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Os seis estudos que cornpoern este tra­

balho sélo variacões em torno de temas

recorrentes no pensamento de G101g10

Agarnbe'1 Um cios pr1nc1pa1s motes reto­

mados e reelalJorados ao longo do 11Vto

pode ser resumido na seguinte questão: a

experiência e ainda passivei para o homem

rnoderno7 Tal quest101amer1to pede urna

def1111cão cio sujeito do conhecimento e

leva-nos a acompanhar a evolucélo deste

conceito na cultura ornlental. do pensa

menta class1co a construcélo do ego cogito

("eu penso") cartesiano.

Apoiado nos estudos de Benven1ste sobre

as pessoas ro discurso. Agamben aponta


INFÂNCIA E HISTÓRIA
a cons1stênc1a puramente 11ngu1st1ca

deste su1e1to. A expenénc1a que esta na

base desta 1nvest1gacào torr-a-se então

um experimento com a l1ngua. A questão

fundamental agora e: o que s1gn1f1ca a

expressão "existe l1nguagem"7 O que

s1gn1f1ca "eu falo"7

Esta 111dagacao dos l1m1tes da linguagem

(e. portanto. de nosso proprio pensamento)

não tem como meta um rnefavel que a 1111-

guagem pressuporia para poder s1gn1f1car.

mas e uma experiência da l111gua em sua

auto-refe1enc1alidade. ln·;p1rada no pro1eto

benpm1n1ano de uma "puriss1ma e l!ílllnacão

do 1ncl1z1vel na linguagem". a aposta de

Agamben é a de que seria passivei 1nd1car

o lugar log1co de uma 1nfânc1a do homem,

uma d1mensao transcendental anterior a


GIORGIO AGAMBEN

INFÂNCIA E HISTÓRIA
DESTRUIÇÃO DA EXPCRIÊNCIA E ORIGEM DA HISTÓRIA

NOVA EDIÇÃO AUMENTADA

1 ª reim pressão
UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS
Reitor: Ronaldo Tadêu Pena
Vice-Reitora: Heloisa Maria Murgel Starling Tradução
EDITORA UFMG
HENRIQUE B URIGO
Diretor: Wander Melo Miranda
Vice-Diretora: Silvana Cóser

CONSELHO EDITORIAL
Wander Melo Miranda (presidente)
Carlos Antônio Leite Brandão
Juarez Rocha Guimarães
Márcio Gomes Soares
Maria das Graças Santa Bárbara Belo Horizonte
Maria Helena Damasceno e Silva Megale
Editora UFMG
Paulo Sérgio Lacerda Beirão
Silvana Cóser 2008
© 1978e 2001, Giulio Einaudi editore s.p.a., Torino
l\J OTA EXPLICATIVA DO TRADUTOR
Título origina l : l11.fa11zia e sloria - di.rtmzio11e dell'esperie11za e origi11e dei/a .rloria
© 2005, da tradução brasileira, Editora UFMG
© 2008, 1 ª reimpressão

Este livro ou parte dele não pode ser reproduzido por qualquer meio sem
autorização escrita do Editor

A259i Agamben, Giorgio


Infância e história: destruição da experiência e origem da
história/ Giorgio Agamben; tradução de Henrique Burigo. -
Belo Horizonte : Editora UFMG, 2005.

188 p. - (Humanitas)
Título original:Infanzia e storia: distruzione dell'esperienza
e origine della storia

Inclui glossário.
ISBN: 978-85-7041-459-5 O leitor encontrará, junto às notas de rodapé originais,
1. História - Filosofia. I. Título
notas de tradução (assinaladas) que elucidam termos técnicos
filosóficos ou pertencentes a outras áreas, nomes mitológicos
e neologismos. Além disso, quanto às palavras e expressões
CDD:901
CDU:930.l
em espanhol, francês, inglês, alemão, latim e grego, citadas
Ficha catalográfica elaborada pela CCQC - Central de Controle de Qualidade ao longo do texto, poderá consultar o glossário, em ordem
da Catalogação da Biblioteca Universitária - UFMG alfabética, disponível no fim do livro. Aí encontrará tradução,
informações etimológicas e, quando oportuno, esclareci­
mentos referentes aos itens relacionados.

Henrique Burigo
EDITORAÇÃO DE TEXTO: Maria do Carmo Leite Ribeiro
REVISÃO DE TEXTO E NORMALIZAÇÃO: Maria Stela Souza Reis
REVISÃO DE PROVAS: Lílian de Oliveira e Vanessa Batista de Oliveira
PROJETO GRÁFICO: Glória Campos - Ma1�gá
FORMATAÇÃO E MONTAGEM DE CAPA: Cássio Ribeiro
IMAGEM DE CAPA: Lúcia Nemer
PRODUÇÃO GR Á FTCA: Warren M Santos

EDITORA UFMG
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Campus Pampulha - 31270-901 - Belo Horizonte/MG
Tel.: 55 (31) 3409-4650 Fax: 55 (31) 3409-4768
www.editora.ufmg.hr editora@ufmg.hr
S U M Á K O

Experimentum lin guae 9

INFÂNCIA E HISTÓRIA
Ensaio sobre a destruição da experiência 19

O PAÍS DOS BRINQUEDOS


Reflexões sobre a história e sobre o jogo 79

TEMPO E HISTÓRIA
Crítica do instante e do contínuo 109

O PRÍNCIPE E O SAPO
O problema do método em Adorno e Benjamin 129

FÁBULA E HISTÓRIA
Considerações sobre o presépio 151

PROGRAMA PARA UMA REVISTA 159

Glossário do Tradutor 171


CXPERIMENTUM LIN G UAE ':-

Toda obra escrita pode ser considerada como o prólogo


(ou melhor, como a cera perdida1) de uma obra jamais escrita,
que permanece necessariamente como tal, pois, relativa­
mente a ela, as obras sucessivas (por sua vez prelúdios ou
decalques de outras obras ausentes) não representam mais
do que estilhas o u máscaras mortuárias. A obra ausente,
ainda que não seja exatamente situável em uma cronologia,
constitui então as obras escritas como prolegomena ouparali­
pomena de um texto inexistente ou, em geral, como parerga
que encontram seu verdadeiro sentido somente junto a um
ergon ilegível. Estas são, de acordo com a bela imagem de
Montaigne, a moldura de grotescos em torno de um retrato
não realizado ou, segundo a intenção de uma carta pseudo­
plat6nica, a contrafação de um escrito impossível.
Portanto, o melhor modo de apresentar este livro, a uma
distância de tantos anos, seria tentar esboçar os traços sumários
da obra não escrita da qual ele constituiria o pro�mio, e em
seguida, eventualmente, remeter aos livros sucessivos que

::- Este prefácio foi escrito para a edição francesa do livro (Payot, 1989).
1 Cerapersa, no original. Literalmente 'cera perdida', antiga técnica usada

para realizar esculturas em bronze. Sobre um suporte refratário, moldava-se


em cera a peça a ser fundida. Este original de cera, revestido de argila,
fornecia o molde no qual era derramado o bronze fundido, que tomava
o lugar da cera derretida e assumia a forma desejada. [N. do T.]
stTÍ.1m seus 11/)1dmlt.r. Com efeito, nos ,111os entre a redação poder pressuponente/ de maneira que o
s<.·u i11 vencível
de l 11/aw:;i11 t' sloria [l1(F/11cit1 t' his!ótia] (1977) e 11 li11.�1taK�io 1' i11dizível é precisamente aquilo que a linguagem deve pres­
la 111 ortr [.tl ling u al.a" e a morte] (1982), muitas anotações supor para poder significar. Ao contrário, o conceito de
atestam o projeto de uma obra que permaneceu obstinada­ infância é acessível somente a um pensamento que tenha
mente não escrita. O título desta obra é La voce 11mana [A cfetuado aquela «puríssima eliminação do indizível na
voz humana] ou, segundo outras notas, Etica, ovvero dei/a voce linguagem» que Benjamin menciona em sua carta a Buber. A
[Ética 011 da voz]. Uma das folhas contém este iucipit: singularidade que a linguagem deve significar não é um ine­
«Existe uma voz humana, uma voz que sej a voz do fável, mas é o supremamente dizível, a coisa da linguagem.
homem como o fretenir é a voz da cigarra ou o zurro é a Por isto, no livro, a infância encontra o seu lugar lógico
voz do jumento? E, caso exista, é esta voz a linguagem? cm uma exposição da relação entre experiência e lingua­
Qual a relação entre voz e linguagem, entre phoné e lógos? gem. A experiência aqui e m questão é, acolhendo a indi­
E se algo como uma voz humana não existe, e m que sentido cação do programa benjaminiano da filosofia que vem, algo
o homem pode ainda ser definido como o vivente que possui que poderia ser definido apenas nos termos - para Kant
linguagem? Tais questões, que aqui formulamos, delimitam decididamente improponíveis - de uma «experiência trans­
uma interrogação filosófica. Segundo uma antiga tradição, cendental».
o problema da voz e de sua articulação era, na realidade, Uma das tarefas mais urgentes do pensamento contem­
um problema filosófico por excelência. De voeis nemo magis porâneo é certamente a redefinição do conceito de trans­
q11am philosophi tractant, lê-se em Sérvio e, para os Estóicos, cendental em função de suas relações com a linguagem. Se
que deram o impulso decisivo à reflexão ocidental sobre é realmente verdade que Kant pôde articular o seu conceito
a linguagem, a voz era a arché da dialética. Entretanto, a de transcendental somente na medida em que omitiu o
filosofia quase nunca colocou tematicamente o problema problema da linguagem, «transcendental» deve aqui indicar,
da voz .. . » alternativamente, uma experiência que se sustém somente
É significativo que j ustamente uma reflexão sobre a na linguagem, um experi111entt1111 /ing11ae no sentido próprio do
infância tenha conduzido o autor a uma pesquisa sobre a termo, em que aquilo de que se tem experiência é a própria
voz humana (ou sobre a sua ausência). A in-fância que está língua. No prefácio à segunda edição da Crítica da razãopura,
em questão no livro não é simplesmente um fato do qual Kant apresenta como um E xpe riment der reinen Vernunft a
seria possível isolar um lugar cronológico, nem algo como uma tentativa de considerar os objetos «na medida em que são
idade ou um estado psicossomático que uma psicologia ou somente pensados». Trata-se, ele escreve, de uma expe­
uma paleoantropologia poderiam jamais constrnir como um riência que não se faz com os objetos, como nas ciências da
fato humano independente da linguagem. natureza, mas com conceitos e princípios que admitimos
Se a condição própria de cada pensamento é avaliada a priori (tais objetos, ele acrescenta, «devem, contudo,
segundo o seu modo de articular o problema dos limites da deixar-se pensar!»).
linguagem, o conceito de infância é, então, uma tentativa
de pensar estes limites em uma direção que não é aquela, trivial,
do inefável. O inefável, o "inconexo" [irrelato] são de fato Premppo11e11te, no original. O autor se refere à relação virtual que a
categorias que pertencem unicamente à linguagem humana: linguagem, na forma de uma /a11,e,11e ('língua' como sistema, por
longe de assinalar um limite da linguagem, estes exprimem opo sição ao 'discurso' como expressão individual), mantém com seu
pressuposto não linguístico. [l\'. do T.]

10 11
Em um dos fragmentos publicados por Erdmann, este s�o predic1dos reais que podem ser identificados nesta
experimento é descrito como um «isolamento» da razão pura: ou naquela propriedade (como o ser-vermelho, francês,

«A minha intenção é a de indagar o quanto a razão possa velho, comunista). Eles são, antes, transcendentia no sentido
conhecer a priori e até que ponto estenda-se a sua indepen­ que este termo tem na 16gica medieval, ou seja, predicados
dência da sensibilidade ... Esta questão é importante e grande, que transcendem toda categoria ainda que persistindo em
pois mostra ao homem qual seja o seu destino no que diz cada uma delas; mais precisamente, devem ser pensados
respeito à razão. Para atingir este fim, considero necessário como arquitranscendentais, ou transcendentais à segunda
isolar a razão (die Vermtnjt zu isolieren) e também a sensibi­ potência, que, na enumeração da sentença escolástica reto­
lidade, e considerar apenas o que pode ser conhecido a priori e a mada por Kant (quodlibet ens est urmm, verum, bonum seu
sua pertinência ao âmbito da razão. Esta consideração em pnfectum), transcendem os pr6prios transcendentais e são
estado de isolamento (diese abgesonderte Betrachtung), esta pura implicados em cada um destes.
filosofia (reine philosophie) é de grande utilidade». Aquele que realiza o experimentt1JJ1 ling11ae deve, portanto,
É suficiente seguir com atenção o movimento do pensa­ _arriscar-se em uma dimensão perfeitamente vazia (o leerer
mento kantiano para dar-se conta de que o experimento da Raum do conceito-limite kantiano) na qual não encontra
razão pura não pode ser outro senão um experimentum diante de si senão a pura exterioridade da língua, aquela
li11guae, que se funda somente na possibilidade de nominar «étalement du langage dans son étre brut» de que fala
tais objetos transcendentais por meio do que Kant chama Foucault em um dos seus escritos filosoficamente mais
de «conceitos vazios sem objeto» (noúmeno, por exemplo) , densos. É provável que todo pensador tenha precisado
ou seja, como diria a lingüística contemporânea, termos que empenhar-se ao menos uma vez nesta experiência; é possível,
não têm nenhuma referência (e que todavia conservam, aliás, que aquilo que chamamos de pensamento seja pura­
escreve Kant, uma Bedeutung transcendental). mente e simplesmente este experimentum.
Um experimentum linguae deste tipo é a infância, na qual Nas palestras sobre a Essência da linguagem, Heidegger fala
os limites da linguagem não são buscados fora da linguagem, neste sentido de «fazer uma experiência com a linguagem»
na direção de sua referência, mas em uma experiência da (mit der Sprache eine Eifahrung machen) . Fazemos propria­
linguagem como tal, na sua pura auto-referencialidade. mente esta experiência, ele escreve, somente lá onde os
nomes nos faltam, onde a palavra se parte em nossos lábios.
Mas o que pode ser uma tal experiência? Como é possível ter Este romper-se da palavra é «O passo para trás na estrada
experiência não de um of:jeto, mas da próp ria linguagem? E, quanto do pensamento». A aposta da infância é que, ao contrário,
à linguagem, não desta ou daquela proposição significante, mas do seja possível uma experiência da linguagem que não seja
pHro fato que se fale, de que hqja linguagem? simplesmente uma sigética 3 ou uma insuficiência dos nomes,
Se para cada autor existe uma interrogação que define o mas da qual se possa, ao menos até certo ponto, indicar a
motivum do seu pensamento, o âmbito que estas questões 16gica e exibir o lugar e a f6rmula.
circunscrevem coincide sem resíduos com aquele para o qual
é orientado todo o meu trabalho . Nos livros escritos e
Sigética (al. Sigetik, ªpartir do gr. siga11 'permanecer em silêncio, calar'):
naqueles não escritos, eu não quis pensar obstinadamente .
termo mtroduz1do por Heidegger (Btitriige z. Philosophie [Contri­
senão uma única coisa: o que significa «existe linguagem», buições à filosofia], n. 37) que designa a "ciência ou arte (de falar
o que significa «eu falo»? Já que é claro que nem o ser­ através) do silêncio", apta a "c onstruir o silêncio na linguagem"; está
falante e nem o ser-dito, que lhe corresponde a parte oijecti, vinculado a Erschweigm 'silêncio ativo, que diz'.[,'\'. do T.]

12 13
Em l11fà11cia e história, o lugar de uma tal experiência disl ut'><> - da própria l.1L 1il.l.11l1· nu potência de falar.

transcendental encontra-se naquela diferença entre língua e ( :oloc1r o problema do trarn.• 1·11dl'111.1l ... ignifica, em última
fala (ou antes, nos termos de Benveniste, entre semiótica e .111:1lise, perguntar o que quer d11.c1 «possuir uma faculdade»,
semântico) que permanece o incontornável com o qual toda qu.11 é ,\ gramática do verbo «poder». E a única resposta
reflexão sobre a linguagem deve confrontar-se. Mostrando poss íve l é uma experiência da linguagem.
que entre estas duas dimensões não existe passagem,
Benveniste conduziu a ciência da linguagem (e, com ela, Na obra não escrita sobre a voz, em vez disso, o lugar
toda uma fileira de ciências humanas, das quais a lingüística desta experiência transcendental era procurado antes na
era a ciência-piloto) diante de sua aporia suprema, além da diferença entre voz e linguagem, entre phoné e lógos, na me­
qual ela não pode prosseguir sem transformar-se em filo­ dida em que esta diferença abre o espaço próprio da ética.
sofia. Pois é óbvio que, para um ser cuj a experiência da Muitas notas transcrevem nesta perspectiva o trecho da
linguagem não se apresentasse desde sempre cindida em Política (1523 a 10-18) em que Aristóteles, quase que
língua e discurso, um ser que já fosse, portanto, sempre inadvertidamente, coloca este problema decisivo e tentam
falante e estivesse sempre em uma língua indivisa, não exis­ interpretá-lo: «Somente o homem entre os viventes possui
tiriam nem conhecimento, nem infância, nem história: ele a linguagem. A voz, realmente, é índice da dor e do prazer
seria desde sempre imediatamente unido à sua natureza e, por isto, pertence também aos outros viventes (de fato, a
lingüística e não encontraria em nenhuma parte uma descon­ sua natureza chegou a ter sensação da dor e do prazer, e a
tinuidade e uma diferença nas quais algo como um saber e significá-los reciprocamente); a linguagem, por sua vez,
uma história poderiam produzir-se. A dupla articulação em serve para manifestar o conveniente e o inconveniente,
língua e discurso parece, pois, constituir a estrutura especí­ assim como o justo e o injusto; isto é próprio e exclusivo
fica da linguagem humana, e somente a partir desta adquire dos homens perante os outros viventes, o ter a sensação do
seu sentido próprio a oposição de qynamis e enérgeia, de bem e do mal, do justo e do injusto, e das outras coisas do
potência e de ato, que o pensamento de Aristóteles deixou mesmo gênero, e a comunidade (koi11011ía) destas coisas
como herança à filosofia e à ciência ocidental. A potência produz a habitação (oikía) e a cidade (pó/is)».
- ou o saber - é a faculdade especificamente humana de Talvez não tenha sido suficientemente notado que, no
manter-se em relação com uma privação, e a linguagem, na De interpretatione, quando Aristóteles define a significação
medida em que é cindida e m língua e discurso, contém lingüística remetendo a voz aos patemas 4 na alma e às coisas,
estruturalmente esta relação, não é nada além desta relação. não fala simplesmente de phoné, mas usa a expressão ta e11 te
O homem não sabe simplesmente, nem simplesmentefala, phoné, aquilo que existe na voz. Que coisa existe na voz
não é homo sapiens ou homo !oquens, mas homo sapiens /oquendi, humana, que artis_ula a passagem da voz animal ao lógos, da
homem que sabe e pode falar (e, portanto, também não natureza à pó/is? E conhecida a resposta de Aristóteles: o
falar), e este entrelaçamento constitui o modo com o qual o que articula a voz são os gra111mata, as letras. No início de
Ocidente compreendeu a si mesmo e que pôs como funda­ seus tratados, os gramáticos antigos opunham assim a voz
mento do seu saber e de suas técnicas. A violência sem confusa (pho1Jé ry11kecl!Jmé11e) dos animais à voz humana, que
precedentes do poder humano tem a sua raiz última nesta é, ao contrário, énarthros, articulada. Mas, se perguntamos
estrutura da linguagem. Neste sentido, aquilo de que no em que consiste este caráter «articulado» da voz humana,
expniflle11t11m linguae se tem experiência não é simplesmente uma vemos que phoné énarthros significa para eles simplesmente
impossibilidade de dizer: trata-se, antes, de uma impossibili­
dade de falar a partir de uma língua, isto é, de uma experiência
- através da morada infantil na diferença entre língua e Pate111a (do gr. pátbema 'afecção, sofrimento', de pcíthos) 'sofrimento
moral'. [,"\'. do T.]

