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Harpócrates (hoor paa kraat, Hórus Infante, em língua

hierática egípcia) foi o nome que originou o grego Horos, e deste o Hórus
latino. Isso indica que Ele era cultuado em todo o Ocidente, e seus ritos não
ficaram restritos a Terra Negra, o País de Cham, Patriarca do homem egípcio.
O cristianismo nascente teve no culto de Harpócrates seu pior
adversário, uma vez que o cerimonial não exigia cidadania romana, como
aquele outro culto semelhantemente soteriológico, o de Mitra, deus hindu
que nos vem em roupagem persa-helenizada e que alcançou públicos
distintos como os Nobres e Soldados de Roma.
Harpócrates ganha este nome na Grécia (que o difunde) pela
razão de que Ele é Filho de Osíris e Isis, portanto, um menino impúbere de
13 anos, com a Trança do lado esquerdo da cabeça, costume adotado após
pelos semitas (que usavam 2 tranças uma de cada lado, que jamais seria
cortada, e era chamada Peáh – canto, quina). Os egípcios no entanto,
cortavam esta trança, a ungiam e ela era oferecida no Templo como parte de
um Ritual de Consagração que não consta em nenhuma recensão do PERT
AN H´RU (capítulos de sair a luz) porque seria reservada apenas aos
Sacerdotes Iniciados (NISUT).
O significado místico desta Trança está no fato de que o
cabelo era considerado um tubo de condução muito fino e delicado. E o lado
Esquerdo era especialmente sagrado aos Chemitas (ou egípcios), uma vez
que o BA, ou coração, ficava do lado esquerdo do peito. Então a matéria
etérica desceria do cérebro pelo lado esquerdo direto para o coração
(usaríamos termos como razão e emoção), já que os egípcios sabiam que o
pensamento não era oriundo do coração, como ensina Aristóteles, e isto
garantiria que o infante teria saúde (USA, a balança, equilíbrio um atributo
de MA´AT) em sua vida.
No Judaísmo o significado é o mesmo, porém, na Etz Hayym
que nos chegou pelos Mekuba´alym, a qual difere das que se costuma ver
plantadas entre os profanos - estas dão fruto amargo e que produz delírios -,
Nossa Árvore, contrariamente, é de acordo com a Santa Qabalá dos
Patriarcas Avraham, Yitzhak e Iaacov. E os dois condutos de luz que
emanam da Suprema KETER às Supernais HOHMA e BINA não são como
se diz na Ordem da Aurora Dourada, a saber, alef e bet, mas HEY e VAV
que formam a Palavra Sagrada HU ("Ele" - sendo este um Nome Santo
(SHEM Ha´QADISHÁ) que refere AIN SOF AUR, Deus Absconditus,
Inefável, todo indiferenciado, aquém da existência, onde nada é nomeável.
Este Mistério está ainda mais aquém de TOHU Va´BOHU ou XAOS.
É de se sublinhar, outrossim, que a ligação do cabelo
enquanto conduto de luz é especialmente reservado para o Deus porque Ele,
apesar de ser uma divindade secundária, contrariamente aos seus genitores
(Asar e Asi) é o Deus da Luz mais Pura, porque é Criança, e o Silêncio é sua
Palavra, seu Discurso, e conecta-se portanto ao Dogma do Segredo acerca da
Obra, pois é inocente e não possui ou não sabe pronunciar ainda as Palavras
Poderosas (HEKAU) que DJEHUT, Seu preceptor, lhe dará para vencer
SUTHI, o Vermelho. Daí o dedo nos lábios, como a sugerir todas estas
coisas.
E por não ter como lutar, ele é imaculado, intangível. Por isso
é representado sobre o báculo de Lótus de Asi, Nossa Senhora e Mãe, sobre
o qual tu serás instruído oportunamente. Jâmblico nos diz em seu livro que
o sentido esotérico de sentar-se sobre a Lótus implica proeminência sobre o
Lodo, e ainda, virtude Intelectual e Empírea (é como diríamos Espiritual).
São desnecessárias maiores esclarecimento sobre este atributo.
Prossigamos.
Harpócrates é o Deus da Luz, e nos papiros mágicos, onde os
antigos magistas grafaram suas fórmulas ou TEAGOGOS LOGOS (palavras
para trazer o deus), Ele é identificado com Hélios, o Titan identificado com
o Sol que, como Rá "restringia a Serpente APEP" (ou a helenizada Serpente
APÓPHYS) todos os dias. Esclarecimentos acerca disso são igualmente
dispensáveis.
