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William Luis

Religiões afro-brasileiras: Um novo olhar


Author(s): Nei Lopes
Source: Afro-Hispanic Review, Vol. 29, No. 2, The African Diaspora In Brazil (FALL 2010), pp.
197-210
Published by: William Luis
Stable URL: http://www.jstor.org/stable/41349350 .
Accessed: 18/06/2014 07:19

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Religiões afro 'brasileiras : Um novo olhar

Nei Lopes

sistemareligiosonascido na Áfricae desenvolvidono Brasilno ambienteda


escravidão,baseia-se na crença em um Deus supremo.Criadordo universo
О e fonteda vida,esse Deus infunderespeitoe temor.1 Mas é tão infinitamente
superiore distante que não é ou
cultuado, seja: não pode nem precisaser agradado
com preces nem oferendas.Abaixo desse Deus situam-se,nesse sistema, seres
imateriaislivrese dotados de inteligência,os quais podem sergéniosou espíritos.
Os géniossão seressem formahumana,protetorese guardiõesde indivíduos,
comunidadese lugares,podendo,temporariamente habitarnoslugarese comunidades
que guardam,e tambémno corpodas pessoasque protegemJáos espíritos são almas de
pessoas que tiveram vida terrena e, por isso, são imaginados com forma humana.
Podem ser almas de antigos chefes e heróis, ancestrais ilustrese remotos da
comunidade, ou antepassados próximosde uma família.Ao contráriodo Deus
supremo,génios e espíritosprecisamser cultuados,para que, felizese satisfeitos,
garantamaos vivossaúde,paz,estabilidadee desenvolvimento. Pois é deles,também,a
incumbênciade levar até o Deus supremoas grandesquestões dos sereshumanos.
Assim,já que contribuemtambémpara a ordemdo universo,eles devem sempreser
lembrados,acarinhadose satisfeitos, atravésde práticasespeciais.Essas práticas,que
representam o cultoem podem,quando simples,serrealizadaspelo própriofiel.Mas
si,
quando complexas devem ser orientadase dirigidaspor um chefe de culto, um
sacerdote.Dentrodessaslinhasgeraisfoique as religiõesafricanaschegaramao Brasil.

Origens

Em terrabrasileira,pelas condições históricasem que se acharam,as religiões


trazidasda Africativeramque sofreraclimataçõese adaptações,muitasvezes com a
perda de elementosessenciais.Mesmo assim,passadosváriosséculos desse processo,
muitos elementospermanecem.Através deles podemos perceberque, da mesma
formaque outrostraçosculturaisdeterminantes da africanidadebrasileira,as formas
religiosasbaseadas no sistema acima esboçado e transplantadaspara o Brasil
provierambasicamentede duas regiões:as da bacia do rioCongo e da atual Angola;
e a do golfoda Guiné. Da primeiraregião chegaramaqui os elementose aspectos
bantosda religiosidadeafro-brasileira;e da segunda,os conhecidoscomo nagôs,jejes
e minas,tambémreferidos genericamentecomo "sudaneses".
Façamos aqui um parêntesespara explicarque "nagô" é o nome pelo qual
foramgenericamenteconhecidos,no Brasil,os iorubás,da atual Nigéria;que "jejes"

Review• Volume 29, Number 2 • Fall 2010 -


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Nei Lopes

é о nome brasileirodos indivíduosdo povo Fon, localizado na fronteira da Nigéria


com o atual Benin; e que "minas"é o nome genéricodado a indivíduosde diversos
povos litorâneosdos atuais Benin,Togo e Gana.
Prosseguindo,vamos ver que, no ambienteescravistado Brasil,trabalhadores
sudanesese bantosforamdistribuídos, durantea Colónia e o Império,porquase todo
o território,sendo sua mão-de-obra atraída pelos grandespólos irradiadoresdos
sucessivoscicloseconómicos,como os da cana de açúcar,do ouroe docafé.Entretanto,
algumasregiõesficarammais fortemente marcadaspor traçosculturaisespecíficos,
como é o caso da presençados minasno Maranhão; dos congo-angolanosem parte
do nordestee em todo o sudeste;e dos nagôs e jejes na capitalda Bahia.
Vejamos agora que em meados do século XIX os nagôs, somados a seus
vizinhos fons, grúncis,nupês ou tapas, hauçás etc. já constituíammetade da
comunidade africanana capital da Bahia. E por essa época, a cidade mantinha
intensocomérciocom o continenteafricanoe principalmente com a regiãodo Golfo
da Guiné. Essas circunstânciaslevaramà maiorcoesão dos nagôs,principalmente os
da regiãode Queto (Ketu),na fronteira com o antigoDaomé, atual Benin,fazendo
com que suas tradiçõesreligiosas(jeje-nagôs) gerassemou influenciassemvárias
outrasvertentesreligiosasafricanasno Brasil.Então, vemos hoje, a partirda Bahia,
o vocábulo "candomblé"designargenericamente não só o cultoaos orixásjeje -nagôs
como outrasformasdele derivadas.Assim temos,por exemplo,os candomblésditos
puramentejejes; os que se conhecemcomo "de Congo e Angola"; o candomblé"de
caboclo", variante do candomblé "de Angola", marcado por elementos da
religiosidadeindígenae de práticasdo espiritismo popular,etc. Mas não ficouaí a
marca das tradições jej e -nagôs na religiosidade popular do Brasil. Outras
modalidades de culto, como o batuque gaúcho, o xangô pernambucano,a mina
maranhense,a umbanda etc., absorveramessa influência,muitas vezes mesclada
com elementosreligiososbantos,dos quais agoranos ocuparemos.

