, sem contestação. O próprio Pedro, que era dono de mais de
vinte fazendas, perguntassem a ele se possuía documento, para ver!
De nada valeram, porém, os protestos da velha. Naquela seca, quando o vento
geral soprou, o gado de Dona Benedita aspirou profundamente o ar, soltou os berros finos
e curtos de curraleiro e marchou pelas veredas que levavam ao refrigério. Debalde
caminhavam pelas veredas. Tudo estava vedado pelas cercas de cinco fios, apoiados em
grossos postes de vinhático e perobinha. A viúva procurou o cunhado e lhe mostrou que
aquilo não podia ser: — O refrigério sempre foi de minha gente. Eu herdei ele de meu pai,
que o herdou do pai dele.
— Tem dúvida não, minha cunhada. É só mostrar os documentos.
Benedita foi atrás dos parentes, mas aquilo era briga de cunhados e contrariar o
Coronel Pedro Melo era coisa muito perigosa. Pelas veredas, o gado ia e vinha, rondando
a cerca, tentando transpô-la, ferindo-se nas farpas do aramado.
A cerca do Coronel Pedro Melo ganhou fama, sua notícia correu mundo. De longe,
vinha gente para ver a estrovenga. Então, os valos cavados no chão, as cercas àe pau,
os muros àe peàra não tinham mais serventia?
Ao longo da cerca formou-se um aceiro largo de tanto o gado de Benedita ir e vir
em busca de acesso ao refrigério. Benedita reclamou de novo e o cunhado fez uma
pergunta que pareceu à viúva sem pé nem cabeça. Perguntou ele:
— Minha cunhada, que mal pregunte, para que a senhora está querendo o
refrigério?
!
35
— E você pergunta muito mal mesmo, — respondeu a velha. — Quero o refrigério para o
meu gado, ora essa é boa! — Que vontade que teve ela de lhe dizer que talvez no Piauí
refrigério tivesse outra serventia! Mas qual! Melhor tolerar.
Pedro Melo riu: — Ora, Benedita, a senhora não tem mais gado não. Seu gadinho
mal vai dar para pagar as custas do inventário de meu irmão.
Dona Benedita chorou três dias e três noites sem cessar, diante de seus santos, no
dia que o oficial de justiça levou seu rebanho o melhor gado do Duro.
— Dê graças a Deus, minha cunhada. A sua valença foi meu filho Artur. Se não
fosse ele, sua casa tinha ido a leilão para pagar as custas. Seu marido não deixou
dinheiro!
Dona Benedita ficou pobre. Tinha a casa que os filhos e os genros sustentavam.
Para pequenos gastos vendia um objeto de oura ou uma afaia de prata, velha afaia que
herdou do pai e que entregava como quem corta fora um dedo da mão.
Os poucos candeeiros de azeite mal clareavam os cômodos» casarão, por onde os
netos e sobrinhos brincavam de pegar ou brincavam de pique, numa algazarra dos
trezentos.
— Psiu, psiu, aqui não, meninos. Vão brincar no pátio.
— Ai, ai, ai! No pátio não, que vão quebrar as minhas roseiras, — protestava a
velha Benedita.
Na cozinha, à luz das brasas da fornalha, também conersavam os aderentes da
velha Benedita. Do tamanho de uma menina de oito anos, as sobrancelhas grossas, o
arde nanica, Maria Pequena falava. Januária ouvia, balançando a cabeça, onde o pixain
meio branco se escondia por baixo do xale de franja, chupitamdo com a boca murcha de
velha o pito sarrento, de barro. Januária era velha moradeira do Duro. Já vira e ouvira
muita coisa. Dava notícia do tempo que os mineradores andavam revolvendo as catas
que ainda hoje abriam suas bocas pelos arredores da cidade falava dos índios Acroá e
Chacriabá que foram aldeados ali. A gente não sabia se era contemporânea desses fatos,
ou se misturava suas recordações com o relato dos antepassados.
Naquela noite, como sempre, estava de visita a Maria Pequena, que era irmã de
leite da velha Benedita e com ela residia. Tanto Januária como Maria Pequena sabiam
que os graúdos eram maus e por isso o que falavam, falavam debaixo do maior segre-
!
36
do. Vez por outra, uma se erguia do pilão onde estava assentada, e ia à porta espiar se
não havia ninguém ouvindo: — Parede tem ouvido, comadre.
— Seguro morreu de velho, — respondia Maria Pequena com sua voz de anã,
juntando as sobrancelhas no alto da testa, aquelas sombrancelhas que eram que nem
duas taturanas. As mulheres não entendiam desse rolo de inventário, mas quem ignorava
que inventário era feito para os graúdos roubar?
— Coitada da viúva! Trem de viúva, a senhora sabe como é.
— Mesmo que carniça, cada bicho quer um taco... Mataram o pobre do
Quelemente e agora tão quereno ficar com os terém do coitadinho...
— Até a mulher, que Deus me perdoe, — falou a Pequena dando tapas na boca.
— De vera! Diz que essa foi a primeira que o coronel passou a mão... — Pequena
se ergueu, foi espiar na porta, e voltou: — Mas quem será que tá comendo os terém da
viúva, comadre? Seu Vicente ou será o Coronel Artur?
— Essa menina, pra mim, tudo os dois tão engulindo os terém da viúva. A diferença
é que Seu Vicente quer comer um taquinho menos avultado e o coronel quer comer o
defunto inteirinhozinho, sem deixar nem um isso para os outros. — Ambas riram e a outra
completou que não punha a mão no fogo por Artur: — Esses Melos têm parte com o Cão,
comadre. Até Félix Bundão eles meteram no chinelo!
O caso era muito conhecido. Félix Bundão era um chefe de bando dos Gerais; um
dia entrou na vila para vingar a honra de duas filhas de um amigo que foram defloradas
por gente graúda e que não foram válidas da justiça. Félix Bundão entrou disparando
rifles, cercou a casa do deflorador, deu-lhe vários tiros, matou-o, depois ficou debaixo dos
mulungus, conversando com conhecidos.
Félix não fez nenhum mal à esposa e filhos do deflorador, dizendo-lhes que podiam
enterrar o defunto em paz. Mais tarde, deixou a vila. Não tocou numa casa, não buliu
numa gaveta, não fez mal nem a uma galinha, não quebrou nem um raminho de planta.
Só entrou na casa da vítima e dali meteu os pés na estrada, de volta. Pois não lhe conto
nada. Foi Félix virar as costas, olhe ali o boato correndo: Félix Bundão limpou a gaveta da
Coletoria Es-
!
37
tadual. O coletor Pedro Melo dizia para quem quisesse ouvir que Félix levara a renda de
seis meses da Coletoria!
Aí, Januária arrematou: — Tá vendo a astúcia do coronel? Tudo mentira. Foi ele
quem limpou a gaveta e botou a culpa em riba da cacunda do Bundão.
— Cruz credo! — fez Pequena, benzendo-se. — É o Coisa-Rui que o Coronel
Pedro tem na garrafa que ensina tanta astúcia para eles, meu Divino.
Embora conhecesse essa história, Januária teve medo. Encolheu-se, como se
defendesse de uma agressão e murmurou:
— Tesconjuro, Bicho.
— É esse Sujo que ajuda os Melos. No dia que o Bicho exallar ou no dia que
aparecer alguém com uma capetinha fêmea, adeus sorte dos Melos. Nós ainda vamos
ver.
— Mas você acredita que esse ”Bicho” dá conta de fugir? Então o coronel deixa?
Olha aqui — Januária com o indicador direíto puxava para baixo a pálpebra inferior do
olho direito, num gesto de quem diz que os Melos estavam de olho aberto.
— Psiu! — Januária ergueu-se e foi espiar fora, voltando a seguir para seu lugar no
pilão. — Ah, o velho não deixa o ”Coisa” escapulir. O capetinha é escravo deles desde os
tempos do pai do Coronel Pedro, o velho Felipe, que deve de estar nas profundas dos
infernos, com o perdão da má palavra.
— Maria, ô Maria, — chamavam de dentro da casa.
— A mó que Sá Dona Benedita tá te chamando você, essa menina? — perguntou
Januária, que se envolveu no xale para sair. Sim, de fato, era Benedita que chamava.
Agora o silêncio caía sobre o casarão. Os parentes, tomando a bênção à velha,
tinham saído ou para suas casas, ou para seus aposentos. Como uma sombra, Benedita
tomou o rolo de cera, acendeu-o e chamou Maria Pequena: — Vamos rezar. Pequena
nem respondeu, abriu a porta da capela, as duas entraram, ajoelharam-se diante do
oratório de cedro talhado. A luz fumarenta do rolo fazia bulir a imagem grosseira de São
Miguel. .
— Ajude meu genro Vicente, meu poderoso São Miguel— pedia Benedita.
— Ave Maria, cheia de graça... — resmungava Maria Pequena, pensando no
capeta do Coronel Pedro Melo. — O senhor é convosco, bendita sois vós — prosseguia
Dona Benedita, mas daí em
!
38
diante vieram as lembranças do genro Artur Melo. Desgraçado! — pensou a velha. Fez a
infelicidade de minha filha, de minha pobre Zefa!
Pela sua memória passou o casamento de Zefa com Artur, Zefa tão novinha, quase
menina. Depois o diabo do Artur metido na sua política sem fim, permanecendo na Capital
do Estado anos a fio, largando Zefa abandonada na vila. Entrava ano, saía ano e Artur
mal escrevia uma ou outra cartinha. Na solidão, no abandono, a pobre Zefa ardia de
desejos; ela cujas carnes moças tinham provado do amor. Nas noites longas e tediosas, a
pobrezinha rolava na cama larga e vazia, até que a madrugada pintasse o telhado, a
imaginação torturando os sentidos exaltados pelas recordações amorosas.
Quando afinal Benedita desconfiou, o mal ia grande. Por Porto Nacional e
Natividade já corria a notícia dos amores de Zefa com uns e com outros. Aí, Artur surgiu
alegando sua honra maculada. Enxotou a esposa de sua casa, tomou-lhe a filha e a
enviou para um amigo João Alves de Castro educar em Goiás.
Pobre Zefa, por muitos anos rolou de deu em deu, até que a filha voltou para o
Duro, casou com o Doutor Herculano Lima e recolheu para sua casa a pobre Zefa doente
e miserável.
Diante dos santos, a velha até se esqueceu de pedir por Vicente, para somente
descarregar seu ódios contra Artur: — Piauiense maldito!
Aí se lembrou que estava frente a frente com S. Miguel. Afastou o pensamento
mau e começou a recitar: — Salve Rainha, mãe de misericórdia.., Ao lado, Maria Pequena
dormia debruçada num baú.

No FRIO da manhã, o Coronel Pedro Melo ia pela estrada montado na sua grande mula,
a maior de que havia notícia naquela região. Tilintava as esporas, as rodelas dos freios,
as fivelas e bombas do arreio e da cabeçada. Atrás iam os dois jagunços. Mulato e Resto-
de-onça, cada qual com sua repetição alceada no ombro. Os cascos batiam nas pedras.
Pelos baixos, a neblina ia densa, molhando o capim que pegava a amarelar. Os bem-te-
vis cantavam pelos altos angicos.
Melo dirigia-se para a Grota, ia pôr seu filho Arthur a
!
39
par de tudo que se passava no povoado, queria dar-lhe parte das
exigências de Vicente Lemes.
O velho olhava sobranceiro a paisagem que lhe era tão familiar. Quantas vezes já
passara por ali, nem sabia ao certo! Julga va-se o criador daquela paisagem, daqueles
caminhos, daquelas cercas, daqueles muros e daquelas pontes. Tudo saíra de suas mãos
ou das de seu filho. Era criador e dono daquilo tudo. No entanto, Vicente Lemes e Valério
Ferreira pretendiam governar. Essa era boa! Uns preguiçosos daquela marca! Que é que
eles já haviam feito para a região, a não ser fuxicos e mais fuxicos? Pela frente corria a
estrada orvalhada e ainda sem sol. Era uma estraída carreira.
Quando o velho era menino, havia ali apenas um trincheiro de jumentos. Bem se
lembrava de quando a abriu. Era mocinho, que bons tempo! A estrada antiga nem merecia
esse nome. Mal dava passagem para os cargueiros de mantimentos. Para ir a Barreiras
era duro. Os comerciantes da Bahia até debicavam:
— Ei, seu moço, esse seu Goiás é mesmo um fim de mundo!
Por que é que você não traz carro de boi para levar mercadoria?
Pedro Melo enrolava conversa e ria para disfarçar o embaraço. No fundo, ficava
agravado. Na verdade não levava carros de bois a Barreiras porque a estrada não dava
passagem. Dava isso para meter os burros pelas grotas e serrotes.
Os comerciantes, entretanto, tanto azucrinaram que um dia Pedro não se conteve:
— Homem, não trago carro porque acho tropa melhor de lidar.
— Quiá, quiá, quiá — estalaram as gargalhadas em redor. -- Ô homem de boca
dura! Tu não traz carro porque por lá não exis te estrada, — chasqueou um dos caixeiros
da ”Rainha da Barateza”, a melhor casa comercial de Barreiras. O Melo sentiu a cara
lascar fogo:
— Pois pro ano, por esse tempo, estou aportando aqui com dois
carros, de boiada baia.
O dono da ”Rainha da Barateza”, onde conversavam, saltou o balcão para fora,
deu dois tapas nas costas de Pedro, mandou um caixeiro trazer a garrafa de vinho-do-
porto e cálices e distribuiu a bebida para todos:
— Olhem, vocês são testemunhas. Se esse goiano entrar aqui,
!
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pro ano, com um carro de bois, eu mando dizer uma missa cantada. Já não falo em dois,
basta um carro.
De novo as gargalhadas estrondaram, enquanto os cálices se esvaziavam, como
selo do trato. Valendo-se da confusão, o moço Pedro Melo despedia-se de todos e
passava a perna por riba da mula estradeira, metia-lhe as esporas e saía num trote
picado para alcançar a tropa que guizalhava na saída do comércio.
Pelos pousos e estirões, foi delineando o plano. Adestraria duas boiadas de 48 bois
crioulos baios, faria dois carros de bois. De cá já ia escolhendo os boiecos: o filho da
Beleza mais o da Dinamarca iam para o coice; o filho da Sertaneja e aquele boizinho que
barganhara com mano Antônio iriam para a guia.
Também pensava nos pés de pau para fazer os carros. Ia fazê-los de jatobá,
daqueles jatobás enormes que cresciam na beira da serra.
E a estrada? Essa era a mais dura, mas ele já tinha em mente como traçar a
danada por aqueles ermos que tanto conhecia. O principal era despender o menos
possível.
Daí uns dias, já os machados roncavam pelos vãos de serras, abrindo a picada da
estrada. Para trás as picaretas e as enxadas retiniam, aplainando mais ou menos o chão
duro. Além, alguns homens davam os últimos repasses numa junta de bois baios que
arrastavam toras de madeiras.
Como um general, todo encourado, Pedro ia e vinha, dando ordens, distribuindo o
pessoal no trabalho, apressando a picada, pois precisava voltar ao sítio ainda em tempo
de ajustar as chedas dos carros, que os carpinteiros lavravam.
— Vamos ver, vamos ver, minha gente! — As enxadas retiniam no terreno
pedregoso, enquanto os paus seculares baqueavam lá adiante, clareando a mata.
Numa dessas vezes, Pedro Melo viu um preto alçar a foice para cortar uma
vergôntea que se erguia bela e viçosa nomeio do sarobal. Pedro segurou-lhe o braço,
chamou os demais trabalhadores e se dirigiu ao foiceiro:
— Você sabe o que é isso?
O cabra ficou meio espantado, titubeou, mas o patrão encorajou:
— Vamos, diga, você sabe.
— Apois num é um broto de cedro?
— Isso mesmo, — confirmou Pedro Melo, enquanto com o
!
41
olhar aprovador percorria os demais homens ao redor. Também os outros suspenderam a
faina e estavam curiosos pelo desfecho! da-cena. ”O patrão mandava derrubar o mato e
depois não deixava torar um ramico daquele!”
— Para que serve o cedro? — continuava o moço, sem se dirigir a ninguém. Num
coro, uma vintena de vozes responde:
— Pra fazer cadeira, armário, porta, janela, oratório...
Aí as vozes se calaram, como se tivessem esgotado o rol das serventias. Pedro
Melo percebeu e os concitou:
— Vamos, vamos, para que serve mais?
— Com o perdão da má palavra, serve para caixão, meu amo — respondeu um
mais afoito.
— Isso mesmo, — aprovou Pedro: — é o pau apropriado para caixão. — Nesse
ponto, perguntou: — E vocês sabem quem soa eu?
Cheios de indecisões, uns três responderam que ele era o patrão, o Coronel Pedro
Melo, homem poderoso e rico.
— Vocês podem bater em mim?
— Deus me livre e guarde, — disse o coro de homens descobrindo-se.
--- Vocês podem me matar?
— Cruz credo, Coronel! Larga pra lá essas brincadeiras sem graça.
— Pois esse raminho daí é a mesma coisa que minha pessoa.
Ninguém pode fazer mal para ele. Ele vai crescer, vai ficar um pézão danado de forte e
vai servir para meu caixão... — A frase ficou meio suspensa, enquanto o moço refletia
para, a seguir, dizer com uma firmeza impressionante: — Isso, se eu morrer!
O silêncio caiu sobre os homens e sobre a paisagem. Pouco a pouco os cabras
foram botando na cabeça suarenta os cacos de chapéu e daí uns instantes as
ferramentas retiniam à cadência de uma canção tristemente monótona. Perto do cedrinho,
ali ficou o moço Pedro Melo com seu porte arrogante, com seu semblante duro, com sua
quase convicção de que não morreria, de que viveria eternamente, de que ninguém
jamais o derrotaria em qualquer coisa.
Ante seus olhos agora de velho, uma névoa perpassava. A estrada foi feita, os
carros de bois avançaram por ela e chegaram a Barreiras justamente no dia marcado.
Foguetes riscaram o céu da
!
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cidade e as campainhas da igreja anunciaram a elevação da hóstia, na missa solene que
o Coronel Lima mandava dizer.
”E, na verdade, tudo isso aconteceu, porque no dia exato, nem antes nem depois,
precedido de foguetório, o moço Pedro Melo, na porta da ”Rainha da Barateza”, gritava:
— Ôa, boi, ôa!
— Espia o sol — gritou Resto-de-Onça.
— Eta rodeira bonita! — secundou Mulato. Estas palavras afugentaram as
lembranças do velho Coronel Melo, que logo já avistou o bicame e de imediato pensou
em Vicente Lemes. Vicente foi sempre homem pirracento. Não sei adonde Artur estava
com a cabeça quando encaminhou esse tranca para os cargos públicos! Por cima, tinha
ainda a velha Benedita para emprenhar Vicente pelos ouvidos com fuxicos sobre Artur e
ele, Pedro.
— Foi mole, foi mole sem contia... — Esta frase chegada aos ouvidos do velhos,
fê-lo perder o pensamento. Atrás vinham os dois capangas. Vinham alegres, souberam do
caso do inventário, ouviram o velho conversando com Tozão e anteviam lutas. Afinal,
estavam voltando os bons tempos. Quem é que foi mole? — indagava a si mesmo o
coronel: Seria Artur, seria ele Pedro? Não. Não era um nem outro, que aqueles dois
homens de sua confiança não iam nunca falar um absurdo desse. Artur não era mole,
nem ele...
— Foi: Damião foi mole — reafirmava Resto-de-Onça e agora o coronel ouviu bem:
falavam de Damião, ah, isso sim. O capanga prosseguia: — Falar procê, se compadre
Artur tivesse lá, a escrita era outra.
Mulato concordou e contou um caso de outros tempos, Resto-de-Onça ainda não
trabalhava com eles. Foi em Santa Maria de Taguatinga. O chefe político mais forte de lá
era contra Artur, mas era um homem delicado, que não gostava de agravar ninguém. Um
dia Artur com seus rapazes entrou no povoado, madrugadinha, dando tiros e gritos,
apearam na porta da igreja e desfilaram pelo Largo.
— Menino, o tal sujeito delicado virou um canguçu. Num ”vupe” arreuniu seu povo
e se nós não saíssemos ligeiro, sei não, era aquele sobrosso.
Os cavalos gemiam e arrastavam os cascos, descendo cautelosamente, a passo, a
bocaina estreita e inclinada em demasia. Papa-capins e grilos voavam do capim que
bordeava o caminho. A
!
43
Grota estava lá embaixo, no fundo de uma furna. Os arreios ringiam e a conversa calou-
se.
Na sombra, um joão-conguinho guinchava. De cá, viam-si casas, o engenho, as
capoeiras pelas encostas mostrando as velhas roças, os currais, oficina de farinha. O
velho teve novamente jeriza. Era aquilo que irritava Ferreira e Vicente Lemes, era a
capacidade de trabalho deles Melos. Isso que enfezava os inimigos. Afi nal, Artur ali era
tudo, sempre fora tudo. Desde novinho vivia lendo e estudando cada livrão grosso de
meter medo, mas aprendeu:era o médico, o farmacêutico, o advogado, até o padre.
Padre, muito bem: padre, porque Artur descobriu aquele tal de espiritismo, que era
religião. E Artur era médio, como chamava o padre dos espíritas.
O velho sentia-se orgulhoso do filho, sentia-se envaidecido. ”Era um sábio. Nem
Francisco Azevedo, o famoso professor da fazenda das Taipas, que possuía um mundão
de livros, nem esse podia com Artur que o entupia com duas palavras. Isso era que
exasperava o dorminhoco do Vicente e o fuxiqueiro do Ferreira!’
Se havendo adiantado, Mulato pendurava-se da sela, faze correr as varas da
porteira, franqueando ao velho a entrada do curral. Um bando de cachorros veio ao
encontro dos chegantes,a latidos, mas reconhecendo-os transformaram a acuação em
ganidos de alegria.
Já a pé, Resto-de-Onça segurava com uma mão a camba do freio da mula, com a
outra firmava o estribo e ajudava o velho aapi-ar-se junto à calçada da frente da fazenda.
Pedro Melo estavaai ansioso por contar ao filho a exigência absurda do Coletor Vicente,
mais esse fuxico do diabo do Juiz Valério. Ô gentinha!
!
NA SUA FALA arrastada de maranhense, Belisário dizia: — Eu cá num vou. Num vou
nessas tropelias do coronel. Estou aqui para cuidar de gado e não para fazer arrelias. Se
eu gostasse de cangaço, estava mais os jagunços de Pernambuco. Oxém, apois num vê
home de Deus! — Belisário conversava no rancho de palha perdido no oco do mundo.
Seu interlocutor era também vaqueiro de Pedro Melo, o Casemiro, encarregado daquele
sítio.
Casemiro estava sentado no banquinho da sala de chão; Bell
!
44
sário deitava-se na rede. Fora, era noite estrelada de maio, meia fria. Dentro, era a
escuridão. Não uma escuridão total, porque a claridade do céu e o hábito do escuro
permitiam aos dois homens divulgar mal e mal as coisas. De luz, ali, havia apenas a ponta
dos cigarros que se tomavam mais rubras quando os homens puxavam a fumaça: tão
intensamente rubra que chegava a alumiar as caras.
Nos longes lobo estava uivando. Na frente da casa, um trem lambia o cocho e
tossia: vaca? Capaz.
— Não vou obedecer de jeito nenhum a chamado do Coronel Artur. Bem que ele
mandou no meu retiro, falar pra mim assim que era para comparecer na Grota. — O
vaqueiro fez uma pausa, o cigarro chupado clareou o ambiente debilmente. — Levar
cavalo e repetição... — Nova pausa: — Esse negócio de rifle, eu logo pensei comigo, é
pra proeza, como aquele ataque no Cartório, em quadra de Reis... Naquela eu fui, porque
desconhecia, mas não me pegam mais... Jeito nenhum...
Casemiro estava quieto, quase nem pondo sentido no que falava o visitante.
Pensava consigo que Belisário era um sujeito desacismado, falando as coisas assim no
rasgado, sem medo de castigo dos Melos. Belisário continuava dizendo que tinha entrado
para o serviço de Artur, mas que não ficaria mais. Não ficava porque eram uns ladrões: —
Vigia só. Este ano morreu muito gado com a seca; pois não é que o coronel disse que o
gado que morreu era tudo o que me pertencia! O que era dele, esse a seca respeitou!
Ora, essa é muito boa! É por essa e outras que vaqueiro num apruma, seu Casemiro.
Casemiro matutava. com ele, sempre os Melos faziam pela mesma forma e ele não
se revoltava, não percebia o furto, achando um procedimento natural. Nas fazendas de
Artur, como na de todos os criadores, de cada quatro bezerros nascidos um pertencia ao
vaqueiro. Mas se um boi espaduava, se morria, se sumia, se era roubado por índios,
quem pagava era o vaqueiro. O resultado era que o vaqueiro estava sempre endividado.
Belisário tinha razão: aquilo era roubo e roubo descarado.
O vento frio pegou a soprar. O homem notou e ponderou: — É a seca, menino.
Assunta só o friinho!
Longe, lobo tá uivando. Triste. Casemiro também sentiu um
!
45

!
!
arrepio e se ergueu para fechar a porta. Ela pouco vedava. De caules de buriti unidos com
cipó, pelas frinchas o vento assobiava cortante.
— Pra agüentar esses Melos só sendo do calibre de Norato, prosseguia sem
pressa a voz de Belisário. — com Norato eles piaram fino. Gado morria, Tozão botava na
conta de Norato e Norato nem ligava. Norato comprava uma dúzia de balas.Tozão botava
na conta dele três dúzias. Norato não reclamava, não discutia.Inteirado dez anos. Norato
fez as contas, separou o lote de reses que achou que tinha ganho nesse tempo e abriu o
pala, foi montar seu retiro dele mesmo em Missões. Tozão gritou, esbravejoi Artur entrou
no meio, mas Norato nem fedeu. O que acharam de fazer foi matar o coitadinho de tocaia.
Casemiro sentia a revolta crescer no peito. Ele também tinha sido chamado para
comparecer na Grota. E tinha medo de ir. Eu não gosto de briga, compadre. Nem num sei
dar tiro nenhum nada...
— Pois é, — quase gritava Belisário. — Tu vai é morrer que nem um passarinho.
Vai não, menino. Larga isso pra lá!
— O diabo que a gente deve, — timidamente ponderava Casemiro. — E como lá
diz: quem deve é cativo... Só se pagar..,
A voz de Belisário veio forte e dura como um trovão --: Pagar, pagar! Tu tá besta,
só! Se você não fizer feito o Norato, tu num paga nunca mais. Quem entra para o serviço
deles, quando sai é para a cidade dos pés juntos.
O silêncio caiu, cada homem pensando em suas próprias dificuldades. Ratos
corriam e guinchavam pelo telhado e pelos cantos do rancho onde se amontoava milho,
arroz ou feijão. ’
— Menino, isso num é d’hoje, mas todo mundo dá definiçãl Uma vez chegou aí no
povoado um homem branco, socado, risão e trabucador, por nome de Folorenço.
Conforme chegou, sujou o caráter, quis brigar e foi parar no tronco do sobrado.
— Que que houve contigo, criatura? — chegou perguntamdo o velho Melo.
— Num é de ver, seu Coronel, que me botaram eu nesta de graça e eu num tenho
dinheiro para sair.
Pedro Melo trocou umas palavras com o carcereiro, que era gente de sua
confiança, e no sufragante já foi destrancando os cadeados. Dali mesmo Folorenço saiu
para a lida do velho, num retiro.
!
46
Passado muito tempo, Folorenço apareceu: — Coronel, veja aí quanto que devo, homem.
O cabra trabalhara como um mouro, mas juntara bastante dinheiro para saldar o
débito. Pedro Melo fechou os olhos, resmungou suas contas e disse que Folorenço devia
duzentos mil réis. Embora bom de escrita, o velho nunca pegava de lápis para fazer seus
cálculos. Era no bestudo e não tinha erro.
— Pois está aqui, Coronel, pode riscar a dívida — e Folorenço risão estendia ante
os olhos do velho duas notas de cem mil réis.
Debaixo de sua barbaça o coronel riu: — Tá doido, menino. Eu não emprestei
dinheiro para camarada não. Dinheiro de camarada é serviço. Pode socar de novo no
retiro até pagar tudo. — Diz que nessa hora o risão não riu, mas despediu meio duro e foi
embora. Dia seguinte, quéde o Folorenço? Que procuraram, que procuraram, nada.
— Mulato, vem cá. — O capanga chegou de chapéu na mão para escutar as
ordens: — Reúne gente e vai no piso do fujão. Gente sarada que o cabra num é de
brincadeira não.
Mulato mais o Tito distribuíram com outros rapazes algumas Comblains que o
velho trazia dependuradas na parede do quarto grande. Essas Comblains eram armas
usadas pela polícia estadual. Quando o Governo resolveu substituir esse armamento por
fuzis Mauser, determinou aos delegados que recolhecem as armas dos destacamentos
locais e as enviassem para a capital. Pedro Melo era delegado do Duro e recolheu as
Comblains do destacamento ali existente, mas não as remeteu para Goiás. Limpou-as,
poliu, consertou com aquela habilidade que sabia ter, e as dependurou na parede de sua
casa. Ficaram ótimas as armas.
Se pegassem Folorenço, amarrariam ele à trave do sobrado e meteriam o chicote
até o bicho perder os sentidos. A Artur ou ao pai cabia dar as primeiras chicotadas em
sinal de menagem, para mostrar que ninguém podia rebelar contra sua vontade.
— Esse Resto-de-Onça, ô bicho sem calidade. Veve perseguindo os companheiros
mode agradar o coronel, trem à toa!
Fez-se um curto silêncio, em que Casemiro bocejou sonoramente, depois do que
Belisário falou: — Menino, tu já ouviu falar numa tal de Berandolina?
Casemiro já ouvira, notícia vaga.
— Apois essa mulher é amiga da gente. Ela protege a pobreza
!
47
contra a ganância dos ricos. Mal comparando é que nem o finado Antônio Silvino, que
Deus tenha em sua glória. — Ao falar em Deus o vaqueiro meio se ergueu na rede,
voltando, em seguida, à posição anterior e continuando: — Nhô pai conheceu esse tal
Antônio Silvino, demais...
Novamente a quieteza envolveu tudo. — Tem hora, esse menino, que eu até que
penso de pedir ajuda dessa Berandolina. Ela vem cá e leva nós. Se o coronel empinar,
pior pra ele, que ela é mulher de corpo fechado.
O lobo uivava de novo, agora parece que mais longe. O grito selvagem ampliava
as distâncias, fazia mais espessa a treva viscosa que escorria lá fora. De novo, o trem
tossiu junto do cocho.Cada homem pensava em Berandolina, ”ah, se viesse em socorro
deles, os tirasse daquele ermo, os livrasse da dívida do coronel, os livrasse do perigo
daquela luta que o coronel queria meter eles nela!”
— Frio, gente. Até parece que é S. João. — Belisário disse e abriu a boca num
bocejo ruidoso. Casemiro percebeu que o companheiro tinha sono, mas não se importou.
Era tão raro uma pessoa de fora com quem se pudesse trocar idéias! De dentro, do único
com partimento, da camarinha, veio um choro comprido e sentido de menino. Chorinho
triste que escorria no ermo e no abandono, num desespero sem nome.
— Bichim num deixa ninguém dormir com a marvada dessa dor nos ouvidos —
gemeu Casemiro, numa resignação covarde.
— Se eu soubesse! Lá em casa ganhei uma estampa que é uma salvação. É só
botar ele em riba da dor e a dor passa na mesma hora; mesmo que tirar com a mão. —
Casemiro ouvia atentamente a narrativa. Deixa estar. Brevemente Berandolina haveria de
buscá-los. Então ele se valeria da estampa do compadre, para curar o filho que sofria
tanto com aquele mal excomungado. Entre bocejos repetidos Belisário dava provas da
estampa:
— Ancê num se alembra da velha Custodiana Mesquita?
— Ua velha arcada que vevia chorando com uma dor assim por riba da volta da
apá?
— Essa mesmo. Pois, esse menino, não te conto nada pra você. Botei a estampa
por riba da dor e foi mesmo que pinchar a desgraçada no mato. Custodiana hoje em dia
até pila arroz no pilãof
Ao longe, mais pra essa de banda de cá um tiquinho o lobo voltou a uivar.
Levantando-se para verter água junto à porta, Belisá-
!
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rio ponderou que o bicho devia era de estar num vício velhaco. Valendo-se da saída do
visitante, Casemiro despediu-se e foi deitar-se.
A claridade das estrelas coava pela palha do rancho e pelos vãos das varas
alumiando fracamente os cômodos. Na camarinha o menino voltou a chorar com a
danada da dor de ouvidos.
Lá fora, o trem tomou a tossir.
!
DEPOIS DO ALMOÇO, como fazia todos os dias para espairecer, Lina foi dar uma
espiada na rua. Debruçou à janela e viu a vila parada, calma, a sombra das árvores e das
casas desenhando manchas negras no chão. Pela grota, as almas-de-gato piavam os
pios entojados. Será que estavam mexendo no cemitério? Mas não estariam. Ninguém
havia morrido. Aquilo era assanhamento dos bichos.
Dentro da sala, Vicente Lemes escrevia alguma coisa. Logo depois do almoço? A
mulher pensou em dizer-lhe para não aplicar a vista assim na hora do quilo que era
perigoso uma congestão, mas desitiu. Vicente andava tão impaciente! Nisso, uma coisa lá
fora chamou sua atenção. Havia um movimento desusado no Cartório.
— Será que o juiz já chegou? — perguntou ao marido.
— O juiz já chegou? Por quê?— indagou Vicente meio sobressaltado. Sabia que os
Melos estavam reunindo gente e desconfiava que pretendessem atacar o Cartório em dia
que o juiz estivesse presente. Lina passou a descrever o que via:
— Está chegando um pessoalão... largaram os animais soltos... entraram
correndo... tem gente entrando... gente saindo...
De um pulo Vicente chegou à janela e viu que cercavam a casa do Cartório. Gente
armada entrando e saindo às carreiras, animais de rédea solta meio espantados, andando
pelo Largo. Vozes altas. Vicente ia saindo, mas Lina se opôs: — Não vai, não vai.
— Vou, uai, pera aí, — desvencilhou-se, pegou na gaveta a arma e saiu. No
corredor, no cabide dos arreios, pegou um chicote de chuço, um estoque. A pistola que
pegou era Browning, carregada com pente de cinco balas. No bolso, Vicente meteu uma
caixa de balas, pega também na gaveta. Enquanto corria para a casa das audiências,
quebrava essa caixa no bolso, soltando as cápsulas.
!
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Quis entrar, mas à porta estava postado Mulato com seu rifle, que interceptou a
passagem. Vicente nada disse, retrocedeu e foi para a janela que dava para a sala do
Cartório, de onde vinham vozes.
Dentro viu Ferreira encostado à parede, ao lado de Cláudio Martim. Na frente
deles, falando, estava Artur Melo com a carabina segura pelo delgado da coronha, tendo
de cada lado um homem armado. Um deles era Aleixo, o outro Vicente conhecia, não
sabia o nome.
Artur entrara na sala exibindo ao Juiz Valério uma procuraação do próprio punho
da viúva de Clemente Chapadense eini mando que era o advogado dela:
— Ela não é nenhuma desamparada não. A mim cabe dizer como vai ser o
inventário. Estão pensando que vou me sujeitar às exigências do coletor? É baixo,
moreno! — Num triz já Resto-de-Onça tomava a arma da cintura do Juiz Valério, que nem
teve tempo de reagir.
Artur prosseguia: — Aqui, é preciso que vocês entendam uma vez por todas, aqui
quem manda sou eu, meu pai e meus amigos. Esse pessoal do Foro anda mangando,
mas agora minha paciência chegou ao fim.
Embora encurralado no fundo da sala, com os capangas armados e rodeado,
Valério Ferreira resistia. Artur queria quei recebesse a procuração, juntasse aos autos e
despachasse concordando com a descrição dos bens. Ele, porém, teimava:
— Não, isso não é comigo. Quem impugnou foi o coletor, ele é que pode aceitar a
descrição da viúva.
Ao ouvir isso, Vicente que chegava à janela, interferiu:
— Ô Valério, eu preciso de você lá em casa agora mesmo. Vamos para lá, Valério.
Quem respondeu foi Artur, voltando-se para a janela, e reconhecendo a voz de
Vicente:
— Ah, tem graça! Você veio chamar ele, não é?
— É. Preciso dele.
— Mas ele não vai. Não sai daqui.
— Uai, não vai? Num vai por quê?
— Porque não pode, — respondeu Artur energicamente.
— Então ele está preso? Se ele está preso, eu também quero ser.
— Ah, ora! Você também quer ser preso? — respostou Artur.
!
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em tom de escárnio, afastando-se para um ângulo do qual podia ver Vicente na janela e
os três prisioneiros. — Pois não se quer ser preso, que entre.
Aí Vicente procurou entrar e Mulato não se opôs. Tinha ouvido a ordem do patrão.
Vicente foi colocar-se ao lado de Ferreira e a seguir Artur se pôs ao lado de Vicente,
travando-lhe o braço E dizia:
— Pois é, vocês estão acostumados a fazer o que entendem e eu não connsinto.
Essa pobre mulher, o marido dela morreu por jagunços seus e vocês querendo espoliar a
coitada.
. -- Alto lá, -- protestou Vicerte. – Espoliar, não. Você sabe queestá hvendo
sonegação de bens. Eu tenho que defender a Fazenda Estadual, você sabe, você é
advogado.
Artur largou o braço de Vicente e deu uma risadinha forçada:
— Pois aqui vocês têm que fazer o que ”nós” queremos, nós, os Melos, está
ouvindo? — E batia no peito.
— Eu não faço. Sou funcionário, tenho a quem prestar conas, você sabe que eu
não faço. Lembra do gado do Tozão?
— Pois faz, acaba fazendo — retrucava de lá Artur imitando o tom de voz de
Vicente. — A gente faz muita coisa sem querer...
Na frente da casa já se reunia muita gente. A discussão se acalorava, Artur dava
cada eco que retumbava pela vila. Também Valério gritava. O povo se apinhavá nas
janelas, de onde os jagunços os escorraçavam à custa de cano de pistolas. Pelas casas,
as mulheres e os homens trançavam, esquecendo as rusgas e ressentimentos. Lina foi
procurar Amélia, filha de Artur; os parentes de Ferreira foram atrás de Tozão; Moisés Melo
falava com a velha Aninha, cada qual querendo botar água na fervura, tentando evitar
uma morte ou mal semelhante.
— Não deixa ninguém entrar, Mulato — ordenou Artur para afastar o mulherio que
chorava e pedia desesperadamente. — Aleixo! —gritou Artur, — desentope esta sala. Tem
gente demais para atrapalhar.
— Pronto, meu patrão.
— O safado desse Martim, amarra ele lá no moirão do Largo, ouviu? A sala está
muito cheia... — Apesar de toda a energia de Mulato, as mulheres não arredavam. Ali
estavam Amélia, filha de Artur; Anastácia, irmã dele; Lina e Alice, mulher e filha de
Vicente, Tozão, Moisés, Argemiro Félix — gemendo, soluçando, pe-
!
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dindo, dando gritos. De dentro do gradil, Artur ameaçava com carabina:
— Quem entrar, cai na bala.
Pelos cômodos, pelo Largo, esparramavam-se os companheiros de Artur: João
Rocha, Olímpio e Calixto Chapadense, Hi Melo, filho de Tozão e outros homens famosos
pela valentia e pela truculência. Havia já muito tempo que durava a contenda, com Artur
de lá ameaçando:
— Vocês é que sabem, ”Se nào aceitarem o rol de bens como a viúva descreveu,
ninguèm sai daqui. Hoje ninguèm come, ninguém bebe, ninguém dorme.
— E nós só aceitamos o rol completo — dizia Valério completamente calmo e,
senhor de. si.
— Não come hoje, come amanhã — objetou Vicente, mas Atur contestou com
ênfase:
— Nem hoje, nem amanhã, nem depois, nem dia nenhum, quanto não fizer o que
”nós” queremos.
— Vejamos!
— Pois é, uai, vejamos!
Aí apareceu o Coronel Pedro Melo, soproso, empurrando o pessoal, a cabeça
alçada a modo de vaca batedeira, botou a mão no balcão, enquanto mantinha na outra a
Mauser:
— Que é que quer que eu faça, meu filho? — Estava brabo ameaçador, a barbaça
branca tremendo, os olhos fuzilando e narinas arreganhadas. O velho estava querendo
pular o gradil, gritando de raiva: — Pode dizer, meu filho, que é pra mim fazer? Enquanto
dizia, brandia no ar a pistola de matar antas: — pode dizer, que eu estou aqui pra te
adjutorar, meu filho.
Artur se desprendeu do braço de Vicente, por um instante, fez para o pai um gesto:
— Calma, meu pai. Tem calma. Por enquanto não carece de fazer nada não.
Calma.
— Hem, num carece de mim, hem? — A barbaça se agitava, a Mauser ia e vinha
por sobre as cabeças.
— Não, meu pai, volta pra casa, eu preciso do senhor lá, —dizia Artur travando
novamente do braço de Vicente, mas o velho continuava ameaçando céus e terra,
gritando que aquela arma tinha morto Vigilato e com ela mataria muita gente mais.
Aquilo estava passando. Vicente não se conteve. O diabo do
!
52
velho era um descarado que confessava publicamente a morte do sobrinho. Que
cachorro! Para o Juiz Hermínio, negou; ali, afirmava. Era demais:
— Olha velho, Vigilato você matou porque era defunto sem choro, mas comigo
vocês engancham. Tenho parentes, tenho amigos, aqui, em Natividade, em Conceição,
Arraias, Porto Nacional, Goiás. Comigo... — Vicente não pôde terminar. O velho voltou-se
num ímpeto, a arma apontada no seu peito:
— Parente... parente...
— Uaá! — ao redor o mulherio abriu o bué no mundo, gente correu cercando o
velho que bufava feito um peba: — Parente, parente...
De seu canto, embora as mulheres e homens pedissem, Vicente não se calava:
— Se você me matar, velho à toa, sua cabeça também rola. No meio do povo, o
velho quis novamente investir, mas Artur sem largar o braço de Vicente fazia com a
cabeça sinais a Tozão que retirasse o pai.
Vicente tinha no bolso a arma, mas nem tentava sacá-la. Seria pior, no meio de
tantos inimigos armados. E o estoque? É mesmo, quede o diabo do estoque? Parecia que
tinha deixado ele em riba do peitoril da janela, no momento que falava com o juiz.
Por fim, conseguiram levar o velho, que lá se foi no meio de outros homens.
Chegando em casa, tirou suas armas, as velhas Comblains, chamou os Chapadenses e
com elas armou os jagunços que agora se postavam acintosamente ao redor da casinha
do Cartório. Eles se agachavam, o chapéu de couro puxado em riba dos olhos, a velha
Comblain nas mãos calosas, o cigarro fumegandono queixo. Além, o povo aguardava
ansioso o desfecho de tudo.
Na sala, Artur continuava exigindo que todo o processado fosse inutilizado a partir
da informação de Vicente Melo.
— Já disse que não faço isso — teimava Vicente.
— Pior para você. Quanto mais tempo teimarem, mais tempo vão ficar aqui. Eu,
por mim, não tenho pressa, — explicava Artur. Ao lado, Ferreira de há muito deixara de
falar.
De certa maneira, o juiz nada tinhacomo fato. Ele apenas mandara cumprir o
pedido do coletor. Artur o mantinha preso com o intuito de fazer o inventário inteirinho
naquele dia. Precisava
!
53
de suas sentenças. Tal situação é que permitia a resistência. Contra Vicente, Artur se
sentia tolhido pelos laços de sangue e afinidade. Ah, se fosse somente o Valério, talvez
Artur já houvesse cometido uma violência.
Pelo Largo, João Rocha ameaçava uns e outros; no fim da rua, Hugo Melo com
José Anísio disparavam as armas.
O tempo correndo e nada de resolver a pendenga. De lá Artur exigia novo
despacho; de cá Vicente Lemes se negava a lavrá-lo. E o tempo correndo. Quando Artur
invadiu o Cartório, sol estava por ali assim, podiam ser nove horas da manhã; agora já o
sol descambava. Os jagunços estiravam as pernas, assuntava o sol e calculavam que
devia de estar beirando bem ali umas três horas da tarde. Nesse momento, rompendo o
cerco, se abeirou da janela Argemiro Félix, que arriscou um alvitre:
— Gente, não será possível caçar um acordo? Ninguém respondeu, cada qual
achando que era sinal de fraqueza apresentar uma solução adequada.
— É já que vem a noite e vocês trançados aí que nem a los de briga. Que que
adianta um dizer uma coisa práláej responder uma má-criação pra cá?
— Acordo só pode ser um: Vicente faz novo despachou que eu ditar — disse Artur
em tom acintoso.
— Tem graça! — fungou Vicente rolando os olhos
Aí Valério pegou a falar, dirigindo-se a Vicente. Fazia já muitas horas que ali
estavam eles de pé, sem água, sem comida, discutindo atoa. Enquanto Vicente discutia,
Valério pesava a situação. — Não via Vicente que era inútil resistir? Artur ali estava em
maioria e armado. Afinal de contas, não eram nem mais nem menos que prisioneiros
entregues à sorte que lhes quisesse dar o deputado Artur. O melhor seria concordar com
as exigências.
— Mas é um absurdo — protestava Vicente de olhos nadando em lágrimas. — É
um desaforo ter que baixar o cangote para esse pessoal meter a canga. E o direito está
do nosso lado!
— Pois é, isso é que é certo. Vamos largar mão de muita pirraça, de orgulho e
podemos resolver as coisas em paz, — acentuava Artur, valendo-se das palavras do juiz,
que terminava:
— Vamos concordar, Vicente. Mas saindo daqui vamos fazer uma representação
ao Governo, exigindo punição para esses bandidos!
!
54
— Rarará — ria-se Artur, pulando na sala. — Podem denunciar. Ainda não
ficaram satisfeitos com o caso de Vigilato, não é mesmo? Rarará! O governo vai enviar
outro Doutor Hermínio Lobato, virá outro Napoleão, rarará! Vai ser uma farra, hem,
Mulato?
Foi com ódio, foi com vergonha, foi cheio de humilhação que Vicente tomou do
processo e, atendendo às imposições de Artur, rasgou as folhas que continham os
despachos e informações anteriores. Por que não reagir? A Browing estava ali na
algibeira com as balas. Era pegá-la e já ir disparando em riba daquela gente. Sim, seria
morto. Isso não tinha dúvida que Mulato, Resto-de-Onça, João Rocha não estavam ali
apenas para fazer bonito. Morria, mas ficaria a fama. Amanhã, depois, por muitos anos o
povo ia se lembrar que ali teve um homem de mais coragem do que os Chapadenses,
mais valente que João Dias, de Boa Vista.
Vicente meteu a mão na algibeira, apalpou a Browning, mas sentiu a coragem
esmorecer. Reagir à bala seria o mais inteligente? Estava visto que não. Vicente reagia,
matava Artur ali na sala, mas também seria morto e com ele o juiz Valério e outros
companheiros. E tudo voltava a ser dominado pelo velho Coronel Pedro Melo. A mão de
Vicente saiu do bolso, tomou o encaixe, molhou o tinteiro, enquanto seus beiços trêmulos
murmuravam:
— Pode ditar, Seu Doutor Deputado Artuzinho.
— Não, uai, não vou ditar não. Você sabe fazer. Você está pago para saber isso.
O coletor mantinha a pena no ar:
— Sei escrever aquilo que minha vontade dita. Agora estou fazendo uma coisa
obrigado por você. Não sei qual é o seu querer.
Até à sala chegavam os estrondos das armas de Hugo Melo e João; no Largo, os
Chapadenses contavam rodelas, aos gritos, como era o seu habitual modo de conversar.
Artur sabia o que queria:
— Bem, escreva aí: concordo com a descrição e a avaliação de bens do presente
inventário. Agora, vire a págna. Cláudio, é a sua vez, íamos lavrar os termos. — E assim,
ora com um, ora com outro, o processo foi correndo, observados os prazos de praxe, até
que o juiz Valério deu a sua sentença de final julgamento.
— Vá buscar os selos, Vicente — ordenou Artur. O coletor saiu para buscá-los em
casa. Lina não o acompanhou, ficou ali na casa, já que Artur permitia agora que as
pessoas entrassem no Car-
!
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!
tório. Na frente da casa, no moirão, Martim suava amarrado no pau, com o mosqueiro lhe
azoinando em tomo, acabeça ao sol. Vicente quis falar com ele, mas não achou
conveniente e foi passando. Vendo-o passar, Aleixo resmungou:
— Bão de meter uma bala na cacunda desse desinfeliz.
Lina ouviu e saiu correndo a abraçar-se com Vicente. Não lhe contou nada do que
ouvira, mas queria que ele não voltasse.
— Não voltar de que jeito, mulher? Os jagunços vêm buscar.
— Não volta. Pega um cavalo por aí e sai fugindo. Artur vai te matar, para você e
Ferreira não denunciarem. — Lina tremia aos soluços. Vicente fez ouvido mouco. Que
valia fugir naquele instante, com o processo todo pronto? Agora Artur não ia matar mais
ninguém, para quê? Tinha obtido tudo!
Deixou Lina aos gritos, voltou ao Cartório, selou o que tinha que selar, terminou o
processo até a derradeira formaralidade.
— Este está pronto — disse Artur, que relanceou os olhos pelo Cartório e a seguir,
continuou a frase: — Como vocês vã me denunciar mesmo, vou aproveitar e levar alguns
processos de eleitor que esse juizinho andou indeferindo. Me dê aquele maço ali Cláudio.
O escrivão tomou um tamborete, subiu em riba, retirou o maço e entregou nas
mãos de Artur que separou os papéis que quis. Exigiu outros maços, fez a mesma coisa,
depois juntou tudo num grande pacote que entregou a um homem.
Já seriam cinco horas da tarde, quando Artur Melo deixou o Cartório. Resto-de-
Onça veio na carreira, puxando a mula de sela que ficou na sombra do quintal do pai,
segurou a camba do freio com uma mão, com a outra segurou o estribo; Artur montou
tomou a rédea, e Resto-de-Onça já corria para a outra banda da mula a ajeitar o pé direito
de Artur no outro estribo.
A seguir, outro cabra entregou a Artur a carabina que locou atrás, na sela, por baixo
da bunda. Deu as derradeiras ordens, tocou a mula para a casa do pai, com quem
conversou longamente na janela e daí torou para a Grota, seguido de seus homens.
Na casa do velho, outros rapazes por ali ficaram limpando Comblains e as
dependurando na parede. Os primeiros morcegos principiavam a cortar cambaleantes o
céu muito diáfano. Na igreja uma coruja soluçou.
!
56
A MADRUGADA ia alta quando a carta ficou pronta. Era dirigida ao Coronel Eugênio
Jardim e relatava minuciosamente os acontecimentos: a morte de Clemente Chapadense,
a ocultação dos bens ao inventário, a exigência do coletor e por fim o ataque de Artur.
Relatando tudo, pedia a carta garantia para o exercício das funções públicas e para a vida
das autoridades estaduais.
À luz do lampião, cansados e sonolentos, estavam reunidos Valério Ferreira,
Vicente Lemes, Júlio de Aquino, Moisés de Melo e Argemiro Félix. Eles haviam redigido e
agora a reliam pela derradeia vez. ”Não, parece que não faltava nada. Tinham contado
tudo e exigiam, com energia, garantias e punições”. O arremate dizia: ”Não exerceremos
nenhuma função dos cargos enquanto não contarmos com força armada que nos possa
garantir”. Ótimo, aquilo estava ótimo.
Também em casa de Pedro Melo a porta da rua não se fechou. Lá por dentro havia
luz e movimento de gente. Era Resto-de-Onça que chegava. Tinha estado espionando a
casa de Vicente, onde redigiam a denúncia.
— Podem denunciar, cambada -- bradava o velho. — Denunciem. Vigilato também
denunciou.
De para a manhã, Resto-de-Onça chegou com outra notícia:
— Saíram três cavaleiros da casa de Vicente Melo, meu amo.
— Quem você acha que são eles? — perguntava o velho. O capanga piscava e
fazia caretas. Era um tique nervoso que ele possuía. Qualquer esforço intelectual o
obrigava a piscar, contrair os músculos da cara, revirando os olhos. Diziam que na hora
de puxar o gatilho, na tocaia, o desgraçado tinha que fazer as gatimônias. A resposta do
capanga foi cautelosa:
— A gente num pode garantir, meu amo, mas pra mim era o seu Júlio de Aquino,
mais um camarada de Moisés e outro do seu Juiz Valério. — Parou, pensou, careteou: —
É pra ser esse tal de Júlio, eu vi bem que era ele, mode o jeito...
No frio da manhã, Júlio de Aquino rompia chão levando a carta para Eugênio
Jardim. Só voltaria com um contingente policial, não tivessem dúvida.
A essas horas, mas em rumo diferente, outro cavaleiro fugia do Duro: era o agente do
Correio. Mais tarde, depois do almoço, quem deixava a vila era o Juiz Valério Ferreira.
Para voltar ao exercício da função exigia segurança, soldado bem armado e disposto
!
57
a matar quem tentasse obrigar uma autoridade a fazer o que não era permitido. Esse era
também o pensamento de Vicente Lemes. Então poderia agora ficar naquele lugar depois
de tudo que aconteceu? Teria ele mais autoridade para exigir de alguém o pagamento do
imposto, quando Artur fazia o que bem entendia? Podia ele ficar ali para obrigar apenas
quem não tinha força para empinar contra as ordens?
Vicente Lemes mais uma vez reuniu seus pertences, buscou os animais e se
dispôs a deixar o Duro, levando mulher e filhos iria para Conceição, onde tinha parentela.
Quando a força poi-se, voltaria para as funções de coletor, se tivesse garantia.
— Eu que não fico aqui sozinha! — reclamou de lá a velha Benedita. E assim, um
dia, partiram da Vila Vicente com família Benedita Fernandes com os agregados,
Argemiro Félix e Moisés igualmente com família.
Sentado na calçadona alta, o velho Pedro Melo não achava aquilo muito bom, mas
não confessava. Ficava quieto olhando as casas fechadas, o povoado mais triste, os
passarinhos pousando em nuvens compactas nos assa-peixes da grota. Eram pássaros-
pretos, papa-capins, rolinhas fogo-apagou e o diabo das almas-de-gato com seus pios
entojados, piando, piando horas afio.
Por fim, também as janelas e as portas do casarão de Pedro Melo deixaram de se
abrir. De Barreiras, pelo telégrafo, chegavam notícias que um contingente policial
marchava para o Duro. Diziam que era muita gente, com muito armamento, e que a coisa
era para valer. O chefe da comissão não era do calibre do Doutor Hermínio não, era nego
teso, que vinha com ordem severa dos Caiados para acabar de vez com Pedro Melo e
sua gente.
Seguindo o Coronel Pedro Melo, deixaram suas casasTozão, Doutor Herculano
Lima, Damião de Bastos, Joaquim Alves Leandro e outros moradores.
No Largo as rolinhas fogo-apagou formavam bandos, depois voavam e iam
assentar pelos muros, pelos telhados das casas fechadas, pelos pés de fruta e cantavam
o que dava o dia. Os viajantes que passavam viam aquela tristeza de tapera e se
benziam.
— Duro acabou, Duro acabou — soluçavam as rolin.
Em casa de Dona Benedita, as roseiras morriam por falta de quem as aguasse.
— Duro acabou — diziam as rolinhas.
!
58