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/>hr111/ tllJ!J'tll!J111a/o.r, ''º·"'· voz passível de
q11ae scrihi potest, li1�1.1,11t11' {',portanto, uma rcvis�o radical da própria idéia
ser escrita, ou antes, já sempre escrita. Os antigos comen­ de um Comum. O simples conteúdo do experimentum é de
tadores de Aristóteles já se haviam perguntado por que o que txi.r/1· li11,�"ª<�fm, e isto não nos podemos representar,
filósofo punha o gramma como quarto «hermeneuta», junto segundo o modelo que dominou a nossa cultura, como uma
aos outros três (voz, paternas, coisas) que explicam o círculo língua, como um estado ou um patrimônio de nomes e de
da significação lingüística. Identificaram assim o estatuto regras que cada povo transmite de geração a geração; é
particular do gramma no fato de que este não é, como os antes a ilatê11cia5 impresumível que os homens habitam
outros três, simplesmente signo, mas, ao mesmo tempo, desde sempre, e na qual, falando, respiram e se movem.
elemento (stoicheíon) da voz, quantum de voz articulada. Malgrado os quarenta milênios do homo sapiens, o homem
Como signo e, contemporaneamente, elemento constitutivo ainda não tentou verdadeiramente assumir esta i!atência,
da voz, o gramma vem assim a assumir o estatuto paradoxal fazer experiência do seu ser falante.
de um índice de si mesmo (index Stti). Deste modo, a letra é Na única conferência que haveria de dar publicamente,
aquilo que ocupa desde sempre o hiato entre phoné e lógos, a diante dos membros de um c!ub que se intitulavam «OS
estrutura original da significação. heréticos», Wittgenstein repropõe a seu modo o experimentum
/ing11ae:
A hipótese do livro não escrito era completamente outra. «E agora descreverei a experiência de maravilhar-se com a
O hiato entre voz e linguagem (como aquele entre língua e existência do mundo dizendo: é a experiência de ver o mundo
discurso, potência e ato) pode abrir o espaço da ética e da como um milagre. Neste momento sou tentado a dizer que a
pólis precisamente porque não existe um árthros, uma arti­
expressão justa na língua para o milagre da existência do
culação entre phoné e !ógos. A voz j amais se inscreveu na mundo, mesmo não sendo nenhuma proposição na língua,
linguagem e o gramma (o pensamento de Derrida veio em é a existência da própria linguagem».
boa hora mostrá-lo) nada mais é do que a forma mesma da
pressuposição de si e da potência. O espaço entre voz e Tentemos prosseguir com o experimento wittgensteiniano
!ógos é um espaço vazio, um limite no sentido kantiano.
e perguntemo-nos:
Somente porque o homem se encontra lançado na linguagem «Se a expressão mais adequada para a maravilha da exis­
sem ser até aí levado por uma voz, somente porque, no tência do mundo é a existência da linguagem, qual será
experimentum linguae, ele se arrisca, sem uma «gramática», então a expressão justa para a existência da linguagem?»
neste vazio e nesta afonia, algo como um ethos e uma comu­ A única resposta possível a esta pergunta é: a vida hu­
nidade se tornam para ele possíveis. mana enquanto ethos, enquanto vida ética. Buscar uma pó/is e
Por isso a comunidade que nasce no experimentum linguae uma oikía que estejam à altura desta comunidade vazia e impre­
não pode ter a forma de um pressuposto, nem ao menos na sumível, esta é a tarefa infantil da humanidade que vem.
forma, puramente «gramatical», de uma pressuposição de si.
Giorgio Agamben
O ser-falante e o ser-dito com os quais nos medimos no expe­
timentum não são nem uma voz nem umgramma; como arqui­
transcendentais, estes não são aliás nem mesmo pensáveis 5 Ilaté11cia (ouJ1ào-la1ê11cia): 'des ocultação' (al. U11verbo11rgenhei1). Este
como um algo, como um quid do qual nós talvez pudéssemos, termo aparece na análise heideggeriana do conceito de verdade (a
partir do gr. a-lethéia 'verdade, realidade', comp. pref. neg. a(n)- e
segundo a bela imagem de Platino, tomar quaisquer moirai,
subst. léthe 'esquecimento') como o 11ào-ocufto, ou seja, da verdade
quaisquer partes. A primeira conseqüência do experiment11m como 1welafãu ou tlescohrimento do ser. [l\'. do T.]

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IN FÂN CIA E HISTÓ RIA

ENSAIO SOBRE A DESTRUIÇÃO DA EXPE RIÊNCIA

para Cláudio Ruafiori

O matematici, fate lume a tale errore!


Lo spirito non ha voce, perché dov'e voce e corpo
LEONARDO
I

Tado discurso sobre a experiência deve partir atualmente


da constatação de que ela não é mais algo que ainda nos
seja dado fazer. Pois, assim como foi privado da sua biografia,
o homem contemporâneo foi expropriado de sua experiência:
aliás, a incapacidade de fazer e transmitir experiências talvez
seja um dos poucos dados certos de que disponha sobre si
mesmo. Benjamim, que já em 1933 havia diagnosticado com
precisão esta «pobreza de experiência» da época moderna,
indicava suas causas na catástrofe da guerra mundial, de
cujos campos de batalha «a gente voltava emudecida. . . não
mais rica, porém mais pobre de experiências partilháveis...
Visto que as experiências jamais receberam desmentido tão
radical quanto as experiências estratégicas na guerra de
posição, as experiências econômicas na inflação, as expe­
riências corp6reas na fome, as experiências morais no despo­
tismo. Uma geração que tinha ido à escola em bonde puxado
a cavalo encontrava-se em pé, sob o céu, numa paisagem
em que nada permanecera inalterado, salvo as nuvens; e no
centro, em um campo de força de correntes destrutivas e
explosões, o frágil, minúsculo corpo humano».
Porém, n6s hoje sabemos que, para a destruição da expe­
riência, uma catástrofe não é de modo algum necessária, e
que a pacífica existência cotidiana em uma grande cidade é,
para esse fim, perfeitamente suficiente. Pois o dia-a-dia do
homem contemporâneo não contém quase nada que seja Porque a experiência tem o seu necessário correlato não no
ainda traduzível em experiência: não a leitura do jornal, tão L< mhccimento, mas na autoridade, ou seja, na palavra e no
rica em notícias do que lhe diz respeito a uma distância L onto, e hoje ninguém mais parece dispor de autoridade
insuperável; não os minutos que passa, preso ao volante, em ..,uficiente para garantir uma experiência, e se dela dispõe,
um engarrafamento; não a viagem às regiões ínferas nos nem ao menos o aflora a idéia de fundamentar em uma
vagões do metrô nem a manifestação que de repente blo­ experiência a própria autoridade. Ao contrário, o que carac­
queia a rua; não a névoa dos lacrimogêneos que se dissipa teriza o tempo presente é que toda autoridade tem o seu
lenta entre os edifícios do centro e nem mesmo os súbitos fundamento no "inexperienciável", e ninguém admitiria aceitar
estampidos de pistola detonados não se sabe onde; não a como válida uma autoridade cujo único título de legitimação
fila diante dos guichês de uma repartição ou a visita ao país fosse uma experiência. (A recusa das razões da experiência
de Cocanha do supermercado nem os eternos momentos de da parte dos movimentos juvenis é prova eloqüente disso).
muda promiscuidade com desconhecidos no elevador ou Daí o desaparecimento da máxima e do provérbio, que
no ônibus. O homem moderno volta para casa à noitinha eram as formas nas quais a experiência se colocava como
extenuado por uma mixórdia de eventos - divertidos ou autoridade. O slogan, que os substituiu, é o provérbio de
maçantes, banais ou insólitos, agradáveis ou atrozes -, uma humanidade que perdeu a experiência. O que não
entretanto nenhum deles se tornou experiência. significa que hoje não existam mais experiências. Mas estas
É esta incapacidade de traduzir-se em experiência que se efetuam fora do homem. E, curiosamente, o homem olha
torna hoje insuportável - como em momento algum no para elas com alívio. Uma visita a um museu ou a um lugar
passado - a existência cotidiana, e não uma pretensa má de peregrinação turística é, desse ponto de vista, particu­
qualidade ou insignificância da vida contemporânea confron­ larmente instrutiva. Posta diante das maiores maravilhas
tada com a do passado (aliás, talvez jamais como hoje a da terra (digamos, o patio de los /eones, no Alhambra), a
existência cotidiana tenha sido tão rica de eventos significa­ esmagadora maioria da humanidade recusa-se hoje a experi­
tivos) . Se foi preciso esperar pelo século XIX para encontrar mentá-las: prefere que seja a máquina fotográfica a ter expe­
as primeiras manifestações literárias desta opressão do coti­ riência delas. Não se trata aqui, naturalmente, de deplorar
diano, e se algumas célebres páginas de Sei11 und Zeit[Sere esta realidade, mas de constatá-la. Pois talvez se esconda, no
tempo] sobre a «banalidade» do cotidiano - nas quais a fundo desta recusa aparentemente disparatada, um grão de
sociedade européia entre as duas guerras foi até demasiada­ sabedoria no qual podemos adivinhar, em hibernação, o
mente propensa a reconhecer-se - simplesmente não teriam germe de uma experiência futura. A tarefa que este escrito se
feito sentido apenas um século antes, isto se deu precisa­ propõe - retomando a herança do programa benjarniniano
mente porque o cotidiano - e não o extraordinário - «da filosofia que vem» - é a de preparar o lugar lógico em
constituía a matéria-prima da experiência que cada geração que este germe possa atingir a maturação.
transmitia à sucessiva (daí a inatendibilidade dos contos de
vila e dos bestiários medievais, que não contêm nada de
«fantástico», mas mostram simplesmente como o extraordi­ Glosa
nário não pudesse ser, em nenhum caso, traduzido em
experiência). Todo evento, por mais comum e insignificante, Um conto de Tieck, que tem como títtt!o "O supérfluo na vida",
tornava-se a partícula de impureza em torno da qual a expe­ 11os mostra 11m casal de amantes 11a pe111fria que aos po11cos remmcia
riência adensava, como uma pérola, a própria autoridade. a qualquer bem e a toda atividade externa, e acaba por viver recluso

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t'/11 .r1·1f qlfarto. Por/im, 11ào co11seg11i11do 1J1ais encontrar lenha, eles 1k 1111·.11110 11 hodier1111 lo.\:icon1a11ia de !llassa del'e ser 1'Ísta na
se aqlfecem q11ei1J1a11do inclusive a escada de madeira q11e ligava seu /'1/'.\jl('(/i/Jt1 desta destmiçiio da e:>::periência. Pois o que d[ferenáa
quarto ao resto da casa, ficando assim isolados do 1m111do externo, 11s 1101·os droc�ado s dos intelectuais que descobriram a droga 110

sem outra posse e sem outra ocupação além de seu amor. Bsta escada .11·mlo XIX é q11e estes últimos (ao menos os menos lúcidos entre
- 11os esclarece Tieck - é a experiência, que eles sacrificam às l'il's} podiam ter ainda a ilusão de estarem realizando mna nova
chamas do «conhecimento puro». Q11a11do o senhorio (que representa l'.'\periência, e11q11anto que para os primeiros se trata si111plesmente1
aqui as razões da experiência) procura, ao voltar, a velha escada t1 este ponto, de desvencilhar-se de toda experiência.
que conduzia ao andar alugado aos dois jovens inquilinos, Henrique
(este é O nome do protagonista) zomba dele com estas palavras:
«FIP qz1er stfs/entar-se com a velha experiência de qttem está no II
chão e quer subir, movendo-se lentamente, degra11 por degrau, à
alt11ra da compreensão mais alta; entretanto não poderá jamais
seguir a i11t11ição imediata que temos, nós, que já abolimos estes
E m u m certo sentido, a expropriação d a experiência
momentos triviais da experiência e da s11cessào para sacrificá-los,
estava implícita no projeto fundamental da ciência moderna.
seg1111do a antiga lei dos Parses, ao puro conhecimento, com a chama «A experiência, se ocorre espontaneamente, chama-se acaso,
purificadora e vivificante». se deliberadamente buscada recebe o nome de experimento.
Mas a experiência comum não é mais que uma vassoura
A supressão da escada, ou seja, da experiência, é justificada por
desmantelada, um proceder tateante corno o de quem
Tieck como uma «filosofia da pobreza imposta a eles pelo destino».
perambulasse à noite na esperança de atinar com a estrada
É 11ma tal «filosofia da pobreza)> que pode explicar hoje em dia a
certa, enquanto seria mais útil e prudente esperar pelo dia
remsa da expetiência da parte dos jovms (mas não apenas dos
ou acender um lume, e só então pôr-se a caminho. A verda­
jovens: índios metropolita11os e turistas, hippies e pais de Jàmília
deira ordem da experiência começa por acender o lume; com
estão emparelhados - muito além do que jamais estariam dispostos
este, em seguida, aclara o caminho, iniciando pela expe­
a nconhecer -por uma idêntica expropriação da experiência). Pois
riência bem disposta e ponderada e não por aquela descon­
eles são como aqueles personagens de quadrinhos da nossa i11fá11cia,
tÍnua e às avessas; primeiro deduz os axiomas e depois
q11e podem caminhar 110 vazio desde que não se dêem COI/la: no
procede a novos experimentos». Nesta frase de Francis
instante em q11e se dão conta, em que têm a experiência disso,
Bacon, a experiência no sentido tradicional - ou seja, aquela
despencam irremediavelmente.
que se traduz em máximas e provérbios - já está condenada
Por isso, se a s11a condição é, of?jetivamente, tetrível, jamais se sem apelo. A distinção entre verdade de fato e verdade de
11111
viu porém espetáculo mais repugnante do que Hma geração de razão (que Leib niz formula afirmando que «quando se
adultos que, após haver destmído até a última possihilidade de espera que amanhã o sol se levante, age-se como empíricos,
e>. .-periência a11tê11tica, lança a sua miséria em face a uma j11ventude pois até hoje foi sempre assim. Só o astrônomo julga com
q11e 11iio é vuiis capaz de expniência. Q11a11do se desefaria impor a razão») sanciona ainda mais esta condenação. Pois, contraria­
esta h111na11idade, q11e de fato foi expropriada da experiência, uma mente ao que se repetiu com freqüência, a ciência moderna
experie"11cia ma11ipttlada e guiada como em um lahirinto para ratos,
_
nasce de uma desconfiança sem precedentes em relação
qHando a ú11ica experiência possível é, portanto, o horror e a illentira, à experiência como era tradicionalmente entendida (Bacon
nesta ciramstáncia 11ma remsa da experiência pode - provisoria­ define-a uma «selva» e um «labirinto», nos quais se propõe a
mente - constituir uma defesa legítima. colocar ordem)- Do olhar lançado ao perspicil/um de Galileu,
não saíram segurança e confiança na experiência, mas a É nesta separação de experiência e ciência que devemos ver
dúvida de Descartes e a sua célebre hipótese de um demônio o sentido - nada abstruso, mas extremamente concreto -
cuja única função é a de enganar os nossos sentidos. das disputas que dividiram os intérpretes do aristotelismo
A comprovação científica da experiência que se efetua no da antiguidade tardia e medieval a propósito da unicidade e
experimento - permitindo traduzir as impressões sensíveis da separação do intelecto e sua comunicação com os sujeitos
na exatidão de determinações quantitativas e, assim, prever da experiência. Inteligência (nous) e alma (p[yché) não são,
impressões futuras - responde a esta perda de certeza de fato, para o pensamento antigo (e - pelo menos até São
transferindo a experiência o mais completamente possível Tomás - também para o pensamento medieval), a mesma
para fora do homem: aos instrumentos e aos números. Mas, coisa, e o intelecto não é, como nós estamos acostumados
deste modo, a experiência tradicional perdia na realidade a pensar, uma «faculdade» da alma: ele não lhe pertence
todo seu valor. Porque - como o demonstra a última obra de modo algum, mas «separado, impermisto, impassível»,
da cultura européia a ser ainda inteiramente fundada sobre segundo a célebre fórmula aristotélica, comunica-se com
a experiência: os Essais de Montaigne - a experiência é ela para realizar o conhecimento. Conseqüentemente, o pro­
incompatível com a certeza, e uma experiência que se torna blema central do conhecimento não é, para a antiguidade, o
calculável e certa perde imediatamente a sua autoridade. da relação entre um sujeito e um objeto, mas o da relação
Não se pode formular uma máxima nem contar uma estória entre o uno e o múltiplo. Por isso o pensamento clássico
lá onde vigora uma lei científica. A experiência de que se não conhece um problema da experiência como tal; aquilo
ocupa Montaigne é aliás tão pouco voltada à ciência que que se coloca, para nós, como problema da experiência,
ele define sua matéria como um «subjet informe, qui ne apresenta-se naturalmente, para ele, como problema da
peut rentrer en production ouvragere» e sobre o qual não é relação (da «participação», mas também da «diferença»,
possível fundar nenhum juízo constante («il n'y a aucune como dirá Platão) entre o intelecto separado e os indivíduos em
constante existence, ny de notre estre, ny de celui des objects... sua singularidade, entre o uno e o múltiplo, entre o inteligível
Ainsin il ne se peut establir rien de certain de l'un à l'autre... »). e o sensível, entre o humano e o divino. E é esta diferença
A idéia de uma experiência separada do conhecimento que o coro da Oréstia de Ésquilo sublinha, caracterizando
tornou-se para nós tão estranha a ponto de esquecermos - contra a l!fbris de Agamenon - o saber humano como
que, até o nascimento da ciência moderna, experiência e um páthei máthos, um aprender somente através de e após
ciência possuíam cada uma o seu lugar próprio. E não só: um sofrimento, que exclui toda possibilidade de prever, ou
distintos eram também os sujeitos de que lançavam mão. seja, de conhecer com certeza coisa alguma.
Sujeito da experiência era o senso con11m1, presente em cada A esta separação da experiência e da ciência, do saber
indivíduo (é o «princípio que julga» de Aristóteles e a vis humano e do saber divino, a experiência tradicional (aquela,
estimativa da psicologia medieval, que não são ainda o que entenda-se, de que se ocupa Montaigne) mantém-se fiel. Esta
chamamos de bom senso), enquanto que o sujeito da ciência é, precisamente, experiência do limite que separa essas e.luas
é o 11011s ou intelecto agente, que é separado da experiência, esferas. Este limite é a morte. Por isso Montaigne pode
«impassível» e «divino» (aliás, para sermos precisos, o conhe­ formular o fim último da experiência como uma aproxi­
cimento não possuía nem mesmo um sujeito no sentido mação à morte, ou seja, como um conduzir o homem à
moderno de um ego, mas, ao contrário, era o próprio indivíduo maturidade por meio de uma antecipação da morte enquanto
o sub-:Jectmn no qual o intelecto agente, único e separado, limite extremo da experiência. Mas este limite permanece,
realizava o conhecimento). para Montaigne, um inexperienciável, do qual é possível

26 27
somente aproximar-se («si nous ne p ouvons le joindre, nous .1ssim«previsões mais doces a respeito da morte e do tempo
t onduído».
le p o uvons approche») ; e, no m o mento mesmo em que
recomenda «acostumar-se» e «subtrair a estranheza» à morte A concepção aristotélica das esferas celestes homocên-
(«ostons luy l'estrangeté, pratiqu ons le, n'ayon rien si 1 1icas como «inteligências» puras e divinas, imunes à mudança
s ?� vent e� teste que la mort»), ele ironiza, porém, aqueles t' corrupção e separadas do mundo terrestre sublunar, que é

f1losofos «Sl excellens mesnagers du temps, qu'ils on essayé < > l ugar da mudança e da corrupção, reencontra o seu sentido
en la mort mesme de la gouster et savourer, et ont bandé originário apenas se a inserimos no panorama de uma cultura
leur esprit pour voir que c'estoit ce passage; mais ils ne sont que concebe experiência e conhecimento como duas esferas
pas revenus nous en dire le nouvelles». w
. tônomas. Estabelecer uma relação entre os «céus» da
Em sua busca pela certeza, a ciência moderna abole esta inteligência pura e a «terra» da experiência individual foi a
separação e faz da experiência o lugar - o «método», isto grande descoberta da astrologia, o que faz dela não uma
é, o caminho - do conhecimento. Mas, para fazer isto, deve adversária, mas uma condição necessária da ciência moderna.
proceder a uma refundição da experiência e a uma reforma Somente porque a astrologia (como a alquimia, que lhe é
da inteligência, desapropriando-as primeiramente de seus solidária) havia estreitado em um sujeito único no destino
sujeitos e colocando em seu lugar um único novo sujeito. (na Obra) céu e terra, divino e humano, a ciência pôde uni­
Pois a grande revolução da ciência moderna não consistiu ficar em um novo ego ciência e experiência, que até então se
tanto em uma alegação da experiência contra a autoridade referiam a dois sujeitos distintos. E somente porque as mís­
(do argmne11t111J1 ex re contra o arg11me11t11111 ex verbo, que são, ticas neoplatônica e hermética haviam conciliado a sepa­
na realidade, inconciliáveis) quanto em referir conhecimento ração aristotélica entre 11011s e psyché e a diferença platônica
e exp �r�ên �ia a um sujeito únic ?, qu� nada mais é que a sua entre o uno e o multíplice com um sistema emanatista, 1 no
. qual uma hierarquia contínua de inteligências, anjos, demônios
comc1 ?enc1a em u � por:to arqmmed1ano abstrato: o ego cogito
cartesiano, a consc1encia. e almas (recorde-se os anjos-inteligências de Avicena e de
Dante) comunicava-se em uma «grande cadeia» que partia
Com esta interferência de experiência e ciência em um
do Um e a ele retornava, foi possível estabelecer corno funda­
único sujeito (que, sendo universal e impassível e, ao mesmo
mento da «ciência experimental» um único sujeito. Que o
tempo, um ego, reúne em si as propriedades do intelecto
mediador universal d est a união inefável entre i nt e l igível e
separado e do sujeito da experiência), a ciência moderna
sensível (entre corpóreo e incorpóreo, divino e humano)
reproduz aquela liberação dopáthei 111áthos e aquela conjunção
fosse, na especulação da antiguidade tardia e medieval, um
do saber humano com o saber divino que constituíam o
pneuma, um «espírito», não é certamente um fato irrelevante,
caráter próprio da experiência mística, e que haviam encon­
pois este mesmo «espírito sutil» (o spiritus pha11tastims da
t �ado na astrologia, na alquimia e na especulação neoplatô­
mística medieval) viria a fornecer algo mais do que o nome ao
mca a sua expressão pré-científica. Pois não foi na filosofia
novo sujeito da experiência, que em Descartes surgiria justa­
clássica, mas na esfera da religiosidade dos mistérios da
mente corno eJprit. O desenvolvimento da filosofia moderna
antiguidade tardia, que o limite entre humano e divino, entre
o páthei llláthos e a pura ciência (do qual, segundo Montaigne,
é possível apenas aproximar-se, sem jamais tocá-lo), foi 1 Que se refere ao e1�1a11atis1110 ou e!l1t111acio11is1110, doutrina panteísta deri­
superado pela primeira vez na idéia de u m páthema indi­ vada do neo f:'l �tomsmo, _segundo a qual as criaturas seriam emanações
consubs � a:1c1a1s da luz d1vma, embora não tendo todas o mesmo grau
zível, em que o iniciado consumava a experiência da própria T
de perfe1çao. [;\ _ do T]
morte («conhece o fim da vida», diz Píndaro) e obtinha