As matrizesbantas

As convicçõesreligiosasdo grupobanto,principalmente os de Angola,Congo


e Moçambique, embora semelhantesem conteúdo, apresentamdiferençasformais
em relação aos dos grupos sudaneses vindos para as Américas. Além disso, a
conversão ao catolicismoda aristocraciado poderoso reino do Congo, antes do
descobrimentodo Brasil,já influenciaraos princípiosreligiososdos bantos.Segundo
- acreditando-se numa correlaçãoentreas
esses princípios,a vida no plano invisível
forçasvitaisdeste e as do outro lado da existência- baseia-se numa pirâmideque
temem seu topo o Criadorde todas as coisas e, abaixo ďEle, porordemdecrescente
de importância:o fundadordo primeiroclã humano; os fundadoresdos grupos
primitivos;os heróis civilizadores; os espíritos e génios, acima referidos;os

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Religiõesafro-brasileiras

antepassadosqualificados;e os antepassadosda comunidade.Os géniosprotetores,


criados por Zâmbi (este nome ocorre,com variantes,em quase todas as línguas
bantas), mas sem relação alguma com formascorporaishumanas,estabelecemsua
moradiaem lugaresespeciais,como árvores,rios,lagos,pedras,o fundoda terraetc.,
que protegeme vigiam.Mas há génios,também,habitandoo ar,o mar,as florestas,
a chuva etc., exercendo seu controlesobre a caça e a pesca, a agricultura,e até
mesmo sobre alguns aspectos da vida humana. Essas divindades raramentesão
imaginadascom formahumana. Por isso, as religiõestradicionaisdos povos bantos
não precisamde templos,sendo muitocomumo recolhimentodos fiéis,quando de
atos importantes,em refúgiossacralizados,secretos,ou debaixo de árvoresonde a
presença dos seres invisíveisé permanente;ou apenas sob a imensidão do céu,
infinitoe universal.

Os calundus e a cabula

Encaminhemosagora nosso raciocínio a partirdo exame de duas antigas


modalidadesde culto: calundu e cabula. "Calundu" é termobanto, provavelmente
origináriodo vocábulo кilundu,do idiomaquimbundo,de Angola, cuja traduçãoé a
de "ancestral,espíritode pessoa que viveuem época remota".No Brasil,o significado
mais conhecido da palavra "calundu" é o de mau estado de ânimo. Estar "de
calundu"ou "com os seus calundus"é estarirritadoe de mau humor.E isto,segundo
os antigos,por conta da presença, no quadro espiritualda pessoa, de espíritos
ancestraisinsatisfeitos,cobrando atenção e reverência.Daí, o termoganhou, no
as
Brasil, acepções de culto ou seita,ou ainda, no plural,a de "festasou celebrações
de origemou caráter religioso,acompanhadas de canto, dança, batuque, e que
geralmenterepresentavamum pedido ou consulta a divindades ou entidades
sobrenaturais"- segundoo DicionárioHouaissda línguaportuguesa , lançado em 2001.
No livro O candombléda Barroquinha , Renato Silveira informa que a mais
antiga descrição pormenorizadade um calundu, no Brasil, data de 1646. A
ocorrêncialocaliza-se na capitania de São Jorgedos Ilhéus, sob a direção de um
liberto chamado Domingos Umbata. Vejarse aí que o nome "Umbata" é
aportuguesamentodo antigo nome de um clã do povo Bacongo, os Mbata.
Tornando-seo clã uma tribo,seu nome estendeu-se à sua região nativa, outrora
pertencenteao Reino do Congo, e hoje integrandoo território da atual Angola.
Lembremos,assim, que os umbatas,também referidoscomo mambatas,zombos,
bazombos e muzombos,são um povo banto. Antes, entretanto,do calundu de
DomingosUmbata,o pintorholandêsZachariasWagenerjá havia fixadoem tela um
ritual africanono Nordeste brasileiro.Na tela, reproduzidano precioso livro de
Silveira,vê-se uma cena coletivaem que, comparandováriasinformações, este autor

