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Imaginar movimentos antes de fazê-los favorece sua execução

Neurocientistas investigam processos neurais que nos permitem dançar I

Gestos rotineiros ajudam cientistas a desvendar os mistérios do Alzheimer

O que o sorriso e a mímica facial escondem e revelam

Como pensamentos e crenças influenciam o sucesso nos esportes

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A ciência desvenda as linguagens do corpo e a delicada sintonia entre gesto e pensamento

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N°45

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editores de educação

carta ao

leitor

O fascínio do gesto

N ossa história é marcada pela ação antes mesmo da concepção, quando os espermatozóides empreen- dem uma corrida desesperada em direção ao óvulo

com o objetivo de fecundá-lo. Ou seja, todos nós somos re- sultado desse primeiro movimento - e ao longo da vida outros tantos pautam cada etapa do desenvolvimento. Abrimos e fe- chamos as pálpebras, movemos a língua para pronunciar sons e nos fazermos entender, sorrimos, exibimos no rosto o que sentimos, agitamos os braços, engatinhamos, andamos, pula- mos, dançamos, chutamos, digitamos, atiramos objetos para longe e os trazemos para perto. Dentro do corpo o sangue corre, o ar entra e sai dos pulmões e os sinais eletroquímicos transmitidos pelos neurónios estão em constante atividade, acionando redes sinápticas e promovendo associações.

Também fora de nós nada parece estar parado. O ir e vir ao nosso redor - e a necessidade constante de nos deslocarmos - associa-se à energia vital, à busca da agregação. A tendên- cia a simplesmente deixar-se ficar, sem ligar-se a nada (sem mover-se em direção a nada), aproxima-se da ideia de pulsão de morte, proposta por Freud. Num outro plano, os movimentos (não por acaso chama- | dos assim) sociais, culturais e económicos são transforma-

|

dores e afetam a maneira como as pessoas sentem, pensam

jjj e desejam. Nessa íntima comunicação entre o dentro e fora,

1 exemplos concretos ancoram ideias abstratas; sensações e

ações que parecem triviais, como franzir a testa, segurar obje- tos macios ou ásperos ou fazer sinal de positivo, influenciam operações cognitivas complexas, julgamento social, lingua- gem, percepção e raciocínio. Quando observamos gestos, certas regiões cerebrais im- pedem a transmissão de sinais do córtex pré-motor para os neurónios motores executores, um mecanismo parcialmente inexistente em pessoas com ecopraxia (imitação repetitiva de movimentos). Quando nos curvamos diante de um paciente com essa síndrome neurológica, ele também se curva - sim- plesmente imita o gesto, sem saber por que o fez. O limiar entre a simulação interna e a atividade motora concreta, po- rém, muitas vezes é reduzido também em pessoas saudáveis - como no caso do bocejo, altamente contagiante. E, sim, há movimento no bocejo, assim como nas expressões faciais, no sorriso, no pensamento. É dessa gama de movimentos, mais ou menos sutis, intimamente conectados ao cérebro e à men- te que trata esta edição especial O cérebro em movimento 2. Por mais quietos que estejamos - como neste momento, len- do este texto - universos físicos e mentais se movem em nós. Para dar continuidade a esse processo fascinante, basta virar a página e continuar deslizando os olhos linha após linha. Boa leitura!

GLÁUCIA LEAL, editora

sumari

o

Cérebro em movimento 2

CAPA: CONCEPÇÃO DE JOÃO SIMÕES; IMAGENS: SHUTTERSTOCK

  • 6 O corpo do pensamento

por Siri Carpenter Exemplos concretos, baseados em ações rotineiras, ajudam a conferir sentido a ideias abstraías, sensações, operações cognitivas complexas e percepções

  • 14 O poder da imaginação por Franz Mechsner O cérebro é capaz de coordenar movimentos complexos e velozes - e em certos casos faz isso apenas com visualização

  • 20 Motivação na medida certa por Steve J. Ayan O treinamento esportivo não se limita ao preparo físico; muitas vezes, o que pensamos determina o resultado de uma competição

  • 26 No limite por Klaus Manhart O prazer de se colocar em situações de perigo está inscrito em nossos genes: ancestrais ousados deixaram mais descendentes que os medrosos

cérebr o

COMITÉ EXECUTIVO Jorge Carneiro e Rogério Ventura

EDITORA-CHEFE Gláucia Leal SUBEDITORA Fernanda Teixeira Ribeiro EDITOR DE ARTE João Marcelo Simões ESTAGIÁRIA Ana Carolina Leonardi (redação) COLABORADORES Luiz Carlos L. Júnior (tradutor/ inglês); Edna Adorno, e Ricardo Jensen (revisão); Thaisi Albarracin Lima (iconografia)

DIRETOR EXECUTIVO Rogério Ventura

REPRESENTANTES COMERCIAIS

COORDENAÇÃO GERAL Mauro R. Bentes (21) 3882-8315/ 8135-3736 - bentes@ediouro.com.br BRASÍLIA: Sônia Brandão (61) 3321-4304 RIO GRANDE DO SUL Roberto Gianoni (51) 3388-7712/ 9985-5564 - gianoni@gianoni.com.br GOIÁS - RONDÔNIA: Marco Antônio Chuahy (62) 8112-1817/ 3281-2466 - machuahy@gmail.com PARANÁ - SANTA CATARINA - TOCANTINS: Euclides de Oliveira, Marco Monteiro (41) 3023-0007/ 9943-8009/ 9698-8433 euclides@dmci.com.br / mmonteiro@ebgepr.com.br

OS ARTIGOS PUBLICADOS NESTA EDIÇÃO SÃO DE RESPONSABILIDADE DOS AUTORE S E NÃO EXPRESSAM, NECESSARIAMENTE , A OPINIÃO DOS EDITORES .

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Entrevista - Christian Keysers Na ponta dos dedos

por Steve Ayan Neurologista belga fala sobre neurônios-espelho e a influência dessas células em nossa vida

  • 38 Integração sensório-motora e psicopatologia por Bruna Velasques, Sergio Machado, Marlo Cunha e Pedro Ribeiro Falhas na capacidade de executar gestos corriqueiros, como pegar objetos, ajudam a compreender esquizofrenia, Alzheimer e autismo

  • 44 Coreografias cerebrais por Steven Brown e Lawrence M. Parsons Técnicas de imageamento cerebral revelam os processos neurais complexos que estão por trás da habilidade de dançar

  • 50 Linguagens do corpo por Ipke Wachsmuth Um único aceno pode revelar várias mensagens, às vezes até mais sinceras que as palavras

  • 58 Mímica facial por Harald C. Traue Prestar atenção na alteração de expressões e nas variações de voz daqueles com quem convivemos ajuda a antecipar as intenções alheias

  • 64 Enigmas do sorriso ^ - por Alberto Oliverio f Estudos sobre a capacidade de decifrar nuances de expressões faciais revelam como o cérebro acessa memórias e decodifica gestos

68

Parado!

f

por Patrick Verstichel e Pascale Larrouy A perda da motivação e da capacidade de tomar decisões pode decorrer de danos neurológicos

  • 72 Desafios de ir e vir por Annette Schafer

^

O trânsito nas grandes cidades aumenta o estresse e pode contribuir para deflagrar, além da tensão, problemas afetivos e doenças físicas

  • 78 O cérebro na direção

por Kaspar Mossman Jogos de computador ativam neurónios, aceleranclo 1 o desempenho do córtex e deixando mais ágeis os reflexos de motoristas idosos

  • 82 Ioga para a vida por Sidarta Ribeiro Pesquisa coordenada por brasileiros comprova benefícios da prática milenar

PARÁ: Alex Bentes (91) 8718-3351/ 3222-4956 alexbentes@hotmail.com MINAS CERAIS: Tadeu da Silva (31) 8885-7100-tadeuediouro@gmail.com ESPÍRITO SANTO: Dídimo Effgen (27) 3229-1986/ 3062-1953/

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MATO GROSSO - Mato Grosso do Sul: Luciano de Oliveira (65) 9235-7446 - fenixpropaganda@hotmail.com CEARÁ - PERNAMBUCO - BAHIA - SERGIPE: Rozana Rocque (11) 4950-6844/ 99931-4696 - rozana@ediouro.biz / rrocque@terra.com.br CEARÁ: Izabel Cavalcanti (85) 3264-7342/ 9991-4360/ 8874-7342 - izacalc@yahoo.com.br PERNAMBUCO: Carlos Chetto (71) 9617-6800, Rosângela Lima (81) 9431-3872/ 9159-0256 - carloschetto@canalc.com.br / rosangelalima@canalc.com.br BAHIA-SERGIPE: Carlos Chetto (71) 9617-6800, Carmosina Cunha (71) 8179-1250/ 3025-2670 - carloschetto@canalc.com.br / carmosinacunha@canalc.com.br

DIRETORA DE OPERAÇÕES Miriam Cordeiro DIRETORA DE MARKETING Carolina Martinez GERENTE DE CIRCULAÇÃO Beatriz Zagoto PRODUÇÃO GRÁFICA Sidney Luiz Santos ANALISTA DE VENDAS AVULSAS Cinthya Muller

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Spektrum der Wissenschaft Verlagsgesellschaft, Slevogtstr. 3-5 - 69126 Heidelberg, Alemanha EDITOR: Carsten Kõnneker DIRETORES-GERENTES: Markus Bossle e Thomas Bleck Mente e Cérebro é uma publicação mensal da Ediouro Duetto Editorial Ltda., com conteúdo estrangeiro fornecido por publicações sob licença de SCIENTIFIC AMERICAN.

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Cérebro em movimento 2 n° 45, 2014, ISSN 1807943-1. Distribuição nacional:

DINAP S.A. Rua Dr. Kenkiti Shimomoto, 1678.

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O corpo do pensamento

 

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A AUTORA

SIRI CARPENTER é jornalista científica, doutora em psicologia social pela Universidade Yale.

^^^^fNkor que olhamos com admiração aqueles que res- Jpeitamos, não descemos ao nível daqueles quedes- denhamos e pensamos calorosamente nas pessoas que amamos? Por que escondemos segredos sujos ou lavamos nossas mãos em relação a preocupações? Por que sentimos um peso tirado das costas ao tomarmos uma decisão difícil e voltamos ao passado ou nos prometamos em direção ao futuro? Estas expressões que invocam uma realidade física, substituindo conceitos abstratos, podem parecer apenas metáforas linguísticas. No entanto, um número cada vez maior de pesquisas indica que essas alusões refletem um fato central do nosso mecanismo do pensamento: a mente usa o corpo para dar sentido a concei- tos. Sensações e ações aparentemente triviais, como imitar um sorriso ou uma careta, segurar objetos lisos ou ásperos, menear a cabeça ou erguer os polegares, podem influenciar processos psicológicos complexos, como julgamento social, linguagem, percepção visual e até reflexão sobre fioções pouco concretas, como a de tempo.

TEMPERATURA DA BEBIDA e in te rações sociais: segurar uma xícara de café quente torna o interlocutor mais receptivo

Os desdobramentos parecem quase absur- dos. Será que segurar uma xícara quente de café torna uma pessoa mais receptiva e empática? Entrar em uma sala aromatizada desperta bons sentimentos? Segurar um objeto pesado enquanto respondo a uma pesquisa dará maior gravidade às questões? Por mais absurdas que possam parecer, as influências sensoriais têm fundamento. "A cognição emerge de aspectos que até há pouco tempo costumávamos pensar que eram irrelevantes para ela, como calor, hi- giene e peso, por exemplo", afirma o psicólogo Lawrence Barsalou, professor da Universidade de Emory, nos Estados Unidos. Pesquisas recentes sugerem, por exemplo, que a flexão dos músculos faciais não apenas reflete nossas emoções como é necessária para experimentá-las. Aparentemente menos lógico

ainda é o fato de que

nossa mente associa a

moralidade à limpeza, uma conexão que enfa- tiza como o processamento de abstrações se fia em atributos físicos. Ainda mais chocante:

as pessoas representam conceitos de passado e futuro por meio de códigos corporais que incluem direção cinética e percepção espacial. O conceito de espaço em si depende de simu- lações mentais de movimentos e distância. "A ideia de que a mente esteja ancorada nas ações corporais e no ambiente fornece um modo muito interessante para tentarmos entender como funcionam as pessoas, o com- portamento social, emocional e os processos

cognitivos. Munido desse novo conceito de como o pensamento opera, agora é possível compreender nossos sentimentos, opiniões e ações ao olhar além de nossa mente até nosso organismo e o mundo que nos cerca sob uma nova óptica", diz o psicólogo Arthur Glenberg, da Universidade Estadual do Arizona. Em sua opinião, essa perspectiva pode mudar as ma- neiras de pensar e aprender. Desde a década de 60, a maioria dos cien- tistas cognitivos vem comparando a máquina neural responsável pela cognição de alto nível a um computador autónomo, separado das áreas cerebrais que "administram" sensações físicas e ações. De acordo com essa ideia, o cérebro recebe impulsos de visões, aromas, sons etc. da parte sensorial do organismo e dos sistemas motores, mas depois converte essas informações "cruas" em símbolos e regras de- sincorporados, de forma muito parecida com o computador, que converte cada informação - a cor vermelha, uma fotografia, a palavra "amor" - em zeros e uns. Com base nesses símbolos, destituídos de suas origens físicas, o cérebro promove cálculos mais complexos, que denominamos pensamento. No entanto, desde o fim da década de 80, alguns cientistas desafiaram a visão de que o corpo é apenas uma porta de entrada e saída para o cérebro. Sugeriram que, em vez disso, dinâmicas cognitivas complexas estão anco- radas em experiências físicas e nos sistemas neurais que governam o organismo. Segundo esse ponto de vista, os circuitos motores e sen- soriais de baixo nível não apenas se alimentam de cognição - eles são a cognição. Na época, a hipótese teve pouco apoio cien- tífico. "Fomos ridicularizados, as pessoas não nos levaram a sério. Porém, no fim da década de 90, as evidências começaram a pingar - e depois a verter", recorda Barsalou. Apenas nos últimos anos, porém, estudos mostraram que o fato de segurar uma xícara de café quente ou estar em uma sala confortável "aquece" nossos sentimentos em relação a estranhos; que de- monstrar uma "atitude poderosa" e expansiva leva as pessoas a tomarem decisões mais corajosas; que estar com uma mochila pesada faz a montanha parecer mais íngreme; que te- mos a impressão de que uma garrafa de água está mais próxima quando temos sede; que

movimentar objetos para cima em vez de para baixo acelera a lembrança de coisas positivas em detrimento de negativas; e que sentar-se em uma cadeira dura transforma universitários de modos afáveis em negociadores implacáveis. Ninguém deve se surpreender que a mente se fie no organismo para obter informações. Afinal, o corpo é nossa única ligação com o mundo: todos os conhecimentos são obtidos pelos sentidos. As ligações próximas entre o físico e o pensamento também fazem senti- do dentro de uma perspectiva evolucionária. Muitos cientistas acreditam que há milhões de anos nossas poderosas aptidões cognitivas cada vez maiores se acumularam em sistemas neurais que se desenvolveram para cumprir tarefas mais simples como a detecção visual ou a navegação espacial. Seguindo essa linha de pensamento, pensar é reviver: não posso refletir sobre minhas últimas férias sem recrutar algumas células cerebrais que registraram a visão de belas paisagens. Não consigo processar o enredo de um romance sem estimular as sensações que o texto descreve nem julgar a altura da montanha à frente sem escalá-la mentalmente. O cérebro estimula a experiência real a fim de dar sentido ao mundo.

Segundo resultados de um estudo já clás- sico, conduzido pelo psicólogo Fritz Strack, atualmente na Universidade de Wúrzburg, na Alemanha, parece que sim: e afeta também a forma como interpretamos a informação emocional. Strack e seus colegas descobriram que as pessoas classificaram os desenhos ani- mados Farside como mais engraçados quando estavam com uma caneta entre os dentes, sem deixar que ela tocasse os lábios (posição que ativa os músculos usados para sorrir), que quando seguravam uma caneta entre os lábios (impossibilitando o sorriso). Essas descobertas indicam que o rosto envia respostas importan- tes para o cérebro, e ele as usa para interpretar informações sobre o mundo. Muitos estudiosos, incluindo Paula Nieden- thal, acreditam que o cérebro não consegue pensar completamente sobre as emoções sem representar ou estimular fisicamente esse sentimento. Em um estudo, ela e seus colegas usaram a eletromiografia para medir a ativi- dade muscular do rosto e descobriram que a

CARREGAR MOCHILA pesada ao escalar uma montanha faz com que ela pareça mais íngreme

RESPOSTA

FACIAL

Qualquer pessoa que alguma vez na vida tenha suado numa entrevista de emprego ou fechado os punhos de raiva sabe que vivenciar uma ex- periência emocional é um acontecimento psico- lógico. Este fenómeno se reflete nas expressões que usamos para descrever sentimentos: o coração acelerou, o estômago contraiu, pulei de alegria, fiquei louco por você. "Os estados emo- cionais estão associados à tendência de ação; as pessoas não dizem, por exemplo: 'Fiquei

tão furioso que eu apenas

ali

...

'",

permaneci sentado

... diz a psicóloga Paula Niedenthal, da

Universidade de Wisconsin-Madison. Além dos sistemas fisiológicos que regulam a frequência cardíaca, o suor e os movimentos corporais, o início das emoções envolve a ativação de pelo menos alguns dos 20 e tantos músculos faciais que controlam a expressão emocional. Este fato faz surgir a questão de como essa fisiologia periférica atinge o pensamento: será que a mera mudança da configuração dos músculos do ros- to influencia a forma como a pessoa se sente?

RITUAIS COM ÁGUA são parte da maioria das religiões, e é possível que estejam vinculados à necessidade cognitiva básica de buscar as raízes de qualidades abstratas em experiências corporais

leitura de palavras com conotação emocional, enquanto consideravam seu significado, im- pulsionava a mesma atividade muscular sutil que as pessoas demonstram ao experimentar os sentimentos. Vocábulos que tipicamente evocam repugnância, como "vomito" e "po- dre", estimularam atividade aumentada nos músculos faciais envolvidos no ato de dobrar o lábio superior, enrugar o nariz e franzir a testa. Aqueles com conotação positiva, como "alegria" e "satisfação", estimularam músculos responsáveis por elevar as bochechas e apertar os olhos num sorriso.

MÃO LIMPA, CORAÇÃO PURO

Os pesquisadores concluíram que raciocinar sobre conceitos emocionais provoca a simu- lação de uma experiência corporal da emoção, evidência de que o raciocínio e a atividade mus- cular estão conectados. Mas o que acontece

quando a capacidade de estimular expressões emocionais específicas é bloqueada? Em um ex- perimento, o neurologista Bernhard Haslingere seus colegas da Universidade deTecnologia de Munique deram injeção de botox na testa dos participantes, paralisando temporariamente o músculo responsável pelo franzir de testa. O tratamento cessou a atividade na amígdala, um centro essencial da emoção, enquanto os voluntários tentavam fazer mímica de expres- sões de infelicidade. Isso sugere que impedira^ atividade mjusxu]ar^^ os circuitos neurais necessários,_paxa~p*Q€es— sar completamente uma emoção. Um estudo de 2010 conduzido por Glenberg e o então estudante de pós-graduação David Havas, da Universidade de Wisconsin-Madison, confirma essa conclusão, demonstrando que as pessoas que passaram pelo tratamento com botox nas linhas da testa foram mais lentas diante de frases sobre tristeza e ira, mas o mesmo não ocorreu com as afirmações referentes a alegria. O organismo desempenha papel igualmente importante no raciocínio sobre abstrações. Considere, por exemplo, a ligação entre higiene física e pureza moral - relação que Lady Macbe- th, de Shakespeare, sentiu de forma tão intensa enquanto tentava lavar as mãos devido à culpa pelos crimes que planejara. Os psicólogos Chen-Bo Zhong, da Universidade de Toronto, e Katie Liljenquist, da Universidade Northwestern, deram aos participantes de um estudo a mesma oportunidade (embora em circunstâncias bem menos sangrentas). Primeiro, pediram que eles se lembrassem de suas próprias ações éticas ou não éticas, depois passaram uma tarefa de completar palavras totalmente desconectadas. Os que tinham se recordado de comportamen- tos antiéticos tiveram mais probabilidade de usar palavras relacionadas a limpeza, como "lavar" e "sabonete", em comparação aos que pensaram em atos éticos. Em uma experiência posterior, 75% das pessoas que se lembraram de ações prejudiciais mais tarde selecionaram um líquido antisséptico (em vez de um lápis) como presente de participação no estudo, em comparação com 37,5% das pessoas que se lembraram de bons comportamentos. O fato de a psique humana associar higiene física a pureza moral desafia a lógica - qualquer pessoa racional sabe que um sabonete não

absolve a má ação. No entanto a ligação é mais profunda. Segundo alguns pesquisadores, essa repugnância ancestral expandiu-se até assumir significados culturais mais amplos. Os rituais de purificação com água, por exemplo, fazem parte da maioria das religiões. Os pesquisado- res especulam que a conexão pode vir, pelo me- nos em parte, da necessidade cognitiva básica de alicerçar raízes abstratas em experiências corporais e, por outro lado, de uma repugnância evoluída em relação a alimentos sujos.

A presença dessa

conexão é óbvia na

ilustração de questões morais - falamos em guardar segredos sujos e em aspirar a uma consciência limpa. A linguagem sugere ainda que a cognição moral está intimamente ligada a partes específicas do corpo responsáveis pela transgressão ética - por exemplo, a boca que pragueja e as mãos que furtam.