II

A comissão
!
!
PELAS SERRAS e pelas bocainas o piraí estalava e os burros gemiam, levando no lombo
pisado os costais de mantimentos roupas de cama, trem de cozinha e munição. A serra de
Jaraguá suas matas ricas ficou para trás; o rio Maranhão com sua caudal soturna foi
transposto. Pelos caminhos do sertão, incertos caminhos cortados no mato ou no cerrado,
a caravana avança sempre ao sol e ao sereno. No deserto sem fim, as cidades e
povoados minúsculas ilhas distantes umas das outras dezenas delégu sítios ou fazendas,
quando existem, são como navios perdidos no ermo.
Para todos os lados galopa o oceano da campina, da floresta ou do cerrado, por
onde as estradas são tortuosos e indecisos riscos meio apagados na poeira e na lama.
ítaberaí, Jaraguá, São josé do Tocantins ficaram para trás.
Há mais de mês que a comissão nomeada pelo governo estadual para abrir
inquérito sobre os acontecimentos do Duron marcha pelo sertão. Quando saiu de Goiás, a
comitiva era pequei o juiz Carvalho, o escrivão Chaves, o Alferes Enéias Altino Pexoto,
um cabo, dois soldados e o camarada Alexandre. Mais ia crescendo à proporção que
avançava. Em São José do Tocantins uniu-se a ela o promotor de justiça.
Por sobre montes, vales, rios e chapadões a comitiva ava no rumo do Duro.
!
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O sertão é triste e feio em julho, as queimadas borrando o céu de fumaça, a
vegetação já amarelecida, crestada pelo sol e pelo fogo, as árvores: despidas de suas
folhas pelo rigor da seca. Pelos ermos e descampados o vento galopa seu febrento bafo
de morte, arrastando folhas secas, levantando a poeira fina, erguendo-a nos espaços em
funis de redemunhos.
Nas noites secas, em tomo da fogueira do pouso, os homens reuniam-se. O
promotor Imbaúba pegava o violão e se punha a cantar modinhas, lentas e chorosas,
aprendidas em Salvador, no seu tempo de estudante, ou aquelas em voga em Goiás.
!
”Quando vivemos a sonhar amores,
Quando não temos a ilusão perdida,
Quando noss’alma não padece dores
Morrer é triste! Como é doce a vida!”
!
Sebastião de Rojas Imbaúba, comissionado nas funções de promotor de justiça no
inquérito, era baiano, mulato, magro, alto, inteligente e pernóstico. Em Goiás, para onde
viera como funcionário do Serviço de Proteção aos índios, andava sempre de fraque e
chapéu de coco, limpo e elegante no seu cavanhaque preto de mágico, o cabelo teimoso
alisado à custa de muita brilhantina. De noite, espantava os ecos do Largo do Chafariz, da
Rua da Abadia, do Largo Detrás do Açougue com seu violão gemebundo, com sua voz
aflautada de mulato namorador, pondo ternuras de amor no coração das admiradoras. Ali,
à luz vermelha da fogueira, entoava outra canção:
!
”Margarida vai à fonte,
Margarida vai à fonte,
Vai encher a cantarinha.
Brotam lírios pelo monte,
Margarida vai à fonte
Vai à fonte e vem sozinha.”
!
Ouvindo, os soldados recompunham cenas de suas vidas. Cabo Ferreirinha revia o
dia que deixara Goiás em companhia do juiz. A Assembléia Legislativa encerrava os
trabalhos, a polícia viera prestar-lhe homenagens, formando-se frente ao edifício, na Rua
!
61
da fundição, junto à igreja da Boa Morte e o Palácio dos Arcos. A banda da polícia
executava justamente a marcha que Imbaúba, no momento cantava:
!
“Brotam lírios pelo monte,
vai à fonte e vvem sozinha.”.
!
A voz não era boa, longe disso, mas no ermo, o campo dormindo ao redor, o vento
soprando a fogueira, o luar branco como um povilho derramado, o coaxar dos sapos
acolá na cabeceira da vereda, ao compasso do tilintar dos polacos dos aniais no encosto
– tudo aquilo bulia com o coração de Ferreirinha. E a namorada? Quando lhe participou
sua resolução de vir com a comissão, ela nada disse, nada protestou. Uma sombra, uma
nuvem como que anoiteceu seu semblante. Ficou velha naquele instante, depois saiu
correndo para dentro de casa.
Se pudesse, Ferreinha casava com ela, mas nem pensar nisso era bom. Tinha
seus planos: ganhar dinheiro na expedição, ir para o Rio de Janeiro fazer o curso de
Medicina. Que futuro havia em Goiás para um jovem pobre como ele? Quando muito,
poderia atingir um lugar de chefe de administração pública do Estado.
Ferreirinha cursava o Liceu, mas o pai morreu e ele se viu obrigado a abandonar o
estudo para arrimar a família. Nisso, a irmã se casou, a velha mãe tinha com quem viver,
tinha em quem se arrimar. Agora Ferreirinha podia ir para o Rio, e ele se meteu na polícia,
para ganhar dinheiro.
Depois a voz de Imbaúba calou-se, outros sons ergueu-se mais distante. Era um
toque de viola. Ferreirinha conheceu que era do soldado Baianinho. Na sombra, o praça
pinicava o pinho. Terno, osom vinha vinha numa humildade de choro de mulher amorosa,
numa humildade igual à namorada de Ferreirinha que ficou com sua saudade na casinha
térrea do alto do Moreira.
No acampamento tremulava a mágoa da viola de Baianinho.
!
!
!
!
!
!
62
Para ouvir melhor, em tomo dele outros soldados vieram se agachar com suas mulheres e
os meninos catarrentos.
Bem diferente era o motivo que trazia Baianinho àquela expedição. Ferreirinha
viera na esperança de ganhar dinheiro com que pudesse seguir para o Rio. Baianinho ali
estava como um cativo. Era camarada do Coronel Batista, a quem ficara devendo um
despropósito. Dívida fantástica, dívida inventada pelo coronel. Baianinho comprava uma
rapadura, o coronel assentava duas em sua conta; no mercado a rapadura custava
quinhentos réis, nos assentamentos do coronel cada rapadura custava o dobro. com cinco
anos Baianinho devia tanto que não pagaria ainda que trabalhasse o restante da vida.
Aí o coronel trançou os pauzinhos e meteu o devedor na polícia. Doravante, todo
mês, o coronel recebia na boca do cofre o vencimento do soldado, cobre limpo e certo,
cobre preciosíssimo para a região escassa em moeda.
A mulher de Baianinho que tratasse de sustentar a casa e o marido, vendendo
quitanda, lavando roupa no rio Vermelho ou cozinhando de ganho aqui e acolá. com o
barulho do Duro, Baianinho se meteu na Força, pois o ganhame de soldado era dobrado.
Na noite, a viola de Baianinho gemia sua dor ignorada. Ele era do Norte de Goiás,
mas dizia que era baiano mode se dar ao respeito. Segundo diziam, já pertencera a um
bando de jagunços, na Bahia. Ferreirinha não podia acreditar. Era tão manso o Baianinho!
É verdade que as aparências enganam, mas Baianinho não podia enganar.
Da barraca do juiz ergueu-se o toque de silêncio, que foi ecoando pelo ermo afora.
Longe, um curraleiro respondeu com o berro fino, como se fosse um rebate de corneta.
Depois, cada soldado arranjando sua cama, armando a rede num pé de pau-terra ou
pequizeiro, junto à fogueira, as mulheres pitando em silêncio os cachimbos sarrentos,
dando de mamar aos meninos magros e barrigudos, com eterna diarréia. Alguém gemia
de maleita; outro tossia, encolhendo-se, talvez com a tísica minando os bofes.
E assim avançava a comissão pelo sertão belo e terrível. Breve chegaria a
madrugada, a estrela-d’alva como uma gota d’água tremulando por sobre o monte, e
Baianinho se meteria pela saroba orvalhada e fria em busca dos animais do juiz e dos
oficiais, únicos que viajavam montados.
!
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Com o sol dourando a copa tremulante dos buritis, seus gritos ecoariam pelo
ermo, comandando as bestas, trazendo-as do encosto, raspando e arreando. Nos
espigões, as seriemas garganteavam suas notas álacres.
A seguir, meteria os pés de calcanhar rachado na estrada sem fim, dando seus
gritos com os cargueiros, estalando o piraí assustando o caracará pachorrento assentado
no galho do pau.
— Burro, diacho!
Como um barco ronceiro e moroso, a comissão prossegue sempre sempre através
do sertão ressequido e escaldante. O gaviãozinho e o pinhê-pinhê estridulavam no risco
do vôo cinzento, caçando cobras e grilos zonzos pelas chamadas das queimadas.
Embaixo, no valê, a mataria se derrama a perder de vista. Os ipês abrem o luar de ouro e
paixão de suas copas floridas. Na monotonia da chapada coberta pelo cerrado, a
monotonia dos pios das perdizes e codornas em busca do amor. Longe, no céu
acinzentado pelo fumo e pela poeira que os ventos incertos sacodem, os urubus abrem
grandes círculos negros: carniça de alguma rês morta na boca do tijuco, aonde fora
buscar uma gota d’água. :
A comissão é um barco que avança. Para trás ficaram o Maranhão, o Tocantins e o
Paraná, rios que rolam águas verdolengas pelos profundos vales, remansando nos pauis
esverdinhados as febres e os miasmas.
Para trás ficou a cidade de Arraias alcandorada na rocha e noouro: ficou Taipas, a
velha fazenda dos Azevedos.
Agora era outro pouso. A noite despencou do alto, num de repente. Na sombra que
sobe do vale, vem o pio da nhambu, ma como um soluço. Mas na noite não mais se ou
via a voz do promotor Imbaúba para despertar sonhos e saudades na alma de Ferreirinha;
a viola de Baianinho não mais soluçava no catiraoam mato de sua mágoa sem remédio.
Enquanto não vinha o toque de silêncio, os soldados se reuniam para ouvir histórias de
assombração, histórias de crime e valentia, contadas por Mane Vitô,o sua fala bonita e a
expressão fácil; contadas por Nestório, Daniezinho ou Adonias. Eles previam lutas e
bravateavam. Mais para um canto, Peba e Mão Pelada tiravam da algibeira o baralho
encardido e, às escondidas, armavam a roda de sete-e-meio.
O Juiz Carvalho precavia-se. Boatos alarmantes chegavamaté
!
!
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seus ouvidos. Artur Melo estava com muita gente reunida, bem armada e melhor
municiada, cangaceiros arrebanhados nas fronteiras da Bahia, Pernambuco, Maranhão e
Piauí. A marcha, nesses dias, era como se estivesse em operação de guerra.
No ligá em que dormia, Baianinho sentia o cheiro acre da flor de caju, via no
encosto o pequizeiro derrubando a flor sebosa, e seu coração renascia de esperanças. Se
não estivesse na tropa, ia botar uma espera naquele pequizeiro dacolá; viu rastro de
veado por baixo dele. No outro pouso, na beirada do corgo, vira muito estéreo de
capivara. Também peixe. Foi um tropeiro, contou-lhe que adiante o rio estava secando e
peixe lá era um disparate, chegava a fazer carniça de juntar urubu. Bem capaz que
aquelas rodas de urubu que tanto via no céu não era carniça de gado não, era carniça de
peixe, veja só!
No lusco-fusco Baianinho calculava. Era só passar o barulho, iria buscar a
obrigação, voltava para o sertão, para caçar e pescar. Naquela comissão, Deus
adjutorando, brevemente pagaria todas as contas e aí seria um homem livre, dono de sua
vontade, dono do sertão inteiro, das veredas de buritis, dos rios que escondiam no fundo
os peixes misteriosos e engraçados que a gente carecia de pegar com muita astúcia.
Seria dono dos gerais, onde o veado retorce as orelhas e o focinho molhado campeando
no vento sinal de gente. Seria senhor dos lugares por onde a paca traça seu caminho
incerto, num passo elástico de veludo e seda.
!
EM ARRAIAS, um tropeiro vindo da Bahia contara que Duro era jagunço só. Todo o
pessoal valente das fronteiras de Goiás, Bahia, Maranhão e Piauí estava reunido no Duro.
Ali estavam Abílio Araújo, mais conhecido por Abílio Batata, e Roberto Dorado, famosos
cabos-de-guerra que alguns anos antes assaltaram e tomaram a cidade de Pedro Afonso,
reduzindo as casas a um montão de ruínas fumegantes; Calixto Chapadense, tão valente
quanto João Dias de Boa Vista, e Miguel Umbuzeiro, o cangaceiro que atacava rezando
as excelências.
Diziam mais que no Duro, diariamente, João Rocha adestrava os jagunços no
manejo das armas. Cortava toras de bananeiras, fincava no chão e a cada uma dava o
nome de um membro
!
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da comissão: Juíz Carvalho, Promotor Imbaúba, Alferes Enéias e outros. Depois mandava
os cabras meter bala nas toras e atacar de punhal.
Para isso, nos pousos, nada de modinhas de Imbaúbas. A severa precaução da
marcha de campanha: reconhecimento, ligações, sentinelas. Se era letra, agora a
marcha se tomou mais vagarosa, que os soldados também estavam estropiados. Nas
pousadas, cada pelotão tomava posição na ordem em que se efetuava a caminhada; o
primeiro e o terceiro pelotão formavam os flancos; o segundo pelotão formava o centro.
O Juíz Carvalho era quem dava determinação. Algusto César Carvalho de Arruda
era filho de espírito Santo, onde tomou parte numa revolução. Sufocado o movimento,
derrotados os partidários de Carvalho, meteu-se ele para Goiás com família e tudo e foi
logo momeado Juíz de Direito de Santa Luzia. Era Bacharel em Direito e trazia para o
Presidente de Goiás, Doutor João Alves de Castro, carta de recomendação.
Quando Júlio de Aquino entregou em Goiás a carta denunciando os
acontecimentos do Duro, começou o governo a procurar um Juíz que quisesse seguir
para lá. Debalde, porém, João Alves de Castro consultava um e outro magistrado.
Ninguém queria aceitar a comissão, meter-se em embrulhada, enfrentar aquele fim de
mundo.
Egênio Jardim, seu cunhado Totó Caiado e seu outro cunhado Doutor João Alves
de Castro estavam em luta contra os Melos, cujo poder político queriam esmagar a todo
custo. O diabo que se metesse numa compliçaão daquela. Os Melos eram gente de largo
prestígio, gente gente muito ligada a poderosas e riquíssimas famílias da Bahia, como as
famílias Rocha, Balbino e Lima, as quais influenciariam o Governo Federal em favor do
amigo de Goiás. Você é besta de mexer com um trem desse!
Por cima, sabe onde fica o Duro? No fim do mundo. Por aquelas bandas bandido é
mato, e bandido ferozes, apoiados por políticos poderosos. Para essa gente não há lei,
não há nada.
Eram de ontem os horrores de Boa Vista, com gente picada viva, com mulheres
violentadas por dez, vinte homens, com virgensdefloradas e entupidas de areia. Pedro
Afonso ainda estava fumegando, destruída por Abílio Batata e Roberto Dorado, amigos e
companheiros dos Melos. Em Pedro Afonso esse cangaceiro com
!
!
66
!
!
seus cabras obrigaram a polícia a correr. Enéias Altino Peixoto que lá residia, teve que
fugir, perdendo fazenda, gado, casa comercial. Seu pai, sua mãe, irmãos, tios foram
mortos pela forma mais bárbara.
Depois de muita procura, um juiz aceitou a incumbência: o Doutor Carvalho. Aquela
oportunidade lhe vinha a talho de foice. Metido na pacatez de Santa Luzia, ligado
intimamente ao situacionismo, Carvalho viu nessa comissão oportunidade para chamar
sobre si a atenção dos dirigentes do Estado. No ócio da comarca, Carvalho tivera tempo
para fazer os cálculos.
No Espírito Santo levantou-se contra o governo porque o governo só tinha funções
públicas e oportunidades para os mineiros ádvenas, deixando os filhos da terra, os
capixabas, na penumbra dos carguinhos subalternos e mal remunerados. Fora derrotado,
tivera que vir para Goiás, enfrentar o sertão, o desconforto, o atraso, a miséria.
Em Goiás, os anos corriam e Carvalho mofava napasmaceira da comarca, pobre e
esquecido. Brevemente os filhos estariam moços e ficariam por ali sem instrução,
casando com roceiros bestas, enquanto ele e sua ambição se anulariam no comodismo,
no atraso do meio, como um outro Doutor Hermínio Lobato.
Carvalho não se conformava com isso. Via ali o povo inculto, via os principais
homens tão atrasados, e sentia que tinha inteligência e cultura para sobrepor-se aos
demais. Podia ser desembargador, presidente do Tribunal, talvez até Presidente do
Estado. Na pacatez do sertão, na solidão das divisões e demarcações, Carvalho pensava
e pensava seriamente.
No Espírito Santo tomara armas contra o governo que só tinha cargos para gente
de fora, para os mineiros; então, no Espírito Santo, dizia que o governo de seu Estado
utilizava os mineiros, porque eles eram dóceis à vontade dos políticos, enquanto que os
espíritos-santenses de origem não o eram. Agora, no ermo do sertão de Goiás, Carvalho
analisava sua situação e compreendia que também ele era um estranho ao Estado de
Goiás, era para Goiás o que o mineiro era para o Espírito Santo — um pau-rodado, como
diziam os goianos no seu acendrado bairrismo. Para vencer, o caminho deveria ser
aquele que deu a vitória aos mineiros. Em Goiás deveria ser dócil às autoridades, ser-lhes
”leal e fiel”, como diziam os mineiros do Espírito Santo, prestar-se ao desempenho
!
67
!
daquilo a que os da terra não se prestavam. O que lhe havia faltado era oportunidade,
mas esta agora chegava sob a roupagem do telegrama de João Alves de Castro,
convidando-o para ir ao Duro presidir o inquérito contra os Melos.
Era uma missão recusada por muitos Juízes. Estivesse Carvalho em sua terra, não
aceitaria incumbência semelhante e ainda censuraria a atitude de qualquer forasteiro,
aceitando-a. Mas estava em Goiás, precisava melhorar de situação, precisava livrar-se do
sertão.
E o Carvalho aceitou chefiar a comissão, “a árdua, a honrosa missão” e partiu para
o Duro. Homem acostumado à luta, não se importou com o comentário de Moisés
Santana, companheiro e amigo de Artur Melo, no jornal O Estado de Goiás, nem ligou à
guerra de silêncio que os goianos de nascimento fizeram à sua nomeação, ato oficial de
um governo oligarca, empenhado em anular o íntimo e poderoso aliado de ontem.
Pelo sertão, Carvalho marchava fazendo ouvido moucos às murmurações. Saiba
que os Melos erampoderosos, contavam com o apoio dos Bulhonistas, pois o Coronel
Pedro Melo e seu filho Artur foram os únicos chefes políticos do Norte a apoiar a
revolução vitoriosa de 1909, em Goiás. Além dos Bulhonistas, apoiavam-nos o senador
Gonzaga Jaime, o General Braz Abrantes e o Desembargador Emílio Póvoa.
Este era um homem misterioso. De dentro do Tribunal traria o juís comissionado
sob constante bigilância; por trás das persianas sempre fechadas de sua casa, trançava
os pauzinhos, comandando meio mundo. O medo a Emílio Póvoa tinha impedido que
outros juízes se prontificassem a ir para o Duro.
No começo em Goiás, com os goianos em hostil silêncio, Carvalho teve receio de
enfrentar a missão, mas sua confiança cresceu à proporção que se afastava da Serra
Dourada, de Emílio Póva, da pena cortante de Moisés Santana, desses espíritos que viam
nos Melos uns rebeldes à tirania dos políticos dominantes na Capital do Estado
A comitiva já era de mais de meia centena de homens. Soldados e mais soldados e
mais soldados foram se juntando a ela no correr da viagem que durava uns sessenta dias.
Em Arraias, numeroso contingente policial juntaram-se à comitiva. Algumas dezenas de
homens sob
!
!
68o comando do Tenente Olavo Mendes, de Assis, de patente mais elevada do que os
Alferes Enéias, Severo, Xavier e Mariano.
De fato quem comandava era o Doutor Carvalho, que se lembrava do seu tempo
de revolucionário em Espírito Santo. Madrugadinha já estava ele de pé, metido nas botas,
enérgico e empertigado. Já havia feito sua ginástica sueca, barbeara-se e ia acordar o
cometeiro Anselmo, para o toque de alvorada. Os oficiais piavam fino com o bicho!
!
NAQUELA NOITE, a derradeira que a comissão passaria em marcha, o sono tardava.
Havia a ansiedade de chegar, terminar uma marcha que se prolongava havia meses ao
relento, voltar a dormir, comer e morar debabco de um telhado.
As notícias alarmantes eram sempre renovadas. Não mais diziam que os jagunços
estavam no Duro, diziam que estavam na Grota, e em outras fazendas. Diziam também
que nesta noite, nesta véspera de chegar, nesta é que os jagunços atacariam.
Outubro principiava, ainda não chovera, mas as águas não tardariam. O calor e a
fumaça sufocavam. As árvores já haviam se recoberto de novas folhagens e os campos
queimados reverdeciam. Boiava no ar o cheiro das mil flores que nessa quadrada
desabotoam pelo sertão. Noite e dia as cigarras chiavam e os curiangos entravam pela
noite adentro resmungando seu mau agouro, em vôos cambaleantes pelas estradas.
Cauãs também cantavam com o mais rouquenho grito de maldição. Os soldados ouviam
e se benziam. As mulheres balbuciavam uma jaculatória. Era sinal de desgraça. No seu
cantar, as cauãs diziam: — Mata o homem, mata o homem. A isso, os curiangos
respondiam: — Puxa terra, puxa terra.
A comissão estava completa. A ela juntaram-se Vicente Lemes e Valério Ferreira
com suas famílias e mais Cláudio Ribeiro e Júlio de Aquino. No dia seguinte, se Deus
ajudasse, entrariam na vila e o Juiz Carvalho reempossaria cada um em seu cargo,
garantindo os soldados o exercício das funções.
Vicente era um dos que não dormia. Voltava de maneira bem diferente de como
saíra. Tinha saído corrido como um cachorro sem dono, com Artur os ameaçando como
se fossem criminosos ou vagabundos. Agora entravam de topete levantado. Os Melos
!
69
veriam o que era governo; o povo ficaria sabendo que na terra havia justiça e lei capazes
de submeter o vice-rei do Norte o poderoso Coronel Pedro Melo!
Por seu gosto, Vicente teria enfumaçado o povoado com foguetório. Amigos e
correligionários encomendaram dúzias de foguetes em Conceição e Natividade para
comemorar aquele dia, mas o diabo era a ordem do Juiz Carvalho. Proibiu qualquer
manifestação de agrado ou desagado. Nada disso, as autoridades entrariam calmamente,
seriam repostas em seus lugares e em suas casas. Nada de represálias, nada de
regozije.
— Uma pena! — lamentava-se Vicente Lemes, comentando essa ordem com
Ferreira. — Tanto foguete, oportunidade tão boa para amarrotar aqueles Melos de uma
figa!
— Teremos outras ocasiões... — disse sibilinamente Ferreira sublinhando o dito
com o riso fino. Por baixo da fisionomia de tuberculoso, Vicente Lemes vislumbrou a
ironia. Ferreira viu tudo aquilo, regozijava-se com a derrota dos Melos, sentia-se
envaidecido em poder reassumir seu posto sob garantia de soldados armados, mas no
fundo mantinha sua desconfiança. Sustentaria o governo até o fim aquela atitude?
Política tinha muita força! Valério Ferreira ria seu riso fino:
— A luta não terminava ali. Apenas estava principiando. Não estava vendo o
promotor de justiça?
Vicente balançava a cabeça. — Pois é. Os Melos viram que Carvalho não recusava
e então usaram de outra tática: compraram o promotor.
A noite sertaneja desdobrava-se calma e bela. Pelos arredores da minúscula casa
de fazenda luziam as fogueiras dos soldados que se acomodavam por aqui e por ali,
debaixo de um jenipapeiro, sob o recavém de um carro de bois, ou ao relento, sob uma
banda de couro de boi, para agasalhar-se do sereno grosso do fim da seca. Ao longe, o
grito rouco de cauãs e curiangos ou o grito de algum bicho no cio.
O acampamento era um grande pouso de tropeiro, as trempes sustentando a
panelinha de feijão que fervia com uma pele de porco, para o almoço do dia seguinte, se
os bandidos não matassem tudo esta noite.
Na rede, Ferreirinha lembrava a namorada distante, o estudo no Rio de Janeiro.
Teve saudades e se recordou de ímbaúba. Infe-
!
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lizmente sua voz não quebrava os ecos. Sua voz silenciara não só porque a ordem do juiz
era para permanecerem em silêncio, como porque o próprio Imbaúba já não fazia parte da
comissão. Foi em Arraias, num banquete. O intendente municipal ergueu um brinde ao
Juiz Carvalho. Agradecendo, Carvalho conclamou:
— Era preciso que o povo do Norte de Goiás se reunisse para acabar de vez com
os jagunços baianos.
— Jagunços baianos não senhor — gritava Imbaúba, de pé, os braços erguidos e a
cara feroz. — Protesto em nome do grande Estado que deu ao Brasil Rui Barbosa e
Castro Alves!
— Precisamos pôr cobro a esses cangaceiros da Bahia — reafirmava
acintosamente Carvalho, com tal veemência que Imbaúba resolveu calar-se. Ficou o resto
do tempo com o focinho torcido, resmungando coisas que os circunstantes não queriam
nem interessavam ouvir.
Mais tarde, quando tudo dormia, Carvalho foi ao quarto de Imbaúba, bateu, entrou
lá dentro e reafirmou o que dissera: — Temos que pôr cobro a esses jagunços baianos. —
Ah, que é um desaforo — Imbaúba quis gritar. O Juiz Carvalho recomendou-lhe calma e
silêncio. Viera a tal hora para evitar escândalo: — Não grite e nem faça fitinha. Eu disse e
digo que são esses jagunços baianos que infelicitam Goiás. Se você prestar, se você for
homem, venha me tapar a boca. Somos dois homens, um para o outro. Vamos ver quem
pode mais!
Imbaúba velho caiu das carnes, não tugia nem mugia, a cara emburrada. Desde aí
o promotor passou a viajar à parte, em companhia de dois camaradas de confiança. Vinha
atrás da comitiva, com um dia de atraso.
Boatos logo surgiram. Imbaúba era homem dos Melos. Havia sido nomeado por
descuido de João Alves; era uma vitória de Emílio Póvoa e Gonzaga Jaime.
!
”Margarida vai à fonte,
Vai encher a cantarinha”
!
Na madorna Ferreirinha não sabia se era Imbaúba cantando ou se era a banda da
Polícia, na porta da Assembléia, no dia da partida.
Súbito, um tiro rouco de Comblain ecoou na noite. As senti-
!
71
nelas gritaram. O acampamento se contorceu comoumb outras ordens ergueram-se ali no
meio. As armas retiraram»! nobra. Por trás de suas canastras entrincheirou-se o Juiz
Carvalho, na mão a Mauser, olhos na treva. Tudo escuro, muito escuro, as fogueiras
foram apagadas.
Com pouco, de um ponto incerto veio a notícia incerta, depois mais certa: -- Rebate
falso.
— Rebate falso?
— É. Rês. Ponta de rês. Vinha pela estrada em trote estugado
— Decerto pra lamber sal no cocho. Sinal de chuva.
— Gado que vem pra porta da fazenda, sinal de chuva!
— Sinal de chuva, espia lá, por trás do mato. — Eram rei pagos que acendiam e se
apagavam, clareando num breve instante o céu inteiro. E o vento soprava, um vento
diferente, cheira a água.
Lavradores na sua maioria, os soldados trocavam idéias ante a aproximação das
chuvas. Falavam de roças, contavam casos de vaquejadas, relembravam cenas da
infância, ou de tempos passados. Até os doentes, até o maleitoso se reanimou.
— Esses Melos? A gente pode matar eles que nem bugre, Cê acha que o governo
vai danar? Acha é bom, só! dizia Mané Vitô em voz grave, reacendendo a fogueira que
desmanchara.
Gabriel observou que não fazia cerimônia:
— Quero passar a brasa logo nuns pares deles, que é mode ganhar üas duas
largatixas. Eu tenho que voltar pra Goiás como sargento, se Deus e a Virgem Santíssima
me ajudar eu.
Vento de chuva soprava a fogueira. No escuro, os curiangos gritavam mais
desesperadamente, abafando o choro das crianças dos soldados.
!
A VILA DO DURO era um formigueiro. Carvalho, primeiro, distribuiu as autoridades pelas
residências, dando-as por reempossadas. Valério Ferreira voltou para seu sítio, Cláudio
Ribeiro foi para o Cartório e Vicente Lemes para a Coletoria. No sobrado do Largo, misto
de prisão, mercado e depósito, aí se aquartelaram os oficiais. Por outras casas,
distribuíram-se os soldados, entrincheirados em locais adequados, de modo a defender a
vila de qualquer ataque.
!
72
Vicente Lemes ficou no casarão da sogra; não voltou para sua casa antiga,
perto da igreja, na frente da grota. Aí instalou-se o Juiz Carvalho.
Agora, em sua residência, o juiz ordenava o caos das bruacas, cangalhas,
canastras, mesa e livros, ajudado do escrivão Chaves e pelo Cabo Ferreirinha. Arranjava
o gabinete de trabalho.
— Dá licença, meu Juiz — pediu o ordenança, batendo sua continência na porta.
— Que há?
— Seu Juiz, está aí na porta o Antônio Paulista, arrieiro do doutor Imbaúba.... Quer
falar com vossimecê.
— Reviste o homem, desarme e mande entrar.
Com pouco entrava Paulista de chapéu na mão, na ponta dos pés para não retinir
as esporas, a cara aberta num largo riso bajuldor:
— bom dia, Seu Doutor Juiz.
— Que Há, homem”?
— Seu Doutor, o Doutor Imbaúba... — Carvalho o atalhou, ponderando que
Imbaúba não era doutor não. Que Paulista dissesse Senhor Imbaúba. — ... apois, o
Senhor Imbaúba mandou a gente saber se ele tem permissão de entrar na vila?
Carvalho não respondeu logo. Continuou como estava limpando da poeira os livros
que trouxera e os empilhando num banco. Na porta, Paulista virava e revirava o chapéu
velho e sebento, os olhos baixos à espera da resposta.
Por fim, Carvalho decidiu: — Imbaúba pode entrar, sim.
Porém Paulista ainda permanecia ali parado feito um dois de paus, rodando
sempre o chapéu, como se receasse dizer alguma coisa. Afinal, desembuchou:
— O patrão quer saber mais se vossimecê aceita ele como promotor?
Novamente Carvalho embatucou. Continuou arrumando os livros e só depois
respondeu:
— Homem, diga-lhe que acabe de chegar, depois falaremos.
Carvalho vacilava. Será que conservava Imbaúba na Promotoria? Era um sujeito
muito à-toa, atrasado, besta. Mas sua demissão ia atrasar demais a marcha do inquérito,
favorecendo os Melos ou lançando um certo desprestígio à comissão.
Paulista montou a besta, arrepiou caminho. Na sala, arruman-
!
73
do os livros, Carvalho sem deliberar. Para demitir o diabo do Imbaúba teria que nomear
outro promotor, o que só poderia ser feito pelo Presidente do Estado. Essa nomeação
dermndaria muitos meses. O meio mais rápido de comunicação era o telégrafo
de .Barreiras, na Bahia. De Duro a Barreiras um cavaleiro gastava dez dias para ir e
voltar, levando o pedido de demissão e trazendo a resposta do Presidente do Estado de
Goiás. Qualquer outro meio de comunicação seria mais moroso ainda. Um cavaleiro para
ir de Duro a Goiás e voltar, não gastaria menos de quatro meses, prazo que seria dilatado
pelas chuvas que estavam entrando.
E encontrar ali uma pessoa competente para o exercício da promotoria? Tinha que
ser pessoa livre de influências políticas e possuidora de alguma instrução. Quase
impossível encontrar tais qualidades isoladamente, quanto mais reunidas numa mesma
pessoa!
— Vai ser muito difícil — concordava o escrivão Chaves com quem o juiz trocava
idéias.
— Com licença, Seu Juiz! — ”Diabo, de novo o ordenança! Que será que ainda
estava querendo? É verdade que tinha uma cara gaiata e maliciosa.” — O senhor num
quer ver um carnaval, Seu Juiz?
— Carnaval? — admirou-se o juiz, chegando àjanela,para onde já correra o
escrivão Chaves. No Largo passava um homem montado num burrão de oito palmos de
altura, cria de Lagoa Dourada, sem chapéu, envolto na bandeira nacional, tendo na mão
um papel que depois se soube ser a Constituição Estadual, Pelo porte agigantado, pela
cor enfumaçada, pelo cavanhaque de mágico, Carvalho logo reconheceu: Imbaúba.
Atrás, no mesmo passo solene, num mutismo de doer, seguiam Antônio Paulista e
mais um camarada tocando cargueiro. Ao redor de todo o Largo surgiam caras
espantadas de soldados e paisanos. O espantalho estacou em frente ao juiz, que mandou
o ordenança convidá-lo a apear. ”Certamente está na cachaça, esse porcaria.”
De cima do burrão, empertigado como um boneco, Imbaúba traçava no ombro a
bandeira que o vento teimava em açoita num tom pausado, proferiu:
— Requeiro para mim e para meus auxiliares uma habitação condigna — com os
longos braços fez um gesto envolvendo os ca-
!
74
maradas. A bandeira despencou, ele a recolocou no ombro, e prosseguiu pelo Largo no
mesmo passo grave de assombração.
— Louco — disse Carvalho. — Só pode ser loucura. — O Tenente Mendes de Assis
aproximou-se da janela: — Como é, Seu Juiz, será que o homem ficou louco?
— Sei lá! Mas louco ou não, isso não pode continuar. É uma desmoralização: diz muito
mal da comissão. Olha, tenente, vá lá e o intime a parar com a palhaçada imediatamente.
— Mal o oficial foi-se afastando, Carvalho completou: — Tenente, ô tenente, olhe aqui!
Faça esse tipo deixar a vila imediatamente. É pra sair da vila já-já.
Deixou a janela, abeirou-se da mesa e chamou o escrivão Chaves:
— Redija aí um telegrama ao Presidente do Estado, Chaves, vamos lá. Pedindo a
demissão desse Imbaúba. Em caráter irrevogável, hem! Irrevogável.
Foi até à janela. Tenente Mendes de Assis discutia com Imbaúba, a seguir tomou
do freio do burro e saiu puxando.
— Ah, já ia esquecendo. Solicita a nomeação de outra pessoa para ocupar a
Promotoria. — Daí foi até a porta do fundo da salinha e gritou ao Matias:
— Diga ao Tenente Mendes de Assis que me mande um soldado de inteira
confiança, um homem esperto, inteligente. É para levar este telegrama a Barreiras.
!
RESSABIADOS e temerosos, os habitantes retomavam ao Duro. Dona Benedita
Fernandes chegou e ficou muito triste com o jardim. Tudo esturricado, tudo morto. Nunca
em toda a sua existência sentira uma sensação tão aguda de abandono, de fim de tudo.
Da janela, convocou pessoas para replantar as roseiras, os craveiros. Queria ver flores
logo.
Também Argemiro Félix, Moisés Melo, Alexandre, umas pessoas pobres
reocuparam suas casas e voltaram a suas ocupações.
Os Melos é que permaneciam ausentes, na Grota, onde diziam pululavam
jagunços e facínoras. Era gente vinda de São Marcelo, Formosa e Santa Rita do Rio
Preto. Ali estavam prontos para atacar a vila a qualquer instante, talvez naquela mesma
noite, quem sabe?
!
75
No casarão de Dona Benedita contavam casos de Roberto Dorado, Abílio
Batata, o assalto de Pedro Afonso, o ataque de Porto Nacional. Falavam de Enéias, a
família dele trucidade por jagunços, a mulher grávida defendendo a barriga donde tiraram
o menino vivo.
Meio mês de espera. Afinal chegou o soldado de Barreiras com a resposta do
presidente do Estado: concordava com a demissão de ímbaúba. O Juiz Carvalho
indicasse outro nome.
— Ofície ao Intendente de Natividade, Chaves. Convide-o exercer as funções de
promotor de justiça.
De Duro a Natividade são 25 léguas que o cavaleiro vence em dez dias debaixo da
chuvarada, esbarrando com rios cheios ei estradas apagadas pelo aguaceiro.
— Capaz do intendente não aceitar... — comentavam no casarão de Dona
Benedita.
— Ah, aceita, ele não aprova esses desmandos dos Melos não.
— Diz que Artur Melo enviou portador pedindo ao intendente para não aceitar a
comissão.
— Quem contou isso?
— Quem contou? Quem contou foi...
Com pouco, pelas estradas enlameadas partiam posítivos levando cartas de
Vicente Lemes, Valério Ferreira, Argemiro Felix e outros. Pediam aos amigos que
animassem o intendente a aceitar a Promotoria. Era preciso continuar o inquérito que já
estava ficando velho, com o povo descrente de algum resultado positivo.
— Mas é um absurdo! Tem alguém que dê crédito? – É que estava correndo boato
de que o Juiz Carvalho iria recrutar o povo da região para servir como soldado na defesa
da vila,
— Recrutar só as pessoas? Meu marido tem certeza que vão requisitar tudo
quanto é mantimento do povo da roça. Vai ser um deus-nos-acuda!
Com isso, ninguém trazia mantimentos para o abastecimento da cidade e do
pessoal da comissão. Na vila, novas casas apareceram fechadas. Os donos tinham
fugido. A velha Chiquinha, o velho Albininho, Maria Coxa, o pedreiro, uns pobres, foram de
arribada. Nunca mais botavam os pés nessa terra infeliz. Fugiam da fome, fugiam do
recrutamento.
Vicente Lemes, Valério Ferreira, Argemiro Félix, os homens de maior prestígio
tiveram que tomar seus animais e ir de sítio em sí-
!
76
tio, de fazenda em fazenda, de retiro em retiro avisando que aquilo não passava de boato
e ardil para atrapalhar o serviço do Juiz Carvalho: — O pessoal não tivesse receio e
permanecesse em paz.
— Viva o intendente! Aceitou o cargo — gritaram em casa de Dona Benedita. —
Novamente portador seguia para Barreiras, a fim de telegrafar ao Presidente do Estado,
indicando o nome do novo promotoi a ser nomeado.
Nos quartéis, Carvalho determinou uma disciplina férrea: exercícios diários,
trabalho de cavacão de trincheiras para o lado da Grota, sentinelas dobradas em tomo da
vila. Diariamente patrulhas percorriam as imediações, perseguindo grupos de jagunços
que igualmente faziam serviço de ligações. Apesar, porém, dessa atividade, o fuxico entre
a soldadesca e os oficiais era uma sarna: — Cafubira baiana, quanto mais coça mais
dana!
Um dia, Gabriel apareceu baboso, cambaleando, o cabelo caído na cara:
S’embora, pessoale. Isso aqui e o cu do mundo.
— Bamo, uai — responderam outros soldados também encachaçados. Mendes de
Assis meteu-os no tronco e deu uma batida na vila, apreendendo os garrafões de restilo.
Aí, foi o jogo. Tão logo saiu o pagamento da etapa do primeiro mês, já havia
soldado sem um real, queixando-se ao comandante:
— É uma quadrilha, meu comandante. Uma quadrilha para tomar o dinheiro da
gente...
Peba, Mão Pelada e mais alguns foram trancafiados no tronco velho do sobradão,
mas a quadrilha só deixou mesmo de funcionar depois que o dinheiro acabou. No
segundo mês, a coletoria não tinha renda, o numerário deveria vir de Goiás. Mas quando?
A jogatina cessou e em seu lugar surgiu a leitura de jornais muito atrasados,
chegados de Goiás.
— Leia aí pra nós, Seu Ferreirinha — pediam os soldados.
— Então, escuta. — E Ferreirinha lia a notícia estampada na folha: — A gripe
espanhola grassava na Capital, vitimando centenas de pessoas. O governo estadual
tomava providências, determinando o isolamento dos enfermos. Também estava
organizado um serviço de saúde para impedir que pessoas saiam de Goiás e vão
contaminar outros centros urbanos.
Adiante, vinham os nomes dos mortos. Era gente conhecida
!
!
77
dos soldados, até alguns parentes. Lugar pequeno, coma aparentadas na sua quase
totalidade, a notícia da morte alarmava e entristecia o pessoal. Muitos estavam chorando
e lamentando a perda do amigo. O tísico também se aproximou e com sua cara
encaveirada ficou ouvindo a citação dos nomes.
Mané Vitô e Tonhá conversavam: — Tou ficando é cansado. Tomara que esse juiz
chama a gente logo, que eu quero é amarelar o pé desse tal de Coronel Pedro Melo. Eu
vou é logo na cabeceira.
— Mas o bicho tem gente por trás escorando.
— Que nada. A gente passa a brasa, o governo prende uns dias, adispois vem a
recompensa, só. Sou puta nova o quê!
Carvalho também leu os jornais e achou que era perigoso que a gripe espanhola
atingisse os soldados. Estava ali uma oportunidade para tomar uma medida contra os
fuxicos eos boatos. A mulherada de soldado era a maior causa de rusgas, queixas,
boatos e fuxicos. Ia valer-se do perigo da peste e mandá-las para um sítio distante da
cidade quase uma légua. Seria uma maneira de estancar aquela fonte de inquietação.
!
AS NOTÍCIAS não transpiravam, trancadas debaixo de sete chaves. O que se sabia era
que o processo corria a galope. Nacasa de Cavalho o povo formigava, o lampião de
querosene aceso até noite velha, os escrivães enchendo folhas e folhas de papel almaçal
a chegada do novo promotor, o processo corria em segredo de justiça, as autoridades
trabalhando dia e noite, ouvindo testemunhas, fazendo acareações, realizando
diligências, intimando mais e mais pessoas.
Certo dia, a casa do Coronel Pedro Melo, que estava fechada amanheceu aberta.
— Será que o coronel está aí?
— Não. Foi a polícia que mandou abrir para dar busca.
Por fim, esclareceu-se. Nela estava arranchado o Doutor Leite Ribeiro, aquele
advogado terrível que botara o pobre Juíz Hermínio Lobato no cabresto. No mesmo dia,
de noite, Leite Ribeiro foi visitar o Juiz Carvalho, visita de cordialidade.
— O senhor compreende, Doutor Carvalho, por aqui são tão raros os bacharéis,
como nós, que me apresso em vir bater umm papinho com o colega...
!
78
Os oficiais estavam presentes e nenhuma alusão se fez aos Melos, ao inquérito
ou à política. ”Que será que esse excomungado veio fazer?” — perguntavam em casa de
Dona Benedita.
Nas noites seguintes, lá estava Leite Ribeiro em palestra, tão cordial, falando de
tudo, menos do inquérito. Também Carvalho se precavia. Não perguntava o motivo da
estada do colega, afastava qualquer alusão à comissão.
Mas uma noite, Leite Ribeiro se valeu de uma deixa e ponderou que Carvalho
estava sendo mais realista do que o rei, que o caso do Duro era um simples caso de
família. Os políticos é que pretendiam tirar proveito da situação.
Carvalho protestou: — Que caso de família, Doutor Leite! Caso de coação de
autoridades constituídas, de sedição, isto sim.
— Não sejamos trágicos — retrucou o advogado displicentemente, dando ao
incidente proporções ridículas. — O senhor não conhece o sertão. Isto aqui está na era
patriarcal, em pleno período bíblico. O patriarca Pedro Melo puxou as orelhas ao sobrinho
Vicente Lemes e o sobrinho se rebelou contra o corretivo. Nada mais, nada menos do que
um problema doméstico.
— O senhor é quem está torcendo os fatos, Doutor Leite. Vicente não é o sobrinho.
É o coletor estadual.
O advogado prosseguia manhoso:
— Não sou advogado da questão, não tenho interesse algum, devo grandes
favores ao Doutor João Alves de Castro, mas pode estar certo que há muita exploração
em tomo do caso. Olhe, Senhor Juiz, para início de conversa, vamos indagar: quem
chefiava o assalto ao Cartório?
— De acordo com todas as informações foi Artur Melo com ajuda do pai! —
Carvalho estranhava demais uma pergunta daquela. Artur mesmo nunca escondeu sua
chefia no assalto!
— Ah, ah — bradava de seu tamborete o advogado. — Vejam como distorcem a
verdade! Quem chefiava o assalto, meritíssimo, não foi Artur nem seu pai; foram os
irmãos Chapadenses, Seu Juiz, para vingar o irmão. — Nesse ponto, abaixando a voz e
achegando-se do ouvido do juiz segredou-lhe: — Vossa Excelência sabe quem são os
Chapadenses? Uns facínoras, uns celerados. Ir contra os Chapadenses seria crassa
tolice. Então Artur entrou no meio da turba, para evitar mal maior. Compreende Vossa
Excelência? Para evitar que pessoas morressem, Artur tomou a dianteira e exi-
!
79
!
giu a reforma do processo, ou seja: sua feitura, logo... Leite Ribeiro tirou o lenço
perfumado, limpou a escuma dos cantos da boca e ajeitou a gravata.
Carvalho balançava a cabeça. Se compreendia! Compreendia de sobra. Como os
Chapadenses viviam foragidos, era muito interessante atirar sobre os ombros deles a
culpa de Artur Melo. Golpe inteligente de advogado, que Carvalho logo percebeu. Por
isso, redargüiu:
— Se o Coronel Artur provar isso, é com o maior prazer que eu o isento de culpa.
Entretanto, bem difícil será a Artur negar que ali nas barbas da Comissão matinha
homens armados para coagir o pronunciamento da justiça, para cercear o livre exercício
das autoridades.
Leite Ribeiro afirmava que o juiz estava com prevenção. Os Melos eram gente
cordata. Ele podia afirmar que os Melos queriam um acordo: Carvalho desse sua palavra
de que os pronunciaria, e a João Rocha, e eles dispersariam os cabras imediatamente.
Por trás de sua mesa, Carvalho ria:
— Não, meu distinto colega. Os termos do acordo tèm que ser outros: primeiro, os
Melos dispersassem os jagunços, depois conversariam sobre as possibilidades de
impronúncia. De antemão posso dizer que a impronúncia é muito viável, muito viável --
obtemperou o juiz.
No outro dia cedo, Leite Ribeiro e sua comitiva deixaram a vila. O povo perguntava
curioso qual havia sido o motivo da visita, mas ninguém sabia informar. O que diziam era
que, a menina que Maria Pequena criava tinha apanhado barriga e era de soldado. Maria
Pequena botava a mão na cabeça:
— Filho alheio, brasa no seio, comadre Januária.
— Por que que a senhora não procura o juiz, Dona Maria? Ele é homem do direito,
talvez possa valer à senhora.
O diabo, porém, que a tal ”menina” tinha seus trinta anos bem criados e curtidos.
Como lá diziam, tinha dez de nascimento e vinte de gamela. Vivia por ali fazendo rendas
de bilro, refinando açúcar e torrando café, sem que nenhum homem se interasse por suas
graças, pois que ela as possuía. Agora, no fim, via a pobrezinha tão desprezada,
enxergava seus encantos, dizia-lhe belas coisas aos ouvidos e lhe deixava um filho no
bucho. Pelo po-
!
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voado Maria Pequena formulava seus lamentos, mas o processo ocupava demais as
atenções.
— A coisa está fedendo a chifre queimado! — exclamavam em casa de Dona
Benedita. No varandão sempre cheio de gente comentavam que o juiz mandou intimar
Doutor Herculano Lima, genro de Artur, e Anastácia, filha de Pedro Melo, para deporem e
que eles não atenderam à intimação. Diziam que o juiz planejava enviar um grupo de
soldados à Grota para trazer as testemunhas recalcitrantes. O Tenente Mendes de Assis,
diziam, separava nos quartéis os melhores soldados para essa diligência.
— Será que o juiz tem coragem? — perguntava Ferreira. — Olha lá que a Grota é
uma fortaleza, com mais jagunços do que soldados do juiz.
Moisés contava que o juiz ia à Grota para buscar o processo de inventário da viúva
de Clemente Chapadense.
— Que processo de inventário, que nada! O que o juiz quer é pegar o Imbaúba que
agora é gente de Artur e anda ensinando manhas para eles.
Cresceu tanto o diz-que-diz que Carvalho mandou chamar alguns cidadãos em seu
gabinete:
— Então, Seu Moisés, estive sabendo que o senhor anda por aí espalhando
boatos, não é assim?
— Eu, Senhor Doutor? Eu não.
— Sim senhor, é o senhor mesmo, Seu Moisés.
— Deve de ser engano, Seu Juiz. Sou homem que vivo metido só’com meu
trabalho. Isso é mentira de algum inimigo.
— Matias, traga aí do quarto o Malaquias — ordenava o juiz. Ao chegar, o juiz
perguntava: — Então, Seu Malaquias, que foi que o senhor ouviu da boca do Senhor
Moisés de Melo,’esse homem que está na sua frente?
— Ele falou assim pra mim que o senhor ia na Grota, mode trazer o processo de
inventário da viúva e que tava até juntando soldado.
— Está ouvindo, Seu Moisés? Está ouvindo como não é intriga? Agora o senhor vai
para sua casa e não me tome a soltar boatos. Não fique falando coisas de que não tenha
absoluta certeza. Veja lá como se porta de hoje em diante, hem!
A seguir ordenava ao Matias que recolhesse o Malaquias ao
!
81
quarto e mandasse entrar no gabinete outro boateiro para repetir a cena.
Com isso, os cochichos desapareciam por alguns dias. Voltava à bailaa o caso de
Maria Pequena. A mulherzinhata tanto mexeu, tanto gemeu e chorou, que um dia Mendes
de Assis mandou formar todo o destacamento. Maria Pequena e a menina passaram em
revista os soldados, tentando identificar o Dom Juan. Debalde! Por uma hora a menina foi
e veio por entre as filas de soldados perfilados, examinado cara, bigode por bigode, corpo
por corpo.
— Pudera! É tudo dum jeitinho só — disse depois a menina para a madrinha Maria
Pequena.
!
LONGAS, longas e silenciosas, as noites do Duro pareciam não ter fim. Os dias, apesar
da pasmaceira, eram cheios com o trabalho. Mas as noites! Os sapos coaxavam, a chuva
chiava na saroba, os grilos trilavam e Carvalho não dormia.
Sobre a mesa de trabalho estavam os autos do processo de inquérito, onde os
depoimentos, as provas indicavam a culpabilidade dos Melos. Por que então não
decretava a prisão deles? – Perguntava-se Carvalho. Não estavam eles ali ao alcance da
mão a poucos quilômetros de seu gabinete?
Na cama, Carvalho virava-se e revirava, sem encontrar jeito de dormir, de
acomodar-se, como se o diabo daquela cama fosse de espinhos, de cacos de vidro. Que
falta sentia da esposa, de sua companhia, de seus carinhos. Seria uma pessoa com quem
conversar, com quem trocar idéias, com quem falar de amor. Que saudade de seu corpo!
Ali, bem que o promotor lhe falara de umas tantas mulheres com as quais não
seria difícil uma noitada de amor. Entretanto, não queria complicações. Lugar pequeno,
logo a notícia corria e ia acabar em amolação. Tinha a esposa, achava que devia ter
fidelidade e, sobretudo, era preciso guardar as conveniências.
Contudo, quem sabe se poderia conservar segredo? O promotor até lhe mostrara alguma.
Pareceu bonita, viva, ardente. No vestido malfeito vislumbrou uma cintura fina, umas
ancas forte, grandes nádegas. Seria pulga? Seria percevejo? Amanhã iria mandar o
Matias que examinasse direito a cama. Havia umas picadelas.
!
82
Lá fora, a chuva chiava, uma chuva igual e sem pressa, os sapos roncando. Na
verdade as provas estavam nos autos, os indiciados ali pertinho, no sítio da Grota, mas o
diabo é que a Grota era uma fortaleza cheia de homens armados e municiados. Se
tentasse atacar a Grota, a polícia seria derrotada, sua missão fracassaria, seria a perda
da confiança de Totó Caiado, seria a perda do lugar de desembargador, de deputado
federal.
Carvalho se viu novamente metido na sua comarca pobre, esquecido, com os filhos
atrasados e brutos, as filhas empencadas de meninos catarrentos, anêmicos e mal
vestidos. Carvalho revirava-se para lá e para cá. E a mulher de que lhe falou o promotor?
Apagava-se, não despertava nele o mesmo desejo de há pouco.
Sobre um caixote, na cabeceira da cama, empilhavam-se, mudos, os maçudos
livros de direito. Não tinham serventia naquele momento, em que o juiz necessitava não
de letras, mas de uma coisa que os tratados não ensinavam, de algo imponderável que
nem os mais cultos e eficientes professores transmitem aos alunos. Necessitava de
tretas, de muita treta para enfraquecer a Grota, para dispersar os jagunços dos Melos ou
ludibriá-los.
Um animal tosava o capim do Largo, na noite cega e molhada, num ritmo soturno:
— crou, crou, crou. O mesmo ritmo com que as fontes do juiz latejavam de ansiedade e
de desespero. Enfraquecer a Grota era o único recurso. Mas seria a Grota, de fato, tão
forte? Carvalho duvidava. O povo do lugar era muito fantasioso, era muito ingênuo,
receava demasiadamente os Melos, dando a tudo o que era deles um aspecto
assombroso! Ah, se pudesse ir à Grota examinar a força dos Melos! Se estivessem
fracos, a polícia atacaria; se notasse que estavam fortes, ali mesmo faria um acordo com
Artur Melo!
Fora, o diabo do animal parara de pastar e urrava, como se estivesse com
garrotilho, longos e dolorosos acessos de tosse.
Estava tudo muito certo, mas como se apresentar na Grota? Os Melos não o
deixariam entrar... Por cima, acordo? Nas bases propostas por Leite Ribeiro era
impossível.
O animal gemia. Era um cavalo, que vira no dia anterior, com uma coleira de
sabugos queimados, como simpatia contra o garrotilho. Amplas ancas. Mulher ardente —
dissera o promotor.
Súbito, num repelão, Carvalho sentou-se na cama: e o inventário de Clemente
Chapadense? Não estaria ele em poder dos Me-
!
83
leos? Sim. Estava. É sob a alegação de buscá-lo,podiaexaminar a Grota, certificar-se da
força dos Melos.
Na solidão do quarto, Carvalho sorria: -- Essa minha cachola! Nunca falha!
Confiante, acalmava-se, para trocar planos. Iria à Grota para busca e apreensão do
inventário. Seria uma diligência. Se ali percebesse que de fatos Melos estavam fortes,
faria um acordo com Artur Melo. Faria o acordo na base da proposta do Doutor Leite
Ribeiro. Justamente. No momento, rememorou aproposta e não lhe pareceu apior:
Carvalho impronunciaria Artur Melo e o pai, no caso de eles dispersarem os jagunços e
comparecerem a juízo.
Lá fora, a chuva cessava, e uma viração forte soprava, fazendo gemer as baneiras
e mamoeiros do do quintal. Carvalho abriu a janela para refrescar a cabeça que
escaldava. Estrelas brilhavam no céu, onde asnuvens eram manchadas esgarçadas. O
juíz complementava o plano: uma vez que os Melos dispersem os jjagunços, enfraquece a
fortaleza, a polícia prenderá Artur Melo e o pai, levando-os incontinenti para Goiás.
Aquele era o plano. Agora era executá-lo. O principal era ter coragem, era ter
ânimo para enfrentar os Melos com esse plano de deslealdade e de traição. Requeria
muita habilidade para realizá-lo. Maisque habilidade: arte.
Pela cabeça de Carvalho veio a lenbrança do teatrismo escolar de sua cidade.
Mestre Otacílio repetia a propósito de tudo: o teatro é a vida. Naquele instante Carvalho
percebia a grandeza de tal afirmativa tão trivial e tão simples. Tinha que representar seu
papel muito bem, sob pena de perder a oportunidade de melhorar de vida, de fugir ao
pântano sufocante do sertão, sob pena de acabar como um Doutor Hermínio Loato,
ingênuo e incapaz. Antevendo os horrores do sertão, sentiu que não tinha tempo a perder.
Foi à varanda e sacudiu levemente o ordenança Matias. Que fosse chamar o Alferes
Severo. Mas não acorde os demais oficiais... é segredo, hem!
Rapidamente os animais chagaram dos pastos, foram arreados e antes das cinco
horas da madrugada, antes que o dia clareasse,o juíz Carvalho, o Alferes Severo, o
escrivão Chaves e o ordenança Matias deixavam a vila e se dirigiam para a Grota.
Saindo, o juíz Carvalho,ordenou com rispedez:
-- Olhe lá! Nós estamos dormindo. Eu, o Alferes Severo, e es-
!!
84
crivão Chaves e o Cabo Matias. Não diga a ninguém — mas a ninguém mesmo — que
nós saímos. Olhe lá -- recomendou mais uma vez ao cozinheiro Alexandre. — Num
carece de ter susto, Seu Doutor.
!
EM DEZEMBRO o dia acorda cedo. As chuvas já tinham caído abundantemente e o chão
era só verdor. Pela estrada pedrenta, quatro cavaleiros marchavam quietos. Entre eles, o
Juiz Carvalho. Ia em diligência à Grota, fazer busca e apreensão dos processos
subtraídos por Artur Melo ao Cartório.
Os cascos ferrados de novo estalavam nas pedras. As plantas do mato e do campo
floresciam e perfumavam a madrugada na qual os pássaros já cantavam e os insetos
começavam a zumbir. Ninguém conversava, cada qual metido com seus próprios
pensamentos. Ir à Grota era empreitada perigosa. Que haveria no fundo daqueles
socavões?
O juiz imaginava. Logo que chegasse, intimaria Artur Melo a entregar-lhe o
processo de inventário da viúva. Se fosse obedecido, muito bem: se não fosse, paciência!
O que Carvalho pretendia era tomar pulso da verdadeira situação dos Melos, saber
se estavam mais fortes ou mais fracos do que a polícia. O plano estava firmado: se os
Melos estivessem fracos, era voltar, reunir a tropa, atacar o reduto e prender os
indiciados; se estivessem fortes, aí Carvalho teria que manobrar, obter um acordo,
conseguir um meio de enfraquecer a Grota. O juiz confiava na sua inteligência, na sua
habilidade, relembrando as palavras de mestre Otacílio: o teatro é a vida.
Pelas pedras, os cascos recém-ferrados dos cavalos estalavam. Em cada grota,
agora, murmurava um filete d’água. Na baixada, a névoa quase encobria os buritis que
retremiam na manhã os penachos de um verdor severo. Carvalho sabia que estava
enfrentando perigo. Grota era uma fortaleza cheia de homens valentes, violentos e
acostumados a dobrar as autoridades que até ali tinham ido com incumbência de apurar
fatos.
O soldado Carajá contara a Carvalho. Carajá tinha esse apelido por descender
dessa tribo indígena. Seu trabalho era vigiar a Grota. com seu faro de animal do mato,
com sua sutileza de andar, com sua capacidade de ocultar-se e confundir com paus e
pedras, desde há muito Carajá vivia pombeando a Grota. Certa vez
!
85
chegou a entrar dentro do curral da fazenda e espiar os cômodos. Viu muita arma,
cunhetes e cunhetes de balas, muita gente pelo engenho e oficina de farinha, muita negra
lidando na cozinha. Vira o velho Coronel Pedro Melo com sua barbaça branca trançando
uns laços de cabresto.
Uns cavalos deram o alarma. Pegaram a bufar, a correr pelo curral, relinchando e
escavando o chão, como fazem quando pressentem onça. Em dois pulos Carajá ganhou
um vale e, cachorros pegaram a latir e farejar seu rastro, já estava longe no alto da serra,
de onde ainda avistou gente batendo os arredores do sítio.
Por isso, Carvalho sabia que corria perigo. Não se enganava, nem Carajá o
enganara. A prova estava ali. De um lado e de outro da estrada viam-se trincheiras
abertas, por onde surgiam cabeças de homens e canos de carabina. O sol nascendo fez
brilhar alguma coisa no viso da serra. Era um cano de Comblain, daquelas espingardas
brunidas que Pedro Melo possuía. Por trás da Comblain alguma coisa alvacenta de
agitava.
— Olha lá a barba do velho — disse Severo.
As trincheiras e tocaias principiavam desde um quarto de légua da vila, desde o
cruzeiro das almas.
— Cachorrada! — xingou Severo. — É uma afronta!
Desciam a serra, entravam no aclive que levava à fazenda. Severo disse para o
ar:
— Com jeito que o pessoal foi pego de surpresa, com todo aparato de defesa...
Alferes Severo queria com isso fazer crer que aquela história de que havia espiões no
meio da polícia era apenas maledicência. Carvalho, porém, acreditava na existência de
espiões de Artur e por isso respondeu prontamente: — Penso o contrário.
Justamente o contrário. Parece que estão de sobreaviso, exibindo o poderio...
Nesse momento, os animais transpunham as grotas do declive que levava à
fazenda, o Cabo abria a porteira do curral. Pelas portas e janelas aparecia gente que a
seguir desaparecia. Dezenas de cachorros avançavam latindo:
— Passa, cachorro. Sai, bocanegra! — Pessoas que saíam à porta da casa para
receber os chegantes enxotavam os cães. Artur Melo em pessoa e outros receberam o
juiz e seu séquito, introduziram na sala e seguiram-se as apresentações.
!
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— Aqui, meu genro, Doutor Herculano Lima, médico, formado pela Faculdade
do Salvador; este é o rico proprietário Joaquim Alves Leandro.
Carvalho também se apresentou e aos demais, assentando-se todos pelos bancos
e tamboretes. A seguir, levantando-se, o juiz se dirigiu a Artur Melo, dizendo que ali
estavam para proceder a busca e apreensão do processo de inventário que Artur
subtraíra ao Cartório.
Ante o inesperado, Artur amarelou, mas logo protestou: — Não aceito a intimação...
O processo corre irregularmente... Nós estamos cerceados em nosso direito de defesa
e... e... e o processo não está em meu poder. — Alinhava tantos argumentos que o juiz
notou que Artur escondia a verdade, que procurava naquela abundância de argumentos
antes convencer a si do que ao interlocutor.
Também pálido, Carvalho constatava: — Não havia no processo qualquer
irregularidade; as citações, as notificações tinham sido feitas com observância da lei; os
Melos não se defendiam porque não queriam.
— Nós, nós... — Uma breve altercação se estabeleceu. Mais gente surgiu de
dentro da casa. Carvalho terminou por dominar a situação, afirmando teatralmente, com
sua maneira categoria de falar:
— Estou aqui para apurar a verdade dos fatos. No cumprimento do meu dever,
enfrento até a morte! O senhor me franqueie seus cômodos para busca do processo.
Artur Melo baqueou. Percebeu que Carvalho ali estava para o que desse e viesse.
Como diziam, Carvalho tinha coragem e não temia a luta. Quem é que tinha topete para
dar busca na Grota, ainda mais sozinho! Artur percebia que o juiz não estava ali para
cumprir um dever funcional. Ele podia ter cometido a diligência ao oficial de justiça.
Carvalho ali estava, principalmente, para mostrar a Artur e a seu povo que não temia
ninguém e que no cumprimento do dever enfrentaria até o diabo.
Artur vacilava. Sabia que a força de Carvalho era pequena para enfrentar a Grota,
mas, que diabo! Se se atrevia a vir até ali, deveria contar com alguma garantia! Não
estaria Artur enganado sobre o efetivo da tropa do Duro? Não estava enganado. O que
podia haver era que o juiz esperasse tropas de reforço da Capital... Mas também isso não
era verdade. Emílio Póvoa, Senador Gon-
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zaga Jaime não avisaram nada... Artur vacilava. Inteligente e sagaz, sabia recuar quando
nisso havia conveniência. Por isso, mudou de tom:
— Embora reconheça as nulidades do inquérito, Senhor juiz como chefe político,
como ex-deputado, respeito as leis eas autoridades constituídas. Compreendo e respeito
sua missão e sua função de juiz.
Respondeu-lhe prontamente Carvalho, no mesmo tom de quem rasgasse seda,
mas com energia: — Confiado nisso foi que vim aqui, Senhor Deputado. Fiz ouvido
mouco a todas as notícias correntes sobre sua fazenda. Vim à Grota porque confiava nos
senhores. Os senhores não podem ser uns chefes de jagunços.
Na sala entrou o Coronel Pedro Melo e com ele uma certa inquietação. Era pouco
mais alto do que o filho, enxuto de carnes, mas robusto, com uma vasta barba branca que
lhe vinha até o peito. Estava meio magro. A úlcera do estômago voltara a roer-lhes os
bofes. Foi com muita dificuldade que a filha Anastácia e o
Genro Tozão o demoveram de entrar na sala armado com a Comblain, como viera da
trincheira. Contudo, ainda veio de esporas, da cabeça aos pés, o chapéu de couro na
cabeça e a taca pendente da munheca... Chegou, postou-se entre o filho e o juiz,
dizendo entre resfôlegos:
—Doutor Carvalho... pela fisionomia vejo... tratar-se de homem de caráter... e
animado... — Em seguida, como o filho lhe dirigisse determinado olhar, o velho afastou-se
e assentou-se num tamborete forrado de couro de jaguatirica. De pé, Artun afirmava de
maneira decisiva que não possuía o inventário. Os autos
estavam na posse da viúva, Dona Rita Chapadense.
— Se é assim... —Carvalho fez um gesto, como a dizer que ia tomar outra
deliberação, mas Artur o atalhou:
— Contudo, para demonstrar minha atenção ao Meretíssimo Juiz, para
testemunhar-lhe meu desejo de cooperação, vou mandar buscar o processo.
Carvalho não se deixou enlear pela lisonja. Pedia a Artur lhe dissesse em quanto
tempo se comprometia a entregar os autos.
— Daqui a duas horas. — Assim dizendo, o Melo corria os olhos pela sala. Nas
portas e janelas amontoavam-se homens. Dezenas e dezenas de sertanejos mulatos,
negros, louros, foscos, vestidos
!
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de algodão tecido em casa, pé no chão ou de alpercatas, chapéu de couro na cabeça,
armados de rifle, ou simples garrucha e punhal. Artur dirigiu-se a um deles, trocou
algumas palavras e o bicho saiu, tomou de um cavalo, bateu a porteira. Artur voltou a
ocupar o assento, o juiz dirigiu-lhe a palavra e a palestra pegou a animar-se, pegou a ficar
mais viva, num tom cordial de visita.
— Por que é que você não deixa o terreno das armas e da violência, Coronel
Artur? Você é advogado, parlamentar, jornalista, você sabe que a violência e a truculência
não levam a bom termo.
— Mas nós não podemos confiar no governo! — retrucou Artur. — Ele coloca os
cargos públicos em mãos de nossos adversários, para nos perseguir...
— Entendo que não há essa intenção. Os funcionários são parentes seus, gente
indicada por vocês mesmos.
— Sim senhor. Nos sentimentos sem garantia. Para defender minha vida, tenho
que manter em armas mais de cem rapazes — fez um gesto no rumo das portas e janelas
por onde os cabras já se agachavam, pitando e cuspindo.
— E é já que vamos ter pra mais de trezentos no coice da repetição, com a graça
de minha mãe Maria Santíssima — disse de lá o velho Pedro, tocando o chapéu com a
pontinha do dedo encardido. Carvalho os interrompeu com uma pergunta:
— Qual é o fato que mostra não ter o governo dado garantias aos senhores?
— Ih, são tantos, tantos!
— Cite apenas um, coronel — insistia Cavalho, mas Artur prosseguia:
— Sabemos de fonte limpa que o senhor, Seu Juiz, recebeu instruções do
Desembargador João Alves de Castro para nos perseguir.
Novamente a voz clara, de nítido acento piauiense, do velho Pedro Melo se
ergueu:
— Nós sabemos de tudo. Ainda que a gente esteja coberto de razões, o senhor vai
querer meter a gente na cadeia... Rá! Nós sabemos de tudo. Nós não somos bestas não...
Carvalho formalizou-se:
— Coronel, se não compreendesse que a paixão o está cegando, eu repelia suas
palavras como insultosas à minha toga! — Havia
!
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tragédia na voz de Carvalho. Os Melos, também eles metidos a cavalheiros, a inflexíveis,
também os Melos se impressionaram com a teatralidade do juiz, que afirmava
dogmaticamente.
— Saibam que sou um juiz. Estou aqui não para perseguir ou fazer injustiça. Aqui
estou para apurar a verdade. Se apurar que o Desembargador João Alves errou, podem
estar certos, ou o condenarei. —Fez-se uma pequena pausa.
—Posso ser castigado mas condenarei.
As palavras de Carvalho eram ditas com tal firmeza, com tal solenidade, que
comoveram os homens. Carvalho completou:
— Já disse e meus atos são o penhor; no cumprimento do meu dever enfrento a
própria morte. E enfrento sorrindo, satisfeito!
O silêncio caiu. Ninguém falava. Carvalho sentiu que a seuspróprios ouvidos as
palavras soavam bem. Ele mesmo estava emocionado com as próprias palavras. Alferes
Severo tinha cada olho do tamanho de uma laranja, a boca muito aberta. Nunca vira um
juiz tão furioso, tão grandioso na sua ira. Carvalho sentiu que caíra do goto daquela gente
que gostava desse negócio de “palavra de honra”, ”dever cumprido”, ”enfrentar a própria
morte’ “derramar sangue”. Carvalho também gostava disso.
A cada instante Artur Melo se convencia de que Carvalho ali estava porque assim
achava que devera proceder. Estava ali por coragem, estava ali por deferência a eles
Melos. Tanto era assim que não mandou o oficial de justiça. Veio em pessoa. Era uma
honra, por sem dúvida. Então não saberia o juiz que a Grota era uma fortaleza, com mais
gente e mais armas do que o destacamento
policial do Duro?
Por trás de tudo havia alguma coisa que Artur não entendia. Novamente voltava a
tomar corpo a idéia de um acordo. De há muito vinha teimando com o pai que melhor
seria fazer um acordo com Carvalho, pois aquele juiz não era graça não. Agora, naquele
momento, isto lhe voltava à cabeça. A luta estava saindo cara. Havia já meses que
mantinham homens em armas, sem nada produzirem. Os sítios estavam parados, os
vaqueiros e camaradas fugiam diariamente, alguns até levando reses. Não produziam
rapadura, nem açúcar, nem farinha, nem coisa alguma. Nem roça viam plantado. Estavam
comprando mantimento, numa região em que ninguém produzia o bastante para vender.
Era gasto e mais gasto com arma de fogo, munição, mantimento!
!
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Para agravar, na Grota eles estavam praticamente prisioneiros. A polícia
mantinha, no diário, piquetes pelos arredores, impedindo a saída e a entrada de gente e
de coisas. Por mais de uma vez tinha havido escaramuças de parte a parte. Se Artur Melo
quisesse recuar para a fronteira da Bahia, para entrar em contato com os boiadeiros
amigos e com os amigos baianos, a polícia não permitia. A polícia podia não tomar a
Grota, mas quem podia garantir que o diabo do Carvalho já não houvesse solicitado e
exigido reforços de Goiás?
Como vinha matutando desde muito, Artur caçava um jeito de entrar em acordo
com Carvalho. Diria que estava de pé a proposta feita pelo Doutor Leite Ribeiro. Aceitava
dispersar os cabras e uma vez dispersos, comparecer a juízo para defender-se. Alegaria
que o assalto ao Cartório fora promovido pelos Chapadenses. A condição era que o juiz
impronunciasse a ele, ao pai e ao compadre João Rocha.
De seu lugar Artur nem ouvia o que dizia o juiz, absorvido em suas cogitações. É
que havia uma particularidade que o juiz não saberia jamais.
Embora prometesse a Carvalho dispersar os rapazes, Artur não os dispersaria. Ai, é que
estava busílis. Levaria os cabras para o Açude, fazenda situada mais para a fronteira da
Bahia, onde teria liberdade de movimento, onde poderia entrar em contato com os amigos
de Barreiras, onde teria tempo de prevenir-se em caso de um ataque da polícia.
Os planos de Artur estavam bem delineados: enviava os rapazes para o Açude e
apresentava-se a juízo. Se Carvalho não cumprisse o trato, se Carvalho o pronunciasse
ou prendesse os cabras atacariam a vila. Seu plano era esse e era um plano sem
merma. Naquele momento Artur se resolveu. Tinha que
Propô-lo a Carvalho e tinha que executá-loantes que pudesse chegar reforços para o juiz.
!
NO SEU ENFÁTICO linguajar de arrazoado, Carvalho pontificava:
-- Ademais, cumpre ponderar que o Doutor João Alves de Castronão é homem desse
feitio. Antes de presidente, é um magistrado, um homem para quem o direito está com
quem o tem. Seria incapaz de me transmitir ordens de per seguição, não somente porque
não é de seu estofo normal, mas também porque sabe que jus-
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!
!
tiça de seu Estado não se presta a oprimir e esbulhar. Eu aconselharia a Vossa Senhoria que que
se defendessem, que fizessem as provas que lhes são garantidas, para o próprio bem da justiça.
O velho Coronel Pedro Melo, que até ali tudo ouvia em silêncio, sem compreender quese
nada, levantou-se de seu tamburete. O vulto grosseiro, ossudo, com a grande banha branca, a
roupa de couro de catingueiro, a cabeleira desgrenhada e maltratada, seus gesos estabanados,
era simplesmente impressionante. Caminhou para o escrivão Chaves. A figura jovem do escrivão,
seu ar sério, seu semblante acolhedor parece que comoveram o velho, que estendeu a pesada
mão calejada e encarquihada pelos anos, pousando-a no ombro do rapaz:
-- Moço, mecê é nosso conterrâneo, olhe pela nossa causa.
Era tão ingênuo o pedido do velho, que o moço sentiu-se atrapalhado. Que é que podia
fazer o pobre escrivão pelo todo-poderoso Melo? A ele é que cabia defender-se, comparecer a
juízo, constituir advogado, arrolar testemunhas. O jovem sorriu!
-- Nada depende mim, coronel. Sou uma máquina. O senhor deve ter confiança nas
autoridades, no governo.
Mas por baixo da barbaça, quem ria era o velho Coronel PedroMelo. Ria da hipocrisia do
escrivão. Ou seria ingenuidade dele? Confiar em autoridades, ele que sempre as manipulou a seu
gosdo! Ele que sempre usou do poder da autoridadepara oprimir, para extorquir dinheiro e bens,
para esmagar consciências, para empedernir no jaguncismo homens simples como Resto-de-
Onça ou Mulato! Pedro Melo ria, pensando como confiar em juiz, se todos eles eram Hermínio
Lobato. O velho abraçou o escrivão, esfregou nele a barbaça branca.
-- Vosmicê é tão novinho, meu conterrâneo!
-- Vocês aceitam cerveja? Senhor juiz, aceita? – perguntava risonho o Doutor Herculano
Lima.
-- Como não! Uma cervejinha fresca nunca faz mal a ninguém – chalaceou Carvalho.
-- Traga, doutor. Pode mandar trazer – disse Artur ao genro que dentro em pouco voltava
acompanhado de um homem com as garrafas. Uma pretinha nova, os olhos limpos e muito
abertos,no corpo uma camisa de algodão grosseiro espetada pelos peitinhos, trazia pesados
copos de vidro numa salva de prata cheia de arabescos, ramos e gravações.
!
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!
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!
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A bebida espumou transbordante nos copos. A conversa tomou um calor cordial. Doutor
Herculano dizia que conhecia o Espírito Santo. Quando estudante de medicina no
Salvador fora numa caravana esportiva. Doutor Herculano era um homem bonito, fino de
trato, a barbicha curta repartida ao meio. Era médico e deveria brevemente ir para
Barreiras, onde montaria consultório. Aliás, dessa cidade era seu pai e a família toda,
gente rica e culta, ligada aos Melos pelo comércio.
Carvalho chupitava a cerveja e pensava. Pelo que via, Grota era uma fortaleza e os
Melos uma gente danada. Até aquele momento Carvalho não acreditava em que o
pessoal dos Melos fosse mais numeroso e melhor armado do que a polícia, mas agora
não tinha dúvida. Suicídio um ataque à Grota. Além de menos numerosos, os soldados
eram homens fracos, de moral abatida, armados de Comblains estragadas, com munição
velha e imprestável na sua maior parte. E os oficiais? Eram os piores. Viviam brigando
entre si, cada qual disposto a trair e infelicitar o companheiro, na disputa das promoções e
das vantagens, homens medrosos por lhes faltar conhecimento do papel de policial;
covardes por só confiarem na superioridade que lhes dava a arma na cintura; venais por
saberem que os donos das funções públicas, os políticos, não se interessavam por ordem
ou por justiça, se não por Melos capazes de resguardar maior ou menor número de votos.
Carvalho tomava ali a deliberação de não sair sem ter feito um acordo, na base da
proposta Leite Ribeiro. O que Carvalho não podia admitir era um fracasso de sua missão.
Estava ficando velho, precisava tirar o pé da miséria. Não podia perder a confiança de
João Alves de Castro. Se vencesse, talvez até conseguisse eleger-se deputado federal, ir
para o Rio de Janeiro, rever os parentes, os amigos do Espírito Santo. No momento,
olhando a espuma que subia, subia e começava a transbordar o copo, Carvalho estudava
um caminho para aproximar-se desses sagazes, esquives sertanejos que repudiavam a
aproximação.
— Meritíssimo, o senhor gosta de cavalos?
Carvalho levantou os olhos da espuma do copo e viu diante de si o vulto de Artur
Melo. A barba curta alourada, os olhos pardos e vivíssimos, o nariz de gente sagaz. De tal
maneira estava Carvalho entretido com seus pensamentos, que ficou sem compreender:
!
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— Cavalos?
Antes de qualquer outra resposta, Artur já o levava pelo braço por um quarto
lateral, cuja porta cerrou discretamente, e chegando a uma janela aberta sobre o curral,
mostrou um belo cavalo arreado, na sombra de um telheiro. Animal belíssimo, de fato Mas
Artur nada falava sobre cavalos. com olhos brilhantes perguntava:
— O senhor quer saber porque eu não deixo o terreno das armas? — Olhou
fixamente no mais profundo dos olhos de Carvalho e prosseguiu: — Posso deixar esse
terreno, mas em troca dele que é que o senhor me oferece?
O juiz sentiu que o coração parou de bater, para depois socar com uma força
descomunal cá na goela, nas têmporas; sentiu os músculos vibrarem como se ouvisse a
confissão de um imenso amor, de um amor há muito acalentado e vivido e sofrido e
sonhado. Sorveu novo gole, mostrou uma calma longe de possuir, respondeu:
— Muito fácil. Disperse seus homens, compareça a juízo... Ponha em execução o
plano do Doutor Leite Ribeiro... Não se lembra dele? — Displicentemente levou o copo
novamente aos lábios para um sorvo longo, mais longo ainda porque sentia que talvez a
cerveja derramasse, se desapoiasse o copo dos lábios, tão forte era o tremor da mão.
”Estaria pálido? Haveria em seu rosto uma tensão denunciadora da emoção que lhe ia na
alma? Ai, mestre Otacílio. Do meu comportamento agora depende o futuro. Minha esposa
com suas carnes ainda belas e eu aqui suportando a solidão! Um dia que se passa, é
uma dia que não volta, na vida.”
— Como não. Estou lembrado. Eu disperso os cabras, compareco a juízo e você...
Você que fará, Senhor Juiz?
— Que farei eu? — repetiu Carvalho para ordenar a emoção, para conter o
baticum das têmporas, para controlar o raciocínio que sentia fugir.
— Pois é. Disperso meus rapazes, compareço perante o juiz... Que fará você, o
juiz, em troca de tudo isso? — A indagação de Artur era também ansiosa. Os olhos pardos
esvurmavam o semblante do juiz. Os traços fisionômicos contraíam-se em expectação.
Carvalho pousou o copo na janela para disfarçar o tremor das mãos e falava
pausadamente, como um idiota. Soltava uma palavra que era como um balão de ensaio;
solta a palavra, perscruta-
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va as reações que ela provocava nas feições sensíveis de Artur Melo, estudando,
analisando os sinais denunciàdores de alegria, tristeza, ou decepção, para depois
prosseguir na frase, até completar o pensamento: — tudo farei para... aceitar... sua
inocência... — A fisionomia de Artur denunciava calma, satisfação. O juiz continuou: —
Garanto que... — Carvalho levou o copo aos lábios, sorveu um gole.
De lá veio a voz aflita de Artur: — Impronunciará a mim, meu pai e o compadre
João Rocha...
— Sim — disse Carvalho correndo a língua pela escuma dos lábios: —
impronunciarei a você, a seu pai e João Rocha, desde que...
—.. os meus rapazes sejam dispersos... — completou de lá Artur Melo. O juiz
balançou a cabeça lentamente e rosnou:
— Isso mesmo. Desde que seus homens sejam dispersos. — Botou nesta
afirmativa o máximo de ênfase, um tom de resolução inabalável.
— Veja lá o que diz, Senhor Juiz!
— Palavra de honra! — afirmou Carvalho como se representasse um dramalhão no
teatrinho de Colatina, enquanto estendia a mão num gesto de lealdade.
— Palavra de homem! — repetiu Artur Melo com solenidade, domando a mão do
juiz. Os olhos de Artur encheram-se d’água subitamente, enquanto as mãos dos dois
homens se enlaçaram num aperto seco, tal o resultado de um tique nervoso, de uma
contração muscular. As mãos estavam pegajosas, úmidas de um suor grosso e
escorregadio. E ambos os homens retiraram a mão, tentando ocultar a emoção que havia
gerado aquele suor. A porta do quarto rangeu. Dela veio uma voz:
— O processo está aí, Seu Coronel Artur!
Artur fez um sinal para quem falou e juntamente com o juiz começaram a se dirigir
para a sala de onde tinham vindo. Carvalho repetia.
— Primeiro, dispersar os seus homens. Se não os dispersar, prenderei você, seu
pai ou João Richa na primeira oportunidade. Estejam onde estiverem.
Na sala, a prosa ia animada, com Severo contando casos para
!
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um lado, o escrivão palestrando com o velho. Ali chegando, Artur entregou a Carvalho o
processo de inventário, determinando o juiz ao escrivão que lavrasse o auto.
Logo depois a comitiva se despedia, montando os animais. Numa como
homenagem, Doutor Herculano Lima e Joaquim Leandro montaram também seus animais
e acompanharam a comitiva até a ladeira de entrada da Grota, quando então retomaram.
Na volta, não se viam mais homens na tocaia. O sol do meiodia, claro e rutilante,
tirava faíscas nas pedras e nas folhas reverdecidas, envolvendo tudo numa atmosfera de
caldeira: quente, úmido. Os grilos trilavam, saltando do capim alto à medida que os
cavalos suarentos e soprosos avançavam. Nuvens pesadas formavam-se ao norte,
crescendo sempre, prometendo aguaceiro para breve. As paisagens desdobravam-se de
uma beleza impossível. Vastos chapadões que se estendiam a modo de escadaria
gigantesca, descendo para as bandas do sudoeste, para os lados de Goiás. Longe, as
serras azulavam contomos, muito longe, a perder de vista. Ao veredas de buritis desciam
por entre capões de mato, com as palmeiras agitando os cocares — um pelotão de
guerreiros tapuios desfilando.
No chão areento de chapada aluviônica, o capim era glabro e duro, capim dos
gerais que o gado comia apenas quando novo.
Um bando de papagaios passou gritando até perder-se além. Vinham de alguma
roça de milho escondida no vale, onde ficavam as terras de cultura.
Súbito, a estrada sombreava, refrescando repentinamente. Era o vale coberto de
mato. Por baixo dos paus-d’óleo, aroeiras, cedros e jatobás a estrada passava sombria e
úmida. No fundo da mata, o pica-pau retinia seu bico, cutucando um toco.
A comitiva ia quieta. Só quem pairava era o Cabo Matias, contando ao escrivão
Chaves episódios das lutas de Boa Vista.
— Apois, num é que o Cabo Protásio foi-se chegando na trincheira, foi-se
chegando... Aí Joaquim Bala manobrou o rifle e meteu fogo. Protásio velho caiu em
ribinha dos pés, tal e qual um jenipapo maduro, e o tiroteio freveu com a escuma...
A história era tão atraente, a fala de Matias tão saborosamente viva, que Carvalho
e Alferes Severo esqueceram seus pensamentos e deixaram-se embalar pela narrativa do
Cabo. Mas nesse instante, saltando o córrego, os animais se retemperaram na água fria
!
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e galgaram o aclive oposto num chouto picado, entre gemidos. Aí Severo soltou a lingua:
— Parece que ficaram mais macios, num é, Seu Doutor? Carvalho se fez de
desentendido: — Quem? Quem foi? Severo que vinha atrás do juiz, apertou as esporas
no animal, desviou-se de uns ramos de lobeiras floridos de suas florzinhas apaixonadas
que pendiam sobre a estrada, e emparelhou-se com Carvalho:
— Estou dizendo que é capaz, que os Melos agora peguem o trote... botar
advogado, arrolar testemunhas...
Carvalho não respondeu logo. Os olhos duros perdidos nos longes, nas nuvens
grossas que se erguiam:
— Vamos ver... Talvez tenham suas razões... Nunca se sabe perfeitamente o que
um homem vai fazer...
No céu, as nuvens caminhavam. Grandes nuvens prenunciadoras de aguaceiro.
Das dobras do chão, de entre tufos do barnburral, surgiram as primeiras casinholas do
povoado. Nas portas, nas janelas, apontavam caras espantadas, admiradas de ver o juiz
chegar assim das bandas da Grota.
— Bem que eu dizia que o juiz não estava dormindo! — exclamava Mendes de
Assis, com ar desapontado e desenxabido. — Eu bem dizia que o Alexandre estava com
indaca... — Mendes de Assis ria sem graça. Por dentro, remoía-se. ”Carvalho confiara
mais em Severo do que nele, que era o comandante do destacamento. Ali havia dente-de-
coeiho! Bem que já estava desconfiado desse juiz. Será que Carvalho ia tirá-lo do
comando e colocar o Alferes Severo? Isso não podia ser. Ele era oficial de maior
graduação. No fundo do peito, Tenente Mendes de Assis sentia como um espinho dando
cutucões.
!
— COM ESSE JUIZ os Melos vão fumar um fumo forte! — exclavama Moisés. — Faça
idéia: ele mais o escrivão e um alferes entrar na Grota e trazer de lá o inventário! É
preciso ser macho! — Depois da reprimenda, Moisés passara a ter a cautela de só dizer
coisas favoráveis ao juiz.
— Agora esses Melos estão topando pela frente um juiz de verdade. Esse daí não
é nenhum Hermínio Lobato. Quero ver Resto-de-Onça derrubar garrucha no pé dele! —
Isso dizia Vicente
!
97
!
Lemes sentado no bancão da varanda de Dona Benedita, repletíssima de gente,
cada qual mais entusiasmado com as façanhas do Juiz Carvalho.
Até dona Benedita, de seu natural comedida e ponderada, inflamou-se:
— Deus é pai. Deus tarda mas num falta...
Servindo o café, Maria Pequena também se sentiu no dever de meter sua colher de
pau:
— Num vê que o doutor Carvalho trouxe uma capetinha fêmea na garrafa! — O
capeta-macho que o velho Melo conservava na garrafa, agora estava querendo unir-se à
capetinha-fêmea do juiz. E para conseguir isso, só fazia aquilo que o Juiz Carvalho
desejasse.
— Eu sei — dizia a anã, erguendo as sobrancelhas grossas, — eu sei. O capeta do
coronel está de cabeça inchada pela bichinha do juiz!
— E ninguém como a senhora para entender disso, hem, Dona Maria! Tem larga
experiência com a sobrinha... — pilheriou Júlio de Aquino, por trás das lentes fortes de
seus óculos de míope. O varandão inteiro estrondou uma gargalhada, percebendo a
alusão de Júlio.
Quem não estava achando muita graça na prosa era o velho Valério Ferreira. Os
louvores rasgados ao Juiz Carvalho o deixavam meio irritado. Não pelos louvores. Os
atos do Doutor Carvalho, até o momento pelo que se via, eram atos de homem honesto,
direito, corajoso; mas Valério teimava em aferrar-se numa eterna desconfiança para com
as autoridades. com o tempo, o juiz arregaçaria as manguinhas.
Na sua exaltação, Vicente Lemes continuava:
— Esse juiz não é o Doutor Hermínio não, minha gente!
— É cedo — gemeu Valério. — Não se sabe ao certo o que se passou na Grota...
A ponderação foi como falar em corda na casa de enforcado: provocou um silêncio
constrangedor, até que Vicente protestou:
— Ora, não se sabe o que se passou na Grota! Isso, isso... isso é uma... — Vicente
não atinava com a expressão adequada. — Isso é uma safadeza!
— Safadeza, não. Vamos devagar. Vocês parece que não ouvem os comentários,
não vêem as coisas!
!
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Vicente pulava de raiva: — São uns bandidos! Quem fala de Carvalho é porque é
gente de Artur. Você, Ferreira, não pode estar repetindo essas infâmias. Temos obrigação
moral de dar mão forte ao Juiz Carvalho.
Valério Ferreira erguia os ombros magros, tossia:
— Não sei, não sei. Nem sou eu que ando batendo caixa por aí. Andam
murmurando que Carvalho foi à Grota negociar um acordo...
— Que acordo? Eu não quero um acordo dessa marca nem desgraçado, — gritava
Vicente entre largos e abundantes gestos.
— Dizem que correu cerveja. O juiz foi recebido com pato assado...
Vicente nem procurava mais defender o Juiz Carvalho; fungava, chupitando seu
cigarrinho de palha, uma raiva danada da impertinência do Valério. Vontade até de
mandar um trem na cara dele.
Valério prosseguia:
— Para apreender um documento é lá preciso que o juiz vá em pessoa? Por cima,
tanto mistério, um segredo de quem está praticando malfeito... Nem o comandante do
destacamento ficou sabendo de nada!
— E você queria que o Juiz Carvalho mandasse avisar aos Melos que iria lá buscar
o processo? Queria que avisasse ao povo do Duro para que os espiões de Artur o
alertassem, não é assim? Tem muita graça!
O boato lavrava, mas Carvalho prosseguia na sua missão com uma inflexibilidade de
herói de romance, uma inexorabilidade de força da natureza, rompendo obstáculos,
transpondo barreiras.
Encerrava-se o inquérito. Imediatamente o juiz abria vistas à Promotoria que, antes
de esgotado o prazo, oferecia denúncia contra os implicados no assalto do Cartório.
Com pouco a notícia corria a vila, provocando maiores e mais ribombantes aplausos
dos inimigos dos Melos. Eram denunciados Artur Melo e o pai, Coronel Pedro
Albuquerque Melo; João Rocha, Hugo Melo, filho de Tozão; Olímpio Chapadense e
outros.
— Falou, machado! — exultava Vicente no varandão. — Vamos ver, Ferreira, que é
que você inventa de dizer ainda.
Moisés, porém, entrava correndo com notícia fresca: oficial de
!
99
!
!
justiça fora para a Grota notificar da denúncia os indiciados que lá se encontravam.
Vicente Lemes mal se continha, de alegria. Aquele juiz estava lhe enchendo as
medidas. Torrencialmente, incongruentemente, dizia:
— Quero só ver a cara desse tal Ferreira! Eu nunca me enganei. Desde a primeira
vez que vi Carvalho, pensei comigo: está aí um homem macho... — Nisso, deteve-se e se
dirigiu a Ferreira: — Que que é? Que que é? Ferreira, vem ouvir a última, Ferreira! — E
aos berros, contou ao velho juiz municipal: — O pessoal da Grota já está fugindo,
Ferreira!
Da ponta do banco em que estava, o velho nem lhe respondeu. Sabia que em tais
momentos de exaltação não há argumento que convença. Fechou a carranca e fez com a
mão espalmada um gesto que significava: — Espere!
Vicente admirava-se. Sim, senhor! O vice-rei do Norte, o tuntuqueba Artur Melo ia
fugindo, ia dispersando a jagunçama. A notícia era tão extraordinária que Vicente
principiou a perder a graça, começou a ponderar as palavras do velho Valério Ferreira.
Aquilo já estava passando. Seria possível que os Melos abandonassem a luta assim tão
de repente! Não teria algum fundamento aquela história de um acordo entre o juiz e os
Melos? Sei lá! Esse Valério Ferreira era uma boca excomungada!
TÁ FICANDO dôidio não, menino! — bradava o velho Melo ao filho Artur, no mais
puro sotaque piauiense. Quando ficava enfezado, repontava o vaqueiro rude, a linguagem
mudava:
— Tu tá ficando dôidio!
Logo que Carvalho deixou a Grota, Artur disse ao pai que o juiz não recuaria. Seria
melhor que comparecessem a juízo e se defendessem. Do contrário o processo correria à
revelia e eles seriam condenados.
— Dôidio, menino!
Artur prosseguiu: — Olha, meu pai, eu conversei com o Juiz Carvalho. Fizemos um
trato. Prometi dispersar meus rapazes e apresentar-me, com o senhor e João Rocha,
para nos defender. Nossa defesa será do jeito que o Doutor Leite Ribeiro estabeleceu.
Vamos dizer que acompanhamos o grupo chefiados por Calixto Cha-
!
100
padense, a fim de evitar que Valério e Vicente sofressem males maiores. O senhor
está compreendendo?
Pedro Melo tinha grande confiança, amor e admiração pelo filho. O que Artur fizesse
estava bem feito, mas ali, antes de porem em prática o tal acordo com o juiz, o velho
queria examinar as conveniências. Perguntou:
— E o juiz? Que foi que esse tal de Carvalho prometeu?
— Pois é. Aí Carvalho impronuncia a mim, ao senhor, a João Rocha. A culpa fica
tudo na cacunda de Calixto Chapadense e sua gente. Mas eles já andam foragidos
mesmo, pouco altera... Depois nós livramos eles...
O velho ficou quieto muito tempo, enrolando o cigarrão de palha, acendendo-o no
artifício. A seguir, tirou a primeira tragada abundante, soprou a fumaça cheirosa na própria
brasa do cigarro e balançou a cabeça de cabelo saranhado:
— Tu prometeu dispersar os rapazes? Tu prometeu ficar desguarnecido!
— Sim senhor. Eu prometi dispersar os rapazes, mas não vou cumprir isso não —
explicou Artur. — Sou lá algum besta para mandar meus rapazes embora! É baixo! vou é
mandar eles para o Açude. Ali o juiz vai pensar que eles foram dispersados...
A cara do velho, no pouco que se podia ver entremeio a barbaça e a cabeleira,
abriu-se num sorriso meloso, ingênuo, ao mesmo tempo que envolvia o filho no mais
terno olhar de admiração. Ele gostava das manhas de Artur, era um ponto que sentia de
alto valor no caráter do filho. Ele, Pedro, não sabia fingir, não sabia fazer uma treta como
aquela. Todavia ainda tinha restrições acerca do tal acordo.
— E tu vai se apresentar na frente desse juiz?
Artur não respondeu imediatamente. Estava aí uma coisa sobre a qual não se
definira totalmente. Por um momento analisou as conseqüências dessa apresentação e
achando que dela só poderia advir vantagens, respondeu:
— Sim, vamos nos apresentar e vamos nos defender. Pedro Melo tirava outras
densas baforadas, esmigalhando o morrão do cigarro contra a unha do polegar, grossa e
encardida. A fisionomia perdida no matagal da barba estava parada e morta, numa
neutralidade idiota. De repente, soltou o refrão:
— Tu tá dôidio. Nós temos cabras bastantes para derrotar esse
!
101
juizinho de merda, meu filho. Tu não vê que o excomungado veio cá! Ele veio pedir
menagem. Quem procura é porque está querendo topar. — O velho balançava a cabeça,
sacudia a barbaça, agitava a cabeleira saranhada que não via pente desde muito tempo:
— Vamo botar esse juizinho de merda pra correr.
— Isso é que não resolve, — acudiu o Doutor Herculano. — Será pior. Mesmo que
matemos todos os soldados, outros virão. Isso é loucura.
O velho estava pegando a ficar irado. Olhava longamente o médico bem trajado no
seu costume de linho branco, a barbicha bem aparada e até perfumada, as rnãos finas.
Dava uma cusparada ali para cima de um onceiro que dormitava no canto e soltava um
palavrão:
— Vocês são uns covardes!
Ninguém não dava ouvidos, mas ele prosseguia:
— Até você, meu filho, até você se agachando para João Alves! Tchá. — Soltava
outra cusparada para ali. — Olha ninguém num sai daqui para ir aonde está esse juiz não!
— O velho esbravejava furioso, batendo o pé no chão, dispersando em gestos a ira que
alagava a alma. — Então Artur não estava vendo que o inquérito era um mundéu? É só tu
botar o pé no povoado e o juiz manda te prender ocê, manda me prender eu, mete todo
mundo no tronco e remete nós pra Goiás, para as unhas de Totó Caiado! Tá todo mundo
dôidio!
O silêncio, um silêncio respeitosamente feudal, caiu em riba dos homens. Pedro era
a suprema autoridade. Artur jamais se levantava contra sua vontade. Diante da aparente
submissão, o velho recuperou em parte a serenidade, mas prosseguiu:
— Artur, meu filho, tu não aprende! Nossa força é aqui, cuma a força de Totó Caiado
é lá na Capital dele. Tu pode derrotar Totó mais Eugênio Jardim lá na Capital? Num pode
não, meu filho! Pois é. Aqui também eles não são homem de derrotar nós. — Bateu a
binga, bateu, ajeitou o fuzil, procurou uma quina mais viva da pedra, tomou a bater.
Ofereceram-lhe um fósforo, empurrou para lá. Soprou a binga, tomou a soprar, acendeu o
cigarrão, chupou novas baforadas, cuspinhou.
Ao redor, sentados nos toscos bancos, em tomo da ampla mesa de jantar da
varanda da Grota, Artur Melo, Doutor Hercula-
!
102
no Lima, Tozão e Joaquim Alves Leandro ouviam de cabeça baixa e trocavam
olhares significativos.
Soprando a fumaça, o velho arrematou:
— É só chegar no povoado e o juiz te mete ocê no tronco, manda prá Goiás... Isso é
mais certo do que existir Deus Nossinhor no céu.
— O senhor tem toda a razão, meu pai, mas tem uma coisa. A lei não permite ao juiz
prender assim sem mais nem menos. Os nossos códigos... — jeitosamente, Artur
procurava convencer o velho, ou antes: convencer o velho com a sabedoria, com a
citação de leis, de códigos, coisas que Pedro Melo não entendia direito e em cujo terreno
se deixava guiar pela sapiência do filho.
— Tchá! — o velho soltou a cusparada para cima do onceiro que dormia no canto da
sala. Parte do cuspo grosso se esparramou na poeira fina do chão. Era sinal de
tempestade:
— Lei, código... Teve lei pra Vigilato? Teve lei pra Norato? Lei é prá quem está de
riba. Pra quem está no chão é pau no vão das orelhas, home!
Humildemente Artur voltava à carga, para dizer que a situação deles na Grota era
insustentável. Eram a bem dizer uns prisioneiros, com uma despesa imensa para
sustentar os cabras, com o serviço das fazendas paralisado. Não produziam rapadura,
nem farinha, não estavam vendendo gado. Pelo contrário, os vaqueiros estavam fugindo,
deixando os retiros ao leu, quando não roubavam o rebanho.
— Se a gente quiser sair da Grota, Carvalho manda a polícia nos prender. E será
que podemos resistir ao cerco? Será que temos mais gente do que Carvalho? Para o
governo tanto faz ficar com os soldados aqui um dia ou um século: para nós é que a
demora traz complicação. Será que Carvalho não está esperando mais soldados? Aí não
vamos poder resistir!
O Doutor Herculano interferia, mas o velho não dava ouvidos. Tinha muita
consideração para com o marido de sua neta, respeitava-o muito, acatava seu saber, mas
em matéria de luta, de coragem, isso ele não entendia de jeito nenhum. No fundo, achava
que essa gente letrada eram uns pusilânimes, uns homens com jeito de mulher. Ora
bolas, passar água-de-cheiro na barba!
Talvez se João Rocha dissesse alguma coisa, ele atendia; mas compadre João
Rocha tinha a mesma opinião do velho. Na sua
!
103
voz pausada, mastigada, de quem possuísse a língua desapregada, João Rocha
pontificava:
— Meu compadre Pedro Melo, o quê que a gente deve de fazer é arreunir os
”meninos”. Por que que Artuzinho não vai atrás de Abílio Batata?
Para Rocha, a razão estava com Batata. Era como Batata dizia. Arreunir os cabras,
atacar a Capital de Goiás, tomar o governo e botar em riba desse governo o Doutor
Artuzinho.
— Se Artur quisesse era gritar que Batata vinha com mil homens acostumados com
a fumaça. Não viram como foi em Pedro Afonso, em São Marcelo? Abílio Batata, Roberto
Dorado, Abade tudo estava ali de grito, esperando um aceno do compadre Artur Melo.
ARTUR resolveu manobrar, enfrentar outra solução. O pai não concordava mesmo
em comparecer a juízo. Pelo trato, primeiro deveriam os Melos dispersar os homens em
armas. Nessas condições nada impedia a Artur transferir seus cabras para a fazenda
Açude. O juiz não ia saber dessa particularidade. Para ele, Artur estaria dispersando os
jagunços.
Açude era um ponto estratégico importante. Mais distante do Duro, mais na fronteira
com a Bahia, ali ficariam livres da vigilância policial, teriam liberdade de movimentos para
ligar-se com as demais fazendas, teriam maior capacidade de defesa, pois em caso de
ataque, para ir do Duro ao Açude a força gastaria no mínimo dois dias.
Para atacar o Açude, Carvalho teria que pedir reforços de Goiás, os quais
demorariam a chegar. Nesse meio tempo Artur poderia articular-se com Gonzaga Jaime,
Brás Abrantes, no Rio; com Antônio Balbino e outros em Barreiras. Aí João Alves ia ver a
cor da chita!
Era se valer do acordo. Em vez de dispersar os homens, recuá-los para o Açude.
com os cabras no Açude, Artur dava uma banana para Carvalho: não comparecia a juízo,
ia se articular com os bandos de Abílio Batata, Roberto Dorado, Abade e outros. Artur
sentia-se alegre. Afinal, uma atrapalhação veio melhorar as coisas. Melhorar muito.
!
104
— Quiá-quiá-quiá — ria-se Artur explicando o novo plano a Tozão, ao genro e a
Joaquim Alves Leandro. — Bem que o pai tinha razão. Agora teria oportunidade de lograr
o juiz. Carvalho deixaria os homens irem para o Açude na suposição de que ele, Artur, ia
apresentar-se e no fim ficaria chupando o dedo. Quiáquiá-quiá!
— Será que Carvalho vai na peta? — ponderou o médico alisando a barba bem
tratada, num gesto habitual. — Olhe lá que ele é sujeito de olho limpo, meu sogro.
Artur nem ouvia a objeção do genro. Sentia-se alegre com a solução que veio
unificar as opiniões de todos com a do velho e do compadre João Rocha. Se antes eles
estariam fortes, agora então é que não haveria o menor perigo de nada.
Artur deu as ordens e imediatamente os rapazes começaram a se mover, saindo em
magotes de 5 e 6, na maioria de a pé. Vendo o pessoal debandar, Tozão sentiu medo e
procurou Artur para saber se o juiz não ia querer impedir a dispersão dos rapazes. Tozão
receava e o temor punha-lhe o carão ainda mais comprido, dando cada chupão nos
dentes podres.
— Rá-rá-rá, — gargalhava Artur. — Carvalho não vai fazer coisa alguma. Isso faz
parte da combinação.
Por cima, havia o serviço secreto de Artur. Ele informava que na vila nenhum indício
havia de que a tropa tentaria impedir a dispersão. Pensando em tais coisas, Artur sentia
ternura pelo Sargento Alcides. Homem correto. Artur levava em alta conta a gratidão, a
fidelidade pessoal. Em sua memória apareceu aquele dia distante em que o Sargento
Alcides, simples soldado, chegou ao Duro com uma moça na garupa do cavalo. Vinham
fugindo.
Artur o livrara de morte certa, que os cunhados não eram flor de se cheirar. Agora o
sargento ajudava com informações secretas, colhidas junto ao juiz.
Artur ria, enquanto saía à procura do pai pela fazenda. Devia convencer o velho da
necessidade de recuar para o Açude. Pelos currais, pela estrada, Artur via o pessoal
saindo em grupos de 5, 6 , 4. Iria agora argumentar com o velho com um fato consumado.
Iria dizer-lhe que a Grota estava desguarnecida de jagunços e que era possível que
Carvalho atacasse a fazenda quando perdesse a esperança do comparecimento deles.
!
105