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conclui tratar-
se de manifestaçãoda mesma ou de região vizinha à da origemde
Umbata, ou seja, da Africabanta.
Observemos agora que, no Brasil, os religiosos bantos dedicavam-se
principalmente, como em suas regiõesde origem,às práticasde adivinhação e de
cura. Seus cultos não se caracterizavampelas danças e experiênciasde transeou
possessão típicas das religiõesda Africa Ocidental. Além disso, muitas vezes os
ritualistas
bantospraticavamseu ofíciode modo itinerante, em casa de um e de outro
adepto,porexemplo,o que definiao vocábulo "calundu"como modalidadede culto,
mas não como local de seu exercício.Aí então, chegamos à antiga manifestação
religiosadenominada"cabula",que era certamenteuma modalidadede calundumais
próximadas formasreligiosasde origemafricanaque vieramdepois. Observada no
século XIX na provínciado EspíritoSanto, a cabula, cujo nome talveztenhaorigem
no idioma quicongo, no nome próprio Kimbula, de uma entidade espiritual
que mete medo; ou no substantivoKambula, desfalecimento,
aterrorizante, síncope,
talvez em alusão ao transeque algunsfiéisexperimentavam duranteos rituais,é a
formade culto banto de registromais antigo.
Conformeesseregistro, feitoporumbispocatólicoe popularizadopelo etnólogo
Nina Rodrigues (Os africanosno Brasil), os membrosda comunidade cabulista
realizavamrituaisao ar livre,no meio do mato,evocando espíritosdos antepassadose
utilizando vocabulário de nítida origem banta. A partirdesse texto histórico,
verificamos,nessa modalidadereligiosaa ocorrênciade muitostermosseguramente
originadosdo universolinguísticobanto,tais como: "embanda",o chefedos rituais;
"cambone",seu auxiliardireto;"camaná",cada umdos iniciadosou adeptos;"tata",cada
umdosespíritosancestraiscultuados;"bacuros", de antepassados,que
anciãos,espíritos
nunca tinham tido vida terrenae habitavam na mata; "engira",reunião ritual;
"camucite" ou "camuxito", interiorda mata ou floresta,onde se realizavamas
reuniões;"carunga",o mar; "nimbu",cânticoritual;"qüendar",caminhar,trabalhar;
"quatan",ou "liquáqua", palmas; "caialo", neófito;"emba",o pó brancoritual.
Segundo a crença dos cabulistas,um embanda fortee bem preparadopodia
estarem várioslugaresao mesmotempo,dominarpessoas e bichosperigosos,matar
uma ave apenas com o olhar. Da mesma forma,ele poderia encontrarobjetos
perdidos;descobrircausas de doenças; conseguirboas caçadas e lavouras férteis;
evitara detonação de armas de fogo; abrirportas,malas ou gavetas trancadas,a
menos que elas estivessemfechadas com tramela,porque a cruz que se formava
quebrava o seu poder.
Um bom embanda, segundo se dizia, podia até fazerchover.Atravésde um
cachorro ou cobra "mandados", ele podia também "trabalhar" um inimigo
ou desafeto,ou seja, influirsobreseu psiquismoou seu físico.Tambémas ervas,bem
usadas por um embanda,podiam enfraquecer, enlouquecerou eliminarum inimigo.

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Usados juntamentecom um pouco de cabelo, um retratoou uma peça de roupa da


pessoa que se quisesse"trabalhar",essas ervas,principalmenteusadas em garrafadas,
podiam sermuitoeficazes.Uma garrafadabem preparada,além de curaros males do
corpo, podia fazer,desfazer,impedirou favorecernoivados e casamentos; levar a
alguémfortunaou miséria.
Os trabalhosmais "fortes"deveriamser feitosna sexta-feirada Paixão e na
noite de São João, de preferênciadebaixo de uma figueiraou gameleira,que são
árvores de grande poder. Nele, nunca poderiam faltar "marafo", "pemba" e
"fundanga",ou seja, aguardente,pó brancoe pólvora.Mas para que tudodesse certo,
tinha-se que riscarna terrao "signode Salomão" e dentrodele se colocar a fundanga.
Explodindo esta, dever-se-ia soltar dentro do riscado a cobra "mensageira",
pronunciando as competentespalavras rituais.Na falta dos meios materiais,o
embanda podia valer-se da forçada palavra. Mas, para tanto,ele teriaque encher
a boca de marafoe "serenar",aspergindoo líquido no objeto ou na partedo corpo
ou pessoa sobre os quais se queria influir.Além do marafo, a água de rio,
convenientementeaspergida, era, para os cabulistas, remédio adequado para
neutralizarquase todos os tiposde influência.Vemos,então, que a cabula utilizava-
se largamenteda magia,a qual se dividiaem muambae mandraca.A primeiraera a
coisa-feita,o trabalho.A segundaera o podersuperiorque o indivíduoadquiria,com
auxílio de "rezasbrabas"e assumindocompromissoscom o "santé".
Observemos, finalmente, que alguma das práticas acima enumeradas
encontramcorrespondênciaem outrasantigaspráticasrituaisde origembanta,como
as da "reglade paio" cubana e mesmode algumasvertentesdo "vodu",difundidodo
Haiti para outras partes do continenteamericano. Veja-se, ainda, que essa foi a
forma fundadora da religiosidadeafricana no Brasil, certamentepresente nos
calundus que antecederamos atuais candomblés e que deu origemàs primeiras
manifestaçõesda umbanda. Na atualidade,o termo"cabula" designa apenas, pelo
que sabemos,um ritmode atabaques executado em candomblésde nação angola
ou congo.

As formas sudanesas

Até o século XIX, as diferençasentre as práticasreligiosascorrentesentre


bantos e sudaneses, no Brasil, talvez fossem melhor compreendidas. Com o
estabelecimento,porém,das primeirascasas de culto baianas no Rio de Janeiro,na
alvorada do novo século, começou a se estabelecer,entreobservadorese estudiosos,
uma visão formadaa partirda exuberânciadas tradiçõesjeje-nagôs,como vemos,por
exemplo,nos textosde Joãodo Rio (As religiõesdo Rio), determinandoa supremacia
dessas tradiçõesreligiosas,e marcando as diferençasentre o que, mais tarde, se
convencionou denominar "candomblé" (sudanés) e "umbanda" (banto). Nessa

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distinção, presença históricafundamentalé a da comunidade conhecida como