Recentemente, os psicólogos Spike Wing Sing Lee e Norbert Schwarz, pesquisadores da Universidade de Michigan, em Ann Arbor, decidiram investigar se as pessoas realmente projetam comportamento imoral em partes específicas do organismo. Para isso, pediram aos participantes de um estudo que encenas- sem uma situação em que deveriam contar uma mentira maldosa usando a caixa postal do celular ou o correio eletrônico. Em seguida deveriam marcar, em uma lista com diversos produtos, quais desejavam consumir. Lee e Schwarz observaram que as pessoas assinala- vam o item "antisséptico para as mãos" com maior frequência após ter mentido por e-mail que por telefone e marcaram mais vezes a alternativa "antisséptico bucal" depois de mentir por telefone. Resultado: os voluntários

pareciam fazer uma analogia subconsciente e não verbal entre uma parte do corpo e o tipo específico de ação desabonadora. Assim como a racionalização moral, por mais ilógica que seja, repousa em sensações ou atitudes corporais, a mesma coisa acontece com nosso conceito de tempo. Em um estudo de 2010 que usou sensores de movimento para detectar ações quase imperceptíveis, o psicólo- go Lynden Miles, da Universidade de Aberdeen, na Escócia, e seus colegas descobriram que re- fletir sobre o passado fazia as pessoas recuarem fisicamente cerca de 2 milímetros, enquanto que ao se reportar ao futuro se movimentavam para a frente, de modo quase imperceptível. Outra pesquisa revela que as pessoas pen- sam no tempo como se ocupasse um espaço físico, com o passado à esquerda e o futuro à direita, uma descoberta consistente com o fato de que membros de culturas ocidentais escrevem da esquerda para a direita. Gún Se- min, psicólogo da Universidade de Utrecht, na Holanda, constatou que a mesma associação de esquerda e direita permeava não apenas a visão, mas também a audição. Voluntários que colaboravam com a investigação receberam fones de ouvido e escutaram palavras relacio- nadas a tempo, como "ontem" e "amanhã", e vocábulos neutros, como "idêntico" e "armá- rio". O pesquisador pediu que dissessem se cada palavra era mais alta no ouvido esquerdo ou direito. E mesmo quando eram apresenta- das com a mesma altura nos dois ouvidos, os ouvintes as percebiam vinculadas ao passado como se fossem ditas mais alto no ouvido es- querdo, e as relativas ao futuro no ouvido direi- to. Analisando superficialmente, não há motivo

APLICAÇÕES DE BOTOX na testa confundem os circuitos neurais responsáveis por processar emoções negativas, dificultando a resposta muscular aos estímulos de tristeza

FERRAMENTAS que nos permitem alcançar objetos distantes nos dão a impressão de que eles estão mais próximos: calculamos a distância de acordo com os limites do corpo

para cultivarmos a ideia de que o tempo flui em determinada direção. No entanto, Semin cogita que a experiência cultural de escrita da esquerda para a direita, de algum modo, trans- forma nossa arquitetura cerebral, de modo que o cérebro representa o passado no hemisfério direito, que recebe impulsos da parte esquerda do corpo, e o futuro na metade esquerda, que interpreta os estímulos sensoriais da metade direita do mundo físico.

Mesmo a percepção visual básica é susce- tível aos caprichos corporais. Os psicólogos Dennis Proffitt, da Universidade de Virgínia, e Jéssica Witt, da Universidade Estadual do Co- lorado, constataram em um experimento que os participantes julgaram que objetos fora do alcance estavam mais próximos quando lhes diziam que poderiam usar uma batuta de 39 cm para alcançá-los, em comparação aos participantes sem batuta. Por que o mero fato de estar de posse de uma ferramenta muda

a percepção? Proffitt argumenta que quando planejamos um gesto, a extensão do alcance do corpo é seu "limite de ação potencial". Um instrumento que estenda seu alcance permite

simular mentalmente o uso do objeto para atingir o objetivo. Isso provoca a mudança na percepção e a meta é vista como mais próxima. "A única fita métrica que realmen-

te temos

é o nosso

corpo, e o usamos para

medir o ambiente", ressalta Proffitt. Em um segundo experimento, Proffitt e Jés- sica deram aos participantes uma batuta para alcançarem objetos distantes, mas pediram a metade das pessoas que apertassem uma bola de borracha com a mão que buscava o alvo en- quanto faziam avaliações da distância. Os resul- tados mostraram que os que apertaram a bola perceberam os objetos como se estivessem mais distantes que os que não tinham a bola, sugerindo que a compressão tinha interferido em sua capacidade de simular mentalmente outra ação.

Se os estados do corpo infiltram a cogni- ção com tanta frequência, por que tão poucas vezes somos conscientes desse fenómeno? Como é possível que a temperatura de um ambiente possa afetar o meu sentimento em relação aos amigos, ou que a falta de conforto da minha cadeira possa afetar minha capa- cidade de argumentação, ou que um cheiro desagradável possa fazer com que eu me comporte de forma imoral, tudo isso sem o meu controle? Às vezes, as sensações físicas e os movimentos são oscilantes ou comuns demais para que notemos seus efeitos sobre nossa vida mental. Outras vezes, a falha em reconhecer a conexão entre experiências corporais e processos de pensamento pode surgir do simples fato de essa conexão pa- recer absurda.

O

peso e a extensão das informações

sobre a cognição incorporada sugerem que fazer ajustes sutis em nossas ações e em nos- sos ambientes físicos pode produzir grandes recompensas. A pesquisa do psicólogo John Bargh, da Universidade Yale, por exemplo, mostra que as texturas ásperas tendem a fazer as interações sociais parecerem duras também, e que o toque de objetos duros nos leva a julgar os outros como mais rígidos. Será que ao se cercar de objetos com texturas

lisas e macias os relacionamentos pessoais poderiam ser abrandados? Se eu escolher tomar café quente em vez de uma Coca-Cola com um novo conhecido acabarei me sentin- do mais carinhoso em relação a essa pessoa? Se eu espalhar substâncias com aroma de limpeza em minha casa serei mais generoso? As teorias de "cognição incorporada" indicam que ajustes ambientais, associados à atenção em relação à maneira pela qual seguramos objetos ou movimentamos nosso corpo, po- dem fazer diferença surpreendente em nossa vida psíquica.

BRINCANDO DE

APRENDER

Também há implicações importantes na educa- ção. O uso de gestos para solucionar exercícios de matemática ajuda as crianças a aprender e reter o que estão estudando. A ação física é igualmente valiosa para crianças que aprendem a ler. Em inúmeros estudos recentes, Glenberg e seus colegas mostraram que alunos do ensino fundamental que, ao lerem, manuseavam figu- ras ou brinquedos numa tela de computador que simulava a ação sobre a qual estavam lendo demonstraram melhor compreensão e maior desenvolvimento de vocabulário.

Com base nessas descobertas, a equipe de Glenberg notou que a simulação de ações ajuda crianças a resolver problemas de mate- mática com maior eficiência. Para confirmar isso, ele pediu às crianças que lessem um problema relativo aos movimentos de um robô e foram solicitadas a calcular o número total de passos dados pela máquina. O texto, entretan- to, também fornecia informações numéricas irrelevantes, como o número de pessoas que o robô cumprimentou. Os alunos instruídos a usar imagens na tela de computador para imitar as ações do personagem foram mais capazes de ignorar as informações irrelevan- tes. Além disso, após aprenderem os proce- dimentos de manipulação física, as crianças obtiveram os mesmos benefícios apenas ao imaginar como movimentariam as imagens para simular a ação da história - uma técnica que pode ser mais prática em salas de aula. Infelizmente, o fato de que a compreensão linguística requer simulação nem sempre é levado em conta pelos professores. Contamos que a criança fará o salto da palavra escrita à simulação, mas alguns alunos não executam esse movimento, eles apenas dizem palavras - falta o gesto do pensamento. ™&

CERCAR-SE DE SUPERFÍCIES LISAS e macias pode, pelo menos em tese, favorecer relacionamentos pessoais; já o contato com objetos ásperos nos deixaria menos à vontade para interagir socialmente

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PAR A SABE R MAI S

Metáfora e cognição corpó-

rea.

Raymond

W. Gibbs

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e An a Cristina

Pelosi

Silva

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O poder

da

imaginação

COORDENA R

MOVIMENTO S

COMPLEXO S

E VELOZE S

ESTÁ

ENTR E

OS

FEITO S

NOTÁVEI S

DE

Q U E

O CÉREBR O

É CAPAZ .

MUITAS VEZE S

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SÃO

NECESSÁRIO S

ANO S

DE

TREINAMENTO !

BASTA A FORÇA

DA

VISUALIZAÇÃ O

p o r

Franz

Mechsne r

P ara entender como os seres humanos coordenam

os movimentos precisa, antes de mais nada, com-

preender de que forma o sistema nervoso contrai

ou distende os músculos certos no momento de-

cisivo. Assim rezava a doutrina tradicional dos fisiologistas do movimento. Mas como explicar, por exemplo, que uma pessoa com doença de Parkinson que, apesar de andar com dificuldade, seja capaz de dançar bem? É o caso de Sofia. Quando lhe perguntei como se via ao caminhar, ela disse: s

O AUTOR

FRANZ MECHSNER é doutor em biologia humana e professor da Universidade Northumbria, em NewCastle, Reino Unido.

"Ponho um

pé diante do outro

e fico atenta

para ver

se Z

funciona ou não". "E ao dançar?", acrescentei. "Ah, então

|

eu voo!", respondeu.

f

Se, contudo, a experiência de Sofia admite generalização, a

|

explicação tradicional decerto revela-se insuficiente. Está claro

2

que também a maneira como imaginamos mentalmente um

I

movimento exerce enorme influência sobre sua execução real.

|

Já na década de 50, o físico israelense Moshé Feldenkrais

o

(1904-1984) - que ficou famoso por sua teoria do movimen- g to - estava convencido de que nem sempre a repetição das %

ml

0

mesmas sequências motoras é o melhor a fazer quando se deseja aperfeiçoar novos movimen- tos em processo de aprendizado. Muito mais sensato seria, ao contrário, refinar a percepção que se tem de si mesmo: "A imaginac^ãopossi- bilita progresso maior que a ação". Percepções e imaginações encarregadas de fomentar a coordenação muscular não precisam necessa- riamente ter por conteúdo a coordenação em si:

podem direcionar-se também para o resultado desejado. Assim é que grandes violinistas en- fatizam com frequência que, ao tocar, prestam menos atenção aos movimentos do corpo que ao som do instrumento, que, por assim dizer, "ouvem de antemão". Mas é de fato concebível imaginar que algo como um "voo" possa vir a ser mais propício à coordenação muscular que um bem ponderado "um pé depois do outro"? No Instituto Max Planck de Ciências Cognitivas e Neurociências de Munique, investigamos essa questão. Para tanto, em vez de abordar logo a complexa inte- ração entre os componentes do conjunto que forma nosso aparelho locomotor, começamos com um exercício simples para os dedos. Não era pouca coisa. Pedimos aos volun- tários que balançassem, paralelamente, para a direita e para a esquerda, os indicadores esticados de ambas as mãos e que, ao fazê-lo, acelerassem pouco a pouco a frequência do movimento. Cedo ou tarde, a maior parte das pessoas acaba involuntariamente passando do movimento paralelo inicial para um padrão simétrico: os indicadores oscilam num mesmo ritmo, mas em direções opostas (veja Ilustra-

ção acima). O mesmo fenómeno se verifica em outros movimentos, como o girar dos braços. Nas últimas décadas, pesquisadores inves- tigaram essa tendência à simetria especular, em especial no que se refere ao exercício com os indicadores, para entender melhor os me- canismos que a fundamentam. A maioria dos cientistas buscou explicar a mudança do movi- mento paralelo para o simétrico especular com base numa tendência à ativação conjunta dos músculos homólogos, isto é, equivalentes do ponto de vista anatómico. À primeira vista, a explicação parece plausível, uma vez que, por vias neuronais, os músculos homólogos têm ligação direta entre si e podem ser ativados em conjunto com facilidade. Ademais, essa "teoria do músculo" coaduna-se bem com a noção de que o sistema nervoso planeja e executa movimentos como padrões completos de ativação muscular. Mas estará de fato correta essa explicação óbvia? Como temos boa capacidade de reco- nhecer e apreciar as simetrias especulares, talvez aqueles movimentos que parecem simétricos e que sentimos como tais sejam particularmente fáceis de comandar. Para investigar essa hipótese, fizemos pequenas alterações no experimento original. Solicitamos aos voluntários que movimentassem os indica- dores de forma ritmada, movendo-os paralela ou simetricamente de um lado para outro. Durante metade dos 40 ciclos de movimento (paralelo ou simétrico), eles mantiveram as mãos em posição "congruente" - ambas as palmas para baixo ou para cima. E durante

BRINCANDO COM OS DEDOS: movimentar simetricamente os indicadores de um lado para outro em direções opostas (A) é mais fácil do que movimentá- los paralelamente (B); assim é também quando as mãos assumem posicionamento incongruente (C)

.....

metade uma palma ficou para cima, e a outra para baixo (veja ilustração acima). Se existe de fato uma tendência à ativação conjunta de músculos homólogos, então, na posição incongruente, o padrão paralelo de movimento seria mais estável que o simétrico. Se, ao contrário, o que se tem é uma tendência ao movimento simétrico especular, os movi- mentos simétricos logo substituiriam os para- lelos quando do posicionamento incongruente das mãos - embora, para tanto, músculos diferentes, não homólogos, sejam ativados.

Os resultados foram claros: as oscilações simétricas especulares dos dedos revelaram-se sempre mais estáveis, independentemente do posicionamento das palmas das mãos. No caso de ritmos mais velozes, observamos transições espontâneas do padrão de movimento paralelo para o simétrico, mas nem uma única mudança no sentido contrário. Fica evidente, portanto, que nossa tendência espontânea à simetria se deve a uma propensão geral a movimentos percebidos como simétricos especulares. Que músculos atuam aí ou que sinais nervosos são enviados parece ser uma questão secundária. Tudo indica que os músculos são flexível e automaticamente ativados a serviço direto do desenho visível do movimento.

A ênfase tradicional nos aspectos moto- res do controle do movimento - comandos neuronais dirigidos aos músculos, por exem- plo - poderia, assim, estar equivocada. São antes conteúdos mentais que parecem balizar diretamente os movimentos. Isso é notável porque o cérebro poderia, portanto, se valer

dessa capacidade de forma generalizada nos movimentos intencionais, sem depender de padrões motores fixos. Tal balizamento "perceptivo-cognitivo" ou "psicológico" do movimento seria de fato van- tajoso: se os movimentos fossem codificados tão somente como padrões fixos de contrações musculares ou de comandos motores, isso constituiria considerável impedimento a um planejamento ajustável da ação. Contudo, uma das capacidades especiais do nosso sistema cognitivo é precisamente configurar os movi- mentos de forma criativa e flexível, de acordo com a demanda de cada situação. Mas é evidente que não basta simplesmente imaginar qualquer ação motora. Resta saber se ela funciona. Ser capaz de conceber um salto mortal, por exemplo, está longe de significar que é possível executá-lo. Para realizar de forma correta um movimento, é necessário que se disponha, antes de tudo, de certa habilidade básica a partir da qual, então, a imaginação apropriada do movimento se constrói. O que ca- racteriza, porém, tal imaginação "apropriada"? Que qualidades de um movimento planejado são decisivas para sua execução bem-sucedida? Se desejo conduzir as pontas dos dedos de um ponto A para B, por exemplo, "direção" e "amplitude" são conceitos físicos que des- crevem com precisão suficiente o movimento corporal. Seria possível supor que esses pa- râmetros são computados em nosso sistema motor. Surpreendentemente, experimentos de uma equipe da Universidade da Califórnia em Berkeley demonstram que o cérebro não calcula um movimento intencional com base em tais parâmetros - ou, pelo menos, nem sempre. O pesquisador Jõrn Diedrichsen, da Uni- versidade de Londres, investigou juntamente com Richard Ivry e outros colaboradores um fenómeno que até então era considerado com- provação clara do controle do movimento por parâmetros corporais. Movimentar ambos os braços com amplitudes diferentes era tido como mais difícil que movimentá-los com amplitudes

Temos tendência espontânea à simetria, nossos músculos procuram sempre se ajustar a esta "lógica"

É possível transformar ideias em ação sem grande aprendizado quando temos claro o objetivo final

QUASE

IMPOSSÍVEL:

neste experimento, a fim de fazer girar as setas na mesma velocidade a mão esquerda precisa rodar a manivela com mais rapidez que a direita

idênticas. Assim sendo, voluntários podem dar início mais rapidamente a movimentos dos braços de uma mesma amplitude - a eventual diferença tende a se igualar com o tempo. As amplitudes parecem ser planejadas para ambos os lados, do contrário não poderiam influenciar- se mutuamente dessa maneira. O que chamou a atenção dos pesquisadores foi que o sinal de partida dado aos voluntários consistia sempre nas amplitudes desejadas. Por exemplo, "I" significava "longo" e "c", "curto"; ao sinal "l-c", portanto, os voluntários deveriam reagir com um movimento longo da mão es- querda e outro curto da mão direita. A equipe decidiu investigar o que acontece se, em vez das amplitudes, forem sinalizados aos voluntários os pontos a ser atingidos pelos movimentos. O resultado surpreendeu em dois aspectos. Em primeiro lugar, não mais se verificou a diferença na velocidade inicial dos movimentos, fossem as amplitudes idênticas ou não. Estivessem os pontos de chegada à esquerda e à direita a dis- tâncias diferentes ou a uma mesma distância, os voluntários davam início a seus movimentos com a mesma velocidade. E, em segundo, com a sinalização direta dos pontos a atingir, eles foram capazes de executar os movimentos de ambas as mãos com mais rapidez que à mera indicação da amplitude desejada.

Com base nesses experimentos, o grupo de Diedrichsen concluiu que, se as metas dos movimentos são dadas, sua forma corporal

não precisa ser planejada em cada detalhe. Movimentos desiguais à esquerda e à direita, difíceis de planejar como tais, deixam-se exe- cutar sem qualquer problema diante de uma meta concreta. Para demonstrarmos como as pessoas po- dem realizar movimentos de alta complexidade, e até supostamente "impossíveis" desde que sejam confrontadas com a meta visível de seu movimento, solicitamos a um grupo de volun- tários que girassem duas manivelas, cada uma delas com uma mão. As manivelas estavam montadas embaixo de uma mesa e, portanto, não podiam ser vistas pelos participantes. Dois ponteiros visíveis sobre a mesa giravam na mesma direção das manivelas (veja ilustração abaixo). O da esquerda respondia diretamente ao movimento da mão esquerda, ao passo que o da direita - cujo controle passava por uma engrenagem - movia-se um pouco mais rapi- damente que o movimento giratório da mão e da manivela correspondentes. Os voluntários tinham de girar ambos os ponteiros a uma mesma velocidade. Para tanto, precisariam girar as mãos numa relação de frequência de 4 para 3. Isso significa que, enquanto a mão direita completava três giros, a esquerda tinha de completar quatro - uma tarefa de extrema dificuldade. Ainda assim, para executá-la, bas- tava que atentassem apenas para o giro dos ponteiros e "esquecessem" suas mãos.

Conclusão: seres humanos podem exe- cutar os movimentos mais complicados, contanto que prestem atenção ao efeito

almejado, e não ao movimento exato do cor-

po. Isso parece

ser possível pelo fato de as

percepções e a imaginação exercerem forte influência sobre os processos de coordena- ção do sistema motor. O que não significa dizer que as grandezas físi- cas da biomecânica ou que as conexões neuronais não desempenham nenhum papel. Mas, com base nos resultados visíveis, o cérebro é capaz de controlar tais fatores e, assim, planejar e executar movimentos de acordo com a situação. Se esse controle se desse mediante programações fixas, a dificuldade seria maior. De resto } os padrões de contração muscular não se deixam vincular dire- tamente à meta de um movimento - no futebol, por exemplo, quando se trata de chutar a gol de um ângulo muito fechado.

O MOVIMENTO é composto de subdivisões: nos esportes essas delimitações ajudam a aprimorar a técnica.

Mas o que, então, um jogador de futebol precisa aprender para colocar a bola "na rede"? Como o tenista transforma seu saque num oce? Como um ginasta consegue dar um salto mortal triplo? Em todos esses casos, o cérebro precisa estar em condições de reagir de acordo com a situação - no futebol, para, em meio ao maior tumulto ou com a grama molhada de chuva, alçar a bola com sensibilidade por sobre o goleiro dentro da rede. Em situações desse tipo, calcular os comandos motores ou padrões de contração muscular exatos parece ser tarefa extremamente complicada, quando não impossível. Difícil de compreender é também de que forma movimen- tos de funcionalidade semelhante - como, para citar outro exemplo, bater um escanteio - podem estar baseados em programas prototípicos, considerando-se, afinal, que os músculos ativos e seu padrão de contração variam enormemente de uma situação para outra.

Se programas motores, na qualidade de bases exercitáveis para movimentos complexos, não parecem de todo apropriados, então o que um esportista aprende ao se desenvolver pouco a pouco em direção à maestria? Thomas Schack, da Universidade Bielefeld, Alemanha, parte do princípio de que muitos problemas diferentes de natureza biomecânica e física precisam ser resolvidos a fim de que um movimento seja executado com sucesso. Contudo, toda ação no

esporte - o saque no ténis, por exemplo - é com- posto de fases diferentes e bem delimitáveis do movimento, cada uma contendo submovimen- tos funcionais, e é a partir daí que os problemas podem ser resolvidos. Se, pois, os movimentos não são controlados por programas motores, mas por intermédio da imaginação, então ha- veria de ser possível demonstrar nos esportistas a presença de planos mentais relativos a esses mesmos submovimentos. Com o auxílio de engenhosos métodos cognitivo-psicológicos, Schack foi capaz de mostrar que tenistas profis- sionais dispõem de planos mentais organizados hierarquicamente e armazenados na memória de longo prazo, os quais são evocados no mo- mento do saque. Nesses planos, diferenciam-se com clareza fases isoladas, tais como "rotação do tronco", "aceleração da raquete", "alonga- mento do corpo" e "golpe na bola".

Ao que parece, portanto, é possível coman- dar diretamente os movimentos com o auxílio da atividade cognitiva, sem que para tanto um programa especial coordene os músculos de alguma forma estabelecida. Se assim é de fato, então podemos transformar em ação direta ideias novas e criativas de movimento, sem antes precisar planejar, aprender e controlar programas musculares correspondentes. Desse modo, também ideias tão genéricas como aque- le "eu voo" de Sofia conduzem ao sucesso.

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PAR A SABER

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Feldenkrais.

Motivação

na medida

certa

ALTO

-

PELA

DESEMPENH O

NO S ESPORTE S

NÃ O É APENA S

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UM A QUESTÃ O RESPONSÁVE L RECONHECE M

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PARA

EXERCITAR

O

CÉREBR O

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Stev e

J

.

Aya n

• L

JPão se ouve uma mosca no estádio. Na pista, os

W^k I atletas se colocam em posição de partida. Os

espectadores prendem a respiração quando o

  • mm ^ 1 juiz dá o sinal para o início da competição. É o

momento de avaliar os resultados de uma preparação que exigiu exaustivos treinos diários nas pistas e nas academias. Mas para ser o primeiro a atravessar a linha de chegada não basta apenas o preparo físico. Pois de que vale a força física se as emoções estremecem no momento mais crítico?

O AUTOR

STEV E j. AYAN é psicólogo e jornalista.

A falta de controle pode surgir justamente nos segundos que antecedem a largada: os mesmos rituais que prendem a atenção do espectador também representam uma tensão às vezes insuportável para o atleta. Se o corredor queimar a largada acaba desclassificado, mas se sair atrasado ou per- correr a pista relaxado demais desperdiça as suas chances. Para vencer essa tensão, precisa que seu corpo e sua mente trabalhem em harmonia. Isso significa manter concentração, tranquilidade, confiança na própria capacidade e o objetivo na cabeça para bloquear os pensamentos que possam com- prometer o resultado.