Ao ouvir isso, o velho exasperou-se: — Vocês estão dôidios varridos. Como é que
desguarnecem a Grota! Que gente mais perrengue hem Mulato!
Mulato era o homem de sua confiaça. Companheiro de caçadas, companheiro dos
tempos de viagem em burros para Barreiras, companheiro de muitos anos e em todas as
circunstâncias.
Mulato soltou sua risada sonora, mostrando os belos dentes apontados a faca:
— Pessoal de hoje em dia é tudo porrado, meu compadre.
Artur, porém, ali estava insistindo com o pai para ir para o Açude: - Sua teimosia vai
me sacrificar meu pai.
O velho ficou muito incomodado: — Eu vou sacrificar você meu filho? Em quê? Diga,
meu filho.
— Eu não arredo pé daqui sem o senhor... O senhor não querendo ir, a gente vai ter
que enfrentar os soldados de Carvalho.
— E tu tem medo dessa policinha, meu filho?
— Não, — disse prontamente Artur. — Ninguém tem medo de nada. Mas é que não
temos mais ninguém. Nossos homens já despachei eles tudo para o Açude.
— Tchá! — O velho soltou ali no chão uma de suas vastas cusparadas. A saliva
viscosa caiu no chão e se abriu em estrela. Algumas gotinhas envolveram-se no pó fino
do chão batido e saíram rolando como pequenas gotas de azougue. Artur prosseguiu:
— Veja tá fora.
No curral ia a azáfama da partida. Gente botando cangalhas e bruacas nos animais,
gente partindo em magotes. Os jagunços recuavam para o Açude, para onde já seguiram
o compadre João Rocha e Calixto Chapadense. Posteriormente seguiriam as mu lheres e
os homens não denunciados, como Tozão, Doutor Herculano Lima, Joaquim Alves
Leandro e outros. Com isso pretendia Artur mascarar a fuga.
— Mulato, — disse o velho, — meu filho está assustado. Lá na cidade ele ficou
desacostumado dessas coisas. Vamos aproveita para fazer uma caçada de capivara no
Açude. As bichas por lá devem de estar num assanhamento desgramado, com esse
inverno que tá para chegar com a lua- — Ele falava em caçada, de boca dura que era;
para não confessar a retirada que para ele tinha sabor de derrota.
Lá fora, o pessoal continuava debandando, obedecendo às or-
!
106
dens de Artur. Iriam para Açude, mais perto da fronteira da Bahia, mais perto de São
Marcelo, de Santa Rita do Rio Preto, onde assistiam os compadres Roberto Maroto, Abílio
Batata.
— Amehã de menhãzinha nós rompemos, Mulato. Pode preparar tua espingarda e
ajeitar os cachorros, — recomendou o velho entre duas cusparadas.
Artur ouviu e não gostou. Deviam partir logo. Pelo menos ele e o pai deveriam deixar
a Grota ainda naquele dia. Eles eram os mais visados e não deviam ficar sem muita gente
para garanti-los. Contudo, sentia-se sem forças para dobrar o velho. Foi a custo que
obteve sua aquiescência em partir. Se voltasse a falar no caso, o pai ia emburrar, ia levar
para o lado da covardia. Que ficasse mais aquela noite. Sargento Alcides nada avisou!
— SEU DOUTOR, pissuale tudo fugino. Sai aquela ternada levano caiguero pesado
de trem... carabina munta, bala munto... — era isso que informava na sua meia língua o
Soldado Carajá voltando da Grota, onde estivera em espionagem.
Carvalho debruçou-se mais sobre a mesa, procurando ocultar atrás da pilha de livro
o riso irreprimível. Artur tinha caído na esparrela com a maior ingenuidade. Deixasse-o
dispersar o povo calmamente. Quando houvesse saído mais da metade, faria a investida
contra a Grota. Supunha os Melos mais argutos, nunca esperara que fosse tão simples
armar uma cilada.
— Muito bem, Carajá. Agora vá chamar o promotor.
Era chegado o momento de o promotor pedir a prisão preventiva dos denunciados.
Estava mais do que comprovada a fuga. O promotor devia pedir a prisão preventiva
imediatamente. Não perder nem um minuto!
— Matias, ô Matias! — O ordenança bateu ali o seu pronto e o juiz interrogou: —
Carajá já foi chamar o promotor?
— Nhor, sim, Seu Juiz.
— É só, — disse Carvalho despachando o Cabo, E, a sós, passou a examinar as
providências que lhe cabia tomar. Decretada a prisão preventiva, era despachar a tropa
incontinenti para a Grota, para prender Artur e o pai. O oficial de justiça já havia
conversado sobre isso. Queria que a Força Policial na sua maioria o garantisse na
execução dessa diligência.
!
!
107
Era na manhã seguinte, impreterivelmente, que deveria ser feita a prisão. Só de
madrugada a polícia seria avisada da exigência do oficial de justiça. Existia espião no
meio da tropa. Quem seria? Carvalho ignorava, mas tinha certeza absoluta de sua
existência. Se avisasse a polícia de véspera, Artur e o pai escapariam.
Por isso, às duas horas, o juiz levaria pessoalmente a Mendes de Assis a ordem,
para prender Artur e Pedro Melo tão logo o dia clareasse.
Mendes de Assis! Esse Mendes de Assis não merecia confiança, mas infelizmente
não era possível. Tinha que obedecer à hierarquia militar.
Uma coisa, porém, no fundo do peito entristecia o Juiz Carvalho. Sentia que estava
cometendo uma traição. Estava traindo os Melos. Planejara isso, resolvera pôr em prática
essa traição, mas agora será que deveria trair? Dera a Artur sua palavra de que poderia
dispersar os homens; agora Artur os dispersara e ele se valia disso para mandar prendê-
los. Era um ato vil, era uma infâmia!
Procurou apaziguar a consciência. Aquilo era uma imposição do cargo. Com esse
ardil evitaria um choque armado com mortes para ambos os lados. Sua traição era um
meio imoral para atingir um fim humanitário e justo.
Mas esse raciocínio não convencia. Na verdade, o que havia era o seu interesse
pessoal. Mas, que diabo! ele também tinha direito de ter seu interesse. Precisava libertar-
se do sertão, precisava galgar a cadeira de desembargador, de presidente do Tribunal de
Justiça, talvez até Presidente do Estado, quem sabe? Afinal, usara de todos os recursos
legais. Os Melos não se apresentaram antes porque não quiseram. Alguém poderia
acusá-lo de haver praticado a menor transgressão legal? Jamais. Tudo que fizera e tudo
que ia fazer estava estribado na lei. Quem podia dizer que a polícia praticou absurdos?
Quem podia apontar a menor indisciplina?
Mas também ele tinha seus direitos. Havia cinco meses que estava naquela Sibéria,
longe de qualquer conforto, longe de qualquer carinho de mulher. Sobretudo longe da
mulher. Já não suportava. Bem que falavam de algumas mulheres com quem se poderiam
ter relações. O promotor que conhecia o povo da região já lhe falara de algumas. Mas
tinha medo, não podia confiar em ninguém. Botar tudo a perder por causa de uma mulher!
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108
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Ele estava certo. A decisão só podia ser aquela. Mandar prender o pessoal, levá-lo
para a Capital. Assim cumpriria a missão, conquistaria a confiança de Totó Caiado, talvez
fosse eleito deputado federal, iria rever o Rio, os parentes do Espírito Santo. E mulher de
soldado? Vira uma novinha, uma lindeza. Mas que bobagem, bobagem! Nada de sonhos,
nada de devaneios. Vamos botar o preto no branco. É voltar logo para casa, é terminar
esse inquérito, é prender logo essa gente. São uns truculentos, são uns verdadeiros
facínoras. ”Eu ouvi o que contaram deles, eu vi gente chorando por aí!”
— Boa tarde, Senhor Promotor. Pois é, o pessoal está fugindo, Seu Promotor! —
disse Carvalho ao ex-intendente de Natividade, que chegava. — Talvez tenha chegado o
momento de pedir a prisão preventiva, hem! Veja lá, Senhor Promotor. Isso é com o
senhor.
”Traição! Traição nada. Bem que gostaria de que as coisas acontecessem por forma
diferente. Mas o que fazer? A realidade é a realidade e não os nossos desejos!”
!
!
!
!
109

III

!
A prisão
ESTAVA QUERENDO amanhecer quando a Força chegou às imediações da Grota.
Mendes de Assis confabulou com os Alferes Severo e Xavier e começaram a distribuir os
soldados de modo a cercar a fazenda em todas as suas saídas.
O trabalho não era muito fácil porque poucas pessoas conheciam bem a topografia e
ainda havia o obstáculo do lusco-fusco, e a necessidade de não espantarem os cães e os
animais da fazenda. ”Ainda bem que não havia vigias”.
Na companhia de Mendes de Assis vinha o oficial de justiça com a ordem de prisão
preventiva decretada pelo juiz.
O céu principiava a pegar fogo para o nascente, onde havia nuvens. A estrela d’alva
minguava o brilho, empalidecia diante do sol que chegava. Já se podia ler uma carta.
Cinco horas talvez.
Ninguém no povoado ficara sabendo da expedição, que era para pegar o pessoal da
Grota desprevenido. O próprio Mendes de Assis recebeu a ordem para a diligência às
duas horas da manhã. Carvalho andava muito desconfiado de espiões de Artur no meio
da tropa.
O Duro ficara dormindo seu sono de inocência, enquanto sorrateiramente saía para
a diligência a quase totalidade da Força. No povoado ficaram os Alferes Enéias e Mariano
com mais umas dez praças, sem contar o tísico e outros doentes de gálico e maleita.
Tenente Mendes de Assis olhou o céu. Todo chamalotado de nuvens, com uns
borrados de sangue. A estrela d’alva, adeus, es-
!
112
trela d’alva. Era manhã quente, sem vento, pouco orvalho molhava os ramos. Um ou
outro grilo ainda grilava. Além um joão-de-barro começava a cantar, talvez ensinando os
filhotes. Os galos cantavam na fazenda, de onde vinham grunhir de porcos e mugidos de
reses. Para esse lado de cá, um trem gemia. Talvez inhuma, talvez mutum. Capaz que
fosse mutum mesmo.
Vozes, reunir de esporas, freios e ferros, batidos de cascos nas pedras, assopro de
um animal. Os soldados de Mendes de Assis que se dispunham em linha, deitados no
chão, como os outros de Severo e Xavier, — os soldados encolheram-se, ajeitaram-se
melhor. Um magote de gente ia passando. Era gente da Grota que fugia. As vozes
afastaram-se, um cheiro bom de cavalo suado no ar da manhã.
Ao romper do sol, deveriam bater na porta da casa e intimar o pessoal a entregar-se.
Contudo, se mesmo antes do romper do sol algum indiciado quisesse fugir, deveria ser
preso. O oficial de justiça os conhecia a todos e os apontaria a Mendes de Assis. Para
isso, cercavam a saída principal, aquela que levava ao Açude, como muito bem informava
Carajá. O tenente relanceou os olhos e sentiu-se reconfortado. A seu lado estavam
Daniezinho, Salustiano Dantas, Mane Vitô, Gabriel, Adonias, Sargento Odilon. Eram
bichos que não vacilavam em matar qualquer um. Não foi à toa que o tenente os colocou
ali perto
O tropel apagou-se, apagaram-se as vozes. Bem-te-vis cantavam nos altos angicos.
No fundo, no mato, o trem continuava gemendo. Sargento Odilon achava que era um
mutum. Ali tinha disparate. Ainda quando vinham, indo na frente como batedor, por pouco
que Sargento Odilon não dava um tiro num mutum cuidando que era jagunço dos Melos.
Precisavam ter muito cuidado. Nada de atirar em bicho, que iria alarmar o pessoal e fazer
eles debandar. Nada também de atirar à toa. Antes de dar voz de prisão, ver bem se era
mesmo um dos denunciados. Era fácil: o velho tinha barba branca; Artur, tinha barba mais
curta, meia loura.
Com pouco, ruído de conversa, latido de cães, um nhambu piando tão perto, cavalos
bufando, soprando as ventas. Novamente a linha dos soldados se mexeu, confundiu-se
com o solo. Não havia sol, mas já era completamente claro. Os tropéis aprochegavam, as
vozes tinha hora que dava para entender. As armas manobraram cautelosamente. Tão de
leve, o estalo da mola imitou o que-
!
113
brar de um graveto, o estalar de um preá ou rato do mato. Os bem-te-vis cantavam e
cantavam pelos ramos.
!
*
!
Como havia combinado, o velho se levantou cedo, chamou Mulato e mandaram
pegar os animais no pastinho ao lado. Acordaram a preta Camila para lhes preparar café
e um prato de cuscuz, enquanto eles mesmos arreavam os animais.
Por esse tempo, um magote de cabras deixava a Grota. Eram, os derradeiros que ali
ficaram para os últimos demãos.
Atrelaram os cachorros, aprontaram as armas, tomaram as capas de chuva, que o
tempo tava mostrando água. Era como se partissem para uma caçada. Na Grota
permaneciam Aninha, Toz; e D’outor Herculano, estes últimos com as esposas; o próprio.
Artur deixaria a Grota mais tarde, ultimando os negócios. Talvez aguardando um aviso do
Sargento Alcides. Artur confiava no trato do juiz: a dispersão dos rapazes fazia parte do
combinado.
Os cães latiam satisfeitos, pulando e correndo, os cavalos sopravam e sacudiam o
pêlo, sorvendo o ar fino daquela manhã de inverno, com névoa esgarçada pelas grimpas
dos morros, cora a fumaça subindo o vale, onde resmungava o ribeirão. Pelos altos, o dia
vinha rompendo. Um bando de gralhas veio naquela bulha, e ficou gritando por sobre os
soldados.
Pedro Melo e Mulato transpunham o curral e ganhavam saída, para o Açude. A
mágoa apertava o coração do velho. Era triste, era humilhante, deixar sua fazenda
daquele jeito, como um fugitivo. Sobretudo, era revoltante ter que baixar o cangote para
aqueles preguiçosos do Vicente e do Valério montar. Eles que tinham feito aqueles
currais, aquelas casas, aqueles bicames! Mas não alterava choradeira.
— Se a gente for feliz, por esses oito ou dez dias a gente tá de volta, não é mesmo,
Mulato?
Logo que destribui o pessoal pelos pontos estratégicos, de modo a cercar a fazenda,
o Tenete Mendes de Assis percebeu ruídos
!
!
114
que vinham da casa. Já teriam atinado com o cerco? Mau, mau! Ali acordavam,
rachavam lenha, cavalos bufavam e pateavam, cachorros latiam e ganiam. Eram sinais de
que iria sair gente. Antes já saíra um magote e depois de sua partida tudo se aquietara.
Será que não restava mais ninguém na Grota. Ô coisa boa! Assim não teria que prender
nenhuma pessoa.
Era uma missão penosa aquela. Os Melos eram poderosos. Se Mendes de Assis os
prendesse, seria perseguido, perderia o posto, que Jaime e Bulhões não perdoavam. Era
um inferno.
O tenente tinha filhos e mulher para tratar. Afora o ordenado mensal, nada possuía.
De momento, o tenente se lembrou de muitos outros oficiais que perderam as patentes
porque cumpriram determinação legal. Mendes de Assis estava amolado desde que
recebera do Juiz Carvalho ordem para efetuar a prisão preventiva. Depois, de supetão.
Estava dormindo, de repente, a ordem do juiz de seguir imediatamente para a Grota,
àquela hora da madrugada. Missão dura!
O tenente fazia ali um protesto solene perante si mesmo: não aceitaria nunca mais
essas comissões no interior do Estado. Estava escarmentado. Doravante queria ficar no
comando da Força, na Capital, como faziam outros oficiais. Essas comissões só serviam
para desmoralizar oficiais e incompatibilizá-los com os políticos.
Sempre que uma comissão chegava a seu ponto difícil, Mendes de Assis fazia tal
promessa e depois esquecia. As comissões, afinal de contas, tinham seu lado bom.
Durante elas, Mendes de Assis se sentia um imperador, um todo-poderoso, com as
pessoas o bajulando receosas de prisão e espancamento, dando-lhe presentes caros. De
todas as comissões, a pior tinha sido aquela.
O desgraçado desse juiz mantinha a Força num regime de guerra, confinada nos
quartéis, com serviço de trincheiras, piquetes. Niguém podia fazer festas, nem jeito de
conseguir uma mulher para as necessidades do corpo eles tinham. Juiz dos diabos!
Mas seria a derradeira comissão. A esperança era a afirmação de Carvalho de que
talvez não houvesse mais ninguém na Grota. Gente havia, mas deviam ser aqueles que
haviam saído fazia pouco: capangas, camaradas.
Se assim fosse, Mendes de Assis não se indisporia com os Me-
!
115
los, nem descumpriria a ordem judicial. Os Melos era perigosos e poderosos. Não
eram os humildes enxadeiros que Mendes de Assis costumava prender e espancar e
matar, alegando resistência à ordem judicial. Atrás de Artur havia gente grossa: um
desembargador que mandava no Tribunal de Justiça do Estado: um general do Exército;
coronéis ricos e prestigiosos da Bahia. Mendes de Assis teve vontade de largar a
diligência, largar a espada e sair correndo pelo mundo afora. Estava prevendo tudo: ia
haver luta e ia morrer gente.
Novos ruídos vinham da fazenda. Vozes chamando porco e galinha.
— Cuche, cuche, cuche!
— Ti, ti, ti, pururu!
Parece até que vinha gente a cavalo pela estrada. Mendes de Assis procurou
ocultar-se o melhor que pode por trás de umas moitas de veludo e espinho-agulha. De
onde estava, o tenente via os soldados Daniezinho, Salustiano Dantas e Gabriel
agachados por trás das pedras, a Comblain em meia posição de tiro, tensos, como
perdigueiros em caçada.
Gabriel sentia um enjôo no estômago e um tremor dos diabos pelo corpo.
Ressoavam em seus ouvidos as palavras de Nestório e Mane Vitô. ”Quem matar os
Melos pode pegar uma cadeinha para tapear os paisanos, mas depois vai promovido... O
governo é inimigo dos Melos.” Gabriel nunca tinha estado num serviço assim perigoso.
Fazia pouco que estava na Força e tinha vergonha de parecer covarde. Daniezinho
também se sentia mal. O que ele sabia era que a Grota era uma trincheira inexpugnável e
dessa forma estava disposto a vender caro a sua vida. Já não era moço, tinha vivido
muito, agora queria sossego. Atiraria no primeiro que visse.
Agora, ouviam-se tropéus de animais, até o tinir das ferramentas nas pedras;
chegava-se a ouvir retalhos de conversa dos cavaleiros que davam para se entender.
Dois vultos surgiram na volta do caminho. Divisava-se bem: um dos vultos só podia ser o
velho Melo. A barba branca, a roupa de couro, a mulona melada muito alta. Era a maior
mula que existia por ali, presente de Abílio Batata. Atrás, também num cavalão graúdo,
vinha outro homem, vestido mais modestamente. Seria Resto-de-Onça, seria Mulato, se-
!
116
ria o compadre João Rocha? Mendes de Assis não conhecia. Estaria armado? Difícil
saber. Os ramos tapavam, também a manhã era meio escurosa, tudo incerto.
Um frio percorreu a espinha, retorceu-lhe os intestinos. Naturalmente que o velho
não podia passar.
A última esperança do tenente arrebentava como uma bolha de sabão. Só lhe
restava apegar-se com Deus e com os santos: Que o Divino Padre Eterno o ajudasse
naquele transe, que alumiasse e caminho e soprasse no seu entendimento uma solução.
Em sua imaginação beijou um crucifixo que trazia no bolso da túnica. Se estivesse
sozinho, prendia o que vinha atrás, com jeito de camarada; prendia ou matava, deixando
o velho fugir, sumir no mundo. Tão simples! Metia a bala no camarada e certamente e
velho abria o pala. O próprio velho depois confirmaria que fugira. Mas o diabo eram os
soldados que estavam ali a seu lado, já com as Comblains armadas. A esses Mendes de
Assis não podia enganar. E Carvalho? pensou o tenente. — Isso mesmo. Havia o Juiz
Carvalho. Se o velho escapulisse, Carvalho não deixaria a fuga como fato consumado.
Outro juiz se daria por satisfeito com a fuga; lavaria as mãos, iria embora dizendo que não
prendera os Melos porque tinham fugido. Com Carvalho, porém, o riscado era outro.
Mobilizaria toda a polícia para pegar os fugitivos e ainda processaria Mendes de Assis.
Podia até arrancar-lhe os galões, metê-lo na cadeia. E havia Enéias que ficara no
povoado. Enéias era inimigo jurado dos Melos.
Se Mendes de Assis deixasse o velho fugir, Enéias não perdoaria; denunciaria ao
Presidente do Estado. Enéias ingressara na polícia com o fito de vingar-se dos Melos que
apoiaram Abílio Batata no assalto de Pedro Afonso, de onde expulsou Enéias e sua
família.
Vindo de dentro da saroba, feito um bicho feroz, Severo apareceu por trás de
Mendes de Assis. Alferes Severo era cumpridor do dever. Recebeu ordem do juiz para
prender e prenderia mesmo, ainda que tudo levasse o diabo! Ali agora não tinha meu-pé-
me-dói: o velho seria preso, porque esta fora a ordem dada a Severo. O decreto judicial
estava na algibeira da túnica e pronto! O olhar de Severo fuzilava.
Era o tipo do homem que servia para lidar com o Juiz Carva-
!
117
lho: não pensava. Desde que lhe dessem uma ordem, ele a cupriria cegamente.
Ignorante, burro, violentíssimo, Severo só tinha uma qualidade: a coragem.
Mendes de Assis rememorava. Severo era simples sargento quando em Santa Cruz
prendeu um juiz na cadeia por vários dias. Até hoje Severo contava o causo com aquela
tenebrosa escassez de vocábulos: — Num vê que o diabo do juiz era mesmo que ve o
cão! Eu prendia, o j uiz soltava; tomava a prender, tomava a soltar. Aí perdi a paciência e
meti foi desavergonhado do juiz no xadrez.
Depois, foi para as bandas do Sudoeste. Severo foi prender um graúdo, diz que
houve resistência e o graúdo acabou morrendo. Severo foi metido na cadeia. Ali estava
quando um dia o cabo chegou contando:
— Seu Alferes, a cidade não tem juiz, não tem promotor, nem tem delegado, num
tem nem vigário, Seu Alferes.
Com a tarimba que tinha, Severo sabia que quando uma cidade ficava assim à
matroca era porque os graúdos pretendiam matar alguém.
— Pois é, meu Alferes. O que tem aí é muito parente do morto... Dizem que vão
matar o senhor.Acho bão o senhor fugir, meu Alferes!
— Passa pra cá o fuzil e as balas, Cabo!
— Seu Alferes, mas...
— Passa pra cá a arma, moleque perrengue, e vai-te embora, se não quiser morrer.
O cabo entregou-lhe a arma e as balas. Quando chegava a esta altura da narrativa,
Alferes Severo usava da seguinte chave de ouro: — Jacaré entrou na cadeia? Que
paisano nenhum num entrou não...
Naquele momento Severo observava Mendes de Assis, queria ver qual seria o seu
procedimento. Depois Severo contaria tudo a Carvalho. Mendes de Assis teve medo de
Severo. Era seu inimigo. Desejava tomar-lhe o lugar de comandante do destacamento,
contando com a simpatia do juiz. Alferes Severo já estava juntinho de Mendes de Assis e
lhe segredava ao ouvido que o barbaça era o velho Melo. Contra esse o juiz tinha
decretado prisão preventiva. O velho não podia escapar. — Alto. Estão presos!
!
118
Mal ouviu, o velho deu na rédea e a mulona revivou. Naquele tempo de capim novo, o
excesso d’água fazia os animais pesadões. Mas a mula era arraçoada no cocho, com
milho e rapadura. A bicha tirou um pulo e partiu feito uma bala, arrepiando caminho,
seguida de perto por Mulato, nego teso como o diabo.
Rompiam galhos de veludo e espinho-agulha, de marmelada e murici, saltavam
grotas, fugiam pelos lugares que conheciam tão perfeitamente. Aquele juiz era o capeta,
— pensava o velho. — Estava disposto a levá-los presos. Artur tinha se engando,
julgando enganar o diabo do juiz! Agora a situação era diferente daquela em que ocorreu
a morte de Vigilato. Eles estavam por debaixo. Artur fizera a besteira, confiando na
palavra de Carvalho. O juiz lhe armara uma arapuca.
A mulona corria, saltava vales, furava moitas de espinhos e taquaral, chegava em
frente ao curral, transpôs a traqueira num salto. Mas nisso afocinhou, atirando o velho
adiante.
Atrás, perseguindo-o, vinham os soldados. Vinham a pé e por isso se atrasaram.
Mulato pulou do cavalo e foi ajudar o velho a erguer-se do chão, mas o coronel Pedro
Melo quase não podia ter-se de pé. Machucara-se. Onde, não sabia. Um frio por dentro,
uma espécie de desmaio, mal-estar geral. Ele arrastava-se, Mulato o arrastava. Pularam
outra cerca, procuraram a porta da casa da fazenda. Iriam abrigar-se dentro de casa. Ali
teriam segurança.
Ouvindo o batuque dos galopes, batidos de paus, Artur achou que devia ser algum
portador que chegava. Saiu à porta do terreiro. Não viu nada. Ouviu foi o grito:
— Solados, soldados!
A voz era do pai. Num relance, viu soldados que chegavam pulando cercas,
entrando por entre as plantações. Artur retrocedeu, tomou de sua carabina de oito tiros e
já vinha saindo em socorro do pai, mas se deteve. Não compreendia direito. Seria engano
dos oficiais? Seria alguma confusão? Logo, entretanto, uma conclusão se fixou: o acordo
de Carvalho era uma cilada. Filho da puta! O juiz o traía, antes que ele traísse o juiz!
Um tiro estrondou no quintal. Tiro chocho. Um toque de corneta. A cachorrada
agora latia, latia, embarroava na acuação.
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Artur. Confiou no miserável desse juiz!” Prosseguindo na carreira, o velho se meteu no
canavial que havia no fundo da casa.
Entretanto, mal podia correr. Uma moleza danada, uma suadeira. Mulato a custo
avançava, carregando-o. Nos calcanhares vinha soldado.
Conhecedores de todos os meambros do quintal, o velho e Mulato metiam-se por
baixo de uma cuitezeira, ali por baixo de uma cacaueiro, ludibriando os perseguidores.
Por fim, os dois se meteram numa touceira viçosa de cana que crescia dentro de uma
grotinha funda e apertada, já no fim canavial. Ótimo esconderijo, Muito difícil de acharem
eles ali. Também o velho não agüentava mais, suava muito, a respiração opressa, como
que presa no fundo do peito.
Os Soldados Fabriciano e Freitas Machado que estavam postados ali no fundo do
canavial viram uns vultos bulindo na grota. A princípio cuidaram que era porco, quem sabe
cachorro?
Freitas Machado assuntou melhor e estranhou: — Uai, só, tá parecendo o velho.
Espia só!
Já Fabriciano dava um pulo, metendo a Comblain nos homens: — Estão presos.
Freitas Machado aproximou-se e tomou a Mauser do velho e ia receber a carabina
que lhe estendia Mulato, quando o canavial estralou. Como se um pé de vento ou um
bando de queixadas o atravessasse. Do meio do mato surgiram vários soldados.
Fabriciano e Freitas Machado tomaram socos e empurrões que os jogaram para longe.
— Não me mate — dizia o velho de mãos erguidas. Como respostas coronhadas
desceram-lhe na cabeça, prostando-o na terra fofa e úmida do canavial.
— Me acorde, meu filho. — Um tiro ecoou. O velho punha-se de quatro pés,
tentando levantar.
— Estou aqui, meu patrão — gritou Mulato, mas uma coronhada abriu-lhe o crânio.
Uma baioneta na ponta do cano da comblain meteu-se-lhe no peito, espetando-o no chão
podre. Daniel embebeu o refle no ventre do velho. Gabriel tirou um punhal e o socou no
ventre do homem caído.
— Toque aí o toque de vitória, — ordenou Adonias ao cometeiro Ferraz. — Na
manhã morna e mormacenta, de céu baixo, a
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corneta retinia seu som triunfal. Os cahorros latiram e vieram até onde estava o
corneíeíro. Ali, cheiraram o velho e Mulato e arrepiaram o cangote, pegando a acuação.
Na terra úmida do orvalho da noite, por entre folhas e húmus, a barbaça
esparramada no gibão de couro, na mão grossa a taça bem trançada. Os cachorros se
escoravam nas patas dianteiras e embarroavam, arrepiados e ferozes.
Adonias deu uma coronhada no bicho e o escorraçou para longe, para onde saiu
ganindo.
— Deixem os homens.’ Cerquem a casa! — As ordens vinham do Alferes Severo
que tomava a Mauser das mãos de Freitas Machado.
Havia uma agitação generalizada. Os tiros, o sangue, o toque de corneta
excitavam os homens, como acontece aos onceiros. Tomando sua Comblain pelo cano,
disse Adonias:
— Cobra a gente faz é desse jeito. Hum! — Macetou a cabeça do velho com o
coice da pesada arma e saiu com ela pingando sangue por entre as canas verdes que
tremulavam ao vento da manhã.
— Atenção, atenção! — De riba de um toco o Tenente Mendes de Assis vociferava:
— Vocês vão dizer que o velho e o camarada nos receberam à bala. Vão dizer que eles
resistiram à prisão.
Houve um momento de sossego entre os praças. E a voz repetia: — Quem não
disser isso, vai comer processo. Olha lá!
— Pra casa! — gritava Severo, empurrando os soldados com o cano da Mauser do
velho.