"Candomblé da Barroquinha".Façamos aqui um parêntesespara explicarque, no
candomblése cultuamdivindadeschamadas "orixás",que são, em geral,entidades
espirituaisou génios,representantes ou simbolizadorasde forçasda natureza.E que,
na umbanda, cultuam-se,principalmente, espíritosde ancestrais,além de outros
tiposde entidades, algumas vistastambém como orixás.
Protótipoda espécie de comunidadehoje conhecida como "candomblé",o da
Barroquinhafoiuma casa de culto fundadana capitalbaiana, no bairrocentralque
lhe emprestao nome, por volta de 1789. Antepassado do atual Ilê Axé Iyá Nasso
Oká, popularizado como "Casa Branca do Engenho Velho da Federação" ou
simplesmente"Casa Branca",a época de sua fundaçãocoincidiriacom os primeiros
ataques dos daomeanos de Abomé, no atual Benin, ao Reino de Queto, na atual
fronteira com a Nigéria,em 1789 (quando foramfeitoscerca de 2.000 cativos)e com
o desembarquemaciço na Bahia dos primeirosescravos dessa região. As origens
físicasdo Candomblé da Barroquinharemontama uma casa, na Ladeira do Berquó
ou na Rua da Lama, ambas hoje denominadas"Viscondede Itaparica",erguidaem
terrenoarrendadoa um casal de proprietários brancosfiliadoà Confrariade Nossa
Senhora da Piedade da Igreja da Barroquinha,fundada por negrosbrasileirose
africanossudaneses em 1764. E segundo a tradição oral, antes da criação dessa
comunidade,os futurosfundadorestinham-se aproximadodos cultosmantidospor
africanosde etnia Grunce ou Grunci (dos atuais Togo e Gana), no bairroda Boa
Viagem,na localidade de Dendezeiros,atual Vila Militar.
Em seu magníficotrabalhosobre as origensda comunidade e do terreiro,
Renato da Silveiraconclui,com relativacertezao seguinte:que, por volta de 1789
membrosda famíliaAro, da linhagemreal de Queto, e aliados, instituíram, nas
vizinhançasda Igrejada Barroquinha,um cultodomésticoao orixáOdé Oni Popò e,
logo depois,tambéma Airá Intilê.Firmou-se, então, um acordo políticoou aliança
que fezsurgiro modelo de candombléaté hoje vigente,o qual, em vez de ser local
de culto a uma só divindade,como o calundu colonial, concentravários cultos a
divindadesde procedênciasdiversas.Entretanto,cerca de vinte anos mais tarde,
após o arrendamentode um terrenosituado atrásda igrejinha,por divergênciade
ideias, esse grupo transferiu-se para a localidade suburbanade Matatu de Brotas,
onde, além dos orixásjá cultuados,assentoutambémos fundamentosde Oxumarê,
permanecendoos fiéisda Barroquinhadevotados,ao que parece,principalmente ao
culto de Airá Intilê.O terreirosuburbanodeu origemao conhecido Candomblé do
Alaqueto e o do centroà atual Casa Branca,depois transferida para a localidade do
Engenho Velho. Mais tarde,de uma dissidência da Casa Branca,nasceramo Ilê Axé
Opô Afonjá e o Gantois, formandoo tripésobre o qual se assenta a tradição da
"nação de Queto", disseminadapor váriaspartesdo país.

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Mas além do Queto, o candomblé da Bahia conhece tradiçõesde outras


nações, como Efã,Ijexá, Jeje,etc. Porqueo termo"nação", no candomblé,designaa
origem territorialafricana de cada uma das formas de culto que compõem
a ritualísticado candomblé. Interessanteobservar também que a tradição do
candomblé tomou, ainda, formase denominações específicasem algumas partes
do território
brasileiro,como "xangô"em Pernambuco;e "batuque" ou "pará"no Rio
Grande do Sul. E, mais interessanteainda, é saber que modernos estudos têm
questionado essa primaziado povo de Queto na Bahia, colocando-a nas mãos de
outropovo sudanés,da AfricaOcidental: os jejes.

O jeje e a mina

No tempo da escravidão,o termo"jeje" designava,no Brasil,cada um dos


africanosoriundosda antiga Costa dos Escravos; e, hoje, adjetiva tudo o que se
relacioneà sua cultura,notadamenteo intrincadosubsistemareligiosodisseminado,
no Brasil,a partirdas cidades de Salvador e Cachoeira, na Bahia, mais São Luís do
Maranhão. Os jejes trazidospara o Brasil pelo tráficoatlântico de escravos eram
embarcadosprincipalmente no portode Ouidah ou Ajudá. SegundoNina Rodrigues,
no século XIX, a línguado povo jeje falada na Bahia compreendiacinco variantes:
marrim,fon (ou daomeano), agué, agunã e ruedá. Daí, podemos perceberque da
mesma formaque recebeu como escravosváriossubgruposdo povo iorubá (ijexás,
efãs,ijebus,egbás,nagôs etc), o Brasilcolonial e imperial,recebeutambémescravos
jejes de váriasprocedências,como marrins,fonsetc.
Essa presença jeje, anteriorà iorubá,é confirmadano Brasil,na região das
Minas Gerais,já duranteo Ciclo do Ouro, no século XVIII. Datam daí, certamente,
os primeiroscontatos, em terra brasileira,de africanosdessa procedência com
aqueles vindosdos territórios bantosdo Congo e de Angola, o que foideterminante
no campo religioso.Segundo o antropólogoLuis Nicolau Parés (A formaçãodo
candomblé) yos jejes trouxerampara o Brasiluma grandevariedadede divindadese
práticas rituais, tão diferentes quanto suas subdivisões étnicas. Assim, as
comunidadesreligiosasdessa matriz,até a atualidade,diferenciam- se das demais,e
mesmo entresi, não só por seu vocabuláriolitúrgicopeculiar,como tambémpelas
rezasentoadas nas váriassituações,pela formade algunsrituaisetc. Ainda segundo
Parés,até a década de 1870 (mesmoapós a fundaçãodo Candomblé da Barraquinha
pelo povo de Queto) a tradiçãojeje teriasido a dominantena Bahia e constituído
matrizdeterminanteno surgimentodo candomblé no Brasil. Observemosque os
redutosiniciais da tradição jeje no Brasil são a Casa das Minas, em São Luís do
Maranhão; a comunidadedo Bogum,em Salvador; e, em Cachoeira, no Recôncavo
Baiano, as comunidadesconhecidas como Roça de Cima, já extinta,além do Sejá
Hundé (ou Roça do Ventura),que a sucedeu. Algunsestudosrecentesassinalam a