Atingir o equilíbrio almejado muitas veze de um psicólogo esportivo, profissional qu< conhecido por sua importância em vários p ao fato de que os resultados obtidos pela € mais diversas modalidades estão cada vez r? diferenciar num ambiente assim exige maií físico-exigetreinamento mental. Pensamer tornam-se elementos decisivos, principal muitos preconceitos estão sendo vencidos, de parecer louco se recorrer a um psicólo^ limites são vencidos mais fica claro que a em grande parte, na cabeça. Desde os anos l mentais" são comuns nos Estados Unidos firmam na Europa e no Brasil. Não se pode descartar completamente < ter ao lado alguém empenhado em incentiva tirar dele o melhor rendimento possível, rr mental, assim como o físico, bem-sucedid« ativo e regular de habilidades. Não se trata c métodos bastante efetivos.

  • Dl u Hans Eberspácher, coordenador-chefe da psicologia esportiva da Universidade de Heidelberg, ias áreas nas quais os atletas podem tirar proveito ;>anhamento psicológico direcionado: controle da s da concentração; crença na própria capacidade; las reservas físicas. Para tanto, devem-se automati- delos mentais a tal ponto que eles ocorram - assim movimentos treinados - sem controle consciente, íncipalmente em esportes individuais, a cabeça não ' apenas para a competição - pelo menos durante de duração da prova. nomento decisivo, a cabeça deve apoiar e não r a ação", observa Eberspácher. Quanto melhor se sincronizar pensamento e ação, maior a possibi- chegar ao ápice de desempenho. "Minha raquete ?r a continuação do meu braço e, apesar das linhas a quadra parecia ser enorme aos meus olhos, je sentia, ao mesmo tempo, a mais alta concentra- entimento excitante de estimulação fervilhante. E ssim, eu estava totalmente tranquilo e me alegrava

com toda bola que vinha em minha direção. Eu tinha certeza absoluta de que, na raquetada se- guinte, conseguiria colocar a bola praticamente em qualquer lugar", declarou numa entrevista o tenista Rafael Nadal. Nos anos 70, o psicólogo americano Mihalyi Czikszentmihalyi cunhou um termo que resume bem o estado descrito pelo campeão olímpico: flow - um mergulho completo na própria ação. Despreocupada e sem resistência ou necessidade de impulso externo, a pessoa imerge na sequência de seus gestos-seja num trabalho compensador, num jogo ou numa caminhada no parque.

O

TÉNIS DE CADA

U M

Como um esportista pode se colocar sozinho nesse "estado de desempenho ideal"? O prin- cipal pré-requisito para isso é uma alternância razoável entre pressão e relaxamento. O atleta não pode se sentir sobrecarregado nem suba- proveitado, para que não surja espaço nem para o medo do fracasso nem para a sensação de enfado. No passo seguinte, ele deve se aprofundar totalmente na sequência de seus movimentos - por exemplo, quando um salta- dor em altura imagina, com a maior exatidão possível, como toma impulso, salta e faz seu corpo deslizar por cima da barra de metal. E, em vez de apelos gerais - do tipo "concentre-se" -, as indicações sobre como a ação planejada deve decorrer são bem mais úteis. Durante o saque, no ténis, por exemplo, pode-se pensar na sequência: "oscilar, levantar o braço, esticar!". Com algum treino, é possível imaginar com detalhes o movimento ideal.

Pensar em experiências bem-sucedidas ou nas fraquezas do adversário ajuda a bloquear pensamentos e sentimentos angustiantes

A visualização, porém, não serve apenas para a concentração durante a competição; mesmo durante os treinos ela pode ajudar a automatizar exercícios motores complexos. O efeito físico desse método foi comprovado há muito tempo: já no fim do século 19, o fisio- logista inglês William Carpenter (1813-1885) afirmoiu que a mentalização detalhada (e em alguns casos a observação) de movimentos pode desencadear reações musculares. Não raro, nossa perna estremece quando vemos na televisão um jogador de futebol chutando a bola para o gol. Esse "contágio ideomotor", também denominado efeito Carpenter, faz com que, se a visualização se repetir várias vezes, seja mais fácil imitar o movimento real.

DISCURSO COM ÊNFASE na "união da equipe" é disseminado: solidariedade e companherismo influenciam desempenho do time

Há pouco tempo, estudiosos do cérebro exa- minaram esse fenómeno com a ajuda de exames de imagem. Como o psicólogo Stephen Kosslyn, da Universidade Harvard, comprovou há alguns anos, imaginar movimentos torna ativas as áreas motoras responsáveis do córtex cerebral - como se elas realmente estivessem participando da ação. Provavelmente, novas conexões sinápticas entre as células neurais dessa região cerebral pro- duzem o efeito do aprendizado autossugestivo.

E esportistas estão descobrindo o quanto pode ser útil usar esse recurso. É o caso dos jogadores de basquete, que recapitulam constan- temente o movimento ideal ao treinar o lance livre para elevar a porcentagem de acertos. Durante muito tempo, considerava-se que a visualização proporcionava melhores resultados se a pessoa dividisse o movimento em partes: agachar, do- brar o braço, curvar o pulso e rolar a bola pela palma da mão ao lançá-la, por exemplo. Estudos recentes, no entanto, indicaram que a concentração em pontos-chave (joelho, braço, mão) também pode atrapalhar a fluência

da coordenação, principalmente se ela já está fortemente automatizada. O mais indicado, portanto, é imaginar detalhadamente o objetivo visado pela ação, ou seja, não o movimento, mas seu resultado: por exemplo, a bola en- trando na cesta. O campeão americano de golfe Tiger Woods, por exemplo, garante que é mais fácil acertar a jogada quando se imagina concretamente o barulho característico da bola ao entrar na caçapa. Controlar a própria atenção é comprova- damente indispensável para os esportes. Mas muitas vezes, é justamente essa a maior difi- culdade dos chamados "campões mundiais em treinos". Eles brilham durante a preparação com os melhores desempenhos - mas quando chega a hora H, quase sempre fracassam. Esse efeito é conhecido por qualquer um que já quis alguma vez apresentar em público piada ou truque de mágica do qual tinha perfeito domínio: olhares ansiosos podem dificultara apresentação. Pode- mos imaginar então o quão difícil deve ser manter a calma no burburinho da competição, diante do cenário intimidante do estádio e da necessidade (muitas vezes autoimposta) de vencer. Nesse caso, monólogos objetivos podem ajudar. Em vez de "Ai, meu Deus, tomara que dê tudo certo", o lema deve ser: "Eu só preciso me esforçar e vou conseguir!". Lembrar-se de experiências passadas bem-sucedidas ou pensar nas supostas fraquezas do adversário também impedem pensamentos e sentimentos preju- diciais. O funcionamento certeiro dessa tática, porém, depende da personalidade do atleta. O sapato (ou ténis) de um tipo extrovertido aperta em um lugar; o do tímido, em outro. Para os psicólogos esportivos, isso significa que é preciso realizar sempre um trabalho personalizado e os métodos devem ser adequados a cada indivíduo. A importância das características do tempe- ramento dos esportistas ficou demonstrada de forma impressionante pelo saltador com vara ucraniano Sergej Bubka, que conseguiu seis títulos mundiais entre 1980 e 1990. O fato de Bubka dominar sua área como ninguém não se devia a uma forma física extraordinária. "Ele sai g

 

o

correndo como um louco, como se nunca tives-

§

tem de se lançar a aproximadamente 6 metros de

altura com a ajuda de um bastão de fibra de vidro, é comum haver relatos de atletas que sentiram as pernas bambas durante a corrida de impulso. Ao que tudo indica, só Bubka não sentia o mesmo. Além da coragem, muitas vezes outra forma de autossuperação é importante: a capacidade de suportar o sofrimento. Principalmente aqueles que praticam esportes de longa duração têm de ser capazes de extenuar o próprio corpo até o

limite da dor- e além dele.

"Sofre, cachorro!" O

drástico apelo do ciclista profissional Udo Bõlz ao seu colega de time Jan Ullrich durante o Tour de France 2003 não foi ouvido. Naquele momento, Ullrich já tinha perdido a visão e a audição.

Quem não possui por natureza o dom de se desligar mentalmente do medo ou da dor ainda pode treinar essa prática. Para tanto, a pessoa precisa se sujeitar constantemente a situações extremas desse tipo até que elas se tornem cor- riqueiras. Para reduzir a exaustão física e psíquica e o estresse atrelado a elas, existem técnicas como o relaxamento muscular ou o treinamento autógeno (veja quadro na pág. 22).

O trabalho

para combater o estresse e o

medo do fracasso representa um componente

se sentido medo de nada, e isso faz dele uma |

exceção", chegou a comentar outro campeão da %

mesma modalidade, Tim Lobinger. Nessa prova, s de grande exigência técnica, na qual o competidor

o

TENISTA ESPANHOL Rafael Nadal: mergulho completo na ação durante a partida

importante do treinamento mental. Esportis- tas de ponta precisam saber conviver com a pressão permanente para evitar consequências como a depressão. Claro que quando o caso se torna mais grave, geralmente um psicólogo é convocado. Mas profissionais como o professor Martin Schweer, do Departamento de Psicologia Esportiva da Faculdade Vechta, Alemanha, criti- cam exatamente essa atitude: segundo ele, vários treinadores e associações não se preocupam com ações preventivas e acionam especialistas somente quando os danos estão instalados. Uma pesquisa realizada há alguns anos por cientistas esportivos da Universidade Johann Wolfgang, de Frankfurt, indicou que mais de dois terços de todas as medidas adotadas por psicólogos esportivos visam a superação de crises agudas. Segundo Schweer, em vez de chamar bombeiros para apagar o fogo, seria mais importante haver acompanhamento de longo prazo para que pro- blemas psicológicos possam ser reconhecidos e superados a tempo. De qualquer forma, salvo algumas exceções, os esportistas com alto desempenho em geral já trazem em si os pressupostos psíquicos

IflIllllllillIllltlIliilllIlllIftflillllllllllIilIttllIiltllIllIlfflIllIfllIllIlllllIflflliltllllilffitltltllllIllIItlSflIIllCIfilltlilllliltliillIIl l

Técnica s

par a

estimula r

a

ment e

VISUALIZAÇÃO dos movimen- tos, imaginando sua execução da forma mais perfeita possí- vel. As etapas de cada ação são desmembradas e é priorizada a concentração no resultado desejado (como acertar a bola no gol).

MONÓLOGOS DIRIGIDOS

nos quais a pessoa "faia" consigo mesma enquanto treina, estimulando a própna performance, com frases como "muito bem, continue assim!", em uma corrida de distância, por exemplo. O ob- jetivo é anular estímulos exter- nos que distraiam o esportista e afastar pensamentos preju- diciais, reforçando o desejo de perseverança.

RELAXAMENTO MUSCULAR

PROGRESSIVO propõe a alter- nância da contração de partes do corpo, como ombros ou braços. O fisiologista Edmund Jacobsen (1885-1976) criou um programa sistemático de exercí- cios que leva em conta todos os grandes grupos musculares.

TREINAMENTO AUTÓGENO

foi desenvolvido na década de 20 pelo médico Johannes Heinrich Schultz (1884-1970) para eliminar medos e ansiedades de seus pa- cientes. O ponto central do méto- do são fórmulas autossugestivas como "eu estou muito calmo!". As frases são ditas em voz alta, em posição relaxada, A pessoa pode controlar até mesmo funções como a respiração e pulsação.

favoráveis - senão, nunca teriam chegado tão longe. Estudos atestam, por exemplo, que atle- tas de elite possuem, em comparação com os simples mortais, grande inteligência espacial e capacidade de concentração. Concentrados nos resultados, eles obtêm valores acima da média. E nas competições, demonstrar autoconfiança é quase um pré-requisito exigido pelo treinador e pela torcida "Para os atletas, é imprescindível, inicial- mente, a imposição de metas altas, mas atingí- veis, que desafiem sua capacidade", esclarece o psicólogo esportivo Jurgen Beckmann, da Universidade de Potsdam. "Essa chamada fase de motivação, porém, transforma-se em algum momento na etapa de volição, na qual é preciso realmente atingir a meta visada. Nesse momen- to, o esportista deve certamente se livrar de qual- quer dúvida que tenha em relação a si mesmo." O modelo de Muhammad Ali -"Eu sou o maior!" - só serve para o alcance concreto da meta. Durante o estabelecimento prévio do objetivo a ser alcançado é importante uma au- toavaliação realista a fim de evitar frustrações permanentes, o que costuma ser extremamen- te prejudicial. O psicólogo americano Albert Bandura colocou o conceito de autoeficiência - popularmente conhecido como "a fé remove montanhas" - em sua teoria social-cognitiva do aprendizado. Resumidamente, significa que, muitas vezes, apenas aquilo que pensamos poder realizar já restringe nossas possibilidades reais. Inversamente, porém, também se pode dizer: quem está suficientemente convencido de que pode atingir determinada meta consegue superar obstáculos maiores.

O MELHOR DE

SI

"Eu posso! Eu consigo! Ninguém vai me impe- dir!" Com frases como essas, o esportista se habitua a apostar na própria capacidade. Mo- nólogos motivadores oferecem a possibilidade de eliminar dúvidas e inseguranças. Os efeitos dessa prática foram comprovados em 1977 em um estudo clássico da psicologia esportiva. O pesquisador Michael Mahoney, da Universida- de Estadual da Pensilvânia, entrevistou, na épo- ca, junto com o treinador Marshall Avener, um grupo de ginastas sobre os seus pensamentos e monólogos durante as competições. Ficou de- monstrado que as esportistas bem-sucedidas,

que haviam se qualificado para representar os Estados Unidos nas Olimpíadas, não tinham menos medos do que suas concorrentes não qualificadas. Elas apenas os compensavam melhor na medida em que se autoencorajavam o tempo todo. Já as esportistas que tiveram pior desempenho estavam claramente menos satisfeitas consigo mesmas.

Na maioria das modalidades esportivas por equipes, por outro lado, a concorrência por desempenho é "mais leve" do que, por exemplo, no atletismo ou natação. Se o time joga bem, mas mesmo assim perde, várias coincidências e variáveis também são consideradas influências decisivas. Para que esses variados aspectos não desanimem o esportista individualmente, é neces- sário um forte sentimento de solidariedade dentro do time. Por isso, com frequência, treinadores e jogadores enfatizam nas entrevistas a "união da equipe para que cada um dê o melhor de si".

Esportistas de fim de semana (estima-se que existam no Brasil cerca de 4 milhões de corredo- res profissionais e amadores, dos quais mais de 300 mil participam de corridas de rua) também podem utilizar técnicas como visualização, mo- nólogos motivadores ou técnicas de relaxamento para refinara coordenação motora, aumentar a autoconfiança ou lidar com reveses como lesões ou sentimentos derrotistas. O desejo frequente de testar os próprios limites de desempenho faz com que cada vez mais amadores se tornem

PARTICIPANTES DO IRONMAN, em Florianópolis: esportistas amadores também podem utilizar a preparação mental para aprimorar coordenação motora e autoconfiança

adeptos do treinamento mental. Nesse campo, como em tantos outros, aliás, também é preciso valorizar a formação profissional, já que muitas pessoas tendem a acreditar que, pelo fato de incentivar o atleta, qualquer amigo ou profissio- nal sem especialização possa ser considerado um "psicólogo esportivo". Para o ex-piloto de fórmula 1 Michael Schumacher, o seu cozinheiro particular indiano, Balbir Singh, fazia o papel de "massagista" da alma. Já o ciclista e vencedor do Tourde Frornce Jan Ullrich declarou que recorre a sua fisioterapeuta, Birgit Krohme, não só para massagear seus músculos cansados, mas tam- bém quando percebe que está sem motivação.

Mas o que diferencia o especialista do "guru" é, primeiramente, a objetividade. Levarem consi- deração os objetivos e necessidades individuais sempre é mais promissor do que promessas generalizadas de sucesso. Por esse motivo, todo acompanhamento sério feito por um psicólogo esportivo se inicia com um diagnóstico da situa- ção. Qual o nível de desempenho em que o es- portista se encontra? Quais são seus problemas, desejos e objetivos? Só então se inicia a busca por métodos adequados para treinar a concentração, a coordenação ou o desejo de perseverança. Contudo, o preparo físico e o domínio da técnica e das táticás continuam sendo o ponto-chave de qualquer modalidade esportiva. Pelo menos, ninguém ainda ganhou uma maratona apenas com base no treinamento mental. m c

immiimimmimmmmiimiimm PAR A SABER MAI S

Psicologia do esporte: uma área emergente da psicolo-

gia. Lenama r Fiorese Vieira,

João

Ricardo

Nickenig Vis -

soci ,

Leonardo

Pestillo de

Oliveira

e José

Lui z

Lopes

Vieira ,

e m

Psicologia

em

Estudo,

vol . 15 , n° 2 ,

págs .

391-399. 2010.

 

Psicologia esportiva - teoria

e

prática.

Sónia

Roman.

Nelpa-LDower. 201 0

Fundamentos da psicologia do esporte e do exercício.

Robert S . Weinberg e Daniel Gould. Artmed, 2008.

Os valores e as atividades

corporais. David

Rodrigues

(org.). Summus ,

2008.

No limite

A BUSCA

POR

ESPORTE S

O U

SITUAÇÕE S

DE

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PARECE

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EXPLICAÇÃ O

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••• v

les batem as portas com violência. Os motores

rugem. A partir de agora, uma única coisa conta:

acelerar. O despenhadeiro se aproxima a uma ve- locidade alucinante. Quem saltar primeiro do carro perde. No último instante, Jim abre a porta e se joga sobre o asfalto. Buzz não tem a mesma sorte.Juventude transviada,

O AUTOR

KLAUS MANHART é doutor em filosofia e ciências sociais.

protagonizado por James Dean, retrata os Estados Unidos dos anos 50, o de uma geração rebelde que sai em busca de sua identidade. Jovens levando as provas de coragem às últimas consequências, sem hesitar arriscar a vida. O fascínio pelo perigo atravessa os tempos e estende-se a todas as faixas etárias e classes sociais: ultrapassagens ousadas fazem parte do cotidiano de nossas estradas, atletas brincam com a vida em esportes radicais, alpinistas escalam montanhas e beiram o abismo.

Poucas pessoas resistem à tentação do perigo. No final dos anos 90, com o boom das bolsas de valores, mesmo pais de família conservadores, que até então aplicavam suas economias em sólidas cadernetas de pou- pança, passaram a arriscar investimentos no mercado especulativo de ações de empresas de internet ou de alta tecnologia. Esses mes- mos senhores são capazes de atravessar os Estados Unidos durante as férias para alcançar os paraísos do jogo em Las Vegas ou Reno. Aparentemente, esse hábito é comum a todas as culturas. Até mesmo na África e na América do Sul, integrantes das mais variadas etnias colocam todos os seus bens em jogo com cartas e dados. Mas por que encontramos tanto prazer em situações perigosas - mesmo quando nos custam tão caro e, na pior das hipóteses, ter- minam em morte? Terry Burham, da Harvard Business School em Boston, e Jay Phelan, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, estão convencidos de que a resposta pode ser encontrada na história evolutiva humana. Em um exercício mental, os dois regrediram aos primórdios da humanidade e ali imaginaram dois tipos de comportamento: o nidícola e o conquistador. Os seres humanos de comportamento nidícola (daquele que nasce indefeso e tem de ficar no ninho por um longo período) acon- chegavam-se na caverna, alimentavam-se de ervas e pequenos animais das proximidades, agindo com imensa cautela. Já os conquis- tadores andavam em bando e se arriscavam a desbravar novas regiões. A pergunta é:

quando o

perigo não

é ignorado,

mas o

risco

l avaliado

qual dos dois grupos foi capaz de se impor a longo prazo? Segundo Burnham e Phelan, muitos dos conquistadores encontravam a morte prema- tura em seus perigosos empreendimentos, porém descobriam vegetais mais saborosos e campos de caça inexplorados. Além disso, angariavam valiosa experiência, tornando-se mais aptos a se defender contra os imprevistos da natureza. Ou seja: seus genes prevalece- ram e acabaram por se alastrar pelo planeta. Nosso gosto pelo perigo seria, então, herança biológica. Também na esfera individual o comportamento de risco pode trazer benefí- cios. Os machos mais ousados em geral são

preferidos por potenciais parceiras. Os mais atrevidos provêem a família com mais alimen- to e oferecem proteção mais confiável, porque em situações de conflito são mais agressivos. Esse fato verifíca-se em culturas que desde tempos imemoriais quase não sofreram modi- ficações em seu modo de vida. O antropólogo cultural Napoleon A. Chagnon, da Universida- de da Califórnia em Santa Barbara, estudou, nos anos 60 e 70, os índios ianomâmi da fronteira do Brasil com a Venezuela. Descobriu ali que uma parte dos homens vivia com bem mais mulheres: os guerreiros mais audazes e agressivos. Supostamente, eles põem no mundo um maior número de descendentes que seus conterrâneos acanhados e medrosos. Chagnon concluiu que desse modo os genes daqueles que se arriscam com ousadia se impõem a longo prazo. A inclinação ao comportamento afoito reflete-se no cérebro com o aumento da pro- dução de dopamina, neurotransmissor que contribui para alterações da consciência e da percepção. Assim, em situações de risco, tornamo-nos capazes de executar tarefas com eficiência acima da média e somos compelidos a procurar novos desafios. Evidentemente, a propensão pelo perigo manifesta-se de maneira muito diferenciada em cada indivíduo. Enquanto para alguns poucas rodadas de pôquer com aposta mí- nima acabam com os nervos, outros adoram elevar seus níveis sanguíneos de dopamina às alturas saltando de paraquedas. Os psicólogos comportamentais denomi- nam "caça de sensações" esta necessidade por impressões sensoriais intensas e varia- das. Através dela, os estados de enfado com carga negativa dão lugar a estados de alerta e tensão que são avaliados positivamente. As pessoas com essa tendência enveredam com mais facilidade por situações de risco sociais, financeiros e de saúde. Os pesquisadores relacionam tal afinidade com o perigo com dois diferenciais genéticos. O psicólogo Marvin Zuckerman, da Universi- dade de Delaware em Newark, reconheceu a relação existente entre o comportamento de risco e a monoamina-oxidase, enzima corres- ponsável pela quebra da dopamina. Quanto menos monoamina-oxidase uma pessoa

produz, tanto mais

ela se aventura e sai em

busca de situações arrojadas: seus níveis de dopamina encontram-se sempre elevados. Inversamente, pessoas com altos níveis de monoamina-oxidase sentem-se muito menos impelidas ao comportamento de risco. Na década de 90, um grupo de trabalho americano e outro israelense descobriram que um gene denominado novelty-seeking, o "gene da busca pela novidade", codificador de certo receptor para a dopamina, parece ser responsável pela atenuação da noção de perigo. As pessoas que possuem tal receptor para a dopamina vão às últimas consequên- cias em busca da emoção. Situações que para muitos são excitantes desencadeiam nelas somente tédio. Em alguns grupos humanos esse gene apa- rece com maior frequência. Enquanto apenas um em cada quatro africanos ou europeus carrega consigo a propensão à ousadia, ela é colocada no berço de dois terços dos sul- americanos. A explicação reside no fato de que seus ancestrais eram integrantes dos grupos humanos que por milénios migraram pela África e Europa em direção à América do Sul. Como vencedores da corrida pela ocupação do continente, transferiram seus genes e com eles a disposição ao comportamento aventureiro. O espírito de aventura levou o ser humano a grandes realizações. Todavia, o coquetel biológico também esconde perigos, entre eles uma boa dose de superconfiança. Levan- tamentos psicológicos mostram que grande parte das pessoas se considera mais sadia que a média ou acredita ter um senso infalível para investimentos financeiros. Aparentemente, nosso sistema de recompensa baseado na dopamina nos leva a encarar riscos dos quais fugiríamos não fosse a ação de uma droga en- dógena. O nome dado a isso pelos psicólogos é "sofisma otimista". Surge quando o perigo não é ignorado, mas o risco de sua incidência mal avaliado. Assim, um fumante inveterado tende a avaliar o risco de ter câncer como igual ao do fumante moderado do mesmo sexo e idade - erro típico de avaliação otimista, pois evi- dentemente quem fuma demais corre maior risco de adquirir um tumor e adoecer. O mecanismo reprime a sensação de

medo: acreditamos estar a salvo e subesti- mamos a própria suscetibilidade. Ao mesmo tempo, a disponibilidade para a prevenção é muito baixa. Matthew Kreuter, da Escola de Saúde Pública em Saint Louis, e Victor Stre- cher, da Universidade de Michigan, em Ann Arbor, verificaram que, apesar do perigo, as pessoas muitas vezes insistem em comporta- mentos insalubres e arriscados. Segundo seus estudos, 50% de todos os infartados avaliam seu risco de saúde de modo excessivamente positivo, apesar de o infarto ter lhes ensinado o contrário. De maneira geral, as pessoas julgam mal os riscos - somos, por assim dizer, cegos às probabilidades. Um exemplo: quando a roleta cai cinco vezes consecutivas no vermelho, a maior parte das pessoas crê, equivocada- mente, que no próximo lance as chances do preto serão maiores. Os frequentadores dos cassinos incorrem constantemente nesse erro.