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esl<Í.imeiramcnlc comido, como um capítulo daquela que implicar uma crítica da ciência., e somente o restabeleci­
Spitzer definia «semântica histórica», na contigüidade semân­ mento de uma dimensão na qual ciência e exp eriência
tica entre pneuma spiritus - esprit - Geist; e, justamente porque
- encontrassem individualmente o seu p róprio lugar original
o sujeito moderno da experiência e do conhecimento - assim poderia levar a uma definitiva superação da oposição racio­
como o próprio conceito de experiência - tem suas raízes em nalismo/irracionalismo.
uma concepção mística, toda explicitação da relação entre Porém, enquanto a coincidência de experiência e conhe­
experiência e conhecimento na cultura moderna é condenada cimento constituía, nos mistérios, um evento inefável, que
a chocar-se com dificuldades quase intransponíveis. se cumpria com a morte e o renascimento do adepto emu­
Através da ciência, são a mística neoplatônica e a astro­ decido, e enquanto, na alquimia, ela se efetuava no processo
logia que de fato ingressam na cultura moderna, contra a da Obra, da qual constituía a realização, no novo sujeito da
inteligência separada e o cosmo incorruptÍvel de Aristóteles. ciência, ela torna-se não algo de indizível, mas aquilo que é
E, se a astrologia foi abandonada em seguida (em seguida, já sempre dito em cada pensamento e em cada frase, ou
apenas: não se deve esquecer que Tycho Brahe, Kepler e seja, não um páthe111a, mas um máthema no sentido originário
Copérnico eram também astrólogos, assim como fervoroso da palavra: isto é, algo que é sempre já imediatamente
partidário da astrologia era Roger Bacon, que antecipa em conhecido em cada ato de conhecimento, o fundamento e
muitos aspectos a ciência experimental), isto ocorreu porque o sujeito de todo pensamento.
o seu p rincípio essencial - a união de experiência e conhe­ Somos tão acostumados a representar-nos o sujeito como
cimento - havia sido tão assimilado como p,rincípio da nova uma realidade psíquica substancial, isto é, como uma cons­
ciência, com a constituição de um novo sujeito, que o apa­ ciência considerada como lugar de processos psíquicos, que
rato propriamente mítico-divinatório tornava-se supérfluo. nos esquecemos de que, em seu surgimento, o caráter «psí­
A oposição racionalismo/irracionalismo, que pertence de quico» e substancial do novo sujeito não era certamente uma
modo tão irredutível à nossa cultura, tem o seu fundamento coisa óbvia. No instante em que é posto em evidência na
oculto justamente nesta co-participação originária de astro­ formulação cartesiana, ele não é, na verdade, uma reali­
logia, mística e ciência, da qual o reviva! astrológico entre dade psíquica (não é nem a psyché de Aristóteles, nem a
os intelectuais renascentistas é apenas o sintoma mais evi­ at1ima da tradição medieval), mas um puro ponto arquime­
dente. Historicamente este fundamento coincide com o fato, diano (<<nihil nisi punctum petebat Archimedes, quod esset
solidamente comprovado hoje em dia graças aos estudos da firmum ac immobile . . ») que se constituiu justamente através
.

filologia warburguiana,2 de que a restauração humanística da da quase mística redução de todo conteúdo psíquico exceto o
antiguidade foi uma restauração não da antiguidade clássica, puro ato de pensar («Quid vero ex iis quae animae tribuebam?
mas da cultura da antiguidade tardia e, particularmente, do Nutriri vel incedere? Quandoquidem jam corpus non habeo,
neoplatonismo e do hermetismo. Por isso, uma crítica da haec quoque nihil sunt nisi figmenta. Sentire? Nempe etiam
mística, da astrologia e da alquimia deve necessariamente hoc non fit sinc corpore, et permulta sentire visus sum in
somnis quae deinde animadverti me non sensisse. Cogitare?
Hic invenio: c ogitatio est; haec sola a me divelli nequit»).
2 lf7arburgt1iano, relativo a Aby Warburg (1866-1929), estudioso de arte
alemão. Estudou os traços da cultura clássica remanescentes nas civili­ Na sua pureza originária, o sujeito cartesiano nada mais é
zações renascentista e moderna, através da pesquisa das migrações e que o sujeito do verbo, um ente puramente lingüístico-fun­
transformações de seus temas e símbolos, inaugurando o método cional, muito similar à «scintilla synderesis» e ao « ápice da
"iconológico" de leitura da obra de arte. [N. do T.] mente» da mística medieval, cuja realidade e cuja duração

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coincidem com o insuntc de sua enunciação (« ... hoc pronun­ i n fi n ito, um conceito «assintótico», como dirá Kant, ou seja,
tiatum, Ego sum, ego existo, quoties a me profertur, vel mente .11)?,o que se pode somente fazer e jamais ter: nada mais, preci­
concipitur, necessario esse verum ... Ego sum, ego existo; s.uncnte, do que o processo infinito do conhecimento.
certum est. Quandiu autem? Nempe quandiu cogito; nam
Por isso, qualquer um que se propusesse hoje a recuperar
forte etiam fieri posset, si cessarem ab omni cogitatione, ut
a experiência tradicional viria a encontrar-se em uma situação
illico totus esse desinerem»).
paradoxal. Pois deveria, em primeiro lugar, cessar de fazer
A impalpabilidade e a insubstancialidade deste ego trai-se experiência, suspender o conhecimento. Mas isto não signi­
na dificuldade que Descartes prova em nominá-lo e i denti­ fica que, apenas com isto, reencontraria a experiência que
ficá-lo fora do âmbito da pura enunciação e11 penso, e11 so11, se pode, simultaneamente, fazer e ter. O velho sujeito da
e na insatisfação com a qual ele, forçado a abandonar a experiência, na verdade, não existe mais. Ele se duplicou.
vaguidão da palavra res, arrola o vocabulário tradicional da Em seu lugar existem agora dois sujeitos que, no início do
psicologia («res cogitans, id est mens, sive animus, sive século XVII (ou seja, exatamente nos mesmos anos em que
intellectus, sive ratio»), detendo-se afinal, não sem incer­ Kepler e Galileu publicam suas descobertas), um romance
teza, na palavra mens (que se torna esprit na edição francesa retrata enquanto caminham lado a lado, inseparavelmente
das J\Ieditations de 1647). Todavia, logo depois (com u m salto unidos, em uma busca tão aventurosa quanto inútil.
lógico, cuja incoerência não escapara aos primeiros leitores das
Dom Quixote, o velho sujeito do conhecimento, foi enfei­
Meditações, em particular a Mersenne e a Hobbes, que exprobra
tiçado e pode apenas fazer experiência, sem jamais tê-la.
a Descartes uma dedução análoga a «j e suis promenant,
donc je suis une promenade»), este sujeito é apresentado Junto a ele, Sancho Pança, o velho sujeito da experiência,
como uma substância, contraposta à substância material, à pode apenas ter experiência, sem jamais fazê-la.
qual são novamente atribuídas todas as propriedades que
caracterizam a alma da psicologia tradicional, inclusive a Glosas
sensação («Res cogitans? Quid est hoc? Nempe dubitans,
intelligens, affirmans, negans, volens, nolens, imaginans
quoque, et sentiens»). E é este eu substantivado, no qual se I. Fantasia e experiência
realiza a união de nous ePD'ché, de experiência e conhecimento,
que fornece a base sobre a qual o pensamento sucessivo, de Nada pode dar idéia da dimensão da 1t1ttdança ocorrida no signi­
Berkeley a Locke, construirá o conceito de uma consciência ficado da experiência como a reviravolta q11e ela prod11z 110 estatuto
psíquica que se substitui, como novo sujeito metafísico, à da imaginação. Dado q11e a imaginaçiio, hqje eli111i11ada do co11heci-
alma da psicologia cristã e ao 11011s da metafísica grega. 111e11to como sendo <rirreal», era para a a11t��Hidade o medium por
A transformação de seu sujeito não deixa imutável a excelência do conhecimento. Enq11a11to mediadol'CI entre sentido e inte­
experiência tradicional. Enquanto o seu fim era o de con­ lecto, que torna possível, 110 fantasma, a 11niào de JorJJ1a sensível e
duzir o homem à maturidade, ou seja, a uma antecipação da intelecto possível, ela ocupa. na mlt11ra antiga e 1JJedieval, exata­
morte como idéia de uma totalidade consumada da expe­ mente o mesmo lugar que a nossa mlt11ra confere à experiência. Longe
riência, ela era de fato algo de essencialmente finito, e logo, de ser algo irreal, o mundus imaginabilis tem a sua plena reali­
era algo que se podia ter e não somentefazer. Mas, uma vez dade entre o mundus sensibilis e o mundus intellegibilis, e é,
referida ao sujeito da ciência, que não pode atingir a matu­ aliás, a condição de sua comunicação, OH sija, do conhecimento. E, a
ridade, mas apenas acrescer os próprios conhecimentos, a partir do momento em que é a fantasia que, seg1111do a antiguidade,
experiência tornar-se-á, ao contrário, algo de essencialmente fo rma as imagens dos sonhos, explica-si' a refarão pa1timlar que, 110

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1JJ11ttdo ant�f!,o, o sonho ma11téJ11 com a realidade (co1110 11a culi11i11haráo l'.'\j)('rié11cia. Pois, segundo uma intuição já operante na psicologia
per somnia) e com o conhecimento �ficaz (como na terapia médica dússica, e qm será completamente desenvolvida pela mltura medieval,
per incubazione). Isto ai11da é verdadl'iro nas mlturas primitivas. /cflltasia e desf!jo sàa estreitamente conexos. Aliás, o fantasma, que
Devere11x relata que os mohave (nisto 11ão dissí1J1eis das outras / a verdadeira origem do des'!/o (<rpha11tasia ea est, q11ae totHfll parit
mlt11ras xamânicas) creem qtte os poderes xamánicos e o co11hecime11to desiderilf11JJ>), é também - como mediador entre o homem e o of?jeto
dos mitos, assim como das témicas I' dos cantos que a Pies se referem, - a condição da apropriabi/idade do objeto do des'!/o, e logo, em
são adq11iridos 110 sonho. E não só: se 11iessem a ser adquiridos em IÍltima análise, de sua satisfação. A descoberta medieval do a1nor
estado de vigília, permaneceriam estéreis e i11eficazes até que fossem por obra dos poetas provençais e estilnovistas3 é, deste ponto de
sonhados: <rassim tt!ll xamã, que me permitira anotar e aprender os vista, a descoberta de que o amor tem como oldeto não diretamente a
seus cantos terapêuticos rit11ais, explico11-llle q11e e11 llào teria igual­ coisa smsível, mas o fantasma; é, portanto, simplesmmte a desco­
mente poder de mra1; pois 11ào havia potencializado e ativado os berta do caráterfantasmático do amor. Mas, dada a 11at11reza medial
sms cantos através rio aprendizado onírico». da fantasia, isto significa que o jà11tasma é, também, o st!Jeito e não
J\Ta fórvlllfa em que o aristotelismo J11edieval sintetiza esta simples1J1e11te o ol�jeto do eros. J.'\Ja medida e111 qNe, de .falo, o amor
jimção 111ediadora da i111a/t,inaçào («11ihil potest homo illtelligere sine te111 o seu lugar IÍ11ico 11a jàntasia, o des�jo 11ào e11co11lra mmca diante
phantasmate,>), a homologia entre fantasia e experiência é ainda de si o oijeto na stta corporeidade (daí o aparente «platonismo)) do
peifeitamente evidente. 1'1as, com Descartes e o nascimento da eros tro vadoresco-estilnovista), 11u1s 11111 a imagem (11m «atijo», no
ciê11cia 111oder11a, a função da fantasia é assumida pelo novo s19"eito significado témico que esta palavra tem nos filósofos árabes e nos
do co11hecime11to: o ego cogito (é p reciso 11otar que, 110 vocabulário poetas do amor: 11111a imaginação pura e separada do corpo, 11111a
da filosofia medieval, cogitare significava antes o dismrso da substantia separata que, com o se11 des�jo, lllove as esferas celestes),
fa11tasia que o ato da i11teligência). Entre o 1101'0 ego e o tmmdo 11ma «nova pessoa» [«nova persona» J q11e é, literalmente, feita de
corpóreo, entre res cogitans e res extensa, não há necessidade de desejo (Cavalcanti: <iformat1do di desio nova perso11a»), 11a qual se
11e11h11ma mediação. A expropriação da fcmtasia, qHe daí decorre, abole111 os confins mtre S11ijetivo e olijetivo, corpóreo e incotpóreo, o
111a11ifesta-se "ª nova maneira de carc1cterizar a s/la natureza: des'!)o e o se11 objeto. E precisamente porque o amor não é aq11i a
enqNa11to ela 11ào era - 110 passado - a�f!,o de <m11ijetivo,>, mas oposição de 11m sujeito desefante e de 11111 objeto do desrjo, mas tem
era, sobret11do, a coi11cidêllcia wtre sHijetivo e oijetivo, de interno e no fantasma, por assim dizn; o se11 st!Jeito-oijeto, os poetas podem
externo, de sensível e de inteligível agora é o seu caráter co111 bina­
,
definir o se11 caráter (em oposição a 11111 fol amour qm pode somente
tório e a/11ci11atório, qtte a antiguidadt' rt'legcwa ao piemo de f11 11do, co11s111nir o se11 of?jeto sem jantais verdadeiratllenfe se unir a ele, sem
a emergir ell/ plimeiro pla110. De si()eifo da 1'.'</)('riê11cia, o fantasma jamais Jazer dele exp e riência) como 11111 «amor co11s11111 ado'>
se toma o St!)'eito da alienação mental, das visões e dos Je11ô111enos (fin' amors), ago gozo m111ca tem fim («gioi che mai 11011 .fi11aJ>) e,
mágicos, 011 melhor, de t11do aq11ilo q11e fica excluído da e:·perié11cia coligando-o com a teoria averroísta que vê 110 fa11tasma o lugar em
a11têntica. q11e se cumpre a 1111iào do i11divíd110 com o intelecto agente, trat1sjonnar
o afllor em 11ma experiência sotniológica.
II. Cavalcanti e Sade
(O desejo e a necessidade) Sti/11oiista [ir., comp . de stil(e) 'estilo' e 11(ít)o1•0 'novo', a panir da expressão
dantesca ' (doire) sti/ 11ovo' (Prirgatório, XXIV, 57)]. Poeta do stib101•0,
estilo adotado por certos autores italianos dos séculos XIII e XIV,
A expropriação da jàntasia no dmbito da experiência lança, Dante entre eles . Renovaram a tradição lírica conês com grande apuro
porfm, 111na sombra sobre esta últi111a. F.sta sombra é o des�jo, formal, exaltando o amor e a imagem da mulher como meio de elevação
espiritual. (}'i. do T . ]
ou Sf!/a, a idéia de tlJJJa i11apropriabilidade e inexattribi/idade da

35
\ '" 1·111
Sade, malgrado t11do e a despeito da e.xpropriaçào da expe-
Caso co11Jrário, sendo a frmtasir1 e:,:c/11írla da l'.'VjJe .rà'i/011 ro1110
111'·11,.i11 que ele encarna tào profeticamente 110 repetitivo delilio dos
irreal e seu posto ocupado pelo ego cogito (tomado St(jf'ito do dwfo,
11I1.1 ptrso11agens, há ,gozo. há ddeite; se, em seus romances, sobrevive
((e/ls percpims
i ac appetens», nas palavras de Leib11iz). o dest:Jo
1111tlt1, tra11sjig11rado, o p!lro prqjeto edênico da poesia trovadoresco­
muda radicalmente de estat11to e toma-se, 11a sua esse"11cia, insatiifa­
z!vel, e11q11a11to o fantasma, qm era mediador e garante da aprop1ia­ t.r!il1101'Í.rta, isto ocorre graças à perversão, que desempenha, 110 eros
ft1tlic1110, a mesma j1111çào que a poesia esti/11ovista confiava ao
bilidade do 01!/eto do dest:Jo (sendo, portanto, aquilo q11e permitia
Jazer deste experiência), toma-se agora o próprio sf..g110 de sua l1111tas11Ja e à !Jlttlher-a1!fo. A perversão é o arcanj o salvífico
i11apropriabi!idade (da sua ((inexperienciabilidade»). Por isso, em que se alça em vôo do teatro ensangüentado de Eros para
Sade (diversamente que em Cavalcanti), o eu desf!Ja11te, t1ceso pelo elevar aos céus o homem sadiano.
fantasma («il Jaut monter Hll peu so11 i111agi11atio11», repetem os .Q11e a cisão entre destjo e neresúdade, sobre a q11al tanto se
persona� ms sadianos), encontra diante de si somente 11111 corpo, rhsmte hqje, 11ào srja a(í!,o que possa ser reco11ciliado com boa vontade,
um obJectum que pode sommte co11s11111ir e destrttir set11 111mca se (' ta11to menos tlfJJ nó que 11!1/a práxis polftica cada vez mais cega
satisfazer, porque nele o fantasma se esq11iva e se esconde ao à!finito. />ossa acreditar cortar com 11111 gesto, a sit11açào do desejo na Feno­
De Jato, a ablação da fantasia da esfera da experiê11cia cinde menologia do Espírito (e o que Lacc111, com a habitual agudeza,
aquilo que Eros (como filho de Poros e de Penia4) re1mia e/li si, em so11be dai extrair como objet a e CO!JJO désir de l' Autre) deveria
desejo (ligado à fantasia, insaciável e i11come11s11rável) e necessi­ 111ostrá-lo com eloqüência. Posto que, em J legel. o desrjo (que smge,
dade (ligado à realidade corpórea, mws11rável e teoricamente satis­ significativamente, como o plimeiro momento da a1tfoco11sciê11cia) pode
faz!vel), de modo q11f estes não podem ja111ais coincidir 110 mesmo so!llente procurar negar o próprio of!jeto, mas jamais se satiifazer
objeto. Aquilo qm o homem de Scide, co1110 s1(jeito do destjo, tem com ele. O e11 desrja11te atinge, 11a verdade, a sua certeza de si
diante de si é sempre ttm otttro home!JJ wqlfanto Sl!}eito da necessi­ apenas com a supressão do 011iro: «Cerio da 1111lidade deste outro,
dade, pois a necessidade não é !llais do que a forma inversa do ele, põe para si esta nulidade como p róp ria verdade, a11iq11ila o
próplio desijo e o signo de se11 essencial alheamento. É esta cisào do objeto independente e se dá, assim, certeza de si. . . A1as, nesta satis­
eros q11e ]11/iette exprime do modo mais denso quando, a propósito ft1ção, a cot1sciê11cia de si experimenta tt independência do seu oijeto:
do singular desejo do cavalheiro, q11e des�ja satiifazer-se com o a satisjàção, de jàto, te111 lugar so111e11/e através da supressão deste
caput mortuum da sua digestão, exclama: «Tem'{; à l'instant, si 011tro. Para q11e a supressão exista, também o 011tro deve existir.
vous le desirez; vous en avez l'envie, moi j'en ai le besoin». A co11sciê11cia de si não pode, portanto, suprimir o objeto através
de s11a rela.rão mgativa com este; deste modo, antes o reprodt1ZJ
Daí, 110 universo sadiano, a necessidade da pen•ersào, que,
assim co1110 reprod11z o dNejo».
Jaze11do coincidir des�jo e necessidade, transfor111a em gozo a frus­
tmção essencial do desejo. Pois o q11e o perverso reconhece é que é o F.ste gozo qHe, em Sade, tor11011-se possÍl•el com a perversào,
próprio desrjo (na medida em q11e 11ào lhe pertence) a apresentar-se, em T1e<�el é operado pelo servo, qm medeic1 o gozo do patrão. «0
110 outro, como necessidade. Á afirmaçtlo de ]11liette, ele poderia patrão refere-se à coisa através da mediação do escravo; o escravo,
responder: «isto que tu sentes como o intimo alheamento da necessi­ como co11sciê11cia de si e m geral, co111porta-se mgativamente em
dade corporal é o q11e eu sinto como a alheia intimidade do desejo: relação à coisa e a sup rime; 111as esta, ao mesmo tempo, permanece
ton besoin, c'est mon envie; mon envie, c'est ton besoin1>. para ele independente e ele nào pode resolvê-la e aniquilá-la com o
se11 ato de !lega.rão: o esrra1•0 a tra11sfor111a, portanto, somente com
o seu trabalho. I11versmne11te, graças a esta 111edic1çào, a relação
4 Na mitologia grega, Poros é o deus da abundância, enquanto que Penia imediata torna-se, para o patráo, a p11ra 11egaçào desta mesma
é a deusa da pobreza. [,',-. do T]