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origemdiferentedos jejes do Maranhão, origináriosdo antigoreinode Abomé, de


etnia Fon, em relação aos da Bahia, oriundosdo grupo Mahí ou Marrim.E essa
diferençaficamaisou menosevidentena comparaçãodas tradiçõesreligiosasdo jeje
(tambémvistocomo uma variantedo candomblé) com as da mina maranhense.
Aqui, convém explicar que "mina" é a denominação usada, a partirdo
Maranhão, para os cultos de origemafricanapraticadosnas "casas de mina". A
principaldela é justamentea Casa Grande das Minas ou simplesmenteCasa das
Minas, chamada por seus fieisde "Querebetã de Zomadono". Importantecasa de
culto assentada no centrovelho da cidade de São Luis do Maranhão pelo menos
desde meados do século XIX, a Casa não adota nenhumtipode sincretismo. Como
a tradição liga sua fundação à presença, no Brasil, da rainha daomeana Nã
Agontimé,a casa se orgulhade ser,como de fato é, o único terreirode religião
africanano Brasilem que se cultuamvodunsda famíliareal do antigoDaomé, o que,
ao que sabemos,só ocorretambémem Cuba, na comunidadeoutroralideradapela
africanaFlorentinaZulueta,Nã Tegué,falecidaem 1933 aos cento e cinco anos de
idade.Jáaí vemosque enquantoos iorubáscultuam"orixás",os jejes cultuam"voduns",
nome que na línguade origem,o fon,temtambémo significadode "divindade".

Egungum e Ifá

Voltandoao universoiorubanoou nagô no Brasil,vamosnoticiar,brevemente,


a existêncianele, de vertentesde culto auxiliaresou paralelas,como o culto de
Egungume o culto de Ifá. Na tradição iorubana,Egungumé a representaçãodo
espíritode um mortoilustre,de um ancestralmasculino,que retornaao mundo dos
vivos em cerimoniasrituais.Seu culto expressaa veneração da espiritualidadede
indivíduosque se converteramem ancestraisimportantes, em "pais",em Babá Egum,
ou seja, aqueles que, após a morte,mereceramo privilégiode, convenientemente
preparados,ser invocados e cultuados em uma formacorporal simbólica. Essa
simbologiase verificana aparição dos Babá Eguns.Ela acontece durantecerimonias
festivaspreparadascom antecedência;e de formatão espetacularque muitasvezes é
vista,por alguns estudiosos,apesar do temorque essa entidadesinfundem,como
uma farra,uma mascarada.E isto talvezpelo fatode que, nelas, eles surjamusando
trajese adereçoscoloridos,ricamenteconfeccionadose enfeitadoscom símbolosque
denotam sua importânciahierárquica,seu grau de desenvolvimento.Além desses
trajese adornos,distintivosde seu grauou hierarquia,os Babá Eguns ou Egunguns
falamcom voz gutural,como se imaginaque falemos ancestrais.
Outra importante vertentede culto,fundamental para a existênciada tradição
dos orixás é o culto de Ifá, orixá maior, dono do conhecimento e das artes
da adivinhação.E desse culto,lideradopor um babalaô ou por um oluô (líderde um
grupo de babalaôs), que emanam todas as normasque regemo culto aos demais

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orixás,ou seja, o "candomblé"propriamentedito. E isto porque o babalaô, quase


sempre tido como um adivinho, é sempre um sacerdote de muito estudo e
conhecimento,que se capacitou não para adivinhare, sim,para interpretar,através
de um complexosistemaque remontaà mais alta Antiguidadeafricana,o oráculo de
Ifá,ou seja: tudo o que as Divindades altíssimasdeterminampara guiaros destinos
dos indivíduose das comunidades.O popularjogo de búziosé uma das modalidades
simplificadas derivadasda consultaao oráculo de Ifá.

As formassincréticas

Sincretismoé a combinação, em um só sistema,de elementosde crenças e


práticas culturais de diversas fontes. No âmbito estudado neste texto, o que
particularmente se conhece por esse nome é o fenómenoresultantedo encontrono
Brasil, longo todo um processohistórico,das religiõesprovenientesda Africa
ao de
com o catolicismo e com doutrinase cultos de outras procedências,inclusive
nascidosem terrabrasileira.Feito esse esclarecimento,observemosque, em todas as
Américas,ao associaremdivindadesafricanasa santos católicos,os negrosantigos
respeitosamente trouxerampara o seu domínio,atravésde analogiase semelhanças,
as divindades de seus senhores.E o fizeramem busca de fortalecimento de sua
e
energia vital, quase da mesma forma pela qual alguns reis guerreirosda
Antiguidade, grega e romana, entronizavamem seus templos os deuses dos
adversáriosvencidos. O fato de certas comemoraçõesdas religiõesafro-brasileiras
seremrealizadasem dias santificadospelo catolicismopode servisto,também,como
resultadode uma estratégiados oprimidospela escravidão:como não tinhamfolga
em seu trabalhoa não ser nos dias santificadosdos brancos,eles usavam esses dias
para fazertambémas suas comemorações,à sua moda. Foi assim,por exemplo,que
o orixá Oxóssi, cultuado na Africa como uma das divindades da caça e, por
conseguintecomo uma entidadedo mato,passou a ser celebrado,na Bahia, no dia
de São Jorge,a quem foiassociado; e, no Rio de Janeiro,no de São Sebastião,que é
representadoamarradonuma árvoredentrodo mato. E isto na mesma medida que
Ogum, orixá do ferroe consequentementeda guerra,foiidentificadona Bahia com
Santo Antônio (militar, segundoa tradiçãoportuguesa)e, no Rio de Janeirocom São
Jorge,que representadode armadurae portandouma lança. Aforaesse aspecto,o
é
encontrono Brasil,dos mais variadoselementos,deu origema outrascombinações
e superposições,até mesmoentreexpressõesigualmenteprovenientesda Africa,ou
dessas com tradiçõesindígenasou simplesmentesertanejas.