Aí apareceu o Soldado Tonhá. Largou a Comblain no chão, examinou ao redor, se


aproximou dos defuntos e pegou a revistar os bolsos deles. Mulato tinha uma faca
aparelhada de prata. Tonhá tirou e botou ela na cintura. Este não tinha mais nada. A
espora era vagabunda, no pé uma alpercata velha, o chapéu sebento e roto. Tonhá ouviu
passos, voltou-se. Chegavam o Soldado Guia-de-Cego e o Cabo Bernardino.
Num minuto, Guia-de-Cego passou a revistar o velho. E como o fazia com rapidez,
com coisa que tinha prática. Revirou-lhe as algibeiras, pegou um picuá onde encontrou
fumo, palha e artifício. Passou tudo para seu bolso. Tonhá tinha ódio. O velho podia
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ter mais coisas, o miserável do Guia-de-Cego limpava. No entanto, a preferência devia
ser sua. Chegara primeiro.
Guia-de-Cego pegou uma coisa brilhante, levou aos ouvidos.
— Será que é ouro? — indagou. Era um relógio. As mãos sujas de sangue
seguravam o objeto nos ouvidos.
Tonhá não se conteve mais. Avançou, afastou Guia-de-Cego, suspendeu o gibão
de couro do Coronel Pedro Melo e lhe meteu as mãos pela cintura, escarafunchando as
bolsas de um largo cinturão. Com pouco retirava uma das mãos trazendo um bolo de
papel. Eram tantas notas, que não se conteve: — Oh, que bolão!
— Isso num tá certo, gente. Vocês vão complicar os companheiros... Entre
assustado e nervoso Tonhá se virou para o lugar de onde vinha a voz. Reconheceu o
Cabo Bernardino.
— É mesmo, — dizia outra voz entre as moitas. Tonhá pensava no Sargento
Fuinho. A coisa começava a render. Fazia seis meses que esperava por essa
oportunidade. Outras viriam. Aquilo era apenas o começo. Bem que o Sargento Fuinho
lhe dizia. Em Boa Vista, muito soldado e muito oficial ficou podre de rico roubando
defuntos. Era só não dormir no ponto. Ele quase que perdia tudo!
!
O DURO ACORDAVA, como todos os dias. Os telhados baixos fumegando com o café da
manhã, meninos chorando por falta de leite, mulheres preparando cuscuz para a primeira
refeição. O sol não surgia porque a neblina era densa. De repente, a notícia tomou conta
de tudo: — O restante da Força ia seguir para a Grota, para reforçar o grosso da tropa,
que está lá desde a madrugada. Ficariam apenas o Alferes Mariano com meia dúzia de
praças para garantir o juiz.
Todo mundo perguntava e ninguém sabia informar. A notícia mais certa era de que
a polícia fora prender os Melos, eles resistiram, e o velho Pedro tinha sido morto. Agora
vieram chamar o restante da tropa.
— Então está havendo combate?
— Mataram só o velho?
— Pelo menos, foi o que me falaram.
— Pois eu soube que mataram todo o mundo, de mamando a caducando...
— Ah, não é possível!
!
123
Atravessando o Largo, lá se ia Enéias com o restante da Força para a Grota. Nas moitas
de assa-peixe e cansação da grotinha do Largo, as almas-de-gato com seus pios. Por
entre a neblina, uns relinchos de animais no cio.
O povoado estava mais triste ainda, as casas fechadas, recolhidas em mistério, o pessoal
raro deslizando mudo e temeroso, cochichando aqui e ali, completando com a imaginação
o que desconheciam.
Lá se iam os soldados num passo acelerado, sacudindo as armas, sacudindo as mochilas
de bala. Pelas moitas, as almas-de-gato piavam: — choó, choó, choó. As crianças nem
choravam, embora o cuscuz ainda custasse a ficar pronto.
MENDES DE ASSIS batia na porta da casa: — Abram a porta em nome da lei! — Num
requinte de delicadeza esperava que o sol doirasse a grimpa dos angicos da beira do
córrego, para então bater: — Abram a porta em nome da lei!
A porta se abriu e apareceu Tozão, com os grande braços balangando, o carão comprido
de mamão macho. Pediu que esperassem um tiquinho, até que as mulheres se
aprontassem mal e mal:
— Estavam se lavando nest’hora. — Deu dois daqueles chupões nos dentes cariados e
fechou a porta.
— Desculpa, — observou Severo. — Querem se preparar para resistir à bala. — Alferes
Xavier achava que era justo o pedido: — casa de família, cheia de senhoras. Por fim a
porta se abriu. Os soldados ficaram de fora, para não deixarem entrar ou sair ninguém e
os oficiais entraram.
Logo de cara Severo pegou algumas pessoas de armas na mão e mandou prendê-las,
ficando os homens numa sala e as mulheres em outra, vigiados por soldados. Já o
Tenente Xavier dava busca na casa, vasculhando os cômodos, subindo ao telhado,
revirando caixotes, armários, camas e colchões. Com prazo de uma hora, Tenente Xavier
voltava dizendo que nada encontrara. Havia um pouco de armas e munições, mas de
Artur nem rastro.
— Ninguém. — admirou-se Severo. — Procurou na tulha? — Xavier afirmava de pedra e
cal que revistara tudo e que ali dentro Artur não se achava.
O Tenente Mendes de Assis fez um gesto com as mãos e deu
!
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ao rosto a expressão de quem dizia: Está aí. Fugiu. Não posso fazer nada! — Mas Severo
não se conformava: Artur não estaria ali mais, ao tempo da prisão do velho, como queria o
Alferes Xavier?
— Ah, isso não. Artur estava aqui dentro, — teimava Severo. — Tanto estava que o velho
chamou por seu auxílio.
Ao lado, Carajá informava com toda a certeza, entre curtas frases:
— Carajá tem zóio vivo. Carajá num viu Artur fugi...
— Temos que encontrar ele, — dizia Severo.
— Mas ele não está — repetia Mendes de Assis, demonstrando propósito de abandonar a
busca do homem. Severo dava ordens para nova procura. Tinha consigo a ordem do juiz
e a cumpriria custasse o que custasse.
Por estas alturas, Enéias chegava com seus homens e, ciente da situação, também se
meteu na busca. Enéias não estava ali para cumprir mero dever militar, nem para roubar,
como o Soldado Tonhá. Enéias ali estava para derrotar os Melos, para destruí-los, para
acabar com eles e com seu parceiro Abílio Batata. Enéias ali estava para vingar a derrota
que Batata infligira a seu pessoal em Pedro Afonso, para vingar as mortes e os prejuízos
que Batata, com apoio dos Melos causara a seus parentes. Alferes Enéias foi lá dentro,
procurou o Cabo Odilon, mandou-o que reunisse quatro praças de coragem e fossem
bater os arredores. Levasse consigo Salustiano Dantas, Daniezinho, Nestório e Zé
Rodrigues. Enéias os conhecia bem.
— Não deixem uma furna, uma grota, uma moita de cambaúba sem exame!
Odilon velho ria mostrando os cacos de dentes, enquanto Enéias lhe segredava:
— É só ver, mete bala... O resto é comigo...
Odilon gritou pelos soldados e saiu estalando as alpercatas de couro cru. Botina num
serviço como aquele só servia para estorvar.
Mendes de Assis veio conversar com Enéias para dizer-lhe que Xavier não viu nem rastro
de Artur:.— Pra mim fugiu.
— Se fugiu, não vai longe. Atrás dele vai gente sacudida. — Aquele Sargento Odilon era
homem do tempo das lutas de Boa Vista e aquilo é que foi luta de verdade!
Mendes de Assis ergueu o quepe, cocou a cabeleira suada e
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aproveitou para tirar um tiquinho a perneira, pois um bicho o mordia dolorosamente na
perna. Só podia ser roduleiro que em princípio de águas não tem carrapato.
— Vamos lavrar o auto de resistência e oficiar ao juiz o resutado da diligência, — disse
Mendes de Assis mais num tom de consulta do que de ordem. Não parecia ser o
comandante.
Enéias não deu ouvidos. Fosse para o diabo aquele Mendes Assis. Era uma besta.
Interessava-lhe pegar Artur, isso sim. Não podia crer que ele houvesse fugido.
Enéias entrou pela casa e topou Xavier que ainda revirava um bruacas velhas no cômodo
dos arreios, ouvindo de sua boca que não encontrara ninguém.
Enéias não acreditava em Xavier, como Xavier não acreditava em Enéias. Aliás cada
oficial desconfiava do outro. Mendes de Assis não confiava em Severo, em quem via um
rival. Carvalho queria dar-lhe o comando. Enéias por seu lado era malvisto de todos que
enxergavam nele não um militar, mas um paisano fardonado na última hora, para saciar
seu desejo de vingança. Os sargentos Odilon e Alcides tinham ódio de Enéias, porque
obtivera sua nomeacão para o cargo de alferes; este cargo lhes devia pertencer por
direito ou por antigüidade. Afinal, estavam na polícia há muitos anos.
Sargento Odilon vinha das brigas de Boa Vista, isso fazia vinte e poucos anos. Tinham
bons serviços prestados ao governo e na hora da promoção, na hora de ganharem mais o
governo ia buscar gente de fora, só porque era protegido.
Mendes de Assis também todos desconfiavam dele. Diziam que era medroso, um vira-
folha. Em Xavier viam um sujeito ambicioneiro, capaz de vender até a alma. Ali mesmo
estava Enéias maliciando a atitude de Xavier e de Assis. Podiam ter qualidades mas eram
capazes de proteger os Melos. Xavier então estava esquisito, cheio de delicadezas com o
pessoal da Grota, com coisa que essa gente não era inimiga.
— Homem, eu também vou dar uma busca na casa, — disse Enéias.
— Vou mais o senhor, Seu Alferes. — Enéias olhou e reconheceu quem lhe oferecia
auxílio: o Sargento Alcides, que passou a dizer que conhecia a casa. Se alguém estivesse
escondido, só podia ser na tulha de farinha, mas era difícil esconder ali. Custoso
!
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qualquer pessoa meter-se dentro da farinha sem afogar-se. Contudo...
Enéias e o sargento foram para o cômodo da tulha. Prontamente o sargento marinhou
pelas tábuas, pediu lá de cima a espada do alferes e meteu-a torto e a direito na farinha.
No meio da farinha estava Artur Melo, para quem o sargento piscava o olho em sinal de
amizade. Artur estava de um lado e o sargento metia a espada do outro. Depois Artur
passava para o outro lado e o sargento metia a espada do lado contrário. Cá de baixo
Enéias orientava a caçada, e achando a espada curta, tomou uma Comblain, calou a
baioneta e mandou que o soldado chuchasse com ela a tulha. A arma metia-se na farinha
até topar o fundo da tulha.
Sargento Alcides suava de esforço e de sobressalto. E se Enéias resolvesse subir na
tulha? Nesse caso, o remédio extremo seria meter-lhe a baioneta e enterrá-lo ali na
farinha.
Sargento Alcides deixava de pensar nisso, para pensar no Alferes Xavier. Que diabo!
Xavier também revistara a tulha. Xavier certamente viu Artur dentro. Será que Xavier
também era espião? Pelo que sabia, Xavier tinha sido delegado especial, havia uns
quatro anos, ali no Duro e fora recolhido porque o denunciaram como sendo um
verdadeiro cabo de chicote dos Melos. Ali tinha marosca do Xavier!
— Chega, — gritou Enéias. — Aí tem ninguém não!
O sargento tomou alma nova e pulou de cima molhadinho de suor, o fôlego curto, numa
sopração de cachorro que correu veado. Enéias chegou a ignorar: — Sentindo alguma
coisa, só!
— Até agora sem comer nada, meu Alferes... desde as duas horas em pé...
Lá fora aprontavam para levar o cadáver do velho e de Mulato para a rua. Mendes de
Assis lavrara o auto de resistência, já oficiara ao juiz comunicando o resultado da
diligência e o juiz mandara levar os cadáveres para o auto de corpo de delito.
Enéias pediu permissão ao comandante. Iria juntar-se ao Sargento Odilon e a seus
soldados. Ah, Artur não escaparia! Outra ocasião tão propícia para forjar um auto de
resistência jamais encontraria. Se andasse ligeiro, quem sabe Artur não seria enterrado
de uma só vez com o pai e com Mulato?
!
127
O cavalo rompia distância e Enéias pensava. Certamente Artur dirigia-se para o
Açude. Ao Açude, porém, Enéias não ia só com um sargento e quatro praças. Açude
devia ter gente muito bem armada. João Rocha estava lá e a jagunçama de João Rocha
era a cabeleira da jagunçama. E Abílio Batata será que não estava tam bem lá? Homem,
nem a companhia inteira do Duro daria conta do Açude. Quem conhecia Batata e Roberto
Dorado era Enéias.
!
POR VOLTA das dez horas da manhã chegavam à Vila os corpos do Coronel Pedro Melo
e de Mulato. Vinham os dois numa só rede, misturando na morte o sangue.
A Vila estava deserta e muda, apenas os praças do Alferes Mariano guardando a
casa do juiz, vizinha da igrejinha. A gente dos Melos estava na Grota, as mulheres de
soldado estavam na fazenda, os adversários dos Melos, poucos, estavam na rua. E os
que estavam na Vila, ao saber da notícia, fecharam-se em suas casas. Portas fechadas,
janelas fechadas, apenas uma frinchinha aberta por onde vigiavam os acontecimentos.
Que coisa horrorosa! Mataram o Coronel Pedro Melo, o homem que supunham imortal!
Agora Artur atacaria o povoado para vingar a morte do pai. Artur era companheiro de
Abílio Batata, Roberto Dorado e Maroto, chefes de bandos famosos pelos massacres de
Pedro Afonso, São Marcelo e Santa Filomena, no Piauí.
— Vai haver castigo, — regougava Januária. — Eles num respeitaram nem a
véspera de Natal!
De seu sítio chegou Valério Ferreira e foi comentar o ocorrido com Vicente Lemes:
— Coisa malfeita, Valério, o velho não merecia isso. — Valério fechava-se em
copas. Chupitava o cigarrinho, tossia, mas não dizia nem arroz.
A rede lá vinha pelo povoado vazio, vazio, conduzida por dois soldados. Os passos
retumbavam, a carga estava pesada, o sol retremia de quente. Os soldados deitaram a
rede no chão para tomar fôlego. Da terra subia um bafo de mistura com o trilar dos grilos.
Nuvens grossas manchavam o céu azul; nenhum vento soprava. Iam ter aguaceiro pela
tarde.
De cá, Valério cutucava o braço de Vicente, ambos na frincha da janela:
!
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128
— Vejam onde descansaram o velho!
— Meu bom Jesus da Lapa! — bradou Lina, que se encolheu todinha, assaltada
por súbito arrepio. É que haviam pousado a rede justamente no lugar em que o velho
fincara a alavanca para marcar onde caíra morto o sobrinho Vigilato.
Por trás de cada porta e de cada janela, alguém fez o pelo-sinal e beijou o
bentinho. Aquilo era castigo. E mais castigo estava para vir. Mataram um homem tão
poderoso como o Coronel Pedro Melo e ainda por riba na véspera do Natal!
— Arriba com a rede, — comandou um oficial. Os soldados meteram os ombros, os
passos retumbaram no Largo deserto, foram esbarrar na porta do juiz, em cuja sala se fez
o auto do corpo de delito nos dois cadáveres.
Ambos estavam irreconhecíveis, com as cabeças esmigalhadas, cheios de
balázios e facadas, sujos de sangue e de terra. Doze horas e não haviam terminado o
auto, o grosso da tropa entrou no povoado, conduzindo presas diversas pessoas. Vinham
Melinho, irmão de Artur, e Hugo, filho de Tozão. Carvalho determinou que todos fossem
postos em liberdade, com exceção de Hugo. Este era um dos indiciados e ficaria preso
para o sumário de culpa.
Carvalho determinou a Mendes de Assis que pusesse a tropa em forma.
— Companhia, sentido!
E ali, em frente dos soldados, diante dos dois cadáveres de rostos descobertos, os
oficiais Mendes de Assis, Xavier e Severo juraram solenemente que os dois homens
tinham sido mortos porque ofereceram resistência à ordem de prisão. Cada um dos
oficiais disse isso de sua vez, com voz solene que reboava pelo Larguinho. A voz rolava
clara. Cada palavra era repetida pelo eco da casa fronteira. Parecia que alguém colocado
de lá repetia as palavras num tom sardônico e terrível.
Feito isso, Carvalho chamou o oficial de justiça e deu ordem para entregar os
cadáveres aos parentes, para o enterro.
Moisés Albuquerque Melo era um dos poucos parentes que ali se achavam.
Sobrinho do velho e cunhado de Artur como de Vicente Lemes, esse parentesco lhe dava
uma posição neutra no conflito. Tanto mantinha relações de amizade com os Melos,
quanto com seus rivais. Moisés levou os dois cadáveres para sua casa, deu-lhes banho,
limpou. Mandou um portador à Grota, onde ficara
!
129
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Aninha, esposa do velho, Anastácia, filha dele, Tozão, seu cunhado e genro, para saber
as ordens. Mas ninguém veio. Mandaram dizer que Moisés enterrasse o tio no cemitério
da Vila.
Moisés então retirou da casa de calçada alta a roupa de casimira, camisa, meias,
botina e gravata do velho Pedro Melo. Vestiu-o como ele não gostava, isto é, casimira:
vestiu-o como um boneco. Enquanto isso, o carapina encarregado de fazer o caixão
procurava por toda parte as tábuas de cedro que o velho preparara e guardara para o seu
enterro. Mas não encontrava.
Era uma pena! Moisés queria respeitar a vontade do tio. Sabia que ele queria que
seu caixão fosse feito com aquelas tábuas. Debalde enviara portadores à Grota, mas a
velha Aninha nada podia adiantar, parece que estava passada com o choque.
— Que pena não achar as tais tábuas! — Moisés ainda se lembrava. Foi quando o
velho abria a estrada de Barreiras que viu a vergôntea de cedro agitando no ar as suas
folhas verdes. Viu e não deixou que a cortassem. Era para crescer e dar tábuas para seu
caixão.
O cedro tornou-se intocável, cresceu, virou árvore frandosa ali no meio da estrada.
Todos que por ali passavam, lembravam que aquele cedro era para o caixão do velho
Melo, e o respeitavam. Alguns pensavam: Será que o velho morre? Ele não se diz imortal!
E a história de Maria Pequena, a história que o capetinha da garrafa o livraria da morte!
Entretanto, apesar dessa compreensão, apesar de se ter como imortal, com os
anos o velho pegou a perrengar. Já não comia, como antes, seus pratarrões de arroz com
carne-seca. Já não suportava, como sobremesa, aqueles pratos de arroz temperado
apenas com sal. Um peso no estômago, dores, mal-estar, bocejos. Um dia, o Doutor
Alípio lhe dissera:
— É úlcera, coronel.
Mas ele danou-se:
— Que mané úlcera. Isso é raiva do desgraçado do Vigilato! E tentou reagir, fazer
suas caçadas, comer seus pratarrões de arroz, mas sentiu que não era mais o mesmo.
Uma morrinha pelo corpo, boca amarga. Aí, calmamente, chamou Resto-de-Onça,
aprontou o carro de bois, meteu-se dentro e lá se foi pela estrada de Barreiras até topar o
cedro. No caminho, juntou mais gente.
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— Derribem o pau, — ordenou, e tirem as toras para desdobrar em tabuado.
Ele mesmo catou os raminhos menores de cedro, amontoou dum lado da estrada
com aquele cuidado que ele sabia ter. Depois voltou com as toras para a rua e deixou
elas na frente de sua casa, para secar.
Passado um ano, com a entrada da seca, contratou uns serradores, armou no
Largo o estaleiro, cobriu-o com folhas de buriti e durante vários meses o povo teve sua
distração, que foi a de ver os serradores desdobrando as tábuas.
Eram dois maranhenses entroncados e contadores de estórias. Um deles, o
Realino, era paralítico das pernas, mas ninguém o agüentava na serra.
Primeiro lavraram as toras a machado, em seguida meteram a serra de mão. O
velho sempre estava por ali olhando o serviço e para a prosa vinham outras pessoas.
Vinham Moisés, Afonso Quinto, Constando. Os rancores ainda não eram muito profundos.
Pouco antes se dera a briga com Vigilato e ali junto dos serradores o velho arrastava seus
bagaços, cuspindo com as dores do estômago. Realino velho contava estórias de Abílio
Batata e dos barulhos da Boa Vista. Até sabia uma moda de Abílio Batata, que era uma
coisa muito bonita.
Tirou-se dúzia e meia de tábuas boas, que o velho guardou cuidadosamente para
não empenar. Era seu caixão. De vez em quando havia precisão de cedro e o povo se
lembrava: — Bem que o coronel tem umas.
Mas ninguém tinha coragem de falar com ele. Sabiam que eram especialmente
para o caixão dele. Pronto!
Naquela manhã Moisés procurava as tábuas. Perguntava a um e outro, onde será
que o velho tinha guardado elas, mas ninguém não dava definição. Ainda se Camila
estivesse ali, ou Mulato não houvesse morrido, poderiam dar informações. Ninguém que
estava na Grota tinha coragem de vir à Vila. Aninha só fazia esbravejar, Doutor Herculano
não queria vir, negra Camila andava meio banzeira, a mo que dormindo em pé. Sabia de
nada dessa vida. Resto-de-Onça ninguém sabia por onde andava, nem de Artur se tinha
notícia!
Pelas tantas, Moisés tomou deliberação. Largassem as tábuas
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de cedro de mão. Pegassem aquelas de São José que estavam emcostadas no sobrado
do Largo.
Tardezinha, saiu o enterro. Quase ninguém havia para acompanhar os dois corpos.
Maria Pequena e a velha Januária iam atrás rezando seus terços e, ao passar pela igreja,
bateram síninho. Maria Pequena pensava na capetinha do juiz. Ela previra que o juiz, ou
antes, sua capetinha daria cabo do velho. Os Melos podiam muito até que Carvalho
chegou com a capetinha. Dagora em diante estavam perdidos.
!
RUMO AO CEMITÉRIO, ia o cortejo, constituído de umas dez pessoas, se tantas. Pelas
moitas de assa-peixe e de cansançao da grotinha, as almas-de-gato piavam e piavam de
novo, voando o vôo mole daqui prali. Ah, estavam mexendo no cemitério, já se sabia! Os
bichos ficavam assanhados e vinham para a Vila dar o alarma, protestar contra a invasão
de seus domínios. Já boquinha da noite e os bichos ali na rua voando seu vôo molengo e
piando aqueles pios de mau agouro.
Quem diria que no outro dia era Natal, que no outro dia de festa? Ninguém estava
se lembrando do nascimento do Menino Jesus. O que havia era o medo, a opressão, o
temor ainda não configurado perfeitamente de que Abílio Batata viria vingar o sangue do
velho coronel.
Talvez nem dez pessoas acompanhando o enterro. Para pegar na alça do caixão
apareceram os mais pobres, os mais humildes: o coveiro, o carapina, o pedreiro. De mais
posição, só havia o Moisés. Tal e qual o enterro de Vigilato. Era castigo. Vicente Lemes
se condoeu do abandono, chegou a pegar o paletó para sair, mas Lina o deteve. Lina era
sobrinha do velho e tinha no sangue a malícia deles.
— Não vai, Vicente. Não vai, que amanhã vão dizer que Você foi para mostrar
grandeza, para regozijar.
Assim dizendo Lina cerrou as portas e as janelas do casarão de Dona Benedita.
Sinal de luto, que duraria sete dias. Ela e a filha poriam vestido preto, pelo tio. Já
entregara a roupa para Maria Pequena tingir no barreiro.
Do alto, vinha a noite — uma noite terrível. Os céus para os lados da Bahia
estavam da cor de carvão, de tão carregados de nu-
!
132
vens. De vez em quando um relâmpago cortava o negrume e o ribombo do trovão ecoava
soturno pelas serras, fazendo retremer as portas e janelas.
Em dezembro, as noites chegam tarde. Em dezembro, oito horas da noite, a gente
ainda pode andar sem candeia dentro de casa. No entanto, naquele dia, seis horas e já
Alice acendia a candeia.
A chuva cairia já-já sobre a cidade. Valério Ferreira não iria para seu sítio. A chuva
já pegava a cair e era chuva dos diabos. Ferreira dormiria ali mesmo. Lina serviu o jantar.
A seguir Valério Ferreira e Vicente Lemes pegaram a conversar. Já se sabia muita
coisa da ocorrência da Grota. Vicente não queria fazer um juízo temerário, mas a polícia
se excedera. Diziam que o juiz Carvalho estava muito enfezado com Mendes de Assis. Ô
juiz teria dito que a polícia tinha praticado um crime revoltante.
— Pedro achou o que caçava há muito... Agora falta o filho...
Vicente se admirou da dureza de Valério. Como podia ser assim intransigente,
como podia ter tanto ódio! Vicente Lemes era mole. com o velho morto, toda a mágoa se
fora. A morte punha termo a tudo. Sinceramente que não sabia odiar. Mesmo para o
inimigo, Vicente achava que se devia ser justo e humano. Sinceramente lamentava a
morte do velho. A polícia fizera violência. Se Carvalho estivesse na Grota, não o teriam
morto.
No fundo, um terror atazanava Vicente. Era impossível admitir que o velho tivesse
morrido daquele jeito. Ele que era tão poderoso, tão arrogante! E a coisa ficaria naquele
pé? No fundo, no mais profundo de seu entendimento, Vicente mesmo achava que um
castigo, um castigo qualquer cairia sobre a cabeça dos habitantes do Duro, pela morte do
velho Coronel Pedro Melo.
Valério também acreditava que a polícia se excedera, mas dava de ombros:
— Se a polícia fez violência, pela primeira vez fez violência útil.
A chuva batia com força. Chuva de vento, ululando nas janelas, entrando pelo vão
das telhas, entrando pelo vão do pau-a-pique meio roído num ou noutro ponto, apagando
as candeias, com cada raio que alumiava meio mundo e reboava pelas serras num
estrondo de ensurdecer.
Valério Ferreira levantou o corpo magro de tuberculoso, tossiu, acendeu um cigarro
e pilheriou amargamente:
— O velho já aportou lá em riba... assunta o barulho!
!
133
— Uai, amanhã é dia de Natal! — admirou-se a menina Alice Lina não disse nada,
mas sentiu uma pontada no coração. Dona Benedita, aquele ano, não estava fazendo seu
presépio, como de costume. E isso era mau sinal. Ixe, havia tantos maus sinais naquele
dia!
!
A POLÍCIA abriu novas trincheiras e reforçou as guardas. Esperava-se que Artur Melo
atacasse a qualquer momento com o pessoal do Açude. Vicente chegou até pensar em
mandar buscar em Pedro Afonso o preto Supriano, a única pessoa que havia conseguido
escorar Abílio Batata por aquelas bandas. Nisso, porém, outras notícias chegaram. Artur
havia seguido para a Bahia, talvez em busca de mais gente, talvez para depois atacar.
Homem resmungão, o Valério Ferreira. Ele falou pra Vicente que o Juiz Carvalho
andava com parte.
— Com parte, como?
. — Está muito apressado. com jeito de quem está louco para terminar o inquérito e
ir embora.
Vicente riu. Para Ferreira tudo ia sempre mal. O juiz não iria sair num momento
como aquele, com a ameaça do ataque a qualquer instante.
Valério disse a esmo: — Sei lá! Já vi tanta gente correr desse Melos... Não creio
que Carvalho saia em paz...
— Ara, ’cê só vê o lado ruim, Ferreira — reclamou Vicente, mas ficou com a pulga
atrás da orelha: Sabia-.se lá! Antes Valério Ferreira falou de um pacto entre o Juiz
Carvalho e Artur Melo; todo mundo achou que era maledicência de Valério. Quando
acaba, Hugo Melo preso na casa do juiz estava agora afirmando que esse trato existia.
Hugo Melo afirmava que o juiz tinha garantido a seu tio que dispersasse os homens e ele
impronunciaria a todos.
Vicente dava tratos à bola, pesando as palavras de Ferreira. Deveras o processo ia
numa corrida dos trezentos. Já se havia realizado o sumário de culpa, com inquirição de
testemunhas, já se tinha feito o interrogatório de Hugo Melo, preso na Grota, único
indiciado presente ao sumário. Para terminar, dera o juiz sua sentença, pronunciando
Artur Melo, João Rocha, Hugo Melo e os irmãos Chapadenses. Quer dizer que o processo
estava terminado.
O que havia era boato demais. Naquele instante, por exemplo,
!
134
comentavam que tinha havido um levante na polícia. Mendes de Assis e Xavier
levantaram-se contra o juiz que não foi preso porque Severo e Enéias não deixaram. O
motivo? O motivo era o dinheiro desaparecido. Dezoito contos tinham sumido da algibeira
do velho, no dia que mataram ele. O juiz determinou um inquérito e queria prender os
suspeitos. Mendes de Assis e Xavier rebelaram-se.
Cabo Matias, ordenança do juiz, procurou Vicente Lemes: — Doutor Carvalho está
pedindo pro senhor dá um pulinho lá.
— Pois não, uai. — Andando, Vicente pensava nas palavras de Valério Ferreira. O
juiz anda muito apressado. Parece que quer ir embora. E os jagunços de Abílio Batata,
será que atacavam? com certeza o juiz vai me contar que pediu reforços em Goiás. Mas
não vai valer de nada. Mesmo que venha reforço a cavalo, vai demorar um mês, e até lá
Artur já fez disso aqui um outro Pedro Afonso. Não tem jeito. É castigo da morte do velho’.
Em sua sala, Carvalho estava como sempre: delicado, de uma polidez que não
permitia intimidades, bem-posto no terno de linho branco, a gravata arrumadinha,
barbeado de fresco.
Falava com energia, soltando as palavras como se fossem balas, mas
pronunciando distintamente os sons. Começou por explicar que já havia dado o seu
despacho de pronúncia, havia feito prender quem pôde e, assim, nada mais havia que
fazer ali.
— Minha missão, minha aspérrima missão está finda. Sentado no banco, Vicente
não sabia o que dizer. Carvalho não afirmara, mas Vicente adivinhava que ele ia partir.
Valério desgraçado.
— Vou deixar a Vila — declarou Carvalho, num tom peremptório e solene. —
Comigo seguirão o promotor, o escrivão, o AIferes Mariano, Sargento Barnabé, nove
praças e meu camarada Alexandre.
Tais palavras deram uma dor no coração de Vicente, causaram uma sensação de
imenso susto, despertou nele o sentimento de uma forte ofensa pessoal. Foi quase num
soluço, sem sequer fitar o juiz, que perguntou:
— E a Força? Vai também?
— Não. A Força fica. Afora as pessoas citadas, a tropa inteira fica aqui.
Nesse ponto, o juiz levantou-se procurando talvez fugir ao mu-
!
135
tismo do interlocutor. Seu vulto atlético foi para lá e veio para cá num passo firme e
elástico, como um tigre. As mãos nos bolsos da calça, o rosto baixo, continuava no
mesmo tom peremptória — Também os doentes, aquele tísico, os estropiados, aquele
enfermo de doença venérea vão embora.
A cabeça de Vicente zoava. Não sabia como reagir. Ficar calado, dizer alguma
coisa, continuar assentado, ir para casa? Pegou o canivete, o fumo, alisou uma palha e se
pôs a picar fumo, enquanto tentava encarrear as idéias. Cruzou e recruzou as pernas, Ele
tinha esse hábito deselegante de estar. Cruzava as pernas e, como elas eram magras,
enrolava-as mais uma vez pelas canelas. Ficava encolhido, murcho, feioso que nem um
macaco doente.
De cabeça baixa fazia o cigarro, a cara contraída no esforço da concentração
mental, o nariz adunco parece que mais adunco. Nos olhos, olhinhos azulados, sentia um
ardume de lágrimas. Era uma merda. Uma merda aquele tique. Tinha medo que as
lágrimas lhe corressem pela cara. Era preciso reagir, bancar o homem, um homem não
chora, Vicente!
Em seus ouvidos zumbiam as palavras de Valério. ”O juiz estava se sujando.
Porque sair naquele momento? Se os jagunços estavam ameaçando invadir a Vila, a
culpa disso cabia a Carvalho que decretou a prisão do velho, mandou prendê-lo e, de
uma ou de outra forma, contribuiu para sua morte. Agora Artur vinha vingar a morte do
pai e nessa hora o Doutor Juiz de Direito ia embora, dava por finda sua aspérrima
missão!”
Essas considerações tiveram o condão de acalmar Vicente, que se sentia senhor
de si, com coragem de fitar Carvalho. E o enxergou com a dimensão de um homem
comum. Perdia a grandiosidade com que sempre Vicente o enxergou, na sua fantasia de
tímido e emotivo. Parado na sua frente, Carvalho perguntava:
— Você acha, Vicente, que eu devo permanecer aqui uma vez encerrado o
processo? Há motivo para essa permanência?
Vicente fitou-o vagamente, como se estivesse olhando através de seu vulto, como
se uma distância imensa separasse eles dois.
E não respondeu nada.
Estava pensando em sua própria situação. Aquela pergunta feita de chofre, o
desnorteava. Foi o juiz mesmo que contestou, raciocinando em voz alta:
— Se eu permanecer aqui e Artur atacar, dirão que o ataque
!
136
foi motivado pela minha permanência. Indo embora, todos dirão que fui covarde, mas a
verdade é que nada há que justifique minha permanência. Fui comissionado para quê?
Para apurar fatos e punir aqueles apontados como culpados. Foi o que fiz. As decisões
legais são cumpridas pelo órgão coator, pela Força, pelas Forças Armadas.
Parecia que havia terminado, mas ainda acrescentou:
— Minha missão foi cumprida inteiramente. Artur quer vingarse do juiz. Ora, se o
juiz não estiver na Vila, ele não atacará. É um raciocínio mais do que lógico!
Andou, virou e arrematou:
— vou ficar com nome de covarde. Não importa. Quem sabe se sou covarde ou
não, sou eu.
Carvalho tinha razão. Era duro aceitar seu afastamento, sua figura física e moral
era uma garantia para os moradores, mas não se podia exigir que ficasse. Vicente não se
sentia com forças para convencer o homem a ficar. O raciocínio dele tinha sido claro e
convencedor.
— Está certo, Doutor. Ninguém está dizendo nada de sua atitude não.
Carvalho continuava andando para lá e para cá, parece que querendo ouvir uma
objeção qualquer dos lábios de Vicente, mas este estava atordoado. Em seus ouvidos
zumbiam as palavras de Valério: ”Carvalho tem trato com os Melos”. Diante de seus
olhos, não era o Juiz Carvalho que andava: era Valério Ferreira, corcunda, a cara magra,
a tosse cava, consumido como um defunto.
Vicente sentiu uma idéia surgir, crescer, tomar corpo: também ele devia abandonar
a Vila. Ele apenas? Também Ferreira, também Júlio de Aquino, também Moisés, também
a sogra Benedita, Argemiro Félix, Jugurta e outros. Deixar a Vila e levar a família, gado,
pertences, levar tudo.
Mas seria isso possível, gente? Deixar a Vila seria confessar a derrota, seria dar a
vitória aos Melos. E se saíssem apenas ele, Vicente, e Valério? Nesse caso, em que
situação ficariam os parentes, os amigos, todos aqueles que acreditaram e confiaram
neles dois, seguindo-os, dando-lhes apoio?
Para Vicente, uma retirada naquele momento significava medo, acovardamento,
vergonha para o resto da vida. Além de tudo, deixar a Vila era entregá-la e a região à
sebaça de Artur e seus capan-
!
137
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gas, que roubariam, matariam, violentariam mulheres: Pedro Afonso, Boa Vista, São
Marcelo.
Carvalho assentou-se à mesa, tomou de uma pasta e informou Vicente de sua
última resolução: havia demitido Mendes de Assis do comando do destacamento. O
comandante agora era Severo. — Nesse sentido, enviei um portador para a Capital,
levando correspondência ao governo. Mas não creio que o portador chegue. Artur o
prenderá por aí. Foi por Barreiras.
A esse tempo, a noite vinha caindo. Feia, fria, molhada, de chuva. Fazia já dias que
a chuva não cessava, chuva teimosa, chuva renitente, que o vento açoitava feito uma
neblina. Pelas grotas a saparia roncava, enquanto a enxurrada gorgolejava. Nas moitas
que cresciam com uma exuberância de milagre, os grilos cricrilavam numa monotonia de
dor. No córrego, as saracuras quebravam seus potes.
Alexandre entrou na sala e disse alguma coisa a Carvalho que se virou para
Vicente Lemes:
— Veja aí. Os animais estão no pátio. Vamos arrear. Novamente invadiu Vicente a
sensação aguda de desamparo, de isolamento, de ameaça dos jagunços. A idéia de
deixar a Vila, de ir embora como o juiz era impraticável. Quando ia pensar nela com mais
profundidade, as idéias fugiam, um abismo se abria no cérebro, tolhia-o uma inibição
irremovível. Fugir não era brincadeira. Para o resto da vida seria um Enéias Peixoto.
Entretanto, por que razão contar como infalível o ataque deArtur? Ele podia estar
com farronca, mas não atacaria. Artur era político e renome, ex-deputado estadual, não
iria se transformar num cangaceiro. Ah, não tinha perigo. Vicente conhecia demais Artur.
Aquilo não passava de zoada que estava surtindo efeito, pois Carvalho velho, tão valente,
tão destemido, Carvalho já lá ia de arribada!
Carvalho ergueu a voz:
— Mandei chamá-lo para que me adiante o dinheiro da viagem. — Ele estava sem
um real. Desde que deixara Goiás não recebera vencimentos. — Depois pagarei à
Fazenda, na Capital.
Vicente pediu licença, ergueu-se, foi a casa e trouxe o saldo da Coletoria. Seis
contos de réis. Carvalho contou, botou as notas dobradas dentro da pasta:
— Tem os selos para o recibo?
!
138
— Não. — Não havia estampilhas federais no povoado.
Carvalho daria uma declaração de recebimento. A pena rangeu no papel
escrevendo a declaração. Vicente dobrou e meteu no bolso, junto com a carta de Eugênio
Jardim e, a seguir, sentindo que nada mais havia que fazer ali, apertou a mão do juiz:
— Até outra vista.
— Até outra vista — respondeu Carvalho.
— Feliz viagem... — disse Vicente, que quis espichar a frase, dizer alguma coisa,
mas era incapaz. Repentinamente, um muro, uma muralha caía entre os dois homens. Até
parecia que não-se conheciam, que eram dois estranhos, aos quais nenhum interesse
comum jamais ligara. Um desgosto fundo, um desengano danado, um enfado de tudo
apertando o coração de Vicente Lemes.
Inda ontem entrava ao lado de Carvalho, todo garboso, mostrando o valor da
autoridade, provando que não era somente a violência que imperava no mundo,
afirmando que Artur e seu pai não eram os vice-reis que se diziam. Afinal, naquela tarde,
Vicente Lemes se encontrava novamente no desamparo, cara a cara com a truculência. E
em condições mais difíceis: tendo que responder por crimes que não cometeu.
!
ERA NOITE quando Vicente Lemes chegou em casa. A mulher e Alice estavam deitadas.
Foi até o quarto e Lina perguntou o que estava acontecendo.
— Nada — respondeu. — Não há nada. Estava sem sono, iria ficar na sala ainda
um pouco.
Sentia vontade de conversar com alguém, trocar idéias. Se Valério Ferreira
estivesse ali, seria bom. Talvez até aprovasse a idéia de se retirarem do povoado, de irem
embora para outro lugar. Ferreira era compreensivo. Não fora assim no dia do ataque ao
Cartório? Quando não havia mais jeito, concordou com Artur Melo.
E se procurasse o tio Argemiro Félix, ou os primos Moisés e Júlio de Aquino? Qual!
Não iria procurar ninguém. Era uma solução difícil de aceitar, essa de deixar a Vila, sair
pela segunda yez com medo de Artur e seu povo! Que é que não iriam dizer os amigos e
companheiros? Muita gente quando visse Vicente e seus amigos pelas costas estaria
dando vivas a Artur. E os companheiros? Certamente que se sentindo livre dos
opositores, Artur viria ao po-
!
139
voado, prenderia gente, mataria, saquearia, faria o diabo. Não foi assim em Pedro
Afonso? Ali, Salomão Solino, Deocleciano Amorim e outros tiveram que pagar um pesado
resgate por suas vidas a Abílio Batata. Depois de receber dinheiro, fazenda e outros bens
desses homens, Abílio determinou a sebaça na região, dali foram retiradas mais de seis
mil reses, que Abílio, Maroto e dorado levaram para a Bahia.
Do Largo vinham ruídos. Vicente chegou à janela. No escuro da noite apenas
vislumbrou vultos: era o povo do juiz indo embora.
A noite continuava meio fria, feia, nublada, com grandes nuvens esgarçadas e
baixas sujando o céu. Uma neblina caía molhando tudo. Lá se foram os cargueiros, o
oficial, os soldados. Alguns, a pé, outros montados. Até os sapos na grota pararam de
coaxar, até os grilos nas moitas suspenderam seu cricrilar de sono para deixar a caravana
passar, ir embora. Só os cães latiam desesperadamente. A Vila dormia. Ninguém sabia
que Carvalho ia embora, ninguém estava vendo. Saía como fugitivo. Isso mesmo: como
fugitivo!
Nesse ponto, o desgosto voltou ao espírito de Vicente Lemes. Valério Ferreira tinha
razão. Na hora do pega para capar, o diabo do juiz fazia um papelão daquele, saía
escondido feito um fugitivo, largando a Vila e o povo que confiou nele em completo
desamparo.
Vicente francamente que achava aquilo feio. ”Acabou-se o inquérito, minha missão
está finda”. Aquilo eram frases. Para um homem, sob o aspecto moral, esse negócio de
terminar inquérito, esse negócio de missão finda, eram palavras. Diante de tudo que
aconteceu, Carvalho estava na obrigação de permanecer na Vila até que Artur Melo
pusesse fim às ameaças de ataque.
Vicente também se acusava. Tinha sido mole, tinha sido medroso. Devia ter
argumentado com o juiz, devia ter-lhe dito essas coisas, devia ter exigido que ficasse ali
pelo menos como uma garantia moral. A ameaça de ataque era fortíssima. Todo mundo
dizia que Artur estava reunindo capangas. Carvalho não ignorava porque Vicente lhe
contara. Quem chegou com a notícia foi Umbehno Ferrador, tropeiro da Bahia, que ia de
arribada para Porto Nacional:
— vou de arribada, Seu Vicente. Enquanto não serenar esse barulho, não volto.
!
140
— Mas que há, homem de Deus?
— Que há, então não sabe? Estive em São Marcelo com o povo de Artur Melo.
Está reunindo os cabras de Abílio Batata, Roberto Dorado, Maroto, Passarinho e
Umbuzeiro mode acabar com isto aqui. É pra ser pior do que Pedro Afonso. Enquanto não
serenar, eu não ponho os pés pr’essas bandas, seu mano.
— Você conversou com gente de Artur, com parente dele, ou foi com capanga? —
prosseguiu Vicente puxando a língua do homem, que soltou tudo que ouvira em São
Marcelo.
Quem lhe contou foi um sobrinho de João Rocha, gente de confiança. Umbelino
Ferrador contava que finda a busca na Grota, de noite, Artur deixou a tulha de farinha
adonde estava escondido e meteu os pés pela biboca, fugindo em demanda do Açude.
com as barras do dia, meteu-se pelo mato, desviando da patrulha, e chegou cedo ainda
no Açude, onde topou João Rocha juntando gado para Abílio Batata. A chegada de Artur
foi um alegrão, pois eles o tinham por morto, como o pai.
De imediato, Artur seguia para Barreiras, a fim de obter dinheiro, armas, gente e
munição para o Duro.
Isso, tal como ouvira da boca do dito Umbelino Ferrador, homem de respeito,
Vicente transmitiu para Carvalho, ponto por ponto. Contou mais aquilo que o povo vivia
boquejando: isto é, que Carvalho havia prometido não pronunciar os Melos, se eles
dispersassem os cabras. E foi só eles pegarem a dispersar, o juiz mandou prender.
Do quarto Lina chamou Vicente:
— Vem deitar que já é tarde, home!
— Vou já-já. Estou acabando umas cartas.
A madrugada vinha querendo romper. Os sapos voltaram a cantar e os grilos a
sacudir seus guizinhos de prata. Galos cantaram desanimadamente na manhã enxarcada.
Uma neblina densa caiava a Vila, tampando tudo. E como o tempo esfriasse, Vicente
fechou a janela para dormir, mas de novo lhe voltou à cabeça a história do juiz destituindo
Mendes de Assis do comando da Força.
Vicente passou a considerar mal a polícia a partir daquele momento. Sempre
achou que mataram o velho sem precisão. Achou mesmo muito esquisito quando viu
chegar aqueles cadáveres. O velho era violento, brigão, metido a valente, mas era
covarde.
De sua prisão no quartel de Severo, Hugo Melo não calava a
!
141

!
boca. Dizia que o velho já se havia entregue, quando os soldados o mataram com
baionetas, tiro e coronhadas. O velho já se havia entregado ao Soldado Fabriciano e
Freitas Machado, quando outros soldados o mataram.
Aquela polícia não merecia confiança. A responsabilidade de Mendes de Assis era
muito grande. Ele estava repetindo as proezas do Capitão Machado, em Boa Vista. Para
Vicente, a retirada do Juiz Carvalho estava ligada aos desmandos de Mendes de Assis.
À luz indecisa da manhã, Vicente teve medo da polícia: um bando de facínoras. Ela
se mantivera disciplinada até ali porque Carvalho era duro nas embiras, tinha uma energia
de general. Bastou, porém, que não fosse à Grota, que deixasse as feras às soltas, para
que fizessem o que fizeram!
Despertado pela vigília, alertado pelas resoluções de Carvalho, agora ele ligava
uma palavra ouvida aqui com uma deliberação acolá e reconstituía toda a situação.
Diziam que Artur estava oculto na tulha. Mas se estava lá, como é que o Alferes
Xavier, nem o Sargento Alcides o viram? Talvez tivesse muito fundamento a história que
contavam. Ao entrar na casa, Xavier recebeu uma bolsa cheia de dinheiro, para não achar
Artur.
E roubo dos dezoito contos de réis que estavam na algibeira do
velho? Porque Mendes de Assis não punia os culpados? Todo mundo estranhava muito
que um simples soldado como Tonhá ou Guia-de-Cego estivesse comprando cavalos
caros, no povoado! Carvalho, coitado, acabou vencido pela polícia. Quis abrir inquérito,
apurar os furtos, apurar o crime, mas Mendes de Assis e Xavier se revoltaram e o
obrigaram a sair.
— Vicente, vem deitar! — Lina estava de pé na porta da sala. — Que é isso,
homem, parado aí feito uma assombração?
Arrancado bruscamente de seus pensamentos, Vicente abraçou-se com a mulher e
saiu para o quarto. A luz da manhã metia-se pelos vãos da telha, desenhando as ripas e
os caibros contra a claridade. Lá fora, os galos cantavam e uma ou outra rês berrava.
Um joão-de-barro cantou mesmo em riba da cumeeira seu canto em dueto, alegre
e acelerado.
— Mau sinal — resmungou Lina, benzendo-se e encolhendo-se
no leito.
!
142
No CASARÃO de Dona Benedita Fernandes as visitas entravam e saíam. A grande
varanda atijolada estava bem varrida, com a mesa coberta com uma toalha de crivo, em
cima dela a jarra de flores.
Ali estiveram Argemiro Félix, Moisés Melo, Júlio de Aquino e agora Valério Ferreira.
Vinham trazer a Vicente e à sogra os votos de feliz ano-novo. A conversa decorria num
tom apagado e melancólico, como se tivesse doente em casa, como se o cadáver do
velho Coronel Pedro Melo estivesse insepulto ali na sala, impedindo a alegria e a
desenvoltura.
Anualmente vinham do sítio os lavradores, os criadores, a Vila se transformava,
ficava festiva. Dona Benedita armava o presépio, tirava as ladainhas, servia café-com-
leite com biscoito de goma.
Agora, o que se via era a tristeza, a Vila deserta, só com os soldados, mas mesmo
estes confinados nos quartéis, de onde saíam para as trincheiras, para as patrulhas
volantes ou para o banho no córgo.
— A senhora não devia de deixar de armar o presépio, dona Benedita. Faz mal.
Mas Benedita fazia ouvido mouco. Andava apreensiva, amolada, era dela que Artur
mais tinha ódio, dizendo que de sua casa é que saíam os planos que Valério e Vicente
executavam.
Benedita não tinha ilusões. No caso de um ataque, ela seria a primeira a sofrer
maus-tratos e humilhações do pessoal de Artur ou de Abílio Batata. Nem sabia se iriam
deixar ela com vida! Pedia que não judiassem muito, como fizeram em Pedro Afonso.
Ainda por cima, a notícia da retirada do juiz na noite anterior. Sem ele, sentiam-se
desamparados, atirados às unhas dos jagunços.
Ferreira estava mais azedo:
— Não disse, Vicente! Carvalho custou, mas acabou borrando na retranca. Foi um
Hermínio Lobato mais metido a sebo, mais cheio de farofa. — Havia na constatação do
fracasso de Carvalho uma certa alegria, como se lhe desse satisfação o desmoronar de
reputações.
— Que foi que Carvalho alegou para abandonar a cidade? Ele falou para você?
— Que estava finda a sua missão...
— Depois da traição que aprontou, só partindo, que se Artur
!
143
pega ele, fazia desse juizinho um pirão — soprou Valério num muxoxo. E continuou
perguntando: — Prenderam os matadores É velho? Prenderam os soldados que furtaram
o dinheiro e os objetos do cadáver do velho?
Vicente sentia-se constrangido em dizer que não. Para amemzar a situação, dizia
que esses abusos é que levaram o Juiz Carvalho a ir embora. Mendes de Assis e Xavier
haviam impedido qui ele punisse os culpados. Quase que houve um levante na Força,
contra o juiz.
Valério Ferreira balançava a cabeça. De dentro, veio Lina com a bandeja de café,
que serviu e perguntou pela família de Ferreira: — Como iam a mulher e as filhas?
Respondeu que ia trazê-las para o povoado; estavam morrendo de medo de ficarem na
roça.
Lina achou que era justo o receio delas. com o povo de Batata não se podia
brincar. Veja o que fez em Pedro Afonso. Então Valério não estava lembrado? Aproveitou
a ausência de Supriano e atacou a casa dele. Pegou a pobre da mulher que estava de
barriga de seis meses, amarrou num pau e diz que ele mesmo, com facão, foi abrindo o
ventre da coitadinha e tirando o neném. Gente que viu, diz que o bichinho ainda chorou.
Credo!
Lina estava muito amedrontada. Ali mesmo exigiu de Vicente que escrevesse aos
amigos e parentes pedindo para virem auxiliar na defesa da Vila. Ela não queria cair na
unha daqueles malvados, que Deus a livrasse!
— É. Eu também escrevi, mas vou mandar um positivo reforçar o convite — falou
Valério, repondo na bandeja a xícara vazia.
— O senhor acha que Artur ataca mesmo, Seu Valério, ou está balançando folha?
Valério não vacilou:
— Acho que ataca, Dona Lina. Tá chegando a hora de a gente botar o preto no
branco. Nós precisamos estar prontos para o pior. Artur ataca porque ele é vaidoso
demais, é orgulhoso despropósito. A morte do pai, o enterro sem gente, a polícia
enganando eles, como Hugo Melo está contando, tudo isso foi uma humilhação para
Artur. Ele quer tirar desforra, pode ficar certa.
De pé, Lina demonstrava um grande medo. Desde menina que ouvia histórias de
malvadezas de cangaceiro. Em Boa Vista os jagunços faziam coisas horríveis. Dez, vinte
homens se servindo de
!
144
uma mulher, na vista do marido, dos filhos, dos pais. De uma, contavam, puseram ela nua
e fazendo tanto pecado, mas tanto, que quando os bundões foram embora essa coitada
se atirou no rio e morreu de vergonha.
E os roubos? Ali mesmo estava Alferes Enéias que ficou pobre como um peregrino,
ele que a família era das mais abastadas de Pedro Afonso! Também em Boa Vista, Chico
Curto mais Capitão Machado acabaram com a família Wanderley. Mataram dezoito
pessoas; e o pai vendo morrer um por um, até chegar a sua vez.
— Agora, então, com Batata é que vão atacar mesmo. Batata luta é por via da
sebaça. Pedro Afonso lhe deu perto de dez mil reses, não se contando as fazendas, as
peças de ouro, o dinheiro, os haveres que ele roubou. Dessa vez, somos nós — dizia
Valério na sua voz cava, até que a tosse o assaltou.
Dona Benedita lembrava que se devia pedir a ajuda de Supriano, em Pedro
Afonso. Supriano fora o único homem que conseguiu derrotar Abílio Batata, e isso porque
tinha pauta com o cão. Diziam que para matar Supriano requeria que se fundisse uma
bala de prata virgem, marcada com cruz num dia de Sexta-Feira Santa. E Abílio sabia
disso.
— Cadê tempo, minha comadre? Até ir em Pedro Afonso, campear Supriano e
volta com ele aqui, Abílio já fez do Duro uma paçoca.
Lina entrou com a bandeja, debaixo do maior desconsolo, imaginando que dessa
vez ninguém escaparia.
Vicente consultou Valério da conveniência de abandonarem o povoado e a região,
transferirem residência para outra cidade. Podiam ir para o Sul, Curralinho, Jaraguá, a
Capital do Estado.
Valério fechou a boca com força, mordendo os beiços.
— Isso, não. Nosso lugar é aqui. Então largar tudo nas mãos desses bandidos? E
as pessoas que tiveram confiança em nós, que nos estão acompanhando? Se a gente
fugir assim na primeira ameaça, reconhecerão que somos uns porrados, que Artur é que é
homem.
Fez-se uma pausa. Através da janela via-se o céu pardavasco, ameaçando chuva.
A Vila bocejava a pasmaceira do dia-santo, hoje sem nem ao menos os pios das almas-
de-gato. Quieteza, quieteza, como na tarde que o velho coronel foi enterrado.
Valério voltou a falar, completando seu pensamento:
!
145
— O juiz pode fugir. É um funcionário público que veio pai! tocar oinquérito. Mas
conosco a música é diferente. Somos moradores, somos de famílias radicadas aqui há
muitos anos, somos os principais responsáveis por uma luta contra a violência de Artur,
contra esse sistema que os Melos têm de não respeitar o direito dos outros.
Vicente não se convencia. Na verdade, depois da morte do velho, a situação de
Artur melhorara. Agora a polícia é que aparecia como criminosa: o juiz traindo um trato,
soldados matando o velho entregue e roubando o cadáver. Contudo, Vicente tinha
vergonha de convocar o povo para abandonarem o Duro, para largarem aquela guerra
besta. No fundo, sempre uma esperança de que Artur não atacasse, um receio de
enfrentar o desconforto de uma nova vida no Sul. Deixasse o barco rolar. De hora em
hora Deus melhora.
— Acho que não é preciso sair — arrematava Valério. — Temos soldados, temos
amigos. Vamos escorar esse Artuzinho, gente Se ele tem coragem para atacar, porque
não vamos ter coragem de defender! Nem tanto medo, uai!
O dia que amanheceu meio claro, escureceu que danou. Chuva tombava de
toadinha e era chuva de afogar sapo. Embaixo, o córrego empolava, na cheia, a
enxurrada gorgolejando. A Vila estava tristíssima, as casas fechadas. No Largo não
passava ninguém, ninguém.
Nos anos anteriores, o pessoal pobre estaria de casa em casa com a filharada,
pedindo as festas ou o ano bom. Os roceiros estariam vendendo no sobrado as
abobrinhas, pepinos, ovos e frangos, para comprar um pano vistoso, grampos para
cabelo, facas e balas. Na Vila não havia lojas, mas Moisés, Argemiro Félix, Tozão e outros
tinham em casa frasqueiras repletas de artigos que vendiam a bom preço.
Embora nada dissessem, Valério e Vicente pensavam em Carvalho. A ausência
dele abalava o ânimo de todos, que se sentiam entregues nas mãos ensangüentadas de
Abílio Batata, Maroto e Roberto Dorado. Carvalho era um só, mas era homem duro,
enérgico, resoluto, habituado a lutar e a comandar. Na testa daqueles soldados, não havia
Abílio Batata capaz de resistir.
Agora, sem a energia de Carvalho para proibir os boatos, a cada
!
146
hora eles cresciam. Abílio Batata estava na boca de todo mundo. Falavam de sua
amizade com Artur, a quem deu de presente um cavalo murzelo muito bonito. Falavam de
um pacto de sangue que tinha com os Melos. Certa vez Supriano derrotou Maroto e
aprisionou a mulher dele e de Abílio Batata. Artur é que conseguiu de Supriano liberdade
para as duas donas, que ele em pessoa levou para o Piauí.
Batata conhecia a região palmo a palmo. Fora comprador de gado, fazendeiro em
Pedro Afonso, tirador de borracha no Xingu e de maniçoba no Maranhão e Ceará. Uma
vez sitiou Pedro Afonso e após cinqüenta horas de fogo invadiu a cidade, incendiou,
matou muita gente. Foi dessa vez que botou o pessoal de Enéias para correr de lá,
tomando suas fazendas, gado e haveres. Valério conheceu Abílio Batata em Conceição
do Norte. Era baixote, meio corcunda, amarelo e magricela. Ninguém dava nada por
aquela pinóia. Abílio vivia de seco e verde, metido em terno de linho branco, usava
punhos duros com abotoaduras de ouro, chapéu palheta e sapatos amarelos de fábrica.
Tinha uma voz fanhosa e fraca, ajudada de largos gestos de mãos para mostrar os anéis
de ouro e brilhante que trazia nos dedos. Tinha dedo com três anéis.
Valério se lembrava que ele possuía uma boca larga de sapo e uns olhos morteiros
e revirados, olho de quem estivesse morrendo.
Um dia um seu desafeto pediu-lhe paz. Abílio daria paz a troco da fazenda e do
gado do desafeto, tudo isso com recibo passado como se fosse compra e venda. O
adversário concordou.
Recebidos os bens do homem, Abílio Batata fez um sinal para Roberto Dorado que
pegou o dito cujo, a mulher, os três filhos, amarrou tudo nos paus do curral e dizem que o
próprio Abílio foi matando um a um.
!
NAS HORAS de folga, nos quartéis, os soldados proseavam longamente, ao redor do
fogo, onde chiava uma espetada de carne ou uma chocolateira de café. com a saída de
Carvalho, a rigidez da disciplina abrandou. As mulheres voltaram para a Vila e os praças
podiam estar mais à vontade.
!
147
!
Mané Vitô contava casos muito bem, com a palavra fácil e a voz bonita. Dizia ele
que esse negócio de ter coragem, de ter coração duro, é que nem gengiva de velho.
Quando arranca os dentes, a gente sente dor, mas depois a gengiva fica feito um pau, de
dura. Pode esmoer até coco macaúba. Ao redor, alguns soldados riam.
Ser mau, ser capaz de matar e espancar era a suprema glória. Soldado manso não
fazia carreira e era debicado.
— Não viam o Alferes Mariano? Aquilo era uma moça. De delicadeza, coitadinho!
— E Ferreirinha! Ah, esse daí num mata nem uma mosca de tirar o cavalo da
chuva que não chega nunca a oficial.
— Só se for de Intendência — criticou Gabriel.
— Agora, vigia o Severo. Já é comandante! — ponderou Salustiano. — E Alferes
Severo mal e mal assina o nome... Só pra mode a malvadeza. Aquilo, dizem, tem uma
morte em cada dedo, tando os dos pés.
Ouvindo as palavras de Mané Vitô, alguns soldados riam bajuladoramente,
alardeando uma maldade que não possuíam, fingindo uma coragem completamente
falsa. Adonias botou no cabo do revólver cinco piques, indicando que já matara cinco
pessoas. Pura inzona. Adonias nem não tinha coragem de matar ninguém. Quando muito,
esmagava cabeça de um defunto, como fez com o Coronel Pedro Melo, para ao depois
ficar assombrado, apegando com seus patuás e bentinhos, com medo de estar sozinho.
Feito o preâmbulo, Mané Vitô pegou a narrar o jeito como criou coragem. Era um
madurão de boris dentes, sempre bem calçado e mais ou menos bem vestido, pois
gostava de conquistar as morenas. Magro, uns olhos de animal selvagem, nada passava
despercebido ao seu redor.
Continuava o caso. Quando era crila, era medroso que nem uma mulher. Foi
preciso que o padrinho fizesse uma simpatia para perder o medo.
No dia que enterraram o Puluquero, o padrinho mandou Mané Vitô atirar três
punhados de terra na cara do defunto. Depois disso perdeu o medo.
Mané Vitô fora criado pelo padrinho, o Coronel Teixeira. E bora rico, tinha o
padrinho um sestro excomungado de ruim: gostava de furtar. Tudo que podia, surripiava.
Um dia ele foi mais o padrinho comprar de um mascate, em Catalão, e o coronel meteu
!
148
um freme no meio dos objetos comprados. O mascate deu fé, danou, quis chamar a
polícia e aí o coronel jogou o furto pra riba do afilhado. Irritado, o mascate deu uns puxões
de orelha no menino.
A partir desse dia o coronel passou a instigar Mané Vitô:
— Olha, meu afilhado, pode passar a brasa no miserável que eu te agaranto ocê.
Num mutirão, certo dia, olha ali o mascate com suas bugigangas. Mané Vitô estava
meio chupado, animou-se e meteu uma facada nas costas do turco que chega varou nos
peitos. Mané Vitô foi metido na cadeia, que o turco tinha seus protetores. Ali ficou meses
e meses de cambulha com os soldados, sob o comando de um tal Tenente Lima, oficial
célebre por sua crueldade.
O trabalho mais importante do destacamento era espancar mulheres da vida. O
delegado era um sujeito putanheiro como o diabo e a mulher morria de ciúmes. Sábado,
para satisfazê-la, Tenente Lima dava uma limpa na cidade. Ia pelas pontas de rua e
prendia a ”barre”, como dizia: metia no xadrez as meretrizes, raspava a cabeça e no outro
dia obrigava a deixar a cidade.
Para fazer isso ninguém melhor do que Mané Vitô, que foi granjeando a confiança
do tenente. Outras vezes, Lima mandava Mané Vitô esbordoar camaradas metidos na
prisão por dívidas ou por fuga de fazendas.
Lima foi transferido para Anápolis e levou consigo o protegido que assentou praça
na polícia.
Tonhá também contava casos, mas era de Salustiano Dantas, que era cria de
padre, em Sergipe. Vivia na preguiça batendo o sininho, beliscando as meninas na
sacristia, fazendo pouca-vergonha com os coroinhas, bebendo o vinho do padre. Um dia,
roubou o revólver do vigário e abriu o pala no mundo. Esteve muito tempo pelo São
Francisco e daí veio esbarrar em Goiás, ingressando na polícia.
— E tu, negro à-toa! — gritava Salustiano para Tonhá. Tonhá bufava, que esse era
seu riso. Ria como se estivesse engasgado com farinha de milho.
— Conta seu caso, moleque safado! — Mas ninguém sabia nada de Tonhá. Corria
que era de uma família muito boa, no Barra do Corda, onde matara um cunhado. Sua
amásia, Maria Ponciana, tinha um defeito na boca e falava enrolado.
!
149
— Como foi o causo do Coronel Pedro Melo? — brincou Adonias.
— Com coisa que tu tava lá! — debicou Gabriel, cujo nome era agora muito
respeitado. Ele apunhalou o velho Pedro Melo. — Tu num tava lá coisa nenhuma, nego de
uma figa. Ocê quer passar por corajudo, mas jagunço vem aí pra tirar prova da valentia de
muita gente boa!
— Eu que num tava? Então quem foi que meteu a derradeira coronhada no piolho
do bruto? Vou inté botar mais um pique na coronha do meu chimite.
A turma gargalhou: — Pode botar, que esses pique são ttudo de mentira!
Cuspindo de esguicho, Daniezinho dizia alguma coisa. Era outro ai-Jesus da turma.
Na Grota foi o primeiro a meter o refle no peito do velho, já largado no chão e já
desarmado. Apunhala! covardemente para agora arrotar suas valentias, como se fosse o
maior herói do universo. Daniezinho dizia:
— O velho porrado! Vivia matando os pobres, metendo opiraí neles, mas na hora
da porca torcer o rabo, o desgraçado se borrou. Caiu no chão de joelhos, pedindo pelo
amor de Deus a gente deixasse ele vivo!
— Freitas Machado, ô Freitas Machado! — chamava Mané Vil to. — Estão dizendo
que você é parente muito chegado do velho Melo... — De novo a gargalhada estrondou
no cômodo.
— ... São tudo da famiação dos covardes...
Os mais covardes, riam com mais força, para agradar, para demonstrar admiração
aos valentões.
Freitas Machado não gostou da brincadeira. Era um sujeito caladão e correto.
Respondia com brutalidade:
— Eu num sou de sua laia, Mané Vitô, que só prende mulher da vida e bate em
pobre amarrado no pau.
Agora ninguém ria. Mané Vitô era cabra maludo, com quem ninguém queria
malquistar-se. Mas Freitas não tinha medo:
— Num matei o velho mesmo e vocês só mataram porque tomaram a minha arma.
Se não, ninguém num matava o velho, por que eu já tinha desarmado e prendido ele...
— Ah, é assim? — interpelava Mané Vitô. — Então a polícia matou o velho depois
de desarmado e entregue, não é? Eu posso contar isso pró comandante, para o Tenente
Mendes de Assis?
!
150
Com esta pergunta ele queria dizer que Freitas estava transgredindo a ordem de
segredo dada por Mendes de Assis. Porém o soldado estava pelo que desse e viesse:
— Pode, uai! pode contar. Eu já falei isso pra ele na vista do Doutor Juiz e tomo a
repetir quantas vezes for preciso. Eu cá num tenho medo de barulho de folha não, seu
engraçadinho!
!
”Arara comeu pequi,
Num sei se comeu ou não,
Debaixo do pequizeiro
Tem muito pequi no chão”.