FREQUENTADORES de cassinos geralmente avaliam mal as chances de ganhar

A trilha sonora da aventura

A "caça de emoções" está relaciona- da também às preferências musicais. O psicólogo Marvin Zuckerman, pesquisador da Universidade de De- laware, Estados Unidos descobriu há alguns anos que pessoas ávidas por sensações preferem, em geral, ouvir rock e composições clássicas. Os estilos que mais rejeitam são trilhas sonoras de filmes e cânticos religiosos, por serem considerados monótonos. Logo, aquele que con- segue relaxar melhor com as batidas de Marilyn Manson ou com free jazz revela ter, além do gosto peculiar, uma considerável sede de estímulos.

Dessa forma, a play íist com

as

músicas preferidas de uma pessoa pode dizer muito a seu respeito, mesmo para um desconhecido. Em um estudo feito em conjunto, o psi- cólogo americano Sam Gosling, da Universidade do Texas, e seu colega inglês Peter Rentfrow, da Universida- de de Cambridge, constataram que essa primeira impressão intuitiva frequentemente está correta. Os par- ticipantes de sua pesquisa ouviram as dez músicas preferidas de pessoas que não conheciam e tiraram, a partir daí, conclusões sobre elas. Os julga- mentos relativos à forma de encarar experiências e novidades foram os mais acertados. A extroversão foi cor- retamente identificada também pelos ouvintes que participaram do teste.

Psicólogos também constaram que pessoas com sede de aventura tendem a apreciar arte abstraía, pop art e surrealismo e a rejeitar pintu- ras representativas. Essa preferência seria explicada pela excitação mental que esse tipo de arte costuma causar mesmo em uma segunda observação.

Do mesmo modo, temos mais medo de sofrer um desastre aéreo que um acidente automobilístico, embora muito mais pessoas morram vítimas de acidentes de trânsito. Te- memos ameaças de morte espetaculares tais como assassinatos, incidência de raios ou picadas de cobras venenosas. Donos de bin- gos, vendedores de loteria ou representantes de seguradoras não têm pudor em aproveitar- -se dessa nossa superavaliação de chances pequenas, vendendo-nos rifas ou seguros contra eventos de probabilidade reduzida. Mas por que razão a mente humana, de resto capaz de compreender teorias matemáticas complexas, acaba incorrendo repetidamente nesse erro primário? Também aqui a resposta reside na história evo- lutiva humana. Na época em que nosso cérebro se desenvolvia, as picadas de cobra e os ataques mortais de opositores e predadores representa- vam ameaças reais à integridade física e à vida do ser humano. Ainda hoje as tribos com modo de vida dito primitivo sofrem destes males, como os índios aché do leste paraguaio, por exemplo. Os antropólogos Kim Hill e Madalena Hurtado, da Universidade do Estado do Arizona, verificaram que 14% das mortes dos homens aché ocorriam por causa do ataque de cobras peçonhentas, 8% em virtude do ataque de animais selvagens e 6% por conflitos com opositores. Nossos medos são então perfeitamente compreensíveis - porém, estão datados, não se alinham com nosso tempo. No entanto, o cérebro não é capaz de se acostumar ao cálculo "moderno" e abstrato de probabilidades. As ci- fras astronómicas com as quais temos de operar hoje em dia eram inteiramente desconhecidas de nossos ancestrais. Naquele tempo, a terra era habitada por pouquíssimas pessoas. Foi neces- sário que transcorressem milhares de gerações para que se desenvolvesse a capacidade de lidar com números e proporções simples. Porém, não se desenvolveu a capacidade de operar com pro- blemas complicados que demandam abstração e capacidade de raciocínio lógico. Relutamos, pois, em lidar com cálculos estatísticos complexos necessários à análise de risco. Em vez disso, nos aferramos a regras simples que se demonstraram válidas no passado. "Quanto mais impressionante um acontecimento, tanto mais cedo ele ocorre"

g prega uma destas heurísticas descobertas | pelos psicólogos Daniel Kahneman e Amos

| Tversky durante pesquisa sobre as falsas

  • I conclusões estatísticas. De fato, tal afirmação pode encontrar confirmação na prática - mas isso não ocorre nem de longe continuamente. EVITANDO AS

SEREIAS

Do mesmo modo, os matemáticos calcularam que, a longo prazo, um jogador sempre perde nos jogos de azar e nas loterias. Estatistica- mente, a cada investimento de 100 a roleta devolve apenas 95. Trocando em miúdos: o ingresso ao cassino custa 5% do que é gasto lá dentro. Os especialistas chamam a partici- pação em tais jogos como "taxa de estupidez". Nas situações de risco, a nossa falta de senso para as probabilidades entra em um acordo perigoso com o frenesi provocado pela dopamina. Para sairmos ilesos das situações mais arriscadas, não deveríamos deixar a decisão por conta de nosso cérebro desen- volvido na idade da pedra. Deveríamos antes medir o perigo sem interferência da emoção, o que é mais fácil na teoria que na prática. Na maioria das pessoas, a razão é simplesmente

desativada. Elas têm de se precaver para evitar o encanto pelo perigo. Uma das estratégias mais eficientes é o que

os psicólogos chamam de "autoamarras". Os afetados limitam a si mesmos em seu campo de ação a fim de se proteger contra o comportamen- to leviano. Dependentes de jogo, por exempio, se previnem levando somente uma pequena quan- tia de dinheiro ao cassino. Já Ulisses escapou da morte certa se deixando atar ao mastro do navio para não ceder ao canto sedutor das sereias, ordenando também à tripulação de heróis que tapasse os ouvidos com cera.

Mas não precisamos abdicar de todo do prazer fornecido pelo transe da dopamina, já que ele pode ser criado artificialmente, sem que precisemos arriscar a vida. A sociedade moderna oferece inúmeras e múltiplas ameaças falsas. Uma montanha-russa é capaz de nos colocar à beira de um ataque de nervos - e leva o sistema de recompensa da dopamina a níveis estratosféricos. O mesmo acontece quando assistimos a filmes de horror ou jogamos videogame ou jogos que simu- lam a bolsa. Nosso cérebro não sabe distinguir se o estímulo é falso ou real - e não colocamos em risco nem a saúde nem o dinheiro. m c

UMA MONTANHA-RUSSA

é capaz de nos colocar

à

beira de um ataque de

nervos -

e leva o sistema de

recompensa da dopamina a níveis estratosféricos. Nosso cérebro não sabe distinguir se o estímulo é falso ou real - e não colocamos em risco nem a saúde nem o dinheiro

Socio-cultural aspects regar- ding the perception of quality of life amongst people enga- ging in extreme (high-risk) sports. Giuliano Gomes de As- sis Pimentel. Revista de Salud Pública. 10 (4):561-570. 2008.

Mean genes. T. Burnham ej . Phelan. Perseus , 2000.

Behavioral expressions and biosocial bases of sensation

seeking. M. Zuckerman. Cam- brigde University Press, 1994.

Judgment under uncertainty:

heuristics and biases . D. Kahneman e A. Tversky. Cam- bridge University Press, 1982.

' Na ponta dos dedos

 

A

DESCOBERT A

DA EXISTÊNCI A

DOS

NEURÔNIOS-ESPELHO ,

M ENO S

DE

UAS

DÉCADAS , ABRI U

NOVAS

PERSPECTIVA S

PARA A COMPREENSÃ O

DA EMPATIA

E

DA

CAPACIDAD E

DE

IMITAÇÃO

DE

MOVIMENTOS .

NESTA

ENTREVISTA,

O

N EU ROCI ENT Í

STA

BELG A

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KEYSERS ,

FORMAD O

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PSICOLOGIA ,

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DESSAS

ESTRUTURA S

NA

 

VI DA

DAS

FALA SOBR E PESSOAS

 

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Stev e

3.

Aya n

 

psiucólogo e neurocientista belga Christian Keysers .recebeu seus primeiros louros científicos na Itália, quando estudava os fundamentos encéfalo-fisioló- - gicos da condução de movimentos e da empatia | com o grupo de pesquisadores coordenado por Giacomo | Rizzolati, que descreveu pela primeira vez, em meados dos | anos 90, o comportamento peculiar dos neurônios-espelho. g Atualmente, Keysers dirige o Laboratório de Estudos do Cé-

|

o

J

rebro do Instituto Holandês de Neurociência na Academia i

Real Holandesa de Artes e Ciências, onde busca desvendar o

segredo dessas células tão especiais. Em entrevista à Mente e g

O

AUTO R

Cérebro, o pesquisadorfala sobre os resultados dessa

pesquisa

£

STEV E j. AYAN é psicólogo e jornalista.

e a influência dos neurônios-espelho na nossa vida.

vada. O que é externo é quase automaticamente traduzido em uma ação própria.

MeC - Como podemos imaginar isso exata- mente, uma vez que intenções e objetivos não são representados por células neurais? Ou são?

Keysers-Não, não são. No entanto, um estímulo elétrico pontual, por exemplo na região do córtex pré-motor, pode certamente fazer com que um complexo programa de ação seja iniciado. As células neurais ali localizadas aparentemente são parte de uma rede maior que planeja e inicia a ação em questão. Além disso, os neurônios- -espelho ainda fazem outra coisa: paralelamente ao planejamento de ações, eles também partici- pam da percepção. Eles representam algo como pontos-chave nos quais a atividade pode trans- bordar da rede sensória para a motora.

Nasceu do em 1973 em Chenee, na Bélgica. Estudou psicologia e biologia em Constança, Boston e Bochum. Concluiu seu doutorado em 2000, sobre os fundamentos neuronais de percepções conscientes. É professor titular da Faculdade de Medicina da Universidade de Croningen e chefe do Laboratório de Pesquisas sobre o Cérebro do Instituto Holandês de Neurociência da Academia Real Holandesa de Artes e Ciências.

Mente e Cérebro - Quando o senhor ouviu falar, pela primeira vez, sobre o descobrimento dos neurônios-espelho, imaginou o entusiasmo que eles despertariam no mundo científico?

Christian Keysers-Imaginei. Na verdade, naque- la época, nós já sabíamos onde e como o cérebro processava estímulos sensoriais. Mas somente os neurônios-espelho fizeram a ligação entre ver e compreender. Quando se observa o que uma pessoa está fazendo, automaticamente pressu- pomos determinado objetivo e compreendemos em um segundo a intenção por trás da ação. E essa conclusão - é a parte mais interessante dos neurônios-espelho - aparentemente não a tiramos com a reflexão abstraía, mas à medida que acompanhamos internamente a ação obser-

MeC - E por que não imitamos as outras pes- soas permanentemente?

Keysers - Quando observamos movimentos, certas regiões cerebrais impedem a transmissão de sinais do córtex pré-motor para os neurónios motores executores. Esse mecanismo é parcial- mente inexistente em pessoas com ecopraxia (imitação repetitiva de movimentos). Quando eu me curvo diante de um paciente com essa síndrome neurológica, então ele também vai se curvar. Se lhe perguntarmos em seguida por que fez isso, ele não sabe responder. O limiar entre a simulação interna e a atividade motora concreta, porém, muitas vezes é reduzido também em pessoas sadios - como é o caso do bocejo, que, sabidamente, contagia rapidamente. Mas nós ain- da não sabemos como isso funciona em detalhes.

MeC - Foi comprovada a atividade dos neuró- nios motores?

Keysers - Não conseguimos ainda comprovar essa atividade com os procedimentos por ima- gem rotineiros. Afinal, nos experimentos com animais é possível medir os padrões de reação de cada célula diretamente no córtex cerebral. Nos seres humanos, nos viramos com outras técnicas: quando estimulo magneticamente, por fora, a área motora do córtex de alguém, seus dedos começam a tremer. Se diminuo a intensidade do estímulo, o fenómeno desapare- ce. Mas se a pessoa, ao mesmo tempo, assiste a uma brincadeira de dedos de outra pessoa,

o tremor recomeça. Aparentemente, a pura observação desencadeia uma tensão básica motora - como resultado do espelhamento.

MeC - Os resultados obtidos em estudos com macacos podem ser transferidos para

seres humanos? Keysers - O que mais chama a atenção na compa- ração entre o cérebro do macaco e o do homem

é a grande semelhança. Os primatas possuem, se visto de forma relativa, um pouco menos de córtex pré-frontal do que nós, mas - sinto muito ter de dizer isso - a atividade cerebral é predo- minantemente idêntica em homens e macacos. Afinal, nós não ficamos a maior parte do tempo pensando sobre questões de alto nível espiritual. Os processos no cérebro do macaco são modelos bastante adequados para o homem. No que diz respeito aos neurônios-espelho, existe apenas uma diferença: a fim de conseguirem perceber o objetivo das ações de terceiros, os macacos, ao que tudo indica, precisam ter visto o objeto em questão pelo menos uma vez. Para nós, basta ape- nas um gesto simbólico. Ambas as espécies lêem intenções, só que o Homo sapiens consegue fazê- lo muitas vezes com menos indícios concretos.

MeC - O sistema de indícios provavelmente mais abstrato que conhecemos é a língua fa- lada. Ela também se baseia na atividade dos neurônios-espelho? Keysers - Curiosamente, a região do cérebro do macaco onde neurônios-espelho foram compro- vados pela primeira vez corresponde, no homem,

à região responsável pela produção da fala, a área de Broca. Se observarmos mais detalhadamente o fenómeno da fala, concluiremos que se trata, na verdade, menos da troca de sentidos e significa- dos do que de uma ação comunicativa - segundo o mote: aonde o outro quer chegar com o que está dizendo? Vamos imaginar alguns macacos que não sabem falar: agora, um semelhante extre- mamente inteligente tem a ideia de falar. Se sente alguma dor, ele grita "Ai!". Seu único problema é que ninguém o compreende. Conversar significa codificar uma situação que possa ser decodificada pelo meu interlocutor. Os neurônios-espelho pas- sam ao largo desse problema de forma elegante:

eu deduzo o que há com você quando você boceja ou faz uma expressão de dor a partir de minha simulação interna espontânea. Dessa forma, os neurônios-espelho criam uma comunicação direta sem que as pessoas precisem se esforçar antes para chegar a um acordo sobre o sentido e o significado das palavras.

MeC - Por que não paramos por aí?

Keysers - Acho que esse foi um importante passo na evolução da fala. Nossos ancestrais foram se tornando, provavelmente, cada vez mais capazes de associar padrões de som abstratos a determinadas intenções. Pois existem também neurônios-espelho que rea- gem a estímulos auditivos - por exemplo, a certos barulhos que acompanham uma ação. Em vez de realmente ver a noz que alguém pegou, muitas vezes basta apenas que o macaco ouça a casca sendo quebrada - e os

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AS ÁREAS

MOTORA S

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responsáveis pelos

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movimentos são ativadas

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quando um pianista escuta uma peça musical: é como

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se ele "ouvisse" também

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com as mãos

O LIMIAR entre a simulação interna de movimento e a atividade motora concreta é ténue; um bom exemplo disso é o bocejo

os dedos. E sabe-se que a experiência é um fator que determina quão bem ou mal conseguimos nos colocar no lugar de outros.

neurônios-espelho já começam a trabalhar. Quando temos clareza de quantas expressões onomatopeicas utilizamos, cujo conteúdo se reflete em seu som, como sibilar ou zunir, então parece muito plausível que os primeiros sons de fala tenham aberto o caminho até os conteúdos mentais para nossos ancestrais.

MeC - O reconhecimento de intenções alheias precisa ser sempre aprendido primeiro, ou "nascemos prontos para espelhar"?

Keysers - Isso ninguém sabe muito bem. Des- de crianças, adquirimos muitos programas de ações diferentes com os quais visamos influenciar o nosso ambiente. Nós gravamos os paralelos temporais entre esses programas e determinadas percepções, sejam movimentos, barulhos ou sensações táteis. A partir dessa base, nós podemos associar, aos poucos, atos de terceiros a objetivos de ações e intenções. O sistema dos neurônios-espelho tem grande capacidade de aprendizagem: no cérebro de um pianista que ouve uma peça musical, por exemplo, as áreas motoras responsáveis pelos dedos também são ativadas. Devido à sua for- mação musical, ele aprendeu a ouvir música não apenas com os ouvidos, mas também com

M&C - Mas como podemos explicar os di- versos mal-entendidos pelos quais passamos diariamente?

Keysers - Eles têm um motivo muito simples:

a simulação interna não leva automaticamente às conclusões corretas. O intelecto aqui é um importante corretivo. Vamos ser sinceros: nos- sa ideia intuitiva do mundo é extremamente autorreferente. Assim, as células-espelho se tornam ativas também quando, por exemplo, observamos um robô executando determinadas ações - como jogar futebol. Nós, portanto, es- pelhamos o "comportamento" de um monte de lata, apesar de sabermos exatamente que ele não tem nenhuma intenção. Outro exemplo: a mim não incomoda caminhar de sapatos pelo quarto, para minha mulher, por outro lado, praticamente não há nada pior do que isso. Mas, mesmo que meu espelhamento não funcione neste caso, eu consigo, pelo menos, avaliar racionalmente que esse comportamento, de minha parte, poderia prejudicar nosso relacionamento. E eu, natural- mente, não quero isso, portanto tiro os sapatos antes de entrar no quarto.

MeC - Então é impossível compreender os outros sem uma reflexão mais profunda?

Keysers - Sim e não. Por um lado, nós pos- suímos esse mecanismo de espelhamento automático para nos colocarmos no lugar dos outros. Claro que nós, além disso, também construímos conceitos abstratos e analisamos nossas observações. Somente ao retomarmos ambas as possibilidades, esgotamos com- pletamente nossa capacidade de empatia. Os neurônios-espelho têm a vantagem de funcionar rápida e espontaneamente. Isso é muitas vezes importante no dia a dia para que possamos reagir corretamente a um terceiro. A reflexão, por outro lado, permite que nos desviemos do modelo padrão de costume - em compensação, ela é bastante lenta.

MeC - A metáfora do "espelho do pensa- mento" já é conhecida pela filosofia há muito tempo. O senhor discute seu trabalho também com filósofos?

Keysers - Eles têm coisas muito úteis a dizer sobre o que significam exatamente compreen- são e empatia. No entanto, a teoria não deveria desviar o olhar dos fatos: afinal, a separação entre razão e afetos já foi ultrapassada devido a descobertas neurobiológicas.

MeC-Também há neurônios-espelho no cen- tro de emoção do sistema límbico?

Keysers - Sim, aqui parece ser extremamente importante o córtex insular, que está ligado tanto às regiões corticais mais altas quanto às amígdalas. Experimentos da pesquisadora Tânia Singer, em Londres, demonstraram que, quando uma pessoa que o sujeito conheceu antes como alguém justo e solícito é picada, isso excita as áreas de dor no cérebro do próprio sujeito. Se, por outro lado, um anti- pático leva uma picada, o espelhamento não acontece. Ao que tudo indica, o espelhamento

emocional e os julgamentos cognitivos traba- lham juntos nesse caso.

MeC - Essas interações entre pensamento e sentimento também estão no centro de suas pesquisas?

Keysers - No momento, estou tentando res- ponder, por meio de alguns experimentos, à questão sobre qual a real influência dos neurô- nios-espelho sobre nossa vida emocional. Será que eu, por exemplo, que sou mais empático, consigo melhor me colocar no lugar de outros quando meus neurônios-espelho estão mais fortemente ativos? Autistas quase sempre têm grande dificuldade em tirar conclusões corretas sobre o comportamento de outros. Nós estamos tentando descobrir, por meio da tomografia por ressonância magnética, se esses problemas são devido a defeitos no sistema de neurônios-espelho.

HUMANO S TENDE M a espelhar gestos de robôs, mesmo sabendo que máquinas não têm intenção por trás desses movimentos

MeC - Os neurônios-espelho já foram incorpo- rados por consultores em educação e psicolo- gia. Em que medida a sua atividade pode ser conscientemente estimulada ou controlada?

Keysers - Quando passamos por um mendigo na rua, muitas vezes simplesmente olhamos para o outro lado - por quê? Porque assim não precisamos sentir empatia com o pobre homem. A forma mais fácil de controle sobre nossa capacidade de empatia está, a meu ver, em nossa atenção consciente. Quando a desviamos da pessoa em questão, naturalmente a reação dos neurônios-espelho se torna consequen- temente mais fraca. Dessa forma, certamente conseguimos controlar a sua influência. Porém, hoje não se pode dizer muito mais sobre esse tema - principalmente porque ninguém sabe quais processos cerebrais são associados à consciência. Eu, pessoalmente, acredito que o espelhamento, sozinho, não é a história toda.

MeC - O que o senhor quer dizer?

Keysers - Parece-me decisiva a combinação entre intenções espelhadas e as suas consequ- ências para o próprio pensamento e como as julgamos à luz de nossas experiências. Para tan- to, é necessária também a reflexão consciente. Só pelo pensamento podemos fazer jus às altas exigências da convivência social - a empatia intuitiva é importante, mas não é tudo. ™&

iiiiiiiiiiiiiiiiiimiiiiiiiiimiiimiiim

PAR A SABER

MAI S

A descoberta do outro. Katja Gaschler. Mente e Cérebro n° 194, págs. 46-56, março de 2009.