36 37
m1sr1, 011 .1ya, o ,1!,ozo; o q111' 11úo foi realizado pelo destjo, agora é / :11q111111/r1 ,, t'.'\peni11áa cÚ!tltiflca é de Jàto a construção de 11ma
rectlizado pelo J',ºZº do patrão: dar fim à coisa: a satisfação no i•irt reria (de 11ma méthodos, ou st:/a, de um caminho) para o conhe­
gozo. O destjo não pode realizar isto em virt11de da independência àme11to, a quête é, em vez disso, o reconhecimento de que a ausência
da coisa; mas o patrão, que interpôs o escravo entre si e a coisa, de via (a aporia) é a ú11ica experiência possível para o homem. Mas,
refere-se apenas à dependência da coisa, e dela goza puramente. O pelo mesmo motivo, a quête é também o contrário da aventura, que,
aspecto de independência da coisa, ele o abandona ao escravo que na idade moderna, aprese11ta-se como o último refúgio da expe1iê11cia.
a trabalha». Pois a aventura pressupõe que hqja 11m caminho para a experiência
e qtte este caminho passe pelo extraordinário e pelo exótic� (contra­
A pergu11ta que o homem de Sacie continua a fazfr, através do
posto ao familiar e ao comum),- enq11anto que, no umverso da
fragor de uma máquina dialética que remete a resposta indefinida­
mente ao processo global, é, então, precisamente: «Onde está o gozo
quête, o exótico e o extraordinário são some11te a marca da aporta
essencial de toda experiê11cia. Por isso, Dom Quixote, que vive o
do escravo ? E como é possível jàzer no vamente coincidir as duas
cotidiano e o familiar (a paisagem da M.ancha e os seus habitantes)
metades cindidas de Eros?J>
como extraordinário, é o stijeito de uma quête petfeitamente corres­
pondente àquelas medievais.
III. Experiência, quête, aventura
IV. A «noite escura» de Descartes
De modo peculiar apresenta-se o problema da experiência nas
quêtes medievais. Visto que a relação entre experiência e ciência no
A proximidade entre ct experié11cia cartesiana do ego cogito e a
mundo cristão medieval é governada por um princípio que Honório
experiência mística é mais concreta do que se ,Pos�a imaginar. Temos
de Autun formula de modo exemplar escrevendo: «antes do pecado
anotações de Descartes, conhecidas como Ohmp1cas, nas q11azs ele
original, o homem conhecia o bem e o mal: o bem por experilncia
conta como havia começado a compreender o fundamento de uma
(per experientiam), o malpor ciência (per scientiam). Mas, após
descoberta maravdhosa («cepi intelligere fundamentum invemi
o pecado, o homem conhece o malpor experiência, o bem somente por
mirabilis»). Segllfzdo Baillet, p1imeiro biógrafo de Descartes, que
ciência». A quête, ou srja, a tentativa do homem qtte pode conhecer
transcreveH estas a11otacões em estilo i11direto, «a 1 O de novembro de
o bem somente per scientiam de fazer dele experiência, exprime a
1 6 1 9, tendo adorme ;ido cheio de enlttsias1110 e domi11ado pelo
impossibilidade de unir ciência e experiência em um IÍnico sujeito.
pe11Samenlo de haver encontrado naquele dia o .fimdamento de 11ma
Por isso, Percival, que vê o graal, mas exime-se a ter dele experiência,
cie"ncia maravilhosa, ele (Descartes) teve três sonhos consecutivos em
é o personagem emblemático da quête, não menos que Galaad, Ct!Ja
uma só noite que pensou não poderem ter sido enviados a ele senão
experiência do graal abisma-se no inefável. Desse ponto de vista, o
do alto... (seg11e o relato dos três sonhos)». E11q11a11to ainda estava
graal (isto é, o impossível ponto de jitga em que a fratura do co11he­
sonhando, Descartes começou a interprelar ele mesmo o seu sonho,­
cimento se consolida e as duas paralelas da ciência e da experiência
desperto, co1!ti11ttou com a interpretação «sem emoção e com os �lhos
se encontram) é simplesmente o que constitui a própria experiência
abertos». «0 espanto do qHalfora tomado no segtmdo sonho mdz­_
humana como aporia, 011 srja, literalmente, como auséncia de via cava, de acordo coJJJ ele (escreve Baillet), a sua sindérese, 011 srja, o
(a-poria). Por isso a quête é o exato oposto {tnas, como tal, contém remorso da sua consciê11cia referente aos pecados qHe havia cometido
também a s11a profecia) daquela scientia experimentalis cujo até e11tào 110 cttrso de SIM vida. O relâmpago, do qual sentira o
prqjeto já foi sonhado, no final da Idade Média, por Roger Bacon, estrondo, era o sinal do Espítito de Verdade que descia sobre ele
e que encontrará depois em Francis Bacon a sua codificação. para posstd-lo,>. A sindérese 11ào é aqui simplesmente, como par�ce
considerar Baillet, o remorso da consciência, mas é um termo técmco

38 :39
da 111istiw lll'oj>lt1to'11ica n•11asrenli.1lt1 I' 11ll'tÍil't't1!. r1111· 111tlm1 ,, />t1rfr A composição desta dualidade em um sujeito único é
!llais alta e sutil da ,i/11a
1 , que se m11111111rt1 dire/11111mle ro111 o s11pra­ explicitamente confutada por Kant através da exclusão da
sensível e não foi corrompida pelo pecado original. Talvez seja lícito intuição intelectual, por um lado, e, por outro, através da
ver nestas páginas 11ma antecipação da experiência s11cessiva do ego crítica do «paralogismo psicológico» que está na base da
cogito e uma comprovação da substancial proximidade entre o que psicologia racional. Pois, para Kant, o sujeito transcendental,
nós tendemos co!JJ demasiada freqüência a conceber como polaridades como não pode conhecer um objeto (por isso tem necessidade
a11titfticas de nossa cultura. Assim como a si11dérese mística, da intuição fornecida pela experiência sensível, sendo e m si
também o cogito é, como vimos, o que resta da alma depois que se mesmo incapaz de intuição), mas apenas pensá-lo, não pode
despiu, através de uma espécie de «noite esc11ra», de todos os atri­ assim nem mesmo conhecer a si mesmo como uma reali­
/J11!os e de todos os conteúdos. O centro desta experiência lranscen­ dade substancial, que poderia ser objeto de uma psicologia
dmtal do Eu é expresso exemplarmente por ttn1 místico árabe, racional. «Como fundamento desta - ele escreve em uma
Al-l lallaj: «/;,11 sot1 eu e 11ào existem mais atributos; e11 sou eu e passagem na qual a realidade puramente transcendental do
11âo e.....-is te111 mais qualificações. . . Ett sou o p11ro stijeito do verbo». sujeito é reafirmada com vigor - nós não podemos colocar
nada além da representação simples e em si mesma vazia de
todo conteúdo: Eu; da qual não se pode dizer que seja um
III conceito, mas uma simples consciência que acompanha
todos os conceitos. Com este Eu ou Ele ou Aquele (Es) ,
(a coisa), que pensa, nã9 é representado nada além de um
É sobre este fundo que é preciso situar a formulação sujeito'transcenderttal x, que não é c.:,cmhecido a não
kantiana do problema da experiência que, enquanto identi­
=

ser por m'e io dos pensamentos, que são seus predicados,


fica o conteúdo da experiência possível com a ciência do e do qual não podemos jamais ter abstratamente o mínimo
seu tempo (ou seja, com a física newtoniana), coloca, conceito; por esta razão envolvemo-nos em um perpétuo
porém, com novo rigor, o problema de seu sujeito. Contra círculo, tendo de nos servir desde sempre de sua represen­
a substancialização do sujeito em um único eu psíquico, tação para julgar algo dele: inconveniente que não-é separável
Kant começa de fato por distinguir «com todo o cuidado» o deste, já·que a consciência de si não é uma representação
eu penso, sujeito transcendental que não pode ser de modo
que distingue um objeto particular, mas antes uma forma
algum substancializado ou psicologizado, da consciência da representação e m geral, na medida em que deve ser
psicológica ou eu empírico. dita conhecimento: pois dela posso dizer somente que,
É o velho sujeito da experiência que volta aqui a apre­ por seu meio, e upenso toda e qualquer coisa ... De tudo isso
sentar-se autonomamente como eu empírico, que é «em si constata-se que um simples equívoco dá origem à psicologia
disperso e sem relação com a identidade do sujeito» e, como tal, racional. A unidade da consciência, que está no fundamento
é incapaz de fundar um verdadeiro conhecimento. Ao seu das categorias, é aqui considerada como intuição do sujeito
lado, como condição de todo conhecimento, está o ettpenso, tomado como objeto, e a ela aplica-se a categoria de subs­
a consciência transcendental, isto é, a unidade sintética origi­ tância. Mas ela nada mais é que a unidade do pensamento,
nária da consciência, «graças à qual, somente, posso atribuir através da qual exclusivamente não é dado nenhum objeto,
a um idêntico eu mesmo a multiplicidade das minhas repre­ e à qual, portanto, não se pode aplicar a categoria de subs­
sentações», e na falta da qual a experiência não seria jamais tância, como aquela que supõe sempre uma intuição dada;
conhecimento, mas apenas «uma rapsódia de percepções». e por isso este sujeito não pode absolutamente ser conhecido.»

•1 0 "\ ]
Deste modo, a formulação mais rigorosa do problema da t!n/1• 1•111 .ri.Este último não parece ser, à primeira vista, nada
experiência acaba por fundar a sua possibilidade através da .di'.·m da reflexão da consciência em si mesma, ou seja, uma
proposição de um inexperienciável. Mas a tenacidade com a representação não de um objeto, mas apenas do saber que
qual Kant defende o desdobramento do eu contra toda con­ ela tem do primeiro objeto. Todavia, como mostramos prece­
fusão e todo excesso mostra como ele via a própria condição dentemente, o primeiro objeto altera-se neste processo; cessa
de um conhecimento justamente nesta meticulosa obra de de ser o em-si e torna-se, para a consciência, um objeto que
agrimensor, a qual delimitava de todos os lados aquela i'.· 1·111 si somente para ela; mas, deste modo, é o ser-para-ela
dimensão transcendental que «recebe seu nome do fato de ill'ste em-si que é, agora, o verdadeiro, ou seja, a sua essência,
confinar com o transcendente, e de encontrar-se assim em n seu oijeto. Este novo objeto contém o aniquilamento do

perigo de cair não apenas no supra-sensível, mas no que é primeiro, ele é a experiência feita sobre este . . . As coisas
destituído de todo sentido». .lpresentam-se, portanto, assim: quando aquilo que, à pri­
A oilica da razãopura é o último lugar em que o problema meira vista, parecia ser o objeto declina na consciência
da experiência, no interior da metafísica ocidental, é encon­ em um saber deste objeto, quando, digamos, o em-si torna-se
trável na sua forma pura, isto é, sem que sejam encobertas um ser-para-a conscie"ncia d(�ste e111-si, este é então o novo objeto,
as suas contradições. O pecado original com o qual tem início através do qual surge uma nova figura da consciência, que
o pensamento pós-kantiano é a reunificação do sujeito tem como essência algo diferente da precedente. É esta
transcendental e da consciência empírica em um único circunstância que conduz a inteira sucessão das figuras da
sujeito absoluto. consciência na sua necessidade... Através desta necessidade,
Na Enciclopédia, Hegel apresenta assim a filosofia kantiana o caminho para a ciência é já ele mesmo ciência e, por isso,
como aquela que concebeu o espírito apenas como cons- de acordo com o conteúdo desta, ciência da expniê11cia da
º"'
c1enc1a, ou sep, na opos1çao entre autoconsc1enc1a e cons-
• • • AI • A •
ro11sciência>>.
ciência empírica, e que não conseguiu assim chegar «ao Com razão Heidegger observa que, na expressão «Ciência
conceito do espírito como este é em si e para si, ou seja, da expetiência da consciê11cia», o genitivo é subjetivo e não
como unidade da consciência e da autoconsciência». E, no objetivo. «Ciência da experiência da consciência » significa: a
prefácio à Fenomenologia do espàito - cujo tÍtulo original diz: consciência, o novo sujeito absoluto, é, na sua essência, um
Ciência da experiência da cottsciência - , é possível captar que cami11ho para a ciência, uma experiência (e.">.:-per -ientia, um
conceito de experiência nasce desta unidade. Visto que a «provir-de e um ir-através de») que é já ela mesma ciência.
experiência cessa aqui de ser simplesmente um modo, o u Portanto, experiência é aqui simplesmente o nome do traço
um instrumento, o u um limite da consciência, tornando-se fundamental da consciência: a sua essencial negatividade,
a essência mesma do novo sujeito absoluto: a saber, a sua o seu já ser sempre o que não é ainda. Logo, a dialética não
estrutura de processo dialético, de movimento. «Este movi­ é algo que venha do exterior a juntar-se à consciência: em
mento dialético que a consciência realiza em si mesma, em vez disso, ela manifesta até que ponto, no novo sujeito
seu saber e também em seu objeto, 11a 111edida e111 que, para absoluto (bem mais do que no eu cartesiano), a essência do
ela, provém daí o sett novo oijeto l'erdadeiro, é precisamente o conhecimento tenha-se identificado com a da experiência.
que se chama experiência ... A consciência sabe alg11111a coisa, Que a consciência tenha uma estrutura dialética, isto signi­
este objeto é a essência ou o e111 si; mas é também o em si fica que ela não pode jamais possuir-se como todo, mas é
para a consciência; e assim entra em jogo a ambigüidade inteira apenas no processo global do seu devir, no seu
deste verdadeiro. Nós vemos que a consciência tem agora «calvário». O caráter negativo, que estava já implícito na
dois objetos, um, o primeiro em si, e o segundo, o serpara ela experiência tradicional, na medida em que era sempre, como
vimos, uma exper it'lll i.1 d.1 m o rt e , t orn .1-se aqui a própria empírica de superar os limites de uma fisiologia e de atingir o
estrutura do ser humano. sujeito, construindo-se como ciência dos.fatos de co11sciê11cia,
Por isso a experiência agora é definitivamente algo que que resultam de um paralelismo entre o fenômeno psíquico e
se pode apenas fazer e jamais ter. Ela não é nunca dada o fenômeno fisiológico concomitante (por exemplo, entre
como totalidade, não é nunca inteira senão na aproximação um estado psíquico e um estado cerebral, ou entre uma
infinita do processo global, como uma «espuma do infi­ sensação e uma excitação) . Mas é justamente a hipótese do
nito», segundo a imagem com a qual Hegel define, nos paralelismo psicofisiológico a trair a derivação metafísica
versos de Schiller que encerram a I'e11omeuologia, a união da da psicologia científica (que Bergson com razão reportava
ciência e da história no Saher absoluto: à oposição cartesiana de res cogitam e res extensa, comuni­
cantes no homem) e a sua impossibilidade de captar o fato
do cálice deste reino dos espíritos de consciência, que partiu em dois, ao mesmo tempo como
espuma até ele a sua própria infinitude. processo fisiológico e como consciência. De resto, esta
possibilidade havia sido já confutada por Leibniz a propó­
O domínio da dialética em nosso tempo, muito além dos sito da explicação mecânica ou «por figuras e movimentos»
limites do sistema hegeliano, a começar pela tentativa de da percepção: «Se imaginamos que exista uma máquina»,
Engels de construir uma dialética da natureza, tem a sua ele �screve na ,\Ionadolo,_f!,ia, «cuja estrutura faça pensar,
raiz nesta concepção do caráter negativo e inapropriável da senur, ter percepções, podemos concebê-la ampliada,
experiência, isto é, em uma expropriação da experiência na conservando, porém, as mesmas proporções, de modo que
qual substancialmente nós ainda vivemos e à qual a dialé­ aí se possa entrar como em um moinho. Isto posto, não será
tica (como dia-1([!,esthai, recolher-se e dialogar através de) encontrado, visitando o seu interior, nada além de peças
tem, precisamente, a função de assegurar uma aparência que se empurram umas às outras, e jamais algo que explique
de unidade. Por isso, uma crítica da dialética está entre as uma percepção».
tarefas mais urgentes qµe se possam atribuir hoje em dia a Este é o círculo no qual permanece aprisionada a psico­
uma exegese marxista genuinamente capaz de liberar-se fisiologia oitocentista, e é neste círculo que encontrou o
do Hegelianismo, se é verdade, como é verdade, que é seu próprio espaço a psiquiatria moderna, cujo paradoxo
contraditório proclamar a abolição do sujeito hegeliano (a fundamental manifesta-se na candura com que Bleuler, no
consciência) e depois conservar, através da dialética, a sua início do seu Tratado de psiquiatria, declara que nós não
estrutura e o seu conteúdo essencial. podemos definir a consciência a não ser como «a quali­
dade subjetiva de um processo psíquico», qualidade que
Apoiando-se na superação da oposição kantiana entre
pode, porém, ser captada diretamente «Somente na própria
eu transcendental e eu empírico e na su bstancialização do
interioridade».
sujeito em uma «psique», também a psicologia oitocentista
constrói o mito central do século XIX: aquele de um eu No final do século, Dilthney e Bergson (e, mais tarde,
psicossomático que realiza em carne e osso aquela união Husserl e Scheler) fundam sobre a crítica da psicofisiologia
mística do 11011s e da PD'ché na qual havia naufragado a meta­ oitocentista a sua tentativa de colher a «vida» em uma
física antiga. A psicologia dita científica, de Fechner a «experiência pura». Aos fatos de consciência que a psico­
Weber e a Wundt, procura contornar a impossibilidade logia procurava construir através da sua substancialização
da psicologia racional de substantivar o sujeito (o para­ psicofísica, eles opõe o caráter não substancial e pura­
logismo ps i cológ i co de Kant) , assim como a da psicologia n:�nt e gualit�tivo da consciência tal como se revela na expe­
nencia . imediata: a «duração pura», de Bergson, o Erlebnis

41
de Dilthey. Toda a «filosofia da vida», assim como boa parte ent usiasmo) a missão de aferrar o Erlebnis, ou seja, aquela
da cultura do final do século, inclusive a poesia, são dedi­ t·xpcriência pura que deveria ser o seu fundamento. Não
cadas a capturar esta experiência vivida tal como se revela por acaso, Dilthey seria levado a considerar a experiência
à introspecção na sua imediatez preconceitual. O sent ido vivida apenas na medida em que ela cessa de ser «muda» e
interno que, para Kant, era em si destituído de valor cogni­ «obscura» para tornar-se expressão na poesia e na litera­
tivo, e não exprimia, com a sua «raps6dia de percepções», tura, transformando assim a pr6pria «filosofia da vida» em
nada mais que a impossibilidade do eu transcendental de hermenêutica; quanto a Bergson, ele acaba na expectativa
conhecer a si mesmo, torna-se agora a fonte da experiência profética de uma «intuição mística difusa» e de uma «visão
mais autêntica. Mas é justamente na idéia de Erlebnis, de do além em uma experiência científica ampliada».
«experiência vivida» (assim como naquela de «duração pura» É neste cenário que se deve colocar a tentativa de Husserl
e de «tempo vivido»), que a filosofia da vida trai as suas de restaurar na «Corrente dos P.rleb11isse » uma experiência
contradições. transcendental do eu cartesiano. Mas a contradição com a
No F,deb11is, de fato, a experiência interior revela-se como qual ele se choca pode ser colhida de modo exemplar em
uma «corrente de consciência» que não tem início ou fim e um trecho da segunda Meditação cartesiana. Ele contesta à
que, sendo puramente qualitativa, não pode ser nem detida psicologia empírica a possibilidade de fornecer um dado
nem mensurada. Por isso Dilthey compara o nosso ser, tal originário à experiência da consciência: «Um tal modo de
como se revela na experiência interior (innere ErfahnmiJ, a começar - ele escreve - implicaria, como pressuposto,
uma planta cuja raiz é entranhada na terra e que volta para que se entendesse a vida de consciência com base em uma
o alto apenas as folhas, enquanto Bergson deve recorrer, presumida experiência imediata, como complexo dos dados
para explicar o ato com o qual temos acesso ao fluxo dos da sensibilidade externa, ou, no melhor dos casos, intema:
estados de consciência e à duração na sua pureza originária, para conectar então estes dados em unidades várias seria
a uma i11tttição, que não consegue definir senão nos termos necessário recorrer a qualidades gestálticas. Para evitar em
em que a mística neoplatônica caracterizava a união com seguida o atomismo, seria preciso acrescentar uma outra
o Uno: «c'est la vision directe de l' esprit par l' esprit... cons­ doutrina, pela qual as formas resultassem necessariamente
cience immediate, vision que se distingue à peine de l'objet fundadas nos dados e o todo de cada unidade sensível fosse
vu», ou então comp arando-a à inspiração com a qu al o em si anterior às suas partes. Mas a doutrina da consciência
escritor situa-se de golpe «au c�ur même du sujet» e que que assume um início radical não encontra diante de si tais
não se deixa colher de modo algum, porque «si l'on s e dados nem tais unidades, a não ser como prejulgamentos.
retourne brusquement vers l'impulsion qu'on sent derriere O início é para ela constituído pela experiência pura e por
soi pour la saisir, elle se dérobe».
assim dizer ainda muda, que deve ser conduzida então, pela
A filosofia da vida termina assim por delegar à poesia (que primeira vez, à expressão pura de seu sentido pr6prio. A
recebe o legado apenas com o ben efício de inventário,5 ou expressão realmente primeira é, entretanto, o ego cogito
então fica presa em um beco sem saída) ou à mística (que, cartesiano».
no reviva/ teos6fico fin-de-siecle, aceita a delegação com
É curioso que Husserl, que com este conceito de expe­
riência muda (em um trecho das Lições sobre afenomenologia da
5 Be11efício de int'entário: em algumas legisl�ções estrangeira s, f�c�ldade co11sciência intetior do tempo ele escreve a prop6sito da corrente
. debitos do
que limita a responsabilidade do herdeiro pelos eventuais originária da temporalidade interior e da sua relação com
falecido ao valor do patrimônio herdado. [1\'. tio T.]
o sujeito: «para tudo isso faltam-nos os nomes») havia