Erguendo-se, Salustiano cantou essa quadrinha para acalmar os ânimos, enquanto


brincava com Adonias:
— Como é, Adonias, já botou mais um pique no seu chimite agaó?
Tonhá conversava com Guia-de-Cego:
— A gente vê logo que Freitas Machado é um reculuta. Ele num vê que nós é
camarada do governo e que os Melo é tudo inimigo do governo. Apois, entonce, quanto
mais Melo a gente matar, mais o governo apreceia, meu Divino Padre Eterno!
— Quede que prenderam Daniezinho mais Gabriel? — observou Guia-de-Cego.
— Uai, eles num pode ser preso não. Vão botar é uns par de lagartixa no braço
deles, gente!
Entretanto, Sargento Odilon contava um causo e sua fala chamou logo as
atenções. Explicava que Tenente Mendes de Assis não era homem de mando, nem de
grito. Bão pra mandar era o Capitão Machado, comandante da polícia na guerra de Boa
Vista.
— Era ver um rei, de mandador. Cabra macho danado! Para defender Boa Vista
sitiada por José Dias, Capitão Machado garrou pegar à força os rapazes ali existentes.
Aonde que pegou um que o pai dele não achou bom e foi reclamar do capitão: Machado
requisitou o outro, mais menor: aí o pai botou uma tocaia, mas o tenente foi mais esperto.
Matou o homem, ô coisa boa, gente!
!
Os POSITIVOS de Vicente Lemes e Valério Ferreira iam e vinham pelas estradas
enlameadas, atravessando rios cheios, chapadões
!
151
escorreguentos, matas e cerrados por onde os trilheiros quase se apagaram. Faziam
apelos a amigos, a parentes, a conhecidos para ajudar na defesa da Vila. Se
conseguissem reunir bastante gente, encher o povoado, Artur não atacaria com medo de
derrota.
Os positivos levavam apelos e traziam boatos. As resoluções de Artur Melo
chegavam ao Duro como se ele estivesse ali dentro. Era o eterno presente, aquele cuja
ausência nunca se dava em coisa alguma.
Sabia-se que Artur prometera a Abílio Batata, a troco de ajuda na tomada do Duro,
entregar-lhe mil e quinhentas reses dele Artur e mais o saque da região por seis meses. A
sebaça ia ser terrível. Era um deus-nos-acuda, um segundo Pedro Afonso!
Por mais que os positivos clamassem, os sitiantes não virá para a Vila. Ficando
neutro, capaz que Abílio Batata num toma os trem da gente, nem faça mal para nossas
mulheres e filhas pensavam os roceiros. Esperança besta. Jagunço não respeita nada.
Em Pedro Afonso, em Boa Vista, em São Marcelo, em Santa Rita do Rio Preto, em
Formosa do Rio Preto as pessoas que ficaram de fora do conflito foram as que mais
sofreram.
Valério e Vicente escreviam cartas, enviavam recados, iam pessoalmente.
Falavam, argumentavam, davam exemplos, encorajavam, acenavam com a polícia e o
apoio do governo. Meia dúzia de homens atendeu ao apelo, enquanto outras famílias
deixavam a Vila aterrorizadas com a notícia de que Artur ia se aproximando.
Por baixo dos mulungus da rua, um dia, pousaram uns homen com mulheres,
crianças, jumentos, cabaças e panelas. Vicente foi lá e reconheceu o Belisário e o
Casemíro.
— Iam de arribada?
— Nem num sabemo muito bem pr’adonde..
Vicente os chamou para defender a Vila, mas trancaram-se em copas. Nem sim,
nem não.
No outro dia, cedinho, que Vicente olha para o lugar do pouso, só restavam uns
tições fumegando. Sumiram.
Artur avançava e a defesa era muito fraca. O Duro não dispunha nem de um terço
dos homens de Abílio Batata. Sem o Juiz Carvalho, as conversinhas, os cochichos, as
briguinhas alarmavam o povoado.
Mendes de Assis estava de braços cruzados. Quase não era visto, passando o
tempo deitado na rede, rezando um rosário. Outros
!
152
diziam que ele estava era acovardado; tinha certeza que os jagunços de Artur não o
poupariam. Seu medo era tamanho que estava exigindo da polícia que trouxesse da
Grota os amigos e parentes dos Melos, pondo-os como refés na Vila. Pusessem os
parentes e amigos dos Melos dentro da Vila que Artur não atacaria com receio de ferir e
matar essas pessoas.
— Foi o Juiz Carvalho que me deu essa ordem — afirmava Mendes de Assis.
Hugo Melo, na prisão, falava: a polícia tinha roubado dezoito contos do avô;
Mendes de Assis recomendou aos soldados para dizerem que o velho resistiu com
jagunços...
Compradores de gado, compradores de pena de ema, garimpeiros, essa gente
toda que passava dava notícia dos preparativos e do avanço de Artur Melo. Contava com
Roberto Dorado, famoso pelas sebaças de Pedro Afonso e São Marcelo. Seus homens
eram dos mais ferozes de que se tinha notícia. Numa luta em Formosa do Rio Preto os
homens de Roberto Dorado beberam cachaça com pólvora antes de começar a brigar e
arrasaram com a cidade. Contava com Miguel Umbuzeiro, escorraçado de Pernambuco;
Passarinho, o que falava cantado e era rezador. Na hora de combater, Passarinho vestia
um balandrau de irmão das almas.
Muito difícil resistir. Boa Vista resistiu cinqüenta dias, mas lá tinha um Capitão
Machado que era pior que Supriano. Pedro Afonso agüentou durante sessenta horas de
fogo. Porém em Pedro Afonso existia o negro Supriano que tinha pauta com o cão,
homem tão fechado que Roberto Dorado haverá encomendado uma bala de prata virgem,
fundida na Sexta-Feira da Paixão, com duas cruzes gravadas, mode ofender o espritado.
— Ei, Mendes de Assis, Severo não ia agüentar nem o primeiro balango!
!
CEDINHOCEDINHO Valério Ferreira veio acordar Vicente Lemes, e foi logo contando:
— Você já sabe? A polícia recolheu à casa do finado Pedro Melo o pessoal de
Artur. — E explicou que lá estavam a velha Aninha, Doutor Herculano Lima com mulher e
filhos, Tozão e família, Damião de Bastos e Joaquim Alves Leandro com família.
!
153
Não era possível. Ferreira estava brincando. Era um daqueles pegas tão comuns.
E Vicente indagou:
— Uai, mas esse pessoal não estava na Grota?
— Pois é isso. Esse pessoal estava na Grota, mas a polícia trouxe todo mundo
para cá. A polícia trouxe eles como reféns. Paraii pedir um ataque à Vila.
A Vicente pareceu absurda a prisão, absurda e ilegal, Valério porém, não pensava
assim. Para ele a polícia tinha direito de procurar defender a vida dos habitantes do
povoado e aquele era um meio de defesa. Era para Artur ver que ninguém estava com
brincadeira. Se ele atacasse, o pessoal seria morto.
— A polícia não pode fazer e desfazer sem consultar os paisanos. Eu tenho’aqui na
algibeira a Carta de Eugênio Jardim, me credenciando a dirigir a política. Eu tenho que
ser ouvido, ora!
-- Precisa ter calma – pedia Valério entre duas tosses. – Não convêm dindespor-se
com a polícia, já...
— Sim, é preciso calma, mas se eles matam essa gente? Você sabe como essa
polícia é!
Valério concordava que era perigoso, que os militares estavam dispostos mesmo a
matar todos em caso de um ataque, mas era preciso calma e habilidade. Não ia ter
nenhum ataque assim logo logo. Tivesse paciência...
Conversavam, quando uma pretinha, cria da velha Aninha, e trou pela casa e deu a
Vicente um recado da velha:
— Dona Aninha mandou falar assim que é pra Seu Vicente dar um pulinho lá.
Vicente não foi.
— Capaz de ser negócio da prisão — observou Valério. Fazia muito tempo que
Vicente não falava com a tia. Desde que saiu do Duro, pouco depois da morte de Vigilato.
Era uma situação enjoada, aquela. Em casa da velha Aninha iria encontrar o pessoal
reclamando contra os atos da polícia. Certamente, os prisioneiros quereriam permissão
para retomar à Grota, e essa permissão Vicente não poderia obter da polícia. Embora
fosse medida ilegal trazer à força aquele pessoal para a cidade, fosse uma arbitrariedade,
uma violência, era, como dizia Valério, medida de precaução, medida capaz de contomar
desastre mais grave. Quem sabe Artur não recuaria, evitando assim a morte de muita
gente,
!
154
o saque, os vexames? O que não se admitiria era tocar num fio de cabelo de ninguém.
O dia caminhava e a todo momento a pretinha da velha Aninha voltava:
— Dona Aninha mandou falar assim que é pró senhor dar um pulico lá...
— Vou já-já, ouviu? Pode dizer para esperar um tiquinho — Mas não ia. Que iria
dizer à velha tia? Naturalmente o desejo dela era retomar ao sítio, iria criticar a medida
policial, diria enfim uma porção de coisas certíssimas, mas que de nada adiantaria. Eles
não podiam voltar para a Grota. O que a velha tinha que fazer era providenciar meio de
deter a marcha de Artur, obrigá-lo a desistir de atacar a Vila.
Argemiro Félix, a mulher de Moisés e a própria Lina começaram a assediar
Vicente.
— Ainda não foi lá? Ah, não podia fazer isso! Era tia, velha, estava num transe
difícil, o marido morreu outro dia. Ah, não fizesse assim!
Informações chegavam. A velha vivia chorando, clamando, dando seus
tremeliques. A polícia afirmava de pedra e cal que mataria sumariamente. Era só terem
certeza que Artur avançava e a faca comia na goela do pessoal.
Tanto falaram, tanto mexeram, que Vicente resolveu ir ver a velha. Uma das
criadas recebeu Vicente no corredor, o conduziu pela varanda até o quarto onde estava a
velha Aninha. Era o quarto do fundo da varanda.
Na cama grande, alta, de madeira, lá estava o corpanzil da tia, no meio da azáfama
dos serviçais e da atenção dos amigos e parentes. Suas banhas dobravam-se em pregas
por baixo do cabeção de rendas de bilro da camisa.
Ela recebeu Vicente discretamente. Meio que se ergueu no travesseiro, estendeu-
lhe a mão para a bênção:
— Deus te abençoe. Assenta aí, Vicente. Como vai Lina e Alice? Ela tá moça, não
é?
Vicente deu as notícias, meio contrafeito. A velha fez um gesto:
— Com tanto sobrosso, Vicente, ficou ruim. Desde que Pedro se morreu, que ando
zonza, sem saber o que fazer.
Vicente baixou o rosto. Tinha a impressão de que a tia o incul-
!
155
pava. Damião de Bastos e Joaquim Alves Leandro que estavam assentados por perto,
levantaram-se e saíram de cara fechada. Com pouco, entravam o Doutor Herculano e
Tozão, que vieram, apertaram a mão de Vicente, perguntaram pela família, dando mostras
de muita cordialidade. Tozão pareceu ainda mais feio, com os braços bamboleantes, as
orelhas flácidas. Doutor Herculano estava um pouco abatido, mas com o porte elegante, a
barba curta bem tratada, perfumado. Ambos sentaram-se no lugar dos que saíram.
Habilidosamente, a velha abordava o assunto do recolhimento do pessoal à Vila.
Ela não acusava Vicente Lemes. Dizia que sabia que aquilo era arte da polícia, mas que
Vicente era o homem de maior responsabilidade do lugar e não podia consentir naqueles
absurdos:
— A polícia não pode obrigar a gente a ficar aqui dentro. Nós não fizemos nada!
— Indas pro riba, querendo matar a gente — regougou Tozão. — Ela não pode
matar.
Nesse ponto, entrou também Anastácia, dizendo que já não bastava o filho que
estava preso injustamente no quartel de Severo? Agora vinham prender o marido e ela!
Vicente compreendia todo o constrangimento da situação. Na verdade a polícia
estava agindo arbitrariamente, mas era o recurso que possuía para obrigar Artur a recuar,
sem derramamento de sangue. Enquanto reclamavam, Vicente pensava essas coisas,
mas nada dizia. Ali ele não podia ir contra a polícia. Sentia que se não fosse o medo de
morrer, tipos do calibre de Tozão, Joaquim Alves Leandro e Damião de Bastos não se
oporiam ao desejo de Artur de atacar a Vila. Para apertar o pessoal, para amedrontá-los
mais ainda, para coagi-los a tomar uma medida contra o desejo de Artur, Vicente passou
a defender a polícia:
— Os oficiais têm sua razão, minha tia.
De lá, a velha bufou, começou a exaltar-se. Doutor Herculano procurou conciliar:
— Vamos ao motivo pelo qual a senhora pediu que seu sobrinho viesse cá. Essa
discussão é inútil. Vamos ao assunto, não é assim, Seu Vicente?
A velha se mexeu na cama e calou-se. O médico continuou:
— Olha, Vicente, a polícia disse que nos matará. E nós não que-
!
156
remos morrer, é claro. Para nossa salvação resolvemos uma coisa. Vamos escrever uma
carta a meu sogro Artur Melo, explicando-lhe a nossa situação e pedindo a ele que não
ataque a Vila, porque se ele atacar nós seremos mortos.
— Ótima resolução — exclamou prontamente Vicente Lemes. — Vamos enviar a
carta, já-já. Isso é que é preciso.
— Por nosso gosto, a carta já teria ido embora, mas a polícia não permite —
completou o médico entre gestos de desespero.
— Não é possível! A polícia? Logo a polícia! — admirava-se Vicente.
— Pois é — confirmou Aninha, que ouvia em silêncio o médico, que continuou:
— A polícia diz que a carta vai revelar segredos de defesa da Vila e por isso não
pode seguir. Veja só! Diz que vamos fornecer a meu sogro elementos de informação. Olha
se tem cabimento!
— Tsiu, tsiu — Tozão deu os chupões nos dentes cariados. Anastácia,
temperamental, impetuosa, disse quase gritando:
— A polícia faz de propósito. É plano daquele miserável do João Alves... Meu irmão
ignora tudo, ataca a Vila, a polícia mata todo mundo, depois foge e fica o serviço feito aí.
— Calma. Chega de bobagem. Isso não adianta — recomendava o médico.
— A polícia que corte na carta o que achar inconveniente — disse Vicente.
— Pois é. Mas nada há que cortar. A carta não diz nada além do pedido para não
atacar. Se me permite, vou ler. — com voz clara, o médico desdobrou-a ante os olhos de
Vicente.
A carta contava que a polícia havia recolhido à casa do finado Pedro Melo, na Vila,
os parentes e amigos de Artur, mantendo-os sob vigilância; dizia mais que a polícia estava
no firme propósito de matar sumariamente essas pessoas no caso de Artur atacar a Vila.
Diante disso, as pessoas recolhidas à casa, por iniciativa própria e sem qual coação, se
dirigiam a Artur, pedindo-lhe que não atacasse a Vila e que dispersasse os homens
armados por acaso reunidos. Terminando, os signatários prometiam indenizar Artur Melo
de todos os gastos que hovesse feito, comprometendo-se igualmente a indenizar os
outros companheiros seus, como Abílio Batata e Roberto Dorado.
— Dê cá a carta — disse Vicente de pé. — com certeza a poli-
!
157
cia não entendeu o que vocês queriam. — E saiu com acarta para o quartel de Severo,
onde, felizmente, os quatro oficiais estavam reunidos, em descanso. Uns na rede, outros
nas camas, fumando e contando estórias. Embora tivessem lá suas divergências,
entendiam-se mais mais ou menos bem. Xavier até remexia nas cordas de um violão,
cantarolando uma modinha de ímbaúba:
!
”Quando vivemos a sonhar amores,
Quando não temos a ilusão perdida...
!
” com a chegada de Vicente, puseram-se em atitude reserva. Sabiam que Vicente
não concordava com a prisão do pessoal e sua visita deveria prender-se àquilo. Vicente
foi diretamente ao assunto:
— Tenho comigo esta carta assinada pelo pessoal recolhido à casa do finado
coronel. Que é que vocês acham da remessa dela para Artur? Vocês ach...
Enéias atalhou: — Não pode ir.
— Não pode ir por quê? — perguntou Vicente. A pergunta desnorteou Enéias, que
contraiu o rosto num esforço de raciocínio ajeitou o cabelo castanho, ergueu o corpo
magro e corcunda da rede:
— Onde já se viu preso escrevendo.
Os olhos azuis de Mendes de Assis rolavam na cara vermelha de estrangeiro e foi
com certo ódio que falou:
— Esta carta tem segredos militares. Vicente achou graça da solenidade com que
o oficial dizia uma bobagem tão grande. Até riu.
— Tem segredo nenhum, home! — Desdobrou-a, estendeu-a para Mendes de
Assis e perguntou: — Vocês leram? Leram esta carta?
Enéias olhou para Mendes que balançou a cabeça afirmativamente.
— Então, me mostre, onde estáosegredo militar? Se tem.agente corta e remete só
o que pode ser revelado...
Enéias olhou para Mendes, que olhou para Severo.
— A carta não vai — disse Severo de maneira terminante.
Antes, eles se haviam reunido e deliberado que a carta não seguiria porque
continha segredos militares. Agora, Mendes de Assis repetia isso, sem se dar ao trabalho
de examinar a verdade da fra-
!
158
se. Depois, tanto fazia ser verdadeira ou não. Para sua mentalidade, prisioneiro não tinha
razão, não tinha direitos. Mendes de Assis não perdia tempo em pensar sobre tal caso. O
comandante era Severo, ele que se fomentasse. Vamos ver se ele sabe comandar um
destacamento!
Vicente continuava argumentando:
— Uma insensatez não deixar a carta seguir. Que é que a polícia visava com a
prisão do pessoal de Artur? Queria com isso obrigar Artur a desistir do ataque, para não
ter os parentes mortos. Até aí, muito bem. Mas Artur não podia adivinhar que os parentes
estavam presos. Para que ele não avançasse, era preciso darlhe ciência da prisão e a
ciência era dada por meio da carta. A carta era indispensável seguir. Era uma garantia
para a polícia. Sabedor da resolução da polícia, se Artur teimasse em atacar, era sinal de
que não tinha nenhum interesse pela vida de seus parentes. Era uma garantia para a
polícia. Depois, o que viesse a acontecer era com o conhecimento e com a participação
deliberada de Artur Melo.
Severo já se levantara. Alto e corpulento, seu vulto tomava conta da casa baixa,
entupia o cômodo pequeno, chegava a escurecer a luz que entrava pela janelinha.
Ajeitava a perneira, o culote. Era moreno, cabelos espetados de ouriço-cacheiro, calado e
ríspido, de um moreno lustroso de cuia.
— Dê cá esta carta — disse com ódio.
Tomou, leu-a. Era quase analfabeto. com grande dificuldade soletrou algumas
palavras, mas não deu para entender. Tinha que se segurar na conclusão de Mendes de
Assis. Ele falou que a carta continha segredos. Ficou olhando vagamente para as letras
da carta.
— Não pode ir. Paisano não entende, mas militar e jagunço entende.
Para fazer-se entender melhor, usou de uma imagem:
— Se a gente está tomando refém é porque está fraco. Se eu sei que sou mais
forte, vou logo te macetando você, num carece de ficar rodeando toco. Jagunço sabe
disso.
Apesar, porém, desse ponto de vista, Severo aceitava parte das razões de Vicente.
Era preciso mesmo fazer chegar ao conhecimento de Artur a notícia de que seus parentes
estavam como reféns. Do contrário, que adiantava?
!
159
Entretanto, o carro pegava noutro ponto: quem fosse levar a carta podia dar a
Artur informações de que a polícia e os defensores da Vila eram poucos.
Vicente propôs que levassem a carta o Doutor Herculano Lima e Argemiro Félix.
Um e outro teriam o maior empenho em que a povoação não fosse atacada. Deixavam
recolhidos à casa do coronel parentes chegadíssimos. Herculano deixava mulher, filhos e
sogra; Argemiro, inimigo de Artur, além de deixar Aninha que era sua cunhada, deixava
mulher e filhos no povoado. Se eles contribuíssem para que Artur atacasse a Vila,
estariam lavrando a sentença de morte desses parentes, pois estavam convictos de que a
polícia os mataria em caso de ataque dos jagunços.
Os oficiais novamente confabulavam. Mendes de Assis não concordava com os
demais; entretanto, por fim vinham as condições — Herculano e Argemiro podiam levar
aquela carta que estava ali. Tinham porém que fazer um juramento.
Os dois portadores vieram para o quartel de Severo. Os paisanos da Vila foram
todos chamados para a frente do quartel, e diante de todo mundo, inclusive dos oficiais,
Doutor Herculano e Argemiro fizeram o juramento solene que lhes era ditado por Enéias.
Juravam nada revelar a Artur que pudesse contribuir para enfraquecer a defesa do Duro.
— Se eu não cumprir esse juramento feito perante Deus e perante o povo, me
considero um vil traidor e aceito que qualquer um cuspa na minha cara, sem que eu
possa me defender!
Enéias falava pausadamente e também pausadamente Doutor Herculano e
Argemiro repetiam as palavras, solenemente.
O dia era embaciado e triste. Em toda a Vila, a vida como que suspendeu para
ouvir o juramento solene. O pessoal reunido em frente à casa guardava um silêncio
religioso e constrangedor.
As palavras reboavam, como no dia do juramento perante o cadáver do velho
coronel. Seu som batia na parede da casa fronteiriça e voltava em eco! Era como se
alguém postado do outro lado zombasse de tudo.
Os animais chegaram arreados. Severo mandou que Sargento Odilon e mais dois
praças revistassem as selas, os baixeiros, ossuadouros. Também as roupas e os
calçados dos portadores foram revistados. Só então veio a ordem de seguir. Sargento
Odilon com
!
160
um grupo de soldados armados os conduziu até as últimas trincheiras, no rumo da Grota.
O povo dispersou-se ainda impressionado com a gravidade da cena. Alferes
Severo procurou Vicente Lemes. O cabelo estava mais espetado, as frases eram mais
curtas:
— Você larga de impertinência, hem! Isso não dá certo, não.
— Que impertinência, meu Alferes? Estou ajudando vocês. Afinal, vocês querem
deter o avanço de Artur ou essa prisão é de mentira, é apenas uma desculpa para matar o
pessoal? Como é que você me explica?
Severo botou em Vicente uns olhos frios e tomou a ponderar: — É melhor você
esbarrar de ir na casa dos Melos, ouviu? Dá certo não, ouviu! — Era uma voz de ameaça,
dura e apagada, que irritou Vicente.
”Não dá certo? Não ir à casa dos Melos?” — Vicente procurava conter-se. A polícia
estava com absurdo. Uma proibição assim era um desaforo. Ele ia e ia, que os Melos
eram seus parentes, estavam sendo coagidos. Afinal de contas ter aquela gente como
refém era uma violência. Eles nada deviam. Essa é boa! A polícia faz as suas bramuras,
mata o velho, rouba, e depois os paisanos é que iam pagar o pato!
Severo gaguejou, abaixou a cabeça um pouco, estendeu a mão espalmada para
cima, no rumo de Vicente, e arrematou:
— Pode continuar indo lá pra ver uma coisa!
Falou e saiu soturnamente, as esporas tinindo no chão batido, a cabeça quase que
batendo nos caibros.
Valério Ferreira ouviu a discussão e quando o oficial se afastou, chamou a atenção
de Vicente. Vicente estava com besteira. Ele devia fechar os olhos e largar os Melos com
a polícia. Se matar, que matou. Temos nada com isso!
— Temos nada com isso! — retrucou Vicente. — Você está muito enganado, seu
barra. Estou lutando contra Artur Melo é por causa dos seus desmandos e não vou aceitar
que a polícia faça a mesma coisa. Eu quero que imperem as leis e não a vontade de Artur,
ou Vicente Lemes ou Severo. Não concordo com isso, de jeito nenhum!
— Você sai perdendo, Vicente — contestava Valério balançando a cabeça,
desacorçoado, desapontado. — Aqui, não tem disso. Ou
!
161
nós ou os Melos. Você vai perder. Veja o exemplo de Artur. Ele aceita tudo, aceita até
arrasar com o Duro, contanto que continue mandando.
Vicente não concordava.
— Tem gente que está conosco para fazer bandalheira, Vicente. Para fazer coisa
direita eles não precisam de ninguém. Se você continuar com essa bobagem de justiça,
de lei, de não sei mais o quê, você acaba ficando sozinho na chapada. — Ferreira fecha
boca fortemente, apertou os lábios, sacudiu a cabeça, consertou a garganta, para
prosseguir: — Não viu o exemplo de Carvalho? Estávamos achando que era o direito em
figura de gente, no entanto é isso que se sabe. Tinha trato secreto com Artur para não
prender e acabou traindo.
— Ai, ai, ai! já vem com coisas — protestava Vicente. — Isso é prosa de gente dos
Melos.
— Não, Vicente. É verdade. O pessoal conta que Artur estava dispersando o povo
para comparecer a juízo, confiante no trato que fez com Carvalho. Hugo Melo está aí e diz
para quem quis ouvir. Doutor Herculano também dizia, Damião de Bastos diz.
Vicente não queria ouvir. Que alterava tudo isso? Entristecia-o o derrotismo de
Ferreira, a sua falta de confiança. Valério Ferreira continuava falando:
— Olha, menino, nem governo não quer saber de justiça. Ele apoia nós para fazer
aquilo a que a lei não dá direito. Porque é que Artur é respeitado? É porque segue a lei?
Você vai ver. Você fica aí cheio de dedos com a prisão dos parentes e amigos dele, não
é? Pois Artur evém de lá com seus ”rapazes” e não respeita mãe, não respeita filha, nem
cunhados, nem amigos presos. Vai meter bala em riba de tudo. Fica aí defendendo direito
de Artuzinho para tu ver uma coisa!
Valério Ferreira se foi com sua boca desgraçada, com suas palavras de fogo e
Vicente ficou-se ainda mais desorientado. Então, que fazer? Que caminho tomar? Aceitar
tudo que a polícia queria fazer, não podia ser. Mesmo sabendo que a polícia tratava os
paisanos como nem se sabe o quê, não os ouvia, não procurava entrar com eles num
acordo em nada.
Sinceramente achava Vicente que eles estavam entre dois fogos. Tanto era
perigosa a polícia como os jagunços. E se fugissem? De novo Vicente passou a pensar
seriamente em fugir. Sair enquan-
!
162
to era tempo, que os homens de Artur estavam querendo fechar o cerco em tomo da Vila.
Fugir e fugir logo.
!
— DONA ANINHA mandou dizer assim... — Olhe novamente a negrinha.
— Nega, diabo! — A bichinha saiu que saiu ventando. Vicente já sabia que era
para ir à casa da tia e ficou sobressaltado. Havia a proibição de Severo, havia as palavras
de Valério. Mas o coração doía. A velha estava agoniada, tinha medo de morrer e ver
morrer os parentes, como vira morrer o velho.
Na verdade, precisava restringir o contato com os Melos. Astutos como eram
podiam valer-se de Vicente para burlar a polícia e ajudar Artur. Mas agora tinha que
atender ao pedido da velha. Fazia uns dois dias que não a via.
Ao entrar na casa da tia, no corredor, ali estava o Tenente Mendes de Assis, que
veio ao seu encontro:
— O senhor não pode entrar.
— Alto lá, Seu Tenente. Você manda nos seus soldados, no seu quartel. Em mim,
mando eu.
Mendes de Assis engrolava razões, o carão vermelho, os olhinhos azuis dançando:
— O comando resolveu proibir o senhor de entrar. Magrinho, franzino, o nariz
adunco, Vicente Lemes nesses momentos virava uma piranha. Pulava num pé e noutro.
— Resolveu o diabo! Tenho nada com o comando! Está aqui a carta de Eugênio
Jardim me autorizando a dirigir a política do Norte e não vou obedecer a ordem sua.
Metia a mão no bolso de dentro do casaco, tirava de lá a tal carta que estava
esfrangalhada e sacudia a bruta no ar.
Mendes de Assis não discutia. Parece que estava representando um papel. Haviam
determinado que ele montasse guarda, ele veio. Mas não tinha nada com o peixe.
Carvalho o destituíra do comando, botou Severo, não é? Então, vamos ver em que vai dar
o comando desse analfabeto do Severo. Mendes de Assis tudo faria para o fracasso do
rival.
Vicente deixou o oficial de lado e entrou pela casa que estava repleta de gente,
com camas pelos cantos, redes pelo meio da casa, meninos pequenos chorando, bruacas
e cangalhas. No quar-
!
163
to, a corte de parentes, amigos e crianças. Alguns contando estórias, outros abanando a
velha, outros lhe trazendo chás e cheiros.
Foi vendo o sobrinho e gritando com rispidez:
— Como é, Vicente, alguma resposta?
Falava entre soluços e lágrimas que lhe corriam pela cara gorda, caindo no colo
farto.
— Resposta de quê, minha tia?
Ela se referia à carta que haviam remetido para Artur. Outras interpelações vieram
tumultuadas. Os portadores tinham mesmo partido? Será que a polícia não estava com
eles presos? Será que eles não tinham sido mortos? A velha ficava quieta e chorava
espremido, as lágrimas coleando pelas dobras da gordura. Depois se lembrava:
— Falaram na carta que nós queremos pagar as despesas já feitas pro Artur?
Despesa para reunir os homens, comprar armamento?
— A carta conta tudo isso, mamãe, pode ficar tranqüila. Tozão tem uma cópia —
explicava Anastácia.
Também Amélia protestava.
— Bem capaz deles matar meu marido. Carvalho prometeu tanto a papai que não
o prenderia e foi só ele dispersar o povo, aquele cachorro meteu a polícia em cima...
Herculano não devia ter ido!
Anastácia se aproximava de Vicente e começava a lhe falar num tom baixo,
confidencial. Pedia, de lágrims nos olhos, que arranjasse um jeito de livrar o filho. Tinha
certeza que os oficiais acabariam matando o coitadinho.
Vicente enxergava o rosto da prima-debruçada perto do dele, pedindo, implorando,
e sem nada poder fazer. Ela queria que os oficiais deixassem o filho na casa da velha.
— Não estavam todos presos ali? Pois então que ficasse Hugo também. Severo
acaba matando o menino, de medo dele contar o roubo do dinheiro, a morte do velho já
entregue e desarmado...
Vicente procurava acalmar a prima. Ele agora achava que Atur não mais atacaria.
com o recebimento da carta, recuaria. Tanto que não chegavam notícias de novos
avanços. O perigo estava conjurado.
Mas a prima não se conformava. Sua cara estava perto da de Vicente, que
pensava coisas impróprias para o momento. Pensava no que diziam de Anastácia. Que
era mulher que tinha suas aven-
!
164
turas amorosas. Vicente desviava os olhos dos olhos da prima. Diziam dela com Norato,
com Mulato.
A boca da prima é que era bonita. Uma boca que conservava o frescor da
juventude, os lábios carnudos e cheios. Os lábios mexiam-se sensualmente, mas Vicente
procurava reprimir os pensamentos maus. A pobrezinha estava sofrendo, estava lutando
como uma leoa na defesa do filho. Podiam dizer dela o diabo, mas a sua coragem, a sua
firmeza na defesa dos parentes era uma atitude bonita.
— Meu filho ouviu Mendes de Assis dar ordem para os soldados afirmarem que
meu pai resistiu...
Vicente saía. Daí a pouquinho a velha queria saber novas notícias.
— Tenha calma, minha tia. Eu acho ,que Artur não vai atacar depois de ler a carta.
A velha soluçava e voltava aos mesmos refrões:
— Será que mataram os portadores? Será que os portadores entregaram a carta?
Encostada nos ouvidos de Vicente estava a boca carnuda de Anastácia, mexendo
sensualmente, soprando as palavras com um hálito quente que arrepiava. A boca parecia
um sexo, sexo de mulher, carnuda, vermelha. Quando adolescente, muitas vezes tinha
visto, tinha apalpado o sexo da prima. Bobagem. Primos sempre são assim com essas
intimidades.
— Será que a gente pode ir ao quartel conversar com Severo, Vicente?
Por dentro dele subiu uma coisa ruim. Perto de sua cara a cara da prima, molhada
de lágrimas, a saliva meio visguenta do choro, uma expressão de súplica nos olhos.
Vicente reprimia o pensamento mau, mas tinha para si que a prima iria tentar o oficial. Ela
seria bem capaz de oferecer o corpo pela liberdade do filho Por dentro de Vicente subia
um sentimento confuso. Seriam ciúmes da prima? Ofendia-se com a idéia de vê-la entre
os braços de Severo, aquele sujeito brutal e odiento, Severo que devia de estar há muitos
meses sem mulher e que já tinha no olhar um laivo de sensualidade. Severo despindo a
prima, apertando-a, abrindo-lhe as coxas.
— Meu filho sabe muita coisa, Vicente. Se falar, esses oficiais estão perdidos. Se
falar, o Juiz Carvalho está rodado!
!
165
!
Seu hálito escaldava nos lábios polpudos, semi-abertos como um sexo jovem,
hálito que lembrava o milharal naquele dia distante de seu noivado, quando o velho
coronel o desafiou para andar no bicame.
”A prima pelo quintal, nos tempos de infância, mostrando as coxas grossas,
fugindo, mostrando mais distante. Deixe-me pegar um pouquinho só. Então, só um
pouquinho. Aí, chega, que vem gente”.
!
O PESSOAL cobrou alma nova. A Vila era outra. As pessoas vieram para o Largo,
conversavam, abraçavam-se, batiam palma: As mulheres enfeitaram com panos vistosos
as janelas e as crianças riam contentes.
Alferes Enéias ficou tão satisfeito que veio dar um abraço em Vicente:
— Estou gostando de ver. Vocês não são nenhuns perrengues não.
Mendes de Assis também deixou a rede, abandonou por alguns minutos o rosário e de
chinelos arrastando, a barba por fazer e querendo ficar ruça, zanzou no meio dos outros
quase sem dizer coisa alguma. Podia acontecer o que acontecesse, continuaria de braços
cruzados.
O rebuliço era causado por um contingente que entrava na ViIa. Uns trinta homens
armados e municiados, comandados por Leão de Aquino, bicho brabo, resolvido, contador
de lorotas, acostumado a escorar barulho. Leão distribuía o pessoal e cuidava da defesa
da Vila, mas ao mesmo tempo contava seus casos, arrota-va valentias, entusiasmando o
povo.
Vicente chamou de parte Leão e confiou-lhe alguns segredos:
— Olha, cuidado com a polícia, que não merece a menor confiança. — Contou-lhe
tudo que havia ocorrido. O caso do assassínio do velho já desarmado e entregue, o furto
do dinheiro, da espionagem de Xavier e Alcides. Contou do levante que tinha havido para
depor o Juiz Carvalho. — Leão ficaria cometido de uma tarefa muito séria. Vigiar a polícia,
trazê-la sempre de olho,
No varandão de Dona Benedita a conversa recuperou o calor de outrora. A
velhinha mesma estava entusiasmada, já se interessando pelos canteiros de flores.
!
166
Das bandas da Bahia, nenhuma notícia chegava. Parece que Artur estava
dissolvendo o seu grupo. Observando tudo isso, Vicente chegava a sentir-se
envergonhado, a cara lascando fogo: E eu que quase abandonei o Duro, de medo de
Artur! Agora, quéde Artur com seus Roberto Dorado, Maroto, Umbuzeiro, João Rocha e
não sei quê mais? Quede esses tutus, minha gente? Ah, com tanto paisano e com a
poícia eles não seriam bestas de atacar a Vila!
!
ERA VER um galo cansado de tanto correr: cambaleava, vergava os joelhos, avançava,
ficava parado. Será que está ferido! Algum louco? Atravessou o Largo, entrou na casa de
dona Benedita, no oitão do quartel de Enéias.
O pessoal logo entupiu a casa, aglomerando-se em tomo do chegante que mal
podia respirar. Sufocava, a baba grossa e visguenta escorrendo queixo abaixo, olhos
vidrados, narinas dilatadas e a boca arfante. Feito um bêbado, apoiou-se em Valério
Ferreira e amontoou no chão.
— Arreda, gente, arreda, deixa o homem descansar!
Mas ninguém se afastava, curiosos das notícias que certamente trazia. Vicente
mais Valério o pegaram, levaram para um quarto. Na mesma hora caras surgiram na
janela que foi fechada e ali ficaram abanando o pobre, molhando-lhe a testa e as fontes
com água fresca, molhando a língua.
Era Deodato, pessoa da amizade de Vicente Lemes, comerciante no povoado.
Uma gosma grossa e pegajosa tapava a garganta, não deixava a água descer,
gosma que o engasgava, tomava-lhe o fôlego, obrigava-o a tossir convulsivamente. Nisso
o homem pegou a gritar, feito um condenado, contorcendo-se. Eram cãibras. A cada
movimento os músculos enrolavam-se, faziam poronós, e o bicho chegava a chorar de
dor.
Agora, articulava algumas palavras.
— Que era? Que estava dizendo?
— Abílio Batata e Artur... estavam., na Grota.
Aí o homem esbarrou, não agüentava mais, arquejante feito um bicho na agonia,
uma aflição de matar, os músculos se retorcendo na cãibra.
!
167

Vicente lhe trouxe água, molhou-lhe as fontes, e perguntou a Valério se ouviu direito.