A imitação pode curar. Fer- dinand Binkofski e Giovanni Buccino. Disponível no site da Mente e Cérebro: http:// bit.ly/neuroniosespelho

Integração

sensório-motora e psicopatologia

PARA

DESEMPENHARMO S

TAREFAS APARENTEMENT E

D'ÁGUA,

O CÉREBR O

PRECISA

COMBINA R

INÚMERA S

PECA R

UM

COP O

SIMPLES , COM O INFORMAÇÕES ;

FALHAS

NESS E

PROCESS O

O U

DISFUNÇÕE S

NEURAI S

PODE M

AJUDAR

A COMPREENDE R

ASPECTO S

DA

ESQUIZOFRENIA ,

DO ALZHEIME R

E

DO

AUTISM O

 

p o r

Brun a Velasques ,

Sergi o Machado ,

Marl o

Cunh a

e

Pedr o

Ribeir o

OS AUTORES

BRUNA VELASQUES, SERGIO MACHADO, MARLO

CUNH A

e PEDRO RIBEIRO são pesquisadores do Laboratório de Mapeamento Cerebral e Integração Sensório Motora do Instituto de Psiquiatria (Ipub) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e professores do Instituto de Neurociências Aplicadas (INA), no Rio de Janeiro.

Inúmeras informações, como tamanho, localização e forma de um objeto, compõem uma complexa equação, fundamental para a execução de uma ação simples

P ara entender o funcionamento do cé- rebro é fundamental conhecer como o sistema nervoso central (SNC) identi- fica e integra informações. Estudiosos

têm apostado no entendimento do processo de integração sensório-motora como o ponto-chave para desvendar alguns dos principais transtornos psiquiátricos, tais como esquizofrenia, doença de Alzheimere autismo. Há séculos esses distúrbios têm sido alvo de discussão e investigação, mas até hoje as descobertas não se mostraram con- clusivas. Atualmente, os novos conhecimentos desvendam os caminhos de como o cérebro tra- balha para integrar dados sensoriais e transformá- los em resposta motora. Tais descobertas estão sendo vistas com esperança e se apresentam como uma porta promissora para desvendar os mecanismos centrais desses transtornos. A integração de informações oriundas de múltiplos canais sensoriais permite o desempenho adequa- do de diversas tarefas do dia a dia - e a conexão adequada é extremamente importante para o cumprimento de metas específicas e consequen- temente para a coordenação de gestos motores simples e complexos.

SOBRE ESQUIZOFRENIA

A interação entre processos sensitivos e percep- tivos é fundamental na execução do ato motor. Na simples tarefa de pegar um copo d'água, por exemplo, inúmeras informações - como tamanho e forma do objeto, localização espa- cial, velocidade do braço, posicionamento no espaço, textura e tato - são requisitadas para a execução desse ato. Essa complexa equa- ção nos permite criar uma linguagem única, partindo da combinação de diferentes fontes sensoriais, transformadas posteriormente em comandos motores. Falhas ou disfunções em qualquer etapa desse processo podem interfe- rir na elaboração neural. Inúmeras evidências sobre o envolvimento do sistema sensorial na patofisiologia de certos distúrbios demonstram a importância do entendimento do processo de integração sensório-motora nessas patologias.

Como assinala o professor Irwin Feinberg, do Departamento de Psiquiatria da Univer- sidade da Califórnia em Davis, o monitora- mento central (consciente ou não) dos sinais eferentes - relacionados às intenções motoras, que conduzem estímulos do sistema nervoso

central para órgãos como músculos e glândulas

  • - auxiliaria na explicação de um funcionamento

comprometido em pacientes esquizofrênicos. O processo de integração e suas possíveis falhas, entretanto, por muitos anos foram ne- gligenciados. No entanto, recentemente tem aumentado o interesse de diversos laboratórios de pesquisa para tal tema. Uma das vias utili- zadas para estudos é o entendimento de dis- funções ocorridas em alguma fase do processo. Um exemplo é a tentativa de compreender comportamentos motores em pessoas com esquizofrenia, conforme estudo conduzido por pesquisadores do Departamento de Psiquiatria do Hospital Universitário de Groningen, na Ho- landa, que relatou uma deficiência na sincronia motora e déficits generalizados na coordenação do controle motor voluntário de pessoas com esquizofrenia. Diversos pesquisadores associam parte dos sintomas da psicopatologia com uma falha na decodificação da informação sensorial para a ação motora. Acredita-se que esse problema cause um atraso nos mecanismos antecipatórios e na reação a estímulos do ambiente, fazendo com que o tempo de resposta seja maior que o esperado pelo sistema cerebral, contribuindo assim para a desorganização dos processos mentais. Em experimento realizado no Instituto Nacional de Saúde e Pesquisa Médica, em Estrasburgo, na França, o grupo coordenado pela pesquisadora Yvonne Delevoye-Turrell verificou que pacientes esquizofrênicos têm um desempenho pior que indivíduos sem esse diagnóstico na execução de tarefas como elevar objetos e bater, porém não no desempenho de atividades que exigem resistên- cia. Esses resultados foram interpretados como déficit motor, sugerindo que a falha na decodifi- cação de informação sensorial na esquizofrenia afeta não só a antecipação do gesto em si, mas também o sequenciamento das ações.

Nota-se também em por esquizofrênicos as chamadas ações autogeradas, que envolvem processos centrais de integração sensório-motora responsáveis por "supervisionar" a entrada de es- tímulos sensoriais e por certificar que a produção dos movimentos corresponde a nossas intenções. Esse mecanismo age automaticamente em con- dições normais e sempre se torna consciente em condições de divergência durante o desempenho da ação entre referências sensório-motoras. Já

é bem estabelecido na literatura que tanto os processos sensório-motores como a habilidade para preverás consequências de nossas próprias ações envolvem um modelo de ação baseado em cópias aferentes. Nesse sentido, sintomas como ilusões de controle ou inserções de pensamento observados nos pacientes esquizofrênicos sur- gem devido a uma deficiência no modelo de ação, e principalmente em razão da falta de consciência de certos aspectos do domínio motor.

CONSTANTE ATUALIZAÇÃO

Outra patologia que tem sido alvo de estudos e pesquisas envolvendo aspectos da integração sensório-motora é o Alzheimer. No caso especí- fico dessa doença a investigação do processo de integração tem sido focada na perda de certos tipos de memória, enquanto outros permane- cem relativamente intactos. Em fases iniciais, o paciente tem a memória explícita (consciente e imediata) altamente prejudicada, em contraste com estágios avançados, em que o dano atinge também a memória implícita (não consciente). A memória implícita é responsável por informações que são adquiridas pelas experiências nas quais há um primeiro contato com a nova informação (priming), por meio de condicionamentos (clás- sico ou operante), habituação ou procedimentos.

Dessa forma, uma espécie de "banco de dados" com tais vivências é construído e informações recentes são comparadas com anteriores. Para o sucesso nessa comparação é necessário que não haja disfunções nos mecanismos de integração sensório-motora. No caso do Alzheimer, já foi de- monstrado que na fase mais avançada da doença há perdas no mecanismo de retroalimentação, baseado em movimentos guiados por dicas visuais (feedback visual).

Esses mecanismos são baseados na integra- ção visuomotora e contribuem para melhorar a relação do indivíduo com o meio a sua volta. Isso porque a execução de movimentos simples, como se locomover e apanhar objetos, depende da atualização constante de informação sensorial, em especial a visual. Por exemplo, movimentos executados sem feedback visual mostram vieses direcionais sistemáticos que dependem da po- sição inicial da mão com respeito à linha média do corpo. Observar a mão antes do movimento é necessário para atualizar a representação interna do início do gesto no seu raio de ação e planejar a direção na qual será executado. Com isso em mente, um grupo do Instituto Científico San Raffaele, da Universidade de Milão, coordenado pela pesquisadora Maria Felice Ghilard, atual- mente na Universidade de Nova York, conduziu

uma pesquisa para investigar como déficits de memória em pacientes com Alzheimer interferem no planejamento e na execução de movimentos. Nove pacientes e nove voluntários do grupo de controle moveram um cursor em direção a alvos sem ver seus próprios membros. No início os alvos eram sempre visíveis em uma tela durante o movimento; já a posição do cursor às vezes era visível, outras vezes apagada. Os caminhos traçados pelos pacientes seguiram rotas descontí- nuas e o movimento foi prolongado e impreciso, aumentando sem ofeedbackv\sua\. Foi observada uma correlação significativa com valores de esca- las e aspectos como severidade da doença, me- mória de trabalho e atenção. Outra evidência de conflitos na integração sensório-motora vem de recentes resultados que demonstraram que a inte- ração entre informações oculares e do movimento manual pode ser prejudicada nesses pacientes.

NEURÔNIOS-ESPELHO

Da mesma forma que a esquizofrenia e a doença de Alzheimer, o autismo é um distúrbio com- plexo caracterizado por um marcado prejuízo no processo de integração sensório-motora. Entre seus sintomas estão o repertório restrito de atividades e interesses, movimento repetiti- vo e hipersensibilidade para certos sons. Uma interrupção no desenvolvimento neural parece comprometer a conectividade funcional que garante a capacidade para coordenar a produção de comportamentos complexos. Uma conexão anormal de regiões cerebrais poderia ter maior impacto na função do córtex de associação uni- modal porque sua contribuição para comporta- mentos adaptáveis depende muito da integração e interdependência de funções dos sistemas mais complexos e amplamente distribuídos do cérebro. Enquanto tal déficit do sistema neo- cortical poderia explicar prejuízos cognitivos, comportamentos adaptativos afetariam outros sistemas dependentes, tais como os que execu- tam transformações sensório-motoras. Essa integração compreende aspectos tanto neurofisiológicos quanto anatómicos que po- dem ser quantificados. Embora muitas teorias tentem explicar um ou mais desses prejuízos, próprios do autismo, são as hipóteses mais parcimoniosas que podem associar danos neuroanatômicos e funcionais aos múltiplos problemas de comportamento do espectro autista. Uma recente teoria sugere que a disfun- ção dos neurônios-espelho é responsável pelos déficits desses pacientes. Por definição, esse sistema espelho é composto de um grupo de neurónios encontrados no cérebro de animais e seres humanos que "disparam" quando o in- divíduo observa ação desempenhada por outro de sua espécie. Neurocientistas como Vilayanur S. Ramachandran, pesquisador do Centro para Cérebro e Cognição da Universidade da Califór- nia em San Diego, acreditam que esse sistema é bastante relevante nos processos de imitação, formação da linguagem e inserção na cultura. Atualmente, grande número de evidências indica a ligação entre a teoria e a disfunção no sistema de neurônios-espelho para os déficits

INFORMAÇÕES VINDAS de múltiplos canais sensoriais permitem desempenho adequado de qualquer tarefa, mesmo as mais simples como pegar um copo

IMITAÇÃO: células neurais encontradas no cérebro de animais e de seres humanos "disparam" quando o indivíduo observa ação realizada por outro de sua espécie; sistema é relevante para formação da linguagem e inserção na cultura

comportamentais no autismo. Estudos demons- traram que, durante a observação e execução de ações complexas, pacientes com a síndrome não puderam ativar os músculos por meio de retroali- mentação. Por exemplo, enquanto crianças sadias acessam regiões relacionadas à ação motora ligada à ingestão de alimentos (como pegar a comida), essa atividade não é observada em au- tistas, o que pode explicar por que eles têm tanta dificuldade em compreender intenções alheias.

Essas questões foram geradas por um estudo com ressonância magnética cerebral (RMf) que comparou a capacidade de imitar expressões faciais de emoção em sujeitos autistas em comparação a pessoas sadias. Foram observadas fortes evidências a favor de um déficit do mecanismo espelho em autistas, que mostravam ativação mais fraca no giro frontal inferior (GFI). Além disso, foi constatada atividade mais pronunciada em crianças com a síndrome em áreas motoras da face durante a tarefa de imitação. Por último, autistas demons- traram maior atividade nas regiões visual direita e parietais anteriores esquerdas, moduladas por estímulos visuais e atenção motora. Esses resultados sugerem que, embora ambos os gru- pos executassem a tarefa de imitação como lhes foi solicitado, o padrão de estratégias neurais

adotado pelos dois grupos de participantes do estudo foi bastante diferente. Os voluntários saudáveis dependem do espelhamento do mecanismo neural localizado no hemisfério direito, que interage com o sistema límbico pela ínsula de acordo com o significado da emoção que é proporcionada pela ação imitada. Aparentemente, esse mecanismo especular não está acessível em crianças autistas; elas adotam uma estratégia de atenção visual e motora alternativa aumentada, em especial, pela emoção não vivenciada.

Além disso, diferentemente de meninos e meninas com desenvolvimento normal, autistas tendem a não imitar outros sujeitos quando observam suas expressões faciais. Tal fato é possivelmente atribuído a uma deficiên- cia no mecanismo de neurônios-espelho em sobrepor os movimentos de outra pessoa. A percepção de uma ação feita por outro parece interromper o sistema motor de um obser- vador em desenvolvimento, em contraste com o que se dá com crianças com autismo. Esse achado sugere que nelas o sistema de neurônios-espelho esteja inativo durante a observação de ações e o entendimento ime- diato da experiência das intenções de outros esteja ausente.

iiiiimimmmiiiiiiimimiiiiiiiiimi

PAR A SABE R MAI S

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Coreografias

cerebrais

ESTUDO S

RECENTE S

CO M

US O

DE TÉCNICA S

DE

IMAGEAMENT O

DO

CÉREBR O

REVELA M

PROCESSO S

NEURAI S

COMPLEXO S

POR TRÁ S

DA

HABILIDAD E

DE

DANÇAR

p o r

O S AUTORE S

STEVEN BROWN é membro do NeuroArts Lab no Departamento de Psicologia, neurociência e comportamento da McMaster University, em Ontário, (Canadá). LAWRENCE M. PARSONS é professor do Departamento de Psicologia da Universidade de Sheffield, na Inglaterra.

^^•^ ^ ritmo parece algo tão natural que muitos acre- ditam ser automático ouvir música e marcar o compasso com os pés ou balançar o corpo, ^^t^r às vezes sem se dar conta de que estão se movimentando. Essa habilidade, porém, é uma novidade evolucionária entre os humanos e nada comparável acon- tece com qualquer outra espécie animal. Nosso dom para a sincronização inconsciente nos permite utilizar a confluência de movimentos, ritmo e representações gestuais - longe da prática coletiva mas sincronizados. Dançar exige um tipo de coordenação interpessoal no espaço e no tempo quase inexis- tente em outros contextos sociais. E, embora seja uma forma fundamental de expressão humana, por muito tempo recebeu pouca atenção dos neurocientistas. Entretanto, recentemente, pesquisadores realizaram os primeiros estudos com imagea- mento do cérebro de dançarinos amadores e profissionais.

Essas investigações esclarecem pontos intrigantes sobre a complicada coordenação mental necessária para executar até mesmo os passos aparentemente mais básicos. Os estudos começaram com a análise de movimentos isolados, como os

giros do tornozelo ou o tamborilar dos dedos. Esses trabalhos revelaram informações sobre como o cérebro coordena ações simples. Pular com um pé só exige consciência espacial e equilíbrio, além de intenção e sincronismo (habilidades liga- das ao sistema sensório-motor). O córtex parietal posterior - situado na parte de trás do cérebro - traduz informações visuais em comandos motores, enviando sinais para as regiões de planejamento do movimento no córtex pré-motor e na área motora suplementar. Essas instruções vão para o córtex motor primário, onde são gerados então impulsos neu- rais que viajam para a medula espinhal e para os músculos, provocando contrações (veja quadro na pág. 46). Ao mesmo tempo, os órgãos sensoriais nos músculos mandam uma resposta ao cérebro, dando a orientação exata do corpo no espaço por meio de nervos que passam pela medula espinhal até chegar ao córtex. Os circuitos subcor- ticais do cerebelo e dos gânglios de base também ajudam a atualizar os comandos motores com base na resposta sensorial e no ajuste de movimentos. O que permanece sem resposta é se esses mesmos mecanismos neurais

se ampliam para permitir que essas manobras sejam tão graciosas quanto uma pirueta, por exemplo. Para responder a essa questão, realizamos o primeiro estudo de imageamento cerebral dos movimentos da dança, em conjunto com nosso colega Michael J. Martinez, do Health Science Center da Universidade do Texas em San Antonio, usando dançarinos amadores de tango como voluntários. Escaneamos o cérebro de cinco homens e de cinco mulheres usando a tomografia por emissão de pósitrons, que registra as mudanças no fluxo sanguíneo cerebral seguidas por alte- rações na atividade cerebral. Os pesquisadores interpretam o aumento no fluxo sanguíneo em uma área específica como sinal de uma atividade maior entre os neurónios da região. Nossos voluntários permaneceram parados dentro da máquina de tomografia, com a cabeça imobilizada, mas movendo as pernas e deslizando os pés por uma superfície inclinada (veja quadro na pág. 47). Primeiro, pedimos que fizessem o passo quadrado, derivado do passo básico do tango argentino cha- mado salida, sincronizando seus movimentos no ritmo das músicas que ouviam por fones. Em seguida, escaneamos o

Áreas responsáveis

pel o

moviment o

O planejamento

 

r

'

do movimento

(al lado) ocorre

no

lobo frontal,

onde o córtex pré-frontal na superfície exter-

na (não visível) e a área motora suplementar analisam os sinais (setas) que chegam de outras partes ao

A

+

Córtex motor

Area motora

 

primário

Lobo

suplementar

—\

parietal

Lob

o

frontal

 

Lobo

temporal

cérebro, indicando essa in-

Medula

espinhal

occipital

formação como uma posição no espaço e como lembranças de ações passadas. Em seguida, essas duas áreas se comunicam Músculos com o córtex motor primário, que determina quais músculos precisam se contrair, e com qual intensidade, e envia as instruções pela medula espinhal até os músculos.

Cânglio de base
Cânglio
de base

Tálamo

O ajuste fino (acima)

ocorre, em parte, à medida que os

músculos devolvem os sinais para o cérebro. O cerebelo usa essa resposta muscular para ajudar a manter o equilíbrio e para aprimorar os movimentos. Além disso, o gânglio de base reúne

informações sensoriais das regiões corticais e as transmite por meio do tálamo até áreas motoras do córtex.

cérebro dos dançarinos enquanto flexionavam os músculos das pernas no ritmo da música, sem de fato moverem esses membros. Ao subtrair a atividade cerebral obtida por essa simples flexão daquela registrada enquanto "dançavam", focamos nossa atenção em áreas cerebrais vitais para direcionar as pernas pelo espaço, gerando padrões específicos de movimento. Como era esperado, essa comparação eli- minou muitas das áreas motoras básicas do cérebro. Uma área utilizada foi a parte do lobo parietal que contribui para percepção e orienta- ção espacial. Na dança, a cognição espacial é, pri- meiro, cinestésica: sentimos o posicionamento do tronco e membros o tempo todo, mesmo com os olhos fechados, graças aos órgãos sensoriais dos músculos. Eles graduam a rotação de cada junta e a tensão dos músculos e retransmitem essas informações para o cérebro, que cria uma representação articulada do corpo como respos- ta. Mais especificamente, identificamos ativação no precuneus, região do lobo parietal muito pró- xima de onde fica a representação cinestésica das pernas. Acreditamos que o precuneus contenha um "mapa" cinestésico que permite uma cons- ciência do posicionamento do corpo no espaço enquanto as pessoas se movem à sua volta. Não importa se alguém está dançando uma valsa ou andando em linha reta: o precuneus ajuda a traçar seu caminho e assim o faz a partir de uma perspectiva centrada no corpo.

Em seguida, comparamos as tomografias realizadas durante a dança com aquelas feitas enquanto nossos voluntários faziam os passos do tango sem música. Ao eliminar as imagens das regiões do cérebro em comum ativadas pelas ações, esperávamos identificar áreas críticas para a sincronização dos movimentos com a música. Novamente, essa subtração removeu praticamente todas as áreas motoras do cérebro. A diferença principal estava na parte do cerebelo que recebe informações da medula espinhal. Embora ambas as condições tenham ativado essa área - o vérmis anterior- os passos de dança sincronizados com a música geraram significativamente mais fluxo de sangue no local que a dança autorritmada. Embora preliminares, nossos resultados nos levam a crer na hipótese de que essa parte do cerebelo atua como um tipo de maestro, monitorando as informações em várias regiões

do cérebro. O cerebelo como um todo atende a todos os critérios para um bom metrônomo neural: recebe uma ampla gama de informações sensoriais dos sistemas corticais auditivo, visual e somatossensório - uma capacidade necessária para sincronizar movimentos a diversos estímu- los, desde sons até flashes luminosos e toques; e contém representações sensório-motoras para o corpo inteiro. Inesperadamente, nossa segunda análise tam- bém elucida a tendência dos humanos de mover os pés inconscientemente ao ritmo de uma mú- sica. Ao comparar as imagens dos movimentos sincronizados com o som às dos movimentos auto-ritmados, descobrimos que uma parte in- ferior da via auditiva, uma estrutura subcortical chamada núcleo geniculado medial - MGN, na sigla em inglês -, era ativada apenas durante a primeira ação. No início, partimos do pressuposto de que esse resultado refletia meramente a pre- sença de um estímulo auditivo - isto é, a música - na situação sincronizada, mas outro conjunto de imagens de controle excluiu essa interpretação:

quando nossos voluntários escutavam música mas não moviam as pernas, não detectamos mudança no fluxo sanguíneo do MGN. Assim, concluímos que a atividade do núcleo

refere-se especificamente à sincronização e não apenas ao ato de ouvir. Essa descoberta nos levou a admitir a hipótese de que o sincronismo incons- ciente ocorra quando uma mensagem auditiva neural se projeta diretamente nos circuitos auditi- vos e de ritmo presente no cerebelo, desviando-se de áreas auditivas superiores no córtex cerebral. Outras partes do cérebro são ativadas quan- do observamos e aprendemos passos de dança. Os pesquisadores Beatriz Calvo-Merino e Patrick Haggard, da Universidade College London, e seus colegas pesquisaram se áreas cerebrais específicas se tornavam ativas preferencial- mente quando as pessoas observavam passos que já dominavam. Ou seja, será possível que existam áreas cerebrais que se ativam quando bailarinos assistem a uma apresentação de balé, mas não, por exemplo, quando assistem a uma apresentação de capoeira? Para desvendar esse mistério, a equipe fez ressonâncias magnéticas funcionais de dançarinos, capoeiristas e não praticantes à medida que observavam vídeos de três segundos de movimentos de balé e capoei- ra, sem áudio. Os pesquisadores descobriram que a experiência dos observadores tinha grande influência no córtex pré-motor: a atividade no local aumentou apenas quando os voluntários

O sofisticado deslocamento dos pés

Para identificar as áreas do cérebro impor-

tantes para a dança, os autores analisaram dançarinos amadores de tango com a ajuda de um tomógrafo PET. A cabeça dos dançarinos permaneceu imóvel no apare- lho, e suas pernas sobre uma superfície inclinada, enquanto ouviam a música em

fones de ouvido

(foto).