�7
atingido a máxima aproximação à idéia de uma exper:iência 11r11/J11111 111ovi111e11to 011 consciência, como uma raiz». .L'Ja descrição

pura, e, portanto, anterior tanto à subj etividade quanto a ilrn i11s/a11tes em qHC rempera grad11al111e11te os sentidos, )lfontaigne
uma suposta realidade psicológica, tenha em seguid:a sido 1ft1 />rO/la ele uma maestria incomparável: «Q11a11do recomecei a vet;

capaz de identificá-la com a sua «expressão» no ego cog.ito, ou foi ro111 11ma vista tão t11rva, débil e !llOrla, que discemia apenas a

seja, com o seu tornar-se, de m11da,fala11te. Talvez o fato de /11::;,. .• quanto às funções da alma, estas nasciam passo a passo com

que, neste trecho, o sujeito transcendental seja apreendido . 1.\' do corpo. r 'i-me todo ensangiientado, porq11C minha camisa estava

imediatamente como uma expressão, ou seja, como allgo de 1111111chada do sangue que havia vomitado. . . Parecia-me que minha

lingüístico, não seja casual e permita pormos em questão riria 11ão me sustivesse senão à flor dos lábios: fechei os olhos para

tanto a fundação cartesiana da certeza do ego cOJ!/to em t 1;11dar-me, era esta a impressão, a emp11rrá-la para fora, e sentia

um prn11u11ti11tium, quanto a identificação, por Dilthey, do /•mzer 11a languidez e !lo abandono. Era uma illlagi11ação que nada

Erleb11is com a sua expressão. Uma teoria da experiência /t1zia alélll de nadar levet11ente à sHpeif!cie de 111i11ha alma, tenra e

que desejasse verdadeiramente colocar de modo radical /khi/ COIJIO tudo o mais, mas na verdade destituída de desgosto, antes

o problema do próprio dado originário deveria obrigatoria­ 1msclada àquela doçNra qNe prova quem se deixa deslizar no sono».

mente partir da experiência «por assim dizer ainda muda» Esta lembrança fornece a J\1ontaigne 11m pretexto para uma série
(situada aquém daquela «expressão primeira»), ou seja, r/1' divagações, 11as quais tltJJ estado crep11smlar co11verte-se e111 modelo
deveria necessariamente indagar: existe uma experiência rfl' 11111a jôrma de experiência decnto pemliar, mas que é também, de
muda, existe uma infância da experiência? E, se existe, qual 1111alq11er modo, a experiência extre111a e mais t11ftê11tica, que resu1Jle
é a sua relação com a linguagem? 1·111 si, co1110 11m emblema, a inteira b11sca dos Essais . Pois q11e o
1·stado de i11comciê11cia parece-lhe ser o mesmo «110 qual se encontram
r1q11eles que vemos desfalecer de fraqueza 11a a<go11ia da morte, e qHe
Glosas m/IJpadeceJJJOS Se!ll razão, crendo que sija111 agitados por ,graves dores
011 tenham a alma oprimida por p e nsamentos penosos». (<5empre

I. A queda de Montaigne e o inconsciente pensei - ele acrescenta - que tivessem o âllimo e o corpo sepultos
1· adormecidos: vivit, et est vi ta.e nescius ipse suae. E jamais
/1!1de crer que, e!ll ut11a tão grande pnt11rbarào dos membros e et11
No capítulo VI do segundo livro dos Essais - q11e, como S1Jgere
11ma tal perda dos sentidos, a alma pudesse conservar qualquer força
o tít11lo: De l 'exercitation, co11té11J 11m peq11e110 tratado sobre a
para reco11becer-se». A(go de tmrito set11elhante sucede quando estamos
experieltcia -, A1011taig11e relata 11111 incidente ao q11al parece atri­
j>czra adormecer, no primeiro «balb11ciar» do so110, antes que nos
IJ/lir uma importância patticult11: U1JJ dia, ele conta, eu estava a
!wha invadido de todo, q11ando <rse11tit11os romo e!JI lllJI sonho aquilo
passear, não longe de casa, eJ/J um cavalo pequeno e tropego, q1ta11do
t;llf acontece à l/OSSa volta, e tlCOIJ/pa11/Ja11/0S as vozes COJJ/ 11/Jla audição
«lllJJ de mms serviçais, grande e Jotte, mo11ta11do 11t
1 1 baio brioso que
toldada e incerta, que parece tocar ape11as as margens da alma, e,
tinha 11mc1 boca impossÍl'e/, mas era fresco e vigoroso, para fazer-se
após as últimas palavras q11e 11os f01mn diri,_gidas. formulamos
de valente e s11pemr os seus companheiros, incito11-o a toda brida em
rertas respostas qm te!JJ mais sorte que j11ízo1>.
1J1i11ba direção, precipitou-se como um colosso contra o peqm110
homem e seu peq11eno cavalo, fulminando-os com o seu peso e rom o
«E11 tinha - ele retoma - o estômago oprimido pelo sangHe

se11 ímpeto e lançando-nos, 11111 e 011tro, de pernas para o ar: 1 eis o


coall, 11lado e as t11i11has mãos para ali corriam soziHhas, como

cavalo abatido por terra, comple!amenle atordoado, e eu, àz ou


o fazem freqiientemente aonde prure, contra o parecer da nossa

doze passos mais adiante, mo1to, estendido de bruços, a espaf.a q11e 1•011tade. Há diversos animais e até mesmo a(g1111s hov1ens os quais,
depois de mortos, vemos contrair e mover os 1mísculos. Cada mn
ti11ha 1111 111ào a 111ais de dez passos, o â11t111ào em pedafos. set
1 1 mais
uhf' /1111 1 '/'l'lll''111 1t1 /''"/'ll" '/ "' t."\'Ú/1'111 ;1.11'/ 1'• i/, 110 1 '!"" •t 111·111 i11q11ietude. l ria escorrer o meu sangue como teria visto corre r
krt111/,1111 .11· " t1h111."\t1111 11• Sl'IJJ /11'1/ir />1·n111.r.1i10. I '..rlt1.r
!llOl'l'IJI, 11111Ji11cho, sem nem ao t11et1os pensar que este sangue me pertencesse
paixões, r/111' 111111 1!f1.1 /o/°11111 .r1•11t111 a/rr1l'é.r da rr1sr11, 11rio se podc!JJ tl1 t1{�m11 modo. Sentia em todo o 111ett ser 11111a ca/111a inebriante, à
dizer 11ossas. Para lor11,í las 110.r.111s, é pri·âso q11e o ho111e111 11elas q11t1!, sempre que a recordo, não encontro nada de comparável em
se le11ha e!)Jpenhado rompleta1111·111i'; l' as rlores que os pés e as toda a atividade dos prazeres conhecidos».
mãos sentem enquanto don11Íl11os, estas 11tio 11os perlenrem». Ta111bém aqui um estado crepuscular e inconsciente tor11a-se o
Existem portanto certas e.-:perie'itcias que 11âo 110.r /kt11 lhVn, que 111ode/o de uma experiêtlcia partimlar, q11e nclo é, porém, como em
11iio podemos dizer <mossas», mas que, justa111ente por isso. porq11e ,\lontaigne, 11ma a11tecipação da JJ/Orte, 111as, a11!es, uma experiência
selo, prl'cisamente, experiências do imxpl'rieuciáve/, ro11stitlletJJ o do 11ascimmto («nascia para a vida 11aqude i11sta11/e») e, ao mesmo
limite úlli1110 ao qual pudt la11 ra r-se t1 11usst1 txperitl/{ia em s11a tempo, o signo de 11t11 prazer se111 paralelo.
temclo para a 111orte. <<Este relato de 11111 erento tão jiíti/ - co11dlli F,stes episódios são como dois estafetas isolados q11e m11mcia111 o
Alontaigne - seria um tanto l'llO, se 11t70 josse pelo l'11Si1w!l1mto que eJJJergir e o alastrar-se do conceito de i11co11scien/e 110 séru/o XIX, de
dde extrai· pois, 11a verdade, para ht1hit11t1r se â 111ortl', creio nada Schelling a Schopenhauer, até a s11a original reforlll11lação na obra
se possa Jàzer a não ser rrl'izi11har-s1 ddci. . . l!.str1 11clo é a minha de Freud. Este conceito nos interessa aqui apenas por mas i111pli­
do11tri11a: é o JJ/ett estudo; 11ào é a liçiio de 11111 úlllro, / a minha,>. mrões 110 tocante a 1111/a teoria da e."</Jetiê11cit1, 011 stja, CO/l/O O sintoma
Rêveries du promeneur solitaire
Dois sémlos depois, nas de 11111 mal-estar. Pois cntamente, 11a idéia de i11co11scimte, a crise do
[Devaneios do passeante solitário], Ro11ssec111 11arm 11111 l'pisódio conceito modemo de experiel1cia - 011 seja, da e:v:perieltcia que se
tão se;11e/hc111te que, se neste llllO rero11ht'r1:sse111os toda aq11e/a f1111da sobre o sujeito ca1tesia110 - chega à s11a evidência máxima.
extenuada srnsua/idade que 11os acos/11111a111os 11 11tti!J1tir a Jea11- Co!llo ma11ijf sta claramente a s11a atrib11içào a lfllla terceira pessoa,
Jacq11es, poder-se-ia pensar eJJJ 1111u1 filir1rtio dirl'la de i\lo11taig}/{'. c1 11111 Es, a expetiência i11co11sciente não é. de fato, 11ma experiência
«E11co11tnn•a-111!', por l'Ofta das seis - ele escrel'f , 11a descida sul?Jetú>a, não é uma experiência do Eu. Do ponto de vista krr11tia110,
de ,\lé11i!JJ1ota11t, qttase defronte ao (�a/a11t-]ardi11ier, qurmdo, 11ào se pode dizer nem ao menos u111a experih1cia, pois )à/ta aquela
ao brusco afastar-se de algumas pessoas q11e ca1J1i11hr n •rm1 à lllinha 1111idade sintética da comciência (a atttocomcif11cia) que é o ft111da­
frente, vi precipitar-se sobre mi111 11111 ,r?,ramle relo di11a111arqms que, me11to e a garantia de toda experiência. Todavia, a psicanálise
arremessando-se co111 toda a força diante de 11v1a carr11t�e111, 11tio mostra-nos precisamente que as experiêncicts Jllais importantes são
{
teve tempo de frear a sua corrida 11n11 de e11itar-111e qttando !Jlf aquelas q11e não pette11cem ao stijeito, mas a «aquilo» (Es). «AqttifoJ>
avistou. . . J\iào senti nem o golpe, l/eJJI a q11eda, ne111 11ada daquilo 11âo é, porém, como na queda de i'vlo11taig11e, a morte, pois agora o
até o i11sta11te e111 que acordl'i. . . O estado em q11e me
que se Sf..[!,Hitt, limite da e."<fJetiêJ1cia se inverteu: 11ão se encontra lllais
P111 direção
e11co11trei 11aq11ele 1110111mto é demasi,ulo si1z[!,1tllll· pam deixar de à 111orfe, mas retrocede à infância. Nl'sla reviravolta do limite,
descrel'ê-lo aq11i. A noite al'lllÇl al'a. T ri o du. ª�r!,lfJIJaS estrelas e /{/// como também na passagem da pti111eira à lerceim pessoa, devemos
pouco de ngetartlo. F:sta pti11Jeira smsaáio foi 11111 âti1110 delicioso. decifrar os caracteres de 11111a nova expniência.
Só através dela ett 111e smtia. _.\-asâa para a 1•ida 11aq11ele i11sta11te
e em como se eu preenchesse co111 a illi11ha lel'e existência todos os
II. A poesia moderna e a experiência
objl'tos qul' percebia. Inteiramente 110 1110111mto presmte, náo llll'

f('J11bra11a de nada; 11lio ti11bt1 111'11h11111a llO{ÚO disti11/a da 111i11ha


J] tendo como f!!ndo esta ctise da e:xperiê11cia que t1 poesia moderna
i11din"dualidade llf!ll a 111e11or idéia do que /lle ocorrera; não sabia
encontra a sua sit11ação próp1ia. Pois, obserl'fl11do hem, a poesia
quem eu era 011 onde estivesse; 11 áú />ro1•t11•a 11e111 dor, ne111 lell/or.
llíorlerna - de Baudelaire em dia11t1' - 11tiú se funda em HJJJa nova

50 -) 1
experie'11cit1, 111t1s e111 11111a t1ttsl''11rw r/1· '"'/)('ri1!11tia Sl'li; /)/'l'rNltllll's. 1111f1 / 11ma experiência vivida, mas justamente o contrário, algo que
Daí a desenvoltura com a qual Ba11dt!aire 1: capaz rle colocar 0 11rlo foi nem vivido nem experimentado; e nem mesmo o seu subi­
choc 110 cerne do próprio trabalho artístico. /1 experiêJ1cia é, de ltineo aflorar nas intermittences du creur constitui mna expe­
fato, voltada primeiramente à proteçào contra as s11rpresas, e 0 rÍi�ncia, a partir do instante em que a condição deste afloramento é
prod11zir-se de 11t11 choque implica sempre em 11111a brecha na expe­ precisamellle 11ma oscilação das condições kantianas da experiência:
riência. I'azer experiência de alguma coisa sig11ifica: s11btrair-lhe o tempo e o espaço. F: não são apenas as condições da experiência a
a s11a novidade, ne11tralizar o sm poder de choqm. Donde o fascínio snw11 colocadas em dtívida, mas tat11 bé111 o se11 sujeito, dado qtte este
q11e a viercadoria e o maquillage - vale dizer, o inexperie11ciável 11âo é certamente o srijeito moderno do conhecimento (Proust parece
por excelência - exercem sobre Ba11delaire. anies ter em mente certos estados crep11sc11lares, como o semi-sono 011
Efll Ba11delaire, 11m homem qHe foi e:xpropriado da e:>..periê11cia a perda de consciência: <ge ne savais pas ali prcmier i11stant qui
se oferece sem 11e11ht1ma proteção ao recebi111enlo dos choques. Á j'etais'' é a suafóm11tla típica, da qual Po11let registrou as inúmeras
expropriação da experiência, a poesia responde tra11sfor111ando esta l'(lriações). Aias aqui !Ião Sf trata 11em mesJJJo do Stijeito bergsoniano,
expropriaçào em tlllJa razão de sobrevivh1cia e Jàzendo do inexpe­ a mja realidade última 11os dá acesso a intuição. Aquilo que a
rienciável a Stla condição 11or11Ja/. 1\'esta perspectiva, a b11sca do intllição revela não é, na realidade, 11adtl 111ais do que a p11ra sucessão
«novo'' não se apresenta como a promra de 11m novo oq/eto da e.YjJe­ dos estados de consciência, ou seja, ainda a{f!,O de suo/.etivo (aliás, o
tiência, mas implica, ao contrário, 11111 eclipse e 11JJ1a s:11spensão da s11ijetivo em estado puro, por assim dizet). Enq11allto que, em Proust;
experiência. Novo é aquilo de q11e 11c10 se pode fazer experiência, não existe mais p ropria!llente s1uúto algum, mas somente, co!ll
porque jaz <mo fundo do desco11hecidM: a coisa e!ll si kantiatJa, 0 si11gt1lar materialismo, 11111 ilifi11ito derivar e lflll casual encontrar-se
inexperienciável como tal. Por isso, e111 Ba11delaire (e isto dá a medida de oijetos e de semações. É o s1uúto expropriado da experiência que
de sua lucidez), esta busca assHme a forma paradoxal de t1JJJa aspi­ se apresenta aq11i fazmdo valer aq11ilo que, do ponto de vista da
ração à criaçào de llJJJ ((lugar co1Jmm» {<fcréer tm po11cif c'est le ciência, não se pode manifestar senão como a !llais radical negação
gé11ie1>; pense-se taJJJbém 110 ritmo próprio da poesia bamdelairiana, da expfriência: uma experiência sem s1ijeito nem oijeto, absoluta.
c�m a Slla inesperada abordagem da ba11alidade, q11e tanto impres­ ./1 inexpérience, da qual, seg1111do Riviere, Proust 111orre11 (<r... il
sto11ava Proust), 011 so/a, daquilo q11e podia ser criado apenas por es/ mor! de 11e pas savoir co111111w t 011 all11me Hll fe11, co111meflf 011
1111t secular actÍmulo de experiência e 11ão i11ve11tado p.or 11m indi­ ouvre une jenêtre»), deve ser interpretada literalmmte: reettsa e
víd110. Mas, 11mna co11dição em que o homelll foi expropriado da negação da experiência.
experiência, a criação de um tal «lugar co1111111 1 '> só é possível ../1 consciência de uma atroz expropriação da experiê11cia, de 11111
mediante uma destruição da experiência, que, 110 exato momento em «vazio de expetiência» sem precfde!ltes, está no centro até mesmo da
que infringe a Stla a11toridade, reuela de chofre qm esta destrllição é, poesia de Rilke. li.Ias, diversamente de Ba11delaire e de Rúnba11d,
11a realidade, a nova morada do ho111em. O estranhamento, que que co1ifia111 reso/11tame11te ao inexperienciável a nova experiência
. dos oo/etos
rettra . mais com1111s a sua expeti111e11tabilidade, toma-se da h11ma11idade, ele oscila suspenso entre dois 1m111dos contraditórios.
assim o procedimento exemplar de ""' prqjeto poélzco qr-re visa Jazer Por um lado, ele mostra no a11jo, na 111ario11ete, 110 saltimbanco e na
do Inexperienciável o novo «lugar COlllllJJI», a nova experiência da criança as figtfras de um Dasein que se libero11 totalmente de toda
humanidade. Provérbios do i!lexperiwciável são, mste sentido, as experiência, e por outro, evoca com nostalgia as coisas nas quais os
Fleurs du mal [Flores do mal]. ho112ms <fammulavaJJ1 o humano» (11a caria a F-folevicv este processo
Porém, a oijeçào mais peremptória ao conceito moderJJO de expe­ de «ac1m111lação» é ide11tificado com aquilo que torna as p róprias
riência foi levantada 11a obra de Pro11st. Pois o oi.veto da Recherche coiras experimentáveis) e eram, portanto, «vivíveis» (erlebbaren) e

52 5.3
"diz/veis» (saglichen). r·111 ro11!rr1j>osict10 t1.r «t1/Jllré11álls rk mi.ra.rn penso», como um sujeito lingüístico e, até mesmo,
1 1 111 «CU
q11e «irrompem drr /}1J1érica» e que ;á deslocaram a sua existencitr t·m um trecho extremamente significativo, como um «texto»
«no frêmito do dinheiro». O estar s;1spenso e11fre estes dois mundos («"Eu penso" é o único texto da psicologia racional, a p artir
como um «deserdado» («toda época», ele escreve na sétima elegia, do qual ela deve desenvolver toda a sua ciência»). E esta
«f>ossuz lats deserdados, aos quais aquilo que foi não pertence mais, rnnfiguração «textual» da esfera transcendental que, na falta
e o que será, não ainda,,) é a experiencia central da poesia de ele uma colocação específica do problema da linguagem,
llilke, que, como 1t111itas obras que passam por esotéricas, não tem �itua o «eu penso» em uma zona em que transcendental e
por conteúdo nada de místico, e sim a experiência cotidiana de um lingüístico parecem confundir-se e onde, conseqüentemente,
cidadão do século XX. .1 razão de Hamann podia fazer valer o «primado genealó­

gico» da linguagem sobre a razão pura.