Os candomblés bantos e o de caboclo

Sob a denominaçãogenéricade "candomblésbantos"são aglutinadasno Brasilas

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modalidadesreligiosasem que se cultuamentidadesespirituaisdesignadas,cada uma


delas, pelo nome "inquice" e respectivamentemencionadascomo "candombléde
Angola", "candomblé-angola"ou "angola";e "candomblédeCongo"e "candomblé- congo".
A base da religiãotradicionaldos povos bacongo e ambundo (aqui ditos,
respectivamente "congos"e "angolas") e algunsvizinhos,de onde essas modalidades
supostamenteprovém,é o nkisi , nkixeou mukixe.Esses ba-nkisi , cujo nome foi
aportuguesado como "muquixe" e abrasileirado como "inquice", basicamenteum
são
conjunto de elementos,de origemanimal, vegetal e mineral,que simbolizamo
planeta em que vivemos e tudo o que é necessário à vida nele, como alimento,
bebida,remédioetc. A forçamágicainsufladano inquice constituiuma proteçãodo
seu dono e possuidorcontraas forçasnegativasda vida cotidianae do universo,com
o sentidode defesaou ataque.
Segundo o PadreE Altuna em Culturatradicional bantu, na religiãotradicional
dos povos bantos,os espíritossão serescriados,obviamenteinferiores à Divindade
Suprema e intermediáriosentre Ela e os sereshumanos. Sua natureza, qual muito
da
pouco se sabe, não é a mesma dos antepassados,os bakulu, com os quais não se
comunicam. Entretanto,esses espíritossão inteligentes,livres,agindo sós ou em
grupos, podendo ser benfeitoresou malfeitores,protetorese guardiões, tanto
de indivíduosquanto de grupose lares,tendotambémo poderde habitarem objetos,
lugarese pessoas, de formatemporáriaou permanente.A partirdessa concepção,
podemosverque os seresespirituais bantosnão se confundemcom orixásou voduns,
confusão que parece ocorrerhoje até mesmo em alguns candomblés "angola" e
"congo",tidoscomo de linhagemtradicional.
No Brasil,o que se pode intuirsobre a génese desses candomblésé que os
líderesreligiososbantos,sobreviventes à hegemoniajeje-nagôobservadana segunda
metadedo século XIX, resolveramtransformar seus calundusem algo semelhanteaos
cultosque se praticavam,por exemplo,na Barraquinha,como vimoslinhasacima.
Para tanto, assimilarame recriaramconcepções religiosasiorubanase jejes,
aproximandoe associando algunsde seus inquices a orixáse voduns.E isto é o que
se percebe,hoje, na maioriados candomblésdessa origem:vestimentas,adereços,
objetoslitúrgicos,rituaisetc. da tradiçãojeje-nagôrebatizadoscom nomesde origem
banta. Reforçaessa ideia sobrea génese dos candomblésditos"angola"e "congo" о
fato de que as religiõesbantas, na Africa e também em Cuba, não concebem
divinidades simbolizadasem forma humana, como as iorubanas. E o conceito
de inquice,como vimosacima, é diversodo conceito de orixá.Entretanto,segundo
o já citado Padre Altuna, os povos bantos cultuamtambémgéniostutelares,isto é,
seres espirituaisque vivem em rios,florestas,rochas,fontesetc., colocados nesses
lugarespelo Ser Supremo,para guardá-los,vigiá-lose, assim,sacralizá-loscom sua
presença.E aí que as concepções bantas e oeste-africanasse encontram.

206 ~ AHR
Religiõesafro-brasileiras

Segundo outrasopiniões,o "angola"e o "congo"reuniriamtradiçõesde vários


povos da AfricaCentral e Austral Mas, nos casos que conhecemos,as referências
bantas exteriorizam-se quase que tão somenteno nívellinguístico,sua diferençaem
relação às tradições religiosasde procedência sudanesa centrando-se quase que
apenas no uso das palavras,além dos toques e do modo de percutiros atabaques,
das cores simbólicase das danças. E possível,entretanto,que nesses candomblés,
apesar dessas contradiçõesexteriores,os fundamentosrituaisque verdadeiramente
caracterizama religiosidadebanta subsistamnos ritosíntimos,cujo conhecimentoé
facultadoapenas aos iniciados.
O mesmo provavelmenteocorre com o chamado "candomblé de caboclo",
variante do angola ou candomblé de angola, que, assimilando elementos da
religiosidadeindígenae de práticasdo espiritismopopular,dedica-se ao culto das
entidadesespirituaisconhecidascomo "caboclos".Vistoscomo ancestraisdos nossos
modernos indígenas, os caboclos são, por conseguinte,pelo menos em nível
simbólico,os legítimosdonos da terrabrasileirae, como tal,devemserreverenciados.
Daí, o seu culto, provavelmenteoriginárioda umbanda, mas realizado,aqui, por
meio de obrigações,fundamentos,preceitos,raízes,folhasetc. bastanteespecíficos
em relação aos candombléspropriamente ditos,tantoao jeje-nagôquanto ao próprio
angola. principaldata festivados candomblésde caboclo é o dia 2 de julho, data
A
em que se comemora a consolidação históricada independência do Brasil e da
nacionalidadebrasileira,pela definitivavitóriamilitarsobreos portugueses,ocorrida
na Bahia em 1823.