A máquina escaneou o cérebro em duas condições: quando os dançarinos flexio- navam os músculos da perna no ritmo da música, sem mover os membros, e quando executavam um passo básico de tango (des- taque) e no ritmo da música. Quando foi retirada a atividade cerebral provocada pela contração muscular (imagem superior) das obtidas durante o passo restou "acesa" só uma parte do lobo parietal conhecida como precuneus (imagem inferior).

observavam as danças que eles mesmos sabiam executar. Outro trabalho oferece uma explicação provável. Os cientistas descobriram que, quan- do as pessoas observam ações simples, áreas do córtex pré-motor envolvidas na realização dessas ações se ativam, o que sugere que nós mentalmente ensaiamos o que vemos - uma prática que pode nos ajudar a aprender e enten- der novos movimentos. Os pesquisadores estão avaliando até que ponto os humanos dependem de circuitos de imitação desse tipo. Em um trabalho posterior, Beatriz compa- rou o cérebro de bailarinos de ambos os sexos enquanto observavam vídeos de dançarinos ho- mens e mulheres praticando passos específicos para cada género. Novamente, os níveis mais altos de atividade no córtex pré-motor eram dos

O que acontece no cérebro

REGIÕES NEUROLÓGICA S

ESPECÍFICAS

NO S

PERMITEM

EXECUTAR

SEQUÊNCIA S

EMBALADAS

PELA

MÚSICA

VÉRMIS

ANTERIOR

Esta parte do cerebelo recebe informações da medula espinhal e aparentemente age como se fosse um me- trônomo, ajudando a sincronizar os passos de dança à música.

NÚCLE O GENICULADO

MEDIAL

Núcleo

geniculado

medial

recuneus

Vérmis

anterior

Uma interrupção ao longo da via auditiva inferior, esta área aparentemente ajuda a configurar o metrônomo do cérebro e é responsá- vel por nossa tendência para tamborilar os dedos inconscientemente ou balançar o corpo ao ritmo de uma música. Reagimos inconscientemente, pois a região está conectada ao cerebelo, comunicando informações sobre o ritmo sem "falar" com as áreas auditivas superiores no córtex.

PRECUNEU S

Por conter um mapa baseado nos estímulos sensoriais do próprio corpo, o precuneus ajuda a identificar o traje- to de um dançarino a partir de uma perspectiva voltada para o corpo, ou egocêntrica.

homens que observavam movimentos apenas masculinos, e de mulheres que observavam gestos só femininos. Na verdade, a capacidade de ensaiar um movimento na mente é vital para as habilidades de aprendizado motor. Emily S. Cross, ScottT. Grafton e seus colegas do Dartmouth College avaliaram se os circuitos de imitação no cérebro aumentam sua atividade à medida que ocorre o aprendizado. Por várias semanas, a equipe realizou ressonâncias magnéticas funcionais de dançarinos à medida que aprendiam uma se- quência complexa de dança moderna. Durante o exame de imageamento, os voluntários ob- servavam vídeos de cinco segundos que mos- travam algum movimento que já dominavam ou outros passos diferentes, não relacionados ao contexto. Após cada clipe, os voluntários classificavam sua capacidade de executar satis- fatoriamente os movimentos que observaram. Os resultados confirmaram a hipótese de Calvo- Merino e de seus colegas. A atividade no córtex pré-motor aumentou durante o treinamento e, de fato, correspondia às avaliações dos vo- luntários sobre sua capacidade de realizar um segmento de dança observado. Conclusão: aprender uma sequência motora complexa ativa, além de um sistema motor direto para o controle das contrações dos músculos, um sistema de planejamento motor que contém informações sobre a capacidade do corpo de realizar um movimento específico.

CONTANDO HISTÓRIAS

Quanto mais experiente a pessoa se torna em determinado padrão motor, melhor consegue imaginar qual a sensação de executá-lo, e, as- sim, fica mais fácil realizá-lo. Entretanto, como nossa pesquisa demonstra, a capacidade de simular uma sequência de dança - ou fazer um saque no ténis - não é uma atividade sim- plesmente visual, também é cinestésica. Aliás, a verdadeira aptidão exige, de certo modo, a criação de uma imagem motora nas áreas de planejamento do movimento do cérebro. Afinal, por que as pessoas dançam? Certa- mente a música e a dança estão intimamente relacionadas. Em muitos casos, a dança gera som. Os danzantes (ou "dançarinos") astecas da Cidade do México vestem polainas borda- das com sementes da árvore chachayotes, que

emitem um som a cada passo. Em muitas outras culturas, as pessoas usam objetos

que produzem sons -

de metal na sola dos

sapatos a castanholas e guizos - no corpo e

nas roupas enquanto dançam. Além disso, os dançarinos frequentemente batem palmas e estalam os dedos. Como resultado, estabele- cemos a hipótese da "percussão do corpo", segundo a qual a dança evoluiu inicialmente como um fenómeno sonoro. Entretanto, diferentemente da música, a dança é usada para representar e imitar gestos, o que sugere que também possa ter atuado como forma primitiva de linguagem. É interessante observar que durante a execução dos movimentos, em nosso estudo, identifi- camos ativação em uma região do hemisfé- rio direito correspondente à área de Broca (associada à produção da fala), localizada no hemisfério esquerdo. Nos últimos anos, pesquisas revelaram que essa região também tem uma representação das mãos. A desco- berta reforça a teoria gestual da evolução da linguagem. Seus defensores argumentam que a linguagem evoluiu inicialmente como um sistema de sinais antes de se tornar vocal. Nosso estudo está entre os primeiros a de- monstrar que o movimento das pernas ativa a área do hemisfério direito correspondente

à área de Broca, o que dá mais sustentação à ideia de que a dança se inicia como uma forma de comunicação representativa. O pesquisador Marco lacoboni, da Univer- sidade da Califórnia em Los Angeles, e seus colegas realizaram estudo no qual aplicaram estímulo magnético no cérebro para interrom- per o funcionamento da área de Broca ou de sua homóloga. Em ambos os casos, os voluntários foram menos capazes de imitar os movimentos dos dedos com a mão direita. O grupo concluiu que essas áreas são essenciais para a imitação, um ingrediente-chave para o aprendizado e para a difusão da cultura.

Também temos outra hipótese. Embora nosso estudo não envolva exatamente movi- mentos imitados, tanto dançartango quanto imitar movimentos com os dedos exige que o cérebro ordene séries de ações interdepen- dentes. Da mesma forma que a área de Broca nos ajuda a combinar corretamente palavras e frases, sua homóloga pode servir para po- sicionar unidades de ações em sequências contínuas. Essa interação permite que as pessoas não só contem histórias usando o corpo como também façam isso ao mesmo

tempo que sincronizam seus movimentos com os de outros, de maneira a estimular a

coesão social.

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c

mimiimimHiiiummmmmiimi i

PAR A

SABE R

MAI S

A músic a por uma óptica neurocientífica. Viviane Rocha e Paulo Sérgio Boggio, http:// ref.scielo.org/zrt7mx. 2012

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Linguagens

do

corpo

POR

MUIT O TEMP O

OS CESTO S

FORA M

MENOSPREZADO S

PELO S

ESTUDIOSOS ,

MAS

HOJ E

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Ipke

Wachsmut h

  • M ovimento, atitude e postura sempre comuni- cam alguma mensagem. O corpo se expressa quando estamos em pé ou sentados, se fala- mos ou simplesmente ouvimos. E poucas ve-

O AUTOR

IPKE WACHSMUT H é professor

do curso de inteligência artificial da Universidade de Bielefeld.

zes mente. Diferentemente da fala, a linguagem involuntária do corpo não recorre à ironia ou à dissimulação. Transmite a verdade nua e crua por meio de sinais que revelam pistas e impressões sobre personalidade e desejos. Um movimento feminino comum, que pode pôr intenções à mostra, é jogar os cabelos para trás. Homens fazem esse gesto mais rara- mente. Na maioria das vezes ocorre de forma involuntária e justamente por isso é tão revelador: se a mulher sorri - e principalmente se inclina ligeiramente a cabeça -, sinaliza interesse pelo interlocutor. Como mostrou o etologista Karl Grammer, do Instituto Ludwig Boltzmann de Etologia Ur- bana, na Áustria, caso se mantenha séria, as chances de o parceiro estabelecer um relacionamento amoroso com ela provavelmente não são boas.

Atualmente, muitos pesquisadores consideram que tais movimentos físicos, especialmente gestos, são mais que meros acessórios para a comunicação. Ainda assim, são pouco investigados. Desde os anos 90, graças a diversos tra- balhos como o do psicolinguista americano David McNeill, da Universidade de Chicago, muitos estudos mostraram como o corpo influencia, enfatiza, atenua ou até mesmo veta decisivamente aquilo que alguém quer transmitir com palavras. Para o pesquisador, "os gestos são janelas do pensamento". Segundo McNeill, gestualidade e fala compõem uma unidade inseparável e têm por base um processo cognitivo. Ele recorre a um exemplo do cotidiano para embasar sua hipótese: a maioria das pessoas tem muita dificuldade para se comunicar por longo tempo sem recorrer às mãos. Quando explicamos algo, a ação aparece, na maioria das vezes, acompanhando a linguagem verbalizada. "É possível transmitir com gestos informações para as quais fracassa

a linguagem sonora", diz a pesquisadora gestual Cornelia Muller, da Universidade Europeia Viadrina de Frankfurt (veja entrevista na pág. 53). Com as mãos descrevemos relações espaciais complexas, percursos ou formas. Podemos de- senhar no ar mapas inteiros ou esquematizar com gestos um passeio a um jardim zoológico, por exemplo, evocando tais mapas: "À direita, mais atrás, estão os macacos, e à esquerda, à frente, as zebras". Quem não gesticula tira de si mesmo um importante canal de informação. A relação inequívoca entre gesto e fala é corroborada tam- bém por pesquisas acerca dos distúrbios da comunicação. A gestualidade que acompanha a linguagem verbal não é prejudicada apenas por lesões cerebrais que paralisam mem- bros. Essa forma de comunicação pode ser comprometida nos casos de afasias (perda da capacidade de falar ou de compreender o que é dito). Portanto, a linguagem gestual é claramente controlada igualmente por áreas cerebrais responsáveis pela fala.

Nosso cérebro estranha quando ouvimos a

frase:

"Ele

passou meias

no

pão"; é

como se tivéssemos perdido uma

parte da

narrativa

Sons e movimentos aparecem interliga- dos não só quando se deseja transmitir uma mensagem, mas no momento de captar o que o outro tenta comunicar. Os neurocientistas Spencer Kelly, Corinne Kravitz e Michael Ho- pkins, da Universidade Colgate, em Hamilton, Nova York, mostraram que gesto e palavra são interpretados simultaneamente pelo cérebro. Além disso, eles encontraram confirmações de que o ouvinte compreende imediatamen- te a linguagem do corpo de seu interlocutor, mesmo que nem sempre essa percepção seja consciente. Por muito tempo, porém, isso pôde ser mostrado apenas indiretamente, quando participantes voluntários de estudos eram interrogados sobre as informações apre- endidas de uma manifestação gestual.

MUIT O

MAI S

QUE

U M

ACENO

O grupo da Colgate examinou a contribuição semântica de gestos com a ajuda de potenciais relacionados a eventos (ERP, da sigla em in- glês) - respostas eletrofisiológicas específicas a estímulos internos ou externos. Esses sinais coordenam etapas de processamento neural

CRIANÇAS APRENDEM A APONTAR OBJETOS com um único dedo depois do primeiro ano de vida

em determinadas regiões do cérebro, o que pode ser visto no traçado eletroencefalográfico (EEG). Após aproximadamente 400 milésimos de segundo aparece oscilação máxima nega- tiva, chamada também N400. O fenómeno ocorre, por exemplo, quando ouvimos uma frase como "Ele passou meias no pão" - e tropeçamos na palavra "meia", um estímulo inadequado e inesperado no contexto. No experimento, voluntários assistiram a um vídeo com situações típicas de conversa:

um ator dizia uma palavra e indicava, ao mes- mo tempo, qualidades de um objeto com um gesto. O movimento de mão podia se adequar semanticamente ao que era dito quando, por exemplo, a palavra "grande" era expressa e indicava a dimensão de uma vidraça. Em outra situação o gesto fornecia informações adicio- nais, que nem sempre pareciam combinar de imediato com o primeiro dado apresentado; para "grande" os dedos faziam movimento que significava "fino". Outra cena contra- ditória ligava a palavra "grande" a um sinal correspondente a "pequeno". Às vezes, o ator não gesticulava, usava apenas palavras para transmitir o conceito. De cada situação resultaram diferentes "respostas" noeletroencefalograma (EEG): nas contradições semânticas entre fala e gesto os pesquisadores constataram fortes estímulos negativos, ou seja, um efeito N400. De onde o grupo concluiu que o significado do movimento é incluído na interpretação da palavra. O resultado é apoiado pelo fato de que os ERPs em situação de controle não apontam negatividade comparável. No processamento precoce as curvas do traçado também se di- ferenciam se o movimento de mão combina com a palavra, se a complementa ou até mes- mo se a contradiz. "Gestos não são simples- mente um aceno insignificante, seu conteúdo

mimmmimiiimimimiimimimmiimmimimiiii H

Braços ,

ombros

,

cotovelos

..

.

A linguista Cornelia Muller, professora da Universidade Europeia Viadrina de Frankfurt, é cofundadora da revista internacional Gesture e do Centro Berlinense de Pesquisa do Gesto. Ela pesquisa como nos comunicamos por meio de movimentos e, na entrevista a seguir, questiona alguns preconceitos.

Mente e Cérebro: Europeus do sul (italia- nos, por exemplo) gesticulam realmente mais que pessoas de outras regiões? Cornelia Muller É opinião comum, mas empiricamente não está provada. Numa pesquisa comparativa entre espanhóis e ale- mães não pude constatar que os germânicos utilizam menos gestos. Mas é inegável que gesticulam de outra forma, partindo do pulso. Espanhóis usam ombros e cotovelos mais frequentemente, isto é, seus movimentos são mais amplos e visíveis. Isso pode despertar a impressão de que eles usam os gestos com maior frequência.

MeC:

Por que a pesquisa dos gestos foi

negligenciada por tanto tempo? Cornelia: Nos anos 70 muitos pesquisado- res tinham a convicção de que a linguagem do corpo e a mímica só têm a ver com emoções e com as relações que as pessoas constroem entre si. No plano semântico, a comunicação verbal parecia ser a única responsável pelos significados. Por isso muitos linguistas e psi- cólogos não perceberam que os gestos podem mais que expressar apenas sentimentos.

MeC: O que os gestos podem transmitir e as palavras não?

Cornelia: Um único gesto pode transmi- tir muitas informações ao mesmo tempo. A linguagem sonora precisa ordenar mais palavras. Se estendo minha mão com a pal- ma da mão para cima, posso transmitir a mensagem: "Isto está claro para você?". Um movimento breve pode significar duração, então enfatizo um período de tempo e não um momento isolado. MeC: Gestos, portanto, não são res- ponsáveis pela empatia? Cornelia: Certo. É um equívoco atribuir a uma pessoa um "emocionalismo" exa- cerbado só porque ela gesticula muito. MeC: Mas em treinamentos para ora- dores é comum que se tente atenuar o hábito que a pessoa tem de gesticular. Cornelia: Desde o retórico romano Quin- tiliano a gesticulação excessiva é vista como expressão de um fraco domínio da linguagem falada. Muitos concluem que quanto menos gestos, melhor; IVIas os oradores profissio- nais sempre souberam quão poderoso pode ser um movimento bem colocado. É muito mais inteligente usar a linguagem do corpo como canal adicional de informação do que reprimi-la com palavras.

semântico contribui para o processamento de significados de palavras", diz Kelly. É possível fazer algumas suposições a respeito da origem dessa estreita conexão entre gesto e fala. A base dessa ligação reside possivelmente nas origens da própria aqui- sição da linguagem verbal, já que primatas possuem um rico repertório de gestos. Filho- tes de chimpanzé, por exemplo, se dirigem à mãe com um sinal típico, estendendo-lhe a mão aberta. Estudiosos acreditam que, no homem, o gesto pode ter precedido a fala. O pesquisador Uwe Jurgens, coordenador do departamento

de neurobiologia do Centro Alemão de Prima- tas, em Gõttingen, compartilha com alguns colegas a opinião de que o homem desenvolve primeiramente "gestos vocais", ou seja, sons pouco sofisticados, empregados de forma similar a movimentos de mão ou a caretas, como unidades significantes simples. Um desenvolvimento comum da comuni- cação sonora e gestual pode ser observado nas crianças. Entre 9 e 12 meses o bebé usa gestos. Por volta de 1 ano, estende a mão aberta com todos os dedos - como os chimpanzés quando pedem comida - em direção ao objeto deseja- do. Em torno do 1 I o mês as meninas - e um

pouco mais tarde os meninos - iniciam um processo de amadurecimento neural por meio do qual são capazes de estender a mão não mais com todos os dedos, mas apenas um. O gesto de alcançar o "objeto do desejo" com as mãos estendidas passa a ser a expressão clara da intenção de se dirigir a outra pessoa -- e não necessariamente de pedir água, alimento ou brinquedo. A primeira ordenação de símbolos da fala começa no homem com gestos de apon- tar algo ("aqui", "au-au", "quer"), embora muitas vezes fracasse a clara articulação da palavra. Entre 9 e 14 meses desenvolve-se um vocabulário diferenciado, e o controle motor dos dedos torna-se mais preciso, mas a pala- vra falada ainda sucede o gesto. Por volta dos 17 meses, paralelamente ao desenvolvimento do repertório de palavras, surgem finalmente combinações sincronizadas de movimentos e verbalizações. Com a ação de mostrar co- meça o desenvolvimento de uma expressão estreitamente relacionada à fala. Essa forma

nos possibilita, mais tarde, "representar" com braços e mãos o formato de objetos e sua posição no espaço, descrições compli- cadas de caminhos e até mesmo o abstrato e o metafórico. Uma vez amadurecida essa capacidade, os gestos que acompanham as palavras oferecem aos pesquisadores a possibilidade de observar as pessoas enquanto pensam e falam. No estudo de Cornelia Muller, uma voluntária diz: "Nós nos ouriçamos bem em nossa relação", formando uma bola com as duas mãos. Ela representou mentalmente algo esférico, referindo-se a uma forma simi- lar à do ouriço-algo que a linguagem sonora não revela imediatamente. Como há muitas variações desses gestos acompanhantes da fala, David McNeill, em seu influente livro Hand and mind: what ges- tures reveal about thought, (Mão e mente: o que gestos revelam sobre pensamentos-), de 1992, distinguiu quatro tipos básicos de ges- to: dícticos, icônicos, metafóricos e "beats". É fácil reconhecer esses últimos movimentos ao observar políticos nas campanhas eleito- rais. E, em geral, aparecem estreitamente ligados ao ritmo da fala; golpes de braço ou batida de mãos conferem uma estrutura temporal ao que é dito e enfatizam a "força combativa" do argumento, independente- mente do conteúdo expressado.

FILHOTES DE CHIMPANZÉ dirigem as mãos para a mãe em busca de alimento e atenção

CHAPA

QUENT E

Gestos dícticos acompanham palavras como "aqui", "lá" ou "isto", e também "eu" e "você". Por meio deles mostra-se algo concreto "este pãozinho"-ou abstrato ("nessecaso"). Quem diz "eu" frequentemente aponta a mão leve- mente aberta para o próprio peito. Quando faz o mesmo movimento - sem que a palavra "eu" seja pronunciada -, supõe-se também que a pessoa se refere a si mesma. Gestos icônicos expressam represen- tações figuradas, referências espaciais ou acontecimentos . Surgem, por exemplo, quando alguém conta: "Marina tirou a sujei- ra da sala" - e, simultaneamente, gesticula como se movimentasse uma vassoura ima- ginária. O gesto pode oferecer informações complementares, representando mais de- talhadamente como o lixo foi recolhido do

AÇÃO DE MOSTRA R está ligada ao desenvolvimento da linguagem verbal

chão - e até se foi varrido pela esquerda ou pela direita. Já os gestos metafóricos se parecem exteriormente com os icônicos (como o que acompanhou a palavra "ouriçar", no exemplo anterior), mas se referem a expressões abs-

tratas. Quando se diz "outro tema

...

",

muitas

vezes um objeto invisível é delimitado com as mãos semiabertas. Nesses casos, a ideia se torna "palpável" à medida que a pessoa

se refere espacialmente a ela. E se continua

a dizer: "

primeiramente, vamos colocá-lo

... de lado", o tema exposto é realmente "em-

purrado" para o lado com um movimento das mãos.

Tanto os gestos icônicos quanto os meta- fóricos podem ter significados convencionais. Pense na mão que limpa o suor imaginário da testa com a lateral do dedo indicador: "Como foi cansativo!". A maior parte das pessoas do nosso círculo cultural compreende a mímica. Tomando por base o cotidiano na cidade de Berlim, o especialista em semiologia Roland Posner coordenou a organização do Léxico berlinense dos gestos. Ele procurou mostrar que é possível reconstituir a origem dos gestos. O pesquisador cita um exemplo:

balançamos a mão como se estivéssemos nos queimado numa chapa do fogão, pro- curando resfriá-la com o ar, para transmitir a mensagem de que estamos lidando com um assunto delicado, que quase deu errado. Com isso utiliza-se metaforicamente um mo- vimento que se origina do contexto cotidiano, a cozinha. Os gestos convencionais funciona sem que se utilizem palavras. Assim como o colega David McNeill, Adam Kendom, da Universidade da Pen- silvânia, já supunha no início dos anos 80 que os dois poderiam surgir das mesmas ideias. De acordo com Kendom, movimentos que acompanham a verbalização são feitos poucos segundos antes ou no máximo ao mesmo tempo em que uma palavra ou frase de referência é pronunciada - como bater com a ponta do dedo na testa para fazer alu- são a uma ideia original. Se o lixo é varrido ou um tema é deixado de lado, também são oferecidas simultaneamente às indicações verbais e visuais. Segundo a teoria formulada por McNeill, existe uma fonte mental única responsável pela produção de fala e gesto. A mistura de símbolos pré-verbais e as representações

Uma ideia só se toma "palpável" à medida que nos referimos a ela de forma espacial

O corpo

influencia,

enfatiza, atenua ou até mesmo veta o que queremos transmitir

com

as

palavras

imagéticas compõem o ponto de partida para que a ideia seja expressa. Para o pes- quisador, haveria uma espécie de "grão" do qual se desenvolvem palavras ou frases, por um lado, e movimentos significativos de mão, por outro. As famílias linguísticas se distinguem na forma como dividem determinados compo- nentes semânticos sonoros e gestuais. Nas línguas de origem latina, como português e espanhol, o movimento indica a ação. Na frase "ele escala a montanha", o gesto geral- mente mostra o ato de escalar. Nas línguas germânicas, como alemão e inglês, as mãos são mais usadas para designar o substantivo - nesse caso, a palavra "montanha".