É significativo que, em um trecho da Origem dageoJ11etria,
IV
interrogando-se sobre a objetividade ideal dos objetos geomé­
tricos, Husserl seja levado a colocar o problema da linguagem
Uma proposição rigorosa do problema da experiência como condição desta objetividade: «Como pode a idealidade
�eve, portanto, fatalmente deparar-se com o problema da geométrica (como também a de todas as ciências) chegar à
lmguage� . A crítica de Ham �� n a Kant, segundo a qual sua objetividade ideal a partir de seu originário desabrochar
uma razao pura «elevada a SUJeito transcendental» e afir­ intrapessoal, no qual ela se apresenta como formação no
m<i_:da iti:deVindentemente da linguagem é um contra-senso interior do espaço de consciência da alma do primeiro
poi � «não apenas a inteira faculdade do pensamento resid� inventor? Vêmo-lo imediatamente: é através da mediação da
na lmguagem, mas a lin�uagem é também o ponto central linguagem, que lhe providencia, por assim dizer, a sua carne
_ da razao consigo. lingüística . . . » Somente o perdurar do domínio do modelo
do mal-entendido mesma», encontra aqui
geométrico-matemático sobre a teoria do conhecimento
� odo ;> s :u pes_o . Com razão ele objetava a Kant que a
i r_rianencia da l m uage m a qualquer ato de pensamento, pode tornar compreensível como Husserl - que, aliás,
arnda que a pnon, _ � tena
_ tornado necessária uma «Meta­ chega aqui a afirmar que «a humanidade conhece-se sobre­
crítica do purismo da razão pura», ou seja, uma expurgação tudo como comunidade de linguagem imediata e mediata» e
. que «OS homens enquanto homens, a co-humanidade, o
da lmguagem, que resultava porém improponível nos termos
da Clitica, dado que o seu problema supremo não se podia mundo . . . e, por outro lado, a linguagem, são indissoluvel­
for�u!a � senão com ? uma identidade de razão e língua: «a mente entrelaçados e sempre já certos na unidade indisso­
razao e l :ngua: lógo�. E este o osso medular que eu rôo e que ciável da sua correlação» - tenha evitado colocar, a esta
. altura, o problema da origem da linguagem em suas relações
roerei ate morrer disto».
com todo possível horizonte transcendental: « naturalmente,
É o fato de ter orientado o problema do conhecimento
ainda que ele aqui se anuncie, não nos ocupamos agora do
pelo modelo da matemática que impediu Kant, bem como
problema geral da origem da linguagem ...»
Husserl, de perceber a situação original da subjetividade
transcend �nt al na linguagem e, portanto, de traçar com Mas se nós, acolhendo a sugestão de Hamann, abando­
. namos o modelo de uma evidência matemática transcen­
clareza �s l!mites que separam transcendental e lingüístico.
Esta omissao faz com que, na Crítica, a apercepção transcen­ dental (que tem raízes tão antigas na metafísica ocidental),
dental apresente-se, quase como se isto fosse natural, como e buscamos as condições preliminares e inderrogáveis de
toda teoria do conhecimento na elucidação de .seus vínculo.s

55
com a linguagem, vemos então que é na linguagem que o os locutores, no sentido em que existe um conceito «árvore»
sujeito tem a sua origem e o seu lugar próprio, e que apenas ao qual podem ser reconduzidos todos os usos individuais
na linguagem e através da linguagem é possível configurar de árvore. O e11 não denomina entidade lexical alguma. Pode-se
a apercepção transcendental como um «eu penso». dizer então que "eu" se refere a um indivíduo particular? Se
Os estudos de Benveniste sobre a «Natureza dos pronomes» assim fosse, existiria na linguagem uma contradição perma­
e sobre a «Subjetividade na linguagem» - confirmando nente e, na prática, a anarquia: como poderia a mesma palavra
assim a intuição hamanniana da necessidade de uma meta­ se referir indiferentemente a qualquer indivíduo e, ao mesmo
crítica do sujeito transcendental - mostram que é na lin­ tempo, identificá-lo em sua particularidade? Estamos na
guagem e através da linguagem que o homem se constitui presença de uma classe de palavras, os pronomes pessoais, que
como sujeito. A subjetividade nada mais é que a capaci­ se furtam ao estatuto de todos os outros signos da linguagem.
dade do locutor de pôr-se como um ego, que não pode ser de A que coisa então se refere eu? A algo assaz singular, que é
modo algum definida por meio de um sentimento mudo, que exclusivamente lingüístico: eu se refere ao ato de discurso
cada qual experimentaria da existência de si mesmo, nem individual no qual é pronunciado, e designa o seu locutor.
mediante a alusão a qualquer experiência psíquica inefável É um termo que não pode ser identificado senão em uma
do ego, mas apenas através da transcendência do eu lingüís­ instância de discurso . . . A realidade à qual ele remete é uma
tico relativamente a toda possível experiência. «Esta subje­ realidade de discurso».
tividade, quer a coloquemos em fenomenologia, quer em Se isto é verdadeiro, se o sujeito tem, no sentido que se
psicologia, nada mais é que o emergi � no ser de uma proprie­ viu, uma «realidade de discurso», se ele não é nada mais
dade fundamental da linguagem. E "ego" aquele que diz que uma sombra lançada sobre o homem pelo sistema dos
,
ego. E este o fundamento da subjetividade que se determina indicadores de elocução (que abarca não apenas os pronomes
através do estatuto lingüístico da pessoa . . . A linguagem é pessoais, mas todos os outros termos que organizam as
organizada de modo a permitir a cada locutor apropriar-se relações espaciais e temporais do sujeito: este, aquele, aqui,
da inteira língua designando-se como e11». agora, ontem, ama11hà etc.), então torna-se claro em que
Apenas esta instância exclusiva do sujeito na linguagem medida a configuração da esfera transcendental como uma
permite explicar a natureza particular do pronome e11, com subjetividade, como um «eu penso», baseia-se realmente
a qual Husserl havia esbarrado sem aferrá-la completamente, em uma troca de transcendental por lingüístico. O st!Jeito
na medida em que acreditava poder explicá-la afirmando transcendental 11ào é outro senão o <fÍocutor», e o pemamento 111oder110
que «no discurso solitário, o significado (Bedeutm� de e11 erigi11-se sobre esta assunção 11ão declarada do s1!Jeito da li11g11ageJJ1
realiza-se essencialmente na representação imediata da nossa como j11ndamwto da experiência e do conhecimmto. E é esta troca
própria personalidade, e é aqui que reside portanto o signi­ que permitiu à psicologia kantiana atribuir à consciência
ficado desta palavra no discurso da comunicação. Cada inter­ transcendental - a partir do momento em que tanto ela
•" • I '
locutor tem a sua representação do eu (e, logo, o seu conceito quanto a consc1enc1a emp1nca se apresentavam como um
individual de eu) e, por isso, o significado desta palavra muda e11, como um «sujeito» - uma substância psicológica.
com cada indivíduo». Mas, também aqui, Benveniste mostra Por isso, se a rigorosa distinção kantiana da esfera transcen­
que, na realidade, é impossível recorrer a uma «representação dental deve ser ainda uma vez reafirmada, ela deve ser acom­
imediata» e a um «conceito individual» que cada indivídu o panhada, porém, ao mesmo tempo, de uma metacrítica que
teria de si. «Não há u m conceito eu que compreenda todos trace resolutamente os limites que a separam da esfera da
os "eus" que se enunciam a todo instante nos lábios <le todos linguagem e situe o transcendental para além do «texto»

'i6 ')7
"m /imrn , 011 sej.1, .1 l {· m d o s u jl· i t o . ( ) 1 r.1 1 1 sn·1Hlc 111.1l 11lo
" q ue o fluxo de consciência não possui outra realidade senão
p ode ser o subjetivo: a menos qul' t ranscendental signifique .1 lk «monólogo», e obviamente, portanto, de linguagem: por

simplesn1cntc: lingüístico. 1 sso, cm F ú111ega11 's 1JJake [O despertar rle l-:;-i1111e,�a11], o monó­
Somente sobre esta base se torna possível propor em l o go interior pode ceder o lugar a uma absolutização mítica
termos inequívocos o problema da experiência. Dado que, lb linguagem além de toda «experiência vivida» e de toda
se o sujeito é simplesmente o locutor, nós jamais apreende­ realidade psíquica que a preceda. Certamente é possível
remos no sujeito, como Husserl acreditava, o estatuto ori­ identificar esta infância do homem com o inconsciente de
ginal da experiência, «a experiência pura e, por assim dizer, Freud, que ocupa a parte submersa da terra psíquica; mas,
ainda muda». Ao contrário, a constituição do sujeito na l'nquanto Es, enquanto «terceira pessoa», ele é, na reali­
linguagem e através da linguagem é precisamente a expro­ dade, como mostra mais uma vez Benveniste, uma não­
priação desta experiência «muda», é, portanto, já sempre pessoa, um não-sujeito (alya 'ibu, aquele que está ausente,
«palavra». Uma experiência originária, portanto, longe de dizem os gramáticos árabes), que tem sentido somente na
ser algo subjetivo, não poderia ser nada além daquilo que, sua oposição à pessoa; nada de surpreendente, portanto, se
no homem, está antes do suj eito, vale dizer, antes da Lacan nos mostra que também este Es não tem outra reali­
linguagem: uma experiência «muda» no sentido literal do dade que não seja de linguagem, é ele mesmo linguagem.
termo, uma i11fri11cia do homem, da qual a linguagem deveria, (Diga-se aqui de passagem: o fato de ter compreendido a
precisamente, assinalar o limite. instância do Eu e do Es na linguagem situa a interpretação
Uma teoria da experiência poderia ser somente, neste lacaniana do freudismo decididamente fora da psicologia).
sentido, uma teoria da in-fância, e o seu problema central A idéia de uma infância como uma «substância psíquica»
deveria ser formulado desta maneira: existe algo coJJ10 11111a pré-subjetiva revela-se então um mito, como aquela de um
i11/à11cia do homem? Como é possível a infâ11cia como Jato h11ma110 ? sujeito pré-lingüístico, e infância e linguagem parecem
E, se é possível. qual é o sm lugar? assim remeter uma à outra em um círculo no qual a infância
Mas é fácil ver que uma tal in-fância não é algo que possa é a origem da linguagem e a linguagem a origem da infância.
ser buscado, antes e independentemente da linguagem, em Mas talvez sej a justamente neste círculo que devemos
uma realidade psíquica qualquer, da qual a linguagem consti­ procurar o lugar da experiência enquanto infância do homem.
tuiria a expressão. Não existem fatos psíquicos subjetivos, Pois a experiência, a infância que aqui está em questão, não
«fatos de consciência» que uma ciência da psique possa pode ser simplesmente algo que precede cronologicamente
imaginar atingir independentemente e aquém do sujeito, pela a linguagem e que, a uma certa altura, cessa de existir para
simples razão de que a consciência nada mais é que o sujeito versar-se na palavra, não é um paraíso que, em um determi­
da linguagem, e não pode ser definida senão como «a quali­ nado momento, abandonamos para sempre a fim de falar,
dade subjetiva dos processos psíquicos», nas palavras de mas coexiste originalmente com a linguagem, constitui-se
Bleuler. Pois se pode, por certo, tentar substancializar uma aliás ela mesma na expropriação que a linguagem dela efetua,
in-fância, um «silêncio» do sujeito por meio da idéia de um produzindo a cada vez o homem como sujeito.
«fluxo de consciência» intangível e irrefreável como fenô­ Se isto é verdadeiro, se nós não podemos alcançar a
meno psíquico originário; mas quando se quis dar realidade infância sem ir de encontro à linguagem, que parece custo­
e captar esta corrente originária dos T-irlebnisse, isto apenas diar o seu acesso co�o o anjo com a espada flamejante
foi possível fazendo-a falar no «monólogo interior», e a guarda os umbrais do Eden, o problema da experiência como
lucidez de Joyce consiste precisamente em ter cumpreemliJu pátria original do homem torna-se então o da origem da

'i8 'i9
linguagem, na sua dupla realidade de língua e fala. Somente 1 onstitutivo do humano. A origem de um tal «ente» não pode
se nós pudéssemos atingir um momento em que o homem �n historicizada, porque é ela mesma histoticizante, é ela
já estivesse ali, mas a linguagem não estivesse ainda, pode­ 111 esma a fundar a possibilidade de que exista algo como
ríamos afirmar ter entre as mãos a «experiência pura e 1 1 ma «história».

muda», uma infância humana e independente da linguagem. É por isso que, defronte a toda teoria que vê na linguagem
Mas uma tal concepção da origem da linguagem é algo uma «invenção humana», coloca-se sempre uma outra que
de que, já a partir de Humboldt, a ciência da linguagem 11ela vê um «dom divino». O confronto entre estas duas teses
demonstrou a fatuidade. «Nós tendemos sempre para esta 1· a p rogressiva resolução de sua oposição no pensamento

imaginação ingênua de um período original em que um de Hamann, de Herder e de Humboldt marcaram o início
homem completo descobriria um seu semelhante, igualmente da lingüística moderna. O problema, na realida<le, não é o
completo, e entre eles, pouco a pouco, tomaria forma a de saber se a língua é uma 1J1msrh!iche E �find1111g ou uma
linguagem. Isto é pura fantasia. Nós não encontramos jamais �ott!irhe Gabe, pois ambas as hipóteses se interpenetram
o homem separado d_a linguagem e não o vemos jamais no
-

do ponto de vista das ciências humanas - no mito: mas o


ato de inventá-la ... E um homem falante que nós encon­ de tomar consciência de que a origem da linguagem deve
tramos no mundo, um homem que fala a um outro homem1 necessariamente situar-se em um ponto de fratura da opo­
e a linguagem ensina a própria definição do homem». E sição contínua de diacrônico e sincrônico, histórico e estru­
através da linguagem, portanto, que o homem como nós o tural, no qual se possa captar, como um Uifakt11111 ou um
conhecemos se constitui como homem, e a lingüística, por iTrquievento, a unidade-diferença de in�enção e dom, humano
mais que remonte ao passado, não chega nunca a um início e não humano, palavra e infância. (E o que faz Hamann da
cronológico da linguagem, a um «antes» da linguagem. maneira mais resoluta, ainda que alegoricamente, quando
Significa então que humano e lingüístico se identificam define a língua humana como «tradução» da língua divina e
sem resíduos e que o problema da origem da linguagem deva, deste modo identifica em uma comvumicatio idio111atu11J entre
portanto, ser deixado de lado como estranho à ciência? Ou, humano e divino a origem da linguagem e do conhecimento).
antes, que este problema é, precisamente, o Incontornável Tal conceito de origem não é nada de abstrato e de pura­
com o qual, ao entrar em colisão, a ciência encontra a sua mente hipotético, mas é, ao contrário, algo de que a ciência
situação própria e o seu rigor? Devemos verdadeiramente da linguagem pode produzir exemplos concretos. Pois o que
renunciar à possibilidade de atingir por meio da ciência este é a raiz indo-européia, restituída através de uma comparação
Incontornável, esta infância, única a permitir estabelecer filológica das línguas históricas, senão uma origem, que não
um novo conceito de experiência, liberado do condiciona­ é, porém, simplesmente remetida de volta no tempo, mas
mento do sujeito? Na realidade, aquilo a que devemos representa, na mesma medida, uma instância presente e
renunciar é simplesmente um conceito de origem cunhado operante nas línguas históricas? Ela se situa em um ponto
a partir de um modelo que as próprias ciências da natureza de coincidência entre diacronia e sincronia, no qual, como
já abandonaram, e que faz dela uma localização em uma estado da língua não atestado historicamente, como «língua
cronologia, uma causa inicial que separa no t e mpo um jamais falada» e, todavia, real, ela garante a inteligibilidade
antes-de-si e um depois-de-si. Semelhante conceito de origem da história lingüística e, simultaneamente, a coerência
é inutilizável nas ciências humanas sempre que aquilo que sincrônica do sistema. Uma tal origem não poderá jamais
estiver em questão não seja um «objeto» que pressuponha resolver-se completamente em «fatos» que se possam supor
j á o humano atrás de si, mas ao contrário seja ele mesmo historicamente acontecidos, mas é algo que ainda não

60 61
cessou de acontecer. Poderíamos definir uma tal dimensão manifesta-se, portanto, constituindo-a como lugar da ver-
cotno a de uma história tra11scmde11tal, que constitui, e m 1 bdc. �q ilo que � ittgen tein, no final do Tractat11s, põe
� �
um certo sentido, o limite e a estrutura a priori d e todo L· omo hmne «m1sttco» , da lmguagem não é uma realidade
conhecimento histórico. psíquica situada aquém ou além da linguagem, nas névoas
É sobre este modelo que devemos representar-nos a de uma suposta «experiência mística», mas é a própria
.
relação com a linguagem de uma experiência pura e transcen­ ongem transcendental da linguagem, é simplesmente infância
do homem. O inefável é, 11c1 realidade, úifancia. A experiência é
dental que, como infância do homem, esteja liberada tanto
o 110•sté!io11 que todo homem institui pelo fato de ter uma
d o sujeito como de todo substrato psicológico. Ela não é
. infância. Este mistério não é um juramento de silêncio e de
s1mple ��ente um fato , do qual se possa isolar o lugar
cronologico, nem algo como um estado psicossomático que inefabilidade mística; é, ao contrário, o voto que empenha
o homem com a palavra e a verdade. Assim como a infância
uma psic?logia infantil (no plano da parole) e uma paleoan­
dest� na a linguagem à verdade, também a linguagem cons­
tropologia (no plano da /a11g11e) poderiam jamais construir .
titui a verdade como destino da experiência. A verdade
como um fato humano independente da linguagem. Ela não
não é, por isso, algo que possa ser definido no interior da
é, porém, nem ao menos algo que se possa inteiramente
linguagem, mas nem mesmo fora dela, como um estado de
resolver na linguagem, a não ser como uma sua origem
transcendental ou um arquilimite no sentido que vimos.
�ato O\l como uma «adequação» entre este e a linguagem:
mfância, verdade e linguagem limitam-se e constituem-se
Como i1�fd11cia do homem, a experieítcia é a silllples d(ferença entre
um ao outro em uma relação original e histórico-transcen­
h11ma110 e li11,giiístico. _OHe o home111 11ào s�/a sempre já jala11te, que ele
dental no sentido que se viu.
ten�a sido e seja ainda i11fa11le, isto é a experiê11cia. Mas que
e �ista, neste sentido, uma infância do homem, que exista Mas uma outra e mais decisiva conseqüência a infância
dtferença entre �umano e lingüístico, não significa que seja exerce sobre a linguagem. Ela realmente instaura na lin­
um evento eqmparável a outros no âmbito da história guagem aquela cisão entre lí"J!l'ª e dismrso que caracteriza
humana ou um simples caráter entre tantos que identificam de modo exclusivo e fundamental a linguagem do homem.
a espécie homo s�pims. A infância age, com efeito, primeira­ Pois o fato de existir uma diferença entre língua e fala, e de
que seja possível passar de uma a outra - que todo homem
mente sobre a lmguagem, constituindo-a e condicionando-a
falante seja o lugar desta diferença e desta passagem -,
?e :11-º�º essencial. �ois o próprio fato de que exista uma tal não é algo natural e, por assim dizer, evidente, mas é o
i:if�ncta, de que exista, portanto, a experiência enquanto
fenômeno central da linguagem humana, do qual somente
limite transcendental da linguagem, exclui que a linguagem
agora, graças aliás aos estudos de Benveniste, começamos a
possa ela mesma apresentar-se como totalidade e verdade.
entrever a problematicidade e a importância, e que vem a ser
Se não houvesse a experiência, se não houvesse uma infância
a tarefa essencial com a qual terá de medir-se toda futura
do ho �en: , ��rtamente a língua seria um «jogo», cuja ver­
ciência da linguagem. Não a língua em geral, segundo a
dade co.m�idma com o se:i uso correto segundo regras lógico­
tradição da metafísica ocidental que vê no homem um zõo11
gramattca1s. Mas, a parttr do momento em que existe uma lógo11 écho11, caracteriza o homem entre os outros seres viventes'
expe �ê�cia, qu e exist� uma infância do homem, cuja expro­ .
mas a cisão entre língua e fala, entre semiótico e semân-
. .
pnaçao e o SUJelto da linguagem, a lmguagem coloca-se então tico (no sentido de Benveniste), entre sistema de signos
como o lugar em que a experiência deve tornar-se verdade. e discurso. Os animais, de fato, não são destituídos de
A instância da infância, como arquilimite, na linguagem, linguagem; ao contrário, eles são sempre e absolutamente