A umbanda e o omolocô

Segundo uma versão consagrada como histórica,a umbanda teria nascido


exatamenteno dia 15 de novembrode 1908 em Niterói,RJ.Nesse dia o médium
Zélio Fernandinode Moraes (1891-1975) teriaincorporado,numa mesa kardecista,
a entidade chamada Caboclo das Sete Encruzilhadas,a qual teria se expressado
veementementecontraa discriminaçãode que, ali,eramobjetoos espíritosde negros
escravos, índios e crianças, vistos como espiritualmente"atrasados". Em sua
manifestação,a entidade teriaresolvidofundarum culto que abrigassetodos esses
espíritodiscriminados.
Surgidaentão no contextoda expansão do espiritismo francês,da idealização
do índio como portadorda purezaoriginal,e incorporandoelementosafricanos,mas
já cristianizadospelo sincretismo(orixásrepresentadoscomo santoscatólicose exus
tidos como "batizados"), a umbanda foi-se expandindo.Nessa expansão, segundo
algunsde seus teóricos,ela teriaassimiladoaspectosdo hinduísmo,aceitandodele as
leis de carma,evolução e reencarnação;e do cristianismo,principalmente as normas

AHR - 207
Nei Lopes

de fraternidadee caridade. E isto, além de receber influênciasda religiosidade


ameríndia,o que fariadela a religiãobrasileira,"mestiça"por excelência.
Nos templosda umbanda,outroramais referidoscomo "tendas" (referência
indígena)e hoje como "centros",são realizadassessões,em geralsemanais,nas quais
o transe mediúnico é provocado por cânticos e, em geral, toques de tambores.
Incorporados,espíritosde pretos-velhos(africanos escravos), caboclos (índios
guerreiros,heroicos) e crianças,bem como exus (representaçõescriadasa partirdo
orixáprimordialiorubano),dão consultasaos fiéis.
Façamos aqui novo parêntesis,para mostrarque, na umbanda,Exu, o orixá
iorubanosem o qual nada se realiza,pois é o dínamo que movimentaa cadeia das
forçasvitaisdo universo;na umbanda ele foidesdobradoem váriasentidades,cada
uma com uma atribuição específica. Dito isso, prossigamos,para mostrarque,
incorporandopráticasde origensdiversas,a umbanda,vem, pouco a pouco, tendo
reduzidosseus traçosde africanidade,traçosesses que, apesar de tudo,sobrevivem
principalmentenas figurados pretos-velhos,santificaçãode espíritosde escravos
bantos simbolizados como ancestrais. Essas entidades, além de quase sempre
portaremnomesevocativosde sua origembanta (Vovó Cambinda,Maria Conga, Pai
Joaquimde Angola etc.) têm como morada mitológicaa Aruanda, que nada mais
seriaque uma evocação do continenteafricano,simbolizadona cidade ou no porto
de Luanda, na atual República de Angola, ou, segundo alguns,no país chamado
Ruanda, visto pelos antigos africanos como um paraíso, de beleza e
de recursosnaturais.
Observemos que, para certas correntesdo espiritismokardecista(vertente
cristãque a umbanda tambémassimilou),a escravidãoafricanase justificariapelo
fatode que, com o sofrimento, as almasdos cativosteriamevoluídoe se aprimorado.
Então, enquanto a face africanada umbanda canta, dança, come, bebe e toca
tambor,seu lado cristãofazo elogio da dor e do sofrimento, atravésprincipalmente
dos pretos-velhos. Dentro dessa dinâmica, a umbanda é uma religião que se
transforma, incorporandoa cada dia novas influências.Da religiosidadeafricana,
permaneceramnela o culto a algunsorixás,algunsrituaise algunssímbolos,como os
colaresde contas,além de algumasformasde sacrifícios e oferendase a utilizaçãode
tambores,em alguns casos. Mas o processo de sua transformação caminha quase
sempre no sentidoda através
desafricanização, de iniciativasque procurammostrá-
la como uma religiãomais "científica"e menos "primitiva". E para tantofoidecisiva
a realização, na década de 1950, do "PrimeiroCongresso de Espiritismode
Umbanda", realizado no Rio de Janeiro,em 1941. Esse evento representariao
momento em que, quarenta anos após o "nascimentooficial"da umbanda, para
legitimarentidades africanas, ameríndias e infantis,discriminadasnas mesas
kardecistas,se iniciava o processo de embranquecimentoe desafricanizaçãoda