PENSAMENT O CHEGA

ANTES

"As línguas se diferenciam claramente em relação às unidades de informação de fala e gesto", diz David McNeill. A pesquisadora que estudou a assimilação de uma segunda língua, utiliza essa observação para constatar se um espanhol que aprende inglês passa também a pensar com base no segundo idioma. Enquan- to o aluno enfatiza com gesto palavra inglesa climb (escalar), internamente ainda a traduz do espanhol para o inglês. Se o movimento aparece na preposição through (através), isso

faz supor que a transição para o pensamento em inglês já se realizou. O estreito entrelaçamento de língua, pensa- mento e gesto chamou a atenção de pesquisa- dores que há muito tempo só se preocupavam com a produção sonora da língua. Um modelo importante nessa área foi apresentado porWil- lem Levelt, do Instituto Max Planckde Psicolin- guística, em Nijmegen, Holanda. Segundo ele, o cérebro elabora a linguagem em três níveis. Num primeiro momento, o que será dito é organizado como informação puramente pré- -linguística (conceito ainda sem formulação). No passo seguinte, num desdobramento do processo interno, que ocorre em frações de segundo, são encontradas palavras e formadas frases para designar o que se pretende expres- sar. Só na terceira fase é acionado o aparelho de articulação que produz, através dos pulmões e cordas vocais, a fala. Jan-Peterde Ruiter, aluno de Levelt, estudou o modelo e encaixou nele os gestos. Ele supõe que no primeiro nível (conceitualizador) já surge uma etapa preliminar imagética para gestos: o cérebro "desenha" rascunhos de mo- vimentos. No segundo passo o esboço torna-se um projeto de como gesticular, que no terceiro momento é repassado aos programas motores. Estes levam mãos e braços a agir.

POLÍTICOS costumam marcar o ritmo do discurso com golpes de braços ou de mãos, nas fotos: (A) Shinzo Abe (Japão); (B) Barack Obama (Estados Unidos); (C) David Cameron (Reino Unido); (D) Dilma Rousseff (Brasil); (E) Angela Merkel (Alemanha); (F) Cristina Kirchner (Argentina); (G) Mariano Rajoy (Espanha)

ITALIANOS E ESPANHÓI S tendem a fazer gestos amplos, com ombros e cotovelos

Com tal modelo seria possível explicar por que os gestos muitas vezes se manifes-

tam antes da fala correspondente. Para uma expressão como "o martelo usado para bater o prego na parede", o movimento de mão poderia descrever primeiro a ferramenta ou

o prego

e depois a ação de pregar, ou os dois

concomitantemente. Mas não existe uma ex-

pressão corporal para "martelo-para-colocar- prego-na-parede".

ROBÔ VIRTUAL

De Ruiter pesquisou mais detalhadamente a su- posta relação de fala e gesto por meio de ações indicativas ("isto aqui!"). Ele anotou diálogos em que se contavam histórias e confirmou que certamente a fala se adapta ao gesto, mas que também o contrário ocorre. O pesquisador observou que um "percurso de gesto" muito longo - como quando alguém aponta para um ponto muito alto - provoca o adiamento da fala paralela correspondente a ele. A adequação no sentido inverso, do gesto à fala, fica mais clara quando uma pessoa testada se engana e titubeia. Nesse caso, o movimento já preparado parece "esperar" até que a fala flua novamente. Quem realmente quer entender a comuni- cação falada precisa investigar como o corpo

se expressa. Por isso os estudiosos de robó- tica se interessam pela expressão não verbal, pois querem construir parceiros que pareçam verdadeiros para as pessoas. A ideia do Léxico berlinense dos gestos surgiu quando técnicos em informática da Universidade Técnica de Berlim perguntaram a Roland Posnercomo as pessoas gesticulam - a fim de ensinar essa arte aos seres artificiais.

Nosso grupo de trabalho na Universidade de Bielefeld criou Max, um robô virtual que entende e produz gestos que acompanham palavras. Ele sabe olhar para uma pessoa que aponta para um objeto virtual e lhe diz: "Monte o componente ali atrás". Quem se comunica com Max pode fazê-lo de forma natural. E aqui também se vê como a linguagem do corpo é prática e óbvia. Com sua ajuda, evitam-se equívocos: quando digo "esquerda" a Max, para facilitar posso apontar para a direção à qual me refiro, partindo do meu ponto de vis- ta. O robô entende de imediato a mensagem. Ou seja, funciona de modo tão multimodal quanto nós, ao interpretar ou produzir frases e gestos ao mesmo tempo. Isto simplifica a comunicação enormemente. De qualquer forma, ainda vai demorar para mandarmos Max paquerar no bistrô. m c

11f iIi!f f i f i1111 i11111i i!! 1111!!111 i f 111i 11 f I

PAR A SABE R MAI S

A

linguage m

do

corpo .

David Cohen . Vozes .

2009

O corpo fala - A linguagem silenciosa da comunicação não-verbal. Rolan d Tom - pakow e Pierre Weil. Vozes .

2009.

Comunicaçã o não-verbal

na interação humana. Mark

  • L. Knapp e judith A. Hall .

JSN , 1999.

Mímica facial

PRESTAR ATENÇÃ O

NA ALTERAÇÃ O

DE

EXPRESSÕE S

E NAS VARIAÇÕE S

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O AUTOR

HARALD C. TRAUE é psicólogo e doutor em biologia humana, diretor da Seção de Psicologia Médica do Hospital Universitário de Ulm.

^0*^^ uando quero descobrir se uma pessoa é inteligen-

m

^

te ou tola, boa ou má, ou o que está pensando

^ •J f naquele momento, procuro imitar sua expressão ^^•^ ^ facial. Aguardo os pensamentos ou sentimentos que combinam e, inevitavelmente, surgem quando imito sua fisionomia", escreveu Edgar Allan Poe (1809-1849). Para o escritor de histórias de suspense e mistério, essa postura parecia muito simples: seu herói Auguste Dupin, de A carta roubada, por exemplo, precisava apenas estudar a face de al- guém para desvendar o que lhe passava pela cabeça. De fato, frequentemente os traços faciais de alguém podem oferecer inúmeras pistas sobre estados de humor - e até a respeito de características de personalidade. Na maioria das vezes, emoções fundamentais como alegria, medo ou raiva podem ser interpretadas sem grande dificuldade.

uma junção da palavra grega prosopon (face) e agnosia (não reconhecimento). Pessoas com esse problema em geral enxergam bem, mas não conseguem reter detalhes das feições na memória ou identificar peculiaridades das variações de expressão.

A visão de um rosto tomado pelo ódio é um aviso para que o observador se afaste; nariz torcido diante de um alimento indica que consumi-lo pode ser arriscado

PARA A

PSICOLOGI A EVOLUTIVA, exprimir alegria,

tristeza, raiva, nojo, medo e surpresa contribuiu para a preservação da espécie

Charles Darwin (1809-1882) tinha grande co- nhecimento sobre o significado da mímica como forma de comunicação. Em livro publicado em 1872, A expressão das emoções no homem e nos animais, lançado no Brasil pela Companhia das Letras, o criador da teoria da evolução interpretou as mensagens emocionais emitidas por seres humanos e animais como um comportamento que auxiliava a sobrevivência. Segundo Darwin, quem interpreta corretamente os sentimentos de seus pares consegue antecipar as intenções alheias e, assim, reagir de forma adequada em cada situação. O indivíduo percebe o momento mais adequado para se afastar ou se aproximar. A visão de um rosto distorcido pelo ódio, por exemplo, sugere uma retirada discreta; nariz tor- cido e expressão de nojo diante de um alimento sugerem que insistir em consumi-lo pode não ser uma boa ideia. Nem todos, porém, têm habilidade em identificar com facilidade os variados sinais emocionais enviados pelo rosto de outras pes- soas. Em situações extremas essa incapacidade pode ser caracterizada como um distúrbio raro denominado prosopagnosia, uma espécie de "cegueira para feições", causada geneticamente ou por lesões neurológicas. O termo resulta de

MAI S FÁCEIS DE ENTENDER

Para descobrirmos quão bem - ou mal - as pessoas podem ler os sentimentos de outras em seus traços faciais, utilizamos no Labora- tório de Emoções da Universidade de Ulm o teste FEEL (Facially Expressed Emotion Labeling). Inicialmente, os participantes veem a imagem de uma pessoa com expressão neutra em uma tela de computador durante um segundo e meio. Após pausa de um segundo, aparece o mesmo rosto durante 300 milissegundos, mostrando uma das seis emoções que elege- mos como básicas do ponto de vista evolutivo:

alegria, tristeza, raiva, nojo, medo e surpresa. Os sujeitos da pesquisa devem dizer o que o modelo aparenta sentir. O teste revelou que a maioria das pessoas identifica sentimentos de seus semelhantes de forma praticamente imediata. No entanto, nem todas as emoções são percebidas com a mes- ma destreza: enquanto alegria, raiva e surpresa são quase sempre corretamente interpretadas, o reconhecimento de medo, nojo e tristeza causa alguma confusão. Além disso, as pessoas diferenciam-se con- sideravelmente em sua capacidade de decifrar esses sinais. Como demonstramos em outro estudo, os participantes que sofriam de pânico tinham, claramente, maior dificuldade em detec- tar a tristeza e o ódio do que os integrantes do grupo de controle, que não tinham o problema. Os pacientes com a síndrome tendiam prin- cipalmente a interpretar de forma equivocada algumas expressões faciais, vendo-as como irritadas, ainda que não se apresentassem assim. Em geral, porém, não é tão simples atribuir as divergências individuais a respeito da per- cepção dos sentimentos a eventuais distúrbios neurológicos ou psiquiátricos. Se a capacidade de empatia dos sujeitos, assim como suas habi- lidades em demonstrar sentimentos, é testada por meio de um questionário, suvgem apenas fracas coincidências com o FEEL. Outros pesqui- sadores não conseguiram comprovar nenhuma

conexão entre os sentimentos de uma pessoa e sua capacidade de reconhecê-los nas demais. Será que essa correlação realmente não existe ou o método de medição é inexato? Realmente, as condições do teste são sim- ples: afinal, uma foto frontal sem sofisticação não corresponde a uma situação concreta. Na vida real, a mímica emocional modifica-se constantemente e, muitas vezes, surge apenas subliminarmente - inserida em um aconteci- mento social complexo. Sendo assim, não sur- preende quando métodos de reconhecimento da emoção que trabalham apenas com estímulos mímicos levam a resultados que têm pouca relação com autodescrições subjetivas feitas em testes psicológicos. Considerando essa questão, aperfeiçoamos nosso sistema de testes e passamos a mostrar aos sujeitos de nossas pesquisas vídeos nos quais feições neutras se transformavam, mais uma vez expressando raiva, medo, alegria, sur- presa, tristeza ou nojo, só que agora de forma mais dinâmica. Nos filmes, as faces podiam ser vistas durante período semelhante ao do teste estático FEEL: o rosto neutro que surgia por mil a 1.800 milissegundos se metamorfoseava em um intervalo de 400 a 1.200 milissegundos, revelando alguma expressão emocional que, por sua vez, desaparecia após 300 milissegundos.

IMAGENS E INFORMAÇÕES

No teste por vídeo, porém, os participantes tiveram resultados quase iguais aos obtidos na versão por foto: 102 voluntários aos quais mostramos 36 fotos e 36 vídeos identificaram em ambas as séries de teste - apesar das dife- renças consideráveis - as variadas emoções de forma quase idêntica. As imagens em movimento apenas levavam ao reconhecimento um pouco mais rápido da surpresa e do medo; as fotos, por sua vez, ofereciam leve vantagem na detecção de traços de alegria. Ao que tudo indica, as pessoas conseguem processar rapidamente a expressão mímica - pelo menos de forma mais rápida que nosso olhar quando lê o rosto completo do outro. Quem tem um pouco mais de tempo acompanha o mo- vimento facial e consegue, assim, absorver mais informações. Dessa forma, no entanto, a melhora do resultado do reconhecimento da expressão dos sentimentos é irrelevante. Isso nos leva a

concluir que, provavelmente, possuímos dois sistemas de decodificação da mímica humana, um rápido e outro lento. O que se passa então em nossa cabeça quando analisamos expressões emocionais? Estudiosos do cérebro já indicaram há bastan- te tempo uma região do sistema límbico em formato de amêndoa como importante centro emocional: a amígdala. Essa área se excita du- rante a observação, assim como ocorre quando a pessoa experimenta emoções, principalmente o medo. O caso de pessoas com a amígdala lesionada mostrou-se especialmente ilustrativo para as pesquisas - como a paciente S. P., que

PESQUISADORES descobriram, por meio do rastreamento do olhar, que as pessoas se detêm nos olhos de uma face amedrontada; em um rosto alegre, a boca atrai especial atenção, enquanto numa fisionomia triste todos os elementos despertam interesse similar

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A SÉRIE DE IMAGENS de cima mostra um rosto do teste cuja expressão só se altera na metade inferior; o nariz e os olhos permaneceram imóveis. Abaixo, por outro lado, a alteração ocorre apenas na metade superior do rosto. O medo, por exemplo, é detectado quase que exclusivamente na parte superior do rosto; já a alegria quase não pode ser reconhecida sem nos determos no movimento da boca

O nariz do Pinóquio

É possível aprendera mentir convincentemente? "Com certeza. Basta pensar como um jogador de xadrez, controlar os sentimentos e sintoni- zar a mímica com a atenção do interlocutor, para que ela seja bem inter- pretada", garante o psicólogo americano Paul Ekman, da Universidade da Califórnia, São Francisco, que há mais de 40 anos se dedica a estudar a mímica facial humana. Além disso, quanto mais o mentiroso acredita em sua própria história e se sai bem, mais difícil é perceber o embuste. Ekman aconselha que, durante um interrogatório, os investigadores de polícia façam perguntas inesperadas. Em vez de "Você esteve ontem à noite no supermercado X?", é melhor "Onde costuma fazer compras?". Embora seja possível treinar o reconhecimento das microexpres- sões, nem sempre se consegue considerá-las indícios de mentira. Quando treina profissionais de segurança, Ekman recomenda que sem- pre se pergunte o que o interrogado está sentindo. Isso diminui o risco de cometer o "equívoco de Otelo": no drama de William Shakespeare, o protagonista interpreta o medo no semblante de Desdêmona como sinal de traição, e a mata com base em uma percepção equivocada. Não só mudanças na mímica facial, mas também detalhes da atitude corporal, e variações na entonação da voz, podem apontar deslizes. A prova de que alguém está dizendo a verdade só seria possível mesmo se nosso nariz fosse como o de Pinóquio. Por que é tão difícil reconhe- cer a mentira? Segundo Ekman, gostamos de acreditar no que nos é contado. "Quem quer ouvir que está sendo traído no casamento? Para aceitar é preciso enfrentar o problema, e isso a maioria quer evitar", diz. Devido a mecanismos de defesa, as evidências tendem a passar desper- cebidas. Do ponto de vista evolutivo, não é vantajoso ser um detector de mentiras. Em grupos pequenos, um dos envolvidos geralmente é expulso da comunidade ou se afasta dela. Ekman vê paralelos entre seu trabalho e o do Dalai Lama, com quem se encontrou algumas vezes. Na busca pela verdade, ele quer ajudar as pessoas a entender melhor seus sentimentos e dominar seus impulsos. Assim, espera colaborar para conscientizá-las das próprias emoções antes que estas sejam expressadas de forma inadequada. "Para decidir quando uma mentira é permitida, pergunto-me como meu interlocutor se sentiria se descobrisse que menti", explica. Se ele interpretar como quebra de confiança ou tentativa de tirar vantagem, pode ser prejudicial. Isso não vale, porém, para convenções sociais e gentilezas. "Afinal, depois de um jantar, você diria abertamente a seu anfitrião que a comida estava horrível?" (Siri Schubert, jornalista)

Adam Anderson e Elizabeth Phelps acompanha-

ram. Em 2000, os dois

cientistas, na época na

Universidade Yale, em New Haven, relataram que a mulher de 54 anos conseguia reconhecer rostos sem dificuldade e também lhes atribuir expressões de surpresa e raiva. Com outros sentimentos, como medo, nojo e tristeza, no entanto, ela falhava completamente. A própria S. P. conseguia, porém, expressar facialmente esses três últimos sem problemas. Assim, sua comunicação social mostrou-se prejudicada apenas em uma direção. Foi constatado, por- tanto, que a amígdala é indispensável para a recepção de mensagens emocionais como o temor, mas a emissão de sinais por meio do próprio rosto seria possível também sem a participação dessa área cerebral. Durante muito tempo, pesquisadores acre- ditaram que a amígdala funcionasse exclusiva- mente como centro do medo. Diversos novos estudos, entretanto, nos levam a questionar tal suposição. O grupo de pesquisadores dirigido por Christian Keysers, da Universidade de Gro- ningen, na Holanda, conseguiu provarqueessa região se excitava assim que os voluntários da pesquisa assistiam a vídeos de pessoas emo- cionadas. No entanto, não constatamos nenhu- ma diferença entre a apresentação de rostos neutros, alegres, enojados ou amedrontados. Por outro lado, a amígdala reagia também quando as pessoas simplesmente estufavam as bochechas no filme, o que nos leva a considerar que essa área cerebral responde a movimentos do rosto de maneira geral e pode estar envolvida apenas indiretamente no processo de detecção de expressões emocionais.

VISÃO ASSUSTADORA

O grupo de trabalho de Ralph Adolphs, do Ins- tituto de Tecnologia da Califórnia em Pasadena, obteve resultados semelhantes. A amígdala de sua paciente S. M. estava afetada de ambos os lados. A mulher, na época com 38 anos, tinha, assim como S. P, grande dificuldade em re- conhecer o medo em seus semelhantes. Mas, afinal, o que nos leva a concluir que a pessoa à nossa frente está assustada? Análises dos movimentos oculares revelaram que homens e mulheres sadios se orientam principalmente pelos olhos arregalados, que atraem a atenção do observador de forma intensa. Isso, porém,

não acontecia com S. M. Ela parecia evitar os olhos estatelados de medo de uma pessoa as- sustada: seu olhar parecia dançar vago e incerto na região central do rosto a ser avaliado. Em uma segunda série de experimentos, Adolphs e seus colegas treinaram a participante para que observasse especialmente os olhos dos retratos apresentados. Graças ao exercício, S. M. passou a reconhecer rostos amedrontados. Os pesquisadores perceberam então que, em vez de servir simplesmente como um filtro passivo, a amígdala funcional oferece comandos que "avisam" aos olhos que devem atentar para certas características. Será que podemos concluir que apenas a visão nos revela sentimentos de nossos se- melhantes? Para responder a essa questão, os pesquisadores Holger Hoffmann e Henrik Kessler dividiram graficamente as imagens dos rostos de nossos testes em uma região superior (com olhos e nariz) e outra inferior (que incluía a boca e laterais da face). Assim, poderíamos apresentaras expressões emocionais apenas parcialmente, enquanto metade do rosto permanecia inalterada.

CÉREBRO CONFUSO

Essa divisão das faces teve efeito dramático sobre o reconhecimento de estímulos emo- cionais. De maneira geral, os 57 participantes de nossa pesquisa puderam detectar melhor

EXAMES DE NEUROIMAGEM

REVELAM que a paixão torna

as pessoas mais dóceis e corajosas

os sentimentos na parte inferior dos rostos. Nesse caso, o índice de acerto foi de 63%, mas caiu para 49% quando, em vez de boca e bochechas os voluntários viam apenas olhos e nariz. E subiu para 83% quando o rosto completo era mostrado. A interpretação de cada uma das emoções teve diferenças substanciais: o temor foi, conforme esperado, detectado quase que ex- clusivamente na parte superior do rosto. Em manifestações de surpresa, os olhos também desempenham papel de destaque. Mas no caso da alegria ocorre exatamente o oposto: sem a boca, ela praticamente não pode ser percebida. Já uma expressão triste ou enojada também se revela, principalmente, por meio da parte inferior do rosto. Os movimentos do olhar dos voluntários, que acompanhamos com um sistema de ras- treamento, comprovaram os diferentes pesos durante o reconhecimento de emoções: em uma fisionomia amedrontada, as pessoas aten- tavam mais nos olhos; em um rosto alegre, sua atenção voltava-se para a boca; em uma face triste, todos os elementos adquiriam grande importância. Os relativamente curtos períodos de exposição de nossos estudos comprovaram a rápida percepção das emoções. Mas, aparen- temente, seres humanos precisam mesmo de informações de todo o rosto para uma correta análise dos sentimentos demonstrados por um semelhante. Caso contrário, o sistema de reco- nhecimento de emoções pode "se confundir". Não se pode negar que, de fato, algumas pessoas parecem ter um senso extraordinário para compreender pensamentos e sentimentos alheios. Outras se mostram menos talentosas. Acreditamos, porém, que essa habilidade exista independentemente da capacidade objetiva de detectar emoções em rostos. De maneira geral, fica demonstrado que o processo de apreensão de expressões faciais depende muito do tempo de visualização. Uma apresentação próxima da realidade, como no filme, possibilita que o cérebro analise os traços emotivos da expressão como um todo. Ao que tudo indica, nosso sistema perceptivo precisa acompanhar a dinâmica do rosto do outro para direcionar a atenção para aquelas partes que nos ajudarão a ler as emoções. E, assim, talvez possamos nos relacionar melhor. mcc

Testes feitos na Holanda mostraram que, diferentemente do que muitos acreditavam, a amígdala pode estar envolvida apenas de forma indireta no processo de detecção de expressões emocionais

iiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiinii

PAR A

SABE R

MAI S

A linguagem das emoções.

Paul Ekman. Leya Brasil, 2011.

A expressão das emoções

no homem e nos animai s (1872). Charles Darwin. Cia. das Letras , 2009.

Perception of dynamic facial expression s of emotion.

H . Hoffman n et al., e m

Perception

and

interactive

technologies,

págs.

175-178,

Springer, 2006.

Enigmas do sorriso

ESTUDO S

SOBR E A CAPACIDAD E

DE

DECIFRA R

NUANCE S

DE

EXPRESSÕE S

FACIAI S

REVELAM

COM O

O CÉREBR O

ACESSA

MEMÓRIA S

E DECODIFIC A

GESTO S

p o r

Albert o

Oliveri

o

E xpressões faciais revelam muito sobre nossos in-

terlocutores. Com base em mínimos indícios que

às vezes escapam à consciência, somos capazes

de avaliar em que medida expressões amigáveis

são autênticas ou falsas, se um sorriso é espontâneo ou de conveniência, se uma risada é sincera ou forçada. Essas nossas competências derivam, pelo menos em grande parte, de duas questões geométricas. Sabemos intuitivamente que: 1. a expressão facial espontânea implica uma resposta simétrica das duas metades do rosto; 2. os diversos múscu- los faciais são ativados de modo simultâneo e rápido. Algo que fuja disso, portanto, costuma - ou pelo menos deveria -fazer piscar nosso "sinal vermelho interno", avisando que algo ali não parece exatamente sincero.