- Sim, tinha ouvido: Abílio e Artur estavam na Grota.
— É Leão. Quero falar com vocês!
Vicente custava a crer. Parecia um sonho, umpesadelo, uma história de menino.
Quer dizer que Artur ia atacar mesmo. Não era conversa fiada, não era tutu não. Mas todo
perego não parecia afastado, com Vila garantida pelos refêns, pela polícia, pelos civis?
Ainda duvidava. Esperava um acontecimento acima das forças humanas, que Deus
surgisse e empurrasse Abilho Batata com sua espada de fogo. Uma espécie de moleza
invadia Vicente. Vontade de ficar sentado, deixar Deodato morrer, Deixar os bandidos
entrar, pregarem fogo, matar, jogar fora, pronto, acabou-se.
-- Ei, Vicente, estão batendo! – Foi Ferreira que lhe deu o safonão. É que batiam
na porta. Quem batia anunciava-se:
-- É Leão. Quero falar com vocês!
Feito um doente, com um esforço enorme Vicente ergueu-se, abriu a porta. Por ela
entrou Leão. Entrou feito um pé-de-vento, a cara vermelha, as armas retinindo, as botas
socando o chão.
— Que que está contando? — indagava Leão, que tirava do bols uma garrafmha:
— Isso é bom para animar.
— Que é isso? — queria saber Ferreira.
— Água benta, Seu Juiz. Para espantar os maus espíritos.
Em tomo, riram, percebendo a brincadeira. Leão continuou,:
— Deodato é um pau-d’água dos diabos. O que tem é sede de cachaça. É ou não
é, Deodato!
Leão abraçou-se com o homem, fê-lo levantar-se um pouco, meteu-lhe o gargalo
na boca, para um pequeno gole. Em seguida trouxeram alguma coisa para o homem
comer, enquanto Valério punha Leão a par da notícia de Deodato.
— Pode chegar, jagunçada de uma figa! — No quarto, Leão dava pinotes,
ameaçando jagunços imaginários com seu punhal desembainhado: — Chega logo,
putada!
Ferreira ria e Deodato também ensaiou um riso doloroso e desbotado, entre
gemidos de cãibras. Por fim, Deodato começou a contar.
Estava nas imediações da Grota, quando foi preso por um homem de Artur e
levado para o sítio. Perguntaram-lhe muita coisa, mas depois largaram de mão, vendo
que ele estava fora da Vila há muito. Nisso o pessoal começou a comer um porco abatido
na hora.
!
168
Deodato pegou seu pedaço de entrecosto e saiu por ali mode obter uma vara para
espeto.
Quando deu fé, estava meio longinho, não havia ninguém o vigiando. Deodato
continuou caçando espeto, já agora de mentira. Não tinha ninguém por perto, Deodato
meteu os pés. Lá adiante, alguém gritou, um jagunço saiu no seu encalço, deu uns tiros,
mas o homem conhecia tintim por tintim os atalhos e cabreiros da região e em breve
ganhou dianteira.
Corria o que lhe davam as forças, sentia-se desfalecer, sentia as pernas arderem,
a garganta queimava como se fosse brasa e não ar o que respirava, mas Deodato não se
detinha.
Leão percebeu nos olhos de Vicente um laivo de incredulidade. Mas as palavras do
homem não eram palavras de mentira. Dizia ele:
— Lá na Grota eu vi o Coronel Artur Melo, Abílio Batata, Miguel Umbuzeiro... Tem
mais de trezentos homens, tudo com Winchester nova e bala que é um despropósito.
Leão, Valério e Vicente ouviam em silêncio.
— Diz que tão esperando a chegada de Roberto Dorado para atacar... Ai, ai, ai! —
Eram as cãibras torturando o condenado que se retorcia e chorava de dor.
Novas pancadas na porta do quarto.
— É o Tenente Assis — gritavam de fora. A porta se abriu muito pouco, o tenente
passou deixando entrever pela fresta um pessoalão com cara de curiosidade e de pavor.
Alguém ainda avançou, forçou a porta para entrar, mas Leão impediu. Convinha guardar
segredo. Era besteira alarmar a população.
— Vamos tomar providência, gente! — concitava Leão, enquanto Vicente narrava
ao ouvido de Mendes de Assis as novidades. O tenente, porém, não dava crédito a
paisano: queria ouvir da própria boca de Deodato. Enquanto ouvia, contraía a cara,
coçava-se nervosamente, metia o dedo no nariz.
— Seu tenente, Leão é o comandante dos civis, o senhor podia acertar com ele as
providências que deve tomar, não é? — aventurava Vicente Lemes, enxergando que urgia
um entrosamento dos civis com os militares. O número de pessoas dentro da Vila era
bem dizer uma terça parte dos homens de Abílio. Não se podia perder esforço.
— Depois a gente chama Leão. Por enquanto... — A resposta
!
169
de Mendes de Assis era uma evasiva. Também ele não mandava nada. Carecia de
procurar Severo.
De novo batiam na porta. Batiam, batiam. Era um recado de Dona Aninha. Quem
trazia era Moisés, que pedia a Vicente que fosse imediatamente à casa da velha.
— Coisa grave — dizia Moisés, num tom misterioso, quem estivesse visto o
capeta.
— E eu que vou procurar esses oficiais! — exclamou Leão, deixando o quarto. —
Preciso preparar meu povo.
O povo queria invadir o comodozinho, mas Vicente impediu.
— Não fizesse isso que Deodato estava muito fraco. Ferreira também saiu. Iria
encontrar-se com Ângelo e Júlio de Aquino para prepararem a defesa. Era chegado o
momento de faz armazenamento d’água, de alimento, de lenha, de tudo que foi
necessário para enfrentar o cerco. Estavam completamente desprevenidos, confiantes em
que Artur não atacaria, confiante e que respeitaria os reféns. Precisava distribuir o povo
por determinadas casas, estrategicamente, a fim de favorecer a resistência.
— Vamos embora, Vicente, — reclamara Moisés, que o pegou pelo braço e saiu
arrastando em direção à casa da velha.
Quando Vicente pisou a soleira da porta da rua, já ouviu o fuá que ia lá por dentro.
Choro, gritos, correrias, portas fechadas, canastras, bancos, mesas, bruacas e cangalhas
as escorando.
— Que é isso? Onde está a velha?
Aninha encontrava-se no quarto grande do fundo da varanda, deitada na cama
larga, cercada de almofadas, com o pessoalão em tomo: mulheres, homens, meninos,
servicais. Uns a abanavam outros lhe traziam chá, outros lhe davam cheiros.
Quando a velha ficava nervosa, pegava a querer dar chiliques, tremia, perdia os
sentidos, era um deus-nos-acuda. Naquele momento, todavia, embora todos receassem o
ataque, ela não o sofria. Estava bem lúcida.
Caminhando, Vicente foi-se inteirando do ocorrido. A polícia tinha ido à casa da
velha e prendido os homens. Todos: Damião de Bastos e os dois filhos; Joaquim Alves
Leandro e um filho; Melo Filho, irmão de Artur, Tozão, Abadia Ribeiro, irmão de Cláudio, e
Damasceno, camarada de Damião.
Esse pessoal havia sido recolhido ao sobrado, — informavam
— onde Enéias tinha o seu quartel. Aí, na parte térrea, era aca-
!
170
deia local. Os nove homens lá estavam, os pés metidos no tronco, que era constituído de
dois compridos esteios de madeira forte. De espaço em espaço, possuíam esses esteios
um corte em meia-lua. Justapostos, os cortes formavam buracos, nos quais se metia a
canela do cristão, que ali ficava jungido. De um lado, unindoos dois esteios, havia uma
dobradiça de ferro, grosseira, feita ali mesmo, e de outro, uma espécie de aldrava com
cadeado.
Os homens protestaram, relutaram, mas foram levados à força, alguns arrastados
pelos soldados que os ameaçavam de matar ali mesmo.
Tozão velho sacudiu as orelhas e balbuciou alguma coisa. Dizia que não podiam
prendê-lo. Era capitão da Guarda Nacional e só poderia ser preso por oficial de patente
superior.
— Tá bestando, só, — retrucou Enéias. Agora é lei de guerra! Joaquim Leandro,
esse tentou resistir, correu para pegar sua arma no quarto. Mane Vitô deu-lhe uma
rasteira, derrubou-o a fio comprido na sala, montou no bicho e meteu o refle na cabeça.
Diziam que foi levado carregado, sangrando feito um capado.
Enéias com os soldados enfiaram a canela de cada um em cada um dos buracos,
passou o cadeado e meteu a chave na algibeira.
— Quero ver esse Artuzinho de merda nos atacar! — dizia ele para Mendes de
Assis e Severo. E já saindo, Enéias avisou aos prisioneiros:
— Pois é, vão se apegando com Deus e os santos, mode Artur não atacar. Se ele
atacar, vocês podem liquidar com eles, viu?
Aquele ”vocês” a quem Enéias se referia eram Mane Vitô e Nestório que ajudaram
na prisão e garroteamento dos homens e que ali estavam risonhos e satisfeitos, sentindo-
se importantíssimos com a missão de guardar aquela gente..
— Tou fazendo mas é força pra esse tal de Artuzinho atacar... — disse Mane Vitô,
cuspindo de esguicho. Sentia-se poderoso. No meio de tantos soldados, foi ele que
Enéias escolheu para vigiar aqueles prisioneiros. Seus companheiros de farda e os
paisanos ficariam sabendo que era um cabra macho, cabra perigoso. Estava vendo que
quando acabasse aquela luta, teria uns pares de lagartixa no braço.
Alferes Enéias ajeitou a farda que se amarrotara com os movimentos feitos para
prender o pessoal. Puxou a túnica, acertou a gola, arranjou o talabarte, e saiu, deixando
Mane Vitô de guar-
!
171
da. Ia reunir-se com os demais oficiais no quartel. com aConblain na mão, o picuá de
balas a tiracolo, na cinta o refle e o revólver, ficaram de guarda Mane Vitô e Nestório.
Passeavam para lá e para cá e já nutriam um ódio de morte os prisioneiros do
tronco. Olhavam eles como se fossem inimigos pessoais, como se os odiassem de muitos
e muitos anos. Queriam que te reclamassem a menor coisinha para meter a coronha logo
na cabeça, rebentar os miolos. Mane Vitô cuspinhou de esguicho no canto da sala, os
olhos feitos duas brasas:
— Bamo ver, cachorrada. Fala alguma coisinha aí para ver eu é que um cachorro
morre!
Nestório agachou-se, puxou o quepe para os olhos e ficou feito um toco de pau.
Quem visse pensava que estava dormindo. No entretanto, se Mane Vitô assuntasse bem,
haverá de ver os beiços do cafuzo mexendo. Nestório recitava o credo às avessas e fazia
muito esforço. Tinha cabeça dura e a reza era reza muito fina de propósito. Se errasse
uma palavrinha, a reza não surtia efeito. Carecia de botar todo sentido, que era reza
braba igual jararaca.
”Não creio em Deus Padre todo-poderoso, nem criador do céu e da terra, nem
creio em Jesus Cristo, que não foi concebido por obra e graça do Espírito Santo!’
A VELHA Aninha chorava, como costumam chorar as velhas, de uma maneira
profundamente dolorosa. As lágrimas corriam,os soluços subiam numa convulsão
profunda e sofrida, o rosto se contraía, contorcia-se a boca.
Mas no estava acovardada. Assim que viu Vicente, falou fui me e fortemente:
— É de vera que Artur chegou?
— Deodato está contando isso, minha tia.
— Pois a polícia veio cá e fez uma limpa, — dizia ela, que enumerou os presos.
Dentre os circunstantes, Anastácia informou que Tozão também fora preso. A velha
protestou que não, que Tozão não tinha sido recolhido ao tronco.
— Foi, sim senhora, — teimava de lá a filha, entre soluços, ocultando o rosto com
as mãos: — Mataram meu pai, prenderam meu
!
172
filho e agora prendem meu marido! — Um choro brutal, um choro selvagem, uivo de cão.
— Coitado de Tozão — disse a velha, como para si mesma, — que é que tinha
com isso?
Ao redor comentavam a prisão de Joaquim Alves Leandro. Era igual à morte do
velho Pedro Melo — um sacrilégio. Talvez se os soldados tivessem quebrado os santos
do oratório de Dona Benedita o povo não houvesse achado tão espantoso. Ninguém
contava o caso diretamente ou por inteiro. Referia-o aos pedaços, por meio de vagas
alusões.
Era o homem mais rico da região. Muito poderoso. Sua fazenda perto de
Natividade imitava um palácio, com cortinas de veludo, vasilhame de prata e ouro. Além
de dois capangas Joaquim Leandro fazia-se acompanhar de um estribeiro, um rapaz
vestido de seda de cor, montando num cavalo bonito, que tinha por tarefa segurar a rédea
para o Senhor Joaquim, e depois ajeitar-lhe o pé no estribo.
Os arreios dele eram uma beleza, todo tauxiado de ouro e prata, com as ferragens
da cabeçada feitas de prata. Joaquim Leandro andava com um chicotinho de cabo de
ouro na mão, para bater nos empregados. Lambadas de tirar sangue.
Nunca ninguém não tivera idéia de triscar ao menos nos animais desses Alves
Leandro, que eram gente soberba, confiada no alto poderio das barras de ouro enterradas
nos alicerces da fazenda. No entanto, naquele dia a polícia deu com o alto senhor no
chão, amontou em riba e meteu o sabre.
Ali no chão havia sangue do homem mais rico do Norte de Goiás. Ninguém tocou
no sangue, em sinal de respeito. Quem passava, passava por longe, nem pular aquele
sangue ninguém podia, que não era sinal de bom preceito.
Os empregados, os criados e os amigos se benziam. Aquilo era mesmo o fim do
mundo. Bem que Maria Pequena tinha dito que Carvalho possuía uma ”coisa” fêmea!
Com seu império de sempre, com coisa que fosse senhora da situação e com coisa
que não estivesse na dependência de Vicente, a velha virou-se para o sobrinho:
— Olha, meu sobrinho, é preciso que você ponha cobro nisso. Você não pode
deixar esse pessoal morrer assim sem mais nem me-
!
173
nos. O sangue desses pais de família vai cair na sua cacunda e na cacunda de Valério
Ferreira.
— Jeito quem dá é Artur, minha tia. Ele que não ataque o povoado se quiser os
parentes com vida!
Para perto de Vicente veio Anastácia e pegou a lhe encher os ouvidos, o hálito
quente lhe queimando as orelhas, os beicosa da mais grossos, mais intumescidos pelo
pranto.
— Vicente devia ir ver os presos, não desamparasse eles que os soldados
estavam dispostos a matar. A polícia os mataria para que não contassem o roubo dos
dezoito contos do velho, para que revelassem que o velho morreu depois de se haver
entregue à polícia; para que não contassem que Carvalho prometera a Artur não o
prender, se dispersasse o pessoal da Grota.
Vicente ficava quieto ali no meio do povo, com Anastácia quase montando em riba
de seus joelhos, esfregando-se nele, a cara molhada de lágrimas, num desespero
tremendo, o bafo quente como se estivesse com febre.
Numa ânsia de animal ela perguntava:
— E Hugo? Você falou com Severo? Será que ele deixa meu filho vir pra cá?
Aí se lembrava da prisão do marido:
— Ah, agora é besteira. Agora eles não deixam mais Hugo vir para cá!
O choro vinha do fundo do peito, aos solavancos. Anastácia tombava com a cara
ali na cama da mãe e gritava pedia:
— Vicente, vai vigiar os presos. Os soldados matam eles, Vicente!
Era preciso mesmo ver os prisioneiros. E Vicente saía com essa intenção.
Na cama ficou a velha resmungando. Não mais estranhava o avanço do filho. No
seu egoísmo, achava que Artur estava certo; o grupo de Vicente é que tinha que recuar,
que tinha que abaixar o cangote.
Vicente afastava-se e ela dava vazão a seu sentimento:
— Ora, essa é boa! O pessoal de Vicente que se fomentasse. Artur disse que ataca
e ataca mesmo. Até parece que não conhecem Artur! — Havia soberba nessas palavras.
A velha se envaidecia da dureza, da inflexibilidade do filho, passando por cima de todo
!
174
!
pedido, do pedido de todo mundo, para vingar a morte do pai, para cumprir uma
promessa de vingança.
Ainda no corredor, Anastácia se atravessou na frente de Vicente:
— Defenda Tozão, meu primo! — A voz vinha quente, os beiços ardendo, como se
tivesse comido pimenta. Ela devia ser uma brasa na cama. Bem que diziam. Tentava
afastar o pensamento libidinoso, ele voltava insistentemente. Norato falava. Uma brasa,
uma cobra na cama. E quando queria, queria sempre mais. Vicente sentia vergonha de
pensar isso naquele momento em que ela sofria tanto. Logo agora que ele ia enxergar a
prima! Logo agora que a pobrezinha estava tão desgraçada. Será que ela procurou os
oficiais? Se procurasse, os oficiais iam fazer proposta desonesta. Estavam havia muito
sem mulher, em dieta de família naquele oco. Por certo não resistiriam a uma mulher
assim naquele estado.
Vicente atravessou o Largo e chegou ao sobrado que servia de quartel, em cuja
parte térrea estavam os prisioneiros. Ali, porém, não pôde entrar. Mal se aproximou, Mane
Vitô manobrou a arma e botou bala na agulha.
— Passe de largo — gritou na sua voz bonita.
Aquilo irritou Vicente. Afinal de contas ele possuía autorização de Eugênio Jardim
para dirigir a política do Norte, e um soldado boçal daquele o mandava passar ao largo!
Tentou impor-se. com aquela gente era preciso tomar atitude, endurecer o
espinhaço, mostrar-se arrogante.
— Alto lá, soldado. Quero falar com os prisioneiros, alto lá! A Comblain de novo
mastigou e a voz veio mais forte: — Se teimar, meto fogo. É ordem! — Vicente viu Mane
Vitô levar a espingarda à cara, apontando para seu peito.
Que fazer! Vicente se dirigiu para o quartel do Tenente Mendes de Assis, onde
deviam estar reunidos os oficiais.
Chegou com jeito, conversou com Mendes de Assis sobre as prisões, disse que
vinha da parte de Anastácia, que tinha o marido no tronco e o filho em casa de Severo.
Severo o interrompeu. Pelo tom de voz, notava-se que se continha para não
explodir em xingatório:
— Se você vem pedir pelos Melos, é tempo perdido, é tempo perdido... — Disse e
considerou o assunto morto. Já saiu chamando um sargento e dando ordem para reunir
mantimentos, para juntar lenha, armazenar água.
!
175
Vicente Lemes quis dirigir-se ao Alferes Xavier que era o mais delicado e o mais
compreensivo. Talvez por isso dissessem que era aliado dos Melos, que havia recebido
uma bolsa de dinheiro ao entrar na casa. Coisas! Também o encontrou fechado. Mais
baixo do que Severo e mais claro, Xavier não tinha, no momento, calma habitual. Não deu
ouvidos aos argumentos de Vicente. Xavier ouvia as razões com a cara de enfado, sem
dizer nada, mostrando-se indiferente ao assunto.
De lá, quem falou foi Mendes de Assis:
— Precisa prender essa corja, em antes que eles acabem com nossa gente. Isso é
que é certo!
— Quero dizer que não é preciso meter no tronco. Pode prender sem ser no
tronco.
— Sei lá — retrucou Mendes. — Sei lá. São do lado de Artur e estão querendo
vingar a morte do velho. Gente muito perigos:
O tenente proferia as frases num tom terrivelmente nervoso com cara de meter
medo. Até parecia que estava embriagado. Seria possível?
Vicente compreendeu ser inútil querer convencer os oficiais de qualquer coisa.
Estavam assombrados com a aproximação de Artur. Depois, talvez obtivesse alguma
medida favorável aos prisioneiros; no momento era mais hábil não teimar.
!
A TARDE chegou e Vicente nem percebeu, atarefado com uma e outra providência.
Novos recados vinham da parte da velha Aninha, mas que ia Vicente dizer? Que a polícia
não atendia a nenhuma reclamação? A tarde avançava e era horrível. A aflição dominava
a todos. Já ninguém se iludia. Vicente parece que acorda de um sonho, parece que
estava vivendo uma história fantástica.
A realidade agora era dura. Os bandidos estavam de grito, atacariam a qualquer
momento. A esperança eram as balas, eram as armas, era a coragem dos sitiados, depois
da proteção divina.
E aquela demora irritante! Que atacassem, os miseráveis! Aquela demora é que
matava, é que arrasava os nervos. Tinha hora que Vicente pensava em desesperar-se,
pegar o pessoal e atacar a Grota, atacar o reduto, levar o diabo, mas pôr um termo à
aflição.
Lina chegou com um caldo na tigela. Vicente não tinha pingo
!
176
de fome, mas ela instou. Era preciso enfrentar a situação, reconhecer o perigo que estava
à porta, escorá-lo bem alimentado e disposto. As palavras dela entravam por um ouvido e
saíam pelo outro. Até o irritavam. Ele só pensava no ataque, na defesa da Vila, na
maneira de evitar a morte dos homens metidos no tronco, em como salvar Hugo Melo que
não tinha ainda vinte anos de idade.
O homem ingeria o caldo, de qualquer maneira. Caldo de quê seria? De carne, por
certo, engrossado com farinha de milho. Tozão, Hugo Melo, Tozão, Anastácia, Abadia.
Lina era tão diferente de Anastácia! Anastácia era uma fogueira, uma cobra na
cama, no testemunho de Norato. Pressentia-se isso pelo calor de sua boca, pelo ímpeto
que punha nas suas resoluções. Vicente desejou a prima, desejo besta de que se
envergonhou. Lina, tão diferente, tão boa, tão digna de confiança! Mas seria fria? Como
seria uma mulher ardente, feito uma cobra na cama?
Num assomo de ternura, Vicente passou o braço em tomo da cintura da mulher e
apertou contra si. Remorso de pensar em Anastácia.
Desabituada com essas demonstrações de carinho, Lina desvencilhou-se e fugiu,
levando a tigela. Seria Lina uma mulher fria? Lina amava como quem se desincumbe de
uma tarefa amolante, não tinha ardor, não tinha entusiasmo. Vicente até desconfiava que
ela o estimasse como a um irmão, como a um arrimo. Lina não sabia o que era amar.
Vicente saiu para o Largo. A lufa-lufa o envolveu. De tempo em tempo, revezavam-
se as sentinelas e os destacamentos das trincheiras. Homens armados entravam e
saíam. A tarde era murcha, fria, cinzenta, de céu baixo, mas sem chuva. Passaram uns
urubus de vôo molengo, rumo ao poente.
Pelo povoado, a polícia trabalhava vazando muros e paredes, de modo a permitir
que as pessoas se pudessem comunicar de casa em casa, passando por esses buracos.
Rodear pela porta da rua seria expor-se às balas inimigas. Era uma experiência de Pedro
Afonso, que Enéias transmitia.
Nos muros, o trabalho não oferecia dificuldades. A taipa era mole, mas as paredes,
feitas geralmente de pau-a-pique, deviam ter os barrotes serrados, a fim de não
enfraquecer a construção.
!
177
Serrote crocava, enxadas e alavancas tiniam, ribombavam móveis arrastados para
escorar portas e janelas. Mesas, canastras, frasqueiras, bancos amontoavam-se nas
portas e janelas.
Uma grande mudança operava-se no povoado. A polícia localizava-se em quatro
quartéis. O do Alferes Enéias era o sobrado; dos Melos, onde estavam os homens presos
no tronco; desse mesmo lado era o do Tenente Mendes de Assis, em frente à igreja, junto
da grotinha que cortava o Largo, perto do pontilhão aí colocado Em frente deste quartel
de Mendes de Assis, ao lado da igreja, na casa que fora de Vicente Lemes, se localizara o
quartel do Alferes Severo, onde estava preso, sob sua responsabilidade, o menor Hugo
Melo; no oitão da igreja, ficava o quartel do Alferes Xavier. Nesse quartel havia umas
quarenta pessoas, dentre as quais Valério Ferreira e Cláudio Ribeiro, além dos soldados
com suas mulheres e filhos.
Aí, na véspera, cinco casas foram furadas, de modo a formar um passadiço só.
Nas paredes externas fizeram-se buracos para o cano das armas, buracos mais largos
por dentro e estreitos por fora, permitindo que as armas se movimentassem.
Aí também estava o Soldado Carajá, valente como as armas Severo, naquele
momento, o mandava espionar a redondeza, ele que sabia farejar tal qual um animal do
mato e rastejar igual a uma onça-pintada.
Na sala de casas oposta ao quartel de Xavier, no casarão de dona Benedita,
estava a trincheira de Vicente Lemes, que obedecia às ordens do Alferes Enéias, de cujo
quartel ficava no oitão. Era mais uma casa de civis, aí estavam mais de cem pessoas:
Vicente Lemes, Moisés, Jugurta e as respectivas famílias. Estavam a mulher e os filhos
de Argemiro Félix; ele mesmo tinha ido parlamentar com Artur e não retomara. Deodato o
vira e o Dr. Herculano presos na Grota. Também a velha Benedita estava nessa trincheira.
A este quartel ainda pertenciam os homens de Ângelo Lemes, sob o comando de
Leão de Aquino, que estavam postados pelos corredores da Vila. Competia-lhes atacar os
jagunços pela retaguarda.
Andando, Vicente recebia as reclamações. Brasica queria sair do quartel de Xavier
e ir para o de Vicente.
— Você sabe, Vicente, tenho aquelas meninas-moças... No meio
!
178
daquela soldadesca que veve sem mulher nem num sei desde quando...
Por baixo do xale preto, Benedita Melo reclamava. Tinha medo que Artur lhe
fizesse algum mal:
Quem sabe era mais prudente abandonar a Vila, fugir para o mato?
— Logo neste momento, minha sogra? -Uai!
— Ah, não è possível. Se a senhora sair pode topar com um piquete de jagunços e
aí tudo leva o diabo!
Contavam de um soldado que desguaritou e passou moreno para não ser morto.
Aliás, ninguém acreditava que o praça tinha desguaritado. Isso ele tinha é tentado
desertar, mas viu que fora a coisa era pior do que dentro do povoado.
Também a seu conhecimento chegavam os conflitos dos militares. Mendes de
Assis estava de braços cruzados. Não queria combater. Xavier estava de olho em Severo.
O cometeiro Anselmo e o cabo Bernardino estavam apavorados. Tonhá e Guia-de-Cego
prometiam matá-los, receando que revelassem o roubo do cadáver. Freitas Machado
temia Mendes de Assis. Ele deu voz de prisão no velho Pedro Melo, o desarmou e foi aí
que Daniezinho e Gabriel mataram o coronel. O velho não resistiu. Era mentira de
Mendes de Assis.
— Olha uma tropa chegando!
Era o povo de Moisés que tinha saído para buscar mantimentos no sítio Balança.
Os cargueiros chegaram pesados, as bruacas cheias de feijão, arroz, farinha de
mandioca; frutas, galinhas, ovos, milho, carne-seca, toucinho, lingüiça, rapadura, açúcar,
amendoim, buriti raspado — provisões para os quartéis.
Os camaradas de Moisés chegavam contando que as fazendas estavam desertas.
Para encontrar fazenda com gente, tinha que andar muitas léguas. Eram homens
habituados com viagens, com seus lenços de alcobaça, descarregando as bruacas e os
dobros. — Chuva por demais, meu amo. O Palmital estava que não dava vau de jeito
nenhum.
A estrada de Taipas tinha acabado. No lugar do atoleiro estava uma lagoa. E por
falar em atoleiro, o Penacho, macho forçoso, metera-se no tijuco e deu upa para tirar o
cujo. Quando saiu, estava com uma estrepada por baixo do sovaco direito:
!
179
— Larguei o bicho na Balança.
— Burro, diacho! — gritava um cabra de Ângelo, seminu, rapinha pingando água
com três machos, trazia água da fonte enchendo os potes, pipotes, gamelas, talhas e
pipas. A água do povoado era salobra nas cisternas; para beber buscavam nas fontes
colocadas fora da Vila.
Novamente a moleca de Dona Aninha estava chamando Vicente Lemes. Vestida
com uma camisola de algodão por cima do corpo, no qual começavam a brotar as graças
de mulher. Seu nome era Tifuque. Não largou mais Vicente.
Decerto Aninha lhe prometera taça, e muita taça, se não trouxesse Vicente.
Para onde ele ia, ia também a moleca que ficava parada, muito séria, os grandes
olhos muito brancos, o rosto fino e aqueles peitinhos apontando, as coxas meio
arredondadas. Quando passava, os soldados ficavam olhando longamente.
— Bota uma pidrinha de sale na boca!
Tinha homem que já estava há mais de seis meses sem aproximar de uma mulher
e quando via a bichinha com seus peitinhos pontudos, chega mudava de cor, o coração
pegava a escoicearo peito, uma tremura pelo corpo. Dava até vergonha. Leão ia
chegando e chalaceou:
— Uai, Vicente, você arranjou um bom ajudante-de-ordem, hem, seu barra! —
Vicente encabulou e resolveu ir ver a velha,
A tarde corria, feia, uma neblina baixa, uma cruviana que ia e vinha, ora mais
grossa, ora mais fina. Quando fazia silêncio, ou via-se o gorgolejar das enxurradas e o
coaxar dos sapos.
Um ou outro galo cantava. bom sinal: se um galo cantasse, um cachorro latisse e
um gato miasse, não aconteceria desgraça naquele dia.
Vicente marchava lépido, de corpo leve. Notou que o coração batia e que uma
emoção diferente o invadia. Pensava em Anastácia, seus beiços intumescidos, sua voz
quente. Que coisa besta, gente! Até parece namoro de juventude.
!
BOBAGEM, nhá tia. Artur não pode atender, ele não manda mais nada. É prisioneiro de
Batata — contestou Vicente.
A velha teimava:
!
180
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
— Agora quem vai é Anastácia.
— Inútil. Deodato viu o povo na Grota. Quem mandava era Batata. Seu filho é
mesmo prisioneiro de Batata; num decide coisa alguma.
A mulher prosseguia:
— Anastácia está desesperada, com o filho preso, com o marido no tronco. Ela não
tem sossego imaginando só coisa ruim.
Do fundo da casa, a prima saiu. Desfigurada. Abatida. Os cabelos todos caídos, as
vestes desarrumadas no corpo. Vinha como se estivesse em transe, os olhos
arregalados. A cada momento imaginava que no instante imediato o primeiro tiro
disparado e que, ato contínuo, Severo matasse o menino, Enéias matasse o pobre do
Tozão.
Vicente recebeu a notícia meio sem graça. No íntimo, doía-lhe o afastamento da
mulher, mas logo reagiu: sonhava com o impossível!
A prima acercou-se e pegou com aqueles seus modos, falando quase no ouvido de
Vicente, numa aflição que lembrava mulher na cama.
— Não agüento mais. Ai, não suporto. vou topar com Artur. Depressa, Vicente, me
arranje um jeito de ir na Grota. Quero ir, preciso ir, eu fico louca, Vicente! — Já se ergueu,
torceu as mãos, empurrava Vicente pelas costas:
— Ligeiro, Vicente! Um soldado por descuido dispara um tiro, um engano qualquer,
a polícia mata meu filho, Vicente, mata o pobre do Tozão. — Tapava o rosto com as mãos,
como que afastando a visão terrível. — Coitado de Tozão, tão bom, tão incapaz de fazer
mal aos outros!
A idéia de que um equívoco pudesse levar o filho à morte, parece que aumentava o
medo, fazia o perigo mais pavoroso. A mulher não tinha sossego, não tirava isso da
cabeça, não conseguia dormir um minuto desde os dias anteriores. Podiam dar-lhe um
pouco de cachaça. Cachaça numa hora dessas bem que ajudava.
Anastácia tomou as mãos de Vicente e começou a beijá-la nas vistas de todo
mundo. Vicente teve vergonha, era insuportável uma coisa dessa! Beijar a sua mão, ela
mulher de sua idade, mãe de família sua prima!
Vicente retirou as mãos, escondeu-as, limpou-as, e saiu nem sabe como, saiu
como um embriagado. Enquanto andava, sentia
!
181
na mão ainda o frio das mãos da prima. Nada daquele calor do dias anteriores. Agora, era
gelo, era um frio de morte que tona as mãos de Anastácia. Também seu hálito, seus
lábios tinham podido aquela sensualidade que tanto incendiou Vicente. Era inútil. Agora
quem mandava eram Batata e Dorado e estes não desistiriam de atacar. Queriam receber
o gado prometido, queriam fazer a sebaça da região por seis meses.
Foi com a cara lascando fogo que Vicente Lemes se apresentou perante os
oficiais.
Todo argumento de Vicente foi fraco. Às primeiras palavras, Severo virou as
costas, saiu pisando duro, embezerrado.
Mendes de Assis ouviu e bufou:
— Outro emissário para enredar, para denunciar nossos planos?
Só Xavier que, por uma deferência, lhe dava ouvidos, talvez constrangido pelo jeito
contrafeito com que Vicente encaminhava a conversa. Ele dizia que era inútil:
— Dois positivos seguiram quando Artur estava na Bahia e podia arrepender-se...
No entanto, ele não desistiu.
— Bem, mas aquele tempo era diferente. Não havia ninguém preso no tronco,
como agora, esperando o ataque para ser morto.
— A mulher pode chegar lá e contar que estamos fracos, qu não podemos resistir
ao ataque...
— Qual!— retrucava Vicente. — Ninguém não está sabendo dessas coisas, muito
menos uma mulher. E é preciso compreender que ela terá o maior empenho em defender
o povoado. Ela deixa aqui um filho preso com Severo, deixa o marido no tronco, ambos a
bem dizer com o pé na cova. É sair um tiro e eles estarão mo tos. Deixa ainda mãe,
irmãos...
O oficial atalhava com ar de enfado, com cara de fastio:
— Mulher é bicho fraco. Abílio Batata é cangaceiro antigo. Prende ela, ameaça e
ela acaba contando tudo. Além disso é irmã de Artur, é filho do velho... Sangue puxa
muito... Acaba ficando na banda dele. Não vê o caso do Doutor Herculano?
— Doutor Herculano está preso, Seu Alferes. Deodato viu e e Argemiro presos.
— Qual nada. Chegando lá essa Anastácia vai contar que c soldados estão numa
medorréia danada, que as Comblains são velhas e imprestáveis, que a munição não
presta...
!
182
Ao ouvir aquilo, Vicente sobressaltou-se.
— O quê? A munição não presta, as armas são más? Xavier levantou os olhos de
incontida raiva:
— Pois é esse o segredo militar, meu velho! A munição não vale nada. Veja só. —
Tomou um punhado de cartuchos sobre a mesa e mostrou-os a Vicente.
— Olha, em cada dez, um detona! A munição é velha, imprestável. O que vai valer
um pouquinho são as armas e a munição dos paisanos de Leão de Aquino. Essas mesmo
valem pouco. Nós estamos é perdido. Completamente perdido, se Deus não ajudar!
Vicente estava tonto, estava zonzo.
— Mas não é possível uma coisa desta! Vocês fizeram muito mal em esperar Artur,
sabendo que estavam tão fracos!
— Pois é, — disse Xavier num gesto evasivo. — Achamos que recuasse com a
tomada de reféns, nunca acreditamos nesse ataque.’..
— Fugir, fugir agora é impossível! — disse Vicente monologando, com cara de
quem viu o fim do mundo, completamente confuso, sem nenhuma determinação.
— Ah, nem precisa pensar em fugir! Aqui pelo menos temos trincheiras, casas,
mantimentos, algum recurso. Se fizermos uma retirada, Artur nos atacará no campo
aberto e aí, sim: não escapa ninguém...
Os dois permaneciam perplexos, as cabeças vazias, as idéias turbilhonando, um
zumbido nos ouvidos. ”Um soldado tinha desguaritado (desertado, isso sim) e topou tanta
patrulha de jagunços que resolveu voltar para o povoado. Era o que ele contava para
quem quisesse ouvir!”
Xavier arrematou:
— É entregar para Deus Nossinhor que é pai. E fazer o impossível...
Ante os olhos de Vicente pintou-se a figura de Anastácia, o cabelo despenteado, o
rosto transtomado, aquelas mãos de gelo apertando as suas, depondo nelas um beijo de
defunto.
— Não, alferes, o senhor não viu o sofrimento de Anastácia. O senhor não viu o
que eu vi. Se a mulher não for falar com o irmão, se não lhe der um jeito de fazer uma
coisa qualquer, de salvar o filho, o marido, ela enlouquece. Pode ficar certo. Fica doida,
sai por aí falando besteira feito uma endemoniada.
!
183
Xavier impressionou-se com o calor das palavras de Vicente e disse:
— Eu não mando nada. Quem manda é Severo. Vicente perdeu a paciência. Afinal
de contas, os civis não eram bonecos, nem bestas. Ele, Vicente, tinha na algibeira a carta
dsEngênio Jardim; eles, os civis, é que tinham armas e munições; portanto, nada tinham
que estar pedindo permissão para a polícia, como se pedissem pelo amor de Deus.
— Quer saber de uma coisa, Seu Xavier. Eu vim aqui foi para comunicar que
Anastácia vai embora. Está perdido mesmo!
Virou as costas, saiu duro.
A tarde era um resto. Morcegos voavam tropegamente, recortando-se no poente
sombrio. Galos cantavam acomodando-se nos poleiros. Tudo molhado, tudo quieto, como
se esperando uma coisa qualquer.
Chegando à casa de Dona Benedita, mandou arrear um cavalo, mandou chamar a
prima, montou-a no animal. A seguir pegou um molecote que ela criava e o montou na
garupa, para servir-lhe de companhia.
Daí chamou Leão de Aquino e recomendou que acompanhasse a mulher até as
suas trincheiras que ficavam a uns quinhentos metros daí, junto à cruz das almas, no
caminho da Grota: — Urgente, que a noite despencava e a chuva inda por riba!
Ao tomar as rédeas, Anastácia agarrou as mãos de Vicente e apertou com uma
ânsia estranha. Suas mãos eram pegajosas, frias, imitando um sapo, um peixe, mão de
defunto:
— Se Artur quiser atacar, olha aqui o que é que eu levo para ele.
A voz da mulher vinha rouca, feito uma voz de velha. Anastácia ergueu o corpete
da saia e mostrou uma garrucha fogo-central. Os olhos dela eram turvos. Vicente a achou
muito velha. A boca que lhe dava tamanha graça, aquela boca carnuda, úmida, com uma
candura de juventude, aquela boca nessa hora caía nos cantos num traço de ódio.
Vicente arrepiou-se, chegou a sentir medo. ”Uma fera, tal e qual uma fera.”
A mulher chicoteou o cavalo e partiu num trote apressado, com o molecote se
agarrando à cintura feito um macaquinho.
Já era noite. O vulto da mulher, do cavalo, do molecote e de
!
184
!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
Leão de Aquino recortaram-se no céu por um instante, mas logo se perderam na
dubiedade do lusco-fusco. Um bicho, coruja talvez, soluçava e um pirilampo pegou a
fuzilar sua luz de ouro num raminho molhado do chão.
Vicente pensou nos reféns. Era preciso libertá-los sem perda de tempo. E a
conversa de Xavier? Cachorrada! Agora que vinham dizer que não possuíam armas, nem
munições? Agora que já não se podia fugir. Quanta irresponsabilidade! Por isso que o Juiz
Carvalho tratou de escafeder-se. Será que valia a pena revelar isso aos companheiros?
Qual! Preferível que ignorassem. Assim lutariam com mais coragem e com mais
entusiasmo; não cairiam naquele desânimo em que se encontrava Vicente. Era melhor
não revelar nada.
Mas os reféns, esses carecia libertar. Tirá-los do tronco já e já, antes que o primeiro
tiro fosse disparado. Se os oficiais endurecessem, quem tinha arma e munição eram os
paisanos. Leão de Aquino derrotaria a polícia facilmente.
!
PARECE que o povoado se agachava, diluía-se acovardado na sombra do crepúsculo.
Para agravar, a chuva: incessante. Quando não era pancada forte, caía serenando, librina
que molhava fundo, que o vento suave açoitava para lá e para cá.
Os homens chegavam das trincheiras que eram a pura lama, que nem uns pebas.
As casas que serviam de quartéis metiam medo. A criançada ali sem poder sair, tanto
choro, tanto mijo, tanto cocô. Gente de mais, entupindo os cômodos, estorvando os outros
de se mexerem, de andarem, dando embarroadas, empurrões para lá e para cá. Os
cachorros, as galinhas, os porcos, umas cabrinhas leiteiras, essas não saíam de forma
alguma, soltando os berros tremidos e trepando nas canastras, roendo os paus,
espirrando.
Fogo não pegava, com a lenha encharcada, o fumaceiro desgraçado sufocando as
pessoas, invadindo os quartos.
— Tão tirando paca do buraco!
Lá fora, as bicas dos telhados escorrendo sem parar, o limo esverdinhando o
terreiro, escorregadio feito quiabo, com a vegetação crescendo com uma rapidez de
milagre.
!
185
Nas trempes improvisadas, ao bafo úmido das brasas, panelas ferviam, o
mosqueiro esvoaçante. Cada mosca de ventre cheio de ovos, voando lerdamente, caindo
no arroz quente cozido com carne-seca, que o povo comia apressadamente, raspando o
sobejo no chão, para os cahorros e porcos que zanzavam no meio da gente. Bafo de
inhaca, de subaco suado, de roupa preguenta de suor e de lama. Chulé.
Com a boca da noite, lá pelo córrego, as saracuras quebravam seus potes. Vaga-
lumes vagavam no breu ou se apinhavam nos tamboris, nos mulungus, e ali ficavam a
noite inteirinha, quando não se entregavam a uma farândola misteriosa de ouro e
diamantes.
Ouvindo a água do córrego gorgolejar crescida, com os bichos quebrando potes,
alguns soldados que conversavam tiveram o pensamento voltado para o rio.
— Devia de estar dando muito peixe. Mesmo no banheiro, pouco antes do barulho
da Grota, o Sargento Alcides pegara uns mandis-chorões que eram uma beleza.
— E paca? — disse alguém da sombra.
— Pois é. Ali tinha paca que era um despropósito!
A mesma voz dizia que havia antas e capivaras. Inda outro dia o Soldado Benedito
estava bestando no rio, quando ouviu tropel delas no mato. Mesmo que tropel de novilha.
Houve uma exclamação generalizada.
— Deixa estar. Passado o barulho, quero pescar e caçar todo santo dia!
Um soldado com aspecto de roceiro, falripas de barba na cara murcha, principiou a
falar na sua voz mofina:
— Que pena terem estado de prontidão o tempo todo que passaram ali! Nunca que
sobrou uma horica para uma caçada, tiração de mel de pau... — A voz mofina morreu com
a chuva e ficou um silêncio fedendo a suor e cada um avaliou a perda imensa que era não
terem caçado, nem pescado. Naquela noite mesmo talvez morressem, talvez ficassem
aleijados para o resto da vida.
Parece que rezavam? Sim, havia uma voz monocórdia talvez rezando, algumas
vezes cantando? Quem seria?
— Mas passa, gente, tudo passa. Ao depois ocês pesca, — falou Maria Ponciana,
que se levantou de perto do amásio, Soldado Tonhá, acendeu na fornalha o pito de barro,
voltou-se, repuxou a saia de modo a ajustá-la bem às pernas e se agachou. A saia
!
186
escondeu totalmente as pernas finas e musculosas. Tomou um menino que estava no
chão, equilibrou-o meio por cima dos joelhos, e tirando a pelanca comprida de um peito
entre os panos da roupa suja, meteu-o na boca do filho.
Como por encanto, de todos os lados partiram choros. De recém-nascidos, de
crianças mais taludinhas, de crianças que já sabiam queixar-se e protestar. Houve um
rebuliço de saias pelo cômodo exíguo, de teto baixo, mal alumiado pelo fogo vermelho e
fumacento da fogueira.
Os homens não tomavam conhecimento dos choros. Continuavam agachados, em
tomo da fogueira da sala, pitando e soltando monossílabos. No escuro, as brasinhas dos
cigarros acendiam-se, chupadas pelos homens, clareavam um pedaço de cara barbuda,
macilenta, estralavam suavemente e se apagavam, deixando ouvir agora o resmungo de
reza, uma voz se arrastando pesada, monótona, de quem rezasse, de quem
confidenciasse um segredo. Quem seria, gente?
Na sombra, as mulheres movimentavam-se e as crianças surgiam de todos os
cantos, magricelas, catarrentas, barrigudas, elas penduravam das saias e choravam. Num
estoicismo animal as mulheres agachavam-se perto de seus homens, indiferentes à
choradeira que enchia a noite. Vez por outra, tomavam o cigarro do companheiro, tiravam
uma baforada, davam ao menino para chupar e devolviam o cigarro.
Agora, um menino soltava um vento ruidosamente e a roda inteira fungava de riso.
Num tom monótono, mastigado e pausado de roceiro, a conversa rolava. No
escuro havia olhos famintos seguindo o gesto das mulheres. Tão feia, magra, piolhenta e
marcada de placas arroxeadas de sífilis, Ponciana balançava o coração do Soldado
Gabriel que tinha corpo jovem e pouco conhecia de mulher. Tonhá era homem perigoso,
Gabriel tinha medo de Tonhá e tinha mais respeito. Tonhá esculhambava com quem
quisesse. Mas Ponciana era uma mulher muito boa, dozeira dos outros, inda outro dia
Gabriel teve um cangolê e foi Ponciana que preparou um chá para ele. Ponciana tinha um
cheiro de parto que bulia com o sangue do Soldado Gabriel.
— Jagunço é bicho custoso de morrer. Para tiro ofender jagunço, só se ele estiver
com os pés no ar, por riba de uma cerca, pas-
!
187
sando numa ponte. Não viram José Dias, de Boa Vista? Tinha estado em muitas batalhas,
mais de uma vez recebeu tiro à quem roupa e nunca não teve nada. Quebrou uma perna,
mais foi de rodada de rosilho que ele montava nele.
Para os soldados, os oficiais eram muito inferiores a Abílio Batata, Roberto Dorado
ou Miguel Umbuzeiro. Se tivessem mandado buscar o negro Supriano ou Salomão Solino
em Pedro Afonso, aí a cantiga era diferente. Também Supriano era negro sarados quem
contou conhecia da fazenda. Quem contou foi o soldado Nestório que sabia a oração de
Santa Justina e o credo-às-avessas, oração das mais brabas que haverá no mundo.
Cantavam? É, tinha muita gente cantando ali, cantando baixo. Uma excelência
será?
— Ser jagunço é que é bom — afirmava um soldado fazendo elogio do cangaço. —
Soldado num pode saquear, num pode fazer sebaça. Jagunço é que é bão. Num ataque
cuma esse, são muitos que enriquecem, que ficam podres de rico para o resto da vida.
Foram citados nomes de várias pessoas hoje respeitadas e importantes que
haviam sido jagunços antigamente, ou chefes debando. Um soldado velho, que estava na
polícia havia muitos e muitos anos, dizia que soldado não pode roubar.
— Nem roubar nem passar para o lado do inimigo. Eram verdades dogmáticas
para ele que repetia como um realejo. À falta de argumento, só fazia repetir a afirmativa
uma vez, duas, três, vinte vezes, como uma máquina.
No começo, os outros ouviram, mas depois passaram a falar de outra coisa e o
soldado velho se contentava em dizer para algumas mulheres ao seu lado a sua grande
verdade:
— Soldado não pode roubar. Não. Nem roubar, nem passar para a banda do
inimigo.
Mas por falar nisso, contavam que já tinha soldado desertando João Ferreira,
Soldado João Ferreira estava sumido. Diz que desertou. Será? Severo tinha baixado
ordem. Desertor que fosse pego tomava uma tunda de varas. Era o quadrado, vinte
soldados dispostos em quadro, o desertor no meio. Cada soldado dava uma varada no
homem. Tantas varadas até o bicho mijar-se.
Os meninos aquietaram-se.
!
188
Na grota a saparia roncava. Da ronda, encharcado como um
pinto, Chegou um Soldado. Estava feliz, o Sargento Gerson lhe deu um golinho de pinga,
bebida que não viam fora de serviço.
— Mas tem uma gente rezando por aí, gente! Ou será que eu tou com zoeira nos
ouvidos, catarro na cabeça...
— Diz que jagunço num fica sem cachaça. Eles quando ataca é tudo xilado que
nem uma cabra.
Baianinho informava que Roberto Dorado costumava dar de beber pinga com
pólvora a seus homens, para tomá-los mais valentes. Esse Baianinho sabia tanta coisa a
respeito de cangaceiro! Diziam que fora de um bando, mas ninguém acreditava: homem
manso e bão como ele só!
Escondendo-se como pôde, o soldado encharcado tirou a roupa, deixou-a secando
perto dos tições, enrolou-se num cobertor imundo e soltou seus boatos.
Ouviu dizer que os emissários enviados à Grota eram feitos prisioneiros à medida
que apeavam lá. Anastácia, o derradeiro, caiu de joelhos aos pés do irmão Artur, pedindo
que não atacasse, chorando feito um demente. Debalde relatou a Artur que o filho estava
preso, que o marido estava no tronco, que a mãe velha seria morta pela polícia mal Artur
disparasse o primeiro tiro.
Meio bêbado, o soldado enfeitava o caso:
— E ali num tinha meu-pé-me-doi. Bastava que os bandidos dessem um tiro e a
faca entrava na goela do filho e do marido de Anastácia. Para isso Mane Vitô estava de
vista e Mane Vitô era negro macho, era cabra mais ruim do que uma boicininga das
velhas.
Os soldados ouviam emocionados, cheios de pena da mulher. E Artur, que foi que
fez? — quis saber Teresa.
— Fez nada, uai! — informou o praça. — Ele num manda mais não. Quem manda
agora é o Abílio Batata e Roberto Dorado. Artur é preso deles.
— É tal e qual, — confirmou Baianinho. — Um chefe costuma prender o outro que
está pegando a amolecer. No cerco de Pedro Afonso foi desse jeitinho, sem tirar nem pôr.
Lá, na hora do pega pra capar, Abílio Batata pegou a bestar com a sela, pegou a cair das
carnes, aí Roberto Dorado prendeu ele e mandou a mecha. Isso é lá deles.
— Pois é, — disse o soldado molhado retomando a palavra.
189
— Diz que Batata falou assim para Anastácia. Pode ficar sós gada, minha dona.
Nosso ataque será tão de supetão que quando a polícia der por pé, já tomamos os presos
do tronco. Num cai ficar com medo.
— Ataque assim que nem um corisco, — observou Baianinho mas soldado não lhe
deu trela, era o dono da palavra.
— Diz que essa mulher virou uma onça, caiu no choro e no sufragrante já foi
caindo em riba do irmão com a garrucha escachada...
Ao redor, o povo riu alegre, solidarizando-se com a valentia de Anastácia.
— ... diz-que os jagunços pegaram ela e Batata falava: acalma minha dona, o
ataque vai ser tão de supetão que a polícia não vai ter tempo pra matar seu marido, não.
Os presos num vão sofrer nenhum arranhãozinho. No de repente trancaram a pobrezinha
num quarto. Artur Melo é prisioneiro de Batata e Batata que recua? E baixo, moreno!
O pessoal em tomo permanecia em silêncio, imaginando o a que dos bandidos,
imaginando como seria terrível ter que lutar c os homens embriagados, com aqueles
homens que tinham o corpo fechado, que davam tiros aos pinotes, feito uns grilos.
Jaguncada era gente muito acostumada com luta e diziam que tinha muitá gente, era três
dobro dos soldados, tudo com Winchester nova, com bala boa. Ah, ninguém resistia! Ali
era tentear o fogo para dar tempo de fugir. Soldado João Ferreira que não foi bobo, tratou
de desertar, de abrir o pala enquanto era tempo. É verdade que outro soldado que
desguaritou, será que não era deserção? Viu muito jagunço e voltou com medo de morrer.
— Aqui tem gente morrendo de medo — disse o Soldado Daniezinho, com coisa
que não se dirigia a ninguém. Daniezinho sentia medo, mas procurava esconder seu
temor. Tem certeza de que não escapará, pois o pessoal de Artur sabe que ele meteu o
refleno no peito do velho e não o deixará escapar.
As palavras de Daniezinho parece que não se dirigiam a ninguém, mas a maioria
dos soldados sabia que ele estava jogando uma indireta em Freitas Machado.
Adonias respondeu de lá:
— Eu cá num sou. Quero entupir o cabo de meu chimite de piques.
!
190
— Tu que vai ficar cheio de pique de punhal, seu besta, — dizendo isso Tonhá
deu seus bufados, como se estivesse engasgado com farinha de milho — bufe, bufe.
Freitas Machado botou a carapuça na sua cabeça:
— Quem quiser saber se eu estou com medo, é só correr dentro! — Falou de pé e
foi tirando o punhal da bainha.
Ninguém piou. Só o fogo estalava. Aí Gabriel falou num tom acanalhado:
— Uai, só, ninguém tá bulindo contigo não, moço! Tu tá com a pulga atrás da
zoreia à toa.
Entretanto, a fala de Freitas Machado era de resolução, de quem estivesse pelo
que desse e viesse.
— Só porque matou o velho desarmado, já preso, acha que é muito valente! Pois
eu estou aqui, eu não meti o punhal no velho porque num sou covarde. Vamos ver quem
é o medroso, vamos, é só chegar!
Ninguém, todavia, lhe dava mais atenção. Outros casos eram narrados. Baianinho
perorava:
— É desse jeitim, sem tirar nem pôr. Artur agora é prisioneiro do outro. Agora, ele
num manda mais não. Agora adeus padrinho, adeus madrinha, adeus filho. Num tem
irmão num tem irmã aqui pra doer no coração dele. Agora quem está comandando é
Batata e Batata num tem nenhum parente, nenhum amigo dentro do Duro. O que Batata
está querendo é a sebaça, minha gente!
— Tal e qual, — disse Maria Ponciana com sua voz horrorosa, ajeitando o menino
no peito pelanquento, sem perceber os olhares de fogo que o soldado Gabriel deita sobre
ela.
— Com essa sebaça, num tem jagunço que deseste, — observou alguém, e essa
observação doeu no coração de Gabriel. Ele queria que os jagunços não atacassem.
Gabriel era novo, mal conhecia as mulheres e queria ainda viver muitos anos, abraçar
mulheres, beijar muita moça bonita, ter em seus braços muita mulher, que isso é que é
um trem bão na vida.
— Jagunço é que é bão, — repetia o tal soldado que enaltecia o cangaço, sob os
protestos do praça velho.
— Soldado é otoridade.
Afirmou uma vez, olhou para a cara de uns soldados próximos que o fitavam e
repetiu a frase: — É otoridade. É. É otoridade. Mais calmo, Freitas Machado ruminava
seus pensamentos. Na
!
191
na primeira ocasião haveria de mostrar que não era medroso. Tinha que passar a brasa
num cristão qualquer, para se dar ao respeito, para publicar sua valentia.
O soldado molhado, agora muito tonto pontificava:
_ Pode não, gente, Tempo de paz. Os poderosos arrancam nosso couro no trabalho; vai
daí brigam e a gente é que vai morrer defendendo esses trem ruim! Ah, não, isso também
é demais.
!
— Pecador, atendei! Atendei, ô pecador! Atendei!
!
Era uma voz grave e profunda. Uma voz que impunha silêncio e respeito, que obrigava
cada pessoa da sala a calar a boca e cambar de onde e-vinha essa fala.
!
Pelo meio da sala vínha um homem. Era soldado. A luz da fogueira era muito débil e não
deixava ninguém ver nada, mas diziam que quem falava assim era Salustiano Dantas.
!
— Pecador, atendei!
!
O silêncio era completo e a voz terrível, pausada, prosseguia: quem poderá dizer que
viverá ainda quando o galo cantar pela terceira vez? Meu irmão pecador, atendei a voz de
Deus, tua hora chegou pecador! É tempo de pensar na vida de voz. É tempo de
arrepender os pecados que nós cometemos. Chegou a hora do Juízo Final meus irmãos!
O silêncio era um silêncio pegajoso. Maria Ponciana caiu de joelho e pegou a
chorar, escondendo o rosto com as mãos. Toodos os soldados estavam aterrados e cada
um procurava pensar nas suas faltas, procurava dar um balanço em sua vida de pecadore
de privações. Outras mulheres e outros homens estavam de joelho chorando e se
lamentando.
— Irmão, atendei! — A voz campeava soberana dobrando todas as vontades. —
Vamos rezar uma oração muito poderosa. Esta oração, um capitão espanhol viajando por
terras perto de Barcelona viu uma cabeça cortada do corpo, a qual lhe falou assim:
viajante, como vais a Barcelona, vou dar-me uma confissão para quem já faz três dias
que os ladrões me mataram e não posso morrer sem me confessar. O capitão conduziu
logo sua confissão ao mesmo lugar a cabeça vivinte se confessou e expirou e foram ver o
corpo qual a cabeça estava cortada e acharam-lhe a dita oração a qual foi aprovada de
vários tribunais de santa religião e da rainha de Espanha.
Ninguém podia duvidar daquelas palavras. Salustiano tinha
!
192
!
!
sido sacristão lá na terra dele e foi certamente com os padres que aprendeu tanta
sabedoria. Salustiano Santas era ainda mais apreparado do que o Soldado Nestório com
sua oração da Cabra Preta. Salustiano tinha um papel na mão e logo trouxeram uma
candeia de azeite, a chama aprumada e clara. Teresa tirou um grampo do cabelo,
espevitou o pavio a luz do sopro do vento.
— Eu vou falando e vocês vão repetindo.
A voz soturna e poderosa passou a recitar, lendo o papel:
”Cópia de uma letra de oração achada no Santo Sepucro de Nosso Senhor Jesus
Cristo e conservada de sua Santidade e Carlos Segundo, Imperador em seu oratório em
coroa de prata desejando Santa Izabel Rainha da Ungria e Santa Mafrides e Santa
Brísida saber alguma Cousa da Paixão de Cristo, fizeram muitas Particulares orações em
seguida das quais apareceu Jesus Cristo falando” com elas assim cervas minhas
prediletas: Sabei soldados armados foram 150 assim os que me conduziram armados
foram 23 e os ezecutores da Justiça foram 33 socos que deram na cabeça foram 150 no
Peito 108 golpes nas espadas 70 fui arrastadas com cordas 23 vezes me gorpearão no
rosto 30 vezes pancadas me deram no corpo forão 666—destas as que arrecebi na
cabeça forão 110 me deram um murro mortal no coração estive no ar pelos cabelos 2
horas dei um tempo 192 suspiros fui arrastados e puxados pela barba 23 vezes Chagas
na Cabeça 20 espinhos de Junco marinho 92 espetaduras de espinhos na cabeça 110
espinhos mortais na testa 3 depois foi flagelado Vestirão-me de rrei de Burla e me
cuspirão no rosto 150 vezes Chagas no corpo 1000 Soldados me conduzirão ao Calvário
908 os quem me vigiaram terno 3 goctas de sangue que derramei 38.430 todas pessoas
quem rezar 7P.N. e Av.M. e Glória Patripelo espaço de 15 anos continuados pá. completar
o número de goctas de Sangue q. eu derramei lhe concedo 5 graças; q. são 1ª
Indulgência plenária e rèmição de todos os pecados; 2.” será livrado das penas do
porgatorio; 3.” se morrer antes de ter completado os 15 annos será como se tivesse
completado; 4.” Será com se foçi um marthyr e derramaci todo seu sangue pela santa fé.
5.” Virei sim do séo pellas suas almas aindapella alma de seusparentis athéa 9. ”jeração;
Aquelle que trouxer concigo Esta oração não morre afogado nem de má morte. Será
livrado do contágio da peste e do rraio; não morrerá sem confição Será livre de seus
inimigos e do poder da Justiça e de
!
193
assons más; e do f alço testtimunho; e a mulher que não puder rir pondo-lhe esta oração
ao pescoço parirá logo; e sairá do perigo e nas casas onde estiver esta oração não
sofrerão tormentos e nem outras couzas más e 40 dias antes da ora da morte Verão a
Biata Virgem Maria; Oração Qual todas as vezes que Rezar livrarão uma Alma do
Porgatorio. Miserenóbis Jesus, Binigne qui passur es;
Clementia pro nobis Domine ezaude Onestione mean. Et Amor meos ao tenesmiat
oremos Deos que nobis em santa semdone qua Corpus Hocturum Sacratissimus de
Cruce depositarum a b. Jozephum tum fruit panistam mimoziam relepuiste concedit
proctis ut per mortem ab sepultorum tuam em ressurctonem. Gloriam perducamous que
cicist et regnas in Secula Seculorum Amem. N.B. Esta oração
foi rezada em praça em Roma por ordem do papa.”
Salustiano dobrou o papel, a cara séria, meio triste, iluminada de baixo para cima
pela luz da candeia; pôs a oração na algibeira e recomendou:
— Agora vamos pensar nos pecados de nós, meus irmãos! Cada um se arrepende
das más ações, das coisas vergonhosas, mode num morrer em pecado mortal.
E novamente o silêncio morno envolveu tudo, com a inhaca de sovaco recendendo
pelo cômodo baixo e dubiamente alumiado pelas brasas no meio e pela candeia que
passava daqui prali.
Num tom de falsete, uma voz principiou a cantar:
!
”Pecador, agora é tempo,
De contrição e de temor,
Serve a Deus, despreza o mundo;
Não sejais mais pecador!”
!
Muitas vozes cantavam. Algumas num baixo profundo, outras oitavas mais alto.
Soturnamente, como um carro que rolasse na escuridão.
!
ERA UMA AGONIA aquela noite que não passava, que se arrastava mais negra, mais
ensopada. Uma ordem de Enéias mandava que se apagassem as luzes e as fogueiras,
até as fornalhas. A jagunçada devia estar de espreita e talvez atacasse a qualquer mo-
!
194
mento. Para se mexer era difícil, com tanta escuridão, com tanta lama, com tanta gente
amontoada nas casas exíguas.
No alto, o céu parado, leitoso, onde não brilhava nenhuma estrela, onde nenhum
relâmpago anunciava estiagem.
Alguém teria dito que ouvira trovão para as bandas do Maranhão. Estórias! O
tempo não era para trovão. Para o tempo levantar, só com a outra lua.
Vicente queria tirar uma soneca, mas quem diz poder? Sentia o corpo moído, meio
zonzo, uma apatia pesada, uma não vontade de fazer nada, tudo o irritava e contrariava.
A cabeça girando e os pensamentos sempre presos a uns tantos problemas: a safadeza
da polícia, a aproximação dos jagunços, o pessoal da polícia, a aproximação dos
jagunços, o pessoal no tronco, Hugo nas mãos de Severo. Será que não fez uma besteira
ficando no Duro? Não teria sido mais certo uma fuga, como a do Juiz Carvalho?
Ainda há pouco a velha tia Aninha mandara Tifuque chamá-lo. Não foi. Aninha
queria saber notícias de Anastácia, se a polícia não a tinha prendido adiante. A velha
estava insistindo no envio de outro emissário, mas quem a isso se opunha era Vicente.
— Chega. Ninguém iria mais.
Para mandar Anastácia, Vicente chamou sobre sua cabeça o ódio de toda a
polícia. Não podia exasperar os oficiais com novos pedidos, precisava reservar sua
autoridade moral para ocasiões mais graves.
Até o quarto onde estava deitado, tentando tirar uma pestana, até aí chegavam
abafados os rumores da Vila que parece estava à espreita: uma pomba-rola encolhida na
moita, sabendo que o gavião rondava por riba. O pouco movimento era dos soldados que
Severo recolhera dos arredores, das trincheiras ali cavadas, e concentrara nos quartéis
da Vila. Até o choro dos meninos era abafado para não despertar a jagunçama.
Lina entrou no quarto, assentou-se na cama, perto de Vicente. Ela também
queixava canseira, queria que aquele momento escoasse logo, sugeria um parto difícil,
uma agonia demorada. Que viesse ou bem ou mal, mas que viesse logo!
Vicente sentiu perto de si o calor da mulher e pensou em Anastácia, na sua
ardência, na boca quente e molhada, feito um sexo, tempos distantes, fundo de quintal,
deixa a gente ver, prima, só ver, um pouco só. As mãos de Vicente alisavam as costas da
mu-
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her que tinha o pensamento perdido no medo da jagunçama, negro deflorando menina de
sete anos, mulheres servindo a vinte jagunços famintos de prazer sexual.
Há quanto tempo Vicente e Lina não se encontravam como marido e mulher, não
trocavam um carinho! Sempre os separando a preocupação do ataque, a incerteza do
momento seguinte! No entanto, talvez fosse aquela a última oportunidade de estarem
juntos. Talvez nesse momento já a jagunçama estivesse atacando. A resistência era fraca
e Vicente um dos mais visados. Quem pod dizer que iria escapar com vida ou que não
ficasse aleijado para o resto dos dias!
De dentro da casa vinha o som de rezas. Dona Benedita reun o pessoal ao pé do
oratório, pedindo proteção a São Miguel e suas almas do purgatório. Lina quis erguer-se,
ir para diante do oratório, mas Vicente a segurou e apertou contra o peito. Ela entregou-
se, mas como um molambo. Vicente teve raiva. Porque a esposa não tinha o calor de
Anastácia? Lina não participava do amor: sofria o amor, deixava que a usassem como
um objeto. Será que não gostava de Vicente? Será que ele não conseguia despertar nela
esse imenso impacto que é o desejo, que é a vontade de amar, que é amar!
Apesar, as mãos de Vicente viajavam por sombrias veredas do corpo da esposa.
Já que a escuridão não deixava ver nada, o homem via com o tato e com imaginação. Ela
estava em plena maturidade, os peitos apojados, as coxas roliças e lisas...
”Ave, Ave, Ave Maria!”
Tornava a bater na porta e Lina procurava levantar-se,mas o homem a reteve com
força, meio brutal. Ela então perguntou quem era, quem desejava?
-- Chamando para a reza, uma mãe!
-- Já vou – e novamente tentou sair, desvenciliar-se, mas novamente assegurava o
homem:
— Não vai. Há quanto não se viam, ora! Você já pensou? Talvez seja a derradeira
vez...
Mas Lina debatia-se:
!
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!
!
— Não. Agora não, Vicente, olha a reza, minha mãe chamando, a casa cheia de
gente...
As mãos de Vicente caminhavam, beijava-a impedindo as palavras, afastava pano
e pano, era a saia pesada e longa, tocava o ponto dos sonhos. No escuro, um ímpeto
estranhoo nascia por dentro de Vicente, era como se roubasse, com se menino mexesse
numa coisa proibida, era como um jagunço que achasse uma mulher no meio da guerra e
também com ela se empenhasse na grande luta do amor. E a dominasse fatigada e
exausta e chorasse com a boca cheia de cuspe, a prima Anastácia, as rezas ao longe,
homens morrendo no tronco.
”Ave, Ave, Ave Maria!” A cantoria revoava pela casa. A porta do quarto aberta,
Vicente a sós na cama. Será que Lina não gosta da gente? Sebo! Ele se lembrou dos
homens no tronco, da agonia deles esperando o assalto, aguardando a morte sem nada
poderem fazer. Ah, e ele que estaperando Leão de Aquino para libertá-los. Era um
absurdo aqueles homens e eles seriam mortos se não os libertassem. Os militares
estavam completamente acovardados, cente levantou-se de um pulo e saiu do quarto,
onde esbarm alguém. Era Tifuque, os olhos brancos muito abertos. Na escuridão notou
que por perto havia outra pessoa, um sol, os olhos faiscando na treva.
Lá fora, a bica do telhado pingando sem parar, o lameiro invadindo tudo, a casa
atravancada de coisas, gente por todos os cantos. Detritos de alimentos, cuspos,
escarros, cocô de menino e de urina. Aquilo fedia, aquilo juntava moscas. Pulos cômodos
uns varais com roupa enxugando-se, entupindo a sala.
No tronco, o pessoal não tinha liberdade nem para fazer suas precisões. Era ali
mesmo, na frente um dos outros, pouco distante com a catinga e o mosqueiro.
De certo tempo para cá, Tifuque já não falava. Sua presença por si mesma era um
memento. A pretinha estava mudada, tinha uns toques de vaidade. Na cintura uma
cordinha, à guisa de cinto,a carapinha penteada e domada com tutano, a saia ajustada,
evidenciando as coxas grossas. Por perto, o praça a comia com os olhos.
!
197
— Quem seria?
— Gente de Uberabinha — contara Enéias.
Logo se notava que era homem de cidade grande, habituado com mulherio, com
bordel, para ser tão descarado, para andar assim rebeando Tifuque com cara de tanto
desejo que chegava a e vergonhar os outros.
Coisa danada. Foi Lina que observou:
— Esse soldado olha Tifuque com uma cara que dá vergonha na gente.
Mas também podia ser um espião de Severo. Muito capaz, polícia estava
desconfiada de Vicente, achava que estava passando para a banda de Artur. Vicente
tomava tento para tirar a limpo. Diziam que Sargento Alcides estava detido e que Alferes
Xavier também não era visto com bons olhos. Um e outro eram considerados aliados de
Artur.
A verdade era que não se sabia em quem confiar. Os oficiais, cada qual querendo
engolir o outro, jogando a culpa da morte do velho nas costas do Juiz Carvalho,
ameaçando certos soldados de morte para não revelarem algumas verdades.
Precisava precaver-se — pensava Vicente, que estava resolvido a não atender à
velha. Não consentiria na saída de mais ninguém. Não tinha cabimento. Anastácia havia
saído não fazia nem cinco horas. Se Artur quisesse atacar, que atacasse, mas outro
positivo não iria. Fora isso que Vicente já dissera à velha:
— Nenhum portador sairá mais, minha tia!
Com seu império, a velha pegou a amarelar, as criadas se amontoaram por cima
dela, com a velha tremendo feito uma possuída do diabo. Vicente teve dó. Afinal de
contas, era mãe de Anatásicia, irmã de Tozão, avó de Hugo, mas que podia Vicente
fazer? Resolveu afastar-se, largando o quarto em polvorosa.
A velha era renitente. Depois de querer uma coisa, ninguém fazia ela tirar da
cabeça. Tifuque estava ali pajeando Vicente, enquanto o soldado pajeava a pretinha.
A velha queria enviar como emissário um moleque, cria da casa.
— Que é que esse coitadinho pode enredar? — interrogava ela.
Para obter concessão para essa ida, Aninha mobilizava o mulherio. Lina, Dona
Benedita, Amélia intercediam por ela. Vicente chegou a pensar que a velha ignorasse a
história que corria de
198
que Artur Melo prendia os emissários. Isolada na casa, não chegavam, talvez, até
seus ouvidos esses fatos. Entretanto a velha sabia tudo, tanto quanto Vicente. Foi ele
principiar a falar e ele retrucou de lá:
— Quem viu Anastácia presa na Grota? Quem viu Artur preso por Abílio Batata?
— Deodato viu, minha tia, e também um soldado que andou por dentro da fazenda,
disfarçado.
— Inzona. Tudo inzona dessa polícia, Vicente! — Ela agarrava-se uma explicação
dada por Anastácia. Para esta, a polícia impedia que Artur conhecesse a prisão dos
homens. Ignorando tal prisão, Artur atacaria o povoado e a polícia se valeria desse pé
para matar o pessoal, para liquidar com os opositores de Eugênio jardim.
— Está vendo, Vicente? Para a polícia vai ser muito bom que Artur ataque.
— Nada, minha tia. Eu tenho conversado muito com os oficias. A polícia não tem
interesse em matar ninguém. Os oficiais estão com medo e com muito medo, isto sim.
— Não tem, hem! Para a polícia é bom que meu filho ataque. Se ele atacar, aí num
tem mais Hugo para contar a verdade: os roubos. a traição, — gritava a velha secundada
por Amélia, que chorava a ausência do marido.
Lá fora, a noite estagnada como uma lagoa de piche, as enxuradas roncando nos
socavões.
Vicente Lemes não agüentava mais tanta latomia nos ouvidos, essa leréia dos
infernos. Ia satisfazer a velha mais uma vez.
A noite ia alta, madrugando, os sapos coaxavam. Pelas casas, a conversa molenga,
em regougo de reza, como se estivessem em velório, à espera do araque que não vinha
nunca. Era igualzinho um velório.
Vicente Lemes chamou Valério, Júlio de Aquino e Ângelo e saíram, foram conversar
os oficiais, no quartel de Severo. O Alferes lhes respondeu o cumprimento assim como
quem cuspisse. Um sargento chegou e disse qualquer coisa. Esse oficial lhe gritou tantos
absurdos, tantas palavras pesadas, com a mesma cara amarrada, com a mesma
indigência de palavras que fazia medo. Chegou ameaçar de bofetões o sargento.
Na sua rede, Tenente Mendes de Assis tinha cara de medo. Ele
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deitado, sem perneiras, sem camisa, os cabelos caídos pela cara desfiava o rosário,
batendo os beiços que nem velha beata. Parecia mais lerdo, mais tardo nos gestos, como
se estivesse profundamente cansado, os olhos azuis de estampa de santo, o rosto
comprido. Estaria bêbedo, o malvado! Desde que se positivara oavanço de Artur, o
tenente caiu das carnes. Tinha certeza da derrota. Encasquetou que Artur o visava
especialmente, como comandante do destacamento que matou o velho Pedro Melo.
Mendes Assis tinha certeza plena de que não escaparia com vida.
Para sua defesa, pois, teve a lembrança de pôr em prática uma medida já usada em
Boa Vista e Pedro Afonso. Mandou prender os parentes e amigos de Artur Melo, trazê-los
para o povoado ali estavam como reféns. Se, Artur atacasse, aquela gente morreria.
No começo era apenas ameaça de morte. com o correr dos dias, no entanto, a
morte dos reféns passou a parecer uma solução normal. À proporção que os
acontecimentos se desdobravam, à proporção que os oficiais viam que Artur avançava, o
plano de matar os reféns foi-se tomando deliberação inabalável. A farda seria
desmoralizada. Duro não resistiria, é certo; mas os oficiais não seriam postos para correr
como simples paisanos, pelos jagunços. Os militares podiam fugir, mas depois de deixar
para trás os cadáveres dos parentes e dos amigos de Artuzinho.
E naquele momento, quando os jagunços irromperiam a qualquer instante, os quatro
oficiais firmavam definitivamente solução: — É só principar o ataque, os prisioneiros serão
mortos.
Um silêncio curto seguiu-se, enquanto os oficiais trocavam si rápidos e furtivos
olhares, temeroso cada qual de que sobre si recaísse a tarefa da execução. Severo falou:
— Quem vai matar o pessoal do tronco é Enéias. — Escolheu Enéias por ser o
menos experiente deles nas manhas policiais ser um paisano ingresso ontem nas lides
militares. Contudo, Severo quis justificar a escolha:
— Os presos estão no quartel dele.
— E o menor Hugo Melo? — interrogou Mendes de Assis. morizado por aquela boca
que dizia tanta coisa perigosa.
— Esse fica por minha conta. — Como Hugo estivesse em quartel, Severo quis fazer
crer que usava do mesmo critério pregado para a determinação da tarefa de Enéias.
!
200
Depois de uma pequena pausa, Mendes de Assis perguntou de novo:
- E as mulheres que estão na casa do finado coronel?
Os olhos de Severo mexeram-se lentamente, pousando em cada um dos oficiais
postados na salinha. Por fim, os lábios moveram-se:
- Essas são do Tenente Mendes de Assis.
Os ganchos da rede de Mendes de Assis pararam de ranger, Severo ergueu-se, mas
se ouviam passos.
Vicente Lemes que entrava com os seus. Num átimo, viram que era esteira fazer
qualquer pedido aos oficiais. Melhor desistir de tudo, deixar o barco vogar. Tinham saído
das unhas de Artur e caíam nos dentes da polícia. Tão boa a tampa como o balaio.
Ferreira ali estava unicamente para interceder por um amigo, Abadia Ribeiro, irmão
de Cláudio, também estava no tronco. Era inocente. Valério vinha pedir que o soltassem,
atendendo a um pedido de Cláudio que queria porque queria a liberdade do irmão. Vendo
os paisanos chegar, Severo foi-lhes dizendo:
- Foi bom topar vocês. Nós resolvemos matar o pessoal.
Olhares cruzaram-se na sala, escassamente alumiada, como relumiar de punhal.
Valério ficou branco, nariz afilado, ver um defunto. Já esperava aquilo, já sabia, mas ouvir
com rodas as letras, duro, era assombroso.
— Não pode — protestou Vicente. — Isso é crime!
— Todas as garantias estão suspensas. Lei de guerra, — rosnava Severo. — Nós
podemos morrer, jagunço é demais da conta, mas a gente num morre sozinho!
— Nada disso, Alferes. Só certas autoridades podem suspenders garantias
constitucionais. — Vicente não sabia ao certo, mas completou o pensamento na
convicção de que os militares sabiam muito menos: — só o Presidente da República, só o
Senado... E matar, matar ninguém pode.
— Pois eu suspendi as garantias. O pessoal vai morrer e posso madar matar
qualquer um.
Vicente esperou que os companheiros dissessem alguma coisas de seus lábios
nada se ouvia. Estavam confusos, estavam sados? Sabe-se lá! Vicente então procurou
usar da razão e disse:
— Venha cá, meu comandante. Que vantagem vai haver em ma-
!
201
tar essas pessoas? Você acha que com a morte delas os jagunços vão deixar de
atacar?
Severo olhou para Xavier e Mendes de Assis, balançou a cabeça num gesto de
descrença:
— Esses paisanos!
Os oficiais compreenderam sua exclamação. Queria dizer que os paisanos não
entendiam o que significava resguardar a honra militar, não manchar a farda. Vicente,
porém, não tomava conhecimento.
— Pelo contrário. Matando gente, aí que Artur terá maiores razões para atacar o
povoado e massacrar todo mundo. Se vocês matam os presos, vocês são uns
assassinos, uns bandidos piores do que os jagunços.
No silêncio da noite alta, naquele silêncio de espera, naquele silêncio que até os
meninos respeitavam, naquele silêncio apenas conspurcado pelos passos dos soldados
na ronda, — sua voz cresceu dentro da sala e retumbou pelo Largo deserto.
— Não consinto nesse crime. Eu sou responsável pela vida deles!
Mas nesse ponto Vicente falava para a rede vazia, falava para os colchões postos
no chão, falava para o tamborete repleto de botões de farda, fumo, palha, canivete, bala e
um punhal. Mendes de Assis saíra, Severo se fora, Enéias e Xavier também haviam
desaparecido. Valério tomava Vicente pelo braço:
— Vamos embora, calma.
Havia receios nos modos de Valério, cuja mão Vicente afastava de si, enquanto
dizia:
— Não. De jeito nenhum. Não podemos abandonar os presos. A polícia pode matá-
los, a polícia vai matá-los.
— Psiu, — fez Valério rolando os olhos aflitos pelos arredores. — Pelo amor de
Deus, cale-se. Você quer que eles nos metam no tronco? Está ficando louco?
Atrás de Vicente que saiu levado pela mão de Valério seguiram. Ângelo e Júlio de
Aquino, como autômatos. No Largo a madrugada elaborava o seu grande mistério, com a
chuva caindo violentamente, com as bicas do telhado jorrando longe. No oriente, umas
tintas de arrebol, pobres tintas na madrugada feia. O resto era escuridão.
Até aí Vicente não havia sentido medo propriamente. O assal,
!
202
to o horrorizava e atemorizava pelos riscos e pelos males inúmeros que traria, mas
Vicente não sentia um perigo dirigido especialicnte contra sua pessoa ou contra as
pessoas de sua família. A morte do velho fora coisa da polícia. Artur e os jagunços não
tinham nenhum motivo para odiar particularmente Vicente. Entretanto, agora, a situação
era outra. Se matassem aqueles homens com a complacência, com o consentimento dos
civis, aí então o ódio de Artur Melo era justo, era um ódio sagrado.
Vicente, naquele momento, sentia em seus ombros o peso tragico da culpa da morte
dos reféns. Culpa por ter acreditado que prisão deles era mero expediente para forçar
Artur a desistir do ataque, culpa por não ter tido coragem de impedir o crime.
Com a madrugada chegando, Vicente tinha medo, um medo incoercível, um medo
terrível. A eterna mancha de haver concorrido para a morte de nove homens indefesos, a
culpa de não haver inpedido o crime por uma forma qualquer.
Num relance, viu os jagunços por ali com seus punhais reluzentes, com seus rifles
mortíferos, atacando uns e outros; viu gente amarrada no pau, sangrada aos poucos; Lina
servindo ao prazer de vinte, de trinta cabras e depois entupida de areia. A desgraça, os
aleijões, a invalidez.
Se pudessem fugir, reunir o pessoal, deixar o povoado, largar apenas a polícia...
Pouco importava que o chamassem de covarde, de medroso, do diabo, contando que não
fosse ele o fator de tanta desgraça, de tanto mal-estar, de tanta dor. Mas era impossível
fugir. Estavam cercados. A polícia não ia consentir que paisanos se retirassem, os
paisanos que eram a trincheira da polícia, em cuja munição residia a esperança dela. Se
tentassem fugir a polícia abriria fogo contra eles e aí que a viola estava em caco: fogo da
polícia de um lado, fogo dos jagunços de outro.
Do temor e da esperança, gerava-se o dia: a madrugada rompia. Um suor frio
molhava o rosto e as mãos de Vicente, que se achou sob o beiral da casa da sogra. O dia
surgia com as cores desbotadas de arrebol na manhã chuvosa e feia. Seria aquela a
derradeira manhã que seus olhos viam? Seria aquela derradeira vez que veria o Largo da
Vila, o Largo tão amigo e familiar? Vicente sentia uma como saudade, sensação de festa
finda, de tempos que não voltam mais, nunca mais. Quéde Ângelo, quéde Júlio de
Aquino? Ninguém a seu lado, o suor correndo, molhando o sovaco, mo-
!
203
lhando o cabelo do peito, uma tremura lhe tomando o corpo, aquela terrível
sensação de encurralamento, de que todas as portas estão fechadas e todas as saídas
tomadas, com o inimigo chegando para perto, botando na goela, empurrando
devagarzinho.
Apagado e besta, o dia vinha brotando, como um espectro. Artur e seus bandidos
aproximavam-se. Os oficiais estavam de atalaia, prontos para matar os reféns ao primeiro
tiro.
Não alterava ter medo, ficar com lamúrias. Agora era olhar a menina dos olhos da
realidade e fazer algo, fazer algo inteligentemente.
— Não vou ouvir polícia nenhuma — proferiu Vicente em voz alta, como um
demente. Como Anastácia, o moleque seguiria para o acampamento de Artur, levando
recado da velha Aninha. Severo que se dane, que me recolha ao tronco, mas mandarei o
menino. Vou mostrar a essa cachorrada!
Sua resolução ia adiante: era mandar o menino sumir no Largo Vicente estaria no
quartel de Enéias exigindo a soltura dos reféns. Exigiria de Severo que os soltasse, sob
pena de eles, os civis passarem para o lado de Artur, ficarem contra a polícia. Os civis
contavam com a força de Leão de Aquino, suas Winchester e munições.
— Mil vezes morrer lutando contra a polícia do que comete um crime daquele, —
tomou a proferir Vicente, para se convencer melhor ao som de sua própria voz.
Vicente entrou, chamou um camarada de Moisés, deu-lhe a ordens. Imediatamente,
à beira da cara, abrigados da chuva, chegaram o cavalo e o moleque da tia Aninha.
Prontos para seguir.
Vicente mandou que esperassem um pouco, pois mandara chamar Leão de Aquino
em sua trincheira, para levar o menino até fora do povoado. Daí, Vicente iria soltar os
presos. Isso é que era positivo. Ida do menino, besteira: para contentar a velha, para que
amanhã não dissessem que estorvou uma tentativa de conciliação
O principal, o importante, o decisivo era soltar os reféns, tira-los do tronco, livrá-los
da morte certa e já à vista, dependendo de um tirinho por ali.
— E esse Leão que não chega, gente! — Vicente tinha pressa estava aflito por
chegar ao quartel de Enéias, impor a libertação dos reféns. Uma espécie de comichão
pelo corpo, aflição inconti-
!
204
da, angústia que não o deixava parar, as idéias turbilhonando, incontroladas.
— Menino, quer saber de uma coisa? Monte a cavalo e vá-se embora. No cruzeiro,
você encontra Leão. — Vicente perdera a paciência. Urgia ir imediatamente ao quartel, ir
correndo, antes que matassem todos. Talvez nem esperassem o primeiro tiro.
— Monte, meu filho, toque!
O moleque briquitava, tentando meter o vão do dedo do pé na canela do animal,
para pular-lhe no lombo. Iria em pêlo. O menino briquitava mas o cavalo era alto, estava
molhado, escorregava o pé, não se firmava.
Aquele era o derradeiro emissário. Agora a velha Aninha tirasse o cavalo da chuva,
que ninguém mais seguiria.
— Monta, menino! Que diabo de moleza, trem!
NÃO TARDARIA a irromper a jagunçada. Diziam que eram uns quinhentos, mas não
estariam com exageros? — Ao pensar nisso, Mendes de Assis que estava deitado na
rede, sentiu um frio pelo corpo aIgumas contorções pelo intestino.
Oh, comissão desgraçada! Se escapasse com vida, nunca mais, nunca mais entraria
noutra. Aquele Carvalho é que era um patife.
O tenente não conseguia ficar deitado. Levantou-se. Os Melos eram poderosos. Os
jornais estavam comentando a morte do velho, não somente as folhas de Goiás, como as
do Rio, S. Paulo e Bahia. Quem lhe contara? Valério ou Vicente? Mendes de Assis sentia-
se perdido. Se escapasse aos jagunços, que era dificílimo, não escaparia aos Melos. Com
que contava a policia para sua defesa? Pela milésima vez se perguntava e pela milésima
vez respondia: pouca gente, trincheiras fracas, pouco mantimento, pouca arma, quase
nenhuma munição. Perder a vida inutilmente, bestamente. Tantos anos ainda por viver,
tanta coisa fazer, e sacrificar-se por uma briga dos outros, por uma questão que nada lhe
interessava. Quem iria depois educar seus filhos? A quanto vexame, a quanta privação
não ficaria a viúva, num lugar como Goiás, desprovido de qualquer meio de vida!
Carvalho é que não foi besta, botou os quartos de fora.
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205
O medo cresceu tanto sob os maus conselhos da treva noturna que Mendes teve
vontade de sair correndo e pedir de joelhos aos jagunços que não o matassem, que
poupassem um pobre pai de família que não foi culpado da morte do velho. Bem que
recomendou para não o matarem, mas não lhe obedeceram, não seguiram suas
instruções. Ele era um instrumento, cumpria ordens do Juíz Carvalho, isso é que valia,
isso que Artur carecia de enxergar.
Chegou a ir até a porta da rua para fugir. Outros soldados não haviam desertado?
Também ele o faria, mas a noite estava um breu, a chuva molhando tudo. Será que Artur
aceitava aquele discurso? Sei lá! Em Boa Vista, Dona Teresa entregou ao Capitão
Machado o seu gado, seus ouros, dinheiro, suas fazendas, a troco da vida de dois filhos
tomados como reféns. Pois Capitão Machado recebeu tudo isso e no fim chamou Dona
Teresa para ver os soldados fuzilando os dois rapazes. E a farda? A dignidade militar?
Depois, se Artur não atacasse, se os sitiados repelissem o ataque que posição seria a
dele? De um covarde, de um medroso!
Voltava novamente ao início. Não tinha se levantado fugir? E porque desistia da luta
e voltava para o quarto?
Deus, que fazer? Que Deus o alumiasse, os santos, a Virgem Santíssima. Estava ali
para que os santos fizessem dele o que entendessem. Era um boi, era um carneiro nas
mãos de Deus te poderoso criador do céu e da terra. E a reza do soldado Nestório, o
credo-às-avessas? Também o diabo, o diabo poderia ajudar.
No que seus olhos pousaram num dos cantos do quarto: seis garrafões de cachaça
empoeirados, mas rebrilhantes à luz escassa da candeia. Cachaça que apreendeu no
comércio, para evitar que os praças se embriagassem. Abriu um garrafão, encheu copo e
sorveu a pinga com sofreguidão.
Não muito forte, porém, boa.
À luz da candeia via a sua cor avermelhada, aspecto meio oleoso. Bebeu novos
tragos e sentiu calor pelos bofes, numa reação salutar, os pensamentos se ordenavam,
embora sobrasse uma borra de pressão, mágoa profunda machucando por dentro,
permanentemente: sensação de que havia chorado. Destituindo-o do comando do
destacamento, Carvalho lhe fizera uma afronta sem nome.
Bem que Mendes de Assis percebeu que Severo, ajudado por
!
206
Enéias, o solapava. Enéias odiava Mendes de Assis, desde que Mendes o metera
na cadeia, um dia, por motivo de indisciplina.
O pensamentos opressivos dissipavam-se. Tomou do garrafão, no copo outra
talagada, virou na goela e riu-se. Pode odiar, miserável. Se você escapar com vida daqui,
da cadeia tu não escapa não bandido. Tu vai matar os três reféns. Nove pais de família
trem à-toa!
Novo gole desceu pela garganta de Mendes de Assis. As idéias clareando sempre.
Também de Severo estava vingado. Severo ia matar o nenor Hugo Melo. A boca de Hugo
não revelaria nada sobre o roubo dos dezoito contos de réis. Pena que aquela mesma
boca não pudesse contar do trato do Juiz Carvalho com Artur Melo
No silêncio, gerava-se o mistério da madrugada, pobre madrugada chuvosa, sem
galos nem pássaros, gerada no medo e na covardia.
No oriente, leves tintas prenunciavam o dia que queria surgir.
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207