208 -AHR
Religiõesafro-brasileiras

umbanda, conforme se comprova na seguinte proclamação, divulgada pela


organizaçãodo congresso:
Umbandanão é um conjunto de fetiches,
seitasou crenças, de povos
originárias
incultos,ou aparentemente umbanda
ignorantes; umadas
é, demonstradamente,
maiorescorrentes
dopensamento
humano existentes
naTerrahámaisdecemséculos,
cujaraizseperdenaprofundidade
insoldável
dasmaisantigasfilosofias.
(TendaEspírita
Mirim 21)
Foi aí, segundo Zeca Ligiéro e Dandara, que se estabeleceu a existência de um
"oposto diametral"a tudo o que, de "inculto"e "ignorante",que a umbanda não
fosse,e a que se atribuio nome de "quimbanda" (21-39; 120). E foi aí também
que surgiuno cenário das religiõesafro-brasileiraso omolocô, tidopor algunscomo
a formaancestral da umbanda, a "umbanda primitiva".Atribuindo-lhe origem
banta (especificamenteangolana, da culturados lunda-quiocos), mas buscando a
origemde seu nome, estranhamente,na língua iorubá,os ideólogos dessa vertente
tiveramcomo lídero influentesacerdoteTancredoda Silva Pinto.Entretanto,para
alguns, o "omolocô"- embora muita coisa ainda se escreva em seu nome- teria
sido nada mais que uma reação carioca e fluminenseàs concepções eugenistas
vigentesna primeirametade do século XX e norteadorasdo congressode 1941. A
partirda entidade Bonocô, espécie de fantasmadas florestascujas manifestações
eram aterrorizantes,cultuada pelos negrostapas na Bahia, associada ao iorubano
Orixá-Oco ou Orixá-Oco, a reação dos líderesdos antigoscultos bantos cariocas
e fluminenses,inconformadoscom o embranquecimentoe a demonização de suas
práticas, herdeiras da cabula e já tendo incorporado práticas de outras
procedências,principalmentecatólicas,teriamcriado o "omolocô"- termo,ao que
sabemos, não consignado em nenhum vocabulário de falares baianos e cujo
primeiroregistroem um dicionárioda língua portuguesa,só ocorreu,ao que nos
consta, em 2000, com o DicionárioHouaiss.

A encantaria, o muçurumim

Encerrando esta breve notícia sobre o amplo universo das religiõesafro-


vale mencionara fortepresença,no Nortedo Brasil,da encantaria,forma
brasileiras,
religiosasincrética
que cultua os "encantados",entidadesespirituaisorigináriasdos
terreirosde mina maranhenses,e que mantémpoucos ou nenhumvínculo com a
tradiçãoafricanados orixáse voduns,manifestando -se como "turcos","austríacos"
etc. Outra vertentesincréticaimportantefoia que resultoudo encontro,a partirda
Bahia, do islamismotrazidopelos negrosmuçulmanosda AfricaOcidental,no Brasil
chamados "malês",com as religiõesdos orixáse dos voduns.Desse encontronasceu
uma antiga linha de culto chamada "muçurumim",hoje desaparecida ou de
existênciasubterrânea.Aliás, a "existênciasubterrânea"foimuitasvezes o destino

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Nei Lopes

das religiõesafricanasno Brasil Reprimidas,desrespeitadasou vistascom desprezo,


muitas delas foram e têm sido vitimadas pelo desconhecimento.Sobre isso,
recordemosa afirmaçãodo filósofofrancêsMarcel Griauleque, em 1950, num texto
denominadoFilosofiae religião dosnegros, confirmavaque a religiosidadeafricananão
se constituiapenas de crendicese superstições,como se supunha.Ela encerra,sim,
"Basta nos debruçarmossobreesse conjuntode crenças
sabere princípiosfilosóficos.
e cultos",ele escreveu,"para encontraruma estruturareligiosafirmee digna".Quem
se debruçar sobre a históriadas religiõesafro-brasileirase as biografiasde seus
grandeslíderes,separandoo joio do trigo,certamentevai dizero mesmo.

Nota
1Os editores devidoà
optaram pornão alterar
a grafia ou itálico)desteartigo
(capitalização
fecunda dereferências
multiplicidade ao universo
cosmologicoafro
-brasileiro.
Obras citadas

Altuna,P RaulRuizde Asúa.Cultura tradicional


bantu. Luanda:Secretariado de
Arquidiocesano
1993.
Pastoral,
Marcel.
Griaule, etreligions
"Philosophie desNoirs". Présence 8/9(1950):307-21.
Africaine
Zeca
Ligiéro, e Dandara.Umbanda: Paz, liberdade
e cura.Rio deJaneiro:Record;NovaEra,1998.
Renato.
Ortiz, A morte branca
dofeiticeironegro.RiodeJaneiro: Vozes,1978.
Parés,LuisNicolau.A formação do Candomblé: História e ritual
da naçãojejena Bahia.Campinas,
Unicamp, 2006.
Rio,Joãodo [JoãoPauloBarreto].AsreligiõesdoRio. RiodeJaneiro: Garnier,1906.
Rodrigues,Nina,Os africanos
noBrasil. 1932.São Paulo:Editora Nacional,1977.
Renato.
Silveira, O candomblédaBarroquinha. Salvador: EdiçõesMaianga, 2006.
TendaEspíritaMirim."O espiritismo
de Umbanda na evoluçãodospovos:Fundamento s históricos
e
filosóficos.
(TeseapresentadapelaTendaEspírita Mirim, porintermédiodo Seu Delegadoao
Congresso,Sr.Diamantino Coelho Fernandes, na sessão a
inaugural 19de outubro
de 1941)".
PrimeiroCongressoBrasileirode Espiritismo, denominado Lei de Umbanda, nesta
realizado
cidadedoRiodejaneiro , entre 18 e 26 de Outubro de 1941.Riode Moderna,
Janeiro: 1946.

210 -AHR

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