62
língua, neles la l'Oi:,: s11rrfr t/1· 111 kn1· 11�1!r11111· q l l t' Mallarmé, t"spaço. Por isso, Babel, ou seja, a saída da pura língua edê-
ouvindo-a no canto de um grilo, opõe como 11111· e 11011-de­ 1 1 ica e o ingresso no balbuciar da infância (quando, dizem-nos
co111posée à voz humana - não conhece interrupções nem e >s lingüistas, a criança forma os fonemas de todas as línguas
fraturas. Os animais não entram na língua: já estão sempre do mundo), é a origem transcendental da história. Expe­
nela. O homem, ao invés disso, na medida em que tem uma rienciar significa necessariamente, neste sentido, reentrar
infância, em que não é já sempre falante, cinde esta língua 1 1 a infância como pátria transcendental da história. O
una e apresenta-se como aquele que, para falar, deve cons­ mistério que a infância instituiu para o homem pode de
tituir-se como sujeito da linguagem, deve dizer eu. Por isso, l .uo ser solucionado somente na história, assim como a
se a língua é verdadeiramente a natureza do homem - e vxperiência, enquanto infância e pátria do homem, é algo
natureza, se bem refletimos, pode apenas significar língua de onde ele desde sempre se encontra no ato de cair na
sem palavra, génesis �ynechés, «origem con-tÍnua», na defi­ linguagem e na palavra. Por isso a história não pode ser o
nição de Aristóteles, e ser natureza significa ser já sempre progresso contÍnuo da humanidade falante ao longo do
na língua - então a natureza do homem é cindida de modo t cmpo linear, mas é, na sua essência, intervalo, desconti-
original, porque a infância nela introduz a descontinuidade 1 1 uidade, epoché. Aquilo que tem na infância a sua pátria
e a diferença entre língua e discurso. originária, rumo à infância e através da infância, deve
E é sobre esta diferença, sobre esta descontinuidade que manter-se em viagem.
encontra o seu fundamento a historicidade do ser humano.
Somente porque existe uma infância do homem, somente
porque a linguagem não se identifica com o humano e há Glosas
uma diferença entre língua e discurso, entre semiótica e
semântico, somente por isto existe história, somente por I. Infância e língua
isto o homem é um ser histórico. Pois a pura língua é, em si,
anistórica, é, considerada absolutamente, natureza, e não
A teoria da úifância, como origi11al dimensào histó1ico-tra11scen­
tem necessidade alguma de uma história. Imagine-se um
t!n1tal do homem, adquire o se11 sentido próprio se a relacionamos
homem que nascesse já p rovi do de linguagem, um homem
rom as categorias da ciência da li11gttage111, partimlarmente coJJI a
que fosse já sempre falante. Para tal homem, sem infância,
disti11çào, formulada por Be11ve11iste, entre semi ótico e semân­
a linguagem não seria algo preexistente, da qual seria preciso
tico, da qual ela constitui ttm desenvolvimento roerente.
apropriar-se, e não haveria, para ele, nem fratura entre
língua e fala, nem devir histórico da língua. Mas um tal Como se sabe, com esta distinção Be11ve11iste i11sta11ra na lin­
homem seria, por isso mesmo, imediatamente unido à sua .�lfagem «mva divisão fimdamental, completa111 e nte diversa daquela
natureza, seria j á sempre natureza, e nela não encontraria, q11e Sa11ss11re tentou entre li11g11a e fala». E11q11a11to a distinçào
em parte alguma, uma descontinuidade e uma diferença nas sa11ss11ria11a e11tre líng11a e fala é, em geral, compreendida simples-
quais algo como uma história poderia produzir-se. Como a 111e11te co1110 distinçào e11tre o coletivo e o i11divid11al, entre a «súifonim>
besta, da qual Marx diz que «é imediatamente una com a e a sua «execução» na fo 11ação, a disti11çâo benvenistia11a é !Jlais
sua atividade vital», ele se confundiria com esta e jamais complexa e aproxima-se, antes, do problema q11e Sa11ss11re, em 111/1
poderia opô-la a si como objeto. 111a11uscrito inédito, coloca dramaticamente como o da passagem da
lí11g11a ao disc11rso: «A língua 11ào existe senão te ndo em vista o
É a infância, a experiência transcendental da diferença
discurso, 111as o que separa o discurso da lí11g11a, 011 o que, em tttt1
entre língua e fala, a abrir pela primeira vez à história o seu
rnio 1110111e11!0, pcrJ11ill' rli'\.cr q111· a lín�ua entra em ac,·:lo como <J .-"11Jiálico (o signo) deve ser RECONHECIDO; o se111cintico (o
discurso? Co11reitos direnos !'Sitio prrl//tos "'' làzl!Jftl (1•,i/r rlizn-, ,/ 1m1:ro) deve ser COMPREENDIDO. A dijere11ça entre reconhecer
revestidos de 11ma.forma lilzf!,iiísâra) co1110 boi, lago, céu, vermelho, ,. (/Jll/preenrler re111ete a duas faculdades distintas do espírito: a de
triste. cinco, fender, ver. ?.m qm momento e e/JI virtude de qual l'l'ffl'im· a identidade entre o anterior e o atual, por um lado, e a de
operaçào, de qual )o/!
,º estahelecido entre eles, de quais ro11dições, /•l'rrther o significado de 11ma en1111ciação nova, por 011/t"()». aO semi­
esfrs conceitos formarão o discurso? A série destas j>alawas, por oftm mractniza-se como 1t111c1 propriedade da língua, o semâ11tico
mais rica que seja pelas idéias qm evoca. 11Cio indiccmíjamais a lltn 11r11lla de uma atividade do lomtor q11e coloca em ação a lí11f!,llt1.
<
i11div!d110 hm1umo que 11m Olffro individuo, prommcia11do-,1s, qJ11'ira < > signo semiótico existe em si, f1111da a realidade da lí11gtta, mas
s{f!,niflcar-lhe alguma coisa». fi. esle proble111a que Be11veniste n�firmta 11110 comporta aplicações partimlares; a frase, expressão do se111â11-
elll ""'ª sé!ie de estudos exe!llplares (Les niveaux de l'analyse /1t o, nada é sentio particular. . . Rejlifa-se amrada111e11te sobre este
linguistique [Os níveis da análise lingüística], ! 96..f.; Forme /11!0 notável que nos parece trazer ã luz a artimlação teóricfl q11e
et sens dans le langage [Forma e sentido na linguagem], ""s e{forçaJJ1os por deslindar. Pode-se transpor o se111c111tis1110 de
1 967; Sémiologie de la langue [Semiologia da língua], 1969) '""ª lí11g11a ao de 1111ta 011tra, «Salva voitatei>: é a possibilidade
q11e o levam a dis1ilzf!,11Ír na li1w1r1,11,e111 11111a double signifiance, Olf !t1 !rad11çào; JJJas não se pode transpor o se1J1Íotis1110 de 11111a lín<f!,"ª
SlJtl, dois 111odos de s�P,nijiwrào discretos e contrapostos: o se111iótico, 111 de 11111a outra: é a impossibilidade ria tradução. Tora-se aqHi a
de 11111 lado, e o se111d11tico, de outro: ,
/!/erença entre semiótico e sm1â11tico».

«0 semiótiro designa o 111odo de sj.f!,11{firaçào qm l próptio do Se o problema que Sa11ssure apenas cifloro11 é e11ttio articulado
SIGNO lúzf!,iiirlico e que o constit11i como 1111Ídade. Pode-se, tendo /ior Be11ve11iste em toda st1a co111plexidade, e se aliás o próprio fato
eJIJ 1úta as 11ecessidades da análise, considerar separada111e11te as rlc ter reco1lhecido a s11a importância central permitiu-lhe lançar
d11asfaces dü sj.P,110, mas, sob o aspecto da ú
g11ijicação, ele é 1111irlade 11.r bases de capítulos novos e fem11dos da ciéncia da li11,P,11age111
e permanece 1111idarle. A tí11ica pn;g1111ta qlle o s(f!,t!O smcita / a de {fie11se7J1os, por exemplo, na teoria da emmciação), a interrogação
s11a ex istência, e estc1 se decide co111 lfl!I silll 011 u111 não: arbre­ .-,111ss1tria11a («o qm separa o discurso da lí11g11a, e o qHe, e111 um
chanson-laver-nerf-jaune-sur e uào ::- orbre >:-vanson ::-laner rll'ferminado J110111ento, per1JJ ite dizer que a li11g11a wtra e111 ação
::-derf ::-saune ::- tur... To111arlo e!ll si 111es1110, o signo é pura iden­ ro1110 discurso ?») não é, por isto, eliminada. Benveniste reconhece
tidade co11sigo mes1110 e p1rra alteridarle co!ll relaçtio ti todos os r /1· fato que as r/11as ordens (o semiótico e o semântico) permanecem
outros signos . . . ele existe quando é reconhecido como sip,11iflca11te .-eparadas e inco1mmicantes, de modo q11e llfJrla permite, 11a teoria,
pelo co 11j1111 to dos 111embros da co1111111irlade lingüística. . . Com o <"'·Plicar a passage111 de u111a ·a 0 11/ra. <'0 m1111rlo do signo - ele
semântico, e11tramos 110 111odo especifico de s{P,11�ficaçào gerndo pelo l'SCreve - é fechado. Do sig110 ã frase não há transição, mm por
DISCURSO. Os problemas qNe aqui se coloca111 sào ji111çâo ria Ji11tagmatizaçào mm de outro modo. Um hiato os separa». Se
líll,f!,!la enqllt111!0 produtora de 111ensagens. Ora, r1 111m.f(lge m 11ào se isto é verdadeiro, a pergunta de Sa11ss11re m11da simplesmente de
reduz a 11111a s/fcessão de u11idades a serem idwt[ficadas separada- forma e dirá então: ((por que a ling11age111 /J1w1a!la é constituída
111e11te; 11ào é 1/11/tl c1dição de s{�llOS que pror/f(z O smtir/o, lllllS é, ao deste modo, co111porta11do 01igi11almente este hiato ? Por que existe
co11trátio, o swtido (o «Útlmtado»), ,f!,lo halmmte concebido, que se 11/Jla dupla significação?»
realiza e diz•irle e/li «signosi> parlimlares, que selo as PALAVRAS . . . É a este problema q11e a te0tia da itifd11cia possibilita dar uma
/1 ordem semàl/lira idenliflca-se com o 1111tt1do ria e111111ciarão e com resposta coerente. A dimensão histórico-tra11scmde11tal, que designamos
o 1111iverso do dismrso. 011e se tmte de duas ordens distintas de tOIJI este termo, na realidade sit11a-se precisc1mente 110 «hiato» entre
noções e de rlots 11nÍNrsos co11reptuais, pode111os de!llonstrá-lo ainda semiótico e semântico, entre língua p11ra e rlismrso, e fornece, por
pela diferença 110 critério de validade requoido por uni e por 011/ro. assim dizer, a sua razão. É o fato de que o homelll lwha llllla

ú6
,11iimlt11!o r!t1 1•o:y phoné énarthros, vox
h111J1c111a, r�·111os q11e
il!/(J11rir1 (011 :-...:/i m / 1rt-t1r sl' tlt1
s�ja, q11e j> ttra }t!11r de !mht1 d1• 1•

i11.fància pam constituir-se co1110 Slfjeito dtf li1��"'(�e111) " ,roil/per tJ


.lrtic.:ulata. U
sig11 ica simplesli!e11tephoné engrámmatos, �11 slj�,
'"' /rad11çào latina, vox quae scribi potest 011 quae httens
«!IJtllldo fechado,> do signo e a tra11.�/àr111t1r a j>11ra línc!!/ftl eJll' dismrso
l ompre hendi potest: voz qlfe se pode escrever, q11e se pode
h11111a110, o se111iótico em semântico. _\1a medida e/J/ que posslli uma
(0111-prewder; aferrar com as lrtras. A 11oz co1�/�1sa é aquela) "in�scri­
i11.fd11cia, em que não é semprejáftlla11te, o homelll 11ào pode entrar
rírcl". dos a11iv1tTis (equorum hinnitus, rab1es canum, rugitus
na líllJ!,lla co!llo sistema de sip10s se;11 tra11�/àr11Uí-la radica/111wte,
fcrarum) 011 então aquela parti' da "ºZ h11111tma qu� 11à� se pode
sem co11stit11í-la como dismrso.
f.rffl'l'er, colllo o assovio, o 1iso,(utputa ons nsus vel
o sol!IÇO
Toma-se então claro em que sentido se del'll co111preender d t<d11pla .sibilatus, pectoris mugitus et cetera talia).
sig11ifica_rào» de que fala Bmveniste. Se111iótico e se1J1àll!Íco 11ào são '
1 vo z mtimlada 11ào é, portanto, 11ada além de p hone, engram-
d11m realidades s11bsttl11áais, 111as stlo, sohrl'f11do, os dois limites
matos, a voz qlf(' foi lra11soit11 e com-pree11dida 11as letms. Aqui
trc111scende11!ais q11e def imlJI a i1!f{/11cia do ho1111'lll I' sâo, sinmlte1-
pode1JJos captar a i11cidê11ciaji111da111e11tal da esclit11ra tl!Jàhética sobre
mame11te, rlefZ11irlos tl partir dela. O semióliro 11âo é mais que a
11osst1 mlt11ra e sobre a concePfào da li11.�11cz�elll. So!lle11te a es enta
p
p11ra IÍl�!J,lltl ré-habélica ria 11at11reza. da qual o ho111et11 participa
1 1//;1/;ética pode, efetiva111ente, criar a il11sâo de ler captura do a voz,
para falar, mas de onde se enco11/m selllp rl' 110 alo de sr1ir p ara a
,/;, té-!tT com-pre;ndido f i11mito 11os grámmata . Para dar co11/a
Rttbel da infância. Q11a11to ao s1·v1tl11tiro , l'Ste existi
' apenas 11a
;1lmame11tP da importá11cia f1111dadora desta acap!ura» da voz,
e111et;!l,ê11cic1 111ome11tcíma do se111iótico 11a i11sttl11rit1 do dismrso,
o raras à escrita alfabética, rlel'emos liberar-nos da representação
clfjos ele111e11tns - lo.!l,O depois de pr�/éritlos - recae111 llll pHra
;
· 11�ên11a e todavia tão co1m1111, s<'g1111do a qlfal asletras, os grám­
ô11a' q11e os recolhe e!ll
n�ata, �staric1111 vadadeira111enlr tltl voz COIJIO ele111wtos seus, como
l
í110 se11 11111do diciol/{í1io dP sig11os. Somente por
11111 instante, como os ,!l,o(fi11hos, a lil�!l,lftTJ!,flll h111J1a11t7 põe ti cabeça
stoicheía, assÍJJJ como o 111í111ero estaria real111e11te nas coisas
parafort1 do lllt1r seJ11iótiro da 11c1tlfr<'za. 1\las o h11J11a110 proprialllmte
(pense-se na proximidade, 11a Grécia, entre escritura aljàbética e
11ada 1J1t1is é que esta passal'/111 da p11m líl(í!/ftl ao dismrso; pori111 este
!llatem âtica, mire reflexão /!,rlil
l a
l tical e rejlcxilo gPomé1tico -mate-
!rd11sito, este i11sfa11te, é a história.
111átim). O desenvoll'immto da fonética e o impasse ao qlfal ela
rhPgou em s11a tentativa de captar os som da palcwra 110 seu aspecto

II. Nascimento da gramática 11rtimlatório e acústico são, destP ponto dP 1iis!a, parlimlar111eflle
i11str11tivos. Um filme reali zado pelo fo 11 e li cisla alemão Paul
1\Ie11 zerath mostra como é iwpossÍ/1e/ descobrir q11tTlq11er sucessão e
.L] por este â11g11lo q11e deve111os nbsi'rl't!r o 111ilmar processo de
q11alq11er s11bdii1isào no ato da jàl.1, q11e, do ponto dP vzsta tTrftm­
refle."\·ào sobre a li11gHage111 qm le/1011 tlO 11asci111e11to da gramática e da
latório, apresenta-se como 11m mo ri111e11to i11i11termpto, 110 q11al os
l�(!,ica e à ro11str11çào da IÍl(!J,lltl. f>,s/a111os c1cost11111tTdos desde se!llpre a
sons não se s11cedell1, mas e11tremeit1111-st 1111t/11ame11te. ,"".lesmo 11111a
co11sidemr a li11g11a..e,em h11111a11t1 m1110 lil�Wlt{(!,1'111 «mtimladc1". 1\las o
análise rigorosamente ac!Ísticcz revela em cadtT som da fala lfllla tal
qm sz[!,11!/ica ((artimlado»( _Artimlado, articulatus, f a trad11ç,io
q11m1tidade de partim!ares que se toma i111possfrel ordená-la em
lt1ti11a do ter1110 gr1:go énanhros, qm perte11ce ao 1•octT!mlâno témico
11111 sistema.
da reflext!o <stóica
' sobre 11 li11gual_,e1J1, q11e i11fl11e11cio11 prefi111da­
Justa111e11te a to!llada de co11sciel1citT dt1 impossibilidade de rete1;
me11te os gra1J1áticos tT11ti_�os. Os <�ramcílicos cmtze,os, �fetil'C1111e11te,
..
de capturar os sons da li11g11tlge111, do poulo de l'Í.rta ttrtimlatório OH
i11iciavatJJ . seus tratados co111 a defi11irâo dtT ''ºv da phoné. Distin­
g11ia111, pri111eirt1111P11/e, r/a l'DZ, COl!ii!St ; (phoné synkechiméne) dos i!CIÍstico, possibi!ito11 o 11asci11,u11to da fo11o logir1i 011 JJ1elho1; t7 desm­

a11i1J1ais a /JOZ h11JJ1ana, q11e l, ao co11trário, phoné énarthros, voz..


tar11açào da lí11gttt1 a partir da z·oz e 11 mptlfra do 11ínmlo entre
arlimlada \las se questio11a/llos hqje el!l qm comiste esti caráter
. •
lbz�"ª " ''ºZ que pn7r.umrcera inq11Pslio11á11el dl'sde o pensa111el!to

69
6K
1·J/01(1J 11k ti .fr111r/t(t1 tio.• 111·r��1i1111ú/1ms. ( r1111 ti m11s11111a(tlfl des/r1 lr��·it"t1. \a ji-ase que lemos, o verbo legein, dizer, r dt fato 11sado
m/)fllltl toma se n1irlen!e a radical c111!01101JJia da lí11g11a 110 que diz /'Ili tÍrilJ swtidos completamente distintos: 110
primeiro caso (o falar com

respeito à voz f ao ato col!creto de fala (retomando 11m jogo de palavras 1011c:,:âo) trata-se da fala, do co11crelo dismrso h111na110,· 110 se/!,tllldo
de Bréal, seria possínl dar uma etimologia fantástica do termo <:fo110- (r• ;:dar sel/J comxão) trata-se do dizer da lí11g11a 011, 110 máxi1110,
lo,gia», visl11JJJhra11do aí 11111 assassínio - em grego: phonos - da ,/,1 1mtali11gua<f!,eJl1 ,f!,ramatical (é evidente qlfe se111 symplo ké, seJll
palavra). Justamente por isso, o sabn� que rompeu a st1a relaçclo (1JJ1excio, nào se div 1w realidade. nada).
originária com a VOZJ deve agora promrar para si um outro lugar, e Toda a ló,gica ocidental, de /lristóteles a Husserl e a LFit{�enstei11,
é o q/I{' Jaz reportando-se a uma estmt11ra incônscia, a 11111 I11co11s­ n-pousrt sohre estt1 distinção entre 11111t1 e�fera da li11g11a e t111Ja outra
ciente, O!I sija, a !l!JJ saber que nào se sabe, a um saber sem s1!Jeito. ti" jàla. Assim, para dar 11m exemplo, toda a a11cílise que, 11a Quarta
Os fonemas da fonologia, a estmtura de Uvi-Stra11ss, a gramática T n�estigação, Elusserlfaz a pmtir rios s{�11efficados categoremáticos !'
JJ,erativa de C'/Joms�y sit11am-se todos no !nco11scie11te. Enquanto a 1i;1cate..�ore111ríticos e dos si._�nijicados simples e compostos teJJI sentido
rié11cia clássica, de Descartes até o sémlo XIX, colocava o lógos, t1p mt1s I' exd11sú•a1111'llk 110 â111hito de 11111a visão da linguagem q11e
isto é. o 1mdie1dor entre homo sapie n s e homo loquens, em um /tJJJ como óh11ú1 a distinçéio entre líll,f!,lla e fa!tt e a análise gramatic
al
r.11. flll lflllll romcil11cia que 11ão era mais que o s1!)eito da lingHagem, das partes do dismrso. /1 lrJ..�ica ocidental 11asce de uma s11spe11sào,
hqje m1 dia a cif11cia não /em mais necessidade deste SJ()Úto e prefere rle 11111a epoché da.fàla, 011 sdtt, da idéia de q11e cJ/go como «home1JJ,
situar o lógos 110 ]11co11scimte, em 11111 saher omito, qm não se sabe. hoi, corre, 1•eJJm> exis!c.lrealmente 11a lilw1agem h11111ana. fila pres­
PerJ11a11ece. co11t11do, o fato de que este i11co11scie11te, não importa .rlfpàe as mte,,f!,otias p-a1J1aticais e 11tio pode ser separada delas.
como s�ja caracte1izado, é lógos 110 sett aspecto lógico de língua,
,, Ias, enq11a11to A 1istóteles era ainda co11scie11te do Jato de q11e as
1m1