O

AUTO R

ALBERTO OLIVERIO é neurobiólogo, professor de psicobiologia da Universidade La Sapienza, onde dirige o Centro de Neurobiologia Daniel Bovet.

Porém, nem sempre somos capazes de avaliar objeti- vamente as expressões dos outros, principalmente quando queremos mentir para nós mesmos - por exemplo, quando contamos uma piada com tanta animação que não percebe- mos que quem está ouvindo demonstra estar se divertindo só por gentileza ou por conveniência.

De que depende a capacidade de decifrar as expres- sões faciais? Hoje sabemos que o hemisfério direito tem papel central nesta forma de decodificação: a prova mais evidente é o fato de que as pessoas que sofreram uma lesão na metade direita do cérebro apresentam déficit relativo à compreensão das expressões faciais. Quando o problema se refere especificamente às expressões de medo, a lesão é localizada na amígdala direita. Diante de gente de carne e osso ou de fotografias que retratam expressões de medo ou de terror, os pacientes com uma lesão nessa área cerebral demonstram não entender o significado das expressões faciais, como se fossem impermeáveis à mensagem visual, mesmo que possam descrevê-la com detalhes. Também no que se refere à compreensão da expres- são facial das emoções foi observado o predomínio do córtex motor do hemisfério direito (que controla a meta- de esquerda do rosto, enquanto o córtex do hemisfério esquerdo controla os músculos faciais do lado oposto). Com um programa de computador capaz de revelar a

dinâmica de uma expressão facial é possível observar que em um sorriso forçado (ou dado após a pessoa receber um comando para que sorria) o hemisfério direito está mais capacitado para governar a "metade sorriso" da esquerda, enquanto o esquerdo se mostra menos capaz. Na prática, isso se traduz em maior artificialidade de expressão na metade direita do rosto.

Mas

há uma questão

a ser considerada: o fato

de

que nas pessoas que sofreram lesão em qualquer lado

do córtex motor o sorriso comandado, controlado pelo córtex, ser obviamente limitado à parte do rosto que corresponde aos comandos do córtex saudio - da direita

ou da esquerda - faz com que o sorriso seja,

portanto,

totalmente assimétrico. Essas mesmas pessoas podem, no entanto, sorrir ou rir de modo pleno, isto é, com as duas metades do rosto se a emoção for espontânea:

isso ocorre graças à intervenção dos gânglios da base, núcleos nervosos localizados no interior do cérebro que

têm a função de governar gestos automáticos e memórias processuais como caminhar, andar de bicicleta, rir e sorrir.

Temos uma gama de expressões complexas cujo significado está impresso na mente; de forma análoga, outros animais emitem sinais quando mostram os dentes, por exemplo

Considere um paciente que sofre de di- minuição das funções do cérebro após uma alteração da circulação do sangue (íctus), o que pode acarretar uma hemiparesia (inter- rupção parcial dos movimentos de um ou mais membros superiores, inferiores ou am- bos conforme o grau do comprometimento). Se o pesquisador lhe pede que sorria ao seu comando ou por conveniência, para ser gentil, seu movimento será parcial. Mas se a mesma pessoa encontra um amigo querido, o sorriso surge de forma normal, novamente simétrico, visto que é relacionado aos automatismos governados pelos gânglios da base, não atingidos. Em alguns casos, bastante raros, é possível observar uma lesão de metade dos gânglios da base (direita ou esquerda):

nesta situação, o sorriso comandado emerge graças ao fato de o córtex motor estar íntegro, enquanto o espontâneo, devido aos gânglios da base, falha. Geralmente, porém, apenas as pessoas próximas percebem isso.

Mesmo para quem não tem nenhum problema em nenhum dos dois hemisférios cerebrais, talvez o mais indecifrável dos sorrisos seja o da Mona Lisa. Afinal, qual é o segredo que torna tão mutável a expressão da Gioconda retratada por Leonardo da Vinci?

MULHERE S INDIANAS: é possível codificar emoções expressas por pessoas de várias nacionalidades e etnias; contração involuntária do músculo que ergue os cantos da boca é comum a quase todos os povos

Em geral, as respostas baseiam-se no pressu- posto de que a ambiguidade se deve à técnica do sfumato ("esfumado", em italiano), que desfoca os cantos dos olhos e da boca dando ao quadro um ar de mistério. Mas a neuro- bióloga Margaret Livingstone, pesquisadora da Faculdade de Medicina da Universidade Harvard, propôs uma explicação baseada nas diferenças da percepção da chamada "frequência espacial" no interior do nosso olho. Trata-se de uma medida de quanto é detalhada uma imagem: se para cada centí- metro quadrado da tela de um computador há mais pixels (isto é, pontinhos que emitem luz), então a representação do objeto é mais nítida. Ou, em outras palavras, a frequência espacial é mais elevada. Quando utilizamos a visão central (mirando diretamente o objeto), apreciamos, sobretudo, as imagens nítidas (frequências elevadas), antes das mal defini- das, enquanto a nossa visão periférica é mais apta a perceber os contornos esfumados. Assim, segundo Margaret, quando não olhamos diretamente a boca da Mona Lisa, percebemos a parte "alegre" escondida nas baixas frequências, isto é, no esfumaçado dos lábios. Mas, se direcionamos o olhar para os lábios, perdemos uma parte de seu sorriso e temos a impressão de que a expressão muda. No livro A expressão das emoções no ho- mem e nos animais, de 1872, Charles Darwin buscou uma explicação do significado das expressões no reino animal, perguntando- se por que se apresentam em certas formas particulares. Segundo o pai da teoria da evolução, nos homens numerosas emoções têm uma expressão universal, isto é, são as mesmas independentemente de raça, cultura e nível de instrução. São inatas, e não adqui- ridas, um mero produto do nosso caminho evolutivo. Nós, humanos, temos uma gama de expressões complexas cujo significado, ao longo do tempo, se imprimiu na nossa mente. De forma análoga, os animais pos- suem expressões que lembram as nossas: os répteis, por exemplo, emitem sinais quando abrem a boca mostrando os dentes. No início do século 20, os behavioristas puseram em dúvida a universalidade das expressões faciais dos estados emocionais, mas depois dos anos 50 alguns estudos

confirmaram, sem margem a dúvidas, a existência de expressões universais. Em 1969, o anatomista Carl Hjortsjõ descreveu em detalhe o efeito dos 23 músculos mímicos da face durante os estados emocionais. Com base nisso, ao fim dos anos 70, os psicólo- gos Paul Ekman e Vincent Friesen criaram o Facs (Facial Action Coding System, ou Sistema Codificador da Ação Facial), um conjunto de todas as ações musculares associadas à expressão de uma dada emoção que inclui a medida da intensidade das contrações e da sua duração. Por exemplo, no caso de um sorriso de alegria, contraem-se o músculo zigomático maior, que ergue os cantos da boca, e o músculo orbicular do olho, que estreita as órbitas oculares.

NÓ DE

CONTAT O

Ekman e Friesen usaram depois esses da- dos para medir o grau de concordância das expressões entre os membros da etnia fore, na Nova Guiné, e em americanos. Depois levaram em conta registros em vídeo e foto- grafias de expressões faciais efetuadas entre japoneses, brasileiros, chilenos e argentinos. Suas pesquisas confirmaram a concepção evolucionista de Darwin e constituíram a prova da universalidade para oito emoções:

surpresa, tristeza, cólera, prazer, desprezo, nojo, vergonha e medo. Os estudos condu- zidos nos últimos anos no campo das neu- rociências mostram que a amígdala, área do cérebro que representa um "nó de contato" entre os sinais cerebrais, contribui para o reconhecimento da sensação suscitada por uma face. Uma pessoa com essa estrutura em forma de amêndoa afetada não reage à visão de um rosto aterrorizado e é incapaz de reconhecer expressões em que emoções como felicidade e surpresa estão misturadas.

Ainda assim, a amígdala não seria essen- cial para identificar as emoções: segundo alguns experimentos efetuados com PET (to- mografia por emissão de pósitrons), método de análise que permite visualizar o afluxo de sangue nas diversas estruturas do cérebro durante a execução de operações mentais, as faces alegres ou tristes provocam aumento de atividade do giro do cíngulo. Parece também que a amígdala, ao contrário do córtex, não

A MONA LISA, DE LEONARDO DA VINCI, parece alegrar-se ou ficar mais austera de acordo com a perspectiva da qual a vemos: o "mistério" consiste em uma sofisticada sobreposição de imagens, pois alguns elementos se destacam ao fixarmos o olhar nos lábios; outros, ao observarmos o restante da tela

reage às expressões de nojo. O riso e o sorriso nos revelam ainda algo mais geral sobre o funcionamento do cérebro: muitas vezes uma função não depende apenas de uma única estrutura, como no caso específico do córtex motor, mas do concurso de mais estruturas, o que nos permite compensar uma perda neu- rológica com o auxílio da reabilitação. Cabe, de qualquer modo, ao córtex frontal a maior parte das decisões conscientes: por exemplo, a interpretação de um sorriso que reclama discernimento - como o da Mona Lisa. n&c

mmimimmmmmiiimiiiiimiiiii

PAR A

SABE R

MAI S

A psicologia das emoções

-

O fascínio do rosto humano.

A. Freitas-Magalhães. Edito- ra Leya Portugal. 2013

O sorriso de Monalisa. Su- sana Martinez-Conde e Ste- phen L. Macknik . Especial Mente e Cérebro - Ilusões , n° 28, págs . 36-45.

Parado!

SEMELHANT E

A O

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DEPRESSÃO , A PERD A

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MOTIVAÇÃ O

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CAPACIDAD E

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DIANT E

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PERIG O

 

po r

Patrick Verstiche l

e Pascal e

Larrouy

O calor do verão é opressivo. Sentado na beira da

piscina, um homem de meia-idade olha para a

água gelada. "O que poderia ser melhor que um

banho refrescante?", pensa M. Ele mergulha de

cabeça na água e dá algumas braçadas. Então, de repente, para. Expira, atinge o fundo e apenas fica olhando para baixo. Estranhamente, mesmo consciente de que está se afogando, ele não se perturba. Sabe que algumas pernadas fortes o tra- riam de volta à superfície. Mas simplesmente não consegue se convencer a fazer isso.

OS AUTORES

PATRICK VERSTICHE L é neurologista no Centro Hospitalar Intercomunal de Créteil, França. PASCALE LARROUY é clínica geral.

Por sorte, a filha o observava de dentro de casa. Ela corre e mergulha na piscina para salvá-lo. A visão da filha o sacode de sua apatia, e, no momento em que ela o alcança, ele dá um impulso para cima, esforçando-se para respirar. Mais tarde, diz à família: "Não sei o que estava errado comigo. Simplesmente não queria mais nadar". O que estava acontecendo com o cérebro de M. quando ele ficou a poucos segundos de se afogar? Como alguém pode perder de maneira tão abrupta toda a vontade de agir, mesmo para salvar a própria vida?

O neurologista Dominique Laplane foi quem primeiro descreveu esse estranho comportamento em 1981. Na épo- ca, médico do Hospital de la Salpêtrière em Paris, Laplane denominou o fenómeno "síndrome de PAP", do francês perte d'auto-activation psychique, ou "perda da autoativação psíqui- ca". Mais tarde, outros especialistas fizeram referências a uma "perda da autoativação mental". Desde então, os cientistas aprenderam que a perda da motivação e da capacidade de tomar decisões pode ser decorrência de danos em certas áre- as do cérebro. É como se as pessoas afetadas se tornassem meros espectadores de sua vida, não mais participando dela de maneira ativa. Ao examinar o cérebro desses pacientes, os pesquisadores descobrem as pistas iniciais de como a vontade surge em todos nós.

SIM, ESTOU

FAMINTO

Ao longo de poucas semanas depois do incidente da piscina, a personalidade de M. passou por uma mudança drástica. Normalmente ativo e cheio de energia, ele se tornou cada vez mais passivo e apático. Era capaz de ficar dias inteiros deitado e ainda assim não sentir tédio nem impaciência. A família tinha de lembrá-lo o tempo todo para que realizasse as atividades mais básicas: "Venha jantar! Vista-se! Tome um banho!". Uma falta de motivação tão completa como essa é o sin- toma mais óbvio da síndrome de PAP. Se deixados por conta própria, os pacientes permanecerão na cama ou no sofá por horas ou mesmo dias, sem fazer nada a não ser ficar ali deita- dos, acordados ou dormindo. Eles não fazem nenhum plano para o futuro. Não mais se interessam por hobbies. Sua falta de entusiasmo se estende até a necessidades fundamentais. A esposa de M. disse que o marido teria morrido de inanição se ela não tivesse tomado uma providência. Apesar disso, ele nunca reclamou de fome. Surpreendentemente, pacientes com PAP sentem fome e dor. Eles apenas não têm a vontade para reagir. Tal inação afetou uma garota de 18 anos de idade examinada no Hospital de la Timone em Marselha, França. Durante um passeio na praia, os pais deixaram-na sentada na sombra enquanto saíram para uma caminhada. Horas mais tarde, ainda que exposta a raios abrasadores, a menina permanecia no mesmo lugar. Apesar u de sentir calor, não fez nenhum esforço para buscar abrigo. | Teve queimaduras de segundo grau. Os pacientes com PAP precisam de estímulos externos f para incitá-los. Uma vez encorajados, no entanto, podem ° realizar atividades complexas tão bem como faziam antes. ò

r

  • 2 Eles não falam com frequência, mas quando confrontados

    • I com perguntas diretas oferecem respostas racionais sobre seu | comportamento estranho. Também conseguem submeter-se

      • 0 a testes de inteligência e memória, contanto que o exami-

£ nador continue a incitá-los a prosseguir. Infelizmente, os

os pacientes retornam ao silêncio e à apatia. O que se passa na cabeça dessas pessoas? Em que pensam nesses momentos de absoluta apatia? Pacientes com PAP com frequência res- pondem: "Em nada". Será possível estar com- pletamente acordado e ainda assim não pensar em nada por horas a fio? É claro que sim: os pacientes em geral descrevem seu estado mental como "vazio". O surpreendente é que eles não sofrem psico- logicamente com a inércia. São quase incapazes de sentir emoções. Uma professora de 70 anos que antes adorava diversão e agora é absoluta- mente apática descreveu sua reação à morte do neto desta maneira: "É bastante trágico. Antes, eu teria ficado totalmente desolada. Mas agora não é grande coisa". Embora reconheçam ocasiões

trágicas ou felizes como tais, pessoas com a síndrome não podem mais sentir ou expressar tristeza ou alegria. Segundo Laplane, seus "sen- timentos" são muito mais de natureza intelectual. Distúrbios comportamentais obsessivos - atividades repetitivas e sem sentido, tais como ligar e desligar a luz ou a televisão indefinida- mente, podem surgir em pessoas com perda de motivação. Deitado na cama, um paciente não consegue impedir a si mesmo de ficar o tempo todo contando detalhes do teto, por exemplo. Outros às vezes irritam as pessoas em volta com tiques verbais, tais como o uso constante de palavrões. A causa desses padrões sem objetivo é desconhecida, mas talvez seja a tentativa do cérebro de preencher o vazio mental. A síndrome de PAP traz à tona uma impor-

Quando o desejo desaparece

Uma rede neural especial denominada alça límbica (à esq.) guia nossas decisões sobre se deve- mos ou não agirem resposta a estímulos externos ou internos. A informação sensorial viaja por várias partes do sistema límbico do cérebro (em roxo). Aqui os dados são avaliados num nível emocional e as avaliações (em laranja) passam pelos gânglios basais para o giro cingulado. Daí, chegam ao lobo frontal, que faz uma determinação. As estruturas dos gânglios basais agem como um interruptor - elas definem se o lobo frontal deve ser ativado ou não. Nas pessoas com a síndrome de PAP (à dir.), a alça límbica está danificada: os gânglios ba- sais não transportam a informação através do lobo frontal. Sem a entrada dos dados, a decisão de agir não é tomada. Os vários estímulos são desprovidos de importância emocional, então a motivação ou vontade do paciente não é ativada. Os pacientes podem agir caso recebam co- mandos diretos; a informação da linguagem pula da área de Wernicke (um dos centros de lin- guagem do cérebro) diretamente para o lobo frontal (seta vermelha), contornando a alça límbica. Em casos de pacientes com depressão, o núcleo caudado não funciona adequadamente, o que refreia as respostas no lobo central. Para alguns esquizofrênicos, irregularidades nos recep- tores que respondem ao neurotransmissor dopamina diminuem a eficiência da alça límbica.

ESTADO NORMAL

SÍNDROME DE PAP

tante questão com a qual os pesquisadores do cérebro deparam hoje: como a motivação é criada para acionar comportamentos? Nos pacientes com PAP, mecanismos motivacionais parecem completamente inativos. Os pacientes ignoram sinais internos necessários para a sobrevivência bem como obrigações sociais, morais e civis - os assim chamados aspectos mais elevados da motivação. Além disso, são incapazes de ver a si mesmos em qualquer tipo de situação futura e não conseguem compreender as consequências de suas inações. Usando processos tais como as imagens por ressonância magnética, pesquisadores começa- ram recentemente a desvendar os segredos por trás desse distúrbio. Em todos os casos identifi- cados de síndrome de PAP até o momento, foi encontrada uma doença aguda que afeta parte da área dos gânglios basais no interior do cérebro. As causas têm variado de falta de oxigénio provocada por vasos sanguíneos obstruídos a envenenamen- to por monóxido de carbono.

MOTIVAÇÃO DESLIGADA

No cérebro de M., por exemplo, dois grandes tumores foram descobertos. O maior deles, no hemisfério esquerdo, pressionava os gânglios basais, estruturas longas e finas dotadas de fortes conexões com os caminhos que levam informa- ções dos órgãos sensoriais às regiões motoras (que dizem aos músculos para se mover). Eles estão conectados também ao lobo frontal, onde ocorrem solução de problemas, planejamento e tomada de decisões. Estudos de ressonância magnética por imagem mostram que em muitos pacientes com PAP o lobo frontal não funciona corretamente. Durante exercícios envolvendo pen- samento, essa área é consideravelmente menos ativa que em indivíduos sadios.

Pessoas que tiveram outros tipos de dano apenas no lobo frontal têm sintomas semelhan- tes àqueles de pacientes com PAP. São também apáticas e incapazes de organizar atividades para o futuro. Juntos, os gânglios basais e o lobo frontal governam a motivação e, portanto, a vontade. Os gânglios basais determinam se o lobo frontal deve ser ativado. Agem como um "interruptor" que pode ligar ou desligar nossa vontade de agir. Mas se a conexão entre essas estruturas está prejudicada, por que pacientes com PAP ainda agem em relação a estímulos externos, tais como

EMBOR A

O S SINTOMA S sejam muito semelhantes aos da depressão, a maioria dos

pacientes não respondem a antidepressivos comuns; psicoterapia, meditação e exercícios físicos podem ser bastante eficazes

o rosto da filha ou uma ordem da mulher? Porque também outras vias têm capacidade de afetar a motivação. Por exemplo, o lobo frontal pode ser ativado diretamente por certas áreas do córtex ce- rebral, incluindo os centros de linguagem. Quan- do a família de M. conversa com ele, o estímulo de linguagem viaja não só para o sistema límbico como também para as áreas de linguagem no lobo frontal. Tendo sido ativado dessa maneira, o lobo frontal pode tomar uma decisão e impelir M. a comer ou a tomar banho. Por um momento, ele pode reconectar-se com sua vida normal, graças à intervenção de um incitador pessoal.

Depois, é voltar para o sofá. Ou para a cama. A síndrome de PAP é relativamente rara e pouca pesquisa foi feita sobre como auxiliar portadores. Não está claro se certas drogas psicotrópicas têm algum efeito. Embora para os observadores os sintomas pareçam muito semelhantes aos da depressão, a maioria dos pacientes não se enqua- dra nos diagnósticos típicos de depressão e não responde aos tratamentos com antidepressivos comuns. Na verdade, ainda é muito difícil ajudar pacientes com sintomas decorrentes de danos ao cérebro, como derrame, por exemplo. Assim como ocorre com pessoas que sofrem de doen- ças psiquiátricas, a medicina ainda tem pouco a oferecer. O que tem se mostrado mais eficaz é a combinação de psicoterapia, uso de técnicas de meditação e exercício físico para melhorar o quadro geral do paciente. nec

iiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiin

PAR A

SABE R

MAI S

Sete novidade para comba-

ter a depressão. Fernanda Teixeir a Ribeiro. Mente e Cérebro n° 243, págs 26-35, abril de 2013.

As bases neuroanatômicas do comportamento: históri- co e contribuições recentes.

Guilherme Carvalhal Ribas , Rev. Bras. Psiquiatr. vol.29, n°l, março de 2007

Behavior and mood disor-

ders in focal brain lesions. J. Bogousslavsky e J. L Cum -

mings . Cambridge Universi- ty Press , 2000.

Affective disorders

due

to

the

loss

of mental

self-ac-

tivation:

comparison

with

athymhormia. D.

Laplan e

e

B.

Dubois ,

e m

Review

of

Neurology,

vol .

154,

1,

págs. 35-39, janeiro de 1998.

Desafios de ir e

vir

NAS GRANDE S

CIDADE S

BRASILEIRAS AS PESSOAS COSTUMA M

LEVAR

DE

UM A

A

QUATRO

HORAS

PARA SE

DESLOCAR ATÉ O TRABALHO .

PELO CAMINHO , CARROS ,

MOTOS ,

CAMINHÕE S

E PEDESTRE S

DISPUTA M

ESPAÇO.

RESULTADO! TENSÃ O

E PROBLEMAS AFETIVO S

E

DE

SAÚD E

p o r

Annett e

Schafe r

A manhece chovendo. Para quem mora em grandes cidades, esta simples constatação é sinónimo de tensão logo nas primeiras horas do dia. Trânsito lento, quilómetros de congestionamento e pon-

tos alagados dificultam uma tarefa crítica que consome um tempo considerável na vida de muitas pessoas: o desloca- mento entre a casa e o trabalho e vice-versa - um importante fator de estresse na vida de milhões de pessoas no mundo todo, sobretudo em regiões metropolitanas.

A AUTORA

ANNETT E SCHAFER é antropóloga e jornalista.

As horas gastas dentro de carros, ônibus ou trens, de segunda a sexta, para ir e voltar, acabam desgastando o vigor físico e psíquico de qualquer um. É um tempo morto, que poderia ser mais bem empregado na academia de ginástica ou no convívio com a família ou com os amigos. Para piorar, sempre paira sobre essas pessoas a terrível - e imprevisível - ameaça das condições do tempo e do trânsito. Em cidades como São Paulo há um agravante: a disputa constante (e violenta) entre carros, caminhões, ônibus e