São comuns no discurso teagógico dos Papirii expressões
como O HELIOS TON MAGISTON TEON HOROS HARPOCRATES
TEÉ TEON (Oh Hélios Altíssimo Deus, Hórus Harpócrates Deus dos
Deuses). Ainda, o fato de Hélios ser posteriormente designado como
"Louvável dentre os [Deuses]" ou EULOGHTOS designa influência Judaica,
e Ele (Hélios-Harpócrates) é assimilado assim à IAO, pronuncia corrompida
de YHVH, ou Yehová, mas ressignificada pelos Hierofantes Helênicos para
uma fórmula ternária que dramatiza o ciclo natural das estações. Muito
embora Harpócrates não seja citado nesta referida fórmula (L.V.X.) Ele está
nela implícito na própria essência da formula (Ele assim personifica a luz da
cruz dos Elementos), ou o Ruach HaQodesh (Espírito Santo, cujo hieróglifo
é a letra SHIM, de valor 300, o mesmo de Ruach Elohym - Espírito das
Poderosos).
Os mesmos documentos identificam ainda HÉLIOS com
MITRAS, ambos são representados em carruagens. Os egípcios
representavam comumente RA como navegando numa Barca ao invés de
uma carruagem, e em alguns capítulos mais recentes do PERT AN H´RU
(principalmente na Recensão Heliopolitana) Harpócrates esta ao leme da
Barca de Ra.
Jâmblico chama a atenção para o simbolismo implícito aqui,
e diz que ele deve ser interpretado segundo os ensinamentos egípcios, onde
aquele que segura o Leme representa a Grande Lei que governa o Mundo
(conceito semelhante ao Dharma buddhista). Há também uma conexão
distante com alguns conceitos qabalísticos como a MERKABA Ba´ELIAHU
(Carruagem de Elias), instrumento mágico abstrato utilizado para ascender
aos céus.
Mitras, mencionado acima, é uma divindade ou deva védico,
cujo culto era feito comumente pelos braamins ao amanhecer e foi
substituído posteriormente pelo culto a Gayatri pelos Rishis (Videntes), que
era a princípio uma métrica védica, foi personificado em um Nome: Gayatri,
a deusa da fortuna e saúde. Seu mantram é considerado a manteiga dos vedas
(resumo, mas não com conotação de upanishad [comentários]), por isso é
dito que Ela é VEDAMATA, a Mãe dos Vedas, e também a SYNTESIS da
tríada feminina Lakshmy, Parwaty e Saraswaty. Um ponto importante à
lembrar é que contrária a qualquer expectativa, Ela tem natureza Solar.
É sumamente aconselhável ao Obreiro da Ordem, que no
alvorecer ele se entregue a esta Prática e nela se demore quanto quiser, e
identifique o nascimento do Sol como o desabrochar de um Lótus, e o Disco
Alado não como Mitras, ou Gayatri, ou Hélios, apesar de Ele ser todos estes,
mas como Harpócrates, a Luz Nascente, o Senhor Iniciando do Trono do
Leste. Eis a Divindade que Rege a Primeira Ordem. E tu deves encontrar sua
Chave, que é a conexão do que teus olhos contemplam e o que ocorre em ti.
Assim tu farás a SYNTESIS com o Deus que habita em ti com tua Alma. A
compreensão desta técnica vêm com a Prática.
A carga e conexão hermética de Harpócrates está no fato de
ser um Deus jovem e portanto representar a Fala no Silêncio (o discurso
hermético). Para além das polifonias existe a hiperfonia. Notava Aristóteles
em De arte poetica, lib. I que o Jovem, além de portar outros atributos, é
espalhafatoso. E isso corresponde à verdade, porém o que o filósofo quis
representar era que o Jovem é hiperloquaz, hiperfônico, seu Logos extrapola
a simples Palavra e adotam-se centenas de códigos, gestos, signos e minúcias
que fazem parte de um complexo Discurso Silencioso, porque saturado de
elementos simbólico-semióticos, com a marca da corporeidade, que segundo
o Estagirita, era também uma característica do Jovem. Entenda-se "Jovem"
como aquele que está na pré-puberdade até a puberdade tardia. Mas não é a
Juventude de Harpócrates que nos interessa. É o seu LOGOS. Esta
Linguagem Silenciosa adotada por Harpócrates é a mesma que se observa no
modelo aristotélico supradito; porém, esta Linguagem se refere ao próprio
Ser, i.e., no discurso está o próprio Ser em si mesmo representado. É como
se o ente humano fosse essencialmente incorpóreo, e a palavra permite dar-
lhe forma, ou representar (isso ainda no âmbito aristotélico onde a alma é
essência da forma, de modo que a essência perecendo, a forma permanece,
na memória p.ex.) a Si Mesmo, expressar-se é dar-se a Existência, agir
ativamente nela, até mesmo coagi-la ou omitir-se de fazê-lo. Portanto, o
discurso hermético, que se assemelha ao discurso de Harpócrates pois este é
tanto uma defesa do Ser (o Segredo) como expressão/manifestação simbólica
do Ser (que é essencialmente o LOGOS).