IV
O assalto
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INCESSANTEMENTE, ininterruptamente, a água tombava sobre as casas, sobre o Largo
deserto. Um ou outro urubu que ficava em riba da cumeeira ou alguns bem-te-vis que
davam seus mergulhos, pegando as mariposas voejantes sobre os cupins.
Nem as almas-de-gato piavam.
A erva crescia com viço extraordinário. Há poucos dias. se não se notava o mato
que chegava agora a esconder um O caruru-de-porco, o fedegoso brabo, a erva-de-santa-
maria cresciam com uma pujança de feitiço. Havia no ar um cheiro de verde, de coisa
apodrecida, de semente germinando.
Nem o mais leve indício de estiagem. Haviam dito que uns trovões roncaram pras
bandas do Maranhão, mas era estória, suspender o tempo, só mesmo com a entrada da
outra lua.
O moleque, cria da casa de tia Aninha, briquitava para montar no cavalo, todo
encharcado, a roupa de algodão pingando chapéu pingando. Era moreno, mas de tão
encharcado tinha pés e mãos brancacentos e engelhados. Estendeu a mão para Vicente:
— A bênção.
E esforçava-se para trepar, mas não dava conta. Vicente foi para ajudá-lo.
Nisso, um foguetão arrebentou para os lados da Grota. Ao estrondo, pipocavam
tiros ao redor de todo o povoado, como se
!
210
fosse um rastilho de pólvora. Parecia fogo em tabocal: tiros mais fortes, outros mais
fracos. Ao mesmo tempo, a barulheira: toque de caixas, tambores, latas, ronco de buzina,
gritos, gemidos, cholamentos. Zurro de jumento, relincho de cavalo, canto de galo.
O cavalo tomou o cabresto e saiu correndo. Vicente e o menino ali parados, sem
entender.
Já não eram estalos de taboca, eram estampidos que se percebido
aproximarem.
- Jagunço, minha gente!
Gente correndo para as trincheiras, tomando posição nos esconderijos, pegando
as armas que lhes estavam reservadas. Qué menino? Vicente se refugiou na casa da
sogra. Por sobre os zurros, relinchos e zoada de tambor, uma voz potentíssima
anunciava.
- Roberto Dorado táqui!
Balas casqueavam as telhas com um ruído horroroso. Lascas de telhas caíam
dentro de casa. A grita crescia, parecia que estavam no Largo. istinguiam-se as frases.
- Tu vai cair na faca, Vicente!
Outras vezes imitavam gritos de dor, como se um homem estivesse sendo
sangrado. Os gritos e imprecações sucediam-se:
- Ai, meu Deus, me acode, Valério!
- A faca dói! A faca corta!
Os tiros cresciam de quantidade e de intensidade. Um tiroteio cerradíssimo, com as
balas não mais casqueando as telhas, mas entando portas, janelas, paredes.
-- Roberto Dorado tá aqui!
--Vicente Lemes já morreu!
Tomado de surpresa, o pessoal julgava que os gritos de dor, que as pragas, já
eram de pessoas do povoado perecendo às mãos dos atacantes. Mulheres, crianças,
homens choravam apavorados, correndo daqui para ali, tentando abrir portas e janelas, a
fim de fugir para fora, receosos de que a casa caísse, esperando achar lá fora mais
garantia do que cá dentro.
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Calma, ordem, calma! — gritavam Vicente Lemes, Afonso Quinto. Júlio, Ângelo e outros
procurando deter o pânico que era imenso. Aqui e acolá, homens tremendo, chorando,
totalmente desilados pelo pavor.
!
211
— Não judie de mim desse jeito. Mata de uma vez! O cedro, a peroba, o pau-d’arco
das janelas, portas e portais estalavam com estrondo, atirando lascas longe. A balbúrdia
era completa. Meninos, homens e mulheres engatinhando pelo chão feito bicho e
ocultando-se por debaixo dos bancos, das mesas, dos catres. Os que procuravam atirar, a
esses as mulheres estoi agarrando-se a eles em busca de proteção.
— Roberto Dorado tá aqui! — a voz retumbava num fortíssimo, já meio
enrouquecida, boiando sobre a latomia dos, relinchos, zoada de latas velhas e roncar de
buzina.
”No céu, no céu,
com minha mãe estarei!
No céu, no céu,
com minha mãe estarei!”
A reza escorria do quarto da velha Benedita, o oratório aberto, a velinha tremendo.
As vozes eram um rio vindo do quarto, alagando tudo, inundando a casa, impondo calma.
De cá as mulheres se benziam, esticavam as mãos para o oratório, como se pegassem
alguma coisa que depois levavam aos lábios; ajoelhadas pegavam na cantoria. Também
os homens se lembravam e beijavam o patuá do pescoço.
— Como dói a faca, meu Divino!
— Mendes de Assis tá morto!
”No céu, no céu,
com minha mãe estarei!
No céu, no céu...”
As casas enchiam-se de fumaça das detonações. Ao longo paredes, por trás das
janelas, no alto do telhado, as carabinas gaguejavam seus tiros, com homens fazendo
pontaria. A ordem estabelecia-se. A resistência crescia. Sargentos, cabos e alguns civis
agarravam os homens acovardados, metiam-lhe tapa na cara, pontapés, ameaçavam com
o punhal e botavam o dito arma na mão, numa seteira qualquer.
Com pouco, olha jagunço por cima dos muros, passando correndo com sua carreira
curta e rápida, arcado, a arma roçando no
!
212
chão, sacolejando o cangaço, sacudindo as patronas, bentinhos, santos e patuás.
- Mete a faca na goela desse Valério fé-da-puta! faca corta, a faca dói!
Numa casa arruinada na entrada do povoado, vizinha do Cartório, no fim das casas
que servia de quartel a Xavier, aí se im muitos jagunços que, ocultos nas ruínas, faziam
fogo contra o quartel do Tenente Mendes de Assis.
- Poupar bala. Atirar para matar — era a ordem que os resistentes se transmitiam.
Por trás da carabina, o cheiro de pólvora no nariz , a leréia dos bandidos nos ouvidos, os
homens repetiam mentalmente a frase tão comentada: o primeiro ataque é o mais : não
cair no primeiro balanço, não cai mais.
- Gritando, pulando daqui pra ali e disparando os rifles, os jagunços surgiam de
todos os pontos. Vinham pelos quintais, tenular o muro, mas as balas dos resistentes os
obrigavam a retroceder.
- A faca corta, a faca dói!
De repente, vigia aqui um bando de jagunços investindo. De dentro das casas, a
fuzilaria estrondava. Alguns recuavam, outros mortos em riba do muro, as pernas para lá,
os braços para cá, o rifle no chão, as capangas, picuás, bentinhos e santos pendurados
balançando. Mas algum deles conseguia chegar até a casa e cutucava com seu punhal o
buraco por onde passava a boca da Comblain, tentando alargar o buraco e tomar a arma.
Futucava e xingava:
- Apronta a goela, cachorro do governo! Bala pegava o bruto de jeito e o derrubava
ali mesmo junto, enquanto outros chapéus de couro pulavam daqui pra li, desapareciam
por trás dos muros, das pedras, das moitas. A zoada, o batido de lata, de caixa, zurro,
troar de buzina, cresce. Parecia dentro das casas, com gritos e imprecações fortíssimas:
- Me larga, Seu Passarinho!
- Mendes de Assis já morreu...
Num agüento, me mate logo, pelo amor de Deus!
Uma porta cedia ao baque de coronhas. A cara larga de um jagunço, a faca na boca,
os dentes em serra, a repetição na mão. Ia
!
!
!
!
!
213
entrar, mas uma saraivada de balas jogava ele por terra, o obrigava a fugir nos seus
pulos ágeis.
!
”Com minha mãe estarei,
Na santa glória um dia...”
!
As vozes erguiam-se ferozes, num tom esganiçado de desespero, tentando abafar a
barulheira infernal que vinha de fora. Não tinha dúvida, a jagunçama estava bêbada,
completamente bêbada. Era a desgramada da cachaça com pólvora que Roberto Dorado
costumava distribuir ao seu povo em antes de atacar.
Entrando pela grota que cortava o Largo, os bandidos dirigiam um fogo nutrido
contra o quartel de Mendes de Assis. As casas mais afastadas, colocadas nas pontas do
Largo, estavam ocupadas pelos jagunços: casa de Argemiro Félix, de Januária, do
Pedreiro.
!
”Eles é de cair
de dez em dez, ;
de nove em nove,
de oito em oito...”
!
Era um soldado velho sacudindo para o rumo da Grota alguma coisa e proferindo
essas palavras num tom profético e funéreo. As mulheres e alguns homens choravam e
se ajoelhavam a ouvir essa oração. Era uma reza muito braba demais da conta. Era a
oração do cordão do lado esquerdo da cintura de São Francisco, mó de cortar o poder
dos pactuários. Oração suficiente para suspender a pauta de corpo fechado.
!
”Oremos, meus irmãos, oremos!”
!
O QUARTEL de Enéias era o visado. De acordo com o plano de Abílio Batata, o fogo
deveria concentrar-se nele, a fim de libertar os prisioneiros, no primeiro ímpeto do ataque.
O quartel, porém estava resguardado pela sua posição. Para atingi-lo, tinham os
atacantes que passar pelo quartel do Tenente Mendes de Assis, colocado entre a grota e
o quartel de Enéias. Por esta grota entrava os homens de Batata.
!
214
Por isso, desde o início, o quartel de Mendes de Assis sofria muito, que aos
primeiros minutos Severo, cujo quartel estava frente, reconheceu sua vulnerabilidade e
mandou alguns solos, sob o comando do Sargento Odilon, ocupar a casa de Argemiro
Félix, que ficava próxima, um pouco para o fundo. A posição da casa de Argemiro permitia
defender com vantagem o quartel do Tenente Assis. Quando, entretanto, Odilon e seus
homens tentaram entrar na casa, já aí estavam os jagunços, que os repeliram.
Para não perecerem, o sargento e seus homens abrigaram-se no quartel de Mendes
de Assis, mais ao alcance.
Severo, porém, cujo quartel ficava fronteiro à casa de Argemiro Félix, não se
apercebeu do fracasso do Sargento Odilon: achou que ele tinha ocupado a posição
pretendida. A partir daí, o tiroteiro vindo da casa que devia estar ocupada por Odilon,
castigava Severo que não podia reagir, para não matar os homens de Odilon. Severo
fazia sinais, tocava corneta, mas a resposta que tinha era bala e mais bala.
- Será que o diabo desse sargento endoidou!
Severo enviou emissários, mas eles não conseguiram passar. A grota era uma
fortaleza dos diabos. Comunicar-se com outros quartéis era impraticável. Os bandidos
haviam ocupado as casas vazias, de modo a isolar os quartéis entre si, proibindo
qualquer comunicação. Cada quartel era uma unidade isolada debatendo-se as cegas.
Severo em pessoa quis chegar até a casa que supunha ocupada por Odilon, mas
uma bala o atingiu na pá direita, casqueou a espinha, e veio alojar-se no lado esquerdo.
Ele voltou ao quartel, amarrou uns panos, continuando na luta para agora desalojar-se de
sua frente quem o castigava tão terrivelmente, fosse Odilon ou fosse o diabo!
Com fogo pelos fundos, pela frente e por um dos flancos, o quartel de Mendes de
Assis pegou a cair. A casa era fraca, feita de pau-a-pique barreado. Os torrões de barro
caíam, deixando apenas o trançado dos barrotes e taquaras amarrados com embiras.
Tenente Mendes de Assis estava no maior dos pavores. Não restava pingo de dúvida.
Queriam pegá-lo, matá-lo friamente, chuçando aos poucos com punhal.
Desfiando o rosário, o tenente ordenou a evacuação do quartel,
!
!
!
!
!
215
mas o tiroteio era tal que ninguém se encorajava a sair. O medo agarrava o oficial,
pintáva-lhe os jagunços chegando, o amarrando num pau e picando vivo, aos tiquinhos.
Brevemente ele gritaria como Vicente Lemes, cuja morte os bandidos proclamavam.
— E os garrafões de cachaça! — lembrou o homem, tomou de um sem esperar por
copo e virou na goela. A seu lado viu Sargento Odilon e o Soldado Gabriel que mamavam
em outros.
— Aqui pra mim, um tiquinho — pedia Daniezinho, que encheu um coité de pinga e
bebeu de um soco. Ah! — exclamou estalando a língua e lambendo os beiços: — Nada
como uma cachacinha para estimular a coragem.
Agora estavam prontos para lutar, prontos para enfrentrar o tiroteio e fazer a
retirada, mas a cachaça os fazia esquecer o perigo. Naquele justo instante o Soldado
Gabriel caía por cima do Comblain, morto com um tiro na cabeça. Outro já gemia com as
mãos ambas comprimindo os intestinos, agachando agachando-se pelos cantos da casa
que desmoronava a cada balázio.
— Evacuar o quartel — gritou Mendes de Assis fugindo paro o único lado que ainda
não estava tomado, para o lado do quartel de Enéias, onde estavam os prisioneiros no
tronco, sobrado que era o principal objetivo dos assaltantes.
Os homens de Mendes de Assis foram vazando paredes sando para a casa vizinha,
que fora de Vigilato, e daí para a seguinte, que estava vazia. Nesta última só tinha um
bobo que ficara vigiando. Encontrando-o, Sargento Odilon o botou para o muro que
separava esta casa do quartel de Enéias.
O bobo era surdo-mudo, nada percebia do que se estava acontecendo em torno e
na sua estupidez metia a enxada, furando a taipa. Cambaleando, Odilon o ameaçava com
revólver, obrigava a fazer o serviço com presteza:
— Fura, peste!
Do outro lado do muro, no quartel de Enéias, os soldados alarmaram-se:
— Meu Alferes, os bandidos já e-vêm vindo aí. Tão ronbando o muro, vigia só, meu
Alferes.
De cá se ouvia o batido da enxada no muro, no outro lado os soldados procuravam
esconder-se por ali. A enxada batia, cavucava, vozes ditavam ordens, a enxada voltava a
bater. No muro
!
216
abriu-se um buraco, um homem meteu a cara espiando para cá. A fuzilaria pipocou e
o homem caiu entupindo o buraco.
Enéias não teve dúvida. Foi topar Mané Vitô na porta da sala do tronco, montando
guarda aos reféns. Ninguém agüentaria aquele assalto. Em Pedro Afonso tinha sido muito
mais fraco. Era fugir e fugir já, se não quisesse largar o couro na unha de Batata. Os
bandidos já arrombavam o muro, já invadiam o quartel. Aquilo significava que o quartel de
Mendes de Assis e seus homens estavam mortos. Era verdade o que os bandidos
anunciavam: Mendes de Assis estava no inferno. Ah, não tinha dúvida! Batata cumpria
com o prometido: o ataque seria tão fulminante que a polícia não ia ter tempo de matar os
prisioneiros. Mas Batata estava redondamente enganado. Os sitiados não tinham
salvação, é verdade: todos mortos pelos jagunços, mas também os prisioneiros não
ficariam com vida. Isso não ficariam!
Pálido, mas corcunda, Enéias deu a ordem:
- Matar os reféns.
Lá de fora vinha o grito que punha arrepios em Enéias: Roberto Dorado tá aqui!
Era o mesmo grito de Pedro Afonso, era o mesmo desespero, nesma fúria.
Ante a ordem que esperava desde a véspera, Mane Vitô manobrou a arma, abriu a
pesada porta da sala. Nove homens de joelhos ajuntaram as mãos em súplica: Pelo amor
de Deus, não mata, não mata!
A Winchester de Mane Vitô roncou sinistra, até engasgar. Gritos dos encheram a
casa, de par com a fumaceira. Nisso, do escuro do quarto, o rosto de Damião de Bastos
se destacou, cresceu para o soldado Mane Vitô. Damião de Bastos tinha cara ruim e
único prisioneiro que jamais pediu coisa alguma durante a prisão. Aquela cara máscula
cresceu no escuro do quarto, contraiu-se e pegou a chorar feito um menino!
- Me mata premero. Num quero ver meus filhos morrer na minha frente. Me mata!
Rapidamente Mane Vitô encheu a carabina e novas detonações retumbaram pelo
velho sobrado. Outros homens tombaram e novamente a súplica de Damião de Bastos
que tentava defender os filhos, um dos quais jazia morto. Mais tiros e do meio da fumaça
!
!
217ardia o rosto de Damião de Bastos sempre surgia horroroso, aos brados, com
uma fúria tal que Mane Vitô recuou. Aquilo certamente pissuía corpo fechado! Por
certamente era algua oração muito braba demais, algum patuá de S. Marcos Brabo. Não
via que nem sua repetição queria funcionar mais!
Mane Vitô saiu de fasto, tacou a carabina fumegante no chão, fugiu.
— Acaba o serviço — era Enéias com a Mauser no seu peito.
— Matar filho na frente do pai, isso é demais, meu Alferes, eu nem num tenho
coragem nenhüa não! — Mane Vitô estava trêmulo, desfigurado, olhando para o quarto do
tronco como se estivesse encerrada uma fera terrível, como se dali viesse um fantasma
pronto para matá-lo:
— Esse homem num morre não, meu Alferes. Ele pissui uma oração desgraçada de
forte, meu Alferes!
Aí Nestório meteu o pé na porta e começou a desfechar tiros. Deu no gatilho até que
a carabina esgotou a carga. Depois, puxou a porta e disse:
— Pronto, meu Alferes. Num mato mais ninguém preso. Agora vou é enfrentar gente
solta e vou pegar essa jagunçama aí fora, mó de num dizer que a gente só mata homem
amarrado.
Enéias aproximou-se da porta do quarto. Por baixo e pelas frinchas a fumaça saía
mansamente, ondulando no ar parado. De dentro vinham gemidos e roncos. O Alferes
empurrou outra vez a pesada porta de pau-d’arco. No lusco-f usco, gente estrebuchava,
gente avançava com uma dificuldade medonha, arrastando no pé o tronco empecado de
defuntos e agonizantes. Aquele que avançava vinha arquejante, soproso, aluindo a custo
a penca monstruosa de cadáveres, espichava o braço tremente, espichava a cabeça num
gesto descontrolado e humilhante. E falava e falava e falava.
Quê diria aquele defunto? Quê estaria ele pedindo com tanta teimosia? Enéias
gritou-lhe com mais pavor do que o Soldado Mané Vitô:
— Tu não pára de pedir! Num morre nunca? — E como um louco acionava o gatilho
da arma até que o cão principiou a mascar em falso.
Nesse momento, por trás de Enéias, chegou o Sargento Rubens que lhe dizia não
serem os bandidos que vazavam o muro.
!
218
— Uai, não são os bandidos, uai! Então, quem é que está rombando o muro? Fala
depressa, trem.
— Deve ser os soldados do Tenente Mendes de Assis, meu Alferes. Eucuta a
corneta. — E o sargento com o dedo indicador erguido apontava os acordes do outro lado
do muro.
Enéias ouviu o toque de corneta. Vinha do outro lado do muro furado. O Alferes
compreendeu tudo. A corneta era do Tenente Mendes de Assis que estava vazando o
muro, a fim de passar para cá, para o quartel de Enéias, onde procurava refúgio,
certamente.
Enéias mandou o corneteiro responder ao toque do tenente. De cá, o som da
corneta se sobrepôs à barulheira dos tambores, dos murros, relinchos, gritos e
impropérios. Novamente, o Tenente Mendes respondeu. Um pano branco apareceu no
buraco, na ponta de ima Comblain; um soldado surgiu, passou para cá, outro, mais outro,
o pessoal todo entrou no quartel de Enéias.
Lá fora, a inferneira nunca fora tão atroadora. Caixas, buzilas, canto de galo,
tambores, lata velha.
— A faca corta, a faca dói!
— Apronta a goela, Severo, que o Mendes de Assis já tá sem couro!
— Ai, ai, ai, não me mata, Roberto Dorado!
- NÃO SEI o que está acontecendo, Vicente. O pessoal do Tenene Mendes veio todo
para o quartel de Enéias. — Isto contava Afonso Quinto que trepou no telhado da casa de
Dona Benedita, onde era o quartel de Vicente Lemes. Dali, vira a movimentação do
Tenente Mendes de Assis.
— Uai será que a polícia já está entregando os pontos! — fez Vicente, que neste
instante era chamado por um sargento:
— Olhe, Seu Major, o sentinela Boa Ventura está aí.
— Sentinela? Que sentinela? — perguntou Vicente, mas por ali já Boa Ventura
contava: — Estava na estrada da Grota,quando os jagunços atacaram. Boa Ventura tinha
cochilado e...
O tiroteio era cerradíssimo, com terra, lascas de madeira saltando pela casa inteira.
Não. Não era possível resistir. O tiroteio
!
219
!
!
!
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!
!
!
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era um absurdo. Aquele negócio de primeiro ímpeto era pura leia. A cada instante o
ataque crescia de violência.
Agora, além do assalto em si, os jagunços estavam apoiados p fogo dos
companheiros entricheirados nas casas, nas grotas, i moitas, nas dobras do terreno. O
cerco fechava-se sobre cada gru de casas em que os resistentes se abrigavam. Alguém
informa
— Mendes de Assis já entregou a palha com a rapadura.
— Morreu?
— Diz-que fugiu...
— Severo tá baleado — contava outro.
Jagunços pulando os muros, correndo agachados daqui pra feito um bicho feroz, em
pulos ágeis de grilo, metendo os punh, pelos buracos das paredes, das fechaduras.
— A faca corta...
Pelas casas, as mulheres de galinhas, sem incomodar de me trar a vergonha. O
clarinetista Pião, esse nem tinha força para alu se do lugar. Chiquinho da Penha não caía
das carnes. Estava, no pau furado, derrubando negro, mas a merda lhe corria pel pernas,
tal qual boi de carro em tempo de verde. Fazia força c gando, o danado.
Calogi, sobrinho de Aninha, perdeu a vontade, feito uma cria ca, fazendo o que
mandavam, sem nenhuma determinação pr pria. Acabou um jagunço abrindo a janela,
encostou-lhe o cai da repetição na barriga e arrebentou tudo.
Júlio de Aquino, Ângelo e Vicente faziam ali um jurament não se entregariam vivos
nas mãos de Artur. Quando se visse perdidos, a derradeira bala seria para o ouvido.
Desfigurado, branco ver cera, com o jeito mais esquisito « mundo, Afonso Quinto foi-
se chegando para perto de Vicente.
— Que isso, homem? — Estaria ferido o infeliz? Afonso Quin rolava uns olhos
esgazeados. Do fundo do peito vinham os eng lhos que o impediam de falar. Entre ânsias
de vômito, por fim exprimiu-se:
— Fui no quartel de Enéias...
— Tá aí! Não fique zanzando, vamos ver que já tomou uma bala!
— ... já mataram os reféns — terminou Afonso, a quem as ai sias novamente
assaltaram, fazendo porejar suor na cara esquálida.
Foi como se houvessem metido uma porretada na cabeça de
!
220
Vicente: a cabeça rodou, a boca amargou a guiné. Vicente tomou Afonso pelo peito
da camisa, sujigou-o ali na parede, sem coragem de repetir a palavra ”morte”.
— Que é homem? Fale direito!
A voz de Afonso vinha entrecortada pelas vascas:
— Eu achei o movimento de Mendes de Assis esquisito, então fui no quartel de
Enéias... lá num tem ninguém... só tem defunto... mataram os homens do tronco...
Vicente não ouvia tiros, nem gritos, nem nada. Um vazio, a cabeça oca girando.
Relanceou os olhos e em tomo de si estavam todos do mesmo modo: parados, a cara
estuporada.
Afonso prosseguia entre espasmos:
— Mendes de Assis e Enéias com os soldados atravessaram o Largo, entraram na
casa da velha Aninha...
Uma mulher de soldado aproximou-se de Afonso.
— Arca o corpo, meu amo, mode gumitar sossegado... — e segurou-lhe a testa.
Duvidavam: — Ah, será possível!
— Os soldados vão matar as mulheres.
Um silêncio perdurou até que a mesma voz que duvidou, completou:
— Se já não mataram!
Num átimo, Vicente teve compreensão de tudo: mortos os prosioneiros do tronco, a
polícia iria matar as mulheres, na casa da velha Aninha.
Num ponto qualquer lamentavam:
— Vocês deviam de ter tomado os presos de Enéias. A polícia sempre prometeu
matar eles. Que estavam esperando? Agora cumpria salvar as mulheres. Era uma dívida
de honra para com os mortos. Nada de contemporização.
— Tenho que salvar as mulheres, — gritou Vicente. Ele mesmo percebeu que
dissera isto alto demais.
Lina, sua sogra, a mulher de Júlio de Aquino, a de Moisés o agarraram:
— Está louco, homem. É só chegar lá e a polícia te mata, te pica em pedacinhos. Os
oficiais estão prevenidos contra você.
— Me largue, me largue, — relutava Vicente. — Tenho que ir à casa da velha. Não
posso ouvir ninguém. Foi por estar dando ouvidos a uns e a outros que afinal a polícia
acabou matando os
!
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prisioneiros. Agora, ninguém me impede de ir à casa da velha salvar as mulheres.
— Nós também vamos com você — diziam Lina e Benedita — Assim eles não vão
poder te ofender.
— Mas eu tenho pressa e até vocês passarem... E Vicente rompeu a frase ante
outra lembrança que lhe acudia:
— Nesse caso, vão Ângelo e Júlio de Aquino.
— Bobagem — contraditava Júlio. — Mendes de Assis vai escutar conversa minha
mais de Ângelo? Tem que ser você ir para discutir com a polícia, para estorvar os oficiais
de matar as mulheres.
— Ai, ai, ai! — gemiam por ali. O gemido crescia e era cortar o coração.
— Quem será, meu Deus!
Afonso Quinto lá vinha nos braços de dois homens. Tentaram sair para a casa da
velha. No que abriu a porta uma bala esbagaçou-lhe a coxa. O sangue jorrava em bicas.
Era o primeiro ferimento grave, em gente importante, com sangueira dos diabos. Ah,
se houvesse médico! Nem desinfetante havia. A cena atemorizava as mulheres que
perceberam o risco que corriam, o perigo que pesava constantemente sobre a cabíeça
cada pessoa, de cada filho, do marido. Diante do ferido, percebiam que a fuzilaria era de
uma intensidade nunca vista, derrubando reboco, cacos de telhas, lascas de pau. Lá fora,
a gritaria:
— A faca corta, a faca dói.
O cerco apertava-se. As mulheres de soldado se mantinham firmes. Agüentavam o
fogo fazendo seus cigarrões de palha, soltando baforadas, indo e vindo com os meninos
nos braços. Algumas ficavam pelo chão, dando de mamar ao filho catarrento,a cara mais
sossegada dessa vida.
— Teresa, ô Teresa! — chamava o soldado, suspendendo o tiroteio da seteira, em
que estava. Teresa ajeitava a criança na cintura e ia lá. O soldado deixava-lhe a arma e
saía para descansar fumar o cigarro que Teresa preparara e metera na pituca. Tereza
depunha a criança no chão, pegava a Comblain e disparava bem. O soldado voltava,
retomava a arma, e Teresa ali ao pé dele escolhendo os cartuchos que prestassem,
aqueles que não falhassem. A munição velha era quase inútil. Tinha cartucho que chia-
!
222
va feito um traque, produzia um fumaceiro dos trezentos e a bala nem aluía.
Contavam pormenores: quando Tenente Mendes de Assis refugiou-se no quartel de
Enéias, os presos já haviam sido mortos.
— A bala ou punhal?
— Diz-que foi sangrado. Que nem porco.
— Aquele Mane Vitô é um bandido!
— Mane Vitô nada: Enéias. Enéias que é um bandido. A ordem fou dele.
— Psiu! Tem soldado ouvindo. Cuidado!
As vozes se amorteciam.
— Quando Mendes de Assis chegou, já todos estavam mortos. Aí, combinaram ele e
Enéias de passar para a casa da velha Aninha e matar as mulheres. Era para acabar com
a raça dos Melos.
Quem informava, dizia ter ouvido essas coisas da boca de Afonso Quinto que as
ouvira do próprio Enéias.
— Depressa, gente! — exigia Vicente dos homens que, lá fora, vazavam os muros, a
fim de permitir que chegassem à casa da tia Aninha.
— Tomou a bala na cabeça que chega rançou fora o coité.
— Quem? Quem foi esse?
— Crispim, menino cria de Joaquim Alves Leandro. — O menino estava num grupo
de jagunços que ocupou a casa do Pedreiro, mesmo em frente ao quartel de Xavier. De
vez em quando Crispim abria um tiquinho a porta, botava a cara de fora, e gritava:
—”Valério fé-da-puta!
Numa das vezes, zás — a bala tirou-lhe o coité.
OS HOMENS de Vicente arrombavam o muro que dava para o Beco da Fonte. Este
Beco separava a casa de Dona Benedita da casa do Doutor Herculano Lima. Depois eles
arrombaram o muro da casa do Doutor Herculano. A frente dela dava para o oitão da casa
da velha tia Aninha, aonde Vicente precisava chegar.
A casa do Doutor Herculano estava vazia. Ele tinha ido parlamentar com o sogro e lá
ficara preso; sua mulher e sogra tinham sido recolhidas à casa da velha Aninha.
Oh, arrombamento demorado, meu Deus! Coisa difícil com
!
223
os tiros comendo, com os homens se escondendo, com o medo tomando conta.
Soldados e civis saíam para cavar, enquanto os demais resistentes, de dentro da casa,
faziam nutrida fuzilaria, a fim de espantar os jagunços. Assim mesmo a todo momento
viam-se obrigados a abandonar o trabalho e a ocultarem-se em casa.
Quando menos se esperava, olhe ali por cima do muro um chapéu duro, o rifle aos
baques. Vinham jagunços aos magotes, na sua ousadia imprudente, chamando os
soldados como se fossem pintinhos:
— Piu, piu.piu.
Uma rajada vinha da casa, metia-os por terra.
— Depressa, que matam as mulheres! — Incitava Vicente, que fora ver o pobre do
Afonso Quinto. Nem gemia, desmaio sobre desmaio, quase exangue. Era incrível como
uma bala pudesse fazer tamanho estrago. Moisés achava que os jagunços estavam
usando bala dum-dum.
Abertos os rombos, iniciou-se a passagem do pessoal da casa de Dona Benedita
para a de Doutor Herculano, levando crianças, roupa, mantimento, vasilhame, o diabo.
Até o oratório Dona Benedita queria levar, mas terminou transportando apenas o São
Miguel.
O passo mais difícil seria aquele que consistia em deixar a casa do Doutor
Herculano, pela porta da frente atravessar a rua, e entrar pela porta da frente da casa da
velha Aninha. O espaço entre a porta de uma casa e a de outra seria de vinte e poucos
metros. Mas dava para o Largo, à vista da jagunçada, exposto abertamente às balas
inimigas.
As pessoas da casa de Dona Benedita abriam fogo para os lados. com o tiroteio
cerrado, os homens de Artur não tinham coragem de erguer a cabeça e atirar. Ante a fúria
do fogo, os jagunços aquietavam, paravam completamente de atirar. No auge da fuzilaria,
passavam as mulheres rapidamente, em grupos de três e quatro, agachadas ou de quatro
pés. De tempo em tempo, sustavam-se os disparos de cá, e de lá a cabroeira despejava
estanho à vontade.
Depois chegou a vez dos homens atravessar, mas aí os jagunços já tinham atinado
com o ardil e surgiam pela grotinha, pelos quintais, avançavam numa fúria de demônios.
!
224
Vicente, Júlio de Aquino, Ângelo e outros passavam, enquanto os soldados e alguns
civis permaneciam nas casas, para impedir que os jagunços ali se entrincheirassem. Em
casa de Dona Benedita também ficou o infeliz do Afonso espichado na cama, branco feito
um defunto, as pernas envolvidas numa trouxa de panos.
Ao entrar na casa da velha, Vicente foi chamado por sua filha Alice que chorava
desesperadamente. Alice agarrava-se ao pai, chorando e clamando. Vicente tinha pressa
de chegar aos aposentos da velha tia, receando não mais encontrá-la com vida. A
menina, entretanto, gritava de tal maneira que Vicente teve de tomá-la nos braços e
procurar saber o que era, dentro da balbúrdia infernal de gritos, choros, protestos. Aqui
reclamavam que uma criança tinha ficado lá, separada da mãe; ali, outra queria voltar
para buscar panos que esquecera.
— Diga, menina, que foi? Quede sua mãe? — perguntava Vicente. Dentro da
barulheira não entendia patavína do que dizia a menina.
— Pára de chorar, fala direito, vamos! — Mas não entendia. O que percebia eram
estrondos, como se batessem em porta ou num grande caixote: — bum, bum, bum. — O
ruído ressoava pelo casarão, fazendo tremer as janelas, derrubando torrões de reboco.
Arrombando porta — pensou Vicente, que saiu correndo pela casa imensa, cheia de
quartos, corredores, salas. Já não tinha dúvida. Eram coronhadas em portas. As
pancadas cresciam à proporção que Vicente entrava no corredor e chegava à varanda, de
cujos fundos vinham os estrondos. Deviam partir daquele quarto imenso que servia de
dormitório à velha, onde Vicente fora tantas e tantas vezes nesses últimos dias.
Vicente sentiu no rosto as unhinhas de Alice que exigia do pai que a ouvisse. E ele
teve que ouvir: — Brasica morreu.
Brasica era a filha de Argemiro Félix, da mesma idade de Alice, sua companheira de
brinquedos. com a ausência do pai, viera para a companhia de Vicente, que a via sempre
brincando. Brincando de bonecas, brincando de comadre por baixo dos cacaueiros do
quintal.
A mulher de Moisés contava-num tom doloroso como ocorrera a desgraça. Alice
vinha abraçada com Brasica, quando a bala
!
225
a pegou na barriguinha, do lado esquerdo. A coitadinha ainda agüentou e veio cair
no corredor:
— A gente até cuidou que tivesse trupicado à toa.
Vicente entregou a filha à mulher de Moisés. Soldados trançavam pela casa.
Distinguiam-se dos civis pelas correias, mas trajavam roupa de paisano. Na porta do
quarto da velha Aninha, vários soldados metiam coice de Comblain. Batiam, batiam,
batiam, tentando quebrar as tábuas; a seguir, enfiavam os ombros, resfolegando no
esforço. A porta de pau-d’arco, grossa, presa com dobradiças possantes, porta feita com
aquele capricho, aquela perícia do velho Melo, ah, nela podia amontoar soldado!
— Epa, que isso aí!— veio gritando Vicente. — Alto lá! — continuou ele, entrando no
meio da soldadesca, enquanto procurava divisar alguém graduado ali por perto. Agachado
de um lado estava o Tenente Mendes de Assis; Alferes Enéias estava de pé, ambos
tinham os olhos pregados em Vicente, a cara parada numa completa boçalidade.
— Que é que vocês estão querendo aqui? — argüiu Vicente em tom de cólera. —
Saiam, saiam, aqui só tem mulheres.
U’a mão de ferro agarrou Vicente pela gola, deu-lhe um safanão que o botou tonto,
ao mesmo tempo que um’ punhal brilhava à altura do nariz de Vicente. Quem o agarrava,
berrava: — Traidor. Quer nos matar!
Numa agilidade que jamais desconfiou possuir, Vicente safouse da mão que o
detinha. Tirou da algibeira sua automática, mas já o rodeavam Ângelo, Júlio de Aquino e
Moisés. Tenente Mendes de Assis também interferiu, levando para longe o agressor. Era o
Sargento Odilon: foi-se resmungando, bracejando, sacudindo os ombros. Odilon velho
estava na cachaça, como também estavam Mendes de Assis e outros soldados.
— Retirem-se, retirem-se, — prosseguiu Vicente. — Que é que vocês querem com
estas mulheres? Vão dar tiros nos jagunços que estão aí fora, cambada de covardes!
Enéias e Mendes de Assis permaneciam parados, os olhos arregalados, sem nada
dizerem de concreto. Mendes de Assis, via-se que estava embriagado, fedendo a pinga,
vermelho, olhos congestionados; mas Enéias, não.
O que eles respondiam era besteira:
!
226
— Precisa segurar esse povo, Vicente. Esse povo pode ajudar os bandidos, pode
atacar a polícia pelas costas.
— Atacar o quê, tenente! Só se elas derem tiro com a boca. Elas não têm arma, não
sabem atirar. — Vicente tinha ódio aos oficiais, mas entendia que era necessário agir com
cuidado, tê-los em boa concórdia.
Os soldados não forçavam mais a porta e Vicente pôs-se a bater e a chamar:
— Amélia, ô Amélia!
Ninguém respondia. No quarto era como se não houvesse vivalma. Algum ruído que
pudesse existir era abafado pela baruIheira dos jagunços.
— Amélia, quem está aqui é Vicente.
Mendes de Assis notou que Vicente desconfiava de que ali dentro não restava
ninguém; e resmungou:
— Tá tudo aí dentro... tão com medo.
— Aninha, minha tia, aqui quem fala é Vicente Lemes. Os soldados já saíram, pode
abrir a porta. Preciso conversar com a senhora.
De dentro veio uma voz que Vicente identificou sendo de Amélia. Num tom de
súplica:
— Não deixe a polícia nos matar, Vicente.
Daniezinho, que até ali permaneceu por perto, afastou-se cambaleando, gritando
ameaças, indo unir-se ao Sargento Odilon, Mane Vitô e outros que estavam assim mais
pra lá. Os dois oficiais, quietos. Mendes de Assis agachou-se e tirando o rosário, rezava
batendo os beiços flácidos, tremendo as bochechas vermelhas, nas quais a barba de dois
dias punha um ar de convalescença. Estava na pinga, via-se bem. Enéias tinha um jeito
selvagem, o olhar vago, de sonâmbulo.
— Amélia, eu estou aqui com toda a família, com Lina, Alice, Júlio de Aquino,
Ângelo, Saturnino, sua avó Benedita. Pode abrir sem susto que os soldados já
arredaram... — Vicente procurava falar bastante, fornecer o máximo de elementos
capazes de identificá-lo. Vicente sabia que Amélia desconfiava de alguma cilada.
Certamente os soldados tinham cometido violência, tinham procurado assustá-las.
— Podem abrir. Viemos defender vocês e somos muitos.
!
227
Ouviram-se ruídos do outro lado: móveis arrastados, objetos mudados de lugar,
gungunando de vozes, em conversa, choi menino. Tiravam os trastes que haviam botado
como escora.
— Olhe a chave, — dizia Amélia, enquanto um chavão escorregava por baixo da
porta.
Aberta a porta, eis novamente ali o Sargento Odilon com cara de nem sei o quê,
querendo entrar! Por trás dele a tropa toda: Daniezinho, Mane Vitô, Nestório, com as
caras congestionadas, tando palavrões:
— Os macho já foram tudo, agora é a vez das fema...
— Pra trás, Seu Sargento. Nenhum passo mais, que eu não estou para brincadeira,
— disse Vicente pondo-se entre a porta soldados, segurando novamente a pistola
automática.
O sargento remanchava, mas Vicente dava no brabo:
— Pra fora e já. Seu lugar é defendendo a Vila e não querendo matar mães de
família. Seu lugar é lá junto de Severo. Você, o tenente Mendes de Assis, Enéias deviam
ter vergonha de estar a querendo matar mulheres desarmadas. Vão lutar com os
jagunços, seus covardes! Escuta eles chamando vocês, escuta!
Odilon e os outros coçavam-se e olhavam para os dois oficiais que nada diziam.
— Vocês mataram os prisioneiros porque estavam amarrados no tronco. Vocês
queriam matar estas mulheres porque não existia nenhum homem aqui. Entrem agora,
covardes! — Na mão,, Vicente segurava a Browning de cinco tiros, bala niquelada.
Inquietos, os soldados olhavam para Mendes de Assis, que parara de bater o queixo
na reza e permanecia agachado. De pé, Enéias permanecia como que estupidificado.
Alheio a tudo, com o sentido voltado para outros problemas.
De repente, aproximou-se de Mane Vitô e lhe segredou alguma coisa ao ouvido,
voltando para seu lugar.
Um toque claro e diáfano de corneta chegou até a sala, como se fosse um raio de
sol. As notas metálicas brincaram alegremente no ar e Vicente teve a perfeita noção de
que não estava só, que não estava abandonado: nalgum ponto, alguém também lutava.
Alferes Enéias trocou de pernas. Um frêmito agitou os soldados, como se um
choque elétrico os alertasse:
— Uai, é o Alferes Severo, — disse Daniezinho rindo imbecilmente, como se aquele
toque de corneta também lhe pertencesse.
!
228
A corneta continuava tocando. Ia-se distanciando. À proporção que o som morria, o
rosto de Daniezinho se apagava, uma dolorosa sombra de terror o envolvia.
Apressadamente, os soldados dispersaram-se. Enéias também se mexeu, lentamente. E
como se estivesse dormindo, caminhou pela casa, sem rumo certo, feito um sonâmbulo, a
costa arcada, mais corcunda.
Enéias tinha a cabeça tomada de dúvidas, de incertezas. As mortes do sobrado não
ficariam em silêncio. Vicente já falava delas. Os soldados bateriam língua, denunciariam.
Nada valia ordenar silêncio, ordenar segredo. Não vira o caso da Grota? Tanto que
Mendes de Assis recomendou segredo, tanto que ameaçou Fabriciano e Freitas
Machado; no entanto, todos contavam para gato e cachorro que o velho fora morto sem
armas e já entregue! E se matasse Mane Vitô e Nestório? Era uma solução: metia-lhes
um tiro pelas costas, jogava a culpa na cacunda dos jagunços. Heim! Mas talvez fosse
mais interessante deixar os soldados vivos e jogar nas costas deles a chacina. Poderia
dizer que não mandou ninguém matar os reféns. Quem ouviu as ordens? Podia jogar a
culpa das mortes nas costas dos soldados, como Carvalho jogou a responsabilidade da
morte do velho nas costas de Mendes de Assis e como Mendes de Assis estava jogando
essa culpa nas costas dos soldados. Era a solução mais acertada: jogar a
responsabilidade de tudo na cacunda dos soldados, depois deixar os soldados sumir no
mundo. Não era esse o sistema usado?
Enéias ora resolvia matar os soldados, ora desistia do intento, completamente
absorvido pelos pensamentos, completamente dominado pelas dúvidas. Lá de longe ele
voltou-se:
— Tá ouvindo? — E com o dedo espetado para o alto, para o som da corneta: —
Tão debandando. — Falou para Mendes de Assis, que, agachado, voltava a desfiar o
rosário.
Como um sonâmbulo, Enéias voltou de novo, como um zonzo, esbarrando nas
pessoas, tropeçando nas coisas. A corneta era um fiapinho de som perdendo-se ao longe.
— Fugir, tenente, fugir enquanto é tempo, — disse Enéias como se sonhasse.
UA MULHER de soldado lá e-vinha de pé no chão, mal vestida, um menino na
cintura enganchado. Vinha naquele passo descan-
!
229
sado, naquela calma que Vicente tanto admirava, como se a morte não rondasse por
ali. Novamente a gritaria dos jagunços se erguia:
— A faca corta, ai, ai!
A mulher perguntava a Vicente de quem era um menino que estava nos fundos da
casa. Aí Vicente se lembrou. Nos fundos da casa, num quarto isolado, havia um rapazinho
de catorze anos, por nome Luís, filho de Tozão e Anastácia, neto da velha Aninha. Era
tuberculoso e fora isolado por causa do mal. No corre-corre ante os soldados ou talvez
porque receassem seu contágio, Luís ficara largado lá nos fundos da casa, enquanto o
pessoal todo se escondia naquele único quarto que, embora grande, era pequeno para
tantas mulheres.
— Tão querendo sangrar ele, — disse a mulher com a mesma calma, como se
aquilo nada significasse de horroroso, de horripilante.
— Meu filho, açode meu filho! — a voz veio de dentro do quarto e tinha um tom
asperamente selvagem. Parecia um ganido, parecia um uivo. Quem será que gritava
daquele jeito? Anastácia não era porque ela não estava ali.
Vicente correu ao quarto e viu o rapazinho que mal podia mover-se, consumido pela
tísica. Luís nada disse, mas seus olhos denotavam pavor, eram uns olhos de cortar
coração, exprimindo fatalismo e renúncia.
A mulher vinha entrando pelo quarto com a mesma calma:
— Fiz isso! pra num deixar Daniezinho matar o desinfeliz.
Agora a corneta de Severo vinha voltando. Seu som crescia, ficava mais perto,
ficava mais perto, como um hino de vitória, como um raio de sol.
— Olha, você vai ficar encarregada desse menino, ouviu? disse Vicente à mulher. —
Você vai ser a mãe dele. Não deixe ninguém lhe fazer mal.
Morena, forte, grande cabeleira mei pixaim, umas ancas fornidas, a mulher sentou-
se na cama do doente e disse a Vicente que podia confiar nela.
— Dê água a ele, dê de comer e defenda como a um filho, está me ouvindo?
— Nhor sim, — ria ela, mostrando uns dentes que eram uma perfeição.
!
230
Sobre o tiroteio, sobre os impropérios, sobre a cruviana que não parava de molhar
tudo, a corneta de Severo era uma esperança.
— Roberto Dorado tá aqui ! — gritava o bandido, enrouquecido, respondendo à
corneta.
No quarto, a mulher jurava pelo Divino Padre Eterno que velaria o tuberculoso. Lá
fora, o tiroteio ia rijo. Os soldados e suas mulheres iam e vinham pela -casa, indiferentes
a tudo, comendo bananas, doces e biscoitos.
A casa da velha Aninha não era visada pelos atacantes. Atacavam as outras
residências, mas esta eles respeitavam.
Porque o diabo daquele Mendes de Assis não largava o rosário e não ia obrigar os
soldados a repelir os jagunços? Não ia fazer como Severo e Xavier? Bandidos! Matar
presos, atacar mulheres, atacar tuberculosos, isso eles sabiam!
A corneta parecia tocar dentro da casa. de tão forte. Vicente tomava seu lugar na
porta do quarto novamente e Enéias veio para seu lado:
- Vamos embora, Seu Vicente. Isso está perdido!
Vicente balançou a cabeça negativamente e exculpou-se:
— Não dou conta de andar a pé.
- Te carrego nas costas... Os soldados carregam Dona Lina e a menina . - Enéias
falou e ficou olhando a cara de Vicente que balançou novamente a cabeça em sinal de
negação, dizendo-lhe que fosse atirar nos bandidos.
- Os soldados desertaram, Vicente. Munição num presta.
- Munição não presta para você, respondeu Vicente. - Como é que os homens de
Severo não param de atirar.
Vicente tinha ódio de Enéias e de Mendes de Assis. Bandidos! Se os soldados não
prestavam, se a munição era má, então para que foi que resistiram? Se sabiam disso
porque não saíram da Vila como fez Carvlho? Não. Ficaram, deixaram os bandidos
atacar, mataram os prisioneiros e agora, depois que os mataram e que vinham dizer que
não tinham munição, que os soldados estavam desertando.
Perto de Nestório e Mane Vitô. Eles não abandonavam Enéias, pregavam-se a eles,
solidários no crime. Receavam que Enéias fugisse.
Novamente a corneta de Severo tocava. Enéias falou surdamen-
!
231
— Os soldados estão debandando... não atendem mais o toque de reunir...
Por onde andariam Lina e Alice? — perguntava-se Vicente. Certamente estariam
num dos quartos da casa, em companhia de Dona Benedita e das outras mulheres. E
Brasica, que seria dela? Pobrezinha! Sem nenhum recurso médico para salvá-la. Tudo
culpa dessa polícia que não falou a verdade sobre a situação da defesa.
A corneta de Severo boiava no meio da cruviana que não parava, empapando tudo,
enchendo a grota que gorgolejava, assanhando a saparia, que roncava grosso.
Cada vez mais o cerco se apertava. Pelos arredores, os defuntos já começavam a
inchar. O bobo do quintal de Moisés, um soldado, o Gabriel, no largo; um jagunço na
grotinha e outro na casa arruinada, mortos, enquanto outros se arrastavam feridos e
embriagados estrebuchando na lama. Dentro do quarto começavam a falar, com crianças
chorando, a bulha se confundindo com a bulha dos atacantes.
Valente era o Alferes Severo. Resistia com denodo. De vez em quando deixava o
quartel com alguns soldados distraindo os jagunços e saía com uma coluna volante pelos
arredores, afastando os jagunços para longe, batendo, matando-os. Depois, de volta para
seu posto, procurava contato com os demais militares, tocando sua corneta, dando
ordens e transmitindo mensagens.
Alferes Xavier só que respondia, dando sinal de vida e encorajando na defesa. Suas
trincheiras vomitavam fogo e mais fogo. Alferes Severo debalde chamava pelo Tenente
Mendes de Assis e pelo Alferes Enéias. Alferes Severo revirava a saroba e as bibocas do
povoado, levantando a moral dos sitiados e castigando o povo de Artur.
Se Alferes Severo não tivesse o ombro arrebentado pela bala, se não estivesse
delirando de tanta febre, se contasse com o auxílio de Enéias e Mendes de Assis, há
muito que os jagunços de Artur tinham levado o diabo. Mas Severo era um só, com os
braços quase paralisados, com o inchaço tomando conta do corpo. Por onde andariam
Mendes de Assis e Enéias? Teriam fugido? Teriam sido massacrados? Os quartéis deles
estavam silenciosos. Lá não estavam os bandidos ainda alojados, mas também não havia
soldados, porque de lá não partiam tiros.
— Toque reunir — ordenava Severo.
!
232
A corneta cortava a chuva. A jagunçama respondia ao toque com seus tambores,
batidos de latas velhas, zurros de jumentos e gritos de alarma. O som da corneta morria
num derradeiro eco.
De seu canto, Tenente Mendes de Assis não reagia. Era um molambo, os olhos
azuis arregalados, os dedos desfiando o rosário, os beiços batendo a ave-maria, aqueles
mesmos lábios que tinham tramado a prisão dos cidadãos, aqueles mesmos lábios que,
com uma só palavra, poderiam ter evitado a morte de muitos homens.
Nos ouvidos de Mendes de Assis ainda ecoavam os pedidos de misericórdia, os
rogos e protestos dos moribundos. Quando chegou ao quartel de Enéias, os reféns
agonizavam e pediam, imploravam, seguravam a vida com unhas e dentes.
À corneta tocava.
Enéias lá vinha como um doente:
— Embora, Vicente. Te levo na cacunda...
— Vai pró diabo com seus soldados, — lhe respondia Vicente, a quem aqueles dois
oficiais não mereciam a menor consideração. — Que fossem para o diabo que os
carregue!
Mas Enéias insistia. Apavorados com a execução dos inocentes, Enéias e Mendes
de Assis sabiam que Artur, se os pegasse, mataria aos pouquinhos. Imaginavam-se
cutucados de faca, os jagunços os sangrando vagarosamente. Seria inútil pedir, rogar,
pois também os reféns pediram e rogaram muito.
Sacrifício besta. Eles morrendo ali, enquanto na Capital e no Rio de Janeiro os
políticos estariam gozando a vida, criando os filhos, vivendo alegremente. Mendes de
Assis se comparava a um jagunço. Sim. Tal e qual um jagunço, embora com maiores
responsabilidades. A verdade é que seriam mortos pelos bandidos, enquanto nas cidades
os políticos continuariam na boa vida!
— Embora, Vicente!
— Não vou, gente. Já disse! Fugir agora seria uma covardia. Não posso abandonar
os companheiros. Se eu saísse, minha consciência ia doer para o resto da vida.
Enéias afastou-se sonambulicamente. ”Minha consciência ia doer..!” Na sua
memória estampou-se a cena do sobrado. Damião de Bastos, de joelhos, chorando feito
um menino. Enéias passou as mãos pelos olhos, mas a visão persistia. Damião de
Bastos, oh homem de cara feia de macho! Mas chorava feito um menino. Damião pedia
que o matasse antes dos filhos.
!
233
Enéias reviveu a cena da manhã: Mane Vitô fugindo de dó. Até Mane Vitô teve pena.
Enéias nunca pensou que Mane Vitô tivesse coração, fosse tão dozento.
Enéias revia tudo, tintin por tintin, com uma viveza de demência. Mane Vitô atirou a
arma no chão e saiu na carreira, a mão na cara: — matar o filho na frente do pai era
demais. Não tinha coragem! Aí Nestório começou a matança.
Leão de Aquino entrou pela casa, contando suas proezas e contando casos de
Severo que, certa feita, tinham ido bater nas trincheiras de Artur Melo, botando o bicho
para correr. Depois continuou contando que já-havia muito morto e que muita gente já
estava debandando mesmo.
Ao ouvir isso, Enéias se interessou. Ficou assuntando na conversa com a cara
pasmada, os olhos vagos. Ele não conseguia desviar sua atenção da cena do sobrado:
”os reféns chorando e implorando misericórdia!’
— Vicente! Ô Vicente! — chamavam de dentro do quarto.
VICENTE! entre aqui, meu sobrinho — pedia a velha Aninha de dentro do quarto.
Vicente entrou e debalde procurava a velha por todos os cantos, sem a poder enxergar.
— Está debaixo da cama, informou Amélia.
— Debaixo da cama! Uai, mas aí ela não pode ficar, — estranhou Vicente. Vamos
tirá-la, gente. — E com o auxílio das outras mulheres, pegou nas mãos da velha e tocou a
puxá-la de sob o móvel, ao mesmo tempo que puxavam seus pés. A tarefa não era fácil.
Além do corpanzil, a velha não possuía agilidade, engastalhando-se por baixo do catre,
esbarrando nas canastras, nas bruacas, nas mil e uma coisas que entupiam o quarto.
com muito custo, deram com ela em riba da cama, de onde começou a perguntar que
tiroteio era aquele.
— Ora, então a senhora não sabe, minha tia? São os jagunços de seu filho!
-Nem estou acreditando. Será que é mesmo meu filho Artur? Mandei pedir tanto a
esse rapaz para não atacar, gente! É incrível!
— Pois é ele em carne e osso.
!
234
A velha chorava um choro longo e igual, enquanto Vicente repetia: — Pois é o seu
Artur, minha tia.
— E minha filha Anastácia, quede ela? Vocês não mataram?
— Lhe garanto que daqui ela saiu inteirinhazinha e com vida. Leão a levou até fora
da Vila. Se alguém matou, foi seu filho Artur.
— Tanto que eu pedi a Artur, meu Deus do céu!
O choro prosseguia com mais força, repetindo as mesmas coisas:
— Vocês mataram minha filha. Mataram ela como mataram os outros e estão
mentindo para mim. Artur não ia me desobedecer, depois de receber aquela carta! Vocês
mataram Anastácia... Esse tiroteio é de mentira... Para a polícia matar o resto...
A velha Aninha já pegava a tremer e ia perder os sentidos. O pessoal do quarto se
abalou, abanando-a, dando-lhe os cheiros.
Vicente notava que a criadagem estava muito por menos. Grande parte havia fugido,
decerto, valendo-se da confusão, conquistando a liberdade. Notava também o quarto.
Imundo. Excremento pelo chão, que estava mijado de menino. O pessoal ali amontoado,
só mulheres e crianças, sem água para higiene, fedia, fedia a azedo.
— Os soldados vão matar nós, Vicente. Estavam arrombando a porta.
— E brigando, — informou Amélia. — Ferraram a mutuca aí na porta, cada um
querendo que o outro matasse e ninguém querendo fazer o serviço.
— Eu quero me esconder — berrou a velha, tomada de súbito pânico,
movimentando-se na cama, procurando fugir para debaixo do catre imenso, trançado de
couro cru de boi. Amélia e Zefa seguraram a velha, deram-lhe cachaça canforada para
cheirar, enquanto Vicente a acalmava, dizia para não ter medo, que ele já havia proibido a
qualquer pessoa de entrar ali.
— Já mataram muita gente... os prisioneiros são tudo defunto... mataram Tozão... —
O choro corria longo e grosso: — Olhe, Vicente, vou lhe dizer com franqueza, Tozão era
uma alma nobre, Vicente, era medroso demais...
Por falar em morte dos prisioneiros, parece que a consciência do perigo brotou
novamente na cabeça das mulheres que se toma-
!
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ram de pavor. Amélia abriu a janela que dava para o quintal e queria pular. Fugiria
para onde estava o pai.
— Tá louca, menina — gritava Vicente. — Se sair aí, a polícia mete bala ou os
jagunços mesmo. Você não tem nenhuma estrela na testa.
Contou-lhe o caso de Afonso, ferido, que ficou em casa de Dona Benedita esvaindo-
se em sangue; contou o caso do Crispim, com o tampo da cabeça arrancado; falou da
menina de Argemiro Félix. Quando tudo serenava, outro rebuliço sacudiu o quarto. Vinha
entrando um soldado. Vicente o conhecia: era Baianinho, gente sob o comando de
Mendes de Assis.
Mesmo com seu comandante acovardado, Baianinho não esmoreceu: combatia por
conta própria. Ora estava num ponto, ora noutro. Ele, Salustiano, José Flores, Freitas
Machado, Carajá, Catarino e outros tomaram-se famosos na luta do Duro.
Baianinho dizia que já havia morto muita gente e queria descansar um pouco.
Vicente o tomou pela mão e saiu com ele para o cômodo que servia antigamente de loja,
onde havia um balcãozinho de jatobá. Deitou aí o soldado, que disse haver morto muito
negro, mas que agora tinha chegado a sua vez. Disse e mostrou a bunda da calça
empapada de sangue, que lhe corria pela perna e pelo pé descalço.
— Me deixa ver — falou Vicente, — para botar um remédio.
— Não. Num tá doendo não. Quero amostrar presses trem à toa que soldado é
bicho duro.
— É preciso ver, para não agravar. Vire-se.
Baianinho virou-se, Vicente desceu-lhe a calça de algodão, suspendeu a camisola e
na meia escuridão enxergou na nádega um sinal de bala. Não sangrava muito. Vicente
meteu o dedo na cisura e não alcançou o fundo. Aquele cômodo de loja era usado para
guardar uns restos de remédio, alcaide da velha farmácia de Artur. Vicente procurou pelas
prateleiras e achou um vidro de Bálsamo Vulnerário, com que embebeu um pedaço de
algodão em rama e meteu na ferida. Era um remédio tão velho que podia fazer mais mal
do que bem. Contudo...
Por estas alturas, já era quase noite. A chuva continuava caindo e o tiroteio
minguara. Afora investidas isoladas, o pipoco comia de casa para casa. O pessoal estava
entrincheirado, cada qual
!
236
querendo desalojar o inimigo. Vez por outra, Severo saía nas suas sortidas,
afastando os jagunços, a corneta tocando.
Deixando a loja, Vicente foi topar com Lina e Alice, as quais — lhe disseram —
estavam num quarto do fundo. Brasica, pobrezinha! agonizava, esvaía em sangue, sem
qualquer remédio, sem o menor tratamento, sem qualquer recurso para minorar seu
sofrimento. Morria lentamente, delirando, com os circunstantes morrendo de dó, no
mesmo passo que a menina. Que coisa horrível! Tudo irresponsabilidade daquele governo
que enviara soldados escassos, mal armados, com munição quase nenhuma. Porque não
confessou a fraqueza e não recuou a tempo!
Pela casa da velha Aninha havia poucos soldados. Diziam que Enéias e Mendes de
Assis já tinham batido a linda plumagem levando a soldadesca. E devia de ser verdade.
Ali na casa de Aninha eles não estavam. Também no quartel de Enéias não estariam. A
cadeia estava quieta. De lá não partia um só tiro! Baianinho passara por lá e não vira
ninguém, afora os defuntos que estavam feitos uns surrões de tão inchados.
No balcão, Baianinho dormia aos solavancos, sacudido pela febre, a boca estalando
de seca. O cômodo estava sombrio, janelas e porta fechadas.
A corneta de Severo tocou seu toque de reunir. Enéias e Mendes de Assis não
davam respostas ao toque de Severo. Certamente os dois já iam longe, Mendes de Assis,
com a cara vermelha de estrangeiro, batendo os beiços na reza, Enéias corcunda, com
aquele ar apalermado. Ouviriam o toque, mas fariam de conta que não entendiam, que
nada tinham com aquilo. Queriam fugir o mais depressa, queriam correr para se esconder
dos mortos e dos vivos. Sabiam que se Artur Melo e Roberto Dorado os pegassem, teriam
morte horrível. Picados aos poucos, chuchados de punhais, com as partes arrancadas
ainda em vida.
Sob a chuva, sob o vento frio, com os pés metidos na lama, cansado da caminhada,
Enéias ainda tinha as cenas do sobrado diante dos olhos. Soldado Mane Vitô baqueou
diante da fúria de Damião de Bastos, defendendo os filhos. Enéias nunca pensou que um
homem como Mane Vitô tivesse coração, mas tinha. Mane Vitô chorava e pedia a Enéias
que não o mandasse continuar na matança. Soldado mau aquele Nestório! Enéias não
esperava desse tama-
!
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nha maldade. Quem visse sua cara, não diria. Tão ”sim senhor”, tão risão, tão
chegado com os santos, com as rezas brabas. Nestório então matou outros homens, até
que achou que chegava.
— Não mato mais — disse. E não matou. Não ficou choramingando feito um Mané
Vitô. Matou alguns e saiu para fora, foi matar jagunço:
— Vou matar gente solta aí fora para não dizerem que só mato gente amarrada!
Depois... depois Mendes de Assis entrava no sobrado e tinha um suspiro de alívio,
vendo os mortos e os agonizantes. As pessoas que podiam vingar a morte do velho
diminuíam.
Enéias então deliberou terminar a obra: — Já que começamos, é bom acabar.
Precisava valer-se do momento para vingar-se de Artur, para vingar-se da sua ajuda a
Abílio Batata, que matara seus parentes em Pedro Afonso. Enéias deu um pulo e
comandou:
— Vamos para a casa da velha Aninha. Já acabamos com os machos, agora é
acabar com as fêmeas.
Aí seus soldados e os de Mendes de Assis puseram-se a atravessar o Largo e a
entrar na casa da velha.
— É uma grota, meu Alferes, o senhor parece que está dormindo! — Era a voz de
Nestório. Enéias não vira a grota e caíra.
Nestório o levantava para reiniciarem a caminhada. Bem que Nestório podia passar
a faca em Enéias, jogar-lhe a culpa das mortes, mas não o faria. Enéias teve confiança
em Nestório e por isso o soldado o protegeria contra tudo. Quanto às mortes, Enéias lhe
recomendara muito segredo. Dissesse que foram os paisanos, pronto!
Pela biboca molhada, marchavam os homens. Para trás ficara a cometa de Severo,
como um chicote a cortar a carne de Enéias e lembrar-lhe o cumprimento do dever militar,
do dever de defender a Vila, de repelir os bandidos. Alferes Severo era mesmo um militar.
Era o único que defendia a Vila com valentia e com dignidade. Felizmente que sua
cometa já não chamava nos ouvidos de Enéias. Ela chamava nos ouvidos de Baianinho,
que acordava no balcão duro. Seu corpo não era aquele corpo leve de sempre, não era
aquele corpo de atleta, servido de músculos elásticos e sadios. Tinha o corpo lerdo e um
calafrio o percorria, como se fosse um boi com aftosa.
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238
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A cometa chamava e Baianinho tinha que atender e Baianinho tinha que sair,
embora a perna estivesse dura e não lhe obedecesse.
Vicente chegou a um vão de janela, viu Baianinho que lá ia pelo Largo, mancando,
arrastando-se como um boi com peste de unha, até perder-se na chuva. Não era mais o
belo sertanejo musculoso e esperto. Sua agilidade não o defenderia mais das balas.
E foi isso que Baianinho percebeu, quando atingiu a grotinha.
Vendo-se doente, com a gangrena lhe apodrecendo a perna, com a morte subindo
pelo seu corpo progressivamente, Baianinho procurou o quartel de Severo, de onde o
chamava a cometa.
A noite era negra, mas as balas passavam por perto de sua cabeça, assoviando.
Baianinho relembrava as palavras do velho soldado: ”Soldado num pode roubar, nem
passar para a banda do inimigo”. E de cá Baianinho disparava sua arma sobre os
bandidos, sobre uns vultos que sua vista turva lobrigava. Era preciso poupar os tiros. Bala
andava vasqueiro, — recomendava o comandante.
COISA ESTRANHA! Mesmo no quarto, mesmo presa no meio das mulheres, no
meio da fedentina dos vômitos, fezes e mijo de meninos, mesmo ali a velha Aninha sabia
de tudo. Ela chamou Vicente Lemes. Não mais o vinha chamar a pretinha de olhos muito
abertos, com seus peitinhos espetados. A velha Aninha a estava procurando
insistentemente.
— Será que Tifuque fugiu, Amélia?
Consigo, Vicente pensou no soldado de olhos imorais. Estaria em lua-de-mel com a
bichinha pelas bibocas, debaixo da chuvarada. Coitadinha! Antes assim, do que ali no
cativeiro da velha, para amanhã se perder com qualquer Resto-de-Onça.
Mas a velha estava na frente de Vicente, na camona, e dizia que Severo tinha
matado Hugo Melo. A velha não saía, mas por ela saíam e entravam no quarto as negras,
os serviçais, os parentes e os aderentes, que levavam e traziam as notícias e os fuxicos.
Aninha não discutia a morte do neto, recebia o fato como era: Severo matou Hugo Melo.
Isto era de madrugadinha e a velha contava o fato sem protestos e sem choro. Hugo
Melo era seu neto. Fora o único que estive-
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239
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ra presente ao sumário de culpa, por ter sido preso na Grota. Hugo tinha menos de
vinte anos.
Pobre Anastácia, tanto que sofrera, tanto que padecera de temor pela morte do filho!
Vicente se lembrou dela fugindo no cavalo, no crepúsculo, um destroço do que sempre
fora, fria e macilenta, feito uma velha, ela possuía um hálito de fogueira, uma boca tão
fresca de juventude!
Mais uma vez considerou a irresponsabilidade da polícia. Se soubesse antes dessas
coisas, teria fugido, teria ido embora. Resistir daquela forma era um crime maior do que o
fuzilamento dos reféns. Por causa da vaidade, do orgulho besta, sacrificou parentes e
amigos.
A corneta de Severo não soava mais aos ouvidos de Vicente Lemes como um hino
de esperança. Nada disso. Na madrugada fria e feia, o tiroteio cochilava. Ele devia
recrudescer a qualquer momento. Naquela noite, os jagunços ainda não haviam atacado,
mas o fariam. A chuva caía. Uma névoa densa cobria a povoação, com os tiros pipocando
aqui e ali. Os sitiados tinham passado a noite todinha esperando o ataque, mas ele estava
custando. A corneta de Severo era uma lâmina de punhal entrando vagarosamente no
peito de Vicente Lemes. Severo não matara o menor Hugo Melo; Severo matara a
esperança do coração de Vicente.
Severo era seu orgulho e sua esperança. Quando a velha Aninha dizia que os
soldados eram assassinos, Vicente citava a valentia de Severo, perguntava-lhe se Hugo
fora sacrificado. E ela tinha que ficar quieta. Xavier fora comprado na Grota, Mendes era o
responsável, Enéias um assassino, mas Severo, contra Severo que é que se podia dizer?
Era digno e valente. Sua corneta era uma bandeira de esperança, era uma chama
na treva da incerteza. Ultimamente, Mendes de Assis e Enéias haviam sumido, haviam
debandado. De Xavier, pouco se sabia, mas a corneta de Severo estava em toda a parte,
era o sinal de que os sitiados não estavam desamparados, de que os jagunços não eram
senhores do povoado. Severo podia mais do que Abílio Batata e Roberto Dorado. Seus
soldados, uns quinze no máximo, eram destemidos, eram mais poderosos do que os
jagunços com seus corpos fechados e com sua agilidade.
Leão de Aquino vira Severo ir até as trincheiras de Artur Melo, que teve de fugir.
Severo podia mais do que as feridas, do que
!
240
a morte. Para ele nada valiam esses feitiços, essas mandingas de corpo fechado, de
patuá, de não sei mais o quê! Seu corpo não era fechado, mas os ferimentos não o
baqueavam.
Tudo isso, porém, tinha ido por água abaixo. A corneta de Severo era um aviso
fúnebre, era um sinal de insegurança, que contava da morte de um menor confiado à sua
guarda. Quem podia garantir que ele não estivesse a caminho da casa da velha Aninha
para exterminar a geração dos Melos? Quem poderia dizer que Severo não considerasse
Vicente um traidor, um covarde?
— Essa polícia só tem assassinos, — dizia a velha Aninha com voz firme. Vicente
baixou o rosto. Ninguém melhor do que ela para dizer tal coisa. Até ontem seu marido,
seu filho e ela eram gente do governo, cujos soldados conheciam de sobejo. Ninguém
melhor do que a velha para dar semelhante parecer.
— Olha, pelo que vejo, vocês não têm defesa. Vocês estão derrotados. Estão
sitiados, e vai faltando de um tudo... Se parar de chover, que é que vamos beber, nem?
Agora quem estava serrando de riba era a velha. Aninha, com sua inteligência,
confiava no filho. Ele derrotaria a polícia e daria segurança aos seus. Seu receio ia-se
acabando, porque percebia que seus inimigos, a polícia, já não valiam nada, estavam
totalmente desmoralizados.
Ouvia Vicente Lemes repreendendo Mendes de Assis e Enéias que consentiam no
arrombamento da porta de seu quarto, a fim de as matar; vira-os acovardados ali na casa,
ébrios, fugindo como se fossem cães espancados, depois de matar cidadãos indefesos.
Só quem ainda sustentava os inimigos de seu filho era aquele tal de Severo. Aquele era
perigoso porque era direito. Severo, porém, se desgraçara. Matar um menor inocente,
cuja vida estava confiada à sua guarda! Severo não era militar, Severo não representava
o governo do Estado, Severo era pior do que Batata, era pior do que Capitão Machado de
Boa Vista!
Vicente estava quieto, ouvindo as palavras de Aninha e seguindo o pensamento
dela, que dizia:
— Eu quero salvar você, meu sobrinho, como você me salvou. Enéias e Mendes
vieram para me passar a faca na minha goela, eles ficaram brigando aí na porta, cada
qual querendo que o outro fizesse o serviço. Mas você não deixou, enfrentou as balas dos
jagunços, o punhal do Sargento Odilon, o estorvo dos aliados. Eu
!
241
quero que você fuja com tudo que for seu. Do contrário, meu sobrinho, seu fim é
igualzinho ao de Tozão: morto com toda a perversidade. Eu não quero sua morte, Vicente.
Pelo amor de Deus, pelo amor de sua filha Alice, você fuja.
Ao redor, o silêncio era desconcertante, até os meninos se aquietaram, aventurando-
se já pela casa, onde os soldados escasseavam.
Aí irrompeu a barulheira. Os jagunços desfechavam seu tão esperado ataque da
noite. O tiroteio fazia medo e o ruído das balas, batido de latas, zurro de jumentos.
— A faca corta, corta, corta!
— Não mata eu, Seu Passarinho. Eu não tinha culpa de nada não, pelo amor de
seus filhos!
Fugir era o diabo — pensava Vicente. — Podia ser mentira, mas podia ser verdade
que Mendes caíra nas mãos dos jagunços. Fugir, romper o cerco era coisa muito difícil.
De novo a meninada abriu o choro, com o mulherio correndo feito doidas,
escondendo por baixo dos móveis. Alguns homens que ainda estavam dormindo,
despertaram e disparavam suas armas. Para surpresa geral também alguns soldados,
que Vicente não conhecia.
Cacos de telhas e caliça caindo. Do quarto, a velha Aninha berrava, como nos
velhos tempos:
— Não atirem, não atirem! De dentro de minha casa ninguém dá tiro não.
Ela não queria que atirassem dali, para não atrair sobre sua casa a fúria dos
jagunços, para conservar a neutralidade do refúgio. Nos quartos do fundo, onde estava a
sogra de Vicente, mulher e filha, de lá vinham zoadas de reza. A velha Benedita era
devota das Almas. Estaria desfiando o rosário e recitando as jaculatórias defronte da
imagem de S. Miguel.
O resto da casa permanecia quieto, vazio, tamboretes tombados, um pé de chinelo
largado no corredor, um traste qualquer abandonado, uma embira, uma cabeça de palha.
— Ô Vicente! — chamava a velha com voz calma, muito segura de si. Tinha certeza
de que Artur dominava a situação. Por cima de mortes, por cima de dores, mas dominava.
O sobrinho aproximou-se, a tia tomou-lhe as mãos, fê-lo sentar-se e continuava
convencendo-o: Por quase meio século vivera em contato com a brutalidade e aspereza
do marido, de modo que
!
242