110 caso da Jo11olo�f!,ia e do i11co11scie11le iévi-stra11ssia110, pura estm­


dass[ficarões da ló,_f!,iCtl 1>alem apenas 110 âlllbito da distúmio mtre
tlfra mate1JJático-diferencia/, 011 lógos 110 sm aspecto de fala, como no se111 comxão r dizer cofl/ conex o (ele �
líng11a e fala, entre dizer
irma várias vezes q11e «11t'llhlf/JI destes ter111os (as categor1t1s) se
mso da psicanálise.
af
a
O segundo mo111ento J11ndador na história da metafísica é aquele r z. em si e por si, em asse1râo alg11ma». A asserção é geradt1
Ú
em que, a partir da realidade concreta da fala, é isolada a lfog11a partir de sua recíproct1 symploké), tudo isto foi esq11erido pl'la lógica
e
como momento da plfra significação, equivalente ao qm Benveniste I'pela filosofia sucessit•as, que 11ào distúwmJJ mais IÍtzf!,ua e fala
deftm como modo se111iótico opo11do-o ao modo semântico. Se bem que reem ti fala apenas COllJO a IÍ1z�11a posttl em fu11rio11a/lJl'lltO.
Platão, no Sofista, tivesse já claramente distinguido 11m lógos q11e Este ohlívio dt1 difermça wtre lí11p,ua e fala é o e11ento .fimdador
dmomi11a de 11m lógos qm discorre, é nas Categorias de A tistóteles da JIJCtaflsica. L por i11ter111édio desü oblfrio q11e o lógos p o de
que se dá o passo decisivo e, com ele, o nascimento da lógica ocidental. a/irllla r o seu domínio i11co11teslá1•el. Por isso a redescoberta, 11a
«DaqHilo qlfe é dito,> escreve A tistóteles (Ia, 16-19) «a/gt1mas ii11giiística co11te111porâ11ea e sohretudo 11a obra de Be11ve11iste, da
coisas se dizem segundo uma conexão» ( katà symplokén), 011tras, diferença irred11tfrel q11e separa o plano da IÍIW'ª e do semiótico
sem 11ma co11exào (áneu symplokés). De 1m1 lado, diz-se segundo do plano da fala e do se111á11tico co11stit11i a base a partir da qual
11111a conexão: bomelll corre, homem vence; de outro, diz-se sem uJJJa toma-se possível, hoje em dia, 11111 qHestiouame11to radical da ló,gica
conexão: ho1J1em, hoi, corre, ve11ce>>. J.\i'esta comtatação aparentemente r da 111etaflsiw. D.' a form11laçiio desta diferenra, a ciência da
óbvia dá-se, porém, 11111 evento de importância .fimdammtal, qual li11g11agem chega ao se11 liJJ1ite i11contomá11el, além do q11ai 11ào
srja, o isolamento 11a ii11g11age111 h11111a11a de 11m dizer sem conexão, pode pross1;g11ir sem tra11�formar-se eJJJ filosofia.
de ""' lógos que não se diz e!ll ne11h11m discurso, 1J1as que, como
língua, toma possível a ded11çc70 das categorias e a constmçào da

70
III. Natureza e cultura, ou a dupla herança 1/1• 11111 , , <111t��'' tmdi(úo, o ho1J1em 11lio f, deste pf/11!0 de riisttt, o
.,,111i111t1I qlll' possui !i11p,11a<fl,eJJ1», mas sim o ani1J1al que dela é
A oposição entre nat11reza e cultura. sobre a qual contit 1 11a1J1 a 1/1·.r/Jrot•ido e que deve, portanto, recebé-la de fora.
discutir tão animadamente filósofos e antropólogos, torna-se imedia­ De resto, ao lado destes dados que trazem à luz o aspecto exosso-
tamente 111ais clara se for traduzida nos termos, fatniliares aos bió­ 1111ítico da linguagem, outros elementos (como a concordância na
logos, de hera11ça endossomática e hera11ça exossomática. f\..Tatureza, .rttressão cro11oló_fl,ica das aq11isirões lingiiísticas nas aianças de todo
nesta perspectiva, pode significar somente o patrimônio hereditário o 1111111do, lembrada por Jackobso11, 011 o desequilíbrio entre os dados

transmitido através de código ge11ético , ao passo que ettlt11ra é o /i11,fl,iiísticos recebidos do exterior e a competência li11giiística da
patrimônio hereditá1io trammitido por meio de veíettlos não gené­ oúmça, para o qual chamou a atenção Chomsk:J) permitem supor
ticos, entre os quais o mais importante é certamente a linguagem. O rf!te a lin,{J,ttagem também pertença, em certa medida, à cifcra endos­
homo sapiens pode ser então definido como a espécie vivente que é so111ática. Todavia, não é necessário pensar em uma imc1ircio da
caracterizada por /Ili/a d11pla herança, 11ma vez que coloca ao lado lil�g11agem no código genético, nem foi i11divid11ado, até o !l/0111e11to,
da língua natural (o códgo i genético) 1111ia li11g11agem exossomática ''�fl,º como 11111 gene da linguagem. O certo é que - como mostro11
(a tradição mlt11ral). Porém, limitando-nos a estas considerações, f .enneberg -, enquanto na maioria das espécies animais o co111por­
corremos o fisco de deixar na sombra justamente os aspectos mais lamento co1;11micativo se desenvolve invariavelJ11e11te de acordo com
essenciais do problema, que dizem respeito à complexidade das lfis de maturação geneticamente preestabelecidas, de sorte que, so/a
relações qm i11tercorre111 entre as d11as formas de herança, as quais
romo for, o animal terá e1ifim à disposição um repertório de sinais
não podem ser reduzidas de modo algum a 11ma simples oposição.
característicos da espécie, 110 homem produziu-se H!lla separação
Antes de mais nada, deve-se observar que os mais recentes estudos l'/ltre a disposição para a linguagem (o estam1os pro11tos para a
sobre a linguagem fendem a demonstrar que ela não pertence inteira­ ro!lnmicação) e o processo de at11alização desta virtualidade. /1
v1ente à e.ifera exossomática. Deste modo, para/elamente à reformu­ /i11g11age111 humana apresenta-se, portanto, cindida ori._�inalmente em
lação chomskiana das teses do inatismo lingiiístico, Lenneberg /ftna eifera endossomática e em uma eifera exossomática, entre as
prornro11 lançar luz sobre os fimdamentos biológicos da lingNagem. quais se estabelece (pode estabelecer-se) 11111 jenôJJiello de resso11â11cia
Sem dúvida, ao contrário do que ocorre na maior parte das espécies que produz a atualização. Se a exposição à herança exossomática
animais (e do que Bentley e Hoy recentemente demomtraram sobre o 11ào intervétJI d11rante 111t1a certa fase do desenvolvimento da plasma­
canto dos grilos, 110 qual podemos então verdadeira1mnte perceber, ticidade cerebral (que, segundo Le11neberg, tem o se11 limite extremo
com Alallar111é, a voix une et non decomposée da natureza), a 110 processo de laterização cerebral, que se conclui por volta dos doze
li11gHagem humana 11ão é integralmente inscnta no código genético. Se anos), a disposição para a linguagem é irrevenivelmente perdida.
foi observado já por Thorpe que alguns pássaros, privados prema­
Se isto é verdadeiro, a dualidade de herança endossomática e
t11ramente da possibilidade de escutar o canto de indivíduos da mesma
herança exossoJ11ática, de natureza e c11lt11ra, na espécie humana, deve
espécie, produzem apenas um extrato do canto normal, podendo-se
ser entendida de maneira nova. São se trata de uma justaposição
assim dizer que, em certa medida, eles precisam aprendê-lo, no
que delimite duas esferas distintas e incom1111icantes, mas de uma
homem a exposirão à li11g11age111 é condição i1J1presci11dível para o
duplicidade que já está inscrita naquela própria linguagem que foi
se11 aprmdizado. Um Jato Cl!Ja importância para a compreensão da
sempre vista como elemento fimda111e11tal da cultura. /lq11ilo qm
li11g11agem humana jamais será suficientemmte sublinhada é o de
caracteriza a linguagem humana não é a sua perti11ê11cia à eifera
que, se a cnança não for exposta a atos de fala entre os dois e os
exossotJ1ática 011 à e11dosso111ática, mas o encontrar-se, por assim dizer,
doze anos de idade, a s11a possibilidade de adq11irir a linguagem
a cavalo sobre uma e outra e o ser, devido a isso, artiCHlada sobre a
estará definitivamente comprometida. Contrariando as afirmações
sua diferença e, sitmdta11eame11te, sobre a sua resso11á11cia. !\Testa

73
/>Cl'S/Jl'cli1•t1, l/S oposi(ât.r hi1111/'/t/S fj!ll' SI' l'll((J/l//'11/ll /'Ili lodos f!S l'.l/tr11 pm·111111'11fe se111úitica e adquirir (seg11ndo a expressão de
11íveis da linguagem, como aqudas entre lí11,�11a f dismr.ro, e11/re ll1·111•c11is!e) 11111a «dupla significação».
11ívd jónemático incônscio e 11íveí semântico do discurso, entre jorllla e '/'oda ling11agnn que esteja compreendida em uma única dimensão
sentido, adquirem um significado particular. Cindida em 111na (m111 0 o são tanto o canto do grilo quanto os sistemas de signos,
herança exossomática e uma herança endossomática, a linguagem rlil'l'rsos da lingNagem, 11sados pelo homem) p ermanece necessaria-
humana deve necessariamente comportar uma estrutura tal que 111mte 110 semiótico e - para funcio!lar - deve ser simplesmente
permita a passagem de uma a outra. Se retomamos aq11i a imagem, reconhecida e não compreendida. Somente a linguagem humana
de Thom, de dois osciladores lineares que entram em ressonância, - na medida em que pertence contemporaneamettte ao endossomático
vemos que estes, originalmente distintos, apresentam traços quali­ I' ao exossomático - acrescenta à significação semiótica um sentido

tativos comuns que permitem o fenômeno da ressonância: mas, uma outro e tramfnrma o mundo .ferhado rio signo 110 mundo aberto da
vez que a ressonância foi estabelecida, os dois sistemas perdem a txpressão semântica. Por isso a linguagem h11ma11a - como observa
sua i11depe11dê11cia e formam Hm sistema tí11ico (o sistema ressonante). . fackobson - é o IÍt1ico sistema de sgnos
i composto de elementos (os
Podemos conceber, de modo análogo, e11dossomático e exossomático, /011emas) q11e (justamente porque servem, como vimos, para passar
nat11reza e cultura, como dois sistemas distintos que, entrando em do semiótico ao semântico) são, ao mesmo tempo, signijicantes e
resso11â11cia na li11guagem, produzem um novo e único sistema. Deve d('sprovi.dos de significado.
haver, porém, um elemento mediador qtte possibilite aos dois sistemas A infância do homem - na qttal identificamos mais acima a
entrarem em ressonância: este elemento é o que ]ackobson descreveu origem da experiência e da história - adquire então o seu sentido
como o nívelJonemático da linguagem (ot1 então, no plano do aprendi­ próptio ao ser situada sobre o pa110 de fi111do da diferença entre
zado, o que Chomsk:J constrói como gramática universal gerativa). herança exossomática e endossomática 11a espécie humana.
O fato de ]ackobsot1 remeter à ontologia o problema do modo e
do lugar de existência não se apresenta, então, simplesmmte como
um procedimento irônico . Os fo nemas, estes signos diferenciais
IV. Lévi-Strauss e a língua de Babel
((puros e vazios», ao mesmo tempo «sgnificantes
i e sem significado>>,
não pertencem propriamente nem ao semiótico nem ao semântico, nem Esta situação da i!ifância entre pura língua e linguagem humana,
à lüzg11a nem ao discurso, nem à forma nem ao sentido, nem ao entre semiótico e semântico, permite inclusive compreender de maneira
enclossomático nem ao exossomático: eles se situam na identidade­ nova o se11tido de uma obra como aquela de Uvi-Strauss, que rmovo11
diferença (na chóra, teria dito Platào) entre estas d11as regiões, em profundamente as ciências h111J1anas em nosso tempo. Pois o que
um «lugar» do qual talvez 11ão seja possível dar senão mna descrição caracteriza a concepção lévi-straussiana dos fatos hHmanos é que o
topológica e que coincide com aquela região histórico-franscendental autor se sitt1a, para compreendê-los, inteirame11te t10 plano da pura
- antes do sujeito da linguagem, mas não por isto somaticmnente lí11gt1a, isto é, num plano em que não existe hiato, não existe infância
substancializável - que d�finimos mais acima como a infância do et1tre língua e discurso, entre semiótico e semântico (que o modelo de
suas pesquisas provenha da fn1znlngia, ot1 seja, de uma ciência que se
homem.
situa exclusivamente no plano da langue, 11ão é, deste ponto de
Estruturada assim sobre a diferença entre endossomático e exos­
vista, casual). Esta a11sê11cia de fratura entre língua e discurso
somático, entre natureza e cultura, a linguagem coloca em ressonância
explica como Ricr.c11r - em uma análise da qual o próprio Lévi­
os dois sistemas e permite a s11a comunicação. E é esta situação no
Strauss reconheceu a pertit1ência - tenha podido d�finir o se11
limite entre duas dimemões simultaneamente contínuas e dfsco11-
pensamento como «ttm kantismo sem Stfj'eito transce11de11tal» e falar,
tí11uas a Jàzer com que a linguagem humana possa tra11sce11der a
a propósito das estruturas, de um «inconsciente antes ka11!ia110 q11e

75
fre11dit111 0, 11111 i11co11scien!e cat1:�orial, co111bi11tJlório. . . sis/U11r1 t"tlll'
rrtlfrliosos. Pois, se é certo q11e ela - como páthema - m11sistia,
gorial sem referência a um sujeito p emsante... análogo à J111ftrreza».
11/i11t1!, em uma antecipação da morte (morrer, teleutãn, e ser ini-
Pois aquele fimda mento originário qt1.c, de Descartes em diante, os
1i,1rlo, teleísthai, diz-nos Plutarco, são a mesma coisa), justamente
filósofos huscaram 110 s11jeito da ling11cr,ge111, Lévi-Stra11ss o mcot1tra,
t1qmle elemento que todas asfontes atestam unanimemente como sendo
em vez disso (e aqui está o seu ,gên io) , .salta11do para além do stijeito,
r·Jsmcial e do qual deriva o próprio nome de «mistério)> (a partir de
na pura língua da 11aft1reza. _i\1as, p ara fazer isso, ele precisa de
::· mu, que indica 11m estar de boca fechada, um ttmrmúrio),6 vale
uma máquina que, traduzindo o discz::1. rso humano ev1 pura língua,
1lizer, o silêncio, até agora não n1controt1 uma explicarão satisfa­
permita-lhe passar sem fratura de um é/O outro. Uma máq11i11a deste
lríria. Se é verdadeiro que, !la stta forma orip,inária, o centro da
.�ênero é a concepçiío lévi-straussiana do l!lito. Lévi-5tm11ss vê, de
1·'\.periê11cia dos mistérios era não um saber, mas um sofrer («ou
fato, "º mito, tttna dime11si2o intermed,ián'a e11tre língua e fala: «o
111clfhein, ai/à pathein», nas palavras de Aristóteles), e s e este
mito é tt/JI ser verhal que ocupa, na es'êra '.J G da lirw uaÓoem) t11J1a posicào
._..,. .J
páthema era, na s11a essência, .rnútraído à li11guage111, era um nào­
co111pará11el àq11elr1 do cristal llO 1111d111 o da maté!ia jlsica. Colll relação
/>oder-dizer, um m11rt1111rar com a bocajéchada, então esta experiê11cia
â langue, de lf111a parte, e à parole, de 011/ra, c1 s11a posi_rào (:, na
m basta11 te próxima de uma expe riên cia da infância do homem,
1•erdade, similar àq11ela do cristal: objeto inten11r diá rio entre 111/l
110 sentido q11e se viu (o fizto de qlfe e11tre os símbolos sagrados da
t�zn:f!.ado estatístico de JJJoú!orlas e a p rópria estmt11ra mo/em/ar».
i11iriaç{2o figu ram hrinq11edos - puerilia ludicra - poderia for­
(Q1rf, deste 1J1odo, o mito venha a oc11par 11111a e.iftra meditll rqere11te
mcer, a resp eito disso, 11m útil campo de investi._�ação).
á oposirào de se!lliótico e semântico - q11e Br'111Je11iste camclerizava
p1 u1sr11 m nfe como oposirão de possibilidade e i111p os.rihilidade da ,\Ias, prollavelme11te já 11a idade antiga e certammte 110 petio do
trarl11r0r1 -, isto é Sl(�erido illlplicitamet1/e por Lévi-S!rtms.r q11a!ldo mbre o qual esta!llo s melhor inforlllados (a saber. aquele da má­
e!t carackriza o mito como ao modo do dismrso 110 tf"ª/ o valor da ·':i111a d{fi1sào dos mistérios, a partir do sém/o n d. C.). o mundo
/

jom111/a traduttore, traditore felldP jJraliCtll/leJJ/e a zero»). 1mtigo interpreta esta infância Jllistica como 11171 sahfr acerca do qtta!
.11· deve calm; como ttm sil êncio a ser resp
,uardado. _,. 4sJ-illl como se
Poderíamos dizer que !orla a obra de Lévi-Strrmss é, ms/r' smtido,
11presentam no De mysteriis [Dos mistérios] de GiaJll blico, os
u�a má9�ina que tr�n�forma a linguagem humana em língua
. lllÍStérios são, a esta altura, H!lla «fettrgie1», Olf so/a, essencialmente
pre-babel1ca, a h1stona em natureza. Por isso eis s"as a11á/ises,
11m saber fazn� um a <démica,, para i11f/11ir sobre os deuses. O
tão iluminantes qt1a11do s e trata de passar do disc111:so à língua (011
páthema torna-se aqui máthema; o llào-poder-dizer da ilifâ11cia,
s�;a, qttando se trata do qHe se poderia definir como a 11at11reza no
!filia doutrina secreta sobre a qual pesa m11 jurammto de silêncio
homem) , são bem menos úteis quando se trata da passagem da língua
esotérico.
ao disc11rso (011 sva, do que se poderia definir como a nattlreza do
ho�1emj. Deste p� nto de vista, a infância é precisamente a Por isso, é a fábu la, isto é, algo qm se pode sot11ente contar, e
. 11ào o mistério, sobre o q11a/ se dez•e calar; que contém a verdade da
r:iaquma contraria, que transforma a pura língua p ré-babé­
.
lica em discurso humano, a natureza em história. i1ifância como dimensão o rgillal do ho111em. Pois o homem da .fáhu/a
i

libera-se do ví11mlo místico do silêncio tra11.ifonna11do-o em e11ca 11ta-


111ento: é um sottilégio, e não a participação em lfm saber iniciático,
V. Infância e mistério que lhe tolhe a palavra. Deste modo, o silêncio místico, sofrido como

Sob a perspectiva de uma inf .


â ncia cott10 ditmnsào orioina/
=
do
htt:'ano, talvez_ torne-se mais ap reensi el a essência da e:periencia " .\ lll,�o/m·e, no original. Em italiano, significa emitir sons indistintos e
lamentosos mantendo a boca fechada (como fazem os cães), lamentar-se,
1mst1ca da antzgmdade, q11e foi explioda de diversos !!!Orlos pelos
gemer, m111'IJ111rar. [1'\'. do T. ]

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/l'llffo , J1ra1p1ta 11ovamet1te o ho111e111 11a p11ra e 11111da língua da
11atureza: porém, como encanto, deve ser, no final, roJJJpido e supe­
rado. Por esta razão, enquanto o homem, no conto de fadas, em11dece,
os animais saem da p11ra língua da natureza e falam. Por !lleÍO da
temporária confusão das duas esferas, é o 1mmdo da boca aberta,
de raiz indo-européia >:· bha (de qtte deriva a pctlavra <1ábula»), que
o conto de fi1das faz valer contra o 1J11mdo da boca fechada, de
raiz >!· mu.
A deji11ifàO medieval da fábula, seg11ndo a qt1al esta seria uma
11arrativ(I e111 q11e <<a11imalia mula. . . ser111ocinasse Ji11g!f11ft1r» e,

como tal, algo de essencialmente «co11tra 11at11ra111», co11tém, nesta


perspectil'a, 11111ito !llais 11erdade do que possa parecer à p1i111eim
vista. Pode-se dizer, de fato, que a fáblfla é o l!fgar em que, 111erlicmte O PAÍS D O S B RI N Q U E D O S
a Úll'ersào das categorias boca fechada/ boca aberta, p11ra língua/
ilifancia, o homem e a 11al11reza trocam seus papéis anffs de ree11co11-
trare111 a parte que lhes cabe 11a história.

REFlEXÕES SOBRE A HISTÓRIA E SOBRE O JOGO

a Claude Lévis-Stra11ss
em respeitosa homenagem pelo se11 septuagési!llO aniversário

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