tivera que desenvolver a lábia, a sagacidade de mulher, capaz de dobrar o ânimo
dos homens.
— Mas como sair com mulher, filha, sogra e parentes?
A noite era um breu, com chuva incessante. As mulheres não agüentariam a
caminhada e os jagunços liquidariam com elas. Morrer por morrer, melhor morrer ali
dentro, sem tanto sofrimento...
— Mas para que levar Lina, Alice e Benedita? Para quê, Vicente? Deixa esse
pessoal aqui, que eu garanto. Você sabe que eu tenho força e energia. Pode deixar.
— Ah, não vou deixar minha família — contestava Vicente peremptoriamente. —
Abandonar meu povo numa hora dessa! É uma covardia, é uma desumanidade, é um
absurdo!
— E você está abandonando, menino? Eu tomo conta. Então você entende que
minha proteção é abandono, hem? Você acha assim?
A fala de Aninha era mansa, como fala de mãe, macia, jeitosa, inspirando confiança
e ternura:
— Veja como fez Artur. Você sabe que Artur não tem medo e é homem leal. Ele tem
lá seus defeitos dele, mas ser medroso e traidor, isso ele não é. Pois bem, Artur
abandonou tudo e fugiu, quando se viu perdido na Grota. Está vendo? Foi a salvação
dele, foi ou não foi?
Como Vicente emburrasse, sem dizer nem sim nem não, a velha prosseguiu:
— Você saindo, você salvará a vida de seus companheiros. Você ficando, eles vão
ser mortos. Isto não tem meu-pé-me-dói... Sei lá! Tu ficando, menino, até as mulheres é
capaz que elas entrem na dança...
Esse argumento abalou Vicente. Isso era verdade. Artur vingar-se-ia dos homens e
não das mulheres. Se ao entrar na Vila só encontrasse mulheres, ele se encheria de
glória, se envaideceria e não faria mal a ninguém; mas se pegasse algum homem aí a
coisa seria outra. Sua vingança sobraria para as mulheres, porque elas iriam interceder
pelos maridos.
Depois, após aquelas mortes praticadas pela polícia, quem é que tinha ânimo de
enfrentar os jagunços? Vicente sentia-se abatido moralmente. Sentia-se muito inferior aos
bandidos, muito mais sem razão. Cometeram crimes inomináveis matando dez pes-
!
243
soas inocentes, inermes, indefesas, completamente indefesas. Como justificar tais
assassinatos?
Vicente saiu.
A corneta de Severo sobrepunha-se ao barulho como um toque de luto e de derrota,
evocando o sangue de Hugo, evocando o sangue de Tozão, as súplicas de Damião de
Bastos.
Júlio de Aquino, Ângelo, Saturnino e Leão ouviram as palavras de Vicente, repetindo
a conversa da velha Aninha.
— Não seria alguma cilada, para que todos fossem pegos pelos jagunços? —
indagava Júlio de Aquino por trás de seus óculos e de sua malícia.
— Ah, não creio — informava Vicente. — A velha é sincera. Leão também achava
que não haveria perigo. A verdade era que todo mundo estava fugindo, sem que os
jagunços pudessem pegar ninguém.
— Estão gritando aí que Mendes de Assis foi morto — objetou Saturnino.
— Mentira. Para meter medo — disse Leão. — Os bandidos proclamavam a morte
dele desde que entraram, como já tinham anunciado a morte de Vicente e a de Ferreira.
Os demais companheiros aprovavam a idéia da fuga. Não era possível agüentar
mais. Leão adiantava:
— Para ser franco, de nossa gente, mais da metade fugiu. Da polícia, só tem Severo
e Xavier, mas estes já estão dispersando seus homens. Severo matou Hugo Melo para
fugir melhor, mais desembaraçadamente. O melhor era fugir naquele instante, enquanto
ainda era possível.
Vinham as últimas exigências-da velha, agora com aquela arrogância de outros
tempos:
— Espera aí, Vicente. Tem uma coisa. Você vai prometer que só sairá depois que
não houver nenhum soldado, nenhum paisano de arma na mão aqui dentro de casa... Do
outro lado, eu não receio de nada. Meu medo é dessa cambada — e apontava para o
lado da corneta.
Aninha confirmava:
— Vai em paz. Artur chegando, vou exigir dele respeito e segurança para a família
de todos. Podem ir descansados.
Obedecendo a um plano, o pessoal começou a retirar-se, saindo em grupos de três.
Vicente conversava com os poucos solda-
!
244
dos restantes, convencendo-os a abandonar a casa da velha tia. Eles, porém,
relutavam energicamente. A ordem que haviam recebido era de defender o povoado e o
fariam, nem que fosse para morrer. Nada tinham com que Enéias e Mendes de Assis
houvessem fugido. Eles não iam fugir, eles queriam mostrar aos jagunços quanto valia um
soldado da Força Pública estadual.
Entre eles, estava Freitas Machado. Vicente o chamou: — Olha, Freitas, é preciso
sair desta casa.
— Nhor não. Saio daqui nenhuns nada, — disse irritado. — Jagunço, se quiser, vem
me buscar eu.
— Não é isso. Nós vamos sair e a dona da casa não aceita homem nenhum aqui
dentro. Aqui é pra ficar só as mulheres, tá entendendo?
— Tenho nada com isso. Me deram ordem de ficar aqui e pronto. Mecê tá pensando
que eu sou aquele sem-vergonha do Mané Vitô? Tá muito enganado. Mané Vitô veve
falando que eu sou covarde pramode num matei o velho. Covarde é ele que já fugiu.
Agora que eu quero ver quem que é valente, quem que tem saco no vão das pernas. Eu
num saio da Vila. Quero mostrar presses jaguncinho quem é o Soldado Freitas Machado.
— Então você vai para o quartel de Severo ou de Xavier. Aqui é que não pode ficar.
A dona da casa não quer homem nenhum aqui.
— Bão, entonce aí já é outra cantiga... Se a dona num quer, é outra conversa, a
gente vai embora... A gente num carece de ficar na casa alheia. — Assim resmungando o
soldado tirou o correame, deixou-o ali no corredor e, com seus companheiros, uns três, se
tantos, saiu pela porta da rua, quase de rasto no chão. Iria para o quartel de Xavier. Se lá
não houvesse ninguém, combateria sozinho. Jagunço comeria fogo com ele.
Aí, Vicente inteirou a velha de tudo: já não havia um único homem na casa; os
paisanos restantes iriam sair com ele Vicente. O mulherio cercava Vicente:
— Vai depressa, homem. Vai antes que o dia clareie,
!
— Ligeiro, homem, se não tu não passa mais — repetia a sogra Benedita nos
ouvidos de Vicente. A velha Aninha havia feito o trabalho, havia convencido todas da
necessidade de fuga dos homens. Elas agora tratavam de realizar o plano da velha.
Vicente quis ir ver Brasica, no quarto perto da cozinha. Bem
!
245
dizer, era um defuntinho. O nariz azulado, muito afilado, os beicinhos roxos e o diabo
do sangue sempre minando. Coitadinha! Tão bonitinha, tão viva, tão alegre de sua
pequena vida. Ainda outro dia brincando por baixo dos cacaueiros do quintal, sem nunca
pensar no mal que a esperava feito uma jararaca na moita.
Novamente vinha à cabeça de Vicente a mágoa contra a polícia. Muito preferível que
houvessem fugido como o Juiz Carvalho, que houvessem evacuado a cidade, em lugar de
se sacrificarem estupidamente vidas como a de Brasica.
— Vicente, depressa!
— Tome a bênção a seu pai, menina — dizia Lina a Alice. Vicente sentiu os olhos
arderem e afagou a filha. Tanta coisa lhe correndo pela cabeça! Alice chorava abraçada
ao pai.
— Troque de roupa, Vicente — dizia a sogra Benedita. — com essa roupa branca dá
muito na vista. Põe seu terno de casimira escura: mais quente...
Vicente se escondeu por trás de uma porta e trocou a roupa. Veio apressadamente e
abraçou Lina, ardendo de lágrimas que já saltavam. Na cabeça, um redemunho de idéias,
de lembranças, de dúvidas, de incertezas. Alguém lhe tomou a mão e saiu arrastando-o
pela casa escura.
Atravessaram a sala de jantar, passaram o corredor, vararam a dispensa e
chegaram na cozinha. Daí pularam uma janela alta, saindo no beco que levava para fora
do povoado.
Podiam ser umas três horas da manhã e chovia fininho, uma chuva que nem chiava.
O tiroteio era cerrado, mas não havia mais gritos. Um a um, saltaram os homens que,
espaçadamente, foram-se afastando nas pontas dos pés. Foram pelo beco, passaram os
currais do velho Pedro Melo, meteram-se no pasto do fundo, atravessaram o córrego e
atingiram um matinho.
Perto da grota, um homem gemia, demais. Dentro da grota uma coisa clara dava a
impressão de defunto.
Aí pegaram o córrego, subindo-o até sair num pasto conhecido por pasto da pedra
branca. No lusco-fusco da noite chuvosa, lá iam os homens um atrás do outro, em fila,
cada qual mais arcado para ocultar-se. Vicente ia-se retardando aos poucos, até ficar
atrás de todos.
Não se sentia seguro. No fundo, a consciência o acusava. Parecia que praticava um
ato mau e indigno. Fugir, deixando a famí-
!
246
lia na mão de jagunços! Agora, no silêncio do campo, a fala da velha lhe aparecia
falsa e mentirosa. Podia lá essa velha defender ninguém? Por acaso Artur atendeu aos
seus rogos de não atacar o povoado? Fugir, deixando amigos, parentes, gente que
atendera a seu apelo e viera de longe, sem nada ter com o barulho. Não seria uma
covardia? Estaria praticando um ato vil? Censurara tanto Carvalho, censurara Mendes de
Assis e estava obrando igualzinho a eles.
Na frente, uma grande coisa branquejava na noite. Era a pedra branca que dava
nome ao pasto. Aí Vicente assentou-se e deixou que os companheiros se fossem,
arcados, procurando ocultar-se na macega, cada qual com o coração mais cheio de
dúvidas e de esperanças.
Quando Vicente fora consultar os companheiros sobre a fuga, na casa da velha
Aninha, surgira-lhe uma solução: aceitaria fugir porque assim os companheiros fugiriam
também. Logo, porém, que eles se fossem, Vicente voltaria para receber os jagunços,
para combatê-los até morrer. Não fugiria. Não praticaria uma ação igual à de Carvalho ou
Mendes de Assis. Ficaria, como ficavam muitos soldados, lutando por conta própria, fiel
ao juramento militar. Dele, haveriam de dizer, como diziam de muitos outros de Boa Vista
ou de Pedro Afonso: morreu mas não fugiu. Sim, ia morrer, mas ia morrer dentro do
povoado, brigando com os bundões.
A corneta de Severo riscou novamente o silêncio com seu toque de morte e de
derrota. Outro dia, Vicente entrava no povoado ao lado do Juiz Carvalho, obrigando Artur
a fugir. Então Vicente estava alegre, vaidoso. Também a corneta tocava.
Agora era a derrota, era a fuga, com a polícia em que depositara tanta esperança,
tanta confiança, massacrando gente inocente, acovardando-se. Afinal de contas de que
valera toda a luta? Lutara contra os Melos por causa dos crimes e dos desmandos; no
entanto, poderia haver maiores crimes e maiores desmandos do que os cometidos pela
polícia?
Sentado na pedra fria, e molhada, uma idéia crescia na cabeça de Vicente: não
fugiria.
Lana casa de Aninha aceitara a idéia da fuga para que os companheiros saíssem,
para que os companheiros se salvassem. Entretanto, agora, Vicente queria fugir de
verdade. Estava cansado, estava exausto, faminto, desacoroçoado, tinha medo de
enfrentar
!
247
os bandidos, tinha medo de enfrentar Severo com seus homens. Vicente estava
disposto a não voltar para a Vila. No campo estava a calma, a paz, a segurança. Lá no
povoado era o perigo, o tiroteio, pondo em risco a cada momento a vida Para a frente,
quanto mais para a frente, quanto mais para longe do Duro, maior seria a segurança, a
garantia.
Alguns pirilampos piscavam nos ramos molhados. Os sapos voltaram a coaxar
valentemente, cientes de que ninguém os perturbaria.
Da grota vinha o gemido do ferido, muito fraco e dolorido. Quem seria que gemia
daquela forma? Quem seria esse homem valente, esse herói que entregou a vida por uma
causa que Vicente não tinha coragem de defender? Certamente, algum jagunço, algum
sertanejo completamente alheio a todo aquele conflito de interesses, arrastado à morte
pelo espírito de aventura, pelo ingênuo sentimento de solidariedade para com algum
amigo ou patrão que o explorava impiedosamente, que o trazia escravizado e dominado
como uma besta de carga.
A corneta de Severo era um fiapinho de som, afastando-se, afastando-se. Vicente
Lemes sentiu a cara vermelha de vergonha: fugissem todos, mas ele não fugiria. Ele não
podia fugir, ele tinha o dever e a obrigação de ficar, de lutar até morrer.
Ergueu-se como um velho, como o Soldado Baianinho. Nem se dava ao trabalho de
agachar-se.ou esconder-se. Que o matassem. Que o matassem logo de uma vez.
Desfez o caminho e entrou pela porta da frente da casa da velha Aninha. Não tinha
ânimo de fugir!
Nos QUARTÉIS dos Alferes Xavier e Severo, homens e mulheres preparavam-se
para fugir. Alferes Severo acabava de chegar do acampamento de Artur, convicto da
impossibilidade de resistir. Os Oficiais Mendes de Assis e Enéias tinham sumido com seus
homens, tudo fazendo crer que fugiram. Os paisanos de Vicente Lemes, Ângelo, Júlio de
Aquino, Saturnino, Moisés e outros também haviam deixado o quartel. Severo constatara
que só estavam no povoado ele, Xavier e seus homens. De seus quartéis, ninguém fugira.
Nem os paisanos que estavam com eles, como Valério Fer-
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248
!
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!
reíra e Cláudio Ribeiro, mas a resistência não era mais possível. O número de
resistentes era mínimo em confronto com a jagunçama.
Artur Melo não tomava a Vila, porque supunha dispusessem os sitiados de maiores
forças.
Severo não se sentia bem: o ferimento do ombro lhe produzia febres, sem qualquer
medicamento para tomar ou aplicar no local. Maria Ponciana é que fazia suas benzeções,
fazia seus feitiços sobre a ferida do alferes, que piorava sempre e sempre. Salustiano
também deu seu demão, recitando umas par de vez a oração do Santo Sepulcro de
Nosso Senhor Jesus Cristo.
Ponciana explicava:
— Benzedura num tem força, mode a bala que é de arma curada. Quando Severo
voltou daquela investida contra o acampamento de Artur, para desforra, os jagunços
desfecharam um ataque violentíssimo. Alferes Xavier já não possuía munição, seu quartel
estava praticamente arrasado, com as paredes arrebentadas e por isso enviou o Soldado
Freitas Machado ao quartel de Severo, para pedir-lhe socorro.
Em seu quartel, Severo também procurava fugir. A posição era insustentável. As
paredes caíam, restando apenas o trançado de barrotes e taquaras amarrados com cipó.
A munição escasseava. Do terreiro vinha a catinga do cadáver da mulher de Adelino Silva,
cujo filho desapareceu. A mulher morreu nos primeiros momentos da luta e fora enterrada
numa cova rasa ali na porta da cozinha. Agora o fedor empestava tudo.
Severo deliberou fugir.
— Vem cá — disse ele ao Soldado José Rodrigues que já não tinha balas — toma
esta chave e mata o preso, mata Hugo Melo. Tá aqui a Mauser.
A chave era do quarto, onde estava Hugo preso desde o começo da luta, esperando
a morte. Já lhe haviam anunciado que seria morto a qualquer instante, mas
inexplicavelmente não cumpriam a ameaça, deixando que o pobre imaginasse que a todo
momento era chegado o seu derradeiro instante. José Rodrigues tomou a arma e a
chave, abriu a porta, entrou e procurou o rapaz pelo quarto.
Sentia um tremor pelo corpo, mas procurava não pensar. Nunca imaginara que
tivesse de chegar a isso, de ter que matar um sujei-
!
249
to do qual não tinha o menor rancor, uma pessoa que nem ao menos nunca vira
antes. Mas ordem era ordem: era bom não pensar, era abrir a porta e meter fogo.
Entretanto, José Rodrigues, procurava Hugo e não o encontrava. Onde estava o
infeliz, meu Deus do céu? Nisso, olhou atrás da porta. Estava aí o mocinho, a cara tão
desgraçada, tão aniquilado, tão rente com a parede, ocupando um espaço tão apertado,
tão exíguo, que José Rodrigues baqueou: Ai, meu Divino, não tinha coragem de matar
aquele infeliz! Depois, tão mocinho ainda, tão forte, com tanta vida para viver pela frente,
com tamanha força no seu coração de jovem! Soldado José Rodrigues sentiu um nó na
garganta e uma aceleração no coração. Não. Sua coragem não dava para isso! Se fazer
carreira na polícia dependia de tanta malvadeza, preferia sair da corporação, largar a
farda, se danar no cabo do guatambu, agüentando gritos de patrões, passando fome.
— Aí dentro num tem ninguém, meu Alferes — disse o soldado a Severo,
devolvendo-lhe a chave a Mauser.
O oficial ordenava o recuo do pessoal para o quartel de Xavier e ouvindo o que dizia
José Rodrigues, espantou-se:
— Num tem ninguém aí dentro! Será possível!
— Nhor não, meu Alferes. Num vi ninguenzinho dessa vida... Severo logo percebeu
que José Rodrigues se deixara comover, não tivera coragem de executar a ordem.
— Covarde, medroso — xingou Severo, avançando para o quarto. De cá, José
Rodrigues ouviu o batuque dos pés de Severo e de Hugo, atracados no aloite mais feroz
dessa vida.
Ambos bufavam feito marruás em luta. Aos trancos, de dentro do quartinho surgiu
Severo agarrado com uma mão no cachaço do moço, que lutava para defender-se. Hugo
tinha a mão em sangue, pois estava seguro duro no refle de Severo, que procurava
arrebatá-lo a Hugo.
José Rodrigues sentiu pavor, um pavor tremendo, e correu para fora. Ia juntar-se ao
pessoal de Xavier e fazer sua retirada. Ia sumir. Nunca mais entraria num quartel, nunca
mais botaria uma farda no corpo. Deus me livre!
Na salinha de chão batido, com o telhado baixo quebrado de balas, na semi-
escuridão de uma candeia morre-não-morre posta no chão, o aloite continuava, curto e
terrível. Severo tomou o
!
!
250
refle, ia socá-lo em Hugo, mas a arma lhe escapa das mãos; aí Severo abarca o
pescoço de Hugo com as mãos ambas, sujiga-o contra a parede, procurando asfixiá-lo.
Freitas Machado está por perto. Na Grota ele não quis matar o velho desarmado e
entregue e por isso o viviam humilhando, chamando-o de covarde e de medroso. O
momento de limpar sua honra era chegado. Na sua frente estava Hugo Melo sujigado por
Severo, com as mãos de ferro arrochando sua garganta; Hugo estava completamente
desarmado, enfraquecido pela fome e pela agonia da espera da morte; Hugo não
agüentaria Severo que, embora ferido, era muito mais forte e muito mais habituado com
lutas. Era uma covardia matar Hugo naquelas condições, pois Severo o liquidaria num
piscar de olhos.
Todavia, Freitas carecia de limpar seu nome, precisava de mostrar coragem,
precisava fazer jus, ao nome de soldado valente. Freitas se aproximou e, num gesto
rápido, meteu um tiro de Comblain no peito de Hugo, que amoleceu nas mãos de Severo
e se amontoou ali no chão batido da salinha baixa, de paredes esburacads, feito um
boneco de trapo.
— Vamos embora, vamos embora! — comandou Severo fugindo.
No chão, Hugo estertorava, gemendo:
— Gente, um copo d’água!
— Vamos depressa — comandava o alferes.
— Está doendo muito, acaba de me matar!
No quartel de Xavier, onde se refugiou, Severo despachou alguns soldados para
fazer fogo cerrado no setor que ficava para os lados de Natividade. Os soldados foram e
voltaram com boas novas: o setor estava limpo de jagunços.
Aí principiou a fuga. Soldados, mulheres e paisanos saíam em pequenos grupos, a
pequenos intervalos.
”Cada qual que se defendesse. Deveriam juntar-se em Natividade” — essas eram as
ordens.
Na madrugada, os homens partiam derrotados e exaustos. Apolinário, Salustiano,
Freitas Machado, Zé Rodrigues e Adelino haviam sido escalados para ficar resistindo ao
fogo, a fim de permitir que os demais fugissem. Deveriam atirar para iludir os jagunços e
não deixá-los perceber a retirada.
Soldados e paisanos partiam tristes, uns até choravam. Ape-
!
251
!
!
!
!
!
!
!
!
!
sar da falta de comando, da munição má, apesar das armas defeituosas, queriam
resistir, queriam escorar a jagunçama. Também Cabo Ferreirinha esperava para fugir.
Felizmente não sofrerá nada e estava com vida. Ferreirinha parou de atirar e voltou o
rosto para o meio da salinha.
Ali estava estendido o Soldado Baianinho, delirando de febre. O ferimento arruinara
muito, com a gangrena tomando o corpo. Não tardaria a morrer. — Pensando nisto
Ferreirinha se condoeu, largou a arma por alguns instantes e veio passar um pouco de
água nos lábios gretados do praça estendido na esteira.
Baianinho dizia coisas desconexas, não tardaria a morrer. Uma tristeza imensa se
apoderou de Ferreirinha. Logo aquele homem que nada tinha com o barulho é que ia
morrer! Ferreirinha ali estava para ganhar dinheiro e fazer seu curso de medicina no Rio;
Tonhá ali estava para furtar; Enéias viera para vingar os parentes mortos por Abílio
Batata; Mendes de Assis e Severo vieram no exercício da profissão; Artur Melo combatia
para conservar o direito exclusivo de oprimir e explorar o próximo; Vicente Lemes e
Valério Ferreira lutavam porque era impossível viver sem o mínimo de liberdade que
permitisse o exercício da profissão de comerciante, lavrador, criador ou burocrata.
Fomentando a luta e tirando partido dela, estavam os coronéis que dominavam a política
do Estado de Goiás, homens do mesmo estofo dos Melos, com seus mesmo hábitos e
costumes, homens que criaram e aqueceram até ontem, no seio, os Melos e que hoje os
combatiam com o mesmo impulso que um animal morde e escoiceia o seu igual de tropa
na beira do cocho de milho. Contudo, alguma coisa de bom ia restar. O sangue ingênuo e
heróico não correria inutilmente. Depois de tudo aquilo, Duro não seria o mesmo, tinha
que transformar-se, tinha que modificar-se.
No chão Baianinho estrebuchava, contorcia-se em espasmos. Pobre camarada!
Tudo que desejava do mundo era caçar, pescar, viver livre, com suas ínfimas e humildes
necessidades. Queria caçar pacas e caititus, antas e queixadas. Se tivesse uma
espingarda, bem; se não tivesse, sabia armar mundéus e arapucas. Essa, a grande
ambição de Baianinho. Muito lutara naquela batalha, porque depois dela teria resgatado a
conta do Coronel Batista e tomar-se-ia um caçador, vivendo pelos matos e pelos campos,
livre como o vento de agosto, livre como a água da chuva.
!
252
— ’Bora, pessoal! — gritava Xavier. — Não tem mais ninguém na Vila. Nós é os
derradeiro! — Em tomo de Baianinho os soldados vacilavam. Não era possível deixar ali
aquele homem agonizante. Os jagunços entrariam no povoado tão logo eles saíssem e
acabariam de matar o pobre.
— ’Bora que a jagunçada num tarda! — Xavier ignorava o problema do moribundo.
Agora todos os soldados estavam em volta do corpo magricela de Baianinho, que
agonizava. As falripas de barba e bigode lhe davam um ar de roceiro, de queijeiro, um ar
pacífico e manso de vaqueiro ou enxadeiro.
— Tadinho! Queria era caçar seus bichos...
— Debandar, debandar! — E o alferes empurrava já o pessoal com o cano de sua
arma.
Freitas Machado não teve dúvidas: tomou o corpo quase sem vida de Baianinho,
jogou às costas e ajudado de Salustiano e Ferreirinha que levavam as armas, saíram
correndo.
Deviam aproveitar o resto da noite para romper o cerco e deixar o povoado. Eram os
derradeiros homens. No escuro, lá se foram eles. Atingiram o córrego com o tiroteio
roncando pelos lados. Estão atirando no vento — pensava Ferreirinha.
Do outro lado do córrego, estendia-se uma cerca de arame. A passagem aí requeria
cuidados, de um lado e de outro havia trincheiras de inimigos. Para passar, Freitas
Machado depôs o corpo do soldado no capim molhado e ia arrastá-lo para o outro lado.
Porém notou que Baianinho já era defunto. Freitas estava sozinho: Salustiano e
Ferreirinha tinham se adiantado. Por um segundo, o soldado vacilou levá-lo ou deixá-lo?
Já era um cadáver!
— Gente fugindo! — gritaram de dentro da noite. Uma saraivada de balas zunia por
ali. De todos os lados partiam tiros e mais tiros, sublinhados por gritos e xingatório.
Freitas Machado saiu de gatinhas para o rumo em que supunha iam os
companheiros.
A CASA da velha Aninha continuava como Vicente deixara: a varanda vazia, as
portas escancaradas. Do quarto grande do fundo da varanda vinha choro de menino.
Vicente chegou à porta e bateu. Tudo se apagou, morreu, o menino silenciou. Vicente
tomou a bater e anunciou-se:
!
253
— Lina, sou eu, Vicente Lemes, pode abrir.
A porta se abriu e Vicente se viu rodeado de vintena de mãos, de olhos e de
perguntas.
— Você voltou?
— Quede os outros?
— Ai, meu Deus do céu! Os jagunços não deixam sair. Lina chorava agarrada a
Vicente, a quem implorava que saísse e saísse imediatamente:
— Ouça, quase que não atiram. No povoado ninguém resiste. Artur entra já-já. Vai
embora, homem de Deus!
De riba de seu tatre alto, a voz de Aninha dominava a leréia:
— Vicente, venha cá! — Era a voz que comandava as negras e a criadagem. Voz
que não admitia réplica, voz forte e cheia, partida de cima do catre, onde a velha
conservava seu vasto corpanzil. A voz era calma, de uma terrível energia:
— Volta já-já. Tu não é nenhum menino, Vicente! Vicente dizia não ter coragem de
largar a família.
— Que família, senhor! Só quem conhece sua mulher é Artur e esse daí eu dou volta
nele. Ninguém precisa saber que Lina e a filha ficaram aqui...
Já refeito, Vicente tomava tenência e respondia com macheza:
— Não saio daqui, minha tia. Fugir é covardia! — Havia-se erguido contra Artur,
havia tomado armas, morreria na trincheira defendendo seus amigos e correligionários.
Outros não tinham morrido na defesade uma causa que não lhes pertencia? Muitos
jagunços não estavam morrendo bestamente, ingenuamente, na defesa dos próprios
algozes, na defesa do próprio Artur Melo que os oprimia e matava? — Pois eu também
morrerei!
— Então vai morrer pra lá — dizia a velha num muxoxo. — Não fique dentro de
minha casa, que vai atrair par cá os jagunços e os tiros deles. Vai pra onde você quiser,
mas aqui num fica.
Exclamações de espanto erguiam-se entre as mulheres. Provocava-as a chegada de
Júlio de Aquino, Ângelo e Saturnino.
Ao notarem no pasto a falta de Vicente, logo atinaram que ele tinha regressado, e
agora ali estavam. Esses homens não discutiam nem falavam. Como Vicente exigisse
deles que se retirassem do povoado, responderam resolutantemente:
— Vai na frente, nós vamos atrás.
!
254
Dito isto, pegaram a fazer buracos nas paredes da casa, a fim de iniciarem a defesa.
Era clara a intenção de não saírem.
Em tomo de Vicente, o mulherio discutia. A presença dos homens no povoado era
um perigo, como as convencera a velha Aninha. Se Artur chegasse e não topasse um só
inimigo, pronto. Estaria de peito lavado, não tinha sobre quem descarregar sua ira e
cantaria de alegria. O tempo seria pouco para festejar a vitória. Mas se topasse Vicente,
Júlio de Aquino, Ângelo ou qualquer outro, aí não havia rogo de Aninha que o fizesse
retroceder. Mataria Vicente do mesmo jeito que os prisioneiros morreram. E não pararia
aí, mataria também as mulheres e até as crianças.
E a jagunçada? Quem poderia impedir um jagunço de fazer mal a um dos homens, a
alguma das mulheres?
— Na minha casa não fica — esbravejava a velha de seu catre. — Passa pra fora e
é já!
A velha Benedita também exigia que Vicente partisse. A sogra estava aterrorizada e
procurava apoio e proteção na prima Aninha. Agora, lá estava ela ao lado da gordona,
penteando-lhe os cabelos, alisando-os. Pouco antes, Vicente a vira trazendo uma
chávena de chá para Aninha.
Vicente sentiu que a sogra Benedita se punha contra ele. Recebeu-o de cara feia e
lhe dizia:
— Vai-te embora, Vicente. Vocês não deram conta do recado e ainda querem nos
encalacrar! — Havia um ar de remoque na cara da velha.
Ora, veja só! Logo Dona Benedita, ela que enxergava em Vicente a pessoa capaz de
quebrar o topete de Artur, daqueles piauienses de uma figa, como dizia a sogra.
Também Lina, tão doce, tão suave, até Lina Vicente observou que estava de má
cara e lhe disse num tom áspero que ele devia sair, que a presença dele ia pôr em perigo
a vida de sua filha.
Quando Vicente deu por fé, estava novamente diante da pedra branca.
— Que me deixassem sentar ali por alguns instantes, pedia ele. Não voltaria mais ao
povoado. Queria analisar a situação, queria assentar os pensamentos que batucavam no
cérebro.
Ao seu redor assentaram-se Júlio, Saturnino e Ângelo. A chuva caía
impertinentemente. Não era uma chuva, mas uma garoa
!
255
fria e branca, que se transformava em neblina, com a saparia roncando, com uns
últimos pirilampos piscando sua humildade luminosa na erva molhada. O ferido não
gemia. Quem seria aquele que tivera coragem de dar a vida por uma causa que Vicente
defendera, que Vicente criara e que abandonva covardemente, como se fosse um
Enéias? Devia ser um pobre vaqueiro igual a Casemiro, Belisário, Norato ou qualquer
outro, morrendo na defesa de seu algoz, o Coronel Melo.
E as palavras da sogra Benedita! Até Lina, tão sem ódio, tão cordata, até Lina o
ofendera. Vicente nunca se lembrava de ter visto no semblante de Lina um ar de tão
grande enfado, um ar de tão profundo desgosto pela presença de Vicente na casa. Lina
que havia poucas horas Vicente ainda a tinha em seus braços, rendida de amor;
assustada, mas entregue. Era a derrota. Um homem derrotado, não lhe cabia nenhuma
razão, nenhum direito!
No de repente, os tiros aumentaram, respondendo à corneta de Severo que pegou a
tocar. Toque quase morto na distância e na neblina, mas que crescia, crescia como se
caminhasse para Vicente, como se o estivesse convocando a não fugir, a resistir. A seguir,
porém, foi-se amortecendo, foi sumindo. Debalde Vicente esvurmava o silêncio com os
ouvidos, mas o som falecera por completo, ficando a cegueira da branquidão do nevoeiro
como um fantasma, como uma coisa imponderável e de sonho.
Vicente tinha os pés frios e a roupa molhada. Ali estava para pensar, mas não
conseguia encadear os pensamentos, diante do atropelo das emoções. Ao redor, Ângelo,
Saturnino e Júlio tinham o rosto voltado para o chão, para os ramos rasteiros que
principiavam a ser clareados pela manhã que desabrochava.
Da pedra branca vinha o soluço de Vicente Lemes, um soluço fundo e sentido, feito
soluço de criança. Júlio sentia que se fitasse o semblante de Vicente ou de qualquer dos
companheiros naquele instante estaria cometendo uma ação vil, uma ação impiedosa.
Júlio tinha o rosto voltado para o chão, o chão amigo e fraterno, chão empapado que se
entremostrava entremeio os capinzinhos e ramos anônimos: um chão branco, areento,
onde a água da chuva corria que nem lágrima, chão que a madrugada vinha alumiando
como um sorriso na cara da criança que ainda chora.
Vicente já não soluçava. Do outro lado, o pipocar prosseguia. Da grota veio um
engrolo, ou seria um medroso grito de sapo?
!
256
Quando Júlio de Aquino ergueu os olhos ardentes de sono, na madrugada
neblinosa, o vulto de Vicente ia rompendo por entre os ramos de lobeira, lixeira e espinho-
agulha. Ia meio agachado, elástico feito um gato, na mão sua Browning de cinco tiros.
Num átimo, Júlio de Aquino percebeu que ninguém mais deteria Vicente. Se um jagunço
saltasse à sua frente, ele o derrubaria para defender a vida, para defender o direito de
continuar vivendo.
DURO só tinha aquelas mulheres da casa da velha Aninha, mas essas mesmas
minguavam. A pretinha Tifuque fugira e com ela outras criadas. A velha abria os peitos,
dando seus gritos, a que ninguém respondia. Na lida da casa ajudavam Amélia, Lina e a
velha Benedita, na falta de gente para fazer os serviços costumeiros.
— Gente ingrata — reclamava Aninha. — Tinha de um tudo e foi sópegar uma
folguinha, abriu o pala no mundo! Adonde vão encontrar o trato que tinham aqui?
Camila, uma preta velha, filha de escravos, multiplicava-se para atender à velha,
indo e vindo pela casa no seu passo manco, os pés repletos de cravos. Camila não
abandonava a velha e a servia com carinho, a que Aninha respondia com gritos e maus-
tratos. Para Aninha, servir era uma obrigação apenas, da preta.
Pelos arredores, o povo fugia, caminhando de a pé, levando aquilo que podia,
desviando-se dos jagunços que não se sabia nunca por onde andavam escondidos.
O povoado calava-se, com a chuva molhando tudo, as grotas resmungando de
cheias, as almas-de-gato novamente pelas moitas cantando seus gritos entojados; no
córrego do Godinho as saracuras quebravam seus potes, sem ninguém para incomodá-
las. Artur Melo, Abílio Batata, Roberto Dorado, Miguel Umbuzeiro, Passarinho,
Pernambuco não tinham coragem de entrar no povoado. Imaginavam que podia tratar-se
de alguma cilada. Não fora assim em São Marcelo? Por três dias a Vila quieta feito um
defunto: sem uma fumacinha no telhado, sem um tiro. Aí os sitiantes resolveram entrar.
No Largo, olha o berreiro, olha o tiroteio. Quando os jagunços quiseram retroceder, era
tarde. Estavam cercados, as saídas tomadas: teve jagunço morto a pau que nem tracajá.
Nada de pressa. Vez por outra um tirinho.
!
257
Só em casa da velha Aninha havia gente. A chuva era aquela cruviana incessante.
Os bichos tomavam conta da Vila. O vento soprava trazendo a fedentina dos defuntos,
com os cachorros comendo o bolo no buraco do muro, com os urubus naqueles pulos
feios, tentando levantar as telhas do sobrado. No antigo quartel de Mendes, diziam, tinha
dois soldados mortos.
Pelos fundos dos quintais e na grotinha os homens mortos inchavam, iam ficando
empanzinados, arrebentavam os cinturões com um estouro fofo, como se fosse jenipapo
caindo. As varejeiras eram tantas que ninguém suportava. Os ovos surgiam em cachos
brancos nas ripas, nos caibros, nas telhas, caindo no chão, nas panelas de comida, nos
pratos. A casa estava suja, mais suja do que chiqueiro, sem gente para assear, com os
meninos obrando, com os panos molhados de urina e sujos de cocô sem ser lavados,
empestando o ambiente com sua catinga.
Brasica, coitadinha, pegou a feder no quarto. Então a velha chamou Pedro-Papo e
mandou enterrar a menina junto à porta da cozinha, numa cova rasa, feito um bicho de
casa, um sabiá ou periquito.
Pedro-Papo era um dos dois homens adultos existentes no povoado. Não quisera
fugir. Era gente de Artur Melo. Viera para o povoado trazido por Severo, que o prendeu
numa de suas batidas pelo acampamento de Artur.
Outro que existia era Afonso Quinto. Na casa da velha Benedita ele apodrecia, com
as pernas fedendo, morrendo aos poucos de fraqueza. Estava ali sozinho, roendo um
taco de carne-seca com farinha de mandioca, que os homens de Ângelo lhe deixaram ao
fugir, bebendo água da chuva. Talvez pudesse chegar até a casa da velha Aninha, mas
cadê coragem, cadê ânimo? Arrastando-se daquele jeito, na travessia do Largo os
jagunços dariam cabo de seu canastro.
Pelas macegas e bibocas dos arredores, o povo fugia ante a sebaça que principiava.
Freitas Machado, que levava Baianinho, o deixara morto debaixo do arame. Lá ficou ele
de olhos semi-abertos para o céu que amava, a cabeça no capim verde que alimentava
os bichinhos do mato que tanto o intrigavam; cerca, deslizava o córrego com seus peixes,
suas pacas, com os mistérios que davam tanto encanto ao pobre Baianinho.
!
258

Pelo cerrado encharcado, os soldados fugiam. Só de tarde é que vieram a se
encontrar Ferreirinha, Freitas Machado e Salustiano. Embora sentissem fome, não
paravam para comer. Era perigoso. Não souberam do caso do Soldado José Flores? Saiu
de noite do povoado, ganhou o cerrado, mas desorientou-se e ficou rondando em tomo
das casas. Nessa andança topou com Marcelino de Aguiar, gente de Artur, homem brabo
como as armas.
No escuro, Marcelino e Flores se bateram de punhal, até que Marcelino foi abatido.
Para ensiná-lo, Flores roletou as munhecas e cortou-lhe os jarretes, largando-o por ali. O
miserável foi encontrado por uma patrulha de jagunços, que saiu no encalço de José
Flores. Deram com o soldado dormindo debaixo de uma latada de maracujá e o mataram.
Dizem que foi picado miudinho, como se bate carne picadinha. Era o exemplo. Nada de
descuidos.
Pelo cerrado gotejante, molhados até os ossos, cansados e famintos, os soldados
continuavam se arrastando, arrastando as armas. De vez em quando, atiravam à boca um
bolo de farinha de mandioca que estava molhada, parecendo cataplasma. Cabeça baixa,
Ferreirinha perdia-se em sonhos. Lembrava Goiás, a namorada, a Banda da Força
Pública em frente à Assembléia Legislativa executando as peças.
!
”Margarida vai à fonte,
Margarida vai à fonte...”
!
Seria a Banda ou seria Imbaúba com sua voz de mulato? Na sua frente, Salustiano
e Freitas Machado marchavam. Eram homens simples, ignorantes, do tipo de Baianinho,
do tipo de centenas de jagunços, homens que possuíam apenas a força dos braços, a
força do coração.
!
”Margarida vai à fonte,
Margarida vai à fonte,
Vai encher a cantarinha.
Brotam lírios pelos montes,
Margarida vai à fonte,
Vai à fonte e vem sozinha”.
!
259
Seria a Banda ou seria Imbaúba cantando? Na sua frente Salustiano recitava a
oração do Santo Sepulcro de Nosso Senhor Jesus Cristo e Freitas Machado ouvia
compungido.
!
ERA o SERTÃO vasto lamaçal. com o clarear do dia, a chuva fina e insistente
transformou-se em neblina, neblina de prata, escondendo os morros altos”.
”Neblina na serra, chuva na terra” — pensou Vicente, que aí notou que estava
encharcado, molhado da cabeça aos pés.
Já haviam descambado a serra, rompido mais de légua, chegavam às margens do
córrego Gameleira. Não era o rio manso e cristalino de costume. Rolava águas barrentas,
espumejando no meio da garrancheira. Atravessaram-no com água pelo peito. Do outro
lado, estendia-se a mata ribeirinha, transformada em tijuco. O pé fincava-se no barro
negro e peganhento, quando saía, lá ficava a botina. A gente tirava a botina da lama,
calçava, dava novo passo e novamente os pés se prendiam no barro.
Passada a mata, estava a fazenda Santo Antônio. Vicente chegou aí com o sol alto,
umas onze horas mais ou menos, mas o diabo do solzinho desenxabido, frio, lançou os
raios sifilíticos e logo sumiu submerso nas nuvens que se desfizeram em chuva.
A fazenda parecia que estava em festa, com o pessoal da redondeza ali
concentrado. O dono, Joaquim da Silva, era abastado, amigo de Vicente, a quem recebeu
com muitos agrados. Na sala, havia uma rede e Vicente se assentou imediatamente.
— Estamos de arribada, Seu Joaquim — explicou Vicente. Queremos que arranje
para nós animais arreados, dinheiro e mantimentos.
Joaquim já sabia que Vicente e os companheiros fugiam. Por sua casa, desde dois
dias, passavam fugitivos, levando-lhe os animais. Agora mesmo, pelos currais e pastos,
dezenas de pessoas movimentavam-se pegando os derradeiros jumentos para seguir
viagem.
— Tudo que é meu está à disposição de vocês — disse o sitiante, que meteu a mão
na algibeira da calça, tirou um pacote de notas e deu três contos de réis a Vicente. —
Mantimento também está aí. Pegue à vontade. O que eu não tenho é animal. Levaram
tudo.
!
260

Assim dizendo, Joaquim se despediu. Também ia de arribada, pois o pessoal de
Artur não tardaria.
Vicente quis partir, mas quede ânimo? O corpo doía, a cabeça zunia. Se não havia
segurança completa ali, se os jagunços podiam surgir a qualquer momento, em
compensação não havia o estalar dos tiros, o quebrar das telhas, o alarido dos bandidos.
Uma moleza morna tomou os nervos de Vicente, em cujos ouvidos foram morrendo
os gritos dos homens que partiam pela estrada. Ele meteu a mão no bolso e segurou os
três contos de réis, que lhe deram algum conforto.
Agora, estava bem melhor. O que não podia era sair para terras estranhas sem um
níquel, como ia. Que esquecimento! Na meia madorna, Vicente se lembrava. Foi na
véspera do ataque. Tomou dos valores que possuía: moedas de ouro e prata, ouro e prata
lavrados, brilhantes, anéis, relógio de ouro, dinheiro em papel, meteu dentro de uma lata,
que botou dentro de um vidro de boca larga. Na despensa da casa da sogra, retirou uns
dois tijolos, fez o buraco, enterrou tudo.
Para testemunhar e para que não se perdesse em caso de sua morte, Lina e Alice
assistiam. Reservou para si apenas seiscentos mil-réis, que meteu no bolso.
Na hora da fuga, de madrugada, a sogra lembrou que seria bom trocar de roupa.
— com essa roupa branca, dá muito na vista. Ponha o terno de casimira escuro. É
mais quente...
Vicente trocou de roupa, mas na calça branca ficaram os seiscentos mil-réis.
— Acorde, homem, vamos embora! — Júlio de Aquino sacudia Vicente Lemes,
pondo-o de pé, exigindo dele que acordasse e andasse. Vicente erguia-se tonto, o corpo
dolorido, os olhos ardentes, o sono pesando nas pálpebras que não se abriam. Os
companheiros saíram arrastando-o até que voltou a si.
Deixavam a fazenda e se dirigiam para a fazenda Olhos-d’Água, de Vicente Lemes
mesmo, onde talvez encontrassem algum recurso. Olhos-d’Água não ficava à margem da
estrada salineira como Santo Antônio. Ficava retirada e de lá certamente os fugitivos não
teriam levado os animais.
Senão quando, tropéis de animais na estrada obrigaram os ho-
!
261
mens a se amoitarem. Mas o cavaleiro era gente amiga: Pedro Joca da Silva,
cunhado de Vicente Lemes.
— Ei, Pedro!
O homem sofreou o cavalo: — Que é isso? Vocês a pé por aqui?
A explicação foi rápida: — Iam de fugida. Os jagunços estavam fortíssimos.
Joca logo compreendeu a situação. Apeou-se, tirou o indispensável e deu o cavalo,
arreios e tudo para Vicente, que seguiu para Olhos-d’Água mais confortavelmente. Nessa
fazenda obtiveram animais, arreios, mantimentos. A chuva não cessava e Vicente com os
companheiros a tomavam de rijo, sem ao menos um chapéu. Aí é que obtiveram chapéus
e umas caroças para se defenderem um pouco do aguaceiro.
— Apronte os animais, depressa! — gritava Júlio, nervoso, com o camarada. Era
preciso pressa. O rio Tabocas enchia muito, as chuvas ali estavam dependuradas das
nuvens, prontinhas para cair. Era preciso transpor o Tabocas antes da enchente, senão
ficariam presos de cá, sujeitos a serem alcançados pelos jagunços.
— Gente chegando — avisou o camarada, que tratou de esconder-se na saroba.
Houve um corre-corre, mas logo se esclareceu. Quem chegava era o Alferes Enéias com
Nestório e Mané Vitô. Queriam animais para a viagem; mas não havia. O restante da
tropa o pessoal da fazenda ia fugir nele. O vaqueiro não ficaria ali por dinheiro nenhum.
Sabia que a região estava entregue ao saque dos jagunços de Abílio Batata. Ia ser um
segundo Pedro Afonso!
Enéias e os dois soldados já rompiam pela estrada enlameada. Azar deles terem
chegado a fazenda de propriedade de gente amiga. Se fosse de inimigo, tomavam os
cavalos à força. Enéias rompeu para os cabaceiros.
— Depressa, depressa — ordenava Júlio, tomado de pânico.
Os cavalos desferrados escorregavam na lama, metiam-se pelos buracos de
enxurrada. A tarde caía, feia, triste e fria, com nuvens grossas e negras rondando por ali
como bandos de urubus. Pela cabeceira do Tabocas, a chuva caía. De cá se ouvia o
estrondo da danada. Brevemente o aguaceiro chegava para os viajantes, encharcando-os
mais ainda. De tão molhados, os cavalos fumegavam. No céu os bem-te-vis davam seus
mergulhos, pegando as siriricas que se erguiam dos cupins. Além, uns sapinhos
cantavam numa nostalgia terrível.
!
262
Vicente sentia na alma o peso da desgraça, sentia a dor dessa derrota, dessa
partida para um lugar ignorado. Como seria sua vida dali para diante? Como seria o dia
de amanhã? Ele nunca saíra do seu meio, da roda familiar, e agora era como enfrentar o
oceano largo numa pequena jangada. Teria que reiniciar a vida, como se fosse um
chegante, um baiano, um piauiense.
Na tarde fria e feia, a chuva continuava a cair. Que história mal contada aquela de
trovões para as bandas do Maranhão! Há-deo. O tempo só levantaria com a entrada de
outra lua!
Nisso, começaram a descer para o vale do rio, que era grande de caixa. Desciam os
contrafortes de pedras escalavradas, com os animais desferrados escorregando a cada
passo, à proporção que se aproximavam do leito, cujas margens eram cobertas de
mataria fechada e carrancuda.
Era escuro quando transpuseram o Tabocas, que principiava a pegar água. Do outro
lado, havia um grande lajedo, com pedras chatas, sobre as quais os fugitivos acamparam.
Embaixo, o rio arrastava seu dorso brilhante à luz mortiça do crepúsculo, cheio de
escuma, cheio de garranchos. A escuridão caía em bloco, cegando tudo, como o
gorgolejar das águas que subiam sempre.
Peados num furo de mato, perto do acampamento, os animais resfolegávam
alegremente, espojando-se no capim. Por riba das lajes, o pessoal estendeu um liga,
escorando as pontas com varas, e debaixo desse toldo, resguardado do chuvisqueiro,
acenderam uma fogueirinha, para assar um pedaço de carne-seca. Mal, porém, pegou a
carne a chiar, a chuva chegou roncando feito um bando de queixadas, batendo nas
árvores do mato e tombando de rijo sobre o couro de boi: amolecendo-o, apagando a
fogueira.
A escuridão era completa; o rio correndo embaixo aos gorgolejos: as águas subiam
e talvez o pessoal tivesse que mudar o pouso para não se ver arrastado. No mato, pelo
chão, os vagalumes, os caga-fogos dançavam seu bailado de fantasmas, cortando os
ares com seus lanhos de fogo. Envoltos em velhas caroças trazidas de Olhos-d’Água, os
homens ensopavam-se meticulosamente pela chuva que enregelava.
E a chuva não cessava. Empós de uma pancada, quando esperavam estiagem, já
se ouvia o estalo de outra corrimaça de água pela mata; e novamente a chuva caía como
um lençol, fazendo o rio subir e gemer de cheio, com paus e sujeira correndo pelo dor-
!
263
!
só empolado. Perto, os cavalos se mexiam. Os queixos tosavam o capim tenro
ritmadamente e vez por outra bufavam de alegria. Vicente cochilava, para acordar
sobressaltado, com receio dos jagunços, com medo de algum bicho, com medo das
águas que cresciam e gemiam ameaçadoramente.
Muito cedo, levantaram acampamento, mas logo tiveram que deter a marcha. O
córrego Cocos estava represado pelo Tabocas, formando uma lagoa. Tinham que esperar
clarear o dia, para localizar a pinguela por baixo das águas, pela qual passariam,
arrastando os animais a nado. Mal se acharam do outro lado, ouviram bufar de cavalos.
Deviam ser jagunços no encalço deles. Meteram-se no mato, espantaram os cavalos para
longe com arreios e tudo, e entrincheiraram-se, esperando o chegante que não tardou a
apear de lá e veio localizar a pinguela submersa.
— Ora, veja quem é, Vicente.
— É o Pedro Joca de novo, gente.
Pedro Joca reuniu-se à comitiva e seguiram viagem. Lá pelas três horas, na
chapada, a chuva estiou e um sol brancacento iluminou a paisagem molhadíssima, onde
as poças d’água e os filetes de enxurrada punham reflexos de espelho quebrado. Pedro
Joca era tapejara sacudido e breve a comitiva estava amarrando os cabrestos num
rancho de palha levantado na beira do caminho, para pouso de tropas.
Foi uma redenção. Apearam, deixaram os animais pastando desarreados, nas peias,
e entraram pra debaixo do agasalho. Aquilo até que imitava um palácio, de conforto.
Fizeram bom fogo, assaram mandioca, carne-seca e se puseram a comer. Fazia vinte e
quatro horas que não comiam nadinha dessa vida e aquela mandioca dava sintoma de
manjar fino de mesada de imperador. Nos jiraus do rancho, Vicente e os companheiros
dormiram sossegadamente, depois de vestirem alguma roupa menos encharcada.
!
Tarde da noite, aportou ali um viajante. Júlio de Aquino era seu conhecedor. Assistia
no Duro e também ia de fugida.
Contou caso da morte do Flores, contou que pelas fazendas já tinha principiado a
sebaça, com bando de jagunços caçando Valério e Vicente, mode eliminar. O homem
contava que para trás a estrada dava imitação de estrada de romaria; poder de soldado,
mulheres com meninos, famílias inteiras fugindo, uns de pé, ou-
!
264
tros de cavalo, todos molhados, varados de fome, amedrontados, pisoteando lama
que a chuva acrescentava a cada nova pancada.
!
Vicente encontrou deserta a cidade de Conceição. Os parentes que moravam aí, em
grande número, haviam seguido para a fazenda Titara, onde estavam as famílias de Júlio
de Aquino, Ângelo, Saturnino, Leão e José Lemes. As poucas pessoas que estavam na
rua, contavam horrores: Artur Melo entrara no Duro e matara muita gente.
— Que mal pergunte, você sabe o nome de algumas dessas pessoas que foram
mortas? — perguntava Vicente, a quem aquela notícia amargurava. Havia deixado lá
mulher, filha, sogra, amigos.
O informante, entretanto, tinha uma noção vaga e errônea de tudo; mas sabia de
fonte segura que vinham jagunços no piso de Vicente Lemes e Valério Ferreira. Esses
dois deveriam ser mortos sumariamente.
No mesmo dia, Vicente e os companheiros seguiram para a fazenda Titara, onde
encontraram o cuidado e o carinho dos parentes. Sentiam no corpo a delícia da roupa
lavada e seca, comiam comida temperada e quente, bebiam um café, tinham cama para
dormir. Dolorosos eram os boatos. Quem teria sido morto, no Duro? Teriam os jagunços
prendido alguns de seus companheiros? Tudo incertezas.
Conceição era lugar visado por Artur Melo, que sabia residir ali muitos parentes de
Vicente, os quais contribuíram decisivamente para a luta com homens armados. As
fazendas dos Lemes espalhadas pelos arredores com muito gado, muita criação, muito
mantimento, muita riqueza, eram presas cobiçadas da jagunçada.
Por üa manhã, novamente a comitiva se pôs em marcha, constituída de camaradas,
cargueiros, levavam agasalhos, mantimentos. As mulheres, a criadagem e os demais
homens seguiriam para Natividade.
Dia morrendo, a comitiva de Vicente chegou ao rio Palmas, aboletando-se no rancho
de tropas, na margem. Enquanto preparavam o jantar, um camarada foi chamar o
passador, que morava um pouco para baixo. O rio Palmas, volumoso e correntoso, es-
!
265
tava muito cheio, com a ramaria das árvores emergindo aqui e ali, soturnamente, na
noite que baixava.
— Naquele dia num podia trevessar ninguém não senhor — explicava o passador —
mode a barca que estava doutra banda. Mas no outro dia, em cedinho, Toniquinho de Sá
Veva trazia ela e aí, se o rio tivesse mais baixo, o pessoal e podia passar... — diante
disso, o recurso era pousar, mas nesse Ínterim, Júlio de Aquino levantou uma dúvida:
— Será que não seria mais prudente pousar no mato?
Os boatos que chegavam não eram animadores. Um piquete de jagunços saqueara
um sítio a cinco léguas do porto. Ora, para quem viaja escoteiro, cinco léguas são um
pulo!
— Seguro morreu de velho — lembrou Ângelo.
— E ainda morreu — completou o arrieiro.
E assim pensando, o pessoal deixou o conforto do rancho para se internar no mato,
armando as redes nos pés de pau.
Embora não chovesse, a mata era só lama, com as árvores molhadas, tudo
pingando, tudo pegajento. Um luão bonito pendurou do céu, prateando a mata, clareando
o dorso do rio que parecia uma tacha de mercúrio. Em tomo das redes as muriçocas
tiniam sua música enfadonha, picando e ocupando os homens, que não conseguiam
pregar os olhos. Mesmo através da rede e da coberta, as desgraçadas ferroavam. Puxa!
!
!
— GENTE batendo na porta, será? — interrogou a velha Aninha de riba do catre.
Camila saiu por ali arrastando os pés cheios de cravos e com pouco prazo voltava
para dizer que era o Aleixo, camarada de Tozão. — E-vinha da parte do Coronel Artur
Melo.
— E nem num mandou entar, negra burra! Aleixo ficou ali junto da cama,
conversando.
— Quéde Anastácia?
Aleixo informou que ela estava com Artur e que já conhecia da morte do marido e do
filho: — Tá quaje dôidia, nha.
Aleixo indagou de tudo e por tudo, revirou as casas e lá se foi no burrinho de cabeça
baixa, por baixo do chapéu de couro, a repetição alceada no ombro, os freios tinindo, os
arreios ringindo
!
266
!
na sola molhada, as esporas graúdas tilintando e retinindo nos cachorros de ferro.
O povoado persistia em completo abandono, a chuva molhando os defuntos, que
apodreciam por ali, com as varejeiras botando os cachos de ovos brancos que caíam no
chão a cada momento. Menino carecia de dormir de cara tampada, em perigo de varejeira
botar os ovos dentro do nariz ou nos ouvidos do bichinho.
Nas grotas, a urubuzada brigava com os cachorros e com os porcos, devorando os
cadáveres. Um bando de urubus permanecia o dia inteiro futucando o bico pelo vão das
telhas do sobrado, por debaixo das portas, donde saía o fedor dos mortos. No Largo, as
almas-de-gato voltaram a piar horas inteiras: — choó, choó, choó. Quando assoprava o
vento, quando a chuva açoitava com força, o povoado estremecia com o estrondo das
portas e janelas que se abriam e fechavam rangendo nos gonzos, estrondando nos
batentes.
Um dia, afinal, os cascos estalaram no Largo, esporas retiniram pela casa, cavalos
soprando lá fora, e no quarto da velha Aninha entraram os três: Artur Melo, Abílio Batata e
Doutor Herculano Lima. Camila veio correndo com os assentos, Amélia se abraçou com o
marido, aos soluços, tanta pergunta pra lá e pra cá.
Artur tomou a bênção da mãe e ficaram conversando com a velha. A seguir vieram
as apresentações. Doutor Herculano apresentava Batata à sua esposa, à sogra, à Dona
Aninha.
Do catre, de roupa sujíssima, a velha contava pormenores da luta, enaltecendo a
atuação de Vicente Lemes, preparando já o terreno para futuramente exigir garantias para
o pessoal do sobrinho. De seu tamborete, Artur Melo xingava a velha Benedita Melo, sua
sogra, a quem atribuía todos os males:
— Foi ela com seu despeito sem medida, com sua soberba que botou fogo na
fogueira.
No terno de linho branco, chapéu-de-panamá na cabeça, punhos duros e lenço de
seda no pescoço, Abílio Batata dava ordens, fazendo faiscar os diamantes dos anéis.
Mulheres e crianças seriam respeitadas. Contudo era bom que elas não se mostrassem
muito por enquanto. Até deviam de se esconder nas camarinhas. Ele não podia responder
por certos jagunços, por certos amigos e parentes das vítimas do sobrado...
Aí, os homens se retiraram, a ferragem dos freios e dos estri-
!
267
bos e das esporas retilintaram, os cascos ferrados batucaram nas lajes. Ficou um
cheiro de cavalo suado e um cachorro cansado, babento, resfolegando tal e qual um fole,
caçando ninguém sabe o que pelos cômodos da casa, cheira um e cheira outro. No
quarto da velha Aninha continuaram as mulheres como prisioneiras, como se o povoado
ainda estivesse sitiado.
Até a elas novas notícias chegavam tão alarmantes quanto as do tempo do ataque.
Primeiro foi a notícia da morte de Afonso Quinto. Pegaram o pobre, que estava inchado
ver uma pipa, esperando a morte a qualquer momento, e lá foram com ele pulando numa
perna só, até o Beco da Fonte. Aí os tiros reboaram, acabando com o restinho de vida do
desinfeliz.
No quarto, a velha botou a mão na cabeça:
— Chega de morte, gente. — E virando-se para Camila, mandou-a que fosse buscar
Artur Melo, seu filho. Se Tifuque estivesse ali, a pretinha é que teria ido chamar, mas ela
devia de estar pelas estradas, em companhia do tal soldado que vivia pajeando ela.
Artur chegou e a velha esbravejou:
— Carecia de esbarrar com tanta morte. Aquilo era um pecado muito grande. Eles
estavam tentando a Deus e procurando provocar a ira de Nosso Senhor em riba de suas
cabeças.
Mas quem disse que Artur podia fazer alguma coisa? Quem mandava era Abílio
Batata, quem deliberava era Roberto Dorado e para esses o choro da velha Aninha era
mesmo que nada. Valia tanto, como valeram os rogos de Anastácia, de Doutor Herculano
ou de outros.
Lá se foi Artur Melo sacudindo as esporonas pelas tábuas da varanda, a arma
entufando o paletó dessa banda de cá. E Camila já voltou contando outra história: Pedro-
Papo estava amarrado num pau, na beira do córrego, com os meninos se divertindo em
lhe furar o papo com faca, para ver que é que continha.
Pedro-Papo era considerado traidor. Por fim, deram-lhe um tiro na barriga, deixando-
o morrer aos tiquinhos.
Os defuntos do sobrado e o cadáver de Hugo Melo foram deitados numa carroça e
enterrados numa cova comum perto da povoação. Os jagunços que apodreciam pelas
grotas, esses foram enterrados por ali mesmo. Na maioria, esses defuntos eram
vaqueiros. Na hora do ataque, foram embebedados e tangidos na frente pelos jagunços,
que vinham atrás os ameaçando. Para os vaquei-
!
268
ros não existia nem sepultura, com coisa que não fossem gente batizada e que não
soubesse rezar um creindeuspadre. Também os soldados, os cachorros e urubus
comeram.
Pela região, os piquetes de jagunços vasculhavam as fazendas, os ranchos, os
sítios, arrebanhando o gado, tangendo-o para Formosa do Rio Preto e São Marcelo. Por
adonde passavam, levavam tudo: mantimento, utensílios, armas, tudo, tudo. Se alguém
tentava defender seus teres, era morto.
Vez por outra, um tiroteio, a notícia de uma resistência.
Passaram as semanas, os meses, anos se passariam com a jagunçada na sebaça,
saqueando, matando, violentando. A miséria caiu sobre a região, onde só podia viver
quem possuísse seu bando armado.
Cangaceiro proliferou que nem roduleiro em capoeira. Surgiram homens terríveis,
como Abade, Piauí, João Rocha, Aldo Borges que fugira da cadeia de Uberaba, e muitos
outros. Debalde a polícia de Goiás, Bahia, Maranhão e Piauí escorraçava matava e
perseguia sem trégua os bandidos que desapareciam aqui para surgir ali com apoio de
chefes políticos e coronéis locais. Ei, a sebaça!
A MADRUGADA azulava, calma e neblinosa. O Palma era aquele monstro imenso,
rolando as águas soturnas e espumarentas, com o dorso empolado de garranchos e paus
imensos derivando. Toniquinho trouxera a canoa, mas não aconselhava travessia.
Esperar mais tempo, porém, era impossível para os fugitivos. Um tropeiro, conhecido de
Ângelo, chegou contando que os jagunços evinham de rota batida para o porto.
— É levar menos coisa possível — recomendou Júlio de Aquino.
Nas mãos do camarada que ficou de cá, deixariam os animais, a carga quase toda,
roupa e mantimentos. Fariam a travessia só daquilo que fosse mesmo indispensável:
numa bruaca, uma pouca de farinha, arroz, toucinho, rapadura, um arreio e um burro,
aquele em que vinha Vicente, bicho forte e espirituoso.
Assim arranjada a velha e pesada canoa, com o burro amarrado pelo látego do
cabresto, para segui-la a nado, o passador pegou a remar. Foram subindo o rio,
beiradeando a margem, desviando-se da correnteza, encolhendo-se sob os ramos que
pendiam
!
269
pró riba das águas sujas e paradas. Foram, foram, até muito encima, e aí
enfrentaram o largo. O remo comeu duro, mas a correnteza do meio do rio agarrou essa
canoa, fez a bicha rodopiar e a foi levando de bubuia que nem uma bala.
— Segura, gente, upa!
A canoa ia aos pinotes, ameaçando virar, metendo na água ora a proa, ora a popa,
fazendo água. Agarrados à borda, os passageiros nem piavam, de medo, vendo a morte
diante do nariz. De lá, o canoeiro metia o remo mas mesmo que nada. A bicha ia aos
boléus, pegando água que era um deus-nos-acuda.
— Carecendo de aliviar a canoa — ponderou o remeiro. Imediatamente Ângelo
atirou ao rio os arreios e a bruaca de mantimentos. Nessa hora, já o burro arrebentava o
cabo de cabresto, batia as patas por ali, sumia-se, tornava a aparecer soprando como se
visse assombração, para mergulhar de uma vez nas águas turbilhonantes.
— Lá se foi o burro!
Súbito, a canoa moderou a marcha, principiando a descrever grandes círculos:
— É o rebojo — informou o passador, numa voz apagada pela canseira e pelo
medo. Seus músculos retesavam-se no esforço de manejar o remo, corn o suor
escorrendo pelo peito e pela nuca, dando-lhe um brilho pegajoso, como se o tivesem
besuntado de azeite.
Naquele ponto do rio, tudo rodopiava, como um imenso carrossel. Galhos, ciscos,
garranchos, escuma. No centro, vez por outra, as águas se abriam numa garganta
imensa, que dava um estalo imitando um beijo gigantesco, fechava-se, para de novo
abrir-se noutro beijo. De cá, o canoeiro metia o remo como um louco, o suor correndo
pela cabeça e pelo fio do lombo. Era preciso safar-se logo. Quanto mais a canoa se
internasse no redemunho, pior.
Dentro, Vicente, Ângelo e Júlio de Aquino nada faziam, petrificados, os músculos
doendo da contração de se agarrarem à borda. Seguiam corn a vista os giros cada vez
mais velozes de um velho tronco colhido pelo rebojo. Por fim, o velho tronco ergueu-se
como se fosse saltar, pôs-se de pé e foi tragado pela garganta das águas: desapareceu,
acabou-se. Iria surgir umas centenas de metros abaixo. ”Este também seria o destino da
canoa” — pensava
!
270
!
Vicente, ”era questão de uns minutos a mais. corn a diferença que nesse percurso
por baixo das águas nenhum ser vivo resistiria!’
— Uf! — fez o barqueiro, abandonando o remo dentro da embarcação e deixando-se
tombar no fundo da canoa, como um fardo, arquejante e rebrilhante de suor. Vicente,
Ângelo e Júlio trocaram entre si um olhar de horror e de espanto. ”Será que o remador
esmorecera reconhecendo a inutilidade de qualquer esforço? Será que se arrebentou de
tanto lutar? Ninguém sabia remar, nem dava conta! O recurso era meter a Browning nos
ouvidos do desgraçado do remeiro e obrigá-lo a retomar o remo. Iam lá se entregar à
morte como um passarinho!”
— Uai, quê isso? Num rema, só? — interrogava Ângelo.
— Rurum curuchou — roncou de lá o passador no meio da suadeira, da baba que
escorria por entre a barba e a bigodeira crescida.
— Hem, como é? Rema ou não rema?
— Tem perigo mais não — gemeu o canoeiro bufando.
— Num tem perigo, hem? — Uai, mas porque que não tem mais perigo?
O homem não tinha nem força nem ânimo para explicar nada, afrontado ali no fundo
da canoa, o peito subindo e descendo, a cabeleira saranhada empastada de suor, as
narinas palpitantes no meio do bigode e da barba.
Na verdade, reparando melhor, Vicente via que o barco ia calmamente escorregando
nas águas sujas e espumarentas, beiradeando a margem, de onde emergiam as copas de
coqueiros e outras árvores. Calmamente ia a canoa, ora parando, esbarrando num pau,
numa fronde, ora rodando. Lá ia ela, já livre do funil. Da margem saiu um bater forte de
asas e uns grasnados: dois patos brabos levantaram o vôo pesado e lá se foram rio
abaixo, grasnando.
Com pouco, o barqueiro reanimou-se, tomou o remo, meteu o danado corn raiva na
água, e em curtas remadas atirou a embarcação num ponto onde puderam saltar.
Ali o canoeiro explicava que haviam descido abaixo do porto bem umas quatro
léguas, que o rebojo é três léguas e coisa mais prodebaixo do porto, uai!
— Então, vamos voltar, vamos subir o rio — resolveu Vicente. — O que não
podemos é ficar parados aqui neste deserto, sem nada para comer, sem nenhum
agasalho!
!
271
!
Por esse tempo, a chuva voltava a cair. Desde cedo que o céu estava carregado,
cinzento, baixo, mas sem chuva. Agora ela tombava e tombava com vontade, fazendo o
rio ainda mais soturno, mais ameaçador, com um tom escuroso, uns gemidos cavernosos
que metiam medo. De seu lugar, o barqueiro engrolava seus ”quer dizer”, ”num vê que”,
”a-mó-quê” mas no fim Vicente entendeu que para subir o rio de canoa era obra para dois
dias ou mais. Chegar ao porto por terra exigia um percurso de outros tantos dias, num vê
que carecia de fazer um arco, afastando-se muito da margem, que estava alagada...
Esperar abaixar as águas era esperar alguns meses.
— Temos que tomar uma deliberação qualquer — afirmava Ângelo. — Não temos
comida, não temos abrigo de espécie alguma, e essa chuva que não cessa.
— ’Cês pensa, que a gente já volta — assim dizendo o barqueiro foi para trás de
umas moitas aliviar os intestinos maltratados tão duramente com as emoções da
travessia. Quando voltou, trazia uma idéia. Mais pra baixo, umas quatro léguas, retirado
do rio também coisa de uma légua, morava o vaqueiro Brasilino de Araújo, casado com a
Etelvininha da velha Liduína, aquela que morou em Conceição e tinha uma ferida braba
pró riba do beiço de riba.
”Liduína, Liduína? Quem seria essa, com ferida braba?” — pensava Vicente.
— Nossa prima — recordava-se de lá Júlio de Aquino. — É a Vivinha do tio Joca.
— Ah, meu Deus do céu! Quando é que ia lembrar! — Vicente exultava.
Entraram novamente na canoa e remaram, remaram, saltaram lá num ponto mais
enxuto, arrastaram a canoa para o seco, amarraram e se meteram pela mata enlameada,
cheia d’água. Os córregos e regatos que afluíam para o rio estavam represados e cheios
de meter medo, obrigando os homens a dar voltas e mais voltas. Perigo eram bichos.
Nesse tempo sucuri fica alvoroçado, cobra sai da loca.
Pela boca da noite, chegaram ao rancho do vaqueiro. A chuva caía e era água em
massa, que não tinha fim. No meio da macega, o rancho minúsculo do vaqueiro parecia
um monte de capim maduro, tão molhado por dentro como por fora. No seu interior o
foguinho fumarento e um homem amarelo, balofo, com um ven-
!
272
tre imenso, olhos empapuçados, minado pela maleita, pela desnutrição e pelos
vermes. Foi com receio que recebeu os visitantes e teria certamente fugido se não
reconhecesse logo o passador, pessoa de sua confiança e estima.
— Quê que é isso, horn’, nem cachorro tu num tem mais? — exclamou o barqueiro
ao entrar.
Numa linguagem escassa, tartamudo, como se estivesse com a língua emperrada, o
vaqueiro passou a explicar que obra de três dias as onças pegaram o derradeiro cachorro
que restava, o Ferrabrás, aquele que um canguçu tinha espaduado em antes. E era um
cachorrinho tão bão. Óia que ele morreu, mas morreu brigando com os bichos.
Tomando a iniciativa das coisas, o barqueiro perguntava por comida:
— Tamo sem comer em desde cedinho, horn’.
— É... eu tomem tou mei desaprivinido, só — regougou o caco de gente cocando a
cabeleira caída sobre os olhos, por baixo do bagaço de chapéu. O barqueiro, porém,
vislumbrava sobre a fornalha feita em cima do jirau, umas misérrimas costeletas de porco,
minúsculas e enegrecidas, cobertas de varejeiras. Será que não seriam as costelas do
Ferrabrás?
Sem pedir, tomou daquilo, avivou o fogo e as botou para assar. Em breve os quatro
homens comiam o tiquinho de carne com uma boca de quem comesse o manjar mais fino
do universo. De seu canto, o vaqueiro lançava tristes olhares para sua provisão que
desaparecia.
Agora, o pessoal caçava jeito de dormir. O chão estava úmido demais e jirau só
havia dois, para cinco homens. Era preciso fazer outros, mas só se fosse por cima do
travejamento do rancho, pois o vaqueiro trouxe lá de fora sua éguinha, mode as onças
não comer ela como já haviam procedido com o famoso Ferrabrás.
De noite, ficou combinado que o vaqueiro partiria no dia seguinte cedo para a
fazenda de Brasilino. Levaria recado de Vicente Lemes que estava ali e que Brasilino
mandasse três cavalos arreados para eles irem para a fazenda.
— Não esqueça de trazer mantimento, hem!
Entretanto, como não havia nada que comer, pela manhã, o vaqueiro vendeu a
Vicente uma vaquinha maninha, para que fosse abatida. Morta a bicha, o vaqueiro comeu
um pedaço assado
!
273
e lá se foi na sua égüinha de lombo arcado, as pernas quase se arrastando pelo
chão. Levaria bem uns quatro dias para ir e voltar. Na frente da casa ficaram Vicente,
Ângelo, Júlio de Aquino e o canoeiro, esquartejando a minúscula curraleira,
dependurando nos caibros do rancho os quartos e costelas, enquanto no braseiro
assavam uns churrascos.
— Um salzinho, hem, Vicente! — brincou Ângelo, já que no rancho não existia
nenhuma pedrinha de sal. Isto, porém, não era problema para o canoeiro, que foi no
quintal e voltou com um coité de pimenta malagueta. Macetou aquilo bem e com esse
caldo recobriu o churrasco, que comia estalando a beiçorra e chupando o ardume. Lá
fora, a chuvarada não cessava.
Ao redor, estendiam-se o mato e o cerrado, numa paisagem baixa, em cujo
horizonte nem um monte se erguia. Ali, a noite despencava cedo e só muito tarde
despontava a manhã.
!
*
!
Espichado no jirau, fumando seu cigarrinho, os pensamentos torturavam Vicente
Lemes. ”Que teriam feito de Alice, de Lina e da velha Benedita? Que é que estaria
acontecendo com Valério Ferreira, Leão e outros companheiros de luta? Teriam
conseguido fugir também, será que não caíram nas unhas dos jagunços?”
— Luta besta — ponderava Ângelo. — Que resultou de tanta canseira? —
Perguntava e respondia: — Resultou sofrimento, morte de inocentes, miséria para nós.
— É, mas podia ter sido pior, não é mesmo? — dizia Vicente, achando que nas
palavras de Ângelo havia uma censura à sua conduta. — Procuramos todos os Meios de
evitá-la e não foi possível. Vamos dar graças a Deus de não estarmos mortos...
Fora, a chuva chiava na saroba, com grilos e bichos gritando, raspando. Certamente
que por ali havia cobras e sucuris a valer. O canoeiro ouvira um gemido muito esquisito,
dando sintoma de porco d’água.
Pela cabeça de Vicente os pensamentos galopavam. Agora teria que enfrentar o Sul
do Estado, uma vida diferente, um meio totalmente desconhecido. No Norte, onde quer
que chegasse, era só dar o nome e o pessoal se abria em amabilidades: — Ah, gente dos
Lemes, sim senhor! Gente importante, gente de haveres! —
!
274
Agora não teria nada disso. Ninguém o conhecia, ninguém lhe daria nenhum valor,
tinha que labutar duramente para obter sua subistência, sem gado, sem dinheiro, sem
meio de vida, principalmente isso: sem meio de vida. Na lembrança de Vicente, surgiu a
figura da velha sogra, mas surgiu como Vicente a vira no dia da partida: penteando os
cabelos da velha Aninha, o semblante carregado e sua voz de censura a Vicente. Como
teria ela dito? Vocês não deram conta do recado e querem nos encalacrar ainda mais! Ah,
a derrota! Até a velha Benedita, tão intransigente no seu ódio a Artur, até ela agora
entendia de culpar Vicente e criticar seus atos.
— A situação inda vai piorar — disse Júlio de Aquino, com azedume, mascando as
palavras. — O governo não pode aceitar a derrota da polícia. O governo terá que enviar
para o Norte novos contingentes, derrotar os bandidos e dar garantia às autoridades e
aos habitantes. E nós temos que forçar o governo a prosseguir nessa luta.
— Assunta, gente, a carne tá azulando, tá zangando — avisava o canoeiro,
examinando os quartos dependurados. com tanta chuva, brevemente a carne estaria
putrefata e imprestável.
— Quê que a gente pode fazer! — suspirou Ângelo, espichando o beiço inferior e
erguendo os ombros: — Não existe sal para curar.
— Carece de sale nenhuns nada — respondeu o barqueiro todo lampeiro. — Quer
ver uma coisa? — Pulou do jirau, tomou da faca e foi desdobrando as peças de carne em
mantas finas. Cobriu tudo com pimenta malagueta pisada, até ficar vermelho, e a seguir
foi assando mal e mal, no braseiro, as mantas de carne que, assim meio assadas, eram
espichadas em varais dentro de casa.
Vicente olhou para Ângelo e deu uma risadinha, daquelas suas velhas risadas,
enquanto os olhos brilhavam de malícia:
— Estão vendo? Quando a coisa está muito ruim, é sinal de que vai melhorar.
Entre si, Júlio de Aquino e Ângelo trocaram um olhar significativo: estavam
banzando que aquele Vicente Lemes sempre fora um homem de boa fé, um sujeito de
uma ingenuidade de menino. Bem que Leão e Saturnino diziam.
Pela estrada já deveriam vir para o rancho os animais de Brasilino, que levariam os
fugitivos até sua fazenda e daí pelo vasto Estado afora até a Capital, até Goiás. Na
cabeça de Vicente, as
!
275
idéias continuavam em tumulto. Uma coisa, porém, lhe dizia que nem tudo resultará
inútil. Do sangue derramado, da miséria, da dor, das lágrimas espalhadas nas terras do
Duro, uma vida melhor iria despontar.
Ele tinha vontade de dizer isto aos companheiros, mas tinha receio. Diziam sempre
que ele era um homem de boa fé, ingênuo. Podia ser, mas uma coisa lá dentro do peito
lhe contava que era preciso acabar com o poderio absoluto do Coronel Melo, com a
soberba das famílias poderosas, para que ali pudessem vigorar as leis e não a vontade de
um potentado.
Apesar de tudo, a luta tinha sido o primeiro passo para mostrar que um Alves
Leandro também podia morrer; para mostrar a Belisário e Casemiro que podiam
reconquistar sua liberdade; para ensejar a uma Tifuque unir-se com quem seu coração
queria e não prostituir-se nos quintais da velha Aninha com Hugo Melo ou com Resto-de-
Onça.
Pela estrada, o vaqueiro trazia os animais que conduziriam os fugitivos para Goiás.
Dentro do rancho, as chamas da fogueira crepitavam, refletindo-se na pupila de Vicente
Lemes que, pensando no seu mundo, no velho Duro que ficara para trás e que não
voltaria nunca mais, sentiu os olhos arderem como se fosse chorar.
Foi quando um trovão roncou.
— Agora, sim — falaram os quatro homens ao mesmo tempo. — Agora o tempo vai
suspender.
!
Pelo vale do rio abaixo, o trovão retumbava, trepidando nos ecos distantes. Nos
olhos de Ângelo e de Júlio de Aquino, Vicente não surpreendeu aquele ar de desprezível
ironia, de há pouco: surpreendeu agora um traço de profunda fraternidade, de inabalável
confiança.
Outro trovão, longo e sonoro, abalou as nuvens que se moviam como se fossem
pesados e tardos bois de carro.
!
276
Este livro foi composto em MCS pela
TRANSTYPE LTDA
Av. Erasmo Braga, 277/1109-1112 — Rio de Janeiro, RJ e impresso nas oficinas da
EDITORA VOZES LTDA Rua Frei Luís, 100 — Petrópohs, RJ
para a LIVRARIA JOSÉ OLYMPIO EDITORA S.A. em fevereiro de 1988
ANO DA X BIENAL INTERNACIONAL DO LIVRO
(São Paulo, 24 de agosto a 9 de setembro)
Centenário da Lei Áurea (assinada pela Princesa Isabel em 13.5.1888)
Bicentenário de nascimento de Byron (22.1.1788 — 19.4.1824)
Bicentenário de nascimento de Arthur Schopenhauer (22.2.1788 — 21.9.1860)
Centenário de nascimento de Gastão Cruls (4.5.1888 — 5.6.1959)
Centenário de nascimento de Fernando Pessoa (18 6 1888 — 30.11.1935)
Cinqüentenário de publicação dos romances
Vidas secas, de Graciliano Ramos (3.1938) e
Pedra Bonita, de José Lins do Rego (4.1938)
23° aniversário de fundação da Xerox do Brasil (15.6.1965)
57º aniversário de fundação desta Casa de livros (29.11.1931)
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CÓD. JO- 01976
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Qualquer livro desta Editora não encontrado nas livrarias pode ser pedido, pelo reembolso
postal, à LIVRARIA JOSÉ OL YMPIO EDITORA S.A.
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22251 Rio de Janeiro
Tel.: (021)551-0642 Telex: 2132704547
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